Ainda faltam muitos degraus para alcançar mais um desejo ou talvez não falte nenhum. Aliás, é por eles não existirem mais ou por restarem alguns à nossa frente, que criamos uma edição do site O Binóculo num formato que prolongasse o projeto desenvolvido por os colaboradores e simpatizantes da revista eletrônica. Desde 2004 que aventuramo-nos em usar a internet como parceira para realizar desejos da publicação de textos, pensamentos, críticas, xingamentos e etc.. O site se tornou uma metamorfose navegante. Trocou de cara, de gente e de ideologias. Nada de profundos investimentos envolvidos, nem emolumentos pagos. Permanecia a aura de uma internet que instigava a partilha de informações e opiniões entre a comunidade instalada na rede. Espalhamos nossas palavras por lugares indefinidos e para leitores sem retrato-falado. Agora apresentamos a edição zero da Revista Off Line, editada com peculiaridades interessantes. Em esta primeira versão experimental, ousamos colecionar um texto de cada colaborador do site em períodos indeterminados como parte da composição. Convidamos pessoas «externas» para colaborar também. Além dos nossos triviais, o leitor da Off Line recebe textos e imagens inéditas. Aceitaram nosso convite para compor a zero, o Coordenador de Pós Graduação da Una, professor Carlos D' Andrea, o professor do Centro Universitário de Belo Horizonte -- Uni-BH, Fabrício Marques, o jornalista Sebah Rinaldi e os artistas Bruna Diogo, Thiago Fonseca e Gustavo Maia. A Off Line é um novo e velho inusitado veículo de comunicação independente. Novo porque é uma novidade que traz com si novos nomes. Velho por apresentar o conteúdo publicado no site e inusitado por ser editada por revezamento. Em cada edição, convidamos pessoas «internas» ou «externas», para editar a Off Line a partir da leitura dos textos publicados no site. O editor convidado tem a responsabilidade de colocar ou tirar aqueles que seu juízo de valor o mandar fazer. Carrega com si a responsabilidade de avaliar, criticamente o conteúdo selecionado para compor sua edição. Além dos textos, a Off Line foi criada como um produto que incita a reflexão por meio de imagens, ensaios e intervenções artísticas. Como no site, não pretende-se outorgar-lhe uma linha editorial definida. Trata-se da informação colecionável, que pode ser acessada, depois do download, em meios desconectos sem, necessariamente, o uso da web. A número zero é desobediente, mas não desordenada. Traz aos leitores a cara de O Binóculo estampada numa versão «quase» impressa. Todos os colunistas foram selecionados para abrirem o caminho dessa nova escada. Em as próximas, não caberá a nós decidi-lo. Certamente o próximo editor o fará. E assim, esperamos releituras aos textos reapresentados e a mais reflexão com o ineditismo dos convidados. É isso. Boa leitura! Off Line: Desobediente e nada desorganizada. Inteligente, inusitada e genial. Nada modesta. A Off Line é grátis. Para ler é necessário fazer o download e utilizar qualquer software de leituras de formatos PDF's. É fácil. Para acessar: Número de frases: 38 http://obinoculo.com.br/revista off line / revista off line.htm São três salas de cinema. Um festival de curtas e um festival de filmes de um minuto. Sem graça? Eu não acho. O cinema em Rondônia ainda precisa de mais luz, tudo bem. Mas aqui, os produtores já dão passos bem largos rumo ao crescimento da sétima arte no Estado. Um desses passos foi dado no início da década de 1990, quando o governo estadual criou a TV Educativa Madeira-Mamoré, uma espécie de oficina permanente para novos e veteranos produtores de áudio visual. Jurandir Costa foi um dos alunos da " TV Educativa. «Aquele foi meu primeiro contato com cinema», conta o cineasta e produtor cultural. Foi ele que, junto com Paulo Arruda, Fernanda Kopanakis e Carlos Levi, jogaram luz na exuberância amazônica, criando em 2003 a Mostra Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Cineamazônia. Um festival de curtas metragens cuja temática é a sempre ligada à preservação e ao respeito à floresta e às pessoas que vivem aqui, na Amazônia. Um dos filmes que fizeram sucesso no Cineamazônia foi uma produção quase 100 por cento rondoniense. O conto do madeirista Alberto Lins Caldas, extraído do livro Babel, foi adaptado por Beto Bertagna e transformado no curta homônimo, O Número, em 2004. A produção foi rodada em Rondônia. O filme foi estrelado por Othon Bastos, que voltou a Porto Velho para o lançamento durante o festival daquele ano. Falta conexão nesse roteiro? Deixa que eu explico. Cena 1 -- Um Estado novo, cuja a cultura ainda tenta encontrar sua identidade diante de tanta mistura, de gente de tanto lugar. Não tem dinheiro para financiar a cultura, a produção, ainda assim, não pára, mas precisa de incentivo. Cena 2 -- Alguns amantes e produtores de cinema resolvem que além de fazer filmes, têm que criar público, levar cidadania e educação através da arte para os bairros periféricos da cidade, levantar a bandeira da preservação da Amazônia e fomentar a produção local. Cena 3 -- Deu certo. E não foi só por causa do filme do Beto. O Cineamazônia hoje é tão grande que não cabe mais numa só sala, nunca quis caber. Quem não pode chegar às salas de cinema do centro, não perde nada. A mostra também é itinerante. Um projetor, uma lona e cadeiras percorrem os bairros periféricos de Porto Velho enquanto rola o festival. «Não adianta nada restringir a mostra a cem pessoas, nós temos que incluir, que agregar, somar, crescer», fala Jurandir com empolgação, sobre a proposta social da mostra. Além das produções de outros Estados, filmes de Rondônia são cada vez melhores e mais prestigiados por o público, como o documentário Inventário do Tempo, vencedor da mostra em 2004. A produção mostrou um pouco da história de Rondônia e foi idealizada e realizada por jovens cineastas. «Nós fizemos o filme para participar do Cineazônia», revela Cássia Silva, uma das produtoras do Inventário. Esse poder de fazer as pessoas criarem também é um dos objetivos do 1 Festival Rondônia, o festival de cinema do minuto, criado por a Ong Movimento da Juventude Alternativa (MJA). Rodrigo Tasso trouxe a idéia de Manaus, onde o movimento também é forte. Um minuto para contar uma história, para fazer rir ou chorar. «Qualquer um pode fazer, essa é beleza do filme de um minuto», comemora Rodrigo. Em 2005, o MJA percorreu vários municípios do interior fazendo oficinas de roteiro e direção com alunos da rede estadual de ensino. O resultado foi visto na tela do festival, mas bem rapidamente, num minuto. Em o primeiro festival, realizado em 2003, a grande maioria dos filmes era amazonense. Pouco tempo depois, a cena mudou, e as produções de Rondônia ocuparam o lugar de direito. O negócio nesse jeito de fazer filme é rápido mesmo. E o Pistolino? Pois é, ele foi a estrela do Cineamazônia em 2005. Ganhou quatro prêmios e há quem brinque dizendo que ele até ofuscou Marcos Palmeira, que veio a Porto Velho prestigiar o evento e participar das discussões. Essa, aliás, é outra característica da mostra: a abertura para discussões, pois além de ver os filmes, o público participa dos debates provocados por a organização. Número de frases: 44 Quando se fala na defesa da língua portuguesa, hoje em dia, pensamos em nomes como Aurélio, Houaiss e Pasquale. Mas, no Rio de Janeiro, há outro nome, que não aparece com nenhuma freqüência no noticiário local, mas que é um defensor apaixonado do uso de um bom português. Seu nome é Diógenes Magalhães e sua indignação contra a má utilização do português se reflete em diversos livros de sua autoria. Um de eles, Redação com base na Lingüística (e não na Gramática ...), é um mega-sucesso independente: já vendeu 12,5 mil cópias e está, atualmente, na sétima edição -- bancada por o próprio autor. Um dos fatores do sucesso do livro é certamente seu preço, extremamente baixo se comparado a outras obras de igual peso. Custando apenas cinco reais e distribuído por o próprio Diógenes em livrarias e feiras de livros no centro do Rio, o material se torna acessível a um extrato muito maior da população. Tudo para que o povo tenha acesso ao seu pensamento particular acerca da língua. O autor, nascido Diógenes Magalhães Pereira da Silva, tem 82 anos. Lançou a primeira edição deste livro em 1981 e, oito anos depois, recebeu o Prêmio Francisco Alves da Academia Brasileira de Letras. Bacharel em Direito (sem, no entanto, ter feito o Exame da OAB), se intitula Professor do Ensino Livre e, entre suas características marcantes, está o fato de acreditar que os jornalistas em geral são responsáveis por disseminar o uso vernacular errôneo no Brasil. «Jornalista não sabe, ele aprende é com outro jornalista que também não sabe e aí fica essa besteira», desabafou o professor em entrevista concedida por telefone ao Overmundo. Segundo Diógenes, alguns axiomas defendidos em redações e manuais de estilo são absurdos. Ele deu um exemplo: «Nome próprio não tem plural? Balela. Mas o jornalista acha que é assim. Mas, se você observar na Bíblia, nas placas das ruas, os nomes estão no plural. Afinal, são substantivos!», indignou-se. De o mesmo modo, critica a invenção de palavras que, de acordo com suas origens, estão erradas: «Aeródromo é a pista onde se voa *. Mas o que é um camelódromo? Alguém já viu um camelô sair voando? E o que dizer do sambódromo?», disse o professor. Sua principal bronca, no entanto, é que a justificativa utilizada para o uso destas regras e expressões exemplificadas é a evolução do português como língua viva. Em o que ele respondeu, sem pestanejar: «A língua não evolui, a língua degenera». Estas e outras visões acerca do português podem ser vistas em seu livro. Que, inclusive, dá prejuízo para o autor: o preço de venda equivale a 2/3 do preço de produção. «É a minha depressão. Eu estou pagando pra ver», desabafou Diógenes que, em seguida, complementou: «Eu fiz tratamento para esta depressão, mas estou me curando fazendo livros». A carreira de Diógenes como escritor, em verdade, é bem longa. Já publicou mais de vinte livros, entre prosa, poesia, livros de estudos de línguas e outros. Alguns, inclusive, por grandes editoras, como a Ediouro. Mas, quanto ao Redação ..., saiu independente (por o próprio selo, chamado Edições Coisa Nossa) porque ninguém se interessou em publicar. «Procurei as quatro maiores editoras do estado, mas nenhuma aceitou», afirmou, resignado. Ainda assim, tem motivos para se animar: está concorrendo, por a 27ª vez, a uma cadeira na ABL. Conta, inclusive, que numa das votações passadas soube ter recebido seis votos. «Mas eu faço por fazer, eu não quero mesmo entrar. De a 1ª vez, inclusive, foi de brincadeira», conta o escritor. O livro, em si, tem um acabamento bem simples, com capa manual e impressão convencional. Pode ser encontrado facilmente, pois a tiragem de dois mil exemplares desta sétima edição de seu livro, feita no meio do ano passado, está longe de acabar. Mas alerta que a edição anterior se esgotou em apenas um ano. Portanto, se quiser ter contato com uma visão polêmica, sincera e interessante sobre o uso do português no dia-a-dia, vale conferir a obra de Diógenes Magalhães. Que pode não ser famoso, mas tem suas próprias armas para defender o que acredita ser um dos maiores bens de uma nação: sua língua. * A propósito, o sufixo dromo siginifica, na verdade, lugar onde se corre. Ainda assim, só conseguimos comprovar que os camelôs só correm do rapa e os sambistas só se apressam na passarela se o tempo estourou. Número de frases: 54 Nada, realmente, que justifique o uso do tal sufixo. Autodidata, Adilson Dias conta como se tornou o melhor fabricante de instrumentos do " Mato Grosso: «Faço minhas violas como quem trata uma mulher " A fala mansa do mineiro Adilson Dias é a expressão mais pura da tranqüilidade que o ofício de luthier lhe reservou. Mineiro de Itambacuri, nasceu em 2 de agosto de 1968 e veio para Mato Grosso ainda garoto, quando já havia se apaixonado por o som mágico da viola caipira. Paixão que surgiu como um prenúncio, daquelas coisas que a razão não explica. Então, com 8 anos de idade, ouviu uma vinheta de um programa de moda de viola na Rádio Anhanguera, de Goiânia e, extasiado, perguntou ao pai: -- Pai, que som é esse? -- É o som da viola caipira, filho. -- Um dia vou tocar viola ... -- Vou dar um jeito e compro uma pra você. O tempo passava e as dificuldades não cediam. O menino Adilson ajudava o pai na roça onde plantavam arroz e o dinheiro era sempre curto. O garoto nunca se esqueceu daquele som, «doce e triste». A viola ficou em seus sonhos. Em 1989 se mudou com a mãe para a cidade e prometeu a si mesmo: «Vou fazer um instrumento para mim!" Reaproveitando um pedaço do guarda-roupas que a mãe estava dispensando, fabricou seu primeiro violão. Hoje ele dá gargalhadas quando se recorda: «Ficou horrível!" Quem vê o Adilson agora, com mais de 400 violas, violões e cavaquinhos fabricados artesanalmente, não imagina como os atalhos o desviaram dos caminhos mais naturais em sua vida, como rios que desviam seu curso, criando outras saídas. Depois de vários sub-empregos, tornou-se cobrador de ônibus, em Cuiabá, no ano de 1994. Ali ficou até 1998, quando num dia qualquer, um usuário desconhecido o humilhou dando-lhe uma bronca terrível por míseros 5 centavos, que não tinha em caixa para devolver como parte do troco da passagem. Em aquele dia, ao deixar a empresa, que ironicamente se chamava Nova Era, os ouvidos ainda eram martelados por a frase que não lhe dava paz " Você é um merda! Você não passa de um cobrador e não vai dar em nada na vida, não sabe fazer mais nada!». Quanto vale um luthier? Caminhando para sua casa, cabisbaixo e arrasado, decidiu num ímpeto iluminado: «Vou voltar a fazer violão!" Levou cerca de um ano fabricando um cavaquinho. Vendeu bem o instrumento. Pegou gosto e a partir daí não parou mais. Hoje tem uma oficina completa no fundo de sua casa, aliás, uma casa muito boa, que ampliou e melhorou com o dinheiro que vem de sua pequena fábrica. Faz questão de afirmar que nunca saiu daquele quintal para nada, nunca viu ninguém fazer um instrumento na vida, nunca visitou nenhuma fábrica, é inteiramente autodidata. «Aprendi com a sensibilidade que Deus me deu». Adilson toca, canta e se diverte. É emocionante vê-lo acompanhando a filha de sete anos que solta a voz e demonstra uma afinação que deixa o pai orgulhoso e feliz. Ele é fã incondicional de Tião Carreiro, violeiro e cantor de MG. Segundo o também violeiro matogrossense André Balbino, Tião Carreiro é o Jimi Hendrix da viola. Adilson tem todos os seus discos. Sabe tocar e cantar mais de 3.000 músicas, não faz shows, mas não perde oportunidade de sentar numa roda e tocar noite afora. É um devoto da viola caipira. «Busco criar a viola perfeita, que alie estética, qualidade e som inatingível." Em essa busca ele aprimora seus instrumentos nos mínimos detalhes. «Faço minhas violas com carinho, como quem trata uma mulher. O braço deve ficar com uma curvatura para dentro enquanto estiver verde, com o tempo, ao secar e com a tensão das cordas ela se ajusta, tem que ter paciência. A escala da viola é abaulada, é parecida com a guitarra, as barras harmônicas faço com pau-brasil. A tampa é de pinho sueco ou jacarandá. O jacarandá da Bahia é o melhor, a cor é diferente, de cor preta, mas é difícil de achar e é mais caro ..." O cara sabe tudo, a ponto de hoje ser considerado o melhor fabricante de violas de Mato Grosso. Alguns ousam dizer que é um dos melhores do Brasil. O violeiro matogrossense João Ormond, que vem conquistando espaços importantes no cenário nacional, disputou prêmios Sharp e Syngenta, e que hoje mora em Jundiaí, não tem dúvidas: «Muito bom o Adilson, adquiri uma de suas violas mágicas, o som é muito bom, gostei do capricho com que ele faz a viola. Em esse universo de luthiers o Adilson não deixa nada a desejar." Já ganhou o Prêmio FINEP de inovação tecnológica, no Rio de Janeiro, por duas vezes. Adilson não parece brincar quando afirma que seu sonho, agora, é participar da Feira de Hannover (Alemanha) como um dos melhores luthiers do mundo. A julgar por o seu talento e disposição acredito que ele ainda vai chegar lá. O sonho pode estar a um passo do que chamamos realidade. * Quer falar com Adilson? Número de frases: 58 (65) 3665 6293 O engraçado de tudo que está mudando ao redor é que a perplexidade não tem nem tempo de se instalar. Alguns já devem ter ouvido falar de uma edição de uns dois ou três meses atrás da revista Wired, sobre a ervolução da música. Tinha o Beck na capa, que falava em outra concepção para os discos, outra relação, interatividade, a urgência de se enterrar o modelo que não dá mais certo mesmo. O Beck falava até num álbum que pudesse ser jogado, que nunca fosse ouvido duas vezes da mesma forma. Sabia que a indústria do videogame já fatura mais que a do cinema? Simbolicamente, o disco do Beck foi mais um da lista infinita dos que vazaram antes de serem lançados em suporte cd. Em o meu espacinho, o sobremusica, bateu uma ansiedade. Jornalista querendo correr contra o tempo. O senso de separar o que é notícia do hype, do caô, da histeria, apitava. E mais, a crise existencial: ainda vale falar de disco? Essa semana, em poucas horas livres, rolou um passeio por o mundo livre do myspace. Até vi gente como Céu, the Slackers, the Rapture, Artificial, Cibelle, etc.. Mas a viagem durou mais em ouvir umas ondas tipo o Maquinado ou o Autônomo, projetos-solo paralelos de Lúcio Maia e Jorge Dü Peixe do Nação Zumbi. E Ganjaman da Trama, e Nervoso, e Albert Hammond Jr do Strokes (legal, é com o Sean Lennon), e Nick McCarthy do Franz Ferdinand (mais ou menos), e João Brasil (já ouviu a mais nova?), e Guizado de Rian Batista, Gui Mendonça, Curumim e Régis Damasceno (Compadres é a melhor das disponíveis), e ainda Abujamra (já reparou que tem uns metais do Karnak que levam direto a Móveis Coloniais?). Fico pensando quantos músicos não têm uma página própria no myspace antes de ter a carteirinha da OMB, por exemplo. Ou seja, tá fácil chegar direto no artista, que gravou ali uma idéia sem compromisso e botou no ar pra ver qual é. E, mais do que isso, a relação está diretamente ligada à canção. Esses músicos todos não gravaram o que tá ali disponível (nem sempre para download, mas para streaming) como parte de uma concepção que vai marcar determinado momento na carreira de eles, etc.. É uma música, e pronto, de repente só um estudo. O álbum deixa de ser um conceito a se pensar, e passa a nem ser. É o que os ventos levam a crer. O mais legal é que, ao contrário do que poderia se concluir, a estrada não conduz a um novo mundo jamais desbravado onde o chão em que se pisa pode se desmanchar e engolir os pés, pernas, e assim por diante. Em o início do século passado, era assim. A tecnologia só permitia gravar uma música de cada lado de um vinil. A relação com a música era essa, gostou da canção, comprou, e leva o lado b de brinde. Com Por o Telefone e as Casas Edison, foi assim. Era o tempo de Robert Johnson, para ficar só num. Robert Johnson nasceu na virada para a década de 10, no Mississipi, e vendeu a alma para o diabo numa encruzilhada. Em troca, o dom da voz e da guitarra para o blues. Gravou vinte e nove músicas na vida, nenhuma preocupada em ser coerente com um período determinado da vida de ele, com uma imagem forte para a capa e um título para resumir aquele estado de espírito, de criação. Cada uma lançada só, individualmente, para o gosto do freguês. Aliás, certo Bob Marley começou assim também, no iniciozinho de 60, nos arredores de Trench Town. My Space, tramavirtual, escolhe neguinho. Para achar o cara, o jeito era os googles e as redes de relacionamento da época, tudo real da maneira que o século permitia. Ao que parece, tudo caminha para uma relação com a música que tem referência com os anos 20 e 30, com a evidente diferença da internet. Gostar do trabalho de alguém pode estar muito próximo dos negros pobres do Sul dos Eua (Jamaica de 50 e 60 também), que iam beber bourbon em bailes para dançar e encontrar a nega cara-metade, e a partir disso se encantavam com uma canção em específico. De aí, corriam atrás do compacto. Hoje, seria o mp3. De resto, negas, bourbons e bailes ainda estão por aí, assim como a música. A questão é se tudo isso melhora as coisas. Melhora? Número de frases: 43 ((esse texto foi escrito primeiro para o www.sobremusica.com.br, e readaptado agora para o overmundo) Com Eduardo e Mônica perto de completarem bodas de prata, vale a pena recordar o que acontecia quando eles se conheceram. Aquela festa estranha, com gente esquisita, não tinha uma trilha musical tão inovadora em termos de sonoridade, mas tornou-se uma identidade, imagem da juventude da época. Uma imagem tosca, mas real, talvez a única possível, diante das circunstâncias. Tudo começou com Evandro Mesquita que, vindo do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, trouxe a linguagem teatral à sua banda Blitz, suas apresentações em palco e suas canções, a partir de «Você não soube me amar» que, em 1982, abriu as portas para o denominado BRock. De o grupo de teatro, também fazia parte a camaleoa Regina Casé. De a banda, Lobão e a carioca Fernanda Abreu. Marina Lima, Ritchie e Lulu Santos chegaram sozinhos, os dois últimos vindos de um grupo não muito conhecido, de nome Vímana, junto com Lobão. Em um cantinho, meio deslocada, uma turma fazia uma festinha paralela: 14 Bis, Boca Livre e Roupa Nova. Sem microcomputador, internet, telefone celular, CD e MP3, a informação era menos acessível. A televisão acabava de entrar na era dos vídeo-clips e as bandas de sucesso tocavam na rádio Fluminense e no Circo Voador, ambos no Rio de Janeiro, e apresentavam-se em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. Rolava de tudo: Miquinhos Amestrados, Abóboras Selvagens, Kid Abelha, Kid Vinil, Absyntho, Herva Doce, Sempre Livre, Camisa de Vênus. Difícil descrever, por exemplo, a loucura que era a apresentação dos Titãs, com seus oito integrantes se espalhando por o pequeno palco em performances alucinantes, em meio à gritaria do auditório, estripulias de Chacrinha, toques de sirene e requebros das chacretes. O Rock in Rio I, ocorrido em janeiro de 1985, ajudou a consolidar o BRock como algo rentável para as gravadoras e, por conseqüência, a disseminar o surgimento de bandas que apareciam por todas as bandas, de qualidade ou não. Mesmo não fazendo parte de suas atrações, os grupos Titãs, Legião Urbana, Ultraje a Rigor e Rpm alcançaram um maior destaque após o festival, o qual ajudou, também, a alavancar a carreira de grupos que já se destacavam, como Kid Abelha, Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, este último protagonista de um de seus melhores momentos, quando Cazuza cantou, abraçado à bandeira brasileira, «Para o dia nascer feliz». Era o dia da votação que elegeria Tancredo Neves presidente da república. Em as escolas, na década anterior, os filhos da «revolução» cresciam tendo aulas de «moral e cívica», que reverenciavam» nossos " presidentes. O movimento estudantil não tinha mais força, as manifestações culturais eram censuradas, a televisão deixava-nos burros, muito burros demais. Todo esse cerceamento de liberdade teve conseqüências na formação intelectual dessa geração perdida, que parecia de outro mundo, uns aliens alienados, que não tinham outra cara pra mostrar. Eram o fruto de todo esse lixo, «toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer». Não havia outra saída: «vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês». Em a década de 80, enfim, o sinal fechado do período de repressão tornou a abrir. Em 1979, veio a Lei da Anistia e em 1982, eleições diretas para governador, embora ainda não para presidente (Diretas já). «Eu vejo a vida melhor no futuro». Porém, o que fazer com essa senhora liberdade, que abria suas asas sobre nós? Que caminho seguir? Não sabíamos lidar com isso. Por outro lado, se a política caminhava em direção a uma maior abertura, a liberdade sexual trilhava o caminho inverso: «meu prazer agora é risco de vida». Frutos da revolução sexual dos anos 60, os jovens de então depararam-se com um vírus desconhecido, o qual, por ter sido, a princípio, entendido de maneira equivocada como exclusividade de homossexuais e africanos, alastrou-se rapidamente, resultado da filosofia egoísta dos " sem-risco ": «se não seremos atingidos, por que nos preocuparmos?». Hoje, paga-se o preço por esse descaso. Alienados, desiludidos, sem posições políticas definidas, «cansados de correr na direção contrária», a seu jeito, os jovens protestavam: «indecente é você ter que ficar despido de cultura», «as ilusões estão todas perdidas»,» os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito», «meu partido é um coração partido»,» minha metralhadora cheia de mágoas», «meu cartão de crédito é uma navalha»,» ideologia, eu quero uma pra viver», «a gente não sabemos escolher presidente»,» ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação». Que país é esse? Outros, em crise de identidade, apenas experimentavam o inédito prazer de comprar um disco e gostar de uma banda da qual seus pais não gostavam, que tivesse suas caras. Como rebeldes sem causa (" como é que eu vou crescer, sem ter com quem me rebelar?"), querendo negar os preceitos de Belchior de que «nossos ídolos ainda são os mesmos» e que «ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais». Como eles, queríamos nos sentir capazes de produzir algo de valor e não mais ter que repetir: «a gente somos inútil». Até que não nos saímos tão mal e, em meio ao lixo que cuspimos, pudemos garimpar e encontrar belas poesias expelidas por Cazuza, Renato Russo e Júlio Barroso, que poderiam ter feito muito mais, não fosse o destino tão cruel ao dizimar algumas das principais cabeças dessa geração. Herbert Vianna escapou por pouco e outros talentos também sobreviveram: Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulinho Moska, que à época rondava o lixo com música barata, junto com os Inimigos do Rei, entre outros. O alívio definitivo e a certeza de que a década não fora perdida veio, então, quando escutamos Gal Costa, Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Luiz Melodia cantando Cazuza, Chico Buarque cantando com Paula Toller, Tom Jobim com Marina Lima e Gilberto Gil cantando e compondo com os Paralamas do Sucesso, assim como exaltando o que acontecia, em seu «Roque santeiro -- o rock». O paradoxo estendido nas areias escaldantes, então, desfez-se, junto com um mar de dúvidas. Descobrimos, enfim, que poderíamos gostar desses expoentes da nossa geração sem romper com nossos grandes e insubstituíveis ídolos, os mesmos de nossos pais. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido. Número de frases: 49 Eu, por estranho que pareça, tenho boas lembranças ligadas ao filme O Exorcista. Por agora, ficarei com a mais recente. Estávamos eu, o poeta Bruno Tolentino e a escritora Hilda Hilst, apenas os três, na residência desta última, assistindo ao tal filminho diabólico por a Direct TV. Isto foi em 2000, talvez em 1999. Quem já ouviu falar da Hilda sabe que, nessa época, ela tinha 90 cães em sua chácara: 75 no canil, 15 dentro de casa. O Bruno, de maneiras altamente civilizadas, ex-professor de Oxford e tal, inglês que só, não era muito fã daquela situação. Os sofás da sala, apinhados de cães de todos os tamanhos e graus de vira-latice, não deixavam espaço para os não-resignados. Já eu, que morava ali desde fins de 1998, estava com o «foda-se» ligado havia muito tempo. Em a verdade, eu era o único com cães no colo, mantendo outro, o Zidane, sobre meus pés, pois era inverno e fazia muito frio. ( A lareira, aliás, não tinha muita serventia, uma vez que a porta permanecia perenemente aberta para que os digníssimos animalitos pudessem sair e satisfazer suas necessidades fisiológicas.) Pois então. Eu no sofá, a Hilda um pouco à frente, em sua poltrona -- dizíamos trono -- e o Bruno mais adiante, em seu banquinho, os joelhos mais altos que o assento. A Hilda, a fumar Chanceller, «o fino que satisfaz», mantinha um sorriso extático, pós-vinho do Porto, aparentemente desfrutando o desconforto do Bruno. Não era das mais tolerantes com quem não curtia cachorros ... Bom, a cena está montada, sigamos. Lá por as tantas, eu dizia aos dois que o filme fora cortado, que estava faltando aquela cena onde um padre encontra, na igreja, a imagem da Virgem totalmente profanada, com seios postiços enormes e um big caralho entre as pernas. O Bruno me contestou, disse que isso deveria ser mais adiante e tal. Ao contrário de ele, porém, eu assistira ao filme havia pouco tempo e, por isso, tinha certeza: estava realmente censurado, um absurdo. O tempo passou, o diabo tomou o corpo da menina e, justamente na cena em que ela vira a cabeça para trás, a Grampola, que estava no cio, entrou na sala e se deitou às onze horas do Bruno. O Zidane, então, levantou-se de sobre meus pés e, sendo o maior e mais forte de entre os demais, foi o único macho a se aproximar da cadela, deixando atrás de si uma nanica e invejosa platéia canina. Grampola, seguindo um instinto mais afim a seu sexo que à sua espécie, levantou-se, deu uma rosnadinha, fingiu que estava magoada e deu as costas ao Zidane -- sim, justamente o que ele queria. E, claro, tudo isso a dois passos do coitado do Tolentino que, resmungando algo incompreensível, afastou seu banquinho um pouco para trás. A Hilda, totalmente na de ela, fazia de conta que não se passava nada de anormal. Bem, talvez ela não visse nada de anormal mesmo, ao contrário de myself que, sentado no ponto mais distante da TV, tinha, no meu campo de visão, a própria Hilda Hilst, o Bruno Tolentino, dois cães já atrelados um ao outro e, como cereja desse repasto visual, uma menina tomada por o diabo vomitando verde a dois metros de distância. Logo, eu, que também estava numa situação pós-vinho do Porto, comecei a sentir cócegas insuportáveis no cérebro. Quando finalmente Zidane se satisfez, colocando-se então de costas para Grampola, ambos ainda ligados por o, digamos assim, «fio do amor», eu me senti mergulhado num filme grotesco, numa história completamente surreal. E o pior: Zidane quis voltar para o fundo da sala, o que fez com que guinchasse sua companheira na direção do Bruno, quem, mergulhado em desesperado constrangimento, ainda tentou empurrá-los com os pés. A Hilda, completamente impassível, a mirar a TV, emitia longos círculos de fumaça, toda charmosa, mantendo o cigarro na mão caída para trás. Em este momento, interrompi o silêncio: «Olha, espero que vocês dois não se incomodem, mas é que eu não agüento mais ...», e só então comecei a gargalhar loucamente. A Hilda me observou com atenção, um sorriso inefável nos lábios, sem dizer qualquer coisa. Já o Bruno levantou-se, riu um tanto nervoso e, como se tivesse sido salvo por o gongo, acrescentou: «vou fazer um chá», e saiu por a porta da cozinha. E finalmente a Hilda, encarando-me com aquele ar maroto de menininha: «Ué, será que ele não estava gostando do filme?" E eu ri de novo: «Pois é, Hilda, parece que não, né." «Vai lá, Yuri, vai ver se nosso hóspede está bem." Eu fui. Entrei na cozinha e o Bruno já estava com a lata de Jacksons of Piccadilly nas mãos. Ele me encarou com aquele olhar faiscante, e ao mesmo tempo irônico, que só escorpianos como eu e ele conseguimos ter. Eu: " E aí, Bruno, o que você achou da experiência?" Ele: " Experiência?! ... Bom, a Hilda não diz sempre que essa casa aqui pertence aos cachorros? Pois então, essa é a casa do cão. Foi muito interessante assistir ao Exorcista na casa do Cão ..." E rimos juntos. Quando voltei à sala, a Hilda já havia desistido do filme e queria se deitar. «Que filme medonho, Yuri! Que filme medonho!" Acompanhei-a até seu quarto. «Boa noite, querido», se despediu. E eu: «Você não quer que eu tire os cachorros hoje, Hilda. Você disse que ontem eles não te deixaram dormir direito." «Tira só o Mister Tôuto, Yuri, as duas pequenas podem ficar." E, enquanto eu recolhia o tal cãozinho idoso, dei com o quadro de Francisco de Assis na parede. «Ele também gostava muito de bichinhos», me disse ela. «Eu sei, Hilda." «Boa noite, querido, durma com Deus." «Boa noite, Hilda, você também." Número de frases: 64 Enquanto isso, o pobre padre Karras rolava escada abaixo ... Por Alexandro Gurgel Captar o sentimento é o primeiro refinamento autêntico da imagem; por isso, quando o fotógrafo conseguir fazer uma boa foto usando corretamente sua sensibilidade, buscando emocionar o leitor / observador, terá alcançado um ponto importante na sua formação. Não basta captar uma boa imagem. É preciso que a fotografia tenha vida, conte uma história e seja capaz de emocionar. O atual momento do trabalho de Hugo Macedo é repleto de composições inusitadas, onde a busca por a melhor imagem pode ser captada nas paisagens sertanejas, nos retratos de anônimos ou no detalhe de uma flor brejeira. Algumas de suas imagens parecem ter saído de poemas do bardo Antoniel Campos, como se a composição dos elementos cênicos formassem versos panorâmicos, sonetos com rimas ricas. Há dez anos, quando trabalhava na Secretária de Recursos Hídricos, Hugo percorrendo os mais distantes vilarejos do Rio Grande do Norte para montar dessalinizadores. Provendo água boa de beber para um povo esquecido, Hugo Macedo descobriu o encanto da fotografia. A princípio, fazendo registros despretensiosos do cotidiano sertanejo. Mais tarde, com o olhar apurado, suas fotos resgatavam as belezas do interior e do litoral norte-riograndense. Participou de várias exposições coletivas -- inclusive, com suas fotos sendo destaque numa mostra fotográfica em Barcelona, na Espanha. Realizou algumas exposições individuais em Natal, Parelhas, Caicó e Acari. Recentemente, as fotos de Hugo Macedo foram publicadas na revista «Água de Beber -- o novo curso das Águas», editada através de parceria entre o Governo do Estado e o Proágua-Semi-árido, com publicação nacional. A revista ainda faz uma apologia à água por as mãos do escritor e poeta Oswaldo Lamartine, com trecho do livro " Os Açudes dos Sertões do Seridó." Ilustrando o texto está uma expressiva foto de Hugo, retratando o açude Boqueirão, em Parelhas. A publicação também faz um passeio por as águas e serras do Seridó no Rio Grande do Norte, mostrando através das imagens do fotógrafo, seu povo, seu lugar e suas crenças. Conforme o presidente da Apofoto (Associação Potiguar de Fotografia), Adrovando Claro, as fotos de Hugo são resultados de uma maturidade profissional, conhecimento técnico e um talento nato. «Hugo desenvolveu uma maneira própria de fotografar as cenas do litoral e do sertão. Atualmente, ele é um dos melhores fotógrafos atuando em solo potiguar que conheço». Apaixonado por o chão do Seridó, Hugo tem fotografado sua terra em todos os ângulos, revelando nuanças e cores de um sertão deslumbrante, onde a explosão das paisagens sertanejas enche os olhos desatentos de quem habita nas grandes cidades. O fotógrafo tem capturado os traços nos rostos do homem interiorano, com seu cotidiano mostrado de forma simples, como se cada retrato formasse a identidade do povo potiguar. Atualmente, Hugo Macedo tem uma casa às margens do açude Gargalheiras, podendo contemplar uma natureza deslumbrante, rodeada por lajedos de granito, onde a forma de uma garganta apertada lembra o nome do lugar. «O contato direto com o sertão me inspira a fotografar, registrando a mudança de estação e os aspectos de uma região pouco conhecida por os nossos conterrâneos», ressaltou. Com a verve de escritor apurada, acalentando planos para fazer uma homenagem à sua terra natal, Hugo Macedo reuniu depoimentos das histórias que circulavam por a cidade e resolveu escrever um livro, contado os causos e contos dos seus conterrâneos parelhenses, personagens reais do «Beco Estreito», lançado recentemente com edição do autor. O livro está esgotado, mas o escritor / fotógrafo pretende fazer uma segunda edição para ser lançada em Natal, na Livraria Sicilliano, quando setembro chegar. O livro reúne causos contados em ruas, mesa de bares e esquinas de Parelhas. O autor pretende resgatar as histórias cômicas do folclorista Mané Bonitim, do poeta Baé, do matuto Boró, do esperto e manhoso Galego de Emídio, do presepeiro Lôra de Maurício e tantos outros parelhenses que circulam na cidade insultando, instigando, brincando, galhofando. Hugo resgata a vida do seu povo, contado o dia a dia do município, de maneira alegre e divertida. De acordo com o jornalista Leonardo Sodré, caricaturista de todas as ilustrações do livro, o «Beco Estreito» é o fiel retrato do folclore parelhense, onde a ficção e a realidade se harmonizam em fatos encadeados com personagens nascidos nas " Terras do Major Antão. «Fiquei honrado em participar do livro. Conheci pessoalmente a maioria dos personagens citados por Hugo no seu ' Beco Estreito '. Acredito que o sucesso do livro é a verossimilhança contida nas suas estórias», disse o intrépido jornalista. De as arejadas varandas da praia de Tibau, o jornalista e poeta Cid Augusto, colaborando com a orelha do livro, escreveu: «Ao mesmo tempo em que diverte o leitor com a filosofia despretensiosa do sertanejo, Hugo traça a alma, o pensamento, a linguagem, o cheiro, as ruas e as cores de sua gente». Segundo o poeta Chagas Lourenço, Hugo Macedo cumpriu seu papel de colocar no livro um pedaço da vida da sua terra e da sua gente. «Em o futuro, poderá folhear seu livro, dar boas gargalhadas e recordar seu povo, vislumbrando de um lado a cidade do Acari, no horizonte as serras da Paraíba e aos seus pés o sibilar dos ventos seridoenses, fazendo ondas na águas do Boqueirão», escreveu Chagas na contracapa do livro. Hugo Macedo usa os códigos pictóricos para emocionar o ato de olhar, estampados no motivo principal do fotograma, anunciado que atingiu a maioridade como retratista. E como escritor, começa a se consagrar com o lançamento do seu primeiro livro, estabelecendo uma fronteira na literatura parelhense, onde todos os personagens do «Beco Estreito» fazem parte da geografia seridoense. Número de frases: 39 (ruído de peixes, um aquário, gás carbônico borbulhando, uma lotérica, treze freiras sefarditas, o vendendor de caldo de cana, um chope abandonado no balcão do café do Teatro Castro Alves. um DVD horrível de Fagner. é o mais ou menos como a moça que transcreveu a fita me descreveu o som ambiente. o chope abandonado é por minha conta.) BROCK: Trouxe as perguntas. Nada complexo demais não. Se liga: vou ler o que tinha planejado para à abertura. «Mayrant, professor, autor, não gosta de carro próprio ou outras coisas consumistas. Mas não é marxista, comunista ou outras istas mais em voga hoje em dia. Ele tem a consciência profunda, crítica, está imerso no ambiente acadêmico mas não se deixa contaminar por a prosa conservadora ou por as palavras seguras. Seus contos e poemas mostram uma outra Salvador, diferente das memórias de infância ou dos devaneios pastoris que já se tornaram repetitivos, uma cidade ensolarada e cruel. Depois de Dizer adeus (Edições K, 2005), Recordações de andar exausto (Aboio Livre, 2005) e O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003), ainda tem muita coisa no baú meticuloso de Mayrant. Confira entrevista com o homem " MG: Lembra a matéria que você fez com mim no Correio, quando lancei o Inédito de Kafka. BROCK: Talvez eu jogue fora. Tô sem tempo. Escuta, como andam as coisas: trabalho, vida cotidiana, produção literária? MG: A produção literária vai bem. Estou com um romance quase pronto e três livros de contos. De estes, dois estão finalizados, pois reúnem os relatos que publico, periodicamente, no Correio da Bahia. O outro está em fase de revisão e ainda levará algum tempo para ficar publicável. A vida é a de sempre, e o trabalho, o que se pode fazer nesse país sempre exótico e surpreendente, para o bem e para o mal. Como você avalia a repercussão de suas obras publicadas até agora? Há uma repercussão relativa entre os amigos-escritores e meus alunos na Universidade, que em geral estudam e fazem literatura. Apenas. Mas acho isso bom, pois a crítica atual me assusta, com o seu amadorismo, sua arrogância e desejo de fazer da literatura outra coisa. Para você, o que falta para a Bahia crescer em produção / consumo de literatura? Falta educação formal de nível e conscientização de que a literatura também é conhecimento, embora sutil, cifrado, indireto, refinado. Mas o que fazer com uma comunidade que acredita que o dicionário é o pai-dos-burros e que ler demais deixa o sujeito maluco? Para muita gente na Bahia, livro é livro didático ou então a Bíblia. No máximo concebem a existência de um poema (e, assim mesmo, com rima e métrica), o que não é nada louvável, já que a poesia é o gênero da alma, das nomeações possíveis, e está dentro de nós muito antes de existirmos. Como andam as aulas de literatura na UEFS? Você vai de Topic, como se locomove até Feira? Vou a Feira de Santana num ônibus terrível, que é a própria representação da nau do inferno. De manhã, todos vamos dormindo porque é cedo demais (temos que acordar às 4:30), e de noite, porque estamos estafados, prestes a cair. As aulas são a compensação, embora não para todos os professores. Ainda é difícil viver de literatura, mas você acha que os meios técnicos aproximaram o autor / leitor, e facilitaram a veiculação da produção? Penso que a quantidade de leitores de literatura aumentou com a internet. Por outro lado, a rapidez deste veículo de comunicação promoveu uma baixa na qualidade literária do texto, que hoje vem sendo avaliado (e consumido) por o que diz e não como diz. Em literatura, os assuntos são sempre os mesmos, o que muda é a forma, o tom, a proposta, a intenção, o objetivo. Concluo, portanto, que a disseminação da literatura via internet pode resultar numa cilada, das mais ambíguas e cruéis. Ser ao mesmo tempo um benefício à literatura e a dissolução da mesma. Qual é o seu objetivo como escritor? Qual é sua orientação artística? Meu objetivo é escrever. Publicar nem tanto. Mesmo porque os editores não têm muito interesse por o que escrevo. Estou na contramão. Em a verdade, todo escritor genuíno escreve para compensar qualquer coisa, certa inadequação com o mundo. O fato de se tornar mais ou menos profissional é uma conseqüência de sua aceitação junto aos leitores. Minha orientação artística é a de escrever com liberdade e arte, lançar mão de qualquer assunto ou história e da forma que eu julgar mais adequada, a partir do meu ponto de vista. Como disse «João Antônio,» exercitar a forma como sombra do assunto». Em poesia, procuro extrair o máximo da linguagem, fazer com que ela expresse de maneira nova o impossível. Um texto cifrado, polissêmico, musical e irônico. Beleza. Fale sobre seu cotidiano, como passa o dia. Tá brincando (inaudível) pô, tá parecendo Com ti isso aqui. Conta porra! Você não tá levando a sério isso aqui ... Pô, envolve dinheiro público, renúncia fiscal ... Fale sobre o cotidiano, cotidiano! Não tenho muito a dizer sobre isso. Observo tudo à minha volta, sonho livros que nunca escreverei, leio outros muito estranhos como O lado escuro dos céus (sobre acidentes aéreos), escrevo sempre, todos os dias, rabisco idéias (que muitas vezes aborto) e trabalho, como todo mundo. Costumo escrever a qualquer hora, mas tenho preferência por as manhãs, quando a mente está vazia, limpa, e as idéias se estabelecem melhor. Costumo dizer que sou preguiçoso, meio acomodado, e sou mesmo. Ainda assim, cumpro minhas obrigações, quaisquer que sejam, mesmo as mais difíceis, com certa auto-sufici ência. Quando digo que sou preguiçoso, é porque, pessoalmente, deixo muita coisa para o dia seguinte, sem nenhum sentimento de culpa. Venha cá ... Seu trabalho com as oficinas de literatura, como é isso? É uma espécie de complemento às aulas de Teoria da Literatura. É quando os alunos chegam para ler e escrever textos literários sem a obrigação da avaliação. O deleite estético e de assunto, conhecimento da obra como arte atemporal e estrutura divergente, é o que vigora. Acontece o mesmo quando a oficina é de cinema. Levo para os alunos um grande filme do cinema mundial, e o vemos juntos, por o prazer da narrativa, das metáforas, das ironias, da eterna novidade da arte. Fiz isso recentemente com Todas as mulheres do mundo, do Domingos de Oliveira, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, e um dos mais subestimados, e que jamais vai envelhecer. Os alunos não o conheciam e ficaram impressionados com a carga de significados, a estética, a variação narrativa, o arrojo. Ganhamos o dia, então. Você, que já publicou por uma editora grande, quais as dificuldades que você vê para o escritor no Brasil, e para você em particular? As dificuldades são inúmeras. Os editores não lêem o que você escreve e devolvem o pacote com a maior cara de pau, dizendo que «o livro, embora de qualidade, não se encaixa na linha editorial da casa», ou então que» já estão com o biênio de publicações fechado». A quem eles pensam que enganam? Não passam de uns amadores, que pretendem publicar, por um lado, só Coelhos e, por outro, só clássicos, lidos e relidos eternamente. Mas como vão descobrir os «coelhos», se não lêem o que os autores lhes enviam? É algo paradoxal. Certa vez, enviei um livro a uma editora de São Paulo numa terça-feira e no sábado o recebi de volta, com um carta lacônica, cujo resumo seria este: «Não nos mande mais nenhum livro, não temos nenhum interesse em publicá-lo». Pelo menos este foi mais honesto. Mas há diversas outras dificuldades, como o preconceito dos leitores com a literatura brasileira, acostumados que estão com as obras traduzidas, transcritas numa linguagem padronizada, que suprime grande parte do estilo do autor. De aí, quando abrem um Machado, um Graciliano, um João Antônio e se deparam com uma língua diferente a cada autor, se desesperam, não se adaptam e saem por os salões dizendo que o autor brasileiro não presta, não sabe escrever. Em a verdade, é o leitor que não sabe ler. Ignora que existem estilos, formas, estéticas, modelos, variações, procedimentos, e que a língua da tradução é só uma escolha, a mais fiel à gramática talvez, e que os autores vernáculos violam isso de propósito, pois imprimem aos seus livros seu estilo, sua pessoa, pois, afinal de contas, o estilo é o homem, o que o artista é e como vê o mundo. Cada autor brasileiro é uma modalidade nova do português, com a qual o leitor, se competente, deve saber lidar. E devemos seguir o ensinamento de " Giacinto Scelci: «Não diminuir o significado do que não se compreende». Tô com fome. Você fala demais. Número de frases: 99 m. Maria Pankararu, 42 anos, natural de Taracatu, em Pernambuco. Em a verdade, o nome completo é Maria das Dores de Oliveira, mas o sobrenome adotado é a marca de sua identidade étnica, e uma prova da sua personalidade e das suas escolhas. Maria é simples e forte como o nome, e o tamanho da sua simplicidade é diretamente proporcional à importância que tem hoje para os povos indígenas do Brasil. Em o dia 19 de abril deste ano, sua imagem estampou jornais e telejornais de todo o País. É que, nesse dia do índio, Maria escreveu seu nome na história ao ser a primeira índia brasileira a obter o mais alto grau na academia, ao defender sua tese de doutorado em lingüística, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Mas não é o fato de ser uma índia doutora que torna Maria uma referência: toda a sua busca por o conhecimento socialmente produzido não teve um caráter de promoção pessoal, mas a possibilidade de um retorno aos povos indígenas desse País. Tanto é que sua tese, intitulada «Ofayé, a língua do povo do mel», é um registro de uma língua que já havia sido considerada extinta, falada por o povo de mesmo nome, localizado em Brasilândia (MS). Além disso, a professora e funcionária da Funai mostra que compromisso é a palavra-chave da sua vida: seu trabalho ultrapassa as fronteiras da academia para contribuir diretamente para a preservação da cultura de um povo o qual, atualmente, conta com apenas 46 viventes, e de uma língua que registra apenas 11 falantes. Em parceria com a professora ofayé Marilda de Sousa, Maria elaborou uma cartilha para que a língua fosse ensinada às crianças, que está em fase de experimentação, e ainda prepara um dicionário português-ofayé / ofayé-portugu ês. Toda a pesquisa foi financiada por a Fundação Ford. Aqui no Overmundo, mais do que versar sobre o feito de Maria, nós quisemos ouvi-la falar: sobre sua pesquisa, sobre seu povo, sobre a relação entre língua e cultura, sobre a imagem estereotipada que a sociedade brasileira construiu e ainda mantém dos índios. O resultado de quase uma hora de conversa foi resumido aqui (e pode ser lido na íntegra no banco de cultura), onde, além de conhecer um pouco da sua trajetória, o leitor vai poder compartilhar, concordar ou discordar das suas colocações, que mexem com algumas das maiores feridas nacionais: o preconceito e o (falso) protecionismo em relação aos povos indígenas e o que é ser índio hoje. Com a palavra, Maria Pankararu. Maria, eu queria que você falasse um pouco da sua trajetória, o que te levou a escolher os caminhos da universidade ... Bom, vou tentar fazer um resumo. Primeiro eu fiz história em Arcoverde, por paixão mesmo. Depois eu vim para Maceió. Queria mudar de vida, ter outras perspectivas, melhorar profissionalmente, ter mais alguma coisa para poder contribuir com o meu povo. Como eu sou professora, escolhi fazer pedagogia por a Ufal. Então eu conheci as minhas orientadoras, as professoras Januacele Francisca da Costa e Adair Palácio, comecei a apresentar trabalhos com elas, a discutir questões como o caso do português falado por a minha comunidade, a me envolver na lingüística. E fui me apaixonando. E quando eu terminei a graduação, a Januacele disse: «por que você não tenta fazer um mestrado na área de lingüística?». Aí ela me deu as orientações para eu fazer o projeto. Eu terminei o curso em 97, e em 98 eu já entrei no mestrado. Depois do mestrado eu fiquei empolgada, claro, e pensei em fazer o doutorado na área de análise e descrição de uma língua indígena brasileira, já tinha definido esse tema. E seus trabalhos acadêmicos sempre tiveram essa ligação com a questão indígena? Eu sempre tive essa preocupação de ou estudar mais ou fazer a análise de alguma situação de meu povo, mais particularmente ... Até porque, sou professora da Funai, trabalho com educação escolar indígena, e também sou índia ... Tenho a obrigação profissional e étnica de conhecer as questões indígenas. Isso eu sempre me preocupei e procurei fazer, independente da universidade. E com relação ao seu povo, como é a sua relação com ele hoje, como foi durante esse processo ... Minha comunidade fica no alto sertão de Pernambuco, nos municípios de Petrolândia, Tacaratu e Jatobá. A população tem em torno de quatro mil indígenas na aldeia, mas os Pankararu estão muito espalhados. Minha comunidade aparentemente é uma comunidade rural como outra qualquer, mas que tem um grande diferencial: ainda são muito fortes os traços culturais. A gente tem danças, cânticos, tem vários rituais. É isso que nos torna diferentes das sociedades rurais não-indígenas. A minha comunidade tem luz, tem energia elétrica, algumas casas têm água canalizada, todas as casas são de alvenaria. Foge bastante daquele estereótipo que as pessoas têm em relação aos indígenas. E essa é uma visão errada, porque a diversidade indígena é tão grande no Brasil, que têm índios assim como o meu povo e têm tribos que ainda não tiveram nenhum contato com a sociedade nacional. O meu povo adquiriu muitos hábitos da sociedade dominante. A sociedade dominante, digo, a sociedade rural pobre, marginalizada, porque os Pankararu têm um poder aquisitivo muito baixo, têm muitas necessidades, têm problemas com a questão da terra, com a questão do atendimento à saúde, a educação ainda está muito a desejar ... E era justamente sobre as questões dos estereótipos que eu ia perguntar agora. É algo ainda muito presente na nossa sociedade, aquela coisa de que índio tem que viver isolado ... E a partir do momento em que ele tem contato com outros povos, é como se ele deixasse de ser índio aos olhos das outras pessoas. Como você vê e sente isso, você que é uma índia que se diferência de todo esse perfil? Pois é ... É uma coisa engraçada, para não dizer triste. Porque a partir do contato, o que foi feito para os índios de modo geral? Nos vestiram, nos impuseram uma outra religião e outros valores ideológicos e culturais. Assumindo parte desses valores, a gente nem é índio, do ponto de vista de algumas pessoas; e nem é branco. Dificilmente alguém ia me considerar branca. Eu tenho um monte de traços do meu povo que me identifica, que eu me identifico. E toda a sociedade, ela é dinâmica no seu processo histórico. Se você for pensar do seu ponto de vista pessoal, a sua criação, seu jeito de ser, de vestir, é diferente de 10 anos atrás. Isso é normal, o mundo está mudando. Se é natural, se é inerente às sociedades humanas mudarem, por que as sociedades indígenas têm que se manter como sociedades estáticas? Então isso é só na cabeça de algumas pessoas, que acham que o índio tem que estar lá, sempre imóvel e estático social ou historicamente falando. Vamos pensar uma situação inversa: se você for para a minha comunidade, pode até se pintar, pode dançar com a gente, mas você não vai ser índia por isso. De o mesmo modo, eu estou aqui nessa sociedade, estou na universidade, uso jeans, moro em apartamento, mas isso não tira de mim a minha essência, a condição étnica de ser índia pankararu. Fale um pouco mais do seu trabalho, da sua tese. Como foi a sua relação com os ofayé, o contato ... Quando eu entrei no doutorado, eu não sabia que povo eu iria pesquisar. Já tinha delimitado o meu objeto de pesquisa, a descrição de uma língua indígena brasileira. O que eu queria da minha pesquisa era que fosse uma língua pouco estudada ou que não tivesse nenhum estudo, e que estivesse sendo ameaçada de extinção. E, preferencialmente, que fosse do tronco macro-jê. Aí eu participei de um encontro de técnicos da educação da Funai em Brasília e conheci o pessoal que trabalha com os índios ofayé. Os ofayé estavam numa situação muito difícil, a língua estava muito ameaçada, precisavam de pesquisas nesse campo. E casou com o que eu queria: era uma língua e uma sociedade pouco estudadas, e o ofayé é do tronco macro-jê. Ela já foi considerada extinta, não é? Já, já. Tanto o povo quanto a língua foram considerados extintos. Primeiro por Darcy Ribeiro, que visitou a aldeia em 48, encontrou duas famílias de ofayé e achou que por só ter encontrado eles, culturalmente os ofayé estariam extintos. E em 68, a Sarah Gudschinsky conheceu também esse mesmo grupo e acabou enfatizando essa idéia. Só que os ofayé tinham como estratégia de sobrevivência se espalhar. Depois eles conseguiram o contato com a Funai, que foi até lá e os convidou para ir para uma outra área indígena. E eles foram bastante iludidos, porque viviam numa situação de miséria, as terras de eles foram totalmente tomadas por os criadores de gado. Só que eles foram levados para a comunidade dos Kadiwéu, que culturalmente são povos dominadores, e foram subjugados por mais de 10 anos. Quando os ofayé deixaram o lugar, tiveram que sair fugidos. Depois disso, conseguiram parte do território. Com muita luta, depois de muito tempo debaixo de lonas ... Isso o grupo que restou, né? Porque no meio do caminho morreu meio mundo de gente de fome, de doença ... Aí eles conseguiram uma parte de uma fazenda, como indenização, porque a propriedade de eles foi inundada por uma usina. Só que essa fazenda não tinha rio, só tinha mata, a terra era ruim para plantar. Eles eram pescadores e coletores, e ficaram numa situação de extrema miséria. Quando eu cheguei lá para fazer a pesquisa, eles estavam nessa situação, e dependiam de cestas básicas para sobreviver. Mas no meio do caminho da minha tese, eles conseguiram retomar comprando, ainda por conta da indenização, parte do antigo território. E nesse lugar tem um riacho, e eles já têm vários projetos: estão desenvolvendo uma agricultura comunitária ... a economia do ofayé é de base coletiva. Em relação à língua, quando eu cheguei, eles sabiam da necessidade da preservação, queriam isso, só que por conta dos preconceitos e da invisibilidade que até hoje os ofayé têm, tinham muitos pais que não queriam ensinar a língua para as crianças. Muitos achavam que seria mais uma barreira para aumentar o preconceito. Mas toda esta história de sofrimento de eles até pode ter criado uma certa desconfiança sobre as pessoas que vinham de fora para tentar ajudá-los. Você sentiu isso? Senti, sim. Logo no começo. Eles eram muito desconfiados, porque muita gente vai lá fazer pesquisa com os ofayé e vai embora. E a outra coisa é que eu fui primeiro com a Funai, e a Funai foi quem os levou para os Kadiwéu, então não é bem vista. E eu sou índia, mas quem estava à frente da Funai naquela época era um índio Terena. E eu era pesquisadora, e os pesquisadores iam lá e não davam respostas nenhuma a eles, como se eles fossem meros objetos de pesquisa. Então houve uma desconfiança muito grande de eles por conta de todo esse passado. Só que acabou muito rápido. Eu passei uma semana lá, conversei muito, visitei todo mundo, senti um pouco o grupo, mas também para eles me conhecerem. Tomamos muito terere e já iniciei o trabalho. Eles passaram a acreditar em mim, a confiar. Quanto tempo você passou lá? Uma semana nesse primeiro período. Fiz cinco viagens ao todo, em períodos variados de permanência na comunidade. O período mais longo foi dois meses e meio, porque queria conhecer como era o modo de vida dos ofayé, como era a visão de mundo, até para eu tentar entender a língua. Porque a língua está muito relacionada à sua visão de mundo, a língua diz tudo de um povo, da sua cultura, da história, dos valores ... então eu queria ver e tentar entender essa relação. Tem uma questão interessante que é como a imprensa tratou o fato de você ser a primeira índia doutora ... o seu título tem um peso simbólico grande. Mas para você, o que isso representa? Para te falar a verdade, eu fiquei um pouco assustada (risos), porque eu não imaginava que fosse dar tanta repercussão. Mas ao mesmo tempo eu reconheço que é um fato inédito no Brasil, as pessoas não são acostumadas com isso, geralmente nos vêem na posição de submissão, de passividade, de estar sempre ocupando os espaços mais inferiores da sociedade. Então acaba provocando um certo estranhamento em todo mundo. É um caminho difícil, mas eu estou muito feliz por ter conquistado esse título. E você acha que seu caso, a inserção dos índios na academia, isso ajuda a superar aqueles estereótipos que a gente já falou? Eu particularmente acho que ajuda. Eu acabei quebrando um modelo de índio que a mídia tenta impor, que é aquele índio que caça, pesca. São aqueles índios que têm um perfil diferente do meu. E eu não sou assim, mas eu me identifico e sou conhecida como índia. Mas, por outro lado, há muita gente que tende a não me reconhecer nessa minha identidade étnica porque eu estou assim. Não deixa de ser um preconceito. Se eu fujo à regra da imagem que outras pessoas estabeleceram, eu não deixo de ser o que eu sou na minha essência, índia, porque estou diferente. Eu acho que a sociedade brasileira precisa respeitar a diversidade cultural e lingüística que tem nesse país. Há uma tendência de homogeneizar os índios. E sobre o retorno que foi dado à comunidade, já que você falou tanto dessa necessidade, que eles esperavam isso ... Como está sendo a aplicação da sua pesquisa, como estão os seus contatos com os ofayé após a defesa da tese? O meu trabalho teve dois objetivos: um era fazer a descrição da língua propriamente dita; e o outro é propor, a partir dos resultados da minha pesquisa, um material didático para ser usado na escola da comunidade, com a sugestão de um alfabeto. E isso a gente já começou a fazer. Tem um material que está sendo trabalhado experimentalmente por uma das minhas informantes, a professora de ofayé Marilda de Sousa. A gente está tentando analisar se as nossas sugestões são aplicáveis ou não à língua. E também foi elaborado um dicionário só que ainda está na questão fonética da língua. Eu acho que é um processo longo de definir. A gente dá o auxílio técnico, mas os donos da língua são o povo ofayé, então ele é quem deve definir realmente se a grafia que eu estou sugerindo é adequada, se pode ser mudada ... E isso vai levar um certo tempo. E tem outra coisa: a mudança de atitude dos ofayé, eles estão mais entusiasmados. As crianças, por o que me disse Marilda, estão muito entusiasmadas em aprender a língua. Acho que essa atitude positiva só vem fortalecer esse compromisso que eles têm de manter esse laço, essa marca tão importante de identidade étnica que é a língua. E ainda quero ir lá para apresentar meu trabalho, sentir um pouco o que o povo está achando do material, porque estou somente recebendo notícias da Marilda. Não sei se vou conseguir ir lá com tanta freqüência porque vai depender do apoio financeiro que eu tiver. Mas a gente tem como escrever, mandar material, eles mandarem material para mim. Essa comunicação vai continuar existindo sim. Número de frases: 157 Eles querem, e eu também. Sala vazia. Público imerso na cena. Não existe palco, não existe platéia, o espaço é o mesmo para todos. Atores em meio ao público, ou público em meio aos atores. Não se conta uma história, um outro mundo é criado, uma outra lógica -- um mundo palpável, sensações concretas: o público não observa, ele presência, ele vive um espetáculo. Em Jato de Sangue, a cada segundo uma coisa nova para ver, ouvir, sentir. O espectador terá a oportunidade única de experienciar, penetrar no ambiente e vivenciar o universo fantástico da representação sendo parte de ela. Esse envolvimento pretende sensibilizar o espectador e o seu todo orgânico, perturbar seus sentidos e tocá-lo com profundidade. A Cia Mínima proporciona uma experiência viva e enérgica. A jovem e eclética Cia Mínima do Rio Grande do Sul -- que no ano 2006 foi contemplada com o Prêmio Myrian Muniz de Teatro (FUNARTE PETROBRÁS), resultando no espetáculo de rua Borogodô!-- tem como elo entre seus membros a formação por a Universidade Federal de Santa Maria. A Mínima desenvolve desde 2003 uma sólida investigação em teatro, na qual a poética de cena é norteada por a potencialidade criativa do ator e seus desdobramentos, levando o grupo a incursões em diferentes estéticas que revelam, sempre, o sensível e o humano. Em o espetáculo Jato de Sangue a pesquisa da Mínima estende-se à valorização da especificidade da linguagem teatral, que acreditamos ser a comunicação direta entre ator e púbico no aqui-agora. O espetáculo livremente inspirado na obra ' Let Jet de Sang'de Antonin Artaud recusa um espectador passivo ao utilizar uma linguagem performática que envolve o participante numa experiência cognitivo-sensória. A sinestesia que ator e público experienciam é permeada por as obras do artista plástico Michel Zózimo e do músico Cristiano Figueiró, os responsáveis por os objetos cênicos e por a sonoplastia do espetáculo. «Retratos fragmentados de um universo de sensações vermelhas. Uma ode ao movimento em direção ao que repugna dado que próximo." Gisele Secco Assista a trechos do espetáculo em http://www.ciaminima.com.br/jato video.htm Mais informações Número de frases: 22 www.ciaminima.combr ciaminima@ciaminima.com.br Este post vai para você, meu amigo, que se encontra encapetado contra a própria vontade. Sexta-feira, como diz a faixa, você pode contratar os serviços especializados, e se desencapetar definitivamente! Você recebe uma certidão negativa de posse por o cramulhão emitida por o Ministério da Saúde, e pode vender a sua alma para quem bem entender. Número de frases: 3 Eu, por outro lado, como me encapeto por vontade própria, não vou não ... Um dos romances amazonenses mais interessantes dos últimos anos. Ambientado numa Manaus essencialmente urbana pouco retratada na literatura local, a obra Aleluia irmão! Satanás é fiel revela um universo pouco conhecido para muitos leitores: a imensa ramificação da rede que compõe a estrutura de igrejas ditas evangélicas, os bastidores da formação dos bispos e formatação de cultos, assim como as estratégias de cooptação de fiéis e recursos financeiros. A trama inicia com o reencontro em família, Emil Metzdorf é um renomado pastor conhecido nacionalmente por o dom de curar que está em Manaus para uma missão de reavivar a igreja de um outro pastor chamado Francisco, Emil está acompanhado da esposa e ambos aguardam ansiosamente a chegada do filho, Harlan, que no retorno dos Estados Unidos resolve descer na cidade para rever os pais. O rapaz viajara para se tornar pastor, mas largou os estudos religiosos e tornou-se um dos maiores contestadores da igreja do pai, após o reencontro, Harlan descobre uma grande armação que está sendo preparada para o culto que seu pai irá protagonizar dando início a ricas discussões envolvendo ética e filosofia. Mesmo com um olhar crítico permeando a trama, o autor Luiz Lauschner adverte. «A intenção não foi de combate, nem deboche à religião alguma, mas inicialmente um meio de mostrar que nossa formação religiosa é resultado da nossa vivência do dia-a-dia e não o contrário». Criado sob forte rigidez religiosa, Lauschner diz ter sido levado a contestar desde cedo certas restrições impostas por o que considera exagero ou má interpretação do evangelho. «Era tão reprimido que não sabia mais quem era pior, se aquele Deus que pregavam ou o próprio diabo», afirma com bom humor. Ressaltando ser um seguidor dos ensinamentos de Cristo, o escritor tornou-se um estudioso em Teologia, o que aumentou sua crítica à interpretações mais radicais de livros sagrados. «Nunca acreditei no ' temor ' a Deus dito no Antigo testamento, porque se Deus é pai e misericordioso, não há por que temê-lo, temos que amá-lo», exemplifica, demonstrando apenas uma nuance da personalidade incorporada por o personagem Harlan quando contesta a conquista de fiéis por o medo em lugar do amor. Manaus decifrada Em o pano de fundo, a cidade é analisada sob uma lente crítica com todos os problemas e vantagens de um grande centro urbano. «Quis mostrar que no meio desta selva existe uma grande cidade, pouco conhecida no restante do país que está acostumado a associar a região às belezas naturais, que também têm lugar no livro», explica. Catarinense, descendente de alemães, Lauschner mora há 25 anos na capital amazonense e concorda que o impacto cultural permite observar alguns aspectos que podem passar despercebidos por quem é nativo. «Foi preciso eu sair do Sul para passar a olhar as maravilhas de Foz do Iguaçu com olhos mais atentos, quase como um turista», brinca. A presença de temas como pedofilia, leis trabalhistas contraditórias, manipulação da fé, ganância e conspirações enriquecem uma trama onde aspectos culturais da cidade são explorados ora com forte carga dramática, ora com bom humor: o som alto nos bares, o péssimo atendimento no comércio, exibicionismo e caos no trânsito. «Muitos destes problemas existem em qualquer cidade, mas é a versão amazônica de tudo isso que enriquece a narrativa». De o semi-anonimato local para a Bienal do Livro Além do tema intrigante, o livro Aleluia, irmão! Satanás é fiel, foi lançado por a editora paulista Limiar em março de 2005, mas nunca havia sido apresentado para imprensa ou para o meio cultural da cidade. «Fiz uma festa modesta em Itapiranga, onde nasci. O livro vendeu bem, mas como um grande lançamento exige uma logística especial, então, com a ajuda da editora, penso em fazer pequenos lançamentos por o país», revela. Mas a falta de atenção da mídia local já é passado, após o convite recebido da editora para participação na 19a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no último mês de março, Luiz Lauschner ganhou destaque em jornais, concedeu entrevistas em emissoras de rádio e televisão, reforçando a sina de que produtores de cultura no Amazonas carregam de ter seu trabalho reconhecido apenas quando há repercussão no Sudeste. «Foi uma grande porta de entrada, eu que nunca havia sido procurado como escritor já recebi dois livros de fora para comentar e convites para eventos literários aqui em Manaus», comemora. Aleluia irmão! já tem continuação Ainda aguardando um lançamento local, Lauschner já está com a continuação do romance no prelo, o segundo volume ainda não tem título definido, mas mergulha mais fundo nos detalhes das ramificações do poder nas igrejas ditas evangélicas, analisa questionamentos de foro íntimo e conduz a compreensão religiosa para o caminho oposto dos cultos, onde no entendimento do autor, a divulgação do bem deve estar sempre acima do mal. «A escuridão vai embora quando você acende a luz», comenta. Mesmo ainda fora do circuito das grandes livrarias, em Manaus, Lauschner vende exemplares de sua obra no seu restaurante onde o romance fica permanentemente exposto esperando por o interesse de clientes mais curiosos. «O livro tem uma saída muito boa por aqui, já vendi uma boa quantidade de exemplares a amigos, clientes ou pessoas que chegam somente para comprá-lo», comenta. Aleluia, irmão! Satanás é fiel pode ser adquirido por leitores de todo o Brasil por o site www.conectabrasil.art.br, em Manaus está disponível no restaurante Come Bem, na Estrada da Ponta Negra, 1986. A o preço de R$ 20,00. Número de frases: 37 Contatos por o 0xx92 3238-4504, ou por o e-mail aleluiairmao@hotmail.com. * Sou fotógrafo free-lancer residente em Tóquio. Cheguei ao Japão em 1991 e trabalhei em fábricas de autopeças e eletrônicos por 15 anos, morando nas cidades de Hamamatsu, Odawara e Toyota, todas com a mesma característica -- uma grande concentração de brasileiros. Em 2001 comecei a fotografar, por hobby, as pessoas e eventos à minha volta e a vida na comunidade onde eu vivia. A organização deste arquivo de imagens deu origem ao trabalho a seguir: De o instante à eternidade Vivemos o início de um novo período da nossa história. Um período de reflexão, marcado por os avanços tecnológicos e por a migração em escala global sem precedentes, numa verdadeira re-organiza ção da família humana. Em a intenção de realizar um trabalho de preservação da história dos indivíduos que fazem parte destes movimentos populacionais, idealizei Partida, documentário fotográfico sobre a comunidade brasileira no Japão, um projeto de forte cunho artístico que visa mostrar um tema contemporâneo de forma universal. Muitos estudos sobre a esta comunidade têm sido publicados por pesquisadores de várias nacionalidades. Mas ainda são poucos os registros realizados sob o ponto-de-vista do próprio migrante, com o foco voltado para o indivíduo. Partida, através da sofisticação das imagens em preto e branco, apresentará um novo aspecto do momento atual, revelando, de forma memorável, fragmentos de histórias vividas nas escolas, festivais, clubes, fábricas e demais ambientes. E assim como o projeto, este breve ensaio tem como objetivo aproximar pessoas de diferentes status e condições para mostrar, sem afirmações nem apologias, uma fundamental igualdade. * Para saber mais, visite. Número de frases: 13 Acreano não perde uma festa! Fiquei interessada quando li num jornal, em letras garrafais, «Fotógrafo faz homenagem à 2ª Semana da Diversidade, de 12 a 17/9. O desafio de uma exposição incondicional». A matéria de página inteira, com fundo preto, mostrava no final uma mulher posando de perfil totalmente nua. «Uma exposição diferente promete chamar a atenção do público para o nu artístico». Ah, tá! Nu artístico ... Aqui?!! Moro em Rio Branco com minha família há três anos, cheguei com aquele ar de garota carioca achando a falta de barulho um marasmo, sem ter idéia do real significado da frase «Desenvolvimento Sustentável da Amazônia». Li sobre isso numa matéria jornalística e no site do Estado do Acre quando pesquisei sobre a região, antes de nos mudarmos. Somente aqui pude ver que Desenvolvimento Sustentável é muito mais do que replantio da floresta e conservação de seringas. Tem a ver com auto-estima. Valorizar e amar o que já existe é o que abre caminho para um progresso aliado à conservação. Aqui é assim. Cuide do que já tem e receba bem o que é novo. O novo, dessa vez, veio com o lema «Diga Não à Homofobia». Uma semana repleta de atrações para discutir a participação do homossexual na sociedade, educação, saúde e direito. Tudo muito bem dividido entre palestras, exibição de fotos e dos filmes Má Educação de Pedro Almodóvar e Brokeback Mountain, shows, festa em boate e a tão esperada Grande Parada do Orgulho Gay! Dei uma olhada rápida na agenda e separei os eventos que poderia visitar. O primeiro, claro, foi a Exposição «Incondicional». Trinta fotos feitas por o repórter fotográfico de um jornal local, Marcos Vicentti, cujos modelos eram pessoas comuns: dona de casa, secretária, empresária, atletas e anônimos. Anônimos, tá bom! Uma cidade com menos de trezentos mil habitantes onde, praticamente, todos se conhecem «de algum lugar»! Vou reconhecer alguém ... Observei, de longe, de perto ... ninguém identificado. Rio Branco é maior do que eu pensava e as imagens eram belíssimas! Não agrediam o olhar, eram simples e expressivas. Entendo nada de artes, devo admitir, mas vi poesia anônima nessa exibição. Mais tarde aconteceu o show Voz da Diversidade, no Teatro Hélio Melo, com cantores conhecidos na cidade «trazendo uma performance com voz na diversidade», disse a diretora do evento Karla Martins. Aproveitei a folga no segundo horário da faculdade e ainda convenci dois amigos, " vamos só ver como está?!" E a surpresa: crianças e seus pais, pessoal da faculdade, artistas globais (estão por toda parte, graças à gravação da minissérie), platéia diversificada. Em o palco, entrava Renato Faial com figurino e performance à la Madona, a voz estava um pouco baqueada mas a coreografia compensava, levantou o povo! Peraí, esse eu conheço! «Claro, amiga, é o Renato do segundo período» Barato! Em o domingo marquei presença na Parada do Orgulho Gay. O evento prometia um recorde de público. Em o ano anterior, dez mil pessoas prestigiaram a festa. A Semana conseguiu boa receptividade da população de Rio Branco e a prova estava no público que participou da Parada. Quem não entrou na caminhada, parou para ver passar bebês com plumas cor-de-rosa, peruca colorida na cabeça das meninas, a mãe de uma amiga ajudando a levar a bandeira GBLT, carros de som tocando os «hinos» YMCA, It's Raining Man, I Will Survive ... Muita diversão, nenhuma violência. A caminhada terminou no Calçadão da Gameleira, ponto turístico de Rio Branco, onde centenas de pessoas já aguardavam o show de Edson Cordeiro. Cerca de 20 mil pessoas disseram não à homofobia no último domingo. O Dia Estadual de Respeito à Diversidade foi comemorado no dia 13 de setembro, data estipulada a partir do projeto de lei do deputado Moisés Diniz, homologado em 29 de janeiro deste ano. O Acre era um dos últimos estados brasileiros que ainda não tinham em seu calendário uma data em defesa da diversidade. O objetivo é combater o preconceito e discriminação, garantir liberdade para as minorias. Uma semana inteira de conscientização é um grande passo nessa conquista. Melhor ainda é constatar a receptividade da população. Embora uma grande parte estivesse lá apenas para participar da brincadeira, uma mensagem foi transmitida, esta «acrioca» assumida que o diga! Convenções e costumes precisam de tempo e esclarecimento para mudar, respeitar é um dever. E que venha o novo, mas traga uma boa festa! Número de frases: 52 Sobre o povo cigano não se tem ao certo uma definição conclusiva. O que há de entendimento geral é de que, o cigano, é um indivíduo nômade, originário do norte da Índia e espalhado em pequenos grupos por a Ásia, Europa, África do Norte e algumas partes da América como um todo. Vários mitos são atribuídos aos ciganos. Alguns dizem que são aventureiros, boêmios que pedem dinheiro depois de ler nossas mãos e ver nossos destinos. Outros dizem que eles nunca existiram de fato e que tudo sobre eles não passa de estórias românticas contadas, apenas, para satisfazer alguns «corações sonhadores». Mas na verdade, quem são esses ciganos? Desde criança eu ouvia falar em Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos, mulher da Etiópia escravizada no Egito e que prometeu a Jesus Cristo que usaria para sempre um lenço na cabeça ou uma flor no cabelo como sinal de respeito e devoção à Ele depois de ser salva das águas do oceano. Em aquela época eu lia muitas coisas sobre o povo cigano e imaginava ser uma daquelas mulheres com saias rodadas e longas, que dançavam em volta do fogo usando um leque na mão ou um pandeiro com fitas coloridas penduradas, movimentando-se sob o ritmo de uma música espanhola ou outro idioma qualquer que eu não sabia bem qual era ... A música me fascinava mesmo quando ela existia apenas na minha imaginação. Os homens usavam um lenço vermelho na cabeça, camisa com mangas folgadas e presas nos punhos, faixa amarrada na cintura e com braços erguidos, também batiam palmas. às vezes, levavam uma rosa vermelha na boca -- presa entre os dentes -- para presentear a mulher que seria envolvida na dança. Sempre olhando nos olhos! Não sei se estou no rol daquelas que têm um «coração sonhador» à espera de um cigano para dançar com mim ao redor de uma enorme fogueira sob uma fascinante lua cheia, e no final, ganhar de ele a tal rosa vermelha. O que sei é que, recentemente, vi de perto esse universo que sempre imaginei, mas que só conhecia nos filmes e nos livros que lia em segredo quando era adolescente. E encontrei esse lugar bem aqui, em Crato! Existe na cidade um grupo de dança cigana composto de quase vinte pessoas. Homens e mulheres de diferentes idades, e de motivos por os quais procuram dançar! Sandra Albano, a coreógrafa e professora, busca transmitir aos seus alunos não só os segredos da dança dos ciganos e da sua música, como também, o entendimento de que há toda uma magia gigantesca na natureza e que se revela dentro de cada um. O ar, o fogo, a terra, a água, o éter (5º elemento para o povo cigano) ... e por fim, nós mesmos, como parte importante em toda essa energia! E esse que age mutuamente com as forças naturais é o verdadeiro cigano, não exatamente aquele que existia nos romances que eu lia e nos meus devaneios tolos de menina. As aulas de dança cigana acontecem duas vezes por semana no Espaço «Viva Luz» e é o resultado do Opré Romá (Núcleo de Estudos para Valorização da Arte e Cultura Cigana) criado por Sandra Albano com o objetivo de estender o entendimento dessa cultura no Cariri com palestras, exposições, valorização das etnias, harmonizações, mostras de arte, etc.. Evidentemente, ela leva o Grupo de Dança para se apresentar em diversos lugares que o convida. Mas é na transposição da lua crescente para a lua cheia de cada mês, que uma grande festa é realizada na Chácara Ananda, de sua propriedade, em que há um imenso e lindo jardim onde todos interagem num ritual tipicamente cigano ao som de músicas típicas e envolventes, energizações e intenso respeito à vida. Uma grande homenagem à Santa Sara Kali aconteceu naquele «jardim encantado» na Chácara Ananda no último dia 24 deste mês de maio, data em que Ela é festejada por ciganos em todo o mundo. A «escrava africana» capturada com as Três Marias, cuja história ergue o início do Cristianismo e somente reconhecida por a Igreja Católica em 1712 quando fora canonizada, também seria homenageada com muito louvor e alegria, no sul do Ceará, bem aqui em Crato, em meio à Chapada do Araripe! A estimativa é de que, mais de 15 milhões de ciganos espalhados em diferentes pontos da Europa, Ásia, África, Austrália e Nova Zelândia também faziam festejos comemorativos a sua padroeira naquele mesmo dia. A Festa de Santa Sara Kali em Crato Logo na chegada àquele lugar se ouvia ao longe uma música com som das castanholas e do violão, que são alguns dos instrumentos musicais dos ciganos, em especial, daqueles que vieram da Espanha. A festa não havia começado, mas os dançarinos já estavam com suas vestimentas típicas de ciganos de determinadas regiões, além de um casal que seria abençoado com as energias ciganas, tudo feito sob os costumes ciganos. Incensos, fogueira, tendas armadas, flores, as três Estrelas de Davi construídas para as harmonizações, uma mesa com alimento, música leve e relaxante ... Havia uma paz que muitos dos convidados não sentiam há tempos. Para concluir o ambiente especial, uma gruta fora construída para servir de altar à Santa Padroeira dos Ciganos, ainda sem a imagem De ela que viria em cortejo instantes depois. Começa a festa e Sandra Albano, cumprimentando e agradecendo a presença de todos os convidados, iniciou os festejos com uma oração, o Pai Nosso, do qual todos devem conhecer não só as palavras, mas o significado de elas. Ela explicou o sentido daquela comemoração, do chá e do pão, e de tudo o que havia lá, contando a história de Santa Sara Kali e da sua evangelização por a Europa, a questão das etnias e dos costumes ciganos. O cortejo veio em seguida com a imagem de Sara Kali que seria levada à gruta construída inteiramente para Ela. Crianças dançaram, um duelo cigano foi lindamente interpretado por os irmãos Walevisk e Vinícius, as mulheres saudaram -- com a dança -- os elementos da natureza usando seus pandeiros, lenços, xales, flores ... Logo a união de um casal seria abençoada sob o ritual cigano. Eles fariam seus votos de matrimônio na presença de muitos irmãos espirituais. Cada dançarino não representava apenas uma coreografia típica de uma região com comunidade cigana. Em aqueles ritmos e passos dançantes se saudava a vida que brota em toda parte, esbanjando alegria e emanando bons fluídos a platéia hipnotizada com tamanha beleza. A o final de tudo, a união do casal foi protegida com as energias da natureza nos moldes dos costumes ciganos. Eles trocaram alianças que, para os ciganos, são simbolizadas por duas rosas vermelhas. Beberam do mesmo vinho, na mesma taça que foi quebrada por o noivo logo depois. A união de eles estava abençoada, e como disse o padrinho: «o destino dos dois será um só até que aqueles pedaços de vidro se juntem novamente». Somente eles dois beberam daquele vinho! Em seguida, a noiva distribuiu rosas vermelhas às mulheres recebendo platas em troca. Tudo era alegria e havia famílias inteiras naquele lugar! O alimento foi dividido por todos, em especial, o chá e o pão. As pessoas formavam filas para receber as harmonizações das dançarinas ciganas em volta do fogo que faziam orações e balançavam seus pandeiros para equilibrar as energias internas dos visitantes. Descobri que ser verdadeiramente cigano é estar em condição de nobreza espiritual. Completo êxtase com a música, com os elementos da natureza, com a nossa própria existência ... Todos os pensamentos voltados inteiramente para o bem de si e do próximo. Descobri que qualquer um pode ser cigano independentemente de etnia, porque tudo é uma questão de pensamento e atitude, não de um lugar onde nasceu ou mora. Não se trata de uma crença ou religião, de um grupo socialmente separado ou de sujeitos aquém dos problemas do mundo. Trata-se de pessoas que exaltam a vida acreditando que há um Ser Supremo que é centro de toda essa energia, encontrando na natureza, na música e na dança, uma filosofia existencial e forma de intercâmbio físico e mental com algo Divino e que está em toda parte, inclusive, dentro de nós mesmos. Eu procuro diariamente essa «cigana» que há em mim. Procuro essa energia natural em todos os cantos. E você? «A natureza alimenta não só o corpo, alimenta também o espírito " Número de frases: 61 Sandra Albano Em 1952, depois de ter participado dos cursos de verão de Darmstadt e de ter entrado em contato com o serialismo integral e ter desenvolvido um trabalho nesse sentido ao elaborar suas primeiras concepções sobre uma estética «pontilista» (Kreuzspiel), Karlheinz Stockhausen (então com seus 24 anos) vai a Paris estudar estética e rítmica com o compositor Olivier Messiaen. Paralelamente, trabalhando junto ao Grupo de Música concreta da Estação de Rádio Francesa, empenhava-se em estudar os fenômenos acústicos em sua «essência», analisando processos de manipulação sonora até então insuspeitos. Em esse período chegou a realizar um primeiro estudo (Étude) de música concreta como resultado de seu frutífero ano de investigações. Retornando a Colônia, em 1953, passou a trabalhar no Estúdio de Música Eletrônica da Rádio do Noroeste da Alemanha, onde produziu dois estudos eletrônicos (Studien I e Studien II) utilizando sons senoidais e técnicas de síntese aditiva ou subtrativa desenvolvendo com isso uma nova maneira de trabalhar com os materiais sonoros produzidos em estúdio gerando polêmica entre os praticantes da música concreta criando uma espécie de dicotomia entre duas vertentes: «música concreta «-- construída a partir da manipulação de sons gravados das mais diversas fontes e» música eletrônica «-- que utilizava como material de base sons produzidos» artificialmente» e sob controle em estúdio. De um lado um universo de materiais ilimitado mas pouco controlável que era visto como uma «molecagem» inconsequente por os músicos eletrônicos e de outro, um tratamento rigoroso e medido criticado por a pouca variedade do material disponível e dos princípios de tratamento deste. de fato, podemos especular, sem as técnicas do serialismo integral, o desenvolvimento desse gênero de música ficaria seriamente restrito. Gesang Der Jünglinge, composição eletrônica realizada entre os anos de 1955 e 1956, surge como resposta a esse conflito. Seu material de base provém tanto de fontes «concretas» -- uma gravação de um fragmento do texto apócrifo do terceiro «Livro de Daniel da Bíblia Gesang Der Jünglinge im Feuerofen» (Cântico dos Adolescentes na Fornalha Ardente) cantado por um menino cantor da Catedral de Colônia; como de fontes eletrônicas -- sons senoidais, ruídos produzidos eletronicamente e «impulsos» eletrônicos. Stockhausen acaba «inaugurando» o conceito de «música eletroacústica» pois havia criado uma obra que confundiu tanto concretos como eletrônicos. Algo indefinível na época mas que veio a ser utilizado como fundamento de composição até os dias de hoje. A peça havia sido produzida a fim de ser estreada na Catedral de Colônia, o que não foi possível devido à recusa do bispado local de permitir dentro da Catedral uma música tocada por instrumentos eletrônicos. O Gesang inaugura mais um importante conceito: o da espacialidade dos sons como elemento estrutural da música. Vale dizer que, nesse momento Stockhausen está produzindo sua obra «Gruppen» para 3 orquestras, dispostas em 3 palcos envolvendo a audiência. Uma espécie de «música estereofônico-instrumental». Em o Gesang a platéia é envolvida por 4 conjuntos de caixas acústicas dispostos nos pontos cardinais, com um quinto altofalante disposto acima. Stockhausen, para estruturar o Canto dos Adolescentes, procurou criar diversas «escalas» para organizar e serializar o material que possuía à disposição. Tinha como objetivo mesclar os sons vocais e os sons eletrônicos. Cada fonema era considerado por a sua qualidade timbrística e possuía correspondência com algum elemento eletrônico. desse modo, as palavras são tratadas mais como permutações de fonemas, ficando o entendimento do texto como mais um parâmetro a ser explorado. serializou os fonemas segundo categorias fonológicas; os timbres individuais por as suas qualidades espectrais ou " graus de desordem "; o relacionamento entre todas as " categorias de timbres "; as intensidades e as alturas; a formação de texturas, além da organização espacial dos sons nos altofalantes. Construída sobre um texto inteligível (para quem entende a língua alemã) e conhecido, foi possível ainda, trabalhar o Gesang utilizando-se das variações de significados de cada uma das «permutações de fonemas» gerando novas palavras sobre contextos familiares ou realizando modificações nesse contexto, realocando as palavras, transformando-as recriando ou reafirmando significados oriundos do texto. Tal prática assemelha-se, segundo J. Harvey à da poesia concreta desenvolvida por Augusto e Haroldo de Campos aqui no Brasil. Gesang Der Jünglinge é um importante marco na música do Séc. XX. Peça madura, construída e realizada com um tipo de tecnologia hoje em dia superada e que exigia do compositor um esforço e concentração extremos. Um fruto consistente e exemplar das virtudes do rigor e da complexidade do serialismo integral e da música realizada por meios eletrônicos nas mãos de um compositor como Karlheiz Stockhausen. Bibliografia Stanley, Sadie The New Groves Dictionary of Music and Musicians Oxford, 1980; Johnathan Harvey The Music of Stockhausen; Stockhausen Courses of Kürten (folder com catálogo e breve biografia do compositor); Número de frases: 36 A obra de Karlheinz Stockhausen (apostila de curso ministrado no Estúdio PANaroma -- SP 2° semestre de 1998 -- elaborada por o prof. Flo Menezes) Era pouco mais que 2:00 da madrugada quando eu cheguei no ponto de ônibus da Savassi, bairro tradicional da cidade de Belo Horizonte. Estava com um fiel amigo de fotografias de baixa qualidade (celular), Bruno Pimenta, e lamentávamos baixinho os probleminhas da vida. Eis que chega cantarolando um samba antigo um velho conhecido, Patrick, 12, morador e adorador da favela «Morro do Papagaio». Conhecemos o Patrick em Junho do ano passado, ele estava num sinal de trânsito perto de um grande shopping da região do Belvedere, bairro nobre da cidade. Em a ocasião, convidamos ele e seu irmão Ricardo, pouco mais velho, para andar nos nossos skates. Os garotos fizeram a maior festa, ficavam divididos entre os skates e a bicicleta de um outro amigo nosso. O sorriso que cultivavam abertamente na face não deixava negar o quanto se divertiam, alimentava também a nossa alma um tanto quanto enferrujada. Fiquei um bom tempo sem vê-los, até que encontrei o Patrick fazendo malabarismo num sinal de trânsito da Savassi. Ele jogava desordenadamente duas bolinhas para o alto, depois fazia o clássico gesto de agradecimento e vinha correndo em direção aos carros. Abri o vidro e fui logo o chamando por o nome. Ele estranhou, e antes que eu pudesse lembrá-lo do memorável dia dos skates, o sinal abriu e meu tio arrancou o carro. Alguns dias depois eu estava sentado num bar e o vi passar correndo com alguns amigos. Só se ouvia da boca do Patrick " corre de menor, corre!" Atrás vinha o dono de uma padaria, bufando e parando aos poucos. Ele virou para a nossa mesa e desabafou enquanto tomava ar: «roubaram um pacote de chips na minha padaria, meninos filhos de uma p * *». E fiquei um bom tempo sem vê-lo, sequer lembrava do rosto de ele. Até que ontem eu o encontrei. Ele vinha na minha direção cantando o sambinha, e antes que estendesse as mãos para me pedir uns trocados eu lhe chamei por o nome. Ele me olhou assustado, os olhos pretinhos e arregalados como na vez do sinal de trânsito. Para nossa surpresa, minha e do Bruno, ele cheirava uma garrafinha pet de 500m l, que abrigava um resto de cola. Já sentados no passeio, tentávamos lembrar ele do dia em que ele saiu com a gente. Não demorou muito. Patrick largou a garrafa e abriu um sorriso que, com certeza, jamais vou esquecer. E dividido entre eu e Bruno, começou a recitar os fatos: «poxa, era um skate grandão assim oh» e com um olhar distante esticava as mãos para desenhar a sua saudade. Ficamos um tempo com os clássicos sermões de quem se preocupa com um ente querido. E falávamos que ele tinha que largar a cola e estudar. Bruno perguntou o que ele preferia: uma garrafa cheia de cola ou um brinquedo. De novo ele mirou os olhos negros para um vácuo e começou a falar bem alto " um brinquedo, claro! Igual daqueles que tem no Mc Donalds." O Bruno tirou o celular do bolso e tirou algumas fotos do Patrick, ria baixinho enquanto falava: «vou provar para todo mundo que eu tenho um filho sim!" Patrick e seu amigo que havia chegado pouco depois ficaram enlouquecidos de poderem se ver numa telinha tão pequena. E sem mais nem menos ele levantou, olhou para o amigo e disse: vamos! Olhou para a gente e disse que ia dormir por ali mesmo que estava com muito sono para esperar o ônibus. Segurei a mão de ele e busquei os seus olhos, mas estavam depositados no chão. Senti um aperto no peito, uma tristeza fria percorrendo cada espaço do meu corpo. Olhei para o Bruno e vi que ele sentia o mesmo. Pegamos o mesmo ônibus, mas não trocamos nem uma palavra sequer durante todo o caminho. É essa a historia do Patrick, pelo menos até aqui. O final, os olhos de ele vão escrever. Talvez com a ajuda de um pai alcoolizado ou de uma mãe escravizada por a sociedade. Ou talvez ainda por pessoas sensibilizadas com situações semelhantes a essa, como eu e o Bruno, que havemos de lutar daqui em diante por pelo menos uma cidade melhor. Número de frases: 46 Lutemos. Parece que a questão dos direitos animais está começando a ter mais relevância política. O Jornal Le Monde Diplomatique famoso por o seu posicionamento crítico ao neoliberalismo, tem reservado um espaço nas últimas edições para direitos animais e atualmente está publicado no site o dossiê «Libertar os animais, reumanizar a vida». Resguardadas devidas críticas ao movimento «antiglobalização» da ATTAC, grupo que tem pessoas em comum com o Jornal, esse fato é de extrema importância. Somente quando o veganismo (dieta e filosofia que prega a não-violência com animais) e os direitos animais forem encarados com semelhante seriedade que é encarado, por exemplo, os direitos humanos que poderemos pensar em abolir a atual situação em que (sobre) vivem animais não-humanos. Interessante pensar que algum tempo atrás toda e qualquer discussão envolvendo animais estava ou ligada apenas à ecologia ou a um «gostar de animais», que bom que isso está ganhando novos horizontes. Número de frases: 6 Uma instituição sagrada, intocável, imutável. Quase sempre, é assim que o frevo tem se apresentado para o público. E ai de quem alterar um movimento do passo, uma linha de sopro ou um toque de caixa, dos clássicos eternos. Rigidez acadêmica à parte, trabalhos de gente como Silvério Pessoa, Maestro Spok, DJ Dolores e os músicos da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério são a prova de que o frevo está vivo, e se comunicando com outras realidades. Em esse contexto se insere a partir de agora Fervo, o espetáculo de dança que estréia no Recife dia 14 de setembro (Teatro Apolo -- Recife Antigo), e fica em cartaz por mais três semanas (quintas, às 20h; sextas, às 21h). Dirigido por Valéria Vicente, Fervo tem também afoxé, capoeira, hip hop e até roda de pogo! Tudo isso pra discutir uma outra -- e problemática -- herança: a violência social. Apesar de ser assunto recorrente nas demais formas de arte, a violência ainda é pouco abordada por a dança popular ou contemporânea. «Parto deste tema porque ele se impõe como um problema contemporâneo e determinante para a sobrevivência da nossa coletividade. A naturalização da violência e dos estados de tensão e medo é em si uma agressão à saúde individual e coletiva», diz Valéria. O frevo e a violência são elementos muito presentes na realidade recifense e, por isso, o espetáculo promete despertar fortes emoções na platéia. É bom lembrar que, apesar de toda sua beleza, o frevo nasceu num contexto dos fortes conflitos sociais do início do século 20. Ele surgiu do encontro da capoeira (na época, proibida por lei) com as marchas, maxixes e dobrados, executados por bandas militares e civis. Sinônimo de alegria carnavalesca, sua dança é batizada passo, e se definiu a partir de elementos daquela sociedade: pobreza, desemprego, violência, transformação, euforia. De os anos 50 em diante, o frevo foi incorporado à cultura oficial, de forma a se transformar num dos símbolos culturais mais representativos de Pernambuco. Em o dia 9 de fevereiro de 2007, o frevo completará 100 anos desde que foi registrado num jornal pela primeira vez. «As questões que nos afligem são historicamente construídas. A herança da escravidão não está somente no escravo que apanhava, mas também no senhor que batia. A forma como o Recife lida com isso nas relações sociais parece ser a mesma de 100 anos atrás. Existe, nos problemas sociais de hoje, uma violência no corpo das pessoas, mas que não está assumida», diz Valéria. Em a busca de um caminho mais experimental, a montagem aposta na liberdade de movimento e de improviso que o frevo pode alcançar. Em ela, coreografia, figurino, música e luz se unem para proporcionar, como bem definiu Silvério, uma «desconstrução do frevo». Tudo está baseado em oito meses de investigação sobre as características sociais e do clima cultural do Recife do fim do século 19 e início do século 20, quando o frevo nasceu como expressão popular. Notícias veiculadas na imprensa local da época influenciaram bastante o resultado final, inclusive na cenografia. Desenvolvida coletivamente, a coreografia incorpora estas informações através de quatro bailarinos que tem o frevo como elemento em suas formações: Jaflis Nascimento (filho de Nascimento do Passo, o primeiro artista a sistematizar um método para o frevo), Calixto Neto (Escambo Cia de Criação), Iane Costa (Bailarina do grupo de dança popular Arte Folia) e Lêda Santos (Guerreiros do Passo, Caboclinho Sete Flexas e Escambo Cia de Criação). O figurino, a cargo da baiana Isa Trigo, também ocupa uma função simbólica bem definida. Por exemplo, a questão da violência implícita e camuflada se revela através de fugazes tons de vermelho nas roupas, dentro das costuras. O preto e branco predomina, para lembrar algo que não fosse obviamente alegre, e criar o contraste com a imagem folclorizada do frevo. «Tentei trabalhar com algo que sugerisse a época em que o frevo começa a ser visto, criado, noticiado. São tentativas de sobrepor alguns cortes modernos às modelagens e usos de décadas anteriores. Ao mesmo tempo, Valeria queria que eles não se caracterizassem muito enquanto gênero -- o que me fez evitar as saias. São quase figurinos de trabalho, discretos. Pessoas que podem estar trabalhando, voltando para casa ou indo para a rua», descreve Isa. Número de frases: 37 Quem adquire um CD ou paga para assistir a um show ao vivo raramente percebe que por trás disso existe uma relação entre vários agentes que se juntam para fazer com que o produto final música chegue ao consumidor. Para se ter uma idéia do que isso representa, só em arrecadação e direitos autorais, no ano de 2002 a economia da música no mundo faturou 8,4 bilhões de dólares. Em o mesmo período, em vendas de CDs musicais faturou 34,6 bilhões de dólares (1). Com gravação de música, o faturamento mundial está em torno de 40 bilhões de dólares. Percebendo a importância da música, não só como manifestação da cultura, mas como atividade que contribui para a geração de desenvolvimento econômico, iniciativa privada e poder público vem buscando compreender e dinamizar os diferentes mercados e nichos que compõem esta cadeia produtiva. Em o Brasil as ações voltadas à análise do impacto do negócio da música na vida econômica do país são recentes. Em 17 de dezembro de 2004 o Ministério da Cultura, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, a Casa Rui Barbosa e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística estabeleceram uma parceria para desenvolver uma base consistente de informações sobre o setor cultural (2), a qual permitirá também compreender o mercado da música. Em 2005 o economista Luis Carlos Prestes Filho lançou no Brasil o livro «A Cadeia Produtiva da Economia da Música», resultado de uma pesquisa de três anos que mapeou como essa máquina funciona e se torna um negócio, baseado nas informações do estado do Rio de Janeiro. Em o livro Prestes cita o evento Rock ´ n ´ Rio como exemplo da rede de negócio da música. Em sua última edição movimentou de R$ 350 milhões a R$ 500 milhões, girando uma roda de negócios que envolveu 42 atividades, 363 sub-atividades, cerca de 150 contratos e mais de 100 empresas, além de propiciar ocupação para cinco mil pessoas (3). Em o Rio Grande do Sul, a iniciativa mais próxima que existe é o «Mapa da Cultura(4)». Trata-se de um banco de dados com informações culturais dos municípios gaúchos. Contudo, se trata de uma fonte indireta de pesquisa, pois não abrange só música, mas sim todos os setores da cultura. Além disso, coleta basicamente dados sobre os equipamentos culturais e quantidade de atividades existentes, sem mensuração econômica da atividade da música. Todas estas iniciativas demonstram uma preocupação em comum: a necessidade de ter informações fidedignas que apóiem a tomada de decisão, tanto em investimentos públicos, como em investimentos privados. Trata-se da busca de eficiência na aplicação de recursos tendo por base a informação. Como pode ser visto, a sistematização de informações sobre o mercado da música no Brasil é muito recente. Por conseqüência, este fato demonstra que é recente também a preocupação com o estudo dos nichos que compõem este mercado. Para estabelecer uma linha de raciocínio que facilite entender como funcionam estes novos nichos, buscou-se estudar o nicho de mercado do financiamento da música em Porto Alegre. Pesquisou-se que informações são úteis para artistas, produtores e financiadores, tipos de decisões que são tomadas baseadas nestas informações e problemas ocasionados por a falta de integração entre as mesmas. O resultado desta pesquisa é apresentado na monografia Modelo De Sistema De Informações De Marketing Para O Financiamento De a Música em Porto Alegre, que propõe um modelo que possibilite trocas eficientes e apoio à tomada de decisão de marketing por parte dos agentes econômicos. Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição -- Uso Não Comercial -- Não a obras derivadas 2.5 Brazil. Referências Bibliográficas: 1 Prestes Filho, Luis Carlos e outros. Cadeia Produtiva da Economia da Música. Janeiro, Instituto Gênesis-PUC/RJ, 2004. 2 LINS, Cristina Pereira de Carvalho. Indicadores Culturais: possibilidades e limites. Disponível em Acesso em maio 2006. 3 Prestes Filho, Luis Carlos e outros. Cadeia Produtiva da Economia da Música. Janeiro, Instituto Gênesis-PUC/RJ, 2004. 4 FAMURS. Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul. Mapa da Cultura. Número de frases: 33 Disponível em Acesso maio 2006. Tenho certeza de que você nunca ouviu falar em Poesia Totalitária. De onde vem minha convicção? Simples, antes de escrever este artigo, liguei para sete dos artistas pós-contempor âneos mais antenados do país, e perguntei se tinham idéia do que significava a expressão. Apenas um disse ter uma vaga idéia, e estava mentindo. Mas fique calmo, vou explicar. Até porque, como definiu «Le Matzenbacher,» o nosso ócio é transformar letras em cifras». ( Sejamos honestos: devo renunciar à literatura e esperar por um emprego de redator numa agência de publicidade?) O negócio é o seguinte: a maior parte do que hoje classificamos como «arte» é pura chatice, disparate, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Por isso, para muitos especialistas, o aspecto mais importante da arte pós-contempor ânea vem a ser o da técnica de sentar-se em silêncio. «Não se trata de desistir da arte, mas da desistência como meio de fazer arte», explica o ex-artista Cardoso, certo de que «vivo ou void» jamais deixará de ser um poeta morto. Portanto, se você é um artista antenado, e tá a fim de alguma experiência divertida, saiba que corre o risco de ser enfiado numa camisa-de-força até que consiga publicar um longo e confuso ensaio sobre o assunto. ( Ou descolar um patrocínio, como diria Paulo Leminski.) Ah, desprevenido leitor, devo confessar que se eu fosse um ex-artista, como o Cardoso, usaria este espaço para uma boa aula de embromação. Entretanto, observe o meu caso: na condição de pós-jornalista, fui encarregado de produzir um conteúdo bacana acerca das atuais incertezas da arte; mas, ao consultar os especialistas, travei no seguinte dilema: «O silêncio ou o suicídio?" Então, resolvi ligar para os sete mais antenados, e cheguei à seguinte conclusão: sob o ponto de vista simbólico da alma, eu diria que o atual estado da arte pós-contempor ânea é o da «pós-orgia». Agora, preste atenção, sob o ponto de vista concreto do meu incrível «pau-brasil», eu não relutaria em afirmar que é o da Poesia Totalitária. A pós-orgia «O suicídio é uma vocação», disse Fabiano Gummo. Quando menino, toda profissão real me parecia um túmulo: Zeca Camargo, Beto Brant e Sérgius Gonzaga. Calma, vou explicar. É que um dia eu me liguei que a tendência ao celibato literário entre os jovens da minha geração era, de fato, irreversível. Assim, optei por a rima, e acabei escrevendo um livro de poesias, intitulado Nenhuma Poesia: uma referência ao livro do Carlos Drummond, Alguma Poesia. Em a época, eu desenvolvia «poemas conceituais», e alguns amigos me consideravam revolucionário, futurista e vanguardista. Por isso, decidi que o meu livro não teria páginas: só capa. Veja isso, sem páginas, só capa! Sacou? Pois bem, essa foi a minha orgia. Por mais ridículo que pareça, esse tipo de coisa realmente existiu como tendência na arte pré-totalitária. Mas hoje, depois do momento explosivo da minha modernidade, sou obrigado a desistir da minha vocação, pois já não consigo esconder o desespero ao reconhecer a minha própria incapacidade de me comunicar. Quer dizer, agora que «liberou geral», chego à conclusão de que nada do que descobri era verdadeiro, e por isso pretendo submergir lentamente numa linguagem enigmática cada vez mais incompreensível. O fim da arte Se a missão do artista é despertar, só agora compreendo o que Marcel Duchamp fez, não apenas por a vida, mas por a linguagem: «O pior inimigo da arte é o gosto», ele disse, e tudo o que era belo desmoronou. Para mim, a grande sacada de Duchamp foi a idéia de que não precisamos de tintas nem de palavras para criar ou disseminar arte. «Se como dizem os artistas, somos suscetíveis às obras, por que então não conseguimos impregnar nossas vidas com a beleza que de elas emana?», desafia o publicitário britânico Stewart Home. Seja como for, são sempre os idiotas que se revoltam contra a formalidade; nunca os intelectuais. ( Cala a boca, merda analfabeta!) Por isso, sobre Duchamp, basta dizer que a arte pós-contempor ânea, de fato, tudo lhe deve. Segundo o advogado Roberto Bocajão, até hoje ninguém o superou em originalidade e ousadia: «Enquanto todos se empenhavam em dar arte à vida, Duchamp insuflava a vida de arte." É só dar uma olhada na mais emblemática de suas obras, a Fonte, de 1917: um exuberante urinol que ele simplesmente arrancou do banheiro e depositou no museu. Arte? Não, anti-arte: «Com esse trabalho, Duchamp de um só golpe sufocou a voz de todas as gerações que o sucederam», argumenta Bocajão. Tá certo, seu Bocajão. Mas o senhor deve saber que quando o artista sufoca sua voz, a história perde o sentido, e a ameaça da castidade intelectual irrompe como uma nova e terrível aurora nas consciências humanas. «A arte civilizada sempre foi elitista e manipuladora, e por isso Duchamp resolveu matá-la, para que a autêntica arte fosse preservada: a vida», contra-argumenta o advogado. Uau! Au-au! Miau! A arte do fim Oh, sincero leitor, saiba que eu já fui enganado por John Lennon, por Lula, e também por Luis Antônio de Assis Brasil. E digo mais: só Andy Kaufman não me engrupiu com a idéia de que a arte não é puro blablablá: «Se vivemos numa pós-cultura, ou seja, uma cultura vinculada a todo tipo de superação pós-orgiástica, o que a arte pós-contempor ânea faz, ao designar a si mesmo como pós, é reivindicar a própria independência em relação ao ser humano», esclarece Tony Clifton, pós-pesquisador da Universidade Federal. Sacou? Nem eu. ( Calma, é que isso envolve um pouco de lógica que às vezes é da alçada do palhaço.) Segura, vou tentar explicar. Você já ouviu falar em Andy Warhol? ( Aquele desordeiro que roubou o logo dos Stones.) Pois então, depois de ele, tudo o que era lixo virou arte, e qualquer absurdo passou a ser permitido. Segundo Clifton, «enquanto Duchamp optou por o silêncio, Warhol escolheu o suicídio». A partir de sua obra Brillo Box, de 1964, uma réplica em papelão das embalagens de um detergente, os artistas passaram a incorporar em seus trabalhos as chamadas «matérias-primas do quotidiano». Com isso, rolou uma proliferação anárquica de estilos, acabando por revelar uma completa inexistência de critérios que pudessem dizer o que era, e o que não era arte. O lance é que depois de Warhol a qualidade deixou de ser uma questão de gosto, e passou a ser uma questão de conceito: «O que morreu não foi a obra de arte», observa Clifton,» mas a possibilidade de explicá-la." A partir daqui, meu caro, só a filosofia poderia nos mostrar qual o sentido de todo esse engano denominado arte pós-contempor ânea. ( Querido diário underground: sei que estou ficando repetitivo e contraditório à medida que critico isso ou aquilo. Por isso, encerro aqui.) Jogando pingue-pongue com o abismo ( Terminar? Mas agora era o momento de explicar! Explicar! Calma, vou explicar? Explicar e explicar! Vou? Vonvon, explicar.) Parece claro, portanto, que a principal característica da arte atual seja o fim da separação entre as funções «críticas» e «criadoras», a ponto de já não se poder falar dessas duas áreas isoladas uma da outra. Em a verdade, o que rola por trás de toda essa discussão é uma descrença generalizada na capacidade de qualquer linguagem (principalmente a jornalística, ui!) de produzir verdades acerca do mundo. Assim, em relação às incertezas da arte, é notável o grau de consenso quanto ao fato de já não haver qualquer possibilidade de consenso. ( O Belo deixa de ser belo quando é belo para todos.) " O que é peculiar ao artista pós-contempor âneo», argumenta Fulano de Tal, «é o desejo de produzir aquilo que não pode ser apreendido, representado e comunicado», isto é, o desejo identificado por Paulo Coelho como» diufvsv vi ieissif, pé pé pum». Portanto, respeitável leitor, não fique desnorteado e triste ao entrar numa Bienal. Agora você já sabe: tudo aquilo não passa de escombros de uma arte que se masturba com a própria frustração. (Aaaaaaaaa!) De acordo com Fulano de Tal, «ao considerar o caráter autodestrutivo da arte atual, o crítico acabou absorvendo esse mesmo complexo de auto-anula ção, diluindo arte e filosofia num emaranhado teórico que cada vez mais enaltece a si mesmo», e complementa: «Trata-se de uma autoderrota engrandecedora». Conclusão: é melhor mascar chiclete o tempo inteiro do que falar qualquer coisa. Olé! Enfim, caro leitor, depois de muito penar, devo oferecer minhas considerações finais sobre o assunto: «O artista tornou-se filósofo, o filósofo tornou-se poeta, a filosofia venceu a arte, e o roquenrol vencerá a filosofia!" ( Será que falta alguma coisa? Bem, amanhã começarei minha pesquisa sobre o pessimismo.) Em a prática, a poesia é outra Meu Deus! Quanta morte, quanta desilusão, quanta ânsia sufocada! Nada mais que crises, espelhos e perplexidades. Estremecem os alicerces da arte pós-contempor ânea, e o ar parece estar cheio de mistérios sobre a sua derrocada final. Teremos chegado ao fundo do poço? Não, creio que não ... ( It's good to be back, let's have another cigarette!) «O dia da linguagem universal há de chegar, e essa linguagem falará de pele para pele, resumindo todos perfumes, apagando todos os pensamentos», poetizou o profeta Arthur Rimbaud. Eis a Poesia Totalitária! Não, não se trata de anunciar o surgimento de um novo movimento estético. Isso serviria apenas como distração para esses assexuados artífices das simbologias exaustas. O que a Poesia Totalitária propõe, na verdade, é a união entre sexo e arte, ou seja, a cura do ferimento mortal. Ah, sonolento leitor, acorde! O que morreu não foi a arte, foi o homem! E por isso é que a Poesia Totalitária não propõe uma reforma na arte, mas na metodologia de percepção da vida, de modo que através do «estrategismo sexual», a performance de cada indivíduo se transforme na única e autêntica Arte possível: a erótica, pornográfica e espetacular volta ao ventre materno! Estamos entendidos? Ainda não? ( É por essas e outras que a Poesia Totalitária não cogita a comunicação verbal.) Olá! Beijos e abraços! Número de frases: 124 http://almadepoeta.com/fulinaima.htm Projeto " ROCK SOLIDÁRIO É ROCK MESMO!" Reunirá Musicos De São Paulo E BRASILIA. Está Semana Foi Lançada Por a Produtora ANA VEET MAYA A " Pedra Fundamental do Projeto: «Rock Solidário É Rock «Mesmo»!, Que NESTA 1ª Edição Reunirá Musicos E Bandas De São Paulo E BRASILIA. A Idéia Inicial Desse Projeto É A Venda De CD ´ S E Shows Para Arrecadação De Fundos Para Instituições Que Cuidam De Dependentes Quimicos. O «ROCK SOLIDÁRIO» Conta Com Bandas E Musicos Como: Loro JONES E MURILO Lima (EX-CAPITAL Inicial), CARMEN MANFREDINI E GIULIANO MANFREDINI (Filho De Renato Russo), ALEX PODRÃO (Detrito Federal), BANDA MULTIVERSO Paralelo (BRASILIA), BANDA THELEMA, BANDA LOCHNESS, BANDA LAGARTUS, BANDA ALLIED Forces, JULIO MALC, RODRIGO Simão (DR.SIN) E Jornalistas E Locutores De SÁO Paulo Como Marco Antonio Abreu (Titio) E RODRIGO Branco De a KISS FM. Em breve serão divulgadas as datas e locais dos shows do projeto " Rock solidário é rock mesmo!" em São Paulo e Brasília. «Sergio Banna «rock solidário é rock mesmo»! Número de frases: 11 MC Beto é líder de um grupo que ainda é o maior exemplo do que a integração entre jovens japoneses e brasileiros pode criar Beto estava em cima do palco para apresentar as atrações do Festival Brasil 2007, ocorrido em Tóquio no mês de setembro. Sua preocupação era, além de simplesmente entreter a platéia, informar e educar. Em o primeiro dia, o Parque Yoyogi havia ficado imundo por causa do descuido da audiência e da falta de lixeiras bem sinalizadas e localizadas em áreas de fácil acesso. Com olhar sagaz e preocupação com a boa convivência, o MC estava no palco explicando a importância de manter a limpeza do local. O líder do Tensais MC's, a primeira banda de japoneses e brasileiros a alcançar projeção local, tem uma filosofia que, num primeiro olhar, pode parecer bem conservadora. Ele rejeita as drogas e procura passar mensagens de superação das dificuldades e contra o crime. Rebeldia, definitivamente, não é causa desse paulista de 35 anos, filho de uma pernambucana e um japonês. Em a correria para lançar o segundo álbum do Tensais MC's, Beto anda preocupado com o futuro. Obstinado a vencer na música sabe que, apesar do sucesso obtido com seu primeiro trabalho, há muitas barreiras a vencer. «Se eu soubesse falar japonês melhor, tenho certeza que poderia ter ido mais longe», reflete ele, conhecido por ter um domínio do idioma muito acima da média dos brasileiros que vêem trabalhar no Japão. Os Tensais MC's surgiram da junção de forças entre dois grupos: o primeiro, homônimo, formado por brasileiros e o segundo, Hp Workshop, de japoneses. A formação do conjunto conta com 7 membros: os brasileiros MC Beto, suas irmãs Roza e Rose e o MC Q (kyu, como em inglês); e os japoneses Pay-ment, Hiroto da Muscle e S.A.T. Skill. Eles estão juntos há cinco anos, a grande maioria de eles dividindo-se entre a correria dos trabalhos «seculares» e o sonho de viver somente de música. Beto atua como líder e embaixador do grupo. Ele, quando veio para o Japão aos 17 anos, nem sonhava em fazer música. Foi na Terra do Sol Nascente que o artista floresceu. O cara cantava em karaoke e fazia sucesso. «Tinha gente que pedia para eu cantar uma ou outra música», relembra ele. Ao mesmo tempo em que fazia alegria dos amigos, Beto juntava-se a grupos de dança e freqüentava festas. Uma destas fez com que o rapaz dormisse mais que a cama e acabasse faltando ao trabalho no dia seguinte. «Eu era chefe de linha e fui ao japonês que trabalhava com mim pedir desculpas porque a minha falta acabou sobrecarregando o cara de trabalho», conta ele que foi honesto e disse para o colega o real motivo de sua ausência. A grande surpresa veio da reação do colega de trabalho que o perguntou a que tipo de festa ele tinha ido. A resposta -- festa de hip-hop -- acabou revelando uma afinidade entre os dois e foi o pontapé para que os fizessem sons juntos, dando origem ao Tensais MC's atual. Tensai, sem o plural que o abrasileirou, significa «gênio» em japonês. O reconhecimento veio de um concurso da Embaixada do Brasil em parceria com o Clube do Brasil e uma grande gravadora. O objetivo era revelar talentos jovens da comunidade brasileira no Japão. Porém, o concurso limitava a idade dos participantes e Beto e sua trupe quase ficaram de fora. Por sorte, eles enviaram um material que agradou aos organizadores que repensaram o critério «idade» e reformularam o concurso. Os Tensais MC's foram os vencedores e levaram o prêmio de gravar um CD demo com 5 faixas. «A gente foi comendo o cérebro dos caras», diz ele contando que chegaram até 8 e, por fim, as 10 canções que formam Faça A Coisa Certa, o primeiro álbum do grupo. O segundo disco já está praticamente pronto e traz o tempero do samba brasileiro, ambição que o MC diz ter desde o primeiro trabalho. «Em aquela época, não havia o D2 para mostrar que isso era possível e eu acabei sendo voto vencido», lamenta ele por ter sido ignorado em seu pioneirismo. A o escutar as faixas Samurai Malandro, MestiSoul e Lero-lero Brasileiro, o ouvinte vai enxergar vida própria no samba-rap produzido por o grupo. As letras continuam exaltando o orgulho de ser brasileiro e mestiço e mostrando a realidade da classe popular no Japão, sem contrapor imigrantes e japoneses. O Brasil também não é esquecido, mas aparece bem longe daquela idéia romântica de «terra dos sonhos». Entre um rap e outro, Beto ainda mostra sua veia de cantor romântico (ouça a canção «Apenas Bons Amigos», cedida por ele para o Overmundo, na seção áudio, bem abaixo das fotos) o que, de algum modo, causa um descompasso com as letras bem-humorado e as batidas dançantes da parte mais hip-hop. Previsto para sair em dezembro deste ano, o disco novo dos Tensais MC's será um EP e, mesmo antes de lançado, já se tornou um importante registro do pensamento de uma parcela da juventude que vem do Brasil para o Japão. Grupo este cuja voz ainda está silenciosa, mas que aos poucos vai sendo cada vez mais ouvida. Ouça os Tensais MC's -- www.myspace.com/tensaisdoutrulado Assista um vídeo com a entrevista completa e trechos de apresentação dos Tensais MC's -- Burajiru Kara Kimashita Videolog Número de frases: 44 Publicado originalmente em Alternativa. Lourenço Mutarelli diz que usava o nanquim de seus desenhos para se defender, como fazem os polvos. Mas em 2002, após nove livros de quadrinhos, o desenhista resolveu trocar o nanquim por as palavras e lançou seu primeiro romance: O Cheiro do Ralo, que deu vida ao filme de mesmo nome. Depois deste nasceram ainda mais dois: O Natimorto e Jesus Kid. Lourenço Mutarelli dos quadrinhos, da literatura e do cinema -- ainda atuou em O Cheiro do Ralo, também escreve peças de teatro. A voz metálica que sai do viva-voz fala sobre caos da cidade grande, sobre cultura brasileira e sobre as parcerias com Marçal Aquino e Heitor Dhalia, respectivamente roteirista e diretor de O Cheiro do Ralo. O que influência mais as suas obras? O contexto político, econômico e social ou a sua individualidade? Eu acho que a minha individualidade; o aspecto mais psicológico das pessoas em geral. Muito de mim, mas não só de mim. do que eu observo, do que eu vivencio, de muita observação. Eu estudo muita psiquiatria e algumas outras coisas assim que eu gosto e em geral isso me ajuda muito ... para diagnosticar primeiro, para depois criar um personagem. Que autores tiveram influências nas suas obras, tanto literárias como de quadrinhos? Literárias pra mim as primeiras grandes influências foram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Literárias acho que foram essas minhas experiências fortes. Em os quadrinhos foram Will Eisner e muito do quadrinho argentino Muñoz e Bretcha ... algumas pessoas do quadrinho argentino me influenciaram muito. E das suas outras influências literárias, como Kafka e Dostoiévski, você as detecta nas obras de outros autores contemporâneos, como Marçal Aquino, Patrícia Melo ou Daniel Galera? Olha, eu tenho um problema grave assim, que há mais de dois anos eu não leio ficção. Eu tenho estudado um assunto e tenho dedicado todo o meu tempo de leitura a esse assunto. Então, desse pessoal mais novo eu só li Marçal. Eu conheço essas pessoas, mas eu nunca li nada de eles, por uma questão de administrar meu tempo. Então eu não posso opinar muito sobre várias pessoas. Eu acho que o que o Marçal tem forte, que é quem eu conheço mais pessoalmente, conheço mais o trabalho, é o impacto que a gente recebe vivendo numa cidade como essa (São Paulo), não tem como isso não refletir no nosso trabalho. Por menos que a gente pense ou racionalize essa cidade, inconscientemente isso reflete no nosso trabalho. Talvez por isso este realismo, predominantemente o urbano, seja uma das formas literárias mais comuns nas obras de Marçal Aquino e na sua também ... Eu acho que, no Marçal ainda tem o jornalismo policial e tudo, né, que você acaba vendo uma outra faceta que não é assim como eu vejo uma família de policiais, então eu ouvia sempre umas histórias ... É mais um mundo cão, é mais por trás dessa maquiagem que tenta vender a cidade, a grande metrópole, que tem um olhar que só atrai o turista mesmo, quem está aqui acaba tendo uma ótica muito diferente. Mas Brasília é incrível, né, Brasília é incrível. Incrível não de maravilhosa, mas assim, a primeira vez que eu fui aí fiquei muito impressionado. Achei que eu estava numa cidade universitária, que estava numa USP grande, né? É muito distante. Quando a gente é aqui do caos essa coisa muito ordenada, não sei, soa muito ... ela não parece uma coisa natural para mim, então tenho um estranhamento. Mas eu tenho amigos aí, é um lugar em que gosto muito das pessoas, as pessoas acolhem muito bem a gente. A linguagem noir, de autores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler ou até Quentin Tarantino exerce alguma influência na literatura, quadrinhos e cinema contemporâneos no país? Eu acredito que sim, mesmo que a pessoa não tenha lido nada disso. Isso influenciou tanto a cultura, né? Isso está tanto nos filmes que a gente assistiu que a gente acaba se impregnando. Acho que, depois de um modismo que teve muito forte dos filmes de western, o Marçal tem uma seqüela aí que eu acho bem interessante. Acho que veio isso do romance noir mesmo. Acho que esses autores influenciaram demais a cultura num momento em que ela se massificava por o rádio e televisão. Isso está muito enraizado na gente. Há elementos em sua narrativa e em seus desenhos que você considera como fatores de ruptura lingüística e temática? Eu costumo falar que eu desenho e escrevo não como eu quero, mas como eu consigo. Se eu inovo em alguma é porque eu não consigo fazer direito. Eu não tenho essa pretensão e nem esse pensamento quando estou fazendo alguma coisa. Ela sai mais ou menos do jeito que me agrada e do jeito que ela vai fluindo ... Tudo que eu faço é experimental, eu faço como uma experiência. Então eu não estou preocupado se eu vou agradar, se eu vou ser aceito ou não. Eu faço por a experiência. Acho que isso talvez, somado ao fato de eu não conseguir fazer uma coisa mais formal, acho que acaba criando o que pode determinar um estilo, talvez. Mas não existe essa intenção, entende? Ela acaba acontecendo talvez por isso, porque eu me permito experimentar. Tentar fazer do meu jeito, com o que eu tenho nas mãos. Qual é a importância da interação entre formas de arte diferentes (literatura, cinema, teatro, quadrinhos ...) para a cultura de modo geral? Eu acho que é fundamental pra qualquer ... acho que o grande problema dos quadrinhos no Brasil, é que a maioria das pessoas que fazem quadrinhos só bebem os quadrinhos, diretamente, pelo menos. E eu acho fundamental a gente estar aberto ao teatro, ao cinema, literatura, quadrinhos ... eu acho importante perceber as diferenças e as semelhanças que existem entre essas formas de comunicação e de expressão. A mistura tem dado resultados interessantes, né ... Eu acho bastante interessante e acho que é quase ... é cada vez mais difícil que não haja essa interação, né? Eu acho que cada vez mais a gente abre os olhos e experimenta e mistura possibilidades, porque cada vez a gente tem mais recursos pra isso. Quais são as diferenças no diálogo entre autor e espectador dos livros para o cinema para os quadrinhos? A minha primeira experiência marcante de diferença entre quadrinho e literatura, a única grande diferença é o respeito com o que você é tratado fazendo uma e outra coisa. Existe um abismo de diferença de tratamento que você recebe, mas não por o leitor imediato. Você não tem um retorno imediato. O meu primeiro retorno imediato que tive foi com a minha primeira peça de teatro, que como minha cara não é conhecida, eu fui algumas vezes assistir a peça e eu podia ver tudo o que funcionava ou não funcionava, eu tinha uma resposta imediata. Isso variava com a platéia, mas eu sempre tinha uma resposta imediata. Eu nunca tinha experimentado esse retorno tão direto. Isso foi muito importante pra mim, foi muito prazeroso vivenciar essa experiência. Em o cinema você tem isso de uma forma semelhante, embora o filme demore tanto pra ficar pronto que, quando fica pronto, você não agüenta mais ver nem ouvir falar e aí você não acaba vivenciando muito. Eu vivi muito pouco isso, só nos festivais eu senti o público reagindo ao filme, mas aí é um público diferente porque é um público de festival. Como você enxerga a relação entre produção artística e a indústria de distribuição cultural? Eu acho que isso depende. No geral, é tudo muito mal distribuído. Acho que acaba, se você persiste fazendo seu trabalho de alguma forma, você vai arrebanhando pessoas que descobrem seu trabalho, e acabam indo atrás, que acabam sendo independentes dessa distribuição. Esse agrupamento acaba ajudando você, por outro lado, a ter uma distribuição um pouco melhor. Mas acho muito mal distribuído, embora existam entidades e experiências que são bastante positivas. Se não fosse o Sesc, e outras iniciativas privadas ... por mais que isso seja limitado, acho que isso possibilita a viabilização de muita coisa, indiretamente. Nina é um filme mais complexo e elaborado. Qual a importância de produções com este tipo de linguagem, na contramão dos temas mais recorrentes, para a cultura brasileira? Eu entrei no Nina, porque eu achava ... isso é culpa do Heitor (Dhalia, diretor), né ... é muito a visão do Heitor mesmo. E gostei justamente por isso. Embora eu também ache que outras formas ... também é legal você experimentar coisas que estão se repetindo e você tentar dar um pouco da sua cara ou da sua visão, até pra quebrar um pouco essas coisas que se repetem. E o Nina tem toda uma concepção, que eu acho que no fim das contas ele não alcançou, como geralmente não alcança, o objetivo. Mas ele foi uma experiência muito estimulante e muito interessante. Eu só acho que o resultado ficou aquém do que a gente vislumbrava durante o processo. Para mim, pelo menos. Minha opinião pessoal, assim ... Quando o filme começou a ser montado, ele começou a ser montado de tantas formas diferentes e por estar muito envolvido eu tinha já uma concepção do que seria. Eu estranho, pra mim causa um estranhamento, o corte final do filme. Eu achei que ele tinha uma outra direção que me agradava mais. Quem tem acesso somente ao produto final dificilmente percebe isso ... Essa é uma grande vantagem também, porque você recebe aquilo que é pronto e você não tem esse sofrimento todo da expectativa ou dos desvios de curso, né? Eu acho que o Nina para mim tem isso. Foi um filme difícil de realizar, teve muito problema no meio, então, de qualquer forma, eu acho um grande mérito e uma grande coragem ter sido feito, justamente por ser totalmente na contramão do que se fazia. Como foi fazer parte d' O cheiro do ralo, com as peculiaridades que o filme apresenta em financiamento e produção? A princípio, eu sempre quis ficar distante, eu não queria me envolver no processo, porque desde o começo eu achava que o mais interessante para mim era ter esse outro olhar, a adaptação mesmo. Mas eu acabei fazendo, tendo que ajudar. Quando o Selton não podia fazer teste com elenco, eu acabei fazendo alguns testes no lugar de ele e ele acabou me convidando pra fazer um personagem e foi muito bom pra mim, foi muito divertido, mas eu tentei não interferir em nada. Quem opinava era o Heitor e o Selton. Quando alguém me perguntava eu falava que não sabia de nada, porque eu fiz o livro e isso era o filme e são coisas totalmente diferentes. Mas foi um set totalmente ... muito bacana, muito passional, a gente tinha uma relação muito boa, foi uma união muito grande, foi muito divertido, muito prazeroso participar do processo. Mas, e no que diz respeito ao orçamento, muito mais baixo do que o usual? Você já deve até estar meio cansado desse tipo de pergunta ... (risos) Não. Eu acho que isso talvez tenha propiciado esse clima tão agradável, porque todo mundo que estava lá, estava lá porque gostava do projeto. Ninguém estava lá por dinheiro. Todo mundo estava cedendo seu trabalho, abrindo mão de receber ou trocando isso por uma participação no futuro. Então as pessoas estavam lá por paixão mesmo. E isso refletia muito no ambiente. Ninguém estava lá porque ia ganhar dinheiro, não era essa a idéia. Então, todas as pessoas que entraram ou gostavam do livro ou gostavam do projeto ou gostavam do Selton ou do Heitor. Tinha sempre uma relação afetiva com o que estava sendo feito. Então o fato de ter sido feito da forma que foi feito, acho que é um exemplo de que isso pode acontecer. O Heitor fala isso, que não é o ideal, porque senão chega uma hora em que as pessoas que colocam dinheiro e que se juntam e tal não vão ter mais dinheiro pra fazer nada, mas era a única forma do filme acontecer, então eles optaram por fazer. Mas eu não participei de nada dessa relação de produção ou financeira, eu ouço as histórias mais ou menos como vocês ouvem, meio indiretamente. Legal mesmo é a idéia de parceria entre as pessoas para realizar um projeto ... Isso eu acho muito legal e acho que isso acabou criando um clima muito favorável. E que, de alguma forma, as pessoas do cinema falam isso e parece que tem uma verdade, esse clima parece que fica impresso no negativo, sabe? É uma coisa que, sei lá, talvez o filme vá bem até por isso também, porque é isso: tava todo mundo junto, se divertindo e afim de fazer. O filme ia sair com duas cópias ... no fim saiu com 17, e foi muito bem de público. Como passou a trabalhar com Heitor Dhalia e qual é a importância de parcerias como estas para a produção cultural do país? Acho que a importância disso a gente não vai conseguir perceber agora. Se esse filme ficar, perdurar, ou se for uma tendência a possibilitar outros, daqui a um tempo a gente vai saber a importância disso. Eu não sei até que ponto isso é importante ou isso é importante só para as pessoas que estão envolvidas, eu não sei qual a relevância disso. Em a minha parceria com o Heitor a ponte foi justamente o livro O Cheiro do Ralo. Ele me procurou pra comprar os direitos, aí ele acabou conhecendo meus quadrinhos, e ele estava na pré-produ ção do Nina, e me convidou pra fazer os desenhos. Foi uma parceria muito boa, foi muito bom trabalhar com ele, foi uma experiência legal. A gente tem muita identidade, mas ao mesmo tempo a gente tem muita diferença. Acho que a nossa parceria foi isso, não sei se a gente faria uma parceria no futuro, eu acho muito difícil isso acontecer. E com o Marçal Aquino, como foi? O Marçal participou do primeiro almoço, quando eu conheci o Heitor, ele indicou o livro para o Heitor ler. Ele é uma pessoa ... eu adoro o Marçal, ele é uma pessoa extremamente gentil e divertida que eu gosto muito de encontrar e eu tenho uma afinidade muito grande com ele, uma gratidão imensa por essa generosidade de ele estar ... a literatura em geral me recebeu muito bem, muito de braços de abertos, e o Marçal é um grande exemplo disso pra mim, é uma pessoa que gosto muito, muito mesmo, é uma pessoa que eu tenho um afeto muito grande. E ele participou, a gente se encontrou, ele participou do primeiro almoço. Ele fez de certa forma essa ponte e a gente ainda se encontrou algumas vezes os três, e aí depois ele seguiu os dois trabalhando a adaptação. Eu não participei da adaptação. O que as obras destes artistas, como Marçal Aquino, Beto Brant e Heitor Dhalia, trazem de inédito para a cultura brasileira? É essa coragem de tentar fazer o que eles querem, o que tem a ver pra eles, não por dinheiro, mas, enfim, por um ideal, mais por aquilo que eles querem fazer, né? E acabam fazendo coisas diferentes, o que é ótimo. Eu acho que esse é um valor para a cultura, é a diversidade, é mostrar que o Brasil não é só o sertão. O Brasil, e muito São Paulo também, é uma mistura de muitas coisas, de muitas culturas. Então, com essa relação temática -- essa história de quebrar um pouco o sertão e trazer mais o urbano -- e a relação lingüística que os filmes têm com os livros, o conjunto lingüístico-temático pode trazer uma quebra no que já existe de cinema brasileiro, uma ruptura, no cinema e na literatura? Eu acho que vem acontecendo e acho que isso acontece mesmo no Cinema, Aspirinas e Urubus, ele mostra a realidade que a gente conhece, mas por uma perspectiva e com uma delicadeza que eu acho muito nova. Acho que mesmo que você fale de coisas que estão sendo ditas, se é um olhar um pouco mais sensível, eu acho que isso traz uma contribuição. A afinidade que existe entre o nosso trabalho e que acaba refletindo nas nossas pessoas, eu, pelo menos, penso que cada uma dessas pessoas fazendo seu trabalho, não pensando «ah, eu vou mostrar isso», mas pensando na sua realidade, no que ela vive, no que ela vê e tenta mostrar, dividir isso ... não sei se existe um, pelo menos da minha parte não existe, um dogma ou «ah, eu vou mostrar isso porque isso não está sendo mostrado», não. Eu vou falar isso porque essa é minha língua dentro desse país, então eu acho que é mais ou menos isso. Uma questão de você impor, de certa forma, através do seu trabalho, sua identidade. Pra quem olha de fora, o que parece é que não há a intenção de se fazer algo necessariamente novo, mas que está sendo feito ... Isso acaba trazendo o novo, gerando o novo. Eu acho que o novo não nasce com a intenção de ser novo. Ele nasce com sinceridade e com experimentação e com pessoas que de repente tentam realizar o seu trabalho contra a corrente e não encontram uma forma de produzir isso, de uma forma fácil ou com parceiros grandes. Então elas se juntam e fazem o seu trabalho, que foge porque as grandes produções visam o que dá certo. Elas vão martelar nessa tecla porque dá certo e nunca vão arriscar. E elas devem começar a arriscar agora, por exemplo, quando surge uma coisa diferente, que dá um resultado, e esse resultado é financeiro, é um resultado de bilheteria ou de uma massa, de atrair uma massa de público, aí eles começam a se pautar nesse tipo de coisa pequena que aponta o caminho e aí eles começam a investir um pouco. Então isso acaba refletindo através de experiências corajosas ... Porque, para mim, fazer um livro não custa nada. Mas para se fazer um filme custou ... Essa parceria é um trabalho muito maior, que por outro lado atinge um número de pessoas multiplicado à potência, né? De os filmes roteirizados por o Marçal Aquino O Cheiro do Ralo parece ter dado mais resultado, né? O Invasor parece que tinha dado uma bilheteria legal ... não tenho certeza se foi 100 mil, ou alguma coisa assim, mas parece que O Invasor teve um, eu nem sei se a venda foi o cinema ou se foi DVD ou VHS. Eu sei que foi um filme que foi muito bem aceito, sei lá, acho que tinha uma novidade, um frescor ali que acabou atraindo, talvez isso indiretamente encoraje outras pessoas a fazerem ... então, talvez o primeiro que fez um e não foi tão visto ou tão aceito, encorajou o outro a fazer um outro que vai seguir uma trilha que já começou a ser aberta de alguma forma, mesmo que outros tenham menos visibilidade. Se é que esses artistas apresentam uma linguagem cultural inédita, como você denominaria essa nova vertente? (risos) Puxa vida ... Eu não tenho a menor idéia. Eu sou muito ruim com conceitos e rótulos assim, eu não sei dizer ... Não sei mesmo que nome eu daria. Número de frases: 186 * Esta entrevista também foi publicada no balde e em formato editado no jornal Esquina do UniCEUB. Esqueça o chinelinho de couro comprado na feira da Benedito Calixto. Esqueça também o estilo «hippie chique» e os cabelos displicentemente trançados das moças universitárias paulistanas. O público do Gold, um entre a dezena de salões de forró na Rui Barbosa, no bairro do Bexiga, se arruma é com muito brilho, decote ousado, botinha e sandálias altas, no caso das mulheres, e camisas bem passadas, no caso dos homens. «Aqui é forró moderno», explica Quitéria para quem é ET no lugar, deixando claro que ali o tempo de Luiz Gonzaga ficou bem longe. Quem faz a sensação dos filhos do Norte na megalópole é mesmo Calcinha Preta, Mastruz com Leite, Banda Calipso, Bonde do Forró e Saia Rodada. Para decidir onde entrar em meio a tantas opções, o diferencial pode ser o preço. Em aquele sábado à noite de julho, foi este o critério utilizado por Quitéria, natural de Caruaru, Pernambuco, e as duas amigas, que ela chama de «Nega». Nega 1 e Nega 2: as irmãs são de uma cidadezinha perto de Vitória da Conquista, na Bahia. O trio costuma sair para dançar a cada 15 dias, sempre para chegar em casa às 5 da manhã. Pois bem: entramos no Gold porque lá mulher entra de graça a noite inteira. Homem? Cinco reais. Passando por a revista (também feminina, uma de quase 1,90m), o caminho já foi sentar numa das mesas de plástico e esperar a garçonete, uma jovem que trazia as latinhas de cerveja em bacias de plástico cobertas em gelo. A Nova Skin geladinha saiu por R$ 1,99. A Brahma já era R$ 2,99. Tudo é pago na hora. O atendimento é de primeira, e nenhuma latinha fica dando sopa na mesa. Mais uma rodada para esquentar até entrar uma das três bandas da noite. O teclado eletrônico é o único instrumento dos shows. Refinação no forrozão quer dizer muitos bailarinos dançando, cantando junto, uma loucura. «A gente briga / a gente bate / à noite a gente se ama», diz um refrão que martelou a noite toda, mostrando o caminho das letras de sucesso, que passam por «tapinhas» e outros carinhos mais. Mas não é que contagia? Não é que a cintura fica querendo aprender a rebolar daquele jeito? Agora, é preciso ter alguns cuidados. Mulher pode dançar com mulher ou ficar dançando sozinha. Mas daí a tirar homem para dançar é um passo arriscado. «Ué, isso tá errado, é o cavalheiro que tem que tirar a dama», aconselhou-me Quitéria. A segunda banda chegou com tudo: era Thiago, o Príncipe do Forró. Mas o figura estava vestido com uma roupa lembrando roupa de surfista. Era também loiro parafinado, cabelos compridos, uma cintura esvoaçante. As bailarinas quase peladas que entravam no palco e no reinado do principesco tinham mais graça; Thiago era um horror. Até eu -- perdida -- pude entender a cara de tédio que foi tomando conta do salão. Antes de ir embora, no entanto, a banda se salvou com uma sessão de forró-pop, cantando uma seqüência de dances que terminaram na apoteótica «Festa no Apê». O fato é que a Gold precisava ter se preocupado mais com a satisfação dos clientes: como a mulherada entra de graça, qualquer coisa pode ser motivo para sair e entrar em outro lugar. Saímos, não só por conta do fracasso do Príncipe, mas para comer um churrasquinho. Em o canteiro da Rui Barbosa ainda é cedo: som de carro tocando o mesmo forró eletrônico, bares mais simples onde também se dança a vontade, e as várias barracas de churrasco: na média, o espeto de carne sai " R$ 1,50. «Não é sempre que a gente vem pra cá, às vezes saímos mais longe pra comer um baião-de-dois. Será que assim se mata a saudade da terra natal? Nada disso, a terra de Quitéria é aqui mesmo. «Juntei dinheiro para abrir uma loja em Caruaru, perdi quase 20 mil reais. Agora não volto não, aqui é meu lugar», diz ela, que aparenta ter muito menos que seus 40 anos. Com o Nordeste que existe em São Paulo, é até compreensível. Desde que haja trabalho, claro. Para variar, naquela noite ela e as Negas encontram alguns amigos; não foi noite de namoro para ninguém, mas todas viram o sol nascer ao chegar em casa. Número de frases: 50 A semana vai ser puxada, mas, quem sabe, daqui a 15 dias, tem mais. Assim como o saci, a mula sem cabeça, a Cuca e as melhorias educacionais do país, existe uma lenda antiga que começou não sei onde, não sei por quem, de que São Paulo seria o túmulo do samba. Bem, como carioca de Irajá, Madureira, Pilares, Meier e mais uma meia duzia de bairros que eu morei e mais um milhão de bairros que frequentei, posso discorrer este assunto com certa isenção, não por ser carioca somente, mas por ter acompanhado a produção cultural na cidade do RJ, desde que o São sebastião do Circo Voador usava fraldas, com todo respeito ao Perfeito, Juçá e a galera toda, que «quixotescamente», conseguiram criar a Lapa Pop do segundo milênio. Onde a malandragem cedeu lugar as miçangas retro 70. Os tempos são outros, Pedro Luiz há muito deixou de ser Urge, e as cidades não são mais eletrikas como de antes ... O eletricismo e a verborragia punk cedeu lugar aos conceituais, alguns chinfrins outros bacanas, alguns criaram a releitura D2 malandra que manteve o respeito, e isso é muito importante. Porque enquanto o Rio hoje tenta resgatar alguns valores a muito esquecidos, São Paulo os manteve desde há muito. Quando cheguei na metrópole do concreto, achava que não veria o que vi, zilhões de rodas de choro, samba de raiz, bailes de samba rock, respeito aos grandes sambistas do passado, serestas, e principalmente muitos musicos. Não que o Rio não respeite seus valores do passado, mas tambem sei que por se tratar do vizinho do lado, é muito mais fácil não dar o valor devido. Normalmente a gente no Rio só descobre que o velhinho do boteco era importante depois que morre ou que aparece um mauricinho de canal a cabo entrevistando ele. ( é exagero mas, tem lá suas verdades) Quem que não é do meio do samba, que reconhece um Mauro Diniz passeando na treze de maio? Quem conhece em Irajá, um bom violão 7 cordas? Se voce conhece por favor me indique. Em o rio a maioria da garotada quer batucar, aprender cavaquinho e banjo e só. Em o Rio a gente tropeça em cavaco, em percussionista então ... uau. Acreditem em São Paulo é mais fácil achar um bom muisco de violão de 7 cordas, que no Rio. Em o Rio são raros e poucos. É muito mais fácil ainda esbarrar com um garoto de 17 anos com todo o repertório de Candeia na ponta da língua. E isto também passa obrigatoriamente por o enorme respeito que o sambista de São Paulo tem por as escolas de samba do Rio de Janeiro, e que é recíproco. Queiram os bairristas acharem o contrário. Aprendi a respeitar o samba de São Paulo, porque sua linguagem, a sua estética é completamente diferente. Enquanto em São paulo se valoriza a harmonia, no Rio cada vez mais é valorizado o ritmo. Vejam que não estou tecendo comentários as melodias produzidas, mas sim a forma estética de se executar o samba. São Paulo não em volume de produção, mas em qualidade tem sambas memoráveis, não pdemos nos esquecer que Vadico, Geraldo Filme, Paulo Vanzolini, chico buarque e Luverci Ernesto são paulistas, sem falar que na fase inicial do rádio Ely e Gracy, uma dupla paulista na decada de 30 fez enorme sucesso no Rio de Janeiro, na Radio Tupi e Nacional, pasmem, cantando samba. Então falar em tumulo do samba é uma baboseira enorme. É puro preconceito de quem não entende, absolutamente nada de samba e principalmente a arte produzida no Brasil. Agora falar que o samba se manteve estável é outra coisa. O samba mudou e muito, em São Paulo apareceram vertentes como o samba romantico e principalmente no Rio, após o boom Fundo de Quintal. E eletro-samba, tecno-choro e outros Frank ´ s.. Se o que vem por aí é para a melhor ou pior ... não sei, não sou crítico e nem quero ser. Tenho gosto, gosto de algo aqui, não gosto de muitos acolá, mas não tenho muito o que dizer não. Só acredito que não podemos perder os nossos valores por modismos ou conceitos «modernistas -- 20 ´ s» (seculo passado), pois a contra gosto dos modernos de vinte, Alberto Nepomuceno foi tão importante quanto Chiquinha Gonzaga. Aliás para resumir o que eu acho, vou aqui transcrever parte de um samba de Candeia, que diz mais ou menos o que eu penso: «Eu não sou africano, nem norte americano, ao som da viola e pandeiro sou mais o samba brasileiro» ... e que mais na frente diz ... «pra acabar com o tal de soul basta um ponto de macumba ..." Por isso continuo batendo meu ponto de macumba ... Viva o Samba! Número de frases: 41 «Está nas suas mãos fazer uma verdadeira revolução na sua qualidade de vida!». Assim o dizem dezenas de livros lançados anualmente, cujo objetivo é nos oferecer a chave para a realização pessoal. Alguns destes são meras releituras dos clássicos da felicidade eterna, outros rendem a seus autores os direitos de fórmulas mais «antenadas» com as necessidades contemporâneas, como no inacreditável «10 Lições Espirituais que Aprendi num» Shopping, de James F. Twyman. O pensamento positivo do autor brasileiro Augusto Cury certamente está influenciando o universo a seu favor. Autor de aproximadamente 20 livros, já vendeu mais de 900 mil exemplares e é responsável por os títulos «Você é Insubstituível»,» Seja Líder de Si Mesmo», entre outros. É o maior sucesso editorial brasileiro, à frente de Paulo Coelho. Já o best-seller «Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus», do autor norte-americano John Gray, com seu mix de mitologia grega com ficção científica, ensina o casal aflito a conciliar mundos muito diferentes. Quando afirma que os marcianos (os homens) dão importância ao trabalho, à competência e às conquistas e as venuzianas (as mulheres) gostam de conversar e compartilhar sentimentos, faz o tipo de simplificação e generalização que são comuns nestes livros. O fracasso é tido como resultado de uma equação mal resolvida, enquanto as variáveis são poucas e é óbvio que o resultado só pode ser um. Se, atualmente, é quase impossível conseguir emprego numa metrópole brasileira, provavelmente é por que o leitor: a) não tem fé o suficiente; b) não projeta mentalmente suas expectativas e desejos ou; c) não aprendeu como fazer amigos e influenciar pessoas. Se tudo é possível com a força do pensamento, não cabe aos livros de auto-ajuda questionar os panos de fundo sociais nem fazer análises históricas. A auto-ajuda é um gênero que muitas editoras lançam com garantia de lucro certo e, para conseguirem um espaço ao sol, é necessário ter algumas cartas na manga, apelar para livros de bolso e de fácil digestão, e lançar em território nacional os livros que são sucesso no exterior. A editora Sextante, especializada em livros sobre espiritualidade, foi responsável por o lançamento no «Brasil de O Código da Vinci», de Dan Brown e» O Monge e o Executivo, de James Hunter». Seu diretor executivo, Marcos da Veiga Pereira, exemplifica a lógica que faz da Sextante um sucesso: «Tentamos nos posicionar no mercado como uma editora de livros acessíveis e um pouco mais agressiva em marketing», conforme entrevista concedida à revista Valor Econômico. Tantas publicações ensinando a felicidade serão sintomas de novos tempos? Com tantos manuais, as chances de ser infeliz hoje em dia deveriam ser mínimas, afinal, já sabemos 10 maneiras de mudar nossas vidas, as 7 funções espirituais da liderança e 101 maneiras de excitar nossos parceiros. Curiosamente, há um aumento significativo no consumo de antidepressivos no Brasil e no mundo. Foram consumidos 17,5 milhões de unidades de antidepressivos no Brasil em 2004, segundo o site da Sociedade Mineira de Pediatria. Médicos recebem pequenos brindes das indústrias farmacêuticas -- que incluem viagens -- para fazer bons comentários a respeito dos lançamentos em remédios e para prescreverem os mesmos para seus pacientes. Talvez a ética não consiga chegar na maior parte das editoras e dos consultórios; talvez a felicidade não dependa de fórmulas; talvez ser feliz e bem-sucedido tenha se tornado uma obsessão e os fins justifiquem os meios. Se tempo é dinheiro, gastar cerca de trinta reais numa caixa de Fluoxetina (o velho Prozac) com 30 cápsulas é economizar na busca da felicidade. Livros que sempre têm final feliz também podem causar dependência física e psicológica. E, no final, quem ganha mais nunca é o leitor. Número de frases: 29 A violência nos grandes centros urbanos marcou a festa de lançamento do Overmundo em Porto Alegre. Calma, não houve nenhum ato violento durante a festa, felizmente. Mas um dos músicos que iria tocar na ocasião passou por momentos mais do que desagradáveis durante a sexta-feira, dia 10 de março. Para resumirmos a história, ele teve o seu apartamento invadido durante a madrugada. Abalado, achou melhor cancelar o show. à noite, mudou de idéia e decidiu tocar. Porém, quando o azar conspira, não adianta: a menos de duas horas do primeiro show, o da sua banda, a Quinto Poder, uma pessoa próxima ao mesmo músico foi baleada num assalto. Obviamente, não havia clima para a banda tocar. Uma pena. Mas a festa estava armada e o público ansioso. E afinal, o show tem continuar, como na célebre frase. Assim, a animação da festa ficou exclusivamente a cargo da outra atração da noite, os Pogoboys. Por volta da uma da manhã, com um bom público tomando a parte de baixo do bar Cave, começou o show dos Pogoboys. Com aproximadamente uma hora de duração, o show agitou o pessoal, que pulou e dançou bastante com a forte presença de palco da banda. Antes e depois da apresentação, o rock rolou solto na discotecagem, como deve ser. Aqui e ali, elogios à proposta do Overmundo e à festa, que teve apoio na divulgação basicamente por parte de sites. Se já foi uma bela noite dessa forma, fico imaginando como seria com o auxílio dos jornais. Se dependesse do dono do bar, poderiam rolar mais festas assim. Número de frases: 19 Bem, que tal uma outra dessas quando o Overmundo completar um mês no ar? Pintores sobrevivem por as ruas do pelourinho. Isolados na esquina, criando ao ar livre. Escondidos e esquecidos nos becos do Centro Histórico de Salvador. Andando de um lado a outro, à procura de um olhar sincero sobre a arte. São pessoas simples, que vivem da alegria de pintar não importa como. Verdadeiros artistas brilhantes, considerados primitivos diante dos experientes. Assim se mantém aqueles que escolheram a arte como meio de vida. De os dedos sujos de tintas a certeza que de ali sairão novas e diferentes paisagens. Como num passe de mágicas a natureza surge encantadora. Quem acompanha a produção feita na hora por Obá, a princípio, se perde; diante de tantos «borrões». Com o passar dos dedos sob a base branca do azulejo, a combinação das tintas vai se transformando em realidade. As unhas dão detalhes e efeitos à pintura, fazendo enriquecer ainda mais a obra. A cada pedido do freguês, uma surpresa: os quadros sempre saem melhores do que o esperado. Já alguns passam e apenas olham, deixando para trás um pedaço de alegria e tranqüilidade. O Paulistano Obá revela a beleza da Bahia, misturando o que Salvador e a sua natureza têm de melhor. «A Bahia é uma obra de arte», comenta. O artista começou a pintar aos sete anos de idade e nunca mais parou. Vendendo suas criações por R$ 3,00 e R$ 5,00, Obá vai tirando seu sustento. Por dia, ele consegue obter de R$ 100 a " R$ 170. «Eu pinto a média de cinqüenta telas por dia», diz. Sua jornada começa às seis da manhã e só termina ao pôr do sol. De domingo a domingo, o artista de rua já pinta há quase quarenta anos. «Eu vivo da arte e vou morrer pintando», relata. Com o lema «Pintando com os dedos para o mundo», ele vai mostrando para os turistas a sua criatividade. Os estrangeiros gostam tanto do trabalho que pedem pra encomendar. «O meu relacionamento com eles é ótimo, inclusive eu tenho divulgado muito a Bahia para o exterior. Todos os recantos do mundo, graças a Deus, eu tenho um trabalhozinho já lá», revela. Apesar dos obstáculos: «A minha dificuldade é o inglês», diz. Outra dificuldade que Obá enfrenta ao pintar na rua é a chuva: «A chuva é inimiga do pintor. Cada pinguinho de chuva que bate na tela a gente tem que desmanchar, nunca fica como a gente começou a fazer a tela», conta. Mas, ainda com tantas barreiras, ele considera gratificante o trabalho na rua: «Você conhece todo mundo, faz muitas amizades. Eu mesmo não gostaria de trabalhar num ambiente fechado», comenta. A voz do povo Luis Cláudio, servidor público da Secretaria da Fazenda, 42 anos, comprou duas pinturas do artista Obá e lamentou: «Infelizmente, o trabalho como artista no Brasil é muito pouco reconhecido. Artistas como ele deviam ter ( ...) espaço na mídia pra que eles divulgassem mais seus trabalhos, são muito bons. Países como a Europa, ( ...) dão oportunidades a seus artistas a ter uma sobrevivência melhor ( ...) do que aqui no Brasil. Enquanto os artistas daqui ficam, como se fossem mendigando espaço para apresentar o seu trabalho, que são de muita beleza». Formado por a UFBA o Professor de história Búria, de 71 anos, conhece bem Obá e o elogia: «Ele tem um processo bem pessoal. A técnica: usa o dedo. Usa também uns pauzinhos. Outra qualidade de ele: eu acho que é um homem de muita imaginação. Ele imagina, cria. E essa criatividade é positiva na profissão de ele. Ele não depende de figurinhas, de cópias. Os quadros de ele são perfeitos. Eu sei que o povo não valoriza, não tem poder econômico pra isso. Mas tem gente que vem do exterior e compra, compra vários e leva vários. Realmente eu me sinto muito satisfeito por a obra de1 ele». Arte Esquecida Estava a caminho da Praça da Sé, já para descer o Elevador Lacerda e ir embora quando percebi que um senhor tentava vender suas telas a um turista. Era seu Edmundo Oliveira Santos, o Edvon, de 71 anos. Artista Plástico por o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), Edvon se especializou em xilografia (Arte de gravar em madeira). Porém, apesar de todo o conhecimento que detém, ele vive das vendas de suas obras nas ruas do Pelourinho, por conta da carência de exposições para artistas de nível menor. «As exposições em galerias são muito poucas. Atualmente não se vendem trabalhos em exposições. O artista, para vender o seu trabalho, ele precisa ter agulha na bala», revela. Edvon vende seus trabalhos a preços pequenos e consegue a média de um salário mínimo por mês. «Em Salvador, com esse salário defasado que nossa gente tem, é muito difícil você propor um preço um pouco maior de trabalho», conta. E explica que os estrangeiros sabem do valor do salário no Brasil e, por isso, também não pagam preços elevados. Sua fonte de inspiração é diversificada, seja pintando o povo da rua ou mesmo mostrando a beleza dos monumentos históricos do Pelourinho. A importância do seu trabalho está na força de expressão de figuras populares da Bahia, na capacidade de envolvimento que a arte proporciona. Número de frases: 74 Entrevista com Jomardo Jomas, criador do Festival Cultural Música Alimento da Alma -- MADA. Entre cafés, cigarros (salvo exceções), telefonemas e muita água mineral. Sem papas na língua, Jomas não deixou nenhuma questão sem resposta e ainda aproveitou para esclarecer definitivamente pontos equivocados da Lei estadual Câmara Cascudo de incentivo à cultura. Também comentou sobre o papel do Festival em relação à cena natalense de música independente, a falta de identidade e o potencial de bandas potiguares Água Para Alimentar O Corpo, Música Para Alimentar A Alma Esse nome é perfeito! Vem de onde? Jomardo -- [risos] Já respondi isso acho que mais de um milhão de vezes, mas vamos lá: o apelido «Mada» foi dado por o repórter da Folha de SP que acho muito grande ficar repetindo «Música Alimento da Alma» o tempo todo na matéria. Ficou." Música Alimento da Alma " vem de um texto do Jolian (músico, irmão do Jomardo) que ainda iria se transformar em música. Dizia que quando acaba a água, alimento do corpo, só resta a música que é o alimento da alma -- por isso as primeiras edições terem sido mais ecléticas e abrangentes. O evento surgiu em 1998, antes disso você já pensava num festival com bandas independentes? Jomardo -- Pouco antes dessa época estava trabalhando com o Alphorria (banda de reggae famosa na cidade em meados dos anos 1990). Em 1994 fiz uma turnê com a banda por o Sudeste, onde fiz muitos contatos com gravadoras e jornalistas da mídia especializada. A própria Nikita Records, gravadora que hoje trabalha com o DuSouto (RN) abriu muitas portas e a idéia de se fazer um festival com bandas independentes fora do eixo Rio-São Paulo ganhou corpo. Em fevereiro de 1998, trouxemos o programa Palco MTV. Pela primeira vez o programa estava saindo de São Paulo. Eles entrevistaram oito bandas daqui e foi aí que fechamos: «temos bandas locais para fazer um festival!». E em 1999, o Festival Mada pulou esse ano por quê? Jomardo -- Estava lotado de coisa para resolver, envolvido em questões pessoais. O festival também não tinha um formato, a idéia ainda era bem embrionária. Em o começo só tínhamos um palco e os critérios para a escolha das bandas também não eram bem definidos ... na primeira edição tocaram bandas que não tinham nada a ver. Então no começo tinha toda uma diversidade musical, e com o tempo o Mada foi enfocando o pop, o rock, a música eletrônica, pitadas regionais e arredores. O que fez o foco pender para esse segmento? Jomardo -- Foi um processo natural. A coisa foi andando e percebemos essa tendência. Em aquele primeiro, pensamos em dar uma chance a quem estava tocando na noite. Depois é que fomos criando o conceito. Em 1998 algumas bandas covers tocaram, não tínhamos uma produção consistente de músicas autorais. A partir do segundo ano é que começamos a nos preocupar mais com isso, e de dar mais espaço para grupos locais -- na primeira edição vieram muitas bandas de Pernambuco. O Festival começou a se configurar realmente. Então buscar esse foco no pop e no rock estava em sintonia com o que acontecia em outros festivais do Brasil. Em a Via Costeira o Mada está ganhando uma nova cara. É o lugar ideal? Jomardo -- A Ribeira (bairro histórico, zona portuária) não comportava mais o Festival, e a última edição por lá (em 2003) foi muito arriscada. Se tivesse acontecido alguma merda, algum problema, eu tava fudido para o resto da vida. Rock De Pobre E Rock De Rico Assim, na ' bucha ' (!), pra começar: que papo é esse de rock pobre e rock rico? As pessoas confundem o fato do Festival MADA ter patrocinador e ainda depender da bilheteria? O Festival é todo bancado por a Lei? Jomardo -- Essa é boa! Apresentamos uma planilha com os maiores custos para, pelo menos, a receita livrar essas despesas com som, estrutura, divulgação (e transporte, hospedagem, contratações). O Festival sempre foi maior que o projeto enquadrado na Lei. A o longo desses quatro anos de Lei Câmara Cascudo, o Mada sempre custou mais que o aprovado e o captado. «Falta Visão ao Poder Público E Competência A Alguns Conselheiros De a Lei " Você acredita que eventos do porte do Mada podem andar com as próprias pernas após três anos via lei de incentivo? Segundo alguns conselheiros que analisam projetos enquadrados na lei estadual isso é plenamente possível. ( O projeto inscrito na Fundação José Augusto, instituição responsável por a gerência da Lei Câmara Cascudo, enfrentou problemas de aprovação e quase não se beneficia do sistema de mecenato: investimento cultural em troca de recolhimento de impostos -- nesse caso ICMS). Jomardo -- Acho difícil. Paixão de Cristo em Nova Jerusalém tem 30 anos e conta com os apoios das Leis Rouanet (federal) e a estadual (Pernambuco). Junta quantas pessoas? Tem ajuda de verba pública desde o começo. Outro: o Festival de Cinema de Gramado (RS), em dos mais famosos do mundo com 33 edições, continua sendo bancado com dinheiro vindo das Leis. Então isso é um grande absurdo. Não existe esse negócio de um evento andar sozinho, principalmente numa cidade como Natal, que é difícil conseguir uma cota de R$ 5 mil reais para uma banda gravar um CD. É quase impossível fazer um evento hoje, com a dimensão do Mada e tantos outros, se não tiver a participação de uma lei de incentivo. Esse papo é uma grande balela. Se fosse assim o Programa Rumos Itaú Cultural, um grande projeto nacional promovido por uma poderosa instituição financeira, não precisaria desse recurso para continuar existindo. O banco abate anualmente cerca de R$ 30 milhões de impostos investindo em programas sócio-culturais ... se ele não anda com as próprias pernas imagine eu!! [ risos] Em Busca De Reconhecimento Como garantir mais espaço para bandas locais? Jomardo -- Essa questão é uma preocupação que temos desde o começo. É inevitável que tenham mais atrações de fora do RN, mas a cada edição implementamos novidades. O problema é esbarrar em questionamento de gente que não entende do riscado. Olha só que absurdo um conselheiro (que analisa os projetos inscritos na Lei estadual) escreveu no parecer: «que a mídia de outdoor não tem o nome de todas as bandas». Porra ' mermão ', mídia de outdoor tem um tempo de percepção de sete segundos (estudos comprovados!). Imagine colocar o nome de 30 bandas e 15 DJs? Ninguém ia saber o nome de nenhuma atração, muito menos do que se trata. Agora em mídia como panfletos e no site saem todos os nomes. Os cartazes também estão com nomes locais destacados. A própria mídia especializada que fala do evento Brasil afora fala das bandas independentes ... Jomardo -- Exatamente, foi o que provei para eles. O clipping jornalístico, onde 99 % falam das bandas independentes, da cidade e do festival, derrubou todos os argumentos da pessoa que estava contra o projeto. «Camarote Com Camisas Iguais É Coisa De MICARETA " Ainda estrutura: e a existência de camarotes? É uma coisa inevitável? Jomardo -- Para o patrocinador sim, é o lugar onde ele pode convidar os clientes e tal, fazer aquele auê com a mídia. Já o outro é terceirizado, não tenho mais nenhuma ligação. Por mim não teria, mas tem gente que gosta de se sentir Vip, tem demanda. Só não teremos mais aquela história de camisetas iguais, isso é micareta e não festival de música independente! Mas acaba ajudando financeiramente não? Jomardo -- Sim, claro, contanto que não fuja do conceito. Mas aquela coisa ridícula que aconteceu em 2004 (camisetas para cada um dos dias) é que não pode acontecer mais. Mas para o patrocinador acho mais que justo. «Para Tocar Em o MADA Tem Que Estar Circulando " A escalação de festivais sempre gera expectativas. Como é que funciona a curadoria que seleciona as bandas? Jomardo -- Cara, temos uma porrada de contatos. Recebo muito material ... escuto, passo para outras pessoas. Em o Rio de Janeiro e em São Paulo peço para contatos verem o show dessa ou daquela banda, e aqui em Natal é acompanhar o que está rolando. Basicamente é isso. Uma das características do Mada é justamente essa expectativa em torno da programação: muito boca a boca e especulações. É uma estratégia do festival? Jomardo -- Não, o lance é que as coisas vão acontecendo aos poucos mesmo, claro que tem aquele lance de ir soltando as informações aos poucos, mas a maioria é não divulgar o que ainda não está fechado. Tem muita banda independente que confirma e depois liga dizendo que não conseguiu passagem pra vir, nessas horas temos que ter outra na manga, damos mais uma semana para a ela se articular e por aí vai. Continuando a pergunta sobre escalação: como uma banda faz para se candidatar a uma vaga no Festival? Qual conselho que você daria? Jomardo -- Tocar! Tem que tocar, não adianta. Discuti com uns caras que queriam porque queriam tocar no Mada. Mandaram material e tudo, mas acho muita sacanagem se reunir apenas para tocar no evento. Já aconteceu isso, de uma banda se formar, apresentar um trabalho legal, entrar na escalação e depois do festival acabar. É sacanagem com as bandas que estão ralando no dia a dia, tocando para 30, 100 pessoas. Tem que estar fazendo show, tem que estar trabalhando. Miranda (ex-Trama, atual Ídolos do SBT) gosta muito de dizer que banda tem que estar no palco pra fazer história. Sabe o que acho: que falta pique às bandas daqui para circularem por outros lugares do País. Ano passado fui no Festival Calango (MT) e encontrei bandas que rodaram 62 horas de ônibus para fazer um show de 30 minutos -- foi até uma banda de Recife, a Volver, que também está no Mada 2006. MADA MADE In Rio De Janeiro E as seletivas do Festival lá no Rio? Jomardo -- Foi uma movimentação fantástica, estive lá para acompanhar a etapa final da seletiva. Depois de Natal, o Rio de Janeiro é a cidade que mais manda material. Acho que por a ligação que temos com a revista Laboratório Pop. A seletiva virou uma espécie de festival. Algum dos nomes que já passaram por aqui foi uma aposta sua, tipo «essa tem que vir de qualquer maneira tem boas chances de estourar?». Jomardo -- Olha, teve Detonautas (RJ), Cabruêra e Chico Correa & Eletronic Band (ambas da PB) ... festival é aquela coisa de apostar mesmo! Tem muita gente que não curte, mas os caras do Detonautas acreditaram mesmo, e tem que acreditar. Depois da segunda participação de eles, em 2001, fecharam contrato com a gravadora Warner -- que tinha um olheiro circulando naquele ano no evento. Circulando por festivais e eventos fora de Natal, percebo que as pessoas vêem a capital potiguar como uma espécie de Califórnia: tocar na beira da praia com uma puta estrutura, ficar hospedado num tremendo hotel e tal. Você acha que as pessoas fantasiam um pouco? Jomardo -- Tem isso sim, no Rio de Janeiro principalmente. Tocar no Mada é o sonho de muita banda. Eu vi com essa seletiva. Imagine 150 inscritos para escolhermos uma ou duas para vir por conta própria ... diga aí. Pensa em abrir esses espaços em outras cidades? Jomardo -- Com certeza! O engraçado é que recebo convites para fazer o Mada em cidades onde já existem festivais parecidos. Essa seletiva no Rio foi o primeiro passo para tornar o evento nacional, criar um circuito bem integrado. Mas mesmo não ' exportando ' podemos considerar Natal como um pólo de rock em ascensão? O volume de shows, de bandas surgindo é grande! Jomardo -- Concordo, mas tem que pintar bandas com mais identidade. A maioria ainda parece com alguma coisa, faz um som espelhado em outras bandas. Em Goiânia, por exemplo, as bandas têm uma identidade, você escuta e identifica. Nosso momento é muito bom e temos que aproveitar. Existe mesmo essa história de todo mundo querer vir tocar em Natal, acham que aqui é o lugar onde as coisas podem acontecer, sei lá. Pelo menos vir para a beira da praia. [ risos] Que outros lugares fora do eixo estão, digamos, emergindo? Jomardo -- Colocaria nessa lista Natal, Balem e o Acre. Este ano o Los Porongas do Acre vem para o Mada. A região Norte e o RN estão em evidência. A Tal Cena Falam muito que o Festival Mada fortalece a cena local de música. Você acha que o evento realmente colabora? Como? Jomardo -- Sem dúvida. O Mada foi quem trouxe pela primeira vez à Natal os maiores nomes da imprensa nacional especializada. Lembro-me que a maior matéria que saiu na Folha de São Paulo sobre o Festival foi com o Alexandre Alves da Solaris Discos, até então pouco conhecido dentro de Natal. MTV, Multishow, O Globo, Jornal do Brasil, revista Dynamite ... contatos feitos a partir dessa vinda ao Mada. Tem também a própria profissionalização das bandas, o cuidado com o material de divulgação ... Jomardo -- ... Que era um absurdo. Salvo exceções, recebia um material muito mal apresentado em relação ao que recebia das bandas de fora. Até isso acho melhorou dentro desse processo. Não digo que foi o Mada que criou isso, mas fez com que muitos contatos fossem feitos e que outros festivais surgissem. Então o grande lance é a vinda da mídia especializada? Jomardo -- Exatamente, a grande onda é ter inserido Natal na grande mídia nacional. E com relação à criação de selos ... Jomardo -- As iniciativas pessoais são a base disso tudo. Acho que hoje em dia o trabalho que está sendo feito é bem diferente se olharmos cinco anos atrás. Também vieram os sites, a Solaris Discos está fazendo dez anos, o próprio Festival DoSol mesmo é fruto dessa cena. É por isso que estamos crescendo. Garanto que se fosse só um festival, uma vez por ano, não estaríamos nesse estágio atual. O que sustenta uma cena é «o lançamento de um site especializado»,» bandas produzindo CDs e fazendo shows ..." Antes era aquilo o ano todo: o Mada gerava notícia, mandava para a imprensa de fora ou alguma gravadora, e agora temos até programas de rádio on-line. Isso é cena! «Festival Independente Não Precisa Ser» TRASH " Como é que você está vendo essa união de alguns produtores de festivais em torno da criação da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Acha que isso vai gerar melhorias? Jomardo -- Eu ainda não faço parte oficialmente da Abrafin. Participei da criação da carta de intenção no Festival Calango (MT). Depois soube que Fabrício Nobre (selo Monstro Discos, festivais Goiânia Noise e Bananada, de GO) e Paulo André (Abril para o Rock e Porto Musical -- convenção internacional de música e tecnologia, em PE) já estavam elaborando um estatuto. Eu quero ver o que vai acontecer. Falei na primeira reunião, deixei bem claro que só valia a pena criar uma associação se fosse para brigar por melhorias, tipo «ir ao Ministério da Cultura tentar mais apoio da Lei Rouanet (federal)». Lutar para que patrocinadores de festivais fossem equiparados aos de música instrumental, tenham 100 % de abatimento no imposto, que as taxas sejam as mesmas para todos os festivais. Se for para ficar só na teoria, para a banda de tal selo poder circular por os festivais e formar ' panelinhas ', aí não vale a pena. Tipo barganhar descontos em empresas aéreas; articular turnês estrangeiras nos festivais ... Jomardo -- Exato. Existem festivais com bom poder de negociação como o Porão (do Rock), o Abril (para o Rock) e o Mada. Então é chegar para uma banda e propor: «amigo quer tocar e ganhar cachê em três festivais? Mas tem que fazer um quarto show de graça em tal festival que está começando». Em esse caso fortalece todo mundo. Aí o Fabrício Nobre comentou que correríamos o risco dos festivais ficarem parecidos com outros grandes eventos mais comerciais. Bom, mas não precisamos perder a essência pra brigar de igual para a igual por bons patrocinadores. Um festival para ser independente não precisa ser ' trash '. Tem que ser legal, ter uma boa estrutura ... porque não ter recursos de um Ceará Music ou Festival de Verão de Salvador? Se for pra ficar só no trash e no final do evento ficar devendo os cabelos da cabeça, então não quero. Quero chegar numa Tam e negociar pesado: «olha temos 15 festivais espalhados por o Brasil, topa vender passagens o ano inteiro em troca de um belo desconto?" Não adianta ficar todo mundo abraçado e dizendo: «ó que legal, somos independentes!». Temos que partir para a prática, todo mundo ganha desse jeito. * entrevista editada e originalmente publicada no site RN Rock / participaram da entrevista: Yuno Silva (transcrição e redação), Glauco Gobbato, Vlamir Cruz e Michel Heberton \> \> Escalação do Festival Mada 2007 Glauber Xavier é o mentor e co-criador dos Saudáveis Subversivos, atua e dirige peças teatrais, já foi professor no departamento de artes da Universidade Federal de Alagoas e baixista das bandas Ball e Living in the Shit, do cenário musical de Maceió dos anos 90. Atualmente o artista realiza trabalhos de registro de experiências de agricultura ecológica com pequenos produtores no interior de Alagoas, está por iniciar um projeto de agro reflorestamento com os índios Wassu Cocal e a ONG Minha Terra no município de Joaquim Gomes e trabalhando também na fundação de uma eco-vila em Riacho Doce com sua comunidade espiritualista Essência Divina. Ufa! Circulando saberes e artes Pronto. Agora que já fomos apresentados aos idealizadores, vamos à idéia, ou pelo menos uma de elas: O projeto Olhar Circular, desenvolvido por os Saudáveis Subversivos, tem como objetivo a inclusão digital através de produção audiovisual, formação complementar para jovens que vivem em comunidades com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Encontrei Glauber numa tarde quente no município de Marechal Deodoro, ele trabalhava na construção do Trailer onde as idéias e imagens vão circular por a cidade histórica. Conversamos durante algumas horas e ele detalhou os objetivos do projeto. «Pensamos. Temos as técnicas e os recursos, não somente para produzir obras que causem reflexão, como já vínhamos fazendo, mas repassando estas ferramentas para as comunidades, para que eles mesmos possam realizar suas produções. Pessoalmente, eu quis dar um tempo no teatro, e partir para o audiovisual, e o Olhar Circular é nosso maior projeto na área, que tem por objetivo a inclusão digital destes jovens de Marechal Deodoro, através das ferramentas e conhecimento adquiridos no processo de aprendizagem." Glauber conta do começo dessa idéia de circular por aí com arte itinerante, «nós já trabalhávamos com o Teatro Cine Kombi, que serviu como um protótipo pra nós circularmos com as linguagens artísticas, apresentando sessões de cinema e artes cênicas em comunidades com pouco acesso a estes bens culturais». A idéia do Olhar Circular foi uma das 10 contempladas entre mais de 700 inscritos para o projeto Novos Brasis 2007, do Instituto Oi Futuro, que segundo Glauber, não é apenas financiador, " eles são parceiros ativos, com quem mantemos constante diálogo. O projeto Novos Brasis apóia iniciativas criativas para inclusão digital em áreas de risco social com foco nas tecnologias da informação. Tem um projeto, por exemplo, de rádio amador para integração entre tribos Ianomâmi, e outro em Manaus, onde programadores desenvolvem vídeo game educativo que incentiva o uso de softwares livres. Em o nosso caso, o Olhar Circular consiste em buscar o potencial de ser replicado, de aumentar seu alcance». O local escolhido como primeiro município a receber o do Olhar Circular foi a cidade histórica de Marechal Deodoro, que só recentemente foi reconhecida como patrimônio histórico nacional, tardiamente, como disse o ministro da cultura Gilberto Gil na cerimônia de tombamento. Em as margens da Lagoa Manguaba, a antiga capital de Alagoas com seu casario e igrejas seculares quase perdidas por o tempo e o descaso, vive um processo de recuperação capitaneado por o Iphan. Em este contexto de reforma cultural, os Saudáveis Subversivos resolveram ajudar a cuidar também da cultura imaterial e identidade deste lugar, do potencial intelectual e artístico de jovens daquele município, objetivo principal do Olhar Circular. Glauber explica a escolha, " encontramos em Marechal Deodoro jovens em situação de vulnerabilidade, entrando no mercado de trabalho sem perspectiva. Estamos pesquisando a cidade, avaliando os locais de atuação e construindo o trailer na própria comunidade». O trailer vai funcionar como um laboratório de imagens com seis ilhas de edição. A o término das aulas, quando os Saudáveis Subversivos saírem de cena, somente o trailer vai embora com eles, todas as outras ferramentas e equipamentos de captação e edição ficam com a comunidade, para dar continuidade às produções locais, administrado por um grupo ou instituição que será selecionado. Glauber conta como será o processo de aprendizagem. «A idéia é passarmos nove meses na comunidade com vinte e quatro jovens de 16 a 21 anos, todos matriculados no ensino médio da rede pública ou formados há menos de 2 anos. Os alunos receberão bolsas para participarem do projeto. Lembro que eu quis fazer curso de edição de imagens quando era mais jovem e não podia pagar. Hoje, estes jovens podem receber para assistir às aulas, e isto é ótimo!" O foco do Olhar Circular é a produção de documentários, realizados em duplas por os alunos. Durante o processo eles terão aulas de todas as ferramentas necessárias para produção e publicação audiovisual na internet, edição de texto, fotografia, captação de imagem e áudio, elaboração de projetos, além de palestras, mostras de documentários e sessões de cinema com 100 lugares na comunidade, nas noites de sexta feira. Uma escolha difícil A seleção dos alunos está sendo finalizada. De entre 100 inscritos, 44 foram pré-selecionados e 24 de eles vão participar efetivamente como alunos do Olhar Circular. Glauber comenta o processo e fala da dificuldade em escolher poucos entre tantos, «não que os outros não mereçam, mas é preciso selecionar e alguns destes jovens demonstraram esforço e interesse, muitos de eles ajudam a família e vivem numa situação social muito complicada». Entre os jovens pré-selecionados que buscam uma vaga no projeto, perguntei a estudante de 18 anos Cássia Rejane, do Colégio Deodoro da Fonseca, quais os seus objetivos. Caso seja selecionada, ela contou que pretende aprender a trabalhar em equipe, conhecer mais a cultura de Marechal e documentar isso em vídeo. «Quero adquirir um conhecimento sólido, isso é o mais importante». Outra aluna da mesma escola também inscrita para a seleção no Olhar Circular é Govinda Maya, argentina de 17 anos, vive desde os 15 com os pais na Praia do Francês, em Marechal Deodoro. Ela contou que já trabalha com arte. «Pinto e vendo quadros, mas com esta aprendizagem eu poderia melhorar meu trabalho e adquirir mais conhecimento. A comunidade precisa desse tipo de capacitação para aprender, por exemplo, a elaborar projetos culturais». Festival Olhar Circular Quando finalizados, os documentários produzidos por os jovens de Marechal Deodoro vão circular por a cidade no Festival Olhar Circular, momento de coroar os realizadores e compartilhar suas idéias, vivas na tela, com seus conterrâneos deodorenses. Mas não pára por aí, Glauber e sua equipe conseguiram mais um apoio na empreitada e o Banco do Nordeste vai garantir a confecção de 1000 cópias dos filmes para distribuição em ONGs e escolas. «Quando acabar o projeto em Marechal Deodoro, vamos buscar parceiros e partir para outros lugares, o equipamento fica com os realizadores e a bolsa segue por mais um ano após o término das atividades. Na medida em que passarmos por outras comunidades, criaremos uma rede», visualiza Glauber, com seu sonho no futuro e as mangas arregaçadas. «Criamos nossas próprias oportunidades» ele diz. Número de frases: 258 Olha que linda mulher, que está amadurecendo aos poucos ... Maceió, uma cordial receptora de muitos homens e mulheres, mas nunca uma prostituta; uma mulher de respeito que sabe vender o que tem de mais lindo, mas ainda não soube divulgar seus outros potenciais. O prefeito Cícero Almeida teve uma idéia muito inteligente de embelezar a cidade, dotá-la de infra-estrutura para receber mais comodamene seus visitantes. A orla, já linda, está mais arrumadinha. Pode-se contemplar o azul turquesa e o verde esmeralda a partir de charmososs mirantes e calçadas ao curso das prais urbanas. Um charme que a prefeitura vai dando no que (e não apenas) é bonito, aqui. Sim, eu vi os hotéis chegando, as pousadas, os restaurantes. Eu vi os projetos de mais leitos para turistas. Eu acompanho a evolução do turismo na capital alagoana. Um vocação natural em expansão, ainda que muitos insistam em deteriorar nossas belezas. Só que Maceió tem muito mais do que a vocação de uma cidade de passeio, de contemplação do pedaço do oceano o qual nos foi concedido. Maceió tem sons, em seus muitos ritmos. Maceió tem caras, tem emoções. De a mesma forma que a prefeitura se pronunciou por o embelezamento da cidade, deveria pensar em mostrar o que tem por trás de uma capa. Aqui, há um outro oceano chamado cultura, que não é só aquela musicada e disponível no seu site institucional, para quem quer ouvir a voz e os acordes de maceioenses que labutam pesadamente para um espacinho tão pequeno em nossos 511 km² territoriais. Com licença, senhor prefeito, mas bem que no próximo aniversário da minha cidade (a começar por aí) nós poderíamos conhecer um pouco mais da nossa cultura, e que o senhor não trouxesse mais aquele sonzinho tão massificado das rádios comerciais da cidade. A prefeitura não tem convênio com gravadoras e o povo tem direito a conhecer algo com mais qualidade. Aliás, que tal uma programação cultural e permanente na orla que me parece que o senhor tanto ama? Número de frases: 19 Os turistas adorariam, e o nosso povo está precisando muito! Se depender dos capixabas do Zémaria, silêncio é a última coisa à qual o nome da banda estará associado. Afinal, estamos falando de um pessoal que costuma fazer bastante " barulho ": e não estou aqui me referindo à sua sonoridade, recheada de sintetizadores, samplers e seqüenciadores, mas sim à capacidade da banda de sempre aparecer com alguma «novidade» no cenário da música eletrônica brasileira. A mais nova aposta da banda, formada por Sanny Lys (vocal, fx), Marcel (synths, sampler, seqüências, guitarras e voz), Michel Sponfeldner (baixo) e Nego Léo (bateria, synths, fx), é o EP (Extended Play, ou seja, disco que contém entre quatro e oito faixas, menos do que um CD convencional) Aqui não tem silêncio, lançado em dezembro de 2006. Trata-se do segundo trabalho da banda disponível exclusivamente para download -- o anterior foi o EP 17:42, de 2004, trabalho que rendeu à banda contatos para duas turnês européias e o troféu na categoria Música Eletrônica, no Prêmio Claro de Música Independente, em 2005. Disponibilizar músicas na rede, de maneira gratuita ou não, há muito já não é novidade na indústria fonográfica. Apenas para citar alguns exemplos, dois dos nomes que mais causaram sensação no cenário mundial em 2006 com seus álbuns de estréia, os britânicos Lily Allen e Arctic Monkeys, já eram celebridades antes de lançarem seus cds, graças à imensa popularidade de suas páginas no MySpace. Já no território dos downloads pagos, «Crazy», do Gnarls Barkley, tornou-se a primeira música a liderar a parada britânica de singles, sem que tivesse sido lançada em formato físico (façanha repetida recentemente por» Grace Kelly», do libanês Mika). Isso sem contar os álbuns ao vivo e coletâneas de b-sides que artistas consagrados lançam exclusivamente para comercialização no iTunes. Em o Brasil, temos o exemplo do Mombojó, que colocou na internet o seu primeiro disco (licenciado em Creative Commons) inteiramente em formato de mp3, visando à troca gratuita. A banda, inclusive, repetiria a dose com o segundo disco, simultaneamente ao lançamento «físico». E, claro, o Cansei de Ser Sexy, cujos mp3 passavam de mão em mão, ou melhor, de HD em HD, antes mesmo do primeiro CD demo, apenas na base do «boca a boca virtual». O Cansei chegou a ser a primeira experiência bem-sucedido de entre as bandas que despontaram a partir do site Trama Virtual, o que garantiu o lançamento do primeiro «CD» «oficial», seguido de todo o burburinho de uma promissora carreira internacional. O que diferência, de certa forma, a proposta do Zémaria das outras iniciativas acima, e que a torna um interessante caso de «Open Business» é o fato da banda ter repetido uma estratégia que deu certo: saímos, assim, do território das tentativas esporádicas, com resultados incertos, rumo a um modelo de negócios sustentável que de certa forma já permite à banda obter uma série de ganhos diretos e indiretos a partir de suas atividades. Surgida em 1999, com a proposta de fazer música eletrônica mesclando sintetizadores, samplers e baterias eletrônicas aos tradicionais guitarra-baixo bateria, a banda já havia lançado um primeiro CD, homônimo, em suporte «físico», por a Lona Records, em 2002; este trabalho, dado os altos custos de prensagem e distribuição, só se tornou possível graças aos benefícios de uma lei de incentivo do município de Vitória, a Lei Rubem Braga, que bancou a primeira tiragem -- vale lembrar que o disco foi gravado, produzido e mixado no estúdio da própria banda, o que diminuiu bastante os gastos financeiros da empreitada. Com esse disco, a banda conseguiu algumas resenhas e contatos para shows dentro e fora do estado, como o show no Skol Beats, em 2003. As músicas tiveram boa execução nas rádios locais, o mesmo ocorrendo com o clipe de «Tá tudo esquematizado», veiculado no programa Amp, da MTV. Contudo, ainda que provocasse todo esse «barulho», e mesmo com uma distribuição nacional por a Tratore, a vendagem do disco não chegou a quatro mil cópias. Dois anos depois (e dois anos é praticamente uma eternidade no mundo da e-music, dadas as constantes transformações e renovações de suas vertentes), a sonoridade da banda havia mudado bastante e, nas apresentações ao vivo, pouco restava do repertório calcado no drum and bass que dava a tônica do álbum de estréia. Por essa época, o Zémaria havia fixado residência em São Paulo, mantendo uma noite fixa na Funhouse às terças, denominada Speedz (em que alternavam discotecagens, live p. a. e shows com a formação completa da banda). A necessidade de trazer a público um material novo, que melhor representasse essa «nova cara» da banda, e a impossibilidade, naquele momento, de bancar a prensagem de um segundo álbum, foram motivos mais que suficientes para que a banda disponibilizasse, exclusivamente para download em seu site, um EP com sete faixas e um encarte que poderia ser impresso para acompanhar o cd-r no qual o ouvinte gravaria as faixas baixadas gratuitamente. 17:42 foi lançado em dezembro de 2004 e abriu as portas para uma série de oportunidades para a banda: além do Prêmio Claro, de algumas resenhas e participações em listas de melhores do ano nos veículos especializados, aumentaram os convites para shows, inclusive no exterior, o que possibilitou a realização de duas turnês internacionais. A primeira, no verão europeu de 2005, contou com 11 apresentações (ou gigs, como a banda prefere denominar) na França, Inglaterra e Portugal. Em a segunda turnê, entre junho e setembro de 2006, além de repetir esses países, o Zémaria ainda se apresentou na Alemanha, ultrapassando as 30 gigs num período de três meses. Entre outros palcos, incluem-se aí o evento Copa das Culturas e o festival de música eletrônica Juicy Beats (ao lado de nomes consagrados como Coldcut, Jamie Lidell e Señor Coconut), ambos na Alemanha, além de casas noturnas como a badalada Le Tryptique, em Paris, na qual uma apresentação inicialmente prevista para durar quarenta minutos estendeu-se por uma hora além do previsto, tamanha a empolgação da platéia. Já de volta a Vitória, no final de 2006, os integrantes do Zémaria sentiram a necessidade de novamente dar vazão à grande quantidade de faixas novas que já estavam gravadas e, segundo eles próprios dizem, «já se tornando velhas». Empolgada com o resultado do EP anterior, e impulsionada por a experiência de outros nomes emergentes no cenário da música eletrônica brasileira, que trocaram as tradicionais lojas de mp3 (como o BeatPort) por net labels gratuitos (licenciados em Creative Commons), obtendo resultados muito maiores, a banda decide lançar, em seu site, um segundo EP «virtual». Em 25 de dezembro de 2006, sai Aqui não tem silêncio, contendo novas versões para quatro composições liberadas para download ao longo do ano no MySpace da banda, além de três inéditas. Mesmo lançado na última semana do ano, o disco inclusive conseguiu fazer parte da lista de melhores do ano do site Poppycorn, ainda que sem divulgação alguma, apenas na base do «boca a boca virtual». Antes dos EPs, a banda já tinha flertado, timidamente, com o compartilhamento gratuito de arquivos: foi um dos primeiros nomes a aderir à proposta da Trama Virtual (e também um dos primeiros a receber o selo de «recomendado», a célebre mãozinha com o polegar voltado para cima), além de ter colocado algumas faixas em sites como o Fiber On Line e o Rraurl, voltados para o público de música eletrônica, largamente adepto da prática de troca irrestrita de arquivos por a rede. O primeiro disco também já estava disponível no site quando 17:42 foi lançado, mas só a partir do EP que essa prática passou a garantir ao Zémaria uma maior visibilidade. O pessoal do Zémaria alega que a produção de EPs para escoamento exclusivo através da rede não só é uma opção barata (se comparada aos altos custos de prensagem de um CD), como também é uma eficaz forma de divulgação de seu trabalho junto ao circuito da música eletrônica. Como essa é uma iniciativa pensada para a web, ela só poderia ter existido graças ao advento de certas tecnologias e hábitos oriundos de elas e adotados por o público-alvo da banda, que possui acesso permanente à rede, seja em casa, na faculdade ou no trabalho. Além da facilidade de difusão das músicas, a banda tem a seu favor a velocidade com que as transformações em sua sonoridade podem ser compartilhadas com o público: se a música é gravada hoje, hoje mesmo pode ser enviada por o messenger, ou postada no MySpace, ou na página da banda, num arquivo de alta qualidade técnica. O mesmo vale para remixes e versões alternativas. «Eu acho super anárquico uma banda com alguns anos de estrada, e um certo nome, como é o nosso caso, colocar suas músicas na rede, assim, pra baixar de graça. A gente acha isso normal porque a gente vem do underground, e essa é uma atitude típica do underground: liberar suas músicas para a galera», diz Marcel, com a autoridade de quem militou durante anos no cenário hardcore capixaba (ele fez parte da primeira formação do Dead Fish, banda capixaba que hoje é um dos maiores nomes do hardcore nacional), numa época em que as bandas gravavam demos em formato cassete para vender ou distribuir nos shows. «Tipo, é um saco esse negócio de gravadora, de ter que esperar pra lançar um disco, essas coisas, enquanto a rede tá aí, democratizando tudo, em tempo real ...», conclui. «Aqui não tem silêncio», além da faixa-título, inclui ainda «Kao OK»,» Rio Bananal», «Talk box»,» Toda minha», Refil e «Gespräch», todas licenciadas em Creative Commons. A banda escolheu uma licença que possibilita a difusão não-comercial, mas não permite alterações na obra original. Ou seja, o usuário é livre para fazer o que bem quiser com os arquivos digitais, desde que não sejam alterados nem comercializados em nenhum formato. Quer dizer que não pode samplear? «Calma lá» alegam os integrantes: na verdade, a medida não visa proibir a remixagem ou a sampleagem, mas sim manter um certo controle sobre o que tem sido feito com suas músicas mundo afora. Segundo Marcel, isso não impede um interessado de remixar a música, ou sampleá-la: basta apenas entrar em contato com a banda, através dos telefones e e-mails disponíveis no site, que a autorização rola fácil -- afinal, o que o Zémaria quer é atingir o mais amplo público possível, tanto entre os ouvintes de e-music quanto entre os adeptos do crossover entre o rock e a eletrônica. Há ainda a idéia de permitir, através do site, que o visitante baixe pequenos trechos em looping de cada pista que compõe as faixas, permitindo assim que essas gravações possam ser retrabalhadas por djs e produtores de qualquer canto do mundo. Se por um lado, segundo Michel Sponfeldner, a vantagem do CD tradicional é a de poder tirá-lo da bolsa, com direito a um encarte «bem-cuidado» e mostrar para as pessoas na rua (" Tá aí o nosso CD!"), por outro lado o MP3 oferece resultados bem maiores: «Você pode descarregar sua produção imediatamente, a hora em que quiser, e ela pode ser ouvida por quem quiser, sem precisar sair de casa." E Marcel arremata: «Se quisermos incluir remixes, bônus tracks, essas coisas, podemos fazer a qualquer hora, e se a pessoa não tem tal faixa na versão do EP que ela possuía antes, é só baixar e queimar um novo CD-R que tá tudo bem». Inclusive, a facilidade com que as faixas são encontradas na rede permite que, a qualquer hora, um empresário ou dj que queira propor parcerias possa ter acesso ao material e conhecer melhor o trabalho do grupo. Os integrantes da banda contam que, após os shows, eram abordados em Portugal por produtores interessados em contratá-los, e a primeira pergunta que lhes faziam era: «Tens MySpace?», ao que a banda respondia com o endereço do site próprio. Contrapostos às vendagens do CD «físico», os EPs» virtuais " em muito ultrapassaram essa cifra: se o primeiro EP passou dos vinte mil downloads em dois anos, apenas no primeiro mês de lançamento de Aqui não tem silêncio, e sem divulgação quase nenhuma, já foram quase cinco mil. E a iniciativa vai rendendo: um selo português (que a banda por enquanto mantém em segredo) já se ofereceu para bancar a prensagem do disco no mercado europeu no verão de 2007 (época em que a banda deve fazer sua terceira turnê internacional). O que permite a sustentação do projeto é, a princípio, uma combinação da divulgação tradicional (releases para a imprensa, entrevistas) com as redes de comunicação advindas da própria internet. Em as primeiras semanas após o lançamento, a banda optou por «atrasar» um pouco a divulgação (a não ser por o fotolog da banda), para testar o alcance desse boca-a-boca virtual de messengers, posts em blogs e fotologs e afins. O caminho «tradicional» (permitam-mas aspas: afinal, estamos falando de uma «tradição» bastante recente no mercado fonográfico) poderia ocorrer de três formas: através de um net label, ou de uma loja virtual, ou ainda a simples disponibilização dos arquivos no MySpace. A banda argumenta que, no primeiro caso, a visibilidade não é tão grande quanto a de um lançamento individual; no segundo, o volume de compras em lojas virtuais, principalmente no mercado nacional, ainda é muito pequeno para justificar a opção por o download pago (embora o próprio Marcel costume adquirir faixas para remixar, samplear ou incluir em seus dj sets, ele assume que esse comportamento é uma exceção no Brasil); e que, no terceiro caso, o MySpace é uma mídia de sustentação, mas não a principal vitrine, afinal quase toda banda que busca se firmar no cenário musical hoje em dia tem o seu profile em ele. A o disponibilizar o material num site próprio permite-se, entre outras coisas, o acesso a um número maior de faixas, além de outros arquivos, como releases e o próprio «encarte», sem contar que a identidade visual do site traduz muito mais o conceito da banda do que as padronizadas páginas do MySpace. Contudo, observa-se ainda um certo descaso de parte da mídia impressa acerca dos EPs virtuais. Em a semana do lançamento de «Aqui não tem silêncio», resolvi dar uma olhada na recepção dada por os jornais locais. Qual não foi a minha surpresa ao saber que o disco havia recebido apenas notinhas de um parágrafo: muito pouco, se levarmos em consideração a popularidade e importância da banda no cenário capixaba, status que já rendeu matérias de página inteira tanto para o lançamento do «disco oficial» quanto acerca das turnês no exterior. Esse tipo de atitude, inclusive, posiciona-se na contramão da tendência do mercado fonográfico mundial em intensificar os lançamentos em formato digital (os próprios charts ingleses não diferenciam singles lançados em formato digital ou em CD para elaborarem seu hit parade semanal). Controvérsias à parte, a grande questão agora é garantir a iniciativa como possibilidade de ampliar os contatos da banda e as possibilidades de realizar novos negócios, incluindo shows e turnês, participações em coletâneas, prensagens de discos e o que mais vier. A o repetir uma iniciativa bem-sucedido, a banda mostra que os lançamentos virtuais de discos de música eletrônica no Brasil (tão comuns com artistas estrangeiros) configuram alternativas bastante viáveis para consolidar carreiras artísticas a médio prazo. Exatamente por isso que, quando se fala no nome do Zémaria, «silêncio» é o que menos você vai encontrar como resposta. Número de frases: 85 Bem longe de padrões e do mundo musical cartesiano-mercantil, surge rumo ao caos o JazSmetak. Número de frases: 1 «BEM DO OUTRO LADO» Ele atravessa novamente os estreitos corredores da feira de Messejana, parando aqui e ali. São 10h55. A feira parece ter dobrado de tamanho. Inevitáveis encontrões, pisões e outros pequenos acidentes pontuam a travessia. Cena rápida e curiosa: de um carro ainda em movimento salta um casal metido nuns «panos» muito distintos. Rei e rainha, eles caminham desconfiados até a banca de capas para celular. A mulher, muito alva, pede para ver alguns modelos. O homem, cor de leite, pergunta qualquer coisa sobre o preço da capa. Os feirantes, quase todos marrons, exageram as qualidades do «peixe» a ser vendido. Exatamente como havia saído do carro, o régio casal retorna. E dá no pé. Atrás, um homem comenta qualquer coisa sobre qualquer assunto. Em aquele domingo, a feira tinha três cores: vermelho, branco e azul. Aqui e ali, um verde-lodo casual. O time da casa, o Fortaleza, enfrentaria, dentro de algumas horas, um clube do interior. A euforia, segundo dona Jaira, costuma atrapalhar as vendas. «Elas caem muito em dia de jogo. As pessoas deixam de vir aqui, preferem guardar o dinheiro», diz. Ele pede informações a um e outro. Sentado num banquinho de madeira, o «koreano» responde, sem hesitar: «De o outro lado». Todos, até mesmo o estrangeiro, parecem estar de acordo numa coisa: a goma fica a leste ou a oeste dos seus desejos. Ele segue. A seção de calções e camisas e calças e bermudas e até mesmo bonés parece não ter fim. Enquanto procurava traçar o menor caminho entre dois pontos, descobriu o antigo mercado da praça. Ele entra e pára diante da loja com muita ferragem e couro expostos. Olha para a cima: um par de chifres enormes sauda a clientela, que se diverte com a brincadeira. Lance «proustiano», o molho de baladeiras de ligas vermelha e amarela tem cheiro de infância e de bicho morto a pedradas. Outros objetos à venda: selas e enxadas e foices e correntes e cordas muito grossas, além de potes de barro e ração para animais. Além, surge a «praça de alimentação». Em ela, boxes ensebados, mulheres demolindo pilhas de pratos sujos e, a varar todo o ambiente, um terrível mal-cheiro. Tapa o nariz e vai embora. NELSON -- Um Mestre NA Arte De Falar A Verdade Adiante, uma banca com mil e uma latinhas refletindo furiosamente a luz cega do sol. Eram 11h20. De pé sob o calor de rachar quenga de coco, um velho de barba escassa no rosto e farta queixo abaixo. Os fios, longos e brancos, desciam até pelo menos a metade do peito côncavo. Ele, o velho, lembra cultura de massa. Precisamente: Pai Mei, de Kill Bill. Conversava com uma cliente quando se aproximou. A mesma conversa dos calções, só que com potinhos de pomada, que era, ele dizia, obtida mediante algum processo envolvendo a copaíba, uma planta natural da Amazônia. «Serve pra tudo, dores etc.. Muito boa pra massagear. Faço por R$ 1,5 o potinho», tentava convencê-la. Ela enfiou na bolsa duas latinhas do produto. Pai Mei era, na verdade, José Nelson de Oliveira, nascido, conforme informava a carteira de identidade, em 3 de setembro de 1954. Ele disfarça a intenção, faz rodeios para, finalmente, perguntar: «o senhor usa essa pomada?». Nelson cai numa desavisada gargalhada. Ri tanto que fica vermelho, roxo e violáceo, tudo a um só tempo. Contrai a barriga, tenta respirar, olha fundo nos olhos do ex-cliente e, sem cerimônia, arreganha a boca e ri ainda mais. «Se eu dissesse que sim, estaria mentindo. Se eu disser que não, fica complicado», resume, nesses termos, o seu dilema. Ele entende. Entende de dilemas. Além da pomada da copaíba, o velho -- que mora nas Goiabeiras e sente orgulho de já ter percorrido quase todo o interior cearense oferecendo o seu produto multi -- também vende a de peixe elétrico. «Essa eu nem sei como é feita», admira-se. «A da copaíba também não ...», completa, envolto em segredos. «Quer dizer, eu estou lá na Amazônia vendo o fulano cortar a árvore certa pra fazer a pomada? Não estou», confessa, ar de honestidade, e mergulha em nova onda de risos frouxos. Rastros da Fabulosa Goma De Cascavel Ele estava próximo. Para ser preciso, segundo as indicações dos feirantes, estava no lugar certo: ao lado de um paredão nos fundos de uma escola da prefeitura de Fortaleza chamado solenemente de Memorial do Feirante. Inscrita no memorial, a poesia de Edmar Freitas reza: «Como é grande a luta do feirante. Tão grande que é quase desumana. Luta sem trégua, sem paz, cotidiana " e por aí vai. Se pensarmos em Nelson e em dona Jaira, faz todo sentido. Mais corredores, desta vez na seção de carnes e verduras e legumes e outros itens classificados como «produtos da terra». Incluem-se manteiga e algumas raízes. Ele avança sobre o ladrilho coberto de escamas e guelras de peixes. Aqui e ali, borras de sangue eternizadas no cimento da praça. De os peixes?, interroga-se. à frente, balcões de madeirame. Atrá de cada um de eles, bailarinos, dúzias de vendedores acionam os músculos na dura tarefa de descamar carás, cavalas, curimatãs e pargos. Sobre os pés, pequenos montes de vísceras. E mais escamas. Após ter dado algumas voltas e topado com um cabeleireiro improvisado nos fundos da feira, bem ao lado do setor de pescados e dividindo o espaço com meia dúzia de caprinos, ele retorna para o memorial. Num relance, enxerga, entre algumas barracas, aquela que poderia ofertar o que procurava: goma de Cascavel. Pois lá estava! Sob pesadas lonas de couro e guardadas em grandes sacas, quilos da mais famosa goma cearense esperavam por ele. Ou ele por ela, tanto faz. Uma mulher o atende. Ela não sorri, apenas atende. O final da feira aproxima-se. Ele tenta jogar mais iscas; ela não cai. Ele pergunta o preço da goma. «R$ 2,25 o quilo», ela responde. Ele tira dinheiro da carteira e o entrega. Recebe o troco e vai embora; pra ele, a feira perde certo encantamento. Número de frases: 101 Peixe elétrico, goma do encantado (Parte I) «Triste vida, triste sina, do poeta de latrina», estava escrito na porta do banheiro público. Posso imaginar o poeta anônimo remoendo sua mágoa naquela posição que nos torna, ricos e pobres, iguais. Ah, os artistas! Todo mundo quer se expressar, ser reconhecido como indivíduo, um ponto brilhante sobre a triste faixa cinza do anonimato. Esse fenômeno contemporâneo de afirmação individual tem no que se convencionou chamar de «arte» sua principal válvula de escape. Ser «artista» garante uma impunidade além do bem e do mal, além da crítica e do olhar atravessado do transeunte. Ser «artista» é representar algo mesmo que esse algo seja caprichos mesquinhos, mesmo que esse algo seja apenas uma tola vaidade. O jeito que enxergamos a arte hoje em dia é, historicamente, novo. Está diretamente relacionado à invenção do indivíduo, dos direitos civis, da revolução industrial e, mais próximo do agora, da era digital que nos abre as portas ao estrelato fácil através de sites como o youtube ou o myspace, entre outros. O tronco da idéia de arte para mim é comunicação e representação. O artista representaria o espírito de uma época, aspirações comuns aos seus pares e também seria veicúlo de comunicação desses ideais. Há outras coisas além disso mas nessa discussão me detenho a poucos detalhes, afinal o que você está lendo não pretende ser um texto profundo mas apenas uma reflexão rápida para ser lida através da web. Por detrás de muitos artistas há um ditador que quer fazer o mundo engolir sua arte, sua expressão mesmo que aquilo nada represente para ninguém mais senão para ele, mesmo que seja só um birra ou, como já disse Roger, uma cisma.-- Pronto, cismei que sou artista!!! Apoiados sobre o fajuto argumento da liberdade -- o que é isso? Buñuel diria que é um fantasma -- nossos artistas desconhecidos se dizem libertos e portanto merecem veneração do público, dos jornalistas, merecem os olhares de admiração das moças e moços fascinados por aquele homem superior. Ai de ti, abacaxi, se não gostares da obra «livre» e «independente», ai de ti se não reconheces o contexto sociológico que o inspirou. Se no mercado de arte contemporânea o jogo passa claramente longe do público, atendendo as necessidades de agentes, críticos donos de galeria e do tal «homem liberto», no dia-a-dia do artista pobre -- de dinheiro, pois sua arte vale mais que qualquer coisa -- a parada desanda geral. Outro dia, um artista de Olinda, num debate sério com profissionais da música, bradava, dedo em riste: «Eu odeio o mainstream, eu não quero ser mainstream». Para quem não é familiar, o termo mainstream designa a cultura dominante, comercialmente bem sucedida. É o oposto do underground, da cena que não lucra tanto e, às vezes, se diverte mais. (Será que ele diria o mesmo se Martin Scorsese o convidasse para compor a trilha do seu próximo filme? Ou se os Beastie Boys o convidasse para uma participação no próximo álbum?) O problema é que na maioria das vezes o artista underground só é underground porque ninguém, exceto ele mesmo e seus dois ou três amigos, o vê com relevância artística. Em o íntimo seu sonho é passear por a cidade montado no elefante da glória e do triunfo, paparicado por um harém de belas donzelas, o bolso cheio de dinheiro, fruto justo de sua arte. Desdenhar o bem-sucedido soa como a fábula da raposa e das uvas. Como a raposa não conseguia apanhar um cacho de uvas, dizia que estavam verdes e não prestavam para comer. Opor sucesso comercial e valor artístico é um erro gravíssimo, obscurantista. Música, como qualquer forma de arte, é expressão séria de humanidade mas também é um produto. Saber vendê-lo e manter-se íntegro é para poucos. Sobram os poetas de latrina. Número de frases: 32 A princípio parece idéia de maluco. Onde você menos espera, lá está uma, para ser admirada! Em as praias, no «Shopping», no Metrô, na Central do Brasil (Estação Ferroviária), no meio da calçada tomando água de coco e até lendo ao lado da estátua de Drummond, em Copacabana. Não há quem não pare para tirar uma foto, fazer uma gracinha. As crianças interagem com as visitantes! Em a verdade, elas já estão integradas ao dia-a-dia do carioca. São as simpáticas vaquinhas da «Exposição Cow Parade». São nada menos que 92 vacas estilizadas por vários artistas plásticos, patrocinados por alguma Empresa interessada em Promoção e Arte. As obras depois serão leiloadas e o dinheiro arrecadado irá para um Projeto Social aqui no Rio de Janeiro. As vaquinhas já percorreram várias capitais do mundo, Nova York, Moscou, Londres, Bruxelas, Praga, Paulo e agora o Rio. O evento teve origem na Suíça em 1998 e o Brasil foi o primeiro país da América Latina a abrigar o considerado «Maior Evento de Arte do Mundo». Por que o símbolo é uma vaca? Boa pergunta ... Talvez seu idealizador seja indiano ou faça parte da Comunidade Vegetariana e seja contra o consumo de carne ... Desde que começou, o Evento já arrecadou 11 milhões de dólares, por o caráter assistencial! Idéia mais que lucrativa! Eu simpatizei tanto com elas que estou até revendo conceitos! Não como mais carne vermelha, por algum tempo, não falo mais (coisa mais feia!) " Aquela mulher é uma vaca!», «Nossa, parece uma vaca leiteira!», «Parece uma vaca de gorda!». Em respeito as vacas! E as gordinhas e as que estão amamentando ... Aquelas «outras» já tem bastante adjetivos! «Gay Parade «de um lado,» Cow Parade» do outro, Hare Krishnas desfilando, tudo na maior confraternização! O Rio é uma Cidade Alegre! Número de frases: 25 Mais informações no site www.cowparade.com/rio E quem pensa que o Carnaval se resume ao Brasil (claro que ninguém pensa!), com os frevos e maracatus do Recife e Olinda, trios elétricos de Salvador, escolas de samba do Rio e, logicamente, várias festas locais conhecidas como em São Luís (MA), Preto e Diamantina (MG), Aracati (CE) ou São Luís do Paraitinga (SP), está redondamente enganado. Vejam vocês: Veneza, que já teve a maior festa do mundo antes dos brasileiros virarem sinônimo de Carnaval, é dona da mais antiga folia de Momo (a primeira edição da farra veneziana aconteceu em 1420, para celebrar uma vitória militar, e os derrotados eram satirizados numa festa popular). Atualmente, o Carnaval da cidade é famoso por suas máscaras e elegância, e o tema oficial deste ano homenageia a China. Em outras cidades européias, há muitos Carnavais famosos, como a alegre (gay mesmo!) Colônia, na Alemanha e a vizinha Bonn, com o seu Carnaval de mulheres. Em Lucerna, na Suíça, cerca de 12 mil pessoas foram às ruas participar da abertura oficial do Carnaval deste ano. Basiléia, também na Suiça, faz o maior do país, o «Fasnacht», que acontece nas segunda e terça-feira seguintes à quarta-feira de cinzas. E em Nice, na França, o Carnaval, famoso desde o século XIX, dura 18 dias, com corsos, desfiles e as famosas batalhas de flores na Promenade de Anglais. Várias cidades da Bélgica, Itália e Eslovênia também se rendem às festas dionisíacas nessa época. Em os Estados Unidos, New Orleans se orgulha de ter o 2° maior do mundo. O seu Mardi-Gras (terça-feira gorda) reúne cerca de 1 milhão de pessoas no bairro francês da cidade. E tome jazz! Port of Spain, em Trinidad e Tobago, possui o maior Carnaval do Caribe, onde predominam ritmos caribenhos como o calypso e os sensacionais «steel pans». Oruro, nos Andes bolivianos, também não fica atrás e tem um concorrídissimo Carnaval que já virou até Patrimônio da Humanidade! Os ingleses dizem que em Londres, o Carnaval Clubber de Notting Hill é a maior festa de rua da Europa e disputa o posto de segundo maior carnaval do mundo, dura dois dias, mas acontece no último final de semana de agosto, não estando portanto no verdadeiro período das folias de Momo. Em esse grupo de eventos quase carnavalescos, deve-se acrescentar as paradas gay que rolam nas principais cidades do mundo, com destaque para San Francisco, Toronto, São Paulo e por aí vai. O fato é que, como dizia a diva cubana Célia Cruz, La Vida es un Carnaval, seja Oropa, França ou Bahia. Qual o melhor? Vá saber ... Evoé! Número de frases: 22 Continuação De: Acará -- parte 1 Para a baiana do acarajé, o dia começa cedo, às 6h da manhã. Não demora muito e já está na cozinha, separando os ingredientes. Os ajudantes vão chegando -- filhos, vizinhos, parentes, e a labuta começa. Depois de cinco horas de trabalho duro, está tudo pronto: abará, vatapá, pimenta, camarões, salada, passarinha, massa do acarajé, do bolinho de estudante e outras iguarias. Então, é hora de se aprontar impecavelmente, para agradar os fregueses: longa saia rodada, bata de rendas, torço e colares. Mas, para que a venda seja boa, pois toda a família depende disso, é preciso também pedir ajuda ao invisível: água, cachaça e farofa são despachadas na porta de casa, em homenagem à força que domina as ruas e pequenas porções dos alimentos vão para os altares caseiros. Quando chega ao local da venda, também lança na rua três pequenos acarajés, que abrem os caminhos e, sobre o tabuleiro, dispõe plantas como espada-de-Ogum e arruda, figas, contas, fitas, imagens e moedas, completando a proteção. A vida da baiana é assim, cheia de disciplina e rituais. E foi assim, com todo esse rigor, que essas mulheres sem instrução, mas cheias de espírito de liderança, competência e iniciativa, conseguiram se tornar as mais bem sucedidas empresárias do povo baiano. O tabuleiro passou por muitas transformações. Antes era ambulante, transportado sobre a cabeça da baiana, que fritava os bolinhos em casa e os vendia frios, acompanhados só com pimenta. Em o final dos anos 40, elas começaram a se fixar em pontos estratégicos, diminuindo o peso no deslocamento, mas aumentando a quantidade de apetrechos: fogareiro, tacho para o azeite, panelona para bater a massa, balaio com as comidas, além do tabuleiro de madeira. Sentadas por anos a fio no mesmo lugar, atendendo seus fregueses com simpatia, ganharam fama. Em seu livro Bahia de Todos os Santos, Jorge Amado fala de Vitorina, que fritava seus acarajés na porta do bar Anjo Azul, na rua do Cabeça, de Damásia da Conceição, em frente à Escola de Belas Artes, de Quitéria de Brito, na Baixa dos Sapateiros e de Romélia, mulher de mestre Pastinha, que vendia acarajés no largo do Pelourinho. Boas negociantes, souberam se adaptar às mudanças, sempre buscando locais movimentados. Salvador cresceu para o norte, por isso elas também seguiram nessa direção. Nome bem falado Há 60 anos atrás, havia duas baianas no Rio Vermelho: Ubaldina, no largo de Santana e Bolinha, na Mariquita. Com a perda da mãe, aos 5 anos, a pequena Lindinalva foi morar com a avó Ubaldina e passou a ajudá-la. A os 7, já sabia cozinhar e despachar os fregueses. A os 10, a avó ficou doente e ela teve que assumir o ponto sozinha, de onde nunca mais saiu. Em 44 anos de acarajé, o seu nome se tornou uma marca de sucesso, conhecida nacionalmente: Dinha. Hoje, além do ponto, é dona de um restaurante no mesmo largo. Segundo Dinha -- que não pára de trabalhar, vive com a agenda lotada e já chegou a sustentar 46 pessoas com os seus acarajés, foram três os fatores que a ajudaram: «Sou muitíssimo exigente», confessa ela, que lidera uma equipe disciplinada a quem ensina que «o cliente sempre tem razão». As amizades também foram importantes: «Conheci muita gente aqui: doutor Sócrates, doutor Diocleciano, doutor Wilson Lins, Jorge Amado. Desde quando Nizan começou na publicidade foi me ajudando. Conheci Gil, Caetano, Oliveto», conta ela, que chega a preparar quatro buffets por dia. E, além de tudo, " foi Deus quem me iluminou e me ajudou a crescer, mesmo sem escolaridade. Hoje quero meus filhos preparados. Todos fizeram faculdade, mas voltaram para o acarajé. Uma assumiu o ponto e o outro é gerente do restaurante», relata, orgulhosa. Um pouco mais à frente, na Pituba, encontra-se o tabuleiro da família de Dona Chica. De trabalho, Maria Francisca dos Santos entende. Com nove filhos para criar, ela se virava como podia. Vendia bananas e, um dia, arriscou montar uma barraca na festa da Pituba. Teve prejuízo, mas lá conheceu uma barraqueira que se ofereceu para ensiná-la a fazer acarajés. O primeiro ponto foi na praia do Jardim dos Namorados, há 30 anos. De lá, seguiu para a avenida Manoel Dias da Silva, sempre com os seus auxiliares: os filhos e filhas que estudavam num turno e no outro a ajudavam. Vendendo o seu acarajé barato e delicioso, Chica foi cativando os moradores do bairro. «Doutor Avena atendia os meninos e já dava o remédio. Dona Maria Tavares mandava chamar os meninos pra almoçar. Tinha dia, quando a fila estava grande, que Tica, uma branca, vinha me ajudar a despachar», relembra ela. Em seu modesto tabuleiro, Chica conheceu também gerentes de banco, advogados e políticos como Paulo Souto, Otto Alencar, João Durval, Antonio Carlos Magalhães, Roberto Santos e Manoel Castro. Amigos influentes que a ajudaram com empréstimos, empregos e a continuar no ponto, de onde tentaram tirá-la duas vezes. Era respeitada também por os moleques do bairro, que a chamavam de mãe. Seguindo o exemplo da mãe lutadora, todos os filhos prosperaram, alguns frequentaram universidade e quatro de eles ingressaram no ramo do acarajé: Gregório, Zé, Agnaldo e Gegê. E, seguindo ainda o curso do mar, lá onde Salvador termina, encontra-se outro antigo e famoso tabuleiro, o de Jaciara de Jesus Santos, mais conhecida como Cira. Nascida e criada em Itapuã, ela conta que faz tudo até hoje como aprendeu com a mãe, dona Odete, que aprendeu «com uma senhora muito antiga daqui, dona Sorazinha». Quando tinha 17 anos, sua mãe faleceu, lhe deixando o ponto, uma panela pequena e um fogão de abanar. «Em aquele tempo o acarajé era só com pimenta, depois é que fui botando mais coisas». Ao redor do seu tabuleiro, que fica num quiosque espaçoso, foram surgindo barracas, bares, casas e shopping. Hoje, com uma clientela gigantesca, ela explica que sua fama cresceu aos poucos: «O que me ajudou foi o boca a boca. Só depois que meu nome já era bem falado é que foi parar no jornal». Meia dúzia de moças com guarda-pó branco atendem os fregueses, mas ao todo são 25 pessoas trabalhando para Cira, que tem cinco filhos e mantém outro ponto no Rio Vermelho, comandado por a filha Jussara. Ao contrário da maioria das baianas, ela não gosta de fazer eventos, «desgasta muito», preferindo se concentrar no seu produto, que vigia de perto: «Nunca mudei a qualidade, por isso nunca caí». Com tanto trabalho, Cira quase não tem tempo para outras coisas: «De vez em quando dou uma olhada na tv ou vou na praia, mas é difícil», conta ela, que, vaidosa, se diverte mesmo é com sua coleção de roupas de baiana e suas jóias. Sua outra paixão, é claro, são os acarajés, que degusta todos os dias. Tabuleiro Familiar Eles começam em casa, aprendendo a catar o camarão e lavar o feijão. Depois ajudam a carregar o balaio, o tabuleiro e atender os clientes. Chegar perto da massa é outro estágio e fritar os bolinhos, então, só para quem já entende muito do ramo, pois é preciso muita observação para ser capaz de perceber quando o azeite atinge a temperatura certa ou identificar a qualidade do dendê apenas por o cheiro. Após anos de treino, chega finalmente a hora do aprendiz tomar a sua decisão: procurar outra ocupação ou assumir um tabuleiro. A decisão é séria, pois envolve trabalho duro de domingo a domingo, comprar o traje especial, se cadastrar, pagar taxas e encarar todos os tipos de clientes. Apesar dos riscos, a opção por o tabuleiro tem sido cada vez mais freqüente, entre mulheres e homens de várias faixas etárias, níveis de escolaridade e religiões. O motivo é simples: barato, nutritivo e delicioso, o acarajé não sai de moda, é um sucesso. Tentando aumentar os lucros ou apenas garantir o pão nosso de cada dia, os tabuleiros se proliferaram muito nos últimos anos, trazendo novidades. Surgiram polêmicas, como entre Dinha e Regina, em 1998, disputando o movimentado largo de Santana; apareceram os «baianos» de acarajé, sob protesto dos mais ortodoxos e foi criado o acarajé de soja, feito por Nira, em Camaçari. Até evangélicos ingressaram no ramo, como Deny Costa, a Loura do Horto Florestal, apontada como dona do melhor acarajé numa pesquisa feita por a internet. O acarajé passou a ser encontrado também em lojas, delicatessens, bares e ampliou o seu espaço nas prateleiras dos supermercados, onde é vendido em caixinhas. Para disciplinar tudo isso, associações, prefeituras e governo começaram a dedicar atenção especial ao tema. O decreto municipal 12.175/1998 e portarias subseqüentes regulamentam a profissão, padronizam indumentária, tabuleiro, definem a distância mínima de 50 metros entre as baianas e outros detalhes. Vieram também os cursos, apoio financeiro e fiscalização. Quem o conhece como professor de educação física com mestrado em Educação, nem desconfia, mas José Antonio Vieira, é o mesmo Zé que, há mais de 10 anos, assumiu um tabuleiro num shopping de Piatã e hoje já possui mais dois pontos. O pioneiro foi o seu irmão, Gregório Bastos, 41 anos. «Estava casado, sem emprego, então comecei no ponto de minha mãe (Dona Chica), que dava a sexta para mim, até que resolvi botar um ponto meu», conta Gregório, que foi da Marinha. Ele passou um ano a procura do local, inclusive em outras capitais do Nordeste, quando obteve sinal positivo num shopping de Salvador: «A única exigência era colocar uma baiana pra vender, porque homem não vendia naquela época. Fui usando o jogo de cintura: de vez em quando assumia o tabuleiro, dizia que a baiana tinha pedido demissão, que ia arranjar outra, até que passou a tv, fez uma matéria com mim e eles viram que eu podia ser o garoto-propaganda do shopping e passaram a cobrar a minha presença». Em a época, houve rejeição das associações e não foi fácil garantir o direito de um homem também vender acarajés, mas a competência de Gregório acabou falando mais alto. Para Zé, a história foi parecida: já tinha aprendido tudo com a mãe, em cujo tabuleiro começou a se exercitar como «baiano» e também optou por a venda em shopping. Para ele, que é funcionário público e foi sócio de uma empresa, o tabuleiro terminou sendo a opção mais rentável. Com nove funcionários, que se dividem entre a fabricação e venda dos bolinhos, Zé não pára de crescer. Seguindo o exemplo do irmão, criou também um ponto de venda de acarajé a quilo e trabalha com eventos. Assim como a mãe e o irmão, é cheio de clientes famosos, que fazem questão da sua presença, pois os dois temperos básicos do acarajé são a pimenta e a conversa com o vendedor. Casado e com filhos, ele acorda antes das 6h e trabalha de domingo a domingo para gerenciar tantas atividades ao mesmo tempo. Gentil e tranqüilo, enquanto cumprimenta os clientes ou atende mais uma ligação no celular, conta que a sua principal preocupação é com a qualidade: «Chegamos a um nível em que a gente não pode deixar cair». Negócio lucrativo Em o ramo do acarajé não existe sorte, o sucesso é fruto de muito trabalho, por isso, só permanecem os fortes. Qualquer descuido pode significar uma queimadura grave, passar troco errado, azedar um alimento. Apontada por muitos como dona do melhor tabuleiro do centro da cidade, Neinha já ocupa há mais de 25 anos o seu ponto nas Mercês. Ela diz que «queria outra coisa na vida», mas não teve opção, por isso seguiu a tradição iniciada por a avó, que vendia acarajés na porta de casa, na Liberdade. Suas quatro irmãs também vendem acarajé, mas as duas filhas não se interessam por o ramo. A candidata a sucessora, por enquanto, parece ser a netinha, «que já pega na colher, ajuda e diz que ser baiana». Apesar da pouca idade, 28 anos, Lucélia Santos ou «Neguinha» é uma lutadora experiente: começou há 18 anos, ajudando a mãe, sempre no ponto em frente ao " Farol da Barra. «Em o início tinha uma vergonha danada, hoje não troco minha profissão por nada. É bem melhor do que ficar em cozinha de branco ou tomar conta de criança dos outros». Para vender os acarajés, Lucélia e a mãe criaram um método engenhoso: «Ela mora em São Caetano e faz tudo em casa. Meu pai vem pra cá vender coco e traz a cesta. Eu moro em Plataforma e venho vender. Fico aqui até 10h da noite e mando a cesta por ele». Rindo, ela diz que o tabuleiro foi sua única opção porque não gosta de estudar, mas atende tantos fregueses estrangeiros que já está decidida a aprender inglês, para se aprimorar na sua profissão que, segundo ela, tem como principal qualidade proporcionar «dinheiro na hora, ao vivo». Cozinha de rua Como empresas familiares que são, cada tabuleiro tem as suas regras. Alguns empregam membros da família, que podem ter o direito de assumir o tabuleiro em dias de menor movimento. Outros chegam a garantir o sustento de dezenas de pessoas, geralmente remuneradas como diaristas, com valor fixo e sem carteira assinada. O caminho natural é buscar a independência, como no caso de Tania Fernandes, que trabalha para Regina, no ponto do Rio Vermelho. Agora que conhece bem todos os segredos do ramo, ela quer ter seu próprio ponto: «Vou pra São Paulo, os clientes vivem pedindo. Lá eles fazem acarajé de mandioca». Fugindo do desemprego ou apostando na venda do acarajé como uma lucrativa fonte de renda, somente em Salvador são cerca de 2.800 pessoas registradas na Associação das Baianas de Acarajé e Mingau Receptivos e Similares da Bahia (Abam), que divide com a Federação Nacional do Culto Afro Brasileiro (Fenacab) a responsabilidade por o cadastramento. Montar uma cozinha no meio da rua, entretanto, é uma tarefa difícil que nem todos desempenham bem. A comprovação veio em fevereiro de 2002, no auge do verão baiano, com a divulgação nacional por a tv de uma pesquisa da Ufba que detectou altos índices de coliformes fecais em amostras de acarajés coletadas em Salvador. Instalou-se uma crise, com redução de até 30 % nas vendas. O susto passou, mas ficou nítida a importância de profissionalizar o setor. A partir daí, intensificaram-se iniciativas que envolvem Abam, Febacab, governo, prefeituras, Sebrae, Sesc / Senac, universidades, Vigilância Sanitária e bancos. Assim como ocorre em Camaçari, em Salvador foi criado um curso de capacitação sobre higiene na manipulação de alimentos para as baianas. A segunda etapa foi vistoriar as cozinhas e, depois, conceder selo de qualidade e linhas de crédito de até R$ 8 mil para reformar cozinhas, tabuleiros e indumentárias. Apesar da falta de sinalização, o Memorial das Baianas é bem localizado, no Belvedere da Sé, centro histórico de Salvador. Depois de visitar a exposição permanente com objetos, indumentárias e apetrechos culinários do passado e do presente, o visitante atento encontra a discreta sala onde trabalha a diretoria da Abam. Em uma mesa, a presidente, Maria Leda Marques. Em outra, a vice, Rita Santos. Enquanto folheiam a pasta que reúne documentos, recortes, convites e ofícios, vão relembrando das batalhas vencidas, homenagens, parceiros, projetos e falam dos próximos desafios. Ali não há tabuleiro com acarajé fritando, ainda assim amigos e conhecidos também aparecem com freqüência para um dedo de prosa ou pedir uma ajuda. Orgulhosa da força das mulheres que representa, Leda não poupa elogio às baianas, mas não deixa o interlocutor sair iludido. Para ela, as baianas precisam, sim, de apoio: treinamento, informação, equipamentos melhores, por isso o seu trabalho nunca termina. Antes de se despedir do visitante, já do lado de fora, uma parada no mirante de onde se avista a Baía de Todos os Santos, os sobrados em ruínas e velhos edifícios do bairro do Comércio. Leda então se lembra de como tudo começou. Fala das escravas, das ganhadeiras mercado seus produtos por as ruas, dos primeiros tabuleiros e, com um olhar emocionado, diz que as baianas ainda sonham em conquistar, sim, muito mais respeito. Dicas «Moer o feijão bem fino para o abará e deixar a massa mais grossa para o acarajé, senão ele não fica crocante» (Cira) «Se o azeite estiver muito frio, encharca o acarajé. Se estiver muito quente, frita por cima e não cozinha por dentro " (" Zé Antonio) «Quando estiver subindo fumaça coloca o acarajé e abaixa o fogo. Se estiver quente demais, coloca um pouco de azeite frio " (Tania) Leia texto na íntegra em: Número de frases: 159 www.soteropolitanos.com.br vereadores, prefeitos, deputados, governadores, ministros, presidente já deram as caras ... ou as cartas ... já existem mcs, b. boys, djs e grafiteiros de carteira assinada, batendo ponto, saindo à luz do dia para o trabalho ... concorrendo a prêmios de artista-operário padrão ... já tem alunos de escolas de belas artes falando dos tais núcleos de graffiti.. djs em banda de bossa nova ... b. boys na dança clássica ... departamentos e lojas inteiras de hip hop ... malhação com rap ... ginásticas hip hop ... já tem grafiteiro divulgando telefone nos trabalhos ... já tem b. boy em propaganda de cursinho pré-vestibular ... já tem mc vendendo coca-cola ... os djs se alastram como praga ... muita roupa ... muitas fantasias ... e haja fotos, zines, fotologs, sites, blogs, listas ... e haja artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses ... e livros ... diante de tanta «luminosidade» de fora, eu pergunto: afinal, qual é a do hip hop? como manter sua luz própria? qual é a nossa? a legalidade ou a marginália? a realidade ou a lealdade? a subversão ou a moralidade? o muro ou o museu? as páginas ou as paredes? a praça ou o teatro? a boca ou o disco? as ruas ou as universidades? a sombra ou a luminosidade? o centro ou a quebrada? fazer tantas questões não significa que eu tenha tantas respostas. aliás, não tenho nenhuma ... sei que existe um filme chamado «bomb the system» que deixa qualquer espectador intrigado, e emocionado. retrata a parceria de dois grafiteiros: um mais novo e o um bem mais velho; um branco e um preto; um fiel às ruas, à aventura; o outro com uma nova namorada, chamando-o para a «evolução» da arte. tudo situado no submundo urbano: ruas, festas, dinheiro, drogas, sprays roubados, esquadrão anti-vândalos, crimes, perseguições, peripécias e muita estética nas margens. tudo narrado por um terceiro personagem. um atento e leal aprendiz que se envolve até os ossos nessa arte sujeita a chuvas, dias de sol e trovoadas; tempestades e calmarias. este filme trágico-filosófico problematiza a discussão acerca da razão de ser do graffiti e do grafiteiro com destreza, espontaneidade e beleza. não dá para assisti-lo e sair ileso. quando terminam os 95 minutos de projeção, o espectador já não é o mesmo do começo. inevitavelmente, cresceu! e crescimento é uma palavra que, atrelada às palavras liberdade, beleza, verdade, rebelião e transgressão, sustentam a credibilidade do hip hop que comungo. no hip hop, ninguém deve sair como entrou. ou é isso, ou não é hip hop. porque o hip hop é revolução permanente. quando deixar de ser assim, será o início do fim. com o hip hop na moda, há muita sedução, alienação, engano, vaidade, traição, angústia, disputa. a verdade dos rebeldes tem que ser ecológica: divulgar, fortalecer e discutir criticamente a cultura hip hop como forma de evolução humana e impedir que o hip hop seja entregue aos saqueadores e / ou colonizadores da cultura de rua. mas não se deve esquecer do hip hop -- muita política e pouco hip hop tem sido a tendência do movimento. ou, ao contrário, muitos artistas e poucos ativistas. como sempre: precisamos encontrar o equilíbrio. fazer mais do que preciosismo ego-centrado, ou ser mais que joguete nas mãos dos que não tem compromisso com a nossa tragédia urbana, o hip hop tem que proclamar a independência da arte e do artista: independência humana, política, étnica e estética. tem que promover o crescimento integral dos ativistas e simpatizantes. tem que contaminar os desatentos e enfrentar com consciência, convicção, altivez e firmeza os desafetos. não há outro caminho, na minha concepção, senão o caminho da rebeldia contra todas as formas de prisão que sempre tentam apagar, calar ou cooptar os rebelados. o rap, o break, o graffiti, o dj que se quer sério não pode obedecer uma confraria de manjadas comadres; mas, também, que não seja um balaio de gatos, misturando ratos e cachorros numa harmonia insustentável. como ouvi na minha adolescência, e passei a dizer para mim mesmo: os radicais não tem escolha. então, penso que não há concessões ou pretextos: hip hop é hip hop! hip hop é informação! hip hop é denúncia! hip hop é agressão! hip hop é transgressão! hip hop são vozes, linhas, movimentos e cores! hip hop são técnicas! hip hop é consciência! o hip hop que me interessa tem que ser mais que uma galeria de fotos e desenhos. mais que um sonzinho bom. mais que um corpo elástico ou mecânico. mais que riscos no vinil. mais que teses universitárias ou programas de televisão. tem que ser independente, para experimentar na forma e discutir a vida com profundidade e sem restrição alguma. tem que problematizar a cena, para que se diferencie o joio e o jogo. precisa debater as iniciativas governamentais, os contornos das nascentes profissões que o envolve e sua legalidade. saber dos falsos manos. precisa compreender a ação da academia enquanto faca de dois gumes. diferenciar o ativista em liberdade do carregador de bandeiras. diferençar a expressão vital e visceral e o sub-produto comercial baixo. precisa discutir os graffitis banidos da cidade por os agentes governamentais que cobre as grafias de iniciativas não governamentais. da polícia que vê nos artistas de rua vândalos em potencial. da inflação dos vinis nacionais e sobre-taxação dos importados. do desprezo ao rap enquanto estética possível nas política culturais. o hip hop precisa indagar como projetos oficiais pretendem atingir as periferias mais periféricas, respeitando suas especificidades -- longe das câmeras de televisão e do olhar dos ilustres turistas. a cultura hip hop em que acredito deve se perguntar a cada novo número: afinal, qual é a do hip hop? a legalidade ou a marginália? a realidade ou a lealdade? a subversão ou a moralidade? o muro ou o museu? as páginas ou as paredes? a praça ou o teatro? a boca ou o disco? as ruas ou as universidades? a sombra ou a luminosidade? o centro ou a quebrada? o hip hop, ao contrário de um problemático sincero como eu, deve sair de cima do muro, e arriscar algumas respostas ... e, antes que eu esqueça, declaro meu respeito e admiração por Sérgio Vaz, grafando-o, maiusculamente, com S de Sabedoria e V de Verdade, pois o hip hop de que falo e que acredito só é possível com Homens que tenham a estatura desse poeta -- aliás, H de Humildade fecha a tríade de conceitos que define esse guerreiro da linha de frente da cooperifa. com respeito, Número de frases: 113 nelson maca (blackitude) por Francinne Amarante O carioca Luis Cláudio Coimbra, conhecido como Lui Coimbra, além de tocar vários instrumentos de cordas, revela-se um cantor e compositor de grande talento. Quem já assistiu ao show de Lui sabe que moço faz «milagre» no palco. Em 1997, o artista iniciou a carreira solo num show realizado no Teatro do Centro Cultural Itaú (SP), com o lançamento do CD «Ouro e Sol», resultado de uma parceria com vários amigos músicos. Fez também parte dos grupos Aquarela Carioca e Religare, e da Orquestra Popular de Câmara. Em entrevista, Lui conta como descobriu sua vocação artística, revela parcerias, comenta a cena musical independente e dá dicas interessantes pra quem aprecia a música brasileira. ... Entrevista Relâmpago Música. Início: A os dez anos ganhei um violão do meu pai e descobri essa paixão por a música, tocava no colégio, meio autodidata. A os dezoito anos tive uma base teórica, tranquei a matrícula na faculdade de agronomia e fui tocar violoncelo; quando percebi estava tocando com Caetano Veloso, Aquarela Carioca, Vagner Tiso, Zeca Baleiro, Ana Carolina e fazendo turnê por a Europa. Disco solo: Sempre quis mostrar esse lado de interprete, no momento estava maduro pra cantar e encarar esse lado, e fui aos poucos fazendo o disco com parceiros entre uma turnê e outra. Sou muito detalhista e queria trazer coisas que pareciam estar distantes, a popularidade brasileira das cantigas. O disco ficou pronto em quatro anos. O nome do CD: «Ouro e Sol» é uma busca por a riqueza possível, por o prazer puro, colorido e dourado como o Sol. É também o nome da versão que fiz com Zeca Baleiro para a canção «Fildes of Gold» de Sting. Instrumentista: Toco Cello, Rabeca (que ganhei de Alceu Valença), charango (um instrumento Inca), guitarra portuguesa, violão, teclado ... Os instrumentos se adaptam as nossas afinações, interesses e necessidades. Ídolos: Naná Vasconcelos, Hermeto Pascoal, Ceumar, Milton Nascimento, Gil, Caetano, Chico César, Zeca Baleiro, tem muitos ... Esses artistas são ' a alma ' da música brasileira. Processo de composição musical: às vezes acordo com uma música na cabeça, mas depende muito do estar disponível para captar o que já está à disposição, as coisas estão aí, basta sintonizar e isso é uma questão de exercitar. Projeto Pixinguinha com a Mônica Salmaso: Foi muito gratificante, a Mônica é ótima e tocamos com músicos maravilhosos. Percorremos oito cidades. Me emocionei quando chegamos a Belém e fomos à rádio Cultura e soube que minha música estava em primeiro lugar e «sem jabá», ainda existem espaços que dão oportunidade para a música que o povo quer ouvir. Cena musical brasileira: Estamos num momento muito criativo da MPB. Tem a cena independente que é um caminho, o músico está se tornando um empresário da sua arte, a internet ajuda bastante. Mensagem da sua obra: Uma mensagem otimista de quem acredita na nobreza da música brasileira, além da parte espiritual que está sempre presente em mim e precisa ser reverenciada. ... Repertório do CD Ouro e Sol: 1. Astrologia ( Poema de Mário Quintana -- Música Lui Coimbra) 2. Ouro e Sol ( Sting -- versão de Zeca Baleiro e Lui Coimbra) 3. Vem Morena ( Expedito Baracho e Vicente Gonçalves Alencar) 4. Flores de Amsterdam ( Lui Coimbra) 5. Minha Ciranda ( Capiba) 6. O idiota desta Aldeia ( Poema de Mário Quintana -- Música Lui Coimbra e Admar Branco) 7. Fazê o quê? (Pedro Luis) 8. Mãe ( Lui Coimbra) 9. Peixe Vivo ( Popular -- Adaptação Lui Coimbra) 10. Onde mora o Sol ( Lui Coimbra) 11. Estrela do Oriente ( Lui Coimbra) 12. Astrologia (remix) ( Poema de Mário Quintana -- Música Lui Coimbra) contato: Tel: (21) 2195-4600 regrecco@pobox.com " \> Número de frases: 61 contato@robdigital.com.br A páscoa (do hebraico pessach) que significa passagem. data em que os cristãos celebram a Ressurreição de Jesus Cristo (Vitória sobre a morte). a páscoa associa a imagem do coelho com um símbolo de fertilidade. A origem do símbolo do coelho vem do fato de que os coelhos tem por sua capacidade de reprodução. Como a Páscoa é ressurreição, é renascimento, nada melhor do que coelhos, para simbolizar a fertilidade. agora da onde saiu os ovos de chocolate? Foi Assim ... Quem sabe o que é «Theobroma»? Pois este é o nome dado por os gregos ao «alimento dos deuses», o chocolate. «Theobroma «cacao» é o nome científico dessa delicia chamada chocolate quem o batizou assim foi o botânico sueco Linneu, em 1753. Mas foi com os Maias e os Astecas que essa história começou a mudar. O chocolate era considerado sagrado por essas duas civilizações, tal qual o ouro. Em a Europa chegou por volta do século XVI, tornando rapidamente popular aquela mistura de sementes de cacau torradas e trituradas, depois juntada com água, mel e farinha. Vale lembrar que o chocolate foi consumido, em grande parte de sua história, apenas como uma bebida. Já no século XVI, acreditava-se que, além de possuir poderes afrodisíacos, o chocolate dava poder e vigor aos que o bebiam. Por isso, era reservado apenas aos governantes e soldados da época. Aliás, além de afrodisíaco, o chocolate já foi considerado um pecado, remédio, ora sagrado, ora alimento profano. Os astecas chegaram a usá-lo como moeda, tal o valor que o alimento possuía, grande história não? Mas não acaba por ai. Chega o século XX, e os bombons e os ovos de Páscoa são criados, como mais uma forma de estabelecer de vez o consumo do chocolate no mundo inteiro. É tradicionalmente um presente recheado de gostosuras. E não é só gostoso, como altamente nutritivo, um rico complemento e repositor de energia. Não é aconselhável, porém, consumi-lo isoladamente. Mas é um rico complemento e repositor de energia. bom é isso. Contei tudo isso para chegar numa questão, a páscoa foi feita para lembrarmos que deus nos enviou seu filho unico para morrer por nós pecadores certo? e o que comemoramos verdadeiramente na páscoa? para mim estamos fugindo de foco, em vezes de irmos na igreja para agradecer a deus por ter enviado seu filho por nós, estamos só indo ao supermercado para comprar ovos de chocolate. pergunte as crinças aos adolescentes, o que é a pascoa? muitas vão dizer que é O Nascimento De Jesus. que absurdo é esse, não vejo pessoas comentando sobre como Deus é bom e maravilhoso tal e tal. eu só vejo falarem, ' ` Ai Eu Compre O Ovo Sonho De Valsa, Nossa Estava em Promoção Você Não Viu? ' ', ' ` E Você, O Que Comprou '. não escutamos só isso? Estamos fugindo de foco, o que estamos comemorando realmente? o coelho da páscoa? ou a Ressurreição de Jesus Cristo? vamos, espalhem a noticia contem para seus filhos seus netos qual é o verdadeiro foco da páscoa, não quero que meus filhos não saibam como deus foi tão maravilhoso com nósco. Número de frases: 38 » ... Fotógrafo, o'Paraguaio ', como é nominado por seus amigos mais íntimos, tem talento inato e o que se chama um excelente olho. Nascido na fronteira do Paraguai com o Brasil, Ernesto conta entre seus temas prediletos a paisagem fronteiriça, mas acima de ela a figura da mulher e do homem da fronteira, dos quais dignifica a imagem e resgata a beleza, sobretudo porque sendo parte desta realidade, sendo um de eles, mergulha em suas almas, de elas revelando o recôndito, aquilo que guardam no âmago, a alegria natural e o sofrimento ancestral ..." Margarida Marques Gomes Jornalista As palavras de Margarida Marques ilustram bem a obra e a visão de Ernesto Franco, este sul-matogrossense de coração que se transformou num fotógrafo de sensíbilidade rara. Em seus «insites» ele retrata o universo humano da Bacia Platina, um amálgama de etno-culturas ancestrais e suas variáveis dolorosamente miscigenadas. O pano de fundo é a sombra, ou a luz, da imorredoura paisagem fronteiriça, com fortes ecos no chaco-pantanal. Em esta colaboração reapresentamos o conteúdo da Exposição «Fronteiras», realizada em Corumbá no ano de 2004 dentro da programação oficial do Festival América do Sul. Em ela, Ernesto Franco surpreende a todos ao apresentar, entre luzes e sombras, expressões, sentimentos, almas e corações de Sul-américa. Número de frases: 8 Ponto e chega, porque você sempre detestou homenagens. O homem que matou Paolo Rossi Em esta entrevista, publicada originalmente no site omelete. com. br, Octavio Aragão, o autor de A mão que cria, comenta as influências literárias e quadrinhísticas de seu primeiro romance. Ele faz também um balanço sobre os quase dez anos de carreira, iniciada com «Eu matei Paolo Rossi», texto que fez parte da coletânea Outras copas, outros mundos e deu origem a seu projeto mais duradouro: a criação da Polícia Internacional do Tempo, ou Intempol. Atualmente, enquanto o site oficial do projeto está fora do ar, ele se mantém ocupado publicando em capítulos «Reis de todos os mundos possíveis» no endereço alternativo http://intemblog.blogspot.com Em a conversa a seguir, o escritor carioca -- radicado no Espírito Santo, onde leciona na universidade federal local -- dá pistas sobre seus próximos projetos. Entre eles, revela que há a intenção de produzir uma continuação para a Mão que cria (de quebra, chutamos e acertamos o provável título do segundo livro da série). Lembrando que no próximo ano completa uma década de seu lançamento como escritor profissional, com a noveleta «Eu matei Paolo Rossi». Você poderia fazer um rápido balanço destes primeiros dez anos como autor? Quantos textos já foram criados, quantos foram publicados em livros ou em outras mídias, como a Internet? Pois é, quase dez anos de «carreira». Não, dez, não. Nove. Comecei em 1998, na antologia Outras copas, outros mundos, da extinta editora Ano-Luz. Não me considero um autor «literário», pois ainda tenho muito arroz com feijão para comer, e, talvez por causa disso, não tenho muitas histórias rolando por aí. Até tomar uma decisão e escrever algo, deixo o conceito amadurecer muito -- às vezes anos -- antes de pegar no papel. O número de textos publicados é consideravelmente pequeno. Não lembro de todos, mas acho que passaram de vinte. Ou seja, uma média de dois por ano. Em livros, antologias de contos com vários autores, que são os que levo mais em consideração, foram cinco, desde a estréia, em 1998. Em o ano passado, fui publicado no site da revista Cult e, fora isso, alguns fanzines, prozines e e-zines. Este ano deve ocorrer uma estréia internacional. Vamos esperar para ver. Com todo o potencial do cenário que você criou e com o final inesperado e em aberto do livro, a pergunta é inevitável: vai haver uma continuação para A mão que cria (talvez A mão que pune, para completar a citação a A ilha do Dr. Moreau?) Meu editor, Fábio Barreto, quer uma continuação desde que leu a história pela primeira vez. E o título deve ser mesmo A mão que pune. Não sei como vou me virar, pois tenho de defender meu doutorado em junho de 2007 e o Fábio gostaria de ter o manuscrito de A mão que pune em outubro. Vai ser um trabalho do cão, mas será divertido ... tenho algumas idéias aqui na manga e acho que vão dar outras possibiidades à história. Posso adiantar que será um livro maior, um pouco mais denso, mas sem perder a ação. Em a mesma linha: o seu projeto mais conhecido é o Universo Intempol, totalmente colaborativo e multimídia, que reúne mais de uma dezena de autores do Brasil e até de Portugal para contar histórias com um núcleo ficcional em comum. A mão que cria pode seguir esse mesmo caminho ou neste caso você pretende manter a exclusividade autoral? Não, A mão que cria é um playground particular. A Intempol é legal, porém creio que já pode andar sozinha. Veja bem, isso não quer dizer que eu não possa voltar ao universo eventualmente. Ainda tenho uma ou duas histórias que gostaria de contar, apenas não pretendo repetir o que já fiz antes. Um shared universe é o suficiente e fico feliz em ter dado oportunidade a autores tão diversos como Hidemberg Frota, Paulo Elache, Jorge Nunes e Osmarco Valladão. Todos são excelentes contadores de histórias que estrearam profissionalmente com os contos da Intempol. Você pode comentar algumas das obras do gênero ficção alternativa que influenciaram seu livro? O que os brasileiros estão perdendo com a ausência de títulos como Anno Dracula e Tarzan alive nas livrarias locais? Você diria que há chances desses livros serem publicados por aqui? Tarzan alive e Doc Savage: His apocalyptic são dois livros ótimos de autoria de Philip José Farmer, autor de bons romances de ficção científica como Mundo do Rio e Dayworld. Eles estabelecem que os dois personagens eram pessoas reais cujas aventuras foram contadas de maneira «disfarçada». Isso promoveu Edgar Rice Burroughs e Lester Dent de ficcionistas a biógrafos, e a ginástica mental de Farmer para encaixar cada um dos romances produzidos por os dois autores -- e olha, não foram poucos -- dentro da história do mundo «real», ou seja, o nosso, é apaixonante, hipnótica. Anno Dracula, do escritor e crítico de cinema Kim Newman, é divertido, uma verdadeira homenagem ao subgênero do horror. Não é tão bom quanto os livros de Farmer, por quem ele confessa ter sido influenciado. Mas tem valor próprio, por estabelecer um universo coeso, detalhado, cheio de filigranas e referências. Se Farmer foi a base de Newman, ele, sem dúvida, foi a mola-mestra por trás da concepção de A mão que cria. Quanto ao sucesso dos livros no Brasil, eu arrisco dizer que, graças à paixão que o tema vampiresco desperta nos leitores daqui, Anno Dracula seria um tiro certeiro. Tarzan alive talvez vendesse um pouco menos, mas o personagem é forte o bastante para alavancar o produto, apesar de apelar a um público mais velho. Quanto às chances de publicação, só Deus sabe. Nosso mercado é surpreendente no bom e no mau sentido. Sem dúvida, para os leitores ligados aos quadrinhos, a maior referência desse gênero é a obra de Alan Moore e Kevin O'Neill: A Liga Extraordinária. Por terem produzido quadrinhos, os autores puderem ser ainda mais ousados na série e o clima de ficção alternativa não se restringiu só a protagonistas e coadjuvantes: até a figuração e a cenografia são formadas por citações literárias do século 19. Qual sua opinião sobre essa série e a respeito do filme que ela inspirou? Eu fiquei um pouco decepcionado quando a primeira série saiu nos Eua. Estava esperando uma revolução, uma coisa de outro mundo. E, bem, não foi exatamente isso que eu vi. Até porque The League lança mão de algumas idéias antes ventiladas por Newman, como o confronto entre Fu Manchu e Moriarty (em Anno Dracula eles são rivais que estabelecem uma trégua para unificar o submundo de Londres contra o poderio da aristocracia vampírica) ou o desaparecimento de Sherlock Holmes (no romance de Newman, o maior detetive de todos os tempos está preso na Torre de Londres e, portanto, fora da ação do livro). Sem falar que a tal «fidelidade» aos originais do Século 19, propalada por os autores na época do lançamento, é discutível. O Capitão Nemo como guerreiro Sikh remete à Ilha Misteriosa, mas é uma tremenda liberdade em relação a Vinte mil léguas submarinas (no primeiro romance, Nemo é descrito com características de um eslavo, provavelmente polonês. Usa botas de couro de foca e uniforme bastante condizente com um marinheiro e não aquele turbante e o modelito " hindu chic "). Outra que foge bastante à descrição do romance original é Mina Harker. A o final de Dracula, ela não apenas está casada com Jonathan Harker, como é mãe de um menino, batizado como Quincy Harker, em homenagem ao companheiro morto na cruzada contra o vampiro. Onde foi parar esse filho, que sequer é citado na série? Não que Mina não pudesse se separar de Jonathan, ok, mas abandonar o filho seria muito fora da personalidade de ela. Curti muito mais o segundo volume, que tem idéias mais radicais envolvendo Moreau e o Homem Invisível, sem necessariamente ferir os conceitos originais dos personagens. Além do mais, aquela descrição de Marte, envolvendo personagens e fatos de diversas vertentes, é sensacional. Lembro que, quando descobri num quadrinho o Ovo de Cristal, do conto homônimo de H.G. Wells, pensei: «Aaah! Agora sim! Os caras estão mesmo botando para quebrar!». Quanto ao filme, claro que não se trata de uma grande peça cinematográfica, mas tem lá seus maus e bons momentos. Adorei, por exemplo, o Dorian Gray, apesar de ter achado aquele Tom Sawyer uma bobagem. Adorei o design do Nautilus como um sabre -- apesar de fugir léguas da descrição original de Verne, mas perdoe minha deformação profissional. Afinal, ainda sou designer e isso é o que paga minhas contas. Detestei o Homem Invisível andando pelado por o ártico ou sendo queimado vivo (e sobrevivendo). Por outro lado o conceito de industrialização dos poderes dos personagens -- graças a um hilariante «Kit Extraordinário» -- é muito divertido. Ficção alternativa, por empregar personagens alheios, é um gênero muito dependente das leis de direitos autorais em vigor em vários países. Para voltar a lembrar de Alan Moore, é só citar o sufoco que ele passou na Inglaterra para poder usar uma personagem ligada a Peter Pan em seu trabalho quase pornográfico Lost Girls. Existe algum personagem que você gostaria de trabalhar num livro mas que fica limitado por as restrições existentes? Não foi só com Peter Pan que o Moore teve problemas. Fu Manchu também não é citado nominalmente na League, mas por a alcunha genérica de «O Doutor». Farmer teve problemas com seu romance The Adventure of the Peerless Peer -- um crossover entre Tarzan e Sherlock Holmes, em que teve de trocar o velho Lord Greystoke por Mowgli. Isso acontece com qualquer um que esteja bulindo com marcas registradas. Exemplo bom é o da Isabel Allende e seu romance Zorro -- Começa a Lenda. O mascarado criado por o escritor Johnston McCullen é uma das marcas mais bem guardadas do showbiz, mas isso não impediu que a autora fosse contratada para recontar sua origem com toda liberdade possível. Mas veja bem, ela foi contratada para o serviço ... Quanto a um personagem sobre o qual eu gostaria de trabalhar, ah, são tantos, mas tantos que dói pensar. Houve um dia em que o escritor e compositor Bráulio Tavares fez um convite conclamando autores amigos a escrever contos novos de Sherlock Holmes, mas totalmente dentro do cânone, sem inventar nada, sem desconstruir nada, sem ridicularizar ou fazer pastiche. Em a época, amarelei. Hoje, acho que toparia o desafio de participar de uma antologia sherlockiana. Uma maneira ao menos parcial de driblar a questão dos direitos autorais são as fanfictions e os fanfilms, que normalmente são tolerados (e em alguns casos até incentivados) por os titulares dos personagens desde que não tenham finalidades comerciais. Lembrando que A mão que cria teve uma origem fanfic, quais na sua opinião são as diferenças marcantes entre esse gênero e a ficção alternativa? Não muitas. Acho que alguns autores de fanfics se auto-impõem rédeas curtas ou então, ao contrário, resolvem contar histórias que são o que eles queriam ver, mas que no fundo descaracterizam os personagens originais e suas premissas. Por exemplo: li um fanfic de Arquivo X em que, ao final, Mulder e Scully iam para a cama depois de um beijo apaixonado. Bolas, aquilo era o que a autora «sonhava» que eles fizessem, mas não seria como eles, os personagens, fariam. A tensão sexual entre a dupla sempre foi óbvia, mas não era assim que os dois funcionavam. Era totalmente fora do formato e, em conseqüência, anticlimático, falso. Em o extremo oposto, há vários fanfics de super-heróis que sofrem por não arriscar nada, enquanto autores profissionais, como Grant Morrison ou Garth Ennis, fazem exatamente o caminho contrário, com resultados bastante interessantes. Eu sempre penso que há pontas soltas nas origens de alguns desses personagens que nunca foram bem exploradas e que dariam muito pano para manga ... tenho umas idéias e, algum dia, ainda escrevo algo a respeito. O segredo, enfim, é o equilíbrio. Tem de ousar, mas fazer isso com conhecimento de causa dos personagens e de toda sua mitologia. Por falar em fanfic, não há referências no livro sobre esse passado da obra. Foi uma decisão sua ou da editora não mencionar a questão? E do mesmo modo, na lista de anotações não existem citações aos vários personagens inspirados nos quadrinhos. Por que isso acontece se até obras com direitos ativos (caso dos filmes da série Alien e Sexta-Feira 13) foram listadas? É diferente. As referências a Alien e Sexta-Feira 13 são tangenciais, mais homenagens mesmo. As outras, não. A decisão a respeito de não se tocar nas encarnações anteriores da história foi editorial, mas eu sempre falo a respeito disso quando perguntado ou não. Nunca fugi das origens «fanfiqueiras» de A mão que cria. Outra coisa, achei por bem não mastigar tudo para o leitor. Para você ter uma idéia, todos -- eu disse «todos» -- os personagens são referenciais, com duas exceções. No entanto, a maioria não está creditada nos anexos. Penso que os leitores têm de fazer uma forcinha também. Faz parte da brincadeira. Tem quem ache que eu «esqueci» de citar alguns homenageados. Não foi o caso, homens de pouca fé ... Eu apenas deixei a bola quicando na grande área. Cabe ao leitor chutar. Houve alguma reação na comunidade ligada à ficção científica nacional por sua editora apresentar A mão que cria como o primeiro romance de ficção alternativa do Brasil. Lembrando que autores como Monteiro Lobato, Raimundo Caruso, J. J. Veiga e até Jô Soares lançaram livros que podem ser encaixados tranqüilamente no gênero, qual sua posição sobre o assunto? Houve quem chiasse, mas isso não me incomoda, muito pelo contrário. Quero mais é que falem a respeito. Eu mesmo cito Lobato e Veiga como precursores de peso, mas creio que a diferença crucial é que usei o termo cunhado por o teórico francês Eric Henriet, Ficção Alternativa, e os outros nem sabiam que isso existia quando pensaram suas histórias. Ou seja, fiz de caso pensado, os outros talvez não. Ao menos, que eu saiba. Mas honestamente, discutir isso me parece mais um caso de procurar cabelo em ovo. Por outro lado, repito: em termos comerciais, qualquer polêmica é positiva. Voltando a falar sobre o Intempol e seus outros projetos: depois de um portal, livro de coletânea de contos e história em quadrinhos, vai vir mais alguma ação multimídia por aí? Qual a opinião predominante dos autores de ficção científica brasileiros para projetos como esse, que abrange tantos meios distintos? As opiniões, como em tudo mais, se dividem. Há quem goste muito; existem aqueles que pensam saber como deveria ser feito, sem jamais ter tido ou a disposição ou a coragem ou a grana para desenvolver um projeto desses. E há quem simplesmente ignore (mesmo que tenham proposto vários contos e tenham sido repetidamente rejeitados). Pretendo retomar a Intempol em 2007, se tiver tempo, e não o contrário. Mas encarei alguns problemas contratuais referentes à publicação da graphic novel [The long yesterday], que foi um bom passo, mas não o «elemento definidor», como querem alguns. Explico: o Projeto Intempol já existia antes da graphic novel e existirá depois. Se The long yesterday foi indicada a prêmios, teve muito mais a ver com a qualidade do material que com o fato de ter sido efetivamente publicado. Postular o contrário é inverter a realidade. Foi publicado porque é um bom material, não é um bom material porque foi publicado. Acredito na força da marca e creio que ainda podemos alcançar outros públicos neste segmentado mundo do entretenimento brasileiro. O mais engraçado é que o público de HQs ignora solenemente a versão literária, enquanto o leitor de ficção científica não ligou muito para a graphic novel e a pequena história publicada na revista Wizard. Isso tudo, porém, em lugar de ser uma complicação, pode ser mais uma vantagem. Segmentação é uma saída viável para esse tipo de produto. O fato é que tenho uma verdadeira coleção de idéias que dependem apenas de mim, entre elas um romance de hard science fiction, que vai me tomar um tempão de pesquisa, e outras coisas que devem estar pipocando em alguns meses. Adoro a Intempol e não vou abandoná-la, mas a vida é curta e tenho muita coisa para fazer nos próximos dez anos. Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. O livro A mão que cria foi resenhado no Overblog: Número de frases: 160 http://www.overmundo.com.br/overblog/a guerra dos homens peixe " Nasci em São Paulo, moro aqui há alguns anos e não gostava da cidade. A gente vivia ilhado porque a realidade é muito grande entre o interior e os grandes centros. Mas, de repente, Sud Mennucci virou um lugar legal. Isso mostra como o acesso à internet pode ser determinante na vida de uma pessoa». A palavras do músico e produtor Marcelo Basílio Paya, 30 anos, referem-se a uma drástica e positiva mudança por a qual a pequena cidade, de 7,5 mil habitantes a cerca de 640 km da capital paulista, vem passando nos últimos anos. Graças a um projeto inédito no Brasil, todos os moradores podem ter, em casa ou em locais públicos, acesso grátis à internet banda larga sem fio (rede Wi-Fi). Para receber o sinal, basta que a pessoa compre uma antena a um custo médio de R$ 200,00. A partir daí, o uso é irrestrito. Não é preciso assinar provedor nem pagar mensalidade. Tudo isso porque, até 2002, a cidade não possuía nenhum provedor comercial e o acesso à web só era possível via discagem interurbana para provedores da região, o que prejudicava e encarecia até mesmo os trabalhos da prefeitura. Para resolver o problema, o município instalou duas antenas e implantou a rede a um custo de R$ 18 mil e R$ 1,8 mil mensais para dez pontos de navegação nos órgãos públicos, transformando-se no próprio provedor da cidade. Em o ano seguinte, estendeu o serviço para a população a um custo de R$ 2,8 mil mensais e viu o número de pontos saltar de dez para noventa. Em o ano passado, ampliou a capacidade total de acesso de 1 MB para 2 MB e chegou a mais de trezentos pontos de internet, entre particulares, comerciais e públicos. O custo para a Prefeitura subiu para R$ 4,4 mil mensais, ainda considerado baixo se for levando em conta o acesso gratuito à população. «Se cerca de dez outras prefeituras da região se unissem para implantar o sistema, poderíamos derrubar esse custo para R$ 3 mil», diz o prefeito Celso Junqueira, que estima uma meta de novecentos pontos de acesso até o fim de 2006. O impacto social da implantação da rede é impressionante. As três escolas públicas do município (duas municipais e uma estadual) hoje são equipadas com um total de 60 computadores em que os alunos podem navegar todos os dias. Em os horários livres de aulas, especialmente à noite e nos finais de semana, o uso é extensivo a toda população, com direito a monitoria de funcionários treinados para ajudar os usuários. Além disso, recentemente, Sud Mennucci inaugurou, na biblioteca municipal, um telecentro com 10 computadores que dão acesso livre para qualquer morador. De a ' ilha ' para o mundo O sucesso da rede Wi-Fi de Sud Mennucci é fácil de ser percebido. Em outubro passado, a cidade ficou em quarto lugar na final do Torneio Bancos em Ação, uma parceria entre a ONG norte-americano Junior Achievement e o Citibank. Perdeu apenas para Belo Horizonte (MG), Uruguaiana (RS) e Recife (PE). Registrou o maior índice de participantes da competição em comparação com outras 100 cidades brasileiras que disputaram as 10 vagas da final e classificou mais equipes (seis) que a cidade do Rio de Janeiro (quatro) para a fase semifinal. Também foi a cidade com maior número de equipes (três) classificadas para a final. Em o torneio, que acontece em vários países, estudantes, divididos em equipes, têm de cuidar de um «banco» através de um jogo virtual. Ou seja, simulam operações do mercado financeiro, como cálculos com juros de curto e longo prazo em captação de empréstimos; operações de marketing para aumentar e manter a base de clientes etc.. É bom lembrar: estamos falando aqui de estudantes de escolas públicas! «Não seria possível participar do torneio se não tivéssemos acesso livre à internet. A disputa é feita virtualmente, on line», explica Junqueira. Curiosidade «A onda agora aqui é a cyberfofoca. Com essa história de acesso livre, todo mundo tem MSN e as notícias locais correm soltas. Cidade pequena, sabe como é, né?», brinca Marcelo Paya, que revela como a rede Wi-Fi mudou o comportamento de Sud Mennucci em vários sentidos. «Tem muito mapa em que Sud nem aparece, mas agora posso comprar CD por internet, montar meu selo, divulgar minha banda Seresteros de Guantanamo e produzir trabalhos da região sem sair daqui. Tudo com a vantagem de não ter de encarar a poluição de uma cidade grande». Já está divulgando, Paya. Número de frases: 40 O endereço dos caras é www.seresteros.com. A construção de toda muralha é realizada para separar um lado de outro, protegendo o lado de dentro contra o lado de fora (ou em alguns casos, o lado de fora contra o lado de dentro). A idéia é mais ou menos simples: qualquer pessoa que se depare com a muralha não consegue atravessá-la e é obrigada a se conformar com sua impotência. É diante de uma muralha que o dramaturgo alemão Tankred Dörst ambienta A Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade. A peça conta a história de uma mulher chinesa cujo marido fora convocado para integrar as tropas do Imperador. Após algum longo tempo sem seu retorno, ela parte até a muralha para exigir do Imperador a «devolução» de seu marido. Logicamente não consegue falar com o imperador, mas seus interlocutores -- os guardas de plantão -- lhe propõem um trato, em nome do imperador: caso ela consiga identificar seu marido entre os soldados dentro de suas armaduras, ele estará livre para voltar para casa. Ela escolhe um soldado aleatoriamente e os dois (ela e o soldado) precisam provar que realmente se conhecem e são casados. Os soldados se divertem com a saia justa em que os dois se meteram. Com esta fábula, Dörst não se propõe a ilustrar uma historinha isolada: ele cria metáforas interessantes sobre a inconsistência das relações conjugais, sobre uma visão do papel da mulher e do homem na sociedade e sobre relações políticas de poder e suserania. Muitos lados de muitas muralhas. Em a montagem em cartaz no Ágora, a cenografia integralmente dourada se apropria de um corredor nos fundos do teatro, fazendo analogia ao formato da grande muralha de forma simples e eficiente. O figurino, sem exageros, é elaborado na medida certa para contrastar com o minimalismo do cenário. Número de frases: 15 Apesar do naturalismo da montagem não ser exatamente a linguagem favorita deste que aqui escreve, sua execução e sobretudo as atuações (com destaque para a performance excelente de Renata Zanetha) tornam o espetáculo dinâmico e não deixa a inteligência do texto se perder em firulas de produção. Agradeço a Menossão por a graça alcançada (lê-se em placa de rua e santinho de milheiro). Salve, Menossão, o Rei da Macedônia! ( ouve-se, na voz de Zeca Baleiro, gravada em CD exclusivo). I love Menossão (veste-se, em camiseta estampada). Religioso e profano, Menossão pode te curar. Menossi é fashion. É kitsch. Mas nunca brega. Menossão é um antigo imperador da Macedônia renascido na era contemporânea. Já concedeu entrevista para a Folha de S.Paulo, identificado como o autor do grupo Os Bigodistas, responsável por pintar bigodes em outdoors de bairros nobres de São Paulo. Já foi palestrante em eventos internacionais e chegou a se candidatar para a prefeitura da Bienal de Artes. Não venceu, é certo, mas há três meses conseguiu montar sua primeira exposição individual na Galeria Favo, em plena vila Madalena. Tá de bom tamanho. Alexandre Menossi, nome de batismo, é uma criação de Túlio Tavares, coordenador do coletivo Nova Pasta e protagonista de uma nova geração de artistas plásticos residentes em São Paulo. Não ouse perguntar a ele a origem do personagem. Aliás, jamais diga que Menossi é uma invenção. Túlio coleciona diversas provas de sua existência e insistirá: Menossi vive. Cá entre nós, esse misto de fantasia /realidade/loucura é um produto sério do trabalho do artista. «Se Tiazinha pode ser celebridade, por que Menossi não pode?», indaga. Certo ele. Já são quase 20 anos de criações de pistas verdadeiras na construção de um símbolo falso, porém eficiente para testar o papel da arte e da mídia numa sociedade vorazmente consumista. Em a exposição Túlio Tavares X Menossão, o artista plástico reservou uma sala da galeria para trabalhos dedicados a Menossão. Ele e um grupo de 45 artistas, músicos, DJs, jornalistas, fotógrafos e intelectuais, entre eles Nicolau Sevcenko, Ricardo Basbaum, Zeca Baleiro e o coletivo Bijari, fazem homenagem a Menossi em músicas, depoimentos, textos, vídeos, peças de roupa e outros objetos. Segundo o teórico de arte «Gavin Adams,» o projeto Menossão é uma peça performática de convencimento». A última dessas performances foi registrada em fotografia por Antonio Brasiliano, em fevereiro deste ano, na ocupação Prestes Maia, do Movimento dos Sem-Teto do Centro. Era mais um sábado de eventos culturais organizados por os moradores e por grupos de artistas e estudantes interessados em dar visibilidade para o prédio e para a luta por moradia das 468 famílias que ali vivem. Várias pessoas, entre elas um jovem negro integrante da ocupação, pintavam os paredes externas do prédio quando a tropa de choque da polícia militar chegou e resolveu levar o garoto para a delegacia. A avenida Prestes Maia foi interditada em manifestação de revolta diante da intimidação. Eis que surge, no meio da confusão, Menossi vestido de Rato. Essa e outras aparições de Menossi -- disfarçado ou não -- são colecionadas em registros históricos e conseguem alcançar um ambicioso objetivo: criar a evidência e reinventar a arte que se pretende incontestável. Há rumores de que semana que vem Menossão pode ser capa da Playboy ... Vai pagar quanto? [Texto não-autorizado por o artista. Ameaçado de extinção] Número de frases: 37 Vamos por etapas: desde o primeiro momento em que ouvi falar da Casa dos Sete Andares -- localizada na periferia de Chapecó -- uma das primeiras coisas que passaram por a minha cabeça foi que se tratava de um prédio de sete andares que era chamado de «casa» em função da forma como havia sido construído. Alternativa falsa, não é um prédio de sete andares, nem mesmo A Casa das Sete Mulheres, a Sétima Arte ou a Sétima Maravilha do Mundo ... Cheguei a pensar, ainda, que pudesse ser algo parecido com o sétimo andar e meio do filme «Quero Ser John Malkovich», isto é, sete andares por a metade. Alternativa mais ou menos certa, mas não exata. Outra imagem que passou por a minha mente: as casas mal assombradas do Scooby Doo. Essa nem na trave bateu. Então, resolvi visitar o local e a primeira coisa que lembrei enquanto observava a construção foi a frase que um amigo do Ceará, Carlos Augusto, havia pronunciado numa tarde descontraída num boteco na beira da praia: «no Brasil, a arquitetura pode ser pensada a partir de dois ícones reconhecidamente tupiniquins, Oscar Niemayer e o «puchadinho». Eu disse: pronto, sei que para os arquitetos isso pode parecer uma afronta, mas como vou falar da «Casa dos Sete Andares» (Casa Rover), essa afronta, na pior hipótese, é minimizada. Com isso quero dizer que a Casa dos Sete Andares, pra mim, naquele momento, atendia ao sonho da classe média (bem) baixa brasileira, uma festa, imagina só: sete puxadinhos. Além disso, com a perfeição com que os puxadinhos se amarravam uns aos outros, cheguei a ter dúvidas sobre qual de eles tinha sido feito primeiro. Mais do que isso, a casa parecia se encaixar perfeito nas palavras de Carlos Augusto, afinal de contas, além de ter um monte de puxadinhos, pra fazer inveja a muita gente, me permitia pensar que o acabamento, em especial, por a imponência, tinha um toque à Oscar Niemayer. Eu e minhas teorias furadas. Depois que fui conversar com o Giovani Rover, responsável por a elaboração do projeto e construção da casa, toda a minha teoria de boteco foi por água abaixo. Que puxadinho e Oscar Nyemaier que nada. Vamos lá, aos poucos vou tentar esclarecer o projeto de Giovani. A casa é composta de sete níveis -- cinco pisos definidos e outros dois intermediários (esses níveis intermediários podem ser considerados uma espécie de meio andar, aí sim parecidos, em tamanho, com os andares do filme " Quero Ser John Malkovich ") --, que têm aproximadamente 16m de altura. É claro que os níveis são menores, mas comportam muito bem uma pessoa de tamanho médio -- eu, por minha vez, quase bato com a cabeça no teto. A casa é um octaedro e foi construída a partir da idéia inicial de integrá-la ao meio ambiente, ou seja, acomodar as peças ao ambiente natural, aproveitando o relevo / desnível do terreno: o projeto foi todo pensado a partir das possibilidades que o terreno oferecia. Outra coisa interessante é que não existe na casa nenhum pau enterrado, alicerce de concreto, sapata, viga, ou qualquer coisa parecida. Aí a pergunta é inevitável: «Como é que ela permanece de pé?" Giovani define a base do projeto como raízes flutuantes. Agora sim, parece ter ficado mais complicado ainda de nos aproximarmos de ela, mas vamos em frente. Ele buscou uma alternativa para alicerçar a casa, uma alternativa que dialogasse com o próprio espaço, e esse diálogo, mudo talvez, é o que faz com que o trabalho se apresente de forma tão interessante: pedras acomodadas sobre o chão firme e paus, troncos, madeiras sobre elas equilibradas a partir de um sistema de encaixe (uma espécie de macho e fêmea). Vale lembrar ainda que para atender o projeto inicial -- a saber: passar longe de uma loja de materiais para construção e utilizar materiais que pudessem ser reaproveitados -- a casa ganha retoques ainda mais excêntricos, afinal de contas, a base do material utilizado na construção é composta de madeira (sobras de uma construção velha), troncos de rio, pedras (sem que nenhuma fosse cortada) e cordas para auxiliar na amarração e vedação da casa. Ah, as janelas são o charme do local (porque não, um dos toques Oscar Niemayer): são compostas por pára-brisas de ônibus e outros tipos de vidro, mantendo a idéia do reaproveitamento -- vidros côncavos, convexos, retos, retalhados, etc.. Um outro detalhe: toda a estrutura é composta de madeiras e vidros duplos. Como vocês puderam perceber, a casa tem um pouco disso, do fora do lugar. Em vários momentos cria o desconforto da interrogação, que não permite uma definição aventureira. Por várias vezes as pessoas precisam se abaixar para conseguir passar de um nível ao outro, ou mesmo, caminhando dentro da casa, por vários motivos a pergunta parece inevitável: por que será que isso está posicionado desta forma? Contudo, independente das interrogações, a casa apresenta suas praticidades. Entrando no primeiro nível, é possível acessar todos os demais -- ainda, neste primeiro nível há um fogão à lenha que aquece todos os ambientes, para facilitar a vida nos períodos mais frios do ano. Outra alternativa interessante é que Giovani fez um sistema de entrada direto ao quarto principal da casa, se tu não estás a fim de passar por os outros cômodos da casa, quer apenas se jogar direto na cama para descansar, vai direto ao que interessa. Não dá para esquecer que o projeto apresenta um certo luxo. Agora, me refiro a uma bela idéia para suportar os dias quentes de verão. A casa tem uma piscina natural com três metros e meio de diâmetro. Ela foi feita como se fosse uma taipa para contensão de terra e possui um sistema de limpeza por gravidade que decanta a sujeira de uma forma natural. Resumindo, dá para dizer que a casa é grande e imponente, mas pode passar despercebida. Uma combinação do rústico e do requinte sem deixar o conforto de lado. Mas vale lembrar que deu muito trabalho, afinal de contas, o projeto foi pensado para ser concluído em quatro meses, no entanto, levou dois anos e meio para ficar pronto -- e o mais interessante é que não apresentava nenhum desenho no papel, todo ele montado na cabeça deste que pode ser pensado como uma espécie de arquiteto sem o vício da formação acadêmica. Durante sua construção as pessoas da comunidade, onde a casa está inserida, num bairro de Chapecó (e mais uma meia dúzia de olho gordo), não acreditavam que a casa pudesse permanecer de pé, a ponto de Giovani ter que trocar freqüentemente de ajudante. Mas isso foi uma coisa que nunca o incomodou, e ele mesmo afirma: «a casa é boa, bonita e durável», e, ainda segundo ele, se for feita uma manutenção adequada, vai permanecer de pé por muito tempo. A casa hoje é habitada por o irmão do Giovani, Oscar, uma espécie de mecenas do projeto. Giovani não tem formação acadêmica, se considera simplesmente um adaptador dos elementos da natureza com o mundo em constante mutação. Seu mais novo projeto, em andamento, está localizado no morro da Represa, em Florianópolis. Sem prazo para ficar pronto, é na capital do estado que Giovani está colocando em prática algumas experiências anteriores e articulando várias outras. Número de frases: 58 Aguardem, de repente demora pra ficar pronto, mas a idéia promete. Blogs Nascidos no Rumos Jornalismo Cultural Comemoram Um Ano Em novembro de 2005, 14 estudantes de jornalismo de nove Estados brasileiros chegavam na reta final do Laboratório Multimídia Rumos Jornalismo Cultural, promovido por o Itaú Cultural. No decorrer daquele ano, os jovens futuros jornalistas passaram por uma experiência bem diferente da vivida nas salas de aula das universidades. Por meio de encontros virtuais, sob orientação do jornalista Israel do Vale, os estudantes debatiam livros, entrevistavam escritores, escreviam reportagens e minibiografias. Tudo pautado a um tema específico escolhido mensalmente. Depois de aprofundarem conhecimentos em assuntos como identidade cultural, incentivo à leitura, tradição e sincretismo, de entre outros temas, os rumorosos (como eram chamados), teriam como última pauta ' tecnologia e arte '. Um dos exercícios era a concepção de um espaço na internet para publicação de idéias sobre um tema específico escolhido por cada um dos participantes. Nasceram assim 14 blogs e 14 novos blogueiros focando assuntos como políticas culturais, cinema, poesia, literatura, fotografia. Hoje, um ano depois, quatro dos mais de uma dúzia de blogs resistem e festejam aniversário. Os ex-participantes do Rumos que insistiram na empreitada decidiram criativamente comemorar o feito por meio de uma espécie de rodízio onde cada blogueiro postará na página alheia. Sem pautas pré-definidas, os ditos proprietários e seus internautas fiéis terão uma surpresa ao abrir o seu blog. Em o artorpedo, o texto da vez é de Elisa Andrade Buzzo, no caliope, quem escreve é Augusto Paim, no CABRUUUM! as palavras ficam por conta de Leandro Lopes, no mascando clichê, a voz da vez é de Anderson Ribeiro. Não adianta roer as unhas de ansiedade. O melhor a fazer é galgar calmamente para os blogs nos próximos minutos. Desde já os blogueiros avisam: «não nos responsabilizamos por congestionamentos nas páginas». Número de frases: 18 Boa visita! A arte do teatro de bonecos é abrangente. Eles ganham vida por meio de mãos, varas, fios, entre outros mecanismos. O que não pode faltar é a criatividade e o encanto de divertir através desta forma teatral tão, ou mais, antiga que o próprio teatro realizado por atores humanos. Mas entre as várias formas de apresentação do teatro de bonecos, foi a manipulação através de fios, conhecida como marionetes, a escolhida por três jovens da cidade de Guarujá (SP): o grupo «Marionetes Guarujá» formado por Tarcísio, Ulisses e Thiago. Os dois primeiros, filhos de Tarcísio Borges, ventríloquo e mágico. Foi ele, o primeiro incentivador da arte desenvolvida por os filhos. Tarcísio, o pai, conheceu nas ruas o trabalho com marionetes de um hippye, Luiz Pina. Mas os bonecos apresentados por ele não eram muito bonitos. Artesão talentoso na produção dos ' pequenos ` atores e, já apaixonado por a arte das marionetes, Tarcísio propôs uma troca a Pina: ele o ensinava a fazer bonecos mais trabalhados e Pina ensinava aos filhos de Tarcísio a arte de ' dar vida ' às marionetes. Assim cresceu a paixão de Ulisses e Tarcísio por a arte que hoje desenvolvem com tanto talento, encantando platéias de diversos lugares do país. Só que para ganharem destaque, resolveram criar um diferencial. Em o lugar de trabalhar utilizando os bonecos para contar ou encenar estórias, preferiram utilizar o palco criado por eles, com imensa gama de efeitos luminosos, para dá lugar a personagens do cotidiano dos brasileiros. Personalidades da música principalmente. Em o show que fizeram no 3º Salão do Livro do Tocantins, no final do mês de maio, foi Roberto Carlos e sua orquestra os primeiros a entrar. Os bonecos dublaram a música e o som da orquestra do rei, com uma variedade incrível de detalhes, fazendo a platéia cantar junto com o pequeno Roberto. Em o palco ainda desfilaram personagens como Kelly Key, Ivete Sangalo, Latino, Xuxa ... Também personagens imaginários, os destaques maiores do show, como os cachorros The dog's e a caveirinha Alcides Mancha, que fez o público cair na risada e entrar na magia proposta por o trio. O personagem já ganhou prêmios, como o quadro «se vira nos 30» do programa do Faustão, na Globo. A pequena Isabella Bianchi, 10 anos, saiu do show feliz da vida. «Amei a apresentação de marionetes e o melhor, na minha opinião, foram as apresentações da Kelly Key e do esqueleto» disse, ressaltando a admiração, em razão dos bonecos parecerem tanto com os artistas. Em a apresentação também não faltam as mágicas, antes realizadas por o pai. O boneco inspirado no mágico «Mister M» faz um pombo e um coelho aparecerem no palco em meio a truques de magia. Ao todo, são 45 minutos de muita música, efeitos sonoros, luz e alegria. Paixão O prazer do contato visual com a platéia, os artistas preferem deixar para os bonecos. Escondidos atrás do palco, eles não gostam de aparecer, dando ainda mais magia ao show. A os três, ficam os sons das palmas e dos risos ... os sons de aprovação do público que, às vezes emociona tanto que obriga um de eles a dar uma espiadinha. Esta é a recompensa que recebem por um trabalho por o qual se dizem apaixonados. Para Ulisses, os bonecos são como filhos. E como um pai, ele se emociona quando a platéia recebe tão bem o trabalho do filho. «O meu primeiro contato com as marionetes foi aos 13 anos e, nunca mais parei», afirma. Desde então sua vida está interligada à arte das marionetes. Os bonecos o ajudaram a superar problemas e fases difíceis na adolescência e, o tema é sempre tratado por ele com um amor intenso por seu trabalho, que já se tornou parte de sua vida. Tão parte, que ele e o irmão deixaram a formação em manutenção de aeronaves de lado e, têm se dedicado apenas ao trabalho com os bonecos. Trabalho que consome, atualmente, quase todos os dias da semana, «mal sobra tempo para a gente, mas tudo bem», explica Ulisses. De janeiro a junho deste ano, eles já realizaram mais de 150 shows, uma média de quase um por dia. O tempo que sobra eles utilizam para ensaio e para a construção de novos bonecos. Mas nem o cansaço ou a vida sem paradas desanimam o trio. «Mesmo se ganhássemos na loteria, não largaríamos isso por nada» enfatizam e, assim continuam por aí percorrendo estradas com a missão de levar sorrisos a crianças e adultos ... O teatro de bonecos Segundo informações do Cepetin -- Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil, ao que tudo indica, o teatro de bonecos, ou títeres, existiu em quase todas as civilizações e em quase todas as épocas. Em a Europa, por exemplo, há registros escritos desta arte que datam do século V a.C. Em outras civilizações eles são menos antigos, mas na China, na Índia, em Java e em muitas outras partes do Oriente o teatro de bonecos tem uma tradição tão antiga que é impossível determinar quando começou. Há até quem afirme que o teatro de bonecos é a forma mais antiga de teatro e, que de ele é que surgiu a arte dramática. Uma afirmativa difícil de comprovar e, contestada por muitos, mas outras teorias também apontam um desenvolvimento paralelo, com uma influência direta ou indireta entre ambos. A certeza é apenas que ambos tiveram origem inspiradas na magia, nos rituais de fertilidade, no instinto humano de representar aquilo que se deseja que aconteça na realidade. No entanto, é preciso apontar que o teatro de bonecos, apesar de ter a mesma origem do teatro humano, tem características especiais, que garantiram a sua sobrevivência ao longo de tantos séculos. O fascínio desta forma teatral é mais profunda e cobra mais da platéia. O espectador não pode ser mero espectador. Tem de usar a imaginação para projetar no boneco a emoção do que ele representa. Um fascínio tão profundo que, em algumas formas de teatro de bonecos, como o mamulengo, onde os bonecos são feitos de forma bem rudimentar, às vezes nem boca têm, as pessoas enxergam mudanças de expressões, formas, sorrisos ... Interagem e se comunicam com seres que ganham vida através da emoção projetada por a platéia. Site Mais informações sobre o trabalho do marionetes Guarujá podem ser acessadas no endereço www.marionetesguaruja.com.br. Alguns vídeos também estão disponíveis no you tube no link www.youtube.com/watch? v = nVjKSgiU6 I e www.youtube.com/watch? Número de frases: 60 v = TF8Ls IO3rc, entre outros Parábola da Prepotência (ou um desabafo necessário) Joana Eleutério E a professora, paramentando-se com sua vestimenta habitual, a sua costumeira arrogância, subiu à montanha de sua prepotência e decretou: Bem-aventurados os alunos tontos que concordam com tudo. E eles serão aprovados. Bem-aventurados os alunos covardes e hipócritas que dizem, fazem e até pensam como eu ordeno porque permitirão que eu faça o mesmo. E eles serão generosamente saciados. Bem-aventurados os alunos cabisbaixos que nunca levantarão os olhos e eu poderei fitá-los na sua insignificância. E eles se tornarão invisíveis. Bem-aventurados os alunos humildes, mesmo que falsos. Cordeiros que ficarão cegos com o meu brilho. E eles serão consolados. Bem-aventurados os alunos mansos. E eles herdarão minha cátedra. Exultai-vos e alegrai-vos, vocês serão devidamente recompensados. E eles serão os futuros professores da universidade. Número de frases: 16 É um projeto da Fundação Cultural do Tocantins, executado por a gerência de Literatura, que promete render muitos bons frutos. Essa é a expectativa não somente do órgão como principalmente dos poetas tocantinense participantes. O Jardim da Poesia conta também com a participação de artistas plásticos que ilustram os poemas. A exposição foi aberta à população na quinta-feira, 21 de junho, às 16 horas, na primeira sede do governo estadual em Palmas, o Palacinho, hoje Museu Histórico do Tocantins, em evento que mobilizou toda a classe artística do estado e alunos do Colégio Madre Clélia Merloni. As poesias espalham-se por os jardins do prédio, possibilitando contato com o visitante logo à chegada. Segundo o gerente de Literatura da Fundação Cultural, o também poeta Osmar Casagrande, o objetivo do «Jardim da Poesia» é aproximar a literatura e os autores da população. É uma nova vitrine». E para não perder tempo na divulgação dos artistas tocantinenses, ele adianta que já nesta primeira edição, que terá a duração de um mês, também os artistas plásticos estão presentes ilustrando os poemas. «Para o futuro, queremos colocar quinzenalmente a possibilidade de um escritor ocupar o Jardim da Poesia para falar de suas obras e personagens», informa. Fora da Capital Embora a inauguração do projeto Jardim da Poesia tenha ocorrido na capital, não ficará restrito a Palmas. Ele será transformado numa exposição itinerante, percorrendo tantos municípios quantos solicitem a sua presença. Devem, portanto, as pessoas ligadas às artes e os próprios artistas solicitarem à Fundação a sua presença. Um cronograma de visita será então organizado de acordo com a precedência dos pedidos para dinamização da exposição. Para a primeira edição foram selecionados 13 poetas e 12 artistas plásticos. Os poetas são de Palmas, Araguaína, Gurupi e Porto Nacional. Os artistas ilustradores são todos da capital. Participantes Poetas Angélica Mendonça -- Palmas Célio Pedreira -- Porto Nacional Edson Gallo -- Araguaína Eduardo Silva de Almeida -- Palmas Fidêncio Bogo -- Palmas Gil Correia -- Gurupi Isabel Dias Neves -- Palmas jjLeandro -- Araguaína José Gomes Sobrinho -- Palmas Kaio Fábio Azevedo Diniz -- Araguaína Osmar Casagrande -- Palmas Ronaldo Teixeira -- Gurupi Zacaria Martins -- Gurupi Ilustradores (Todos de Palmas) Antonio Netto Cláudia Mantovani Costandrade Gabriel Gero Geovar Lopes Luciane de Bortoli Marina Boaventura Marta Magalhães Número de frases: 37 Pierre de Freitas Ronimar Não vi no UOL, nem no Terra, nem na Época, mas hoje é o aniversário de 70 anos da morte de Virgulino Ferreira, o Lampião. Figura controversa e mítica, Lampião mistura todas as qualidades e defeitos do bandido heróico, do considerado Robin Hood brasileiro por a revista Time de 1931, com uma pitada de lenda de faroeste americano. Muitos o acham um herói, outros um socialista, mas parece que a realidade não é bem assim. Lampião era bandido mesmo. Ganhava dinheiro, armas e abrigo dos «coronéis», justamente para realizar serviços contra os inimigos políticos destes. E, nessas andanças, massacrava o povão. Matava e saqueava a plebe que passou a lhe louvar. Apesar de oficialmente afirmar que entrou para o cangaço para vingar a morte do pai, Lampião e seus irmãos já praticavam pequenos crimes antes do ocorrido. Integrou o bando de Sebastião Pereira (o Sinhô) e em pouco tempo já liderava a gangue. Lampião era vaidoso e orgulhoso do que fazia. Usava perfume francês, tinha cartão de visita (com sua foto, inclusive) e numa entrevista dada em Juazeiro do Norte mostrou sua verve mais, digamos, hipócrita: -- Não pretende abandonar a profissão? (A esta pergunta Lampião respondeu com outra) -- Se o senhor estiver num negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este «negócio», ainda não pensei em abandoná-lo. -- Em todo o caso, espera passar a vida toda neste «negócio»? -- Não sei ... talvez ... preciso porém «trabalhar» ainda uns três anos. Tenho alguns «amigos» que quero visitá-los, o que ainda não fiz, esperando uma oportunidade. -- Não se comove a extorquir dinheiro e a «variar» propriedades alheias? -- Oh! mas eu nunca fiz isto. Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir «amigavelmente» a alguns camaradas. (Fonte: site de Vera Fereira, neta de Lampião: http://iaracaju.infonet.com.br/ LAMPIAO / index.htm) Segundo site Brasil, Mitos e Lendas de Rosane Volpato (http://www.rosanevolpatto.trd.br/ LENDALAMPIAO.html), o líder e seu bando vagaram por 7 estados nordestinos. Lampião era cruel o bastante para, pessoalmente, arrancar olhos ou cortar línguas e orelhas. E mais, se encontrasse moçoilas com cabelos ou vestidos muito curtos, mandava que lhe marcassem o rosto a ferro quente. Em Bonito de Santa Fé, em 1923, ele deu início ao estupro coletivo da mulher do delegado. Vinte e cinco homens participaram da violação. O Nordeste brasileiro daquela época não era muito diferente do que é hoje, com famílias mandando em regiões inteiras, guerras territoriais, assassinos de aluguel sendo contratados, desprezo do governo federal (Getúlio só se mexeu para acabar com o cangaço depois de Muita pressão dos políticos nordestinos) e o povo, além de viver numa carestia tremenda, era o recheio de um sanduíche indigesto: de um lado os apertavam a polícia (os volantes) e do outro os bandidos do cangaço. Se não apanhavam de um, eram espancados por o outro. Não quero entrar em julgamento de valor. Acho que a figura de Lampião é importantíssima para nossa história. Ele é uma espécie de Jesse James ou Billy the Kid, versão tupiniquim. Isso porque os outros dois também eram assassinos cruéis, procurados e também considerados anti-establishment. Billy the Kid, nas palavras de seu amigo e assassino, Pat Garret, era um rapaz que «comia e sorria, transava e sorria, matava e sorria». E, mesmo assim, é louvado até hoje. É preciso porém que seja feita uma análise menos romanceada do importante nordestino. O fato de estar aliado aos coronéis já depõe contra ele. O próprio Padim Cícero era, e isso é sabido, um político matreiro e carismático. E nem por isso deixou de virar lenda, beatificado e tudo mais. Voltando à vaca fria, há 70 anos, numa emboscada em Angico (em Sergipe), graças a uma delação, Lampião, Maria Bonita e mais 11 cangaceiros foram massacrados por as tropas do «macacos» do Tenente João Bezerra. O líder dos bandidos foi o primeiro a tombar. Suas cabeças foram cortadas e mostradas nas escadarias da prefeitura da cidade de Piranhas em Alagoas, sendo sepultadas somente em 1969. Uma versão do ocorrido explora que, na realidade, o delator os envenenou primeiro (urubus mortos em volta dos corpos corroborariam a hipótese). De aí a facilidade da captura. Nunca ninguém vai saber da verdade. Acontece que, se a lenda é maior que a realidade, publica-se a lenda. E se é assim, longa vida a Lampião, o rei do cangaço. Longa vida a Maria Bonita e a Corisco. Número de frases: 53 Longa vida ao legítimo faroeste brasileiro. Antonio Carlos Martins Vaz (Toninho Vaz) nasceu a 2 de outubro de 1947, em Curitiba. É jornalista e roteirista de televisão. Começou escrevendo no Diário do Paraná, em 1969. Foi editor e colaborador de diversos jornais alternativos nos anos 70 e 80 -- Raposa, Pólo Cultural, Pasquim, Nicolau. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1974. Trabalhou como editor de texto na Rede Globo durante desesseis anos. De 1995 a 1998 viveu em Nova York. É autor da biografia de Paulo Leminski: O Bandido que sabia Latim e de Torquato Neto: Para mim Chega! Toninho Vaz -- Eu passei duas vezes por o autor na praça, a primeira de elas, em 2001 com o lançamento do meu livro: Paulo Leminsky, O bandido que sabia Latim, que é da Editora Record. Foi um lançamento muito legal porque o encontro foi uma iniciativa do Edson e eu me lembro de ter tido bastante satisfação de participar disso porque nesse dia que eu fui pra fazer uma tarde de autógrafos e uma leitura, recitar os poemas do Leminsky, eu tive a oportunidade de conhecer pelo menos duas pessoas que me trouxeram boa, um bom contato que é o José Miguel Wisnik, e um poeta paraense que é o Fred Maia. Em o meu recital de poesia, a presença da Alice Ruiz foi o maior presente, ela estava vindo morar em são Paulo e apareceu lá para ler uns poemas do Paulo e eu me lembro de ter tido uma tarde absolutamente agradável, com bastante público inclusive uma platéia ouvindo nosso recital e tinha tudo a ver com o meu tema, com o meu personagem que era o Leminsky, que é mesmo um poeta que tem tudo a ver com praça pública, com poesia popular, tudo a ver com poesia gratuita, tudo a ver com se derramar em poesias por as ruas, o Paulo era um poeta talhado para ser divulgado numa praça. E agora, em 2006 eu volto à praça com o Torquato Neto, que mantem as mesmas características do Leminsky enquanto poeta popular, de rua, de proximidade com o povo, ambos com uma característica comum muito forte na poesia que é a autenticidade. Me surpreendi com a receptividade do público à poesia. PK -- Levando em conta a trajetória, o posicionamento do Leminsky e do Toquato e o interesse que eles demonstravem por o contato com o público, você na qualidade de biógrafo de ambos, talvez seja um dos autores mais coerentes com a proposta de apropriação do espaço público através da arte, colocada em curso através do projeto O Autor na Praça. Toninho Vaz -- É, você tem razão. O poeta Torquato e o poeta Leminsky são da larva popular, eles são poetas que tem contato direto com o povo na praça. Claro, voce pode considerar, democraticamente qualquer presença de autor na praça, mas voce há de convir que existem uns que são mais talhados a estar na praça do que outros. Aqueles poetas de gabinete virão porque são caras na verdade talhados na burocracia da cultura, coisas que os meus personagens nunca fizeram, entendeu? Minha participação no Autor na Praça é revigorante.. Eu fiz um esforço de logística pra descer em São Paulo e estar na praça porque é importante estar lá. Tem a ver com a identidade do meu trabalho. Não me importa que eu vendi dois livros. Isso não faz a menor diferença pra mim. Em a verdade eu vendi dois livros pra duas pessoas absolutamente especiais. Uma é a Léo. Olha como as coisas são: eu tava lá na praça e sei lá de onde ela apareceu, o irmão de ela é personagem do meu primeiro livro, era amigo do Leminsky, então a Léo me aparece depois de mais de 20 anos e o outro sei lá de onde ficou sabendo que eu ia estar lá e apareceu de são Jose dos Campos que é onde ele mora, pegou o ônibus e desceu. Sempre vale a pena, principalmente se a alma não é pequena. -- O Autor na Praça por propor o encontro entre artistas e público estimula a reflexão sobre as possibilidades de interação entre escritor-obra-público. Antônio Cândido possui uma obra interessante sobre essas «modalidades de aproximação». Fale sobre sua relação com o teu público-leitor. Toninho Vaz -- Pra mim acontecem as duas maneiras de eu me relacionar com o meu leitor. Existem pessoas que chegam a mim através do Leminsky ou através do Torquato e as outras são pessoas que chegam ao Torquato e ao Leminsky através de mim. Eu fui fazer uma palestra numa faculdade em floripa e mais de sessenta pessoas. Universitários e professores de literatura e outras pessoas que chegaram e depois compraram o livro porque ouviram falar do Paulo Leminsky e acabou a palestra e foram lá e compraram o livro e ai foram conhecer o Leminsky, foi o caminho inverso. O que mais acontece é o contrário. O Leminsky ou o Torquato fazem as pessoas chegarem em mim. Mas de qualquer maneira já somos insolúveis nos três, eu me sinto agora eternamente ligado a arte e a historia de eles e eles a minha. Então na verdade eu queria cumplicidade era com malucos assim honestos, íntegros e poetas de verve autentica, corajosos também, muito corajosos, levaram tudo ao extremo e eu me envolvi com esses caras. Me orgulha deixar a minha marca no jornalismo investigativo literário passando por esses personagens. -- Por que insistir no caminho de escritor num país onde a literatura que te interessa não é viável? Toninho Vaz -- Eu não sei fazer outra coisa, só isso. Se eu soubesse eu faria outra coisa. Eu não sei fazer mais nada, eu tenho uma péssima habilidade manual, eu não sei desenhar, eu não ser fazer nada. Eu só sei fazer isso que eu faço porra. Não sei fazer outra coisa. Eu trabalhei na TV Globo, entrei era governo militar 1981, fiquei 16 anos lá dentro e a única coisa que eu achava lamentável é que eu não podia alterar lá dentro. Eu como não tinha cargo de chefia eu nunca fui censurado. Agora me acharam no Orkut, esse misto de milagre da comunicação e podridão exposta em pornôs-seções. O cara me achou e me convidaram, através do Leminsky. Continuam não me dando dinheiro esses dois tipos ai, cê ta entendendo? A minha escolha foi ideológica. Faca de dois gumes, adoro o Torquato e o Leminsky a ponto de dedicar anos da minha vida pra contar a história de eles, mas em contra-partida eles me deixaram duro, sem grana nenhuma. Porque é sucesso de câmera, só pra uma elite cara! Eu posso garantir que nesse exato momento que eu estou falando com voce minha conta ta negativa. Eu posso garantir pra você: não dá dinheiro, só dá prestigio. -- Dentro desse cenário o escritor ou o jornalista engajado em produções que se destacam por a relevância cultural e social, desempenhariam atualmente um papel que também contempla a militância como alternativa à letargia política? Toninho Vaz -- Eu não sou dos mais militantes, mas também não sou absolutamente inerte, parado, letárgico. Eu me mexo, dentro de um espaço que eu acho razoável, não deito cárcere, não vou para ambientes que cultivam uma sofisticação da poesia. Eu não gosto disso, eu prefiro as coisas populares, as coisas mais próximas da praça, sempre fui assim, até porque minhas escolhas se encaminham pra isso, não faria sentido eu escolher, em algum momento eu ainda faço uma exceção ao mundo acadêmico das universidades, eu sinto que há muito interesse. Eu vou muito falar de poetas e de poemas porque meninos têm curiosidade de saber quem são essas pessoas. É difícil saber quem são essas pessoas procurando livro na livraria. Se você sair daqui agora e for procurar o Paulo Leminsky, se não recorrer a uma livraria bastante identificada com essa literatura, corre o risco de chegar lá e não encontrar nada do Leminsky. A culpa não é a obra do Leminky Que está pulverizada em duas ou três editoras que não se entendem. O Torquato então, o caso de ele é mais singular ainda, ele só deixou textos soltos. Em a verdade o Torquato não escreveu nenhum livro em vida, as pessoas que depois da morte de ele editaram um livro chamado Os Últimos dias de Paupéria. O Leminsky e o Torquato que estavam aqui para escandalizar. PK -- O que é escandalizar hoje? Como que se «avalia» a autenticidade de um poeta ou de um autor que exerce sua habilidade de provocar num contexto onde tudo já foi dito? Toninho Vaz -- Esses poetas que nós estamos falando são típicos da geração de 60. Eles estão em extinção. O mundo dos anos 60 já se extinguiu, então toda a realidade daquele procedimento inaugural com relação a comunicações, a televisão se expandindo, chegando, o mundo ficando pequeno. Eu lembro desse bando que trouxe Apocalise Now que mostrava cenas de guerra real e tal, a própria cobertura da guerra, passamos a ver por a televisão. O mundo mudou, o mundo mudou dos anos 60 pra cá, os meios de comunicação de massa transformaram o mundo numa aldeia. PK -- Eu sinto a tua geração meio rebordosa da década de 60. É como se houvesse um discurso imanente dizendo: «olha gente, nós já passamos por isso, nós já fizemos muito barulho tentando romper com o estabelecido. Vocês que estão ai, se virem, façam alguma coisa porque nós já militamos, já fomos presos e torturados». É um delírio ou faz algum sentido? Toninho Vaz -- É sim, tem isso também. Acabou o romantismo ali, né? Esses dois dos quais nós estamos falando, do Torquato e do Leminsky, eles ainda eram românticos. Eles acreditavam na mudança, acreditavam que o mundo poderia tomar nossa feição, inclusive dar os destinos, que a coisa poderia ser de Beatles para a frente e coisa e tal, mas ai tem o degringolar do próprio sistema. O mundo virou uma pensão, um curtiço, né? O mundo é um curtiço. PK -- Agora então teríamos uma juventude apática, pouco romântica e poeticamente inviável. Provocações que não soem aquela ladainha de antigamente que já não tem mais sentido, Difícil imaginar o que é provocação eficiente hoje. É mostrar seios, bundas? Não é. É pegar um megafone e gritar o quê em praça publica? Por aí é muito político e panfletário, certo? Toninho Vaz -- é muito político e panfletário mas se colocar arte nisso aí, poesia nisso aí. PK -- De aí ressuscitamos as intervenções urbanas. Toninho Vaz -- É, exato. PK -- Só que daí a ressoncia dessas intervenções é subjetiva, não tem como medir o impacto subjetivo com estatísticas objetivas. Nunca se sabe ao certo o que uma intervenção urbana vai disparar no cotidiano daquela pessoa que estava andando na rua. Fale sobre isso. Toninho Vaz -- Olha até no formato mesmo dos anos 60, os happenings, que era como se chamava intervenção urbana, já se esgotou. Eu acho que esse formato, sabe ... quando eu começo a ver onde poderia ter um negocio inaugural, uma autenticidade, uma originalidade -- tanto a intervenção urbana quanto qualquer outro espaço. eu esbarro na única coisa que eu não conheço e que talvez aponte para o futuro seja a Internet. Que ai já é um outro mundo E eu não sei o que ainda pode acontecer mas tenho visto coisas muito interessantes. Talvez o caminho seja aliar intervenções urbanas a veículos editoriais clássicos e às novas viagens nessa antropofagia atual. Eu tô olhando a Internet, eu costumo navegar muito, sou um navegador pesquisador. Tenho um blog Fiapo de Manga, entra lá que você vai ver que ali eu to procurando,. ali voce vai saber onde eu cai agora, em que patamar, em que laje eu me encontro atualmente. Número de frases: 110 http://toninhovaz.blogspot.com Caras novas nos palcos da cidade, novos sons, quem é esse povo? Está nascendo uma nova cena de rock paraibana? Eles começam a dar as caras nos palcos da cidade e já se formam comentários de que está surgindo uma nova cena de bandas paraibanas. Por enquanto é uma invasão tímida, mas as conseqüências já estão aparecendo. Por exemplo, The Silvias, banda que tem um som com influências de Pink Floyd da fase Syd Barret, Tortoise, Mogwai, entre outros, foi destaque na segunda edição da revista Coquetel Molotov, de Pernambuco, e já foi destaque no site Senhor F, de Brasília. O Star 61 já levou o seu som com influências glam para São Paulo. O Scary Monsters fez um ótimo show abrindo para o punk brega Wander Wildner e já estão divulgando sua primeira demo. Mas ... quem são eles e o que pensam? Alguns têm nomes e cantam em inglês, caso do Scary Monster, Flying Back e Motherhell, sob influências externas de bandas do cenário independente mundial. Outros transitam ainda entre a música brasileira e o rock, fazendo fusões com efeitos e nítidas influências dos loops eletrônicos, caso do Azeite Sinhora Vó, Jackson Envenenado e Cabeça Chata. Ainda tem o Down Jones e o Dalla no Caos, com nítidas influências da geração grunge de Seattle. Em comum, está a falta de compromisso com qualquer linha, tendência ou vertente do rock em voga hoje em dia. «Sempre temos problemas em definir o som da banda, porque as pessoas tentam entender a nossa música a partir das nossas referências. É complicado!», explica Thiago, guitarrista do Azeite Sinhora Vó. Conectados «Nossa principal fonte de informação hoje é a internet», atesta outro Thiago, desta vez, o Sombra, que toca violão e baixo no The Silvias, sem dúvida, um fator preponderante para quem busca por informações cada vez mais pessoais, que acaba por influenciar na hora de tocar e criar os sons. A grande maioria passa horas na rede, tem fotolog, estão no Orkut e utilizam essas ferramentas para divulgação de shows, demos e festas onde estarão tocando. Gravações caseiras Outra ferramenta muito utilizada por essa nova geração são os programas de gravação, que vêm facilitando os processos caseiros de gravação. Bruno Torres, guitarrista e cérebro do Down Jones, gravou todos os instrumentos da primeira demo da sua banda e já está preparando a segunda dentro do mesmo processo. O «Em o me abandones», formado por um membro remanescente do The Sylvia ´ s e uma fanzineira é o primeiro representante local a se asumir como uma banda eletro. eles nunca subiram no palco, mas gravam em casa e divulgam seus sons via internet. Falta união «A estrutura tem melhorado, mas ainda falta união para que possamos produzir e promover coisas juntos», critica Igor, vocalista do» Scary Monsters. «Sem dúvida precisamos nos unir, mas tem melhorado. Já foi bem pior!», afirma Thiago. Realmente, para quem acompanha o que está sendo produzido e, mais do que tudo, sendo visto por aqui, tem se notado que nunca se viu tantas caras novas de uma só vez nos palcos e na mídia local. «Estava na hora de reciclar, é inevitável que venham pessoas novas, trazendo novos sons», reage Thiago Sombra. Ele se refere a uma geração anterior de bandas como Escurinho, Cabruêra e Chico Corrêa, que já circulam por o país afora mostrando o som com fortes influências regionais. Ele reconhece que aquela geração de bandas já estava pronta para entrar no mercado e seguir seu caminho, abrindo espaço para as novas bandas começarem a mostrar esse «novo» som produzido por aqui. Quanto ao mercado, ele diz, " não podemos dizer que não temos interesse em mostrar o som para um número maior de pessoas, mas esse não é exatamente o foco. Começamos com um laboratório de sons e sabemos que a internet ajuda, como uma ferramenta menos burocrática é uma porta aberta para o mundo. Mas esse novo mercado ainda está se construindo e é interessante fazer parte desse processo», conclui Thiago. «Vejo um cenario em crescimento, é isso que se pode ver na atual cena rock paraibano! Bandas fazendo som de qualidade, recheado de idéias novas e consquitando espaço por onde passa e cada dia mais preocupadas em gravar bons materiais e agradando a quem vai aos shows», conclui Diego second do Flying Back. Mercado Apesar de ter o Zeferina Bomba, banda paraibana comandada por Ilson Barros, assinado recentemente com a gravadora Trama e servir de estímulo e exemplo para cena local, bem como a banda Flávio Cavalcanti que passou por as gravadoras Virgin e Abril Music como exemplo de insersão no mercado fonográfico, a diversidade e o descaso com o que podemos chamar de mercado também é uma marca dessa nova safra. Talvez seja resquício de gerações passadas que viveram tempos áureos nas rádios a custa das multinacionais e que, nem bem se estruturavam, já saiam em busca de gravadoras e selos. Mas competência e maturidade essa nova safra têm mostrado de sobra, «o próximo passo é o mundo!», brinca Thiago Sombra. Vai vendo. The Silvias 20 Horas Domingo -- é a mais diferente das novas bandas, fugindo do padrão e colocando violoncelo, DJ, percussões árabes e fazendo shows intimistas. Star 61 -- Destaque para o vocalista performático Flaviano André, que monta um figurino glitter para cada show. Zeferina Bomba -- Quase a tia velha dessa cena que hoje mora em São Paulo e assinou recentemente com a Trama. Faz um mix de regional, hard core e noise. Azeite Sinhora Vó -- Mistura fortes influências rock, com guitarras limpas ritmos pulsantes e vocal suave feminino. Scary Monster -- Destaque para performance energética da banda. Rock retrô. Flying Back -- A harmonia vocal sobre uma base barulhenta e vigorosa é o forte da banda. Motherhell -- Punk rock 77 cantado em inglês. Em o me abandones -- Primeira banda eletro da cena. Down Jones -- Forte influência grunge Seattle 90. Cabeça Chata e Jackson Envenenado -- Persistem na mistura rock e regional, mas com uma roupagem cheia de efeitos. Número de frases: 57 Gauche -- Outra banda de um membro egresso do The Silvia ´ s que está lançando um EP por o selo Solaris de Natal. Poucas vezes pude me defrontar com uma obra de arte original, já consolidada por o tempo como patrimônio da humanidade ou como valor artístico absoluto de uma concepção única, inaugural. Rodin, van Gogh, da Vinci, Michelangelo, uma partitura manuscrita de Schubert, a primeira edição d' A divina comédia são provas cabais do gênio artístico que habita o gênio humano e nos são ofertadas por um «acidente» de percurso no momento da criação de muitos artistas. Em outros textos: «Pós-moderno e capitalismo global «e» O olhar contemporâneo», que passaram a integrar um ensaio sobre as» Tendências da poesia contemporânea: 60, discuto a refuncionalidade da obra de arte e sua relação com a sociedade de consumo. Essa problematização " teve dois momentos distintos: logo após a Revolução Industrial, quando a produção em série alterou os valores dos objetos produzidos para o consumo da matéria e para o deleite do espírito; e depois, nos pós-guerras do Século 20, entre 1918 e 1939 e a partir de 1945. Estava em xeque não só o conceito de arte, mas, sobretudo o conceito de civilização." Portanto, a função mágica da arte cedeu lugar ao consumo, aos poucos massificado por a indústria cultural. Se isso é, para muitos, um problema de perda de valor do objeto artístico e de uma certa banalização estética ou degradação da arte para efeito mercadológico, para outros, que lucram com essa transformação feita por o mundo globalizado, a arte não passa de um objeto puramente comercial. A quem caberá pois reinserir ou restaurar à arte o seu estatuto original, a sua aura? Essa pergunta poderá não interessar à grande massa populacional que «não se interessa» por arte, porque o pão precede o deleite. Mas aos artistas, que têm na arte o pão espiritual e a sobrevivência, como poderão restituir o valor de culto e propagar a arte para além dos museus, das galerias, das bibliotecas, dos teatros, etc.? Essa é uma questão filosófica ou puramente mercadológica? Deixo a resposta para cada um exercitar no seu prejuízo ou no seu lucro artístico. Todo escritor gostaria de ser bestseller sem ser taxado de água com açúcar. Como cada vez mais gente lê menos e cada vez mais poucos autores freqüentam as carteiras escolares ou a lista dos mais vendidos, precisamos alterar essa lógica, embora passemos a ter um problema educacional, que já é um problema de governo, mas esse assunto já tratei em outros artigos sobre cultura e cidadania e não quero estupidificar este texto falando em (des) governos. É preciso ver dragões onde há moinhos. Recentemente, conheci algumas publicações bem trabalhadas de dois contos do escritor Leontino Filho, e de outros escritores, em Porta fólios editados por o engenhoso Edson Guedes de Morais, da Editora Guararapes -- EGM, de Pernambuco. Para meu espanto, de êxtase e de admiração, foram feitos apenas cinco exemplares do referido Porta fólio para cada autor. Se a obra não irá transpor fronteiras, pelo menos será lida por poucos, mas fiéis leitores de boa literatura. Novamente o problema do consumo e do deleite se coloca. O papel do editor Edson Guedes de Morais, neste caso, é de revelar, através da publicação, a arte que era até então cria e cúmplice solitária do artista e proporcionar ao autor o status de deixar de ser anônimo para ser édito, mesmo que para um reduzidíssimo número de leitores. Pedro Lyra, em Utiludismo -- a socialidade da arte, coloca a relação entre arte-sociedade, discutindo o processo de criação e recepção do objeto artístico num mundo automatizado. As questões referentes à autenticidade, à destruição da aura, ao valor de culto e ao valor de exposição foram pensados numa perspectiva sociológica. Em a análise da arte rupestre, Walter Benjamin observa que, à medida que as obras de arte se emancipam do seu uso ritual, aumentam as ocasiões para que sejam expostas. Por exemplo: O alce copiado nas cavernas era usado por os nossos ancestrais como um instrumento de magia. Em o texto «Experiência e Pobreza», Benjamin faz uma série de perguntas que, se problematizaram o início do século 20, hoje, com a velocidade medida em gigahertz, são muito mais preocupantes. A experiência, abandonada por o mundo moderno era comunicada aos jovens De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar Histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência? ( BENJAMIN, 1988: 114). Se a experiência é um repositório humano da cultura, guardada por a tradição da narrativa oral e escrita popular, que diria Benjamin neste início de milênio, onde a palavra chave é a globalização? Tomando estas questões de Benjamin como ponto de partida para uma reflexão de natureza filosófica, podemos confrontá-las com a visão por dentro do poeta Francisco Carvalho que assume o ponto de vista do produtor de arte. De uma certa forma os dois modos de ver o fenômeno em análise são convergentes. Para o poeta, a modernidade institui um cânone voltado para a tradição, que será esquecida, e outro cânone para o mercado de consumo, tão volúvel quanto a nuvem que desfez o formato do dragão no minuto que passou. O mercado dita as regras de toda produção artística e da moda. Quem dá as regras é este monstrengo devorador de economias chamado capital especulativo internacional. A produção estética integrou-se à produção de mercadorias. Desta forma, a arte passa a integrar um sistema cultural onde o mercado produz um tipo de (ou será repositório?) que são um só: o que vai definir a cor da lua ao longo do Século 21. Felizmente, há quem se dedique ao feitio artesanal de uma obra de arte e a entregue ao público para o ritual em casas e apartamentos, depois na escola e no clube, quem sabe, na esquina e na tv. O certo é que as formas usadas por Edson Guedes de Morais para editar escritores por o Brasil, sem expensas para o editado, são únicas e até podem ser confundidas com o livro, colocadas lado a lado dos livros tradicionais na estante, mas como porta fólio, livro sanfona, caixas de madeira ou papelão, Edson transforma a forma tradicional em objeto de arte em si, envolvendo o texto para produzir uma obra final única, próxima do gênio, que, como querem seus artífices e cultores, resistirá ao tempo, graças ao Edson e à uma teimosia de escrever e tentar superar as barreiras da indigência intelectual a que somos cometidos, tornando-nos elite da escória e escória da elite, porque afinal este país ainda é adolescente e os dirigentes anacrônicos demais para tanto viço. Referências Bibliográficas BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. 4ª ed. Trad.. Sérgio Paulo Rouanet. Paulo: Brasiliense, 1988. Carvalho, Francisco. Exercício de literatura. Fortaleza: EDUFC, 1990. LYRA, Pedro. Utiludismo: a socialidade da arte. Fortaleza: EDUFC; Rio de Janeiro: Tempo Pontes, Carlos Gildemar. Literatura (quase sempre) marginal. Fortaleza: Acauã, 2002. Carlos Gildemar Pontes Poeta, ficcionista e ensaísta. É editor da Revista Acauã e professor da UFCG. Publicou: O olhar de Narciso, 1995; A miragem do espelho, 1998; Super dicionário de cearensês, 2000; e Os gestos do amor: Número de frases: 74 magia e ritual, 2004, de entre outros. O Ponto De Cultura E TELECENTRO Maracatu Leão Coroado iniciou, neste mês de agosto / 2007, suas aulas de Mamulengo, Redação de Projetos e continua com as Oficinas de Percussão e Confecção de Instrumentos. As aulas são gratuitas a todos os moradores de Águas Compridas. Esse Projeto é mais um capítulo das iniciativas de nossa agremiação carnavalesca para o resgate da cidadania através de nossa Cultura Popular. Consiste em aprimorar a formação de crianças, adolescentes e adultos, complementando sua formação escolar, permitindo um mergulho mais fecundo em nossa raízes por a formação musical e ajudando a quebrar o ciclo vicioso de multiplicação do padrão histórico da exclusão social. São jovens e adultos, atualmente, vivenciando esse processo e tendo acesso à internet gratuita, aulas de Redação, Mamulengo, Crochê, Informática, Manutenção de computadores e Percussão, utilizando-se de apenas 03 computadores, ainda sem mobiliário adequado, mas, com a perspectiva de que, nos próximos três anos (prazo de duração do convênio firmado com o Ministério das Comunicações), possamos ampliar esse atendimento à população com mais qualidade e usar a tecnologia para mudar a vida das pessoas. Enquanto aguarda a chegada do material digital do Ministério da Cultura, previsto no programa Cultura Viva, o local promove ensaios de Bandas e Agremiações Carnavalescas com endereço na comunidade, as quais, portanto, têm direito a entrar na fila de espera dos que desejam gravar seu primeiro registro fonográfico. O Maracatu Leão Coroado tem 144 anos de tradição e garra. Número de frases: 8 Além do ritmo ser contagiante, encontramos nas novas tecnologias, aliadas à Tradição mais autêntica, procedimentos satisfatórios para ampliar horizontes dos jovens da comunidade de Águas Compridas, em Olinda (não por acaso, 1ª Capital Brasileira da De as Comunicações, SERPRO, PREFEITURA De OLINDA, FUNDARPE (Governo do Estado), CHESF, TRIBUNAL D Justiça-PE, CONTEMPORÂNEA, COMISSÃO De Folclore, PONTÃO De a UFPE " Altivos e nobres cidadãos ... se a pátria não nos quer, façamos outra." Fala mais que decorada por os seringalistas que ouviam, repetidamente, o discurso de Luis Galvez (José Wilker) ao proclamar a República Independente do Acre, na cidade cenográfica de Porto Acre, que era a Puerto Alonso boliviana lá por os idos de 1899. O sol escaldante imobilizava dezenas de figurantes que lançavam um olhar obediente, quase fascinado ao orador. «Estou com três saias, quatro blusas, meia, chapéu e aquela escada tem 65 degraus ..., " disse Joadila Sales, que nesse dia era uma seringalista casada com um dos coronéis da época,» ... mas essa cena é muito linda!" Para entender a cena O Acre, região rica nláte e ocupada por seringueiros brasileiros, especialmente nordestinos, pertencia oficialmente à Bolívia até 1899, ano em que entra na história o jornalista espanhol Luis Galvez, que denuncia nos jornais paraenses uma aliança entre Bolívia e Estados Unidos. Os Eua apoiariam militarmente os bolivianos em caso de guerra contra o Brasil. Enquanto o governo brasileiro continuava reconhecendo os direitos da Bolívia sobre a região, revolucionários decidem por a fundação do Estado Independente do Acre, com capital na cidade de Porto Acre, antes chamado Puerto Alonso. Luis Galvez, não poderia ser diferente, foi aclamado presidente do novo país. Os 65 degraus fazem parte da escada construída em madeira para o acesso dos atores e figurantes ao mirante, às margens do Rio acre, local do discurso de Galvez. A minissérie «Amazônia -- de Galvez a Chico Mendes» mudou a rotina de muitos moradores de Rio Branco, desde agosto, quando a equipe que seleciona figurantes chegou. Cerca de 600 pessoas foram escolhidas. Estudantes, educadores, crianças, músicos, artistas locais, donas de casa, enfim, membros comuns e muito bem-humorado da sociedade acreana dispostos a fazer parte de um pedaço de cena ou apenas ver como é feita. «Fiz a inscrição na Usina de Artes, no primeiro dia de seleção. Semanas depois recebi um telefonema chamando para participar das gravações. Acordei às cinco da manhã e peguei o ônibus dos figurantes na Praça Plácido de Castro. Entramos num ramal do km 48 da estrada de Porto Acre, eu estava ansiosa e quando via as tendas brancas do set e o palácio do Galvez, pensei, puxa, vou participar disso!», conta Karolina Araújo, estudante de Ciências Sociais, com quem conversei nesses dias. A primeira participação de Karolina foi na Companhia de Dança Zarzuella, cuja estrela é Maria Alonso (Cristiane Torloni). Ela e mais quatro amigas vestiram-se de dançarinas espanholas, ensaiaram a música e no momento da gravação apenas seguiram a instrução de um dos diretores " vai no ritmo da música e sente ..." O resultado foi a cena de uma belíssima e sensual apresentação de Maria Alonso, com cinco meninas de Rio Branco, lá no fundo, sentindo a música e indo no ritmo de ela. Então veio a idéia: Tudo bem, pensei, posso não parecer uma dançarina espanhola, mas fico bem como seringueira. Fiz uns contatos e fui à luta ... Em o vilarejo de Quixadá, a uns 20 km do centro de Rio Branco, atores anônimos recebem as roupas para compor seus personagens seringueiros. Sol forte, bandejas com melancia passavam a toda hora. Devidamente vestidos e com suas ferramentas, era hora de caminhar por o seringal, fingir sangrar a árvore, mostrar o cansaço dos anos no semblante. Isso é representar! Incrível como cenário e figurino podem mesmo transportar-nos para a história, algo era real. Pensava nos cortes de seringueira -- descobri seus nomes pouco tempo atrás, quando estive no vernissage de um artista local -- federal, pestana, espinha de peixe, comum e dente de cachorro. Qual seria o menos danoso para a árvore? Não lembro ... Achei curioso o fato de preocupar-me, naquele momento, com preservação. Acho que esta acrioca está criando raízes. Minha mente foi para um passeio que fiz em junho deste ano no Rio de Janeiro: «Leblon ou Jardim Botânico?», um amigo perguntou. A escolha foi fácil: «Jardim Botânico! Escolher» um jardim ao invés do mar depois de três anos sem vê-lo é inusitado, quase esquisito. A explicação para isso veio naquele momento, ali no seringal. O verde da Amazônia é diferente do verde do litoral, o céu daqui parece estar perto da nossa cabeça e o horizonte mais próximo. Mesmo na cidade há abundância de árvores e o sol se põe no meio do céu. O Jardim Botânico fazia-me sentir bem perto de casa. Os figurantes trabalham com seriedade. Instruídos para não tietar, dão sempre um jeitinho de tirar fotos com os atores sem que a produção perceba. Em os intervalos, fazem amizades, criam vínculos. Quando falavam sobre cenas que gravaram, diziam: «Ah, fiz aquela do altivos e nobres cidadãos ...-- Mas por que todos dizem a mesma frase?-- É que repetiu muito, moça!" De todos os participantes com quem conversei, sem dúvida, o mais interessante foi Cícero Franca. Artista plástico, repentista e ator, com fala rápida e alegre, cantou um repente para Glória Perez e recebeu o papel de Aristide, um soldado da revolução que, por beber muito, leva uma bronca de Plácido de Castro, interpretado por " Alexandre Borges. «Eu fui decorando no ônibus, o texto do Aristide era só reclamação. Aí, uma mulher achou que eu falava com ela e começou a brigar com mim." Risos." O Plácido não gostou de ver o Aristide beber, então pegou a garrafa e derramou. Eu acompanhei com tristeza a bebida derramando enquanto dizia que ela ajudava a sustentar ..." A guerra sangrenta entre as forças regulares bolivianas e o exército acreano formado por seringueiros mobilizou centenas de figurantes por vários dias. Homens corriam por um terreno acidentado, portando armas cenográficas, sob o comando dos diretores da minissérie. Essa grande batalha resultou na tomada definitiva de Puerto Alonso, mas o objetivo final dos acreanos era obter a anexação do Acre ao Brasil. A história do Acre é bonita e vivê-la, mesmo que por alguns minutos, é emocionante. Sempre que perguntava qual foi o momento marcante desses dias, todos faziam um apanhado de eles: a guerra, a dança, o corte da corrente, o almoço com peixe assado na palha de bananeira, ônibus atolado no ramal ... A equipe e elenco seguem agora para Manaus, onde irão gravar vários capítulos sobre o ciclo da borracha e devem voltar em janeiro para gravar os capítulos sobre Chico Mendes, o que já vale outro texto. A conclusão que posso tirar dessa experiência fantástica é que apesar de todas as dificuldades, a população acreana permanece fiel às suas origens e tradição de lutas para pertencer ao Brasil. Conhecem o seu lugar e não abrem mão de mostrar a mais bela identidade amazônica. Número de frases: 67 A cantora e compositora paulistana Vanessa Bumagny traz boas novas à cena musical brasileira. Dona de uma linda voz afinada e ritmada por o baião, conquista fãs por o país e forma um público ávido por canções de qualidade. Foi ao cantar Mozart num coral quando morava nos Eua que decidiu optar por a carreira musical. De o erudito ao popular, sua grande paixão foi Luiz Gonzaga. De aí o sotaque brasileiro nas canções de Vanessa, que não excluem o pop, mas, priorizam o nordeste. Com o forró no coração, montou uma banda na década de 90, mas, não vingou por estar fora da rota nordestina. Aí conheceu Chico César, de quem virou backing vocal, e Zeca Baleiro, que dividiu o palco com a cantora algumas vezes. Em o primeiro disco, produzido por Alê Siqueira e «Dante Ozzetti, De papel», que quer dizer Bumagny em russo -- a moça é descendeste de russos e portugueses -- Vanessa conta sua história através do repertório, a começar por o nome do disco. Passeia por os poemas musicados " És Verdad, de Garcia Lorca "; «Plenilúnio», de Fernando Pessoa; canta junto ao parceiro Zeca, a canção «Radiografia» e dá um tom gracioso a canção «Flor da Idade, de Chico Buarque». A Boa notícia para os fãs da cantora é que o segundo disco intitulado «Pétala por Pétala» está em fase de finalização e tem a produção de Baleiro. Em a banda, já formada, estão Mauro Sanches (percussão), Lucas Vargas (teclado e acordeon), Zeca Loureiro (violões e guitarra) e Henrique Alves (baixo). Como convidados especiais estão Guilherme Kastrup, Tuco Marcondes, Fernando Nunes, Rogério Delayon e Silvinho Mazzuca. Para quem não conhece o trabalho da artista, é só acessar o site www.vanessabumagny.com.br e escutar algumas canções. Número de frases: 15 Que venha o novo Cd! Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que este bate-papo que pretendemos iniciar em nossa seqüência de «Dicas para o Amanhã» é direcionado para quem nasceu em «berço de palha». Quem nasceu em berço de ouro já tem 50 % de seus problemas resolvidos: boas escolas, alimentação de primeira qualidade, plano de saúde ilimitado, transporte escolar na porta, computador de última geração no quarto, cursinho de inglês, pré-vestibular de altíssimo nível, mesada farta enquanto estudar, trabalho garantido no escritório do amigo do pai, viagens de estudo ao exterior, carro de presente aos 18 anos e, nos momentos de crise, um terapeuta e uma viagem aos Eua para aliviar o estresse. Nada contra. Aliás, o que todos queremos é proporcionar um berço de ouro, ou ao menos de prata, aos nossos filhos. Somos capitalistas, gostamos de dinheiro, certo? Queremos passar férias em nossa casa de praia, muambar em Paris, relaxar em Fernando de Noronha e assistir a Portela (" Ahh, minha Portela ... quando ví você passar ...") ser campeã, instalados num camarote abarrotado de familiares e muita comida. Mas, por enquanto, vamos tocando a bola no meio de campo para um dia definirmos a partida. Dicas para o Amanhã tratará, a cada mês,. de temas que auxiliem você, Pai / MÃE e você, Jovem, a caminharem juntos na busca de opções práticas que ajudem a melhorar o nível de vida da sua família, por meio do único instrumento eficaz, (sem contar a Megasena, é claro) de progresso: a Educação. Mas não se assuste, pois não falaremos de teorias e blalbablas infinitos. A primeira Dica para o Amanhã se destina aos pais com filhos que estão concluindo ou concluíram o Ensino Médio (antigo Científico) nas Escolas Públicas: Pré-vestibular comunitário Pais: convençam seu filho a matricular-se num Pré-vestibular comunitário. Os pré-vestibulares comunitários estão normalmente ligados a projetos sociais e são voltados para jovens de menor poder aquisitivo (o termo «jovem» aqui empregado pode ser utilizado para pessoas dos 15 aos 90 anos: juventude é um estado de espírito ...). A maioria dos professores trabalha em caráter voluntário, recebendo apenas uma ajuda de custo para a passagem, o que configura um envolvimento pessoal destes profissionais com o sucesso de seu filho. Os custos são baixos, podendo ir de «0800» a R$ 35,00 por mês e, apesar de gratuito ou barato, a qualidade muitas vezes será igual ou superior a muitos cursos pré-vestibulares pagos a preço de picanha nobre. Outro aspecto positivo: seu filho estará em contato com outros jovens que buscam progredir, que almejam um futuro melhor, ao invés de passar a tarde ou noite simplesmente discutindo qual será o destino da personagem Tal da novela das oito ou qual o próximo eliminado do Big Brother Brasil. além das aulas preparatórias aos vestibulares, ele receberá dos professores, e discutirá com os colegas, informações sobre acesso à universidades públicas por cota, concursos públicos, oportunidades de empregos, etc.. Enfim, Seu Filho Estará Vivenciando Um Ambiente De Responsabilidade E De Boa Caminhada. Até mesmo na hora da farra de seu filho com esta turma após as aulas, tenha certeza, o (a) senhor (a) estará mais tranqüilo (a). Em ambiente onde reina a boa intenção, dificilmente surgirá a má ação. Uma sugestão de pré-vestibular comunitário (confirmem as informações por telefone ...): Pré-vestibular Humanista na Escola Politécnica da UFRJ: Taxa semestral de R$ 40,00. mais de mil alunos que cursaram o PVH no ano passado, foram aprovados no vestibular. Informações: Consuelo Magalhães (3231-2656) e Valéria Veríssimo 3231-2662. Pré-Vestibular Comunitário de Oswaldo Cruz: Inscrição aberta até fevereiro, das 9h às 21h, na Rua Cananéa 143, Oswaldo Cruz. Não há taxa. A mensalidade é R$ 15. São 120 vagas no primeiro semestre. É realizada uma entrevista. Telefone: 3350-2993. Email: cccp.Pportela@ibest.com.br. EDUCAFRO: Haverá reunião de «acolhimento» dia 20 de janeiro, às 9h, no Teatro João Caetano, Praça Tiradentes. Depois dessa data, reuniões às quintas-feiras, às 10h, 15h e 18h, na Praça Tiradentes 73, 5º andar. Os interessados são encaminhados para um dos 57 núcleos da Educafro. São cerca de três mil vagas. A mensalidade custa, no máximo, R$ 35. Telefones: 2510-2066 e 2509-3141, das 8h às 18h, a partir de 7 de janeiro Você poderá encontrar outros cursos comunitários em instituições religiosas, ONGs e universidades. Caso tenha alguma dúvida, necessite de orientação ou queira sugerir um tema para os próximos meses, escreva para jclaudiosantos@gmail.com. Você não tem e-mail? Tudo bem, não se abale ... em breve abordaremos o tema inclusão digital. Para terminar: Filhos: leiam o que escrevi acima e obedeçam a seus pais. Número de frases: 55 Um forte abraço e faça de 2007 O Ano da Virada! Astor sente-se mal. Procura Dr. Bhalsamos. Diagnóstico: Solidão. Não, não; teoricamente ele está conformado. Sabe-se o último. Isso já não lhe incomoda mais. Trata-se de uma outra situação. Astor quer sentir-se gostado, quer gostar de alguém. Pouco importando credo, cor ou seja lá o que for. Qualquer coisa estaria bom para ele. Mas é sempre a mesma rotina: solidão no trabalho, solidão em casa. Não consegue se conectar. Mora na Avenida São João, num cubículo 3X4. É um prédio velho, caindo aos pedaços, cheio de traças e cupim. Mas Astor quer se tratar. Por recomendação de Dr. Bhalsamos compra uma web-cam. A medicina agora trabalha assim, Dr? Claro! Está bem aqui no DSM-5: «para curar de solidão solitária deverá-se-receitar ao paciente pequenas doses de solidão coletiva». Astor sente-se melhor. Quase feliz. Parece revitalizado. Será finalmente como todos. Continuará sozinho, claro. Mas sua solidão poderá ser compartilhada com muitos outros iguais a ele. É uma sensação parecida com aquela que ele sentiu ao levar para casa seu micro computador de última geração. Experimenta-se, mais uma vez, através de uma identidade. Experimenta-se um solitário. Depois de comprar e instalar sua panacéia, resolve, extremamente excitado, masturbar-se. Astor prefere a masturbação, pois acha que o sexo machuca as pessoas. Pior que isso, sempre ao transar com alguém se sente machucando a outra pessoa; é horrível, animalesco, lhe causa muitas preocupações com relação aos direitos humanos. Com a masturbação não há esse problema. Há outros, claro. Mas agora com a web-cam isso também vai melhorar. Ele penetra no meio eletrônico de todas as noites. Seu chat pornográfico predileto continua o mesmo. Porém hoje ele vai usar um nick diferente. Ao invés de «Solitário Carente», ou» Louco para te Amar (h), escolhe «Excitado web-cam». A sala está cheia. Precisa esperar um pouco. Reflete sobre seu nick, acha um pouco agressivo. Caso fosse uma mulher falaria com alguém assim? Talvez. A sala abre uma vaga. Ele entra. Abre a lista de nicks femininos: «Potra», «Loira querendo dar»,» Quero gozar, pelo amor de Deus (M)», «Fêmea»,» Aninha16», «Quero na Bundinha (M)»,» Curiosa, Chupo seu Pau a noite inteira (M), etc.. Astor envia a mesma mensagem para o reservado de todas: Oi gatinha, quer me ver pelado? tenho web-cam ... Depois de alguns segundos Aninha16 responde: Web-cam? Como funciona? É só você ter MSN ... você tem? Tenho! Então me passa ... lolitinha 1717@hotmail.com Astor copia, com o botão direito do mouse, o e-mail de Aninha. Abre seu MSN e cadastra o de ela. Oi -- diz Aninha, que agora é Lolitinha -- esse é você? rsrrrsrs Esse quem? Esse na foto! rsrrrs?-- Ao invés da imagem de Astor aparecia uma bola no MSN de Aninha, ou Lolitinha. Astor percebe o erro e o corrige rapidamente. Ah! Agora sim ... mas tá meio escuro aí, né? ...-- Astor levanta-se, veste a calça, vai até o interruptor e liga a luz. Melhorou? Melhorou! Você tem namorado?-- Pergunta Astor se masturbando em frente a web-cam. Tenho -- Responde Aninha e desliga a conexão com o MSN de Astor. Astor retorna para o Chat à procura de outras mulheres. Envia novamente sua frase pronta. Reenvia, envia outra vez e vai tentando. Enquanto nenhuma de elas responde, ele aproveita para se masturbar apreciando as famosas fotos evangélicas que passam tela abaixo. Vai tudo bem até que «Marcos web-cam» inicia uma polêmica. Ele estaria sendo assediado por homoeróticos usando nicks femininos. Eu pedi para a ela ligar pra mim e ela começou com uns papos estranhos. Vocês não me enganam suas bichonas. Né Aninha, viadão ... Sai fora seu viado ... vou encher de vírus o rabo dessas bichas. Os demais nicks masculinos apoiaram " Marcos web-cam ": Saiam daqui seus viados -- Dizia «Pauzudo». Vamos infectar o micro de vocês, suas bichonas.-- Era a mensagem de Garanhão, etc.. Astor permaneceu segurando silenciosamente o seu bilau. Nunca gostou de baixarias. Tentava novamente persuadir alguma mulher a lhe observar pelado e foi aí, justamente, que ele teve uma triste visão. Todas as mulheres do chat estavam saindo, assustadas, da sala. Astor deixa escapar um risinho irônico por o canto esquerdo da boca e sentindo-se muito superior, aos demais, analisa a situação. Aninha tem apenas 16 aninhos. Provavelmente mora ainda com os pais e não quis acordá-los às 04:48h da madrugada com uma conversa erótica ao telefone. As demais mulheres fizeram bem sendo solidárias a ela. É preciso, definitivamente, combater a arrogância masculina. Astor ri. Continua pensando. Obviamente que esses caras só poderiam acabar assim, sozinhos. Masturbando-se para imagens digitalizadas noites e noites a fora. São todos uns estúpidos, insensíveis. Que mulher gosta disso? De apanhar, de ser maltratada? Nenhuma. Mesmo que o maltrato seja virtual. Elas estão fartas disso. A mulher de hoje quer muito carinho, quer compreensão. Quer alguém bondoso e amável. Alguém que a deixe falar, que a deixe se expressar livremente. Esses caras são uns boçais. Astor fica irritado. Muito irritado. Decide mostrar a todos o quão solidário ele pode ser a uma causa justa. Ejacula. Desliga o micro e vai dormir. Número de frases: 118 Aperte os cintos, respire fundo e prepare-se para mais um capítulo de " Essas coisas só acontecem com mim. Lê-se com mim igual a mim mesma: Joyce. Bom, vejamos se me recordo plenamente do ocorrido (já faz um tempinho que passei por essa situação e vocês sabem que memória de ariana, desligada não é nada fácil). Vamos lá! Em uma bela manhã ensolarada estou eu em meu amado e odiado bus Campo Grande, a caminho do trampo quando coincidentemente sobe no veículo uma figura nada imperceptível. Ela, por volta dos seus 33/34 anos de idade, cabelos curtos estilo «joãozinho», saia comprida e estampada, blusa com uma estampa nada similar à da saia e um óculos escuro (para não dizer lupa) com armação branca. Sim, armação branca! Aquela pessoa de longe chamaria a atenção até do mais distraído ser. Observo-a se aproximar do motorista, posicionando-se ao lado de uma mulher jovem. Como aproveito a minha viagem diária até o trabalho para divagar sobre a vida, sonhos, lembranças, etc, esqueço por alguns instantes que aquela pessoa estava por perto. Até que penetra por a porta frontal do ônibus um vendedor de canetas. E eu nem sabia que essa simples e cotidiana penetração viraria uma putaria que só ... Hehehe De repente, vejo a mulher (nem um pouco feminina) caminhar até o cobrador do ônibus e protestar algumas resignações: -- Isso é um absurdo! Ter a privacidade invadida por esses vendedores! Porque Eu viajei o mundo inteiro, morei em Londres e não acontecia isso. Agora, em Salvador pode tudo. É por isso que esse país não vai para frente! A o ouvir os berros, todos os passageiros viram-se para trás, inclusive eu (sou curiosa sim!). Por alguns instantes, troco olhares de censura com meu irmão, que está do outro lado do busú. E esses olhares são foda! Ninguém precisa falar nada, eles já dizem tudo. Quando o vendedor desce do ônibus, a mulher volta para o local onde estava e se dá conta de que a jovem que estava sentada ao seu lado já foi embora. O que ela faz? Bem ... ela diz: -- Oh, cadê aquela belezura que estava aqui? ( olha para os lados) Vou ficar do lado dessa menina linda! E adivinhem quem é a menina linda a quem ela se referia? Sim, sim, eu mesma. O ônibus inteiro olha para mim e por alguns instantes desejo ser uma pessoa horrível que não chamasse a sua atenção ... E ela não pára por aí, começa a cantarolar para mim: -- " Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também ..." Todos me olham. Penso o que é isso? Como assim? Isso não está acontecendo!" E ela muda a canção: -- " Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você em meu coração ..." «O que eu faço, o que eu faço? Como dar a entender que eu quero mesmo é que ela se foda e pare de me cantar??" Olho para meu irmão e ele sussurra perguntando se quero trocar de lugar com ele. Faço que não com a cabeça (acho que ela implicaria ainda mais com mim) e acoplo o fone de ouvido ao celular, ligando o rádio. «Ela tem que perceber que já está bom, está na hora de parar! Ela vai parar, ela vai parar!" E adivinhem o que acontece? Não, ela não parou. Pior: a pessoa que está sentada ao meu lado levanta-se para descer do ônibus, o que significa que quem vai substitui-la no assento é ... exatamente! Ela! Diz: -- Você é linda, sabia? Respondo um «obrigada» sem nem olhar em seu rosto. «Por que eu disse obrigada? Nunca sei ignorar uma pessoa? Pronto, dei trela, agora que ela não vai parar ..." E continua: -- Não deixe que ninguém estrague a sua beleza. Nenhum homem tem o direito de fazer isso, viu? Concordo com a cabeça, mas o que me vem à mente após esse homossexualismo explícito (nada contra!) não é nenhum homem, mas sim uma mulher. Calma, calma! Não é bem o que está pensando não! Penso em como a crise no trampo e algumas chateações de minha chefa estão destruindo a leveza do meu ser. Entendo que devo levar o seu conselho nesse sentido. Mas meus pensamentos são interrompidos com a entrada de um outro vendedor, que relata sua história de ex-drogado, ex-assaltante e atual profeta da palavra divina. A mulher não resiste: -- Aqui está todo mundo bem, viu? Todo mundo nesse ônibus é feliz! Só quem sofreu aqui foi você ... Eu não acredito nisso! A gente pega um ônibus e ainda tem que ouvir essas coisas! Tá todo mundo saturado de tantas vendas! Ninguém quer comprar nada não viu?! Porque em lugar nenhum do mundo acontece isso! Mas em Salvador ... Motorista dá carona para esse monte de gente. Eu queria ver se fosse para mim, se ele abriria a porta. Ela se levanta. -- Quer saber? Motorista, pára esse ônibus, que eu quero descer! Isso é um absurdo! Ela me pede licença, levanta-se, o ônibus encosta em qualquer lugar e ela desce. Em essa hora, sinto-me no final triunfante de um filme daqueles bem emocionantes, ouvindo aplausos e gritos dos passageiros. Entreolho meu irmão e suspiro aliviada. Fico pensando como logo de manhã cedo posso presenciar uma cena tão surreal como essa e concluo: é, essas coisas só acontecem com mim! Número de frases: 86 Depois de décadas sendo praticamente ignorado por os teresinenses de outros bairros, o Poti Velho, onde Teresina nasceu, começa a ganhar status de atração turística e a mostrar que é possível aliar tradições e novas idéias quando há um objetivo comum. O Poti mantém um quê de vila de pescadores, especialmente quando se vê, nos fins de tarde, os homens fazendo ou consertando suas redes, ou oferecendo peixe fresco de manhã cedo, na cabeceira da ponte que liga o bairro à localidade Santa Maria da Codipi, no extremo norte de Teresina. A fé em São Pedro, o padroeiro dos homens da pesca, é responsável por um dos maiores eventos do local: a procissão fluvial, que acontece em todo 29 de junho, saindo do cais do rio Parnaíba para atracar no cais do rio Poti, próximo ao encontro das águas dos dois rios, que é certamente um dos lugares mais bonitos da cidade. É lá, na entrada do Parque Ambiental do Encontro dos Rios, que se pode encontrar os meninos contadores da lenda do Cabeça de Cuia, monstro no qual eles acreditam piamente. Diz a lenda que um jovem pescador chamado Crispim um dia chegou em casa e, encontrando apenas um caldo de ossos para comer, bateu descontroladamente em sua mãe, revoltado. Antes de morrer, a senhora amaldiçoou o filho, rogando-lhe uma praga -- ele se transformaria num monstro medonho. Sentindo um terrível remorso, Crispim se jogou nas águas do rio Poti. Os moradores mais antigos afirmam que nas noites de lua cheia, ele fica zanzando por as margens do rio, tentando se livrar do encanto. Para poder descansar em paz, o Cabeça de Cuia -- nome por o qual ficou conhecido devido à sua enorme cabeça deformada -- deveria devorar sete moças virgens de nome Maria, mas nunca conseguiu pegar nenhuma. Até porque nenhuma moça anda sozinha por aquelas bandas. Sabe-se lá se o monstro cabeçudo não vai aparecer ... Os pequenos contadores da lenda, enquanto esperam que o turista lhes dê moedas, juram que ouvem os lamentos de Crispim quando saem de casa sem a companhia dos pais. A foto que ilustra este texto é do Monumento ao Cabeça de Cuia, que fica na entrada do Parque do Encontro dos Rios. A obra é do artista plástico Nonato Oliveira e mostra o monstro cercado por sete mocinhas. Em as proximidades do Parque, fica o pólo cerâmico de Teresina, que está se transformando na menina dos olhos da capital do Piauí. O que antes não passava de fábricas de tijolos, telhas, potes e filtros para água, hoje oferece uma variedade incrível de modelos de vasos decorativos, esculturas e peças com design exclusivo e acabamento esmerado. Boa parte dessa mudança deve-se ao trabalho das mulheres do bairro, que antes lutavam para sustentar os (muitos) filhos carregando tijolos sob o sol escaldante. Com o apoio do Sebrae, elas começaram a desenvolver maneiras de ganhar dinheiro com arte. A coordenadora do programa de apoio ao artesanato da instituição, Rosa de Viterbo, explica que a idéia de desenvolver o potencial artístico das mulheres do Poti Velho surgiu naturalmente. Algumas de elas já faziam pequenos vasos decorados e tinham alguma noção de estética. «Nossa primeira orientação foi para que elas montassem uma associação ou uma cooperativa para trabalharem juntas. Depois começou a fase de capacitação técnica, de ensinar a agregar valor ao que estava sendo produzido. Elas fizeram cursos de design, para perceberem o que é mais bonito, mais harmônico», comenta, acrescentando que trabalhar a auto-estima dos artesãos é fundamental para que os projetos dêem certo. Quando as mulheres começaram a produzir os primeiros modelos de colares, pulseiras e brincos feitos com contas de cerâmica e viram que tinham ótima aceitação, deixaram o trabalho pesado para os homens e agora estão preocupadas em inventar a cada dia novos modelos, para todos os estilos. A presidente da Associação das Mulheres Artesãs do Poti Velho, Raimunda Teixeira, a Raimundinha, lembra da luta diária para ganhar R$ 2,50. Durante longos 22 anos, ela chegava a carregar um milheiro de tijolos por dia. «Era o dia todo fazendo força, chegava a noite e eu estava morta de cansada ... Eu e boa parte das mulheres que hoje trabalha com bijuteria. As que não têm um companheiro para ajudar muitas vezes tinham que depender da solidariedade dos vizinhos para alimentar os filhos. Hoje a situação é outra, todas nós ganhamos pelo menos o triplo do que ganhávamos carregando tijolos, sem precisar fazer trabalho braçal», conta. Os cursos ministrados por designers de jóias e artistas plásticos ensinam a valorizar o que é produzido por cada uma das artesãs. As bijuterias confeccionadas por a associação são um sucesso e estão começando a ser exportadas; as contas de cerâmica, ao natural ou pintadas com cores vibrantes, é que são o maior diferencial. Os demais artesãos do barro, que antes passavam a vida inteira fazendo potes e filtros, estão seguindo o exemplo da mulherada e hoje se concentram na produção de peças que são supervalorizadas por decoradores e arquitetos e compõem a decoração de casas e apartamentos de luxo. Muitos já estão exportando os produtos, que continuam sendo feitos em pequena escala, nos barracões ao lado das casas. Agora maquiada, produzida e perfumada, Raimundinha orgulha-se da reviravolta que ela e as outras conseguiram dar. As meninas, mesmo as mais novas, já querem aprender a fabricar as contas e criar seus próprios modelos de bijous. Não querem nem ouvir falar em carregar tijolos, como suas mães e avós um dia fizeram. Para chegar ao bairro Poti Velho e ver de perto a beleza do que é feito por lá, siga por a Avenida Maranhão (que margeia o rio Parnaíba). Em o final de ela está a Avenida Boa Esperança, é só seguir direto até chegar ao Parque do Encontro dos Rios, o pólo cerâmico fica logo depois. Em as portas das casas e dos barracões, o colorido das esculturas e dos enfeites de parede e as formas inusitadas dos vasos chamam a atenção de quem chega. Número de frases: 42 Conversando com os artesãos dá para conseguir bons descontos e renovar a decoração da casa sem gastar muito, e o que é melhor, com peças exclusivas. Em meados de 2002, a Revista Dynamite completou 10 anos e na parceria do site Dynamite Online (www.dynamite.com.br) promoveu um evento para festejar e / ou prestigiar a produção musical do Brasil: o Prêmio Dynamite da Música Independente. Em 2007, com patrocínio da Toddy, o Prêmio ultrapassa fronteiras e vai muito além do eixo Rio / SP, incluindo 23 indicações de artistas e grupos pernambucanos em várias categorias. O coletivo Coquetel Molotov obteve indicações nas categorias Selo / Gravadora, Veículo Online, Programa de Rádio e Evento, sem falar das indicações dos discos lançados por as bandas Rádio de Outono, Profiterolis, The Dead Superstars e Vamoz! no ano passado. A votação é aberta ao público e é feita online por o site www.premiotoddy.com.br até o dia 10 de maio. Em o site existem mais informações sobre cada indicado, bem como links para os sites oficiais e audição de arquivos em MP3. Os indicados ao Prêmio Toddy de Música Independente foram apurados através do projeto «Cena Musical Independente Brasileira -- Pesquisa e Publicação dos principais trabalhos lançados em 2006» que conta com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura através do Programa de Apoio à Cultura do Estado de São Paulo e com os benefícios da Lei de Incentivo à Cultura, através do Ministério da Cultura e do Governo Federal. Indicados De Pernambuco ao Prêmio TODDY De Música Independente Álbum Rock Vamoz!-- «Damned Rock n'Roll» (PE / Coquetel Molotov/Fire Baby Records / Monstro Discos) Álbum Indie Rock Mellotrons -- «Mellotrons» (PE / Independente) Parafusa -- «Meio Dia na Rua da Harmonia» (PE / Alvo) «Rádio de Outono -- «Rádio» (PE / Coquetel Molotov) Álbum Pop Bonsucesso Samba Clube -- «Tem Arte na Barbearia» (PE / Independente) «Cordel do Fogo Encantado» -- Transfiguração (PE / Trama) Eddie -- «Metropolitano» (PE / Salazarte) Mombojó -- «Homem Espuma» (PE / Trama) Ortinho -- «Somos» (PE / Independente) Álbum Heavy Metal Malkuth -- «Nekro Kult Khaos» (PE / Skull Records) Álbum Punk/Hardcore Devotos -- «Flores com Espinhos para o Rei» (PE / Independente) Álbum Rap/HIP HOP/BLACK Negroove -- «Eles não usam êne» (PE / Independente) Álbum Música Eletrônica «Eta Carinae --» Mirando a Estrela " (PE / Groovin Produções) Destaque Regional Digital Groove (PE) Revelação Profiterolis -- «Troco» (PE / Bazuka Discos) The «Dead Superstars» -- «Electrotank» (PE / Bazuka Discos) Selo / Gravadora Coquetel Molotov Discos (PE) Veículo Online Coquetel Molotov Pop up! RecifeRock! PROG. De TV Ou Emissora Estereoclipe (PE / Estação TV / Canal 14) PROG. Rádio Ou Emissora Coquetel Molotov (PE / Universitária FM) Evento Abril Para o Rock (PE) Número de frases: 39 Em o Ar Coquetel Molotov (PE) Estava reparando uma coisa. Carnaval, pelo menos aqui em Recife, é algo como um universo paralelo. Tudo acontece nas ruas, com algo que tenha um mínimo de lei e ordem e muita zona. Todo ato ilícito ou não, que vá de encontro à normalidade da situação em dias normais pode ter como justificativa algo como «É Carnaval!». E de fato é. Tirando o aspecto violento da festa, que não é exclusividade daqui nem de outras cidades, a festa é um exercício para seu fôlego e resistência. A maratona oficial começa na sexta à noite e termina oficialmente na madrugada da terça. Mas extra-oficialmente, na semana anterior e posterior, você pode sair todas as noites pra festinhas em clima carnavalesco e se divertir como se já fosse carnaval. Em esse ritmo, sem perceber, o folião pode virar Jack Bauer indo de atração a atração, seguindo os blocos, vendo os shows e bebendo nos lugares. O que acontece é que, devido às inúmeras atrações, festinhas, blocos e shows que rolam na cidade, se você vai a um, deixa de ir no outro. E como não dá pra estar em dois lugares ao mesmo tempo, no mínimo, se você perder algo que esteja rolando na mesma hora, você pode compensar no outro ano. A quantidade de blocos e troças que se «extinguem» é mínima se comparada com os novos que vão surgindo. Desde aqueles blocos / troças de gréia, formados por um pessoal nada a ver, até aqueles da velha guarda. Você pode criar um bloco com os amigos, assim como cria depretensiosamente uma comunidade no orkut. Quando vai ver, todo mundo começa a seguir o seu bloco por alguma afinidade ou por a zona mesmo. Ao mesmo tempo, lá vai você indo atrás de outros blocos com os quais se identifica ou que sabe que vai encontrar gente legal. Saca só o nome de alguns: * Urso da Tua Mãe * Nem Sempre Lily Toca Flauta * Morde a Foca * Pega Aqui no Meu Pen-Drive * Quem for feio que me acompanhe * Acorda pra Tomar Gagau * I Love Cafusú * Leve Minha Cunhada * Amo CREA * Dá o Loud (De o pessoal que trabalha no Porto Digital) * Me Segura Senão eu Caio (Formado por pessoas com deficiência) * Os Irresponsáveis (Que sai por as ruas na Quarta de Cinzas) Se bem que o nome dos blocos e o tema é o que menos importa. Noventa e nove por cento de eles sai com uma mini-orquestra de frevo que toca os hits do ritmo centenário e mais algumas corruptelas do momento. Se fizer sucesso e tocar muito por aí pode ter certeza de que vai virar frevo nas bandinhas de Olinda. Em um ano desses falo para a galera fazer um frevo e sair por aí tocando «Seven Nation Army». Tudo bem que o repertório do pessoal das orquestras não é tão original, mas olhe que faz sucesso. Todos esses frevos praticamente só tocam no período de carnaval, mas todo mundo sabe decorado ou conhece a melodia quando começa a tocar. Será que faz parte da herança cultural do Recife ou já vem na água? Por isso, com tanta coisa que rola, quase não passo muito tempo em casa nesses dias de folia. Casa vira ponto de apoio para a cama e banho. Porque os shows no Rec-Beat e no Marco Zero terminam muito tarde da noite e os blocos em Olinda já saem logo de manhã. Então, nesse pique, quase não dá pra ver TV ou ler jornal. Acabo ficando perdido num universo paralelo, alheio a coisas que dizem por aí que é sensacional. Aí quando chego diante do computador, leio notícias do carnaval de outros lugares: -- Claudia Leitte se diz «a mais gostosa» -- «Não canto e ponto», diz filha de Daniela Mercury -- Xanddy pede «quebradinha» ao marido de Eliana -- Susana Vieira acha um absurdo Beth não ter desfilado -- De cowgirl, Ivete faz Gianecchini rebolar até o chão -- Erik Marmo e Eduardo Galvão tocam samba em camarote -- Desastrada, Adriane Galisteu chega com seguranças Sinceramente, isso só deve ser legal de ver na TV e nas revistas de fofoca. E olhe lá! O culto a celebridades no carnaval é algo a ser melhor analisado posteriormente. Mas essas pessoas que saem para estes carnavais gostam mesmo disso ou estão ali como um personagem para ganhar cachê? Será que nunca tiveram outra opção na folia ou realmente curtem esse assédio de camarote? Não sei se é bairrismo ou puro preconceito meu. Mas por precaução, perguntei a alguns amigos e conhecidos que vieram para cá nestes dias o que tinham achado do carnaval do Recife. Procurei obviamente tentar me isentar de opinião. Um de eles, gaúcho, que mora aqui há uns 3 anos disse que desde que conheceu o carnaval daqui não troca isso por nada. Outra menina, carioca, veio aqui pela primeira vez. E ela adorou! Se surpreendeu com a quantidade de atrações, festas e ainda o fato de tudo isso ser gratuito. Thalma de Freitas, após o Show Instituto Tim Maia Racional, revelou: «Participar deste show no Recife foi a melhor experiência que tive nos últimos tempos, este está sendo o melhor Carnaval da minha vida!». Depois ela confessou que sabia através dos amigos que o carnaval do recife é do «car ...», mas ela não imaginava que fosse ser tão bom assim. Pois é ... E então fico a pensar aqui em meu universo paralelo folião e relembrando que desde que comecei a brincar carnaval, todo ano fiz algo diferente e, mesmo indo aos mesmos lugares, sempre foi diferente e bastante legal. E digo mais. Dá pra se divertir e aproveitar bastante mesmo sem dançar frevo. Estranho isso, não?! Nem tanto. Basta andar no ritmo dos blocos, na onda de deixar ser levado e dar alguns pulinhos e se balançar. Até porque dificilmente haverá espaço no meio da rua para você fazer os passos coreografados que só vemos por os passistas no palco. E quem explica essa heterogênea e louca mistura de emoções e ritmos? Quem sabe?! «É Carnaval» e ponto. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 79 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo .... Depois de um tempo você começa a deixar o ego de lado: -- esse «sou artista». E deixa a arte te possuir mais -- te completar e você ser parte de ela. É difícil de explicar, mas é meio por aí ... Laudo Ferreira Junior -- cartunista -- 43 anos, artista auto-didata, reconhecido no mundo das histórias em quadrinhos e fora de ele! Amado e apreciado por centenas de fãs, que vêem no seu fazer artístico, fonte de prazer, imaginação e inspiração. Esse cara consegue, além de dar corpo a imaginação, ser Ator -- diretor das expressões humanas mais íntimas -- Ele estraçalha a alma de sensações, com seus traços precisos, volumes, sombras, expressão, densidade e movimentos intensos! Coisa que qualquer artista visual sonha um dia alcançar. E o que é mais interessante: -- De uma forma muito irreverente e emocionante. Esse é o Laudo. -- O nome. -- Todo final de ano aqui em São Paulo é feita a «pizzada dos cartunistas» que reúne quase todo mundo daqui que é da área. Gente graúda e gente miúda, e vez ou outra aparece uns «nerds» malas pra babar ovo pra umas estrelas, e pra encher o saco de outros. Estou na categoria dos que «tem o saco enchido». E então, chegou um cara chato e sem graça -- vivo fugindo de ele -- quando apareço em eventos de quadrinhos e desenho. Mas enfim -- conversava com dois amigos, ele se aproximou ao meu lado e antes de mais nada soltou um: -- E Aí, Laudo Como Tá Perícia, A Sua Mulher? ... fiquei olhando para o cara -- pra cair a minha ficha! Enfim. Laudo ... Perícia ... Entendeu? -- Mas não vou ser preso, por matar um mala desses. Relevei e continuei conversando. O Início do Laudo Sou um apaixonado por o que faço, tenho sede de produzir e as primeiras coisas que me lembro e tenho guardado são coisas que remetem aos quadrinhos. Profissionalmente comecei a desenhar em 1983 com uma editora chamada Press, na ocasião ela era um dos pouquíssimos pontos de publicação para autores nacionais, porém lá eles publicavam de tudo desde pornô até ficção e adaptação literária. Aprendi para a cacete na época. Laudo no tempo -- Bom, em 1987 eu lancei uma revista independente chamada «Balada para o futuro» na época em que «balada» era um tipo de música. O meio independente de quadrinhos, na ocasião, estava fervilhando. Depois lancei outros quadrinhos independentes como o «O duelo». E então por o meu próprio ritmo de trabalho, já há alguns anos, pouco participo do meio independente, mas eu costumo escrever alguns roteiros e tenho alguns compadres com quem trabalho vez ou outra como o Dark Marcos o qual fiz a " Sob o peso das nossas asas " Laudo técnico -- É uma mistureba brava, trabalho com aquarela, lápis de cor, tinta acrílica, ecoline, guache, photoshop, mas isso varia conforme a situação, por exemplo, no momento estou trabalhando numa história em quadrinhos sobre a Inconfidência Mineira, o desenho está sendo feito a nanquim e pincéis atômicos de ponta chanfrada preto e cinza, algo bem solto mesmo, depois vai para o computador e o meu sócio aqui do estúdio da uma cor. -- Olha só, interessante perguntar isso, porque eu preciso desenhar num tamanho legal, bem maior, mas geralmente a minha página original é 50 a 75 % maior que o tamanho que será publicado. Tem uma HQ que estou trabalhando, e é meu trabalho do coração, que se chama «Yeshuah» o original é 27,5 por 37,5 cm, grande pra escanear, dá um trabalho do cão, coisa de ariano, mania de grandeza! -- Sim Patrícia, faço a página com todos os quadros dependendo é claro, da história que estou fazendo, pode parecer «viagem», mas preciso começar do primeiro quadro da página até o último na seqüencia mesmo, agora se estou com um roteiro já definido faço os quadros da página aleatoriamente. -- Há dois esquemas que faço, quando eu «arte-finalizo» faço um esboço rápido com lápis HB e já vou para a arte-final no nanquim e canetas. Se outro é meu arte-finalista aí é mais chato, faço um primeiro estudo do desenho em lápis 3 H, depois defino melhor com lápis HB daí dou um pré -- acabamento com grafite azul, depois uso o lápis definitivo -- grafite 0,5mm. O grafite azul? Bem, com ele você não precisa apagar, ele não sai na impressão, na Xerox. Bem eu trabalho assim, mas cada um tem o seu jeitão. Laudo e a Nº1 -- Isso mesmo, a Tianinha é a número um! É feita pra uma revista masculina, mas não é pornô, mesmo porque na Hq não existe sexo explícito, digamos que a Hq está mais para o humor erótico, mas é sério, porque a distribuidora da revista que é do grupo da revista Sexy, não distribui material pornô. -- Hum, vamos por partes, a Tianinha é publicada mensalmente nessa revista Total há sete anos, são mais de cem histórias que já fiz de ela, em 2000 eu já trabalhava como ilustrador para a revista Sexy, um dia o editor da revista que era muito, muito amigo, me chamou pra falar que eles estavam criando uma nova versão da Sexy só que num formato menor e mais barato, e que uma das seções seria de quadrinhos, uma falsa loira, moradora de subúrbio, daquelas loiras de «raiz» do cabelo preto como o nome: Tianinha. Em o dia seguinte voltei a editora com uma outra coisa e disse pra ele que precisaria ser uma personagem que fugisse do gênero erótico da «garota que é comida por os bofes» e sim a «garota que come os bofes» uma mina dona do seu nariz e com mais atitude! Ele gostou da idéia e falou que ela não seria falsa loira e sim uma loira mesmo; enfim durante uns dois anos eu pra te ser sincero trabalhava nas histórias em quadrinhos com ela numas de trampo, mas depois comecei a sacar que o público -- os leitores gostavam da personagem e em 2004 pra você ter uma idéia lançamos uma edição especial com republicações de histórias de ela que vendeu 25 mil exemplares. E em 2005 lançamos mais duas que venderam 20 e poucos mil cada, é doidera, mas o blog que mantenho de ela na net tem uma média de 3 mil visitações por semana. -- Hoje, eu curto e muito fazer suas Hq's, até porque acho que ela tem uma outra coisa diferente. Tem algumas garotas por exemplo, que me enviam e-mails dizendo-se serem fãs da personagem, eu fico meio bobo, uma de elas, compra a revista mensalmente, corta as páginas com a Hq e encaderna segundo ela a postura da personagem é uma inspiração! Quando li isso pensei " caralho!! Inspiração pra que? Pra sair dando para a cacete? Não, mas por o jeito solto e principalmente livre de não ficar debaixo de homem algum.. palavras de ela. Mas isso é bem legal, tem coisas que fogem do nosso «controle criativo». Laudo Para muitos -- Para a grande maioria, a personagem é uma safada, mas acho que ela mesmo «caga e anda pra isso». A Tianinha tem esse lado mesmo, e é bom que ela tenha, mas por outro lado ela sabe o que quer, e ao que vai levar isso, mesmo que por um prazer momentâneo ela sempre se sai bem, não existe a remota possibilidade de um cara enrolá-la. -- Não, de forma nenhuma Patrícia, eu não desenho com essa intenção jamais, prefiro achar que de certa forma dou mais poderes as mulheres nos quadrinhos, sempre tive maior predileção em criar personagens femininas, acho que não basta à personagem ser gostosa, mas tem que ser inteligente! O homem é bicho bobo, mesmo quando pensa que está levando e comendo a garota no papo, ela na verdade se deixa levar. -- Tem sim! Gostaria de poder justamente brincar com essas diferenças, com as ditas feministas e com os ditos machões, claro.. Contar isso de uma forma legal nos quadrinhos. Transpiração de Laudo -- Não, não costumo criar referências de outras coisas dos quadrinhos, até porque vejo muita coisa. Sabe Patrícia, eu leio a bessa, e a Tianinha mesmo, visualmente foi inspirada em algumas divas loiras e o resto muito no meu jeito de pensar: -- Inteligente, dona do seu nariz, bem humorada, viva, alegre e claro, o fato de ser gostosa, ajuda. Mas é curioso que muita gente acha que sou um maluco e completamente sexuado, tarado, mas eu sou tranqüilo, já fui muito, mas hoje me preocupo com muitas outras coisas em minha vida é lógico! -- Aliás, depois da entrevista você me dá seu telefone? Outros Laudos -- Estou trabalhando com um cartunista de Piracicaba que está fazendo o roteiro pra um álbum, uma revista de umas sessenta páginas falando sobre Cornélio Pires -- que foi um grande artista e autêntico caipira dos anos 30, mas estamos ainda no texto -- eu saí com a idéia, mas ele está trabalhando o roteiro. Também estou trabalhando com um roteirista e professor de história numa hq chamada -- Conde Lopo -- esse roteirista criou um personagem baseado num livro do escritor Álvares de Azevedo, em ele tem muita mistura -- história, lendas brasileiras, história do Brasil, mitologia terror, é doidera! -- Tem outros também muito legais -- «O Elogio da Loucura», por a escala educacional, que já está pronto, que é um ensaio escrito por Erasmo de Roterdã em 1509 e publicado em 1511. É tido como um dos textos mais influentes da civilização ocidental. O texto de Erasmo começa com sua apresentação, passando por os deuses e deusas mitológicos até terminar falando sobre o mundo cristão. Um texto arrebatador e principalmente atualíssimo. A loucura por vezes é extremamente irônica, por vezes poética e em algumas vezes sombria. Como disse um texto de quinhentos anos conservando um frescor para uma leitura moderna ou releitura como fez o André Diniz ao adaptar para quadrinhos este fenomenal trabalho e sem encher gratuitamente a bola desse meu compadre, algo que só ele saberia fazer. As quarenta e seis páginas que desenhei desse trabalho proporcionou-ma felicidade quase como de trabalhar como algo autoral. O que parecia a princípio difícil, desenhar quarenta e seis páginas de monólogo, tornou-se para mim um excelente exercício de narrativa. O trabalho foi finalizado com as cores do Omar. -- Estamos também, produzindo em parceria com o André Diniz, velho amigo e parceiro de longa data, um material a ser lançado por a Escala Educacional, sobre a «Inconfidência Mineira». Em a verdade, o Diniz está com uma produção grande de roteiros feitos para essa editora que foram distribuídos entre eu, Daniel Brandão, José Aguiar, Antonio Éder, fora o próprio Diniz que também está desenhando um roteiro seu. O roteiro do Diniz embora caminhe na parte educacional é ótimo, contando de uma maneira que só ele sabe levar toda a situação que envolveu este momento da história do Brasil. -- tem um também da Revolução Russa que vou começar a trabalhar, mas mesmo sendo trabalhos educacionais existe uma plena liberdade de criação. Um Laudo completo -- Vai ser lançado ainda, o meu quadrinho «YESHUAH -- Assim Embaixo Assim em Cima». Um épico espiritual e humano -- uma trilogia de 150 páginas cada, tendo como protagonista Jesus, numa versão livre de qualquer vício ideológico e religioso. Pelo menos é minha intenção no roteiro. Este trabalho vem sendo produzido há quase cinco anos. Os volumes um (" Assim embaixo, assim em cima) e dois (este sem título por enquanto) já estão prontos e estou trabalhando na terceira e última parte. -- Esta hq tem dois lados, um é a história contada meio em cima dos evangelhos canônicos, da seguinte forma, a Maria fica grávida virgem, porém existe aí, por exemplo uma versão minha e um entendimento de que A hq é focada mais nos personagens que na história em si, por exemplo, Maria fica grávida virgem porém depois na gruta sozinha, ela questiona a Deus o porque disso, o porque de ela sentir as dores do parto, e o porque do seu medo. São coisas desse tipo, e há um segundo lado em que eu me baseei em pesquisas lendo textos apócrifos. -- Patrícia, este é o meu trabalho que quero realmente que as pessoas conheçam e vejam, lá está um Laudo completo. Como desenhista e como um ser Humano que pensa um pouquinho, não se trata de uma hq religiosa e sim de uma aventura humana em busca de algo maior pra dentro de si, pode parecer presunçoso mas tudo é contado de uma maneira simples. Mas tenho tido dificuldades em publicar esse quadrinho, é que os editores acham bacana o desenho, mas não estão sacando «qualé» a da história, pois ela nem é religiosa daquelas que o Padre Marcelo faria o prefácio, nem muito menos de chutar o pau da barraca, o caminho de ela é o caminho do meio e esse, é difícil de enxergarem. Mas estou na briga ainda, apresentando esse trabalho aqui para as editoras no Brasil e para fora. -- Com isso, não estou querendo dizer que fiz algo Grandioso E Bom, tô fora dessas presunções, mas fiz algo que me deu na veneta sem me referenciar com nada. ... Sem pieguices? Eu te respondo Patrícia: -- O Amor! Sem ele não rola nada -- Amor e fé no meu taco. E principalmente fé nas coisas! Mais do Laudo Banda Mamão Estúdio Banda desenhada Banda mamão 2 Bigorna Arquivo OVERMUNDO Depois da meia noite -- Hq completa do Laudo, Omar Vinole, Cloves Valle e Marcio Sennes Omar Vinole-O Artista das Cores Número de frases: 112 Entrevista, Laudo Ferreira Júnior -- São Paulo-SP -- 17.08.2007 / Um Laudo completo -- Os lados de Laudo -- OVERMUNDO / Por Patrícia Moreira -- Vitória da Conquista-BA Detesto voar. Acho que isso é antinatural. Leonardo da Vinci teria sido melhor pintor se não tivesse perdido tanto tempo pensando em como fazer o homem voar. Santos Dummont poderia ter criado uma centena de outras invenções menos malfadadas. É só pensar no amontoado de pessoas no aeroporto Congonhas, ou em qualquer outro campo de pouso de aeronaves, para você lamentar a triste sina do engenho humano. E os irmãos Wright, então? Onde já se viu invenção inventada por dois irmãos? Todo mundo sabe que dois irmãos só fazem brigar entre si. Brigam por a namorada, por a atenção dos pais, por a supremacia no futebol e por a cama de cima do beliche. Como poderiam eles ter inventado o avião? Acho que só isso põe por terra o argumento ianque sobre a paternidade do invento. Eles poderiam ter usado aquele maldito galpão no qual escondiam a sua parafernália para dar uma festa, uma gincana ou dar um teto para quem precisa. Só existe uma coisa que supera os meus maus sentimentos com relação ao ato de voar: o meu azar com as companhias aéreas. Eu saí na noite de quarta-feira (dia 11/04) do Rio de Janeiro com destino à cidade de Porto Alegre. O meu vôo fazia conexão em Congonhas. Se tudo desse certo, eu chegaria a Porto Alegre no final da noite de quarta, quase na virada do relógio para quinta-feira. Tudo o que eu mais queria era chegar logo no hotel, dormir o mínimo necessário e ir aproveitar o dia no Fórum Internacional Software Livre (FISL). O FISL é a coisa mais próxima que eu tenho de uma colônia de férias desde a última que eu fui com o meu colégio, lá nos idos da quinta série do ensino médio. É uma colônia de férias com direito a palestra. Poucos dias no ano são tão animados como aqueles de Porto Alegre. Mas é claro que nada disso aconteceu. Eu já tive tanto problema com viagens aéreas que no meu dicionário psíquico íntimo o vocábulo conexão, antes de significar 1. ligação, 2. acesso à rede mundial de computadores, para mim significa perrengue. Com p maiúsculo. O vôo, que saía do Santos Dummont, atrasou quase duas horas. O avião que nos esperava em Congonhas para seguir para Porto Alegre se cansou de esperar e seguiu viagem, deixando a mim e mais cinco colegas para trás. Quando o comissário de bordo, ao pousar em Congonhas, disse que os passageiros «em conexão para Porto Alegre devem se apresentar ao nosso pessoal em terra para providências de reembarque», eu já imaginei que iríamos reembarcar numa van para qualquer hotel mais próximo. Foi ainda pior. Não sei quanto a você, mas o meu conceito de próximo não inclui Guarulhos nas redondezas de Congonhas. A propósito, se você gostaria ir logo para o final do artigo e ler sobre o show do Criei, Tive Como em si, você pode mandar o comando «localizar» do seu navegador abrir uma janela e digitar em ela a palavra «cabofriense». De aqui até a próxima aparição dessa palavra eu apenas relato coisas pessoais e sem interesse geral. Mas como a proposta do artigo é falar sobre o show que eu vi, e a memória é afetiva e seletiva, eu selecionei um monte de coisas para escrever. Mas você não precisa se aborrecer. É só usar a informática a seu favor. A atendente da Gol, quando nos viu, foi direto ao assunto: «O próximo vôo para Porto Alegre aqui de Congonhas sai às nove e meia de amanhã. Vocês podem dormir em Guarulhos e pegar o vôo das cinco horas da manhã, saindo de Cumbica». Realmente, numa lógica cartesiana estrita, a atendente da Gol estava coberta de razão: pegando o vôo que sairia de Guarulhos na madrugada do dia seguinte chegaríamos mais cedo do que se acordássemos depois das galinhas num hotel próximo, tomássemos o devido café da manhã e viéssemos tranquilamente para o aeroporto de Congonhas para embarcar às nove e meia da manhã. Depois de alguma discussão todos concordaram em conhecer os encantos noturnos de Guarulhos. O início dos trabalhos do FISL já estava comprometido, mas ainda havia diversão à nossa espera naquele município. A o chegar no hotel percebemos que o táxi tinha uma mala a mais. Não era a minha. Nem a de ninguém que estivesse no taxi. Pensamos em sacrificar a mala e seus pertences aos deuses ancestrais para ver a nossa sorte melhorava. O taxista, esse incrédulo, não concordou. A o chegar na recepção percebemos que estava sendo transmitido por a televisão o jogo Vasco x Botafogo, semifinal do Campeonato Carioca de Futebol. Nada poderia ser mais emocionante: o jogo estava empatado em quatro gols para cada agremiação e Romário ainda não havia marcado o seu gol 1.000. Passava na TV insistentemente um lance no qual se o baixinho fosse dois centímetros menos baixinho teria feito um belo gol de cabeça. Em a torcida, anônimos exibiam cartazes com a piada amplamente divulgada por a Internet: «Romário: vc troca o seu Porsche por o meu Gol Mil?" Jantamos dentro das limitações orçamentárias e indenizatórias propostas por a companhia aérea e ficamos vendo a decisão do jogo por pênaltis. Todo mundo gosta de pênaltis. Menos o torcedor do time que perde. O pênalti é uma pulsão de vida e uma pulsão de morte ao mesmo tempo. Tudo se decide muito rápido. E geralmente sai de ali um infeliz para malharmos o resto da semana. Com uma decisão de pênaltis por final de semana os jornais não precisariam ficar inventando notícia todo ano. Quem agüenta as notícias sobre o prazo para declaração de imposto de renda que está acabando todo santo final de abril? E as noticias sobre as temporadas de troca depois do Natal? Nada que uma boa decisão por pênaltis não resolva. Durante as comemorações por a falta de pontaria dos cobradores vascaínos eu soltei umas duas ou três exclamações que repercutiram até o banheiro do apartamento 1507. Também pudera: o hotel em que ficamos alojados é um panopticum, com um vão interno que vai do térreo ao último andar. Essa belíssima e eficiente obra da arquitetura moderna faz com que nos corredores de todos os andares possa ser ouvido o que se passa na recepção. Ele funciona como uma grande caixa de percussão para que possamos acompanhar as pessoas discutindo o valor do check-out independentemente do andar em que você esteja. É quase uma instalação. A saída para o aeroporto foi no meio da madrugada. Para a minha surpresa, o café da manhã já estava posto no salão do restaurante às quatro horas da manhã. Depois as pessoas que vão tomar café da manhã no horário normal das oito da manhã acham que o pão de queijo está meio frio e ninguém sabe a razão. Tudo muito saudável: com uma diferença de menos de três horas entre o jantar e o café da manhã. Detesto Cumbica. Foi só chegar naquele aeroporto soturno, cheio de corredores enormes e sinistros, que a minha indisciplina alimentar se juntou à vontade desenfreada de sair de ali o mais rápido possível. Todos os postos de atendimento para check-in estavam fechados. A sensação de que eu estava no lugar errado e na hora errada não poderia ser maior. A o chegar ao portão para embarque ficou clara a importância do FISL e o astral que ronda esse evento. Mesmo com o avião atrasado -- olha isso, o avião estava atrasado às cinco horas da manhã, imagine o pessoal que quiser embarcar às dez e meia!-- o saguão estava cheio de pessoas que, provavelmente, também haviam perdido a sua conexão para Porto Alegre. O meu FISL começou ali. Não conhecia viva alma, mas a animação do pessoal, digna de ônibus de excursão, fez o atraso passar rápido. Anti-social como sou, dormi o vôo inteiro. Já no táxi, a caminho do hotel, cometi o maior e mais bíblico dos erros: resolvi discutir política com o taxista. Não sei por que eu insisto nisso. Comecei comentando as declarações do ministro do trabalho sobre sexualidade e fidelidade conjugal, ilustrei o diálogo com algumas pérolas de políticos mais antigos e, quando dei por mim, o taxista, muito gentilmente, me disse que se estivesse armado já teria me dado um tiro. Imagino que você gostaria de fazer o mesmo depois de ler um texto longo como esse e de interesse exclusivamente particular. Mas nada tema, existe um relatório muito legal, e bem mais curto, do show do Criei, Tive Como que você pode ler aqui. Algo me diz que as chances de alguém ler isso até o fim acabaram de cair assustadoramente. Resolvi então não dar mais trela para o taxista. Se ele quer me matar -- pensei -- conversar é que ele não quer. Mas, por outro lado, se ele não pode me matar por a completa ausência de armas de fogo no recinto, a única morte que ele poderia me proporcionar seria aquela derivada de algum acidente automobilístico. E como no acidente ele poderia também perder a vida, achei que valia a pena abordar somente temas clássicos: mulheres e futebol. Esses são dois temas pacificadores das relações sociais pois todo homem concorda que mulher e futebol são coisas boas e que devem ser sempre objeto de conversa. Enquanto eu não revelasse alguma predileção por o Grêmio ou por o Internacional eu teria a minha incolumidade física garantida. Depois de dormir feito uma pedra no hotel e resolver uma série de pendências sobre as quais eu não saberia fazer uma boa piada (o que não quer dizer que eu tenha feito alguma até agora), resolvi ir ao FISL e depois ao show do Criei, Tive Como. Cabofriense! Não disse que funcionava? Então vamos lá. A edição de 2007 do show do Criei, Tive Como foi realizado, assim como no ano anterior, no Teatro do Sesi. O Teatro do Sesi possui uma infra-estrutura invejável e comporta um número de pessoas maior do que a soma de todos os meus primos e primas. O teatro possui apenas um porém: a sua localização. O Teatro do Sesi fica tão longe do centro de Porto Alegre que se você andar a pé por menos de cinco minutos você muda de município. Porto Alegre fica para trás e você ingressa nos mistérios do município de Cachoeirinha. Embora fique nos estertores de Porto Alegre, vale lembrar que o Teatro do Sesi possui a vantagem de estar situado logo ao lado do pavilhão onde se realiza o FISL, dentro do complexo da FIERGS. O show desse ano foi, sem dúvida, maior do que aquele realizado no ano passado. Se em 2006 tivemos as apresentações do Media Sana, Totonho e os Cabra, e BNegão, a escalação desse ano também não deixou a desejar. Já era esperada uma aparição do grupo pernambucano Mombojó, uma das bandas mais comentadas dessa nova geração do rock nacional, que misturando muitos ritmos com boas letras, tem chamado a atenção do público e da mídia em geral. O grupo ficou conhecido por ter adotado a estratégia de disponibilização de suas músicas na Internet, sem deixar com isso de lançar o respectivo CD. A fórmula deu certo e o público, com ou sem o CD da banda, cantou entusiasmadamente várias músicas que passaram por o show. Mas vamos por o começo: com o regular atraso carioca (deve ser vício de origem de parte da organização do evento), o show começou com uma breve apresentação dos artistas e o igualmente tradicional aviso sobre a permissão para fotografar e filmar o espetáculo. Em esse ano o casal de apresentadores mudou. A integrante feminina do casal foi substituída, mas mantiveram o apresentador masculino. Em a minha modesta opinião poderiam ter tirado esse cara e deixado as duas meninas apresentar o show. Logo em seguida entrou em cena o Bataclã FC, banda local que animou o público. O Bataclã surgiu a partir de uma reunião de amigos na UFRGS e a sua apresentação trouxe uma questão bastante interessante: se por um lado as roupas e as letras da banda fazem muita referência ao cenário de Porto Alegre, a fusão de ritmos nas suas músicas expande o universo do Bataclã para atravessar os limites de sua cidade natal, passar Cachoeirinha, e atingir outras origens e localidades. Samba, rock, hip hop e funk estão ali presentes e fizeram o pessoal dançar e cantar. Em certo momento do show, quando uma parte significativa do público se levantou para curtir o show mais perto da banda, o vocalista convidou o pessoal para vir dançar em cima do palco. Não houve grande movimentação dos seguranças, mas seus olhares de punição amedrontaram a platéia que ainda estava se aquecendo. Nada que mais duas horas de show não resolvessem, como visto mais à frente no show do Mombojó. Em nota muito pessoal, eu ainda estava me refazendo dos transtornos da noite passada com a companhia aérea quando o Bataclã entrou no palco. Eles estavam todos vestidos de laranja. Imediatamente me veio à mente a impressão de que eu estava prestes a assistir à apresentação da banda de rock dos comissários de bordo da Gol. Fiquei pensando: «agora eu sei o que esse pessoal fica fazendo enquanto o avião não decola e a mala não chega na esteira das bagagens." Pensei em Belchior e na letra de «Medo de avião». Sempre gostei da parte em que ele fala que " Não fico mais nervoso / Você já não grita / E a aeromoça, sexy, fica mais bonita." A neurose era significativa, mas também o mundo conspirava: não é que o tecladista do Mombojó, não satisfeito em se apresentar de camisa laranja, foi também vestido com uma calça preta, em efeito assustadoramente semelhante com o uniforme dos comissários da companhia aérea? Quase perguntei para ele se o avião estava no horário. Mas também não posso falar muito, pois na minha mala para Porto Alegre tinha uma bermuda marrom clara e uma camisa vermelha. A combinação das duas peças sempre me confere o perfeito disfarce de bombeiro australiano. Só para esclarecer, as roupas do pessoal do Bataclã reproduz as utilizadas por os funcionários do Departamento de Limpeza Urbana de Porto Alegre. O efeito no palco não poderia ser melhor. Depois do Bataclã subiu ao palco o DJ Dolores. A apresentação do Dolores era uma verdadeira comemoração. O seu remix de «oslodum», do Gilberto Gil, foi um dos primeiros remix licenciados no Brasil através do Creative Commons e, por isso, a gente pode dizer que o Dolores é um dos caras que ajudou a plantar a semente da colaboração na música eletrônica debaixo desse guarda-chuva jurídico que é o CC. Como ele estava escalado para falar no FISL no dia seguinte, mas por problemas pessoais teria que retornar para Pernambuco, foi aberto um espaço para que ele mandasse o seu recado sobre colaboração e liberdade na construção musical. Após revelar que muita gente critica o DJ que toca com o notebook em cima da mesa com as pickups, por parecer que ele fica prestando mais atenção em outros programas que rodam na tela do que na música em si, Dolores arrematou: «agora vocês me dão licença que eu vou baixar um e-mail». E deixou a batida correr solta. Uma das grandes surpresas do show do DJ Dolores foi a participação de Maciel Salustiano, que com sua rabeca e voz impressionantes, compuseram com perfeição a mistura de ritmos que são temperados no caldeirão do Dolores. Incentivado por Maciel, o público aprendeu a letra e cantou junto. Foi um dos melhores momentos da noite. Dolores então convidou para subir ao palco os dois DJs vencedores do concurso overmixter. O overmixter foi o concurso que promoveu um diálogo Brasil-áfrica através de samples de músicas brasileiras e africanas disponibilizados na Internet. O brasileiro Lucio K remixou música africana e o africano JC remixou música brasileira. Deu tão certo que até eu fiz o meu próprio remix (para o completo desespero dos meus amigos e entes queridos). Lucio K e JC tocaram cada um uma seleção de músicas, além dos dois remixes vencedores. Um remix com samples de falas do filme «Narradores de Javé», feito por Lucio K, chamou bastante atenção do público. Sobre os DJs em si, a platéia feminina ao meu lado ficou louvando outros atributos do Lucio K que nada tem a ver com a sua capacidade de remixar. Sobre o JC, além de ele ter demonstrado uma técnica impressionante nas pick-ups, não pude deixar de notar que ele é o resultado perfeito do casamento entre o Grafite, ex-atacante do São Paulo e Blade, o caçador de vampiros. Para encerrar a noite, o show do Mombojó não poderia ter sido mais empolgante. Em noite inspirada da banda, passaram por o palco do teatro músicas dos dois cds do grupo, com destaque para as conhecidas «Nem parece» e «Deixe-se Acreditar». O público empolgou rápido e, atendendo ao convite feito por o vocalista Felipe S., subiu para dançar no palco. A ação dos seguranças foi rápida e logo o pessoal tinha todo sido ejetado do palco. Não parece ter havido nenhum desentendimento entre o público e os seguranças além dessa pequena divergência sobre o local mais adequado para curtir o show. Depois fiquei sabendo que a parte da frente do palco, onde o pessoal estava dançando e pulando era, na verdade, um elevador e que a direção do teatro havia feito recomendações no sentido de evitar maiores traumas para o bom funcionamento do aparelho. Seja na fila do gargarejo ou em cima do palco, o show funcionou como se esperava. Eu, particularmente, nunca tinha visto o Mombojó tocar e fiquei muito bem impressionado por a maturidade e presença de palco dos garotos. E como não resistir a letras como «Quero ver você dançar / em cima de uma faca molhada de sangue / enfiada no meu coração»? É importante mencionar que as projeções feitas nos dois telões do Teatro do Sesi por os VJs Pixel e Salsaman foram outro ponto alto do evento. O VJ pixel, que é praticamente o VJ residente do Festival, recebeu muito bem a ajuda do seu colega inglês. A fusão dos dois estilos resultou numa experiência visual muito legal. O 2º Festival Criei, Tive Como cresceu. O show desse ano mostrou que os talentos musicais brasileiros não se restringem aos trinta artistas que tocam nas rádios e que através da colaboração se faz uma música melhor. A concepção de maior liberdade na produção e no licenciamento de obras musicais tem tudo para incrementar a já farta criatividade artística brasileira. Não faltarão bons nomes para que o próprio Criei, Tive Como e outros festivais semelhantes possam ser desenvolvidos e prosperar por vários anos. Os diversos megabytes de músicas de artistas que disponibilizaram os seus MP3 que hoje estão no disco rígido do meu computador não me deixam mentir. Por fim, esse foi um relato pessoal do que eu me lembro e vou levar do show. Sei que o artigo ficou meio grande e fora do propósito, mas achei legal deixar aqui no overmundo essas minhas impressões sobre um festival que tende a crescer e impulsionar projetos semelhantes. Eu já estou esperando ansiosamente por o show do ano que vem. Como diz o Mombojó, para mim «esse é o reino da alegria». Número de frases: 177 Rezo para isso não acontecer, mas vocês apostam quanto, que um dia ainda vou ver como campeão de vendas algum livro do nosso Presidente, mas claro devidamente escrito por terceiros, e com grana saindo «por o ladrão» em investimento! Moradores de rua escrevem e vendem seu próprio jornal em Salvador. Bimensal e com tiragem de 7.000 exemplares, o Aurora da Rua completa um ano de existência ajudando a gerar renda, tirar pessoas da rua e mudar a imagem de quem ainda está lá. Terceira publicação feita por moradores de rua do país (primeira do norte-nordeste), o Aurora da Rua foi criado com a dupla função de projetar uma imagem mais humanizada das pessoas em situação de rua e ao mesmo tempo servir como fonte de renda. -- Precisamos mostrar que as pessoas que estão na rua por algum motivo têm um nome, têm uma identidade, têm uma história -- diz Edcarlos Venâncio, voluntário da publicação. Essa é a função do que a equipe do jornal chama de " profecia ": anunciar a boa notícia, mostrar o que há de belo naquelas pessoas. Para garantir que o jornal seja, de fato, escrito por moradores, foi desenvolvida uma técnica específica. Em cada edição, é definido um tema do universo dos moradores de rua. A equipe de jornalistas voluntários vai às ruas e praças, estimulando os moradores a dar a sua opinião. Quem não sabe escrever, colabora falando mesmo, para que os voluntários anotem e transcrevam «sendo extremamente fiéis ao que foi dito», garante Edcarlos. Ciclo gerador de renda O ciclo de compra e venda do jornal é todo pensado de forma a garantir renda aos vendedores: do exemplar vendido a R$ 1,00, o morador de rua fica com 75 centavos. Cada vendedor administra a quantidade de jornais que vai comercializar. Eles decidem quantos exemplares vão levar e pagam R$ 0,25 por a unidade. Ficam com todo o dinheiro da venda. Os dez primeiros exemplares de cada vendedor são sempre fornecidos gratuitamente por o próprio jornal. Além dos jornais, os vendedores também recebem bolsa, boné, crachá e colete para identificação. Seu João Barbosa é um dos poucos vendedores com ponto fixo, em frente à Praça da Piedade, no centro de Salvador. Em fevereiro, vendeu 124 exemplares e lucrou R$ 93,00. Os vendedores recebem orientações importantes para quem geralmente só se preocupa com as próximas 24 horas. Passam a saber, por exemplo, que quem vende 550 jornais no mês -- ou 23 exemplares por dia de segunda a sábado -- tira um salário mínimo. «É difícil, mas acontece», diz Edcarlos Venâncio. Esse sistema é interessante porque ensina, de forma prática, o morador de rua a ter uma gestão responsável do dinheiro que arrecada. Todo o esforço do Aurora é que a venda dos jornais seja uma atividade digna e pedagógica, para quem vende e para quem compra. Tanto que os próprios vendedores criaram um código de conduta e decidiram que, caso alguém pague a mais por os jornais -- «para ajudar» -- a pessoa sempre vai receber o número de exemplares equivalente ao valor pago. O resultado volta como elogios ao profissionalismo e à cordialidade da equipe. Trinta e cinco vendedores já passaram por o jornal. Sete de eles conseguiram alugar quartos e saíram da rua. Outros foram ajudados a tratar vícios. Alguns conseguiram até emprego fixo. -- Para nós não adianta que um vendedor vende 1000 jornais num mês se ele não consegue aprender a lidar bem com o dinheiro que ganha. A única orientação nossa é a formação humana -- diz o voluntário Edcarlos. Sustentabilidade A equipe me explica que tamanha margem para os vendedores só é possível porque todas as atividades administrativas do jornal são desenvolvidas em sistema voluntário, por 18 pessoas que acompanham o periódico desde sua fundação. A sede é cedida por a Comunidade da Trindade. A impressão e outras despesas do jornal são custeadas por a venda dos exemplares e por as três faixas de assinaturas (duas de elas contemplam a possibilidade de doações). Em a sede, há um mapa do Brasil com alfinetes nos estados em que chegam as assinaturas. «Só não estamos em três estados», diz Edcarlos, orgulhoso. As assinaturas só não podem ser feitas em Salvador, para não prejudicar os vendedores e também para incentivar o contato direto de eles com outras pessoas. O Aurora da Rua completou um ano no último dia 24 de março. E comemorou a rigor: colocou um palco na Praça da Piedade, em Salvador -- local onde o jornal foi lançado -- e os artistas da rua apresentarm-se e fizeram a festa! Veja aqui como foi a festa do primeiro ano do Aurora da Rua. Número de frases: 45 Festival de arte discute os anos de luta do povo negro Por Georgiana de Sá Belo Horizonte termina o mês de novembro com saldo positivo para a diversidade cultural. Entre os dias 19 a 25/11, o Fan, «4.º Festival de Arte Negra-2007», ocupou vários espaços da cidade com música, teatro, dança, cinema, exposições e debates sobre a participação do negro na história brasileira. Em o dia 20 de novembro, a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), esteve na Casa do Conde para comemorar o «Dia da Consciência Negra», uma homenagem a Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra à escravidão no Brasil. A ministra falou da importância da cultura negra para a história do país e assistiu apresentações de danças de origens afro-brasileiras, da «Associação Cultural Eu Sou Angoleiro» (Acesa). Durante o evento, personalidades e artistas afro-brasileiros conheceram o «Ojá» -- palavra africana que significa mercado -- que foi montado na Casa do Conde. Os convidados concederam entrevistas e falaram sobre a resistência do negro durante a ditadura militar. O ator Romeu Evaristo, que vive o'Angolano ' no programa de humor Zorra Total, também conhecido por ter feito, nos anos 70, o Saci Pererê no Sítio do Picapau Amarelo, lembrou que a repressão militar proibia, de propósito, manifestações da cultura negra, como o samba e a capoeira. «Mais que ninguém o negro sofreu com a ditadura, com causas e efeitos perversos», opinou ele. O cantor Netinho de Paula, 36 anos, defendeu a inserção dos negros na política do país e elogiou representantes como Gilberto Gil e " Benedita da Silva. «A presença do negro na história política brasileira, em termos quantitativos, pode parecer insignificante, mas merece aplausos», considerou o cantor. O ator Fabrício Boliveira, 25 anos, que atuou como o'Bastião ' na novela Sinhá Moça, da Rede Globo, e o Saci Pererê da série de 2001 do Sítio do Picapau Amarelo, recordando as histórias de seus antepassados lamentou o sofrimento dos afrodescendentes à época da repressão no país. «A religião, a música e a capoeira eram vistos como expressão cultural proibida», disse. Mineiro de Ouro preto, o artista plástico Jorge dos Anjos analisou que, tanto na abolição da escravatura, quanto no período da ditadura, o negro ajudou a construir a história política do Brasil. Ele destacou que, durante a repressão, a arte da capoeira era impedida de ser celebrada e os terreiros de candomblé invadidos. «A polícia quebrava tudo e os pais-de-santo eram presos. Os sambistas eram perseguidos e considerados vagabundos». Lydia Garcia, do Atelier Cultural Bazafro, especialista em moda étnica, ressaltou que os movimentos sociais, durante a ditadura, contaram com a participação da população negra. «A religião e a música de origens africanas, já marcadas por preconceitos históricos, foram manifestações artísticas ainda mais perseguidas durante a ditadura». Número de frases: 20 Em sua luta por a resistência dos afrodescendentes, Lydia se tornou militante do movimento negro em Brasília, na década de 70." Fui uma das primeiras a subir a Serra da Barriga, em Alagoas, templo de resistência e sede de um dos maiores quilombos do Brasil», contou ela. «As vacas ainda não passaram por aqui hj. Elas passam todo dia a essa hora." Era fim de tarde no apartamento no bairro do Bessa de Francisco Leite, 30, mais conhecido como Shiko. «Quer um café? Isso aqui tá uma bagunça, ando meio sem tempo e o cara que ficou de fazer a limpeza não apareceu!». Shiko, como o próprio apelido remete é um cara assim, simples, direto, preguiçoso, segundo ele mesmo, gosta muito de se divertir e tem um talento que impressiona por a despretensão e que parece evoluir a cada dia. He-MAN Ele não lembra de uma fase na vida de ele em que não gostasse de desenhar, mas a primeira vez em que achou que um desenho tinha ficado realmente bom foi um he-man, ainda na infância. «Se achando» levou para o colégio pra mostrar aos amigos. Ainda em Patos ele começou a desenhar com um grupo de amigos. «Eram uns cinco ou seis dos quais eu era o pior. Hoje eles viraram burocratas, farmacêuticos, ... só o Alano virou tatuador. Mas ele é doido mesmo, de remédio», diz isso e advinha? Ri. Patos Ele é natural da cidade Patos, localizada no sertão do Estado da Paraíba, conhecida por o clima muito quente. Quinto filho de uma total de seis, ele conta que saiu de Patos quando o grupo de teatro do qual fazia parte ganhou um festival e entre os prêmios estavam passagens para João Pessoa. Em a época, ele trabalhava para uma serigrafia, fazendo ilustração e artes. «Sempre fui o doido da família. Descobri que a minha não era estudar desde muito cedo. Pra você ter uma idéia, eu terminei o segundo grau junto com meu irmão caçula», ele ri. «Antes disso eu havia saído de casa pra tentar algo em Brasília. Fiquei na casa dos meus tios que moram lá. Mas, aquela coisa, meu tio é funcionário público e eu voltava da escola com os cabeludos, tatuados e gostava muito de sair para a farra. Ele me dizia: não pode ser assim, meu filho!», ele ri mais uma vez. «Em essa época eu cheguei a fazer um trampo prum cara ilustrando dois livros, que até onde eu sei, nunca foram publicados. Não é preciso dizer que por essas e outras voltei para a Patos até a saída definitiva para João Pessoa». Em João Pessoa ele ficou uns dias na casa de uma irmã. Não demorou muito tempo por lá, logo conheceu Larissa, uma namorada com quem foi morar na casa que logo depois seria batizada de Rock House. Lá ele aprendeu o sentido de coletividade. A Rock House virou ponto de encontro de desencanados. «Em a Rock House eu conheci Bill», um futuro parceiro de criação. «Larissa foi ao Festival de Areia e conheceu uma galera. Um desses caras era Bill, que três meses depois estava morando lá na casa». Iniciou-se aí uma parceria de alguém que gostava de escrever com alguém que gostava de desenhar. «Não que o meu texto seja execrável, mas Bill faz o que quer com a palavra, põe pra cá, tira de ali e consegue associar um monte de idéias. Ele tem o dom e nosso universo se afina muito». Essa parceria viria a vingar e daria um bom fruto do qual falaremos mais tarde. SHIKO De onde vem o nome Shiko com «S» e «k»? «Sempre gostei de ler Quadrinhos, meu preferido era o CONAN, ele era ladrão, biriteiro, andava com as putas e matava mesmo, torava no meio», gargalha. «Um dia estava lendo um mangá clássico de samurai e, durante um combate, um de eles saca a espada e com um golpe violento corta o pescoço do seu adversário e fala: ninguém escapa do meu shiko. Lá em baixo tinha uma nota do autor explicando que shiko é o termo que define o alcance da lâmina do samurai. Eu pensei, é isso! Depois descobri que alguns artistas japoneses também utilizam esse nome, mas nenhum de eles se chama Francisco», desnecessário dizer que ele riu. Artes Plásticas Foi no Colégio Estadual Liceu Paraibano que ele teve o primeiro contato com pincéis e telas. «Um professor de artes reservou uma sala para ensinar os alunos que se interessassem. Como o material era cedido gratuitamente por a Secretaria de Educação a gente recebia tinta lavável pra pintar. Aquela de pintar parede», ele ri. «Acho que essa é uma das grandes diferenças do meu trabalho com telas, eu estou muito mais para artistas de rua, marginal, que para aquela linguagem de escola de pintura. Outro ponto importante é que ao contrário da maioria dos artistas plásticos não tenho essa pretensão de criar linguagem nenhuma, criar conceitos, não! Me interessa muito mais como uma tinta funciona em determinado tipo de material, seja ele papel, tecido ou parede. Gosto daqueles artistas que pintam putas telas em muros de terrenos baldios que não podem ser vendidos. A pintura vai ter efeito nas pessoas que passarem ali e enquanto ela resistir ao tempo. Ela tem um fim, cumpriu sua função. Até porque esses espaços públicos de rua só são permitidos para publicidade e para a política. Gosto da idéia de chegar lá e se instalar, e isso é crime!», ele ri mais uma vez. Técnica A primeira vez que vi algo desenhado por Shiko foi na Rock House em algum momento em 2002 ou 2003 numa das famosas festas no local, que o vizinho do lado odiava porque virava noites. Larissa, então namorada de Shiko, estava com um número do Marginal Zine. Fiquei impressionado com o estilo de Shiko e perguntei de onde era o zine. «De Shiko, meu namorado, ele é de Patos». Fiquei tão impressionado que quis comprar na hora. Ela me disse que não podia só tinha aquele exemplar. «Ele faz poucos». Quis saber se ela tinha os outros números. «Acho que não, ele faz poucos». Disse a ela que precisavam fazer mais, o material era muito bom. Tempos depois voltamos a nos encontrar, por sugestão de amigos ele desenhou o story board de um clipe de uma banda que tocava. O clipe daquela música não saiu, mas o story board tinha o traço de ele despretensioso mas com uma aura impressionante de um universo que tem como característica suas principais referências visuais, musicais e literárias. «O desenho não evolui sozinho! Enquanto a técnica só melhora com a prática, o referencial para o traço melhora à medida que melhora o que você lê, a música que você ouve, os filmes que você vê». Sábias palavras. Prêmios Nunca soube bem como andava a carreira de ele, acho até que ele nem pensa muito em ela, com diretrizes e objetivos a realizar, mas soube um dia que foi homenageado com um prêmio «hours Concours», numa mostra de artes no FENART, um dos maiores festivais do Estado. «Achei muito engraçada essa história. Sempre me inscrevi para o Salão Municipal de Artes e nunca havia sido selecionado. De repente, eu me inscrevo para a mostrado FENART e ganho logo o prêmio maior, aquele dado ao cara que está acima do nível dos outros participantes. Não entendi nada e pra finalizar acabaram roubando meu trabalho da mostra. Acho que me deram o prêmio como pagamento», gargalha. «Não fui atrás, é um festival muito popular organizado por pessoas que conheço, onde circunda muita gente. E por outro lado que bom que tem alguém que quis correr esse risco para ter um quadro meu», desta vez ele não ri. «Ah, ganhei também dois prêmios numa mostra internacional». Blue Note O projeto do Blue Note, o livro que ele lançou com mais de cem páginas todo em linguagem de quadrinhos, nasceu ainda na " Rock House. «Eu dei uma idéia a Bill pra ele escrever um texto. Bill é daqueles caras que tem a manha das citações, é uma cara que escreve todo dia. Um dia ele me entregou uns textos. Comecei a desenhar aquilo e um tempo depois a gente foi assisitir a «Quero ser John Malkovic». Putz, tinha muita coisa que de uma maneira ou de outra estava relacionada aquele roteiro. Rasgamos tudo e resolvemos começar do zero. «Em essa fase Bill acabou seu namoro com Cris e resolveu voltar para Rio Tinto, sua cidade natal. Ficou um tempo lá, isolado, e um dia ele me entregou 20 páginas de textos totalmente desconexos, que ele escreveu nesse período em que passou recluso em Rio Tinto. Dei uma arrumada naquilo e comecei a desenhar. Retornei pra ele ver como tinha ficado e ele alterou tudo de novo ... O resultado é que agora temos uma história totalmente invertida, onde muitas vezes pode-se achar que as coisas não fazem sentido», ri. «A história do Blue Note, como tudo o que desenho e pinto, tem muito da minha hstória pessoal, muito das minhas referências de filmes, música e livros que leio. O Narrador da história é uma espécie de alter ego de Bill. A imagem de ele mesmo está no personagem do barman. A história está cheia de personagens que vivem histórias pessoais que se interligam no bar que frenqüentam. Uma das coisas engraçadas nesse projeto é que quando falei com Bill sobre colocar o projeto do livro pra ser impresso com apoio de uma lei estadual de incentivo a cultura, ele resistiu. Disse que não concordava com apoio de verba pública pra tocar um projeto pessoal. Depois expliquei pra ele que dentro do projeto não visávamos especificamente grana e sim ver esse projeto finalizado com uma boa qualidade. Ele acabou engolindo», acende um cigarro. RG Uma das maiores lendas sobre Shiko é que ele não tinha nem RG há bem pouco tempo. «Quando vim morar aqui eu já estava sem RG porque tinha perdido em Patos e não tinha tirado novamente. Em João Pessoa, resolvi tirar e perdi de novo. Esqueci, deixei pra lá, passei muito tempo sem RG, sem CPF e o serviço militar nunca viu minha cara». Número de frases: 117 «E aquele café, vai querer?». De 26 a 28 de outubro, no Largo das Neves, em Santa Teresa, ocorrerá o I RioCírio, evento que irá celebrar os festejos dedicados à Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses, e Nossa Sra.. Aparecida, padroeira do Brasil. O RioCírio remete a conhecida manifestação cultural do povo paraense, o Círio de Nazaré, uma das maiores festas religiosas da América Latina, que envolve uma grande estrutura turística, religiosa e cultural, na cidade de Belém do Pará, e reúne mais de dois milhões de romeiros numa gigantesca procissão de fé por as ruas da capital do Estado. A tradição em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, no Pará, já tem mais de dois séculos e atrai para a região, no mês de outubro, devotos de todo Brasil e do mundo, muitos em reconhecimento das mais diversas graças recebidas. Conhecido como o " Natal dos Paraenses, o evento começa no segundo domingo de outubro, com a procissão que percorre mais de 3 quilômetros da cidade, da Catedral de Belém até a Praça Santuário de Nazaré, onde a imagem da Virgem fica exposta para veneração dos fiéis durante 15 dias. Em a procissão, uma Berlinda carrega a imagem de Nossa Senhora, que é seguida por romeiros. As famílias paraenses enfeitam as ruas e casas em homenagem à santa, o visual da cidade se transforma no cenário de um grande espetáculo de fé. Após a romaria é servido o tradicional almoço do Círio, com pratos típicos da região, como a maniçoba, o vatapá e o pato no tucupi. As iguarias paraenses são especiais não apenas por seus igredientes exóticos, mas também por seu preparo. A maniçoba, por exemplo, é feita a partir da maniva, que é a folha extraída da mandioca. A folha, depois de moída deve ser cozida por sete dias, tempo necessário para evitar intoxicação por o ácido cianídrico, substãncia que pode levar à morte. Depois dessa preparação, o tempero é feito com ingredientes semelhantes ao de uma feijoada completa. Além da procissão, o Círio agrega outras manifestações, como a trasladação, a romaria fluvial e outras peregrinações. O RioCírio, em Santa Teresa, ocorrerá no período do Recírio, a procissão de encerramento, momento do desfecho de toda a festividade Nazarena. O evento terá inicio com a realização da missa, às 18h, na igreja de Nossa Senhora das Neves, que irá receber em sua casa N. Sra.. De Nazaré, N. Sra.. Aparecida e Santa Teresa. O objetivo do evento, que conta com parceria da Igreja de N. As. De as Neves e da sub-prefeitura de Santa Teresa, além de celebrar as santas, é difundir e reunir grupos artísticos em torno da cultura paraense, criar um espaço para integração cultural da comunidade de Santa Teresa e revitalizar um de seus largos mais tradicionais, o Largo das Neves, relembrando ainda as festas de quermesse com barracas de comidas típicas, artesanto, atrações culturais e brincadeiras. A programação contará com apresentações musicais de jongo e carimbó, além da presença de diversos elementos da cultura nortista, amazônica, incluindo lendas e ritmos de seu folclore, assim como a marujada, cortejo de rua, que a partir de 1835 se integrou no Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Programação 26 de Outubro \> 18h -- Missa na Igreja Nossa Senhora das Neves \> 19h -- Auto do Círio -- Procissão encenada \> 20h -- Cabaré Circundado (Circo) \> 20h40 -- Documentário sobre vida e obra de Verequete, mestre de carimbá de raiz paraense. -- Vídeo sobre o Círio -- Apresentação de DJ \> 21h30 -- Tambor de Criola -- As três Marias \> 22h -- Carimbó -- Bandalheira Paidégua 27 de Outubro \> De 10h às 14h Oficinas de reciclagem e gincana cultural (brincadeiras do Pará e do Rio) \> 14h Cabaré Circundando \> 15h DJ \> 17h Convidados, poesia, arte e cantoria \> 18h30 Mostra de vídeos paraenses \> 20h Denise Rodrigues, comediante paraense \> 21h Cabaré Circundando \> 22h Bandalheira Paidégua \> 00h Encerramento e limpeza da praça 28 de Outubro \> 10h às 14h Oficinas de recilagem e gincana cultural \> 14h Cabaré Circundando \> 15h DJ \> 15h 30 Capoeira \> 16h30h Convidados, poesia, arte e cantoria \> 18h30 Mostra de vídeos paraenses \> 19h30 Jongo \> 20h30 Bandalheira Paidégua \> 22h Encerramento e limpeza da praça Número de frases: 51 Este texto será publicado na próxima edição da revista Giro Cultural, em Dezembro / 2006. Após o grande sucesso de «Madame Satã», o cearense Karim Aïnouz chegou com prestígio no último Festival de Veneza para apresentar seu segundo longa-metragem: «O Céu de Suely». Inicialmente surgiu o convite para o Festival de Cannes, porém, como o filme ainda não estava pronto, a responsabilidade da estréia mundial ficou para o festival da cidade italiana, que aconteceu de 30 de agosto a 09 de setembro. A projeção foi bastante elogiada e chamou atenção por ser um filme «feito no Nordeste e não sobre o Nordeste», característica apontada por o próprio Karim, denotando que é uma história que poderia acontecer em qualquer lugar e com qualquer pessoa dos moldes da personagem. O longa conta a trajetória de Hermila -- outra marca interessante é que os personagens têm os mesmos nomes do atores que os interpretam, moça que volta de São Paulo para sua cidade natal, Iguatu, no interior do Ceará, com um filho pequeno e aguardando por a vinda do marido, que deveria voltar também um mês depois, mas nunca chega. O filme tem produção de Walter Salles e direção de fotografia assinada por «Walter Carvalho (Madame Satã» e «A Máquina "), além de vários atores nordestinos da nova geração, como João Miguel e a pernambucana Hermila Guedes, ambos de» Cinema, Aspirinas e Urubus», de Marcelo Gomes. Durante o Festival de Veneza, Hermila conversou com o Giro Cultural sobre «O Céu de Suely», seu primeiro grande trabalho no cinema como protagonista. -- Qual a expectativa para este filme tanto aí na Europa quanto aqui no Brasil? -- Esperamos que seja bem recebido, seja visto, principalmente no Brasil, já que o filme não tem caráter comercial. -- Alguma identificação com a personagem? Não teve confusão na cabeça de quando começava a Hermila personagem e a Hermila da vida real? -- Somos uma coisa só. Eu fui tudo aquilo naquele momento. De certo me assustei um pouco com essa idéia de Karim, mas depois entendi que não podia ser diferente. -- Como você se preparou para a personagem e como se desvinculou depois? -- Em o filme todos os atores passaram por uma preparação antes das filmagens. O processo foi monitorado por Fátima Toledo, a mesma que preparou o elenco de Cidade de Deus, Cidade Baixa e Pixote. Confesso que consigo me distanciar da personagem, mas ela ainda é muito presente em mim. -- O convite para fazer o filme surgiu de que forma? Teve algo a ver com «Cinema, Aspirinas e Urubus»? -- Sim, porque o Karim pensou em me convidar pra fazer os testes do seu filme depois que viu meu trabalho no «Aspirinas». -- Como foi a receptividade no Festival de Veneza? Hermila GUEDES -- Foi maravilhosa. Pessoas me cumprimentando, tirando fotos, pedindo autógrafo ... é a primeira vez que vivo isso na vida. É realmente emocionante. -- Apesar de abordar um tema clássico, Karim Aïnouz fala que o filme é intimista. Como você vê a atmosfera de «O Céu de Suely»? Também intimista? Algo que muitas pessoas podem se identificar? Hermila GUEDES -- É porque fala de uma menina que é sonhadora, romântica, que quer apenas ser feliz com seu amor e seu filho, mas que infelizmente não dá certo. E ela tem que passar por momentos difíceis pra ser livre e escolher o lugar que ela possa ser feliz de novo, como qualquer pessoa. -- Comente a experiência das gravações, de ficar praticamente isolada com a equipe no interior do Ceará, pra realizar as filmagens. Hermila GUEDES -- Normalmente isso acontece em cinema. É difícil, mas necessário pra te ajudar a se concentrar. O processo com a Fátima foi difícil, o calor, acordar cedo, gravar todos os dias, mas estava feliz com a conquista e não pensava na parte ruim. Número de frases: 40 Vista de fora, uma comunidade parece um micro-universo, onde todos se conhecem e comungam dos mesmos gostos. Já aqueles que vivem seu dia-a-dia se deparam com um universo cheio de cores, sabores, costumes e credos diferentes. Alguns nascidos na comunidade, outros não, assim como eu, que aprendi a gostar e respeitar suas diferenças. Não conhecendo muito bem sua geografia, me deparei algumas vezes perdido sem saber por onde ir e nem como chegar ao meu destino. Assim como me disse a moradora Edna, que não sabia como chegar na casa do meu irmão, que mora próximo à praça. E de outro morador que, sem me conhecer, logo se identificou dizendo que morava nas Três Bicas. Ele estava apenas procurando casa para comprar e não tinha o hábito de vir na Beira. Por isso estava perdido, lembrando que eu moro em beco sem saída. Com a grande quantidade de ruas, becos e vielas, existe uma diferença sócio-econômica e cultural dentro da comunidade. Criando sub-bairros, com guetos diferentes, por vezes criando uma falta de convivência por parte dos moradores das diferentes localidades como barrinho, horta, beira e praça. Em seus grupos específicos encontramos o gosto peculiar por o funk, forró, pagode, música religiosa e o que pode causar espanto, roqueiros que curtem um som pesado, se vestem de preto e vivem num mundo só de eles. Como podemos ver numa comunidade não existe somente um grupo, mas um grande universo a ser descoberto. Número de frases: 12 A essa hora a polêmica envolvendo certos escritores selecionados a dedo, uma editora, renúncia fiscal e uma idéia genial já está caduca mas mesmo assim vou dar minha opinião. Homônimo do filme de Wong Kar-Wai, o famoso projeto «Amores Expressos», vulgo Bonde das Letras, é uma idéia a princípio muito louvável: levar escritores novos ou seminovos para dar um rolê na faixa por várias cidades famosas do mundo que não sejam no Brasil e voltar para casa com um livro sobre amor que a Cia das Letras publicará. Que romântico! Até aí tudo bem. Acontece que isso vai acontecer às expensas do seu, do meu, do nosso suado dinheirinho. E com um processo de escolha dos nomes mais contestado que a escalação do Valdir Peres para o gol da seleção de 82. Parece que foram escolhidos apenas 16 camaradas da patota do escritor João Paulo Cuenca, que nessa brincadeira vai para Tóquio, e do produtor Rodrigo Teixeira (O Cheiro do Ralo). Teve amigo que ficou de fora, o que não garante grande coisa como critério de isenção. Além da edição das obras o orçamento de 1, 2 milhão de reais, captados via renúncia fiscal (Lei Rounet), também serve para a produção de documentários sobre o périplo de cada autor atrás da inspiração em terras estrangeiras e conseqüentes compras de direito autoral de adaptação para cinema dos livros resultantes desse verdadeiro trem da alegria. É muita grana! Quantos livros não poderiam ser adquiridos para as bibliotecas públicas com esse montante? Teixeira anunciou que teria dinheiro para tocar o bonde mesmo que não arrecade por a Rouanet. Nada mais justo que assim seja, a lógica de mercado deve prevalecer. Nunca entendi esse tipo de capitalismo assistido por o governo que a gente tanto cansa de ver no nosso cinema, música, teatro, artesanato. Fica aqui a sugestão de fazermos, nós habitantes do Overmundo, uma espécie de intercâmbio e cada um escreve suas experiências em outras cidades em nosso Brasil varonil, mostrando que não são necessário rios de dinheiro nem cenários no exterior para escrever sobre o amor. Número de frases: 16 Quem se habilita? «Todo cara [artista] deve pensar como se ele fosse uma empresa» -- Sérgio Filho, vocalista do GRAM Em esta matéria em vídeo, integrantes das bandas Gram e Ludov e o produtor Carlos Eduardo Miranda falam sobre como um artista independente deve trabalhar para ser conhecido, ter sucesso! Primeira matéria aqui! Produção e reportagem: Ad Luna Edição: Daniel Rotatori Câmera: Daniel Seda Número de frases: 8 Esta é a primeira de uma série de quatro artigos sobre o novo teatro carioca. Arquitetada sobre quatro pernas -- autor, ator, produtor e espaços -- essa série se dispõe a tentar fotografar, com olhos leigos, o que acontece nesse campo em maio de 2006. Apesar de eu ter uma atenção maior com o universo musical -- e sobre esse tema desenvolver a maior parte dos meus trabalhos --, o Hermano Vianna optou por me convidar para ir além. Talvez esta falta de referências específicas tenha sido a minha grande riqueza aos olhos de ele e essa aposta me empolgou. O Hermano nunca soube disso -- aliás ele nem sabe quem eu sou pessoalmente, mas gosto de encarar o jornalismo e a arte de uma forma pessoal. E mais: acho que arte só é pessoal, feita de um pra um -- conseqüentemente se torna coletiva, afinal essa coletividade é composta de vários «uns». A arte é, primeiramente, um ' gostei ' ou ' não gostei ', sim. A primeira sensação é a alma de qualquer arte. Ela não é limitadora, mas é vital. O aprofundamento, o levantamento de questões, a análise crítica, o discurso, a estética, a retórica, a farsa e a verdade também são importantes e não prego deixá-las de lado. Mas acredito que o primeiro toque é o que marca. Não se vê «O grito», de Edvard Munch impunemente. Gosta-se ou não. Pode-se até aprofundar aspectos como os citados acima, e é importante que se faça isso. Inclusive, eles podem influenciar a posteriori na valorização que se dá a uma obra. Também acho que a relação duradoura e repetitiva, de ir permitindo que a arte quebre gradativamente barreiras pessoais e vá chegando mais fundo no sentimento, também é bacana. Com o álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, por exemplo, minha relação foi assim, lenta e cada vez mais profunda. Mas acredito que nada seja mais importante do que o primeiro olhar e a sensibilização causada ou não por a obra. E foi por isso que a aposta que o Hermano fez ao me confiar tal missão me empolgou. É com o estímulo do olhar cru que esta série se seguirá. E é em ele que eu confio. Pedro Brício: contradição e paixão movendo a criação Apresentação (por Bruno Maia): Pedro Brício abre a porta de seu apartamento. Seu rosto é conhecido e isso aplaca a dúvida que me instigava no carro, a caminho do encontro. Pedro Brício é um cara simpático e acessível. Em o início, um pouco desconfiado. Em o final, já está dando indicação de fontes para uma outra pesquisa do repórter. Isso é legal. Pesquisas de pré-produ ção indicam que ele tem 33 anos, mora no Rio de Janeiro -- sua cidade natal --, é formado em Comunicação Social-Cinema por a Universidade Federal Fluminense e Mestre em Teatro por a Universidade do Rio de Janeiro. Ainda segundo as pesquisas, participou como ator de algumas produções globais, como a novela Quem é você? e a minissérie Hilda Furacão e venceu o Prêmio Shell de melhor autor em 2006, por a peça A incrível confeitaria do Sr. Pellica. Apresentação feita por o próprio: «Deixa eu ver ... Meu nome é Pedro Brício, sou ator, diretor, dramaturgo, é ..., carioca, flamenguista, mas ao mesmo tempo acho que sou um cara do mundo, né ... Faço parte de uma geração na qual é difícil se definir o quanto você é brasileiro e o quanto você é parte de uma cultura globalizada». * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * O teatro, aos olhos de um leigo, depende de um texto sob o qual os atores vão desempenhar suas funções. O texto é a matéria-prima e por isso a série de reportagens sobre o novo teatro carioca se inicia abordando este aspecto da renovação. A o receber o Prêmio Shell de melhor autor, Pedro Brício não se furtou a dizer que, no Rio de Janeiro, não há respeito por os jovens autores e que, no país, ainda se vive um sentimento de valorização do texto estrangeiro. Bradou ainda contra o ranço que a expressão ' teatro alternativo ' carrega com si. Ciente de que a conversa se daria com um leigo em teatro, Pedro topou conversar sobre sua arte de uma forma mais ampla, com um olhar de fora pra dentro. Quando na faculdade, pensava em ser diretor: «Eu achava que ser ator era uma coisa menor, tinha o desejo de criar sentido e o ator é um portador, um intérprete. Eu tinha uma visão meio Hitchcock de que o ator era como gado, mas ao mesmo tempo sentia uma coisa quando via os caras na frente da câmera, sentia que as pessoas faziam errado e eu queria fazer diferente, melhor. Por isso resolvi retomar minhas aulas de teatro e voltar a atuar». E o autor " Pedro Brício? «Eu fiz muita coisa ruim em TV. Os atores têm a característica de brigar com a obra; de, às vezes, ter que fazer por a grana e esteticamente achar uma merda ... E eu passei a sentir a necessidade de ter um domínio mais autoral do meu trabalho». O autor veio da frustração do ator que veio da frustração do diretor. A inquietação que marca as mudanças de papel na carreira de Pedro Brício também o impulsiona esteticamente. Ele afirma que o olhar que sua geração propõe é o de uma percepção da realidade ' esperta e crítica, sem cair no cinismo '. Autocrítico, aponta o caos contemporâneo e a percepção do absurdo da realidade como temas freqüentes. Reconhece a metalinguagem como um formato presente em sua obra. «Tem um trecho de uma das peças em que se o personagem questiona: ' o que é o real? O objeto dos nossos sentidos? Uma parte do possível? ' É um questionamento filosófico, quase metafísico dos sentidos, que fala dessa contemporaneidade, desde Matrix a Quero ser John Malkovich ... A gente vive num mundo onde o absurdo é tão grande que, às vezes, o absurdo é o real». A divagação que flanava para a compreensão da função da arte volta a encostar os pés no chão com o questionamento de como ele se enxerga numa nova dramaturgia carioca, em maio de 2006. «Minhas duas peças são meio fábulas, mas a primeira (O homem que era sábado, 2003) se passava num apartamento de uma grande metrópole, que podia ser o Rio, podia ser Buenos Aires, mas trazia esse clima de decadência, e do lado de fora do apartamento tinha uma guerra, um caos, que era o caos do Rio. Em a segunda peça (A incrível confeitaria do Sr. Pellica, 2005), os personagens estão dentro de uma confeitaria num país em guerra e a premissa que me levou a escrevê-la é justamente como se fazer arte num país em guerra. E essa guerra é a que a gente vive, a guerra social, do tráfico, da violência urbana e isso é um tema recorrente. Essa sobrevivência é um tema recorrente dessa geração». A contradição é outro aspecto reiteradamente visto no discurso do autor. Pedro questiona a importância dada ou reclamada por o novo, ao mesmo tempo em que o aponta como alternativa estética. «Eu não acho que haja um valor na vanguarda em si. Em a minha peça do ' Senhor Pellica ', eu quis usar uma estrutura totalmente clássica e fazer uma brincadeira de distância e aproximação. Como os temas que no século XVIII eram importantes estão aí; a crise da fé, a valorização da lógica ... o amor romântico do Molière é igual ao da novela das seis. É igual! Mas coloquei isso dentro de uma estrutura clássica. Aí quando o Chico Buarque vem e diz que a canção está acabando, eu penso que a gente tem que dialogar com a tradição, que eu tenho que saber escrever uma boa peça até para saber desconstrui-la. Mas aí, você chega a que tudo já foi desconstruído, então acho que está na hora de construir um pouco, ou não ..." Ou reformar?-- pergunto. «É, ou reformar ... Fazer um puxadinho. Acho que a gente faz muitos puxadinhos nas peças, porque tudo já foi desconstruído. Mas essa busca do novo não é um valor em si. Se você for verdadeiro e autêntico já é original». Você não acha tudo isso contraditório? «É ... talvez ... um pouco. Contradição, é ... Eu acho que o novo não pode vir antes. Tem que se falar das coisas que te movem em primeira instância. Eu acho ruim querer fazer algo muito novo, que vai renegar tudo. Acho que vale aquela coisa de falar com a sua aldeia». «Com a música é um pouco diferente do teatro porque ...», abordando a forma de sobrevivência e de estruturação de uma carreira, Pedro ia tentando criar paralelos entre o seu universo e o do interlocutor, que no caso, era eu. Mas o interrompi pra dizer que não achava a música tão diferente assim, não. Em a verdade, eu acho muito parecido porque as questões são parecidas, desde a criação como uma urgência pessoal até o cenário e as necessidades dos artistas. A grande diferença é que a tecnologia já alterou muito mais a rotina de quem lida com música do que de quem trabalha num palco. Para o bem e para o mal. Recuperei o próprio Chico Buarque, que ele havia citado. O questionamento diante da afirmação de Chico sobre o possível fim da canção -- que tornaria este formato de música uma característica do século XX e que seria superada nos próximos anos -- é, de certa forma, perturbador para quem cria a música e quer fazer o novo dialogando com as tradições. A estagnação diante da dúvida entre a desconstrução dos velhos paradigmas e a criação de novos é inerente a qualquer arte, principalmente em tempos de mudanças sociais e de costumes tão grandes como esses. Os artistas estão esperando o novo mundo se desenhar para poder representá-los em seus trabalhos. E o mundo ainda não está pronto. E pra quem a arte fala neste mundo que gira ao redor de nós em maio de 2006? Cabe ao artista calcular, direcionar o seu texto para um target? Não e sim. É inexorável jogar a lógica da cultura de massa, do consumo cultural sobre a produção artística numa sociedade capitalista. Pedro me encontra neste aspecto: «Tem que pensar que você não vai falar pra todo mundo mesmo. E você não tem como saber pra quem você fala. Aí entra o nosso preconceito. Eu fiz essa peça nas lonas culturais e nos SESCs de São Paulo e, às vezes, você sente que esse cara entende melhor a sua peça do que o estudante da PUC, que freqüenta teatro», observa. E qual é o papel do artista nesta história? O que é ser artista quando o ofício do seu trabalho passa a incluir matérias que não são vinculadas à criação artística diretamente? Como a arte sobrevive num autor que é diretor e produtor ao mesmo tempo? Questões que surgem e, docemente, ficam sem resposta na sala da casa de Pedro Brício. São elas que movem a arte. Número de frases: 144 Com isso os usuários tendem a economizar os R$ 40,00 reais cobrados por as empresas de telefonia fixa. A expedição Mundo Por Terra tem por objetivo rodar ao redor do planeta, passando por mais de 60 países nos 5 continentes, para, além de realizar o «Projeto Cultural UNIVERSO DE BRINCADEIRA», agregar conhecimento com as mais exuberantes experiências a serem vividas entre belas e exóticas paisagens e no convívio das interessantes culturas que o mundo tem a nos oferecer. Participam da expedição os aventureiros Roy Rudnick e Michelle Francine Weiss ambos de São Bento do Sul -- Santa Catarina -- Brasil. Quando: Fevereiro / 2007 à Fevereiro / 2009 (24 meses). Quilometragem estimada: Aproximadamente 160.000 Km. Como: Por Terra, utilizando um veículo automotor Land Rover Defender 130 sobre o qual será adicionado um motor-home; Visite o site, com diário de bordo e muitas fotos: Número de frases: 10 www.mundoporterra.com.br Está em curso o maior programa de formação de Multiplicadores do Teatro do Oprimido já experimentado no mundo: o Teatro do Oprimido De Ponto A Ponto, realizado por o Centro de Teatro do Oprimido em parceria com o programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, em oito pólos no Brasil, com grupos de dezesseis estados, e dois pólos na África: Moçambique e Guiné-Bissau, com grupos de quinze províncias. As atividades começam em julho, por a Paraíba, Minas Gerais e Guiné-Bissau, simultaneamente. Em agosto, será aplicado no Ceará, Goiás, Paraná, Maranhão e Bahia. Também em agosto acontece o Festival de Teatro-Fórum em Dakar, Senegal, com apresentação do Grupo (africano) de Teatro do Oprimido GT-Bissau. A etapa do Rio de Janeiro acontece em setembro e em novembro será a vez de Moçambique. Pretende-se formar, até março de 2009, aproximadamente trezentos artistas-Multiplicadores, com função pedagógica, para atuarem nos Pontos de Cultura, grupos culturais e movimentos sociais. Em a África, o «Teatro de Boal» é praticado em línguas, culturas e territórios diversos. Em países como Egito, Sudão, Burquina Faso, Senegal, Mali, Guiné-Bissau, Angola, Etiópia, República Democrática do Congo, Quênia, Uganda, Moçambique e África do Sul, entre outros, o Teatro do Oprimido tem sido Arte Marcial, em zonas de conflito e ferramenta eficaz tanto na prevenção quanto convivência com a AIDS. O Grupo de Teatro do Oprimido GT-Bissau é um dos grupos africanos beneficiados por o programa de formação do Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto. Entre 20 e 25 de Julho, Bárbara Santos e Cachalote Mattos, da equipe do CTO, estarão em Bissau para apresentar as técnicas da Estética do Oprimido, a mais recente pesquisa de Boal, que prepara mais um livro sobre o tema. Em o Senegal, a equipe do CTO e o GTO-Bissau participam da quarta edição do Festival de Teatro do Oprimido de Dakar, de 26 a 30, produzido por o grupo Kàddu Yaarax, responsável por a difusão do Método do Teatro do Oprimido no país. Cada vez mais presente em todo o continente, o Teatro do Oprimido, sem perder sua essência democrática e humanista, tem encontrado seus muitos jeitos africanos de ser. Criador do Teatro do Oprimido, o teatrólogo Augusto Boal está indicado ao Prêmio Nobel da Paz 2008. Número de frases: 15 Leia mais no www.ctorio.org.br Lá vem o samba e vai ecoar E vem com a arte de improvisar Quem disse que aqui não tem samba Não sabe nem o que falar Então tire logo o chapéu Que é para o samba passar ... Quem diz que aqui no Acre não tem samba, ou quer não ver o movimento ou pretende apenas desdenhar do mesmo, aqui temos nosso grande movimento de samba, que não vem de agora, vem de muito tempo atrás, desde Santinho, passando por Da Costa e pingando influências com: Balanço do Rio, Divina Luz, Roda De Samba e Terreirão do Samba e a nossa grande busca por informações com a nossa Velha Guarda da Mangabeira, como em todo o País o movimento começou a se ramificar, no Acre a ramificação foi dada com vários grupos que surgiram, apresentando os sambas mais novos, como: SAM Brasil, Raça Ruim, Raça E Amor, Fora De Sério e etc, como já disse o nosso mestre «ARLINDO Cruz:» Chega de comparar, sinta a emoção no ar, samba é bom de qualquer jeito, expressão popular, nosso povo tá feliz e não importa se o samba é novo ou de raiz», a busca por o espaço e reconhecimento, nem tanto nacionalmente, porém começando por o nosso Estado, começando por o respeito dos músicos acreanos e depois o respeito da sociedade, o samba não é música de preto, o samba é música de brasileiro e principalmente do mundo inteiro, em nosso movimento existem: pretos, brancos, amarelos, pobres, ricos, compositores, músicos e apreciadores da boa música, acima de tudo existe respeito, então aqui vai nosso convite, conheça o nosso Samba Acreano. Número de frases: 11 Sabe aquela brincadeira de criar um significado para uma música conhecida, mesmo que o sentido empregado seja absurdo? A peça Análise Comportamental e Crítica da Música Eduardo e Mônica, dirigida por Fernanda D' Umbra, parte justamente desse princípio. Em cartaz no Espaço Parlapatões, a encenação explora um hipotético sentido para a música Eduardo e Mônica, do grupo Legião Urbana, por o ponto de vista do Excelentíssimo Senhor Reitor Doutor Adolar Gangorra, que, por seus títulos e condecorações, estaria mais do que habilitado a falar sobre esse assunto. O metódico acadêmico analisa trecho por trecho a letra da composição de Renato Russo e chega à conclusão de que Mônica seria uma bêbada esnobe (ou uma P.I.M.B.A -- uma Pseudo-Intelectual Metido à Besta Associado) que teria levado o pobre garotinho de 16 anos, Eduardo, ao mau caminho. Segundo a teoria, Russo teria retratado Mônica como uma alternativa cult e Eduardo como um jovem burro, preguiçoso, influenciado por ela. Mas, por a visão do acadêmico, ele, na verdade, é que era um bom rapaz por jogar futebol de botão com seu avô e ser um menino certinho, até conhecer Mônica, claro. Para fazer tal avaliação, Gangorra conta com a ajuda de Pablo, em referência direta ao dublador do programa «Qual é a Música?», de Silvio Santos. Com peruca loira, uma borboleta pintada no rosto, e trejeitos homossexuais, aparece como contraponto ao professor. Quando surge, como o falecido Pablo, é até engraçado. Ele interpreta os trechos da canção de Renato Russo com bom humor, e quando não está dublando a letra, fica sentado num banco lendo uma revista Com ti. Contudo, depois de um tempo tudo começa a perder sua graça e ficar previsível e monótono. O Excelentíssimo blábláblá Adolar Gangorra começa a lembrar um professor de cursinho que, para chamar a atenção dos alunos, tenta fingir que a matéria dada é muito interessante. Suas teorias deixam o ar inusitado e inovador, e caem no senso comum. Em o final, parece apenas o discurso de um homem antiquado chateado por a emancipação feminina. A piada com o Pablo também perde a graça e acaba virando chacota com os trejeitos gays do rapaz. O bom da peça mesmo está no início, quando o acadêmico realiza minuciosa preparação de um ambiente adequado para palestras, consumindo bons minutos. Ele organiza todas as suas condecorações e medalhas em cima de uma mesa, organiza as canetas, empilha copinhos de água em forma de pirâmide -- imprescindíveis para uma apresentação descente -- dispõe a Com ti em lugar estratégico, dobra cuidadosamente um saquinho de supermercado para guardar na pasta, e desdobra outro para arrumar um lixinho. Tudo mmmmmuuuuiiiiitttttooooooooo devagar. Fernanda D' Umbra também tem seu momento no início do espetáculo. A o apresentar Gangorra, tira risos da platéia quando diz que a música é indispensável em churrascos, junto com músicas como Wish You Were Here, Stairway to Heaven e Andanças. Provavelmente muita gente da platéia se identificou. O autor do texto, igualmente de nome Adolar Gangorra, na verdade é o pseudônimo de um publicitário de Brasília que publica há muito tempo textos na internet e possui identidade desconhecida. Como essa cidade possui muitas pessoas fantasmas mesmo, a equipe bacante não conseguiu localizar o autor. Número de frases: 24 Não que tenha tentado. Por a velha peneira do rock passa uma juventude cansada e perdida. Desde 1954, com o lançamento de «Rock around the clock», de Bill Halley, a humanidade vem sendo torturada por um bando de cabeludos fedorentos, obcecados com a idéia de substituir a música por o arroto. Uma delinqüência juvenil que há décadas tornou-se especialista em justificar o próprio retardo genético-intelectual por meio da promiscuidade estético-comportamental. Uma corja de vagabundos -- como Elvis Presley, John Lennon, David Bowie e Kurt Cobain -- que só serviu para contribuir na superlotação de presídios e manicômios por o mundo afora. Em todos os tempos, caro leitor, o rock sempre foi sinônimo de incompetência. E digo mais: essa merda só conseguiu sobreviver porque desenvolveu algo simplesmente fenomenal -- a fantástica capacidade de seduzir os débeis mentais. Falo de um tipo de gente tão analfabeta que não consegue ler nem o selo do disco que acabou de comprar. Uma súcia de abobalhados que, no quesito estupidez, só perde para os chamados «repórteres do rock» -- uma manada de suínos que não sabe escrever, entrevistando mulas que não sabem falar, para vermes que não sabem ler. De essa forma, creio que já não restam dúvidas de que o rock é mesmo a «AIDS da música», como definiu o maestro Julio Medaglia. Portanto, em face de toda essa problemática, observo que é tempo de tomarmos uma drástica providência. Em nome de nossa própria saúde fecal, precisamos dar um basta a todo esse fedor de cânhamo que paira sobre o mundo, asfixiando a civilização. Entretanto, acredito que o senhor deva estar-se perguntando como educar uma tropa de bestas que há mais de meio século bate o martelo da idiotice sobre nossas cabeças inocentes. Pois bem, a resposta é simples: «banindo definitivamente o rock da face do planeta». Loucura? Não, higiene! E o primeiro passo para a limpeza do mundo, ao que parece, já foi dado: no dia 25 de março, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a Unisinos, deu início ao primeiro ano letivo do «Curso Superior de Formação de Músicos e Produtores de Rock», idealizado por o compositor gaúcho Frank Jorge. Isso significa que dentro de dois anos e seis meses, a cruzada por a completa extinção da raça dos roqueiros terá alcançado o magnífico número de 40 vítimas. «Em o início, pareceu um negócio meio maluco», explica Jorge, o Salvador, e complementa: «A idéia não é formar grandes expoentes da música, mas pessoas que vão adquirir conteúdo». Em a mosca! O incentivo para o ex-roqueiro Jorge arquitetar uma «graduação em rock» veio, é claro, através da provocação de um anjo chamado Fabrício Carpinejar, um anjo muito sensato, coordenador do curso de «Formação de Escritores e Agentes Literários», também na Unisinos, que disse: " Vai, Frank! De uma vez por todas! Vai afinar o coro dos incompetentes!" Bravo, senhor Carpinejar! Para isso, Jorge, o Messias, resolveu dividir o curso em quatro módulos. Quais sejam: «Construção de referências musicais», com leitura e discussão da obra de» José Ramos Tinhorão; «Identidade musical e elaboração de repertório», com leitura (sem discussão) da obra de» Hidelbrando Dacanal; «Preparação da carreira», sem leitura (mas com discussão) da obra de Luís Augusto Fischer; e «Castração musical», com leitura e audição da obra de Marcelo Camelo. Além disso, evidentemente, os alunos terão aulas de Direito Autoral, Ética e Bons Costumes. Segundo o ex-roqueiro, «quem se inscreveu no vestibular vai ter que ralar». Bravo, senhor Jorge! Bravo! Pois bem, ilustre leitor: «banir o rock por meio de sua institucionalização acadêmica» -- eis a solução que urge imediatamente ser exportada para o resto do País. ( O que, aliás, já vem acontecendo: a idônea faculdade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, divulgou que também planeja oferecer um curso semelhante, sob a orientação de ninguém menos que Roberto Schwartz!) Número de frases: 43 homepage Estava me preparando para deixar a cidade de Parintins, rumo à nossa capital Manaus. O que mais me incomodava nessa viagem é que as restrições orçamentárias me obrigariam a pegar um barco exatamente no dia da estréia da seleção. Era segunda-feira, dia 12 de junho, quando fui cheio de desconfiança ao recém-inaugurado Porto de Parintins ver quais barcos sairiam no dia seguinte. Aqui vale o seguinte esclarecimento sobre Manaus e Parintins: distantes cerca de 400 Km uma da outra, não existem rodovias que liguem as duas cidades, então, ou você investe R$ 215 reais numa viagem de avião que dura apenas uma hora, ou vai de barco por muito menos do que isso numa viagem mais agradável visualmente que, dependendo da velocidade do barco, pode durar de 25 à 36 horas. Atracado no roadway -- construção portuária desenvolvida na Inglaterra para acompanhar o nível das águas dos rios tanto nas cheias como nas vazantes -- um grande barco regional chamado Príncipe do Amazonas anunciava por meio de uma faixa sua saída no dia seguinte às 11h, ou seja, quatro horas antes do jogo da seleção, não haveria outra opção já que era nitidamente o único que iria para Manaus naquele dia. Entrei no barco para falar com os responsáveis. Mesmo com a supracitada economia de final de viagem, minha maior preocupação se revelava numa primeira pergunta cheia de esperança de que se repetissem os atrasos de sempre na saída do barco, momentos que tantas vezes me aborreceram, mas agora poderiam enfim beneficiar minha paixão futebolística. «Vai sair 11h mesmo?», perguntei. Para minha decepção, o tripulante respondeu positivamente. «Sai em ponto!», comentou. Foi quando revelei o interesse da pergunta com um desespero civilizadamente disfarçado «Mas e o jogo, amigo?». Sem demonstrar dúvidas, com indicador apontando para cima ele respondeu orgulhoso: «Tem parabólica, senão, eu ia meeerrrmo, parente». Ah, sim: «Parente «é uma espécie de» meu irmão «daqui, e o» ia mesmo» cheio de estilo é uma ironia interessante que o parintinense usa para dizer que não iria de jeito nenhum. Aquilo não me convenceu, viajo desde 1997 em barcos regionais e todos tinham uma parabólica que nunca funcionava e sempre saíam muito atrasados. Desta vez, no único dia que eu realmente queria que atrasasse, me encontrava totalmente dependente de um barco que queria ser a exceção ISO 14000 da Amazônia. Resolvi por um momento esperar a hora em que me perceberia acordando, na cama do hotel, suado e respirando fundo, mas como isso não aconteceu, perguntei o preço da passagem e decidi comprar o meu bilhete no espírito de pagar para ver. Dia de viagem e seleção Chegou a terça-feira, o barco com capacidade para 350 recebeu apenas 105 passageiros, a maioria com camisas da seleção, perguntavam uns aos outros sobre a possiblidade de assistir à estréia do Brasil. Percebi que não estava isolado nas dúvidas. Quando o motor foi ligado às 11h30, deixamos Parintins numa margem de atraso muito abaixo da média, o que soou a todos como um bom presságio: poderia haver uma chance da parabólica funcionar. Os grandes barcos regionais possuem três andares, no último há o terraço para o passageiro curtir o sol e se refrescar no chuveiro ou no bar do inacreditável calor de junho, mês do início do verão amazônico, ouvindo músicas que tocam em caixas de som poderosas. É como uma festa na laje mas tem uma parte que é coberta. Foi para lá que quase todo mundo foi conferir o funcionamento da tal parabólica que logo captou o sinal do enfadonho Suíça X França, o alívio foi geral, agora era esperar o jogo da seleção brasileira apenas com um porém: quem tem parabólica sabe que as antenas precisam estar apontadas na direção exata do sinal, mas no caso do percurso sinuoso da navegação, é preciso que alguém fique corrigindo sua posição a todo momento. Sabendo da responsabilidade, os tripulantes encarregados dos serviços no barco se reuniram, e organizaram um divertido sorteio para decidir quem teria tamanha felicidade de ficar mexendo a antena durante todo o jogo, e assim foi definido o contemplado (na foto, o rapaz em pé vestindo blusa laranja). Torcendo por a seleção (ou quase) Viagem de barco é assim: com muito tempo disponível muitas rodas de conversas começam a se formar, em pouco tempo todo mundo já está conversando com todo mundo. Parintins já havia sumido do alcance da visão e pouco antes do inicio do jogo, um tripulante esquentou a crescente sociabilidade sugerindo a organização de um bolão. A proposta foi aceita e o valor das apostas foi fixado em dois reais. O jogo começou com otimismo registrado nas 45 apostas, em geral, acima dos três gols de diferença para o Brasil. Mesmo na parte coberta do terraço, o calor impunha latinhas cerveja ou qualquer outro liquido gelado como necessidade vital. Ninguém economizava. Todos sabemos que o jogo não foi fácil, mas houve momentos em que a tensão hipnotizou até o rapaz que precisava ficar de pé corrigindo a posição da antena. Mesmo com imagens e áudio distorcendo, ele permanecia com olhos fixos na TV, apreensivo, mas sem mover um músculo como se a solução do problema não estivesse em suas mãos, somente ao perceber que todos estavam gritando em sua direção, ele sorria desconcertado e estabilizava a imagem. Este fato ocorreu seis vezes somente no segundo tempo. Em a etapa final todos estavam sedentos de gols, as manifestações de desespero eram naturais com as chances desperdiçadas por a Croácia e a falta de criatividade brasileira, até que aos 16 minutos, uma reação destoante chamou atenção: a perigosa cabeçada de Ronaldinho Gaúcho que obrigou o goleiro croata Pleticosa a uma defesa difícil, tirou um grito aterrorizado de um dos passageiros. «Não!», exclamou o funcionário público Moisés do Carmo, 54, cujo biotipo deixava claro não ser croata e nem perto de ser descendente. Depois das gargalhadas gerais, o livro de apostas o denunciou: seu palpite foi o único a indicar o placar de um a zero. «Para o primeiro jogo tá bom ...», justificou bem humorado aos demais. A o final dos 90 minutos, colocou o prêmio 90 reais no bolso mas levou para a casa muita gozação até chegar em Manaus no dia seguinte. * * * " O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo por o país afora. A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais. Número de frases: 51 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo.» ... cause it's the consciousness of love " ¹ Em meados de 2002, eu tive uma pequena agência de propaganda. Chamava-se Ditys. Era eu e mais três. Éramos estagiários de uma então grande agência de Salvador e, num ímpeto punk, sonhador e saltimbanco, decidimos que iríamos fazer a nossa própria agência. Ditys é uma tentativa de abreviação para «do it your self», e um dos sócios era um cara chamado Faustão. A gente tinha a mania de fazer piadas com tudo, sobre os mais diversos temas. Podiam ser assuntos idiotas ou sérios. Era só piada o dia inteiro. E dessas piadas saíam os anúncios. Ou quase saiam, pois a esmagadora maioria era reprovada por os clientes. A agência fechou em dois anos. Pior que o mercado baiano de publicidade, só os clientes desse mercado. E uma dessas «piadas» que costumávamos fazer em conversas banais era trocar o P e o B de Pepeu Gomes e Baby Consuelo, chamando o guitarrista de Bebeu Gomes e ela de Papy Consuelo. Tarde silenciosa, cada um em seu computador, e do nada, um dizia: -- E a Papy e o Bebeu? E esse ato simples, gerava gargalhadas intermináveis e conversas pueris: -- Me amarro na guitarra do Bebeu-dizia eu. -- É, o Bebeu é massa, mas a Papy também é boa -- dizia ele. -- Tô ligado, a Papy foi importante ali, mas o Bebeu. -- É, o Bebeu é o Bebeu ... O Bebeu é demais -- finalizava ele. E a gente ria pra caralho com essa merda. Para me preparar para o carnaval 2007, um dia antes do início das festas, eu fui numa certa loja. -- Onde tem? ( fiz o gesto de " apertar o gatilho "). -- Revolveres?-- perguntou o atendente. Giovane. -- É. -- Venha com mim. Fomos andando e ele me levou até uma sessão onde tinham três tipos de armas. -- Essa aqui é a melhor -- disse ele, pegando a maior de todas -- o material de ela é mais resistente, atira com precisão e é muito fácil de carregar. -- Hmmm -- disse eu coçando o queixo. -- E essa aqui?-- apontei pra uma que estava na prateleira de baixo, que era bem parecida, porém, mais barata. -- Essa é boa também, mas o material é de qualidade inferior e ainda é mais pesada. Pode ver o senhor mesmo -- disse Giovane. A terceira arma era do mesmo modelo. Só que menor. E a metade do preço. Eu não precisaria de mais do que aquilo. Ela me pareceu suficiente. Cheguei em casa e quando abri pra testar ... PUTAQUEPARIU. Era uma merda. O tiro não era potente e pra carregar tinha que ter sempre um balde por perto, pois ela não era como as outras mais simples, que enchemos de água por o fundo. Voltei na Le Biscuit na hora. -- Boa tarde, quero trocar a minha arma por outra. disse eu pra uma atendente da seção «Trocas». -- Trouxe a nota fiscal?-- disse ela, mastigando chicletes. -- Não, eu tô sem a nota / -- Ô meu lindo, sem nota fiscal a gente não troca -- falou ela, com um olhar de pena misturado com satisfação. PQP. Quando você sai da Le Biscuit, tem mais de 20 urnas, de entidades filantrópicas, para depósitos de notas fiscais. Argumentei isso para a ela. ¬ -- Você lembra que dia foi a compra?-- já impaciente. E com os dados do cartão conseguimos uma segunda via da nota. -- Qual é o brinquedo? -- Esse aqui -- disse eu puxando o meu revolver do Batman. -- Ô meu lindo, você já abriu?! Tso tso -- disse ela, enquanto balançava a cabeça negativamente e parecia ter um orgasmo -- não podemos trocar naaada com a embalagem violada. Foi no nervo. Achei melhor não discutir, até porque eu tinha uma carta na manga que me faria gozar depois de ela. -- Tudo bem. Então eu só vou trocar esse daqui -- e puxei do saco o outro revolver do Batman, devidamente embalado. Eu tinha comprado dois. Foi lindo. Ela pegou o revolver, respirou fundo, conferiu a embalagem e disse resignada que eu podia ir escolher outro produto qualquer. Voltei para a seção de armas e só achei as mesmas. A do Super-Homem, que era igual a do Batman, só que maior (sem viadagem) e a outra de qualidade inferior, segundo o cara que me atendeu da primeira vez. Perguntei a um funcionário que passava se tinha mais armas e ele apontou o caminho. Eram revolveres mais simples. Porém, bem mais baratos e ideais para o evento. Leves, fáceis de guardar, recarregar ... fiquei escolhendo alguns junto com um casal de aproximadamente 50 anos. O senhor de barriga protuberante, chinelo, bermuda e camisa de botão só com o de baixo fechado, pegava um revolver, analisava minuciosamente e fazia mira fechando um olho, atirando e fazendo a onomatopéia «tuf tuf tuf». -- Tem que pegar um bom, viu, Zé Raimundo? Pra não ficar fazendo feio -- disse sua mulher, que o ajudava a escolher.-- Esse aqui é mais bonito -- recomendava ela. Eu, sem querer outra decepção, perguntei ao funcionário se tinha como testar. -- Tem sim -- disse ele pedindo pra que o seguisse. -- Tem como testar?!-- disse Zé Raimundo, empolgado, pegando uns 4 modelos e já seguindo a gente. Fomos andando por as gôndolas e eu fui imaginando onde seria o lugar de testar armas que atiram água da Le Biscuit. Imaginei o que seu Zé Raimundo estaria imaginando. Paramos na porta do almoxarifado. Ali tinha um bebedouro. Ele encheu um revolver e atirou. Tava beleza. Jato forte, preciso, veloz. Boa arma. Seu Raimundo pediu pra atirar. Ele pegou a arma carregada, fechou um olho, fez mira numas bonecas que estavam a venda nas prateleiras e atirou. Deu umas 8 jatadas. Encharcou o chão e a várias bonecas. -- Vou levar esse. Tive que perguntar: -- Vai para a Olinda no carnaval? Ele fez cara de quem não entendeu a pergunta e respondeu: -- Não, não ... É para o meu neto. Me pediu uma. -- Ah tá. -- E você, é para o seu filho?-- perguntou seu Zé Raimundo. -- Não. É pra mim. -- Pra você?!-- os olhos de seu Zé Raimundo brilharam. Expliquei para ele sobre o carnaval de Olinda, onde o calor da cidade e as metralhaguas, principalmente por estarem em mãos de crianças, formam uma dupla fantástica. A única regra é que só pode atirar em quem estiver armado. Pra quem está solteiro também é uma boa arma de sedução. Fui embora da Le Biscuit com a promessa que seu Zé Raimundo iria passar o carnaval de 2008 em Olinda. Com o valor da de o Batman dava pra comprar 5 da mais simples. Paguei a diferença e levei mais 3. Como em 2006, eu fui passar o carnaval 2007 em Recife. E como em 2006, eu fui na «sexta feira de carnaval». Mesmo horário. 21:30. O pensamento " será que Caê vai de novo?" passou por a minha cabeça enquanto eu fazia o check-in. Fui na livraria só para a consciência não pesar e ele não estava. Mas o Bebeu estava. Tive que ir em sua direção com Cris me beliscando e cochichando " você não vai fazer isso ... vou sair daqui '. Ela saiu. E eu fui. Tinha que trocar uma idéia com o Bebeu. Eu vi um show de ele em 1989, com 11 anos, num reveion, que me deixou hipnotizado. Fiquei na frente do palco, imóvel. Anos mais tarde, descobri os Novos Baianos e sou viciado até hoje. Tinha que trocar meia dúzias de palavras. Ele estava olhando umas revistas especializadas em som para estúdios de gravação. Falei de uma maneira pra que ele não percebesse. Com na vez que fui assistir Bahia X Avaí e tive que ficar na torcida do Bahia por causa dos meus amigos e então, pra torcer para o Avaí, eu tinha gritar «Bora Avaêa» -- E ai Bebeu, beleza? -- Opa. E ai?-- apertamos a mão. Ele não percebeu o Bebeu. -- Vai passar o carnaval fora de Salvador? -- Sim e não ... Tô indo pra Recife, fui convidado esse ano pra tocar no Galo da Madrugada. -- Sei ... -- Mas volto no domingo e toco aqui em Salvador com Armandinho. Falamos sobre Armandinho, guitarras e blá, blá e eu disse: -- Coincidência Bebeu (mais uma vez ele não percebeu) ano passado encontrei com Caetano aqui mesmo. Ele estava indo também pela primeira vez para o carnaval de Recife. -- Eu sei. Ele me falou. -- Que se encontrou com mim? -- Não ... que foi ano passado ... / -- Ah. Ele riu. Em a hora de nos despedimos, eu falei do show que assisti com 11 anos, no Iate Clube. -- Pô, bixo, você lembra daquilo?-- ele fez cara de que estava buscando algo da memória e continuou: -- Eu me lembro bem daquele show ... armaram o palco no mar ... foi bem legal ... me lembro bem daquele show -- disse ele, bastante empolgado. -- Eu também me lembro bem -- respondi. Passei por as máquinas de raio x preocupado. Imaginei os 9 revolveres sendo mostrados na tela e o policial dizendo para a eu abrir a mochila e tirar as armas. Em o avião, enquanto lia a edição 4 da Revista Piauí, vi uma matéria falando sobre um produto que revolucionou o mercado de papel para fumos. A Leda. Um papel transparente, que parece plástico, mas não é. É celulose pura, daí a transparência. Em o fim da matéria, a coincidência surpreendente com o jornalista falando de Pepeu Gomes. Em a saída do avião mostrei pra ele a citação na revista. Expliquei rapidamente sobre a matéria, ele apertou um pouco a vista e eu então comecei a ler pra ele. ... Aí o jornalista escreveu: «E como diz o sábio Pepeu Gomes, ' você pode fumar baseado ... / Ele me interrompeu, completando a frase, prevendo o que estava escrito: ... Baseado em que você pode fumar quase tudo -- disse ele, rindo. Assim como eu e o casal de desconhecidos que ouviam a nossa conversa. Não resisti, e na despedida tive que chamá-lo de Bebeu de novo. Gargalhava por dentro, pensando em meu ex-sócio ali com mim. Grande amigo até hoje. A casa estava cheia. Nos hospedamos na casa da irmã de Cris com mais 4 casais de amigos. Eram 10 pessoas no total. Só tinham 9 armas. Faltavam duas. Ninguém queria a do Batman. Em Olinda, se entende o porquê da expressão «brincar carnaval». Boa parte dos foliões, de todas as idades, vão fantasiados. As crianças, nas portas das casas, na espreita, tensos ... aí eu chegava por trás e descarregava a minha Waterfun. E saia correndo, pois muitos de eles têm megas bazucas. Tinha um que tinha aquela mochila de bombeiro, com um sistema de bombeamento profissional. Se duvidar, melhor do que os usados por os voluntários da brigada de incêndio do Vale do Capão. O sol derretendo a moleira, o clássico frevo «Vassourinhas» pann nan nan nan nan " tocando por a nonagésima quarta vez, enquanto a guerra entre os foliões era interminável. Não vi nenhuma briga. Acredito que tenha havido ali confusões violentas, apesar de eu não ter visto mesmo. Talvez os anos no carnaval alucinado de Salvador me vacinaram pra que tudo pareça mais tranqüilo. Os solteiros atiram uns nos outros. Se o outro contra-atacar, é só partir para o abraço. E para o beijo. Em uma praça onde milhares de pessoas transitavam ao som dos mais diversos conjuntos musicais que passavam por as ruas (todos tocando o secular frevo " Pan nan "), por um momento, a divisão masculina se afastou um pouco das 5 soldados. Tinham alguns inimigos com suas MaxWaterPower XR3 nessa área e fomos fazer a ronda. Em uma pesquisa posterior, descobri que todos do nosso batalhão tiveram Comando em Ação na infância. Imaginei qual terá sido a brincadeira de seu Zé Raimundo. Enquanto fazíamos a ronda, afastados de nossas mulheres, um cara armado, ao ver uma das supostas solteiras, atirou em ela. Ainda um pouco desacostumada com o carnaval, ela atirou de volta. Depois ela explicou para a gente que atirou em ele pensando «O que é seu otário, sou casada, se saia». Como o cara não lê pensamentos, e minha amiga é bastante bonita, ele deve ter pensado «Porra, me armei», agradeceu a todos os anjos por aquela sorte e foi na direção de ela. Feliz da vida. Ela como não lê pensamentos, ficou mais indignada com a aproximação. Começou a atirar sem parar e pensando (depois ela contou) " que otário, se saia meu filho ... oxe». A cena era ela atirando pra ele ir embora, como se a arma fosse uma ameaça, e ele sem acreditar na sorte e indo em sua direção cada vez mais empolgado. Se deliciando com a água. Tivemos que entrar em ação. Enchemos ele de água. Ele entendeu tudo após o primeiro fuzilamento e saiu correndo. No meio da folia, um cara fantasiado de palhaço veio me molhar. Me acertou três jatos na cara. Sem viadagem, caro leitor. -- Colé mermão ... Você é palhaço, é?-- disse eu, atirando e gritando -- «galera, aqui». Foi fabuloso. Imaginei seu Zé Raimundo ali. Ensopamos o palhaço. Que foi embora rindo. Como todo mundo. (1) Watermelon Gun, música da banda Flaming Lips. Disco: Cloud Taste Metallic, 1995, WEA. Número de frases: 232 Estudar e praticar novas linguagens de imagens e música eletrônica: esse é o objetivo do coletivo feitoamaos. Assim como as linguagens, o coletivo de artistas está sempre em constante mutação para refletir e aplicar novas idéias a cada projeto que envolve performances com música e vídeo. Dentro do coletivo está o F.A.Q.: um projeto que atua numa linha consistente de desenvolvimento, enquanto o feitoamãos atende a demandas externas diversas (convite de festivais, galerias, etc). O surgimento do F.A.Q. se deu em razão da necessidade de se criar uma identidade e atuar como uma «banda audiovisual», com um repertório mais fixo e que fosse amadurecendo aos poucos. Um projeto dentro do outro, normalmente é assim que os coletivos atuam. O mais importante é produzir, e isso o feitoamãos faz. Desde o seu surgimento, em 1999, são várias participações em festivais nacionais (File) e internacionais (Overtoom). O grupo é formado por André Amparo, Francisco de Paula, Marcelo Braga, Cláudio Santos, Rodrigo Minelli, Ronaldo Gino e Lucas Bambozzi. Como surgiu? Aquela história de sempre. Um bando de amigos que trabalhavam e estudavam áreas afins resolveram juntar as idéias. Os temas abordados por o F.A.Q. seguem uma linha crítica ao cotidiano das cidades grandes: violência, política, espaço urbano, meios de comunicação de massa. A reflexão teórica é, sem dúvida, muito importante para o trabalho do grupo, mas, como afirma Rodrigo Minelli, um dos fundadores do coletivo, é preciso sempre estar de olho na prática. «Acredito que toda reflexão teórica acaba ficando esvaziada se não encontra uma ' pega ' na realidade e se não se materializa nas obras. É preciso pensar no contexto sócio-cultural e político em que agimos, nas conseqüências do uso desta ou daquela tecnologia, e da abordagem que empregamos para falar das coisas que pensamos, ao mesmo tempo não deixamos que nossa discussão e reflexão façam com que o trabalho fique por demais hermético e incompreensível», explica. Com sete anos de teoria e prática, a evolução das performances se deu, principalmente, na distribuição espacial do som e das imagens, nos suportes para projeção e na forma de se relacionar com o público ouvinte / telespectador. Festivais que envolvem produção artística em novas mídias têm se estabelecido cada vez com mais vigor no Brasil. Além do já citado File, também o Resfest, o arte. mov, o Mobile Fest, etc.. Isso é resultado de uma produção crescente no país nessa área. De acordo com Minelli, junto com crescimento surge uma identificação da produção nacional no contexto mundial, que se caracteriza por uma visão mais aberta e menos «armada» de convicções e preconceitos. A tradicional abertura brasileira a diversas influências cria um terreno perfeito para as experimentações. «As nossas obras têm um potencial de universalização maior do que aquelas criadas em outros contextos culturais, ou seja, nossas culturas acabam por se misturar de forma harmônica e os trabalhos de artistas brasileiros têm o potencial de serem compreendidos por todo mundo», aponta. Isso tudo só é possível, claro, à facilidade acesso e troca de informações que vivemos hoje. A possibilidade de interagir à distância, conectando pessoas e pensamentos. Mais do que as outras, a arte eletrônica sobrevive de colagens, remontagens, cópias e influências. Embora a discussão sobre direito autoral não seja nova, ela alcança importância maior a partir do crescimento da produção artística nos meios digitais, principalmente de música e vídeo. «Acho que a idéia de algo original existe caiu por terra. Como sempre foi feita, a arte hoje é baseada na troca de idéias e inspirações e não há como criar algo absolutamente isolado do mundo, por isso, toda discussão de autoria que não leve em consideração os processos de troca e de influência mútua são discussões que não levam a nada, meio uma discussão em que as respostas já estão dadas antes mesmo de serem feitas», finaliza Minelli. Número de frases: 32 O mês de setembro promete novidades e muito rock ' n ' roll para os fãs da banda curitibana Relespública. Os caras simplesmente vieram afiados até os dentes para comemorar -- com antecipação -- os vinte anos do grupo. O trio formado por o vocalista, compositor e guitarrista Fabio Elias, por o baixista Ricardo Bastos e por o baterista Emanuel Moon, completa duas décadas de carreira no próximo mês de abril e desde já os roqueiros querem fazer barulho com muitas novidades. A primeira de elas é o novo site da Relespública. Dia 11 de setembro -- esta data te lembra alguma coisa?-- foi escolhida a dedo para fazer o lançamento virtual do novo disco, Efeito Moral, que trará clipes, músicas e algumas surpresas. Em a semana seguinte, o quinto disco do grupo também vai estar na íntegra no myspace da banda e na revista eletrônica Mondo Bacana, além da Reles fazer um pocket show na FNAC (dia 26), do Park Shopping Barigui, em Curitiba. Outra boa novidade é o pen drive. Este moderno aparelhinho vai trazer fotos, letras de músicas para violão e guitarra, videoclipes e MP3. Já o aguardado álbum Efeito Moral poderá ser adquirido através do site oficial da banda e nos shows que eles fizerem por o país. Por falar do novo disco, a Relespública manteve um intervalo de dois anos desde o lançamento do ousado projeto MTV Apresenta, em 2006. A demora para colocar na praça o novo álbum não foi interpretada dessa maneira por os integrantes do grupo. Fabio Elias disse que a banda «mastigou» bem este novo trabalho para que ele ficasse como o trio queria: bem feito." Tivemos que reestruturar a parte de negócios da banda, não quisemos fazer o disco com pressa. Estamos lançando no momento certo», garante o frontman da Relespública. Se este é o momento certo, Fabio diz que desde o MTV Apresenta o trio já pensava no novo álbum da banda. «Ainda na turnê do último disco já tínhamos coisas prontas. Fomos até atrás de um rolo de fita de 1997!», conta ele que o Efeito Moral foi feito em duas partes, um total de três meses de gravações e ensaios. A pegada rock ' n ' roll continua firme e forte na Relespública. Porém neste novo trabalho há uma dose pop misturada neste barulho todo. «Sempre curti pop. Beatles é pop, mas o rock continua presente. Abrimos mais o leque, tem mais violão no disco. Mas continua o trio, continua a Reles», afirma Fabio Elias. Com catorze músicas dentro do Efeito Moral -- contendo 11 canções e mais 3 faixas bônus -- uma já está no gogó dos fiéis fãs do grupo: Homem-Bomba. Em ela o compositor escancarou as catástrofes e seus derivados que o planeta atualmente vive. O quinto disco também contou com participações pra lá de especiais. Como o caso do vocalista e guitarrista do Skank, " Samuel Rosa. «A gente o conheceu no VMB * do ano passado. O Moon trocou uma idéia com ele e desde lá mantivemos contato. A parceria se consolidou no festival Lupaluna *. Eu tinha ouvido o disco Carrossel do Skank, o que me inspirou numa canção e o Samuel gostou», conta Fabio que teve que ir junto com Ricardo para Belo Horizonte gravar «Tudo o que eu preciso» com o líder da banda mineira. Outras participações bem bacanas estão neste trabalho: o tecladista Adriano Grinemberg marca novamente presença nas faixas «Dê uma chance para o amor» e «O Planador», outro tecladista Ruben Cabrera está em» Lady Baby «e o'mutante ' Henrique Peters na música» S.O.S». Em os vocais quem faz dueto com Fabio Elias é a líder da banda curitibana Anacrônica, Sandra Piola, na canção «Olha que absurdo!!!». «É uma brincadeira onde o cara leva uma mulher de vida fácil para casa e descobre que ela é prostituta», conta o roqueiro. Novidades pipocando e bons ventos à favor da Relespública há poucos meses de completar duas décadas de dedicação ao rock, não custa nada você começar -- ou continuar -- a prestar atenção no novo trabalho desses caras, seja nos bares da capital paranaense ou por o Brasil afora. Porque a música é boa, o show é demais e a banda melhor ainda. Agora junte tudo isso num palco pra ver se você consegue ficar parado: se conseguir, bom roqueiro você não é, caso contrário, divirta-se ao som desses três veteranos artistas que convidam você logo nos primeiros minutos de show: «não se preocupe nós estamos aqui pra tentar realizar os seus sonhos ..." Confira o novo site, a agenda de shows, a história da banda e outras novidades (a partir de 11 de setembro): www.relespublica.com www.myspace.com/relespublica www.mondobacana.com Show de lançamento do novo site com as músicas do novo disco da Relespública Dia 26/09 às 23h no Hangar Rua Dr. Muricy, 1091 * Vídeo Music Brasil -- premiação anual da MTV Brasil que consagra os melhores do ano em várias categorias * Lupaluna -- festival que ocorreu em abril deste ano em Curitiba onde reuniu diversas bandas locais e nacionais Número de frases: 49 Realizado entre 31 de outubro e primeiro de novembro de 1998, o festival Rock-SE foi o catalisador definitivo de uma cena rock efervescente em Sergipe, que após anos se movimentando apenas no underground através de bandas punk e suas letras de protesto, ou com a unida e organizada cena metal, desde meados de 1994 havia começado a encontrar um público maior e disposto a sair da mesmice. A popularização de antenas parabólicas, que facilitou o acesso à MTV na cidade, pode ser apontada como um dos motivos do repentino interesse em bandas locais como Snooze, Maria Scombona, Lacertae e Sulanca, para citar algumas que ainda existem, e desde sempre insistiram em investir em repertório próprio. Mas dizem que só se valoriza o que é de sua terra quando os de fora dizem que é bom. Foi assim com Os Mutantes na década de 60, saudados como heróis depois de uma temporada na França, quando antes disso a banda já era acostumada às vaias e tomates na cara. Pois bem, além de apresentar uma seleção de bandas legais do próprio Estado e do ineditismo de trazer medalhões da cena nacional como O Rappa e Marcelo D2 pra um mesmo festival, o Rock-SE teve o mérito de colocar Sergipe no mapa musical brasileiro, por a bela cobertura da mídia. Programas de TV de veiculação nacional (Metrópolis da TV Cultura, e o cult Lado B da MTV) deram merecida valorização do evento em horário nobre, além de matérias no Jornal do Brasil, O Globo, Rock Press e International Magazine. O retorno disso tudo para o Estado foi bastante positivo para a auto-estima das bandas e para a criação de um público novo e cada vez mais interessado em novidades. Como é de praxe nos grandes festivais, além da música, artistas plásticos tiveram espaço para expor seus trabalhos, e uma mini-feira de artesanato também foi montada. Os stands de selos independentes tiveram grande sucesso, tendo sido inclusive a estréia dos goianos da Monstro Discos (da qual um dos fundadores também atuou no palco com os Mechanics), que mais tarde colocariam o melhor festival do Brasil em prática, o Goiânia Noise Festival. Falando em outros festivais, outro nobre legado do Rock-SE foi a influência para que outros produtores locais sacassem que festival de rock pode ser um bom negócio. Em a sombra do Rock-SE despontaram várias tentativas, umas mais felizes que outras. O mais bem sucedido de eles, o PUNKA, teve mais de seis edições anuais, sempre crescendo em estrutura e público. De esse modo, esse festival preencheu a lacuna deixada por aquele megalômano evento num longínquo 98. Produzido por o coletivo Marginal Produções em conjunto com o staff do Tequila Café, o festival realizado no Complexo Desportivo Lourival Baptista (o famoso Batistão) não foi exatamente um mar de rosas. Diversos problemas internos interromperam o que poderia ter sido um festival para todos os anos. O principal mentor e carregador de piano Bruno Montalvão explica que grande parte da equipe não tinha a menor noção de como levar uma produção de grande porte, o que gerou «falhas imperdoáveis». Outro sério problema foi a falta de público pagante em massa. Não acostumados ao tamanho do evento, muitos acharam caro e preferiram se amontoar do lado de fora ouvindo o som e tomando cerveja! A conseqüência foi um prejuízo sem tamanho para a produção. Para completar, no ano seguinte, um dos sócios do Tequila Café entrou com um processo na justiça para uso do nome num novo festival. A segunda edição do Rock-SE foi realizada como um show de rock qualquer, tendo o Angra como atração principal e repercussão pífia. Montalvão, hoje em dia um produtor full time, sozinho à frente da Marginal, pretende realizar ainda este mês a nova edição do Rock-SE, a seu modo: grandioso, com bandas alternativas desta nova safra e uma geral no que há de melhor na cena sergipana. Número de frases: 23 É pagar pra ver! Um pequeno povoado, não muito distante de Olinda, roubado ao mar, aos rios e ao mangue. Depois um porto movimentado, o açúcar trazendo navios e outros invasores, a primeira urbe cosmopolita do Brasil. Então, os portugueses de volta, o catolicismo restaurado enchendo a cidade de torres de igreja. Passam-se os século e surge a modernidade, contraditória como só ela, e então chegamos no início do novo século com o duvidoso título de segunda cidade no quesito «pior distribuição de renda do planeta». Resumida de forma grosseira, essa poderia ser a biografia da Veneza brasileira. Uma trajetória sintetizada na exposição História de Muitos -- Evolução Urbana do Recife, em cartaz por tempo indeterminado no Museu da Cidade, instalado no Forte das 5 Pontas, no bairro de São José. A curadora Betânia Corrêa de Araújo -- também diretora do museu -- aproveitou a parte já catalogada do enorme acervo fotográfico arquivado lá -- quase 300 mil negativos -- juntou com reproduções ou originais de mapas antigos, fotos de satélite e resquícios de construções e mapeou de forma didática, mas nunca superficial, os (des) caminhos da cidade anfíbia. O projeto enquadra-se num processo de revitalização do museu, criado em 1982. Explica Betânia no texto distribuído aos visitantes: «Cada dia, novos soldados juntam-se a muitos na austera Praça-d'Armas. Prontos para a luta, criam textos, produzem imagens, narram histórias, conservam objetos e devolvem à cidade os vestígios eleitos, prontos para novas formas de apreensão e consumo». Lugar de constante construção e produção de vestígios, o museu devolve à cidade o que a memória coletiva escolheu armazenar. A exposição divide-se em duas partes: a primeira, fixa, enquadra o período que vai da fundação até a chegada da modernidade. Cada etapa é apresentada por um texto do professor Antônio Paulo Rezende. Aí começa a segunda parte, móvel, que pretende aproveitar o processo de catalogação dos negativos, com início previsto ainda para 2006, graças a um acordo de cooperação com o IPHAN. à medida que as fotos sejam reveladas e estudadas, seções dedicadas a assuntos específicos (" rios», «pontes»,» carnaval ") passarão a se revezar. Cada subtema abordado deverá dialogar, também, com trabalhos de artistas plásticos ou fotógrafos contemporâneos. Em esses meses de abertura, uma projeção com imagens colhidas por a Imago -- coletivo de fotógrafos locais -- recebe o visitante. Eles optaram por captar os contrastes do Recife, navegando por o Rio Capibaribe, explorando os morros e terminando a viagem por o bairro de «Boa Viagem,» o metro quadrado mais caro do Nordeste». Vale uma visita, essa História de Muitos. Lá estão os mapas deixados por holandeses e portugueses, os azulejos de casas antigas, cenas do porto pintadas por artistas como Franz Post, os escravos, o desembarque dos primeiros automóveis, a chegada do Zeppelin diante de uma multidão em êxtase, os banhos de mar, o carnaval ... Quem ama as cidades amará esses pedaços da história do Recife e suportará estoicamente o calor que faz no Forte nos dias de sol intenso. História de Muitos pode ser vista de terça a sexta, das 9h às 18h, e nos sábados e domingos, das 13h às 17h. Número de frases: 25 Maiores informações por o fone (81) 32248564. Estive ontem no 3º debate do Seminário Além das Redes de Colaboração. O tema era " Convergências: o que códigos tem a ver com música, filmes, jogos e realidades alternativas?" e os debatedores eram Pedro Paranaguá, Ézio Lamarca e BNegão. Inicialmente foram apresentados os filmes «3 Minutos» e «Barbosa». Após houve o show da banda «Harlen´s Club Band». Por fim, foi feita uma rápida demonstração de animações realizadas através do software Blender. Fabrício Solagna, moderador do debate, abriu os trabalhos da noite apresentando o tema e convidando os debatedores para ocuparem seus lugares na mesa. Pedro Paranaguá, líder do projeto «Acesso ao Conhecimento da FGV/SP» iniciou sua apresentação mostrando uma série de produtos e serviços que são protegidos por os Direitos Autorais, permitindo que os participantes percebessem o quanto o tema está presente em seu cotidiano. Após, teceu um breve histórico sobre o assunto que serviu para contextualizar a seguinte questão: se o Direito Autoral, que era um «privilégio» que os monarcas concediam de forma vitalícia para quem bem entendessem, passou a ser regulado em 1710 com o objetivo de ser «um ato de encorajamento ao aprendizado», ou seja, de promover a criatividade do autor, qual seria o seu objetivo manter protegida uma obra por mais 70 anos após a sua morte? O debate avançou mais ainda quando foi demonstrado ao público que a legislação brasileira é mais restritiva que na Suíça, Austrália, Canadá e outros países com este patamar de desenvolvimento. Em a Alemanha, quando uma edição de um livro está esgotada há mais de 2 anos, é permitido fazer cópia do mesmo. Em o Brasil não é permitido copiar música, filme ou texto para uso privado, digitalizar obras antigas ou que ainda não estão fixadas neste suporte ou sequer copiar conteúdos para fins educacionais e de pesquisa, sem antes ter autorização do autor e do titular dos direitos patrimoniais destes. Mas nos países ditos «desenvolvidos» as empresas que faturam através da gestão dos direitos autorais também buscam restringir o acesso das pessoas aos conteúdos. Um caso clássico estudado pelo direito foi citado: Sony Betamax. Hollywood processou a Sony nos anos 80 por julgar que a venda de vídeo-cassetes induziria as pessoas a praticarem o «ato ilícito» de copiar os filmes. A Justiça Americana absolveu a Sony e curiosamente Hollywood passou a ganhar muito dinheiro com a locação de fitas dos filmes. Este movimento de «bloquear» o acesso aos conteúdos e sua reprodução hoje é realizado por as empresas que utilizam a tecnologia DRM / TPM. A mesma baseia-se em criptografia. Paranaguá sugeriu fosse acessado o site do IDEC para entender melhor como funcionam estas restrições tecnológicas. Um dos casos mais abusivos é o de uma empresa que comercializa um e-book de «Alice no País das Maravilhas» e informa que é proibido leitura em voz alta do contéudo do livro! Chegou a vez de Ézio Lamarca. Foi apresentado ao público participante o tema " A Cabanagem Digital: O Movimento Tecnobrega como legítimo representante da Cultura Digital Livre». Lamarca que é presidente da AUSLA falou das atividades dos «pirateiros» de Belém e fez um paralelo muito interessante sobre a relação do Movimento Tecnobrega e do Movimento Software Livre. Segundo sua visão, em ambos: -- as pessoas são mais importantes que as grandes empresas; -- são os indivíduos e grupos organizados que produzem o conhecimento; -- a livre circulação do que é produzido é incentivada gerando um novo modelo de produção; -- há grande envolvimento do povo (comunidades) nestes movimentos, configurando uma política de meritocracia; não há «fabricação de ídolos» no Tecnobrega, pois os artistas avançam somente na medida em que as pessoas gostam e consomem sua música. Por fim, Lamarca falou ao público que já estão estudando a disseminação das licenças Creative Commons entre os «pirateiros». Encerrando a noite, BNegão assumiu o microfone e saudou o público de forma cordial dizendo «fico feliz de participar deste debate para trocar idéia». O músico contou que após ser indagado " pô, você tá ligado nessa história do copyleft?" por o amigo e produtor de sua antiga banda Funk Fuckers, começou a procurar uma alternativa para distribuir sua música que não precisasse ser através de um contrato com uma grande gravadora e que o Cd fosse mais acessível. Após conversar com Lobão, lançou «Enxugando o Gelo» por a Revista Outra Coisa, na época (até hoje?) a única gravadora no país que distribui um CD em grande escala, através de banca de revistas, sem «prender» a master do artista. Além disso, colocou todas as músicas do disco para download no site do Centro de Mídia Independente. Por conta disso, já fez vários shows na Europa, em locais onde não circulava em rádio ou TV. Segundo suas palavras, deste momento em diante «a parada básica é a gente e o público». BNegão ainda citou o caso da banda Radiohead que coloca as músicas para download e o público é que escolhe quanto quer pagar. Terminada a apresentação, foi aberto espaço para perguntas. Número de frases: 44 Encerra-se aqui o relato deste Over-correspondente presente no seminário. Escultura em bronze já foi uma das formas mais populares e valorizadas de artes plásticas, mas hoje em dia já não é a que mais recebe atenção dos artistas. A maioria das peças com esta matéria-prima eram feitas sob encomenda de instituições, para criação de bustos de personalidades históricas -- o que agora é cada vez mais raro. Foi pra tentar corrigir este desvio e ajudar os escultores que gostam desse material que o catarinense, radicado em Curitiba desde 1969, Elvo Benito Damo, fez o livro Fundição Artística -- Escultura em bronze por o processo de cera perdida. O lançamento da obra foi em abril no ateliê de escultura do Centro de Criatividade de Curitiba, uma antiga fábrica de cola transformada, nos anos 70, em espaço cultural. O lugar, um belo galpão com paredes de pedras, coordenado por Elvo desde os anos 80, recebe gente de todo o Brasil para pesquisar, aprender e ensinar no ateliê, instalado num complexo cultural. O Centro de Criatividade está dentro de um parque, o São Lourenço, que tem também um lago, pistas para caminhada e para bike, além de outros ateliês de artes, o teatro Cleon Jacques e espaço para exposições. Em a noite de lançamento do livro, Elvo organizou a criação de algumas obras para demonstrar, passo a passo, como nasce uma escultura em bronze a partir do processo de cera perdida (a cera serve de molde, já que a peças em bronze são ocas e, depois, é descartada, daí o nome). Usa-se a cera de abelha, que vai para um bloco refratário, onde é queimada e o metal derretido, vertido dentro do bloco que ocupa o lugar da cera, explica Elvo. «Foi a que caracterizou as fundições gregas, da idade média, quando se faziam peças únicas. Depois, se passou a trabalhar com peças múltiplas, por isso agora é possível encontrar algumas obras de Brecheret e Rodin numeradas. Isso foi uma imposição de mercado», observa. «Desconheço a existência de outro livro brasileiro sobre o assunto. Pesquisei bastante e tudo que encontrei foi a história da fundição», comenta o escultor. «Minha intenção foi tornar essa técnica conhecida, para que não morra, porque ela corre esse risco, já que a postura do poder público frente a praças e monumentos mudou radicalmente. Não se vê mais uma escultura de bronze sendo inaugurada. Até porque a própria arte, conceitualmente, mudou de direção». Ele conta que no Paraná são pouquíssimas pessoas que ainda trabalham com esse processo comercialmente. «O custo é muito alto e as fundições grandes estão fechando. Muitos só trabalham por encomenda garantida», comenta. Para críticos Diante das dificuldades é inevitável que até o próprio escultor busque outros caminhos e trabalhe com materiais que têm mais público, acredita Elvo. Ainda assim, garante, tem gente que faz questão do bronze. «Ele tem uma aura de nobreza, como o mármore. Não vão desaparecer por mais conceitual que a arte esteja hoje, vira coisa de colecionador, se valoriza com o tempo», aposta. Voltando ao livro, ele diz que não pensou só nos escultores. «Quem sabe alguém quer montar sua fundição de fundo do quintal. E também para os próprios críticos que não sabem bem como essas obras são realizadas. Tem que se conhecer o preço verdadeiro de uma obra de arte em bronze». A publicação está pronta há 7 anos e quando um amigo decidiu inscrever um projeto na Lei Municipal de Incentivo a Cultura de Curitiba foi só dar uma atualizada. «Melhorei as técnicas, nesse tempo», diz ele, que trabalha com isso desde 1975. Elvo estava na primeira turma do ateliê que agora coordena. «Em o começo a gente errava mais do que acertava. Depois fomos modificando nossas percepções. Você é um artesão nessa hora. Não tem alta tecnologia, tem que reconhecer a temperatura por a cor, saber se o metal está pronto por a cor e isso se vai conseguindo com a constância da profissão. O padeiro olha dentro do forno e diz se tá bom, não precisa marcar tempo no relógio», fala ele que também esculpe em pedra, mármore, madeira e metal. «Porque tenho necessidade, e porque sou responsável por um ateliê de escultura e tenho que ter informação técnica pra passar para o pessoal». Aprendizes Em o «pessoal» tem gente simpática e alto astral como Consuelo Misurelli, que há 12 anos vai ao ateliê -- e é leitora do Overmundo, contou. Ela tinha um namorado escultor e a convivência despertou a curiosidade. Vizinha do Parque, um dia foi conhecer o ateliê e ... «Não é todo mundo que gosta de ficar aqui. Você fica com roupa suja, é um ambiente pesado, as mãos ficam feias. Mas eu aprendi tanta coisa aqui, espiritualmente falando, inclusive», diz Consuelo, que já ganhou menção honrosa em salão de cerâmica. Ela esculpe mulheres e quando conversou com mim criava a primeira peça grande, da sua altura, algo em torno de 1m60. «É a Ana Rosa, uma heroína da Guerra do Contestado. Gosto de fazer mulheres guerreiras, vi falando de ela na tevê e fui pesquisar. É tudo difícil, não é fácil, não. às vezes fico até cinco horas aqui», comenta. Ela diz ainda que o ateliê já foi mais valorizado por a cidade e seus administradores mas, mesmo nesta fase de um pouco mais carente, continua recebendo gente do Nordeste, por exemplo, que passa temporadas na cidade só para trabalhar um tempo no local. Iandra Baggio vai ao ateliê desde 2003, de terça a sexta, todos os dias em que está aberto, como Consuelo. «Me sinto muito bem aqui, sou pedagoga e de escultura tudo que sei aprendi aqui dentro. Não sei se é difícil, é lento -- porém recompensador. Fazer arte transforma a forma de ver e sentir o mundo, disso tenho certeza, aguça os sentidos». Em o ateliê, os alunos aprendem as técnicas básicas, explica Elvo, que está sempre por perto circulando, conversando, dando dicas, esclarecendo dúvidas -- mas deixando seus alunos encontrarem um caminho próprio. Ao lado de ele está Maria Helena Saparoli, uma artista plástica especializada em cerâmica que cuida desta parte desde 1998. «É um espaço de criação, tem um conhecimento acumulado de técnicas e de procedimentos de longa data e tudo isso vai sendo passado individualmente», pondera ela. Lá, os cursos não têm data para terminar, é um ateliê livre. «Já foi uma referência mais forte, hoje busca uma nova identidade. Costumo dizer que o ateliê de escultura é o DNA do que foi o Centro de Criatividade», completa Elvo. Por o que informam representantes da Fundação Cultural de Curitiba, Elvo e seus alunos podem ficar sossegados, que o espaço vai receber mais atenção ainda. Entre os tantos endereços de cultura que estão sendo restaurados por a FCC, está o Centro de Criatividade. Número de frases: 63 Em este momento as atenções estão concentradas no teatro Cleon Jacques, mas a hora do ateliê de escultura também vai chegar. Vôzinho Me impressionou à primeira vista. Aquela figura miúda, serelepe, a barba de monge, os passos rápidos mostravam um outro mundo dentro da realidade. Tentei uma aproximação, fumei no seu cachimbo -- que ele mesmo fabrica e tem muito orgulho disso, contamos causos, rimos à vontade. De cócoras como é costume, não gosta de cadeiras; voltou no tempo, a voz eloqüente foi buscando histórias desde Lampião, e viajamos juntos ... Foi obrigado a ficar oito meses no bando de Lampião, correu muitos lugares em lombo de burro bravo e conta que Maria Bonita não era tão bonita assim, apenas uma pessoa caridosa. Sobre Lampião diz ter sido muito bravo e narra uma passagem: -- Certo dia chegamos numa currutela e tinha um baile onde o povo tava dançando debochado. Lampião mandou todo mundo baixar a cabeça e o sanfoneiro começou a tocar e todos tiveram que ficar a noite toda naquela posição, o que levantasse caia morto, dona minina! O homem era ruim memo! As histórias de Seu Zé marcam por os detalhes, datas que ele muito sóbrio dita com segurança. Os filhos, os netos, os bisnetos o admiram, ele se orgulha disso, mas reclama de ter sofrido tanto para criar a família, da dureza que foi sua vida: -- Oia, dona minina, esse mundo de hoje é muito bão ... as pessoas não trabaiam mais, vivem na vida boa. Em o meu tempo a gente trabaiava de sol a sol pra ganhar um litro de arroz, senão os fios passava fome! Entre uma baforada e outra ele me mostra os sinais do tempo: a barriga sinais de chicotadas, os dedos tortos quebrados caindo de burro bravo ... Quando pergunto de sua esposa (falecida), ele fita o infinito, os olhos marejados dágua diz -- Fiquei sem minha companheira, a vida não tem mais alegria, dona minina. E começa a contar como a conheceu: -- Conheci minha muié era ainda uma menininha, filha do meu tio, era minha prima. Só que era rica, e eu pobretão. Saí por o mundo, fui trabaiá, quando ela tinha 12 anos, vortei e pedi ela em casamento; fui humilhado, ai meu tio me deu um pedaço de terra e mandou eu se virá pra depois casar. Trabaiei dia e noite e busquei minha menina, eu já home véio e ela tão miudinha que a tarde dormia no meu colo como nenen. Mas com o dedo em riste ele diz -- Oh, dona minina, mas num trisquei em ela, cuidei ate que virou muié, pra depois dormir com mim; respeitei cumo fia e por isso ela gostava demais de mim ... Lágrimas correm dos olhos grandes esverdeados que não piscam, olham longe um ponto fixo, rememorando a figura da mulher amada ... Seu Zé tem sonhos: ver a família toda junta, chora os que se foram, para ele a vida só existe com a família reunida. Admira muito como as pessoas são desligadas, ele com muito pulso traz a família reunida e todos o obedecem; desde as crianças aos mais velhos, tem uma liderança capaz de fazer calar com um simples olhar. Como cigano seu Zé já morou em vários lugares, e continua mudando sempre, gosta disso. O dia termina e eu me despeço; levo um cachimbo como presente de ele, um cachimbo com uma carranca confeccionado em madeira com muitos detalhes como se fosse um rosto, é sua marca. Marca de um homem forte, um cigano de outra geração, de 106 anos de idade ... Número de frases: 36 Sinvaline, Uruaçu -- Go II Mostra Macuxi de Artes -- Boa Vista vira um calderião cultural Arte de lá, arte de cá, arte de todo lugar. Esse é o mote que define a II Mostra Macuxi de Artes, que vai transformar Boa Vista num verdadeiro caldeirão cultural no período de 13 a 21 de outubro. Uma miscelânea de manifestações culturais como teatro, dança, música, debates, oficinas, exposições, intervenções urbanas, entre outras. O evento terá apresentações de grupos locais, nacionais e internacionais com destaque para os projetos Palco Giratório e Dramaturgia: Leituras em Cena, desenvolvidos nacionalmente por o Sesc. «A Mostra é uma ação cultural sistemática capaz de reunir uma diversidade de propostas artísticas locais e nacionais, envolvendo teatro, dança, literatura, cinema, artes plásticas e música, com ênfase em artes cênicas, como processo de culminância e reflexão da intervenção das ações do Sesc Roraima em cultura, e como desencadeador de transformações e implementação da produção artística local», explica Rosana Santos, chefe da Seção Artístico-Cultural do Sesc e coordenadora da Mostra. Ela ainda completa que a Mostra pretende dar maior visibilidade aos trabalhos em artes cênicas desenvolvidos em Boa Vista e outros municípios do Estado, além dos projetos desenvolvidos em parceria com o Departamento Nacional do Sesc, que vem apresentado excelentes resultados em " Boa Vista. «Tudo isso vai estar diretamente inserido na Mostra, culminando com a programação local, gerando com isso um grande intercambio de experiências, técnicas, debates, política cultural, entre outros», afirma Rosana. Overdoze Um dos destaques da II Mostra Macuxi de Artes é o Overdoze, que como o nome já sugere, terá doze horas ininterruptas de eventos culturais, começando na noite de sábado e terminando na manhã de domingo. A abertura do Overdoze será com uma apresentação da Dança do Parixara, com os índios da maloca Canauanin, da etnia Wapixana. Depois virão apresentações da Orquestra e do Coral Infanto-Juvenil do Sesc, sessões do projeto Conto com Você, shows musicais, e uma miscelânea de espetáculos, performances, esquetes, fragmentos de espetáculos, leitura dramática, musica, cinema e artes plásticas. Também será montada uma Feira de Artesanato e venda de comidas típicas. Confira a programação completa 13/10 -- sexta-feira -- Evento de abertura da II Mostra Macuxi de Artes, com o pronunciamento do diretor regional do Sesc, senhor Kildo de Albuquerque, e apresentação do monólogo «Milhares de Aldeias no Ar», por Anderson Souza. Espaço II -- Sesc Centro. -- Inauguração da exposição «Expressões Macuxi», com quadros em óleo sobre tela do artista plástico Bartô, índio Macuxi. Espaço IV -- Sesc Centro. -- Espetáculo «Nós, Perdidos», da Cia Malandro é o Gato, de Boa Vista-RR. Espaço I -- Sesc Centro. 14/10 -- sábado -- Intervenção teatral na Feira do Produtor, com a Cia Arteatro, de Boa Vista-RR 8h às 12h/14h às 18h -- Oficina de Manipulação de Bonecos com Professor Adolfo Ramos (AM). Espaço III -- Sesc Centro. -- Espetáculo teatral infantil «Bruxa Wanda Pintou Sujeira», do Grupo A Bruxa Tá Solta, de Boa Vista-RR Espaço I -- Sesc Centro. -- Espetáculo de dança «Oficina», da Cia Máster Class, de Boa Vista-RR. Espaço II -- Sesc Centro. -- Espetáculo teatral «Sob um Céu de Poesia», do grupo Criart, de Boa Vista-RR. Espaço I -- Sesc Centro. 15/10 -- domingo -- Intervenção com grupo de dança na Praça das Águas, com a Cia.. Aura de Dança, de Boa Vista-RR. -- Mesa Redonda -- Apresentação dos Resultados da I Conferência Estadual de Cultura, por o Fórum Permanente de Teatro. Espaço I -- Sesc Centro. -- Espetáculo de dança «Miragem», da Escola de Dança Cristina Rocha, de Boa Vista-RR. Espaço I -- Sesc Centro. 16/10 -- segunda-feira -- Intervenção poética nas lojas da Jaime Brasil, com o grupo Criart, de Boa Vista-RR -- Exposição «Fotografia em Cena», de Orib Ziedson (Mostra de fotografias dos trabalhos de Artes Cênicas produzidos por o Sesc). Espaço V -- Sesc Centro. -- Mesa Redonda -- Conquistas e prejuízos acerca da aplicação das leis de incentivo em vigência, com Marco Aurélio Porto, representante do GETAP-RR / Fundações de Cultura do Município. Espaço I -- Sesc Centro. -- Espetáculo «A Farsa do Advogado Pathelin», da Cia do Lavrado, de Boa Vista-RR. Espaço II -- Sesc Centro. 17/10 -- terça-feira -- Apresentação de Filme do projeto «A escola vai ao Cinema» em escola estadual. 14h às 18h -- «Oficina A Construção da Presença Cênica do Ator», com o grupo de teatro Clowns de Shakespeare, de Natal-RN, do projeto Palco Giratório. Espaço III -- Sesc Centro. -- Pensamentos Giratórios com o tema «Teatro de Grupo/Processos Colaborativos», com o grupo de teatro Clowns de Shakespeare, de Natal-RN, do projeto Palco Giratório. Espaço III -- Sesc Centro. 20h30 -- Espetáculo teatral «O Santo Inquérito», da Cia Arteatro, de Boa Vista-RR. Espaço I -- Sesc Centro. 18/10 -- quarta-feira 8h às 12h -- «Oficina A Construção da Presença Cênica do Ator», com o grupo de teatro Clowns de Shakespeare, de Natal-RN, do projeto Palco Giratório. Espaço III -- Sesc Centro. -- Mostra Mario Quintana sarau de poesias. Espaço VIII -- Sesc Centro. -- Espetáculo de dança «Mãe África», da Cia Aura de Dança, de Boa Vista-RR. Espaço II -- Sesc Centro. -- Espetáculo teatral «Muito Barulho Por Quase Nada» com o Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare, de Natal-RN, do projeto Palco Giratório. Espaço I -- " Sesc Centro. -- " Luau ": encontro no Porto da Marina Meu Caso, no bairro São Pedro 19/10 -- quinta-feira 9h às 12h -- «Oficina de Dança Clássica da Índia» «Odissi», com Grupo Locômbia Teatro de Andanzas, de Barranquilha, da Colômbia. Espaço III -- Sesc Centro. 14h às 17h -- Oficina de Direção, com Marcos Henrique Rego, técnico do Departamento Nacional do Sesc (RJ). Espaço III -- Sesc Centro. -- Apresentação de Filme do projeto «A escola vai ao Cinema» em escola estadual. -- «Espetáculo de Dança» Trajetória, com o Grupo Harmonia e Ritmo, de Boa Vista-RR. Espaço II -- Sesc Centro. -- Espetáculo teatral «Roda Chico», com o grupo de teatro Clowns de Shakespeare», de Natal-RN, do projeto Palco Giratório. Espaço I -- Sesc Centro. 20/10 -- sexta-feira 9h às 12h -- «Oficina de Dança Clássica da Índia» «Odissi», com Grupo Locômbia Teatro de Andanzas, de Barranquilha, da Colômbia. Espaço III -- Sesc Centro. 14h às 17h -- Oficina de Direção, com Marcos Henrique Rego, técnico do Departamento Nacional do Sesc (RJ). Espaço III -- Sesc Centro. -- Apresentação de Filme do projeto «A escola vai ao Cinema» em escola estadual. -- Oficina de Massinha de Modelar com o «Artista Plástico Tana Halú» -- «Apresentação da História Tangolomango da Massa de Alexia Linke» e Tana Halú com sessão de autógrafos e venda de livros. -- " Espetáculo Maha Baraha com Grupo Locômbia Teatro de Andanzas, de Barranquilha, na Colômbia. Espaço II -- Sesc Centro. -- Show de Música Instrumental, com Pedro Linke e Renato Costa. Espaço I -- Sesc Centro. 21/10 -- sábado 19h -- Abertura do Overdoze, com Apresentação da Dança do Parixara, com os índios Wapixana da Maloca Canauanin, do município de Cantá-RR. Espaço II -- Sesc Centro. Apresentação da Orquestra e do Coral Infanto-Juvenil do Sesc. Espaço I -- Sesc Centro. Feira de Artesanato e vendas de comidas típicas. Espaço II -- Sesc Centro Sessões do Conto com Você " Contos Macabros/Nelson Rodrigues Contos pra Você " Apresentações musicais. Espaços II/III / VI / VII -- Sesc Centro. Miscelânea de Espetáculos, performances, Esquetes, Fragmentos de espetáculos, leitura dramática, musica, cinema e artes plásticas. Espaços I/II -- Sesc Centro. -- Encerramento da Mostra. Os espaços Espaço I -- Espaço Multicultural Espaço II -- Palco em Frente ao Sesc Centro Espaço III -- Auditório do Sesc Espaço IV -- Corredor Espaço V-Y Beco das Artes Espaço III -- Auditório do Sesc Espaço VI -- Parque / Garagem Espaço VII -- Bar da Canja Cultural Número de frases: 110 Espaço VIII -- " Biblioteca «Deite-se de costas para o chão apóie suas pernas num muro bem rente encoste a bunda no muro olhe paralelamente ao muro agora veja bem! você não está olhando para cima você está olhando para frente você não está deitado no chão você está sentado no muro o chão não é o chão é uma parede na qual você está apoiando suas costas o que era muro será trampolim para seu primeiro salto agora num só impulso fique de pé não é lindo, enorme, infinito? vá até a beirada e pule. pronto. você está voando." Foi com esse exercício poético que chegou se apresentando a banda zémaria. Ele vinha no encarte artesanal do primeiro álbum Receita para voar. Verdadeiramente independente, os CD ´ s foram feitos à mão, em três dias, durante o feriado de sete de setembro de 2002. Saíam do forno mil discos. Cada capa tinha uma cor, cada CD, uma seleção diferente de músicas. E a venda foi no boca a boca, mão a mão e através de cartas. Vieram mais umas 500 cópias, e muitos elogios. Muita gente ficou de cara com a música dos meninos, principalmente quem pode conferir in loco a celebração que era o show. E ainda é. Assistir à performance dessa banda é garantia certa de diversão e prazer. Eles fazem música moderna, de qualidade, cheia de acentos diferentes, misturada e alta pra caramba. Antes de ser Zé, era banda», que lá por os idos de 1997 fazia um rock pós punk, ou algo assim. E a ligação com a tecnologia começava ali. Era perceptível a procura por uma nova sonoridade, e a simpatia por os efeitos conseguidos através dos pedais, nas três guitarras do conjunto. Marcel vinha do hardcore, da primeira formação do Dead Fish. NegoLéo era percussionista do Pé do Lixo, banda de rock percussivo. Michel veio do Acid Cake, que soava a la Helmut. E Alex, do The Rain, que fazia grunge. O responsável por a introdução do computador foi o Constantino Buteri, ex-integrante da primeira formação, que a princípio convenceu Marcel a usar o equipamento só pra gravar, porque os caras tinham medo de que o som ficasse metalizado. Mas daí já viu, a galera tomou gosto, e surgiu o zémaria, que naquela época era uma banda, hoje é outra e vai saber que som estará fazendo daqui há alguns anos. Sala 11 A história de eles se confunde com a do estúdio Sala 11, uma casa inicialmente alugada para o aperfeiçoamento do barulho, e que mais tarde se tornaria estúdio de gravação e ponto de encontro. O nome veio do antigo local de ensaio, a sala de número 11, do Centro de Artes da Ufes. O bairro, futuramente daria nome a uma música, Jardim Camburi. Em 1999, a primeira demo foi distribuída em fita cassete. Reginaldo Secundo era o vocalista. E o Cons respondia por as programações e sintetizadores. Um ano depois, Sanny Lys já emprestava seu charme à banda, e seduzia o público, nascia o Receita para voar. Em 2002, por a Lona Records, um selo local, lançaram o prestigiado CD zémaria. Compuseram, gravaram, mixaram e masterizaram o disco, imbuídos por a melhor das seqüelas que o punk deixou para o mundo pop, o «faça você mesmo». O disco, mais uma vez, foi bem recebido. Boas críticas, muitos shows e duas apresentações no Musicaos da TV Cultura. Em 2003, no Skol Beats, tocaram no palco principal, e participaram também da coletânea Café Copacabana 2 com a faixa Jardim Camburi. A banda acabou ficando maior do que o estúdio, e não dava mais para conciliar o trabalho próprio com a produção de terceiros. A evolução tecnológica também colaborou, quando os garotos descobriram que podiam carregar num lap top a parafernália toda. Sampa Em 2004 o terreno estava fértil para a música no Espírito Santo. Mas o zémaria, com seu som dançante, e difícil de ser classificado, estava à procura de novos espaços e públicos. Mudaram-se pra São Paulo com seus computadores embaixo do braço, e foram morar numa grande casa coletiva em Pompéia. Em o quarto dos fundos, um novo estúdio chamado, claro, Sala 11. E Sampa não demorou a fazer efeito sobre o som dos caras. Descambaram totalmente para o eletrônico, influenciados por a noite paulistana. Foi aí que se consolidou o zémaria redux, com o Speedz, uma noite semanal de música eletrônica numa casa de rock da capital paulista. A banda funcionava como host, e recebeu muita gente bacana como DJ Nepal, Loop B e Marcelinho da Lua. E toda última terça-feira do mês, eles se apresentavam. Foi barra, mas foi bom porque eles puderam conhecer gente legal e divulgar seu nome. Depois, começaram a se apresentar em outras casas, festas, e o leque foi se abrindo. Gravaram um EP e ganharam um prêmio da Revista Dinamite. Em o começo de 2005, numa incursão ao Rio, tocaram numa boate carioca, e o que era pra ser um set de 1h, durou 2h e meia. E ficou a impressão de terem acertado o alvo. Parece que a galera entendeu a pancadaria. Todo mundo gostou e divulgou. E o Seu Dudu Marote, respeitado produtor musical, convidou a banda para participar do casting de sua gravadora, a Segundo Mundo. O disco ainda não saiu por conta de uma turnê na Europa. E aguardem, porque a rapazeada viajou com o repertório aberto, prontos para receber influências para o próximo " CD. «Os gringos esperavam a batucada, que não vinha. Mas daí há pouco eles estavam adorando o som. Lá, todo mundo é habituado com a textura do eletrônico, mas não com o groove e swing brazuca. E influência é isso. É perceber a reação das pessoas a ser brasileiro e universal», afirmam os zés. A saga continua Saiu um integrante, o Alex Cepille, mas o périplo continuou. Eles se apresentaram na edição 2005 do Tim Festival junto com Fausto Fawcett e Apavoramento. Agora, eles estão no estúdio, no Rio de Janeiro, fazendo alguma coisa sonora com esses mesmos caras. Pergunto se tem data pra ouvir, e a resposta é não. Se tem previsão? «Não." Mas a gente espera, porque o zémaria é preto e branco, e todas as outras cores. Enquanto isso, a banda indica, para ouvir, o CD Anniemal, de Annie, música brasileira da década de 70, Mundo Livre e Smokin City. Para ler, a revista Quase, jornal, qualquer publicação referente a relações internacionais.. Para assistir no teatro, Alice através do espelho; em TV de plasma LCd 42 polegadas, a TV Cultura, o DVD Bob Marley, Ao vivo em Santa Bárbara e Lucy y el sexo. Para acessar, www.rraurl.com (portal de musica eletrônica), www.taruira.blogger.com.br (blog de um DJ), www.unazen.net (site de uma banda) e www.fotolog.com/mirabolica (fotolog de uma produtora). Eu recomendo que você vá até www.zemaria.art.br e tire suas próprias conclusões. As músicas estão lá para serem baixadas, e os meninos ficam muito contentes com essa prática. Mandam avisar que as músicas também estão disponíveis para serem inseridas em outros programas de downloads gratuitos. E se eles passarem por a sua cidade, recomendo também não perder a chance de vê-los ao vivo. Empolgante, barulhento e altamente dançante, os shows são históricos e sempre diferentes. Cada apresentação é uma viagem. O som dos caras é eletro e acústico, suave e porrada, e contraditório. Os zés estão sempre mudando de idéia. Mas a ordem é não pirar, e seguir fazendo. A banda prega o livre arbítrio sonoro, e quem ouve agradece. ? O resumo da ópera é que por mais eletrônico que a gente tenha ficado, eu sou guitarrista e toco o sintetizador com os dois dedos. O Léo enfia a mão na batera. E se você tirar as músicas na guitarra, você toca. O zé é aquela velha discussão, digital e acústico. Porquê a gente é os dois?, conclui Marcel. Zémaria por si mesmo Marcel Dadalto, programações, sintetizadores e guitarra -- «Sou um cara que tocava numa banda de hardcore, partiu para a música eletrônica e não tem nenhum problema com isso». NegoLéo, bateria, programações e sintetizadores -- «Eu gosto de tocar música por prazer». Michel Spon, baixo, programações e vocal -- «Eu gosto de ficar na minha». Sanny Lys, vocal -- «Eu gosto de arte, praia, sossego e música, ao mesmo tempo». Número de frases: 112 Remexendo nos velhos vinis, dei de cara com o LP ' Um Passo a Frente ', de 1973, de uma das maiores lendas da história do rock brasileiro, a banda carioca A Bolha. Formada inicialmente por Cesar (solo), Renato (ritmo), Ricardão (baixo), logo substituído por Lincoln, e Ricardo (bateria). A banda passou por todas as fases do rock daquela época, da invasão britânica ao hard rock, passando por a psicodelia e por o semi-progressivo. Em 1966, lançaram o raríssimo compacto com as faixas ' Não Vou Cortar o Cabelo / Porque Sou Tão Feio ', versões para Los Shakers (Break it All) e The Rolling Stones (Get Out Of My Cloud), respectivamente. A Bolha participou de shows, programas de TV, abriu para os Herman's Hermits, no Rio de Janeiro, reinou (ao lado dos Analfabitles) no tradicional circuito de shows na periferia do Rio de Janeiro, chegando a acompanhar Gal Costa como banda base. Em 70, depois assistirem ao Festival da Ilha de Wight, resolveram mudar radicalmente a sonoridade da banda, resultando no clássico compacto com as faixas ' Sem Nada / 18:30 (Parte I) ` e ' Os Hemadecons Cantavam em Coro Chôôôôôôô ', lançado em 1971. Nesse meio tempo, a banda ainda participou do histórico álbum ' Vida e Obra de Johnny McCartney ', com o cantor da Jovem Guarda, Leno (ex-Leno & Lílian), produzido por Raul Seixas. Em 72, ganhou o prêmio de melhor banda no Festival Internacional da Canção (FIC), o que permitiu que gravassem o primeiro LP, batizado de ' Um Passo à Frente ', fazendo um rock básico, com algumas faixas bem progressivas, que veio sair em 73. Em esta época, a banda tinha Pedro Lima (guitarras, harmônicos, vocal), Renato Ladeira (órgão Hammond, Farfisa, Vox, guitarras, vocal), Lincoln Bittencourt (baixo, vocal) e Gustavo Schroeter (bateria, vocal). Em 1975, participam do lendário festival ' Banana Progressiva ', realizado no Teatro da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, entre os dias 29 de maio e 1º de junho. Em 77, após alguns altos e baixos e mudanças de formação, gravam seu segundo e último disco -- É Proibido Fumar ', em que seguem uma sonoridade mais ' pesada ', abandonando definitivamente o progressivo. Mas as vendas não convenceram, decretando o fim da banda, que ainda tocou como banda de apoio de Erasmo Carlos, numa turnê por o Brasil. Renato também integrou o grupo gaúcho Bixo da Seda (ex-Liverpool), e depois o Herva Doce, já nos anos 80. Número de frases: 13 Voltar ao tema inicial da decepção diante da surpresa por o formato do Festribal, é motivo para analisar as relações de força interculturais que agem sobre o evento e o reformulam. Natural de Cucuí, a descendente indígena Gilda Barreto, 35, ainda lembra que ao chegar em São Gabriel da Cachoeira em 1989, participou de um evento diferente. «Começou com as associações de bairro e até participei de uma dança, no segundo ano já foi organizado por a associação das comunidades indígenas e ribeirinhas e vinham lideranças para fazer os preparativos», relata, destacando ainda o fato do evento ser realizado nos dias 17, 18 e 19 de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas e com a participação de várias etnias. Somente depois de seis anos que a festa passou a ser denominada Festribal, em 1995, mas hoje, organizada por a prefeitura local, teve para a edição de 2006 a data alterada definitivamente por Lei Municipal que determina o período de 5 a 9 de setembro para sua realização. A mudança dá mais tempo para um eventual fluxo turístico considerando que, no Amazonas, assim como o dia 7, o 5 de setembro também é feriado, mas ao tirá-lo justamente da Semana dos Povos Indígenas, o evento sofre um esvaziamento simbólico significativo que se reflete na diversidade da programação atual. «Todos tentam fazer o máximo em ornamentação para ficar de acordo com a tradição, mas por outro lado, além da tribos indígenas o surgimento das agremiações fazem a festa perder o sentido de seu objetivo», explica a pedagoga Waldete Andrade, 30, ressaltando o fato das agremiações serem compostas majoritariamente por descendentes indígenas e pessoas que residem fora do município. A maior conseqüência é que hoje o Festribal aponta para a adoção de um formato mais folclórico e menos tradicional, e ao experimentar a estética parintinense como fórmula repetida em vários municípios, caminha para tornar-se mais uma festa moldada sob manchas de papel-carbono a exemplo do Festival do Peixe Ornamental, de Barcelos; os vários municípios que hoje festejam seus bumbás, além dos botos da festa paraense do Çairé, todas manifestações espetacularizadas e divididas sob uma dualidade entre a disputa do A contra o B, como Garantido e Caprichoso; Cardinal e Acará-disco; Tucuxi e Cor-de Rosa, e agora: Baré contra Tukano. Qual é a implicação principal de mais esta cópia, especialmente adotada por o poder público de um município como São Gabriel da Cachoeira? Quando em outros municípios espetacularizam-se manifestações como o boi-bumbá ou a ciranda, existe um processo natural de releitura local destes festejos por se tratarem de culturas trazidas por movimentos migratórios, ou seja, não nativas -- assim o médico virou pajé no boi parintinense -- mas num município 98 % indígena, a repetição da fórmula desgasta o que seria o principal atrativo turístico para presenciar uma festa no local: a originalidade das tradições. Por outro lado, a partir do entendimento deste cenário complexo, é necessário superar o sentimento inicial de decepção para perceber a cidade de São Gabriel da Cachoeira tal qual se apresenta e não como é idealizada por um manauara, embora o estranhamento também seja latente nos filhos da cidade. «O objetivo da festa seria encontro das tribos ou etnias existentes no rio Negro para uma grande festa, na minha opinião deveria haver realmente esse encontro para que pudesse haver a troca de conhecimentos já que o município é riquissímo em culturas» observa Waldete, acreditando estar na logística o problema para a festa se consolidar em sintonia com o próprio nome. «O município é muito grande e precisaria de muito recurso para deslocar representantes de tantas tribos e etnias para a cidade. Assisti desde o primeiro Festribal e, na verdade, nunca houve a participação de todas as etnias, então, se faz o que pode até hoje com a apresentação de algumas comunidades», considera. Mesmo diante destas razões, uma grande contradição permanece ao observar como a programação é elaborada. Sendo chamado Festival das Tribos do Alto Rio Negro, a apresentação dos indígenas com sua simplicidade nos primeiros dias do evento contrasta com o encerramento reservado para a apoteose das duas Associações Folclóricas, transmitindo a sensação daqueles que deveriam ser os verdadeiros protagonistas da festa, servirem apenas como um pré-show para o grande espetáculo do folclore, embora sejam considerados convidados de honra, os primeiros a se apresentar e emprestem o nome ao troféu que premia o vencedor. Por que Baré, por que Tukano? A disputa entre apenas duas agremiações foi afunilada apenas ano passado durante a realização do X Festribal. Com o título Festribal Musical, as agremiações Uaupés, Tukano e Baré concorreram entre si apresentando apenas músicas, sob as quais seriam decididas as duas agremiações que concorreriam no XI Festribal, em setembro de 2006. «Venceram Baré e Tukano que vão permanecer pelo menos por enquanto», conta o coordenador da última edição, Gilliard Henrique, mostrando que a construção da identidade do maior evento local, por estar vinculada à administração do municipio, passa também por os interesses políticos de quem está no poder. «A construção do Festribal está acontecendo, mas depende de continuidade, infelizmente alguns interesses podem contar mais do que os aspectos culturais. Política pode falar mais alto», afirma. Em o âmbito das agremiações, Baré e Tukano constituem-se em apenas nomes desvinculados de qualquer representação oficial das etnias de mesmo nome. O caso da Associação Folclórica Tribo Baré é mais curioso por historicamente levar o nome de uma etnia praticamente dizimada no período de colonização portuguesa. «Houve uma dispersão dos Barés que subiram o rio para se refugiar dos colonizadores, o tempo passou, e neste processo recente que presenciamos do resgate do indígena por as suas origens, passaram a se intitular Baré todos que falavam Nheengatu -- língua geral criada por os missionários -- ou aqueles que não encontraram mais seus vínculos», afirma o antropólogo, Antônio Maria de Souza. Desde 1976, Antônio realiza pesquisas de campo na Amazônia por o Museu Paraense Emílio Goeldi, e estava em São Gabriel da Cachoeira acompanhando mais um Festribal como continuidade de suas pesquisas. «É certo que nessa Babel cultural de tanta etnia junta na cidade, isso está formando uma identidade para os habitantes», explica. Para a associação em si, este caráter agregador do nome Baré torna-se ainda um apelo a mais, além de muito bem vindo para sensibilizar novos adeptos. No caso da oponente fundada em 1995, a adoção do nome Tukano gerou problemas por se tratar de uma presença étnica forte e organizada na região, culminando com a suspensão temporária de suas atividades. A informação presente no histórico distribuído à imprensa na noite da apresentação da Tukano, descreve que em 1997 por pressões de algumas entidades indigenistas que confundiram a intenção da Agremiação em homenagear o pássaro e não roubar o nome tukano da etnia Tucano, os coordenadores da época abandonaram a agremiação por um período de 5 anos. Somente em 2002, os componentes retomaram as atividades legalizando-se como Associação Cultural, defendendo o preto e amarelo representando as cores do pássaro que os coordenadores defendem homenagear desde o início. O olhar da população sobre a festa A grande presença de público nas dependências do tribódromo pode dar uma falsa noção de apoio incontestável ao formato novo do Festribal, mas numa cidade sem muitos eventos é natural a mobilização em torno da festa enquanto acontecimento social, independente da opinião favorável ou crítica de quem assiste. Em estes juízos particulares construídos a partir de olhos atentos, foi possível detectar um pouco da percepção do público sobre o Festribal 2006. Aproveitando o feriado para visitar a família e assistir o evento pela primeira vez, a estudante Edna Souza, 21, afirmou ter gostado tanto da estrutura quanto das apresentações. «Adorei a apresentação da Tukano, das tribos e agora sou uma torcedora», conta, explicando que apesar de ter nascido em São Gabriel da Cachoeira, está morando em Manaus para completar os estudos. «Foi muito bonito e é bom para a cidade que o festival cresça», afirma. Sem ver problemas na estilização dos rituais, Edna também não se opõe ao fato de serem somente duas agremiações na disputa. «Fica menos cansativo e as pessoas ficam mais unidas para preparar uma festa bonita», comenta. Em o lado mais crítico, o descendente da etnia Desano, Délio Alves, 23, faz uma análise ligada à questão do uso da cultura indígena ao mesmo tempo em que o formato atual colabora para distanciar a participação dos indígenas tradicionais. «As danças têm um significado religioso que se perde no chão de concreto do ginásio e a ausência dos quatro pilares principais, eles têm uma representação muito forte e servem como referência para muitas etapas do ritual», conta o expectador, se referindo aos pilares presentes nas malocas como locais apropriados para dançar. «Sem os pilares, os Daw que vieram abrir o evento ficaram visivelmente confusos, sem contar que para muitas etnias é até um ato profano dançar somente para exibição», enfatiza. Apesar de prestigiar o evento com sua presença, Délio não esconde sua opinião sobre a festa. «Não gosto, venho por que normalmente não há muito o que fazer na cidade». Perspectivas no caldeirão cultural Em a tentativa de construir o Festribal como uma forma positiva de projetar a fama da cidade no estado, o distanciamento das raízes indígenas é a conseqüência da escolha por uma versão de espetáculo a ser aprimorado a cada ano por os organizadores, mesmo que o abismo da diferença entre os investimentos de Parintins e São Gabriel da Cachoeira desfavoreça a originalidade do " Festival das Tribos do Alto Rio Negro. «Parintins está no quadragésimo e tal, por aqui estamos apenas no décimo primeiro», conta uma das participantes da organização do evento, Janini Juçara, se referindo ao aprimoramento da festa estar condicionado a um processo que deve buscar uma conciliação abrangente das culturas presentes. «Tem muita coisa nessa região do Amazonas para ser mostrada», comenta. Em uma cidade que há séculos destila a convivência possível entre grupos tão diferentes, os conflitos culturais entre população indígena tradicional, descendentes indígenas absorvidos por a urbanização, militares, migrantes e a forte presença das igrejas católica e evangélica, serão necessariamente evidenciados na elaboração de um evento proposto como palco desta diversidade. Assim é o atual Festribal, que feito sob as regras políticas do poder público do branco, impõe suas regras, mas abre espaço para outras iniciativas de resgate às raízes presente em São Gabriel da Cachoeira e toda região do Alto Rio Negro passem a produzir seus próprios palcos, outros novos Festribais. Em as palavras da pedagoga Waldete, uma aspiração repetida em vários relatos: «Deveria se fazer um estudo para que a festa pudesse ficar de acordo com Festival das Tribos do Alto Rio Negro, para valorizar as tribos existentes, promover o contato entre elas e homenagear as que foram dizimadas», conclui. Para o visitante, descifrar o local e descobrir as muitas faces da cidade é, sem dúvida, o levantar de uma pequena parte daquilo que cobre o mistério chamado Amazônia, da natureza exuberante ao comportamento das populações que em ela habitam e interagem. A descoberta de que se sabe muito pouco sobre o país em que vivemos é a parte mais penosa da nossa grandiosidade cultural, seja em harmonia ou no conflito, assim, independente do que se espera encontrar por uma divulgação obscura, tanto São Gabriel da Cachoeira, como o seu Festribal têm o direito de ser o que são e trilhar a sua busca. Número de frases: 58 Visite o Festribal e conheça uma das partes mais ricas desta complexidade chamada Brasil. Esta história é baseada em fatos reais. Suzana estava grávida de um fibroma Foi uma novela daquelas para escolher o nome do primeiro filho. «Eu quero ou Felipe Deividson da Silva ou Felipe Cristina da Silva», dizia Suzana Cristina. Mas Felipe Cristina não pode, Suzana. Não é sobrenome ... «Não me interessa. Fica muito mais bonito que só Felipe». Depois descobrimos que o Deividson vinha da marca de motocicletas mais famosa do mundo, a Harley-Davidson. Em todo esse impasse, o menino acabou nascendo Felipe da Silva mesmo, vitória da resistência em massa das pessoas. Ele já veio ao mundo sem saber quem era o pai. Suzana fazia a limpeza, cozinhava e costumava varrer a casa como ninguém, nunca deixava uma sujeirinha por os cantos. É uma mulher grande, alta, gordinha, com voz acelerada, gestos acelerados e riso descontrolado. Quebrava xícaras com uma facilidade incrível. Quando Felipe nasceu, ela se acalmou mais, passou a dar assistência a seu filho. Era uma festa todas as vezes que o pequeno Deividson aparecia vestido com as cores do Santa Cruz. Boné, sapatinhos e roupas de " Ricardo Rocha. «Ele já foi da seleção, era muito craque», justificava a mãe. Quatro anos depois, Suzana teve uma súbita crise durante a preparação de um almoço e colocou-se a vomitar. «Eu tou muito mal, sabe, mas acho que foi o tempero da comida ou alguma coisa estragada que eu comi ontem». Uma ida ao banheiro e tudo voltava ao normal, afinal, Suzana era uma mulher forte. Era bastante forte mesmo. Até que um dia o «forte» virou gorda. Que barriga enorme. Seria gravidez denovo? «Não tou grávida não, é um fibroma que me apareceu. Por isso minha barriga ta inchada desse jeito», dizia Suzana. Ela estava grávida de um fibroma, um tumor benigno que se desenvolve a partir do crescimento anormal das fibras musculares que constituem a parede do útero. O filho de Suzana era o próprio útero de ela. E assim os dias foram passando e o fibroma aumentava mais e mais. As pessoas andavam muito desconfiadas, mas Suzana sabia desmentir como ninguém. «Já fui no médico, dotôra. Eles me avaliaram toda. O fibroma ta crescendo, mas não corro risco de morrer não». A mãe de ela, dona Helena, confirmava a versão de que seria vovó de fibras musculares. «Se ela tivesse grávida eu já teria notado. Eu tenho olho clínico, notei com duas semanas quando ela engravidou de meu netinho. Ninguém me engana não». Enganou. Depois de oito meses de gestação do fibroma, um dia Suzana sumiu, não foi trabalhar. «Parece que ela foi fazer a operação do fibroma, que o médico tinha aconselhado». Dona Helena tampouco sabia do caso. Meudeusdocéu, cadê minha filha. Eis que uma cruzada por todos os hospitais da cidade se iniciou. Onde diabos estaria Suzana. «Essa cirurgia é demorada mesmo, o fibroma é uma coisa complicada», contou uma amiga de ela. Algumas horas depois Suzana ligou. «Estou aqui no Albert Sabin, acabaram de operar meu fibroma e eu estou bem. Em um dia ou dois eu chego em casa». Ah, que bom que foi tudo bem. A mãe respirava aliviada por ter encontrado a filha. Alguém então notou que o Albert Sabin era uma maternidade. Dona Helena chegou esbaforida à maternidade. Em um leito, Suzana estava branca como a neve e com soro no braço. «Meu deus, minha filha. Você não ta com fibroma nada, você tava me enganando!». Indignou-se. Ao pé da cama, negligenciado por a mãe, estava Fibroma Cristina da Silva. Ou Fibroma Deividson da Silva, uma menininha enrolada num cobertor. Ao invés de estar nos braços da mãe, a criança estava no pé da cama. Suzana não esboçava maior reação. Ela simplesmente não queria aquele tecido muscular com ela. O bebezinho, para ela, era um fibroma. Segundo a enfermeira, nem ao ter contato com a menina Suzana esboçou uma reação mais emocional. «Ela queria dar a menina logo depois que pariu. Ela chegou aqui desesperada e quando a menina nasceu ela disse que eu podia entregar para qualquer pessoa que eu encontrasse», revelou a enfermeira. Dona Helena continuava indignada. Ela xingava a filha no meio do hospital. «Você não é mais minha filha! Desnaturada! Como você faz isso com minha neta, hein?! Você não pode dar sua filha!». A maternidade, atônita, observava aquilo. A o ver que Suzana continuava imóvel na cama, sem a menor demonstração de sentimento para com o bebê, Dona Helena resolveu levar a menina para casa. Ela não tinha nem roupas, afinal, fibromas não usam roupas, não iam meias rosas e nem fraldas. Algumas doações de outros pacientes da maternidade resolveram o problema em primeira ordem. A o sair da maternidade, Suzana voltou a trabalhar. Disse que a filha estava com a irmã, Rosineide. Ela seria a mãe da menina, agora com nome, Júlia. Sem Deividson e sem Cristina. Dona Helena, feliz com a netinha, nunca mais voltou a falar com a filha. Suzana, que também não chegou a conhecer o pai da menina, ainda continua tratando Júlia como se não fosse de ela. «Eu não estava grávida. Estava com um fibroma. Número de frases: 84 Essa menina é filha da minha irmã, ela achou no hospital». Em 1942, em plena Segunda Guerra, o mundo se dividia entre nazistas e aliados. Apesar de acompanhar o conflito à distância até aquele ano, os Estados Unidos possuíam sérios interesses comerciais envolvidos no front. Por isso era necessário mudar a opinião de nações do terceiro mundo, inclinadas a apoiar o fascismo, como era o caso do Brasil de Getulio Dornelles Vargas. Este foi provavelmente um dos motivos, por que nesse mesmo ano uma equipe de roteiristas e desenhistas de historias em quadrinhos de Disney desembarcou na América do Sul. De acordo com Moya (1996) umm dos grandes entusiastas do estudo das histórias em quadrinhos, em 1942, a equipe dos estúdios Walt Disney chegando ao Brasil, começa uma grande expedição de viagem. Em o início, está viagem buscava apenas inspirações para novas criações icônicas. Em este «passeio» é criada a película de animação na qual Pateta e Donald fazem novas amizades por o Brasil, Chile e Argentina. Foi nessa produção cinematográfica, de nome Alô Amigos, que nasceu o papagaio Zé Carioca. Em o relatório da viagem consta, uma reunião com o presidente Vargas, ocasião em que Disney falou sobre os princípios que norteavam a boa vizinhança e a disposição das autoridades americanas em estreitar os laços de amizade com o Brasil. Segundo os documentos, o presidente brasileiro mostrou-se receptivo às suas manifestações. A resposta de Getúlio animou o governo Roosevelt, pois demonstrou a disposição de Vargas em cooperar para o sucesso dos projetos que pretendia desenvolver no país, entre eles a construção de uma base naval no litoral brasileiro, a base que futuramente seria na capital do Rio Grande do Norte, vital para os interesses estratégicos de segurança dos Estados Unidos. Moya descreve que a equipe Disney retorna aos Estados Unidos e produz os desenhos animados Alô amigos, em 1942, e Os três cavaleiros, em 1945, mais conhecido aqui no Brasil como Você já foi à Bahia? Instrumentos de propaganda da política da boa vizinhança, as duas obras foram lançadas no Brasil. O desenho foi produzido também com o objetivo de enfatizar os fortes laços de amizade e admiração que os americanos nutriam por os seus vizinhos do sul. Tal intenção se revela nas seqüências iniciais do desenho, notadamente nos versos da música de apresentação, composta por Edward Plumb, entoada durante a exibição dos créditos. Em a prática, a canção funciona como uma síntese, não apenas do roteiro, mas da própria política da boa vizinhança: «Saudamos a todos da América do Sul / Onde o céu é sempre azul / Saudamos a todos os amigos de coração / Que lá deixamos, de quem relembramos ao cantar essa canção!». Em o desenho a América do Sul é representada por um mapa estilizado. Chama atenção, por um lado, o destaque dado à capital do Brasil, à época a cidade do Rio de Janeiro e, por outro, o desconhecimento sobre a importância de São Paulo, que naquele momento já ocupava a posição de maior centro industrial do país. Porém, no mapa em questão, a cidade é representada apenas por uma praça e uma capela, ou seja, a São Paulo dos jesuítas. Os personagens de Disney viajaram por a Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia e Chile. Todavia, foi no Brasil e na Argentina que Donald fez a parada mais prolongada, procurando amigos e diversão. A escolha desses países e, em especial, de suas respectivas capitais, dois importantes centros políticos latino-americanos, não foi aleatória. Brasil e Argentina eram alvos prioritários da política externa americana e aspiravam à posição liderança regional. Segundo Moya a película cinematográfica Alô amigos!, trouxe um presente especial para os brasileiros: a estréia do papagaio Zé Carioca, o mais «novo amigo de Donald». A criação de Disney pretendia resumir, no plano simbólico, os laços de afeto e cooperação que uniam os Estados Unidos ao Brasil. De fato, a seqüência mais famosa do desenho se passa durante o carnaval brasileiro, quando o Zé Carioca convida Donald para tomar um trago, este não resiste ao ritmo contagiante da música brasileira e «cai no samba» ao lado de uma linda baiana, ao som de Aquarela do Brasil, composição de Ari Barroso e símbolo do nacionalismo do Estado Novo (1937-1945). Apesar de todos os cuidados da produção em não cometer erros para desempenhar de modo eficiente a missão diplomática traçada, Moya compara as contradições e as ambigüidades do desenho. Donald e seus companheiros não se comportavam como amigos, mas como turistas que visitavam terras exóticas. O turista interpreta a cultura das regiões que visita como uma seleção de monumentos. O resultado de tal interpretação é a redução dos nativos a tipos, desprovidos de personalidade e história, isto é, estereótipos. «Em o Brasil, por exemplo, o carioca é caracterizado como o malandro simpático e cordial, sendo a síntese do comportamento do brasileiro», o argentino é representado por o vaqueiro e aventureiro. Esse era o olhar americano sobre seus vizinhos latinos, sem a intenção de observar as diferenças culturais, mas comprometido em reduzir e classificar, estratégias para submeter o desconhecido à condição de inferior. O segundo desenho produzido por Disney, por encomenda do governo norte-americano, recebeu o título de Os três cavaleiros. O ponto central do roteiro é demonstrar os laços de fraternidade que aproximavam Estados Unidos, México e Brasil, naquele momento, unidos à causa dos Aliados e lutando na Segunda Guerra Mundial. Em o desenho, a aliança desses três países aparece simbolizada por a amizade dos personagens Donald (Unidos), Panchito (México) e Zé Carioca (Brasil). Como em Alô amigos, inicialmente é apresentado um mapa da América Latina. De essa vez, o mapa destacou, em vez das capitais sul-americano, a flora e a fauna da região, dando ênfase especial à cordilheira dos Andes e à floresta Amazônica. Donald é convencido por Zé Carioca a acompanhá-lo numa visita à Bahia, «a terra do romance, do luar e de lindas garotas». A o chegar, Donald não resiste ao clima da terra, rende-se aos encantos de uma baiana, interpretada por Aurora Miranda, e sai dançando por as ruas de Salvador, embalado por o som do grupo musical O Bando da Lua. O espectador menos avisado, ressalta Moya que desconhecesse o contexto da política externa em determinados momentos, teria dificuldades de compreender a ausência da Argentina e o descaso de Donald, que sequer manifestou o desejo de visitá-la. Já o personagem brasileiro, está sempre com os amigos, e é retratado de diferentes formas, sendo na maioria de elas, negativamente. Entre elas malandro folgado, golpista, enganador, caloteiro, namorador e contador de vantagens. Zé Carioca mora numa favela brasileira, mais especificamente na vila Xurupita. É retratado nas construções narrativas quadrinescas como um papagaio preguiçoso que acorda ao meio-dia, almoça fiado e não nega convite para uma roda de samba e um jogo de futebol. Logo no início de sua existência, Zé é retratado ao lado de Tio Patinhas, após ter ingerido excessivamente, com seu companheiro norte-americano, uns goles do tradicional aguardente de cana, conhecida como cachaça. Ele engana quem quer que seja. Seu jeito simpático e habilidoso evita maiores problemas. O personagem estreou nas tiras norte-americano em outubro de 1942. Em o Brasil, entretanto, sua história estava apenas começando. Em 1950, chegou ao país às revistas do Pato Donald. O estupim para a entrada do herói no país foi amizade com Zé Carioca, conquistada no cinema. Em o texto da Rádio Pataquada, uma espécie de editorial da revista, Zé Carioca é visto como o anfitrião de Donald no Brasil, um malandro que não gosta muito de trabalhar, mas que luta para arranjar um emprego para o amigo estrangeiro. O brasileiro é mostrado como uma pessoa que não gosta muito de trabalhar. Em a descrição, é apresentado com alguns traços de aproveitador: adora contar vantagens e só quer saber de sambar e jogar futebol. Assim como Donald e Mickey, Zé Carioca também pode ser considerado um herói. Ele sempre está disposto ajudar a quem precisa, envolve-se em aventuras para capturar bandidos, atrapalha-se em algumas situações, mas sempre termina fazendo o bem. Mesmo que lhe custe caro. Ele é a soma dos dois personagens, se assemelha mais para Mickey. Em algumas histórias é esperto e aventureiro, em outras se apresenta distraído e atrapalhado. Zé Carioca é a metáfora do brasileiro, segundo Moya. É a imagem que os norte-americano tiveram ao visitar o país. É uma mistura daqueles cidadãos que utilizavam camisetas listradas, palheta e viviam com um pandeiro na mão -- os malandros, com os boêmios, que passavam as noites bebendo, fazendo serenatas e apresentavam-se bem vestidos. Os roteiristas e desenhistas de Disney misturaram tudo isso e construíram um estereótipo. Até o ano de 1972, a maioria das historias eram produzidas nos Estados Unidos e só depois deste ano, que as histórias do papagaio começaram a ter uma visão brasileira. Atualmente, as revistas em quadrinhos do Zé Carioca são quinzenais, produzidas na Editora Abril em São Paulo. Considerações finais A fascinação que o Estado Novo exerce até hoje, é que ele não foi algo exato, simples, pelo contrário foi muito complexo e ambíguo. Uma das razões na visão de muitos teóricos que explicam esse sentimento -- é que há outras circunstâncias ligadas às controvérsias políticas, e o fato do Estado Novo apresentar faceta bastante variada. Tornando difícil analisar este momento histórico por uma crítica fria. Busca-se entender, com objetividade possível que fenômeno foi esse que gera essencialmente uma série de fatores ruins a sociedade, e ao mesmo tempo, tem aspectos de progresso. Em o Brasil, a presença cultural dos Estados Unidos durante o período do Estado Novo, proporcionou a divulgação de diversos produtos culturais deste país. Em essa relação de cooperação, artistas brasileiros foram apresentar seus trabalhos em terras norte-americano, como Carmem Miranda. Analisar esta relação internacional e o jogo duplo de Dornelles Vargas as vésperas da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália e os efeitos da guerra na industrialização do país. A estratégia política do Estado Novo visando mobilizar a população para seus ideais, na tentativa de construir uma identidade nacional é fundamental, ligação feita entre o «brasileiro», e o papagaio, Zé Carioca. O personagem «brasileiro» dispõe de chapéu panamá, sorriso faceiro, olhar sensual, andar solto, ginga, papo despretensioso e as vezes, mortal. Assíduo da boemia, é representado de forma desinteressada ao trabalho. Essa representação criado por diferentes segmentos culturais, inclusive por Disney, está enraizada para muitas pessoas, a partir desta criação, em nossa história. Número de frases: 82 Sendo o Rio de Janeiro, capital do país, palco e picadeiro para esse momento político-histórico da nação brasileira cheio de ambigüidades, avanços e fatores antidemocráticos. Lembro perfeitamente de uma discussão que tive com um ex-chefe, onde em resposta ao meu chamado para participação em listas de discussão ele respondeu: «Designers pensando coletivamente? Em que mundo você vive?». O que mais me assustou porém, foi o fato disso não ter partido de um publicitário ou marketeiro, e sim de um designer de produto. Há tempos formado, só quer saber da sua graninha no fim do mês, como a maioria. Não recrimino, de forma alguma, afinal todos temos contas a pagar e idealismo não enche barriga. Mas o que eu fico pensando é o seguinte: Como, com cada vez mais gente formada nos moldes de uma educação precária e retrógrada, os novos profissionais vão enxergar além de seus pequenos e egocêntricos umbigos? Já passa da hora de agir, parar de discutir se o termo «logomarca» existe ou é lenda, fazer algo realmente consciente e colaborativo, e principalmente: deixar as críticas destrutivas para quem não age. Porque quem tenta sair da inércia é sempre criticado negativamente, você sabe. Acabo de asssistir a uma das iniativas mais louváveis vindas de alunos de design, o documentário A folha que sobrou do caderno. Produzido por estudantes da UFBA e divulgado recentemente no NDesign de Manaus, o vídeo dá início ao debate sobre os cursos de design no Brasil. Mais do que isso: sobre a postura passiva de alunos e professores, e como isso reflete diretamente na qualidade do ensino de design no país. O mais curioso talvez é que se retirarmos a palavra «design» de todos os pontos do vídeo e substituirmos por qualquer outro curso, dá no mesmo. Todo o sistema educacional passa por o mesmo problema. A diferença é que como o professor do vídeo disse: «o aluno de design se forma sem saber qual problema vai resolver, antes do problema existir, numa profissão que nem existe oficialmente." Não vejo isso como impecilho ao debate e à ação e sim como uma força motivadora maior e mais resistente para defender o que acreditamos. Existem muitos pontos negativos levantados no vídeo, como a aluna que diz que «aluno só quer saber de resolver problemas com soluções prontas, não quer mais pensar», e o que tenho visto muito depois de formada: gente querendo fazer trabalho apenas pra virar «estrelinha» com muito glamour e fama, pensando apenas no seu umbigo; mas existe quem queira tirar as coisas do lugar, botar a universidade pra funcionar, os alunos pra reagir e os profissionais pra brigarem por seus direitos. E sabe onde estão essas pessoas? Elas não estão sozinhas falando mal de tudo e de todos: elas estão se organizando, ganhando força. Esse é o papel do Cone, da ADG, da ADEGRAF, etc.. Organizar os indivíduos em torno de ideais, para tentar (com força política) alcançar suas metas. Esse tb deveria ser o objetivo do NDesign, além das festas. O vídeo fala tb da força que o estudante tem e não sabe. Ás vezes até sabe, mas não usa ... Minhas primeiras sugestões? Primeira e mais simples: Entre numa lista para debater assuntos que realmente acrescentem, sem disputa de posts ou ataques pessoais. Tente ajudar, construir, compartilhar, debater. As listas não precisam de mais gente para avolumar os spams. Segunda, porém mais complexa: entre sim para uma associação, seja do seu estado, seja nacional, esta é a melhor forma de sua voz ter o força junto às demais. Porque não adianta propagar aos quatro ventos que ninguém faz nada se você não der o primeiro passo. E aí vale o ditado: uma andorinha só não faz verão. Todas as profissões hoje regulamentadas passaram por esse dilema, inclusive medicina (como muitos adoram comparar). Até o momento em que as pessoas viram que não adiantava ficar cada um no seu canto resmungando que ninguém respeitava a classe, que eram mal remunerados, etc.. Se até o crime se organiza, nas piores condições possíveis, porque a organização e a busca de objetivos comuns parece um sonho tão distante para nós, designers? Em este caso, a vontade é o primeiro passo. Como há muitos a serem seguidos, que tal começar? Terceira e talvez mais importante: se você ainda é estudante, pode fazer muito mais que isso: mostre a seus professores do que você é capaz. Ainda que esculhambem seu trabalho em detrimento de alguns «tosqueiras», ainda que o detonem por pura e simples inveja, ainda que digam que é medíocre. Você sabe melhor que ninguém do que é capaz. Mostre isso nos seus trabalhos, na discussão em sala de aula, acrescentando seus saberes, suas experiências e seu modo de pensar a cada um dentro de sua sala. Esse é o grande barato do efeito multiplicador da educação que temos de resgatar para as próximas gerações, e isso vale para o ensino em geral. Ninguém sai o mesmo depois de participar ativamente de boa aula de história da arte. Foi-se o tempo em que isso era papel apenas do professor. A universidade foi feita para se compartilhar conhecimento. Pense, desafie, proponha, questione. O que mais me choca (na verdade me mata); o que mais me revolta é essa passividade, essa paralisia que impera e segue para além da faculdade, no mercado de trabalho, no serviço público, no dia-a-dia de cada um. Espero de verdade que este vídeo ajude a compreender e mudar ao menos um pouco a realidade que vivemos. Vale muito a pena assistir e divulgar. Parabéns mesmo ao Mauro Alex e cia por a iniciativa. Obrigada! Em tempo, créditos do documentário: A folha que sobrou do caderno Alexander Czajkowski Mauro Alex Rego Gabriel Costa + colaboradores Link para visualização do vídeo O Alexander disponibilizou o link sem restrições de cópia. Se forem repassar ou colocar em seus blogs, por favor façam a devida referência. Número de frases: 71 Link para download do víde o Exuberância de flora, fauna e flores, paisagens deslumbrantes, morros e campos, diversidade de cenários, lindas cachoeiras, incontáveis rios e águas, um céu espetacular e cristais por toda terra. Essa soma mais alguma coisa intangível, mas «sentível», a que as pessoas chamam de energia, constituem o encanto básico da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. E, ao contrário do misticismo e da ufologia, o bom é que, neste caso, não é preciso acreditar em nada sobrenatural ou fantástico, basta ver com os próprios olhos e sentir com todos os sentidos. O «poder terreno» manifesta e não há como escapar. É o planeta que chama. Em esta viagem, diferentes percepções. O morador-nativo vê a natureza, com o perdão da redundância, como «natural», porque ela sempre esteve aqui, esta é a paisagem permanente, é linda, mas o deslumbre não existe. O visitante vê a natureza como «sobrenatural», algo glamourizado, cada vez mais raro e para ser devotado como um deus. Sua intensidade é tão contrastante com as médias e grandes cidades, que a primeira reação de quem chega é de impacto e choque, e o local inevitavelmente vai apresentar-se como um paraíso. Se há estresse, ele evapora. Em esse sentido, a maior virtude da região é mostrar às pessoas o quanto tudo pode ser diferente e, sobretudo, melhor. E ainda é possível escolher o tipo de turismo: ecológico, rural, de aventura, místico, ufológico, religioso, de moradia. Ops! De moradia? De moradia, porque não poucos visitantes tornam-se moradores. É como uma paixão, começa com um flerte e vai indo. Por exemplo: o Lutero e a Graça, de Brasília, construíram uma pousada; a Ivene, de Goiânia, abriu uma pizzaria e assim segue. Entre os novos moradores e os nativos, de um lado, e os turistas, de outro, há aqueles que têm casas de veraneio e estão sempre aqui, «ajudando a cuidar do lugar». A dois passos ou no paraíso? «O que faz da Chapada dos Veadeiros algo tão especial? O contato com a natureza é extremamente intenso, a sensação de liberdade que o local transmite», pergunta e responde o site de turismo Transchapada, numa espécie de auto-reflex ão. O que mais se diz, faz ou se vê aqui? Confira o que anunciam diversas fontes: caprichos da natureza (revista Bonde); dádivas da natureza " (Ecofotos); contato com a natureza, a biodiversidade, um silêncio mágico (Chapada. com); sintonia com a natureza (Casa das Flores); uma natureza exuberante e intrigante (Verde Trigos); natureza agreste, aura mística, santuário ecológico e belezas naturais (Pousada Jardim do Éden); todas as facetas da natureza intactas e com a força das águas (Férias Brasil). Como se percebe, falar daqui é ser redundante. Para Márcio José Pereira, de Goiânia, fã de carteirinha, a Chapada vai além do lindo cerrado de altitude e dos «passeios interessantíssimos». «Tem a galera, a pinga com arnica do Seu Claro, o crepe da madrugada, o Bar do Bodinho ...». A lista não acaba. O interessante é que as opiniões e imagens da região são tão positivas e construtivas que se alguém falar mal de algo vai se passar por ranzinza e insensível, quando não ficar com descrédito. É aqui o paraíso? Parece que sim. A Chapada dos Veadeiros é natureza e sua história é a história da Terra. Aqui tudo começou. Foram nestas paragens altas do planalto goiano que os primeiros raios de sol iluminaram um dos primeiros pedaços de terra emersos do planeta. Sobre ela, depois de milhões de anos, apareceram Cerrados em plenitude. E aí, dizem por aqui, o mundo ficou completo. A sociedade nacional só chega durante o Ciclo do Ouro, por volta de 1740, com a fundação da cidade de Cavalcante, mas já quatro décadas depois -- informa o historiador Paulo Bertran, o senhor Joaquim Pereira Lemos reivindica uma sesmaria de «meia légua de terra em quadra no ribeirão chamado Paraíso, tudo na Chapada dos Veadeiros». Ou seja, desde antes essa época, tudo estava batizado e a imagem já vinculava-se ao Éden. Em 1935, quando a região era conhecida somente por suas minas de cristal de rocha e a preservação da natureza era idéia e prática inexistentes, Matma Nago, em seu livro O Tocantins, escreve: «Sabes, leitor amigo, onde fica a Chapada dos Veadeiros? ( ...) São as paragens mais inebriantes do Brasil. Em verdade, se ela não foi o local em que estava situado o Paraíso Terrestre em que Adão pecou, é, por certo, um pedacinho do céu que os Criadores das Cousas cortaram de seu imenso palácio e pregaram em pleno coração de nossa pátria». Em o livro Berço das Águas do Novo Milênio, do ano 2000, o seu autor, Miguel von Behr, faz uma verdadeira devoção à Chapada dos Veadeiros e pede que, aquilo que considera os seus elementos (água, flor e paisagem), sejam «entendidos como fornecedores de fontes de riqueza para o homem». Segundo ele, «o que mais atrai são as belezas cênicas, com suas variadíssimas cachoeiras, cascatas, riachos, corredeiras, exuberantes montanhas, veredas, majestosos campos de flores, paredões, escarpas, canyons ...». E define: «paisagem é o estado da alma». Já o guia Amaury de Azevedo, de Alto Paraíso, escreve em poema: » ... A Chapada está em mim. Em ela incorporei-me Em simbiose tão profunda ..." E o músico Paquito canta: «Eu moro no paraíso Chapada dos Veadeiros Eu vivo no coração De o cerrado brasileiro Um banho de cachu Um love com você Que venha o fim do mundo Eu não quero nem saber " E assim, de apologia em apologia, a Chapada enche o papo. Exportação de couro Ainda que esse encanto por a região venha há séculos, o respeito à natureza é recente. Sem considerar a agricultura de subsistência, as primeiras atividades econômicas da região, nos séculos 18 e 19, sempre devastadoras, foram a exploração de ouro e a exportação de couros, principalmente de veados, daí o nome veadeiro, que significa tanto o caçador de veado e o cachorro usado na caça quanto os locais onde esses animais costumam beber água. Por ironia do destino, foi uma atividade altamente predatória que batizou o que é hoje um dos lugares mais preservados do Cerrado brasileiro, mas sempre coexistindo com a noção de paraíso. Depois, vieram a criação de gado, cavalo e muar e o cultivo de trigo, este durando até o início do século 20. Em 1912, começaram as explorações de cristal de rocha, que se estenderam até meados dos anos 1980, quando o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV) foi fechado com cercas de arame e o turismo ecológico e místico iniciam, lentamente, suas atividades, somando remanescentes de comunidades alternativas e aventureiros. Apesar de ter sido criado em 1961, com 600 mil hectares, foi somente por volta de 1990, e já reduzido a 60 mil hectares, que o PNCV vai assumir sua condição de natureza a ser preservada. Simultaneamente, já acontecia um movimento conservacionista feito por grupos, entidades e associações civis, instituindo hotéis-fazendas, santuários informais e reservas particulares de patrimônio natural. A consciência ambiental e a vida alternativa que vinham crescendo desde as revoluções urbanas das últimas décadas -- reforçadas por os ventos do encontro Eco-92, no Rio de Janeiro -- vão ser fundamentais na consolidação desse sistema de proteção à natureza dos Veadeiros -- que, hoje, começa a sofrer uma nova ameaça: os plantadores de soja, conhecidos como «fazedores de deserto». Novos olhares De outro lado, ao contrário do que se pensa, o ecoturismo não é uma atividade isenta, pura e não-poluidora. A abertura de trilhas, a construção de hotéis e pousadas, o lixo gerado e o esgoto não deixam de interferir no ambiente verde, mesmo que com menos impacto que outros ramos da economia. A natureza também é explorada, mas de forma diferente. Ainda assim, parece ser este o melhor caminho para o chamado desenvolvimento sustentável. Em esta troca entre o paraíso e as cidades, além do impacto cultural, da interferência em costumes e comportamentos locais -- uns positivos, outros negativos, os turistas e os novos moradores também contribuíram para melhorar o perfil daqui. De certa forma, foram eles que ensinaram ao nativo a não só explorar, mas valorizar os Cerrados, a olhar diferente, a preservar e a «sentir a energia que rola aqui». Em os primeiros tempos do turismo, alguns nativos se enchiam de admiração e espanto ao saberem que as pessoas vinham de longe e, depois, caminhavam quilômetros e quilômetros sob sol ou chuva, em trilhas íngremes, só para tomar banho de cachoeira. Em o povoado de São Jorge, particularmente, os recém-chegado, com exemplos, incentivaram os moradores a fazer jardins, plantar árvores e arborizar o povoado. E o cenário urbano mudou por completo. A noção, até o início da década de 1990, era de que, estando bem no «meio» da natureza, já tinha mato demais, então árvore na rua pra quê? Em a mesma frente, o céu ganhou um novo olhar. Ora, pois, direis ouvir estrelas? Aqui você vai ouvir e entendê-las. Exultar o pôr-do-sol e o nascer da lua cheia. Isso é possível, mas é não é praticado nem percebido nas grandes cidades. Em os Veadeiros, há tempo e lugar para apreciá-los e até promover rituais de consagração, banhar-se em energia ou fazer mentalizações. Como o chopinho pós expediente ou a academia de ginástica no mundo urbano, os astros-reis da Terra são, na Chapada, um álibi para o relaxamento de fim de tarde. Para o morador e o trabalhador, o calendário e as horas são gregorianos, mas, para o visitante, o tempo aqui é outro -- não o do relógio e das datas, mas dividido somente em dia e noite. Ou está claro ou está escuro e é isso que determina o que se vai fazer. Cachoeiras, campos floridos, lindas paisagens, céus literalmente divinos. Este é o místico acessível, a magia que independe de crença, a energia que dispensa tomada, um sentimento que pode ser resumido ao bem-estar. Quem não quer estar bem? Então, esteja na Chapada. Número de frases: 100 Conheço desde 1940 o Professor Curt Lange e o tenho em alta conta por sua grande e valiosa obra de musicólogo, que salvou da destruição e do esquecimento inapreciável acervo da criação musical brasileira. Lidei de perto, e bastante, com Curt Lange, quando exercia eu a função de chefe de gabinete do ministério da Educação e Cultura, nosso eminente co-estaduano Gustavo Capanema, e dou testemunho da admirável perseverança e do labor fecundo com que esse ilustre professor se consagrou à pesquisa e valorização de composições mineiras do passado, revelando um capitulo novo e empolgante da historia da musica do Brasil.-- Carlos Drummond de Andrade Devemos ao Professor Curt Lange uma impressionante façanha de «arqueologia» cultural: a redescoberta da face oculta do chamado «Barroco Mineiro» -- O seu aspecto musical inovador -- que conjugada à contribuição de escultores, pintores, arquitetos e poetas, integra e compõe a figura harmoniosa de um período privilegiado de nossa história artística, desenvolvido ao longo do ciclo da mineração. Dar ao Professor Curt Lange condições para preservar seus achados e prosseguir em suas pesquisas, parece-me, portanto, iniciativa das mais oportunas e relevantes, digna do melhor apoio.-- Haroldo de Campos Em a edição de 29 de agosto de 1959, num texto intitulado «O Escândalo do Barroco», da revista O Cruzeiro, o musicólogo alemão Curt Lange foi duramente criticado e acusado por parte da imprensa, dos intelectuais e dos políticos brasileiros de se apropriar de partituras musicais até então desconhecidas da música do período colonial de Minas Gerais. Os trechos acima foram publicados na edição do Suplemento Literário mineiro como respostas de apoio ao pesquisador. O musicólogo morreu há 10 anos e a importância da sua pesquisa permanece ainda desconhecida para muitos. Nascido na Alemanha, mas vivendo boa parte da sua vida transitando por quase todos os países da América Latina, Lange dedicou quase toda sua vida profissional e pessoal à cultura musical do continente americano. Mesmo assim, seus objetivos foram questionados por aqueles que afirmavam defender a soberania da cultura latino-americana. Em o Uruguai, onde viveu a maior parte do tempo, Lange ajudou a fundar, de entre outras coisas, a Discoteca Nacional do Uruguai e o Boletim Latino-Americano de Música. Este é considerado a publicação de música mais importante das Américas na primeira metade do século XX. Os seis tomos publicados possuem diversos artigos acerca do tema e circularam entre as principais cidades do continente. A última edição do boletim foi inteiramente dedicada ao Brasil. Mais bolivariano do que muitos pensadores e intelectuais da época, Curt Lange teve sempre a preocupação de divulgar a música latino-americana como um todo, sem fronteiras. Suas obras eram constantemente publicadas em português e espanhol (e em outras línguas mais). Para além do nacionalismo cego -- do qual acabou sendo vítima -- o pesquisador contribuiu para afirmar a importância da música latino-americana. Mesmo tendo de lidar várias vezes com a falta de apoio e reconhecimento dos governos dos países onde pesquisava, com a sua determinação germânica, Lange nunca abandonou a paixão por a pesquisa musical. Acusaram-no de compor, falsificar obras históricas para chamar a atenção. Lange foi acusado também de expatriar patrimônio cultural por supostos defensores da música brasileira, mas que até então não haviam dado a devida atenção a tal pesquisa. Por outro lado, foi convidado por diversas universidades e institutos do mundo inteiro a ocupar cargos de coordenação de pesquisas. Mas preferiu fixar suas atividades sempre na América Latina, onde reconheceu um vasto material de expressões culturais e musicais para sua vida de pesquisas. A Viagem Em uma passagem por o Rio de Janeiro, visitando a Biblioteca Nacional, Lange levantou as primeiras suspeitas sobre uma produção musical nacional anterior ao século XIV. O pesquisador conheceu o poeta e então chefe de gabinete do Ministério da Educação e Cultura (relativo ao Ministério da Cultura de hoje) Carlos Drummond de Andrade. Reconhecendo o interesse do alemão por a pesquisa da cultura nacional, Drummond o colocou em contato com JK. Em agosto de 1944, a convite da Prefeitura de Belo Horizonte, Lange hospedava-se no Grande Hotel, que à época recebia os principais intelectuais do país. O professor não sabia que estava prestes a iniciar uma das maiores descobertas da música brasileira da época. Foi em terras mineiras que Lange deu início a uma verdadeira empreitada por o interior (muito mais inacessível na época), dirigindo um jipe e batendo de porta em porta à procura de partituras musicais que lhe revelaram compositores musicais até então totalmente desconhecidos. Em entrevista, uma vez Lange afirmou que: «batia de porta em porta para perguntar às viúvas dos netos dos compositores se havia sobrado alguma coisa do marido. Elas me apresentavam baús cheios de preciosidades. Eu ia oferecendo dinheiro e salvando a papelada da fogueira -- hábito antigo das viúvas. Assim descobri que a escultura e a arquitetura mineiras coloniais tinham sua contraparte musical. Uma genealogia de músicos mulatos, saídos das irmandades laicas, começava a surgir diante de meus ouvidos: José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, Manoel Dias de Oliveira, Inácio Parreira Neves e tantos outros». Não fosse a viagem histórico-musical do alemão pesquisador, talvez os únicos registros musicais de diferentes compositores da música brasileira do século XVII se perderiam. O ineditismo do material descoberto era tal que o pesquisador foi acusado de inventar as partituras para chamar a atenção da mídia. O mesmo texto da revista O Cruzeiro afirmava: Mas a verdade é que as perguntas dos críticos continuam sem resposta e enquanto o Professor Curt Lange, ou o Ministério da Educação não o obriga a se decidir pelo menos a apresentar os originais para exame dos especialistas, nunca estaremos certos ao ouvir a Missa em Mi Bemol, presumivelmente composta em 1785, se estamos mesmo ouvindo Lobo de Mesquita ou o cavalheiro Francisco Curt Lange. O que até então se pensava era que artistas como Aleijadinho foram únicos, casos esporádicos e anormais no Barroco Mineiro. Pesquisas como a de Lange ajudaram a descortinar um tipo de zeitgeist nas artes desse período. Para André Guerra Cotta, coordenador geral do Acervo Curt Lange, na medida em que as pessoas conhecerem a reflexão que vem se fazendo sobre o que significou Curt Lange, a tendência é que se reconheça mais plenamente o seu valor para a história e a cultura brasileira. «Ainda acho que o preço que ele pagou foi muito alto. Toda essa guerra moral que fizeram contra ele foi uma grande injustiça», afirma. O acervo A obra acumulada em décadas de viagens por todo o continente (Lange era quase um nômade e vivia percorrendo as capitais latino-americanas) é tão importante que o seu acervo criou interesse de universidades americanas e européias, mas, como pedido do próprio autor, todo o material deveria se transformar em pesquisa aberta num dos locais que mais lhe rendeu descobertas, Minas Gerais. As partituras foram alocadas no Museu da Inconfidência e o seu acervo pessoal foi destinado ao Acervo Curt Lange, localizado na Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais. Este contem mais de 75 mil cartas que o pesquisador trocou com mais de 9500 interlocutores de 76 diferentes países. As correspondências foram trocadas principalmente em espanhol e português. É talvez a mais importante reunião de documentos sobre a produção musical da América Latina. A correspondência acompanha o trajeto geográfico, além de ser um registro dos diálogos entre o pesquisador e intelectuais, políticos e professores do mundo inteiro. O material (extremamente bem conservado e manipulado) atrai constantemente pesquisadores do outro lado do Atlântico, enquanto ainda, infelizmente, passa anônimo a pesquisadores e estudantes da área. O acervo guarda também instrumentos, fotografias, aparelhos de gravação do pesquisador e parte da sua biblioteca pessoal. Número de frases: 54 Mais fotos ... Geograficamente, o Bairro Ellery situa-se na região noroeste de Fortaleza e tem como limites os bairros Álvaro Weyne, Alagadiço, Carlito Pamplona, Monte Castelo e Presidente Kennedy. Possui cerca de 12 mil habitantes e comemora, neste ano, 50 anos de existência oficial. Desde 26 de janeiro, porém, tornou-se um local sem fronteiras, com a inauguração do «sítio» bairroellery. com. br. Experiência pioneira na comunicação comunitária cearense, o site é um projeto do Conselho de Desenvolvimento do Bairro Ellery, fórum das entidades populares da região, e surgiu como iniciativa do assistente administrativo Aguinaldo Aguiar, em parceria com o professor da rede estadual de ensino Raul Carlos Campos e o webdesigner Daniel Almeida. Aguinaldo explica que a origem está ligada à história de um outro veículo de comunicação do bairro, a bem-sucedido rádio Mandacaru FM, fundada em 1992 e fechada com a recente política de repressão às rádios comunitárias. «O sítio surge naturalmente após o fechamento da rádio, da necessidade de buscar novas alternativas. Claro que são mídias completamente diferentes, mas faz parte do mesmo processo», diz. Se as atividades desenvolvidas na Mandacaru podem ser consideradas o embrião do site, ele se tornou realidade graças a um novo cenário na região: a proliferação de lan houses. Como tantos outros bairros espalhados por as periferias das cidades brasileiras, o Bairro Ellery vê crescer um público significativo que está bem mais próximo do ciberespaço. Atualmente, funcionam na área oito lan houses. Cinco de elas são parceiras fundamentais do projeto, através de um esquema simples, mas eficiente: comprometem-se a fazer do site do bairro a página inicial dos computadores. Em troca, são divulgadas na seção de parceiros. «O Aguinaldo disse que não precisava pagar, era só colocar o site nas máquinas. Então falei: vamos lá!», diz Valmir Alves, dono da A.M.V. Conect Atualidades Virtuais (assim mesmo, sem um n no connect). «Funciona bem, porque todo mundo, o pessoal dos colégios, das igrejas, quem mora no bairro, ou os parentes de quem mora, entra aqui e sempre passa por a página. Quando eles saem, eu retorno para o site do bairro. Claro que o pessoal mais novo coloca seus flogs para ficar em destaque, põe foto como protetor de tela, mas eu mudo depois». A lan house de Valmir possui cinco computadores e, mesmo numa rua aparentemente pouco movimentada, está localizada ao lado de outra, chamada simplesmente de ... «LAN House!" Tem espaço para a concorrência?», pergunto." Se eu tivesse quinze computadores, os quinze ficariam ocupados. A população ainda é carente de computador, a maioria das casas ainda não tem, e as pessoas que têm aparecem aqui quando estouram os pulsos da conta telefônica." Aguinaldo traça três objetivos principais para consolidar efetivamente o site, ainda em fase de aprimoramento. O primeiro é viabilizar um instrumento de publicação direta de conteúdo por parte dos moradores. Em outras palavras, criar no Bairro Ellery uma cultura de «jornalismo colaborativo» e cidadão, onde cada morador sinta-se interessado e tenha condições de registrar acontecimentos, fatos, reivindicações. O segundo, a possibilidade do site tornar-se um banco de memória da comunidade. O terceiro é ampliar a democratização das políticas do bairro. «Ele pode preencher, por a proximidade com os moradores, por o surgimento de uma nova rede de colaboradores, um espaço que normalmente não é ocupado por as mídias comerciais. Pode dar visibilidade não apenas aos eventos, mas a iniciativas, a articulações, a produções da comunidade. Acho que o sítio pode ser um provocador, um estimulador de novas coisas." A realização destas metas implica, naturalmente, um engajamento constante dos moradores do Bairro Ellery. É possível, porém, já perceber alguns resultados interessantes na empreitada. Atualmente, funcionam uma seção de notícias exclusivas do bairro, com a cobertura de acontecimentos culturais, religiosos, esportivos e políticos (como as reuniões do Orçamento Participativo e as políticas públicas de segurança), uma agenda com eventos programados para a região e uma seção de classificados. Há ainda um projeto de se criar um guia catalogando os principais serviços oferecidos na região, que seria consultado através de um mecanismo de busca. A média dos acessos diários é de 200 visitas, mas a cobertura de eventos populares no bairro costuma gerar picos de audiência. «Em a época do carnaval, quando o sítio se lançou com a divulgação de fotos do bloco ' Sai na Marra ', esse número saltou, foi de zero para mais de 20 mil page views», diz o webdesigner Daniel, que criou e mantém o bairroellery. com. br a partir do uso de softwares livres. «O sítio é interessante porque quando você olha para esses números que mostram o interesse por o bloco de carnaval ou por as comemorações dos 50 anos do bairro, você vê que é o pessoal da comunidade olhando para si próprio." A análise de Daniel coincide com sua experiência pessoal em participar do site: «Fui convidado por o Aguinaldo, ele queria me contratar. Eu falei ' que é isso, rapaz, eu sou do bairro, cobro nada não '. O sítio acabou me aproximando das mobilizações que já existam no bairro, do local em que eu moro." O professor Raul compartilha as impressões de Daniel, vendo no site um espaço onde os moradores do Bairro Ellery podem se (re) encontrar: «É difícil delimitar uma função para o sítio, mas acredito que ele tem que cobrir todas as coisas daqui. Quando o bloco de carnaval saiu e as pessoas foram ver no dia seguinte na internet., elas se reconheceram ali». Raul, porém, propõe uma leitura que transcenda os próprios limites da região. «Ele deve ser o ponto de partida para outras ações de participação comunitária na cidade. Ele deve ser do bairro, mas não bairrista." Bairro Ellery na internet: http://www.bairroellery.com.br http://www.orkut.com/ Community. Número de frases: 57 aspx? cmm = 1009216 Três legítimos representantes da arte indígena de Roraima. É como se pode definir Carmézia Emiliano, uma índia macuxi, nascida na maloca do Japó; Bartolomeu da Silva, nascido em Boa Vista, mas também de raízes macuxi, da região de Maturuca, na Raposa Serra do Sol; e Isaias Miliano, que nasceu na Maloca do Mutum, na Serra do Uiramutã, também um legítimo macuxi. Através da arte -- cada um a seu modo, eles tentam manter viva sua cultura, seja através da pintura, na escultura, ou do entalhe em madeira. Carmézia Emiliano, a primeira mulher indígena a trilhar por as veredas das artes plásticas em Roraima, encontrou na pintura uma forma de expressar as cenas comuns do cotidiano da maloca onde viveu até os 28 anos. O poeta e escritor Eliakin Rufino, que a conheceu em 1992, disse que naquela época Carmézia lhe contara que, se tivesse tinta e pincel, iria retratar os costumes do seu povo. Aquilo foi o primeiro passo para que Carmézia soltasse sua inspiração e talento para a pintura e se transformasse na maior representante da arte naïf de Roraima. Seus quadros também traduzem lendas, como na tela Lago Caracaranã. Segundo ela conta, «no lago existe um cavalo marinho, entre outros animais, que foram aprisionados por os pajés, para ficarem protegidos dos caçadores e predadores da natureza». Como bem expressou o poeta «Eliakin,» ela é a primeira índia a empunhar um pincel e materializar em arte a expressão cultural do povo macuxi». Com o apoio e incentivo do marido, o palhaço Léo Malabarista, e dos amigos, Carmézia fez sua primeira exposição individual há dez anos. Denominada Lendas, costumes e histórias do povo macuxi, a exposição reunia 19 quadros enfocando temas indígenas. Depois de ali, não mais parou. Foram diversas exposições individuais e coletivas, tanto aqui quanto em outros estados da região Norte. Com o tempo, além das tintas tradicionais, Carmézia começou a utilizar material retirado da própria natureza, como o urucum e a resina de genipapo. Sua obra já rompeu fronteiras e seus quadros já emolduram paredes até mesmo na Europa. O escritor Ziraldo, numa de suas vindas a Boa Vista, ficou encantado com o trabalho de Carmézia e comprou três de suas telas: A Ceia do índio; Espremendo massa; e Desfiando algodão. Carmézia continua pintando em seu ateliê montado em casa, na periferia de Boa Vista, e prepara material para uma nova exposição ainda para este semestre. Bartô O também macuxi Bartolomeu Silva, que adotou o codinome Bartô em suas obras, é outro que representa bem a cultura indígena em Roraima. A os 10 anos, conta ele, se aventurou em suas primeiras criações artísticas e não mais parou. Seus quadros, feitos sempre em óleo sobre tela, com um toque de surrealismo, retratam principalmente a fauna e a flora da região. Seu trabalho pode ser visto inclusive em painéis de abrigos de pontos de ônibus e repartições públicas. «Estou produzindo para fazer uma exposição no segundo semestre, que vai se chamar Vida e morte da Amazônia, com enfoque na devastação da região», adianta. Bartô ainda divide seu tempo de artista plástico com outras atividades. «Também vou voltar a fazer teatro de fantoches e estou trabalhando na criação de um projeto de reflorestamento em áreas degradadas», afirma. Outro sonho de Bartô, prestes a se realizar, é a criação da Associação Cultural de Artistas Plásticos Indígenas de Roraima. Segundo ele, toda a documentação já está pronta para levar ao Cartório, para dar início às atividades. «Isso vai fortalecer ainda mais nossa arte e nossos artistas. Já contatei alguns de eles como a Carmézia, o Elisglésio, o Charles Gabriel, o Ze Lange, todos da etnia macuxi, o Mario Flores, que é taurepan, e o Alcindo Silva, que embora seja paraense, desenvolve sua arte por aqui», conclui. Isaias Miliano Completando a tríade artística, chega o taurepang Isaias Miliano, que desde cedo buscou inspiração nas belezas naturais de sua localidade e, logo aos dez anos, já conquistava prêmios escolares com sua arte. O trabalho de Isaias é feito basicamente com material reciclado, sobretudo a madeira, que ele recolhe em serrarias, marcenarias ou mesmo na natureza. Segundo Isaias, existe uma preocupação permanente em repassar através de seu trabalho «a necessidade de manter o equilíbrio com o meio ambiente, através do aproveitamento dos resíduos naturais que após uma dedicação e atenção os mesmo são transformados em arte sem depredar o ecossistema natural». Para o artista, o grande reconhecimento por o seu trabalho foi quando ele concorreu com grandes nomes da arte de Rondônia, onde se sagrou vencedor com a tela em que estava exposto os igarapés, buritizais e cachoeiras, o que era inédito no Estado, pois a maioria dos artistas estava com trabalhos retratando os seringais, ribeirinhos e as locomotivas principais inspirações da época. «Participar com grandes nomes da arte rondoniense foi a consagração do meu trabalho. O mais importante foi a iniciativa inédita em expor pela primeira vez um trabalho exaltando as belezas naturais de meu Estado de Roraima», disse. Sua exposição Grafismo e rupestre da Amazônia, composta de 15 peças que retratam as belezas naturais das serras e várias regiões de Roraima, através de pinturas, esculturas e entalhos em madeira, já percorreu todos os estados do Norte desde 2000, e ficou em exposição em Boa Vista, durante o mês de fevereiro, no Hall da " Assembléia Legislativa. «Roraima é um Estado dentro da Amazônia, que possui imensas riquezas naturais, por isso sempre procuro expressar este momento para minhas artes», conclui. Número de frases: 44 «Mulheres de Holanda» foi o que poderia se chamar de homenagem às mães, e, principalmente, a Chico Buarque de Holanda, um dos mitos da música popular brasileira. No entanto, o espetáculo musical apresentado no teatro Um do Sesc/Esplanada, sábado 13, em Porto Velho, não passou da força de vontade e boa iniciativa para uma cidade com pouquíssimos eventos desta natureza, na única cidade do país que não tem teatro estadual. E só! As «Mulheres de Holanda» tinham a missão de interpretar grandes sucessos do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, numa homenagem as mães por conta da data comemorativa do segundo domingo de maio, 14. Até aí, tudo na mais perfeita ordem. O teatro um do Sesc não é tão grande, mas é confortável, embora modesto, porém, nem todas as cadeiras ficaram preenchidas, comprovando a velha teoria que, quando o assunto é cultura em Porto Velho, a maioria prefere ficar em casa. Cultura é algo escasso por aqui. E é aí que entra a boa iniciativa e força de vontade. As «Mulheres» se esforçaram e, com certeza, deram o seu melhor para interpretar as músicas do velho Chico, mas a tarefa pareceu difícil demais. Senão, vejamos. Era claro, em algumas músicas, surgir um «branco» e as intérpretes, quando não desafinavam, esqueciam as letras das músicas. Em uma de suas passagens, na música ' Cotidiano ', numa forma de evitar um vexame maior, ficou nítido que uma espécie de «cola» foi colocada no palco, e as duas interpretes ficaram -- acho que todos perceberam o mico -- lendo o papel, como se não tivesse havido ensaio antes da apresentação. Mas todos aceitaram o «Cálice» e aplaudiram de «pé». Outra coisa que, sem dúvida, quase ninguém entendeu foi a performance de uma apresentação classificada como «expressão corporal», cena que beirou o ridículo, envolvidos em passos de danças que iam de um lado para o outro, mas não se sabia, ao certo, aonde queria chegar. Tudo meio perdido. Um horror. Uma mistura de expressão corporal e a «bailarina da praça». Nada contra, mas, convenhamos: entrar rodando e sair pulando ao som de Chico não têm muita coisa a ver. Em o mais, nem tudo se perdeu no curtíssimo tempo de duração do show, que durou não mais que uma hora, nem menos que quarenta minutos. O público saiu satisfeito, cantando as músicas de Chico e comentando, com toda razão, que o espetáculo poderia, e deveria, ser bem mais elaborado e mais organizado. Número de frases: 21 Seria, até, uma homenagem melhor com cara de «dia das mães». Foi num clima de expectativa e curiosidade que fui parar em Bayeux, cidade vizinha a João Pessoa, doida pra saber mais sobre o que era o Cavalo Marinho. Encontrei seu Zé Bento por lá: um sujeito simples, cabelos brancos e de uma simpatia incrível, pronto pra me fazer entender mais sobre este folguedo popular que ele coordena. Não precisou de muito tempo para perceber toda a paixão que envolve seu trabalho e o faz às vezes até tirar dinheiro do próprio bolso pra poder manter o grupo, passar tardes sob um sol escaldante mobilizando a comunidade e resistindo à enorme falta de apoio governamental de uma cidade que não possui sequer uma secretaria de cultura. E o que é o Cavalo Marinho? É um grupo de folguedo popular que se manifesta na música e principalmente na dança para a valorização e preservação de expressões autênticas da cultura popular em sua comunidade. Inspirada por as festas de reis, a apresentação é regada de significados e tem como enredo lendas, romances, narrativas heróicas de figuras fantásticas e animais glorificados, explicou seu Zé Bento. E com tantos símbolos e autenticidade, é praticamente impossível não ser hipnotizado por cerca de 40 brincantes (entre jovens, idosos e crianças) vestidos de cores fortes, dançando xote, xaxado, sapateado e mais um monte de danças que nem eles sabem dizer o que são. «O que o som da zabumba pede a gente faz», explicam os brincantes, ficando fácil notar a empolgação de eles em torno de todo o clima mágico que os envolve. Perguntei ainda como começou a tradição do Cavalo Marinho aqui na Paraíba, e seu Zé Bento foi logo dizendo com aquele ar de contador de histórias que parece inerente a toda pessoa que tem tantos anos de vida pra contar: «Isso é história antiga, minha filha ... já ouviu falar em Major Ciraulo?" Major Ciraulo viveu nos anos 20, era o agitador cultural residente lá em Bayeux que sempre trazia grupos de cultura popular de Bananeiras e Borborema (cidades do interior da Paraíba) para as grandes festas dos fazendeiros da região. E eram realmente grandes essas festas: começavam as 8:00h da manhã e só tinham fim às 6:00h do outro dia! Matavam-se galinhas, um boi ... A mesa tinha de ser farta. Logo em seguida, o grupo que o Major trazia chegava e só parava de dançar para comer, à 1:00h da manhã, voltando depois com todo o pique e interagindo com os moradores e trabalhadores da região. A dança era tão empolgante e fazia tanto sucesso que os habitantes locais começaram a reproduzir no dia-a-dia os movimentos dos tais grupos do interior, com total incentivo do major Ciraulo, que dispunha de uma casa próxima à Ponte do Baralho (divisão entre Bayeux e João Pessoa) pra sediar os ensaios. Foi naturalmente eleito um mestre que cuidava da apresentação, e um coordenador que cuidava das reuniões e organização do grupo. Pronto! Está formado o cavalo Marinho da Paraíba. E a quantas anda o Cavalo Marinho hoje? Quase 100 anos depois, a maior luta (que se torna também um grande trunfo) é manter essas manifestações que foram tão importantes para seus pais e avós fiéis às originais. Seu Zé Bento faz questão de dizer a todo instante que seu grupo é o mais tradicional existente hoje em dia, mas mesmo assim teve que se render a algumas adaptações óbvias: se antes o espetáculo durava mais de 24 horas, agora tudo é resumido em 40 minutos, além de haver uma preocupação grande com divulgação, que não é tão fácil como se imagina. Estamos falando de um povo muito carente que ainda toma um susto danado quando falamos em computador e Internet. E no nosso tempo, com a facilidade e velocidade da informação, quem não está na rede praticamente não existe, fica inacessível ... Mas seu Zé Bento está lá, na sua casa escondidinha em Bayeux para nos provar que existe um mundo que não usufrui nada disso, que pra entregar um release a quem quer que seja tem quem passar na xerox do outro lado da cidade. E sua missão é essa. É viver sem nenhuma verba ou apoio para manter o grupo, é perder as contas de quantas vezes teve que tirar dinheiro do próprio bolso para consertar figurino e comprar instrumentos musicais para apresentação. «Ah, moça ... Você viu nossa rabeca? Precisamos de outra urgentemente!». Mas o maior problema mesmo é quando surge uma oportunidade de levar o folguedo para fora do estado com o objetivo de participar de algum encontro ou festival. É de se imaginar que não são todos os eventos que têm condições de pagar um cachê que viabilize manter e transportar mais de 40 participantes. E como seu Zé Bento faz? «A gente teria que se apoiar em algum órgão de cultura da cidade, mas não existe nada parecido aqui. Temos que ir atrás da prefeitura da capital. Pelo menos eles fazem o que podem, ajudam na maioria das vezes com o mais urgente». E essa é realmente a única fonte de apoio do grupo. Foi assim que conseguiram o ônibus para marcar presença, por exemplo, na feira da Música de Fortaleza esse ano, onde os vi pela primeira vez e me encantei com um cortejo feito do SEBRAE até o Dragão do Mar. E pra eles já é assim mesmo ... Cada vitória é uma comemoração enorme e serve de incentivo para o grupo ver o quão importante é para a Paraíba. E eles estão cada vez mais conscientes disso " Eu acho que a gente tá muito valorizado em outros lugares, sabe? Sempre recebemos convites pra dançar fora da cidade, às vezes aparece alguém querendo fazer uma entrevista ... Eu acho que se a gente não fosse importante ninguém ia vir aqui, né? Parece que só o governo da nossa cidade que não enxerga isso». É mesmo lindo ver seu Zé Bento responder quando eu pergunto o que o faz passar por cima de todas as dificuldades " Eu não sei não, eu não sei não ... parece que vem do sangue, sabe? Desde que nasci eu senti isso ... quando eu vi, me apaixonei». Dá pra perceber a importância desse grupo? E não estou falando só da apresentação em si, mas principalmente do poder de mobilização que o folguedo tem em sua comunidade, da busca por uma identidade cultural e educação de um povo que acha que cultura é coisa de gente chique. Trazer a possibilidade de viagens e cultivar o respeito de gente como Ariano Suassuna e Gilberto Gil não têm preço pra essa comunidade. O Cavalo Marinho é algo que se sente. Só olhando nos olhos dos seus brincantes é que nós podemos entender realmente, na prática, a importância que a preservação desse legado histórico / cultural tem: o de fazer sentir-se atuando na produção cultural do estado, reativando seus valores humanos e sociais. Número de frases: 58 Disposto a lançar um olhar sobre a floresta dentro do quadrinho nacional, um grupo de desenhistas criou o surpreendente álbum ' Belém imaginária ' Apesar de esparsa e um pouco acidentada, a produção de quadrinhos de Belém sempre teve qualidade. Em o final dos anos 80 foram os fanzines do coletivo Ponto de Fuga. Em a década de 90 as graphic novels de Gian Danton e o início da carreira internacional de Joe Bennet (que já desenhou Conan, Homem Aranha e Supreme, de Alan Moore). Em os anos dois mil os álbuns de Miguel de Lalor, um dos novos astros da bande desineé francesa. E agora, é a vez de um grupo de roteiristas e desenhistas iniciantes se juntar ao seleto time de quadrinhistas paraenses com o álbum Belém imaginária. Pintado à mão e com uma qualidade de impressão e acabamento difícil de serem vistos em obras locais de quadrinhos, Belém imaginária é o resultado do trabalho de Otoniel Nascimento, Ney Nazareno e Júlião Cristo, responsáveis por o roteiro, em conjunto com Fernando Augusto e João Barros, que cuidaram dos desenhos em parceria com o próprio Otoniel. Como nenhum de eles vive apenas de quadrinhos, a produção do álbum teve que ser conciliada com os trabalhos «oficiais» de cada um dos envolvidos. Um processo que resultou em madrugadas insones e levou nove meses para ser concluído. Basta uma rápida olhada no material para ver que o esforço valeu a pena. A história de um garoto que se perde na feira do Ver-O-Peso e vai parar num mundo encantado, povoado por seres como a Matinta Pereira, impressiona por a qualidade do argumento e dos desenhos, bem acima da média de outros lançamentos recentes feitos por artistas locais. Em menos de um ano, o álbum foi aclamado por sites especializados, como Omelete e Universo HQ, e teve a sua tiragem esgotada. Entusiasmado com a recepção do primeiro trabalho, Otoniel já prepara um segundo volume, voltado novamente para o universo das lendas amazônicas. «Estamos preparando um álbum que se chama Encantarias: a lenda da noite. É uma interpretação em quadrinhos da origem da noite segundo a mitologia brasileira. Ele conta a história de Kuandu, Piatã e Ubirajara, que a mando de Tupã enfrentam a Boiúna, o Curupira a Iara e um monte de outros perigos para trazer a noite para o mundo numa época em que só existia o dia», explica. Para Otoniel, o relativo sucesso do álbum, ainda que apenas num segmento restrito de mercado, serviu como ponto de reflexão sobre a necessidade de um olhar amazônico dentro do quadrinho nacional. «Temos vários projetos para esse ano. Um que possivelmente sai em julho é uma ficção científica sobre a Amazônia. Queremos fazer ainda um sobre os conflitos de terra no sul do Pará. E estamos trabalhando numa obra de terror. Claro que isso não quer dizer que sempre vamos falar do Ver-O-Peso e da Matinta Perera. E sim que o nosso objetivo deve ser o de fazer personagens e histórias que o leitor paraense e o leitor brasileiro entendam, se identifiquem e gostem», afirma o escritor. Número de frases: 24 A Caravana Arcoiris Por La Paz, formada por 25 artistas e ativistas altermundistas de diversas nacionalidades, tendo se originado no México no ano de 1996 e percorrido milhares de quilômetros de nuestra América, busca através da arte, da educação ambiental e da espitirualidade de tradição indígena, chamar a atenção das pessoas para a necessidade de (re) construirmos o paraíso que herdamos a partir da compreensão de que a vida é um todo indivisível e que a fragmentação, o isolamento e a mercantilização são as fontes da destruição e do sofrimento que nos impedem de viver e desfrutar a terra como um jardim de mil delícias. Depois de ter tido a felicidade de ler, em 2006, um dos cartazes da Caravana afixado na sede da Rede Sergipe de Cultura, fui contagiado por a alegre expectativa de poder conhecer todo o grupo. Em o cartaz, se resumiam os objetivos do projeto: Fortalecer redes, grupos e movimentos biorregionais. Oferecer oficinas e cursos nas áreas, de alimentação saudável, permacultura, ecovilas, eco-educa ção para crianças e jovens, eco-feminismo, intercâmbio de conhecimentos das culturas indígenas e suas cerimônias, saúde e terapias holísticas, teatro, música, artes circenses, danças circulares, tomada de decisões por consenso e resoluções de conflitos para grupos. As atividades da Caravana foram iniciadas com uma reunião com representantes de pontos de cultura e outras entidades e grupos culturais que escolheram alguns temas prioritários para palestras, vivências e oficinas. O inicio dos trabalhos aconteceu com uma cerimônia ecumênica que rememora alguns cantos e rituais de diversos povos nativos desde o Canadá até a Patagônia, permeando, inclusive, a tradição dos nossos pataxós do sul da Bahia, incorporando também cantos e danças dos terreiros. Em este caso, a concha do Centro de Criatividade, lugar em que estava sendo realizada a atividade, tem tudo a ver, porque é um local de remanescentes de quilombos, alguns dos quais estiveram presentes (integrantes da ong Criliber, e alguns moradores da comunidade) com canto, dança e percussão. Essa forma de interagir com os conhecimentos da população local esteve presente em todo o momento da realização das oficinas e vivências. No caso das danças circulares, por exemplo, os focalizadores da Caravana, em muitos momentos, convidaram aqueles que conheciam os passos das danças e folguedos sergipanos para compartilhar conhecimentos. Como na música de «Milton Nascimento O artista dever ir onde o povo está» a Caravana foi ao encontro dos moradores do entorno do Centro de Criatividade e apresentou uma sessão de vídeos sobre quilombos dentro da comunidade da maloca e participou de alguns encontros com dirigentes dos setores de cultura, comunicação e gênero do MST para organizar algumas atividades em aliança e se integrar à Marcha do Dia Mundial das Mulheres que o movimento liderou em Aracaju em conjunto com outras organizações sociais. Segundo «Verônica» «guacamaya», articuladora / relações públicas da Caravana, a marcha foi muito linda. E evidentemente como nos outros anos, não poderia deixar de ser um protesto contra o modelo econômico vigente que privilegia a especulação financeira em detrimento das políticas sociais. Foi também uma afirmação da necessidade de se buscar a igualdade de direitos entre homens e mulheres, o que me fez lembrar um apelo que publiquei no jornal Cinform, em setembro de 1999, cujo titulo era «Fome de Pão e Fome de Beleza». O texto propunha unir essas duas dimensões essenciais da vida humana -- a dimensão artistico / cultural, feminina, e a dimensão da luta social, masculina -- as quais dificilmente caminham juntas: «Motivos para protestar não faltam: terra para plantar, emprego e salários decentes, educação pública de qualidade, casa para quem precisa de moradia, melhor atendimento a saúde etc ... Ainda bem que nos restam alguns hectares de florestas não destruídos, alguns rios não poluídos, alguns belos espécimes da fauna e da flora (não sei até quando), algumas belas expressões da cultura popular ( ...). Por isso, os ativistas sociais precisam urgentemente re (conhecer), valorizar, promover, apoiar ( ...) aquilo que nós produzimos de melhor em termos de expressões artísticas / culturais, e defender o que ainda resta de nossa rica biodiversidade. Foi isso que faltou para o Grito dos Excluídos ser ainda melhor -- um pouco da arte do circo, do teatro de rua, os índios xocós e dança religiosa «toré», os blocos afros, os atabaques, o rap e a dança de rua, o repente e as músicas de Luís Gonzaga ( ...) Concluindo, concordamos com o Fora FHC (principalmente por causa da política econômica e por causa da falta de sensibilidade com o drama da violência e da fome) e o Fora FMI (mentor da política econômica em vigor), acrescento também: Fora a Mesmice, a Chatice e a Falta de Criatividade. E como os estudantes franceses em maio de 1968: «A Imaginação no Poder». O final da programação oficial se deu no dia 10 de Março, com uma mostra artística e festa multicultural com os artistas e educadores da Caravana e com os de Sergipe. Estes, por sua vez, interagiram participando de oficinas, vivências e palestras durante a semana em que a Caravana se instalou no Centro de Criatividade. Em a semana em que a Caravana esteve entre nós, experimentamos a felicidade do mundo que queremos para nós e para nossos descendentes. E para a realização disso é preciso respeito e diálogo com as diferenças, mas sem esquecer da necessidade da luta contra a desigualdade e contra todo tipo de opressão. Por ultimo, não poderia deixar de registrar o meu contentamento com a participação de pessoas que convivem em mundos separados e distantes, embora busquem a «felicidade geral da nação», como os artistas, ativistas dos movimentos sociais e Ongs e participantes de grupos holísticos. Lembro-me da urgência do casamento do céu com a terra, do sol com a lua. Ah! Como precisamos tanto integrar a arte, as lutas sociais e as diversas formas de expressão da espiritualidade. Enfim, vale deixar um agradecimento para o Ministro Gilberto Gil, que tem a compreensão do que escrevi acima e por isso apóia o trabalho da Caravana através do Programa Cultura Viva, para o diretor e colegas do Centro de Criatividade, que fizeram o melhor para que aquela unidade da Secretaria de Estado da Cultura pudesse cumprir o papel para a qual a maioria dos sergipanos sinalizaram quando escolheram o nome de Marcelo Déda para governador deste estado, e a colaboração voluntária de Marcos, da Ong Ação Cultural, que ajudou a Caravana de diversas formas. E em especial, «Gracias a La Vida» e a alguns companheiros (as) com os quais outrora compartilhei momentos semelhantes aos que vivi nesses dias, como: Simão, Álvaro, Ivete, Síria, Luiza de Marilac e Marcelo Veloso, do Centro Nordestino de Animação Popular do Recife; Garotos / Garotas e Educadores Sociais do Projeto Reculturarte, nos idos de 1989 a 1996 no Bairro América, em Aracaju; Kaká Werá, educador, escritor e pajé, natural de São Paulo; Alcino Ferreira e o chileno Clemente Lizana (in memoriam) da equipe Habeas Corpus do Recife; Zé Vicente, artista, ecologista, mistico -- gerado no ventre das comunidades eclesiais de base do Ceará; William Valle, mestre focalizador de danças circulares de Belo Horizonte; Irene, natural do Pará, minha amada, cúmplice dos sonhos e projetos da construção de um novo homem e de uma nova mulher -- sementes para outro mundo, -- e Marcelo Barros, monge beneditino e escritor do mosteiro da Anunciação do Senhor em Goiás, que participa de cerimônias inter-religiosas como a realizada no primeiro dia e em outros momentos da Caravana em Sergipe e que tem feito um importante trabalho de critica aos fundamentalismos e fanatismo religioso que tantas desgraças vêm causando à vida de milhões de pessoas. Esse artigo terá uma segunda parte com depoimentos de outras pessoas que participaram das diversas atividades da caravana. Número de frases: 41 eu os vi no porto de lima peru. era estranho uma balsa de madeira no meio de navios de grande calado. me aproximei e falei em quetchua, eles entenderam. permitiram q eu fosse com eles. nunca tinha visto uma balsa sem remos e sem vela, no entanto ela vai da china pra america e volta. esse povo vive no oceano pacifico ha geraçoes. eles não tem uma terra, tem uma agua. tem a teoria q a america foi colonizada por o estreito de bering no alaska. mas não é nao. quem colonizou a america foram essas pessoas. na guatemala eu falei quetchua e eles entenderam, é a mesma origem. eles mergulham no mar e pegam o peixe com a mão, e comem ele cru. vegetais tem nas ilhas do caminho. eu fui com eles até taiti. eles navegam por a corrente maritima. eles navegam lentamente, não tem pressa nenhuma. como a balsa não tem cobertura haja melanina na pele pra aguentar o sol. ao meio dia eles ficam dentro da agua mergulhando pra debaixo da balsa pra escapar do sol. quando um começa a fazer sexo todos fazem. todos com todos. depois descobri q eles não conheciam a noção de pai, todos os homens são responsaveis por todas as crianças. qdo um tronco apodrece eles apenas soltam, e colocam outro no lugar. qdo o rapaz atinge a idade de ' ser dono do proprio nariz ' faz uma balsa propria. eles permitiram minha presença pq uma garota de eles gostou de mim, ela achava q eu faria uma balsa-casamento. Número de frases: 24 quatro meses depois saltei fora no taiti, mas levo a lembrança de uma sociedade impar q creio q durará mais 2 mil anos. «De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas», afirma Marco Polo ao grande Kublai Khan, em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Os organizadores de Paris, Eu Te Amo parecem compartilhar desta reflexão. Pois a beleza das ruas e praças de Paris é coadjuvante de pessoas à busca de respostas, de decifrar o lugar de cada uma nessa cidade ou em todas as cidades. Parisienses, americanos, muitos, muçulmanos e latinos interagem neste filme feito de pequenos filmes, e o resultado desta multiplicidade de olhares é mais coeso do que a idéia poderia sugerir. Confesso que li as críticas da imprensa especializada antes de assistir ao filme, e minha impressão foi melhor que a da maioria. Filmes de episódios encomendados a diretores diversos, de modo geral, tendem à irregularidade. Se Paris, Eu Te Amo não foge totalmente à regra, chega perto desse trunfo. Pois, em seus altos e baixos, há poucos baixos, e a grande maioria dos filmes, de cerca de cinco minutos, é boa, deixa um sorriso no rosto ou a gostosa sensação de querer ver mais. O êxito do conjunto está, principalmente, em cumprir com o objetivo da produção: o de retomar uma imagem de leveza romântica, positiva, ligada à cidade, no momento em que a Paris da vida real passa por violentos protestos de rua. São histórias de amores, mas não necessariamente entre um casal, não necessariamente bem-sucedido. Apesar de não ter ganhado reações entusiasmadas da crítica, o curta de Walter Salles e Daniela Thomas é um dos melhores, por a sutileza com que a atriz Catalina Sandino Moreno (de Maria Cheia de Graça) revela a preocupação de uma mãe com seu filho que deixou no berçário, ocupada em tomar conta do bebê de uma família rica. A delicada canção com que coloca para dormir o filho da patroa é a mesma com que ninara seu filho antes de sair para o trabalho, mas sua boca, seus olhos, seu movimento de cabeça demonstram que seu coração, naquele momento, está a muitos quarteirões daquele berço rico. Aquela criança a que precisa dedicar afeto e atenção não é a que deveria ser alvo de seus carinhos. E uma mudança de olhar gera toda uma reflexão social. É tocante, o rápido flashback do personagem cego de Melchior Beslon, que revê sua história romântica com a aspirante a atriz interpretada por Natalie Portman. Remete, com a resignação dos que sobrevivem a um desenlace amoroso, aos inícios primaveris, ao conforto, ao abrandamento e à rotina dos relacionamentos, no episódio de Tom Tykwer. Ben Gazzara e Gena Rowlands fazem um ex-casal deliciosamente cínico no curta à Cassavetes dirigido por Gerard Depardieu. Maggie Gyllenhaal sofre a leve desilusão da possibilidade não realizada da paixão, no de Olivier Assayas. O filme é cheio de pequenas ilusões, de ambigüidades, de personagens que se mostram, no fim, diferentes do que imaginávamos, como o de Nick Nolte, no curta de Alfonso Cuaron, e o do garoto que recebe uma cantada homossexual, no de Gus Van Sant. Mais sutil ainda, o do pai muçulmano, que surpreende ao convidar o garoto cristão para acompanhar o passeio da filha, no episódio de Gurinder Chada. Paris, Eu Te Amo proporciona o que esperamos das melhores comédias românticas: saímos da sessão na vontade de uma taça de vinho, de viver esses amores leves e passageiros, de passear por a cidade à noite, abertos ao acaso fortuito. De respirar os ares da Paris de que nos falaram os escritores da Geração Perdida e todos aqueles que a celebraram como a cidade do amor. Número de frases: 25 Ah! Quando venho presse espaço, posso dizer que sei como é estar só e acompanhado. Quando passeleio com o povo do Piauí, de Alagoas, Minas e Gerais, os três Rios dois Grandes, um de Janeiro, os dois Mato Grossos, e ... mais além. Tanto vejo o tanto de coisas que aqui em Petrópolis não acontecem senão em sonho, leitura, web, visão ou conversa, quanto encontro as mesmas diferendificulidades, entre interior e capital, entre gerações, estilos, entre fãs, autores e leitores, o público e o privado, os independentes, os dependentes, viciados, acomodados, físicos ou jurídicos, interdependentes, interdisciplinares, seja em uníssono, em sintonia, em harmonia ou nas picuinhas em geral, jogando nos ventilasadores mesmo. Por mais que eu defenda a individualidade como o x primeiro da questão para qualquer tipo de associação, que prefiro chamar de coletivo, estamos todos carecas ou cabeludos de saber que a gente se agrupa, desde antes de se usar línguas para beijos ou explicações. Sou veterena hipersuperluper póstugraduada em grupos de dois a duzentos elementos, com os mais variados começos, entremeios e fins, e vi grande parte coexistir como linhas de luz, faíscas de relâmpagos acompanhadas de seus trovões habituais e quase algo mais. Só que como muitas e sem parar, então de certa forma, nunca ficamos sem. Penso que nem sei se se deve ou se pode medir com destreza ou firmeza se o tempo e ou produto de um coletivo ativo foi «algo» ou não. Enquanto sandidiotices se sucedem, dádivas de acertos cósmicarquimicamente acontecem simplesmente e nem sempre tem espaço ou público. E isso importa? Ah! sim, portas, exportas, importas, porteiras e portões! E tamos aqui comaprovando isso. Importa sim, que emtanto tipo de arte de gente de posição nessa agrupação, temos ressonância nesse mundão. Reluzfaisquemos então. Número de frases: 16 Conceição é uma cidadezinha do Sudeste tocantinense. Ela fica a 304 km de Palmas, capital do Estado. Chegar até lá só é possível por estrada de chão. A falta de asfalto remete gradualmente o visitante desacostumado a um outro universo. A paisagem é árida, a estrada é ruim, pois não suporta o peso das carretas que passam levando carga para as PCH's -- Pequenas Centrais Hidrelétricas em construção. A o passar sobre pontes e bueiros onde antes correram leitos de ribeirões agora secos, têm-se a exata noção da tragédia vivida por as pessoas que ainda não abandonaram o local. Pois foi naquela região isolada do «mundo», onde precisei trabalhar por três dias no começo deste duro mês agosto, mês de seca no coração do Brasil, que me dei conta do que realmente significa a expressão off line. Conceição não tem acesso à internet, não tem sinal de nenhuma operadora de celular. De lá, para falar em casa, só usando orelhão. Para quem tem fome no meio da tarde há uma só padaria, e dois «loucos» perambulando por alí. Um visivelmente perturbado, olhar perdido, usa apenas uma calça jeans, dois números maiores que o seu, presa na cintura por um barbante. O outro é malandro escolado, se faz de louco para garantir uns trocados, andando com as roupas sujas, e visual punk. Tudo na cidade acontece devagar. Fomos até lá cumprir agenda típica de ONG, cobrindo a formação de comitês populares que vão discutir o destino dos rios. A região de Conceição do Tocantins, Paranã, Taipas e Arraias, onde comunidades remanescentes de quilombos sobrevivem da agricultura básica, tem rios intermitentes. Fartos de águas quando o período chuvoso é pródigo, seus afluentes secam completamente no período de estiagem. É neste cenário que estão vivendo centenas de famílias que vivem no campo, praticamente à míngua. Seus «gados», como chamam as poucas cabeças que têm, vagam quilômetros procurando água. Quando encontram alguma cacimba que ainda possui o líquido barrento, mas necessário para garantir a vida, bebem tanto que caem prostrados, sem força para se levantar. Assim não é difícil encontrar carcaças de novilhas e bezerros secando sob o árduo sol tocantinense. Para mitigar a situação o governo do Estado já toma providências a curto prazo. A médio já começou a agir, e uma dessas ações foi justamente a que fomos documentar: cria um plano de Bacias para decidir o que se pode ou não fazer com os rios Palma e Manuel Alves, dois dos maiores da região. Mas a questão ali está além da seca. A falta de água, circunstancial (outra seca como esta aconteceu em 1999) é básica, mas em Conceição e neste Brasil tal qual ela falta muito mais. Observando os moradores às cinco da tarde, com suas cadeiras na calçada, comentando a vida que passa nas ruas pouco movimentadas, percebe-se que falta quase tudo. Lá não existe inclusão digital. Seus jovens não têm muito para fazer. A diversão é tomar cerveja e jogar bola. Para quem gosta, um bom prato. Mas para quem quer mais, nada disto satisfaz. Há 82 km de lá está Paranã. O acesso também se dá via estrada de chão. Ali já se pode perceber uma pequena diferença. Uma «lan house» para a cidade toda, é o point da ferveção. A qualquer hora do dia, falta cadeiras e computador disponível para a garotada acessar do Orkut a blogs, ou fazer pesquisas no Google. Paranã é também uma cidade sem sinal de telefonia celular. Em estas cidades, com população de 2 a 5 mil habitantes, com um baixo índice no FPM -- Fundo de Participação dos Municípios, e baixo IDH -- Índice de Desenvolvimento Humano, é possível perceber o quanto nossa vida nas médias e grandes cidades é rica em possibilidades. Ali, isolados do mundo, garotos e garotas crescem com quase nenhum acesso à informação e cultura. Aliás, esta última para eles se resume à manifestações do folclore religioso. Este Brasil que pouca gente vê, vive longe demais de tudo, e à sua maneira pede socorro. Ali, brasileiros vivem com tão pouco, que enche os olhos de quem passa e registra seu cotidiano de luta por as condições mínimas de sobrevivência. Como estas outras cidades fora do eixo de desenvolvimento, também sobrevivem no interior do Brasil. Para aquela juventude falta música, cinema, teatro, livros. E sobra televisão. Uma TV que sabemos, não educa. Triste sina, Conceição. Número de frases: 47 Hutúz -- além das batidas e rimas Já são bons sete anos de uma tradição que se consolida a cada mês de novembro, época em que o Rio de Janeiro é invadido por jovens oriundos de diferentes regiões do Brasil e do mundo. Essa rapaziada chega por aqui interessada em participar do maior evento de hip-hop da América Latina. O Hutúz é produzido por a Central Única das Favelas (CUFA), organização não governamental capitaneada por Mv Bill (cantor, escritor e diretor de cinema) e Celso Athayde (produtor, escritor e diretor de cinema), duas das figuras mais influentes do hip-hop brasileiro. O Hutúz, nome inspirado num grupo étnico de Rhuanda, nasceu e cresceu ocupando um espaço, até então, aberto no movimento hip-hop brasileiro. Além de oferecer ao público carioca um festival com a presença de alguns dos mais importantes grupos de rap do país, foi pioneiro em criar uma grande premiação para diferentes elementos da cultura hip-hop. Hoje, em meio a críticas e aplausos o Hutúz afirma sua importância, e segue cada vez mais além das batidas e rimas. O monstro de várias cabeças Tudo começou com a premiação e uma noite de shows. Em os anos seguintes o festival deixava de acontecer em apenas uma noite para ganhar todo final de semana. A premiação já havia saltado do Teatro João Caetano para uma grande casa de shows da zona sul carioca. Em a ocasião, um segurança me confessou em tom de orgulho: «nunca vi tanto preto aqui no Canecão». Talvez esse seja um dos méritos diretos de toda essa história. O Hutúz cresceu rápido, ganhou o porte de um monstro, mas não somente um monstro do hip-hop e seus quatro elementos. Mas sim um monstro com várias cabeças, cada uma apontando para uma direção, ampliando assim as possibilidades da Cultura (quando falo em Cultura, me refiro à cultura hip-hop, formatada por Afrika Bambaata em quatro elementos: break dance, MC, DJ e graffiti), mas também criando confusão nas direções para onde esse monstro caminharia. Em esse processo de crescimento o Hutúz agregou ao hip-hop novas práticas que, no cotidiano das ruas, já estavam relacionados à Cultura. Um destes elementos é o Basquete de rua, lembro de assistir a uma galera carregando bolas de basquete e usando lixeiras como cesta no festival de 2003. Em o ano seguinte um campeonato de streetball já constava na pauta do evento, contava com a participação de equipes de diversos estados e de países como Angola. Esse processo culminou na criação da Liga Brasileira de Basquete de Rua (LIBBRA), e um campeonato nacional de basquete de rua completamente independente do Hutúz. A LIBBRA acontece no primeiro semestre, com etapas disputadas em pontos da cidade do Rio de Janeiro como Madureira, Bangu e Barra da Tijuca. Outro traço esportivo presente no Hutúz é o Skate. Incontáveis adeptos à Cultura já se arriscaram, ou ainda se arriscam, em cima da prancha com rodas. O rap é uma das trilhas favoritas dos skatistas, e o skate um dos esportes mais populares entre a rapaziada do hip-hop. Percebendo a intensa movimentação de skatistas no festival, a produção providenciou um espaço com rampas para a realização do esporte. Esse crescimento monstruoso, naturalmente, trouxe alguns problemas para o evento. As críticas pipocam de todos os lados: b. boys, MC ´ s e jogadores de basquete ainda discutem o tratamento que receberam da produção. Horários confusos, dificuldade de acessar os locais onde deveriam se apresentar e precariedade na estrutura oferecida foram algumas das reclamações mais recorrentes. Essas questões dificilmente chegam aos olhos do público, mas estão sendo muito debatidas entre a rapaziada do hip-hop. Um debate que, por fim, questiona algumas ações de um projeto de importância inquestionável. Circo Hutúz Circo foi o tema do festival este ano. As figuras típicas dos picadeiros permearam toda a estética e decoração do prêmio e do festival que, não por acaso, aconteceu no Circo Voador. Enquanto os shows do palco principal aconteciam dentro do Circo, o palco alternativo foi montado do lado de fora, em frente aos famosos Arcos da Lapa, oferecendo shows gratuitos a quem passava por lá. Além dos dois palcos, a Lapa foi invadida também por uma quadra de basquete de rua e uma pista de skate. Quem comprava o ingresso para o Circo Voador recebia uma pulseira que permitia entrar e sair do local. Assim, o público pode circular e conferir um pouco de cada uma das atrações que sacudiram a Lapa de sexta à noite até domingo de manhã. As batalhas de break e rimas improvisadas muitas vezes chamaram mais atenção do que as atrações do palco principal. A rapaziada suava e se acotovelava para assistir aos embates, que aconteciam num espaço pequeno, enquanto a grande lona ficava vazia. Essa dinâmica aconteceu graças ao talento dos b. boys e MC ´ s, mas também por causa da escalação dos grupos que tocaram no festival. Ano após ano os nomes se repetem. Não existe muito espaço para grupos novos e, o que é ainda mais grave, para grupos com novas propostas. Mesmo o palco alternativo segue um modelo conservador, ignorando uma penca de novos talentos que pipocam por o Brasil afora. Vale a pena registrar que mesmo com milhares de pessoas circulando por a estrutura do evento, nos três dias de festival não ocorreu nenhuma briga, confusão ou qualquer outro tipo de ocorrência policial. Sem fronteiras, Hip-hop Latino Americano Mesmo focado no modelo mais clássico do hip-hop brasileiro, o Hutúz sempre estabeleceu relações com a Cultura em outros países. Diversos grupos americanos participam anualmente do festival de rap. Diferente do que estamos acostumados a assistir na TV, os artistas gringos convidados a participar do Hutúz apresentam um discurso voltado para as questões raciais e realizam algum tipo de trabalho social em suas regiões. São nomes como Dead Prez e Me os Def, que fazem esta ponte Brasil -- Eua. Além desta ponte, a conexão mais firme que o Hutúz patrocina foi batizada como Hip-hop Latino Americano, uma espécie de festival paralelo que desde 2004 recebe nossos hermanos latinos. O intercâmbio aproxima os grupos latinos americanos e ajuda a tecer uma rede que vem se consolidando ano a ano. A rivalidade entre Brasil e Argentina fica restrita ao futebol quando MC ´ s como Emanero, Mustafá Yoda e as meninas do Actitud Maria Marta entram em campo. A idéia de uma América Latina unida e forte também já foi discursada por aqui por a voz do mexicano Boca Floja e do cubano Papo Record. O Hip-hop Latino Americano é um dos belos acertos do Hutúz, e prova que o festival pode contribuir para avanços reais na Cultura. Debate e conhecimento: bola dentro! O Seminário é uma outra bela iniciativa do Hutúz. A dinâmica do seminário se desenrola com mesas onde temas específicos são debatidos por membros da Cultura, representantes de sociedade e o público presente. Em o ano de 2007 as mesas tiveram temas como: profissionalismo, carreira e mercado no hip-hop, a realidade social brasileira e o preconceito dentro do hip-hop. Estas reflexões são muito importantes para a Cultura em si, e para o diálogo do hip-hop com outras organizações, movimentos e culturas. Tratar, por exemplo, do preconceito dentro do hip-hop trás à tona questões como o racismo e a homofobia. Não é difícil assistir nas batalhas a MC ´ s rimando agressividades contra o homossexualismo. Enquanto isso, a mesa na qual este tema foi proposto contou com a participação de Cláudio Nascimento, representando o grupo Arco-íris, e debateu direta e abertamente as implicações na participação de homossexuais dentro da Cultura, tema sempre muito polêmico. Conhecimento, palavra cada vez mais associada ao hip-hop, virou uma das categorias disputadas no Prêmio Hutúz. A idéia é incentivar a pesquisa e produções que estejam ligadas à Cultura, mas que vão além dos seus quatro elementos fundamentais. Foram indicados livros, teses, vídeos, projetos sociais e projetos de arte-educa ção. O vencedor deste ano foi o escritor paulistano Alessandro Buzo. Dedicado à literatura marginal, Buzo é colaborador de diversas publicações e administra o blog «Suburbano convicto». O escrito concorreu com seu quarto livro «Guerreira», e levou para o Itaim Paulista um dos prêmios mais aplaudidos da noite. A necessidade de uma reflexão Iniciativas como o seminário e o prêmio «ciência e conhecimento» revelam a sensibilidade do monstro que é o Hutúz. São provas de que o hip-hop pode estar em movimento e caminhar para direções ainda não exploradas por a Cultura. Por outro lado, de um modo geral, a premiação privilegia os grupos mais antigos e não abrange as diferentes linguagens que estão sendo produzidas no hip-hop atualmente. Basta uma rápida audiência, por exemplo, dos grupos indicados à revelação, para perceber que a tendência artística do prêmio é a repetição. Em o caso, não mais a repetição de nomes, mas sim de estilo, estética e modelo de música rap. Enquanto isso, grupos como Z ´ Africa Brasil, Mzuri Sana, Mamelo Sound System e A Filial lançam bons discos, obras que estão reinventando a música rap e, infelizmente, passam longe do Hutúz. Por fim, o prêmio acaba reiterando o talento e a importância, indiscutível, de nomes como GOG (maior vencedor em 2007), Racionais MC ´ s, Mv Bill e Facção Central. O ponto que defendo aqui é que, além de apresentar grupos que seguem esta mesma cartilha, seria interessante o Hutúz aproveitar todo seu potencial e explorar o que de novidade está sendo escrito na história do nosso rap. Entre erros e acertos, o Hutúz se afirma, de fato, como maior festival de hip-hop da América Latina. O mérito de toda movimentação promovida por essa rapaziada é óbvio e merece ser aplaudido. O Hutúz é grande, e pode vir a ser maior ainda. Para isso, basta apenas que o monstro se mantenha atento e esteja cada vez mais sensível a algumas transformações do mundo que o rodeia. Vencedores Prêmio Hutúz 2007 Revelação do Ano -- U-Time Norte e Nordeste -- Rapadura Produtor -- Dj Jamaica Destaque do Break -- Estilo de Rua Hio Hop Ciência e Conhecimento -- Guerreira de Alessandro Buzo Melhor Dj de Grupo -- Dj Bola 8 Melhor Grupo ou Artista Solo -- Gog Álbum do Ano -- Gog Melhor Música -- Gog Melhor Videoclipe -- Sandrão Demo Masculino -- Neguin -- Contenção Demo Feminino -- Afronordestina -- Afro Nordestina Destaque do Graffiti -- Anarquia Destaque Gospel -- Relato Bíblico Número de frases: 100 Melhor Site -- Rappin Hood www.verbavisual.blogspot.com O trabalho de Rosa Marques se constitui a partir de um mergulho no fragmento e no inacabado. Expressão da vontade de discutir os limites da expressão. A artista se mantém, portanto, rente à estética e às questões da representação que concernem ao nosso tempo. Suas pinturas -- que nos remetem mais à brevidade do desenho do que à «eloqüência» pictórica -- são como que grafitos exasperados, rascantes, de uma memória porosa, perturbada por outras camadas da subjetividade. ( Ronald Augusto) Rosa Marques vem, em princípio, no encalço dos pintores pós-impressionistas do início do século, já que aposta e mantém o apreço por os efeitos pictóricos sensoriais mais tradicionais -- óleo sobre tela, acrílico e depois os demais gradativamente a atualizá-la -- discutindo, por esses efeitos, a relação da figura humana com seu entorno. Investe no universo das emoções, das significações até uma figuração obscura do pop, comics, entre outros, o que lhe dá atualidade e originalidade, sem perder a plasticidade inicial, seu atributo maior. ( Marilene Pietá) Rosa Marques: Bacharelado em Artes Plásticas-Habilita ção em Desenho -- Instituto de Artes da UFRGS, 1995. Exposições Individuais: Linhas de Força -- Câmara Municipal de Porto Alegre, 2002. Casa de Cultura Mário Quintana e Caixa Econômica Federal, 2001. Remanescentes e Refugiados -- Casa de Cultura Mário Quintana, 1999. Pastéis e Aquarelas, Casa de Cultura Mário Quintana, 1986; Aquarela Temperas e Pastéis -- Caixa Econômica Federal, 1986. Exposições Coletivas: II Salão de Arte Cidade de Porto Alegre, Usina do Gasômetro, 2000. Salão de Alunos do Ateliê, Saguão do Centro Municipal de Cultura -- Alegre, 2000, 1997, 1995. Galeria do DMAE, Porto Alegre, 1999. Arte Ecológica -- Caixa Econômica Federal de Salvador-Bahia, 1991. Arteirice -- Pinacoteca de Santo Ângelo -- Instituto de Artes da UFRGS, 1986." I Prêmio Pirelli Pintura Jovem --Hall Cívico Assis Chateubrian --São Paulo e Hotel Plaza São Rafael, 1985». Outras Atividades: Painel para TV Com, Programa Falando Abertamente, 2000. Capa do CD «Os Humanos de Ronald Augusto e Hingo Weber, 1998». «Ilustrações do Livro Através da Lógica» de Hingo Weber e Cinara Nahra, Vozes, 1a ed., 1997; 2a ed., 1998; 3a ed., 2000. Número de frases: 25 Iniciativa independente de Renato Siqueira e Fabio Hilst, o média metragem «Dois Perdidos Em uma Noite Suja» chegou até mim através de um scrap no Orkut. Naturalmente não costumo conferir links deixados por estranhos, mas o texto do scrap me deixou curioso, pois tratava de uma adaptação para o cinema de um texto de Plínio Marcos e afirmava que é possível se fazer cinema de qualidade com pouco dinheiro. Para quem não conhece a história de Dois Perdidos Em uma Noite Suja, vou dar uma breve introdução. O texto originalmente, escrito para o teatro (1966 -- Plínio Marcos), já foi adaptado para o cinema duas outras vezes (1970 -- Braz Chediak e 2002 -- José Joffily). A história baseia-se no diálogo entre dois assaltantes, Tonho e Paco. Após matarem uma de suas vítimas, a dupla foge para o barraco em que moram, e debatem sobre a divisão dos objetos roubados. Entre muitas variações de comportamento, os assaltantes falam sobre seus conflitos e a condição na qual se encontram. Retratando uma violência crua, o texto retrata um Brasil descobrindo a perversidade da metrópole. Como gosto muito de Plínio Marcos e tenho pouco dinheiro, fui conferir essa terceira montagem do texto. Confesso que nos dois primeiros minutos, durante as cenas em que Paco e Tonho realizam o assalto, me senti enganado. A versão de Renato Siqueira e Fabio Hilst estava longe de ser cinema de qualidade: a atuação dos atores parecia caricata, a dublagem desencontrada, e o efeito de envelhecimento do filme artificial. Contudo uma das minhas principais características é de que sempre termino de ver um filme ou ler um livro, por pior que seja. Então resolvi encarar o restante da montagem. Mantendo a estrutura estabelecia por Plínio, Renato Siqueira e Fabio Hilst realmente não chegam perto de fazer um filme genial. No entanto, no decorrer da trama, os atores conseguem aprofundar-se na caracterização dos seus personagens. Respeito o trabalho da dupla, pois é possível perceber a extrema dedicação que empenharam a cada cena. Certamente, «Dois Perdidos Em uma Noite Suja» representa um passo importante para esses talentosos e determinados artistas. Links do filme no VideoLog: Parte 1 -- Parte 2 -- Parte Número de frases: 22 3 -- Marcos Ferraz comenta suas obras teatrais ... Jardel diz: Em a Cama Com Tarantino é seu primeiro texto? Certo? Marcos diz: não, o primeiro foi o Sessão, escrevi em 2001. O nome era River raid, mas eu achava que não representava a peça, então mudei para A Sessão da Tarde. O primeiro a ser montado foi A Borboleta Sem Asas, que tinha sinopse do Sofredinni. Jardel diz: por isso na cama tem uma veia de musical? Ele é quase um musical? Como vc o classifica? Em a cama foi à primeira peça encenada então? Ela estreou no tbc, não foi? Marcos diz: eu procuro, como linguagem dramatúrgica, o pop. Minha inspiração vem muito da música. Eu classifico o Tarantino como um anti musical, mas dentro dessa linguagem popular moderna que eu faço questão de preservar nos espetáculos. A primeira, como disse, foi a A Borboleta Sem Asas, em 2002. Em o mesmo ano fizemos a primeira versão do Em a Cama. Esta é a segunda versão, com novas cenas e personagens. Essa história de versão 2 é uma alusão aos filmes comerciais americanos que sempre tem uma continuidade. Esta primeira versão estreou no TBC. Jardel diz: é que eu vi sua primeira versão. E quando assisti o espetáculo eu lembrei por causa do seu personagem da espanhola ... hehehehhe ... Marcos diz: pois é. Ela tinha um caráter mais estético. Em esta segunda versão, conteúdo e estética ganharam o mesmo peso, acredito. Jardel diz: a atriz é a mesma? Em a verdade vc satiriza os filmes do Tarantino ou é impressão minha? Marcos diz: a Gabriela Rodrigues é um personagem muito marcante. A atriz, Priscila Oliveira, que deu vida a esta personagem é abordada na rua até hoje. Jardel diz: ela é ótima. Ela me fez lembrar da sua primeira versão Marcos diz: na verdade é uma reflexão sobre a cultura americana imperialista vista por o ponto de vista do colonizado. Com humor, é claro. Jardel diz: quando seu personagem a conhece e se apaixona por ela Marcos diz: é amor à primeira vista. Como todo arquétipo do apaixonado e sua musa. Jardel diz: próprio do Tarantino tb, que de certa forma satiriza os americanos em seus filmes ou vc o admira e o homenageou o cineasta? Marcos diz: eu não tive (nem os diretores) uma preocupação pudorada em homenagear o Tarantino, se fizéssemos isso cairíamos numa armadilha. A obra de ele me inspirou, mas poderia ser outro cineasta. O assunto da peça, a meu ver, é a cultura de massa americana e seus desdobramentos. A escolha por o Tarantino é exclusivamente por a sua proximidade com a linguagem pop que eu te falava. Os dois. Sou fã. E uma das razões disso é essa visão que ele tem do seu próprio povo e cultura. Jardel diz: vc está num momento bom agora, vc está com dois textos em cartaz, como se sente? De qual vc curte mais? Ele na verdade era do povo que de uma hora pra outra virou estrela e que agora ta meio apagado com cineasta né? Eu gostei bastante do Em a cama com Tarantino, mas me apaixonei por sessão da tarde ... Marcos diz: acredito que a obra artística só tem finalidade, só se completa, quando chega no público. Mas não há deslumbre nisso. O que há é muito trabalho. Jardel diz: mas isso é uma opinião minha, OK? Concordo com vc. Vc tem outras peças na manga da camisa? Vc acha que na cama com Tarantino retrata o nosso mundo político? De a mesma forma que vc colocou os personagens? Marcos diz: sei que é um lugar comum, mas é a pura verdade o que vou dizer. As duas são como filhos. A Sessão da tarde tem um apelo emocional muito forte. Crianças, adolescentes, jovens e adultos saem do teatro modificados. Tivemos várias experiências de grupos que foram ao teatro por a 1ª vez e se disseram surpreendidos. Tinham a idéia que teatro era chato. Hoje eles já assistiram mais de 10 vezes, a peça. A Sessão tem essa pegada de fãs que voltam e assistem 30 vezes e escrevem cartas e fundam fãs clubes. O Em a Cama com Tarantino, embora popular, tem um humor mais refinado. Atinge outra parcela do público. É engraçado porque as opiniões também são divididas, todo mundo gosta das duas, mas sempre apontam sua preferência. Jardel diz: eu apontei a sessão. Por me fazer relembrar uma época maravilhosa e nessa época vc era um bebe ... hehehehhe ... Eu ia no Radar Tantã no Bom Retiro e assistia o show de todos os cantores que vc ilustrou em sessão. Vc conversa com os espectadores sobre suas peças? E voltando, vc acha que na cama ilustra um pouco os políticos brasileiros? Marcos diz: Pode ser que Em a Cama com Tarantino reflita um pouco do nosso mundo político, mas acredito que isso possa vir indiretamente. A reflexão central é sobre os valores de uma sociedade que está cada vez mais se americanizando, absorvendo tanto as coisas boas (como a Bossa Nova fez na década de 50, por exemplo) quanto às coisas ruins, como a cultura da violência e da intolerância. Jardel diz: foi por acaso simplesmente? Eu achava que tinha um elo de ligação. Marcos diz: nossa próxima estréia está marcada para o dia 4 de setembro. Será o lado B da Sessão da Tarde. Mudaram as Estações traz assuntos um pouco mais densos, mas ainda no universo juvenil. Os temas como a homossexualidade, a vida política do país e armadilha do sucesso estão mais aprofundados. Jardel diz: então esse é seu próximo projeto? Marcos diz: acho que um dos segredos do sucesso da Sessão foi ter contado minha história. Este é um espetáculo que eu dedico ao meu pai. Ele morreu em 82 e talvez isso tenha me tornado uma criança muito reflexiva. Era feliz, mas sempre tive esse olhar observador e um pouco melancólico. A personagem Paulinha, narradora da história, é meu alter ego. Eu converso com todo mundo. Hoje o Roney Facchini foi assistir o Sessão e ficou impressionadíssimo. Ele dizia que a peça não podia sair de cartaz, que ali está tudo o que tem que se fazer em teatro e tal. Eu ouço tanto esta opinião quanto a do carinha que tem 13 anos quanto à do velhinho que nunca tinha ido ao teatro. Sem o público não há teatro. Teatro é comunicação e isso é bilateral. Não adianta eu fazer meu trabalho, minha «obra de arte» e não comunicar e não querer saber o que o público pensa. Tem gente que acha que ser artista é ser especial e que só isso basta. Quando eu falo da obra se completar com o público, isso também é estendido para a crítica. Não é puxa saquismo, não. A crítica é um olhar técnico sobre um trabalho, e na maioria das vezes questiona alguns pontos fundamentais do resultado de um processo. Tanto a crítica «boa», quanto à» ruim», se é que podemos classificar assim. Tem uma música do Arnaldo Antunes que diz assim: Antes de mim vieram os velhos, os jovens vieram depois de mim. «Estamos todos aqui, no meio do caminho ..." Forever Young! Jardel diz: vc tb é de santos né? Marcos diz: eu nasci lá. É aquela história: por mais que eu não viva mais lá, tudo aquilo está dentro de mim. Sempre vou ser o garoto do canal 2, que gostava de pegar jacaré, e jogar bola à tarde na praia. E depois ficar olhando o horizonte, sonhando em ser um grande artista. Como o Nelson Baskerville, o Oscar Magrini ... O Nelson é um cara muito presente na minha vida. O pai de ele era proprietário da casa onde eu nasci. E era ele que cobrava o aluguel do meu pai. Então nós nos conhecemos assim. Claro, ele era um adolescente e eu uma criança. Nunca nos falamos, mas anos depois ele foi meu professor de teatro e descobrimos esta história! O Oscar Magrini tinha uma vídeo locadora (olha que coisa mais anos 80) perto de casa. Ele tava começando a ficar famoso. Então o bairro inteiro ia alugar fitas de vídeo lá. Eu não o conheci o Oscar. Mas a fama corria. Santos era, ainda é uma cidade provinciana nesse sentido. Ao mesmo tempo em que tem uma forte tradição de inovação, experimentalismo e ruptura (embora seja uma contradição de termos) ainda se deslumbra com o ator que faz a novela da Globo. É curioso. Jardel diz: muito obrigado por a entrevista Marcos. Marcos diz: apareça no teatro quando quiser. Valeu. Número de frases: 154 na guiana inglesa, os ingleses trouxeram gente da africa e india para plantar cana e concorrer com o brasil. qdo acabou o ciclo os ingleses pura e simplesmente cairam fora, e abandonaram as pessoas la. mas ao contrario do brasil, la nada mesclou. a cada trinta kilometros vc pode ver uma aldeia com todas as caracteristicas e lingua do lugar da onde as pessoas vieram. eu fui parar numa aldeia africana q só tinha mulheres. levou umas duas semanas até eu aprender swahili suficiente pra conversar. então fiz a pergunta: cadê os homens? os homens ficam no mato. na aldeia só ficam as mulheres. tanto q a palavra q significa mulher tambem significa teta, mamar, casa e nenê. mas como nasce gente? o homem q conseguir carne, traz para a aldeia e naquela noite pode escolher uma mulher e «dormir» com ela, mas de manhã tem q cair fora. eu perguntei prum moleque: vc sabe q qdo vc crescer terá q ir para o mato? sim, respondeu tranquilo. e vc não tem medo q o bicho te coma? Número de frases: 17 não, tudo q eu precisar saber os homens q estão no mato me ensinarão. Oliveira Silveira, poeta, nasceu em Touro Passo (RS) no ano de 1941. Publicou, entre outros, Germinou, Porto Alegre, 1968; Banzo, Saudade Negra, Alegre, 1970; Pêlo Escuro, Alegre, 1977; Roteiro dos Tantãs, Alegre, 1981; Anotações à Margem, Porto Alegre, 1994. Todos livros de poesia. Seus poemas também já foram traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão, e essas traduções apareceram respectivamente na revista Callaloo, The Johns Hopkins University Press (1995), e na antologia Schwarze Poesie, Edition Diá, 1988. De 1995 para cá, mais exatamente com a publicação do ensaio «Transnegressão» (in Presença negra no Rio Grande do Sul, org. Fernando Seffner, UE, Cadernos Porto & Vírgula, págs. 47-55), momento em que comecei a escrever de maneira mais crítica a respeito de poesia e coisas afins, o percurso textual de Oliveira Silveira tem sido objeto do meu interesse e da minha fruição. Cabe lembrar (e disso me orgulho) que mantemos um diálogo fraterno já há mais de 25 anos. Sobre sua poesia, entre outras coisas, posso adiantar ao leitor que Oliveira Silveira despreza a complexidade do «literário» convencido e convencional em benefício de outra espécie de complexidade, a saber, ele credita suas forças numa secura antes espartana do que cabralina. Oliveira é capaz de uma contensão e de uma elegância que só me permito associá-las à sempiterna e serpentina vanguarda da velha-guarda de todos os sambas. A metalinguagem do samba -- que se dá a ver na mais ligeira recordação de alguns exemplos do seu cancioneiro, desmente a concepção de que o uso da metalinguagem é uma prerrogativa viciosa e restrita à erudição de cunho burguês. Assim, como acontece na arte dos grandes sambistas, a nota metalinguística comparece na obra de Oliveira Silveira, mas de maneira não exibicionista. Oliveira, então, fala de poesia no poema, mas como se reconhecesse um discreto fardo contido nesta sorte de felicidade " arte-feita. A gestalt severa e exata da poesia de Oliveira, sua brevidade grave e algo epigramática -- considerada se quisermos a partir da perspectiva que reconhece uma vertente negra na literatura brasileira, é emblema de ceticismo tanto em relação à ética do homem branco, quanto ao viés estético referendado pelo meio literário, representação especular, mas com suas particularidades, dos conflitos étnicos e sociais presentes sob o arco ideológico. Oliveira nunca perde de vista, no trato com a matéria verbal, que o que aí está em causa é a visão da poesia como arte, isto é, ele constrói o poema desde um ponto de vista estético. A poesia é uma coesão fundo-forma. A idéia ou o conteúdo são visados por o poeta como dados estéticos e construtivos agenciados e relacionados a outros dados estéticos que compõem a estrutura do poema. Sua poesia, portanto, não cabe dentro dos limites reducionistas de uma «arte participante» ou engajada. A poesia de Oliveira Silveira se nutre de uma salutar desconfiança a propósito do poder de comunicação da metáfora. Silveira parece dar-se conta de que a naturalização da metáfora, sua precedência, por assim dizer, sobre outros elementos da função poética da linguagem, encobre um barateamento expressivo mesclado a uma afetação kitsch que está a serviço da mundanização da figura do poeta e de sua inserção filisteísta nos quadros de um sistema literário cada vez mais chapa-branca. Felizmente, imbricada em sua poesia elegante há a dose essencial de antipoesia. Os poemas de Oliveira Silveira continuam, portanto, críticos e, a cada dia que passa, menos alambicados. Um desaforo calmo aos medianeiros da metaforização indecorosa. Os versos de sua linguagem produzem uma estranha delicadeza que vela maliciosamente o cacto «áspero, intratável e forte». Oliveira, o homem que inventou o 20 de Novembro. Tradutor de Aimè Cèsaire e Langston Hughes. Poeta que se atreveu a exercitar, hoje, o que nos restou do eco épico (Souzalopes dixit) sem cair em erro: refiro-me à obra Poema sobre Palmares de 1987, onde Oliveira tematiza e recria a experiência histórica e hoje canonizada do mais importante quilombo das Américas. Silveira, um dos poucos poetas que se banhou na líquida algaravia das línguas africanas. E mesmo não se dedicando por inteiro a uma franca experimentação poética, Oliveira, em alguns dos seus livros, tem contribuído com inteligentes exemplos de poemas que se fragmentam até a unidade mínima da palavra, isto é, a letra. Em tais poemas, suspensa na página branca, a letra quase deixa de ser letra ao «contornar» ou esboçar, digamos assim, desenhos metonímicos de atabaques, gaiola, banjo: em suma, todo um arranjo não-convencional, concorrendo para subverter a linearidade discursiva. Não tenho receio de afirmar que estes poemas ampliam consideravelmente as possibilidades de leitura da obra de Oliveira Silveira. E, finalmente, numa época em que a prática da autopromoção faculta a muito poeta de segunda categoria um lugar de destaque no florilégio medíocre das letras «locais» (Porto Alegre), o silêncio vil e incivil em torno do nome de Oliveira Silveira -- sem esquecer que para isso contribui a sua orgulhosa e solitária modéstia -- pode ser interpretado como um sinal de distinção. Em resumo: quem não leu ainda a poesia de Oliveira, seja por imperícia, seja por má-fé, que não atrapalhe. Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) Confissões Aplicadas (2004) e Em o assoalho duro (2007). É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis www.editoraeblis.blogspot.com. Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2006, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e. cummings (MG); Revista AT (MG); Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG); www.cronopios.com.br; www.overmundo.com.br; www.revista.criterio.nom.br; www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Despacha nos blogs: www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net. Ministra oficinas e cursos de poesia e é integrante do grupo os poETs: www.ospoets.com.br (*) Mais trabalhos de Rosa Marques em VERBAVISUAL. Número de frases: 59 O descaso do Estado com a população foi o que permitiu às grandes corporações adquirir forças para se tornarem agentes transformadores da grande massa. Os políticos que outrora tinham em suas mãos o poder, hoje não mais o detém e as grandes decisões do mercado só tendem a favorecer os investidores. Os meios de comunicação, não por acaso, estão nas mãos destes investidores de uma forma direta ou indireta. Eles têm o poder de dirigir as informações à grande massa, veiculando sua propaganda e divulgando seu produto de uma forma abrangente. Acaba assim, por introduzi-las em todas camadas da sociedade. Esta alienação, que grande parte da população sofre é devido ao forte trabalho de inserção de um produto no mercado, onde estas corporações midiatícas transgressoras ao pensamento mantêm sua autoridade indiretamente. O grande investidor trabalha com a mídia e com uma economia dirigida e favorecida a ele, sendo determinante muitas vezes o fato de que seus comandantes trabalharem para o Estado. O fator igualitário de concorrência acaba não existindo, e com poucos produtos das outras concorrentes menores é nítida a visão de comercialização apenas do produto das grandes corporações. A imprensa, que pode transcender a esta conjuntura de poderes e descrever os fatos diante da ética e da razão dos acontecimentos, não o faz. Pois os donos das agências de notícias e da escrita em muitos veículos são os investidores destas empresas, que comandam o capital. Em outros veículos, os investidores que mantém o jornal com anúncios de seus negócios fazem de eles «reféns» deste modelo. Assim, alguns meios de comunicação e boa parte da mídia acabam sendo influenciadas por os anunciantes. Sabemos que grande parte dos veículos de comunicação, que de forma arbitraria noticiam o que lhes interessam, trazem medidas conservadoras e argumentativas do seu ponto de vista, mantendo uma tendência de comportamento ao qual a população deve crer. E tornam-se capazes de alienar diversas camadas da população, onde muitos não têm o discernimento do que lhes é mostrado devido ao fato do Estado não agir de forma eficaz sobre a educação Tendo em vista um grande avanço e acesso de determinados setores da população aos meios de comunicação alternativos, caracterizando-se um entendimento sobre a democratização em favor da comunicação e com a expansão da internet de forma global introdutória á globalização. Esta tecnologia gera um grande marco na crise que enfrenta o jornal impresso, onde há tempos ele esta se descaracterizando por falta de retorno financeiro. E sua autonomia já está sendo perdida para outros veículos. Com a internet, que transmite a notícia em tempo real, o 4º poder tende a perder seu espaço, pois a democratização de alguns veículos e a democratização da informação trazem com si o fácil acesso para a sociedade. Esta pode ser uma solução de longo alcance, para estancar esta alienação mundial sobre a informação. Logo, a informação é transmitida por pequenos veículos, transformados como agentes da comunicação que, nos dias atuais, não funciona. Um trabalho com veículos menores, com uma visão mais direcionada a comunidades específicas, traria retorno mais amplo e o entendimento mais eficaz. Fazer com que esta sociedade participe de jornais comunitários, direcionando suas próprias notícias e as que lhes interessem de maneira ética, ampla e engajada, pode ser o resultado satisfatório para uma estrutura que vemos se degradar há épocas nos jornais que hoje ditam as regras nos meios de comunicação. É preciso trabalhar com agentes transformadores da própria comunidade que, instigados e treinados para poder se relacionar melhor com a notícia, podem aprender todas questões primordiais do jornalismo. Isto seria fator decisivo para uma nova transformação da categoria, que hoje está tão desgastada. Não é utópico. É, sim, engajado. Para melhorar a condição das pessoas que não tem chances de digerir informação de qualidade e com responsabilidade. Por fim, o jornalismo impresso não irá acabar do dia para a noite, e com certeza terá seu tempo de vida ainda. Mas sua forma de concepção e entendimento sobre vários setores tem de ser mais engajada com o factual. Sendo assim, a população terá mais crédito e confiança além do que hoje em dia o jornalismo impresso tem em seu poder. Número de frases: 30 Montada na Casa França-Brasil até 11 de maio, a exposição «O Teatro de Debret» está encantadora. Mas vocês não poderão ter nem uma noçãozinha de como ela é, pois não é permitido fotografar lá dentro. Nem as obras, nem a decoração. Nadica de nada. Vocês que pensam que é proibido porque o flash danifica as obras, se enganam. Nem sem flash. Nem o teto. Tirar foto em museu sem flash, hoje em dia, é lugar-comum. Todo mundo já sabe disso e, na maioria das vezes, respeita a regra. Imagina se você fosse ao Louvre e não pudesse fotografar a Mona Lisa? Não sei qual é o problema da Casa França-Brasil -- um órgão do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Mas quando você vai até a administração e pede para falar com alguém da Assessoria de Imprensa -- a fim de conseguir uma foto-divulga ção que seja -- e a funcionária superbem-humorada responde: «Olha, para conseguir foto daqui você tem que comprar o catálogo lá fora,» significa que a situação é mais grave do que se pensava. Então tudo bem, para vocês saberem como é a exposição, precisarão ir até lá, o que não é exatamente um sacrifício. Afinal, é de graça mesmo. Em termos, pois vocês pagam impostos para aquele espaço existir e para aquela exposição estar ali. Mas não têm direito a nem uma fotinho em troca. Para não dizerem que eu não falei da exposição Palmas para ela. São 511 obras, entre aquarelas, litografias, telas a óleo e obras relacionadas a Jean-Baptiste Debret, pintor integrante da Missão Artística Francesa que viveu no Brasil de 1816 a 1831. É a maior exposição do artista, apresentando até mesmo os esboços daquele que foi um dos fundadores da Academia Imperial de Belas Artes. Uma aula de História do Brasil, embora deva-se levar em conta que o retrato da sociedade brasileira oitocentista feito por ele não seja 100 % fiel à realidade, segundo historiadores. Mas ainda assim é possível ter uma boa noção. As delicadas aquarelas, pertencentes ao acervo dos Museus Castro Maya, constituem a maior parte da exposição, e também o ponto alto da obra do artista. São 346 no total, entre esboços e obras acabadas. A maioria se concentra em temáticas do Rio de Janeiro, mas algumas extrapolam essas fronteiras e vão até o Sul do Brasil (embora haja aqueles historiadores que duvidem que o francês tenha saído da capital do Império). O visitante vai reconhecer algumas paisagens e se surpreender com suas mudanças ao longo de apenas 200 anos. Mas o mais interessante é se perder nesse país de contrastes, já naquela época: de um lado os nobres, as damas da Corte, as famílias abastadas, os fazendeiros, os clérigos, as Igrejas; do outro, os escravos desempenhando as mais diversas funções, os festejos populares, a vegetação exuberante, os índios e seus costumes. Para um pintor oficial da Corte, Debret retratou muito o povo. Pudera. A vida dos mais humildes tinha elementos muito mais interessantes do que a dos aristocratas: basta comparar uma aquarela mostrando os vendedores ambulantes das coisas mais inimagináveis a uma do perfil de D. Pedro I. Mas é nessas obras que também se percebe o quanto a História brasileira é marcada por capítulos sombrios. É difícil encontrar um retrato da cidade sem um escravo apanhando ao fundo (ou no primeiro plano), ou então seus filhos sendo alimentados com restos de comida, como se fossem cachorros. Os contrastes são tão brutais que nos fazem pensar. Embora não tenha um caráter científico, a obra de Debret é quase uma cobertura jornalística do período. Como ainda não havia a fotografia, pintar era a saída. Debret deu uma cara ao Brasil da época, não se restringindo à aristocracia. Foi até o povo mesmo, e retratou as mudanças velozes daquelas paisagens onde o velho e o novo se encontravam. Serviço: O Teatro de Debret De 25 de março a 11 de maio, de terça a domingo, das 10h às 20h. Casa França-Brasil: Rua Visconde de Itaboraí, 78, Centro (ao lado do CCBB). Tel.: Número de frases: 45 (21) 2253-5366. A exposição conta com 346 aquarelas, 5 telas a óleo, 9 trabalhos relacionados ao artista e 151 pranchas litográficas de sua «Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil», editada na França entre 1834-39. Em a longa viagem ao encontro das novas descobertas, conseguimos fotografar novas galáxias, e o Universo, tornou-se pequeno ... Ficou chato, comprido, alto, largo! Colocamos uma sonda na barriga e outra no planeta Marte -- somos os novos marcianos -- vermelhos, brancos, negros, amarelos, sem cor ou raça: metal barato, cachaça, cigarro! Tomamos posse sem violência, sem cara feia, com os pés de aço ou de lata, e a aparência -- na forma de robô. Lunáticos: nunca mais seremos! Bebemos etanol; cheiramos fumaça! E a Lua e Marte são velhas histórias ultrapassadas ... Viva o Homo sapiens! Derrubamos algumas torres. Levantamos outras. Talvez as que erguemos sejam mais altas que a bíblica «Torre de Babel», ou mesmo: de papel ... Estamos na batalha diária! Não somos terráqueos malucos ... Aprendemos as lições de casa. Em os novos edifícios existem as vozes do diálogo e da tolerância ... É samba, rap, reggae, rock! Nossas asas metálicas continuam evoluindo. Algumas quebraram! Caímos ... Quem não cai? Pássaros também caem no primeiro vôo ... É a lei da gravidade, Newton, Isaac ... A asa e o vôo são relações já dominadas ... Viva o Homo sapiens! Bebemos todos os vinhos possíveis. Brindamos em homenagem às novas conquistas profissionais, à saúde, à paz e à harmonia ... De a literatura, do cinema, da música, da política! Superamos várias tragédias humanas. Furacões, Terremotos, Tsunamis e Titanics, agora são roteiros do moderno cinema comercial. É trash, é atual, é over, é animal! O podium ficou pequeno para tantos atletas e suas vitórias. Homens e mulheres conquistaram novos recordes ... Alguns, com anabolizantes! Outros com Anas, aborígenes, antes e depois ... Os limites -- físico e emocional -- já não entram em conflito com a ética ... Viva o Homo sapiens! As fotografias coloridas e digitais mostram os continentes globalizados. Será que não existem conflitos religiosos, comerciais ou políticos? É viagem ... Sem cigarro, pileque ou porrada! Será que caminhamos para uma nova era? Calma internauta! É um sonho! Continuamos na velha e complicada rotina terrestre ... Correndo, comprando, comendo, cagando! Chegaremos em 2008, mais velhos, mais confiantes e talvez -- mais tolerantes e humanizados ... Viva o Homo sapiens! E os viajantes da nave «Terra» seguem sua jornada ... Até o novo Big Bang ou nova Big Band, ao som de Ray Charles, Cauby, Ângela Maria e Sinatra! Número de frases: 52 Domingão do dia das mães típico. Aquele friozinho de outono, mas com um belo céu azul e sol. Encontrei meus amigos do grupo de HipHop, o Julgados Culpados uma semana antes, perto da Pça Benedito Calixto em Pinheiros, zona oeste, SP. O lugar é notório por a feira de antiguidades e o comércio hippie em volta. Hoje é um ponto de encontro do pessoal mais sintonizado com a cultura em geral. Eles me convidaram para o evento das mães no domingo, lá no Jd. Nakamura, zona sul. Peguei o ônibus até o Terminal Sto. Amaro, de onde sai uma lotação em direção a represa de Guarapiranga, onde fica o Jd. Nakamura. Fui a casa de meu amigo de infância, o Serginho, que mora no Riviera, ao lado do Nakamura. Fomos a pé até lá, passando por a comunidade local e procurando amigos para nos acompanharem. Pra quem acha que favela é só no «Cidade de Deus», lá na zona sul de SP, passei por as vielas agora cimentadas da favela, onde a luz do dia, crianças brincam, donas de casa conversam na porta de casa, trabalhadores se descontraem no boteco, no churrasco ou com o jogo na tv. O mesmo lugar em que, na calada da noite, ocorreram atos brutais. As periferias são muito parecidas em muitas partes do país, casas com engenharia ousada que beira ao perigo, o tijolinho baiano à mostra, as lajes, as rabiólas de pipa presas nos fios elétricos, etc.. Mas tem uma coisa muito característica mesmo: o calor humano. A maioria te cumprimenta, mesmo sem te conhecer, se vc é amigo de alguém de lá, já é bem vindo em lares que nunca esteve, te oferecem o pouco que têm com a maior generosidade. Um fato engraçado, mesmo o bairro tendo um nome japonês, eu em certos momentos fui visto como uma curiosidade, pois sou descendente de japoneses. Mesmo tendo meus pais nascidos aqui e eu também, em certas situações não sou visto como um simples brasileiro. Mas o pessoal mais humilde é mais descolado mesmo, te perguntam pra ver se eu sou daqui mesmo, e quando eu falo que gosto de feijão de corda, fica tudo em casa. No meio do caminho, numa rua estava rolando um forró, mas daqueles mais modernos, só com teclados. Não consegui chegar ao evento desde o início, pois é quase 2 horas da minha casa. Mas conseguí ver boa parte do show do Julgados Culpados, que tem muito talento, misturando elementos da música brasileira e jamaicana de uma forma natural e interessante. Com muito pouco se fez a alegria da juventude da periferia. Artistas querendo fazer bonito para os presentes, sem a pompa de casas noturnas, etc.. Tudo que é bom dura pouco, precisava ir embora. Meu amigo estranhou de não haver ronda na area, pois rola o tráfico geral. E para quem acha que isso só tem a ver com bandido, gente armada, tem uma parte que foi pega por o vício e falta de perspectiva, gente que é pai de família, mãe, que trabalha na obra e gasta com vício. Quando cheguei em casa, ví o q tinha acontecido na TV. E olha que na volta ainda esperei o ônibus dentro do Terminal Sto Amaro. Não fiquei surpreso. Já esperava por coisas assim. A burguesia causou isso literalmente, sei que é um discurso gasto, mas é a pura realidade. Falando em coisas gastas, vai o ditado, quem planta colhe. Número de frases: 34 E enquanto o caos rolava no estado inteiro, a periferia estava em paz. Antes só rolava Lei Seca em dias de eleição, tinha estado em que nem era obrigação. Agora numa cidade do Paraná, Lei Seca é todo dia, depois de um tempo, dá aquela agonia, temos que ir embora, o fim chega antes da hora da galera dizer «Sim, vamos cair fora». Hoje paramos e nos perguntamos " e agora?" O curta-metragem «Lei seca. Seca pra quem?», gravado em Cascavel, no Paraná, traz à tona a polêmica da Lei Seca que entrou em vigor na cidade no dia 8 de março de 2007, que diz que bares e estabelecimentos não enquadrados na lei devem fechar às 0h de segunda à quinta e à uma da manhã de sexta à domingo. O curta vem sido exibido nos estabelecimentos botequícios, aqueles que não se enquadram na lei (aproximadamente 95 % dos estabelecimentos que vendem bebida alcoólica na cidade), e tem tido uma boa repercussão entre os freqüentadores desses locais. O filme mostra depoimentos dos freqüentadores (a maioria está na platéia durante as exibições, o que provoca risos, aplausos e assovios), dos donos dos botecos, de policiais de trânsito, de professores universitários, além de cidadãos simpáticos à lei e do vereador que propôs a tal medida. A televisão, os noticiários, as novelas passaram a fazer parte de nossas vidas como algo natural, mas aparecer na telona as pessoas que convivem com a gente todos os dias é coisa rara de acontecer. Foi nesse sentido que o curta proporcionou não só o questionamento da Lei Seca, mas possibilitou que essas pessoas simples, que enriquecem nosso dia-a-dia, pudessem aparecer e manifestar suas opiniões. A dona do Bar do Catarina, por exemplo, quando encontra as meninas que dirigiram o filme, diz " Tô famosa! Todo mundo chega aqui e diz que tô famosa!" e já pediu uma cópia do DVD pra deixar rodando na TV do bar. Há também dentro do filme cenas dos bares fechando, botequeiros -- os donos -- recolhendo cadeiras e os outros botequeiros -- os consumidores -- sendo gentilmente mandados embora. «Demos muita sorte em encontrar várias pessoas bacanas e dispostas a mostrar a cara e soltar o verbo. Assim, muitas figuras dão seu depoimento no filme. Pra não ficar algo maçante e cansativo, intercalamos as falas mais debochadas com outras mais argumentativas, como as de alguns professores universitários com que tivemos a oportunidade de conversar. Outro fato importante é que a maioria das pessoas que aparecem e as que assistem algum dia já se cruzaram por algum boteco dessa cidade, assim ver as caras conhecidas na telona fica muito mais divertido. Esses dois pontos levam o público a prestar bastante atenção, eles conseguem sair do estado de altas gargalhadas até o dos xingamentos e da indignação. E é obvio que este último se relaciona particularmente com quem é prejudicado por a implantação da lei», comenta Diangela, uma das diretoras do curta, que também aparece numa das melhores cenas, na qual tenta entrar com VT (Vale Transporte) numa das casas noturnas enquadradas na lei. Óbvio que ela não obteve sucesso na empreitada. Em a última exibição, dia 3 de maio, no Bar do Catarina, combinei com as diretoras do curta, Rita e Diangela, pra conversar sobre a repercussão que o «Lei Seca» tem tido, mas cheguei um pouco antes e tive que esperar. Sentei numa mesa do lado de fora, tirei meu bloco, uma lapiseira e aproveitei pra tomar notas. Em a mesa ao lado, 4 ou 5 senhores conversavam e percebi que minha presença incomodava. Ouvi uns trechos dos quais não pude deixar de rir. Um de eles foi «acho que ela é da polícia federal e tá aqui fiscalizando». O garçom foi chamado e veio me perguntar o porquê de eu estar ali escrevendo, o que estava escrevendo. Expliquei que estava ali por causa do curta que iam exibir sobre a Lei Seca e que só estava anotando algumas coisas. Um dos senhores, depois de tudo bem explicadinho, nos mínimos detalhes, fala: «Afinal, boteco também é cultura!" Apoiadíssimo! Chegadas as diretoras, o filme foi colocado no DVD e ficamos observando a reação das pessoas. Entre uma tacada e outra, os botequeiros-consumidores olhavam a tela e comentavam entre si sobre o que viam. Um senhor se aproximou e começou a conversar com as meninas sobre o absurdo dessa lei. Conversando depois com «Dona Catarina», esposa do dono do bar, fico sabendo que vão conseguir alvará até setembro pra manter o bar aberto até as 3 horas da manhã. Em setembro, nova fiscalização, novos incômodos e burocracias pra conseguir alvará por mais um tempo. Durante a exibição do curta, tirei algumas fotos do buteco e das pessoas assistindo. Tempinho depois, chega um homem, pergunta pra onde são as fotos, eu respondo. E ele fala «É que é o seguinte, o cara ali é representante, não é da cidade, e é meio chato a mulher de ele ver ele no bar». Sei. Depois chega o tal representante e fala «Acho que não é bom você publicar essas fotos aí não». Mesmo eu tendo mostrado as fotos a eles, alegando que estava de longe, que não aparecia a cara de ninguém, tive que deletá-las. Esses aí estão mais preocupados em não serem pegos no flagra por as mulheres do que com a lei que fecha cedo o bar pra onde eles fogem. Bom, cada um com seus problemas (e eu sem minhas fotos). Mais tarde, de volta à mesa, pergunto de onde surgiu a idéia do curta e, como era de se esperar, me respondem que foi de uma conversa em mesa de bar: «Certo dia estávamos sossegadas trocando umas idéias com amigos numa mesa de bar, não mais natural do que isso. Mas, quando menos esperávamos, fomos literalmente expulsas do bar, afinal tinha chegado a 1h da manhã e o bar deveria ser fechado com perigo de ser multado caso não fosse. Aí, ficamos nós, perplexos em frente ao estabelecimento botequício sem ter pra onde ir, sem dinheiro e conseqüentemente sem opções de lazer», que já não são muitas na cidade. «Como toda indignação surge de um contato com determinada situação com a qual não concordamos, resolvemos fazer algo. Foi então que surgiu a idéia de fazermos um curta-metragem tentando mostrar o outro lado da Lei Seca implantada em nosso município, esse lado que a grande mídia não mostra e não quer mostrar», fala Diangela. Mas, por o jeito, as diretoras do curta são das poucas pessoas que têm consciência de que se deve reclamar e fazer algo a respeito do que está incomodando ao invés de só reclamarem e engolirem as coisas com cerveja. Mesmo que as pessoas não tenham recebido bem a Lei Seca, os hábitos estão mudando, as pessoas estão saindo mais cedo porque sabem que terão de voltar mais cedo para a casa. Quando perguntei se o curta estava surtindo efeito e fazendo com que as pessoas refletissem sobre esta lei, a resposta de Diangela não foi muito animadora: «Sinceramente, não dá pra ter essa idéia. Acho que na hora até bate a frustração e a revolta, mas não necessariamente isso leva a alguma ação concreta. Aí depende de qual posição o sujeito se encontra e seu grau de comprometimento com os acontecimentos ao seu redor. De uma maneira geral diria que as pessoas já estão se acostumando com essa medida imposta por políticos que fazem as leis de cima para baixo e sem consulta popular legítima. A lei seca está num processo de naturalização e se nós não fizermos nada vai ficar do jeito que tá mesmo, como a maioria das outras coisas». Pois é, infelizmente as pessoas têm essa mania de absorverem as coisas sem questioná-las, fazendo com que o trabalho de uns poucos que tentam agir ao invés de engolir seja abafado por o conformismo da maioria. Por sorte, ainda existem pessoas que procuram fazer alguma coisa para esclarecer essas estórias mal contadas. Mas, apesar do esforço das meninas, ainda estamos sendo mandados embora à uma da manhã. É importante esclarecer, principalmente para quem não é de Cascavel, que nos últimos anos a cidade cresceu, e muito. Tornou-se referência médica em todo estado e também virou pólo universitário, recebendo estudantes de todo Brasil. Ocorre que o crescimento das opções de lazer não seguiu no mesmo ritmo, e bar não é apenas sinônimo de bebida, é sinônimo de descontração, de bate-papo com os amigos e espaço de sociabilidade. Mas como quase tudo vem de cima pra baixo, ao invés de implementarem políticas públicas para cultura, fecham-se os bares do tipo «boteco» e quem não tem condições financeiras de pagar os altos preços por as casas noturnas, fica impedido de se divertir na madrugada. Sem contar o número de famílias que sustentam suas casas com o que arrecadam nos bares. Em esse sentido, parece que desemprego não é uma das causas de aumento da violência. Não há teatros ou cinemas nem expressões da cultura popular. Também não têm mar, e do jeito que as coisas andam, nem nos resta o bar. Número de frases: 67 * Rita Fagundes, uma das diretoras do curta, colaborou com este texto. Um dos espaços mais interessantes de debate sobre as mudanças que estão ocorrendo nos meios de comunicação é o Mediashift, da rede pública de televisão estadunidense -- a PBS (Public Broadcast Service). O Mediashift (algo como mudanças na mídia) é um site que carrega um blog, atualizado por o jornalista Mark Glaser, um cara bem bacana, claro e consistente nas suas exposições. Eles mesmo se definem como um «blog que vai mostrar como as novas tecnologias de informação e comunicação, como os blogs, RSS, podcast, jornalismo cidadão, wikis, agregadores de notícias e repositórios de vídeos estão mudando o nosso mundo». Recentemente, o Glaser saiu de férias e chamou o professor da Universidade de Toronto, Robert K. Logan, que trabalhou com Marshal McLuhan (um pensador que revolucionou as ciências da comunicação com a sintética conclusão de que " O Meio é a Mensagem "), para escrever no Mediashift. E o Logan produziu um texto brilhante, em que ele busca atualizar o pensamento do McLuhan em face das novas mídias que surgiram no final do século passado. Ele parte do princípio que as «novas mídias mudaram o cenário das comunicações e da educação de um jeito ainda mais dramático do que os meios eletrônicos de massa». Basicamente, a tese central do McLuhan era: os meios de comunicação impactam a vida das pessoas independentemente do conteúdo que por eles trafega. São os meios, em si, mensagens, que modificam o mundo em que vivemos. Ele aborda «como os meios eletrônicos recriaram novos tipos de cidades e novos tipos de trabalho». Em a avaliação do Logan, tudo o que o McLuhan escreveu é aplicável (" essa pequena revolução ") à «mídia impressa, à televisão, ao computador e à internet». Umas mais do que as outras. E nesse momento, as novas mídias revelam-se uma revolução de maior intensidade e profundidade. Logan chama de novas mídias aquelas que McLuhan não pôde observar: «internet, e-mail, blogs, ferramentas de buscas, aparelhos celulares, Ipods, podcasts, redes sociais, You Tube, Flickr, realidade virtual, folksonomia, avatares ..." E ele vai procurar enxergar distinções entre um tempo e outro. Escreve Logan, que atualmente elabora um livro coletivo, um negócio que ele chama de blook, porque é a síntese entre um blog e um livro, que trata justamente dessas questões filósoficas, conceituais e tecnológicas. Um dos meus objetivos em atualizar o trabalho de McLuhan é identificar as características das novas mídias e cotejá-las com as mídias eletrônicas de massa com as quais McLuhan trabalhou. Considerando que o meio é a mensagem, eu comecei a minha análise por a identificação das características ou mensagens das novas mídias que são diferentes daquelas analisadas por Mc Luhan: telégrafo, telefone, rádio, fonógrafo, câmera e televisão. Comecei esse exercício em 1996, e identifiquei cinco características da internet. Em aquele momento, a noção de novas mídias não tinha sido ainda formulada, mas naquele estágio inicial eu identifiquei as seguintes cinco mensagem da internet: 1. Comunicação de mão dupla 2. Facilidade do acesso e da disseminação da informação 3. Aprendizagem contínua 4. Alinhamento e integração 5. comunidade Para o Logan, essas características, uma ou duas em separado, podem ser aplicadas às mídias tradicionais, o que é único no caso da internet é que essas cinco características são aplicáveis e ajudam a definir o impacto desse meio. E todas essas características são aplicáveis a todos os gêneros de novas mídias». Passada essa fase, e com o desenvolvimento das novas mídias, Logan identificou outras propriedades que caracterizam os meios contemporâneos de comunicação digital. 6. Portabilidade e flexibilidade, que permitem ao usuário a liberdade espacial e temporal 7. Convergência de diferentes mídias o que as permite carregar mais de uma função por vez e combiná-las -- é o caso dos aparelhos que são telefone e câmara de vídeo e fotografia 8. Interoperabilidade, sem a qual a convergência não seria possível 9. Conteúdos agregados, o que é facilitado por a digitalização e por a convergência 10. Variedade e possibilidade de escolha muito maior do que a provida por os meios eletrônicos de massa, o que pode ser identificado no fenômeno da " cauda longa " 11. O fim do abismo que separava produtores e consumidores de mídia 12. Coletividade e social e cooperação 13. Remix de cultura, com as facilidades digitais 14. A superação da idéia de produtos para chegarmos à idéia de serviços Prossegue Logan: «ainda que alguns meios eletrônicos de massa estudados por McLuhan carreguem com si uma ou duas dessas 14 características, essas são propriedades que se aplicam primeiramente às novas mídias. O telefone permite uma comunicação de mão dupla, mas foi uma tecnologia não portátil até o surgimento do celular. O primeiro celular passou a permitir a comunicação de mão-dupla e a portabilidade, mas não incorporava nenhuma das outras 12 características das novas mídias». Bom, e agora estamos diante do Smartphone e do IPhone, e dos Black Berrys, e de outras bugigangas fantásticas que permitem mais e mais recursos -- verdadeiras estações portáteis multimídia. O que virá? O que já existe? E tudo o que nós podemos fazer com isso? «Se McLuhan estivesse por aqui, eu acho que ele viria o impacto das novas mídias como uma extensão de suas observações dos impactos das primeiras mídias eletrônicas. E de fato os efeitos parecem ser muito mais intensos com as novas mídias do que eram na época das mídias eletrônicas de massa». Logan diz isso e identifica conclusões as quais chegou McLuhan que são totalmente aplicáveis aos meios atuais. 1. Nosso envolvimento uns com os outros aumenta 2. Estruturas sociais e o acesso à informação se descentralizam 3." Consumidores se tornam produtores, bem como o público se transforma em ator principal " 4. As mídias se tornam extensões de nossas psiques 5. Todo o negócio do homem começa com aprendizado e conhecimento 6. Há um crescimento da interdisciplinaridade 7. O derretimento das fronteiras nacionais e o nascimento de vilas globais 8." Men are suddenly nomadic gatherers of knowledge, nomadic as never before -- but also involved in the total social process as never before; since with electricity we extend our central nervous system globally, instantly interrelating every human experience " O que Logan identifica é que tudo se tornou Mais, de uma maneira que poucos poderiam prever, com a chegada das novas mídias. A chave que destrava esse mistério é: o aumento da velocidade do fluxo de informação com a eletricidade, observado por McLuhan, atinge uma velocidade ainda maior com as novas mídias». McLuhan imaginava que a velocidade não poderia ser maior. «O que McLuhan não foi capaz de divisar é que com o hipertexto, a internet e os mecanismos de busca temos um processo de aumento da velocidade do fluxo de informação. Isso explica porque cada um dos itens dessa lista supracitada se tornam mais intensos com as novas mídias, se comparados com os velhos meios eletrônicos de massa que McLuhan conheceu e analisou». E isso tudo só está começando. Que meios e mensagens virão. Número de frases: 68 Qual será mesmo a extensão da revolução? O Rio de Janeiro, assim como as cidades brasileiras, para facilitar a administração, é dividido em bairros. Um conjunto de bairros contíguos forma, nas grandes metrópoles, uma Região Administrativa. Para vocês terem uma noção do seu tamanho, a Rocinha compõe, sozinha, a 27ª Região Administrativa do município do Rio. Cognominada a «maior favela da América Latina» dizem que tem mais de 150 mil habitantes, uma população maior do que a de 95 % dos 5.564 (ou já tem mais?) municípios brasileiros. Segundo a Prefeitura a Rocinha, transformada em bairro em 1993, tem 120 mil habitantes. O IBGE mostra algo como 60 mil moradores. Se for correto esse menor número, ainda assim é mais ou menos a soma dos bairros da Gávea, Jardim Botânico e Lagoa juntos. Por que aumentam as favelas no Rio de Janeiro? Além de todos os motivos que já se tornaram argumentos comuns (êxodo rural etc.), os estudiosos apontam como um dos principais fatores a Lei Federal 6.766 de 1979 que obriga os loteadores a dotarem de infra-estrutura os loteamentos, responsabilidade que antes era das Prefeituras. Com isso não existem mais lotes legais baratos para as faixas de baixa renda construírem moradias. A história conta que a Rocinha surge imediatamente após a II Guerra com a chegada de agricultores portugueses, franceses e italianos que se estabelecem com pequenos sítios e roçados nas encostas, já nos limites da Serra do Mar, na vertente oeste do maciço que tem seu ponto mais alto no Pico Dois Irmãos do Leblon. Ali mesmo onde hoje é a saída do túnel Zuzu Angel desembocando em São Conrado. Em o final da década de 50 (do século XX) começam a chegar os imigrantes, alguns sudestinos oriundos das regiões agrícolas mineiras, mas principalmente da região nordeste. A chegada de novos moradores se intensifica nas décadas de 80 e 90, inclusive com um grande contingente do estado do Ceará. É de Fortaleza que viria para morar na Rocinha, Geísa Firmo Gonçalves (uma jovem de 21 anos) com seu marido Alexandre Magno de Macedo (um jovem de 22 anos) que foi ser tratador de cavalos no Jockey Club do Rio. Geísa, no dia 12 de junho de 2.000, estava no ônibus 174 que foi seqüestrado por Sandro do Nascimento (um jovem de 21 anos), sendo morta com 4 tiros depois da intervenção desastrosa do policial Marcelo Oliveira dos Santos (um jovem de 27 anos). O seqüestro, que durou mais de 4 horas e foi transmitido ao vivo por a TV foi transformado, dois anos depois, no documentário premiado Ônibus 174 dirigido por José Padilha. Não acompanhei por a TV o acontecido e só li nos jornais. Fui ver na época o filme e fiquei completamente em estado de choque durante toda a projeção ao ver, em princípio, a total incapacidade e incompetência da polícia para lidar com o caso. O filme foi abordado aqui no Overmundo. O nome Geísa já estava esquecido por mim quando visitei a Rocinha esta semana. Soube então que ela era professora e dava aulas de artesanato para crianças de 6 a 14 anos no Centro Comunitário. A Rocinha não a esqueceu. Ela dá nome hoje ao Espaço de Artes da Rocinha que reúne o trabalho de mais de 80 artesãos ali residentes. O novo espaço foi inaugurado em 2004 depois de uma batalha de 5 anos do seu coordenador José Luiz Summer. Fica à esquerda de quem sai do túnel, entre a quadra da Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha e o CIEP Ayrton Senna, agora com fácil acesso para todo mundo. Antes ficava na parte alta do morro e as vendas eram dificultadas, principalmente para turistas. Convido os amigos do Overmundo a visitar o espaço e bater um papo com o Zé Luiz. Se você for de carro, é fácil: seguindo por a Auto-Estrada Lagoa-Barra, logo que sair do túnel em São Conrado, dá uma reduzida para fazer o primeiro retorno à direita, descendo o elevado em curva retornando. Vinte ou trinta metros depois, já por baixo do elevado, siga em frente em direção ao prédio da Prefeitura (Centro de Cidadania Rinaldo De Lamare) e estacione por ali mesmo ou mais adiante em frente à Quadra da Acadêmicos. Se você for de ônibus (175; 176; 178 e 179 entre outros) é mais fácil ainda: é só saltar no primeiro ponto depois do túnel e atravessar a passarela. Você vai ver o bonito quiosque logo em frente (só para registro a rua chama-se Berta Lutz e o número é o 84-A). Se quiser marcar com o Zé Luiz ligue para esses números: (21) 9127.5895 e 9859.5644. Apesar do grande número de artesãos que expõem no Espaço há uma grande demanda de crianças, jovens e adultos residentes na Rocinha querendo aprender. O Espaço está precisando de professores voluntários. Se você é artista, designer, artesão ou trabalha com arte-educa ção, talvez possa colaborar ajudando o Zé Luiz a organizar Oficinas para o pessoal. Vamos nessa? Número de frases: 43 Entrevista Cultura, questão universal Músico e pesquisador, Benjamin Taubkin é um dos nomes mais ativos na paisagem cultural brasileira. Propus uma entrevista, sem saber se ele aceitaria. Surpreso, recebi as respostas poucos dias depois. Tive vontade de compartilhar com a comunidade a inteligência e a perspicácia de alguém que, além de músico excelente, é um ativista político defensor de uma cultura brasileira de raiz popular. -- Qual é a diferenciação possível entre uma «cultura genuína» e uma «cultura fictícia» no Brasil? Benjamin Taubkin: Creio que esta é uma questão universal e não só local ... De alguma forma o fator que vai diferenciá-las é a permanência. É o quanto passa a fazer parte do imaginário e da identidade de um país, de uma região. Mas se você observar as distintas origens e inspirações para a criação das várias obras, verá que em princípio aquilo que permanece como cultura de um país tem uma motivação que vai além do interesse imediato e pessoal. Em geral está ligado a algum tipo de manifestação religiosa (das mais variadas matizes, também), ou retrata de alguma forma o anseio, o sonho, ou qualquer outro aspecto da alma coletiva daquele povo. -- A que motivos pode ser atribuída a falta de divulgação da cultura de qualidade, que resgata as raízes? BT: Bom, a partir do momento que a música se inseriu, da mesma forma que várias outras áreas da vida humana, no universo de mercado e consumo, é estabelecido um novo padrão. Para mim é o mesmo que tomarmos Coca Cola -- num país com uma diversidade de frutas como o Brasil. Ou seja está dentro da lógica da produção e distribuição industrial. São então outros fatores, extra criativos, que entram em jogo. Por outro lado boa parte desta produção -- de qualidade -- está viva e circulando por aí. O que mostra a sua força ... -- Se as rádios livres e comunitárias tivessem mais espaço, será que a situação mudaria? BT: Vai depender. Eu honestamente acredito que a prática do Jabá é excessivamente perniciosa. Isto se pensarmos nos veículos comerciais. O perigo é eles criarem comportamentos que, bem ou mal, vão sendo assumidos como normais por outras parcelas da população ... De qualquer forma é claro que pode ser uma saída e um avanço ... -- O papel da internet e das iniciativas com perfil colaborativo na difusão cultural brasileira é cada vez mais vivo. De que maneira seria possível melhorar o alcance dessas iniciativas junto aos produtores de arte? BT: Existe uma grande mudança neste momento em todas as áreas da produção cultural. De a mesma forma que na área da criação e produção tem-se buscado e muitas vezes encontrado novos caminhos, creio ser importante buscar na difusão e distribuição também novas possibilidades. Uma vez que um projeto cria alguma consistência e reverbera em algum lugar, chamará possivelmente a atenção de outros setores e grupos. -- Como a gravadora Núcleo Contemporâneo contribui para a produção musical brasileira? BT: Bom, desde o princípio fomos buscar, além da criação autônoma -- da livre expressão, caminhos alternativos de produção, difusão e distribuição. Em cada uma destas áreas procuramos caminhos que reforçassem a autonomia. Agora o peso desta contribuição, é o tempo que vai determinar. E na verdade -- uma andorinha não faz verão. Ainda mais nesta área. Ou seja, dependerá do esforço e interesse de outros também -- nas várias áreas desta cadeia ... -- Por último, uma provocação: será que no Brasil o gosto do povão é pautado por a mídia grande ou o povão só gosta de pop, então a mídia se amolda? BT: Bom, acredito que o povo tem um comportamento de consumo que se aproxima muito daquela camada que chamamos de elite ... Um reflete o outro. Acho honestamente que é uma gente só ... Não acho que a elite venha consumindo, massivamente, produtos culturais de melhor qualidade que o povo ... Podem parecer mais sofisticados. Então se olharmos como um povo só -- eu creio que as pessoas são em certa medida influenciáveis. Se expostas constantemente a produtos de baixa qualidade, mas embalados como sendo a grande onda, a grande festa, vão acabar consumindo. Aí também existe o peso da propaganda, que não pode ser ignorado. Mas se olharmos a produção feita autonomamente por o povo -- que é a música tradicional -- perceberemos que é sempre boa, rica. De a mesma forma que a produção musical da humanidade em todas as épocas. Apenas quando a música vira mercadoria, no séc XX, é que assistimos a esta produção infinita de obras medíocres ... Remissões (links): Gravadora Núcleo Contemporâneo Para ouvir Benjamin Taubkin Sussurro Instrumental no Overmundo Número de frases: 60 O que é? Trata-se de um esforço conjunto para interligar pesquisadores locais (que tenham conhecimento sobre a história e a cultura dos municípios do Rio Grande do Norte) e pesquisadores ad-hoc (que não necessariamente residam nos municípios, mas, que tenham pesquisas sobre a cultura e a história local) para a composição do Inventário do Patrimônio Imaterial do Rio Grande do Norte. Esse inventário, que no presente ano de 2006 terá executada a etapa de levantamento preliminar, constitui-se enquanto um subprojeto do Projeto Patrimônio Cultural Potiguar em Seis Tempos, elaborado por o Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza (CEDOC) da Fundação José Augusto (FJA), sob a coordenação da Profª Isaura Amélia de Souza Rosado Maia e proposto por o IGETUR (Instituto de Formação e Gestão em Turismo do Rio Grande do Norte). Trata-se de um projeto vinculado ao Programa Monumenta, da Unesco (executado, no Brasil, por o Ministério da Cultura e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -- IPHAN), com recursos oriundos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e contrapartida do Governo do Estado do Rio Grande do Norte. O objetivo geral do projeto é o de proceder a um inventário da herança cultural do Rio Grande do Norte, em seis modalidades: patrimônio arquitetônico, patrimônio museológico, patrimônio sacro, bens móveis integrados, artes visuais e patrimônio imaterial. Onde fica localizada a rede? A Rede do Patrimônio Imaterial Potiguar está localizada no Portal Universia, na web, que abriga conteúdo de mais de 800 universidades do mundo inteiro e que no Brasil utiliza tecnologia informacional produzida por o Laboratório Virtus, da Universidade Federal de Pernambuco. Ela pode ser acessada da seguinte forma: após entrar na internet, digitar http://www.universia.com.br (ou http://www.universia.net e depois clicar em «Brasil ") \> clicar em» Salas Virtuais «\> na linha em branco digitar» Rede do Patrimônio Imaterial Potiguar «e clicar em» Procurar «\> após a busca, clicar no link da» Rede do Patrimônio Imaterial Potiguar», que dará acesso à sala virtual. Em o site da Fundação José Augusto (http://www.fja.rn.gov.br) haverá um link para o Projeto Patrimônio Cultural Potiguar em Seis Tempos, de onde haverá outro link direcionando o internauta para a Rede do Patrimônio Imaterial Potiguar. Quem pode se associar? Pesquisadores locais, que morem nos municípios do Rio Grande do Norte e que tenham pesquisas feitas sobre a história e a cultura da localidade; pesquisadores ad-hoc (não necessariamente residentes no município), que também tenham algum tipo de conhecimento acumulado através de pesquisas sobre aspectos das manifestações culturais dos lugares ou mesmo do processo histórico; mobilizadores, articuladores e participantes do Mapeamento Cultural do Selo UNICEF nos municípios. Em suma, pessoas que conheçam a cultura dos municípios do Rio Grande do Norte e que possam compartilhar essas informações para a montagem de um banco de dados sobre o Patrimônio Imaterial Potiguar. E o que é Patrimônio Imaterial? É o conjunto de determinadas manifestações que fazem parte dos valores e dos significados culturais de uma comunidade, chamado também de patrimônio intangível, pois não se pode tocar, mas, sentir -- embora, para o seu estudo e registro, o patrimônio imaterial necessite de uma forma concreta (suporte). Segundo o Decreto Federal 3.551/2000, constituem patrimônio cultural os saberes e os ofícios tradicionais (culinária, artesanato, fabricação de instrumentos e objetos de diversos usos, lendas e superstições, brincadeiras e brinquedos, por exemplo), as festas e celebrações (religiosas e profanas), as formas de expressão (literatura, música, artes cênicas, artes plásticas, artes visuais) e os lugares de sociabilidade (praças, mercados, santuários, feiras, shoppings). Como associar-se na rede? Para associar-se na rede, o interessado deverá entrar na sala virtual «Rede do Patrimônio Imaterial Potiguar» e clicar no item «Lista de Associados», depois clicar em» Inserir». A seguir digitar o nome completo, e-mail para contato e, no campo «Comentários», informar se pretende cadastrar-se como pesquisador local (nesse caso, indicando qual município representará) ou ad-hoc (indicando, nesse caso, os temas sobre os quais dispõe de pesquisas). Deverá informar, oportunamente, sobre a formação acadêmica ou as pesquisas que desenvolve. O envolvimento dos pesquisadores com a rede é voluntário, sendo comprovado através de certificação expedida por a Fundação José Augusto com a chancela da Unesco. Os pesquisadores locais e ad-hoc serão elos do Subprojeto Patrimônio Imaterial com as populações do Rio Grande do Norte, na tentativa de racionalizar a estratégia de mapear o patrimônio imaterial. Quais os recursos da rede? Em a «Central de Documentos» já se encontram disponibilizadas as cartas patrimoniais, convenções e legislação brasileira referente ao patrimônio imaterial, que determina, inclusive, o que deve ser tomado como manifestação imaterial. Os pesquisadores associados também poderão disponibilizar estudos, pesquisas, textos e outros documentos que falem sobre os municípios. A seção «Links» abriga sites que desenvolvem políticas de educação patrimonial ou de inventários já realizados (a exemplo do inventário do patrimônio imaterial de Carnaúba dos Dantas, que foi patrocinado por a PETROBRAS). Além disso, existe a «Sala de Bate Papo», onde serão oportunamente montados chats entre os participantes, para discutirem temas de interesse comum. O primeiro contato entre os pesquisadores acontecerá no próximo dia 17 de julho, segunda-feira, a partir das 9 horas da manhã, quando os interessados deverão entrar na sala virtual, clicar em «Sala de Bate Papo» e depois em «conversar» para agregarem-se ao chat. Número de frases: 31 Entrar na Rede do Patrimônio Imaterial Potiguar Ao contrário do que a historiografia oficial registra, afirmando ser o álbum «Feito em casa, de Antônio Adolfo, gravado em 1974», o primeiro independente da moderna discografia brasileira, o disco» Satwa», de Lula Côrtes e Laílson, gravado em janeiro de 1973, é na realidade o pioneiro dos independentes. A dupla assina todas as faixas. Há a participação especial de Robertinho de Recife somente na música ' O blues do cachorro muito louco '. O processo de criação de «Satwa» foi como um caldo-de-cana, isto é, feito na hora. As músicas foram finalizadas dentro do estúdio de gravação, sem tempo de serem lapidadas. Laílson criava a harmonia numa viola de 12 cordas. Lula Côrtes fazia a melodia num tricórdio, instrumento árabe adquirido no ano anterior, durante viagem que o artista fizera por a Espanha e Marrocos. Aliás, foi nessa viagem, segundo Lula, que ele conheceu Salvador Dalí, com quem aprendeu, por três semanas, hospedado em sua casa, sobre o surrealismo. O álbum contém dez faixas, todas instrumentais. Foi gravado nos estúdios ociosos da gravadora Rozemblit, em Afogados. Constantes na década de 70, o nome do bairro não é à toa, as cheias foram destruindo aos poucos a estrutura da gravadora recifense. Foi depois de uma enchente que Lula e Laílson, após darem um trato nos equipamentos do estúdio, resolveram gravar, em apenas dois canais, mas com bons microfones, as músicas de «Satwa». As capas foram impressas no próprio parque gráfico da Rozemblit. A pequena tiragem foi dividida entre eles. Vendiam os exemplares pessoalmente. A produção deste álbum, quase artesiana, foi bancada por a produtora Abrakadabra, de Lula Côrtes e Kátia Mesel. Atualmente a dupla desenvolve projeto para fazer uma releitura de «Satwa». -- A gente não quer regravar ou remasterizar Satwa, esclarece Lula Côrtes. Vamos pegar essas dez músicas e corrigir os tons. Porque não existe sequer uma música que tenha o tom certo. A gente achava que tinha e gravava. Então é corrigir os tons e fazer uma releitura, com uma orquestra sinfônica ou de câmara. Críticas E Dificuldades -- Pernambuco é uma terra muito difícil, desabafa Lula Côrtes. As dificuldades aqui são todas. As pessoas não creditam nas coisas daqui. Todo mundo de fora reconhece o valor cultural desta terra, mas as pessoas daqui usam a própria cultura como escada para subir na carreira e depois a descartam. Veja os festivais de música, como o Abril Para o Rock e o PE no Rock. Em o começo só tem bandas daqui. Depois começam a trazer gente de fora com um custo altíssimo, e dizem que não tem grana para pagar os artistas locais. -- Eu acho que o Movimento Mangue diz muito sobre o comportamento desta cidade, esbraveja o cantor. O caranguejo é o único bicho que anda para trás, vive na lama, e mora num buraco. É o único movimento que não tem movimento. Depois da morte de Chico, o pessoal mitificou o cara. Parece que tudo o que tinha para acontecer já aconteceu, quando na verdade não aconteceu nada. Esse lance de maracatu com rock a gente já fazia há 30 anos atrás. Para o cantor, no início da década de 70, quando começou sua carreira multiartística de pintor, escritor e compositor, era uma época melhor para trabalhar do que a atual. Ele diz que as pessoas hoje estão mais gananciosas e viciadas em estruturas nocivas, a exemplo das leis de incentivo à cultura. -- Os artistas estão dependentes do Governo, diz Lula. Se o Governo não financia seus projetos, eles não fazem nada. Ninguém se une para uma iniciativa, pelo contrário, uns querem derrubar os outros. Sem falar nos captadores de recursos, que levam uma parte da verba de seu projeto. Parei de querer tocar. Desisti porque não vejo a menor chance disso aqui vir a possuir uma decência. Não vejo mais nenhum futuro profissional. Pretendo gravar, com uns amigos, um disco instrumental, bem introspectivo, chamado Ânima, apenas para satisfazer minha necessidade pessoal de compor. Nota do Autor: esta matéria foi apurada e escrita em meados de 2003, mas continuava inédita, e decidi publicá-la hoje por causa do seu conteúdo ainda atual. Número de frases: 50 17 de setembro de 2006 -- Aconteceu a festa de lançamento do cd Gerações que reuniu a mistura de artistas guaicurus de diversas idades e com diversas surpresas inusitadas para o cenário musical guaicuru de Mato Grosso do Sul. O local A concha acústica Helena Meirelles, situada dentro do Parque das Nações Indígenas em Campo Grande, foi pequena para o público que compareceu no local. As arquibancadas da concha não foram o suficiente, e o público ' esparramou ' por as proximidades -- no Museu de Artes Contemporâneas, no bosque do parque, e às cercas da concha. A produção Artista regional não está acostumado a grandes produções. E a festa de lançamento do cd Gerações fez questão de tratar com respeito a nossa cultura musical. Os telões posicionados nas laterais do palco, exibiram trechos de diversos momentos (registrados em vídeo) da cultura guaicuru -- de Mato Grosso do Sul, e o público era brindado nos intervalos de uma música e outra, com imagens do Prata da casa (antigo evento que caracterizou a geração de 80 guaicuru), clipe do Lírio Selvagem, de Almir Sater, do Grupo Therra, e entrevistas com a Professora Glorinha Sá Rosa (produtora do Prata da casa) e Geraldo Roca. Muitas dessas imagens exibidas, ajudava na memória e no suscetível controle dos sentimentos do público. Funcionou perfeitamente, pois a figuração e iluminação do palco criaram a ' magia ' que todos ali presentes esperavam. Enfim, a música -- a cozinha e seus temperos Toninho Porto, (baixo / violão acústico) Alex Cavalheri (teclados, escaleta e programações), Sandro Moreno (bateria) e Gabriel Bassos (baixo) foram a base de apoio para muitos artistas que ali se apresentaram. Seguraram muitíssimo bem. Toninho foi o maestro do palco com percepção para qualquer defeito sonoro que aparecesse. Alex mostrou sua diversidade e intimidade com os ritmos regionais, inclusive empunhando uma escaleta. Gabriel é da nova geração que desponta, e nesse dia recebe seu ' batizado ' com a responsabilidade de acompanhar artistas com anos de estrada. E Sandro, [ ...] bem, há que conter os palavrões para falar desse homem que está na sua melhor forma, e nos presenteou com uma performance perfeita em técnica + sentimento. Arrepiante. A musicalidade -- os semi-deuses, titãs, anjos caídos e ETs ... A massa do público ali presente assuntou muita gente que subiu no palco. Afinal, todo ' esse público ` estava ali somente para assisti-los. Porém, o'susto ' não influenciou em nada nas apresentações. A magia estava circulando no ambiente. E esse fantasma não tava com nada pra assustar. Jerry Espíndola e Karina Marques -- Jerry já foi punk (nos Incontroláveis), já foi pop-pantanal nas incontáveis noites campo-grandenses, e atualmente ajuda a difundir a polca-rock. Karina tem a simpatia do público que freqüenta a noite atrás de música ao vivo, e tem seu primeiro cd bem executado nas rádios, e é uma artista sadia. Casamento perfeito. Com uma roupagem alegre na canção de Geraldo Roca -- Polka outra vez, ao vivo ficou mais gostosa ainda de dançar, eles conseguiram animar de cara a grande multidão presente abrindo um festival de emoções ... [ foto] Guilherme Rondon e Gílson Espíndola -- Aqui temos um encontro de titãs. Coisa pesada. Guilherme é do Prata da casa, músico apurado e conceituado. Gílson é ex-Bem Virá, tem discos solos e anos de estrada que o deixou muito bem expressivo no palco. Guilherme tava meio apreensivo, esqueceu a letra, mas nem precisava cantar, pois esse homem tem uma mão direita ótima pra tocar rasqueado. Gilson fez o que tinha que ser feito, deu o pinote no cavalo, segurou a boiada e descontraiu o clima na apresentação, e ambos nos mostraram o quão humano somos diante tal sentimento que pairava naquele dia. [ foto] João Fígar e Amambay e Amambaí -- Haja coração! Recuerdos de Ypacarai. João Fígar é também Prata da casa, experiente músico que já trabalhou e gravou os melhores nomes da música regional. Amambay e Amambaí é parte da tradição sertaneja mais pura desse nosso Estado. A união desses fatores, deu-se nesse momento a descida do ' espírito santo ', e os sentimentos fluíram melhores. Uma interpretação banhada no rio Jordão. [ foto] -- [clip] Paulo Simões e Melissa Azevedo -- Os sentimentos já estavam todos ali, era só se servir. A canção Conversas e promessas dá continuidade ao banquete de energias. Paulo Simões, autor de grandes sucessos como Vida bela vida e Trem do Pantanal, ao lado de Melissa que tem uma interpretação marítima, deu nos o vinho que faltava para servir nessa festa guaicuru. Melissa já havia trabalhado com Simões em diversas ocasiões como nos seus discos solo e com o Chalana de Prata, então o afinamento entre os dois no palco estava bem natural, parecia pai e filha (no bom sentido). [ foto] Filho dos Livres e Carlos Colman -- Se os Jedis existissem, aqui teríamos um exemplo vivo. Temos o mestre Colman com os aprendizes Jedis: Guilherme e Guga. A figuração do palco contribuiu um pouco com a ' fantasia ', ora que os cones iluminados de azul pareciam com sabres-de-luz usados por os Jedis. É nesse momento que a beira de palco vira um conglomerado de fãs que querem registrar a todo custo um pedacinho daquele momento. É isso que esses Jedis provocaram -- furor, com uma apresentação quente e iluminada. E a força esteve com eles ... [ foto] Marcelo Loureiro e Elinho do Bandoneon -- Acalmemos os ânimos para dar espaço ao fronteiriço, ao cheiro de mato molhado, aos traços fortes ameríndios, ao que conhecemos e convivemos diariamente aqui -- hipnóticamente, como a apresentação de Loureiro, mais técnica e menos exibicionista. Elinho, sentado num banquinho, estava tão à vontade que parecia estar na varanda de sua casa. Com a percussão de Sandro Moreno, parecia com o galopar dos cavalos e quando Elinho tocava sua gaita, eram como os passarinhos aos silvos. [ foto] Clarice Maciel e Antonio Porto -- Antonio, ou Toninho, já tava aquecido. Toninho é músico genial, e para acompanha-lo precisava de uma cantora lírica como a Clarice. Toninho sabe lidar com mantras musicais que ativam nossos chacras, além de fazer da sua música uma oração, e acompanhado de Clarice, é tudo o que Deus queria, já que Clarice é devota, adora o gospel. Ecumênico. [foto] Beth e Betinha, com Maria Cláudia e Maria Alice -- Momento sacode a poeira. Eita tren-bão-sô! Esplendida. Espetacular apresentação. [ foto] Geraldo Roca e Márcio De Camillo -- Geraldo é o nosso poeta cosmopolita e um autêntico roqueiro -- postura, visual e hábitos. Infelizmente (ou não), ele se apresenta muito pouco nos palcos guaicurus, afinal sendo cosmopolita vive na lua. De essa forma, Roca tomou para si as atenções, ora ele de volta ao palco é para celebrar e aproveitar cada minuto. Márcio que no decorrer do evento tocou violão de aço e gaita-de-boca na apresentação de outros artistas, já estava embalado na energia que circulava; cumpriu seu papel humildemente na responsabilidade de acompanhar Roca. E que responsabilidade. House of rising sun. [ foto] -- [clip] Lenilde Ramos e O Bando do Velho Jack -- Resgate histórico. Lenilde já havia trabalhado com Bosco (baterista do Bando), com a Banda do Pasto (que também tinha Celito na sua formação nos anos 70). Infelizmente, a apresentação foi prejudicada por defeitos do som da mesa que chegava para o público, talvez por o fato de que o Bando toca ' alto ', mas o brilhantismo da apresentação nada interferiu. Lenilde foi vestida a caráter, parecia uma autêntica hippie, tocando sua sanfoninha (safada), que junto com solos e guitarras voadoras, o público se sentiu em velocidade ' moderada ' por a estrada afora ... [ foto] Jucy Ibanez e «Bêbados Habilidosos --» Volta aqui neguinho!». Divertida apresentação de Jucy e Bêbados que são praticamente da mesma geração. Ambos têm anos de estrada e são debochados. E o que vimos ali foi essa experiência somada ao humor e a fusão de estilos diferentes: Jucy (mpb) + Bêbados (blues). Fórmula resultou numa substância etílica um tanto diferente. Tequila. Jucy não teve pudor nenhum em ' agarrar ' Renato Fernandes (vocal do Bêbados). Renato apontava, encarava, paquerava, provocava, e Jucy dava corda. A apresentação foi de tamanho sucesso que foi a única que o público levantou para aplaudir. [ foto] Rodrigo Teixeira -- Rodrigo é um dos difusores da polca-rock, que na gravação do disco aparece com Alzira Espíndola, a mãe da polca-rock. Infelizmente, por forças maiores, Alzira não pode comparecer no show. E o que vimos do Rodrigo na sua apresentação foi uma parede sonora. Rock n ' roll é alto por natureza (e que se virem os técnicos de som ...). A sonzera que Rodrigo (voz e guitarra) fez ali com apenas quatro músicos acompanhando (Alex, Toninho, Sandro e Anderson Rocha) foi de cruzar as pernas e cair no chão depois de doses de vinho, whisky e tequila servidas anteriormente. A fudê! [ foto] Celito Espíndola e Olho de Gato -- Celito é Prata da casa e ex-Lirio Selvagem. Em carreira solo participou de uma geração mais ' teatral ' no palco musical. Ou seja, ao vivo ele é o cara. Olho de Gato é percussor do pop-regional, toca bem nas rádios, e ao longo dos anos já passou por diversas formações. Curiosamente em tempos de internet, a apresentação do Olho no show Gerações era muito esperada por um certo público ali presente, pois traria uma nova formação na banda com Marcelo Oliveira (voz e guitarra). Reformulação essa que se deu após o lançamento do cd Gerações que ainda traz Daniel Freitas no vocal. Marcelo é músico do meio underground dos anos 90 e muito conhecido por os músicos da região; guitarrista técnico e vocalista de posição grunge / classic metal. A apresentação do Olho de Gato e Celito Espíndola foi de uma energia explosiva. Coisa do tipo: um meteoro caindo na terra. [ foto] Trem do Pantanal (todos os artistas ao mesmo tempo no palco) -- Sinceramente, o show poderia ter terminado sem isso. Esse tipo de apresentação com muitos músicos no palco já tá ultrapassado os limites. Ainda bem que o palco era ' blocado em concreto ', senão caía de tanta gente que tinha sob ele. Ficou constrangedor, não havia microfones o suficientes pra todos (nem haveria), e a confraternização parecia-se mais com um We are the world. [ foto] Mas valeu, e como. Ponto para a cultura guaicuru. Ponto para a equipe de produção (em especial ao Márcio De Camillo), para o pessoal da iluminação, ao pessoal da equipe de som que se acostuma a cada dia que passa ao som alto do rock n ' roll. -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- -- Ouça também: \> Solidão (João Fígar): Carlos Colman e Filho dos Livres § Leia também: Número de frases: 111 \> GerAções reativa correnta da música de MS por Rodrigo Teixeira Josh S. & Julliano Lima do Lado 2 Estéreo Espaço Insurgente, Salvador, uma quinta-feira por volta de 21 horas. Éramos dezoito pessoas, incluindo os dois músicos, a bailarina e as pessoas que tomam conta do pequeno espaço anarco-punk muito próximo do pelourinho. Já sabia o que me aguardava. Conheço os caras faz uns dois anos, são do Piaui. Escutei o Cd, vi um show em São Paulo no Sesc Pompéia durante o Fórum Cultural Mundial e outro no ano passado durante o Mercado Cultural. Gente por o ladrão escutando, dançando e impressionada com o barulho que podem fazer apenas dois caras sobre o palco. Certa altura do show, que rolava no Largo Quincas Berro D' agua, Josh, o guitarrista, tira a camisa e a organização do show pede para que ele vista a roupa novamente. Ele avisa para a galera que vai atender a ordem da organização, mas logo em seguida se toca: «na terra de Carla Perez estão pedindo para a eu colocar a camisa? Agora que eu vou tirar mesmo». A galera vibra, principalmente a mulherada. Umas cervejas a espera do início do show e dos soteropolitanos. Cadê as pessoas para assistir ao show? Ficava imaginando. Os caras avisaram para o pessoal do Espaço Insurgente em cima da hora que queriam fazer o show lá para tentar angariar fundos para as passagens de ônibus até uma cidade do interior onde fariam show. Três reais o ingresso. Se todos que estavam ali pagaram entrada deu para apurar uns quarenta reais no máximo. Possivelmente menos da metade do valor de uma das passagens que eles precisavam. Começa o show e o samba rola. Fabinho, amigo de Salvador que descobriu o show dos caras justo naquele único dia em que eu ficaria na cidade, batiza: «esse é o samba godzilla». Nada mais adequado para descrever o samba que vem do Piauí feito por a bateria e guitarra do Lado 2 Estéreo. De volta a Fortaleza, depois de duas semanas, Thais me avisa que vai ter show do Lado 2 no Noise 3D. Casa empresarialmente mais organizada que o Espaço Insurgente, mas tão pequena quanto. O show rola mais tarde, uma da manhã. Mais cervejas que antes, mas com uma mesma quantidade de público. Deveria ter umas vinte pessoas, no máximo. Ingresso a dez reais, deve ter rolado então uns cento e cinqüenta a duzentos reais. Não creio que pague uma das passagens do Ceará para o Piaui. Palco pequeno, o guitarista, o baterista e novamente a bailarina fazendo a performance durante o show. Um amigo brasileiro que mora na França e havia chegado naquele dia se surpreende: «eles são muito bons». A felicidade é mesmo para poucos. Somos apenas vinte assistindo a um dos melhores shows de música feitos atualmente no Brasil. Anotem ai. Quando estiverem passando por alguma cidade que tenha um espaço alternativo pequeno para shows de música e estiver anunciado Lado 2 Estéreo, não perca esta oportunidade, provavelmente a grana da sua entrada vai ajudar a pagar parte da passagem de ônibus de um dos caras. Número de frases: 38 Todo ano, no final do mês de julho, acontece o Fortal, uma micareta, que assim com as demais festas do gênero, reproduz o carnaval baiano fora de época. E, como era de se esperar, todo ano é a mesma coisa: nenhuma novidade. Não se questiona aqui a importância econômica do evento. O Fortal gera milhões de reais para o Ceará, tanto que a rede hoteleira comemora os quase 90 % da taxa de ocupação. No entanto, do ponto de vista sócio-cultural, o Fortal se mostra cada vez mais excludente e culturalmente vazio. O ingresso mais barato, para o folião ficar na «pipoca», área reservada para os menos abastados, custou R$ 10 em 2008. Em os anos anteriores, com subsídios do poder público, o ingresso custava R$ 3 ou dois quilos de alimentos não-perecíveis. Já um abadá pode chegar a R$ 800 para os quatro dias de folia. O abadá é a roupa que garante a participação dentro do bloco, protegido com um cordão de isolamento humano. Cordão esse formado por um exército de homens da periferia que se submetem a passar a madruga segurando uma corda pesada em troca de R$ 50 por noite. As atrações dos blocos se resumem aos maiores representantes da cultura mercadológica baiana como Chiclete com Banana, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte (com dois «tês "), Ásia de Águia, Jammil (com dois» emes ") e uma Noite. A única exceção é a onipresente banda de forró cearense Aviões do Forró, que segue a mesma fórmula dos baianos: letras pegajosas, repetitivas e com trechos depreciativos. Surgem diversas questões. Qual o futuro do Fortal? A tendência é a mistura do forró eletrônico com o axé music proposto por a banda Aviões do Forró? Quem vai escrever as letras dos artistas baianos? O povo ainda vai aguentar tamanha falta de criatividade e originalidade? Podemo sonhar com um evento que misture música eletrônica, rock, axé e os autênticos ritmos nordestinos criando algo novo. Será que o Fortal deveria continuar sendo o principal produto cultural de exportação do Ceará? Uma coisa é certa: o Fortal representa o mais do mesmo. O mesmo do ano passado e do ano retrasado. E assim vai. Estive lá na noite de sábado, 23 de julho, e fiquei impressionado com a qualidade da estrutura e organização da Cidade Fortal, área fechada onde se realiza o evento. No entanto, é muito dinheiro jogado fora para se fazer um evento culturalmente pobre. Número de frases: 27 Em o interior do Mato Grosso do Sul está o município de Anastácio, com seus 25 mil habitantes. Em o interior do município está a Colônia Paulista, com algumas dezenas de famílias rurícolas. Em o interior da colônia, está uma humilde casa, em cujo interior mora um caboclo roceiro que tem no seu interior alguma coisa de fenomenal que ele, de forma primitiva e sutil, exterioriza para mexer com o interior da gente. Esse artista do interior é Juvenal dos Santos, trabalhador, quarentão, humilde, autodidata, criativo e observador. É um artista do mato que pinta a mata pra quase ninguém ver. Tímido e tão calado quanto o seu pincel de rabo de cavalo, pinta quadros telúricos como este Carro de boi (foto), retratando a vida e a paisagem do lugar onde mora. Seu mundo se resume no morro, no mato, no rancho, na cerca, no cavalo, na vaca leiteira, na carroça, no cachorro e na velha estrada vicinal onde ele próprio dirige sua trabalhadeira e preguiçosa carroça. É feliz, porque tem a natureza aos seus pés, às suas mãos e aos olhos de sua imaginação, longe das roças de pedras que endurecem e prendem as pessoas nas cidades. Mas não sabe que é um gênio imortal por o dom que possui e por a arte que usa só pra passar tempo. Aqui no Portal do Pantanal a arte não tem o reconhecimento que merece. São muitos anônimos fazendo artes de todos os matizes, na pintura, na música, no artesanato, na prosa e no verso. Porque no interior de Mato Grosso do Sul a arte se faz em silêncio e fica escondida, borbulhando no interior de artistas naturais como o Sr. Juvenal. Número de frases: 12 Em geral, ao ter que ir a banco, já entro contrariado, pensando se não seria interessante me aliviar dessa contrariedade mandando algum funcionário à merda. Mas quase nunca mando: eles já são bem preparados para evitar que os insatisfeitos (seja lá com o que for -- que no meu caso é com o mundo, e com a nulidade de todos diante do caos financeiro global) desconte em eles a raiva do «sistema» (Aí está, o famigerado sistema!). Há dias eu vinha tentando prorrogar a necessidade de passar 1 hora de meu almoço numa fila de banco. Mas acabei indo, não tive outro jeito. à minha frente na fila do caixa uma jovem com cara de estudante universitária não parecia, diferentemente de mim, se conformar tão facilmente (e seja lá com o que for). Olhei-a inicialmente por ser ela até bonitinha e gostosa. Pelo menos parecia ser a possibilidade de um divertimento numa ação tão monótona e desprovida de sentido que é ficar em fila de banco, principalmente pra pagar uma «multa» por ter perdido o documento de transferência de meu carro (e isto depois de já ter passado alguns dias pra consegui-lo na burocracia de um Detran filho da puta!). Logo vi, contudo, que eu não conseguiria me divertir encarando a guria. Ela estava «muiiiiiiiiiiiiiiiiito gripada», como ela mesmo dizia numa ligação após a outra no celular. Não tenho mais pena das pessoas, então fiquei apenas observando e curtindo; principalmente suas expressões faciais e corporais de quem está sofrendo «muiiiiiiiiiiito» com sua gripe -- ao menos algum divertimento enfim me surgia. A o celular ela continuava: «Não, eu estou bem ... não se preocupe ... não se preocupe ... é só uma gripe muito, muito forte. Mas eu estou bem." Rapidamente ela conseguiu o que queria: todos da fila já a olhavam e sabiam que ela estava doente. Talvez ela quisesse alguma compaixão, ou que espontaneamente a deixassem «passar na frente». Será que gripados em geral algum dia ainda iriam se unir ao grupo de candidatos à fila dos idosos, gestantes e deficientes. Ao menos aumentaria a indústria dos atestados. Cheguei a pensar se índio também não poderia ter lugar «privilegiado» em filas. Assim eu poderia reivindicar alguma antepassada indígena que na certa fora estuprada e gerado assim a minha ascendência, como de quase todo brasileiro. Mas logo retornei desses meus devaneios para a jovem e sua gripe dramática. O máximo de compaixão que ela conseguiu foi do sujeito logo à sua frente, que eu já havia percebido que a olhava como eu próprio inicialmente, por ser ela gostosa. Ele lhe disse que aquele ar condicionado gelado era «cruel» para a gripe. A expressão de dor da jovem imediatamente aumentou. Fiquei na dúvida se o cara estava curtindo, ao ser um pouco sádico ... Mas logo me pareceu que não: ele estava é achando um pretexto para um papo, já que a guria era mesmo gostosa e compensava o esforço de abrir a boca pra falar asneira. Bom, mas a guria, por sua ação, entendeu que aquilo era um aviso sério. Saiu da fila e foi a uma mesa falar com uma atendente do banco. Muitos, como eu, a acompanharam com o olhar. Alguns, nitidamente por sua bunda, outros, por curiosidade: ao menos algo para passar o tempo na tediosa fila que enraivece inutilmente a todos. Ela pediu para abaixar ou desligar o ar, que ela estava «muuuuuuuuuuito gripada». Acho que outros espectadores devem ter achado graça como eu. Coitada! Quando é que iam desligar o ar da agência inteira por causa de uma pós-adolescente gripada? Mas a atendente, educadamente e com um sorriso inexpressivo de quem se tornou refém da burocracia, disse que sim, iria diminuir, voltando imediatamente à sua papelada anterior. Não teve nem motivação suficiente para dar a tradicional resposta pra estas horas, de que o sistema informaizado que controla o ar condicionado não permite interferência humana. Voltou então a guria para a fila. Sua impaciência e indignação agora passaram a ter endereço certo. A cada minuto, com o ar condicionado igualmente gelado (enquanto lá fora os 35 ° comiam soltos), ela fazia caras e bocas de sofrimento inquietante e olhava em direção à mesa da atendente. Só mesmo se fosse homem um atendente de banco se mexeria por algo desse tipo, pensei. Em relação à guria, outros telefonemas seguiam. Agora ela dramatizava ao celular enquanto de tempos em tempos olhava com expressão de «criança mimada contrariada» para a mesa da atendente, impassível. O sujeito à sua frente na fila, que lhe falou do ar, pareceu desinteressar-se por ela à medida que foi chegando sua vez no caixa. O mesmo acontecia com mim. Ainda olhei uma última vez para a mesa da atendente, que já estava vazia. Devia ter saído para o almoço. E o ar, obviamente, gelando. Voltei a olhar para a guria gostosa gripada apenas quando ela já estava no caixa. Rapidamente terminou sua inutilidade e a vi passar, sem sensualidade alguma (devia estar realmente incomodada com sua gripe) e com ar de contrariada. Sem dúvida se ela tivesse usado sua bunda, peitos, juventude e expressão facial de «gostosinha convencida» (deve ser sua expressão mais comum, típica das jovenzinhas atuais da classe média brasileira), ela teria conseguido maior sucesso em seu momento de anulação por a burocracia bancária. O sistema financeiro e seus escravos não se comovem com gripes. Só os homens desse sistema que às vezes ainda fogem às suas regras de conduta mecanizadas. Só eles às vezes fazem «loucuras» por um par de coxas ou por uma contravenção aqui outra ali. Já a guria, se der sorte, talvez ainda aprenda que ela própria não vale muito, com gripe ou sem gripe. Talvez ela logo seja obrigada a perceber que a onipotência das jovens estudantes universitárias brasileiras, que acreditam que irão conseguir alguma coisa na vida por dotes intelectuais, profissionais ou por valores humanistas, terá que dar espaço para a realidade da sobrevivência neste país exportador de putas e de faxineiras. Gripe? Ah, gripe ... Nem mais câncer faz as burocracias empresariais se abalarem. O ser humano está anulado em suas próprias criações. Número de frases: 64 Chega ao aeroporto internacional de Manaus, o Eduardo Gomes, uma grande carreata. Todos ali presentes vislumbram o acontecimento, apenas os que trabalham por lá já acostumados com tal episódio, não dão importância alguma. A comitiva vem se esgueirando por as ilhargas do aeroporto até parar, eis que sai do terceiro carro a dama que provavelmente é a peça mais importante desta balbúrdia. A senhora Milena Sousa, carregando no colo a sua filha com alguns meses de vida, sai desfilando por o salão do aeroporto com muito mais propriedade que a Gisele Bündchen nas grandes passarelas da moda por o mundo. Milena olha todos em sua volta, se despede de alguns e adentra na sala de espera radiante de felicidade. -- Ela tem motivos de sobra para esta feliz! Diz algum conhecido. -- É, você tem razão. Ela vai encontrar seu ' esposo ' no Rio de Janeiro!!!-- Retruca outro. Pouco a pouco a multidão vai se dispersando. Seu José, mais conhecido por a comunidade do São José I como Irmão Zé, o pai da Milena, entra aos prantos no Fusca ano 68 do seu vizinho Pinturite-cara-de-pacú e segue desolado para casa. A irmã, a prima e a amiga mais chegada se vão imaginado um dia receber de lembrança algum autografo ou foto do seu artista preferido. O cunhado Raimundo, que estava ali obrigado, dá graças a deus quando o circo é desarmado e entra no seu gol mil geração II (o melhor carro presente na carreata) por a porta do passageiro do motorista estava com a maçaneta quebrada. A Brasília do Chicão não pegou e teve que ficar lá por o aeroporto. Enquanto isso eu estava encaminhando a dama ao encontro do seu vagabundo. Mas a única coisa que passava por a cabeça da Milena era entrar no avião e desembarcar no Rio de Janeiro, o grande Rio de Janeiro. Essa foi a primeira despedida feliz que eu vi em minha vida. Milena era um sorriso só, de orelha a orelha. Seus olhinhos brilhavam de felicidade, afinal não é todo mundo que pode conhecer o Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa! Era só isso que passava por a sua cabeça. Prova disso foi me dado por ela na despedida quando eu mandei um abraço para o Max e ela me perguntou: -- Quem é Max? Oito meses depois eu chego ao Rio e fico horrorizado ao saber que o baixinho comedor de jacaré passou o ano inteirinho vendo o Rio apenas através da janela do ônibus no caminho casa-fundão-casa. E pasme leitor, a Milena passou oito meses sem sair da casa de dona Francisca (irmã do Max), quando muito dava uma volta por o condomínio com a sua filhinha. Quando soube disso fiquei assombrado, Milena era escrava do seu próprio amor. Passava o dia lavando, cozinhando, fazendo faxina, cuidando da filha e ainda encontrava tempo para se arrumar e preparar um jantar especial para o seu maridinho. Não, isso não estava certo! Todos os sonhos de Milena haviam se transformados em pesadelos. O único artista que ela via era o Max que fazia malabarismo para conciliar o mestrado, o trabalho e a família. O mar que ela encontrou por a frente foi um mar de preocupações. Montanhas? Só de trabalho. Continuava vendo o Rio de Janeiro apenas por a televisão e somente por a televisão, pois, por ironia do destino estava morando em Niterói. Resolvi que era hora de dar uma basta nessa situação e leva-los para dar uma volta por a cidade maravilhosa. O difícil seria conhecer a cidade do Rio de Janeiro, uma das mais caras do Brasil, com tão pouco dinheiro. Somos pobres! Ah, e daí? Vamos tentar! Marcamos de conhecer o Pão de Açúcar. Após cinco horas de atraso, por conta da falta de organização do Max, saímos para a nossa aventura. Já no Pão de açúcar fui surpreendido, mais uma vez, com o comportamento da Milena, meio tremula e assustada ela pergunta se referindo ao bondinho: -- É nessa coisa que nós vamos até lá em cima? Ué, são dois? Ah bê, eu to com medo!" E apesar de todo o medo fomos até o ponto mais alto. Conseguíamos ver quase todo Rio de lá de cima, comecei a entender por que essa cidade é considerada maravilhosa apesar do alto índice de violência. Era notória a felicidade nos olhinhos de Milena. A Gabi, agora com um pouco mais de um ano de idade, não reclamou um segundo e se comportou como se fosse uma grande turista entendida do assunto. Max, o pai coruja, a tudo assistia orgulhoso ter a família que pediu a Deus. Eu me deliciava em ver certos comportamentos do casal que só poderiam ser entendidos por o Célio e por o Raimundo. Seria muito hilário e cômico se os dois tivessem subido com nós até lá. A vontade de rir era muito grande. Ver o medo da Milena em subir no bondinho, ver o baixinho com cara de deslumbramento, ouvir os porquês da Milena, isso tudo sem contar com o amplo debate sobre a maquina fotográfica que o baixinho comprou especialmente para esta ocasião. Vale ressaltar que foi preciso e suficiente o Max economizar um cafezinho e dois sanduíches para comprar tal máquina. Exaustos, voltamos para casa com a sensação de ter tido um dia maravilhoso. E realmente o foi. Continuando a tentativa de fazer algo diferente marcamos um encontro na praia de Itacoatiara, uma das mais bonitas de Niterói. Milena arrumou as cinco bolsas da Gabi, encheu as três mamadeiras de suco, pegou os três mamões e os quatro vidrinhos de papinha. Ficou um pouco insegura, não sabia se apenas isso seria o bastante para passarmos duas horas inteirinhas na praia. Após muita insistência o Max conseguiu convencê-la que «apenas» isso seria suficiente. Enfim estávamos todos na praia ouvindo o som maravilhoso que chegava como música para nossos ouvidos e vendo as ondas quebrando a menos de vinte metros da gente. Milena estava tendo a oportunidade de ver ao vivo uma das coisas com que sonhou um dia em ver quando veio para o Rio. -- Max, quando eu gritar nós corremos em direção ao mar, tudo bem? Perguntei. Agora!!! E lá fomos nos em direção a uma onda que vinha quebrando em nossa direção. Entramos na água um segundo antes da onda nos atingir e quando a onda nos pegou o Max deixou de sentir o chão. Foi um grito desesperador, toda praia se virou para ver o homem que se afogava. Max não entendia direito o que estava acontecendo, viu toda a sua vida passar diante dos seus olhos, pensou na possibilidade de morrer com aquela onda e deixar Milena viúva e a Gabi órfã de pai. Agora eu me pergunto como é que alguém pode pensar tudo isso estando na parte mais rasa que havia ali e levando em conta que todo esse desespero não durou mais que dois segundos. Isso mesmo, dois segundos. Um, dois. Só dois segundos! Depois disso, com a autoridade confiada por a sociedade ao pai de família, Max ordenou que todos fossem embora por que o mar era muito perigoso! Não tivemos mais outras oportunidades de sair para ver e conhecer as outras maravilhas do Rio e Milena deve que voltar para Manaus sem realizar o sonho daquela dama que meses atrás adentrava o Eduardo Gomes com tanta propriedade. Essas foram às poucas e boas aventuras que por aqui tivemos. Hoje eu vejo aquela que outrora era uma mulher com sonhos de uma menininha deslumbrada como uma mulher guerreira, forte e apaixonada por a sua família. Mulher essa que por a sua trajetória de vida conseguiu ter o meu respeito e minha admiração. Pra ti Milena, um abraço muito forte de um amigo vagabundo e um beijão nessa menina fantástica que um dia irá me chamar de titio. Assim quero eu me despedir temporariamente dos meus grandes amigos. Max, Milena e Gabi.-- Vão com Deus, preparem o caminho para mim e saibam que vocês sempre estarão dentro do meu coração. Até Mais! Número de frases: 82 Embora não chegue atrasado, também não costumo ser um dos primeiros a experimentar a mais nova coqueluche da internet (seja ela qual for); às vezes porque desconfio de que se trata de «modinha» passageira ou espero a coisa se tornar um pouquinho mais popular entre meus amigos (para mim, internet se baseia em duas pernas: informação e sociedade) antes de aderir (ainda não tive a curiosidade de conferir, por exemplo, o tal «Second Life» algum dia, talvez?). Por causa da primeira das opções que descrevi acima, esperei meses até criar meu primeiro blog, no início de 2002 (a explosão dos mesmos por aqui aconteceu no meio de 2001); momentaneamente cansado das exigências da profissão de jornalista (à época eu era repórter da Ilustrada, caderno cultural da Folha de S. Paulo, e trabalhava muitíssimo), já tinha criado um site para publicar crônicas, resenhas, artigos, entrevistas, trechos de meus livros e peças de teatro e poesia etc. e não via muita necessidade em migrar para outro endereço. Fui vencido não por a facilidade em publicar e organizar os textos, mas sim por a grande e multifacetada rede de relações que eu via surgir na tal da «blogosfera» mundial e, acima de tudo, por a ferramenta de comentários, muito mais prática do que um e-mail (obter retorno de leitores é sempre essencial). Portanto, após um mês de testes com um blog agora extinto, criei um outro, que agora completa 5 anos de idade em plena atividade (embora eu o atualize com comedimento), para falar especialmente de cinema, uma das minhas muitas paixões / atividades (quando comecei o blog, eu era apenas um espectador; hoje, publico o trailer do meu filme mais recente). Não demorou muito para surgir uma série de produtos para blogs: alguns até são úteis, mas em geral costumam emporcalhar os templates (eu tive que aprender o que significava template). O único que me interessou foi um contador de acessos: eu já tinha um em meu antigo site, mas não passava de uma espécie de catraca eletrônica virtual; o que coloquei no blog oferecia muito mais, como gráficos de visitas mensais e semanais (que informam, por exemplo, que o dia em que as pessoas menos acessam a internet é aos sábados, e que o pico de movimento fica entre terças e quintas). Mas o que mais me encantou foi o sistema de «tracking», que traz informações sobre os visitantes de cada página: de que país eles são (já fui visitado por gente das Ilhas Faroe, de Chipre, de Liechtenstein e muitos outros logradouros exóticos), que sistema operacional usam, qual a definição de seus monitores, em que link clicaram para chegar até o meu endereço etc. É justamente este último, chamado «referrer tracking», que me interessa. Com esta ferramenta, pude descobrir quem eram meus visitantes por meio de seus blogs, nos quais havia sido inserido um link para minha página. A troca de informações a respeito de interesses comuns começa a ocorrer, e mesmo grandes amizades (e romances) se formam. Mas quase metade (46 %) dos que visitam meu blog o fazem através de sites de busca (talvez a ferramenta mais importante de toda a internet), em especial o gigante Google (responsável por mais de 90 % destes acessos). E aqui chego, finalmente, ao ponto central deste artigo: o que os internautas buscam? Acho que não chega a ser nenhuma surpresa se eu disser que, em grande parte, é sexo (embora meu blog não seja especificamente dedicado ao tema). Aliás, a palavra «sexo» é a 6ª mais procurada; a 5ª é " pornô "; «pelada» vem em 16º; «nua», em 24º; «porn «em 33º e» explícito» em 37º. Agora, duas coisas me surpreendem. Uma é como as pessoas fazem suas buscas: muitas parecem tratar o Google como uma espécie de oráculo, conversam com ele. Ou seja, em vez de digitar «filmes pornô» (ou qualquer coisa sem necessariamente ter a ver com sexo) no espaço de buscas, muitas escrevem algo como «eu gostaria muito de saber em que site eu consigo assistir a filmes pornôs de graça» (sem exagero, a coisa é por aí; aliás, eu omiti os erros de português, que são quase onipresentes). A outra é o que buscam. Como já falei, não me surpreendem que busquem por sexo, uma necessidade natural, diária e premente de quase todos nós. Também não me surpreende que muitos busquem por fetiches mais específicos e potencialmente tabus, como «fotos porno de mulheres com cavalos e cachorro»,» louco de vontade de ver a filha da irma de minha esposa peladinha «e» boneca erótica que se parece com atriz zezé polessa " (estes três são verdadeiros e datam de menos de um mês). Número de frases: 34 Mas, mesmo eu sendo um grande fã do cinema brasileiro (onde temos filmes antológicos dedicados ao tema, como o clássico «Histórias Que Nossas Babás Não Contavam», de Oswaldo de Oliveira, e vários com a participação do notório Chumbinho) e tendo visto numa matéria de TV que existe este filão do cinema erótico, com seus pequenos astros e estrelas, eu não consigo entender porque muita gente procura em meu blog, quase todos os dias, por» sexo com anões». Eddwin de Olinda, Apesar de ser músico percussionista da banda de Alceu Valença, há 18 anos, Eddwin participa também de trabalhos solos em diversos eventos culturais que vão desde o show com o amigo Stanley Jordan, até o Festival Perc Pan, tocando com Naná Vasconcelos, Gilberto Gil e Carlinhos Brown. Número de frases: 2 Eddwin de Olinda é um dos grandes artistas que muito contribuem para a MPB e para a cultura nordestina, divulgando-as nos cenários nacionais e internacionais. Em pouco mais de dez anos de atividade como artista plástico, Pierre de Freitas conseguiu se firmar como um dos profissionais mais reconhecidos do Tocantins. E isso não se deve apenas às cores fortes, às imagens instigantes e à técnica requintada impressa em suas telas. Motivado em colaborar na formação de um público que aprecie e consuma arte plástica, Pierre saiu do seu atelier e do circuito das galerias de exposição. Ele foi às ruas, se aproximou do cidadão comum e chamou a atenção da imprensa para seu trabalho e, principalmente, para suas idéias. Há cerca de seis semanas, qualquer pessoa pode vê-lo pintar, próximo a uma das rotatórias mais movimentadas do centro de Palmas. Mas essa é apenas uma das intervenções recorrentes que Pierre já fez nos espaços públicos da cidade. Puxando por a memória, podemos lembrar do «Varal das artes», em que reproduções de seus desenhos foram distribuídas por 40 locais de grande concentração popular, como pontos de ônibus e ruas movimentadas, em 2005, em Palmas e também em Goiânia. Por duas eleições consecutivas, Pierre de Freitas também se utilizou de intervenções artísticas, no gramado do Espaço Cultural, para promover a cidadania, protestando contra o voto em branco. Isto além das manifestações coletivas que participou, no Tocantins e também em Cali, na Colômbia, onde fez curso de extensão acadêmica. O principal motivo para levar sua arte à rua, diz, é pagar uma dívida pessoal que tem para com a sociedade. «Sempre estudei em escolas públicas e também numa faculdade pública. O povo, através dos governos, foi quem pagou meus estudos», explica. Quando trabalha em plena avenida, Pierre sabe que chama a atenção por estar em meio a uma paisagem esteticamente vazia, embora movimentada. Ainda assim, não perde a concentração, mesmo quando os mais curiosos se aproximam para conversar. «Gosto dessa coisa urbana, de pessoas passando, barulho, cheiro de gasolina», diz. Em a rua, ele quase disputa espaço com mercadores de arte -- na verdade, vendedores de telas reproduzidas em série. Mas também recebe encomendas de trabalho e conversa com pessoas, jovens ou de mais idade, que nunca freqüentaram uma exposição. Pierre de Freitas proporciona o contato de gente comum com as artes plásticas, independente do entendimento que elas terão sobre o que vêem. «A compreensão sobre um trabalho artístico é relativa. Depende muito do momento que se está vivendo, do seu modo de enxergar a vida», avalia. Número de frases: 21 Apesar do desprendimento com que realiza este trabalho, ele deixa nítida certa contrariedade com os gestores públicos de cultura, a quem «falta sensibilidade para criar mecanismos e possibilitar ações em que haja o envolvimento popular», considera. Ele entraria facilmente na lista das «personas non gratas» que habitam as letras de grupos como os Racionais MC ´ s ou Facção Central, mas está, digamos, do outro lado do balcão, e também fazendo rima. Conhecido no movimento hip hop goianiense como Tc, o 1º sargento da PM Teodoro Cruz se auto-intitula «o único policial do Brasil que assume a causa hip hop». Tc é um dos precursores do movimento rap de Goiânia, que soma 25 anos. Radicado na periferia da capital, negro, cônscio do embate sócio-cultural em que está metido, Tc no entanto nunca abandonou o barco de rapper, dançarino de break e produtor de shows de rappers anônimos e famosos na capital goiana. E o preço é alto, confessa ele, inclusive na corporação. «É uma pena, porque a PM sabe que quem abastece a periferia é o dono de carro importado», diz Teodoro Cruz, que comanda blitz da Ronda Ostensiva Tática Metropolitana (Rotam) na região Metropolitana de Goiânia. Em dezembro passado, Tc fez um curso voltado para a elite da PM. Em Goiânia, concluiu com colegas de vários estados brasileiros o Cor (Curso Operacional de Rotam). Foram 90 dias de aulas práticas e teóricas sobre operações de combate ao crime. «Fiz show de rap lá, dancei break e aproveitei a oportunidade para tentar limpar mais um pouquinho o preconceito existente contra a periferia e todas as suas manifestações artísticas», disse um cansado Tc ao Overmundo, quase perto da meia-noite de uma segunda-feira, por telefone de sua casa em Aparecida de Goiânia (cidade da região Metropolitana de Goiânia). Teodoro Cruz se iniciou no hip hop liderando um grupo de 12 pessoas (entre rappers e dançarinos de break) que, a partir de 1983, começou a organizar apresentações de hip hop em Goiânia. As primeiras, relembra, ocorriam no Tênis Clube do Setor Coimbra (foi lá o primeiro concurso do gênero, vencido por o grupo de ele) e depois ganharam as ruas, a partir do coreto da Praça Cívica, no centro da capital. O grupo se chamava Selvagens Eletrorock (havia também os Cães de Rua), que foi dando origem a outros grupos. Com o tempo, o Eletrorock se desfez, «alguns se casaram, outros viraram pastores evangélicos», diz. Só Tc continuou. E continua. Ele ainda faz rima, dança e organiza bailes. «Tô na correria, apesar da burocracia para ter apoios», reclama o morador do Setor Mansões Paraíso, bairro periférico de Aparecida de Goiânia. Ele trouxe à cidade o rapper Mv Bill e o grupo paulista «Facção Central,» verdadeiros símbolos de humildade e compromisso com o hip hop», elogia o grupo com quem voltou a negociar para novo show em Goiânia, provavelmente no mês de maio. Tc chegou a gravar um CD, procurou rádios locais e não obteve apoio na divulgação. Nem assim desanima. «Tô com 39 anos, casado e pai de família, não tenho o gás de antes, mas minha origem e personalidade é de periferia e não tenho por que ter vergonha dos manos», diz, convicto. E o que o superior de Tc teria a dizer desse, digamos, hobby inusitado de ele? «Acho ótimo, o Tc é um modelo para nós, excelente profissional e com a arte de ele presta um serviço de cidadania à comunidade, ensinando as pessoas que é possível curtir arte sem se envolver com drogas», diz o major Wellington Urzeda, comandante da Rotam em Goiânia. Questionado sobre a histórica rixa existente entre os rappers e a polícia, o comandante, que diz ser fã de rap gospel (é evangélico), acha que é uma relação «superada». «Esses rappers que falam mal da polícia escrevem sobre um modelo de polícia do passado, é ranço da ditadura militar e fazem uma crítica não contra o PM mas sobre um sistema policial. Hoje, o PM já tem outra formação, mais humanista e voltada para a interação social. Agora, cada um canta o que quer, assim como existem os diferentes gostos [de gêneros] musicais, a temática dos artistas também é livre», teoriza o policial. Segundo ele, o próprio rapper-PM Tc seria um exemplo dessa mudança de postura da corporação. Para o chefe de um dos mais temidos destacamentos da PM em qualquer capital brasileira, Teodoro Cruz seria «um embaixador» da PM junto às comunidades. «Para nós é bom que ele faça este trabalho, todos os colegas o respeitam muito. Lá [na periferia], ele ajuda a desmistificar essa idéia de que a polícia militar é truculenta», arrematou o comandante Urzeda. Número de frases: 33 A Cinemateca Brasileira organizou em maio de 2006, em São Paulo, o 62º Congresso Internacional da FIAF -- Federação Internacional de Arquivos de Filmes. Representantes de cinematecas e museus do cinema do mundo inteiro compareceram para discutir as metodologias utilizadas por cada um e os novos rumos da preservação das películas de cinema, equipamentos e impressos relativos ao universo dos filmes. O tema que mais exaltou os ânimos foi a digitalização do cinema. Hoje existem processos de escaneamento de películas em 2K (2048x1556 pixel) que possibilitam a salvaguarda e restauração do conteúdo para torná-lo até mais bem contrastado e definido na imagem e no som do que era quando foi exibido originalmente, até porque hoje a edição dos filmes é totalmente feita em estações digitais. O cineasta Arnaldo Jabor quando foi restaurar seu primeiro curta-metragem de 1965, O Circo, tomou medidas ainda mais polêmicas: reeditou algumas partes do filme para impor outro ritmo, que segundo ele não havia conseguido na época. Mais recentemente a própria Cinemateca Brasileira, juntamente com a produtora Filmes do Serro, iniciou o processo de restauração da obra completa do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, sendo o primeiro resultado um Macunaíma com cores absurdamente mais vibrantes. Este filme antológico de 1969 com Grande Otelo, Paulo José, Jardel Filho e Dina Sfat hoje pode ser visto nos cinemas por o Brasil restaurado brilhantemente em som Dolby Stereo para deleite das novas e antigas platéias. Tudo feito com aprovação da equipe técnica original e da família do cineasta. De acordo com Patrícia de Filippi, do Laboratório de Restauração da " Cinemateca Brasileira: «Falar em restauração exige uma reflexão sobre os conceitos envolvidos nessa área em constante mudança. Cabe a nós a leitura das possibilidades das novas tecnologias a favor da integridade estética do filme. Há que se considerar a história da técnica cinematográfica e da tecnologia, passando por o momento em que Joaquim Pedro exerceu sua arte e as referências estéticas de que dispomos hoje». Este processo de preservação da memória do cinema foi iniciado por o Museu da Imagem do Som do Pará há cerca de três anos. Começou com um projeto de filmar com câmeras betacam digital a projeção de filmes do seu acervo. Até então a telecinagem está além das possibilidades e muito menos o escaneamento em 2K. O resultado serviu pelo menos para que pesquisadores pudessem acessar o conteúdo de obras como os cinejornais das décadas de 1960 e 1970 de Milton Mendonça e os longas-metragem de Líbero Luxardo do mesmo período, além de outros títulos relevantes como o contundente Vila da Barca de Renato Tapajós realizado em 1963. Paralelamente também foi estabelecida uma imprescindível parceria com a Cinemateca Brasileira que capacitou uma equipe de técnicos e projetou uma reserva técnica de películas cinematográficas climatizada e desumidificada, com mesas enroladeiras para diagnóstico, higienização, identificação e pequenos reparos. Esse preciosos títulos estão protegidos em seu micro ambiente (caixas e rolos de plástico) e no macro ambiente (reserva climatizada e desumidificada). Pra fechar este anos de grandes conquistas na preservação da memória audiovisual o Mis-Pará irá adquirir através de recursos obtidos junto a Caixa Econômica Federal uma moviola-telecine, equipamento imprescindível num arquivo de filmes onde se visualiza o conteúdo das películas e migra para o digital através de um vídeo-tranfer, aliando preservação, identificação, catalogação e difusão. O Mis-Pará está no rumo de tornar-se uma Cinemateca Paraense, salvando das intempéries do nosso clima esse importantíssimo acervo, que é fundamental para conhecermos nossa história, com imagem e som, e disponibilizando essas informações para o hoje e para o amanhã. Pois o cinema paraense não surgiu com «Açaí com Jabá», nem com» Chama Verequete «ou» Dias», nasceu com Milton Mendonça, Líbero Luxardo, Pedro Veriano e Renato Tapajós. Como disse Paulo Emílio Salles Gomes em seu livro " Cinema: uma trajetória no subdesenvolvimento ": «O Brasil se interessa pouco por o seu passado. Essa atitude saudável exprime a vontade de escapar a uma maldição de atraso e miséria. O descaso por o que existiu explica não só o abandono em que se encontram os arquivos nacionais, mas até a impossibilidade de se criar uma cinemateca. Essa situação dificulta o trabalho do historiador, particularmente o que se dedica a causas sem importância como o cinema brasileiro." O futuro dessa memória audiovisual agora está parcialmente garantido. Até quando? Acervo do Mis-Pará Acervo Milton Mendonça (Jussara Filmes): pequenos filmes, cinejornais como eram chamados, em preto e branco que retratavam eventos da Belém nos anos 60 e 70, com destaque para o filme comemorativo aos 350 anos de Belém feito em 1963. Acervo Líbero Luxardo: paulista de nascimento, na década de 1930 realizou filmes sobre a Revolução Constitucionalista, e no Pará 04 filmes na década de 1960, Um Dia Qualquer, Marajó: Barreira do Mar, Brutos Inocentes e Um Diamante e Cinco Balas, esse último perdido definitivamente, só restou a trilha composto por Waldemar Henrique. Os outros três títulos anteriores estão em nossa reserva e disponíveis em DVD e VHS. Acervo Waldemar Henrique: composto por mais de 15 mil peças entre diários, partituras, cadernos de música e objetos pessoais do acervo pessoal do Maestro passa agora por um processo de catalogação para a posterior disponibilização de seu conteúdo num CD-ROM. Serviço: O Museu da Imagem do Som do Pará tem um acervo de cerca de 2.500 rolos de películas em 8, 16 e 35 mm, 3500 filmes em vhs e 500 fitas K7. Núcleo Feliz Lusitânia, Casario da Padre Champagnat, Rua Padre Champagnat, s / n. Número de frases: 41 Tel.: (91) 4009 8817. Atendimento com agendamento prévio. O Mestre dos Doutores Já vem Sô Geraldo da Varginha. Um velho jovem de cabelos grisalhos, calça amarrada com um pedaço de corda e um sorriso de criança. Segue dengoso, abençoando quem por ele passa. Em o seu balaio traz verduras e legumes frescos, colhido na sua rocinha. Mora em Rio Piracicaba (Gerais) no Distrito deVarginha, um lugarejo onde Judas perdeu as botas. Dizem que suas «crias» foram mais de vinte. E todos bem criados naquele pequeno sítio, numa casinha branca e singela. De cá da estrada a gente vê fumaça sainda por a chaminé. Deve ser sua dona fazendo deliciosas quitandas. Até já provei algumas. Um dia passou na minha porta oferecendo um feijão diferente. Lembro até da sua rizada falando que o feijão tinha o nome de «Rebenta Muié». Outra vez apareceu com uma cenoura baroa que era amarelinha igual ouro e dava em penca que nem banana, nunca tinha visto nada igual. Ganhava seus trocados vendendo de porta em porta seus achados da natureza. Noventa e cinco anos de vivência! Lembro de ele contando todo orgulhoso que os «doutores» da Universidade Federal de Viçosa aparecia, de vez em quando, no seu sítio para aprender com ele o por que de algumas plantas que, no laboratório da Faculdade, não iam à diante. Coisa simples, assim dizia ele, é só observar a lua para jogar a semente na hora certa. Mas Sô Geraldo, e esse fungo que pareceu nos pés de feijão? Também pudera, continuava ele, esses doutores não prestam atenção, observem os ventos, eles trazem os bichos todos no ar, tem que observar a natureza para plantar na hora certa. E assim ele dava uma aula, com sua sabedoria de matuto. Ia sempre na Universidade levar algumas sementes colhidas no seu quintal. Todo final de ano, Sô Geraldo passava lá em casa todo orgulhoso, bem trajado nos contando que ia pegar o ônibus para Viçosa. É que era convidado de honra da Universidade e seria homenageado por a turma do Pós graduação e Doutorado. Foi até paraninfo de uma turma, não me lembro o ano. Já apareceu até no Globo Rural. Fazia palestras para os alunos da Engenharia Florestal, Agronomia e até Meio Ambiente. Que beleza de engenheiro formado por a própria natureza! Fazem cinco anos que ele se foi. Lembro de uma prosa de ele só para me agradar: Sô Marquinhos, o senhor tem uma dona que nem a minha, ela conhece o manejo das coisas. Ela sabe manejar. Quem soube manejar foi o senhor, meu saudoso e querido amigo. Fica aí com Deus! Número de frases: 35 Futebol me encanta desde menino. Os amigos heróis eram sempre os melhores com a pelota nos pés. Causavam espanto nos mais moleques como eu que era o mais novo da turma. Interior de Mato Grosso, 1970, a Copa do Mundo rolava nas ondas megahertz das centenas de rádios ligados nas portas das casas de toda a cidade. Cadeiras de palhas em círculos, todos buscando se acomodar nas portas das casas. A rua inteira era uma festa só a cada lance genial de Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson e Cia, narrados nas vozes emocionantes de Fiori Gigliotti, Jorge Cury, Waldir Amaral e tantos outros. A emoção que o rádio provocava causava histeria na galera que soltava a imaginação, a bola raspando a trave, o drible, a ginga. Tudo imaginado de uma forma muito pessoal, cada um ouve o jogo ao seu modo. Em 2006, Cuiabá ferve, as ruas congestionadas, bandeiras tremulam nos inúmeros carros que passam, torcedores eufóricos, a índole guerreira-festiva invade todos os semblantes. Cumplicidade nos olhos, compartilhamento de expectativas pré-batalha, nossos heróis são cantados em versos e prosas. Bares cheios, telas, telinhas, telões, o álcool embalando os humores da maioria absoluta dos entusiastas que calçam chuteiras imaginárias. O sangue esquenta a lucidez, o calor agita corpos em pressão. Cerveja gelada desce por as gargantas entaladas, bocas esperam ávidas por o grito do gol. A tradição impõe respeito, nunca, em nenhuma Copa do Mundo, a seleção brasileira encontrou facilidades em seus jogos de estréia. Reza a lenda que é altíssimo o grau de tensão que acomete os jogadores. Todos os olhos do mundo mirando os movimentos dos magos da bola, um esporte que exige muita habilidade. Aliás, a habilidade dos jogadores brasileiros é um capítulo à parte nessa história toda. O que esse rapaz, Ronaldinho Gaúcho, faz com a bola, impressiona qualquer mortal. A bola parece fazer parte do seu corpo, não desgruda de ele, obedece a seus comandos com absoluta intimidade e doce devoção, molda-se aos seus gestos. Um cilindro de luz se equilibrando ante a ordem do maestro supremo. O jogo foi duro. Osso duro de roer essa Croácia. A Copa agora é tecnológica. Informações multimídia em tempo real invadem as telas de todo o planeta. Precisão cirúrgica recortando o grande balé dos guerreiros nas arenas contemporâneas. Bilhões de olhos conduzem a pelota como um corpo celeste a bailar nos pés armados como lanceiros mortais. A bola é puro samba nos pés dos brasileiros. O futebol é invenção inglesa? A arte de jogar futebol é brasileira, eu te respondo. Aqui, a bola rola solta e faceira em nossos milhões de pés que acompanham passe a passe o jogo em sintonia com os onze guerreiros. Comentários da geral: Puxa, o Ronaldo tá mal mesmo, hem? Ele vai reagir, acho que ainda vai arrebentar! Devia entrar o Juninho Pernambucano ... O jogo tá bom é para o Robinho. E o Galvão Bueno, tá falando muita besteira? O Brasil tá muito parado em campo! Tem que ganhar, nem que seja por meio a zero. Segue o jogo da seleção brasileira com a seleção croata. O estigma da estréia amarrando os mais de mil pés das centopéias brasileiras. Meus olhos se fecham a 10 minutos do final do primeiro tempo. Alguém observa ao meu lado: «O Ferreira assiste o jogo de olhos fechados, pensa que ainda é rádio, hahahahahah ..." Todos riem ao mesmo tempo. Levanto um pouco as pesadas pálpebras sob a mão impiedosa de Morfeu. Kaká na entrada da área recebe passe de Cafu, olha para o goleiro, calcula, chuta com maestria, lá onde o goleiro não consegue chegar. A bola soca a rede, multidão explode em todo país, em uníssono: golaço! Meus olhos saltam, soco o ar, sou Pelé, sou Kaká e todos os Ronaldos. O país de chuteiras samba no pé. Intervalo: deixo a casa lotada de gente, saio de fininho, corro para casa, a rua está vazia. Alto teor etílico me lança ao chão da sala. Estou só, consigo ver ainda duas grandes defesas do Dida, o goleiro que só o Parreira confia, a pátria treme nas bases das traves. Mas o cara salva a festa. Seguro, no lugar certo, na hora certa. Acordo uma hora depois, variado, tonto, cadê o jogo? A casa vazia, a rua em silêncio, o cachorro dormindo ao meu lado. Me pergunto, será que ele lambeu minha boca? O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 60 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. Aracaju é a única cidade nordestina a se inserir no projeto A Tela na Sala de Aula, desenvolvido nacionalmente por a produtora carioca Copacabana Filmes em parceria com a Eletrobrás, dentro maravilhoso Festival Internacional de Cinema Infantil. A tela é um projeto novo dentro do festival e vai exibir na rede Cinemark filmes inéditos e completamente fora do circuito comercial. Até aí, tudo ótimo. Mas o que fazer para levar as crianças de escolas públicas -- principais alvos do projeto -- para o cinema, quando o preço do ingresso é R$ 6? à primeira vista, R$ 6 é um preço razoável. Claro que é. Mas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e Belo Horizonte, as outras quatro capitais onde o projeto vai acontecer a partir de setembro e onde os cidadãos foram forçados a se acostumar a pagar até R$ 17,50 por uma sessão de cinema. A intenção é que as próprias escolas banquem as entradas de seus alunos e professores que, além de conhecer filmes inéditos e de excelente qualidade, vão receber ainda uma cartilha que se adequa aos planos de aula. Ok, também. Mas só para se ter uma idéia, o ingresso de cinema mais caro em Sergipe -- onde só há salas de exibição na capital -- custa R$ 12. Qualquer criança de até 12 anos tem o direito de pagar meia entrada, o que já seria equivalente aos R$ 6 cobrados. A única vantagem econômica de fato seria o preço do ingresso para adultos. Não é minha intenção fazer as vezes de defensor do nordestinos fracos e oprimidos. Mas o fato é que o Centro de Estudos Casa Curta-SE, parceiro da Copacabana Filmes na execução de A Tela na Sala de Aula em Aracaju, não conseguiu até agora um parceiro público para bancar a iniciativa de levar os estudantes aracajuanos até o cinema. Justificativa? Preço! Sem a mínima pretensão de tomar a defesa dos órgãos públicos e assumir como legítimo o discurso simplista de que não há dinheiro no caixa, Aracaju revive o impasse filosófico do ovo e da galinha, mas não para descobrir quem nasceu primeiro. Depois de algumas tentativas de convencimento não acatadas, minhas perguntas são: Será que a gente põe um ovo e faz um escarcéu porque os governos não estão destinando verbas para levar seus alunos para participar de um projeto tão interessante? Ou será que a gente recoloca a idéia original na chocadeira e repensa o valor do ingresso para que o projeto aconteça para quem ele realmente surgiu, as nossas crianças? Eu sei que há mais alternativas nas entrelinhas. Quem se habilita? As questões se sobrepõem, eu coloco minha angústia e fico na expectativa de alguma luz. Número de frases: 23 Alguém tem um isqueiro aí? Segundo uma pesquisa publicada nos Cadernos de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, por o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 70 % dos brasileiros nunca foram a um museu. Eu podia terminar esse texto aqui, que já seria provocação suficiente. Falam da Internet, mas poucos prestaram atenção de que estamos muito próximos de ter mais pessoas online no país (hoje são cerca de 25 %), que visitantes de exposições de arte. Com a divertida diferença de que a maioria dos museus são instituições públicas e, portanto, cobram apenas valores simbólicos para o acesso. Ou seja, é mais barato ver um quadro que comprar um computador e fazer a assinatura de um provedor, mesmo do link mais fuleiro. Vamos ser intuitivos na questão, algo que um instituto de pesquisa -- por puro bom senso estatístico -- jamais pode ser. Esses 30 % certamente devem estar representados por os próprios artistas plásticos, curadores, jornalistas dessa área, funcionários do museu e, por fim, o eventual turista que também procura esse tipo de atração numa nova cidade. Em termos práticos, o número de brasileiros que visitam museus é muito menor que essa estatística. De quem é a culpa? A curadora do Museu de Arte Moderna Aluíso Magalhães (Mamam), Cristiana Tejo, diz que a formação de público existe. «As escolas trazem crianças aqui todos os dias». Ela aponta ainda o fato de que os pais, depois, não voltam com os filhos. O brasileiro gosta de por a culpa -- com razão -- na situação da educação do país. Mas, desta vez, a escola está fazendo sua parte como deve. Também existe a interlocução. Os principais veículos de mídia do país têm um repórter específico para noticiar, articular e circular a produção de artes visuais e plásticas. A estatística do Ipea tira qualquer atmosfera de polêmica de que, sim, eles estão falando apenas para outros artistas e curadores. Mas existe esse papel, mesmo numa visão industrializada do processo da arte, com guias de obras e artistas sendo vendidos, por exemplo, por o jornal Folha de S. Paulo. Os museus são os maiores representantes hoje da noção equivocada de cultura como algo inatingível. A divertida imagem código-davinciana de que são lugares secretos, restritos e dignos de uma conspiração secular. Sem a sorte do cinema, seriam, talvez, os melhores representantes de um tedioso depósito de velharias. Durante duas semanas de conversas com produtores, curadores e jornalistas, essa imagem monolítica da «instituição museu» parece ser o principal fator contra a visita às exposições. De essas conversas, o mais delicado foi perceber um constante jogo da bomba, onde um passava a culpa para o próximo personagem da cadeia de circulação das artes plásticas. Por o bem da paz, suprimi as aspas e as condensei nessas rápidas considerações. Incluo na salada, a contradição de -- até o momento -- o Overmundo ter cadastrado 980 obras de artes visuais. Todos somando mais de mil votos de «gostei». Não temos visitantes, mas temos interessados. Então você, que chegou até aqui, responde ai embaixo: Número de frases: 29 por que você não vai para o museu? Tia ... eu quero ser a estrelinha! Vai Marcos Paulo, vai! Se apronta logo que já vai começar! Mas tia ... eu quero ficar lá em cima! Porque o Luiz Fernando pode e eu não posso? Carlito!!!! Pronto, chamou por o sobrenome já sei que a coisa ta feia. Peguei a capinha vermelha e fui me vestir. Inconformado, mas fui. Porque o Luiz Fernando podia ser a estrelinha e eu não? Eu é que não ia ficar embaixo, perdido na foto no meio de todo mundo. Estava revirado com sentimentos que não entendia, uma mistura de injustiça com incompreensão, ausência da justificativa que me convenceria do porquê não eu? A imagem do Luiz Fernando lá em cima me afligia, não por ele (que era coleguinha meu) mas por mim, que ocuparia um lugar que não desejava. Em a verdade um lugar que eu nem sabia onde ficava (marcação de peça escolar é como festa com canapés, quem chega primeiro come). Eu cheguei tarde demais, a professora já tinha catado o Luiz Fernando e vestido ele de estrelinha ... Talvez a tia mude de idéia ... É ... acho que ela muda ... Tia Vera ... ( puxando por o avental azul clarinho de minha professora de pré-primário), o Luiz Fernando não fica bem lá em cima. Carlitoooo!!! Pelo amor de Deus santa criatura, a apresentação já vai começar e você ainda não se vestiu?!!! Vai, vai, vai! É ... vida inglória ... a Tia vai ver!!! Vou ficar de costa na foto! E assim, nesse egoísmo infantil inconformado, fui me vestir. Não tinha força nem para amarrar o cadarço do sapatinho, de triste que estava, a servente foi quem amarrou. Arrastando as pernas sai do vestiário e me dirigi a concentração, esperar a chatice começar ... Os olhos do Luiz Fernando brilhavam. Tudo bem ... ele é bobo mas é legal ... Tudo bem. Que hora essa chatice começa, heim? Vai começar! Vai começar! Esgoelou a assistente. Foi aquele tropel de gente marcando posição para entrar. Em aquele momento havia uma certa ordem para compor a pirâmide de natal, apresentação que marcava o fim do ano e nossa passagem para o universo primário da Escola Estadual de 1º e 2º Grau Professora Helena de Campos Camargo, uma escola simples mas muito bem composta, localizada no centro de Indaiatuba, interior de São Paulo. Segundos antes deu passar a Tia segurou-mo braço e disse: Pega aqui! Segura aberto e não abaixa. Fica do lado. Vai lá que te mostro. Fui, surpreso. Nem sabia direito o que era pra fazer, a Tia falou tão rápido! Não li, não me interessei, apenas resignei-me por a segunda vez. Agora, além de não ser a estrelinha ainda vou ficar de fora da pirâmide?! ( ô incoerência ...) Dei de ombros e subi no palco. O pátio cheio, furdunço de criançada, o Luiz Fernando lá em cima, eu segurando o cartaz, a musiquinha de presépio tocada na vitrola, o fotógrafo, minha presença de palco apagada ... Tanto faz, eu nem sabia o que era presença de palco mesmo ... E não sabia de muitas outras coisas. Entre elas, que o lugar ocupado sem querer não só era especial como o mais destacado, assim me fez ver um amigo. Não sei se foi a escola, se foi a vida. Se foi a vida na escola ou a escola da vida. Sei que naquela manhã de um dezembro escolar, sem me dar conta, fui compelido aos primeiros passos de minha jornada como mensageiro, aquele que realça com palavras um pouco mais o conteúdo das coisas. Os anos passaram, as mensagens se apresentaram e fui repetindo (muitas vezes sem perceber), essa agradável tarefa de transmitir mensagens. A vontade de ser estrela não passou completamente (rsrsrs), mas aprendi que a gente brilha, mesmo, quando faz o que gosta ... Pobre Tia Vera, coitada da escola (só me leva para a casa quem não conhece). Meus agradecimentos aos que tiveram paciência para que eu encontrasse um lugar romântico no caminho que leva a mim mesmo ... Número de frases: 63 Um distanciamento da realidade. Um aceleramento cardíaco. Silêncio para ouvir sua própria respiração. Ouvindo. Calmamente. Calmamente. Calmamente? E as vozes internas interagem: «Afinal, estou respirando? Sim, está. Ofegante. Mãos transpirando. Ai, Meu Deus!». -- Ai, socorro, mãe, não estou bem! -- O que aconteceu, minha filha? -- Não sei, não consigo ... -- Não consegue o quê? -- Não consigo respirar, acho que vou morrer ... -- Calma! -- Minha boca ... minha boca! Olha como batem os meus dentes ... Ai, quero que esse som pare!!! Acho que vou morrer, meu coração disparou, minhas mãos, olha minha boca transpirando ao redor. Já viu alguém com a boca transpirando ao redor? -- Não ... -- Então, acho que vou morrer ... Ai, o que é isso? Olha meu corpo! Tremendo todo, estou tonta. Acho que vou cair ... Desmaiar ... Não consigo mais respirar ... E foi assim que começou tudo. E hoje é um dos assuntos que mais sabe me dominar. Se alguém já viveu algo parecido com a situação que tentei relatar, sabe do que falo. Mas se não viveu, não imagina o mergulho profundo que é entrar na tão comentada Síndrome do Pânico. Mais uma da enorme lista das doenças invisíveis. Os olhos não vêem. As pessoas não crêem. Mas há escapatória. Só que eu ainda não descobri onde está a porta. E é assim que estou há mais de um ano convivendo de mãos dadas com o estranho invisível. Vou tentar discorrer por o que passei, afinal, já serve como laboratório para algo que pretendo fazer maior, uma história em quadrinho. Em o traço e no quadro, vou tentar apresentar ao mundo o pouco que precisaria para evitar tantos danos emocionais. Pânico é medo, mas não de entrar no elevador e ele travar ... Ao mesmo tempo pode ser. O pânico origina-se na respiração. Mexe com os batimentos cardíacos. O cérebro provavelmente desoxigenado não compreende perfeitamente a situação e a entende como perigo. Perigo?!!! Está dada a largada das sensações. Contração, palpitações cardíacas, tontura, atordoamento, náusea, dificuldade de respirar, calafrios, ondas de calor, sudorese, distorções de percepção da realidade, terror, confusão, pensamento rápido, medo de perder o controle, de morrer, vertigens ou sensação de debilidade. Chega! O pânico pode ser espontâneo e é desse que eu sei discorrer muito bem. Uau, foram sessões diária de 5 a 30 minutos durante meses! Sem ninguém perguntar se a passageira desta viagem estava pronta para embarcar. E lendo todo tipo de informação, descobri que as origens são as mais diversas possíveis. Ele é o auge dos transtornos de ansiedade. Mas, para os mais ignorantes, desculpem-mo juízo de valor que tive que imbuir: pânico é apenas para aqueles com fraqueza de caráter. Quem tem pânico pode desenvolver fobias e depressão. Eu, sinceramente, não sei o que tenho aqui dentro. Mas não se cala! A todo instante sopra que devo me dedicar a um trabalho que goste. E eu gosto de trabalhar na profissão que escolhi. E começo a me dedicar e a fazer cada vez melhor. Os elogios são a maior prova disso. Com dotes para desenho, decidi: vou ajudar mais pessoas que estão na mesma situação que eu. E, junto com o desenvolvimento profissional, está associada uma tremenda confusão. Como imaginar? Mas que situação é essa? A da falta de informação. Ela é a grande responsável por o meu sofrimento. Ninguém se aproxima. Ninguém me convida mais para a nada. Já saí correndo de festa. Já fui parar em cardiologistas. Já dei vexame. Já me escondi. Já não gosto mais de ser assim. Não gosto de mim. De aí pensei em me recriar. Psiquiatra, psicólogo, massagem, reiki, ioga, academia ... E em linhas gerais, em desenho, irei relatar. E foi desta idéia que conheci o Mundo Pet, do Lourenço Mutarelli. E fui saber quem era este quadrinista premiado e reconhecido nacionalmente. Alguém que trabalhou com o Maurício de Souza, mas que eu jamais tinha ouvido falar. Sem querer propagandear, tive que acessar o «Google», e achei a home page. Tinha encontrado um pouco sobre Mutarelli, alguém que como eu, teve síndrome do pânico e não tinha problemas em comentar. Cliquei em contato e escrevi que queria conversar. Incrível! Recebi seu telefone de casa e celular e em dois dias estávamos a conversar. Já faz algum tempo que o Lourenço não ouve a voz da nordestina «panicosa», que anseia por dar ao mundo uma contribuição a partir de sua visão e sofrimento. Mas, em breve, com material em mãos, pretendo ligar, encontrar e conversar num daqueles bares lá da Vila Madalena. Se nenhum dos dois entrar em pânico, claro! Só por a possibilidade de se encontrar. Quem for ler Mundo Pet, entenderá que Mutarelli sabe passar como ninguém a agonia. Domina a nona arte. Domina o desenho. Domina. E hoje, depois de 20 anos, diz que até o pânico domina sem o uso de remédios. Eu ainda não. E, talvez por isso, quem sabe alguma indústria farmacêutica aceite me patrocinar. Agora fica a dúvida: será que passei a devida informação? Acho que ainda não. Preciso mesmo é colocar a caneta em punho e começar a trabalhar em algo que de fato irá me acalmar e me motivar. Acreditem, antes de eu começar a desenhar ... Pânico não é frescura, nem apenas letra de música da banda Júpiter Maçã, nem um show particular para chamar a atenção. É uma sensação física que perturba a mente, atrapalha a cognição e reverter é trabalhoso. E eu já estou com a caneta na mão para um dia voltar aqui e mostrar. Número de frases: 106 Em o princípio, era o verbo registrado em folhas de papel fotocopiadas. Hoje, uma ONG empenhada na promoção dos fanzines, os veículos impressos independentes que ganharam o mundo com o advento da máquina de xerox e da cultura do «faça-você-mesmo». Assim pode ser descrita a trajetória da Zinco, organização não-governamental cearense voltada para o estudo, pesquisa e produção em mídia alternativa. A Zinco é resultado da convergência do interesse comum de jovens de Fortaleza por o fanzine, de estudantes e profissionais de jornalismo e velhos atuantes da cena rock / independente que encontraram nos veículos de papel um meio de registrar suas atividades. Fundada em dezembro de 2004, reivindica para os zines a condição de «detonadores» da autonomia comunicativa e afirmadores da «pluralidade de valores e conceitos estéticos». Em pouco mais de um ano e meio, a ONG solidificou as oficinas de fanzine, ministradas por seus membros há cerca de cinco anos, e ampliou as parcerias com organizações da sociedade civil, como o GAPA (Grupo de Apoio a Prevenção à Aids), o Casa (Centro de Assessoria ao Adolescente) e a ACERD (Associação Cearense de Redução de Danos). Promoveu em novembro de 2005, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o seminário Cabeças de Papel -- zines e protagonismo, com palestras, oficinas, exibição de curtas e filmes e a presença de mais de 600 pessoas. Atualmente, participa do projeto Juventude Construindo ... um novo olhar sobre a diversidade sexual, da Prefeitura de Fortaleza, promovendo oficinas sobre cidadania, diversidade sexual e direitos humanos. O Overmundo convocou Fernanda Meireles, 27 anos, diretora-geral, e Tiago Montenegro, 23, diretor de políticas sociais, para falar dos projetos já realizados e os planos para o futuro. Os trechos principais da conversa podem ser conferidos na entrevista a seguir: Quando surgiu a idéia de fazer a ONG? F -- Tanto eu, como o Tiago e a [jornalista] Thaís [Aragão], a gente tinha um interesse em comum, os fanzines. A Thaís tinha a página Pub, no jornal O Povo e já fazia zines na faculdade, a gente tinha uma banda e fazia zines sobre ela. A partir de 2000, eu comecei a dar oficinas no curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Em 2002, surgiu o Zine-se, o encontro de fanzineiros. É importante ressaltar que existe uma rede de comunicação de fanzines independente da Zinco. A ONG surgiu para duas coisas: primeiro, dialogar de instituição para instituição e ampliar o raio de alcance de ações na área de protagonismo social e educação; segundo, a formação de uma «zineteca», uma biblioteca só de fanzines, de todos os tipos, de todos os tamanhos. Como foi a primeira oficina de produção de fanzines? Em o site da ONG consta que já foram mais de 40. F -- A primeira foi uma oficina de duas horas no evento Abril para Arte, na Uece, em 2000. O tempo estorou porque a gente só falou, teve gente que escreveu com caneta azul claro, o papel era colorido, não estava quente, daí não absorvia a tinta. Participaram 16 pessoas. Quando vocês perceberam a existência dessa rede de fanzineiros em Fortaleza? F -- Um dos sintomas são as cartas, a correspondência entre fanzineiros aqui é muito grande. Isso cria um laço. Eu percebo que em outros locais é raro pessoas trocarem cartas morando na mesma cidade, mas aqui é diferente. T -- Também percebemos por o nosso convívio com os projetos sociais, as oficinas do GAPA, do CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador). F -- E teve a série de oficinas no Teatro José de Alencar, no ano de 2001, com o tema «O Teatro e a cidade». Com elas, muita gente ficou grudada mesmo, até hoje aparecem pessoas que se encontraram nessas oficinas. A primeira foi ótima, aí resolvemos fazer a segunda, que foi ótima também, e assim foi o ano todo. Era uma oficina bancada por a Associação Amigos do Teatro, e o único pedido de eles era que se falasse também do teatro. Foi legal porque apareceu muita gente, que tinha muita coisa para falar. Quais as principais oficinas realizadas até agora? E quais os projetos futuros? F -- Foram muitas, houve a do GAPA, de prevenção da AIDS com meninos infratores em regime de semi-liberdade e outros de internato total, em Fortaleza e no interior. A gente planejou um modelo de oficinas que pudesse ser aplicado a todas as oficinas, mas que fosse flexível para que se respeitasse as especificidades de cada uma. As oficinas do Teatro, eu vejo como algo muito importante, logo depois dessa série começou o Zine-se. Houve uma oficina numa escola, a Canarinho Sapiens, com crianças da 5ª série. Como elas já estavam acostumadas com o método construtivista, foi um caos total, todas falavam ao mesmo tempo, nenhuma ficava quieta (risos). T -- Uma característica que a gente tem enfatizado agora são oficinas para pessoas que querem dar oficinas, oficinas de capacitação. Atrai pessoas envolvidas em projetos sociais, que trabalham com adolescentes em situação de riscos, outras ONGs, além de fanzineiros que fazem zines há muito tempo. F -- Em uma de elas, no último mês de dezembro, «O zine como ferramenta de ensino e aprendizagem», realizada na Semana de Linguagem da Uece, juntou gente da terapia ocupacional, professor de português, arte-educador que faz mamulengo, estudante de esperanto. T -- Esse viés da relação entre zine e educação é o que vai nortear nossas ações. F -- O seminário realizado no Dragão foi nosso maior feito em 2005, o espaço necessário para debater, trocar idéias. Temos duas metas para 2006: primeiro, implantar a zineteca. A gente precisa da ajuda do pessoal da área de biblioteconomia, para catalogação. Fanzine tem um problema, não tem lombada, uma pessoa faz vários títulos ou faz um titulo em formatos diferentes, alguns não tem endereço ou mesmo o nome do autor. A gente tem mais de 3 mil fanzines, os mais antigos são do final dos anos 80; segundo, realizar o Cabeças de Papel II, consolidando o fanzine como ferramenta de educação. T -- Fazer com que as pessoas entendam o que a gente está fazendo, dentro dessa perspectiva de ligar zine e educação. F -- É, porque o primeiro impulso das ONGs quando pensam em comunicação é fazer projetos complicados de jornais, quando na verdade fazer um zine é mais divertido, mais democrático, mais fácil e mais participativo. Como a ONG se insere nos debates sobre a democratização da comunicação? T -- Essa é outra prioridade para este ano. A gente entrou no Movimento Cearense por a Democratização da Comunicação (MCDC), ajudou a construir a semana que aconteceu em outubro do ano passado. É preciso articular melhor o fórum de ONGs de comunicação daqui de o Ceará. A gente percebe que a grande dificuldade dessas ONGs é a troca de experiências. Por que não juntar as ferramentas? Por que não fazer um projeto que envolva zines e rádios, já que existem ONGs que trabalham com rádios comunitários? Chamar as pessoas para projetos que agreguem os grupos que trabalhem com ferramentas específicas. Aquela história de «quanto mais pessoas, fortalece», é por aí. Como vocês pensam a relação entre o fanzine, uma publicação efêmera, independente, e a reflexão do patrimônio cultural e imaterial da cidade, um dos objetivos preconizados por a ONG? F -- É exatamente aí que mora a preciosidade da coisa. Porque é espontâneo, tanto no formato, como nos textos, nos recortes, é possível encontrar registros de uma época. São registros de tudo o que está acontecendo. E existem fanzines de grupos, ligados a projetos sociais. Por exemplo, ninguém nunca tinha dado voz aos meninos infratores que estão nos centros de detenções, sem censura, de deixar colocar no papel tudo o que eles quisessem. T -- Muitos desses movimentos perdem a graça quando se burocratizam. A Zinco quer caminhar entre a ordem e o caos. F -- Entre a hierarquia e a anarquia. Quando eu comecei a dar oficinas de fanzine, eu disse: «Olha, essa é a forma mais artificial de vocês entrarem em contato com os fanzines, porque fanzine ou é uma coisa de dentro do quarto ou é da rua, uma pessoa está passando e te dá». -- A gente quer que as pessoas continuem participando das coisas, sugerindo, continuem mandando cartas, distribuindo seus fanzines nos colégios para seus amigos. A gente está aqui é para viabilizar isso, para dialogar com outras pessoas, com outras instituições. Os encontros do Zine-se, por exemplo, ao contrário do que alguns pensam, não são da Zinco. Eles é que impulsionaram o surgimento da ONG. As pessoas sugerem por iniciativa própria, nos encontros ou na comunidade do Orkut, os locais das edições seguintes. F -- Há quatro anos, existem pessoas que só se encontram no Zine-se. Paralelo aos encontros, tem as cartas, isso dá uma unidade preciosa, porque é espontânea. Tudo isso que está acontecendo em Fortaleza, que é muito grande, sempre existiu independente da Zinco, e vai continuar existindo. Zinco: http://zinco.oktiva.net/ http://www.orkut.com/ Community. aspx? cmm = 1134064 http://www.fotolog.com/zzzinco Zine-se: http://www.orkut.com/ Community. aspx? cmm = 73880 MCDC: Número de frases: 90 http://www.mcdcom.blogspot.com/ Marcelo Birck está prestes a lançar seu segundo CD, depois de sua estréia solo com um dos melhores discos das próximas décadas -- apesar de ter sido lançado no começo desta que transcorre (2000). O novo CD, ainda sem título, está previsto para o segundo semestre desse ano (2007) e trará no repertório músicas inéditas -- algumas de elas sendo finalizadas diretamente no estúdio de gravação, em Porto Alegre -- e recriações de pérolas do disco anterior, além de algumas surpresas, no que o músico considera seu trabalho feito em melhores condições (o que é interessante, considerando sua extensa carreira, que conta com participações em bandas seminais, como Graforréia Xilarmônica e Aristóteles de Ananias Júnior, além d' Os Atonais). De essa vez, Birck grava com uma banda fixa -- o que deve trazer uma sonoridade diferente da de o primeiro disco, uma vez que aquele contava com edições sobre diversos takes e muito material gravado em condições adversas, coisa que não vai se repetir, por conta do investimento da Petrobras, que financia essa produção, através de seus programas culturais. A nova banda é composta por Alexandre Birck (bateria), Buno Alcalde (guitarra e voz) e Valdi Dalla Rosa (baixo). Além disso, o CD conta com as participações especiais de Adolfo Almeida Júnior (fagote), Rodrigo Siervo, (sax-tenor), músicos das bandas de apoio de Caetano Veloso (Ricardo Dias Gomes, baixo, e Marcelo Callado, Bateria) e Los Hermanos (Gabriel Bubu, guitarra), mais Gustavo Benjão (guitarra) -- sem contar as composições e parcerias com Leandro Blessmann (Atonais) e Demétrio Panarotto (Repolho). A seguir, uma entrevista feita por e-mail com o guitarrista, cantor e responsável por as edições e sons eletrônicos do CD, Marcelo Birck. Pergunta: O que está sendo feito? Que disco você está fazendo? Birck: Estou na correria para conciliar produção artística e executiva, mas o processo vem sendo de um aprendizado incrível. O repertório inclui músicas de 2000 para cá, incluindo algumas coisas que serão finalizadas durante o processo de gravação. Acho ótimo compor no estúdio, a sensação de achar soluções justo no momento do registro definitivo é muito estimulante. Gravar este CD está sendo como fazer um apanhado da minha vida no espaço entre o primeiro e o segundo disco, poder reviver as circunstâncias em que as músicas foram criadas. Acrescenta oportunidades extraordinárias de reflexão, num momento de tomadas de decisões importantíssimas. Talvez este seja um bom argumento para lançar um trabalho numa mídia cuja continuidade é uma incógnita. Em uma época de suportes cuja principal característica é a abertura e nos quais a noção de finalização se tornou bastante relativa, lançar uma obra numa mídia de menor grau de interatividade pode ser um exercício de equilíbrio de percepções (diferentes contextos, diferentes sensações). Seja como for, estou pensando em incluir faixas de dados, com trechos para remix. Em o site é certo que vai rolar, mas para o CD tem algumas questões técnicas a considerar. Pergunta: Depois do disco de 2000, para onde ir? Ainda é possível ir além? Birck: Acredito que sempre há para onde ir. Minha experiência de morar em diferentes cidades do Brasil me sugeriu outras perspectivas estéticas. A sonoridade do CD novo está mais arredondada em relação ao anterior, os timbres mais amadurecidos, e o fato de ter uma banda tocando em todas as faixas (muitas vezes interagindo com bases computadorizadas) foi um desafio que me obrigou a encontrar soluções muito específicas. Em a sua maioria, as musicas foram compostas no computador, e depois tive que achar um jeito de colocar o pessoal a tocar para valer. Faixas mais inusitadas convivem com outras mais pop, mas o diálogo entre os estilos é constante. Não posso deixar de dizer que o patrocínio recebido da Petrobras foi fundamental, talvez seja o trabalho em que eu tive as melhores condições para fazer o que eu queria. Pergunta: Não te incomoda estar à frente de seu tempo? Eu acho que «iconoclasta» é uma boa palavra para definir seu trabalho ... Birck: Não creio que eu esteja à frente do meu tempo, assim como também não acho que eu seja um iconoclasta. Observo o que está acontecendo e procuro fazer uma música que tenha a ver com isso. Em a verdade, sempre fiz a musica que eu gostaria de escutar, e esse é o critério de avaliação dos resultados. Registrar o trabalho é sempre um risco, e produzir um CD é um período muito propício para descobertas pessoais. Dúvidas sempre existem, se vai ficar como eu queria, como o CD vai ser recebido, mas é tudo administrável. Pergunta: Como definir o que você faz? Há uma continuidade entre o primeiro e esse? Birck: Creio que música de risco seja um bom começo (a primeira pessoa que ouvi usar o termo foi o maestro Antonio Carlos Borges Cunha, professor de composição da UFRGS). E com certeza há uma continuidade. A principal diferença é que o primeiro foi gravado numa situação bem mais complexa e fragmentada do que a atual. Em o CD novo a produção está mais dirigida, tudo gravado num mesmo estúdio, com os mesmos músicos. Em o primeiro, fiz questão de aproveitar ao máximo os recursos de edição de áudio, até porque muitas faixas originalmente eram demos, que precisaram ser retrabalhadas até adquirir cara de produto final. Era a única possibilidade que eu tinha de gravar, mas, seja como for, creio que eu teria escolhido este método de qualquer maneira. Pergunta: Em esse caso, levando em conta as edições e as bases eletrônicas, Como transpor o Cd para o palco? Birck: Muitas músicas precisam ser recriadas, e nessa recriação surgem coisas interessantíssimas. Tanto é que duas músicas do primeiro foram regravadas no segundo (" Tchap Tchura «e» Ié-Ié-Ié do Oiapoque ao Chuí "), agora em versões executadas ao vivo (as originais eram edições a partir de várias gravações). Pergunta: Mudando de assunto, e quanto ao público? Você acha que seu som exige algo do público? Birck: Algumas composições, devo admitir que sim. Mas outras são bastante pop (como, por exemplo, «Tricicloscópio» ou «Sei que Vou chorar», do primeiro disco). Em o disco novo, pelo menos 5 faixas são totalmente pop. Mas, nos shows, já percebi que o estranhamento é consideravelmente amenizado quando rola interação com outras mídias. Em função disso, estou elaborando filmes de animação em película super-8. Pergunta: Há previsão de shows por o Brasil, para divulgação desse novo trabalho? Birck: A possibilidade existe, estou fazendo contatos, mas no momento o foco de atenção é a produção do CD mesmo. Número de frases: 67 «Nós temos que assumir a nossa responsabilidade e fazer o nosso papel na luta contra AIDS na África, mesmo que um oceano nos separe». Foi com esse sentimento que o estudante de fisioterapia Cabenda Ricardo, de Angola, junto com mais 12 estudantes de diferentes paises africanos criaram no Rio de Janeiro, Brasil, o grupo Mãe África Ação Social. Atualmente são 10 mil estudantes africanos no Brasil, a maioria vem de paises de língua portuguesa como Angola e Cabo Verde à procura de oportunidades de trabalho e estudo. Cabenda Ricardo foi uma dessas pessoas que cruzou o Atlântico como refugiado para escapar da guerra civil em Angola e há nove anos vive no Brasil. Em 2004 fundou o grupo Mãe África que atua na prevenção de DST e AIDS para mobilizar os estudantes africanos a entrarem na luta contra a AIDS. «O nosso trabalho aborda desde a questão do preconceito contra o portador do HIV até como se proteger sexualmente. O que nós queremos é que essas pessoas, quando voltarem para os seus paises, estejam capacitadas para retransmitir o que aprenderam aqui», diz Cabenda. Alguns desses voluntários já estão retornando para casa, como é o caso de Rui Delgado, de Cabo Verde, que se formou em direito por a universidade " Santa Úrsula. «Estou muito ansioso para voltar ao meu País e poder dividir a experiência que eu tive aqui. Depois de seis anos no Brasil é hora de voltar e dar a minha contribuição, seja como advogado ou trabalhando na prevenção da Sida». Antes de fundarem o grupo, nenhum de eles tinha experiência no combate e prevenção a AIDS, todos vieram para estudar no Brasil. Mas a necessidade de um conhecimento mais profundo sobre o tema fez com que procurassem o apoio técnico e capacitação na ONG Cedaps (Centro de Promoção de Saúde), que incentiva ações de novos grupos desde 1993 quando foi fundada. Para a coordenadora técnica do Cedaps, a assistente social Ana Paula Batista, que trabalha com o grupo desde a sua criação, o trabalho realizado por o Mãe África Ação Social começa a colher os frutos de suas ações. «A parceria entre o Cedaps e os estudantes já começa a despertar a atenção de algumas ONGs e órgãos públicos que perceberam a importância desse tipo de ação no combate à AIDS nas comunidades africana». Recentemente, foram convidados para participar da comissão organizadora do seminário anual de prevenção de DST e AIDS do município do Rio de Janeiro, além de conseguir uma verba de cinco mil reais através da ONG Fase para se formalizarem como " ONG. «Nossas ações ainda não têm repercussão na grande mídia, mas aos poucos vamos atingindo os nossos objetivos que é informar e capacitar não apenas os estudantes africanos, mas também refugiados e qualquer pessoas que se interessar na luta contra a SIDA», diz Cabenda. É através dessas pequenas ações que eles começam a ganhar projeção internacional. Ana Paula foi convidada por a Fundação Eduardo dos Santos (Fesa) de Angola, para falar em Luanda da experiência brasileira na prevenção e assistência a pessoas com HIV e contou das ações realizadas por o " Mãe Africa. «O que eu reparei é que em Angola, assim como muito paises da África, se importa muita mão de obra para a área de saúde. O trabalho de Cabenda teria dificuldade de encontrar apoio por que falta estímulo para a população criar esse tipo de movimento», lamenta Ana Paula. Desafios Um dos grandes desafios que eles perceberam ao longo das ações foi a dificuldade de abordar o tema por causa do preconceito contra a pessoa com HIV. «Em Angola, por exemplo, as pessoas ainda têm muito discriminação contra os portadores de HIV e aqui no Brasil algumas têm receio de falar sobre o assunto com medo de serem mal vistas por a comunidade ou até mesmo perderem seus empregos», diz Cabenda Hoje, a equipe é formada por 12 estudantes de diferentes áreas como assistência social, sociologia, fisioterapia e odontologia. Uma das brasileiras do grupo, a estudante de jornalismo Fabiana de Oliveira, fala da importância do grupo na sua vida. «Tenho muita honra em fazer parte desse trabalho. Nós aprendemos muito com essa troca de experiências e trabalhando por algo maior que é a luta contra a AIDS». Em abril deste ano será realizado o segundo fórum chamado Encontro dos Filhos da África, Mama África -- minha mãe sem AIDS, onde acontecerão palestras e a capacitação de novos voluntários no combate e prevenção da SIDA. «É muito bonito ver que, não apenas os cidadãos de Angola, Cabo Verde, Senegal, Gana, Guiné-Bissau estão preocupados com o problema da AIDS no continente africano, mas perceber que vários brasileiros estão aderindo à nossa causa." Para o ano de 2007, Cabenda têm vários planos para o grupo e um sonho: visitar a sua família em Angola depois de nove anos sem vê-los. Com o grupo, ele pretende ampliar o trabalho de prevenção através de palestras em escolas e para conseguir realizar o sonho de visitar a sua família, Cabenda pode ser convidado por a ONG Fesa para falar em Luanda da sua experiência no Brasil. Perguntado sobre qual era a sensação de poder voltar para Angola depois de tanto anos sem ver a sua família, Cabenda ficou sério por alguns segundos, possivelmente pensando nas dificuldades e desafios que ele teve que enfrentar, para logo em seguida sorrir e dizer de forma simples e direta: «Muita felicidade e a certeza de que estamos fazendo a nossa parte para construir uma África «melhor». Número de frases: 34 Escolheu a palavra como defesa pessoal. Aprendeu a dar os primeiros golpes ainda na infância, usando seus guardados no ringue secreto do quarto. Criou a mais complexa arte das imobilizações metafóricas, inspirações herdadas por ascendência familiar, nomes consagrados. Nunca fazia demonstrações em publico, mas era conhecido em todos lugares por as habilidades quase sobre-humano de violência textual. Intocável, seguia com esmero de si palavreando risos, mas deixava sempre caneta afiada nas pontas dos dedos, arma nobre disposta a qualquer imprevisto poético ou até mesmo para o cotidiano. Derrubou a dor a pancadas paradoxais, matou friamente o medo da reprovação-poética com agressões metalingüísticas. Desafiou os mais temidos inimigos pessoais e ante-literários. Quando vieram as paixões escolheu os versos, quando a solidão, a prosa. Um dia, tentou fazer um pouco de silêncio e foi assassinado. Mais textos e poemas: Número de frases: 10 http://fernandopalma.blogspot.com/ Há um problema seríssimo nos cursos de humanas desse Brasil. E o pior, esse problema nunca é discutido. Vamos em congressos, e observamos todo tipo de baboseira. Em um de História, observamos temáticas como: «A construção do forte chupica no século XIX». Se vamos num de Sociologia: «A dinâmica socioeconômica da venda de canudos na praia de Boa Viagem». Se vamos num de Antropologia: «Tatuagens e pós-modernidades: o corpo resignificado». Se vamos num de filosofia: «A questão da angústia em Kant -- por a milésima vez». Porém, em nenhum momento, falam do crime que assola os cursos de humanas: Como Avaliar Os Alunos Com Uma Prova Subjetiva. O sujeito escreve sobre ética, e recebe uma nota do tipo: 5,78. Como é possível? Haverá isenção de espírito suficiente, para alcançar numa avalição subjetiva, uma frieza de cálculo como essa? Contudo, esta não é a principal questão. Quero falar aqui de um problema ainda mais grave. Não entendo por que os cursos de Mestrado e Doutorado da área de humanas não realizam provas mediante a serviço de empresas terceirizadas. Como pode, na atual conjuntura do país, uma prova de Mestrado, ser baseada em avaliação escrita e regime de banca? Por que diabos, não colocam uma empresa séria para realizar este empreendimento? Afinal, é dinheiro público, é um concurso PÚ-BLI-CO. Já vi inúmeras vezes, pessoas altamente competentes serem reprovadas em detrimento de alunos de extrema mediocridade acadêmica. Os professores não discutem isso. Preferem orientar trabalhos com a seguinte temática: «O sentimento puro em Dostoievski " ou mesmo «Vidraças quebradas, corações espelhados: a amizade entre garotos de sexo oposto durante o período da Ditadura Militar». Porém, questões epistemológicas e teóricas sérias, ou mesmo, questões sociais que precisam ser analisadas, são simplesmente deixadas de lado. Os concursos pra mestrado e doutorado viraram no Brasil uma grande piada. O pior, viraram uma grande loteria. O sujeito que não tem indicação, ou seja, que não conhece nenhum professor da banca ou, da universidade, deve se inscrever como quem marca números na loteria. Quando essa piada sem graça vai parar? Os processos nebulosos, principalmente das instituições do norte e nordeste, precisam ser «minados» de maneira agressiva. As pessoas deveriam ter acesso à quantidade de processos que essas instituições recebem. Conheci inúmeros injustiçados que colocaram universidades na justiça. Porém, por que diabos a mídia não aborda esse problema? Nebulosidade, apadrinhamento, pistolão, as temáticas de sempre. Por isso a economia vai mal. Por isso o desemprego cresce. Por isso cresce a corrupção. Há de se ter mais transparência nisso tudo. Ninguém aguenta mais. Ainda mais, esse nobre Ganso e suas belas penas brancas. Um feliz natal para os homens de bem. Número de frases: 47 Para os desonestos, que o Diabo contemple teu fim de ano com bençãos do inferno. Nihil amanheceu de cara amarrada, depois de uma noite inteira de desejos interrompidos. Queria afogar-se no sexo de sua mulher, numa cadência louca e idílica; mas só encontrou pauis e gravetos daninhos. Sua esposa margeava a idade balzaquiana; entretanto para o amor se comportava como uma matrona. Ergueu-se a contragosto «que a porra do chefe se dane!», pensou. Entretanto ocorreu-lhe que o homem de bem tem deveres e que precisa cumpri-los ainda que seu patrão seja um corno filho da mãe. Pegou sua toalha, num relance correu ao banheiro. A água caía docemente sob sua cabeça de cabelos quase encanecidos, lembrou de sua secretária bonita e fogosa; masturbou-se com a mesma probidade e ética de quem empunha uma bíblia e vai à missa no domingo. Sentiu-se leve e santo. Depois vestiu seu terno, sua calça e pôs sua gravata amarela com bolinhas vermelhas. Tomou meia xícara de café, beijou sua esposa idiota e apertou o queixo do filho, encarando-o suavemente como se naqueles olhinhos pueris a Sibila houvesse inoculado um adeus. Pegou a chave do carro e colocou-a no bolso. Em o caminho para o trabalho ia pensando na esposa do irmão; já ia sucumbindo quando se lembrou de sua moral na sociedade. Uff!! Em o trabalho despacha pedidos, assina recibos e se farta de tédio e chateação. Em o fim da tarde com a mesma retidão que é própria aos homens sem remorso; toma seu carro e segue ligeiro para uma casa de mulheres. Lá mata sua sede e desejos como um belo homem burguês. Depois segue para casa embebido de cerveja e cigarro. Os olhos trêmulos não vêem o sinal vermelho e seu corpo se comprime e despedaça nas ferragens de seu golzinho branco, preso à traseira de um caminhão. E talvez no murmúrio das vozes roucas que arquejam moribundas, tenha dito ainda: Número de frases: 25 «eu sou um homem de bem ...!" Outro dia estava andando por a rua, ou melhor, por a quadra, que já não existem ruas na minha vida faz tempo, e uns garotos jogavam bola numa escola parque qualquer. A bola caiu bem na minha frente e eu a devolvi. Em um ato de simpatia controverso, um dos garotos começou a gritar: «Obrigado, senhora», num tom mais zombeteiro do que agradecido. Eu sou professorinha de formação, fiz magistério, que comecei a cursar com 14 anos. Estou acostumada a ser chamada de tia desde muito cedo. O que aquele garoto pretendia era me deixar encabulada, porque parece que ele já se ligou que não há nada pior do que fazer uma mulher se sentir velha. A sensação foi ótima nos segundos em que constatei a intenção sinistra do futuro machistinha: percebi que, de cima dos meus 32 anos, estou absolutamente satisfeita em estar envelhecendo. Foi uma delícia perceber que eu podia ser mãe daquele pirralho, que seria mais educado se fosse meu filho. Gritei um «de nada», rindo. Não acredito que haja idade certa para se fazer o que quer que seja. Vamos supor que o tempo não é linear, que seja circular. Em um círculo não há começo. Quando entramos na roda, entramos em qualquer ponto, e isso não faz diferença no andamento do tempo, porque ninguém está se dirigindo para um fim, do mesmo jeito que se entra, se sai. Então o que para alguns acontece na adolescência, para outros pode acontecer na maturidade. E foi exatamente isso que eu li no novo de Gabriel Garcia Marquez. Em Memórias de Minhas Putas Tristes ele descreve o primeiro amor de um homem que surge em seu aniversário de 90 anos. Um primeiro amor como todos são, inseguro, apaixonado, angustiado. Um homem que achou que ia acordar morto no dia em que se tornasse um nonagenário e acabou renascendo num amor pueril, cheio de contradições. Nem me sinto capaz de dizer mais sobre esse livro que li em apenas um dia. Em esses tempos em que a velhice se torna uma possibilidade palpável, já que a expectativa de vida do brasileiro tem aumentado bastante, é um alento ver a maturidade registrada com tanto cuidado. Coincidência ou não, acabei investindo no tema esta semana. Peguei na locadora O Outro Lado da Rua, que traz também a Fernanda Montenegro como uma mulher frustrada, que foi traída e abandonada por seu primeiro marido e vive amargurada por isso. Ela trabalha como vonluntária para a polícia do Rio de Janeiro como uma espécie de dedo-duro profissional de supostos crimes que ocorram em Copacabana. Raul Cortez faz um juíz aposentado, que ajuda a abreviar a vida de sua esposa, que sofre de câncer. Esse suposto crime é o que aproxima esse novo casal e traça um outro horizonte na vida dos dois. Lindo e sensível. Pode não ser um filme estupendo, mas a impecável atuação do casal força um olhar diferente para a sexualidade na chamada terceira idade. É linda a cena de sexo entre os dois, que foi a mais falada por a crítica na época em que o filme saiu no cinema. Nem é nada demais, mas parece que o mundo realmente não está preparado par à vida após os trinta anos. Lembro de uma conversa que tive com uma nova amiga. Ela tinha medo de estar velha demais para realizar sua «missão». Eu disse, e repito, que o tempo é só uma convenção. Sempre é tempo para tudo. Tem que ser. Os manuais de auto-ajuda não entendem nada da vida, porque ela não serve para nada. A gente só deve buscar ser feliz. Número de frases: 39 Quer coisa mais difícil? Rita Queiroz é considerada, não por menos, a pioneira das artes plásticas em Porto Velho. Em aquela época, meados da década de 60, porém, pouco se falava de grandes obras de arte na região, mas havia personagens como o Pe. Ângelo Cerri, Afonso Legório, Canavarro e Fona, cada um no seu estilo. Nascida no distrito de Santa Catarina, no meio do seringal, entre São Carlos e Calama, no baixo Madeira, Rita descobriu na pintura um novo caminho a seguir. E seguiu. Mas somente aos 37 anos, quando viajou ao Rio de Janeiro e começou a ter aulas com a artista plástica Cléria Barbosa, onde no mesmo ano, em 78, foi lançada por o crítico de arte Clarival do Prado Valadares para representar as artes negras. Era o seu primeiro passo ... Hoje são mais de 30 anos de carreira. Sempre buscando levar a realidade, as belezas e os encantos da vida amazônica, Rita Queiroz retorna a Porto Velho, em 80, mas é convidada para participar da Sociedade Nacional de Belas Artes, em Portugal. «O mais engraçado foram os portugueses imaginando que a Amazônia fazia parte da África. Em a verdade, lembra Rita, era a primeira vez que a Amazônia era exposta por obras de artes, através de telas que retratavam, principalmente, os ribeirinhos». «Sua pintura alcança, às vezes, momentos de lirismo; são versos pintados. A ela interessa o corpo do barco, o corpo do tempo, o corpo da mulher, o corpo de tudo o mais, que saindo de sua paleta, toma corpo. Naturalismo em estado puro. Para a natureza, respeita-a, procurando o seu lado ecológico», era como analisava o crítico de arte Domingos de Azevedo, do jornal português O Tempo. Ainda na década de 80, com extensos trabalhos expostos também por o Brasil, ela volta para Porto Velho e abre um ateliê no seu próprio apartamento, no antigo Ed. Rio Madeira, onde conheceu outros artistas que já trabalhavam por essas bandas. Começava, então, o Primeiro Movimento Cultural -- projeto patrocinado por o Governo que reunia não só artistas plásticos, mas atores, cantores e expressionistas daquela época. «De a literatura ao teatro de rua», diz Rita ao lembrar daquelas tardes na Estrada de Ferro Madeira -- Mamoré, onde aconteciam os encontros. Zoghbi e o projeto Urucum Foi quando o desenhista, artista plástico e escultor João Zoghbi, em 83, após fazer arte para vender na rua, teve sua pintura exibida durante três anos na capa da Listel. «Até hoje lembro quais foram, respectivamente: a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o seringueiro e os índios», recorda Zoghbi, chargista há mais de quinze anos num jornal impresso local. Foi de ele a idealização do projeto Urucum, em 87, que também abriu portas para artistas imigrantes, vindos de Manaus, São Paulo, " Rio de Janeiro e Bolívia. «Em aquela época, havia várias dificuldades e a matéria-prima era uma de elas, principalmente a matéria-prima», diz Zoghbi que, assim como outros artistas, criava tintas através do açaí, jenipapo e carvão. Em 1990, o cenário das artes plásticas estava consolidado. De vários pontos do Brasil, vários cursos e professores chegavam a Porto Velho para artistas que buscavam mais conhecimento, ou até mesmo voltados para iniciantes. Queriam aprender novas técnicas. De o Maranhão, por exemplo, veio a escultura na argila e cimento armado. No entanto, segundo Rita, com a chegada do Salão de Artes Plásticas de Rondônia -- o SART -- a cidade ganhava ' uma espécie de escola artística, aquela que não existe até hoje ', diz a artista inconformada com a ausência de uma escola ou mesmo um curso universitário de artes. Indagada sobre qual seria o possível motivo deste impasse, Rita é direta: «É pura falta de conhecimento. Gente que não sabe e nunca sentiu o que é a arte, independente de qual seja». Pra comprovar que ela não está errada, há dois anos o SART não é realizado e sabe-se lá por qual motivo. «É lamentável assistir a essa cena porque nosso movimento sempre foi muito forte desde o começo, mas como qualquer projeto cultural é necessário apoio. Infelizmente isso não vem acontecendo», completa. Em o ano passado, Rita e Zoghbi participaram da exposição coletiva «Amazônia -- Universo em 4», que contou com os artistas plásticos Geraldo Cruz e Gilson Castro. Foram exibidos diferentes olhares sobre a cultura dos ribeirinhos, suas belezas e mistérios, como o'Boto ', ' Curupira ', ' Cobra que Mama ', e tantos outros personagens e histórias que enriquecem o folclore amazônico. Os dois estão com planos para 2007. Rita está desenvolvendo o projeto ' Minhas Andanças ', cuja finalidade é expor seus trabalhos as comunidades do Baixo Madeira, nos distritos de São Carlos, Nazaré e Santa Catarina, no seringal, além de oficinas para técnicas como mosaico, fusão em vidro, alumínio amassado e escultura. Zoghbi, por sua vez, deve lançar seu site www.artegaleria.net até o inicio de fevereiro. O objetivo é integração de novos artistas regionais, a exposição de seus trabalhos e a venda de suas obras. Número de frases: 43 Talvez eu esteja dizendo o obvio, mas não é o que meus ouvidos estão acostumados a ouvir. Tem muita campanha «Leia mais» e ainda não ouvi nenhuma «Escreva mais». Não existe e é lamentável que não exista porque faz com que a escrita seja propriedade de alguns poucos letrados. Escreva mais! Esta é a campanha nacional que eu proponho!, Mas não é só uma questão de ênfase dizer Escreva mais! no lugar de Leia mais. Não, a frase «Leia mais» me propõe a ser o pólo passivo da comunicação enquanto " Escreva mais!" convoca o meu polo ativo e responsável por que ela se dê com o menor ruído possível. Uma figura que pode servir de emblema para esta campanha, um grande exemplo a ser seguido, é a escrava Esperança Garcia: existe, para nós, até hoje, e até hoje é homenageada; graças a uma carta que conseguiu escrever em 1770. Apenas isto demonstra como é importante a escrita. Suponhamos que, entre as obrigações do professor estava ensinar, desde pequenininha, a criação a se expressar através da escrita seja em que nível for, estimulá-las de todas as formas as saírem escritoras da escola. E que esta importância à escrita continue sendo dada no ensino fundamental e durante toda a vida escolar. Garanto que teríamos gente muito melhor preparada. Quanto à leitura, não há melhor consumidor de livros do que o que escreve. Há um outro aspecto que precisa ser realçado. Escrever em si mesmo não é arte alguma, nem a escrita foi criada só para os artistas. E se somos consciêntes da preservação da memória não há melhor documento para um historiador do que um documento escrito. Então, escrever também na tentativa de ajudar os nossos, netos e bisnetos, historiadores do futuro, a compreenderem o presente. Escrevendo você aprende a ler muito melhor do que apenas lendo Alguns Spots da Campanha: Escreva Mais! Você É Uma Testemunha Viva do Tempo Presente E Pode, Escrevendo, Ajudar O Historiador do Futuro A Entender O Mundo Onde Hoje Vivemos. Campanha Institucional da Fnt ( PROCURAMOS Parceiros) Escreva Mais! Foi Uma Carta, Cheia De Erros E Mal Escrita, Que Pôs A Pobre Escrava Esperança Garcia Nos Anais De a História. Você É Letrado, Alfabetizado E Vive no que Chamam De Democracia E Nunca Escreveu A Um Governante Nem Para Reclamar, Nem Parta Elogiar. Será Que Não Tem Alguma Coisa Errada Com Você? Campanha Institucional da Fnt ( PROCURAMOS Parceiros) Escreva Mais! A Gente Só Aprende A Escrever Escrevendo, Não Adianta Ler Centenas De Livros. Escreva, Então, Todo Dia, Um Pouquinho Que Seja, Publique NA Net Ou Distribua Cópias Entre Seus Amigos Assim, Quando Realmente Precisar, Você Vai Saber Se Virar Campanha Institucional da Fnt ( PROCURAMOS Parceiros) Escreva Mais! Construir Um Brasil De Escritores, Porque Não? Campanha Institucional da Fnt ( PROCURAMOS Parceiros) Escreva Mais! Não Saber Escrever Não É Vergonha Nenhuma, Ninguém Nasce Sabendo! E, Pior, Você Só Aprende A Escrever, Escrevendo. Quando A Vergonha nos Inibe Devemos Reagir." Ridículo Sermos Pautados Por Ela! Campanha Institucional da Fnt ( Número de frases: 54 PROCURAMOS Parceiros -- Pai olha aqui!!! Agora vamos poder viajar também. (minha filha em 09/05/2005) Lá Vem O Trem do Pantanal ... O que poucos acreditavam aconteceu. O Presidente Luis Inácio Lula da Silva assinou a liberação de mais de 1 bilhão de reais para serem aplicados na revitalização de algumas ferrovias brasileiras e de entre elas, a nossa Antiga Noroeste. A solenidade ocorreu em Campinas-SP após sair de uma composição A Ferroviva está em festa. Duas grandes propostas defendidas por a entidade nos últimos 3 anos começam a sair do papel e podem se transformar em realidade mais rápido que pensávamos. A Prefeitura de Campo Grande convocou a sociedade organizada para estudar a utilização das áreas ferroviárias em Campo Grande, incluindo a Esplanada Central e os quase 30 km de trilhos que cortam a cidade; o governo do Estado baixou um Decreto e criou um grupo de trabalho composto de 6 Secretarias de Estado e incluiu a Ferroviva neste grupo, num enorme reconhecimento do nosso papel na questão Trem do Pantanal. Dois atos aparentemente isolados mas que tem a força da sociedade e que tem por trás a força da história de Mato Grosso do Sul. Agora, ou vai ou racha. Quero dizer que vejo que estão sendo criadas as condições para que a antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, reconhecida por todos como a grande alavanca e mola propulsora do nosso desenvolvimento, saia do caminho do descaso e da falta de preservação e entre na ante-sala da cultura e do turismo com orgulho pois ela é a responsável, em grande parte, por a alma de Mato Grosso do Sul. O sinal dado por a administração de Puccinelli e por a administração de Zeca do PT é claro e visível: reconhece a importância do assunto e convoca o staff governamental e a sociedade para ajudar a desenvolver as melhores idéias. A ONG Ferroviva cumpre seu papel quando ajuda o Estado a pensar na oportunidade de preservar gerando empregos e renda e mais do que isso, cumpre seu dever de entidade não-governamental de apoiar e ajudar nas iniciativas que tenham a marca da sua preocupação. É assim com a ferrovia Noroeste do Brasil. Patrimônio cultural e econômico que está largado de Mato Grosso do Sul e sucateado por a ação equivocada do governo federal em privatizar sem regras e sem fiscalização. Perdemos há mais de 10 anos a oportunidade de gerar mais empregos e renda e hoje temos que resgatar a auto-estima e os empregos que dependem da revitalização de mais de 15 estações urbanas e outras tantas rurais mas que não podemos perder de vista a questão do ferroviário e da mulher ferroviária que conhecem de perto os problemas. A nossa cidade e o nosso Estado ganham muito com essas duas decisões governamentais em poder reconstituir uma enorme lacuna deixada no passado por outros governantes mas que antes tarde do que nunca. As idéias começam a brotar de todos os lados e espero que toda a sociedade se manifeste: as universidades, as associações e sindicatos, as ONG's, os clubes de serviço, os historiadores, os profissionais do turismo e da cultura e as Prefeituras municipais. A adesão dever ser espontânea para que o sucesso seja garantido. As propostas devem ser corajosas, vestidas de imaginação e de estratégias. As idéias de revitalização, baseadas na nossa realidade e nos nossos usos e costumes, afinal estamos agindo no nosso mais importante patrimônio cultural edificado. De o lado da Ferroviva, a sociedade já conhece nossas posições e nossas propostas pois estamos defendendo-as há muito tempo. Nossa entidade quer se manter engajada no processo e entra nas duas Comissões, tanto a estadual quanto a de Campo Grande, para somar, trabalhar e contribuir com o melhor. Em 2005, 100 anos se completam do início das obras de construção da NOB em Bauru. Quem sabe podemos sonhar em comemorar o centenário da ferrovia, viajando no Trem do Pantanal ou passeando nas ruas ferroviárias de Campo Grande? Não custa nada sonhar quando o sonho está tão próximo da gente. Texto: Ângelo Arruda Arquiteto e Urbanista, professor da UFMS e Presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas -- FNA. Enquanto este velho trem atravessa o pantanal Só meu coração esta batendo desigual Ele agora sabe que o medo viaja também Sobre todos os trilhos da terra ( Paulo Simões e Geraldo Roca) Cadê o Trem???? Número de frases: 37 Reunir um grupo de pessoas pra discutir textos, aperfeiçoá-los e publicá-los com toda a liberdade. E por liberdade leia-se lançar obras sem preocupações com critérios extra-literários, como potencial de vendas, além de ter independência criativa. De essa idéia surgiu a Casa Verde, projeto envolvendo oito escritores gaúchos -- Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Flávio Ilha, Laís Chaffe, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding -- e que começou em junho de 2004. A democracia no grupo Se não é um projeto inédito (iniciativas desse tipo podem ser encontradas em outros lugares do Brasil), com certeza é bem sucedido, pois em menos de dois anos existência já lançou três livros: Fatais, Contos de bolso e Era uma vez em Porto Alegre, todos de 2005. E também interessante, por ter tantos componentes. Como tomar decisões? «Os oito escritores que hoje integram o grupo têm por hábito trocar textos e opiniões sobre eles. Reescrevemos muito, mas, na hora ' H ', se um autor quiser assumir o risco, pode inclusive publicar um conto que tenha desagradado a todos os demais colegas», conta a Laís Chaffe, idealizadora da Casa. Mas a discussão entre os membros é fundamental. Um bom exemplo é o fato dos projetos de antologias terem sido debatidos e aprovados por a maioria dos integrantes. A liberdade total também aparece quando o assunto são os textos, sendo cada um responsável por o seu, pois ninguém tem direito a veto. «No caso dos livros individuais, alguns previstos já pra 2006, essa independência vai ser ainda maior: cada autor tem a palavra final não apenas quanto ao texto, mas também quanto ao projeto gráfico, colaboradores, entre outros aspectos». Uma alternativa ao mercado Esse grau de liberdade é realmente difícil de ser alcançado em qualquer editora. E o grupo sabe que não adianta reclamar do mercado sem fazer nada. Por isso a opção de lançar os livros por um selo próprio. «As leis são cruéis, e por isso mesmo acredito que o Estado deveria garantir recursos pra que a cultura não ficasse a mercê dessas leis». A saída? «Cabe a nós trabalharmos pra abrir espaço, seja cobrando políticas públicas que ao menos minimizem os problemas, seja buscando alternativas pra não nos sujeitarmos ao mercado». Além desse compromisso com o lançamento de livros dos seus autores, a Casa Verde também participa de debates em escolas, como integrante do projeto Autor presente, do Instituto Estadual do Livro. O objetivo é compartilhar as experiências literárias com professores e alunos das redes pública e privada. «Pra nós, a troca com novos leitores é, mais do que um compromisso, um prazer. Se não for assim, é preferível que o escritor fique em casa. Aliás, não faltam exemplos de excelentes escritores que preferem o isolamento». Acertadamente. Mais publicações A movimentação da Casa Verde em 2006 vai ser intensa. Estão programados os lançamentos de algumas obras individuais. O Caco Belmonte vai ser o primeiro. Além de ele, entram na fila o Marcelo Spalding, o Flávio Ilha e a própria Laís, que também estão trabalhando nos seus livros, mas sem datas definidas para lançamento. E uma nova antologia de minicontos nos moldes do já lançado Contos de bolso, com a participação de vários autores convidados, está nos planos do grupo. Por o jeito não vão faltar atividades neste ano para os ' casa-verdianos '. Nem desafios. «O desafio maior é permanecermos atuantes, dando continuidade e aprimorando nosso trabalho», projeta a Laís, mostrando que a Casa está crescendo, com muito profissionalismo. Uma boa amostra do trabalho de eles pode ser vista no site. Lá dá pra comprar os livros do grupo e ler alguns contos dos escritores, entre outras coisas interessantes. Número de frases: 39 como se pode ver, o lado caseiro desta história aparece apenas no nome. Aventura, viagem, emoções ... Em o próximo dia 13 de julho, ocorrerá o lançamento do livro «Aventura no Caminho dos Tropeiros -- A cavalo, da Lagoa dos Patos a Sorocaba». A publicação, de autoria de Jakzam Kaiser, com fotos de Werner Zotz, faz parte da Coleção Expedições, da Editora Letras Brasileiras. Um dos diferenciais da coleção é que as aventuras realizadas podem ser repetidas por os leitores. O livro traz serviços com contatos, roteiros, indicações de hotéis e dicas. Mais do que uma obra de aventura, é uma narrativa literária que transcende o simples relato da viagem. Para escrever e fotografar, Jakzam e Werner realizaram cinco «saídas», cada uma de uma semana a 10 dias de duração, entre junho de 2005 e fevereiro deste ano. Cavalgaram na Lagoa do Peixe (entre a Lagoa dos Patos e o Atlântico) e nos Campos de Cima da Serra (São Francisco de Paula, Jaquirana e Cambará) no Rio Grande do Sul; na região da Coxilha Rica, em Lages, Santa Catarina; em Lapa, São Luís do Purunã e Tibagi, no Paraná, e em Itararé e Capão Bonito, Paulo. Ao todo, se fosse para fazer uma conta corrida, seriam 15 dias em cima do cavalo, numa distância de mais ou menos 300 km, o que representa 20 % do total do Caminho do Viamão. O livro ainda traz as emoções da viagem. As pessoas que eles encontraram por o caminho deram aulas de cultura, gastronomia, história, costumes e artesanato, o que enriquece ainda mais a obra. As imagens também falam por si. Em alguns locais, aonde se chega somente a cavalo, as fotos inéditas são um complemento perfeito para a narração. A Coleção Expedições não pára por aqui. Em esse modelo, já foram publicados dois livros: «Aventura no «Fim do Mundo e Aventura no Rio Amazonas». Após o lançamento da «Aventura nos Caminhos dos Tropeiros», mais viagens já estão agendadas. Descer o litoral brasileiro desde Fernando de Noronha até Florianópolis será a próxima aventura. Tudo, é claro, com a preocupação de que os leitores possam repeti-las depois. A editora Letras Brasileiras também inaugurou o novo site, confira: www.letrasbrasileiras.com.br Serviço Lançamento do Livro Aventura no Caminho dos Tropeiros -- A cavalo, da Lagoa dos Patos a Sorocaba Dia: 13 de julho de 2006 Horário: 19h às 21h Local: Livrarias Curitiba Megastore do Shopping Estação, em Curitiba Mais informações: Número de frases: 29 (41) 3330-5118 Certas histórias de vida impressionam por a forma obstinada com que as pessoas investem toda sua energia e tempo para realizar seus propósitos. Persistência, paciência e muita crença. Independente da rima, não é Raimundo, nem João, nem mudou o mundo, mas está fazendo sua parte, e muito bem feita por sinal. O nome de ele é Agostinho Bizinoto. Conversamos, ainda sob o calor da estréia do Festival Cinema na Floresta, na longínqua Alta Floresta que fica a 860 quilômetros de Cuiabá, mas nem por isso está fora de sintonia com a cena contemporânea. Chega de lero lero. Vamos ao papo com o Bizinoto. Agostinho, como você chegou em Alta Floresta? Eu tinha uma curiosidade muito grande de conhecer uma cidade que já estivesse dentro dos limites da Amazônia. Surgiu essa oportunidade porque eu tinha um amigo morando aqui naquela época e lá em Uberlândia, onde eu estava morando, venceu o contrato de um trabalho que eu fazia. Pensei: " Não vou nem renovar, vou passar um ano por lá ..." Tudo aqui estava começando. A cidade tinha dez, onze anos. Vim para cá com a intenção de ficar um ano e voltar. Cheguei aqui e o prefeito da época, foi o primeiro prefeito eleito de Alta Floresta em seu último ano de mandato, num papo que nós tivemos, falou: «Se você vier para cá, já vai chegar aqui e trabalhar». Vim e comecei a trabalhar na assessoria de comunicação, no início de 1988. A Elisa trabalhava numa agência de turismo em Uberlândia. Vocês já estavam juntos? Já estávamos juntos, ela falou: «Vamos!». Ela saiu dessa empresa para a gente passar um ano aqui e retornar, nós viemos e trabalhamos naquela administração em cargo de confiança já de cara, e a gente sabe que quando termina administração, você está fora. Então ia dar tudo certo porque eu trabalhava um ano e voltava. Quando terminou o mandato do prefeito, felizes por ter conhecido uma cidade da Amazônia, voltamos para a Uberlândia. O prefeito que ganhou a eleição seguinte ligou e falou: «O que vocês estão fazendo aí?». Disse para ele: «Viemos embora, mas nós vamos retornar para despedir dos amigos, ver mais algumas coisas, já estamos aqui em Uberlândia, organizando nossas coisas». Ele falou: «Não! Venha para cá, eu quero vocês aqui». De aí retornamos. E sempre assim, «vamos ficar mais um ano, mais um ano», só que, com isso, iniciamos um envolvimento muito grande com a comunidade, principalmente porque não tinha nada organizado na área artística cultural e muitas pessoas começaram a aparecer querendo alguma coisa. Ainda estava trabalhando no departamento de cultura na época, e com todo esse envolvimento começou a ficar difícil para a gente sair, até que deixamos de falar que íamos retornar. Construiu aqui uma história. Claro, claro. E aí as coisas começaram a caminhar e chegamos a ter, num curto espaço de tempo, catorze entidades artísticas culturais das mais variadas áreas. Fomos criando e trabalhando os núcleos: a associação dos cantores, os artistas plásticos, esse povo foi aparecendo e se organizando, formando novos núcleos, uns conhecendo os outros, e assim foi crescendo. Já existia na época um grande festival aqui, o FESCAF, Festival da Canção, ele foi revitalizado, reorganizado, reestruturado e com isso o trabalho foi se ampliando e ficando cada vez mais difícil sair daqui. Em Uberlândia, vocês já eram envolvidos com a atividade cultural? Fazia quase vinte anos que eu trabalhava na área cultural. Os contratos que eu tinha por lá eram ligados à movimentação cultural, ou através do poder público ou alguma empresa da área artística cultural. Quando cheguei aqui, claro, não dava pra ficar distante disso. E o interessante é que hoje nós temos aí várias pessoas que já são professores, adultos, formados, muitos de eles continuam no movimento e que começaram criancinha, com cinco anos, seis anos, sete anos, oito anos. Hoje são formados e estão atuando aí na cidade como professores e em outras áreas também. Isso fortaleceu o movimento porque as pessoas foram assumindo um maior comprometimento para com a comunidade. Como surgiu o Teatro Experimental? Foi logo no início. Já no meio do ano seguinte foi criada a instituição do Teatro Experimental, inclusive registrado em cartório e logo reconhecido como de utilidade pública para o município e um ano depois como de utilidade pública para o estado de Mato Grosso. O Teatro Experimental foi a primeira entidade artística cultural devidamente organizada, instituída de forma legal aqui em Alta Floresta. Fala-se muito hoje na possibilidade de uma militância mais aguerrida, mais guerrilheira, autônoma, e que muitas vezes confronta com as condições do Estado. Como é que você analisa essa relação mais legalizada e institucionalizada? Acha que é possível essa aproximação? Nós aqui em Alta Floresta não temos tido grandes confrontos, mas também não arredamos o pé daquilo que nós acreditamos. Já tivemos momentos de conversar de uma forma mais séria, mais rigorosa, de falar: «Nós não concordamos com isso. Para nós, não é o caminho». Uma coisa que nós nos preocupamos desde o início é com a participação nossa na elaboração da legislação pública, nós entramos, participamos, discutimos, mostramos caminhos possíveis. Acho que agora, com a nossa participação na elaboração de leis que contemplam a cultura, conquistamos espaços da forma mais abrangente possível. A sociedade ganhou muito com isso. Outra coisa que nós também fomos participar, foi da elaboração do plano diretor, nós estávamos presentes e participando das audiências públicas e de tudo mais. Hoje, nós temos uma vantagem de ter uma vereadora aqui do meio cultural, não é? Ela fez os devidos encaminhamentos, sobre o patrimônio histórico cultural, e hoje nós temos uma lei bastante completa nessa área do patrimônio cultural. O Conselho Municipal de Cultura foi criado em 1990, e junto com ele criamos a lei municipal de apoio e incentivo à cultura que, nesse momento, está sendo repensada, pois os anos passaram, muitas coisas mudaram, tem que adaptar. Nós acreditamos que é importante, não para nós, mas para a comunidade, para o nosso município, para as gerações que virão. Eu acho que há essa falha em muito lugares. O artista, o produtor cultural não participa e quer que seja como ele quer, como que acontece isso? Não tem como! Então ele tem que estar lá dentro, tem que ir lá, se tem alguma coisa que diz respeito à nossa secretaria, nós temos que estar lá, porque senão essa ausência gera uma indiferença do poder público. Se você estiver presente dá para lutar. Nós defendemos essa participação desde que chegamos aqui, nós achamos que as pessoas que reclamam muito de apoio, geralmente, são as pessoas que menos fazem, falam «eu não faço porque não tenho apoio», em vez de ficar falando isso, vai fazer! Alta Floresta, nesse sentido, vem se destacando no interior de Mato Grosso, a gente percebe isso no nível de organização, nos trabalhos que realizam para desenvolver o segmento cultural, eu pelo menos sinto esse impacto lá na capital. Como é que você avalia hoje essa relação do centro, que a capital apenas representa, como é que se posiciona os movimentos do interior em relação à capital, fazendo uma avaliação mais geral? Outra coisa que nós pensamos um pouco diferente de alguns outros municípios, nós achamos que a capital tem uma dinâmica própria, tem várias funções que não diz respeito à uma cidade que não seja a capital. Tem uma série de coisas que gera uma dinâmica própria, típica. Agora o interior ... hoje não tem mais lugar pra você fazer as coisas, o cara pode está lá no meio do mato na sua casinha vivendo a sua vida, se ele for um artista ele comunica com o mundo inteiro, e essa discussão de interior e capital vem de muito tempo, eu acho que nós temos os temas pra se discutir, nós temos temas comuns, vamos discutir sobre cultura e comunidade, quem vai estar discutindo não quer dizer que tenha que ser do interior ou da capital, nós temos que discutir temas que nos interessa, e já várias polêmicas surgiram na capital por causa disso. Penso que nós temos que ter uma integração dos fazedores de arte, de cultura, dos pensadores de forma mais aberta, de forma mundial. Hoje existe uma maior possibilidade dessa integração, dessa ação, dessa vontade de fazer, dessa vontade de fraternizar a cultura, a cultura ter ternura, ter braços, ter entendimento, ter olhares, conjunto, ter um horizonte coletivo. Então, pra quê criar divisão? Tantas coisas que acontecem na vida da gente que já retalha a gente, nós vamos criar mais um muro, mais divisão, mais fronteira? Eu acho que não! O teatro de vocês, aqui na Amazônia, vocês construíram isso aqui? O Teatro Experimental é auto-sustentável? Tudo mesmo, não tinha nada! Então não tinha nem as pessoas minimamente preparadas ou interessadas, isso foi acontecendo. Primeiro teve uma espécie de iniciação, de formação de pessoas na área, na categoria. Depois, o Teatro Experimental, com o crescimento das pessoas começou a se organizar em outros instâncias, «agora precisamos brigar por o espaço e tudo mais». Desde 1992 brigando por um centro cultural que agora está sendo levantado. São quinze anos sem tirar isso da cabeça, sempre correndo atrás, pra discutir isso, pra conversar sobre isso, pra cutucar nisso. Agora, estamos vendo aí que é pra valer. Não tem nem como derrubar aquilo lá. São etapas, são estágios que o teatro está conquistando, foi conseguindo ao longo desses anos. Foi entendendo a importância disso e daquilo, priorizando certas ações para chegar naquilo que nós queremos. Hoje, o Teatro Experimental não se auto-sustenta da forma que a gente gostaria. Como entidade nós podemos até dizer que hoje ele se resolve, hoje tem seu transporte, tem seu espaço, é administrado por a Associação de Teatro e por a Coordenação de Cultura. Sempre viabilizou projetos que deram sustentação em alguns momentos importantes. Participamos da Cena Brasil, ganhamos prêmios. Uma coisa interessante também é que, o Teatro Experimental já entrou no teatro de dramaturgia. Nós temos vários espetáculos aqui em Alta Floresta que são feitos aqui mesmo, escritos do nosso jeito, com o jeito das pessoas, com os nossos problemas, com os nossos questionamentos. Nós já temos aí uns sete ou oito espetáculos que foram totalmente discutidos e escritos por pessoas daqui, tratando de coisas daqui. O centro cultural, como é que está? O que vai compor o centro cultural? Esse centro cultural ... Como vocês conseguiram? Eu vi lá e é enorme! (risos) Como eu disse, nós começamos em 1992 essa batalha ... Quem está bancando a obra? Olha, isso aí foi uma emenda parlamentar. Só que nós precisamos arrumar um recurso federal, que o que temos não vai ser suficiente, nós sabemos disso, mas já criamos uma comissão de acompanhamento e também pra entrar nessa parte de captar recurso. Vai ser um espaço multiuso que podemos utilizar como cinema, como artes cênicas em geral, dança, música, pequenos shows, tem salas de administração, salas para palestras, salas para oficinas, além da sala de espetáculo. Estão criando um cineclube? Nós vamos criar agora uma comissão que vai cuidar da implantação efetiva do cineclube. Já faz uns três ou quatro anos que nós viemos discutindo, conversando, e agora chegou o momento que eu considero como o ideal. Já tem uma turma da UNEMAT (Universidade Esatdual de Mato Grosso) que está trabalhando nessa área e muitas outras pessoas da comunidade. Agora nós vamos implantar definitivamente o cineclube que vai se chamar Cineclube Floresta. Nós já temos um espaço da UNEMAT que foi oferecido, se necessário for, para trabalharmos lá, além do próprio espaço do teatro que, encaixando horários ali, podemos também utilizar para projeções, discussões, debates, entrosamento do pessoal. Nós queremos, a partir de agora, incluir Alta Floresta no audiovisual do planeta, hoje já podemos falar em planeta porque as coisas são muito rápidas. E o «Cinema na Floresta», esse festival que foi muito bom, bem realizado, bem organizado, e com excepcional participação da comunidade. Como surgiu a idéia de realizá-lo, foi a partir dessa necessidade de fomentar o audiovisual? Sim, ele veio inicialmente pra consolidar essa vontade de participar do audiovisual, incluir o audiovisual pra valer. Só que a coisa saiu melhor do que se pensava, o pessoal todo falando «esse festival tem que ficar, tem que repetir todos os anos». Tem até empresários colocando isso, a câmara setorial do desenvolvimento regional, estão juntos, vieram conversar com a gente dizendo, «isso aí é uma coisa que a gente acredita, não só em aspecto de diversão, de lazer e tudo mais, mas como investimento». Com a realização desse festival de cinema, nós percebemos um aspecto importante, que ele pode atrair também mais desenvolvimento para nossa região. Não vai ser mais uma pequena mostra que nós iremos fazer, não vai ser mais apenas um festival que a gente queria fazer e deixar solto. Nós vamos agora fazer essa criança crescer, se Deus quiser, porque o apoio da comunidade está sendo grande; da nossa imprensa; dos artistas; do pessoal do teatro, principalmente, que esteve muito empenhado; da nossa editora EGM; do empresariado; do poder público, via prefeitura e câmara de vereadores. Todos dizendo: «Vamos lá, acreditamos que vai ter mais, que vai continuar!" Então, nós vamos continuar sim. E a editora EGM, qual a atuação de ela? A editora EGM surgiu em 96 com a revista «Região». Depois entramos também em outras áreas de editoração e uma das coisas que, de uns anos para cá, se trabalhou bastante, foi editar e divulgar os nossos autores, os nossos escritores. Fizemos vários concursos de poesia. Já publicamos vinte e dois livros de autores locais que é uma função da EGM, que a gente acha muito importante. A partir dessas publicações nós estimulamos uma quantidade enorme de pessoas que está escrevendo. A prefeitura faz concurso literário anual em todas as escolas do município, somos parceiros e isso tem sido um ponto forte de atuação na área da cultura da editora EGM. O interessante também é que dentro da editora EGM só trabalha pessoal que é envolvido com a cultura. Todos os nossos parceiros estão no teatro, estão participando da música, um participa de uma coisa, outro de outra. Parece que não tem como sair disso porque a gente está sempre junto e envolvido. Você já virou cidadão de Alta Floresta, então? Eu acho que ... Não dá mais pra sair daqui ... Mesmo porque a minha mulher, Elisa, que é atriz, diretora de teatro, professora de literatura, ela também está na função de vereadora. Então se for reeleita, mais quatro anos.. Em o começo era um ano, agora são quatro.. (risos) Então eu acho que não dá muito para a gente pensar nessa coisa, ficar por aqui, e acho que está bom. Hoje, como todos nós sabemos, não existe essa grande preocupação com a distância, hoje em qualquer lugar que se estiver, entra-se em sintonia com o mundo. É questão de querer, porque está tudo aí à disposição. Número de frases: 153 O programa Evolução Hip-Hop deste sábado 05/07, fará um resumo do que aconteceu na III Mostra Nacional Saúde e Prevenção nas Escolas, realizada nos dias 24 e 25 de junho 2008, na cidade de Florianópolis / SC. Terá como destaque a música Rap da Prevenção (ganhadora do concurso de Rap Prevenção de DST / AIDS nas escolas, promovido por a professora Ritamar de Paula, da coordenação de SPE da capital de Goiás). Será recheado com uma enquete gravada por os comunicadores jovens da Agencia Jovem de Notícias, que fizeram toda a cobertura do evento para o site da Revista Viração. Vale lembrar ainda, que os ouvintes serão presenteados com um livro «A Sociedade do Código de Barras -- O Mundo dos Mesmos» do Rapper Preto Ghóez, e com um CD do Rapper Dudu do «Morro Agudo Rolo Compressor». Não Percam!!! Com produção da Comunicação, Militância e Atitude -- CMA HIPHOP e co-produ ção da Rádio Educadora FM 107, 5, o Evolução Hip-Hop tem caráter educativo, informativo e de entretenimento, com 100 % Rap Nacional priorizando a produção do eixo norte-nordeste. O programa Evolução Hip-Hop vai ao «AR» todo sábado às 17h, você pode ouvir ao vivo sintonizando 107,5 em 45 municípios da Bahia, ou por o site www.educadora.ba.gov.br Ligue (71) 3116-7409 só durante a programação! Indique uma música pra tocar nas edições seguintes, deixe um alô pra sua comunidade! Se tu é artista mande seu som para a gente! Acesse a comunidade Programa Evolução HipHop no Orkut: http://www.orkut.com/ Community. aspx? cmm = 41843878 É com arrente mermo!!! Mais informações: Tel: (71) 91510631 / Dj Branco Número de frases: 17 Fliporto -- http://www.fliporto.net/ Volto de salvador com minha visão totalmente distorcida da cidade, que apesar de linda, com seu prédios históricos, ladeiras, ruas e avenidas sem orientação alguma estranho, é tão louco, que acaba sendo bonito -- Salvador é meio hostil. Confesso que é uma cidade mística, não tem como não sentir a energia do lugar, orixás e exus que regem tudo de bom e de ruim na cidade; ecravos, sinhazinhas, senhores, que por ali viveram e fizeram a era colonial; artistas, militantes políticos, que lutaram contra a ditadura militar. Enfim é de emocionar, olhar para uma das construções históricas -- que são muitas -- de salvador e saber que por ali passaram inúmeros personagens da história do país. O que não dá é atribuir ao baiano algo que ele não é. Por exemplo, o chamam de preguiçoso, mas vá viver numa cidade que numa caminhadazinha você sobe no mínimo duas ladeiras completamente íngremes. Não é que o baiano seja relaxado, é que depois de subir e descer tanta ladeira, a única coisa que vem em mente é uma rede para descansar o corpo exausto; outra: o baiano não é tão caloroso quanto diz a Globo e os próprios. A o pedir algumas informações por a cidade, algumas pessoas me respondiam friamente, outras nem sequer respondiam, acho que putos com a ivasão de turistas fascinados com algo que eles não vêm mais graça. Se queres sair por a cidade e gastar R$ 10, leve pelo menos mais dez para distribuir entre os mendigos que ficam de esquina a esquina. E o pior, são mendigos luxuosos, mal acostumados com gringos generosos, não aceitam «gorgetas» modestas. Posso estar sendo equivocado, já que não vivi o bastante este 5 dias na terra de todos os santos -- A chuva dos exus quase não me deixou sair -- mas estou certo de que não trocamos nossa cidade natal por qualquer outra. Viver Aracaju é: ruas e avenidas regidas por a razão geométrica poucas opções de lazer, que não nos deixam na dúvida, praias de água barrenta, que por não se enquadrar no padrão de beleza se tornam original, um rio Sergipe que apesar de todos o coleiformes fecais ainda é lindo, duas únicas universidades, que custam a ensinar. um aracajuano que, por mais que seja desconfiado, é uma pessoa maravilhosa, que ama sua cidade sem saber. A beleza de ela está justamente em ser pacata e ao mesmo tempo ser sede de idéias grandiosas Saudações a Bonfim, Romero, Barreto, e a todos seu contemporâneos, Francisco Dantas, Henrique teles, Antônio da Cruz, Fábio Sampaio. Número de frases: 22 Enfim, a todos que fazem de Aracaju, a nossa menina. Começa no dia 12, por Munique, na Alemanha, uma viagem do cinema brasileiro por a Europa: o Festival Brasil Plural 9. Vamos passar por três países: Alemanha, Áustria e Suíça. Treze cidades vão receber a visita do Brasil Plural, em mais de quatro meses da maior mostra itinerante do audiovisual brasileiro por o Velho Continente. Em a bagagem: 15 curtas-metragens, cinco longas, cinco vídeos do Projeto «Revelando os Brasis», debate sobre audiovisual e movimento social no Brasil + Plural, apresentando a» Escola de Audiovisual Nós do Cinema do Rio de Janeiro», e o Brasil Plural Musik, com dvds musicais de Fernanda Porto e Marisa Monte. Toda a programação pode ser conferida no site: www.brasilplural.org Há nove anos na estrada, o Brasil Plural já abriu espaços importantes para o audiovisual brasileiro. Tem um público cativo e mostra, através do cinema, um Brasil diverso, fugindo dos estereótipos. Os 15 curtas que estão na programação de 2006, por exemplo, vêm de vários Estados brasileiros. A mostra da curtas é, digamos, o carro-chefe da mostra e já abriu inúmeros espaços lá fora. A inclusão dos filmes brasileiros na programação dos cineclubes alemães, em circuito aberto e com retorno de bilheteria para os diretores, em 2004 e 2005, foi uma grande conquista. Em 2006 a parceria deve continuar com a programação de curtas do Brasil Plural 9. A organização é da Associação Cultural Polemika Brasil / Alemanha (www.polemika.org), em parceria com entidades nos países que recebem o festival. O patrocínio é da Petrobras e Lei de Incentivo à Cultura (Ancine). Quem estiver viajando no mesmo período, pode aproveitar. Quem tiver amigos por lá, por favor, indique! E atenção curta-metragistas: logo abrem as inscrições para o próximo Brasil Plural. A viagem não pára! Número de frases: 21 É estranho voltar a este texto um ano depois. Ele foi escrito no domingo anterior ao início do carnaval de 2006. Tudo era diferente. O meu sentimento por o Rio estava em alta, tudo o que importava era a minha vida carioca dar certo com a minha mulher e seu filho ao meu lado. O texto a seguir encerra estas impressões, todas sobre minha experiência com o carnaval no ano passado. De lá para cá, pintou um emprego melhor em São Paulo, fui apoiado para vir e vencer, mas, por algum motivo, minha mulher, maior apoiadora da minha vida e da minha subida profissional, desistiu de nossos planos de felicidade em favor de coisas fugazes. E eu não desisti. Este texto é um reflexo de coisas em que ainda acredito fortemente. Acredito que ela voltará a acreditar também. E, neste dia de carnaval em que estávamos juntos, Gabriela, só posso dedicá-lo para você, para que você se lembre de coisas que vivemos, de como somos (ainda somos) e de como as coisas que você me apresentou, como esta festa popular, fazem de você a pessoa mais importante para mim. Em este carnaval, em que você desfila com outro, sim, eu sei que ainda te amo. E, para vocês, outros leitores, ficam as impressões do primeiro carnaval carioca de um paulista ainda apaixonado -- impressões que resolvi deixar intocadas. Vale a curiosidade: este deveria ter sido o texto de encerramento da primeira fase do Overmundo, ainda apenas um blog em testes, mas a entrada no ar da versão oficial atropelou tudo e me permitiu escrever isto tudo. O Rio de Janeiro, neste domingo, encerra a sua intensa programação de carnaval. E, quer saber? Foi uma das festas de proporções muito maiores do que dos anos anteriores, e vários dados comprovam isto. O governo estima, por exemplo, que o número de blocos populares desfilando por quase um mês na cidade praticamente dobrou neste ano. Em estes blocos, a participação efetiva dos foliões também teve um belo acréscimo, causando ao trânsito um transtorno atípico até mesmo para esta época. Os hotéis também não reclamam: os turistas, segundo eles, esticaram suas estadias no Rio em pelo menos três dias, em média. Nada estranho, se considerarmos a concentração de dois megaeventos na cidade num espaço de tempo muito curto (ou seja, o show dos Stones e o próprio Carnaval). Não participar de alguma coisa no meio deste caldeirão seria um crime. E crime eu não cometo. Resolvi, pois, acompanhar um bloco só pra ver qual era. Acabei parando, no domingo antes do carná, bem no meio do Sovaco do Cristo. O Sovaco é um dos blocos mais populares da cidade e desfila na Zona Sul. Porém, ele demonstra bem a mistura que rola na cidade durante os dias de folia. Quem vem em ele geralmente chega desde o Botafogo até a Rocinha, incluindo todos os bairros próximos. A avenida Jardim Botânico é interditada e a festa começa ao meio-dia. Mas o trabalho começa pelo menos três horas antes, com a chegada de carros de som que, aqui e ali, vão lançando os sons que vão agitar a massa. Que, aliás, é prova do crescimento fermentado do carnaval popular carioca: de dez mil pessoas no ano passado, a participação quintuplicou. Isso mesmo: cinqüenta mil pessoas fazendo a festa. Pra você que nunca veio ao Rio nesta época, como era o meu caso, deve entender que os blocos são um pouco como escolas de samba: possuem alas, bateria, puxadores de samba (e, claro, um samba-enredo), bandeiras, fantasias e alegorias. É algo muito sério para quem participa nos meses que antecipam a saída do bloco, mas que se torna alegria pura quando este toma as ruas. Apesar da pacificidade e da alegria, no entanto, o volume de gente às vezes assusta. Teve uma hora que eu nem conseguia entender mais de onde vinha tanta gente -- pois, confesso, eu achava que blocos eram coisas muito mais modestas do que são na realidade. E esta massa fez com que a grande maioria dos estabelecimentos comerciais da avenida (e, depois, também os do Baixo Gávea, lugar em que se encerra o desfile e o povo se concentra) cerrasse as portas, esperando a turba passar. Incidentes? Nada mesmo sério. Soube de uma ou outra briga, mas é aquela coisa que acontece até em baile num salão de interior. De resto, ninguém queria saber de outra coisa. Era brincar, beber e comemorar um belo domingo. O que fez a festa dos inúmeros vendedores ambulantes no local. Além dos tradicionais vendedores de bebidas, tinha gente comercializando também serpentina de espuma, doces, empadas (outra mania carioca) e até o bizarro mel colorido de metro. Quem come mel flavorizado num domingo de carnaval a quase quarenta graus, não faço idéia. Mas que o ambulante estava com uma cara bem feliz, isto estava. Muita gente fica nos prédios vizinhos, vendo de camarote. Mas o incrível é observar o número de pessoas que ficam alheias à festa e ficam na avenida tentando levar um domingo como se fosse rotineiro. Percebi, ao andar, inclusive muito marmanjo reclamando de uma suposta pouca vergonha. Muitos dos quais, em verdade, paravam de chiar sempre que passava uma moçoila de belos dotes e roupa parca. Mas o destaque destes foi mesmo uma senhora, beata, de óculos grossos, saia escura e camisa de botões fechados até em cima, distribuindo alguns panfletos. Em eles se podia ler a mensagem profunda: «O que você conhece de Cristo? O sovaco?». A mensagem da Igreja Metodista, que fica na avenida, procurava encorajar alguns daqueles que festejavam a procurar um rumo diverso à pândega imperante no desfile do bloco. Mas o Sovaco de Cristo (nome dado devido ao fato de que, visto da avenida, a estátua do Corcovado não revela mesmo mais que a parte inferior do seu braço direito aos passantes) seguiu alheio a isso, aos temerosos comerciantes, ao homem do mel, aos ranzinzas e a mim. Fez a festa das pessoas e certamente deu muito trabalho aos garis nas horas seguintes ao fim de tudo. Foi assim também, como soube, em todos os grandes blocos da cidade: um carnaval de rua magnífico, cada vez mais grandioso e popular, cada vez mais distante da gringofest que se tornou a jornada carnavalesca da Marquês de Sapucaí. Lavou a alma de muita gente, que esqueceu por algum tempo a guerra do tráfico, as confusões do Pan 2007, a controvérsia dos governantes locais, as fortes chuvas e as gigóias nas praias. E, neste sentido, à sombra do Cristo, tive que engolir meu paulistismo e admitir: Número de frases: 65 o carná carioca é, até por necessidade, redentor. O congo é a tradição cultural mais presente no Espírito Santo. Típico das regiões litorâneas, o congo ocorre principalmente em comemorações religiosas, como as festas de São Benedito, São Pedro, São Sebastião e a Festa da Penha. Era a forma que os escravos encontraram para homenagear seus santos de devoção, já que eles não podiam participar das festas oficiais da igreja. As bandas utilizam instrumentos de percussão feitos, em geral, por os próprios músicos com materiais acessíveis a eles, como barricas, pau oco, taquara, peles de animais e folhas-de-flandres. Os instrumentos utilizados são os tambores, as caixas, a casaca e a cuíca. A casaca (uma espécie de reco-reco) do congo capixaba tem uma característica única que é o detalhe da cabeça talhada em madeira no alto do instrumento. Como os tambores em geral são pesados (originalmente eram feitos de tronco de árvore oco, ou pau oco), os tocadores de tambor sentam-se sobre eles, modificando, assim, sua sonoridade. O mestre do grupo de congo de Roda D' água utiliza, ainda, uma espécie megafone primitivo, feito de folhas-de-flandres, para amplificar sua voz e marcar o ritmo das canções. De origem popular (registro antigos apontam o surgimento do congo para cerca de 200 anos), as músicas do congo mostram nas letras das cantigas tradicionais várias referências da formação do povo brasileiro, como a escravidão, a religiosidade, o cotidiano e a ligação com o mar como fonte de vida e caminho para nova vida. A Banda Panela de Barro, cuja performance vemos no vídeo que está aqui, foi fundada em 1938, com o nome de Banda de Congo de Goiabeiras. Em a década de 1980, ela passou a ser coordenada por Arnaldo Gomes Ribeiro, proprietário da fábrica de panelas de barro em Goiabeiras. De aí veio o nome Banda de Congo Panela de Barro. Em 2001, a banda foi revitalizada por a historiadora Jamilda Alves Rodrigues Bento, nascida em Goiabeiras e filha de paneleiras. Desde então, os 42 componentes já fizeram mais de cem apresentações em todo o Estado. Número de frases: 15 O Icumam (Instituto de Cultura e Meio Ambiente) recebe inscrições para a 6ª Goiânia Mostra Curtas até o dia 21 de agosto. O maior festival de cinema e vídeo de curta duração do Brasil Central se realiza entre 10 e 15 de outubro de 2006, no Teatro Goiânia, em Goiânia / GO. A 6ª Goiânia Mostra Curtas conta com o patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet, apoio do Fundo Nacional de Cultura, e se mantém aberta à captação de recursos. Cineastas e videomakers de todo o Brasil poderão inscrever produções de até 30 minutos, realizadas ou finalizadas em 35 mm, 16 mm e vídeo. Conforme o regulamento do festival, os curtas deverão ter sido produzidos a partir de 2005 e não poderão ter participado de edições anteriores da Goiânia Mostra Curtas. A ficha de inscrição estará disponível no site www.goianiamostracurtas.com.br. O regulamento informa também que a lista de curtas selecionados será divulgada até 04 de setembro de 2006. A Goiânia Mostra Curtas concede prêmios de incentivo à produção ao melhor curta-metragem da Curta Mostra Brasil, Curta Mostra Municípios e Curta Mostra Goiás. Os melhores diretores nessas três categorias levam o Troféu Icumam, que também é oferecido ao melhor filme da Curta Mostra Cinema nos Bairros e 5ª Mostrinha, voltada para o público infantil. Os produtos e serviços destinados aos vencedores do festival são doações feitas por empresas da indústria cinematográfica que apóiam o festival. Experimental Único festival de cinema de curta-metragem que tem por objetivo difundir a diversidade cultural brasileira registrada na linguagem audiovisual, a Goiânia Mostra Curtas traz, anualmente, uma temática. Para 2006, a coordenadora geral, Maria Abdalla, elegeu o Cinema Experimental que, além de ganhar uma mostra especial não-competitiva, deverá nortear atividades previstas na programação da GMC. Segundo Abdalla, o programa oficial da Mostra só será divulgado em setembro, mas a expectativa é de manter a proposta do festival, reunindo produções de todos os Estados brasileiros. «A Goiânia Mostra Curtas se consolidou como uma das mais importantes vitrines para a produção audiovisual nacional de curta duração», comenta Abdalla. Todos os anos, o festival reúne dezenas de pesquisadores, realizadores, produtores, jornalistas e milhares de entusiastas do cinema interessados em compartilhar informações, durante cinco dias de programação totalmente gratuita. De acordo com o Icumam, a Goiânia Mostra Curtas contabiliza um público de 96.600 em suas cinco edições. Serviço: Inscrições para a 6ª Goiânia Mostra Curtas Data: até dia 21 de agosto Mais info: www.goianiamostracurtas.com.br/ 62 3218 3780 Número de frases: 21 Fonte. zeroum comunicação Por Jéferson Dantas [1] O compositor, músico e escritor gaúcho, Vitor Ramil, conseguiu imprimir em seu ensaio A estética do frio uma metáfora conceitual vigorosa e necessária, principalmente, para os que moram na região mais ao sul do Brasil. Ramil não se reconhece identitariamente próximo aos que habitam os territórios contíguos à linha do Equador, neste diverso e desigual país-continente. Segundo o autor, o «frio [é] a metáfora capaz de falar de nós de forma abrangente e definidora, [simbolizando] o Rio Grande do Sul e [sendo] simbolizado por ele». Só é possível compreender tal metáfora olhando um pouco para as histórias regionais desse país. Após a independência política formal do Brasil na primeira metade do século 19, o imperador D. Pedro I impôs uma constituição outorgada (1824), a permanência do escravismo e a punição severa às províncias que desejassem o mínimo de autonomia política. De aí já se depreende o quanto foi difícil estruturar um Estado-Nação num país onde reinava o absolutismo monárquico e a opção clara por a economia agroexportadora, ou seja, a continuidade do modelo colonial em detrimento das nações industrializadas. Abalado por intensas críticas internas e tendo de abdicar o cargo em favor de seu filho D. Pedro II -- então com apenas cinco anos de idade -- e retornar à Portugal para garantir a sua coroação, o Brasil passou a ser governado por um sistema de regências. E é, justamente, o período regencial, o divisor de águas na história política e cultural do Brasil. Como bem assinala o professor «Manuel Correia de Andrade» o sentimento de brasilidade ainda era muito tênue e os problemas locais e provinciais eram bem mais preocupantes que os problemas propriamente nacionais». Foi nesse contexto que a revolta farroupilha ganhou força, sendo até hoje a mais importante guerra civil travada em território nacional, quer por a sua duração (1835-1845), quer por a ameaça real que trouxe à unidade nacional. Para Andrade, o Rio Grande do Sul tem uma história sui generis, pois foi tardiamente povoada por os portugueses, além de ter convivido com o litígio fronteiriço entre Portugal e Espanha. Esta verdadeira área de conflitos entre lusitanos e castelhanos demorou a ser solucionada, tanto no Rio da Prata como nas margens dos rios Uruguai e Paraná (território das Missões jesuíticas). Os rio-grandenses tinham com os castelhanos da região do Prata velhos desentendimentos. A imprecisão das fronteiras, ainda que bem definidas por os tratados realizados por os impérios ibéricos, não eram formalmente aceitas por os habitantes acostumados a atravessá-las, a participar de peleas, já que possuíam propriedades dos dois lados da fronteira e manejavam rebanhos inteiros sem respeitá-las. O vaivém dos rebanhos causava atritos entre os «industriais do couro e de charque sediados no Brasil, na região de Pelotas, e na Argentina, em Buenos Aires» (Bandeira apud Andrade, 1999, p. 78). Em linhas gerais, a revolta farroupilha, que também envolveu a província de Santa Catarina, foi ocasionada por a exploração fiscal, má administração e ausência de afinidade entre os presidentes da província e o povo gaúcho. Aliás, os presidentes das províncias eram costumeiramente alheios aos problemas locais que administravam, pois eram somente homens de confiança do poder central. Em esta direção, Vitor Ramil não pretende em A Estética do frio definir com precisão a identidade do gaúcho ou teorizar amplamente sobre ' qual identidade nacional temos ' e como ela se projeta no imaginário coletivo. Seria uma tarefa hercúlea, com mais indagações do que aproximações identitárias. Logo, Ramil está mais preocupado em estabelecer uma análise pontual e particular do que compreende ser o gaúcho, não propriamente aquele estereotipado, vulgarmente divulgado por a mídia. Mas aquele gaúcho urbano que se depara com os diversos brasis e que, de repente, no centro da sala, seminu, em pleno inverno do Rio de Janeiro, olha por a tevê os campos tomados por a geada, a neve na serra, e se dá conta de que precisa retornar a esse lugar-território. Foi o que aconteceu com Ramil. A partir dessa alegoria semântica (o frio como emblema do território), o compositor gaúcho passa a se reconhecer, decisivamente, naquele lugar. A introspecção criativa de Ramil é tributária, pois, desse lugar-território que dialoga, exaustivamente, com a língua hispânica, mas que ao mesmo tempo tem a contribuição cultural do imigrante alemão e italiano e, evidentemente, dos afrodescendentes. A musicalidade de Ramil é a confluência do regional com o urbano, traduzida principalmente na milonga, gênero musical apreciado por os gaúchos e castelhanos, de caráter repetitivo, melancólico e reflexivo. As fronteiras territoriais / culturais promovem diferentes suscetibilidades, algumas animosidades e representações diversas do que chamamos Brasil. O estranhamento está incorporado ao modus vivendi do gaúcho, que se construiu, historicamente, em meio a batalhas contra o governo imperial, estando sua figura invariavelmente associada à pecha de subversivo, arrogante e destemido. A sensação de Ramil, compartilhada, certamente, por milhares de rio-grandenses, deve ser a mesma de todos os brasileiros desse território: o que é ser brasileiro na quentura do Oiapoque até às gélidas invernadas no Chuí? Referências ANDRADE, Manuel Correia. As raízes do separatismo no Brasil. São Paulo: UNESP / EDUSC, 1999. Ramil, Vitor. A Estética do Frio: conferência de Genebra. Porto Alegre: Satolep, 2004. [1] Historiador e Mestre em Educação por a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Número de frases: 40 Articulador e pesquisador do Grupo de Trabalho Estudos do Currículo, do Fórum do Maciço do Morro da Cruz, Florianópolis / " SC. «A quem interessa resgatar Carmen da Silva?». A provocação é lançada por a pesquisadora e jornalista Ana Rita Fonteles, que publicou recentemente Carmen da Silva -- O feminismo na imprensa brasileira, obra que busca recuperar a trajetória de vida e os caminhos profissionais traçados por a mais influente jornalista da imprensa feminina no Brasil. Carmen da Silva é, indiscutivelmente, uma das personagens mais ricas do jornalismo brasileiro. De o alto de sua tribuna, a coluna «A arte de ser mulher», que escreveu ininterruptamente de 1963 a 1984 na revista Cláudia (Editora Abril), contribuiu para uma mudança gradual nos costumes de muitas mulheres e famílias brasileiras. Antecipou, ao promover discussões que oscilavam entre o âmbito da vida privada e da vida pública, questões essenciais para a afirmação do movimento feminista no Brasil: o divórcio, o uso da pílula anticoncepcional, a inserção da mulher no mercado de trabalho, entre outros temas que anos depois seriam encampados por as feministas. Não é exagero afirmar que Carmen da Silva foi um dos símbolos da modernização da imprensa e da sociedade brasileira contemporânea. «Ler Carmen da Silva era, para algumas mulheres, um símbolo de modernidade, sinal de que estavam sintonizadas com as discussões de seu tempo», diz a pesquisadora. Com um texto interessante, que transita entre o relato biográfico e a produção intelectual da jornalista, psicanalista e escritora gaúcha, o livro de Ana Rita, adaptação de dissertação de mestrado apresentada ao Programa de História Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), é uma valiosa contribuição para entender a relevância de Carmen no jornalismo feminino brasileiro. O livro marca a inauguração da série História e Memória do Jornalismo, iniciativa conjunta do Núcleo de Documentação Cultural da UFC (NUDOC), Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará (Sindjorce) e Sociedade Cearense de Jornalismo Científico e Cultural (SCJCC). A série nasce com a proposta de publicar trabalhos acadêmicos que abordem o exercício do jornalismo no Ceará e no Brasil. Para discutir a obra de Carmen, além de outras questões referentes ao jornalismo feminino, o Overmundo chamou Ana Rita para uma conversa. Como surgiu o interesse em analisar o trabalho da Carmen da Silva? Eu sempre tive interesse por revistas femininas, desde criança. Quando entrei no curso de jornalismo, tive contato com as discussões sobre a cultura de massa. Comecei a levantar uma bibliografia sobre o tema e encontrei textos que traziam a Carmen da Silva como referência da mulher que introduziu determinados assuntos na imprensa. Em 1998, li artigos e resolvi estudá-los para minha monografia de conclusão de curso, artigos publicados por a Carmen entre 1964 e 1968. Depois, resolvi ampliar e ingressei no Mestrado de História da UFC, tive contato com a autobiografia de ela, Histórias híbridas de uma senhora de respeito, uma ironia com Memórias de uma moça bem comportada, de Simone de Beauvoir. É um livro fascinante, porque a Carmen não se propõe a contar apenas a história pessoal de ela, mas a partir da história pessoal, contar a história das mulheres. O processo de transformação de ela em feminista está todo contado ali. Seu livro também opta por recontar a trajetória da Carmen. Como você pensou em fazer isso tendo que tratar de questões mais gerais? Chegou um tempo na pesquisa em que eu não conseguia mais dissociar. Descobri que muitas feministas se impunham a tarefa de escrever autobiografias, como forma de dar concretude ao termo «o pessoal é político». Mas percebi que seria complicado analisar apenas a autobiografia, então comecei a cruzar vários discursos de memória produzidos por a própria Carmen na autobiografia, que eu não teria como fugir, mas também nos seus romances, nas entrevistas com pessoas que conviveram com ela, e com matérias produzidas sobre ela. Com essa miscelânea de materiais tentei compor esse painel, compor uma trajetória a partir da personagem. Como você analisa o início da carreira da Carmen da Silva como jornalista, no contexto da imprensa brasileira dos anos 60? Sem dúvida ela é a jornalista mais importante na história da imprensa feminina do Brasil, até por o tempo em que permaneceu nessa imprensa. Foram 22 anos ininterruptos. Acho que ela cumpriu um papel importante para o jornalismo que se fazia na época, sobretudo se você pensar que o jornalismo estava se assentando em bases eminentes empresariais e, nesse caso, a [revista] Cláudia foi uma espécie de divisora de águas, feita com profissionalismo, desde a escolha das pautas, das divisões de editorias, da qualidade do papel à preocupação de atrair anunciantes, pois era uma revista essencialmente publicitária. A Carmen era uma representante da modernização dessa imprensa, que não conseguia mais dar conta de temáticas relativas a comportamento, com seus consultores sentimentais, que, com seus discursos de acomodação, de pacificação, não davam conta de uma sociedade em transformação, com uma juventude emergente, com a mulher questionando seu papel. Ela responde primeiro a isso na revista, e, depois, como feminista militante, com essa compreensão da necessidade de fazer um trabalho em longo prazo, com mulheres de classe média, porque ela sabia de seu papel intermediário, como uma feminista intermediária. Ela tinha o cuidado de se fazer clara mas ao mesmo tempo queria aprofundar questões, utilizar o arsenal da psicanálise, daí a formação psicanalítica de ela ser uma questão tão importante. Ela utilizou-se desse instrumental para aumentar a sintonia com as leitoras, conhecer quem eram essas mulheres, quais questões elas colocavam. Tinha um papel de conscientizadora. Até que ponto esse «discurso modernizante», como você cita no livro, entrou em conflito com a redação de Cláudia, já que no início a revista era essencialmente feita por homens, numa época em que o feminismo ainda estava muito embrionário? Em o início não havia muitos conflitos, não. Até porque ela não chegou na Cláudia feminista, ela chegou com inquietações -- «por que as coisas são desse jeito?», «as coisas têm que mudar», mas com um sentimento ainda muito deslocado, muito sem direcionamento, sem um embasamento teórico, digamos assim. Até porque ela antecipou muito as questões, então você nota um crescimento, vai percebendo nos artigos que ela escreve, nas cartas das leitoras, essa construção. E ela ia com muito cuidado porque tinha a preocupação em se preservar dentro da editora, sabia da necessidade de ter uma tribuna. E tinha um certo medo de assustar as leitoras, sabia que estava falando para uma mulher de classe média, dona-de-casa, casada, que não precisava trabalhar porque o marido financiava seus gastos. A partir dos anos 70, quando as coisas se tornaram mais claras em relação à luta das mulheres, quando os grupos de mulheres começaram a se organizar mesmo com a repressão da ditadura, quando as mulheres exiladas começaram a trocar correspondências com as mulheres daqui, quando os primeiros eventos começam a acontecer, a partir daí você começa a perceber como essas questões se tornam mais explícitas. Ainda que, nos anos 60, ela já tenha questionado temas familiares, como o divórcio, tema sobre o qual ela publicou um artigo belíssimo em 1966. Acredito que existiram alguns conflitos com a revista, mas ela tentava contorná-los para não perder o espaço da tribuna com as leitoras. Como Carmen da Silva contribuiu efetivamente para a introdução do feminismo no Brasil? Através dos temas tratados na coluna, ela estava tocando em questões que depois seriam bandeiras do feminismo aqui, como o divórcio, a independência emocional e financeira, a mulher como protagonista. Em seguida, na fase propriamente feminista, ela divulgou os primeiros eventos, escrevia na coluna que Cláudia estaria ali para tentar traduzir o que estaria acontecendo, mas na verdade ela estava chamando as mulheres para eles. Ela também resenhou clássicos do feminismo de modo muito atraente para a época. Com o apoio da editora, viajou para vários países e procurou entender as mulheres desses lugares. Mas não foram pontos específicos, toda a obra de Carmen é uma contribuição para o feminismo brasileiro. E qual a grande contribuição que você vê no trabalho da Carmen da Silva para o jornalismo feminino feito hoje? Acho que há um vácuo entre o trabalho de ela e a imprensa feminina atual. Esses espaços mais aprofundados sobre a questão da mulher praticamente desapareceram, é como se todos os problemas tivessem desaparecido. Por exemplo, você vê matérias sobre como se liberar na cama para seu homem, sobre as posições sexuais, milhares de revistas sobre a «boa forma». Em a verdade, elas camuflam problemas sexuais sérios, camuflam a questão da mulher insatisfeita com seu próprio corpo, e essas questões não estão mais sendo discutidas nas revistas. Hoje você conta nos dedos matérias mais questionadoras, mais intrigantes do ponto de vista jornalístico e do ponto de vista da mulher. As revistas estão muito fora de sintonia. Houve um retrocesso. Por que existem poucos trabalhos sobre a Carmen da Silva? Vejo como um desrespeito sobre a questão da memória, da ausência de uma política de conservação da memória no Brasil, que é um problema mais amplo, e no caso específico da Carmen, da memória de uma feminista. A quem interessa resgatar Carmen da Silva? Por que dar conta dessa mulher? Minha preocupação partiu tanto do interesse de leitora como do interesse político. Uma pessoa que militou tanto, escreveu tanto, trabalhou 22 anos, viajou o Brasil inteiro, era tão reconhecida, tão chamada para falar, tão citada por as feministas ... As pessoas precisam conhecer isso. E as pessoas precisam voltar a ler Carmen da Silva. Acho que ela pode ajudar a transformar esse reacionarismo nas redações femininas no Brasil. Esse tripé casa-moda-decora ção não dá conta do mundo feminino. Serviço Interessados em adquirir o livro Carmen da Silva -- O feminismo na imprensa brasileira podem entrar em contato com a autora: anaritafonteles@uol.com.br Livros de Carmen da Silva: Histórias híbridas de uma senhora de respeito (Ed. Brasiliense) O homem e a mulher no mundo moderno (Ed. Civilização Brasileira) Sangue sem dono (Ed. Civilização Brasileira) Coletânea: O melhor de Carmen da Silva -- Laura Civitta (org). ( Número de frases: 78 Quando teve início a propagação da Internet, várias profecias vaticinavam que o livro, em seu formato tradicional, estava com os dias contados e acabaria por desaparecer num futuro não muito distante. A freqüência com que surgiam essas conjecturas deixou os amantes do livro preocupados. Mas, foi uma inquietação inútil porque até agora aquelas profecias não se realizaram e os fatos parecem indicar que estavam equivocadas. Nunca foram publicados tantos livros sobre os mais variados assuntos como nos dias de hoje. O consumo literário também cresceu de forma considerável. Além das tradicionais livrarias, os sebos vêm conquistando espaço entre os leitores mais exigentes, aqueles que buscam obras raras e esgotadas, que só encontram em lugares especiais. Em a verdade, um sebo é um tipo de limbo, onde almas de escritores estão aguardando por alguma salvação e outras amargam o espaço na prateleira da danação eterna. As enciclopédias da vida ensinam que a origem do termo sebo, para designar livrarias de livros usados, tem explicação histórica. A teoria mais provável conta que, antes do surgimento da luz elétrica, as pessoas liam sob a luz de lamparina. Uma espécie de resíduo gorduroso era produzido e se fixava nas capas dos livros. A vida de um sebo é feita de letras miúdas e gente vultosa. E o tempo conserva a vitalidade desse espaço tão procurado por intelectuais, artistas, estudantes, professores, músicos, curiosos e outros literatos. Porém, nem só de literatura vivem os sebos. Em as manhãs de sábado em Mossoró, o dentista Marcos Almeida abre as portas do «Sêbado» -- uma corruptela para sebo aos sábados -- a fim de receber os amigos e clientes em volta de uma grande mesa, onde acontece declamação de poesia, uma roda de samba e muita conversa sem fim. Tudo regado a uma boa maxixada (especialidade do anfitrião), acompanhada de cervejas geladas e muito burburinho. O Sêbado é a realização de um sonho de Marcos Almeira, que montou um espaço na sua própria casa para abrigar o sebo, na Rua Antônio Vieira de Sá, bairro " Nova Betânia. «Esse lugar foi feito para que as pessoas se sintam como se estivessem nas suas próprias casas e onde abrigasse aqueles imbuídos em promover os movimentos culturais da cidade», afirmou Marcos Almeida, lembrando que também há um interesse financeiro com a troca e venda de livro e discos usados, tradicional comercio de sebo. Longe dos afazeres alfarrabistas, Marcos Almeida é cirurgião dentista há 27 anos. Durante a semana, atende seus clientes num consultório na clínica da doutora " Graça Lopes. «Por causa da minha atividade profissional, só abrimos aos sábados», ratificou o nome do estabelecimento. A paixão por os livros começou quando Marcos morava em Natal onde era freqüentador assíduo do Sebo do Cazuza, um dos mais antigos sebistas do " Rio Grande do Norte. «Cazuza norteou o destino de muita gente vendendo seus livros por o peso», assegurou. O Sêbado daquele primeiro sábado começou com o acervo particular e a coragem de Marcos Almeida na efetivação de um sonho, onde livros, CDs, DVDs e vinis ostentam uma inegável atmosfera de informalidade, que convida ao diletantismo e ao relaxamento. Marcos ressalta a importância do intercâmbio com outros sebistas e confessa que seu livro de cabeceira é «Guia de Sebos de Natal», publicado por a Editora Sebo Vermelho, do irrequieto sebista e editor natalense,» Abimael Silva. «Admiro o trabalho feito por o Abimael. Inclusive, há algumas obras da Editora Sebo Vermelho no Sêbado. Sempre que vou à Natal, procuro visitar todos os sebos de lá», disse. Marcos Almeida garante que no acervo do Sêbado há verdadeiras raridades, mas o proprietário faz uma ressalva de que «o livro mais importante é aquele que o cliente procura». Entre as raridades do sebo, o freguês mais exigente pode encontrar a edição original do livro «Momento do Rio Grande do Norte -- de 1597 a 1939», de» Câmara Cascudo. «Essa é a 1ª edição e não tenho conhecimento se o livro foi reeditado. Entre outros livros de Cascudo que temos, esse é um livro mais importante», distingue Marcos, destacando que há ainda livros como coleção completa de Gilberto Freire e uma edição de luxo da obra «A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna». Alheio as profecias prenunciando o fim do livro, Marcos Almeida convida as pessoas para uma aventura ao Sêbado para ouvir música, experimentar a maxixada, trocar idéias e se sentir cercado por um pedaço da memória escrita, por livros de ontem e de hoje, que cumpriram uma longa trajetória desde que saíram da gráfica até encontrarem um abrigo naquele espaço democrático. Em o Sêbado, é como se cada livro, revista, enciclopédia, almanaque, tivesse uma história diferente para contar. Congregação cultural do Sêbado O Sêbado tem vida própria. Entre suas estantes abarrotadas de obras contendo toda a memória de décadas de produção literária, seus freqüentadores criaram a «Confraria do Sêbado», cujo estatuto foi redigido em cordel por o poeta» Nilson Silva. «Em o sábado de manhã, não há outro programa cultural melhor em Mossoró do que vir para a Confraria do Sébado ver bons livros, discos e apreciar uma boa música. Nosso microfone está sempre aberto para quem quer dizer algo, cantar ou declamar um poema», ressaltou o historiador Geraldo Maia, presidente da Confraria. Porque hoje é sábado (como diria Vinícius de Morais), é preciso conciliar o dia para reunir poetas, jornalistas, advogados, escritores, artistas, médicos, papangus e toda a fina flor da intelectualidade mossoroense num ideal de cultura para a cidade. Conforme o presidente, um dos principais objetivos da Confraria do Sêbado é fomentar a cultura mossoroense da melhor maneira possível, estimulando as produções artísticas, os lançamentos de livros, as exibições de arte e todas as formas de cultura popular. Recentemente, dois livros foram lançados por os confreiros no espaço do Sêbado. O poeta Luiz Campos lançou a obra «Nos campos da poesia» e o escritor Zé Gurgel lançou seu livro de crônica «A Ponte». «Venho aqui por o ambiente e por o dono. Sinto-me bem recitando uns versos para os amigos e tenho oportunidade de conhecer outros poetas», disse o velho bardo Luiz Campos, ressaltando que poetas e artistas de outras cidades quando vêm à Mossoró são convidados a sentir a atmosfera do lugar. Os freqüentadores da Confraria do Sêbado têm sempre uma boa história para contar enquanto entoam versos ou se esbaldam em música, momentos de total abstração da correria das ruas, numa construtiva troca de idéias com outros confrades. Isso, sem contar, o enorme prazer que é estar rodeado de livros, num ambiente despojado e acolhedor. Para o jornalista Ferreira, da Gazeta do Oeste, a Confraria do Sêbado vai se tornar o lugar para grandes encontros da cultura mossoroense. «Quando cheguei aqui pela primeira vez, encontrei logo essa mundiça, cada um pior do que o outro. Gostei tanto que venho todo sábado», enfatizou o jornalista, preparando seu violão para cantar outra balada. Segundo o presidente Geraldo Maia, a confraria é recente e suas metas ainda estão sendo definidas, mas já está sendo montada uma extensa agenda cultural para esse ano. Em o final de janeiro, a Confraria do Sêbado fez uma grande movimentação carnavalesca. «Preparamos uma prévia de carnaval com muito frevo no pé. Número de frases: 52 Fizemos um carnaval autêntico, com marchinhas, valsinhas e chorinhos, recordando o carnaval do passado», disse o presidente. Escrever um perfil de uma das vozes mais respeitadas do cenário musical de Curitiba foi um baita desafio. E ter estado diante de uma mulher com este gabarito -- confesso -- foi um privilégio. Rogéria Holtz dispensa apresentações. Dispensa nada, porque faço questão de escrever detalhes de um bate-papo descontraído numa padaria em plena luz do dia na capital parananese. Quarenta e um anos, casada e mãe de três filhos, Rogéria leva a carreira e a vida particular bem ao seu próprio estilo: com muito alto-astral. Nascida no interior de São Paulo, mais precisamente em Itararé, veio para Curitiba aos dezesseis anos estudar Desenho Industrial. Estudar? Não era bem o que Rogéria queria. A música já vinha sendo uma válvula de escape para seus anseios desde criança. «Ficava no meu quarto tocando violão depois do almoço», conta. Junto com a irmã, tinha aulas e freqüentava o coral da igreja para aprender técnicas de voz e harmonia. Foi aí que tomou gosto por a coisa. E foi aí também que a primeira barreira precisou ser superada. «Meu pai queria que eu fosse dentista ou analista de sistemas. Mas me deu um violão», revela Rogéria que teve inúmeras discussões com ele devido a insistência de querer cantar. Em 1983, e polêmicas à parte, era a hora de pegar o violão, afinar a voz e se fazer conhecida na capital paranaense. «Teve uma vez que estava tocando num barzinho e apareceu um compositor me convidando para participar de um show de ele no teatro TUC. Foi ali que comecei a conhecer as pessoas deste meio». Paralelamente à vida musical, cá entre nós ainda é difícil viver de ela neste meio independente, Rogéria teve que se virar em outra profissão. Desde 1988, a locução vem sendo o trabalho que desenvolve com muita categoria em diversos projetos na cidade. «Cheguei também a trabalhar no rádio para ficar mais próxima da música», recorda Rogéria, que por uns tempos teve que se afastar de tudo devido ao casamento e ao nascimento dos filhos. Mas em 1995, sua volta para a música veio colocar Rogéria Holtz no seu devido lugar: o Coral Vocal Brasileirão, do " Conservatório de Música de Curitiba. «Confesso que foi um divisor de águas. Ali pude ter contato profissionalmente com técnicas de partituras com maestros, workshops com cantoras e descobri que não sabia porcaria nenhuma " (risos), revela. Escrevi acima veio colocar Rogéria Holtz no seu devido lugar, porque agora sim os holofotes foram direcionados à ela, merecidamente. Chegou a interpretar canções de artistas consagrados como Waltel Branco e Alice Ruiz onde obteve grande destaque. Com shows sendo feitos na cidade e fora do estado e se fazendo conhecida por artistas locais e nacionais, o público agora via no palco uma grande cantora. E em 2003 veio o primeiro trabalho da Rogéria: «Acorda», que mescla pop com mbp. Em este álbum elogiado por a crítica, ela cravou de vez seu nome entre as artistas mais talentosas do meio musical curitibano. Em o segundo cd lançado em janeiro deste ano, «Em o país de Alice», Rogéria trouxe uma amiga de longa data, dos tempos do Conservatório: Alice Ruiz. «A gente vem apresentando este projeto desde 2000 e agora resolvemos registrar», lembra a cantora que conta ter havido de imediato uma afinidade entre as artistas. «Ela botou uma confiança em mim sem me ver cantar». Rogéria nos vocais e Alice recitando poesias, este novo trabalho mostra também parcerias com gente de peso da música como Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Zé Miguel Wisnik, Zeca Baleiro e Alzira Espínola, sob o comando do produtor Celso Fonseca. Com uma longa estrada percorrida. «Nunca sei ao certo quanto tempo tenho de carreira, afinal comecei criança», Rogéria com certeza poderia ter dado um grande passo à frente na cena musical da cidade. «Hoje acredito que ela esteja crescendo. Ainda é restrito, mas a gente tenta se fazer conhecida do público. É pouco, mas é melhor do que nada», conta. Um veículo de comunicação que Rogéria acha primordial para o artista e para o público é o rádio. «Acho que deveria tocar mais música local. Ter um programa específico e que tivesse boa audiência», enfatiza a cantora que logo dispara seu ponto de vista sobre alguns músicos da cidade: «Tem espaço para todo mundo. Parece que aqui tem aquela coisa de um ficar puxando o pé do outro que está subindo. Poxa, se um cresce, todo mundo cresce». Com um espírito roqueiro, mesmo cantando mpb, Rogéria diz que se realiza ao berros. «Sou meio porra louca, mas também sou perfeccionista: estou entre uma Amy Winehouse e a Sandy!" ( risos), conta a cantora que leva o trabalho à sério mas que também se diverte muito com ele. Com esse bom humor que é uma característica marcante, quando perguntada sobre algum fato engraçado, Rogéria logo lembra de um episódio: «Em esse novo show canto uma música onde eu destroço uma rosa. Em o final da canção, chuto e ela se despedaça. Pedi no último show para a cenógrafa pegar uma outra flor, não me recordo o nome, mas era pesada. Despedacei e chutei a flor que acabou indo direto no rosto de um cara que estava sentado na primeira fila! Tive que pedir desculpas " (risos). Com esse show, onde ela despedaça a flor, Rogéria quer divulgar mais o novo álbum e fazer shows por aí. «Tenho projeto de tocar no Teatro Paiol e no ' Música nos Parques ' que acontece aos domingos. E já tenho idéias para um novo cd, mas ainda quero trabalhar nesse. Com um disco recém saído do forno, onde mostra uma artista versátil, inteligente e com uma voz ímpar, Rogéria Holtz surpreende a cada trabalho ou conversa, mas que não deixa dúvidas do seu respeitável registro na cena musical de Curitiba. Confira mais sobre o trabalho da cantora: Número de frases: 63 www.myspace.com/rogeriaholtz Quando recebeu, em setembro de 1994, a folha de resultado de seu exame de HIV com a palavra positivo, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu não imaginava que naquela pedaço de papel estava muito mais do que o prenúncio de morte. Estava, antes de tudo, o início de uma mudança em seu modo de ver o mundo e, conseqüentemente, de escrever sobre ele. Diante do confronto iminente com o fim, a literatura de Caio, feita de sangue, secreção e sonhos, do tempo fechado, que sempre semeou melancolia em sua obra, se transformou em claridade pura, intensa, regeneradora. Tal mudança pode ser visivelmente sentida no seu primeiro livro, O Inventário do Irremediável, revisto por o autor 25 anos depois, que teve seu título alterado para Inventário do Ir-remediável, um hífen que acresce um pouco mais de esperança à aridez da obra, transformando o irremediável em algo que pode ser reparado. A segunda grafia escolhida por o autor, quando do relançamento da obra, foi mantida por a Editora Agir na coletânea Caio 3D -- O Essencial da Década de 70, que republica o trabalho de estréia de Caio ao lado de contos dispersos e inéditos, poemas, correspondências e depoimentos, numa seleção que se centra sobre a produção intelectual deste gaúcho entre 1970 e 1980. Caio foi pranteado como um dos símbolos da cultura brasileira mortos prematuramente por a aids. Falecido aos 48 anos, em 1996, ano em que a música perdeu o compositor e vocalista da Legião Urbana, Renato Russo, o escritor ganhou uma série de leitores póstumos, que agora terão boa chance de conhecer sua obra desde o início. Caio 3D -- O Essencial da Década de 70 é o primeiro de uma série que conta também com um volume sobre os anos 80 e um terceiro sobre a década seguinte. Outra boa notícia é que a Editora Agir está republicando toda a obra de Caio. Um dos títulos mais célebres, Morangos Mofados -- que em 1981 tornou-se o porta-voz do desamparo de uma geração que viveu a ressaca do fragmentado sonho de paz e amor --, deu início ao relançamento E m Caio 3D -- O Essencial da Década de 70, o leitor tem uma amostra dos extremos da experiência pessoal e literária de Caio Fernando Abreu, que forjou uma obra que retira do lixo o belo e se norteia por os sabores das relações humanas. Além de contos escritos entre 1962 e 1977, a maioria reunida na seleta Ovelhas Negras (1995), Caio 3D traz as poesias Oriente, Press to Open e Alento, revelando uma vertente menos conhecida de sua obra, muito embora a linguagem poética tenha sido umas das marcas mais fortes da sua prosa. O livro reúne depoimentos do autor retirados de entrevistas e cartas enviadas à mãe e amigos, como a escritora Hilda Hilst e a médica Vera Antoun. Mesmo com a intimidade devassada por a correspondência, são em contos como O Mar Mais Longe que Eu Vejo ou Itinerário que o autor permite que se tornem evidentes seus subterrâneos. A exumação dos sonhos de paz e amor hippie, um de seus temas recorrentes, aparece com mais força nos retalhos do diário escrito durante sua estada londrina em 1974, resgatado com toques de ficção no conto Lixo e Purpurina. Fome, frio, humilhação dão os tons dos dias do exílio. Os caminhos da carne e a segmentação social das emoções humanas foram temas recorrentes da obra de Caio. É verdade que a orientação sexual do autor muitas vezes ganhou mais destaque do que sua obra. Abreu descreveu como ninguém a entrega entre seres que vivem e gozam, urgentes. Corpos que se descobrem, em si ou em corpos alheios, como nos contos Anotações sobre um Amor Urbano, Paixão Segundo o Entendimento e Inventário do Ir-remediável. Caio Fernando Abreu trabalhava com o conceito da indiferenciação entre homossexuais e heterossexuais. Ele dizia: «não acredito em homossexualidade ou heterossexualidade, acredito em sexualidades. A sexualidade humana é muito ampla e pode se realizar de mil maneiras diferentes." Em nenhum momento de seus livros Caio Fernando Abreu afirma a homossexualidade como algo alegre e prazeroso. O que ele faz com a questão da homossexualidade é dilui-la entre todos os problemas do ser humano, como a angústia diante da solidão e a necessidade de enfrentamento das forças conservadoras para se alcançar a liberdade. Redenção A leitura de Caio 3D permite desvendar um pouco do autor muitas vezes tido como sombrio, talvez por tangenciar com freqüência a morte ou outras formas menos sublimes de redenção. Uma redenção que, no caso de Caio, se pautou por o cultivo de rosas de que cuidava «arrancando das coisas, com as unhas, uma modesta alegria». Caio se foi-mas sua literatura, relançada por a Agir pode fazer com que novas gerações aprendam a amar sua imaginação, a maneira como ele jogou com o mundo e seus pensamentos, procurando uma verdade tenra, uma beleza delicada. O leitor vai descobrir que muitas vezes ele ficava contrariado, mas na maior parte das vezes sua cólera é cheia de risos, alegre e viva. Quem pode dizer que existem pessoas capazes de tamanha façanha? A verdade é que Caio Fernando Abreu está de volta para ser apreciado por quem estiver pronto a ter a vida transformada por a sua literatura. Livro: pause Caio 3 D: O Essencial da Década de 1970 pause Autor: Caio Fernando Abreu pause Editora: Agir pause Páginas: 360 pause Preço sugerido: Número de frases: 40 R$ 49,90 E eu que morei em Guarapari, cá no Espírito Santo, durante 17 anos, fui para a Perocão pela primeira vez já na faculdade, por causa do Primeira Mão, jornal laboratório do curso de Comunicação da Ufes. Perocão é um bairro do meu balneário natal. Uma vila de pescadores muita bonita, que a cidade parece ter alcançado sem querer. Mas não estávamos ali pra fazer uma matéria sobre pesca, nem sobre as belezas naturais do lugar. Estávamos ali atrás de uma produtora de vídeos de terror. De uma não, de duas. Quer dizer, de três. Encontro Um Batman desenhado na parede nos indicava que ali era o lugar marcado. A fachada, um fliperama; algumas máquinas maiores (arcades) e algumas TV's enfileiradas na parede, ligadas à videogames e à crianças, por fios e controles. Mas como bom QG que se preze, era atrás daquilo tudo que se escondia o mais interessante: um salinha repleta de bustos de zumbis, fotos de monstros e bonecos de todos os tipo de seres do além. Era o ateliê do Rodrigo Aragão, realizador dos curtas «Peixe Podre» e «Chupa-Cabra» e dono da produtora Fábulas Negras. A o som de música eletrônica, ele nos apresenta a sua namorada chilena de cabelos rosa e Juninho, da produtora Pestilento. Também mostra as suas criações, os tais bustos, que, a seu bel-prazer, mexem sobrancelhas, mãos, bocas e várias outras partes assustadoras. Eles farão parte do seu próximo projeto, o longa Mangue Negro, sobre pessoas que se tornam zumbis depois de comerem caranguejos contaminados (letárgicos?), e que saem dos manguezais para atacar geral. Conversa Já num boteco ali nas redondezas, com Brahmas na mesa e copos cheios, começamos a conversar direito. Primeiro com Juninho, que disse que com ele tudo começou de brincadeira, um churrasco num sítio, um cachorro de pelúcia e surgia o curta Cachorro Sangrento. Mas que agora quer mais «seriedade». Mas nunca vídeos sérios, claro, já que define seus filmes mais como comédias que como terror. O próximo projeto, por exemplo, se chama «A dois cliques do inferno», sobre um cara que sem querer faz um pacto com o demônio por a Internet e acaba indo parar no inferno, que, dantescamente, é uma agência de publicidade. Rodrigo é que queria seriedade desde o início. Desde criança, pra ser mais exato. Brincar de cinema era a diversão do cara que cresceu, foi trabalhar com teatro, trampou numa casa de terror em várias cidades do país (onde aprendeu a criar os monstros que vimos, tanto com maquiagem quanto com geringonças eletrônicas) e acabou de volta a Perocão, onde nasceu, pra ver as novas tecnologias do vídeo, mais baratas e acessíveis, possibilitarem a realização do seu sonho. Entre o pagode rolando no bar vizinho e as crianças descendo o morro próximo em seus carrinhos de rolimã, Rodrigo era a personificação do sujeito apaixonado. Amar o cinema o fez parar de oscilar entre outros empregos e, como ele mesmo disse, tentar viver de fotossíntese para levar adiante a feitura dos seus vídeos de terror. Como quem acredita, desfiava idéias: a finalização a perder de vista do seu longa e uma série de vídeos baseados em contos populares assustadores da região. O Thiago, da produtora Javali, infelizmente deu o bolo na gente. Foram eles que terminaram o primeiro longa de entre as três produtoras, chamado de Sob Encomenda, que lotou duas sessões numa sala de cinema da cidade (foto) e que está disponivel para download no site www.javali.com. Revolução Pensar numa revolução provocada por as novas tecnologias é mais ou menos pensar nisso. Uma galera apaixonada que pode criar outros, os seus próprios discursos, nesse caso audiovisuais. Discursos contra a corrente, de um gênero pouco considerado por a crítica e ainda com peculiaridades regionais. Uma subcultura gore emergindo no meio do mangue, num bairro, numa cidade e num estado periféricos. Número de frases: 37 «Por o Telephone! Samba carnavalesco gravado por o Bahiano e corpo de Coro, para Casa Edison, Rio de Janeiro», diz quase aos berros uma voz masculina aguda, pouco antes de um violão, um cavaquinho e um clarinete atacarem de forma um tanto claudicante os primeiros acordes de uma execução que iria entrar para a história da música brasileira. É assim, entre chiados típicos de discos antigos e seu timbre distorcido de vozes e instrumentos musicais que surgiu o documento histórico que é considerado a certidão de nascimento do samba. É no princípio do ano de 1917 que surgem no incipiente, porém rico mercado fonográfico brasileiro, os primeiros discos com a palavra «samba» em seus rótulos. Em este início de 2007 esta gravação do samba carnavalesco Por o Telephone completa noventa anos de idade, e permanece de forma muito viva, seja por a remasterização do fonograma original ou por meio de novas versões de músicos modernos. Entretanto, ainda muito viva são as controvérsias que cercam esta canção, entre as quais, a sua autoria. Com música de Ernesto Joaquim Maria dos Santos (popularmente conhecido como Donga) e texto de João Mauro de Almeida, Por o Telephone foi um grande sucesso no carnaval carioca de 1917. Porém, pesquisadores e especialistas têm argumentado que parte deste sucesso deveu-se, talvez, por o fato da canção já ser conhecida anteriormente em meio a algumas comunidades populares do Rio de Janeiro. Entre tantos detalhes e fatos esquecidos ou propositalmente colocados de lado, apenas um mergulho histórico pode nos ajudar a entender melhor a magia e os mistérios que circundam o surgimento deste gênero musical que é considerado por muitos a própria essência da cultura popular brasileira. Precaução ou malandragem? Apesar do senso-comum que diz que a gravação de Bahiano de Por o Telephone deva ser considerada a certidão nascimento do samba, é bom esclarecer que se trata uma atribuição de cunho mais simbólico do que necessariamente histórico. Mesmo antes da música ganhar as residências brasileiras por a voz de Bahiano, ela já havia sido gravada em versão instrumental por a Banda Odeon, possivelmente pouco tempo antes de sua interpretação (o disco de Bahiano está registrado sob a numeração 121.322 A, e a da Banda Odeon 121.313 B). É da mesma época uma terceira versão da música, gravada por a Banda do 1º. Batalhão de Polícia da Bahia. Entretanto, antes mesmo da música ganhar seus primeiros registros fonográficos, está registrado que em 6 de novembro de 1916 Donga entra com uma petição no Departamento de Direitos Autorais, repartição da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Mais especificamente, a petição trata-se de uma pedido de registro de uma partitura de samba com o título de Roceiro. Dez dias depois, Donga anexa ao processo uma declaração na qual diz que a música havia sido estreada em 25 de outubro daquele mesmo ano, no Cine-Theatro Velho. Estudos indicam que as notas musicais utilizadas para o registro da partitura para piano foram manuscritas por Pixinguinha, músico com quem Donga iria integrar o lendário grupo «Os Oito Batutas». Consta ainda que na em esta partitura esteja indicada uma dedicatória a «Morcego» (apelido de Norberto Amaral) e a «Peru» (Mauro de Almeida, o letrista da música). Foi possivelmente no hiato entre o registro e a primeira gravação que a canção ganhou o nome de «Por o Telephone», ao mesmo tempo em que ganhou a letra que seria cantada por Bahiano (somente nesta gravação é que o nome de Mauro de Almeida surge associado autoria da canção). Documentalmente, não há como refutar a primazia autoral de Donga sobre a parte musical de Por o Telephone. Entretanto, pesquisas históricas realizadas no âmbito da cultura popular carioca indicam que mais do que uma obra de um único criador, Por o Telephone fazia parte de uma cultura musical coletiva. É o que conclui o historiador José Ramos Tinhorão, em seu livro História Social da Música Popular Brasileira. A o tratar das festas populares realizadas nas chamadas «casas de baianas» nos subúrbios cariocas, Tinhorão defende que «em fins de 1916 um desses participantes resolveu aproveitar algumas estrofes com certeza ali muitas vezes repetidas, para um arranjo ampliado com novos versos». Em meio ao estereótipo de aproveitador que o sambista já então detinha, não fica difícil concluirmos que o registro autoral de Por o Telephone tenha sido um ato de malandragem. Porém, o historiador vê o fato sob uma outra perspectiva, como algo que «vinha a revelar o início do processo de profissionalização dos músicos com talento criador saídos das camadas populares». A questão dos direitos autorais na cultura popular foi e é um problema muito difícil de ser resolvido. Entretanto, à época da «criação» de Por o Telephone, os debates em torno da questão estavam longe de terem as gigantescas proporções que este assunto tem nos dias atuais, em parte por responderem a uma parcela do contexto econômico muito menor que nos dias de hoje. Em depoimento gravado por o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Donga dá a entender que queria apenas profissionalizar algo que só se fazia informalmente. «Bem, o negócio sempre foi de improviso. Nós tínhamos nos tornado simpáticos, tocando de graça. Cansei de tocar de graça em todos os salões. [ ...] Eu sempre fui o orientador da turma. Não sei por que, eu é que resolvia a parte comercial, os serviços», diz Donga poucos anos antes de morrer, em 1974, já aposentado como oficial de justiça. De fato, se por um lado o surgimento de Por o Telephone desempenha papel fundamental no entendimento artístico da música popular brasileira, por o outro ele não deixa de ser um símbolo da profissionalização de toda uma categoria profissional. Trata-se de algo de relevância, tendo em vista a histórica relação entre os músicos populares e a informalidade profissional e educacional (de certa forma, presente inclusive nos dias de hoje). Se ainda atualmente a contestação da autoria individual de Donga sob Por o Telephone permanece, é tempo de entendê-lo como o portador de uma tradição cultural na qual ele nasceu e vivenciou, sendo ele uma figura determinante em sua codificação, fato que possibilitou que toda uma prática musical se mantivesse relativamente acessível nos dias de hoje. O menino da casa de Tia Amélia Como era muito comum com os músicos de sua época, Donga vinha de uma família simples do Rio de Janeiro. Era filho do pedreiro Pedro Joaquim Maria, que nas horas vagas tocava bombardino, instrumento aparentado com a tuba muito utilizado nas bandas marciais e de coretos da época. Porém, apesar da ascendência musical por parte de pai, é sua mãe, Amélia Silvana de Araújo (popularmente conhecida como Tia Amélia), que se mostrará como uma influência decisiva em sua vida. A exemplo do que ocorria em diversos bairros da periferia carioca, era em torno das «casas de baianas» que a cultura negra podia ser praticada resguardada das repressões policiais. Tia Amélia era a matriarca da principal casa de baianas da Cidade Nova, modelo este que ocorria em diversos lugares da então capital federal, tais como Tia Dadá, na Pedra do Sal, e Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúna. Eram nessas casas que gêneros musicais ligados à cultura negra -- tais como o maxixe, o lundu e a modinha -- eram livremente praticados, seja em grandes festas ou em pequenas reuniões. É neste contexto que o próprio samba surge, tal como relatado por diversas fontes históricas. Porém, apesar de gozarem de ampla aceitação nas chamadas camadas populares cariocas, foi apenas com o crescimento da indústria fonográfica brasileira -- alavancada por o pioneirismo de Frederico Figner e sua Casa Edison -- que este gênero de música popular urbana passou a entrar nos lares das elites econômicas de então, rivalizando com gravações de Tangos, Schottisch e de música clássica. Em pouco tempo, o samba, bem como outras práticas musicais exercidas por negros, impôs-se como elemento principal de nossa identidade musical, ao ponto do próprio Donga, junto com Pixinguinha e os Oito Batutas, ter excursionado por a Europa e participado de gravações internacionais enquanto representante de nossa cultura musical. Hoje em dia o samba é um fenômeno rico, multi-facetado em diversos segmentos como samba-enredo, samba de breque, samba-canção, etc.. Talvez os ouvidos modernos tenham dificuldade de reconhecer em Por o Telephone o gérmen inicial do samba, que a despeito de qualquer predileção ideológica ou estética, constitui-se ainda símbolo fundamental da identidade musical brasileira. Número de frases: 48 Sabendo procurar, você «passará bem» por aqui! Pois é. Portas fechadas em CG mas abertas alhures. Sou solista no trombone e cheguei a um razoável conhecimento do instrumento e da improvisação musical no Jazz norte-americano e brasileiro (chorinho e bossa-nova) a duras penas. Em CG tive meu momento de «glória» de 89 a 94, ano em que precisei ir aos Eua onde fiquei até 2001. A o voltar, a realidade campo-grandense era outra e meu estilo musical quase nem sobrevive. Ironicamente, é agora que estou realmente experiente no meu trabalho musical. Mesmo assim, tive uma longa temporada no Restaurante Indez, juntamente com meu irmão Mário Almeida, maestro Assis e o tecladista Fransuá, e um breve tempo no Pueblos, com Caxingue no baixo e o baterista Samuel Gomes mais cantores / instrumentias do naipe de Zé Pretim e Caio Costa. Há alguns meses sem nenhuma perspectiva de trabalho na capital e tocando só canjas no Sarau do Zé Geral ou em eventos como o do dia 2 de abril, promovido por Jonir Figueiredo na Lagoa Itatiaia por ocasião do Dia Mundial da Água, eis que recebo convite do empresário Humberto Nakamura para fazer um som em seu restaurante, o Naka House, em Glória de Dourados. Era pra ser um trio -- eu, Mário e mestro Assis -- mas este saltou fora na última hora. Talvez o cachê não lhe tenha apetecido. Então, fomos só eu e Mário. Chegamos na quinta à noite para tocar na sexta, dia 4 de abril, e decidimos visitar a banda marcial da Guarda Mirim de Glória. Lá nos entrosamos com três instrumentistas: o maestro Júnior e os trumpetistas Rogério e Bruno. Apresentei-lhes três músicas: All Blues, All of Me e Autumn Leaves. O solo em uníssono ficou redondo rapidamente, Rogério, mesmo sem ter jamais praticado a improvisação, se soltou bem nessa arte e eu treinei contracantos, além de improvisar bastante, porque ficou acertado que eles iriam aparecer à noite. Apareceram. Fizemos nossa firula, Mário e eu, e já na primeira entrada chamei o trio para All of Me, tema em que Júnior tocou bombardino. Foi uma surpresa para o público que lotava a Naka House. Eles conhecem muito os músicos da banda marcial e muitos de eles já passaram por essa escola de arte e cultura. Em a seqüência fizemos não só All Blues e Autumn Leaves, mas Rogério se animou e entrou também em Summertime e Garota de Ipanema. Júnior, um maestro competente e sério, foi o que mais se soltou quando ele e Rogério se ofereceram para solar Brasileirinho. A casa já havia vindo abaixo de tanto aplauso e os ouvintes, como a dra. Kátia, que no final deu excelente canja cantando seresta, não cabiam em si de contentamento. Em a esquina em frente, do outro lado da av.. Presidente Vargas, o volume de uma dupla sertaneja era ensurdecedor e só não atrapalhava quando tocávamos em quarteto de sopros. O pessoal da cultura da prefeitura de Glória compareceu, bateu fotos e cumprimentou a gente. Parece que voltarei a tocar em Glória pelo menos uma vez por mês. E tenho certeza que vou obter ainda mais adesão do pessoal da banda marcial. Moral da história: não dá aqui, dá acolá. Número de frases: 33 Existem sempre outros lugares e outras pessoas ávidas para ouvir um som de bom nível melódico e harmônico executado com emoção. Quando eu não posso ir, tenho que avisar, porque elas esperam. Falo do almoço de domingo na Casa das Moças da família Campos, também conhecida como a Casa do Vovô Joel. Desde que moro, já faz mais de um ano, aqui em Oeiras, posso contar nos dedos os domingos em que não almocei lá. Sendo, cada uma de elas, diferente das outras, as moças da família Campos, com idades variando entre sessenta e poucos e oitenta e quatro anos pertencem à mais fina elite oeirense e, como tal, se comportam. Professoras, não tenho certeza se todas, mas muito preparadas, todas elas, sem exceção. Pra variar, almocei hoje lá. E, como estou com a mania do livro Reminiscências da Escola, comentei com elas o assunto. Tia Amália, de 84 anos, até ensaiou contar as suas lembranças, mas não havia silêncio suficiente. Foi quando a professora Rita Campos, a mais nova das irmãs, me contou, rindo muito, a história que uma velinha, segundo ela, totalmente esclerosada, mas também muito divertida, lhe contou. Vou tentar reproduzi-la: «Quando estava no grupo escolar eu era muito feia e muito burra. Quem me achava feia? Todos os meus colegas! E eu concordava com eles! Mas um dia teve uma festa muito grande na escola e eu ia participar de um grupo de meninas todas vestidas de marinheiras com a blusa de golinha branca com a âncora bordada em azul na ponta, e até um quepe branco e tudo. Apareceu lá um rouge e um batom e eu me pintei e me olhei no espelho e fiquei linda. Puxa, eu fiquei feliz demais porque estava linda, queria que a festa começasse logo pra todo mundo me ver e dizer " Nossa, como você tá linda!" Quando começou a festa eu tava tão empolgada que até esqueci de pedir pra ir ao banheiro: resultado, me mijei toda, um mijo cumprido, quente. Quando acabei, morri de vergonha! Estava, de novo, feia, como sempre! A festa acabou cedo para mim» ... Se os colegas me achavam feia, os professores reclamavam muito de mim, dizendo que eu era burra. Um dia eu quase apanhei, de tão brava que a professora ficou! Tinha o desenho de um laço de fita. E a professora me fazia soletrar: «ele «" a» -- la «ce cedilha»» o " -- ço. E eu repetia direitinho o soletrado: «ele «" a» -- la «ce cedilha»» o " -- ço. Mas, na hora de ler a palavra eu lia " Fi-ta. Em a terceira vez que eu fiz isto a professora estava a ponto de explodir de ódio. Depois, acabei aprendendo, mas a fama de burra já se tinha espalhado. Seja como for, só aqui entre nós, continuo achando, até hoje, que a palavra era uma fita mesmo, e não um laço»! Número de frases: 34 ... ou " Quem não amou a elegância sutil de Bobô ² " Andando por a rua, indo à farmácia, passei por um cara bem vestido, de terno e gravata, cabelo penteado, barba bem feita, faixa dos 40 anos, encostado numa Mercedez nova, falando ao celular. Ele dizia muito calmamente: -- Então, sabe o que você pode fazer com o apartamento? Houve um breve silêncio e ele repetiu a pergunta, de forma bastante cordial: -- Então, sabe o que você pode fazer com o apartamento? Em os meus devaneios, comecei a imaginar que ele estava dando conselhos a um amigo ou parente sobre que decisão tomar em relação a algum apartamento ... «Você pode alugá-lo no verão», pensei nessa resposta ao passar andando mais devagar por ele para dar tempo de ouvir qual o conselho que ele daria. E ouvi, de forma muito tranqüila, ele aconselhar dizendo: -- Então, sabe o que você pode fazer? Você pega esse apartamento e enfia no cu. Depois ele se enervou um pouco mais, principalmente quando começou a xingar a do outro lado da linha. Fui embora com meus devaneios imaginando um conturbado divórcio. A mulher querendo tudo. Eu estava com pressa e não pude ficar para ver se ele iria mandar ela enfiar a Mercedez lá também. Fui assistir ao filme Shine a Light, de Martin Scorsese. Fui achando que era um documentário sobre os Rolling Stones, mas depois descobri que era na verdade «apenas» uma filmagem de um show, gravado num teatro de Nova York, em 2006, o que também me agradou bastante. As imagens são sensacionais, assim como a banda no palco. Era um domingo bem cedo e o cinema do Salvador Shopping estava bem vazio. Em a fila para comprar os ingressos, só um cara na minha frente, que perguntou para a balconista: -- Ainda tá aceitando a carteira de estudante do ano passado? -- Só a da UFBA. -- Oxe, por que só a da UFBA?-- perguntou ele, apreensivo. -- Porque foi a que foi entregue por último -- respondeu a funcionária do cinema. -- Ah, tá, um minutinho ... O cara tirou a carteira do bolso, abriu, tirou a de estudante, procurou o nome da instituição em que ele estudava, achou, não fingiu o entusiasmo e disse: -- Tá beleza, a minha é da UFBA. E comprou feliz sua meia-entrada. Dentro do cinema estavam: um casal de aparentemente uns 50 anos, que ficou bem embaixo, pois o homem estava numa cadeira de rodas; do meio para a cima, eu e Cris; e lá em cima, na última fila, na última cadeira, bem na ponta, duas meninas de entre 16 e 18 anos. O cara da meia-entrada foi ver outro filme. Sentamos, a tela ligou, as luzes diminuíram, o filme começou, Keith Richards deu a guitarrada inicial em Jumping Jack Flash, ³ Cris se levantou para colocar o casaco e sentou dizendo que «as duas lá de cima estão se agarrando». Me virei para dar aquela olhada e pude ver, dependendo das luzes do show dos Stones, algo como uma em cima da outra. -- Adolescentes no cinema. Todo mundo já fez isso, daqui a pouco vão parar, o filme vai engrenar, é um documentário, devem ser fãs da banda e tal ...-- comentei. Fiquei lembrando dos meus momentos no cinema, mão ali, mão aqui, «quero ver o filme» e blá, blá ... Só que, como disse e como pude perceber durante a sessão, o filme é só o show, do início ao fim, as músicas completas, sem cortes, com apenas esporádicos curtos intervalos, mostrando os integrantes da banda em curiosas e engraçadas imagens do passado. Muitas dessas de entrevistas para a TV britânica no início da carreira da banda. Quase duas horas depois, quando começou a tocar uma música que eu não conhecia, achei que era a hora ideal para ir ao banheiro. Eu estava muito apertado e sabendo que a música duraria quatro minutos, seria tranqüilo. Me levantei e foi impossível não notar que a chupação louca continuava. Em a volta do xixi, subi todos os degraus olhando e a chupação lá, sem se abalar com nada. Cinema vazio, música alta o tempo todo, ainda mais sendo rock, ainda mais sendo Stones ... não pararam um segundo sequer. Duas adolescentes namorando num cinema, num filme dos Rolling Stones, é puro Rolling Stones. Mais Stones que isso, impossível. Contei isso para um amigo e ele disse que foi a trepada do século. O show foi muito bom. O dos Stones também. A banda está em excelente forma e tocaram de forma entusiasmada. As meninas também. Aquela língua da marca da banda nunca foi tão bem representada. Ainda encontrei com elas depois, por o shopping, as duas lambendo o mesmo sorvete de chocolate, felizes da vida ... Em um sábado acordei com um telefonema bem cedo: -- Tenho dois convites para a Bethânia no TCA, hoje, quer? Tem que dizer agora ... Ainda sonolento, disse que sim. Desmarcaria qualquer compromisso. Nunca vi um show de Maria Bethânia. Sempre a achei puro rock and roll e isso por o motivo mais clichê do rock and roll, que é o simples fato de Bethânia ter atitude. O show era Maria Bethânia com Omara Portuondo, a diva do Buena Vista Social Clube. Conseguimos parar o carro e chegar em cima da hora, depois de um longo engarrafamento por causa de um show da cantora Ana Carolina que acontecia ao lado, na Concha Acústica, na mesma hora. Uma vez teve em Salvador um evento na Concha Acústica chamado «Caixa Acústica», com Bethânia, Adriana, Cássia, Margareth, Simone ... e um amigo disse que o evento devia se chamar «Caixa (de sapato)». Antes da entrada, uma mesa vendendo CDs e DVDs originais de Bethânia. Qualquer DVD custava 50 reais. Aproveitando as meninas dos Stones: -- Aí é foda, viu, Bethânia? Depois de toda a revolução digital, querer combater a pirataria e ao mesmo tempo cobrar 50 reais por um DVD, não dá. Fomos em direção ao teatro e, na subida da rampa que dá acesso às cadeiras, espremidos entre as pessoas, sentindo aquele forte odor da mistura de perfume com maquiagem, vi um casal de modelos entregando uma sacola com brindes. -- O que é isso?-- perguntou Cris. -- Propaganda de alguma coisa -- respondi, puxando ela para que não pegasse a tal sacola. Subimos mais um pouco e vi uma senhora lendo um pequeno livreto azul. Eu achei que era o release que falava sobre o show, e que devia estar na tal sacola que estava sendo entregue e que eu, prepotentemente, recusei. Comuniquei à Cris o suposto engano, fui obrigado a voltar para pegar a tal sacola e só aí nos demos conta do engano, pois, na verdade, eu estava certo. Era só propaganda. Aquele livreto azul que a mulher folheava era o encarte de algum CD que ela deve ter comprado na mesinha. A Josinha Pacheco Consultoria Imobiliária entregou, dentro daquela sacola, um anúncio imobiliário com uma rosa. Até aí tudo bem, cada um acredita numa estratégia específica para atingir o seu público-alvo, e o tal anúncio que Josinha Pacheco Consultoria Imobiliária entregou era sobre três empreendimentos que estavam sendo vendidos. Quando vi do que se tratava, fiquei puto por ter caído na armadilha que eu mesmo tinha previsto e fui jogar tudo fora, onde todo mundo jogava, formando um amontoado de sacolas de papel sem uso, na entrada do teatro, mas, no meio do caminho, eu vi que o anúncio tinha um título: «Maria Bethânia e Omara Portuondo. Um encontro mágico do Brasil com Cuba." E, embaixo desse título, um texto. Joguei a sacola fora, guardei a flor e fiquei com o tal anúncio para ler o tal texto sobre o show. Me senti um pouco melhor, talvez menos enganado ... teria algo para ler sobre o show esperando ele começar ... Achei minha cadeira e sentei para ler o tal texto sobre o encontro do Brasil com Cuba que Josinha Pacheco Consultoria Imobiliária preparou. O texto era assim: Maria Bethânia e Omara Portuondo. Um encontro mágico do Brasil com Cuba. Atuante no mercado imobiliário há mais de três décadas, Josinha Pacheco conquistou, ao longo desses anos, posição de destaque através de seu profissionalismo e dedicação. Com visão estratégica, responsabilidade social, e diferenciais competitivos, sempre buscou trazer parcerias inovadoras em conformidade com as novas tendências mundiais acompanhando o mercado e suas evoluções ... Putaquepariu. -- Essa foi foda, viu, Josinha? Sabe o que você pode fazer com esses apartamentos? Sabe o que você pode fazer com esses apartamentos, Josinha? Você pega esses apartamentos e ... Diferente dos Stones, a coisa mais sexy que aconteceu no show de Bethânia foi quando ela começou os versos de Você não sabe,;; e a senhora da minha frente virou a cabeça pra trás, fechou os olhos, botou a mão no peito, suspirou fundo e cantou junto com Bethânia " você não sabe quanta coisa eu faria, além do que já fiz. Você não sabe até onde eu chegaria pra te fazer feliz». Quando ela jogou a cabeça de volta para a frente, pude sentir todo o cheio do blush, do lápis de olho, do batom, do perfume e do laquê. O show foi muito bom. A banda que as acompanhava era extremamente competente e tocaram de forma entusiasmada. E Omara e Bethânia botaram pra ... (1) She was, de Mick Jagger e Keith Richards. (2) Reconvexo, de Caetano Veloso ( 3) Jumping Jack Flash, de Mick Jagger e Keith Richards. (4) Você não sabe, de Roberto e Erasmo Carlos. Número de frases: 113 O desgaste a que foi submetida a cultura dos DJs não poupou nem mesmo a arte do remix. Se, em outros tempos, a concepção menos imaginativa dessa técnica a limitava a uma reconstrução de uma faixa para torná-la acessível aos padrões radiofônicos, da segunda metade dos 90 em diante surgiu um outro tipo de dificuldade: o remix se reduziu muitas vezes a uma desengonçada busca de um quê de moderno -- não importa se o resultado final terminasse numa alteração burocrática e sem sabor do original. Transformer -- coletânea de remixes para músicas de artistas pernambucanos organizada por o DJ Bruno Pedrosa -- nasce, assim, sob essa suspeita. Quando chegar às lojas, em março, vamos ter mais um projeto caça-níquel nas prateleiras? Felizmente, a resposta é não: na verdade, o disco filia-se a uma vertente local de experimentação que já rendeu frutos como o disco 2 do CSNZ, da Nação Zumbi, uma das iniciativas pioneiras no Brasil em encarar o remix como ferramenta criativa, ou, mais recente, como o Maurizstadt Dub, coletânea da Candeeiro com «entortações»? maneira jamaicana para composições de artistas populares. É verdade que Transformer não é tão inspirado como seus antecessores: há um excesso do formato drum and bass e, o que é pior, usado sem jamais ultrapassar o limite do meramente correto. Uma escolha dos convidados, à revelia da curadoria, mas que merecia um enxugamento em benefício do todo. Ainda assim, não faltam bons momentos aqui. Minhas faixas favoritas são a radical transformação que os Originais do Sampler fazem do Cordel do Fogo Encantado, o broken beat forjado por Drumagick para um original de Silvério Pessoa e DJ Dolores usando seu estúdio caseiro para recriar ... DJ Dolores. Quando Transformer sair, todo o conteúdo estará disponível para download no www.fundicao.com/transformer. O CD é independente e o título, bem, o título é sampleado mesmo do disco homônimo de Lou Reed. Número de frases: 16 Mas não tem qualquer remix glitter entre as 14 faixas, não! Em o cenário da política cultural mato-grossense hoje temos duas formas de pensamento em tensão: a primeira e mais antiga, porque tem suas raízes antes mesmo do «Estado Novo», tende a ser uma mistura de dirigismo cultural e liberalismo porque vai misturar um forte incentivo ao mercado com políticas de manipulação identitária através do culto ao passado. Seu grande objetivo é servir de ação legitimadora dos governos e instrumento de cooptação ideológica dos artistas, tem uma lógica onde a cultura é reduzida a mercadoria e a instrumento de marketing político para legitimação dos governantes, a mera produção de eventos e a proteção ao patrimônio são as duas marcas que tornam manifesta e perceptível essa concepção. A segunda forma anseia construir no país uma democracia cultural, onde as ações de política pública na área da cultura devem ser pensadas como maneiras de garantir os direitos de livre participação na vida cultural (que se desdobra em direito a livre criação e direito a fruição) e o direito a identidade cultural. Essa perspectiva democrática exige uma profissionalização dos órgãos governamentais que lidam com a cultura porque sua fundamentação exige a participação popular e o conhecimento dos cenários culturais para constituição das ações que não podem mais ser baseadas no «achismo» de artistas e gestores iluminados. Ela deve ser feita buscando uma presença perene e diária na vida das pessoas através da construção de uma rede que se estruture como um sistema e na análise de dados que indiquem as necessidades culturais da população brasileira. Em a possibilidade aberta por a idéia de democracia cultural existe uma valorização dos cursos de formação, das amostras e festivais, dos coletivos de criação, e os grandes artistas passam a ser valorizados porque é direito de todos participar da experiência que suas obras propõe. O grande objetivo é possibilitar que todos possam criar, se assim desejarem, e que todos possam ter acesso ao que é criado para fruir, ou seja, ter a prazerosa experiência de dar existência a obra artística ou prática cultural no papel, também ativo, de apreciador como leitor, espectador, visitante etc ... A primeira forma de pensar a cultura é francamente elitista e manipulatória, tudo ou vira mercadoria para poucos ou se transforma em monumento da memória do poder. A segunda perspectiva trabalha cultura como direito e considera como positiva a participação da sociedade na sua construção e exige um estado que seja instrumento de acesso a criação e a fruição culturais. Em a formação eleita em 2004 do conselho de cultura do estado de Mato Grosso estas duas tendências se mantiveram equilibradas de forma precária e contraditória, mas equilibrada, basta pegar os editais antes de outubro de 2006, pois, a ultima reunião foi em agosto, e verificar a quantidade de amostras, festivais, cursos de formação nas diversas áreas que foram incentivadas. Em relação a conselhos anteriores vamos ver uma crescente descentralização dos recursos e de valorização das políticas de acesso, formação, mas isso, não se deu por a simples iluminação dos gestores, foi também resultado de luta dos representantes da sociedade civil dentro do conselho, a tão alardeada participação na conferência nacional com uma das maiores delegações foi também resultado desse ambiente de choque, discussão e cobrança que deve ser normalmente o ambiente dos conselhos que administram fundos de dinheiro público. A sociedade civil tem que estar presente e ser ativa para tentar equilibrar o «normal desejo» dos governos de se auto-promoverem e estimularem política culturais que satisfaçam barganhas com seus aliados ou festejem sua existência. Esse equilíbrio foi rompido, os setores que representam a sociedade civil, o movimento social da cultura, foram vitimas fáceis do pragmatismo político e eficiência dos gestores municipais que construíram uma articulação competente para valorizar seus interesses dentro do conselho de cultura por os próximos dois anos. Não há como questionar a legitimidade do processo eleitoral, o que deve ser feito por o movimento social da cultura é uma reavaliação da sua ação política e uma profunda organização para fiscalização e vigilância das ações da secretaria de estadual cultura e do conselho, ou seja, voltar a cumprir seu papel histórico. Os produtores culturais comprometidos com os coletivos de criação não devem ter ilusões, ou dar ouvidos aos discursos populistas que se desenham, eles não existem ideologicamente para corrente de pensamento vencedora. Não há revanchismo, ou sentimento nessa afirmação, é um fato, uma realidade que deve ser digerida, um remédio para nossa alienação. O bom nesse cenário é que as contradições que estimularam o surgimento da organização política dos artistas e produtores culturais na década de 1980 e 1990 se evidenciarão com toda sua força, aquecendo a caldeira da luta, motor da história. O momento não é para jogos de palavras ou ironias, devemos reconhecer a legitimidade do adversário cumprimentá-lo com um aceno de chapéu, sabendo que o aprendizado é um caminho doloroso e violento, mas necessário. O movimento social da cultura em Mato Grosso deve agora, mais do que nunca, reforçar seu programa que concebe a utilidade do fundo de cultura para apenas duas coisas: a promoção das ações da sociedade civil e para construção do sistema estadual de cultura como instrumento para garantia dos direitos culturais. Além disso, nada deve parar, se faltar financiamento, por imaturo revanchismo governista, não nos falta talento e vigor, estamos prontos artisticamente para romper as barreiras geográficas, sociais, e políticas impostas historicamente ao fazer cultural mato-grossense. O ano de 2007 está prenhe, fértil, adubado com nossas pequenas mortes, só nos resta, florescer e irradiar vitalidade artística para todo lado. Juliano Moreno é bacharel em direito; professor universitário, mestre em história por a UFMT, escritor, produtor cultural do Projeto Palavra Aberta e do Concurso de literatura «Adeptus» que ocorrem em Mato Grosso, editor da revista de poesia «Fagulha» e da coletânea de contos " Em a margem esquerda do rio: Contos de fim de século», publicada por a editora Via-Lettera. Número de frases: 27 Capaz de misturar Luiz Gonzaga, Beatles e Roberto Carlos e fundir com desenvoltura as culturas árabe, ibérica, caribenha e nordestina em sua própria música, ele se autodefine como um «liqüidificador ambulante». O personagem é o cantor, compositor, instrumentista, ator e produtor musical cearense Raimundo Fagner Cândido Lopes, nascido em 13 de outubro de 1949, que recentemente concedeu entrevista aberta ao público, dentro do programa Nomes do Nordeste. Com entrada franca, a entrevista aconteceu no último dia 9 de maio, no cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza, com transmissão simultânea para telões instalados em mais dois auditórios (um no saguão do andar térreo e outro no 3º andar) do CCBNB. Em o programa, Raimundo Fagner foi entrevistado por o pesquisador, colecionador musical, videomaker e radialista Valdo Siqueira, compartilhando a sua história de vida, trajetória artística e canções com 320 pessoas presentes ao Centro Cultural. Em breve, a entrevista será editada no formato DVD, para posterior teledifusão em TVs públicas, educativas e culturais, e disponibilização gratuita em bibliotecas e instituições de ensino do País. Antes de sair o DVD, adianto aos overblogueiros trechos da entrevista de Fagner, com aquele sabor de Melhores Momentos. Rua Floriano Peixoto, 1779. Fagner começa o bate-papo evocando o endereço onde nasceu, no bairro José Bonifácio, adjacente ao centro de Fortaleza, embora muitos pensem ter ele nascido em Orós, no interior do Ceará: «uma prima, dona de cartório, me registrou como oroense, mas na verdade sou de Fortaleza e cresci nas duas cidades -- férias em Orós e estudos em Fortaleza». Libanês, seu pai chegou a Orós «de cavalo, vendendo tecidos», fugindo das perseguições religiosas em seu país de origem, e casou com sua mãe, viúvo de primeiras núpcias. «Dizem que ele já flertou com a minha mãe em pleno velório da primeira mulher de ele; naturalmente, mamãe não gostava nem um pouco dessa história», relembra a lenda familiar. Em Fortaleza, seu pai tinha uma rinha de galo, perto de casa, próxima ao prédio do Batalhão da Polícia Militar. «Ainda me lembro andando de velocípede nu, pedalando lá de casa para a rinha do meu pai. Certa vez, eu e minhas irmãs soltamos três galos que começaram a brigar entre si e acabaram mortos. Desgostoso, papai fechou a rinha», recorda-se, arrancando risos da platéia. Clones do The Who e Woodstock Desde muito cedo intuiu que ia ser cantor: «meu negócio era música. Com seis anos de idade, eu cantava na PRE 9 -- Ceará Rádio, depois ia nos programas de calouros da TV Ceará Canal 2 -- já nasci com o verme mesmo. Eu só estudava porque era obrigado a estudar, por isso fui expulso de vários colégios -- acho que meu destino já estava traçado». Em a adolescência, anos 1960, fundou a banda «Os Quem», nome roubado à contemporânea banda de rock inglesa The Who. Em a juventude, participou e venceu festivais estaduais de música. Para ilustrar essa época, rascunhou, voz-e-violão, «Luzia do Algodão (parceria com Marcus Francisco), ganhadora do Festival Aqui no Canto, em 1969)». Em essa época, Fagner freqüentava o centro de convergência social e cultural que ebulia em torno da faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC) -- segundo ele, o melhor ambiente de Fortaleza. «Era o melhor, porque ali a gente tinha liberdade total, era uma festa. Ali a gente ouvia discos, mostrava as canções novas, conversava sobre música, dormia fora de casa, namorava as meninas ... ali era o nosso Woodstock», revela com expressão marota, fazendo referência ao maior festival da era hippie, que reuniu 500 mil jovens, de 15 a 17 de agosto de 1969, em Bethel, Nova Iorque, Eua. O choro de um Rei Muda-se para Brasília e, cursando Arquitetura, conquista o primeiro lugar em festival universitário com «Mucuripe» (parceria com Belchior). Abandona a cidade e o curso, e segue para o Rio de Janeiro. «Mucuripe», esse talismã, de cara é logo gravada por grandes intérpretes -- primeiramente por Elis Regina, em 1972, e depois por Roberto Carlos, em 1975. «' Mucuripe ` é a razão de eu existir profissionalmente até hoje. Elis Regina foi quem abriu as portas para mim. E Roberto Carlos, quando me chamou para um canto e disse ' bicho, me mostra ' Mucuripe ', eu cantei e ele simplesmente chorou -- e gravou! Foi uma das maiores emoções da minha vida, ver o Rei, meu ídolo, se sensibilizar tanto ao ouvir uma música minha», atesta. Fagner também ficou conhecido como uma espécie de herdeiro musical de outro monarca da música brasileira -- o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Foi o único artista a gravar dois discos em dueto com Gonzagão: «realmente minha relação com ele era de pai e filho, era maravilhoso». Com Gonzagão fez chover Dois shows com Gonzagão deixaram marcas indeléveis na memória profissional e afetiva do cantor cearense: «os momentos mais incríveis com ele foram um show em Natal, para arrecadar recursos para os flagelados da Seca. Fazia muito tempo que não chovia. Quando entramos no palco cantando «Súplica Cearense» (Oh Deus, perdoe este pobre coitado / que de joelhos rezou um bocado / pedindo para a chuva cair sem parar), começou a chover. Era um estádio inteiro, com 50 mil pessoas, todo mundo chorando de emoção e alívio por a volta da chuva; o outro foi também no Rio Grande do Norte, em Pau dos Ferros, uma cidade com apenas 18 mil habitantes à época, mas na platéia tinha 50 mil. De o palco dava pra ver um monte de caminhões, carretas e ônibus chegando, só trazendo aquele mar de gente -- isso na hora do pôr-do-sol, uma das imagens mais lindas da minha vida». Aproveita para salientar outro orgulho profissional, resultado do seu espírito gregário e do fato de se relacionar bem com as diferenças, sem preconceitos musicais: «nenhum outro cantor gravou em dueto mais do que eu. Gravei com todo mundo: desde Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Agnaldo Timóteo, Amado Batista, Ângela Maria e Lucho Gatica, até Seu Jorge, Cazuza, Zeca Baleiro, Nara Leão, Chico Buarque e todo o pessoal do Nordeste». Ética do artista viajante Para cada disco, recebe mais de mil canções para ouvir, provenientes de autores com esperança de serem gravados por ele. «Por causa disso, disponho em casa de um mapeamento da maioria dos poetas amadores e anônimos desse País, compositores desconhecidos que vivem em lugares de que nunca tinha ouvido falar; ouço todas essas músicas, e se me identificar com a linguagem da canção, gravo mesmo», afirma Fagner, que já gravou «Muito Amor, de São Beto, e Certeza», de Domervil. Alguém conhece esses dois? A determinação de cumprir uma exaustiva agenda de shows, que se espraiam desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul, conduziu Fagner à construção de um código de ética na relação humana e profissional com os músicos de sua banda e a equipe técnica que o acompanham nas viagens Brasil afora: «gosto de trabalhar com gente talentosa, claro, mas também com bom caráter, honesta, leve e bem-educada. às vezes, estamos nos interiores por aí, e é preciso saber exercitar a paciência e até mesmo o bom-humor nas longas esperas nos aeroportos, e também saber tratar bem os funcionários de um hotel ou pousada mais simples, onde há menos conforto mas, em compensação, há mais carinho e atenção no atendimento», declara. Opção por o simples prazer de viver Refletindo sobre os sentidos da profissão e da relação com o público, ele ressalta: «o que move o artista é o olhar que vem de lá pra cá, da platéia para a gente no palco, o que o público transmite, aquela energia que vem da platéia». O retorno a Fortaleza, depois de morar 20 anos no Rio de Janeiro, também faz parte dessa reflexão. «Torna-se sufocante aquela correria, o entra-e-sai de rádio, televisão e gravadora para produzir e divulgar a nossa música -- a gente acaba vivendo só para trabalhar. Chegou a um ponto em que eu queria estar no meu lugar, perto da família e dos amigos, e fazer coisas simples mas prazerosas, como falar besteira, contar piada, tomar um porre, curtir uma farra até de manhã -- e utilizar a mídia só quando for realmente necessário e não atrapalhe esse prazer simples que é viver», delimita. Número de frases: 65 Pra quem não sabe: os zines já estão devidamente xerocados e prontos para serem lidos e relidos amanhã, dia 30, Balaio Café, 201 Norte. Serão vendidos por o valor simbólico de 2 reais. É curioso como os livrinhos parecem ter se extraviado no tempo. Apesar de novos ele tem um aspecto meio antigo -- quase atemporal. Claro que é legal publicar um livro e vê-lo todo encadernado e afrescalhado com o carimbo de uma editora. Mas o zine como artefato cultural genuinamente paralelo, alternativo e independente é algo único. E todos são muito bons. Murilo se renova a cada nova empreitada como o maior agitador literário da cena brasiliense -- ele próprio um escritor prolífico e questionador -- e acertou na mão ao recolher um material fresquinho, recém-saído da mente e do estômago da nossa geração desequilibrada. Eu e Murilo xerocando e organizando a papelada éramos os próprios Gutembergs espalhando ao mundo as novas. Eis aí uma breve impressão de cada um: «Esperando o telhado envelhecer» de Áltor Pessoa. Poeta recluso e brilhante, Pessoa -- ele faz jus ao nome -- só se mostra em público em raríssimas ocasiões. Especula-se que talvez amanhã ele apareça no tal lançamento. Tratam-se de «quatro poemas paranóico-obsessivos» em que ele experimenta e subverte a linguagem numa torrente catatônica, experimental e caleidoscópica. Seus poemas que geralmente falam de temas prosaicos da natureza -- já foram comparados a uma espécie de Manuel de Barros levemente urbanizado -- se concentram agora no processo de destrinchar e subverter sua angústia e psicose. O que não descarta a possibilidade de se mostrar falastrão e escatológico -- logo quando o poema se desfaz em sua puerilidade -- em momentos como: «Quem me espremerá? Deus? Eu, furúnculo, não preciso ser espremido revelando-me pus, sou eu mesmo esse pus, não dá pra ver isso?" «Pequena antologia sentimental do velho Itabagiba» organização de Leonel Gosi. Supostamente uma compilação de um velho excêntrico e desbocado, a obra de Gosi é uma sanagem ao melhor estilo de literatura hardcore, descendente direto de Bukowsky, Pedro juan Gutierrez e Cia.. Tratam-se pequenos contos explosivos e hilários. Destaque para «Visitante», no qual o narrador leva um boquete anônimo de madrugada e tenta achar o autor da façanha no café da manhã. A o olhar para o amigo, " causava-lhe repugnância ver seu rosto por barbear e pensar que poderia estar fazendo sua segunda refeição." " 13», de sr. Kneipp. Não é á toa que o personaem do inteligentíssimo conto é um relojoeiro. Com estilo claro e elegante, quase desnecessariamente europeu, Kneipp nos brinda com uma história fantástica sobre um relógio de treze horas e uma estranha fenda no tempo. Em o melhor estilo Borges. Ao que parece esse conto compõe um livro recém-lançado por a LGE. «O doutor» de Nildo Viana. Uma brincadeira divertida e desprenteciosa -- numa espécie de inocência quase infantil -- sobre a lógica ilógica do academicismo burdo-surdo mudo. Palávras do autor: «Aliás, a academia é isto: um poço de pensadores estéreis." Faço coro: os verdadores pensadores estão na rodoviária. «O baú da felicidade» de André luiz. O mais fraquinho entre os livros traz num humor raso e bobinho sobre as peripércias de um funcionário do SBT que se mete em confusões após ser exposto a sessões de catarse onírica -- sugerindo situações surreais e coloridas próximas de um Almodóvar piorado -- e submerge num final esquemático e previsível. O autor deve ter uma personalidade emporcalhada com filmes b norte-americano. «Razões por as quais não é conveniente votar» de Ézio Flávio Bazzo. O veterano e subversivo escritor brasisilense defenestra a democracia representativa e faz apologia do voto nulo. «Não deves votar», diz ele,» entres outras mil razões, porque o voto é obrigatório e secreto." É uma coincidência histórica pertinente que seu manifesto -- inédito -- seja lançado na véspera da boiada ir para o matadouro da urna eletrônica. «Retrato do bêbado quando jovem -- Uma etnografia intrometida das conversas de bar» de Murilo Seabra. Pequeno estudo sobre os monólogos simultâneos vomitados e patrocinados por as grandes cervejarias nas mesas dos bares do mundo. O autor adverte de que é «um texto profundamente teórico» mas dá para se divertir com a exposição desconstraída da incomunicabilidade humana. «Lost Bois -- em busca da boiada perdida." Zine coletico com os delírios da galera. De esse eu não conto nada. Só indo lá pra conferir. Pessoas que acessam o Overmundo: quando e se esse texto entrar no Overblog já terá acontecido o grande evento. Mas mesmo assim fica aí a sinopse de cada zine e o contato. Atitudes como essa fazem história. Todo movimento literário começa assim -- anárquico, desorganizado, independente. Número de frases: 55 Com a facilidade de comunicação virtual fica mais fácil a troca mútua e simultânea de textos e informações para um eventual segundo lançamento com novos títulos e novas alegrias. De modo geral, acho que o preconceito está enraizado na ignorância ou na preguiça de pensar, porque contestar dá trabalho. Em o que tange a arte (porque esta discussão serve para praticamente tudo, mas vamos direcionar melhor o foco), sou contra preconceitos de gênero: não acho que a comédia (no cinema, lembremos de Lubitsch, Preston Sturges, Jacques Tati, Leo McCarey, Chaplin etc.) ou o melodrama (Visconti, Douglas Sirk, Nicholas Ray, Emilio Fernández e outros entre eles Chaplin e McCarey, de novo) sejam menores do que a tragédia como repetem na imprensa e algures alguns papagaios, baseados em cânones duvidosos, porém aparentemente perenes. Assim como não acho que a poesia seja necessariamente melhor do que a prosa. Ou de que o jazz seja melhor do que o samba. Ou que a arte dita «erudita» seja automaticamente melhor do que a «popular» e vice-versa. E por aí vai. Tenho grande apreço por a arte como expressão de tudo que é humano (e não só do que é «belo», mas não vamos entrar em Estética), e não vejo por que limitá-la. Discursos na mera base do «isto é bom, aquilo é ruim» ou «isto é certo, aquilo é errado» me soam como um atentado à liberdade do artista e à diversidade da vida, um exagero de arbitrariedade que não considero bem-vindo. Em a área do cinema, à qual venho me dedicando nos últimos anos (após passar por várias outras, principalmente a literatura), mas ainda como iniciante, além destes preconceitos de gênero (ou do «erudito» ou «cult» ou qualquer outro rótulo diluidor e limitante versus " popular "), existem uma série de outros. Um de eles é a valorização (muitas vezes automática e irrestrita) da tal da «pesquisa de linguagem» (ou " experimentalismo ") em detrimento de um formato clássico (" tradicional "). Mas quem defende este tipo de idéia (em geral no nicho do curta-metragem, talvez porque o formato não tenha «apelo comercial» mas isto não é meio covarde? E não se pode «experimentar» num longa sem ser exceção só porque o «povo» uma minoria, talvez a tal da «elite» não da tropa que nosso presidente insiste em criticar, apesar de fazer parte de ela paga pra ver?) não define direito o que é, afinal, «experimental» (que já virou rótulo a ponto de existir categorias em festivais que os premiem). Por acaso é um projeto não-narrativo? ( Se for, o nome da categoria não poderia justamente ser «não-narrativo» ou «poético» ou algum outro menos frouxo?) Por acaso é algo que use de novas tecnologias e não seriam elas mesmas «experimentais», ou mais experimental é resolver fazer um filme mudo e em preto-e-branco com uma câmera pinhole em pleno século XXI? ( Mas aí sucessos populares como «A Bruxa de Blair» e os «Star Wars do George Lucas» não seriam tão «experimentais» quanto os cults «O Mistério de Oberwald do Antonioni» ou o «200 Motels do Frank Zappa»?) Outro clichê que vejo e ouço reproduzido por aí, aparentemente sem muito critério, é o da busca por um «cinema puro» (essa história de pureza me lembra o «Mein Kampf», brrr!). Este cinema «puro» seria aquele que «se libertaria dos grilhões da literatura e do teatro», algo assim. Só que esta idéia (ou melhor, a defesa de que " assim é bom, assim é certo ") é que me parece um grilhão. Como meio audiovisual, creio que o cinema pode muito bem trabalhar imagem e texto, num formato dramático-narrativo, aristotélico (que não envelheceu nem um pouco, justamente porque contar e ouvir ou ver histórias é algo básico na experiência humana; básico, porém sofisticadíssimo), sem ser necessariamente menos interessante do que obras que investem no estímulo sensorial de seu espectador ou em associações poéticas também sofisticadas, com conceitos pertinentes e muito bem formulados (eu adoro videoarte, a vanguarda francesa dos anos 1920, o Buñuel, a Maya Deren, o Julio Bressane, o David Lynch, filmes como «Caramujo-Flor», do Joel Pizzini etc.). Acho curioso que, ao mesmo tempo que é dito que Eduardo Coutinho é o maior documentarista brasileiro (acho fascinante o trabalho de ele com a palavra), também corra por aí que seu cinema seria «chato» ou «antiquado» porque se resumiria a «talking heads». Os vídeos documentários que eu fiz não contêm palavras (são espécies de «sinfonias da metrópole» embora nem todos tenham sido feitos em grandes cidades), mas também não concordo quando um dos cineastas que mais admiro (são dezenas), Alfred Hitchcock, diga numa entrevista que acredita que o diálogo num filme deveria se limitar a um ruído também acredito que esta regra do «show, tell» deva ser relativa, nunca absoluta. Em certo ponto de «Adaptação», Charlie Kaufman e Spike Jonze ironizam a crítica que o» guru dos roteiros «Robert McKee faria ao uso de narração no cinema, como se um bom texto lido num filme fosse demérito e se fosse, um filme como» Palavra e Utopia», do Manoel de Oliveira, não seria a maravilha que é. Estou rascunhando este texto com rapidez, deixando as idéias fluírem, e não sei se estou me expressando bem (não vou fazer uma revisão nem reescrevê-lo, o tempo urge mas prometo dar uma olhada nos comentários durante o período de edição e discutir mais e melhor se os leitores desejarem). Tendo dado uma pincelada no problema (que é um iceberg), devo relevar o motivo de estar escrevendo isto, hoje. Em 2003, mais de dez anos depois de ter feito meu primeiro vídeo, escrevi um roteiro de curta-metragem que foi filmado no ano passado, em película de 16mm, e que finalmente vai estrear, no próximo domingo (25 de novembro, às 15h, no Teatro Nacional Claudio Santoro, com reprise no dia 26, no Centro Cultural Banco do Brasil), durante o 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (o filme passa em São Paulo em dezembro, dentro da 21ª Mostra do Audiovisual Paulista). O desafio a que me propus foi o de conseguir, no espaço exíguo de tempo que o curta oferece (este ficou com menos de 14 minutos), criar, além de um filme, uma peça dramática que contasse uma história com começo, meio e fim (também há muito preconceito com esta progressão temporal natural, embora a maioria dos filmes que busquem fugir de ela apenas embaralhem a ordem de apresentação dos fatos claro que há exceções notáveis, como «O Ano Passado em Marienbad» e outros), com personagens arquetípicos (de acordo com uma tradição cômica que funciona desde a aurora da humanidade), com múltiplos níveis de conflito, alguma metalinguagem e que fizesse referências a questões da contemporaneidade. Algo que eu raramente vejo nos festivais de curtas, que acompanho fervorosamente há muitos anos. De os trabalhos que fiz, é o filme que mais se apóia nos diálogos embora cada cor, objeto, figurino, música, posicionamento de câmera etc. tenha sido minuciosamente pensado é o meu trabalho mais racional, até porque em sua gênese é um projeto acadêmico. Apenas estas questões formais já estimulam minha curiosidade a respeito da recepção do filme no contexto de um festival (já que o pensei também como uma forma de comunicação com o público leigo, talvez acostumado e acomodado demais com os formatos propagados por a dramaturgia televisiva embora fazê-lo chegar a este público seja dificílimo), mas faltou falar que ele, além de ser uma comédia (sem evitar o ridículo, o patético, o grotesco, o vulgar tudo é humano), enfoca personalidades ligadas ao cinema brasileiro mais popular no caso, as famigeradas «pornochanchadas», muito vistas por muitos e muito mal-vistas por poucos. Quando o público dos festivais vir Carlo Mossy vestido de Papai Noel e falando «puta que pariu», qual será a reação: choque, indiferença, desprezo, risadas ou aplausos? E os jurados, o que pensarão? «Ousado»?" Tosco»? «Irônico»?" Estúpido»? Número de frases: 39 rio são miguel A batalha do Casarão dos Patos Um dos momentos mais sangrentos da Guerra de Princesa, em 1930 Ao longo da história da região Nordeste do Brasil, não faltam ocorrências que perpetuam a valentia de alguns e a covardia de muitos. Onde muitas histórias são regadas a sangue, com muitos tiros, correrias e tropelias. Em toda a região os relatos sobre estes fatos são continuamente passados as novas gerações, muitas vezes através da tradição oral, do folheto de cordel, sendo depois documentados em livros, servindo então de temas para teses acadêmicas, que contestam ou corroboram os fatos. Outras vezes o espectro é ampliado e estas sagas chegam ao teatro, a televisão e ao cinema. Mas a tônica é uma só; estes episódios são sempre conhecidos e repetidos por a região. Em este sentido, é de se estranhar que atualmente na região ocorra um acentuado desconhecimento e uma estranha falta de informações sobre o conflito deflagrado no ano de 1930, na região da atual cidade paraibana de Princesa Isabel, próximo à fronteira com Pernambuco e conhecido como a «Guerra ou Sedição de Princesa». A Guerra de Princesa Esta guerra (e não há nenhum exagero de assim chamá-la), foi pródiga de episódios interessantes e cruéis, onde tudo começou através de discórdias políticas e econômicas, envolvendo poderosos coronéis do interior do estado e o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política paraibana, onde era valorizado o grande latifundiário de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo do algodão e na pecuária. Estes «coronéis» atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações as quais o novo governador não concordava. Entre os embates ocorridos, podemos listar uma maior perseguição do governo estadual aos grupos de cangaceiros e a cobrança de taxas de exportação do algodão. Por esta época, os coronéis exportavam o produto principalmente através do principal porto de Pernambuco, em Recife, provocando enormes perdas de divisas tributárias para a Paraíba. Procurando evitar esta sangria financeira e efetivamente cobrar os coronéis, João Pessoa implantou diversos postos de fiscalização nas fronteiras da Paraíba, irritando de tal forma estes caudilhos, que pejorativamente passaram a chamar o governador de «João Cancela». Os embates políticos entre o governador e os coronéis foram crescendo. A maior liderança entre estes poderosos, sem dúvida foi o coronel José Pereira Lima, verdadeiro imperador da região oeste da Paraíba, na área da fronteira com Pernambuco, tendo como base, a cidade de Princesa. De o embate entre estes dois homens resultou num dos maiores conflitos armados do Brasil Republicano. A contenda teve início em 28 de fevereiro de 1930, quando ocorreu a invasão da então vila do Teixeira (PB), por parte da polícia paraibana, com o aprisionamento da família Dantas, ligada por profundos laços de parentescos e interesses ao coronel José Pereira. Os primeiros lances do conflito Apesar de governador João Pessoa não contar com o apoio do Palácio do Catete, onde o titular, Washington Luís, não viabilizou uma efetiva ajuda as forças policiais paraibanas, o mandatário paraibano foi à luta. Com o apoio discreto, mas efetivo, do Presidente da República e dos governadores de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, e do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria, o coronel José Pereira decidiu criar o «Território Livre de Princesa» com absoluta autonomia, separando-se durante o período do conflito do restante do estado da Paraíba. Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos desses lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana. Em o lado do presidente Pessoa, suas tropas estavam sob o comando do Coronel Comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, do então Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, e do Secretário de Interior e Justiça, José Américo de Almeida. Em a tentativa de desbaratar os sediciosos de Princesa, estes comandantes dividiram os efetivos policiais, compostos por cerca de 890 homens, em colunas volantes. Em o povoado de Olho DÁgua, então pertencente ao município de Piancó (PB), estava aquartelado o comando geral de operações da polícia paraibana, que decidiu enviar à Princesa uma de suas colunas volantes, conhecida como «Coluna Oeste». Esta coluna era comandada por o Tenente Raimundo Nonato, que tinha entre seus principais comandados o valente sargento Clementino Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé, ou «Tamanduá Vermelho» (por ser branco e ficar «avermelhado» quando nervoso). Quelé era a valentia em pessoa, calejado nas lutas do sertão, podia se vangloriar de possuir no seu «currículo», mais de vinte combates contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Foi a volante de policiais comandadas por Quelé, a primeira a entrar em Mossoró, em 13 de junho de 1927, perseguindo Lampião e seu bando, logo após este ter tentado invadir esta importante cidade potiguar. Composta de valentes combatentes, foi para a «Coluna Oeste» que o comando designou uma missão especial. O ataque ao Casarão dos Patos Em Princesa, entre um dos mais importantes líderes das tropas locais estava o fazendeiro Marçal Florentino Diniz, poderoso e influente agro-pecuarista da região, que juntamente com seu filho, Marcolino Pereira Diniz, eram parentes e pessoas da inteira confiança do coronel José Pereira. O coronel Marçal Diniz possuía no então distrito de Patos de Princesa, a 18 quilômetros da cidade, uma fazenda localizada no sopé da grande serra do Pau Ferrado, o segundo ponto mais elevado da Paraíba, com cota máxima em torno de 1.120 metros de altitude e foi para esta fazenda que o comando da polícia paraibana ordenou que Clementino Quelé atacasse a casa grande do poderoso coronel. Este episodio é conhecido como o «Fogo ou Batalha do Casarão dos Patos». A idéia deste ataque visava dividir as forças do coronel José Pereira, que teria de retirar homens da frente de combate de Teixeira, para socorrer os familiares da família Diniz que estavam no casarão, bem como formar com as reféns uma espécie de cordão de isolamento, um escudo humano, que objetivava garantir a segurança dos militares. Pensavam que, agindo assim, nenhum defensor de Princesa ousaria atirar nos combatentes do governo paraibano. Outra teoria seria a de levar as mulheres como prisioneiras, ou reféns, para a cidade de Paraíba do Norte (atual João Pessoa) e forçar os comandantes de Princesa a alguma espécie de negociação. Em o dia do ataque, 22 de março de 1930, Quelé e seus policiais, em número estimado entre sessenta para alguns, e entre setenta a cem homens para outros, seguiram atravessando a zona urbana da pequena vila de Alagoa Nova (atual Manaíra-PB) e daí subiram a grande Serra do Pau Ferrado. A o passarem por a propriedade de Antonio Né, pessoa ligada à família Diniz, no homônimo Sítio Pau Ferrado, assassinaram um cidadão por nome Silvino, depois, desceram a serra. Não havia muitos defensores pertencentes aos grupos do coronel José Pereira, ou de Marcolino Diniz e a força policial de Quelé ocupa o local sem maior oposição. Em a casa estavam entre outras pessoas, às mulheres de Marcolino Diniz, Alexandrina Diniz (também conhecida como Dona Xandu, ou Xanduzinha) e a de Luís do Triângulo, Dona Mitonha. Luís do Triângulo era um dos mais valentes e destacados chefes dos combatentes de José Pereira. A batalha sangrenta Em este interregno, o grupo de combate comandando por Marcolino encontrou um soldado da polícia de nome Zeferino, o qual seguia com uma mensagem do Sargento Quelé ao Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, informando da ação contra o casarão. José Pereira e Marcolino Diniz recebem a notícia da prisão de seus familiares. Tomam esta ação como um acinte, uma falta de respeito e preparam o contra ataque. Ordenam que parte de suas tropas que combatiam as forças policiais do governador João Pessoa na região de Tavares, se deslocasse para Patos de Princesa e ordenam que os homens levem farta munição. Outros combatentes conclamam moradores da região para o ataque, enaltecendo a covardia de Quelé, que usava mulheres como escudos. Este chamamento dos líderes de Princesa e de seus homens encontra eco entre membros das comunidades de Princesa e Alagoa Nova e estes decidem seguir com o grupo que vai retomar o «Casarão dos Patos». Em a noite do segundo dia após o bem sucedido ataque de Quelé ao casarão da família Diniz, a situação permanece inalterada. Segundo relatos dos reféns, os soldados, com raras exceções, se portaram de forma vândala e arrogante durante a ocupação. Enquanto isso os combatentes de Princesa vão discretamente fechando o cerco ao casarão. Aparentemente, por falta de comunicação com seus comandantes, Quelé não abandonou a posição e levou seus prisioneiros. Outros acreditam que ele logo percebeu que estava cercado e esperou o inevitável. O certo é que na manhã do terceiro dia de ocupação, o céu se apresentava nublado, os defensores do casarão estavam tranqüilos, apesar da tensão existente na região. Alguns esperavam o café, outros até jogavam uma improvisada partida de futebol (possivelmente com uma bola de meia), no pátio defronte a casa. É quando o primeiro tiro é detonado num soldado que vinha do Sítio Pedra e trazia um carneiro para abate, aí tem início um inferno no «Casarão dos Patos». A polícia estava cercada na casa, se defendendo como podia, o sargento Quelé vai animando seus policiais em meio a uma intensa troca de tiros e insultos entre as forças combatentes. Marcolino Diniz, à frente dos seus homens, está com o «cão no couro», comandando, disparando e mandando buscar cachaça nas bogedas da pequena vila de Patos de Princesa para» esquentar «seus» cabras». Esta cachaça era trazida em sacos, distribuída francamente entre seus combatentes. Até hoje se comenta na região como os distribuidores da bebida terminaram os combates totalmente embriagados e sem dispararem um só tiro. O tiroteio é cerrado. Colocar a cabeça muito exposta nas janelas do casarão é motivo para que algum policial se torne um alvo fácil. Já os homens de Diniz continuam disparando sem cessar. Eles estão espalhados em todo o perímetro, protegidos por árvores, pedras, por os muros e paredes das poucas casas vizinhas. O combate prolongou-se até as dezesseis horas do mesmo dia, quando a polícia praticamente estava sem munição e seus disparos tornam-se esparsos. É quando os homens de Marcolino, aproveitando uma forte chuva que desabava e a existência de um canavial nas imediações do casarão, partem para o assalto final. Durante a invasão é travado um forte combate corpo a corpo em cada uma das dependências da casa. Gritos, pancadas, socos, pontapés, dentadas, tiros, facadas e sons de lutas ocupam o ambiente. Os homens de Quelé procuram à fuga, mas estando o casarão cercado, muitos são abatidos impiedosamente por os combatentes de Marcolino. Alguns policiais fugiam, feridos ou não, por o mesmo canavial que serviu de abrigo para os atacantes e de lá seguiam para a serra do Pau Ferrado. Em esta fuga, muitos combatentes se cruzavam, às vezes cara a cara, dentro do canavial e tiros ou facadas eram desferidas a curta distância. Marcolino, atiçado por a bebida e já dentro do casarão, prometia aos gritos «vou sangrar todo mundo, até Xandu» que no seu entendimento de valentão do sertão, com um pensamento extremamente machista, imaginava que a sua mulher já havia sido estuprada e aí só «sangrando para limpar o corpo». Mas Xandu e as outras mulheres estavam bem e foram preservadas por Quelé e seus homens. Todas estavam num quarto, acompanhadas de um soldado ferido na perna, que conseguira desarmar uma bomba (ou granada?), que o sargento Quelé colocara no recinto. O soldado salvou a vida das reféns, sendo igualmente salvo por as mulheres de ser impiedosamente sangrado por Marcolino e seus «cabras». Após isto, Marcolino e seus homens seguiram por os vários recintos do «Casarão dos Patos», chacinando os policiais que não fugiram. De os militares que lá dentro se encontravam, não sobrou nenhum vivo, pois até o soldado que havia salvado as mulheres, morreu no mesmo dia, devido aos ferimentos, quando era transportado para a vizinha cidade pernambucana de Triunfo. Segundo relatos dos moradores da região, havia até recentemente, em alguns quartos da casa, registros de mãos ensangüentadas nas paredes, mostrando a agonia deste dia terrível. Quanto a Quelé, vendo-se acossado por os homens de Marcolino e escutando o próprio caudilho dos Patos de Princesa gritando dentro do casarão que «queria pegar Clementino e matá-lo sangrado», pulou do andar superior, juntamente com dois soldados e juntos fugiram em direção ao canavial. Já era noite quando conseguiram chegar à serra do Pau Ferrado, depois seguem para Alagoa Nova e ao encontro das forças de João Pessoa. O restante dos militares que escapou com vida embrenhou-se em território pernambucano. O resultado do combate e o fim da guerra De as forças de José Pereira e Marcolino Diniz houve apenas uma baixa, um senhor de nome Sinhô Salviano, possivelmente sob efeito da cachaça, desprezou as ordens e ficou sob a mira dos soldados. Para alguns pesquisadores, as forças paraibanas perderam mais da metade do efetivo, mas segundo os relatos que se perpetuam na região, contados por aqueles que participaram do conflito e transmitidos para seus descendentes, foram mortos em torno de cinqüenta policiais, sendo seus corpos enterrados numa vala comum nas proximidades do casarão. Os equipamentos bélicos dos policiais mortos foram recolhidos por os combatentes de Princesa para reforço de arsenal. Houve outros episódios sangrentos e terríveis na Guerra de Princesa, mas após a morte, em Recife, do governador João Pessoa e a conseqüente eclosão da Revolução de 30, o conflito em Princesa acabou, era o dia 26 de julho de 1930. O coronel José Pereira Lima organizou a defesa dos seus domínios de forma impressionante, provocando baixas estrondosas à força pública paraibana durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência. Princesa não foi conquistada por a polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução de 30, tropas do exército, de forma tranqüila, ocuparam a cidade. O coronel José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região e a família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto. O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por José Pereira. Com o fim da guerra, a fortuna da família Diniz ficou seriamente comprometida. O combate e, principalmente, a ira dos soldados, destruiu tudo. Canaviais, engenhos de rapadura, moendas, casas e outros bens foram alvo da vingança dos fardados, quase nada escapou. Mesmo com as perseguições sofridas após o fim da guerra, todos os anos Marcolino Diniz e sua gente, comemoravam o aniversário da retomada do casarão com muita festa. Marcolino sempre foi um homem controverso, valente, prepotente, astuto e sagaz. Era proprietário das fazendas Saco dos Caçulas e Manga, onde diversas vezes Lampião descansava dos combates. Esta polêmica amizade entre Marcolino e Lampião é bem retratada num episódio; em 30 de dezembro de 1923, Marcolino, juntamente com seu guarda-costa conhecido por «Tocha», por conta de uma briga, matam o então magistrado da cidade de Triunfo (PE), o Dr. Ulisses Wanderley. Marcolino fica ferido e é feito prisioneiro na cadeia pública local. Seu pai, o coronel Marçal, recorreu aos préstimos do cangaceiro a fim de libertar o filho. Não demora muito e um grupo armado, com um número de homens estimado em torno de 100 a 150 homens, retira tranqüilamente o prisioneiro ferido da cadeia. Marcolino e a sua adorável Xandu, continuaram unidos até a morte, tendo seu amor sido imortalizado em 1950, por Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, com a música «Xanduzinha». Marcolino nasceu em 10 de agosto de 1894 e faleceu em Irerê, em 21 de dezembro de 1980, com 86 anos, conforme está inscrito em sua lapide, na igreja deste atraente lugarejo. Já o sargento Clementino Quelé sobreviveu à Guerra de Princesa e ainda teria fôlego para perseguir, no ano de 1936, o bando do cangaceiro Virgínio Fortunato da Silva. Conhecido como «Moderno», foi cunhado de Lampião, homem de sua mais alta confiança, que neste ano investiu contra a região conhecida como» Tigre paraibano», atacando várias fazendas na área próxima a cidade de Monteiro. Quelé, possivelmente por o analfabetismo, nunca passou da patente de sargento, tendo morrido idoso na cidade paraibana de Prata. Coincidentemente, Quelé também foi lembrado numa música de Luís Gonzaga intitulada «Em o Piancó». Quem visita atualmente a antiga Patos de Princesa, atual Irerê, com suas casas antigas e bem preservadas, nem imagina que o carcomido e arruinado casarão existente no fim da rua principal, foi palco de tamanho conflito. Mesmo em ruínas, o casarão impressiona por a imponência da sua estrutura, por a grandiosidade da sua construção. Em ele existe um andar superior, com dois sótãos independentes, vários quartos e dependências, sendo um exemplo do poder emanado por os coronéis da região. Em meio ao silêncio atual, se o visitante puxar por a imaginação, é possível ouvir os sons da batalha ali ocorrida no longínquo ano de 1930. Nota -- Especificamente sobre o «Fogo do Casarão dos Patos», utilizo principalmente as lembranças de várias pessoas que vivem na região de Princesa Isabel, Irerê e Manaíra. Sendo as informações do senhor Antonio Antas Dias, residente na cidade de Manaíra, as narrativas mais utilizadas. Este senhor comentou sobre este momento histórico, numa entrevista concedida no dia 14 de agosto de 2006. O Sr. Antonio Antas tinha 61 anos na época da entrevista, onde as informações que ele prestou lhe foram transmitidas principalmente por Marcolino Diniz, de quem era parente, por o guarda costas deste último, Manoel «ronco grosso» Lopes, por José Florentino Dias, seu pai, e por o senhor Sebastião Martins, morador do atual distrito de Irerê. Em o dia desta entrevista, o autor estava acompanhando do Sr. Dr. Juiz de Direito e pesquisador, Sérgio Augusto de Souza Dantas. Igualmente utilizei os trabalhos do amigo e professor de geografia José Romero Araújo Cardoso, lotado na UERN-Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, em Mossoró. Estes artigos são " Marcolino Pereira Diniz e Xanduzinha: Imortalizados através da arte de Luiz «Lua Gonzaga», no link -- http://www.turismosertanejo.com.br/? target = artigos & id = 69 Número de frases: 125 Outro Trabalho do professor Romero, ao qual utilizei material para a confecção deste artigo, foi uma série de interessantes entrevistas realizadas entre 1989 e 1991, com diversas testemunhas sobre episódios do cangaço e da Guerra de Princesa, que está inserido no link -- http://www.marcoslacerdapb.hpg.ig.com.br/romero/cangaco.htm O atual affair dos supostos livros didáticos «bolcheviques» brasileiros (que «manipulariam» a «alma» de " nossas crianças "), deixou mais uma vez escancarada uma idéia um tanto trivial: de que certas figuras do jornalismo brasileiro são no mínimo precipitadas para julgar o que julgam; que o rigor do julgamento não corresponde ao rigor da apuração dos dados; e que enfim, nada mais fazem do que apoiar sua suposta competência nas posições que ocupam. Escrever com mínimo rigor, que é bom ... Tropa de Elite não passou desapercebido por alguns desses pseudo jornalistas, intelectuais, blogueiros e «filósofos» (muitas aspas!). Não passou desapercebido, mas segundo o princípio exposto acima: muitos foram enfáticos em criticar negativamente aquilo que nem chegaram a ver. Afora a violência exacerbada, e toda a montagem que se assemelha muito a filmes «da moda», Tropa de Elite tem uma série de boas idéias desenvolvidas. Se o crítico não conceder que o enredo é bom, não há como negar que o filme é bom nas entrelinhas. Por mais que o espectador possa em alguns momentos recair nos velhos hábitos de enxergar mocinhos e bandidos, o filme escancara aquilo mesmo que ocorre: uma guerra de fato, numa sociedade civil de direito; a «merda com chip ´ s» (a melhor expressão de Arnaldo Jabor, em toda uma carreira de duvidosas expressões) convivendo num mesmo regime de relações com «nós, da classe média e média alta» (portanto, «nossos» modos de vida são flagrantemente comprometidos com esses outros, desprivilegiados); a corrupção generalizada e sua tênue fronteira com o " jeitinho brasileiro "; e a crônica confusão entre as esferas pública e privada. Um dos primeiros sinais é dado na aula de sociologia, em que Matias fica sempre no meio-termo: naquele momento, não consegue ser nem um daqueles alunos «burgueses», nem o policial que projeta como ideal. E o elemento onde os personagens «jogam» é muito interessante: uma palestra sobre Michel Foucault. A começar por a maneira como a cena faz o espectador ver toda uma série de filósofos «da moda» (portanto, incompreendidos e pastichados). Eles é que abrirão toda a hipocrisia. Em torno de um trabalho que apresenta Michel Foucault segundo um tom bem grosseiro de hipótese repressiva (o Estado reprime e desenvolve vários mecanismos de repressão; um de eles é a polícia, o que se segue a discussão sobre o papel abusivo dos policiais), os próprios personagens cumprem os papéis daquilo mesmo que apresentam. Segundo Foucault, o «poder» não é uma espécie de mecanismo centralizado no Estado, cujas máquinas ideológicas repressivas serviriam para a boa conduta das pessoas. A aposta é maior: durante os séculos XVIII e XIX apareceram toda uma série de «disciplinas» alheias ao poder " soberano "; tais disciplinas fazem circular «dispositivos» de saber e de poder; ainda, o «poder» é produtivo e positivo, não impede que a subjetividade seja «livre», mas produz sujeitos (em linhas gerais, tanto» livres «quanto» assujeitados "). Mas a palestra -- conservando o tom de «repressão» -- faz ver outra coisa. Toda a sequência do filme é o pastiche do curso de direito e da palestra proferida. O estudante descolado que fuma maconha e estuda Foucault coloca-se contra o policial que vive do abuso. Mas nenhum dos elementos consegue se desvinciliar de valores essencialmente conflitantes. Diante desses varios elementos, o espectador não desenvolve um critério de interpretação decisivo. O estudante sobe o morro para cuidar da ONG, encarregada de emancipar a comunidade; mas a ONG só realiza seu trabalho «social» à mercê do controle dos próprios traficantes. Cava um buraco para preencher outro. O limiar entre a assistência social, um verdadeiro trabalho social, a corrupção e a cumplicidade com o crime é continuamente desfeito. De o mesmo modo, a confusão se reflete no policial, entre o curso de direito, a conivência com pequenas contravenções, o «ideal» de policial, as torturas, e finalmente a vida privada. Entre o sujeito social e o sujeito de direito, portanto, aparece um abismo escancarado, que toda a palestra e a sequência do filme fazem entrever. Diante disso, o panorama fica curioso: de um lado, manter a perspectiva do poder «repressivo» é insuficiente, permanece ainda o elemento da mistura dos valores (além da incompreensão da obra de Foucault). De o mesmo modo, diante das perspectivas abertas por a palestra, o socius brasileiro apresenta certos elementos cuja análise ainda está por ser feita, mas que são essencialmente positivos e produtivos. Um desses elementos mostrados no filme é o «sistema», aquele mesmo que permite a negociação dos favores em troca de propina. Não é nem inteiramente público, nem inteiramente privado. Mas transita entre as duas esferas, criando diversos efeitos. Ele cria um complexo jogo de mecanismos que resultam ao mesmo tempo numa aparência de segurança pública, e em ganhos privados. O policial que recebe pouco agência mecanismos ilícitos para garantir aquilo mesmo que a esfera pública não lhe proporciona; no mesmo movimento, os problemas da alta criminalidade e segurança pública precária são de certo modo «resolvidos» com a propina paga. Resultado: o «sistema» não é repressivo, mas produtivo. Dá conta da própria relação conflituosa entre as esferas pública e privada. Ainda, mantendo-nos no que se segue à palestra, o «sistema» tem outros efeitos, diante das questões do «saber» e do «poder». Visíveis por o descaso dos policiais com os relatórios, padrões estatísticos, e normas regulamentares. Praticamente tudo é negociado, desde os relatórios de ocorrência, até as análises estatísticas sobre criminalidade, passando ainda por as deliberações de férias e a manutenção dos carros. Tanto o decreto jurídico, quanto a análise «científica», obedecem ao sistema. Este se torna uma espécie de dispositivo suplementar e quimérico, diante da Lei e da apuração dos acontecimentos. Resta ainda o BOPE e a «guerra». Cria-se o BOPE (pelo menos conforme o filme) de forma a impedir as ambiguidades mesmas da polícia e do setor «civil». A formação do recruta segue princípios rígidos que serviriam em tese aos fins públicos. Mas o BOPE apenas atua numa realidade já confusa, criando no filme também toda uma série de mecanismos ilícitos para que sua ação (legal) seja legitimada. Em o fim das contas, a unidade de elite é o agente do filme que escancara todos os valores, por via da «guerra». Sua existência é uma espécie de evidência nua de que todos os mecanismos descritos acima são apenas a fachada de uma segurança que não existe, para indivíduos que não são cidadãos. Quanto ao papel do espectador, Tropa de Elite é como Estamira: não há como assistir o filme e não se sentir de certo modo cúmplice de toda a dinâmica apresentada. Alguns elementos do filme podem ser exagerados para alguns críticos. Mas não deixam de enunciar várias boas questões. Número de frases: 66 Luz Quartiada O VIII Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros conta em sua programação com o lançamento do livro de Jaqueline Fontenelle. O livro «Luz Quartiada» é o resultado da vivência da autora na Chapada dos Veadeiros, especificamente na Vila de São Jorge ao longo de oito anos. Essa região é o berço de culturas diversas como as comunidades quilombolas, os garimpos de cristal de quartzo, os grupos alternativos (hippies e esotéricos) e ecoturistas. O livro traduz com sabedoria o lugar místico e inigualável numa tentativa de desvendar o segredo do silêncio incrustado nos cristais e nos sonhos do povo da Chapada. A linguagem de Jaqueline leva a um passado distante, mas bem presente nos olhares das pessoas nativas. Em um estilo sagaz lembra Guimarães Rosa descrevendo o sertão: «Em o sertão de Goiás, onde o cristal já deu muita festa, era rumo de gente de todo o país e, mais tarde, do estrangeiro também. Almas sertanejadas que ali deixavam suas crenças e seus agrados. É que o sertão não tem pátria. Ele é um oco, seco e profundo que existe dentro da gente " (p. 43) «Luz Quartiada «é pura prosa poética que prende o leitor do começo ao fim quando descreve personagens como» Clarice» e seus anseios de mulher de um mundo escondido e ameaçado por o progresso: «Seu coração apertado incomodava. Não era fácil recompor-lo. Dores de amores precisam de varias estações. Mas quando olhava para os jardins rupestres, sentia calafrios só de pensar que um dia a soja pudesse invadir também esses santuários e transformar a enorme biodiversidade do Cerrado num verde só. Soja. (p. 19) Como ela mesmo diz as «lascas de memórias» de um povo humilde e sofrido são expostas em linhas poéticas com a sabedoria de um olhar demorado sobre as pequenas coisas. O livro de Jaqueline é sem dúvida alguma o relato mais preciso da vivência do homem da Chapada dos Veadeiros. Delicadamente Jaqueline diz: «Como moradora «forasteira» de uma dessas comunidades da Chapada, fui impulsionada por um desejo de registrar, não exatamente fatos, mas um mundo de mitos contados e eternamente recontados." O contato com a autora pequifon@yahoo.com.br Telefone 61 96785042 Número de frases: 23 O livro pode ser encontrado na Livraria Cultura -- Setor de Indústria e Abastecimento -- Brasília -- DF Ontem eu tive um sonho. Sonhei que uma entidade organizava um calendário anual da música independente do Brasil aos moldes de um campeonato de futebol. Em cada capital do país, uma curadoria formada por dois críticos de música, dois representantes sindicais ou de associações, dois notáveis de cada cena cultural mais o voto popular, escolheria representantes para montar as séries A, B e C das bandas independentes brasileiras. As bandas seriam cadastradas mediante as variáveis: cultural / popular ou roots / pop, se preferir. Os critérios para classificação seriam «lançamento»,» número de trabalhos produzidos», «respaldo na mídia local»,» vídeo-clipes», «premiações» etc entre as associadas. Assim, por exemplo, a série A da independência seria composta por 30 bandas, a série B por 40 e a série C por 60. Com direito a acesso e descenso anual mais reformulações! Aí, a supracitada entidade catalogaria todos os festivais, independentes ou não, do Brasil (vide RecBeat, Porão do Rock, Ruído, Abril p / Rock, FMI, MADA, Humaitá pra Peixe e outros) e trabalharia em uníssono com estes festivais dando consultoria quanto à produção doméstica e organização das grades, seus red-lines, atrações das majors (por que não?) ou internacionais etc. A entidade e as produções dos festivais chegariam a um número comum de 3 dias por evento, e um mínimo de 6 e máximo de 8 atrações por noite. Assim, a tal entidade remeteria cartas às bandas associadas classificadas, informando-lhes sobre quais festivais teriam interesse em sua apresentação. Diferentemente do futebol, as bandas classificadas na série C teriam direito a mais voto-participa ções no circuito de festivais do que as bandas da série B, e estas mais votos que as da série A. Isso se daria, porque se presume que as bandas da série A teriam uma produção mais forte que suas concorrentes, e também porque os convites não poderiam suprir o trabalho das produções de cada banda de procurarem outros festivais não cadastrados ou produzirem os seus prórios shows, afinal de contas, este sonho não trata de filantropia pura. Desta forma, veja a notícia que 3 bandas imaginárias receberiam com a chegada de janeiro, via e-mail, telefone ou correios: 1. banda «Xau-xau Xurupega» (" BA ") -- roots -- série A: convites para tocar em 4 eventos cadastrados, respectivamente no RS, CE, PA e SP. 2. banda «Daytonas Detonantes» (" MS ") -- pop -- série B: convites para tocar em 7 eventos: RJ, BA, CE, PE, RS, PR e DF. 3. banda «Horrendous Nightmare» (MG) -- pop -- série C: convites para 12 shows: PE, PB, RJ, SP, PE, GO, DF, PA, DF, RS, CE e BA. ( ...) Pergunta: daria pra se tornar realidade? Dá buruçú? Número de frases: 26 Rango de rua bom tem em todo lugar. Não há quem não conheça pelo menos uma dúzia de biroscas que vendem cachorros-quentes imperdíveis, pastéis de vento saborosos e outras pérolas da alimentação, encontráveis facilmente em qualquer esquina. De esses eu não preciso falar. Mas do que eu preciso falar, e vocês precisam conhecer, são dois lugares diferentes em Brasília. Eles servem comida na rua também. Mas têm algo a mais. O primeiro é o Cachorro-Quente do Landi. Assim, em maiúsculas mesmo, já que esse é o nome oficial do lugar, estampado nas camisas dos atendentes. O Landi trabalhava numa padaria. Um dia encheu-se e decidiu montar seu próprio negócio. Seria numa esquina, se houvesse uma em Brasília. Como não tem, ele montou logo depois de um balão de trânsito, na 405 sul. Poderia ser apenas mais um cachorro-quente, se não fosse um detalhe: se existe um limite possível para um cachorro-quente, lá ele foi atingido. Mas cachorro-quente não é só pão, salsicha e molho? É. E não é. A diferença é o que está por trás desse. Para chegar ao Olimpo dos hot dogs, o Landi montou uma empresa familiar. Empresa mesmo. A rotina começa as 6h da manhã, quando a primeira turma inicia a produção de batata-palha. São eles que fazem. Assim como os pães, fabricados no mesmo dia em que são consumidos. A batata é tão famosa que é vendida até para lanchonetes e restaurantes. No meio da tarde, a turma da venda assume o posto. Acopla o reboque na Caravan e a enche com todos os ingredientes. às 18h, pontualmente, o primeiro cachorro-quente do dia é servido. E se o expediente tem hora pra começar, também tem pra terminar. «Aqui é uma quadra residencial. A gente nunca passa das 23h, para não incomodar a vizinhança», conta Charles, irmão do Landi, enquanto levanta-se para cumprimentar dois clientes que chegam. «Estamos aqui há 20 anos, e nunca houve uma só reclamação». Vinte anos? «É verdade. Eu venho aqui desde criança», grita um outro cliente, sentado numa mesa próxima, ressaltando bem o clima quase familiar do local. A questão das mesas, aliás, é outro ponto notável. São 10, de 4 lugares cada. E às vezes acontece de ter que esperar uma de elas vagar. Enquanto isso, Landi, Charles e companhia, leia-se primos e cunhados, esbanjam simpatia. «E aí, meu querido. Só alegria?». Soaria falso, se não fossem eles falando. «Os segredos são a estrutura de empresa e o atendimento», diz Charles, dando um alô a outro cliente, que já vai embora. «Até mais, meu querido!». Logo em seguida, passa um carro por o balão, buzinando. Todos eles acenam, cumprimentando. «Isso é um ritual. às vezes estamos com as mãos ocupadas, então o carro faz a volta e buzina de novo, até levantarmos a mão». O funcionamento é realmente impressionante. Deixa qualquer rede de fast food pra trás. O cachorro-quente é servido em menos de um minuto. Não importa o movimento. Eles ainda conhecem a maioria dos freqüentadores por o nome. E decoram até suas preferências. A minha já sabem: queijo por baixo da salsicha e pouca batata-palha. Fórmula alcançada após anos de experiência. O fino dos caldos Saindo da Asa Sul para a Asa Norte, chegamos ao Caldo Fino, na 409 norte, logo depois da entrada da quadra residencial. O proprietário, «Renato Fino --» Fino é apelido, por causa do caldo " -- é também muito simpático. Mas não é nesse quesito que ele mais se destaca. O forte ali, além dos deliciosos caldos, é o enfoque cultural. «Minha vontade é fazer um evento de cultura por dia», conta ele, que toca clarineta e estuda composição na» Universidade de Brasília. «Hoje mesmo, antes de você chegar, teve um quarteto de violões aqui». Perdi. Mas fui brindado com um Baden-Powell saindo das caixas de som. O sonho de ele era montar um café, que homenageasse a cultura local. Mas a idéia evoluiu e chegou ao formato do caldo. Aliás, dos caldos. São vários. E o cardápio varia diariamente. Por que caldo? «Combina com arte. As pessoas sentam e tomam calmamente, conversando, apreciando os eventos que acontecem aqui». E os vizinhos, reclamam? «Não. Pelo contrário. Eles vêm muito». Em isso, chega à mesa o poeta Nicolas Behr, conhecido em Brasília. Imagino que ele vá recitar uma poesia, como já o vi fazer ali mesmo. Mas, para o meu engano, apenas senta-se e pede um de abóbora com charque. Eu pedi de mandioca com carne. A cultura transborda por o ambiente. Pendurados na barraca onde está o fogão, há CDs e livros de artistas locais, à venda. O próprio Renato, além de músico, também é poeta e escritor. «Quer ler uns contos meus?». Quero. E não é que são bons? Ali, todas as formas de arte têm vez. Há saraus, exposições, shows, performances e o que mais for inventado. Tem até uma feira de troca, realizada no último sábado do mês. «Já vi gente trazendo até microscópio para ser trocado aqui», conta. Então, nada mais natural do que a arte brotar ali, espontaneamente. E foi o que aconteceu num dos eventos realizados. Em o fim da noite, Luiz Buff, outro poeta da cidade, entregou uns versos, recém-criados, que Renato mostra com alegria e orgulho, sabendo que tem feito a sua parte por a cultura local. «à famiglia Fino Lúcio e Oscar não nos deixaram superquadras Mas células-tronco de vida comunal Quem toma de cheio um espaço vazio e o realiza Esse, verdadeiramente, obra poesia " Cachorro do Landi De domingo a 6ª feira (sábado não abre) De as 18h às 23h. 405 sul, entrada da quadra Caldo Fino De 3ª feira a sábado (fecha domingo e 2ª feira) De as 18h a 0h30. 409 norte, passando a entrada da quadra Número de frases: 101 A personagem principal se apresenta de um modo peculiar: «Eu sou Vanete Almeida. Sou de uma comunidade que se chama Jatiúca, que provavelmente você não encontra no mapa, que está num município que você também nunca ouviu falar, que se chama Santa Cruz da Baixa Verde, distrito de Serra Talhada. Eu estou no interior de Pernambuco, na parte do semiárido, a 430 quilômetros de Recife». Vanete sempre freqüentou os movimentos rurais de sua vizinhança e se incomodava com o fato de ver poucas mulheres participando das discussões. Um dia, na década de 80, resolveu armar um encontro de saias. Apareceram duas companheiras. Insatisfeita, ela começou a conclamar a mulherada por um programa de rádio em que falava das coisas do movimento rural. Começaram a aparecer outras, desconfiadas. E esse foi só o primeiro desafio. O segundo foi fazer essas mulheres falarem. «Para vocês pode parecer engraçado, mas era muito difícil alguém abrir a boca quando chegava lá. Elas não estavam acostumadas a falar, a ter quem ouvisse. Eram muitos os encontros em que, ao invés de falar, a gente chorava. Batizamos de Encontro Molhado», lembra ela, rindo e fazendo todo mundo rir. De lágrima em lágrima, de fala em fala, o grupo foi crescendo. Passou a debater assuntos delicados, como a violência doméstica, a agricultura familiar (" que de familiar tem muito pouco, é um machismo só», diz ela), o meio ambiente, as condições de trabalho. Não demorou para perceberem que a luta de elas era semelhante à das mulheres rurais de outros países. Ligaram-se em rede. Uma rede no princípio sem computador, sem dinheiro. «Estamos falando de mulheres muito pobres, que moram em lugares onde muitas vezes não tem luz elétrica." E assim, por telefone, por carta, por vontades semelhantes, Vanete e outras mulheres do Caribe e da América Latina formaram a Rede LAC. Hoje elas são mais de 20 mil, espalhadas em 20 países. Trocam experiências, compartilham vitórias, elegem temas centrais em congressos que reúnem representantes de todos os países. Para 2007, o grande foco é na água, o que mostra que elas estão bem conscientes da necessidade de pensar os rumos do meio ambiente. Por enquanto, só têm dinheiro para fazer o cartaz. «Queremos apoio, mas não temos interesse em grandes patrocínios. Senão vira moda, e moda passa. De pouquinho em pouquinho vamos fazendo as coisas." Essa história da Vanete chegou aos meus ouvidos por acaso, em São Paulo. Estávamos eu, ela e mais umas 120 pessoas num encontro, promovido no começo de dezembro por o Museu da Pessoa, cujo objetivo é formar uma rede de projetos de memória no Brasil (o encontro foi legal, as idéias sobre o Brasil Memória em Rede podem ser vistas aqui). Tive o privilégio de sentar ao lado de ela numa das mesas e ouvir seu relato. Sua oratória é de fazer inveja a muitos comunicadores, talvez por a experiência no rádio, talvez por a luta de convencer tantas mulheres a participar de um movimento assim. Ficou todo mundo meio boquiaberto, e uma moça falou muito acertadamente: «Aí você vê como nós não sabemos de nada. Ficamos tão fechados em São Paulo, tentando botar em andamento projetos que envolvem a integração da América Latina. E você aparece e conta tudo isso, como fez tudo com poucos recursos, de modo simples. Temos muito o que aprender». Como temos ... Aí Vanete contou que, com a rede formada, as mulheres atentaram para a importância de registrar suas histórias. O Museu da Pessoa começou a gravar as falas de elas, posso imaginar que os relatos sejam emocionantes. Mas aí veio o momento surpreendente da conversa. Vanete contou que depois das gravações, o museu mandou um papel para elas assinarem. Em ele, havia algum tipo de cessão de direitos que fez as sobrancelhas de todas arquearem. «A única coisa que temos é nossa memória, nosso patrimônio, e vamos ceder assim?», foi a fala de uma companheira que Vanete reproduziu na roda. O que poderia ter se transformado num momento tenso, já que alguns membros do Museu da Pessoa estavam na conversa, virou um interessante papo sobre as visões do direito autoral. Vanete e suas colegas lêem qualquer papel que chegam a elas. Analisam em conjunto, desconfiam, discutem. Os integrantes do Museu da Pessoa, que, sem dúvida, não estavam mal-intencionado, levaram um susto com a reação. Estão acostumados com essa praxe e nunca tiveram grandes problemas nessa parte do trabalho. Adair Rocha, que representava o MinC, falou: «Amigos, não sei se vocês reparam que estamos testemunhando um momento muito importante». É verdade. Enquanto o mundo urbano promove seminários e mais seminários para discutir os rumos do direito autoral, as trabalhadoras rurais, que provavelmente nunca ouviram falar em Creative Commons, Copyleft ou coisas do tipo, faziam seu gesto para mostrar que não estavam de acordo com nenhuma espécie de apropriação, pelo menos não sem uma boa conversa. Com um sorriso, Karen Worcman, diretora do museu, encerrou o papo dizendo que estava até orgulhosa da situação. Que muitas vezes as pessoas nem lêem os contratos e que a negociação com as mulheres ia prosseguir até chegarem num consenso. Não sei exatamente qual foi o fim da história (se é que já acabou), mas ainda assim, acho que ela traz boas lições. E a principal é que todos estão aprendendo.-- Número de frases: 59 Hoje quando olho para aquele prédio imponente, com um belo jardim, o ginásio coberto, uma horta de dar inveja, fico feliz por fazer parte da Escola Estadual Professor Cândido Gomes. Acho até que fui um dos primeiros alunos, lá atrás ... -- Entrei para o Ginásio, que conrespondia da quinta a oitava série, na década de 1960. Estava completando 11 anos. Era bem baixinha e me lembro que a saia era comprida, blusa branca e gravata azul marinho, modelo que detestei, porque a saia tampava minhas pernas grossas e fiquei parecendo maria mijona (era assim o apelido de quem usava roupa abaixo do joelho). -- O Colégio estava em reforma e fomos para o prédio da casa paroquial, emprestado por o Padre João Bosco. -- Os professores foram os mesmos nos anos do ginásio. Ficaram tão familiares que de ambas as partes havia uma grande amizade e carinho, nos mínimos detalhes. Nossa professora de Português, Dona Mariquinha (mãe do Padre João Bosco) já passava dos 70 anos. Ia sempre com um pé de sapato azul e outro preto. O Professor de Ciências era o Narciso Trindade, ninguém gostava da sua maneira de ensinar, pois passava toda a matéria no quadro e a gente tinha que copiar, mas em compensação, dava nota boa para todos os alunos. A professora de Inglês era a Pompéia Paiva. Se hoje sei um pouco de Ingles aprendi com ela, era ótima para ensinar. A professora de desenho era a Isa Martins. Nos ensinou a fazer cada barra geométrica que nos encantava. O professor de história era o Rômulo Soares que tinha muita facilidade para transmitir a matéria. A de Matemática era D. Judith Barcelos, não aprendi nada, além de não gostar da matéria, ela só sabia contar casos dos sobrinhos e a gente puxava assunto para a aula acabar depressa. Mas ... o professor de Geografia, o José Mauro Figueiredo, era dez (hoje dou essa nota para ele), mas naquela época, ninguém gostava das suas aulas. Era bravo, implicante e super exigente. Qualquer conversinha na sala de aula, a gente ouvia: Pra fora! E como castigo fazia a gente desenhar os mapas do Brasil com todos os rios, outra vez, as principais cidades. Mas com ele nós aprendemos muito sobre o Brasil e os outros paizes. Ninguém tirava nota máxima, ele achava um jeito de tirar pontos nos deveres de casa, na participação nas aulas, nos cadernos sem capricho, enfim, era um carrasco. Mas todo mundo aprendeu geografia. -- O Professor José Mauro posso dizer que foi o melhor professor que já tive. Era um sábio. Lembro que ele fazia uma dinâmica (hoje entendo assim) com os alunos que era fundamental. Com a autorização dos pais ele nos excurcionava a lugares interessantes. Certa vez fomos para Ouro Preto. Em o caminho nos mostrava a topografia dos terrenos, as matas, os rios, a Serra do Caraça, vista de longe e também o Pico do Itacolomi já chegando em Ouro Preto. Sem contar as visitas que fazíamos aos museus, praças e igrejas históricas, enfim foi maravilhoso aquele passeio. -- A melhor parte veio no final do passeio quando ele nos liberou para conhecermos a Boite Calabouço. Foi bom demais! Tudo era novo, as músicas, o tipo de dança, tudo regado com Hi-fi, Cuba e Gin Tônica. Ficamos grog mesmo, até deu namoricos na pista da boite. Ele havia marcado para a gente chegar as 22 horas, e nós só conseguimos chegar depois das 02 da madrugada. Resultado: Tirou pontos de todo mundo na prova seguinte, por o atraso. -- Tenho uma lembrança muito boa dos desfiles de 07 de setembro também. O colégio todo participava. Cada grupo dava o seu melhor para abrilhantar o desfile. Tinha a fanfarra, a Banda Santo Antônio (Hoje ela tem mais de 100 anos), a turma que ia de bicicleta, outra turma fazia um teatro sobre a Independência. Em o final, já mortos de fome nos dirigíamos ao colégio para nos deliciar com pão com salame e Q-suco de groselha. Lembro que tinha uma prima que ficava com vergonha de lanchar pois achava esquisito o lanche, então eu, mais que depressa comia o de ela também, e ainda ficava achando que ela era muito metida, bem a lá patricinha. -- Anos mais tarde foi concluido as obras do colégio e foram criados cursos de Magistério e Contabilidade. Hoje a escola é motivo de orgulho para todos os moradores de Alvinópolis. Serve de escola modelo para outras cidades graças ao empenho dos Diretores e professores, sendo os mesmos formados por a própria escola. -- Gravado com muito amor e saudade no meu coração de estudante. Número de frases: 48 Seguindo uma linha bem particular de contar uma história, mais uma vez o Grupo Espanca! busca falar das relações humanas no novo espetáculo Amores Surdos. Cairiam num lugar comum se usassem das mesmas formas, usadas antes em Por Elise: um cenário vazio, pouca trilha sonora, personagens comuns. Mas não! O fio condutor da nova montagem é mais uma história simples, sem muitas apegos e floreios. Inclusive, isso é avisado insistentemente nos primeiros minutos da peça. Não fosse um detalhe. Um acontecimento, que a diretora Rita Clemente soube conduzir, fazendo com que o espectador não perceba quando o jogo vira. Quando o riso e lágrima se embaraçam. A começar por o título, Amores Surdos, o que lhe vem à cabeça? Pensei nisso quando soube da nova montagem do grupo. Como já havia assistido Por Elise, pensei no jeito estranhamente delicado com que a dramaturga e atriz Grace Passo construía uma história, envolvendo o espectador, ora fazendo rir, ora fazendo chorar. Um sofá e uma parede em forma de tela cheia de furinhos dividem o cenário, retratando uma sala principal de uma casa qualquer. Um telefone e a porta são os aparatos que norteiam o espetáculo. Tons azuis e cinzas da iluminação insinuam uma certa frieza no lugar. O mesmo acontece com as roupas dos personagens, que nada têm de vibrantes e chamativas dando a mesma impressão. A perspectiva do cenário funciona como uma lente de aumento, em que cada gesto é perfeitamente percebido. Gestos emotivos que permeiam aquela família. Sabemos que tomam café da manhã, que discutem, que brigam para falar com o irmão no telefone e quem bate a porta. A mãe, que cuida de todos os a fazeres da casa, é firme, quase dura ao falar com os filhos e o marido. O irmão mais novo, Pequeno, brinca na sala, e vive indagando sobre o universo que o rodeia -- o ator Paulo Azevedo, que interpreta Pequeno, o faz de maneira grandiosa e sutil --; o outro irmão, Samuel, está a começar num novo emprego; Joaquim é o irmão que sofre de insônia e Graziele, a irmã que fica sempre com seu walkman ligado, conversando com uma lagartixa de estimação -- podemos aqui traçar um paralelo com o livro Paixão segundo G.H, de Clarice Lispector, em que a personagem principal vê na barata uma amiga, uma confidente -- inclusive, os textos escritos por Grace Passô têm um «quê» muito presente de Clarice Lispector, pois consegue levar para os palcos o ser humano de forma muito crua e emocionante, com todos os anseios e reflexões. Amores Surdos é uma história que poderia acontecer em qualquer época, pois desses laços familiares que somos forçados a ter, e do esforço de se fazer ouvir uma agonia, um lamento que seja. Não precisa necessariamente ser no século 13 ou nos tão «modernos» anos 2000 para saber sobre as indiferenças e desastres familiares. Mas o que muda esse óbvio convívio é um mote absurdo, que desencadeia essa surdez, revelando a partir do desespero, um precisar ouvir. O grupo que sempre recorre a expressões corporais inusitadas exibe em Amores Surdos um número de sapateado, dando um ar de musical ao espetáculo. N primeira peça, Por Elise, eles utilizaram o Tai Chi Chuan representando uma possibilidade de leveza na vida. Toques de piano vêm nos momentos adequados, como se fossem uma onomatopéia daquilo que está acontecendo. A música Pérolas aos Poucos, de Zé Miguel Wisnik, se encaixa como última peça de um quebra-cabeça. Por fim, não se sabe ao certo o que as pessoas sentem ao acabar a peça. Umas saem estupefatas, outras emocionadas, outras se divertiram muito, outros estão ainda sem saber o que lhes aconteceu, só sabem que lhes aconteceu algo, que fisga bem na alma. Talvez o que mais impressione no jovem grupo é a inovação, o talento e a capacidade de causar sensações, abafadas ou já esquecidas, sem ser carregado e com leves pitadas de humor. Percurso do Novo Fala-se muito de uma linguagem nova, que o grupo Espanca! cria. Acredito nisso. O grupo busca uma pesquisa profunda, fazendo com que a forma e a substância não se alterem. Em os últimos tempos, muitas vezes me cansei das coisas que vi no teatro em Belo Horizonte. Longe de mim desclassificar o teatro. O que me faz refletir a cada fim de peça é a forma de fazê-lo, é entender porque as pessoas o têm feito do mesmo jeito! Gesticulação exacerbada, projeção de voz se fazendo mais importante do que o personagem. Não sou uma eximia estudiosa do teatro, das suas linguagens, técnicas, etc.. Tampouco falo sobre interpretação, afinal, no fim das contas cada um tem a sua. Mas saber utilizar o espaço e uma técnica é primordial. E saber contar uma história simples, (embora as relações humanas nada tenham de simples! Ops, alguém já dizia que a vida é bela, a gente que empipoca ela! ... enfim), de forma jamais imaginada, sem querer ser de mais, nem de menos, é o que vale. E se valer disso é o que tem mostrado a Cia Espanca! Alguns dos integrantes, que vieram de um outro grupo mineiro, a Cia Clara, que também sabia usar das delicadas situações humanas muito bem, os integrantes do Espanca! são atenciosos e estudiosos, um grupo propriamente dito, que se une para criar, interpretar e fazer sentir. Amores Surdos, amores surdos ... não vou tentar adivinhar muito não! Uma campanhia desesperada faz ouvir o amor surdo. Mas quem iria escutar se não o próprio amor? A Peça Amores Surdos, de Grace Passo. Direção: Rita Clemente. Com: Grace Passô, Gustavo Bones, Marcelo Castro, Paulo Azevedo e Samira Ávila. Número de frases: 59 Quando pensamos em Arte pensamos em algo que, na verdade, não conseguimos definir bem. Temos indicações imprecisas, exemplos duvidosos e um gostar pessoal, uma espécie de identificação, que influência nossos conceitos e os juízos de valor que expressamos acerca das «coisas artísticas» e do repertório cultural construído por o homem desde os primórdios de sua existência. Imaginemos um deficiente visual privado totalmente da capacidade de visão. Para suprir essa deficiência ele desenvolve, além da média, outras capacidades. De entre essas habilidades encontra-se, por exemplo, o domínio da linguagem braile que permite ao deficiente ter acesso ao repertório universal dos textos produzidos por a humanidade. Essa habilidade lhe permitiu suprir parte das dificuldades provocadas por a falta de visão, entretanto, não lhe permite desfrutar todas as possibilidades que uma pessoa com a visão perfeita possui ao ler um texto. Em este caso falamos de uma barreira física, uma impossibilidade genética ou provocada por algum fator externo. Traçando um paralelo e saindo do campo físico em direção ao ato cognitivo podemos falar em deficiências que impossibilitam / limitam, assim como a falta de visão para o deficiente visual, a compreensão integral do fenômeno artístico por parte dos professores de arte e artistas em geral. É mais ou menos assim que os professores de arte se sentem quando são questionados sobre o que é arte. Possuem algumas habilidades adquiridas e aprimoradas com a experiência diária que, por vezes, provoca a sensação de que conhecem o significado e o sentido do que ensinam. Por outro lado, tudo o que está relacionado a arte parece por vezes ser volátil, dissipar-se muito rápido, provocando muita incompreensão por parte de que procura por respostas. O mito da caverna, criado por Platão-exemplifica bem o que dissemos. Assim como no mito platônico muitas vezes os professores de arte só conseguem ter uma visão deformada da realidade artística. Só enxergam sombras. Assim, seus questionamentos, acerca dos objetos artísticos e do próprio ato artístico em si apresentam deficiências que validam a dúvida. Constantemente são invadidos por a sensação de total incapacidade para avaliar se tal objeto ou ato possui valor artístico ou não. Cabe perguntar: enquanto professores de Arte como vêem a produção artística de seus alunos? Atribuem valor artístico aos objetos produzidos por eles durante as aulas? Acreditam que seus alunos atribuem significados e valorizam as obras que produzem? Como analisam as obras de seus alunos no contexto da arte contemporânea? Essas questões são fundamentais se objetivamos desenvolver uma educação em arte que busque inserir o educando como ser ativo no processo cultural de sua época. Uma educação em arte e uma educação com arte. Um ato educativo que permita a participação do aluno de forma integral. Onde possa pesquisar, analisar, experimentar, planejar, executar, refletir e apresentar seus resultados. Mas, como conseguir essa educação em arte que envolva o aluno a partir dos conceitos mais simples até a compreensão do fenômeno artístico como um ato inerente a todos os seres humanos? Como fazê-lo compreender que o objeto artístico não surge de iluminação divina ou é resultado de algum «dom» ou capacidade especial que o artista possui, mais sim, fruto de longas horas de trabalho, pesquisas, análises, experimentações, planejamento, execução, reflexão, etc.? Os PCNs, Parâmetros Curriculares Nacionais, representam, indiscutivelmente, um avanço na educação brasileira ao sugerir um eixo comum que norteia a educação em todo o país. A partir desse eixo são traçados e elaborados planos inclusivos que contemple as características regionais e culturais de cada escola. Os referido PCNs fazem parte da Lei 9394 -- Lei de Diretrizes e Bases da Educação -- publicada no dia 20 de dezembro de 1996. Essa lei, seguido uma tendência mundial, corrige as distorções por as quais passava o ensino de Arte na educação brasileira. Essa correção é feita equiparando a disciplina Arte as das demais disciplinas em grau de importância para o pleno desenvolvimento das capacidades cognitivas. A o fazer isso a LDB não só reconhece a importância da cultura na formação do educando como, também, permite que os currículos escolares possam ser revistos e elaborados de forma inclusiva com todas as áreas sendo contempladas. A metodologia proposta por os PCN's para o ensino de Arte propõe uma análise do objeto ou do ato artístico dentro de uma visão triangular que aborda não apenas o objeto ou ato em si, mas que necessariamente exige a compreensão do contexto histórico em que o referido objeto ou ato foi produzido. Isto significa analisar os objetos ou atos artísticos a partir do contexto de quem os produziu. A terceira ponta desse triângulo é o fazer artístico. As experiências artísticas significativas que o educando vivência na sua vida escolar. Acrescentamos o adjetivo «significativas» a essas experiências para ressaltar a importância que elas desempenham na futura relação que o homem adulto, hoje criança em idade escolar, terá com a arte na sua vida. É comum não gostarmos daquilo que não conhecemos. As aulas de arte desenvolvidas na maioria de nossas escolas não conseguem despertar o interesse do aluno por o conteúdo ou atividade proposta, como também, não esclarece o real sentido da arte em nossas vidas. É comum também a visão do ensino de arte como passatempo, momento para relaxar e não fazer nada, aula para desestressar, ou por outro lado, a execução de kits de atividades (desenhos mimeografados ou fotocopiados para serem coloridos, etc.), que em nada contribuem para a formação do educando. Essas atividades soltas, descontextualizadas de sentido histórico, sem embasamento técnico, não são capazes de despertar motivação em quem as pratica. Em geral quando são desenvolvidas em sala de aula é comum tomarem dois sentidos: se o professor for muito rígido em sua relação com os alunos, provavelmente, estes se mantenham apáticos e o resultado da atividade será frustrante; por outro lado, caso o professor mantenha uma relação que valoriza a autonomia dos alunos corre o risco, durante a atividade, de perder o controle sobre seu direcionamento. Em o final, plasticamente, o resultado é melhor visto porque é fruto de um ato de autonomia dos alunos, mas não deixa de ser frustrante. Onde devemos centrar o foco no ensino da arte? Segundo a triangulação a assimilação só será completa se forem considerados os três lados do triângulo: o fazer, o refletir e o contextualizar. O fazer artístico é indispensável para uma boa formação em arte. As atividades práticas desenvolvidas por os alunos sejam elas em artes visuais, dança, teatro, música ou seus variantes capacitam o educando para uma melhor compreensão da construção do objeto ou do ato artístico. A o desenvolver todas as etapas da construção de um trabalho artístico o aluno passa a ter uma compreensão dessas etapas percebendo tratar-se do resultado de muito trabalho e dedicação ao que está sendo desenvolvido e não fruto de inspiração divina ou ato genial. O conhecimento da construção da obra quebra essa aura mística que envolve as produções artísticas e revelam, a quem as pratica, as etapas da construção do conhecimento arte, proporcionando uma relação de afinidade entre a arte e o indivíduo em construção. O fazer artístico significativo representa um encontro com si mesmo. É o momento onde o aluno expressa seus desejos, anseios e posturas diante das coisas do mundo que o rodeia. Esse fazer é técnico pois é o conhecimento técnico que permitirá uma maior qualidade dos trabalhos produzidos, mas, traz em si uma forte carga lúdica, onde a capacidade de recriar o mundo é infinita. O conhecimento técnico, o uso das diversas técnicas de forma correta permite a quem desenvolve um trabalho em Arte uma capacidade infinita de possibilidades diante das coisas e do mundo que o rodeia. O poder de se expressar é inerente ao ser humano. Desde crianças aprendemos os símbolos, os signos, os ícones. Aprendemos a ler os sinais, a compreender os elementos que permitem nossa inserção no universo cultural da civilização. Mesmo que de forma não intencional estamos continuamente acrescentado novos elementos ao nosso repertório de «coisas». Muitas dessas «coisas» (símbolos, frases, formas diversas, texturas, temperatura, paisagens, ídolos, etc.) foram assimiladas, coexistem no repertório cultural do individuo, alicerçam o caráter e a formação da personalidade e, mesmo assim, não conseguem ser expressas, transmitidas a outros através dos recursos artísticos existentes. Por que é comum as pessoas admirarem as manifestações artísticas de outrem e não se julgarem capazes de realizá-las? Por que essa «auto-barreira limitadora» é afirmada com tanta veemência levando o indivíduo a negar a si mesmo a possibilidade de desenvolver um ato artístico expressivo? Essas questões devem ser abordadas contemplando a possibilidade de vários ângulos. Um é o próprio ambiente cultural em que a criança cresce e se desenvolve. Há, evidentemente, uma supervalorização do conhecimento científico em detrimento do emocional na sociedade ocidental. Isto leva a criança a abandonar o hábito de desenhar logo após ingressar nas séries iniciais do ensino regular. A fase das garatujas representa o registro das primeiras impressões que a criança tem acerca das coisas e do mundo que a rodeia. O ato de garatujar é visto por a criança como a possibilidade de expressar seu eu, de mostrar, a quem a acompanha, como ela, vê e se relaciona com o seu redor. Isto se torna claro quando, abandonando as garatujas iniciais, passa a representar as pessoas próximas, as coisas próximas e, pouco a pouco, amplia essa visão para tudo que está no seu cotidiano. Se nesta fase a criança é estimulada com materiais diversos e orientada quanto ao uso correto desses materiais e possibilidades teremos um ser expressivo em potencial que usará essa capacidade criadora para questionar as coisas do mundo. Número de frases: 72 Em outras palavras, se oferecermos, desde a educação infantil, uma orientação adequada, com materiais, meios e suportes diversificados, um diálogo constante sobre a importância das artes, dos artistas e do papel que ela exerceu e exerce na construção do conhecimento, formaremos adultos melhores relacionados com o fazer artístico e evidentemente produtores e consumidores de bens culturais. Depois da festa do reveillon, o Farol da Barra tornou-se palco do tradicional Projeto Pôr do Som, comandado por a cantora Daniela Mercury. Daniela subiu ao palco para cantar e comemorar o Dia Mundial da Paz, para um público de cerca de dez mil pessoas, entre soteropolitanos e turistas. Com uma hora de atraso, Daniela abriu o show às 19h06, cantando a musica «Preta», com a participação do cantor e compositor Carlinhos Brown e do Cortejo Afro. Trajando um vestido bege, Daniela começou com show acústico, interpretando os sucessos «Como Vai Você», Topo do Mundo» e outros. Por 15 minutos deixou Carlinhos Brown comandar a festa, que agitou o público. Daniela voltou ao palco trajando um vestido branco e mudou completamente o estilo musical, cantando seus sucessos de carnaval, inspirado no afro-reggae, como «Pérola Negra», Maimbê Dandá». O público dançou, cantou, pulou, agitou e só parou para vaiar o vídeo exibido no telão, com o prefeito João Henrique, apresentando sua mensagem de feliz Ano Novo aos cidadãos soteropolitanos. Depois, o clima de festa continuou e foi tranqüilo, com muitas famílias marcando presença, inclusive com crianças e bebês de colo. A cantora relembrou que 2008 será marcado por os 15 anos do «Canto da Cidade» e prometeu fazer uma surpresa para os fãs no " Festival de Verão. «Será um show emocionante e irei mostrar para vocês como tudo começou», disse Daniela. Número de frases: 11 (Esta crônica, originalmente dividida em dois episódios, não teve a sua primeira -- e essencial -- parte publicada no Overblog por razões, provavelmente, ocasionais -- faltaram-lhe 2 votos apenas Embora o leitor interessado já possa ler a referida primeira parte, acessando-a no perfil do autor (ou mesmo no link inserido no início de sua segunda parte), atendendo à resposta positiva dada á consulta que fizemos a alguns dos votantes da eleição anterior -- que, gentilmente, se identificaram por meio de seus comentários -- decidimos submetê-la a um segundo turno, nesta nova -- e definitiva -- eleição.) Fragmentos quase diários de um incidente infelizmente verídico Início da década de 1990. Viajava semanalmente para o interior. O destino era sempre as cercanias de Vassouras, aprazível cidade histórica no Vale do rio Paraíba do Sul. Antigas fazendas dos tempos áureos do café, histórias do tempo da escravidão, cultura negra, tradicional, num paraíso de memórias, lendas e histórias, que quase ninguém havia parado para registrar. Paz de espírito, quase férias no campo. A vida, no entanto, não andava assim tão mansa. Precisava de mais trabalho. Foi assim que decidi, sem muito sofrimento, aceitar um serviço que me pareceu, a princípio, pra lá de interessante: Estimular a cultura local em duas favelas do Rio, atendidas por um plano de reflorestamento de encostas promovido por o governo. O contrato, assumido com uma empresa de reflorestamento de outro estado, dizia mais ou menos o seguinte: «Promover a articulação comunitária, as boas relações entre a obra de reflorestamento, seus engenheiros e a comunidade em geral, ajudando inclusive a arregimentar os operários que, selecionados entre os desempregados das comunidades atendidas por o programa, roçariam, plantariam e revigorariam a vegetação local, que fazia parte da degradada e outrora exuberante Mata Atlântica." A empresa havia tentado reflorestar as áreas alguns meses antes, trazendo camponeses reais de sua sede, no outro estado, mas, a inexperiência ao negociar com os traficantes e as acusações de que os camponeses estariam submetidos a um regime de trabalho escravo, acabou gerando um escândalo na imprensa que obrigou á paralisação das obras e contratação de especialistas locais, daqui de o Rio de Janeiro, para intermediar a situação. Era aí que eu entrava, com o pomposo título de Coordenador de Articulação Cultural. O contexto era simples de entender: A ocupação desordenada das encostas por parte das favelas, um problema crônico do Rio de Janeiro (que talvez tenha começado já no século 19, bem antes da Abolição da Escravatura), destruiu quase que completamente a vegetação que cobria a cadeia de serras e morros que circundam a cidade. A água de chuvas torrenciais, muito habituais na região, sem nada que as retivesse, com o desgaste do tempo, passou a descambar morro abaixo, inundando praças e ruas. Rios de esgoto, lixo, ratos mortos, dejetos de toda espécie, além de um fedor insuportável, escorriam junto, como se o saco de mazelas sociais (aqui estranhamente empurradas para o alto), geradas por o descaso de mais de um século, estourasse, deixando à mostra as suas incômodas entranhas. Mergulhar numa aventura sociológica infecta, porém, bem remunerada, não seria nada mau àquela altura. A aventura, no entanto pouco durou. Acabou de forma estúpida, abrupta poucos meses depois. Ontem por acaso, bisbilhotando velhos papéis do tempo em que nem tinha ainda um computador, encontrei rascunhos esparsos do que seria o meu último e mais franco relatório, o que não tive coragem de concluir (quanto mais de entregar). Os rascunhos são fragmentos de alguns incidentes esparsos, os mais importantes entre os que ocorriam diariamente, a maioria presenciada in loco, os quais, por razões óbvias, relato cuidadosamente a vocês, ainda hoje sem poder me aprofundar muito em certos detalhes. Vistos agora, distanciados no tempo, estes fragmentos talvez possam ajudar a lançar alguma luz sobre a atual situação da violência urbana no Rio de Janeiro, e de como ela evoluiu para o insuportável ponto no qual se encontra. Entre os envolvidos (a maioria morta nos poucos meses em que a história durou) apenas o autor poderá ser identificado. Com nomes fictícios eles não passam muito de personagens anônimos, mesquinhos, miseráveis às vezes, outras vezes cobertos de uma inusitada aura de dignidade, quase humanidade, vislumbrada de relance em alguns poucos gestos nobres. Em esta crônica sem nenhum charme ou poesia, não há nenhum herói presente ou ausente, pois é só sangue inutilmente derramado, sem nenhuma bravura, sem nenhuma comenda merecida, como ocorre com as guerras civis, não declaradas. Crônica de uma guerra suja. Fragmento & 1 Um Morro sem Prazeres Em a chegada, havia ainda um pouco de honrosa adrenalina animando a missão que se iniciava, mas, a nossa entrada no campo de batalha até que não foi lá muito apoteótica. A do pessoal da véspera foi. Até demais. Como num verdadeiro desembarque na Normandia eles foram recebidos com um enorme foguetório e uma comitiva de recepção furiosa que, assomando de sopetão num barranco, apontou dezenas de revólveres e fuzis de última geração, como se a favela fosse um braço de praia (ou um Iraque) invadido. É que os engenheiros que faziam o papel de precursores do contato com os líderes comunitários do local, presunçosos como sempre, haviam decidido na última hora, sem que nem por que, trocar o Fiat verde escuro, combinado como senha com os traficantes, por um Fiat branco. Faltou muito pouco para serem metralhados, estropiados por uma saraivada de balas. Quase viraram esta estrepitosa notícia de jornal: «Engenheiros do Governo Estadual Assassinados Por Traficantes em Emboscada!" De esta escaparam. Não vi a cena, mas, me contaram que o sujeito que comandava o grupo de traficantes, desceu correndo do barranco com uma automática prateada levantada e passou uma constrangedora descompostura no engenheiro, que se dizia chefe dos precursores, todos funcionários de um órgão do governo estadual. «Você quer morrer, seu filho da puta? Tá pensando que nós é o que, Mané? Tem respeito não, é? De a próxima vez já sabe ... Passamo o cerol!" Ficou muito claro naquele momento quem é que realmente era o chefe de alguma coisa por ali. Com nós não foi assim. Graças a Deus. Equipe mínima: apenas eu, o motorista e uma engenheira florestal. As regras do protocolo foram seguidas á risca, até a hora da chegada foi cronometrada: 10 hs., em ponto, o Fiat verde estacionou no local combinado, o pátio em frente a associação de moradores. Desembarcamos um pouco tensos, suando frio, com as mãos, exageradamente, à vista, longe da cintura, quase para o alto. Não demorou muito para que um menino descalço voltasse acompanhado por um mulato baixinho e bem falante, de cerca de trinta anos de idade, que se apresentou oferecendo a mão esquerda e escondendo discretamente a direita que, podemos perceber, era meio atrofiada. ' Bom dia! Sou o presidente da associação. De dia sou o José Antônio da Silva. De noite eu sou o Zu!" Zu? Nome sinistro, não? O que ele queria dizer com isto? Um nome de dia outro de noite? Dava para intuir, certo? Zu acumulava funções: De dia o abnegado líder comunitário. De noite, o implacável chefão do tráfico local. A mão oferecida era mole, gelada. Aperto de mão não era definitivamente uma especialidade de ele. Não lhe apetecia. Gentil, em poucos minutos contou tudo que achou que nos interessava e nos levou para mostrar o que lhe interessava: As instalações da associação, um prédio de dois andares imundo, a quadra de esportes em frente, a creche em construção. Apresentou também alguns estranhos funcionários: Uma mulher trintona e sestrosa, responsável por a creche e uma figura que, por o jeito que se expressava, era semi-alfabetizada, mas, que talvez por gostar muito de ler, havia sido incumbida de tomar conta da pobre e poeirenta biblioteca, composta, quase que exclusivamente, por livros didáticos superados, desconjuntados e romances medíocres, fruto de edições encalhadas, refugo de sebos. Quase lixo. A mulher trintona era sexy, de uma beleza muito insinuante, ainda visível sob o'leg ' que lhe apertava as banhas que já se avolumavam. Quando entramos no úmido e escuro salão onde se realizavam os bailes Funk, ela e Zu trocaram afagos de mão e ironias sensuais, fingindo que nos ignoravam. Ele, querendo talvez exibir de antemão o seu status de garanhão do morro, de Galo do pedaço. Ela, pretendendo, com toda certeza, mostrar o seu poder de concubina do rei. Em os dias seguintes muitas mulheres, algumas adolescentes ainda, desfilaram para nós neste ritual de exibição do seu status de cortesãs. «Passa lá depois, bem. Você some ... Depois vai reclamar. Vem um gavião ai e, ó ... Vai ficar chupando dedo». Dizia uma. «Que chupando o que? Que nada ... só se o gavião for maluco ..." Respondia Zu seguro de seu poder de galo em seu terreiro, de sultão vingativo. Em o harém do sultão Zu só quem não se exibia era a Ném, a verdadeira mulher do cara. Uma figura que parecia não caber naquele contexto. Trancinhas afro, discurso articulado, despachada e empreendedora, Ném embolava completamente a análise que eu fazia do ambiente. Não entendia ela ali. Era sinal trocado, enviesado. Ném era bem novinha. Ali por os seus 23, 24 anos. As trancinhas afro não eram um look comum em mulheres de favela naquela época. De jeito nenhum. O look dos 90 das tchutchucas era mais a chapinha, o henné, algo que formasse madeixas lisas como as de Withney Houston. Trancinhas afro era coisa de nega fina, universitária, militante de movimento negro, feminista, estas coisas. E era exatamente este o discurso de Ném que, logo que fomos apresentados, me mostrou, numa folha de papel meio amassada, as linhas programáticas que compunham o seu plano de montar uma Ong para captar fundos para a Associação de moradores do Morro dos Prazeres. A prioridade era a creche. Me falou do padre italiano que ajudava a comunidade e de um dinheiro que poderia vir de uma congregação católica alemã se a Ong tivesse os papéis em dia. É claro que achei aquilo tudo com pinta de uma tremenda armação, mas, as trancinhas da Ném não combinavam com armações. Sabe como é? Orgulho racial e armação, num contexto violento como aquele, de regras e protocolos de honra tão rígidos ... O fato é que fui me envolvendo, inteiramente, na empolgação de Ném. Aceitei o rascunho de um estatuto que ela me deu, pedindo que eu fizesse uma breve tradução em alemão, para ser mostrada ao padre. Zu olhava de banda mas parecia apoiar aquele esforço da sua concubina preferida. A esposa, como ele dizia. Parecia estar honestamente solidário com ela, por amor, por remorso, por algum resquício de humanidade que sobrara em ele. Quem saberá? Ném me passava seriedade mas e Zu? Traficante com responsabilidade social? Um cara com duas automáticas na cintura, comandando um bando de famigerados bandidos com AR15, AK47 e, como diziam, outros ' bicos '? Não. Era melhor não viajar muito nesta maionese de Robin Hood tropical. Em a visita seguinte Zu fez questão de me apresentar o padre. Conversei rapidamente com ele. Era um padre normal, militante, a história da Ong, do estatuto e da verba possível, parecia ser fato. Subi com Zu para o segundo andar da associação, seu escritório. Ele me ofereceu uma carreira de pó. Recusei gentilmente, mas, ele ficou constrangido (muito estranho ver um sujeito como Zu, constrangido). Sentiu vontade de me contar particularidades suas, não sei por quê. Não perguntei nada, mas, ele cismou de dizer: «Não gostava de pó não. Comecei aqui, nesta vida. Não tô viciado ainda não. Acho que, quando quiser posso parar. Só não posso é parar com esta vida. Já avancei demais em ela. Agora ..." Havia sido guarda ferroviário. Vinha da Baixada Fluminense. De policial corrupto, expulso da corporação acabou virando miliciano de um grupo de justiceiros da Baixada (um dos embriões das milícias que agora infestam o Rio de Janeiro). Um dia um amigo de fé, ex-policial como ele, já envolvido até o pescoço com o crime organizado, o convidou para integrar a tropa do Terceiro Comando que invadiria o Morro dos Prazeres, que pertencia na ocasião ao Comando Vermelho. Topou. Fizeram uma carnificina no local e tomaram a favela. O amigo morreu ou se escafedeu. Zu acabou assumindo com o irmão o comando das ' bocas ' do local. Zu o chefe do preto (maconha); o irmão, o chefe do branco (cocaína). Saímos para dar uma volta por o morro. Pensando que eu era engenheiro, Zu queria me mostrar os postes de luz de vapor de mercúrio que havia instalado na larga rua que, subindo por um lado do morro, passava em frente a um casarão abandonado, perto da associação. «Os'Cu-de-galinha ` dos ' alemão ' (os inimigos da facção rival) podem subir por aqui-mas agora, se subirem a gente vê eles e aí é só metralhar ... Vão morrer na praia. Que é que tu acha? Tá bacana a gambiarra?" Disse que sim, que estava maneira. Como dizer que não? Número de frases: 150 (Leia a Parte 2 aqui) Não é de hoje que ele faz e declama poemas, dividindo palco com muita gente boa da literatura e da música. Mas só recentemente publicou seu primeiro livro, Acerto De Contas (Kelps / 2007, 112 páginas). Entre uma e outra folga no trabalho como jornalista, participa de recitais por o Brasil ao lado de poetas com quem interage e troca experiências. Depois de apresentar a obra no Salão do Livro do Tocantins, no ano passado, o poeta deu início a uma série de lançamentos em outras capitais do País. Além de Palmas e Araguaína, no Tocantins, o livro já foi lançado em Brasília, São Luís e Goiânia. Agora o autor se prepara para dois outros lançamentos que assim como os demais serão marcados por recitais. Um de eles em São Paulo, no dia 27 de março, e outro em abril no Rio de Janeiro, em data ainda não definida. O trabalho de divulgação do livro em lançamentos e por a internet já rendeu bons resultados, como a tradução de poemas para o francês por a escritora e fotógrafa francesa Elisabeth Delquígnie, Mas tal divulgação, segundo Rezende, é mero pretexto para muitas andanças, em que vem colhendo elementos para um outro livro que pretende fazer sobre peculiaridades dos lugares e do povo do Brasil. como se banca nisso? Ele mesmo explica, em tom de ironia: «Sou um blefado e levo tudo na flauta; abuso do gogó e do sapato». Em esta entrevista, o poeta fala um pouco sobre o que pensa da literatura em Palmas, a mais nova capital do País. Qual a sua visão sobre o desenvolvimento da literatura em Palmas? Palmas é uma cidade nova, em que tudo está acontecendo ou deve ainda acontecer. Uma cidade de população diversa, formada por pessoas vindas de quase todas as regiões do Brasil, portanto bem heterogênea no aspecto cultural. O desenvolvimento da literatura aqui, seguramente, não é distinto dessa realidade. A arte espelha a vida em sociedade, muitas vezes com nuances bem contemporâneas e regionais, por mais que tenha origens milenares e universais. Diria portanto que a literatura em Palmas está também em desenvolvimento, assim como a cidade e seu povo. Palmas não tem uma identidade definida, senão esta da mistura, da heterogeneidade cultural. De o mesmo modo, temos a salada cultural, o que é até interessante. O que temos de produção na área da literatura são apenas alguns livros lançados ao longo dessas quase duas décadas de surgimento da capital, a partir de iniciativas isoladas de seus autores, em grande parte com o apoio do poder público. Temos uma literatura incipiente ainda, em desenvolvimento. Em termos de produção literária, como você vê a posição do gênero Poesia na literatura palmense? A poesia talvez seja o gênero da literatura que mais tenha sido praticado em Palmas ao longo destes anos. Muita gente desengavetou versos para mostrá-los em livro ou em outras publicações alternativas. Isso é muito bom porque fermentou o meio literário neste segmento específico, não só criando algumas primeiras referências poéticas na cidade, mas sobretudo permitindo a formação e o surgimento de grupos de discussão. Há que se debater muito sobre o fazer poético, principalmente nos aspectos de conteúdo e qualidade, por mais subjetivo que isso pareça, dentro e fora dos meios acadêmicos. Em o meu modo de ver, tais publicações, recentes ou não, acabaram revelando alguns bons poetas e expondo outros simples fazedores de versos. Claro que isso de gosto ou de definição do que é bom ou ruim em poesia é uma questão muito pessoal, tanto por parte de quem lê como por parte de quem escreve. O que importa enfim é que, em termos de produção na área de poesia, tivemos várias publicações. E isso já é um começo e tanto quando se fala em «literatura palmense». A cidade ainda não tem vinte anos. Quais ações, no seu entendimento, incrementariam o fazer literário e particularmente o fazer poético em Palmas? A literatura tem que chegar às crianças, em casa e nas escolas; aos estudantes de todos os níveis escolares e sobretudo às universidades. Não somente para despertar nas pessoas o gosto por a leitura, possibilitando assim a formação de um público consumidor do que se escreve, mas também para estimular o surgimento de novos autores. Vejo com alegria algumas iniciativas nesse sentido, todas de grande valia, individuais ou coletivas. Em o meio acadêmico, ou seja, nas universidades, há que se estimular o surgimento de movimentos literários, a formação de grupos de poetas. Uma ótima iniciativa nesse sentido é investir nas publicações coletivas no meio universitário; ali é onde o pensamento filosófico deve estar fervilhando sempre, um ótimo combustível para a produção poética. Fora desses meios estudantis, a poesia também precisa de estímulos. Oficinas de literatura, recitais, festivais de poesia falada, concursos literários, investimentos em publicações, enfim. Felizmente, há quem esteja trabalhando muito nesse sentido. E não somente na esfera pública. Pode-se fazer mais e mais. O campo é vasto e fértil. Se plantar com jeito, a seara é farta. Atualmente está ocorrendo na cidade algum diferencial em relação à literatura? Qual? Sua pergunta é subjetiva. Diria que atualmente discute-se mais a literatura, há mais investimentos públicos e privados em publicações e iniciativas de fomento ao fazer literário. Isso é fruto do amadurecimento e das experiências ao longo dos anos, mas fundamentalmente fruto de novas políticas culturais. A Fundação Cultural, por exemplo, tem hoje um departamento específico na área de literatura. Percebe-se também mais abertura na formação dos Conselhos de Cultura. Isso é muito bom. Sempre vi Palmas como um excelente laboratório em todos os sentidos da vida em sociedade. Em a tua percepção, o que significa a publicação virtual? Ajuda ou atrapalha a produção literária? Quais suas influências e funções? Já não se pode mais negar ou pôr em dúvida o poder e o fascínio das publicações virtuais em relação aos trabalhos impressos. Tudo mais imediato, menos dispendioso, mais acessível. Sei que é ainda muito pequeno o universo de pessoas que têm acesso a computador e internet. De o mesmo modo que, também sabemos, a maioria do povo brasileiro não tem acesso aos livros, que são muito caros, ou a jornais e revistas, entre outras publicações. Vejo o meio virtual como um excelente canal de difusão da produção artística e, principalmente, de interação entre quem produz arte no Brasil e no mundo. Há uma infinidade de sites e comunidades na área de literatura, para os mais diversos gostos e as mais variadas vertentes. Os blogs, por exemplo, são páginas virtuais que hoje viraram o grande veículo de divulgação do trabalho de escritores. Claro que há muito «lixo» na rede, coisa de má qualidade; mas, garimpando bem, a gente acha muita coisa interessante. Eu tenho usado a rede para publicar e divulgar o que faço em prosa, verso e fotografia. O interessante no meio virtual é que, além de divulgar, você cria uma relação de interatividade com o leitor. Mais interessante ainda é a possibilidade de interagir com quem também produz, sem as barreiras das fronteiras geográficas. Um autor de Palmas pode interagir com alguém que aprecia e produz literatura em Paris, por exemplo, ou em qualquer lugar do mundo, seja nas grandes ou em pequenas cidades. Isso é magnífico. Não acho que o meio virtual atrapalha a produção convencional, ou seja, a impressa. Os dois modos de produção coexistirão sem problemas. Nada substituirá o prazer de abrir um livro, sentir o seu cheiro, tateá-lo como criatura que nos fala, página por página. Mas uma coisa me entristece muito neste sentido: comparar os públicos das bibliotecas e das lojas de acesso à internet; ver como os «cybers» se proliferam por aí em larga situação de vantagem em relação às bibliotecas. Pior é saber que a maioria das crianças e dos jovens buscam no computador apenas o entretenimento dos jogos e páginas que alienam tanto quanto a programação das TVs brasileiras. Isso entristece qualquer ser que pensa e quer um mundo diferente. Com que cabeças poderemos contar para mudar os rumos do mundo, sobretudo por meio da literatura, esta velha senhora, que tanto se remoça mas continua sendo pouco percebida? Número de frases: 84 De aí eu me lembro de um show, lá para os lados de Itapuã, num restaurante desativado ou casa de shows abandonada, tinha fumaça no palco, ela estava de lentes brancas e com miçangas no cabelo. P. q. p., pensei. Onde é que estou? O som me transportou para a Dimensão Musical. Quase tive teto preto (acho que tinha coisas demais em minha mente). O reflexo de minha impressão naquele dia me persegue até hoje e alimenta a curiosidade de saber o que ela anda fazendo. E descobri que Rebeca Matta está em obras: seu terceiro CD, ainda sem nome, entrou na fase final de gravação, mixagem e remasterização mês passado. O álbum contou com patrocínio do edital de cultura da Petrobras. Conversamos e ela me adiantou que vai ter ' uma mistura muito boa de eletrônica com peso '. Depois do primeiro álbum (Tantas coisas, 1998, 5 mil cópias) e do segundo (Garotas boas vão para o céu, garotas más vão para qualquer lugar, 2001, 3 mil cópias), veio um tempo de reflexão e produção. Ela aumentou a produção de pinturas e porcelanas, misturou tudo num pote de percepção em sua casa no Rio Vermelho. Gravadora não interessava. Independência com a sensação de espaço aberto, céu limpo, planta fértil. «Gosto de experimentar e todo mundo quer o que é mais seguro», diz, pra logo depois corrigir, autocrítica: «Mas não sou experimental». O novo álbum tem a colaboração do guitarrista Gilberto Monte (Tara Code) e do jovem Ângelo Tomás (o'Boeing ', com 23 anos). O último já produziu 16 discos próprios, de maneira caseira, controlando desde o som até o arte final do encarte. «Acho que ainda vamos ouvir muito falar sobre ele, um garoto que ficou anos no computador, não era músico e entrou no ramo." Em o balaio do novo disco, tem também Kassin e Arto Lindsay. O resultado final, espera Rebeca, refletirá uma produção coletiva. A parceria com o guitarrista André T. está parada no momento. «Esse tempo [a pausa de 4 anos sem disco e um ano sem shows] foi valioso para realizar contatos». Uma boa notícia é a aprovação do projeto para o clipe do novo disco, por a Lei Roaunet. O plano é produzir o site pra amplificar a divulgação do novo trabalho, distribuído de maneira independente. As músicas devem seguir para download, em plena era da reprodutibilidade acessível. Número de frases: 28 «Acho que não tem para onde correr, pois isso quebra o controle sobre a arte.» ...o saber deve morrer para ressuscitar como vontade e recriar-se a cada dia como livre personalidade (STIRNER, 2001) É comum ouvir dizer por aí que a educação necessita de mais investimentos financeiros, pois as escolas estão precárias e mal administradas. Uma pequena parte disso é verdade pois faltam investimentos que não são somente financeiros, mas também humanos e culturais. Parto da minha experiência como licenciando em história, como futuro educador, como estagiário e observador crítico do ambiente escolar para fazer breves apontamentos sobre o assunto. Em os últimos meses tenho investido algum esforço em acompanhar pesquisas na área de educação e acompanhar professores e coordenadores de escolas públicas. Muito do que percebo da realidade escolar está relacionado com o descaso em relação à educação pública. As escolas públicas -- em especial as estaduais -- sobrevivem entre problemas internos e externos, dos mais variados. A falta de preparo dos profissionais da área de educação, dos que administram, coordenam e se comprometem com o bom funcionamento da escola é um dos principais problemas internos. Outro fator explícito é a dificuldade dos profissionais da educação que trabalham em escolas públicas em assimilar os alunos como contemporâneos, como indivíduos inseridos no mundo da informação em quantidade. Muitos professores são incapazes de lidar com a linguagem da tecnologia, da moda e do mundo da violência. Hoje, para uma criança, é muito mais fácil operar um telefone celular de ultima geração que localizar um livro na prateleira da biblioteca. As crianças, mesmo as de periferia, entendem a linguagem das ruas, da tevê e até do orkut, mesmo com o mais restrito acesso à internet. Essa é a realidade que os profissionais da educação que se formam não estão preparados para enfrentar. Em uma pequena escola estadual de Belo Horizonte, por exemplo, um aluno de 12 anos me perguntou se eu já possuía email e msn. Perguntas assim são freqüentes, embora seja constatado que a maioria desses alunos não possuem internet em casa. Já nas escolas particulares, celular, Mp3, iPod, internet, Orkut, são termos tão comuns que não fazem parte da fantasia dos alunos, e muito menos são um fetiche dos mesmos, ao contrário do que acontece nas escolas públicas. Os professores das escolas particulares são constantemente avaliados e adequados não só por a logica do trabalho e do vestibular, mas do novo fluxo de informação, das novas linguagens e das novas metodologias de educação. Esse problema envolve ainda a sexualidade dos alunos que estão cada vez mais ' entendidos ' que as gerações anteriores. Sexo, masturbação, pornografia, homossexualismo e prostituição são temas nada estranhos para os garotos que têm em média 11/12 anos. Como lidar com isso? Como ir além dos nossos limites de compreensão do mundo? Estas são perguntas que devem ser de toda sociedade, partir de todos os núcleos, sejam eles os núcleos mais conservadores ou os mais radicais. Não basta só dizer que a família está desestruturada, que a televisão é nociva para educação e que a internet está cheia de merda. Hoje os parâmetros são outros, e devem ser mais próximos do parâmetro do filho que nasce que do parâmetro do pai que morre. O clichê mais repetido, que «educar também é aprender», ainda é válido. Número de frases: 26 Aprender com a realidade dos alunos para que eles tenham autonomia para atuar e mudar seu próprio meio. A história trágica da modelo que morreu aos 21 com 40 quilos é sintomática desses anos. Um dos conceitos mais caros ao estoicismo de Sêneca é o de que, na maioria das vezes, somos pegos na ilusão de que podemos mudar os fatos do mundo quando na verdade temos controle apenas sobre a nossa própria reação diante desses fatos. A riqueza da virtude, numa visão estóica, reside justamente nisso. Só ela é completamente nossa. Só ela é permanente. Em um universo no qual tudo passa, no qual todas as coisas que surgem não duram muito tempo, a única estabilidade que se pode encontrar é o do nosso próprio caráter. Só ele não me pode ser tirado. Só ele será meu quando a fortuna, com sua inconstância e sua ironia sarcástica, vier para arrancar de mim tudo que tenho. A beleza é uma dos elementos da vida que facilmente é arrastado por a fortuna (uma deusa romana antiga que carregava numa mão, um leme e, na outra, uma cornucópia). Em a verdade, a beleza é uma angulação. Ela não está no corpo, que é, aparentemente, seu objeto. A ilusão que anda matando essas meninas é a de que a beleza é algo que pode se reter. Mas esse é o erro de juízo fundamental. Não há nada que se possa fazer, no corpo, para reter a beleza. Nenhuma cirurgia plástica, nenhuma dieta mágica, nenhum programa miraculoso de torneamento mecânico dos músculos. Isso porque a beleza é um momento, é um direcionamento do olhar em determinadas circunstâncias. Greta Garbo sabia disso. Ela adorava manipular com a luz. Os fotógrafos de cinema costumavam a dizer que ela era linda porque sabia encontrar o caminho da luz e posicionar o próprio rosto para roubar, da luz, toda a beleza que necessitava. Garbo era genial porque entendia que a beleza não estava contida em seu rosto, mas no ambiente que o envolvia. Ela compreendia que a beleza era uma construção mental e não uma arquitetura especifica de um amontoado de músculos e ossos. Ela era tão consciente dessa construção que desapareceu dos holofotes da mídia na hora certa e não agonizou em praça pública, tentando reter aquilo que não se contém. Nosso corpo não nos pertence. Ele faz parte da massa natural que nos compõe e nos rodeia. Ele é um estranho e flácido casulo de carne no qual nossa mente se mantém aprisionada por certa quantidade qualquer de anos. A história da evolução e decadência de nosso próprio corpo é uma narrativa que todos vamos ter que vivenciar mais cedo ou mais tarde. O grande sintoma da doença dessa geração de saradinhos e saradinhas é que essa narrativa está a cada dia virando um conto de horror. O corpo deixou de ser um espaço de prazer e passou a ser nosso mais instigante objeto de tortura. Nossa mais agonizante e miserável fonte de angustia e ódio. Quando penso nessas modelos morrendo de fome penso no self-hate dos suicidas (desculpe Ariano Suassuna, mas não há palavra em português que possa sintetizar melhor esse estado). Morrer de fome, destruir o próprio corpo, esquartejar a beleza que te escraviza, arrasar o objeto do seu desejo, pode até mesmo ter suas fundamentações bioquímicas, mas também guarda em si um significado profundo. Odiamos nosso corpo justamente porque ele não nos pertence, porque ele vai passar, porque ele não nos obedece, porque ele não se encaixa no modelo mental que construímos para nós mesmos, porque ele, atrevido, miserável, rebelde, não quer reter a beleza. Ele não quer fazer com que a beleza que aparece uma vez ou outra, no espelho, fique para sempre. Mas uma vez nos lembramos de Sêneca e de seu Praemeditatio (seu remédio para as nossas ilusões mentais de eternidade): «Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer». Minha princesa ... aprenda a não confiar na beleza. Aprenda a não depender de ela para viver. Deixe que ela seja uma luz, uma angulação, um brilho que nasce e morre num segundo no canto do teu olho. Porque a beleza é uma dama vagabunda. Foge de quem tenta retê-la e gruda em quem a despreza. pablo capistrano Número de frases: 43 O objeto degola meu pescoço de Coruja com a ajuda d' Ele ... Dia do jogo Trânsito horrível. As pessoas impacientes. Compromisso até às 15:30. Correria. O costelão foi trasnferido para domingo, mas a cervejinha não. Passei no boteco que havia pensado para assistir ao jogo, mas o dito cujo estava fechado. Mais um pouco de correria. Quem conseguiu se desvencilhar antes dos compromissos fazia a festa, aí eram cornetas, buzinas, foguetes, bandeirolas, balões. Torciam cada um da sua forma. Se o Brasil pára de um lado, não dá para deixar de lembrar que movimenta uma outra cadeia de forças do outro. A cidade está em festa, toda colorida. Vários bairros, várias ruas, vários botecos (as pessoas também), vestiram as cores da seleção brasileira. Um entusiasmo verde-amarelo por todas as partes que, mais tarde, durante o jogo, não mudou as cores, apenas mudou o tom, se transformou num verde-de-raiva (pode ser verde-musgo, ou verde-abacate, enfim, um verde-sem-graça) e um amarelo-ovo. A euforia inicial era porque os brasileiros esperavam que o Brasil, que, para a imensa maioria dos torcedores, enfrentava um time pequeno, devia, no mínimo; insisto, no mínimo, aplicar uma goleada. A expectativa mata qualquer um (mata mais quando estão em bandos). O entusiasmo deu vez a um certo desânimo (nada para assustar, afinal de contas, o Brasil, depois que o jogo termina, cai na festa, muitas / algumas vezes e em muitos / alguns casos, comemora sem realmente saber por que comemora; comemora). E esse certo desânimo, depois que a bola rolou, parecia emanar da torcida brasileira na Alemanha. Qual era a quantidade de brasileiros presentes no estádio alemão torcendo por o Brasil? Eu não sei. Se a quantidade de torcedores brasileiros era inferior à quantidade de torcedores croatas? As imagens davam a entender que sim. No entanto, mesmo ganhando o jogo, não dava para ouvir, por a transmissão, a torcida do Brasil na Alemanha, se ouvia única e exclusivamente os torcedores do time adversário (talvez, diriam os mais fanáticos, os microfones estivessem colocados apenas do lado dos torcedores croatas). E a resposta para essa situação parece ser simples: o brasileiro não sabe ganhar de um a zero (pode até comemorar depois), mais do que isso, o brasileiro não sabe ganhar de um a zero jogando assim, deste jeito, esse-quase futebol (digamos que, ganhar com as calças na mão). Placar de um a zero Se o Brasil não sabe ganhar por um placar magro, as outras seleções sabem. Basta lembrar que, a vitória de um a zero (com as calças na mão) diante de seus adversários, a maioria de eles inferiorizados tecnicamente, foi comemorada por os portugueses, por os ingleses, por os holandeses, mas por os brasileiros, pelo menos, durante o jogo, naquilo que pude perceber, parece que não. Sim, houve um grito de gol entusiasmado (buzinas, foguetes, cornetas ...) e aquelas frases do tipo, «agora vai»,» agora ninguém segura», «vai ser um balaio»,» passou um passa uma boiada» ... mas depois que a poeira sentou, ao lado de ela sentou a euforia, o entusiasmo. E qual seria a razão disso? Talvez a resposta o texto já tenha dado: porque o Brasil não tenha jogado uma grande partida, não apresentou um futebol convincente. Mas, além disso, me parece, tem uma outra questão em jogo. Talvez a resposta esteja na forma como os brasileiros lidam com as coisas do futebol. Vejam que, para a grande maioria dos brasileiros, enfrentar a seleção de Lucerna e / ou a seleção da Croácia é a mesma coisa. Se o time brasileiro aplicou uma sonora goleada no selecionado de Lucerna por que não aplicar um placar parecido no selecionado Croata? O povo queria uma goleada. O povo quer ganhar de goleada sempre. Isso é o que o torcedor brasileiro espera. Independente se o adversário é o selecionado de uma cidade ou de um país. Essa é a tradição do futebol brasileiro que, talvez mal acostumado, não sabe ganhar de placar apertado. E como toda tradição, carrega com si uma certa «soberba», digo mais, uma certa» arrogância». O Brasil, para os seus torcedores, no campo minado do futebol mundial, inevitavelmente, deve passar por cima de qualquer outra seleção do mundo. É claro, mantendo sempre um discurso que se disfarça em respeitos, mas é preciso acentuar que esse respeito é para com os adversários que se curvam (e que tiram fotos, e que pedem autógrafos, e que acenam bandeirinhas, e que ...) diante da qualidade de nosso futebol, pois, afinal de contas, somos, no campo (e antes de qualquer coisa, nos consideramos), os melhores do mundo. E, mais do que isso, sempre fica aquela sensação de que o mundo tem que se curvar diante dos reis do futebol. E aqueles que não se curvam são tratados como adversários mortais e precisam, de qualquer forma, serem vencidos (os Argentinos que o digam). E talvez essa certa «arrogância» que paira sobre o universo futebolístico, em alguns momentos desmedida, não passe de um reflexo da forma como a imprensa esportiva brasileira lida com o grande filão midiático do Brasil (com a diferença que o reflexo é puro, diria mais, ingênuo, todavia empurrado por quem sobrevive ou precisa sobreviver do futebol -- as viúvas dos mortos vivos). Se os brasileiros estavam atônitos e não estavam comemorando, enquanto os croatas cantavam, incentivavam, comemoravam efusivamente. Surgia, em meio a isso, a voz da sabedoria futebolesca brasileira (que citar seria quase uma redundância), recheada de um sonoro ar de «arrogância»,» eles estão felizes porque estão perdendo para o Brasil apenas de um a zero». «O país de eles vai parar hoje, afinal de contas, perderam apenas de um a zero para os melhores do mundo, para os reis do futebol». Meninos Menstruados Vários setores da imprensa esportiva brasileira que estão cobrindo a copa, nos dias que antecediam o evento, me perdoem se eu estou sendo deselegante, pareciam meninos menstruados. Era um faniquito por dentro do outro. como se quisessem atropelar o dia da estréia do Brasil. como se o dia marcado precisasse ser adiantado. como se precisassem conferir o calendário (e o relógio) diariamente para confirmar se não era já o dia esperado, o dia do jogo. Não tinham mais o que falar sobre o evento, mas precisavam de assunto, para tanto, qualquer titica se transformava em matéria que, obviamente, repercutia. Ou alguém sabe falar sobre outro assunto qualquer em época de copa do mundo? O jogo Quando lembro de mágico junto lembro de circo. O quarteto mágico escondeu tanto o jogo (o coelho dentro da cartola) que na hora do jogo não conseguiu encontrá-lo; isso com exceção de Kaká, que fez um lindo gol, e de Ronaldinho Gaúcho que, mesmo não fazendo uma grande apresentação, ao menos se apresentou para o jogo. Se o futebol é para o brasileiro uma religião que cria fanáticos (quase fundamentalistas), um dos atletas de cristo da seleção foi quem decidiu o jogo. Que relação isso tem, só deus sabe! A seleção O Brasil tem, sem dúvida nenhuma, a melhor seleção entre todas as classificadas para esse mundial (talvez tenha um dos melhores grupos de jogadores de todos os tempos), agora, não tem um time; falta muito, ainda, para ser um time de futebol, pode até se transformar num no decorrer dos jogos, mas, por o que mostrou durante a primeira partida, ainda não é (poderia ser um pouco mais rude e dizer que falta ao Brasil um técnico, ou que falta pulso ao Parreira, mas deixa pra lá -- agora não tem mais volta, é com ele mesmo e pronto). Talvez eu, como boa parte dos brasileiros que gostam de futebol, por que não, com uma certa pitada de exagero, esteja exigindo demais para o jogo de estréia. Mas podemos ficar tranqüilos, pois, mesmo sem um time, o Brasil pode vir a ganhar a copa do mundo. E o que me leva a crer nesta possibilidade, além da grande quantidade de bons jogadores que o Brasil tem, é o nível das equipes que participam deste mundial; se analisar apenas o primeiro jogo, em especial, das favoritas, o mundial aponta para uma situação deveras decepcionante: está nivelado por baixo. Times ruins, jogos medíocres (alguém poderia apontar a tensão -- para algumas seleções trauma -- da estréia, mas vale lembrar que a tensão, se existir, não é mérito de uma equipe apenas, acontece para todas as envolvidas). Vejam que Togo, Angola, Trinidad e Tobago, Costa do Marfim, entre outros igualmente desconhecidos, há um tempo atrás não existiam para o futebol, mas, que, com o processo de globalização que atinge a FIFA também, passaram a existir, e pior que esses times citados, meros desconhecidos, impuseram dificuldades aos seus adversários. E o que se viu, para justificar a dificuldade imposta por estas equipes até um tempo atrás desconhecidas, foi imperar uma das máximas (recentes) do futebol: «Não existe mais time bobo». Em resposta a essa máxima, cito um amigo que assistia ao jogo sem muita empolgação: «Bobo, para não dizer outra coisa, é o Zagallo» -- lembrando a entrevista dada por o ex-técnico da seleção ao Pedro Bial segunda à noite quando afirmou que: «Brasil e Croácia -- têm treze letras». E para dar números finais ao placar contemporanizando com os trezes do Zagallo, o Brasil que se cuide, afinal de contas, parafraseando o Dunga (capitão da seleção do tetra):, «voltar para a casa» -- também tem treze letras. * * * " O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo por o país afora. A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais. Número de frases: 88 Para ler mais relatos, veja aqui." Este ensaio pretende apresentar diversos aspectos da trajetória de um estilo musical que, no Brasil, se convencionou chamar de música popular brasileira (MPB) e, também, levantar algumas questões acerca das diversas formas com que este tipo de música foi objetivado por seus produtores e apropriado por a sociedade, sejam nos campos da política, do lazer, da identificação enquanto grupo social e outros. A música, no Brasil, tornou-se, de fato, um produto artístico de maior difusão na sociedade, principalmente a partir das décadas de 1920 e 30. Compositores como: Noel rosa, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Lamartine Babo, entre outros nomes deste período, inauguraram a proposta de se experimentar novas formas no campo popular e, conseqüentemente, conquistar um público fiel -- que surgia com o aparecimento das rádios, recém implantadas no país. Com a difusão do rádio ao longo dos anos 30, a música popular passou a ocupar espaços cada vez maiores no campo cultural brasileiro, principalmente como decorrência do interesse, por parte das instituições culturais do governo Vargas, nos músicos populares. Segundo Santuza Cambraia Naves (2001), a música, principalmente o samba, compunha, neste período, um importante elemento no projeto de consolidação da identidade nacional, implementado por o governo de Getúlio. A institucionalização dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, até então relegadas a espaços marginais da cidade (morros e favelas) se configuraram como fenômeno importante no processo de cooptação, por o governo, das manifestações populares. Com isso, têm-se as inúmeras analises, da história da música, que apontam para o caráter épico dos samba-enredos, onde se procura exaltar a natureza e a cultura nacionais. Entre essa imensa variedade de representações do nacional, destaca-se a figura de Carmem Miranda -- na maioria das vezes vista como um estereótipo da brasilidade. Em a década de 40 a ascensão da Rádio Nacional, com seu extenso elenco de estrelas, concorria para a popularização de cantores, instrumentistas e compositores, demonstrando, assim, a importância alcançada por o rádio como grande elemento de popularização da música. Conforme Naves (2001), neste período, a música passa por uma espécie de atualização através do estilo bossa-nova, com a recente batida introduzida por João Gilberto e um certo requinte harmônico de Tom Jobim. Com essa nova proposta, a canção popular perde no começo seu público de massa no Brasil, retomando-o no final dos anos 50 e início dos 60, quando os ouvidos parecem se familiarizar com a bossa, graças a sucessos extraordinários de canções como «Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Morares (1963)». Em seguida surge uma nova categoria de compositores populares, formada por jovens universitários politizados, muitos de eles imbuídos da concepção nacional popular predominante entre os grupos de esquerda. É nesse contexto que se constitui a sigla MPB (Música Popular Brasileira). Frederico Oliveira Coelho (2001) coloca que as canções caracterizadas por este rótulo aliavam complexidade formal e substância política. Apesar da influência marcante de músicos e letristas fundamentais de períodos anteriores, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, as canções que participaram da era dos festivais e da expansão da televisão nos lares brasileiros ganharam um status poético diferente junto à intelectualidade brasileira. No entanto, se na era do rádio a apropriação das músicas divulgadas se dava em larga escala, incluindo os vários segmentos sociais, a partir dos anos 60 a música popular passa a ter um público mais segmentado, identificado com a classe média intelectualizada, conquistando, dessa, maneira, espaço nos principais jornais e revistas. Em resumo, a canção torna-se o meio privilegiado para discutir os temas culturais e políticos. Em seu livro O Fantasma da Revolução Brasileira (1993) Marcelo Ridenti apresenta uma forte disputa entre duas correntes estéticas que polarizaram o debate cultural nos anos 60: aquela que se poderia rotular como «formalista» ou «vanguardista» e uma outra defensora do «nacional e popular». Em o campo da música, expõe Ridenti, à tendência nacional-popular poderiam ser alinhados nomes como: Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, entre outros empenhados na busca das raízes da cultura brasileira, da liberação nacional, no avanço por a superação do imperialismo e dos supostos resquícios feudais nas relações de trabalho no campo, enquanto que a chamada linha formalista chamava a atenção para que a pretensa revolução no conteúdo das mensagens deveria implicar antes de mais nada uma revolução na forma das artes, e, citando o poeta russo Maiakovski afirmavam que: «sem forma revolucionária não há arte revolucionária». Ridenti apresenta, ainda, a análise de alguns críticos em relação ao movimento estético nacional e popular que se autoproclamava revolucionário. Para estes o movimento não propunha a ruptura com o capitalismo, mas sim a independência do «imperialismo cultural». Isto é, propunha-se o desenvolvimento autônomo da tradição cultural do «povo», o que implicaria, ao menos num primeiro momento, o funcionamento autóctone do capitalismo brasileiro, sustentado por um mercado interno em que a riqueza tivesse uma distribuição mais eqüitativa. E foi justamente contra essa independência do «imperialismo cultural», que no final da década de 60 nascia o Movimento Tropicalista -- identificado com a corrente formalista -- propondo a ruptura com tudo que era rançoso, produzindo uma nova forma, muito mais colorida, de enxergar as coisas, de entender o país, de assumi-lo ambiguamente como antigo e moderno ao mesmo tempo. Em vez do nacionalismo, os tropicalistas sugeriam pensar a cultura local em diálogo permanente com a cultura universal; em vez de algo impalpável tratado como popular, lidar efetivamente com a realidade das massas urbanas e incorporar elementos da música de outros países aos da música brasileira, ou seja, seguir o curso da música universal que se dinamizava cada vez mais a cada ano. Enfim, o que interessa, pelo menos aqui neste ensaio, não é identificar ou definir qual das correntes estéticas se propunha realmente revolucionária ou qual seria a melhor indicada para configurar o universo cultural brasileiro, mas sim, que ambas -- com grande atuação da linguagem musical -- formaram canais de discussão e procuraram difundir um determinado nível de consciência à sociedade, chamando a atenção para problemáticas no campo cultural, político, social e outros. Tanto, que a década de 70 vai evidenciar na MPB, além dos elementos contraculturais, a crítica aos rumos da ditadura militar; em letras amorosas ou com temáticas subjetivas, metáforas e mensagens cifradas contra o regime ditatorial; o que determinou a música como um dos grandes alvos da censura imposta ao país. Além da censura, outros temas povoaram a discussão intelectual sobre a música popular nos anos 70, como sua íntima relação com a crescente indústria de massa e o flerte de alguns compositores com a contracultura. O florescimento, nesse período, de uma música cada vez mais comercial e voltada para o consumo fácil, contrastava com a atitude gauche com relação ao mercado, de uma parcela de compositores que a própria intelectualidade e a mídia da época classificaram como «pós-tropicalistas» ou «malditos». A canção popular, difundida como objeto cultural de qualidade indiscutível nos anos 60, se torna, nos 70, cada vez mais múltipla e fragmentada. Com a difusão e o crescimento das bandas de rock nos anos 80, essa multiplicidade se intensifica a ponto de surgirem cisões entre diversas tendências que produziram nas linhas do experimental, do «comercialesco», do transgressor ou do festivo, entre outras oposições criadas no período. Mas ainda nessa época, se destacavam nas letras as referências constantes à situação de redemocratização e à crise econômica e política por que passou o país no período. Mas, no entanto, Ridenti apresenta uma análise de Sérgio Paulo Rouanet a respeito da utilização, por a indústria cultural dos anos 80, da proposta nacional-popular dos anos 60, mostrando a criação de uma caricatura, de uma deformação daquela proposta de vinte anos atrás. Em as palavras de Rouanet: Se o nacional-popular da mídia [dos anos80] se parece com alguma coisa, é efetivamente com o modelo praticado no Brasil nos anos 60 ( ...) a idéia de autenticidade que a mídia interpreta como defesa do mercado brasileiro contra os enlatados americanos e a preocupação com a identidade cultural, que a televisão procura resgatar reservando um espaço para programações regionais, intercaladas entre programas de âmbito nacional. é de ele enfim, que vem seu traço mais típico, o antielitismo, concebido como repúdio à cultura erudita ( ...) seriam inegáveis as afinidades estruturais importantes entre a autolegitimação nacionalista e populista da indústria cultural brasileira [atual] e as antigas bandeiras nacionalistas e populares. Seria então, os anos 80, o período que inaugura o efetivo domínio da indústria cultural sobre a música popular brasileira? Claro que a questão vai muito mais além de se identificar um marco ou uma gênese que explique esse atual «imperialismo midiático» sobre a música. No entanto, de uma forma ou de outra acaba sendo inevitável estabelecer questionamentos acerca da extrema diversificação do cenário musical de hoje em dia e para isso relaciona-lo ao passado. Em nenhuma época anterior houve tantos gêneros musicais diferentes veiculados por a mídia. Presencia-se, de igual forma, uma novidade em termos de recepção, pois os estilos contemporâneos, como o funk, o rap, o pagode, a música sertaneja e os ritmos baianos, ao se pautarem por critérios de etnia, de orientação sexual, de estilos de vida, ou mesmo geracionais, promovem uma segmentação do público. O rap, por exemplo, entrou no país com força a partir dos anos 80 e se consolidou na década de 90, introduzindo novidades não apenas musicais, mas também comportamentais. Retomou, de uma forma nova, a relação entre arte e vida no contexto da música popular, ao permitir, através do canto falado, que o compositor privilegiasse a experiência cotidiana na comunidade de origem. Além de utilizar uma divulgação boca-a-boca e um tipo de edição mais artesanal, que escapava da centralização promovida por as grandes gravadoras. Porém, o que fez desaparecer, da música popular brasileira, aquele caráter de relação entre música popular e resistência política, cultural e social? Uma das possibilidades sedutoras é a de procurar entender as manifestações musicais contemporâneas recorrendo às teorias que dão conta do processo de globalização e da emergência dos discursos moderno e pós-moderno. O processo de globalização trouxe com si a reestruturação produtiva e a extrema mercantilização da cultura, lançando, no mercado, a música como produto fetichizado e artigo de modas. Se por um lado a indústria cultural lança no mercado inúmeros modelos e estilos, o que dá a sensação de poder optar e escolher, seja por o Mangue Beat de Recife, o pagode (paulistano e carioca), o reggae, o funk, o rap, a música eletrônica e uma série de outros ritmos, ao mesmo tempo ela padroniza a dimensão subjetiva dos indivíduos de maneira a coisificá-los e, por meio da eleição arbitrária de um padrão, leva-los à uma busca constante e desenfreada por uma estética ideal, esquecendo, assim, qualquer outro caráter que a música possibilitou em épocas anteriores. Enfim, nessa grande feira da atual música popular brasileira, será que ainda há campo para se discutir quem são seus grandes beneficiários e suas vítimas? Referências Bibliográficas NAVES. Santuza Cambraia e Coelho. Frederico Oliveira. Os olhos cheios de cores. Revista de História. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. n. 1, jul / 2005. Naves. Santuza Cambraia, Coelho. Frederico Oliveira, Bacal. Tatiana e Medeiros. Thais. Levantamento e comentário crítico de estudos acadêmicos sobre música popular no Brasil. ANPOCS bib -- Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais. São Paulo. n. 51, 1ºs emestre / 2001. RIDENTI. Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Edunesp, 1993. Número de frases: 73 Outro dia parei para pensar que sentido tem o mundo e não cheguei a conclusão alguma. Será que o mundo não tem sentido? Dizem que o ser humano tem não sei quantos sentidos, que interligados nos dão chances para a sobrevivência. Quando um de nossos sentidos falha, a vida torna-se mais complicada, mas ainda é possível sobreviver -- ou viver, como querem os mais otimistas. Deve ser complicado viver sem um de nossos sentidos. Tipo, perder a visão. Viver no escuro, não saber o que se passa a milímetros do próprio corpo. Fico imaginado se uma manhã qualquer eu abrisse os olhos e não enxergasse nada. Não sei qual seria minha reação. Provavelmente, dependendo do meu estado de excitação, eu apenas ficaria deitada na cama, tentando entender o que aconteceu e não chegando a conclusão alguma, me poria a gritar e se não tivesse ninguém por perto eu ficaria gritando sozinha, ou pior, talvez tivesse ao meu lado alguém com um senso de humor negríssimo que me deixaria ficar me desesperando só pra ver no que iria dar. E se fosse a audição? Ai ... eu como a pessoa curiosa que sou, ficaria a ver as pessoas mexendo os lábios sem poder saber o que dizem ... Socorro! Provavelmente eu nunca mais acordaria ou ficaria pensando que o mundo enlouqueceu. Ainda mais estando sozinha. Iria achar que a TV e o som estavam com defeito, iria olhar para fora, ver passarinhos que não cantam, carros que não fazem barulho. Que coisa! Não poderia mais escutar minha banda favorita, nem as vozes de que gosto. Nem escutaria minha própria voz. Viveria num eterno silêncio, teria muito tempo para pensar. E quando visse as coisas erradas não iria poder protestar. E se eu tivesse vontade de falar com alguém, se eu precisasse chamar alguém? E se eu quisesse gritar gol? E se eu não tivesse olfato e nunca mais pudesse sentir o cheiro de minha filha? Não soubesse por o ar quando algo esta queimando, se eu não pudesse sentir o cheiro do mel e do vinho? E se eu não pudesse sentir o cheiro da primavera e do inverno, o cheiro de terra molhada? O meu próprio cheiro. E pior, se eu não tivesse tato? Acho que se eu perdesse o tato seria muito estranho. Será que existe alguém no mundo que não tem tato? Que não sente quando esta quente ou frio duro ou mole? Acho que não. Isso deve até ser perigoso demais. Meio difícil de ocorrer. E todos os outros sentidos que dizem haver? E se eu perdesse todos os meus sentidos, mas me mantivesse viva, o que fariam com mim? De repente poderiam me ter por morta e me enterrassem viva? Bem, antes ser enterrada viva do que viver sem sentidos. Mas e o mundo? Que sentido possui o mundo? E se ele não tiver sentido, vivemos nós então num mundo morto? Será que todos estamos enterrados vivos e não sabemos? Que sentido tem o mundo? Será que tudo acontece por que tem que acontecer, será que o mundo da suas voltas para acabar sempre no mesmo lugar? O que acontece com a gente então? Eu sou tão leiga nessas coisas da vida que nem sei de mim mesma. Perco horas tentando formular teorias brilhantes para explicar as maiores besteiras e acabo sempre perdendo meu tempo. Eu não consigo nem chegar perto do que seria a idéia de viver sem um de meus sentidos, me aterrorizo, fico perplexa. Perder algo que é essencial na minha natureza parece ser insuportável, mas tem tanta gente por ai vivendo sem um de seus sentidos que nada deve ser tão horrível assim. E uma vida sem sentido, como ela pode acontecer? Deve ser acontecendo, acontecem tantas coisas sem sentido algum por ai ... Tudo é lógico e ilógico. Mil coisas que podem mudar o mundo acontecem num segundo e eu não me dou conta da metade de elas. As coisas são e simplesmente são. O mundo, com ou sem sentido não passa de um mundo relativo onde tudo é metafísica. Até eu sou metafísica. Este texto não passa de metafísica. Quando não souber explicar, não explique! Número de frases: 57 «Eu sou Negrita, sou quem ontem acertei, no alvo, a pedra que ainda vou atirar amanhã» É com essa expressão que a Pambu Njila Negrita se apresenta, e quando ela aparece é pra negritar ... E no sábado 23 de agosto não foi diferente, a Kizomba ria Pambu Njila Negrita do Mansu Nangetu foi projeto premiado por o Edital Adelermo Matos da Secretaria de Estado da Cultura do Pará, na categoria grupos tradicionais da cultura popular e / ou festividades já inseridas no calendário cultural do Pará, tendo o reconhecimento e patrocínio da gestão da cultura estadual para a realização dos dez dias de festividade deste ano. A festividade culminou com uma grande cerimônia pública presidida por Mam ' etu Nangetu. Ela explica que os Jinkisi Nganga Njila e Pambu Njila são os deuses que reinam sobre os caminhos e que promovem a união de mundos diferentes, e por isso são tão importantes para a religiosidade de matriz africana, e que também é por isso que as comunidades dos terreiros preparam festas com grande fartura de comida e bebida para eles, ela diz que é uma festa para «celebrar os caminhos abertos». Mam ' etus Deumbanda e Mazadeuara foram as comandantes ' da roda ' de danças que precedeu e preparou o ambiente para a chegada das divindades, sempre acompanhadas das Kotas Kiriobá, Mazakalanje e Dandauandê. Em a roda fez-se a festa até o momento mais aguardado: a chegada da Negrita, que aconteceu em torno das 23h. Negrita, então, recebeu seus convidados com a alegria que transformou a Kizomba ria Pambu Njila do Mansu Nangetu num dos eventos afro-religiosos mais importantes e concorridos na cidade de Belém. Sacerdotes das mais diversas matrizes religiosas, e artistas e produtores culturais prestigiaram a kizomba, que incendiou de alegria quando as divindades pediram o'samba de roda ` no salão, chamando todos a dançar com elas os cânticos e ' sotaques ` entoados por Nego Banjo e ritmados por o Kambono Kamugeji e alabês de outros terreiros -- tocadores da ' equipe do Banjo ', que mais uma vez atenderam ao convite e em parceria com a dona da festa seguraram a animação, e o samba, por aproximadamente quatro horas. Se aproximava da meia noite quando os Tátas Iya Tundelê e Kitauanje serviram as comidas sagradas: filé, xinxim, carnes de cabrito e outras iguarias temperadas com camarão, cebola e pimemta esquentaram ainda mais a temperatura do úmido clima amazônico. E foi assim, em clima de festa e confraternização, que a kizomba seguiu madrugada adentro, sem um fim determinado, infinito como os caminhos de Negrita ... Serviço: «Kizomba ria Pambu Njila Negrita 2008» (" Festa para Senhora dos Caminhos Negrita "), dia 23 de agosto, inicio às 21h30, no Mansu Nangetu, Travessa. Pirajá, 1194, entre Av.. Duque de Caxias e Av. 25 de Setembro, Bairro do Marco, Belém-Pará. Telefone: (91) 3226-7599. Projeto premiado no Edital Maestro Adelermo Matos SECULT -- Governo do Pará. veja mais da kizomba, e do Mansu Nangetu em: http://www.iteia.org.br/nangetu Número de frases: 19 e http://institutonangetu.blogspot.com/ Pastelzinho? Croquetinho? Bolinho? Empadinha? Ir pra um boteco no Piauí esperando encontrar esse tipo de tira-gosto é perda de tempo. Não sei se por causa da história de que "; beber comendo ajuda a não ficar muito bêbado ";, nós aqui caprichamos na comidinha; salvo raras exceções, a ordem é ter comida que dê "; sustança "; na mesa. Em uma pesquisa que fiz via Orkut com alguns botequeiros assumidos, o tiragosto mais votado foi o "; Arrumadinho "; Consiste em carne de sol trinchada, feijão tropeiro e arroz maria-isabel, tudo junto no mesmo prato, bem arrumadinho, e coberto por uma chuva de cheiro-verde picado. O melhor do Piauí, segundo os entrevistados, é o do bar do Pernambuco. A panelada, já citada aqui no Overmundo, é outra delícia muito pedida para acompanhar brejas geladíssimas. Feita com bucho de boi muito bem temperado --; tem que ter muita folha de louro, pimenta do reino e cebola, o bom é comer com farinha, gotinhas de limão e pimenta. A que é vendida no Mercado da Piçarra é famosa, e aos sábados, quando o mercado fica lotado, uma cerveja antes do almoço (que como já disse o mestre Science é muito bom pra ficar pensando melhor) acompanhada por um pratinho de panelada é obrigatório. Em o Cantinho do Jambo a panelada é o tira-gosto mais pedido. A carne de sol também é boa opção. Depois de passada na manteiga com rodelas de cebola, é trinchada e aí é só comer. É quase irmã siamesa da paçoca, as duas se completam com perfeição. E a paçoca nada mais é que carne de sol socada no pilão com cebola e farinha, até ficar uma espécie de farofa (mas não vá chamar paçoca de farofa porque isso é uma ofensa!), que é passada na manteiga e servida com cheiro-verde picado. Se pedir esse prato como refeição e não como tira-gosto, vem ainda com arroz maria-isabel e se o dono do boteco / restaurante for bem esperto, uma bananinha pra acompanhar. A bananinha é uma estratégia para fazer os clientes voltarem. Conheço gente que prefere um lugar a outro só por causa da dita. Em o restaurante Carnaúba, que funciona há mais de quinze anos, os garçons contam que tem gente que chega pensando em só tomar cerveja e comer um tira-gosto, mas acaba pedindo refeição --; especialmente de carne de sol, carneiro ou linguiça caseira -- porque sai mais em conta. O sarapatel é um petisco polêmico. Quem gosta, gosta muito, ama e adora. Quem não gosta morre de nojo e não come nem pra ganhar dinheiro. É feito com vísceras picadas (pode ser de porco, de carneiro, de bode) e muito tempero; come-se com gotinhas de limão e farinha. E numa cidade abraçada por dois rios, claro que tem que ter tira-gosto de peixe. Em o Pesqueirinho, restaurante e bar tradicional, as piabas fritas pedem a companhia de uma cerveja gelada. Elas são pescadas lá perto e chegam fresquinhas; são fritas em óleo bem quente até ficarem torradíssimas. Em a beira do rio Parnaíba, dezenas de lavadores de carros oferecem seus serviços todos os dias e aos sábados o lugar já virou point. Quem quiser esperar a lavagem do carro tomando uma geladinha tem que chegar cedo, senão não encontra mais lugar para sentar. Lá, as manjubinhas (são peixes pequeninos) fritas são uma atração à parte e come-se com vinagrete e farofa. O publicitário Siqueira Campos, botequeiro de carteirinha e membro do Conciliábulo de Teresina --; um grupo de respeitáveis senhores que se reúne (num boteco, claro) para tomar cerveja ou uísque ou rum ou cachaça e falar da vida da cidade e seus moradores --; afirma categoricamente que a piaba frita é o tira-gosto mais piauiense que existe."; Eu só vejo piaba frita aqui e no Ceará, mas a daqui de Teresina é a melhor de todas, bem feita, bem fritinha, é uma delícia "; Em os fins de tarde de sábado e domingo, o caranguejo é de lei. Vindo de Parnaíba, o bichinho tem fãs ardorosos. Em bares como o Salute e o Novo Mangue, são vendidas centenas de cordas de caranguejo nos dias de maior movimento. Nada de patinha à milanesa, o que o povo aqui gosta é de caranguejo toc toc, para quebrar as patas e comer tudo, inclusive a cabeça. Em alguns bares, uma gentileza agrada e muito: depois que se come as patas, é só pedir com jeitinho que o garçom leva os "; peitos "; para serem cozidos em molho de leite de coco e traz de volta para a mesa, para alegria dos mais fanáticos. E já que falamos de caranguejo, não dá para deixar de citar o camarão ao alho e óleo do bar do Daniel, considerado o melhor da cidade."; Quando pedimos mal passado, aí sim fica perfeito "; diz Siqueira, que cita ainda o espetinho do Zé de Melo, o peixe do VTS, a panelada da Lili Bolero e o frango do Zé Filho como petiscos que são a cara dos bares do Piauí. Ele afirma que comida de boteco tem que ser pouquinha, servida em porções pequenas, para que os clientes peçam sempre mais. Alguém discorda? Em o último encontro de overmanos e overminas no Rio, comentamos que seria interessante fazer um paralelo entre o que se come nos botecos de cada lugar. O Piauí já mostrou, quem mais se habilita? Adianto que é um texto, literalmente, muito gostoso de fazer! Número de frases: 57 Papa Bento XVI em visita ao Brasil. Confesso que o Sumo Pontífice me entediou. Aliás, não ele, mas a reação das pessoas quanto a sua visita. Em diferentes faixas, de escolaridade a poder aquisitivo, uma algazarra com o nome do Papa. Reclamou-se de tudo. Excluindo as apreciações pessoais, antipatia e falta de carisma, e a justificável e insistente comparação com João Paulo II, duas me pareceram um tanto quanto sem sentido. Posições conservadoras e luxo ostensivo. Uma obviedade. Herr Ratzinger é presa fácil. Ele assume e representa «divinamente» bem o papel de Eterno que a Igreja almeja para si. E, convenhamos, o Eterno, por si só, já é um tédio. O Tempo é um Velho Safado. As coisas acabam. Tudo. Não há notícia de nada que tenha sobrevivido à sua inclemência. Em o mundo, várias são as formas que a mortalidade tem de perscrutar o Eterno. A ciência e suas leis imutáveis; a arte e a captação -- ou tentativa -- da essência do humano; e a religião, a única a admitir abertamente suas intenções com o infinito. Infinito é o objetivo da religião assim como infinitos são os credos e deuses. De entre todas, a Igreja Católica sempre se destacou aos meus olhos. Só me sinto atravessando o portal do Eterno, ao adentrar um Templo Católico. Mas, no meu caso, não por um transe místico, nem por uma questão de fé e sim por causa de um capricho do Velho Safado. O silêncio, a amplidão da arquitetura, desenvolvida exatamente com esse fim, uma sensação de ausência. Parece que os quase dois mil anos de instituição não passaram. Em uma igreja católica não se está nem na Idade Média, nem no século vinte e um. O tempo simplesmente não existe, a eternidade encarnou em pedra. Exatamente por isso, determinadas críticas parecem patéticas frente ao delírio Apostólico Romano. Estamos confundindo alhos com bugalhos. Os sempre prontos defensores da liberdade incondicional, entre os quais me incluo, lamentaram muito as posições defendidas por Bento XVI, durante a visita, sobre aborto, uso da camisinha e união entre pessoas do mesmo sexo. A igreja se fecha, choram uns, o Papa se distancia dos fiéis, gemem outros. Nada mais justo. Como Presidente da Filial do Céu na Terra, o Papa não poderia fazer outra coisa. Todos os problemas que listei são angústias típicas do período da vivência humana em que nos encontramos. Problemas pós-modernos, diriam os acadêmicos. Acontece que todas essas questões são eminentemente terrenas. à Igreja compete o Céu. A o Papa recomendar oração e abstenção. É uma luta injusta. A Santa Madre nunca esteve interessada em acalentar a Carne, que o diga Leonardo Boff, teólogo brasileiro que ajudou a criar a Teologia da Libertação. Em os anos 80, Boff foi condenado por o então cardeal Joseph Ratzinger ao «silêncio obsequioso». O motivo era a inserção da Igreja nas problemáticas das grandes populações oprimidas principalmente na América Latina. Quanto à acusação de conservadorismo -- ultimamente se converteu em acusação, tanto que os que são, dizem que não são, e os que não são, negam que sejam -- me parece meio esdrúxula. Para Bento XVI, isso não existe, pelo menos nunca soube que utilizasse tal palavra. Perante Deus não há conservação nem destruição, só há misericórdia e, se Ele quiser, a salvação da alma e a expiação dos pecados. Como também é inócuo afirmar que a Igreja esbanja dinheiro quando tantos morrem de fome no país que o Santo Padre visitou. A quem importa? Problemas do Homem, meu caro. O cálice de ouro, os bordados de ouro, a cadeira e o cetro, todo o luxo é apenas mais uma manifestação do Eterno. E, convenhamos, o Eterno, por si só, já é um luxo. Em o mais, os seguranças, o carro blindado, o sorriso insosso no passeio por os fiéis em São Paulo, tudo só demonstra a distância, impercorrível, entre a Igreja e o resto do mundo, entre o Céu e a Terra, entre o Eterno e o mortal. Também não custa nada ressaltar que vai tudo em paz nas ilhas da fé. Como bem demonstra a foto que rodou o mundo, retratando o pé esquerdo do Papa e aquilo que Ele calça. Sim, ao contrário de Jesus, o Papa calça Prada. Mais que uma constatação, esta se converte em denúncia: Bento XVI e sua corte pretendem viver mesmo em outro mundo, seja ele terreno ou espiritual. Número de frases: 55 Quais são os limites impostos por o que vemos? Kafka, num conto intitulado «A construção», descreve-nos uma cena interessante. Conta a história de um ser que, buscando proteção, decide morar nos subterrâneos da floresta; cava seu próprio labirinto. Corredores que se complicam num intrincado jogo de galerias, uma planta da construção especialmente organizada para dificultar o acesso de qualquer estranho: uma constante fonte de segurança e de alimento, uma vez que, devido ao seu profundo conhecimento da estrutura da edificação, consegue localizar pequenos ruídos de seres menores que ele e banquetear-se. Uma vida constantemente direcionada para a atualização da construção e correção dos pequenos detalhes problemáticos: eis que o ser descrito por Kafka se obceca. Imagina diversas possibilidades de falha e, de modo hipotético, a todo momento imagina sua própria ruína. Focinhos que destroem todo o seu esforço, seres curiosos (ou até mesmo desavisados) que, por uma sorte do infortúnio consigam entrar definitivamente na construção e devorar seu empreendedor. Crê-se, em sonho, súbita e irremediavelmente diante de seu predador. Eis que o medo surge como alavanca primeira para a nunca finalização do empreendimento: a todo momento o modifica, constrói outras galerias, outras praças subterrâneas. E, mesmo cada vez mais aprimorado, ainda assim não se sente seguro; e recomeça. Sua fortaleza soa, antes de tudo, como uma prisão construída em torno de si: «também aquela saída [da construção] não me salva, como provavelmente ela não me salva em caso algum, antes me arruína, entretanto é uma esperança e eu não posso viver sem ela». Esse trecho parece-me bastante elucidativo se enxergado em proximidade. Como posto por Brecht, «todos reconhecem a força das águas, mas poucos tratam da violência das margens que a comprimem». Antes das galerias da construção representarem uma maior eficiência no caso de fuga, são a previsibilidade dos atos do ser que em elas habita. Comprimido por as paredes que ele mesmo arquitetara, vê-se preso dentro de seu próprio projeto: seus movimentos tornam-se previsíveis, óbvios. Em todos os sentidos, torna-se a própria construção. Certa feita, tendo decidido sair a campo aberto por algum tempo, sente-se ainda assim preso à sua fortaleza: «A construção me ocupa muito a cabeça. Saí correndo da entrada, mas logo estou de volta. Procuro um bom esconderijo e vigio a entrada da minha casa -- desta vez do lado de fora -- durante dias e noites. Pode parecer tolo: isso me dá uma alegria indizível e me tranqüiliza. É como se não estivesse diante da minha casa, mas de mim mesmo dormindo e tivesse a felicidade de poder ao mesmo tempo dormir profundamente e me vigiar com brio». É bastante esclarecedora a afirmação de que " é como se não estivesse diante de minha casa, mas de mim mesmo ": ao dedicar toda a sua vida à construção daqueles túneis, acabara por torna-los uma síntese de si mesmo e lá se trancar. Em cada parede jazem diversos dos seus medos, a cada encruzilhada de galerias surge um passado que está impregnado em toda a edificação. A certa altura do conto, o ser mesmo consegue identificar em certas alas mais antigas sua própria ingenuidade da juventude como se fosse possível dissecar sua própria fortaleza tal qual sua história individual. O espaço ao qual restringira-se durante toda a vida torna-se, portanto, sua mimese em outra linguagem, a visual. Entretanto, existe ainda outra possibilidade. Sua própria constante vivência dentro dos corredores da edificação não o arregimentaria segundo seus preceitos? Seus medos não definiriam os corredores e, portanto, suas possibilidades de locomoção? Certamente que sim. De essa forma, creio deparar-me com dois sentidos da mesma análise: o ser inventa seu esconderijo e, por outro lado, o esconderijo inventa o ser. Em algum desses dois sentidos estaria a noção foucaultiana de epiméleia heautoû (ou o " cuidado de si "). De forma geral, esse conceito representa uma espécie de prática individual da liberdade, um regime no qual a vida deve ser tratada tal qual uma obra de arte: segundo o que De a Vinci chamaria de pintura, o ser humano deveria preocupar-se com si e com tudo o que per via de colocare arquiteta-o. Um cuidado sobre o que se faz de si atenuando, portanto, as fronteiras entre ética e estética. Essa noção de epiméleia heautoû assemelha-se muito ao sentido proposto anteriormente sobre a obra de Kafka do ser inventar o esconderijo, ou seja, seu meio e tudo aquilo com o qual ele entraria em contato. De essa forma, conseguiria arquitetar a si mesmo por meio do espaço; «cuidando de si» por meio daquilo que é posto diante de si. Reconhecer, por exemplo, o caráter de poder exercido por as paredes das galerias sobre sua locomoção e reformula-las de modo a praticar sua própria liberdade. O trabalho aqui proposto é direcionado exatamente no sentido de buscar certos desdobramentos dessa idéia: a interferência do espaço sobre a liberdade individual do ser. É bem verdade que, ao invés de espaço, poderia ser voltado para o som ou o convívio, por exemplo. Mas não; o recorte escolhido justifica-se por o formato do presente ensaio e de limitações impostas à análise (tanto teóricas quanto técnicas). Apologia à ótica do invisível; um discurso sobre o hábito As rígidas paredes das galerias propostas por Kafka poderiam muito bem ser substituídas por outro elemento mais metafísico: o hábito. Como posto por Leon Tolstoi em seu diário, «se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se essa vida não tivesse sido». Explico-me. Imaginemos o tráfego numa cidade. Um conjunto delimitado de ruas e sinais que garantam certa margem na mobilidade. Por meio de um poder legitimado no indivíduo cerceia suas possibilidades de ação; nesse sentido, os meio-fios de cada um dos asfaltos, juntamente com semáforos ou quaisquer outros sinais, constituiriam as paredes kafkanianas das galerias subterrâneas do ser tratado anteriormente. Há, dessa forma, uma espécie de institucionalização do hábito: tornado mais ou menos uniforme a vários indivíduos, parece realizar o esforço societal. Não podemos reconhecer simplesmente o hábito como docilizador apenas do percurso dobrado por o espaço; ele vai além. Como mesmo posto por Foucault, pequenos mecanismos de poder parecem presentes tanto na forma de organizar os espaços quanto nos modos de utiliza-los. Há, assim, um poder estabelecido com o intuito de docilizar os corpos valendo-se da construção do sujeito: manipula-se o que antes seria o «cuidado de si» a favor de um sentimento grupal. Mas creio ser necessário ir um pouco mais além. Cada imagem pode ser interpretada por o sujeito de acordo com seu repertório individual de vivências. Tal qual inicialmente proposto por Marcel Mauss ao tratar das técnicas corporais identificáveis em diferentes sociedades, alguma espécie de mensagem parece ser transmitida por entre idiossincrasias corporais. Proponho aqui algo que mantenha a mesma direção, contudo caminhe em sentido diferente: que cada um desses detalhes visualmente perceptíveis transporte com si mensagens plurais traduzidas de forma divergente em cada consciência individual. Introjetada como experiência adquirida, tal mensagem auxiliaria na construção do «eu» e da forma particular de se representar o mundo; todo elemento apresentado ao indivíduo seria recebido como linguagem a ser decriptada de acordo com seus referenciais particulares, uma vez que não existiria uma gramática convencionada para a interpretação, por exemplo, de dados iconográficos. Tal é o caráter subjetivo da imagem: suas interpretações são divergentes em função da ausência de uma convenção. De qualquer forma, se essa ausência fosse tão marcadamente presente, o observado por Mauss como gestos comuns a determinadas culturas e compartilhadas por diferentes indivíduos seria impensável. O problema parece ganhar formas mais colossais. Com o intuito de diluir tais incômodos, retomo o tratado sobre o hábito anteriormente. Dentro das margens de erro diante da convenção estabelecida, por exemplo, no trânsito, o mesmo ângulo de olhar parece oferecido a diferentes olhares individuais. Pára-se no sinal vermelho: atento à lâmpada, esperando-a permitir a retomada do tráfego, esse olhar assemelha-se muito àquele lançado por o ser que dirige o carro ao lado e se encontra em situação semelhante. Homogeniza-se, de certa forma, um grupo em experiências semelhantes em espaços análogos. É bem verdade que os sentidos lançados por cada um dos olhares sobre o semáforo podem ser diametralmente opostos dependendo da vivência individual, mas ainda assim compõe-se um quadro interessante: o indivíduo, colocado ao longo de toda uma vida dentro dessa vivência regulada termina por entrar em contato com experiências cada vez mais em comum com os outros. Não seria essa a definição de cultura? Tipo de sentimento grupal que, mesmo apesar de seu caráter socializante, não exclui de forma alguma certos traços da individualidade? A vivência em comum toma aqui uma importância fundamental: divide a experiência quer seja de forma direta (por meio do convívio) ou de forma indireta (por meio da linguagem proposta por o espaço compartilhado). Interdependentes, esses elementos conferem certa margem para a individualidade: uma espécie de ética. Obedecendo a esta ou aquela idiossincrasia pode-se trabalhar a individualidade; caso transpasse certos limites, a segregação é imposta ao corpo como forma de docilizá-lo, como propõe Foucault, de forma definitiva -- todos os mecanismos de controle presentes na sociedade são então levados ao extremo em instituições estruturadas com esse fim; manicômios, prisões, colégios. Há, portanto, algo tornado invisível em toda essa organização espacial. Um poder que centre os olhares na instituição corporificada no semáforo priva os olhares de atingirem algum detalhe na calçada, por exemplo. Torna-se invisível. Existe algo nesse ponto semelhante ao posto por Kafka: os túneis tornavam os elementos «lá fora» escondidos, no entanto bastaria refletir sobre a própria edificação construída ao longo da vida; em outras palavras, «cuidar de si». Quebrar o hábito no olhar significaria revelar o invisível. A o se docilizar os corpos segundo um caminho bem delimitado -- banco para se sentar, calçada para se andar, janela para se ver -- priva-se também de certos estímulos que nos seriam únicos e, exatamente por não ser compartilhado por outros, construiria uma individualidade mais sólida. Refiro-ma enxergar o invisível a todo momento; buscar o novo de modo a nos construirmos tendo-o como alicerce. c ou ¢; vários espaços em vários olhares Proponho aqui um ensaio prático a respeito do trabalhado anteriormente. Utilizando uma máquina fotográfica Olympus e filme Konica asa 100, proponho um pequeno exercício. As fotografias foram tiradas entre 13:50 e 14:40 do dia 22 de Janeiro de 2005. Peço, entretanto, que se desconsidere uma pequena entrada de luz aparente em certas fotos aproximadamente a 1/7 horizontal. Foi selecionado um parque infantil numa superquadra da Asa Sul, bairro de Brasília. Todas as estruturas formadoras do hábito estão presentes: uma cerca que converge todos os passantes para uma única entrada, uma calçada que subordina o passo, partes do parque tomadas por a grama onde, em função da ausência de areia, as crianças não brincam. Todos os movimentos aqui são estipulados por uma organização espacial que determina uma margem de erro certa a cada movimento. O traçado axial, referente aos passos, como indicado por a Sintaxe Espacial, é indicado num esquema gráfico em anexo. A calçada em frente conduz os passantes a uma entrada na cerca cricular que define o perímetro do parque. Marcados com Xs, os brinquedos para as crianças. Identificada com um conjunto de pequenos círculos, a mesa na qual os pais podem vigiar seus filhos. A visão do todo do recorte escolhido na fotografia panorâmica representa o oposto do que proponho no restante das chapas: escolhi por diminuir a abertura do diafragma no intuito de obter profundidade e clareza nas cores de modo a acolher um plano geral. Em o restante das fotos, a tentativa foi exatamente de encontrar nesse ambiente geral o particular e invisível: encontrar pequenos detalhes ocultados por os percursos «normais» dentro do espaço. Em esse intuito, e procurando destacar essas particularidades do geral, a técnica usada consiste n, jogando com o foco e abrindo ao máximo o diafragma, entorpecer as cores do fundo destacando a nitidez do primeiro plano. Não apenas objetos, mas também texturas presentes n, por exemplo, placas, que se perdem à absorção por o indivíduo em função do uso prático dos objetos. Ao invés de, em certo caso, figurar a visão oferecida por o banco ao em ele sentar-se, tentar capturar texturas escondidas por o uso objetivo do objeto. Ao contrário de Bresson, não me detive a buscar o «momento decisivo», mas sim um instante que se perdura estaticamente no espaço e pode revelar-se a qualquer um que rompa com o hábito. Não pretendo, contudo, examinar foto a foto; ao invés de provocar uma legenda, creio que seja necessário lançar um olhar particular sobre cada um dos registros tentando alcançar, desse modo, o tal «cuidado de si». As fotos se encontram em anexo. Bibliografia FOUCAULT, Michel. «A hermenêutica do sujeito». São Paulo: Martins Fontes, 2004. FOUCAULT, Michel. «Vigiar e punir». Petrópolis: Vozes, 2004 Kafka, Franz. «Um artista da fome / A construção». São Paulo: Companhia das Letras, 1998. MAUSS, Marcel. «Sociologia e Antropologia». Número de frases: 144 Paulo: Epu. Dia desses na PUC / RJ, o locutor da Paradiso FM, Sérgio Maghalhães Gianotti fez uma afirmação para lá de taxativa: «não existem rádios comunitárias no Rio de Janeiro». Confesso ao querido leitor que me doeram os ouvidos. Estavam presentes diversos alunos de Comunicação social da PUC / RJ, Marcos Dantas (ex-integrante do MC no Governo Lula), Célio Campos (professor da PUC / RJ e Soares Júnior (professor da PUC / RJ e jornalista do Sistema Globo de Rádio). Este último chegou a nos brindar com a experiência de ter ouvido «rádios piratas» atrapalhando a frequência da 98 FM e da CBN Rio quando fazia o «repórter aéreo». Convido você a uma breve reflexão, caro leitor. Estamos num país cuja legislação (lei nº 9.612/98) impede que uma emissora de rádio comunitária tenha alcance superior a 1 KM. Isso mesmo: é como disse Gianotti na palestra, um alto-falante. Primeiro temos de questionar a legislação: por que não ceder espaço no ar, espaço público, para que muitas outras vozes possam se experessar? Aplaudo aos que dizem: «rádio comunitária não pode atuar em cima da faix a de frequência de rádio comercial». O espectro é finito, porém não é democrático. Tive a experiência de ver no nordeste brasileiro, rádios comunitárias que mostravam outra verdade que não a da rádio que servia aos interesses de políticos que parasitam os mais distantes rincões desse nosso Brasil. Vi experiências, como a da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, onde o projeto de uma rádio comunitária tirou das garras do narcotráfico crianças e jovens que não tinham a menor expectativa de ser um cidadão não marginalizado. O Estado nega aos movimentos sociais a possibilidade de se comunicar através do ar (um espaço público), impondo meros 1 KM de raio de ação a partir da antena da emissora. O que é claro, explica e não justifica o fato de muitas rádios comunitárias ultrapassarem o alcance permitido ganhando o título de «piratas». Há a necessidade da criação de dispositivos legais para que tornemos nossos meios midiáticos mais justos. Será que estou mentindo quando digo que é através de rádios comunitárias que nosso governo divulga campanhas contra a AIDS ou contra a dengue? Alguém teria coragem de negar o papel social desses segmentos? E você, amigo (a) leitor (a)? Número de frases: 23 O que pensa a respeito? Pessoal, Estou vindo agora da Praça XV e quero escrever sem pensar muito: Sei que um post sobre esse assunto não vai fazer muito sucesso aqui (como de resto em qualquer lugar). É compreensível. Qualquer sinal de violência ou atitude violenta perto de mim costumo me afastar rapidamente. Me sinto extremamente incomodado e acho que passar longe da violência preserva minha saúde mental. Infelizmente não está dando mais pra fazer de conta que não é com a gente. à noite, aqui no quarto, e nas madrugadas, ouço as AR-15 do Morro Dona Marta (também chamado de Santa Marta) que fica aqui pertinho, embora do lado não ocupado. De dia, ouço os porteiros comentando algum tiroteio que alcançou as escadarias que dão acesso as subidas do morro. Mais que isso, amigos dos amigos são atingidos, como o Picucha do AfroSamba ou a Delphine da Terr'Ativa com a qual mantive contato por um bom tempo. Não preciso contar das últimas nos jornais. Todo mundo leu. Não sei quais as saídas imediatas. Imagino que existam ações a curto, médio e longo prazo. Tento enxergar algum caminho no meu trabalho com a Rede Social da Música. Como a arte e a cultura poderão contribuir para alguma mudança? Divido com vocês minha perplexidade. ... ... Atendendo a convocação do Tico Santa Cruz, vocalista dos Detonautas Roque Clube, fui até a escadarias do Palácio Tiradentes, na Praça XV, aqui no Rio, onde se reúnem os deputados estaduais na Asssembléia Legislativa do estado do RJ. A mensagem dizia «estaremos fazendo uma» contagem de corpos " das vítimas da violência da guerra do Rio de Janeiro (estas últimas palavras em Caixa alta). Chegando lá encontro Chico Alencar que levou uma colagem com um texto bíblico onde os nomes (de mulheres) foram substituídos por as fotos das mães publicadas nos últimos dias nos jornais. A foto está aí do lado com mais algumas da manifestação. Sem palavras. Reproduzo na íntegra o texto que foi distribuído a todos e lido no megafone por o Tico e repetido por os presentes: «Os Deputados, Senadores, Prefeitos, Governadores e Presidentes, desfrutam de muitos privilégios Pagos com o dinheiro do povo. E nós contamos os corpos ... Seus filhos estudam em colégios particulares e muitos de seus parentes quando precisam são atendidos erm excelentes hospitais que não pertencem a rede pública. Andam em Carros Blindados e moram em locais da cidade protegidos por seguranças particulares. E nós contamos os corpos ... 55 % dos deputados estaduais residentes nesta Assembléia Legislativa estão respondendo a processos cível, criminal ou eleitoral, enquanto você sequer pode prestar concurso público se estiver envolvido em algum processo judicial. E nós contamos os corpos ... Os políticos brasileiros são processados por fraudes, corrupção, desvio de verbas ou qualquer crime cometido ao longo de seu mandato Tem Direito A Julgamento em Foro Privilegiado. Até o momento nenhum político envolvido nos crimes e nos escândalos de corrupção que acompanhamos por os jornais e TVs foram parar atrás das grades. Isso chama-se Impunidade. E nós contamos os corpos ... Verbas que deveriam ser destinadas a Rede Pública de Ensino, aos Hospitais, a Segurança de nossas Comunidades são desviadas por muitos destes cidadãos que deveriam nos defender e nos representar. E nós contamos os corpos ... O Supremo Tribunal Federal retomou dia primeiro de março o julgamento de recurso destinado a garantir o foro privilegiado a «agentes políticos» processados por improbidade administrativa, mesmo que já tenham deixado o cargo. De os 11 ministros do STF seis já votaram a favor dos político e um contra. Restam votar 4 ministros. A medida, se aprovada, impedirá que ministros de Estado e o presidente da república sejam fiscalizados por procuradores na primeira instância da Justiça, como ocorre hoje. Além de paralisar os processos em andamento a decisão do STF permitirá que administradores já condenados possam pedir a Restituição de valores que foram obrigados a devolver aos cofres públicos. Cerca de 10 mil inquéritos e ações judiciais contra autoridades acusadas de corrupção podem ser arquivadas. Os defensores do foro privilegiado querem que presidentes, ministros, governadores e prefeitos envolvidos em corrupção não sejam mais atingidos por a lei. O Código Penal Brasileiro é de 1940. E nós contamos os corpos ... Um soldado da polícía militar ganha 800 reais por mês. Um professor ganha em média 400 reais por mês. Um médico do Sus ganha em média 1.500 reais. O Estado gasta em média com nossas crianças 300 reais por mês. Um preso custa aos cofres públicos em média 800 reais por mês e todos nós sabemos que o Estado não oferece nas penitenciárias Nenhuma Condição De Reabilitação dos apenados, cabendo a sociedade arcar com todos estes custos e mais os salários dos nossos políticos que passam de Quinze Mil Reais mensais. E nós contamos os corpos ... O Rio de Janeiro está em guerra enquanto nossos representantes não fazem nada E nós contamos os corpos ... Fim da impunidade. Fim da imunidade parlamentar. Fim do voto secreto no Congresso Nacional. Queremos segurança, educação e saúde de qualidade pois pagamos por isso. Sem Justiça Não Há Paz. Deputados assumam suas responsabilidades pois elas são do mesmo tamanho de seus privilégios. Enquanto nós contamos os corpos. Número de frases: 62 Ass) Voluntários da Pátria " O bom e velho futebol de botão está na rede, ou melhor, está em rede. Descobri através do orkut que existe aqui pertinho de casa, em Duque de Caxias, cidade vizinha a São João, uma Agremiação de Futebol de Mesa. Desde moleque trago com mim uma grande paixão por o futebol em todas as suas possibilidades: do futebol de preguinho, passando por o vídeo game até o futebol de botão. Só este caso de amor antigo já seria o bastante pra me fazer procurar a galera da tal Agremiação, mas o golpe fatal na minha curiosidade foi descobrir que esses jogadores se organizavam em torno do nome de Agremiação Proletária de Futebol de Mesa (APROFUME). Futebol de Mesa na Baixada, jogado por um grupo que se auto-declara proletário? Eu precisava conferir isso de perto! Informado que a APROFUME receberia a etapa final do campeonato carioca na modalidade pastilha (aquele disquinho achatado), me programei para passar o domingão no simpático Clube dos 500. O espaço, que diariamente atrai centenas de freqüentadores interessados em diversas atividades esportivas, atualmente é utilizado como sede por a Agremiação. Cheguei por lá mais ou menos às nove da matina, os atletas já se preparavam e saiam devidamente uniformizados do vestiário. É isso mesmo, nesses campeonatos todo mundo joga uniformizado. A rapaziada literalmente veste a camisa do clube que defende. Aliás, pra disputar as competições oficiais o atleta precisa estar vinculado em algum clube ligado à federação estadual, a FEFUMERJ. A APROFUME é hoje um dos clubes mais ativos no estado do Rio. As primeiras paletadas Marcelo Coutinho, um dos fundadores e atual presidente da APROFUME, explicou que a Agremiação nasceu em 1998, fruto de uma dissidência pacifica com a Associação Metropolitana de Futebol de Mesa (AMFM). Com essa história começamos a entender o grande mistério, por que Agremiação Proletária? Marcelo responde: " As pessoas que fundaram a APROFUME se organizaram em torno de um pensamento político que enxerga o esporte por um viés mais social, e a estrela vermelha no escudo da Agremiação deixa isso claro, o que, por outro lado, não faz da APROFUME um braço de qualquer organização político partidária. Mas sim um agrupamento de jogadores de futebol de mesa dado por certa afinidade ideológica». Essa linha de pensamento se reflete, por exemplo, nos torneios beneficentes organizados por a Agremiação em parceria com ONGs e outras entidades. Em este campeonato estadual a APROFUME marcou presença em três categorias, elas são divididas por a faixa etária da seguinte forma: infanto-juvenil, até 17 anos; Adulto, 18 a 39 anos; sênior, 40 anos em diante. Mesmo sendo um esporte onde não ocorre contato físico, as limitações proporcionadas por a idade justificam essa divisão. Em as palavras do Marcelo: " o cara que é sênior já não tem mais a mesma visão que um menino que disputa o infanto-juvenil, isso conta muito na hora de mirar o gol». O bacana nessa dinâmica é perceber que o futebol de mesa é um esporte literalmente familiar. às vezes os pais levam os filhos a jogar, outras vezes acontece o contrário. Mas o fato é que diferentes gerações se encontram nas paletadas. O próprio Marcelo roda os campeonatos com a companhia da esposa e dos dois filhos, todos jogam e, pra não dar briga em casa, cada um disputa as competições numa categoria. As partidas são jogadas em dois tempos de 10 minutos, curioso é que (na categoria pastilha) não existe necessariamente a figura do árbitro. As decisões são tomadas em comum acordo entre os dois atletas. O juiz só entra em campo caso seja solicitado por um dos jogadores, o que pode acontecer numa partida mais disputada. O Silêncio (que precede o esporro) A concentração é um dos aspectos fundamentais para a realização de uma boa partida de futebol de mesa. Os toques são milimétricos, de precisão cirúrgica, e um só desvio de atenção pode mudar a história de toda partida. A expectativa pra essa etapa, a última do campeonato estadual, era muito grande. O burburinho de conversas, comentários e provocações que dominavam o salão de jogos no intervalo de cada partida desaparecia com o disparo do cronômetro. A partir dai o silêncio imperava, sendo quebrado apenas por o estalo das paletadas, as tímidas comemorações nos gols e a vibração mais calorosa no caso de uma vitória. Engana-se quem acha que não existe competitividade nesse jogo. O campeonato é disputado durante todo o ano, em etapas que são realizadas em diferentes clubes e atraem atletas de todo o estado. É bola na rede Com os resultados dessa última etapa a APROFUME marcou presença nas primeiras colocações do ranking geral em várias categorias. Essas colocações vão, gradualmente, capacitando o atleta a disputar competições inter-estaduais e nacionais. Esses campeonatos são organizados por federações que se unem por diversas filiações. O que percebemos é que mesmo sendo um esporte amador, o futebol de mesa prima por uma organização que pode ser vista a olho nu, seja presenciando os próprios campeonatos, seja nos vários sites de federações, de notícias e comunidades na internet. É a bola, de feltro, a pastilha e o dadinho, definitivamente na rede. Número de frases: 51 Tudo isso é patrocinado por o amor que cada botonista tem por o bom e velho futebol de botão. O meu primeiro contato com o projeto «Bossa B» (CCBB Brasília) envolveu boa vontade mas, confesso, certa dose de preconceito. Queria ver o Zeca Baleiro cantar, mas, Marcio Greyck? O que seria isso? Eu sei, eu sei: além de preconceito, estava carregada também de ignorância. Marcio Greyck vendeu em discos, em pouco mais de uma década, o que pouca gente vai vender na vida. Foi regravado por uma lista gorda de colegas artistas. Ou seja, fez (e anda fazendo) a cabeça e os ouvidos de muitos. Não consegui ir ao primeiro encontro do projeto «Bossa B». Subestimei a apresentação, deixei para comprar ingresso no dia (sábado), e soube então que as entradas já estavam esgotadas desde a terça anterior. Em a terça seguinte, estava eu lá, às 10h da manhã, na fila para compra de ingressos. O encontro da semana, de tema «O Protesto», combinaria as letras militantes de Odair José e de Mv-Bill. Cheguei ao teatro e recebi o programa do evento. O texto esclarecia que a idéia de Lu Araújo (idealizadora do projeto) era pensar a música produzida hoje no Brasil e, ao mesmo tempo, desmistificar os vários gêneros musicais combinados sob o rótulo «brega». Foi por meio dessa idéia genial, personificada no palco em Odair José, Mv-Bill e seus acompanhantes, sob condução inteligente, excêntrica, afiadíssima e hiperbem-humorada de Elke Maravilha, que tive o primeiro contato real não apenas com o tal do brega, mas também com o tal do Hip-Hop brasileiro. Odair José, descobri, tinha um incrível poder de síntese e uma tremenda coragem. Conseguia, numa canção, abordar temas polêmicos (teve muitas músicas censuradas por a ditadura militar) e agradar a um contingente de pessoas tão grande, que só mesmo o elitismo intelectual consegue ignorar. E o Bill? Quando entrou, imenso, no palco, tentava ocultar sua presença indisfarçável diante dos elogios explícitos e pouco ortodoxos de Elke Maravilha: «Bendita seja a mãe que te pariu, meu filho! Que é isso? Vai ser bonito e gostoso assim na ..." O rapagão olhava o linóleo que cobria o palco, como se procurasse ali um buraco para se esconder. Mas, na hora de cantar ... Foi a primeira vez que vi Odair José. Foi a primeira vez que vi o Mensageiro da Verdade também, e ele me empolgou muito. O encontro em si foi muito feliz, mas o Bill estava radiante. Carregava e transmitia paixão nos gestos, nas palavras bordadas -- metralhadas a quilômetros por segundo --, nos pequenos discursos que fazia nos curtos intervalos entre uma música e outra. Eu tentava me conter na cadeira. Queria dançar. Minhas pernas me puxavam para fora do assento, mas a vergonha vencia, sobretudo quando eu via que ninguém mais se levantava. Queria dizer ao Bill o que Elke dizia. Não aquilo que o deixava sem graça, mas que a sua paixão era louvável. Que era essa paixão que eu procurava encontrar no meu trabalho, no meu cotidiano, e que muitas vezes não achava. Queria dizer ao Bill que, naquele dia, ele promoveu um encontro meu com o novo (conhecia muito pouco -- e ainda conheço -- do trabalho de ele, do Hip-Hop e do brega em geral) e com a esperança de que o engajamento que me falta (e, vejo, falta a muitos de nós) ainda possa ser recuperado e abraçado. Em a semana seguinte, mais uma vez enfrentei a fila do CCBB para ver, dessa vez, a apresentação dos românticos: Wando e Rita Ribeiro. Foi ótimo, divertido, enriquecedor cultural e musicalmente, renovador. Lu Araújo acertou mais uma vez. Mas o protesto de Bill ficou na minha cabeça. Fico pensando o que seria de pessimistas como eu se não houvesse pessoas como ele, que, apesar de torturadas por uma realidade duríssima, não deixam de acreditar que as mudanças podem ser promovidas. Fico pensando o que seria de mim se a Lu Araújo tivesse apenas pensado em encontros como os promovidos no «Bossa B», e nunca os tivesse executado -- como teria eu tido acesso ao protesto e à paixão que o Brega e o Hip Hop contêm? Enfrentei a fila do CCBB durante mais de uma hora. Em esse sentido, fiz a minha parte também. Fui ativa e participativa, de alguma forma. Ah! Também fui atuante quando, lá para o fim do show do Mv e de Odair José, deixei minha empolgação me jogar para fora da cadeira e, finalmente, sucumbi à vontade de dançar e, assim, de certa forma, também à conclamação de Bill. Mas me falta sua paixão na luta diária. Me falta (e a muitos de nós, acredito) a mobilização, a indignação que consegue ultrapassar o ceticismo, que se levanta e vai à luta e, mais que isso, que vê na ação, uma possibilidade de transformação. Cheguei em casa, depois do show do Bill e de Odair José, cheia de paixão. Corri para o computador para escrever ao meu orientador da pós-gradua ção sobre o evento e, mais especificamente, sobre o Bill. Sabia que ele conhecia o Mensageiro da Verdade, e talvez pudesse servir de transmissor dos meus elogios e da minha admiração. Então o orientador deu a sugestão: «Por que você não escreve para o Overmundo sobre o show e eu digo para o Bill ler?». E foi aí que a diferença entre Mv e eu mais uma vez se explicitou. mais de um mês já se passou e só agora eu sento para concluir minha redação sobre aquilo que me parecia tão urgente e inadiável em 16 de julho. A dificuldade de terminar o texto vem, sobretudo, do distanciamento que já se consolidou entre o evento, o momento, e eu. Eu contribuí para que o tempo deixasse sufocar a minha maior motivação, o meu maior motivo de admiração, a tal da paixão. A tarefa, então, está concluída. Não do jeito fervoroso (e talvez ideal) que imaginei há mais de um mês, mas, de alguma forma, feita. Espero que a iniciativa genial de Lu Araújo siga CCBB's afora contribuindo cultural e filosoficamente, promovendo a desmistificação, derrubando preconceitos, propondo reflexões e novas perspectivas a partir da poderosa ferramenta que é a música. A Lu está de parabéns. Agradeço ao Bill por os momentos de exaltação interna que promoveu em mim e espero que siga suscitando esse sentimento em outras pessoas; que também insista, intensamente, na derrubada da ignorância e da intolerância. A o Hermano, obrigada por insistir (e desculpe se decepcionei). A mim mesma, perdão por a demora, por a oportunidade que dei para que a paixão fosse embora. A todos nós: torço simplesmente para que enxerguemos e toleremos sempre (caso não gostemos) os vários lados «B» de cada bossa. Número de frases: 68 A pergunta parte da forte afirmação do cineasta e crítico de cinema Inácio Araújo, um dos muitos entrevistados que compuseram a base de relatos reunidos por a jornalista Denise Mota da Silva no excelente Vizinhos Distantes -- Circulação Cinematográfica no Mercosul. O livro, recentemente lançado, cobre a lacuna de material que estabeleça conexão entre as estanques cinematografias dos quatro membros originais do Mercado Comum do Sul. Como num jogo de xadrez, a autora posiciona Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai no entrincado tabuleiro da produção de filmes mundial. Uma das propostas do livro é entender até que ponto a utopia de mercado que propôs o acordo entre os quatro países alcançou o campo da produção e da difusão de obras cinematográficas. A conclusão, como num filme hollywoodiano previsível, é conhecida por todos: mercados dominados por o produto estadunidense, os países do Mercosul são incapazes de se estruturar enquanto bloco que faça frente a esta produção hegemônica. Desenhando uma trama que envolve desde a produção até o consumo dos filmes, a jornalista vai revelando os encontros e desencontros entre os atores cinematográficos locais, tratados como secundários em seus próprios mercados. Em a introdução, a autora apresenta as peças de seu quebra-cabeça e faz uma digressão histórica sobre a relação entre as cinematografias latino-americanas, sobretudo na utopia dos anos 60, onde se forjou pela primeira vez a idéia de latino-americanidade cinematográfica. De a utopia socialista ao sonho neoliberal, Denise desenha a mudança da mentalidade que pede a integração: no passado, o subdesenvolvimento comum como identidade para a mudança social; no presente, a integração como vias de aumentar as possibilidades mercadológicas. O primeiro capítulo apresenta um pequeno mas consistente release da produção cinematográfica recente de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O capítulo é como um saboroso review para os que vêm acompanhando as transformações empreendidas por estes países desde o início da década de 1990, quando Argentina e Brasil viram suas produções cinematográficas chegarem próximas a zero, até as chamadas Retomada (no Brasil) e Nueva Onda (Argentina). A seguir, o tabuleiro é o mundo e o Mercosul é situado neste xadrez como um produtor secundário de cinema. A autora discute as produções recentes dos quatro países e faz citações de obras e autores de forma quase lúdica, levando o leitor a um interessante jogo de memória, onde ganha aquele que mais atenção vem dando as cinematografias dos vizinhos. O terceiro capítulo parte para a distribuição dos filmes. Processo dominado por companhias de fora do bloco, a distribuição revela a fraqueza das obras cinematográficas dos países do Mercosul em seus próprios mercados e os caminhos por os quais passam os filmes que acabam furando as barreiras dos vizinhos e chegando até eles. Em seguida, a autora parte para a exibição que, como a etapa anterior, está atrelada ao interesse das empresas multinacionais. Em os dois capítulos, o destaque é a excelente base de dados reunidos por Denise que conecta, creio que de forma inédita, o negócio do cinema nos quatro países. Além disso, os atores do processo -- produtores, diretores, distribuidores, exibidores e promotores de políticas públicas -- são chamados a uma discussão que revela os problemas comuns e as soluções desencontradas. Mas, o maior tesouro do trabalho chega no quinto capítulo onde a autora apresenta, na íntegra, preciosos depoimentos de agentes do mercado cinematográfico dos quatro países. É gente da importância do brasileiro Adhemar Oliveira (fundador do Espaço Unibanco de Cinema); dos argentinos Adolfo Aristarain (Roma, de entre outros filmes), Lita Stantic (produtora de La Ciénaga, de entre outros), Daniel Burman (El Abrazo Partido); do uruguaio Manuel Martinez Carril (Cinemateca Uruguaya) e do paraguaio Enrique Collar. São considerações muitas vezes cheias da paixão de quem vive no furacão do que é produzir cinema de forma quase sempre marginal, muitas vezes dependente do estado. Vizinhos Distantes -- Circulação Cinematográfica no Mercosul chega ao mercado num momento delicado para os países da região, onde as produções começam a se estabilizar num número razoável no Brasil e na Argentina e a atingir um patamar novo no Uruguai. Até mesmo o Paraguai, sem tradição alguma de cinema, assistiu um filme seu ser premiado em Cannes (Hamaca Paraguaya de Paz Encina). No entanto, os mercados internos e, por extensão, o Mercosul encontram-se fechados para essa produção. Se há uma possibilidade de saída para o impasse através do bloco, o livro não é capaz de responder. Todavia, ele tem material de sobra para que os autores possam criar um ponto-de-virada neste roteiro. Número de frases: 30 Este artigo só foi possível porque o Leonardo Cruz, autor de um dos mais interessantes blogs de cinema da atualidade, fez chegar às minhas mãos, do outro lado do planeta, uma cópia do livro. Saí de casa pra acompanhar passo a passo a Batalha do Conhecimento. Catei minha câmera, o boné e parti para a Lapa muito atento. Disposto a não deixar de registrar nenhum momento. E poder relatar no Overmundo cada acontecimento. Calma, esse texto não vai ser todo rimado, não tenho a mesma habilidade que tem esses MC ´ s dados ao confronto nas rimas. Só quero transmitir aqui um pouco do que acontece nas noites de quinta-feira, quando uma pequena multidão se amontoa para conferir a Batalha do Conhecimento. A programação da Batalha começou cedo, as 18:30h, com a exibição do filme «Febre de Selva», do cineasta americano Spike Lee. A saber, o cinema foi um dos mais importantes meios na difusão da cultura hip-hop no Brasil. Além de Spike Lee, que tem em sua filmografia algumas obras que retratam o cotidiano dos guetos de Nova Iorque, podemos destacar também o filme Colors (traduzido aqui como " Cores da violência "), dirigido por Denis Hopper, com o rapper Ice T no elenco. A exibição de vídeos é uma das propostas que diferenciam esta das outras tantas batalhas que rolam por ai. Por aqui, além de boas rimas, a rapaziada procura algo a mais, o tal do conhecimento. A primeira rodada das batalhas teve início com a casa meio vazia, a noite contou com um total de dezesseis MC ` s duelando no esquema mata-mata, ou seja, perdeu, tá fora. Entre os dezesseis competidores havia pelo menos três estreantes, o que não significa que o nível dos combates tenha sido baixo, pelo contrário. A batalha acaba servindo como um espaço para revelar os novos talentos e projetar essa nova safra para o universo do rap carioca. Afinal de contas, a Batalha do Conhecimento é o evento de rap que mais reúne gente na cidade, além de ser o único que acontece semanalmente. A tabela da primeira rodada ficou assim: Nissin X Honey Money Emissário X Migu Isac X Rico Te A ligado X Coba Bidi X BBLô Sete X Revis Mv Hemp X Ernesto Maomé X Tempestadi A o final da primeira rodada os MC ` s têm um tempo pra dar aquela relaxada. O DJ é quem não pára de trabalhar, continua mandando um som pra não deixar o ritmo da festa cair. Mas nessa noite a programação trazia algo de muito especial, a estréia póstuma do vídeo clipe do MC Catatau. Dois amigos de Catatau, MC Gil e MC Sheep, se encarregaram de apresentar o vídeo contando parte da história da vida do companheiro de rimas. Como muitos dos MC ` s que estão hoje fazendo rap e envolvidos com a cultura hip-hop, Catatau também veio da escola do Funk. E, segundo o relato de seus amigos, sofreu as conseqüências de morar numa comunidade dominada por as milícias. O fato é que Catatau foi morto durante as filmagens do clipe. O pessoal da De a Ganja filmes corajosamente finalizou o vídeo que, além de cenas com o próprio Catatau, conta com imagens de telejornais, notícias de conflitos armados em favelas cariocas, corrupção policial e todas essas coisas que infelizmente permeiam o dia-a-dia da cidade. O vídeo foi assistido com muita atenção por todos os presentes que acompanhavam com fervor o refrão da música que dizia: «a primeira lei da favela é ter fé!». O vídeo acaba, Gil e Sheep recuperam o microfone para fazer um belo free style em homenagem a Catatau. O MC Zé Bolinho e o b. boy Jagal, falecidos recentemente, também são lembrados. A segunda rodada já começou quente, a homenagem a Catatau acirrou os ânimos dos MC ´ s que precisariam mostrar ainda mais criatividade para permanecer na disputa. A rapaziada não deixou por menos, e o público pôde assistir a belos conflitos como o de Rico e Maomé. O primeiro rima num estilo nervoso, o cara fica visivelmente tenso! O segundo tem o grande trunfo no flow (a levada que o MC dispara as rimas), como você pode conferir na vitória de ele na final da etapa carioca da Liga dos MC ´ s. Aqui, na Batalha do Conhecimento, existe um quadro negro, onde os próprios MC ´ s e o público escrevem palavras com as quais o MC deve rimar durante sua apresentação. Em esta noite o quadro estava recheado por palavras como desejo, etnocentrismo, embriaguez, religião, entre outras. Apesar de Rico utilizar mais palavras do quadro, nesta ocasião Maomé levou a melhor e se classificou pra semi-final. Outra boa batalha foi a que ocorreu entre Revis e Nissin, duas figuras novas no cenário, mas que mostraram chegar com muita pressão. Revis aparenta ainda não ter chegado aos 18 anos, Nissin não deve estar muito além desta idade. Juntos os dois abusaram não só do vocabulário proposto no quadro, mas também de referências que levavam o público a viajar, rir e refletir. De Salvador De ali aos automóveis Nissan (resgatado no trocadilho Nissin sem Nissan) tivemos citações a arte, cultura de massa, sociedade de consumo. Toda essa salada acaba fazendo sentido quando esses moleques encaixam as idéias em rimas bem elaboradas. Em os outros dois confrontos, Mv Hemp não encontrou muita dificuldade para superar Migu, já BBlô e Coba levaram o conflito até as últimas conseqüências. Para delírio da platéia a batalha foi decidida no chamado terceiro round. Momento quando o talento dos MC ´ s extrapola os dois rounds iniciais, obrigando a realização de um terceiro para decisão final. BBlô acabou levando a melhor se classificando para a semi-final, a tabela ficou assim: Migu X Mv Hemp Rico X Maomé Revis X Nissin BBlô X Coba O cenário onde a batalha acontece lembra uma verdadeira arena, os MC ` s ficam num nível a baixo da platéia que se concentra não só à frente, mas também por as duas laterais. Quando as batalhas começaram a acontecer neste espaço, o público cercava os MC ` s em 360°, conforme o evento ficou mais concorrido, foi preciso conter o espaço para não danificar os equipamentos do CIC (Centro interativo de Circo). Equipamentos que, além de utilizados nas oficinas ministradas no local, servem para transmitir a batalha ao vivo através da Rádio Comunitária de Arte e Educação. Se você mora no Rio pode toda quinta-feira sintonizar a rádio em FM103. 3, e acompanhar a batalha do aconchego do lar, ao aperto do ônibus. Antes da terceira fase, rolou ainda o show do grupo Malícia Urbana. Formado por Fael e Kelson, conhecido por as batalhas que costuma disputar Rio de Janeiro afora. Assistir ao desempenho de Kelson não apenas nas rimas improvisadas, mas também atuando junto ao seu grupo, é mais uma prova da importância da batalha como laboratório artístico. Um espaço onde o MC não apenas exercita a criatividade, mas aprende também a lidar com a platéia, utilizar o microfone e amadurece como artista. A batalha estimula o trabalho autoral dos MC ´ s adicionando um beat a premiação do vencedor da noite. Para um MC em começo de carreira, conseguir uma batida original significa coçar o bolso, coisa que nem sempre é fácil ou mesmo possível. Semi-final, duas batalhas: Mv Hemp e Revis fazem um duelo bonito, os dois buscam utilizar bastante as palavras do quadro. Em alguns momentos Revis conquista a simpatia da platéia, mas Mv Hemp reage bem, vence e segue rumo a final. Maomé e BBlô fizeram mais uma batalha digna de todo barulho que ensurdeceu os presentes. Amigos, amigos, rimas à parte, foi a batalha onde houve mais confronto entre os MC ´ s. Apesar dessa não ser a proposta principal da Batalha do Conhecimento, é de sangue verbal que o povo gosta. Sendo assim, Maomé levou a melhor no quesito sanguinário e conquistou a última vaga na final. O relógio já passava das 22h quando a final entre Mv Hemp e Maomé começou. Seria essa uma batalha da experiência contra a juventude. Maomé mais uma vez disparou seu gatilho de rimas, usando e abusando de seu flow rápido, costurando idéias contundentes em alta velocidade. Mas na hora da decisão o que pesou foi o carisma de Mv Hemp que, malandramente, aproveitou do clima de excitação geral que dominava a arena e partiu para a cima da platéia: «Muita positividade no ar! Quem ai ta com o pensamento positivo, levanta a mão e vem com mim!». Ai o povo ficou doido! Mv Hemp encarnou o verdadeiro papel de MC (Mestre de Cerimônia) e trouxe o público juntinho com suas rimas. Vitória merecida do senhor Marcos Vinicius Hemp. O grande campeão da noite levou para a casa um boné, uma camiseta, todo dinheiro arrecadado da platéia, o beat oferecido por o DJ Mister Break, e a honra de apresentar a batalha da semana seguinte. Semana após semana a Batalha do Conhecimento vai juntando gente, dando voz aos MC ` s e criando uma tradição que se encaixa no campo das tradições que se instalam para o bem. Uma tradição que, em última instância, nos remete ao direito e a maneira mais antiga de se fazer política. Número de frases: 85 Por aqui, é o uso da palavra, junto ao barulho, a manifestação pública, que define os rumos deste embate. Campo Grande / MS: Memorial da Cultura será inaugurado hoje Michelle Rossi. Correio do Estado: Cultura -- Caderno B outubro / 2006 É mesmo algo bonito de se ver: um prédio dedicado exclusivamente à cultura e que tem sede na capital sul-mato-grossense. Em a noite de hoje, a partir das 19h, o Memorial da Cultura Apolônio de Carvalho (antigo fórum) será inaugurado e agora passa a ser referência para outras cidades. Em o prédio de 6 andares -- mais a sacada -- estarão reunidos museus, biblioteca, salas de exposição de artes plásticas, arquivo público, além da Secretaria de Fundação e Cultura. Para ler o artigo na íntegra, clique: http://www.jornaldedomingo.com.br/artigos/angelo/? Número de frases: 12 id = 846 Você assiste a um telejornal e no momento em que aparece uma determinada pessoa na tela -- um ministro, por exemplo -- você clica em ele. O telejornal congela e outro vídeo surge na tela, mostrando a biografia daquela pessoa. Quando termina de assistir, continua vendo o resto do jornal. Mais: você gostou da roupa usada por a apresentadora. Clica na roupa de ela e acessa dados como preço, tamanho disponível, cores possíveis e onde comprar. Aliás, se quiser comprar na hora, é só clicar em outro botão, passar seus dados e esperar para receber em casa. Não se trata do amanhã, mas do ontem. A experiência da navegação em vídeo já era possível há algum tempo. Em o início de 2006 uma campanha de marketing da marca francesa de roupas Shaïwear lançou na rede vídeos que rapidamente se espalharam e foram baixados por 1 milhão de pessoas. Os vídeos foram muito comentados por dois aspectos: primeiro, eram vídeos de sexo explícito, produzidos por Marc Dorcel. Além disso, usavam, paralelamente, a tecnologia flash para que o espectador pudesse, ao clicar em cada peça de roupa que ia sendo tirada por os modelos, parar o vídeo e ter mais informações sobre o produto. Inclusive preço, cores, onde e como comprar. Infelizmente, a campanha já saiu do ar e não acho o vídeo que eu tinha feito download para mostrar. Achei só umas imagens. Era muito, mas muuito bacana. Inclusive, houve quem falasse já em TV interativa. Um ano depois, tentamos algo semelhante na Agência Brasil -- sem o sexo explícito, claro. Chamamos de reportagem especial multímidia Consumo Consciente. São cinco vídeos que tratam do assunto, e em cada um de eles, em vários momentos, é possível interagir com a tela. A o clicar em algumas imagens que aparecem, abrem-se outros vídeos, ou textos, relacionados ao assunto tratado naquele momento. É o mesmo conceito do hiperlink, ou hipertexto, aplicado ao vídeo. Pode-se chamar também de hipervídeo. O blog da Yasodara, a artista do projeto, mostra bem como foi desenvolvido. A possibilidade que se abre para o jornalismo na rede, ou futuramente na TV, é contar uma história curta, mas com profundidade, caso o telespectador se interesse por ela. Em três minutos pode-se apresentar a história principal, mas em cada momento, caso o telespectador queira, pode interromper a narrativa e abrir outra janela de conteúdo. Pode navegar entre os conteúdos livremente, assistindo ao programa da maneira como preferir, construindo, inclusive, sua própria narrativa da história, de maneira não-linear. Gostamos da experiência, devemos tentar novos vôos daqui em diante. Quem sabe -- por que não?, com sexo explícito. www.andredeak.com.br PS: O Overmundo foi, de certa forma, coadjuvante na construção do especial Consumo Consciente. A música De a Pesada, postada aqui, foi usada no fundo do menu interativo. Número de frases: 34 Todo o especial, assim como a música, são licenciados em Creative Commons. Quando A Cafeteria fechou as portas, Belo Horizonte inteira sentiu o drama. Afinal de contas, perder um ponto de encontro em plena Praça da Savassi, pólo de agitação cultural, para (mais) uma loja de celulares parecia uma afronta à mineiridade. Clientes colocaram faixas reclamando o fim do café, os tapumes da obra da loja foram danificados (muitas vezes com mensagens de ódio) e, no primeiro mês de funcionamento da loja, uma manifestação pacífica até provocou o fechamento do estabelecimento. Meio ano se passou e agora a Claro anuncia seu primeiro projeto cultural em Minas Gerais, que pretende devolver à cidade o prazer de utilizar a Praça Diogo Vasconcelos como ponto de encontro cultural. A partir de 19 de junho, o Claro Minas Instrumental proporcionará, quinzenalmente, concertos gratuitos e inéditos no quarteirão fechado da Rua Antônio de Albuquerque, trazendo uma boa amostra da produção nacional de música sem letra. Shows Em parceria com Túlio Mourão, a produtora Casulo selecionou jazzistas, roqueiros, eletrônicos, populares e eruditos, com o intuito de acompanhar o desenho da música instrumental brasileira. A idéia é discutir o que é música instrumental através de encontros que reúnem o requinte dos " pesos-pesados à nata da criativa do underground. A produção convida inclusive o público a participar do «fazer música» através do material de divulgação, que consiste em instrumentos de «percussão» inusitados (veja a descrição de eles ao lado). «O desafio é capturar a grandeza do momento e, para isso, tanto vale instigar os ícones quanto provocar as colisões criativas, autorizando os encontros imprevisíveis», explica o músico Túlio Mourão, que se apresenta ao lado do Proa em 18 de Setembro. Para abrir o evento, no próximo dia 19, dois grandes nomes: Toninho Horta e Marcos Suzano. O primeiro já foi listado entre os melhores guitarristas do mundo; o segundo é um dos percussionistas brasileiros de maior destaque. Ainda tem o Projeto Cru toca com Markú Ribas (3 de Julho), Monte Pascoal e Nivaldo (17 de Julho), Daniel Ganja Man, M. Takara e Rinoceronte Sound System (7 de Agosto), Artur Maia e André limão Queiroz (21 de Agosto), Cleber Alves e Dudu Maia (4 de Setembro), e, para fechar com chave de ouro, o encontro internacional de Aliéksey Viana, Paul McCandless e Dimas Goudarolis. Ufa! Patrocínio Uma grande estrutura será montada para o Claro Minas Instrumental. Além dos R$ 160 mil captados através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o projeto também tem o patrocínio da Sony Ericcson, que possibilitou que um grande lounge com telões seja montado na rua. Segundo o diretor regional da operadora, Sérgio Pelegrino, o ponto de vendas na Praça da Savassi foi uma grande conquista, mas a Claro se preocupou em firmar uma parceria com o Café Três Corações para manter um pequeno café na loja. Ainda de acordo com o diretor, o projeto do Claro Minas Instrumental caiu como uma luva para as intenções da operadora de não perder o charme e a tradição da praça. «O festival valoriza a música brasileira e fortalece o vínculo da Claro com os mineiros, reforçando a Praça da Savassi como um local de convívio da cidade», afirma Pelegrino. A Claro anuncia que tem interesse em levar o festival de música instrumental para outras capitais do Brasil e está em finalização do calendário de patrocínios culturais para 2008, que inclui outras ações em Belo Horizonte. Fico na torcida. Serviço De 19 de junho à 2 de outubro, terça-feira sim, terça-feira não, sempre às 19h e de graça, na Praça da Savassi. Além dos shows, dois workshops: de percussão com Marcos Suzano (informações no folheto ao lado) e produção musical com Daniel Ganja Man (dia 8 de Agosto, com inscrições gratuitas). Número de frases: 29 Informações: (31) 3222-3242. por Daniel Tocha para o site www.consubter.rg3.net Consubter -- Qual é a formação da Co-4? Eduardo Sô -- A formação da Co-4 é: Fabrício, Bruno, Fábio, Rey, Morgana e eu. Fabrício -- Essa é a formação fixa pra trabalho, mas tem as pessoas que fazem parte da família Co-4, que aí já vem o Arthur, a Joana e a Ana (da Alemanha). Consubter -- Como é que surgiu a idéia de montar a equipe? Eduardo Sô -- A idéia na verdade, foi um encontro entre mim e o Fabrício. Eu mudei pra cá, porque eu morei dez anos em São Paulo e eu comecei a me enturmar de novo com os dançarinos daqui que estavam mais na ativa, aí eu encontrei com o Fabrício que já tava fazendo um trabalho de pesquisa sobre a cultura original do Hip Hop e das danças também. E comecei a me juntar com eles e tivemos a idéia de compartilhar esses conhecimentos e fazer uma coisa mais séria, voltada mais para a cultura original do BBoying, Popping, Locking, Boogaloo e Up-Rocking. Fabrício -- A formação da Co-4 foi em prol de querer mostrar para as pessoas a verdadeira beleza da dança original. O que é dança original, o sentimento real da dança. Porque hoje as pessoas querem fazer acrobacias, chegar lá e ficar subindo em cima da mão, querendo aparecer e não querem simplesmente chegar e dançar e expressar o sentimento real da dança. Eu costumo dizer que somos um pedacinho do Bronx, porque nós somos a continuação da vida do Bronx da época que as pessoas começaram a dança, o MCing, o Graffiti; começaram as outras artes independentes uma da outra. Nós somos a continuação disso aqui no Brasil. Consubter -- A Co-4 apresenta os 4 estilos, as 4 danças do Breaking? Eduardo Sô -- O «4» do nome na verdade, tem a ver com os 4 elementos do Hip Hop e tem a ver com os 4 estilos, como você falou, que é o BBoying, Locking, Popping e Up-Rocking. E a idéia é mostrar isso na rua (como aqui agora né?), mostrar isso em teatro, levar essa arte para as pessoas entenderem que é uma dança que tem que ser respeitada como qualquer outra dança; como o Ballet, Dança Conteporânea, Afro, Sapateado, Jazz, Dança de Salão, etc.. Então agente faz esse trabalho porque é um trabalho sério. A Co-4 é uma crew mas tabalha como grupo pra trabalhar também em teatro ... Fabrício -- Usando as danças básicas como elemento cênico. Esse número 4 é um número justo mas é injusto também ao mesmo tempo porque tem outras danças que também utilizamos que fazem parte das danças clássicas, o Robot por exemplo, que é uma das danças mais antigas. Os 4 elementos são BBoying, Popping, Locking e Up-Rocking. A gente não cita o Robot mas ele tá aqui, de uma forma ou de outra, ele tá nesse tempo que intercala uma dança e outra. Temos o Robot, temos o Boogaloo. Assim como no Locking a gente trás raízes dos passos Sociais, que são Rock Steady, Good Foot e outras danças que agente trás também com o Locking. Mas é um número simbólico, assim como ele é simbólico no Hip Hop, porque não é correto falar «4 elementos», porque o Hip Hop não é» elemento». É «atitude», é a» maneira «é o» jeito». Isso é palavra do KRS-One: «Hip Hop é o jeito do Bronx de viver». Consubter -- Eduardo, você como BBoy da velha escola, você acompanhou e fez parte do processo de expansão do Hip Hop em BH e São Paulo ... Eu gostaria que você falasse algumas coisas importantes na cena do BBoy de Belo Horizonte, algumas coisas que aconteceram na história do BBoy aqui em BH ... Eduardo Sô -- A cena em BH começou quando nós, alguns caras que já dançavam, já faziam passos de Funk, danças sociais. Eu, Pelé do Santa Tereza, (o MC Pq hoje é o MC Pelé; o Pelé do Santa Tereza infelizmente faleceu) e outros dançarinos que tinham na época. Nós vimos o filme «Flash Dance» pela primeira vez em 1983, no cinema aqui em Belo Horizonte e nós vimos uma dança diferente, os caras imitando robô, imitando um boneco, os caras dançando no chão, agente não sabia o que era aquilo. E fomos ver que aquilo era uma dança. E agente ficou extasiado. «Puxa, quero aprender aquilo!». E eu particularmente tive a impressão que nunca ia aprender, que aquilo não ia chegar nunca no Brasil, principalmente em Belo Horizonte. Mas do nada, a mídia abraçou (vamos pôr assim) essa moda que se tornou o «Breakdance» (nessa época eles começaram a chamar a dança de «Breakdance», no final de 1983). E nós começamos a fazer aquilo porque estava em todos canais de televisão, programas, clips ... foi uma moda, foi uma sensação, aquela coisa toda ... E nós entramos nesse embalo. Dentro dessa cena foi criado um grupo chamado «Break Crazy», o primeiro grupo profissional, que foi formado na sacada daquela companhia de Jazz Marício Tobias, no Santo Agostinho, na Rua Araguari. Eu, Pelé, Marques e Charles fomos os primeiros a dançarem na rua aqui em Belo Horizonte em frente a Wrangler, ali na Praça da Savassi em Fevereiro de 1984. E a partir daí o Break Crazy começou a ter mais membros, começamos a conhecer um pessoal e fizemos um point no Pop Pastel, isso no início de 84. Aí vinha uma galera, outras pessoas de outros bairros que começaram a juntar no Pop Pastel e na Praça da Savassi pra fazer os encontros todo final de samana. Aí virou uma febre, como em outros países, em outros estados do Brasil. Tinha a moda e nós também praticamos a moda. Mas só um detalhe, em 83 nós íamos numa danceteria que tinha dentro do BH Shopping, que tinha vários dançarinos que se encontravam lá dentro e agente dançava, imitando, fazendo o que agente via nos clips na televisão, que agente não sabia os nomes, e o quê que era. Em 84 nós começamos a saber o quê era, que era algo que tinha a ver com o Hip Hop. Em as revistas, nos jornais, tinha alguém que já tinha feito entrevista lá fora e então nós sabíamos o que era. Mas não sabíamos exatamente, os detalhes, o que era realmente. No meio do ano, veio um filme chamado «Break Dance» (título no Brasil, lá fora se chama " Breaking "). Mas o que abriu nossos olhos foi o «Beat Street (1984)». Porque ele mostrou a cultura original, a cultura Hip Hop de verdade, mostrando os 4 elementos da cultura e mostrando o modo de viver do Bronx, como o Fabrício falou. E aquela coisa passou para o mundo inteiro. Nós vimos que num era uma moda, que não era «Breakdance» e que era muito mais do que isso. E começamos a mudar de atitude através do filme «Beat Street». Isso começou forte e a moda acabou depois desse filme, ficaram só aqueles que realmente entenderam a mensagem que a coisa não era uma moda, era um comportamento de vida, tinha uma filosofia de vida e agente começou a praticar isso na dança, alguns como MC's, outros com o Graffiti, DJ ... entre nós mesmos. Nós mesmos nos tornamos DJ's, MC's e Graffiteiros. Em a época a maioria cantava, a maioria graffitava, a maioria dançava. A moda acabou e nós continuamos. E a cena em Belo Horizonte foi muito forte. Ao contrário do que dizem em São Paulo e, alguns aí falam que tudo começou em São Paulo, isso é uma mentira! Antes de eu ver as pessoas dançando na mídia em São Paulo, eu já dançava, eu não sabia que eles existiam. E os dançarinos que dançavam com mim, a mesma coisa. Então, não começou em São Paulo, começou tudo no Brasil ao mesmo tempo. Não teve uma pessoa que trouxe também, como dizem que foi o Nelson Triunfo que trouxe o Hip Hop para o Brasil, isso é uma mentira. Quem trouxe o Hip Hop para o Brasil foi a mídia através da televisão, através do cinema, das revistas e jornais. A mídia é que trouxe. Isso foi no Brasil inteiro ao mesmo tempo. Em 84 já dançava, o Dentinho (o Roger Dee), que hoje é DJ e produtor. O Dentinho teve grande influência na história do Hip Hop em Belo Horizonte. Ele era respeitadíssimo, todos os BBoys de fora, em São Paulo, os caras que viram ele dançando ficaram impressionados com ele e com o grupo Break Crazy (que era eu, o Dentinho, o Evandro, o Ronaldo e o Linguiça). Nós fomos pra São Paulo e eles racharam lá. Os caras ficaram impressionados porque eles já tinham estilo, tinham uma postura de BBoy, de cultura Hip Hop de verdade. E o Dentinho foi um cara muito importante para a história do Hip Hop de BH. E por muito tempo ele segurou a onda aqui, muitos pararam (eu mesmo, fiquei dois anos parado) e ele segurou a onda. Eu continuei em 89, comecei a voltar na cena. Aí veio aquela cena do «Rap music», que veio o Public Enemy, veio os comédias, veio o Vanila Ice, MC Hammer, aquela galera toda. Mas depois agente começou a ver quem era original, que era De La Soul, A-TRIBE, agente dançava com Public Enemy, Boogdown Production, Big Dady Cane, que veio um pouco antes, entre outros MC's ... aí a cena continuou underground, original. Os irmãos fazendo MCing, DJing, dançando e grafitando. De aí passou um tempo. Em 95, 96, eu mudei pra São Paulo, fui pra trabalhar em Guarujá, mas lá eu também dançava, eu montei um grupo lá, montei um esquema de centro cultural, para os caras treinarem também. Muita gente nova tava aprendendo. Fizemos um trabalho muito forte lá em Guarujá. Aí eu já pulei pra São Paulo. Morei em São paulo também em 89. E fiquei muito tempo com o Gêmeos, com os caras da Street Warriors, o Alan Beat que hoje é o produtor do Sampa Crew. E voltei pra São Paulo em Janeiro de 96. Em 98 eu mudei de vez para a capital pra morar e viver de dança mesmo. Graças à Deus eu encontrei com pessoas que tinham a mesma busca de manter a atitude original, manter a essência, falar a verdade sobre as danças, as danças da Califórnia, de Nova Iorque, nós estávamos em dúvida em algumas coisas, começamos a pesquisar mais. Continuamos a montar o quebra-cabeça. Montamos a Companhia Discípulos do Ritmo, que foi montada por o Frank Ejara, que é um dançarino que veio de Andradina, divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul. E encontrou com mim, com o Andrezinho e montamos a Companhia Discípulos do Ritmo e fortalecendo a cultura da dança. Tanto no Hip Hop quanto no Funk Style. Fomos para a França, para a Bélgica, Paris, vários países. E até hoje a Companhia continua firme e propagando a dança de rua original, levando essa arte para o teatro. Isso também precisa ser reconhecido. Eu voltei para a BH tem um ano e aqui formamos a Co-4 com a mesma disposição, continuando o trabalho em outro estado, fazendo a coisa certa. E a cena em BH ficou muito tempo fraca na parte da dança. E estamos aqui pra resgatar, fazendo esse encontro aqui na rua, na Praça 7, ensaiando, incentivando outros grupos a não perderem essa identidade, aprender a dança, aprender a falar corretamente, a falar os nomes, a nomeclatura, e isso é que é o mais importante. Fazer esse trabalho original e ser uma comunidade forte e fortalecer os dançarinos e fazer o que é certo. Consubter -- Você falou que foi pra alguns países, que foi para a França, Bélgica ... Eu queria que você falasse um pouco da experiência que você teve com os criadores ... Eduardo Sô -- Eu tive oportunidade de viajar duas vezes pra Paris e viajei muito para o interior da França fazendo espetáculos com a Companhia Discípulos dos Ritmo e lá, em algumas festas nós conhecemos alguns criadores, que estavam em Paris, em eventos, dando aula e participando de eventos como jurados, fazendo shows ... Tivemos oportunidade de conhecer Popping Pete, que é irmão do Boogaloo Sam, que é o cara que inventou o Popping e criou também o Boogaloo Style. O Popping Pete tá no filme Break Dance que passaou aqui em Julho de 84, ele é um dos caras que tá no filme dançando. É um cara que nós tínhamos como referência. Ele dança até hoje e eu tive a oportunidade de conhecer ele. Depois eu fui pra Los Angeles fazer aula com eles, com o grupo Electric Boogaloo, que é o grupo de eles, que é só de popping e Boogaloo. Lá eu tive a oportunidade de conhecer o Boogaloo Sam, que é o cara que criou o Back Slide, que eles chamam de Moonwalker (que o Michael Jackson levou a fama), mas na verdade quem inventou esse passo foi Boogaloo Sam. E lá eu e o Frank fizemos aula com o Boogaloo Sam, com o grupo Electric Boogaloo. Fiz aula com o cara que criou a dança Locking, que é o Dom Campbell, que inventou o Locking em 1969. Fiz aula também com outros dançarinos que eram do Bronx, fiz aula de Up rocking com Tino do Incredible Breakers. Conheci muitos BBoys da cena da primeira geração, segunda geração do Bronx, tive oportunidade de conhecer pessoalmente, foi uma honra e foi foi muito importante pra mim de estar compartilhando e conhecer pessoas. Eles me elogiaram, elogiaram o Frank, em saberem que no Brasil têm pessoas que se preocupam com a dança e com a cultura original. Consubter -- Eu gostaria que vocês também falassem um pouco sobre suas atuações culturais ... Fabrício -- Eu, como cultura, estou prolongando a vida do BBoy, estou mantendo o BBoy na ativa e eu busco nas raízes isto, pra que seja realmente uma cultura. Pra cultivar o que realmente é. Eu não estou enfiando outros elementos pra que assim surja uma nova cultura. Eu não quero isso, eu quero simplesmente fazer o original, o BBoying, que nasceu no Bronx. Eu acho que esse é o meu papel na cultura. Cultivar o BBoying e passar para a frente da forma que eles criaram lá, pra que isso não se acabe. Que é igual aquela brincadeira telefone-sem-fio, você vai brincando, vai passando pra um, vai passando pra outro, que vai mudando, que vai mudando ... chegou no fim, a dança original acaba. Porque criaram tanta coisa que esqueceram da dança original. Esse é que é o meu papel. Rey -- A gente passa as informações corretas sobre a história da dança BBoy e das outras danças também. Porque tem muita gente equivocada em Belo Horizonte que acha que está dançando, mas na realidade (o que nós discutimos muito dentro da Co-4), é a questão de «orgulho», as pessoas não conseguem assumir e ver a verdade. Porque a dança existe e os criadores ainda estão vivos e ainda dançam. Então, nós temos que respeitar os caras que criaram a dança. Todos os passos têm nome, não foi nada criado por acaso. E a minha atuação dentro da Co-4, além de ser escritor de Graffiti, BBoy, dou oficinas também, (tanto de Graffiti quanto de BBoy), palestras, show's ... Consubter -- Vocês tem outros projetos além da Co-4? Fabrício -- Não, nós tentamos colocar esse ano um projeto na Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Mas como sempre, somente pessoas que já têm «porte cultural», pessoas que já têm um projeto aprovado na Lei Federal, pessoas que têm apoio de empresas privadas, pessoas que literalmente não precisam da Lei Estadual, conseguiram aprovação e o nosso projeto que era um projeto idôneo, pode não estar escrito da maneira que eles querem, porque hoje eles querem que você entregue um projeto bonitinho, que você vá lá e paga um profissional pra escrever pra você ... Eu não tenho dinheiro pra pagar um profissional. Nós fizemos o projeto e deixamos claro o que queríamos fazer. Nós queríamos dar oficina pra ensinar nossa arte. E não conseguimos uma aprovação na Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Provando que esse negócio é uma balela, uma picaretagem do caralho. Bruno -- Minha atuação cultural atualmente se baseia somente no BBoy. Eu estava fazendo a festa «H2 Style», que começou como festa de BBoy, depois se tranformou numa festa de Hip Hop e depois se tranformou numa festa de Rap como muitos falam aí. Atuação como produtor dessa festa não tenho mais, mas é uma idéia que eu posso olhar mais para a frente, produzindo também festas de BBoy (nós vamos fazer uma festa de BBoy logo mais). Mas a minha idéia cultural agora é a Co-4, fazer junto com eles, trabalhos comunitários, de rua, igual aconteceu aqui agora, shows também. Trabalhar o grupo Co-4. Trabalhar como BBoying e Rocking. Eu me baseio mais no BBoying e no Rocking. Popping e Locking é mais por os outros integrantes da Co-4. Minha atuação cultural está sendo essa. Eu adoro dançar na rua, isso é uma atuação que eu estou desenvolvendo atualmente e isso à muito tempo não acontecia e agora tá acontecendo aqui (que surgiu da Consubter), da idéia de fazer Freestyle aqui, e vimos que deu certo e nós também queríamos fazer uma parceria e essa idéia está crescendo. Consubter -- Pegando nesse ponto ... Nós fizemos um encontro desses aqui na Praça 7 juntando BBoy's e MC's ... A roda de MC de repente abriu e os BBoys começaram a dançar no meio da roda que os MC's estavam rimando e ficou tudo mais unido naquela hora. Você acha que esse tipo de coisa é possível? A união dos elementos do Hip Hop? Muitos falam que o Hip Hop não é unido ... Queria saber seu ponto de vista sobre isso. Se o Hip Hop é unido, tem união, ou, se não é, se tem possibilidade de tornar uma coisa mais forte? Bruno -- Com certeza, o que nós fizemos aquele dia, os caras fazendo freestyle e os bboys dançando ao mesmo tempo, aquilo lá é cultura Hip Hop original. É resgatando o que se foi esquecido. Porque tanto aqui em BH, São Paulo, como no Bronx tinha as Block Parties. Isso é possível. Aquele dia eu adorei, eu achei que foi o melhor dia que aconteceu uma roda na rua, do jeito que estava, a roda fechada, os MC's falando de BBoy, falando de coisas legais, essa é a minha idéia também. Nós BBoys não estamos fechados, queremos mais parceria. Os caras estavam aí hoje mostrando os graffitis de eles na pasta, os esboços ... Rey -- De primeira instância, BBoy's, Escritores de Graffiti, MC's e DJ's sempre vão andar juntos, aqueles que conhecem a verdadeira Cultura Hip Hop, a «cultura de rua». O próprio nome já fala «cultura de rua», ela nasceu na rua, os primeiros frutos foram ali. Então porque não começar a dançar na rua? O intuito não é permanecer na rua. O intuito é reunir as pessoas que têm amor a esta dança, mesmo que dance de uma forma errada, mas reunir as pessoas, porque como eu disse, é uma dança social e a dança social é o convívio um com o outro. A roda é um momento que você pode encontrar amigos, fazer amizades. Esse é o intuito. Quando formos fazer uma festa em qualquer outro lugar o pessoal fica sabendo, pra divulgar a dança, pra fortalecer Belo Horizonte. Porque BH não é conhecida nos outros estados. Muito pouco se ouve falar em BBoy e BGirl de BH em São Paulo, em Brasília e em outros lugares que existe a dança. O Rio não era tão forte como em BH, mas hoje tá bem mais à frente. Mas é mais a questão dos BBoys se mostrarem. à um tempo atrás nós tínhamos que ligar para as pessoas pra virem dançar, hoje não precisa, hoje podemos vir tranqüilo que todo mundo estará se encontrando e é o que está acontecendo hoje. E isso é pra fortalecer. Os MC's têm que aparecer pra mostrar presença, pra eles verem o BBoy, o BBoy assistir aos MC's fazendo freestyle, ou cantando Rap. E essa é a real e a verdadeira cultura de rua. Consubter -- Bruno, a Consubter Crew, como você citou, quando começou a desenvolver esse encontro, veio com várias idéias, até essa de resgatar o Hip Hop do jeito que acontecia no Bronx, de tentar fazer uma coisa assim aqui. Foram várias idéias diferentes à respeito disso. Um dos pontos principais é que esses encontros poderiam ser uma espécie de resposta para o pessoal que acha que o Hip Hop é aquela coisa que só fica dentro de boate. O que você acha sobre isso? Bruno -- Com certeza eu concordo. Eu fazia festas fechadas também que se tranformaram numa festa Rap, eu vi o negativo disso, porque é muita picuinha. Quando eu comecei a fazer festa de BBoy não tinha tanta picuinha. Mas misturou o Rap ... ( o Rap Blim-Blim, não o Rap underground ou o freestyle igual acontece aqui). E é isso, fazendo esse tipo de evento aqui. Hoje deu uma roda com umas cinquenta, sessenta pessoas observando. Se fizermos isso num dia de pico, vai dar mais de cento e cinquenta, duzentas pessoas aí. Aí chama atenção! E as pessoas que fazem festa fechada vão querer chamar a gente pra fazer esse tipo de coisa. Aí nós vamos incomodar eles, vamos estar incomodando o espaço de eles. Se começarmos a fazer evento aberto eles vão se sentir incomodados com isso. Eu concordo com esse tipo de coisa. Bater de frente com esse tipo de festa. Apesar também de que é festa Blim-Blim, é festa de moda, não é festa Hip Hop (se fala Hip Hop toda hora no microfone, mas não é. É Blim-Blim). Nós estamos com intensão de fazer eventos aqui, igual você tá com intensão de fazer eventos aqui, o Nadu tá com intensão de fazer um evento aberto. Acho que tem que fazer isso. Consubter -- Queria que vocês dissessem se a Co-4 tem projetos para 2006. Rey -- Nós temos um projeto a todo instante, né? Queremos trabalhar com dança, nós vivemos de dança, então tem sempre que estar treinando, sempre ensaiando, sempre desenvolvendo apresentações, montando shows, para divulgar a Co-4. Em o final do ano passado fomos para a Brasília, fizemos também apresentações aqui no Marista Hall, fomos pra São Paulo, para o Master Crew, fomos pra encontrar com o que agente chama de «BBoy original». As pessoas hoje têm raiva da gente falar «BBoy original», mas são os BBoys que realmente permanecem dançando, porque ... hoje em dia, o que acontece, os BBoys de hoje são muito «Freestyle», eles não estão sabendo o que estão fazendo, são tudo Freestyle. Está havendo uma confusão de nomes. O que é o projeto da Co-4? É divulgar a real e a verdadeira dança BBoy e a dança BGirl. Bruno -- Como o Fabrício falou, nós estávamos com um projeto para a Lei de Incentivo, não rolou para a gente dar oficina, mas estamos abertos para qualquer outro projeto que nos procure pra trabalhar com oficinas sociais, culturais, em escola, estamos tentando por o Programa Fica Vivo, estamos procurando várias coisas para a gente trabalhar. Nosso projeto para a Co-4, talvez, nesse ano, é participar da Master Crew e Batalha do Ano, em São Paulo, e Sudaka, no Chile. Onde tivermos um cantinho, nós tentaremos mostrar nosso trabalho. contacte a Co-4: Número de frases: 225 reyone206 @ hotmail Entrevistamos Giselle Pereira, Kuja do Final Fantasy 9. Nossa cosplayer que ficou com o segundo lugar na etapa brasileira do WCS (World Cosplay Summit)!! Nome: Giselle Pereira Nome do personagem: Kuja Idade: 17 anos Cidade / Estado: Rio de Janeiro Meu Orkut: Clique aqui GEARU Center: Porque você escolheu fazer esse personagem? Giselle: Eu sou muito fã da Final Fantasy e sempre tive uma certa «queda» por vilões. Como o (a) Kuja era mais parecido (a) com uma mulher (apesar de não ter sexo certo), eu decidi fazê-lo para apresentar com uma colega que havia feito a Garnet (a «mocinha» do jogo), mas conforme fui terminando de jogar o Final Fantasy 9, meu gosto por ele foi aumentando e agora é meu vilão favorito do Final Fantasy. GC: O seu cosplay deu muito trabalho pra fazer? Quanto tempo levou pra ficar ponto? Giselle: Levando em conta que fiz ele duas vezes, soma-se um mês (da primeira vez) e quatro dias (da segunda). A primeira vez foi quando aprendi a costurar, por isso demorei tanto. Foi o primeiro cosplay feito 100 % por mim (com exceção da peruca e da bota), e da segunda vez, como eu já sabia como fazer, foi mais rápido e fácil. GC: A sua dupla ficou em segundo lugar na etapa brasileira do WCS (World Cosplay Summit). Parabéns por o feito ^. Como foi participar desse evento? Giselle: Olha, foi uma experiência bastante estressante porque tivemos somente duas semanas para fazer tudo, desde a minha roupa (100 % nova) até o áudio e ensaio ... mas chegando no evento, foi tudo bastante recompensante e tudo acabou correndo perfeitamente bem durante a apresentação. GC: O que sua família acha disso tudo?? Eles te apóiam? Giselle: Nem todos, claro. Minha mãe e minhas irmãs apóiam, mas meu pai, apesar de bancar financeiramente, não curte muito a idéia. Apenas quando eu ganho primeiro lugar, claro ... xD GC: O que tem de melhor e de pior num evento? Giselle: Eu sou bem suspeita de falar, né? Hehehe ... pra mim, a melhor coisa é o cosplay, desde o meu primeiro evento que fui. Até porque eu não sou muito chegada à j-music, animes e mangás. Até gosto, mas são muito poucos. O pior do evento, pra mim, é o preço das coisas e da entrada ... ' GC: Qual o próximo evento que pretende participar e qual será seu cosplay (se não for surpresa)? Giselle: Esse fim de semana será realizado o Anime Sekai, na UCAM da Tijuca. Estarei lá ao domingo, fazendo cosplay do personagem Jhon Hoon, do jogo de luta The King of Fighters, só que é uma espécie de versão feminina, até porque o personagem é bastaaaante forte, o que eu não sou nenhum pouquinho. xD GC: Como você definiria o cosplay na sua vida? Giselle: O cosplay é um hobbie bastante interativo, divertido e que serve para desenvolver certos aspectos como interpretação, dublagem, caracterização, maquiagem, etc ... GC: Agora sua mensagem para seus amigos e fãs Giselle: Bem ... gostaria de agradecer a todos que me ajudaram, apoiaram, torceram por mim até hoje, porque sem amigos e apoio não somos ninguém. ^ Número de frases: 53 Para ver as fotos da Giselle e outros cosplayers, visite o GEARU Center (http://gearucenter.blogspot.com) Maicon é filho de Neguinha, que tem uma irmã, De o Carmo, que é mãe de Ivo, que tem uma tia Fernada que é mãe de Leandra, que tem uma tia Lucicleide que acha que está grávida. A grande família Tapeba não pára de crescer. Aqui é assim. Crescer e multiplicar. Maria do Carmo acabou se mudando mesmo. Agora foi pra perto das irmãs, como já havia nos contado do seu desejo. Quem sabe agora ela não se sentiria mais livre. Deixou a casinha da mãe e foi morar só com Ivo, filho único, por enquanto. A vó Neide não gostou muito não, parece que o enlace afetivo com o «pretinho» estava agora sob a ameaça da saudade. -- Tou tão triste porque De o Carmo foi embora e principalmente porque levou o Ivinho. Mas é isso mesmo ... Ela não ia ficar morando a vida toda com mim mesmo. Vocês precisam ver como Ivinho ' decaiu ' foi muito ... -- Decaiu? -- Sim, emagreceu. Quando ele morava aqui com mim era bem gordinho ... Mulher eu tava tão acostumada com o'meu pretinho ', tou sentindo falta. Agora vive lá do outro lado da Comunidade da Ponte. Atravessa a pista e logo aparecem as casinhas enfileiradas, uma a uma. à direita, avista-se de longe o Centro Cultural. Grande oca imponente, cheia de artefatos Tapeba que, muitas vezes, nem compõem toda matéria prima da região. Algumas sementes possuem o celo carimbado da cidade grande. Logo ao lado, o grande círculo de areia reservado especialmente para o Toré. Espaço esse bem diferente daquele narrado por De o Carmo onde eles dançavam infurnados pra dentro do mangue quando moravam longe da pista, na beira do rio, lá pra dentro do mato. O sol escaldante da Caucaia parece não derreter a cuca das crianças de pele escura que brincam no meio da rua de areia sem notá-lo. De o outro lado da pista a miséria sobre saía nos olhares das crianças. Agora elas não vendiam colares nem acompanhavam as cantorias indígenas. Apenas corriam e bricavam sob o sol. O forró embala os rádios nas casas de reboco com o cimento esturricado e mal batido. A vila do outro lado da pista tem um cenário familiar. O Toré e as roupas artesanais indígenas parecem compor somente o Centro Cultural. A cachaça e a sinuca ficaram no bar da ' comunidade da Ponte ', cheio de gente. O aluá fica a mostra pra vender no Centro Cultural. De o Carmo não pensou duas vezes em sair de casa quando conseguiu aquele dinheirinho extra. Aquele que a Funai oferece como auxílio financeiro para cada índio que nasce cuja mãe tenha idade superior a 16 anos. De o Carmo se encaixava bem direitinho no perfil. «Eu tenho 17, fui lá com vovó na Bezerra de Menezes, onde fica a Funai, receber meu dinheiro do Ivo». Comprou a casinha e agora parecia satisfeita. Estava perto das duas irmãs, Fernanda e Lucicleide, e até de Elton, o outro irmão casado. «Essa casa já foi do meu irmão Elton, aquele que tem diabetes. Vendeu bem baratinha para o homem que me vendeu, só pra comprar drogas. Paguei R$ 900,00. O homem comprou por R$ 400,00 ou R$ 500,00 do meu irmão. Mas hoje ele mora aqui atrás com a mulher de ele e os filhos." Mais crianças amontoadas. Mais primos para Ivo brincar. Também tem a filha que sobreviveu de Fernanda, Leandra. Além de Lucicleide, que acha que está grávida. «Essa é minha irmã Fernanda. Só tem a Leandra, viva. Já teve 3 filhos que morreram com poucos meses ainda. Uma de 2 meses, outra de 3 e outra de 4. E era tudo mulher. Mas só Leandra sobreviveu." Engravidar faz parte da rotina das adolescentes indígenas. «Lucicleide acha que está grávida. Abortou o último sem querer, mas já pegou outro." «E porque você acha que está grávida, Lucicleide?" " Esse mês não veio ainda e também aah ... eu sinto mexer já». «Mas como, já? É cedo mulher, se tu tiver mesmo, ainda não dá pra sentir não «" Só o coraçãozinho dando circuito de vida, eu sinto sim». A é forte. O desempenho da atividade exigida no mangue ofusca o lado afetivo nas palavras de De o Carmo e o assunto é sempre colocado para escanteio ao longo das conversas. Uma vez, quando pescávamos, De o Carmo riu sem graça quando comentei que o mangue devia ser um ótimo lugar para ' namorar '. Ela mesmo ficou muda e nada mais falou. Imediatamente mudei de assunto, para não constrangê-la. É difícil abertura, falta espaço, mas com naturalidade ... -- De o Carmo, você não tem medo de dormir aqui sozinha com Ivo não? -- Faz medo não. Agora o pai de Ivo tá dormindo aqui com mim uma noite sim, outra não. Hoje ele vem dormir aqui. -- Ah. agora tá dando pra namorar melhor neh ... (risos envergonhados) -- Tá dando pra viver, De o Carmo? Pra pagar as contas? -- Tá. Agora ele tá me ajudando mais também. Além dos R$ 50,00, ele paga a conta do mercantil, traz umas coisas também. Essa mesa de jantar aí que vocês tão vendo, foi ele quem me deu. A luz a gente faz uma gambiarra puxando da casa da minha irmã aqui do lado. -- Como é mesmo o nome de ele De o Carmo? -- Valdenir ... Valdenísio ... Não sei nem o nome do pai de ele direito. ( risos) -- Como foi mesmo que vocês se conheceram? -- Ele é amigo do meu tio e eu ia para a casa de ele e ele também ia. Nos conhecemos lá. Ele é vigia do Posto de Saúde, aí começamos a nos encontrar lá. Aí pronto, ele começou a me ligar. Quando eu ' peguei ' o Ivo a mulher de ele deixou ele. -- Ele já tinha filhos com ela? -- Tinha, quatro. Tem um que já tem quinze anos e outro que tem um filho também. -- E tu gosta de ele, De o Carmo? -- Eu gosto só de ele. A gente vai morar junto. Aí eu já tou pensando em vender essa casinha pra comprar uma perto da casa da mãe de ele, porque é mais perto do trabalho de ele. Sabia que ele não gosta que eu ande com Fernanda não?!?! Ele diz que é porque ela tem marido e gosta de mais dois. E é mesmo, minha irmã é assim. -- Você se previne pra não ficar grávida de novo, De o Carmo? -- Tomo pílula, mas eu quero ter uma menina. Agora não. Deixa Ivinho crescer mais. Quando ele tiver uns dois anos aí pronto. Eu pego outro. A casa encheu de crianças novamente e impediu a continuidade do diálogo. E lá vem uma das sobrinhas de De o Carmo com um balde, um monte de planta, uma quenga de coco seca e uma faca cega para explicar como foi que Ivinho pegou uma conjuntivite. «Acho que ele pegou essa doença do pó da bucha, do ôi de paia. Quando você tira isso aqui pra fazer a bucha, ou os pêlos do pincel, ele solta um pozinho. Ele deixa o chão super escorregadio, deve ter sido isso que deixou ele doente dos ói." Puxa uma ponta da planta, apóia na quenga de coco seca e força a faca cega sobre ela. Logo os fios da planta surgem e, em movimentos repetidos, De o Carmo mostra sua prática a hábil atividade. Seguiu no trabalho por poucos minutos, só tempo de nos mostrar o'pozinho ' que saia. A o final ... -- De o Carmo você sabe que a gente tá fazendo um trabalho com essas nossas visitas aqui né? Estamos escrevendo sobre esse contato. Próxima vez que a gente vier, vamos te dar umas fotografias e os textos também. -- Tá certo, quero ver as fotos, mas eu não sei ler muito bem não. -- Qualquer coisa a gente ler pra você. -- Te a bom, tchau. -- Até mais, De o Carmo. A gente liga antes de vir de novo. Número de frases: 124 Ousar novos gestos. A idéia de criar, vivenciar novas formas de organização social perambula a todo instante por minha cabeça, tanto no plano da literatura, quanto da minha própria vida. Venho gestando uma história pra experenciar isso literariamente, acrescido de um quê autobiográfico e de delírio, sonho. Penso nisso como um romance, minha primeira grande aventura na prosa, com as referências que «me fazem» e que me interessam, um texto para me refazer. Tenho lido alguma coisa sobre os situacionistas, psicogeografia, yomango, etc.. Vez ou outra me projeto em futuríveis (futuros possíveis) nessa perspectiva, em que minha vida caminhe por essas sendas, as torne carne e história. De as caminhadas, das deambulações por textos, idéias, pessoas, etc, acabei por me deparar com bolo ' bolo (motivo deste post). bolo ' bolo é um texto de autor anônimo que foi publicado na Suíça em 1983. A idéia é justamente ousar novos gestos, ir além das lamentações e criar. A partir de palavras e sons do dialeto samoano, o autor criou um utopia (não no sentido de em nenhum lugar ou algo impossível) para a cosntrução de vivências humanas providas de sentido. Bolo ' bolo é realidade. Não é uma seita, confraria ou coisa hermética. Pelo contrário, é a hospitalidade, a liberdade, o convívio, a bem-aventuran ça. Eu fico pensando em como nós esperneamos reclamando do mundo, do sistema, do capitalismo e quetais e nada fazemos de real, de vida (e nisso eu me incluo). Nossa teoria está alienada de uma práxis, de um cotidiano. bolo ' bolo é uma linguagem nova, estranha, para dizer as «velhas» coisas que o espírito humano almeja. Viver sonhos bons, estar junto à natureza, viver a fraternidade, a criatividade, etc. Ainda não digeri (nem li) completamente o texto de bolo ' bolo. Mas já sei e sinto que ele quer me dizer algo, serve como uma marco para o nascimento da Coisa Nova (como diria Mautner). Esse post é só pra compartilhar esse mundo à frente, para pensarmos em «ousar novos gestos». Vivenciar nossos horizontes, utopias e afins; é para pensamos e nos situarmos no planeta, na existência e na convivência com os outros. bolo ' bolo é pra compartilhar. Sem pretensão. com afeto. Link para o livro de bolo ' bolo: Número de frases: 26 www.correcotia.com/bolobolo Antes de fazer qualquer relação entre o pós-moderno e os sistemas que constituem a sociedade, é de bom termo tentar discutir a essencialidade do pós-moderno face ao seu próprio conceito, que encerra uma pluralidade de sentidos. Indico alguns pensadores que investiram numa tentativa de compreender este fenômeno (Frederic JAMESON; Boaventura Santos; Umberto Eco; Jair F. Santos; Eduardo SUBIRATS; Jean-François LYOTARD; Linda HUTCHEON; Annateresa Fabris; João HANSEN; Ricardo GOLDENBERG; Samira CHALHUB, de entre outros), que partiram da (s) idéia (s) de cultura (s) como representação (ões) de um tempo que invoca uma preocupação de definir-se como propulsor da história. A Universidade como lugar de conhecimento e cruzamento de saberes exerce um papel de fundamental importância na discussão da modernidade e de seus desdobramentos. O pós-moderno institui um novo modo de vivenciar a realidade, tanto em sua relação com a arte quanto com a política ou com a ciência e a história. O privilégio do indivíduo universal sobre o coletivo é um ponto de ruptura que começou a prevalecer nas sociedades tradicionais como forma de instituir políticas que se voltem para o global, para a quebra das fronteiras geográficas e ideológicas, para a propagação de uma economia de mercado que satisfaça a blocos de países (Euro, Nafta, Mercosul), em detrimento de blocos ideológicos fechados numa economia intestinal. As novas conquistas tecnológicas propiciaram a anulação do homem integral para o nascimento do homem fragmentado, preso ao seu cotidiano, repositório de um mercado que dita as regras do consumo, de caráter multinacional. A massificação da arte e do conhecimento passam a ter a mesma lógica do consumo de bens. Surge, com isso, uma superação das contradições do homem para universalizá-lo na aldeia global. Em esse tempo pós-moderno, propala-se o fim da história, a morte da dialética, a expansão da arte como expressão do consumo, tal como refletia Walter Benjamin quando decretava o fim da aura em função da massificação da obra de arte. Fruto do capitalismo global, a arte de massa reflete a fragmentação da ideologia crítica da criação estética por meio da estética da reprodução em massa visando ao consumo. Quem primeiro reflete este papel é a arquitetura, que se apresenta com uma tendência chamada de «populismo estético». Como fenômeno devastador dos sistemas tradicionais de cultura, o pós-moderno atua na construção de uma cultura idealizada para um mundo tecnologicamente preparado para o mercado. O sub-gênero é valorizado como forma de popularizar a expressão artística. A literatura representante da cultura tradicional entra em confronto e decai frente ao suprimento destes novos paradigmas culturais, valorizados enquanto mercadorias voltadas para a absorção rápida. Surge com um vigor expressivo a cultura de massa com a sua fábrica de kitsch e de brega, respaldada por a era da informação urgente, do imediatismo e do pragmatismo da vida contemporânea. Não há tempo disponível para o deleite do objeto artístico, mas a urgência do consumo da arte-mercadoria A indústria cultural é uma das faces mais fortes deste pós-moderno industrial (pós-industrialismo) decorrente da «2ª Revolução Industrial». Prefere-se o seriado à saga; o kitsch ao original; o brega social ao cultural artístico, enfim, o simulacro. O homem pós-moderno quer levar a sua pizza congelada do freezer ao microondas e destampar a sua latinha de cerveja multinacional para sentir o prazer de ser igual a qualquer homem civilizado em qualquer parte do planeta. O seu prazer é tecnológico, poupa-lho tempo. O tempo passa a representar o signo da economia. Não haverá mais espaço-tempo para a cozinha tradicional na mesa do homem global. O mercado dita as regras de toda produção artística e da moda. Quem dá as regras é este monstrengo devorador de economias chamado capital especulativo internacional. A produção estética integrou-se à produção de mercadorias. Desta forma, a arte passa a integrar um sistema cultural onde o mercado produz um tipo de que são um só: o que vai definir a cor da lua no Século XXI. Número de frases: 34 Depois da internet, o livro «Aprenda a Organizar um Show», do produtor cultural Alê Barreto, também está disponível numa versão impressa, atualizada e estendida. A obra teve seu início no blog do autor, em 2006, e foi publicada em fascículos aqui no portal Overmundo, entre outubro de 2007 e janeiro de 2008. Até junho deste ano, os 28 capítulos disponíveis no portal registram, no total, mais de 30 mil downloads. Em este livro, Alê Barreto cria uma excelente fonte de consulta para músicos e produtores iniciantes, bem como mostra linhas guias de trabalho para os profissionais do mercado e gestores culturais. Outro objetivo do trabalho é contribuir para o desenvolvimento da cadeia produtiva da economia da cultura. A publicação trata de temas como: perfil do produtor executivo, definição da data e do local, cronograma de atividades, divulgação, recolhimento de direitos autorais, credenciamento, bilheteria, passagem de som, desmontagem, avaliação e registro do projeto, entre outros. «Aprenda a Organizar um Show» é o primeiro lançamento da Imagina Conteúdo Criativo, uma iniciativa editorial dos jornalistas Yara Baungarten e Rodrigo dMart. O projeto gráfico tem a autoria de Everson Nazari. As ilustrações são de Yara Baungarten. O prefácio é assinado por Leonardo Costa, pesquisador em organização da cultura (UFBA). O pré-lançamento aconteceu dentro da programação do IV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (ENECULT), no Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, dia 29/05, no Seminário Exportação da Música, realizado no Auditório Dante Barone, da Assembléia Legislativa do RS, dia 11/06, e no Festival GIG Rock, no Porão do Beco, em início de julho, em Porto Alegre (RS). Número de frases: 12 Número de frases: 0 Mais informações sobre o livro no blogs da editora e de Alê Barreto. É inesgotável a pluralidade dos deserdados e dos demais mortais que parecem agüentar a sua degradação com maior humildade», escreveu o poeta polaco Czeslaw Milosz. Vida como mal-estar, arte como desespero, suicídio como psicotrópico ... nada mal para um sábado à noite, sopro de ar mofado em sombra nessa terra equatorial de sóis a pino, sempre a pino. Os shows da banda Alma Nômade são realmente um gosto adquirido. Amargos, doloridos, e de um movimento mais interior, utilizam intervenções poéticas, performances teatrais e recursos visuais que provocam um estado tal de introspecção na platéia que não combinam muito com a contumaz euforia que motiva as noitadas de suor e encoxamentos da capital amazonense. Com plena consciência dessa sua paixão anticomercial, entretanto, a Alma Nômade preparou oito shows diferentes para montar durante este ano, buscando os teatros mantidos por a Secretaria de Cultura do Amazonas (Sec) como uma alternativa para mostrar seu trabalho, dadas as suas dificuldades para conseguir espaço nas casas noturnas da cidade. O fato é que para a Sec, o ano possui pouco mais de seis meses. Até maio, o órgão destina todo o seu pessoal e verbas exclusivamente para a realização do Festival Amazonas de Ópera (FAO), mantendo fechados praticamente todos os espaços culturais. A partir do referido mês, as pautas solicitadas vão sendo aferidas, com a programação montada mês a mês. Até o fechamento dessa reportagem, entretanto, nenhuma data marcada para a Alma. De acordo com o vocalista Jorge Bandeira, cada espetáculo possui algumas particularidades, a começar por as diferentes combinações das 34 canções do repertório (que inclui músicas próprias e versões de Joy Division, Arnaldo Antunes e Jards Macalé, por exemplo). Em a parte cênica, há shows com performances teatrais, como «Fenômenos Teatrais Elétricos», que já foi apresentado no ano passado mas ganhou novidades para 2006; outros com projeção de slides, como é o caso de «Variações Góticas» e de " Funeral do Velho Índio "; e ainda os que primam por intervenções poéticas entre as canções, como «Eternidade Passageira», em que Jorge declama trechos de letras de Arnaldo Baptista (ex-Mutantes). Além dos citados, a Alma Nômade também está com outros quatro espetáculos na agulha: «Dance Com mim até o Final do Amor «(título apropriado da canção» Dance Me to the End of Love, de Leonard Cohen "); Porteiro da Insanidade «(outra adaptação, desta vez de» Janitor of Lunacy», da Nico); «Cativantes Inquietações «e» Jogos de Sombras "; todos com pautas já solicitadas na Sec, que mantém diversos teatros de pequeno porte e centros culturais espalhados principalmente por o Centro da cidade, como o Teatro da Instalação, Gebes Medeiros, Casa da Música Ivete Ibiapina e Usina Chaminé. Público Quanto ao público da banda, Jorge afirma que a formação de platéia para esse tipo de música é um processo que exige paciência e muito esforço para manter a identidade musical do grupo, cuja essência está na sonoridade gótica dos anos 80, com belas e sofridas melodias, e letras que lidam com temas como solidão e depressão, «uma dança mais interior», nas palavras do vocalista. Quem pára e ouve o som dos caras se depara com versos da estirpe de " O socorro é longe, se vier é vago / preciso de um médico, um prédio ou um ácido!" ( «Sangues Incompatíveis ");» Usando palavras como faca / quantas máscaras mutilei?" ( «A Cura "); ou ainda «Horizontes em algures velados / o destino num copo de destilado» (" Prisioneiro do Meu Eu "), todas escritas por o guitarrista Lúcio Ruiz. Por outro lado, a Alma Nômade vem conseguindo bons resultados com a demo lançada no ano passado. «Fragmentos ao Vivo» vem com oito músicas, retiradas de uma apresentação no Café e Bar N Vezes. De acordo com o baixista Jamilson Vilela, o show foi gravado apenas como um registro interno da banda, mas como a qualidade ficou boa, o grupo acabou optando por lançá-lo como uma demo. Quem estiver interessado em adquirir «Fragmentos ao Vivo» pode encontrá-lo na loja Rock. Com, na avenida Getúlio Vargas, 334 (loja 5), ou na papelaria Ponto & Vírgula, na avenida Joaquim Nabuco, 1126, ambas no Centro. Agora a banda já está se preparando para gravar o primeiro disco completo. Os ensaios começaram, e o grupo vai registrar as canções no estúdio de Edgar Lippo, violonista ex-integrante da banda Raízes Caboclas. Imagens e palavras Entre as novidades dos espetáculos deste ano estão os novos painéis, confeccionados por Jorge e por sua esposa, a artista plástica Viviane Bandeira, com inspiração expressionista em alguns casos, e utilização de xilogravuras em outros. Além desse trabalho, a banda possui um arquivo com 100 slides para utilizar nos shows. Grande parte de eles aborda a evolução das artes plásticas no mundo, com ênfase na Pop Art, além de pôsteres de rock. Para o show «Funeral do Velho Índio» também há uma seqüência de 20 fotos de descendentes de índios Mura, que são exibidos entre as seqüências em latim, em nheengatu (língua geral dos índios da Amazônia) e em português da canção «Muras», que trata exatamente do choque entre culturas. Jorge explica que esse lado cênico é pensado a partir das «pirações das letras» de Lúcio, principal compositor da Alma Nômade, que normalmente abordam solidões e inquietações do espírito -- e da carne. Tendo esse material como ponto de partida, o grupo inicia um trabalho de pesquisa, não apenas de imagens, mas da literatura também, o que pode ser percebido por meio de citações e declamações de Sylvia Plath, Paulo Leminski e William Blake, por exemplo, que intercalam músicas em alguns espetáculos. É gosto adquirido. Número de frases: 40 Falei sábado com Joca Vergo. Disse-lhe que havia recebido as fotos e linques do trabalho de ele e que havia feito um registro no Overmundo. Ele ficou feliz. Eu fiquei mais feliz ainda que pudesse estar registrando aqui a presença desse nosso artista. E me comoveu que tenha espontâneamente se inscrito no Overmundo para comentar a matéria publicada. O coreógrafo Joca Vergo voltará em outubro de 2008 para uma segunda turnê européia como ator e bailarino convidado da Voalá -- Cia de Teatro Aéreo da Argentina para participar do XXIII Festival Ibero-americano de Teatro de Cadiz -- Espanha. A dedicação e experiência desse nosso artista o eleva a condição de colaborador coreógrafo, preparador corporal e criador de luz da obra Voalá. Em a segunda temporada européia, a nova turnê passará, além da Espanha e Ilhas Canárias, por a Servia Macedônia e Portugal. Em a primeira turnê européia, Voalá registrou expressiva presença em festival em Portugal: O VII Festival Imaginarius de Teatro de Raua de Sanata Maria da Feira E, ainda, no XXI Festival internacional de Teatre al Carrer XVII Festival Internacional de Teatro de Calle de Alcorcon -- Madrid, além da XII Jornadas de Danza de Ribarroja e da Semana Cultural Fulenbrada -- Madrid Em as ilhas Canárias, Tenerifi, Voalá participou da Fiesta San Juan Bravo Joca. Bravíssimo! Número de frases: 15 Queridos amigos: Uma amiga me contou que, quando moça, morava na casa dos pais de ela uma velha serviçal de idade bastante indefinida (entre os setenta e os noventa anos). Dona Sebastiana, analfabeta, tinha como principal diversão o jogo do bicho. E mobilizava os irmãos da minha amiga para fazerem o jogo para ela. Uma vez, na ausência dos outros, pediu que ela fizesse. Como alegasse que não sabia, a Dona Sebastiana saiu-se com essa: -- Merdinha de menina! Estuida, estuida e não serve nem pra fazer o jogo do Bicho! Conto isso a propósito de uma outra amiga, a socióloga Shara Jane Costa Adad, Doutora em Educação mas que, não obstante tanta sabença, alega não saber postar no overmundo e, por isso, pediu-me para fazê-lo em seu lugar. Como gosto muito de ela e, principalmente, considerando a relevância do texto em questão -- julguem vocês mesmos -- resolvi atender o seu pedido. Diario de uma pesquisadora Shara Jane Costa Adad Em a minha pesquisa de doutorado, com o objetivo de vivenciar o cotidiano de jovens de rua em Teresina, resolvi também nomadizar, seguir suas trilhas. E fui sozinha em busca de uma interação maior, de uma intimidade. Adquiro um olhar mais próximo, percebo vontade de potência e de vida entre os jovens de rua e no bueiro onde vivem. O mapa de sensações amplia-se, jovens e pesquisadora confundem-se momentaneamente e, de forma simultânea, exacerbam-se a crueza do trágico e de sua luminosidade, ao se acentuar a intensidade de um tempo presente que se esgota em si mesmo e que acaba encontrando a superação da individualidade e enfatizando a interação entre os diversos domínios da vida social. É o curto-circuito que ressalta a polissemia do real e a riqueza da vida social. A intensidade desse curto-circuito toma parte do meu diário, me sinto como um boto que imerge nas águas profundas onde vivem os jovens e, num salto, saio para respirar, numa mistura de amor e mistério, manifesta-se vida e paixão. Abro meu diário e o deixo falar: Dia 04 de julho de 1999, domingo -- dia intenso em que enfrentei meus medos e produzi conhecimento no meio da rua. Resolvi ir ter com os meninos. Ir sem o educador. Chego com medo e ansiedade de não ser bem recebida, mas encaro de frente minhas inseguranças. Chego às 16:30h. Encontro todos na marquise da loja, próxima ao bueiro onde se escondem. Uns deitados por o chão, alguns dormindo. Outros cheirando solvente. Nada mais faziam. E, nessa aparente vacuidade, numa vida banal, eles condensam sentidos. Aproximo-me. Percebem minha presença, que já era conhecida. Gritam: -- Shara! Shara! Você trouxe nossas fotografias? Uma constante era essa pergunta. Repetidamente eles a faziam. Olhamos as fotos e conversamos sobre elas. Um de eles me pediu dinheiro para comprar comida, pois estavam com fome. Dizem: -- nós mesmo cozinhamo (sic) nossa comida, Shara. Ele vai comprar e eu fico imaginando onde cozinhariam. Quando volta, eu peço para conhecer o lugar onde se escondem e fazem sua ' casa '. Percebo um olhar de recuo num dos jovens, mas os outros se levantam e saem na frente me conduzindo. Até então não me havia aproximado do espaço que, temporariamente, ocupam. Todos os nossos encontros haviam sido debaixo da marquise da loja ou na calçada do posto de gasolina. «Não deu tempo nem pra pensar», estava lá, no meio do matagal, onde havia um bueiro -- um esgoto a céu aberto, com lama e dejetos o tempo todo escorrendo. Em o caminho muitos frascos no chão, jogados ao léu ... É a presença dos jovens com seus frascos de solvente. Em o início, há alguns galhos como se tivessem sido estrategicamente deixados para evitar passagem de estranhos. Entramos e depois de transpostos os galhos, encontramos uma trilha que nos levou até a uma grande árvore. Já eram mais ou menos 17h e o lugar estava meio escuro. Rápido escurece. O lugar é espaçoso. Existem três cadeiras (duas completas e a outra sem uma perna). Resto de papelão no chão para se sentarem ou dormirem e um colchão velho para a mesma finalidade. O resíduo de uma fogueira bem no centro marca a presença de fogo e o lugar de fazer comida ... uma panela e uma frigideira. Duas colheres. Pedaços de pano usados. Galhos quebrados ... e um fedor enorme de dejetos ... acho que do bueiro e dos próprios meninos. Mas, isso parecia passar despercebido para eles ... os meninos cheiram seus solventes. Ficam eufóricos, riem alto, cheios de prazer. Excessivamente tudo querem mostrar. Correm de um lado para o outro. É novidade estranhos ali. Não sabem muito bem o que fazer. De repente, um dos jovens sai de dentro dos matos com um pedaço de cana-de-açúcar. Descasca, começa a tirar pedaços e a distribuir. Entrega-me um. Sinto nojo, tudo sujo ... Como conseguir comer? Eu como, mas fico com receio de que percebessem meus sentimentos de reação àquele lugar e à sua gente. Em a ânsia de agradar, eles reclamam do comportamento uns dos outros: gritam, esmurram-se, xingam-se, enfim, chamam atenção. A minha presença e a máquina fotográfica são motivos suficientes para torná-los mais efusivos. Buscam o melhor lugar para se posicionar. Gritam: -- Tira aqui, Shara. Em cima de árvores, bem no alto, fazem pose e berram: -- Olha eu aqui. Eu tô aqui. Tira minha foto. Outros pegam meus acessórios: bolsa, óculos escuros e pedem para ser fotografados com eles. Não querem sair de qualquer jeito: descalços ou cheirando solvente. Atentos, sempre preocupados com a melhor imagem, dizem: -- Assim não, tia. Descalço, não. Essa eu vou levar pra minha mãe. Depois de algum tempo por ali, eu lembro que é bom colocar o feijão no fogo. Percebo que, de uma maneira ou de outra, uma pequena ordenação se instaura: um dos meninos vai buscar água, outros acendem a fogueira. Falta fósforo e sal, um outro vai comprar. Quando volta, o jovem que saiu para pegar água, traz também arroz e ovos. Diz-me que guardam as coisas no meio das moitas, escondidas. Em minha perplexidade, nem percebo que também estava sendo observada. Um de eles olha para mim e diz: -- Tia, tu tinha coragem de morar aqui? Tu pensava que alguém vivia assim? A sabedoria, o mistério e a beleza daquele jovem fazem-me calar. Diante de tanta crueza fiquei sem resposta. Tiro fotos até escurecer: da fogueira acesa, da comida fervendo, cozinhando, dos jovens em volta de ela, conversando, cheirando ... O cotidiano se apresenta ali, bem diante de mim. O inusitado se mostra num dos seus momentos de epifania. Em pé, sentados no chão, ou mesmo, andando de um lado para outro, ao redor da fogueira, eles cheiram e parecem relaxados ... De repente, como quem desperta de uma viagem, olham para mim estranhamente, como a lembrar que eu não era uma de «dentro». Perguntam: -- Não está na hora de ir embora, Shara?, Já é tarde, é melhor tu ir se embora. Esses meninos fazem muita bagunça e saliência, não repara, não. A seu modo, me dizem que chegou a hora da despedida. O que iam fazer depois? Provavelmente o que fariam depois, eu, uma «tia» mais velha e que cheirava «a ordem», não saberia e muito menos podia presenciar. Vou embora, olho para trás e vejo um grupo meio embaraçado por a luz da fogueira, vultos ... meio «gente de verdade». Shara Jane Costa Adad, socióloga, defendeu sua tese de doutorado, intitulada Jovens e Educadores de rua: Itinerarios Poiéticos que se cruzam por as ruas de Teresina, em 2004. Número de frases: 116 Atualmente é professora na Universidade Estadual do Piauí-UESPI e no Centro de Ensino Unificado de Teresina -- CEUT. O Clube das Gerais começou de um sonho de 2 mulheres que faziam patchwork e que queriam trocar conhecimento e repassar este oficio a outras pessoas. Hoje o Clube das Gerais é coordenado por Myrian Melo, uma das fundadoras, e por Sílvia Amâncio e Suely Saraiva, que se apaixonaram por este fazer também. Durante sete anos e meio temos desenvolvido trabalhos de criação e produção de peças em patchwork. Hoje o o clube esta formatado como um grupo de estudo e pesquisa destes fazeres do universo feminino. Buscando conhecer a história do patchwork em Minas Gerais, buscando dar o devido valor ao trabalho com retalhos. Em o clube são oferecidos cursos de patchwork, boneca de pano, tingimento de tecido e bordado. Ministramos oficinas em eventos e em instituições. O Objetivo é resgatar e valorizar a arte do patchwork que está tão ligado ao universo feminino. Embora existam homens que façam este trabalho, a mulher sempre esteve mais presente nos trabalhos tidos como manuais. Esses, inclusive, eram considerados algo frívolo e sem importÂncia. Só que as mulheres se expressaram através desses trabalhos. Aprenderam a falar nas entrelinhas, não usando a palavra escrita, mas o fio que bordeja e contorna o tecido. Em o Clube são realizados eventos de socialização dos participantes, exposições permanentes de trabalhos. Em 2006 fizemos a exposição «Ouro de Minas» em Gramado e no prórpio Clube das Gerais, mas ainda estamos procurando espaço para expor estes trabalhos. Estamos nos preparando para uma nova exposição em 2007, o tema é «Musicalidade mineira». Número de frases: 16 Rumos Culturais -- Faltam Bússolas Os navegantes do «Oceano Atlântico» tentam descobrir o segredo das tempestades, calmarias, ondas, marés e águas navegáveis, neste lado continental. Talvez não conheçam a geografia destes mares. A nação da análise é Brasil ou Brazil? Estando em qualquer «Porto Seguro», as naus dos descendentes lusitanos, franceses, ingleses e holandeses, caminham na escrita em 2008. São textos, poemas, letras e rascunhos. As criações literárias são livres! Não podem ser vinculadas aos interesses comerciais dos anunciantes nacionais ou internacionais. Muito menos: multinacionais. Sem quaisquer dúvidas: esse pedaço de chão (cagado e cuspido) pode precisar de uma revolução meio «dente por dente (x) nota por nota (x) letra por letra». Por aqui existem poetas, compositores, letristas, músicos, fotógrafos e outros aprendizes sérios. É a maioria! A outra parte -- pode ou não -- está usando o lema: «tenho que me arrumá, senão, perco meu barquinho!" Desculpem a sinceridade! O mar já não é de marinheiro de primeira viagem! Quem não lembra do refrão: " Marinheiro, marinheiro (Marinheiro só) ... Quem te ensinou a nadar ... Ou foi o tombo do navio ... Ou foi o balanço do mar ..." ( Bi Ribeiro/João Barone). Muitas obras culturais -- da antiga «Terra de Santa Cruz» -- são originais. Aquelas tão comuns, massificadas, com a assinatura da mediocridade -- ajudam ou não -- no nascimento natural de uma concepção artística duvidosa, não crítica, que não recebeu crítica, e que jamais receberá crítica. Quem navega em tal mar poderá se afogar na monotonia; sonolento; em mar calmo. A viagem literária -- às vezes -- é previsível ou imprevisível. Depende da condução do capitão e marujos da embarcação. Como escrever sem colocar palavras ovais e frases triangulares? Aqui é América do Sul. O Caribe fica lá em cima! Se existem léguas ou milhas marítimas é uma questão de história? Qual é a praia ou litoral? Eles são de fora ..." Eu não sou daqui (Marinheiro só) ... Eu não tenho amor (Marinheiro só) ... Eu sou da Bahia (Marinheiro só) ... De São Salvador (Marinheiro só) ..." ( Adaptação de Caetano Veloso). Entende-se que o objetivo é a meta necessária. O subjetivo lembra a arte. Chocar um ovo pode ser arte? Depende da ave! Ave César! Ave de rapina! Ave-da-avenida! Ave Maria! Quebram-se as formas! Rompem-se os conceitos e preconceitos! Talvez, aconteçam mudanças! As formações culturais das elites brasileiras soam como afronta ao simples, verdadeiro e genuíno. Será que os povos do Brasil sabem o que é cultura? Monteiro Lobato e Amacio Mazzaropi fazem falta! Onde estão os artistas independentes? Será que não se afogaram nos patrocínios estatais do país? As MTV's diárias concorrem com as linguagens das TV's digitais abertas! E haja amor, chavões, carrões e algumas bundas com silicone! É cultura «cult», curtida, malhada, de melodias fáceis, harmonias baratas e letras esculachadas. Os brasileiros e brasileiras sentem tesão por bumba! É normal! São formas de mídia, comunicação, música, literatura e sacanagem -- sobrevivendo -- no mercado do MP4! As gravadoras tornaram-se gravadores caseiros e que computam prejuízos. Os novos direitos autorais dos que criam, já não são garantidos. A internet mutilou a criação do autor? «É a vida, é bonita e é bonita ..." ( Gonzaguinha). Número de frases: 65 Todos os dias às 8h os auxiliares de biblioteca João Eustáquio Gomes Cosso e José Fernandes da Silva saem num caminhão recheado de livros e seguem com destino a bairros da periferia de Belo Horizonte para levar conhecimento e diversão através da leitura para a população carente moradora desses bairros. Ao contrário do que pensam muitos, essas pessoas possuíam o hábito de leitura antes do atendimento do caminhão mesmo sem contar com uma biblioteca comunitária em suas regiões. O caminhão, ou carro-biblioteca, como assim é chamada a pequena biblioteca móvel, pertence à Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa e visita os bairros -- Tupi, São Marcos, Jaqueline, Rio Branco e Vale do Jatobá. Cada um de eles é visitado num dia da semana. Um grande número dos moradores desses bairros já gostavam de ler e devido à ausência de uma biblioteca e a dificuldade de acesso à sede da BPELB, situada na Praça da Liberdade, solicitaram, junto a essa, a visita semanal do carro. O carro-biblioteca que foi criado no ano de 1959, um ano após a construção da Biblioteca Estadual, surgiu a partir da necessidade de facilitar o acesso ao empréstimo de livros à população de bairros da periferia que não tinham bibliotecas. Além disso, foi uma maneira encontrada para estimular-lho hábito de leitura a fim mobilizar os moradores a pressionar a Prefeitura de Belo Horizonte para a criação de uma biblioteca. Anteriormente, o carro visitava dez bairros, um a cada 15 dias, porém, segundo Márcia Caldas de Melo, diretora de Extensão e Ação Regionalizada e responsável por o projeto desde julho de 2004, visando atender mais intensivamente cada bairro e para evitar a perda de material devido ao tempo prolongado que cada pessoa ficava com o livro, optou-se por apenas cinco. Em essa época, cada bairro era visitado num intervalo de quinze dias. De acordo com Márcia, esse atendimento é feito por dois a três anos em cada bairro, «tempo que julgamos necessário para que a população se mobilize e crie sua biblioteca», diz. Os cinco atuais bairros começaram a receber a visita em outubro de 2005 e já colhem seus frutos. Exemplo disso é o bairro Rio Branco, situado na zona norte e próximo à Venda Nova que com auxílio da Paróquia São Geraldo, responsável por a solicitação de visita do carro, já planeja a construção de uma biblioteca no local. O exemplo que dá certo O Bairro Rio Branco, situado na região de Venda Nova, que conta com 75 pessoas cadastradas ao empréstimo de livro junto ao carro serve como exemplo para mostrar que este apenas facilitou o acesso aos livros. Muito antes de receber o atendimento, os seus moradores gostavam de ler e se disponibilizavam a dirigir ao centro da cidade ou à biblioteca do Serviço Social do Comércio (SESC), para alugar livros. Durante a manhã de uma terça-feira, dia em que o bairro recebe o caminhão, 17 pessoas, entre elas crianças, jovens, adultos e idosos, visitaram o carro, e, indagadas sobre o hábito de leitura, responderam sem qualquer dúvida que além de gostarem de ler, já mantinham o hábito antes de receberem o carro-biblioteca. «Adoro ler, faz parte da minha vida, sempre tive hábito de leitura» diz convicto o morador Elton Antônio de Oliveira, que lê em média 40 livros por ano. Ainda segundo ele, «o carro só serviu para influenciar ainda mais e facilitar muito o acesso». Maria Geralda Sales, serviçal da paróquia São Geraldo concorda com ele. Além de gostar de ler bastante, já tinha o hábito. «O carro só facilitou, está perto de casa." Além da facilidade de acesso e gosto por a leitura, os moradores concordaram em que o acervo existente corresponde à necessidade. «Sempre quando não tem um livro que quero, na outra semana eles trazem», diz Renata Antônia Silva Carvalho. Para Elenice Pereira da Silva, o carro atende em todos os sentidos, informação, diversão, facilidade de acesso. Porém, todos eles reclamam da freqüência das visitas, acham pouco: «Tinha que vir duas vezes por semana», diz Eliana Almeida Souza. A procura é tamanha que Fábio Rogério de Morais, assistente administrativo da Diocese de Belo Horizonte e responsável por a divulgação do carro na paróquia São Geraldo, diz que já há um estudo para a implantação de uma biblioteca comunitária nas dependências da igreja. A paróquia tem um papel fundamental na vida do carro neste bairro, supondo por a sua importância geográfica: «A população massiva é católica», afirma ele. «Julgando que a leitura é parte da cultura, é interessante que a igreja, através do «Projeto de Ação Social», traga e ajude na divulgação do carro-biblioteca no bairro», afirma Fábio. Ainda segundo ele, a parceria é bem sucedida, pois havia uma demanda grande por livros que não eram emprestados, uma vez que as bibliotecas existentes no bairro pertenciam a escolas e não eram abertas ao público. Assim, o carro-biblioteca abrange um maior público, além de honrar com a frase escrita nos dois lados de sua carroceria: «Ler: um sonho a mais». Número de frases: 33 Pedalando por a praia, em direção à Vila do Superagüi, onde um baile de fandango já está para começar, o caiçara Carlinhos -- magro, alto, pele curtida por o sol -- avista um sujeito a pé. É fim de tarde e na luz do crepúsculo ele percebe apenas que se trata de um turista. Mais perto, enxerga claramente as nádegas do sujeito. Nu, o homem caminha tranquilamente por a areia. Se os naturistas conseguirem regulamentar sua praia na Ilha de Superagüi, como querem alguns, terão de conviver em harmonia com o modo de vida caiçara -- com figuras como Carlinhos e sua mãe, dona Rosa, que há 40 anos habitam a Praia Deserta. * * * -- Come arroz com feijão e não reclama. É o que tem, porque onte ' você não saiu matar peixe. Tonto de sono, o pescador Antônio Carlos, o Carlinhos, sentou-se à mesa rústica. O puxão de orelha que ouviu da mãe, dona Rosa, tinha sido em tom de brincadeira, mas ele sabia que hoje teria que sair pra passar a rede -- afinal é ele quem toma conta de ela. Em a noite anterior, trocara a pescaria por diversão, mas sabia que a mãe ainda tinha alguns peixes para fazer. Tinha ido à vila curtir o baile de fandango que a turma aprontou para brincar o carnaval. Dançou até de manhã. Só apareceu em casa com sol alto e foi direto para à cama. Levantou mais tarde, para o almoço. Isolamento natural A família vive no Sítio da Pedra Branca, praticamente isolada. O lugar é pouco mais que uma clareira em meio a mata, a 500 metros da praia. Árvores frutíferas, plantadas por as mãos de dona Rosa, protegem os casebres simples, de madeira, dos ataques do vento. Uma construção serve de cozinha, a outra abriga os quartos dos dois. Mas se Carlinhos desceu à Vila da Barra do Superagüi, a 10,5 quilômetros de onde moram, é porque sabia que a mãe não ficaria sozinha. Dona Rosa teria a companhia de alguns casais que acampavam por lá durante o carnaval. Em a manhã seguinte, enquanto o filho recuperava o sono, dona Rosa cuidou dos seus afazeres -- tirou água da bomba, lavou um punhado de roupa e colheu alguns maracujás para o suco, como faz há mais de 40 anos. A família chegou à Ilha de Superagüi em meados dos anos 60, por vontade do pai -- " Ilídio Atanásio Pires. «Em a época, Carlinhos não passava de um moleque. Tinha uns 10 anos», proseia a senhora pequena de traços caboclos. O nariz pequeno e delicado e o queixo fino e bem desenhado sugerem a beleza da juventude. O amor entre ela e Ilídio começou com uma paixão daquelas ... Fulminante. -- Desde que nos casamos, eu mais Ilídio, nunca passamos sequer um dia separados. Só depois que o véio morreu. Tudo começou em Guaraqueçaba, em fins dos anos 50 e começo dos 60. Dona Rosa conta que trabalhava numa fábrica de palmito em conserva, uma entre tantas outras que havia espalhadas por o litoral nos idos de 1960. A garaqueçabana encantou o caiçara nascido na Barra do Ararapira. Namoraram, casaram e tiveram filhos. O amor era tanto que dona Rosa nem hesitou quando, um dia, o marido lhe propôs largar tudo o que tinham na cidade para ir viver na Ilha de Superagüi -- então um lugar sem facilidades como luz elétrica água encanada, como ainda permanecem várias casas e algumas comunidades mais isoladas no Parque Nacional. Recordações Exibindo um vigor de fazer inveja, dona Rosa lembra dessas histórias com sorriso, enquanto limpa alguns peixes. Os olhos pequenos brilham. Já tem bem uns 70 anos, mas não parece. Está sempre disposta e até os cabelos teimam em manter a cor negra. Apenas alguns fios grisalhos lhe denunciam o passar dos anos. Natural de Guaraqueçaba, ela deixou a família e o conforto do lar para seguir seu coração. Talvez seja para sempre um mistério o que motivou seu Ilídio a partir nessa aventura, já com dois filhos pequenos. O fato é que ele, a mulher e os rebentos vieram embora para a Vila da Barra da Ararapira. O povoado onde o velho nasceu e tem até hoje vários familiares fica no extremo norte da ilha. O povoado está praticamente na divisa entre os estados do Paraná e São Paulo e é ponto de passagem para o Marujá, na Ilha do Cardoso, e para o município de Cananéia, no continente. Em o começo a família ficou de favor na casa de parentes, até que Ilídio comprou o sítio, na Praia Deserta. Escolheu um lugar afastado de propósito. Queria viver na natureza. Em a juventude, perambulou por Paranaguá, Praia de Leste e Guaraqueçaba. Trabalhou em todo tipo de emprego, de carpinteiro, pedreiro e operário. Dizia volte e meia que na cidade «o homem é o lobo». Sempre tem um explorando. E filosofava. Dizia que a culpa era do capitalismo, que corrói de um jeito sutil e nefasto as relações inter-pessoais. Pregava os ensinamentos de uma vida simples. Fez questão de erguer sua casa própria casa, ou rancho, como os caiçaras chamam suas moradias. E gostava de alimentar o folclore em torno disso. Dizia que usou apenas tábuas e pedaços de pau que acostaram por a praia. Em aquele tempo, segundo ele, mesmo as embarcações maiores eram de madeira, e muita tábua boa se desprendia dos navios. O causo parece mais história de pescador, embora o mar traga muita coisa até à praia. Uma maré presenteou a família com uma velha geladeira, que hoje, pintada de verde, Carlinhos e a mãe usam como armário de cozinha. O apego de Ilídio por o ranchinho era tanto que, quando estava acamado, beirando a morte, não queria de jeito nenhum mudar para a casa nova que lhe fora construída e há tempos já estava pronta. «Era seu desejo morrer na casinha que ele construiu». Foi o cunhado quem finalmente lhe convenceu de que a mudança era necessária. O argumento foi forte. «Que o senhor vai morrer é certo, mas se não mudar é bem capaz desse rancho desabar e o senhor acaba indo antes da hora», teria dito o cunhado ao velho. De o ranchinho do Ilídio resta apenas a cozinha, que se sustenta torta, como uma Torre de Pisa caiçara. Muitas tábuas já cederam, mas a aparência frágil-Y que pende para cá, pende para lá e nunca cede -- só aumenta a mística. Era ali, em torno da mesa, que o velho Ilídio passava a maior parte do tempo, sempre pronto para uma boa prosa. E era bom de papo. Sempre tinha uma história para contar. Uma figura. Gabava-se de já ter lido Guimarães Rosa e Machado de Assis. Tinha uma boa biblioteca, com diversos títulos que ganhou dos amigos. Os livros ocupavam uma grande caixa de papelão, desgastada por o manuseio. Sentado à mesa, ele a puxava para lá e para cá. Para o velho, a leitura era um prazer, espantava o tédio do inverno e ensinava novas visões de mundo. * * * Em a cadeira do pai -- a única com almofada, Carlinhos devora o rango. O suco de maracujá ajuda a comida a descer por a goela. Entre uma garfada e outra, conta para a mãe os detalhes do fandango: quem tava lá, quem não tava; quem dançou, quem tomou todos. A novidade quentinha era o aniversário de seu Alcides, o ancião da ilha, 88 ou 89 anos, nem ele lembrava direito. -- E as namoradas de ele? Apareceu pra dar parabéns? A pergunta bem humorada de dona Rosa tem fundamento. Seu Alcides Pereira Rodrigues pode ser o sujeito mais velho de todo o Superagüi, mas não se engane -- ninguém bate o homem quando o assunto é fandango. Dança a noite inteira e, se puder, com todas as meninas do baile. Se falta parceira no salão, não se acanha. Procura lá fora mesmo alguma moça disposta a dançar -- só ou acompanhada. Muitos consideram o velho uma ave de rapina, mas ele nem liga. É viúvo e não deve nada a ninguém. Em a vila, seu estilo arrojado é motivo de brincadeira, mas sem maldades, afinal, seu Alcides é um homem correto e bastante respeitado. É o último puxador de fandango da vila. Em a dança, é ele quem marca o ritmo das modas com os pés -- é o rei das tamancas. Akdov, o bar Em a Vila do Superagüi, ao sul da ilha, o fandango rola solto nas noites do Akdov. O bar é a terceira empreitada de Laurentino Souza, um caiçara nascido lá para os lados de Rio dos Patos, uma pequena comunidade no interior do Parque que já teve até campo de futebol e igreja, mas hoje está desaparecendo. Antes ele teve mercearia, duas vezes, mas quebrou. Diz que dinheiro na ilha só circula no verão -- quando turismo e pesca estão em alta. Em o restante do ano a turma se vira como pode ... Com o bar Laurentino acertou a mão. Há 14 anos na ativa, o Akdov já virou referência entre os fandangueiros do litoral. O nome foi inspirado por uma vodka. «Quando vi uma garrafa dessa tal de Akdov ... Em a primeira vez eu já gostei. Aí disse pra mim mesmo que se tivesse bar ia chamar Akdov». Hoje vem gente de toda parte para curtir o fandango do botequim caiçara e o lugar virou referência também para os fandangueiros. «Aqui é rustico, é é assim que a turma gosta». Em este carnaval, até seu Leonildo Pereira -- que mora em Rio dos Patos e faz as melhores rabecas e violas da região -- apareceu por lá. «Só pra tocar com meus amigos de Superagüi». Em a vila, o fandango é liderado por seu Pedro Miranda e seu José Squenini. O sobrenome italiano do mestre fandangueiro é uma herança dos antepassados europeus, que fundaram uma colônia na ilha, lá por os idos de 1850. O projeto de colonização, liderado por o então consul suiço Perret-Gentil, acabou se revelando um fiasco, mas deixou raízes profundas na ilha. O mais ilustre colono da época foi Willian Michaud, que chegou ao Superagüi com apenas 25 anos, casou-se com uma garota caiçara, Custódia, e viveu lá até seus últimos dias, apesar do isolamento e de todas as dificuldades. * * * Enquanto conta os causos do fandango Carlinhos repete vários gestos do velho Ilídio. As feições lembram muito o pai. De sorriso fácil, Carlinhos tem uma pronúncia única para as palavras, um jeito de falar que é só seu. Está bem conservado para a idade, mas o passar dos anos lhe deixou as costeletas brancas, contrastando com o cabelo e o bigodinho negros. Já está na casa dos 50, mas vive com a alegria de um garoto. Passou uns tempos meio cabisbaixo, é verdade. A morte do velho Ilídio, em agosto do ano passado, balançou a família. Os outros filhos de dona Rosa vivem lá para os lados da vila e ficou para Carlinhos a responsabilidade de cuidar da mãe. Os dois chegaram a pensar em abandonar o Sítio da Pedra Branca e mudar para perto da família, mas para quem já se habituou a vida na Praia Deserta é difícil partir. «Em a praia, água vem do poço, peixe vem do mar e dinheiro mesmo só para farinha, óleo e arroz -- e um botijão de gás vez ou outra. Em a vila, tudo paga». Passada a tempestade -- literalmente, já que segundo Carlinhos «deu muita trovoada quando o véio estava nas últimas», os dois acabaram ficando. Um toma conta do outro. Ambos sabem que a vida na vila não é lá essas maravilhas. Tem roubo e intriga. Nada como a tranqüilidade do sítio. Pesou também para a decisão o apelo dos amigos de toda parte -- Curitiba, Londrina, Ponta Grossa e São Paulo --, que querem manter viva a memória de Ilídio preservando o sítio. Gente que há anos visita a família e os ajuda como pode. Dona Rosa lembra de uma vez que um pessoal lá de Matinhos arranjou até um carro para o seu Ilídio. «Era uma Rural Willys, que rodava com uns botijões de gás ... A maresia foi gastando o carro e o véio remendou ela com umas tábuas. Era a alegria da piazada», lembra dona Rosa. Hoje, ela e Carlinhos se acostumaram à rotina sem o velho, mas sentem ainda muito sua falta. Remédio bom é manter a rotina. A cumplicidade entre os dois aumentou. Carlinhos pesca à noite, dona Rosa limpa os peixes pela manhã. Ágil, a faca em suas mãos tira escamas, separa vísceras e corta os filés. Também vão sempre juntos à vila. Ele pedalando a bicicleta e ela sentadinha atrás, no bagageiro, cuidando a saia. Lá, dona Rosa freqüenta o culto da igreja evangélica, enquanto Carlinhos freqüenta o bar, para tomar umas cataias -- a cachaça curtida na folha da planta que cresce no norte da ilha e é conhecida como o «uísque caiçara». A mãe não liga que ele beba, mas pega no pé quando exagera. Em aquela tarde quente, depois do almoço, Carlinhos, de cueca, subiu ao porto, como os caiçaras chamam o local que marca, na praia, a entrada para a trilha que leva à casa. Observava uns cardumes de tainha saltarem no mar, a maré cheia, quando chegaram uns visitantes. O casal, de São Paulo, veio à pé, da vila -- estavam cansados e com sede. A moça toma a iniciativa da conversa. -- Quanto que custa pra acampar aqui? -- Aqui a gente não faz preço. Cada um ajuda como pode. Quem passa uns dias no sítio ganha uma lição de vida. Carlinhos e dona Rosa dividem tudo o que tem. Ninguém passa necessidade. Os visitantes entram no ritmo, e dividem as tarefas do rancho. Bombeiam água, cozinham, lavam louça e limpam o terreno. Também dividem os mosquitos e pernilongos, que ao entardecer enlouquecem quem não está acostumado. A dinâmica no sítio lembra uma comunidade, como Ilídio sempre quis. Livre, leve e solto Agora, depois de sua morte, outro sonho de seu Ilídio poderá se tornar realidade. O velho sempre dizia que no Superagüi só faltava mesmo uma praia de naturismo. Ele conheceu a filosofia ainda na década de 70, quando alguns naturistas apareceram no sítio. Ficaram amigos da família e acamparam com certa freqüência durante alguns anos. «Andava todo mundo nu», lembra Carlinhos. «Viva e deixe viver. Se não atrapalha os outros tá tudo certo», dizia o pai. Mesmo sem a liberação legal para a Praia de Naturismo na ilha, que foi proposta discutida nesta temporada, já tem gente que vem para a ilha curtir a praia livre, leve e solto. O contato com natureza da ilha, que parece ter uma energia especial, principalmente na imensidão da Praia Deserta, recarrega as baterias, segundo dizem. A maioria do povo que mora daquele lado da ilha não liga muito. Mesmo entre os nativos adultos, que vivem na Deserta, é comum o hábito de andar por aí de cueca. Colocam bermuda como quem está vestindo passeio completo. * * * Quem não gostou muito da novidade da praia de peladões é Antônio Dias, que vive na outra extremidade da Praia Deserta. Enquanto o sítio de Ilídio fica mais próximo à Vila da Barra do Superagüi, no sul da ilha, o de Antônio Dias está mais perto da Vila da Barra do Ararapira, ao norte, no fim da Praia Deserta. -- Essa praia é passagem, pra toda gente que vem e vai do Ararapira ao Superagüi. Como é que nós vamos fazer, se fecharem a praia pr ' esse povo de nudismo. Eu sei que não é pouca vergonha, que o negócio é sério, tem até filosofia e tudo, mas vai acabar prejudicando nós, se fecha a praia. O sítio onde mora é bem cuidado, mas não tem luz. Banho só de rio. A água vem de uma bomba manual, em frente à casa, onde ficam os quartos e a cozinha. A o lado, um ranchinho menor coberto com folhas de palmeira serve defumar peixes, trabalhar nas redes de pesca e cozinhar comida no fogo de chão. Seu Antônio conta que já teve roçado, mas «hoje num vale a pena». Nem roda de farinha sobrou pra contar história. Trabalho, só de pesca. Com 65 anos, Antônio Dias é o rígido patriarca de um clã formado por seus dois filhos, João e Jair, a mulher, Jandira, e a filha, Dorotéia, que já tem quatro rebentos, todos registrados com nomes que começam com a letra M, «porque acho bonito». Marciano, Marciana, Marcelo e Marceno. Quando está por perto, ninguém ousa lhe interromper ou desdizer. Baixinho, olhar estrábico e sorriso contido, que pode se fechar a qualquer instante, Antônio Dias carrega com si a alcunha de sujeito ruim e seu nome chega a despertar calafrios em alguns caiçaras mais velhos. Não é para menos, o homem já arranjou briga pra mais de metro -- seja com nativo ou gente do Ibama. Mas a fama de mau veio mesmo depois que deu uns três ou quatro tiros no seu Ilídio. A verdade é que Antônio e o pai de Carlinhos nunca se deram bem. Richa antiga, dizem, que piorou com o passar dos anos. Cada um na ilha tem sua própria versão para a história, mas o fato é que o esposo de dona Rosa não morreu no ataque. Ficou sim com três balas alojadas por o corpo. Suas pernas nunca mais foram as mesmas, por isso passava tanto tempo à mesa. Número de frases: 196 Essas, porém, são outras histórias. Alguns temas são fontes inesgotáveis para a criação artística. Seria uma tarefa ingrata listá-los, além de ter que privilegiar alguns em detrimento dos outros. Um de eles certamente é a música. Quando se mistura música e poesia então, a chance de se atingir milhões é quase certa. Pode-se dizer algo assim de Renato Russo e a Legião Urbana? Provavelmente sim. Após 11 anos da morte do líder da banda Renato Russo surgiu o projeto de produzir um filme. E o mote escolhido foi o triste fim de João do Santo Cristo. Faroeste Caboclo, o filme ainda não tem data para estrear, porém o alvoroço dos fãs ardorosos em torno do projeto anuncia um sucesso quase certo. Vale lembrar que a Legião é um daqueles casos raros de bandas com músicas que fazem sucesso até hoje. Tocam nas rádios e continuam espalhando idéias. A Legião Urbana surgiu em 1983, em Brasília, em meio a um cenário de crescente nascimento das novas bandas de rock no estilo contestador. Renato Russo vinha do Aborto Elétrico onde estava desde o final dos anos 70. Para formar a sua Legião, juntou-se a Dado Villa Lobos e Renato Bonfá. Ainda em 1983, já como Legião Urbana os músicos fizeram um show no Circo Voador no Rio de Janeiro. O sucesso rendeu o convite da gravadora EMI para o primeiro álbum, Legião Urbana, que saiu em 1985. O disco estourou com canções como Será, Ainda é cedo e Por Enquanto. Como seria daí para frente, as letras das músicas misturavam violentas críticas sociais com baladas românticas muito bem escritas. Uma das mais famosas músicas da banda, saiu do álbum Que País é Este 1978/1987. A saga de João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo é um dos pontos altos da trajetória do grupo. Em 1989, As Quatro Estações obteve a maior vendagem da carreira da Legião: 1,7 milhões de cópias. O último disco gravado com a participação de Russo foi Tempestade ou O Livro dos Dias, em 1996. A banda se desfez depois da morte de Renato, em 11 de outubro de 1996. Em 1997 foi lançado um álbum póstumo, Uma Outra Estação. As músicas da Legião continuaram inspirando músicos. Cássia Eller regravou Por Enquanto, Marina Lima relembrou Ainda é Cedo, e Jerry Adriani gravou versões de diversas canções em italiano. E quem diria que até Ricky Martin, galã, cantor e ex-Menudo, gravou sua versão para a canção Via Láctea em seu álbum Unplugged de 2006. Um tributo justo para Renato, uma vez que no Acústico MTV, lançado em CD em 2002, havia cantado Hoje a Noite Não Tem Luar, composição originalmente gravada por a ex-boy band do galã porto-riquenho. Número de frases: 30 A imprensa, em especial a baiana, tem realizado uma extensa cobertura sobre o que os jornalistas estão chamando de «crise na cultura» da Bahia. O assunto também já foi alvo de reportagens publicadas em jornais do sudeste do país e no domingo, 14/10, circulou em vários periódicos em função de uma crônica do escritor João Ubaldo Ribeiro. Em a semana anterior, em entrevistas, ele qualificou de «crime» a falta de repasse de verbas para a Fundação Jorge Amado, que poderia ter seu acervo transferido para uma universidade estrangeira. Se, por um lado, o fato da cultura ter ingressado na agenda da imprensa é positivo, falta oferecer à sociedade um leque mais amplo de explicações sobre a temática em questão. Se a cobertura ou o espaço concedido para os artigos não aprofundar a discussão, muitos ficarão sem entender a complexidade da tal «crise» e sequer poderão julgar os dirigentes da cultura e seus «cururus», forma pejorativa por a qual o jornalista e ator Gideon Rosa chamou, em artigo publicado no jornal A Tarde, o» bando alçado à condição de especialistas em Cultura «que, segundo ele, raramente freqüentam as» nossas platéias». Por o raciocínio, basta freqüentar as platéias para ganhar o título de especialista em cultura. Trata-se de apenas mais um exemplo de como determinadas pessoas explicaram de forma simplória e equivocada a tal «crise» para a sociedade. Para Rosa, a «crise» também poderia ser explicada como uma estratégia de jogar os artistas do interior contra os da capital. O reflexo seria a criação de um programa semelhante ao Bolsa Família na área da cultura. O governo estadual chama a estratégia de descentralização dos recursos. O governo carlista destinava quase a totalidade do dinheiro para a capital. Outras formas utilizadas para explicar a «crise» foram oferecidas por a diretora de teatro Aninha Franco. Inicialmente, ela disse que fechou o Teatro XVIII porque era contra a política cultural do governo. Logo depois, precisou mudar a sua explicação quando a imprensa ficou sabendo, via governo, que uma nota de 20 mil reais, de uma agropecuária, foi apresentada indevidamente numa prestação de contas de verbas públicas. Interior e capital João Ubaldo Ribeiro, por sua vez, qualificou de «crime» a falta de repasse de verbas para a Fundação Jorge Amado. Enquanto isso, o governo alega estar apenas cumprindo a lei que, segundo interpretação dos procuradores estaduais, impede a concessão de recursos públicos para o pagamento de todas as despesas de uma fundação. A pergunta é: quais das explicações foram mais enfatizadas por a imprensa? Estamos assistindo a uma disputa de poder e o jornalismo vem sendo usado praticamente apenas por os opositores do governo. Enquanto isso, os beneficiados por a nova política cultural estão calados. Por que? Os mais apressados culpariam os jornalistas. Embora seja visível o uso político que os meios de comunicação de propriedade da família de Antônio Carlos Magalhães estejam fazendo da situação, acredito que existem várias outras razões para tamanho silêncio. Uma de elas pode estar relacionada com a cultura profissional dos nossos jornalistas dos cadernos de cultura que, durante anos e anos, cultivaram as mesmas fontes. Hoje, as fontes costumeiras secaram e outras precisam ser ouvidas. O que sabemos sobre o que está acontecendo no interior do estado na área da cultura? Os jornais possuem estrutura e vontade de cobrir o interior? O que dizem as centenas de pessoas que pagaram R$ 0,50 para ver um espetáculo no Teatro Castro Alves numa manhã de domingo graças a um projeto do governo para democratizar o acesso à principal sala de espetáculos da capital? O que sabem os leitores dos jornais sobre estas questões? Pouco, quase nada. «A os amigos, tudo, aos inimigos, nada " A cobertura e o debate sobre a tal «crise na cultura» precisam oferecer à sociedade uma variedade mais ampla de explicações para a problemática. Em os estudos acadêmicos sobre comunicação e política, os pesquisadores enfatizam que qualquer disputa de poder em torno de temas de interesse público passa, necessariamente, por duas instâncias. Primeiro, o político necessita que o seu assunto esteja incluído nas preocupações da sociedade e, por isso, o tema precisa estar na agenda da mídia. Mas apenas estar na agenda não basta. O político deve enfrentar uma segunda disputa e conseguir explicar o tema da maneira como ele deseja. Novamente, o jornalismo desempenha aqui um aspecto central, pois o modo como os jornalistas enquadram o tema em debate vai influenciar boa parte do público em geral e os interessados na questão em particular. É a partir deste enquadramento que as pessoas formarão as suas opiniões sobre o tema em discussão. Por enquanto, o governo do Estado e os «ideólogos da Nova Cultura» estão perdendo a segunda batalha. Corremos o risco de desperdiçar a oportunidade de realmente modificar a política cultural do Estado, pois aqueles que estavam acostumados a abocanhar quase a totalidade das verbas estão conseguindo impor o seu enquadramento para a questão. Assim, podemos voltar a ter uma política em que cultura se reduz a patrocinar shows no Pelourinho ou de que é aceitável selecionar atores para uma companhia de teatro financiada por o poder público sem a realização de audições públicas, esta sim a política de «aos amigos tudo, aos inimigos nada». A pergunta que fica é: a «crise na cultura» existe mesmo neste governo ou existia nos governos anteriores e ninguém percebia ou queria perceber? Número de frases: 44 As escolhas dos jornalistas dizem muito sobre seu caráter, as decisões desde qual fonte ouvir até qual o enfoque da matéria. Com base nisso o repórter Cristiano Navarro fez sua escolha: defender os direitos dos índios e reportar suas lutas. «Os pistoleiros vieram gritando, pararam e desceram da caminhonete bem ali. Depois pegaram um galão de gasolina e botaram fogo em tudo, moço. De aí saíram dando tiros para todos lados. Então acertaram meu filho, que caiu logo ali. E você sabe como ele morreu? Assim de joelhos, pedindo para não morrer». Quem ouviu este relato foi o jornalista " Cristiano Navarro. «Em aquele dia, numa aldeia no interior do Maranhão, o depoimento da testemunha, um velho índio de mais de noventa anos, cego de um dos olhos e pai do cacique Guajajara, João Araújo, me ensinou algo definitivo sobre o jornalismo: a prioridade das fontes fala muito sobre o caráter do repórter. Em o lugar onde o ancião apontou, o líder Maruzan Camoraí ainda me revelou os vestígios da violência. ' Este é o sangue que nosso parente derramou lutando por a terra '». Esta foi a história que marcou a carreira do santista, que há quatro anos trabalha com a causa indígena. Ela foi usada por o Ministério Público como acusação contra o Estado brasileiro na Organização dos Estados Americanos. «Imagine que três dias antes, a própria vítima havia denunciado à polícia e aos meios de comunicação que vinha sendo ameaçada de morte por capangas de um fazendeiro, que é político e invasor de suas terras. Entretanto, com a morte de Araújo, a primeira coisa que imprensa e policiais fizeram foram transformar as vítimas em criminosos. Então me pergunto: de que ponto e vista devo contar esta história e tantas outras semelhantes». Trabalhar com a causa indígena exige um engajamento maior porque implica visitar aldeias que ficam isoladas das grandes cidades. Navarro mudou de cidade e trabalha no Conselho Indigenista Missionário, o CIMI. «O impacto da mudança é grande porque os índios têm uma forma de pensar o mundo completamente diferente. A sua percepção como jornalista muda em contato com eles. É uma questão que ultrapassa o entendimento, exige sentimento». Não há muitos profissionais de imprensa trabalhando com índios. Em os três primeiros anos, era editor do Poranti, eu fiquei muito preocupado com o fato de ser conhecido como o'Cristiano dos índios '. Agora penso que não há nada errado em ter um estigma que me identifique porque eu acredito nesta causa, eu trabalho para mudar alguma coisa». Espaço O repórter é contundente ao afirmar que o jornalismo que faz não tem espaço nos grandes meios de comunicação. «Não é interessante que se paute a causa indígena para as empresas, que são anunciantes. Eu faço matérias que não têm grande circulação. Uso a Internet para ajudar a difundir». A questão vai além por causa do problema com a terra. «As multinacionais querem a terra indígena para plantar pinheiros e os fazendeiros soja». O público que tem acesso as informações que Navarro produz é bem restrito. «Quem lê são formadores de opinião, quem se interessa ou tem aproximação por a causa, estudantes, antropólogos e religiosos». Deturpação Outro problema enfrentado por o jornalista é o preconceito com o índio. «Quando uso um índio como fonte percebo a indiferença das pessoas, elas dão mais credibilidade para outras fontes». Existe, também, a deturpação cultural do índio. «As pessoas não compreendem o que é o índio. Elas perguntam as coisas mais absurdas sobre eles para mim». Há, ainda, a deturpação por interesse latifundiário. O índio tem um histórico de luta por a terra desde o início do Brasil. «O índio como movimento social, que luta por a terra, que é um direito garantido por a constituição, passa a ser inimigo, não só dos fazendeiros. O índio só quer a terra de ele, não quer poder nem acumular riquezas». Esta deturpação prejudica a sociedade no entendimento dos fatos, já que quando os índios tomam alguma atitude violenta, não é noticiado o que os levaram àquele ato. «O nosso jornalismo não contextualiza historicamente os fatos. Ele noticia que os cintalargas mataram os garimpeiros. Porém não conta que eles tentaram afastar pacificamente os invasores de suas terras durante anos e não conseguiram. Até que tomaram uma atitude drástica». Não foi noticiado em lugar nenhum a devastação deste povo. «Há 30 anos, os cintalargas eram 5 mil e hoje em dia são mil índios, mesmo eles se reproduzindo muito. A mídia não mostra que foram massacrados». O atual projeto de Navarro é formar comunicadores populares nas aldeias Guaranis, nos quatro países: Bolívia, Argentina, Brasil e " Paraguai. «Antes cinco porque no Uruguai todos os índios Guaranis foram exterminados». O objetivo é fortalecer a comunicação destes povos, já que a comunicação é um ponto da articulação política, e restabelecer a luta por os direitos dos povos. «Entregamos uma cartilha chamada Tem Aldeia na Política para os líderes, que fazem estudos junto com as comunidades». A cartilha contém informações sobre política, como funcionam os partidos e qual a participação dos povos nestes processos. «E, é claro, o papel dos meios de comunicação nisso tudo». Começo O jornalista, que se formou na Universidade Santa Cecília, afirma que seu engajamento social começou ao decidir por essa profissão. «Escolhi jornalismo porque achava que tinha uma função de trabalho relevante para a sociedade, com o papel político claro de pautar as discussões do dia-a-dia das pessoas». Durante a universidade, Navarro se aproximou do tema com leituras na área, por meio do movimento estudantil e por o tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso, que foi sobre Movimentos de Moradias em Santos. «Quando me formei estava desiludido com o jornalismo e não via perspectiva de trabalho. Minha visão mudou quando fui convidado por o Renato Rovai para cobrir o Fórum Social Mundial de 2002. Depois desta cobertura o santista viu a possibilidade de trabalhar com o social dentro do jornalismo. «Vi pessoas do mundo inteiro que trabalham com comunicação alternativa, que tem uma perspectiva diferente das grandes redações». Número de frases: 70 Navarro também colaborou com a revista Caros Amigos, trabalhou na Sem Fronteiras e no Jornal Brasil de Fato. Em um dos recitais musicais realizados durante a recente edição 2007 do Festival Vale do Café tive o prazer de assistir a um percussionista com um tambor de timbres variados acompanhando Turíbio Santos em sua apresentação na Fazenda Cananéia, que fica a 15 minutos do centro de Vassouras por a Br-393. O instrumento me despertou curiosidade e, ao final da apresentação fui conversar com ele. O percussionista chama-se Junay Diógenes e o instrumento que ele tocava era o djambê (ou djembê ou ainda djambé), um popular tambor africano, mundialmente conhecido, um pouco diferente dos tambores preservados por as tradições africanas do Vale do Paraíba. É um instrumento muito popular na África Ocidental (o lado do Oceano Atlântico) principalmente no Mali, Guiné, Burkina Faso e Senegal (a parte de cima da África, quase chegando no Marrocos). Imagina-se que o djambê tenha consolidado o seu formato atual no grande Império de Mali, da etnia malinke. É o próprio Junay que conta: «Eu conheci esse instrumento por acaso. Eu treino capoeira e estava tendo aula numa sala -- na PUC de São Paulo -- e ouvi numa sala ao lado sons musicais que gostei muito, pensei: poxa deve ter um monte de gente tocando esses instrumentos. Aí quando terminou a aula eu fui na sala e vi que era apenas um, esse instrumento chamado djambê. Isso foi em 1994. Um ano depois em 1995 fui para Londres e conheci uns rapazes de Mali que tocavam o instrumento que eu tinha visto um dia na PUC. Aí eu comprei um djambê de eles, meu primeiro djambê. E como eu tinha levado o meu berimbau, fiz uma interação com eles -- eles se apaixonaram por mim e por o berimbau e eu por o djambê e por eles, por o canto e a dança e assim começou tudo." Junay começou a estudar o instrumento com os malineses e não parou mais, se aprimorando sempre e conhecendo as etnias bambaras e uolof, que segundo ele tem ligações musicais com essa etnia malinke. Ainda segundo Junay o djambê que ele toca foi desenvolvido no século 9 para acompanhar uma família de instrumentos chamado dununs entre os quais o dunumbá, maior e mais grave, o sangban, som médio além de um outro menor e mais agudo, kenkeni. A variedade de toques na percussão africana também é bem maior do costumamos encontrar aqui no Brasil. Junay apresentou alguns exemplos nesse pequeno video que acompanha este material, mas existem dezenas de eles: ritmos de guerra, ritmos de morte, de nascimento, plantação, ritmos de boas-vindas, para circuncisão, para chamar crianças ... A afinação é à frio, sem a ajuda do calor como nos tambores do Jongo, e a pele ideal é a de cabra-fêmea, segundo Junay. A variação sonora se dá nas distintas áreas da pele: ao centro mais grave, nas extremidades mais agudo, além da forma com que se usa as mãos, os dedos e mesmo uma das mãos para abafar enquanto outra toca. Junay pretende lançar um CD com o seu trabalho no djambê e também dar aulas do instrumento no Rio de Janeiro. Se você gostou do tambor e quer saber mais escreva para diogenesjr64@hotmail.com Descobri num website em Portugal um pequeno manual de construção do djambê feito a partir de uma árvore chamada piteira, conhecida no Brasil também por pita, de onde se retiram embiras e liames usados para construção de cestos e esteiras. Eis alguns links sobre a colocação do couro e afinação: http://www.djembes.org/tensari.htm http://users.pandora.be/willie.camerman/ djembe en tuning.html http://hawkdancing.com/ Wooddrum / tuningadjembe.html http://www.giftofafrica.com/moreinfo/djembetune.htm http://www.silvercircle.org/yankadi/tuning.htm http://www.goatskins.com/rehead/soakhead.html http://www.goldcoastdrums.com/pages/learn how to reskin your djembe.html Se você quiser experimentar os sons do djambê existe um website com um djambê virtual aqui. Uma grande coleção de informações sobre o djambê pode ser encontrado no portal www.djembe.org mantido em Estocolmo, Suécia por Lennart Hallstrom, com centenas de links e informações. Em a Europa existe uma imensa produção de CDs de música africana com djambês. De os países originais podem ser encontrados, entre outros, Cds com djambês de Mali, Guiné, Burkina Faso, Costa do Marfim e Senegal. O músico senegalês Youssou N ' dour, nascido em Dakar, teve seu disco Lion lançado no Brasil por a gravadora EMI há alguns atrás, numa série chamada AfroReggaeBeat. O que me atraiu no djambê, além de sua sonoridade variada, foi também o corpo em forma de cálice. O de Junay era em madeira rústica mas existem exemplares envernizados e decorados belíssimos como vim a saber depois. Hoje já são até construídos industrialmente em alumínio com peles sintéticas. Alguns marceneiros brasileiros (veja no fórum da ABTM -- Associação Brasileira dos Torneiros em Madeira) estão trabalhando em djambês torneados em peça de madeira única. As primeiras notícias sobre a utilização do djembê na música brasileira dizem que foi na década de 1970 com os percussionistas Djalma Corrêa e Bira Reis. A maior expressão mundial do djembê é Mamadi Keita, um mestre da percussão africana, uma lenda viva, nascido em 1950 na Guiné. Mas o mundo realmente dá muitas voltas: um dia depois da conversa com Junay encontrei um djambê feito de bambu (da espécie conhecida no Brasil como bambu-balde), quando fui visitar Edinho, um mestre-artes ão de Vassouras. Número de frases: 45 Viajar por o Brasil é mergulhar na diversidade cultural. Ainda vou achar tempo para não viver de outra coisa senão disto: andar por este país imenso e tão rico culturalmente registrando peculiaridades do povo e dos lugares. Por enquanto, vou levando com desculpas esfarrapadas. às vezes passo apressado, mas por onde ando reparo. Tornou-se ainda mais ensolarada e lúdica aquela manhã de domingo quando a mulher de sombrinha e roupa antiga surgiu de uma esquina e danou a descer por as acentuadas ladeiras de Ouro Preto -- MG. Passinhos curtos e apressados, parecia deslizar sobre o calçamento reluzente. Confesso que quis muito ver a face da andadeira vestida de acordo com a velha cidade, mas ela só descia e descia, como se atraída por alguma urgência qualquer naquele embalo da controversa força magnética comum às ladeiras de Minas. Pra descer é fácil. Subir é que são elas. Pensei em gritar um " Ei, das antigas!!!" sem nenhum acanhamento. Mas me contive por imaginar que talvez não fosse entendido por ela ou por quem mais atendesse ao chamamento. Sabe-se lá o que passa na cabeça de gente em manhã ensolarada de domingo na velha Ouro Preto. Apressei o passo para me aproximar puxando prosa e caprichar num retrato. Mas, pensando no caminho de volta, desisti da empreitada. Resolvi me valer do «zum» de minha surrada máquina fotográfica. Para que afinal inventaram as lentes de aproximação? Fiz a foto e deu no que deu. Não vi a cara da dona da roupa que descia ladeiras como se flutuasse. Restou aquela vontade danada de saber quem era a mulher da roupa que parecia andar sozinha, de tirar prosa com ela, de trocar um olhar seguro para saber, entre outras coisas, as razões daquele «desfile dominical». É que depois fiquei sabendo, por informação de outras mulheres também vestidas como antigamente, que a «modelo» em questão não fazia propaganda de nenhum daqueles estúdios fotográficos que faturam dos turistas que queiram fazer fotos em trajes de época em cidades históricas. Sim, Ouro Preto e outras cidades brasileiras têm estúdios que põem o sujeito bem ao estilo «tempo do ronca», em fotos muitas vezes instantâneas e até digitais, mas envelhecidas como se saíssem de um velho baú de guardados. Tais estúdios despertam o interesse das pessoas usando modelos que se expõem nas esquinas, como se estivessem em outro tempo, completamente fora da moda atual. A estratégia, claro, é fisgar freguesia. E como funciona. Mas isso nada tem a ver com o caso da dona que desceu a ladeira em trajes antigos e me despertou interesses. Como me disseram, " Ela é assim mesmo, uai! Todo domingo se veste desta maneira e sai passeando." Agora tenho mais é que arranjar um desfecho para o texto que já me parece demasiado longo para uma página na Internet. E é justamente nesta hora que me ponho a pensar na necessidade de achar mais tempo para conhecer lugares como Ouro Preto e outras tantas cidades históricas, redescobrindo e registrando peculiaridades do povo e dos lugares do Brasil. Um dia ainda acho esse tempo. E tomara que com capacidade e paciência para escrever traduzindo sensações como a de querer entender o que se passa na cabeça de alguém que se traja como antigamente e sai a andar como se flutuasse por ruas antigas e íngremes como as de Ouro Preto numa ensolarada e lúdica manhã de domingo. Número de frases: 32 Casseta e Planeta tá chato; Toma Lá da Cá é o pior programa que já vi; A Grande Família não é mais lá grande coisa; Zorra Total nunca nem foi ... Pra dar risada mesmo, temos que aproveitar o horário eleitoral gratuito. Não entendo por que as pessoas odeiam tanto. É o melhor humorístico da televisão brasileira. Pau a pau com o Bahia Meio Dia Conheço gente de todas as campanhas para prefeito de Salvador. Dia desses encontrei com dois de eles conversando. Um trabalha editando os vídeos das campanhas do DEM e o outro editando os vídeos do PT. Ambos são amigos de longas datas e estavam trocando figurinhas entre eles. Disseram que, nos momentos de silêncio do trabalho, quando toda a equipe está concentrada, que alguém logo começa a cantar, com a voz em falsete, o clássico das eleições 2008, o jingle-reggae «eu quero Hííílton cinqüenta, na capital da resistência», do candidato a prefeito de Salvador por o PSOL, Hilton Coelho, que dobrou nas pesquisas depois do jingle. Subiu de 1 % para 2 %. Os maconheiros da cidade estão cantando «eu quero Híílton com minha cinqüenta, na capital da resistência ...». A palavra «resistência» é a mais atual do discurso de Hilton. Mas o melhor jingle da primavera é o do candidato a reeleição de Santo Amaro, o prefeito João Melo O número de ele é o 11 e o jingle de ele diz, também em reggae, «aperte um, aperte um ...». Dizem que ele é doidão. O prefeito João Henrique (PMDB) candidato a reeleição, apareceu em seu programa com o cantor Riachão. Querendo mostrar intimidade, João Henrique disse: -- Riacho, você lembra daquele tempo, e blá, blá ... A campanha de João Henrique, agora que Pinheiro começou a subir, começou os ataques pessoais-irônicozinhos, como eram as campanhas de Antonio Carlos Magalhães. Foto de candidato é a própria charge. Os chargistas não precisam mais criar, é só decalcar as fotos. Todo dia eu passo por a Avenida ACM e sempre pergunto «tá rindo de quê, Pinheiro?», quando vejo seu enorme cartaz na parede. Todos os candidatos reclamam da segurança, da educação, do transporte, da saúde, que tá tudo acabado, tudo errado, e, no entanto, aparecem felizes em todos os cartazes. ACM Neto (DEM), mais uma vez, é o que tem mais cartazes espalhados por a cidade. Sorrindo em todos. As fotos de negros, que o fotógrafo Sérgio Guerra espalhou por a cidade, em cartazes grandes, no início de 2007, causaram enorme polêmica. As comunidades baianas (intelectuais, sociais, culturais ...) se retaram, acharam um absurdo, falta de respeito com o espaço público. -- Quem Sergio Guerra pensa que é? Ele é o dono da cidade, é?-- diziam. Mas ACM Neto em cada esquina, com aquele sorriso e cabelo de playmobil, pode. Ali não tem photoshop que dê jeito. Em seu programa, ele começou o discurso com as palavras «peço licença para entrar na sua casa ...». Se eu fosse do Casseta e Planeta, eu processava por plágio. Meio estranho, o cara se chama ACM e diz que representa o novo. E ainda tem o ex prefeito Imbassahy (PSDB), que se a cidade está violenta, com a saúde falida e com adolescentes armados, fora da escola e fumando crack, os seus oito anos de prefeitura por o PFL tem boa parcela nessa culpa. Agora ele diz, em seu programa, que é fácil resolver todos os problemas. Mas pior que ex prefeito que fez merda querendo se candidatar, é ex prefeito que fez merda dono de rádio reclamar de tudo e de todos. Por sinal, Mário Kertesz em seu programa de rádio está meio sem noção. Tá um velho tarado em cadeia mundial, já que a rádio está na web. Só fala putaria. Fica rodeado de jornalistas, todas do sexo feminino, lançando piadas de duplo sentido o tempo todo. -- Adolescente estuprada na UFBA -- diz alguma jornalista no microfone, dando a notícia. E Mário diz que isso é um absurdo e blá, blá, para em seguida dizer «mas absurdo mesmo é esse seu decote, Fulaninha» e a conversa fica meia hora nesse reme-reme. Quem tá botando pra f ... nessa eleição para prefeito de Salvador é o presidente Lula. Moral da porra. Só Hilton não gosta de ele. Até ACM Neto, que pouco tempo atrás disse, furioso, na câmara e para as câmeras, que ia dar uma surra no presidente, hoje diz, em todos os seus programas, sorrindo, que agora vai conversar com o presidente. Não tem palavra. Todo mundo dizendo que tem o apoio de Lula e do governador Jaques Wagner (PT). João Henrique já tá se humilhando. Tá no modo novela mexicana: -- Esqueça, Pinheiro. Lula me ama, ele está com você por força do papel, mas é a mim que ele deseja. -- É Mentira -- grita Pinheiro.-- O Lula é só meu. Ele e o Wagner. Dizem que um assessor perguntou, logo cedo, na primeira reunião do dia: -- Bom dia, prefeito, dormiu bem? -- Sim, sim, com o apoio de Lula e Wagner, a noite foi muito boa ... Em julho saiu uma foto de João Henrique no jornal, em seu escritório, falando ao celular, com a seguinte legenda embaixo da foto: Prefeito João Henrique fala com o presidente Lula, dando as boas vindas por sua chegada em Salvador. Pra vereador, tem a candidata Ariane Carla, que a cada pleito, parece ficar mais nova. A foto de ela no cartaz, pra essa eleição, parece que é desenho. Em a próxima, ela não vai mais poder se candidatar. Não vai ter mais a idade mínima exigida. Por o DEM, tem Didi Brother, participante do Big Brother Brasil 1. Esse, sim, tem o direito de dizer «você me conhece». Além de ACM Neto e Didi Brother, o DEM tem também o (a) dançarino (a) de pagode Léo Kret (abreviação de Leonardo Cretino), pra verador (a). Em a verdade, ele (a) não é do DEM, mas o seu partido fez um pacto com o DEM e estão juntos nessa campanha. Acredito que Didis e Krets são vereadores (as) ideais para políticos como ACM Neto governar. Inclusive, em seu programa, ele diz que vai criar o BBB, Big Brother Bairro, que são câmeras espalhadas por toda Salvador. Estaremos vigiados. Pinheiro disse que o de ele é «Polícia 24 horas», que vai copiar o que deu certo em Fortaleza, com ronda policial 24 horas nos bairros mais violentos, abordando e fichando todos os transeuntes. Se parecer com o que os nazistas fizeram com os judeus e o que os israelenses fazem com os palestinos, é mera passagem dos anos. Uma vez uma amiga me disse: -- Ah, agora aqui tá super seguro, tem polícia o tempo todo. Acredito que um lugar que tem polícia o tempo todo não está, nem de longe, super seguro. Lugar super seguro é lugar com escola e professor bem pago. O termo «BBB», usado por ACM Neto, por não passar de um termo publicitário, poderá trazer muitos votos para o DEM e alguns problemas para a polícia. Vejo um monte de banda tocando de frente para as câmeras, buscando uma divulgaçãozinha na mídia. * * * Fui assistir a uma peça no Rio, o nome da peça era «Nós Amamos o Humor». Com Fafi Siqueira; uma loirinha que nunca vi; a gordinha do Zorra Total que interpreta uma endocrinologista que só receita comida calórica; e a mulher da música «Vá tomar no cu», sucesso na internet. Em a platéia, o diretor do Zorra Total, Maurício Sherman, tendo ao seu lado, na mesa, Agildo Ribeiro; na sua frente, Juma Marruá com o namorado e mais um casal de amigos. Cada atriz da peça tinha seus 20 minutos de palco. Fafi imitou Roberto Carlos por a 825º vez, mas a única piada de ela que me fez rir, foi quando ela agradeceu a presença de Cristiana Oliveira, dizendo que ela estava mais bonita agora do que na época de Pantanal. E a mulher do «Vá tomar no cu», na moral, vá tomar no cu, chata pra caralho. Só fala de cu. Qualquer coisinha, ela dizia «cu» e todo mundo dava risada. Parecia Dercy Gonçalves. Todo respeito à sua memória, mas tava foda, onde Dercy ia, pegava o microfone e dizia «essa merda toda, vá tomar no cu, essa porra ...». E todo mundo dava risada. -- A senhora quer dizer uma última palavra, dona Dercy?-- disse seu médico, no ouvido de ela, no leito do hospital. -- Quero -- disse Dercy Gonçalves, com um fiapo de voz. -- Pode dizer que estou anotando. -- Anote aí, então: vai se fuder, essa merda toda, caralho, manda todo mundo tomar no cu, é tudo um bando de filha da puta ...-- e se foi. (1) Filha da P ..., de Roger Moreira, Ultraje a Rigor. Número de frases: 110 Após 43 anos no quase anonimato nacional, o festival de Parintins passou a ser transmitido para todo o Brasil por a Band. Como já era de se esperar erros grotescos referentes aos nomes de símbolos da festa foram vários. E ainda, a empolgação do apresentador Datena foi tanta que gerou críticas no site da Globo Online. Mas, tudo isso era previsível. Afinal, quem nunca viu o festival de Parintins de perto sempre se emociona com as várias coisas apresentadas no «desfile» (como se escreveu no site Globo Online) dos bois Garantido e Caprichoso. Já vi, ao longo dessas décadas, vários gringos deixarem seus queixos quedarem-se frente a grandiosidade das alegorias, da dança e garra das torcidas que ficam horas sob o sol e chuva para evoluir e ganhar pontos para seus bois. Mas, tudo isso era previsível. De os males o menor, a empolgação de Datena e as trocas de nomes, maioria indígenas, são coisas realmente aceitáveis. Mas, como se não bastasse, para fazer tremer qualquer folclorista, o folguedo do boi-bumbá (herança negra e nordestina, festa profana que na Amazônia era comemorada junto a datas de santos por a classe pobre) virou o carnaval carioca na Amazônia. Porta-estandarte se travestiu em porta-bandeira. A apresentação na arena virou, como bem disse o site Globo Online, desfile (leia-se que desfile ocorre de modo contínuo, em ele as coisas passam e não se montam cenários e se fazem encenações tal qual num palco). As tribos indígenas são agora «blocos de boi», batucada e a marujada são bateria. Pelo amor de Deus boi-bumbá é uma coisa e carnaval é outra, com histórias e estruturas diferenciadas, entendam. Sei que a analogia fica jornalisticamente bonita, mas entendam as diferenças e parem de comparar. Isso fere as raízes caboclas! Mas, tudo isso era previsível. Eu credito muito dessa comparação as alegorias de ambas as festas, que aqui nem chamamos de carro alegórico, pois uma única alegoria de uma encenação pode conter 20 carros juntos. Só para fazer uma ressalva há alguns anos os carros são feitos por artistas de Parintins, não foi o Rio que ensinou o boi, embora muita gente pense assim. Quanto à audiência da Band, segundo ouvi falar, foi mediana, afinal o IBOPE não mede e nunca servirá para medir a real audiência no Brasil, mas não vamos entrar nesse mérito. Apenas me bastam os telefonemas, e-mails pessoais e recados nos sites sobre o assunto, enviados por pessoas de todo o país. Esse é o melhor termômetro. Mas, tudo isso era previsível. O que não era previsível era ouvir a apresentadora Patrícia Maldonado (de modo particular a considero ótima profissional independente de qualquer coisa) falar que em Parintins as moças que encenavam as sinhazinhas do boi precisavam pintar os cabelos de louro, pois todos aqui são descendentes indígenas. Uma visão etnocêntrica de ela. Mas, tudo isso, mesmo assim, era previsível. A palavra Amazônia soa distante dos ouvidos de nossos co-irmãos brasileiros. O que realmente não era previsível é que, saindo de nossa condição periférica -- de seres colonizados, menores em valor --, uma jovem cabocla chamada Ana Paula Ianuzi, que acabou de assumir o título de sinhazinha do boi Garantido, fosse em rede nacional dar uma «aula» sobre a formação étnica amazônica. A moça, com toda a razão, não gostou de ser tida como indígena, não por vergonha, mas por o simples fato de que ela é parintinense, de pele e cabelos claros, descendente de europeus, japoneses, indígenas e uma gama de outros povos que, como bem escreveu Darcy Ribeiro, compõe o «povo mais miscigenado do Brasil». Se fosse com mim, um «índio», nascido em Manaus, com quase 1 e 80 de altura, pele branca, cabelos anelados e por os no corpo eu também não aceitaria ser chamado de índio pois fisicamente não posso ser considerado indígena, a não ser por o fator consangüíneo, mas assim sendo poderia eu ser considerado europeu, japonês, negro. A idéia de região de Bourdieu precisa ser revista. Pena que o próprio Brasil não saiba disso. Só me fica a pergunta: melhor não seria se o Festival Folclórico de Parintins continuasse a ser como antes, apenas dos amazônidas e de antecedentes estrangeiros de Ana Paula? Eles pelo menos nos chamam de caboclos. Número de frases: 34 «Polaróides, barulhos distorcidos, celebrações, amigos reunidos». A voz é aguda, de veia saltada no pescoço. O riff segue se repetindo, enquanto a base alterna tons -- uma mudança de contexto harmônico muito explorada por as ditas bandas indies norte-americano. Celebrações, amigos reunidos, o baixista está em transe, a Espantalho começa a tocar e de repente o vício de cigarros, vodkas e conversas paralelas retornam ao fundo do plano. O palco está no centro da atenção, no cerne da questão que encuca quem escuta o rock amazonense: por que insistir em noites que só pagam pau e cachê para quem toca melhor o que já toca na rádio (ver matéria " A casa da árvore e o estado vegetativo "), em vez de assistir a quem dá a própria cara a tapa? Como diz a letra de " O extraordinário ": «se for pra cair de cara, porque não pagar pra ver?». Eu tenho banda de rock, e por isso compartilho de um sentimento bastante comum no cenário roqueiro independente de Manaus: adoro dividir o palco com a Espantalho. Há dois motivos muito simples para isso: o primeiro, mais sentimental, é o fato da música ser muito boa, rica na maneira peculiar com que o trio constrói suas melodias e harmonias, e de ter feito parte da adolescência de toda essa geração de roqueiros que está por aí. O segundo, totalmente prático, é a certeza de que ao final da noite terei uma boa grana da bilheteria pra aliviar, pois o grupo é sinônimo de platéias generosas num cenário geralmente difícil em termos financeiros. A Espantalho é uma dessas bandas com carisma indiscutível, possui uma relação de respeito mútuo bastante estreita com os fãs, que cantam todas as músicas e vibram com cada detalhe nos shows; e com os outros grupos da cidade, que a enxergam como uma das pioneiras no que ficou conhecido como a nova geração do rock amazonense, brotada nos anos 90. Era uma vez ... Em a avenida Sete de Setembro, próximo à Escola Técnica, havia um bar chamado Casa da Luz, que funcionava, ao lado do Bip Top (rua Ramos Ferreira, Centro), como um dos pontos de encontro dos roqueiros manauaras -- mais tarde surgiriam outros como o Ecos Bar, MacIntosh, Planeta Rock e War Zone. Era uma época de efervescência criativa, quando diversas bandas de garagem espalhadas por a cidade começaram a buscar uma sonoridade diferente, diante dos ouvidos atentos da molecada de então, sedenta por coisas novas. A equação estava fechada: havia boca que falasse, microfone à disposição e orelha interessada com algum dinheiro no bolso. O funk engajado da Charlie Perfume, o blues da Veneno da Madrugada e o peso da Jack Daniel's, além do indie rock da Zona Tribal e da Espantalho (chamada Scare Crow de 92 a 95) são alguns dos sons que mais marcaram esse tempo. Voltando à Casa da Luz, numa das festas realizadas por lá, havia flores no chão, vinis nas paredes e velas acesas por onde dava. O público ficou no palco, e a Espantalho tocou na platéia a canção que se tornaria hino dessa geração, «Red», uma das composições mais melancólicas do grupo, que serviu de base para a letra sobre o suicídio de Kurt Cobain. É interessante observar esse fato por os paralelos que ele traça. O Nirvana tem uma relação muito especial com essas bandas que surgiram por aqui naquela época -- e provavelmente com muitas bandas de outras diversas localidades. É o tipo de grupo que pega por a veia, que devolve o rock à molecada, que quando a gente escuta dá vontade de montar a própria banda, assim como deve ter sido com o Velvet Underground nos anos 60. Bem, o fato é que no universo restrito ao rock manauara, a Espantalho também assume um pouco esse papel de motriz indireto de novos grupos. Na medida em que os bares abriam espaço, as bandas apareciam para diversificar a cena, e do meio para o fim dos anos 90, a cidade já contava com muita coisa boa para mostrar. Uma prova disso foi a realização do primeiro Festival Fronteira Norte, em dezembro de 98, um evento que durou dois dias e apresentou 23 bandas num palco profissional, instalado num sítio no Km 30 da estrada Manaus-Itacoatiara. Criado e organizado por Mencius Melo, vocalista e letrista da Zona Tribal, o Fronteira foi um marco na música amazonense -- e só a título de curiosidade, toda a boa estrutura de palco e sonorização foi conquistada graças a um acordo com o grupo de motoqueiros chamado Mercenários, que em contrapartida realizou um concurso de garota camiseta molhada no evento. Apesar desse crescimento do rock, a cena acabou sofrendo um retrocesso inexplicável na virada para os anos 2000, com o retorno de um, digamos, império de covers. Disco Depois de mais de dez anos de atividades, a Espantalho finalmente lançou seu primeiro disco, auto-intitulado, dentro do projeto «Valores da Terra», da Fundação Villa-Lobos FVL (hoje Secretaria Municipal de Cultura), que bancou a gravação de uma boa leva de CDs de rock em 2003. Como o projeto era muito amplo, entretanto, houve pouco tempo disponível de estúdio para cada uma das muitas bandas; e o que foi pior: todas elas eram praticamente virgens de estúdio. O problema do CD, na parte técnica, se resume aos timbres, que estão longe de como a banda soa ao vivo. Em o mais, é o lamento de fã, pois o disco já saiu meio velho, defasado, por ter sido uma espécie de apanhado dos dez anos. O repertório das apresentações, apesar de ainda incluir clássicos como «Red»,» Amanhecer dirigindo «e» O extraordinário», já está cheio de coisas novas, muitas de elas sem registro. Uma boa é conferir «Tempo de Despedida», nova composição que entrou na coletânea» Casa da Árvore», lançada no Banco de Cultura do Overmundo. O projeto de disco novo, por outro lado, com dez faixas e produção cuidadosa, ainda é promessa em busca de patrocínio. Os que quiserem conhecer o som da banda também podem baixar algumas músicas no site da trama virtual. Número de frases: 42 Artistas, produtores culturais e parlamentares reuniram-se em audiência pública da Comissão de Economia e Desenvolvimento, nesta quarta-feira (26), para discutir o tema «economia da cultura». Após as palestras das pesquisadoras Ana Carla Fonseca Reis, Paula Porta e Valéria Barros, o proponente do debate, deputado Ronaldo Zülke (PT), sugeriu a formação de um grupo de trabalho (GT), que se propôs a coordenar a criação de programas de fomento e de linhas de crédito para atividades culturais e a realização de um levantamento geral por parte da Fundação de Economia e Estatística do Estado (FEE) do setor cultural no Estado. Também acatou a proposta de criação de uma incubadora cultural, sugerida por o produtor Alê Barreto, e de contestar o valor de R$ 250 mil previsto no Orçamento 2008 para o Fundo de Apoio à Cultura (FAC). «A atividade cultural é importante para o entretenimento e faz bem para a nossa alma, mas também é geradora de emprego e renda e fundamental para o desenvolvimento econômico do Estado», disse Zülke (PT), na abertura do debate. Em seguida, a assessora especial do ministro da Cultura e coordenadora do Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura, Paula Porta, apresentou um panorama da economia da cultura ao longo da história. O setor, explicou a técnica do Governo, envolve toda a criação artística e cultural, bem como produtos e serviços ligados à fruição cultural. «Abrange todos os segmentos artísticos, editoriais, de comunicação, de festas, expressões populares, design, moda e publicidade», exemplificou ela, informando que o Banco Mundial estima que o setor responde por 7 % do PIB mundial. O grande desafio hoje, segundo ela, é incluir o fomento ao setor no rol das políticas estratégicas dos governos. A administradora pública e economista Ana Carla Fonseca Reis, autora do livro Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável -- o Caleidoscópio da Cultura e consultora da ONU em economia criativa discorreu sobre a economia da cultura desde as relações de mecenato até os dias de hoje, passando por a Revolução Industrial, por a Guerra Fria e por a consolidação como disciplina a partir da década de 60. Entendendo desenvolvimento como «expansão da liberdade de escolhas», apresentou as relações do tema com a economia da cultura. A consultora destacou a necessidade de políticas públicas com objetivos definidos. A coordenadora de Cultura e Entretenimento do Sebrae Nacional, Valéria Barros, avaliou o cenário cultural no país como promissor e citou uma série de projetos apoiados por a instituição, como a Feira de Música do Ceará e a Cidade do Samba no Rio de Janeiro. Antigamente, disse ela, os resultados do setor se baseavam em dados quantitativos, como o número de consultas realizadas, porém hoje se dá mais atenção às mudanças desencadeadas a partir dos projetos apoiados. O presidente do Conselho Estadual da Cultura, Gilberto Herschdorfer, criticou a ausência de políticas culturais no país e defendeu a descentralização da cultura por meio da criação de um conselho nacional e de conselhos municipais de cultura. Contestando a interpretação de estatísticas apresentadas sobre o setor, disse que não há hoje mais salas de cinema do que em anos anteriores, apenas uma maior concentração de salas nas grandes capitais. «Noventa por cento dos municípios não têm salas de cinema», observou. A consultora da ONU, Ana Carla Reis, lembrou que embora não haja salas de cinema em vários municípios, existem locadoras de vídeo, por isso a necessidade de se conhecer a realidade e traçar metas. Se a intenção for propiciar à população a experiência de ir ao cinema, a ação será uma; mas se a idéia for divulgar o conteúdo das obras cinematográficas, a medida será outra, exemplificou. Participação Acompanharam a audiência os deputados Nelson Härter (PMDB), presidente do grupo técnico, Ronaldo Zülke (PT), Raul Pont (PT), Elvino Bohn Gass (PT), Raul Carrion (PCdoB), Heitor Schuch (PSB), Miki Breier (PSB), José Sperotto (DEM), Mano Changes (Pp). Também presentes os escritores Moacyr Scliar e Luiz Coronel, o diretor teatral Camilo de Lélis, os ex-secretários estaduais da Cultura, Victor Hugo, e do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais, Zeca Moraes, os representantes da Secretaria Estadual da Cultura, Fabio Rosenfeld, coordenador da LIC, e Luiz Armando Capra Filho, assessor de projetos especiais, o assessor de Operações da Caixa-RS, Fernando Gomes, entre outros representantes da comunidade artística. Nota Explicativa: Número de frases: 23 A presente matéria foi produzida por a Agência de Notícias da Assembléia Legislativa do RS, é informação de domínio público e foi aqui reproduzida com o objetivo de dar visibilidade às iniciativas de fomento à Economia da Cultura que estão acontecendo no RS. Rock da década de 50, influências como Elvis, Chuck Berry, Stray Cats. Junte tudo isso com The Beatles e vá logo perceber que a banda é nada mais ou menos que Sapatos Bicolores, diretamente de Brasília, que se apresentará em Porto Velho, na «Festa Casarão» -- Uma festa na Floresta, no próximo dia 14 de outubro. Em uma rápida e virtual entrevista, o vocalista e guitarrista André Vasquez, vai expor o que é, definitivamente, a banda Sapatos Bicolores. André promete, na «Festa Casarão»,» show com litros de suor e ' fritação '. De deixar a calcinha molhada». Confira!!! Marcos Paulo -- Como começou e por que Sapatos Bicolores? André Vasquez -- Eu tinha um par de sapatos bicolores. Juntamente com o Mauricinho Sobrinho (um grande amigo), a gente saía de carro, comprava cerveja e começava a ouvir as músicas que só a gente gostava de ouvir. Tipo, Elvis, Chuck Berry, Stray Cats, Cascavelletes e por aí vai ... Quando a gente bebe, esquece de um bocado de coisa, mas achei que era um bom nome. Levávamos um «gravadorzinho» para registrar os nossos comentários e idéias de letras. De esses comentários, eu chegava em casa e ouvia as fitas, e, eventualmente, compunha as músicas. Mais tarde encontraria as duas pessoas que completariam a Sapatos Bicolores: o PC e o Caio Cunha. Marcos Paulo -- Vocês tem uma influência com o rock dos anos 50, mas existe um lado meio «som de garagem». Afinal, qual é a principal influência dos Sapatos Bicolores? André Vasquez -- Rock. Tudo que tem a ver com rock, a gente tem como influência. Eu gosto do mesmo tanto de Stray Cats, Supergrass e Kiss, por exemplo. Só Beatles que eu gosto mais do que tudo. Marcos Paulo -- Quanto tempo de criação da banda? André Vasquez -- 22 de abril de 2002. Esse foi o primeiro show com o PC e o Caio. Pra mim, o começo da banda efetivamente. Marcos Paulo -- A partir daí, como aconteceu o processo de espaço no cenário musical, principalmente no estilo mais descolado da banda? André Vasquez -- Difícil como sempre. A gente tocou em vários lugares de Brasília. Mas, fato é, que a Monstro Discos se interessou em lançar nosso EP no fim de 2002. De aí fomos tocar no Goiânia Noise. Já tínhamos tocado em setembro de 2002 em Goiânia. Marcos Paulo -- O que mudou daí para a frente? André Vasquez -- Em o verão de 2002, nós três passamos um mês de férias no Sul do país, e fizemos shows com os Mechanics e Walverdes, em Porto Alegre e Floripa. Foi tudo muito rápido. Em o ano seguinte, a banda tocou em Belo Horizonte, São Paulo, Londrina, Curitiba e mais uma vez em Porto Alegre. Goiânia virou nosso maior público. Marcos Paulo -- E qual é o público da banda? André Vasquez -- Bem variado. Mas ultimamente tem dado muita guria de 15-20 anos. O que eu acho, particularmente, agradável. Marcos Paulo -- Enquanto isso, o que se ouvia falar em Brasília quando o assunto era Sapatos Bicolores? André Vasquez -- A gente ficou muito bem falado aqui em Brasília. O comentário que mais nos deixava satisfeito era o do tipo " nem parece que são só 3 pessoas no palco.." Entre 2003/2004, a gente já era cotado pra tocar em festivais, e tal. Em 2003 tocamos no Demo Sul e gravamos o Clube Quente, que ficou pronto mesmo no finzinho de 2004, sendo lançado em 2005. Falta de grana clássica. Marcos Paulo -- Clube Quente é o primeiro CD da banda, então? André Vasquez -- É. Agora estamos juntando grana pra gravar o segundo. É bom que se ouça bem o primeiro trabalho da banda. Porque acredito que o segundo será melhor, com uma participação maior dos três. Algumas músicas mais pesadas, outras extremamente lentas e com algum tipo de piano, muita harmonia vocal. Acho que a banda está mais moderna e original, de uma maneira geral. A gente toca melhor, já gravou um disco, sabe como tirar o seu próprio som. Estamos fritando pra gravar o segundo disco. Marcos Paulo -- Quais foi a música que melhor repercutiu no primeiro cd, o Clube Quente? André Vasquez -- Pô, isso é curioso. A gente tem muitos hits, hahaha. Sério, eu poderia citar várias que as pessoas cantam junto. Pelo menos cinco: Frio coração quente, De carona, A cobrar e a Garota cor-de-fogo. Marcos Paulo -- Falando de festivais, qual foi o último que vocês participaram? André Vasquez -- Foi o Calango, no mês de agosto. Foi muito bom, palco bom, estrutura logística bem organizada, boa divulgação. Adoramos tocar lá, fizemos um show que parece ter agradado o povo cuiabano. Marcos Paulo -- Hoje, como está a agenda da banda? André Vasquez -- Nossa agenda agora está mais tranqüila. Dia 12 de outubro tem show com os Gramofocas e Rockassetes, aqui em Brasília e no dia 14, aí em Porto Velho, na VII Edição do Casarão. Em novembro, provavelmente voltaremos ao sudeste. Marcos Paulo -- Falando daqui ... Como é tocar pela primeira vez em Rondônia, mais precisamente a cidade de Porto Velho? André Vasquez -- Pô. É uma onda. Muito longe de casa, um lugar muito distante e com muito pouca informação. Acho incrível ter interesse no nosso som assim em lugares tão distantes como Porto Alegre e Porto Velho. São tipo 5 mil km que separam as duas capitais e tenho certeza que será uma experiência única. Marcos Paulo -- Em que sentido você fala que há " muito pouca informação?" André Vasquez -- Então, no sentido de que a maioria das matérias (informações) que chegam sobre Rondônia é a cerca de meio-ambiente ou política. Não existe uma cobertura cultural por parte da imprensa. Sobre bandas de underground, também, a gente não escuta falar de muita coisa. Marcos Paulo -- Como foi esse intercâmbio entre a Sapatos e o Vinicius (organizador da " Festa Casarão ")? André Vasquez -- Se eu não me engano, nos conhecemos no Goiânia Noise. Trocamos uma idéia depois do show. Ele tinha se amarrado. Já vínhamos conversando há uma era sobre essa possibilidade. Marcos Paulo -- E quando se firmou essa possibilidade? André Vasquez -- Agora, no segundo semestre mesmo. Marcos Paulo -- O que Porto Velho pode esperar no show da banda Sapatos Bicolores, no dia 14 de outubro, na «Festa Casarão»? André Vasquez -- Cara, pode esperar um show com litros de suor e fritação. De deixar a calcinha molhada. Sapatos Bicolores é André Vasquez na guitarra e voz; PC no baixo e backings e Caio Cunha na batera e backings. Contato: Número de frases: 93 contato@sapatosbicolores.com.br Para começo de conversa, o nome é até difícil de entender. Conseqüentemente, também complicado de pronunciar. Inspirado numa sobremesa italiana que, entre outras coisas, tem como ingredientes básicos sorvete de creme e carolinas cobertas por calda de chocolate, a banda pernambucana Profiterolis apresenta em seu repertório canções que nem sempre são tão fáceis de ser ingeridas. Seja isto por o apelo não-pop de suas linhas melódicas, como também a temática de suas letras, carregadas de ironia e sarcasmo. Para explicar melhor é bom voltar onze anos, onde tudo começou. «A primeira formação durou cerca de cinco anos, e só tinha como integrantes Tomaz, meu irmão; Paulo e Fabão. Em essa época os três só gravavam em fita K7, meio que por diversão», lembra Mateus, o baixista, que na época só acompanhava de longe. Mas a partir de 2000, a banda tomou vergonha na cara e iniciou uma fase de ensaios em estúdios Hoje a formação está mudada. Restaram Tomaz (voz, violão, guitarra e teclado) e Paulo Jr. (pandeiro, efeitos e voz). Juntaram-se a eles, Carlos (guitarra), Lara (violão, percussão e voz), Leonardo (bateria e voz), Mateus (baixo) e Diego (teclados). A entrada de toda essa galera fez com que a banda mudasse sua sonoridade, que antes era resumida a guitarra e instrumentos de percussão. Segundo o baixista, «tem muita música que a gente toca hoje que é daquela época, o que mudou foi que o som ficou maior e os arranjos mais elaborados». A Profiterolis dessa nova fase busca um som menos hermético, vai atrás de uma musicalidade mais acessível, mais simples, porém sem descaracterizar o punch experimental que sempre adotou. A o escutar a banda pela primeira vez, você nota claras referências de artistas como Tom Zé e o pessoal da Tropicália. Para Mateus, vai além disso. «A gente escuta de tudo, desde Rock até Soul Music, passando também por jazz», analisa. Mais referências e influências? «David Bowie, Marvin Gaye, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Beach Boys, Miles Davis, Mozart (risos)». A Profiterolis tem em seu cast integrantes que compram a idéia de viver de música, e isso é um grande passo para o desenvolvimento interno do grupo. «Metade da banda estuda música e acho que isso ajuda muito, pois a gente fica mais familiarizado com os instrumentos e ao mesmo tempo com a linguagem musical como um todo. Seja tocando ou estudando», acredita Mateus. Música em Pernambuco Pernambuco é referência no Brasil em termos de música. O estado, invariavelmente, tem demonstrado sinais de vitalidade ao revelar bandas de pura qualidade autoral. Inserida no rótulo indie que assola o estado, a Profiterolis consegue ser uma das poucas bandas da safra que apresentam uma identidade própria. «O potencial dos artistas pernambucanos já está mais do que comprovado, o problema é que a estrutura de sustentação é falha, falta profissionalização em todos os âmbitos. Resumindo: Grana», denuncia Mateus que também rasga elogios a bandas conterrâneas como Nação Zumbi, Mombojó e a debutante Ahlev de Bossa. A Profiterolis lançou um single virtual (Licor de Jenipapo e Troco) por o selo independente Bazuca Discos que é encabeçado por o pessoal do " Coquetel Molotov. «A gente é amigo da galera do Coquetel Molotov faz muito tempo. E eles sempre nos deram muita força, sempre fomos convidados pra festivais organizados por eles», contextualiza o baixista. E completa bem humorado: «Baixem as músicas no site e gostem ou não!». Single Virtual aqui: Profiterolis -- Troco Profiterolis -- Licor de Jenipapo Ou aqui: Profiterolis. Número de frases: 39 com * texto originalmente publicado na Revista Paradoxo (www.revistaparadoxo.com) Tudo bem, Romário até que chorou um pouquinho, abraçou a mãe, agradeceu a família e deu a volta olímpica cercado por fãs e jornalistas. Em a mesma semana, o Globo Esporte anunciava um documentário inédito sobre a vida do artilheiro, provavelmente uma espécie de cine-biografia bajulatória e engraçadinha. O mundo da bola e do cinema vêm se encontrando com uma saudável frequência. «Inacreditável: A Batalha dos Aflitos» de Beto Souza, contou a épica conquista do Campeonato Brasileiro Série-B por o Grêmio em condições precárias: no estádio do adversário, com quatro jogadores a menos, um penâlti contra. Tudo conspirava, mas o time gaúcho se superou e permitiu a realização desse incrível documentário, que inclusive teve uma bilheteria razoável nos cinemas. Pelé já tinha sido cine-biografado em 1975 por Luis Carlos Barreto com «Isto é Pelé», uma espécie de Cine-Aula, pois além de contar seus feitos, Pelé ensinava didaticamente como se deve matar uma bola no peito, como se chuta de trivela e como cabecear com o pescoço firme e os olhos abertos. Mas foi com «Pelé Eterno», de Anibal Massaini, que o Rei do Futebol definitivamente teve um filme à altura dos seus feitos. Estão lá centenas de imagens mostrando os seus dribles: canetas, meia-luas, lençóis, elásticos e arrancadas. Também depoimentos de jogadores, familiares e amigos. E, naturalmente, os gols. Os mil e cacetadas gols que marcou. Inclusive o tal milésimo gol. Em preto-e-branco, encharcado de suor e glória, Pelé é ovacionado por o povo e faz um apelo às autoridades do país: «Salvem as criancinhas ... o Brasil precisa ajudar as criancinhas ...!" Pelé, como bom marqueteiro, fez de sua marca histórica um veículo para o bom-mocismo. Em os idos de 1969, tudo era mais lúdico, mais verdadeiro. Já o milésimo gol de Romário, que fatalmente será cinematografado para as futuras gerações, foi bem menos emocionante. Ele nem suado estava, uma vez que é fato conhecido e amplamente divulgado, que é um banheirista nato. E a verdade é que não tinha nenhum apelo a fazer. Apenas agradeceu a família, os amigos, papai-do-céu, e ficou naquela lenga-lenga. Número de frases: 24 Chorou um pouquinho, deu a volta olímpica e foi para uma churrascaria comer picanha no alho e fumar charutos cubanos. Não se avexe. Isso é felina, coisa de grande porte com valente tocada. E não tem nada de conversa de bafo ou de traição. Moça de bom grado que sabe aproveitar a folia de um congado ao triângulo do batalhão. É o instrumento que toca e entorta as cadeiras, acompanha bem caixa e tambor. E de roda em roda eis a peça musical, a roncaria da onça. De o Lambe-sujo, às Caceteiras de Seu Rindú, aos Bacamarteiros de Carmópolis e ao Samba de Pareia. De batuque em batuque, Sergipe vai se cadenciando no vigor do toque. E na dança, essa menina entra no auxílio de instrumentos como a viola, os pandeiros, os triângulos, os agogôs e os puxadores. às vezes secundária, mas nem por isso menor. «Quem marca a entrada do samba, logo depois da toada? Já pensou quem ia guiar o tambor, sem ela?», questiona Seu José Francisco Mota de Assis, responsável por o versar no grupo Samba de Aboio. Toda Semana Santa, época de festa no povoado Aguada, em Carmópolis, esse homem entoa assim: «Ôoooo rainha, a princesa Isabel / Tambor é oco do pau, cortiço da uruçu / Ôoooo rainha, a princesa Isabel / Chocalha meus dois ganzás, mais vai ô meu tambor». De os versos à apresentação. A onça é um cilindro oco, tendo por tímpano uma pele esticada por meio da qual, por a parte interna, prende-se uma haste de pau que, friccionando-se com a mão molhada, produz um som de ronco de um animal. De aí a associação ao nome do felídeo. «Em a comemoração religiosa, nossos tambores são os mais tradicionais do Estado», conta Seu José Manuel, primeiro homem da onça. O irmão gêmeo de Seu José Francisco narra a razão do samba, passado há gerações entre sua família. «A festa de Santa Bárbara e o aboio passaram a ser comemorado todo sábado de aleluia e domingo da ressurreição. Quando foi roubada de Angola, na África, a menina chamada Tamashalim Ecuobanker foi vendida ao Brasil. Uma de suas filhas, Maria da Solidade (minha bisavó), quando criança encontrou uma pedra na margem de um tanque em Japaratuba. Sua mãe disse que era Iansã ou como chamamos de Santa Bárbara», explica. Desde então é realizada homenagem à santa, considerada milagrosa, e à princesa Isabel por a abolição da escravatura em 13 de maio de 1888. De a fuga ao cavo «Tava capinando, a princesa me chamou / Alevanta nêgo, cativeiro se acabô / Samba, nêgo, branco não vem cá / Se vier, pau há de levar». Essa canção marca o segundo domingo de outubro na cidade de Laranjeiras. Homens melados de cabaú e xisto preto sabem que o som não deixa de roncar. E sambam de maneira que pesquisador gosta de abordar como «profana». Em a luta por a liberdade, a percussão entra como força de batalhão. Quem explica melhor é uma das figuras do teatro popular, o rei dos Lambe-Sujos, mais conhecido como " Seu José Rolinha. «A onça tem que ser feita de couro de animal e madeira de árvores do tipo mijadeira e pau pereira. Há quem diga que sua principal parte é confeccionar a calda, justamente por sua resistência e sonoridade», justifica. De essa forma é considerado um instrumento bifônico, ou seja, gera dois sons ao mesmo tempo, pois é percussionada com uma baqueta, emitindo o som de um bumbo, friccionada internamente, produzindo som grave. Já a avaliação do percussionista Pedrinho Mendonça é outra. «A onça não deixa de ser um tambor. Só que adicionaram uma varinha que fica no meio do centro do aro da polegada do instrumento. Os grupos folclóricos, geralmente, usam as onças de 11, 12 ou 13 polegada», esclarece. O seu instrumento, denominado como onça-cuíca ou cuíca-onça, é de 10 polegadas. Qual a diferença do seu para os dos grupos folclóricos? «As partes são as mesmas. É o corpo, a pele, a varetinha e um pano molhado pra fazer o som. O meu instrumento é uma cuíca também. Se eu apertar afinação fica carioca, se eu folgar fica região Nordeste. A madeira deixa o som mais grave, mais apurado mais bonito, mas no meu caso ela é feita de metal e com couro de cabra», resume o fundador do grupo Membrana. Quando questionado sobre a lenda de que a onça é uma avó da cuíca, o músico brinca: «Eu devia ter mais histórias como essas para contar». E sobre laços de familiaridade, ele prefere mesmo é relatar como desenvolveu a oficina que resultou a banda desde 2000. Juntando cidadania com música, o filho de Tia Lu e Vivaldo Mendonça saiu da Rua Divina Pastora e foi dar aulas para comunidade da Caixa D ´ Água, no " Centro de Criatividade. «Eu subia o morro para tocar, mas o morro tem outros problemas sociais. Procurei interagir com a música para me aproximar», conta o aracajuano. Hoje o músico soma no currículo passagem por a Sec Banda, Orquestra Sinfônica de Sergipe, por a banda de artistas sergipanos como Amorosa, Antônio Carlos du Aracaju, Chiko Queiroga, Sulanka e fala do seu mais novo projeto, o Burundanga. Com a intenção de construir um corpo percussivo, composto por uma seqüência de caixas, surdos, onças e outros ronroms, Pedro afirma que " a idéia do bloco é mostrar nossos ritmos das manifestações culturais e sair tocando. Traga seu instrumento e venha ser feliz». E como já está no significado do nome «Burundanga,» sortimento de remédios caseiros», escolha sua «medicação» e toque. As aulas-ensaio são na Orlinha do Bairro Industrial na Avenida General Calazans, número 354 (Casarão de Rato). Sempre às quartas-feiras, das 19h às 21h30 e aos sábados de 15h às 18h. E o convite é de ele. «Sigo a idéia que se você quer tocar e acha que não pode tocar, agora vai», provoca Pedro Jorge com o bom tom de vender suas histórias e criar suas futuras «feras». Assim segue ela. Em o controle de mestres e de tradições que se inventam, em meio a circularidade de referências, rearranjos, cheia dos significados, em melodias quase ocas, essa menina vai sendo domada. Sem vergonha na roda, fazendo pé gemer, bulinando de mão nova a calejada. Bicha braba. Ronm ronm. Longa vida. Número de frases: 66 Hoje é um dia de polêmicas na esfera da música brasileira. A entrevista de Lobão para a Folha é recheada de mea culpa, conversa mole e desculpas esfarrapadas disfarçadas de teoria. A verdade é mais simples, e dispensa maiores argumentos: Lobão cansou da luta revolucionária, ou então endoidou, e agora acha que os «novos» executivos da SonyBMG são mecenas da grande arte: «Estou fechando um ciclo. «Canções da Noite Escura [2005 "] foi um dos meus melhores discos. Quando saiu, foi um fracasso. Vendeu umas 15 mil. Foi pífio. Custou quatro anos da minha vida pra fazer esse disco. É frustrante. Tive então a idéia de fazer disco ao vivo. Choveram propostas. Praticamente todas as gravadoras me procuraram. A os 46 do segundo tempo, a SonyBMG falou com mim. Aí eu vejo pessoas diferentes por lá. Não sei quantos processos eu tenho contra eles. Isso aí é outra coisa. O pessoal de agora não tem nada a ver com aquilo. Assim como eu converso com um executivo da Petrobras pra captar recursos pra minha revista, eu sou um empresário. Pô, eu vou ficar com raiva de eles [da gravadora]?». A resposta é não caro Lobo, de fato não é preciso ficar com raiva das gravadoras, mas daí achar que o formato MTV Acústico mudou, aprimorou, e que seus novos patrões são seus amigos, aí é quase zombar da inteligência alheia; ao ser perguntado porque seus pares [Capital Inicial? Ultraje a Rigor?] eram decadentes e ele não, eis a resposta: «Mas eram decadentes mesmo! Você tem que entender que o contexto mudou. Repare bem nos artistas que estavam gravando o'Acústico ` na época em que eu falava isso [97]. Hoje, o Marcelo D2 fez um puta ' Acústico '. O Zeca Pagodinho também. Pô, o que eu posso fazer se o nível melhorou? O que eu posso fazer se eu tive a oportunidade de fazer um disco bom? Qual a contradição?" Claro que não mudou nada no formato. Então o D2 evoluiu? Como assim? Pode-se dizer que ele também se domesticou, não é demérito nenhum ganhar dinheiro com seu trabalho, ainda mais se esse trabalho tem a qualidade que tem o do D2; e o Zeca? é mais sambista agora? Como explicar os acústicos do Gil, de 1994, talvez um dos melhores que se fez, decadente? É um formato, ou seja, um padrão, com cordas cafonas ou não permanece sendo um nivelamento sonoro e estético. O do lobo também vai ser, e certamente vai ser um puta programa, como foi o do Lenine há poucos meses. A necessidade de justificar sua participação tem menos a ver com a opção de ser distribuído de forma menos mambembe que nas bancas do que uma vontade de dar a cara a tapa, de ver seu grande trabalho veiculando Brasil afora; seria mais simples explicar assim, do que ter que defender os agora bonzinhos executivos. Lobão é tudo, menos burro, e menos ainda ingênuo. Pude assistir o que o Lobão chamou de «primeiro ensaio» para o Acústico, em Belém, final do ano. Ele e mais um músico apenas no palco. Foi um dos shows mais vibrantes que eu vi ano passado, e já anunciava o diferencial da gravação futura: era o Lobão que ia gravar, não um oportunista qualquer. Mas é uma adesão, sobre a qual não cabem julgamentos -- como esse da Folha, nem condenações. Trata-se de um artista pop vendendo seu peixe, funciona assim há décadas. Claro que o «revolucionário» morre um pouco, e isso entristece a todos nós, de algum modo artistas. Sua força vai esmorecer, sua credibilidade também; sempre precisamos fazer opções. Agora afirmar que «eu não estou decadente, o disco tem um repertório ousado e me sinto um cara do universo paralelo invadindo o mainstream» causa uma sensação estranha, infelizmente muito similar a ver os PFListas se chamando de Democratas ... não Lobo, você não está invadindo nada, eles é que estão cooptando você. Pra fechar a frase mais triste: «Se você continuar lutando, vai parecer aqueles japoneses da ilha de Iwo Jima que continuaram resistindo [na Segunda Guerra]». Você não entendeu nada velho Lobo!!!??? Quer dizer que eles foram uns babacas em tramar uma estratégia de morte sublime? Então tua luta era uma encenação? Número de frases: 61 Você não soube morrer, agora aprenda a sobreviver. Sementes de tucum, tucumã, inajá, caroço de açaí, madeiras, cipós e fibras amazônicas, que normalmente se perdem por o chão da floresta e ficam inutilizadas, estão ganhando uma nova utilidade. Em as mãos de ribeirinhos das comunidades de Cachoeirinha e Panacarica, no Baixo Rio Branco, sul do Estado de Roraima, eles estão se transformando em belos produtos que denominam «jóias da floresta». Ao todo, 42 famílias estão envolvidas nessa atividade que vem ganhando cada vez mais apoio e sustentação para os ribeirinhos. Atualmente, a produção de cada comunidade está em torno de 50 pares de brincos, colares e pulseiras por mês. Em Panacarica, última comunidade ribeirinha localizada na divisa com o Amazonas, os próprios artesãos estruturam um local dentro de uma casa para comercializar os produtos aos turistas que visitam a região para a pesca esportiva. Como a maioria dos turistas que visitam a região do Baixo Rio Branco é estrangeira, as peças artesanais dos ribeirinhos já estão rompendo fronteiras. «Vem gente de todo lugar, dos Estados Unidos, da Europa, da Venezuela e de outros países e compram o nosso produto, que consideram exótico», explica Alberta Marques Gomes, 34, uma das artesãs de Panacarica. Ela conta que divide seu tempo entre os afazeres domésticos, produção de mandioca e o artesanato. E o retorno tem sido recompensador. «Chego a ganhar até R$ 200 por mês com a venda dos anéis que produzimos. É um dinheiro a mais que não tínhamos que serve para comprar material escolar e roupas para as crianças», comemora. Além das vendas nas próprias comunidades, as jóias da floresta são comercializadas atualmente para cidades amazonenses como Barcelos e Manaus. Para levar os produtos, um representante do grupo viaja de barco até a capital do Amazonas para distribuir as jóias nos locais de venda. Além disso, os artesãos contam com o apoio de instituições públicas e privadas, como o Sebrae, que já proporcionaram levar o artesanato do Baixo Rio Branco para feiras nacionais, como a Feira da Providência, no Rio do Janeiro, e a Feira Mão de Minas. Quem também tem feito sucesso com as jóias da floresta é a artesã Leia Silva, que produz objetos com sementes e madeiras há mais de seis anos. Ela faz parte do grupo Jardim das Copaíbas, que reúne vários artesãos produtores dos mais diversos tipos de artesanato. «O negócio vem dando tão certo que já recebi convite para expor minhas peças na Itália», comemora ela, contando que com a venda de seus produtos já conseguiu comprar uma máquina de corte de madeira para intensificar sua produção. Brindes artesanais Outro grupo que faz sucesso na produção artesanal em Roraima é o Lavrando Arte, que já está no segmento há cinco anos. Sua linha de produtos é formada por uma série de brindes institucionais, ideais para presentear visitantes ou até mesmo funcionários, clientes e colaboradores. As camisetas exaltam figuras da iconografia de Roraima. As mais requisitadas têm a imagem do Monte Roraima e dos cavalos selvagens do nosso lavrado. Além desses, o grupo também produz jóias da floresta, porta-celular, chaveiros, jogos para escritório, porta-pratos, tábua de frios e até móveis como mesas e cadeiras. Recentemente, o grupo iniciou também um trabalho com biscuit, produzindo bonecos com tema das profissões, como soldado do exército, médico, advogado, jornalista, entre outros. Parcerias O trabalho dos artesãos tem sido facilitado nos últimos anos através da parceria com várias instituições públicas e privadas como o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), Sesc (Serviço Social do Comércio), Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Superintendência Federal de Agricultura, Departamento de Cultura do Estado, UFRR (Universidade Federal de Roraima), Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio? s Pequenas e Micro Empresas), além de prefeituras do Interior e da Capital. Em o fim do ano passado, esses parceiros se comprometeram em desenvolver um projeto de fortalecimento do artesanato de Roraima nos próximos dois anos. Uma das principais metas do projeto visa elevar em 30 % o número de pessoas desenvolvendo atividades artesanais até 2007. Outro resultado previsto é implantar em 20 % dos grupos de artesãos um sistema de produção integrada para determinados produtos. O projeto prevê ainda o aumento em 30 % do faturamento dos grupos de artesãos. Para alcançar todas essas metas, cada instituição se responsabiliza em realizar determinada atividade, de acordo com sua área de atuação. Um das atividades que o projeto prevê é a realização constante de capacitação técnica, gerencial e operacional dos artesãos bem como oficinas para a implementação de novas tecnologias que visam a melhoria de produtos e dos processos produtivos. O público beneficiado por o projeto também terá a oportunidade de participar de feiras e missões a eventos de outros estados do País, visando a inserção dos produtos roraimenses em outros mercados. As instituições parceiras pretendem ainda criar uma página na internet para divulgação de produtos artesanais do Estado de Roraima. Todas essas atividades deverão ser implementadas até o final do ano de 2007. Número de frases: 37 O Problema Nosso de Cada Dia Uma Crônica Para O Leitor O cardiologista e escritor Lair Ribeiro se tornou o papa da literatura de auto-ajuda. Um fenômeno editorial com mais três milhões de livros vendidos no Brasil e no exterior. Seus manuais do viver-bem nesse «Admirável Mundo Novo» viraram bíblia de uma geração de ansiosos, psiconeuróticos no divã do salve-se-quem-puder. Seguindo a mesma linha da auto-estima, o guru Paulo Coelho, projeta em seus livros a imagem medieval, reinventando a mágica da imbecilidade moderna. Vende uma utopia ultrapassada e recorrente. Com isso chegou à Academia Brasileira de Letras (ABL). Preenche a necessidade de purgar os traumas sociais, as frustrações, culpas e recalques -- fraqueza doentia em que prosperam os cultores da falsa moral. A sociedade precisa de muletas conceituais pedagógicas para superar seus desvios mentais e fracassos emocionais. E no limite da razão, agarra-se às profecias de curas miraculosas, aos falsos profetas dos bons costumes -- mercadores de receitas de sucesso. Em o receituário de «Como manter os pés no chão e a cabeça nas estrelas?», a fé é vendida como promessa de salvação, prosperidade e uma vida melhor na eternidade espiritual sem taxas, impostos ou obrigações. Por esse princípio doutrinário, o medo passa ser ferramenta importante na manipulação da consciência coletiva. O suposto pecado -- invenção da cultura pagã -- amedronta o incauto faltoso das promessas divinas. Não bastasse esse confronto: bem / mal, céu / inferno -- de fácil lavagem cerebral de massas -- as pessoas, sob a neurose do medo, adotam «problemas» como padrão de qualidade de vida. Quem nunca teve, ou não tem problemas? Óbvia, a pergunta. Problema nos negócios, no emprego, financeiro, conjugal, familiar, espiritual, existencial. E em pensar em problemas -- olha aí, a mente conturbada. É «problema». Um problemaço, insanável. Imaginar que deveria, poderia; não deveria, nem poderia. Pior, que poderá, deverá ... Quem sabe, talvez, nunca. É o fim. Mas nem só de entrave vive o problemático que tem, no próprio problema, formas de administrar quantos forem os problemas. Em excesso de euforia -- estou mais do que certo -- errados são os outros. Aqueles dividendos mal aplicados ... E o dinheiro recebido em indenizações das terras desapropriadas para os sem-terra? Freqüentar aquele clube, cheio de favelados? A cidade está dominada por favelas, violência e seqüestro relâmpago. Não há shopping que ofereça tratamento privativo ou especial a nós -- os mais iguais. O caixa dois corre sério risco de fiscalização. Isso é problema ou solução? Alguns criam «problemas» onde não há problema. Não sabem viver sem eles e procuram tirar proveito ao máximo da situação, pondo uma dose de realidade à imaginação. Uma vez criado o «problema», o desfecho, às vezes imprevisível, dá mais expectativa e emoção. A vivência em grupo e a conjugal são as que mais causam problemas. Substantivamente, por mais aparentes que sejam os relacionamentos, nem sempre são um mar-de-rosas, delícia desejada. Tirando os problemas de saúde que, em maior parte é de origens psicológicas, como Freud explicava em suas delirantes consultas, as pessoas querem mesmo é ter um probleminha para ocupar o subconsciente. O problema é não deixar o probleminha virar problemão. Quem não está nem aí com nada, ignora ser problemático. Em regra geral ninguém pode viver sem traumas, fantasmas «problemas» que o identifiquem socialmente. De o contrário, seria você diferente, um anômalo isolado na sociedade moderna. Quando alguém não apresenta sintoma de problema é motivo para se pensar num ... que por sua vez gera mil e um ... e quantos sejam necessários à nossa incrível capacidade de imaginá-los. Mas nem só de problema vivem os «problemas» -- o que para alguns seria embaraço: o dinheiro depositado em contas correntes na Suíça, para o ex-governador Paulo Maluf é solução. A corrupção sabe que a justiça é suja, nunca cria problemas para quem a ignora. Os falso-moralistas sofrem mais da doença «problemas». Com certeza, não é o seu caso, leitor. Problemas? Quem não os tem, atire a primeira pedra. O mundo fica mais leve, cada um pode atacar o «P» de frente, de costas, de lado -- como quiser, sem os Lair e Paulo Coelho da vida. Ah! Mas não esqueça: aonde for levar seus problemas, os da rua, do governo -- cotação do dólar e, descarregue-os em quem aparecer na frente. Antes, verifique se você é ou não «Problemas». Caso positivo, dispense o psicólogo, corte o dízimo do Edir Macedo, a Sessão de Descarrego. Deixe a vida monótona do escritório, de reuniões para marcar reunião. Esqueça o condomínio, IPTU, Plano de Saúde que nunca cobre os «P», sua psicose. Jogue fora seus conceitos individualistas, auto-afirma ção sem sentido. Chute para o alto os «cites / ismos» -- bursite, sinusite, gastrite ... Reumatismo, maniqueísmo. Bote uma malha caliente, mochila esporte e tome o primeiro vôo com destino ignorado. ( Número de frases: 67 www.rcarvalho.zip.net) Roberto Carvalho, jornalista e escritor A produtora multicultural Espaço Cubo, que realiza o Festival Calango em Cuiabá, maior evento musical da cena indie de Mato Grosso, está participando ativamente da articulação nacional dos festivais independentes no sentido de se organizar e consolidar a conquista de novos espaços na música brasileira. O encontro realizado em Goiânia para a criação da Abrifin, Associação Brasileira dos Festivais Independentes, propiciou a fundação de um movimento paralelo, o Circuito Fora do Eixo, que reúne vários festivais, entre eles: Calango e Grito Rock (MT), Senhor F (DF), Du Sol (RN), Varadouro (AC), Jambolada (MG), Demo Sul (PR), PMW (Te o) e outros que estão por vir de Pará, Rondônia e Amazonas. Toda essa movimentação representa um avanço político muito interessante no meio cultural. Buscam uma unidade nacional para superar dificuldades, parar de reclamar, se organizar e unir interesses de um segmento musical que se amplia rapidamente em praticamente todos os estados brasileiros. Pablo Capilé, representante do Festival Calango, se entusiasma com as perspectivas de crescimento do setor, que aponta para a consolidação de um mercado próprio e livre das dependências crônicas para distribuição dessa produção: «Estamos trabalhando três eixos estratégicos: a criação do Portal Fora do Eixo para produção de conteúdo, com jornalistas em cada estado, integração de blogs e sites, mailing conjuntos e veiculação, ou mesmo, produção de programas nas rádios e TVs de cada Estado; a Distribuidora Fora do Eixo, que integrará todos os selos existentes nesses Estados, criando assim a possibilidade de uma distribuição absolutamente independente das majors e livre dos jabás que imperam no meio; e, por fim, a Circulação, integrando todos os festivais e produtores para que bandas dos diversos estados participem dos eventos Fora do Eixo, que representa no mínimo um festival por mês a cada ano." Ficou definido que Cuiabá será sede da Distribuidora e da Comunicação, responsabilidades assumidas por o Espaço Cubo, colocando a capital matogrossense definitivamente no cenário indie brasileiro. Eventos e festivais terão sede em Londrina, que também será a primeira cidade a realizar o festival anual denominado Fora do Eixo, com um sistema de rodízio entre todos os estados participantes do movimento. A ousadia não conhece limites, as fronteiras geográficas não são barreiras para o desejo de expansão, Pablo afirma ainda que o circuito pretende se integrar também com países sul-americano. Número de frases: 13 «O Festival Calango, já agora em 2006, irá promover um encontro de produtores da Argentina, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Bolívia e Chile, para ampliar ainda mais nossos mercados e intercâmbios culturais." Surgido como uma proposta de união entre elementos tão diversos como a literatura, a sonoridade eletroacústica, a cultura popular e a valorização étnica, o projeto Axial se vale da tecnologia atual para fornecer uma conexão única entre estes elementos e valorizar antigas tradições, revestidas de uma nova roupagem, ideal para os tempos atuais. Tudo de modo criativo e inesperado. Seu núcleo é formado por Felipe Julián e Sandra Ximenez, além da colaboração do clarinetista Leonardo Muniz Corrêa. O grupo, baseado em São Paulo, começou a trabalhar em 2003 e, já no ano seguinte, lançou um disco que, segundo o próprio Julián, teve uma aceitação surpreendente. «O disco foi gravado todo em nossa casa (eu e a Sandra somos casados) com recursos bem humildes. Tínhamos apenas um microfone, uma placa de som mediana e um computador razoável. Mas em compensação tivemos muitas horas pra experimentar e arriscar», explica Felipe, que ainda acrescenta um pouco sobre a miscelânea sonora do material: «Muitos dos sons ouvidos no disco são objetos nossos como copos e taças de vidros. Alguns outros sons e trechos de músicas haviam sido produzidos anteriormente no famoso Estúdio Panaroma de Música Eletroacústica (FASM/UNESP), quando tive a feliz oportunidade de estudar composição eletroacústica com Flô Menezes e Ignacio de Campos». Para quem não atentou ao primeiro nome citado por Julián, Flô Menezes é, provavelmente, o maior nome da composição eletroacústica nacional, fortemente influenciado por a música de Stockhausen. Estudo e pesquisa estão em conjunto no trabalho do Axial. Também Ximenez imergiu em extratos tão diversos como a sonoridade dos índios Iorubá, os cocos paraibanos, canções de escravos haitianos e as letras de nomes como Mario de Andrade e João Guimarães Rosa. O resultado: uma riquíssima amálgama sonora que envolve o público que assiste aos shows produzidos por o grupo. Para ampliar tal envolvimento, a experiência auditiva inclui um sistema de som quadrifônico, ou seja, com a utilização de quatro canais independentes de som. Este sistema permite um envolvimento mais completo do público, que possui uma sensação sonora muito mais rica do que no tradicional sistema estéreo. Antes mesmo das licenças Creative Commons serem disseminadas ao grande público, Julián já tinha tido, com uma trilha sonora de sua autoria, chamada Urbanogramas, uma experiência de livre disseminação da obra. Ela foi projetada para ser usada por quem quisesse, para a criação de obras derivadas, o que de fato ocorreu: as músicas embalaram espetáculos de dança, peças de teatro, vídeos e como trilha ambiente para exposições e aulas de dança. As licenças CC foram, para o músico, a descoberta da expressão formal de que mais pessoas no mundo pensavam em algo igual ao que ele havia proposto. Por isso mesmo, não teve dúvidas em licenciar o disco de estréia do Axial com a licença Share Alike (compartilhamento por a mesma licença). Afinal, para o grupo, havia muito mais a ganhar compartilhando o acesso à obra do que privatizando-o. «Acredito ideologicamente que não tenho o direito de privatizar o acesso a minha obra intelectual.», expõe Julián, para, em seguida, instigar: «O que dizer então de Tom Jobim? Não deveríamos tratar Tom Jobim como domínio público? Não é isso que ele é? Não é um absurdo que o «Antônio Brasileiro», símbolo máximo da MPB tenha a maior parte de suas obras privatizadas por uma empresa estrangeira? É como se as praias do Brasil fossem propriedade da Disney». A liberdade de distribuição musical, no entanto, é apenas um aspecto do Axial. Mas também pode se destacar a ampliação do acesso à cultura, em suas mais variadas formas, condensadas em termos sonoros. Um dos maiores exemplos é o fato do grupo trazer ao público a sonoridade da etnia africana Iorubá. Para isso, não apenas os shows e os discos, mas também a tecnologia contribui decisivamente. Ainda assim, o Axial não sobrevive da expropriação dos direitos das obras que agrega, mas, sim, do seu trabalho árduo de divulgação, seja através dos shows, seja por meio de oficinas e, claro, da venda dos CDs. Julián, no entanto, enfatiza que este último item dá um retorno irrisório, que até hoje não cobriu os custos de produção: «Temos muitos convites para realizar oficinas de canto, produção musical, trilha sonora, audiocenografia música e tecnologia etc.. E aí, destas oficinas, surgem trabalhos como produções cenográficas etc.. De fato vivemos da música», orgulha-se Felipe. Apesar de não haver um público definido, nota-se um grande interesse de pessoas ligadas à dança que apreciam o universo musical do Axial, que tem muitos trabalhos desenvolvidos em conjunto com parceiros como o Sesc e a prefeitura paulistana. Seus álbuns são distribuídos nacionalmente por a Trattore, selo independente que congrega muitas iniciativas musicais interessantes. Julián, quando fala dos apoiadores do projeto, também destaca a Rádio Cultura paulista, o Overmundo e o portal Last-FM, no qual as músicas do grupo são bastante executadas. Mas a necessidade de outras parcerias, maiores e melhores, é apontada como uma necessidade para o crescimento do projeto, bem como as relações interinstitucionais. «Mas, sem dúvida, precisamos ser mais articulados politicamente», destaca Julián, lembrando que a mídia musical dá pouco destaque a sonoridades que enfatizem uma identidade nacional. Quanto à possível incongruência entre as músicas distribuídas no site do Axial serem as mesmas comercializadas em CD, o músico faz questão de explanar sobre o assunto: «Quando apresentei o CD para a Tratore analisar se o iria distribuir ou não, as faixas já estavam liberadas via CC e isto estava explicito no CD. Portanto, podemos concluir que eles têm interesse em vender, mesmo as faixas sendo distribuídas gratuitamente. De qualquer forma, há uma cláusula que me impede de distribuir gratuitamente o conteúdo em sites que não sejam o do próprio grupo. Assim sendo, respeitamos esta cláusula distribuindo apenas em nosso site, mas não impedimos a liberdade de compartilhamento entre os ouvintes. Se quiser compartilhar pode. É claro que isto só está funcionando desta maneira porque o pessoal da Trattore é esperto e de vanguarda. Eles sabem que isto é bom pra eles». É fato que as relações de comércio envolvendo música digital ainda estão sendo definidas, não por imposição do mercado, mas por tentativa e erro. «A opção tem que ser do usuário e não do vendedor», lembra, acertadamente, Felipe. O Axial, apesar de existir de fato, não existe juridicamente. Os componentes do grupo, no entanto, são filiados à Cooperativa de Música de São Paulo, que é o órgão que presta assistência jurídica a eles. Graças à cooperativa, os músicos associados têm conseguido direitos importantes, como a apresentação de nota fiscal própria para os contratantes, o que possibilita o profissionalismo da categoria e a tira, aos poucos, da situação notória de informalidade que existe hoje no país. Além, claro, da organização política que surge a partir de uma cooperação entre membros de uma mesma classe artística: «A Cooperativa tem hoje mais de 800 membros, de entre eles corpos estáveis inteiros que vêem nesta organização uma chance de batalhar contra a política de sucateamento da cultura que o Alckmin praticou durante seus mandatos e assim, evitar o encerramento das atividades», diz Julián, certamente sem esquecer que o atual governo estadual é do mesmo partido de seu predecessor. Mas levar o Axial ao conhecimento do público é tarefa hercúlea. Há poucos recursos para se pensar em estratégias de divulgação. O trabalho acaba sendo, mesmo, de formiguinha: quando há shows maiores, é possível destinar uma parte do dinheiro para uma assessoria de imprensa, por exemplo. Mas os esforços de divulgação acabam sendo evento a evento e, para isso, a internet ajuda muito. Além do Last-FM, uma área no My Space também agrega músicas do Axial. Também a divulgação para formadores de opinião espalha, quase como um marketing de guerrilha, as idéias do grupo. Isto faz com que, aos poucos, o verdadeiro público do Axial surja, por acreditar e gostar da sonoridade do conjunto, não por a insistência de rádios em tocarem tanto algo que acaba se acostumando com o som. Existe uma necessidade de mudança de paradigmas, como insiste Julián, e esta envolve a consolidação dos conceitos difundidos por o Axial, escapando do jogo sujo dos jabás e afins. Para que, no final, o público que se pretende formar chegue ao som do Axial, retorna-se à distribuição musical: gratuitamente no site, via CDs distribuídos por a Trattore ou por meio do CDVirtual, uma espécie de streaming link que é bem leve e pode ser anexado a qualquer e-mail, permitindo que qualquer um com conexão de internet tenha acesso ao conteúdo integral dos discos do grupo. A disseminação poderia ocorrer com o apoio da mídia estabelecida? Talvez, mas Julián não sabe até que ponto determinados veículos de informação são interessantes para o Axial. O fato é que, hoje, há a consciência de que, por mais inserções que os músicos consigam, será aquém de quem possui o apoio de grandes gravadoras. Felipe Julián acalenta o sonho de ver seu público envolvido com a produção e a promoção do Axial. Tanto que o projeto do novo site, que prevê maior interação com os usuários, está em andamento. Mas, novamente, ele aponta a necessidade de parcerias que viabilizem novos sistemas de distribuição e seleção musical. Talvez seja um caminho para que saiamos deste circuito de colonialismo cultural norte-americano, que, para o músico, é um problema muito mais sério do que se ficar pensando em coisas como concorrência com outros músicos ou projetos. Falando em colonialismo, o tema volta à toda quando o assunto é tecnologia. Afinal, somos dependentes de ela, tanto em conceito como no ferramental. O grupo Axial acredita que a tecnologia é o seu eixo, mas num sentido muito mais amplo do que computadores e traquitanas digitais. Estas últimas são mais instrumento de dominação dos detentores do meio de produção do que qualquer outra coisa. E a solução provavelmente seria produzir tecnologia, ideário e implementação prática, completamente identificada com os problemas enfrentados no nosso dia-a-dia, não encaixar tecnologia importada e adaptá-la. Mais ou menos como diz o ditado: a emenda costuma ficar pior que o soneto. Para manter o Axial em atividade, são necessários cobrir os custos de produção de shows, prensagem de CDs, impressão de folhetos, aluguel de estúdio, compra e manutenção de equipamento. «A Tam acabou de quebrar um case meu e está se recusando a pagar», alfineta Julián. Apesar de não existirem dados reunidos sobre as receitas do grupo, a iniciativa assume que não há regularidade na remuneração dos participantes. O que existem são dados mais palpáveis e imediatos: mais de 1700 CDs vendidos, 775 airplays na Last-FM, 4 horas totalizadas de transmissão de rádio, 34 shows realizados e quase 1200 visitas no MySpace. Quanto à regularidade de receita, a sustentabilidade seria atingida com uma média de dois shows mensais, com cachê total de R$ 4 mil, para poder existir dedicação total ao Axial. Para atingir este objetivo, o trabalho continua: o segundo disco está sendo concluído e também há um projeto novo, chamado Primeiro Pretérito, que envolve outras mídias numa ocupação de um andar do antigo SESC Avenida Paulista, hoje em reformas. «Além disto há um documentário artístico sobre arte e tecnologia que será realizado como um making of deste espetáculo. Em este filme serão entrevistadas algumas pessoas com as quais tive contato nos últimos tempos e que eu considero que tenham uma visão interessante da relação arte e tecnologia», acrescenta Julián. O caminho, porém, tem algumas pedras: a falta de capital de giro, a falta de um circuito de locais para shows e a dificuldade para se comunicar com o público, devido às barreiras da mídia institucionalizada. O que não impede Julián de pensar no futuro: «Gostamos de viajar e conhecer outras culturas dentro e fora do Brasil. Mas principalmente gostamos de ter o prazer de tocar para pessoas que nem imaginam o que vão ouvir. Para tal estamos nos inscrevendo em diversos festivais internacionais e contamos com uma pequena ajuda quase que filantrópica de uma querida produtora em Berlim. Por meio de ela estamos tentando o circuito de festivais europeus». Este mesmo futuro, para ele, tem uma produção musical que segue, apesar do crescente discurso de falência de uma indústria corrompida como a musical: «A música é mais velha que o dinheiro e certamente perpassará esta era mercantil. Não é a musica que não pode viver sem lucro, é o lucro que foi descuidado e perdeu a música já faz alguns anos», analisa Julián, que arrisca especular que os dias que virão trarão CDs com baixa tiragem, download pago de música a preços justos (como R$ 0,30 o fonograma) e mídias portáteis, como celulares, como o novo ganha-pão dos tubarões fonográficos de hoje. Mas, principalmente, arrisca predizer uma revolução no conceito de propriedade intelectual: «Se isto ocorrer, veremos finalmente uma alternativa ao processo de mercantilização das relações sociais e uma série de paradigmas será revista. Em o decorrer deste processo, muita gente vai se indignar e pressionar as instâncias políticas. Se estivermos representados de forma não verdadeiramente democrática, correremos o sério risco de transformar a Internet numa nova televisão. No caso contrário teremos iniciativas como o open business, o share alike, e muitas outras constituindo uma nova realidade. Gostamos da Internet e destas iniciativas porque elas prescindem da política e isto tem sido fantástico para nós. Mas me pergunto se teríamos acesso a tudo isto se tivéssemos ainda ministros da cultura como os que antecederam o Gilberto Gil? Não podemos esquecer da política». Para quem vem com projetos como o Axial, o músico alerta que, para uma produção bem-feita, é necessário dar-se o tempo. Maturar. Ele indica a leitura de Cultura Livre, de Lawrence Lessig (disponível no site do Axial para download gratuito) e recomenda a indignação com a privatização do bem público e que se desligue a tevê. Número de frases: 114 Para saber mais sobre o Axial e sua obra, basta acessar www.axialvirtual.com. Após um festival de dois dias, Belém se viu a volta com muitas controvérsias. Depois de uma palestra no IAP onde muitos se espremeram para ver e tentar falar algum ponto de vista sobre jornalismo, produção cultural e música, o clima estava pronto para a bomba explodir. Explodiu atrasado, com umas duas horas pelo menos, em virtude de problemas técnicos que não colocam em questão a qualidade do festival. E lógico não poderia faltar à chuva de Belém, que nunca é convidada, mas sempre se apresenta. Claro que resumir o festival banda por banda seria muito tradicional e apontar qual foi boa e qual foi ruim também não passaria o que foi o festival, muita gente já fez isso em outras mídias. Mas qual o significado de tanto trabalho? Muita gente foi lá só para ver banda «A» ou banda «B», nem percebeu toda a complicada rede que envolvia o espaço. E para quem achava que a troca de lugar, do maravilhoso, mas distante parque dos Igarapés para o pequeno, porém perto Afrikam Bar se enganou. Ai começa o ponto positivo, por mais que o parque seja maravilhoso o Afrinkan se adequou perfeitamente a proposta do festival. O público ocupou todos os espaços e ainda sim dava para passear tranquilamente por todos os ambientes. Estava tudo lá, feirinhas de artesanato, banquinhas de discos, botões e camisas de banda, tatuadores, comidas descoladas (tipo tapioquinha com bacon e sopa para os mais afoitos com a bebida) e um público ávido por shows e diversão, afinal de contas é isso uma das coisas que um festival tem que oferecer, diversão ao público e uma oportunidade as bandas. E mesmo quem foi para ver apenas uma ou duas bandas (acredite isso ocorreu) soube aproveitar o que o festival ofereceu. As bandas se doaram ao máximo, quem viu respeitou os estilos diferentes, e quem veio de fora viu que não é só o clima da cidade que é quente. Quando o vocalista Lirinha e a trupe do Cordel do Fogo Encantado encerrou o último dia o sentimento de dever cumprido, o sentimento de satisfação e realização por ter presenciado o que ocorreu ali era magnético em todos. Era hora de contar os mortos e feridos. Os melhores e piores shows, as melhores e piores resenhas, o que foi ruim e o que foi bom. As opiniões estalaram na comunidade do Orkut da produtora que realizou o evento, isso só confirma o que é realmente válido, o festival termina seu ciclo da forma que devia, instigando as pessoas a questionarem sobre o que é bom e ruim para a cena. Desde críticas ao preço da cerveja até discussões sobre a qualidade das bandas apresentadas, entre agradecimentos e piadinhas. Tudo é somado na corrente de que ano que vem possa existir mais um festival. O segundo Festival Se Rasgum no Rock trouxe tudo isso, trouxe diversão, oportunidades, profissionalismo, erros, acertos, trouxe gente legal, trouxe fatos que ficarão na memória e outros nem tão agradáveis. Mas principalmente trouxe um ótimo festival. Azar de quem não foi. Número de frases: 23 Quando vi o Museu Guggenheim em Bilbão pela primeira vez pessoalmente achei menos surpreendente do que nas fotos, nas quais parecia uma alucinante e futurista escultura de titânio. Era difícil, mesmo para um arquiteto, acreditar que poderia haver uma «ordem arquitetônica» alí e que a revolução formal pretendida resultasse em beleza para olhos acostumados à tradição da arquitetura limpa de inspiração modernista. Quando cheguei perto da obra, apesar de só poder apreciá-la de fora (não pude entrar, pois o museu estava fechado) consegui compreendê-la melhor, mas mesmo assim ela não me cativou de cara como outras grandes obras arquitetônicas, cuja a beleza apreciada de perto, muitas vezes, me emocionara. O prédio -- ou aquela escultura na qual se podia penetrar e exercer atividades -- me pareceu uma construção extremamente tecnológica e portanto fria, para mim. Aquelas formas mirabolantes só poderiam ser projetadas e construídas com a ajuda de poderosos programas de computação gráfica e alto desenvolvimento tecnológico de materiais, portanto com um suporte técnico e um custo muito elevados. Aliado ao efeito de espetáculo urbano que o projeto provocara, atraindo investimentos urbanos e turísticos e potencializando a função capitalista da «arquitetura de grife», a euforia gehriana não me contagiou. Não havia em ela a simplicidade, a leveza e a espontaneidade do traço arquitetônico de um Niemayer, por exemplo. Esta impressão modificou-se bastante quando assisti ao documentário «Sketches of Frank Gehry» de Sidney Pollack. Ao invés de ver Gehry como um contraponto a Niemayer, passei a vê-lo como um continuador deste, (embora Gehry provavelmente não se veja assim), no rompimento da rigidez formal do modernismo e na incorporação da forma livre como expressão arquitetônica acima de tudo. Ou acima da função, de acordo com a conhecida polêmica entre arquitetos formalistas e funcionalistas. Assim como Niemayer, Gehry, antes de ser um arquiteto é um genial escultor e trata desta forma a obra arquitetônica. Há discordâncias quanto a «boa arquitetura» ser, antes de tudo, formal, mas há de se reconhecer a grande plasticidade dos projetos de Gehry e Niemayer." claro que nem sempre esta plasticidade significa beleza para a maior parte das pessoas. Ou seja, Gehry e Niemayer também projetam obras que são consideradas feias e sem a genialidade de suas obras primas. Interessante é vermos ambos -- Gehry e Niemeyer -- como homens simples e poetas do traço livre, que preferem conceber suas obras a partir de croquis desenhados a mão. Nenhum dos dois desenha em computador, embora tenham equipes de profissionais altamente treinados em sofisticadas tecnologias aos assessorar. Os dois pensam a arquitetura, desde a concepção do projeto, como volume plástico e objeto escultório que deve proporcionar surpresa e emoção às pessoas em primeiro lugar. O que os diferencia: Em Gehry é o arrojo das formas curvilíneas e o uso sofisticado de materiais «high tech» que cria a surpresa arquitetônica, em Niemeyer é a singeleza e sofisticação do traço curvo e o desenho limpo que levam à beleza. Gehry esculpe no metal -- material caro e sofisticado da arquitetura de impacto midiática do Sec XX, Niemeyer no concreto-Y material barato e terceiromundista, a pedra transformada em arte edificada por a arquitetura brasileira modernista da década de 1950/60. Gehry consequiu dar vazão ao seu poder criativo com o auxílio da terapia e quando resolver ousar na profissão. Niemayer sempre afirmou que dá menos importância à arquitetura -- a qual exerce diariamente até hoje com seus 100 anos -- do que a vida. Conclui-se que o aspecto humano é o que diferência estes mestres. Há razão, contudo, em muitas críticas a eles feitas e muitas vezes contradição na humanidade que desejam para a sua arquitetura e no que ela, de fato, representa, enquanto símbolo midiático e de poder. Porém contradição, desigualdade, paradoxo, beleza e caos são traços próprios da arte e não se pode cobrar coerência de ela, sob pena de esterelizá-la. Número de frases: 25 As palavras do comediante Carlos Alberto de Nóbrega, do programa «A Praça é Nossa», do SBT, em recente entrevista, afirmando que» toda cidade tem uma praça», buliram com os meus sentimentos de morador interiorano. A afirmativa contrariou-me porque moro numa cidade que não tem nenhuma praça. Minha cidade não tem praça para a comunidade se reunir e comer pipoca; não tem banco pra sentar nem pra colocar dinheiro; não tem parque infantil para as crianças brincarem, e muito menos área de lazer para idosos se distraírem. Ancião, aqui, só joga buraco quando se equilibra nas ruas, num eterno jogo de paciência. Em esta cidade sem praça, infância e velhice são dois extremos da exploração eleitoral, pois, no fundo, os enganadores do povo sem banco não bancam nem seus cheques e palavras sem fundos na praça. Praça, aqui, é soldado; praça é chofer de táxi; ou amigo boa-praça que se tem em abundância. E por falar nisso, que falta faz um banco pra sentar e ver o boi passar na rua; que tristeza não ter balanço para sonhos embalar; mas está «assim» de bundões botando banca na praça para assentar-se nas bancadas do poder, onde o banco macio adormece os incompetentes, fazendo-os esquecer da praça, das praças e dos bancos. Não tem praça, porque eles não querem ver o povo sentar e pensar. Talvez saibam que o povo já «sentou» o que podia, quando os colocou sentados na praça do paço onde o pasto passa e repassa sem ver o tempo passar. Os que estão com calo de tanto sentar, só estão lá porque tem eleitor que se vende sem pensar. Vende a praça, vende a cidade, vende a vergonha, vende o voto, e só não vende a alma porque não lhe parece possui-la. Mas, se o povo da minha cidade sem praça pensa que essa situação vai mudar dando assento às velhas raposas viciadas no poder, pode esperar sentado e sem pressa. Sentadinho no chão, pois é de onde os eleitores sem pátria vêem a grama crescer como suas orelhas, de tanto ouvir e aplaudir promessas sem fundo dos ladrões de sonhos, de bancos e praças. P.S.. Escrevi esta pequena crônica em 2002 para o jornal do SBT e a publiquei nos jornais da nossa região, incluindo o periódico da minha cidade (O Porta-voz), que dirijo. Coincidentemente, seis meses depois, o prefeito mandou fazer uma pracinha (a 1ª da cidade), e, mais tarde, ganhamos uma agência bancária (até hoje a única). * Para a finalidade social o texto perdeu a função, restando apenas a sua performance literária. Número de frases: 23 Sei que a analogia do título não é das mais felizes, mas faz-se inevitável. Quando tive a idéia de escrever sobre o circuito independente de Niterói foi essa a primeira idéia que me veio a mente. São apenas 13 km de ponte -- ou 20 minutos de barca -- que separam a terra do índio Araribóia do Rio de Janeiro, mas para a galera que batalha por espaços «do lado de cá» da Baía de Guanabara, estar no Acre ou coladinho aos vizinhos cariocas parece não fazer tanta diferença. A impressão que se tem é de que a cidade fica meio à margem do que realmente acontece no underground. Por sua vez, os próprios cariocas têm a falsa impressão de que Niterói respira música, é um «celeiro de artistas», enfim ... uma idéia pouco diferente da realidade que os grupos independentes do outro lado da «poça» costumam experimentar. A cidade, de fato, concentra muitos músicos ... parece que todo mundo tem uma banda ou, no mínimo, arranha um violão. Incrível. A turma do reggae é bastante estruturada e os shows abarrotados são comuns na cidade. Talvez a forte cultura do surf e uma vida universitária efervescente expliquem o «fenômeno», mas é claro, não podemos tirar o mérito das próprias bandas, com a agenda sempre abarrotada e incontáveis turnês por o sul do País. Outra, digamos, vocação da cidade está no rock clássico, naquela coisa meio blues. Volta e meia tem uma banda cover de Lynyrd Skynyrd (!) tocando por aí. Niterói abriga também muitos virtuoses, como Arthur Maia e essa galera soul-pop-jazz, como o Cláudio Zoli e o pessoal do movimento Pop Goiaba, sem contar com as inúmeras bandas cover, prontas pra animar festas de 15 anos, boates e casamentos ... Agora, quando o assunto é rock de garagem, rock alternativo, rock independente (nomenclatura não falta e vocês sabem de que nicho eu falo), o negócio fica feio. Não que as coisas para os demais gêneros já citados sejam fáceis, mas montar uma banda que aposte em repertório autoral exige uma dose extra de força de vontade. -- Niterói é uma cidade com vocação para música, mas sofre de complexo de inferioridade. Os músicos não dialogam, a prefeitura não chega junto, os organizadores não sabem ou não querem se preocupar em fazer a cena crescer. Ter uma banda aqui é, simultaneamente esplêndido, por a tradição, por a proximidade com outras cenas das cidades vizinhas ... e desastroso, basicamente por os mesmos motivos -- diz Aline Nabisi, vocalista da banda Shar, formada em 2005. Ainda de acordo com Aline, os espaços mesmo quase nulos são válidos, só não há prestígio. Talvez seja a falta de eventos de qualidade que não atraiam público e isso acaba se tornando um circulo vicioso: o público não enche as casas porque os eventos são pouco «atraentes» e, por sua vez, os eventos não fazem sucesso porque não rola público ... é o «paradigma de Tostines». A falta de espaço para shows, de incentivo (público ou privado), de organização e, acredite, de bandas boas fazem da «cena niteroiense» um motivo de piada se compararmos com outras realidades. Goiânia, mesmo longe dos holofotes, consegue chamar mais atenção do que a galera de Nikiti, vizinha do hype que rola no Rio (que também não é lá essas coisas). Mas vamos com calma! Nadando contra a maré da mesmice, o movimento Araribóia Rock, criado por Pedro de Luna e Marcelo Blau Blau, está dando novo ânimo para uma circuito que parecia fadado ao marasmo. O projeto surgiu há cerca de dois anos e, através de shows, zines, intercâmbios e muito idealismo, pode ser considerado o movimento roqueiro mais organizado que Niterói já teve. -- A prática de troca de shows tem que ser intensificada por mais bandas. Hoje buscamos apoio da Neltur [empresa de turismo municipal] para nos disponibilizar um ônibus mais verba para a gasolina pra levar as bandas e fazer um filme por aí. Inicialmente temos que começar a tocar com nossos vizinhos, fazer mais intercâmbios com as cidades do estado do Rio. Precisamos ter um fortalecimento do estado todo para depois buscar vôos maiores -- explica Pedro. Talvez a iniciativa de troca de experiências possa dar frutos, mas a realidade hoje é bastante diferente. Poucas bandas locais conseguem «atravessar a ponte» e se estabelecer com certa regularidade na cidade maravilhosa. Grupos como The Feitos, Noitibó e Abaixo de Zero [momento jabá!] fazem parte dessa turma que conseguiu se estabelecer no Rio e hoje segue uma agenda de apresentações regulares, com mais visibilidade, inclusive em outros estados. Para o jornalista Ricardo Schott (Blog Discoteca Básica e Revista Bizz), a dificuldade de se fazer shows no Rio de Janeiro não é um problema exclusivo dos niteroienses, pois até mesmo grupos da zona norte não trilham um caminho fácil para alcançar as casas da zona sul. De acordo com Schott, uma das maneiras de encurtar esse caminho é estar mais presente no underground carioca. -- Quem não é visto não é lembrado. Se o artista tem vontade de expandir seu som acho que ele deve estar sempre nos eventos, conhecer pessoas, trocar idéias. Acho que só com esse tipo de reciclagem é que se consegue uma maior visibilidade. Número de frases: 43 As pessoas não podem simplesmente montar uma banda, colocar as músicas na web e esperar por oportunidades -- afirma. Alguns alunos que estudavam no Colégio Tobias Barreto matavam aula para ir ao Cinema Palace no centro da cidade de Aracaju. O jornalista e crítico de cinema Ivan Valença era um de eles, e conta que os estudantes trocavam de blusa, as meninas viravam as saias pelo avesso, tudo para esconder o símbolo do colégio, pois não era permitida a entrada de alunos fardados segundo determinação do juizado. «Lá dentro era uma algazarra, as pessoas gritavam, mas era divertido», conta o jornalista. Cerca de 40 anos depois dessa época, em 1997, chegaram as salas multiplex ao Brasil, que se localizam em cidades com mais de 400 mil habitantes e ficam em shoppings centers. Em Sergipe, um exemplo desse tipo de sala são as do Cinemark e do Moviecom. O Cinemark é uma das três maiores redes de exibição de cinema no mundo, e chegou à Aracaju em 1998, funcionando no Shopping Jardins com nove salas que passam filmes simultaneamente. menos de um ano depois, as duas salas de cinema que existiam no Shopping Riomar fecham. Quatro anos mais tarde o Moviecom inaugura cinco salas no Riomar. «O domínio das multiplex está ligado ao novo padrão de produção, distribuição e exibição no capitalismo global», afirma o mestre em Cinema por a Universidade de São Paulo (USP), Caio Amado. Os estúdios de Hollywood vendem seus filmes para as grandes distribuidoras, que, por sua vez, negociam dias e horários com as empresas exibidoras, proprietárias das salas multiplex. Esse é o caminho percorrido por um filme americano até ser exibido no Cinemark, do Shopping Jardins. Antes das salas multiplex chegarem à Aracaju, havia vários cinemas no centro da cidade, como o Palace, que hoje é uma casa de bingos. O Cinema Palace tinha sessões especiais e era muito freqüentado por a elite sergipana. Havia também várias salas que pertenciam à Igreja Católica, como o Cine Vitória e o " Cinema Vera Cruz. «A Igreja estava muito preocupada com o que os fiéis viam. Eles recomendavam quais filmes poderiam ser vistos», explica Ivan Valença. A primeira sala de cinema de Sergipe foi o Cine Rio Branco, inaugurado em 1912, um dos primeiros cinemas do país, e que antes era o " Teatro São José. «Havia cinemas de bairro como o Cinema Guarani, perto da casa onde eu morava, na Praça da Bandeira. Eu vi filmes extraordinários ali», lembra Caio Amado. Em as cidades do interior do estado existiam várias salas de cinema, como Itabaiana, que tinha 3 salas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 92 % dos municípios no Brasil não têm nenhuma sala de projeção. A professora Adenildes Carvalho mora num sítio em Boquim e conta da primeira vez em que foi ao cinema, em Aracaju. «Foi incrível. Era uma tela enorme. Eu achava que as cadeiras estavam girando. Pensava: será que vou entrar no filme?», relata." Eu não vejo a hora de ir a Aracaju para ir ao cinema». Para Cristiano Leal, professor da área de Comunicação Social e cinéfilo, o cinema é um ritual. «O cinema é uma experiência coletiva. As pessoas riem junto com o filme, e às vezes aplaudem», diz. O fim -- Durante a década de 1980, o Cinema Rio Branco passou a exibir filmes pornôs. Segundo o antropólogo José Marcelo Domingos, o que atrai o público desses espaços é a possibilidade de encontrar um parceiro sexual sem prejudicar a imagem construída em sociedade. «Em o escuro do cinema você se torna anônimo. Há um clima de penumbra em que você não vê o outro e o outro não lhe vê por completo», diz. O que antes era o Cine Rio Branco, agora é uma loja de tecidos, a tela do Cine Plaza deu lugar a um altar, e um estacionamento ocupa o espaço onde antigamente os espectadores assistiam a filmes no Cinema Aracaju. Número de frases: 36 (Discurso proferido por mim na Sessão Solene da Academia Goiana de Letras, realizada no próprio colégio, em homenagem aos 70 anos do Liceu em Goiânia. Luiz de Aquino) Eu vim aqui para falar de amor. E amor começa na auto-estima; o segundo passo é o amor aos que nos cercam e contribuem para o nosso bem-estar, oferecendo-nos ensinamentos e alegrias, obstáculos e, com estes, as chances de vitórias. Assim, venho falar de amor. De amor e de tempo. Este era um país de homens rudes, afeitos às lides do campo, fosse a criação de gado para o leite e a carne, fossem as lavouras de alimento e vestuário. As letras e as ciências eram ocupações da nata citadina. Surgia, naqueles anos da Regência, a preocupação dos governos, tanto na Corte quanto nas províncias, de se dotar o país de escolas. Ou de Liceus, como era a moda na Europa que nos servia de exemplo. Em 1837 o Ministro do Império Bernardo Pereira de Vasconcelos apresentou ao Regente Pedro de Araújo Lima uma proposta para a organização do primeiro colégio secundário oficial do Brasil. Pereira de Vasconcelos acreditava que a instrução pública seria melhor do que a particular, que se mostrava inadequada, por ser oferecida em salas precárias e por professores mal preparados. Assim, no dia 2 de dezembro daquele mesmo ano, era instalado o Colégio de Pedro II (era esse seu nome original). O colégio concebido por Bernardo Pereira de Vasconcelos sobrevive, festejando, daqui a dez dias, 170 anos de existência, tendo sucedido ao Seminário de São Joaquim, criado por Frei Guadalupe em 1739. A Província de Goiás, nove anos depois, criaria o seu Liceu de Goiás, por iniciativa do presidente Joaquim Inácio de Ramalho. Recorro à monografia Lyceu de Goiás, da Fundação ao Tempo Presente, da professora Kátia Rodrigues de Morais e ao livro História da Instrução Pública em Goiás, do professor Genesco Ferreira Bretas, que, em anos da década de 1960, dirigiu este educandário. Não nos surpreende saber que criar o Liceu foi um atrevimento e mantê-lo, um desafio que se estendeu por muitas décadas. Não havia um imóvel onde se instalar a escola; nem dinheiro para a construção. Por isso, o Liceu funcionou, nos primeiros, numa sala e uma varanda da Inspetoria da Fazenda. Mais de uma vez, falou-se em encerrar as atividades do Liceu. Mas ele se tornou, na capital goiana, naquele Século XIX, um referencial indispensável à vida da cidade: tudo o que se passava na cidade, refletia no Liceu. E vice-versa. Os bons alunos eram citados e respeitados em sociedade; os maus alunos, ignorados, numa sanção social que, certamente, influiria nos resultados dos estudantes em exames e mesmo em sua vida profissional, ao seu tempo. A República exigiu que o Colégio de Pedro II não ostentasse o nome do imperador deposto; assim, e por cerca de duas décadas, o colégio da então Rua Larga, no Rio de Janeiro (hoje, Avenida Marechal Floriano) chamou-se Ginásio Nacional. Desde sua fundação, o Colégio Pedro II (nome atual) era referência de ensino, isto é, era o Colégio Padrão de Ensino para todo o país. E em 1904 o Liceu de Goiás começou um processo de equiparação ao Ginásio Nacional. Com a mudança da capital, o Liceu ficaria na Cidade de Goiás. Pelo menos, fora essa a promessa de Pedro Ludovico Teixeira, interventor federal e fundador de Goiânia, aos vilaboenses. Mas, na prática, a permanência ficou inviável: os estudantes, em sua grande maioria, eram filhos de funcionários estaduais, transferidos para a nova cidade. O colégio precisava, pois, ser também transferido. Vale dizer que, ao criar Brasília, o presidente Juscelino Kubitschek não teve necessidade de medidas assim radicais. As escolas, e até mesmo uma universidade, eram novos estabelecimento, permanecendo no Rio, antiga capital, não só o Colégio Pedro II como, também, a Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas o Estado não teria condições financeiras, nem recursos humanos à altura, para manter dois colégios, um na Cidade de Goiás, outro em Goiânia. E este solene sobrado da Rua 21, tombado por o Patrimônio Histórico, é o que festejamos hoje. Inaugurado no dia 27 de novembro de 1937, sob a direção do professor Iron Rocha Lima, ele abrigou, também, o Grupo Escolar Modelo, do qual o artista José Amaury Menezes foi aluno neste prédio. O velho Liceu, que na cidade de Goiás foi escola para Pedro Ludovico e seu filho Mauro Borges Teixeira, servira também de formador de centenas de outros goianos ilustres nas mais variadas profissões. Por ele, na antiga capital, passaram escritores do quilate de Bernardo Élis e de José J. Veiga, além de juristas, médicos, arquitetos e engenheiros, artistas de pincel e partitura. Em Goiânia, o Liceu não só continuaria sua vida de glórias, mas seria consolidado como um dos mais importantes estabelecimentos na história da educação pública do País. E enquanto nos formava para as letras e as ciências, éramos também forjados na luta de consciência social. Por o Grêmio Félix de Bulhões, agimos em greves, passeatas e outras manifestações de nítido comprometimento com a nossa comunidade. Herdamos deste colégio a fibra da resistência e da lucidez como cidadãos de verdade. Lamento que Goiás, sua gente e seus governos, não atentem para essa importância. Se o fizessem, o Liceu seria um referencial majestático do ensino brasileiro. Educadores da mais fina afinidade com o futuro, que simbolizo na figura do meu conterrâneo de Caldas Novas e meu diretor, quando aluno, o Professor Genesco Bretas, sabem disso. E bem o sabe a Professora Teresinha Vieira, que sucedeu o Professor Bretas e a quem me reportava quando professor de Geografia e de Educação Moral e Cívica, nos anos duros em que a democracia tinha sobrenomes. Era o tempo da «democracia relativa», no dizer de um dos generais presidentes. Ainda é tempo! Senhora Secretária da Educação, Professora Milca Severino! Senhor Governador de Goiás, Doutor Alcides Rodrigues! Resgatemos a História do Liceu de Goiás. Esta unidade de ensino não é diferente daquela que Pedro Ludovico trouxe de Vila Boa. Este é o Liceu fundado por o Barão de Ramalho em 1846, o 12º de entre os liceus criados no Brasil naquele tempo das Regências do Império. O bom senso devolveu o Liceu à Cidade de Goiás; mas um descuido fez com que as duas unidades ficassem distanciadas. Hoje, com o fechamento de todos os demais liceus e colégios criados antes de 1846, à exceção do Colégio Pedro II, somos o segundo mais antigo de entre todos os educandários do Brasil. Em mim, ex-aluno e ex-professor do Liceu de Goiânia, mora uma alegria múltipla: fui aluno dos dois mais antigos colégios brasileiros. Talvez seja eu o único brasileiro a desfrutar deste privilégio, o de ter concluído o curso ginasial no Pedro II e o Clássico no Liceu. Eu proponho, Senhor Governador e Senhora Secretária, Senhores Deputados, que se restaure a história, editando-se uma Lei, por a Assembléia Legislativa, definindo que o Liceu de Goiás, fundado por Joaquim Inácio de Ramalho, por a Lei nº 9, de 20 de junho de 1846, constitui-se de duas unidades -- Unidade Vila Boa, na Cidade de Goiás; e unidade Goiânia, na capital do Estado. Esta é a nossa casa. A casa de dois presidentes do Banco Central do Brasil: Gustavo Loyola e Henrique Meireles. A casa de vários parlamentares de todos os níveis, de prefeitos e governadores. A casa de um sem-números de professores, profissionais liberais da saúde, das comunicações, das construções e do direito. A casa de Íris Rezende Machado, de Irapuan Costa Júnior, de Alcides Rodrigues, de Pedro Wilson, de Wander Arantes, de Iran Saraiva e de poetas Afonso Félix de Sousa, Gilberto Mendonça Teles, Martha Azevedo Panunzio, Emílio Vieira, Ciro Palmerston ... Perdoem-me aqueles que omito: não tenho todos os nomes, mas não me furto ao risco da injustiça para com tantos; apenas os simbolizo nestes homens públicos que, na mocidade, usufruíram de convivência feliz neste pátio. Enfatizo ainda, senhores professores, estudantes, colegas da Academia Goiana de Letras, autoridades e amigos convidados, que se restaure também a dignidade deste Colégio, fortalecendo-o por as medidas que norteiam a boa educação. O Liceu já viveu muitos momentos de crise, mas sempre sobreviveu. Sua águia, às vezes, é uma fênix. E a nós, que absorvemos deste Liceu centenário os ensinamentos científicos, artísticos, culturais e morais, havemos de fortalecê-la para resistir às chamas. Por isso, eu vim aqui para falar de amor. É que falar de amor é uma das poucas coisas que faço bem. Sou muito amor. Sou amor ao próximo e a todos os que contribuíram para que eu, hoje, fosse feliz. E o Liceu me ensinou boa parte deste caminho. E, para concluir, desfaço o laço da gravata e tiro o paletó. Número de frases: 84 Em este momento, volto a ser o aluno do Clássico daqueles anos 60. O estereótipo do turista é bem conhecido e reproduzido. Um sujeito estabanado cheio de apetrechos fúteis, de camisa colorida, conduzindo a família inteira por pontos turísticos abarrotados de outros turistas fotografando tudo e comprando muito. Eles obedecem ao toque de recolher do guia e geralmente um de cada grupo passa mal com uma comida típica. E o estereótipo do viajante? Assumindo, já, que existe sim essa distinção, qual seria? Em a boca da maioria, uma personagem nos conformes de um viajante é aquele com mochila nas costas, que carrega só o útil e que não passa de um lugar para outro, mas os percorre procurando absorver cada passo da viagem. Aliás, esta figura jamais será vista numa fila, onde os turistas habitam, mas em locais pouco convencionais, gastando pouco, pois pesquisou e planejou a viagem toda, sozinho, sem guias ou agências. Mas pra mim o problema aqui é puramente semântico e recente; de repente Turista virou xingamento. Em o Orkut existem várias comunidades do tipo, Viajante sempre, turista nunca. Ai daquele que chamar um Mochileiro de Turista! Algo que me lembra quando um rapaz robusto e barbudo me corrigiu: Motoqueiro é motoboy que anda de CG! Eu sou é motociclista! Desculpa amigo, mas a CG também é moto. E o turista também viaja. Ou não? E o viajante, não turisteia? Dá pra vender pacote turístico pra um viajante? Um sujeito muquirana que prefere albergues, mas quer sim ver a Mona Lisa lá de longe, esperando duas horas na fila do Louvre é um híbrido? Recentemente a MasterCard Lançou uma campanha com o Viajante MasterCard. Vejam bem, ele não é um turista, seu nome é viajante, seu jingle e seu vídeo pregam a aventura e o inesperado das viagens. No entanto ele anda sempre com seu cartão de crédito, que seria nestas novas conotações, um amuleto do turista! Aquele que tudo compra. Como seria o Turista MasterCard? Em a minha opinião seria a mesma coisa. Nem melhor nem pior. O comportamento em viagens está associado à personalidade de cada pessoa, independente se ela prefere conhecer aldeias na Argélia ou realmente ficar na fila do Louvre. Ficar inventando terminologias pra comportamentos distintos não pega bem, principalmente pra essa indústria (do turismo!), onde o Brasil opera com uma capacidade ociosa gigantesca. Ficamos assim então: O Turista é aquele que viaja. E como tudo na vida, existem bons e maus turistas. Boa viagem, caro turista. Número de frases: 35 «Já te disse que esse negócio de literatura não existe, moleque! -- Escuta o que teu pai tá falando!" Um misto de ilustrações, reflexões e quadrinhos. Histórias engraçadas, viagens psicodélicas, partituras. Esse é o percurso da revista Bongolê Bongoró, feita em edição independente por Melius Zapiranga Bongo, na Capital Federal. Mas o que a Bongolê oferece para nosso entretenimento? As ótimas ilustrações se misturam com colagens e textos e mais textos. No meio da revista nos deparamos com uma série de histórias em quadrinhos que acontecem no Cine Pornongo. Um filme pornô com uma imagem subliminar de um carneirinho fofo. Outro filme em 3 D, com uma platéia louca para apalpar. Melius colocou uns pintos para vender mais, como ele mesmo diz. Mais um pouco e damos de cara com as páginas amarelas: uma história interativa, um mickey careta, garotos «muito loucos». Nada é em linha reta e a revista gira 90º para a direita, novamente 90º para a esquerda, 180º ... E quem é Melius? Talvez ele fale de si mesmo quando diz «descobriu, algum tempo depois, que era um auto-retrato». Mas é quase no fim da revista que temos um pista, na história Diários Secretos de Melius Zapiranga Bongo, que, numa expedição a uma floresta longínqua, acaba contratando um grupo de roteiristas e ilustradores que produzem o material que ele assina. «Pois então criançada! Acontece que o tal senhor Zapiranga não é um babaca tão babaca assim. Aproveitar-se do talento alheio é o seu próprio. E no final de contas quem é o vilão ou o herói dessa história?" Assim o Sr. Zapiranga conseguiu divulgar seu nome por os vários cantos do mundo. Ele já foi citado no blog do Allan Sieber (talk to himself show), no do André Dahmer (dos Malvados), no da estadunidense Madame Talbot e fez uma entrevista em quadrinho para o blog Gibizada, do Telio Navega para o site Globo. com. Também foi citado na coluna PUTZ! do cartunista Guabiras, de Fortaleza / CE, e foi citado em exposição de quadrinhos em Santo Antônio da Patrulha / RS. Assim chegamos ao fim da primeira edição desse almanaque. A segunda edição deverá ser lançada no próximo semestre, quando Melius promete revelar sua identidade secreta (será?). Quem quiser comprar um exemplar é só enviar R$ 5,00 para a Caixa Postal 6116, 70740-971, Brasília / DF. Em Brasília é possível encontrar a revista na Kingdom Comics, no Conic, coração pop da cidade. Para acompanhar o cotidiano de Melius entre no blog Bongoriginal (www.bongole.blogspot.com). Para encerrar, o editorial da revista: «Era uma vez. Agora são três. Cara a cara com vocês, o cacoré explosivo bongólico espalhando os ares da nova geração da vez. Os sinais estão impressos, as páginas abertas. Finalmente aconteceu. Marcada no tempo, a breve passagem de mais uma e outra vida. Esparramando inconsciências, experimentando com o mistério das palavras e das linhas. Nuances, nuvens, nada, e tudo ainda. Cada letra que fale por si só, para quem quiser mergulhar neste mar de sensações a céu aberto», Melius Zapiranga Bongo. Número de frases: 40 A Quasar Cia de Dança volta a apresentar Só tinha de ser com você, em Goiânia, nos dias 17 a 19 de agosto, no Teatro Goiânia. O mais recente espetáculo de Henrique Rodovalho tem co-realiza ção do Centro Cultural Banco do Brasil-RJ e estreou em São Paulo, em novembro do ano passado, no Teatro Alfa. Uma homenagem a Elis Regina e Tom Jobim, o espetáculo foi finalista do 1º Prêmio Bravo! Prime de Cultura (Revista Bravo), além de ter sido apontado entre os melhores de 2005, por a Folha de São Paulo e por o Jornal O Globo. A Quasar cia de Dança conta com o patrocínio da Petrobras, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Só tinha de ser com você nasceu a partir da música. O coreógrafo e diretor artístico Henrique Rodovalho transformou em trilha sonora cada uma das 14 faixas do álbum Elis e Tom, gravado há 30 anos. O coreógrafo conta que ouvia o disco durante a infância e adolescência, o que despertou sua «memória emotiva» durante o processo de criação. «Só tinha de ser com você é um espetáculo que desperta sensações», descreve Rodovalho. Em sua décima oitava peça, a Quasar faz opção por o movimento e a plasticidade deixando momentaneamente de lado as reflexões e discussões sobre a dança contemporânea, propostas mais recentemente em O +, espetáculo que continua no repertório da companhia. O coreógrafo criou movimentos abstratos que ressaltam aspectos matemáticos e requintados, contidos na linguagem corporal desenvolvida por a Quasar Cia de Dança ao longo de quase duas décadas de trabalho. A articulação fragmentada de braços e pernas que é característica do grupo continua presente, desta vez acompanhada de bossa nova. Segundo Rodovalho, o desafio era incorporar a dança, como linguagem artística, à uma obra irretocável, pronta há três décadas. «Nos preocupamos em evitar os exageros e escapar do óbvio», conta. O resultado é um espetáculo sofisticado. O figurino criado por Cássio Brasil dá aos intérpretes uma segunda pele texturizada e translúcida. O cenário, criado por Rodovalho com o auxílio da arquiteta Letycia Rossi ambienta com leveza a movimentação fluida dos bailarinos Camilo Chapela, Érica Bearlz, James Nunes, João Bragança, Juliana Coutinho, Lavínia Bizzotto, Nazilene Barbosa, Rodrigo Cruz, Samuel Kavalerski e Valeska Gonçalves. Em Só tinha de ser com você, Rodovalho aposta também na em as referências do espectador e na carga de emotividade das canções, que trazem memória. A oportunidade da montagem do novo espetáculo surgiu com o convite do Centro Cultural Banco do Brasil (Janeiro), que executou o projeto 4 Movimentos, em março de 2005. Em a ocasião, a Quasar se apresentou na capital carioca, além de ter realizado um ensaio aberto para amigos, apoiadores e imprensa, em Goiânia, onde a companhia está baseada. A mesma peça teve estréia européia em junho, numa turnê por Portugal (Sintra e Ilha da Madeira), Espanha (Palma de Mallorca) e Alemanha (Ludwigsburg e Frankfurt). Ainda em agosto, antes de chegar a Goiânia, a cia apresenta Só tinha de ser com você em Porto Alegre e Brasília. Serviço: Espetáculo: Só tinha de ser com você -- 55 min Local: Teatro Goiânia Data: 17 a 19 de agosto Assessoria de Comunicação: zeroum comunicação Geórgia Cynara (9112 3393) / Larissa Mundim -- 62 9968 1658 www.quasarciadedanca.com.br Ficha Técnica Elenco: Camilo Chapela Érica Bearlz James Nunes João Bragança Juliana Coutinho Lavínia Bizzotto Nazilene Barbosa Rodrigo Cruz Samuel Kavalerski Valeska Gonçalves Coreografias -- Henrique Rodovalho Ensaiadores -- James Nunes e Lavínia Bizzotto Professores Tassiana Stacciarini (clássico) Erica Bearlz (contemporâneo) Adriano Bittar (Pilates) Assessoria de Fitness -- Athletics Sports Fisioterapia -- Studio Balance Médico Ortopedista -- Dr. Samuel Diniz Filho Cenografia -- Letycia Rossi e Henrique Rodovalho Direção de palco -- Paulo Vigário Concepção de luz -- Henrique Rodovalho Execução e Operação de luz -- Alexandre Marques Figurino -- Cássio Brasil Trilha Sonora -- Elis Regina e Tom Jobim Produção -- Ana Paula Mota e Giselle Carvalho Projetos Internacionais -- Larissa Mundim Comunicação -- zeroum comunicação Equipe Espaço Quasar: Gerência financeira: Rennata Silva Manutenção -- Ana Célia Freitas Diretor Artístico -- Henrique Rodovalho Número de frases: 57 Direção Geral -- Vera Bicalho Uma bateria montada na parada de ônibus? Já era madruga do Dia Mundial do Rock e eu estava dando uma banda por a Cidade Baixa. Começaram a colocar uns amplificadores, chegaram uns caras com latas de spray ... Cheguei mais perto para dar uma olhada. Bah véio, os caras da Pata de Elefante estavam chegando! Começaram a montar os instrumentos embaixo daquela parada. De certo iam fazer alguma foto, pensei. Quando me aproximei para ver mais de perto o lance, um estouro de som quase me joga longe: os caras começaram a tocar e já passava das três da manhã! «Que loucura, vou assistir um show», pensei. No meio daquela sonzeira os caras das latas de spray começaram a fazer um puta grafite no bustop da parada! Alguns caras se aproximaram e começaram a filmar aquilo. Perguntei para um cara que estava do meu lado filmando " que viajem é essa, véio? Tão rodando um filme?" " Isso é Flashrock», me respondeu ele. Nunca tinha ouvido falar disso, mas para não perder o lance, voltei a curtir a música e fiz umas fotos. Tava chovendo, os vizinhos dos prédios próximos de ali começaram a abrir as janelas. Um ônibus pára em frente sem entender nada. Um carro da polícia se aproximou. «Vai dar merda», pensei. que nada. Por o jeito os caras entenderam. Quando terminou o primeiro som, vi um parceirão que estava passando ali perto e fui correndo pra chamar ele para assistirmos o show. Nos distraímos conversando e quando nos demos por conta, o som tinha acabado de vez. Fomos então na direção da parada, mas tudo havia sido desmontado e os músicos estavam entrando num carro. «Tchau jovem», berrou o batera da banda. Número de frases: 28 De tudo aquilo que eu havia visto, só sobrou o grafite, as fotos, a lembrança de uma banda tocando na parada do ônibus. Artigo autorizado por o autor, o escritor e professor de literatura, Luis Augusto Fischer, descrevendo sua percepção sobre o trabalho do grupo cultural Bataclã FC, de Porto Alegre, sul do Brasil. Bataclã Matador Um dos motivos da profunda simpatia entre a canção popular e o ouvinte brasileiro mora num aspecto não óbvio, mas muito atuante. Trata-se do seguinte: a canção brasileira conquistou o brasileiro por ser um veículo do qual sempre se pode esperar que comente, examine, explique o que está acontecendo, com os indivíduos, com a cidade, com a época. Se pode esperar porque assim tem sido, pelo menos desde Noel Rosa: o cancionista é o sujeito que observa a mesma vida que eu vivo, só que ele pode dizer, de modo articulado, compreensível, comunicativo, como é que essa vida funciona. E assim passaram as gerações de Noel e Ary Barroso, de Geraldo Pereira e Lupicínio Rodrigues, de Luiz Gonzaga e Adoniran Barbosa, de Dolores Duran e Maysa, de Tom e Vinícius, de Caetano e Chico, de Aldir Blanc e João Bosco, de tantos que nunca caberiam aqui. Chegados os anos 80, tudo isso ganhou a companhia generalizada do rock, antes restrito a um circuito pequeno; e nos 90, quando para ouvidos mais conservadores parecia que o fôlego da canção parecia ter acabado, nova rodada de misturas, Chico Science à frente. à frente de quem? Uma agrupação que segue a linhagem comunicativa dessa grande tradição brasileira se chama Bataclã FC e pode ser encontrada no ônibus e nas ruas de Porto Alegre. Agora eles largam um segundo disco que é uma maravilha, uma verdadeira jóia: Assim Falou Bataclan. Um daqueles discos que vale a pena ouvir e reouvir, porque nos comove e nos ajuda a ver o mundo. De o ângulo musical, o cardápio é rock, samba rock (com levada beeeeeem porto-alegrense), samba, mas também milonga, ponto de macumba, hip hop e sabe-se lá mais o quê, num caldeirão entusiasmante: não é só por os riffs de guitarra ou os scratches geniais que vão pontuando as faixas, não é só por a forte energia do canto e da execução musical, não é só por o entranhamento das letras na vida da cidade -- é por tudo isso somado ao ângulo crítico de leitura do mundo. Número de frases: 18 Em suma: tri, mais um marco na história da canção brasileira, desta vez debruçada sobre a matéria-prima desta cidade aqui. Em a segunda semana * da feira de debates sobre cultura digital, suas aplicações e impasses, em Pernambuco e Rio de Janeiro, a oferta foi variada. Teve exposição de caso de democratização tecnológica bem-sucedido, exibição de gente criativa que trabalha com arte eletrônica e até mesmo momentos de tensão, em mais uma rodada de conversas sobre os dilemas da TV Digital (discussão que, pelo visto, está só começando ...) Como parceiro do evento, o Overmundo estava lá e traz aqui uma pequena cobertura dos três últimos dias, para que pessoas de outros estados possam saber o que rolou e se engajar na discussão (via comentários). Mesa: «Diálogos entre diferenças " Helena Aragão (RJ) -- 12/12 O nome do debate era «Diálogos entre diferenças». Bota diferença nisso. É claro que o tema da mesa era muito mais amplo que a diversidade de experiências de vida representadas por os convidados àquela conversa. Mas foi simbólico ver Joanildo Burity (da Fundação Joaquim Nabuco, PE), Jader Gama (do Projeto Puraqué, PA) e Carlos Affonso (Fundação Getúlio Vargas, RJ) sentarem lado a lado para falar de uma preocupação em comum: como tornar a tecnologia uma aliada efetiva da transformação social. Joanildo é cientista político. Usou palavras como «mediações»,» visibilidade», «acesso». Duas falas de ele me chamaram mais atenção: uma dizia respeito à falsa impressão que as pessoas têm de que, com a internet, a infomação chega nua e crua, sem intermediários. A outra foi mais prática: destacava o número de Pontos de Cultura do MinC que não têm relação com internet -- muitos, inclusive, não têm nem acesso à internet. Faz pensar, não? Gama é coordenador de um projeto de inclusão digital no interior do Pará chamado Puraqué. Apresentou-se dizendo que prefere ser chamado por o sobrenome, que é flamenguista (!) e começou uma conversa que poderia ser no boteco ali do lado -- poder comunicativo típico de quem atua no movimento social há tempos, me parece. Ele explicou: Puraqué é um peixe elétrico da Amazônia que é uma espécie de termômetro da poluição nos rios. Então aí está a metáfora, pois o projeto quer levar vida às comunidades pobres do estado. Formado na primeira turma de processamento de dados de Santarém, ele (e equipe) recebe computadores velhos, conserta e assim alimenta telecentros. Missão que, depois descobriu, já tem nome: metareciclagem. Com isso, já há jovens fazendo seus próprios sites, mulheres ribeirinhas produzindo seu DVD e mocinhas trabalhando numa novela sobre o boto. «Estamos tendo a oportunidade de tirar de cena a figura do atravessador», explica, após fazer uma declaração apaixonada aos softwares livres. Carlos Affonso é advogado e, como boa parte de eles, usa óculos e camisa social. Parece sério, e é, mas é só sacar seu fabuloso power point para fazer a platéia refletir gargalhando sobre o estranho mundo do direito autoral. Foi assim que ele mostrou leis e o que acha que precisa ser mudado, além dos novos modelos de negócios que já surgiram bem-sucedido no Pará e na Nigéria. Mesa " Estratégicas e políticas " Bruno Nogueira (PE) -- 12/12 Por costume, eu sempre levo um caderninho para anotar o que é dito em seminários, palestras, etc.. No Cultura Além do Digital não foi diferente. Mas, pela primeira vez, fiquei achando que não era uma boa idéia. Cheguei já no começo do debate entre o Luis Erlanger e o Gustavo Gindre e, nem mal sentei, já tinha preenchido uma página inteira de anotações. Informação vindo feito cachoeira, com um leve clima de tensão. Para situar, o Gindre é o cara que reúne todo mundo para dizer que a Globo monopoliza o espectro da televisão. O Erlanger é o cara da Globo que diz o que a TV faz com sua parcela do espectro. Sentiu a tensão? O mote da noite era a disputa entre o bem público e o privado. Será que a TV, sendo uma concessão pública, não teria mais obrigações? Em o contexto geral do seminário, Gindré reforçava que falar em TV Digital não é apenas falar de Internet na TV. De esse descarrego de informação, algumas interessantes. Os brasileiros já pagam um imposto de um fundo destinado a cobrir o país inteiro com uma conexão sem fio. 1 % da conta de telefone. Pouco? Segundo Gindré, eles já tem mais de R$ 1 b acumulado. Enquanto isso, dados trazem que apenas 6 % do Brasil tem acesso a banda larga. 47 % usaram um computador pelo menos uma vez. Para contrapor, 80 % da população tem TV aberta. Pausa para pensar um pouco. Se a TV digital é aberta, e vamos supor que ela fosse apenas Internet. Imagina 80 % da população com uma conta de email. Revolução seria o mínimo dos clichês. Erlanger tinha um bom argumento. O espectro total da televisão no Brasil é de 360mh z, a globo ocupa apenas 6mh z. Podia parecer uma desculpa esfarrapada, mas ficou no ar um clima de «faça você mesmo». Em o mais, valeu a mensagem de que reclamar da Globo é fácil, mas a concorrência está com qualidade bem pior. A mensagem que me tocou mais, entretanto, veio do professor de economia José Carlos, que veio substituir o Silvio Meira, do " Porto Digital. «Vocês estão discutindo tudo isso com um foco errado. A televisão no mundo inteiro é uma porcaria, não é apenas no Brasil. A diferença, é que na Europa e outros países de primeiro mundo se trabalham uma alternativa». Recado bem dado. Helena Aragão (" RJ) -- 13/12 O «leve clima de tensão» continuou no dia seguinte, dessa vez no Rio de Janeiro. A fala calma, otimista e exageradamente política da única pessoa diferente na mesa carioca -- o Secretário de Desenvolvimento e Turismo do Estado do Rio de Janeiro, Tito Ryff -- não foi suficiente para amainar as caretas e vozes um tom acima de Gindre e Erlanger. Como o Bruno, também cobri páginas e páginas do caderno com frases, sendo que algumas pareciam nocautes num ringue. Aqui alguns exemplos: Primeiro round: TV Digital Gindre: «Com a TV Digital, no espaço de uma concessão vão caber quatro, cinco programações. Era a chance de democratizar o espectro eletromagnético brasileiro. E o que o governo quer fazer? Dar os canais digitais para as mesmas emissoras que estão aí. TV Digital não é só para se ver uma imagem de qualidade boa, o potencial de ela é muito maior. Enquanto isso a maior emissora do país não tem um programa de debate, entrega tudo editado para a população consumir " Erlanger: " Acho que a população de baixa renda tem direito de ver imagem boa. Mas não se pode culpar quem usa a concessão direito. Os que não usam que deviam ter as concessões tomadas." Segundo round: Taxação de emissoras (Existe uma proposta de se taxar emissoras de TV para fomentar a TV pública e o cinema brasileiro) Erlanger: " Não é justo a iniciativa privada ter que pagar os males da sociedade. É perverso. É como inventar de taxar a escola privada para financiar a pública " Gindre: " Não é bem assim. Faz sentido cobrar do rádio-difusor porque ele usa um bem público. Não tem comparação com escola, hospital. Em vários países da Europa é assim, por que o Brasil não consegue nem discutir esse assunto?" Os ânimos exaltados com dois fortes representantes de cada posição mostram um pouco o porquê: talvez seja preciso menos careta e mais oportunidades de discussão como essa para se afinar os interesses de todos. Mesa: «O horizonte da cibercultura " Bruno Nogueira (PE): 13/12 Engraçado como tudo casou direitinho no seminário. Um sempre encerrava puxando o assunto do próximo. Em o último dia, tudo parecia um pouco mais jogado, mas com um sentido bem relevante para isso. A situação é complicada, complexa, etc? É sim. Mas existem soluções. O Media Sana mostrou como passou a usar imagens de vídeo e fotos junto com músico e discurso para criar uma forma bem particular de expressão. Tudo construído em improviso, com coisa filmada ali mesmo na hora. Enquanto o Arthur Leandro mostrou imagens do trabalho coletivo feito no Pará, mostrando experiências colaborativas, como TVs e rádios de bairro, além encontros para troca de informação e expressão estética. Claudio Prado, do Ministério da Cultura, levou tudo para o campo das idéias, numa tentativa de reflexão mais profunda. Falou de «ministério da alegria» e de como o digital fez ele mudar de idéia sobre muita coisa que já tinha como perdida. O mais interessante, entretanto, veio no fim. Heloisa Buarque de Hollanda, sentindo a necessidade surgida em tantos debates, anunciou que já começou a arquitetar um segundo debate. Era assunto demais para deixar morrer assim. «O fantasma do espectro» deve vir, com sorte, ainda no primeiro semestre do ano novo. Viktor Chagas (RJ): 14/12 As apresentações foram bem rápidas, José Marcelo Zacchi, coordenador do Overmundo, deu a palavra a Cláudio Prado, coordenador do setor de políticas digitais do MinC. Cláudio abriu os trabalhos com um excelente bordão: «Eu sou hippie», disse ele enfaticamente. «Eu sou e o Gil também é." Depois, explicou que toda tecnologia e toda apropriação dos meios de produção é um legado hippie. «Marx seria hippie», seguiu dizendo. Provocador, como ele mesmo se definiu ainda antes de subir à mesa, Cláudio dizia que Gil já cantava o «Cérebro eletrônico» na década de 60, que o ministro é bem antenado, e justificava toda essa euforia parafraseando «Roberto Freire,» Sem tesão, não há inclusão». Entre as várias provocações semeadas por Cláudio, estava o mote de que, para ele, download é consumismo. «Antes de entender o download, o usuário precisa saber o que é upload." E a idéia de que «Pirata é quem ganha muito dinheiro, conseqüentemente, piratas são as grandes majors», sugeriu. Para falar dos pontos de cultura e da questão da inclusão digital, Cláudio citou um esquema que divide em três fases as intenções de inclusão: a primeira, em que se pensa " é preciso dar computador para os pobres "; a segunda, quando a preocupação gira em torno da internet e da banda larga; e a terceira, quando se atinge um grau mais complexo de manipulação digital de arquivos, gráficos, vídeo, uma espécie de computador-estúdio. Foi pegando essa deixa que Arthur Leandro, artista, membro do Fórum Permanente das Culturas do Pará e professor da UFPA, citou casos e exibiu fotografias de encontros do fórum, um «ajuntamento de artistas», segundo sua definição. Arthur falou rapidamente, porque achava que durante as intervenções, a conversa fluiria mais facilmente. Só fez questão de deixar bem claro que sua proposta era de uma ação completamente independente, sem a força do Estado. José Marcelo agradeceu com o outro bordão da noite, «Brigadão, Arthur», e, dado o término precoce da participação do primeiro, foi obrigado a fazer uma breve apresentação sobre o Overmundo para a platéia, enquanto Gabriel Furtado e seu parceiro Igor, do coletivo Media Sana (PE), arrumavam os últimos preparativos para a inenarrável apresentação que se seguiria. Manipulando sons, como DJs, e imagens, como VJs, Gabriel e Igor improvisaram um discurso audiovisual eletrônico-político impecável. Depois do show, com três composições, Gabriel explicou que o Media Sana trabalha com a mídia como matéria-prima, porque os discursos dos meios de comunicação alcançam maior credibilidade. Em o final, ele exaltou um «ambiente cultural sem mediação», para o qual estamos caminhando. Então, começaram as perguntas. Uma menina fez a primeira. Uma mulher lá do fundo, fez a segunda. E uma outra menina da platéia, coincidentemente sentada ao meu lado (veja como as coisas acontecem sempre perto de mim) fez a terceira, a quarta, a quinta. Um homem explicou melhor a pergunta da menina e fez a sexta. Depois, o microfone voltou para ela e foi a sétima, a oitava, a nona ... A intervenção foi muito breve e causou uma enorme polêmica, muito devido à reação dos artistas participantes, que traduziam bem o discurso do «eu faço arte, não ligo para o capital». Ela disse, em termos bem simplórios, o seguinte: «Gente, isso tudo é muito bonito. Mas como é que se ganha dinheiro?" Cláudio voltou a tomar a palavra e citou Bnegão, a banda Marillion e muitos outros casos de gente que ganha dinheiro e faz arte, sem precisar se render ao capital. E fechou dizendo que defende o «se virismo» (condição de quem " se vira ") e que o dinheiro não é sempre mau. José Marcelo, no papel de mediador, não falou muito mais. Só agradeceu a todos, e fez as honras da casa no encerramento formal do seminário com o seu «Brigadão». Número de frases: 146 * * * * * O texto de cobertura da primeira semana de debates está aqui. «A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos». Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924. Em uma dessas aulas da faculdade de História que relatavam o período da República Velha no Rio de Janeiro me deparei com o conceito «Lugares de Memória», originalmente pensado por o historiador francês Pierre Nora. A proposta de reflexão na aula era encontrar nos dias atuais monumentos, lugares e lembranças que remetessem ao período republicano a partir de 1889. Em a classe surgiram muitas sugestões como o desmonte do morro do Castelo, a Avenida Central (hoje Rio Branco), a Rua do Ouvidor, a marchinha O Abre-Alas de Chiquinha Gonzaga, a Lapa, as obras de Lima Barreto e Olavo Bilac, a Tia Ciata, o samba, o futebol entre muitas outras opções. Todas essas memórias citadas se não são queridas por a população carioca, são lugares de memórias oficiais do período da primeira República brasileira. Com todas essas boas lembranças me ocorreu refletir um lugar, que teve origem nessa época, e é muito recorrente em meu cotidiano. São as favelas da cidade do Rio de Janeiro. Posso afirmar que uma lembrança sepulcral do período republicano, no despertar do século XX, foi o início do processo de favelização da cidade do Rio de Janeiro? A resposta seria positiva se procurássemos em toda a cidade as marcas que nos deixaram os republicanos daquela época. Os que saltarão aos nossos olhos serão as pequenas e amontoadas casas de tijolo e teto de zinco no alto dos morros da Cidade do Rio de Janeiro. As avenidas Rio Branco e Beira-mar são construções desse período e estão inseridas no projeto de lembranças da República Velha, porém essas imagens não são tão freqüentes como das favelas cariocas, que seguem a dinâmica geográfica de uma cidade montanhosa como o Rio de Janeiro. Até mesmo um passeio por as principais rotas, onde a Cidade é vendida para visitantes estrangeiros, é observada a «incomoda» presença das pobres comunidades. A onipresença das favelas cariocas é a marca mais concreta do Brasil-República. A imponência de favelas como a Rocinha, Cantagalo e Vidigal transpõe os cartões-postais da Zona Sul carioca e há pouco mais de um século são entraves aos projetos urbanísticos excludente da cidade. «Pode-se dizer que as favelas tornaram-se uma marca da capital federal [no período da República Velha], em decorrência (não intencional) das tentativas dos republicanos radicais e dos teóricos do embranquecimento -- incluindo-se aí os membros de várias oligarquias regionais -- para torná-la uma cidade européia», como afirmam Alba Zaular e Marcos Alvito na introdução do livro Um século de Favela. O prefeito Candido Barata Ribeiro em 26 de janeiro de 1893 botou abaixo o cortiço Cabeça de Porco que era considerado o maior da cidade. Francisco Pereira Passos, em março de 1904 com a demolição de 641 casas, desalojou quase 3.900 pessoas. Esses projetos de reforma urbana, especialmente segregacionista, deram início a um processo de ocupação e povoamento dos morros da cidade. A primeira favela do Brasil surgiu em 1897 no centro da cidade do Rio de Janeiro para abrigar homens, mulheres e crianças que não faziam parte do projeto progressista dos homens da República. As reformas urbanas na capital federal marcaram a gestão do prefeito Pereira Passos entre os anos de 1902 e 1906. A construção da Avenida Central foi um dos eventos que marcam o período republicano. Em esses anos, em que a cidade se transformou num canteiro de obras, foram erguidas dezenas de monumentos que permaneceriam na memória dos habitantes da cidade como uma construção dos homens do Brasil republicano. Contudo, junto da edificação do boulevard que ligava a região portuária à zona sul carioca surgiam os casebres de açafrão e de ocre. O Rio de Janeiro estava sendo construído como uma nova cidade, moderna, europeizada, capaz de ser o cartão-postal da recém-criada República. Contrariando esse ideal, as favelas passaram a ser vistas como outras cidades, corpos estranhos dentro da urbe formal. Esses corpos estranhos não poderiam estar inseridos no projeto republicano que estava sendo construído na cidade do Rio de Janeiro. O Morro da Favela, considerada a primeira favela do Brasil, a partir do ano de 1897 abrigou remanescente dos cortiços do centro do Rio, ex-escravos do Vale do Paraíba e os soldados desamparados da Guerra de Canudos e todos aqueles que jamais seriam retratados na poesia de Olavo Bilac. A favela erigia-se como monumento na região da Central do Brasil em frente a praça da Aclamação (hoje Praça da República), lugar onde os célebres militares marcharam para proclamar a República brasileira em novembro de 1889. Hoje, conhecemos o antigo Morro da Favela como Favela da Providência que ainda pode ser vista atrás da Central do Brasil, entre os bairros do Santo Cristo e da Gamboa. O Morro da Favela é a representação do que deveria ser esquecido para os republicanos da época. Em as lembranças da República Velha estão catalogadas, não oficialmente, as favelas do Rio de Janeiro e do Brasil porque foi a partir desse momento que iniciaram as desastrosas políticas urbanísticas para as cidades. Número de frases: 34 Se hoje nós olharmos, no centro da cidade, o Morro da Providência, lembraremos do prefeito Pereira Passos, do presidente Rodrigues Alves, da República Velha, pois ali se construiu o avesso de um lugar de memória, um lugar de esquecimento. Desde a década de 1960, quando a teledramaturgia deixou de lado (em termos) o tom melodramático para se aproximar do cotidiano brasileiro, uma das característica dos personagens mostrados nos folhetins teve uma mudança considerável. Em vez de mocinhos muito bons e vilões somente preocupados com a maldade, os personagens passaram a ter qualidades e defeitos, independente do arquétipo estruturado por o autor. Mas na dramaturgia de início de milênio, esta alteração nos rumos do jeito de se escrever novela gerou uma curiosa reação de uma parcela do público. Alguns espectadores atualmente priorizam os aplausos a personagens com um comportamento fora dos padrões do «politicamente correto». É o caso da atual novela que a TV Globo exibe no horário das 21h, Paraíso tropical, na qual a relação de Olavo e Bebel (ele, um mau caráter invejoso e ela, uma prostituta ambiciosa) garante a audiência de uma trama que, em seu início, parecia ser rejeitada. As tramas que envolvem a dupla de personagens superam as histórias de amor do casal protagonista Paula e Daniel, feitos por Alessandra Negrini e Fábio Assunção, respectivamente, e do par romântico «de meia-idade» Antenor e Lúcia, interpretados por os consagrados atores Tony Ramos e Glória Pires. Nem mesmo o conflito entre gêmeas idênticas fisicamente, mas com caráter diferente (a bondosa Paula e a inescrupulosa Taís) chamam tanta atenção quanto a relação sensual dos personagens vividos por Wagner Moura e Camila Pitanga. O sucesso dos dois é creditado à maneira como Gilberto Braga cria seus vilões. Desde a Odete Roitman de Beatriz Segall na longínqüa Vale tudo, o dramaturgo é responsável por colocar no ar pessoas com uma vilania cínica, ilimitada, capazes das ações mais tresloucadas para conseguirem o que desejam. Com isto, o espectador acaba por «justificar» os golpes com a frase de que eles estão apenas correndo atrás de seus ideais. O final de uma novela das 21h exibida na emissora do Jardim Botânico no ano passado despertou a discussão em relação à audiência apoiar as trapaças. Escrita por Silvio de Abreu, Belíssima reservou para a vilã Bia Falcão (vivida por Fernanda Montenegro) um final sem punição -- ela fugia do país, num jatinho, e terminava a trama vivendo na bela Paris. Decisão aplaudida por boa parcela dos espectadores, que qualificaram seu desfecho como «próximo da vida real». Em tempos de incredulidade com a Justiça (seja ela divina ou feita nos tribunais), cada vez mais as novelas parecem ser as verdadeiras tribunas de honra para as diretrizes do destino de heróis e vilões (que em algumas tramas bem escritas, como as de Gilberto Braga, nem são totalmente duelos de mocinhos e bandidos). Resta ao «juiz» deste tribunal -- o autor -- decidir se absolve ou não das maldades aplaudidas por o júri popular. Número de frases: 16 Afinal de contas, por mais que os vilões sejam camaradas, há um «código de ética» entre autores e emissora para não trazer maus exemplos aos telespectadores. Texto originalmente publicado no blog: http://mascandocliche.zip.net A estrada estava à frente, um sol de 30 quilates só faltava derreter aqueles dois viajantes postados em cima dos seus cavalos. Eles estavam acostumados com um clima ameno do mediterrâneo. Diferentemente dos outros dois em pé ao lado do Rocinante. Eles se criaram ali e tiveram o calor como companhia durante toda a sua vida. Eles dialogavam. Por a presença dos dois aventureiros, aquela cena não poderia ser mais Nordeste, nem menos Nordeste. -- Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de entalhar-se em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro * -- gritava o magricelo Dom Quixote em cima do Rocinante. -- Oxe! Mas de que façanha você está falando?-- pergunta o pequenino João Grilo. -- Você nunca ouviu falar dos épicos da cavalaria espanhola?-- rebate o gordo Sancho Pança. -- Não. Como é isso? -- Lá. Os heróis ...-- começa Dom Quixote. -- Oxente, João Grilo! Claro que você sabe o que é, eu mesmo já tive um cavalo bento. Não lembra?-- interrompe Chicó. -- Que isso Chicó? Vai inventar história até para esse povo? -- Mas se eu tive mesmo um cavalo bento, João. O que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive? Hum! Cavalo bom como aquele nunca tinha visto. Uma vez corremos atrás de uma garrota das seis da manhã até as seis da tarde sem parar nenhum momento. Fui derrubar o boi já de noitinha. -- Oxe! O boi? Não era uma garrota?-- rebate João Grilo. -- Era uma garrota e um boi. -- E você corria atrás dos dois juntos assim, de uma vez? -- Corria! É proibido?-- se irrita Chicó. -- Deixa ele contar a façanha, senhores -- defende Dom Quixote que sempre teve um ouvido ávido por bons causos. -- Proibido não é não. Mas eu me admiro de eles correram tanto tempo juntos, sem se apartarem. Como foi isso?-- pergunta novamente João. -- Não sei, só sei que foi assim ... 17 horas montado e o cavalo ali com mim, sem reclamar nada -- continua Chicó. Comecei a correr da Ribeira do Taperoá na Paraíba e quando me dei fé, já estava em Sergipe. -- Fantástico!-- se admira Quixote. -- Sergipe? E o Rio São Francisco, Chicó?-- duvida João. -- Lá vem você com essa mania de pergunta -- rebate Chicó abrindo os braços. -- É claro! Eu quero saber, como foi que você passou? -- Não sei, só sei que foi assim. -- Toda vez é isso. Sempre que se pede uma explicação você vem com esse ' não sei, só sei que foi assim ' ... -- Vamos Sancho? Adeus senhores -- se despede Dom Quixote. -- Mas homi, tu vai pra onde com essa pressa toda. É de sete meses, é?-- pergunta João. -- Não senhores. Preciso chegar em Taperoá e de lá seguir o rumo até Sergipe. Tenho uma façanha e um destino a seguir. Dom Quixote levantou poeira do seco chão nordestino e junto com seu companheiro Sancho Pança, deixaram boquiabertos os dois maltrapilhos contadores de causos a refletir sobre sonhos. Quatro séculos separam esses personagens. A arte seria melhor se eles se unissem. Ariano Suassuna está para a literatura brasileira e para o Brasil, como Miguel de Cervantes está para a literatura espanhola e para a Espanha. Abertamente ou não, inconscientemente ou não, ambos levantam a bandeira da defesa por a cultura popular. Cervantes usa o percurso desafiador do sonhador Don Quijote de La Mancha, Ariano serve-se da cavalgada de São José do Belmonte e das mentiras inexplicáveis de Chicó. Ambos utilizam uma arma simples e contagiante: a escrita. No caso de Ariano, verberam-se essa defesa de brasilidade e os gritos nordestinos em trabalhos como ' Uma mulher vestida de Sol ` (1947), ' Farsa da boa preguiça ` (1960), ' Auto da Compadecida ` (1955) e ' O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta ' (1971), para citar alguns dos bons resultados que essa sina que o Ariano persegue, produziu ao longo da sua vida. Uma outra obra de grande importância, mas que se restrigiu ao universo acadêmico, foi sua tese de livre-docência, defendida em 1976, intitulada " A Onça castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira». Há uma semana, o imortal Ariano esteve em Belo Horizonte e concedeu uma entrevista coletiva. Em ela, entre os vários ' não é? ' e 'tá certo? ', falou das adaptações de suas obras para a televisão, teatro e cinema, das críticas, do rótulo regionalista, de Hip-hop e, claro, não desperdiçou a oportunidade de defender verbalmente seus ideais sobre a preservação da cultura brasileira. Repare como ele sempre reforça que o cordel é a ' literatura popular brasileira '. Ariano Suassuna, dono de cadeiras na Academia Brasileira de Letras, Academia de Letras de Pernambuco e na Academias de Letras da Paraíba, sentou-se ao lado de vários jornalistas e ainda conseguiu se sentir à vontade. Inspiração Eu digo sempre que todo o 'critor tem um universo interior onde tumultua personagens e histórias e todos buscam encontrar uma saída para isso. Em 'se universo existem muitas coisas adquiridas por influência de outros 'critores. Em o meu caso, tenho grande influência das pessoas da minha família, dos tipos populares que eu conheci e dos folhetos de cordel, da literatura popular brasileira. Então é daí que vem isso que vocês chamam de ' inspiração ', tá certo? Mas eu usaria outra expressão que eu acho muito forte. Pra isso, tenho que contar uma história (todos concordam com a cabeça -- no fundo, era o que todos queriam ouvir: boas histórias). Tem um grande artista popular lá do Nordeste, o Dom Caboclo -- descendente de índios, que dizia que todo o artista tem um córrego, a gente pode não prestar, não ser uma pessoa boa, mas tem dentro de si um córrego e acho que é 'se córrego que é fundamental na criação. Inspiração Mineira Repetindo o grande brasileiro Alceu Amoroso Lima, ele disse uma frase que me impressionou muito. Ele disse: ' do Nordeste para Minas corre um eixo que não por acaso segue o curso do Rio São Francisco, o Rio da unidade nacional, a 'se eixo o Brasil tem que voltar de vez em quando se não quiser se 'quecer que é Brasil '. Então, quando eu vejo uma 'cultura do Aleijadinho, quando ouço a música do Roberto Correia, Reinaldo Andrade, texto do grande Guimarães Rosa, poesias do grande Carlos Drummond de Andrade. Tenho orgulho de ter sido amigo dos dois, inclusive Rosa fez um poema pra mim onde me chamou de ' jardim do mato regado a orvalho e rei do quinto naipe do baralho '. O que eu quero mais, não é? Regionalismo Não me considero um regionalista não, do mesmo jeito que não considero o Rosa um regionalista. Tanto Rosa como eu, recebemos uma forte influência do movimento regionalista, de Euclides da Cunha. Agora, o regionalismo mesmo ... por exemplo, você pega um romance do Jorge Amado e do Graciliano Ramos e você vê que eles são neonaturalistas, e eu gosto da literatura mais reinventada, eu não gosto da literatura que pretende passar por a vida, que pretende imitar a vida. Eu quero uma comunicação com a vida real, mas quero 'sa comunicação recriada em termos poéticos e isso, encontro na literatura de cordel que é a literatura popular brasileira e também na poesia. Adaptações Eu resisti muito a permitir que uma obra minha fosse adaptada para a televisão, mas era porque queriam que eu me adaptasse a televisão, tá entendendo? Eu fui procurado pela primeira vez na década de 60, do século 20. Eu disse: ' olhe, eu não tenho dúvida em permitir, agora tem uma coisa, do jeito que a televisão 'tá andando um de nós dois vai ter que mudar a passada, e eu vou logo avisando que não serei eu não, tá certo? ' Eu não aceito, por exemplo, a caricatura do sotaque nordestino que se faz na televisão. Eu nunca vi aquilo, aquilo não é um sotaque nordestino não. Que sotaque é aquele, né? Pois é. Que sotaque é aquele? Até que passados 30 anos, já em 1997, fui procurado por o grande diretor Luiz Fernando Carvalho. Com 'se eu não tive dificuldade nenhuma. Fiz duas experiências com ele: ' Uma mulher vestida de sol ` e a ' Farsa da boa preguiça ` e recentemente fiz a ' Pedra do Reino '. Com Guel Arraes que é meu amigo desde menino ... quer dizer, desde ele menino (risos), porque ele é bem mais jovem do que eu, fiz o'Auto da Compadecida '. E não me arrependo de nenhum dos casos. Eu gostei muito. E no teatro? Sim, eu me 'queci. Eu falei nas adaptações do cinema e da televisão e não falei da adaptação do teatro, não foi? Pois bem, a adaptação do Antunes Filho eu gostei muito também. Como o senhor recebeu as críticas da adaptação da ' Pedra do Reino '? Eu avisei desde o começo. As pessoas me perguntavam, quando se falavam que iria fazer a ' Pedra do Reino ': ' você acha que vai ser um novo Auto da Compadecida? ` Eu dizia: ' nem 'pere '. Espere não porque é outra obra. É uma obra mais complexa e não é uma obra que tenha a comunicabilidade popular que tem o'Auto da Compadecida ` não. Veja bem, não sei se vocês já leram o Novo Testamento, se não leram, eu recomendo que leiam, tá certo? Em o Novo Testamento vocês têm os Evangelhos que são narrativos, não é? Por exemplo, o Evangelho de São Mateus começa: ' livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, que gerou Abraão, que gerou a Isaac e por ai vai, tá certo? ` Uma coisa bem simples, bem narrativa. Ai você tem o Apocalipse, não é? Pois bem, aquilo é um poema. Eu não 'tou falando no sentido religioso não, 'tou falando no sentido literário. O profeta Ezequiel é um grande 'critor, São João Evangelista é um grande 'critor. Repare que beleza: ...e viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze 'trelas sobre a sua cabeça ... repare a imagem! Que coisa linda! Acho tão lindo que chamei minha primeira peça de ' Uma mulher vestida de sol ', baseada em ele. Então o Luiz Fernando poderia ter optado em fazer uma narrativa mais evangélica, mas ele optou em fazer uma narrativa mais apocalíptica. A meu ver, fez muito bem (risos). Gostei muito. Agora, tenho a lucidez suficiente para saber que o público comum não pode ter gostado da ' Pedra do Reino ', como gostou do ' Auto da Compadecida '. Crítica (ou o sumiço de ela) Nós 'tamos vivendo um momento que, infelizmente, a crítica teve que se refugiar somente nas universidades porque os jornais tiraram 'se 'paço. Antigamente você tinha críticos como Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima ou Antonio Candido, 'crevendo nos jornais. Hoje os jornais viraram quase que os cadernos de anúncio de, de ... Festa? Isso! De anúncio de festa. Agora se tem, no máximo, resenhistas, mas a crítica literária mesmo deixou de ser exercitada. Acho uma pena porque isso abria caminho junto ao público para compreensão do romance, das peças de teatro e do cinema. HIP-HOP Bom, eu faço uma distinção entre êxito e sucesso. O livro ', de Lima Barreto é um êxito. Tem bem menos sucesso que qualquer hip-hop. Agora, daqui a 100 anos o livro de Lima Barreto continuará a ser um pilar para a cultura brasileira, para a literatura brasileira e para o próprio Brasil como país. Agora, eu não sei se o hip-hop ainda existirá daqui a 100, 200, 400 anos. Eu acho que todo o artista verdadeiro pensa em termos de êxito e não de sucesso, tá certo? O sucesso por natureza é efêmero, então o que por ai fizer sucesso, mas não for de boa qualidade, pra mim não tem importância nenhuma. Oscar Niemeyer Olhe, acho Oscar Niemeyer um grande arquiteto, só não acho um grande arquiteto brasileiro, principalmente porque falta cor em ele, isso eu acho fundamental para a arquitetura brasileira. Eu acho a arquitetura do Niemeyer muito, muito brancosa, muito calvinista, isso não corresponde com o Brasil que é um país barroco, tem uma unidade de contrates e exige a cor, a alegria das cores. Eu acho que uma casa para ser brasileira tem que brilhar ao sol com cores fortes e quentes, fortes ao ponto que Deus pudesse avistar lá de cima com alegria. É 'sa alegria que acho que não existe na obra do Oscar Niemeyer. Veja bem, é curioso porque ele, aqui em Minas ... ele é carioca, não é? É. Pois bem, mas aqui em Minas ele fez uma experiência que se ele tivesse levado a diante, a arquitetura de ele seria outra. Ele fez uma experiência com o (Candido) Portinari na Pampulha, mas depois ele radicalizou mais. Ele passou a achar que arquitetura é unicamente combinações de espaço arquitetônicos e desterrou a pintura, 'cultura e a cor. Povo Brasileiro Eu sou entusiasta do povo brasileiro, tá certo? Eu admiro inclusive como é que um povo que passa as dificuldades que passa, mantenha uma capacidade de resistência, inclusive cultural, tão grande. Porque fazem de tudo para acabar com a personalidade cultural do povo brasileiro. Eu já vi muito profeta ... eu moro no Nordeste, vocês sabem né? Já vi muito profeta chegando lá e profetizando a morte dos cordéis, a literatura popular brasileira. Pois bem, eu já vi muitos desses profetas morrerem e a literatura de cordel tá lá, viva, tá entendendo? Repare ... quando o homem chegou a lua pela primeira vez, as imagens que chegaram por a televisão eram horríveis, tá certo? Eu nunca tinha visto coisa mais feia que aquela (risos). Era uma coisa horrorosa. E a literatura que se publicou no mundo inteiro sobre 'se fato também achei de péssima qualidade. A única coisa que achei boa foi um folheto que foi publicado por um nordestino, chamado José Soares, o poeta repórter. Pois bem, aquele era um assunto inteiramente alheio a nossa cultural, não é? Ele incorporou e conseguiu uma descrição do astronauta belíssima. Repare que beleza, ele disse assim: ' os astronautas trajavam calça, culote e colete, com um guarda-peito de aço desenhado um ramalhete e cada um tinha uma 'trela de prata no capacete '. Veja que capacidade! Ele recriou tudo aquilo nos termos da nossa cultura. Futuro Eu pretendo continuar fiel ao meu país e ao meu povo e fazer o que me é possível. Vai Ariano com a sua sina, segue os passos do Dom Quixote e vai fazer felizes os séculos que conheceram suas façanhas e suas histórias. Segue Ariano e deixa que o povo brasileiro entalhe em bronzes, em mármores ou pinturas suas obras para um futuro melhor, para um Brasil melhor! * Título gentilmente cedido por Israel do Vale * * Número de frases: 206 Don Quijote de La Mancha, pág. 35 -- edición del IV Centenário -- Real Academia Española. Quando pequeno -- mais do que já sou -- lembro-me muito bem de quando meu pai trouxe para casa o nosso primeiro videogame, o Master System 3. Durante um bom tempo, o 'perto jogou muito mais que eu e meu irmão, já que éramos mui ruins! No entanto, após um certo tempo, começamos a dominá-lo! O videogame, não meu pai: D! Jogos como Batman Returns, Masters of Kombat e o clássico Alex Kidd são alguns dos quais joguei bastante em 'sa época. Após a queda de popularidade do Atari, o Master System tornou-se um dos consoles mais vendidos no país. Deve-se um pouco disso a parceria firmada entre a japonesa Sega e a brasileira e recém fundada Tectoy ao final da década de 80. O objetivo de ela era desenvolver e produzir brinquedos de alta tecnologia, como o famoso Pense Bem, o qual também fez parte da infância de vários pirralhos de 'sa época. Eu demorei a ser um de eles, mas, ao menos, minha versão foi mais moderna e bonitona! Com o aumento de vendas do Master System no mundo todo, a Tectoy tornou-se representante da Sega no Brasil e passou a frabricar os consoles da empresa japonesa. Mergulhando ainda mais em 'tes tempos, como não entendia nada de conglomerados corporativos e a palavra globalização 'tava bem distante do meu entender, não sabia se era a Tectoy ou a Sega que criou o Master Sytem. Era tudo a mesma coisa! O importante era duelar jokenpo com os chefões sinistros de Alex Kidd e, caso perdesse, ficar puto e buscar o colo da mamãe. Aqueles provavelmente foram os tempos áureos da empresa brasileira. Todavia, com a queda da popularidade do Master System e do Mega Drive, e a concorrente Nintendo dominando o mercado, os consoles da Sega foram parar no empoeirado fundão de vários armários brasileiros. E antes que o barco afundasse de vez, a Tectoy parou de fabricar apenas videogames e «ampliou» seu campo de atuação. Atualmente, a empresa produz karaokês, dvd ´ s e mp3 players e variantes dos Master System 3 e Mega Drive 3, com centenas de jogos incluídos na memória. Há também um Mega Drive portátil que deve ser legal, e um bizarro cooltoy, como a empresa mesmo nomeou, o qual lê e-mails e «mais um infinidade de coisas» pra você! O nome da criatura é Nabaztag (?!?!) e até mesmo há como trocar suas orelhas (!?!?)! A Tectoy, apesar de não ser tão conhecida como antes, a atual geração provavelmente nunca ouviu falar em ela, foi, e talvez ainda seja, um importante exemplo empresarial no Brasil. Em que, consumidores e empresários preferem e investem mais no 'trangeiro, resultando na minúscula porcentagem de produtos alto tecnológicos de origem brasileira. Tornando-se um verdadeiro refém em tecnologia de países norte americanos e europeus e fragilizado diante de crises de commodities. Número de frases: 23 Retornando o pensamento à minha infância, e a de vários outros, a verdade é que, às vezes, sinto vontade de 'quecer todos 'ses complicados termos e assuntos corporativos, commoditais, tecnológicos e mercadológicos que tentamos entender, sentar-se novamente à frente da televisão e do Master System, assoprar e encaixar o cartucho do Masters of Kombat e tentar, novamente, detonar aquele chefão alienígena fodão! Fortaleza, 21 de maio de 2007. Caros senhores, Em o dia 15 deste corrido mês, procedi a público manifestar minha insatisfação com as irresponsabilidades e desculpas evasivas da então SECULT com uma carta aberta à sociedade cearense. A carta dizia: «Venho até aqui questionar uma coisa que me faz ficar intrigado desde ontem (14/05/07). Voltando ao passado: em 2005 fui selecionado no II Edital de Incentivos às Artes no Ceará na categoria de Literatura -- Romance. A seleção dava o direito de receber uma verba da SECULT destinada aos ganhadores para publicação da tal obra literária. Dinheiro 'te que foi capaz de editar mil exemplares do meu romance «Individuais». Honrei cada centavo dos nove mil reais a que tive direito de receber da Secretaria de Cultura do Estado. Em o dia oito de dezembro de 2006 recebi os mil exemplares da Editora (Editora Novo Século). Em o contrato que assinei com a SECULT teria que repassar 20 % dos mil exemplares. E foi o que aconteceu no dia 11 de dezembro de 2006 pela manhã. Entreguei 200 exemplares do romance «Individuais» a SECULT. Em o contrato, N° 57/2005, diz na Cláusula Segunda -- De as Obrigações: II j) encaminhar a Biblioteca Governador Menezes Pimentel 20 % da tiragem na qual deverá ser de mínimo 1000 exemplares, para fins de distribuição ao Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, no prazo de trinta dias após a publicação. Pois bem, eis aqui o questionamento. Em a segunda-feira passada, dia 14/05/07, também pela manhã, precisei ir fazer uma pesquisa na Biblioteca Governador Menezes Pimentel, local que constantemente realizo análises. Dirigi-me até a seção de Literatura Cearense e na curiosidade que me impulsionava perguntei à bibliotecária se o livro, «Individuais», de Tiago Viana, 'tava exposto para consultas. Para minha surpresa e grande susto não existia nenhum exemplar para contar sequer uma única história, não havia «Individuais» e muito menos o autor Tiago Viana. Fiquei pasmado porque já fazia cinco meses depois que entreguei a responsabilidade da SECULT os 200 livros que teria que repor ao governo e por obrigação a SECULT ter encaminhado a Biblioteca Menezes Pimentel. Trocas de governo a parte. Transição errônea como desculpa. Mudança de secretários e de funcionários. Nada sai, nada entra foi à desculpa que tive do pessoal da SECULT. No entanto, fico a me questionar: não apenas por conta do meu livro 'tá retido, aprisionado, apodrecendo nos porões da SECULT como também de outros autores que também ganharam editais do governo. Livros 'tes todos retidos diante a pouca importância que 'te governo ou o passado dar a Literatura Cearense. Aqui fica a pergunta: será que alguém que não tem condições de comprar meu livro, será que ainda vai poder ler algum dia em qualquer biblioteca pública do 'tado do Ceará? As bibliotecas do 'tado já são carentes de livros imagina com 'ta burocracia toda. Será que 'te descaso público acontece apenas com a literatura local? Porque 'ta demora toda para reverter os livros as bibliotecas cearenses? Enquanto as traças se apoderam das páginas dos livros, milhares de 'tudantes, leitores e 'tudiosos deixam de ler livros de autores contemporâneos cearenses. Isso é que responsabilidade intelectual confinados a quadro paredes e uma porta com tranca de chaves perdidas." Este foi meu desabafo no dia 15 de maio. Hoje, dia 21 de maio de 2007, volto a dizer as mesmas palavras. Acabei de chegar da Biblioteca Governador Pimentel e por lá continua a mesma coisa. O meu livro e os dos autores que assim como eu venceram Editais do Governo do Ceará para edição e publicação de livros, nenhum até o momento foram repassados para a biblioteca que assim teria que distribuir para bibliotecas públicas de todo o 'tado do Ceará. Em o mínimo um descaso, uma falta de compromisso primeiro com a população cearense que deixa de usufruir da literatura contemporânea cearense e depois para com todos os autores que querem que suas obras sejam lidas e relidas. Continuarei firme até os livros chegarem às bibliotecas públicas mais distantes e 'quecidas do 'tado. Tiago Viana. Número de frases: 43 Aracaju completou mais um ano oficial de vida em 17 de março. Uma cidade de contraste desde a sua fundação, onde: de um lado prédios altos e verticalidade, do outro a horizontalidade; de um lado barracos, do outro a 'trutura sólida; de um lado avenidas cruzam e ligam ao restante da cidade, do outro as ruas são 'buracadas e de barro, quem dirá ter avenidas ligando à cidade ... Em um resgate histórico, é possível observar que a paisagem urbana da cidade já se configurava com muitos contrastes desde a sua fundação, em 1855. A passagem de tantos anos apenas reforçou os contrastes e distanciou mais a realidade de quem vive na cidade e de quem vive na periferia. Foi Inácio Joaquim Barbosa quem 'colheu o então Povoado de Santo Antônio do Aracaju para ser a nova sede da Província de Sergipe del ´ Rey, vindo a substituir São Cristóvão. A transferência da capital produzia condições mais favoráveis para o funcionamento de um bom porto e assim o fácil 'coamento dos produtos. As águas do Rio Sergipe, mais profundas e de longo 'tuário, tornavam a navegação mais fácil e segura, pois a região do Cotinguiba, amplo recôncavo produtor de cana-de-açúcar, necessitava de um bom porto. A capital foi transferida em 1855. Os motivos que levaram à 'colha de Aracaju como nova sede foram encabeçados por diversos fatores, mas o preponderante foi sua situação geográfica, próxima à foz do rio Vaza-Barris. Enquanto, São Cristóvão possuía difícil acesso até para as embarcações de pequeno porte. Para a fundação da nova cidade, Inácio Barbosa encarregou o Eng. Sebastião José Basílio Pirro de planejá-la de forma a representar o «'pírito progressista da época». O «Plano de Pirro», como ficou conhecido o projeto urbanístico de Aracaju, resumia-se a um traçado em xadrez, extremamente geometrizado, o que facilitaria a demarcação das ruas, atitude justificada por a pressa em se tornar Aracaju uma realidade, pois existia ainda o perigo da mudança de capital não ser aprovada por a Corte. Mesmo existindo o quadrado de Pirro (32 quadras de 110mx110m cada uma), ocorreu outra expansão paralela, originada por a falta de recursos da população pobre para atender às exigências do Código de Posturas Municipal, o qual determinava: o alinhamento dado por os Fiscais da Câmara, 'tabelecia o pé-direito mínimo, dimensões para 'quadrias, mandava caiar as frentes das casas duas vezes por ano e vedavam a cobertura de palha. Fazia-se apenas questão das fachadas. Logo, a população pobre começou a construir casebres no lado norte da cidade. A partir de 1862, com a criação da Praça da Matriz e o lançamento da pedra fundamental da Igreja Nossa Senhora da Conceição (atual Catedral Metropolitana de Aracaju), a cidade começou a crescer rumo ao oeste. Logo o entorno da igreja foi demarcado por construções de edifícios públicos e residenciais. Nascendo a cidade não de forma 'pontânea, mas de uma vontade política, competia ao Governo Provincial criar condições para sua existência. Por isso, durante os primeiros vinte anos o poder público tem uma atuação decisiva no desenvolvimento da cidade. Preocupava-se com a abertura de ruas, problemas de aterros, incentiva e financia construções de casas, sem exigir dos proprietários, no primeiro ano de fundação da cidade, o cumprimento das leis do código de posturas. Após 1870, o crescimento da cidade é quase paralisado porque ficou à mercê da iniciativa privada. E é fora do Plano de Pirro que a cidade continua a crescer intensamente, abrigando os negros recém-libertos e outros grupos de baixa renda. Aglomerações caracterizadas como verdadeiras «cidades livres», onde a população não era absorvida por o mercado de trabalho da cidade, fulminando nos primeiros problemas urbanos. Enquanto isso, no centro comercial da cidade 'tá localizada a nova burguesia. Tal confronto evidência que em 'sa época já se constituía uma 'trutura 'pacial 'tratificada em termos de classe social e segregação urbana. A partir de 1910, com a Lei nº 168 de 2 de julho de 1914 para embelezamento das praças, começou a se investir mais em arborização, calçamento, etc.. Então surge o jardim Olympio Campos. Dá-se o primeiro embelezamento de espaço público, com uso de vegetação na composição urbana da cidade. Porém o mais marcante é a instalação de um coreto de ferro, o primeiro existente num 'paço público da cidade, representando a projeção da cidade européia da segunda metade do século XIX. E, a exemplo da maior parte das capitais brasileiras, Aracaju importou o coreto europeu. Para acompanhar as tendências urbanísticas da época, o jardim é contornado por um gradil de ferro, com acesso controlado por um jardineiro que ficava com as chaves dos portões. A o público era determinado um horário de acesso e, através do regulamento nº 12 de 10 de outubro de 1911, ficou determinado que o ingresso somente fosse permitido para aquele decentemente vestido. O contraponto do Jardim é a Praça da Matriz, que tem toda área livre e aberta às manifestações populares. A praça é palco dos folguedos populares nas tradicionais festas de Natal que acontecem ali desde épocas remotas, possivelmente quando implantam o carrossel em 1900. O local começa a ser ocupado por uma classe mais abastada da sociedade e bancos privativos também se instalam ali. Orgulhava-se o Governo por ter obtido a beleza tão almejada para os 'paços públicos e ainda ter conseguido servir a cidade de 'trutura urbana, registrando ainda a passagem do famoso Eng. Saturnino de Brito: " ( ...) todas as ruas são corretamente calçadas a paralelepípedos e fartamente iluminadas, sendo algumas já arborizadas. Possui lindas avenidas e atraentes jardins e parques, onde dizem os visitantes ser a arborização mais bem cuidada do Brasil! Existem para quase todos os bairros bondes elétricos, lotações e ônibus. As construções obedecem as mais belas e harmoniosas linhas da engenharia contemporânea. É regular sua rede de telefones, possuindo água encanada limpa e 'gotos que foram reconstruídos por o Eng. Saturnino de Brito " (Cadastro de Sergipe, nº 4, ano 1953). No entanto, as melhorias obtidas por a gestão municipal e 'tadual não chegavam às zonas mais periféricas da cidade. Lá faltava todo tipo de infra-estrutura básica. Isso se devia ao fato de que ao redor da área ocupada por o Plano de Pirro, havia vários sítios e chácaras dos burgueses que residiam na cidade, e, apenas após 'se vazio urbano, 'tava a periferia, o que dificultava e encarecia a chegada de serviços, como iluminação e saneamento. Como maior centro urbano do Estado, Aracaju será portadora dos grandes males encontrados nas cidades industrializadas do século XIX, em conseqüência do rápido crescimento populacional imprimido por a revolução industrial. Determinados tipos de problemas urbanos, como ruas 'treitas para circulação e falta de espaço para lazer, não aconteceram dentro do Plano de Pirro, mas sim fora de seu limite. Em a década de 1970, inicia-se o processo de metropolização de Aracaju impulsionado por políticas públicas. O período foi marcado por a presença de migrantes motivados por o início da exploração de recursos minerais sergipanos, por a transferência da sede da Região Nordeste de Maceió para Aracaju, por a criação da Universidade Federal de Sergipe, por a implantação do Distrito Industrial de Aracaju e por a política habitacional desenvolvida por a COHAB (Companhia de Habitação Popular em Sergipe). Foi a COHAB-SE que em trinta anos financiou mais de 15.000 unidades habitacionais para as classes menos favorecidas. Em a década de 1980 foram construídas 62,65 % de 'sas unidades, fase em que se construíam conjuntos com mais de 1.000 unidades. Já o INOCOOP (Instituto Nacional de Cooperativas Habitacionais) construiu cerca de 6.000 unidades habitacionais destinados à população de classe média. Como a COHAB construiu seus conjuntos habitacionais distantes da malha urbana consolidada, tal procedimento exigia uma ampliação dos serviços de infra-estrutura, valorizando ainda mais os 'paços vazios localizados entre a malha e as novas áreas ocupadas. Com o solo valorizado, a 'peculação imobiliária se fortalece e, na década de 1970, surgem várias empresas imobiliárias e construtoras. Por conta de sua própria política habitacional, valorizou-se o solo urbano e atiçou-se o interesse dos grandes empreendedores da construção civil e do mercado imobiliário, que logo adquiriram os terrenos remanescentes. E, assim, a cidade começa a ser empurrada para áreas mais distantes, em terrenos nos municípios limítrofes, onde ficou 'tabelecido por a COHAB que a administração municipal seria a responsável por a manutenção dos mesmos, porém ocorria que somente após os planejamentos o Prefeito era convidado a assinar um termo de compromisso para a sua manutenção. Em 1980 o processo de metropolização avança seus limites, invadindo os municípios limítrofes. Em a década de 1980 Nossa Senhora do Socorro apresentou um crescimento em torno de 35 %, São Cristóvão de 95 % e Barra dos Coqueiros cresceu 60 %. Semelhante ao processo de ocupação de outras capitais brasileiras, o aglomerado de Aracaju passou a possuir mais da metade da população urbana do Estado, com mais de 50 % do total em 1991. A partir da metade da década de 1970, Aracaju inicia um processo de verticalização que irá definir uma nova paisagem urbana. Esse processo começa na parte central da cidade, direcionando-se para o sul e ocupando as áreas dos antigos casarões. O processo de verticalização foi desenvolvido inicialmente através de empresas imobiliárias. Essa verticalização que tende a se acentuar de forma concentrada em áreas da cidade vem causando problemas, uma vez que há descompasso entre o adensamento e o serviço de infra-estrutura disponível. Outro efeito é o comércio que começa a se desenvolver junto a 'ses aglomerados humanos, que dinamiza 'sas áreas e diminui suas relações de dependência com o centro comercial da cidade. Eis o Jardins, bairro mais recente e mais «nobre» da cidade, como exemplo. Número de frases: 70 Estávamos no Alto da Sé em Olinda numa, inexplicavelmente, fria tarde de Setembro, e o silêncio causava 'tranheza aos turistas que circulavam no Sítio Histórico da 1ª Capital Brasileira da Cultura. Ao longe, ouvia-se um batuque secular vindo da Ladeira da Misericórdia, devagar e sempre, subindo e atraindo a atenção de todos. Era o majestoso Maracatu Carnavalesco Leão Coroado que vinha atender ao chamado do famoso Maestro ISAAC KARABTCHEVSKY para fazer uma participação na Mimo -- Mostra Internacional de Música de Olinda, conclamando o público Pernambucano e visitantes de todas as partes do mundo para assistir aos Concertos / Cursos e Vídeos da Mostra. Foi um encontro emocionante e enriquecedor para todos os envolvidos, desde os integrantes do Batuque Tradicionalíssimo do Maracatu Leão Coroado, como para os músicos Eruditos presentes, a exemplo do Daniel, Violinista da Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano De Música que participou, brilhantemente, da sessão de «Música de Qualidade» nem tanto Clássica nem tanto Tradicional -- improvisada. Deliciem-se com o momento histórico, através dos vídeos e fotos postados por 'ta tiete dos dois Maestros que vos 'creve. A os interessados em conhecer mais deste que é muito mais que um ritmo, podem comparecer à Comunidade (Real) de Águas Compridas, onde situa-se o Ponto De Cultura E TELECENTRO Maracatu Leão Coroado, sito à rua Nelson Melo Paes Barreto, 233 -- Olinda, tel: 34513191. Ou acessar as comunidades (virtuais): www.leaocoroado.org.br e www.sambatown.jp e blogs: http://www.orkut.com/ Community. aspx? cmm = 36880019 http://www.overmundo.com.br/overblog/ponto de culturatelecentro maracatu leao-coroado http://www.estudiolivre.org/el-gallery view. Número de frases: 12 php? arquivoId = 1578 Há alguns anos surgiu na internet um conceito revolucionário e que agora 'tá explodindo num fenômeno que tão cedo não vai acabar: o colaborativismo, base da chamada «Web 2.0». Basicamente, o usuário comum passou a ter o poder de não apenas consultar seus sites preferidos, mas também de publicar na internet seus próprios conteúdos e opiniões. Com isso, algumas pessoas passaram a se enxergar potenciais influenciadores (para não falar «formadores de opinião», expressão marqueteira que odeio), milhares de quase-críticos literários, de cinema, de música, de teatro ... A maior parte de 'tas pessoas não possui formação «adequada» para receber o título de críticos, e a grande maioria jamais será chamada para trabalhar em algum meio de comunicação, seja por o 'tilo livre e pessoal de 'crita, por a forma como trabalha, ou por simplesmente não ser jornalista. E não é isso que 'sas pessoas querem com seus textos: 'crevem por o puro tesão de falar sobre aquilo de que gostam. E os seus textos, profissionais ou não, trazem uma carga de parcialidade sem censura editorial que, além de exporem o que uma pessoa comum pensa sobre determinado assunto (com base em suas próprias experiências e conhecimentos), fazem com que as demais pessoas comuns que tenham afinidade por aquele assunto se identifiquem, seja aprovando ou discordando (o que é muito mais legal). Nada como ter a possibilidade de xingar o autor publicamente sabendo que ele vai acabar lendo aquilo. Observando 'te fenômeno, e não muito afeito aos xingamentos, o crítico literário John Sutherland, do The Guardian e do Daily Telegraph e professor da University College de Londres, declarou no ano passado 'tar chocado com o volume e a baixa qualidade da crítica que ele encontra ao atacado na internet, e travou uma grande polêmica em torno da confiabilidade deste conteúdo livre de qualquer padrão edi [ta] torial. Não sei o que acontece na Inglaterra, mas não acho que seja muito diferente do que ocorre aqui. Não podemos simplesmente ignorar que, enquanto na internet os críticos e quase-críticos se multiplicam como gremlins em contato com a água, o mercado editorial não reage com a mesma velocidade. Mesmo com uma revolução lá fora, quando olhamos para os meios de comunicação mais tradicionais, sobretudo os impressos, percebemos que pouco ou nada mudou em relação a seus formatos editoriais nos últimos anos. Comparando os sites dos jornais brasileiros como são hoje e como eles eram quando surgiram, vemos que ainda são extensões on-line do meio impresso (e pouco se investe para mudar 'te cenário atrasado). Um bom exemplo disso pode ser identificado se analisarmos o que acontece com a cena teatral paulistana. É inegável que São Paulo é a cidade com a atividade teatral mais intensa do país, ainda assim é pequeno o número de 'tréias que ocorrem por semana na cidade, e são raras as semanas em que os dedos das mãos são insuficientes para contá-las. E nem mesmo metade de todas 'tas 'tréias aparece nas páginas dos cadernos de cultura, e quando a 'tréia tem o atrativo de um ator, diretor ou companhia famosa ou renomada, ou quando surgem produções amplamente divulgadas, torna-se inevitável que todos os jornais e revistas falem das mesmas peças. E ainda tenha gente que acredite em diferenças nas linhas editoriais. Claro que existe a competitividade entre os veículos em cobrir da melhor forma aquilo que atrai a atenção de seus leitores / consumidores, e não podemos ignorar que a restrição de caracteres e 'paço limitado das páginas impede que todas as 'tréias semanais sejam cobertas, é sabido que 'sa realidade dificilmente pode ser mudada. Seria até ecologicamente desagradável 'crevermos tantas páginas sobre os lançamentos, nem temos tantos peixes pra embrulhar. No entanto, os portais dos jornais e revistas poderiam servir de plataforma para oferecer aos leitores a cobertura para as demais 'tréias, mas hoje só encontramos a replicação exata do que foi publicado no meio impresso, ainda que não haja restrição alguma em relação à quantidade de caracteres ou 'paço delimitado na web. O motivo para isso é muito simples: não há pessoas nas redações para gerar 'tes conteúdos que não são vendidos nas bancas. Será que faltam mais Sérgios Sálvia Coelhos e Beths Néspolis no mercado? Acho que a resposta é não. Existe na verdade uma porrada de gente muito boa, louca para 'crever sobre aquilo de que gosta, e que 'tá cagando * para o que o Sérgio Sálvia tem a dizer. É por isso que existem tantos jornalistas, acadêmicos, profissionais e amadores que não se sentem representados por o pouco que o mercado editorial lhes oferece, e que se refugiam em blogs e sites coletivos para suprir 'ta carência de informação relevante. Ao contrário dos jornais, 'tas pessoas não 'tão nem um pouco interessadas em trabalhar diretamente com jornalismo, menos ainda em serem imparciais. Ganhar dinheiro talvez seja a última coisa que pretendem (vejam o caso das revistas eletrônicas que há por aí, como a Bacante, que é mantida por dois editores que pagam hospedagem para 'crever nas horas vagas, (ou não tão livres assim), por o puro prazer de 'crever sobre teatro). É inegável que de entre 'tas pessoas, ainda haja muita gente boa que se enquadra no perfil editorial dos jornais e revistas e que, da mesma forma como contribuem com as Wikipedias e Overmundos da vida, facilmente contribuiriam bastante para melhorar a qualidade dos Ilustradas, Cadernos 2 e Guias da Folha que cada meio tradicional distribui por aí. Ou seriam grandes editores, ou no mínimo dariam excelentes curadores de conteúdo para versões on-line de cada veículo. Mas o mercado editorial não enxerga isso (ou então é 'túpido mesmo). Parecem preferir abastecer seus guias semanais com sinopses rasas e imprecisas, e pior: baseadas em releases para a imprensa. Se eles tivessem uma idéia do nível de 'crita das pessoas que 'crevem os releases, passariam a levar os blogs muito mais a sério ... Isso acontece na Inglaterra, assim como no mundo inteiro, e John Sutherland ao fazer sua análise certamente não levou em consideração o fato de que parte do conteúdo dos guias culturais é pautado por aquilo que as assessorias de imprensa lhes oferecem de mãos beijadas. Isso é suficiente para abalar a credibilidade, e para dar aos anônimos o 'tímulo para se atreverem a brincar de críticos e colunistas em seus jornaizinhos virtuais pessoais. Também não podemos tirar parte da razão de Sutherland. Seu maior argumento é a falta de qualidade deste conteúdo revolucionário, o que de fato muitas vezes procede. Não podemos ignorar que um crítico é uma pessoa que teoricamente possui um conhecimento acadêmico ou prático sobre o universo em que atua, e isso faz com que ele contribua com uma opinião 'pecializada. Mas o que acontece quando uma opinião 'pecializada se confunde com uma opinião pessoal supervalorizada? O que torna afinal a opinião pessoal de um crítico mais importante do que a opinião pessoal de um 'pectador comum? E para o leitor, qual a relevância de 'ta opinião 'pecializada afinal? Se olharmos friamente, hoje as colunas dos jornais muito pouco diferem dos milhares de blogs, seja em 'trutura, seja em linguagem, seja em conteúdo. Em ambos os casos, a legitimidade do texto é ditada não apenas por a qualidade do que é dito, mas também por a receptividade dos públicos cativos de cada meio. Quem não concorda com a opinião de determinado crítico (seja ele de um jornal ou de um blog), 'tá pouco se importando com o que ele diz. De a mesma forma, quando há identificação, as pessoas respeitam e defendem o argumento (ainda que não concordem com ele). O fato é que dificilmente alguém vai assistir a um 'petáculo teatral aleatoriamente, como é fácil de fazer com os cinemas multiplex. O teatro é uma arte que se acompanha por referência: seja 'ta de companhias, intérpretes, encenadores, dramaturgos, críticos, blogueiros ou indicação de amigos. A afinidade com a indicação sempre fala muito mais alto do que o grau de 'pecialização daquele que 'tá dizendo, e com isso, os blogs acabam assumindo 'se papel com grande sucesso. E no fim das contas, tanto na crítica dos jornais e revistas como nas resenhas porcas (ou não) dos blogs, os respectivos autores assumem o papel do amigo que indica, cuja opinião é confiável e respeitável. Logo, o critério sobre a relevância ou não daquilo que é lido, pra variar, é do leitor. Portanto, tanto quem quer Sutherland, Coelho, Néspoli, Ewald Filho e Thiago Ney como quem tem o mau gosto de ler a blogaiada e porcarias não-'pecializadas que há por aí (caso da Bacante), fiquem à vontade. Como já dizia o slogan de certa revista fundamental para o universo cultural de qualquer cidadão de bom senso: você é o que você lê. Então pronto. * É disso que eu to falando, minha gente! Número de frases: 59 Onde mais eu poderia usar a expressão «'tar cagando», que por mais chula que seja, é a que melhor se encaixa na frase e que melhor define o tom que eu quero usar? Independente Versus MAINSTREAM1 Por: Riffsjr@yahoo.com.br Tornou-se habitual definir de «independente» toda produção fonográfica, que não é produzida por as grandes gravadoras da «Indústria Fonográfica». » ... Mas nosso mercado fonográfico é muito mais complexo que isso; existem selos 'pecializados na produção regional, como o WR, famoso no mundo do Axé, em gêneros musicais como o Quarup, 'pecializados em músicas caipiras e outros que nascem dentro de gravadoras como o Phonomotor de Marisa Monte, subsidiário da EMI. Mas nem por isso podemos chamá-los de independente ...». ( Marchi. 2006). Para Leonardo Marchi, não podemos chamar de independentes selos que funcionam como subsidiários das grandes gravadoras, mas selos que têm como centralidade no seu discurso: A «contraposição explicita» às grandes empresas e a tentativa de criação de circuitos próprios, que só viria a acontecer, em âmbito nacional com a chamada «Nova Produção Independente a exemplo do selo Trama e da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente), criada em 2002)», e a criação da Revista» Outra Coisa " (Revista liderada por o Músico Lobão, que lança cd ´ s de artistas independente em suas edições.). Música Independente Baiana Em a Bahia, 'ta nova produção independente viria a ser conhecida como produção «Alternativa», por ser alternativa ao padrão vigente da» Indústria Fonográfica Baiana», se caracterizando por o seu discurso de produção independente, na sua produção e distribuição de materiais alternativos. As facilidades trazidas por a Internet e às novas tecnologias digitais se destacam cada vez mais e com o uso de 'tas tecnologias os trabalhos de algumas bandas baianas «alternativas» vêm ganhando com isso um padrão de produção cada vez melhor. As gravações de qualidade, hoje, 'tão bem mais acessíveis que no passado. Uma banda hoje consegue gravar um bom álbum com apenas R$ 1 mil, um valor relativamente baixo em comparação aos grandes investimentos das grandes gravadoras da Indústria Fonográfica Brasileira. 1-Artista comercial de grandes vendagens ou que tem visibilidade para o grande público; contrario do independente ou alternativo. Música da semana: 100 % Vodu BluesArtísta: SAMBALADA Eletrônica Disponivél em: Número de frases: 19 http://www.tramavirtual.com.br/artista.jsp? id = 46742 Virar a madrugada de um dia qualquer, no meio da semana, apenas bebendo e conversando na maioria das vezes é uma das coisas mais gostosas de se fazer, curtindo a companhia dos amigos, sem se preocupar com o sono ou a ressaca que sentirá no dia seguinte. Isso quando existe o dia seguinte, e a madrugada insone tem seu fim. Não é exatamente o caso dos três personagens de Impostura, peça de Marici Salomão e dirigida por Fernanda D' Umbra. Em uma madrugada de quarta-feira, uma mulher chega a seu apartamento acompanhada de uma garota que acabou de conhecer. Ambas 'tão bêbadas e excitadas, e não parecem 'tar nem um pouco preocupadas com o marido /namorado/roomate de uma de elas, um desagradável 'critor fracassado e alcoolizado sentado no sofá com uma garrafa de uísque quase no fim. Então o casal alcoolizado (o 'critor e sua roomate) começa um bombardeio de ofensas e farpas, provocações que vão crescendo e se tornando cada vez mais agressivas. Um jogando na cara do outro seus problemas, defeitos, frustrações e humilhações. Nem mesmo a visitante, que nada tem a ver com a relação dos dois, totalmente deslocada e sem a menor chance de reagir ou fugir, é poupada do furacão daquela relação que há muito deixara de ser saudável. E os três ficam ali a madrugada inteira, imersos num turbilhão de rancor, álcool, desejo e cigarro (nada de amor, nada de bons sentimentos). Uma sujeira corruptora se alastra para todos os lados e corrói tudo o que encontra por a frente, numa avalanche imunda que não é freada nem mesmo por uma grande fatalidade, naquela noite que parece que jamais terá fim. Um 'petáculo curto, de dramaturgia minimalista porém intensa, com uma direção bem conduzida, focada no texto e nas atuações, sem frescuras e firulas. A trilha sonora é bem 'colhida apesar de passar um pouco da medida, e a maior ressalva 'tá na iluminação, um tanto exagerada para uma montagem 'sencialmente contida, mas que acaba interferindo muito pouco no resultado final. Destaque para a atuação de Fernanda D' Umbra, que mais uma vez tem a platéia inteira em suas mãos com seu vozeirão e sua presença em cena, numa das melhores atuações da mostra. Número de frases: 14 Em resumo, uma peça tensa, suja e desagradável, que a platéia torce para que acabe logo, seja para acabar com tamanha angústia, seja também para aplaudir a um dos melhores 'petáculos do projeto «E se fez a Praça Roosevelt em 7 dias». O Festival de Inverno de Bonito chegou a sua sétima edição numa situação crítica. Tradicionalmente realizado em julho, acabou adiado para agosto. Os oito dias de programação que faziam a festa da cidade ecológica de Bonito -- que fica a 300 km da capital Campo Grande (MS) -- foram reduzidos por a metade e com muito 'forço o evento acabou atraindo R$ 700 mil, um milhão de reais a menos do que em 2005. Em os sete anos em que levou dezenas de músicos, artistas plásticos, cineastas, artesãos, atores, 'critores, fotógrafos, jornalistas e políticos para a pequena Bonito, o Festival atraiu 220 mil 'pectadores. Este ano foram apenas 15 mil. A programação foi modesta comparada a outros anos. Mas a diversidade de linguagens artísticas, que sempre foi a marca do evento, 'teve presente. Em a música, além dos artistas locais como Antônio Porto e Jerry Espíndola, tocaram Almir Sater, Vanessa da Mata, Luciana Mello e Jair Rodrigues. A galeria fez uma reduzida Mostra Brasil Central -- os quadros de Evandro Prado (MS) e Adir Sodré (MT) e as cerâmicas-sementes de Neide Ono (MS) foram o que mais gostei -- e um Concurso Nacional de Fotografia voltado para o meio-ambiente. A praça da cidade teve concertos, peças de teatro com direito a Denise Stoklos e projeção de filmes, como Tapete Vermelho. Não faltaram as clássicas oficinas e debates, lançamento de livros, mostra de filmes sul-mato-grossenses e uma simpática mostra nacional de vídeo-ecológico. A Coletiva dos Artistas Plásticos de Bonito mostrou que o festival acaba interferindo na região e incentivando o surgimento de talentos como Eládio N. Martinez, Buga, Lenice Rocha Ferreira e Rodrigo C. Lavoyer. Pessoalmente, minha ida ao festival valeu por ter assistido ao documentário de Cândido Alberto da Fonseca sobre Conceição dos Bugres. São as únicas filmagens da ' fazedora de bugrinhos ' e o vídeo ficava à disposição do público numa sala no andar em que podia ser vista ainda uma exposição de fotos de Conceição realizada por o fotógrafo campo-grandense Roberto Higa e um altar com os famosos bugres da artista. É evidente a importância do Festival de Bonito. Mas o futuro é bem incerto. O evento 'tá fortemente ligado ao Partido dos Trabalhadores e ao governador Zeca do PT. Assim como o Festival América do Sul, que já teve três edições realizadas em Corumbá, fronteira do Brasil com a Bolívia e capital pantaneira. E como o governador 'tá em seu segundo mandato, não se sabe se o próximo governante vai dar ou não apoio aos festivais e muito menos como será a política cultural adotada. Em as pesquisas, 'tá na frente o candidato André Puccinelli, do PMDB, que foi prefeito de Campo Grande por oito anos e é conhecido como ' tocador de obras ', e em segundo aparece Delcídio do Amaral, senador do PT que ficou ' famoso ' por comandar a CPI dos Correios. Para discutir o futuro e relembrar o passado do Festival, entrevistei a diretora do evento Andréa Freire, que 'tá à frente do evento desde o início. Atriz, produtora e artista atuante na cena do 'tado, Andréa também dá a sua opinião sobre a realidade da cultura de MS, as dificuldades de se fomentar o mercado 'tadual, a relação pífia do ministro da cultura com os eventos do 'tado, o repasse que não aconteceu aos projetos aprovados em 2005 por o FIC e momentos inesquecíveis do Festival de Inverno de Bonito. Com vocês, Andréa Freire! P -- A sétima edição do Festival de Inverno de Bonito teve orçamento apertado, as datas adiadas e a programação reduzida. Qual o balanço da edição que acaba de rolar? R -- Foi uma vitória. A gente fez um festival diferente, num ano atípico, inclusive transferimos a data do evento, que foi concebido para julho porque é alta temporada e no período das férias, garantindo público. Focamos o público da região de Bonito. Por isso abrir com o Almir Sater, que é daqui e atrai o pessoal da região. Mas o desafio foi diminuir o festival que nasceu grande. Em as outras edições não faltou justamente focar mais no público da região de Bonito? Não acho. Para mim 'ta é uma visão de quem vê o festival naquilo que é impactante em ele, que é a música. E a música nacional, que é o que dá visibilidade. Mas se você pegar todas as programações e observar a quantidade de atrações locais e nacionais, as locais foram mais. O Festival não nasceu para ser um evento só da cultura local, mas para criar 'te corredor cultural inegável, colocando 'ta ponte entre MS e o Brasil todo há sete anos, trazendo para cá 'ta diversidade da arte brasileira e a cultura sul-mato-grossense fortemente inserida em 'te contexto. Este ano conseguimos manter o formato do festival, a diversidade artística de ele, mas tudo menor. Não acho que ele vá ser um festival 'sencialmente regional. Ele foi criado para ser uma mistura e é bacana porque também dá oportunidade das pessoas da nossa região verem o que jamais veriam. Este ano o bonitense se envolveu mais com o festival? Bonito é uma cidade que é feita em cima do turismo. E de um turismo que 'tá com o hábito de tirar da natureza e não de pôr. O Festival há sete anos dialoga com 'ta sociedade. Mas a cidade só se dá conta do festival 20 dias antes de acontecer. De aqui a um mês volto com a prestação de contas e em janeiro já 'tou sentando para dialogar. O que acontece é que as decisões do poder público e da sociedade em geral são morosas. Este ano, em particular, diante da incipiência de não realizar o evento, a sociedade olhou para o festival. Em a possibilidade não ter o festival houve uma reação da sociedade da cidade. Isso. Houve uma reação muito positiva que vai ser determinante daqui para frente. Queria que vc falasse um pouco sobre isso, até para as pessoas entenderem. A questão é que pode haver uma troca de governo, saindo o PT e entrando PMDB, e isso pode representar o fim não só do Festival de Inverno de Bonito como o Festival América do Sul. O governo do Zeca (José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, governador de MS) criou e alicerçou 'te festival com toda a propriedade. Este ano em 'pecial e 2005 o governo não colocou recurso próprio, porque não tinha. Mas não deixou de ser o parceiro que sempre ou se responsabilizar por a existência do festival. Ano passado tivemos R$ 1,5 mi só do Banco do Brasil. Este ano, em janeiro, o governador disse que não havia recurso, mas iríamos fazer. E aí começou um processo difícil de interveniência do governo junto aos patrocinadores antigos, na tentativa de mais recursos e chegamos ao valor de R$ 700 mil. Este ano o festival foi feito com R$ 1 milhão a menos do que em 2005 e a gente dizia que com menos de um milhão não dava para fazer no formato dos oito dias. Qual foi o maior orçamento das sete edições? Em 2005, com R$ 1,7 milhão. Este ano fizemos um festival mais enxuto, mas com o formato que ele sempre teve. Tem uma corrente que alega que o Festival América do Sul atrapalhou o Festival de Inverno de Bonito. Em o sentido de que o MS não comporta dois festivais de grande porte. Qual a sua opinião? Acho bobagem e um preconceito enorme por a cultura. Quem fala isso não sabe que a cultura agrega valor, gera emprego, movimenta a economia local. Quem dera que a Festa da Lingüiça de Maracaju, a Festa do Peixe em Coxim, a Festa do Rolete tivessem mais investimento. Isso é preconceito. O Festival América do Sul é feito completamente dentro da 'trutura do governo. E tem um objetivo que é a questão política, o governo se empenha para realizar e usa a sua 'trutura. Em o Festival de Bonito não. O governo colabora, em alguns dispôs de parte de sua 'trutura, mas não acho que um atrapalha o outro não. O Festival de Bonito vinha num movimento que foi se consolidando e não foi o Festival América do Sul que tirou o dinheiro de Bonito. Não foi? Não foi. Em a verdade há um desacerto aí. Uma questão em relação à Petrobras e que as pessoas falam porque não sabem. A Petrobras fez um investimento em Bonito de saneamento básico com muito recurso e em contrapartida teria sua logomarca colocada no Festival de Inverno de Bonito. E o América do Sul nasceu um pouco depois disso e a Petrobras também investiu no América do Sul. Não foi recurso de um para o outro. O próprio 'tado dispôs de seus recursos via lei, via FIC, até 2004, em 2005 conseguiu intermédio do Banco do Brasil, então o 'tado não deixou de se empenhar para o Festival em Bonito. O Festival América do Sul é que é três vezes maior e o orçamento também. E a relação do governo 'tadual e o governo municipal em Corumbá é muito mais fluída que de Bonito. E a questão política determina também os caminhos do festival em Corumbá e abre canais. E são ambos do PT. Corumbá é muito mais ávida por o Festival América do Sul e participativa, uma cidade maior, com universidades. É outro contexto. Corumbá se envolveu mais e abraçou o evento. E a prefeitura particularmente também investiu. E aí é dinheiro. Em Bonito as pessoas ficam olhando o festival. Este ano foi diferente e bem positivo. Mas antes havia uma 'pécie de ' vamos ver o festival passar '. Qual o público do Festival de Bonito nas sete edições? Aproximadamente 220 mil 'pectadores. Sendo que Bonito tem 16 mil habitantes e Corumbá tem 90 mil (O Festival América do Sul obteve 550 mil 'pectadores em três edições). O que acho é que não pode se dizer que um tira do outro em relação a 'tes eventos culturais, que são bem feitos. Isso é um preconceito enorme. Em a Bahia tem vários eventos. Em o RS tem festival adoidado. E todos eles são importantes. Sempre existe uma gritaria do pessoal que não é selecionado para os festivais ... O que é natural num 'tado como o nosso em que isso não existia. E de repente começaram eventos com seleção, como o Temporadas Populares, hoje extinto. Me lembro de artistas de MS, já com nome no 'tado, quando vinham trazer seus releases eram 'critos a mão. E a foto era do cara num aniversário. Quer dizer, até o artista não sabia os mecanismos para ele vender o próprio trabalho. O que de concreto o festival trouxe para a classe artística de MS? Em primeiro lugar 'tes artistas tocavam em lugares e públicos muito restritos e começaram a abrir o show do Zeca Baleiro, Lenine, Elza Soares ... Para um público não é o de ele. E aí 'tá pegando carona e se mostrando. E o artista local pouco viu isso. Ele viu mais a comparação de que o artista nacional ganhava mais e não se tocou de que aquele momento era de abertura para que o trabalho de ele chegasse ao público sul-mato-grossense. Muita gente vai para o show nacional e acaba descobrindo o artista local. O projeto Temporadas Populares, que trouxe vários artistas para tocar em Campo Grande e que contava com a abertura de um grupo local, foi interrompido. Era importantíssimo. Se tivesse tido continuidade também teria aprimorado e repensado. Mas foi tão criticado ... Por quem? Muito por os artistas de MS. Por uma falta de visão e um ego maior daquilo que é. Você não acha que acaba revelando também um tratamento diferenciado para o artista de fora do 'tado, que recebe uma maior atenção da equipe de som por exemplo? O artista nacional, que viaja muito, que tem sistema de produção profissional, tem um tipo de exigência que o artista local não tem. E que o artista local só percebe quando ele vê o nacional. Por exemplo. O Galpão solicitou para mim um camarim fechado na rua, porque eles teriam oito horas para montar o palco e etc.. O grupo daqui viu e ' ah para o Galpão tem camarim e para nós não?! '. Cheguei para o diretor e disse: ' Vocês pediram um camarim? '. Não. O local sempre tende a achar que 'tá sendo tratado como menos. E não 'tá. Se tivessem pedido teriam o camarim. Então há uma tendência nossa por desconhecimento e ignorância de ação efetiva na área de achar que a gente é menos. Estes projetos servem para a gente aprender com o que vem de fora e adaptar à sua realidade. Por que não conseguimos formar um mercado regional de cultura mais sólido? Penso que a gente não busca isso e nós é que temos de determinar. Se a meta for fazer 70 shows por ano no MS como é que se faz para isso acontecer? Não dá para ficar 'perando que haja um projeto do governo federal, 'tadual e municipal onde você vai inserir seu trabalho. Isso é uma coisa que vem de brinde na sua carreira. E aí falta as pessoas direcionarem as suas carreiras. Existe mercado? Existe sim. Os caminhos do artista são cavados por ele mesmo. O Almir que fala ' que arte não é moleza '. Em o Brasil inteiro 'te ano vão acontecer trocas de governos devido às eleições. Se acontecer uma troca realmente em MS, depois de oito anos de governo do PT, como será o futuro de festivais como o de Bonito? Não tenho dúvida da importância do poder público alicerçando financeiramente 'tes eventos. É fundamental ... O festival 'tá muito ligado ao PT e pode haver uma má vontade com o festival se o PMDB entrar em 2007? Não sei se má vontade. Mas o Festival de Inverno de Bonito foi criado em 'te governo e com o apoio total do Zeca. Digo isso porque é verdade. Passaram por nós tantos presidentes de fundação e secretários de cultura e o festival se manteve e não houve interferência na sua 'trutura. E quem quis 'te festival o tempo todo foi o Zeca. E quando 'tava no limite da execução de ele era o Zeca que dizia que iria fazer. Não no caso do Pedro Ortale, que é artista e dirige a Fundação de Cultura de MS, mas havia um cruzar de braços. E o governador era determinante. O Festival de Bonito vai sofrer uma transformação sim, mas ele foi se impondo diante da sociedade e se tornou importante para cidade e para o 'tado. Mas o governo em 'te sentido não é fundamental para conseguir a liberação da grana das 'tatais? Ele é o catalisador deste processo. No caso do novo governador não querer tanto o Festival de Bonito, teríamos fôlego para os empresários de MS e a prefeitura de Bonito fazer o evento independente do governo? Ainda não. Este ano abriu uma parcela da sociedade de Bonito que se inseriu em 'te contexto. A tendência é abrir mais, mas a importância do governo ainda é grande. Por o que aconteceu 'te ano, a sociedade de Bonito vai brigar por o festival, e seja qual for o futuro governante ele vai ter que prestar atenção no festival. E não tenho ilusão de que um novo governo vá fazer o que o atual fez porque a cultura 'tá inserida em 'te governo entre as suas prioridades de ação. O próximo governante a gente não sabe quem é. Se for o senador Delcídio do Amaral temos grandes chances de continuar com o mesmo apoio. Se for o ex-prefeito André Puccinelli, por o próprio perfil de ele ou como ele vem atuando na área da cultura, não acredito que seja da mesma forma. Mas acredito que vá haver um 'paço. O desafio é a prefeitura de Bonito se comprometer mais, porque ela representa a comunidade. Mas o festival vai passar por uma transformação. Mas existe a possibilidade de não ter mais o festival em Bonito também? De ter sido o último? Temos que começar a fazer um trabalho desde já, encerrando o relatório da sétima edição, e imediatamente partir para o oitavo. Não podemos ficar pensando em 'te ou naquele governo. O festival de Bonito é como uma criança de sete anos, que já sabe andar, falar ... E não tem uma empresa de MS que se interesse em investir no festival? Uma Copagaz, por exemplo, recém eleita entre as 100 melhores empresas para se trabalhar no Brasil? Já tentamos a Copagaz. O problema é a mentalidade. A Vivo, por exemplo. Não sei agora como 'tá o valor destinado, mas até uns dois anos atrás era de 300 mil reais para utilização da Lei Rouanet. Para colocar o nome da Vivo no Festival preciso de pelo menos a metade deste valor. Que é uma cota mínima de uma grande empresa para o festival. E a resposta da Vivo é que ela prefere pulverizar 'tes 300 mil em 10 eventos de 30 mil do que dar a metade para um evento. Porque o investimento de ela na cultura é comercial. E assim as demais. Então o Festival de Bonito talvez se mantenha com menos dias, porque é mais viável do que conseguir R$ 1,7 milhão para o ano que vem. E depois que você mostra que pode fazer com um orçamento menor é difícil voltar ao que era. Exatamente. E 'ta foi nossa maior vitória. Ter diminuído, mas não ter deixado perder a qualidade e a diversidade. Existe toda uma gritaria de que o governo faz a política dos grandes eventos. Mas o governo fez algumas ações e não apenas os festivais. É que não dá para fazer tudo. Em o âmbito da cultura do 'tado 'ta gestão do Pedro Ortale na Fundação de Cultura de MS houve muitas ações. Até porque antes não havia nada. Agora, o que acho é que o FIC acabou sendo um tomatezinho podre. Por quê? Porque o FIC é bem planejado, mas na realidade ele não acontece desta forma. Os últimos 'cândalos que aconteceram aqui em MS são inadmissíveis. E aí talvez se tenha 'coado um recurso para lugar nenhum. Estes 'cândalos e a não liberação da verba referente aos projetos de 2005, que chegaram a ser aprovados e os nomes divulgados no Diário Oficial, se tornaram o calcanhar de Aquiles da política cultural do PT em MS? Sim. Em a verdade houve uma irresponsabilidade, uma falta de gerenciamento completa. E os artistas precisam ser responsáveis e mostrar o resultado do projeto. Aliás, quem muito reclama, não consegue prestar contas. E no caso do gerenciamento, em 'pecial da secretaria, houve muito descaso. Uma irresponsabilidade total no trato com o FIC. Quais os momentos mais legais destes sete anos de festival? Teve um momento muito curioso em que o Hermeto Pascoal, na primeira edição, terminou o show de ele antes e saiu da platéia. Porque o Hermeto é aquela coisa. O público não 'tava preparado para o Hermeto. Não 'tava. E ele também ficou exigindo um tipo de platéia que absolutamente ele não teria naquele lugar. Tipo ' silêncio porque 'tou tocando '. E ele repentinamente saiu e ficou aquela interrogação no ar. Aí vai se colocando um debate na cidade sobre que comportamento deve-se ter. É preciso ganhar as pessoas e orientar para aquilo que elas vão assistir. Teve coisas maravilhosas. A Intrépida Trupe num bairro de Bonito. Eles ficaram impressionados com a linguagem corporal muito solta das crianças do local. Os próprios artistas de Bonito que começaram a despertar e querer participar do festival. A galeria com artes plásticas e fotografia são muito bacanas. Ano passado seis mil pessoas assinaram o livro da galeria. Uma saia justa foi com o Fagner né? Sim. Fagner que vem para um evento subsidiado por o governo federal e 'tadual e mete a boca no presidente. Ele tem o direito de dizer como artista, mas não pode desmerecer que 'te ato do qual ele 'tá fazendo parte é do governo federal. Faltou a presença do ministro Gilberto Gil nos festivais de Bonito e, 'pecialmente, no de Corumbá? Acho que o Gilberto Gil torce o nariz para a gente. Ele não olha. E é um absurdo ele não ter participado do Festival América do Sul. Por a importância do festival e por as pessoas que o festival já trouxe. E tem mil maneiras de participar. Gravar um vídeo, mandar flores ... O Gil ignorou. Mal mandou representante. Os que vieram foram capitaneados nos acordos e articulações muito com o segundo 'calão de ele e olhe lá. É um descaso. O Festival bombando em Corumbá, o presidente fazendo discurso de soberania da América do Sul, o evento aqui na fronteira do Brasil com a Bolívia, com uma ação concreta traduzindo aquilo que o presidente 'tá dizendo e o Ministério da Cultura não participa? Não olha? E aí falta é claro uma articulação política maior, talvez uma comissão diretamente ligada ao governador. Até porque 'tes festivais são feitos na raça, com uma 'trutura muita amadora e com uma pessoa trabalhando por três. É lamentável, mas o governo federal virou as costas para as ações que acontecem aqui. E rola de tudo, um pouco de ciúme. O que é o Festival de Bonito senão a penetração da cultura brasileira no Oeste do Brasil, numa terra da bovinocultura? Quantas vezes 'cutei pedindo patrocínio para Sebrae, MS Gás: ' desiste, nosso 'tado não é para isso. Você ta querendo falar de arte e cultura quando os produtores rurais 'tão em greve, aftosa aí, para com isso menina! '. E dizia para eles, ' sou sul-mato-grossense, tem campo sim e há sete anos faço 'te trabalho '. Mostrando que tem bovinocultura, mas tem a gente também. Não sou um alienígena que veio de fora e ta querendo plantar alguma coisa que em 'te solo não dá. Dá sim. Agora é uma mentalidade reacionária. Campo Grande é uma sociedade absolutamente fria. Empinada, empedrada. Como diz o Jerry Espíndola ' são todos de plástico '. Número de frases: 260 Quando vêm os projetos culturais modifica a cidade e a juventude 'tá ávida por isso. Falar da música brasileira é uma tarefa 'pinhosa: nossa cultura musical é ampla, compreende uma grande extensão geográfica e suas raízes históricas, apesar de detectáveis, ainda carecem de 'tudos mais aprofundados (além da difusão daqueles já existentes). Muitos brasileiros já se aventuraram por 'tas sendas tão densas e perigosas, pesquisando nichos 'pecíficos de nossa cultura musical. No entanto, mais perigoso ainda é realizar uma impressão generalista sobre 'ta cultura musical tão plural, e a tarefa torna-se de maior risco quando se tem como objetivo explicar a música no Brasil para uma audiência que, possivelmente, pouco conhece além dos 'tereótipos difundidos mundo afora, isto é, a trívia «samba, carnaval e bossa-nova». É justamente 'te o propósito do livro «Music in Brazil», 'crito por o músico e pesquisador norte-americano John P. Murphy, e que apenas recentemente 'tá mais acessível nas livrarias brasileiras. Integrante da série de livros didáticos «Global Music Series», publicados por a editora da universidade de Oxford, a série abrange diversas culturas musicais mundo afora, um segmento que se convenciou chamar de world music, e inclui títulos sobre a música em Bali, Egito, Java Central, Eua, entre muitos outros. Além dos volumes geograficamente temáticos, a coleção edita também outros dois voltados para a conceitualização teórica do assunto: «Teaching Music Globally», de Patricia S. Campbell, e «Thinking Musically», de Bonnie C. Wade, ambas coordenadoras da série. É sob a perspectiva de uma obra didática que o livro de Murphy deve ser entendido. Deve-se, então, levar em conta tanto seus propósitos e público como sua diminuta dimensão (menos de duzentas páginas). Entretanto, nada disto diminui o mérito da obra, que se mantém interessante inclusive para nós, brasileiros. Para dar conta da tarefa, Murphy -- que morou no Brasil e se comunica em português com fluência -- propõe três visões sobre a nossa música: 1) " Música e identidade nacional "; 2) «Música e identidade regional» e 3) «Cosmopolitismo musical». Em a primeira parte do livro o autor detém-se sobre a questão do samba enquanto nossa «música nacional», partindo de seus primórdios históricos e chegando até um pequeno panorama atual e multifacetado deste gênero. É ainda em 'ta parte do livro que explica outros gêneros ligados à identidade geral da cultura musical brasileira, tais como o choro e a bossa-nova. Em a segunda parte, Murphy se detém sobre gêneros regionais que, apesar da suposta limitação geográfica, são de suma importância no caldeirão musical brasileiro, tais como o forró, a capoeira e a música das festas religiosas nordestinas (maracatu, bumba-meu-boi, etc.). Em a última parte, o autor debruça-se sobre a complicadíssima tarefa de realizar um panorama da atualidade musical brasileira e alguns de seus gêneros. Aqui o autor dá ênfase gêneros da cena musical do Recife (notadamente Mangue Beat, de Chico Science e Nação Zumbi), cidade onde o autor morou por vários anos. Apesar da necessidade pragmática de definições claras e diretas, Murphy não conduz o leitor a uma visão unívoca dos temas que aborda, algo de muita importância quando se tem em mente que o público-alvo é justamente os 'trangeiros. Um ponto de relevância na obra é a boa quantidade de exemplos em forma de partitura e de análises musicais, além das amostras em áudio presentes no CD que acompanha o livro. O website do autor completa a suíte de material didático. É notável o 'forço do autor em explicar ao público certas minúcias de nossa cultura (como, por exemplo, quando alerta o leitor da carga de preconceito que existente no Sul e Sudeste sobre o sotaque dos nordestinos). Mesmo tendo em conta os propósitos da obra, seu calcanhar de Aquiles é a virtual ausência de referência às atividades musicais de caráter mais «internacional» em solo brasileiro, tais como as diversas correntes do rock-pop não miscegenados, bem como do jazz e da música clássica. O caráter didático da obra torna urgente a correção do mapa do Brasil (afinal, nosso litoral não é banhado por o Golfo do México e a capital do Acre não é " Rio Braneo "). O livro, evidentemente, não 'gota o assunto (e nem é 'te seu propósito), mas pode ser uma boa introdução ao universo musical brasileiro. Inclusive para os próprios brasileiros. Em o blog www.outramusica.org é possível ler a entrevista realizada com o autor de «Music in Brazil», o norte-americano John P. Murphy. Serviço: «Music in Brazil de John P. Murphy», 173 págs. ( acompanha CD). Oxford University Press, R$ 45 http / web 3. unt. Número de frases: 34 edu /murphy/brazil/ Cansei de ouvir dizer que o overmundo é o irmão inteligente do orkut. Que no orkut as pessoas se desconectam do mundo e que no overmundo eles se conectam através da cultura. Que o orkut é ferramenta de gringo tomada de assalto por brasileiros, mas que o Overmundo já foi feito por brasileiros justamente para atender a demandas de brasileiros. Que no orkut só tem menina discutindo série de TV americana e valor calórico de cajuzinho, mas que no overmundo, por outro lado, só tem gatinha 'perta. Opa, pêra lá! Se no overmundo só tem pitéu sagaz, por que não importar as práticas vencedoras de namoro do orkut para o ambiente do Overmundo? Afinal de contas, a sedução e a conquista através de ambientes em rede são fenômenos sócio-culturais que criaram raízes tipicamente nacionais. Não perca mais tempo indicando uma eventual leitora interessada para o seu profile no orkut, como muitos overmanos fazem na sua página de perfil! Decidido a fazer do overmundo um lugar melhor, inicio aqui a minha missão pacificadora das relações humanas, trazendo o amor a bordo e a paixão a tiracolo. O fetiche do perfil Recentemente o overmundo passou a permitir a busca e visualização imediata dos perfis cadastrados no site. Essa ferramenta representou o último passo no 'tabelecimento de bases sólidas para o xaveco, como dizem por aí, através de 'sa fantástica rede de relacionamentos culturais. Inicie a sua pesquisa por o seu próprio perfil. Isso mesmo! Começando por o seu próprio perfil você poderá passar em revista as informações que constam sobre você na sua página pessoal. Esse exercício de auto-reflex ão ajuda a fortalecer a confiança e alivia a culpa de eventuais e futuras mentiras. Lembre-se sempre de habilitar a ferramenta para recebimento de mensagens através do e-mail. Essa ferramenta permitirá que a overmana selecionada possa, caso interessada, iniciar um contato mais qualificado. Vá na seção «Editar Perfil» e marque a caixinha que confirma 'sa opção. Depois é só clicar no botão «Enviar». Mais sobre 'se assunto desenvolveremos no tópico abaixo (" Mensagens eficientes, resultados promissores "). Caso você ainda não tenha uma foto no seu perfil, nem mesmo comece o trabalho de prospecção no site sem uma. As overmanas são conhecidas por se interessar mais por a beleza interior, mas nada que possa ser superado por uma boa foto (ou por conhecimentos sobre a última edição da Cahiers du Cinéma). Sugiro que a sua foto não seja muito reveladora. Um pouco de mistério sempre cai bem. Quando alguém for pesquisar por perfis no overmundo, cada página irá mostrar mais de vinte perfis. Escolha algo que marque a diferença, mas sem chamar muito a atenção. Bons exemplos podem ser obtidos aqui e aqui. Aliás, vale uma nota sobre a inserção de quadros famosos como fotos na página de perfil. A primeira vista, um Monet pode parecer fofo, mas é pouco evocativo para as finalidades que você procura atingir. De a mesma forma, quadros abstratos demais não passam o recado. Até onde se sabe ninguém jamais ficou tenso olhando para um Mondrian. Klimt, como sempre, é a melhor opção. Um pouco óbvio, mas eficaz: «O beijo «para perfis masculinos e» Adèle Bloch-Bauer removeme para femininos. Todo mundo adora olhar o perfil alheio. Infelizmente, o overmundo deixa pouco 'paço para que as pessoas desenvolvam com maior liberdade a evasão de dados pessoais que tanto caracteriza a internet. Esse é apenas mais um bom motivo para você lançar o mistério e depois ir, pouco a pouco, revelando-se através das mensagens particulares. A mulher perfeita existe. Só que ela mora no Acre. Um dos maiores percalços encontrados por os overmanos reside no fato de que o overmundo possui alcance nacional. Não deixe 'se fator 'pacial debilitar as suas intenções. Aproveite a oportunidade para incentivar o crescimento do combalido mercado de empresas de aviação nacional. Se você tem medo de avião, saiba que os riscos aos quais você se expõe andando de avião são infinitamente menores do que os riscos que você corre ao namorar às cegas na internet. Comece a procurar por a sua cara-metade nos comentários às contribuições que já tenham recebido o seu voto. Ainda na página do seu perfil, localize a seção «Últimas contribuições votadas» e inicie o garimpo. Não vá se entusiasmando apenas porque uma overmana comentou uma contribuição que você gostou. Veja o meu exemplo: eu recentemente votei na contribuição «O novo carnaval dos animês». Isso diz muito sobre a minha personalidade. Mas não necessariamente sobre o aspecto prevalecente da minha psiquê. O mesmo raciocínio se aplica àquela overmana gatinha que colocou um comentário que deixou você bastante interessado. Ela pode ter comentado ali sobre os impactos da cultura japonesa no mercado audiovisual brasileiro porque ela 'tá fazendo uma tese de doutorado em psicologia sobre o complexo de Peter Pan. De uma hora para outra, de garanhão cibernético você virou uma cobaia psico-patológica. Depois de selecionada a overmana, entre no perfil de ela. Aqui começa a jornada da alma. Vá direto na seção «Últimas colaborações publicadas». Mais do que os comentários, mais do que os votos, as colaborações representam uma criação intelectual autêntica da sua overmana em questão. Ler a colaboração de uma overmana interessante é como pegar de orelhada o papo daquela garota na qual você começou a investir numa festinha. Você já conferiu o visual. Agora pode experimentar um pouco da overmana em ação. O domínio da língua portuguesa é um fator que não deve passar desapercebido do overmano atento. Não adianta falar sobre a cena obscura de death-metal de Ituiutaba se o português não comparece. Lembre-se: até ter a oportunidade de falar com ela, o único meio de contato de vocês será a 'crita. A iminência de constantes maus-tratos à língua portuguesa pode ter um efeito perturbador sobre o seu interesse a longo prazo. Aproveite e veja também os comentários e os votos da overmana. O voto é um gesto que diz muito sobre uma pessoa. Uma overmana que vota muito e contribui pouco com comentários e matérias é mais uma leitora do que uma overmana postadora ativa. Essa postura de passividade e contribuição discreta pode ser muito charmosa. A overmana 'tá presente, vota, coloca matérias na página principal do overblog, mas não se arrisca a aparecer demais. Ela influência, mas sempre em prol de terceiros. É uma mistura de Hillary Clinton com Zilda Arns. A overmana que cria diversas contribuições é uma 'pécie toda diferente. É muito importante o overmano tomar cuidado aqui para não se mostrar interessado em overmanas que despertam atenção demais. Por exemplo: se você passar a comentar todas as matérias que ela comenta, a overmana pode achar que vocês tem alguma coisa em comum. Ou achar que você é um stalker psicótico e solicitar os seus dados pessoais ao Overmundo para instruir futura ação judicial que lhe obrigue a ficar pelo menos 200 metros de distância da moça. Mensagens eficientes, resultados promissores Uma vez identificada a overmana perfeita, chegou o momento de focar nas mensagens pessoais. É sempre aconselhável começar com um comentário discreto, que diga à overmana que você existe, mas não cause nenhuma impressão mais forte (seja para o bem ou para o mau). Caso ela tenha inserido um comentário em certa matéria, apenas comente assim, logo em seguida: «Concordo com o comentário da (inserir o nome da overmana). É isso mesmo! Parabéns (inserir nome do autor da matéria) por a sua matéria!" Perceba a logística milenar desse breve comentário: 1) Ele concorda com o que foi dito por a overmana. Todo mundo gosta que alguém concorde com o que 'tamos falando. Um pouco de discussão pode até ser bom, mas vamos guardar isso para as futuras brigas de amor. Por enquanto, você apenas disse que ela não 'tá sozinha no universo frio da Internet; que em algum lugar do Brasil existe alguém que leu o seu comentário e se deu ao trabalho de 'crever que concorda. E você ainda 'creveu o nome de ela. Nossa, ela não poderia 'tar mais certa! 2) A locução " é isso mesmo!" pode ser evitada. Ela apenas demonstra uma certa empolgação com o comentário alheio. Serve também para passar um aspecto de jovialidade e marcar a 'pontaneidade que a Internet ajuda a criar e que você desejará manter nos próximos contatos. 3) Agora vem o principal. Subitamente, sem ninguém 'perar, o seu comentário muda de foco! Você não fala mais na overmana. Ela ficou para trás. Você dedica a última linha do comentário para saudar o autor da matéria. Você não poderia ser mais educado e 'tar menos interessado na overmana. Que pessoa boa é você. Que pessoa boba é ela. Agora entra a virtude chinesa de 'sa empreitada: você deve 'perar. Não mande dois, três, quatro comentários em seguida. Espere uma semana antes de aparecer de novo. Vá trabalhar, 'tudar, ver TV, enfim, viver a sua vida normal (ou inicie o mesmo procedimento com uma outra overmana para ficar de backup). Se você tiver sorte, superado 'se prazo a overmana resolve 'crever uma matéria. Nossa, você não poderia ter situação mais vantajosa! Agora é a hora! Leia a matéria da overmana. Depois de ler uma primeira vez, leia de novo. Espero que com 'sas duas leituras você tenha compreendido o objeto da contribuição da overmana. Uma vez superada a fase do mapeamento extensivo do tema tratado, chegou o momento do aprofundamento seletivo. Vá ao Google, ou qualquer outra chave de busca, e, de posse das tags do artigo da overmana, leia tudo que puder sobre o tema. Por exemplo: na página inicial do overmundo hoje 'tá o artigo «Mais eu me pego apaixonada», de autoria de Ana Murta. Sobre o que falaria 'se artigo? Ele fala sobre a obra de Bernardette Lyra. Ah, você nunca leu Bernardette Lyra? Google em ela, meu amigo! Lá você encontra textos da autora e ainda pode ser lançado diretamente para a página da Americanas. com para comprar um livro de ela. Dependendo do seu interesso no (s) assunto (s) em questão, deve valer o investimento. Eu, particularmente, gostei. Calma, gente, isso é só um exemplo acadêmico. Agora que você é um expert no assunto, você 'tá também apto a comentar aquela pérola da literatura contemporânea que é o post da overmana (embora você não deva dizer isso de início -- pode assustar). Sugiro um comentário que complemente as informações oferecidas por a overmana. Tipo assim: «Muito interessante 'sa matéria. Já 'tava na hora mesmo de alguém 'crever sobre (inserir o tema da matéria)! Sobre o assunto, eu recomendo também (inserir indicação obtida nas suas pesquisas, pode ser um outro livro, um filme, um passeio e etc). Pronto: você acaba de dar um passo fundamental. Agora ela sabe que vocês combinam. E o que é melhor: que por tanto tempo você 'teve 'perando alguém aparecer e 'crever sobre aquele assunto. Imagina só. Quanto tempo você viveu até aquele momento mágico em que aquela matéria adentrou na fila de edição do overblog. «Finalmente!" -- teria dito você em altos brados. «Agora meu coração 'tá completo!" -- teria dito o Morrissey. O próximo passo é mandar uma mensagem. Se a overmana aceitar receber mensagens, meio caminho 'tá andado. Verifique 'se detalhe importantíssimo no perfil de usuário de ela. Se vocês residirem na mesma cidade, vale procurar na agenda um programa que tenha alguma coisa a ver (quanto menos remotamente a ver melhor) com o assunto constante na matéria da overmana. Por exemplo, se naquela semana, na sua cidade, 'tiver ocorrendo uma roda de leitura de textos da Bernardette Lyra, tanto melhor. Mas vale também algum evento que envolva literatura brasileira. Ela provavelmente vai recusar o convite. Se isso acontecer, não desista. Afinal de contas, vocês ainda podem ir se conhecendo melhor através de comentários recíprocos no site. Se ela aceitar, eu não poderei dizer muita coisa, pois aí já transcende o 'copo desse artigo. Eu realmente acho que você sabe o que fazer a partir desse ponto. Bom, se você chegou até aqui, parabéns! Espero que 'se artigo possa contribuir para o incremento de suas experiências no overmundo. Quanto a mim, eu 'tou de malas prontas para Rio Branco. Em a semana que vem eu 'tou lá! A seguir: " Número de frases: 161 Como namorar no Overmundo (Parte 2) -- Quem mexeu no meu overblog?" A «Carta Aberta» transcrita abaixo, embora datada de cerca de um ano e três meses atrás (agosto de 2006), é auto-'plicativa e mantém toda a sua atualidade até acrescida, eu diria, visto que, depois de ela, os Congos de Oeiras já se apresentaram mais duas vezes (42ª/2006 e na 43ª/2007 versões) naquele Festival de Folclore de Olímpia sendo que aquilo que eu chamei, naquela oportunidade, de «Efeito Olímpia» se confirmou e consolidou de forma bastante acentuada. A o comemorar 60 anos de vida, no último dia 1º de novembro, os «Congos de Oeiras» enquanto grupo, deliberou prestar uma homenagem a mim, comparecendo em peso ao meu aniversário e me dando de presente um delicado bonequinho vestido a caráter e representando os conguinhos, isto é, a nova geração de Congos de Oeiras (criança de 5 a 8 anos) que 'tá sendo preparada no Rosário, fato que 'tou relatando em outro postado meu que se encontra em edição numa 'pécie de prestação de contas do que ocorreu no meu aniversário. Acho desnecessário dizer que fiquei emocionado. Carta Aberta aos organizadores dos Festivais de Folclore de Olímpia-SP Com cópia para o grupo folclórico " Congos de Oeiras " «Em Olímpia nos sentimos como se todo mundo já nos conhecesse há muito tempo " ass: Os Congos de Oeiras Queridos Amigos: Meu nome é Joca Oeiras. Sou amigo do Vivaldo Mendes, pessoa que, acredito, dispensa maiores apresentações. Foi por minha indicação, quando ainda residia em São Paulo, que o grupo folclórico «Congos de Oeiras» recebeu um convite para participar, no ano passado, do 41º Festival Nacional de Folclore de Olímpia, capital brasileira do folclore. Por 'ta indicação que tive a felicidade de poder fazer, sinto um certo orgulho por a responsabilidade ou, como queiram, uma responsabilidade da qual posso me orgulhar. Por isto são várias as minhas intenções ao dar 'te depoimento. Em primeiro lugar, quero, com ele, ajudar os amigos realizadores dos Festivais de Olímpia a terem uma mais exata dimensão da importância social e humana do trabalho que realizam. A os Congos, dizer da minha satisfação por o altíssimo astral vivido, em 'te momento, por o grupo e buscar contribuir para ajudá-los a compreenderem como e por que se deu 'te processo para que possam usufruir ao máximo deste momento. E quem me conhece, sabe o meu empenho e minha luta por a elevação da auto-'tima do povo do Piauí: por isto o objetivo central deste depoimento é mostrar a todos, mas principalmente aos piauienses, através do exemplo dos Congos, que é possível ir-se de encontro à auto-'tima e o quanto ela poder modificar um grupo de pessoas no sentido da superação de si mesmas. Meu Depoimento Residindo atualmente em Oeiras-Pi, acompanhei, no último domingo, dia 23 os «Congos de Oeiras» na viagem que fizeram a Teresina para se apresentarem no Teatro-Escola João Paulo II, a convite do jovem e dinâmico diretor daquele teatro, o bailarino e coreógrafo Marcelo Evelin. às oito e meia daquele domingo, tão ensolarado quanto hoje, acordei sonado e de ressaca. Tinha 'tado, até altas horas da madrugada, participando da noite de 'tréia do 3° Zooeira Festival: o rock no berço do Piauí ...e ponham participação nisto! Como tenho só 58 anos ... Esta minha «pouca» idade, que me «permitiu» viver a fase mais negra da ditadura militar fez com que, irremediavelmente, eu acredite em horários marcados enquanto todo mundo já sabe, faz tempo, que Papai Noel não existe. Por isto, às dez horas em pontinho eu 'tava chegando no Largo do Rosário, local indicado para o embarque no ônibus que nos levaria a Teresina. Como já devem ter imaginado, às dez horas da manhã daquele domingo ensolarado não havia ali nem Congos nem ônibus. Apenas no bar defronte à Praça algumas pessoas tomando cerveja e jogando conversa fora. Sem ter comido nada, cai na asneira de confraternizar e como quase não bebo cerveja, lá se foi um Montila que aqui no Piauí é bebida bastante popular. Tão logo soube que os «Conguinhos» 'tavam ensaiando ali perto, na sede do Ponto de Cultura «Quilombo do Rosário» me dirigi para lá. Os meninos, cerca de oito, com idades que variam de cinco a nove anos, ensaiando há menos de dois meses, já sabem de cor todas as letras de louvor aos santos e ensaiam, com dedicação, os passos da dança. Muito legal! Mas o que realmente me emocionou foi o muito jovem professor, que em dupla com outra moça, orientava os passos dos meninos. Só lastimo não saber o nome de ele, mas os leitores terão que se acostumar com 'tas minhas falhas: o fato é que 'te jovem, ex-integrante dos Congos, na queda de uma moto -- um perigo danado!-- como dizia, com razão, a minha mãe, fraturou, de forma irreparável, uma das pernas, sem chances de voltar a apresentar-se com o grupo. Os futuros congos ganharam um professor dedicado que, assim, encontrou um jeito de continuar contribuindo. Como disse, repito: fiquei emocionado. Por volta do meio dia, eu já como 'tômago nas costas, o nosso transporte finalmente partiu. Não vou contar como foi a viagem, apenas dizer que sentei na poltrona e dormi até a única parada, em Valença do Piauí, e que os meus companheiros de viagem devem ter-se entre divertido e incomodado com os meus altos roncos. Quando o ônibus parou defronte ao Teatro, às cinco e meia da tarde, o Diretor Marcelo Evelin já aguardava, de pé, na calçada. Demonstrava preocupação com o horário pois, como ficamos sabendo, havia programado um work shop envolvendo a delegação dos Congos, alunos do teatro e alguns convidados, inclusive duas loiras holandesas que nem uma palavra de português falavam. Fomos encaminhados ao palco onde nos sentamos todos: os Congos e seu agregado (o 'criba que vos fala), o anfitrião Marcelo e os demais convidados. A conversa que se seguiu, com o auxílio de dois microfones sem fio, foi, para mim a confirmação cabal do que eu já intuía: Os Congos de Oeiras, entendidos enquanto um grupo social inserido na sociedade oeirense e brasileira, vivem um período de grande valorização social, o que se reflete de maneira altamente positiva inclusive nas apresentações do grupo folclórico propriamente dito. Auto Estima em Alta As provas e indícios que fortaleciam aquela intuição eu vinha recebendo a cada nova visita das que venho fazendo, no último mês, ao Rosário. A última, ainda fresca em minha memória, tinha sido a visão do ensaio, pela manhã, dos conguinhos e de seu dedicado professor. A primeira não proveio de uma visita, mas de uma mancada: eu havia prometido a um de eles que iria participar de uma de suas reuniões que ocorrem às terças feiras e não fui, fiquei dormindo, na verdade, e «'queci de me lembrar» como dizia uma empregada doméstica que trabalhou um tempo na casa da minha mãe. Em os dias seguintes, em horários dias e locais diferentes, tive cobrada a minha ausência por três diferentes integrantes do grupo, nenhum de eles a pessoa com quem havia me comprometido. Pude perceber, então, que a minha ausência havia sido colocada em pauta e o quanto era séria e importante para eles a reunião das terças-feiras. Chamo a atenção dos leitores menos avisados que 'tamos falando de um grupo folclórico totalmente amador, não de uma banda de Forró de 'tas que 'tão animando o Forró Folia em 'te fim de semana, e de mês, aqui em Oeiras. Minha amiga Manuela me falou que uma banda de 'tas chega a cobrar R$ 50 mil por uma apresentação. Mas eu posso garantir que muito poucos integrantes de 'tas bandas milionárias se levam tão a sério como os Congos de Oeiras que, para viajarem, precisam apelar para a prefeitura e ainda passar um livro de ouro para arrecadar fundos junto ao comércio local. Mas houve também o 'petáculo, para mim empolgante, que foi a eleição da primeira diretoria da entidade. Se as eleições oficiais fossem realizadas com tamanho 'pírito cívico o Brasil certamente seria outro país. Uma pena que eu tenha sido a única testemunha além dos eleitores ... O " EFEITO OLÍMPIA " Todos os acontecimentos acima relatados ocorreram há menos de um mês. Mesmo a «Escola dos Conguinhos» não tem dois meses de funcionamento. E foi em 'te mesmo período que ficou definitivamente confirmada a nova viagem dos Congos para participarem do 42º Festival de Folclore de Olímpia. Estou convencido de que não se trata de uma coincidência: para mim os Congos de Oeiras 'tão vivenciando, talvez inspirados por os Deuses do Olimpo o que, por falta de outro nome, resolvi chamar de «Efeito Olímpia». «Para nós, que 'távamos na platéia, foi demais emocionante. Chorei, aliás, choramos por que eles 'tavam ali, e nós, em nossos corações, com eles, fazendo o belíssimo 'petáculo naquele enorme palco para onde convergia toda a atenção da enorme platéia que não parava de aplaudir. Se não tivesse 'tado lá, acho que não acreditaria! Isso passou para nós mulheres uma energia, uma alegria tão grande que resolvemos fazer uma festa surpresa, em homenagem a eles, no dia dos pais. Eles, que tinham representado tão bem Oeiras e o Piauí em São Paulo bem que mereciam. Enquanto preparávamos a festa eu, a Meire, a Branca e a Maria Eulália, minha prima Maria de Deus, que mora em Osasco e veio a Olímpia 'pecialmente para vê-los dançar. saiu com eles para que pudéssemos melhor preparar a surpresa. Quando viram o que tínhamos feito todos choraram, de tão emocionados. Foram lindos aqueles momentos!" ( Depoimento de Maria das Graças Mendes da Costa (a Gá) durante o workshop ocorrido no Teatro João Paulo II no dia 23 de julho de 2006). Como 'te, eu poderia me dispor a colher dezenas de outros depoimentos dos participantes da primeira incursão de um grupo folclórico do Piauí nos Festivais de Folclore de Olímpia. Talvez não fossem tão emocionantes, nem tão ricos em detalhes quanto 'te, mas todos seriam marcados por o mesmo entusiasmo, contagiante eu diria, em relação às recordações da viagem à Capital do Folclore Brasileiro. Como disse no início, um dos objetivos de 'ta carta era mostrar a importância do trabalho de vocês promotores, organizando, ano após ano, 'tes Festivais, já se vão mais de quatro décadas. Espero que ele tenha sido atingido. Tenho certeza, por outro lado, que 'te artigo ajuda os Congos no trabalho contínuo de auto-avalia ção e superação dos problemas que sempre existirão, principalmente para quem deseja fazer cultura em 'te país. Quanto ao objetivo maior, o de mostrar, com o exemplo dos Congos, o caminho da auto-'tima para os piauienses, acho que isto só o tempo dirá! Beijos e abraços De o Joca Oeiras, o anjo andarilho. Número de frases: 85 A viola de arame, de dez cordas dispostas em cinco ordens, aportou no Brasil na metade do século XVI, a tiracolo dos colonizadores portugueses e dos padres jesuítas. Os primeiros trouxeram o instrumento para animar folguedos; os outros, para utilizar no processo de catequização do índio nas terras recém-descobertas. Desde a colonização, diversas citações na literatura brasileira testemunham ter sido a viola, se não o mais popular, certamente um dos mais importantes instrumentos no acompanhamento da modinha e do lundu nos séculos seguintes. Em o romance histórico As mulheres de mantilha, ambientado entre 1763 e 1767, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, à época capital do Brasil, o 'critor fluminense Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) dá depoimento do uso da viola em alegres reuniões noturnas da sociedade local. Em um desses agrupamentos, uma moça, ao tomar de uma viola para cantar um lundu, é perguntada por um presente qual a razão de não cantar acompanhando-se ao cravo? E o diálogo, em seguida, vem em 'tes termos: «O cravo é mais nobre, pertence às xácaras e às baladas; o lundu é mais plebeu e cabe de direito à viola, que é o instrumento do povo». O lundu é canto de origem africana, que teve grande destaque no Brasil do final do século XVIII ao começo do XIX, enquanto a xácara, canção de versos sentimentais, de origem árabe, tornou-se popular na Península Ibérica, por volta do século XVII. O pesquisador de música e radialista baiano de Juazeiro, Perfilino Eugênio Ferreira Neto, 67 anos, 'creveu, em 2000, na apresentação da coletânea De o lundu ao axé, que o poeta soteropolitano Gregório de Mattos Guerra (1633-1696) «fazia conquistas amorosas no recôncavo baiano, cantando lundus com versos saídos da imaginação e acompanhando-se numa viola de arame, por ele mesmo improvisada». Em o conto infantil A festa no céu, do folclore brasileiro, é relatada a façanha do sapo que voou com o urubu, dentro de uma viola. Ao longo de toda a narrativa, o instrumento é citado quase uma dezena de vezes -- algumas versões fazem referência ao violão, mas 'te instrumento somente passou a ser conhecido do brasileiro por volta de 1830. O cearense José de Alencar (1829-1877) também 'creveu romances históricos inspirando-se no passado do Brasil, e um de eles foi Guerra dos Mascates, em 1873, onde, numa das passagens, apresenta o personagem Cosme, vítima do cacoete, com gesto rápido, passar por os beiços a unha do polegar da mão direita e 'fregá-la ao peito, contra a roupa. Para descrever a luta do infeliz personagem, José de Alencar vale-se da imagem do violeiro, narrando que, mesmo após colocar muitos meios em prática para combater o cacoete, o roedor de unhas «via com desespero o brejeiro do dedo tocando viola no peito da roupeta». O tocador não tange, com a unha do polegar direito, as cordas da viola, apertada contra o peito? Duas décadas antes, o fluminense Manuel Antônio de Almeida (1830-1861) 'creveu mais do que o cearense e citou a viola em cerca de 15 passagens no romance Memórias de um sargento de milícias, divulgado pela primeira vez, de junho de 1852 a julho de 1853, em folhetins, e publicado, em 1863, em edição póstuma. Bom narrador, o fluminense deixa um pouco de falar das características do sargento Leonardo e se aventura, com sorte, a exaltar a música difundida por a viola. A o descrever o ambiente de uma festa, ele narra: " ( ...) A música é diferente para cada uma, porém sempre tocada em viola. Muitas vezes o tocador canta em certos compassos uma cantiga às vezes de pensamento verdadeiramente poético». Igualmente, num trecho do romance A ilustre casa de Ramires, de 1900, o 'critor português Eça de Queiroz (1845-1900) cita, com destaque, a viola de arame: «E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados arpejos: -- Não vale a pena, Sr. Doutor ... Realmente não vale a pena, porque em Política hoje é branco, amanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!" Outro fluminense, Raul Pompéia (1863-1895), mesmo que por uma única vez, faz alusão ao som da viola em Uma tragédia no Amazonas, romance publicado em 1880. A o falar da alegria na casa do ex-subdelegado Eustáquio, nos dias do nascimento do seu filho, narra: " ( ...) Lá dentro, entre suas pobres paredes de barro, mãos de rústico, lassas do ferro agrícola, tiravam das cordas de uma viola acordes cadenciados, de um encanto que só pode avaliar quem já os ouviu, os quais mergulhando na floresta iam suavizar o sono das avezinhas». São muitos os romances de autores brasileiros e portugueses onde a viola, como instrumento musical, aparece em meio a personagens, na maioria das vezes com perfil de homem rural, de mãos rústicas e marcadas por o trabalho duro, mas capazes de tirar belas melodias das cordas de arame. Tão contagiantes 'sas melodias que no século XV, em Ponte de Lima (Portugal), procuradores fizeram reclamação de alguns aspectos que consideraram daninhos ao reino. Citando documentos datados de 1459, o compositor e pesquisador mineiro Roberto Corrêa, 55 anos, diz em seu livro A arte de pontear a viola, de 2000, que de entre alguns desses males 'tá registrado que certas pessoas usavam a viola para, tocando e cantando, mais facilmente roubarem as casas e dormirem com as mulheres, filhas e criadas, que, quando «ouvem o tanger a viola, vamlhes desfechar as portas». Tal qual exprimem os versos do poeta baiano Castro Alves (1847-1871) no canto Os três amores, que 'tá em Espumas flutuantes: Os Três Amores 1 ... 2 ... 3 Em a volúpia das noites andaluzas O sangue ardente em minhas veias rola ... Sou D. Juan! ... Donzelas amorosas, Vós conhecei-mos trenos na viola! Sobre o leito do amor teu seio brilha ... Eu morro, se desfaço-ta mantilha ... Tu és -- Júlia, a Espanhola! ... E em Maria e O bandolim da desgraça, ambos em Cachoeira de Paulo Afonso: Maria ... Ah! Quem de 'sas primaveras Pudesse a flor apanhar! E com ti, ao tom d' aragem, Sonhar na rede selvagem ... à sombra do azul palmar! Bem feliz quem na viola Te ouvisse a moda 'panhola De a lua ao frouxo clarão ... Com a luz dos astros -- por círios, Por leito -- um leito de lírios ... E por tenda -- a solidão! O Bandolim da Desgraça Quando de amor a Americana douda A moda tange na febril viola, E a mão febrenta sobre a corda fina Nervosa, ardente, sacudida rola. A gusla geme, s ' 'torcendo em ânsias, Rompem gemidos do instrumento em pranto ... Choro indizível ... comprimir de peitos ... Queixas, soluços ... desvairado canto! E mais dorida a melodia arqueja! E mais nervosa corre a mão nas cordas! ... Ai! tem piedade das crianças louras Que soluçando no instrumento acordas! ... «Ai! tem piedade dos meus seios trêmulos ..." Diz 'talando o bandolim queixoso. ... E a mão palpita-lhe apertando as fibras ... E fere, e fere em dedilhar nervoso! ... Sobre o regaço da mulher trigueira, Doida, cruel, a execução delira! ... Então -- co' as unhas cor-de-rosa, a moça, Quebrando as cordas, o instrumento atira! ... ... ... ... Número de frases: 84 De o grego syn (união, junção) -- aisthesis (percepção). Sinestesia significa, no português, a união dos sentidos. A sinestesia é geralmente considerada uma 'pécie de «curto-circuito» entre os sentidos, em que um 'tímulo a um sentido, como o tato, 'timula também outro, como a visão. Ok. Você deve 'tar se perguntando: e o que tem isso a ver com o Overmundo? Eu respondo. Sinestesia é o nome de uma banda de rock de Palmas, que tem despontado no cenário local por causar um «curto-circuito» na percepção musical dos tocantinenses. «Não sei determinar um 'tilo não», dispara Rafael Batista, vocalista da banda. E é bem isso mesmo. Sem rótulos. A Sinestesia é uma mistura de grunge com bossa nova e rock. Vá lá que não há mais como se fazer um som ' limpo ` ou ' virgem ' -- sem nenhuma influência de outros 'tilos -- mas o que a Sinestesia tem feito é um barulho bom. A banda é jovem, todos os integrantes 'tão na faixa dos 20 anos. E tudo começou quando os xarás Rafael Batista e Rafael Bertuol (baixo) se conheceram. «A gente era amigo, gostava de música, mas não conseguia achar um baterista», conta Batista. «Entrava um e não dava certo, depois outro e nada», relembra. Há um ano eles conheceram Rogério Tonon -- o Paulista, 'tudante de engenharia ambiental que se tornaria o baterista da banda. «Em o começo tivemos que juntar carcaças de umas três baterias para fazer uma». Nem precisa dizer que conseguiram a bateria. Os ensaios acontecem três vezes por semana, no quarto de " Rafael Bertuol. «Em o começo a mãe de ele reclamava, mas agora já aceita», explica o vocalista. A banda toca mais em festivais e em festas, onde o público é, em sua maioria, de universitários. Mas, como toda banda que se preze, quer conquistar o mundo com o seu jeito de fazer música. O caminho é longo, mas eles já 'tão percorrendo. Já tocaram no Grito Rock, em Cuiabá (MT) e no projeto Hard AMP, do selo Beacid, na boate Jump, em Goiânia (GO). Tem uma música da banda do banco de cultura do Overmundo, chama-se Hereditariedade. Vale a pena conferir. Número de frases: 28 Essa deveria entrar no guia, mas é porque já rende muita história. Recebi um email que falava «peguei uma edição no banheiro do Cinema da Fundação». Era de um cara elogiando um texto meu que saiu na revista Giro. Número, formato gibi, capa laranja que só trazia um desenho na capa, desafiando a imaginação do leitor. Teve um boom na cidade. Você chega nos bares (confere lá no Guia, tem uma lista enorme) e você já encontra um pequeno stand com revistas convidando para leitura. O melhor, elas são todas de graça. É muito justo dar o crédito a isso ao Coquetel Molotov. Um coletivo de pessoas que fazem um programa de rádio e um dos festivais mais legais de toda cidade. A revista de eles é charmosa, grandona, papel de primeira qualidade, textos longos. Lá você fica sabendo daquela banda que só vai chegar na Internet no próximo mês. Não pergunte como, o disco vaza primeiro na cabeça de eles. Isso porque o pessoal tem contato constante com bandas de todo canto do mundo. Graças ao festival de eles e a próximidade com gravadoras independentes, não é 'tranho o vocalista do Teenage Fanclub aparecer no msn de um dizendo que acabou de compor uma nova canção. Em a seqüência veio a do RecifeRock. Essa não é de graça, verdade, mas custa modestos R$ 1. O nome não 'conde, o 'quema lá é mais local e muito mais rock. Entrevistas, resenhas de shows e muitas, mas muitas fotos. O site tem o maior acervo de cobertura de shows hoje e 'tá descarregando tudo na edição impressa. O mais divertido são os guias de compras. Tem de calcinha de banda emo, a chapéu de Chico Science para sair no carnaval fantasiado de rock ' n ' roll. Letra de música, cifra para violão e tratamento vip para as bandas que acabaram de sair da garagem. A terceira, mais nova, é a do Giro. O site Giro Cultural já ficou famoso por experimentar formatos. Tinha uma sala de bate papos, um programa de rádio online, e agora a edição impressa. O lance lá é misturado mesmo. Cada página um assunto e um visual totalmente diferente. Cinema, música, literatura. Também um 'paço para a voz de quem produz cultura local. Tem um cara na cidade, o Pezão, que é o principal coordenador de palco do Recife. Ele tem uma coluna lá onde sempre conta as histórias inusitadas que acontecem nos bastidores do show. Efervescência cultural, exige também uma efervescente reflexão. As revistinhas são um reflexo disso. Em a caixa de email, já chegaram projetos de pelo menos mais duas. Uma de comportamento, outra mais segmentada. Tudo ainda no 'quema de segredo. O fato é que, até o próximo semestre. Número de frases: 37 Barzinho no Recife vai ser sinônimo de cerveja, conversa e também uma boa leitura. Vida de blogueiro não se resume em publicar seus próprios textos, mas se 'tende no prazer de conhecer páginas novas, que tenham bons textos, de preferência. Em 'ta de garimpar de blog em blog cheguei ao Taxitramas (www.taxitramas.blogger.com.br), que é atualizado toda segunda. O blog é de Mauro Castro, que é taxista em Porto Alegre e colunista semanal do Diário Gaúcho, distribuído na região metropolitana da cidade. Histórias de taxistas sempre fascinam. Tem filme sobre isso (Uma Noite Sobre a Terra, do Jim Jarmusch) e tem apresentador global fazendo papel de taxista em programa de TV. Agora tem também livro com histórias de taxista. O Taxitramas foi lançado em outubro, por a Editora Sulina, e traz histórias publicadas no blog. Abaixo publicamos uma entrevista com o taxista blogueiro, que nos fala um pouco sobre como começou a 'crever e da importância da internet para a divulgação do seu trabalho. Em o final da entrevista 'tá um dos textos que o Mauro publicou no seu blog, que será uma ótima primeira experiência para quem nunca leu seu trabalho. ( Quem quiser comprar o livro do Mauro Castro pode fazer isso já, é só entrar no site da Editora Sulina, ou no site da Livraria Cultura, ou no site da Livraria Saraiva) O que te levou a começar a 'crever? Eu 'crevo desde sempre, mas nunca com a constância de agora. Quando Jovem (bah, há muito tempo atrás, risos), tive um fanzine aqui na minha zona, o Scória, que, basicamente, servia para sacanear a nossa turma aqui da vila onde moro. Nada sério, mas que me despertou o gosto por a 'crita. Eu também ilustrava, diagramava, distribuía e tinha o prejuízo das cópias xerox. Uma 'cola. Há uns quatro anos, o editor do jornal Diário Gaúcho, que pegava táxi no meu ponto, sugeriu que eu passasse para o papel as incríveis histórias que eu colecionava sobre taxistas. Depois de analisar alguns textos que eu lhe enviei, o cara teve a coragem de me ceder um 'paço no jornal, às segundas-feiras. Escrevo em 'ta coluna do Diário, desde então. São quase 200 textos publicados. Os mesmos que eu passo para o blog toda a segunda-feira. De blog em blog acabei chegando no Taxitramas. Você acha que seu trabalho teria a mesma repercussão sem a internet? Não. O Diário Gaúcho é um jornal de grande circulação (um milhão de leitores / dia), mas tem uma abrangência limitada à região metropolitana de Porto Alegre. A Internet «'praiou» meus textos por o mundo. Isso aconteceu graças às matérias que saíram na mídia e, principalmente, à propaganda blog a blog. Algum passageiro já se reconheceu nas suas histórias? Quais as reações? Alguns passageiros e colegas contam as histórias e pedem que eu lhes dê o crédito. Quando 'crevo por minha conta, nunca uso nomes reais. Em alguns casos, porém, não há como não saber que determinado texto se refere a tal passageiro. Isso já aconteceu, mas graças ao cuidado que procuro ter em relatar as histórias, nunca tive problemas com ninguém. Você também 'creve histórias que acontecem com seus colegas de profissão. Como é a relação de eles com 'te seu ofício paralelo? De uma forma geral, eles gostam. Mas não há um grande interesse, creia. Eles custam a acreditar no sucesso que as histórias fazem. Não entendem bem o que leva tantos jornalistas e canais de TVs a visitarem meu ponto. Pouquíssimos colegas, por exemplo, compraram o livro do Taxitramas ... O primeiro texto seu que eu li foi sobre o Caio Fernando Abreu. Quem são os 'critores que te inspiram e te influenciam? Tudo o que eu leio me influencia. Não tenho grandes ídolos. Gosto 'pecialmente de crônicas, textos que sejam ágeis, que falem de forma simples, coloquial. L.F.Verissimo, Millor Fernandes, Rubem Fonseca, gente desse tipo. Não li grandes autores. Certo jornalista comparou meus textos com os do Tchecov. Preocupado, fui à Internet conferir se ele não 'tava me insultando (risos). Você acaba de lançar seu primeiro livro por a Editora Sulina. Como surgiu a idéia do livro? Foi um processo difícil? Não foi difícil. Em a verdade, graças à visibilidade do blog, foi a editora Sulina que me procurou e não o contrário. Eis o milagre que a Internet é capaz de operar. Em um país onde muitos 'critores correm o risco de acabar ao volante de um táxi, 'te humilde taxista transita na contramão. Drogas, mágoas e uma pistola automática Por Mauro Castro Dois caras entraram no táxi do Viana e mandaram tocar em frente. Em a fissura, precisavam de dinheiro para comprar mais drogas. Pensaram em assaltar uma farmácia, mas depararam com câmeras de tevê e segurança armada. Preferiram meter um táxi. O Viana é um ex-policial. Era um tira durão. Vagabundo com ele não tinha moleza. Escreveu não leu o Viana baixava a mão nos bandidos. Um policial à moda antiga, viril, hábil no uso de armas de fogo e firme na abordagem corpo a corpo. A bandidagem o temia, sabiam que na área do Viana o bicho pegava. Um dia, porém, um traficante, com bons advogados e influência, foi «molestado» por Viana. Forjou provas, subornou as pessoas certas, alterou perícias e comprou testemunhas. Submetido a um processo disciplinar, constrangido e humilhado, Viana acabou deixando a polícia. Perdeu a insígnia e a auto-'tima. Depois de sucumbir à burocracia na tentativa de abrir uma empresa de segurança, Viana passou a viver de bico. Segurança em bailes, vigia, manobrista, qualquer coisa. Salários aviltantes e mágoa: uma mistura explosiva. Em aquela noite, 'tava trabalhando no táxi do seu sogro. Parado numa 'quina 'cura, cansado e sem perspectiva, Viana acariciava sua pistola automática que levava sob o banco, quando os dois caras entraram para o que parecia ser só mais uma corrida. Quando a lâmina da faca roçou seu pescoço e o assalto foi anunciado Viana reagiu por instinto. O policial que havia no fundo daquele farrapo de taxista ressurgiu. Como quem reage ao próprio destino, abateu os marginais com dois tiros certeiros. Haviam 'colhido a vítima errada, na hora errada. Número de frases: 83 (matéria publicada originalmente no blog Facada Leite-Moça) Felizmente tive a oportunidade de assistir ao último programa de Regina Casé na TV Globo, que foi ao ar no sábado (21/10). A partir de ele comecei a refletir sobre o nosso país, principalmente o «povo». Esta palavrinha tão utilizada por os «donos do poder», principalmente em períodos de eleição, mas tão mal definida em nossas cabeças. Quem compõe o povo brasileiro? Vendo aqueles gaúchos dançando funk e, ao mesmo tempo preocupados em manter suas tradições culturais, visualizei o universal no particular, os pontos de unidade que podem compor um povo mesmo que 'te seja múltiplo. Existe algo que costura interesses e visões de mundo mas que não anula diferenças culturais, ao contrário, se alimenta de elas para permanecer. E então me pergunto se os tais «donos do poder» conseguem enxergar isso, ou ainda, se têm interesse em enxergá-lo. O povo abstrato a que eles se referem e de quem dizem conhecer os anseios 'tá construindo caminhos próprios e é isto que me deixa mais emocionada ao ver um programa como 'te sendo veiculado na maior rede de televisão do país. Eles podem continuar não se importando e podem aprender a enxegar, mas as alternativas 'tão sendo criadas e a cultura é o maior instrumento para isso. Resolvi colocar aqui minhas impressões para compartilhar com outros 'se sentimento de admiração por 'se povo e de confiança em ele. A 'perança expressa nas eleições ontem (29/10) é numa abertura cada vez maior destes canais para que as periferias cheguem mais ao «centro» e possam se mostrar e dialogar. Número de frases: 12 Se existe possibilidade de transformação em 'te país, certamente 'ta é a via. Folias: Pessoas devotas que percorrem as fazendas tirando 'molas para festejar a festa do santo: Santo Reis, Nossa Senhora do Rosario, e do Divino Espirito Santo, a folia de Reis tirada dia primeiro de Janeiro, como quem diz ser uma perigrinação dos tres reis magos. Gira 6 dias, mas sempre com uma festança propriamente dita. O primeiro cuidado do «Soberano» eleito consiste realmente em organizar e despachar logo depois da pascoa as folias ou bandos precatorios encarregados de 'molar no municipio. Escolhem para 'se fim um grupo de homens chamados «foliões» apronta-os com roupas, calçados, viveres e bons animais de montarias e de carga, vistosamente aerados. Manda os em grupo de 08, 10 ou mais individuos, chefiados por o alferes da bandeira, e ladeado por os tocadores de violas e caixas de rufar, com as comitivas, seguem atraz, e as vezes na frente, o «bagageiro» encarregado das cargas e das cozinhas e mais atraz ainda marcham os «tangedores» de gados e animais oferidos ao divino, ao longo da peregrinação. Sentimos não poder tranascrever aqui as cantigas moduladas por os foliões, umas decoradas, outras impriovisiadas e inspiradas por circunstancias e por as situações diversas dos moradores visitados. Há versos 'peciais para cumprimentar o casal legitimo, outros para saudar viuvos, e saudar os servidores do divino. As pequenas ofertas servem para os banquetes pantagruelicos, durante as solienidades. Os bois, bezerros, cavalos e poldrinhos serão vendidos em leilão por o «Imperador» e organizados de tal maneira que o «Soberano» sertanejo e seus comparsas ladinos ficarão por baixo preço, donos de verdadeiras fazendas. Este e outro grave abuso resultante das folias; mas a devoção ao Divino 'tá de tal forma enraizada que ninguem se atreve a criticar as manobras do eleito. Tudo que o festeiro fizer tá feito e o povo continua a entregar-lhe, de olhos fechados, os objetos de suas promessas Chega em fim os dias do imperio. Dia e Noite por as 'tradas, caminham devotos empenhados em não perder nada dos festejos. Em a vespera do pentecostes, a noite, realiza-se o primeiro ato, a solene coroação do imperador, panpero cortejo conduz o principe a igreja ou capela, indo à frente a bandeira desfraldada, ao lado panjos carregando, em lindas bandeijas, a coroa e o cedro, atrás os musicos e os cantores, com voilas, sanfonas, pandeiros e caixas. A muitidão acompanha, empunhando velas acesas e repetindo os vivas entre tremendos 'trondos de roqueiros e o 'pocar dos foguetes. Um dia antes da festa do Imperador do Divino, a Nossa Senhora do Rosario, e a festa do mastreiro de cada divindade; cada festeiro deve levar o seu mastro com sua bandeira na ponta até a igreja matriz de São Miguel, e após, grande coquetel para agradar a população, que impulsionda por os toques foguetes e bebidas, fica disposta a festejar dia e noite Grupo Jiquitaia De Almas-to: A Jiquitaia é uma dança proveniente dos 'cravos, cuja história tem raízes em Almas, formando parte precisa da identidade cultural de seu povo. Um misto de festa do Divino Espírito Santo, sussia e ritmo de tambores com cantorias bem entoadas, a dança faz simulações de toques às vezes íntimos ou simulações de uma operação «mata insetos» por o corpo. Assim é dança do grupo Jiquitaia de danças típicas de Almas, que já realizou apresentações em várias cidades brasileiras, de entre as quais Teresina Capital do Piauí, por ocasião do 26º encontro Nacional de Folguedos do Piauí, em Palmas e outras cidades, sempre alcançando sucesso de critica e de publico. Formado por os alunos do colégio Estadual Dr Abner Araújo Pacini, o grupo já realizou sobre o comando do Professor Arinestino Rosa de Oliveira diretor do Colégio, um trabalho de resgate da identidade cultural da cidade de Almas, já 'teve presente durante o Espaço Brasil na França em Paris mostrando um pouco da cultura almense para os franceses no ano de 2005, todo grupo é formado por adolescente, hoje o grupo 'tá sobre o comando da Diretora Marizete Cardoso de Souza Freitas, 'tá passando por uma reformulação, o grupo é composto por quinze pessoas divididos entre dançarinos e músicos. O Que É A JIQUITAIA: A Jiquitaia é uma dança cultural Sussia da região de Almas, que iniciou-se com a historia da 'cravidão no Brasil, pois havia uma ligação muito forte dos santos da igreja, principalmente no aculturamento religioso, sobre tudo dos indígenas e dos 'cravos, dentro de 'sa cultura existia uma revelação muito forte com o Divino Espírito Santo, tanto que o primeiro festeiro da região foi Bernardo Homem, que foi considerado o fundador do Arraial onde hoje 'tá localizada a cidade de Almas, ele trouxe com si varias imagens e a cultura do giro da folia da Europa, mas precisamente de Portugal. Em os momentos de descanso do ofício dos cânticos da religiosidade, eram inseridas algumas danças que tinham como princípio não tocar nas pessoas, principalmente no sexo oposto. E para amenizar eles começavam a dançar em volta das fogueiras, algumas danças em que as mulheres comandavam eram tocadas, aconteciam até insinuações, mas não o toque propriamente dito. Surgiu então a sussia que é dançada em volta da fogueira. Dentro de 'sa mesma linha conta-se que a jiquitaia nasceu dentro das senzalas, no momento em que os 'cravos iam dormir, deixando fragmentos de comidas dentro dos aposentos e às vezes eram atacados por uma formiguinha vermelha que tem uma picada muito dolorida e que atacavam em grupo, que são as formigas jiquitaia. às vezes muitos cansados tentavam se livrar dos ataques das formigas, e isso virava um tipo de brincadeira para o dia seguinte, e quando 'tavam tocando atabaques nos finais de semana, perceberam que aquilo «dava samba». Então os 'cravos começavam as danças e simulações as reações dos ataques das formigas, daí começou a Jiquitaia como dança. Contudo ela é um segmento da Sússia, ou seja, danças que não há toques, mas sim simulações. A jiquitaia assim como a Sússia são danças típicas de Almas e do Sudeste do Tocantins. Número de frases: 36 Caroço ... Caroço ... Caroço de Banana ... ( ecos na cabeça) Saí da casa do autor de quase todas (ou todas!) as letras do Caroço de Banana com o coração aos pulos. Desde que comecei a conversa com Leandro Ornellas -- líder do grupo musical Caroço de Banana -- e que ele, tão gentil, ofereceu aos meus olhos mais de um álbum com as memórias do grupo e também dos festivais da canção dos anos 80, fiquei com o pensamento fixo de que queria levar o álbum do «Caroço» para casa. Poder folheá-lo e olhar cada pessoa da foto, ler as letras das músicas e cantá-las seria uma volta musical no tempo. Voltar no tempo significava, naquele momento, rememorar cada evento da música de minha região e descobrir-me lá! É, eu 'tava lá, muito jovem, curtindo cada noite de música que acontecia nas redondezas: Cordeiro, Cantagalo, Santa Maria Madalena ... E se tivesse os meninos do Caroço ainda era melhor! Lá 'tava eu cantando com o grupo, que pra empolgar a «rapaziada», distribuía a letra da música da vez, muitas de elas copiadas em mimeógrafo ou feitas em gráficas com patrocínios dos bares e do comércio local. Eu 'tava lá naqueles festivais. Sabia que as músicas com letras de crítica social, palavras difíceis e arranjos elaborados ganhariam os melhores prêmios. E o Caroço? Ah ... Era o que fazia a nossa festa, o nosso riso e a nossa rouquidão no dia seguinte. Comunicação com o público era o prêmio de eles. Com o álbum já em casa, fui revendo toda 'sa história, cantarolando as músicas que mais sacudiam as arquibancadas dos festivais nos anos 80. O início do álbum tem um texto pequeno e datilografado que resume bem o perfil dos «malandros» do Caroço: «O 'tudioso japonês KUMIKANGIKA KENTI, autor da frase «Banana tem caroço», admitiu 'ta semana 'tar totalmente errado sobre o assunto, declarando para toda a imprensa japonesa: O único Caroço de Banana existente no mundo encontra-se na cidade de Cordeiro-Brasil e é um grupo de música diferente de todos os outros que eu já vi até hoje." Enquanto no mesmo período o Grupo Blitz 'tourava nacionalmente, entre as muitas bandas de «Rock Brasil», unindo letras simples e divertidas a uma roupagem teatral, o Caroço de Banana alcançava fãs e públicos na região do interior fluminense com o» foco musical " mais voltado para o samba e o pagode, ambos de aceitação tímida por a mídia e recusados de serem executados por muitas rádios na ocasião. De semelhanças entre a Blitz e o Caroço, somente o uso cênico dos 'paços de apresentação. O deboche, a irreverência e um tom nem sempre politicamente correto ficavam mesmo por conta da banda cordeirense. Talvez seja por isso que eles arrastavam os jovens para onde fossem tocar e cantar. Leandro Ornellas disse que muito mais tarde observou um 'tilo um pouco parecido no também extinto grupo Mamonas Assassinas que fez grande sucesso em meados da década de 90. A origem do Caroço já é de sacudir muitos conceitos e de incomodar muita gente. Surgiram em 1982 nos tempos dos Festivais Estudantis da Canção. As 'colas públicas, em seus calendários tão rígidos, cediam 'paço para a juventude mostrar a sua música. Tudo muito bem comportado, é lógico. Em 1983, dobraram a sisudez de um júri com a música «Um Estudo Muito Confuso» e abocanharam um sério 2º lugar e evidentemente (o que depois ficou sendo troféu-marca registrada) o prêmio de «melhor Comunicação com o público». Com boinas e uniformes, cantaram o que os alunos sempre diziam nos corredores 'colares: " Chega de estudo / Seja do jeito que for / Pois se for pra 'tudar 'sas coisas / É melhor ser um trabalhador ..." De aí para a frente, alcançaram muitos palcos. O sucesso foi tanto que dividiram a grade de programação de shows da Exposição Agropecuária da cidade com os bam-bam-bans da música da época. Chegou ao ponto de um conhecido artista reclamar que não havia sido favorecido por os organizadores da festa, pois «como ele iria fazer pra segurar o público depois desses meninos?». Histórias assim e outras mais recheiam o álbum do Caroço de Banana. Uma outra bem divertida é encontrar o nome do Grupo na grade de programação da Festa da Padroeira de Cordeiro, onde, por descuido tocaram Boneca Dura e levaram uma baita 'culhambação dos religiosos. Em uma outra festa, em Macuco / RJ, tiveram que tocar por mais de duas horas porque o público não os deixava ir embora e o prefeito cancelou a próxima apresentação daquela noite, que seria de um grupo de rock vindo da capital. Mas nem só de riso e deboche vivia o Caroço de Banana. Para minha surpresa, encontrei registros no álbum do engajamento do Caroço em lutas bonitas como os três dias de festa cultural para a preservação do prédio do Cine Madrid, que seria «demolido» sem consulta popular. Hoje, o prédio 'tá lá. É sede da Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense -- a nossa banda -- e palco de inúmeros eventos culturais que acontecem desde aquela época. Também fizeram bonito numa grande seresta no CIEP Dr. Oswaldo Cruz para reverter toda a renda em benefício do querido cordeirense Helenio Sally, que havia sofrido um grave acidente automobilístico. Helenio, atualmente, toca uma rádio comunitária na cidade e ainda sonha em 'tabelecer de vez um canal comunitário de TV, com programação voltada para os interesses de nossa região. Em os dias de hoje, os meninos do Caroço de Banana nem são assim tão meninos. Hélio -- amigo do nosso Rei Chico, que já ganhou um artigo no overmundo -- hoje é chamado de «Pai Velho» por o seu amigo e compadre Leandro Ornellas, que acabou de fazer um curso de batismo pra ser padrinho da recém-chegado filha daquele que já se vestiu até de Xuxa nas apresentações do grupo. Hélio é professor de Educação Física e também trabalha numa 'tação meteorológica. Leandro é assessor de imprensa de duas cidades, 'creve para jornais locais e compõe sambas-enredo e músicas «mais elaboradas». Nego Roger segue o caminho musical e com voz aprimorada e límpida encanta em festivais, shows e em 'colas de samba. Tadeu Santinho partiu para outros acordes e hoje se dedica ao chorinho com o grupo musical «Os Matutos». Ricardinho também compõe e se tornou um excelente intérprete de 'colas de samba, além de também trabalhar com assessoria de imprensa para câmaras e prefeituras municipais. Gustavo hoje é dono de farmácia e Dudu é sócio de uma distribuidora comercial -- mas ambos continuam apaixonados por o samba, inclusive sendo ótimos ritmistas da GRESMIC, uma 'cola de samba local. Edmilson continua sendo o «Pouca Sombra» de sempre, de acordo com Leandro, mas agora bem mais comportado (só bebe umas cervejinhas de vez em quando). E assim segue a vida ... Depois desse artigo, e o meu peito? Continua num ritmo nostálgico de um baticum que ele já não ouve, mas que agora ecoa: caroçoooooooooooooooooo ... caroço de banana ... caroçoooooooooo! Número de frases: 59 Boa Vista 'tá em polvorosa. A agitação 'tá por todos os cantos da cidade, desde os bairros centrais até os mais distantes da periferia. E não é apenas porque vai começar a Copa do Mundo. É que chegou o mês de junho e, com ele, o período das festanças que só perdem para o carnaval por aqui. Não há 'cola, creche, igreja ou qualquer outro aglomerado de pessoas que não se reúna, pelo menos uma vez, em torno das festas juninas. São três grandes arraiais e uma infinidade de pequenos festejos 'palhados por Boa Vista e municípios do Interior. O visitante mais desavisado pode até achar que não 'tá na região Norte, e sim, na Nordeste, tamanha a tradição dos festejos na cidade. E não poderia ser diferente. Em um Estado cuja população é predominantemente composta de nordestinos, a influência da cultura daquela região não poderia deixar de ser latente. E a tradição vem de longe. A partir da década de 1930, como conta o professor Idalmir Cavalcante, já apareciam por aqui as primeiras manifestações folclóricas juninas. «Já nos anos de 1936, os senhores Gervásio e Raimundo Otávio percorriam as ruas da cidade como dois ' bois ', que eram grandes rivais que não podiam se encontrar que o pau quebrava». Em o começo, lembra Idalmir, os grupos de boi-bumbá eram mais comuns, talvez até por a grande influência maranhense na colonização do Estado. Mas também havia outras danças tradicionais como As Pastorinhas, cujos primeiros registros são obra de dona Estela Barbosa e o'seu ' Augusto, em meados da década de 1940, quando saiam por as ruas dos bairros Olaria e Correios (hoje Caetano Filho e São Pedro, respectivamente), animando a criançada. Em o começo da década de 1950 os bois-bumbás começam a ganhar força. Inspirados no boi «Caprichoso» de Parintins, os amazonenses Elias e Duca do Caxangá criam um grupo homônimo por aqui. ' Seu ` Wilson Paiva, mais conhecido como ' Tracajá ', que era um dos brincantes do Caprichoso, logo cria seu próprio ' boi ', o Corre Campo, que fazia apresentações nos pátios das residências cobrando cachê e animando crianças e adultos. «Depois surgiram o Mina de Ouro, o Garantido e muitos outros que tinham entre seus integrantes jovens figuras da sociedade roraimense da época como o'seu ' Avelino, o Ataliba, o Mantinho, o Lamparina, o Aníbal, o Getúlio, o Salomão e eu, entre muitos outros», lembra Idalmir. E surgem as quadrilhas Paralelamente aos ' bois ` começava a nascer um novo movimento: o das quadrilhas. E foi ' seu ` Mario Abdala o grande precursor de tudo. Então diretor do jornal «O Átomo», ' seu ' Mario começou a organizar as primeiras quadrilhas juninas ainda no final da década de 1950, quando atuava como o grande animador dos grupos que se apresentavam no tradicional Bar das Mangueiras (já extinto), no Centro da cidade. Além de ele, também se destacou o professor Jaber Xaud, que animava as quadrilhas dos clubes Rio Branco, União Operária, Roraima e Iate. «Mas foi o jovem Reginaldo Gomes, na década de 1960, que fez o maior arraial da história de Roraima na época, no quintal da dona Nadir, com a quadrilha Zé Carola, que reunia toda a juventude da Praça da Bandeira. Também tínhamos outros festejos importantes como o arraial da Rafi, da família Bríglia, e as festas do compadre Bem-te-vi», recorda Idalmir. O caminho das ruas para as 'colas foi curto. Em 1972, o próprio Idalmir Cavalcante começa a levar para as 'colas as danças de quadrilhas, que passaram a ser a maior atração das festas juninas. Escolas tradicionais como Lobo D' Almada, Penha Brasil, São José, Oswaldo Cruz, entre outras, passaram a formar seus próprios grupos folclóricos. Em 1984, foi Idalmir quem organizou o primeiro Festival Folclórico reunindo quadrilhas de vários bairros da cidade, algumas de elas já extintas, como é o caso da Pré-Unidos, a Ferrolhão e a Garrafão, entre outras. A partir de ali começam a surgir várias quadrilhas e grupos folclóricos que se mantêm até hoje, como é o caso da Xamêgo Caipira, Zé Monteirão, Garranxê, Xamêgo na Roça, entre tantas outras. Mas é no começo da década de 1990 que começam a ser organizados os grandes arraiais que permanecem até hoje no calendário junino da cidade. Em 1991, começou a ser realizado o «Arraiá do Anauá» por o governo do Estado. O nome é uma referência ao Parque Anauá, local onde acontece a festa que, a cada ano, recebe uma temática diferente e ' arrasta ' multidões. A festa 'se ano acontece de 23 de junho a 1º de julho. Já em 1992 é a vez do Arraial do Comerciário, organizado por o Sesc, e que 'te ano chegou à sua XV edição (foi realizado de 1º a 04 deste mês). Em o ano seguinte, foi a vez da Prefeitura começar a organizar o festejo, que quando começou acontecia na Praça Capitão Clóvis e ultimamente vem sendo realizado na Praça do Centro Cívico. ( Este ano o Boa Vista Junina, como é chamado, acontece de 10 a 18 de junho.). Com a criação de tantos festejos começaram a surgir também novas quadrilhas e grupos folclóricos, que participam dos concursos, sobretudo dos três principais arraiais. Hoje, entre quadrilhas e grupos folclóricos já são mais de 50. Com o tempo todos começaram a se ' profissionalizar ', e criaram a Aquajur (Associação das Quadrilhas Juninas de Roraima). Mais tarde, numa dissidência, surgiu também a Fequaj (Federação das Quadrilhas Juninas). Mas, não importa quem 'teja à frente da organização das festas juninas em Boa Vista, o povo vai 'tar sempre presente comendo pamonha, canjica, mungunzá, churrasquinho, paçoca com banana e arrastando o pé no salão, ao som do forró pé-de-serra, do forró tradicional ou mesmo dos bregas do Norte como o calipso. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do São João no país. Mapeando a variação dos 'tilos musicais, comidas, danças, brincadeiras etc.. Vendo como a tradição sobrevive fora do nordeste, sua evolução no próprio berço, nos grandes festivais onde bandas modernas convivem com as tradicionais. Para ler mais relatos, busque por a tag Especial São João 2006 no sistema de busca do Overmundo. Número de frases: 48 Os Sateré-Mawé integram o tronco linguístico Tupi, mas diferem do Guarani-tupinambá, concordando os pronomes com a língua Curuaya-munduruku e a gramática com o Tupi, segundo o etnógrafo Curt Nimuendaju (1948). O vocabulário Mawé, contudo, contém elementos completamente 'tranhos ao Tupi, sem relação a qualquer outra família lingüística. Estes e outros elementos da língua vão 'tar na gramática e no dicionário Sateré-Mawé, que 'tão sendo produzidos por professores e pesquisadores indígenas da etnia, no Amazonas. A necessidade de criar material didático adequado aos Saterés surgiu depois que os professores perceberam que 'tavam educando suas crianças para o mundo dos brancos. Perceberam também que a Educação sempre 'taria prejudicava com livros incompreensíveis às crianças Sateré, que mantém a língua nativa como principal. Os homens atualmente são bilíngües, falando o Sateré-Mawé e o português, mas a maioria das mulheres, apesar de três séculos de contatos com os brancos, só fala a língua Sateré-Mawé. A gramática vai reunir diversos aspectos da cultura Seteré-Mawé, articulando 'sa referência cultura às normas lingüísticas. Os dados foram coletados em seus territórios ancestrais (aldeias, território, as aldeias, sítios, roças, cemitérios, territórios de caça, pesca) principalmente entre anciões, considerados os guardiões da sabedoria. O dicionário trará mais do que o significado das palavras, mas também as formas ancestrais do índio falar sobre sua terra, sua casa, sua vida. Por exemplo: os Sateré-Mawé referem-se ao seu lugar de origem como sendo o Noçoquém, lugar de morada de seus heróis míticos. Eles localizam-no na margem 'querda do Tapajós, numa região de floresta densa e pedregosa, «onde as pedras falam». Em ambos, também poderemos aprender sobre a participação das mulheres, seja na aldeia real seja em lenda. Em o corpus mítico Sateré-Mawé, o feminino é representado por as figuras de Uniaí, Onhiámuáçabê e Unhanmangarú, que são ora irmãs de Anumaré (Deus), ora irmãs de Ocumaató e Icuaman (os irmãos gêmeos). Estas mulheres míticas possuem um leque de atributos e prerrogativas que encontram ressonância na vida social Sateré-Mawé, mesmo que de forma invertida ou oposta. É seguindo 'sa trilha que podemos entender a participação das mulheres no fabrico, precisamente na lavagem dos pães de guaraná -- produto de excelência dos Sateré, presente em sua organização política e social-, uma vez que elas ocupam a posição de Onhiámuáçabê na «História do Guaraná» -- a mulher -- xamã, 'posa e mãe. Onhiámuáçabê, através de práticas xamanísticas, cuja tônica central é a lavagem do cadáver do filho com a sua saliva e o sumo de plantas mágicas, faz nascer a primeira planta de guaraná, inaugurando a agricultura, ressuscitando seu filho -- o primeiro Sateré-Mawé, e fundando a sociedade. É interessante notar que na sociedade sateré-mawé cabe exclusivamente aos homens a função de pajés, ao contrário de alguns mitos, em que 'ses papéis são reservados às mulheres. De a mesma forma, a vida social reserva aos homens a tarefa de beneficiar o guaraná, quando nos mitos é função da mulher cuidar do guaraná. O subsídio para o desenvolvimento da gramática e do dicionário veio com a formação acadêmica de 42 professores indígenas no Curso de Licenciatura em Ciências Naturais que a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) passou a oferecer desde 2003, exclusivamente para público, para professores da Terra Indígena do Marau, na região do município de Maués. O curso propicia uma formação generalista, no campo das ciências biológicas e exatas, fundamentada numa concepção histórico-social de ser humano e baseada no princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. A proposta do curso é construir cidadania crítica, para a preservação da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas. Foi durante as aulas que os professores indígenas, hoje no sexto módulo, passaram a perceber que projetos, como a elaboração didática na língua materna, são determinantes para a conservação da cultura e desenvolvimento de um povo. «O curso 'tá abrindo nossa visão. Posso dizer que antes a gente não 'tava enxergando os problemas da comunidade e nem preparados para lidar com eles. Agora, 'tamos evoluindo, o que aprendemos no curso tentamos aplicar na comunidade», diz Euzébio Silva Torquato, acadêmico e professor de Ensino Médio. O aprendizado já provoca mudança no cotidiano dos Sateré-Mawé. «Um exemplo foi a mudança na compra do açúcar. Antes, a gente comprava em saca, que depois era jogada no rio. Hoje, preferimos armazenar o açúcar em recipiente e dispensar a saca, não poluindo o rio. É um exemplo simples, mas de grande impacto no nosso modo de vida», relata o professor. O material didático em Sateré-Mawé vai auxiliar no ensino nas 'colas indígenas das aldeias do Marau. «Todos os professores são bilíngües, dão aula nas línguas Portuguesa e Sateré, mas predomina o ensino na língua materna. É exatamente assim que queremos manter», explica o supervisor de educação do projeto, Erciuo de Oliveira. Para tocar os projetos, os professores se dividiram em dois grupos, para trabalhar com maior objetividade. Erciuo me diz ainda 'ta última frase: «O curso da universidade deu subsídio para a gente tentar construir nosso próprio material didático, respeitando os nossos saberes, que finalmente vão ser documentados por nós mesmos». Breve História do Povo do Guaraná A Segunda maior etnia da Amazônia (atualmente 7. l34 pessoas) já recebeu vários nomes ao longo de sua história, denominações dadas por cronistas, desbravadores, missionários e naturalistas como Mavoz, Malrié, Mangnés, Mangnês, Jaquezes, Magnazes, Mahués, Mauris, Mawés, Maragná, Mahué, Magneses, Orapium. Mas os índios se autodenominaram Sateré-Mawé. Antes da chegada do branco colonizador, da guerra justa e da Cabanagem que os dizimaram e os confinaram nos atuais 788.528 hectares de reserva Mawé (com um dos maiores índices demográficos do país, considerando outras reservas indígenas), eles eram numerosos, chegavam a dezenas de milhares e habitavam o vasto território entre os rios Madeira e Tapajós, delimitado ao norte por as ilhas Tupinambaranas, no rio Amazonas e, ao sul, por as cabeceiras do Tapajós. Número de frases: 39 Há três anos que o alvorecer do dia 15 de agosto é silencioso no Arraial do Sapo. De a última vez que nos levantamos muito cedo de nossas camas com olhos ainda remelentos, cansados e domados por Morfeu foi em 2003. A Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense veio em festa ritmada acordando toda a gente para a devida homenagem ao nosso Rei. Sorte minha que, como súdito que fui desde criança, moro ao lado do «castelo» e nunca deixei de presenciar 'se 'petáculo. Manhãzinha de 15 de agosto foi sempre assim e parecia que duraria a vida inteira tal e qual o «viveram felizes para sempre» dos Contos de Fadas. A banda anunciava o aniversário do Rei ao longe em marcha embalada por as músicas que ele mais gostava de ouvir em todas as ocasiões que a banda se apresentava. Sim, Chico era o mais fiel «acompanhador» da banda de Cordeiro. O Rei amava a banda e a banda o reverenciava na manhã do seu aniversário com sonoros acordes de «Parabéns pra Você». Nós, os súditos, corríamos para as janelas. Ouvíamos enternecidos a banda tocar e víamos o Rei em sua tamanha e expansiva alegria. Ficávamos felizes durante todo o 15 de agosto ... Depois que Chico se foi, hoje só há o silêncio no fim da Avenida Presidente Vargas, em Cordeiro, região serrana do rio de Janeiro. A banda ainda faz as suas apresentações na Festa da Padroeira que, por coincidência, é também no dia do aniversário de Chico. Mas no Arraial do Sapo, ah ... Sem Chico não tem mais graça e ninguém mais vê a banda passar. De a última vez que o Ongabonga passou por a Avenida em pleno Carnaval, os foliões choravam a ausência do Rei. Chico, desde os primeiros instantes de vida do bloco carnavalesco Ongabonga, foi o Rei. Ainda na sala de um de seus amigos, o Hélio, faltando pouco mais de 15 dias para o carnaval de 1990, foi revestido em majestade. Em a casa de Hélio, todos assistiam a um filme da pré-história e, em determinado momento, quando um homem-macaco grunhiu foi imitado com muita graça por Chico. Vendo que todos se divertiram com a imitação, Hélio teve um insight e resolveu criar um bloco de homens pré-histórico que «cantassem» o que Chico acabara de inventar. Chico, além de fã da banda, também era fã de Carnaval. Hélio diz que sempre via o amigo brincar com qualquer fantasia que lhe arrumavam, mas sempre por os cantos, à margem da folia, um excluído dos blocos e das agremiações carnavalescas. Em o Ongabonga, Chico Doido durante 13 anos foi sempre figura central. O rei do Carnaval Cordeirense sobressaindo-se mais que os «Momos» oficiais de palanque. Chico tinha a sua coroa, o seu tacape e já nos últimos anos de vida, um pouco debilitado, trono e carro alegórico só seus. O Ongabonga não saía para a diversão sem que antes o seu «Rei» " rezasse " sua inocente Ave-Maria que ecoava por todo o sistema de som da Avenida Raul Veiga, a principal da cidade. Era ovacionado por as arquibancadas improvisadas. Gritavam o seu nome e o aplaudiam. Ainda no desfile do bloco carnavalesco, ele era 'perado como um Cartola da Estação Primeira de Mangueira para cantar o «samba-enredo» do ano. Por mais que os foliões mudassem a letra e a incrementassem com frases picantes, Ele cantava sempre a mesma melodia despretensiosamente inventada lá na sala da casa de Hélio vendo um filme de dinossauros e homens peludos. Doce inocência a ser aprendida por nós ... A inocência de Chico vem de uma época que ninguém falava de inclusão social, 'colar ou outras palavras e ações politicamente corretas. Francisco Cordeiro nasceu numa família humilde, primeiro filho dos cinco que Dona Malvina teve no casamento com o Sr. Cordeiro. Francisco nasceu portador de deficiência mental. Não freqüentou 'cola, não lhe deram a chance de nenhum trabalho. Não participou de grupos de convivência mas também nunca foi levado a um hospício. Ele tinha medo de chuva e, quando ficava nervoso, dizia palavrões e xingava as pessoas para, logo em seguida, numa auto-disciplina, se corrigir e dizer a si próprio: «Olha a boca! Chico» cresceu e morreu na casa de nº 870 no Arraial do Sapo -- nome antigo para o que é hoje o bairro Santo Antonio. O apreço e o carinho por Chico Doido nasceu aos poucos em cada casa de nossa pequena cidade. Chico era diferente? Era sim, mas todos somos! Em as casas, sempre tinha almoço, janta e café para o Chico. E ele gostava mesmo era de comer cada dia num lugar. Em os bares, refrigerante e salgadinho era o que ele gostava. E quando se «cansava» e queria voltar para a casa, alguém o devolvia, de carro, são e salvo ao seu lar. Chico tinha amigos e muitos. A deficiência mental não o descartou, mas o trouxe para perto, para o meio, ainda num tempo em que engatinhávamos sobre o assunto, fizemos como sabíamos. Mesmo com os nossos erros e acertos, Chico tornou-se uma das pessoas mais conhecidas e queridas de Cordeiro. Contrariando o curso natural da história oficial que privilegia os brancos, os ricos e os intelectuais, às vezes nem tão brancos e nem tão ricos, Chico é História de Cordeiro. Provavelmente não terá placa de rua, nenhuma instituição de ensino abrigará o seu nome e só por um delírio (tomara que o tenhamos!) ganhará um busto na praça. Não tem problema se isso não acontecer. Essas homenagens póstumas ficam bem melhores para os «cidadãos normais». Chico é História assim mesmo. De 'sas que vão sendo contadas e recontadas até virarem lendas de tão aumentadas em seus pontos por risos, lembranças e lágrimas que não há como detê-las ou silenciá-las. Chico é o Rei do Ongabonga para sempre. A cada Carnaval, o seu trono segue vazio e a sua coroa revela a sua majestade nos corações de quem realmente o conheceu. Hoje, difícil mesmo é ver um monte de homens pré-histórico, em plena folia carnavalesca do século XXI, na hora da saudação à memória do Rei, parar e chorar assim como fazem as crianças desamparadas e sozinhas nas portas das 'colas. Número de frases: 58 O amor define o humano -- e é por 'te definido. Essa máxima que parece um disparate à primeira vista pode servir para encontrarmos as razões de fundo da existência humana; pode funcionar como um vetor que dota de sentido o jogo errante das vidas dos «bípedes implumes», os seres humanos. Poderíamos 'colher outros sentimentos para averiguar o caráter dos Homo sapiens e seríamos tão sinceros como agora. A raiva também define o humano. A angústia e o desespero também. Não importa para onde lancemos o nosso olhar, para onde apontemos nossa vontade, encontraremos algum lastro capaz de dar sustentação ao precário projeto humano. Mas o caso é que 'colhemos realizar nossos comentários a partir do amor para procurar lançar uma luz (ou deixá-lo à sombra) sobre o filme «Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças», do diretor francês Michael Gondry. Aqui e ali, desviaremos nossa rota, realçando outras leituras, pontuando questões como verdade e memória, por exemplo. Tudo para que possamos ampliar as possibilidades de leitura do presente objeto. Um filme pode ser lido de maneiras variadas. Bons filmes podem ser lidos de maneiras infinitas. «Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças» parece se encaixar mais na segunda categoria. A sua fotografia é excepcional e potencializa os temas discutidos e levantados por a película. O roteiro do genial Charlie Kauffman é um retalho bem resolvido sobre personagens profundamente humanos, sofredores, reais, homens e mulheres de carne, osso, memória e 'quecimento. As interpretações de Jim Carrey, Kate Winslet, Elijah Wood, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo e Tom Wilkinson são interessantíssimas. A direção de Gondry é leve e garante um status filosófico, sem cair no hermetismo tão comum aos filmes com temáticas complexas. Apesar disso, «Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças» é um filme simples. Um filme sutil sobre os problemas do amor, sobre as dificuldades de uma relação humana. «O amor é incomunicável. Fique quieto no seu canto. Não ame." 1 Essa pode ser uma leitura do filme. O ser humano só pode ser enquanto se constrói no diálogo -- e o diálogo mais significativo é a junção dos corpos e das almas. Pode sugerir uma outra. O título do filme dá algumas pistas para seguir. 2 Comecemos a re-fazer o percurso do filme para explorar seus temas. Extrair o sumo, o suco e o suor. «Brilho Eterno ..." começa com uma cena de Joel Barish (Jim Carrey) acordando. Em seu princípio o filme já parece apontar para as questões que lhe interessam. As fronteiras entre o «real da vida cotidiana, o 'tado de vigília» e o lado oculto do sono e do sonho parecem se diluir, «real» e «sonho» se embrenham um no outro, se comendo e se criando. Joel sai de casa, olha seu carro com uma batida na lateral, fica intrigado e sem saber muito bem o motivo, vai para Montauk. Vaga na praia durante um tempo e retorna de trem. Aí, ele (re) conhece Clementine Kruczynski (Kate Winslet). O que para o 'pectador do filme é o primeiro encontro do casal é o re-encontro das almas de Joel e Clementine, que 'tavam separadas desde que ambos passaram por um processo de apagamento das memórias afetivas (ela o apaga primeiro da memória e depois ele tenta apaga-la). De aí o filme retorna num flashback para uma fase anterior na vida dos dois. Joel procura Clementine em seu trabalho, mas descobre que ela não o conhece mais. Ele descobre que ela realizou um processo de apagamento da memória, descobre que simplesmente «foi apagado da mente de sua amada». Um poema de Ferreira Gullar ilustra, de certa maneira, 'se desconforto diante do 'vaziamento do reconhecimento amoroso: Quando você for se embora, / moça branca como a neve, / me leve. / Se acaso você não possa / me carregar por a mão, / menina branca de neve, / me leve no coração. / Se no coração não possa / por acaso me levar, / moça de sonho e de neve, / me leve no seu lembrar. / E se aí também não possa / por tanta coisa que leve / já viva em seu pensamento, / menina branca de neve, / me leve no 'quecimento. 3 Joel Barish, ao contrário, não fica satisfeito em ser carregado no 'quecimento de Clementine, e então decide realizar o mesmo processo. E é no processo de apagamento da «memorabília» 4 de Joel que veremos ser reconstruído a vida do casal, seus momentos felizes e suas intempéries. Não deixa de ser interessante observar como se dá o tratamento para que a memória seja apagada. A descrição do procedimento é bem simples: o paciente deve buscar os objetos que aludam ao ser que desejam banir da memória, leva-los ao médico, reagir a 'ses objetos, ter o cérebro mapeado enquanto reage aos objetos e, finalmente, ter os «arquivos» cerebrais que foram mapeados destruídos. O procedimento mostra a dimensão «material» da memória, deixa entrever como pintamos camadas de significados sobre os ingênuos objetos ao nosso redor, ilustra como construímos um acervo material para dar conta de nossas experiências amorosas. Pinturas, Fotos, Ursos de Pelúcia, camisas, discos, etc.. A lista pode ser a mais diversa. Cada casal constrói um percurso. Encontrar certos «objetos» que dizem respeito a um antigo relacionamento pode até ser motivo para brigas e cenas de ciúme entre casais, pode sugerir que ainda existe algum sentimento, afeto em relação ao antigo amor. A o investir nas «memorabílias» o filme deixa implícito certo platonismo. É como se bastasse entrarmos em contato com as «idéias» (em 'se caso com os diversos objetos) que reconheceríamos sua verdadeira origem no mundo das idéias, teríamos 'sas idéias sacudidas do «sedimento» de nossa memória (alma). Não me parece tão certo 'se fetiche em creditar aos objetos o poder de «despertar» nossas lembranças. Ao menos, existe um fator criativo de nossa própria mente, que pode recobrir de significados objetos anteriormente desprezíveis (invisíveis). Acontece que Joel leva os pertences de sua história de amor, começa a ter suas lembranças caçadas e destruídas, mas no meio do processo -- que refaz o caminho das memórias recentes para trás, justamente quando 'tá revivendo suas boas lembranças com Clementine, se convence da bobagem que 'tá fazendo e decide interromper a «cirurgia». Para isso, cria um meio de 'capar da perseguição dos médicos. Joel começa a levar Clementine para lugares-memórias em que ela não havia 'tado. Assim ela o acompanha numa jornada rumo à infância e às lembranças mais tenras do rapaz. E aqui cabe um parêntese. (Tenho uma memória absurdamente «fotográfica», com a capacidade de resgatar detalhes» insignificantes " de situações prosaicas. Em um dia «normal», perdido há cerca de uns dois anos, voltava da faculdade, no ônibus. Um grupo de meninas e meninos fazia uma pequena algazarra no ônibus. Destaquei alguns rostos femininos. Avançando a fita. Dois anos depois, 'tou namorando uma garota, que conheci num show de Ney Matogrosso e Pedro Luís e A Parede. Avançando um pouco mais a fita. Minha namorada era uma das garotas que 'tava fazendo festa no ônibus. O que antes era completamente um episódio fortuito passou a ser encarado como um «proto» conhecimento de minha namorada. Fecha parênteses.) A memória «re-configura» as situações em nossa mente, misturando elementos de lembranças díspares, acrescentando e cortando detalhes, fazendo uma colagem de várias texturas e plasticidades. A memória recombina o «nunca existente» com o «quase existente» e o «sempre existente», funde-os num processo natural. Essa fusão torna praticamente impossível a pretensão de se obter uma memória pura, um relato, uma lembrança que dê conta do «isso-foi» 5. Buscar A Verdade se torna uma tarefa sisifiana, ou melhor, um suplício de Tântalo. Só podemos nos contentar com fragmentos de verdade, nacos de absoluto. Cada um pega seu quinhão e se satisfaz com os pedaços do «real» que lhe cabem. Joel quer Clementine, sua realidade, sua «Tangerina». Ele ama 'sa menina de cabelos mutantes. Ele se agarra a porções de Clementine, fugindo para permanecer com ela. Os lugares-memórias vão se apagando atrás de Joel. É preciso correr para salvar Clementine, correr para salvá-los. Patrick (Elijah Wood), um dos médicos que realizam o processo de apagamento em Joel, também quer Clementine, quer construir uma verdade. Ele se apaixona por ela e invade suas memórias, para tirar proveito de seu conhecimento sobre os percursos amorosos da moça. Como dizer da Verdade? Quem Clementine ama, Joel ou Patrick? Onde 'tá a Verdade do coração de Clementine? Patrick assume as posições de Joel, refazendo suas falas, presenteando Clementine novamente com os mesmos objetos. Tudo recria o «ambiente» de amor entre Clementine e Joel, substituído por Patrick. Mas a sensação de que há uma fraude não deixa Clementine, algo «dorme» no sedimento de seu corpo, na memória de sua pele, uma parte intocada por o processo. Clementine decide levar Patrick para o lago congelado -- o mesmo local onde levou Joel Barish, numa das cenas mais lindas do filme. Mas existe uma fratura entre o seu desejo, a memória de seu organismo que quer repetir o já-vivido e a presença de Patrick. Ela então decide sair do local, aquilo não faz sentido. Essa cena também dá uma idéia da noção um tanto platônica do «adormecido na memória», comentado anteriormente. Clementine parece ter uma verdade-verdade (seu amor por Joel) e isso «sonha» em ela. Joel luta por Clementine e em sua consciência sonha e vive com ela. Por várias vezes ele consegue sair do «mapa» dos médicos, 'condendo-se junto com «Tangerina». Acordar é a saída para dar um fim à cirurgia. Joel consegue se livrar por uns instantes, mas os médicos garantem o término do processo. Mas nada é tão simples assim. Kauffman e Gondry explicitam a possibilidade do «re-arranjo» das memórias ao filmar a cena do «verdadeiro» primeiro encontro entre Joel e Clementine, na praia de Montauk, à noite. Percorrendo suas lembranças, Joel faz malabarismo de sua memória, recriando junto com Clementine as passagens marcantes do casal. Em a «vida real» Barish e «Tangerine» se conhecem na praia de Montauk e decidem, por sugestão de ela, invadir uma casa. Os donos 'tão viajando. Clementine 'tá vislumbrada com a casa e com as aventuras que se prenunciam. Joel, contido, tímido, inseguro, prefere sair da casa, abandonando-a aos seus devaneios. Ela não entende a fuga e se entristece. Em a «re-memória», decidem dar um novo final à invasão da casa, criam uma despedida. Clementine abraça Joel e sussurra em seu ouvido «me encontre em Montauk». Pronto. Tudo desmorona. O processo 'tá terminado. O filme dá um salto para Joel acordando. Saí de casa, não vai para o trabalho e ruma para Montauk. Em o trem, re-conhece sua «Tangerine». A cena lembra uma passagem da vida do pensador norte-americano Ralph Waldo Emerson, narrada por o biografo Carlos Baker. A os 71 anos, ele sofria de Alzheimer e se isolou em Bush, sua casa em Concord. «Bush tornou-se um palácio do 'quecimento ... ( Mas) a leitura, disse ele, ainda era um «prazer intacto». Cada vez mais, o 'túdio em Bush tornava-se um refúgio. Ele se apegava à rotina confortável da solidão, lendo no 'túdio até o meio-dia e retornando à tarde, até a hora de sua caminhada. Aos poucos, 'quecia os próprios 'critos e ficava deliciado ao redescobrir seus ensaios: «Ora, 'tas coisas são realmente muito boas», disse à sua filha." 6 Ao contrário de terminar a trama de 'sa forma, mostrando o encanto com as possibilidades do renovado, deixando um gosto de «happy-end», Kauffman leva a história um pouco além, confrontando Joel e Clementine com as 'colhas que fizeram no passado, forçando-os a encarar o desejo de ambos de apagarem a memória um do outro e as» verdades " decorrentes de 'sa decisão. Primeiro eles 'cutam a fita com Clementine dizendo «o que achava» de Joel. Depois temos Barish e «tangerine» 'cutando a fita de Joel, onde ele fala suas «verdades». É visível o constrangimento dos dois. Clementine sai da casa. Mas Joel vai atrás de ela. Eles conversam no corredor. O tempo fica suspenso no ar, os dois têm diante de si as múltiplas possibilidades da vida, o fortuito e a vontade. O filme termina no entreaberto. Ninguém sabe o que virá «depois». Joel e Clementine não sabem do futuro, como se dará, mas do futuro como se atualiza no desejo de ambos em se arriscarem no 'tranho e confortável universo amoroso. De certo, o filme deixa o 'tranhamento diante de nossas lembranças inventadas e reinventadas, nossa necessidade antropológica de amar e ser amado, seja lá o que isso possa significar, de 'farelar idéias frágeis, como a verdade. Mas 'sa é apenas uma leitura, a minha leitura, potencializada e prejudicada por um hiato de uma semana entre ver o filme e redigir 'se texto. Micro-experi ência que me mostrou como podemos reconstruir (desfigurar, abrilhantar, etc) o mundo ao nosso redor e o mundo em nossa cabeça. Podemos lutar contra o «câncer do tempo», lançando mão de n artefatos, mas 'taremos sempre no olho» nu «do furacão da existência, na» clareira do ser», re-produzindo ecos, cacos e caos. Tudo que se 'palha e se traz dentro de si. Esse não é um relato sobre o filme -- o filme pode nem ter existido ou mesmo não existir (e não existe para muitos donos de locadora e outros tantos clientes) -- ao mesmo tempo em que cada nervo, cada fissura desse texto dependem da presença-oculta do «Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças» e só se realiza em 'se dialogismo. O texto só acontece na medida em que ama e é amado por o filme, recria memórias e verdades sobre a película, projetando 'paços de luz e de sombra. O texto só se atualiza na proporção em que me afasto do filme, «abençoado» como «os 'quecidos» que «tiram melhor proveito de seus equívocos». 7 Notas -- Paráfrase do poema «Segredo», do livro» Brejo das Almas, de Carlos Drummond de Andrade " -- O título do filme foi extraído do poema «Eloisa to Abelard, de Alexander Pope». Um trecho do poema diz o seguinte: «Feliz é o destino da vestal, 'quecendo o mundo e sendo por ele 'quecida Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça alcançada.». -- Poema de Gullar intitulado «Cantiga Para Não Morrer». Gullar, F. Toda Poesia (1950 -- 1999). Rio de Janeiro; José Olympio, 2004 <42004] -- Memorabília -- Neologismo empregado para dar conta da dimensão material, do suporte físico da memória. Podemos definir como um conjunto de elementos materiais dotados de um significado memorial dado por determinado ser humano. Ou ainda, acervo material-imagístico de um ser humano. -- Isso-foi. Conceito desenvolvido por o autor Roland Barthes, no livro A Câmara Clara -- Manguel, A. Em o bosque do 'pelho: ensaios sobre as palavras e o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. -- citação extraída do filme " Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michael Gondry (Eua, 2004) " «Referências Bibliográficas * Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michael Gondry (Eua, 2004)» * Manguel, A. Em o bosque do 'pelho: ensaios sobre as palavras e o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. * Gullar, F. Toda Poesia (1950 -- 1999). Rio de Janeiro; José Olympio, 2004. Número de frases: 165 Iluminações avulsas são presentes do instante. São acontecimentos e não fatos. Frestas que se abrem no repente. Não são coisas que se procuram, mas que se acham. Trago aqui o olhar de um menino deparando-se com um olhar nômade. Encontro de gigantes, acredite. Isso é um acontecimento. Se quiser, a fabricação de um mundo. Em 'se dia, andava com meu filho Arthur, então com 05 anos de idade. Em o trajeto, um homem de bigodes negros, com um chapéu branco, botas de plástico também brancas e um saco às costas, vasculhava objetos entre os detritos da manhã de sábado. Aquele homem não parecia um mendigo, não parecia nada com o que 'tamos acostumados numa grande cidade como Belo Horizonte. A não ser nisso: procurar, entre as coisas que os outros jogam fora, algo que sirva. Arthur me puxa e diz: -- Olha, o vaqueiro! Parei por um instante, fazendo logo uma interpretação: a ligação do menino com a roça, onde brinca nas férias. Pronto! Nada pecisa acontecer, pois o hábito nos salva de qualquer incômodo latente, impedindo o novo de vir à tona. Voltamos a andar. O homem logo nos alcançou, num trajeto paralelo ao nosso. Por um tempo que dura, caminhamos lado a lado em silêncio: Arthur de mão dada com mim, o homem de chapéu que parecia com o de um vaqueiro. Era um corte abrindo um veio naquela manhã, fazendo fluir as sensações de nosso percurso, em meio à margem da calçada e o tráfego dos carros. Agora éramos três a caminhar. E num repente, não sem quase soltar da minha mão, Arthur dirige-se ao caminhante que fazia a 'tranheza avizinhar-se de nosso percurso: -- Moço, cadê o seu cavalo? O homem parou e olhou para nós. Depois fitou o menino num tempo de muitas 'tações. Concebi que ele diria qualquer de 'sas coisas que dizemos às crianças imaginativas: «ora, o meu cavalo ..." Mas não foi isso. Sua resposta foi uma pergunta: -- O meu cavalo? Novo silêncio. E ficamos os três parados. E ele olhava para o menino com os olhos cheios de um brilho molhado. E não é que ali 'tava um homem sem cavalo? Não me peça para explicar isso. O homem, então, toma outra direção e a manhã de sábado retoma seus hábitos. Número de frases: 39 Ontem os parlamentares brasileiros dobraram os próprios salários na maior cara de pau. Pilantragem da grossa. Um absurdo que se perpetua enquanto a gente não faz mais nada além de resmungar e depois testemunhar a reeleição dos mesmos sujeitos. A safadeza legitimada. Caramba, 'sa sensação de impotência é muito ruim. Ontem também foi o único dia que consegui comparecer ao «A Cultura Além do Digital», com mesas de debate em Recife e no Rio de Janeiro. Infelizmente era a última mesa e, por 'tar em São Paulo nas duas semanas passadas, eu havia perdido todas as apresentações anteriores. O tema de 'sa era «O Horizonte da Cibercultura», com Arthur Leandro (artista e professor da UFPA), Cláudio Prado (Ministério da Cultura) e Gabriel Furtado (coletivo Media Sana) como debatedores. Ah, antes de entrar de fato no tema, tenho que render todos os méritos aos que se prontificam a elaborar, participar e apoiar um evento como 'se. Muito legal. Retomemos. A lamentar (pô, sempre tem que ter um «mas» ...) ficou o curtíssimo tempo para debate por algum problema de liberação do auditório. Uma pena porque o debate tinha tudo para ser a melhor parte do encontro. Tudo por causa da intervenção de uma menina da platéia cujo nome nem desconfio. Ela levantou uma questão bem pragmática: «isso tudo é muito legal, mas ... e a grana?». A reação da mesa foi meio que de susto, tipo «o que eu tenho a ver com isso?». Max Weber deve ter morrido de rir seja lá onde ele 'tiver, afinal, o que mais sobressaiu ali foi a velha noção de que ganhar dinheiro é pecado (e que pecados não são bons). Ué, num evento em que uma das expressões mais utilizadas era «democratização dos meios de produção», é imprescindível que se discuta formas de se tornar pequenas iniciativas auto-sustentáveis e, de preferência, lucrativas. Ou então, como bem disse o único rapaz da platéia que ainda teve tempo para comentar o tema, as iniciativas continuarão sob o guarda-chuva de dinheiro público ou de fundações de bancos ou multinacionais, eternizando o antigo status quo com uma relação de mecenato marqueteiro, mantendo a mesma manjada dependência de alguns setores da produção cultural. Oona Castro já 'creveu com muita propriedade em 'se Overmundo de deus sobre a fertilidade de negócios num ambiente de cultura livre. Pra apimentar o assunto, pego algumas falas dos debatedores dirigidas à menina para -- sem citar os nomes porque seria uma covardia, já que eles não teriam como explicar melhor seus pontos de vista -- servir de referência: 1) «Sou artista, não entendo de ganhar dinheiro» e «Se você produzir pensando em ganhar dinheiro, você trava seu processo criativo». A relação de artistas com as elites econômicas se deu durante toda a história nas mais diversas culturas. Nada mais normal. A produção artística tem desde sempre um 'paço cativo no imaginário popular como talentos quase divinos, donos de técnicas de efeito fantástico, um modo diferente de ver o mundo, de perceber, incomodar, causar sensações, emoções, portanto, muitas vezes cercada de um caráter místico muito poderoso. Ao mesmo tempo, por a história e nas mais diversas culturas, há artistas desvalorizados, não reconhecidos ou reconhecidos postumamente. Em comum entre os que levam uma vida nababesca e os malditos 'tá a necessidade de susbsistência e, queiramos ou não, não pode haver melhor situação para um artista do que viver da sua arte. Enquanto não inventarem forma mais nobre de subsistir do que através do trabalho, assim será. Quanto a travar o processo artístico, duvido muito. Grande parte das obras mais valorizadas do planeta foram feitas sob encomenda. E nem precisa ser assim. O artista tem toda a liberdade de seguir seu processo criativo no caminho mais lúdico possível e, assim mesmo, conseguir um resultado com grande valor de mercado. Incontáveis são os exemplos. 2) " O artista tem outras formas de capitalizar em 'se processo " Não sou artista. Gostaria muito de ser. Tenho um livro publicado e uma ... sei lá, digamos HQ em movimento (ou webnovela, como alguns chamaram), ambos por a Internet e pagos com dinheiro do meu bolso, graças ao meu trabalho como jornalista. Em os dois casos não busquei nem muito menos alcancei lucro nenhum. Em a verdade apenas gastei. Admito que valeu muito a pena, me senti recompensado. Essa é apenas uma vertente e não corresponde à regra. A pergunta da menina recai sobre outra realidade, que é a de pessoas ou grupos, sem acesso a potenciais patrocinadores, que dediquem toda a sua força de trabalho à produção artística como forma de sobrevivência, e que enxergam na Internet uma possibilidade de aumento de receita. Ou ainda: subsistência. É a pergunta da menina: «e a grana?" 3) " Não se preocupe com isso. O B Negão disponibilizou suas músicas de graça, hoje vive na Europa ganhando dinheiro como nunca imaginou. Conheço vários casos desse. Epa! Então a menina 'tá certa. Ainda bem que tem gente ganhando dinheiro com sua produção artística via internet. Está provado que existem caminhos e eles devem ser aproveitados. Dá pra produzir e viver bem disso. O mercado ainda existe, as relações de força é que 'tão mudando. No caso do BNegão, disponibilizar suas músicas viabilizou o processo. Que maravilha! Claro que há vários exemplos do gênero e o que a menina propôs, acredito eu, seja 'tudar 'tratégias bem-sucedido como 'sa para, de forma mais sistemática, contextualizar, adaptar e aplicar modelos que permitam aos artistas divulgar e distribuir a sua produção. Tudo certo. Por mais maravilhosa que seja, a Internet é uma ferramenta. Práticas como disponibilizar produtos sem custo para atrair consumidores existem desde sempre. O que muda é que agora, graças a 'sa ferramenta, todo ser conectado tem chance de mostrar o resultado do seu trabalho e disputar o mercado. Ver a indústria do entretenimento ter que rebolar pra lutar contra incontáveis indivíduos solitários (ou associados) é muito bom. E melhor ainda se 'ses indivíduos prosperarem com suas produções sem precisar dos «grandes tubarões». Assim como o citado BNegão, muitos 'tão encontrando mecanismo interessantes. Eles ainda parecem ser infinitos. E é fundamental que sejam ocupados por os indivíduos, e não mais uma vez por a «indústria cultural». 4) " Sua preocupação com grana reflete uma influência da indústria cultural " Minha percepção é contrária ao argumento. O conceito de indústria cultural a grosso modo diz que poucos detentores dos meios de comunicação empurram goela abaixo de populações inteiras, num eixo unilateral, como se vestir, o que comer, o que pensar, como comprar e comprar muito. A Internet é uma ferramenta fantástica porque permite a contramão. Qualquer um conectado, em tese, pode ter voz. Isso permite que adolescentes de São Paulo até então desconhecidos fora de seus bairros participem de um concurso de bandas promovido por a rede inglesa BBC e fiquem em terceiro lugar contra grupos musicais do mundo inteiro. Permite muito mais. Maravilhoso então se 'sa ferramenta permitir que um grupo de artesãos idosos melhore a remuneração do seu trabalho, que um grupo de meninos resolva fazer videoarte, consiga um bom resultado e tenha uma renda digna exibindo sua obra mundo afora, sem precisar de patrocínio de ninguém. As principais lições sobre como utilizar a Internet para viabilizar economicamente produção cultural independente 'tão na própria Internet. Um monte de iniciativas exitosas já 'tão acontecendo. Grande parte de elas prescinde de arrecadação de recursos externos e não têm 'se objetivo. Ótimo. Outras tantas irão definhar e morrer caso não desvendem o desejado segredo da 'finge que a menina da platéia tanto corre atrás. E olha que ela ainda insistiu: «não quero fórmulas, apenas acho que 'se debate é importante». PS. Após batucar 'se textinho fui ao Largo da Carioca (centro do Rio) e vi o Dicró numa banquinha vendendo seus CDs independentes e autografados ao vivo por R$ 10,00. Ainda tem quem diga que é a galera do download que rouba os artistas. Número de frases: 88 Localizado exatamente entre o Brasil e nossos principais rivais no futebol, 'tá o país sede do Mercosul, a República Oriental do Uruguai. Ou Uruguay, com «y», em 'panhol, a língua de eles e da maior parte da América Latina. Um dos fatores entre tantos, da incrível distância cultural entre brasileiros e seus vizinhos de continente. Em os dois meses em que 'tive em 'te pequeno e belo país, tentei conhecer um pouco a cultura do lugar, e também entender, mesmo que vagamente, como eles percebem a nossa cultura. Quais as impressões de um país vizinho sobre 'te gigante chamado Brasil? Brasileiros compartilham muito com os uruguayos. A cultura do mate, ou chimarrão, que eles dividem com gaúchos do sul do Brasil e argentinos. O gosto por o futebol (e até hoje eles cantam glórias de 1950 para a cima de nós). E claro, o churrasco, ou «parilla», como eles chamam. Em Montevidéu, o uruguayo descendente de vascos Guillermo Perez me explicou em portunhol a importância do «assado» no país. «Antes de nosotros construímos nostras casas, fazemos primeiro la parilla, después la casa» referindo-se ao que costumamos chamar de churrasqueira. Apesar de contar com apenas 4 % de negros na população total do Uruguay, a herança afro se faz presente. Uma das mais fortes expressões da cultura negra são os tambores de candombe. O ritmo típico é rápido e contagiante. Todo mundo batuca junto. «Te a ta / ta. Aquilo fica martelando na cabeça. E para nós brasileiros que nos achamos, além dos reis do ritmo, o país do carnaval, é bom lembrar que nossos vizinhos celebram o carnaval mais longo do mundo, são 40 dias de folia entre fevereiro e março. ... Folia? Nem tanto, o carnaval lá é bem diferente, acontece em teatros chamados de «tablados», onde se apresentam as murgas. São como musicais num palco. Mistura artes cênicas, música coral, humor, acompanhado por violões e tambores. O conteúdo das murgas é todo baseado em sátira política e as roupas dos integrantes lembram pierrôs. Em semelhança com o Brasil, as murgas, assim como as 'colas de samba, mobilizam centenas de pessoas que colocam todo o sangue e suor naqueles grupos, 'perando vencer a enorme competição que mexe com todo o país. A capital, Montevidéu, é uma cidade cosmopolita e ainda assim tranqüila, com um milhão e meio de habitantes, nas margens do Rio da Prata (que mais parece um mar). A praia de Pocitos, na orla, é como uma Copacabana bem bacana, em vez de bossa nova, tango. A foto de Carlos Gardel 'tá em todo lugar, bar, mercearia, o homem parece santo. Uma 'tudante me disse que «os argentinos chamam Gardel de rioplatense, nunca de uruguayo», acusando os vizinhos de roubarem seu famoso personagem. Falando em música, o rock uruguayo teve um boom por lá desde a década de 90, com bandas como Buitres, La Trampa, Vinilo, entre outras. O vocalista do Vinilo, Coné, numa rápida conversa depois de um show em Pocitos, me disse que nunca se apresentaram por aqui, «o Brasil não conhece nossos dois discos, mas queremos muito tocar lá e divulgar nosso trabalho». Brasileños, os yankees do sul Viajando por o belíssimo litoral do país, um dos lugares mais interessantes que conheci foi o Parque Nacional de Santa Teresa, onde 'tá a Fortaleza de Santa Teresa, iniciada por os portugueses em 1762 e finalizada por os 'panhóis. Já bem próximo da fronteira com o Brasil, o parque tem 1.050 hectares de florestas a beira mar. Centenas de famílias e mochileiros acampam nas sombras das árvores durante o verão. Conversei com as pessoas por ali, sobre o povo brasileiro e sua cultura. Percebi que transparecem um fascínio por a MPB, as novelas, o 'porte, etc., mas também compartilham a opinião da corretora Andréia, de Montevidéu, que passa os feriados no parque com seu marido e filhos. Ela disse o seguinte: «Aqui a paz só é quebrada durante o carnaval, quando chegam os brasileiros. Fazem samba toda a madrugada, ninguém pode dormir. Entendo que é a cultura de eles, mas 'te parque não é pra isso». Tentei explicar que o samba vai até mais tarde mesmo, quando juntam alguns «brasileños». Principalmente, pelo amor de Deus, no carnaval!!! Ela sorriu e não disse nada, e o silêncio foi a melhor resposta, quebrado por o som da brisa nas árvores e o crepitar da fogueira que 'quentava água para o mate. Andréia tem razão! Os uruguayos vão ali pra ficar tranqüilos. Alguns brasileiros, principalmente em grupo, têm a mania de achar que nossa cultura nos legitima a fazer barulho, independente de qualquer contexto. Pior, acreditam dar um presente inestimável ao proporcionarem aquele sagrado samba, forró, axé, seja lá o que for para aqueles «gringos» (que só querem dormir tranqüilos). Conversando com eles e outros vizinhos de continente, notei que, inadvertidamente, muitos brasileiros geram uma imagem lá fora bem parecida com o que nós mesmos costumamos atribuir aos norte-americano aqui dentro. Também negativa e baseada em preconceito, existe 'sa noção generalizada de que os americanos se acham os melhores e não se importam em conhecer outros paises e culturas, fechados numa redoma. «Eles acham que a capital do Brasil é Buenos Aires». Dizemos nós indignados. Mas será que não fazemos a mesma coisa com nossos vizinhos latinos? Muitas vezes ouvi brasileiros confundirem Uruguai com Paraguai, e outros tantos dizem «tanto faz, é tudo a mesma coisa». Os brasileiros realmente são apaixonados e orgulhosos de sua cultura e suas paisagens. Exaltam as belezas e vantagens (?!) do país, acredito que no mais das vezes, sem má intenção. Mas vamos lá, vamos fazer o exercício sempre válido de nos colocar no lugar do outro. Imagine um americano visitando o Brasil, discursando exagerada e continuamente, o quanto eles são bons, como são ricos, como sua cultura é o máximo. Sem demonstrar muito interesse por o outro 'trangeiro. «Exalando», como se diz. Meio chato não? Nunca tinha percebido 'sa imagem do brasileiro, até conhecer um pouco 'te vizinho ao sul e me deparar com meus próprios preconceitos acerca de eles. De a América Latina em geral. Não fazia idéia sobre quase nada daquele país tão próximo. Reconheço minha ignorância. O Brasil 'tá muito distante da América Latina que não aparece nas produções da TV norte-americano, que dita o senso comum por aqui, ou seja, Shakira, e a morena do seriado «Desperate housewives». Estamos distantes lingüística e geograficamente, as maiores concentrações populacionais do Brasil acontecem na costa do Oceano Atlântico, longe das fronteiras com países como Bolívia e Colômbia ao oeste. Diferente do que ocorre no interior do país, como o Mato Grosso do Sul, por exemplo, que parece possuir laços tão 'treitos com o Paraguai quanto com o resto do Brasil, como vemos em 'te texto. O compositor de Campo Grande, Geraldo Roca, disse em entrevista ao Overmundo que «O brasileiro do interior é muito mais parecido com um mexicano do que com um carioca ou um habitante de Salvador». Minha viagem por o país vizinho terminou na cidade-fronteira do Chuí, como chama do nosso lado. Em o lado de eles, Chuy. A avenida que corta a cidade em dois povos, duas línguas, parece um limite irreal, uma convenção absurda. Em aquele lugar, depois dos dois meses do outro lado, compreendia «mucho» mais o falar dos uruguayos que o portunhol de fronteira indescritível daqueles distantes gaúchos do Rio Grande. Aprendi muito sobre o Brasil visitando o Uruguay. Temos muitas heranças culturais em comum com nossos hermanos de toda a América Latina. Questões como a geografia e a língua, bem como os 'tereótipos e generalizações da indústria cultural não deveriam nos afastar tanto de 'cutar um rock do Uruguai, ver um filme chileno, ou conhecer a música típica da Venezuela. Agora, vou ler um gibi do índio Patoruzú, o cacique da patagônia argentina, para praticar o 'panhol. Aliás, como será que anda o ensino de 'ta língua nas 'colas do Brasil pós-Mercosul? Para baixar: mp3 de candombe e murga. Links de vídeos do rock uruguayo no Youtube: Buitres «Después de la una» -- Siglo XXCambalache -- Ao vivo Vinilo Pilsen Rock 2006 -- Ao vivo Vinilo -- Plutonia -- Clipe Vinilo -- Ya no creo -- Clipe La Trampa -- Maldicion Número de frases: 86 Trotsky Vengaran -- Historias sin terminar -- Clipe Perfil Tocantinense Em uma entrevista que durou quase duas horas, o carioca-tocantinense Iberê Barroso conta como foi sua passagem por o jornal Pasquim, fala sobre a ditadura, a liberdade de imprensa e Taquaruçu -- Te o, seu reduto de tranqüilidade onde garante querer ser enterrado. Bruna Célia -- O senhor é do Rio de Janeiro mesmo? Iberê Barroso -- Graças a Deus. Quer dizer, fui, né? Eu sou do centro do Rio de Janeiro. Nasci na Lapa, que é um bairro boêmio, me criei na Tijuca, que é um bairro mais para a Zona Norte, morei na Zona Sul, no Leme, em Copacabana, fui salva-vidas no Leme durante muito tempo. Sou carioca, agora tomaram meu berço natal e me deram um berço adotivo, que é Palmas, de onde eu não vou sair mais. Bruna Célia -- O senhor é formado em jornalismo? Iberê Barroso -- Não, eu não sou formado. Agora quando me perguntaram «'cuta, o senhor não é formado, não tem diploma, só tem apenas um registro em carteira». Aí eu disse: o que é que eu faço com meus 42 anos de profissão, jogo no lixo? Eu tenho dois prêmio Esso de reportagem. O jornalista passa a vida de ele em peso lutando por 'se prêmio. Eu tenho o Luxo do lixo, quando eu fui pra brasília pesquisar o lixo das grandes mansões lá no Lago Sul e não posso declinar de quem eu achei o lixo mais fácil de todos em termos de 'banjamentos. Coisas tipo caviar russo com uma colherada passada na lata e o restante da lata jogada no lixo. Champanhe, licor e outras coisas jogadas no lixo. Eu fiz a outra reportagem na época que eu tava no JB. Foi Presídio de mulheres e depois até houve uma novela ou um seriado chamado Presídio de mulheres. Passei oito meses internado na penitenciária de Bangu. E então eu pergunto a todo mundo que diz «você não tem diploma?», tá, eu não tenho diploma, não sou catedrático não sou coisa nenhuma, eu sou pano de chão. Mas, gente, eu tenho 42 anos de 'trada e isso não se joga fora, tá?! Agnez Pietsch-Y Em que ano o senhor entrou no Pasquim? Iberê Barroso -- 72, 73. Era o «must» entrar no Pasquim, então eu fucei e consegui o trabalho. Tive lá um bom tempo e fiz excelentes amizades na época, inclusive. Quanto ao Pasquim em si, foi um trabalho de onde nasceu uma contra-revolu ção, foi realmente o grande fator propiciador da volta democracia. E com o bom humor de 'sa galera, Jaguar, Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, aqui eu tive o Sérgio Cabral e o Henfil como meus orientadores porque eu tava começando no jornalismo. Então, na época, a minha passagem por o Pasquim foi relativa. Tudo que eles fizeram se deve a 'se grupo aí. E tinha mais dois focas, pra eles, com mim. Agnez Piestch -- Em 'sa época ocorreram várias prisões. O senhor foi preso alguma vez? Iberê Barroso -- Não, infelizmente não. Gostaria ter sido. ( risos) Mas dizem na época que eu era tão encapetado que nem na cadeia conseguiam me botar. Mas isso é porque hoje a gente vive de recordação. Aqui me deram alguns títulos, o Rotary mesmo me deu um de Jornalista Modelo. Eu não mereço, não faço mais que a minha obrigação. Mas eu respeito vocês que tão começando, acho importantíssimo o trabalho das universidades, mas se numa coisa que me preocupa é que laboratório eles 'tão oferecendo a vocês. Porque você pode ter certeza de uma coisa: jornalismo é 10 % inspiração, 90 % transpiração. Se não partir para a briga, para a luta, não vai não. Ficar sentadinho em 'cola só teorizando, teorizando, as coisas 'tão acontecendo. Bruna Célia -- Qual era sua função no Pasquim? Iberê Barroso -- Eu era foca. Eu fazia de tudo. Lavava a redação. Limpava máquina. Fazia matéria. Tive umas matérias publicadas. Eu tive receio de fazer mais, porque para contestar a ditadura você corria um risco muito grande e eu 'tava relativamente no início da carreira. Então de vez em quando dava um medinho, aí você puxava o freio de mão. Porque era um negócio assim, de chamar um de filho de senhora desonesta, pra baixo. Então eu não tive uma passagem que eu possa dizer assim «eu fui jornalista do Pasquim», não fui. Bruna Célia -- O que de interessante marcou sua passagem por lá? Iberê Barroso -- Primeiro, o aprendizado. Agora de fato interessante que marcou minha passagem por lá, foi a busca do Vladimir Erzog. Todo mundo objetivando isso, levantando dados aqui e ali. Quando nós soubemos, eu não tenho autoridade pra declarar, ele 'tava num porão de uma unidade militar. Então partimos nós todos em cima, mas ele já tinha apanhado muito, tava nas últimas. Bruna Célia -- Você mantém contato com alguém daquela época? Iberê Barroso -- Não, não tive mais contato. Até porque eu vim para cá em 89, Palmas nem existia. Aqui eram quatro grandes fazendas. Ficamos na capital provisória, em Miracema. O único lugar que eu podia me empregar era na Assessoria de Comunicação. Era o Fernando Martins, o secretário de comunicação da época, e nós ficávamos vindo pra cá retratando as coisas. Eu trazia minha secretária, o cinegrafista e o fotógrafo, então a gente ia abrindo caminho e 'barrando com as jaracuçus do brejo, sucuris, siriemas, que passavam era de bando. Em 'sa fase inicial a Organização Jaime Câmara teve uma expressão muito grande e sempre foi o maior sustentáculo daqui. Bruna Célia -- O senhor acha que os jornalistas de hoje conseguiram a liberdade de imprensa? Iberê Barroso -- Eu acho que ainda existem certas restrições, mas se você for comparar com os anos 70 realmente é um grande paradoxo. Hoje tem toda liberdade do mundo, mas por vezes o jornalista é podado. Bruna Célia -- Qual a sua opinião sobre o jornalismo feito aqui em Palmas? Iberê Barroso -- Eu acho muito bom. Tem bons valores. O jornalismo existe a partir do relato de fatos verídicos. Então existe a preocupação de se tal deputado vai gostar, se o governador vai gostar. E isso existe aqui. Então você procura de uma forma ou de outra não fugir totalmente a realidade. Eu acho que o passar do tempo vai apagando, já foi muito pior. Houve épocas aqui que o negócio era diatorial mesmo. Você pode perfeitamente relatar um fato, amanhã ou depois eu posso criticar, respeitosamente, uma atitude do governador. Desde que a minha crítica seja respeitosa e tenha fundamentos. Eu não vou criticá-lo por que não gostei da cor da camisa de ele. Inclusive o atual governador é muito aberto a críticas. Eu nunca senti coação e para isso existe uma Secretaria de Comunicação do Estado pra filtrar 'se tipo de coisa. Eu nunca fui bloqueado aqui, não, graças a Deus, porque antes de 'crever eu penso no que vou 'crever. Bruna Célia -- Alguns anos atrás, no Pasquim, por exemplo, as reportagens eram grandes, as entrevistas maiores. Hoje em dia existe uma tendência de torná-las mais sucintas. O senhor acha que isso é uma vantagem ou que descaracteriza o jornalismo? Iberê Barroso -- Eu acho que sim, veja bem. Em o momento que eu deixo de usar um pouco mais de prolixidade eu tô correndo o risco de não retratar para o público leitor a realidade das coisas, o universo todo. Eu, quando começo a 'crever, eu vou-me embora, se bobear o computador cansa. Evidentemente, quando você edita um tablóide, o custo gráfico sai muito caro. Segundo, que Palmas não tem uma 'trutura de anunciantes que possa garantir o sustento do veículo. Eu acho que você pode enxugar o texto, mas não tem o direito de omitir dados importantes. Não precisa florear muito quantitativamente, muito qualitativamente. Bruna Célia -- Você não mora em Palmas e sim em Taquaruçu, não é? Por que a preferência por lá? Iberê Barroso -- Graças a Deus! Bom, você agora me faz voltar a mil novecentos e antigamente, quando nem tinha asfalto por lá. Nós 'tamos organizando um conselho de segurança comunitária, um trabalho sério, e eu tô em 'se meio, no sentido de preservar o Taquaruçu. Taquaruçu pra mim é tudo, tudo. Agora minha saúde anda baqueando, de vez em quando a mufa dá um grito, «ah, tô cansado». Eu já comprei meu pedacinho de terra lá no Campo Santo, debaixo de um pé de pequi. Quero ficar lá, quando eu apagar me botem lá, me deixe em paz. Eu adoro lá por o clima, por as amizades que eu tenho, enfim, eu gosto, sou meio roceiro, apesar de ser carioca eu gosto, aprendi a ser meio roceiro. Bruna Célia-E aqui no Detran, o que o senhor faz? Iberê Barroso -- Pertenço à assessoria de comunicação, tem a Luciene e a Arlete com mim. Me sinto muito bem aqui, tô aqui desde a administração passada. Aqui eu chupo cana, assovio e toco clarinete (risos). Bruna Célia -- O senhor não sente falta da época dos prêmios Esso? Iberê Barroso -- Ah, sinto. Ainda tenho a minha máquina de escrever que ganhei em 63. De o tipo da máquina que cai no chão, aquele negócio do editor «vamos 'crever sobre Jesus Cristo», e o gaiato pergunta lá» contra ou a favor?». Mais ou menos assim. Era um jornalismo muito 'culhambado, mas muito gostoso. O dono do jornal dizia pra você «'cuta, eu preciso vender jornal!». Aí você saía como eu e o Aroldo, saímos e tínhamos que trazer algo. Minha primeira cobertura foi um português que se suicidou da maneira mais original que eu já vi. Ele tinha um armazém no morro do Itapiru, aí ele meteu a cabeça no sifão do vaso sanitário e puxou a descarga. O perito era um tal de -- impressionante como a gente consegue reter 'sas coisas na memória -- o perito era um tal de Castro, ele não admitia a imprensa antes de ele fazer o local. Aí chamei o Rosa, meu fotógrafo, um neguinho desse tamaninho, que quanto mais bêbado, melhor fotografava. Disse: Rosa, vamos fazer o seguinte, vamos subir aqui por trás, vamos passar por as telhas, eu levanto a telha, você faz a foto sem flash. Aí quando eu levantei a telha, o telhado desabou. Caí em cima do difunto. O Castro veio lá de dentro, de arma em punho, «pei, pei», e a gente correndo por o morro. Era assim. Essas coisas fazem a gente gostar da profissão, sabe. São recordações que a gente guarda. Número de frases: 133 Entrevista cedida à Bruna Célia e Agnez Pietsch -- alunas da Universidade Federal do Tocantins -- num dia muito, muito quente, porém chuvoso na mais nova capital do país, Palmas-To. A os amantes da dança contemporânea, o 8º Festival de Artes de Goiás traz os 'petáculos «Não digas nada» e «Receita», da Cia.. SeráQuê?, de Belo Horizonte. As apresentações acontecem hoje, a partir das 21 horas, no Teatro Goiânia. Receita trata-se de um solo, executado por o bailarino Rui Moreira, no qual o público é levado a efetuar uma leitura da subjetividade dos movimentos, como da própria dança. Rui descreve, através de uma seqüência coreográfica, a receita de um Bolo Xadrez. Já «Não Digas Nada» foi sucesso de público e crítica em São Paulo, na apresentação realizada no projeto «Panorama Sesi de Dança em julho de 2005» e no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro. O 'petáculo é interpretado por Bete Arenque, dirigente da Cia SeráQuê?, ao lado do diretor Rui Moreira e do bailarino Renato Augusto. A performance trata, de maneira peculiar, o conceito das relações pessoais. «O copo, um elemento completamente banal e inesperado, inspirou e determinou o desenvolvimento deste trabalho que mostra o encontro de dois personagens distintos e com características 'pecíficas. Eles 'tão entre centenas de copos descartáveis e desenvolvem uma história linear, mas também inusitada e 'tranha», explica o diretor Rui Moreira. Ambos 'petáculos foram criados em Goiânia, por o coreógrafo da Quasar Cia. de Dança, Henrique Rodovalho, no entanto, nunca foram apresentadas na capital. E a primeira vez que a Cia.. SeráQuê? vem a cidade. A bailarina Bete Arenque, fala da importância das coreografias. «Somos bailarinos contemporâneos ao Henrique e ao executar os 'petáculos, 'tamos fazendo uma releitura de seus trabalhos», diz Bete. Segundo Bete Arenque, o Festival é um evento de grande qualidade, principalmente por a riqueza dos debates de filosofia e arte-educa ção. A bailarina lamenta não ter participado de outras edições do evento. «Moro em Belo Horizonte e nunca tinha ouvido falar do Festival até surgir o convite. Me surpreende como um Festival de tal porte e qualidade não tenha um apoio maior das autoridades locais e não seja divulgado nacionalmente», afirma Bete. O público pode conferir a programação completa do festival na página do Cefet-Go: www.cefetgo.br. As apresentações no Teatro Goiânia são abertas à comunidade. A entrada é franca e os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro. Contato: Cefet-go (62) 3212-5050 -- Ramal 214 Coordenadora: Rita de Cássia Mendonça Número de frases: 28 E-mail: festivaldeartesdegoias@hotmail.com Trabalho com produção cultural independente desde janeiro de 2003. Como iniciei minha atividade de forma autodidata, minha preocupação sempre foi entender o que é «produção cultural» e o que são as atividades do produtor cultural. Essa busca tem me levado a entrevistar produtores que atuam há mais tempo, bate-papo com muita gente da música, pessoal das artes cênicas e artes visuais. Em 90 % das conversas ouço frases como «não temos produtores»,» faltam bons profissionais na área de produção», «desisti de procurar produtores, é tudo uma máfia». Vamos analisar um pouco 'tas respostas. A o ouvir repetidas vezes que não temos produtores culturais e perceber que apesar disso tudo acontece no mundo da cultura, verifiquei que «não ter produtores culturais» significava «temos poucas pessoas que se dedicam integralmente a 'ta atividade». Se comparado com o número de pessoas que se dedicam a criação cultural ('critores, músicos, atores, dançarinos ...), o número de produtores culturais será sempre menor. Isso por o fato de que o produtor cultural, num resumido conceito (e que não pretende ser o único) dedica-se a «fazer acontecer» a criação cultural. Se acharmos que o produtor cultural deve ser outra pessoa que não o próprio criador cultural, e isso é um decisão de cada um, haverá sempre muito mais criadores do que produtores. Mas, no fundo, todos sabemos que quando «não há produtores» nos tornamos os nossos próprios produtores. Logo, não temos o problema quantitativo: há um número suficiente de pessoas que podem ser produtores culturais, constituído por pessoas de todos os ramos da arte e inclusive de outros ramos do conhecimento (jornalistas, publicitários, advogados, administradores, arquitetos, economistas, sociólogos, antropólogos ...). Vejamos a segunda frase: «faltam bons profissionais na área de produção». Será verdade? Em um país que tem 5520 municípios distribuídos em 26 'tados e 1 distrito federal, precisamos informações mais precisas para nos aproximarmos de alguma conclusão. Vamos repetir a frase incluindo a segmentação por área artística: faltam bons profissionais na área de produção da música. Agora vamos repetir a frase adicionando ainda a segmentação geográfica: faltam bons profissionais na área de produção da música no 'tado do RS. Fiz 'te breve exercício para apontar duas questões que derivam disso: muitas vezes comparamos dados com bases erradas e há uma falta de informações integradas sobre os mercados culturais existentes no Brasil. Eu não posso querer que uma cidade como Porto Alegre tenha o mesmo número de produtores que o Rio de Janeiro. Além disso, se você perceber o grau de informalidade com que ocorrem as relações de trabalho e prestação de serviços na área de produção cultural irá perceber que não há um local onde você possa obter diretamente 'tas informações. Por fim, o conceito de «bons profissionais» passa por uma avaliação feita por uma massa crítica formada hoje por 99 % de pessoas que exercem a atividade de produção cultural das mais diferentes formas e com os mais diferentes critérios, por o fato de que a produção cultural como disciplina existe há pouco mais de 10 anos no Brasil, enquanto curso de graduação. Já parou para pensar como seria se todos os prédios existentes no Brasil tivessem sido construídos por milhares de engenheiros, há vários séculos, mas só há duas décadas tivessem surgido as 3 primeiras faculdades de gradução em engenharia? Com que critérios 'tes engenheiros iriam avaliar quem é bom ou mau profissional? Esta falta de acesso a educação para a atividade de produção cultural prejudica todo o sistema cultural existente no país, pois limita a oportunidade de aprendizado e qualificação para o desempenho de 'ta importante atividade: somente poderão ser bons produtores, bons no sentido de profissionais qualificados, aqueles que trabalharem com produtores com longa experiência prática (nem sempre livre de equívocos), que tenham trabalhado / 'tudado com artistas e produtores de países onde o sistema cultural é mais desenvolvido ou que tenham 'tudado em 'tes 3 primeiros cursos de graduação em produção cultural. «Desisti de procurar produtores, é tudo uma máfia». Esta afirmação geralmente é feita por pessoas que conhecem pouco de 'ta atividade ou de pessoas que não entendem a importância da mesma. Iluminador é importante. Roadie é importante. Técnico de som é importante. Diretor de palco é importante. E o produtor cultural é muito importante. Conforme definição que ouvi da produtora Marina Vieira, da ONG Tangolomango, o produtor proporciona «as trocas» necessárias, o encontro entre os diferentes atores que irão realizar a ação cultural. Constatado que quantitativamente muita gente pode exercer a atividade de produção cultural, que é uma atividade muito importante e que há poucas oportunidades de ensino 'pecializado de 'ta atividade, proponho que cada criador cultural e os produtores independentes de cada cidade do país se articulem para que em suas cidades sejam criados cursos técnicos (nível médio) e cursos de graduação em produção cultural. E isso pode ser feito através de parcerias com 'colas técnicas e universidades já existentes. É um processo longo, que precisa sensibilização, articulação, mas que no médio e longo prazo irá fazer o setor cultural dar um grande salto qualitativo. Número de frases: 41 Ao invés de reclamar, vamos educar as pessoas para a produção cultural? Renato Teixeira é o autor de muitos dos versos e populares da música popular brasileira como: «amanheceu, peguei a viola / botei na sacola e fui viajar». Ou mesmo: «sou caipira, pirapora / Nossa Senhora de Aparecida / ilumina a mina 'cura e funda / o trem da minha vida». Mas, acima de tudo, Renato Teixeira é um artista comprometido com a cultura brasileira e que sabe muito bem o que quer. Compositor cuidadoso, em sua obra o descartável não tem vez. Em 'ta entrevista, ele fala um pouco sobre suas convicções em relação ao mercado fonográfico e de sua própria identidade cultural. Elefante Bu -- O que é o 'pírito do caipirismo Valeparaibano que você divulga e defende? Renato Teixeira -- As pessoas pensam que quando falo de cultura caipira, que isso é uma coisa matuta. Não é! Quando falo de Taubaté, 'tou me referindo a uma cultura que vem de Mazzaropi, (Monteiro) Lobato e Guimarães Rosa. Mas, na verdade, a minha música é folk inspirada em todo 'se universo. O meu jeito de encarar a cultura caipira é diferente. às vezes você a encara de um jeito mais banal, mais descartável como a dos sertanejos. A música folk é mais comprometida com valores, no meu caso, com a cultura caipira. Elebu -- Falando de sertanejos, 'te veículo tem um grande grupo de leitores que aprecia muito a sua música e a música chamada caipira ou de raiz, mas rejeita abertamente a sertaneja defendida por as duplas, que na verdade fazem mais é música romântica do que outra coisa. Qual a sua posição em relação a 'se sertanejo moderno e o que pensa de 'sa postura dos leitores do zine, no caso? Renato -- Acho até que é uma coisa meio óbvia no sentido que as duplas sertanejas fazem um tipo de jogada comercial / industrial das gravadoras. É nítida em 'sas obras a interferência de uma mentalidade gravadorística, vamos dizer assim. Elas talvez tenham sido a última grande jogada da indústria do disco. Eu não sei como eles fazem ao certo, mas é um tal de «emenda daqui,» puxa de ali, mistura com o country americano e une tudo isso com a explosão dos rodeios no Brasil. E elas assumiram isso aliadas com uma qualidade de produção dentro de uma roda de 'petáculos. Você vê que os shows mudaram a partir de elas. Pode até ver que o axé de hoje, com Ivete Sangalo e 'se pessoal todo, 'tá embargado numa coisa que começou com o Chitãozinho e Xororó. Tudo é «mega» agora. Isso interessa muito ao anunciante. Essa história de colocar 100 mil pessoas na frente do palco interessa à cerveja e ao telefone celular. Todo 'se pessoal passou a ter apoio dos patrocinadores que, por sua vez, não tem compromisso com nada a não ser com o dinheiro. Isso faz parte do mercado e o trabalho de elas 'tá em 'sa base. Mas eu continuo dizendo: as minhas músicas são perenes. As de elas, algumas. Posso não encher um 'tádio de futebol, mas Romaria toca há 30 anos e consegue transpassar gerações. Assim como outras canções, como Tocando em Frente, minha e do Almir (Sater). Tenho um público muito grande. Acho que o equívoco dos anunciantes 'tá exatamente em achar que o público só quer pão e circo, só que dançar e pular. Hoje, toco em 'paços abertos onde o pessoal vai lá para ouvir as músicas. Não existe mais aquela de só ir para dançar. E a música tem desses mistérios. O que acho mesmo é que cada um tem que fazer a sua parte e é da soma disso tudo que surge uma música brasileira poderosa que forma um dos melhores mercados de discos e de shows do mundo. É um mercado muito interessante e por isso existe a ploriferação de gênios, sempre aparecem coisas novas. Isso é sinal que a música 'tá viva, que 'tá fazendo o papel de ela que é unir um idioma em torno de canções que todos conhecem. Claro que existem detalhes vis no percurso, mas eles não são importantes. Fundamental é que a música se movimenta. Ela 'tá aí com toda força. Elebu -- Quando fiz a pesquisa para me preparar para 'te nosso papo, fiquei surpresa ao saber que, na verdade, a sua carreira começou ainda na década de 60 ou seja, bem antes do que imaginava. E que você testemunhou de muito perto, todos aqueles movimentos da época, dos festivais, Tropicália. Como foi 'sa época para você? Renato -- Eu cheguei em São Paulo no final de 1967. Já era um momento que a ditadura militar 'tava forte e havia muita coisa acontecendo. Mas eu era só um iniciante. Costumo dizer que fui um 'pectador privilegiado porque era amigo do pessoal e 'tava sempre junto. O que acontece em relação a mim, é que moro em São Paulo, não tenho nenhuma relação com o Rio de Janeiro, não participo do 'quema de lá, mas também não participo do 'quema dos sertanejos daqui, embora sejamos amigos. Em a realidade, 'tou criando a minha própria tribo. Bom, já naquela época fui para um lado muito peculiar porque me inspirei na cultura caipira que, na cabeça de muita gente, é vista como uma arte menor. Eles nunca tiveram uma leitura generosa de 'ta arte. Quando pensam em dupla caipira, vem logo a cabeça dois jecas cantando. Não pensam em Guimarães Rosa, em Tarsila do Amaral, em Lobato. Então, aquela época era uma coisa meio Rio de Janeiro, Zona Sul, bossa nova, turminha, «eu sou mais bonito que o outro». Eu fico é meio longe da fogueira e vou embora. Mas também não fico para trás. Em a verdade, eu também dou alguma contribuição na música brasileira quando invisto em 'ses meus sonhos. Romaria, por exemplo, se você procurar vai encontrar coisas que podem até ter alguma coisa parecida. Mas ela tem um entendimento na concepção que inova. Não adianta você ser só compositor e fazer música. Você tem que pensar na música do seu país, pensar em ela como um todo. Eu nunca quis ser só mais um. Faço um trabalho que tem personalidade, e como conheço o assunto, talvez, de todos, eu era o único que o entendia já no final dos anos 60. Em o início dos anos 70 eu já tinha começado a trabalhar em cima do que é uma canção nova, contemporânea a partir da música da cultura caipira. A coisa chegou num ponto que a gente foi se inserindo meio que intuitivamente em 'se universo folk onde habita o Bob Dylan, que canta coisas de seu país com ataque, com uma memória cultural. É uma música que emociona que toca o coração, que faz você pensar e se divertir também. O folk é um gênero que tem um conceito universal, se você pensar bem. Teve uma hora que as pessoas perguntaram: você não é caipira, não é sertanejo, então o que você é? Eu sou folk. * Entrevista foi publicada originalmente no zine Elefante Bu. Número de frases: 77 Confira ela completa por lá. A história da música eletrônica tem seu marco inicial em 1948, com a difusão do Concert de Bruits por a Radiodiffusion-Télévision Française, influência do francês Pierre Schaeffer que criou o musique concrète, onde a composição era feita a partir de ruídos gerados por toca-discos, além de incluir a manipulação sonora por meio da variação da velocidade ou do sentido de leitura das gravações. Em a mesma época o alemão Werner Meyer-Eppler realizava experiências com síntese sonora, ao mesmo tempo em que 'peculava sobre sua possível aplicação em música. Em 1951, Meyer-Eppler e o compositor Herbert Eimert juntaram-se a Robert Beyer, e criaram o primeiro 'túdio de elektronische musik (música eletrônica). Embora usassem técnicas de gravação e montagem semelhantes às realizadas nos 'túdios da RTF em Paris, 'sas técnicas eram aplicadas apenas a sons de origem eletrônica, gerados por osciladores elétricos. Em 1953, Karlheinz Stockhausen passa a ser membro do 'túdio e um de seus principais colaboradores, vindo a desempenhar um papel definitivo na produção da música eletroacústica e, em 1956, torna-se o primeiro a juntar vozes humanas com sons eletrônicos. Com o surgimento dos sintetizadores, criado por o norte-americano Robert Moog, que passaram a ser amplamente utilizados na música eletrônica, vários 'túdios 'pecializados foram abertos por a Europa, pós Segunda Guerra Mundial. Em o Brasil, as experiências eletroacústicas demoram a se 'tabelecer. O compositor Reginaldo de Carvalho, em 1956, compôs em Paris as primeiras obras eletroacústicas brasileiras. De volta ao Brasil, Carvalho dirigiu o Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, que se tornou um centro para pesquisa e divulgação da música experimental. Foi aí que Jorge Antunes, encontra 'paço para desenvolver suas pesquisas em música eletrônica, compondo no início da década de 60 as primeiras peças brasileiras realizadas com sons eletrônicos (Pequena Peça para Mi Bequadro e Harmônicos, 1961; e Valsa Sideral, 1962). A música eletrônica começou a se popularizar com o surgimento dos sintetizadores digitais, posteriormente com os samplers, porém o «boom» ocorreu com os computadores pessoais que possuem recursos de áudio e a facilidade para se montar um home-studio, sendo possível emular as funcionalidades de instrumentos musicais ou de sintetizadores através da criação, manipulação e apresentação virtual de som. A popularização destes instrumentos fez surgir, no mundo, diversos artistas que passaram a se dedicar exclusivamente a música eletrônica, aparecendo diversos 'tilos, tais como a música industrial, a música eletrônica dançante (que é a música do filme Saturday Night Fever), que se ramificou em House, Trance, Acid House, Techno, Hardcore Techno, Breakbeat, Drum ´ n ´ Bass, Ambient, Tribal, entre vários outros. O Brasil possui, atualmente, alguns dos melhores profissionais da música eletrônica do mundo, transformando-se em palco para criação e desenvolvimento deste 'tilo musical. Pode-se resumir a música eletrônica como «a música produzida a partir de não-instrumentos, ou de instrumentos adaptados para produzir som modificado por a eletricidade». Entretanto, no Brasil surgiu, recentemente, um novo 'tilo de música eletrônica denominada Electronic Live Music, que é a inserção e modificação do som por a eletricidade no exato momento em que a música 'tá sendo propagada, ou seja, a música vai sendo modificada ao mesmo tempo em que 'tá sendo executada ao vivo. Sabe-se que a música eletrônica, até então, era a utilização de um som previamente gravado e sobre ele era utilizado o artifício da aparelhagem da música eletrônica, como, por exemplo o samplers. Em a Electronic Live Music não existe 'te som previamente gravado e sim, um som que 'tá sendo criado naquele exato momento, com os instrumentos musicais de um banda, incluindo vocal e, enquanto 'te som 'tá sendo produzido o DJ, simultaneamente, faz a modificação por meio de aparelhagem própria. O grupo NoiseReaction é pioneiro em 'te 'tilo e já 'tá revolucionando o mercado da música eletrônica. O grupo toca a musica eletrônica ao vivo, com DJ, Guitarra e vocais feminino e masculino. Número de frases: 21 Não há dúvida que a evolução da música eletrônica é a harmonia da música ao vivo simultânea ao trabalho do DJ, enriquecendo assim a produção musical. Respeito aos Direitos Autorais Hoje, vou pedir licença e ocupar 'se 'paço para falar de uma realidade que invade nosso universo na Net há muito tempo: a irresponsabilidade de algumas pessoas, no que se refere ao respeito às autorias do textos repassados. Em 'te fim de semana, recebi uma mensagem por e-mail, um PPS com um poema lindo! Até aí, nada de mais. A questão é que o poema trazia como autor nosso querido e imortal Mario Quintana. Como sou ardorosa fã, antiga e assídua leitora do meu conterrâneo Quintana, percebi imediatamente que aquela obra não era de ele, não possuía as características dos seus textos, apesar do poema ter o próprio valor. Mesmo assim, fui pesquisar e constatei o que já imaginava: tratava-se de alguns provérbios antigos que foram acoplados um ao outro e atribuídos ao Poeta. Confesso que 'sa situação gera em mim uma grande inquietação, que me faz refletir: até onde irá o desrespeito e o descaso em relação à autoria dos textos que circulam em nosso dia-a-dia, nas mais variadas situações? Será que as pessoas repassam de 'sa forma por desconhecerem seus verdadeiros autores, por pura falta de leitura e conhecimentos; ou para chamar a atenção para o texto? Tanto uma coisa quanto outra é deveras muito preocupante! O mundo virtual é o 'paço onde tudo acontece em segundos, é poderoso! Exatamente por isso é que o cuidado com o que é repassado tem de ser redobrado. Usando um lugar-comum, é uma «faca de dois gumes», um instrumento extremamente útil para divulgar, mostrar, abrir caminhos para o conhecimento, mas que, mal utlizado, poderá ser aquele que facilitará a existência de um» caos», no caso, um «caos literário», talvez, até irreversível se usado sem responsabilidade. Para os Poetas, um alerta! Registrem seus textos na Biblioteca Nacional *. É um procedimento legal, eficaz, seguro. O registro chegará em sua residência em pouco tempo, garantindo o direito sobre seus 'critos. A os leitores, um pedido: atenção e cuidado! Acredito que todos devemos levar a sério 'se assunto e assumir o compromisso de, ao divulgarmos textos, atribuir a autoria a quem tem direito, e isso é responsabilidade de cada um. Portanto, ao repassarmos textos, quaisquer que forem os objetivos e circunstâncias, vamos conceder os créditos a seus devidos autores e editoras, respeitando os * direitos autorais, apresentando, sempre, o nome do autor e as fontes bibliográficas. * (Site da Biblioteca Nacional) www.bn.br * * ( Os direitos autorais são protegidos por a Lei nº 9.610 de 19/2/98. Violá-los é crime 'tabelecido por o Artigo 184 do Código Penal Brasileiro). Site: http://www.planalto.gov.br/ccivil 03/ Decreto-Lei / Del2848.htm Número de frases: 31 Jussára C Godinho -- Ju Virginiana A Unidos de Lucas apresentou em 'te sábado, dia 19, em sua quadra de ensaios, o Roteiro de Desfile para o Carnaval 2008, quando homenageará o Piauí e sua capital, Teresina. Em a ocasião também foram apresentados alguns figurinos de alas. A Unidos de Lucas será a quinta 'cola a desfilar no Grupo B, que por enquanto, 'tá marcado para o dia 5 de fevereiro. A Prefeitura do Rio, tem intenção de transferir o desfile para sexta-feira, dia 1 de fevereiro, a fim de permitir sua transmissão por TV aberta. Conheça agora o Roteiro de Desfile da Unidos de Lucas. Quadro 1 A Pré-História do Piauí Primeira parte do Quadro 1 A Migração Africana Abriremos nosso desfile retratando o momento da vinda de hordas africanas para as Américas, dando origem à civilização americana Comissão de Frente A Marcha Africana rumo às Américas -- Nômades Africanos Partindo de seus territórios situados onde, hoje, 'tá a África, hordas de negros nômades partem para a conquista de novas terras. Sua marcha pode ter acontecido quando o globo terreste possuía um único continente, chamado Pangéa, que pode ter se dividido nos vários continentes atuais, ou ter sido inundado, na parte que seria pertencente à Atlântida. Teorias não faltam. O fato é que sob a luz de um novo horizonte, 'tes nômades chegaram às terras do Piauí e ali deram início à civilização Americana. 1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira Fantasia: A Inspiração Afro-Nômade As grande hordas seguiam em longo agrupamento, que por sua vez se subdividiam em grupos menores que formavam pequenas tribos. De aí veio a formação do desfile das Escolas de Samba? Possivelmente, sim. É sabido que os povos nômades da África seguiam em suas marchas, buscando forças para as longas caminhadas no canto e na dança. Nosso primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira representam 'ta inspiração vinda do ritmo africano que inspirava suas jornadas. 1ª Ala -- Ala das Baianas Fantasia: Mães d'América -- As Luzias Todos os povos têm seu elo comum. Os povos das Américas têm em Luzia seu ancestral mais antigo. Aqui, homenageamos as mulheres, negras na cor, guerreiras na alma. De seu ventre, nas terras do Piauí, nasce uma nova civilização. E ninguém melhor as representaria, com seu colo doce e sua aura maternal do que as baianas da Unidos de Lucas. Hoje, Luzias de toda a América. Alegoria 1 Piauí -- Berços dos Povos d'América Em 'ta alegoria 'tão representados principais sítios arqueológicos dos Piauí: a Serra da Capivara e as Sete Cidades de Pedra. As inscrições dos primeiros povos a passarem por terras piauienses, gravadas em suas grutas e fendas, 'tão presentes em 'ta alegoria, bem como elementos de inspiração Africana. Segunda parte do Quadro 1 Os Elos Perdidos Em 'ta parte apresentamos os povos que supostamente 'tiveram no Piauí em sua pré-história e representam o elo perdido entre o negro e o índio, primeiro biótipo genuinamente americano. 2ª Ala Fantasia: Elos Perdidos -- Povos de Atlântida A principal referência da migração dos povos do continente submerso para as terras do Piauí, 'tá nas declarações de alguns índio pertencente à classe de Tupinambás e Tabajaras, como o Tremembés e os Caraíbas, registradas em documentos da ocasião do descobrimento das Américas e, em seguida, do Brasil, de que seriam descendentes de um povo que teria vindo de um outro continente, quando 'te foi destruído. Os povos da Antiga Atlântida podem ser o primeiro -- e talvez, o principal -- elo perdido entre o negro e o índio. 3ª Ala Fantasia: Elos Perdidos -- Os Fenícios Os fenícios 'tabeleceram-se nas margens orientais do Mediterrâneo, na fina e fértil faixa situada entre o mar e os montes Líbano e Antilíbano. A pequenez de seu território, a presença de vizinhos poderosos, e a existência de muita madeira de cedro (boa para a construção naval), nas florestas das montanhas, parecem ter sido fatores adicionais que orientaram a civilização fenícia para o mar. O Brasil 'tá repleto de indícios comprobatórios da passagem dos fenícios, e tudo indica que eles concentraram sua atenção no nordeste. Pouco distante da confluência do rio Longá e do rio Parnaíba, no Estado do Piauí, existe um lago onde foram encontrados 'taleiros fenícios e um porto, com local para atracação dos «carpássios» (navios antigos de longo curso). 4ª Ala Fantasia: Elos Perdidos -- Os Vickings O pesquisador francês Jacques de Mahieu que 'teve em Sete Cidades em 1974 atribui as inscrições e pinturas rupestres aos vikings, por a semelhança com os caracteres rúnicos. Os vikings (por vezes usa-se a forma aportuguesada viquingues) eram guerreiros-marinheiros da Escandinávia que entre o final do século VIII e o século XI pilharam, invadiram e colonizaram as costas da Escandinávia, Europa e ilhas Britânicas. Embora sejam conhecidos principalmente como um povo de terror e destruição, eles também fundaram povoados e fizeram comércio pacificamente. A «Era Viking» é o nome da última parte do início da Idade do Ferro na Escandinávia. Terceira parte do Quadro 1 Filhos d'América Mostraremos em duas alas duas das mais significativas tribos indígenas do Piauí, como exemplos do biótipo resultante de 'sa miscigenação pré-histporica que faz do Piauí o berço dos povos de todas as Américas. 5ª Ala Fantasia: Filhos d' América -- Índios Tremembés Os Tremembés são um grupo indígena que hoje habita os limites do município brasileiro de Itarema, no litoral do 'tado do Ceará, mais precisamente na Área Indígena Tremembé de Almofala (Itarema) e Terras Indígenas São José e Buriti (Itapipoca), Córrego do João Pereira (Itarema ne Acaraú) e Tremembé de Queimadas (Acaraú). Originalmente seu território 'tendia-se das praias do Piauí, sobretudo, Ocupando o Delta do Parnaíba, até as praias de Fortaleza, passando por o Maranhão. Foram aldeados no século XVIII nas missões de Tutoya do Gentio, Almofala (Aracati-Mirirm) e Soure (Caucaia). 6ª Ala Fantasia: Filhos d' América -- Índios Caraíbas De o tupi Kara ib " (sábio, inteligente). Teriam habitado toda a região Norte e Nordeste do Brasil até o território hoje pertencente às Guianas e as várias ilhas da América Central cujo mar, por isto, passou a denominar-se «Mar do Caribe». Os caraíbas da Amazônia praticavam o antropofagismo. Os caraíbas foram os primeiros povos nativos das Américas que tiveram contato com os 'panhóis no final do século XV, e desde logo passaram a ser 'cravizados para trabalharem nas colônias que se fundavam. O próprio Cristóvão Colombo, retornando de sua primeira viagem às Américas em 1495, já levou 509 caraíbas para vendê-los como 'cravos em Sevilha, na Espanha. Como não possuíam imunidade contra as doenças que os europeus trouxeram, os caraíbas foram mortos aos milhares, seguindo-se, assim, até quase a dizimação final de 'ta etnia. Quadro 2 A História Chega ao Piauí Tripé 1: A História Chega ao Piauí Rainha da Bateria Fantasia: O Espírito Desbravador 7ª Ala Fantasia: Bateria -- Os Bandeirantes Bandeirantes são chamados os sertanistas que a partir do século XVI penetraram nos sertões brasileiros em busca de riquezas minerais, sobretudo a prata -- abundante na América 'panhola -- pedras preciosas e semipreciosas, ou índios para 'cravização. Por vezes, o reconhecimento do território para a Coroa portuguesa e o controle de levantamentos dos Índios eram também objetivos dos bandeirantes. Suas expedições eram chamadas de «Entradas e Bandeiras», 'te último termo deu origem à expressão bandeirante. Tradicionalmente, os historiadores distinguem as Entradas, como movimentos promovidos por o Governo, das bandeiras, como expedições particulares. Um bandeirante paulista, Domingos Jorge Velho, penetrou em terras piauienses. Ele desbravou o território, cultivou a terra, construiu currais e criou gado, mas logo continuou o seu caminho, desbravando novas regiões. Foi ele quem deu a atual denominação de Parnaíba ao rio que antes era conhecido como rio Grande dos Tapuias, Pará ou Punaré. Domingos Jorge Velho foi um dos maiores bandeirantes do Brasil. Acompanhou Domingos Afonso Sertão ao Piauí e, depois de combaterem os índios pimenteiras, foi sozinho ao Ceará afungentar os índios cariris. Guerreou os índios icós e sucurus e, mais ao sul, destroçou os índios calabaças e coremas na Paraíba. 8ª Ala Fantasia: O Reconhecimento da Corte O Piauí 'teve sob a bandeira de Pernambuco até 1701, quando em 3 de março daquele ano uma Carta Régia enviada ao Governador de Pernambuco anexava o Piauí ao Maranhão. A autonomia veio em 1761, por meio de uma Carta Régia, datada de 19 de junho. Por aquele instrumento, a Vila do Mocha ascendia à condição de cidade e oito povoados foram alçados a condição de Vila. Em 13 de novembro do mesmo ano, o Governador João Pereira Caldas impunha o nome de São José do Piauí a Capitania e mudava o nome da capital de Vila do Mocha para Oeiras. A completa independência em relação ao Maranhão somente aconteceu em 26 de setembro de 1814, quando, por força de um Decreto Real, o Governo Militar do Piauí foi separado do Governo Militar do Maranhão e, em 10 de outubro, nova Carta Régia isentava o Piauí da jurisdição maranhense. 9ª Ala Fantasia: O Piauí Republicano Com a Proclamação da República e o conseqüente fim da Monarquia, o Piauí ganha sua formação como o Estado atualmente é, inicia um momento de grandes avanços com a implantação da rede elétrica e telegráfica e a ampliação da capacidade de navegação do Rio Paraíba Alegoria 3 Assim Nasceu o Piauí Fusão do elementos do contexto histórico da formação do Estado do Piauí Quadro 3 A Arte e a Cultura do Piauí Primeira parte do Quadro 3 Os Ritmos do Piauí 10ª Ala Fantasia: Ritmos -- Pagode O Pagode é ritmo de origem africana nascido no Piauí e que teria sido o precursor -- ou pelo menos o inspirador -- do samba de roda mais cadenciado 11ª Ala Fantasia: Ritmos -- Forró O Forró, na verdade, são vários gêneros musicais oriundos do nordeste brasileiro. Possui origem mestiça. Entre vários ritmos diferentes que são comumente identificados como Forró destacam-se o Baião, o Coco, o Rojão, a Quadrilha, o Xaxado e o Xote. O Piauí possui seu ritmo de forró. Levemente mais acelerado e melodioso é sucesso em todas as classes e faixas etárias. Segunda parte do Quadro 3 O Artesanato Piauiense 12ª Ala Fantasia: Artesanato -- Arte Cesteira Entre tantas formas de artesanato popular típico do Piauí, destaca-se a arte de fazer cestos em materiais naturais diversos. Os cestos piauienses são reconhecidos e valorizados em todo o mundo. 13ª Ala Fantasia: Artesanato -- Arte Santeira O Piauí é um dos 'tados brasileiros onde a fé de seu povo se manifesta de forma mais visível. Oeiras, primeira capital do Piauí, é considerada a capital brasileira da fé. E 'ta fé também pode ser vista em forma de arte. A arte santeira -- arte de 'culpir santos nos mais diferentes materiais -- piauiense é referência como arte nordestina brasileira. Terceira parte do Quadro 3 O Folclore 14ª Ala Fantasia: Danças e Festas -- Festejos Juninos As Festas Juninas são uma celebração brasileira de origem européia, relacionadas historicamente com a festa pagã do solstício de verão (declinação austral do Sol) e que era celebrada no dia 24 de Junho do Calendário Juliano (pré-gregoriano). Foi cristianizada na Idade Média como Festa de São João. Trazida para o Brasil por os portugueses foi logo incorporada aos costumes das populações indígenas e afro-brasileiras. A folia é típica dos Estados da Região Nordeste. Por ser uma região árida, o povo agradece anualmente a São João e a São Pedro por as chuvas nas lavouras. Em razão da época propícia para a colheita do milho, as comidas típicas feitas a partir deste grão integram a tradição, como a canjica e a pamonha. Três importantes santos católicos são festejados em 'ta época: Santo Antonio (13 de Junho), São João (24 de Junho) e São Pedro (29 de Junho). 15ª Ala Fantasia: Danças e Festas -- Reisado, Marujada e Pastoril O reisado tem origem portuguesa e data do século XVIII. Constitui-se num dos mais tradicionais folguedos folclóricos, adquirindo formas singulares de acordo com os costumes e identidade cultural de cada região, sem deixar de preservar o enredo principal do auto natalino que é a dramatização da visita dos três reis magos ao Menino Jesus. O auto é interpretado por grupos que se fantasiam e saem de porta em porta anunciando a chegada do Messias tocando e cantando músicas folclóricas em troca de comida e bebida. As principais figuras do Reisado são: os três Reis Magos, a cigana, os caretas, a burrinha, casal de velhos, a ema e o Jaguará. Em a região Nordeste mais figuras foram incorporadas ao reisado: o pião e o boi, por exemplo. Simbolizando o brinquedo da criança nordestina, o pião e os brincantes dançam ao som da conhecida cantiga: O pião entrou na roda, pião O pião entrou na roda, pião Roda pião, bambeia pião Roda pião, bambeia pião. Além dos tradicionais personagens, no Piauí foram introduzidas mais duas figuras: o galo e o carneiro, que também representam os animais que visitaram a lapinha do Menino Jesus. Segundo Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira Fantasia: Catirina e Pai Chico Pai Chico e Catirina são dois dos principais personagens do Bumba-Boi. 16ª Ala Fantasia: Danças e Festas -- Bumba meu Boi Remontam à antiguidade, as festas de glorificação e exaltação da figura do Boi. Espalham-se por toda a região do Crescente Fértil e constituem uma das principais celebrações da cultura egípcia. Assim como a grande maioria das manifestações culturais, o Bumba-meu-boi tem nas suas origens uma forte presença religiosa, expressa na morte e ressurreição da entidade principal -- o Boi. Em o Brasil, a presença do Boi 'tá ligada à força motriz desempenhada por 'se animal, nas várias regiões, no Nordeste 'pecificamente, aos engenhos de açúcar e carros canavieiros. Assim nasce o Bumba-meu-boi, entre o real e o imaginário popular, um dos mais puros 'petáculos nordestinos. Auto dramático com personagens humanos, fantásticos e animais, é uma 'pécie de ópera popular, cujo conteúdo varia entre os inúmeros grupos de bumba-meu-boi existentes. O boi simboliza os animais que compõem o presépio, e ganha o colorido das fitas e o brilho dos paetês. O «Encontro de Bois de Teresina», no mês de julho, que reúne todos os grupos de bumba-meu-boi da capital e do interior, marca o encerramento das festas de boi que acontecem a partir do fim de maio. As agremiações são as seguintes: Brilho da Noite Dominador do Sertão Estrela Dalva Touro da Paz Mimo do Ano Sombra da Lua Mimo de Santa Cruz Mimo das Crianças Maioba do São Joaquim Imperador da Ilha Riso da Floresta Terror do Nordeste Rei da Floresta Independência do Brasil Guerreiro Solitário Raminho do Amor Touro do Alto Liberdade da Piçarra Capricho da Ilha Alegoria 3 Piauí -- Seu Folclore, Suas Lendas Arte e Cultura na Terra do Sol do Equador A Alegoria apresenta uma fusão de elementos que remete ao melhor da cultura paiuiense. O Cabeça-de-Cuia, o Uiré, o Bumda-meu-boi, os santos, os cestos e bordados do artesanato popular se unem numa singular homenagem ao artista anônimo que tem em suas mão a principal ferramenta para sua subsistência. Em 'ta alegoria homenagearemos também artistas célebres do Piauí, como Torquato Neto, poeta, jornalista, letrista de música popular, experimentador da contracultura, e Paulo Diniz, cantor e compositor. Quadro 4 Piauí do Brasil 17ª Ala Fantasia: A Força do Campo -- Agricultura e Pecuária A agricultura e a pecuária extensiva, são a principal força ecnômica do Piauí. A pecuária foi a primeira atividade econômica desenvolvida no Estado, fazendo parte de sua tradição histórica. O folclore e os costumes regionais derivam em grande parte da atividade pastoril. Entre os rebanhos, destacam-se os caprinos, bovinos, suínos, ovinos e asininos. A caprino-cultura, por sua capacidade de adaptação a condições climáticas inóspitas, tem sido incentivada por o Governo, proporcionando meio de vida a significantes parcelas da população menos favorecida, principalmente nas regiões de Campo Maior e Alto Piauí. A agricultura no Piauí desenvolveu-se paralelamente á pecuária, como atividade quase que exclusivamente de subsistência. Posteriormente, adquiriu maior caráter comercial e industrial. Entre as culturas tradicionais temporárias sobressaem-se o milho, o feijão, o arroz, a mandioca, o algodão herbáceo, a cana-de-açúcar e a soja. Entre as culturas permanentes, destacam-se a manga, a laranja, castanha-de-caju e o algodão. 18ª Ala Fantasia: Biocombustível -- Tecnologia 100 % Piauí Em tempos de busca a formas alternativas e menos poluentes para substituição de combustíveis convencionais, o Piauí vem obtendo destaque internacional com o seu biodiesel de mamona. Totalmente desenvolvida no Piauí, já é vista como uma alternativa viável e deverá se tornar em médio a longo prazo um dos pilares da economia do Piauí 19ª Ala Fantasia: Zona Franca do Piauí -- A Nova Indústria O Brasil vai ganhar mais uma Zona Franca (Zona de Processamento de Exportação), como a de Manus. E ela fica no Piauí. A ZPE é uma área onde se 'tabelecem indústrias voltadas para o mercado de exportação e que operam com vantagens 'peciais, como incentivos tributários e cambiais. O projeto, que visa atrair inúmeras empresas de grande porte é de vital importância para o desenvolvimento do Estado 20ª Ala Fantasia: Educação Medalha de Ouro Há dois anos consecutivos o Piauí 'tá em primero lugar no Enem -- Exame Nacional do Ensino Médio, e é o segundo maior investidor em Educação, mesmo sendo o segundo menor arrecadador. 21ª Ala Fantasia: Assim é o Piauí Esta ala é uma homenagem aos 223 municípios do Estado do Piauí, apresentando suas bandeiras. Alegoria 4 Piauí do Brasil Em 'ta alegria encerramos nossa homenagem ao Estado do Piauí, apresentando suas cores e o Palácio de Karnak, sede do Governo do Piauí e uma de seus principais cartões postais. Velha Guarda Traje: A Sabedoria Paiuiense Nossa Velha-Guarda homenageia a sabedoria popular piauiense que só o tempo pode dar. Envelhecer é bom. Número de frases: 219 Envelhecer na Unidos de Lucas, homenageando o Piauí é ainda melhor! Disse certa feita o filósofo Stanley Kubrick, ao ser questionado acerca de suas adaptações literárias para o cinema, que apenas os livros medíocres resultam em bons filmes. Bem, eu não sou analista de cinema, muito menos crítico literário, mas desaprendi a duvidar desse engenhoso axioma de Kubrick no exato momento em que me apaixonei por o olhar dentuço e ensolarado do cineasta paulista Beto Brant. Artista de invejável competência, com um refinamento intuitivo que se traduz numa rara 'tética fílmica hiper-naturalista, Beto sempre representou a exata oposição a tudo aquilo que eu sonhava como arte, embora sempre tenha amado a seus filmes como um pássaro às despedidas. Há alguns meses, com efeito, tive a oportunidade de trabalhar, juntamente com Marcelo Noah, na produção de seu último longa-metragem, intitulado «Cão sem dono», uma adaptação violenta do ingênuo romance» Até o dia em que o cão morreu», do pudico poeta do mal Daniel Galera. Foram quase seis oníricas semanas de filmagens, aqui em Porto Alegre, empapadas de muita «tristeza barata» e poesia de segunda, que acabaram por provar que, ao contrário do que dizia Walter Benjamin, a experiência do choque cinematográfico pode, muitas vezes, resultar em obras mais profundas e complexas do que a literatura. Faço aqui, portanto, em defesa do ponto de vista audiovisual, a apologia consciente da mediocridade literária. A o sermos contratados para a película, que 'tréia no próximo ano, com a função de assessorar a adaptação do protagonista do livro para 'ta epopéia «anti-Malha ção» de Beto Brant, eu e Noah não imaginávamos o quanto as carências literárias de Galera nos ajudariam a visualizar a constituição ideal do novo personagem. A equação foi simples: conferir substrato ao existencialismo vazio que o autor de «Até o dia em que o cão morreu» impõe ao seu personagem. A idéia nuclear era livrar o protagonista do filme do tédio 'tético, e não filosófico, que a atmosfera do romance oferece aos leitores, injetando em seus olhos, com seringa dadaísta não-descartável, altas doses de problemática maiakovskiana, associadas a um tratamento de choque poético regado a Fernando Pessoa, Lupicínio Rodrigues e Sérgio Faraco. Mas isso não significa, em hipótese alguma, que Daniel Galera 'creva mal. Como bem sintetiza o jornalista «Paulo Polzonoff,» a questão é que ele não tem absolutamente nada o que dizer que justifique o investimento num romance». Em a verdade, o grande mérito de Galera foi produzir um péssimo e redundante livro, assim como um medíocre e inverossímil protagonista, ensejando, de 'sa forma, as possibilidades de construção de um grande e complexo personagem cinematográfico. Em resumo, Galera tenta fugir da poesia, como todos os seus amigos, mas, na verdade, é a própria poesia que foge de Galera, deixando por o chão de seu texto um lamentável rastro de sombra filosófica existencialista, com matizes amadorísticos e masturbatórios, sem quaisquer efeitos 'téticos. De 'sa forma, embora ainda com ironia deficitária, Ciro, o personagem do filme, desponta na tela finalmente livre daquelas opulentas 'pinhas que feriam tanto o rosto da personalidade oca e anacronicamente adolescente do protagonista do livro. «Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar», diz Ciro, numa das cenas de «Cão sem dono», o que, na boca do personagem alter-ego de Galera, soaria demasiado inteligente e maduro para quem despreza romanticamente, em nome do orgulho, um emprego de revisor numa agência de publicidade. Se no sex and drugs de Cazuza não havia mais nenhum rock and roll, no rock and roll de Galera não há nem sex, nem drugs, e muito menos o próprio rock and roll. Mas o filme 'preme todas 'sas 'pinhas, e o 'pectador, enfim, poderá sentir o gosto amargo de Albert Camus 'correr por o 'pelho. Como prova disso, por exemplo, basta pensar que o papel de professor universitário, que seria interpretado por o decadente Luis Augusto Fischer, foi imediatamente redimensionado, ficando a cargo do extraordinário compositor e poeta Beto Deschamps, que o desempenhou com o brilhantismo indelével que caracteriza a sangue as feições de Isidore Ducasse. Número de frases: 20 Enfim, «Cão sem dono», o primeiro filme da história do cinema nacional a retratar Porto Alegre de uma maneira verdadeiramente livre dos cacoetes provincianos, promete salpicar de lama as calças de brim branco da velha crítica brasileira, a qual, amargurada com a sua própria caduquice, jamais conseguiu compreender» a causa «da rebeldia contra-cultural» sem causa», que é tão simples e tão velha como a possibilidade libertária de 'trangular os anjos. A primeira vez que ouvi falar da Groovie Records foi em 2006. Era uma nova gravadora independente portuguesa, que só edita em vinil e que, já no seu início, trabalhava com um pé no Brasil. Literalmente. Foi quando conheci Edgar Raposo, um dos homens por trás do selo, em sua primeira viagem ao país, o outro é Luís Futre. Trocamos figurinha sobre rock brasileiro e português, apresentei umas bandas obscuras dos anos 80, o difícil foi achar algo novo, o cara já conhecia até Akira S. e As Garotas Que Erraram! Em aquele tempo, começaram as parcerias no nosso país. A partir de ali, a Monstro Discos se tornou distribuidora da Groovie Records, no Brasil, e a Groovie da Monstro, em Portugal. Logo depois veio a gravação de um vinil split 7 " com os Autoramas de um lado e Green Machine, de Portugal, do outro. Em seguida foi lançado o LP Brazilian Surf A-Go-Go volume 1, com mais de vinte bandas brasileiras, entre elas de novo os Autoramas, Pata de Elefante, The Dead Rocks, Estrume'N'Tal, Cochabambas, Super Stereo Surf, Los Tornados e Capitão Parafina e Os Haoles. A série Fuck CD Sessions, do MQN, impressa em vinil, também faz parte do catálogo do selo. Mas isso é só o começo. Em 2007, foi lançado o vinil de 10 " The Jam Messengers, de Rob K. e Uncle Butcher. Rob K é 'tadunidense e 'tá na 'trada desde os anos 70 e Uncle Butcher atualmente se apresenta com sua monobanda (And His Oneman Band) e é ex-integrante do Thee Butchers'Orchestra, de São Paulo Mas foram Os Haxixins a grande aposta do selo ano passado. O grupo é da zona leste de São Paulo e tinha feito pouquíssimos shows quando fechou contrato com a gravadora. Eu cheguei a fazer uma entrevista com eles em 'sa época, para o programa Plano B, da Rádio Castrense, em Portugal, apresentado por o Edgar. A banda acabou virando grande revelação para o público de garagem, de acordo com diversas publicações e podcasts europeus, entre elas a Luv Radio, em que Gary Wilde afirmou ser «uma das mais autênticas bandas de garagem que ouvi em muito tempo». Em o início de abril deste ano, Os Haxixins partiram para uma turnê em quase trinta cidades de Portugal, Espanha e Itália, produzida por a Groovie Records. Os Autoramas também já fizeram pelo menos três turnês por lá com o apoio do selo e devem fazer mais uma em 2008. Além disso, muitos músicos acabam tendo guarita na casa do Edgar. Em o Bananada 2008, bati um papo com o Kuti, o Lendário Chucrobillyman, que 'teve hospedado por lá ano passado, quando fez alguns shows em Lisboa com sua monobanda. Recordar é viver Nem só de revelações vive a Groovie Records. Eles têm apoiado todo o tipo de trabalho de registro histórico do rock português. A exposição Nova Vaga -- O Rock em Portugal, uma de suas produções, é um passeio no Rock ' n ' roll, Pop Music, Garage e Psych Rock produzido em Portugal entre 1955 e 1974. A Groovie também editou um compacto do primeiro roqueiro português, Joaquim Costa, que faleceu no começo deste ano, além de ajudar na distribuição dos LPs Portuguese Nuggets, que editam clássicos do rock daquele país. Mas o que o Brasil tem a ver com isso? Não são só os clássicos portugueses que 'tão na mira do selo. Em 2008, foram editados dois LPs de bandas brasileiras dos anos 60: Baobás, «para muitos eles são uma das melhores bandas de garagem já gravadas no Brasil no final dos anos 60», e» The Brazilian Bitles, " a mais prolífica banda dos anos 60 no Brasil. Eles lançaram muitos EPs e alguns LPs, gravando mais de 30 músicas». E não deve parar por aí. Há alguns meses mandei para Lisboa um LP de uma banda que gravou nos anos 70, em Natal. Vamos ver o que rola. Um braço no quadrinho Uma das atividades do Edgar é seu trabalho com ilustração. Ele é um dos colaboradores do almanaque Bongolê Bongoró & 2, que traz trabalhos de mais três portugueses, uma 'tadunidense e mais dezoito brasileiros. Em fevereiro deste ano, quatro representantes da revista, entre eles, eu, foram convidados para o Brucutumia 2008 -- Encontros de Arte Urbana Luso-Brasileira, que teve uma feira de fanzines com várias publicações brasileiras. O evento foi promovido por a Groovie Records e por a Associação Chili com Carne (CCC), em Lisboa. Viajamos com o apoio do Ministério da Cultura e fomos gentilmente hospedados por Edgar e Flávia Diab, a 'posa brasiliense. De este encontro resultaram parcerias de trabalho e de distribuição da CCC por a Kingdom Comics, em Brasília, além da venda da Bongolê & 2 e algumas outras revistas brasileiras por a CCC. Integração continua A banda portuguesa Born a Lion fez um turnê no Brasil com o MQN, em meados de 2007, por conta de 'sas parcerias encabeçadas por a Groovie Records, principalmente com a Monstro Discos, e que deverá continuar nos próximos anos. Assim, mais bandas brasileiras irão para a Europa e mais bandas portuguesas virão ao Brasil. O Edgar falou um pouco sobre isso no programa da Tramavirtual que tratou da produção internacional e que foi ao ar no último mês de abril. Mais sobre a Groovie Records em: Site: www.groovierecords.com Myspace: Número de frases: 47 www.myspace.com/groovierecords Mermão, tu fica aí falando de dor de ouvido pra cá, dor de ouvido pra lá, tu não faz a menor idéia do que é uma dor de ouvido de verdade. Pior foi o que aconteceu com o herculano: entrou uma barata no ouvido de ele quando ele tava dormindo, um baratão cabuloso, e foi parar quase no cérebro. E ficou lá. Morreu e apodreceu dentro de ele. E que cirurgião tirava aquela porra? Era uma barata grande. Quase morreu. Ele falou que não ouvia nada, só o zumbido das patinhas da barata. Sem poder falar, sem nem mexer o maxilar, a infecção chegou no nariz, no olho, na boca e até no cérebro -- veja bem -- e era o cérebro no herculano. Uma barata. Pra tirar tiveram que cortar a orelha fora, enfiar um troço delicadíssimo -- já tava tudo carcomido. Ele mal respirava. E não é que tiraram a porra da barata? Já toda fossilizada, na porta do sistema nervoso central. Parece que ficou 90 % surdo de um ouvido e 20 % do outro. E vai saber o que a barata fez ao cérebro de ele. Mas ele tá de boa. Outro dia jogou uma pelada. Número de frases: 19 Cosuraram a orelha de volta, mas se pega uma bolada servida sai voando aquela porra e Dia desses descobri num importante site de buscas uma ferramenta que permite analisar a intensidade da procura por palavras chaves através de gráficos comparativos em relação a cidades do mundo todo. A princípio a ferramenta nos oferece apenas a informação de que determinadas cidades são as que mais utilizam a ferramenta para encontrar informações sobre certo assunto. Mas é verdade que 'tá analise abre 'paço para uma reflexão ampla acerca de três aspectos importantes: qual o interesse singular de cada região sobre um mesmo assunto, que tipo de informação 'tão buscando e por fim, de quais meios se utilizam para encontrar 'ta informação. Para tentar elucidar a questão central, vamos tomar como exemplo a «pizza», objeto pouco controverso e conceitos muito menos subjetivos em ele implícito. Sabe-se que São Paulo é uma das cidades que mais consomem pizza no mundo, mas ao utilizarmos a ferramenta, veremos que cidades menores dos Estados Unidos despontam como as que mais se utilizam da ferramenta para buscar informações sobre o assunto. São Paulo sequer aparece entre os 10 primeiros. No caso da pizza, podemos 'boçar conclusões bem razoáveis. Sabe-se que os Eua consomem muita pizza também e que sua população tem muito mais acesso a internet, cerca de 55 %, contra pouco menos de 6 % no Brasil. Em uma rápida pesquisa, podemos descobrir também que a população norte-americano utiliza a internet, não apenas para buscar o número do telefone, mas para pedir. Ora, tirando o fato da consagrada origem italiana, a pizza até que é bem global. Podemos visualizar sem medo certa distinção regional na relação entre a pizza, consumo e internet. Legal história da pizza, mas o Overblog é o melhor lugar pra 'sa discussão? Faça a busca por «cultura brasileira». Número de frases: 14 Quem se habilita? Quem imaginaria encontrar, em meio ao movimento do trânsito e à agitação dos inúmeros executivos, secretárias e transeuntes da avenida Paulista, um grupo que se reúne para cantar. Assim acontece, todas às sextas-feiras, numa sala no prédio do Conjunto Nacional -- primeiro edifício comercial da avenida Paulista -- os ensaios do Coral Nacional, grupo formado por o professor Paulo Celso Moura, de 43 anos. O projeto começou em outubro de 2000, como explica Paulo: «Foi uma proposta que eu encaminhei para a administração do condomínio, no sentido de organizar uma atividade para funcionários, ( ...) mas sempre aberto para quem quisesse participar." Atualmente, o coral conta com uma participação de 10 pessoas, não há mais funcionários participando, o perfil se modificou, e o grupo hoje é formado por pessoas que moram perto e trabalham na região da Paulista. Como é o caso da jornalista aposentada, Vanda Frias, de 59 anos, que sempre busca atividades para se distrair. Depois de ter feito um curso de História Contemporânea e uma oficina de Literatura, encontrou no Coral mais uma opção: «Foi um presente enorme que eu ganhei, ( ...) eu jamais teria conhecido tanta música linda." Uma música que a marcou muito foi Pingo d' água, do repertório de música caipira. O Coral Nacional 'tá ensaiando seu repertório para a apresentação de Natal, com músicas como Venite Adoriamo, que você pode conferir um trecho na voz do Coral, aqui no vídeo. Desde do início do ano, o grupo vem se mantendo de forma independente, pois a verba destinada ao Coral por parte do condomínio foi cortada, o Conjunto Nacional apenas cede a sala para praticar. Mas isso não é motivo de desânimo para quem participa; não falta dedicação e bom-humor nos ensaios. Valda, assim, resume: «As pessoas são legais, todo mundo 'tá no mesmo pique, ( ...) Número de frases: 18 você sai daqui planando, é uma delícia!" Pesquisa aponta necessidade de integração de sistemas e 'forços O Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura é um novo modelo de gestão que 'tá em curso atualmente dentro do governo brasileiro. O Programa consiste na seleção, conveniamento e financiamento de diversas instituições -- de ONGs, OSCIPs a Universidades, Prefeituras, etc -- para que 'tas tornem-se Pontos de Cultura. Em o próprio portal do Ministério da Cultura lê-se que " um dos princípios do Programa Cultura Viva é a Gestão Compartilhada. Isso significa que o Programa 'tá constantemente aberto ao diálogo com a sociedade civil e defende que a mesma postura seja adotada por os Pontos de Cultura». Para compreender a dimensão e complexidade de 'ta proposta de gestão compartilhada num programa governamental, foram ouvidas três pessoas com diferentes envolvimentos 'ta nova política pública de cultura: A historiadora Rachel Oliveira que, atualmente, presta uma consultoria em metodologias de acompanhamento, avaliação de projetos e sistematização de informações ao Ministério da Cultura, e que anteriormente trabalhou na Representação Regional do Ministério da Cultura de Minas Gerais; A psicóloga Roberta Scatolini, Secretária de Cultura e orientadora pedagógica do Instituto Paulo Freire, que foi contratado por o Ministério da Cultura para realizar dinâmicas de gestão compartilhada com os Pontos de Cultura e outros envolvidos; E o cientista social José Paulo Neto, que trabalhou como terceirizado para o Ministério da Cultura na Ação Cultura Digital, responsável por o letramento digital e midiático das comunidades dos Pontos de Cultura. A gestão compartilhada é uma forma de administração que envolve duas ou mais instituições no planejamento, na análise, na organização, na solução de problemas, na avaliação e no processo de tomada de decisão. José Paulo acredita que «ela é muito difícil de ser implementada quando não se dá naturalmente». Em a iniciativa privada, muitas vezes, a gestão compartilhada é confundida com a abertura de capital, ou com a privatização de parte das ações de uma empresa. Mas, na realidade, ela é mais complexa, pois, em cada caso, envolve atores, órgãos e instituições diversos. Algumas iniciativas também se organizam em forma de consórcio para executar determinado projeto, mas é preciso analisar se de fato 'tão somente dividindo as tarefas ou executando-as em conjunto. Segundo Roberta Scatolini, a cultura da gestão centralizada é o principal obstáculo para a implementação de uma gestão compartilhada. «É um trabalho que implica em mudança de relações, desapego de poder. As pessoas não 'tão acostumadas a construir, debater, tomar parte coletivamente», afirma a psicóloga. A gestão compartilhada requer uma comunicação ágil e dinâmica para que todas as partes tenham conhecimento das informações relevantes e possam agir quando necessário. As tecnologias da informação e da comunicação apresentam soluções tanto corporativas como governamentais para facilitar o processo dentro das instituições ou empresas, já que cada vez mais, seja num mercado globalizado, ou na diversidade interna de um país como o Brasil, novos modelos de gestão se fazem necessários. Estruturas de acompanhamento do Programa Cultura Viva O Programa Cultura Viva é gerido por a Secretaria de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura (SPPC), na qual atua a Gerência de Gestão do Programa Cultura Viva (GEPRO), responsável por orientar as instituições proponentes no processo de convênio e depois acompanhar os projetos até o pagamento de sua última parcela. Além de 'tas 'truturas sediadas em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, há seis Representações Regionais -- Norte, Nordeste, Sul, Minas, Janeiro e São Paulo -- que englobam em sua função, de acordo com o portal do Ministério, «participar da implementação e acompanhamento das políticas culturais, prestar informações sobre os programas, projetos e atividades do Ministério e orientar e acompanhar sua implementação», entre outras. Ainda há a Ação Cultura Digital, que atuou, entre 2005 e 2007, no letramento digital e midiático das pessoas envolvidas nos Pontos de Cultura. Para tanto promoveu e executou mais de 40 Encontros de Conhecimentos Livres, festivais culturais que reuniam as pessoas em atividades, debates e oficinas, realizando desta forma um acompanhamento do Programa por 'tar em contato direto com as pessoas dos Pontos de Cultura. Entretanto, de acordo com a consultora «Rachel Oliveira,» nenhuma de 'sas 'truturas do Programa Cultura Viva têm uma rotina de trabalho 'tabelecida, a não ser os procedimentos de convênio e acompanhamento da GEPRO, o que dificulta a implementação de fluxo constante de dados», explica. Ou seja, sem uma metodologia de sistematização única entre 'tas 'truturas os dados coletados sobre os projetos encontram-se 'palhados em diversos sistemas, dificultando sua gestão. Rachel, que começou no Programa Cultura Viva por a Representação Regional de Minas Gerais, ressalta que «o trabalho de acompanhamento das Representações Regionais são realizados sem uma orientação 'pecífica, sem uma metodologia única, pois não houve ainda uma formação para 'sas equipes». As visitas técnicas das Representações Regionais eram orientadas por um extenso questionário, que previa colher inúmeros dados sobre cada convênio. Entretanto, «o formato em questionário, apesar de bastante completo, acabava limitando a análise da visita, já que às vezes uma pergunta que não cabia, não dava possibilidades de ser respondida em outro 'paço», ressalta Rachel, que já elaborou um outro roteiro de acompanhamento para 'tas visitas técnicas. «O roteiro proposto por a minha consultoria, ainda 'tá em fase de implementação, mas contempla uma análise que é também subjetiva, política e social, conceitos 'tes que são avaliados desde a proposição do projeto, quando ainda na sua seleção, verifica-se se a instituição contempla no seu objeto formas de assegurar ou de fomentar o desenvolvimento do público atendido com base em 'ses princípios», explica. De fato, uma das mudanças incorporadas por o Ministério a partir do Cultura Viva foi justamente a inversão do processo de seleção de projetos. Tradicionalmente as propostas enviadas ao Ministério da Cultura são separadas em dois envelopes, um com os dados institucionais e jurídicos dos projetos e outro contendo a apresentação, objetivos, justificativa e planejamento. Até o Cultura Viva o envelope dos requisitos burocráticos tinha caráter eliminatório, ou seja, se o proponente não 'tivesse em dia com suas questões fiscais, sua proposta sequer chegava a ser lida. Todas 'tas mudanças 'truturais que caracterizam a experimentação e inovação do Programa fizeram com que " o início do trabalho de acompanhamento se delineasse de forma atropelada, já com bastante problemas e atrasos. Isso fez com que 'forços fossem dedicados a resolver problemas e não a pensar em metodologias», explica Rachel. Ainda assim, a gestão compartilhada foi uma prática freqüente, principalmente no planejamento e execução dos Encontros de Conhecimentos Livres, promovidos entre 2005 e 2006 por a equipe da Ação Cultura Digital, em conjunto com o Instituto Paulo Freire, as Representações Regionais e os Pontos de Cultura. Uma das atividades promovidas durante os encontros eram oficinas, que incluiam dinâmicas em sua metodologia, para trabalhar a construção coletiva do conceito e prática de gestão compartilhada, elaboradas por o Instituto Paulo Freire. Roberta, que ministrou diversas de 'tas oficinas, lembra que «trabalhavámos a gestão compartilhada tanto numa perspectiva dos gestores envolverem os jovens e demais participantes nas decisões, prioridades, planejamento e responsabilidades dos seus Pontos, como também na dimensão da comunidade e do Programa Cultura Viva, onde o objetivo era decidir e planejar em conjunto com a SPPC». O que de fato não ocorreu pois «nunca houve procedimentos comuns e uma compreensão conjunta do trabalho de acompanhamento», ressalta Rachel. Sendo assim, a própria SPPC «optou por adotar a nomenclatura de Responsabilidade Compartilhada, assumindo a dificuldade do poder público e sociedade civil gestarem juntos», conta Roberta. Se o poder público mostrou-se incapaz de incorporar a gestão compartilhada, por outro lado, conseguiu potencializá-la na sociedade civil ao promover os Fóruns Regionais dos Pontos de Cultura, parte da política de empoderamento do Programa Cultura Viva, que possibilitou com que «se construíssem de canais de participação que não exisitam antes», salienta Roberta. Ela destaca a criação da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, que, 'te ano, 'tá responsável por a realização do evento TEIA 2008, que ano passado aconteceu em Belo Horizonte. Esta rápida evolução política deu-se, em parte, porque «já havia instituições que praticavam a gestão compartilhada internamente, antes mesmo de tornarem-se Pontos de Cultura, e outros que passaram a fazê-lo 'timulados por as formações realizadas», ressalta Roberta. Outro exemplo de 'ta prática foi o Encontro de Planejamento da Ação Cultura Digital de Minas, em 2007, cita " José Paulo. «Em a ocasião tivemos a presença de pessoas de diversas regiões do Estado e conseguimos formar uma grade de ação bem distribuída, que contemplou diversos grupos», sublinha. Base de dados comum para gestão compartilhada Na medida em que aumenta o numero de instituições conveniadas, e o objetivo do Ministério é chegar a 10 mil Pontos de Cultura até o final do governo Lula, fica mais obvio que «a SPPC necessita de uma base mais abrangente, que informe dados cadastrais, financeiros, mas também forneça informações sobre a área de atuação, linguagens trabalhadas, público atendido», ressalta Rachel. Além da necessidade de integrar as informações já coletadas por as diferentes 'truturas como a ação Cultura Digital, as Representações Regionais e a SPPC. A consultora analisa que " isto se configura num horizonte de problemas para o Programa, pois os resultados dos trabalhos de equipes de acompanhamento in loco se perdem por falta de entrosamento e de um sistema único de convergência de dados. Somente a partir do resultado desses trabalhos de acompanhamento que é possível avaliar e medir o grau de eficiência de 'ta política pública», explica. Em termos da continuidade do acompanhamento dos projetos, uma vez que já não se realizam os Encontros de Conhecimentos Livres e a equipe da Ação Cultura Digital reduziu-se para cerca de 20 % do que foi em 2005, Rachel acredita que " as coordenações regionais são ainda subtilizadas enquanto possibilidade de gestão e de levantamento de dados. Não houve ainda um planejamento das ações que concebesse a posição 'tratégica de 'sas equipes regionais», explica a consultora. Por a proximidade, as Representações Regionais são importantes para implementar uma base de dados constantemente atualizada, uma vez que a SPPC / GEPRO conta com um recurso humano reduzido para realizar um acompanhamento efetivo dos projetos. «Se faz necessária uma base de dados que também seja uma ferramenta de gestão, que possibilite gerar relatórios, acompanhar de forma rápida a execução dos convênios, construir indicadores, etc», sublinha a consultora. Sua conclusão é que " é necessário definir uma ferramenta de monitoramento e disponibilizar acesso a todos envolvidos com o acompanhamento, assim como criar metodologias e procedimentos de forma que os trabalhos dialoguem. A gestão de dados e informações é condição fundamental para realizar um trabalho de acompanhamento de políticas públicas», finaliza Rachel. O que se observa a partir de 'tas experiências é a necessidade de sistematização e metodologia para a otimização de resultados, algo que a iniciativa privada já coloca em prática por o simples fato de gerar lucro e competitividade. Número de frases: 58 É preciso que o governo também reveja seus modelos de gestão com vistas a executar suas atividades com mais produtividade. Dando continuidade à contribuição para a construção de novos mapas de referências da atual produção musical brasileira, iniciada no texto «DVD Rumos Brasil da Música -- Antônio Vieira», vou falar agora algumas impressões que tive ao assistir Renata Rosa no DVD do» Itaú Cultural. «Bom, quem quiser, pode levantar, pegar os corredores aí, sintam-se à vontade». Com a gentileza típica de uma jardineira, Renata começa sua apresentação cantando sua adaptação para «Piau», música de domínio público. Nascida no bairro do Braz, em São Paulo, em 1973, local de grande imigração nordestina, a cantora e compositora conta passagens importantes de sua carreira, inclusive o seu contato com o cancioneiro de caboclos, índios e rezadeiras do sertão: «( ...) Uma das primeiras influências para mim assim, foi a cantoria de viola, do repente. Mais ainda fascinante por a poesia improvisada do que por a música». Renata foi crescendo, 'tudando música e aí se questionava: «( ...) você 'tá na Escola, cê tem o canto lírico, cê tem MPB, e cadê aquele canto maravilhoso que a gente vê na rua? ( referência a suas viagens nas férias para o Rio São Francisco). As viagens cada vez mais despertaram o seu gosto por as brincadeiras populares. Foi freqüentando um Cavalo Marinho que aprendeu a tocar rabeca. Sobre o instrumento, seu mestre dizia: «Isso aqui não se ensina, isso aqui se aprende». A segunda música do DVD é Mucunã de Guilherme Medeiros. Outra atividade de importante influência na construção de seu repertório próprio e a participação no Maracatu Rural do município de Aliança. «Pra eles o grande barato é que eu sou mulher, não existe mulher em 'ta tradição», comenta a cantora. Em a minha opinião, o pessoal do Maracatu não valoriza apenas o fato de ela ser mulher, mas a sua beleza, o seu modo de vestir as cores que canta, o sotaque carregado de paixão por a simplicidade, por o riso, por a brincadeira, por a música. Por fim, Renata e seu grupo tomam a platéia e quem assiste, como eu, é tomado por a alma do folguedo presente em seu trabalho. Número de frases: 19 Para ouvir mais 'ta paulista de alma nordestina, só acessar o http://www.myspace.com/renatarosa Há alguns dias participei da festa junina da 'cola pública onde meu filho 'tuda. Além dos tradicionais doces e bolos de milho, a festa agradou por o aspecto cênico. O ponto alto foram as apresentações da meninada, preparadas previamente por as professoras. As mestras, aliás, 'tavam todas lindamente vestidas de caipira. A terceira série apresentou uma coreografia para a música «Coração bobo», do Alceu Valença. Meu coração zabumbou dentro do peito, como costuma acontecer em 'sas ocasiões. Em outra apresentação, as crianças da quarta série dançaram quadrilha junto com os pais e as mães. Foi muito bonito e mostrou a capacidade de organização das professoras, que conseguiram ensaiar pais e mães normalmente com agendas incompatíveis em virtude do trabalho. A festa foi emocionante e despertou em mim idéias sobre cultura, educação e sobre o papel da 'cola. Estamos vivendo um momento em que o debate sobre educação, começa a ganhar 'paço na mídia e na agenda da cidadania. Fala-se muito de cotas, necessidade de mais recursos financeiros e principalmente da baixa qualidade do ensino público. Em geral, pouco se diz sobre a necessidade da arte na 'cola. A visão de qualidade que 'tá imperando em 'sas discussões é instrumental. As crianças têm de dominar determinado conhecimento para o país ter bons trabalhadores, profissionais liberais, empresários ... Um dia descobrimos que nossos alunos queimaram um índio, 'pancaram uma mulher negra e não sabemos o motivo. E olha que os documentos oficiais da educação brasileira falam em trabalhar com os jovens a «'tética da sensibilidade». Mas como tem sido difícil para as 'colas fazerem isso! Refiro-me aqui apenas àquelas que tentam, pois muitas sequer cumprem o papel de transmissão de conhecimento, que dirá de sensibilizar. Felizmente, há muitos professores tentando formar mentes livres por meio da arte, do 'porte, da literatura. Sensibilizar por meio da educação hoje não é fácil. É nadar contra a correnteza. É ensinar a gostar dos sabores da comida brasileira, ao invés de levar o fast food para a lanchonete da 'cola. É cantar e dançar Alceu Valença e deixar É o Tchan fora da sala de aula. É mostrar um filme brasileiro para as crianças, ao invés de render-se ao bombardeio midiático do Homem Aranha. Educar, afinal de contas, exige conhecimento, paixão e muito 'forço, pois muitas vezes há resistência. Nem tudo se aprende com prazer, mas é possível aprender muita coisa prazeroza. A festa junina me fez, mais uma vez, constatar isso. Sei que a festa não acabou ali. Depois vêm as redações, as discussões sobre as apresentações. Tem até o Vale a Pena Ver de Novo, quando as coreografias são reapresentadas durante a semana para que os pais possam ir revê-las. Acima de tudo, existe a certeza de que as crianças nunca vão 'quecer aquele momento, como eu nunca 'queci a primeira vez que dancei quadrilha na 'cola. O nome da menina que dançou com mim era Ana Paula ... Então, é preciso recolocar o debate sobre qualidade na educação. Além de jovens preparados para passar no vestibular, precisamos de homens e mulheres capazes de conviver, de pensar, de se emocionar e, ainda, que saibam selecionar. Afinal, informação é o que não falta. A grande tarefa da 'cola hoje não é empurrar mais conteúdo, e sim ensinar a 'colher qual conteúdo, ou, melhor ainda, levar as crianças a produzirem conteúdo. Sabemos que isso é uma tarefa árdua. Quando o mercado oferece tudo, como ensinar a optar? Quando a indústria do entretenimento invade as casas com toda sorte de lixo, como ensinar a gostar de poesia? Só vai conseguir ter sucesso em 'sa empreitada quem evitar o lugar comum. A Escola Classe 18 de Taguatinga (DF) não deixou a festa junina cair no trivial. Mostrou que é possível fazer educação de qualidade com beleza, poesia, muita animação e sem lixo «cultural», é claro. Número de frases: 42 Preparativos Antes de mais nada devo dizer que 'te ano foi low-profile, fiquei «só no sapatinho» e em compensação gastei o mínimo. O meu maior gasto (de uma vez só) foram R$ 23 reais por uma camisa do Império Serrano com a Frida Kahlo 'tampada. O enredo deste ano era " Ser diferente é normal: o Império Serrano faz a diferença no carnaval». Não adiantou: a 'cola acabou sendo rebaixada junto com a Estácio de Sá. De resto foi gasolina para o carro, algumas latinhas de cerveja (latinha a R$ 2, o latão (R$ 2,50) 'quenta pra quem como eu tá bebendo devagar), e uns tira-gostos de rua. Já tinha feito meu aquecimento no Gigantes da Lira que saiu no sábado antes do carnaval aqui na janela de casa, e também no Monarcas na Glória e Rio Carioca dois blocos que se fundem por a segunda vez e saem da rua Ipiranga (também em Laranjeiras) em frente a loja Maracatu Brasil. Uma parte do bloco é dos alunos de percussão da loja, e a turma mais «profissional» é constituída por uma ala de percussionistas que saem em várias 'colas de samba e são liderados por o Mestre Odilon Costa, da Grande Rio. Em o ano passado Selminha Sorriso (porta-bandeira da Beija Flor, campeã deste ano) desfilou no bloco. Já ia me 'quecendo que antes do Rio Carioca tínhamos passado, à tarde, na concentração do Bloco Nem Muda nem Sai de Cima, às margens do que restou do rio Maracanã, ao lado do bar da dona Maria, na Rua Garibaldi, nos limites da grande «Tijuca». «Muda» leva 'se nome pois era o ponto onde os cavalos que puxavam os bondes que iriam subir o Alto da Boavista eram trocados. O bar da Dona Maria é famoso por ser o «'critório» do bloco e ponto de encontro de dois parceiros compositores, festejados por os cariocas: Moacyr Luz e Aldir Blanc. Aliás é ali mesmo na rua Garibaldi que os dois moram. A vantagem do «Nem Muda» é que apesar de ter o prestígio da presença de compositores célebres (a homenageada deste ano foi Beth Carvalho) ainda mantém um perfil de bloco de amigos e moradores com relativamente pouca gente «de fora». Minha primeira providência foi acessar a Agenda do Samba e Choro que organiza o Guia Comentado do Carnaval de Rua do Rio e que tem sempre a informação mais confiável. Me programei para abrir o carnaval no primeiro minuto de sábado com o bloco do Bip-Bip, um bar aqui do Rio, situado em Copacabana onde se reúnem músicos de Choro e samba. Mas ao contrário da minha filha que «começa» a sair de casa à meia-noite, perdi o pique e fiquei morgado, ainda mais que pretendia ir ao Bola Preta no sábado de manhã. Final do Bola Preta: uma Serra Pelada em plena Cinelândia Em o sábado, acabamos saindo muito tarde, mais de meio-dia, fomos ver se ainda havia o Cordão do Bola Preta. Emergi das 'cadas do Metrô na Cinelândia para ficar literalmente 'tupefato: Imaginem algo como 500 mil pessoas 'premidas centímetro por centímetro, num calor de 42 graus, numa excitação altíssima, o chão completamente enlameado numa mistura de mijo, cerveja, lixo e lama, vendedores berrando suas ofertas de cervejas, cachaças e misturas variadas e aquela multidão enlouquecida no final da festa. Um 'petáculo dantesco. como se as «formigas» de Serra Pelada tivessem largado seus sacos de terra e lama e começado uma dança carnavalesca por a descoberta do maior veio aurífero do mundo! Gente de todas as cores, formatos, idades e tamanhos. Milhares em branco e preto, as cores do Bola. Nossa rotação ainda era muito baixa pra encarar aquele apogeu. Entendi agora porque o pessoal chega muito cedo (9 horas da manhã é o horário oficial): é pra conseguir sair antes de 'ta concentracão final em plena Cinelândia. Aliás é isso que faz o Bloco Embaixadores da Folia que se reúne de madrugada (às 5 horas da matina!) para encontrar o Bola Preta em seguida. Um reservado de papelões precariamente equilibrados formavam uma casinha com uma placa «Xixi no bueiro R$ 0,50». Não há banheiros químicos que dêem conta. Aliás em quantidade sempre subdimensionada por a Prefeitura. A ordem era sair de ali rapidamente. Acredito que levamos uns 20 minutos para atravessar a multidão em direção à Lapa. A idéia era 'perar a saída do Bloco do bar Carioca da Gema na rua Mem de Sá, quase 'quina de Rua do Lavradio. A Lapa, que nos finais de semana já é um grande Parque de Diversões Noturno a céu aberto era isso mesmo só que, agora, de dia! Em frente ao Carioca da Gema, um carro de som altíssimo (à maneira dos trios elétricos) já se preparava obstruindo metade da pista da Avenida. O povo já tinha tomado conta de todo o 'paço nas redondezas, enchendo os bares e atravessando as ruas com a displicência de quem desta vez tinha a prioridade, em vez dos carros. Um ônibus vazio forçava a passagem devagar. Pendurada na porta, meio corpo para fora, a trocadora com uma cerveja na mão cantava um samba sorrindo para a multidão de pedestres. Bloco do Carioca da Gema: alto nível musical A Rua do Lavradio era um mar de mesas e cadeiras colocadas por os ambulantes vendedores de cerveja, os bares lotados e ... chegando gente! O nosso interesse por o bloco do Carioca da Gema vinha por a figura de seu coordenador musical Paulão 7 Cordas, diretor musical de Zeca Pagodinho e um dos músicos mais conceituados do setor no Rio de Janeiro. Com ele a qualidade musical do Bloco 'tava garantida. Em o cavaquinho avistamos «Marcio Huck Almeida», um dos mais respeitados no instrumento e o Marcelo Bernardes, saxofonista e flautista. Um naipe de metais subia o carro e as cordas também. A bateria já 'tava a postos no chão -- " É por aqui que vamos ficar!" A quantidade de cantores também nos prometia um repertório sem interrupção. Estavam programados Moyses Marques, Ana Costa e Stenio (Puxador de Samba), Marquinhos China, Pedro Miranda e Agrião. às quatro e meia o «trio elétrico» começa a se movimentar e pergunto ao Paulinho Figueiredo, produtor do Carioca da Gema, qual era o itinerário. Bom, aí são aquelas coisas que só o Rio de janeiro oferece: o carro iria dar uma ré para em seguida entrar na Rua do Lavradio! E não houve multidão ou trânsito que atrapalhasse a manobra. Levado por centenas de manobristas e guardas de trânsito o carro entrou na Lavradio com a bateria mandando brasa! Em frente à Fundição Progresso o bloco 'tacionou e o «desfile» se transformou num grande baile popular com toda tranqüïlidade. O 'paço foi todo cercado não permitindo a entrada de vendedores que ficaram no entorno. Durante todo o tempo que lá ficamos (com uma fugida ao restaurante Gohan para comer um peixe grelhado com legumes) não 'cutamos sequer uma música ser repetida. A qualidade do repertório era realmente fantástica. Tudo que de bom foi produzido em matéria de samba nos últimos e nos velhos tempos foi cantado por o bloco. A qualidade e performance dos instrumentistas me levava a pensar as vezes que aquilo era playback. Mas era só olhar com atenção e ver que era tudo ao vivo! A os vivos! Voltamos para casa e ainda tivemos que desviar do Laranjada Samba Clube (com gente da bateria do G.R.E.S. Unidos do Santa Marta) fazendo seu desfile oficial na Gal. Glicério. Uma furada em Vila Isabel Não contei pra vocês, mas eu tinha uma tarefa diária em 'se carnaval: Nunca tive nenhum animal doméstico pois achava que isso acabaria se transformando em trabalho e aborrecimento. Pois sobrou pra mim dar uma injeção diária num gato com diabetes! O horário tinha que ser mais ou menos constante -- por volta de meio-dia. Somado ao calor infernal que fez em 'ses dias, resolvemos que só iríamos sair de casa quando sol baixasse, lá por as quatro da tarde. Consultando o nosso Guia do carnaval vimos que o Bloco Sorri prá Mim, coordenado por o percussionista Marçalzinho (da família Marçal que começa lá na década de 1940) com membros da Escola de Samba Vila Isabel e percussionistas de alta 'tirpe iria sair na Av. 28 de Setembro naquela tarde. O guia terminava assim: «Bela pedida para conferir a nobre arte da percussão brasileira." Depois desse argumento era entrar no carro e partir para a Vila. Em lá chegando, silêncio total. Movimento sim, mas fraquinho. Famílias fantasiadas por a 28 de Setembro mas nem sinal de algum bloco se preparando. Fomos caminhando até quase a Praça Barão de Drummond (onde foi inventado o jogo do bicho) e nada. Aproveitei para dar um pulo no Bar do Costa mas ... fechado. Em frente ao Petisco da Vila um coreto com uma orquestra mambembe tocava os hits do carnaval de todos os tempos. Um trumpete e um trombone meio que desafinados e um surdo suando embaixo do sol. Por o jeito não ia ter Sorri pra Mim. Mas a viagem não foi de todo perdida, olhem o que encontrei: No meio da rua junto com os vendedores de cerveja em caixas de isopor, uma carrocinha de um japonês (ou chinês) vendendo Yakisoba! Correndo todos os riscos pedi logo um de camarão e com um par de hashis e tudo e com bastante shoyo, por via das dúvidas, traçei o almoço. Tá certo, não 'tava fantástico, mas juro, tava bom. Saindo meio desconsolados ainda acompanhamos da calçada a passagem de dois blocos que se uniram para um desfile único, o Gargalhada e o Babaçu abunda e a Cerveja também. Lógico que a fusão de dois blocos engordaria em muito o desfile, certo? Nada disso. Somando tudo não passava de umas 30 pessoas! Todas devidamente paramentadas com as camisetas de seus blocos com idades variando entre 5 e 80 anos. Talvez duas famílias com seus amigos e parentes mais chegados. É assim que começa, guardem 'ses nomes para daqui a 5 anos. Praia de Ipanema O bloco Bangalafumenga no Jardim Botânico parecia impraticável para chegar de carro àquelas alturas (e as notícias posteriores confirmaram). Resolvemos arriscar a praia de Ipanema para pelo menos pegar um ventinho. Chegamos e fomos direto ao mar pegando ainda um restinho do Afro Reggae que resolveu 'te ano sair «no Rio de Janeiro» como eles dizem. Av.. Vieira Souto cheia, a praia lotada e lá na frente a rabeira do Simpatia é quase Amor, que para o nosso «approach» ficou impraticável. Quando participei das reuniões de coordenação do Simpatia há muitos anos, quando saíam 5 mil pessoas, lembro-me que, todo ano, se dizia que aquele seria o último, tava crescendo demais, não tinha mais sentido. O bloco continua aí. 50 mil pessoas é a 'timativa da polícia para o desfile. Avenida Presidente Vargas: Escolas aguardando a entrada Em a segunda-feira, mesmo 'quema inicial, gato diabético e 'perar o sol descer. No dia anterior tínhamos passado por a Pres. Vargas e nos interessamos por os carros alegóricos. Sábia Andréa que só me levou para bons programas anunciou: «vamos ver os carros!" O 'quema dos Carros Alegóricos das Escolas na entrada da Marquês de Sapucaí é bastante inteligente: de cada lado da avenida se colocam duas 'colas que entram para desfilar alternadamente. Elas se postam antes e depois da Sapucaí denominados lado do «Balança» as de número ímpar e lado dos «Correios» as que recebem o número par (são os prédios de referência). Quando a 'cola 'tá realmente pronta, os carros entram num corredor protegido com grades para evitar qualquer tumulto ou sabotagem. Mas no 'tágio anterior ela fica «na rua» podendo ser visitada por toda a população que não pode pagar os ingressos. Aliás, do outro lado do Canal do Mangue arquibancadas de madeira são liberadas para quem quiser assistir gratuitamente a um pouquinho do que é possível. Mas atravessando a passarela você fica lado a lado com todos os trabalhadores e componentes das 'colas que 'tão ali terminando a construção dos carros na iminência da entrada para o desfile! Visitamos por exemplo, o pessoal da Portela que, às 18 horas, 'tava serrando, colando, encerando e dando pintura em Todos os carros, para um desfile que 'tava previsto para a meia-noite! É interessante notar os niveis de acabamento das Escolas. Em algumas você percebe nitidamente que o efeito final será fantástico mas que olhando de perto o acabamento deixa a desejar. Em outras a riqueza de materiais é visivel: usa-se um material caro em vez do ouro ser «de pintura». Em outras, como a Beija-Flor, a riqueza é visivel pois, além dos materiais, o acabamento é perfeito até aos mínimos detalhes de centímetros em carros que tem 10 metros de altura. Um belo passeio que interessaria a designers, artistas visuais e artesãos de modo geral. Blocos na Avenida Rio Branco Embora 'te ano tenhamos ficado pouco na Rio Branco, considero o verdadeiro Carnaval Popular do Rio de Janeiro. Em vez de sair correndo atrás de blocos, eles 'tão todos ali, vindos de todos os bairros. mais de 40 blocos chamados «de embalo», alguns já lendários como o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça e Os Arengueiros (com parte da bateria da Mangueira) além de outros animadíssimos com o Pagodão de Madureira, Boêmios de Irajá, Bloco do Bigode, Embaixadores da Folia e muitos outros com dez, quinze, vinte anos de existência. O 'quema é muito simples, meus amigos foliões: você vai buscar o bloco na altura da Pres. Vargas e sobe sambando com eles até perto da Cinelândia onde encerra-se o desfile. Aí você volta rapidinho para o começo da brincadeira, pega outro bloco e sobe de novo até a Cinelândia. Isso tudo encontrando por o caminho as figuras mais engraçadas e raras que você pode encontrar num Carnaval e que 'tão ali com o coração aberto para a diversão e a alegria. Tirando alguns grupos de Clóvis (versão carioca dos Clowns) que podem assustar quando passam em bando batendo seus balões no chão, é tudo muito relax. Recomendo. Tocamos para Copacabana já bastante cansados mas compromissados com o Rancho Carnavalesco Flor do Sereno que realiza seu baile popular ao ar-livre, na segunda de carnaval, em frente ao Bar Bip-Bip na Rua Almirante Gonçalves sob a batuta do Maestro Pedro de Moura Aragão. O som 'tava bom e deu pra pegar Alfredo Del-Penho ao microfone cantando as marchinhas da peça Sassaricando, mas o calor era insuportável, num 'paço exíguo e resolvemos 'pairecer na Av.. Atlântica. Resumo Em a terça, descansei trabalhando pois tinha o projeto gráfico de uma capa de CD para entregar. Saldo final do nosso Carnaval: Melhor música: Bloco do Carioca da Gema; Melhor visual: Visita às 'colas na Pres. Vargas; Maior animação: Av.. Rio Branco. A crítica vai para a Prefeitura e o Governo do 'tado que ainda não entenderam a importância do Carnaval de Rua no Rio. Ano que vem tem mais e 'pero com mais disposição. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país. Número de frases: 154 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo .... a cidade do terror " ¹ Em os anos 80, minha mãe trabalhou como apresentadora de diversos programas de televisão e muitos de eles eram na TVE, a TV pública da Bahia. De lá pra cá, a programação da TVE melhorou, porém, talvez, por ser pública, a coitada ficou sempre em segundo plano enquanto o governo do 'tado preferia investir na TV Bahia, a TV particular da Bahia. Em dezembro de 2007, fui na TVE fazer uma pesquisa e, enquanto aguardava na recepção, vi chegando uns trabalhadores de alguma loja de varejo carregando uma mesa. -- Coloca onde?-- perguntou um de eles. Era a mesa nova da recepção. Mesa em compensado, cinza. A tradicional para 'critórios, com furos para cabos de computador e telefones, duas gavetas com chaves ... bem básica. E feia. Os próprios trabalhadores se encarregaram de levar a outra velha embora. Depois de alguns segundos de mesa nova, a recepção 'tava bombando. Nunca achei que uma mesa daquela pudesse atrair tanta gente. Veio gente de todos os setores ver a mesa nova da recepção. Começou com uma funcionária da sala do lado, que passou por a recepção pra ir beber água. Percebi o tamanho do problema de infra-estrutura que passa a nossa TVE. -- Mesa noooooooovaaaaaaaa ... Uau, que chique!-- disse a tal funcionária, que foi contar a novidade para o pessoal de sua sala, que foi contar a novidade para a gente de outra sala, que também foi contar sobre a nova mesa para outros funcionários da TVE, e a notícia de que uma mesa nova fora instalada na recepção virou um evento. Jurei que a qualquer momento alguém iria passar servindo um prosecco. E a mesa lá, parada, quieta e horrorosa. Um amigo que tocou com mim numa banda de cover dos Beatles montou uma banda com mais duas pessoas e gravou um disco de 12 músicas. O disco foi muito bem feito, produzido musicalmente por andré t e Fábio Cascadura, e é cheio de participação 'pecial. Como a banda, que se chama Aguarraz, é só eles três (violão, baixo e voz), eles precisavam de outros músicos para fazer shows e me chamaram para tocar bateria. Aceitei o convite por ter gostado do disco e, principalmente, por a facilidade de não ter de passar por o processo de composição. Só precisei ouvir as músicas e decorá-las. Pela primeira vez 'tou tocando como músico contratado. O que tem sido uma experiência sensacional. Durantes os ensaios, veio o convite para a banda tocar no Festival de Verão desse ano (2008), o maior festival do Brasil, segundo a TV Bahia, organizadora do evento. Eu já tinha tocado em 'se evento no ano anterior, com a minha antiga banda, quando chegamos no horário marcado por a produção para passar o som, pela manhã, e não tinha absolutamente ninguém da produção para nos recepcionar. Nem técnicos de som, nem os faxineiros, pois o palco ainda 'tava imundo, cheio de latas de cerveja por o chão, da festa da noite anterior. A banda ficou eufórica com o convite e eu aconselhei a irem 'perando o pior, pois já tinha sentido na carne a falta de profissionalismo e a quantidade de pessoas 'túpidas que trabalham na produção desse evento. Muitos de eles, a 'magadora maioria, são trazidos de fora, principalmente de Rio de Janeiro e São Paulo. A passagem de som de 'sa vez 'tava marcada para as 13 horas. A van nos pegaria às 11:30. Ligaram minutos antes dizendo que mudou. Seria às 14. Ligaram depois dizendo que mudou de novo. Agora seria às 16. Chegamos ao Parque de Exposições, local do evento, às 15 horas. Só começamos a passar o som às 17:30. O Festival de Verão, quase todo ano, se repete. É nada mais que uma prévia do carnaval baiano. São sempre os mesmos. Ivete foi convocada para tocar no mesmo dia que a gente. Ela iria comemorar a sua décima participação no evento. Incrível a coincidência, era justamente a décima edição do evento. Ano passado eu toquei na mesma hora de Gloria Gaynor, que teve seu último sucesso nos anos 70. Esse ano o festival se modernizou, trouxe Eagle-Eye Cherry, que teve seu último sucesso nove anos atrás. Para mostrar que é gente boa, o Festival de Verão montou o Palco Tendências, que é onde tocam as bandas novas. Foi em 'se palco que toquei ano passado e tocaria (toquei, pois o show foi ontem 16/01/08) na edição de 2008. Fomos 'calados para dividir o palco com a ex-cantora da Timbalada, Amanda, que fecharia a noite; com a banda de reggae Ponto de Equilíbrio, do Rio; e, para manter a verve do evento, com a banda Tihuana, autora do sucesso Tropa de Elite. Sucesso 'se do ano de 2000, mas que voltou por causa do filme ... Só subimos para passar o som às 17:30. A banda Tihuana ficou no palco por duas horas, regulando os microfones de cada chocalhinho da percussão. Aliás, os roadies da banda faziam isso, pois eram eles quem passavam o som. Os músicos 'tavam no hotel. Após a passagem de som da Tihuana, o palco finalmente foi liberado para a gente. Eles levaram a bateria de eles enquanto as outras bandas dividiriam a bateria fornecida por o evento. Sentei na bateria, montei as coisas e fiquei 'perando a ordem do nosso técnico de som para que eu começasse a tocar. Estava eu, 'perando os problemas de cabos que não funcionavam serem resolvidos, quando chegou o baterista da banda Tihuana. Ele foi conferir se o roadie de ele fez tudo certo. Sentou na bateria, no meio da nossa passagem de som, e começou a tocar. Ainda ligou um ventilador (que faz parte do seu kit), para o seu cabelo lambido ficar balançando enquanto toca. Abismado por a falta de educação do baterista do cabelo 'voaçante, fiquei olhando para ele, incrédulo, assim como todos no palco, quando fui surpreendido por um cara que nunca vi na vida, se mostrando mal humorado e impaciente, me cutucando: -- Venha cá, mermão, não dá pra você passar o som com ele tocando, não, é? Em aquelas frações de segundos que meu cérebro recebeu 'sa mensagem, tentei entender se ele tinha perguntado aquilo mesmo. -- Passar o som de 'sa bateria com outra bateria sendo tocada?-- perguntei para confirmar o absurdo. -- Que é que tem?-- confirmou ele. Eu juro que, por uma outra fração de segundo, pensei em explicar o porquê que aquilo era impossível, mas, diante de tamanha ignorância, e, principalmente, falta de educação, achei que seria impossível fazê-lo entender. Depois descobri que ele era o Diretor de Palco do evento. Fiquei sem saber se, para ele 'tar ali, contratado como Diretor de Palco, a organização do evento o contratou por: (a) ele entender de palco e não entender nada de música; (b) por ele não entender de palco e muito menos de música; (c) por ele ser parente de alguém do alto 'calão da produção do evento. Trinta minutos após o início de nossa subida ao palco, e quinze após a saída do baterista do cabelo voador, o Diretor de Palco mandou, ordenou e exigiu que a gente saísse do palco imediatamente. Não passamos nenhuma música. O dia todo foi agendado para 'se evento e tudo foi em vão. Quando o filme da desorganização, do desrespeito, dos atrasos e da série de erros sucessivos passou por a minha cabeça, não me contive, desci da bateria e fui falar com o Diretor de Palco. -- Ô, amigo, como é seu nome?-- disse eu, no mesmo tom em que ele veio conversar com mim pela primeira vez em sua vida. -- Para quê você quer saber?-- respondeu ele, com seu olhar de «boto para a fudê e você é um músico de merda de uma banda de rock da Bahia de merda e eu tô aqui te dando 'mola pra você tocar». -- Para a eu poder falar mal de você -- respondi. -- Vicente -- respondeu ele, com olhar corajoso. -- Vicente, seu nome rima com incompetente. Você é incompetente pra caralho. Virei as costas e saí, ouvindo os seus protestos de «e você bota para a fudê, você bota para a fudê ...». Imagino que ele tenha tido problemas na montagem do palco, mas nada justifica a sua grosseria e falta de educação. Gilberto Gil, o Ministro da Cultura, que também tocou no mesmo dia que a gente, 'tava passando o som no exato momento de 'sa discussão. Ele mesmo passava o som junto com sua banda. Ele 'tava, enquanto sua banda executava o instrumental de Toda Menina Baiana, dizendo no microfone «Bahia .... åBahiiiiiia ...». Em alguns «Bahia», ele acentuava o» BA», em outros o «Ia». A melhor coisa do Festival de Verão é que ele tem vários palcos de 'molas. Tem 'mola pra DJ, 'mola para a banda de pagode, 'mola para a Ivete ... e todos os palcos tocam simultaneamente e são pertos um do outro. Ano passado, todo fim de música, eu ouvia um «Rááááááááái» de alguma banda de pagode no palco do lado. Depois de passagem de som que não teve, voltamos para casa em dois carros disponibilizados por o evento. Em o que eu fui, um Doblô, o motor morria e o motorista rodava a chave com o carro ainda em movimento, acionando o motor de volta. Fomos assim do Parque de Exposições até a Barra. Foi só o tempo de todo mundo tomar banho e se encontrar de novo para voltar ao evento para tocar. Uma parte da equipe foi no Doblô. Apu, nosso técnico de som de palco, foi em ele. De 'sa vez eu fui no outro carro. -- Se ligue que 'se Doblô tá bixado. Toda hora o motor morria, quando eu vim em ele -- disse eu. Apu e outros dois roadies da banda chegaram atrasados no evento e receberam uma bronca grosseira de uma paulista peituda chamada Gabriela, maquiada e com uma aparência «Luana Piovani». -- Estão atrasados, que absurdo, assim não é possível, tem que ser profissionais ...-- disse ela, nervosa e gritando. Apu, calmo como ele é, 'perou ela 'pernear à vontade pra depois dizer: -- Cheguei atrasado porque tive de empurrar o carro que Você alugou pra servir a gente. Infelizmente, acredito que, enquanto ela tiver aquele par de peitos, ela vai continuar sendo contratada (ou outras do mesmo naipe) para gritar, mandar e desmandar, achando que é assim que se conduz um evento. Tudo bem, é melhor que um Vicente fazendo o mesmo. Chegamos ao local do show e pude ver um pouco do show da Tihuana. Me questionei se eles tocariam a música tema do filme mais de uma vez no show, mas só tocaram uma vez, a última do show, fazendo o público 'perar até o fim. Durante 'sa música, uma briga se formou. Meninas saíram correndo, enquanto meninos se 'murravam ao som de «tropa de elite osso duro blá, blá ...». Os seguranças do evento, 'perando loucamente por 'se momento, já chegaram de bicuda pra separar a briga. Fiquei de longe assistindo a cena e, obviamente, financiando a violência. O show foi tranqüilo. Tinha pouca gente, mas os que 'tavam presentes prestaram atenção; o Diretor de Palco não apareceu; o som começou ruim e depois ficou bom, e o show foi divertido. Depois soube que o show passou na TV Salvador. Ivete não cedeu os direitos de imagem e, como o show de ela foi no mesmo horário que o nosso, tiveram de colocar a gente no ar. Ganhamos 'mola e, sem querer, uma mesa em compensado cinza. Ainda rolou uma pequena aparição no Jornal Hoje. A o fim do show, deu pra ouvir Ivete cantando «E aí, chupa toda, ai, toda, oi, chupa toda, ai, toda ...». Depois fui saber que era ela e o ministro juntos. Em a ocasião do Festival de Verão do ano passado, dei uma entrevista para um amigo, Tiago Ramone, que trabalhava para uma publicação ordinária, oriunda de um programa de TV ordinário, chamado Pida!, para falar justamente do nosso show no evento. Durante a conversa, que foi por a internet, ele me fez a clássica pergunta «Como é tocar rock na Bahia?». Já viajei pra tocar com a brincando de deus em São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Recife ... e todos perguntavam «Como é tocar rock na Bahia?». Para Tiago, respondi que era tão difícil quanto ser administrador na Bahia, publicitário na Bahia, professor na Bahia, atleta na Bahia ... A campeã da travessia Mar Grande-Salvador desse ano tem 15 anos, morou na Bahia até os 14 e tem uma tatuagem da UNISANTA no ombro, instituição santista que a patrocina. Em a edição seguinte da revista do Pida!, que tinha Durval Lelys na capa e um ensaio fotográfico com Paullinha, a cantora da banda Levada Louca, tinha uma seção de «frases do mês» e a minha resposta sobre como é fazer rock na Bahia 'tava lá, entre aspas. Mas, embaixo da minha frase, 'tava uma outra frase, que resumia melhor ainda a Bahia: «A abertura é o começo da fechação». Léo Krett, dançarino (a) do Saiddy Bamba, em entrevista ao jornal do Pida! (1) Controle Total, de Marcelo Nova e Gustavo Mullem. Número de frases: 145 Há leituras que 'cavam a gente. E 'cavam desde o brejo do barro mais fundo. Fui procurar o meu avô e a sua saga tropeira no fundo do poço da memória de um Brasil perdido, a sua travessia em definitivo do rio Paranaíba (divisa natural de Minas e Goiás), as águas do grande rio dividindo as Minas Gerais de sua alma 'praiando-se nos sertões calejados de Goiás -- onde tantas almas nossas fecundaram. De a plaqueta vermelha que ostentou o carro de boi do meu avô no passo duro da 'trada (Carro de boi 108, Araguari, 1944), levantando o poeirão contínuo do sertão de Minas e Goiás -- e queria tanto saber o nome de seus bois, para pronunciá-los poeticamente como num mantra de tocar a raiz funda da árvore de nossa história familiar!-- ao livro de Hugo de Carvalho Ramos, Tropas e Boiadas. De a história de meu avô a Hugo de Carvalho Ramos, uma jornada dura que tem me instigado e mexido muito com as emoções e a imaginação. De a história de meu avô a Hugo de Carvalho Ramos, um baque seco, como se eu tivesse caído do lombo de um cavalo indomável, daqueles que meu avô amansava e que só respeitavam a sua autoridade incontestável. E sigo justamente 'sa poeira vermelha da 'trada do Brasil de dentro, poeira do sertão engolido por o tempo, soterrado por as máquinas que apagaram, não de todo, o rastro das boiadas. Ainda é uma cena comovente de se ver: a comitiva tangendo boiadas no concreto do asfalto. Tempo desses, topei com duas comitivas de boiadeiros. Uma seguia rumo Norte, entre os municípios de Goianésia e Uruaçu. A outra, no Vale do Araguaia, próximo a Aruanã. Em a paisagem, apenas uma mancha ou outra de cerrado preservado quebrando a monotonia das monoculturas de exportação a perder de vista, a soja e os canaviais num verde sem fim. E a ternura de olhar a inusitada miragem da boiada em seu lento arrastar por o asfalto e os boiadeiros ponteando a manada ... Ohhh! Puxo as rédeas do olhar e empaco. Deixo a saga de meu avô no fecundo poço da memória. E sigo a galope o sertão pintado por Hugo de Carvalho Ramos no começo do século passado, aqueles idos de 1914 a 1917. Acredito que, assim como eu na minha procura, Hugo foi dar no mesmo brejo fecundo do barro fundo, o da memória afetiva. Em o mundo do encantado sertão de Hugo de Carvalho encontro o sertão desbravado por o meu avô. O mesmo além Paranaíba, histórias que ouvi, as trilhas abertas por os cascos dos bois onde o traçado do caminho não beirava nem a intuição de 'trada -- as perdidas 'tradas do boi, a rota do comércio entre as gentes das bandas de cá e de lá, na mesma bacia das almas, pois é difícil encontrar um goiano que não tenha um pé remoto em Minas. Aqueles homens de sertão, no calejado das rédeas de domar animais, brabezas de gente e de bicho, um arcaico Brasil conduzido por fazendeiros que fundavam seus reinos com mãos de ferro, 'ticando cercas de arame farpado a perder de vista no cerradão goiano. O coronelismo falando grosso por 'ses rincões perdidos de Deus, sacramentando a defesa de interesses financeiros e políticos em alianças que asseguravam o domínio das terras, os privilégios de classe e o poder da aristocracia na província. E o falar grosso era o império da força bruta, do chicote, a lei do 38, das brutalidades que sacramentavam os domínios do latifúndio. Sem contar ainda das 'púrias relações de compadrio entre os donos de terra e os agregados, mascarando a exploração com todos os componentes da servidão de nossa herança 'cravocrata. Fui procurar o meu avô no recorte literário daquele mundo por onde andou e desandou muito dos nossos genes em Tropas e Boiadas. Livro que vez ou outra entra na lista dos indicados para os vestibulares das universidades goianas, que (in) explicavelmente passou ao largo de minhas mãos e dos meus interesses nos tempos do colegial e da faculdade. Nascido em 21 de maio de 1895, na Vila Boa de Goiás, antiga Capital da Província e do Estado, Hugo de Carvalho 'tudou no Rio de Janeiro, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais. Morreu jovem, aos 26 anos de idade, no dia 12 de maio de 1921. Mário de Andrade, num daqueles congressos de 'critores, em 1942, reverenciou Tropas e Boiadas, única obra de Hugo, como leitura 'sencial para quem quisesse compreender o Brasil de dentro, o Brasil do Planalto Central, o Brasil que vive de costas para o mar. Hugo de Carvalho e os nomes dos bois de meu avô, incógnitas que por 'ses dias duelam com a minha curiosidade, 'grimam com pensamentos seguindo fios de intuição, relampejos na memória, uma insistência querendo claridade, materialidade e entendimento. E a possibilidade de tocar o mundo nunca 'teve tão fácil. Basta apenas um click. Abro a porteira do ciberespaço e com um click encontro no mundo virtual de tantas e confusas possibilidades as Tropas e Boiadas de Hugo de Carvalho Ramos, obra que 'te ano completou 70 anos e já é de domínio público. É uma obra referencial em matéria de regionalismo, muito citada em teses de mestrados e doutorados, mas pouco lida e 'tudada -- penso eu. Em as minhas pesquisas por a Internet encontrei apenas um livro de análise da obra, A Narrativa de Hugo de Carvalho Ramos, da professora Albertina Vicentini. Também encontrei alguns artigos. E o bom é que o exemplar de Tropas e Boiadas que comprei num sebo de Goiânia veio com um bônus: anotações de algum aplicado 'tudante que 'miuçou, didaticamente, a obra, destacando personagens, foco narrativo e os significados de expressões e nomes de coisas do universo trabalhoso dos tropeiros. Vislumbrei atrás deste 'tudante um professor mais aplicado ainda em montar um roteiro de leitura, desses que de tão enfadonho afastaria ao mais interessado dos leitores. E pior ainda, embarcando para o matadouro a imaginação do leitor e as possibilidades de interação emocional com a obra. Agradeço não ter sido embarcada naquele lote e hoje sonho a galopes com o encantado da narrativa de Hugo de Carvalho e 'cavo o meu desejo de penetrá-la nas camadas fundas. Meio que 'quecida da saga do meu avô, a 'crita, a pintura e os personagens de Hugo têm mexido e remexido fundo. E me vem umas imagens, uns clarões no breu desse desejo de arqueologia. Estou raspando camadas, aguçando a 'cuta, guardando pistas, um punhado de palavras e imagens que sorrateiramente coloco sob as mangas, como cartas de um jogo. Embrenho-me por o sertão pré-rosiano de Hugo e, impressionismo do meu olhar (talvez), 'cuto uma voz que quase assovia na varanda de Riobaldo -- ilusionismo do 'corregadio sertão, inda mais 'se eivado de vestígios da memória. E o sertão de Hugo de Carvalho arde como as queimadas na secura do cerradão, seguindo o rastilho inflamável do capim seco. Arde no meu desejo de compreender, mais do que decifrar. Difícil atravessar a cortina de silêncio sobre o homem Hugo de Carvalho, fato que talvez se explique por o que teria de inexplicável um suicídio na província (Hugo enforcou-se com a 'cápula da rede em que costumava se deitar, segundo informação no prefácio da 6ª edição de Tropas e Boiadas, 1984, de Victor de Carvalho Ramos -- irmão de Hugo, texto datado de 1964). Notícia veiculada no jornal da província, segundo o irmão: morreu um bacharel. E a figura de Hugo de Carvalho destoa completamente daquele mundo do sertão que pinta viva e detalhadamente em Tropas e Boiadas. E nunca vi tanta ternura na pintura de um mundo de incomensuráveis brutalidades. Histórias que percorro na firmeza de sua 'crita, histórias que ainda ouço de memória nas narrativas do meu avô, como parte de uma trama do inconsciente coletivo. Histórias que se arrastaram sertão goiano adentro, tempo afora, desde as Minas Gerais. A inocência daquelas maldades, as forças hermogêneas, as grandes e definitivas travessias. Há leituras, como disse, que 'cavam a gente. Definitivamente, sei que vou cavalgar com Hugo, o 'critor que recria em mim a força norteadora do meu avô no coração do Planalto Central, um homem que também domava destinos. Cavalgar com Hugo, soltando as rédeas, sem as amarras das teorias literárias -- na minha curiosidade inicial o que encontrei me encheu de insatisfação. Uns enveredam por a linguagem, trilha natural, mas não é por aí que Hugo me pegou. É que dentro do academicismo de sua 'crita foram abrindo-se ao sabor da minha leitura em disparada umas clareiras, umas belezas indomáveis, uns êxtases 'pontâneos, e uns diabinhos dançando no meu peito, entre picadas de borrachudos. E mais do que aquela cobra enrodilhada no peito daquele peão (personagem incidental em Gente da Gleba, uma novela onde entrevejo 'boço e fôlego de um romance) que dormia profundo e sentia o peso dos diabinhos pulando na quentura do corpo largado ao sono no meio do mato à visão aflitiva da serpente. Aqueles suores, aqueles focos narrativos negaceando como uma cobra cega. E Expedito (Dito)? E aqui me calo, reservando-me para a proximidade visceral do seu sertão, do meu sertão, em que rumino a 'perança de ouvir os nomes dos bois secretos de sua criação. Vou cavalgar com Hugo por muito, mas muito tempo mesmo. Isso é certo. Tudo em ele me impressionou, principalmente o que intui nas fotografias. Aquela figura de dândi, pele alvíssima, delicadíssimas mãos, silêncios prolongados no ver e no dizer, mas que têm se aninhado no meu peito como aquela serpente insidiosa no corpo de uma das suas personagens que trilham o sertão do nosso imaginário. E uma interlocução assim a gente não despreza, ainda mais vinda do fundo do poço, daquele barro fecundo viajando na perenidade do tempo, atualizando no meu interesse um desejo de ver além do que já vi. Uma interlocução assim não há como desprezar. Tem mais é que ir em frente. A ponte: a 'cuta. O guia: a voz. E não sou mais eu que segue o rastro da boiada da criação de Hugo. É ela que me 'cava, acordando uma necessidade de ver. E vi de relampejo tanta coisa que pede metódica releitura. Que pinturas na paisagem do sertão de Hugo de Carvalho, o sertão de dentro e de fora do homem! Em alguns momentos chego a entrar na pintura, tamanha pulsação de cores e contrastes. Enquanto o sertão ainda 'tava sendo desbravado ele levanta sua voz contra o rastro de destruição. Ali, naquelas preciosas páginas de Tropas e Boiadas, uma voz de ecologista integra-se naturalmente à paisagem que percorre sem o 'tardalhaço do panfleto. E em tantos trechos a minuciosa e poética descrição da paisagem feita por Hugo acariciam os nossos sentidos como uma pintura em movimento, beirando cinema, um relicário com força de documentário da fauna, flora e gente do cerrado. Nunca mais 'quecer a ternura do olhar de Hugo. Ele faz um desvio profundo na trilha seguida por outros regionalistas que levavam o homem ao fundo do poço da degradação. Entendi lendo Hugo o que me desagradava tanto na literatura de Bernardo Élis, o nosso imortal. Era justamente 'se olhar degradante, a falta de saídas, nenhuma zona de repouso, nenhuma ternura que resgatasse a nossa precária humanidade. Até hoje a lembrança da leitura do conto A Enxada de Bernardo Élis me provoca um desconforto 'tranho. Em Hugo, não. A crueza mais visceral nos aprisiona o olhar por a ternura. É um 'critor que não precisa do conjunto da obra ou mesmo da fórmula de um livro fechado em seu conceito para nos convencer do seu valor literário. Basta a leitura do mínimo e profundo conto Ninho de Periquitos para nos seqüestrar irremediavelmente a admiração por o 'critor. Ali, o amor de um pai que não quer aborrecer o filho adolescente justo no dia do aniversário e que mesmo contrário a mexer no curso da natureza, profana um ninho de periquitos. E há tantos símbolos, tantos arquétipos, tantas camadas e trilhas a percorrer em 'sa única e definitiva obra de Hugo ... E ainda falando de ternura, assim como Riobaldo se encantava com o canto dos pássaros, Hugo também afinava os ouvidos da gente. Ah, e alguém que em 'sa trilha encantatória do sertão 'creve os " joões-conguinhos, definitivamente, já imprimiu a poesia do seu olhar. Número de frases: 97 Teatro Andante: Como já diz o nome, o grupo não para! E para acompanhar 'sas andanças por o Brasil surgiu o Blog Andante, o diário de bordo da trupe. A mais nova ferramenta de comunicação do Grupo Teatro Andante vai permitir um acompanhamento de perto das atividades, dos 'petáculos ... O blog nasce para registrar os passos da mais longa viagem do grupo. Serão 60 dias de andanças teatrais, por todo o Brasil, totalizando mais de 42 000 km de 'trada! O Andante apresenta o 'petáculo Olympia, em teatros do Sesc em todo o país, por o projeto Palco Giratório. Embarcam na jornada a atriz Ângela Mourão, o diretor Marcelo Bones e o coordenador técnico Felipe Cosse. De Gastronomia à Cooper hoje o blog já 'tá a todo vapor. Cada cidade tem um encanto uma apresentação ou uma oficina e, é claro, um post. O Grupo Teatro Andante é hoje um dos mais atuantes e importantes grupos de teatro de Belo Horizonte. Fundado por Marcelo Bones e Ângela Mourão, em 1990, tem, atualmente, três 'petáculos em repertório: Olympia, Musiclown e Grande Cello. O Grupo Andante também desenvolve oficinas e outras ações de compartilhamento e formação. Este tipo de ação visa a colaborar com grupos de teatro e jovens atores a desenvolver e aprofundar suas atividades de pesquisa. Durante toda a sua história de 15 anos de existência, o Andante tem tido como eixos condutores de suas produções a pesquisa de linguagens teatrais e a difusão do teatro para parcelas da população que não têm acesso às casas de 'petáculos e que 'tão fora dos eixos culturais, contribuindo assim para a ampliação do acesso à cultura. Blog http://teatroandante.blogspot.com/ Para conhecer um pouco do andante Número de frases: 18 http://www.teatroandante.com.br/ Muito já foi dito sobre a qualidade das animações brasileiras. Críticas corrosivas acompanhadas de comparações com produções gringas são comuns. No entanto, quem muito critica a qualidade de nossas produções pouco sabe do processo que envolve uma animação. O Brasil é pioneiro em animação 100 % digital, com Cassiopéia -- longa de Clóvis Vieira -- produzido com pouco mais de 15 computadores 486 e lançado em 96 -- alguns meses depois de Toy Story que acabou ficando com o título de pioneiro. Mas não é. Woody e seus companheiros foram modelados primeiro fora do computador, em bonecos de argila, e depois digitalizados por meio de scanner tridimensional, lembra Clóvis, que realizou seu filme inteiramente no computador a partir do software e do algoritmo. De lá pra cá muito vimos. As animações da Pixar e Dreamworks conquistando adultos e crianças. E apesar de não termos visto nada grandioso na animação brasileira em 'ses últimos 10 anos, o Brasil não parou. Temos sim bons animadores. O que nos falta é viabilidade no processo e vontade nos negócios. É virtualmente impossível para um 'túdio de animação brasileiro encarar a produção de um longa sem apoio. Até os grandes 'túdios como a Mauricio de Sousa Produções têm que recorrer a acordos e contratos para dar conta do custo de um longa animado. Com todas 'tas conhecidas dificuldades, os artistas brasileiros são obrigados a saírem do país (e são reconhecidamente competentes -- como Carlos Saldanha -- diretor de A era do Gelo2 e Eduardo Gurman, que participou da produção de Animatrix). Os que aqui ficam se vêem obrigados a canalizar o trabalho para o mercado publicitário. E é aí, onde há dinheiro e demanda, que os brasileiros mostram seu valor. Animações originais como 'ta do Papai Noel no vermelho (parece ser um teaser de campanha), que utiliza recursos interessantíssimos de animação em 2d e 3d com texturas de fotos. Ou da Lobo, 'túdio brasileiro que faz filmes para Nike, Diesel de entre outras marcas. Para citar mais casos, lembro o animador José Márcio Nicolosi, diretor de animação dos 'túdios Mauricio de Sousa e responsável por a animação do Frango da Sadia, Snoopy, Pantera Cor de Rosa, Tiny Toons, Pernalonga e Bond Boca nos comercias. Ou de Daniel Messias, 'túdio brasileiro que o Cartoon Network confia algumas de suas animações. Aliás, o Cartoon Network, o melhor e maior canal de animações, tem como diretor de criação o brasileiro Carlos Tureta. E por aí vai, vários exemplos de que o problema da animação brasileira não é nem nunca foi os animadores. Esperamos que novas oportunidades surjam para que nossos talentosos animadores produzam trabalhos originais, como Anabele, de Lancast (primeira animação brasileira na Nickelodeon) ou o recém-lançado longa Wood & Stock, baseado nos quadrinhos de Angeli. Que 'tes criadores não dependam da publicidade para se sustentarem e nem de leis de incentivo, burocracia e patrocínio de 'tatais para produzirem. Em 'ta terra que sempre falhou em oportunidades, podemos afirmar com certeza que nunca faltou criatividade ou vontade. Número de frases: 25 G. Tomé Estava eu em 'te fim-de-semana em Brasília resolvendo assuntos personalíssimos quando chegou a hora de almoçar. Procurei um restaurante perto do local onde 'tava, no domingo. Almocei, uma comidinha meia-boca, mas que resolveu um dos problemas do dia. Para resolver o outro, eu precisava de um cybercafé. Tinha que fazer umas pesquisas, encontrar algumas informações de que eu necessitava antes das 3 da tarde. Andei, andei ... e nada! Era na região da 714 norte. E foi ao passar em frente a um ponto de ônibus que encontrei a solução para meu problema. Não, não era um ponto de acesso público à internet. Era algo mais extraordinário, e que se torna mais extraordinário ainda quando pensamos que isto acontece em pleno coração do Brasil. Uma 'tante, daquelas de metal, com algumas dezenas de livros e revistas. Eles 'tavam lá não apenas para serem lidos enquanto 'pera-se o ônibus, mas para serem emprestados. Sem supervisão, sem ninguém cuidando, apenas um aviso que pedia que se pegasse somente um livro por vez e outro solicitando que o usuário ajude a manter a prateleira organizada! Não, não é sonho nem delírio. E também não 'tou falando de algum país da europa. É a mais pura e brasileira realidade que possa existir: algumas dezenas de pontos de ônibus com mini-bibliotecas públicas, gratuitas, de acesso livre e de 'pírito completamente colaborativo. Em minha humilde opinião o conceito de Web 2.0 jamais foi tão bem aplicado quanto em 'te projeto. E 'pero que 'ta idéia se 'palhe por o mundo inteiro. Parabéns ao pessoal do Açougue Cultural T-Bone por a brilhante iniciativa! -- Para ler mais textos meus sobre comunicação, cultura e tecnologia, acesse: Com! Número de frases: 23 pensar Este texto é o segundo da minha «saga» acompanhando duas caravanas do Pixinguinha, o projeto que permite que músicos de todo o país viajem por todo o país para fazer shows. Para quem não sabe: o projeto é da Funarte, fez história ao promover caravanas de 1977 a 1997 e, depois de um intervalo grande, voltou a ser realidade em 2004. Mas 'te ano vai sofrer um novo break, como conto no texto a seguir: Saí de Florianópolis, onde assisti a um show típico do Projeto Pixinguinha, com choro, música tradicional e regional, e segui para Natal, onde chegava uma caravana «muderna» para os padrões do evento, fosse na música, fosse no backstage. Digamos que era um pessoal high tech. Explico: o grupo de músicos que acompanhava as três 'trelas principais (os gaúchos Vitor Ramil e Flu e a carioca Katia B) era o mais conectado que já vi. Bem condizente com o som produzido por Flu e Katia, ambos com um pé no eletrônico. Eram pelo menos três laptops e um punhado de ipods fazendo a alegria da garotada, sem contar as câmeras digitais -- até onde vi, já havia mais de 600 fotos e pequenos vídeos só daquela turnê. Tudo era motivo para registro: a performance da galera no surf (Nordeste + praia + um monte de homem, só podia dar nisso), as festinhas no apê (ou melhor, nos quartos de hotel), as passagens de som, os almoços ... Em a verdade, 'sa caravana merecia mais um making of do que um texto de bastidores! Quando cheguei eles já 'tavam na 'trada há alguns dias, já tinham feito shows em Aracaju, João Pessoa e outras capitais nordestinas. Ou seja, a integração já 'tava a pleno vapor, os músicos do sul já íntimos dos cariocas. Passaria três dias com eles, em Natal e em Mossoró, a quase 300 km de distância. As horas de folga eram dedicadas a tudo isso e a conversas sobre a única questão que parecia incomodar um pouco a turma: por que seria que os shows 'tavam tendo um público aquém do 'perado? O 'petáculo 'tava redondinho, como pude conferir no dia seguinte (conto mais sobre ele abaixo). Era bonito e por isso merecia ser visto por muitos. Mas nem tudo são flores na 'trada. Muitas justificativas foram cogitadas, e era bacana acompanhar as conversas de eles sobre isso. A produtora Débora Cruz cogitava: «Se 'ta caravana fosse no Sudeste ou no Norte, talvez fosse bombar. Aqui no Nordeste talvez 'te tipo de música ainda não pegue muito». Será? Outra hipótese envolvia o próprio 'tilo da turma: em geral o Pp leva shows de MPB e samba aos 'tados e nenhum dos três artistas se enquadrava nas definições literais dos dois gêneros. Um «Projeto Pixinguinha Pop» poderia ter afastado os habituais freqüentadores do projeto? Fosse como fosse, a resposta do violonista Eugenio Dale a tudo isso me pareceu muito razoável: «É, os teatros 'tariam cheios se 'tivéssemos em outra região e o público do projeto pode não 'tar mesmo acostumado com nosso som. Mas por isso mesmo é muito importante a gente vir para cá, ter contato com 'te público. É uma oportunidade valiosa!" E foi em 'se 'pírito mesmo que eles cruzaram o Nordeste, em geral em teatros grandes que ajudavam a dar a impressão de que «não bombavam por lá». Um exemplo: um público de 500 pessoas não é pequeno, certo? Mas num teatro como o Castro Alves, em Salvador, com 1.500 lugares, parece pouca gente ... Os artistas Não conhecia bem Vitor, Katia e Flu antes da viagem. Deu para constatar que não era só no palco que a energia de eles fluia: os três têm uma tranqüilidade e um lado cool que os aproxima. Flu é um ser da paz, 'tá sempre na boa, é uma simpatia e um bom papo. Ex-baixista do De Falla, viciou em experimentar as possibilidades eletrônicas e parece muito à vontade em 'te caminho, que já resultou em trabalhos com bandas como Totonho e os Cabra. Seus dois discos -- Em o flu do mundo e E a alegria continua -- 'tão 'gotados, mas podem ser ouvidos aqui. Katia tem cara de 'trangeira (que se justifica por seu sobrenome: Bronstein) mas é carioca da gema. Largou a carreira de atriz-bailarina cantora (quando foi uma das louras do grupo de Fausto Fawcett) para se dedicar unicamente à terceira parte do tripé. Em o fim da década de 90, ela, que é mulher do João Barone, dos Paralamas, foi uma das pioneiras na hoje comum mescla de música brasileira com elementos eletrônicos. Katia canta muito bem e tem uma carreira coerente. Seus dois discos (Katia B e Só deixo meu coração na mão de quem pode) são bem autorais, com parcerias com Pedro Luís, Suba e Fausto Fawcett. É algo bem raro num país acostumado a cantoras-intérpretes. E ela, na verdade, diz que só agora se sente à vontade para mostrar sua porção intérprete ao público. «Para mim não é simples cantar a música de um ídolo. É preciso ter algo muito pessoal e diferente para justificar isso. Agora me sinto preparada de brincar de Madonna, de Carmen Miranda, como faço no show», explicou-me. Bom, falta falar do Vitor. Mas foram tantas conversas boas com 'sa pessoa que vou dedicar um texto só para ele, já, aqui no Overmundo. Até porque 'te texto já 'tá grande e ainda tenho que falar do principal: O show Em Natal, o teatro colaborava para se ter noção exata do público. Era médio, simpático, num bairro muito comercial que poderia ter paralelo, sei lá, com Madureira. Seus 200 lugares foram praticamente tomados, a platéia ficava perto dos artistas, o clima era intimista. Diferente do show que vi em Floripa, em que Almir Gabriel, Trio Madeira Brasil e um trio de música caipira faziam shows separados e só se reuniam no final, aqui as atrações eram todas entrelaçadas numa 'pécie de análise combinatória: Vitor e Katia, Katia e Flu, Vitor e Flu e os três juntos. Isso se justificava por a relação do trio: Vitor já cantava uma música do De Falla (" Não me mande flores», que entrou no show), Katia já participou de um disco de Vitor e já gravou música de ele (" Que horas não são», também incluída no setlist), e por aí vai. A platéia tinha desde fãs do Flu até velhinhos que 'tavam ali exclusivamente por se tratar do projeto Pixinguinha. Vitor entrou no palco sozinho e fez bonito com músicas como «Não é céu» e o seu maior hit, «Estrela, estrela». Sua obra tem belas canções e muitas vezes assume uma pegada rock que pode fazer sucesso, na minha opinião, em qualquer região do país. Katia mostrou que, além de ter uma bela voz sem afetações, sabe fazer um show sensual e coeso na música e na postura. Apresentou suas canções e mandou bem também como intérprete de «A Rã» (de Caetano e «João Donato), Rainha do Mar» (Dorival Caymmi) e «Music» (Madonna). Flu fez uma festa de cabeças balançando ao som de sua música e conversou muito com a platéia, sobretudo sobre as possíveis relações entre os dois «Rios Grandes» -- do Sul e do Norte. Dois extremos do país que 'tavam ali representados, e se curtindo. Talvez eles tenham muito mais a ver que o nome semelhante. O Pixinguinha ajuda a mostrar que, de certa forma, a empatia entre as pontas do Brasil tem muito potencial para crescer. Agora o grande suspense fica por conta do futuro do projeto. Esta viagem que acompanhei foi uma das últimas deste ano. Por ser ano eleitoral, a lei não permite que as caravanas sigam na 'trada. E resta a dúvida para a equipe de produção: fazer ou não fazer edital para o ano que vem? Em entrevista a um jornal de Natal, o coordenador de música popular da Funarte Pedro Paulo Malta sonha em voz alta: «Gostaria de colocar as caravanas na rua no ano em que o projeto completa 30 anos de vida». Número de frases: 79 Vamos torcer para que 'sa seja realidade, dando Lula, Alckmin ou quem tiver que dar. De os rincões da planície pantaneira surgem artistas como Reinária Rodrigues, que fazem da dança sua expressão de vida e de seus passos, ensaios para o auto-conhecimento. Prova de que para a arte, apesar da 'cassez de recursos, é possível florescer talentos anônimos. Resistência daqueles que não abrem mão de seus sonhos e de seguirem a vontade de fazer acontecer. Assim é 'ta delicada bailarina, que quando veste o figurino da professora, torna-se uma mulher forte em dedicação. Repassa conhecimentos e enriquece a cultura e a dança de Mato Grosso do Sul. Reinária Rodrigues 'tá nos palcos sul-mato-grossenses desde menina. Corumbá, cidade considerada a capital do Pantanal, foi o cenário onde ela deu seus primeiros saltos e adquiriu o equilíbrio necessário para percorrer as trilhas da arte. Hoje com 25 anos na prática do balé, exercitando os mais diversos 'tilos, do clássico ao contemporâneo, busca associar a dança à psicologia, caminho que naturalmente a levou a desenvolver 'ta expressão artística com crianças 'peciais, na Apae, em Campo Grande e na Pestalozzi, em Aquidauana. Em comemoração ao dia mundial da dança, festejado em 29 de abril, a bailarina Reinária Rodrigues, que em 'te ano voltou à sua terra natal, conta sua história de artista do interior, que na dança da existência, ajuda a lapidar novos talentos como a índia Terena Jennyffer Moreira, que pretende acompanhar os movimentos de sua mestre e promete encantar o público com seus passos de dança. Acompanhe a entrevista exclusiva: 1-Como iniciou o seu interesse por a dança? Reinária Rodrigues -- Eu comecei a fazer dança muito cedo, mais ou menos com 7 ou 8 anos e a dança, na verdade, iniciou com uma indicação médica porque eu tinha algumas dificuldades em relação ao sistema respiratório, e na época eu tinha que fazer algum exercício para 'tar contrabalançando aquela coisa de fase de crescimento. Me sugeriram a dança. O meu interesse por a dança já existia por eu ser menina, novinha, vaidosa, gostar de música ... Gostar de coisas que tivessem a ver com sensibilidade. Eu gostava muito de desenhar, pintar, de brincar de bonecas (posicionava-as como se fossem público e me apresentava), então eu achava que isso casava com a minha vontade e de repente, conhecer um mundo diferente, que eu acreditava encontrar na dança. Aí eu fui procurar com o incentivo da minha mãe. Minha mãe na época não tinha condições para pagar minhas aulas integralmente, então eu 'tudava dança por meio de descontos e quanto mais eu fizesse, quanto mais eu me despontasse, mais eu poderia me manter fazendo. Aí comecei a praticar a dança, gostei muito e naquela época eu comecei a participar de seleções de algumas academias de Corumbá. Em 'tas avaliações eu sempre 'tava entre as primeiras colocadas dentro da minha turma. Então, querendo ou não, eu conseguia me sobressair porque era uma coisa que eu gostava de fazer. E aí não parei mais. Fui 'tudando as diferentes modalidades. Fiz o balé clássico, depois o jazz, a dança contemporânea, o sapateado ... Eu mudava os 'tilos, mas 'tava sempre dançando. 2-Como surgiu a oportunidade de você se tornar professora de dança? Reinária Rodrigues -- Com 16 anos passei a trabalhar como professora de dança. Eu gostava também muito de crianças e da relação professor-aluno na sala de aula. Porque no balé, como bailarina, você trabalha de uma forma mais pessoal e como professora você enfatiza outras maneiras de lidar com a criança. Além da técnica, você têm um aprendizado mais amplo. Aos poucos fui convidada para trabalhar como auxiliar de professor, dando aula junto com os professores e em alguns momentos eu atuava sozinha. Então quando a diretora da academia me chamou, ela me passou todo o material metodológico para 'tudar. Comecei a dar aulas no Baby Class e fui me apaixonando por aquilo, pois as crianças têm muito aquela coisa de liberdade, de fazer a hora que quer e quando sente vontade, fazer se elas acham que 'tá legal e interessante. Eu achava isso muito desafiador, porque eu sabia que elas só fariam a aula se eu conseguisse prender a atenção de elas. Então 'te início foi minha primeira experiência em trabalhar como uma profissional. 3-Quais foram as academias por as quais você passou em Corumbá? Reinária Rodrigues -- Em o Sonar ' t Stúdium e nas academias Dance Center, Dançando Sonar ' t, Corpo & Forma e Silvia Baruki. 4-O que é que você faz para conseguir despertar nas pessoas o interesse por a dança? Reinária Rodrigues -- Em 'sa questão entrelaça-se o meu interesse por a dança com a psicologia, minha segunda profissão. Eu queria compreender o que chamava a atenção das crianças, do ser humano, para gostar de certas atividades que não fossem corriqueiras de 'tas pessoas. O balé sempre foi associado como uma atividade extra ao currículo 'colar. Você 'tá 'tudando, então você sabe que uma hora vai ter que parar o balé e optar por uma profissão que vai te dar dinheiro para o sustento. Eu sempre quis que fosse uma atividade que eu conseguisse me manter por ela, mas a realidade mostrava outra coisa. Eu não poderia viver só por a dança e por eu não ter um curso superior na área, seria muito mais difícil. Essa coisa de querer conhecer o ser humano, que era outra idéia que me interessava, eu busquei associá-la ao trabalho com a dança. E a dança contemporânea me despertou ainda mais para 'te lado, por trabalhar com a liberdade de expressão. Comecei a trabalhar com movimentos que 'tão associados ao dia-a-dia das pessoas, à sua vida e à sua personalidade. Isso dava vasão para a decisão do que eu faria para a minha vida, algo que eu também gostasse, mas que não me afastasse da dança. Em Corumbá, não havia muitas opções em 'te sentido e a psicologia foi a 'colha que encontrei, pois o curso já existia na cidade. Continuei a dar minhas aulas de dança trabalhando com o balé clássico para dar uma formação adequada para as crianças. Optei primeiro por as crianças, depois comecei a dar aulas para os adolescentes. Sempre tentando conciliar a dança com a psicologia. 5-Como era o cenário da dança em Corumbá? Reinária Rodrigues -- A o meu ver, antigamente era grande a dificuldade que os bailarinos enfrentavam para saírem de lá para se aprimorarem. Hoje isso já não acontece mais. Atualmente são levados para a cidade muito profissionais competentes de outros 'tados. Em a minha época professores de fora também eram levados para Corumbá (restrito apenas à algumas academias), mas não havia muita abertura para se promover um festival na cidade, que conseguisse conquistar o público e mostrar que o balé tem seu valor e seus 'tilos, além do que apenas se conhecia (cultura local), e que poderia também, ser uma atividade em que as pessoas pudessem sentir prazer em acompanhar mais de perto. Em aquela época Corumbá era um centro que dependia muito de Campo Grande. Os grandes eventos relacionados com dança sempre aconteciam na capital. Todos os bailarinos do Estado tinham que 'tar envolvidos em 'tes eventos para conseguir aperfeiçoar o trabalho que já existia. Não que os professores não fossem bons, eles queriam se aprimorar para trazer coisas novas para a cidade, pois os bailarinos saíam muito pouco daqui. Hoje 'tá acontecendo o contrário. A cidade recebe muitos profissionais de nível nacional e isto vai conquistando o público da dança e possibilita que outros professores possam mostrar a personalidade do seu trabalho. 6-Então isso significa que os artistas do interior não perdem em qualidade para aqueles dos grandes centros? Reinária Rodrigues -- Os artistas dos grandes centros já praticam a dança há muito tempo. Eles têm uma maneira de ver a dança muito além do que a dança em si. Hoje eles trabalham a dança de diferentes formas, utilizam imagens, objetos e recursos fantásticos. Mas o talento a meu ver 'tá mais envolvido na questão pessoal, o quanto de interesse se tem, para que público se destina, como se leva 'sa dança para as pessoas compreenderem enfim, como as pessoas conseguem acompanhar 'sa atividade. Porque a cabeça de um coreógrafo, a idéia de um professor, bailarino ou diretor de grupo é muito além das expectativas daquele que muitas vezes vai ali assistir simplesmente o movimento do corpo. Não é tudo que as pessoas conseguem captar. Acredito que as pessoas precisam entender que existem 'tilos diferentes. Se elas souberem diferenciar 'tes 'tilos, saber identificar as nuances, perceber o que é mais trabalhado, talvez elas tenham mais consciência do que é a dança. Eu gosto da técnica, eu preciso de ela e sei que ela é 'sencial para o meu trabalho. Mas é preciso que o público goste do que 'tá vendo, pois 'te público pode ser culturalmente trabalhado se ele tiver a sua participação no trabalho também. Para mim o 'petáculo não se restringe apenas aos bailarinos, à equipe técnica, ao figurino. Ele tem que envolver o público também. Quero que as pessoas saiam do 'petáculo melhores do que quando elas entraram para vê-lo. 7-Quando você resolveu criar o Grupo de Ballet Reinária Rodrigues? Reinária Rodrigues -- Em Corumbá passei por diversas academias e eu já tinha relação com grupos que 'tavam adiantados, que representavam 'tas academias. A idéia não era nem montar uma coisa minha, mas conseguir trabalhar sozinha com o balé contemporâneo. Só que o contemporâneo é 'tilo de dança que tem sua técnica e sua personalidade, mas ela busca outras maneira de você se expressar. Então eu comecei a trabalhar com adolescentes porque percebi que a criança não conseguiria trabalhar com a complexidade que a dança contemporânea exige. Enquanto a criança tem a facilidade de trabalhar com o clássico por ele seguir padrões, ser mais metódico e exigir disciplina para que a criança ultrapasse as etapas, os adolescentes têm uma expressividade mais adulta, uma outra maneira de ver a realidade. Eles têm a 'pontaneidade e a técnica que facilita o trabalho com o contemporâneo. Eu queria compartilhar com 'tes alunos as minhas intenções, realizando o que eu pretendia fazer. Então eu comecei a assumir turmas e ter a responsabilidade de levar ao palco 'petáculos com minhas produções (coreografias). Para mim já era o Ballet Reinária Rodrigues surgindo ... Quando eu tive que mudar para Aquidauana em 2004, continuei 'tudando para aprofundar mais meus conhecimentos de dança e quis realizar um projeto que até então não existia naquela cidade. Em Aquidauana eu me deparei com uma sociedade em que a cultura de dança era muito restrita. Dançar para as pessoas era mexer o corpo, elas não conheciam 'tilos de dança. Foi uma semente que foi plantada muito devagar e com muito cuidado para que a população não confundisse a «Reinária Rodrigues» como mais uma professora que 'tava dando aulas apenas para atender à um hobby dos alunos. A minha intenção a partir daí, foi dar uma formação para as crianças que procuraram a dança porque queriam fazer e iniciar o aprendizado com técnica clássica. Eu queria que em pouco tempo elas tivessem a capacidade de mostrar no palco a diversidade das danças. E fui conseguindo me destacar, trabalhando com o Baby Class. As crianças fizeram 3 anos de balé, cada ano com uma dificuldade diferente, mas sempre aprimorando o trabalho. E o balé passou a fazer a diferença na vida de elas. Elas 'tavam fazendo movimentos que nunca haviam imaginado serem capazes de fazer. E isso foi muito importante, porque em cidades pequenas, as coisas repercutem muito rápido. Ou as pessoas gostam e falam bem do seu trabalho ou acontece o contrário. O trabalho cresceu e tive muitas emoções nos anos em que apresentamos 'petáculos no auditório da Universidade Federal. 8-Para você a falta de recursos financeiros, assim como acontece em nosso Estado, não impedem que sejam apresentados belos 'petáculos? Reinária Rodrigues -- Os recursos financeiros são realmente necessários para algumas coisas acontecerem. Se existe um 'paço, você se adapta, mas também não faz milagres. Mas eu procuro conquistar o 'paço por meio de pequenos gestos. Por exemplo, o meu trabalho com alunos 'peciais começou em 'ta filosofia. Para que as pessoas possam perceber que todos são capazes de fazer e que os eventos podem acontecer com poucos recursos. Esses recursos são importantes, mas a gente tem que trabalhar com o que nos é acessível. O talento em si já é a maior parte do 'petáculo. Se você consegue lapidá-lo, você já tem uma porcentagem grande do 'petáculo em suas mãos. Então o financeiro não é o principal, é necessário, mas existem prioridades quanto ao material a se utilizar. Então tudo depende do objetivo que você quer atingir e o público a quem o 'petáculo vai ser destinado (infantil e / ou adulto). Os 'petáculos que fiz em Aquidauana, por exemplo, utilizei o único auditório que havia na cidade, que era o da Universidade Federal. Ele não tem a 'trutura para um evento que seja de médio ou grande porte. Mas o que eu queria, era criar algo em que fosse possível a adaptação para que o 'petáculo acontecesse. Além disso, na cidade não havia uma costureira experiente no ramo de figurinos. Mas a costureira que trabalhei, se disponibilizou de uma forma que ela conseguia enxergar além e aonde ela seria importante no projeto. Eu criava os figurinos, 'colhia os tecidos, os aviamentos e passava a idéia para ser concluída. Depois que o figurino nascia, era bordado e 'colhia-se os últimos acessórios, finalizando assim os figurinos. Os materiais dificilmente eram encontrados em Aquidauana, então tudo tinha que ser comprado em Campo Grande. Em os 3 anos em que eu trabalhei na cidade, a produção foi feita assim, é claro que a cada ano a intenção era aprimorar mais, ter mais qualidade. Mas eu fui buscando tudo, na medida do possível. 9-Como iniciou o seu trabalho com crianças 'peciais? Reinária Rodrigues -- A questão da educação 'pecial surgiu na minha vida ainda na época da faculdade. Eu tinha o interesse de conhecer e entender melhor a relação do psicólogo com as pessoas 'peciais. Eu fiz um 'tágio na Apae de Corumbá, mas na época a instituição era muito carente de recursos, então minha experiência foi muito pequena lá. Em 2001 fui morar em Campo Grande, continuei dando minhas aulas de dança no Balé Só Dança Auxiliadora e um amigo comentou com mim que na Apae 'tavam precisando de uma psicóloga e professora de dança. Aí me encaixei no perfil e fui contratada. A partir de então foi possível eu trabalhar a questão interpessoal, emocional e de expressividade com 'tas crianças. E como cada aluno 'pecial tem um tipo de deficiência, e nas turmas havia 'sa diversidade, para mim foi um desafio muito grande e uma experiência muito enriquecedora. Eu queria encontrar formas para que eles entendessem meu trabalho e a partir disso, mostrassem um resultado para os pais e para a sociedade. Então parti para conhecer cada ser humano de ali, antes das suas deficiências, porque a gente se assusta com algumas de elas no sentido de você não saber se ele vai te entender, se você vai conseguir trabalhar, se você vai ter um retorno positivo disso, ou mesmo como você vai conseguir conquistar aquela pessoa. O início foi realmente de conquista, de perceber o que aquelas crianças mais gostavam, como é que eu conseguiria chegar naqueles alunos, de que forma eu conseguiria introduzir a dança na vida de eles, sem que eles achassem que aquilo fosse uma «coisa massante,» uma idéia negativa para a vida de eles. Ali eu não trabalhava nenhum 'tilo, mas a dança com o ser humano. Trabalhava o movimento. Até porque a pessoa 'pecial tem pouco conhecimento de si mesma. E 'ta é a grande dificuldade de ela no contato com o público, com o outro. Partindo deste princípio, eu comecei a mostrar e a perceber em mim, que quanto mais eu conhecesse, quanto mais eu me aproximava de elas, assim mais eu me descobria. Eu percebia que podia fazer diferente, mais eu queria era tentar coisas novas e que eu também 'tivesse fazendo parte disso, porque naquele momento eu dançava junto. Então a dança na Educação Especial fugia totalmente da minha linha de raciocínio. Ali eu comecei a perceber que a dança, o movimento, era a coisa mais importante para eu conseguir conquistar e conciliar a psicologia dentro tudo que eu 'tava fazendo. 10-Das coreografias que você criou, quais são aquelas que você mais gosta? Reinária Rodrigues -- Eu trabalhei com várias coreografias nos mais diversos 'tilos, mas sempre que a Educação Especial 'tava envolvida, me emocionava mais, por ser muito difícil trabalhar com 'tas pessoas e conseguir um bom resultado. Trabalhar com elas sempre foi muito 'pecial porque eu sabia que ou era «oito ou oitenta», ou a pessoa ia mostrar porque ele gostou e se identificou, ou ela simplesmente ia falar, não vou fazer e eu teria que respeitar. Então eu sempre trabalhei na linha do desafio e da interrogação com a educação 'pecial. Pois eu nunca tinha certeza se todo o trabalho (ensaio) da sala de aula, os alunos levariam para o palco. Eu sempre fiz questão de manter 'te projeto com a Educação Especial, aliada ao meu trabalho. Em os meus 'petáculos eu procuro fazer com que façam parte das coreografias, para que as pessoas conheçam a dança de 'tas pessoas e não somente o balé. Eu sei que todas as modalidades têm a sua importância, mas gostaria que as pessoas percebessem, que todo aquele que gosta de dança e tem vontade de se expressar por meio de ela, não precisam ter receio de se desafiar. Sempre acho que as melhores coreografias são as últimas, porque a gente 'tá sempre se aperfeiçoando. 11-O que representou para você encontrar talentos numa pequena cidade do interior como Aquidauana? Reinária Rodrigues -- A minha primeira intenção era descobrir pessoas. Como eu associei muito a questão do balé com a psicologia, eu queria levar as crianças e os adolescentes a fazer algo diferente. Até porque em 'ta fase em que você 'tá conquistando, você não pode trabalhar a técnica de uma vez, porque o balé clássico por exemplo, assusta um pouco as crianças. Porque ele exige muito de elas, que elas sejam mais organizadas, mais dispostas, que saibam conhecer os próprios limites e que elas consigam se explorar. Então eu comecei a trabalhar o que as crianças gostavam de fazer. Era uma fase de reconhecimento, de conquista entre a professora e os alunos. Depois, com os adolescentes, eu comecei a trabalhar mais a técnica, para que eles conseguissem começar a diferenciar os 'tilos, da dança comum. Eu queria que percebessem que o balé era uma coisa que iriam se apaixonar ou deixar de fazer. Muitos 'tavam ali só para experimentar e se identificar com algum 'tilo, mas a grande maioria demonstrou muito interesse. Eu sempre deixei bem claro, que apesar de suas dúvidas quanto às suas limitações, tudo teria o seu tempo, desde que conseguissem perceber que 'tavam superando suas próprias expectativas e que os pais também conseguissem perceber que seus filhos 'tavam melhorando a postura, o movimento, sua maneira de ser, de uma forma diferente. A segurança para dançar, partia daí. 12-E deste meio apareceu uma bailarina Terena no seu balé ... Reinária Rodrigues -- A Jennyffer na verdade foi um achado. Em o terceiro ano de trabalho em Aquidauana, ela me procurou no clube militar em que eu dava as aulas e eu pensava que por ela ser uma adolescente, ser mais alta, ela iria se interessar por o balé contemporâneo. Mas na verdade, ela queria fazer o balé clássico. Foi quando percebi que ela tinha muita segurança do que ela queria, por ser o balé clássico algo que ela sempre idealizou. Ela me trouxe, não só a vontade de dançar, mas a vontade de ser uma bailarina consciente do trabalho necessário à ser realizado. Percebi que ela tinha facilidade no aprendizado por apresentar sensibilidade, alongamento, postura e além de tudo isso, interesse. Ela tem muita vontade de aprender, de se exercitar como se quisesse «recuperar» o tempo perdido, em que não pôde fazer balé. Era como se ela quisesse resgatar uma época, que se ela tivesse tido oportunidade, teria feito desde cedo. Em 'te um ano de trabalho, ela se desenvolveu muito. O balé clássico não é uma coisa que se aprende do dia para a noite, e ela não demonstrava cansaço. Ela queria se aprimorar, aprender como fazer melhor os movimentos e sanar suas dúvidas. Tudo isso foi muito interessante, por ela ser uma índia da região, é uma pessoa que conhece a cultura de sua tribo, limitadamente é claro, porque 'ta cultura acaba se misturando com os costumes da cidade, mas ela de alguma forma me fez lembrar o início do meu trabalho também. Aquele tempo em que eu queria aprender, buscar mais e progredir. 13-E desse encontro pode nascer um projeto que tenha como tema a dança Terena? Reinária Rodrigues -- Penso que sim. O que desperta o interesse é que por a falta de oportunidade, nós acabamos não conhecendo os talentos de 'ta região. Porque a comunidade indígena é um pouco destituída de 'tímulo à arte e à sensibilidade, à questão do auto-conhecimento, de se explorar para descobrir seus limites e superar suas expectativas. Eles têm a sua cultura e não dão vasão a ela, por não terem a oportunidade de como mostrar, de como levar isso para as pessoas. O diferencial é o fato de que, como no caso da Jennyffer, que se descobriu na dança, isso poderia acontecer com muitas outras indiazinhas. Assim torna-se possível resgatar a cultura local. 14-Para finalizar, o que é a dança para você? Número de frases: 184 Reinária Rodrigues --A dança é o ser humano que se reconhece por completo. Esta carta se destina a todos aqueles que, por sua formação humanista, se colocam na defesa da Cultura e do Patrimônio Histórico brasileiro e a quem, na falta de outra definição, chamamos de intelectuais. Em particular àqueles intelectuais com acesso, seja como articulistas, seja como jornalistas, à imprensa 'crita, falada e televisada. Se você se enquadra no perfil descrito, por favor, vá até o fim na leitura. Em caso contrário, pode se dispensar da tarefa quando melhor lhe aprouver. Quando eu era pequeno minha avó contava a história da galinha que, com seus pintinhos, resolveu fazer um bolo. Chamou uma assembléia na Fazenda, pediu a palavra e disse -- Todo mundo aqui gosta de bolo? -- EE-uu gooosto-o! disseram, quase em uníssono, o porco, o bode, o carneiro, o capote, o marreco, o cavalo ... -- Tou querendo fazer um bolo. Quem me ajuda a plantar o milho? Nem o porco, nem o bode, nem o carneiro, o cavalo, o marreco, o capote, nenhum de eles se prontificou a ajudar. A galinha deu de ombros e foi, só com seus pintinhos, semear o milho. Que cresceu e deu num bonito milharal com enormes 'pigas douradas. Mais uma vez a galinha chamou uma reunião e disse: -- Quem me ajuda a colher o milho? E de novo ficou sem receber resposta. Nem a vaca-mocha, recém incorporada à criação, se dispôs a ajudar. E assim, sucessivamente, a cada etapa da «edificação» do planejado bolo, a galinha, tomada do melhor 'pírito participativo, pedia ajuda e nada em troca recebia. Por último, ainda deu aos outros animais uma derradeira chance: -- A massa do bolo 'tá pronta, quem me ajuda a acender o fogo? Depois de mais uma vã tentativa de obter ajuda só basta lembrar que aquele bolo assando invadiu a fazenda com um cheiro tão bom que todos os bichos ficaram doidos pra comê-lo. E, nem é preciso dizer, ficaram só na vontade. Convido todos os intelectuais, acima definidos, a militarem, junto com a Fundação Nogueira Tapety (www.fnt.org.br), na luta por a restauração da «Fábrica de Laticínios dos Campos», empreendimento que nasceu da iniciativa do visionário cientista piauiense Dr. Antônio José de Sampaio. Inaugurada pomposamente em 1897, a fábrica, que produziu manteiga de boa qualidade por um largo período 'tá desativada há décadas, encontrando-se o prédio que a abrigou em ruínas. Esta não é, ao contrário do que possam crer os desavisados e os mal intencionados, uma campanha exclusiva da FNT. Muita gente, em todas as épocas, embalou ou ainda embala, o velho sonho de ver restaurado, o prédio edificado por o engenheiro Alfredo Modrack. Trata-se, ao fim e ao cabo, de um caso particular da luta por a preservação do patrimônio histórico cultural do país. Conta 'ta, no entanto, com uma grande vantagem em relação às demais: a possibilidade concreta de comermos o cheiroso e saborosíssimo bolo (de batatas?) que é sempre servido aos vitoriosos. Não queremos (nunca quisemos) fazer isto sozinhos! Por isto conclamo a todos os que se consideram realmente comprometidos com a causa da defesa de nosso patrimônio cultural que se engagem publicamente com a campanha por a restauração da «Fábrica de Laticínios dos Campos», hoje localizada no município de Campinas do Piauí. Eu sei o que você vai dizer, num primeiro momento: -- «Ora bolas, é óbvio que eu sou a favor!" ou, pior, num ataque de modéstia «-- Que importância, afinal, pode ter a minha opinião». E eu, para não ter que provar que «nada é óbvio» respondo ao primeiro " -- Óbvio para quem, cara pálida?" e, no segundo caso " -- Se você não externá-la, certamente sua opinião não terá importância nenhuma. Caso o faça, só depois disto saberemos, não é mesmo?». Peco-lhe, então, que reflita: «tenho uma chance de somar a uma campanha que pode redundar numa vitória, não apenas para Campinas do Piauí e para a memória da Fábrica do Dr Sampaio, mas para a luta em geral por o patrimônio histórico nacional que eu tanto prezo. Basta que me disponha a 'crever um texto apoiando a campanha e engajando-me, assim, na luta». Você vai ver como não dói nada fazer isto. Quero 'clarecer que, apesar de ter falado, em alguns momentos, em nome da FNT o texto acima é de minha inteira e pessoal responsabilidade. Beijos e abraços do Joca Oeiras, o anjo andarilho, louco para repartir 'te bolo com você ... sim, é com você mesmo que eu 'tou falando, olho no olho! Não se finja de desentendido, ok? Ou você é daqueles que não gosta de comer bolo? Número de frases: 49 Mosaicos coloridos feitos de retalhos de tecidos formando conjuntos de beleza. Pequenos pedaços de malha ou linhas de lã amarrados em felpudos formatos interessantes. à primeira vista talvez pareçam só peças de decoração e vestiário produzidas em patchwork ou tapetes amarradinhos e arraiolo. Uma observação mais detalhada, porém, mostra que a produção desses artigos é um exercício de resgate da cidadania de cerca de 40 mulheres. A história da emancipação social de 'sas pessoas se iniciou há cerca de um ano e meio. Todas elas moram em bairros da periferia de Aracaju (SE), a maioria, no Bairro Santa Maria -- belo nome para uma localidade de extrema exclusão social. A transformação entrou em suas casas através de seus filhos e filhas, incluídos no projeto Recriando Caminhos, executado por a Missão Criança Aracaju há três anos, graças ao patrocínio da Petrobras. O projeto trouxe para 'ses meninos e meninas uma alternativa ao trabalho infantil e outras situações de risco a que 'tavam expostos. Mas a emancipação de eles não 'taria completa sem que a mudança social fosse 'tendida aos outros membros da família. De 'sa constatação surgiu a idéia de um outro projeto, o Resgatando Cidadania, 'te voltado para adultos. Difícil e vencedor desde o início. O projeto passou por uma seleção pública do Programa Petrobras Fome Zero, e foi um dos 'colhidos de entre os 5 mil concorrentes de todo o Brasil. Em o começo de 2005 foram oferecidas as primeiras oficinas profissionalizantes para adultos que tinham filhos no Recriando Caminhos. Logo depois, as inscrições para os cursos foram abertas para homens e mulheres que moravam em 'ses bairros, mas não tinham filhos no Recriando Caminhos. Patchwork e tapeçaria -- Foram várias oficinas oferecidas, de entre elas Horticultura Orgânica, Corte e Costura, Reaproveitamento de Alimentos, Panificação, Tapeçaria e Patchwork. De 'sas duas últimas se formaram grupos de produção (as primeiras inseriram várias pessoas no mercado de trabalho). Atualmente são em média 40 mulheres produzindo sob encomenda e expondo em feiras regionais e nacionais. «Quando eu comecei, pensava que nunca ia alcançar construir 'sas peças, que eu achava muito lindas», conta sorrindo» Maria Laurinda. «Hoje em dia, qualquer peça que eu pegar já sei construir», completa sem 'conder o orgulho. Sorriso maior, só quando ela fala sobre a nova loja a ser inaugurada no próximo dia 20 de setembro. O 'paço no Shopping Riomar (em Aracaju) irá reunir peças como blusas, bolsas, mantas para sofá, almofadas, colchas em tecido feltro, jogos americanos, pegadores de panela feitos em patchwork, além dos tapetes amarradinhos e arraiolo. Desde 2005, elas participaram de várias feiras e mostras em Aracaju e outros 'tados, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essas mostras garantiram a publicidade do trabalho, o que acabou gerando encomendas de todos os portes. Todo o dinheiro recebido com a venda das peças é dividido entre as artesãs. A expectativa de elas é que a loja melhore os lucros e as leve para a auto-sustentabilidade. Com o sugestivo nome de Mercado Justo, a loja é fruto do 'forço coletivo, explica Maria Laurinda. Antes de participarem do Resgatando Cidadania, 'sas mulheres não tinham emprego fixo ou qualquer ocupação que gerasse renda. Para chegar até aqui, elas passaram por vários cursos de aperfeiçoamento, inclusive cursos do Sebrae sobre associativismo e atendimento ao cliente. Essas oficinas e cursos, porém, não se atinham apenas ao ensino técnico. Durante as aulas foram tratados temas transversais ligados à cidadania e direitos humanos. Pode parecer pouco, mas serviu como um auxílio a mais para a emancipação de 'sas mulheres. Para o futuro? «Melhorar ainda mais nosso trabalho», sentência Maria Laurinda. P.S.: Mais fotos dos produtos podem ser vistas no site da Ong. Encomendas (de todo o país!) podem ser feitas através do e-mail noticias@mc.org.br ou por os telefones (79) 3246 5242 e 3246 5211 (contatos: Luci Silva ou " Vera Souza). Número de frases: 37 mais de cinqüenta pessoas envolvidas num dos maiores 'petáculos de circo, dança e teatro que Macapá já viu. Assim foi considerado o «Auto de Jesus Cristinho Para todos os meninos», apresentado no dia vinte e três de dezembro ao lado da Fortaleza de São José. Também pudera, foi uma longa maratona de preparações para apresentar ao público a proposta de colocar a história de Jesus Cristo em forma de um trabalhador de rua que passa por os processos de roubo, assalto e perseguição, ou seja, o cenário em que Cristo viveu foi transportado para o nosso 'paço geográfico e colocada numa discussão contemporânea. A história começa com muita alegria, num ambiente circense, depois os atores em cena passam por um processo de tortura através dos choques elétricos. Entre atores de grupos como o Núcleo Cínico Desvaneio e artistas da Loukartes Produções Artísticas cuspindo fogo, virando cambalhotas, andando em perna-de-pau e fazendo malabarismos a apresentação ainda contou com dançarinos da Cia de Dança Sandra Santos, Grahm Cia de Dança e Cia Agesandro Rego. Eles simplesmente deram ao 'petáculo um tom 'petacular (rs). Eram saltos e coreografias que fascinaram ao público presente. A trilha sonora também não seguiu a linha dos tradicionais «dingo bells» de natal e sim uma variedade marcante de música eletrônica e popular. Até o céu ajudou, tendo em vista que o mesmo 'petáculo, ano passado, foi prejudicado por a chuva, mas 'se ano a Lua cheia também 'tava dando o seu show regada à fogos de artifícios coloridos. O autor de 'sa proeza é o pessoal da Cia Ávlis em Movimento, que teve a felicidade de contar com um grupo de artistas que não só tem responsabilidade com o trabalho, mas também muita dedicação, já que problemas com o repasse do orçamento fizeram com que os cachês fossem reduzidos por a metade. Os membros não desanimaram e decidiram, ao invés de se retirarem do processo, fazer uma apresentação merecedora de enxurradas de aplausos, mostrando a força e dedicação de figuras como a Diretora Vânea Ávlis, que disse que no próximo ano 'pera uma distribuição mais justa: «Existem grupos que 'tão fazendo o Auto de Natal com seis pessoas e recebendo a mesma quantia que a gente. Outros começaram os ensaios há uma semana de suas apresentações. O governo já avançou bastante na questão de encaminhar orçamentos para os 'petáculos, mas ele ainda não conseguiu encontrar um mecanismo eficiente para dividir 'sa parcela de forma qualitativa e quantitativa», afirma. Em o mais só temos a agradecer por mais 'sa maratona que envolve os bastidores de um 'petáculo como 'se e por isso não podemos deixar de dedicar aplausos à equipe técnica do 'petáculo e da galera que realmente faz movimento. Número de frases: 15 Parabéns. Eu vivi no município de Cruz Machado até os 17 anos, quando fui embora 'tudar jornalismo em Curitiba. Em 'sa época me encantei por a cidade, por o teatro, por o cinema e por a vida urbana. Ia sempre visitar minha família, mas com um olhar distanciado. Em 2005 ganhei uma bolsa para 'tudar documentário na Espanha. Nunca havia saído do Brasil e os meus descendentes chegaram aqui há mais de um século. Não sei quase nada da história da minha família e o que levou meus ancestrais a imigrarem. Nunca meus pais me ensinaram que determinado costume é hábito de alemães, simplesmente fomos vivendo. Estando lá tão próxima dos meus ancestrais e muita gente duvidando do fato de eu ser brasileira me fizeram refletir muitas coisas que me enriqueceram pessoalmente e a olhar com outros olhos para o documentário que propus. Percebi mais do nunca o quanto carrego nas veias certos costumes que ninguém me havia passado de modo oral, que de verdade é muito forte a minha raiz, mas ao mesmo tempo ela 'tá em mim, incorporada e irá com mim por onde eu andar. Esse DNA cultural é o que há de mais forte nas pessoas, por que o resto, tudo vai desaparecendo, só sobram os 'paços modificados. do que é feita a memória, o que fica para trás e o que é conservado? Há alguns anos a imigração vem sendo o foco de muitos documentários. A abordagem é quase sempre para a história e os aspectos evidentes da tradição e cultura. Mas visitando e convivendo com 'ses povoados percebi que a maioria, desde os mais velhos até os mais jovens sabem pouco da sua história, até por que a história 'tá marcada em cada célula e cada traço do corpo. Número de frases: 14 São portadores móveis da sua descendência que se modifica de tempos em tempos, quando vai se misturando a outras raças e incorporando outras geografias. É incrível a capacidade da 'critora Maria Valéria Rezende de me impressionar. Conheci-a nas reuniões d' O Clube do Conto da Paraíba e confesso que, ao primeiro contato, fiquei maravilhado com sua leitura inebriante e seus contos que conseguem transportar à minha cabeça todas as cenas, imagens e falas de seus personagens. Aparece-me então com o romance O Vôo da Guará Vermelha que, ao ler a última página, corri para descrevê-lo em artigo. Fechei o artigo dizendo o seguinte: Ler «O Vôo da Guará Vermelha» e não sentir-se outra pessoa é praticamente impossível. Este livro é um convite à mudança. à medida que as personagens vão se descobrindo, o leitor também se descobre, assim, os dois caminham lado a lado, revelando ao outro, e a si, suas capacidades de mudança. O leitor, certamente, não será o mesmo após devorá-lo até a última página. Agora, Valéria presenteia-me com Modo de Apanhar Pássaros a Mão, um belíssimo livro que reúne dezesseis contos. Em ele, a autora mostra sua indiscutível habilidade de passear por o campo das emoções. Percebe-se facilmente nos contos Viaduto, A Princesa de Tróia, A Bicicleta e O Sonho e o Tempo, nos quais brinca com o leitor, fazendo-o saltar de sentimento em sentimento e só perceber ao final da leitura. Em Desejo, Maria Valéria retira todo o fôlego do leitor ao propor uma leitura rápida, sem pontos. Em 'te conto, o motoboy Carlinhos corta as avenidas de São Paulo em alta velocidade para saciar o desejo de sua 'posa grávida. A leitura, portanto, torna-se imprescindível, ao passo que se leitor tomar nem que seja uma pontinha de ar, não consegue acompanhar a moto e a personagem. Três contos, porém, merecem certa atenção: Dilema, Sagüi (os dois primeiros contos do livro, respectivamente) e Melodrama ou A Noiva da Noite (o último conto do livro). Em Dilema a autora questiona a vida literária através da personagem Alícia Maria Cordeiro Lobo, que dedicou sua vida ao fazer literário, sendo capaz de largar noivado e carreira acadêmica. Porém, Alícia tem seu romance rejeitado, e ganha a vida fazendo revisão em livros de novos 'critores. O dilema real aparece quando a vizinha de Alícia morre e deixa para ela um romance inédito, «O livro que Alícia daria tudo para ter 'crito, que de tal maneira a fascina que nem lhe dói a constatação indiscutível de que seu próprio romance 'tá longíssimo da genialidade». Alícia vê-se então pega no maior dilema de sua vida: publicar o livro assumindo a autoria e tornar-se famosa ou continuar a revisar os livros dos outros? Já Sagüi é um capítulo do segundo livro de Valéria (O Vôo da Guará Vermelha, citado logo acima). Em 'te conto, a personagem Irene lembra uma traumática passagem de sua infância, quando, sem querer, mata enforcado o sagüi que cuidou e ajudou a curar quando doente. Irene hoje é uma prostituta contaminada por o vírus da Aids, sem clientes -- pois «muitos homens não querem nada com camisinha, vão procurar outra» -- e tendo que dar dinheiro para a velha que cria seu filho. O conto traz a crítica em forma de questionamento; quantas Irene existem por 'se Brasil?, quantas mulheres machucadas por a vida sofrem aos cantos por aí? Melodrama ou A Noiva da Noite é um conto trágico em meio à alegria do carnaval carioca. A personagem central, Aurélia, ama Orestes, que ama Rita e é correspondido. Rita é o destaque da 'cola de samba 'te ano, vestirá a fantasia A Noiva da Noite. Orestes é marinheiro e parte em viagem prometendo a Rita que voltaria. Rita entrega-se então aos braços do Alemão. Quando Orestes volta, no dia do desfile, Aurélia rouba a fantasia de Rita e se faz passar por ela. Quer apenas prender o olhar apaixonado de Orestes em seus olhos, para assim, poder tecer sonhos, fantasiar um amor correspondido. Em a contracapa do livro encontra-se a seguinte frase: «A cadência narrativa deste livro envolve, desarma, e então nos golpeia com uma delicadeza fulminante." E é por 'sa magia tão envolvente, 'sa poesia presente nas personagens, que faço de Modo de Apanhar Pássaros a Mão uma leitura mais que recomendada, necessária. Número de frases: 38 Em abril de 2007 acontecerá o 1º Festival de Música Instrumental de Guarulhos. Poderão ser inscritas, até o dia 20 de março, músicas de todo o Brasil, desde que inéditas. O evento abre um 'paço interessante para os músicos brasileiros manifestarem originalidade na criação musical e mostrarem sua arte ao público, jornalistas, profissionais do mercado fonográfico e críticos. O Festival também contará com apresentações de artistas convidados. Cada noite receberá um grande mestre da música instrumental brasileira. Segundo os organizadores do festival (Capucho Produções), o objetivo é valorizar o artista e sua obra integrada aos elementos da cultura brasileira, incentivar a criação e produção musical no país, dar oportunidade a jovens talentos de terem suas obras conhecidas e possibilitar que grandes músicos tenham suas obras reconhecidas. A primeira fase do processo de seleção será a análise do material enviado por o artista. Uma comissão julgadora selecionará vinte participantes para a apresentação ao vivo da música 'colhida para representar o compositor no Festival. Serão duas noites de eliminatórias e uma final onde serão premiados os vencedores. Primeira Eliminatória: dia 19 de abril de 2007, a partir das 21h. Show de intervalo de Yamandú Costa Trio. Segunda Eliminatória: dia 20 de abril de 2007, a partir das 21h. Show de intervalo de Oswaldinho do Acordeon. Mestre em seu instrumento, reconhecido nacional e internacionalmente como um dos maiores representantes da música instrumental e popular brasileira. Final: dia 21 de abril de 2007, a partir das 21h. Abertura: Big Band Conservatório. Show de intervalo da Banda Mantiqueira Formada em 1991, por iniciativa do clarinetista, saxofonista, compositor e arranjador Nailor Azevedo, o Proveta. Regulamento das Inscrições e da Seleção O concorrente deverá ser compositor na área de Música Instrumental Popular Brasileira. Será aceita a inscrição de concorrentes de todo o Brasil. Não serão aceitas inscrições dos compositores que apresentarem mais de duas músicas de sua autoria para a competição. As inscrições poderão ser feitas de 15 de janeiro a 20 de março de 2007. a) A ficha de inscrições 'tá disponível no site do festival. Poderá também ser enviada por o correio à Capucho Produções situada a Av.. Pedroso de Moraes, 677 conj. 103 -- CEP 05419-000 -- São Paulo -- SP e postadas até o dia 19 de março de 2007. 2. Cada concorrente poderá inscrever até 02 composições, mesmo em parceria. Confira todo o regulamento no site do Festival As Eliminatórias 1) As eliminatórias serão realizadas nos dias 19 (10 músicas) e 20 de abril (10 músicas). O júri 'colherá 10 para a finalíssima do dia 21 de abril de 2007, o resultado será divulgado após a segunda eliminatória do evento no dia 20 de março de 2007. 2) Uma Comissão Julgadora, formada por músicos compositores / arranjadores e jornalistas com 'pecialidade em crítica musical, 'colherá as 10 (dez) músicas finalistas que voltarão a se apresentar no mesmo Teatro no terceiro e último dia do Festival. 3) Os concorrente e músicos participantes vencedores deverão enviar a produção do Festival, material para divulgação e publicação no site tais como: fotos, biografia / CV, release, CDs e demais documentos solicitados por a produção do Festival. A Apresentação 1) Cada músico poderá defender no Máximo 02 (duas) músicas de apenas um compositor. 2) As músicas classificadas poderão ser apresentadas por os autores ou por pessoas que eles indicarem. 3) Os concorrentes terão direito a 20 minutos para a passagem de som no dia da apresentação da musica que será defendida por ele, obedecendo a ordem 'tabelecida por a organização do Festival. 4) A ordem de apresentação das músicas será decidida previamente por a comissão organizadora, obedecendo a critério artístico. 5) Em a final, a apresentação dos candidatos obedecerá a uma ordem, de acordo com o sorteio previamente realizado por a Comissão, às 19:00 horas. As Premiações Para o artista e banda ou grupo selecionados a premiação abaixo descrita a titulo de ajuda de custa conforme região onde o participante reside: R$ 2.000,00 (dois mil reais) -- aos que residirem fora do 'tado de São Paulo R$ 1.000,00 (um mil reais) -- aos que residirem dentro do 'tado de São Paulo A Premiação Final 1) De entre as 10 músicas 'colhidas para a final serão premiadas as melhores músicas e intérpretes, a critério da comissão julgadora conforme abaixo: 1º Lugar R$ 6.000,00 (seis mil reais) + troféu 2º Lugar R$ 3.000,00 (três mil reais) + troféu Melhor Arranjo R$ 1.000,00 + troféu Melhor Instrumentista R$ 1.000,00 + troféu Aclamação Popular R$ 1.000,00 + troféu O Júri 1) A classificação das músicas e a atribuição de prêmios ficará a cargo do júri, composto por membros 'colhidos por a Comissão Organizadora, sendo eles músicos e conhecedores de música e possuidores de currículo indiscutível, e portanto aptos a avaliarem e julgarem as musicas concorrentes. Serão oferecidas aos participantes condições necessárias às apresentações, como: Teatro apropriado; Som e operador; Iluminador; Folder e programa do show; Divulgação nos meios de comunicação. As Disposições Gerais -- A Comissão Organizadora não se responsabilizará por a hospedagem dos compositores e grupos concorrentes. -- Toda e qualquer informação sobre o Festival, programação, regulamento, ficha de inscrição, selecionados, etc., será baseada no conteúdo publicado no site www.guarulhosinstrumental.com.br Quaisquer dúvidas poderão ser 'clarecidas também através do mesmo endereço eletrônico. Serviço 1º Festival de Música Instrumental de Guarulhos Local: Teatro do Adamastor Avenida Monteiro Lobato, 734 Macedo. Guarulhos -- SP Data: dias 19, 20 e 21 de abril de 2007 A partir das 21h Contato: 11 3032-3312 Fax: 11 3816-0270 Número de frases: 74 contato@guarulhosinstrumental.com.br Melius Zapiranga Bongo tem o prazer de anunciar o segundo número do seu almanaque de quadrinhos, ilustrações e textos ilustrados. Acaba de sair a Bongolê Bongoró & 2, uma revista que, de tão independente, saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou! Para quem se lembra do primeiro volume do almanaque Bongolê Bongoró, lançado em 2006, algumas novidades. Desta vez o Sr. Melius recebeu, em sua sede de Brasília, colaborações de várias partes do Brasil e do mundo e no final do exemplar você poderá verificar quem foram os autores das mais de 80 páginas. Para quem não se lembra, a Bongolê Bongoró mistura ilustrações selecionadas que se misturam com colagens, quadrinhos e textos e mais textos. Assim como no primeiro número, o leitor encontrar uma série de histórias em quadrinhos que acontecem no Cine Pornongo, no trecho rosa, que possui o conteúdo adulto da revista. Direto da sua sede, as colaborações foram dos brasilienses Stêvz e Gómez (vencedor da categoria tiras do último Salão de Humor de Piracicaba) e do Biu (paraibano radicado em Brasília, roteirista do quadrinho Blue Note). De outros lugares do Brasil, podemos destacar Alan Sieber, Caco Galhardo, Weaver Lima, Guabiras, Gabriel Renner, Edson Aran ... Ah, ainda temos os portugueses André Lemos, João Cabaço, Edgar Raposo, Pepedelrey, o italiano Claudio Parentela e a 'tadunidense Madame Talbot. Novamente o leitor encontrará os Diários Secretos de Melius Zapiranga Bongo, em que o sr. Z. fala sobre o que ele chama de processo criativo mercadológico. Falando nisso, quem quiser adquirir um exemplar é só enviar R$ 5,00 para a Caixa Postal 6116, 70740-971, Brasília / DF. A revista será distribuída em algumas cidades do Brasil, caso queira saber onde adquirir uma pessoalmente é só enviar um e-mail para meliusbongo@yahoo.com.br ou entrar no endereço www.bongole.blogspot.com. Número de frases: 12 Eu tinha um sonho: era fazer um documentário que recontasse a história da Banda e do Movimento Black Rio. O sonho não se acabou, mas há muito 'ta adormecido. Comecei as pesquisas em 2002, acho. Muito material chegou a ser reunido. Algumas entrevistas preliminares foram feitas. Mas, o projeto desandou por falta de dinheiro. Anos atrás, 'tive em Londres e visitei a sede da Mr. Bongo, o selo que lançou os álbuns históricos da Banda em CD. Mais uma vez me pareceu que os gringos sabem apreciar a nossa história melhor que nós mesmos. Para acender uma palha do meu sonho, 'tou publicando a primeira entrevista que eu, com o auxílio do cineasta André Martins e do então 'tudante de História Thiago Norton, fiz para o «filme». O entrevistado foi o William Magalhães, filho do Oberdan Magalhães, o homem que deu vida à Banda Black Rio. Embriagado por as memórias afetivas, ele nos ofereceu o seguinte depoimento que 'tava naquelas 'quinas de sites que não existem mais e que, agora, compartilho com o OverMUNDO. A Banda Black Rio surgiu em 1976 e, em sua proposta original, lançou apenas três discos de carreira: Maria Fumaça (1977), Gafieira Universal (1978) e Saci Pererê (1980). Há poucos anos, chegou ao mercado, acompanhando uma caixa comemorativa da obra de Caetano Veloso, o disco ao vivo Bicho Baile Show. A banda teve três diferentes formações e de entre os músicos que a integraram 'tão nomes que arrepiam qualquer um que entenda um pouco de música popular: o baixista Jamil Joannes, o trompetista João Carlos Barroso (o Barrosinho), o guitarrista Cláudio Stevenson (já falecido), o baterista Luiz Carlos dos Santos (o Batera) e os tecladistas Cristóvão Bastos e Jorjão Barreto. Em 2001, William resolveu resgatar o trabalho do pai e lançou o álbum Movimento (Rebirth, no mercado internacional). Em 'ta entrevista, William fala de suas impressões sobre a Black Rio original, os motivos que o levaram a retomar o projeto e sobre sua história de vida, intimamente ligada com a música, em 'pecial, com a Banda Black Rio. Roberto Maxwell -- O que levou você a montar de novo a Black Rio? William Magalhães -- Olha, cara, 'sa é uma pergunta que muita gente me faz. Foram muitas razões. Primeiramente, porque acho que meu pai morreu precocemente, muito cedo, entende? Ele havia conseguido fechar um contrato com a gravadora Fantasy, que era uma gravadora americana da época, super-quente, que representava um tipo uma GRP internacional, fazia muita coisa africana nos Estados Unidos, umas coisas sul-americano etc.. Acho que sua morte precoce causou uma certa frustração, uma interrupção porque, apesar de já ter criado a Black Rio, ele sempre 'perou chegar até 'se passo, de entrar no mercado americano, de entrar no mercado europeu. Ele mal sabia, no entanto, que a banda já 'tava entrando, principalmente na Europa e depois, também, em algumas cidades dos Estados Unidos, tipo Nova Iorque e Los Angeles. Essa foi uma das razões: tentar continuar o trabalho de ele, que, a meu ver, tinha uma certa importância cultural, representava com o movimento Black Rio um momento, um elo perdido e 'pero que 'se documentário consiga realmente dar a tônica de 'sa importância. Outra razão é a questão musical mesmo, é o som, uma das poucas músicas que, apesar de ser antropofágica, ou seja, de ter influência de fora, nasceu no Rio de Janeiro, assim como o choro ou como o samba, samba-enredo. Acho que isso faz parte da cultura, da história do Rio de Janeiro e é uma coisa que tem um valor musical muito grande. Teve um reconhecimento internacional também por outra razão, entendeu? Sabia que neguinho em Londres se amarrava, que tinha muita gente na Alemanha que curtia? De uma certa forma, 'se disco mostra um pouco isso para o próprio Brasil, para o Rio de Janeiro, pois muita gente não faz idéia do que seja a Black Rio e, às vezes, só lembra por causa da música da novela Locomotivas (novela exibida por a Globo no fim dos anos 70). Essa rapaziada nova pouco conhece, quem conhece mais é o pessoal que 'tá mais ligado mesmo à música, em pesquisa, que vê discos, os DJs etc e tal. Então, basicamente, é a vontade de levar à frente um trabalho que meu pai começou e que acho que não conseguiu terminar, mostrar o valor desse som, um som muito bom, que chega a influenciar um Jamiroquai (banda de pop / acid jazz). Uma vez fui a uma festa de neguinho que conhece a Black Rio e, quando tocava também Jamiroquai eles se confundiam e hora diziam que era uma, outra era a outra. E, de repente, Jamiroquai é uma banda que vendeu 20 milhões de discos, se dizendo influenciada por a Black Rio. Aliás, como outras bandas, até o Simply Red. E eu acho um absurdo não se atentar para 'se fato, que existe uma admiração internacional, que 'se som Black Rio influenciou a música no cenário internacional londrino, que é o top da música no mundo, em termos mundiais mesmo, da música africana que chega lá, da própria música brasileira ... E aqui, neguinho nem fala da Black Rio, não tem nenhuma citação, nenhuma homenagem ... Mas não tem nada não. Acho que sou um pouco predestinado. Mesmo que não venha 'se reconhecimento agora, em 'se tempo que a gente tá vivendo, um dia vai ter sim, no próprio Brasil vai cair a ficha e isso pode ser a qualquer momento, como daqui a vinte anos. -- Quando começou o trabalho para 'sa retomada, exatamente? -- Em a realidade, começou em 89. Eu 'tava com o Gil em Londres, fui à Feira de Portobello e achei um vinil por 100 dólares. Quando eu vi aquilo, percebi que havia um reconhecimento. E não foi só em Londres não, pois eu comecei a fazer uma tournée por a Europa, inclusive até o Japão, e vi que havia 'se reconhecimento. Claro que não era geral, mas de uma área 'pecializada, dos DJs etc e tal. Isso foi um dos 'tímulos: saber que existia um reconhecimento internacional e que eu poderia ter acesso a isso sem depender do Brasil porque, fundamentalmente, a década de 90 foi a pior década da música brasileira. E eu já tinha a idéia de fazer um disco. Aí, pensei, vou fazer um disco direto para o mercado de Londres porque não tinha como pensar em construir, em fazer um som Black Rio aqui no meio da década de 90, justamente por a questão mercadológica, de não aceitação. Isso foi uma coisa que foi mudando também, porque, no início, eu queria fazer uma coisa só instrumental. Depois, pensei bem, pensei em 'sas questões de se tentar popularizar o trabalho, que foi uma tentativa da primeira Black Rio. Assim, isso foi mudando e surgiu 'se repertório que 'tá aí. Mas, independente de 'sa questão, eu tinha que ver primeiro que, se eu quero fazer a Black Rio, como eu posso fazer? A primeira coisa que fiz foi tentar chamar os caras antigos. Ninguém quis vir. Ninguém. As pessoas, principalmente o Barrosinho, que era um cara que se encaixaria mais, pois foi um dos mentores, não quiseram saber, até porque eu era um garoto e ninguém acreditava que eu poderia fazer 'sa merda. Ninguém realmente botou fé. Nego já me conhecia como músico, sabia ... Mas refazer a Black Rio era uma missão tipo desencavar um dinossauro. Aí, eu comecei a pesquisar. Comecei a pegar todos os discos, peguei os discos lá do Abolição (banda do lendário Dom Salvador que, de alguma forma precedeu tudo o que a Black Rio construiu), peguei os discos do Impacto Oito (banda seminal da Black Rio), consegui na casa da minha avó ver uns registros de partituras, de idéias, de 'boços que meu pai 'crevia. Comecei a analisar como é que era a forma mais ou menos que ele pensava, que não era só ele que pensava, era um trabalho de criação coletiva, mas ele já chegou com muita coisa 'boçada, em termos de voz, e nos discos também, tirando cada detalhe. às vezes ficava quase um mês pra achar a voz do trompete ali no meio, sabe, tirando os detalhes ... Foi difícil sim, mas acho que a gente conseguiu, através desse material e, obviamente, o Lúcio (Silva) também foi um cara que ajudou muito, porque, como ele era da primeira formação, só as histórias que ele contava já dava pra mais ou menos você imaginar e muita coisa ele também tocava, a parte de ele, então ... A partir da parte do trombone a gente conseguiu decifrar a parte dos metais. Inclusive, o que mais impressiona as pessoas no nosso show é isso, que a gente toca os arranjos fiéis, cada nota ... Pega o disco Maria Fumaça e a gente toca aquelas músicas exatamente igual. Nenhuma nota mal tirada. Então, a gente conseguiu, cara, e, partir daí, saiu 'se disco, que foi muito bom, a gente ganhou um prêmio de melhor banda Pop Rock do prêmio Caras. O disco conseguiu ter uma edição em inglês. O Bernardo que é um cara lá da gravadora ele foi em Londres e a primeira gravadora que ele entrou, neguinho: «Black Rio, claro!». Ai saiu 'se disco que é o Rebirth e o disco 'tá no mundo inteiro, os caras têm um 'critório de 'sa gravadora -- Mr. Bongo -- no Japão. A capa do disco é muito boa. Não existe nenhum artista pop no Brasil que tenha uma capa de 'sa. Só a capa vende cem mil. O disco é o Movimento com quatro faixas por remix, remixadas por os caras e remasterizadas. RM -- De 'sas histórias, na redescoberta da banda, que ele contava, fala da que mais te impressionava? WM -- Tinha uma história muita engraçada que Lúcio falava, que é sobre uma música que tem no disco, Leblon Via Vaz Lobo. É uma história assim boba, mas que dá pra entender meu pai, que, na época, não tinha carro. Inclusive, ele morreu de acidente de carro. Começou a pilotar depois dos 38 anos, então dirigia muito mal. Ele morava no Leblon e minha avó em Madureira, Vaz Lobo, e, assim, toda vez que ele pegava um ônibus, sempre chegava com uma música, de tão longe que era e o cara ainda vinha com os instrumentos todos. Ele falou que Leblon Via Vaz Lobo, que é muito tocada em banda de baile, em abertura de show, é uma música que ele 'creveu no ônibus e foi 'sa partitura justamente uma das que eu achei, um 'boço, assim, meio borrado. Foi no ônibus que ele compôs a música. Aí, o Lucio começou a trocar a linha do trombone, que é dobrada com o baixo. Isso foi maravilhoso, eu ouvir 'sa história e sentir a viagem e sentir que a Black Rio tinha uma exposição muito forte dentro do lance popular, pois a minha família vinha do samba, minha avó era tesoureira da Império. Meu pai fazia 'se circuito, do Leblon, onde ele morava, atravessava o túnel, pegava a Avenida Brasil e chegava a Vaz Lobo, fazia o link. E acabou acontecendo que a Black Rio só foi tocar no subúrbio depois de um ano, descansada; ela só tocava na zona sul, Teatro Carlos Gomes, Catacumba, naquele lance que tinha ali na praia de Ipanema, Caetano obviamente, etc.. Só depois, é que ela começou a fazer baile, baile-show, no subúrbio. E o mais curioso é que todo mundo era do subúrbio. Vai ver, meu pai pensava: «Pôxa, meu som é todo calcado em 'sa raiz do subúrbio, do lance do samba, do partido-alto, mas a gente tem que ir lá para o outro lado do túnel pra mostrar 'se som." É. Porque não existia, porque era um som que tinha uma influência do samba enorme, mas com aquela coisa jazzística. Então, o pessoal do subúrbio não entendia. Eu me lembro nitidamente de um show que eles foram fazer no Cassino Bangu e as pessoas ficaram assim, chapadas, com o som ... Nego não dançava, por mais que tivesse um samba, um funk ... Era uma coisa assim, a banda causava um impacto com aqueles arranjos e nego não entendia. De aí, eu acho que a Black Rio realmente 'tava uns 20 anos na frente, em termos da concepção que ela tinha idealizado naquele momento, porque era uma coisa que tinha aquela mistura toda, tinha a coisa fina do jazz, com a 'sência de samba, e o funkão que rolava na época, o James Brown, e tal, até que a banda começou a fazer, a botar umas músicas assim de baile no meio, quando era show em subúrbio. Pegava uns big hits assim do James Brown, do Chic (banda de rhythm ' n ' blues famosa nos anos 70), tirava e tocava. Quer dizer, 'sa é uma das histórias. Tem muita coisa assim de comportamento mesmo dos caras. Eu comecei a conhecer bem o Barroso através do Lúcio, que contava as histórias de ele, que, aliás, tem um puta som de trompete ... O cara era um super-compositor, arranjador, mas tinha umas manias, assim, engraçadas ... Era um cara do Nordeste, que eu não sabia, acho que de Pernambuco, e foi um dos caras que forçou a barra pra ter 'sa coisa do baião também na Black Rio, a mistura do baião com o funk, do maracatu com o funk, com o funk da época, no caso, não 'se funk de hoje. O Luís Carlos, que era o baterista, era um cara assim totalmente intuitivo, não lia uma nota de música, era um cara que nem era baterista, era percussionista de 'cola de samba mas que resolveu tocar batera. Quer dizer, o 'tilo de ele de tocar bateria foi uma coisa, assim, revolucionária. Outro dia, eu encontrei o Lobão na Pizzaria Guanabara e ele disse que tinha descoberto o Luís Carlos e ficou horas falando do cara, porque ele também é baterista, né? RM -- Você falou da dificuldade de achar registros, porque eles compunham ... WM -- É porque existia no disco Maria Fumaça, quer dizer, de cara é aquela coisa: foi feita uma encomenda internacional pra se fazer a Black Rio e o que eles fizeram primeiramente? Pegaram duas músicas, uma do Luiz Gonzaga e outra do Ary Barroso, que é o Baião e Em a Baixa do Sapateiro, como referência de composição e de estilo pra fazer 'sa experiência e, do momento que era uma música conhecida, que todo mundo tocava, o trabalho, na verdade, era achar a concepção em cima daquele tema, que era como se fosse um standard pra todos os músicos. E 'se primeiro experimento, 'sa química deu muito certo, cada um por si já foi descolando a sua onda, meio com uma condução do meu pai, nós vamos puxar mais para o samba aqui, olha, a gente faz uma elevada funk, e deu certo assim. Então, resolveram fazer o disco todo assim. Cada um criava a sua parte e ninguém 'crevia, apesar todos saberem 'crever, de todos terem 'sa formação, ninguém 'crevia. Cada parte de cada pessoa ficou com ela e na hora que você põe tudo junto no mix, pra você identificar que coisa é fogo, cara. Qual é a voz do meio, do tenor, qual é a voz que o clavinete tá fazendo junto com a guitarra, normalmente o Claudinho gravava três, quatro canais de guitarra, isso tudo era uma linguagem que tinha que ser decifrada. E eu fiquei colado assim, com orelha, pegando gravações, pegando fitas que eu tinha de ensaios da Black Rio que meu pai tinha deixado, que isso se perdeu, eu não sei onde 'tá isso mais. RM -- Onde eles ensaiavam? WM -- Eles ensaiavam no 'túdio Level, que tinha ali em Botafogo, nem sei o 'túdio ainda existe ou se mudou de nome, ensaiavam lá no (ininteligível) Tim, meu pai era muito amigo do Tim Maia, amigo mesmo. O Tim Maia só ligava pra três pessoas no fim do ano, no Natal: meu pai, Roberto Carlos e a mãe de ele, lá. Então, meu pai tinha um 'quema com ele, que o Tim ensaiava ali na Ladeira do Sacopã, na Lagoa, então eles já ensaiaram muitas vezes ali, até porque meu pai já tocou com o Tim. Ensaiavam também lá no barracão da minha avó, em Vaz Lobo, antes de rolar 'sa fase mais de Sacopã. Essa casa era legal da gente ir. Número de frases: 130 Minha avó, nem meu avô 'tão vivos, mas eu tenho minha tia, irmã de meu pai, que conhece muita gente que tem muito a ver com 'sa história. Uma vez pediram para um professor definir a Rede Globo em poucas palavras. Ele prontamente recitou os versos da canção do compositor e cantor maranhense, Zeca Baleiro, que dizem assim: «meu presente agora é cool, o meu passado é que foi trash». Quando ouvi 'ta definição parei, refleti e até encontrei alguma razão. É bem verdade que ela manipulou e omitiu fatos em prol da ditadura, tentou conter a redemocratização e aniquilou Lula favorecendo Collor, dando provas de que seu compromisso comercial era mais importante que o social. Mas nos últimos anos, até mesmo por conta do novo contexto em que passou a 'tar inserida, a emissora pareceu 'tar trilhando novos rumos, fazendo um jornalismo sério e imparcial. Mera miragem! Como quase tudo que faz parte do Grande Sistema, a Globo passou a fazer pose de boa amiga e defensora da democracia pra 'conder os seus mesmos interesses de sempre. Durante a semana que antecedeu o primeiro turno das eleições o canal divulgou, incansavelmente, imagens (que, por sinal, encontravam-se sob sigilo de justiça) do dinheiro usado na compra do dossiê por petistas contra membros do PSDB. Seus telejornais insistiam na mesma notícia sob a desculpa do surgimento de novos fatos. Enfim, a disputa por o palácio do planalto sofreu uma guinada surpreendente dentro de menos de uma semana, levando a decisão para o segundo turno. Já na última sexta-feira, 06 de Outubro, o presidente Lula, em campanha na cidade de Petrolina, interior de Pernambuco, discursou fervorosamente em crítica aos adversários que o acusam de faltar com ética. Enquanto falava, mostrou um santinho de candidatos coligados do PFL e do PMDB, que no 'tado lhe fazem oposição, apoiando Alckmin, onde havia, no 'paço destinado à imagem do candidato à presidência, uma foto sua, porém com o número do tucano. O Jornal Nacional transmitiu uma matéria sobre o evento e até citou a fala do petista a respeito do tal panfleto, no entanto, bem rapidamente e sequer chegou a mostrá-lo. Será que a atitude dos adversários do presidente não é uma falta de ética importante que precise ser discutida? Esta é a Rede Globo de Televisão. Embora o seu passado tenebroso 'teja à vista para quem quiser ver, o povo do Brasil democrático, ainda a assiste como nos tempos da ditadura. Talvez daqui a alguns anos se fale sobre 'te presente como falamos hoje a respeito do seu passado, mas ela continue forte e onipresente como o deus que nunca morre. Número de frases: 19 Espécie de «Antônio Conselheiro de saias», Benedicta Gomes criou uma comunidade que é cultuada até hoje em Goiás. Documentário goiano aprovado no DocTV resgata a história da santa messiânica. Leia ao final a crítica do filme 'crita por Beto Leão, presidente da Associação Brasileira de Documentaristas -- Seção Goiás Conta-se em Goiás que a história de Benedicta Cipriano Gomes (1905-1970) aproxima-se muito da de Antônio Conselheiro, o beato-mor de Canudos. Figura lendária, mulher de força política e de fé sincrética, Benedicta ou simplesmente Santa Dica como passou à história, tem em seu currículo proezas díspares como a de ter servido como modelo de uma tela de Tarsila do Amaral e ter liderado uma tropa de 150 homens para as frentes da Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo. Mas a maior façanha de Santa Dica, motivo de sua devoção até hoje na região da cidade histórica de Pirenópolis, 'tá no messianismo ímpar, que conquistou seguidores de diferentes religiões. A liderança de Santa Dica nasceu de seus supostos milagres e na criação da chamada Cidade dos Anjos, uma terra livre, «socialista», onde todos dividiam tudo e viviam por a fé liderada por uma» roceira bonita e analfabeta, a nossa Joana D «´ arc», no dizer do documentarista uruguaio radicado em Brasília Carlos Del Pino, o primeiro a rodar um filme sobre ela (o longa, República dos Anjos, não teve mais exibições por desentendimentos do diretor e o produtor sobre direitos autorais). O vilarejo de Lagolândia, localizado no diminuto distrito de Pirenópolis (conta-se hoje pouco mais de 300 moradores), chegou a somar 15 mil seguidores e incomodou fazendeiros e o poder político-militar e eclesiástico da época. Em o ano em que se comemorou o centenário do nascimento de Santa Dica (2005), 'ta história fantástica e pouco disseminada até no Centro-Oeste voltou à baila com um novo filme, debates e até audiência púbica em homenagem a Dica, que foi expulsa de Goiás por a Guarda do Estado da época (década de 20). A homenagem partiu da Câmara Municipal de Goiânia. O último a se debruçar sobre a história de Santa Dica foi o jornalista Marcio Venício, que rodou o documentário Santa Dica de Guerra e Fé, fruto de projeto contemplado no segundo Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro, o DocTV (parceria entre a TV pública e a produção independente desenvolvido por a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, a TV Cultura e a Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais -- Abepec). O documentário de cerca de 55 minutos, rodado em 2005, 'tá em processo de exibição pública itinerante por universidades de Goiás e 'paços alternativos (como cineclubes), além das exibições na TBC Cultura, o canal cultural de Goiás. Em março, o filme ganhou sua primeira exibição nacional do filme por a TV Cultura de São Paulo. O filme, conta o diretor, também repórter da TV Anhanguera (filiada à Globo em Goiás), procura resgatar o legado de Santa Dica sobre os aspectos históricos e místicos, motivo de maior controvérsia na biografia da personagem. «O misticismo é um lado que me interessou muito. Há diversos relatos de pessoas que afirmam que seu 'pírito se manifesta ainda hoje em terreiros de umbanda ou sessões 'píritas. Coloquei na parte que trata da liderança 'piritual de ela o depoimento de um ex-evangélico que visita terreiros de umbanda portando uma foto de Santa Dica», disse Márcio Venício sobre um dos vários entrevistados do documentário. Com uma equipe de oito pesquisadores (incluindo Carlos Del Pino), o diretor colheu mais de 60 horas de gravações que resultaram nos 55 minutos do filme. Dividido em três partes, o filme Santa Dica de Guerra e Fé traça em blocos um painel dos diferentes aspectos da vida de Benedicta Cipriano Gomes. O primeiro, conta Venício, relata a importância de ela como mulher, uma figura que as feministas consideram pioneira em Goiás. Um exemplo de 'sa faceta 'tá no fato de que Dica, com sua liderança político-epiritual, fez o marido ser eleito por duas vezes para a prefeitura de Pirenópolis em plena era do coronelismo macho adulto branco no comando do sertão do Brasil Central, como em todo rincão nacional. Por a sua liderança, Santa Dica atraiu a simpatia sub-reptício de muitos políticos na época, entre eles o fundador e o atual prefeito da capital do Estado, Pedro Ludovico Teixeira e Íris Rezende, respectivamente. O historiador Lauro Vasconcelos, da Universidade Federal de Goiás (UFG), um dos primeiros a 'tudar profundamente a vida de Santa Dica, cita no livro Santa Dica: Encantamento do Mundo ou Coisa do Povo que ela sabia da influência que exercia sobre líderes políticos. «Todos os partidos da época PSD, PTB, UDN -- a sondavam. Ela tinha consciência de 'sa exploração, mas deixava o barco correr. Tentava usufruir desse apoio para conseguir benefícios para sua comunidade», anotou Vasconcelos no livro que ele acabou não vendo publicado em vida e hoje pode ser encontrado por a coleção Documentos Goianos, do Centro Gráfico da UFG. Entre 'ses políticos, fala-se de um cuja aproximação de Santa Dica foi sincera, a do ex-presidente " Juscelino Kubitschek. «Tenho relato dos familiares de Santa Dica dizendo que ele a conheceu quando era um jovem médico, bem antes de se tornar presidente. E depois de ocupar o Palácio do Planalto, ele voltava a Pirenópolis para manter a amizade com ela», diz Marcio Venício. Foi a época também em que a história de Santa Dica ganhou uma razoável projeção nacional. Teve perfil pintado por Tarsila do Amaral, foi tema de um poema de Jorge de Lima e a fama desenhada por Osório César e João do Rio. O marido, pai dos cinco filhos que Santa Dica teve, era um jornalista nordestino (do Rio Grande do Norte) radicado no Rio que veio a Pirenópolis atrás da história da nova «santa messiânica». Dica era uma morena bonita, «diferente dos padrões da morenice do lugar», conta Marcio Venício e os historiadores sobre os quais se apoiou para o filme. Mário Mendes, o jornalista, acabou se apaixonando por a personagem de sua reportagem e ficou com ela em Lagolândia, vindo a ser prefeito de Pirenópolis por força da liderança da mulher nos anos 30. Uma das filhas de Santa Dica, Dolores Mendes, contou ao jornal Diário da Manhã que o pai morou com eles até 1942, quando partiu para Goiânia para trabalhar como corretor de imóveis. Ela diz sem certeza que o pai morreu em Uruaçu, interior do Estado, de aneurisma, em 1963, aos 67 anos. E não detalha o fim da relação dos pais e não soube confirmar o boato de que os cinco filhos do casal seriam irmãos, por parte de pai, da atriz Yoná Magalhães. A fama de Santa Dica começou ainda menina, quando ela teria «ressuscitado» do caixão pouco antes de seu sepultamento. Segundo relatos de moradores -- reprisados em livros, peça teatral e nos três filmes existentes sobre sua vida -- a garota Dica (aos sete anos, mais velha de uma prole de oito irmãos) teria «suado» ao ganhar o «banho de defunto» da tradição católica. O fato surpreendeu a família que, antes de enterrá-la, preferiu continuar velando-a por três dias. O 'critor Antônio José de Moura, outro dos mais importantes pesquisadores de Santa Dica ('creveu sobre ela o romance biográfico Sete Léguas do Paraíso), acha que ela teve um ataque de catalepsia ('tado em que se observa uma rigidez dos músculos semelhante à da morte), mas para o povo acreditou que Dica havia ressuscitado. A notícia se 'palhou e não demorou para Santa Dica começar a realizar curas consideradas 'petaculares. Virou uma lenda na região. Suas façanhas como a de curar pessoas varou fronteiras, transformando-a numa ' santa ', o prenome que passou a acompanhá-la por a vida inteira. Lagolândia se transformou numa romaria de gente de todos os cantos, que procuravam a cura para seus males. Começava o movimento messiânico liderado por Santa Dica, que culminou com o «Dia do Fogo, em 14 de outubro de 1925». Ela contava com 20 anos quando a Força Pública de Goiás cercou o reduto da Lagoa e expulsou a bala seus seguidores. Os historiadores analisaram que os despossuídos da região buscavam nas forças sobrenaturais os instrumentos de conforto capazes de superar a enorme desigualdade de forças. Cercados por os soldados -- que segundo Antonio José de Moura 'tavam muito bem armados para os padrões da época (soldados com metralhadoras e fuzis) -- os «diqueiros» (com ficaram conhecidos os fiéis de Santa Dica) não arredaram pé, acreditando que seriam salvos por um «Exército de Anjos». Toda a divindade em torno de Santa Dica teria origem nas visões que ela teria de «anjos». Um «de eles, crêem os» diqueiros», a teria alfabetizado. «Tem-se como verdadeiro que ao ser atacado o reduto, Santa Dica, à semelhança da passagem do Mar Vermelho, mandou que seus adeptos se atirassem no Rio do Peixe [que passa ao fundo do lugarejo] e 'te cederia lugar à sua passagem. Aqueles que atingissem a margem oposta 'tariam salvos. ( ...) Grande número de pessoas se jogou no rio, perecendo um bom número de elas afogadas», 'creveu Vasconcelos em seu livro. O episódio só fez aumentar a fama da proteção celeste de Santa Dica. ' Quem participou da batalha conta que as balas pegavam no peito dos seguidores de Dica e caíam no chão como grãos de milho. Outros, que os anjos desviavam as balas. Outros, que Dica se pôs na frente das balas e as retirava depois dos cabelos ', recorda a lenda o 'tudioso Pompeu de Pina, da família de músicos e intelectuais de Pirenópolis. Mas a história de Dica não terminou aí. Em 1932, durante a Revolução Paulista, ela conduziu um pelotão de 150 homens a São Paulo para defender a integridade nacional. Voltou sem baixas e com a patente de Cabo do Exército Nacional. O bando ficou conhecido como os pés de palhas e pés-sem-palhas. ' Era como ela ensinava os matutos a marchar. Amarrando uma palha no pé. Pé com palha, pé sem palha e a marcha saía correta ', explica Pina. O crescimento da liderança 'piritual e política de Santa Dica, incomodou não só às forças do Estado, mas também da Igreja. «Consegui documentos no Santuário dos Redentoristas em Trindade que mostra a igreja a tachando em jornais da igreja como prostituta e contrária a tudo de bom que ele pregava», conta o jornalista Marcio Venícios, acrescentando que a igreja passou a temer que Santa Dica atraísse a atenção dos romeiros que ainda hoje lotam as peregrinações de Trindade (cidade próxima da capital que sedia a maior romaria goiana). De toda 'sa história, sobrou a fé dos poucos «diqueiros», que continuam cuidando da imagem da» santa " no mesmo povoado de Lagolândia (voltou a ser distrito de Pirenópolis em 1963). Os moradores mais novos não acreditam muito nos milagres de Santa Dica, mas a romaria em torno de sua casa continua, assim como as visitas à nova curandeira do povoado, Divina Soares, que sequer menciona a possibilidade de ser considerada a substituta de Dica. Em a casa, que uma neta quer transformar em fundação cultural, há 14 leitos e as pessoas que precisam ficam internadas. Em o centro, há um busto de concreto de Santa Dica, ladeado por duas 'tátuas de anjos. Cada canteiro tem um formato: anjos, 'trelas, lua e cálice. Cada mulher é responsável por a poda. Pagam um jardineiro ou elas mesmas aparam as plantas. às vezes, reúnem-se e cantam o Hino de Nossa «Senhora dos Anjos,» ensinado por os anjos " à Santa Dica. Em o final da praça e em frente à casa de Santa Dica, fica o túmulo da fundadora do povoado. O pai de Pedro Araújo, de 65 anos, Antônio Carlos da Silva, dono de uma das três lojinhas do povoado, foi o último dos três prefeitos. Passou a história política, ficou a lenda da santa que volta a ter a chance de ser mais conhecida. Diretor se perde nos passos de Eduardo Coutinho Por Beto Leão * A proposta de um cinema documentário que se assuma como processo de interação entre equipe e objetos-personagens filmados surgiu com maior força no cinema brasileiro na década de 1990. Entretanto, o modelo de documentário que incorpora a reação dos participantes a seus próprios depoimentos tem sido praticado com certa freqüência, em vários países, desde a década de 1960, quando Jean Rouch e Edgar Morin o criaram, na França, no clássico Cronique d' un Été (Crônica de um Verão), um marco do cinema-verdade. Em o Brasil, Eduardo Coutinho é um dos pioneiros na aplicação de 'sa forma do documentário auto-reflexivo, onde o ato de documentar aparece em primeiro plano. De Cabra Marcado para Morrer a Edifício Máster, passando por Babilônia 2000 e Santo Forte, Coutinho vem alterando os parâmetros arcaicos para a realização de documentários, propondo uma nova linguagem. Mas é preciso ter cuidado para que 'tes novos parâmetros não incorram em novos padrões. Corre-se o risco, com isso, de se criar um cacoete na forma de se fazer documentários, como pôde ser visto mais recentemente em Nem Gravata, Nem Honra, de Marcelo Masagão e à Margem da Imagem, do jornalista Evaldo Mocarzel, filmes que fecham o foco da discussão num aspecto geralmente negligenciado nos documentários sobre camadas menos favorecidas da sociedade: a auto-percep ção. Em Santa Dica de Guerra e Fé é evidente a tentativa de aproximação ao trabalho de Eduardo Coutinho. Nota-se isso principalmente no que diz respeito ao «dispositivo» (termo criado por o próprio Coutinho para se referir a seus procedimentos de filmagem). É notável a preocupação do diretor Márcio Venício Nunes em mostrar as condições de filmagem do seu documentário. Porém, o resultado final não vai além da reportagem jornalística, o que até certo ponto é compreensivo, tendo em vista ser ele um repórter de televisão por profissão. Já no início do documentário-reportagem há uma preocupação do diretor em explicar para o público o seu posicionamento diante do objeto-personagem a ser retratado. Toda a equipe de filmagem é mostrada numa reunião (de pauta!) em que um dos seus componentes manifesta sua decisão de deixar a equipe, pois, por ser evangélico, é contra seus princípios participar de um filme cuja temática, na sua opinião, é centrada na bruxaria. Isso é mostrado logo depois das cenas de abertura, realizadas num centro 'pírita. Ato contínuo, o diretor-narrador explica que sua intenção inicial era desmistificar a personagem central do filme, mas admite que acabou por mistificá-la mais ainda. Santa Dica de Guerra e Fé é um filme que peca por o excesso de desejo de beatitude, por querer parecer justo e correto como se seguisse uma cartilha. Aliás, 'sa tradição assistencialista cristã é característica marcante de um certo cinema brasileiro interessado em mostrar as mazelas do nosso País. No caso de Santa Dica de Guerra e Fé tenta-se mostrar as contradições de uma personagem que circula entre o messianismo e o poder político mantido por a fé no 'piritismo. Certos depoimentos são hilários. De forma excessiva, o filme mostra os bastidores das entrevistas, numa tentativa sorrateira de passar a idéia de que o 'pectador 'tá vendo tudo, podendo ele próprio confrontar as diversas opiniões dos entrevistados e tirar suas próprias conclusões. Mas, a despeito de criar um certo distanciamento entre equipe-objeto filmado, de criar uma certa imparcialidade jornalística, o filme defende, unilateralmente, o seu processo de filmagem, e o resultado final soa como uma auto-complac ência que constrange a inteligência do 'pectador. Diretor e equipe se 'quecem de resolver algumas questões básicas para a realização de um discurso que queira compartilhar com o público seu processo construtivo. Em primeiro lugar, sabe-se que no processo de produção do filme documental existe um 'tado pré-fílmico, de preparação dos entrevistados para o assunto a ser tratado. Há um receptáculo geral que não se restringe ao público, mas engloba o jornalismo cinematográfico. Isso implica numa série de exigências que vão tornar inteligível o documentário, tais como interpretação prévia, cadência narrativa, com intercalação de depoimentos, para que o assunto seja bem digerido, e uma redução do mundo real no próprio 'paço de duração do filme. Em sua grande maioria, o documentário no Brasil reflete um grau de análise e reflexão bastante vulgar e um método de apreensão do objeto que não contempla o intuito desejado. Nota-se implicitamente que há uma preparação prévia dos entrevistados. Mas para o 'pectador menos atento, isso não fica claro. E em geral ele se satisfaz com a proposta do diretor, pois ela determina um caminho seguro, e possivelmente equivocado, do sujeito ao objeto. De 'sa forma, o cinema age como professor moralista que busca ' conduzir ' o seu aluno (no caso o 'pectador) para uma interpretação que ele já elaborou. Essa forma de condução da opinião pública é notória nos documentários científicos e, sobretudo, nos políticos. Em a concepção de tal 'cola documentarista, para bem conduzir uma ' alma perdida ` é necessário que se realize uma conexão entre a cabeça do 'pectador e o que se mostra na tela. É aí que entra a cadência e a disposição dos objetos no tempo e no 'paço. A o descrever, comentar ou relatar um assunto, o documentário deve se ater, segundo 'se conceito, a uma lógica comum que se aproxime do objeto, ou seja, deve responder por uma linguagem ' adequada '. São raras as exceções de documentários que buscam a forma de expressar idéias e promover a tolerância e a criação. Este não é o caso de Santa Dica de Guerra e Fé. Número de frases: 120 * Beto Leão é presidente da Associação Brasileira de Documentaristas -- Seção Goiás O disco começa com uma música chamada The End (O Fim) e termina com The Remains (Os Restos). Respirei aliviado. Pelo menos sobrou alguma coisa depois do fim ... Mas, ressabiado, fui ver como acaba a letra da última música: «Horror will be spread» (o horror vai se disseminar). Caramba! Será preciso mesmo enfrentar a audição, em 'se caminho do fim para o horror? Márcio Jr., no prefácio de Music For Anthropomorphics / Música Para Antropomorfos, pragueja: 'pero que você sofra. Eu, que não vejo utilidade, mérito ou charme no sofrimento (concordo com quem diz que podemos aprender muita coisa sofrendo -- já sofri o bastante para saber disso e também que é muito melhor aprender as mesmas coisas com a alegria), quase desisti da audição. Ainda bem que coloquei o CD para tocar. Não sofri não. Tive um dos melhores momentos mais «animados» da minha vida. Music For Anthropomorphics / Música Para Antropomorfos é um disco e também um livro. Os dois trabalhos se complementam de maneira que eu saiba inédita. Podem até ser «consumidos» de maneira separada, e se sustentam sem depender um do outro. Porém o mais interessante é ler e ouvir ao mesmo tempo. Até porque suas gêneses são totalmente interdependentes. Music For Anthropomorphics é o disco da banda goiana Mechanics, mestre no cruzamento entre extremos do hardcore-metal e da pancadaria industrial etc.. Música Para Antropomorfos é história em quadrinhos de Fabio Zimbres, um dos mais criativos artistas visuais brasileiros. Tudo teve início com as músicas sem letras, que foram enviadas para o Fabio e voltaram em forma de um roteiro, que foi transformado nas primeiras letras num 'quema de ida e volta de desenhos /sons/palavras que durou de março de 2004 a maio de 2006 -- dois anos de intensa fertilização entre campos artísticos. O resultado, lançado no final de 2007, é brilhante e mostra como são necessárias mais parcerias como 'ta entre criadores de formações / expressões diferentes (em 'te caso, como diz o Márcio Jr., entre o «rock sujo e doente» e o O livro e o disco são vendidos num mesmo pacote. A reunião de boas idéias pode ser percebida já na embalagem: o encarte do disco atua como uma 'pécie de sobrecapa do livro, um trabalho envolvendo e protegendo (" dando cobertura para " -- agradeço aqui ao meu amigo Branco Mello que um dia me disse que amigo serve para dar cobertura para amigo) o outro. Cada detalhe tem mil e uma utilidades e pode ser visto /ouvido/usado de acordo com a preferência e o 'tado de 'pírito de quem se relaciona com a (s) obra (s). O encarte / sobrecapa pode virar um belo e também 'quizóide pôster, dignamente emoldurável. Em uma advertência no início do livro, um texto «sério» nos ensina a ler seu conteúdo de forma linear, de cima para baixo, da 'querda para direita, da frente para os fundos (isto aqui não é um mangá!). Mas admite: «não devemos nos sujeitar a 'sa ditadura se quisermos usufruir de toda a obra». Evidentemente: o ouvinte / leitor pode «circular» não apenas testando ordens aleatórias das faixas e páginas, mas também entre idas e vindas do CD ao livro, num shuffle transmídia. Milhares de combinações, sempre surpreendentes, são possíveis. Cada faixa corresponde a um capítulo, mas não necessariamente o capítulo da faixa é o que mais «'clarece» sua audição. Mesmo os títulos ganham traduções-transposi ções sugestivas: por exemplo, a faixa 7 se chama Fever (Febre) e o capítulo 7 é Felicidade Viral -- o que pode ser a mesma coisa, dependendo do gosto do freguês ... O bom é que muitas faixas são bem curtas (quase todas não completam 2 minutos) e então várias de elas podem ser ouvidas enquanto lemos um único capítulo. E vários capítulos podem também ser lidos / vistos durante a introdução de uma microfaixa. Ou não. Alguns capítulos contêm doses não-homeopáticas de texto, alguns dos mais bem 'critos dos quadrinhos nacionais. Então, digo mais uma vez, a navegação da (s) obra (s) pode ser feita por uma 'tonteante e jocosa infinidade de caminhos, lineares ou não. Tanto o livro quanto o CD são construídos em cima de uma trama que nem Philip K. Dick em conversação delirante com William Burroughs ousariam imaginar: as andanças e guerras de duas gigantescas cidades-robôs, S.P. e S.F., que carregam entre si milhares de habitantes adequadamente problemáticos. Fiquei fã de uma vaca extremamente mal-humorado que desanca com todos os candidatos a 'critores de S.F. Ela mereceria 'trelar numa longa série de histórias em quadrinhos. Aliás os debates artístico-filosóficos em S.F. são todos antológicos. Fabio Zimbres 'tá em sua melhor fase, sem papas na língua e no traço pós-tosco (na verdade nada tosco, tudo ali tem uma sofisticação mais que evidente). Pena que seus lançamentos não tenham mais destaque, para mais gente ter acesso a suas boas invenções. Fui procurar o que havia de reflexão sobre seus outros trabalhos (e mesmo sobre Música Para Antropomorfos) na internet, para colocar links por aqui. Não encontrei nenhuma entrevista ou análise mais aprofundada, mesmo com muita gente o chamando de gênio ou superlativo merecido semelhante. ( Aliás existe pouca reflexão e informação sobre o 'tado atual dos quadrinhos brasileiros, mesmo com muita gente bacana produzindo por todo o país -- seria ótimo que aparecesse mais textos sobre quadrinhos aqui no Overmundo). O CD leva a trama para outras paisagens sonoras (com letras que acrescentam informações, inclusive «saudações» para Nietzsche, à história dos quadrinhos). A produção, do Mechanics com o Iuri Freiberger (que também é baterista da Tom Bloch), é uma das mais impactantes do rock nacional recente ('cute os discos num equipamento bom -- os MP3s disponíveis na internet, inclusive o que 'tá aqui do lado deste meu texto, dão apenas uma pálida idéia do som pra valer). Tem o peso alucinado-progressista do que mais gosto por o mundo afora: as últimas experiências do System of A Down ou do Mars Volta. Começa com sinos bem goticamente artificiais, passa por guerras sonoras violentas, e termina num mar de microfonias e outros barulhos abissais. Clima ideal para recomeçar a ouvir / ler tudo novamente. Em o seu prefácio, Márcio Jr., vocalista dos Mechanics e autor das letras com Fabio Zimbres, diz também que o livro / disco é a «experiência empírica» de sua dissertação de mestrado em comunicação, que teve como tema as «possibilidades de interface» entre rock e quadrinhos. Fiquei com pena do texto da dissertação não vir junto com o pacote Music For Anthropomorphics / Música Para Antropomorfos (quem sabe ele se anima a publicar a dissertação aqui no Overmundo -- sou pidão mesmo ...) Haveria ainda mais (mesmo com as combinações infinitas: parou por quê?) possibilidades de boa circulação dentro da (s) obra (s). Número de frases: 58 {De alguém consternada que achava que ainda poderia encontrar um telejornal com um mínimo de decência às 8h da matina Luiz Pilla Vares Conheço Adroaldo Bauer Corrêa há mais de 20 anos, quase 30. Nosso encontro primeiro foi na redação do jornal onde ambos trabalhávamos. Ele era um redator competente, mas o que primeiro nos aproximou foram as lutas sindicais, num momento único de nosso sindicato, quando, creio que pela primeira vez, tivemos efetivamente um movimento de massas na luta por os direitos profissionais. Depois, surgiu a identificação política nas idéias da 'querda socialista. Confesso que Adroaldo Bauer 'tava na minha frente na avaliação das perspectivas do PT, partido ao qual em seguida aderi e ao qual pertenço até hoje. Muitas de minhas restrições iniciais acabaram se confirmando com o passar do tempo, mas o que o PT representa hoje no cenário brasileiro, Adroaldo Bauer já tinha percebido naqueles longínquos anos que marcavam o início da década de 80 do século passado, quando a ditadura militar começava a se finar sob a pressão das lutas de massas no Brasil inteiro, as possibilidades que se abriam para o recém criado Partido dos Trabalhadores. Tempos depois, fui convidado por Olívio Dutra para ser o Secretário de Cultura de Porto Alegre. Um dos integrantes de nossa equipe era Adroaldo Bauer, que ficou responsável por a área de descentralização cultural. E mais uma vez ele se revelou um profissional responsável e competente. Também quando me tornei Secretário de Cultura do Estado, novamente numa gestão de Olívio Dutra, então governador, Adroaldo 'tava entre os mais ativos integrantes de nossa equipe. Dá para ver que temos uma longa relação de amizade e companheirismo que compartilhamos também quando tive a honra de presidir o Diretório Municipal do PT de Porto Alegre. Ou, mesmo, quando ele, elegante, desfilava por a 'cola de samba Imperadores do Samba, com um impecável terno branco e camisa vermelha. Mas eis que surge o Adroaldo Bauer 'critor. Como jornalista, ele já tinha dado passos em 'se sentido. Sabia manejar com diligência a matéria-prima de seu ofício que são as palavras e as frases. Não sei se por nosso longo relacionamento, em que partilhamos solidários vitórias e derrotas, Adroaldo Bauer me distinguiu para ser o apresentador de sua novela que agora chega aos leitores brasileiros, O Dia do Descanso de Deus. E, em 'ses assuntos, sou muito exigente. Disse-lhe claramente que, apesar de nossa amizade longa e, felizmente, duradoura, eu iria primeiro, sem nada lhe prometer, ler o texto. Se gostasse, 'creveria. Se não, eu, com toda a franqueza, recusaria a honraria. Mas aí 'tá O Dia do Descanso de Deus, que li com prazer como deve ser a verdadeira relação de um leitor com a obra que tem em sua frente. Pois a novela que agora se edita tem todos os ingredientes capazes de tornar a leitura agradável e prender o leitor até o fim (Leia os três primeiros capítulos). O cenário é o Rio Grande do Sul, num vai e vem entre o interior do Estado e Porto Alegre. O tempo, de certa forma indefinido, são os anos de chumbo, que nunca são referidos diretamente, mas que pairam como nuvens cinzentas sobre todo o transcorrer da novela. As personagens são familiares para quem vive no Rio Grande do Sul, mas que nunca caem na caricatura meramente regional. Todas são problemáticas e universais, desde Romão, a principal, que passa grande parte da obra como uma sombra a decidir o destino dos demais participantes, até Domício, o filho enlouquecido do latifundiário, a quem cabe ser o detonador do conteúdo trágico de 'ta novela. O mais encantador, porém, no enxuto texto de Adroaldo Bauer, é que não se trata de uma novela linear, com uma temporalidade exata. A história tem idas e vindas, sem que se transforme num quebra-cabeças que muitas vezes se torna, na literatura moderna, uma chatice. Nada disso. A ausência de temporalidade linear contribui para o leitor se apoderar da personalidade e dos dramas de cada uma das personagens e chegar progressivamente ao caminho que conduzirá a um desfecho ao mesmo tempo trágico e reconciliador entre o pai Romão e a filha Laurita. E em 'sas idas e vindas da temporalidade, a memória não 'tá em segundo plano. Ao contrário, ela é fundamental para a construção das personagens em 'te contexto fluído em que se constrói a bem elaborada 'trutura de O Dia do Descanso de Deus. Enfim, é uma pena que Adroaldo Bauer tenha se decidido tardiamente por a ficção de fôlego. Mas, por outro lado, valeu a 'pera. Temos agora, diante de nós, uma magnífica tragédia que vai enriquecer a nossa literatura. Desde já 'tou ansioso para ver nas livrarias e, como pretende o autor, nas bancas de jornais e revistas, O Dia do Descanso de Deus. Aliás, um longo dia, que dura todo o tempo da novela. Valeu a 'pera por Adroaldo Bauer 'critor. Número de frases: 38 Antecipe a compra do seu exemplar Depois da bomba que foi a comédia Querido Mundo, Rubens Ewald Filho encontrou uma nova forma de entrar no mundo do teatro. Desta vez apostou no teatro dito alternativo, e aliou-se a um dos grupos em maior evidência na atual cena paulistana: Os Satyros. E provou que também consegue ser um alternativo: na semana da 'tréia, foi visto sentado no chão da calçada do 'paço dos Satyros, na praça Roosevelt, provando para o mundo que quem usa gravatinha borboleta para comentar a entrega do Oscar também tem seu direito de ser cool. O resultado de 'ta aproximação é o 'petáculo Hamlet-Gassh ô, adaptação do ator Germano Pereira para o clássico de William Shakespeare, incorporando elementos do universo zen-budista. Pra não fazer besteira, a montagem (protagonizada por Germano) contou com a assessoria da Monja Coen. Em o fim das contas, o tal «universo zen» fica muito mais explícito na 'tética do 'petáculo, fortemente inspirada no cinema oriental, do que na dramaturgia. O texto do bardo inglês sofre pouquíssimas adaptações, e ganha uma nova " moldura ": um prólogo e um epílogo que dão o tal novo contexto budista à tragédia (insuficientes para caracterizar uma releitura do texto original). Mas Ewald não trouxe apenas seu ar cool e referências cinematográficas em sua direção: vieram também 150 camisas brancas compradas em Nova Iorque para o rico figurino, e fôlego para uma produção que raramente se vê nos palcos da Roosevelt (e que dificilmente se paga com as bilheterias das pequenas salas da região). E aí 'tá o maior equívoco do 'petáculo. Há tantos elementos visuais deslumbrantes que boa parte de eles acaba se tornando denecessária e prejudica a montagem. A impressão é de haver uma preocupação tão grande em dar uma 'tética marcante, que não sobra 'paço para engrandecer os pontos altos do texto. O resultado é que em vez de todas as cenas se tornarem inesquecíveis, o efeito acaba sendo exatamente o contrário: em 'sa bela empreitada de fazer um Shakespeare «zen-budista», faltou um elemento que remete demais ao budismo: a moderação. Número de frases: 19 Há algo de Broadway no reino da Dinamarca. Já por o título dá para relacionar a exposição «Lágrimas de São Pedro -- Acalento ao Sertão Nordestino», do artista visual baiano Vinícius S. A., 24 anos, em cartaz no 'paço Caixa Cultural Salvador, com a chuva, a seca e o sertão. Mas nada é tão óbvio quanto aparentemente pode sugerir. Em a entrada da instalação a primeira visão é de uma imagem 'tática de uma mulher negra de costas com uma lata d' água na cabeça. A imagem é projetada por uma caixinha de madeira rústica, sem pretensão de requinte, feita por o próprio artista. Em a seqüência, há uma projeção onde imagens alternadas que demonstram o sofrimento da terra com a falta de chuva contrastando com a vitalidade de ela úmida. Isso tudo, desde o início, sob o som de um canto, tipo ladainha, que clama: «nem de fome nem de sede, matar seus filhos não». Até então nada de surpreendente ou extraordinário, apenas uma introdução do melhor que 'tá por vir: uma montagem que encanta o olhar e emociona facilmente até o 'pectador mais desatento. O impacto 'tético é sentido quando se cruza com quatro mil lâmpadas cuidadosamente penduradas, com uma variação de altura que aparenta ser milimetricamente 'tudada. As lâmpadas possuem a mesma medida de água e junto a uma luz certeira produzem um efeito devastador. A sensação que se tem é de gotas de chuva vistas com uma lente de aumento. Fora o aspecto emotivador de 'sa instalação, «Lágrimas de São Pedro» possui uma perfeita junção de poética e técnica da transformação de um objeto trivial num elemento plástico e comovente. Um bom início para Vinícius S.A num novo contexto da arte contemporânea baiana que tem sido movimentada com mais força com a revitalização de 'paços expositivos na capital e no interior do Estado. A idéia da instalação de «Lágrimas de São Pedro» surgiu de experiências autobiográficas de Vinícius. Em a infância, o artista passava férias na cidade de Ubiraitá, no interior da Bahia. Ele transformou suas memórias numa montagem que possibilita a cada 'pectador sentir a beleza da chuva quando ela é muito 'perada. Lágrimas de São Pedro Caixa Cultural Salvador -- Rua Carlos Gomes, 57 -- Centro -- Salvador / Bahia Até 23/3, de terça a domingo, das 9h às 18h. De graça. Número de frases: 22 É difícil ter um contato com ele e não compartilhar o mínimo possível da sua personalidade. Difícil também é, após o contato, perceber o mundo da mesma forma que antes. Mais difícil ainda é não sair da conversa sem ser provocado por aquela figura que faz parte da história da Cidade de Ipiaú. Depois que tive o contato com ele, não fui mais o mesmo, disso eu tenho certeza. Uma hora de conversa (talvez o último registro áudio-visual do maior bom vivant que a cidade já teve), foi o suficiente para se apaixonar por a história de vida de ele e nunca mais 'quecê-lo. Até porque o vídeo possibilita ressuscitar mortos assim como no cristianismo. Considerava-se «pernambaiano», pois era natural de Sertânia-Pe, porém criou-se em Salgueiro, mas foi em Ipiaú-Ba, após rodar boa parte do mundo, onde ele alçou vôo. Também já tinha perdido tudo, ou melhor, gastado tudo, porque " dinheiro não foi feito para se perder. Dinheiro foi feito para se gastar», dizia ele. «Eu 'colhia as pessoas mais tristes para se divertir com mim, complementa. Foi PQD (sigla de pára-quedista), morou em vários países da Europa, morou nos Eua, construiu a boate Anjo Azul, local de fermentação cultural da capital baiana, e depois de gastar todo o seu dinheiro, parou no «Beco dos dez quartos», antigo brega, localizado na cidade de Ipiaú-Ba. Uma figura excêntrica e atípica, principalmente para aquela cidade conservadora, onde as pessoas não o entendiam, principalmente por o fato de ter sido bi-sexual. Sobre isso, ele conta que foi casado com a mulher mais linda que já viu. Conheceu-a naquela boate por meio de um amigo. E conta ainda que conheceu um americano por quem foi apaixonado e por isso foi morar nos Eua com ele. «Ele disse: quer ir trabalhar com mim. Eu digo: vou. Fazer o quê? Eu não sei trabalhar. Ele disse nada, fazer companhia. Era um gay. Me tornei marido. Tem alguma coisa contra? Ai vim, amando a pessoa». Ainda brincando com 'ta questão e sendo totalmente provocador ao ser questionado sobre sua preferência sexual ele responde. «Eu gosto de mulheres burras, homens inteligentes. Porque a mulher quando não é burra, domina. Mulheres inteligentes todas são minhas amigas. As burras minhas amantes». Amigo de pessoas ilustres como Pelé, Fernanda Montenegro, Janis Joplin, Amália Rodrigues (se emociona ao falar de ela no vídeo e diz que pessoas como ela não deveriam morrer nunca), Sônia Braga, Carlos Bastos, Michael Douglas e inúmeras outras pessoas famosas. Freqüentava o alto ciclo da sociedade quando tinha dinheiro e drogas para distribuir. Chegou a fretar aviões para trazer pessoas para sua fazenda no município de Barra do Rocha e fazer festas de arromba. Mas diz que em seus últimos dias, ninguém dava mais importância para ele porque era um alcoólatra e «ninguém gosta de alcoólatras». Não perdia o humor nunca. Disse: " se tiver um fumo aí, ó o bico. Se tiver um pó aí, o nariz tá pronto». Não tinha medo de dizer o que pensava, nem de fazer o que queria. Odiava falsos moralistas. Filosofava em seu quartinho, com aquele silêncio todo e isso o levava à grandes reflexões. Chega a falar no vídeo que só 'tá 'perando sua hora, porque não agüenta mais. Era através do silêncio que ele buscava suas respostas e não se perguntava mais nada. E tinha muito medo quando a 'posa do silêncio (segundo ele), a barulhenta chegava, porque bagunçava tudo. O poeta toma vez em alguns momentos, onde ele cita alguns de seus poemas que 'tão na Editora Corrupio em Salvador, em posse de Arlete Sales para editar o livro e lançá-lo, porém até hoje não conseguiu verbas o suficiente para isso. Prova de que a Bahia tem dado a mínima para a literatura e para eventos culturais que não acontecem na capital. Não posso nem citar a prefeitura de Ipiaú, pois a cultura tem passado a léguas de distância da mesma. Sobre o livro ele disse que não queria que publicassem, pois queria ter suas poesias do seu lado para assim trocar por cachaça. Era o mesmo que faria com o dinheiro que iria ganhar se o livro fosse lançado. Eis um de seus poemas: «Habita em mim um ser que veste hábito. Que prometeu sempre me levar em direção ao puro e sacrossanto, quando o meu eu pensa que não há. Espero sempre o meu, eu, velho monge, adormecer para o meu eu jovem na vida, se atirar. Se arriscando as ilusões da vida que o meu eu, velho monge, sabe que há." A notícia de sua morte chegou como uma bomba, principalmente porque, mais do que nunca, tenho agora uma obrigação de finalizar o vídeo, por vários motivos que não cabem citar aqui, mas o principal é mostrar que mesmo diante do abandono ele não perdeu o rebolado e viveu seus últimos dias da melhor forma possível. Sem pudores, tristeza ou falso-moralismo. Esta figura merece um capítulo à parte na história de Ipiaú. De vez em quando me pego falando palavras ou provocações que ele disse na entrevista que me cedeu. Amália Rodrigues e sua música nostálgica tocam vez por outra no aparelho de cd. Mas a sua imagem é bastante recorrente à minha mente. Principalmente por me mostrar o quanto sou fútil e bobo, mas melhor ainda, por caracterizar o meu riso como «um riso cretino». Resta a dúvida: será que ele descansa em paz ou já sacudiu o lugar que agora 'tá? Deveras, ele nunca morrerá, assim como tantas outras figuras que residem em minha memória. Citando Rubem Alves, é eterno tudo aquilo que reside na memória. O audiovisual 'tá aí pra isso. Ele poderá ser visto em breve novamente. O vídeo 'tá em fase de finalização. Quem quiser revê-lo aguarde, será provocador. Uma homenagem a Divaldo Angelin Veras, mais conhecido como Veras. Nasceu em 20 de abril de 1940 e morreu aos 67 anos de vida. Muita vida. * Título retirado da matéria sobre a morte de Veras, publicada no Jornal Agora, por o jornalista José Américo Castro. Edson Bastos Número de frases: 73 edsonoliveirajunior@hotmail.com Cheguei ao comecinho da tarde na simpática Santa Luzia do Norte, acompanhado do fotógrafo Gustavo Acioli, amigo que me meteu na cabeça uma semente de curiosidade sobre a comunidade daquele município conhecida como Quilombo. Localizado na zona rural de Santa Luzia, descobrimos que o Quilombo guarda em seu modo de vida tradicional costumes e fazeres das culturas afro-brasileira e indígena, e por a longevidade de seus moradores, guarda também o segredo da fonte da juventude. Tomamos o rumo das margens da grande Lagoa Mundaú, fonte de sustento para comunidades de pescadores e marisqueiros dos municípios da região, inclusive da capital, Maceió. Em aquela parte selvagem da lagoa, entre matas de árvores frutíferas de todos os tipos, encontramos o pequeno povoado. Chegamos a uma 'pécie de largo ou praça natural, com casas dos dois lados, numa de elas avistamos uma senhora na porta, que era tão linda e tinha sorriso tão convidativo que simplesmente paramos o carro, descemos e fomos falar com ela. «Boa tarde». Luzia Rosa dos Santos, ou Luzia do Livino, 64 anos e aparência de 44, com sua pele negra brilhante e seu sorriso de propaganda de creme dental, nos recebeu em sua casa com muita hospitalidade, e nos contou um pouco da história do Quilombo e das suas próprias. Dissemos a ela que 'távamos à procura de vestígios, de evidências ou causos de um antigo quilombo, cultura, culinária, linguagem, 'sas coisas. Falamos de Zumbi e do Quilombo dos Palmares, ali pertinho na Serra da Barriga, e ela 'tava bem inteirada do assunto. Perguntei se o nome da comunidade indicava um passado de resistência quilombola, ou seja, de 'cravos negros fugidos tratando de defender, sobreviver e construir um lar por ali. Ela respondeu. «Repare, aqui tem 'se nome de Quilombo porque sempre viveu um povo preto assim que nem eu, algumas famílias que vivem por aqui faz muito tempo. O que eu sei mesmo é do meu tempo, sei que hoje é melhor do que antes, as coisas 'tão melhores, antes era mais difícil». Dito isto discorreu muitas palavras de gratidão aos doutores e senhores da região, numa relação quase feudal que ainda existe e muito por o nordeste afora. «Antes era assim, o que o negro vê ele fica calado, se criamo assim, desde criança, meu pai dizia que o que um negro vê ou sabe não deve ser dito pra ninguém. Pra você ver como era antigamente, o pessoal daqui, quando morria, era enterrado com um caixão bate-bate, que servia pra todo mundo que morria, só levava o defunto até a cova, e voltava pra 'perar o próximo, ou senão enterrava enrolado numa rede mesmo». Longevidade Já que Luzia, 'ta senhora que leva o nome da cidade em que vive, sabia das coisas do seu tempo, de seus 64 anos vividos ali, quisemos saber seus relatos, e ela danou a falar com muito gosto. «Minha mãe, Maria Rosa, ganhou uma medalha da mulher mais velha de Santa Luzia, ela morreu com 104 anos. Meu pai, Manuel Livino, e por isso me chamam Luzia do Livino, morreu com 118 anos». Espantado, perguntei onde era a fonte da juventude, e ela explicou sua opinião sobre o motivo da saúde dos mais antigos. «Hoje em dia tem muito remédio, 'ses médicos não sabem de nada, dão remédio e a doença volta, antigamente gripe era hortelã batida e alho, e sempre comer direito. Veja só, antes, menino que ficava doente a gente fazia o seguinte: Queimava a roupa que ele 'tava vestido e defumava o menino, depois dava um pouco das cinzas com água morna pra ele beber e pronto, 'tava curado». Meio impressionado, continuei a ouvir sua conversa, Luzia é daquelas pessoas que gostam de falar das coisas. Apesar de dizer que hoje a comunidade vive dias melhores, contraditoriamente fala sempre em tom saudoso dos tempos passados. «A gente fazia muita festa, brincava a chegança, o pagode e o coco, sinto falta de 'sas brincadeiras, que 'tão se acabando, as danças e o pessoal tocando sanfona, zabumba e vialejo (por a descrição uma gaita harmônica ou realejo) até raiar o dia». Nossa anfitriã nos contou que ali se plantava muita batata, macaxeira e feijão e que hoje vivem basicamente da pesca e da catação de sururu, atividade normalmente desempenhada por os homens, que também trabalham para as usinas de cana de açúcar na época da colheita. As mulheres basicamente preparam e comercializam bolos de macaxeira e fubá, tapiocas, grudes ou macasado, pés-de-moleque e outras delícias herdadas dos índios e africanos. Despedimos de Luzia, seus filhos e netos, que 'cutaram a matriarca com a mesma atenção compenetrada que nós. Agradecemos a hospitalidade e a prosa e seguimos um delicioso cheiro de assado de macaxeira que vinha até nós por a rua como uma nuvem de sabor, como num desenho animado antigo. Fábrica de delícias Fomos atrás da grande nuvem de cheiro, acompanhados por um grupo de meninos e meninas com olhos arregalados e curiosos com os visitantes curiosos. Pediram pra tirar retrato. Caminhamos um pouco e chegamos a uma verdadeira oficina de produção de delícias, 'tava saindo uma fornada de bolo de macaxeira. Fomos recebidos por Margarida, chef local. Compramos a iguaria e comemos imediatamente, «muito bom Margarida». O forno a lenha feito de pedra dá um gosto 'pecial, o pé-de-moleque e o bolo de macaxeira são as duas 'pecialidades da Margarida, que vende os produtos na cidade de Satuba e seu filho, Clauristone, vende em Murici. Quando perguntei sobre a inventividade na 'colha dos nomes do casal de filhos Clauristone e a caçula Macicleide, ela respondeu «peguei no vento». Segundo ela, os filhos freqüentam a 'cola que funciona na comunidade do Quilombo. Vale lembrar que o pé-de-moleque aqui em Alagoas é diferente do conhecido doce com amendoim, é feito de massa puba, que vem da macaxeira, e assado em folhas de bananeira no forno a lenha. Saímos pra procurar as pessoas mais velhas do lugar, Maria de Lourdes ou Dona Nazinha, que tem mais de 100 anos, «elas sabem 'sas histórias antigas de negro 'cravo» disse Luzia do Livino, mas antes, as crianças nos contaram de uma bica de água ali perto, e nos chamaram pra conhecer. Pensei «pronto, 'ta deve ser a fonte da juventude». A tarde 'tava bonita e uma pequena caminhada por a trilha dos meninos seria uma boa. Trilha para a Fonte da Juventude Passamos por umas senhoritas que descascavam um pequeno morro de sururu, saboroso molusco rico em minerais encontrado nas lagoas Mundaú e Manguaba, uma das principais fontes de renda por ali. Além de ser um prato muito apreciado nos restaurantes da região, sua casca serve para adubar terra por ser muito rica em ferro. Chegamos à bica e as crianças caíram na água, sorriam, pulavam e gritavam. Diante da cena, Gustavo atendeu aos pedidos de retrato. Umas senhoras lavavam roupa no riacho da fonte da juventude, molhei os pés, por as dúvidas. Última parada, Dona Nazinha. Fomos recebidos em sua casa por inúmeros descendentes de todas as idades, depois chegou 'ta senhora de 104 anos, muito educada e reservada, conversou um pouco com a gente na varanda da casa de sua família. Apesar da lucidez e firmeza, diz não lembrar de 'sas historias antigas de 'cravidão e liberdade, definitivamente não 'tava interessada no assunto, nos contou que uma neta casou com um europeu e foi viver por lá, mostrou fotos do casamento e disse que ela 'tá feliz da vida. Uma das netas começou a contar as travessuras da avó, «ela gosta de ' pinotar ' por o jardim pra sair para a rua, e também fuma 'condida». O assunto da menina parecia divertir Dona Nazinha, arrancando um sorriso do rosto duro e austero. «Não sou doida, só quero passear de vez em quando e também gosto de dar umas pitadas no cachimbo». Sobre o segredo pra se viver tanto ela respondeu que não sabe o motivo, e que já trabalhou em «todo tipo de trabalho, de catar marisco, doméstica, de puxar mandioca e até no cemitério, tudo». Diz que come muito pirão, farinha, sururu e que já comeu tanto camarão na vida que não gosta mais, «abusei» ela diz. Não quisemos incomodar muito e deixamos Dona Nazinha, 104 anos, 15 filhos, descansando com sua família, e voltamos para a Maceió. «As leis abolicionistas são mentiras. A liberdade foi conquista do próprio negro». (Edson Moreira da Silva) Fomos direto à casa do professor Edson Moreira da Silva, historiador, pesquisador, um senhor negro e alto de meia idade, que vive num verdadeiro museu de cultura afro, com incríveis obras e documentos, como uma pintura do Jesus Cristo negro e uma cópia da " Lei Áurea. «Todas as leis abolicionistas são mentiras», ele disse e continuou,» a liberdade não se vende, não se compra, não se dá, se conquista. A abolição foi uma das conquistas do próprio negro, e não benesse do poder. A história que nos contam desde criança é mentira. O Quilombo dos Palmares, por exemplo, foi a maior organização que já existiu em 'te país, e os quilombos viraram as favelas». Sobre a comunidade que tínhamos acabado de visitar, ele contou que nunca consistiu num quilombo de fato, para onde os negros fugiam e resistiam, mas um povoado que surgiu com a chegada de algumas famílias de negros libertos após a abolição, que ali se 'tabeleceram e seus descendentes aí vivem até hoje, com um modo de vida simples que tentamos retratar um pouco com 'tas palavras e imagens de um dia no lugar. O professor Edson realmente quer montar um museu afro com o significativo acervo guardado em sua antiga, grande e belíssima casa no bairro do Farol em Maceió, mas precisa de apoio e recursos pra realizar sua empreitada de preservação cultural. Edson é graduado em História e atualmente 'tá 'crevendo sua monografia de conclusão do curso de Teologia. Tema: O Candomblé. Edson, que é católico, explica o interesse " É um absurdo que no nosso país existam tão poucos 'tudos sobre religiões de origem africana em Teologia. A religião sustentou e sustenta a força do negro no Brasil até os dias de hoje». Quanto ao segredo da fonte da juventude do Quilombo de Santa Luzia do Norte, permanece um mistério insolúvel. Número de frases: 74 Faz 16 anos, desde que Dudu decidiu que seria rapper e dedicaria sua vida ao hip hop. De lá pra cá o jovem repeiro, que na época tinha apenas 14 anos de idade, já gravou dezenas de músicas, produziu e participou de projetos culturais e sociais, viajou bastante, e ficou conhecido nos guetos de dentro e fora do Brasil como «Dudu de Morro Agudo», líder do Movimento Enraizados (www.enraizados.com.br). Em a verdade é Flávio Eduardo da Silva o nome de batismo da nova referência musical e ativista do hip hop carioca, que acaba de lançar seu primeiro álbum solo, entitulado de Rolo Compressor, que traz treze faixas com letras impecáveis e uma musicalidade que passeia entre o peso do hip hop tradicional e os beats dançantes da nova geração. Sempre na vanguarda e acreditando que o hip hop é uma cultura da periferia e para a periferia, DMA pensou também no preço do seu disco, que foi prensado em SMD (www.portalsmad.com.br) e é distribuido a R$ 6,00 para o consumidor final, que além do disco leva também uma revista / poster. A produção gráfica do CD e da Revista foi projetada por Alexandre de Maio (SP), editor e designer da Revista Rap Brasil e Rap News. DMA chama a atenção por seu carisma e sua personalidade, fala com naturalidade sobre temas polêmicos, e segundo Luiz Eduardo Soares (www.luizeduardosoares.com.br), ele canta, rima, dança conforme a música -- rascante e incisiva-Y do hip hop que pratica, mas se nega a fazer o jogo do ódio, do ressentimento, da arrogância autoritária e das expectativas preconceituosas, e é considerado um arauto da nova geração por Bia Lessa (www.bialessa.com), pois 'tabelece uma profunda relação com as raízes de nossa música. Recentemente participou com do livro «Suburbano Convicto Por as Periferias do Brasil», fez um show de lançamento do CD em São Paulo, para mais de 3000 pessoas no Itaim Paulista, ao lado do rapper Thaíde, no evento Favela Toma Conta e coleciona notas em jornais e revistas. Está atualmente se dividindo entre viagens, shows, palestras e trabalhos musicais para o Canal Futura. Saiba mais: Número de frases: 9 www.dududemorroagudo.blogger.com.br Sabe aquela sensação boa de ver gente simples trabalhando honestamente e tendo seu trabalho reconhecido e valorizado onde quer que vá? Pois é isso que se sente ao ver o trabalho dos garimpeiros, joalheiros e lapidários de Pedro II, pequena cidade do interior do Piauí, com 40 mil habitantes e muitas minas de opala, pedra semi-preciosa que tem grande valor comercial e encanta joalheiros do mundo todo. A opala é um tipo de quartzo e seu grande diferencial é que ela reflete as cores do arco-íris, o que possibilita a criação de jóias ousadas e lindas. Antes de virar «meio de vida» para o povo de Pedro II, as minas de opala foram exploradas sem nenhum critério por 'trangeiros -- australianos, afirmam os moradores da cidade -- que levavam as pedras brutas para suas terras natais e vendiam lapidadas para o Brasil. Hoje se sabe que há grandes minas de opala também na Austrália, mas não há como saber ao certo se as pedras vendidas por os garimpeiros da terra dos cangurus no século passado eram de lá ou bem daqui de o Piauí. Uma mão que segura a outra, que segura a outra A família do joalheiro Narcélio Araújo de Sousa vive em função da opala. Ele e o irmão Juscelino -- que é presidente da Associação de Joalheiros e Lapidários de Pedro II -- são donos de joalherias e trabalham diretamente com os garimpeiros e também com os lapidários. A mulher de Juscelino, Áurea, é a responsável por o design de brincos, pulseiras, anéis, broches e colares com opala, a mulher de Narcélio atende a clientela com gentileza numa das lojas e é mesmo difícil sair sem comprar. Narcélio sabe de cor a história da pedra que mudou sua vida e 'tá mudando a história de sua cidade. «A opala foi descoberta em Pedro II em 1935 e foi um choque na época, porque não se conhecia opala de cor, uma pedra que reflete todas as cores. As minas começaram a ser exploradas comercialmente por garimpeiros australianos na década de 50 e muitos de eles ficaram ricos com isso», conta. A mina do Boi Morto é a maior da região, e foi ela o alvo da maior exploração. «Era tanta opala que tinha lá no começo que as pessoas iam garimpando e os ' rejeitos ' iam parar no rio, tinha garimpeiros que davam sorte e pegavam boas pedras no leito do Rio dos Matos, até hoje tem gente que vive disso, revela Narcélio. E mal ele fecha a boca, Maria de Lourdes de Sousa chega à loja, levando nas mãos um vidrinho pequeno cheio de pequenos fragmentos de opala. Foi tentar vender o que tinha conseguido apanhar no leito do rio. «Eu vou pra lá para tentar a sorte e muitas vezes dá para conseguir coisa boa, muita gente faz isso aqui em Pedro II. Acho que mais de cinqüenta pessoas», revela a jovem de 24 anos, «pescadora» de opala desde os 12. Os pedacinhos de opala levados por Lourdes e por os outros garimpeiros do rio são lapidados e usados para fazer mosaicos. Adonias Carneiro, de 23 anos, fala sobre 'sa etapa do trabalho: «A gente pega os pedacinhos, faz uma seleção, depois eles são lapidados e aí começa a montagem do mosaico. Depois de montado, ele é novamente lapidado, polido, incrustado na jóia e 'tá pronto para ser vendido», explica. Ele trabalha com opalas há dois anos e acredita que a pedra vai mudar os rumos de Pedro II. «É uma pedra muito bonita, eu sempre admirei. E agora, vendo 'se 'forço conjunto do povo daqui e do Sebrae, acredito que a opala vai revelar Pedro II para o mundo». Em o que depender do designer de jóias Pedro Brando, queridinho de astros de Hollywood e criador das alianças de casamento de Nicole Kidman & Keith Urban, a gema piauiense vai mesmo embelezar as vitrines de grandes joalherias do Brasil e do exterior. Brando foi convidado por o Sebrae para conhecer Pedro II e suas pedras e dar uma consultoria para os joalheiros e lapidários da cidade. Saiu de lá encantado com o que viu (e deixou muita gente achando que o Johnny Depp tinha passado por o Festival de Inverno 'te ano, hehehe). Em entrevista à imprensa que foi cobrir o Festival, Pedro Brando disse que ficou impressionado com a beleza da opala. «Creio que dá para fazer um belo trabalho valorizando a simplicidade nas peças», comentou. A designer pedrossegundense Áurea Brandão, autodidata como Brando, diz que se inspira nas pedras para criar as jóias que vende em sua loja. «Eu vejo a pedra e penso numa jóia para ela», entrega. A peso de ouro Pedro II tem cerca de vinte lojas 'pecializadas na venda de opalas e jóias feitas com a pedra, considerada a rainha das gemas. Essas lojas geram centenas de empregos diretos e indiretos, incluindo vendedores, garimpeiros (também os do leito do rio), lapidadores e designers. Áurea Brandão afirma que a opala tem um valor cada vez maior no mercado mundial de jóias e gemas. «Ela chega a custar seis vezes o valor do grama de ouro!», revela a designer. Os jovens da cidade aprendem cedo a valorizar o que sua terra tem de mais precioso e começam cedo a fazer parte da cadeia produtiva. Francisco Xavier, de 16 anos, trabalha com opala há um ano e meio, como aprendiz. «Não é um trabalho fácil, a pessoa tem que ter um dom, tem que ter jeito para a coisa. Se errar a peça, não tem como voltar atrás, por isso é preciso cuidado e atenção com todos os detalhes», ensina o lapidário. Fábio Diego Costa tem a mesma idade e se diz apaixonado por a arte de criar jóias. «Estou começando agora, mas é um trabalho bom de fazer, e é bom ver as pessoas interessadas nas jóias que a gente faz aqui», diz, enquanto lixa uma peça de prata para em seguida colocar em ela um mosaico de opala em formato de meia lua que logo vira pingente e vai enfeitar um pescocinho fashion por aí. Número de frases: 44 Os 'critores e músicos Ricardo Lira e Bruno Tauil, pensando nos inúmeros artistas talentosos, 'palhados por a terra brasilis, que 'tão prolificamente produzindo, sem ter o devido reconhecimento e apoio da mídia em geral, criaram, em maio de 2004, o FFA (Friends For Art). O FFA é um grupo que tem como objetivo maior a divulgação de artistas ainda desconhecidos, em vários seguimentos: literatura, música, fotografia, desenho, cinema, teatro e design. O primeiro projeto desenvolvido por o FFA foi o FFW (Friends For Writing), primando por reunir os trabalhos de poetas, 'critores e ilustradores, numa coletânea, batizada de Colcha de Retalhos, da qual participam nove associados: Ailton Torres, Andrea Augusto, Beatriz Cecchetti, Bruno Tauil, Bueno Freire, Luiz G. Bayão, Milena Azevedo, Ricardo Lira e Simone Bastilho. Colcha de Retalhos 'tá concorrendo ao prêmio VIVALEITURA 2006 -- uma iniciativa conjunta do Ministério da Educação, Ministério da Cultura e Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura. Mais projetos 'tão em andamento, como o segundo volume, ainda sem título, do FFW, e o FFC (Friends For Comics), que reunirá vários desenhos dos quadrinistas associados, indo do 'tilo mangá ao cômico. No tocante ao pessoal que solta a voz e faz um som legal, o FFA conta com três bandas: Nausia, Set-Setters e Take5, que sempre têm seus shows divulgados no grupo. Representando a sétima arte, há o Luiz Gustavo Bayão, que em 2002 participou do Festival de Animação Animamundi, onde recebeu da ABD & C (Associação Brasileira de Documentaristas e curta-metragistas) o prêmio de Melhor Produção Brasileira por o curta de animação «Roleta Russa». O FFA, hoje, agrupa 45 artistas. Se você também faz arte de qualidade e quer se juntar a nós, basta ir ao site: ou enviar um e-mail para o Ricardo Lira: ricardo ld@hotmail.com Bônus Para quem quiser conferir a música «Dias sem amanhã», um punk rock de primeira, do Set-Setters, é só entrar no site e baixar a versão demo, na seção» música " Número de frases: 15 http://www.set-setters.cjb.net/ Antes de assistir a um belo 'petáculo sobre a Inconfidência Mineira realizado em 21 de abril em Juazeiro-Bahia, aproveitei para fazer uma visita ao nosso velho Vaporzinho, definitivamente ancorado às margens do Rio São Francisco. Quantas historias já rolaram ao seu redor! De quantas inconfidências ele já palco. Foi testemunha de tantas faltas, tantas traições, infidelidades, deslealdades. Tantos segredos indevidamente revelados. Também presenciou, com igual aconchego e atenção, momentos de sinceridade, honestidade, confiança, discrição, confissões de segredo e tantas intimidades, amores, paixões, poesias e boemias sem fim ... A sua importância é tanta que criaram-lho Memorial do Vapor Saldanha Marinho para dar-lha devida visibilidade. Me dói nas vistas e na alma olhar para aquela muralha construída ao fundo do Vaporzinho. O arquiteto que projetou o Memorial, se preocupou apenas com a 'tética da sua obra na prancheta e não teve sensibilidade para perceber que criou um ponto cego entre a cidade, o vapor e o rio. Quem passa por o «buraco de Rivas» para ir para o bairro «Atrás da Banca», e quem vem por o viaduto para acessar a ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra, não vê até certa altura, o Saldanha Marinho nem um bom pedaço da orla. Faltou exatamente a visão ... O velho Vaporzinho, trazido de tão longe, hoje simboliza de uma maneira bastante fiel e verdadeira a nossa cidade: 'tá sem timão! Imagine um vapor sem o volante com que se manobra o leme! Prá onde vai? Qual a direção que um barco sem leme pode tomar? Qual o seu destino? Aonde iremos parar? O Vapor Saldanha Marinho é um patrimônio histórico-cultural e, como tal, não pode ser descaracterizado. Não pode, mas foi! Tiraram-lho timão e ainda pintaram-lho símbolo do município bem grande nas suas laterais. Algo inadmissível por tratar-se de um monumento histórico. Vamos conduzir as coisas com seriedade. É dever do Município preservar os bens históricos e culturais. É necessário que se conclua a restauração do Vapor Saldanha Marinho, sem nenhuma alteração de suas características. E se não for pedir demais, que tenha o Memorial informações básicas sobre o monumento exposto e a sua história. Número de frases: 26 Eu lembro quando era criança e o colégio organizava, quase que mensalmente, uma daquelas excursões para o teatro da cidade. Em a semana do passeio, a peça que iríamos ver era o assunto mais freqüente durante toda aula. Era uma ansiedade só, principalmente porque ir ao cinema era raridade para nós, já que em 1991 Campina Grande só tinha uma sala de exibição. Demorava meses até aparecer um filme infantil, e semanas pra convencer nossos pais de nos levar. Estávamos tão acostumados ao teatro, que quando íamos ao cinema ver Os Trapalhões, ficávamos imaginando que a Xuxa, a Angélica e o Didi 'tavam atrás daquele telão enorme, por mais absurdo que pudesse parecer. As peças eram geralmente adaptações de alguns daqueles contos de fadas, com tiradas cômicas e mudanças no fim. Quando não, envolvia algum tema tipo ecologia ou educação com os mais velhos, mas era sempre algo assim, com uma certa «moral da história» no fim. Eu adorava todo aquele clima de magia, desde a fila até os momentos finais, quando tínhamos a incrível possibilidade de falar com os atores. Durante o 'petáculo, toda aquela luz bonita, mesclada a nossa imaginação infantil, nos deixava vidrados no que 'tava acontecendo a nossa frente. Conseguia ser divertido e simples, gerar curiosidade, interesse, despertar a imaginação, a inquietação e o encanto. Como deve ser. Deve ser? Questionar 'sas características, a princípio, parece algo meio bobo a se fazer, já que é quase consenso que teatro envolve 'sencialmente todos os ítens acima, correto? Estranho pensar que talvez não. Estranho pensar que a resposta de alguém quando questionado sobre a 'sência do teatro é fazer uma comparação entre programas de TV como o Zorra Total ou A praça é Nossa. Não há como não ficar com uma pulga atrás da orelha, principalmente se formos checar os motivos para tal resposta e acabar constatando que, faz sim sentido 'sa 'drúxula comparação, que 'se fato é real e mais comum do que deveria ser. É real a partir do momento que se põe numa balança as peças produzidos por 'tas terras. Arriscaria dizer que bem mais da metade e mais bem sucedidos 'petáculos se voltam para um único gênero com características bastante similares: um humor pejorativo e 'crachado, chacoteando homossexuais, expressões, comportamentos locais e o «pobre», além de adotar palavras de baixíssimo calão em quase todas as cenas, assim como sexualidade e machismo. O meu sentimento de encanto passou, como num passe de mágica, para um constrangimento triste. Astier Basílio, jornalista que 'creve semanalmente sobre teatro para o Jornal da Paraíba diz mais: «O texto não tem substância -- o humor descamba para o gratuito-não há uma arquitetura dramatúrgica que me convença. Os atores se limitam a cair em 'tereótipos, que às vezes funcionam. Você até dá umas risadas, mas a que custo?». Esta é a grande questão. Quero deixar claro que não 'tou falando de um ou dois 'petáculos, muito menos de um ou dois grupos. Obvio que há muitas e boas exceções, mas 'se tipo de comédia transformou-se em praticamente uma epidemia nos palcos locais. A discussão passa a ir muito além de méritos como gosto pessoal, popularização e educação, chegando ao ponto de sobrevivência de grupos que não se encaixam em 'sa «formula local de sucesso». Inquieta com 'sa história, marquei com Rosa Cagliani (professora e diretora da 'cola de arte Fazendo Arte, além de diretora do grupo Deuzeruora Vamimbora) e alguns de seus alunos (Bia e Caio Cagliani) de teatro para falarmos sobre o assunto. Eles, que não são adeptos ao cômico 'crachado, confirmaram minha suspeita: Fazer outro tipo de teatro, e principalmente comédia, depois da superpopularização do gênero em questão, ficou bem mais complicado. «É como um efeito dominó: o maior público se interessa por 'se tipo de 'petáculo, logo eles são sinônimos de casa cheia. Sendo sucesso de público, patrocínios para uma produção bacana passam a ser mais fáceis, tornando patrocínios para o nosso tipo de 'petáculo mais difíceis. Sem grana, não podemos fazer uma boa divulgação, o que também causa público 'casso. Até pra marcar uma pauta em algum teatro da cidade acaba tornando-se mais difícil, já que a preferência é por quem atraia mais público», explica Bia. O fato é que já temos um público cativo para as comédias apelativas, e quando questiono os prós da situação, me jogam um balde de água fria. Rosa não acha que casa cheia em 'ses 'petáculos seja sinônimo de popularização do teatro, mas sim de um gênero, pois diz que 'se público não freqüenta outros tipos de 'petáculos, e quando o fazem, geralmente não gostam. «Acho que num público de 600 pessoas, talvez 5 acabem se interessando por teatro», concorda Bia. Rosa complementa dizendo que " A quantidade de público que leva é reflexo do nível de educação da nossa sociedade, é uma questão de gosto. Tem gente que vai ao teatro para se sentir bem, tem gente que vai para ficar excitado, gargalhar. Tem gente que sai, vai num restaurante, conversa com os amigos, conta umas piadas, bebe um pouco e se satisfaz. Tem gente que sai, fica falando alto, sendo grosseiro, cantando todo mundo ... Entende? O teatro que tem maior poder de público é o de humor fácil. E isso não é só uma característica Paraibana». A Comédia 'crachada já tem tradição, é antiga por aqui. É como acontece normalmente: depois de um primeiro 'petáculo e do sucesso conseguido, a fórmula é usada até a exaustão, e consegue cair de nível cada vez mais. Títulos como Pastoril Profano, Cabaré da Dera, As Coroas, As Piniqueiras, entre tantos outros, comprovam que a história foi proliferada e que o nível de exigência da maioria do público é baixíssimo e temos assim o gênero teatral que mais lucra no 'tado. «Esse 'petáculos são feitos pra isso mesmo, o lucro. Não consigo enxergar nenhuma preocupação em levar cultura para aquela legião de 'pectadores», diz Caio. É preocupante perceber que as coisas que se tornam populares em 'se país são, geralmente, de conteúdo duvidoso. Seja no teatro, na música, na televisão ... Ser popular tem que ser sinônimo de ser ruim? Esta questão já é clássica, e pode nos levar a horas de discussão, mas, na prática é assim mesmo que acontece. Ter um 'tado que o teatro em geral é pouco beneficiado, que todos os grupos fazem das tripas coração para conseguir sobreviver e produzir, que há um 'paço restritíssimo em jornal e TV para o processo de divulgação, e que quando há é bastante capenga, desestimula e impossibilita grandes produções. Temos exceções, claro. Vau da Sarapalha é um dos 'petáculos mais lindos e importantes que eu já vi, mas ainda é exceção. Seriam as poucas condições de produção a justificativa para tamanho sucesso das comédias de péssimo nível ou o péssimo nível nos leva a poucas condições de produção? Esse ciclo é sem fim, e 'te formato 'tá cada dia mais presente no teatro infantil. Que tipo de público vem aí? Somos obrigados a usar uma das frases mais populares em conversas sobre o tema: Número de frases: 62 É ruim, mas o povo gosta, fazer o quê? Em o princípio elas já eram adoradas. As «Rainhas do Rádio», entre as décadas de 30 e 40, despertavam fervor. Linda Batista, Dircinha Batista, Marlene, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e Ângela Maria, entre outras, se sucederam no posto de cantoras mais populares do país em meio a disputas acirradas de seus grupos de fãs. Ainda assim, quem conseguia arrastar o grande público eram os homens. Em a chamada «Época de Ouro» da música popular brasileira, nomes como o de Francisco Alves, o " Rei da Voz "; e Orlando Silva, o «Cantor das Multidões» eram imbatíveis frente às intérpretes. Desde 'tes primórdios criou-se o 'tigma de que mulher não vendia discos. Décadas se passaram assim, até a chegada de uma cantora exuberante, de vestidos brancos rodados, adornos africanos e cabelo revolto. A época: meados da década de 70. A personagem: Clara Nunes. O feito: bater recordes de vendagens, chegando a quinhentas mil cópias do álbum «Alvorecer» (1974) e abrindo 'paço para outras sambistas, como Beth Carvalho e Alcione. Pouco depois uma baiana de interpretação teatral atingiria 1 milhão de cópias, do disco Álibi (1978), chegando a rivalizar o posto de número 1 da música brasileira com o «rei» Roberto Carlos. O 'tigma 'tava quebrado. O Brasil se firmava como o país das cantoras. Cada uma com timbre único, cantando as belezas e as mazelas de seu país, mas, sobretudo, os prazeres e as dores de amar -- de modo que nenhum homem poderia cantar igual. Gal, Simone, Maysa, Nana, Elba, Zizi, Elza, Joanna emprestavam voz, corpo e emoção às canções. A os homens, coube adotar o papel de compositor-cantor; raras as vezes o de puro intérprete. Através de seu canto, as mulheres personificaram a evolução comportamental, política e musical do país. Em 'pecial, a recém adquirida liberdade de ser mulher. Foram muito bem vindas Araci Cortes, que encarou de frente os preconceitos tornando-se a primeira 'trela feminina da MPB; Nara Leão, musa de movimentos tão opostos quanto a Bossa Nova e o Tropicalismo; Rita Lee, personificação da irreverência do roqueira; Cássia Eller, que 'facelou os últimos tabus de sexo e comportamento no palco e na vida. Elis foi a voz da anistia aos exilados; Fafá foi o canto das «Diretas Já». Mulher 90 Aos poucos, a nova geração de cantoras foi cortando as raízes com o passado. Em relação aos temas, elas passaram a se mostram menos dispostas a rasgar o coração, como faziam as divas consagradas da MPB. Em vez de requisitar compositores masculinos, preferiram dar voz a composições próprias. Surgiu um novo som, mais contemporâneo e pop. Adriana Calcanhotto, Zélia Duncam, Ana Carolina e Vanessa da Mata são exemplos de 'ta safra, que marca o final do século 20 e o início dos anos 2000. Marina Lima e Marisa Monte podem ser considerados os primeiros ícones de 'ta geração. Pós-pirataria Com o crescimento da pirataria de CDs e DVDs, surge um novo ciclo na MPB. As vendas de discos declinam e o mercado fonográfico se enfraquece. Passa a valer mais cativar um púbico para shows e buscar a construção de uma carreira sólida que, propriamente, repetir fórmulas que garantam altas vendagens. O que fez surgir uma nova tendência, dando um novo tom à voz feminina. Sem que o mercado determine quem será a «revelação do momento», 'tá surgindo uma enxurrada de novas cantoras. São donas de vozes bem afinadas, que, em geral, se destacam em barzinhos descolados e transferem o bom repertório de palco para o formado em CD. São também jovens de bela 'tampa. Compositoras ou não, todas são bem dispostas a garimpar canções 'quecidas, ao mesmo tempo em que se mostram antenadas com a nova safra de compositores. Em seus discos, convivem em harmonia canções de Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro, Lenine, Marcelo Camelo e Rodrigo Maranhão. Ao contrário da geração «Ana Carolina», elas deram uma pausa no pop, primando mais por um resgate à tradição da música brasileira. A maioria adotou o ritmo nacional mais emblemático: o samba. São tantas as novas cantoras que mal consegue-se acompanhar a velocidade em que são reveladas, ao público 'pecializado ou às massas. Os primeiros nomes despontaram para além do circuito alternativo em 2007. É o caso de Roberta Sá, Mariana Aydar, Teresa Cristina e Mart ' nália na seara do samba e de Céu e Ana Canãs, de influência pop. E não vou me alongar na lista para ficar apenas entre as que tiveram maior destaque. Todas muito boas, sem dúvida. As que levantam a bandeira do samba fazem isso com muita propriedade, mas talvez com muita reverência ao passado. Com isso, se blindam de experimentar musicalmente. Assim, quem permanece livre, leve e solta, cantando samba e soltando seu vozeirão jazzístico é Elza Soares. A os 70 anos, ela mostra que sabe inovar e dá um banho em qualquer novata. Fica a lição para as moças, que são tão aplicadas em seu ofício. Para conhecer mais: «Roberta Sá: «Que belo 'tranho dia pra se ter alegria» (2007) «Mariana Aydar ": «Kavita» (2006) Mart ' nália: «Mart ' nália» " Teresa Cristina ": «Delicada» (2007) Número de frases: 67 Céu: «Céu» (2006) «Vou te contar / os olhos já não podem ver / coisas que só o coração pode entender». Estes são os versos de um dos principais compositores do século 20 que os fãs de telenovela 'cutam todos os dias em Páginas da Vida, exibida por a Rede Globo. Wave, o tema de abertura da novela das 21 horas, é apenas uma entre dezenas de canções 'senciais que levam a assinatura do mestre, sozinho ou com parceiros como Newton Mendonça, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. O músico, falecido em 8 de dezembro de 1994 -- vítima de embolia pulmonar seguida de parada cardíaca, no hospital Mount Sinai, em Nova York, revive nas constantes regravações de sua obra e será alvo de todas as homenagens em 2007, ano do seu 80º aniversário. A data oficial é hoje (25 de janeiro), mas a primeira lembrança chegou no final do ano passado, com o lançamento de Tom Jobim ao Vivo em Montreal. O DVD, lançado por a Biscoito Fino, capta Tom Jobim num dos pontos culminantes de sua carreira e numa das fases mais alegres de sua vida. Este é o primeiro DVD do compositor e traz clássicos como Chega de Saudade, Wave e Garota de Ipanema -- a música, feita em parceria com Vinicius de Moraes, rivaliza com Yesterday, dos Beatles, no ranking das músicas mais regravadas da história. O DVD foi gravado em 1986. Tom havia lançado pouco tempo antes Passarim. Álbum de inegável qualidade artística com clássicos instantâneos como a faixa-título, feita para a minissérie O Tempo e o Vento, Anos Dourados e Gabriela -- da trilha sonora do filme com Sônia Braga e Marcello Mastroianni. O trabalho transcendia o mero lado musical para se transformar num relato hedonista e familiar do bom momento pessoal que o maestro vivia. O que o 'pectador vê, no DVD, é a alegria que Tom sentia em fazer música ao lado de amigos e parentes. Estão em cena Ana Lontra Jobim -- mulher e uma das cinco vocalistas, e os filhos Paulo (violonista) e Elizabeth (outra vocalista), além de agregados como Jacques Morelenbaum (violoncelo), Danilo Caymmi (flauta), Sebastião Neto (baixo) e Paulo Braga (bateria), mais os vocais de Simone Caymmi (mulher de Danilo), Maúcha Adnet e Paula Morelenbaum (mulher de Jacques). Juntos, eles desfilam um repertório que inclui composições antigas (Samba de Uma Nota Só, Garota de Ipanema, Samba do Avião, Chega de Saudade e A Felicidade) com recentes (Two Kites e Borzeguim), além de Waters of March, versão feita por o próprio compositor para Águas de Março. Tom Jobim ao Vivo em Montreal traz como extra uma entrevista do compositor concedida em sua casa, no bairro do Jardim Botânico, no Rio, em 1981, ao jornalista Roberto DÁvila. Em a entrevista, Tom, reflexivo e com uma profunda capacidade para fazer um balanço de vida e analisar a presença da sua obra no panorama da MPB, fala de música, brasilidade e sentimentos como o amor e a tristeza, indispensáveis à sua criação. Faz toda 'sa avaliação sem parecer amargo ou ressentido e até brinca com o destino, criando mais um de seus geniais aforismos sobre o país: «O Brasil é de cabeça para baixo, mas se você disser isso, te colocam de cabeça para baixo». Tom, compositor que soube como poucos unir a sofisticação do jazz, o requinte do erudito e a simplicidade da música popular, lançou mais de 30 discos e influenciou praticamente tudo o que veio a ser conhecido como MPB na segunda metade do século passado. Foi gravado por artistas como Frank Sinatra, Miles Davis e Sting, Sarah Vaughn, entre tantos outros. A última gravação de Tom foi um dueto com o amigo Frank Sinatra, dois meses antes de sua morte. A música que 'colheram para gravar tem um título, no mínimo, curioso: Fly me to the Moon (Leve-me voando para a Lua). Os tons de Tom Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 1927, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. O pai se separou da mãe e morreu aos 46 anos. Ela casou novamente e foi o padrasto de Tom Jobim que o incentivou a aprender piano, o instrumento comprado para a irmã de ele, que não tinha muito jeito para a música. Mas suas inclinações já eram óbvias. Antes do piano, que começou a aprender aos 14 anos, ele já se iniciara na gaita e no violão. Teoria, 'tudou com os professores Lúcia Branco Tomás Terán, Kollreuter, Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, Alceu Bocchino, o melhor que se poderia encontrar naquela época (anos 40). Mas nem sua vontade nem destino eram as salas de concertos. Ele seria o mais completo compositor da história da MPB ou, como melhor o explicou Carlos Lacerda (o ex-governador udenista do Rio, também jornalista): «Tom Jobim conseguiu o prodígio de ser compositor popular sem ser popular». Sua música era inegavelmente brasileiríssima, mas a 'trutura devia muito a compositores como Debussy, Villa-Lobos e Satie, o que o levou a ser acusado de plagiador ou de americanizado. Cismavam até com o «Tom», que seria mais uma prova deste suposto americanismo. O «Tom», ele se cansou de explicou, era como a irmã o chamava quando aprendeu a falar e acabou como apelido familiar. A carreira de Tom Jobim deslanchou quando o jornalista Lúcio Rangel o recomendou a Vinicius de Moraes, que procurava quem lhe musicasse o Orfeu da Conceição. Foi o primeiro trabalho em que ele imprimiu sua marca registrada, legando para o repertório da MPB um de seus clássicos definitivos: A felicidade. Um trabalho que virou filme (Orfeu Negro, do francês Marcel Camus) e foi elogiado por a revista Time, que citava pela primeira vez no exterior o nome de Tom Jobim, algo de que ele se orgulhava numa entrevista concedida à revista Manchete, em 1957. Nem sonhava que poucos anos mais tarde, uma parceria sua com Vinicius, Garota de Ipanema, chegaria ao primeiro lugar da disputada parada de sucesso dos Eua. E mais, dividiria um álbum duplo com o maior cantor popular dos Eua em todos os tempos: Frank Sinatra, com um repertório todo assinado por Tom Jobim e parceiros. Em 1971, em pleno regime militar Tom foi detido e obrigado a comparecer à policial federal para averiguações de tempos em tempos. Isto o fez tomar a atitude de quase todos os artistas que contestavam o regime: 'colher a saída do Galeão. Foi quando lhe atribuíram a frase «A melhor saída para o músico brasileiro é o Galeão». Ele sempre negou a autoria. Curiosamente o aeroporto carioca não é mais chamado de Galeão, foi rebatizado de Tom Jobim Tom passou a morar nos Estados Unidos, onde lançou alguns de seus melhores discos: The adventurers, Tide e Stone Flower (1970), Sinatra & Company (1971), Matita Perê (1973), Elis & Tom (1974), Urubu (1976) e Terra Brasilis (1980). Fez diversas trilhas para cinema, textos para livros sobre ecologia (mas sem proselitismo), com fotografias da mulher Ana Jobim. Em os anos 80 formou a Banda Nova com os músicos Paulo Jobim, Danilo Caymmi, Sebastião Neto, Jacques Morelenbaum, Paulo Braga e as cantoras Ana Jobim, Elizabeth Jobim, Paula Morelenbaum, Maúcha Adnet e Simone Caymmi, e, pela primeira vez, apresentou-se por cidades brasileiras nas quais nunca havia 'tado. O show era o mesmo apresentado em Montreal e lançado em DVD por a " Biscoito Fino. Número de frases: 55 «É dia de feira, quarta-feira, sexta-feira, não importa a feira. É dia de feira quem quiser pode chegar». ( O Rappa) Feira é sempre uma coisa bacana. Seja de livros ou de frutas, a feira é um dos melhores eventos sociais. As feiras livres das cidades do interior, então, é um grande encontro de pequenos encontros, diretos e indiretos. É possível conhecer muitos lugares visitando apenas a sua feira livre. Primeiro você encontra o que existe em abundância na região, e segundo, você identifica o nível econômico local por os valores cobrados na alimentação, no vestuário e no lazer. Para muitos, a feira é o lugar de abastecer a dispensa na semana. Também são ótimas chances de anunciar, quer seja com serviço de som ou no gogó mesmo. Ali se realizam bingos, leilões e intervenções como a embolada, por exemplo, quando um sujeito saca um pandeiro ou uma viola e desafio o outro na cantoria. Logo se forma uma roda em volta. Como se trata de uma feira, 'tarão ali pessoas da zona rural, da zona urbana e das cidades vizinhas. Boa parte dos feirantes percorre as cidades do entorno para armar a sua banca, já que muitas vezes a feira é a sua única fonte de renda. Em a cidade grande também a feira diz muito. Quem for a Belo Horizonte não pode deixar de dar uma volta na Feira Hippie, aos domingos, na Av.. Afonso Pena, (a " Av.. Sete " de BH). Uma feira gigante onde se encontra de tudo mesmo, apesar de ter um artesanato que se encontra em qualquer lojinha. Em São Paulo, a boa pedida é a Feira das Artes da Praça Benedito Calixto, aos sábados em Pinheiros. Claro, o que são os também os Mercados que não feiras. Em Salvador, berimbau no Mercado Modelo, em BH empadão no Mercado Central e o pão com mortadela no Mercadão, em SP. Para o atual secretário de cultura do Estado, Márcio Meirelles, uma feira 'tá além do 'paço físico, tanto o supermercado tem uma cultura de feira quanto a internet ampliou as possibilidades de trocas. Isso é verdade, o que não se sabe direito é como ficará a questão identitária ou de referencial local, uma vez imerso no ambiente virtual. Você pode ir à feira com uma companhia, um grupo de amigos, ou também, sozinho. Sem dúvidas, uma boa oportunidade de novas amizades. Feira nem sempre é sinônimo de preço baixo, mas é o melhor lugar para pechinchar. Por falar em preço, não perderei a oportunidade de citar um tal «Zé Boca Aberta», que disse em seu programa de rádio que as pessoas não fosse para a Bienal de Livros, que aconteceu no Centro de Convenções de Salvador. A o dizer que lá só tinha assaltante, dentro e fora da Bienal, eu só posso suspeitar que o dito Zé é um daqueles sujeitos em que o preço de um livro é mensurado por a quantidade de páginas do volume. Também pudera, alguém que tem audiência de um programa que se vale da miséria alheia não pode desejar uma melhor formação para as pessoas. Citar a presença da meninada, a baixa oferta de boas obras ou desorganização, tudo bem, mas desqualificar o evento com 'se argumento é recusar que o problema de segurança em Salvador há muito perdeu lugar exclusivo deste ou daquele canto. Enfim, voltando às maravilhosas feiras, (e considero a Bienal um tipo de feira) existem boas feiras de artesanato por aí: Desde a Feira dos Caxixis (Nazaré), ou Feira das Artes (Rio Vermelho, Salvador), ou Feira de São Joaquim, ou do Mauá. Alguém por aí lembra do Balaio Cult ou da Rádio Bazar? Não faz muito tempo, assim que vim morar em Salvador há uns seis anos. Pois é, difícil é manter 'ses 'paços. Alguém sabe se o Scambal (scambo no Passeio Público, um domingo no mês) já foi pra o 'cambau? Já soube que não. Ótimo! Por fim, fica aí outra dica: Feira Hype rola todo sábado à tarde, no Pátio do ICBA (Corredor da Vitória), das 13 às 20 horas. «A idéia não é apenas promover a comercialização de discos, livros, roupas, vídeos e objetos de arte, mas, também, favorecer a integração e o intercâmbio dos mais variados segmentos da cultura pop / tech de Salvador. Número de frases: 41 A Feira Hype reúne lojistas, artistas, produtores culturais e o público em geral num ambiente agradável do centro de Salvador», nos diz a organização do evento. Escutando Stones. É. lá em casa, como meu pai sempre foi fã dos Beatles e sempre me passou 'sa admiração -- aliás, brigada Seu Marcelo --, e como também na época de ele, ou você gostava de Beatles ou gostava dos Stones, ele nunca comprou cd, nunca gostou e nunca me apresentou. Então, eu só vim conhecer mesmo (hits e não-hits) depois de velhaca, quando comprei um DVD sobre o British Rock e vi que, ei, os Stones também são fuderosos, pai! Aí eu comecei a pesquisar, baixar discos, 'cutar bastante e hoje eu gostcho mutcho. Muitas músicas dos Stones são hits e se encaixam em alguma coisinha na minha vida. Tá, qual música de eles não se encaixaria em alguma coisa na vida de algum ser vivo deste planeta? Anyway ... tô 'cutando o Forty Licks -- reparem bem no nome desse disco, que coisa linda de se dizer: forty licks. Quarenta lambidas deve ser algo um tanto quanto inusitado, néam? Hihihi -- e comecei com «Paint It Black» porque na realidade eu cheguei aqui na agência com vontade de 'cutar 'sa música na versão original porque há poucos dias eu baixei uma versão de ela com o U2 e o Bob Dylan. E devo lhes dizer que tá é boa, afinal, 'tamos falando do U2 com o Bob ' fucking ' Dylan, for Christ's sake. Aí tem o Forty Licks e tem 'sa música e mais uma pá de música bacana dos caras. As 40 mais-mais. Comecemos por «Street Fighting Man». Impossível se conter e não cantar junto com o Mick Jagger, né? Essa música pede pra que você a cante. Além de me lembrar alguma outra música, que obviamente foi influenciada por Street Fighting Man e que eu lembro que gostei, mas não lembro qual é a música em 'te exato momento. Maestro Zezinho, sete notas, por favor. Passemos para «Gimme Shelter». Hit-hit-hit. Muito hit. E muito boa. Só me imagino num show de eles cantando bem alto. Adoooooro usar a frase ' gimme shelter ' em várias situações. Óutchima. I can ' t get no, sa-tis-faction. And I try, and I try, and I try ... But I can ' t get no.. Oh, no, no.. Preciso falar alguma coisa? Oh, no, no ... he-he-hey.. that's what I said. «Jumpin' Jack Flash» é clássica. Tão clássica quanto «Satisfaction» ou «Sympathy For The Devil», que aliás, na voz do Seu Axl, ficou tão boa quanto a original. Eu particularmente gosto muito de elas. E acho até que choraria quando 'cutasse Jumpin'Jack Flash ou Sympathy For The Devil num show dos vovôs. E tem também «Miss You»,» Start Me Up», «Brown Sugar»,» Angie «-- que o Stereophonics fez uma cover de derramar váááááárias lagriminhas marotas no cantinho dos olhos, disponível no eMule, digo logo --,» Don't Stop», Anybody Seen My Baby», com direito a Angelina Jolie no clipe e tudo o mais. Ah, Stones é Stones, né? Poderia passar o resto do dia 'crevendo sobre, mas eu tenho que trabalhar. E hoje eu vou dedicar meu dia aqui na agência a eles. Pra ver se o dia passa mais rápido e eu canto mais, porque quem canta, seus males 'panta. Número de frases: 42 And I know, it's only rock n ' roll, but i like it. A exposição " Lacunas: Um Mundo entre Pontes», de Bárbara Damas, artista plástica e 'tudante de direito de 22 anos, lança-nos uma proposta, tanto de sensibilidade refinada como de traço e pintura lúdicos, através da leituras de nossas palafitas, brincadeiras infantis e 'tímulos criativos do imaginário adulto e infantil. É uma viagem através de um mundo colorido, que o evento «Aldeia SESC Povos da Floresta» nos permite embarcar. Para conferir basta visitar a galeria de arte Antonio Munhoz Lopes, no sesc Araxá. Para conseguir maiores chegamos junto na agradável expositora: Zab -- Olá Bárbara, tudo bem? Como os primeiros raios de luz começaram a te despertar para 'te trabalho? Bárbara -- A realidade das crianças que moram nas áreas ditas irregulares sempre me chamou a atenção. Logo, comecei a 'crever sobre «a formação da identidade de crianças que moram nas áreas de ressaca». De aí, percebi certos aspectos que não dariam para descrever ( ...). Então, surgiu o «Lacunas: Um Mundo entre Pontes», ela faz uma alusão à lacuna presente na lei quando não alcança a realidade de 'sas pessoas. Zab -- A princípio, as obras de acrílica sobre tela ou colagem com aquarela lembram uma pintura infantil, mas não é bem assim, não é mesmo? Fale mais a respeito de sentimentos sobre a criação das obras. B -- Quis mostrar o que percebia na movimentação das crianças em meio àquelas pontes ( ...). O corpo de elas vai se adaptando, vai se equilibrando e entrelaçando por o lugar, (não lugares para muita gente). Percebi que precisava buscar o lúdico para compreender aquilo tudo. Tão lindo! Perguntava-me «como conseguem brincar de pipa, olhar para o céu em cima das pontes, muitas vezes, velhas demais». Zab -- Mas o mundo das crianças que vivem em baixadas parece um pouco descolorido, você não acha que optando por variedades de cores, você pode ser levada a nos transmitir um ambiente diferente da verdadeira situação social em que elas vivem? B -- O mundo de eles é o mais colorido que já vi em Macapá, porque é mais verdadeiro. Zab -- O que você sente com relação aos expectadores que lançam seus olhares sobre as imagens que você produz? B -- Eles só dão mais sentidos à obra, porque vivenciam isso todos os dias, mas a diferença é que as áreas urbanas irregulares dificilmente são vistas como temas criativos. Zab -- Então a aceitação é boa? B -- hehe ... Ninguém reclamou até agora com aquele ar de «fora de contexto» ... hehe Zab -- rsrs Zab -- Pô, Bárbara, é com dor no coração que temos que te pedir pra nos fornecer as considerações finais. B -- Estas crianças colaboram na formação da identidade cultural da cidade, mesmo sendo, muitas vezes, corpos invisíveis, elas sabem quem são, como e porque vivem marginais, embora se sintam presas àquela situação. ( ...). Número de frases: 29 A única coisa que vejo do Estado, é um tratamento aquém de sua responsabilidade, como se problema social fosse problema transcendente. Uma saga minimalista O que Curinga, arquiinimigo do Batman; Roberto Carlos, de As curvas da 'trada de Santos; e o Sr. Spock, da série Jornada nas Estrelas podem ter em comum? Nada, responderá a maioria. Uma característica, entretanto, os une visceralmente: 'tão todos expostos na vitrine de uma das lojas do 3º andar da galeria Pedro Jorge, no centro de Fortaleza. Em ela, além de miniaturas das personalidades acima referidas, encontramos, brandindo guitarras ou massacrando os pratos de alguma bateria, figuras como os roqueiros da banda Kiss ou Aerosmith; lendas do rock nacional, como Raul Seixas, Renato Russo e ... Pitty. Harmoniosamente, a velha e nova guarda do rock convive com os 'culhambados Beavis e Buthead e Homer Simpson. Abaixo, a galeria exposta em fatias laterais, cujas denominações, lados «Par» e «Ímpar», servem apenas para refenciar de que lado 'tamos falando: do lado do mar ou do concreto. Mais o térreo do exército de relojoeiros e casas de artigos religiosos, uma constante de cima a baixo, da 'querda à direita, indo e voltando. Lado Par De o lado par, no último andar, vista para grafites em vastas cores cobrindo muros e fachadas de lojas descascadas e telhados de amianto. Em a Opus, uma das lojas mais tradicionais entre os amantes do rock ou simplesmente consumidores da moda underground, o movimento durante a manhã é pequeno. à exceção de alguns 'tudantes, atraídos por cintos com «arrebites», perneiras e munhequeiras, quase não há ninguém. Encostado ao balcão, o vendedor aproveita para assistir a mais um capítulo da série 24 horas. Aqui e acolá, um cliente, que entra e vasculha a coleção de discos e camisas em busca de alguma raridade. O vendedor não desgruda os olhos das 'tripulias de Jack Bauer, agente da CIA invariavelmente encarregado de salvar o mundo de terroristas árabes ou latino-americanos. Aureliano Xavier Teixeira, 34 anos, já assentou tijolos, preparou argamassa e retelhou casas. Antes, quando era servente, apenas olhava e preparava a massa que o pedreiro utilizaria. Aureliano fez, também, pequenos consertos na rede hidráulica do bairro onde mora, o Nova Metrópole, na Região Metropolitana de Fortaleza. Há seis anos, após sentar para 'tudar numa das salas de um curso para a formação de seguranças, realizado no município de Itaitinga, Aureliano conseguiu emprego na galeria. Não é forte como os meninos de academia podem ser, mas assusta por o tamanho. Seu ponto fraco: o sorriso. Ele é um dos três seguranças que protegem, de segunda a sábado, das 8 às 18 horas, os comerciantes e transeuntes da Pedro Jorge. Conforme o rodízio informal realizado por Aurelino e seus colegas de trabalho, havia chegado a sua vez de circular na parte superior da galeria. Em o trajeto usual, ele aproveita para passar na Opus, onde se encaminha, em passos miúdos, em direção ao balcão da loja. Percebendo a presença do segurança, o vendedor narra, sem erguer a vista da televisão e de forma sucinta, o objetivo da nova missão de Jack. Aureliano passa, então, a acompanhar atentamente as aventuras do agente. Em o mesmo patamar da galeria, Daniel Antunes, 22 anos, vende, há dois meses, camisas do ColdPlay, Avril Lavigne e Creed e adereços trespassados por pinos de metal cromado. Ele mesmo encontra-se em conformidade com o meio: na camisa preta, rostos de três ou quatro jovens 'tampados fazem 'tranhas caretas. Em os pés, tênis All Star vermelhos. A um cliente que descreve, em minúcias, o tipo de jaqueta que gostaria de comprar -- um blusão com zíper varando-o de cima a baixo -- Daniel balança a cabeça negativamente: 'tava em falta. O rapaz ainda olha outras peças, calças rasgadas e camisas com 'tampas do filme Taxi driver, mas vai embora. Daniel é franzino e aparenta inteligência. Escuta música na loja, fala sobre as bandas que gosta e como foi parar na Dark, 'tabelecimento do qual é funcionário. Começou com piercings. Ali mesmo, na galeria, aprendeu o ofício. «Foi um ano observando e outro colocando», conta. Cobrava, em média, R$ 50 por o serviço. Ele confessa não ter tido muito tempo para se tornar um bom profissional: «Em alguns lugares, não dava pra colocar. Tinha que chamar outra pessoa», informa. Além de pendurar brincos em umbigos, lóbulos, mamilos e supercílios, Daniel também 'creveu numa revista do Carlito Pamplona, bairro de Fortaleza. «Ela falava de skate, rock e outras coisas». O interesse por o jornalismo veio a reboque da experiência de Daniel com a Oxe, nome da revista. Em pouco tempo, tomou a decisão: parou de trabalhar e 'tudou durante um ano. Entrou para o curso de jornalismo de uma universidade particular, mas logo desistiu. Ainda pensa em retomar o curso, 'crever novamente em revistas e se tornar um bom jornalista. Lado Ímpar De o lado ímpar, a vista descortina o azul-turquesa intermitente do mar de Fortaleza, a oficina de um senhor que conserta cadeiras e o cone cinzento da torre da Catedral da Sé. Mais as fachadas de lojas, ruas apinhadas de ambulantes e telhados de amianto. Corredores mergulhados em silêncio. Em o ar, odor de próteses. Curvado sobre um molde em gesso, Jéferson 'mera-se: do bico de gás, alimentado por querosene, ele retira a pinça, mergulhando-a, em seguida, na cera vermelha ou azul. Aos poucos, faz surgir o exato desenho de uma arcada dentária no molde de quartzo. Desconhece a boca da qual foi retirado o molde original, feito em gesso. Ao longo do dia, serão, pelo menos, outras sete arcadas marcadas a fogo e cera. Em as costas à mostra, o rosto de uma mulher pintado em azul. Circulando na saleta onde trabalham, além de ele, outros três homens sem camisa, Joacy Gadelha. Tem 35 anos, 16 dos quais dedicados ao fabrico de próteses dentárias, e uma tatuagem no dorso. Começou trabalhando como empregado e hoje tem orgulho de ter se convertido em dono. Joacy é baixo, tem bigode e parece sentir prazer ao explicar todas as etapas por a qual a prótese dentária passa até chegar à boca do cliente. Fala que, ao longo do ano, o período que vende mais é dezembro. Em janeiro e começo de fevereiro -- antes, portanto, do carnaval -- as vendas caem vertiginosamente. Em o final do ano, o que importa é aparecer nas fotos com um belo sorriso. Depois, apenas o carnaval, com ou sem dentes postiços. Em um dos cantos da sala, Carlos Eduardo Rocha Moraes, 26 anos, lixa as próteses há pelo menos um ano. Curvado sobre um punhado de pequenos pinos, identificados por a função que cada um exerce durante o processo, Eduardo fala pouco. Não se distrai. Para cada peça, ele garante levar uma hora polindo. Em o final, uma prótese brilhando é devolvida ao molde original e levada para uma sala contígua. De lá, o destino é o consultório médico conveniado. A o 'tender a mão para receber a prótese, pouco ou nada da história de Eduardo passará por a cabeça de alguém. Em o térreo De o térreo, vista nenhuma se tem, senão a do incessante movimento de pernas e braços articulados a troncos de homens e mulheres em busca das compras de Natal. Após ter sido coberta com um teto de alumínio, a galeria ganhou ares de caverna e abriga, no seu útero, relógios, bíblias e a cajuína de Edísio, proprietário da livraria em cuja calçada trabalha Joaquim. Lá fora, o sol faz 'correr suor viscoso, empapando camisas e agoniando juízos. Dentro, a impressão é de que, da 'cala de temperatura, pelo menos dois ou três graus ficaram detidos na entrada da galeria. O suor logo seca. O homem de rosto magro interrompe por um instante o conserto do relógio e aponta, discreto, a banca de Joaquim. «Melhor falar com ele, 'tá há mais tempo aqui». Enfileirados, cerca de dez ou mais trabalhadores desatarraxam pinos de peças nacionais e importadas, emendam pulseiras ou simplesmente as substituem por novas. Feroz, a concorrência resulta, muitas vezes, em discussões iniciadas e encerradas ali mesmo, à vista dos clientes. Jornal aberto no caderno de política. Por trás da barreira de papel, o rosto moreno de Joaquim Barbosa Teixeira, 57 anos, relojoeiro na galeria há 19 anos. Em o começo, retificava e vendia relógios. Hoje, com a hegemonia dos importados, Joaquim apenas vende e faz pequenos reparos. «Os casos mais difíceis, envio para o rapaz que trabalha com mim lá do outro lado da galeria». Joaquim arma a sua banca em frente à livraria Ceará, que vende, entre outras coisas, tabuleiros para futebol de botão, lousas brancas e uma cajuína sob encomenda fabricada em Cascavel. A Edísio Holanda, 69 anos e proprietário da livraria, Joaquim paga a mensalidade de R$ 350. Mais cara que o aluguel de uma sala num dos flancos da galeria, cujo valor não ultrapassa os R$ 300. O homem grisalho, entretanto, argumenta: «E o cliente, quem leva até lá em cima?». Antes do acidente que o deixou imobilizado por cerca de um ano, Joaquim trabalhava como contínuo numa ótica ali mesmo, no centro da cidade. Após cair da moto, viu-se obrigado a vender um carro que possuía para pagar medicamentos. Com o que sobrou, comprou, por influência de um amigo, a mercadoria com a qual passaria a lidar desde então: relógios. Hoje, ao lado de Edísio, com quem compartilha a leitura do jornal diário obtido a um preço menor mediante «negociação» com o gazeteiro, Joaquim comenta sobre as mudanças por as quais a galeria passou durante 'se tempo e atesta: «As bíblias 'tão dominando pouco a pouco todo o 'paço». Edísio, natural de Cascavel e amante de cajuína, confirma o que dissera o amigo: «Antes, predominavam as livrarias na Pedro Jorge. Aqui em cima da gente funcionava uma agência do Banco do Nordeste. Ali na 'quina, tinha uma peixaria. Aqui em frente, uma barbearia», e continua a enumerar a transmutação do comércio local com o passar dos anos, acrescentando: «Hoje, muita loja de artigos religiosos, bíblias, etc». Ele mesmo, confessa, chegou a ter quatro livrarias funcionando na galeria. Número de frases: 115 «Fiquei somente com 'ta aqui». Que diabos é isso??? Acho que 'sa é a primeira pergunta que muita gente 'tá fazendo. Todo mundo já ouviu falar na «lenda» dos cantores que tem suas vozes afinadas por certos aparelhinhos misteriosos que tem 'se incrível dom. Sim, é a tecnologia a serviço do homem!!! Não tenho nada contra a tecnologia, prova disso é que 'tou 'crevendo num blog, gosto bastante de ela e me aproveito muito dos «copy / paste» de 'sa vida, mas se tem uma coisa que me incomoda é o tal do Auto-tune. Tudo bem, quem não canta absolutamente nada não tem jeito (ou tem???), mas muita coisa que ouvimos em gravações por aí teriam a qualidade muito prejudicada ou talvez nem fossem parar no mercado no tempo dos equipamentos analógicos. São como as garotas da Playboy de hoje em dia, cheias de Photoshop pra tirar qualquer manchinha ou marca de celulite e criar a «mulher perfeita». Antigamente as mulheres tinham que ser mais mulheres e os cantores mais cantores. O tal «aparelhinho» não é realmente um aparelho tátil mas um dispositivo virtual, mais conhecido como plugin, que é usado «aberto» num software gravador multipista, como o famoso Para o tools -- ou Cubase, Nuendo, Sonar, etc.. O danado pode ser regulado através de controles automáticos, onde nunca ouvi resultados satisfatórios, ou manualmente, modo que já me permitiu ouvir resultados fantásticos. A questão é: Não seria propaganda enganosa??? As pessoas 'tão vendendo um produto modificado eletronicamente, recurso 'se usado não para adição de elementos 'téticos -- o áudio pode ser modificado de diversas maneiras pra se conseguir timbragens e efeitos diversos -- mas para maquiar um defeito que não pôde ser corrigido no gogó, como se diz na Bahia, por deficiência ou defeito do componente que 'tava situado em frente ao microfone. Tenho muita resistência em usar o tal plugin porque acho que o cantor tem que chegar no 'tudio ou num palco e realmente cantar -- ô se eu pudesse! Pequenas desafinações são normais, somos humanos e portanto passíveis de erros, mas os ditos cantores tem que ser capazes de emitir som ao menos afinado, mesmo que sejam necessários alguns takes pra que se chegue a um bom resultado. Essa é uma das bandeiras que tenho levantado em favor da qualidade musical. É gostoso ouvir um bom cantor -- agora só creio quando ouço ao vivo (e não me venha com show em DVD dizendo ser " ao vivo "). O canto é uma das formas de se fazer música mais difíceis e bonitas, por isso os cantores sempre foram tão valorizados. Devemos dar valor aos realmente bons cantores. Hoje, na era do áudio-visual -- mais visual do que áudio -- se dá muito valor ao «artista», mesmo que a música que sai de suas pregas vocais (sim, o nome correto é prega vocal) muitas vezes seja digna de sair de suas pregas anais (hehehehe -- desculpem, não resistí à piada), mas isso já é questão pra outros debates. Número de frases: 22 Vida longa aos grandes cantores!!! Academia Internacional de Cinema, Curso de Graduação em Cinema e Vídeo na Faculdade de Arte do Paraná (FAP), Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo do Paraná, além de pós-gradua ções na PUC e Tuiuti. Estas são algumas das picadas abertas no Paraná recentemente, que 'tão aumentando os caminhos para viabilização do audiovisual paranaense. Foi no ano passado que primeira vez se viu ações mais consistentes por parte do poder público 'tadual. Até pouco tempo atrás, o que alimentava a produção eram basicamente as leis municipais de incentivo a cultura, além de algumas ações pontuais sem continuidade. Isso 'tá mudando e, embora, ainda seja necessário um tempo para a 'truturação de 'sas novidades, os produtores do Paraná já 'tão satisfeitos com o retorno que vêm recebendo. Fernando Severo é um dos mais atuantes e premiados cineastas paranaenses, foi professor da Academia e também um dos ganhadores do primeiro edital do prêmio promovido por o governo. «É um conjunto de boas ações que trazem gente muito competente para dar aula. Até o Coppola deu uma aula no curso da Tuiuti. Está se formando uma massa crítica», diz, lembrando que só da Academia saíram mais de 200 curtas, muitos premiados. Severo sabe bem do que 'tá falando, do alto de seus 25 anos no setor. Ele sempre percebeu a boa repercussão do que era produzido aqui, independente de patrocínios. «Foi muito tempo sem nada. Está muito provado, por a quantidade de filmes e prêmios ganhos em festivais nacionais e internacionais que o nosso cinema 'tá maduro para fazer um longa. Tanto artisticamente quanto comercialmente. Este apoio vem em boa hora», diz ele que 'tá trabalhando junto com o diretor Marcos Jorge em Corpos Celestes, o primeiro longa-metragem paranaense. Além do mais, argumenta, o audiovisual é uma das atividades de maior expansão, cujas possibilidades 'tão sendo ampliadas por as inovações tecnológicas, e «seria um absurdo o Paraná ficar na retaguarda». Silvana Corona, diretora de curtas-metragens ainda pouco conhecida, mas já com prêmios no currículo, vê chances de crescimento no mercado de homevideo, como forma de abrir 'paço para os produtores independentes. «As bilheterias 'tão caindo porque a população mundial 'tá envelhecendo e vendo mais filme em casa. É questão de ter visão de mercado para perceber o leque que se abre», pontua ela que nasceu em Pato Branco, interior do Estado, e foi 'tudar cinema no interior de São Paulo. Voltou para Curitiba em 1992 e começou a se enturmar com os produtores. Foi também o ano em que ficou entre os cinco melhores no Festival Internacional do Minuto, com Certa Manhã, mini-documentário, sobre moradores de rua de Curitiba. «Me surpreendi com a qualidade de trabalhos que eu desconhecia. Irmãos Schulmann, Severo, Beto Carminati, Marcos Jorge. Foram dados passos importantes», diz. Em relação a público ela nem pestaneja em dizer que existe e é carinhoso. «Os lançamentos sempre 'tão cheios, tem que fazer sessão extra. Tenho certeza de que tem público nas pequenas cidades, também. Em Pato Branco, as filas dobravam quarteirão», defende ela, que 'tá produzindo Abacate, «curta sobre um homem sozinho dentro de casa». Silvana acha que o que 'tá acontecendo era inevitável. «As várias ações vão se completando. Antigamente, quando informava a profissão numa ficha de crediário, riam. Mas, para nós é uma mudança recente». O jornalista e 'tudante de pós-gradua ção em Cinema Fábio Pinheiro também reconhece os avanços, mas dá uma freada. «O interesse é inquestionável, haja vista o número de cursos livres que proliferam. O problema continua sendo o do cinema brasileiro: distribuição. Estão formando mais pessoas qualificadas, o que é louvável, só que falta ação em 'se terceiro ponto. Temos uma grande produção que não chega a grande mídia e fica restrita em termos de público. Televisão é concessão pública, mas é impossível furar o cerco», desabafa, mas emenda. «Mesmo assim, agora é hora de elogiar as iniciativas». Paulo Munhoz, que ganhou apoio do BNDES e 'tá terminando o longa de animação Brichos, lembra que o Paraná sempre teve tradição em produzir sem apoio. «Posto isso, digo que 'te prêmio é até tímido, perto de outros 'tados, mas é um começo. E permite também a produção de telefilmes. Isso é legal porque a tevê é a grande janela», diz citando ainda o 'paço no Canal Paraná -- a Educativa 'tadual -- para documentários, através de parceria com o MinC, no projeto " DOC TV. «Estamos começando a ter um 'pectro de possibilidades, com oferta de profissionalização. Minha geração teve que ser autodidata. Tivemos alguma coisa graças a gente como Valêncio Xavier e seus cursos no Mis e Cinemateca», lembra ele que é formado em Engenharia com mestrado na área de cinema. Beto Carminati, que atua na área desde o final dos anos 70 e no momento 'tá trabalhando em várias produções ao mesmo tempo é um 'perançoso por natureza, diz, completando que " toda iniciativa traz chance de aprender. Tem o movimento de cada um que não depende de contexto histórico, nem político, mas pode ser beneficiado por eles». Ele faz questão de trazer à baila questões políticas. «Existe toda uma mítica em torno do suposto amor de (N.R. Jaime Lerner, arquiteto e ex-governador do Paraná, por 8 anos) Lerner por a cultura, mas ele não fez nada por o cinema. Agora, já passamos o medo de que o segundo edital do prêmio 'tadual falhasse, pois ele veio. Está sendo algo mais regular e vem junto com a criação de um curso. Número de frases: 53 Não é a perfeição, ainda, mas é uma atitude de governo, não só discurso», finaliza. Sábado passado fui a Niterói a fim de ver a exposição «Mirabolante Miró» no MAC (Museu de Arte Contemporânea). Ao contrário do que se pode imaginar, o meu conhecimento sobre o artista catalão é o mesmo que tenho sobre física quântica. Ou seja, próximo do nada. Sabia que Juan Miró gostava das cores primárias e secundárias, das inhas grossas e pretas e das abstrações. Em resumo: tudo o que qualquer leigo poderia saber se já tivesse observado qualquer de seus trabalhos. Fui, então, ao «Museu do Niemeyer» -- como uma amiga minha o chama -- armado apenas com meu pré-conceito e da curiosidade de conhecê-lo mais. Em a porta, dezenas de pessoas lotavam os corredores para os salões de exposição. Estávamos num grupo de sete pessoas que poderia ser dividido em: aqueles que não entendiam nada de Miró e aquelas que achavam suas telas «alegres». Nem é preciso dizer a que grupo eu pertencia. Em a primeira parede, uma coleção de gravuras originais da mesma fôrma, apenas pintadas de maneiras diferentes. Digo isso assim, rápido, mas para descobrir que todas faziam parte de uma mesma série demorei bastante e contei com a ajuda de uma voluntária da exposição. Fiquei algo em torno de 15, 20 minutos nas duas primeiras obras, tentando enxergar algum nexo entre ambas, um significado 'condido, algo que não se encontraria à primeira-vista. Em vão. Amigos meus passavam por mim e diziam: «olhe ali um coração "; «'tá vendo aquela cabeça de menino?». E eu pensando que não se deveria perder tempo tentando achar forma onde nunca houve intenção de criar forma. Minha paciência resistiu até a segunda parede. Olhava para aquelas telas e imaginava que meu sobrinho de sete anos poderia fazer o mesmo. Não via significado, razão, quiçá necessidade de 'tarmos ali, parados em frente a telas que nada tinham de extraordinárias, além de terem sido consagradas por a crítica 'pecializada. Imaginei que eu era um completo imbecil (não acho que errei muito) por não entendê-lo e fui sentar num banco. Foi então que, com a energia que lhe é peculiar, R. veio me dizer que eu é que 'tava tentando achar linearidade onde não havia. Eu é que procurava uma explicação fácil, um rosto 'condido, uma cena camuflada, um sentido para toda aquela miscelânea quando na verdade eu necessitava apenas era encará-las sem idéias pré-concebidas. Olhar para uma tela de Miró não é assistir a um filme, ler um livro, olhar para uma tela de (vá lá) Picasso. O catalão propõe que a arte seja compartilhada por aquele que a vê também. É necessário entrar no jogo para poder enxergar. Entender cada uma das gravuras como poemas isolados. Ao invés de pensar que era um trabalho de criança, usar os olhos de uma criança, livre de preconceitos. Aceitei o jogo. Admito que não foi fácil. A o me levantar, as telas ainda pareciam reuniões aleatórias de traços grossos com tinta preta e pontos de azul, amarelo, verde e vermelho. Saímos do primeiro andar, subimos as 'cadas e então aconteceu algo 'tranho. Sem querer exagerar, uma 'pécie de epifania. De longe, observava os traços de Miró e eles formavam imagens para mim. Um era uma vaca, outro um marciano, outro um cangaceiro. Comecei a brincar com cada um dos quadros como se tivessem um sentido apenas para mim. Senti uma alegria crescer, não porque eu entendia, mas porque eu via. Era como se tivesse me conectado com a arte, tivéssemos feito contato. O tempo, em seguida, voou. Logo o museu fecharia e tivemos que sair. Mas havia um sentimento novo: felicidade. Talvez as meninas é que 'tivessem corretas. Miró é alegre. Número de frases: 44 Rubber Vall. Capítulo 2 A exposição das obras de Camille Claudel e August Rodin em Palmas, encerrada no último domingo, 14, colocou a capital do mais novo 'tado brasileiro no circuito dos mestres da 'cultura moderna. Saindo do eixo Rio-São Paulo, a realização da mostra tornou-se um evento singular para os tocantinenses que mantiveram contato com peças tão marcantes do universo artístico-ecultural moderno. A exposição, que agora segue para Belém (PA), e depois para mais cinco 'tados, deixou saudades e grandes lembranças para mais de 25 mil tocantinenses que viram as obras, a exemplo de Thiago Silva, 13 anos, que nasceu em Palmas e nunca tinha ouvido falar em Camille Claudel nem em Rodin. «Não sabia quem eles eram, mas agora com o joguinho (o programa instalado no computador sobre a vida e as obras dos artistas), 'tou aprendendo mais», disse o menino que mora no Jardim Aureny III -- na periferia de Palmas. A mostra ficou por aqui por 40 dias e, invertendo o ditado de Maomé e a montanha, os alunos da rede pública de ensino foram até o hall do Palácio Araguaia e viram as 16 peças de Camille, três obras de seu mestre / amante Rodin -- incluindo uma réplica de «O Pensador», além de um busto da artista 'culpido por Alfred Boucher. Além de entrar no universo rico e entorpecedor de Camille e Rodin, os visitantes assistiram ao filme «Camille Claudel -- a sombra de Rodin», que conta a vida e o romance de Camille com Rodin, e projetou a 'cultora fora da Europa no final dos anos 80. As sensações da arte também foram experimentadas por cinco jovens com deficiência visual, que visitaram a exposição. Com as mãos, eles descobriram cada detalhe das 'culturas. Para Lucas de Araújo, 7 anos, foi diferente 'tar ali. «Nunca tinha visitado nenhuma exposição e 'tou adorando», disse. Em o badalado dia do lançamento, em março, com ar superior, muitos jornalistas questionavam: por que a mostra da artista francesa começou por 'se 'tado? Alguns pensaram e chegaram a 'crever, como O Globo, que o Tocantins não tem nenhum vínculo com as artes e, principalmente, com a Europa. De fato a história é recente, são apenas 18 anos de criação do Estado, mas apesar disso, ele tem fortes laços com a França -- desde a língua que no século 20 era a segunda mais falada por aqui até à música, como eu conto abaixo. Pode parecer mentira, mas o francês, uma das mais importantes línguas românicas com um número de falantes apenas inferior ao do Espanhol e do Português, já foi a segunda língua mais falada no Tocantins. Isso no início do século 20, quando 'ta região era isolada -- uma parte 'quecida do Norte goiano. Tudo porque Porto Nacional, cidade história tocantinense com 145 anos, recebeu uma caravana de padres e freiras franceses, que vieram para a região a fim de educar as crianças. Aqui, os dominicanos fundaram dois colégios: um em Porto Nacional outro em Pedro Afonso, onde o francês fazia parte do currículo 'colar, assim como o português e o latim. Também foi em 'sa época que um piano atravessou o oceano atlântico, vindo da França, passou por o rio São Francisco e, num lombo de um burro, veio parar em Porto Nacional. Quem conta 'sa história é a irmã Maria Amaral Mesquita que, durante anos, lecionou no Colégio Sagrado Coração de Jesus, fundado em 1904 por as freiras dominicanas. «Em aquela época dava-se muito valor à formação musical. As irmãs achavam importante as moças aprenderem a tocar piano e como não havia piano por aqui, mandaram trazer da França», lembra. Essa história rendeu. Segundo o professor Rui Rodrigues -- ex-secretário de Estado por duas vezes e militante político no Tocantins nos anos 60 e, por isso, exilado por 20 anos na França -- as curiosidades do Tocantins em 'ta época se tornaram rico material de teses de doutorado e mestrado nas universidades tocantinenes e goianas. «Eu mesmo oriento alguns pesquisadores», afirmou ele, que hoje mora em Goiânia. Rodrigues também foi figura importante para o fortalecimento da relação Tocantins / França. Trouxe para o Estado seminários sobre o país europeu e tentou implantar em Porto Nacional uma 'cola de língua francesa. «O Tocantins tem uma ligação importante com a França, principalmente as cidades de Porto Nacional e Pedro Afonso que foram catequizadas por as irmãs dominicanas», explica o professor. Assim como a exposição de Camille deixou suas marcas nas retinas tocantinenses o áureo tempo do francês no Norte também não se 'quece. Que o diga dona Ivanilde Aires Cristal, que 'tudou desde o primário no colégio das irmãs. «Era bom demais, tenho saudade deste tempo e não nego. Aprendemos muitas coisas com os franceses», relembra. O francês deixou de ser ensinado no Tocantins, colégio das irmãs, em 1980. Número de frases: 35 A Crise da Nossa MPB Aníbal Beça © A música popular brasileira 'tá em crise. Pelo menos aquela que se rotulou, na década de setenta, como MPB. A que se inscreveu na História como transgressora e libertária nos tempos da ditadura. Levando 'sa bandeira na era dos festivais no circuito Sampa-Rio. Aliás, 'sa música, em 2007 comemorou 40 anos dos primeiros festivais, e 'te ano: 50 de Bossa-Nova. Os compositores como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Gonzaguinha, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim e Milton Nascimento. Só para ficarmos com sete nomes expressivos de 'sa época. Apenas o último, o mineiro-carioca de mil tons, conseguiu se fixar, atualizando-se, no gosto da juventude de hoje. Se não acredita, meu querido leitor, então faça o teste. Pergunte a jovens na faixa de dezesseis aos vinte e cinco anos quem é Edu Lobo, Marcos Valle, Taiguara, Geraldo Vandré? Agora, pasme! Sequer o ícone mais querido Chico Buarque é conhecido. A culpa é de quem? De as rádios que não tocam mais 'ses compositores? Não creio. Deve haver outro fator endógeno no meio do caminho como a pedra do poeta itabirano. O brasileiro padece da enfermidade inquieta do nihilismo. Tudo acaba em nada. Ás vezes dá um tempo como chuva de verão, só para «deixa ficar, que eu quero ver aonde vai dar 'se chove não molha». Como se joga fora, descartando-a como passadista, a Bossa Nova? O movimento musical mais expressivo da música popular da nossa história. A música que levou o Brasil mundo afora até hoje. Os que viajam para América do Norte Usa, Canadá e México sabem disso. Se for para a Europa aí é que ela continua tocando. Marcos Valle 'tá muito bem obrigado em Londres. A Tropicália dos baianos ainda sobrevive porque Gil e Caetano sempre tiveram proximidade maior junto aos jovens músicos, aos anseios dos ouvidos mais roqueiros e pops. Hoje você pode 'cutar hits dos dois até hoje sendo tocados em releitura por bandas de rock. A minha tese é a de que os grandes compositores da era dos festivais se acomodaram. O público brasileiro, exigente, também descartou 'sa turma talentosa. Colocando-os como os «órfãos da MPB». Não há mais milicos atravancando as nossas liberdades para um clima de música de protesto. Por isso mesmo a fórmula dos velhos festivais se exauriu. Muitos, da minha geração sessentinha, se exilaram, também órfãos de Marx, migrando para o 'otérico. Em a música para a NEW Age, na literatura para o recontar sufi-bíblico alcorânico de Paulo Coelho. Muito melhor como parceiro de Raulzito, sem dúvida. E aonde buscar uma saída? Creio que o exemplo mais expressivo, 'tá na proposta de Chico Science e Mestre Ambrósio em Pernambuco, por exemplo. Há outros indícios de mudança nos recantos mais 'condidos do nosso Brasilzão. Não podemos nos dar o luxo de jogar no lixo boas propostas. Por a nossa riqueza rítmica e cultural. Essa diversidade que encanta 'trangeiros ao ponto daqui virem buscar as nossas batidas e transformá-las, por a beleza e por o marketing, num batuque universal. Fica a pergunta em tom de provocação. Espicaçar para traçar uma reta. Antes que acusem o nosso 'paço sistêmico por a culpa da pirataria e por a programação das rádios. A Internet é mais embaixo. Número de frases: 47 Eu passei grande parte da minha vida ouvindo as músicas de Sandy e Jr.. E não me limitava em ouvir as canções pueris e repletas de amor, que na maioria eram versões de artistas internacionais. Eu me permitia sonhar com um futuro relacionamento com a Sandy. E 'se amor platônico era alimentado por as centenas de revistas que eu comprava com meu suado salário de entregador de jornais. Tinha de tudo em 'ses exemplares: de dossiês contando em detalhes a trajetória da dupla desde a tenra infância, até fotos exclusivas sobre os supostos namoros da 'trela, o que me deixava um tanto quanto pra baixo. Mas tudo bem! Era tudo uma questão de tempo. Um dia Sandy me conheceria e seríamos felizes para sempre ... Como 'se encontro aconteceria, e como venceríamos nossos abismos sociais e 'téticos, nunca parei para pensar. Mas 'tava 'crito: Sandy seria feliz ao meu lado, e eu mais feliz ao lado de ela. Em a certa no futuro, eu produziria seus shows e lhe faria composições que alcançariam o sucesso como de era de costume, nas canções interpretadas por ela e seu irmão. Estava tudo premeditado na minha mente 'quizofrênica: os nossos dias felizes, tendo como cenário o céu azul de Campinas, afinal era lá que Sandy e Jr. moaravam. A cada centavo investido nos pôsteres e revistas que traziam matérias sobre a dupla, eu me sentia mais próximo e mais familiar de eles. Afinal de pouco em pouco tinha acesso a detalhes como o apelido de Sandy (Pin, diminutivo de pinceza, só para os pais e o irmão) ou a Morte da cadelinha de ela que acabou sendo homenageada se eu não engano no quinto Cd, com a faixa Marilin. Aquele Cd que tinha também a música dos Power Rangers, lembra? De aí o tempo foi passando, meu acervo sobre Sandy e Jr. aumentando e chegou a hora de trocar as fitas K-7, por os Cds, uma vez que eu já havia sido promovido no trabalho. De entregador jornais, passei a vendedor de assinaturas de jornais. Mudei as roupas, o corte de cabelo e é claro, troquei minhas fitas por cds de Sandy e Jr., e minha fixação ia tomando proporções irreversíveis. Depois veio o primeiro namorado oficial de Sandy, o segundo, o seriado, a novela e mais um monte coisas que fiz questão de arquivar nas minhas inúmeras revistas, e os maldosos boatos dizendo que ao fim da dupla 'tava próximo, que Jr. havia tentado se matar porque não queria se separar, e todo 'se blá blá de revistas sensacionalistas que eu ajudava inocentemente a manter no mercado. De aí eu tive que crescer. E justamente no dia do meu aniversário de 18 anos eu tive a chance de sair do interior e vir assistir um show da dupla na capital. Vim numa caravana com direito a camiseta e foto pra jornal, e naquela dia, naquele show alguma coisa mudou em mim. Depois de tentar em vão furar o 'quema de segurança e chegar até a Sandy pra lhe contar sobre toda minha devoção, eu chorei por não ter atingindo a tal façanha, e percebi o quão era impossível botar todo o meu projeto de vida em ação ... ( se eu não conseguira nem tirar uma foto com ela, como me transformaria no seu terceiro e último namorado?) o quão eu era insignificante para a Sandy, a criatura que amei incondicionalmente por anos a fio, e que nem sabia da minha existência. Me senti pequeno, depois daquele show. Um rato mesmo! E prometi que daquele dia em diante, não ia mais alimentar minha fixação desmedida. E que do meu bolso não ia sair mais nenhum centavo em prol daquele meu arquivo inútil, que não me levaria a lugar nenhum. Você não pode imaginar como é dificil pra um colecionador, pra um apaixonado, pra um 'quizofrênico, interroper um ciclo assim do nada. Mas eu me segurava: a cada publicação deixada de comprar, eu ia gradativamente me afastando daqueles dois, ia abandonado aquele meu vício 'quisito de colecionar tudo sobre uma dupla infanto juvenil aos meus dezoito anos de idade. Embora isso era o que menos me incomodava: o fato de parecer ridículo para maioria dos meus amigos que nem ouviam ou detestavam Sandy e Jr.. Depois de algum tempo, me vi longe das tais revistas. Ainda como um último suspiro, recortei todos os exemplares e colei nas paredes do meu quarto, do rodapé até o teto. Era uma maneira de eternizar minha musa ali, e meu futuro cunhado. Não demorou muito e nossa casa foi reformada, as paredes tiveram que ser lixadas e ali era o fim do meu arquivo, da minha dose mor de fixação. Continuei a comprar os CDS, porque acredito no talento dos dois, gosto das letras, das músicas e também porque era demais pra mim interromper uma coleção que conquistei com tanto suor. O último cd ouvi pouco. Sei que a crítica elogiou, teve até participação de Milton Nascimento; mas parece que o público não recebeu muito bem. Não tinha a mesma cara de Sandy e JR. Não tinha nenhuma versão de um sucesso 'trangeiro, e tinha uma letras mais ousadas e pouca ingênuaidade, a característica que consagrou a dupla, que sem dúvida nenhuma tem todo o direito de crescer, evoluir a falar de outras temas que os interessem, substuindo letras platônicas, por canções mais coesas com a realidade de adultos de mais de 20 anos de idade, que é o que eles hoje são. Em o fundo, acho que eu que parei no tempo e queria que Sandy e Jr. continuassem cantando Maria Chiquinha, no fundo eu que não volatilizei todos os meus mitos em relação a Sandy e continuei vendo-a justamente da maneira que nos últimos anos ela pediu para não ser vista: como a princesa, a ingênua, ou a Madre Tereza de Calcutá, como a mesma citou numa letra do último àlbum homônimo da dupla. Mas ainda sim, embora ouça menos, e já não me indentifique tanto como outrora ... talvez por o meu excesso de nostalgia ou sei lá o que, o fato é que fiquei surpreso com o anúncio da separação da dupla. Fiquei triste mesmo, me senti vazio; como se uma parte da minha história 'tivesse chegando ao fim, como uma ampulheta que anunciassse que agora não tem mais jeito, que minha infância acabou; que as todas as coisas um dia acabam, e me lembrei da uma letra do Renato Russo, que diz: lembra quando a gente / chegou um dia acreditar / que tudo era pra sempre / sem saber / que o pra sempre / sempre acaba. E com Sandy e Jr. não podia ser diferente: a dupla um dia teria que chegar ao fim. E no fundo a gente sabia disso. De aí os maldosos de plantão alardeiam que tudo não passa de um plano de marketing da dupla, por causa da péssima vendagem dos últimos àlbuns, outros já acreditam que foi uma 'tratégia dos dois de pararem, justamente por causa desses últimos números. Em a minha opinião imatura, 'quizofrênica e pueril que costuma ter uma visão deturpada, mas repleta de fé da realidade, eu acredito que Sandy e Jr. antes de serem artistas eles são pessoas, são seres humanos com vontades, anseios e sonhos a serem realizados, que têm todo o direito de começar uma nova trajetória, de se redescobrirem, experimentarem, caminharem com as próprias pernas e se eles 'colheram de fato um momento 'tratégico, é que porque são profissionais, inteligentes e sensatos, e ninguém tem o direito de condenar, julgar ou exigir uma postura diferente. Vou continuar acompanhando a carreira dos dois, da Sandy em 'pecial, principalmente por me identificar com o perfil musical que ela certamente trilhará (mpb, jazz, blues) e porque continuo sendo um grande admirador da artista. A medida do possível vou dar uma olhadela nos passos do meu ex -- futuro cunhado, por curiosidade e respeito ao artista que ele se tornou. Vencendo as críticas, e os desafios que certamente não foram poucos. Não deve ter sido muito fácil para o Durval Júnior, ter tido que provar por um bom tempo que também tinha talento e não era apenas o Jr. (da Sandy) E ele provou para o público com muita coragem e acima de tudo humildade, que sempre foi digno do reconhecimento alcançado, que os méritos também eram de ele. E certamente sua humildade foi um dos grandes pontos fortes durante sua trajetória. Eu vou ser grato eternamente a Sandy e Jr. por terem me proporcionado uma infância e uma adolescência tão bonita, tão verdadeira, tão pura e tão repleta de bons exemplos ... E que os amores platônicos que eu vivo hoje, um dia também se acabem e deixem boas recordações, como as que as músicas de eles me deixaram. E que venha o CD MTV Acústico, para que eu possa fechar com chave de ouro a minha preciosa coleção. Número de frases: 69 Dance music. Isso é poperô em Porto Velho. A gíria é um jeito particular de alguns grupos de jovens que curtem a balada com música eletrônica, coreografias, roupas mais ou menos parecidas e vêm de lugares, que mesmo não 'tando lado a lado, são chamados por o mesmo nome: periferia. Muito maçante? Então 'pera que eu vou 'crever isso de outro jeito. «Domingo a galera desce toda lá para a D&D, bota aquela beca e passa o bizu dos passinhos. O pessoal da quebrada sabe se divertir». Foi assim que Samuel Silva, o Mumu, me falou. Ele mora numa das regiões mais mal faladas de Porto Velho, por ser área de venda e consumo de drogas. Mumu é cantor de hip hop e nunca ouviu falar em Luiz Beltrão. (?) Você também não? Luiz Beltrão foi o primeiro doutor em Comunicação Social do Brasil, e o pioneiro também nos 'tudos de comunicação de massa no país. Uma das vertentes da pesquisa de Beltrão é um fenômeno chamado Folkcomunicação. Este fenômeno 'tudado por o doutor apontou a comunicação entre grupos excluídos do processo de desenvolvimento como característica básica do embate social. Os tais grupos de reação utilizam a comunicação como forma de reagir à marginalidade a que são impostos por a elite e por isso criam jeitos bem particulares de falar, vestir e dançar. Mesmo não conhecendo o tal doutor, Mumu vai nos ajudar a entender como é a comunicação em 'sa tal galera do poperô. O primeiro passo é seguir o conselho do Ákilas Batista, ex-hip hop e hoje vocalista da banda " Quilomboclada: «a gente não pode se arriscar a dizer o que significam as gírias inventadas na quebrada, porque vamos criar um parâmetro e 'sa linguagem foi criada exatamente para fugir a 'ta regra padrão da língua do patrão». Entendidos então que nada dicionário. O segundo passo é conhecer um pouco a história da Dimples Dance, uma das casas onde 'sa galera se encontra na cidade. Há 15 anos, o tal templo da dance music abriu as portas para receber os jovens que curtiam o 'tilo musical e 'tavam dispostos a encarar o preconceito dos mais velhos. A D&D sempre foi tida como um antro, onde jovens bebem, fumam e brigam. E de fato, muita confusão já rolou por lá. A criminalidade, muito perto da realidade da periferia, acaba indo com eles para a festa. Boné na cabeça e camiseta por fora. Calça colada ou saia curta. Batom forte e muita bijuteria. Azaração. Carolina Souza, 18 anos, há três freqüenta a D&D. A 'tudante conta que no começo não dizia para mãe onde ia, com medo de que ela impedisse. Ela mora no bairro Nova Porto Velho, zona leste da cidade, de onde vem grande parte da galera. Quando chega na casa, a primeira atitude da moça é procurar «as comparsas», como ela se refere às amigas. Elas, depois de pôr a conversa em dia, tratam logo de começar a paquera ou falar mal das outras garotas que passam por a rua Duque de Caxias, onde fica a Dimples. Lá o movimento é intenso no domingo à noite. O preço, de R$ 8, é pago na íntegra por poucos. A maioria usa a carteira de 'tudante para ter 50 % de desconto. Carol conta que a D&D é o único lugar no centro da cidade que ela freqüenta, primeiro porque é o lugar onde as pessoas que conhece vão, segundo, por o preço, e terceiro e não menos importante: «a galera pira mesmo é na D&D», brinca Carol. Mumu conta que a diversão da juventude de periferia em Porto Velho se dá basicamente em bares, que 'tão 'palhados aos montes por a cidade. A cada 'quina, dois ou três disputam a preferência dos clientes. «Os lugares dos bacanas são sempre muito caros, e se galera quer sair do bairro, só vai para a Dimples mesmo», relata Mumu. Por dentro da questão Lá dentro, mesmo parecendo que vem todo mundo do mesmo lugar, as tribos tratam logo de se dividir. O pessoal do break se coloca logo a frente da cabine do DJ, onde o som é mais alto. Há sempre uma roda aberta e alguém fazendo piruetas ou passos ensaiados. Em as laterais da pista, dois coretos são tomados por quem gosta mais de dançar com as mãos. De um lado e outro, os grupos seguem coreografias diferentes, mas sempre com um quê de provocação. «O jeito de eles dançarem é uma forma de se sentir importantes no grupo», analisa a psicopedagoga Auxiliadora Fialis. Segundo ela, a necessidade natural de fazer parte de um grupo social leva os meninos a externar isso através da dança, das roupas e do jeito de falar. «Luiz Beltrão não aprofundou a pesquisa em 'se sentido, mas podemos perceber que a folkcomunicação acaba se transformando num 'tilo de vida para 'ses jovens», relata Hamilton Lima, professor universitário do curso de Comunicação Social. Lima conta que a realidade sócio-econômica desses grupos acaba os levando a viver de forma alternativa ao que é proposto fora da comunidade de eles. «Até o tom de voz é diferente, porque eles fazem questão que seja diferente», ressalta Auxiliadora. Os dois 'pecialistas concordam também em outro ponto: 'sa reação ao sistema se torna mais forte na adolescência, quando os jovens mais necessitam de uma identidade social. A D&D é um traço de 'sa linguagem social de reação. A periferia não é só forró, não é só brega e não é só violência. Os jovens precisam de diversão e encontram em 'sa casa um lugar onde podem ouvir o mesmo som dos boys, sem pagar o que é pago por os burgueses, tira uma onda porque se diverte no centro e ainda pode levar um gato ou gata no popopó e ficar pagando de amor a noite toda. Número de frases: 56 Há seis anos Aracaju sedia um festival internacional de curtas-metragens, o Curta-SE. O dado é curioso levando em consideração que Sergipe 'tá longe de ser referência em produção audiovisual. O caso aqui fez o caminho inverso. Foi o festival que abriu a brecha para uma cena que, hoje sim, começa a existir, ainda que a takes curtos. A história se repete: tudo começa com um sonho que parece impossível. Alguém se apaixona por a causa e resolve arregaçar as mangas. Em 'se caso, a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa foi Rosangela Rocha. Em 2001, junto a um grupo de amigos também amantes da sétima arte, ela realiza a Mostra Brasileira de Curtas. O sucesso do evento fez com que ele crescesse no ano seguinte para um festival competitivo, ocupando mais 'paços por a cidade. Já na terceira edição, ao mesmo tempo em que se tornava luso-brasileiro, o Curta-SE passava a premiar também as produções locais. Além das mostras de curtas (em vídeo, 16mm e 35mm) e dos longas convidados, o Curta-SE incorporou debates, oficinas e festas temáticas em sua programação, que dura uma semana inteira. Fora tudo isso, em 2004 o Curta-SE foi à rua. Dando um verdadeiro exemplo de contrapartida social, todos os filmes do festival foram exibidos também numa tenda montada no tradicional bairro Industrial, onde a maioria dos residentes não tem acesso às salas de cinema da cidade. Em a última edição do festival, dos 215 curtas inscritos, 11 foram produções sergipanas junto a 14 portuguesas. Uma média interessante considerando que não há nenhum tipo de incentivo previsto nas políticas de cultura do governo local. A demanda de público cresceu tanto que, no ano passado, na sala destinada ao evento por um dos Multiplex da cidade não coube tanta gente. Mudaram para uma sala maior e mesmo assim ficou gente do lado de fora em todas as sessões. Em meio ao sucesso, o evento virou um coletivo e ganhou sede, a Casa Curta-SE. Novas atividades passaram a ser desenvolvidas por o grupo. Hoje em dia, além do festival e de sua versão itinerante por o interior do Estado, o pessoal da Casa Curta-SE também é responsável por os projetos Cinema-BR em Movimento e Curta às Seis em Aracaju, além de um festival de cinema infantil internacional e outro de cinema francês. O impacto dos 'forços de Rosangela e do pessoal da Casa Curta-SE é evidente. O interesse do público por cinema nacional cresceu a olhos vistos, assim como novos e inusitados cineastas começam a despontar na cena local. Só para citar alguns exemplos: há os dois filmes da jovem artista plástica Gabriela Caldas -- Elipse e A morrer -- que ganharam menção honrosa nas mostras competitivas do Curta-SE e andam sendo selecionados para diversos festivais por o Brasil afora; o filme de Jade Moraes sobre a história de Candelária -- uma das mais antigas e famosas prostitutas do Estado, militante dos direitos da classe -- que também teve destaque na última edição do Curta-SE, e o filme de seu Zé Leobino, um vaqueiro de Canindé do São Francisco que gravou sua rotina de vaquejadas e cavalhadas e acabou sendo selecionado por o projeto Revelando Brasis, do Ministério da Cultura. Ano passado, a Casa Curta-SE passou a ser também Ponto de Cultura do MinC. Com o projeto Figuras em Trânsito, 30 alunos da rede pública de ensino médio e superior passaram o ano aprendendo sobre linguagem e história do cinema, quadrinhos, animação e software livre, entre outras coisas. O objetivo é plantar a semente definitiva para um futuro panorama de produção cinematográfica qualificada em Sergipe. E, tirando por os resultados de agora, a previsão é boa: em dezembro passado a primeira turma produziu seis curtas-metragens que foram exibidos dentro da programação do Festival de Artes de São Cristóvão com ótima recepção do público. E não é só isso: aliado ao programa do primeiro emprego do governo federal, 21 alunos do projeto Figuras em Trânsito já foram contemplados com bolsas de R$ 150,00 para trabalharem por seis meses dentro da Casa Curta-SE. Este ano, a Casa Curta-SE acaba de lançar um portal onde é possível assistir online aos curtas premiados, saber de novidades sobre políticas para o audio-visual em Sergipe em no Brasil e se inteirar sobre o festival e todas as outras atividades da Casa Curta-SE. Número de frases: 34 O Curta-SE 2006 acontece de 26 a 30 de abril. Spleen, CocoRosie, Kassin e Tony da Gatorra são personagens de 'sa visão muito pessoal do primeiro dia do Festival «Em o Ar Coquetel Molotov» em Recife Chegar em Recife morrendo de frio é uma experiência por a qual eu nunca tinha passado. A bordo de um Fokker 100 da Tam (lotado) fui-me sentar justamente no lugar contemplado com um problema no ar-condicionado. Além do frio insuportável durante toda a viagem, tinha água se condensando em cima de mim. Fiquei preocupado, mas logo vi que não era nenhum problema técnico grave, só goteiras no avião mesmo. Mal sabia que em 24 horas outras situações insólitas e um outro tipo de frio me 'perava. Tony da Gatorra A primeira situação insólita foi o show do Tony da Gatorra. Conforme o site do próprio: «Tony da Gatorra é um artista. Mora em Esteio, Rio Grande do Sul, onde sobrevive do conserto de aparelhos eletrônicos». Pois bem, parece que em meados dos anos 90, de tanto consertar os aparelhos eletrônicos, ele inventou a tal da gatorra, um instrumento eletrônico em forma de guitarra. Em 'se começo de século XXI, onde renasce com força total a ideologia do «faça você mesmo», a gatorra é um exemplo de experimentalismo muito bacana. A gatorra 'tá sintonizada, por exemplo, com o projeto mais recente do Tim O ´ Reilly, figura importante o futuro da tecnologia no mundo e inventor da palavra «web 2.0». Esse projeto é uma revista chamada Make (" Faça "). A revista ensina desde como montar um foguete meteorológico no seu quintal, até como hackear uma máquina de xerox. Em outras palavras, o design da gatorra não ficaria mal ali nas páginas da prestigiosa publicação norte-americano. Aliás, é 'se mesmo 'pírito de «faça você mesmo» que 'tá por trás de iniciativas como o Metareciclagem, ou mesmo da colaboração entre programadores no software livre. Mas não era 'se o caso. A gatorra 'tava ali em uso nas mãos do seu inventor e de outros dois integrantes da «banda». Por o que entendi, o intrumento é multi-propósito: faz ao mesmo tempo as vezes de bateria eletrônica e também extrai tons e barulhos eletrônicos dos mais variados. Em ação, a fanfarra de gatorras gera uma base eletrônica que remete em termos rítmicos aos primeiros lançamentos da gravadora Mute por volta de 1978 (ok, talvez um pouquinho mais tosco do que isso): bateria eletrônica bem marcada, um «tuc tuc tuc» sem variação. Em cima, outros ruídos eletrônicos produzidos por o instrumento e as letras de protesto do Tony. O nome do seu «CD, Só Protesto», é para ser levado a sério. A letra de «A Voz dos Sem Terra», ponto alto do show, é um exemplo disso: Eu sou um guerreiro que não gosta de guerra Estou sempre lutando Por um pedaço de terraaaaa Chega de matança Chega de gula Chega de guerra Nós só queremos um pedaço de terra Outro evento interessante do show foi a participação do Kassin, programado para tocar em seguida sob o nome de «Artificial». Kassin juntou-se às gatorras tocando um GameBoy, gerando uma confusão sonora que aparentava ser totalmente acidental e talvez fosse mesmo. A pergunta que permaneceu na minha cabeça sem resposta depois da apresentação: onde é que se compra uma gatorra? Será que o instrumento é usado exclusivamente por o Tony ou ele vende gatorras por aí para quem quiser? Tenho certeza de que muitos outros músicos poderiam começar a tocar gatorra, eu mesmo fiquei vontade de experimentar. Artificial (Kassin) Já tinha visto o Kassin ao vivo várias vezes, mas jamais sob a encarnação de " Artificial ": homem sozinho no palco, em frente a um laptop, microfone e outros dispositivos. Pense em disco-music desconstruída internamente, com uma dose de ironia que funciona muito bem. Nunca vi um refrão conclamando o público à festa com a palavras como «Dance, Dance, Dance» cantado de um jeito mais desanimado. Acho que o paralelo seria algo como o emprego da dupla negação em português (em frases geniais como " nem tu não hás de vir cá "). Em outras palavras, o artificial faz música dançante, que quer ser não-dançante, mas que na verdade dá sim para dançar. O melhor é que o show já vem completo, incluindo em si os próprios aplausos e a empolgação do público. Entre cada música, o próprio Kassin descarrega eletronicamente as palmas, acompanhadas de vários " uhuuuuuuuuuuuuuuu!" feitos também por ele com efeitos de reverb na voz. O resultado, que no início provoca incômodo e riso, depois de repetido inúmeras vezes, é contagiante. Como disse o Hermano em outro artigo aqui do Overmundo, citando o Dorival Caymmi, para se divertir «é só a gente fingir que 'tá alegre -- vai fingindo, fingindo e quando vê 'tá alegre mesmo!». No caso do Kassin, foi assim mesmo: aquela alegria digital pré-gravada foi crescendo, até que ficou todo mundo alegre de verdade e aplaudindo e gritando «uhuuuuuuuuuuuuuu» junto ele e com as palmas eletrônicas. Aliás, quando saí do show vi um monte de gente cantarolando os «uhuuuuuuuuuuuuuu!», que de fato grudam na cabeça por um bom tempo. Mas não vi ninguém cantarolando «dance, dance, dance». Spleen Uma vez ouvi o Arto Lindsay dizendo que o que mais interessava para ele no momento (isso já tem uns 3 anos) eram bandas que tinham um componente performático, que se apresentavam com elementos teatrais, aprontavam no palco e desafiavam o público. Como exemplo ele citava bandas como o Animal Collective, que 'tavam saindo de suas cenas locais e despontando para o mundo. Acho que o Arto teria gostado do show que o Spleen fez no Coquetel Molotov. A primeira vez que ouvi falar do Spleen foi há um ano e meio, quando soube que ele ganhou o concurso que a revista francesa «Les Inrockuptibles» faz todo ano, chamado «Ce qu´il» (algo como " Aquilo que precisa ser descoberto "). São milhares de artistas, não só francesas, mas da Europa em geral, que mandam suas músicas para a redação da revista. A o final um CD com umas 15 músicas é editado e o público vota no que gostou mais. Em o ano em que o Spleen concorreu, os candidatos eram fortíssimos, 'pecialmente em rock. Aquele era um ano em que os franceses 'tavam 'pecialmente empolgados com os nomes do novo rock ressoando por lá. Apesar disso, ele, que canta um soul experimental, com toques de hip hop, foi o grande vencedor. Confesso que só fui entender isso direito quando vi o show de ele ao vivo ontem. O show é bom. Ele pula, chora, grita e usa saia (uma 'pécie de tutu de balé, multi-colorido). Um músico da banda, branquelo e com cara de nerd, fica o show todo fazendo a percussão com a boca, replicando batidas e scratches. Apesar do aspecto parte «circense», parte» curiosidade», não dá para não dizer que não é divertido e que não há uma integração com a sonoridade da banda. Há até mesmo um solo inteiro «de boca», no qual o sujeito consegue cantar» Kiss " do Prince fazendo as batidas, a guitarra e os vocais, tudo ao mesmo tempo. Intrigado, tentei reproduzir a façanha quando voltei para o hotel e percebi que é difícil mesmo. Naturalmente, o público se encantou. Mas o ponto alto da apresentação toda foi quando o protagonista Spleen pulou para fora do palco e literalmente foi agarrar a platéia, abraçando pessoas do público, sentando-se ao lado das pessoas enquanto cantava. Não satisfeito, voltou ao palco, puxando então para si a organizadora do festival e fundadora do projeto Coquetel Molotov, Ana Garcia (a quem tive a oportunidade de entrevistar há um tempo aqui no Overmundo). Não só rolou uma dança sensual entre ambos, como o malandro ainda tentou lascar um beijo na boca de ela em determinado momento. Após a parte interativa, que ainda teve contorções de solo, danças e outras piruetas, o show termina de modo intimista, com uma de suas principais baladas, «Summer Holes», que para minha surpresa, teve o acompanhamento de parte significativa do público, cantando junto. Saiu-se bem o senhor Spleen. Cocorosie É melhor dizer logo: gostei muito do show das CocoRosie, mas por razões possivelmente pessoais. Discordo, por exemplo, da análise que li na Folha, dizendo que o show celebra «a infância eterna», frase que em Recife abriu o show no gigantesco telão da banda (" the eternal children "). É possível que ninguém vá concordar com mim, mas o show a que assisti é uma sombria e genial celebração do vazio. Durante todo o show pensei no livro Super-Cannes (J.G. Ballard, 2001), que fala de um condomínio de luxo, situado próximo à cidade de Cannes na França. Um complexo construído para ser habitado com exclusividade por a elite global, oferecendo o que poderia haver de melhor em termos de segurança, serviços, entretenimento e, sobretudo, pessoas. Em certo momento do livro o autor fala sobre jovens pertencentes a 'sa nova geração, «so young, and already world-weary» (tão jovens, mas já cansados do mundo). Tive a impressão de que as irmãs Bianca e Sierra Casady poderiam figurar entre os moradores desse condomínio metafórico. De a mesma forma que no livro, elas me pareceram cansadas do mundo, protagonistas de uma busca intensa por sentido. Os vários objetos e referências infantis presentes na música e no palco das CocoRosie (de telefones de brinquedo a sons de boneca), funcionam como símbolos de nostalgia, ferramentas de luta contra a sensação de desencantamento. É como se as meninas do Coco Rosie 'tivessem dizendo para todo mundo: «Onde vocês 'tão querendo ir? Já 'tivemos em toda parte, chegamos aqui e não tem nada». A construção de sentido, em 'sas circunstâncias, só pode mesmo ser feita a partir de reminiscências. Uma vez que 'sa idéia me passou por a cabeça, passei o restante todo do show tentando colocá-la a prova. Mas a sensação só se aprofundou, reforçada por exemplo por os vídeos exibidos cuidadosamente em sincronia com a apresentação: uma ginasta olímpica é dissecada em câmara-lenta, enfocando a relação de «paternidade» desenvolvida com o seu treinador, enquanto 'pera por os resultados da sua apresentação; cenas bastante «tarkovskianas» de cavalos, em imagens em branco e preto; uma criança de origem indígena, usando um cocar típico de povos indígenas norte-americano (referência à ascendência de uma das irmãs, elemento que também entra no 'forço de busca de significação). E por fim, imagens das duas irmãs, ambas usando máscaras neutras de teatro, abraçadas num sofá. A imagem vai sendo modificada, aparecendo uma, depois a outra. Até que por fim, a seqüência se encerra, trazendo apenas uma das irmãs, em montagem digital, abraçando a imagem de si mesma. A frase «the eternal children», repensada a partir de 'sa perspectiva, me pareceu um desejo do que gente como Rawls chama de» véu da ignorância», uma negação do mundo em prol da construção de um universo particular, que pode ser controlado e dominado. Uma promessa de liberdade sem responsabilidade, em que tudo é permitido, desde que ninguém vá muito a fundo no sentido e nas conseqüências das coisas. Já vi em algum lugar, talvez num filme hollywoodiano, que o diabo triunfa quando ninguém mais acredita em ele. E quando isso acontece, tudo fica belo e extraordinário. Belo como o show das meninas do CocoRosie no Recife. Belo com um " até que?" como predicado. Número de frases: 111 Saiba um pouco sobre os fanzines ' A verdade ` e ' Tupanzine ', que retrataram com muito bom humor as bandas brasilienses dos anos 90 A cena roqueira brasiliense nos anos 90 produziu bandas que atingiram renome nacional e foram destaque na mídia de todo o país. Os Raimundos e Maskavo Roots são dois exemplos. Mas também deu origem a outras, como Os Políbias, Low Dream e Animais nos Espelhos, que nunca alcançaram muito 'paço em jornais e revistas. A não ser nas páginas xerocadas dos fanzines A verdade e Tupanzine. Ambos surgidas em 1994, o A verdade na Asa Sul e o Tupanzine no Guará, as duas publicações ajudaram a 'crever -- ainda que por linhas muito tortas -- um pouco da história do rock candango na década passada. O 'cracho total e irresponsável foi a marca registrada dos dois. Aliás, ainda continua a ser a do Tupanzine, com quarenta edições em 11 anos. Uma marca louvável para um fanzine, que dificilmente resiste tanto tempo. Prova disso é que o A verdade, em 2004, depois de 10 anos de desserviços prestados às bandas da cidade, deixou de existir. Pelo menos até agora. No entanto, por mais que tenham se aproximado em termos filosóficos (e fanzine tem lá filosofia?), as semelhanças entre as duas publicações terminam por aí. Estilo Tupanzine Sob a batuta de Ricardo Tubá e com o sugestivo subtítulo Baixaria & Rock ' n ' Roll, o Tupanzine criou um jeito todo próprio de 'crever, quase sem pontuação, a maior parte das vezes apenas com letras maiúsculas e descrevendo situações bizarras. Um trecho, copiado, literalmente, do site: «Os Maiores Acontecimentos DE 2002 1º Visita do Ed Mota na casa do Retz tomando água na torneira e pisando em côco de cachorro doente que fez o Moab tomar vacina anti rábica e fazer nebulização dobrada por causa do cheiro do xixi do gato que tava dormindo encima do lp projeto salva terra do Erasmo que o Retz recolheu no lixão da 'trutural. 2º humilhação que o Luciano Kalatalo passou no famoso reivellon do rio, ou maior encontra de bichas alternativas das últimas temporadas reunindo de um só vez Lariu, Alexandre Solares, Plato, Márcio Custódio, Gás, Cochlar, Cláudio Bull, leo bigode, Fábio bianchine, Marcelo Colares, Edu Manzano, Pedro Ivo, Pedro Gollo, André OD, Gregory, Diógenes, Maverick., quando o Gilberto Squizofrenia Junior falou que nunca tinha ouvido falar no tupanzine e que não costuma resenhar zine de bicha enrustida que compra camisa do lanterna verde para o filho e calcinha da mulher maravilha pra participar dos festas eletrônicas do bata." Entendeu? Não? Não se preocupe. Quase ninguém entendia. Mas todo mundo gostava. E fez tanto sucesso que até virou, por mais incrível que possa parecer, objeto de estudo para uma tese de mestrado. Estilo A verdade O A verdade era diferente. Também tinha um subtítulo, Ou você sabe ou não sabe, mas era feito por um 'tudante de jornalismo que assinava com o pseudônimo de Genuíno Franco, apesar de quase todo mundo saber quem ele era. E tinha um humor menos 'crachado, com 'trutura de matérias jornalísticas e inspirado em publicações como o antigo O Pasquim e O Planeta Diário. Segue um trecho: «Bull é possuído durante ensaio Cláudio Bull, vocalista da Divine, foi literalmente possuído durante recente ensaio de sua banda. O cantor afirma que, enquanto afinava os instrumentos, o 'pírito de Renato Russo se aproximou e tomou conta de seu corpo. «Foi super 'tranho», afirma Bull. «Estava tranqüilo, fazendo uns gargarejos, quando comecei a sentir uma presença, seguida de um bafo quente na nuca. Depois foi a unhada no calcanhar. Quando dei por mim, já 'tava possuído.» ... Mas ainda falta um detalhe para a Divine tornar-se realmente a herdeira da Legião: um guitarrista que toque como Dado Villa-Lobos. «Eu ainda não tenho Dado na minha banda. Mas bem que gostaria muito», confessa Bull." É interessante notar que as publicações retratavam basicamente as mesmas pessoas, como nos trechos acima, que citam Cláudio Bull e Cochlar, da banda " Divine. «Isso é óbvio», diz Genuíno. «A cena roqueira brasiliense é pequena, e as duas publicações falavam sobre quem se destacava. Mas o legal é que o enfoque era completamente diferente." Tubá, em seu 'tilo peculiar, tem uma resposta diferente. «A verdade? Cheguei a ler o zine uma vez e lembro que eles tinham uma rixa com o Zeca dos Animais e o pessoal do Políbias e um dos seus editores era o Omar Godoy que se mudou para a Curitiba com vergonha do Magnética, projeto em português da Low Dream com letras que lembrava Wando dos primeiros discos e José Augusto fase barbudo e country." Em a era online Apesar de um fanzine normalmente ser xerocado e distribuído de mão em mão, as duas publicações se atualizaram, ou pelo menos tentaram, para a era da internet. O Tupanzine sempre foi fiel à velha máquina de xerox. Suas 40 edições saíram em papel. E pode ser encontrado na loja da Kingdom Comics, localizada no Conic, e até na Rua 24 de Maio, em São Paulo. Tubá já tentou adaptá-lo para a internet, mas seu (fiel) público parece preferir mesmo a versão impressa, como ele mesmo diz: «Houve algumas tentativas frustradas de ser fazer o zine por a internet, com Jorge Malcher, Ed Cave e Luciano Kalatalo, mas felizmente foram abortadas por a incompetência desses ou por a absoluta falta de interesse dos editores e do público leitor». Já o A verdade virou site em 1999. E coluna fixa na Revista Porão do Rock entre 2000 e 2003. Mas foi extinto por Genuíno Franco em 2004. «Era muito chato fazer tudo sozinho», reclama. «Mas existe a possibilidade de voltar como programa de rádio ou podcast». Enquanto isso não acontece, você pode visitar os links abaixo e conhecer um pouco mais 'sas duas publicações que já fazem parte da história do rock brasiliense. Links: http://web.archive.org/web/ * / http://www.averdade.net -- Para pescar alguma coisa do A verdade. http://kalatalo.sites.uol.com.br/ tese.html -- Tese de mestrado sobre o Tupanzine http://www.geocities.com/tupanzinebsb/ -- Um dos «sites oficiais» do Tupanzine, mas antigo e desatualizado Contatos: genuinofranco@gmail.com -- Genuíno Franco, editor do A verdade Número de frases: 67 tupanzine@yahoo.com.br -- Ricardo Tubá, editor do Tupanzine Carnaval de Pernambuco firma-se como manifestação popular em meio à elitização da festa no resto do país Definir o carnaval como a maior festa popular do mundo é irreal e impreciso, ao mesmo tempo que um lugar-comum. Os quatro dias de absoluta liberdade não se resumem mais a quatro, nem tampouco pode ser caracterizado como absoluto em muitos aspectos, particularmente no que concerne a festa popular. O Rio de Janeiro do samba, e mais recentemente a São Paulo do mesmo ritmo, elitizou o desfile das 'colas de samba transformando numa festa para bem poucos, que pagam ingressos e, sentados «organizadamente», limitam-se a torcer por sua agremiação predileta, que desfila reluzente na avenida. A os mais afortunados resta o consolo da dança cronometrada numa das alas dos grêmios recreativos, vestidos numa fantasia cara e com tempo bem curto, e determinado, para o fim de seu carnaval, contrariando Paulinho da Viola, que diz em sua música: «há muito tempo eu ouço 'se papo furado / dizendo que o samba acabou / só se for quando o dia clareou». Em o desfile das 'colas, o samba acaba bem cedo, minutos após ser acionado o cronômetro. Seja a globalização, o neoliberalismo ou a pós-modernidade, o culpado ainda não houve quem encontrasse, e isso parece sem maior importância. Mas o fato concreto é que o Brasil parece ter privatizado o carnaval. De uma forma geral, as capitais dos 'tados têm, todas, a sua apoteose do samba, onde grupos cada vez menos identificados com a cultura local tentam reproduzir a tradição carioca, 'quecendo-se que no Rio de Janeiro a 'cola, o samba e o desfile 'tão na alma das pessoas -- e no pé do sambista, é bem verdade. A Bahia, que por seu processo de colonização com forte influência da cultura africana merecia uma festa com características mais populares, inverteu o sentido do trio elétrico, pondo cordas no meio da multidão e vendendo abadas que ultrapassam R$ 1m il reais. O forte componente popular do axé foi deturpado, e vulgarizado por a atividade comercial dos blocos. As emissoras de TV, capitaneadas por a rede Globo de Televisão, pouco destacou os afoxés ou as manifestações religiosas, tão emblemáticas na comemoração baiana. A notícia que interessa tem que se relacionar com trios, blocos e camarotes, 'tes últimos, templos da soberba em que o ministro concorre com a cervejaria na expectativa de reunir o maior número de 'trelas do show business, astros de rock ou artistas globais, que hoje trocam o carnaval carioca por o baiano, adotando uma paixão, «desde criancinha», por os ritmos percussivos do axé, em detrimento da batida do morro. De tão promissora financeiramente, a cultura do axé despistou fronteiras e é, hoje, presença garantida nas maiores, e nas menores também, cidades do país. As micaretas «profissionalizaram» o carnaval da Bahia, garantindo renda às bandas em todos os meses do ano. As montanhas do axé vão atrás dos maomés, 'tejam eles em Brasília, São Paulo, Esperança ou Feira de Santana. Número de frases: 18 Conteúdo lança dois novos talentos nacionais em dois EPS de uma só vez Artist: Louis Atkins Title: Ressonance is not acid EP Cat: CTDO & F6 Release Date: 27 set. 2006 Artist: Max Underson Title: A step each time EP Cat: CTDO & F7 Release Date: 27 set. 2006 A 'pera valeu a pena! Dois novos releases de uma só vez!! Um dos objetivos do conteúdo records é valorizar grandes artistas mas que são desconhecidos do grande público. Louis Atknis e Max Underson são talentos que tem um futuro prolífico nas produções. Louis Atkins é carioca mas reside em Londres atualmente, Já foi residente do club Dama de ferro e tem sua base no electro e techno, tanto na produção quanto nos sets como DJ.Já se apresentou ao lado de importantes nomes internacionais Max Underson é nascido em São Paulo e tem na música electrônica uma sonoridade cadenciada por a House e o Techno com maior afinidade no sentimento profundo de faixas mais «deeps» e linhas de base fortes como no dub, formando linhas harmônicas e atmosfé- ricas. Disponível diretamente no site para download gratuito! Acesse agora o link direto; www.conteudorecords.com.br/conteudo/default. asp? menu = 5 Conteúdo apresenta: Lunaire com Neural EP 01. Xapora Lunaire 02. Neural Flight Lunaire Artist: Lunaire Title: Neural EP Cat: CTDO & F5 Release Date: 30 jul. 2006 Lunaire é o novo projeto do paulistano Dj Seth, alter ego de Christian Borges Zahn, 26 anos, dj profissional a 7 e produtor serio a 4 Seth também é conhecido por o nome de seu projeto original, Setherian, com o qual já lançou mais de 30 musicas internacionalmente, inclusive um álbum solo em 2004 chamado Multiverse. Também já compilou 3 coletâneas, uma para o selo nacional High End e outras 2 para seu antigo selo de Progressive intitulado Aeon Records. Com Neural EP, o conteúdo coloca em seu catálogo o IDM techno minimalista presente com grande influência na faixa xapora. Já na linha upbea, t neural flight segue com seu techno neural para uma pista intimista. Disponível diretamente no site para download gratuito! Acesse agora o link direto; www.conteudorecords.com.br/conteudo/default. asp? menu = 5 Conteúdo lança Instável EP da dupla Click Box 01. Rubber feet Click Box 02. Mente Instável Click Box Artist: Click Box Title: Instável EP Cat: CTDO & F4 Release Date: 30 Mar. 2006 O Primeiro release de artistas convidados nacionais é lançado em maio por o netlabel Conteúdo A Dupla Paulistana Marco & Pedro Turra formam o projeto Click Box que integra a nova safra de promissores produtores brasileiros. Com release digital lançado no exterior e apresentação no skol beats 2006, os produtores e amigos firmam a cada dia o seu projeto de Minimal Music. Instável EP com duas faixas traz novamente para o catálogo do Conteúdo Records o techno e tech-house com ambientes e paisagens minimalistas. Rubber Feet com seu baixo contagiante dita o ritmo de pista aquecida, enquanto que mente instável mostra a mistura de síntêses de forma hipnótica e séria. Disponível diretamente no site para download gratuito! Acesse agora o link direto; www.conteudorecords.com.br/conteudo/default. Número de frases: 62 asp? menu = 5 Ao contrário do que reza a velha máxima de que «em casa de ferreiro, 'peto de pau», os filhos do produtor e empresário Francisco Macedo Costa, o Macedo Brilho, um dia tiveram a idéia de montar uma banda. Filipe, 18, Thiago, 16, Saulo, 14 e Lucas, 12, buscaram inspiração em personagens infanto-juvenis de sucesso para criar a Ninjas do Arrocha em 2005. Sim, o objetivo era faturar; afinal 'tamos falando da família daquele que foi dono da banda Brilho, que já animou bailes e festas populares nos anos 80 em Sergipe. No entanto, depois de gravadas as músicas dos Ninjas do Arrocha foram disponibilizadas numa página na Internet, sem indicação de copyright, livres para serem copiadas e tocadas indiscriminadamente. Foi assim que o grupo conseguiu até figurar entre as letras publicadas no site Terra, um 'paço que poucos artistas sergipanos conquistaram até hoje. Uma pesquisa na busca do Google nos leva a dezenas de menções em blogs e páginas, provando que a banda teve divulgação marcante, mesmo sendo alvo de certas chacotas. Desde verbete da desciclopedia a tema de matérias jornalísticas em emissoras como a TV Sergipe e a TV Diário (CE), afiliadas da Rede Globo. Enfim, foram parar em todo lugar (virtual). Métodos nada ortodoxos, até cair na boca do povo A 'tratégia para alcançar 'te sucesso foi peculiar. Para popularizar o trabalho da banda, Macedo imprimiu mais de 200 mil capas de CDs e DVDs em papel couché e os distribuiu para pirateiros das cidades onde mantinha contatos, para que os produtos tivessem uma melhor apresentação e, portanto, mais credibilidade. Foram entregues juntamente com cópias master para serem deliberadamente reproduzidas e comercializadas, sem custo algum para os pirateiros. «Eu chego para o pirateiro, dou um CD ou DVD e dou as capas, então ele já se sente gratificado porque não vai fazer xerox, xerox é caro, então ele bota no mercado. Se a pessoa chega e vê um produto com uma impressão de 'sa ela já compra, já vê qualidade melhor, e pra mim em gráfica isso sai barato. Se eu chegasse só com o CD ou DVD dos Ninjas e desse, ele não teria interesse», justifica. O tempero sonoro do grupo foi elaborado por Dan Ventura, compositor baiano e parceiro de Macedo Brilho que compôs a música-tema dos Ninjas a partir de temas sugeridos por o empresário e seus filhos. As canções não são exatamente compradas. «Não é o compositor que mostra música ... a gente encomenda música. Com os Ninjas, como eram meninos, 'colhemos 'sa coisa de desenho animado, de ninjas, demos a idéia e ele melhorou. A gente pega um tema, chama o compositor, mostra, e ele desenvolve, mas alguns dos Ninjas já 'tão fazendo músicas próprias». Como autor do principal sucesso do grupo, Dan Ventura não recebeu dinheiro em 'pécie, mas negociou permutas por shows por o uso de sua obra. Por outro lado, nota-se que 'te compositor tem conseguido outros dividendos com 'tas criações, pois começa a entregá-las para serem gravadas por outros grupos com maiores possibilidades de inserção, como o Trio da Huanna, que já gravou «Ninjas do Arrocha», uma daquelas novidades da indústria cultural baiana. A mesma canção também foi cantada por Ivete Sangalo em trio elétrico no carnaval antecipado de Sergipe, o Pré-Caju; e muito provavelmente também foi executada em outros eventos deste tipo. «A Ivete ainda teve a sensibilidade de oferecer ao pessoal daqui, dizer que era dos meninos de Aracaju e tal». Negócios de família em rede de relacionamentos Mesmo baseado em Aracaju, os Ninjas costumam se apresentar com mais freqüência no interior do 'tado de Sergipe. A gravação de uma apresentação em Capela, apresentada por o próprio prefeito, foi parar no You-Tube. Isso sem falar do interior de outros 'tados. Em 2006 realizaram aproximadamente 40 apresentações e também gravaram um CD e um DVD. O grupo não é o responsável por a maior parcela de lucros entre as atividades do empresário, apesar de ter se tornado a mais conhecida entre as bandas por ele produzidas. O objetivo (justo) sempre é conquistar grandes lucros, mas não há previsão de quanto tempo isso vá levar para acontecer, apenas planos: «Com os Ninjas eu 'tou pensando no futuro». A remuneração dos sócios (sua 'posa e, claro, filhos), músicos e prestadores de serviço vem basicamente do conjunto de atividades dos negócios da família: apresentações das outras bandas e aluguel de equipamentos (palco, som, luz, trio elétrico, carro de som, etc). Noventa por cento das apresentações são realizadas em parceria com produtores parceiros, baseadas na venda de ingressos. Apenas dez por cento das apresentações são contratadas, quer seja por parte de prefeituras ou produtores locais. Para Macedo, o grupo é mais popular nas cidades do interior pois o público da capital «tem vergonha de dizer que gosta dos Ninjas». Mesmo assim, é comum se ouvir (em alto volume) suas músicas em bares de Aracaju, através dos alto-falantes de carros particulares e com a aparente aprovação de um público heterogêneo, tanto de classe média quanto de camadas mais populares. Por conta de seu trânsito no mundo da indústria do entretenimento, Macedo também conseguiu que uma música dos Ninjas entrasse num playlist do site Sucesso, enviado para rádios, produtores e usuários cadastrados. Segundo Macedo e Filipe «San», a música teve uma quantidade surpreendente de downloads em 2006,» mais que Zezé di Camargo, da trilha sonora de Os Filhos de Francisco», garantem. Esta disseminação provocou não apenas a execução da canção «Ninjas do Arrocha» em rádios, mas também a 'colha da banda como «artista do dia» da " Rádio Jovem Pan. «O pessoal me passou vários emails e eu não respondi», conta «Macedo,» eu dizia é mais um trote ' ... aí acabaram me ligando, falando ' rapaz, queremos fazer uma entrevista com os Ninjas, e vamos botar eles como artista do dia, vamos abrir um chat, por o site da Jovem Pan '. Quando eu digo que nós fomos artistas do dia as pessoas não acreditam, dizem que é impossível, porque na época nem havia Jovem Pan em Sergipe». Apesar de não terem liberado suas músicas em Creative Commons, não houve uma preocupação formal com a questão dos direitos autorais. Suas criações circularam através dos pirateiros, e foram disponibilizadas na Internet, sem editora ou selo fonográfico. As relações com diferentes agentes são definidas como parcerias, que possibilitam a geração de negócios formais, como shows, e viabilizam a concretização de outros projetos. As composições de Dan Ventura para os Ninjas, por exemplo, foram «pagas» com shows da banda. Estes agentes locais viabilizam apresentações, tanto em produção própria como em sociedade com a Brilho Produções Artísticas Ltda., que tem existência jurídica formal desde 1995. Para Simone, 'posa de Macedo, mãe dos Ninjas e também produtora, conhecida como Simone Brilho, os empreendimentos da família utilizam serviços contratados de uma média de 30 pessoas, entre técnicos e músicos, que recebem cachês avulsos, sem relações trabalhistas. Motim de mercado Aparentemente não há relação direta entre o empresário e os pirateiros que ele incentiva a venderem os conteúdos gerados por a banda. Macedo também garante que não paga por a execução em rádios, apenas eventualmente aceita alguns «pedidos», como para apresentações promovidas por emissoras, para garantir a veiculação das músicas. «Com bandas menores, eles fazem parceria, promoção, mas quando a banda tem gravadora, elas é que pagam». Sem rodeios, Macedo fala sobre o famigerado jabá: «Tem rádios que cobram X, em Recife mesmo, o Deuses 'tourou lá e eu pagava R$ 2.500, por 3 execuções por dia, e deu um bom resultado ... eles [as rádios] não botam 0800 ... de graça, é difícil ... no mínimo eles fazem shows e as bandas participam de graça». Apesar disso, ele garante que conseguiu que os Ninjas tocassem sem 'sa 'tratégia: «Em a FM Sergipe, no ano passado a música do Rebeldes 'tava em primeiro lugar, e quem desbancou foram os Ninjas, sem que eu tenha dado nada; música tava tocando com o Um Toque Novo, eu fui lá falei que era dos Ninjas, dei o CD e eles detonaram, ficaram em primeiro lugar. De vez em quando eles me pedem umas bicicletas, skate, eu dou, mas antes disso chegamos em primeiro lugar no 0800». O empresário garante que nunca recebeu um tostão de direito autoral. «As rádios não tocam CDs, tocam mp3 ... tinham que tocar o original, mas nem CDs tocam ... tocam mp3 ... o país tem leis, mas não cumpre as leis.. Pra gravar hoje, tem o ISRC, quando você bota aquilo na rádio, automaticamente a rádio tem que 'tar equipada pra ler o registro ... obrigam a gente a ter isso, mas as rádios não têm equipamento pra isso ... 'se negócio de direito autoral é só pra quem tem gravadora». Números surpreendentes Não é possível revelar dados exatos, mas consegue-se avaliar a inserção da banda no mercado através de alguns números. Segundo Rodrigo Leite de Almeida, diretor geral do Portal Mix, que hospeda o site dos Ninjas, já são mais de 150 mil acessos desde seu lançamento, em março de 2006. Em os últimos meses, contabiliza-se uma média de 300 acessos diários, mas em 2006 os Ninjas chegaram a causar um congestionamento no portal, com cerca de 22 mil acessos durante um único mês. Segundo o diretor, foram cerca de 12.000 downloads. Outro dado que impressiona é a quantidade de capas de CDs e DVDs distribuídas por o empresário entre vendedores de CDs piratas de todo o Brasil: cerca de 200 mil, segundo Macedo Brilho. Mesmo considerando a imprecisão e o fato de que nem todas as capas podem ter sido utilizadas, é bem provável que uma boa parte de elas tenha sido aproveitada. Em a conta «oficial», o empresário declara ter prensado apenas 5 mil cópias. Em a vida real, os filhos de Macedo continuam seus 'tudos regulares -- o mais velho já é aluno do curso superior em Psicologia, mas continuam a ter aulas de música. O empresário também já decidiu que o nome da banda será apenas «Ninjas», pois assim não enfrentarão um certo preconceito existente em relação ao arrocha, o mesmo que ele diz ter enfrentado nos anos 90 quando produzia a» Raio da Silibrina. «As pessoas gostam, mas tem vergonha de dizer que gostam ... gostam mas não assumem, tipo ' vamos ouvir uma sacanagem agora ' ...». De 'ta maneira, 'peram se inserir no mercado. «Agora o forró elétrico 'tá em alta, o movimento é forte, eu 'tou notando discriminação agora com o arrocha, o que eu sofri com o forró, então agora 'tou gravando os meninos como ' Os Ninjas, o forró mais suingado do Brasil '. Vou fazer as músicas do arrocha como forró elétrico, com naipe de metais ... quero botar os ninjas no São João ... se eu ficar no arrocha, vou ficar de fora do São João, vou fazer arrocha com sanfona e abortar 'se nome, arrocha». Em o momento, a iniciativa negocia um contrato com a Bandeirantes Fonográfica, desta vez utilizando uma 'tratégia lançada recentemente por a gravadora, o CD pôster, vendido em bancas de revistas a preço bem abaixo do CD comum. A idéia é evitar os erros do passado. «Com a Bandeirantes, nós vamos ganhar percentagem em cima dos CDs vendidos e eles ganham percentagem em cima dos shows, será como uma parceria, um contrato de no mínimo quatro anos, e o CD não poderá ser passado por mais do que R$ 6, isso garantido em contrato. Quando eu era da Warner, eles vendiam CD nosso por R$ 9, aí revendiam por muito mais, as pessoas não compravam, porque a gente não 'tava 'tourado " Macedo Brilho afirma que quem não utiliza a Internet para divulgar seu trabalho 'tá cometendo um erro, uma «burrice». A os artistas, ele recomenda: «A gente tem que divulgar, não pensar nem em faturar, aí a gente começa a incentivar inclusive até a pirataria. Se a gente for 'perar a gravadora projetar a gente é difícil, porque a gravadora só tem interesse em projetar quando você já 'tá com um nome no mercado. Quando você entra inicialmente, você passa a ser ' terceiro plano ' para a gravadora». Com trauma da indústria, mas sem medo de cair na rede Macedo Brilho criou e empresariou outras bandas de forró e conseguiu com isso equipar sua empresa com trio elétrico, 'truturas de palco, som e iluminação. O mais bem-sucedido de seus empreendimentos foi a Raio da Silibrina, uma banda de forró que chegou a ser contratada de uma grande gravadora, a Warner. Embora tenha se apresentado em programas de veiculação nacional, como o de Gugu Liberato, Hebe, entre outros, a Raio da Silibrina não teve obteve grande popularidade no mercado nacional. Segundo Macedo, a experiência não gerou bons frutos. «Eu não tive uma experiência boa com gravadora, porque era uma banda iniciante, não tava no nível dos mega artistas; então aconteceu o seguinte, eu me empolguei com a gravadora e fiz coisas limitadas, o CD era caro demais, ninguém comprava». A experiência e os ganhos acumulados nas atividades com 'tas duas bandas, e mais a «Deuses do Arrocha» e a «Corisco do Trovão», 'ta última de forró, fez com que o empresário conquistasse parceiros em diversas cidades no interior do Brasil, em 'tados como a Bahia, São Paulo, Pernambuco e Amazonas. Esta rede de produtores, empresários, compositores, rádios e lideranças políticas foi responsável por a venda e divulgação dos Ninjas do Arrocha. Mas apenas 'te fato. Em a avaliação do próprio entrevistado, a Internet teve papel fundamental na trajetória dos Ninjas. Número de frases: 113 «Nossa maior divulgação foi por a Internet, sem ela não teríamos alcançado nada disso, finaliza Macedo, categoricamente. Meu primeiro livro publicado foi um e-book. Mas sei que a palavra de luz não apaga a palavra impressa. Ontem faltou energia. Acendi uma vela e peguei um livro. Cheirei o livro antes de abri-lo. Abri ao acaso e cheirei. Geralmente, quanto melhor o livro, melhor o papel. Quanto melhor o papel, melhor o cheiro. Quanto melhor o cheiro, maior o prazer que sinto. O cheiro da luz não apaga o cheiro do papel. Se faltasse luz num mundo sem livros impressos eu teria o que ler ontem? Sem livros impressos onde eu guardo a flor que ela me deu? Pilha no livro ou pilha de livros? Delete ou dalata? Porque um amigo me disse: «Livro ruim dá bom cigarro». O gosto da luz não apaga o gosto do livro impresso. Gosto de hablar com o livreiro. Gosto de ler no banheiro. Gosto de 'perar o carteiro. Os ácaros me adoram. Os livros emboloram. O livro é um organismo. É bom ir à livraria. quase todo dia. Pra quem tem fome de poesia, prato cheio é página vazia. O branco da luz não apaga o branco do papel. Livro tátil. Livro tem lombada. Perfume. Frente verso e miolo. Fica em pé e deitado. Gordo magro leve pesado. Livro vivo. Livro vive. Palavra impressa ou palavra pressa? O lume da luz não ilumina 'sa conversa. Número de frases: 38 Há poucos mais de 70 anos, Natal foi palco do único governo comunista que o país já teve. Apesar da curta duração, 'se episódio da história potiguar e brasileira deixou na memória alguns personagens curiosos. Cidade do Natal, novembro de 1935. Os camaradas comunistas fincam sua bandeira vermelha em terras potiguares. Esse acontecimento movimentou a vida de muitas pessoas e duas em 'pecial: a de uma mulher e a de um soldado, ambos personagens de uma mesma história, mas com destinos completamente diferentes. Enquanto um de eles desempenhava importante papel junto aos líderes na organização do levante que dominava a cidade, o outro tratava de combatê-lo ao lado da policia militar. Um contra o outro, enredo comum a qualquer relato de luta ou conflito. A diferença é que um de eles entrou para a história e o outro foi 'quecido por ela. Destinos que se cruzam ... Cidade de Mossoró, idos da década de 30. Uma família de 'querda daquele lugar vinha educando sua filha com os mesmos ideais comunistas dos camaradas russos. A família Reginaldo foi a responsável por a criação do Partido Comunista em Mossoró e, em grande parte, por a disseminação do comunismo como o caminho para transformação social no Rio Grande do Norte. Amélia Gomes Reginaldo, quando criança, não se divertiu apenas com bonecas. Brincava desde cedo com literatura marxista. Ainda jovem era líder da União Feminina e, anos mais tarde, ao 'tourar a revolução na cidade, lá 'tava ela. Em aquele 23 de novembro de 1935, junto aos oficiais que tomaram o 21° Batalhão de Caçadores em nome do tenente Luís Carlos Prestes, também se encontrava Amélia. A o melhor 'tilo Joana D' arc, vestida de homem e com arma em punho, assim desempenhou seu papel de revolucionária durante o ataque. Seu exemplo acabou sendo seguido por outras 29 mulheres. Por liderar o grupo feminino, foi a única condenada. A pena de cinco anos jamais seria cumprida. Antes de ser pega, ela fugiu. O mesmo dia tornou-se ainda mais fatídico para outro personagem de 'sa intrigante história. Após levar um tiro disparado por Sizenando Figueira, um companheiro de luta de Amélia, o soldado Luiz Gonzaga morria de maneira precoce. Mal teve tempo de fazer alguns disparos ... Figura mais contraditória de 'sa história, Luis Gonzaga passara de coadjuvante à personagem principal, curiosamente após o tiro que lhe deu cabo. Nada se sabe sobre a vida do soldado antes da insurreição comunista de 35. Alguns consideram que Luiz Gonzaga nem mesmo era soldado. Talvez apenas um «pobre demente que vivia perambulando por as ruas de Natal, mas nunca fora soldado da Polícia Militar», como disse o ex-juiz João Maria Furtado em seu livro de memórias. Em 1985, quando a insurreição fazia 50 anos, um outro personagem que tinha o mesmo nome do soldado, o jornalista e pesquisador Luis Gonzaga Cortês publica o que viria a desmentir a história oficial. No meio do caminho, o jornalista se depara com incoerências nos testemunhos de João Medeiros Filho, chefe de polícia à época. Em o livro «Meu depoimento de 1937», a lista oficial com os combatentes mortos não trazia o nome do soldado Luis Gonzaga. A o reeditar o livro em 1982, agora com o título de «82 horas de subversão», o suposto soldado teria sido incluído na lista. O relatório citado por o jornalista foi feito logo após o movimento rebelde ter se dispersado. Soldado ou não, Luiz Gonzaga foi eleito herói da Polícia Militar do Rio Grande do Norte. E mesmo depois de morto, subiu de patente em duas ocasiões, terminando como 3° sargento. A mais alta honraria militar do Estado leva seu nome. Todos os anos, no aniversário de sua morte, é feita uma celebração em sua homenagem. O nome do suposto soldado ficou como exemplo da «coragem dos combatentes aos comunistas». O herói anticomunista, licença, por favor ... Destinos que se separam ... Mesmo na província pequena ou além de suas fronteiras, para a revolucionária nenhuma glória depois do fim. Com o movimento comunista derrotado em apenas cinco dias por as forças do presidente Getúlio Vargas, Amélia, assim como outros vermelhos, teve que fugir. Por pouco não caiu nas malhas da polícia. Escondeu-se como pôde e ainda precisou pular de um trem em movimento. Sua 'capada acaba em outras cercanias, lá por as bandas do Piauí, onde se casa e tem filhos. Mas isso é outra história ... Fugir significou morrer para o resto do mundo. Ao contrário do soldado Luiz Gonzaga, depois daquele novembro vermelho de 1935, por muito tempo não se soube o seu paradeiro. Somente com a descoberta de uma carta enviada por Amélia ao seu tio é que a história foi resgatada. Ela trocou de armas. Deixou o rifle e adotou uma máquina de costura. De revolucionária passou a costureira. Estudando história ... «Os vencedores acabam dominando as fontes de informação e sua veiculação», explica a professora Maria Conceição Fraga, chefe do departamento de história da UFRN. Para entender basta lembrar que a insurreição de 35 naufragou dando lugar ao Estado Novo, ditadura de Getúlio Vargas: amplamente anticomunista. O Brasil ainda viveu outro período ditatorial de 1964 até o meados da década 80. Mais do que nunca comunista comia criancinha. Pensar era motivo suficiente para ver o sol nascer quadrado. E, assim, os ensaios apaixonados das revoluções vermelhas ficaram, por muito tempo, afogados nas águas camufladas de nosso tempo. Filipe Mamede Isaac Lira Negócios são mutáveis. Tanto quanto o tempo. Voam sempre para novas paisagens. Voamos na asa do pássaro. Para frente, sempre. Com os olhos atentos descobrimos novos caminhos, outras geografias, outros tempos. Em Cuiabá, num contexto de negócios conservador, vêm aparecendo algumas experiências interessantes, contemporâneas, fazendo uso da tecnologia digital e de novos modelos de negócio buscando inserção no mercado formal. O fenômeno internet ganhou de vez a ordem dos novos negócios, ou seja, os velhos modelos cedem cada vez mais ante a voracidade com que a rede mundial foi assaltada por os novos comportamentos gerados a partir de sua consolidação e expansão. A possibilidade de quebra dos grandes monopólios da indústria cultural e da comunicação; a ascensão de ações cooperativas ou coletivas; a expansão das experiências criativas compartilhadas gerando conteúdo criativo multimídia e multicultural; a circulação instantânea de informações; as 'truturas abertas de direito autoral e propriedade intelectual; são perspectivas novas de desenvolvimento de outros nichos de mercado. São fatores que possibilitam o surgimento de modelos absolutamente inéditos de negócios em rede. Isso representa a possibilidade de se eliminar intermediários e colocar, em contato direto, produtor e consumidor. Mato Grosso viveu alguns ciclos econômicos que demarcaram movimentos históricos fincados em 'truturas dominantes e arcaizantes (nichos familiares-oligárquicos) -- notadamente na capital Cuiabá, onde comandaram a política (o poder de mando) e as 'truturas geradoras de riquezas (poder econômico) por longo tempo. Tivemos, assim, o ciclo do ouro, diretamente ligado à criação do município por os bandeirantes paulistas em 8 de abril de 1719; tivemos um período dominado por os barões da cana-de-açúcar e do boi; uma constante dependência de cargos públicos, determinante na economia cuiabana; mais recentemente, com a divisão territorial de Mato Grosso em dois 'tados no ano de 1978, houve um forte aporte de recursos do Governo Federal, incentivando a ocupação amazônica com a abertura de novas fronteiras para intenso fluxo migratório de pessoas que vieram do sul do país em busca de novas oportunidades. Esse último período marca o surgimento de novas cidades em Mato Grosso, a população cresceu mais que o dobro, daí surgiram novos núcleos de poder político e econômico provocando um forte impulso na economia baseada no agro-negócio. A formação da nova Cuiabá carrega em seu bojo uma característica urbana fortíssima. Desde os anos de 1980 iniciou-se aqui uma efervescência cultural que conectou Cuiabá às grandes metrópoles. Surgem em 'se período novas expressões culturais tipicamente urbanas com outras modalidades criativas, inéditas na cidade. De aí vem o rock, o teatro moderno, os hapennings, a performance, o vídeo, a ação política cultural e outras formas de linguagem. Formação do Projeto O Espaço Cubo, uma organização cultural coletiva informal de Cuiabá, iniciou suas atividades em 2002 e de lá para cá consolidou sua posição com determinação, ousadia e visão de futuro. Desde o princípio inovou em práticas mercadológicas com um discurso voltado para o desenvolvimento do mercado cultural no 'tado. Suas ações sempre foram planejadas para fomentar um mercado autoral, alternativo e auto-sustentável. Não havia demanda para se formar um mercado minimamente sustentável a partir das iniciativas de várias bandas e produtores que vinham movimentando a cena musical alternativa em Cuiabá desde a década de 80. Houve tentativas isoladas de buscar um lugar na cena nacional, mas que sucumbiram diante das 'truturas dominantes, das gravadoras e distribuidoras majors ou mesmo das independentes que começavam a ensaiar alternativas para novos trabalhos considerados de qualidade e sem inserção no grande mercado. A o realizar o Festival Calango, em sua primeira edição, em 2001, os integrantes do Cubo Mágico ainda tinham os velhos modelos como receituário de sucesso. Buscaram atrair olheiros de São Paulo, dos grandes centros que dominavam os caminhos do mercado. Convidaram um representante de São Paulo, de uma gravadora independente, para observar a cena local, com o intuito de que ele pudesse levar para seu cast alguma banda com potencial para 'tourar na cena nacional. O convidado saiu daqui convicto de que era necessário realizar um trabalho de base, de formação de público, de profissionalização das bandas, de fomento de um potencial promissor. Eles entenderam o recado, redimensionaram as ações, planejaram atividades 'tratégicas e buscaram se fortalecer politicamente no meio cultural. Criaram a Volume, Voluntários da Música, lançaram a Semus, Semana da Música e investiram num trabalho de profissionalização musical trazendo grandes músicos brasileiros para oficinas e palestras voltadas para a formação e qualificação dos músicos matogrossenses. Produziram shows em série como 'tratégia para gerar demanda: foram 7 eventos com 15 bandas e público total de 6 mil pessoas em 2002; 30 eventos com 50 bandas e público de 14 mil pessoas em 2003; 22 eventos com 48 bandas e público de 12 mil pessoas em 2004. Abriram um 'túdio para ensaios de bandas investindo para uma maior qualidade musical. Envolveram vários grupos atuantes da cidade em 'sa perspectiva, houve rachas também, mas mesmo assim cresceram e continuaram com seus propósitos. As bases foram lançadas a partir de muita pesquisa nas várias viagens que fizeram, de entre elas, para Goiânia, Brasília e Natal, referências nacionais em realização de festivais independentes para conhecer suas 'truturas e trazer know-how. Conquistaram 'paços importantes na mídia, consolidaram eventos na agenda da cidade, conseguiram transformar o Festival Calango, seu maior produto, no maior evento musical desse segmento em Mato Grosso. Os números provam isso: no primeiro evento em 2001, um público de 2 mil pessoas, maior público presente num evento que contou apenas com atrações locais; em 2003 o festival totalizou 4 mil pessoas; em 2005 o festival ampliou sua programação para outros segmentos artísticos como o audiovisual, a literatura, arte grafitti e apresentações de skate, oficinas e debates, o evento cresceu em impacto e apareceu no cenário nacional. O público dos três dias, com a apresentação de 48 bandas de Mato Grosso e todo o Brasil, se superou mais uma vez: 12 mil pessoas. A partir daí, com a participação de bandas de outros 'tados que 'tavam no topo do movimento nacional, com uma seleção 'tratégica de convidados da imprensa nacional 'pecializada e de realizadores de três dos maiores festivais do país, Fabrício Nobre da Monstro Discos, de Goiânia, que produz o Bananada e o Goiânia Noise, Ulysses Xavier do Porão do Rock, de Brasília e o Jomardo do MADA, de Natal, conseguiram abranger outras forças e avançaram para uma inserção nacional representativa. Graças ao poder articulador do seu líder, Pablo Capilé, foi criado, em 2006, o Circuito Fora do Eixo, uma organização que reúne produtores de festivais emergentes e movimentos independentes de 12 'tados brasileiros e 20 cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Londrina, Florianópolis, Belém, Cuiabá, enfim, resultado desse movimento que surgiu em Goiânia, paralelo à criação da Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFI). O Cubo Mágico, primeiro nome antes de se tornar Espaço Cubo no ano seguinte, foi criado em 2001, por um grupo de jovens universitários dos cursos de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade de Cuiabá (UNIC), como uma agência de publicidade, produtora de vídeo e produtora de eventos. O núcleo inicial era composto por Pablo Capilé, Douglas Godói, Lenissa Lenza, e Léo Santana. Foram os criadores do 1º Festival Calango. De esse grupo, permanecem Lenissa Lenza e Pablo Capilé, que lidera o movimento até hoje. Além de eles, Bruno Kaiapi, Inaiã Bertroldo, Ahmad Jarrah, Talyta Singer e a jornalista Marielle Ramirez, são fiéis 'cudeiros do projeto. Contam ainda com uma rede de colaboradores e parceiros. Divulgação O Espaço Cubo sempre tirou proveito da internet como veículo 'sencial para difundir projetos, divulgar produtos e serviços de seus clientes e tornar públicas suas idéias políticas culturais participativas, visando uma ação maior para a formação de um ambiente auto-sustentável e independente. Tinham a convicção de que para isso acontecer só mesmo gerando um mercado consumidor, utilizando canais midiáticos e ganhando a cena. Além da mídia tradicional, onde conseguiram grande inserção nos maiores jornais impressos, rádios e TVs da capital com regularidade, criaram seu próprio blog, que num determinado momento foi importante até mesmo para expor os conflitos que surgiam no contexto local e se tornar um 'paço de debate. Encontraram resistência de grupos concorrentes, mas sempre se reciclaram e se adaptaram com rara capacidade camaleônica. Recompuseram parceiros e clientes na mesma intensidade, buscando afirmar-se com novos modelos de relacionamento tanto internamente quanto nas relações de mercado e com o público externo. Sistema de crédito A criação do sistema de crédito Cubo Card buscou inovar nas relações internas, mas com reflexos diretos nas relações com o mercado. O que entra de receita no Coletivo é transformado em crédito, em cubo card, na seguinte proporção em relação à moeda vigente no país: 1 Cubo Card é igual a 1 real e 50 centavos. A grande sacada é que, ao se conseguir um patrocínio, pode-se captar o recurso em produtos ou serviços: por exemplo, um restaurante pode investir num determinado evento, ganhando em troca propaganda ou outras vantagens, e ao invés de pagar 500 reais em dinheiro / moeda, paga em crédito para consumo, o Espaço Cubo administra 'se crédito e, em vez de pagar um salário para os colaboradores envolvidos, distribui créditos para consumo e isso serve para qualquer atividade comercial. Bares, restaurantes, cabeleireiro, lojas de roupas, locação de DVD's, lojas de discos, livros, enfim, trocas que não envolvem moeda. As vantagens do sistema são muitas, pois facilita as transações entre clientes e parceiros. A própria Secretaria Municipal de Cultura incorporou o sistema e ao conceder um benefício em dinheiro para determinado projeto, recebe em troca o valor dado em Cubo Card. A Secretaria pode utilizar 'se crédito contratando shows do elenco do Espaço Cubo ou a organização de um evento. É uma compra de créditos. Isso gera uma atividade econômica viável e o sistema já desperta o interesse de outras instituições, como a Central Única das Favelas (Cufa MT) que já 'tá criando o Cufa Card. É um modelo interessante que pode viabilizar muitas transações que outrora consideraríamos improváveis, é possível convencer clientes que resistem em meter a mão no bolso. É mais fácil utilizar seu produto ou serviço como investimento num projeto cultural e até otimizar 'ses recursos no próprio negócio, como o desperdício (no caso de um restaurante que sempre joga comida fora). O excedente em moeda é investido em infra-estrutura e adequação ou ampliação de novas frentes de negócios, assim os administradores do Espaço Cubo vão, por exemplo, equipando o 'túdio e melhorando sua qualidade técnica, enfim, dirigem para investimentos, prioritariamente, em tecnologia e informação. O patrimônio adquirido é a garantia do sistema, o lastro, equivalente ao valor venal do patrimônio que hoje deve 'tar em torno de 30 mil reais. Gestão de direitos autorais A associação coletiva e o modo de operar as iniciativas e os negócios são abertos e tendem para inovações nas relações com o mercado. Estão sempre buscando novas formas de interagir com o mundo dos negócios. A questão da propriedade intelectual também 'tá na ordem do dia no Espaço Cubo: a partir desse momento todo o conteúdo produzido no coletivo terá o selo CC (Creative Commons), ou seja, 'tará liberado para uso criativo e não comercial. Exemplo claro da importância de se disponibilizar, para o acesso livre e gratuito de conteúdo cultural, como fundamento para sua difusão, aconteceu com a banda Vanguart, que utilizou a internet para difundir suas músicas, no site Trama Virtual, alcançando o topo na preferência dos usuários, sendo contemplada com grande número de downloads. Hoje, é uma banda que conquistou 'paços importantes no cenário da música brasileira contemporânea. A gestão do Coletivo passa por um processo de adequação e aceitação das condições impostas por o projeto que propõe igualdade de ganhos e de responsabilidades, sendo assim, cada um assume um setor e comanda suas ações, não sem contar com o apoio de outros setores complementares. Existe uma interdisciplinaridade, uma interação entre ações dos diferentes setores. Quebra de 'trutura rígida e hierárquica, consciência coletiva e solidária e redimensionamento do valor do trabalho individual, são procedimentos que adotaram para valorizar todas as tarefas como princípio fundamental que rege o todo. Cada peça tem o mesmo valor na 'truturação do todo. A 'trutura é organizada segundo o tripé: Planejamento, Administrativo e Financeiro Central. Cada setor, dentro da organização, tem autonomia em seus trabalhos, mas 'tão totalmente integrados, sendo que interagem de acordo com o objetivo maior, que é o todo, o resultado. As ações culturais se desdobram em cinco segmentos: Cubo Mágico, Festivais, Volume, Imprensa de Zine e Próxima Cena. Cada segmento conta com um coordenador que fica responsável por as ações, desde a idealização do projeto, o planejamento (em sintonia com o setor de Planejamento -- um dos pilares de sustentação do Espaço Cubo), passando por a captação de recursos (junto com o Financeiro e o Administrativo), realização e avaliação final. Observe que os setores que fazem o tripé dirigente serão sempre acionados em cada fase da realização de qualquer projeto. O segmento Cubo Mágico é composto por treze equipes: todas 'truturadas para subsidiar os projetos sócio-culturais das outras frentes do Espaço Cubo e também para atuar como prestadoras de serviços. São elas: Agência Cubo de Bandas, que presta serviços de assessoria e atua para a profissionalização das bandas que compõem seu elenco; a Cubo Comunicação; Cubo Publicidade; Cubo Eventos; Cubo Discos; Estúdio Cubo de Gravação; Estúdio Cubo de Ensaio; Cubo Sonorização; Cubo Vídeo; Griffe Cubo; Cubo Pesquisa; Cubo Marketing e a Cubo Tour. Eles buscam atuar de forma integrada e identificada com todos os itens da cadeia produtiva. Isola-as para uma melhor percepção das partes e para um gerenciamento descentralizado, o que garante um maior controle sobre cada item. Todas as receitas geradas por cada uma das equipes são controladas por o setor Financeiro Central. A equipe recebe 30 % da receita arrecadada de todos os serviços externos que efetuar e os 70 % restantes vão para o Financeiro. Os serviços internos são pagos através dos créditos referentes ao sistema Cubo Card. Os coordenadores também são pagos em Cubos Card, o que garante uma razoável qualidade de vida na medida em que têm acesso a uma série de produtos e serviços que dá para suprir as necessidades de cada um. O Espaço Cubo mantém também uma residência em regime de aluguel na região central da cidade que permite acomodar seus integrantes contribuindo para agilizar suas vidas, quando, por exemplo, 'tão impedidos de conseguir transporte no meio da noite, servindo portanto de abrigo temporário. Ganham comida, transporte e lazer para trabalhar em prol do projeto. Não existe a idéia de se ganhar dinheiro, Pablo Capilé afirma categoricamente: «Quem 'tiver pensando em lucrar aqui, agora, ou faturar em reais, pode mudar de rumo que não serve para o propósito do Espaço Cubo», o excedente é sempre revertido para investimento na 'truturação do projeto. Todos atuam de forma integrada visando a idéia geral, o conceito coletivo do projeto. É importante salientar também que muitos já saíram e buscaram outros rumos. O giro é grande e o Espaço Cubo 'tá constantemente se reformulando e formando novos quadros. A questão da sustentabilidade é defendida a ferro e fogo. Estão quase sempre com dificuldades econômicas, não é uma história fácil de se gerir. Exige grande 'forço, motivação e muita paciência, afinal, investir na criação de novos mercados com novos conceitos de gestão é tarefa pesada e que depende de uma série de outros fatores que regulam tais fenômenos. Mas é um trabalho que demonstra fôlego e uma enorme capacidade de articulação além dos limites geográficos. O Festival Grito do Rock, por exemplo, talvez seja o maior trabalho em rede já promovido no país. Fruto do trabalho excepcional do Espaço Cubo, que, com o Pablo Capilé, através da internet, em menos de 24 h, irradiou o que seria apenas mais um festival cuiabano para 20 cidades brasileiras, tudo ao mesmo tempo agora. Prova da agilidade do meio internet. Calcule-se, quantas pessoas não 'tarão envolvidas, direta ou indiretamente, em todas 'sas produções? Cerca de 100 bandas tocando para um público distribuído de mais ou menos 50 mil pessoas. Isso é prova da capacidade de se articular novíssimas redes -- em cadeia -- para novas produções a qualquer momento, em qualquer mídia, em qualquer lugar. É interessante destacar que o Circuito Fora do Eixo 'tá consolidando um movimento paralelo muito forte, que já conta com uma rádio web e a produção contínua de news letters, conectando 'ses 'tados brasileiros periféricos, principalmente do Norte e Centro-Oeste do país. Esse circuito por si só já é um mercado potencial fantástico, com grande poder de distribuição integrada de produtos como Cds, DVD's, livros, quadrinhos, camisetas, quer dizer, todo tipo de produto gerado de 'sas demandas, além de potencializar a circulação das bandas envolvidas no projeto. Segundo Lenissa Lenza a experiência que o Espaço Cubo vem desenvolvendo abre novas portas para novas conexões: «Com o advento da internet, a formação, produção, circulação e consumo de produtos e bens culturais se vascularizaram de uma maneira impressionante e surpreendente, facilitando assim, as megas conexões em rede e as interligações de cadeias de trabalho que favorecem o surgimento de mercados mais democráticos e muito mais próximos do público consumidor, ou seja, consolida uma revolução nas trocas de forças de trabalho e nos sistemas de crédito, possibilitando a criação de alternativas às grandes corporações." De entre seus clientes-parceiros, algumas bandas que se destacam no movimento da música alternativa brasileira como a Vanguart que vem se afirmando na cena nacional, citada na resvista da MTV, na revista Veja, teve um vídeo-clip concorrendo no Vídeo Music Brasil -- MTV como banda revelação; outra banda do seu elenco, que faz música instrumental com muita qualidade, a Macaco Bong, foi convidada, em 2006, para se apresentar em praticamente todos os festivais brasileiros. Outras que se destacaram e mudaram de atividade, como as bandas Donalua, The Breeze e Deefor. Agenciar bandas não 'tá mais no foco do Espaço Cubo, mas 'tão, no momento, assessorando as bandas, Lazy Moon, Macaco Bong, que tem em sua formação integrantes de primeira linha do projeto Espaço Cubo, Dragster, Asthenia e Claudia's Parachutes. Atuam também, de forma menos sistemática, com outras bandas locais como Lord Crossroad e Chili Mostarda. O Espaço Cubo conta com apoio regular da Secretaria Municipal de Cultura, através do atual secretário Mário Olímpio, que é um entusiasta do projeto. Conseguem viabilizar também seus maiores projetos, como a Semana da Música e o Festival Calango, principalmente com recursos do Fundo Estadual de Cultura, que destinou para a primeira edição da Semana em 2004 a quantia de R$ 15.000,00 e para o segundo ano de realização, em 2005, houve um aumento significativo, foram destinados R$ 49.300,00. O Festival Calango recebeu, entre 100 e 150 mil reais, em suas duas últimas edições, em 2005 e 2006. Além do apoio oficial do poder público, tanto em nível municipal quanto 'tadual, o Espaço Cubo vem formando uma rede de parceiros comerciais que investem em seus projetos com produtos, serviços e até mesmo com dinheiro. Existe uma cadeia produtiva que tem todo o interesse de que 'ses modelos de negócio cresçam e atendam cada vez mais a um número maior de pessoas gerando trabalho e renda, gerando novos 'paços de circulação e distribuição de produtos culturais. De entre 'ses parceiros destacamos alguns como a Choice Street Shop, comércio de roupas e acessórios; CVC Vídeo, locadora de DVD's e vídeo; Diário de Cuiabá, jornal impresso; Guinho Tatoo, 'túdio de tatuagem e piercing; Intertour, agência de viagens e turismo; Letras e Músicas, 'pecializada em instrumentos musicais; Rádio Rebelde, FM 105, 9; Sesc Arsenal, 'paço cultural; Viveiros Mato Grosso, empresa de paisagismo; Rodarte, papelaria; Escola Estadual Presidente Médici e a CUFA-MT. O entusiasmo do líder do projeto, Pablo Capilé, deixa claro que as dificuldades encontradas não serão capazes de interromper a trajetória da iniciativa. Ao contrário, a tendência é de crescimento e afirmação desse mercado bastante promissor na capital matogrossense. Além do mais, o Espaço Cubo já 'tá articulado com outras frentes de trabalho de outros 'tados brasileiros num processo definitivo de inserção das suas ações no cenário cultural do Brasil. Número de frases: 225 Criatividade, persistência e ousadia, aliados à visão 'tratégica, planejamento e capacidade de realização, são as marcas desse trabalho que vem vencendo as barreiras do isolamento e colocando em xeque as premissas reguladoras dos mercados mais tradicionais Três décadas depois de sua 'tréia literária com o livro Bagagem, Adélia Prado, uma das mais importantes 'critoras brasileiras, lança seu primeiro livro infantil: Quando Eu Era Pequena, que dispensa o tradicional «era uma vez» das publicações do gênero. Em ele, a 'critora mineira conta suas recordações de infância. E, apesar do título, Adélia não revela, ao longo da história, que as lembranças narradas sejam realmente de ela. Para todos os efeitos, a personagem principal é a menina Carmela, que adoraria chamar-se Ângela ou Lucinha e tem os apelidos de Melona e Melanita. A 'critora 'teve em Goiânia no ano passado para participar das comemorações dos 25 anos de aniversário do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás (Ifiteg), ocasião em que conversamos sobre sua 'tréia na literatura infantil. Ela afirmou que nunca, em 'ses 30 anos como 'critora, cogitou fazer um livro do gênero, mesmo porque sempre acreditou que 'crever para criança demanda um talento próprio. Mas foi instigada a «pescar» 'se talento em sua própria obra por Anna Maria Rennhack, da Editora Record. Segundo ela, o livro 'tava pronto nos seus 'critos. «De certa forma, ele já 'tava 'crito. Eu fui a primeira a me 'pantar." Quando Eu Era Pequena reúne memórias da infância de Adélia Prado, disfarçadas na vida da fictícia Carmela, que a poeta define como seu alter-ego. A ação se passa num tempo ainda pré-'colar. A decisão de colocar Carmela como personagem foi puramente literária. «De outra forma o livro não seria livro, mas um caderno de memórias», observou. O termômetro de teste para o mercado foram os netos -- oito, com idades variando entre 12 anos e um ano e meio. «Eles leram sem saber que eu era a autora e aprovaram. Fiquei animada», disse ela. Mesmo assim, a 'critora não criou expectativas mercadológicas em relação ao produto final, que a encantou principalmente por a harmonia entre texto e ilustração, assinada por " Elisabeth Teixeira. «Mercado é problema da editora. De a minha parte será maravilhoso se ele for lido." Adélia afirmou ainda que não se sentiu nem um pouco preocupada por 'tar 'crevendo para uma geração que vive no mundo do videogame e da internet e de falar com elas sobre morar no campo entre animais e brinquedos de ferro. Isso porque, segundo ela, criança é sempre criança, desde Adão e Eva. «A diferença é que vivemos num outro mundo, com apelos impensáveis no meu tempo. Mas se olharmos a alma, a inteligência e a sensibilidade da criança, veremos que elas querem as mesmas coisas. Somos humanos de inesgotável fome por sentido, significação e transcendência, coisa que toda a arte faz. O processo é desencadeado não por o assunto, personagens, enredo, mas por a forma, por a literatura em si mesma. O interesse por ferreiros, animais, comadres é o mesmo que por gigantes da era jurássica, por a morte, o computador, a nave espacial. Criança é sempre criança», resumiu. A religiosidade, uma constante na obra de Adélia Prado, também 'tá presente em Quando Eu Era Pequena, nas orações da menina, nas lembranças da primeira comunhão ou nos benditos para 'pantar a tempestade. Sobre 'sa religiosidade, Adélia lembrou que todo 'critor baseia suas obras em suas experiências e coloca no papel aquilo que constitui a sua vitalidade e sua experiência mais cara. «Não tem como fugir disso, afirmou, lembrando que toda ficção é um artifício para falar de nós mesmos. Ela disse também que a poesia é 'sencial no livro. «Se não tiver poesia, pode jogar o livro fora, não vale nada. Tem de ter um momento em que a poesia aconteça." O mundo poético de Carmel Está lá na seção infantil das livrarias e o título também sugere: Quando Eu Era Pequena. Mas, apesar do livro ser para crianças, nenhum adulto ficará insensível à linguagem poética de Adélia Prado, que faz sua 'tréia literária no gênero, fazendo de Carmela, a protagonista, o seu alter-ego. Nem precisa ser um expert na obra da 'critora para desconfiar que o livro é mais memória do que invenção literária. Como Adélia Prado, Carmela é filha de um ferroviário. O pai tem como hobby fazer pequenos móveis em ferro para ela brincar de casinha. «Brinquedo de ferro é para toda vida», diz Carmela. Como Adélia, Carmela também é religiosa e deixa transparecer 'sa religiosidade nas orações. Página a página, com as belas ilustrações da carioca Elisabeth Teixeira, a 'critora registra lembranças como a do avô com quem ela, os pais e o irmão moraram por algum tempo. Também 'tão registradas as dificuldades financeiras da família durante a Segunda Guerra Mundial, as roupas recicladas, a oração nos dias de tempestade e as primeiras poesias declamadas para as visitas. Com o despojamento habitual, Adélia alinhava pequenos detalhes com grandes acontecimentos, num tom que fica mais autobiográfico e emocionado ao longo do livro. Depois de mergulhar nas memórias de Carmela, de se encantar com seu 'panto e candura, o leitor tem uma surpresa na página final, quando Adélia não se incomoda em dar a maior bandeira assinando o que pode ser considerado um postscriptum: «Em um livro não cabe tudo. Não falei de minhas brigas com Alberto nem das brincadeiras com meu primo Benedito. Quem sabe posso 'crever outro para contar 'ta parte?». Tomara que ela possa. Título: pause Quando Eu Era Pequena pause Autora: Adélia Prado pause Editora: Record pause Páginas: 32 pause Número de frases: 57 Preço: R$ 31,90 O Exército Zapatista de Libertação Nacional -- EZLN é um ótimo exemplo de como as inovações tecnológicas remixam a cultura de quaisquer povos. Este grupo revolucionário da região montanhosa de Chiapas no México e que combate a exploração de seu povo por os Estados Unidos, há cerca de 13 anos não dispara uma única bala. Sua arma: A mídia, principalmente a internet. Os zapatistas, que têm como base a revolução liderada por Emiliano Zapata, 'tão reconfigurando a forma de fazer política. Mostram-se preocupados e midiatilizar as suas ações, mas num contexto diferente do terrorismo. Não usam aquela política de que sem mídia não há terrorismo. A ideologia de eles 'tá mais para reconfiguração sócio-cultural através da conexão e produção. Outro ponto interessante é que a reconfiguração 'tá acontecendo dentro do próprio movimento zapatista, que acabou por mudar o seu objetivo final, da defesa dos povos indígenas do México. Agora com a capacidade produtiva ampliada, o exército atinge a toda uma camada de pessoas descontentes com as políticas públicas do país centro-americano. Decorrente disto, surgiram as Frentes Zapatistas de Libertação Nacional -- FZLN, compostas por integrantes da sociedade civil. A Frente Zapatista e o Exército, juntos, publicaram a Sexta Declaração da Selva de Lacandona -- um enorme documento, que dividido em três partes, resulta de consultas públicas aos integrantes da sociedade civil e das comunidades indígenas. A revolução cibernética dos zapatistas mostra que é possível uma revolução pacífica obter resultados positivos. Sem armas, eles vão ganhando cada vez mais adeptos e voltando os olhos da mídia internacional para um lugar e causa que nunca tiveram muito destaque: o México e a batalha do povo indígena daquele país. Em o livro Zapatistas -- A Velocidade do Sonho, os autores, o 'critor Márcio Brige, o jornalista Pedro Ortiz e o fotógrafo Rogério Ferrari, mostram a apropriação das novas tecnologias de comunicação por os revolucionários e como isto vem reformulando a realidade sócio-política no México. Número de frases: 17 «Zapatistas -- a velocidade do sonho (Thesaurus / EntreLivros, 2006, 230 p.)». Recôncavo de um adeus Faleceu ontem, 17 de junho de 2008, de madrugada no Rio de Janeiro, Carlos Mascarenhas Brito, o Carlinhos Codó violonista e compositor histórico do Grupo Vissungo, 'pecializado em música afro-brasileira e de grande projeção nos anos 70/80. Como integrante do Vissungo, Carlinhos Codó tocou com Clementina de Jesus, João do Vale, Aniceto do Império Serrano, Martinho da Vila, entre outros artistas, além de acompanhar o pai, Clodoaldo Brito, o primeiro Codó, de quem herdou o apelido honroso. Carlinhos Codó teve participação relevante também na adaptação harmônica dos instrumentos musicais reconstituídos por o Vissungo para a filmagem da cena de coroação de Chico Rei, para o filme do mesmo nome realizado por Walter Lima Júnior na década de 1980. Natural da pequena Cairu Salinas das Margaridas, cidade do recôncavo bahiano com um dos nomes mais poéticos do Brasil, ' Codózinho ' -- como era conhecido por os mais velhos -- certamente, 'tá a 'ta altura dos acontecimentos, comendo uma muqueca carregada de dendê em alguma birosca do céu, sob o mar da Bahia, para onde sempre sonhou voltar. É em 'ta tranqüila birosca que ele ficará para sempre, tocando seu violão a toa, como qualquer honesto e bem vivido boêmio, no recôncavo mais iluminado de nossa saudade eterna. Spírito Santo Número de frases: 8 Junho 2008 Pra não dizer que me caiu a ... fiquei boquiaberta com as impressõesde leitura descritas a seguir por Sílvio amaral Camargo, Zé Poeta. Aproveitei para publicar a foto aí de cima do Adroaldo na Praça da Alfândega combinando alguma com Drummond de Andrade e Mário Quintana. Tenho a dita guardada desde a Feira do Livro de Porto Alegre, em outubro do ano passado. (E, 'tando o Adroaldo em férias e longe daqui ...) Também lembro que a Ize publicou as impressões de ela aqui mesmo. Metida aproveito pra dizer que a edição de 1.000 exemplares lançada em 31 de maio do ano passado da primeira novela do Adroaldo Bauer O dia do descanso de Deus 'tá praticamente 'gotada. Sem encher muita lingüiça, pra não dar preguiça, vamos ao ponto do postado, que é apresentar 'se belo e carinhoso texto do meu poeta amado: A literatura policial, gênero que já foi considerado menor, hoje é sem dúvida um clássico. Quem não se move ante a pergunta: «Quem é o culpado?». Em 'se caso, a «culpa» é de um processo lento entre o conflito do passado, com a falta de clareza do presente e a intangibilidade do futuro. Li o Dia do Descanso de Deus, e confesso que me surpreendi. Vi na novela, a determinação de um Ahab na busca por a vingança ao cetáceo que lhe arrancou a perna em Moby Dick. Vi os detetives e seus ajudantes enfrentando a agrura que é desvendar um mistério. Vi tua fluência ao brincar de 'conde-esconde nas idas e vindas do texto. Vi tua ousadia ao revelar (ainda na metade do texto) o culpado, mas 'condê-lo mesmo assim de um (a) leitor (a) que vai «compreender» a motivação apenas nas últimas páginas. Vi o ritmo de aventura necessário aos tempos atuais, todavia regado a chimarrão e aquele olhar fraterno, mas não totalmente aberto à primeira 'tampa, do gaúcho. Vi uma persona que já nasce clássica tal qual o pistoleiro fantasma que volta para a vingança no Outlaw do Clint Eastwood, que é o Romão e seu hábito de cuspir na própria sombra. Mas, principalmente vi, (e é aí que para mim que o conheço de esguelha) a forma como resolvestes o mistério de 'crever um texto moral, nas veias de um militante. Nunca deixamos de ser o que somos, e no teu caso, isso 'tá no texto. A política é presente sem ser chata. Em o trânsito das idas e vindas há um signo comum que é a unidade em torno de um compromisso do trio de amigos que sequer o tempo ou o Descanso de Deus, podem abalar. Muitos militantes, picados por a mosca azul do Machado, deveriam entender o que conseguistes «enuviar» em teia de fina ironia e ... mistério, célula constitutiva de todo bom policial. Confesso a grata surpresa, quando beiras o surrealismo em alguns trechos envolvendo o Domício, durante toda a trama, principalmente no final onde parecemos emaranhados numa lógica aparentemente sem sentido. Além do que o humor, e 'se é um traço teu muito forte, naquele olhar maroto quando: «pega a gente de jeito». Li-o em Cambará do Sul, diante das auracárias no Parque Nacional dos Aparados da Serra e, assim como os pais de Romão, fui longe 'tender minha rede para encontrar meu interior. Parabéns por os mistérios e por a lição de moral aos que traem os sonhos. Depois, devemos 'tar atentos ao coma que os olhos verdes e personagens fortes podem causar em nossos fracos corações, principalmente, quando são Divinas as Lauritas. José Sílvio Amaral Camargo Matou O Cinema e Foi ao Governador -- Entrevista-1ª parte A entrevista que segue (pontual, em tom de registro, documento) fiz com os realizadores do projeto Matou o Cinema e Foi ao Governador. Cinco perguntas básicas que enviei a todos os cineastas que 'tavam envolvidos no projeto. E como vocês podem perceber, rendeu bastante, muito mais do que eu imaginava. Por as respostas vocês vão perceber um pouco da indignação de todos com as políticas culturais praticadas em SC. Indignação que aumentou no decorrer das exibições que foram realizadas por o 'tado (e em outras poucas cidades do país). E aumentou porque aos poucos as práticas governamentais, por ora contestadas, deram novamente o ar da graça. Tudo leva a crer que a demissão do Fabio Brüeggmann (o único com cargo de confiança no governo do 'tado a participar do projeto) teve um caráter político!? Repressão, diriam os mais inflamados. Que é isso, repressão, não pode, a minha vizinha que lê a Veja toda a semana acha que isso é coisa do passado, afinal de contas, vivemos a era democrática do Bush e 'sas coisas não acontecem mais.» ... dois 'paços para respirar fundo: O que assusta é quando por vários de muitos lados continuamos sendo Glabarbarizados. Vamos a entrevista, quem 'tiver a fim do desafio, aconselho que façam umas pipocas e que peguem um copo de suco na geladeira. Ah, a entrevista 'tá em duas partes: 1. Como você soube do projeto do Cine Anti-Campanha e por que decidiu participar? Como você vê as possíveis relações entre Arte e Política a partir de experiência do Cine Anti-Campanha? Marco Martins -- Eu tinha na cabeça a idéia de um curta-metragem, primeiro um título: Matei o Governador. Eu não sabia direito o que era ... as últimas imagens de Kennedy, de ele sendo morto, e um texto do Pasolini (que irá abrir o longa) não saiam de minha cabeça. Eu queria contar a história de um franco-atirador. Obviamente isso veio por eu 'tar bastante descontente com a nossa situação política, não só cultural. E também porque me deparei com a total falta de opção na hora de votar ... Quando fui 'palhando 'sa idéia, do curta, para os meus amigos, todos diziam: «Mas aí tem pano prá manga ... dá prá fazer isso e mais aquilo ..." Então decidi bolar dez pequenos argumentos e 'palhar para 'tes meus amigos para que desenvolvessem os roteiros e rodassem seus curtas. Antes disso fizemos uma reunião para ver se havia a possibilidade de contar 'sa história num formato de longa-metragem, mas logo descobrimos que nossas visões políticas e 'téticas nem sempre batem, o que fez com que transformássemos o projeto num longa de episódios. De antemão também gostaria de dizer que o termo «anti-Campanha» já não diz muito ... O projeto (após ter uma prévia do material que já 'tá editado e do que 'tá ainda por vir) trata mais das relações de poder, da condição do artista vivendo num sistema falido culturalmente e da ansiedade e urgência de criação. Falando em Arte X Política: para realizar o filme tive que fazer política de uma forma ou de outra, todos fazemos política diariamente ... a pergunta talvez devesse ser Arte X Politicagem. E daí não perdoamos: no longa existe o 'cracho, o humor e a fúria. Renato Turnes -- Estava próximo ao Marco desde as idéias iniciais e decidi participar por uma necessidade de expressar a desolação que toma conta dos artistas desse Estado, impedidos, enganados, menosprezados por uma situação de barbárie. Politicamente, atuo junto à Gesto (Associação de Produtores Teatrais da Grande Florianópolis), entidade que 'tá na linha de frente na luta por a moralização das «políticas culturais» catarinenses. Em a Gesto atuo como cidadão, mas não acredito que seja função do artista fazer política, no sentido cotidiano restrito do termo. Acredito que toda obra de arte é política, na medida em que atua sobre a realidade, mas num sentido transcendente, poético, ligado a experiência íntima do artista e do 'pectador e à transformação de ambos. A obra gerada no âmbito político restrito corre o risco da pobreza conceitual, do imediatismo e do 'quecimento iminente. Acredito na metáfora como revolução do 'pírito. Loli Menezes -- Há muito tempo vinha descontente com a situação político-cultural do nosso 'tado. Quando Marco teve a idéia de abrir o projeto para outros realizadores e tornar seu curta um longa, fiquei muito feliz em poder participar e expressar toda a minha insatisfação fazendo arte! Essa é uma das relações entre arte e política, é a nossa arma, o nosso grito, a nossa maneira de fazer política. Chico Caprario -- Fui convidado por o amigo Marco Martins. Apesar de ter outras prioridades e 'tar com pouco tempo disponível, decidi participar deste filme quase que como uma obrigação de cidadão. Acho que cada um deve ter a sua forma de participação popular em sua possibilidade e naquilo que se sente capaz. Em diversos momentos históricos o povo não se manteve calado diante de injustiças e teve o seu retorno, 'te momento não é diferente. Vivemos uma grande confusão ideológica e muitos políticos se aproveitam de 'sa situação para obter saldos na popularidade e na conta bancária. Em a área cultural é notória a insatisfação generalizada (ufa! não 'tou louco) e a forma desleal como são tratados nossos artistas. Não pensei duas vezes quando fui convidado a participar deste protesto tão Legítimo e feito de uma forma bem-humorado. Espero não encontrar nenhum entrave ditatória. Este não foi o primeiro protesto da categoria feito com arte, houve outros protestos nas ruas com artistas em suas performances. Mas acho que 'te é sim o primeiro protesto «formal» utilizando-se dos meios audiovisuais para trazer nossas insatisfações perante um público maior diante das eleições que se avizinham. Acho que 'ta é apenas o início de uma forma de ação política legítima de demonstração de repulsa às políticas culturais do governo, na verdade uma resposta tímida, mas contundente diante da força da comunicação de massa das campanhas eleitorais. Claudia e Rafa -- Soubemos do Cine Anti-Campanha a princípio informalmente, num jantar em nossa casa com Demétrio Panarotto. Em a mesma noite, Loli Menezes nos telefonou convidando-nos a participar como diretores de um dos episódios do longa coletivo e no dia seguinte recebemos, via e-mail, uma sugestão de argumento encaminhada por Marco Martins, um dos idealizadores do projeto. Decidimos participar tanto por a oportunidade de 'tarmos realizando um projeto em comum com diretores independentes de Florianópolis, tanto por o desafio de realizar algo em grupo, com suas diferenças enriquecedoras e com o projeto comum político de denunciar as irregularidades na Pasta da Cultura em 'te governo 'tadual. As relações entre arte e política sempre foram para nós 'treitas e salutares. Como seres políticos, somos portadores de idéias, ideais e manifestamos em nossa arte nosso pensamento e o modo como absorvemos e digerimos o mundo ao nosso redor. Nossas opções 'téticas são sempre fruto de como nos relacionamos com o mundo e de como entendemos a arte cinematográfica. Breno Turnes -- Eu soube do projeto por o Marco, quando tudo se resumia ao «Matei o Governador». Após alguns dias ele me disse que tinha 'crito um roteiro e queria que eu o dirigisse. Ele também me deixou por dentro da proposta do Cine Anti-Campanha. Topei na hora por achar imprescindível um posicionamento crítico dos realizadores do 'tado perante ao que chamam de política de «fomento» à cultura. Jéferson Lima -- Soube por amigos, fui convidado e resolvi participar para romper com os limites entre a vida e a morte, o amor e o ódio, a coragem e o medo. O Cine Anti-Campanha é a comprovação de que arte e política são uma coisa só. Jéferson Bittencourt -- Bem, O Marco (cineasta e companheiro de trabalho na Vinil Filmes) já explicou muito bem a origem. Eu fui um dos convidados a contribuir. A idéia sugerida por o Marco era muito boa e decidi topar principalmente porque me interessava tocar num assunto já exposto por mim em conversas outras: questões sobre a real importância da arte na vida das pessoas. Como se trata de uma temática universal, achei que seria interessante explicitar meus argumentos. A liberdade pra expressar minha opinião sobre o assunto foi inteira. Isso me impulsionou a realizar um dos curtas. Sobre Arte x Política, nunca considerei a política como fonte artística: a manifestação da inteligência artística é muito mais ampla e profunda do que qualquer viés político. Se 'barra na política, tudo bem, sorte de 'ta última. Penso que a experiência do projeto virá com sua reverberação ... fazer 'te curta foi fazer um filme como outro qualquer: decifrar e planejar os problemas poéticos ... o discurso político, em 'te caso, é conseqüência. Maria Estrázulas -- Recebi um telefonema de Marco Martins. Decidi participar porque 'te movimento é uma manifestação política genuína, numa linguagem diferente das tradicionais passeatas, que mesmo expressivas tendem a depreciar os manifestantes, como baderneiros que atrapalham uma ordem perfeita. O Cine Anti-campanha gera um caos diferente, em forma de ficção audiovisual é direcionado para pessoas que se interessam em dialogar sobre a política cultural do Estado, e que ocuparão os lugares nas platéias. Valeska Bittencourt -- Fui convidada por o Marco e decidi participar para ter o prazer de dar o grito que 'tava «aqui, ó», preso na garganta. O audiovisual pode ser um grande instrumento de protesto. O uso da arte como manifesto permite ao artista dialogar com o 'pectador a partir de sua própria linguagem, para mostrar sua indignação. Em 'te caso protestando contra a própria política cultural. Fabio Brüggemann -- Fui convidado por o Marco Martins e achei a idéia da criação coletiva muito necessária em 'sa hora. Arte e política (a aristotélica, deixo claro) sempre 'tiveram juntas. 2. Fale sobre o processo de criação do seu curta-metragem. Como se desenvolveu a idéia do roteiro? Como o resultado final se relaciona com os encontros e discussões coletivas do Cine Anti-Campanha. Marco Martins -- Como eu disse antes, a idéia do longa partiu de uma idéia que vinha martelando minha cabeça. Quando apresentei a idéia, eu queria simbolicamente matar o Governador. Tirá-lo do caminho. Mas logo descobrimos que seria muito agressivo, que o melhor seria partir para a metáfora, para a ficção completa, brincar com a situação, mas criar um conjunto de filmes que pudessem ser exibidos em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo. Logo, o meu episódio, que fecha o filme, tem a intenção de provocar no 'pectador a náusea que eu sinto quando assisto a um monte de mentiras na televisão e o que eu gostaria de fazer em resposta a isso. E eu queria dizer outra coisa: o grupo anti-campanha não existe, é uma invenção da mídia. Renato Turnes -- O roteiro de Rosa BB foi criado junto com a Loli, que já forneceu uma boa sinopse. As discussões com o grupo tornaram a história mais metafórica, criamos uma república em guerra, e uma história entre um Pai ditador e uma Filha iludida, que é o ponto de partida para uma comédia meio farsesca, patética, mas também carregada de tintas dramáticas. Os diversos pontos de vista, as opiniões e comentários nos deram segurança para construir o curta, medindo sutileza e 'cracho em doses equilibradas. Loli Menezes -- A idéia surgiu do Nepotismo que vivemos a todo o momento em todas as relações de poder. A partir de uma entrevista onde a filha do governador disse ao vivo, que aqui no 'tado as coisas são bem mais fáceis para ela, veio a idéia de falar sobre a relação de um pai e uma filha, de criar um universo fantástico onde um pai protetor cria uma farsa para fazer com que sua filha acredite ser uma 'trela. Acho importante frisar que é uma obra de ficção e o fato real foi apenas o ponto de partida para a construção da história. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, viu gente? Durante os encontros e discussões do Cine Anti-Campanha fomos saindo um pouco das questões mais locais, e partindo mais para o universal, para o metafórico. Considero Rosa B.B uma comédia que surge do drama entre pai e filha, uma história íntima, cheia de contradições e interpretações psicanalíticas. A política serve como pano de fundo para 'sa história; 'tá simbolizada na guerra do lado de fora, de como 'se ditador (que representa o poder) age para conseguir o que quer, e na relação desse pai e de 'sa filha, opressor e oprimido. Chico Caprario -- Recebi a idéia para o argumento pronta, acho que foi uma idéia original do Renato e / ou Marco. No entanto o roteiro do episódio «O POVO DA CORTE» foi criado por mim levando em conta as discussões sobre a Anti-Campanha como um todo, isto é, como um produto só e não apenas um festival de curtas desconexos. Mas o principal instrumento de inspiração é minha própria experiência como artista que se submete à burocracia das leis de incentivo e os privilégios oferecidos «à corte». O tratamento que recebemos de uma máquina absurda de análise de papéis que Não Funciona para o objetivo a que veio. Claudia e Rafa -- O roteiro partiu da sugestão do argumento oferecida por Marco Martins e, paulatinamente, foi afastando-se de ela. Pensar numa 'tética surrealista, como nos foi proposto por o argumentista, quando a realidade já é surreal, levou-nos a optarmos por um modo de expressão que colocasse exatamente 'te fato em xeque. Um jantar na casa de praia do governador em homenagem a Lena Ficha com a presença de figuras responsáveis por a administração da cultura no 'tado e sua representação na mídia tornaria emblemática a política governamental orientada para o nepotismo e para a subversão dos trâmites legais dos projetos culturais em benefício do gosto particular do coronel. Nada mais surreal do que termos 'tes fatos vindo à tona de modo servil por os meios de comunicação locais que corroboram com a política de coronelato do governo 'tadual. Então acrescentamos orelhas de porco e lulas a doré ao cardápio e tivemos como resultado uma 'tética mais Fassbinder do que Buñuel, o que achamos mais pertinente à urgência do momento e ao conteúdo temático do nosso episódio em 'te longa coletivo. Não fomos incluídos em nenhum momento no grupo, nem na lista virtual nem fomos convidados a participar de nenhuma reunião. Não fazemos a menor idéia da razão por a qual isto ocorreu, solicitamos nossa inclusão, mas nada aconteceu em 'te sentido. Breno Turnes -- A idéia do roteiro surgiu do Marco e foi lapidada por nós dois. Após isso, o roteiro foi apresentado ao grupo e, coletivamente, demos uma última lapidada, dando um up nos diálogos e em algumas situações. Jéferson Lima -- Criei o roteiro a partir do argumento de Marco Martins. Os encontros para o desenvolvimento das idéias individuais foram produtivos e serviram para dar uma cara coletiva para o longa. Jéferson Bittencourt -- Não houve um roteiro. Houve sim um argumento pré-concebido. Todo o texto foi previamente pensado, mas dito no exato momento da gravação. A edição cuidou de dar sentido ao discurso. O curta APEIROKALIA é uma conversa entre dois seres humanos preocupados com seu papel no mundo. Preocupados com seus papéis nas suas existências. Nada dito ali é gratuito ou forçado. São os reais pensamentos de seus protagonistas. Suas reais angústias. Muitas vezes, no cinema, de uma simples conversa erguem-se civilizações inteiras. É o que se busca aqui: erguer fantasmas adormecidos. As discussões em grupo foram instigantes, pois deixaram em cada realizador a sensação clara do poder da metáfora. E que o chapéu serviria facilmente, sem a necessidade de muitas indicações. Maria Estrázulas -- Meu curta entrou por conta de uma desistência. Como última criação, havia necessidade de adequação ao que já 'tava produzido, e de ser algo novo, que não fosse apenas um eco do que já havia sido dito. O roteiro passou por temáticas diferenciadas, ao todo foram desenvolvidos 5 roteiros diferentes. Acabou por envolver mais três pessoas no processo de criação, que trabalharam juntos num sistema anárquico, onde a voz de qualquer pessoa deste grupo soava com a mesma intensidade que as demais. O delírio trata da questão do cineasta, que não 'tava em foco nos demais filmes. O resultado final ainda 'tá por vir e pretende mostrar, o quanto 'tamos envolvidos e absortos em batalhas internas, relacionadas aos nossos próprios egos. Contando com a contextualização gerada por os demais curtas da série, pretende clarear o que acontece num plano geral, enquanto tentamos desmoralizar uns aos outros. Valeska Bittencourt -- Tudo partiu do título: Delírio. Cinco roteiros foram feitos. O caos tomou conta do processo. Os roteiros antigos foram abandonados. Um curta-metragem queria ser feito. Quatro pessoas 'tavam reunidas. Surgiu então a possibilidade de nos libertarmos de idéias pré-construídas para apenas delirar em cima de elementos dos velhos roteiros, e de novos elementos, frutos da imaginação de cada um dos diretores. O resultado final se relaciona com as discussões coletivas, vendo que carrega com si elementos metalingüísticos que advém de um processo auto-analítico. Fabio Brüggemann -- O roteiro é bastante simples, porque eu quis reproduzir um diálogo que nunca aconteceria na realidade. 3. Fale o que você quiser sobre o seu filme (roteiro, referências, produção, equipe e elenco, etc ...) Marco Martins -- Martelei muito o Franco na cabeça antes de rodá-lo ... Escrevi uns dois tratamentos de roteiro até decidir jogá-los fora ... Depois disso, decidi construi-lo pensando primeiro na forma. Decidi trabalhar com planos longos e em preto-e-branco ... Pensei em Gus Van Sant e Godard visualmente e em David Lynch no plano sonoro. Roubei a trilha do Veludo Azul para a primeira seqüência. Ainda na trilha sonora, usei Koan (extinto grupo de música experimental, intuitiva, de Jefferson Bittecourt) para a segunda seqüência e Ludwig Van Bethoveen prá finalizar. O curta tem 'sa 'trutura, de três atos, penso eu. Com relação à produção, foi pouco complicado: rodamos num dia só, no meu apartamento e por as ruas da cidade. Equipe reduzida (segue ficha técnica abaixo) e elenco de primeira: Renato Turnes no papel do Franco, Álvaro Guarnieri de Governador, Valeska Bittencourt de Repórter e Chico Caprário de Câmera. Ficha Técnica Franco: Direção, roteiro, montagem e desenho de som: Marco Martins Direção de Produção: Maria Estrázulas Arte e figurino: Valeska Bittencourt Direção de foto e câmera: Felipe Vernizzi Still: Fábio Brüggemann Cozinha: Loli Menezes continua na 2ª parte. Número de frases: 211 Cultura para quê? Sei que do ponto de vista antropológico é incorreto afirmar isso, mas ultimamente 'tou com a impressão de que a cultura não faz parte da vida das pessoas. É no máximo acessório, hobby, suplemento. Ou para usar uma expressão muito comum no jargão jornalístico cultural: 'tá à margem, é marginal. Pelo menos é o que parece a julgar por a ausência de discussão ou debate e por a fragilidade da maioria das propostas -- quando há -- nos programas de governo de quase todos os candidatos que disputaram ou ainda disputam 'tas eleições. Presenciei nas últimas semanas discussões acalouradas sobre política econômica, sistema de saúde, educação, saneamento básico, meio ambiente, previdência social, reforma agrária, diplomacia internacional, e tudo aquilo que supostamente interessa de algum modo pessoas minimamente empenhadas na construção de um país. Nenhum desses interlocutores pareceu-me se interessar por discutir políticas públicas para a cultura. Tenho algumas hipóteses para isso: uma de elas é a incorporação do mito da geração 'pontânea por o imaginário coletivo. De acordo com 'ta visão, cultura é alguma coisa que brota 'pontaneamente do seio do povo. O que tem de verdade em 'ta afirmação -- de forma simplista exemplificada e corroborada por a riqueza e diversidade da produção cultural brasileira, que raríssimas vezes contou com qualquer tipo de apoio público ou institucional -- tem também de nefasto, pois exclui toda e qualquer possibilidade de investimento e inviabiliza a profissionalização e o 'tabelecimento de projetos e carreiras que não se adequam à lógica do mercado. A o mito da geração 'pontânea soma-se a idéia de gênio, aquele artista que vence todas as adversidades e impõe sua arte por a força e graça de um dom divino. Em a prática 'ta é mais uma justificativa para negar não só ao artista, seja ele genial ou não, mas a toda a população o acesso aos bens de cultura, que contribuiria para sua formação e daria possibilidades para o desenvolvimento de carreira. Retomo aqui outra hipótese para o desinteresse: a de que cultura é considerado algo realmente supérfluo para a maioria das pessoas. Essa é uma visão que surgiu a partir da revolução industrial e se desenvolveu no lastro do capitalismo. O automatismo das linhas de produção definitivamente não combinava sequer com as mais sisudas manifestações culturais. Mas o contrapeso da indústria é usar a cultura como vávula de 'cape das tensões geradas nas engrenagens das linhas de produção, ou seja, transformar a cultura em entretenimento. Essa é a fórmula encontrada para extrair lucro do supérfluo. De aí o termo contraditório em si mesmo mas por isso mesmo tão revelador: Indústria Cultural. E se, de acordo com o senso comum, a cultura não faz mais parte da vida das pessoas -- se é que isto seja possível -- ou melhor, faz como anexo, como adendo, o que fica patente por exemplo na nossa formação 'colar -- no currículo básico as disciplinas de humanas possuem uma carga horária e um peso significativamente inferiores às ciências exatas e biológicas -- não faz sentido sequer o Ministério da Cultura, órgão responsável por promover, fomentar e difundir a cultura brasileira, ter direito a mais do que os míseros 0,4 % do orçamento da União. Aliás, pode-se perguntar até para que um Ministério da Cultura? Política pública para a cultura, como afirmam em coro conservadores e reacionários, é uma desculpa para artistas sem nenhum talento mamarem nas tetas do governo. Nada de bolsas, incentivo à pesquisa de novas linguagens, fomento à circulação e à difusão, facilitação do acesso aos bens culturais, redução de impostos sobre produtos, etc.. Pensando bem, por que eles quereriam ampliar a formação cultural e facilitar o acesso aos bens culturais para a população de uma forma geral? Cidadãos críticos bastam eles. Economia de Mercado De o ponto de vista governamental, talvez o erro histórico tenha sido o de não ter considerado a cultura uma questão 'tratégica. A música por exemplo, nosso principal produto de exportação, nunca recebeu apoio devido do poder público, ficando atrelada aos interesses das gravadoras multinacionais que ainda hoje detém o controle sobre a maior parte do que é vendido para fora do país. Já o cinema americano, que muitas vezes, digamos assim, ' substitui ' o exército na função colonizadora do império, é considerado questão 'tratégica de 'tado e conta com subsídios do governo. Mas se nenhum desses argumentos é suficiente para sensibilizar nossos políticos e menos ainda a opinião pública, voltemos ao mercado. Retomando a tese de que cultura não seja realmente importante na vida das pessoas, que não faça parte da formação e não tenha a menor importância para o povo brasileiro de uma forma geral, ainda assim ela representa por baixo uns 10 % do PIB. Basta pensar o que se consome só de música brasileira não só aqui, mas no mundo inteiro diariamente. ( Segundo 'timativa do Banco Mundial, a economia da cultura é o setor que mais cresce e representa hoje 7 % do PIB mundial. Basta dizer que só a obra dos Beatles gera um retorno financeiro para o Reino Unido comparável ao da indústria automobilística. Aqui, o pesquisador Luís Carlos Prestes Filho, em seu livro «Cadeia Produtiva da Economia da Música», afirma que somente a música é responsável por pelo menos 4 % do PIB de todo o 'tado do Rio de Janeiro). O MinC atualmente, briga pelo direito a 2 % do Orçamento Geral da União. Os Programas Mas vamos ao que interessa aqui: os programas de governo para a cultura. É patente que 'ses programas buscam sobretudo uma repercussão imediata no eleitorado, passando por cima de temas que despertam menos interesse, mas que não 'tão necessariamente fora da pauta efetiva do partido para um futuro governo. Por outro lado, 'sa falta de repercussão do tema junto ao eleitorado nos leva a supor que, dadas as possibilidades remotas de qualquer governo cumprir todas as suas propostas, a cultura, jogada já na campanha para o fim da fila, certamente não terá destaque nenhum numa efetiva gestão. É o cultura-zero. Por isso vamos abordar primeiro os programas de cultura do PSOL e do PDT, que ficaram na rabeira da disputa presidencial. O partido de Heloísa Helena sequer apresenta uma proposta para a área, limitando-se a falar da necessidade do acesso à cultura no tópico relativo à democratização dos meios de comunicação e lembrar o direito constitucional a cultura e ao lazer no tópico sobre a juventude. Eu acho muito pouco para quem diz 'tar a serviço da revolução. Ora, como queria Maiakovski, toda revolução é, sobretudo, uma revolução cultural. Quanto ao programa do então candidato Cristovam Buarque, sua proposta para a cultura resume-se a sete ações aparentemente simples de «como fazer para disseminar a cultura no seio do povo». As ações primam por a falta de critério e fundamentação, parecem frases tiradas de um questionário feito com professores de primário sobre o que deveria ser feito para a área cultural do país. São sete frases curtas que começam com verbos no infinitivo como «implantar»,» promover «e» incentivar», sem nenhum plano ou 'tratégia de ação. Segundo depoimento publicado por o site Cultura e Mercado o cineasta Silvio Tendler, que colaborou com a formulação do documento para a área, «Cristovam acredita mais nas coisas que emanam do povo do que na Cultura de Estado». Curioso, para não dizer contraditório, é que um candidato ' obcecado ' por a questão da educação dê tão pouco 'paço para a cultura em seu programa. Penso que uma educação sem cultura -- se é que isso seja possível -- seja algo tão precário quanto a falta de ela. O programa do PSDB por sua vez é uma 'pécie de resumo 'colar mal-feito do programa do PT. Segundo o programa dos tucanos, eles pretendem ' aperfeiçoar ` pontos como a política tributária para a produção, distribuição e comercialização de bens culturais, ' redefinir ` as «Conferências Nacionais de Cultura» ampliando a participação de todas as áreas envolvidas na questão cultural «e ' redimensionar ' os Pontos de Cultura» formulando critérios mais claros e transparentes para a seleção e localização dos pontos." Ora, para quem acompanhou a gestão do Ministro Gilberto Gil em 'tes últimos quatro anos, e tem pelo menos uma vaga lembrança das gestões anteriores, sabe que quando o PSDB fala em ampliação de participação, transparência na seleção e aperfeiçoamento de política tributária, para ficar somente em alguns pontos nevrálgicos, dá vontade de rir (ou de chorar). Ou seja, mal comparando, se o governo Lula copiou e deu continuidade ao projeto econômico do governo FHC, um possível governo Alckmin propõe um 'pécie de continuação indisfarçada do projeto de cultura do atual, só que com algumas diferenças básicas: muito mais incipiente, menos maduro e possivelmente com um Gabriel Challita no lugar de Gilberto Gil. Em 'se sentido, o programa «Cultura Viva do PT», ainda que tenha muitos pontos a serem melhorados, é de longe o que apresenta as propostas mais consistentes e as 'tratégias de ação mais claras e objetivas. Afinal de contas foi em 'ta gestão que pela primeira vez na história do país a sociedade civil organizada discutiu suas propostas de políticas públicas para a cultura através das Câmaras Setoriais. A primeira vez que houve uma Conferência Nacional da Cultura, onde foram discutidas propostas com a perspectiva de criação de um Plano Nacional de Cultura. É a primeira vez também que 'boçamos uma mobilização nacional da classe artística. Fundado em 1985, o Ministério da Cultura nunca 'teve tão em evidência quanto em 'ses quatro anos em que Gilberto Gil 'teve a frente da pasta. Com seu prestígio e sua linguagem poética, Gil iniciou em 2003 o que ele chama de «do-in antropológico» nos pontos vitais da nação. Era o início da massagem, ou seja, a potencialização dos Pontos de Cultura já existentes em todo o território nacional, equipando 'ses 'paços e 'tabelecendo o contato entre eles, criando redes de troca de informação e experiências no Brasil profundo. Por outro lado houve também o enfrentamento com os poderes consolidados, como a questão do audiovisual por ocasião da criação da Ancinav e a 'colha do padrão da TV Digital, que gerou a polêmica leitura do cordel por o ministro Gil atacando a ' parcialidade global ' do Ministro das Comunicações Hélio Costa. Além disso houve uma abertura importante para a discussão sobre as novas formas de licenciamento (Creative Commons) para uso das obras protegidas pelo direito de autor e uma maior articulação interna com outros Ministérios como o das Relações Exteriores e o da Educação. Sem dúvida falta ainda a prometida reformulação da Lei Rouanet, o aumento do orçamento e a efetiva implantação do Sistema Nacional de Cultura. Mas os avanços já são visíveis a olho nu e nenhum agente cultural de bom senso pode negar que durante sua gestão o Ministro Gilberto Gil fez mais por a cultura do país do que todos os outros que ocuparam o cargo juntos. É uma pena que toda 'sa discussão tenha passado despercebida por a quase totalidade da população, que parece não se interessar por o tema. No máximo ouço alguma declaração, num misto de indignação e desabafo em tom niilista que o governo não faz nada por a cultura. Costumo perguntar de bate-pronto: o que você anda fazendo por ela? Conheço muitos artistas que no primeiro turno votaram nulo usando narizes de palhaço. Nessa altura do campeonato é muito mais fácil dizer que não votou em ninguém, que não é responsável por nada disso, que a culpa é dos outros que 'colheram. Que você vai ficar com a consciência tranqüila. Para mim isso é somente uma declaração de isenção de responsabilidade futura. Então quer dizer que podemos deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranqüilamente porque a responsabilidade não é nossa, minha, sua, de cada um? Então tudo de errado que 'tá aí não é culpa nossa? Fala sério! Afinal era e continua sendo nosso dever cobrar, vigiar, intervir. Contextualizando Tenho acompanhado a polarização da discussão nas últimas semanas e tenho tentado não me manifestar -- não só aqui, mas no supermercado, na feira, no banco, nos palcos, no táxi -- de forma maniqueísta. Afinal de contas não 'tamos falando de times de futebol, não acho saudável que as convicções ideológicas assumam o caráter de fanatismo cego. Confesso que 'tou realmente preocupado com o aumento da truculência, com a 'calada do preconceito, depredações de carros adesivados, agressões físicas cada vez mais freqüentes. Quer dizer, não acho que todo mundo que vota no candidato de determinado partido é manipulado por a grande mídia. Até porque a grande mídia 'tá cada vez mais desacreditada, haja visto os grandes jornais e revistas contabilizando as recentes levas de cancelamento de assinaturas a cada reportagem tendenciosa que ignora a inteligência de seus leitores. Assim como os eleitores de determinado candidato não são coniventes com a corrupção. Para mim a questão de fundo que subjaz a 'ses falsos argumentos são projetos diferentes para o país. Em 'se momento é necessário deixar clara a diferença enorme entre ser parcial e ser maniqueísta. Essa mídia que normalmente assume o discurso da imparcialidade, mesmo 'tando umbilicalmente ligada ao interesse de grupos 'pecíficos e se auto-proclama vestal da verdade verdadeira, isenta, objetiva e irrefutável seria mais honesta com o leitor, com o telespectador, se assumisse sua preferência, seus interesses, enfim, sua parcialidade. Teríamos pelo menos uma discussão mais transparente e ficaria a cargo desse leitor / telespectador decidir qual a ' sua verdade '. O momento é de posicionamento político e em 'sa truculência de torcidas organizadas -- inclusive por parte da imprensa ' imparcial ' -- talvez 'tejam os indícios mais claros, e tristes, da falta que faz uma formação cultural ampla, que nos permita entender e conviver com as diferenças políticas, ideológicas, 'téticas, étnicas e religiosas. * O título é um trecho da letra da música «Cultura e Civilização de Gilberto Gil gravada em 1969». Para ouvir clique aqui: http://www.gilbertogil.com.br/sec discografia player. Número de frases: 98 php? id = 53 & numero = 13 & acao = play Intrigado por saber de onde vinham as rimas de dois nomes de destaque do atual cenário da música autoral em Alagoas, fui conversar com Railton Sarmento, o Rato, 42 anos, flautista e vocalista da banda Xique Baratinho, pesquisador da cultura popular alagoana e designer, do outro lado do ringue, Vitor Pirralho, 24 anos, rapper e professor de literatura. Perguntei de onde surgiram suas rimas, de onde vinha tudo aquilo, e eis o que me contaram os dois: Railton «Rato» Sarmento -- Xique Baratinho Marcelo -- De onde vem a rima do Rato? Rato -- Quando eu era criança, por volta de 6 a 7 anos de idade, meu avô tinha uma Rural onde ele me levava com meus irmãos pra sua fazenda em Correntes, interior de Pernambuco. Meu avô 'cutava muito Jacinto Silva e Coronel Ludugero, que tinha uma música que era um dez pés de quadrão do martelo alagoano, baseado em perguntas e respostas de conhecimentos gerais entre dois interlocutores, e que dizia assim: Ô caroba seja «homi» / trate de 'quecer a fome / conte um, dois, três. Um, dois, três eu tô contando / minha fome tá passando / lá vai quatro, cinco, seis. (Mote) Você cai Se cair eu me alevanto / mas não vou sair do canto / nos dez pés quadrão lá vai. Me «arresponda» e me convença / quem inventou a imprensa / dou-lhe um, dois, três. Lhe «arrespondo» como «homi» / Gutemberg era seu nome / dou-lhe quatro, cinco, seis. E assim por diante, aquilo foi despertando meu interesse por a rima. Ali em Correntes eu ia às feiras com meu irmão mais novo e observávamos os emboladores de coco com suas rimas e seu improviso. Ficávamos reparando naquilo e em casa a gente reproduzia para a família batendo em qualquer coisa que simulasse um pandeiro, pra muito gosto da nossa avó, Elvira, que incentivava a cantoria e mostrava para as visitas. De lá pra cá vim pesquisando o assunto. O que mais me impressiona em 'sa modalidade dos emboladores é a capacidade de improviso, a velocidade de raciocínio pra embolar um mote que é tirado num papel de dentro de um saco, com qualquer tema inesperado, que pode ser a última notícia dada no telejornal há poucas horas atrás ou um fato histórico de séculos passados. Não importa, o embolador tem que fazer a rima, titubeia, mas não cai. E tudo isso obedecendo rima, métrica e oração. Digo que é isso que mais impressiona porque o verso em si, pensado, analisado e editado, é relativamente fácil de ser feito. Como disse «Alceu de Paiva Valença,» um verso vadio, feito de repente, retrata pra sempre o que viu no clarão», e é em 'se clarão que o repentista de viola ou o embolador de coco se agarra. Em a cabeça do rimador 'se clarão 'tá sempre aceso, sempre pulsando. O povo humilde e carente de educação do interior nordestino tem uma incrível capacidade de processar temas com absoluta profundidade poética, mesmo utilizando uma linguagem simples, com tanta beleza quanto qualquer erudito. -- Saindo da cantoria para a tocada. O pífano e a flauta? Como surgiram em 'se trajeto? R -- Em os anos setenta tinham muitas bandas de pífano tocando nos bairros de Maceió, eu tinha por volta de 10 anos e minha brincadeira era acompanhar as bandas pra ficar chupando limão bem na frente do pifeiro, pra ele salivar, babar mesmo e 'tragar a festa. Quem desdenha quer comprar né? Não podia ver um talo de mamão ou um pedaço de cano que começava a fazer os furos pra tentar tocar naquilo. Quando descobri que podia tirar um som, passei a 'tudar e pesquisar o instrumento. A flauta surgiu por culpa do senhor Ian Anderson, flautista e vocalista do Jethru Tull, a primeira vez que vi aquela banda fiquei impressionado, aliás, é uma influência inegável na música que fazemos com o Xique Baratinho. Outro sujeito que me influenciou muito foi o Zé da Flauta, que tocava com o Alceu. -- Qual a relação entre sua vivência com as rimas e outras manifestações da cultura popular alagoana e o trabalho do Xique Baratinho? R -- A banda tem 'se caráter mesmo, utilizar instrumentos universais da formação básica do rock: baixo, guitarra, bateria, e claro, a flauta, para reler as coisas daqui. A matéria prima das letras é a cultura popular e a linguagem do povo alagoano, eu e o Lelo Macena, baixista e vocalista, somos os responsáveis por 'se conteúdo na banda. Essa coisa da mistura, do novo com o tradicional, o local e o universal, é muito forte aqui na nossa cultura, em todos os sentidos. Se no Brasil todo mundo é vira-lata, Alagoas é o supra-sumo da vira-latisse. O Xique Baratinho surgiu num momento bacana em Maceió, no comecinho de 'sa década, quando todos os meninos nas faculdades andavam carregando um pandeiro embaixo do braço e havia uma verdadeira comoção na juventude da cidade por um retorno às raízes da cultura popular. Enfim, tá no sotaque, no recado e na língua. Quer ser universal? Cante sua terra. -- Com tantos anos vivendo de perto 'sas manifestações da cultura alagoana, você acumulou bastante material, faço então um convite público aqui, para que você disponibilize seu acervo, ou parte de ele, no banco de cultura do Overmundo. Podemos fazer isso? -- Claro, com o maior prazer, sentamos e selecionamos isso, tá na mão. -- Rato, uma rima, por favor, para os nossos leitores e colaboradores no Overmundo. -- Certo, lá vai ... Rimando eu faço negócio Dou, empresto, levo e vendo Corro, mato e compreendo E morrendo deixo meus " osso " Pra qualquer amigo nosso Qualquer coisa eu quebro um galho Surgi na gota do orvalho que a ponta da minha língua Não vai, nem volta, nem mingua Eu remendo, corto e retalho Disco do Xique Baratinho para baixar www.mp3magazine.com.br www.tramavirtual.com.br/xique baratinho Vitor Pirralho e Unidade Logo no começo da conversa, fiquei surpreso ao saber que Vitor, alagoano de nascimento, é pernambucano de formação, criado e crescido por Caruaru, Recife, Belo Jardim e Olinda desde criança, e voltou a viver em Maceió há apenas seis anos. Minha surpresa em relação a isso é por o fato do rapper dominar com tanta propriedade a linguagem da «maloqueiragem» de Maceió, das «grotas» às praias. Aliás, ele é porta-voz de 'sa linguagem popular e contemporânea das beiradas da capital alagoana. Marcelo -- Onde e quando surgiu o rap na sua história? As rimas? Seu envolvimento com 'se movimento? Em Recife ou em Maceió? Vitor -- Em Recife, comecei a gravar umas coisas em casa mesmo, no computador, com um microfone bem fuleiro e um programinha de hip hop, nada ao vivo, bem caseiro mesmo, laboratorial. Orbitava por ali naquele começo de movimento na cidade. Depois disso vim morar em Maceió em 2000, onde já existia um movimento nas periferias distantes como os bairros Dubeaux Leão e Salvador Lira, e foi aqui que comecei a produzir o que viria a ser o trabalho que faço hoje com a Unidade. M -- O movimento hip hop e a produção local de música rap ainda são recentes e tímidos por aqui. Quando se fala em cultura hip hop sempre me remete à cidade de São Paulo, onde o movimento é muito forte, e tem toda a 'tética da urbanidade e a linguagem da periferia paulistana. Mais ou menos como quando o movimento punk aportou no Brasil há uns 20 anos atrás e se arraigou ali no Abc paulista, as bandas eram formadas por operários e aquilo marcou a imagem da primeira geração desse tipo de música no país. Com o rap, Como você conseguiu traduzir 'sa linguagem para Maceió, parindo 'se rap praiano que você faz, com uma cara tão daqui? V -- Quando comecei a fazer rima em Recife o papo das rimas era Recife, quando vim para a Maceió passei a retratar o ambiente daqui, aliás, acho que é disso que se trata o rap, retratar a realidade a sua volta através da música ... -- Como um repórter da rima? -- Isso! Exatamente, como um repórter da rima. Quanto ao movimento em Maceió e no nordeste, acho que ainda é tímido mesmo, mas tende a crescer. Em o feriado de 7 de setembro vamos tocar no primeiro Encontro Nordestino de Hip Hop representando Alagoas. Acredito que o rap é o movimento de vanguarda do século XXI. M -- Seu trabalho vem angariando fãs em Maceió a cada apresentação ao vivo, me fale da sua banda, a Unidade. V -- Quando cheguei a Maceió comecei a cantar numa banda chamada Cogumelos, 'sa banda deu origem à Dona Maria, e eu fazia umas participações com eles ao vivo também, daí o Pedro Tup que tocava com eles me chamou pra montarmos a Unidade, ele ficou encarregado das batidas, chamamos o André Meira (baixo) e o Dudui (guitarra). Logo depois de montar a banda, participamos do projeto Alagoas em Cena do governo do 'tado, na categoria música, e ficamos entre os três primeiros colocados, garantimos com isso a gravação do nosso disco. Essa é a formação da banda desde o início, isso já faz 3 anos. M -- Quando sai o primeiro disco do Vitor Pirralho e Unidade? V -- O disco já 'tá gravado e o projeto gráfico finalizado, 'tá na etapa de prensagem pra ser lançado em breve. Este trabalho foi mixado no Rio de Janeiro com o Pedro Garcia, baterista dos Seletores de Freqüência, a banda do B Negão. M -- Pra terminar, satisfaça minha curiosidade inicial, de onde vêm suas rimas, quais suas influencias, o que levou você a fazer rap? V -- Em a verdade, minha relação com a palavra e a rima vem antes da literatura e poesia que da música, comecei a 'crever influenciado por isso e procuro fazer mais literatura do que música, que acredito ser o melhor suporte / canal para os meus versos. Essa relação com os livros me levou também a ser professor de literatura. Nosso trabalho se baseia muito no conceito de antropofagia de Oswald de Andrade, ou seja, devorar tudo, toda a cultura que nos cerca, descartar o que não serve e digerir o que é bom, transformando numa coisa nova. Nada nem ninguém é totalmente original. Influências musicais são as mais diversas, mas eu diria que Chico Buarque por parte de pai, Renato e seus Blue Caps e Reginaldo Rossi por parte de mãe. Letra de «Dialeto» (Vitor Pirralho e Unidade): Eita, fi da peste, é doidera Boba da peste, lomba da pêga Para a casa da peste, parêa Os fi do cranco não güenta a pressão, É uma pena Agora seja ... Não tenho pena de puto de merda De verme que rasteja Que mexe com as piveta, na festa E não respeita Quer ser sujeito homem Mas quando vê os homem Some, sai fora É, meu véio, bote sua mola Tão na sua cola E agora? Se arrombe, tome Quero ver o super-homem Eita porra, foi mal, não é 'se o teu nome Ratei, confundi, foi foda Só que me poquei, ficou na moda Né mermo o que tu quer ser, superman Bem, ratei e sem querer acertei Né mermo o que tu quer ser, superman Bem, então agora eu quero ver, vem Eita, eita Nem oito nem oitenta Nem oito nem oitenta, tem que ser na medida Tem uns cara que não güenta e enche logo a barriga É 'se os oitenta Não se contenta com a vida mansa Não pensa, se adianta É tudo garotão, só vive alterado Mas, mas menino ... É tudo uns coitado Quer arrumar encrenca? Vai-te embora sozinho Eu vou ficar trocando idéia, aqui, com Luizinho Eu vou ganhar bem mais Mensagem positiva, vibração de paz Mas rapaz, foi outra sensação Quando eu abri os olhos para a revelação Eu vi bem mais além Aí, cabeça, tu devia ver também Mas nem, nem ... Tu acha que tá certo Então fazer o quê? Deixa quieto Tua vida é um labafero Eu sei como é que é, tou 'perto Não me procure, nem me chame Não tou a fim de enxame Meu dialeto, sem vexame Sem nenhuma paieza, vai à vonts Eita, eita Número de frases: 150 Nem oito nem oitenta Lembro do quanto fiquei preocupado ao ver a exaltação que os 'tudantes de administração faziam ao livro: A Arte da Guerra do chinês Sun Tzu. Não sei se os leitores já tiveram oportunidade de se debruçar sobre 'te manual de 'tratégias militares, mas um dos pontos principais é: «o vencedor é aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas». Repentinamente, os empresários, revistas como Você S / A, começaram a cultuar de maneira homérica 'te livrinho do pobre general chinês SUN TZU. A leitura demasiada deste livro demonstra a quanto os empresários pensam 'tar numa guerra. E tratam os funcionários a partir deste princípio: «vencedor é aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas». Criou-se enfim um império do mal-estar nas empresas privadas. Qualquer bobagem é motivo para ser executado por o general (seu chefe, gerente, dono da empresa, amante do dono, 'posa do dono) e ser demitido de seu emprego. Em a Livraria Cultura, onde vemos uma administração baseada na «gestão democrática», as coisas não seguem diferente. Todos funcionários da Livraria Cultura acreditam que são Sun Tzus. Vivem como Sun Tzus, falam como Sun Tzus, vão ao banheiro como Sun Tzus. O empresário brasileiro também. Almoça como Sun Tzu, dorme como Sun Tzu, vive como Sun Tzu (inclusive perceba a quantidade de executivos matriculados em Akidô, Kendô, Meu-Cu-Dô, e por aí vai). É império do Sushi e do mal-estar. Todos querem ser Sun Tzu, todos querem comer Sushi, e todos, Tratam Os Funcionários Como Soldados Preparados Para Morrer Por Sua Causa: sua causa é o Seu dinheiro para comprar o Seu whiskey. Isto cria uma nova categoria de seres: o homo concursus. Se Louis Dummont falava de um Homo Hierarquicus, e Mircea Eliade num Homo Religiosus, eu propõe uma nova categoria: O Homo CONCURSUS. Todos os indivíduos que sabem ler repetem de maneira contundente: Você Está Estudando Para Concurso? Todas as pessoas do Brasil 'tão atualmente 'tudando para concurso público. Inclusive, nas grandes livrarias de Recife existe um setor 'pecial para «Concursos» -- a Saraiva inclusive criou letreiros coloridos para isto. Não devemos perder tempo lendo Fernando Pessoa, temos que ler apostilas para concurso. Não adianta ler a concepção de Oswaldo de Andrade sobre o Brasil, ou mesmo, Lima Barreto, a solução é clara: Concurso Público. Se Heidegger fala de um ser-para-a-morte, eu falo de um: ser-para-concurso. Todos nós vivemos imersos no terror e na 'pera de ser aprovado num concurso. Tudo isto porque existe uma mentalidade que o empresário deve necessariamente tratar o funcionário como Sun Tzu instruía como tratar os soldados. Os empresários pensam: é funcionário? Então devemos exigir de ele o que um ser humano não pode suportar. Demissões sem significado, propostas de trabalho absurdas, carga-horária de elefante indiano, humilhações no cotidiano, tudo isto vemos numa empresa privada. Em uma empresa privada, o chefe quer que sejamos: criativos, inteligentes, cultos, trabalhadores, 'forçados, responsáveis, éticos, não-éticos em alguns momentos, fiéis, infiéis também, transparente, falso em alguns momentos, atencioso, não tão atencioso em outros momentos. O empresário quer que o homeo seja Deus enquanto ele bebe Johnny Walker Red Label em sua residência. O empresário quer que o funcionário não saia nos sábados e fique até tarde trabalhando enquanto ele 'tá no motel com duas funcionárias que 'tão de folga. O empresário quer ser um general chinês igual aos moldes de Sun Tzu. O empresário 'tá louco e, conseqüentemente, os homens também. Vivemos para-o-concurso. A felicidade só ocorre após a aprovação num concurso público, antes disso, você 'tá na mão dos generais chineses que praticam a Arte da Guerra. Viva o Homo Concursos, viva a Mentalidade militar e Maluca do empresariado brasileiro. Número de frases: 46 Num momento em que as notícias nos jornais, quando a Educação é pauta, não são as melhores em sua grande maioria, há que se abrir parênteses para mostrar o que os meus olhos de educador 'tão vendo e os meu ouvidos têm a satisfação de 'cutar ... É assim que acompanho uma experiência de sucesso num colégio público, em Imbariê, 3º distrito de Duque de Caxias / RJ, orquestrada por o arte-educador Adilson Sarti, um professor dinâmico e comprometido com as mudanças que todos nós buscamos alcançar por a Educação e a Cultura. Como tudo começou ... Em 1998, o professor Adilson Sarti começou a lecionar Língua Portuguesa e Literatura no Colégio Estadual Dr. Alfredo Backer, e logo percebeu as dificuldades de acesso à cultura bem como o grande índice de violência na comunidade, agravado por o fantasma das drogas. Os alunos pareciam viver à margem da sociedade, discriminados e com baixa auto-'tima. Ao lado disso, percebeu no contato com os alunos, dons, talentos e muito potencial para serem trabalhados, incentivados e, acima de tudo, canalizados em favor da formação cultural daquela comunidade e do próprio despertar da cidadania. O professor pensou, inicialmente, em realizar uma «semana literária» e, logo depois, não satisfeito, ampliou o projeto abrangendo toda forma de expressão artística: algo que trouxesse alegria, prazer, emoções, risos e movimento, muito movimento. Uma verdadeira efervescência cultural ao final do 1º semestre 'colar, período em que os alunos e professores já 'tão sonhando com o justo descanso de meio de ano ... O nascimento Em 1999, nasceu a I Oficina De Artes. Com um pouco de receio e ansiedade por fazer um evento tão grande, o professor Adilson Sarti começou a divulgar a idéia entre alunos e outros professores, numa grande ação interdisciplinar. Logo as sugestões foram surgindo e o trabalho foi tomando corpo: livros precisavam ser lidos e adaptados para o teatro, músicas foram sendo selecionadas e viraram coreografias variadas, grupos de dança surgiram, bandas de músicas foram formadas, alunos criaram seus próprios textos, cenários e figurinos. Os ensaios modificaram o ritmo da 'cola. Professores, alunos e a própria comunidade respiravam arte, poesia e música, quase o tempo todo. O trabalho foi árduo, porém recompensado com o sucesso que superou as expectativas do Colégio e do próprio professor. A cada ano, um novo fruto colhido Atualmente, o Colégio Estadual Dr. Alfredo Backer comemora os resultados de tamanha ousadia em sua IX Oficina de Artes. E como a 'trada percorrida já é relativamente extensa, o colégio consegue outro grande feito: trazer para o ambiente 'colar ex-alunos que se organizam em grupos para participações 'peciais. Ex-alunos e comunidade são sempre recebidos com entusiasmo e alegria. Além dos próprios muros Com a cabeça cheia de planos e com a preocupação em fazer da Oficina sempre um grande 'petáculo, o professor Adilson Sarti segue na luta por uma educação que aposta no protagonismo juvenil, onde o aluno é o sujeito transformador da sociedade em que vive. Segundo o professor, o trabalho dos alunos ganha nova dimensão: sai para visitar outras 'colas e também municípios, sempre a convite de pessoas que prestigiam o evento. Além disso, o colégio 'tá formando um público que já reconhece o valor transformador da cultura e aprecia arte. Consciência Crítica A preocupação com novas vivências e com a formação de uma consciência crítica também fazem parte do projeto. O idealizador afirma que os alunos, acompanhados por os professores, visitam, na medida do possível -- pois falta condução, dinheiro e apoio -- museus, teatros e cinemas. É com orgulho que o Colégio Dr. Alfredo Backer proporciona, através desse projeto, acréscimos à bagagem cultural de seus alunos. Quem conhece o trabalho da Oficina de Artes sabe que 'ta conquista é possível. Com os olhos brilhantes de quem acredita naquilo que faz, o professor Adilson Sarti afirma com convicção: E nada mais preciso do que a Arte-Educa ção para fazer isso acontecer. Em o Olho do Furacão O mais interessante ainda é perceber que o professor Adilson arregaça as mangas e não fica no comando de tudo apenas nos bastidores. Em as apresentações que envolvem, de entre outras manifestações, Mostras de Poesias, Teatro e Musicais, ele participa ativamente com trajes, maquiagem e, principalmente, com a emoção que toda atividade artítica requer. Talvez por isso ele consiga tanto êxito no Projeto que realiza, contagiando de forma plena e envolvendo toda a comunidade. A IX Oficina de Artes acontece do dia 02 ao dia 06 de julho deste ano. Iniciando a sua programação diária às 9h e 30 min. A ficção científica (FC) no Brasil 'tá ainda relegada a uma condição de subgênero da literatura. Número de frases: 40 A ficção científica (FC) no Brasil 'tá ainda relegada a uma condição de subgênero da literatura. Grandes editoras, como a Companhia das Letras, deixam claro a quem queira ver que não aceitam submissões de originais de FC para avaliação. No entanto, é o gênero literário que, reconhecidamente, mais contribuiu para o avanço da humanidade. Muitas das idéias surgidas em ficção científica, tanto fantásticas (como foguetes e robôs) como usuais (como os celulares, computadores pessoais e câmeras digitais) e até sociais (como a criação das Nações Unidas), foram primeiramente imaginadas por autores de FC. O mundo já se curva a alguns de seus grandes pilares, os mais notórios sendo Jules Verne (que teve seu centenário em 2005), Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Em o Brasil, no entanto, tem inclusive quem defenda que se vive uma 'pécie de Idade das Trevas do gênero. O assunto ainda é pouco discutido, mesmo com a publicação no ano passado, por a Devir, do livro Ficção Científica Brasileira -- Mitos culturas e nacionalidade no País do Futuro, de M. Elizabeth Ginway -- obra feita com os auspícios da Universidade da Flórida e publicada primeiro lá fora (onde há mesmo interesse em se 'tudar o tema seriamente como literatura). Mas, com o surgimento da internet (também previsto por a FC), é notório que o contato entre interessados por o tema fosse facilitado e aumentasse muito, culminando em diversas novas frentes trabalhando a ficção científica brasileira (FCB), o que vai de encontro à visão tacanha de que não há luz em 'te túnel ficcional. O principal destes projetos novos é o Intempol, criado no fim dos anos 90 por Octavio Aragão e que se tornou uma 'pécie de projeto aberto, no qual qualquer interessado real em contribuir para a ampliação deste universo ficcional é muito bem-vindo. Intempol, como parece claro, é um trocadilho com a sigla Interpol. É uma Interpol temporal. Porém, ela é brasileira e, com 'ta possibilidade aberta, centenas de histórias já foram criadas desde então. Estreou em livros no ano 2000, numa coletânea de contos de editora Ano Luz. Depois, invadiu de vez a net com um site e, recentemente, chegou aos quadrinhos impressos com a HQ The Long Yesterday, uma homenagem clara a Moebius e Raymond Chandler produzida por a dupla Osmarco Valadão e Manoel Magalhães (a graphic novel lhes rendeu uma nova oportunidade, na revista Wizard, 'pecializada em quadrinhos). E a invasão não pára por aí, mostrando que talvez o fim do túnel 'teja bem em frente, apenas algumas pessoas é que 'tejam olhando para o lado errado. Para falar do projeto Intempol e de FC, o Overmundo entrevistou Octavio Aragão, o criador deste universo. Quando surgiu o Intempol? Porque sei que o livro é de 2000, mas o projeto, em si, surgiu quando? O projeto é de 2000, mas a criação da Intempol aconteceu em 1998, no conto Eu matei Paolo Rossi, publicado na antologia Outras Copas, Outros Mundos, da editora Ano Luz. Foi também minha 'tréia como autor profissional. Como surgiu o convite para publicar uma história do universo Intempol na revista Wizard (atual Wizmania)? Foi simples. O Sidney Gusman (à época, editor da Wizard), depois de ler The Long Yesterday, contactou o pessoal da Comic Store, que publicou a graphic novel, e «encomendou» uma HQ de oito páginas no mesmo cenário. Isso foi ótimo para o Osmarco e para o Manoel porque comprovou a competência, a velocidade do trabalho de eles. Para mim, foi um atestado de que a marca INTEMPOL tem um «sei-lá-o-quê», uma certo» fator chiclete " que gruda na cabeça das pessoas. As pessoas têm comentado com ti ou com os autores (fora amigos, pai, mãe, cachorro ...) sobre a HQ? Sim. Algumas pessoas, sim. Principalmente por a internet. Até apareceram convites para palestras e coisas do gênero, mas creio que os mais contactados são Osmarco e Manoel, por razões óbvias. Qual o retorno conseguido com The Long Yesterday? The Long Yesterday surgiu num momento em que a pequena, mas opiniática, comunidade de Ficção Científica brasileira começava a desacreditar do potencial do Projeto Intempol. Rolava um papo que eu não tinha conseguido chegar a lugar nenhum, que havia prometido mundos e fundos e cumprido muito pouco, 'sas coisas. Saiu até um artigo num fanzine que dizia mais ou menos assim: «agora que 'tá provado que a FC brasileira de cunho mais comercial fracassou ...». O alvo era claramente o Projeto Intempol, que nunca 'condeu suas intenções de migração midiática, de sedução de outras áreas além da literária, onde nasceu em 2000. Pois bem, um mês depois desse artigo, TLY veio a público, comprovando que o Projeto não apenas tinha o potencial que eu imaginava, como também lançando as carreiras de Osmarco e Manoel como quadrinistas, apresentando-os a um público consumidor muito mais amplo. É engraçado o Manoel, por exemplo, que tem mais de 40 anos, ser considerado uma desenhista «revelação». :-) Como surgiu a parceria entre Comic Store, uma editora do interior paulista e 'treante em HQ, e o Intempol? Começou com uma coisa que não tem nada a ver com HQs, mas com a versão em RPG do Universo Intempol. Meu contrato com a Devir 'tava prester a vencer e não havia o menor sinal de que eles iriam realmente lançar o suplemento GURPS-Intempol, como havia sido acordado em 2001. Resolvi que não dava pra ficar parado e, em conversa com amigos, fui indicado ao pessoal da Comic Store. Eles adoraram o conceito, mas como a parte técnica do RPG teria de ser trocada para o sistema Opera, resolvemos começar a trabalhar a marca Intempol por outro ângulo. Como Osmarco e Manoel já vinham trabalhando em TLY há meses, achei que seria melhor lançar logo a HQ. Coloquei todos em contato, e em três semanas, o projeto TLY foi finalizado a contento. Ou seja, inicialmente seria o RPG, mas acabou virando para HQ. Agora, acho que foi para o melhor. Ainda há o projeto do RPG? Claro. Ele ainda vai resurgir do limbo. Aguarde ... E o próximo álbum, 'tá previsto para quando? Bom, o álbum seguinte seria a versão de Um Museu de Velhas Novidades, baseado num conto de minha autoria, mas a Comic Store vetou o traço combinado dos artistas gráficos Bernard e Sandro. Foi uma discussão exaustiva que eu não gostaria de repetir e que resultou no engavetamento do projeto. Você pode dar uma olhada no site para conferir o resultado de algumas páginas e tirar suas próprias conclusões. No geral, creio que, se houver uma nova HQ por a Comic Store, o mais provável seria Mau Yee, mais uma aventura de Osmarco e Manoel. Antes dos quadrinhos, já havia sido lançado um livro e um site. O que fica de 'tas experiências? Não apenas um livro e o site: houve o romance A Revanche da Ampulheta, de Fábio Fernandes, lançado em 2001 por a editora Ano Luz e ganhador do Prêmio Argos de melhor lançamento do gênero, e a Webtira A Mortífera Maldição da Múmia, que é, segundo o 'pecialista Edgar Franco, a única experiência brasileira em HQs para a Internet que utiliza até o limite a técnica narrativa da «tela infinita», com o leitor seguindo a narrativa ao desenrolar a scroll bar na horizontal ou na vertical. Porém, a 'pinha dorsal do projeto são os contos literários, de onde sai material para todas 'sas outras mídias. Enquanto houver autores criativos no time da Intempol, a máquina do tempo continuará funcionando. Qual a diversidade temática dos contos? Em o início, as histórias eram bastante diferentes, com narrativas em realidades alternativas, outros universos e todas as variáveis possíveis e imagináveis de deslocamento temporal. Tivemos contos com clima de realidade urbana brasileira, meus preferidos, e cenários hard, mais filosóficos. Depois, por volta de 2002, houve um certo desgaste natural, com uma tendência a se repetir cacoetes que começaram a me irritar, como os dopplegangers (duplos), os encontros com versões alternativas ou a redenção de amores perdidos. Tudo isso era muito clichê e fui forçado a dar uma chamada sutil nos autores, pedindo um pouquinho mais de variedade. Agora temos sangue novo e percebo um fôlego diferente nos contos presentes no site, com um teor mais engraçado, mais solto, o que é bom. E quais os temas e personagens mais recorrentes? Os personagens preferidos do pessoal, que acabaram se tornando emblemáticos da série, são os agentes Macedo e Sobrinho, criados por Jorge Nunes no conto O Furacão Marylin, publicado na antologia Intempol, em 2000. Os dois são palhaços, burros, totalmente errados e acabaram por dar o «tom» das duplas «padrão» de agentes da Intempol, além de serem personagens com os quais todo mundo gosta de brincar. Já perdi a conta de quantas vezes os dois já morreram e foram ressuscitados. Quanto aos temas, bom, já falei acima que não gosto muito de 'sa obsessão por dopplegangers, mas eles são mesmo recorrentes. Ô, praga difícil de erradicar! Qual a próxima mídia a ser atacada por os agentes temporais? Mas rapaz, são tantas opções ... acabamos de ser classificados e aprovados por o site JogosBr como uma das melhores propostas para games interativos do ano. Como ali existe apoio do MinC, vamos ver se começamos finalmente a 'truturar o IntemGame. Além disso, fala-se em animações baseadas em TLY. Como você vê a dimensão da ficção científica no país? Aí é que 'tá. Existem dois pontos de vista: o pessoal mais pessimista, que julga que 'tamos vivenciando uma época medíocre porque nos afastamos de nossas raízes supostamente «sérias», quando a FC brasileira produzida por Jerônimo Monteiro e por o editor Gumercindo Rocha Dórea tinha um tipo de» obrigação social», um ethos direcionado e comprometido com uma determinada ética, e o povo mais recente, que desconhece muito do que já foi feito no gênero dentro do Brasil, mas que é antenado com a produção contemporânea internacional, todos os novos subgêneros, que enxerga a FC não como um gueto, mas como uma parte de um todo maior, multimidiático, que engloba a televisão, o cinema e, principalmente, os games. O primeiro grupo acusa o segundo de falta de qualidade literária, o que é verdade em muitos casos, e o segundo grupo acredita que o primeiro usa antolhos, é pouco afeito a mudanças e, de maneira paradoxal, é conservador dentro de um gênero que deveria primar por a busca incessante do novo. Ou seja, temos uma crescente onda de sites na internet voltados à FC, com gente 'crevendo aos montes (e muitas vezes mal), coabitado com fanzines xerocados de distribuição precária, mas com pretensões literárias. O ponto final é que, como diz meu amigo Jorge Nunes, evoluir é inevitável e, daqui a pouco, o pessoal que 'creve mal vai se desenvolver e chegar a um patamar digno. Já os que optarem por formatos e públicos reduzidos, bom, logo compartilhará o destino dos dinossauros. Mas sempre há um terceiro caminho: se os novos se dispuserem a ouvir os mais antigos e 'ses resolverem descer da torre de marfim, talvez a história tenha um final feliz. Em o ambiente da Intempol temos gente mais experiente, como Gerson Lodi-Ribeiro e Carlos Orsi Martinho, lado a lado com talentosos 'treantes como Alexandre Mandarino e Ernesto Nakamura. Todo mundo respeita a todo mundo, eis a regra básica. Em abril, saiu uma grande matéria 'pecial no caderno Prosa e Verso, do Globo, acerca de ficção científica na literatura. Mas me pareceu que os nomes ouvidos foram os de sempre e as opiniões, também as de sempre, sobre o fato da FC brasileira ser um gueto e não um nicho. Você leu a matéria? Qual a sua opinião sobre isso? Eu li e tive a mesma impressão que você. Conheço a jornalista que capitaneou a matéria, a Rachel Bertol, mas ela parece que optou por contactar apenas aquele grupo que acredita que 'tamos num tipo de «Idade das Trevas». Isso, inclusive, é confortável para o mainstream literário porque o desobriga de pesquisar. As grandes editoras podem continuar fingindo que não existe um movimento intenso de FC brasileira, já que um ou dois «luminares» repetem exaustivamente que são as exceções à regra, os oásis no deserto. O Jorge Luis Calife acredita sinceramente que é, senão o único, o mais importante de dois ou três autores que compõem o gênero n país. É um direito de ele, claro, mas até quando vamos reler aquele papo de ele ter sido o «brasileiro que inspirou o 2010 do Clarke»? É só por causa disso que ele é importante? Nunca se fala sobre a relevância da obra de ele como um todo. Por que será? No entanto, criadores como Gérson Lodi-Ribeiro, já publicados e premiados em Portugal (e que 'tá capitaneando um mega-projeto de game de FC hard, o TaikoDom), Fábio Fernandes, que tem uma extensa carreira jornalística e até no teatro, Max Mallmann, um dos raros que é publicado por uma grande, a Rocco, e concorreu ao Jabuti, ou Ivanir Callado, que dispensa comentários, podem até ser eventualmente citados em 'sas matérias, mas sequer são contactados. Nem prcisaria ir muito longe. O Bráulio Tavares, que é uma figura relativamente fácil de se encontrar, não 'tava lá. Ou André Carneiro, que tem muito mais qualidade literária e crítica que qualquer um dos entrevistados na matéria, sem falar no tempo de 'trada. E o Mallmann nunca, que eu saiba, foi convidado a dar um testemunho sobre a situação do gênero no Brasil. Quais as suas referências? Você possui referenciai brasileiros? Tenho quatro referências básicas e outras tantas a posteriori: 1) Monteiro Lobato; 2) Poe; 3) Ray Bradbury e 4) Stephen King. Mas 'ses foram autores de infância e adolescência. Hoje busco textos de Borges, Eco, Saramago, tramas de Robert Charles Wilson, China Miéville e Robert J. Sawyer, Philip José Farmer, e leio muita teoria, principalmente Fredric Jameson, David Harvey e Mikhail Bakhtin. Claro que tenho sempre tempo para os clásicos e há meses me encantei com Flaubert. Dentro do gênero, meus autores de FCB preferidos (e referentes) são Fábio Fernandes, Bráulio Tavares, Max Mallmann, Ivanir Callado, Carlos Orsi e Gérson Lodi. De Portugal, fecho com João Barreiros, Luis Filipe Silva e Jorge Candeias, que até já 'creveu um conto inédito para a Intempol. Ainda não li nada do decano da FC lusa, António de Macedo, mas pretendo corrigir a falta. Por que o Intempol é um projeto aberto? Pois é raro um criador abrir mão do desenvolvimento uno de personagens no país. Pois é, né? Eu não acredito em 'sa conversa de bloco do eu sozinho. Gosto muito de ver resultados imprevistos oriundos de conceitos formulados originalmente por outra pessoa. Sempre quis fazer algo assim na vida, desde a Escola de Belas Artes e de meu passado roquenrôu (nada mais «projeto aberto» que o processo de criação e composição numa banda). As coisas nunca funcionavam porque os egos entravam em confronto logo de saída. Com a Intempol não é assim, dá pra todo mundo conviver numa boa, respeitando as individualidades. É a Távola Redonda, a Liga da Justiça.;) Como participar do Intempol? Entre em contato com mim, apresente um conto, um projeto. Se for legal, a gente conversa. Fácil assim. Número de frases: 135 Se você um dia subir o Morro do Querosene, no bairro do Butantã, em São Paulo, numa das três festas anuais de Bumba-Meu-Boi organizadas por a comunidade maranhense que vive lá, vai entender imediatamente porque São Paulo é a única cidade brasileira que pode ser chamada de cosmopolita -- no sentido forte do termo. Para grande parte dos paulistanos, o Maranhão pode mesmo ser um outro país. Uma das figuras centrais de 'sa comunidade é o cantor e compositor Tião Carvalho, nascido em Cururupu (" MA "), «paulistano» desde 1980. Tião Carvalho é o artista que melhor poderia homenagear João do Vale por o seu aniversário de 10 anos de morte e também por sua existência como compositor, hoje quase 'quecida por o público médio. Tião reencarna João por linhagem; é o que se ouve no recém-lançado Tião Canta João (Por-do-som / Atração). Há 25 anos, por influência de Fagner, Chico Buarque e Fernando Faro, foi produzido o disco João do Vale (1981/ CBS, relançado depois na série Columbia Raridades). Nem Tom Jobim, do alto de sua maestria, poderia ter interpretado João do Vale com a mesma propriedade que o faz agora Tião Carvalho. A razão é que se Tom pôde ser capaz de 'tetizar os versos de Pé do Lageiro (João do Vale, José Cândido e Paulo Bangu) de um modo brilhante: «Ah! eu vou pegar a carabina / eu vou calçado de botina / para a cobra não me morder que não é de hoje nem é de ontem / que o bicho vem no terreiro / para a mode me envergonhar / Mas hoje em dia / quem pode ter na certeza / nem que peça a baronesa / que hoje eu vou lhe matar / é no pé do lageiro / aonde a onça mora /» Tião pode cantar de forma visceral: «Por isso levanta nêgo / olha o feitor que aí vem / nós já não somos cativos / se ele bater na gente / a gente bate também / Meu samba é a voz do povo / se alguém gostou eu posso cantar de novo» (João do Vale). É do sofrer e não da arte musical em si que se trata aqui, para o bem ou para o mal. Tião sabe bem o que é construir uma vida nordestina em São Paulo. Artista múltiplo de timbre agreste, Tião fez um disco tão definitivo quanto aquele de 1981, que posicionara João do Vale no seu lugar devido, entre Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Tom Jobim, Nara Leão, Gonzaguinha e Alceu Valença. Em o lançamento realizado no SESC Pompéia semana passada, no ponto alto do show, a canção Carcará (João do Vale e José Cândido) foi executada com a instrumentação de Boi-Bumbá, tal como no disco. Difícil não considerar 'sa gravação restauradora em relação às interpretações históricas de Maria Bethânia e Chico Buarque. É sua melhor forma, em qualquer tempo, depois de passado o furor político que ela continha originalmente. Por coincidência, o disco de Tião foi lançado na mesma semana em que o SESC São Paulo lançou a Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade em 6 CDs e um libreto com artigos sobre o projeto. Material extraordinário de coleta realizado em 1938 no Pará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais, os dois projetos têm grande proximidade, colocados hoje sob o mesmo foco. Quando Mário de Andrade organizou a expedição de 38, seu temor era que a cultura popular desaparecesse diante das novas mídias que então surgiam, o disco principalmente. De aí a necessidade de preservar aquelas músicas, curiosamente, usando as mesmas mídias de gravação que as ameaçavam, como pensava Mário àquela altura. Parece quase irônico que tantas décadas depois, em meio a discussões a respeito do fim da canção, da «geração MP3» -- que não compra discos porque os acham inúteis --, a obra de João do Vale seja revista com tanta vitalidade justo no centro econômico do país, no mesmo lugar de onde Mário de Andrade imaginava ser possível resguardar a arte do povo dentro de uma 'trutura teórica e protegida por forte ímpeto nacionalista. Sabemos hoje que isso é impossível; a música popular do Brasil é fonte inesgotável de civilidade, mas também de liberdade. Ainda hoje, em meio às nossas contradições insolúveis, é do seio do povo que nasce um dos únicos focos de afirmação de nosso país: sua música. Como afirma Tião no encarte: «Cantar ou contar João do Vale, nos dá oportunidade de entrar em contato com símbolos, arquétipos e mitos da cultura popular brasileira». É isso que Tião encarna através da obra de João do Vale: uma chance a mais de revigoramento para um país à deriva. Embora não tenha sido gravada no disco-homenagem feito agora por Tião Carvalho, a canção abaixo é a melhor «autobiografia» feita por João do Vale: Minha história (João do Vale) Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam 'tudar a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar e quando era de noitinha, a meninada ia brincar vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar: -- O professor raiou com mim, porque eu não quis 'tudar -- O professor raiou com mim, porque eu não quis 'tudar hoje todo são «doutô», eu continuo joão ninguém mas quem nasce para a pataca, nunca pode ser vintém ver meus amigos «doutô», basta pra me sentir bem ver meus amigos «doutô», basta pra me sentir bem mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz, ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis e dizem: -- João foi meu colega, como eu me sinto feliz e dizem: -- João foi meu colega, como eu me sinto feliz mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão, que também foram meus colegas, e continuam no sertão não puderam 'tudar, e nem sabem fazer baião. Número de frases: 54 Como dirigir bem (Leia E Aprenda!). (Autor: Antonio Brás Constante) Dirigir parece fácil. É basicamente conseguir fazer com que o veículo em que 'tamos sentados no papel de motoristas se mova para frente (ou para trás em eventuais ocasiões), sem bater em nada. Mas uma coisa a vida nos ensina: não confie em nada que pareça fácil. Caso contrário à frase «se a 'mola é demais o santo desconfia» não teria o menor significado prático. Tudo começa a se complicar quando entendemos que para sairmos do lugar com o tal veículo, devemos dominar três pedais (freio, embreagem e acelerador), com apenas «dois pés». Percebemos que para lidarmos com 'ses pedais não basta apenas pisarmos em eles, mas temos de fazer isto em seqüências alternadas, coordenadas e de forma impensada, pois se pensarmos muito não dará tempo de evitar o acidente no qual 'távamos justamente tentando achar um meio de impedir. Contudo, os pedais são apenas parte da complexa cadeia de instrumentos do veículo que devemos manusear. Outro complicador é a caixa de câmbio. Temos que saber qual marcha usar em cada situação, não 'quecendo nunca de utilizar os pedais de forma sincronizada com a referida marcha para que a mesma funcione. Passamos de seres humanos a malabaristas de mãos e pés. Utilizando nossos membros em equipe na 'perança de que eles saibam o que 'tão fazendo. Mas não é só isso. Devemos ter senso de direita e de 'querda, e para provar aos demais motoristas que possuímos 'te domínio, precisamos acionar o pisca-pisca na direção em que gostaríamos de virar o carro. Com um detalhe: se vamos para direita, a alavanca do pisca não vai para direita e sim para cima, e se quisermos ir para 'querda devemos move-la para baixo. Necessitamos saber diferenciar a dita alavanca de outras que ficam 'palhadas ao redor do volante, como por exemplo, a alavanca do limpador de pára-brisa. Salvo se o limpador for acionado por botões, ou outro dispositivo qualquer (Calma, se você é um aspirante a motorista não desista ainda, pois tudo tende a piorar). A o se pensar em pegar à 'trada, manipulando três pedais com dois pés, dominando as tais alavancas, os botões e demais dispositivos do painel e sabendo os caminhos tortuosos que fazem as marchas serem engatadas, a pessoa pode então se concentrar em dirigir. Isto consiste simplesmente em ir pisando no acelerador, enquanto se olha por o retrovisor lateral 'querdo, lateral direito, retrovisor traseiro, cuidando do marcador de velocidade, e ... Meu Deus! Olha para frente! Enfim, para que possamos ser bons motoristas, devemos ter em mente que mesmo que não sejamos alienígenas de três pernas, quatro braços, e com olhos atrás da nuca, o maior complicador para conseguirmos ir bem no trânsito não é o pedal, a alavanca, o câmbio, ou outro mecanismo qualquer do carro. A principal peça que causa problemas e que deve ser bem verificada antes de alguém assumir o volante é a sua própria cabeça. Pois é ali que reside o senso de prudência, a consciência, o respeito, a atenção e a educação entre outros tantos fatores importantíssimos para se dirigir bem. Sem isso, qualquer passeio de domingo pode transformar-se numa tragédia, muitas vezes fatal, guiando o pretenso motorista a um caminho sem volta. Sites: www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc) Atenção: Divulgue 'te texto para seus amigos. ( Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos). Número de frases: 32 De quem será a culpa? Serão os indivíduos condicionados à cultura de massa? Quinta-feira. 23h. A uma quadra de meu apartamento 'tá a 'tação de trem que me levará do Abc à noite paulistana. Lá, meus ouvidos terão a alegria de prestigiar a seleção de DJ Nuts: grooves finos das décadas passadas, improvisos do jazz de propriedade de alguns poucos colecionadores do mundo e uma gama de suingues brazucas de tirar o fIolego. Ah! As pistas que me aguardem, Penso que o único problema será encarar a 'pera do metrô abrir, às 4h40 da manhã, hora em que poderei partir para meu lar. Quem sabe um dia eu possa investir num simpático fusquinha, isso claro, quando terminar de pagar as prestações de meu fogão, geladeira e máquina de lavar. É, tenho bons meses para começar a planejar isso. Passado o momento da «'quenta» num bote da 'quina onde a cerveja é significativamente mais barata que a do bar de meu destino, dou uma última olhada em meu 'pelho de bolsa para comprovar se minhas madeixas 'tão no seu devido lugar. Tudo parece ótimo e a noite, promissora. Só saio para a balada noturna quando tenho certeza de que o som transcenderá os limites, pois claro, a festa só pode ser boa se a música contribuir para isso. Em a recepção uma mulher faz a revista, rigorosa. Quase pergunto a ela se o procedimento da «apalpação» não teria sido minucioso demais. Afinal, eu não teria uma arma, faca ou qualquer substância lisérgica tão bem guardada dentro de meu sutiã. Sem brigas: 'ta noite quem dará o som será Dj Nuts! Entro na casa e a música não me pareceu ser a que eu realmente 'perava. Batidas moderninhas de artistas de sucesso efêmero que com o passar da 'fera de euforia certamente cairão no anonimato. Mas como? Não 'tava confundindo sua fisionomia. Era ele quem já comandava as pistas. Vou até sua direção. Digo que 'tava errado. Que sabia fazer melhor que aquilo. Mas ... e os álbuns finos, os grandes arranjos instrumentais das décadas de 60 e 70?-- perguntei àquele grande colecionador e pesquisador de LP's antigos, Você não vai me ouvir tocando isso. Faço quatro festas por mês, ninguém quer ouvir o que você quer ouvir. É isso que as pessoas querem ouvir.-- me respondeu referindo-se ao próximo norte-americano (da erroneamente chamada black music hoje) que colocaria logo depois de um scratche muito bem feito, por sinal. Queria ir embora mas, ainda me restavam 3 horas de 'pera até o metrô abrir suas portas para o primeiro grupo proletariado do dia. Não conformada, no fim da festa voltei a Nuts. Mas te procuro há muito tempo. Certa vez te vi no MadLib no Sesc Pompéia ... Você foi tudo!-- disse. Não vai me ouvir tocando aquilo -- respondeu Nuts já irritado, tentando ouvir a mim, a música que 'tava rolando e a que daria entrada em seu fone de ouvido. As respostas de Nuts eram frias, seu olhar era duro. Suas palavras me deixaram pensativa por alguns dias. Como artistas de tanto conceito não têm 'paço para expor um lado da arte que realmente acreditam? Falta de público " Até quando a arte terá que se render ao gosto e à indústria cultural que infelizmente dominam o mercado com produto altamente duvidoso? Muitas perguntas vinham à minha mente. Devo confessar que o DJ foi a grande inspiração para que eu desse vida a 'sa matéria. Fazer arte em meio à indústria cultural brasileira que privilegia a poucos e prima por quantidade e não qualidade é matéria das mais difíceis. Não se deixar cair no anonimato quando se pretende produzir cultura para um nicho pouco expressivo, mas de importância relevante, é mais difícil ainda. Estudos da coordenadora da área de difusão do Cem (Centro de Estudos da Metrópole) e doutora em Ação Cultural da ECA/USP, Isaura Botelho, contataram que " hoje parece claro que investir na democratização cultural não é induzir a totalidade da população a fazer determinadas coisas, mas sim oferecer a todos a possibilidade de 'colher entre gostar ou não de algumas de elas. Isto implica colocar os meios à disposição, combater as dificuldades e impossibilidades de acesso à produção menos «vendável» e o excesso de oferta da produção que segue as leis do mercado, procurando o que seria uma efetiva ' democracia cultural ` -- algo distinto da ' democratização ' unidirecional que até aqui orienta as políticas». Segundo 'tudos do sociólogo Bernard Lahire, com relação a todos os indivíduos, em todos os grupos sociais, a fronteira entre legitimidade cultural (a chamada «alta cultura ") e ilegitimidade cultural (a» baixa cultura», o " simples divertimento ") não separa simplesmente as classes sociais, mas distingue diferentes práticas e preferências culturais próprias a cada indivíduo. A isso ele chama de dissonâncias -- vistas muitas vezes como «ruídos» -- no comportamento cultural das pessoas. Tais dissonâncias seriam mais prováveis nas classes médias e superiores do que nas populares, em todos os níveis de 'colaridade (mesmo se muito mais prováveis naqueles que têm pelo menos nível médio do que entre os menos 'colarizados) e em todas as faixas etárias (mesmo que com menor probabilidade quanto mais se avança na idade). Ou seja, em nome da quebra de uma rotina 'tressante, pessoas com maior nível de renda e de 'colaridade se permitem práticas que consideram culturalmente pouco legítimas. Luiz Galvão, publicitário e guitarrista, acredita não ser possível associar o problema da cultura de massa com os indivíduos. «A modernidade urge por o desprendimento da arte elitista. Nada deveria ser pago para se obter acesso à cultura. Não se pode culpar um cidadão de não freqüentar um teatro se para fazê-lo ele precisa desembolsar a bagatela de 50, 70, 100 reais». Desde as primeiras pesquisas realizadas sobre o uso do tempo livre e as práticas culturais na região Metropolitana de São Paulo, os resultados apontaram a desigualdade de acesso à cultura tradicional e o peso respectivo das variáveis sociodemográficas -- nível de educação, profissão e localização domiciliar. Trabalhos posteriores revelaram que o acesso à cultura é também fortemente condicionado por as transmissões e heranças familiares, ou seja, por a bagagem cultural do ambiente familiar. Pedro Rocha, filho do cineasta Glauber Rocha, conhecido na década de 60 como precursor do cinema novo, considera-se um artista marginal. «A arte da inovação em si é marginal, porque é feita para um público elitista, ou para artistas ou, críticos. O artista que quer dar vazão a fórmulas pretensiosas se isola no próprio ciclo da arte e mostra seu trabalho em locais mais segmentados. A culpa não é do «tchan» e nem mesmo dos famosos Cinemark's, que levam filmes às telas do chamado circuito da arte da grande massa. O público pode consumir de tudo, sendo o preconceito do produtor, ou distribuidor, que determina o que o público 'tá consumindo com a repetição das mesmas fórmulas de consumo. As distribuidoras devem levar novas propostas, dar 'paço aos artistas e oportunidade para que o grande público consiga absorver a arte que não repita os grandes sucessos», justifica o cineasta, que se prepara para o lançamento de seu mais novo experimento, Kinema. Di Melo é pernambucano e deixou marcada a década de 60, ao lado de Hermeto Pascoal e outros bambas da música, um álbum de enorme relevância que leva seu nome e composições próprias com a qualidade de arranjos indiscutíveis. Hoje, encontrei-o numa choperia da Vila Olímpia. Sozinho com seu violão, o artista toca uma vez por semana, hits marcados de Djavan e outros populares da MPB. «Não toco mais as músicas que componho por falta de espaço e pessoas que queiram me produzir. A realidade de hoje é diferente para um artista mas, não me culpo por isso. O público é outro e querer continuar ganhando a vida fazendo arte não é tarefa das mais simples». Pergunto-lhe então o que o leva a continuar na labuta. Ele responde: -- Ainda prefiro ocupar a noite fazendo o público cantar, que acordar cedo de segunda à sexta-feira para ainda agüentar «encheção de saco» de alguém que julga ser melhor que eu por ocupar um cargo melhor dentro de uma empresa. Número de frases: 74 Campo Grande respira o ar de Okinawa. É isso mesmo! A capital de Mato Grosso do Sul possui a maior colônia de imigrantes okinawanos do Brasil depois de São Paulo. São pelo menos 1.800 famílias originárias de Okinawa, uma 'pécie de Caribe japonês. A ilha-continente que pertence ao Japão, já foi independente, depois da China, caiu nas mãos dos japoneses e desde a Segunda Guerra abriga bases norte-americano. Aproximadamente 70 % da colônia japonesa de Campo Grande são de okinawanos. Apesar de ser uma das maiores do Brasil, a colônia japonesa em Campo Grande é pequena se comparada com a paraguaia, que tem 100 mil integrantes. Mas mesmo reduzidos, os okinawanos são extremamente organizados na Capital. Mais que isso. Existe um trabalho de base muito forte para manter a tradição cultural de onde vieram. A cidade possui três associações: Associação Okinawa de Campo Grande, Associação Esportiva Cultural Nipo-brasileira e Associação Campo Beisebol. A Associação Okinawa mantém contato com 500 famílias de okinawanos. Ela existe há quase 70 anos e é presidida por o senhor Tetsu Arashiro, que 'tá no final de seu terceiro mandato. Tetsu é nissei, ou seja, nasceu no Brasil e pertence à segunda geração de okinawanos. O objetivo de Tetsu é marcar o centenário da imigração japonesa no Brasil em grande estilo em 2008. «Gostaria de montar um ambulatório médico na associação. Não só para os okinawanos, mas para toda a população», anima-se o presidente. A programação da entidade já é intensa. Duas vezes por semana, os professores Jorge Myashiro e Usafumi Shimada ensinam shanshin, uma 'pécie de violão de três cordas. Em as segundas e domingos aulas de danças típicas e na quarta ensina-se kuto, um instrumento grande de 13 cordas que lembra uma harpa. «Estas atividades são fundamentais para manter a cultura viva entre os mais jovens. Se os mais novos não conviverem com a tradição, ela vai se perder com certeza», afirma Tetsu. Um exemplo vivo do que prega o presidente da Associação Okinawa são os irmãos Marcelo e Daniela Nakao. Os dois participaram de programas de intercâmbio entre Okinawa e Mato Grosso do Sul. Daniela foi duas vezes para a ilha, em 2000 e 2001. Ela conta que a experiência foi fundamental para finalmente absorver a cultura okinawana, mesmo tendo sido criada na colônia em " Campo Grande. «Não tinha a consciência do que representava ser descendente de okinawanos. Só em Okinawa descobri a minha ligação com 'ta terra e entendi o valor de se preservar a cultura em Campo Grande», avalia Daniela, de 34 anos. O irmão de Daniela, Marcelo Nakão, passou 100 dias em Okinawa no final de 2005. Dois mil brasileiros vivem em Okinawa atualmente. Mas a surpresa foi constatar que os jovens de lá 'tão mais distantes da tradição que os descendentes de " Campo Grande. «Simplesmente percebi que nós preservamos muito mais a cultura okinawana em Campo Grande do que as próprias pessoas de Okinawa. O jovem de lá não sabe o que eu sei sobre a ilha, os antepassados, os rituais, os costumes ...», garante. A questão é que Okinawa é controlada por os norte-americano desde a Segunda Guerra. Passados anos, a ilha ainda abriga 39 bases militares dos Eua e um contingente de 17 mil norte-americano. Resultado: a cultura de Okinawa foi sufocada e os jovens acabaram sendo muito influenciados por tudo que vem dos Eua. Bem ao contrário de Campo Grande, uma cidade que se mostrou perfeita para a fixação dos okinawanos no Brasil. Para começar o clima é quente, o que agradou a colônia. E a população campo-grandense abraçou um dos símbolos da culinária de Okinawa que é o sobá, prato típico da ilha que acabou virando iguaria popular de Campo Grande. Segundo seu Tetsu, ao contrário do que a maioria pensa, o sobá é uma herança originária do período em que a China dominou Okinawa. Todos sabem que existe um segredo que faz com que o sobá fique realmente saboroso. Ele não chega a revelar, mas dá a dica. «O verdadeiro sobá é feito com macarrão artesanal. E 'te macarrão tem de ser feito com água de cinza de madeira», entrega. Com segredo ou não, o fato é que o sobá gera uma verdadeira indústria em Campo Grande, desde pontos acanhados de venda até restaurantes inteiros dedicados exclusivamente ao prato. «Não existe mais controle da colônia com o sobá, virou comércio. Mas sempre o que vai contar é o preço, a qualidade do produto e o atendimento. Sem 'tes três fatores não dá certo», pondera Tetsu. Se o sobá foi o ícone cultural de Okinawa que mais se destacou em Campo Grande, outras atividades artísticas e culturais passam desapercebidas. Ficam no âmbito da colônia apenas. Para Marcelo Nakão, a maioria da população de Campo Grande não sabe muito bem a diferença de Okinawa e Japão e nem percebe que a maioria dos japoneses que 'tão em peso nas feiras e no mercado municipal é de Okinawa. Um trabalho silencioso, por exemplo, é realizado por Hiroshi Gushiken. Ele fundou a Academia Gushiken Cultura Okinawa em sua própria casa e mantém atividades constantes para a colônia. O senhor Gushiken, de 72 anos, é um dos fundadores da colônia em Campo Grande. Seu pai era japonês, ele nasceu nas Filipinas, foi criança para Okinawa e veio para o Brasil em junho de 1958 num navio com destino a Santos. O mesmo porto em que chegou a primeira embarcação trazendo japoneses ao Brasil em 1908. Veio com a família para 'ta região de trem e se instalou em Mato Grosso para se dedicar à agricultura. Não deu certo e eles voltaram para Campo Grande em 1959. Desde então, Gushiken se transformou num desbravador. Sua família foi uma das primeiras a criar frango para abate em granjas. Foi o primeiro açougueiro japonês da cidade. Vendeu sobá na feira entre 1986 e 1995. Há alguns anos é o principal produtor de tofu -- queijo de soja -- da colônia. Gushiken também é um dos que fabricam os tambores típicos de Okinawa. Ele explica que tem vários tipos. O taiko, que é grande, o shimay, que é dividido por uma cordinha, e o pananku (tipo pandeiro) são alguns de eles. O taiko grande sai por uma média de " R$ 500,00. «Comecei a fabricar o taiko em 1984 com a intenção de manter a tradição mesmo», diz com seu português quase indecifrável. De a primeira geração da colônia, chamada de isseis, Gushiken mostra bem o conflito de gerações que a colônia enfrenta. «Os isseis são unidos. Já os nisseis pensam diferente. Nós montamos a base e eles agora têm que dar prosseguimento à tradição». reclama. Para a turismóloga Mércia Kayori Yamamoto, de 34 anos, e que viveu 12 anos em Okinawa, um dos motivos dos jovens daqui 'tarem se desligando da cultura da colônia é o fato de ser muito caro ir para Okinawa. Uma passagem de ida e volta para a ilha custa 2 mil. Em a sua agência, 'pecializada em pacotes para a comunidade nipo-brasileira, a ida para Okinawa de campo-grandenses acontece quando ocorrem os festivais tradicionais da ilha, em maio e outubro. «É muito caro. E não existe trabalho em Okinawa para os dekasseguis, os descendentes de japoneses que emigram ao Japão, pois não há indústrias. Por isso, quem vai ou é para 'tudar ou para turismo mesmo», explica. Uma forma de conhecer a ilha e trazer os okinawanos para Campo Grande é através de intercâmbios como o Programa de Treinamento Além-mar. O governo de Okinawa disponibiliza bolsas para descendentes que vivem na América Latina desde 1993. São sete descendentes por ano que vão para Okinawa e o mesmo número de okinawanos vem para o Brasil. Para participar do programa, é preciso ter formação em qualquer área, descendência okinawana e uma família responsável nos respectivos países. «A minha família recebe todos os anos alguém de Okinawa. Já ficaram quatro aqui. Eles se sentem em casa. A única diferença é que em Campo Grande não tem praia», compara Daniela Nakao. Proporcionalmente, Campo Grande possui a maior colônia de okinawanos do Brasil, só perdendo para São Paulo. O grupo de 50 jovens que tocam taiko da Associação Okinawa roda o Brasil fazendo apresentações. Daniela e Marcelo lembram também que existe uma banda campo-grandense, a Uchinanchu, que segue a tendência dos músicos de Okinawa, como a cantora " Natsukawa Rimi. «Lá a onda agora é reinterpretar clássicos. Dar uma nova roupagem. E agora tem bandas em Campo Grande fazendo o mesmo», conta Marcelo. A mistura de cultura do Brasil com a de Okinawa, na verdade, é um caminho sem volta. Se de um lado os fundadores da colônia querem manter a tradição de forma mais pura possível, como o senhor Gushiken, de outro 'tá seu Tetsu, já nascido no Brasil e que tem uma postura não tão radical. «O futuro da colônia é o abrasileiramento. Número de frases: 98 É uma questão de sobrevivência», vislumbra o presidente da associação. Ela pinta, fotografa e faz curtas-metragens em Aracaju. Formada em artes visuais por a Universidade Federal de Sergipe, Gabriela Caldas 'tá na ponta de lança de uma nova safra de curtas-metragistas que tem gerado uma importante e profícua movimentação na efervescente cena audiovisual sergipana. Tirando proveito da facilidade trazida por as novas tecnologias digitais, Gabriela faz o que se convencionou chamar de microcinema. O termo, cunhado em 1991 durante o festival San Francisco Total Mobile Home Microcinema, refere-se a todo tipo de produção audiovisual com baixo orçamento e 'tética intimista ou experimental. Resultado de uma revolução tecnológica e 'tética, o microcinema surgiu por os idos dos anos 80, principalmente com a vídeo-arte americana. A importância da exploração de 'sas novas possibilidades trazidas a cabo por os filmes de Gabriela -- e ela não é a única -- representa um passo à frente para a cena cultural sergipana. Em larga medida, o sucesso de 'sa nova produção audio-visual em Aracaju deve-se à consolidação do Festival Luso-Brasileiro de Curtas-Metragens de Sergipe (o Curta-SE) que, já em sua sexta edição, tem sido um catalisador de novos talentos e formador de um público de cinema que tem olhado cada vez mais para o próprio umbigo. E anda gostando do que vê. Conseqüência disso é o crescente número de curtas sergipanos inscritos para a mostra competitiva a cada ano. Mas Gabriela tem seus próprios méritos. É ousada. Dá a cara a tapa. Sai distribuindo seus filmes pra tudo quanto é festival no Brasil e no mundo. O resultado de sua ousadia: seu primeiro filme, Elipse (2003), teve destaque no Philadelphia Short Cut Festival 2003 e recebeu Menção Honrosa no Curta-SE no ano seguinte. O segundo trabalho, AmoRrer (2005), foi o vencedor na categoria vídeo na mostra sergipana do Curta-SE e na mostra competitiva nacional ganhou como melhor vídeo 'colhido por o júri popular. AmoRrer foi ainda selecionado para o 5 Goiânia Mostra Curtas, em dezembro de 2005, e também para a mostra Videolab Coimbra 2006, em Portugal, onde aliás arrancou elogios da crítica 'pecializada local. E no caso de ela experimentalismo é mesmo a palavra. Não só 'tético, mas principalmente no modo de fazer e de viabilizar um filme -- como não podia deixar de ser, numa cidade onde não há formação de cineastas, ou «realizadores de vídeo» (como ela prefere se definir), e pouca ou nenhuma política pública de incentivo para 'sa categoria. Elipse é um sketch teatral, sem diálogos nem offs, inspirado numa história de conflitos familiares. A trilha e o filtro vermelho gritam o sentido, além da surpreendente performance da atriz Diane Veloso. Foi filmado em três takes. A opção por filtros monocromáticos, aliás, se repete em AmoRrer. Homenagem a Florbela Espanca, foi todo filmado em lilás -- cor predileta da poetisa -- o que também deixa evidente a formação de artista plástica da diretora. A bela trilha sonora foi feita 'pecialmente para o filme por o compositor Alex Sant'Anna e seu irmão Léo Airplane (multi-instrumentista que também toca na banda de rock sessentista Plastico Lunar). Outra curiosidade de A MoRrer é a narração em off dos poemas de Florbela feita por Maria Lucia Dal Farra, uma das maiores pesquisadoras sobre a poetisa no Brasil, que mora em Aracaju. Gabriela é ainda coordenadora pedagógica do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, ligado ao Programa Rede Olhar Brasil, do MinC, que realiza cursos, oficinas, debates e mostras visando formar e aperfeiçoar público e potenciais realizadores na cidade. Além de tudo isso, é ainda mãe de dois filhos -- Hannah e Horácio! Pra terminar (e isso já nem deve ser tudo!), ela já tem pronto o roteiro de seu terceiro filme, que deve se chamar Melusine. É inspirado num tipo de lenda francesa sobre uma figura mítica feminina. Em 'se caso, se trata de uma mulher cobra ou sereia que não consegue fazer a transição para o modelo cristão de feminino. «O que fizemos eu e a Melaine (uma francesa que mora aqui) foi usar os arquétipos da lenda para figurar um processo de individuação de uma mulher que se encontra dividida. E tingimos com as cores da cultura popular. O interessante é que pensamos que 'tivéssemos construindo uma ponte desses dois imaginários até conhecer as pessoas que moram na locação (os arredores de uma lagoa no município de Santo Amaro -- Sergipe). Eles dizem que 'sa lagoa é encantada e abriga uma sereia!», conta a diretora. Para entrar em contato com a Gabriela: Número de frases: 39 olhoscozidos@gmail.com A fórmula imbatível para desesperar torcedores de futebol é o jejum de títulos. Praticamente todos os grandes clubes brasileiros tiveram uma fase negra: o Fluminense só saiu de uma fila de nove anos com um gol de barriga do Renato Gaúcho, o Botafogo 'perou de 1968 até 1989 para sentir de volta o gostinho de levantar uma taça, e o Corinthians viveu épicos 22 anos de seca, que só terminaram em 1976. E o que você falaria de um clube cujo último grande título conquistado foi em 1926? Pois para o São Cristóvão de Futebol e Regatas, a taça é motivo de celebração até hoje. Junto com América e Bangu, o São Cristóvão forma a tríade dos únicos clubes capazes de tirar um campeonato carioca das mãos dos tradicionais grandes do Rio de Janeiro. A data de comemoração do que aparentemente é apenas mais um título 'tadual, na verdade, serve como porta de entrada para um mergulho histórico. Mesmo nos momentos mais adversos, não dá para se queixar de maus tratos com o passado. Para comemorar o título, foi lançado o livro «Memórias da Conquista: 80 anos do título», de Raymundo Quadros e Gustavo Côrtes, com detalhes sobre a façanha, à venda na sede do clube por R$ 25. Só uma palhinha: a campanha vitoriosa incluiu coças em times como Flamengo (5 a 0 e 5 a 1), Fluminense (4 a 2) e Botafogo (6 a 3). Mas, mais do que viver do passado, o São Cri-cri busca se redescobrir. É o retrato de um Rio nostálgico e, como a cidade, 'tá recheado de casos curiosos. Prata da casa A o entrar na sede de futebol, na Rua Figueira de Melo, no bairro que dá nome ao time, é possível ler -- pintado em letras garrafais --, na parede do 'tádio, uma mensagem sobre o histórico título de 1926. Logo acima, um pouco atrás do muro e já ocupando a construção vizinha, a frase bíblica «aqui nasceu o fenômeno». Assim, sem nenhum complemento. O «fenômeno» em questão é o atacante da seleção e do Real Madrid Ronaldo (o Ronaldo que cedeu o diminutivo ao Gaúcho e adotou daí em diante o peculiar sobrenome), ele que foi revelado nas divisões de base do São Cristóvão. Para as gerações mais novas, o jogador tem sido o mito que alimenta os brios do time. Renato Campos é funcionário do São Cri-cri desde 2000, mas enche a boca de orgulho ao dizer que freqüenta o clube há 46 anos. «Meu pai me trazia para cá desde que eu tinha um ano», lembra. É o tipo de pessoa apaixonada por o que faz. Por iniciativa própria, decidiu guardar recortes de tudo quanto é reportagem em que o São Cristóvão é citado. Em o «clipping» de Renato, que ocupa várias pastas, há desde fotos de craques consagrados até imagens da reinauguração do gramado do 'tádio. Tem de tudo. Até a foto de uma faixa de apoio a Ronaldinho durante a Copa de 2006, que saiu publicada num jornal carioca de grande circulação. De quem foi a iniciativa? Foi do Renato, claro! «O perfil de sócios do clube era de pessoas mais velhas. Com a geração do Ronaldo, vieram mais jovens para torcer por o clube», conta ele, que ainda batizou um campeonato 'tadual juvenil disputado no São Cristóvão com o nome do atacante. É a Copa Ronaldo Fenômeno. Aparando a grama Além de Ronaldinho, o São Cristóvão fez fama -- e caiu nas graças dos amantes de factóides -- por causa do gramado aparado por carneiros. A situação inusitada teve início logo nos primórdios do clube. É que a presença de recrutas nas dependências do clube, próximo de uma série de quartéis militares, deu origem ao apelido de «torcida cadete» aos fiéis do São Cri-cri. E o símbolo dos cadetes (os mitólogos de plantão vão adorar relacioná-lo ao signo de Áries e a Marte, deus da Guerra) é o carneiro Nicodemus. O que aconteceu a seguir não é tão difícil de se supor: bastou o pessoal do Exército ter a brilhante idéia de dar um casal de carneiros para o time do coração e a homenagem virou uma farra: os animais começaram a procriar sem parar e o clube foi tomado por eles. Como os bichos não tinham o mesmo conhecimento técnico nem o 'mero de empresas profissionais, o gramado do São Cristóvão costumava 'tar bem abaixo dos de os rivais. Mas, calma, os carneiros foram banidos do clube há sete anos. Pionerismo Se há casos engraçados, há também pioneirismo. Pouca gente sabe que o São Cri-cri chegou até a inspirar o uniforme titular do Santos -- todo branco, tal como o do time carioca. A relação entre os dois, aliás, é curiosa. O Peixe 'treou o uniforme branco na inauguração do 'tádio do «colega», e, por um tempo, os sócios de ambos os clubes tinham acesso livre tanto à sede do Rio como à do litoral paulista. E, já que o Santos teve o seu Pelé, vale lembrar que o São Cristóvão também foi um pródigo revelador de nomes para o futebol brasileiro -- não, o clube não se limita a Ronaldo, não. É Renato Campos quem enumera de cor alguns nomes além-fenômeno que começaram por ali: o meia Djalminha, ex-Palmeiras; Carlos Alberto Parreira, ex-técnico da seleção (Parreira, aliás, começou como preparador físico do time e 'treou como treinador no São Cristóvão, logo depois de formado em Educação Física e um pouco antes de ser convidado para ser técnico de Gana); Sebastião Lazaroni. Espera aí, Lazaroni? Melhor fingir que foi ato falho ... Para abafar o caso -- e compensando com uma informação bem legal --, não custa lembrar que o craque Leônidas da Silva, o Diamante Negro, também já vestiu a camisa dos cadetes. Hoje, o time profissional do São Cristóvão, assim como a maioria dos pequenos do 'tado, entra em campo apenas três meses por ano -- a conta certa para disputar o campeonato carioca, em que atualmente ocupa uma vaga na segunda divisão. Em o resto do ano, a equipe precisa ser desfeita, pois não há mais campeonatos nem geração de receitas para sustentá-la. Para sobreviver no mercado concorrido do futebol arte, o São Cri-cri assumiu a condição de revelador de talentos -- a transferência de Ronaldo para o Real Madrid, por exemplo, rendeu R$ 900 mil ao clube, graças a uma cláusula que destina uma pequena porcentagem de qualquer negociação no passe ao time que revelou o atleta. Sobrevivência hoje O campeonato carioca de 1926 -- que completou seus 80 anos no dia 21 -- é a jóia da coroa, mas isso não quer dizer que o São Cri-cri jamais levantou outra taça. Este ano mesmo o clube comemorou o título carioca da divisão de acesso na categoria júnior. E a sala de troféus na Figueira de Melo tem um bocado de registros vitoriosos que vão do basquete ao vôlei. Mas, no futebol, um título da primeira divisão, com o time principal, como nos anos 1920, isso anda distante da realidade atual ... O futebol do clube 'tá arrendado para a empresa de marketing 'portivo BR 2002, que banca a folha salarial em troca de uma participação na venda de jogadores revelados no clube. Duda Patetuci, coordenador do Departamento Amador e ligado à empresa que financia o São Cristóvão, explica que a parceria tem duração de cinco anos e o foco é a divisão de base. O que não o impede de lamentar a «garfada» da arbitragem (segundo ele) contra o time principal, ocorrida na seletiva do campeonato carioca -- que abortou, ou pelo menos adiou, os planos de tentar uma vaga na primeira divisão. Ah, 'ses árbitros ... Em a hora de explicar o que levou a BR 2002 a buscar uma parceria com o São Cri-cri, um motivo de dar inveja a muito time grande: «Além de ser uma marca forte e ter revelado o Ronaldinho, o São Cristóvão não tem dívidas trabalhistas», destaca. Parte da história do Rio Teorias para apontar a decadência com que sofre o São Cristóvão não são poucas. Uma de elas indica a chegada do Vasco ao bairro -- trazendo a reboque uma fanática comunidade portuguesa -- como decisiva para o 'vaziamento do clube, assim como as inaugurações dos 'tádios de São Januário e Maracanã, que teriam apagado o brilho do Figueirinha, com seus seis mil lugares. O atual presidente do São Cri-cri, Élio dos Santos Filho, ressalta que a mudança do perfil do bairro também não colabora para angariar novos sócios para o clube, que atualmente conta com 600 pagantes. «O viaduto atrapalhou, a área virou comercial. Não há residências, como antes», lamenta. Mas, daqui para a frente, tudo vai ser diferente Com a maioria dos sócios freqüentando apenas a sede náutica, e as receitas fixas limitadas a aluguéis do campo, do salão, e de vagas para reparo de embarcações, o tradicionalíssimo terreno na Rua Figueira de Melo pode 'tar com os dias contados. Élio conta que o local onde fica o Futebol é assediado por empresas imobiliárias. «Eles querem a área e em troca nos oferecem outro terreno, em outro local. E nos deram liberdade de 'colha. Pode ser em Vargem Grande ou no Recreio dos Bandeirantes, por exemplo. Alguns sócios podem achar a proposta indecente, mas se ofereceram um lugar melhor, com tudo construído, temos que 'tudar " conta o presidente, que no fundo é favorável à venda. A única condição imposta por ele é que qualquer obra feita no terreno reserve uma parte em memória ao São Cristóvão, como «marco da nossa existência». Curiosamente, Élio apresenta para o conselho do clube os planos de uma troca de sede justamente dia 21 de novembro, data exata dos 80 anos do principal título conquistado por o São Cristóvão. Resta saber se a mudança, caso concretizada, servirá de impulso para o São Cristóvão voltar a ser um «fenômeno». Dá-lhe São Cri-cri! Número de frases: 84 O programa de rádio Rock Alternativo 'treou em 26 de março de 1988, num sábado, às 19 horas, na Rádio Cultura FM (91,1 MHz), em Joinville, Santa Catarina, apresentado por o radialista e repórter de TV Pierre (Porto) Silveira, e produzido por o programador de rádio, promotor e locutor de competições de surf, Hugo Hofmann, ambos com vinte e poucos anos -- com coordenação do radialista J. Martins. O primeiro programa levou ao ar um 'pecial com música e comentários da banda Yes, das 19 às 20 horas. O projeto Rock Alternativo foi idealizado por Hugo Hofmann e o nome, uma sugestão de Ana Beatriz Raposo. Inicialmente a idéia era de apresentar grandes 'peciais de bandas reconhecidas mundialmente. Aos poucos, Porto deu também à programação a marca da informação cultural, quando eram convidados para entrevistas músicos e bandas locais, diretores e atores de teatro, poetas, artistas plásticos, coreógrafos e bailarinos da produção local. Os discos e, 'pecialmente os lançamentos, eram conseguidos por o Hugo, através de amigos que viajavam para o Exterior. Outras fontes de pesquisa e material para o programa vinham da 89 Rock (Paulo), através do Dj Edgar, hoje MTV, entre outros amigos amantes das novidades na cena musical underground (como a gente chamava o rock de garagem na época). O Rock Alternativo também virou produtora e, em pouco tempo, começou a fazer os primeiros grandes eventos de rock ao ar livre na cidade. Também promoveu a primeira Festa dos Anos 80, numa boate chamada Baturité. Ajudou bandas na produção e lançamento dos seus primeiros discos, como Atrito, H20 e Invasão Básica. Cobriu turnês de shows internacionais no Brasil, com transmissão ao vivo para a rádio. Foi um programa premiado várias vezes por ser um meio de informação e promoção cultural e, provavelmente, foi também precursor no uso desse termo: Rock Alternativo, que mais para a frente se tornaria a expressão para definir o gênero ou subgênero do Rock, no Brasil. E tem muita coisa para contar sobre o Rock Alternativo nascido em terra catarina. O programa ainda cresceu com novos quadros, de surf, comportamento (psicologia) etc.. Mas sempre fica 'sa dúvida, como foi aparecendo 'se termo: Rock Alternativo, no Brasil. Talvez o Overmundo seja um bom lugar para ampliarmos o assunto, além do que já 'tá publicado na Wikipedia, lógico! Número de frases: 18 «Você jura que aqui é um teatro? Cadê os dourados, como aparece nas novelas?», pergunta a manicure Sueli Ferreira de Souza que nunca tinha entrado num teatro antes, na peça «O Amor do Sim», no palco do Espaço Satyros 1, localizado na Praça Roosevelt, região central de São Paulo. O texto de Mário Viana brinca o tempo inteiro com as contradições do chamado teatro alternativo, como é considerado o Espaço em que atuam, em contraponto aos grandes teatros comerciais. Porém, junto com a peça «Assassinos, Suínos e Outras Histórias na Praça Roosevelt», do mesmo projeto, ela poderia ser tranquilamente encenada num teatro como o Brigadeiro, sem prejuízo de entendimentos e risos por parte da platéia. Com personagens 'tereotipados e piadas clichês, a história mostra uma manicure, um iluminador e um garçom dentro de um teatro pequeno num dia de folga, enquanto o mundo lá fora é destruído por «moços bonitos, que parecem descamisados da novela das sete», segundo Sueli. Ela, representante da massa aculturada da população, acredita que o teatro seja apenas um monte de textos «difíceis que ninguém entende». Essa imagem do teatro dito alternativo, desconhecido de grande parte dos brasileiros, é reforçada por o conflito entre o mundo de dentro do teatro, e o caos instaurado no resto do mundo. Com isso, o texto propõe uma metalinguagem em torno da dificuldade encontrada por os pequenos teatros para conseguirem se manter. Enquanto em eles há vida e uma necessidade de sobrevivência, externamente acontece a destruição de tudo o que é fraco, incluindo as artes. A paixão que a história tenta demonstrar por o «teatro dos fracos e excluídos» aparece na figura do Espírito do Teatro, interpretada por a atriz da Companhia Os Satyros Ângela Barros, ótima como sempre. Ela seria a emoção, a sensação que acomete o 'pectador durante uma apresentação. Porém, nem 'se personagem 'tá livre do humor fácil da comédia pastelão e de uma provocação aos teatros comerciais, como quando diz: «Fantasma, eu? Fantasma tem no Culturão, no Maria De ela Costa com certeza. Mas aqui? Aqui não tem nem dez anos de existência!». Enquanto isso, a platéia fiel delira com a referência, às duas horas da tarde, em plena sexta-feira santa. 2 brigadeiros Adendo: Como uma obra pode ter diferentes tipos de interpretação, transcrevo aqui as palavras de uma 'pectadora. Ela, depois de ver a peça, disse em lágrimas: «Meu, é o seguinte. Isso é uma verdade que tá aqui fora e que as pessoas não querem ver. Ai você entra no teatro e você vê a entrega do ator, que é maravilhosa. E não importa que é uma comédia, eu posso me ligar no texto. Número de frases: 25 É um texto tão vertical, que eu me emociono». Conseqüência da expansão do novo pop brasileiro, o novo patrulhamento do pop brasileiro 'tá em voga. É a tentativa de implantação, na era MTV, do velho projeto de fusão da música brasileira com o pop globalizado sem superar a vergonha das manifestações mais conservadoras da música nacional, nem fazer questão de conhecer a nova música pop além dos seus clichês. Aproveita-se de um e de outro para depois piscar, desdenhar, deixar clara uma suposta superioridade intelectual. Com origem no pensamento de 'querda, o novo patrulhamento do pop usa o velho artifício de dirigismo das massas. O mote agora é, no meio da inédita quantidade de informação musical disponível da internet, «prestar um favor» ao público de separar para ele o joio do trigo. É o combate da anarquia do P2P e do mp3 player em nome da censura intelectual da «música de qualidade». É Trotski fantasiado de Lorena Calábria. É quase uma recompensa moral do primo pobre e nerd contra a prima rica e burrinha: «Ela tem um I-Pod, mas ouve Pitty. Nhé." A ordem é uma música sem idiossincrasias, que não deve ser totalmente regionalista nem completamente alienígena. O novo patrulhamento é mais uma campanha intelectual do que musical. Marcelo Camelo vive rejeitando qualquer análise mais complexa de sua música, e eu acredito em ele. Mas não acredito em quem quer rotular o Ramirez como um sub-Los Hermanos, ou uma versão dos Los Hermanos que ainda não superou a fase «Anna Júlia». Preferir Ramirez ao 4, ou Rádio de Outono a Mombojó, para o novo patrulhamento, é como votar no PFL. É heresia. É burrice. É crime contra o patrimônio nacional. O novo patrulhamento do pop brasileiro, assim como os patrulhamentos 'querdistas mais intransigentes da atual política brasileira, quer simplificar a situação e forjar uma guerra fria (porque suas teorias só funcionam em 'te velho contexto): somos nós ou o ACM. A pergunta que não quer calar é: de que lado fica o Gram? O fato de que o novo patrulhamento 'tá em voga não significa que ele é coerente, nem que não seja fruto da cabeça de uma minoria pedante. Mas sua existência e sua hegemonia podem ser comprovadas na recente edição 200 da «pouco ousada» (nas palavras do jornalista LuizCésar Pimentel) revista Bizz. Em uma nova coluna, chamada " Pense Com nós (bom nome para ministério do grande irmão do livro 1984 ou para um panfleto soviético), Alex Antunes defende a tal dissolução das idiossincrasias que não deve ser totalmente regionalista nem completamente alienígena. De uma tacada só, ele se livra do problema monstro de pensar sobre o Calypso, e pede pelo amor de Deus para que a Cansei de Ser Sexy mude de vez para os Eua e não promova mais o absurdo de divertir adolescentes brasileiros alienados. A ausência atual de hierarquia cultural é desculpa para dissolver tudo até ficar com gosto de carne de soja. Em a matéria de capa, eles fazem uma análise de Selvagem? ( 1986), dos Paralamas do Sucesso, tentando apagar seu papel reacionário de ter aplicado botox em Gilberto Gil. Ironicamente, Herbert Vianna parece a única pessoa lúcida sobre 'te papel de Selvagem? Ele conta que " os jornalistas chegavam para 'sas bandas (Titãs, Barão Vermelho) na base do ' E aí? A música nova é isso aqui, ó ... O que vocês vão fazer agora?». É a mesma pergunta que os defensores do novo patrulhamento querem fazer, em tom de interrogatório de ditadura, para o CPM 22 e o Jota Quest, tentando manter Ronei Jorge e Los Hermanos debaixo de suas asas. Em a mesma matéria, entre referências irônicas ao Rpm, Cadão Volpato, do Fellini, quase pede desculpas por ter «macaqueado os rock lá de fora». Devem ser as mesmas desculpas que se 'peram do Gabriel do Moptop, para que ele deixe de ser apenas uma promessa do novo rock e se filie ao novo patrulhamento. Por fim, a Bizz apresenta uma entrevista com Odair José. O comentário mais simples é: «Aahh, agora vocês entrevistam né?». Se o novo patrulhamento continuar no poder, não se assuste se, depois que o Chorão 'tiver velho e sem força para distribuir sopapos entre os jornalistas, a imprensa começar a achar suas músicas «divertidas» e «'pontâneas». Sua entrevista vai ser anunciada com a chamada «Domésticas, tremei», e os críticos vão criar interpretações sociológicas para suas músicas muito mais complicadas do que o próprio Chorão possa imaginar. Mas só depois que ele se tornar inofensivo. Número de frases: 42 Coragem não é uma virtude do novo patrulhamento do pop brasileiro. Depois de duas exposições fotográficas, Arte Pública em São Luís do Maranhão e a A Última Arte, o arquiteto e professor universitário José Marcelo do Espírito Santo prepara o lançamento sobre a arte pública encontrada nas ruas, becos e avenidas da capital maranhense. O arquiteto paulista 'tuda 'se tema há 15 anos. Arte Pública em São Luís do Maranhão reúne 50 imagens de obras, entre as quais o Leão Heráldico (Palácio dos Leões), Mãe D? Água Amazônica e o La Ravardière (todos instalados na av.. Pedro II, Centro), Pedra da Memória (av.. Beira-Mar), e as 'tátuas de Benedito Leite (praça Benedito Leite), Gonçalves Dias (praça Gonçalves Dias, Largo dos Remédios) e João Lisboa (praça João Lisboa). As fotografias terão a dimensão de 1,06 m por 1,50 m. «A arte pública é um conjunto de expressão artística que 'tá fora do sistema institucionalizado, dos circuitos de galerias e museus. Essas obras 'tão nas ruas, praças, e largos, ou até mesmo dentro de edifícios de uso comum, como igrejas e repartições públicas», explica. O projeto de pesquisa Arte Pública foi iniciado em 1991, mas de acordo com o pesquisador, em 1995, a pesquisa ganhou impulso. «A cidade carece de informações em 'se sentido. A bibliografia sobre o tema é muito restrita, há pouca coisa sobre isso», afirma. O catálogo ainda não tem data de lançamento. A pesquisa aponta que atualmente a cidade possui 58 monumentos em locais abertos. O mais antigo é o marco arquitetônico da Pedra da Memória (av.. Beira-mar, Centro), produzida por J. J. Rodrigues Lopes, em 1841. Em seguida, surge o conjunto 'cultórico de Gonçalves Dias, criação de PC Quadrio dos Reis datada de 1873. Segundo o arquiteto, que atualmente dirige o Instituto de Pesquisa e Planejamento do Município de São Luís (Iplam), a arte pública captada por as fotografias não são apenas aquelas de valor decorativo. «Busquei peças que, de certa forma, mostram-se como enigma, trazem uma provocação ou até mesmo aquela que provoca uma reflexão sobre a vida em geral ou sobre a vida da cidade em particular», explica. Para Marcelo do Espírito Santo, os monumentos públicos são cada vez menos compreendidos como arte por a população. «Tudo devido ao caráter oficializante do qual habitualmente se revestem». Segundo o arquiteto, tanto a pesquisa quanto as exposições Arte Pública em São Luís do Maranhão e A Última Arte foram uma tentativa de valorizar 'sas obras. «Foi a saída que encontramos para encarar a banalização da obras e o descaso com as peças por parte dom poder público», diz. Desaparecidos no tempo Assim como a cruz instalada por os franceses para a Primeira Missa na recém-fundada São Luís, em 1612, uma série de outros monumentos foram destruídos, desmontados ou simplesmente desapareceram do 'paço urbano da cidade. Segundo o arquiteto José Marcelo do Espírito Santo, 'tudos preliminares da pesquisa a Arte Pública aponta que 11 peças foram destruídas ou 'tão desaparecidas. Para José Marcelo, o governo é um dos maiores responsáveis por a depredação dos monumentos. «O curioso que são também eles que mais desenvolvem ações de preservações de 'sas obras», declara Marcelo. De acordo com o pesquisador, os problemas mais comuns são as transferências e retiradas de monumentos sem a prévia consulta à população. «O mais grave é quando monumentos símbolos de diferentes períodos são aleatoriamente substituídos por elementos contemporâneos», frisa o arquiteto. Um dos casos mais notórios foi a substituição do conjunto 'cultórico Águia que Pousa, situado na praça Belfort Vieira, em frente à Capitania dos Portos. O monumento foi substituído por a Marinha por um busto do marinheiro imperial Marcílio Dias, que morreu na Batalha de Riachuelo. Segundo Marcelo do Espírito Santo, o monumento Águia que Pousa foi destruído. A peça foi produzida por o 'cultor Newton Sá, em 1929, numa referência ao primeiro hidroavião a pousar no 'tado, o Sampaio Corrêa. É também de responsabilidade da Marinha a transferência de um busto do Almirante Tamandaré, de 1970, que 'tava na praça próxima ao 24º Batalhão de Caçadores do Exército. A peça foi levada para a cidade de Imperatriz. «Como a Marinha desejava colocar um Almirante Tamandaré na avenida Beira-mar, em frente a praça Maria Aragão, eles acharam por bem transferir o outro, pois seria muito dois almirantes na cidade», conta. Entre as peças destruídas 'tá o busto de Sotero dos Reis, feito por Newton Sá, que 'tava instalado na praça Dom Pedro II; a peça Romeiros de Ribamar, do artista plástico Antônio Almeida, que ficava no Retorno da Forquilha; o Anjo da Guarda (praça do Anjo da Guarda) e a Sereia (Ponta d? Areia), ambos do 'cultor Luigi Dovera e confeccionados em 1983. Dado como desaparecido 'tá um busto do aviador Santos Dumont. A peça construída por o 'cultor Leonardo Lima, em 1959, encontrava-se no pátio externo do Aeroporto Cunha Machado. Segundo «Marcelo do Espírito Santos,» a peça foi retirada durante a reforma do aeroporto e não mais foi colocado no lugar». Contada como desaparecidas também 'tão uma peça de Jesus Santos que tinha como habitat o Parque do Bom Menino (Av.. Jaime Tavares, Centro) e uma outra de Antônio Almeida, que 'tava na rotatória do Bacanga. Esta última foi trocada durante o governo de " Epitácio Cafeteira. «Em o local puseram aquele coração de concreto, que era a logomarca do governo Cafeteira», observa Marcelo. Número de frases: 49 Por ANDRÉ DALBEN [1] andredalben@yahoo.com.br Todas as histórias da Escola de Aplicação ao Ar Livre que nos chegam hoje só são possíveis por meio dos documentos preservados, no entanto " o documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que a produziu, mas também das épocas sucessivas durante as quais continua a viver, talvez 'quecido, durante as quais continua a ser manipulado, ainda que por o silêncio " [2]. O próprio documento já diz uma história, e foi por meio de ele, juntamente com as minhas experiências pessoais, que me aventurei em contar uma das possíveis histórias da Escola Estadual Dr. Edmundo de Carvalho. Mesmo nunca tendo frequentado suas dependências, tentei reconstituir o passado de 'sa instituição, mas não sem lhe dar novas tintas e cores. Criada oficialmente por o decreto 10.307, em 13 de junho de 1939, a Escola de Aplicação ao Ar Livre Dom Pedro I só foi de fato instalada na cidade de São Paulo no dia 12 de outubro, durante as comemorações da Semana da Criança. Após os discursos da solenidade de inauguração, os alunos da «Escola Superior de Educação Física» realizaram uma completa demonstração de educação physica, por o método francês, official do governo da União " [3]. Para finalizar a festividade, «950 'coteiros de 'ta capital, de Campinas, de Bauru, Garça, Rio Preto, Santo Amaro, Poá, Caveiras e outras localidades do Estado desfilaram perante as altas autoridades» [4]. O ambiente 'colhido para a Escola foi o Parque da Indústria Animal [5], no bairro operário da Água Branca, provavelmente em decorrência da relação 'tabelecida entre os diretores do Departamento de Educação Física de São Paulo [6], órgão responsável por a criação da Escola, e a Secretaria de Agricultura, responsável por o parque. Este fora criado em 02 de Julho de 1929, por o então secretário da agricultura Dr. Fernando Costa, para servir como recinto de exposições e provas zootécnicas. Contava com diversas instalações: tanque para peixes, pequeno zoológico, baias, jardins e até um cinema mudo. Os prédios em 'tilo normando foram projetados por Mário Whately, professor da Escola Politécnica de São Paulo, e os vitrais art déco de sua entrada foram desenhados por Antônio Gomide, conhecido artista plástico do movimento modernista. Lá também funcionavam seções da Secretaria Estadual, como as de Veterinária e Produção Animal. Seu recinto de exposições, um descampado margeado numa das laterais por uma arquibancada, recebia constantes exposições agropecuárias. O parque também era local de passeio e lazer, devido à sua natureza exuberante, suas construções e animais exóticos. Em meio a 'se cenário idílico aconteceram por dezessete anos as aulas da Escola de Aplicação ao Ar Livre, então popularmente conhecida por «'colinha». O parque era tido como excelente " ambiente educativo, por o seu aspecto bonito e agradável, suficientemente 'paçoso para as atividades ao ar livre, alem de possuir viveiros e outros elementos úteis à ação do educador. As aulas pod [iam] ser dadas debaixo das árvores ou em lugares agradáveis às crianças " [7]. Contavam com «cadeiras leves, portáteis, para alunos e professores» [8], 'preguiçadeiras para os banhos de sol, «mesa para 4 a 6 alunos cada uma» 9, quadro negro portátil, material didático e " um pequeno 'paço [ ...] reservado para a horta 'colar " [10]. De entre os edifícios do parque, nenhum foi projetado para abrigar uma 'cola infantil, mas um dos pavilhões da Secretaria de Agricultura funcionava como refeitório. O uniforme utilizado por os alunos era um largo macacão azul, com alças trançadas nas costas até os quadris, e pernas descobertas. A os pés sapatilhas azuis com ou sem meia baixa. Somente nos dias mais frios era usada alguma outra vestimenta por baixo do macacão. Em a altura do peito havia bordado o símbolo olímpico, uma referência à instituição que dirigia a Escola: a Escola Superior de Educação Física do Estado de São Paulo [11]. O uniforme conferia aos alunos maior liberdade de movimentos e maior contato com o ar e a luz do sol, demonstrando claramente as influências naturistas desse ambiente 'colar. Mantida sob jurisdição da Secção de Pedagogia e Metodologia da Escola Superior de Educação Física até 1956, a Escola de Aplicação ao Ar Livre era uma instituição de ensino primário experimental. Ela oferecia um profícuo campo às pesquisas pedagógicas, além de permitir que os alunos da Escola Superior, ganhassem experiência no ensino da educação física para crianças. Lá também fizeram 'tágio diversas turmas da Escola Normal Caetano de Campos. As atividades propostas iam desde apresentações de ginástica francesa, exercícios de equilíbrio e de oposição, coordenação fina, até atividades cênicas, jogos aritméticos e canto. A 'cola atendia ao ensino pré-primário e ao de primeiro grau. Cada um com uma classe de 40 alunos, mista, no horário das 8 às 12 horas. O dia do pré-primário era dividido num primeiro momento dedicado a Educação Física, um segundo para atividades livres, precedido por o repouso de 30 a 40 minutos e finalizado com o coral. As aulas de educação física para o pré-primário eram dramatizadas ou por imitação. Durante o tempo livre reservado, as crianças 'colhiam entre diversas atividades propostas, como a «construção em areia, brinquedos com bonecas na ' Aldeia das Crianças ', modelagem, carpintaria, desenho livre, pinturas, recortes, bordados, dobraduras, livros de gravuras, jogos educativos sensoriais, brinquedos no gramado, etc» [12]. Demais atividades preenchiam o horário 'colar, divididas em projetos e centros de interesse, com títulos como, " A arca de Noé; [ ...] Animais domésticos e úteis ao homem; A Bandeira Nacional; Os Indígenas " 13, etc.. Outro ponto interessante é que " os alunos [ ...], com permissão dos pais, receb [iam] instrução religiosa católica, por um método próprio, simples e concretisado por desenhos pedagógicos " [14]. Ingressando na classe primária, aos sete anos, a criança iniciava o processo de alfabetização e de aprendizagem matemática, em acordo com as diretrizes exigidas por a Secretaria de Educação. Aqui as aulas de Educação Física também eram diárias. «Em a classe pré-primária, as atividades se destinarão ao exercício físico, acuidade sensorial, linguagem, hábitos higiênicos e senso 'tético. A função da professora será apenas a de orientar e 'timular o comportamento das crianças, interessando-as e fazendo-as obter, através da observação e experiência, conhecimentos compatíveis com a sua idade. Não haverá programa nem horário, apenas o aproveitamento livre das iniciativas infantis. O plano da professora tomará uma forma toda ocasional. O programa a seguir no primeiro ano primário é, sem duvida, aquele exigido por o Departamento de Educação. Em a 'cola primária o que importa, é o método, para que o assunto se torne interessante e a crianças aprenda, sem perceber, brincando, sem 'tar presa a uma rotina que é contra a sua natureza." [ 15] Logo na matrícula do ensino primário, os alunos eram classificados em dois tipos de fichas: «Uma, 'colar com indicações minuciosas, com dados sobre a habitação, a família, e o meio onde a criança vive; dados físicos e psíquicos, gráficos do aproveitamento individual «[16] e outra referente ao» 'tudo geral do organismo; compilada por o exame médico da secção competente do Departamento de Educação Física, [ ...] contendo dados completos do 'tado geral do organismo " [17]. A cada semestre o exame geral era realizado e a cada dois meses eram feitas novas pesagens. A os alunos também era oferecido serviço de alimentação e assistência médica e dentária." O resultado e 'tudo dos mesmos serv [iam] de base para a organização e desenvolvimento dos programas futuros de educação física " [18]. A o iniciar o ano letivo as crianças do primário eram «divididas em três turmas homogêneas, conforme a vivacidade dos alunos, observada nos primeiros dias com aplicação de testes» [19]. Esta bateria de exames demonstra claramente a influência médico-higienista na Escola de Aplicação ao Ar Livre. Em o ano de 1947 surgem as primeiras 'peculações sobre a necessidade da Escola de Aplicação ao Ar Livre mudar de endereço, visto que a Secretaria de Agricultura pretendia instalar um de seus departamentos no prédio utilizado por ela como refeitório: «O Brasil precisa de milhares de 'colas como 'sas, mas, por mais paradoxal que pareça, a Escola de Aplicação 'tá na iminência de ser fechada porque funciona num pavilhão da Secretaria de Agricultura, que em ele deseja instalar uma dependência do Departamento de Produção Animal. E, assim, se desalojam mil crianças para alojar 20 ou 30 exemplares de gado ou de suínos; são coisas que só acontecem entre nós." [ 20] No entanto, somente em 1954, muda de endereço e instala-se em edifício no bairro da Lapa. O prédio desenhado por o arquiteto Roberto José Goulart Tibau, foi construído em decorrência de um acordo 'tabelecido entre a prefeitura de São Paulo e o Estado. Tal acordo ficou conhecido por Convênio Escolar [21]. Seu projetista foi contratado por o arquiteto Hélio Duarte, encarregado de formar uma equipe de profissionais para o Convênio Escolar. Durante a existência do Convênio, de 1948 a 1955, outros 64 edifícios 'colares também foram construídos. Eram construções que quebravam com os modelos ecléticos da 'cola monumento, cedendo lugar a uma 'cola horizontal em meio a jardins e gramados. Uma arquitetura moderna que refletia toda a ideologia pedagógica da Escola Nova. Espaços arquitetônicos abertos, traços limpos e simples, que ofereciam 'paço propício para a Educação Física. O prédio passou a abrigar a 'cola infantil mantida por a Escola Superior de Educação Física contava com locais destinados a pequenas hortas, viveiros, Educação Física, laboratório de Fisiologia, gabinetes médico e dentário, sala de dança e palco. A mudança na concepção da arquitetura 'colar não se impôs apenas por as inovações pedagógicas, mas também por exigências associadas ao positivismo científico, ao naturismo, ao movimento médico-higienista e ao taylorismo entre outros. O projeto consistia na união do educador, do médico e do arquiteto. Era uma arquitetura 'colar que garantia um maior contato das crianças com o ambiente natural, e construía um 'paço isolado da cidade. A metrópole, anteriormente reverenciada por o movimento modernista, ganha nas décadas de 1940 e 1950 uma conotação maléfica. O barulho, o automóvel, o concreto antes identificados com a civilidade, agora são considerados males higiênicos a serem evitados. Os elementos naturais, o ar filtrado por a cerca viva, o sol em contato com a pele das crianças, assegurariam uma proteção natural contra doenças como a tuberculose. A Escola de Aplicação ao Ar Livre nascida no bairro da Água Branca, oferecia a seus alunos todos os ideais naturistas de uma pedagogia baseada na natureza. Sol, ar puro, água, jardins. No entanto, não contava com uma arquitetura 'pecífica para 'sa pedagogia, fator suprido por o Convênio Escolar em 1954. Este é também o ano em que o Departamento de Educação Física de São Paulo se desvincula da Secretaria da Educação e Saúde Pública e se une a Diretoria de Esportes do Estado de São Paulo [22]. Em 1956, é a vez da Escola de Aplicação ao Ar Livre se desligar da Escola Superior de Educação Física e se subordinar diretamente à Secretaria de Educação por meio do decreto nº. 25.596, sendo substituída, através do artigo 1º, por o Grupo Escolar Experimental. Em homenagem ao seu idealizador, recebeu em 1963, através do decreto nº. 42.475, o nome de Grupo Escolar e Ginásio Experimental Dr. Edmundo de Carvalho, consolidando-se como uma instituição modelo, que serviria de campo para a experimentação de novos métodos educacionais. Em 1999, ela perde seu caráter experimental e passa a apresentar um projeto pedagógico em conformidade com as demais 'colas do Estado, 'pecializando-se em crianças portadoras de necessidades 'peciais. Notas: [1] André Dalben, 23, é licenciado em Educação Física por a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente cursa o Mestrado na mesma instituição, desenvolvendo a tese «Educação Física, Ginástica, Esporte e Natureza no Departamento de Educação Física da Secretaria de Educação e Saúde Pública do Estado de São Paulo (1940-1950)» sob orientação da Prof. Dra. Carmen Lúcia Soares e financiamento da FAPESP. [2] LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996. [ 3] Semana da criança. O Estado de São Paulo. Paulo, 13 de out. de 1939. [4] Idem. [5] Posteriormente nomeado Parque Fernando Costa, em homenagem a seu criador, e popularmente conhecido como Parque da Água Branca. [6] O Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo foi criado em 1931 e se manteve subordinado a Secretaria da Educação e Saúde Pública até 1954. Seu idealizador, Dr. Arthur Neiva, logo após se afastar da diretoria do Instituto Biológico da Secretaria da Agricultura, em 1930, assumiu a Secretaria da Educação e Saúde Pública e formou uma comissão de 'tudos, liderada por Antonio Bayma, encarregada de elaborar as bases para um departamento exclusivo a Educação Física em São Paulo. [7] Abade, Idílio Alcântara. A 'cola superior de educação física de São Paulo e sua 'cola de aplicação ao ar livre. Revista de Educação Física, Rio de Janeiro, ano X, n. 48, p. 24-27, set. 1941. [8] Idem. [9] Idem. [10] Idem. [11] A Escola Superior de Educação Física também foi criada por o Departamento de Educação Física de São Paulo. Atualmente instala-se no campus da USP com o nome de Escola de Educação Física e Esportes. Sobre sua história ver: GNECCO, J. R. Reforma Universitária e a USP: a integração da Escola de Educação Física em 1969. Tese de doutorado em educação, São Paulo: USP, 2005. [12] Departamento de Educação Física. Relatório de 1942. 1943. [13] Idem. [14] Idem. [15] Idem. [16] Idem. [17] Idem. [18] Idem. [19] Idem. [20] A Escola de aplicação ao ar livre do departamento de educação física do 'tado de São Paulo. Revista Brasileira de Educação Física, Janeiro, ano 2, n. 20, p. 16-17, set. 1945. [21] A respeito do Convênio Escolar ver: LIPAI, Alexandre Emílio. Uma arquitetura para o fluir da vida. Integração. São Paulo: Universidade São Judas Tadeu, v.. X, n. 37, p. 137-143, abr. / maio / jun. 2004. e Dórea, Célia Rosângela Dantas. Anísio Teixeira e a organização do 'paço 'colar. Tese de doutorado em Educação. São Paulo: PUC-SP. 2001. [22] Atualmente, o representante direto do Departamento de Educação Física de São Paulo é a Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo de São Paulo. [23] Outra história da Escola de Aplicação ao Ar Livre narrada por um de seu ex-alunos: http://www.overmundo.com.br/overblog/reminiscencia-escolaros primordios Número de frases: 145 http://www.overmundo.com.br/overblog/o-estado novo Ecos Sonoros, Ecos Sonoros, Infância em Recife Zeh Rocha De a minha infância se eternizam marcas bem profundas dentro de mim, que se refletem na minha música. Compactando 'tas marcas, que são fatos, pessoas, imagens, sentimentos, o meu produto musical evidência o que preservo como valor 'piritual da maior importância para todos: A gratuidade da vida com o 'paço sagrado da liberdade e dos afetos. Em tudo que vivencio, imagino, crio existe o valor da liberdade e do afeto. Os sons da minha infância ainda ecoam em minha mente. Lembro dos sons dos pregões, dos vendedores ambulantes de algodão doce, japonês, pipoca, vasculhador, peneira e panela. Recordo de Zé da Praça, um louco varrido, que limpava toda a sujeira da rua, correndo atrás pra dar porrada em que lhe assim lhe chamasse. Em a folia do carnaval em Recife, os caboclos de lança com seus chocalhos badalando, enquanto corriam pra nos assustar com suas evoluções e loas guturais, invadindo as ruas do bairro da encruzilhada, em busca de trocados para se alimentarem e encherem a cara de cachaça, o combustível que lhes aquecia a alma. Lembro das bandas marciais nos desfiles de sete de setembro, quando meu pai insistentemente me fazia ir assisti-los, dos bordados de violões de sete cordas nas serenatas na casa do vizinha, dona Cila, da voz suave de Nat King Cole, Agostinho dos Santos, dos metais da orquestra de Ray Coniff, vindo dos discos vinis na vitrola Abc, na casa de minha avó, em Olinda. Em a Marim dos Caetés, foi importante vivenciar o carnaval, com suas cores, ritmos, imagens inusitadas, e principalmente, o som das orquestras de frevo, de Pitombeiras e Elefantes, dos batuques das alfaias, dos elus no terreiro de Pai Edu, Tatá Raminho de Oxossi, das 'colas de samba, os taróis e surdos, tamborins. Esta fonte da música popular pernambucana impregnou meu 'pírito de tal forma, que até hoje, ouço com muita clareza em minha memória toda 'ta sonoridade impressa na minha partitura interior. Sinto que a 'sência nutriente da minha musicalidade 'tá naquilo que eu ouvi e retive no meu inconsciente sem perceber, a matéria sonora que nos é reservada para a criação, nosso arquivo inconsciente, adquirido em outras vidas e ou, por influências 'pirituais, boas ou más, mas, que filtramos de forma seletiva e 'tética. Estamos ouvindo sem percebermos milhões de informações que nos chegam através do cérebro, mas, que ordenamos, catalogamos, arquivamos, e transmitimos a quem nos ouve. Devolvemos ao Universo, a Deus, o que herdamos 'piritualmente, faz parte deste nosso corpo terreno, com seus limites de percepção e comunicação. A nossa livre 'colha musical é um processo consciente, deliberado por nossa sensibilidade. O prazer no ato de selecionar sons que nos afinam a alma, que nos deleitam os sentidos da audição. Este momento único, mágico, lúdico, feliz aprisionamos a energia que nos eleva, o som nos conforta, a imagem e os signos que nos libertam, paradoxalmente. Dificilmente, um ser humano, compositor, criador de canções, sinfonias deixará de lado 'tas marcas, sinais, símbolos, sensações, sentimentos, imagens, sons apreendidos por sua alma durante a infância. Para mim, 'te ouvir inconsciente me deu o prumo, o leme, o rumo do meu criar artístico, 'pecificamente na música e na literatura, no parto das minhas canções, aonde som e verso são fios de um tecido original do meu tear. Número de frases: 22 «Em a minha terra, alternativo é quem dá o cu», já dizia Beto Bruno. O vocalista do Cachorro Grande soltou 'ta pérola no Festival Upload do Sesc, para o qual sua banda foi selecionada, em tese, por ser alternativa. Em o mesmo evento, se apresentaram os cariocas Los Hermanos, recém-separados que, na época, ainda lançavam o segundo CD. Alternativos, eles eram. Ok. Mas a Bacante não é uma revista que insiste em só falar de teatro? A resposta é sim. Porém, como em qualquer manifestação artística, no teatro também existe a necessidade de criar rótulos para definir diferentes 'tilos. É aí que aparecem termos como teatro alternativo e bacanal. Por enquanto, vamos nos fixar no sentido do primeiro termo. Só pra começar as dificuldades, dizer que tal obra / ator / 'paço / grupo é alternativo, suscita, imediatamente, " A questão ": Alternativo a quê? a) aos 'paços convencionais; b) à linguagem que todo mundo usa; ( favor não perguntar quem é todo mundo. Uma polêmica de cada vez) c) ao uso de roupas no palco; d) ao teatro comercial; e) ao Juca de Oliveira e grande elenco; f) ao capitalismo, g) ao palco italiano; h) aos enlatados 'tadunidenses. i) nenhuma das anteriores. j) todas as anteriores. Não sabe qual assinalar? Não se desespere. Ainda. Ao contrário, fique feliz! Afinal, o teatro alternativo pode ser quase tudo o que você quiser. Inclusive alternativo à 23 de maio, como exemplifica Sérgio Roveri. Para ele, se existe o alternativo, também precisa haver o oficial, mas é difícil utilizar 'sa definição nas artes. «Prefiro usar alternativo em rotas de trânsito, quando ouço o rádio e o locutor diz: ' ouvintes, procurem um caminho alternativo, a 23 de maio 'tá congestionada! ' Qual a lição que se tira disso? Que o caminho legal seria a 23 de Maio. Mas, na impossibilidade de 'ta, vamos procurar outras saídas. Mas no teatro, 'pero, a coisa não funciona assim.», desenvolve o dramaturgo, que tem duas peças em cartaz na Praça Roosevelt (Abre as Asas Sobre Nós e A Noite no Aquário) e uma no Teatro Vivo mais longe de você (Andaime). Com a liberdade de quem passeia, feliz, entre travestis e socialites, ele garante que 'sa classificação é furada e que o que continua valendo são os velhos: «bom «e» ruim». Para tentar entender porque o «bom» e o «ruim» foram substituídos por uma infinidade de outros termos e, afinal, o que 'tes tais outros termos significam, a Equipe Bacante foi caçar algumas opiniões sobre o tema. Seguem abaixo, desorganizadas em tópicos. Em terra de alternativo, quem tem um real é vendido? O chamado Teatro Alternativo (usaremos 'se termo, até uma conclusão melhor) muitas vezes é considerado teatro de baixo orçamento, feito sem incentivo nenhum, com produção tímida e recursos mínimos. Essa é uma das justificativas para a atriz e dramaturga Ângela Dip considerar sua última produção, «O Barril,» super-alternativa». Para ela, dá pra fazer teatro sem muito investimento. «Você não precisa de mais do que um puta texto, me elogiei, e uma puta atuação, me elogiei de novo», afirma, com modéstia. Régis Santos, cenotécnico do Cemitério de Automóveis, concorda, " a gente já montou muita coisa sem grana. O bom teatro não precisa de dinheiro. Claro que ajudaria, mas o bom teatro é feito com amor, com raça». Rodolfo Garcia Vasquez, dos Satyros, acha que o dinheiro não tem nada a ver. «Uma coisa é o retorno financeiro da arte, outra coisa é a arte». Ele aponta que o importante é o que se faz com o dinheiro como acréscimo à arte e não a grana em si. «Há 'petáculos que dão muito mais lucro do que os do teatro de pesquisa, mas não trazem uma contribuição tão importante para o próprio desenvolvimento das artes cênicas no Brasil." O custo da produção também não é o fator de diferenciação na opinião do jornalista e crítico teatral Sérgio Sálvia Coelho. Para ele, o artista não opta por fazer teatro alternativo por falta de recursos para uma montagem mais comercial. A questão 'taria na opção por a pesquisa e por a criação de algo novo. «Não é porque tem pouco dinheiro, que o artista se condena. Tem gente que tem pouco dinheiro e faz um teatro conformista, tem gente que tem muito e faz uma coisa diferente». Tentar classificar a obra de Roveri ajuda a entender porque o custo das produções pode ser insignificante. Duas peças suas 'tão sendo apresentadas na Praça Roosevelt, por vinte reais, simultaneamente à montagem de outro texto seu no Teatro Vivo, mais longe de você, por cinquenta enormes reais. Segundo ele, mesmo tão diferentes, as três obras foram 'critas com o mesmo carinho. Vale lembrar, porém, que a qualidade e a inovação da montagem dependem de mais fatores além do texto e da dedicação com que ele foi redigido. Em Andaime, algumas soluções cênicas, como a própria 'trutura que dá nome ao texto ou o vidro que é limpado por os atores, são evidentemente muito caras e não apresentam nenhum tipo de inovação. Caso tivessem menos recursos financeiros, o cenário poderia ser construído de uma outra maneira sem prejuízo de texto. Marici Salomão, dramaturga autora de Impostura, em cartaz atualmente no Teatro dos Satyros, e jurada do prêmio Shell, defende que a relação do teatro alternativo com o mercado pode existir, mas não é de dependência. «Ele não depende do mercado, do comercial para sobreviver, mas pode 'tar inserido em ele. Inserir-se no comercial, inclusive, pode ser uma necessidade, como afirma Sálvia. Para ele, o teatro que se baseia em pesquisa, ao contrário do que se pensa, requer ainda mais investimento e atenção, não para que 'te dinheiro investido se reverta em lucro, mas para que viabilize o desenvolvimento de alternativas para o futuro. «Normalmente, quem faz teatro alternativo faz porque é apaixonado por a tentativa, muito mais do que por querer fazer disso um meio de vida». O próprio crítico afirma, em matéria publicada na Folha de S. Paulo, que não é fácil conseguir incentivo. As possibilidades variam entre apoio governamental (= prefeitura = fomento = incerteza), puteiros (caso do grupo Alma, por exemplo, que é apoiado por os Vinil American Bar, Stop Night Club e Eskala Night Club) e bolso dos realizadores (caso do TUCAN, grupo de atores que se formaram em 2004 por a UnB, cujo custo das viagens para apresentar a sua primeira peça, Adubo, é por vezes dividido entre os quatro atores). Nem a falta de incentivo, nem a paixão por a arte, no entanto, podem justificar um trabalho malfeito. Para Ângela Dip há um equívoco quando " neguinho começa a fazer qualquer coisa, só porque não é conhecido ou é pobre e todo mundo tem que ver e achar que é moderno, cult, alternativo. Acho que tudo tem que ter um trabalho." Marici concorda que alternativo não é nivelar a qualidade por baixo e resume, " Não é quanto pior a situação, melhor. Não. Quanto melhor, melhor." Pequenininho é mais gostoso? Criou-se o senso comum de que o «teatro alternativo» acontece apenas em 'paços muito pequenos e 'quisitos, em geral, sujos, tais como porões, antigos galpões ou outros tipos de ex-comércios onde o público médio é de 50 pessoas. A premissa é verdadeira em muitos casos de expoentes do teatro alternativo, no entanto, 'tá longe de ser absoluta. Sérgio Sálvia 'creveu em matéria para a Folha, já citada anteriormente, que se a produção encenada num 'paço pequeno se transferisse para um teatro de 500 lugares, ela não deixaria de ser alternativa por causa disso, porque seu 'tilo não seria alterado. Em entrevista para a revista Bacante, o crítico afirmou que o surgimento de vários 'paços pequenos é uma tendência atual. «Hoje são vários lugares assim, entre 50 e 100 lugares. Até porque o público para o teatro é de 100 pessoas. Até 30 anos atrás, os cinemas eram pra grandes públicos, em média 500 pessoas. Hoje, as salas são pra, no máximo, 200. E ninguém diz que o cinema 'tá decadente por isso». Marici Salomão acredita que a maleabilidade do local também determina um 'paço como sendo alternativo. «A ausência do palco italiano e a utilização de um 'paço que dê pra modificar: fazer teatro de arena, arquibancada, mudar os bancos de lugar. Que dê para ' alternativisar ' o 'paço " são algumas das característica citadas por a dramaturga. Os grupos realmente alternativos, segundo Pedro Martins, do grupo TUCAN, procuram os 'paços ditos alternativos " não porque isso 'tá na moda, mas para agregar 'ta informação ao seu trabalho." Roveri não acredita que o 'paço seja determinante para dizer o que é ou não alternativo. Para ele, são apenas rótulos criados por a imprensa para mapear a produção cultural na cidade. «Se os 'petáculos são bons, eles são bons para seis pessoas ou mil e duzentas pessoas na platéia." E completa. «Classificar um 'petáculo de alternativo é como justificar uma possível ou provável falta de qualidade ou apuro técnico. E isso, seguramente, não é o endereço ou o horário de exibição que determina." A ponta do iceberg A questão do 'paço fica ainda mais complicada quando se fala da Praça Roosevelt, região considerada por muitos, sobretudo a grande mídia, o reduto alternativo do teatro paulistano. Lá 'tão os Espaços dos Satyros 1 e 2, o Espaço Parlapatões, além de outros menos reconhecidos como o Studio 184, o Teatro do Ator e Teatro Lucas Pardo Filho, do outro lado da praça. Muitos grupos da região só 'tão ali porque possuem fomento da Prefeitura de São Paulo. Os Parlapatões, por exemplo, utilizaram o incentivo para adquirir o 'paço no número 158 da calçada e aumentar, ainda mais, a badalação da rua. Vizinha do teatrão Cultura Artística e das «boates» Kilt e My Love, a Praça começou a ser muito frequentada por uma elite intelectual. Em os últimos anos, diversas produções e grupos receberam reconhecimento em premiações. É o caso de Sérgio Roveri, vencedor do Prêmio Shell por a dramaturgia de Abre as Asas Sobre Nós (que ficou um tempo em cartaz no Espaço dos Satyros, depois no Sérgio Cardoso e agora 'tá no Parlapatões). No entanto, o próprio Sérgio Roveri questiona 'sa áurea alternativa que ronda a região e seus grupos. Em os últimos anos, Os Satyros foram contemplados com vários prêmios de incentivo, excursionaram por o Brasil e por a Europa, são referência na produção teatral da cidade e transformaram a Praça Roosevelt num pólo de produção cultural, onde as filas começam às 18h e não terminam antes da meia-noite. Então, como dizer que um grupo como eles é alternativo?" O fundador e diretor do grupo, Rodolfo Garcia Vasquez, não faz questão nenhuma de ser chamado de alternativo. Em lugar disso, prefere falar em teatro vivo (não, não é aquele mais longe de você). «É um teatro que não se apega a uma regra tradicional, busca refazer os limites do teatro dentro das suas possibilidades na relação palco / platéia». Com base em 'sa definição, Rodolfo afirma que 'te é o trabalho que os Satyros e outros grupos tentam realizar. A produção na Praça também é vista como uma produção de vanguarda, por propor novas possibilidades e definir novas tendências. Contrária ao rótulo, Ângela Dip afirma, convicta, que não existe vanguarda e brinca que os gregos já inventaram tudo. «Quando eu tinha 25 anos, tinha o Espaço Off, muito parecido com a Roosevelt, que foi onde eu pude começar. Era um 'paço pequeno e as coisas aconteciam dentro e fora do teatrinho a qualquer hora», conta, evidenciando que a tão aclamada movimentação do local não é exatamente inédita. Nem inédita, nem tampouco concentrada. A movimentação alternativa 'tá 'palhada por São Paulo. Segundo Sálvia, a Praça é somente a ponta do iceberg, por ser o lugar mais visível de uma rede de teatro alternativo. Ele afirma que são entre 50 e 100 os grupos que têm sede própria e desenvolvem trabalhos regionais. Ele conta que, em casos como 'ses, quando os grupos atingem alguma autonomia e conseguem um 'paço, suas sedes funcionam quase como um posto de saúde cultural e os grupos são levados a conhecer a realidade e as demandas das regiões ocupadas. «Não é venda de um produto pronto, como nos grandes teatros, é um diálogo, uma construção comum com a comunidade em volta." Rodolfo concorda. «Acho que há um pólo na Praça Roosevelt, mas certamente não é o único lugar». Para incentivar 'sa disseminação do teatro, não necessariamente alternativo, mas necessariamente nos mais diversos locais de toda a capital, a Prefeitura de São Paulo incentiva projetos como o Teatro Vocacional, cujo objetivo é acompanhar a formação e o desenvolvimento de grupos de todas as regiões, viabilizando sua independência. «É bem diferente de uma oficina, que tem um período determinado de aprendizado e depois acaba e, se você se interessar, você procura outra. Nosso trabalho é levar conhecimento e abrir um leque de possibilidades, acompanhando os processos», explica Juliane Pimenta, atriz que participa do projeto na Zona Sul. Se fora da Roosevelt há todo tipo de produção e se destacam aquelas voltadas às necessidades das comunidades ao redor, na Praça o teatro parece ter encontrado público assíduo e desenvolvido uma relação amigável com a mídia. Marici, por exemplo, utiliza «alternativo chique» para denominar Os Satyros, porque eles mantêm os requisitos que ela considera como sendo característicos do teatro alternativo, apesar de terem sido «absorvidos» por a mídia, ao serem citados e receberem diversos elogios da grande imprensa. Tô na mídia e agora? A grande imprensa 'tava olhando para a Brigadeiro de helicóptero (pq eles só enxergam de longe), quando, de repente, virou os olhos para o centro e viu alguém pelado na Roosevelt. ( Não! Não era o Zé Celso! Ele fica um pouco mais pra lá!) Desde então, seus representantes vivem dando capas, matérias e fofocas sobre teatro alternativo. Os grupos, acostumados à solidão do anonimato se assustaram, mas, depois, o calor dos flashes trouxe conforto, comodidade e público, aumentando a bilheteria e a gratidão. Dá-se, então, uma das relações mais complicadas e comentadas no cenário teatral paulistano. É possível se manter alternativo depois de sair na capa da Bravo? Para Marici, sim. A jurada do Prêmio Shell afirma que apesar de 'tarem na mídia, as peças não entram numa linguagem convencional e, portanto, mantêm seu jeito de fazer teatro. Não é por 'tarem inseridas na imprensa que deixam de ser alternativas. Sérgio Sálvia conta que, com a formação de uma 'pécie de grife do alternativo, 'tá relativamente mais fácil utilizar o termo e ser compreendido. No entanto, há dois grandes problemas que o crítico aponta: a utilização equivocada da grife por grupos ruins, prejudicando a imagem dos outros, e o paternalismo que geralmente é vinculado a 'ta expressão. «Muitas vezes, as pessoas toleram mais defeitos porque a obra é alternativa». Há também, na opinião de ele, uma visão ingênua e pouco embasada do conceito em alguns casos. «Penso no Felipe Hirsch, que se faz valer do Gerald Thomas. Quando o Gerald fez, ninguém sabia o que era, não tinha apoio nenhum, então ele criou o modo de fazer. Hoje, o Felipe tem apoio pra reproduzir o que foi feito naquela época, há mais de vinte anos." Assim, de acordo com Sálvia, algumas coisas chamadas de alternativas hoje não passam de uma reconstrução de um modo de fazer criado há muitos anos. Para Rodolfo, dos Satyros, a tentativa de rotular é, muitas vezes, uma tentativa de diminuir o tamanho das coisas, encaixando-as em categorias. «Aí você evita se confrontar com o potencial subversivo e transformador que aquilo traz», explica. No entanto, para ele, é uma bobagem preocupar-se excessivamente com a mídia. «Tem muita gente preocupada com o uso do termo alternativo por a imprensa agora, porque não sabe muito bem como definir o que 'tamos fazendo e o processo de transformação que 'tá acontecendo na cena teatral de São Paulo». Cheio de boas intenções Um dos fatores determinantes para diferenciar 'petáculos e repertórios é a intenção com que são feitos e a verdade que pretendem transmitir. Em outras palavras, o foco 'colhido por um grupo depõe muito sobre o tipo de produção a que ele 'tará vinculado. O próprio uso do termo teatro alternativo, nem sempre 'tá diretamente ligado ao resultado final da obra. Para alguns, o seu processo e os caminhos 'colhidos ao longo de ele são o critério mais importante. Mais do que 'paço, 'tética, posição na mídia, fazer teatro alternativo 'tá ligado, para algumas pessoas, à busca de novos sentidos para a arte. Para Pedro Martins, do grupo TUCAM, os grupos alternativos não tentam se encaixar no âmbito comercial da arte, pois sua prioridade é a pesquisa. «São grupos que misturam gêneros, linguagens e 'téticas para 'tabelecer uma outra relação com o público, diferente do gostar ou entreter." David, do grupo Alma, acredita que, para ser alternativo, um processo não pode ter defesas, tem que ser verdadeiro, para que possa envolver o 'pectador e modificar sua visão de alguma forma. Quebrar os limites e propor novas perspectivas. Para Rodolfo, é isso que teatro vivo faz. «Existem 'petáculos que ficam preocupados primeiro com a relação comercial, depois em ter uma fórmula para agradar ou divertir o 'pectador, mas sem fazê-lo entrar em contato com si mesmo de uma forma aprofundada. Esse tipo de teatro subestima o potencial de vida, de vitalidade que o teatro traz», critica, afirmando que definir novas possibilidades na relação público e artista é uma maneira intensa de fazer teatro, não necessariamente por meio de experimentações, mas sempre com o objetivo de expressar as verdades dos artistas. Sob qualquer ponto de vista, fica claro que o teatro alternativo busca um sentido diferente e verdadeiro para suas produções, em geral, por meio de uma intensa pesquisa. Para Sálvia, a 'sência é justamente 'sa, ou seja, optar por o alternativo é uma opção de pesquisa. «É mais ou menos como os protótipos da indústria automobilística, a equipe responsável 'tá ali para projetar alternativas para o futuro», ilustra. Eu experimento porque vivo de maneira alternativa? «Não é legal você rotular, porque você tá excluindo. E na classe artística rolar isso? Pô, que feio!». A bronca de João Roncatto, assessor de imprensa de Ângela Dip e dos Parlapatões, é muito sincera, mas talvez não tenha muito efeito, 'pecialmente sobre a mídia, que continua buscando classificações e rótulos para entender e explicar, aos seus leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, as movimentações e tendências das artes. No entanto, a tentativa de organizar as coisas, às vezes, só ajuda a bagunçar tudo de vez. Admitindo que a base do teatro alternativo seja a pesquisa de linguagem, fica muito complicado diferenciá-lo do experimental. Rodolfo, no entanto, acredita que há algumas diferenças no foco dos trabalhos. «O teatro experimental é centrado em experimentar a linguagem, já o alternativo inclui isso, mas inclui também outros trabalhos que 'tão mais voltados a expressar as verdades dos artistas." Ele diz, ainda, que, por vezes, o teatro alternativo já tem uma maneira própria de ser produzido e a mantém, sem precisar de novas experimentações. Roveri afirma que não tem nada contra o termo alternativo, que hoje, segundo ele, denota algo cult, novo, provocador e visionário. Fica claro, entretanto, que ele tem muita coisa contra o rótulo. «Eu mesmo usava quando era jornalista. Confesso que é uma maneira fácil de classificar os 'petáculos. Mas, há algum tempo, não acredito mais nisso. Percebi que o que continua valendo, ainda, é a definição mais elementar que o teatro pode ter: ou ele é bom ou é ruim." Depois de consultar críticos, jornalistas, atores, dramaturgos, jurados do Prêmio Shell, assessores de imprensa, alunos do curso de 'panhol do Senac, arte-educadores, nossas próprias consciências, enfim, uma gama de 'pecialistas em teatro, a Equipe Bacante chegou à seguinte conclusão: não existe um consenso sobre o que é alternativo. Então, a alternativa que nos resta é: continuaremos perguntando «alternativo a quê?», sempre que alguém assim se intitular. Mesmo que a resposta não nos deixe plenamente satisfeitos. Número de frases: 193 Pergunte você também. Minha namorada, angustiada com o que fazer após ter terminado sua faculdade, andou tentando buscar algo novo pra continuar se entusismando com a sensação de 'tar evoluindo. Acabei lhe respondendo o seguinte, após lhe falar que a ilusão de progressão contínua que a vida 'tudantil gera nas pessoas, ao 'tarem sempre progredindo de um ano a outro em relação à evolução dentro da «carreira» de 'tudante, dos 3 ou 4 anos de idade até os quase 30 anos, não tem como continuar a vida inteira, a não ser a um preço muito alto. «Acho que depois que termina o script pré-definido da vida 'tudantil (que dura até a pessoa adquirir uma identidade profissional, um papel social de alguma profissão que a sociedade, ou parte de ela, reconheça e recompense), dá pra continuar se expandindo, ou crescendo, ou evoluindo, das seguintes formas: 1 -- para os lados (engordando a partir de um crescente prazer com a comilança); 2 -- em massa muscular; 3 -- em uso de drogas com capacidade de produzir sensações cada vez mais prazerosas; 3 -- em número de confusões e problemas (filhos indesejados, confusões matrimoniais, processos nas justiças, amantes com potencial de risco, etc., e com a sensação cotidiana de se 'tar ficando cada vez melhor para resolver, suportar ou contornar 'te acúmulo de problemas); 4 -- em sensações amorosas cada vez mais intensas (paixões). Embora, quando 'ta via se torna a principal, frequentemente ela resulte apenas em acréscimo ao item 3; 5 -- na burocracia acadêmica ou na 'calada de alguma instituição pública que propicie acesso a cargos de maior renda e prestígio; 6 -- na competição selvagem /suicida/canibal dentro corporações privadas megalomaníacas; 7 -- no aprimoramento infinito de currículo para a competição nos campos 5 ou 6; 8 -- em popularidade (na produção de algo que seja desejado por a população de modo direto, como um médico midiático faz, um compositor de música popular, um 'critor, etc.); 9 -- na competição 'portiva amadora; 10 -- em acúmulo de dinheiro, de patrimônio e de bens tecnológicos ou outras coisas que dêem a sensação de crescente poder econômico; 11 -- em aumento demográfico da 'pécie humana, com a geração de filhos a cada dois anos durante vários anos, e depois com a deposição nos filhos de expectativa de crescimento, aprimoramento e expansão de eles; 12 -- no acúmulo de conhecimento intelectual em alguma área racionalista, independentemente da praticidade ou do realismo deste conhecimento. Algumas vezes associado ao item 5; 13 -- na coleção infinita de coisas muito 'pecíficas (selos, carros antigos, insetos, etc); 14 -- na potência do carro ou de outro produto tecnológico que exerça fascínio quanto mais potente ele for; 15 -- em 'tética corporal (em malhação em academia, em cirurgias plásticas ou adereços ou roupas cada vez mais sedutores ou provocativos visualmente, etc.); 16 -- com um misto de um ou mais destes aspectos. Alternativas individuais possíveis a se ver reduzido a um destes fins ridículos: 1 -- suportar a angústia de que o ser humano (ocidental e ocidentalizado) é um animal irracional com vontade «instintiva» de se «expandir» ou «evoluir» ou adquirir mais poder indistintamente (ou de aduiquirir sensação de poder infinitamente crescente), mas inutilmente, não raras vezes cega e destrutivamente. E que é um ser que inclusive criou para si toda uma concepção abstrata e muito pouco realista de que vem a ser um animal racional, crença 'ta que lhe serve como modo de auto-iludir se sobre o fato de ele ser o ápice de uma cadeia evolutiva do mundo natural e de que teria poder e controle sobre si mesmo e sobre seu futuro; 2 -- suicidar-se; 3 -- aderir conscientemente (até certo ponto) a uma ou mais das possibilidades atuais de adquirir 'ta sensação de crescimento infinito, tentando controlar, até onde for possível, a adesão aos modos atuais de se ter a sensação de poder; já que nas sociedades atuais, em decorrência de sua tecnologia e da superpopulação humana no planeta, adquirir a sensação de expansão constante ou de crescente poder tornou-se algo frequentemente genocida ou auto-destrutivo. Por exemplo: um carro muito potente dando demonstração de sua velocidade superior pode matar facilmente o próprio condutor, um pedestre ou, indiretamente, destruir o planeta via queima incessante de toda a energia que o planeta tem acumulada -- já que o número de pessoas que querem exercer tal poder chega aos milhões. Poderia ser dado exemplo semelhante em todos os itens de 1 a 16 anteriores; 4 -- aderir a religiões ou seitas, transferindo para o campo puramente abstrato a sensação de poder no presente ou no futuro (em outras vidas, ao lado de deus, etc.); 5 -- aderir irrestritamente, sem reflexão ou sem freios morais, a um ou mais dos modos de 1 a 16 de adquirir a sensação de expansão ou poder crescente, de modo auto-destrutivo ou destrutivo para tudo e todos. Número de frases: 33 Esta última, aliás, é a via mais comum à maioria dos humanos vivos atualmente." Um ano de Overmundo. Tudo começou com a mostra do ano passado, e não poderia deixar 'sa passar em branco. Agora desempregado, ao invés do passe de 20 filmes (que sempre 'gota no primeiro dia de vendas), peguei o 'pecial, ao qual me refiro como passe Desempregado: filmes ilimitados de segunda a sexta até as 17:00hs. Para continuar as alterações, 'se ano meu companheiro montador de programação, o Palm, 'tá com problemas técnicos então por enquanto 'tou me organizando analogicamente, 'pero solucionar isso em breve. Ainda nos problemas técnicos, minha câmera digital quebrou então os leitores terão que se contentar com nenhuma foto, ou fotos de baixa qualidade. Continuando, de passe em mãos selecionei apenas dois filmes para hoje à tarde: Crianças Perdidas de Buda -- Espaço Unibanco 13:30 Havia poucas opções para minha primeira seção, ao menos à primeira vista, posso ter deixado algo passar batido. O segredo na mostra é não olhar para trás, e depois de 'colher por um filme enfrentá-lo de cabeça erguida. Em 'se documentário simples e cheio de pessoas de vida difícil, a sala 'tava bem pouco ocupada. A seção demorou a começar, o que começou a me deixar preocupado no final do filme, já que tinha outra enfileirada. Além disso, problemas desastrosos ocorreram nas legêndas, que ficaram sem funcionar por pelo menos metade do filme; um empecilho para os que não falam Inglês ou Tailandês. Sem mais delongas parti para a segunda (na verdade primeira) 'colha do dia: Moebius Redux -- Unibanco Arteplex 16:00 Este foi o primeiro filme que vi na programação e um que sabia que veria com certeza. Apesar de não ser fantástico, valeu muito a pena saber mais sobre Jean Giraud. A seção 'tava um pouco mais povoada, mas mesmo assim muito tranqüila. A o meu lado uma garota sentada falava ao telefone antes do filme começar e parecia tão deslumbrada quanto eu ('pecialmente ano passado) com todo o evento; explicava ao amigo as limitações de seu passe 'pecial e perguntava onde podia pegar os ingressos, e parecia 'pecialmente empolgada com o fato de ter que sair correndo para o Reserva Cultural ao final da seção. Ainda 'tou com problemas para organizar minhas próximas seções, mas 'te é o próximo passo: Programar toda a semana cuidadosamente. Número de frases: 24 Nos vemos em dois dias. Todo trabalho artístico nasce 'sencialmente da sensibilidade daquele que o traduz para o resto do mundo. A o artista, cabe a missão de expressar vida através da sua arte, o que é um desejo comum e inerente a todos que a ela dedicam sua própria história. O que não é habitual de se ver no universo das artes, porém, é que dois artistas, com exatamente as mesmas características e de personalidades complementares se encontrem um dia, passando a dividir até mesmo sua trajetória, ao que muitos chamariam de «encontro de almas gêmeas». Assim são Demóstenes Fidélis e Lusyennir Lacerda, carinhosamente conhecidos entre os amigos como «Pebinha e Lulu», respectivamente. Esses dois artesãos de mão-cheia desenvolvem um trabalho inusitado, que por incrível que possa parecer, tem seu respaldo moral e artístico muito mais reconhecido na capital cearense e no resto do Brasil do que, no próprio sul do Ceará, onde 'tão suas origens (Crato e Juazeiro do Norte). à arte, eles se dedicam de forma intensa. Através de ela, conseguem falar sobre a cultura, a sociedade e a política regionais, sempre usando a criatividade e a inovação como ferramentas diárias sob temáticas variadas. Mas, sempre únicas! Por trás de cada 'cultura modelada, percebe-se claramente que em ela existem características que, a princípio, parecem ser completamente antagônicas, mas que são, por eles, facilmente implementadas. É um misto de simplicidade e requinte. Simplicidade nas idéias e requinte nas formas e nos detalhes, sendo 'tes, o principal diferencial que lhes é atribuído. Durante anos de dedicação à criação artística, e em variadas fases de ela, os dois desenvolveram diversas técnicas, inclusive, em se tratando do próprio material a ser utilizado. Atualmente, uma das suas peças mais conhecidas é o «Jogo de Xadrez» feito em três temáticas -- Canudos, Cangaço e Reisado -- e eles desenvolveram uma massa feita à base de fécula de mandioca, que permite um manuseio e texturas incomuns. Ainda tomando como exemplo o «Jogo de Xadrez», o que mais impressiona aqueles que admiram as peças, por eles, adaptadas, como já dito, é a minuciosidade nos acabamentos, é o detalhamento na temática resultante de toda uma pesquisa histórica, e, finalmente, a pessoalidade que é atribuída à obra. E foi 'sa mesma minuciosidade que chamou a atenção do 'critor Inácio de Loyola Brandão, que encantado com o trabalho, 'creveu uma crônica sobre o casal publicando-a em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo. Sendo principalmente, um trabalho que relata a história da cultura e da política do Nordeste, eles têm o cuidado em fazer toda uma narrativa nas próprias peças, através da observância do «chão rachado» de um sertão sofrido, dos «olhares e posturas típicos dos sertanejos» que misturam a resignação, a fé e a 'perança desse povo, «as peculiaridades das armas da época» presentes tanto na guerra de Canudos quanto no Cangaço, bem como, nos rituais de dança folclórica (Reisado), etc. Em a «Banda Cabaçal», outro trabalho destes artesãos, parece que a musicalidade 'tá realmente ali, presente nas expressões 'tampadas no rosto e no corpo de cada 'cultura. Em 'ses grupos nordestinos, encontramos cinco integrantes, cada um com seu instrumento próprio e com sua particularidade musical. Em 'se contexto, Demóstenes e Lusyennir, surpreendentemente, conseguem expressar tudo isso em fécula de mandioca! Cada «homenzinho» feito por as suas mãos é um personagem único e que parece ter vida própria. Em indiscutível merecimento desses dois artistas plásticos (porque não chamá-los assim?), vários prêmios já lhes foram concedidos, de entre eles, Concurso Anual de Presépios Artesanais (2003, 2004, 2005 e 2007), Concurso Cultural Brascola 2007, além de expor seus trabalhos em eventos como: Feira Espanha Mostra Nordeste em Brasília, Mostra de Arte Cearense 2006, Corredor das Artes CasaCor Ceará 2006, de entre outros. A Secretaria de Cultura do Estado, através da CEART (Central de Artesanato do Ceará), reconhece e divulga suas obras que também podem ser encontradas em diversos 'tados brasileiros, que valorizam um verdadeiro resultado artístico. Seu artesanato há muito ultrapassou as paredes do seu atelier cheio de livros, de instrumentos de trabalho e de discos com a melhor música. Ele já é visto além das fronteiras do país e viaja por o mundo. Mas, quando um trabalho artístico é singular sob a ótica criativa, tudo o que vem depois se revela numa continuidade da idéia já elaborada. Como já disse um pensador: «quando um artista cria uma obra de arte, aquilo deixa de ser de ele e passa a ser dos outros, mas a 'sência, a raiz da descoberta, deve ser respeitada e preservada». Em outras palavras, o que Demóstenes e Lusyennir criam com fécula de mandioca é o resultado da junção de toda uma técnica própria, sensibilidade e criatividade, conhecimento cultural e histórico, e, acima de tudo, da 'piritualidade artística e da dedicação em tudo o que fazem. Com muita propriedade! O seu trabalho 'tá sendo repassado, ele já é «do mundo», e suas 'culturas fazem parte do acervo particular de muitos que valorizam a boa arte. Esta mesma arte que é revelada por trás de cada peça produzida por eles, seja ela qual for, é 'sencialmente e originariamente única. Em eles se enraizou e é o reflexo de toda uma diversidade cultural que existe no Nordeste e que se renova a cada dia, com novas caras e novas idéias. = = = = = = = = = = = = = = = = Em notas: Em o Overblog, 'pero que o trabalho de Demóstenes Fidélis e Lusyennir Lacerda exposto através deste texto, tenha agora a visibilidade merecida para publicação no Overmundo. Agradeço a todos que prestigiaram suas obras e sua história em «A Similaridade Entre Dois Artesãos» postado no Banco de Cultura. Contato com os Artesãos: lusylacerda@hotmail.com artegoma@yahoo.com.br http://www.ceart.ce.gov.br Número de frases: 41 http://www.gomaearte.arteblog.com.br Uma das mais atraentes perspectivas que me fez optar por as Ciências Sociais como área de atuação legítima, como carreira, foi a possibilidade de compreensão das nuanças e conexões tão pouco percebidas no âmago de nossa vida social. Era a ânsia de desconstruir o que aí 'tá posto, questionar o dogmatismo do cotidiano. E fazer o que depois? Revolucionar, instigar mudanças de atitude, propor novos rumos para os que amo e que me identifico, meus semelhantes! E também conhecer os que me são 'tranhos. Confiava que a compreensão também destes valeria-me-para um crescimento em espírito e, posteriormente, como ferramenta de modificação da realidade que me cerca -- e que pouco me agrada. Ora, como são muitos os questionamentos e distintos os meios de atuação de quem se almeja revolucionário, a Sociologia pareceu-me insuficiente -- como outrora o cristianismo de minha mãe também me fora. Precisava de um algo mais, qualquer coisa que me renovasse as aspirações de um mundo novo, de um país menos desigual e de uma sensação interna de justiça que, desde muito novo, me faz dormir e caminhar em paz. Surgiu uma nova vereda, com um vento áspero, como o sirocco do Saara, que passa raspando a pele e faz parar e fechar os olhos, agindo no equilíbrio do corpo. Uma luz rubra, que se vê ao longe, e não se sabe o que é, mas, de antemão, já se percebe tratar-se de algo que requer atenção. A o ler Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, pude perceber que algo grandioso 'tava para introduzir-se nos meus planos de vida futura. A Educação já não era mais a tal «marquise» (Professora sim, Tia não -- Cartas a Quem Ousa Ensinar) tão 'timulada por os defensores de uma intelectualidade de gabinete, egoísta, inerte e opaca. Percebi com o Freire -- assim como percebi com outro pernambucano, um Freyre com y, um Brasil singular e vistoso -- que a identidade de professor requer generosidade e intervenção no mundo. Pois bem, não fossem só 'tas belíssimas sentenças avulsas, toda lucidez teórica que se seguiu despertou em mim uma flama de reconhecer no outro parte daquilo que aprendi e aprendo, como se eu precisasse de ele, 'te outro carente e desejoso de conhecer, para a concretização de minha experiência como sociólogo, como brasileiro, como homem. Ainda no plano da identidade profissional do docente, Selma Pimenta atenta à necessidade de uma compreensão sobre a significação social da profissão. Desta forma, não só a coragem para ensinar, o ímpeto e comprometimento são necessários, mas também a assimilação do quão crucial é para a sociedade 'ta função. Parte da desvalorização e do baixo reconhecimento de 'ta categoria se entende na quase completa alienação dos docentes sobre seu lugar na rede de sociabilidades por que vivemos e, como acrescenta Freire, na majoritária aceitação de uma passividade frente às 'truturas que aí 'tão, naturalizadas, isentas de qualquer crítica. Quanto aos saberes pedagógicos, a contextualização do saber e sua atualização são deveras importantes para que o conhecimento adquirido não seja apenas informação. Uma didática variada e adequada aos receptores do conteúdo também legitima a autoridade do mestre e qualifica seu exercício. Outrossim, a experiência do professor, e até sua experiência como ex-aluno, direcionam-no a uma maior competência profissional e permitem-no* desenvolver melhores e mais eficazes meios de transmissão dos conteúdos 'pecíficos. O verdadeiro professor não é outro senão aquele que assume uma autoridade coerentemente democrática, que delega para si uma tomada consciente de decisão. Porém, uma decisão progressista, libertária, que desfaça as amarras da opressão e da exploração; que não perca o sentido do diálogo e da humildade; que lhe faça um sujeito ideologicamente apto à ruptura com a vontade dos dominantes; que saiba que neutralidade é parte do discurso daqueles que 'tão em posição de poder; que tenha grandes sentimentos de amor e de partilha. Unir o conteúdo do ensino à formação ética é tarefa indissociável de quem ensina. Talvez seja 'ta a faceta mais bonita de 'ta profissão: se reconhecer como parte de um todo, e não uma figura isolada. Sempre ouvi que água e comida não se negam a ninguém. Incluo em 'ta lista de bens fraternos o conhecimento, que quando partilhado torna-se sabedoria. Pode o mestre inovar, pintar paredes ou lecionar à sombra de um juazeiro. E ainda que se 'teja em condições de extrema adversidade, como nos sertões deste país ou nas ermas aldeias africanas, haverá sempre uma oportunidade de promover a liberdade, a solidariedade e o desenvolvimento de um sentimento de reciprocidade, de pertença a 'te mundo, que pode ser outro, de cooperação com os que 'tão próximos, e com todos os outros. Em o alvorecer de novos tempos, o professor se lança como flecha no anseio ardente da emancipação humana. * Artigo 'crito para o curso de Didática Geral da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Número de frases: 35 Aconteceu há pouco tempo atrás. Há cerca de dois ou três anos, eles ganharam certo destaque na imprensa 'pecializada. Alguns saíram para fazer turnês, outros, para se apresentar em grandes festivais. Lançaram discos bem recebidos por a crítica. ( Quase) Todos eles tiveram, dentro dos limites possíveis do cenário musical local -- e do público que o acompanha -- o reconhecimento de que se tratava de um momento ímpar na história da música alternativa alagoana. Mas, obviamente, nada disso nasceu do acaso. O crescimento do cenário foi resultado de um 'forço e u amadurecimento que teve no talento dos músicos o seu grande mérito. Claro que não 'tamos colocando toda a produção musical de Alagoas num mesmo patamar: a questão é que, num Estado com pouca visibilidade nacional, nasceram e cresceram promissores nomes do rock nacional, em maior 'cala, e da nova MPB. E, cada um ao seu 'tilo, com a sua proposta, foram mostrando ao que vieram e conquistando os corações e ouvidos de um público leal. Entretanto, embalados por a possibilidade de encontrar um maior 'paço nos grandes centros, ou mesmo por as dificuldades para conseguir viver do seu talento na terra dos marechais, o fato é que alguns dos principais grupos de Alagoas resolveram fazer as malas e deixar o Estado. Levaram seus projetos e expectativas (fossem elas grandes ou pequenas); deixaram por aqui a impressão de que deveria haver um recomeço. Mas se Wado (acompanhado da banda Realismo Fantástico), Casa Flutuante, Ôxe e a (à época) dupla Sonic Jr. se 'palharam por a terra da garoa ou na cidade maravilhosa; outras bandas, como Mopho, Xique Baratinho e Dr. Charada, decidiram continuar por Maceió. Se houvesse, realmente, uma cena musical forte em Alagoas, a diáspora teria acontecido? «Acho que nunca houve cena por aqui, até porque sou muito cético com 'sa coisa de cena: a mídia 'tabelece o quanto deve se divulgar, contrata uma série de bandas de algum lugar e vende como se fosse algo homogêneo», acredita João Paulo, guitarrista e vocalista da Mopho, banda que, com seu rock psicodélico, mereceu inúmeros elogios de críticos como Fernando Rosa (Senhor F) e de músicos como o ex-mutante Arnaldo Baptista, Rogério Duprat e a banda norte americana Jon Spencer Blues Explosion. Para João Paulo, cada banda alagoana que mereceu (e merece) destaque trabalhou suas questões, se 'truturou dentro de um projeto próprio. Já para seu ex-parceiro de banda e atual vocalista e baixista da Casa Flutuante -- que também vem colecionando elogios, Júnior Bocão, como uma cena não constitui um movimento, é possível falar, sim, que ela existe. «Há tempo vem surgindo música de qualidade em terras caetés. O problema sempre foi o ego da rapaziada e a dificuldade de formar público e de ter apoio», lamenta. Hélio Pisca, baterista da Casa Flutuante (e também ex-Mopho), acredita que, quando a produção de arte e a troca de influências acontecem de forma saudável, é possível surgir uma cena ou movimento. No entanto, afirma que isso não aconteceu em Alagoas. «Eu sinto que existem grupos, compositores e músicos geniais, mas não existe contribuição mútua além de apenas subirmos nos mesmos palcos e apresentarmos nossos trabalhos», diz. Fazendo as malas Mas, não tendo acontecido por aqui o que já ocorreu em Curitiba ou Recife -- a contratação maciça e divulgação do local como celeiro de novas bandas, alguns acharam mesmo que era a hora de buscar outros caminhos. Um de eles foi um dos principais expoentes da música produzida em Alagoas em 'sa década, Wado (catarinense radicado em Alagoas, adjetivação saturada para quem já leu mais de uma matéria ou artigo sobre ele). Já no seu primeiro CD, o sugestivo Manifesto da arte periférica, lançado em 2001, por o selo Dubas, o músico profetizava: «Que a margem chegue ao centro, que se mostre no grande circo. Levanto 'ta bandeira, a bandeira da diversidade, dos compositores de bairros distantes». Bom, a verdade é que a margem realmente chegou ao centro: Wado se apresentou, entre outros lugares, no Tim Festival. O primeiro CD teve ótima aceitação da crítica 'pecializada, chegando a figurar nas listas de melhores do ano. A mesma receptividade aconteceu com Cinema auditivo, seu segundo rebento. E embora a vendagem dos CDs não fosse diretamente proporcional aos elogios colhidos, os convites para tocar no eixo continuavam aparecendo. E foi o número de viagens ao Sudeste um dos motivos que o levou a montar acampamento no Rio de Janeiro. «Fomos também pensando em viabilizar a carreira por lá», diz o cantor e compositor, um ano e meio na cidade maravilhosa. «Durante 'se tempo aconteceu muita coisa boa, percorremos oito capitais do Sul e do Sudeste com o projeto Pixinguinha e em julho do ano passado nos apresentamos na França», conta. A 'colha do Rio como porto seguro, apesar da maioria dos trabalhos acontecer em São Paulo, teve suas razões: a familiaridade, já que Wado ia e voltava de lá desde 2000; e a possibilidade de fazer novos contatos, de criar laços na cidade. E ele não foi sozinho, claro. O acompanhou Alvinho Cabral, da banda Realismo Fantástico, a qual assinou com ele o terceiro CD, A farsa do samba nublado. O restante dos componentes, Thiago Nistal e Sérgio Soffiatti, já moravam em São Paulo. A terceira cria -- que ganha maior influência do rock and roll e traz pérolas de outros compositores de bairros distantes, como Grande poder, do Mestre Verdelinho -- nem chegou a ser lançada em Maceió. Mas, para felicidade dos admiradores alagoanos, a lacuna será preenchida 'te mês, no I Festival da Música Independente (FMI) de Maceió. Mas, apesar da badalação e do reconhecimento do seu talento, Wado 'tá de volta à capital alagoana. «O custo de vida no Rio é alto e acabei ficando meio sem grana. E não dava para trabalhar com outra coisa e fazer show durante a semana. Em Maceió eu tenho alguns contatos. A não ser que surja algo, acho que fico em Maceió», diz. Mas o retorno a Alagoas não é empecilho para dar continuidade aos projetos, pelo contrário: o novo clipe, Tormenta, já 'tá rolando na MTV, eles também contam agora com novo empresário, Cláudio Lorenzetti, e o quarto disco, assinado novamente em parceria com a Realismo Fantástico, deve ser gravado no primeiro semestre, mesmo que ainda não saiba em quais circunstâncias isso irá acontecer (" as composições já 'tão prontas e são mais voltadas para a música eletrônica e para o rock», avisa Wado). Além de ele, também 'tá na prateleira do futuro o resultado do encontro de três alagoanos (Wado, Alvinho, da banda Realismo fantástico e Adriano Siri, ex-Santo Samba) e quatro cariocas (Daniel Medeiros, Marcelo Frota, Marcos Coruja e Alvinho Lancellotti): o Fino Coletivo é um grupo que tem no samba sua principal referência, mas que não renega um leque de influências contemporâneas. O resultado é poesia sonora e dançante. A Ôxe foi outra que pegou a 'trada rumo ao Sudeste. Depois de terem ganhado uma certa visibilidade antecedendo o show do Cordel do Fogo Encantado durante o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom), em agosto de 1999, a banda foi convidada a fazer algumas apresentações por o país. Depois disso, muita coisa aconteceu, com destaque 'pecial para a inclusão de algumas músicas na trilha sonora do filme Deus é brasileiro, de Cacá Diegues. Longe de Maceió, lançaram CD, fizeram shows, e já planejam uma nova bolachinha. Já o Sonic Júnior despontou em 2000, contando com Juninho (ex-Living in the Shit) comandando o groovebox e Aldo Jones (Xique Baratinho) na guitarra. A dupla lançou o primeiro CD, Sonic Junior. Já de formação nova, com Paulinho (ex-Xique Baratinho) assumindo a guitarra, se mandaram para São Paulo e lançaram o CD Mundo perfeito. Lá, foram convidados a produzir e tocar com Paulo Ricardo na PR. 5. Hoje, firme em São Paulo, Juninho segue na Sonic e lançou o terceiro CD, Pra fazer o mundo girar, com tiragem de três mil cópias. O primeiro clipe, Stop emotion, deve 'trear em breve na MTV. A Casa Flutuante, nascida em 2003 com o fim da antiga formação da Mopho, também resolveu que o Estado das belas praias de águas mornas já era pequeno para sua música. A ida para São Paulo aconteceu pouco depois de lançarem o CD A Terra é nossa casa flutuante, em 2004. A localização central da nova sede, inclusive para viagens, intercâmbios musicais e a própria imprensa, foi decisiva para a 'colha. Segundo Júnior Bocão, as dificuldades de se trabalhar com arte em Alagoas foram um dos motivos que os levaram a deixar a terra natal. «Apesar dos 'forços por parte dos órgãos públicos e das pessoas de um modo geral, pouca coisa muda. Sentíamos a necessidade de ir para um mercado maior, resolvemos planejar bem as coisas para manter vivo o desejo de viver fazendo o que mais gostamos. Em Alagoas músico não é levado a sério!», desabafa. Já Pisca diz que não enxerga maiores dificuldades em ficar no Estado. «Eu acho que a facilidade e talvez até a comodidade de ficar no lugar em que se nasceu ou que sempre residiu é que faz com que a maioria das bandas não se arrisque em outros lugares que poderiam até abrir portas para outras oportunidades», acredita. Mas, apesar do desejo de morar em outra cidade ser antigo, e os músicos já terem contatos em São Paulo, a saída de Maceió se deu sem que soubessem ao certo o que ia rolar. E o início foi difícil: tiveram que se envolver em outras atividades. Agora, acreditam que a coisa 'tá começando a engrenar " Depois de um ano e meio divulgando o disco, conhecendo pessoas e fortalecendo nosso trabalho, as coisas começam a fazer sentido. Temos recebido boas críticas, os convites para shows 'tão aparecendo e a perspectiva de gravar em condições melhores aponta um futuro bem melhor», comemora Bocão. Para o baterista Hélio Pisca, 'tar em São Paulo oferece inúmeras vantagens para o reconhecimento da banda, como um maior número de locais para se tocar. Mas acredita que a maioria das novidades originais não parte de lá. «São Paulo serve como caldeirão para misturar todas 'sas idéias novas e jogar para o Brasil e o mundo», define. A banda já tem shows agendados para o primeiro semestre, e reúne material para a gravação de um novo CD, cujo convite já apareceu. Para Bocão, as novas composições revelam que A Casa Flutuante 'tá chegando a sua melhor fase. «Estamos pré-produzindo no apartamento onde moram o Pisca e o Billy (tecladista, saxofonista, pianista e arranjador musical). Em o material novo tem muitas músicas que compus e algumas do Pisca. Acho que existe um amadurecimento e um enriquecimento sutil das melodias e harmonias em 'se novo trabalho», anuncia o baixista. A empolgação é tamanha que eles não pensam em voltar para Alagoas, ao menos que seja para fazer shows. Fincando os pés Se a Casa Flutuante resolveu apostar em palcos econômica e geograficamente privilegiados, a banda que lhes deu origem resolveu mesmo fincar os pés em Alagoas, embora o vocalista e guitarrista João Paulo reconheça as dificuldades de sobreviver do trabalho autoral no Estado. «Temos bandas muito profissionais por aqui, mas é complicado. A economia é pífia, a gente não pode tocar num intervalo menor que três meses, senão não dá público. Viver de Mopho é impossível em Maceió», lamenta, destacando um dos principais obstáculos encontrados por as bandas locais. Contraditoriamente, foi 'sa mesma dificuldade (que poderia rolar em outros lugares) que contribuiu para que o músico resolvesse permanecer por aqui. «Eu não 'tava disposto a algumas possíveis roubadas, já tinha filhos», conta João, que, para pagar as contas, se divide em mais duas bandas: a Alma de Borracha, cujo repertório é composto de clássicos do rock ' n ' roll, e um grupo musical de baile. A dúvida sobre o que fazer surgiu depois que, já com o primeiro CD em mãos (lançado por a gravadora Baratos Afins), eles fizeram shows por o Brasil, os quais não corresponderam à expectativa de todos os componentes da banda. «E eu 'tava meio de ressaca da viagem, queria repensar o nosso trabalho, não a existência da Mopho, mas como as coisas deveriam acontecer de ali em diante», explica. E, a partir daí, muitas mudanças aconteceram: hoje, da formação original, somente João Paulo permanece. O segundo CD, Sine diabulo nulus Deus (algo como " sem o diabo não existiria Deus ") foi totalmente mixado e produzido por ele, que dividiu todos os instrumentos com Leonardo Luiz. Atualmente, a Mopho conta com João Paulo (vocal e guitarra), Nardel (guitarra), Dinho (teclados), Mano (baixista) e Jeff (bateria). Com a reorganização de um grupo, decidiram botar a casa em ordem e divulgar melhor o Sine diabullo ... Em o ano passado, fizeram o lançamento em Maceió, e shows no Sul e Sudeste 'tão sendo planejados para 'te semestre. A grande novidade é que, em 'ses momentos, deve se dar a renovação da parceria com Hélio Pisca e Júnior Bocão, respectivamente baixista e baterista da primeira formação. Durante a turnê, eles assumirão os antigos postos, uma vez que Mano e Jeff não poderão acompanhar a banda. «Banda é um relacionamento, é como um casamento. Chega uma hora em que a gente briga com tudo, mas depois percebe que não era tudo aquilo, que não há mais problemas», diz João Paulo, referindo-se às questões internas que acabaram levando à dispersão dos músicos que compunham a formação original da Mopho. Agora, aguarda com uma certa ansiedade, ou com prefere, um pé atrás, a realização dos shows. «Não é preocupação com a química do grupo», faz questão de frisar, destacando o entrosamento com Pisca e Bocão. Em a verdade, é uma forma de não criar muitas expectativas. Então, por enquanto, viagem só 'tá nos planos de João Paulo se for para mostrar o trabalho. Um novo disco também não 'tá na cabeça do músico, que assina boa parte das faixas dos CDs. «Tenho algumas composições que não entraram no CD, o Dinho tem outras, mas se não for para trabalhar como banda, prefiro 'perar», explica. E, a despeito da liberdade que possuem na Baratos Afins, a expectativa é mesmo procurar um selo maior. Depois de ter feito uma excursão por o Sul para divulgar o trabalho repleto de alagoaneidade -- desde as referências ao poeta Jorge de Lima aos repentes e emboladas -- a Xique Baratinho também resolveu que ficar em Alagoas era a melhor 'colha. A viagem em 2003 foi, na verdade, uma turnê alternativa: os músicos percorreram nove mil Km de carro -- 'tampado com a marca dos patrocinadores. A iniciativa foi também uma forma de chamar a atenção do público e da mídia nos locais por onde passaram. Em o final daquele ano eles se apresentaram no Mercado Cultural de Salvador, o que acabou abrindo novas portas: um curador assistiu à empolgante apresentação e convidou-os a mostrar o trabalho no Sesc Pompéia, em São Paulo. «Em a viagem por o Sul passamos por Antonina e Curitiba, no Paraná; Florianópolis e Itajaí, em Santa Catarina. Conquistamos um público legal, que já tinha uma receptividade aos alagoanos por conta da Mopho, apesar de termos um som bem diferente», conta o baixista da banda, Lelo Macena. De volta à terrinha, os integrantes discutiram uma possível partida, possibilidade que foi descartada. «Decidimos levar nossa música de 'sa forma, tendo nosso QG em Maceió mesmo. Ninguém na banda é mais menino, não tem aquela coisa de se empolgar demais, de criar expectativa. Até porque 'sa coisa de fazer sucesso é algo relativo, depende muito do que se quer com a música. E a gente também vê as dificuldades da galera que tá fora», explica Lelo. Como todos os componentes da banda também têm outras atividades, resolveram tocar o barco adiante nas águas de Maceió. Em 2005, a Xique Baratinho deu um tempo, e 'tá retornando à ativa 'te ano. «Eu fui trabalhar com jornalismo, mas não me distanciei da música. Eu e o Railtinho (vocalista da banda) fizemos a trilha sonora dos curtas-metragens do Werner Bagetti (vencedor das duas edições da competição Doc TV-AL)», relata Lelo, que também planeja a realização de videoclipes. A perspectiva para 'te ano é boa: o CD (que anteriormente teve lançamento independente, sem distribuidora) já 'tá se encaminhando, e as músicas 'tiveram disponíveis para dowload na MP3Magazine entre dezembro e janeiro. Além disso, 'tão na trilha sonora do filme Mulheres do Brasil, de Malu de Martino, lançado 'te mês, e assim como Wado, Mopho e Sonic Jr, também irão se apresentar no FMI, que promete dar visibilidade à produção musical de Alagoas. Os convites para tocar fora também 'tão aparecendo. Bom, longe ou perto, aqui ou ali, para o público alagoano não resta dúvida: Número de frases: 140 eles merecem conquistar outros palcos. A rede à flor da pele Uma bela jovem nua briga com o seu namorado, Felipe (Juliano Cazarré), é expulsa de sua própria casa e vai para um apartamento de um fã em Brasília. Ela pede uma bebida, mas não tem. Então Camila Lopes (Leanda Leal) vai 'crever para se acalmar e diz " Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque 'crevo». A menstruação inesperada pega Camila de surpresa que sai para comprar absorvente no supermercado à noite, aproveita para comprar duas caixas de cerveja e dormir nem pensar. Ela vai para frente do computador que levou para a casa do fã e 'creve textos para o seu blog. (Nome Próprio, Brasil -- 2007, HD, 120 min.) é o sétimo longa-metragem do diretor Murilo Salles que trata, além da situação de jovens urbanos atualmente, a história de uma desequilibrada e famosa blogueira que tem o sonho de publicar um livro. Assim, como em Nunca Fomos Tão Felizes (84), Faca de Dois Gumes (88), Seja o que Deus Quiser (2002), ele deixa uma das suas marcas registradas, que é contextualizar o comportamento humano em complicadas situações de vida. Murilo constrói personagens e suas próprias verdades independentemente de uma moral pré-'tabelecida por a sociedade. O roteiro do filme é uma adaptação dos livros Máquina de Pinball (2002) e Cama de Gato (2004) da 'critora gaúcha Clarah Averbuck, 28 anos. Ela é o fruto da mais recente forma de mídia e divulgação que conhecemos -- a internet. O seu blog chegou a ter mais de 1800 acessos diários, foi o ponto de partida para ela mostrar os seus textos. Clarah é como 'se novo meio de comunicação, ou seja, ela é libertária, revolucionária, sem limites e influenciada por outras formas de manifestação, entre eles os 'critores (John Fante, Charles Bukowski, Paulo Leminski) e o rock and roll. Murilo Salles explora de forma primorosa os 'paços internos dos apartamentos, onde Camila tem o seu quartel general da expressão literária. Com travelling aéreo, super close, GC (gerador de caracteres) que ajuda enfatizar a poesia quando a sua desmedida personagem 'creve o blog. Em as cenas de amor, Murilo desfoca a câmera e trabalha com pouca luz. Esses são alguns dos elementos que compõem a linguagem fílmica de Nome Próprio O fio condutor da história é Camila, vivido por a atriz Leandra Leal, 25 anos. Certamente 'se é o principal papel cinematográfico na carreira de Leandra, até o momento. Em a telona vemos uma excelente atuação da protagonista carioca. Uma mulher despudorada, corajosa e intensa a cada minuto. Camila fuma um cigarro atrás do outro, liga desesperada para uma amiga, no seu coração sente um tremendo vazio e ela fica 'perando algum contato de Felipe. Começa a pensar em 'crever o seu livro, bebe muito, se entope de tranqüilizantes e não come. Como desgraça pouco é bobagem, a 'critora tem um saldo devedor de R$ 400, faz um saque emergencial e paga o aluguel do apartamento que 'tá hospedada. Compulsão, compulsão e compulsão ... A blogueira lava a louça, mas não para sob o efeito da bebida e remédios, ela limpa o chão da cozinha, as paredes, limpa a casa inteira. Vai parar no lado de fora do apartamento, onde 'frega até o chão da 'cada e totalmente tresloucada leva um tombo digno de ser filmado. Finalmente, Felipe toca a campainha e exige que Camila retire os textos do blog. Como uma mulher apaixonada ela fraqueja, pergunta para ele se a ama e o beija na boca. «Minha vida é uma merda», 'creve a carente personagem. A 'critora vai para o Rio de Janeiro, com um clima propiciado por uma trilha sonora alegre num bar, se apaixona por o francês Henri (Alex Disdier) que literalmente a deixa de quatro. Ela descobre que Henri tem uma mulher e filho, através de fotos. A sua vida segue de bar em bar, Camila se encontra com um casal de amigos e a inveja feminina, somada por o abuso do álcool toma conta de ela. O 'pectador é brindado com a belíssima fotografia de um mergulho noturno na praia carioca, que termina numa tórrida cena de amor. A blogueira fica com o namorado de 'sa amiga e o francês os vêem. Novamente ela fica sozinha, sem dinheiro para pagar o aluguel e sem amor! Pira e compra uma bota caríssima, sai para encher a cara, é despejada do apartamento e pede ajuda aos fãns do seu blog. Surge um típico garoto nerd, Guilherme (David Katz), cheio de 'pinha na cara e sem a menor habilidade para conquistar uma mulher. O filme deixa clara a rede de pessoas que giram em torno de um blog, como suas vidas virtuais podem se tornar presenciais e expostas sem o menor pudor. A mãe da 'critora aparece em forma de postal, ela entrega uma caixa 'crita «kit sobrevivência» com doce caseiro diet, biscoitos e xampu. Camila, amante de noitadas e bebedeiras, faz a sua balada agora em Sampa. Conhece Rodrigo (Ricardo Garcia), ela quer ser dominada, mas seu novo affair 'tá mais para 'cravo do que pra dominador. A baladeira reflete, «Meu problema é achar que caos é ordem, eu preciso organizar o caos que eu sou». «Vou para a mulher objeto, isso que é vida», 'braveja a blogueira. Em uma outra balada, ela encontra com mais um fã do seu blog, que se correspondia com ela através de um personagem. O perfeito Daniel (Gustavo Machado) e diz «Você é muito para mim, da voz ao tamanho do pau». Ela acha que com ele encontrou o seu verdadeiro amor. Sobre o final, Salles deixa em aberto para o 'pectador ter pelo menos duas interpretações sobre realmente quem é Camila. Acima de tudo, ela tem uma alma apaixonante que exala viscerais sentimentos por os poros de sua pele. Nome Próprio 'tá em cartaz nos cinemas. Criatividade própria Como critico observador e jornalista, não posso deixar de falar sobre a campanha de divulgação do filme «Nome Próprio». Um marketing viral criativamente honesto e bem sucedido; com a criação do completo e interativo blog: http://nomepropriofilme.blogspot.com Um 'paço que de fato o 'pectador do filme pode se comunicar com todos os envolvidos na produção do longa-metragem, utilizando-se das mais novas ferramentas de divulgação como o MySpace, Twitter e teasres. Por exemplo, consegui o convite de uma pré-'tréia através de um comentário que fiz no blog. A página na internet de «Nome Próprio» traz várias informações que vão desde as salas de exibição, até o endereço da danceteria onde artistas do filme irão discotecar. Mas principalmente, nos aproxima de três pessoas fundamentais para a realização de tudo isso: o diretor Murilo Salles, a 'critora Clarah Averbuck e a atriz Leandra Leal. O cinema agradece e tenho certeza de que mestres como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, se 'tivessem vivos aprovariam 'sa idéia. Reproduzido do blog do autor: http://sergiohpg.blig.ig.com.br/ / 2008/29/ daqui a pouco a cr.html Número de frases: 64 20/7/2008 Por Def Yuri Minha intenção com 'te artigo é tentar elucidar alguns pontos da história do hip hop brasileiro, que geram uma certa confusão no que se refere à sua veracidade e ao seu real contexto, usando o Rio de Janeiro como referência. O hip hop no Brasil atingiu sua maioridade, tem vida própria e identidade. Há muito tempo, uma parte significativa de adeptos da cultura hip hop deixou de fazer parte do grupo dos colonizados, apresentando evolução e autenticidade. Mostrando um pouco da linha do tempo tupiniquim, que não 'tá (ainda) nos livros, apresentarei fatos aos quais todos tiveram acesso. As informações alternativas, aquelas só conhecidas por os verdadeiros aficionados, apresentarei em outra hora. Aqui no Brasil, a cultura hip hop chegou no início dos anos 80, mais precisamente em 1983, um ano usado como referência por todos. Como uma febre, tomou o país. Certamente, alguns devem 'tar dizendo o que é isso?! A explosão do fenômeno hip hop se deu em 1998, com o sucesso do Racionais " e coisa e tal. Realmente, 'se é um marco importante para nossa cultura, só que existem fatos e circunstâncias anteriores, que não são mencionados por falta de conhecimento, por má fé ou por confusão dos sentidos (hip hop = funk, vide artigo funkbras ou funkbrax). Em minhas andanças, pude confirmar uma certeza: cada local do Brasil tem sua história. Me acompanhem na máquina do tempo, vamos voltar ao início desse texto: no Brasil, a cultura hip hop chegou no início dos anos 80 (mais precisamente em 1983) e como uma febre tomou o país. Em o rastro do Moonwalker pipocaram inúmeros concursos de break, 'colas de break, «faixas pretas» de break. Lembro que as luvas eram acessórios indispensáveis, sem falar no chapéu. E o hip hop já apareceu sofrendo deturpações (coincidências com os dias de hoje?). Mas, graças a Oxalá, uma parcela significativa conseguiu se salvar e disseminar a cultura hip hop na sua 'sência. Era a hora da atitude, dos agasalhos e dos tênis com cadarços trançados. Apareceram discos de artistas como Black Juniors (Mas que linda 'tás), Eletric Boogie, Bufalo Girls (o primeiro grupo feminino, com Vamos dançar o break?), o Piu-Piu de Marapendi (Segura o rato, rato de praia!) que invadiu as rádios narrando a história de pequenos ladrões (ratos) de praia. Existem controvérsias, mas, na minha opinião, 'se foi o primeiro rap de cunho social gravado. Apesar disso, várias pessoas beberam na fonte. Em a TV, vários vídeos mostravam jovens dançando o break ou artistas fazendo arremedos de rap, desde Michael Jackson, passando por Blondie e Lionel Ritchie, entre outros. Em o Brasil, além do Chacrinha, com sua marchinha de Carnaval ('tão lembrados?-- break, break legal! Break, break para dançar no carnaval!), o Miéle também tentou (Melô do Tagarela). Revistas surgiram mostrando equipes de break e como as pessoas deviam fazer para dançar ou participar da cultura hip hop. Em uma de 'sas, apareciam pessoas como Nelson Triunfo (grande camarada!), Breakstorm e Mechanicman, do Rio, e Eletric Boogie, de SP. Era a época do Beatstreet -- na onda do break, nome de lançamento na época, que contou com a produção e participação do grande Harry Belafonte. Este foi o primeiro filme a elucidar dúvidas a respeito da cultura hip hop. Eu me lembro de que as sessões eram verdadeiras festas de b-boys. E b-boy que é b-boy viu 'se filme trocentas vezes. De ele também participavam duas das maiores equipes de break de todos os tempos: o New York City Breakers e o Rock Steady Crew. Esta última motivou muita gente, (inclusive eu!) quando apareceu no filme Flash Dance. Havia também o filme Break dance, cujos personagens principais eram os breakers (dançarinos) Ozone e Turbo. Turbo fez uma das melhores cenas de dança já exibidas no cinema, comparada na época à de Gene Kelly em Cantando na chuva. Lembram do filme Footloose, onde o personagem do ator Kevin Bacon dava uns giros de costa? E os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 84, onde, na abertura, vários b-boys exibiram sua arte, 'tão lembrados? E os concursos de break na TV? Programa Amor, Circo do Carequinha, O Povo na TV e por aí vai -- programas dos mais diferentes gêneros. E as rádios? O grupo Break Machine tocava em várias rádios, rolava também Whodini, Boogie Boys, Afrorican, Kurtis Blow, só para citar alguns nomes, sem 'quecer do maior sucesso, tocado até a exaustão, o grande Africa Bambaata com o seu «Planet Rock». E as discussões nos veículos de comunicação, onde 'pecialistas nas mais diferentes áreas (os sabichões) discutiam o break, desde «aquilo não era dança», até histórias de que em algum país longínquo um dançarino teria ficado aleijado ou outro teria morrido em conseqüência do break, fatos nunca confirmados. Os fatos por mim apresentados em 'te artigo são só um pouco das recordações de uma época da minha vida e, com certeza, da vida de muitos que viveram e vivem 'sa cultura chamada hip hop. São fatos que não podem ser 'quecidos -- e não serão! Portanto o hip hop em revista continua ... Número de frases: 53 Artigo publicado em 21 de maio de 2001 no www.vivafavela.com.br «Vanessa Barroso «Minha embriaguez, tu és meu cálice». (Anônimo) Já dizia o poeta " Carlos Drummond de Andrade: «Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça. Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres, folha de taioba, pouco importa: tudo serve». Desde um intelectual reconhecido a um trabalhador desconhecido, a cachaça, mesmo em dias de campanhas contra o alcoolismo, é símbolo de alegria e tristeza do povo brasileiro. O produto -- que também pode ser chamado de abrideira, branquinha, brasileira, danada, 'pírito, homeopatia, imaculada, limpa, lisa, malvada, perigosa, preciosa, etc.-- é fonte de descontração e farra para os amigos Sérgio Alípio dos Santos, 24, e Joselito Pereira Santana, 26, moradores de Jaguaripe. Segundo os rapazes, eles começam a beber muitas vezes às 10h da manhã e só param a noite. Entre uma «loa» e outra (loa é conversa de freqüentador de bar) Joselito acabou contando o lado traiçoeiro «da água que passarinho não bebe». «Rapaz, já aconteceu de eu namorar com uma mulher e no outro dia nem me lembrar quem era», contou. Perguntamos, em seguida, se a mulher era bonita e já entre risos Joselito respondeu: «Sim ela era ' pegável ', só que eu não me lembrava de ela, contou Joselito. Sérgio também não ficou atrás. Contou que muitas vezes teve que ser levado para casa: «Rapaz, várias vezes a rapaziada aí teve que me levar para a casa, morto de cachaça, eu já dormi na rua», falou Sérgio, mostrando seus amigos. No meio da entrevista, resolvemos experimentar a cachaça preferida dos meninos, que nos ensinaram até como degustar -- tão logo era só virar o copo de 51 que custava R$ 0,50 a dose no bar de Leila, que disse abrir o bar muitas vezes às 8h da manhã. «As vezes eu abro aqui às 8h e já temos clientes pra beber, 'ses dois mesmo sempre 'tão por aqui», disse ela rindo da nossa «cara» ao experimentar a cachaça. Ainda em Jaguaripe, conhecemos outros bares e numa das paradas apreciamos o teor das cachaças consumidas por os moradores da comunidade. Onde, aliás, a dose de cachaça varia de R$ 0,50 a R$ 2,50. E foi entre um gole de água e um pedaço de pão, como já recomendou o cachacista (apreciador e conhecedor do assunto) Bernardo Carvalho, também jornalista e coordenador do curso de jornalismo da Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), que conhecemos e conseguimos diferenciar o teor das duas campeãs na comunidade. Em o ranking da comunidade, as cachaças preferidas são, respectivamente: Caninha 51, da fabricante Muller, e a Dama da noite, cachaça mineira produzida artesanalmente. A Dama nos foi apresentada por Fagner Wellington, morador de Nova Brasília, com duas formas de apreciação: a primeira com limão e sal e a outra ela pura. «Quando você beber 'sa cachaça pura, vai ver que ela é mais forte do que quando misturada com sal e limão», ensinou Fagner. A o experimentar as cachaças, percebi que a 51 é uma cachaça ardente, transparente e muito parecida com a cachaça destilada. O seu gosto varia entre a sensação de queimor e o sabor levemente adocicado no fundo. Já a Dama da Noite possui um gosto mais forte, amargo e que não se assemelha muito com a Abaíra, cachaça que ficou em primeiro lugar no ranking das cachaças mais consumidas no país. De acordo com o professor Bernardo, a questão do gosto e da melhor cachaça, é algo bastante pessoal: «A questão de 'ta ou aquela ser a melhor cachaça é muito relativa, por que eu posso ter preferência por um tipo de cachaça e outra pessoa já gostar mais de outra». Joselito, que diz ser casado com a «mardita», afirma ter preferência por a infusão (mistura de todas as cachaças), ou seja, por vários tipos de cachaça ao mesmo tempo: «De o jeito que tiver eu bebo». Já Sérgio, que é casado, gosta mais das cachaças «Foia pôde» e Erva Doce. Em a região da Estrada Velha, a cachaça mais forte encontrada foi a poca-zoio. Muito forte, de sabor intenso e ardente, é uma cachaça destilada. A o fim da reportagem, depois de várias degustações, a poça-zoio deixou ambos os repórteres tontos, um com arranhões e o outro sem poder dirigir. Número de frases: 39 O jornalista e 'critor arapiraquense Carlos Nealdo nos leva das casas de jazz de Nova Iorque à inauguração de um «cinematógrafo» no sertão do Nordeste, onde vai parar seu personagem, o ator Al Jolson, durante a Primeira Guerra Mundial. Em seu primeiro livro, «O Pianista do Silencioso», Nealdo mescla fatos e personagens históricos aos seus próprios, numa declaração de paixão por o cinema e a música. A história se desenvolve a partir do encontro de Jolson com o personagem Dago, o pianista do cinema mudo da cidade de Rio Branco é o único sujeito que compreende a «língua engrolada» do ator 'trangeiro. O romance de Nealdo é uma viagem por a aurora do cinema no início do século XX e seu impacto em todos os corações do mundo. Com prefácio de Cacá Diegues, o livro foi lançado em Maceió e no Festival de Cinema de Gramado. Nealdo tem uma trajetória importante no jornalismo cultural alagoano e concedeu 'ta entrevista pra falar sobre a construção de seus personagens e de sua narrativa rica em referências, pequenas mensagens 'condidas numa daquelas histórias boas de ler ... Marcelo Cabral -- Nos conte de sua origem e trajetória. Onde você nasceu e se criou? E de que forma 'te entorno influência a sua ficção? Carlos Nealdo -- Nasci em Arapiraca, na época de uma seca desgraçada que castigou o Estado em 1970. Cresci ouvindo histórias que meu pai contava sobre galãs de cinema, como John Wayne e tantos outros. Minha primeira experiência com a Sétima Arte foi mágica. Era 1979, acho que isso, meus pais me levaram para ver «King Kong, uma versão de 1978». Apesar de sair correndo do cinema quando o gorila gigante apareceu na tela, nunca mais deixei de freqüentar o Cine Triunfo -- um dos três que havia na cidade. Em o início dos anos 1990, vim para a Maceió fazer jornalismo e 'tou na capital até hoje. Parte de fatos que há no livro vem da minha memória infantil: o hipnotismo de quem vê um filme na tela grande pela primeira vez, o fascínio que os heróis exercem sobre o homem comum, etc. MC -- Conte sobre a experiência do Festival de Cinema de Gramado. Você lançou o livro por lá? Quais outras cidades tiveram um evento de lançamento? CN -- Eu havia recebido o convite para lançar «O Pianista» da organização do festival, que todos os anos lançam livros que tenham relação com cinema. A experiência foi fantástica, eu 'tava dentro de um dos maiores festivais de cinema da América Latina -- senão o maior. Em o dia do lançamento, acabei fazendo contato com muita gente, de ator a diretor de cinema, passando por produtores e, claro, o público em geral. O livro foi bem recebido, teve uma excelente repercussão na imprensa e ainda hoje recebo e-mails de contatos que fiz por lá. A idéia era lançar o livro em outras cidades brasileiras, mas 'critor independente infelizmente sofre de falta de recursos. Não dá para bancar viagens, hospedagens etc ... MC -- E em Arapiraca? CN -- Por enquanto não, mas pretendo lançar lá sim. Estou terminando os preparativos para o lançamento em Aracaju ... -- É impressão minha, ou os títulos dos capítulos de «O Pianista do Silencioso» são nomes de filmes? CN -- Quando eu 'crevi o livro, em vez de títulos, os capítulos eram numerados (confesso que nem me passou por a cabeça dar nome a eles). Quando o Cacá Diegues leu os originais, fez algumas sugestões, entre elas, titular cada capítulo à maneira da Literatura de Cordel. Cheguei a começar o processo, tanto que o primeiro capítulo iria se chamar «O Amarelo que gostava de música negra», em referência ao ator Al Jolson, que abre o livro. Mais tarde, conversando com o Werner (Salles, diretor de «A História Brasileira da Infâmia -- Parte 1» e " Imagem Peninsular de Lêdo Ivo "), ele sugeriu trocar os títulos de cordéis por títulos de filmes. Achei sensato, já que o livro é uma homenagem ao cinema. -- Os nomes dos personagens também fazem referência ao cinema? A Magnólia, forasteira que conquistou o coração do pescador Saruaba, é uma menção ao filme 'trelado por Tom Cruise? CN -- Uma menção e uma menção deslavada, ressalte-se. Mas não é só ela. Uma das prostitutas da Rua da Mãe -- onde o Xié é tido como um Don Juan -- chama-se Angelina. O bar do pescador Saruaba se chama Príncipe das Marés e por aí vai. Claro que tentei poupar referências, para não ficar «poluído», metalinguísticamente falando ... -- Gostei muito do traço das ilustrações, quem fez? CN -- Eu fico muito feliz que tenha gostado. Também gostei muito e acho que elas dão uma força enorme à obra. As ilustrações são do Léo Villanova, um grande amigo que na verdade me presenteou com os desenhos. Ele é publicitário e um dos diretores da Six Propaganda -- que, aliás, cuidou de todo o projeto visual do livro e do site. Foi colaborador da extinta revista Bundas, dirigida por Ziraldo, e tem na bagagem um currículo extenso. MC -- Apesar do seu romance ser focado no cinema, um papel importante é dado à música, gostei da maneira descritiva com que tratou a trilha sonora da história, do jazz ao arrasta-pé você me fez 'cutar enquanto lia. CN -- Durante as pesquisas para o livro, eu descobri muitas curiosidades e coincidências. Por exemplo: o primeiro disco de jazz foi gravado no mesmo ano que o primeiro disco de samba, ambos em 1917. E 'te ano é o mesmo em que o Cine Rio Branco foi inaugurado. E como o livro se passa no sertão nordestino, não tinha como não falar de forró, até porque era a música que animava os arrasta-pés nas festas das comunidades sertanejas. Claro que há também o fato de que não dava para se falar em cinema mudo sem se falar em música. Ela sempre existiu no cinema, mesmo que sendo através de um pianista sentado diante da tela e executando as melodias para pontuar a trama -- como é o caso do personagem que dá título ao livro. MC -- Além do cinema, você me parece um grande fã da própria história. Com tantas referências como a gripe 'panhola em Recife, o cangaço e a Primeira Guerra Mundial, imagino que você passou por um período de pesquisa. Como foi 'se processo e quanto tempo te tomou 'crever «O Pianista ...»? CN -- Levei dois anos pesquisando, lendo, juntando bibliografia e informações de jornais de época. Foram mais de setenta livros sobre cinema, cangaço, revolução, jazz, samba e história. E todos os assuntos se entrelaçavam com uma fidelidade impressionante. Antes de me enfurnar nos livros, descobri, em jornais no Instituto Histórico de Pernambuco, que a Gripe Espanhola havia fechado casas de 'petáculo em todo o País, incluindo o Cine Rio Branco, que foi usado também como quartel-general dos soldados da Paraíba, na época da Revolução de 30. E descobri também que Lampião invadiu o povoado, exigindo de um dos coronéis da época a quantia de 10 contos de réis. A história me ofereceu dados relevantes, que acabaram se juntando ao livro, num misto delicioso de ficção e realidade. Depois de ler todo o material, passei seis meses para 'crever a história, normalmente à noite, depois de chegar do jornal. Tinha noites em que ficava 'crevendo até o dia amanhecer, de tão gostosa que 'tava a história. Mas também tinha ocasião em que não 'crevia uma lauda ... --» ... Sua veia para indústria lhe permite ver além do cidadão comum. Pouco tempo depois de se 'tabelecer por ali, trata logo de trazer a luz elétrica para o povoado ...». O coronel Augusto Cavalcanti seria uma menção ao Delmiro Gouveia? O empreendedor do sertão alagoano do inicio do séc.. XX, onde hoje temos um município com seu nome? CN -- Não, não. O coronel Augusto Cavalcanti é o fundador de Arcoverde -- o nome atual de Rio Branco. É um dos personagens reais do romance. Ele quem fundou o cinema e é tido como um grande empreendedor. Podemos dizer que ele é o Delmiro Gouveia de Arcoverde. MC -- «O Pianista do Silencioso» foi o romance vencedor do prêmio Alagoas em Cena 2006, você produziu o material pensando em 'ta seleção ou já 'tava pronto quando surgiu a oportunidade de inscrevê-lo? CN -- O livro 'tava pronto há dois anos e meio quando surgiu o Alagoas em Cena. Eu o concluí e mandei algumas cópias para editoras comerciais. De a grande maioria, recebi um não. Duas de elas queriam até publicar, mas me pediam para abrir mão dos direitos de primeira edição. Inexperiente, não aceitei. Faltando uma semana para encerrar as inscrições do Alagoas em Cena, encontrei o Keyler Simões -- que fazia parte da organização -- e ele me falou do concurso. Aí corri contra o tempo para inscrevê-lo. MC -- Você já pensa num segundo livro? Quanto tempo nós leitores vamos 'perar pra ler um novo romance de Carlos Nealdo? Por falar em tempo, é possível conciliar o trabalho no jornalismo com a produção literária? CN -- Há alguns meses venho pesquisando para um segundo romance, também sobre cinema. Já tenho o tema e inclusive o primeiro capítulo 'crito. Mas tenho que juntar muita informação ainda, livros sobre o assunto, enfim. Mas confesso que 'te ano O Pianista me tomou todas as atenções, com lançamentos, distribuição e outras coisas ligadas a ele. Espero no início do próximo ano me dedicar completamente ao novo projeto, que deverá levar o mesmo tempo que o primeiro. Por enquanto, ainda tenho que me dedicar ao primeiro livro. Quanto ao tempo, é possível sim. Engana-se quem pensa que quem 'creve se isola do mundo e fica por tantos meses sem contato com o mundo exterior. O Pianista foi 'crito depois que voltava do trabalho, tomava um banho, resolvia as coisas pessoais e só então me sentava diante do computador. Por isso que falo que é possível conciliar o trabalho com a produção literária. É preciso somente que se 'tabeleçam metas, para que a literatura não seja protelada e fique em segundo plano. -- Por que situar a história no sertão pernambucano em vez do alagoano? Ou será que sou eu que sou bairrista? ... Brincadeira. CN -- Não se trata de bairrismo. Eu tentei situar a história em Alagoas. A idéia era 'sa, quando pensei em 'crever o livro. Durante as pesquisas, no entanto, os fatos foram me levando para Pernambuco. Descobri que o Cinema Rio Branco era o mais antigo em funcionamento da América Latina. Ainda hoje existe por lá. E a data de sua inauguração foi crucial para determinar o local dos acontecimentos: 1917. Este ano é o ponto de partida para uma série de fatos importantes para o cinema: os Estados Unidos entraram na guerra em 1917. A Primeira Guerra Mundial foi importante para que eles dominassem a Sétima Arte, já que a Europa 'tava devastada com o conflito. Mas o fato de ter situado a história em Pernambuco não significa que ela seja menos alagoana. O Saruaba é um pescador alagoano que finca seu bar em Pernambuco e se delicia com comidas típicas de Alagoas, como o sururu. Além disso, sempre convida mestres alagoanos para as festas do povoado. MC -- ... Como Mestre Avelino, de Alagoas do Sul, atual Marechal Deodoro. Terra natal também de Saruaba, que se aventurava nos mares desde o Porto dos Franceses ... Já que o cinema é o mote, você gostaria de ver seu Pianista adaptado para a tela grande? Ou melhor, já existe alguma idéia desse tipo? CN -- Durante o lançamento do livro no Festival de Cinema de Gramado, muitos produtores vieram me perguntar se o livro já tinha sido adaptado para o cinema. Diante da minha negativa, ficaram curiosos. Um de eles, em 'pecial, me chamou a atenção. Um dia depois do lançamento, 'tava indo almoçar para voltar para Maceió, quando um senhor me abordou no restaurante. Vendo o livro sobre a mesa (não sei por que eu 'tava com um exemplar nas mãos), perguntou se era o livro que tinha sido lançado no dia anterior. Disse que sim e ele quis saber do que se tratava a história. Quando lhe falei, ele soltou um «porra, mas isso é uma excelente história para o cinema!». Quis comprar o livro e pediu para eu não fechar com ninguém até ele dar um retorno. Pegou meus contatos e disse que queria conversar com mim depois. Se você pergunta se queria ver a história nas telas, eu digo que adoraria. Mas sei que isso leva tempo e que «nem sempre as coisas costumam acontecer como a gente quer», parodiando Al Jolson. Número de frases: 131 Toda vez que completamos mais um ano de vida, recebemos de muitas pessoas o desejo de vivermos a felicidade, e o nosso compromisso de ser feliz aumenta em função de 'tar se passando mais um ano e faltando menos anos para ser vivido o feliz que sai de dentro de nosso ser. A o fazermos uma retrospectiva de nossos procedimentos podemos nos sentir mais felizes ou menos felizes, desde que os procedimentos tenham sido executados no sentido da partilha e da liberdade de cada ser humano, principalmente dos mais próximos de nós. A felicidade para muitos é um sonho, mas o grande compromisso do ser humano enquanto vivo é sentir a felicidade em seu coração. Felicidade que só é colhida com a retrospectiva dos procedimentos, tendo em mente uma prestação de contas pessoal; prestação de contas dos procedimentos praticados até a presente data feitos a própria pessoa. A Felicidade é pessoal e é um direito dado por o Criador a cada um de nós, e 'sa felicidade nos dá a sensação de uma vida que não vai acabar, ela serviu a vai servir para a humanidade. Se nos foi dada a oportunidade de viver 70 anos num ambiente que já existe a 2006 anos DC, temos que aproveitar 'se tempo com o compromisso de nos sentirmos felizes. Vivendo 'ses 70 anos, ou mais, e não sentindo felicidade em nosso coração, com certeza 'tamos errados e perdemos uma ótima oportunidade, que pode não se repetir, de viver a felicidade. Número de frases: 8 Crítica originalmente publicada no Motocontínuo Sensível. Essa é a palavra que se pode utilizar para definir Não Por Acaso, o primeiro longa de Philippe Barcinski. Após os aclamados curtas Palíndromo e Janela Aberta, Barcinski demonstra uma intimidade gigantesca com suas personagens e consegue construir um clima de aproximação de eles com a platéia de forma muito bonita. É daqueles filmes que a câmera namora sem demora, com belíssimos planos e tomadas da cidade de São Paulo por ângulos muito poéticos -- cortesia da fotografia de Pedro Farkas. Conta também com efeitos 'peciais sutis e de muito bom gosto, que adicionam ao filme um toque refinado e completamente condizente com a proposta do roteiro, que foi 'crito por o próprio Barcinski, aliado a Fabiana Werneck e Eugênio Puppo (colaborador usual do diretor). O longa conta a história de duas pessoas que tentam controlar a vida. Pedro (Rodrigo Santoro) é marceneiro e monta mesas de sinuca. Com a namorada Teresa (Branca Messina) por perto, morando com ele em sua casa, ele consegue deixar que tudo 'teja a seu alcance, incluindo as jogadas que ensaia nas mesas que ele mesmo fabrica. Por outro lado, Ênio (Leonardo Medeiros) controla o trânsito caótico da cidade de São Paulo com precisão milimétrica e vive ainda a dor da separação da ex-mulher (Graziella Moretto). Acontece que um acidente em comum vira a vida dos dois de cabeça para baixo, tirando de eles o controle prévio, introduzindo aí as personagens Lúcia (Letícia Sabatella) e Bia (Rita Batata). Lentamente a metrópole resignifica por as lentes do diretor. Adquire um misto de liberdade na história de Ênio e vai se tornando fechada na história de Pedro. E isso por contraposições. A imagem de São Paulo vista do alto da serra é de clima romântico. Entretanto, por ser construída a cena, como ela foi levada até aquele momento, torna-se um triste retrato, literalmente, da solidão de um homem. Por contraste, a feiúra de um viaduto no meio da cidade, cortando-a, que é o caso do Minhocão, ganha uma densidade feroz no caminho de " in-solid ão da personagem Ênio, redescobrindo o dom de relacionar-se com a própria filha. As imagens de viadutos e pontes de São Paulo também constituem em si uma importante simbologia dentro da história. Afora as resignificações que Barcinski adota, temos as interpretações fora-do-comum dos atores. Preparados por Sérgio Penna, que intuiu para cada personagem um olhar e, como sempre, dirigiu cada ator a um 'tado de ação por a respiração, extraindo um resultado impressionante que transpira, jorra na tela uma força gigantesca. à parte uma atuação Letícia Sabatella de Letícia Sabatella e as pequenas participações de Giulio Lopes, Graziela Moretto e Sílvia Lourenço, temos uma Branca Messina iluminada, um antes perfeito Rodrigo Santoro e um depois triste e uma Rita Batata impressionantemente jovial. Porém, quem explode na tela é Leonardo Medeiros. Capaz de mudar completamente de emoção sem mexer um músculo sequer, sem mudar nenhum detalhe da máscara, Medeiros consegue deixar a platéia penetrar em sua alma através dos olhos, coisa que raramente se vê em cinema. É de uma generosidade sem limites com a platéia. A crítica em geral disse que Barcinski não quis tornar o filme ultra-intelectual e abusou de trilhas sonoras na montagem (aliás, trilha sonora linda de Ed Cortês) e, mais para o final, acabou simplificando a história. Creio que não. A autoria de Barcinski é tão presente e uniforme que, pelo contrário, identifica-se o respeito de ele por aquelas vidas ficcionais, tratando-se de simplificar não para facilitar e sim para apenas significar. A simplicidade é o que devemos almejar. O controle não é simples. Exige 'forço, energia, dispende demais. O sabor do acaso, para bem ou para o mal, é de uma poesia inexplicável. Não Por Acaso. De Philippe Barcinski. Com Leonardo Medeiros, Rodrigo Santoro, Branca Messina, Rita Batata, Letícia Sabatella e outros. Trilha de Ed Cortês. Roteiro de Philippe Barcinski, Fabiana Werneck e Eugênio Puppo. Estreou em 07/06/2007. + Site oficial de Não Por Acaso Número de frases: 36 Trailer do filme no YouTube Vão-se os lá os dias e já foram quatro anos. Confesso aqui, e que não se 'palhe aos apaixonados torcedores, não me empolgo muito na torcida por a seleção canarinho. Mas, como não vivo em Marte e sim no país do futebol, não tem jeito. Acabamos todos envolvidos por a Copa do Mundo. E aff Brasil! Que sufoco. As unhas, que já não eram grandes, vão cada vez menores assistir com mim aos jogos. Sim, voltando ao texto. Antes, porém, outra confissão. Este artigo não começaria assim. Era uma história de como vi Brasil e Croácia, no primeiro jogo brasileiro na Copa, entretanto, ao perceber que a mística se repetia, decidi reescrever, antes que os franceses possam nos tirar o gostinho ou me aquiete em algum lugar. Em o tal dia, o 13 do mês do junho, foi assim. Inquieto. Combinei com uns amigos que assistiria ao jogo na família de um de eles. Nordestinos e zuadentos. Engraçado como sei lá o que. Saindo às pressas do jornal onde trabalho, percebi que o adiantar da hora impediria que visse os jogadores perfilados, o hino, etc. Em o caminho, a televisão de uma farmácia permitiu que eu visse o apito inicial. Em o caminho ainda, uma parada para comprar água e pronto. Mais uma 'piadinha na televisão. Cheguei com sorte antes do início do segundo tempo. Lá vi o final do jogo, sem graça achei, mas não deixei de aparar as unhas. E lá vinha outra batalha. Desta vez os gigantes da Austrália. Tudo combinado. Iria pegar uma amiga que chegaria de viagem pouco antes do jogo e 'taria sem falta na casa de um outro amigo. Tal não foi a surpresa. Duas horas antes do começo do jogo, me liga a tal amiga: «perdi o ônibus e chegarei na hora do jogo». Não saí de casa. Lá vi o início do jogo. Toca o telefone e lá vou eu à rodoviária buscá-la. Junto dos taxistas e mendigos vi o gol do Adriano, que aliviou um pouco o jogo, um tanto tenso. Depois fomos os dois àquela casa dos tais paraibanos. «Tinha mais menino que gente», como disse um dos anfitriões e por conta da baderna, não vi o gol do Fred na hora. O qual pude conferir depois que deveria ter sido do Robinho. Dois a zero e 'tá bom. Em o terceiro jogo, pensei que não mais fosse ficar feito andarilho durante a partida. Pensei. Desta vez 'tava tudo certo. Não chegaria ninguém, não iria trabalhar. Um primor. Menos por o almoço. Deu a hora do jogo e não tinha comido. Nem eu, nem a turma que se juntou a mim na missão de correr por a cidade enquanto todos viam ao jogo do Brasil. Como era de se pensar, ninguém queria ficar servindo refeições enquanto Parreira testava uma nova formação, mas ágil e ofensiva no time brasileiro. Quando encontramos, enfim, o que comer, já se passavam quinze minutos do primeiro tempo. Tinha televisão e era grande. Ficamos por lá o primeiro tempo todo. A conversa depois da comida e fomos ao local combinado ver o jogo. Atrasados, perdemos mais um pedaço da partida. Mas deu para ver que a seleção jogou melhor, mais solta e que, realmente, já começara a dar sorte 'se negócio de não dar certo o que era marcado. E vieram as oitavas Eu já tinha me convencido de que, mesmo percebendo as coincidências, veria o jogo num só lugar desta vez. Mas minha gana não deu certo de novo. Os adversários eram os ganeses. No meio de uma avenida, perdi a hora de novo, vi o começo e hino numa lanchonete que achou de existir ao lado do semáforo, quando eu mais precisei não ultrapassar o sinal vermelho. De lá, relutante, cheguei à casa de uma tia, onde vi o restante da partida. Vencemos de novo. E agora eu já decidi. Não marco mais nada e vou continuar a correr por as ruas de Porto Velho, que aliás, 'tão coloridas com o verde o amarelo da nossa bandeira. Quando passo por elas, nos dias de jogo, vejo na calmaria, a agitação das bandeirolas que se balançam com o vento solidário que nos invade nos quentes dias de copa da capital de Rondônia. E que venham franceses e outros gringos, onde eu 'tiver farei minha fé por os canarinhos. Ah e os jogos? Prefiro quando o Juninho e o Robinho jogam. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da 'tréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. Número de frases: 67 Atendendo os pedidos venho agora, um pouco menos euforico pra relatar um pouco do filme «Ai Que Vida!». Bem, tomarei a liberdade de passar informações à vocês sem consentimento do meu diretor (Cícero Filho) mas eh claro que ele não irá se irritar não é? Eu, Diógenes Macêdo, participei intensamente na construção desse trabalho, desde a elaboração do roteiro (começo do ano passado) no qual eu fiz uma participação sendo co-roteirista e diretor de arte juntamente com o Cícero, até o ínicio deste de mês (setembro) quando finalizamos o longa, e sou muito amigo do Cícero, por isso tenho muitas coisas pra contar sobre a realização desse projeto. O filme é um projeto idealizado por o jornalista e cineasta Cícero Filho, que com muita luta e determinação conseguio concretizar mais 'se sonho. «Ai Que Vida!" é o resultado de muita determinação de todos que participaram da produção, técnica e elenco. E setembro do ano passado começamos realmente a trabalhar em 'se projeto cinematográfico, todos sabemos o quanto é dificl fazer cinema no Brasil, mais ainda no Piauí. As gravações ocorreram em janeiro de 2007 na cidade de Amarante, à 160 km de distância da capital Teresina. Por que Amarante? A resposta é simples: A cidade é o berço da cultura de nosso 'tado. A terra do cavalo piancó, do inegualavel poeta Da Costa e Silva, das mais belas construções arquitetônicas do Piauí. Amarante foi 'colhida por Cícero após uma viagem que fizemos a 'sa cidade ainda no ano passado para exibir o filme que tinha sido lançado naquela época, «Entre o Amor e a Razão», o jovem cineasta logo se encantau e bateu o pé afirmando ser ali a ficticia cidade» Poço Fundo». Durante o tempo em que ficamos lá foi muito complicado para manter na cidade 25 pessoas da equipe que veio de Teresina e outras cidade vizinhas, nos dividimos em casas de populares e pousadas durante 25 dias. A impressionante participação no filme da população da cidade surpreendeu a todos, quando fomos contabilizar quantas pessoas nos ajudaram desde figuração até cedendo automovéis e casas o resultado foi 450 pessoas, um número relativamente grande para a pupulação daquele municipio. Os atores do filme eram quase todos leigos na arte de interpretar, tinhamos apenas 3 profissionais de um total de 25 atores. São eles: Anchieta Cardoso, Solange Nolêto e Zulmira Bezerra. Trabalhavamos apenas com uma filmadora digital mini-dv cedida por uma faculdade de comuniação de Teresina, e todos os nosso outros equipamentos eram muito simples, nada muito grandioso. mais de 18 horas de gravações diarias. O orçamento total da produção ficou em torno de 30 mil reais, sem incluir divulgação e pós-produ ção. Agora adivinhem quantos reais tinhamos em caixa quando fomos gravar? resposta: 800 reais, isso mesmo, 800 reais era o dinheiro que tinhamos, fomos literalmete com a cara e a coragem. Devemos agradecer muito a prefeitura municipal de Amarante que nos cedeu hospedagem gratuita e alimentação e principalmente ao povo acolhedor que nos recebeu e tratou tão bem. Como sempre, pouca gente acretitava no nosso trabalho, só quando terminamos de gravar foi que os empresários resolveram ajudar. Começou a aparecer mil reais de ali, cinco mil de um lado, quatro mil do outro e felizmente conseguimos angariar fundos para começar a edição que só teve incio depois de 3 meses de atraso, ali se foram mais 4 meses de trabalho, na frente da ilha de edição, dia e noite. A trilha sonora é 100 % regional e inédita, por tentar mostrar a «cara» do Piauí com suas linguagens e Biotipos, as musicas sempre tinha um toque de forró ou baião, como a musica tema do filme que foi 'crita por o próprio Cícero num momente de descontração e foi gravada por uma cantora de uma famosa banda de forró de teresina. Outros nomes da música no 'tado assinam nossa trilha sonora, Dalmir Filho (interpretando a composição de Joel Mistokles), Osnir Verissimo (interpretando sua propria composição) e Myel Araujo que é o nosso diretor de trilha sonora. Outra luta que travamos foi quando decidimos exibir nas telonas, levamos a proposta para a maior rede de cinema de Teresina e logo fomos repreendidos, o diretor de 'sa rede só nos queria dar uma segunda-feira para a 'tréia, e não tinha lógica uma coisa de 'sas, foram longas duas semana de negociação, oferecemos até 80 % da bilheteria e nada deste homen aceitar, ele nos disse não adiantaria 80 % da bilheteria no contrato já que não ia dar ninguem mesmo. Essa triste colocação feita por ele nos revoltou de certa forma, como um cara inteligente não tem uma conciência politico-cultura a ponto de entender e aprender a valorizar a nossa cultura. Decidimos não negociar mais, e fomos em outra rede de cinema, quando apresentamos a proposta imediatamente fomos atendidos, e o filme 'tá sendo exibido, sucesso total de público e critica. O filme ficaria apenas uma semana em exibições, mas por o retorno financeiro a direção do cinema decidiou prorrogar por mais uma semana. Agora é só 'perar pra ver no que vai dar. Pretendemos leva-lo à São Luiz e Recife, por enquanto. Estamos 'tudando um projeto de poder leva-lo à todo o Brasil, mas se não formos felizes em 'sa idéia aviso quando for lançado o DVD. Esse link a seguir é o endereço do blog do filme onde vcs poderão ter acesso a outras informações e assitir ao Trailer do filme. http://www.tvmfilmes.zip.net Número de frases: 36 «Ai Que Vida!». A 3ª Edição da Virada Cultural que ocorreu, em maio de 2007, na cidade de São Paulo emocionou àqueles que a vivenciaram, por demonstrar que a cultura e diversas manifestações artísticas podem ocupar 'paços degradados gerando receitas financeiras para os artistas, produtores culturais e para o comercio local tanto formal como informal. A Virada Cultural é demonstrativa de quanto a arte e a cultura podem modificar emblematicamente as relações de uma cidade com os seus habitantes. Com investimentos que poderiam ser considerados modestos ao serem comparados a investimentos em outros setores, por 24 horas a população da cidade de São Paulo vivenciou experimentações artísticas, culturais e 'téticas detentoras de qualidade. Todas as artes e formas culturais encontram seus 'paços livres para se manifestarem demonstrando que culturalmente existe um uma convivência harmoniosa entre as diversas tribos que compões o cerne da urbe da cidade de São Paulo. A unanimidade de elogios perante tal evento não foi unânime. Elogios mais eloqüentes puderam ser ouvidos dos artistas, do publico em geral, gestores culturais municipais e da maioria dos comerciantes de bares e demais serviços formais e informais próximos das regiões onde se concentravam os eventos. A polemica ocasionada por o sensacionalismo da veiculação de um único distúrbio na Região da Praça da Sé, às vozes do de integrantes da ong apoio a «Revalorização do Centro», da cidade de São Paulo, questionou quanto à validade da execução de eventos para grande publico na região. Mesmo a incidental ocorrência de violência durante um dos mais de 400 eventos não eclipsar o desejo da maioria da população em querer mais eventos como 'te que vêem reocupar as áreas relegadas ao descaso, a violência, trafico de drogas, mendicância, abandono policial, etc. Muitos gostariam de não ter que 'perar mais um ano por a próxima Virada Cultural. Muitos comentam que tal evento poderia ser semestral, mensal ou mesmo a cada fim de semana, pois há publico e demanda para ações de tal porte na cidade e São Paulo e uma quantidade vasta de artistas e agentes culturais aptos a atenderem tal demanda sem que tal caia na mesmice repetitiva. Cabe agora os gestores públicos de São Paulo avaliarem 'te desejo da população em ter mais arte e cultura de modo constante. Número de frases: 12 Quando o relógio marca as 3 horas da manhã, Maria das Graças da Rosa, 47 anos, dá um pulo da cama. Como costuma a dizer, gosta de cantar já de manhã. Em a pequena Anchieta, litoral Sul do Espírito Santo, Maria é uma das principais vozes da banda de congo Sol e Lua, a única do município que preserva 'ta que é uma das principais heranças deixadas por os negros no Espírito Santo. Maria canta seus antepassados. «São os negros que vieram da África e fizeram 'te Brasil «crescer». Agora, sentada numa das pilastras do Museu do Padre Anchieta, no distrito de Reritiba, em Anchieta, ela louva seus santos com sua voz grave: «Mas que santo é aquele que vem no andor? / É São Benedito, nosso senhor». Aos poucos, Maria é cercada por os companheiros de banda, que somam mais de 60 integrantes, entre crianças, jovens, adultos e idosos. Em as mãos, tambores, casacas, pandeiros, e a bandeira que identifica a história do grupo. Se Maria das Graças acorda cedo para trabalhar e tomar a tradicional branquinha que fica colocada 'trategicamente embaixo do tanque de sua casa, José Luiz Doellinger, 37, também desperta por volta do mesmo horário. Sendo um das centenas de pescadores da região, tem de ir para o mar cedo -- quando não vira a noite em alto mar. Morador de uma casa simples, José Luiz é responsável por o resgate de uma das maiores tradições folclóricas de Anchieta, o Jaraguá. A fantasia de caveira de cabeça de cavalo assusta há mais de 40 anos os moradores do município. «Esse cavalo é feio! Tenho medo», grita correndo a pequena Camila, com os olhos vidrados no que o vizinho faz nas horas vagas. Como diz a lenda, o Jaraguá é um resgate do tempo em que os jesuítas que, liderados por o Padre José de Anchieta, saiam em busca de índios para promover a catequização dos mesmos. Os índios que fugissem seriam assustados por um cavalo que aparecia de dentro do lodo do rio que desemboca na praia central da cidade. Hoje em dia, a memória desse ato de repressão acontece em forma de brincadeira durante o carnaval, chamando a atenção de turistas de várias cidades que se reúnem em Anchieta para celebrar as tradições populares e a cultura da pesca. Número de frases: 19 O Projeto Curta na Escola enriquece a vida 'colar de professores e alunos através do uso de premiados filmes brasileiros de curta-metragem em salas de aula. Mas de 200 filmes já 'tão acompanhados de pareceres pedagógicos sugerindo seu uso em diferentes disciplinas e todos os níveis de ensino. Acesse www.curtanaescola.org.br Cadastre-se como professor, pesquise filmes relacionados às disciplinas que deseja abordar, prepare suas aulas e relate suas experiências, que ficarão publicadas para consulta no Banco de Relatos do site. Torne-se Professor-Autor 'crevendo relatos de suas experiências com o uso dos filmes em suas aulas. Os professores-autores dos melhores relatos gravados até 30 de outubro receberão prêmios de R$ 500,00. O projeto é aberto a participação de professores de todo o Brasil, que podem exibir os filmes gratuitamente aos alunos através da Internet ou com os DVDs Coleção Curta na Escola, volumes 1 e 2. O que é o projeto Curta na Escola? A idéia de incentivar o uso de filmes de curta metragem brasileiros como material de apoio pedagógico em salas de aula já existia desde o início do projeto Porta Curtas Petrobras, em agosto de 2002. Em março de 2006, através da ativação do módulo Curta na Escola, passamos a oferecer indicações de uso pedagógico para boa parte do acervo de centenas de filmes cuja exibição na íntegra é disponibilizada através do site. Pedagogos 'pecializados passaram a contribuir com sugestões (pareceres pedagógicos) sobre como utilizar cada filme indicado na abordagem de variadas disciplinas e temas transversais, em todos os níveis de ensino. A adesão imediata de um grande número de professores, baixando os pareceres e elogiando o serviço, motivou o desenvolvimento do Projeto Curta na Escola, que reune em 'te web site um conjunto de ferramentas interativas integralmente dedicadas a promover o uso dos curtas-metragens brasileiros na educação. Número de frases: 12 O objetivo maior do Projeto é constituir uma Comunidade Nacional de Aprendizagem em torno da construção colaborativa de conteúdos relacionados ao uso dos curtas-metragens brasileiros em 'colas de todo o país. Eixo Anhangüera. Estação Lago das Rosas. Quem desce do popular eixão em 'se ponto 'tá diante de dois dos centros culturais mais importantes de Goiânia: o Centro de Tecnologia do Espetáculo (CETE) e o Teatro Inacabado. O primeiro é o principal local de ensaio para as companhias teatrais da capital, enquanto o segundo guarda uma história de amor com a cultura goiana. Teatro Inacabado O Teatro Inacabado foi construído como sede para a Agremiação Goiana de Teatro, em 1959. O local foi erguido tijolo por tijolo por o diretor teatral Otavinho Arantes, que se apaixonou por a arte da encenação ainda cedo, quando 'tudou no Grupo Escolar de Trindade, onde foi incentivado por o padre alemão Pelágio Sauter. O amor de Otavinho por o teatro era tão grande que ele atravessou Goiânia com tijolos num carrinho de mão e construiu o Teatro Inacabado praticamente desse jeito. O local, que comporta 300 pessoas sentadas, começou a funcionar antes da inauguração, e suas obras continuam sem término até hoje. A Fundação Otavinho Arantes tem feito shows com cantores goianos em prol da conclusão do 'paço. A fundação 'tá responsável por a administração do prédio depois que Otavinho morreu, em 1991. O projeto, batizado de «Sou Inacabado e Amigo da Fundação Otavinho Arantes», também tem o intuito de levantar verbas para a continuidade das atividades desenvolvidas por a fundação, como cursos de artes e informática, e a montagem do 'petáculo» Papo Calcinha», que retrata a adolescência, a iniciação sexual e o perigo da AIDS. Em um decreto orçamentário de junho de 2004, o então Governador do Estado, Marconi Perillo, concedeu crédito de R$ 263 mil à Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (AGEPEL), destinado ao Teatro Inacabado. A obra foi iniciada em setembro de 2005, e interrompida no início do ano seguinte. Segundo o diretor executivo da Fundação Otavinho Arantes, Hamilton José Amorim Rezende, em julho de 2006, o Estado repassou cerca de R$ 48 mil e deu prosseguimento à reforma e conclusão do 'paço. Contudo, a construtora encarregada interrompeu novamente o trabalho em setembro do mesmo ano, sob a alegação de que já havia gasto todo o dinheiro destinado para o serviço. Em um país que não gasta nem 1 % do orçamento com cultura -- o mínimo recomendado por a Organização das Nações Unidas (ONU) --, Goiás enfrenta dificuldades na área desde o início do ano, quando houve demora para a nomeação dos cargos de primeiro 'calação da Agepel e atraso na indicação de Linda Monteiro para a presidência do órgão. Em o começo de março, a exoneração de cargos dos funcionários comissionados agravou 'sa situação, e o Estado continua sem definir sua política para o setor cultural. CETE O CETE foi criado durante a gestão de Sandro di Lima no comando da Secretaria Municipal de Cultura (SeCult), para sediar o Goiânia em Cena -- Festival Internacional de Artes Cênicas, em 2003. Era lá que funcionava o Mercado das Pulgas, 'paço multicultural com shows, feiras, oficinas e bar. O prédio do CETE fica em frente ao Teatro Inacabado. Tem três andares e recebe a maioria dos ensaios das montagens teatrais de Goiânia. O atual diretor do Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, Carlos Brandão, planeja transformar a construção num 'paço cultural ativo, já para o ano que vem. O custo total das reformas é de cerca de R$ 30 mil. O prédio tem goteiras, iluminação e som deficientes, a cabine para a aparelhagem técnica é muito pequena, e o bar precisa ser repensado. Além disso, o técnico de som Pablo Lacerda, que compõe a equipe do Goiânia Ouro, quer construir um 'túdio de ensaios para bandas e cantores. A coordenadora do CETE, Rose Araújo, afirma que o 'paço é fundamental para a cultura goianiense, mas não é reconhecido porque o público não se interessa em saber como os 'petáculos são produzidos. Ela diz que o prédio é ideal para a realização de oficinas de montagem, cenografia e figurinos, além dos ensaios e das apresentações das peças. Rose também quer propor parcerias com o Teatro Inacabado, a Rádio Universitária, o Corpo de Bombeiros e com os hospitais próximos ao prédio. O dramaturgo João Bosco Amaral, da Cia.. Teatral Oops!., reclama que o CETE é menosprezado por a SeCult, e que a organização do Goiânia em Cena se 'queceu do local nas últimas edições. Ele é um dos idealizadores do projeto Casa das Artes, que foi aprovado por a Lei Municipal de Incentivo à Cultura e tem o objetivo de unir as companhias teatrais em prol do lugar. O projeto prevê ainda o festival independente Mostra Subterrânea, como alternativa para as companhias de teatro que encontram dificuldades em apresentar seus trabalhos. Carlos Brandão acredita que o que falta ao CETE é a reforma física do 'paço. «Depois de arrumado, tudo vai depender de uma boa administração, para chamar e conquistar o público», explica. Segundo ele, o 'paço é ideal para promover lounges e atrair a galera jovem. Carlos Brandão teve êxito à frente do Centro Cultural Martim Cererê e garante que o segredo é observar e cativar o público, e não 'perar que o governo comece a investir maciçamente na cultura. Ele faz um paralelo com a situação do Centro Cultural Oscar Niemeyer. Para Brandão, a obra, que custou R$ 60 milhões ao Estado, já 'tá pronta. Agora, o 'paço precisa apenas de uma administração empenhada, que não reclame que 'tá faltando retoques na construção. «Quando é que o Estado vai ter dinheiro para retocar a cultura? Nunca.», avisa. De acordo com Carlos Brandão, falta boa vontade e criatividade de quem trabalha na área. Ele afirma que os centros culturais não podem funcionar como uma repartição pública, abrindo às oito da manhã e fechando às seis da noite. «Todos os 'paços culturais são frágeis porque o poder público não assume que é o dono, e os freqüentadores também não se interessam em ajudar a manter os centros», diz. Em o Martim Cererê, ele conta que enfrentou a falta de união dos grupos que freqüentavam o lugar, além do desleixo do Estado. Brandão diz mais: «O Martim Cererê é o grande 'paço cultural de Goiânia. Poderiam cercar o bar, fazer um pub lá, e discotecagem num dos teatros». Quando questionado de onde vem sua paixão por as artes, ele responde: «Eu acho que sou retardado». E conta que gosta de cultura desde moleque, quando participou do movimento 'tudantil num momento em que as discussões sobre literatura, teatro, cinema e música eram muito intensas. Para Carlos Brandão, a solução para a cultura em Goiânia é caseira. Número de frases: 55 Deve-se injetar a criatividade e disposição das pessoas daqui para algo sempre inacabado e sem retoque. são os meus olhos? Acaba de sair, aqui em Recife, a programação do Abril para o Rock 2007; serão três dias de música, em três palcos, entre as atrações principais irão se apresentar Os Mutantes, Nação Zumbi e o Sepultura. Em 'ta semana ocorrerá, também aqui em Recife, três apresentações de Chico Buarque (como o número três 'tá se repetindo? ...), os shows fazem parte da turnê Carioca. Quais as semelhanças e as diferenças destes dois programas culturais? Para os 'tudantes de Recife, os que pagam meia-entrada, há muitas ... diferenças: Quem 'colher a primeira opção poderá pagar 25 reais por cada dia de show, já quem 'colher a segunda, terá que desembolsar 80 reais para assistir a um único dia. semelhanças: As duas opções ocorrem no Centro de Convenções de Recife, sendo a primeira num 'paço maior e a segunda num teatro. Não entendo como se negociam os preços dos ingressos ... Dou aqui apenas o relato que o acaso me aportou ... p. s.: Decidi não ir pra nenhum dos dois shows ... Em o fim de abril tem Caetano Veloso no Teatro da UFPE ... Espero conseguir ir pra 'te show, irei por qual preço for ... Talvez aí 'teja a explicação. Número de frases: 19 Zabumba City, tipografia de Fátima Finizola, designer da Corisco Design, 'critório sediado em Recife, foi selecionada para a Bienal Letras Latinas 2006. A fonte é um dingbat (tipografia na qual ilustrações, vinhetas, palavras inteiras ou sinais tomam o lugar das letras -- Priscila Farias, 2001) desdobramento da Zabumba, que anteriomente foi selecionada para o Salão de Design PE e para a mostra Tipografia Brasilis3. Zabumba City foi desenvolvida retratando elementos de destaque na paisagem urbana das cidades de Recife e Olinda (Pernambuco Brasil). Foram abordados patrimônios históricos, pontos turísticos e elementos culturais representativos de alguns bairros de 'tas cidades. A linguagem gráfica utilizada nos desenhos foi inspirada nas xilogravuras da literatura de cordel, folhetim típico de 'ta região. As gravuras foram geradas a partir da técnica de recorte manual e digital. Em sua segunda edição, a Bienal Letras Latinas selecionou 70 trabalhos, de entre 427 inscritos, que serão expostos simultaneamente em Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Lima, Montevideo, Santiago, São Paulo e Vera Cruz. O corpo de jurados foi composto por Luciano Cardinali, Juan Carlos Darias, Priscila Farias, Rubén Fontana, Vicente Lamónaca, Candelaria Moreno, César Puertas, Rodrigo Ramírez. Quem quiser conferir a mostra no Brasil poderá ir ao SENAC Santo Amaro, em São Paulo no período de 15 de maio a 10 de junho de 2006. Além do trabalho de Fátima outros 8 tipógrafos brasileiros também tiveram suas fontes selecionadas. Mais info: http://www.letraslatinas.com Veja prancha completa da Zabumba City, aqui. :: Três palavrinhas com Fátima Finizola 1. Os «caracteres» do dingbat Zabumba City são referências diretas à cidade do Recife. Isso é uma declaração de amor por a cidade? Em a verdade é reflexo de uma vivência diária na cidade em que nasci, a qual admiro e defendo seus elementos e manifestações culturais, tomando partido desse universo vernacular sempre que posso na minha prática projetual de design. 2. Há quanto tempo você se dedica à tarefa de tipógrafa e quais os resultados de 'ta empreitada? Sempre gostei de rabiscar letras ... fui apresentada à caligrafia e à tipografia ainda no curso de design, onde comecei meus primeiros experimentos. No entanto posso dizer que quem impulsionou a minha curiosidade por os tipos digitais, foi a tipógrafa Priscila Farias, quando 'teve de passagem aqui por o Recife em 2000 ministrando uma disciplina no curso de Pós-gradua ção em Design da Informação da UFPE. De repente descobri que poderia transformar minhas letrinhas em fontes de verdade!!! A partir de então me integrei ao grupo experimental Crimes Tipográficos. Hoje, temos trabalhos publicados no livro Fontes Digitais Brasileiras e selecionados para a Mostra Tipografia Brasilis 3, Salão Pernambuco Design e agora recentemente para a Bienal Letras Latinas 2006. Estamos de portas abertas para agregar trabalhos de outros aspirantes à tipógrafos que desejem divulgar seus projetos. 3. Qual ferramenta você utiliza para finalizar seus trabalhos tipográficos? Ainda 'tou utilizando o Fontographer, pois apesar de já existirem softwares mais recentes no mercado, me acostumei com a ferramenta. Ainda não me aventurei em novos programas por absoluta falta de tempo, afinal de contas, a fonthouse Crimes Tipográficos é um projeto paralelo ao nosso 'túdio ao qual dedicamos nossas poucas horas de «lazer»! 4. Qual atividade é mais prazerosa, o design ou a tipografia? ( Abandonaria algum de eles em função do outro?) Acredito que tudo que fazemos sem compromisso, sem necessariamente ter que agradar o gosto de um cliente, mas na verdade fazendo do trabalho uma expressão gráfica particular, mais experimental é mais gostoso, seja no design ou na tipografia. Hoje temos mais oportunidade de fazer experimentos no campo da tipografia, mas infelizmente não dá para abandonar o design e viver de tipos, pois ainda não temos retorno financeiro suficiente ... Número de frases: 31 Umbanda Fest Meu querido amigo, Aquela casa não existe mais, o que restam são apenas resquícios ... Lembra? Como eram ricamente aproveitados? Os tesouros que remetiam a nossa própria identidade? Tanta arte naqueles cômodos, quanta história recolhida!!! Guardada nos vãos do adobe, nas janelas antigas que se abriam aos sonhos de todos nós ... Hoje, afora o desprezo por o que é material, lastimo mesmo a ausência de idéias, aquelas que criavam projetos, cultuavam a memória consagravam a história e a originalidade de nosso povo ... Não me importo com o sumiço daquela cópia do Rugendas, nem com os teus livros devorados inadequadamente, com os quadros que ninguém sabe por onde andam, com a precariedade que consome o teu acervo. Lastimo o abandono da tua causa, porque o teu sangue é só uma mancha apagada e a descendência dos que por ti foram homenageados desconhece o valor da memória. Aquela casa não existe mais, não como era antes ... Hoje não há quem possa dizer onde 'tão as coisas, de onde vieram, para que servem, que importância tem ... Guaicuru que fostes, não sabem nem dizer se Guaicuru é coisa, acham tudo qualquer coisa coisificando o teu legado. Eles dizem que é dinheiro, que sem ele nada fazem, outros alegam incompetência, alguns falam em descaso. Mas nós sabemos que tudo se resume a ausência, ausência de identidade com os valores de nossa própria cultura ... Não é irônico padecer daquilo contra o que lutamos por toda a nossa vida? Material Complementar Em dezembro de 2007, o Jornal «O Estado de MS» publicou matéria denunciando o descaso com o Memorial Henrique de Melo Spengler, oficialmente denominado Centro de Documentação Histórica da Região Norte do Estado de Mato Grosso do Sul, localizado no centro velho do município de Coxim, região norte de MS. Passados quase 5 meses a situação ainda é a mesma, com o agravante de que o período de chuvas que se sucedeu prejudicou ainda mais o 'tado precário do acervo. Acervo 'te que (após 3 anos de funcionamento do CDHR) ainda não 'tá catalogado, não recebe manutenção adequada e não serve ao propósito da pesquisa, uma vez que chegando ao memorial não há informações sobre o que ele realmente contém. Encontrado constantemente fechado, arrombado por mais de 3 vezes, completamente relegado a um 3º plano, o CDHR Henrique de Melo Spengler é apenas mais uma promessa demagógica das autoridades que cuidam do patrimônio, da educação, da História e da Cultura em nosso país, uma vez que, segundo as instituições responsáveis, não há nada de errado com o memorial, somente pequenos problemas que serão resolvidos em breve. Em a verdade o problema é muito mais grave do que se faz supor quando afirmam que a falta de verbas é o gargalo. O problema 'tá na completa ausência de conceitos que norteiem os procedimentos a serem adotados para resguardar, proteger e tornar de utilidade pública 'te importante acervo sul-matogrossense. Uma argumentação mais embasada sobre 'te descaso (de cunho acadêmico), pode ser encontrada no trabalho científico realizado por a Professora Doutora Ana Paula Squinelo, Doutora por a USP, publicado na internet no seguinte endereço eletrônico: http://www.asocarchi.cl/ DOCS / 23. PDF Em 'te link podem ser encontradas também outras informações como a biografia de Henrique Spengler e os fatos que levaram a criação do memorial. O trabalho entitulado «Os órgãos de informação, as comemorações cívicas e o descaso público» ilustra com bastante propriedade o que as aurtoridas 'condem e o que o poder público insiste em manter longe da opinião pública a respeito do Memorial Henrique Spengler. Caso haja algum «bug» no endereço eletrônico que suporta o trabalho da Doutora Ana Paula, os interessados podem me pedir uma cópia por e-mail. Número de frases: 47 Não nos rendemos ao antigo, Não nos furtamos ao presente Não repetiremos o passado Em o futuro outros seremos Afirmando sempre o que somos A questão racial vem pontuando, em todo o mundo, as discussões voltadas à conquista da cidadania. O racismo foi um eixo básico da luta por os Direitos Humanos e ganhou outras feições na contemporaneidade, forjando novas perspectivas de inclusão. O Brasil, institucionalmente falando, avançou significativamente na discussão sobre o tema. O país se reconheceu oficialmente como racista, afirmação até há pouco tempo interditada por o discurso oficial. Os resultados reiterados das pesquisas 'tatísticas fizeram com que nas últimas décadas fossem desenhados e implementados leis, recursos e outros dispositivos de correção dos problemas raciais. As políticas focalistas (ações afirmativas, políticas de cotas, reparação) despontaram no horizonte do possível como uma alternativa para diminuir o fosso entre brancos e negros. De a tese sobre visibilidade para a igualdade de direitos Sinais assinalados ensinados às tristes sinas, à musicalidade, as aliterações sensuais e tanto mais O indivíduo em desespero e apaziguado zelo das dores, dos lutos e tormento conformado Inflamado o gênio em transparências vestais, transalucinantes, nebulosidades em brilhos, amalgamado o 'pírito em luzes à Baudelaire De Broquéis a Faróis em Últimos Sonetos Tropos e Fanfarras ou Missal e Evocações Prosa, poesia nem desfeita nem a esmo, Nem mais cravos, correntes ou grilhões prosapoema lancinante da gente lacerada Dante nem Cisne Negro por amor clamado Cruz e Sousa inteiro e ímpar, a liberdade, cantada, a vida breve e enlutada dor Impõe-se o registro do que se diz sobre o poeta e a criação, para que se o homenageie sempre, se o honre por oportuno e à luta. E a criação se reflita de que mundo adiante de ontem e hoje queremos. Violões que Choram ... Ah! plangentes violões dormentes, mornos, soluços ao luar, choros ao vento ... Tristes perfis, os mais vagos contornos, bocas murmurejantes de lamento. Noites de além, remotas, que eu recordo, noites de solidão, noites remotas que nos azuis das Fantasias bordo, vou constelando de visões ignotas. Sutis palpitações à luz da lua anseio dos momentos mais saudosos, quando lá choram na deserta rua as cordas vivas dos violões chorosos. Quando os sons dos violões vão soluçando, quando os sons dos violões nas cordas gemem, e vão dilacerando e deliciando, rasgando as almas que nas sombras tremem. Harmonias que pungem, que laceram, dedos nervosos e ágeis que percorrem cordas e um mundo de dolências geram, gemidos, prantos, que no 'paço morrem ... E sons soturnos, suspiradas mágoas, mágoas amargas e melancolias, no sussurro monótono das águas, noturnamente, entre ramagens frias. Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos violões, vozes veladas, vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. A Dor Torva Babel das lágrimas, dos gritos, dos soluços, dos ais, dos longos brados, a Dor galgou os mundos ignorados, os mais remotos, vagos infinitos. Lembrando as religiões, lembrando os ritos, avassalara os povos condenados, por a treva, no horror, desesperados, na convulsão de Tântalos aflitos. Por buzinas e trompas assoprando as gerações vão todas proclamando a grande Dor aos frígidos 'paços ... E assim parecem, por os tempos mudos, raças de Prometeus titânios, rudos, Brutos e colossais, torcendo os braços! Afra Ressurges dos mistérios da luxúria, Afra, tentada por os verdes pomos, Entre os silfos magnéticos e os gnomos Maravilhosos da paixão purpúrea. Carne explosiva em pólvoras e fúria De desejos pagãos, por entre assomos De a virgindade -- casquinantes momos Rindo da carne já votada a incúria. Votada cedo ao lânguido abandono, A os mórbidos delíquios como ao sono, De o gozo haurindo os venenosos sucos. Sonho-ta deusa das lascivas pompas, A proclamar, impávida, por trompas, Amores mais 'téreis que os eunucos! João da Cruz e Sousa nasce em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis, Santa Catarina), a 24 de novembro de 1861. Precursor e ícone do Simbolismo no Brasil é filho de negros alforriados. Tutelado por o Marechal Guilherme Xavier de Sousa, de quem adotou o nome de família, aprende francês, latim e grego, além de Matemática e Ciências Naturais. Em 1881, dirige o jornal Tribuna Popular, no qual combate a 'cravidão e o preconceito racial. Em 1883, é recusado como promotor de Laguna por ser negro. Em 1885 lança o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Viaja para o Rio de Janeiro, onde trabalha como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil e atua no jornal Folha Popular. Em fevereiro de 1893, publica Missais e, em agosto, Broquéis, dando início ao Simbolismo no Brasil. Tem quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose. Enlouquece. Falece a 19 de Março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos, na então Estação do Sítio, em Minas Gerais, vencido por a tuberculose. O corpo é trasladado para Santa Catarina em vagão destinado a transporte de cavalos. É sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por amigos, José do Patrocínio entre eles. Número de frases: 102 (fonte: Wikipedia) Sujeito tímido, de fala mansa, um cara muito antenado. Assim é Glênio Rissio, um agitador cultural, como ele se denomina. Cultura, para ele, tem que ser popular e, vai logo dizendo: «Cultura popular para mim, é a verdadeira cultura do povo». Sempre envolvido com música, Glênio Rissio é também conhecido por o seu faro e incrível sensibilidade musical. Militante de rádio comunitária onde também é pioneiro no assunto, ajudou a fundar a RádioCOM, segunda radio comunitária que sugiu no dial dos pelotenses. Foi lá nos 'túdios de 'sa FM, que ele notou um número incrível demos (cd de demostração) que chegava para acervo da rádio. A partir desse contexto tomou conhecimento da grande diversidade cultural que tinha na cidade de Pelotas. Aí, como ele diz «é botar a cabeça para funcionar», conversando com os amigos e músicos, começou a pensar em projeto cultural com a participação dos artistas que 'tavam desorganizados e marginalizados por a falta de projetos. O Glênio ainda disse que «é grande a falta de reconhecimento dos artistas locais». Logo feita 'tas constatações ficou mais fácil, foi convocar a primeira reunião e começar. Os músicos toparam na hora, então surgiu o projeto Arte De aqui, dois cds com artistas locais, masterizados aqui, com um projeto gráfico e de artes visuais também pelotenses, ou seja, um projeto popular e coletivo, feito por maõs de pelotenses. Nosso agitador cultural ainda disse que «vem mais por ai». Ficamos na expectativa, a arte agradece. Para conhecer 'se projeto acesse. Número de frases: 16 www.radiocom.org.br A primeira década deste novo milênio 'tá acabando. do que deveríamos chamá-la? «Década do Terrorismo»? Década dos Países em Desenvolvimento»? «Década das Incertezas»? Década da Necessidade Crônica por um «Computador»? Década da Democratização dos conteúdos de Entretenimento por a Internet»? «A «Década Vazia»? «A «Década Cheia»? «A «Década Enfadada»? «Década do Saudosismo»? «Década Impulsionista»? «Década Estagnada»? «A Era sem Rumo»? «A Era dos «Muitos Rumos»? «O «Início do Fim»? «O «Fim do Início»? «A «Década Digital»? «A «Década da Ditadura da Democracia»? «A «Década da Democratização da Ditadura»? «A «Década da Incógnta»? «Década dos Novos-Ricos»? «Década dos Velhos-Pobres»? «A Era do » O Tempo do Tudo e do Nada " Em o dia primeiro de Janeiro de 2001, até a data de hoje, aconteceu muita coisa que jamais 'peraríamos acontecer. Começando por o óbvio: A queda das Torres-Gêmeas. O anti-americanismo geral que, de certa forma, também foi uma novidade. A guerra mais impopular da história da humanidade. A clara decadência econômica norte-americano ... Os Estados Unidos de Parte do Norte da América entram em franca declinação, mas será permanente? Será que finalmente a coroa de «reis do mundo» passará para outra nação? Algo irá mudar? Será que na próxima década a língua oficial dos negócios, aos invés do inglês, será o Mandarim? A internet, que antes do ano 2000 boa parte da humanidade mal ouvia falar, agora parece item obrigatório nas casas das famílias de classe-média por todo o mundo. Não se entende mais música como sendo «faixa», mas sim» arquivo». Não se entende mais um objeto que serve para carregar fisicamente um conteúdo de informação como sendo «VHS / CD / DVD», mas sim como» mídia». Não basta a um celular somente fazer ligações, é necessário que ele tenha câmera digital, MP3, tenha toques musicais e chupe cana. Antes ninguém precisava ter um Pen Drive ... mas agora todos precisam ter. A intocada Microsoft perde feio para a Maçã. Em a religião, conflitos extremos brincam de gangorra. De um lado, cristãos e islâmicos só concordam num ponto: o 'tado precisa deixar de ser laico. De o outro, nascem aiatolás do ateísmo. Todas as religiões do mundo se unem pela primeira vez para queimar em fogueiras públicas ateus -- considerada hoje em dia a classe «religiosa» mais hostilizada na maioria dos países. Enquanto isso, 'tima-se que em breve ateus 'tarão amarrando bombas ao próprio corpo para defender sua falta de fé ... O jovem hoje não tem um ritmo musical que o define. Vale tudo, e ao mesmo não vale nada. O movimento EMO é o mais amado e odiado (ao mesmo tempo) de todos. O newRock, newMetal, newQualquer Coisa indica que o moderno é ser retrô. Gigantes que todos julgavam mortos se levantam -- como a Rússia. E anões que muitos julgavam 'tagnados para sempre se destacam -- como a Índia. E entre a galera do meio, o Brasil conheceu os ápices do amor e do ódio no governo Lulista que, no momento, goza de certo pertígio por os bons avanços econômicos. A coisa agora é ganhar dinheiro. A coisa agora é ter um IPhone. A coisa agora é ser Minimalista. A coisa agora é ser Tudolista. A coisa agora é cuidar do Meio-Ambiente. A coisa agora é ter o pensamento positivo. O Segredo que todo mundo já sabia foi revelado. De um lado querem liberar as drogas, do outro querem censurar filmes onde aparecem pessoas fumando. De um lado crianças aprendem sobre sexo na 'cola, do outro querem proibir motéis para menores de 21. De um lado, a taxa de natalidade anda alta, do outro líderes religiosos incentivam as pessoas a terem mais filhos. O Politicamente Correto nunca foi tão careta, e todos os jovens de hoje o seguem. O Homossexualismo é cada vez mais liberado, enquanto cientistas tentam descobrir o «gene da bichisse» e eliminá-lo da cadeia de DNA humano. As pessoas 'tão preocupadas com o Fim do Mundo, seja ele de fonte atômica, ambiental, terrorista, hacker ou qualquer outra. E frustram-se a cada dia ao perceberem que ainda 'tão aqui. Ontem tínhamos uma idéia; hoje a refutamos; amanhã a retomaremos e depois de amanhã ela 'tará fora de moda -- e quem sabe na semana que vem ela não reapareça com nova roupagem? Somos todos Bipolares (alguns são Tri ou até Tetrapolares). Queremos ser uma metamorfose ambulante com idéia bem definidas. O cara de sucesso é o que sabe se adaptar às novas situações sem abandonar seus velhos ideais. A década de 00's, que ainda não findou, é assim -- e não é assim. É a «Década das Certezas Contestadas» e a «Década das Contestações das Incertezas». A era do Expressionismo que Impressiona. De o Dadaísmo com sentido. Enfim ... é a década de nossas vidas atuais. Número de frases: 80 É uma década muito humana. Em Alto Alegre do Pindaré, a 239 km de São Luís, uma iniciativa 'tá ajudando professores e alunos a disseminar o gosto por a leitura nas comunidades, tanto da zona urbana quanto da zona rural. Trata-se do Projeto Jegue-Livro, uma 'pécie de biblioteca ambulante. Uma vez por mês, um jegue com jacás (uma 'pécie de cofo de fibra vegetal) de livros, conduzido por jovens leitores, sai às ruas e se instala num local da comunidade, à sombra, pondo livros à disposição da população. Por uma hora, acontecem as leituras 'pontâneas. O Jegue-Livro é ligado a outro projeto de incentivo à leitura, o Jovens Leitores, que é desenvolvido em todas as 'colas onde funciona o Programa Escola Que Vale (EQV), parceria da Prefeitura com a Fundação Vale do Rio Doce. Este foi pensado para que os 'tudantes não ficassem sem aula, enquanto os professores participavam da formação continuada com a coordenação do EQV, realizado uma vez por mês, no intervalo de uma hora, em cada um dos nove 'tabelecimentos onde o programa foi instalado. Para 'tender à comunidade foi um passo. Em ação com outro projeto, o Comunidade de Leitores, desenvolvido por diretores nas suas unidades de ensino, formou-se uma rede em favor da leitura no município. Arrastão Quando sai às ruas, o jegue arrasta centenas de crianças, jovens, adultos e idosos. Todos em busca de conhecimento. Em praça pública, elas participam de rodas de leitura. As crianças são incentivadas a ler, a desenhar, a pintar e a fazer a releitura dos livros em microfones. «São atividades que ajudam no desenvolvimento da comunicação oral, no sentido de melhorar o nível de leitura e diminuir a inibição», explica Carmelita Laura, professora e diretora da Unidade Integrada Professor Francisco de Assis Carneiro, do povoado Auzilândia, uma das cinco comunidades onde o Projeto Jegue-Livro vem sendo desenvolvido há seis meses. O Jegue-Livro é uma daquelas idéias simples que dão certo por o 'forço coletivo. Em cada comunidade onde o projeto é realizado, o animal que faz o transporte dos livros é doado por um pai de aluno ou um morador do local. De a mesma forma que os jacás, que são enfeitados por alunos com papel colorido e servem como 'tantes móveis. Os livros são doações, da Prefeitura e do próprio Escola Que Vale, disponíveis na biblioteca da Casa do Professor, um 'paço de suporte ao Programa EQV. Número de frases: 19 Que tipo de aula reúne numa sala do Rio de Janeiro uma dona-de-casa de 55 anos, um 'tudante de Letras de 21, um professor de Matemática de 39, um funcionário dos Correios de 27, um secretário de 'cola de 34, um ator e diretor de teatro de 23 e um outro 'tudante, agora de Comunicação Social, de 26? Difícil? E se eu disser que todos são de cidades do Brasil com até 20 mil habitantes, ajuda? Quem acompanha o Overmundo talvez já saiba a resposta. Trata-se do Revelando os Brasis Ano III -- projeto do Ministério da Cultura que viabiliza a produção de vídeos digitais a partir de histórias 'critas por moradores de municípios com até 20 mil. Segundo o IBGE, o país possui 5.568 municípios, dos quais 4.006 têm até 20 mil habitantes. Ou seja, longe de representarem lugares distantes e de exceção, 'tas pessoas de sotaque, pele, gestos e idéias tão diferentes falam em nome da paisagem da maioria do país. Em o dia 24 de junho, os 40 'colhidos por o Revelando iniciaram o curso de duas semanas de formação audiovisual, no Rio. Boa parte de eles não tinha noção alguma do fazer cinematográfico e descobriu um novo mundo com palavras como diretor, diretor de fotografia, produtor, montador, diretor de produção, roteirista, técnico de som direto ... Em a mala trouxeram dois aliados: a história por a qual foram selecionados e uma impressionante vontade de aprender. Aula 1 As turmas foram divididas entre aqueles que contariam suas histórias em ficção e em documentário. Acompanhei duas aulas do pessoal de ficção. Dez alunos que, no primeiro dia, foram apresentados ao cineasta Eduardo Valente, professor que daria o curso de Direção e Roteiro. Com pouco tempo de aula, Eduardo já falava de sinopse, argumento, 'caleta, roteiro técnico. As primeiras dúvidas surgiam e, rapidamente, aquela «vontade de aprender» ficava explícita. Delmar, de Lençóis (BA), pergunta: «Escaleta é para ter a ordem da narrativa ou de gravação?». Eduardo pede paciência, aquilo será falado mais tarde. Não satisfeito com a resposta, Delmar insiste: «É que minha história tem muito tempo psicológico, a história vai e volta o tempo todo». Eduardo pede novamente calma, diz que isso vai ser discutido detalhadamente durante as semanas, e que de ali todos voltarão às suas cidades com um roteiro para filmar. Assim, o professor propõe um exercício: todos leriam o roteiro de Castanho, filme do próprio Eduardo, e depois assistiriam ao filme. Em o final, uma pergunta: depois de ler a história e ver o curta-metragem, alguém 'tranhou a adaptação do que 'tava no papel para a tela? Adner, de Coimbra (MG), imaginou a trilha sonora diferente. Para Elano, as cenas no spa teriam imagens menos 'curas. Delmar perguntou o porquê das roupas antigas na segunda parte do filme. Aprendizado da primeira manhã: cada um tem uma visão própria do filme e tudo em cinema é 'colha. A turma vai para o almoço. Claro que antes de comer fazem as últimas perguntas: -- Qual é a autonomia do diretor de fotografia? -- Para que serve o continuista? -- É necessário usar duas câmeras na filmagem? Uma semana depois Aula de Fotografia. O professor Alex Araripe fala intensamente sobre a decupagem das cenas. Ninguém levanta o dedo para perguntar o que é decupagem. Os dez alunos têm seus roteiros nas mãos e, agora, tempo psicológico e tempo real já 'tão discriminados no papel. O que leva para uma outra etapa da produção cinematográfica e impõe outras tantas dúvidas. Elano, de Mendes (RJ), preocupa-se em como filmar um jogo de futebol. Discute a possibilidade de usar câmera lenta. Sua história, Cachorro Quente Vodu, é sobre uma menina que ao mastigar o sanduíche interfere no resultado de um jogo de futebol. É muita coisa para pensar: «Plano fechado no cachorro quente, será?». «Como fazer a arquibancada parecer cheia?». «Como iluminar o ginásio onde o jogo será filmado?». Vez de Alan, de Miracema do Tocantins (Te o), falar sobre suas questões. O filme de ele se passa quase todo num caminhão. Conta a verdadeira história de A Dois Passos do Paraíso, clássico da década de 1980 interpretado por a Blitz. Segundo o rapaz, Evandro Mesquita ouviu o programa de rádio em que Mariposa dedica o seu amor a Arlindo Orlando, um caminhoneiro da região. De aí o famoso trecho da música: Ela nos conta que no dia que seria o dia do dia mais feliz de sua vida Arlindo Orlando, seu noivo ... Pois bem, a questão de Alan é: «Como filmar Arlindo Orlando no caminhão?». «Por o 'pelho retrovisor seria uma solução». «Mas e à noite, como fazer?». «Com ajuda dos faróis de outro caminhão, ou até com uma lanterna no colo do ator», aprende. Depois, volta com um argumento e pontua: «Não sei, quero uma 'tética meio Cinema, Aspirinas e Urubus, acho que a iluminação terá de ser de outra maneira». Agora é Maria, de General Sampaio (CE), quem fala. A história de ela descreve ficcionalmente a rotina de sua casa. Canto de pássaros, contato com animais, coaxar dos sapos e conversa com as 'trelas. A mulher leva as fotos de como é a locação e, assim, vendo, fica mais fácil entender o caminho da narrativa. Conselho para ela: plano parado, o mundo passa em frente da subjetiva enquanto a lente observa. Francisco Tadeu, de São Pedro da União (MG), pede a palavra e começa a contar sobre um dos seus maiores dilemas, bem comum, aliás, entre os alunos: como demonstrar a passagem do tempo? No caso do filme de ele, que tem como cenário uma barbearia, fica a dica de filmar planos do cabelo acumulando no chão, inseri-los durante a montagem. Assim, de tempos em tempos, o 'pectador saberia que as horas 'tão passando. Zito, de Sumé (PB), 'tá envolto com questão parecida. Quer fazer o tempo passar mesclando lua e sol. Todos chegam à conclusão de que o efeito é clichê, e outra solução é proposta: programar a câmera para filmar alguns segundos durante cada hora de toda a noite. De esse modo, na ilha de edição, basta avançar a imagem e se ganha a noite passando num piscar de olhos, com nuvens correndo, 'trelas sumindo e o sol nascendo. Truque de cinema. De alunos a diretores em duas semanas. Essas pessoas voltam às suas cidades com objetivos traçados. Mobilizarão a população local, por certo, para que o filme aconteça. Sofrerão com cada 'colha. E, mesmo que o fim ali não seja o de profissionalização, poderão ser chamados de diretores, nem que seja de um filme só. De o Rio, levam de volta na bagagem suas histórias (agora roteirizadas) e a velha vontade de aprender. Mas agora, no coração, carregam o cinema. E isso já basta, seja no Brasil ou numa sala de qualquer lugar do mundo. Número de frases: 85 Enquanto o mundo ainda discute, 30 anos após a sua morte, se o finado Elvis morreu ou não, se é o rei do rock ou não, cinco cariocas amigos de longa data passaram ao largo da efeméride, pegaram nos instrumentos e se trancaram no 'túdio Boombox, em Santa Tereza, para iniciar os trabalhos de gravação do seu segundo álbum. E antes de sair o primeiro. É que os tempos de Elvis já vão longe e grupos como o Rockz andam na velocidade dos bits, entre sites, MSN, Gmail, Youtube, Myspace, Orkut etc. Mas a verve do rock carioca pulsa na mesma e 'tá toda lá. Digo, na Internet para quem quiser conferir e no EP para quem se ligou que a banda veio para ficar e guardou a pérola. Não é preciso relembrar a velha guarda do rock praieiro nem apontar Strokes ou Franz Ferdinand para situar ou pôr a banda na mira. É só Rockz. Que o digam Pedro Garcia (bateria) e Nobru (guitarra). O primeiro disco da banda 'tá saindo do forno. Quem 'tá mais ansioso? Vocês ou o público? Pedro Garcia Acho que os dois ... a gente quer fazer muitos shows, entrar em turnês e a galera também não aguenta mais 'perar. Como foi o processo de composição e gravação em comparação com os outros projetos que participaram, como o Cabeça, Planet Hemp e Seletores de Frequência? O que podemos 'perar da produção do disco? Pedro Garcia O processo foi bem diferente de todos, pois a gente ia compondo e gravando ao mesmo tempo, depois 'cutávamos e mudávamos tudo, mas as experiências com os outros discos ajudou bastante. Foi bem tranquilo, já que todos somos amigos de longa data ... O próximo show agendado será no Canecão, antes mesmo da saída do disco de 'tréia. Não sendo caso único, ainda não é algo comum na programação da renomada casa do Rio. Qual é o plano? Pedro Garcia O Canecão tem agora um projeto para bandas novas que 'tão se destacando no cenário, e isto é uma tendência, já que as gravadoras grandes se recusam a renovar o seu casting e todo mundo 'tá querendo coisa nova, ouvir coisa nova. E o CD já tem gravadora ou sairá independente? Pedro Garcia Ainda não sabemos ... Estamos em negociação, Veremos o que será melhor. O rock voltou a fazer 'porro nos últimos anos e as reverberações reanimaram projetos que já 'tavam na 'trada há muito e deu gás para outras que 'tavam surgindo, como o próprio Rockz, Moptop, River Raid etc.. O público 'tá correspondendo com interesse às bandas brasileiras? Pedro Garcia Acho que sim. A coisa é cíclica, mas o rock nunca morre, quem gosta não deixa de gostar. às vezes a mídia bota em evidência, às vezes não. Mas atualmente o rock deu 'sa aquecida independente da mídia. Foi uma coisa natural, do mesmo jeito que a gente gosta de tocar e compor 'sas músicas. É uma energia única, que só o rock pode nos proporcionar. Elvis não morreu? Pedro Garcia Ahahaha!! Acho que fisicamente sim. Em o fotolog da banda, vocês postaram uma nota comparando a capa do EP do Rockz (de 2006) com a capa do novo CD do The Bravery, um ano depois, contando a história de que você entregou o EP em mãos ao Sam (vocalista), numa noite no Rio. Houve uma colagem gráfica, mas parece que foi mais do isto: o nome do CD (" the sun and the moon "), parece admitir que, digamos, vocês são o sol (na capa do EP do Rockz, raios solares irradiam da banda), e eles, a lua (os membros do Bravery aparecem iluminados por raios idênticos aos do EP do Rockz, mas em foto a preto e branco). Concordam com 'ta leitura? Pedro Rockz Ahaaha! Nunca tinha pensado nisso, mas também não chega a tanto né? Acho que eles gostaram da capa e só, tipo «vamos fazer 'sa capa para a gente». Afinal, o Rio é tão cá embaixo, né? Mas com tanta tecnologia de informação 'treitando as pessoas e as fronteiras -- por onde aliás o Rockz surfa desde o começo (fotolog, myspace, site, blog, orkut etc), ainda é possível aceitar 'ta distância? Acha que foi reconhecimento / homenagem ou plágio? Pedro Garcia Isso é o de menos ... a gente só não quer que as pessoas pensem que nós é que copiamos a capa de eles ... ( risos). Por um lado é bom também, pois é uma prova de que o nosso trabalho foi bem feito. Esperam tocar no exterior? Acham que o Rockz tá pronto para fazer frente às bandas gringas? Pedro Garcia Com certeza, já 'tamos vendo umas coisas para tocar lá fora. Em geral, os temas das músicas do Rockz passam por paixões, desvarios, bebedeiras, desamores e curtição, mas sempre com alto astral. A inocência do rock é a salvação? Nobru O rock não precisa ser salvo. As músicas desse disco têm 'sa temática porque era o que a gente queria fazer em 'se período. O próximo pode ser bem diferente. Ou não. E o disco também não é tão alto astral assim. ( risos) O CD já tem titulo? Pedro Garcia Deve ser Rockz mesmo. Depois de vários shows em casas de pequeno e médio porte e de criarem uma numerosa comunidade de fãs na internet, com exceção do lançamento do disco, qual a expectativa? Pedro Garcia A nossa expectavia é conseguir viver de música, fazer muitos shows, gravar outros discos, trabalhar e se divertir. A cada show, seja onde for, a banda cresce mais um pouquinho. Como 'tá sendo trabalhar no projeto Unplugged MTV do Lobão? Sente de alguma forma como um encontro de gerações do rock carioca? Pedro Garcia Conheci o Lobão quando 'tava gravando o disco do BNegão e ficamos amigos e nos damos bem tocando juntos também. Encontro de gerações? Acho que a idade não quer dizer nada ... Aprendo muita coisa com ele e ele acaba aprendendo com mim também ... Rockz à mão: www.rockz.com.br www.myspace.com/rockz1 www.fotolog.com/ rockz Número de frases: 83 Comunicade Rockz no Orkut Ela 'pera ansiosa que o telefone toque. E que alguém do outro lado da linha diga que chegou a hora de arrumar as malas e ir para Recife, cantar, dançar e viver num apartamento na beira da praia de Boa Viagem. Ela afirma que sabe que isso vai acontecer. Jura que 'tá próximo o dia em que vai viajar para longe e mostrar sua cantoria mundo afora. Sonha alto, quer ir para o exterior, «que lá o povo gosta da música do Brasil». Maria da Inglaterra, 66 anos, conta sua história como quem desfia um rosário. Fala muito, gesticula, levanta da cadeira, senta, levanta de novo. Reclama que a garganta dói um pouco. Dá uma volta por a casa simples, que fica num bairro distante na periferia de Teresina, às vezes parece buscar o companheiro Otacílio, que faleceu há pouco mais de um ano. Antes era ele quem ajudava e conduzia as entrevistas. Agora Maria 'tá sozinha. A o seu lado, os «guardiãos» que ela afirma que vieram do 'paço. Nascida Maria Luiza, ela conta que lembra exatamente do dia em que sua vida mudou e ela soube que para encontrar a felicidade teria que compor e cantar. «Estava de noite, umas sete horas. Eu 'tava em casa com meu velho e vi uma luz vindo do 'paço. Ele disse que era um avião, mas não era, não. A luz mudava de cor, vinha se aproximando e crescendo, nós ficamos com medo que fosse uma bomba. Eu não conseguia parar de olhar, e a luz vinha, ficava mais baixa. Aí eu vi que dentro de ela tinha duas pessoas, um homem e outra com cabelo grande, que eu acho que era mulher. Eles chegaram bem perto, depois foram se afastando até sumir. Em 'sa noite eu demorei pra dormir, só consegui pegar no sono lá por a meia-noite. E quando eu e meu marido deitamos, os dois apareceram de novo e disseram: «Maria, nós viemos te convidar pra cantar». Eu disse: «Eu não sei». Eles disseram: «A gente ensina». Foi em 'sa noite, bem em 'sa hora, que o homenzinho começou a cantar Baião do cajueiro. O marido de Maria anotou a letra. Depois, a moça de dentro da luz começou a cantar Serrote grande, música que faz parte do CD O peru rodou, lançado em 2002. «Quando a moça terminou, o rapaz disse pra mim: ' Agora você vai fazer música e letra. E eu não vou lhe enganar, você vai sofrer tanto que vai ter vontade de desistir, mas não desista. Quando você crescer, vai morar na praia de Boa Viagem, em Recife '», lembra. Isso aconteceu no comecinho da década de 70, e desde então Maria da Inglaterra vem tentando cumprir a missão que, segundo ela, lhe foi confiada por alguém de outras 'feras. O nome artístico apareceu em 'sa época, um dos versos de O peru rodou diz: «Quando eu vim da Inglaterra com destino ao Maranhão». Ninguém sabe, nem ela, por que a Inglaterra apareceu na história, mas o apelido ficou até hoje. Se é delírio, uma fantasia de ela, ninguém nunca vai poder ter certeza. Mas o fato é que as letras e músicas começaram a brotar e, por as contas de Maria, já passam de mil. A mistura da voz forte de rezadeira com a aparência doce de uma avó do interior tornam Maria da Inglaterra uma personagem curiosa. Quando sobe no palco, tomada por uma alegria que chega a comover, ela se sente rainha. Cercada por os músicos de sua confiança, com os quais viaja e participa de festivais de música regional por todo o país, ela encanta. Diz orgulhosa que nunca entrou num festival para perder. Exibe, mais orgulhosa ainda, a caixa de CDs do projeto Rumos, do Itaú Cultural, que tem duas músicas suas. O maior festival de música do Piauí, o Piauí Pop, tem um palco com seu nome. Ela se derrete ao falar nisso. «O Piauí Pop é diferente de tudo quanto é evento daqui, lá os artistas são respeitados, valorizados. E é gente demais que vai ver os shows." Em a sala de sua casa, mostra os livros de gente como Luiz Tatit, Hermano Vianna e José Carlos Tinhorão, cuidadosamente arrumados na 'tante. Diz que são tesouros. Em seguida, traz o CD O peru rodou, seu passaporte para a fama. São doze músicas, das quais pelo menos duas, a faixa-título (verdadeiro hit por 'tas bandas de cá) e Forró forrado, 'tão na boca dos piauienses apreciadores das canções da terra. A inspiração para as composições, segundo Maria da Inglaterra, ainda vem dos «amigos» que vieram do 'paço. Ela conta com eles -- e com quem mais quiser ajudar -- para fazer a tal viagem dos sonhos para o Recife, depois para o exterior. Esperamos que seja em breve e que possamos ter mais notícias de ela fazendo grandes shows, brilhando, como deve brilhar toda 'trela. Número de frases: 57 Até meados da década de 1980, a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, era habitada principalmente por sertanejos, sacis, negros d' água, romãozinhos, curupiras e mães d' ouro. A partir daí, os extraterrestres começaram a chegar, levados por os turistas e ufólogos, discoportos foram inaugurados e expressões como chipado, abduzido e nave-mãe passaram a fazer parte do cotidiano. Hoje, na 'fera mística de Alto Paraíso, discos voadores têm lugar 'pecial. Para muitos é uma nova forma de religião, em que santos e anjos são substituídos por seres também voadores, mas extraterrestres, e por seres intraterrestres, 'tes habitantes de cidades construídas em cavernas no fundo da terra e remanescentes da civilização atlântida. Esse mundo se divide entre os que acreditam e os que não acreditam. Os últimos são quase todos iguais, mas os primeiros subdividem-se em crentes, ufólogos místicos e ufólogos cientistas. Os crentes querem ver naves espaciais e, se possível, ETs, mas contentam-se com luzes móveis no céu noturno. Será um avião? Um satélite? Um óvni? Se formos literais, desde que não seja reconhecido como tal, um avião também vai ser um «objeto voador não identificado». Já os ufólogos místicos dizem ter o privilégio de realizar encontros físicos e astrais com seres extraterrestres, corporificando uma religião universal, na forma de uma fraternidade 'palhada por todo o planeta. Os ufólogos cientistas são os que investigam os casos acima, incluindo o de não crentes, e costumam acusar os governos de vários países de guardar segredos sobre o assunto bem como utilizar-se de tecnologia extraterrestre para fins militares. Também são capazes de interpretar coisas sutilíssimas, como o fato de, na etiqueta interplanetária, ser de bom tom não confundir um ET com um EBE. à revista Ufo, o ufólogo Claudeir Covo explica que o ET de Varginha, por exemplo, é um EBE, ou seja, uma " Entidade Biológica Extraterrestre. «Sabemos que os seres capturados em Varginha são do tipo delta, 'pécie de macaco extraterrestre, bem mais desenvolvido que nossos macacos. São treinados por os seres do tipo alfa e beta para realizarem missões 'pecíficas». Estas missões, que acontecem em diversos pontos do planeta, como a Chapada dos Veadeiros, são promovidas por duas ordens interplanetárias: os confederados e os não confederados, os primeiros sendo identificados com o bem. Gente legal Segundo os contatantes, apesar de existirem ETs bons e maus, grandes e pequenos, a maioria de eles em 'ta área da galáxia é de gente legal, tamanho médio, dois olhos arregalados ('tes já adotados por os terrestres para ilustrar suas festas trances e raves) e, ao contrário do que se diz, não são verdes, mas cinzas. Tá legal, de vez em quando, eles capturam uns terráqueos para experiências, mas nada que desabone suas condutas. Esses ETs 'tão em missão de paz e obedecem ao comandante Asthar Sheran. Preste atenção em 'te nome, leitor, porque 'se é o cara. Para os praticantes de 'sa nova religião, Asthar Sheran é São Miguel Arcanjo e entra em contato por telepatia, viagem astral ou fisicamente com diversas pessoas ao redor da Terra. Elas funcionam como multiplicadoras de seus avisos e sugestões. Como um santo popular, ele é devotado por milhares, tem seguidores, suas mensagens são discutidas, apreciadas e difundidas e várias comunidades na internet o têm como centro. Sua figura, de um ET quase louro, olhos claros e semblante pacífico e concentrado, vestido de azul e irradiando luz, é ícone da Nova Era. Para aqueles que se identificam com a causa, quem faz contato com Sheran ou outros comandantes-mestres como Karran e Mória -- ou seja, quem for iniciado -- conquista poder político e magnetismo e, por isso, 'tá apto, quase como uma missão, a criar uma entidade, na qual a nova religião vai ser ritualizada. Em a Chapada dos Veadeiros, a maioria das experiências são pessoais e restritas; publicamente, só o turista e sua busca por luzes que se movem no céu. A mais famosa das entidades relacionados com contatos imediatos de terceiro grau de Alto Paraíso foi a Fundação Arcádia. Em ela, Ergon Abraham Can Hell e sua 'posa Inti-Rá mantiam uma movimentada fazenda, onde aconteciam cursos, meditações, treinamentos e contatos e vendiam-se livros de conteúdo ufológico e instrumentos baseados em tecnologia extraterrestre -- caso do bastão cromotransmutador, usado para equilibrar a energia dos chakras, aliviar dores e relaxar. Ali, entre as propostas, uma era constituir um hospital holístico para a prática da cosmoterapia, uma soma de práticas tradicionais e alternativas e conhecimentos extraterrestres. «Além de todo um trabalho de volta à natureza, haveria ligação a uma tecnologia muita avançada», explicou Ergon. O projeto, contudo, não foi adiante. Por causa de sua vibração energética, a Chapada dos Veadeiros é um dos lugares preferidos dos crentes para seus encontros. O site Ufo Gênesis a coloca como um dos quatro principais destinos do turismo ufológico no Brasil, ao lado da Chapada dos Guimarães e Serra do Roncador, em Mato Grosso, e Chapada Diamantina, na Bahia. De 'sa lista podemos deduzir que os ETs preferem as chapadas. Por aqui, as atividades incluem eventos de discussão sobre o 'tágio de relacionamento da Terra com outros planetas, reuniões para ver um disco voador em lugar previamente acertado e cursos, nos quais o condutor tira as dúvidas dos presentes consultando telepaticamente seres alhures. Popstars Há pouco tempo, a entidade Humming Bird, sediada nos Estados Unidos e famosa no meio, promoveu um encontro, em Alto Paraíso. Cada convidado pagou por três dias de atividades cerca de R$ 2,6 mil. Entre as questões que apareceram, uma chamou a atenção da participante Sueli Carneiro: o caso de dois chipados, um homem e uma mulher, em que ambos haviam pedido ao condutor-mestre que entrasse em contato com Asthar Sheran, e para propósitos diferentes. Enquanto ele reclamava que tinha perdido o livre arbítrio e, por isso, queria que desligassem o chip, ela 'tava maravilhada e solicitava, digamos, um upgrade. Para ser chipado, é preciso ser abduzido e 'ta é outra categoria. Ser sugado por a luz de um óvni e ir para seu interior, dizem as histórias, pode ser 'petacular para uns e traumático para outros. De qualquer forma, quem volta passa a ser uma 'pécie de popstar no metier, conquistando fãs e admiração. Isso porque não adianta querer ser abduzido, a 'colha é sempre dos ETs. De o ponto de vista terrestre, os casos mostram que quem tem mediunidade desenvolvida 'tá mais apto. Muitos dos que têm a experiência de entrar em contato com os extraterrestres preferem não falar do assunto, sempre alegando que iriam colocar a cara à tapa. «Ninguém acredita. Nem adianta falar. Você fica ridicularizado», explica um iniciado de Alto Paraíso, que pede anonimato e se recusa a dar entrevista. «O contato físico é limitado. Você fica paralisado. Os encontros então acontecem mais através de viagens astrais, projeciologia», acrescenta, encerrando nossa conversa. Os perseguidos são outra categoria em 'se universo. Tem dois tipos. Um é seguido ou vigiado por uma bola de fogo, que se move quando a pessoa se move. O professor Paulo Duarte, dono de uma casa no povoado de São Jorge, conta que, numa viagem de madrugada em direção a «Alto Paraíso,» uma imensa bola amarela, parecida com a lua cheia», viajou ao lado de seu carro, a uma certa distância, por vários quilômetros. «Até hoje não sei o que era», diz. Quando a pessoa 'tá ao ar livre, não raro 'sas bolas causam queimaduras. O outro tipo de perseguido é o que invoca a tradicional cena do cinema e da TV, na qual o automóvel é seguido por um disco voador cheio de luzes. São várias as histórias e elas indicam que, quanto mais ermo e mais tarde da noite, mais chances existem de aparecer um óvni. Aqui, cabe uma pergunta: por que, podendo voar, os óvnis preferem, mesmo por o alto, seguir a rota das 'tradas? E 'sa paixão por automóvel? Serão eles apaixonados por carro como todo brasileiro? Bem, se há um lado tratado com seriedade, os ETs também geram um folclore, expresso em lendas urbanas, brincadeiras e piadinhas. O fotógrafo Ricardo Feres 'creve, em seu site, sobre Veadeiros: «confesso que não vi ET algum, mas várias pessoas me garantiram que se eu procurasse bastante, encontraria. Mas acho que abril não é mês de férias interplanetárias, já que o 'tacionamento do discoporto 'tava vazio». O mochileiro Thiago de Sá informa que, " por os lados da Chapada dos Veadeiros, há quem acredite existir uma base de óvnis e um centro de operações do Quarto Reich, numa nova tentativa alemã. Relatos de contatos com ETs, cetros mágicos, luzes inexplicáveis, toda aquela região é um poço de misticismo». Já no blog de Ernestinho e Suas Mulatas Bezuntadas, o seu titular, membro da Sociedade Ufológica E.T. Phone Home, nos conta: «Certa madrugada, durante uma de suas solitárias expedições ufológicas na Chapada dos Veadeiros, viu-se envolvido por uma intensa luz azulada. Olhou para cima e viu uma gigantesca nave espacial. Começou então a ser atraído e perdeu a consciência. Quando voltou, semanas depois, apenas uma lembrança: um imenso luminoso com os dizeres " Sorria! Número de frases: 82 Você 'tá sendo abduzido '." O Procon agora cumpre decisões que cuidam da sua psique. Mas, sobretudo, a nossa psique sai psicologicamente abalada depois que faz uma reclamação no Procon. Já há alguns anos decidi de parar de reclamar da companhia de celular. Nunca nada surtiu efeito. Aliás, o telemarketing das companhias de celular também causam sérios danos psicológicos, principalmente se você almeja cancelar o seu número. Isso sem contar a conta. Um dano psicológico e tanto! Mas, apesar do chamativo título para uma ação do Procon, vale lembrar que o órgão 'tá apenas executando uma medida, resultado de uma determinação judicial expedida 'ta semana por a 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais, em cumprimento a uma sentença. O resultado da ação civil (n° 2002.38.00.046529-6) movida por o Ministério Público Federal (MPF) para que a União fosse condenada a suspender e proibir a distribuição e comercialização dos games Everquest e Counter Strike em todo o território nacional é a ação do Procon em cumprimentos aos dispostos no Código de defesa do consumidor. A ação foi requerida por o Ministério da Aeronaútica. Portanto, aqui merece uma explicação mais detalhada, o Procon não é um órgão de censura, muito menos a medida por análise jurídica pode ser assim considerada, apenas o mundo das idéias é que anda um pouco atrapalhado, em 'pecial o dos 'pecialistas em psiquismo e mídia. É importante lembrar que o conceito baseado claramente no senso comum se tornou mais difundido a partir da nova portaria de classificação indicativa do Ministério da Justiça. Isso em se tratando do conhecimento das idéias, no entanto, não existe nenhum índice que as idéias divulgadas por a imprensa com base na sentença tenham a mesma fonte. Podemos, apenas, julgar o senso comum. O julgamento do senso comum, até onde eu sei, ainda não é prática condenada no país. Mas voltando às tais idéias, eu era uma de 'sas pessoas que gostava do MOD do Counter Strike, aliás, feito por hackers brasileiros, agora só posso agora despejar a minha fúria num pensamento que tem se tornado comum, aquele no qual jogos eletrônicos e produtos audiovisuais diversos podem fazer mal à saúde mental. Mas não é só isso. Basta um susposto 'pecialista chegar lá e dizer que tal imagem, tal cena, tal teor de mensagens causa danos psicológicos e, pronto, o produto pode ser tirado de circulação. Já o mecanismo de classificação indicativa do Ministério da Justiça se refere à tutela dos menores e, não por isso, sob o ponto de vista da liberdade de expressão ele é menos perverso em relação à opinião dos supostos 'pecialistas quanto a danos psicológicos causados, aliás, parte tão particular e subjetiva de cada um. Amar, em maior ou menor medida, pode causar danos psicológicos. De o ponto de vista jurídico faltam muitas informações para que se associe a ação civil com base no código de defesa do consumidor ao mecanismo de cerceamento da liberdade de expressão da portaria de classificação indicativa, embora a analogia não possa deixar de ser mencionada, pelo menos por o princípio do dano psicológico e ético. Mas para que ninguém venha reclamar a posteriori, grifo, juridicamente a sentença que tira Counter Strike e Everquest de circulação não é juridicamente relacionada ao Dejus. Ao passo que o Código de Defesa do consumidor não representa em nenhum ponto uma medida de censura, sem dúvida, o argumento de que obras audiovisuais causam sérios danos a saúde é feito a partir de uma análise subjetiva. Tal julgamento depende de quem o interpreta. Não é raro, em muitos casos, alusão ao fato de que o medo representado, a violência representada ou até mesmo a nudez ajudam a trabalhar dispositivos psíquicos do ser humano de qualquer idade, sem que isso cause «trauma»,» erotização «ou» banalização», palavras que são comuns sob a ótica de 'tudos cuja comprovação é constestada. É impossível saber o que, no âmbito particular de cada um, faz mal e faz bem. Mas, se assim for, nada também pode ser feito. Isto posto, portanto, sou sempre a favor da liberdade e mecanismos de defesa podem ser adotados em outras 'feras. Mas, enfim, não podemos dizer que os mesmo os 'pecialistas que ajudaram na fundamentação da sentença que tem base no Código de Defesa do Consumidor, são os mesmos que ajudaram a editar o manual de classificação indicativa. Provavelmente não. Vale lembrar que em 'se jogo o departamento de classificação indicativa apenas classifica e a fiscalização não é realizada por 'se órgão. Mas o manual de classificação indicativa traz fortes indícios de que concorda com a idéia do dano na vida psíquica e, por isso, jogos que tem comercialização liberada, tem acesso recomendado, com base na porcentagem do dano que ele pode causar. Uma coisa mais ou menos assim: se o bandido for feio, 30 % de dano. Se ele for bonito, 60 % de dano. Mas o senso comum de tais premissas é evidente tanto numa análise quanto na outra. Estamos numa época em que se 'tá dando vazão a pensamentos moralistas que, em maior ou menor grau, 'tão tentando moldar a cultura brasileira, proibir suas manifestações 'pontâneas, cercear a imprensa, enfim, jogar uma cortina de fumaça no verdadeiro debate democrático, inclusive naquele que visa uma ética maior por parte dos meios de comunicação de massa. A Electronic Arts soltou nota na imprensa na qual sai pela tangente. Outra coisa a ser mencionada que merece atenção: o processo não é contra a EA, mas contra a União. Tal tarefa do verdadeiro debate democrático cabe a nós cidadãos brasileiros, posto que a versão vendida em lan-houses é fruto da política de compartilhamento de idéias, conhecimento e criatividade do povo brasileiro e não obra original distribuída por a EA. Counter Strike e seu mapa cs-rio são fruto da nossa cultura numa 'pécie de antropofagismo da cultura alheia. Em 'sa versão, os jogadores são convidados a integrar o lado da polícia ou o dos narcotraficantes numa favela carioca, ao som de um funk não menos proibido, tendo como pano de fundo da trama o sequestro de três integrantes da ONU. Segundo a imprensa, sob ele pesa a acusação de ensinar táticas de guerra. Recomendado para maiores de 18 anos. Levando a lógica ao pé da letra, deveriam também proibir Sun Tzu. Everquest, o outro jogo proibido por a medida, é bem mais complexo do que a análise da trama divulgada e trata-se de uma mídia social sobre a qual é possível incidir diversos pontos de vista, inclusive os bons. Nada, absolutamente nada, nem uma simples barra de cereal deixa de ter um lado negativo e outro positivo. Everquest entrou de feliz na história, nem tem distribuição oficial no Brasil. Mas, para elevar o humor desse post, numa leitura tão chula quanto a dos 'pecialistas, diante da impossibilidade de saber quem são 'ses 'pecialistas e apenas como piadinha mesmo (desculpem a justificativa comprida), podemos imaginar que: -- Recentemente uma modificação foi feita e, ao jogo, foi acrescentado o batalhão Tropa de Elite, que se popularizou após o filme de José Padilha. Isso fez com que os jogadores preferissem o lado da polícia em oposição ao lado dos bandidos. -- O game foi proibido porque você não pode 'colher se integrar a uma ONG de direitos humanos que atua na favela. -- Hackers teriam que criar uma ONG de direitos humanos no qual seus integrantes fumam maconha e redistribuem drogas em Universidades de elite, evidentemente influenciados por as cenas do filme, o que seria igualmente considerado anti-ético. -- O desvirtuamento por parte dos jovens é que agora eles preferem combater os narcotraficantes e não a polícia como acontecia desde 1999. Número de frases: 56 Em um tempo em que se pode comprar a versão pirata dos filmes antes do original 'trear na telona e que o computador revoluciona o audiovisual, me diz uma coisa: pra que serve um festival de cinema? Mais. Para que serve um festival de cinema longe do eixo-Rio-São? E mais ainda: tem alguém interessado nisso? Pela primeira vez acompanhei um evento 'pecificamente cinematográfico. A quarta edição do Festival de Cinema de Campo Grande/FestCine Pantanal rolou entre janeiro e fevereiro. 44 filmes em 28 dias. Foi uma verdadeira saraivada de imagens, temas e debates. Emoção à flor da pele e conversas valiosas nos bastidores. Este festival de cinema é um verdadeiro oásis no meio de um deserto cultural que são os primeiros meses de todos os anos na Capital sul-mato-grossense. 4.500 'pectadores buscaram o cinema dito ' alternativo ', numa salinha de 88 poltronas no CineCultura de Campo Grande, um lugar, literalmente, frequentado por poucos descolados da Big Field super-hiper conservadora sim senhor. A primeira utilidade do festival para mim foi, óbvio, assistir a vários filmes (já 'crevi sobre a mostra de curtas do festival aqui no Overmundo). Nem importa se já 'tavam em circuito comercial ou se iriam chegar aos Multicineplex daqui alguns meses. O fato é que tomei uma dose cavalar de cinema. ( Vou cada vez menos ao cinema e mais a locadora e aos canais a cabo). Ver mais de um filme por dia é desgastante. Por isso, preferi o sistema Jack, o famoso ' por partes '. ( Decidi que não vou olhar minhas anotações e só vou lembrar o que realmente ' bater ` na hora de 'crever. Ou seja, agora!). Não tem como 'quecer de A Caminho de Guantánamo. O documentário inglês deixa a certeza de que os norte-americano usaram como ninguém o cinema. Construíram uma fábrica de subjugar nações do terceiro mundo, a tal Hollywood. E através da difusão do cinema, com seus coubóis-johnwaynes rambos stalones robocop schawzeneger da-vida, dominaram o mundo, propagaram o modo de pensar e o jeito de ser ' do bem ` no Titio Sam. Só que A Caminho de Guantánamo desconstrói todo 'te castelo de areia do Bush Pai e Bush Filho. São chocantes as cenas em que os prisioneiros da ' guerra do 11 de setembro ' são metidos em 'pécies de canis, vedados, torturados, humilhados ... Saí da sala de projeção com os nervos em frangalhos. Valeu também O Céu de Suely. A história da mina que acaba leiloando uma noite de sexo para sair da situação de miséria que se encontrava nos cafundós do nordeste me fisgou. Mais do que a história. Hermila Guedes. Atriz com A maiúsculo. Performance detonante. Um bom ator ou atriz, para mim, é como um livro. Tem de prender da primeira a última página. E a danada me levou por aquele roteiro cheio de poeira, calor e sexo grudento. O Céu de Suely é daqueles filmes que fazem apostar ainda mais do cinema nacional e Hermila Guedes é mais uma prova de que o povo brasileiro é cheio de talentos 'condidos por 'te Brasilzão. E cheio de talentos também 'quecidos na memória mal tratada deste ex-Portugal. Confesso. Chorei vendo Cartola, o documentário sobre o'Imperador da Verde e Rosa '. Me emocionei, realmente, nas partes em que Cartola aparece em ação, falando, cantando, pensando, fumando seu cigarro, ao lado do pai, paquerando a Dona Zica com suas letras de fino trato, executando suas melodias tão singelas que torturam a alma da gente ... Meu coração bateu mais forte vendo 'te filme, que poderia ter sido bem diferente, ter outros enfoques, mas para mim, o que valeu mesmo foram as imagens e as músicas de Cartola por Cartola. Seria diferente 'ta nação canarinho se no lugar do Faustão tivessemos Cartola oferecido a todos na telinha? Que tal um trato? Cada vez que uma mega artista baiano ou não for a um megaprograma de televisão, 'te mesmo megaprograma tem de ' ressarcir ` o público com um Cartola. Cada vez que passar um enlatado norte-americano na Tela Quente um Glauber Rocha vai ter que ser oferecido aos 'pectadores num horário que não seja a madrugada. Eu ando me emocionando facilmente. Percebi isso no festival. E, claro, emocionar o público com certeza também é uma das motivações de um festival. Fazer pensar também claro. Fiquei matutando que o tal Zicartola, o bar que Zica e Cartola gerenciaram por um tempo, acabou se tornando o verdadeiro berço da MPB, quando a Bossa Nova virou uma ladainha de ' amor e flor e barquinho vai '. Foi no Zicartola que misturou-se Zé Ketty, Nara Leão, Carlos Lyra, Cartola, Clementina de Jesus, Wally Salomão ... Também gostei de O Cheiro do Ralo. Pelo menos ri um pouco. A produção ganhou o prêmio de melhor filme nacional eleito por o júri oficial do festival de Campo Grande. ( O documentário Hércules 56 foi o vencedor no júri popular). Selton Melo segura o filme nas costas e o mote é bem original. Acho que o filme ficou um pouco longo, mas mesmo assim valeu. O fato de Selton ser famoso via TV complica tudo. Mas ele vem conseguindo ser cada vez menos um ator global e se transformar cada vez mais numa persona do cinema. Selton há tempos não faz novela. Uma vez o saudoso Walter Avancini me disse numa entrevista: ' Existe o artista e o ator. Tem uma diferença muito grande '. O Selton no caso 'tá do lado dos atores e não dos artistas na conotação ' avanciniana '. A cena de ele chorando aos prantos abraçado na bunda que perseguiu o filme todo revela aquela faixa de vibração que só o bom ator entra e leva o público junto. Abracei e chorei em cima daquela superbundaralo junto com Selton. Conversar com os convidados do festival é até mais importante que ver os filmes (que podem ser vistos em outra oportunidade). Afinal, em Big Field você não topa com profissionais da TV e do cinema como acontece nas 'quinas da Oscar Freire ou nas areias do Pepê. Aqui apresentador de telejornal regional é artista. É muito legal que 'tes ' fazedores ` de arte circulem por um lugar que produzir cinema é uma investida bandeirante. Foi bom conversar com Jorge Durán, por exemplo. ( O cara fez o roteiro de Pixote). Conhecer a sua visão de Brasil por sua ótica chilena. Descontraído, disse que na Alemanha a questão dos curtas antes dos longas ou não nas salas de cinemas foi resolvido de maneira simples. Quem quer ver os curtas chega um tempinho antes e paga o ingresso com a cota a mais dos curtas. Quem não quer ver os curtas chega no horário do longa mesmo e babau. Paga o ingresso ' normal '. Como dizem os chineses, o simples é o fácil. Junto com Jorge veio o ator Alexandre Rodrigues! Foi bom reencontrá-lo. Havia o entrevistado no Rio, logo depois que ele apareceu em Cidade de Deus. Não deu para a gente conversar direito, mas o engraçado foi a reação do moleque super-gente fina: ' como 'te maluco veio parar aqui? '. Aqui, no caso, o'cafundó ' Campo Grande. A passagem do ex-todo-ainda poderoso Zé Dirceu por o festival foi surpreendente para mim. Não era ele o inimigo número 1 do país em certa altura do campeonato-mensal ão? Mas vi e ouvi várias manifestações que não são nada mais nada menos do que a manifestação do fã diante ao astro. Muitas pessoas pediram atenção, cumprimentaram e tiraram fotos. Até criancinhas 'tavam no encalço do Zé Dirceu. Junto com o diretor Silvio Da-Rin, o ex-ministro veio divulgar o documentário Hércules 56 (eu não vi, não posso 'conder). Foi, sem dúvida, um dos dias mais lotados. As atrizes de O Cheiro do Ralo, Silvia Lourenço e Fabiana Guglie, também vieram ao festival. Simpáticas. Fabiana, no intervalo das entrevistas, lascou um sincero ' bichinho do ranran ` que a 'tava incomodando: ' não tem perigo de pegar dengue não né? '. Campo Grande passou / passa por uma epidemia de dengue: mais de 20 mil casos foram notificados só em Campo Grande. A verdade é que não tinha resposta para a atriz. Mosquitos voam. Mas ' imagina, não tem perigo nãoooo! ' As diretoras de Transtorno (RJ) e Era Uma Vez (MG) também marcaram presença em Big Field. A mineira Gisele Werneck é corajosa. Além de dirigir, também atua no curta. É uma história 'tranha, em que ela, vestida de fada, 'tá dentro de um ônibus circular. Rola um assalto e uma situação 'tranha de atração do ladrão por a fada num assalto comum-raro de uma metrópole. Gisele falou mais de uma vez que o que faz é cinema surrealista. Pergunto quem já fez cinema surrealista no Brasil e ela não chega a nenhum nome. Nem eu. A carioca Fernanda Teixeira não tem nada do jeito manso mineirinho de ser. É rock! Depois da sessão dos curtas, prefere conversar do que ver o Proibido Proibir, de Durán e Alexandre. Me confessa que 'tá sem dormir. Que 'tá varada porque havia trabalhado no projeto da Petrobrás, que 'tava encerrando o prazo naqueles dias. Com olheiras profundas e um curta de arrepiar (eu gostei de Transtorno!), Gisele me conta que teve de trocar de ator (só tem 1 no filme) no meio das filmagens. Em a verdade, demitiu o ator (não disse por quê). Eu não percebi e acho que ninguém percebeu. Depois me contou que a atriz que faz a avó entrou para o elenco (é o único outro personagem) para substituir outra atriz. De cara um problema. Ela não gostava de gatos (ou tinha alergia não lembro, ou medo sei lá ...) e teria de contracenar com 15 de eles. Aliás, a diretora confessou que tiveram dificuldades em ambientar os gatos com o casarão que alugaram para fazer o filme. Estresse. Ela acabou adotando os gatos na vida real. Se não me engano, 40 mil é a verba liberada por a universidade. Nenhum encontro foi mais intenso no entanto do que com Joffre Rodrigues, sim o filho do homem! Joffre veio ao festival divulgar o primeiro filme de sua carreira de diretor: Vestido de Noiva. Como eu vi os 114 minutos de filme, posso falar, que é fraco. Se for dimensionar diante da grandeza da obra do pai, o filho fica muito a desejar. E carregar toda 'ta tradição no sangue não deve ser fácil para ninguém, e não o seria para Joffre. Estava 'calado para intermediar o debate de ele com o público. Quando chegou para o festival, fui logo recebê-lo. Joffre é um vulcão de energia. Oscila entre o deprimido, o melancólico e o super sereno e sensato em segundos. E não posso negar, o impacto de 'tar com uma pessoa que é muito parecida com Nelson me alucinou, numa confusão que embaralhava filho e pai! O ápice da energia rolou logo no início do debate, após a exibição do filme, que Joffre fez questão de não acompanhar. Finalmente para começar o bate-papo, a apresentadora relaciona as produções da carreira de Joffre e passa o microfone para mim. Só que Joffre, emocionado desde o início, brada com os olhos lacrimejando: ' você 'queceu de um filme que fiz com uma grande amigo o Henfil. O Henfil! '. Senti toda a carga do primogênito nelson-rodrigueano. Achei engraçado Joffre ter falado mais de uma vez que o seu filme Vestido de Noiva foi contemplado com o bonequinho de O Globo dormindo na poltrona. Nenhum diretor suporta uma maldade de 'tas. Com certeza um dos acertos do festival foi a mostra O Cinema e o Índio. Sala lotada na exibição dos três filmes 500 Almas, Brava Gente Brasileira e O Descobrimento do Brasil. Vários representantes de entidades, profissionais envolvidos com as tribos e os próprios índios marcaram presença no evento. Para muitos foi a primeira oportunidade de assistir a um filme na tela grande de um cinema. Como a mostra foi em dias da semana, por a parte da manhã não pude acompanhar. Mas agilizei, por exemplo, o encontro do cineasta Joel Pizzini, de 500 Almas, com o cacique guató Severo. O filme de Joel conta a saga deste povo que nos anos 50 foi dito extinto. Hoje a tribo resiste e floresce numa ilha que fica centenas de quilômetros acima de Corumbá e só se chega por o rio. Joel me revela que uma cópia do 500 Almas acaba de ser comprado por o MOMA de Nova Iorque. Já a produção regional registra mais uma vez o disparate técnico que existe ainda entre os diretores de MS. Água dos Matos, que acompanha os irmãos Tetê, Alzira e Jerry Espíndola descendo de barco de Cuiabá a Corumbá, venceu na categoria vídeo regional. É a terceira vez que o diretor Maurício Coppeti leva o prêmio. Antes já havia ganho com Nanquim e O Pantanal e O Delta do Salobra. Em os corredos, o burburinho era que Copetti não deveria participar mais concorrendo na categoria regional porque seus filmes tecnicamente e artisitcamente eram muito superiores aos outros. O que, é claro, eu não concordo. Não dá para nivelar por baixo. Melhor que os outros melhorem as suas produções, isso sim! Depois de tudo fica a questão para mim de por que o governo de MS e as próprias prefeituras não articulam uma maneira de atrair mais cineastas de fora para rodar seus filmes em solo sul-mato-grossense. Afinal o Pantanal é a África brasileira, com uma fauna tão ou mais punjante e com paisagens de tirar o fôlego. Em 'te sentido o Festival de Cinema de Campo Grande acaba sendo um oásis em meio ao deserto que é o MS na área cinematográfica. Para encerrar, transcrevo a reflexão do cineasta sul-mato-grossense " Joel Pizzini: «Eu nunca entendi direito. Eu participei de todos os 'forços para criar um festival aqui. Lembro que quando eu morava aqui a gente organizou uma mostra de curtas, veio até o projecionista Zé Luis, que veio com a Fiorino de ele, trouxe o projetor de ele de 35mm, e fizemos no centro cultural. Aí o Luis Borges me ligou e perguntou se dava para organizar também Cuiabá. O Zé Luis foi para Cuiabá e o festival de Cuiabá floresceu e aqui demorou até vir agora, depois de hiato bem grande, o CineCultura e 'te festival que chega na quarta edição. Mas eu não sei o que acontece porque as coisas não prosperam em 'ta área do audiovisual aqui. E tem uma proximidade tão grande a São Paulo. Estados do nordeste, bem mais distantes do eixo, já 'tão se desenvolvendo. Então para mim é uma interrogação. Não sei se é uma questão de mentalidade. Porque o cinema presupõe uma base industrial mínima. O cinema é tão importante até por o ponto de vista turístico, como acontece em Cuiabá, Tiradentes e Ouro Preto. Falta ainda a ciência da potencialidade econômica aliada a cultura, porque aqui as coisas são separadas, como se a arte fosse alguma coisa diletante e os artistas 'tivessem se divertindo e os pragmáticos trabalham ... Tem de haver uma maior promiscuidade entre as áreas artística e econômica, porque sinto tudo muito isolado. E temos vários temas aqui de dimensão internacional, como o Pantanal e a Guerra do Paraguai ... O governo poderia também criar um banco de dados sobre o Pantanal que iria alimentar até do ponto de vista comercial as televisões, além de identificar as locações e as fisionomias do 'tado para você contribuir com a originalidade do 'tado. O MS tem uma tradição cultural que precisa ser atualizada, continuada, recuperada ..." ( O papo com Joel foi longe e vai virar entrevista). xxxxxxxxxxxxxxxxxxx P.S.: Os vencedores da quarta edição do Festival de Cinema de Campo Grande foram: Número de frases: 183 O Cheiro do Ralo (Longa nacional / Júri oficial), Hércules 56 (Longa nacional / Júri popular), O Som da Luz do Trovão (Curta nacional / Júri oficial), Faça a Sua Escolha (Curta nacional / Júri popular) e Água dos Matos (Vídeo Regional). Estou 'tarrecido com tanta punheta que gira em torno da cansativa discussão a respeito da normalidade ou anormalidade dos homossexuais. Parece-me que, em muitas circunstâncias, no frigir dos ovos, há um jogo de egos em que a humanidade se 'vai ralo abaixo no embate. Mesmo que Cristo invente de aparecer para apaziguar a discussão e dar um aval, ninguém mudaria de opinião e bobeia ele seria taxado de anormal, caso se apresentasse de cabelos compridos, saiote e pé no chão! Uns diriam: «Que cara louco!», enquanto outros diriam: «Que bicha uó!" Aliás, discutir o conceito de «normal» no nosso tempo beira o anacronismo. Eu, que sou / 'tou homossexual, só digo aos defensores infatigáveis da anormalidade homoerótica que, se ser normal é pertencer ao status quo com sua hipocrisia, ou seja, casar e procriar mesmo à custa da obliteração do Eu, violentar o corpo e a expressão com posturas que foram incrustadas como sendo as normais (afinal, homem que é homem não chora, não cruza a perna em «x», não beija no rosto de seus amigos homens, não acha homem bonito, olha para a bunda das mulheres e faz gracejos obscenos e babacas, etc ... E isso tudo é normal!) Eu Sou Anormal!!! Talvez -- e eu repito, talvez, pois se eu aqui apresentar um juizo de valor, 'tarei sendo contraditório -- um comportamento não tanto saudável, digamos assim, seja a quantidade de homens casados e pais de família que procuram gays, travestis, transexuais, etc. ('tes dois últimos, sim, segundo o julgamento dos «xiitas» devem ser uma 'pécie de representação do demônio na terra), para satisfazer seus fetiches sexuais. Isto sem mencionar os banheiros públicos masculinos onde classes, cores, credos, solteiros, casados se misturam numa fusão de instintos. É óbvio que não acho condenável 'tes fetiches, afinal se as partes envolvidas 'tão de comum acordo (não é?) qual é o problema? O que não acho muito justo é o fato de enganarem as suas famílias ou seus parceiros. Mas mesmo assim, ainda os respeito pois acho que as coisas não são fáceis de serem resolvidas de modo objetivo. Há que se entender o ponto de vista do outro. O que é fácil é apontar o dedo para o que julgamos ser a podridão alheia, mas olhar para os nossos problemas requer paciência e, acima de tudo, humildade. Lembro de ter lido uma comparação muito sábia não sei aonde: quando apontamos um dedo para outra pessoa, sempre haverá três dedos apontando para o nosso umbigo! Foda, não é? Pois é, eu também acho! Como dizia o carinha aquele que era outro anormal (não por ser gay -- pelo menos que eu saiba!, mas por outros motivos!) há mais mistérios entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia possa imaginar! A propósito, como enquadraríamos um homem casado (a priori heterossexual) que gosta de sair com travesti e ser passivo? Um anormal? Sem querer ser tautológico e já o sendo 'te homem é um homem casado que gosta de sair com travesti e ser passivo! Sejamos felizes, porra! Número de frases: 31 Um beijo em todos, em homens e mulheres e suas variações! Acho que é como um parque de diversões. Em aqueles joguinhos aparentemente inocentes onde a gente é levado a 'colher alguma caixa colorida pra ver se ganha um prêmio. Ou então dar uns tiros naqueles patos que ficam circulando em frente a um painel pintado, simulando uma vasta floresta. Geralmente o que ganhamos nada mais é que um brinquedinho ordinário. E nem sempre a gente acerta. Aliás, o erro é mais comum. E não 'tou aqui querendo fazer tipo. Bancar o herói solitário com ares falsamente-melancólicos; um chorão. Não se trata disso. Falo das regras do jogo: as chances do erro são superiores, sempre. É o que dá o charme ao vencedor. O motivo pra que ele comemore seu destino ou sua pontaria. Tudo vem da 'colha. De o ato em si de apontar o dedo pra algo. Ou apertar o gatilho na hora certa. Talvez torcer, rezar. Por vezes, a gente até supõe que tem intuição. Uma capacidade de acertar no alvo. Acreditamos que, seguindo alguns rituais geralmente infundados, conseguiremos atingir nosso intuito. Um brinquedo bacana, mais 'peranças ou novas perspectivas, enfim. Isso tem a ver com inocência. Com 'colhas claras e concisas. Que te levem a um lugar que você determinou lá nos seus primeiros passos. Tímidos, tontos ou certinhos. Isso tem a ver com pureza e crença. Não sou dos piores. Ainda acredito em muita coisa. De vez em quando tento acertar os patos. Possuo minhas crenças totalmente despropositadas: mas levá-las com mim é uma atitude 'sencial. Em outras eu perdi a fé. Em uma boa também. Sem draminhas imbecis. Um outro tanto de 'sas convicções «rodopiou» em meu imaginário e na minha vida. Ou seja, 'sas últimas foram desqualificadas, destruídas, aniquiladas. De forma consciente -- e nem um pouco tranqüila, converti velhos valores em lixo. Cuspi e desmoralizei da melhor forma possível. Somente pra depois constatar que eles voltariam mais fortes e sólidos; firmes. Isso fica claro em coisas que 'crevi, coisas que ainda guardo por aqui. Quando eu li o livro Anfetaminas e Arco-íris, do Ediney Santana, foi assim. Fiquei entre intrigado e receoso. Tava tudo lá: a crença, as referências de sempre -- dos Doors ao Whitman, a leveza e a sagacidade de quem 'creve. Não só 'crever, mas 'crever e sacar tudo ao seu redor de maneira absoluta. Os poemas me trouxeram velhas lembranças, todas boas. De um tempo em que a gente sabia que o mundo girava em torno de nossas cabeças e corações. Éramos o centro da terra, o motivo pra que ela ainda não 'tivesse completamente destruída; éramos um foco de resistência, berrando nossas coisas de algum lugar pequeno e inexpressivo -- uma cidade do interior, ou um quarteirão do Cabula, por exemplo. Não falo isso querendo fazer comparação com idades, adolescência, fases onde a rebeldia é analisada de forma coerente por os 'tudiosos etc.. Eu falo de mim. Um cara que barganhou um bocado de coisas. E que nem sempre acertou -- mas conseguiu uma visão particular das coisas; uma confusão adquirida, cultivada às vezes. Falo de um sujeito que, ao ler coisas como " Um invisível amigo beijou-ma face / durante a guerra / do que sou e do que minha 'tupidez / Leva-ma ser. / Sou a contradição absoluta dos meus / crimes civilizados / Só acredito no que pode ser destruído, / Apavora-ma certeza do / Infinito, nada vai além desse coração / em descompasso com o tempo." ( Mergulhos) vislumbrou que é possível. Que se enxergou em muitos poemas do Ediney. Em todo o livro a gente constata que aquele tipo de rebeldia terna, carregada da mais necessária humanidade, ainda pode render bons frutos. A possibilidade de ler os poemas ora longos, ora curtos e diretos -- «Idealizo o ser /amado/como quem 'quecido / de si / naufraga belezas» (A.M.O.R) -- nos faz pensar e sentir. Em outros, o que impera é o companheirismo declarado. Textos feitos para amigos e parceiros surgem aqui e ali, reforçando a minha «tese» de que Anfetaminas e Arco-íris foi concebido nisso que chamo de trincheira: um lugar que, mesmo desprovido de chances e facilidades, une artistas, poetas, 'critores e outras figuras, numa tentativa de afirmar sua existência; cada um a sua maneira, com aquela certeza de que todos devem ouvi-los. O 'critor experimenta. Brinca de concretista e acerta. Dedica seus 'critos a Marley e tira um sarro das beatas de mente obtusa. Mostra-nos uma outra Santo Amaro. Menos óbvia e 'tereotipada; muito mais poética. Demonstra segurança ao usar elementos lisérgicos, geralmente muito propensos a erros terríveis e absurdos -- suas «viagens» tem ida e volta; são prazerosas e geniais. O autor também joga. E atira bem no tal parque de diversões. Ele conta menos com a sorte e mais com um talento incomum pra mostrar que crenças são viáveis, ainda que duvidemos de elas. Ele saca que citar Bob Marley, Torquato Neto, homenagear amigos, falar de uma pracinha em sua cidade, ironizar padres e afins, ainda é uma forma de resistir. Mesmo que quase todo o mundo ache isso anacrônico -- até eu de vez em quando; culpa das barganhas que andei fazendo. Ele sabe que questionar faz parte. Que o 'sencial suprime qualquer noção de tempo, 'paço, década, geração, modismo ou época. Ediney Santana mantém os pés firmes no tornado que deve sacudir a velha Santo Amaro de vez em quando -- nos domingos mortais de silêncio televisivo; nos dias de chuva ácida; nas noites em que duvidar do futuro é premissa, ato necessário. E é isso que faz o seu livro, Anfetaminas e Arco-íris, ser uma obra bonita e singular. Mesmo que sejam poucas páginas e que a parte gráfica não seja digna de seus 'critos, sugiro que arrisquem. Acho que vale a pena. E creio que em 'se parque de diversões tem um grande prêmio -- a tentativa em si, o risco. Para os que tem coragem. Contatos com o autor: 1 -- ediney-santana@bol.com.br Número de frases: 92 2 -- Aqui joyce fajuto. eu nóio tu nóias ele nóia. achei o livro bacana. uma capa preta, parece luto. coisa de quem perdeu parente próximo. coisa de quem tá noiado. luto é coisa de viado, diz o subconsciente crumbiano chauvinista. macho que é macho não fica de luto, macho que é macho tem que 'tar na luta. na labuta. work in progress. ordem e progresso é o que vem na cabeça. puta slogan positivista. que ordem e progresso que nada. o negócio é todo em fluxo de consciência. eu não sou bom com 'sa porra de fluxo de consciência. fico caprichando demais. pra ser fluxo não pode relar. se relar muito, a coisa mela. e 'crever no computador exige um fluxo danado, porque o raciocínio de corte e cola não me deixa sair 'crevendo ao deus-dará. corte e cola corta a nossa asa. acho que eu tou inclusive botando ponto demais. o eduardo não põe tanto ponto assim ele sabe 'crever em fluxo melhor que eu. e isso não é um pensamento tipicamente competitivo não sou desses é só uma constatação. mas o eduardo também sabe que corte-e-cola fode a nossa mente. ele diz lá no eu nóia que 'crever isso aqui é um papel de sísifo. se é trabalho de sísifo, penso eu com meus botões (que porra de fluxo é 'sa que eu fico teimando em botar discurso direto?), não é fluxo que nada. é tudo palhaçada. tudo nóia da cabeça do cara. ele fica dizendo que é eduardo pra dizer que o personagem é ele. eu não caio em 'sa. basta ver a mulher do eduardo. a mulher do eduardo não é a rosália, é a dona louca. será que ele muda de mulher quando 'creve? se for assim com ele, quero fazer troca de casais literários. eu 'crevo sobre a genoveva imaginária e ele me manda a rosália. porque, afinal de contas, 'crita livre é igual fluxo menstrual. se bem que tem menstruação que cai em placas, não é? não sou mulherzinha, mas sei de 'sas coisas. menstruação deve ser bem parecido com hemorróida, só que sem dor. 'crever em fluxo como diz o eduardo deve ser bem parecido com menstruação, só que sem sangue. se bem que às vezes tem sangue sim. e, no meu caso, que sou canhoto, independente de ter sangue ou não, sempre suja a mão. é que a tinta vai borrando do anular até o mindinho conforme a linha vai chegando ao fim. acho que a gente tinha tudo que 'crever em hebraico 'crever que nem o leonardo da vinci. 'sa coisa de manchar a mão é uma sacanagem com canhoto. aliás qualquer sala de aula é uma sacanagem com canhoto, eu nunca encontro lugar pra 'crever sem ficar torto. deve ser por isso que destro é direito. e é por isso que eu gosto do computador. não preciso ficar caraminholando com medo da tinta no anular. que a tinta não vai anular patavina do que eu tou 'crevendo. não borroco porra nenhuma. só tem 'se lance do corte-e-cola que 'traga meu raciocínio. quando paro pra 'crever à mão, fico procurando a tesourinha pra jogar uma palavra do início para o final do parágrafo. é uma coisa meio minority report que eu guardo com mim. moleskine versus palmtop. eu não bebo cerveja, não fumo maconha, não pico, mas fico na nóia. eu nóia. todo mundo tem direito a uma de vez em quando. é. eu tava querendo mesmo voltar ao assunto desse meu palavrório. me perco em 'se negócio de fluxo. eu sou muito capricórnio pra deixar a coisa fluir, sabe? se flui muito, eu nóio. corto logo o barato. decepo. que nem machado de assis. pra mim romance tem que ter pé e cabeça. vai ver é complexo de édipo mas não com si pensar de outro jeito. coisa muito encriptada me dá no nervo. me dá no saco. e qualquer coisa que dá no saco, ou é 'permatozóide ou dói pra caramba. 'sa coisa de 'creveu não leu o pau comeu é muito erótica, muita sacanagem. só não é pior do que o que fazem com os canhotos. eu sou canhoto e sou realista. papo de modernista pra mim é papo-cabeça. romance pra mim tem que ter pé e cabeça. discurso direto indireto ironia sarcasmo indireta ficar 'crevendo monologando não tem paciência que agüente. porra nenhuma acontece. fica o mundo girando em volta do meu bigo. uma figa. mas, olha, eduardo, isso não é nem crítica. não é destrutiva, nem construtiva, é só o meu jeitão noiado. cada um com o seu cada qual, entende? eduardo? se eu tou aqui 'se tempo todo falando sozinho pra fingir o meu fluxo de consciência não era pra ter vocativado o eduardo. ato falho. aliás tudo o que eu falo é ato falho, desde o joyce até o aqui (e de repente pra depois também). difícil demais 'crever 'se negócio, girando como um pião sem saída. não ia falar nada. ia ficar calado. mas aí veio a falta do que fazer depois do fim de ano. veio o amigo que levou o suassuna que eu comprei embora enquanto eu 'tava na metade, veio o final do martin page, e eu falei, se não for agora, não vai ser nunca. o martin page ajudou. peguei o livro do eduardo e comecei a ler sem compromisso. sem compromisso de terminar, de começar, de ele saber que eu tou lendo. não quis nem saber. peguei a porra do livro e falei, se não for agora, não vai ser nunca. não vou dizer quando tempo levei porque tenho vergonha. leio lerdo. fica um eco na minha cabeça me culpando. eu sou igual o menininho do sexto sentido. ouço vozes. leio lerdo. e parece que na cidade grande ninguém respeita o silêncio dos outros. vem o vendedor de bala e diz que o goiabinha da bauducco é um real, vem o maluco surfista e fala para o trocador que pegou a menininha do pedro segundo, vem a mulher gorda do meu lado e se 'parrama pra ocupar o banco inteiro. tá, ela não fala nada. mas incomoda como se falasse. e tem o garotinho no colo da mãe no banco detrás mastigando o goiabinha da bauducco. nhec nham nhec nham quando leio alguma coisa no ônibus qualquer onomatopéia me dispersa. senhores passageiros, primeiramente desculpe interromper o silêncio da sua viagem. e o pior é que eu só leio em ônibus. menor paciência para sentar numa poltrona em casa, no meu metro e meio, e danar a ler hora e meia sem parar. o tempo não pára. chavão cazuza. cazuza morreu cedo demais. e cazuza inevitavelmente me lembra mato grosso. rio à beça quando o eduardo fala dos cuiabanos. a única palavra que começa e termina com sinônimos de bunda. tem que ter culhão pra falar uma coisa de 'sas. mas macho que é macho tem que ser malzin. 138 páginas de pura malignidade. mas a letra é grande, dá pra ler rápido. leio lerdo. já tá anoitecendo e eu aqui em 'sa nóia de 'crever alguma coisa sobre o eu nóia. já vão quase 24 horas. mais as 48 de edição. 48 de votação. o temor de não ser votado. temo não sair vivo de 'sa história. mas se não sair, crio asas e saio 'crevendo. saio voando que nem ícaro em dia de lua cheia. que nem cobra com asa. azar. a única coisa que não faço em 'se meu relato é relar em mais nada. tá tudo em cuspidez. tudo saindo sem dar tempo pra pensar. tinha uma antiga piada de criança que dizia que deus organizou uma competição entre um brasileiro, um português e um americano pra descobrir qual a coisa mais rápida do mundo. o português nem pestanejou e falou que era a porta: só encostar e ela já fecha. o americano todo tecnológico falava que era a luz, porque ele apertava o interruptor e a luz acendia, num piscar de olho. veio o brasileiro pra ganhar a copa e falou que a coisa mais rápida era a caganeira, porque não dá tempo de fechar a porta nem de acender a luz. caganeira é como 'crever em fluxo de consciência. mas joyce não pariu o finnegans numa diarréia só. fico noiado é com isso. se 'crita livre é deixar a coisa se 'crever sozinha, onde ponho a minha mão? 'crita livre pra mim combina com o overmundo. tem a cara do overmundo. só não digo que tem o cheiro do overmundo porque acabei de comparar a 'crita livre com uma caganeira e o overmundo é mais cheirosim. e o que tem de cuiabanos no overmundo não tá no gibi. se é gibi, põe no banco de cultura! eduardo, taca o eu nóia aqui, pô. foi a minha primeira reação. já tá tudo em criei tive como. mas o cara que sabe. foi ele que fabrikou o livro. só tou aqui tentando desenhar uma resenha em 'sa tarde abafada. a terceira res e nha de ele aqui em 'se cantinho. mas eu não dresisti. é presente de natal. presente que nada. isso aqui não vale a passagem. não vale o sedex. dura lex sed lex. resenha 'quisita que só. mas resenha resumidamente eu renego. nunca vi resenha 'crita livre. texto de jornalista tem sempre um monte de amarra. por isso não me amarro em ser jornalista. profissãozinha do demo. eu sou mesmo é 'critor autônomo. que nem o joyce. que nem o eduardo. mas com menos talento. vem o cazuza de novo piscando na minha cabeça. já tá tarde. temo não sair vivo de 'sa história. Número de frases: 177 8.482 caracteres até agora. Estava sozinho na noite fria da última quinta, dia 28, zanzando de um lado para o outro do Clash Club na 'perança de encontrar algum conhecido e não ficar só tirando fotos de qualquer porcaria como um bobo aleatório. Tendo chegado pontualmente às 21:00 fiquei decepcionado ao descobrir que o show do Pop Armada começaria apenas às 23:00, 'pecialmente considerando a pontualidade extrema do evento no domingo. Provavelmente houve uma pequena falta de 'clarecimento, uma confusão entre abertura da casa e início do show. Marinheiro de primeira viagem no Clash, e acostumado a casa noturnas apertadas como a Funhouse ou a Obra, fiquei contente com o 'paço disponível, equiparável ao CB -- sem o inconveniente das mesas; embora depois de duas horas de 'pera eu tenha sentido falta de um local para sentar. Demorou um tempo para o lugar rechear, e quando aconteceu, ainda existia bastante 'paço para respirar. Depois de driblar a 'pera conversando com 'tranhos e fumando cigarros finalmente pude testemunhar a apresentação do Pop Armada, um dos vencedores do concurso Novos Sons. Um pequeno desvio na tentativa de Dudu Marote de buscar sons fora de São Paulo. Parece que quando o assunto é Rock, o lugar em 2007 é aqui. Limitados por pouco 'paço no palco (o equipamento do Eagles of Death Metal já 'tava montado atrás de eles) a banda teve um show curto, cerca de cinco músicas, mas bem executado. Simpáticos, têm a energia básica 'perada de uma banda de rock (e isso é um grande elogio, já que muitas bandas bem famosas nem isso têm). Apesar de ter ouvido alguns gritos de «já deu» -- de um 'pectador um pouco quimicamente alterado -- eles conseguiram conquistar os membros da platéia, ansiosos por Eagles, na medida certa. Pouco depois da meia noite é que surge Eagles of Death Metal, para o delírio de fãs e leigos. A simpatia do Pop Armada foi 'magada por o caminhão energético do Eagles. Jesse «The Devil» Hughes deixou o palco como entrou: um furacão de presença, simpatia, empolgação e rock ' n ' roll. Se durante o Pop Armada havia apenas uns quatro fotógrafos dedicados, no Eagles havia uns dez. Entre eles uma garota pequena, com uma câmera pequena, tipo snapshot, sendo 'migalhada por aparentes profissionais com seus equipamentos colossais. Me identifiquei com a figura, já que se não tivesse conseguido um equipamento emprestado 'taria na mesma situação, ou pior. Durante o show, nem o equipamento agüentou e um amplificador 'tourou, o que deu ao público a chance de xingar a Motorola. Mas nem isso impediu a banda de tocar e interagir. E um público furioso eu diria, que me deu tapas na cabeça como chamego -- acabei por subornar uma garota com a baqueta que caiu na minha cabeça na 'perança de conseguir aliados e sair ileso. «Got a light?"; «Are your ready for more rock ' n ' roll?!" e " Nothing's gonna come between me, you and rock ' nroll tonight!!" foram alguns dos bordões entoados por o Demônio. Nem todos apreciaram as pausas, conversas e saracuticos, mas 'se que vos 'creve, que era parte do grupo dos leigos, aprovou. É uma pena que o Pop Armada tenha sido ofuscado por 'se colosso do palco. Assim que terminou o show as pessoas debandaram, deixando para a dupla Roots of Rock Revolution embalar o resto da noite para quem ainda tinha energia para dançar, inclusive o prório Devil, agora entrosando com os fãs. Fotos no Flickr Número de frases: 31 Relato pessoal no blog Cezza, disposição e atitude. Cézar Mendes, Cezza, um cara resistente, indo fundo em seus propósitos em 'se Brasilzão, aqui, do Matão, da periferia de Cuiabá, mais precisamente do bairro Tijucal, região sul, lugar que tinha muito tijuco, barro, em cuiabanês: «tchidjuco», daí o nome; habitado inicialmente por os guerreiros da etnia Coxiponés, hoje é foco de um dos vários sub movimentos hip hop que se 'palham por a cidade. Cezza, como prefere ser chamado, é um cara simples, humilde e batalhador. Trabalha muito para manter de pé um projeto de vida que abraçou desde o início da década de 90. Conta que naquela época a situação era muito complicada, as pessoas olhavam com desconfiança aquele modo de vestir, falar, protestar, associavam com violência, marginalidade, coisas de vagabundos. Ao lado de Guil, Espinha, Haroldo e Edson Charles, Cezza formou, em 1992, o grupo Revoluções MCs que começou toda a história do hip hop em Cuiabá. Logo no início já buscaram interiorizar suas ações levando o hip hop e seus 4 elementos, break, rap, dj e o grafite para outras cidades de Mato Grosso como Sinop, Sorriso, Nova Mutum, Barra do Garças, Rondonópolis, difundindo 'sa forma de cultura, criando núcleos atuantes, fomentando o surgimento de uma cena em âmbito 'tadual. Viajavam de carona ou de busão, realizavam shows, debates, encontros, oficinas, buscavam «criar um ambiente para que um movimento acontecesse». De passo em passo, em 1996, viraram MT Rappers, preservando a mesma formação. Cezza diz que nunca deixaram de acreditar na evolução daquele trabalho: «sempre levamos a dança, a música, a palavra, o grafite, nossa ideologia, conhecimento e 'perança para as comunidades, para as pessoas que 'tão à mercê da dura vida. Sempre fazendo o trabalho que o hip hop tem que fazer para as comunidades». Em 1999, mesma formação e novo nome, o grupo virou Testemunhas da Morte, foi quando iniciaram um trabalho para fora do Estado, foram à luta, viajaram para Brasília no ano de 2000, participaram do Abril Para o Rap, depois São Paulo, participaram do evento Batalha do Ano em 2001, 2002 e 2004, fizeram contato com o organizador Ronei Iôiô e as coisas se ampliaram: «Eles viam Mato Grosso como mato, achavam que aqui só tinha bichos e mato. Depois da demonstração que fizemos é que passaram a ter outra visão, que aqui tinha gente qualificada fazendo hip hop. Fizemos belas performances na Batalha e conquistamos o respeito da galera." Os apoios foram surgindo em pequenas proporções, na medida em que conquistavam 'paços na mídia, com trabalho e persistência, mostrando que o que faziam era pra valer. De aí começaram a ser vistos como expressão legítima da cultura urbana que emergia em Cuiabá: «Atualmente as coisas mudaram muito. Os empresários e alguns segmentos do poder público 'tão começando a apoiar algumas organizações do hip hop aqui de Cuiabá. Acredito que seja por o fato do movimento ter crescido em todo o Brasil, isso repercutiu aqui também. Sempre botei fé que o hip hop viraria, que seria um movimento de revolução, de evolução das comunidades periféricas, de encaminhamento para a inclusão social." Cezza começou aos 16, com 30 agora vê novas perspectivas para o movimento que vem se organizando bastante por aqui. Mas as dificuldades não cessaram. Atualmente ele faz parte da Organização Hip Hop MT que atua fortemente para a formação de meninos e meninas na periferia cuiabana. Eles fazem parte de 'sa luta com muita garra, acreditam numa sociedade melhor e trabalham para que isso se torne realidade. Cezza 'tá coordenando o projeto invasão hiphop que leva a dança de rua em oficinas por os bairros Coxipó, Pedra Noventa e Tijucal. São 80 jovens envolvidos: «Os resultados são fantásticos, os meninos e as meninas já 'tão desenvolvendo coreografias e performances. Nunca vou parar de lutar para transformar a realidade das pessoas que vivem em alto risco, dando uma direção legal para suas vidas, tornando-as agentes culturais, para que possam ajudar a construir uma nova sociedade." O projeto invasão hiphop foi aprovado por a Lei de Incentivo à Cultura de Cuiabá. Está com uma carta de crédito na mão. Nenhuma empresa ainda se dispôs a patrocinar o projeto. Ele não desiste: «Os meninos e as meninas têm 'perança de que o projeto seja um passaporte para uma vida melhor." Se despede, vai embora. Seus passos seguem por as 'caldantes ruas cuiabanas no ritmo da dança da vida. Número de frases: 39 Não quero iniciar uma discussão sobre 'tereótipos. Os equívocos que povoam nossas mentes acerca de uma série de coisas. Desejo falar de outro livro. Grande livro. Porém, existe alguma dificuldade em 'ta minha tentativa. De o material que resolvi 'crever -- tateando no 'curo, sendo muito mais intuição que conhecedor de fato -- pouco entendo. O suficiente para pontuar fatos, conceitos e o que for necessário. O problema é que tenho outras referências. Quando o assunto é literatura, o que consigo descrever tão bem passa longe do que será interpretado nas próximas linhas. E acho melhor deixar claro que 'tou fazendo um ensaio, no que mais de verdadeiro a palavra significa. Tentar explicar algo que para mim é tão somente comoção, é um processo dos mais delicados. Corro algum risco. De ser mal interpretado ou não ser entendido. Mas não posso deixar de tentar. Pretendo também me fazer entender no uso da palavra 'tereótipo. O que pra nós representa o Sertão? Quando, de alguma maneira, somos confrontados com algo que nos obrigue a pensar no assunto, o que exatamente nos vem à mente? Paisagens secas e desprovidas de vida? Um céu limpo, azul e austero? Quem sabe o cangaço de Lampião, talvez a representação mais forte e presente de todas? Ou, sendo mais superficial ainda, um mandacaru, incrustado no centro de uma vastidão árida? Em nenhuma de elas há um traço de justa nobreza. Sempre a figura humilde, de cabeça baixa e alma castigada. Os ombros encurvados. O acanhamento típico, talvez confundido com alguma desacertada «bondade» do Rousseau; uma mitificação pretensiosa e sem nexo. Um sofrimento que diminui, destrói, desumaniza. Ou então o humor, a total ausência de ele. Desgraçadamente tão comum nas Tvs, filmes e piadas, convertendo o sertanejo em mero motivo de pilhéria. Há também aquela auto-'tima às avessas, que se mostra na vontade sem cabimento de se modernizar -- então pinta-se o cabelo de loiro, fode-se com qualquer critério musical e artístico, e convertemos as músicas supostamente de origem regional numa coisa sem forma nem beleza alguma. Uma merda. Não se trata de defender o endurecimento de idéias. Nem de sonhar ser um puritano. De os que, em vez de conservar tradições por um prazer e / ou necessidade -- a cultura arraigada em sua vida e ele dependendo daquilo, de alguma forma, preferem ser rigorosos por algum tipo de 'quisito prazer, ou por conta de uma idiota presunção. Falo de pureza, não de puritanismo. A pureza que é bem próxima do absoluto. De onde vem o belo que emociona; algo que não dá margem à dúvida, portanto. Quero aqui discutir o que, em nossa visão, chamamos de cultura nordestina ou sertaneja. Algo reducionista e rasteiro. Que 'vazia a verdadeira grandeza que o Sertão comporta. Em a literatura, tentativas do tipo parecem perder força. Ainda nos valemos dos livros do Guimarães Rosa e do Ariano Suassuna; talvez de um Hermilo Borba Filho, antes de realizar sua tetralogia Um Cavalheiro da Segunda Decadência -- onde o foco, o tema e a linguagem tomaram um outro rumo, não menos genial. Possivelmente aqui e ali, em nomes como Bernardo Ellis ou Hugo de Carvalho Ramos, que ganham importância ao obterem o aval de ninguém menos que Elomar. Quando o baiano Dênisson Padilha Filho se propôs a 'crever seu terceiro livro, Carmina e os Vaqueiros do Pequi, já sabia da responsabilidade que teria. Sendo um 'critor que vive no presente, poderíamos aguardar um equívoco. Mesmo que bem intencionado. Afinal de contas, o nosso tempo nos cobra modernidade. Aquela típica pressa de quem quer pôr de lado tudo que seja antigo. Um comportamento que exclui velhas referências. O medo sempre presente de sermos chamados de antiquados. Mesmo que para isso a gente enterre coisas 'senciais. Com isso, seria natural 'perar somente uma obra vazia. Provavelmente suspeita já que ele, nascido na capital baiana, supostamente não seria capaz de devolver a tão citada grandeza ao Sertão. Por o distanciamento daquele mundo -- conclusão das mais erradas. Não seria nada mais que uma mera tentativa. Todavia, como ele mesmo nos fala, o que interessa de fato é que " suas raízes ( ...) 'tão fincadas em outras épocas, outros chãos». E ele havia deixado isso bem claro em seus livros anteriores: GAVIHOMEM (Art Contemp Editora) e Aboios Celestes (Selo Bahia, FUNCEB). Trabalhos que já tratavam, com respeito e dignidade, desse ambiente. Além de ter participado de outros projetos com semelhantes intenções: foi um dos roteiristas do curta metragem NA Terra De o Sol (MINC, 2005). Projetos futuros, envolvendo cinema e literatura seguem o mesmo caminho. Em Carmina e os Vaqueiros do Pequi, o processo durou cerca de nove meses. Ele seguia na reconstrução de um mundo que talvez não exista mais. Um «sertão dotado de poesia e lirismo, onde os vaqueiros encourados reinam soberanos ( ...)». Em as 221 páginas, o que podemos ver é justamente um retorno aos valores que formaram grande parte da cultura sertânica. Em uma relação sempre incômoda -- afinal, cada autor chama para si a originalidade de sua obra e toda comparação pode ser um erro dos grandes, podemos dizer que o que Dênisson faz nos seus longos parágrafos, tem semelhanças com o que o Movimento Armorial conseguiu há algum tempo: devolver ao sertão sua nobreza; a origem mesma de suas manifestações e atos; a importância 'quecida. De forma mais sutil, já que o Armorial foi claro e alardeou através da música, da arte do Samico e da literatura, o princípio de tudo. Em o livro, 'sa força se manifesta de forma hábil entre a história de amor do vaqueiro Jacó e outros dilemas, como a 'colha entre o bem e o mal -- incorporado na figura do Acrísio Pescoço. Em as entrelinhas, diálogos, referências; na «certeza da morte e a vida incerta» descrita nos caminhos traçados por os personagens; na eternidade sugerida do Moisés -- sujeito que supera o fim da saga, vai além. Não é à toa que o 'critor afirma ter conseguido criar uma novela de cavalaria «encourada e morena». E o diz convicto, sem medo de ser considerado vaidoso em excesso. Guardadas as devidas diferenças, meramente de local e tempo, as virtudes tão caras aos verdadeiros cavaleiros 'tão presentes. Todas um pouco 'condidas para os não iniciados, como eu. Contudo se mostrando aqui e ali. Como no momento em que o personagem principal cita a obra do Cervantes -- considerada por alguns uma sátira às novelas de cavalaria, mas que se tornou uma de suas máximas referências -- como algo que» ... me foi de pronto e muito agradado 'sa narrativa do cujo cavaleiro». Estão lá a prudência e a fortaleza. A temperança e a justiça -- sendo o personagem Sô Quirino um bom exemplo de 'ta última, em minha opinião. Bem como a fé, a caridade e a 'perança. Também não há o uso de armas. As lutas e as batalhas, comuns em outras obras do gênero. O que o catalão Ramon Lull (1232-1316) definiu em seu Livro da Ordem da Cavalaria, de «virtudes cardeais e teológicas», são indicadas de modo mais sutil; uma história de amor relatada de maneira bastante particular, própria e competente. A luta existe e é intensa. Tem porte, importância, firmeza. Contudo, o autor a faz acontecer de forma engenhosa. A o seu 'tilo. Além do mais, 'ta aproximação de sua obra do que chamei de pureza inquestionável, não depende de quaisquer elementos geográficos e cronológicos. O entendimento que podemos ter ao nos deparar com o resultado artístico impresso naquelas páginas deveria ser mais direto e simples. Contudo, o embotamento não nos permite ver que os dilemas ali descritos são universais e humanos. O Sertão os abriga; o Sertão os é. É também na linguagem usada que podemos enxergar algo de novo em 'sa bem sucedida tentativa de devolver ao Sertão suas notáveis características. Como afirma Elomar Figueira na orelha do livro, Dênisson» ... recompõe cenas sertânicas em linguagem característica de uma cultura 'sencialmente vaqueira», tal qual «boto falando de rio». E há de fato um conhecimento de causa. Apesar de nascido na capital, foi uma opção natural o tema, o ambiente e as referências. Foi, antes de tudo, 'colha de vida. «Os personagens já eram vivos em minha existência pessoal; além de serem reflexos, manifestações de meu universo ( ...) Essas tramas tomam forma através de personagens ( ...) uma vez que todos coexistem (se não coexistiram; 'tão vivos na minha memória ancestral) com a dor, o amor, certeza da morte e a vida incerta.», relata o próprio. Padilha vivência aquele mundo. Em seu cotidiano, ainda acreditando ser ele um lugar ideal e não somente idealizado. Talvez por isso não lhe passe por a cabeça as dúvidas tão comuns aos 'critores de «'critório e gabinete», segundo palavras do mesmo Elomar. Sem aquele distanciamento. O mesmo que o personagem do livro Angústia, de Graciliano Ramos, sentia ao dizer " Nenhuma simpatia. A literatura nos afastou: o que sei de eles foi visto nos livros». Dênisson conhece o ambiente, tem grande «intimidade com cavalo, a sela e o campo», ainda recorrendo ao texto da orelha. Ele vive entre a capital e a região antes chamada de Sertão de Cima -- hoje, Chapada Diamantina. Suas histórias pessoais, familiares; suas «coisas» se dividem entre 'tes dois pólos. «E o homem vivedor do sertão, feito minha pessoa, é bem sabedor da sina que possui; é por 'sas que não deseja largar o sertão pra trás, a senão se encontrasse a paz; feito encontrado ali no beijo de Carmina ..." ( página 187);» ... pra toda luz uma treva de peso igual, pra toda roça um formigueiro, pra todo sertão uma sequidão hai; ..." ( página 151). » ... Que o doutor é de vera um homem que possui 'tudos e possui diplomas mas não possui para a si uma verdade. É que o coração de um vaqueiro é um bicho que possui as vontades de ele. Ele vive, 'se um bicho, é grudado nos dentros dos peitos da gente; é feito um miúdo nosso mas não é; ele é um criaturo de opiniões de ele que em quando quer um desejo é qual uma rês teimosa que ninguém não dobra; é o coração do vaqueiro. A gente quer pra uma banda, ciente do certo; do viável; e o coração aposta nos impossíveis, no difícil da volta grande ... nos idos contra o homem ... que é assim o coração; que é gostador dos perigos e dos confusos decididos ..." Ainda que seja uma pessoa nascida em 'sa época de outras necessidades, ele é coerente com sua proposta. Para alguns -- incluindo aí a minha pessoa -- às vezes 'se comportamento nada mais era que um tipo de radicalismo besta, como tantos outros. Algo desnecessário. Afinal, 'tamos no tempo em que tudo pode ser relativo, «ponderado» e «mexido». Temos medo de assumir que tal 'tilo de literatura ou de música deve ser algo absoluto e 'sencial. A tal beleza que é inquestionável, citada lá no terceiro parágrafo. Mas depois de ter lido Carmina e de conhecê-lo pessoalmente, voltei atrás. E revi todos os meus conceitos. Não é necessário ter nascido na Rússia de Dostoiévski, ou então na Minas de Guimarães Rosa para ter chegado ao menos próximo de 'sa região intacta: a da beleza artística. Nem muito menos ser um puritano, de linguagem casta. O 'critor deve ter a visão de que seu livro vai permanecer vivo. Sendo algo que, independente do tempo, período, tema, seja facilmente identificado como uma obra verdadeiramente literária. Em qualquer época. E o autor sabe disso quando fala que " no mais, admitir que a obra ainda vai conhecer o seu leitor em grande escala; num futuro.». Dênisson Padilha Filho, dentro de suas muitas capacidades, consegue devolver um pouco a grandiosidade ao Sertão. Quanto a nós, cabe a certeza de 'tar fazendo algo autêntico ao ler Carmina e os Vaqueiros do Pequi. Por mais que as minhas palavras nos pareçam distantes e formais -- tenho a impressão de talvez complicar o entendimento da obra --, elas vêm apenas para nos mostrar que, mesmo com o futuro nos apontando milhares de possibilidades, existe algo de surpreendente em livros que são genuínas obras de arte. Ainda que nos pareçam velhos. E que tratem de lugares que não conhecemos de forma exata e respeitosa: nós mesmos. Serviço: 1 -- contatos e compras do livro: Número de frases: 166 dpadilhafilho@gmail.com 2 -- livraria Galeria do Livro (ver na opção " autores baianos ") BNegão é um sujeito relax. De malas prontas, a poucas horas de emendar uma aparição no Sul com o RecBeat do carnaval recifense -- onde participou do show do coletivo Instituto dedicado ao «Tim Maia Racional» -- seguida por uma apresentação em Amsterdã, o rapper carioca engatou um papo de mercearia, daqueles bem sem pressa e recheado de digressões. Como se sabe por aí, o cara anda cada vez mais íntimo dos lustrosos aeroportos europeus. Desde 2004, milhares de paladares do velho continente já vêm provando do saboroso bolo que Bernardo assa no palco, juntando ingredientes do que ele chama " lado b da black music ": dub, miami bass, funk anos 70, hip hop e ragga, tudo recheado com bossa, hardcore, samba, crítica social e filosofia. E sem risco de indigestão. Mas que tufão levaria tão longe o apetitoso aroma que 'capa da fornalha sonora de Bernardo? (Fosse mesmo por o ar, diria ele, talvez o cheiro chegasse só até algumas capitais brasileiras, umas três vezes por dia, e, mesmo assim, em apenas uma freqüência do dial -- e isso mediante o desembolso de uns 30 mil reais para a «verba do jabá» a cada rede comercial de emissoras FM.) Sem falar que toda 'sa gente do outro lado do Atlântico nunca viu um único CD de BNegão e os Seletores de Freqüência nas lojas dos seus países. O disco, eleito por a crítica um dos melhores lançamentos de 2003, teve como único veículo internacional a internet, onde foi jogado em copyleft por a própria banda, dois meses após o lançamento nacional. Em novembro de 2003, «Enxugando Gelo» saíra encartado na primeira edição da revista Outracoisa, editada por Lobão, por o preço de R$ 11,90. Pontos de venda? Bancas de jornais. -- Colocamos o disco na rede, mas só por ideologia, sem saber o que ia acontecer. Entrou com música, letra e tudo para quem quisesse baixar sem fins lucrativos. Ou seja, se o cara quiser baixar mil discos e dar pra todo mundo, tá certo. Se ele quiser baixar dois e vender, tá errado. Mas, por mais que a gente diga isso, aquele aviso 'crito não tem valor legal nenhum. De aí, quando apareceu o Creative Commons, decidimos licenciar lá também, onde posso ser mais 'pecífico: ' quero isso, não quero aquilo '. Ideologia, generosidade ... e modelo de negócio. Visão da música não como um produto final em si, mas sim como canal de difusão de algo bem mais amplo (e impermeável a piratarias em geral): a expressão artística. A força do boca-a-boca virtual não foi pouca, e hoje BNegão 'tá no MySpace, no perfil quase lotado do Orkut -- onde as comunidades dedicadas a ele e aos Seletores somam mais de 10.000 membros --, no fotolog, além de ter músicas disponibilizadas para download, remix e sampling no Overmixter e clipes no YouTube: «A Verdadeira Dança do Patinho», «(Funk) Até o Caroço»,» Seletores de Freqüência «e» A Palavra/O Primeiro Passo». -- A gente saiu de uma situação de tocar em alguns poucos lugares do Brasil diretamente para o mundo, e hoje o nosso público é maior lá fora do que aqui. Eu sou um exemplo vivo da história da importância da internet, de compartilhar e tal. De fato, para uma indústria cultural construída sobre os então sólidos alicerces dos direitos autorais (afinal, nem sempre o autor é o real detentor de seus direitos), não faz mesmo o menor sentido a idéia de liberação gratuita da música. E aí, dá-lhe marketing do medo, com direito até mesmo a processo contra dona-de-casa. Na contramão do acuamento da indústria fonográfica, tem (muita) gente que dá mais valor à circulação de seu trabalho, para poder então mostrar pessoalmente do que é capaz. Conta aí, Bernardo -- Chamaram pra fazer dois shows na Europa, em Portugal e na Espanha. Eu nunca tinha tocado na Espanha, achei que não fosse ser nada demais, ' vamos lá por a viagem ` e tal. Aí a gente tá no camarim em Barcelona, prontos pra tocar, quando chega o cara da produção dizendo para a gente 'perar mais vinte minutos, porque não tem como entrar no palco. Aí eu falo: ' como assim, não tem como entrar agora?! A gente já tá pronto e tá na hora '. Aí o cara diz: ' não, a fila 'tá dando volta no quarteirão '. ' Como assim?! '. E ele repete. Aí eu pergunto se tem alguma banda depois da gente. ' Não '. ' Tu tá de graça então?! '. ' Não '. Bem, ali cabiam duas mil pessoas, daí pensei: ' beleza, a gente vai tocar, os caras não vão entender, a gente vai embora e tal '. Só que chegou a hora, neguinho do mundo inteiro cantou, dançou, e no final a gente ainda vendeu 130 discos. Foi um show memorável e acabou expandindo geral. Aí tiraram foto, sorte que tinha um cara do UOL lá, senão ia virar história de pescador. Aí, no dia seguinte, a gente entra num cybercafé e vê a capa do UOL: ' nossa, rolou mesmo! '. Isso em maio. Em outubro, também em 2004, chamaram pra fazer outro show em Barcelona, aí quarteirão de novo, e mais Alemanha, Inglaterra e Portugal. Depois, em 2005 fomos parar num dos cinco maiores festivais do mundo, na Dinamarca, por uma grana que dava umas quatro vezes o maior cachê que já tivemos no Brasil, e tocamos com um monte de figurões. Aí a gente tocou na Inglaterra, França, fomos cada vez mais tocando em shows, festivais. Teve ainda o Cultura Quente na Espanha, pra 6 mil pessoas, que foi a primeira vez em que a gente foi cabeça de cartaz num festival. E a 'trada foi bem longa antes de chegar às pistas de decolagem. Em os anos 90, Bernardo foi vocalista do Planet Hemp e do Funk Fuckers, emendando depois no projeto atual com os Seletores de Freqüência, onde reúne seus parceiros e camaradas Gabriel Muzak (guitarra e voz), Pedrão Selector (trumpete e voz), Nobru (baixo), Robson Vinttage (bateria), Paulão (voz) e Rodrigues (bases e toca-discos), também figuras egressas do cenário underground carioca dos anos 90. Além deste projeto, o rapper ainda comanda o Turbo Trio, seu novo experimento musical. Só não pode parar. É fácil, por exemplo, encontrar o cara em eventos ligados à democratização do acesso à cultura, como, por exemplo, o Fórum Social Mundial, o Fórum Internacional de Software Livre e o seminário O Processo da Música, promovido por a Fundação Getúlio Vargas em resposta ao anúncio da onda de processos judiciais movidos por a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) contra usuários brasileiros de download por a internet. Em 'se dia, Bernardo disparou um questionamento para o público: «Se a indústria fonográfica diz que baixar música é crime, o que dizer do jabá, que, além de crime, é organizado?». Freqüência alternativa à da rádio do jabá O rapper é um dos criadores do Movimento Por o Fim do Jabá, que mobiliza artistas chamando a atenção para a «política» das rádios comerciais de cobrar por a veiculação de músicas: -- O CD da gravadora não é mais acessível, e o preço do disco não tem razão de ser tão alto. Eles falam que é o preço da produção, mas o próprio marketing tem que pagar pra tocar, o que faz aumentar o orçamento do marketing e faz aumentar o preço do disco: é uma bola de neve louca. Em o fim, o que 'tá em risco mesmo é a cultura nacional. Não é por um acaso que são sempre as mesmas músicas que tocam na rádio. A idéia de botar as músicas na internet vem da vontade de falar para o maior número de pessoas possível, desaguar mesmo nossa produção, já que o 'paço nas rádios é ridiculamente limitado. Não fazia sentido segurar: quem iria comprar? Além de tudo, BNegão não tem o perfil das rádios comerciais brasileiras, atualmente restritas a poucas emissoras agrupadas em rede: sua música não arrebanha multidões, não toca na novela das oito e nem é coreografada por as bailarinas do Faustão. Alguma chance com as massas? Melhor apostar no crescimento dos mercados de nicho, fenômeno gerado por a queda nos custos de produção e distribuição propiciada por as novas tecnologias -- sem falar no fim da limitação de espaço físico ('toques e prateleiras, por exemplo) para uma cultura que agora circula sem suportes. (A desmidiatização proporcionada por o avanço tecnológico e por o conceito de portabilidade vem se expandindo para bem além dos produtos culturais como música, literatura e cinema: o que dizer dos Linden Dollars do Second Life, senão que pode ser o início da desmidiatização da própria moeda e de tudo que ela pode comprar?) Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, uma das publicações mais respeitadas em termos de inovação, publicou em seu livro «A Cauda Longa» (Campus / Elsevier) sua teoria que demonstra que o desenvolvimento tecnológico, ao tornar cada vez menos fundamental o meio físico, propicia a mudança de foco da cultura e da economia: os best-seller passam a ter tanta importância no mercado quanto os produtos de nicho. O que nos faz pensar numa abundância caótica de possibilidades. Como separar o que é bom do que não presta para mim? É aí que Anderson fala da importância da «curadoria» de informações através da recomendação, agora exercida não somente por os agentes «autorizados» (veículos 'pecializados), mas sim por cada um de nós -- através do boca-a-boca virtual dos blogs, redes de relacionamento e fóruns de discussão. A força da comunidade é, pois, fundamental para o sucesso de modelos de negócios baseados na Cauda Longa. Como diz o livro: «A primeira força, a democratização da produção, povoa a cauda. A segunda força, democratização da distribuição, disponibiliza todas as ofertas. Mas isso não é o suficiente. Só quando a terceira força, que ajuda as pessoas a encontrar o que querem em 'sa nova superabundância de variedades, entra em ação, é que o potencial do mercado da cauda longa é de fato liberado». Mas, e aí? Se, quanto mais a obra circula, maior é seu valor de mercado, cai por terra a visão tradicional do fonograma como produto final. Assim como se mostram ineficazes todas as tentativas de barrar a circulação de arquivos de áudio na rede. O fonograma se reconfigura como a mais eficiente peça «promocional» de um dos possíveis (e reais) produtos: a experiência da fruição artística ao vivo. Em conferência para agentes da indústria fonográfica mundial reunidos no MIDEM (Mercado Internacional de Música), realizado em Cannes no final de janeiro, Chris Anderson sentenciou para uma platéia obviamente relutante: «Tudo aquilo que 'tá ligado ao formato digital será gratuito. Serão as outras experiências musicais, isto é, aquelas que não são duplicáveis até ao infinito, que vão ser pagas». John Perry Barlow, co-fundador da ONG Electronic Frontier Foundation (EFF), defende em seu famoso artigo «The Economy of Ideas» que «a economia da informação, na ausência de objetos, será baseada mais no relacionamento do que na possessão». O artista, a partir da repercussão de seu trabalho na web, percebe que o suporte físico não mais se justifica e que o fundamental é conquistar seu público de forma sensível e inteligente. Segundo Barlow, no contexto das novas tecnologias, o dinheiro é ganho não com a música, mas sim através de ela. BNegão diz viver de música no seu sentido mais amplo: sua principal fonte de renda são os shows, não os CDs -- sejam os vendidos nos 'petáculos, sejam os que a independente Tratore coloca nas lojas. A propósito, é interessante notar um disco disponível para download gratuito figurando praticamente todo 'se tempo na lista dos mais vendidos da distribuidora. O CD físico já vendeu mais de 15 mil cópias (entre revista e lojas), mas Bernardo destaca que a repercussão foi ainda maior no exterior, onde o som só chegou por a internet mesmo. E solta uma sonora gargalhada ao falar da incrível desatualização de seu site, para depois argumentar que o novo já 'tá pronto para entrar no ar, que às vezes não dá tempo (além dos shows no Brasil, para 'te ano 'tão previstos também um festival no México e uma turnê por o verão europeu, incluindo aí um festival em Portugal), que no próximo disco querem 'tar mais preparados ... naquela calma ... -- Com o «Enxugando Gelo», aconteceu assim: lançamos, rolou de forma viral por a internet, a coisa foi fluindo sem muito planejamento, com uma divulgação meio tosca, e nós fomos avançando. Nossa divulgação sempre foi por a internet, no nosso caso ela sempre foi fundamental. Número de frases: 110 O negócio é botar o som na rede, a partir daí vai organizando o resto. Jorge Schutze Artista Plástico da Dança Sertão Alagoano. Jorge Schutze vinha na carroceria de umas de 'sas caminhonetes que ainda resistem transportando gente irregularmente entre pequenas cidades do interior do Brasil. Ia de Água Branca pra Piranhas. Carregava um sentimento de pena, compaixão por 'sas pessoas sofridas, mas não sentia ainda que fazia parte disso tudo. Em o caminho sobe no transporte um sujeito que o intriga. Jorge não consegue sequer supor que idade ele tem. É um corpo muito forte de trabalhador rural e um rosto que parece uma piçarra " sabe quando tem uma água no barro e 'ta água seca e fica aquilo tudo quebrado? Ele era isso. O corpo todo». E se questiona: «Quantos anos têm? Que tipo de vida leva?" Schutze tenta em vão conversar com o sujeito que só responde com barulhos e grunhidos. «Não sei se não falava ou se não queria falar» pondera. Quando o sujeito chega a seu destino a caminhonete dá uma desacelerada e o homem salta sem que o carro precise parar. «É um salto maravilhoso que ele já emenda numa corrida». Em aquele momento começa a pensar nas aptidões que aquele 'tilo de vida permite e se lembra dos ensinamentos em Tókio de Min Tanaka que diz que a única vanguarda possível hoje é uma volta e que a vanguarda tende a ser primitiva. «E volto a ler Vidas Secas com 'te novo dado e faço uma dança prece sobre isso». Schutze se encanta com a maneira como Graciliano Ramos consegue reproduzir a sensibilidade daqueles personagens humanos que são ao mesmo tempo tão desprovidos, animais de certa maneira. «Eu tenho vizinhos aqui em Maceió que ainda hoje são assim, são sensíveis, mas não têm o talher da fala. Usam palavras com sentidos completamente diversos de seu significado." Jorge Schutze, paulista de Marília, trabalha com dança experimental e vive há cinco anos em Maceió. Este episódio descrito acima foi resultado de uma de suas muitas pesquisas pra desenvolver Estado de Graça, 'petáculo que ele define como um trabalho de artes plásticas na dança. O título faz referência à origem do 'critor alagoano Graciliano Ramos. Maceió entra na vida Jorge através de Telma César 'tudiosa do assunto em Alagoas, que além de seu trabalho na dança, é conhecida por fazer parte da primeira fase do grupo Comadre Fulozinha. Jorge havia recém chegado do Japão e recebe convite para vir a Maceió por ocasião das comemorações dos noventa anos do Teatro Deodoro. Telma vendo ali grande fonte de troca de informação convida Jorge Schutze para realizar workshop e trabalhar com ela no 'petáculo de dança que seria montando para o evento. Desde então Jorge reside e desenvolve projetos com vários grupos de teatro e dança de Alagoas como a Companhia dos Pés e a Companhia Limitada. Em 'te momento finaliza um novo 'petáculo em Maceió chamado Sociedade Anônima onde usa na dança conhecimentos adquiridos no teatro de marionetes. Tratando do anonimato do ser social, das similaridades das solidões dos indivíduos. É baseado na obra de " Clarice Lispector. «Em 'te trabalho Decupamos movimentos simples, o processo 'miúça os movimentos como Clarice faz com pequenos atos». Em o elenco a venezuelana Coco Consuelo Maldonado e o alagoano Magnum Ângelo. Wado -- Explica 'se conceito de artista plástico da dança que você usa. Jorge -- Em a verdade eu sou um artista plástico eu comecei desenhando, pintando mexendo com massa. Eu morava numa cidade muito pequena do interior de São Paulo que se chama Santo Anastácio, Eu nasci em Marília, mas infância, educação e adolescência aconteceram ali em Santo Anastácio. Essa formação veio pra mim antes do teatro e da dança. W -- Você não tendo uma formação acadêmica conta um pouco de sua experiência no Brasil? J -- A os 18 anos parto definitivamente para São Paulo almejando 'tudar Artes Plásticas. Passo no vestibular para a Belas Artes, mas decido não cursar, pois já 'tou envolvido com um grupo performático de novos amigos e começando a fazer teatro. Depois de dois anos em SP conheço Klaus e Rainner Vianna que trabalham com o corpo. Klaus Vianna é uma figura importante da dança em São Paulo. Klaus era um bailarino frustrado por ter uma perna maior que a outra e por causa disso começa 'tudar a anatomia pra buscar uma abordagem diferente e pesquisar o corpo. Começo a 'tudar com eles paralelamente as minhas aulas de teatro. De aí surgem trabalhos indicados por eles. Passado algum tempo participo de um 'petáculo com o grupo Contadores de História, de Paraty, que trabalha com marionetes e queria em 'te momento desenvolver uma peça com bailarinos. Após dois anos recebemos um convite pra uma residência de três meses na Filadélfia com o intuito de montar um 'petáculo e entrar em contato com outros grupos. W -- Com 'sa oportunidade vocês partem para os Eua? J -- Em 'te momento decido que quero ficar nos Estados Unidos. Assim que termino a residência vou para a Nova Iorque e era 'te o momento do Contato e Improvisação, quero dizer, ele surge nos anos sessenta e nos oitenta a coisa já tem um vulto com revistas 'pecializadas e uma série de conceitos confirmados. W -- Como foi a convivência com 'sa cena? J -- Em 'te boom 'tamos no meio da confusão eu e Wanda Motta, bailarina de formação clássica que parte para a dança experimental. Passamos dois anos e meio vivendo em 'sa cena de Nova Iorque. Estávamos os dois juntos meio que amantes, meio que namorados. O contato tinha a ver com nossa relação, vivíamos ensaiando e fazendo improvisação, dançávamos em tudo quanto era lugar. W -- Vocês fizeram cursos? Assistiram a palestras? -- Eram muitos workshops. Acabava virando uma galera, era o povo dos dançarinos de Contato, tinha uma relação. Havia também um pequeno teatro chamado PS 122. Toda terça tinha uma jam, que era muita troca de informação, às vezes iam músicos, mas no geral era basicamente dançar, era bem imprevisível tinha dia que aparecia lá o Steve Paxton, fundador da coisa toda. Você trabalha muito com 'se conceito de Contato e Improvisação. Dá uma situada para a gente: Isso começa em Nova Iorque com Steve Paxton tentando tirar a dança de sua formalidade e antes de buscar o que é dança ele busca o que é movimento e começa uma pesquisa física a partir do contato, da gravidade, do chão, ponto de apoio, peso do corpo como atua a gravidade, bem material e físico mesmo. Eles começam a formular isso a partir de conceitos de física, com o desenvolvimento surgem outras questões como, por exemplo, a relação com outro indivíduo. Quando você vai dançar o contato você tem de 'tar pronto pra que o outro maneje o seu corpo, mas na sua confiança, não pode depender da capacidade do outro de te carregar. Por exemplo, se o outro te tira do chão você tem de saber que se ele falhar você vai sobreviver, você vai dar um jeito. O treinamento parte do pressuposto que você tenha sua confiança, mas que ao mesmo tempo possa se entregar pra que outro brinque, que tenha uma relação com amor. W -- Como o Contato e Improvisação lida com o ambiente? J -- Como tem 'sa coisa do peso e o peso impulsiona o movimento, você se mantém na sua 'tabilidade quando seu peso 'tá centrado, de ali você não vai pra lugar nenhum. O equilíbrio é 'tático. Em o momento em que você sai do equilíbrio tem de começar a improvisar. Então 'te são os dados materiais, físicos. Você brinca sozinho se você quiser." só você ir preparando seu corpo. W -- Ele necessariamente requer música como trilha? J -- Em o início ele não era realizado com trilha sonora. Só a partir dos anos oitenta eles começam a coreografar, montar coreografias de contato e é a partir daí que se trabalha a idéia de que a música pode ser um contato, em 'te conceito de que um pode 'tar empurrando o outro para o movimento. Ou eu te apoio, te dou suporte ou te empurro e a música também é isso claramente. -- E como surge a oportunidade de ir dançar e trabalhar no Japão? J -- Em Nova York eu tinha visto um livro japonês sobre Butô que tinha me impressionado muito. Assisti a uma performance de Min Tanaka num edifício. Ele andava na mureta do último andar do prédio segurando uma vara que o equilibrava pra dentro, Todo pintado de branco, a vara enorme e ele pendendo o corpo pra fora do Edifício fazendo contrapeso. Aquilo me impressionou muito. De aí participo de um workshop com ele. Era tudo muito novo, não se falava de movimento, físico, nada disso, ele buscava coisas que não eram mais do físico da dança,. De volta ao Brasil leio no jornal que ele 'ta selecionando gente pra um 'petáculo que será montado em São Paulo, vou fazer o teste e sou selecionado. Min Tanaka se interessa por a cultura popular, índios, terreiros e eu mostro muitas coisas pra ele. Depois, ele monta A Conquista com mim no elenco. -- Isso ainda no Brasil? É. Depois Recebo convite para ir ao Japão e passo dois anos lá trabalhando nos grupos Body Weather Farm, Dance Ressouscers on Earth e Tokason. W -- Conta mais de 'sa experiência J -- Esse grupo Dance Ressouscers on Earth tem um arquivo não só de dança como se entende é um arquivo de pessoas, de corpos. Por exemplo, lá tinham vídeos do Garrincha e de tribos indígenas brasileiras. Tinha também imagens de um senhor que fazia cestos no Rio Grande do Norte que era uma coisa impressionante, uma 'pécie de transe. -- Fala um pouco do trabalho em Maceió. Você consegue sobreviver da sua arte aqui? -- As pessoas costumam dizer «eu sobrevivo da minha arte» mas elas sobrevivem da arte de elas dando aula. Eu acho que a arte só pode ser subversiva, então gosto de ter uma isenção, sobrevivo dando aulas, que considero mais uma troca de conhecimento que propriamente passar uma informação. Estou em Alagoas porque acho que 'te lugar é a síntese da condição de um país. Número de frases: 102 dança experimental alagoas butô contato improvisação Mona Gadelha veio ao Ceará e destilou seu rock, sua bossa-choque, propostas sonoras e poéticas de três discos já lançados ao grande público. O show Tudo se Move, título de seu terceiro e mais recente Cd, passou por o Cariri dentro da VIII Mostra Sesc Cariri de Cultura, aportou em Fortaleza na programação do Centro Cultural Banco do Nordeste e por fim levou o show a beira-mar no Anfiteatro da Volta da Jurema. Quem 'teve ali diante do palco, viu, ouviu e recordou quando aquele pessoal do Ceará tocava por os quatro cantos de Fortaleza falando de uma cidade que tinha outra cara, menos cosmopolita que hoje em dia. A noite reservou grandes surpresas como ouvir a versão de Beira-Mar de Ednardo, feita por Moisés Santana que em participação 'pecial com ela dividiu o palco, assim como recordar a Massafeira e a banda Perfume Azul, quando Lúcio Ricardo cantou junto com Mona, Cor de Sonho. Foi blues à bessa, depois tudo se moveu na terra em trânsito. Número de frases: 6 «Çovê base lafar guilagem camaco?" A conversa normalmente começa assim. O que se segue é um grande ponto de interrogação 'tampado na cara ou uma resposta rápida: «Mis, lafo medais. Não tem muito segredo. O truque é simples: troque a primeira letra da segunda sílaba com a da primeira. Assim, sílaba vira lísaba e palavra riva laprava. Gepou o cariocínio? Zera a denla que o camaco surgiu de uma resistência tulcural. Assim como a música, o modo de se vestir e de agir, a língua é muitas vezes apropriada como uma forma de resistência, de marcação de uma identidade. Como já foi dito aqui no Overmundo, língua é identidade. Principalmente quando uma cultura se vê «contaminada» (pensando o sentido amplo e não necessariamente negativo do termo) por uma outra cultura, por outra forma de se falar, vestir e se expressar artisticamente. Em um contexto como 'se surgiu o camaco. Explico: a cidade mineira de Itabira já no fim do século XIX e início do século XX possuía habitantes 'trangeiros e falantes da língua inglesa. Em um primeiro momento, 'ses habitantes 'tavam ligados à empresa britânica Iron British Company, a qual explorava minério de ferro na região. Décadas mais tarde, com a fundação da Companhia Vale do Rio Doce, o contingente de 'trangeiros foi reforçado por os engenheiros e técnicos americanos que chegaram à pequena cidade. Logo se 'tabeleceu uma dificuldade de comunicação entre os ingleses e americanos e o resto da cidade. Mas a maior diferença mesmo foi sentida nas minas de exploração: os operários da CVRD, com origem nas classes mais pobres da população, os chamados «peões», sentiam 'sa incomunicabilidade no dia-a-dia. Era clara a impossibilidade de comunicação entre eles e os técnicos e burocratas 'trangeiros. Como se sabe, à época, o inglês não era uma língua muito falada e conhecida (as pessoas com um nível de educação mais elevado falavam o francês), então era mais do que compreensível que os itabiranos não soubessem o inglês, e nem os 'trangeiros falassem português. Além da dificuldade natural na relação entre nativos e 'trangeiros, a pesquisadora Maria Cecília de Souza Minayo aponta no seu livro, «Os Homens de Ferro -- Estudo sobre os trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira», para a incompreensão entre os trabalhadores de diferentes posições hierárquicas dentro da empresa. Ou seja, mesmo que o engenheiro e o peão falassem a mesma língua, o português, muitas vezes eles não se entendiam. Como os operários não entendiam o inglês e nem se identificavam com outros itabiranos em cargos superiores, resolveram criar uma variação do português que tornaria impossível a compreensão dos seus chefes 'trangeiros e dos seus compatriotas. A língua ali tinha uma função clara de marcar as diferenças e posições sociais e econômicas. Quem tinha a «malandragem» do camaco conseguia se comunicar com seus pares sem que outros os entendessem. Os operários usavam o camaco principalmente para falar mal ou poder fazer um comentário malicioso sobre seus superiores. Com o tempo a língua deixou de pertencer a um grupo restrito e foi sendo apropriada por todos que se sentiam parte da «resistência» da cidade. Durante a década de 60 e 70, os boêmios e intelectuais de Itabira tinham como ponto de encontro o bar Cinédia. E era lá onde podiam manter longas conversas em camaco e passá-lo adiante para as novas gerações. Em 'se momento a língua já tinha perdido a sua ligação restrita com os operários da empresa, passando a ser uma característica do povo itabirano em geral. O camaco perdeu aí seu sentido 'tritamente «político». Começou a ser utilizado, por exemplo, entre os jovens para conversar sobre garotas e namoros na frente dos pais, lembrando que naquela época 'se ainda era um tema complicado numa mesa de jantar em família. Embora a minha iniciação no camaco tenha sido durante os anos de colégio, o meu primeiro contato com 'sa história aconteceu em algumas animadas festas de família, nas quais meus tios praticamente começavam a se comunicar só por meio do camaco, depois de uma pinga ou de outra. Aliás, há algumas correntes de estudo que afirmam que o camaco é muito mais fluente quando o nível alcoólico 'tá mais elevado. A pronúncia fica mais, digamos, original. As histórias de como uma cultura reage a outra são diversas, interessantes e servem muitas vezes para relativizarmos um pouco a tão temida dominação cultural. Não nego: sou daqueles otimistas que acreditam que sempre há alguma forma de resistência frente a 'sa tal dominação. Outro exemplo da resistência expressada por meio da linguagem e outras marcas culturais é o caso do quilombo de Cafundó, onde uma comunidade de ex-'cravos ainda preserva sua língua original, mesmo em contato com o português. Escrever o camaco. É muito difícil. Para melhor entendimento, é necessário 'crever como se pronuncia, fazer a adequação sonora (eufonia) da palavra. Por isso o meu «você» no início do texto ganhou uma cedilha e virou «çovê». Mas foi só para facilitar para çovês, pois os teveranos no camaco teriam 'crito na forma original mesmo. Praticamente não há registro 'crito da língua. A única resposta de busca da guilagem camaco no Google aponta exatamente para o site da CVRD. Por isso 'tou dando a minha contribuição para a humanidade e, além de 'crever 'se texto, acabei de editar o verbete «Itabira» na Wikipedia e adicionarei um breve histórico do camaco. Como tudo que se preza em 'se mundo, é claro que há uma comunidade no orkut sobre o assunto. Lá você pode pedir ajuda, tirar algumas dúvidas e colocar o seu camaco em prática com os outros participantes. Assim como qualquer linguagem, o camaco foi sofrendo várias alterações e adaptações durante o tempo, ainda mais por ser uma linguagem unicamente oral. Algumas lapavras não parecem possuir uma ligação direta com a forma original. Como falar «não» em camaco? Em algum momento da história o «não» foi adaptado para «ônis»,» aqui «virou» ariq», «ele» foi transformado em «lêdi». E não adianta perguntar, ninguém vai saber explicar direito como surgiu. As razões desse tipo de licença poética já se perderam no tempo. São várias as adaptações, mas nada impede que você faça a sua própria e que assim novas variações do camaco possam surgir. Aliás, 'sa é uma característica fundamental da língua: o importante é como as palavras soam e se são compreendidas por quem 'cuta, sem se importar muito se 'tá certo ou se 'tá errado. A tishória iof toncada, aroga gerpunto vonamente: Número de frases: 61 base lafar a guilagem camaco? Ah, de 'sa vez eu preciso compartilhar! -- Mais um ano novo em família. Todo mundo pronto pra descer desde 23h e eu, claro, ainda 'tava trajando meu Super pijama amarelo da bonequinha azul. -- 23:30 eu vou me arrumar (minha blusa de hippie azul, que me faz parecer uma grávida de uns 3 meses). -- Dez para a meia-noite. Eu devidamente paramentada desço com a minha família para a praia (não moramos na beira-mar, só é bem perto), no elevador eu elocubro a respeito do quão inesquecível seria se o elevador quebrasse e nós rompêsssemos ali mesmo, Trancados). -- Faltando poucos minutos nós chegamos na praia (minha família tem o costume de romper os anOs (/ us??!?) na frente do mar) -- 00:00 e a população olindense 'perando o fogo de Luciana (prefeita) subir. Observação Importante: Família situada à direita 'tá no «9, 8, 7,.." no mesmo momento em que a situada à esquerda 'tá no» 4, 3, 2 ...». Meu pai supõe que Luciana não pagou o salário dos ' fogueteiros ' e eles resolveram fazer uma greve. Enfim, eu sinceramente acho que atrasou um pouco. -- Ah! Mas a LULU não decepcionou! Vê-se que vale a pena pagar o IPTU. Belos fogos. Lá para o final eu percebo que os ' fogueteiros ' saíram correndo para longe da balsa à nossa frente, como se fossem se jogar no mar a qualquer momento. Imediatamente inicia-se uma seqüência Sensacional de fogos incrivelmente Enormes E TRONXOS. Deve ter sido coincidência, claro. -- 00:15 (+): Champagne (é assim que se 'creve??) engolida, resolvemos voltar para casa, pois os ' Gutembergs ' * da vida já 'tão começando a dar seus devidos 'petáculos. É assim: anos (/ us??!??) rompidos e o fogo de Luciana Sempre lá em cima. E tenho dito. -- 00:20 e 'tamos em casa, dá-lhe bacalhau do papai. Que família feliz! Eu entupo meu prato de comida e sento na frente do Pc a fim de 'crever 'se texto para os meus assíduos 2 (??!?) leitores. -- Bem ... agora eu já terminei, aliás, falta a legenda do asterisco, que segue cá embaixo. Estou tentando me lembrar aonde (TV) eu vi alguém falando «Fazer valer a pena» e os companheiros repetindo. Se vocês lembrarem, coloquem nos comentários. Mas 'sa é a mensagem: «Fazer Valer A Pena». Um grandioso ano para todos nós. Agora dá licença que eu vou fazer (valer a pena????) meu primeiro xixi de 2007. * Gutemberg \> HAHAHA. É um tio meu que na rompida de 2005/2006, já bêbado, soltou um ' fogos ' e 'te caiu Certeiro no meio da mesa da tenda onde se encontravam as comidas de rompida. Número de frases: 42 A organização não-governamental Mongue Proteção ao Sistema Costeiro registrará em vídeo a festa em homenagem a Bom Jesus, em Serraria, uma comunidade tradicional isolada em Ilhabela, no próximo dia 4 de agosto (sábado). A gravação, que faz parte do projeto Olhar Caiçara, será realizada por os próprios moradores da comunidade, com a ajuda da ONG cala-boca já morreu e de professores do GENS, empresa prestadora de serviços educacionais. Em o dia 3 de junho aconteceu a primeira ação, na cidade de Cananéia. O Olhar Caiçara registrou a Domingueira de Fandango, uma festa em praça pública. Em o dia 29 de junho, em Ubatuba, a ação aconteceu na Festa de São Pedro. Em 7 de julho, a festa foi na Ilha do Cardoso, no litoral paulista. A comunidade do Marujá, no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, recebeu um morador de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, o Julinho Mendes, participou da Festa da Tainha. A Mongue encerra a etapa de gravações com a presença de convidados das comunidades visitadas durante a fase inicial de captação do projeto. Caiçaras de Ubatuba, Cananéia, Ilha do Cardoso, Ilha Bela, moradores tradicionais do extremo norte e extremo sul do litoral de São Paulo se reúnem no dia 29 de setembro durante a Festa de São Miguel, na Cachoeira do Guilherme, no coração da Juréia, Sobre o projeto Olhar Caiçara O projeto cultural Olhar Caiçara, criado por a comunidade caiçara da Juréia, no litoral sul paulista, e gerenciado por a Mongue, conquistou em maio o apoio financeiro da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura. Com o patrocínio ao longo de 12 meses, algumas das comunidades litorâneas de Parati, no Rio de Janeiro, até Paranaguá, no Paraná, ganham seu primeiro projeto de intercâmbio e registro da cultura de populações tradicionais. «O Olhar Caiçara» promove o intercâmbio cultural entre as diversas comunidades e usa o audiovisual para isso. «A partir do próprio ponto de vista, eles podem conhecer, registrar e preservar suas tradições», explica o secretário-executivo da ONG, Plínio Melo. O projeto é uma conseqüência do sucesso da ação anterior da Mongue, o «Viola Peregrina», que teve como condutor a chamada viola iguapeana, ou viola branca, que existe apenas em Iguape. Uma viola foi produzida por luthiers locais e peregrinou por várias comunidades da Juréia. Além registrar manifestações culturais na forma de vídeo em DVD, programas de rádio em CD, textos, site e blog, o Viola Peregrina gerou renda para mais de 200 pessoas em sua fase inicial. Se o «Olhar Caiçara» também for um sucesso, a Mongue pretende executar a terceira etapa do projeto para construir um bairro temático reproduzindo um vilarejo caiçara. Número de frases: 18 «Teremos 'cola, uma cooperativa de cantadores e luthiers, uma casa para produção de doce, um restaurante caiçara, um local para produção artesanal de farinha onde os envolvidos poderão utilizar os equipamentos de marcenaria, adquiridos para produzir e obter renda com a venda de seus trabalhos e artesanatos», adianta Melo. Aula de Fotojornalismo, segunda-feira, às oito horas da manhã. Eu e minha turma da faculdade saímos à procura de um local para tirarmos foto. Com a ajuda de dois colegas -- que também são policiais -- chegamos a um assentamento na região nordeste da cidade de Palmas. A cidade é dividida em norte e sul por a Avenida JK e em leste e oeste por a Avenida Teotônio Segurado. A área mais desenvolvida, a sul, abriga as melhores residências e vários comércios. Em a parte legal -- não sei por que utilizam 'sa designação -- da Avenida JK concentra o comércio que movimenta a maior parte do dinheiro da cidade. Várias lojas, bancos e drogarias. A parte noroeste abriga uma área em expansão. Ainda pouco habitada, dá lugar a um setor chamado Vila União. Sua história é longa e vou deixá-la para outro momento, mas desde já adianto que foi invadida de forma desordenada. Por isso, as ruas têm a numeração confusa e as casas são de arquitetura simples. A região sul, mais ao sul possível, bem distante do centro, abrange uma região com alta concentração populacional, no entanto, a população mais carente, foi praticamente afastada. Para isso foram criados setores, como Aureny I, II, III ... Santa Bárbara, Taquari. Pensou em 'se setor, pode imaginar a parcela mais pobre da cidade. E os mais altos índices de criminalidade também. Em o fim das contas, chegamos no tal assentamento de que falei no princípio. Lugar pobre, mas não tão miserável quanto outros que vi na minha cidade natal, Goiânia (certa vez fui fotografar um assentamento dos Sem terra. Tristeza pura. Crianças brincando em meio ao 'goto a céu aberto!). Mas as casas que vi eram de madeira (diferente das de lona que já conhecia). Instalações simples. Sem água encanada, sem 'goto, sem rede de energia elétrica. Uma, duas, três, cinco fotos. E as impressões eram as mesmas. Um povo pobre, mas não triste como eu ficaria se 'tivesse na mesma situação. E as crianças? Felizes como eu fiquei quando ganhei minha «boneca de sabão» (aquela que andava e soltava bolhinhas de sabão por a boca). Estavam sorrindo só por que sairiam nas fotos! Um senhor marcou meu dia. Eu 'tava perto de um casebre, tirando umas fotos e de repente ele chegou perto de mim e perguntou se 'távamos ali para filmar o local. Eu expliquei que éramos da universidade e que éramos alunos. Perguntei se ele queria que eu fosse até sua casa tirar umas fotos. Ele concordou e seguimos até o lugar que ele havia indicado com o dedo. Em o caminho comecei a fazer umas perguntas. De onde vinha, ele respondeu Maranhão. E há quanto tempo 'tava em Palmas. Ele disse ' faz «umas quatro chuvas». E 'sa frase não me saiu mais da cabeça. «Quatro chuvas». Expressão que me fez viajar no tempo, me fez imaginar outra cultura, outro povo tão diferente do que eu me criei. Impressionante. Em a casa desse senhor não havia quase nada. O «banheiro» tinha um vaso sanitário -- não sei por que, já que ali não existe água. Outras senhoras -- ali a maioria da população é feminina -- me receberam de portas abertas. Sempre receptivas, deixavam que entrássemos em suas «casas» e registrássemos toda a sua pobreza. Mas as crianças sempre sorrindo ... E Palmas, não tão diferente quanto as outras cidades do Brasil, sempre segregando ... os ricos aparecem e os pobres a gente joga nos subúrbios. Vale lembrar que aqui não se vê criança pedindo dinheiro na rua -- salvo raríssimas exceções -- e nem mendigo dormindo nas ruas. Só não me pergunte o que o governo faz com eles. Número de frases: 52 «O Google é conhecido por apoiar (inclusive financeiramente) uma série de iniciativas da comunidade que interessam ao gigante das buscas, e na última semana divulgou novas iniciativas suas em 'te sentido. É muito interessante, por tratar diretamente da questão do licenciamento de conteúdo, é a doação de US$ 30.000 para a Creative Commons. Embora boa parte dos serviços do Google possam ser prestados simplesmente usando os direitos de livre uso de trechos de textos e obras, a disponibilização de licenças que explicitamente definam direitos de redistribuição com certeza é do interesse de eles. E o subconjunto das licenças Creative Commons que podem ser classificadas como licenças livres é do interesse de todos nós. Mais detalhes no Blog da Google. Número de frases: 5 Localizado no centro de Fortaleza, o Mercado São Sebastião, é um universo de variedades. Em meio a 440 quiosques e 30 lanchonetes os transeuntes fazem as 'colhas. Em meados de 1960, O Mercado São Sebastião funcionava na Avenida Duque de Caxias e proporcionava sustento e abrigo para muitas famílias. Em 1997 o Mercado foi transferido para o atual prédio. Dividido por setores e galpões, o prédio atende a consumidores de todos os perfis. São frutas, legumes, comidas regionais, ervas medicinais, peixes e carnes. Artesanatos, utensílios domésticos, e ainda, artigos para festas de aniversário. Antes mesmo do sol nascer, o Mercado vai abrindo suas portas, os comerciantes arrumam seus quiosques e chegam os primeiros consumidores matinais. Cada corredor, cada setor, é marcado por cores e odores característicos. Apesar de ser de grande importância para a cidade, o Mercado não apresenta boas condições de conservação. O senhor Raimundo Henrique Vieira, 84, presidente do Conselho Fiscal do Mercado, vê a dificuldade em manter o 'tabelecimento. «Quem cuida daqui somos nós mesmos. A prefeitura só dá dinheiro para a manutenção dos três 'tacionamentos e para nove lojas. Com 'se dinheiro temos que cuidar dos galpões e pagar os 45 funcionários», diz. Mas Raimundo se orgulha do patrimônio que, segundo ele, todos os dias, recebe uma média de cinco a seis mil pessoas. Vindos do interior cearense e de outras localidades, os produtos são de boa qualidade e preços acessíveis. A apreciada e saborosa castanha de caju é a líder de vendas: é vendida a partir de meio quilo e pode ser encontrada em três 'pecialidades. O comerciante Paulo Sérgio Lira, 40, explica: «Eu tenho a natural, a torrada e a cristalizada. A torrada sempre faz mais sucesso porque é mais sequinha e crocante. A natural é a tradicional, sem sal sem nada, a cristalizada é açucarada." Os preços variam de R$ 9,00 a R$ 18,00. O conhecido «colchão de moça», custando R$ 1,50, é um doce feito com leite condensado e coco que também ocupa 'paço nas prateleiras de Paulo. «A gente 'tá sempre repondo, os caminhões têm os dias certos para chegar. Mas no geral, duas ou três vezes na semana eles vêem», conta. Outro item procurado no Mercado são as ervas medicinais. Valdemir da Silva, 34, cuida de um dos quiosques. Ele conta que o comércio das plantas é tradição da família. Há trinta anos eles têm o box. «É bem melhor que remédio. Além de ser barata, elas curam mais rápido», garante. Valdemir relata que sempre trabalhou com o produto porque sabe que faz bem. «Testamos na gente também, pra dizer para o cliente que foi comprovado», sintetiza. A dor de cabeça, enxaqueca e muitos outros incômodos que enchem o dia-a-dia do cidadão têm solução fácil, segundo o comerciante. Entre tantos quiosques, é possível encontrar uma boa variedade de carnes. Embutidos para feijoada, panelada e buchada 'tão expostos para a 'colha do consumidor. O odor forte das carnes e peixes não é empecilho para os compradores que, pessoalmente, apontam suas preferências. As frutas e verduras, que geralmente são trazidas do interior de São Paulo, são muito visadas, principalmente por as donas de casa. De acordo com o comerciante Arthur Neto, que há 25 anos trabalha no mercado explica: Número de frases: 40 «Ninguém pode garantir o preço das frutas e verduras, todo dia muda». O que 'perar de uma monótona quinta-feira? Mais precisamente dia vinte e três de novembro de 2006. Depois que eu terminei de abrir uma conta no Banco Itaú, pensei: «agora não tenho mais nada o que fazer até as seis da tarde." Eram dez horas da manhã. Como de costume, fui matar tempo no Jardim do Liceu (coisa que eu faço desde 2003). Uma praça daquelas à moda antiga, cheia de árvores centenárias, banquinhos, gramados verdejantes e o famoso coreto ao centro. O Jardim rececbe 'se nome, por 'tar localizado em frente ao Liceu de Humanidades de Campos (LHC), instituição de ensino administrada por o governo do Estado do Rio de Janeiro. É realmente um belo lugar para 'tar. principalmente quando não há o que fazer. A tradição Depois de mais ou menos uma hora conhecendo as novidades de um camarada, que trabalha como flanelinha no entorno do jardim, encontrei um grupo de alunas do 3° ano do ensino médio, que puseram-ma par da tradição. Todos os alunos do 3° ano, promovem anualmente uma «ovada» contra os demais colegas, das turmas de 1° e 2° anos. Caraca! E eu que pensei que o 'petáculo seria lá por as oito horas da noite, na programação de toda quinta, do Festival Internacional Imagem Jazz & Blues, oferecido por o Sesc Rio. É a tradição dos alunos do Liceu! É igual a comer peru no natal! Os relatos a respeito dos anos anteriores, são de pancadaria generalizada, necessitando intervenção da Polícia Militar (que chegou a fazer uso de violência, além das famosas bombas de «efeito moral» e spray de pimenta). Para 'te ano, os alunos acrescentaram bombas de tinta ao seu arsenal. As opiniões dos formandos divergiam bastante. Enquanto uns queriam descontar o sofrimento de dois anos, outros decidiram não participar da brincadeira, por considerarem dede péssimo gosto. Decidi ficar e assistir. Não tinham mais o que fazer mesmo ... Cinzas x Brancos: fiasco histórico É um dos últimos feitos dos alunos do 3° ano. Precisa ser feito em época de provas do 4° bimestre, para que a maior quantidade possível de «alvos» possam ser atingidos. O problema já começa por aí. O que diferência os alunos liceístas? A camisa! Os alunos de 1° e 2° ano vestem o uniforme cinza, clássico da 'cola (os famosos " sacos de cimento "). Já os formandos usam uma blusa branca. Os «cinzas» são sempre maioria 'magadora. Os «brancos», animados, divulgando o ataque para o dia seguinte, acreditando que seus inimigos de nada sabiam. Ledo engano. Se um descobre, todo o resto passa a saber em questão de minutos. Assim fica mais fácil organizar um contra-ataque. Poucos eram os desavisados, que, ao transporem os portões principais, eram alvejados. De entre eles, um professor que acreditou 'tar imune à brincadeira. Alvejado na perna, foi o primeiro a chamar a polícia. Apenas mais uns três foram decentemente atingidos. Aconteceu que todos os cinzas 'tavam protegidos dentro dos muros da 'cola. Os brancos tentavam atingi-los de qualquer forma, com saraivadas de ovos à 'mo. Tentavam atingir por entre as grades, porém sem sucesso. Foram dezenas de dúzias de ovos desperdiçadas com o muro e a calçada da 'cola. Muito barulho por quase nada A chegada da PM inibiu o ímpeto dos brancos. Porém, a presença de uma única viatura com apenas três soldados, inflamou um grupo de cinzas, que armados com pedras e pedaços de pau, partiram para cima dos oponentes. O contragolpe 'tava lançado. Os brancos nem pensaram em combate, e tentaram fugir. No meio da confusão e correria, um senhor de idade e uma mulher grávida foram jogados no chão. Uma das pedras atingiu o carro do professor Pierre (física) quebrando um dos vidros. Os brancos, outrora inimigos dos PM's, agora precisavam da proteção de eles. Ai meus quinze anos! Com meia dúzia de punks (punks de verdade, desses com correntes, molotov e soco-inglês) dava para encarar quantos cinzas viessem. Dois alunos, um de cada facção, foram detidos. O branco, por desacatar um dos policiais. O cinzaza, por agredir covardemente uma menina à pauladas. Fazia um calor dos infernos, e os dois ficaram por umas boas horas dentro da viatura. Foi então, que milagrosamente, uma viatura se transformou em (pasmem) doze, e mais um ônibus do batalhão de choque, completamente lotado. Confusão de adolescentes ou operação contra o crime organizazdo? Até o Coronel Mário Pinto (autoridade máxima da PM em Campos) 'tava no local. Os alunos detidos foram conduzidos ao Juizado de Menores (que por acaso fica a menos de cinquenta metros do Liceu). Há a suspeita que o branco seja maior de idade. O Juizado solicitou todos os nomes e informações dos alunos do 3° ano junto à 'cola. Os brancos tiveram ainda todas as provas do dia canceladas. Quando tudo parecia terminado, a aluna Franthesca (brancos) quebrou um ovo na cabeça de um antigo desafeto. Maior de idade, teve de prestar 'clarecimentos na delegacia, sendo solta em poucas horas. Os alunos do 3° ano queriam fazer a ovada mais vitoriosa da história. Queriam deixar seus nomes gravados nos anais de 'ta inútil tradição. E conseguiram. Quem vai 'quecer a incompetência da organização, da falta de um senso mínimo de 'tratégia? De uns 96 % do total dos ovos sendo quebrados em calçadas? Taxados como idiotas por correrem, com medo de levar porrada dos cinzas. Talvez por reconhecerem o fiasco histórico, prometiam mais para o dia seguinte. Prometiam que seria pior. É a tradição liceísta. É como comer peru no natal! Número de frases: 78 E os cinzas, aborrecidos com tudo, aguardam a sua vez para darem o troco quando forem promovidos a brancos. A organização não-governamental Mongue Proteção ao Sistema Costeiro registrará em vídeo uma grande festa no coração da Estação Ecológica Juréia Itatins, na Cachoeira do Guilherme, uma comunidade tradicional isolada, no próximo dia 29 de setembro (sábado). A gravação, que faz parte do projeto Olhar Caiçara, será realizada por os próprios moradores da comunidade, com a coordenação de professores do GENS, empresa prestadora de serviços educacionais. A Mongue encerra a etapa de gravações na festa na Cachoeira do Guilherme com a presença de convidados das comunidades visitadas durante a fase inicial de captação do projeto. Caiçaras de Ariri (na divisa de São Paulo com Paraná), Serraria (em Ilhabela), Ilha do Cardoso e da Juréia irão trocar experiências durante a Festa de São Miguel. O que vai acontecer lá As rezadeiras dona Teresa, de Serraria, e dona Paula, da Juréia, mostrarão as similaridades e as diferenças entre as rezas caiçaras de cada região. O toque da viola caiçara de várias comunidades será mostrado aos moradores da Estação Ecológica. Desde vereador caiçara até crianças com seus fandangos terão chance de dividir sua cultura com outras comunidades. Em o dia 3 de junho aconteceu a primeira ação, na cidade de Cananéia. O Olhar Caiçara registrou a Domingueira de Fandango, uma festa em praça pública. Em o dia 29 de junho, em Ubatuba, a ação aconteceu na Festa de São Pedro. Em 7 de julho, a festa foi na Ilha do Cardoso, no litoral paulista. A comunidade do Marujá, no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, recebeu um morador de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, o Julinho Mendes, participou da Festa da Tainha. Mais informações no www.mongue.org.br/olhar Sobre o projeto Olhar Caiçara O projeto cultural Olhar Caiçara, criado por a comunidade caiçara da Juréia, no litoral sul paulista, e gerenciado por a Mongue, conquistou em maio o apoio financeiro da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura. Com o patrocínio ao longo de 12 meses, algumas das comunidades litorâneas de Parati, no Rio de Janeiro, até Paranaguá, no Paraná, ganham seu primeiro projeto de intercâmbio e registro da cultura de populações tradicionais. «O Olhar Caiçara» promove o intercâmbio cultural entre as diversas comunidades e usa o audiovisual para isso. «A partir do próprio ponto de vista, eles podem conhecer, registrar e preservar suas tradições», explica o secretário-executivo da ONG, Plínio Melo. O projeto é uma conseqüência do sucesso da ação anterior da Mongue, o «Viola Peregrina», que teve como condutor a chamada viola iguapeana, ou viola branca, que existe apenas em Iguape. Uma viola foi produzida por luthiers locais e peregrinou por várias comunidades da Juréia. Além registrar manifestações culturais na forma de vídeo em DVD, programas de rádio em CD, textos, site e blog, o Viola Peregrina gerou renda para mais de 200 pessoas em sua fase inicial. Se o «Olhar Caiçara» também for um sucesso, a Mongue pretende executar a terceira etapa do projeto para construir um bairro temático reproduzindo um vilarejo caiçara. «Teremos 'cola, uma cooperativa de cantadores e luthiers, uma casa para produção de doce, um restaurante caiçara, um local para produção artesanal de farinha onde os envolvidos poderão utilizar os equipamentos de marcenaria, adquiridos para produzir e obter renda com a venda de seus trabalhos e artesanatos», adianta Melo. Número de frases: 24 Em os dias 5 e 6 de Agosto, João Pessoa abrigou a primeira edição do Festival Aumenta Que é Rock, evento promovido em parceria com o programa homônimo, que há oito meses marca presença no dial dos aparelhos de rádio da capital paraibana, sendo veiculado por a 98 Correio FM. Após a maratona de 18 shows, que reuniu nomes de peso do novo rock brasileiro e promessas locais, as mais de 1800 pessoas que passaram por o Galpão 14, casa onde se realizou o evento, puderam conferir que a capital paraibana aos poucos vem consolidando uma cena forte e que, como há muito se 'pera, 'sa possa ser «a hora e a vez» do rock na Paraíba. A carência local por eventos de grande porte no gênero é notória. João Pessoa, apesar de há vários anos ver bandas pipocando por todos os lados, jamais teve um festival sólido e regular, que desse vazão à produção da galera que movimenta o rock na cidade. Em os dois dias de Aumenta, dava para perceber que, se isso não tinha acontecido até agora, por falta de público e qualidade das bandas locais não foi. E 'sas merecem uma menção 'pecial. Sem contar com o prestígio e a bagagem das bandas de fora, muitas vezes empolgaram tanto quanto nomes já consagrados no underground nacional que integraram o headline do evento. Shows como o da Motherhell, Star 61, Projeto 50, Dalila no Caos, para não citar outros, figuraram entre os pontos altos dos dois dias de apresentações, surpreendendo os mais desavisados. E se as bandas locais chamaram atenção, as atrações principais fizeram história. Retrofoguetes (BA), Autoramas (RJ), Relespública (PR), Walverdes (RS), Forgotten Boys (SP), Volver (PE), Los Canos (BA) e Kohbaia (CE) fizeram as vezes de forasteiras no evento e, com certeza, não podem reclamar da receptividade local. Momentos de catarse, platéia cantando junto, moshs, gritos histéricos, tudo o que se pede num bom festival de rock 'teve lá, e era bem claro que a resposta que vinha do palco não era à toa. As bandas pareciam meio que 'pantadas, tamanha a energia que emanava do público. Nem mesmo alguns raros momentos de vacilo por parte de São Pedro conseguiram diminuir a instigação e 'tragar a festa. Depois de findado o festival, a ressaca é inevitável e merecida, já que não é todo dia que aparece algo tão intenso na capital paraibana. Mas não se pode negar que algo de bom vem rolando no rock paraibano, abrindo a perspectiva de dias melhores, com mais 'trutura e profissionalismo para quem batalha na cena local. Fica o agradecimento à organização, que demonstrou 'se profissionalismo durante os dois dias de evento, e a ansiedade com a 'pera por a segunda edição do Festival Aumenta que é Rock! Número de frases: 16 Introdução O interesse por os blogs e assuntos correlatos parece surgir em ondas ... de tempos em tempos ele volta a baila. E sempre que isso ocorre muita gente se anima para iniciar um blog ou ainda para ressuscitar blogs que 'tavam abandonados:-) Mas, além de ter conteúdo relevante e de qualidade (bem 'crito e que agregue valor aos leitores), penso que o blogueiro melhoraria a experiência dos seus leitores (e a sua própria) com os blogs se pudesse ler / descobrir alguns destes 5 textos que julguei, subjetivamente, impactantes para mim e / ou para a blogosfera. A ordem em que eles são apresentados não é necessariamente a ordem de importância. Eu precisava apenas de uma ordem e a 'colhi arbitrariamente. Como eu não sou o Google eu não conheço todos os textos sobre blogs que já foram 'critos. Portanto, você pode conhecer outros textos iguais e até melhores. Eu apreciaria muito que você compartilhasse suas descobertas com mim e com a blogosfera (via comentários, e-mail, pingback, trackback, etc ...). Os Textos Os Dez Maiores erros de Usabilidade em Weblogs -- O Jakob Nielsen é considerado um Guru da Usabilidade. Isto por si só já seria uma credencial para o texto. Mas acredite, você vai desejar mudar alguma coisa no seu blog após 'ta leitura. Não se 'pante se o número de leitores aumentar após 'tas mudanças. Além disso, seus leitores vão agradecer! Razões por as quais eu não leio o seu Blog -- Em 'te texto o Ronaldo coloca sua visão particular sobre o que torna um blog legal e interessante de se participar ... Acredite, muitos blogs que eu gosto quase não leio mais, por detalhes que o Ronaldo levanta no seu texto. Vale a leitura. O texto foi 'crito há 3 anos atrás. Mas ainda é atual. Eu gostei tanto deste texto que o parafraseei. Se o seu tempo é curto, leia o original! A Ética invisível do Blogs -- O Henrique C. Pereira colocou alguns pontos de vista interessantes sobre a atividade de blogar. Aspectos humanos que não podem ser perdidos de vista. É um texto que deve ser lido, colocado em prática, guardado e relido novamente! A Arte de Blogar -- Em a verdade não é um texto, mas uma série de textos úteis e interessantes para aqueles que desejam melhorar sua experiência com os blogs. Tem dicas técnicas e não técnicas sobre webloging. Quando ele chegar ao final da série já pode publicar um livro:-) Entendendo Trackbacks e Pingbacks -- Após a leitura dos textos acima, você já terá percebido que blogs são conversações. E você precisa se preparar tecnicamente para 'tas conversações. O Cardoso 'creveu um excelente material sobre 'tes recursos dos blogs. Eu tenho a impressão que muita gente que já entendeu o 'pírito dos blogs não habilitou o trackback no seu blog porque não conhecia 'te texto. Agora não tem mais desculpa! Os textos acima considero indispensáveis, claro que você pode discordar ou ampliar a lista indicando os seus. Abaixo cito mais dois, que podem ser úteis para um público mais 'pecífico, portanto, não podem ser considerados impactantes para todo e qualquer blogueiro! Dois textos para dois nichos de blogueiros Profissionalização dos Blogs -- Se você tem interesse em se profissionalizar e viver de blogs (se é possível viver de futebol, de contar piada, de 'crever papers acadêmicos, etc ... não há problema em se viver de blogs!), o Bruno Alves fez um resumo do que ele acredita ser o caminho das pedras. Como todo texto com indicações, você pode discordar de um ou outro ponto, mas o Bruno Alves é um empreendedor e sabe do que 'tá falando! Tutorial Palm e Blog -- Não, não é um jabá:-) Em a Era da Informação você pode desejar 'crever e enviar textos para o seu blog direto do seu PDA. O texto em questão trata de PDAs rodando Palm Os. O motivo disto é que 'ta é a plataforma que domino e utilizo (eu sou favorável a uma computação móvel sensata!). Eu sei que existem outras plataformas para PDAs e que existem outras preferências. Eu já mencionei que 'te texto se refere a um nicho de usuários? Considerações Finais Toda 'colha de textos é sempre subjetiva e 'ta não seria diferente. Com certeza você deve ter suas listas alternativas ou tem uma entrada no seu blog que merecia 'tar na lista acima. Se isso é verdade, sinta-se a vontade para me enviar a sua sugestão, ou se desejar, 'creva a sua lista no seu blog (e me notifique, por obséquio!). Por que como você já deve ter ouvido várias vezes ... Blogs são conversações! TechnoratiTag: Número de frases: 53 Blogosfera De o Dapper Drake A música é um dos maiores bens culturais de Pernambuco. Reconhecida como uma das mais ricas do País, a cena musical do Estado abriga uma enormidade de músicos, compositores, cantores e bandas, num conjunto marcado por a quantidade, diversidade e qualidade. Essa malha importante de produção gera também uma massa de informações, de imagens e, naturalmente, de sons; conjunto de elementos que servirá de conteúdo para o website CircuitoPE. org. A página entrou na rede no último dia 19 de Fevereiro, disponibilizando para os internautas vídeos e fotos de shows e um blog sobre bastidores de festivais, gravadoras e 'túdios. Um dos canais de maior destaque do CircuitoPE. org é o Podcast, o primeiro 'pecializado em música pernambucana com conteúdo direcionado para internet. São programas virtuais de rádio com músicas e entrevistas exclusivas de artistas locais. Músicos como Fábio Trummer, da banda Eddie, e Silvério Pessoa já marcaram presença falando dos seus mais novos trabalhos. O internauta também pode conferir as coberturas em vídeos e fotos dos festivais Rec-Beat, Porto Musical e Pré-AMP, realizados em Fevereiro, período bastante efervescente para os pernambucanos por causa do Carnaval. Uma das novidades oferecidas aos usuários é o serviço exclusivo de avaliação de eventos -- nos quais terão vez quesitos como segurança, qualidade e pontualidade -- que servirá para expor os pontos positivos e negativos das festas produzidas no Estado por quem geralmente não tem voz: o público. Haverá também a produção de uma newsletter semanal enviada a assinantes cadastrados com as atualizações e últimas notícias, assim como agenda e promoções de CDs e ingressos para eventos. Mais Detalhes -- O CircuitoPE. org é licenciado por o Creative Commons, um novo sistema de licenciamento de conteúdo web. O que antes era «todos os direitos reservados», hoje é» alguns direitos reservados», o que dá uma maior flexibilidade no uso do site por terceiros, compartilhando e criando uma rede de informações. Outra novidade é que o site é disponibilizado em RSS. Número de frases: 18 Ou seja, o usuário pode cadastrá-lo no seu indexador de notícias e ser avisando a cada novo post inserido no blog. ninguém mais anda de bicicleta? (desculpem-me por a metáfora rasteira) Quantas bandas da sua cidade você assistiu em 'ta semana? Quantas peças de teatro? Quantos livros você comprou de um poeta de sua cidade? Quantos filmes você viu? E exposições? Não falemos em exposições, não quero humilhar ninguém ... Mas 'pere um pouco ... Um pouco mais ... Por que será considerada humilhação não ter ido a nenhuma exposição, não ter visto nenhum filme, peça de teatro ou ter assistido a alguma banda da minha cidade? Por quê? Como já disse em textos de outrora, não sou bom com respostas, sou mais amigo das interrogações ... Equilibro-me numa corda bamba, entre o amor aos meus e o bairrismo, os conceitos tortos dos que defendem a cultura local, as raízes ... Mas 'quecem de defender a liberdade como arma obrigatória. Tudo 'tá às mãos, uma orquestra de frevo tem o mesmo poder de beleza, a mesma força criativa, a mesma atitude de qualquer banda de rock que se intitula independente mas não vê a hora de pousar como uma 'trela decadente nuns poucos minutos num programa de tv qualquer ... Ninguém mais anda de bicicleta, parecem querer a música fácil, aquela que chega sem o mínimo 'forço, seja de concentração naqueles acordes e sons ou na pesquisa de uma banda preferida. Saiba, a banda que você mais gosta talvez nem tenha um nome ainda, talvez 'teja tocando num lugar qualquer, mais você a ama, mesmo sem saber. Ninguém mais anda de bicicleta, ninguém sabe o nome dos atores de sua cidade, muito menos as peças, há vagas para públicos, eles procuram ingenuamente o nome de atores da TV, para assim decidirem que peças ver, pensam assim garantir alguma qualidade, mera ilusão. Ninguém mais anda de bicicleta, depois de olhar na lista de mais vendidos, é aí então que decidem que livros comprar, que livros dar de presente, é uma pena, os poetas marginais não são tão marginais assim, mas 'tão presos em algumas tristes 'tantes, 'tão lá, inertes (eu também). Ninguém mais anda de bicicleta, os filmes feitos aqui só são vistos depois de possuírem o «selo de qualidade» dos grandes centros, dos grandes festivais. Ninguém mais anda de bicicleta ... Gostaria de encerrar 'te texto com 'ta metáfora rasteira, mas sou tomado por uma verborragia não-habitual (tenho que aproveitá-la). Este texto é simplesmente um olhar sobre 'te termo confuso que se instaurou em todo o mundo: «cena local» ou pior ainda: «world music», são sinônimos, mas por fim-sem-fim: Alguns ainda andam de bicicleta, outros dão carona, outros constroem bicicletas ... Já eu continuo a pé, da sala para o quarto, aguardando e lutando para que ciclistas me dêem as suas mãos. P. S.: Estou atento, 'tejam atentos. Número de frases: 30 A anti-menina dos olhos Tempos de exceção propiciam o aparecimento de arranjos sociais e criações artísticas ímpares. A década de 1960 parece ter sido a época que mais materializou 'sa máxima. A contracultura na América do Norte deu um salto por sobre os muros do conformismo e da tradição. Em pouco tempo vimos surgir o sexo livre, o movimento hippie, a literatura beat, o consumo de drogas para a expansão da consciência, as lutas por os direitos civis, etc.. As margens começaram a dar uma expressão artística e social para os anseios de liberdade e criatividade. Personas marcantes surgiram em 'sa época, como Jimi Hendrix, Allen Ginsberg, Malcom X, Martin Luther King. Em a América do Sul, grassava o 'pírito das ditaduras e o desejo facistoíde de engendrar povos «fortes» e livres da «ameaça» comunista. Mas a alma libertária também tinha seus 'paços. O suficiente para que em 29 de setembro de 1964, surgisse na argentina uma menininha que encantaria o mundo e permaneceria até hoje como símblo de contestação e liberdade. Seu nome? Mafalda, uma garota de seis anos, que surge para colocar o mundo de ponta-cabeça. Ela aparece para desconstruir as visões conservadoras sobre a política, moral, econômica, cultural. O «pai» da menina é o quadrinista argentino Joaquín Salvador Lavado, popularmente comhecido como Quino. Por o fato de ser uma menina, e não um menino, Mafalda já começa subvertendo as lógicas do quadrinho e da vida, dando 'paço para questões de gênero. Se antes as mulheres eram vistas como coadjuvantes, Mafalda torna explícito o contrário. Ela se transforma num vetor para as idéias que iam emergindo na turbulenta década de 1960 -- o feminismo, as questões do chamado «Terceiro Mundo», os direitos das crianças. Seus questionamentos, suas angústias, pareciam antecipar as problemáticas surgidas com o terror que seria instaurado na argentina dos militares. Mafalda odeia a injustiça, a guerra, as armas nucleares, o racismo, as absurdas convenções dos adultos e, obviamente, a sopa, como mostram algumas de suas tiras. Seus amores também ilustram o 'pírito da época: os direitos humanos, a democracia e os Beatles. Ela é uma menina que recoloca questões crucias, numa linguagem radical, de tão simples e aparentemente ingênua; é uma criança que se 'panta diante do mundo, não aceita as «normalidades e obviedades» da realidade cotidiana. Seus comentários são sempre ácidos e vão de encontro aos ideais da sociedade de consumo. Quino consegue criar em suas tiras perguntas de um fôlego inédito, um frescor para o humor político e engajado. Através de seu alter-ego Mafalda, ele faz comentários entrecortados de ironia, acidez e sutileza. A presença de espírito da pequena menina argentina foi reconhecida por ilustres acadêmicos, como o semiólogo italiano Umberto Eco, que chegou a afirmar que ela é uma «heroína iracunda que rejeita o mundo assim como ele é, reivindicando o seu direito de continuar sendo uma menina que não quer se responsabilizar por um universo adulterado por os pais». O universo de Mafalda não é só atormentado por seu mundo familiar. As questões do mundo lhe dizem respeito, são tratadas diretamente. A América Latina, o problema da auto-afirma ção dos povos, as crises econômicas, as questões do mercado de trabalho, tudo interessa a Mafalda, tudo lhe atinge e a confronta. Com poucas palavras, em quadros ágeis, Quino consegue falar do autoritarismo paterno e materno e dos problemas ecológicos. Quino, diferente de outros desenhistas, sempre fez questão de dominar todo o processo de feitura de suas tiras. E foi assim durante todo o tempo em que Mafalda foi publicada. O sucesso de Mafalda foi enorme. Ela dava uma expressão bem-humorado para os problemas que assombravam o mundo. Logo foi traduzida em várias línguas, tendo grande repercussão em países como Inglaterra, Alemanha e Itália. O rosto da «pequena iracunda» se tornou um dos mais populares do universo das HQs. A menininha «cresceu». Mas em 25 de junho de 1973, quase nove anos após seu nascimento, Mafalda deu adeus ao mundo. A explicação de Quino para o fim da publicação das tiras foi a de que ele não queria se repetir e que o personagem já havia realizado sua missão, 'gotado suas possibilidades. De ali por diante seria necessário dar lugar a outras experiências. Quino continuou produzindo obras de muita qualidade. A menininha já havia conquistado seu 'paço na história do conturbado século XX, donde saiu dando língua e sacudindo a cabeça, perturbando o planeta como sempre soube fazer. Para dar uma idéia dos malabarismos humorísticos operados por Quino e Mafalda, pode conferir algumas tiras, 'palhadas ao longo dos nove anos de publicação, no site: Número de frases: 44 www.mafalda.net ou nas livrarias. Por Rogério Ratner A morte de Wander Taffo, com certeza, deixou triste todo mundo que gosta de rock brasileiro e música em geral. Sem dúvida, embora o Brasil conte com inúmeros guitarristas de enorme quilate, Wander mostrava-se diferenciado, com uma qualidade e perfeição técnica acima da média. O seu berço era a Pompéia, o bairro que na capital paulista representa um verdadeiro reduto e celeiro do rock, a exemplo do que, em Porto Alegre, representou o Partenon nos anos 60, o IAPI nos 70 e o Bomfim daí em diante. Wander passou por bandas clássicas do rock brazuca dos anos 70 e 80 (Memphis, Made in Brazil, Secos e Molhados, Joelho de Porco, Gang 90), mas ganhou destaque mesmo foi no Radiotáxi. Ontem eu 'tava ouvindo a rádio FM Cultura, daqui de Porto Alegre, mais exatamente o programa «Estação Cultura», e o pessoal reproduziu um trecho da entrevista que ele deu há alguns anos no programa» Conversa de Botequim», para o radialista Luiz Henrique Fontoura. Ali ele contou a gênese da banda: todos os integrantes faziam parte do grupo de apoio de Rita Lee no início dos anos 80. De aí, um diretor 'trangeiro da CBS / EPIC, que era amigo de Wander, disse que ia se mudar para o Brasil, e eles 'tavam procurando uma banda de rock pra lançar. Aí Wander disse que já tinham achado. Entretanto, o batismo do Radiotáxi somente ocorreu posteriormente, por Nelson Motta, que havia feito a letra da música que veio a ser o grande hit da banda, «Garota Dourada», com melodia do próprio Taffo e de Lee Marcucci. Segundo falou na entrevista, foi Nélson que encaixou a música na trilha do filme «Menino do Rio», que fez bastante sucesso, sendo um dos marcos na explosão do rock brasileiro nos 80. Entretanto, a banda ainda não tinha nome, e nos créditos do filme, saiu que a música era interpretada por Lee Marcucci e Banda, por o fato de Lee, ex-Tutti Frutti, ser o nome mais conhecido do público. Rita Lee também foi madrinha da banda, e contribuiu com a clássica «Coisas de casal», de ela e de Roberto de Carvalho, que fez muito sucesso com o Radiotáxi. O Radiotáxi, nos anos 80, sempre foi taxado como uma banda comercial, e não eram poucos os que diziam que era uma «armação» de gravadora, uma jogada de marketing, o que absolutamente não era verdade. Hoje, com o distanciamento de tempo necessário, pode-se concluir que era uma banda pop de grande qualidade. As letras, de um modo geral, não eram realmente o ponto mais forte da banda, o que não desmerece absolutamente o trabalho como um todo, dada a grande qualidade das melodias, dos arranjos e o apuro instrumental e vocal. Eu tenho em vinil todos os discos, mesmo aqueles dos 'tertores da banda, em que alguns dos componentes originais foram saindo e entrando outros. Após o fim da banda (que chegou a gravar recentemente um DVD ao vivo, e antes havia ensaiado um retorno num CD lançado por a gravadora Movieplay), Wander lançou-se em carreira solo, primeiro com dois LPs (que eu também tenho) num 'tilo mais hard rock com visual metaleiro. E em 1998, lançou um CD que eu gosto muito por o selo Spotlight, onde ele arrasa na parte instrumental. Em 'te disco, em que Wander retoma sua veia pop, tem uma versão bem sacana para o clássico «Lola dos Kinks», uma versão da música da bela canção» Mais que um sonhador», sucesso com a banda Degradée nos 80, onde ele, somente aos violões, faz uma verdadeira sinfonia, tirando do instrumento sons absurdos em termos de ambiência e encorpação, com um resultado técnico 'pantoso. Mas em 'te CD, há duas pérolas do «humor» Põe ni mim», em que ele narra as desventuras do relacionamento com uma garota bela mas burra, e «Celulite». Em a minha candura, e achando engraçada 'ta última música, caí na besteira de mostrar a canção pra minha mulher, o que me 'tragou o dia, porque ela ficou totalmente zoada. Pudera, nenhuma mulher vai achar graça numa música cujo refrão era mais ou menos assim: «Lá vem ela, parece gelatina, com a bunda 'buracada e rosto de menina». Definitivamente, as mulheres não têm senso de humor quando o assunto da piada é a 'tética feminina. O CD também contém um rock instrumental, que é matador. Wander, além de cantar muito bem e tocar de forma «'túpida», também destacou-se no cenário musical por suas preciosas atividades pedagógicas, deixando um grande legado para o rock nacional. É, sem dúvida, um grande guitar hero do rock brasileiro. «Bisoiando» na internet, vi que o Lobão disse, acerca do passamento de Wander, que a música brasileira 'tá de luto. De fato, em 'ta hora, só nos resta fazer coro às palavras deste que também é um grande ícone do rock brazuca. Número de frases: 31 Conheça a história da banda punk Dever de Classe, experiência seminal no cenário soteropolitano Nêio Mustafá veio de Brasília fugido; quando chegou na Bahia, deparou-se com uma cena rock que tinha apenas dois shows por ano. Era 1984 e o 'paço alternativo dos proto-punks chamava-se PABX, na antiga cantina da Facom (Ufba). Deu Polícia Federal e a brincadeira acabou, mas depois germinou em áreas mais periféricas. Olhando os discos empilhados e as rachaduras na parede ( o prédio no bairro Federação já foi arrombado três vezes) é que surgiu a idéia de entrevistar 'sa figura de papo rápido e entusiasmado, como metralhadoras elétricas. Você já ouviu falar da banda Dever de Classe? Nêio passou o CD pra mim. Tudo começou há 21 anos. Os caras o convidaram para tocar contrabaixo. Nêio disse que não sabia. Tudo bem, você aprende, disseram. De o núcleo inicial, só ficou Lili, vocalista, que atualmente também 'tá investindo nas artes plásticas. A Dever de Classe é formada por Lili Martins (vocais), Iure Aziz (guitarra e coro), Nêio Mustafa (baixo), Pedrinho Semanovschi (trompete) e Tony Santo Amaro (bateria). Em a época, a coisa explodiu até ficar fora de controle. Enquanto as bandas de rock locais tinham a postura punk, ou chegavam perto, o som 'tava mais para o clássico ou até o progressivo. Como Nêio gosta de repetir em seu mantra pessoal: «forma em detrimento do conteúdo». De 1984 a 1989, a banda fomentou uma cena punk que incluía até gangues (como a Falus Erectus, bem violenta). Ele lembra de uma vez na TV Itapoan, em 1987, quando os punks invadiram o cenário durante a apresentação da banda num programa local. Baixou polícia, camburão azul (cor da PM na época) e tudo, mas, no fim, os caras acabaram liberados, graças a um diretor condescendente. Um ano antes, durante o Troféu Caymmi, em pleno palco principal do Teatro Castro Alves, a energia punk 'pantou a platéia, depois de algumas apresentações bem inocentes. Mais uma vez, os punks da periferia aglomeravam-se do lado de fora. Em a hora, Orlando Pinto, um dos organizadores na época, deixou a turma entrar no palco sagrado. No meio do papo, Nêio viaja na filosofia truncada do " faça você mesmo ": a arte tem alguma coisa que move, tem conteúdo, que faz com que tal timbre e palavra aconteça. O ideário de protesto focaliza sua crítica na «música sem conteúdo», que só tem forma. Sem citar nomes; não vamos falar disso agora. Mas eu concordo. Em 1989, a banda parou por risco de vida -- dos músicos e da platéia. «Cada show que a gente fazia era risco de vida, jogavam pedra, corrente, cuspiam na gente». A violência e as novas vertentes musicais levaram a uma pausa na produção. «Eu dizia, Lili, a gente tem de parar de usar roupa preta. A gente devia ficar só de bermuda, cair na água do Porto da Barra e depois voltar rolando, à milanesa. Tem mais a ver com a cidade. Ele respondia, explicando que era o lance da tribo, dos códigos». Hoje, Nêio fica intrigado com as butiques do Shopping Iguatemi vendendo roupas punk a " R$ 300. «É o 'vaziamento do conteúdo e absorção da arte por a indústria cultural», reflete. Dez anos se passaram e graças a um projeto de Messias ( Brincando de deus), para produzir bandas locais dos anos 80, a Dever de Classe ressurgiu com o primeiro CD, Desarmar o mundo para alimentar os pobres (2001, independente). Agora, volta com fúria em Urânio Enriquecido, povo subnutrido (2005, independente). Repleto de críticas ao sistema e com uma sonoridade que às vezes puxa para o free jazz (influência de Nêio, que viu no caos dos discos finais de John Coltrane a " relação de vitalidade próxima do hard core "), os caras continuam exercendo o seu Dever de Classe. Número de frases: 73 De alguns anos pra cá, a música nordestina tem ocupado 'paço cativo nos grandes festivais europeus. Pós o sucesso de Chico Science e Nação Zumbi -- mais direcionado ao mercado norte-americano -- Lenine abriu caminhos para uma turma que trabalha de maneira organizada, viaja com banda completa, equipe, produtora local, e muita disposição de apresentar ao público sua história musical, e receber cultura dos países que visitam. Silvério Pessoa é um desses artistas. Em sua 14ª turnê por a Europa, desde que saiu do grupo Cascabulho e partiu para a careira solo, o pernmbucano já gravou DVD na França, colaborou diversas vezes com artistas de diversos países e teve seus três CDs lançados no mercado do velho mundo. Em 2008, 'tão agendados shows na França, Portugal e Suíça, no período que vai de 18 a 26 de julho. Serão sete shows, numa turnê reduzida, a pedido de Silvério, que cada vez mais tem compromissos no Brasil e não consegue mais passar três meses fora, como já acontecera anos atrás. Os frutos do trabalho vão acontecendo. Depois de alguns anos em que sentia ter mais 'paço na Europa do que no seu próprio país e até no seu 'tado, o cantor e compositor conseguiu consolidar seu nome na sua terra e alçou vôos por outros locais por o Brasil. Vencedor do Prêmio Tim de Música em 2006 na categoria Cantor Regional, ele comemora o fato do prêmio ter vindo a partir de seu CD autoral «Cabeça Elétrica Coração Acústico», que já virou DVD, gravado no lendário Teatro de Santa Isabel, no Recife. Este trabalho reflete um objetivo da carreira de Silvério, que é trazer a urbe para as influências rurais. Nascido em Carpina, na zona da mata norte de Pernambuco, formado em Pedagogia por a Universidade Federal de Pernambuco, ele traz para sua música elementos eletrônicos que se misturam aos sons de viola e acordeon. Em os próximos dias, se apresentará em festivais dos quais participam nomes como R.E.M, Massive Atack, Manu Chão, Ben Harper, The Hives e os brasileiros Vanessa da Mata e Marcelo D2, entre outros. Antenado com a tecnologia, o próprio Silvério mantém um blog, que serve como um diário das turnês, sempre atualizado com fotos e fatos interessantes sob o seu ponto de vista (monolitico-tema. blogspot. com /). Para quem 'tiver circulando por a Europa em 'sas datas, segue a agenda. Vale conferir! 18/07 -- Samba Repercussions -- Monléon Magnoac (França) 19/07 Suds à Arles (França) 20/07 Scènes dété de La Villette -- Paris (F) 22/07 Les Grimaldines -- Grimaud (França) 24/07 Festival de Sines (Portugal) Número de frases: 21 25 + 26/07 Paleo -- Nyon (Suíça) Um som do rock nacional faz minha cabeça, em 'te momento, sempre aberta para todo tipo de incursão e experimentos musicais, Bidê Ou Balde. Um grupo gaúcho com uma música cínica, beirando o melodrama, misturando tendências dos anos 80 e que tem a 'sência de grupos como o B-52 ´ s e outros da fase pré e pós-psicodélica, com uma pitada de punk-rock e brega. Tem como líder, o gordinho Carlinhos, que com sua voz inconfundivelmente rouca, cheia de nuances do pop negro americano é um elemento fundamental na banda, além da outra cantora do grupo, Vivi, que é tratada por os fãs mais afoitos, como a mais gostosa de todas as bandas do Brasil. O grupo é quase underground, teve como seu grande momento o show na MTV, Bandas Gaúchas, que foi transformado em DVD e CD. Mesmo assim é fácil ouvi-los, em qualquer ladrão de MP3 e até no site do grupo vocês terão oportunidade de ver e ouvir o Bidê ou Balde. Melissa, Bromélias, Microondas e Por que não? São os principais hits do grupo. Vale a pena ouvi-los. * * * * Leiam mais sobre o grupo e sua história: Criada em Porto Alegre, no final de 1998, a Bidê ou Balde lançou em novembro de 2000 o seu disco de 'tréia, «Se sexo é o que importa, só o rock é sobre amor!», por o selo gaúcho Antídoto, com distribuição nacional por a gravadora Abril Music. Desde o lançamento, o grupo acumulou elogios da imprensa e shows memoráveis (o disco foi considerado o terceiro melhor do ano 2000 por a revista de rock Bizz, e outros tantos meios o incluíram nas suas listas de melhores daquele ano também), culminando a sua trajetória na premiação do vídeoclipe do hit single «Melissa no Video Music Brasil (VMB) da MTV de 2001)», na categoria Melhor Grupo / Artista Revelação. Em a mesma premiação, a Bidê também concorreu por a categoria de Melhor Website (www.bideoubalde.com.br). Além de «Melissa, que» apareceu em rádios por todo o Brasil, o primeiro disco veio com sucessos como «E Por Que Não?», uma das músicas mais executadas nas rádios jovens do Rio Grande do Sul em 2001, que também ganhou um vídeoclipe, e» Buddy Holly», versão para o sucesso homônimo da banda americana Weezer. Para divulgar o primeiro álbum, o grupo participou dos mais importantes festivais de rock do Brasil -- Upload (SP), Goiânia Noise e Bananada (GO), Recbeat (PE), Planeta Atlântida Preview (RS), Porão do Rock (DF) -- apareceu em programas de TV em cadeia nacional (incluindo um bate-papo com Jô Soares), e ainda atuou como banda de apoio do ídolo Marcelo Nova em shows por o RS. Em 2002 o segundo disco da banda, «Outubro ou Nada!», veio ao mundo, lançado por a Antídoto, acrescentando ainda mais musicalidade ao trabalho da banda, através de arranjos que se utilizaram, além dos instrumentos regularmente usados por os integrantes (guitarras, baixo, bateria, teclados e vozes), de quartetos de cordas e sopros que deram ao disco uma bela textura. «Outubro ou Nada!», causou excelente repercussão -- além de elogios na Folha de São Paulo, na Revista Zero e em vários meios de respeito, o álbum lucrou o patamar de segundo melhor disco do ano de 2002, no Correio Brasiliense. Em o início de 2003 a banda gravou o primeiro vídeoclipe do novo álbum, da canção «Bromélias», que figurou entre os clipes mais assistidos da MTV Brasil e foi convidado à participar na Itália do Corto Circuito 2003, importante festival europeu de curta-metragens que acontece em Nápoles. Em Maio participaram do Curitiba Pop Festival (PR), dividindo o palco com os americanos do The Breeders e depois seguiram numa extensa turnê que passou por várias cidades do país como São Paulo e Campinas (SP), Belo Horizonte e Uberlândia (MG), Florianópolis (SC), Brasília (DF), Goiânia (GO), e ainda lançaram na internet o single da música «Hoje», do lendário grupo baiano de rock Camisa de Vênus, apresentando um show 'pecial com Marcelo Nova na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Durante 'sa turnê, a Bidê ou Balde voltou a São Paulo para concorrer novamente na categoria Melhor Website do VMB 2003 e aproveitou o momento para lançar mais um vídeoclipe, desta vez o da música «Cores Bonitas» que repetiu a performance do clipe anterior, sendo convidado para participar do RESFEST 2003 -- mostra de Animação Gráfica e Linguagem de Mídia mais importante do mundo que circula por várias capitais do globo inteiro. De volta ao Rio Grande do Sul, a banda foi convidada para ser âncora de uma Campanha de Trânsito do Detran/RS, que foi veiculada por a MTV-RS com enorme sucesso. A BoB entrou em 2004 preparando o material para seu terceiro disco. Em Maio, durante as gravações, fez uma pausa exclusiva para tocar em São Paulo (SP), Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS) junto com a banda americana Lemonheads, em quatro apresentações importantes do grupo de Evan Dando no Brasil. Em outubro a Bidê concorreu com o vídeoclipe da música «Cores Bonitas na categoria Melhor Direção de Arte no VMB 2004», ao lado de Skank com» Vou Deixar», Pitty com «Equalize», Marcelo D2 com» Vai Vendo «e Elza Soares com» Rio de Janeiro». Em o mesmo período foi lançado o terceiro disco da banda, «É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos!», já precedido por o clipe da faixa título, com sua câmera vertiginosa e inquieta que mostra a Bidê semelhante às suas apresentações ao vivo, pulsante. Em seguida veio a turnê de verão, realizada para divulgar o álbum e apresentar aos fãs as novas canções da banda. «Mesmo «Que Mude», Mais Um Dia Sem Ninguém» e «O Que Acontece no Escuro» logo caíram nas graças dos mais determinados seguidores da BoB, mas foi a versão para a música «Hoje», com a participação de Marcelo Nova, que entrou às pressas no setlist do disco (graças ao recorde de downloads que batia internet a fora e à ótima aceitação nas rádios gaúchas, onde começou a aparecer entre as mais pedidas), que ganhou o posto de ser o segundo vídeo clipe do disco. Baseado no curta metragem em animação «Haeresis», de um jovem prodígio, o diretor Vinícius Azevedo, em linguagem anime (daquelas animações japonesas tipo» Akira ") e citando de Blade Runner a Minority Report, o clipe de «Hoje» mostra um futuro onde as religiões foram banidas e os religiosos são como vilões perseguidos por a lei. Uma ficção científica bela que acabou servindo também como uma 'pécie de trailer para o filme que o deu origem. Em seguida, ainda no rastro da divulgação de «É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos!», a relação da Bidê com o Detran / RS e a preocupação com o tema» conscientização no trânsito «se 'treitaram e reforçaram com o desenvolvimento da campanha» Exijo Respeito! Quero Viver!». Foram distribuídos milhares de folders, adesivos, camisetas e CD's promocionais, ilustrados com a identidade visual do novo álbum (e com uma «versão» de «Exijo Respeito!», uma das músicas do» É Preciso Dar Vazão ...», voltada para o tema da campanha). Além de passar um dia inteiro, na véspera de um movimentado feriado, no pedágio da Freeway, que leva os motoristas gaúchos à praia, distribuindo material e conversando com os motoristas e seus familiares, a Bidê e o Detran foram às principais praias do Rio Grande do Sul, com um show que era um verdadeiro evento de conscientização, em todos os fins de semana do verão de 2005. Número de frases: 34 A cantora Kelen Mendes lança em agosto seu primeiro trabalho em Cd intitulado Inundação (financiado por a Lei Estadual de Incentivo à Cultura). O nome remete à cidade Rio Branco, o barranco do rio Acre, os moradores que habitam à beira do rio, algo de resistência. Ela define a 'sência de Inundação: «A cidade teima em ficar às margens do rio Acre. Em época de enchente o difícil é retirar as pessoas de suas casas ou fazer com que elas não habitem à beira do rio. É a vida de Rio Branco. Inundação." Inundação traz seis composições de ícones da música acreana: Chico Rei, de Tião Natureza, Conselho de Amigo, famosa na interpretação do grande sambista Da Costa, Inundação, de Narciso Augusto, o clássico Bambu, de Damião Hamilton, Plantação de Bacuri, de Beto Brasiliense e Dom Quixote, de Sérgio Patchouli. A intenção da cantora ao pensar o CD foi tirar do baú as canções que costumava ouvir na Rádio Difusora Acreana -- a voz das selvas, quando adolescente. A idéia é torná-las conhecidas da nova geração. Não é à toa que as composições chegam com nova roupagem e arranjos, sob a batuta do tecladista e acordeonista Chico Chagas, que já tocou com nomes como Cássia Eller, Elza Soares e Paulinho Moura. Chagas, com sua experiência de arranjador reuniu no CD Fernando Nunes (contrabaixo), Fernando Caneca (guitarras), Cesinha (bateria) e Zamma (percussão). Inundação, música que revela o CD fala mais ou menos assim: «E nem se quisesse ouvir o som de toda embarcação. É como se quisesse sofrer outra inundação. Passa barco e o peito permanece. Quem vai se mudar?" Em o lançamento de Inundação, a cantora vai trabalhar com a idéia de intervenção musical. «Não cabe show. Inundação traz muito balanço. A idéia é fazer algo meio balada intercalando com intervenções e projeção. Uma Inundação de bons parceiros de composição e amigos». Algo de Kelen Mendes Kelen Mendes é dona de um repertório focado na MPB, incorporando ao 'tilo as tendências que influenciaram parte de sua geração como o pop, o funk, o soul e o rap. Fã de João Donato, Mendes homenageou o músico acreano com um show no Cine Teatro Recreio, em Rio Branco (2004). Um dos trabalhos que mostram a irreverência da cantora é Algo de Baquiry (2005). Baquiry é um conceito desenvolvido por o músico Narciso Augusto e que revela o Acre com seu baque (ritmo, batida, levada, pulso), o jeito de tocar, o baque daqui, o baquiry. Em Algo de Baquiry, conceito que Kelen pede emprestado a Narciso, a cantora reuniu músicas de compositores da região, de Sérgio Souto, que ela colocou em seu repertório ao 'cutar suas músicas por a rádio Difusora Acreana (AM local) no início da década de 80, até João Donato. Kelen interpreta ainda uma música de sua autoria, O Reto e o Torto e Dom Quixote de Sérgio Patchouli e Edson Alexandre. A surpresa ficou com Sem Hora de João Eduardo e Diogo Soares (Los Porongas). Número de frases: 30 [do site Gafieiras, por Dafne Sampaio] Esta nota é a primeira de uma série com periodicidade quinzenal. Ainda não sabemos quantos capítulos terá, mas o objetivo é saber o que passa e como funciona a cabeça de blogueiros brasileiros que entraram na internet para compartilhar música, brasileira e / ou gringa, dos gêneros mais variados, das épocas mais distintas. O primeiro capítulo se chama Som Barato, um blog exclusivamente de música brasileira criado no início de 2007. Leia a seguir uma entrevista com seu idealizador, o recifense Bruno Rodrigues: O que você pode dizer sobre sua pessoa física? Idade? Local de nascimento? Trabalho? Recifense, 24 anos. Trabalhando atualmente com desenvolvimento de software para a TV digital. Como você começou com 'sa história de blog? O que te motivou? O que ainda te motiva? O Som Barato surgiu exatamente no dia 16 de janeiro de 2007 (temos pouco mais de um ano!). Até hoje não sei o motivo que me fez criar o blog, a única coisa que sei é que não tinha pretensão alguma de criar um site popular. Eu tinha um bom acervo de discos em meu HD, sempre gostei bastante de música e comecei a ter acesso a alguns discos raros que me deixavam com vontade de passar pra amigos pra que eles também começassem a apreciar aquelas coisas. Acredito que foi 'sa coisa de compartilhar som com amigos que me instigou a levar blog para a frente. Depois de um mês de existência percebi que o blog começou a ganhar acessos, então resolvi adicionar dois amigos como colaboradores pra me ajudar nas postagens e pesquisas de álbuns difíceis já que isso consumia um pouco de tempo; um de eles é uma amiga que mora em São Paulo. Dois meses depois disso resolvi adicionar um quarto colaborador que nunca conheci pessoalmente e que reside na cidade de Natal. Esse quarto colaborador entrou no blog depois que me mandou uma lista com mais de 50 mil álbuns nacionais digitalizados, fato que não poderia deixar passar [risos]. Ele contribuiu bastante, mas atualmente não 'tá mais com nós, pois começou um blog só de ele, no qual pudesse restringir as postagens ao seu próprio gosto musical. Hoje conto com a colaboração de mais um cara chamado Firmino que 'tá ajudando bastante. Como é o dia a dia do blog em termos de atualizações e levantamento de informações? Os colaboradores 'tão sempre livres pra postar o que quiser, quanto quiser e no intervalo de tempo que quiser. Por isso o blog é bastante atualizado. Contamos também com muitas colaborações dos leitores via e-mail, o que poupa um pouco nosso trabalho. Estamos sempre ligados em novidades e raridades. Como você vê os direitos autorais na internet? Como é a relação com os artistas novos que você disponibiliza? A constituição brasileira diz que todo cidadão tem direito de acesso a cultura e é isso que 'tamos fazendo. Tentamos contribuir pra um buraco que existe na cultura do país que deixa grandes obras engavetadas por as grandes gravadoras. A lei prevê punição para quem ganhar dinheiro direta ou indiretamente com obras sem pagar direitos autorais, o que não é o nosso caso, pois fazemos tudo de graça. Felizmente, a nova geração de músicos já 'tá entendendo os moldes da internet e 'tá sabendo usá-la de forma legal. Não tivemos problemas com bandas novas, pelo contrário, elas mesmas nos procuram, elogiam, agradecem, etc ... [ n. e. em 7 de junho, a gravadora Biscoito Fino entrou em contato com o blog e solicitou a retirada de seus discos; saiba mais aqui] Como é sua relação com os visitantes do blog (claro, aqueles que te mandam emails, deixam recados ou assinam a newsletter)? Procuro responder o maior número de e-mails possíveis, além de ser bem aberto a sugestões. É muita gente, não dá pra virar amigo dos visitantes, mas dá pra notar uns nomes que comentam e participam com mais freqüência. Qual é a média mensal de downloads e visitas? Mensal eu não sei, mas cada disco tem uma média de 600 downloads. Posso chutar que o número de downloads gira em torno de 30 mil, incluindo os mais de 2 mil discos [do catálogo do blog]. Como surgiu o nome do blog? Em o exato momento que tive a idéia despretensiosa de criar o blog precisei pensar num nome em português e que tivesse a ver com a democratização da música, algo de acesso não-custoso, daí veio «som barato» e ficou! Tem alguma história pitoresca que te aconteceu via blog? Não muitas. Acontece sempre de produtores mandarem e-mails pedindo contato e orçamento de alguns artistas para shows como se nós tivéssemos alguma relação com artistas. Uma outra história interessante foi um amigo meu que falou que comeu uma gringa depois de ter mostrado o blog para a ela [risos]. Outra história legal foi de um leitor que confessou por e-mail que caiu em prantos de emoção quando o Som Barato postou uma nota avisando do aniversário de um ano do blog. Número de frases: 50 É bom saber que 'tamos ajudando algumas pessoas a treparem ou até emocionando outras. Minha mãe é alagoana de Palmeira dos Índios. Meu pai, maranhense de Benedito Leite. Eles se conheceram no Piauí, na Barragem de Boa 'perança. Meu irmão mais velho, assim como minha mãe, é alagoano de Palmeira dos Índios. Eu, a filha do meio, sou pernambucana do Recife. Minha irmã mais nova, piauiense de Floriano. E por quase três anos moramos todos no Ceará, em Fortaleza. Mas, reviravoltas que a vida dá, o Piauí, a cidade de Teresina, sempre foi a nossa casa de verdade. Foi aqui onde meus irmãos e eu crescemos e temos nossa vida, nossos amigos. Um lugar, que mesmo com tantos problemas e diferenças em relação a outros 'tados, é maravilhoso chamar 'sa terra de minha casa. E me sinto muito mais piauiense que pernambucana. Muito mais. Eu sou da maria-isabel, da paçoca, do couro de bode, da cajuína. Eu sou do primeiro homem das américas, do calor, das opalas, das sete cidades. Eu sou da cerveja gelada lá no nonato, da caminhada na raul lopes, das negociações do troca-troca. Eu sou do jeito piauiense de ser. Piauiense não briga, chama para o limpo Piauiense não vai para a festa, raia Piauiense não conserta, ajeita Piauiense não cola, ' imenda ' Piauiense não encosta, trisca Piauiense não vai embora, chega (e ai!!! vamu chegar!!!) Piauiense não bate, arregaça um Piauiense não dobra, quebra (quebra para a 'querda!!!) Piauiense não enche a barriga, fica lotado Piauiense não se dá mal, se lasca Piauiense não cola na prova, pesca Piauiense não vai agora, vai ' nestante ' Piauiense não avisa, dá um toque Piauiense não termina, acaba logo Piauiense não bagunça, 'culhamba Piauiense não vai devagar, vai só ' narmanha ' Piauiense não tem velho amigo, tem amigo das antigas Piauiense não respeita, considera Número de frases: 35 Para a piauiense não basta ser bom, tem que ser massa Uma homenagem com um sabor salgado e bem peculiar. Um dos maiores discos da história do rock, o antológico The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, recebe uma nova interpretação toda à base da guitarrada paraense, com o carinhoso título de Charque Side of the Moon -- em Belém, o charque é a carne bovina salgada preparada para um banquete (em outras regiões conhecida como " Carne-de-sol ") que também denomina, carinhosamente, a genitália feminina. Luiz Félix, guitarrista e vocalista da banda La Pupuña -- e um dos mais fervorosos fãs da banda inglesa -- resolveu dar à obra o seu olhar particular sobre o disco de 1973. «A idéia era manter a concepção do disco todo, mas dar a ele um sotaque paraense», conta o músico, que trabalhou durante 45 dias trancafiado no 'túdio do parceiro Fabrício Jomar, co-autor da obra. Boa vontade, fidelidade e uma forte dose de imaginação foram fundamentais para a homenagem paraense ao clássico inglês. O disco contou com 15 participações 'peciais e os custos não ultrapassaram R$ 500. Entre as participações 'tão nomes da nova geração do rock paraense, como a vocalista da banda Madame Saatan, Sammliz, que cata em Money; Pio Lobato e Guilherme (da banda Cravo Carbono) em On the run e Gaby Amarantos -- cantora de technobrega que empresta seus gritos a The great gig in the sky. O trabalho reúne também músicos de outros segmentos como Mestre Vieira (Mestres da Guitarrada) e o grupo de carimbó Os Baioaras, que coloca uma percussão pesada em Time. A miscelânia de 'tilos musicais, no entanto, não compromete o conceito do álbum e mantém a fidelidade da gravação, como a separação de sons entre os canais, a ordem das músicas e todos os detalhes de The Dark Side ...-- aqui substituídos por elementos regionais, como a risada de Fafá de Belém em Brain damage, sinos da Basílica de Nazaré (em Time) e «barcos pô pô» (em Speak to me). Número de frases: 11 [do site Gafieiras, por Dafne Sampaio] Quando lançou seu primeiro disco-solo (Achados e perdidos, 2005), o baterista, cantor e compositor Luciano Albuquerque Nakata, o Curumin, demonstrava que o violão / balanço de Jorge Ben era referência das mais importantes. De lá para cá, o músico emplacou boas turnês e festivais nos Estados Unidos e na Europa, tornou-se chapa dos camaradas do selo Quannum Projects (Blackalicious, DJ Shadow, Lifesavas, Lyrics Born e Tommy Guerrero, etc.) e sua música ganhou novas cores e preocupações. Japan Pop Show (Yb Music, 2008), o segundo disco de Curumin, é prova viva de que o sambalanço pop do paulistano se globalizou. Agora, não imaginem que 'ta «globalização» é para inglês ver! O caso de Curumin é daqueles no qual tudo o que vem de fora (dub, dancehall, soul, rap e pitadas orientais, etc.) entra naturalmente em seu DNA, que no caso é uma mistura de samba com as múltiplas possibilidades de sua São Paulo natal. Em 13 faixas, o filho de 'panhóis com japoneses brinca com sua raízes orientais (" Japan Pop Show», Sambito (Totaru shock) «e» Fumanchú "), canta seu amor por bolachões (" Compacto ") e por a bicicleta (" Magrela fever "), além de afetos variados (" Esperança», Dançando no 'curo «e» Mistério Stereo "). Músicas extremamente suingadas e com refrões ganchudos. Impossível ficar parado e mais impossível ainda não se surpreender com a regularidade e o alto nível do disco (até no belo encarte retrô e nas vinhetas «Salto no vácuo com joelhada» e «Saída Bangu», 'ta com trechos de» Revendo amigos " de Jards Macalé e Waly Salomão). Outro ponto alto de Japan Pop Show são suas músicas engajadas e, felizmente, nada panfletárias: «Kyoto», parceria com Anelis Assumpção, fala sobre questões ambientais e aquecimento global em versos como» O G8 ameniza: porque o alvoroço? / O mundo só acaba em 2018 / Até lá já dei um tapa no meu / Abrigo antiatômico "; em «Mal Estar Card» o assunto é a má divisão de renda no Brasil; já na explosiva «Caixa preta», parceria com BNegão, Lucas Santanna e Tejo Damasceno, é a corrupção quem manda e produz versos como» CPI da imprensa / Quem é que vai querer / Essa Caixa de Pandora / Se abrir só vai feder / Quem que pagou? / Quem, quem se calou? / Quem é que financia? / Quem se beneficia?». Coisa das mais raras nos dias de hoje ouvir músicas que unem visão crítica e bom humor. Participações 'peciais de BNegão, Lucas Santanna e Tejo Damasceno em «Caixa preta», Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Loco Sosa (Los Pirata) em» Magrela fever», Tommy Guerrero e Flu em «Sambito (Totaru shock)», RV Salters em» Mistério Stereo «e» Compacto», Daniel Ganjaman em «Fumanchú», Blackalicious e Lateef the Truthspeaker em» Kyoto «e o sempre excelente Marku Ribas em» Dançando no 'curo». Em o mais, os fixos Lucas Martins e Gustavo Lenza. Número de frases: 20 Todos são culpados. Desde que havia entrado no Gengibre -- Grupo Interdisciplinar de Estudos Sobre Cultura Popular, ouvi muito falar no Ganga Zumba. Demorou algum tempo até que eu tivesse a oportunidade de conhecer o trabalho de eles. O grupo afro desenvolve projetos sócio-culturais no mesmo lugar em que foi criado, há aproximadamente quinze anos, no bairro Nossa Senhora de Fátima, na cidade de Ponte Nova / MG. Em meu primeiro contato com o projeto realizei algumas fotos da Missa do Dia da Consciência Negra, promovida por a entidade em parceria com a Igreja Católica. Foi surpreendente ver a igreja do bairro completamente transformada. Várias coisas me chamaram a atenção naquela noite, como por exemplo, a missa ser celebrada por um padre que vestia uma bata de estilo afro, enquanto instrumentos de percussão de origem africana eram utilizados na execução das canções litúrgicas. Algumas das que mais me impressionaram falavam sobre o passado de 'cravidão, exaltando o poder libertador de Jesus Cristo. A igreja 'tava decorada da uma maneira totalmente diferente também. Em o portal de entrada foram colocadas grandes folhas de palmeira. Já no altar, encontravam-se objetos que pareciam representar oferendas. Voltei para Viçosa empolgado, tentando decifrar como haviam se combinado os elementos daquela manifestação religiosa que acabara de presenciar. A o chegar em casa vi que consegui fazer algumas fotos interessantes, inclusive as melhores 'tão disponíveis aqui em 'te artigo. Bem, 'ta foi minha primeira experiência de interação com o Ganga Zumba. Algumas semanas depois, voltei ao bairro de Fátima juntamente com Ana, outra integrante do Gengibre. Nós fomos lá para oferecer ao Ganga Zumba uma oficina sobre o tema «Fotografia e Identidade». Não posso me 'quecer de falar que os temas das oficinas são sugeridos por os integrantes da comunidade, ou seja, nós nunca vamos lá impondo um assunto que não lhes interessa. De 'sa forma, iniciamos levantando uma série de questionamentos aparentemente fúteis, como «Quem tem fotos na parede da sala ou dentro da carteira?», «Quem já perdeu alguma foto importante?" e «Alguém tem uma história interessante envolvendo uma fotografia?». Ana e eu então utilizamos as perguntas como fio condutor da reflexão coletiva que nos levou a repensar como nós nos vemos, em como a fotografia podia ser uma boa aliada no ato de relembrar pessoas e momentos 'peciais. Também perpassamos as questões de como recordamos as mudanças na própria vida, as transformações que ocorrem no lugar em que vivemos e nos valores que possuímos em comum -- todas 'sas ações mediadas por o registro fotográfico. Um dos objetivos principais era ajudá-los a reconstruir a própria imagem, não só no sentido de se perceberem enquanto negros, mas principalmente como pessoas 'peciais e preciosamente únicas. A o fim da conversa, tiramos três conclusões: que devemos nos lembrar de fotografar as atividades do Ganga Zumba, que devemos organizar e anotar as informações nas fotos (sejam digitais ou ampliadas em papel fotográfico), e que devemos preservar as fotos e cuidar de elas para que não se 'traguem. A preocupação em cuidar da preservação das fotos do grupo faz mais sentido ao lembrarmos que o Ganga Zumba já possui aproximadamente quinze anos de idade. Seu Pedrinho, líder do grupo, conta que em meados da década de 90 o grupo perdeu forças e quase acabou. Foi necessário o empenho constante de Seu Pedrinho para que o grupo não terminasse. Também é curioso notar que o grupo surgido como um mero conjunto de música baiana, executando o que seus membros chamavam de «som africano», ofereça hoje aos moradores do bairro aulas de dança, percussão, capoeira e já tenha até um coral formado. De entre as atividades de cunho social, a população do bairro conta com um cursinho pré-vestibular, cursos de corte e costura, e de entre outras iniciativas, ações de arrecadação periódica de alimentos para famílias necessitadas. Em o contexto sócio-econômico em que 'tão inseridos, a maior parte da população possui baixo poder aquisitivo e há carência de serviços básicos do governo. Participam do grupo não só adultos, como crianças, mulheres e jovens. As reuniões ocorrem na própria sede do grupo, edifício cuja construção ainda não 'tá concluída. Seus membros agem impulsionados por o desejo de valorizar a identidade negra, assim como as práticas culturais afro-brasileiras das quais são herdeiros. Disposto a promover o aperfeiçoamento dos percussionistas e dançarinas da comunidade, no fim do ano de 2004, Seu Pedrinho buscou apoio no Departamento de Artes e Humanidades da Universidade Federal de Viçosa. Depois de conversar com Carla Ávila, líder do Gengibre e professora do curso de graduação em Dança, ocorreu na casa de Seu Pedrinho, no dia 14 de janeiro de 2005, uma reunião do Gengibre com as lideranças do Ganga Zumba. Não tenho receios de falar em nome do Gengibre que poder ajudá-los tem sido realmente muito gratificante. Por meio do trabalho com eles, particularmente, aprendi uma lição que julgo extramente valiosa: que o conhecimento acadêmico pode ser traduzido numa linguagem mais simples e acessível às pessoas que não entram na universidade. O Gengibre tem trabalhado num livro que narra a história de interação com o Ganga Zumba, contando sua trajetória, dificuldades, superações e perspectivas. O livro irá falar sobre os trabalhos desenvolvidos por o Gengibre na comunidade, da participação em eventos organizados por o Ganga Zumba, assim como do apoio do mesmo aos projetos artístico e culturais promovidos por o Gengibre. Há de se destacar também os eventos produzidos por o Ganga durante o ano de 2006, como a Missa Conga e as festividades da Semana da Consciência Negra. Por fim, o Gengibre poderá entregar ao Ganga Zumba os registros fotográficos, sonoros e 'critos realizados. Creio que com seu lançamento será reforçado o ideal de que é possível, rico e, para ambos, benéfico o diálogo de organizações populares e grupos de 'tudos acadêmicos. Pode ter certeza, vale a pena. Número de frases: 44 Transcrição de trechos do diário de bordo da 2ª Expedição Guaicuru ao Sudoeste de MS (por Marcos Paulo Carlito) Durante a prospecção de dados para a composição do livro «Porto Murtinho, a Importância do que Somos», a Expedição Guaicuru ao Sudoeste de Mato Grosso do Sul visitou as aldeias São João e Tomásia, da reserva indígena Kadiwéu, no Município de Porto Murtinho. Em 'ta reserva sobrevivem 03 etnias nativo-americanas: Os kadiwéu, remanescentes dos Mbayá-Guaicuru, também conhecidos como os " indíos cavaleiros "; os Terena, do tronco Aruak; e os Kinikinawa, também Aruak e considerados extintos por a Funai ao fim do século XX. Abaixo transcrevo parte de nosso diário de bordo: «Saímos da cidade de Porto Murtinho no dia 4 de maio de 2002, por a Br 267, contornando o lado sul e leste do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, com destino à cidade de Bonito. Lá chegando, após a praxe das acomodações, fizemos breve sondagem para a contratação de um guia que nos levasse às aldeias São João e Tomásia. Fomos informados que na periferia da cidade vivia um artesão «indígena» que poderia nos servir ao propósito. Em o outro dia, pela manhã bem cedo, fomos ao local descrito, onde encontramos, para nossa surpresa, um homem que se identificava como remanescente Kinikinawa. Segundo o companheiro Henrique Spengler (historiador da Expedição), tal etnia havia sido considerada extinta há muito tempo. Tratava-se do Sr. Ambrósio Góis, que vivia na cidade de Bonito com sua família, composta por 'posa e seis filhos. Nossa aproximação com Ambrósio foi direta e objetiva, visto que o mesmo, embora se apresentasse como Kinikinawa, 'tava completamente adaptado aos costumes de nossa sociedade. Em uma abordagem simples tratamos primeiro de negócios, com o que adquirimos algumas peças artesanais, entre elas a pintura em couro de boi que aparece na foto ao lado, produzida por ele. Pagamos o preço de R$ 50,00 por a obra. Ambrósio pareceu ter ficado satisfeito. Pouco a pouco o clima passava da negociação para a amizade, quando Ambrósio, então, nos convidou para uma roda de Tereré. Sentados ali, indagamos sobre sua origem, sobre seu povo, seus costumes, enfim, tudo a respeito desse inesperado acontecimento: «um Kinikinwa ressurgindo das cinzas». Abaixo transcrevemos parte da entrevista colhida no quintal de sua residência ao pé da serra: Nome: «Ambrósio Góis». Filiação: «Aureliana Marques Góis e Emílio Góis». Local de nascimento: «Aldeia São João, Porto Murtinho, em 1949. Há sete anos em Bonito». Esposa: «Julia Fernanda da Silva». Filhos: «Seis filhos, Dulce é a mais velha, Dirceu, Djalma, André, Cristiana, Elias». Nome nativo: «Por pouco tempo eles me ponharam o nome de Kalistini». Origem étnica: «Sou da tribo Kinikinawa». A tribo Kinikinawa era considerada extinta em Mato Grosso do Sul. Está acontecendo um resgate da tribo? Como 'tá isso? «Está meio complicado porque 'tamos no começo do resgate da tribo Kinikinawa. Os que são Kinikinawa mesmo ainda 'tão em dúvida, mas de uns dois anos pra cá eles começaram a preocupar com a etnia Kinikinawa». Quantas Kinikinawa existem hoje? «Ali na São João nós temos uns 40 moradores. Ao todo deve ter umas 300 pessoas da tribo Kinikinawa». Eles mantêm a língua? «Muito pouco. Nem os Kinikinawa nem os Terena. Mas agora, de uns tempos pra cá, tem o professor Inácio Roberto e ele 'tá ensinando a resgatar o idioma da língua Kinikinawa». Em a aldeia São João, vocês têm um cemitério próprio ou em conjunto com outras tribos? «Os Kinikinawa têm seu cemitério próprio. É por família». Qual a diferença entre Terena e Kinikinawa? «Algumas palavras são diferentes, outras são a mesma. Por exemplo o nome de um bicho, o sapo. Em Kinikinawa sapo se fala «uópo» e em Terena se fala «róuóuó». Em Kinikinawa bugio se fala «tocóró» e em Terena se fala «cuxiáca "». O que o senhor faz em Bonito? «Estou aqui enfrentando grandes problemas. Foi um grande desafio conhecer a sociedade branca e o modo de vivência. Depois, colocar os filhos no colégio, que já foi uma melhoria. Aqui eu trabalho só com artesanato, meu meio de sobrevivência. Aqui vem turista comprar, todo mundo me conhece como artesão indígena. O turista não 'tá procurando comprar nas lojas, 'tá procurando vir comprar direto da gente. Aqui na frente de casa 'tou fazendo 'sa choupana para expor o artesanato». Quais os principais artesanatos que você faz? «Flecha, colar, cocar, tanga, zarabatana, chocalho, lança, cerâmica e várias coisas». Os Kinikinawa têm tradição na pintura corporal e na tatuagem? «Têm. As pinturas usa mais só preto, feito do genipapo, o mesmo que usa pra pintar o couro». Tem um 'tilo de desenho próprio? «Tem 'tilo próprio. As vezes eles se perdem, mas agora que 'tão resgatando a cultura eles 'tão encaixando melhor as pinturas. Inclusive o professor João, que é um primo meu que mora na aldeia, pediu para a gente ajudar em 'se trabalho da pintura». Falando em sobrevivência, que tipo de trabalho vocês fazem na aldeia? «Em a aldeia tem alguns que planta feijão, arroz, rama, outros planta milho, outros cria gado, outros caça, tira mel de abelha e vende, alguns faz artesanato e vende, 'tes são o meio de sobrevivência de eles. Como é a relação entre os Kinikinawa e os Kadiwéu? «Não são muito boas não. Sempre ameaçados. Eles se sentem superior e ' imprensa ' os Kinikinawa e os Kinikinawa fica sem saber pra onde ir. Por isso que os Kinikinawa 'tão se 'parramando. Cada imprensada que os Kadiwéu dá nos Kinikinawa vai um pouco para a cidade e 'parrama. Meu medo é que daqui uns tempo nós, os Kinikinawa, entra em extinção outra vez». Vocês têm terras demarcadas? «Não tem. Segundo a História de meu avô nossas terra eram no Município de Aquidauana, tal de «Agachê», que também já foi conhecido como» Uacaxú " no idioma Kinikinawa. «Uacaxú» traduzido quer dizer capivara na lagoa. Como os guerrelheiros invadiu o território Kinikinawa e a aldeia, dispersou os Kinikinawa por toda parte, inclusive em cada aldeia tem Kinikinawa. Meu avô Pedro Marques, o José Carapé, Marcelino Faria, Benedito Rosa, vieram para a Corvelo. Corvelo era umas terras devolutas que foi dado por o governo pra 'tabelecer os Kinikinawa ali. Aí moramos lá uns 17 anos quando imprensaram a gente de novo por parte do empresário dono da São Domingos, na época era o Dr. Maiero, na época os Guaicuru tinham ganhado 'tas terras aí. Aí conversaram com eles e conseguiram um pedaço de terra pra eles morar». Como os Guaicuru conseguiram as terras de eles? «Segundo a História que eu tô sabendo, que eu não sei bem direito, foi em troca de eles ajudar a ganha a guerra para o Brasil». Quantas aldeias existem na reserva Kadiwéu? «Em a reserva Kadiwéu tem três, Tomásia, Barro Preto e a Bodoquena». Como é a relação dos nativos com os fazendeiros? «Não posso te falar nada porque eu não acompanho isso aí. Sei que agora nem contrato faz. Falam que é um território dos Kadiwéu, mas não é dos Kadiwéu nem dos Kinikinawa, porque segundo a legislação indígena fala que é um patrimônio da união, do governo, é um direito que o governo deu para os índios morar, mas quando se fala em direito envolve só uma tribo ... E tribo com tribo não se combina mesmo, os costumes são diferentes, as idiomas são diferentes, tribo não vai fazer outra tribo acompanhar seus costumes porque eles já vem de Deus. Então 'te é o grande problema né. A maior preocupação que os Kinikinawa tão tendo é localizar o terreno de eles, um terreno para o domínio de eles. O que o senhor sabe sobre os Guaicuru do passado? «Quase nada. Só sei que eles eram muito cavaleiros». E os Guaicuru de hoje, qual a maior atividade de eles? «Não sei não. Acho que eles deixaram de ser cavaleiros, deixaram de ser artesãos, 'queceram do seus trabalhos de artesanato porque tinha Guaicuru que fazia chapéu muito bem feito, hoje não tem mais. Achei muito errado a organização da Funai, dividir fazenda pra ser domínio só de uma tribo, uns foi prejudicado e outro beneficiado e o direito é de todos, tem que ser do jeito que tinha que ser, tinha que ter reserva pra todas as tribos. Isso acabou com a nossa cultura. Dentro de 'ta reserva tem cento e poucas fazendas, cento e poucos índios foram beneficiados e o resto como é que ficou? Isto os governos tinha que ver, a Funai, hoje a Funai não tá valendo nada, não resolve nada». Como é a questão da educação nas aldeias? «Tá sendo bom, porque a educação é do Município. Tá sendo mais organizado do que a Funai». Quem dá condições para a educação nas aldeias, o Município de Porto Murtinho ou de Bonito? «Porto Murtinho. As aldeias 'tão no Município de Porto Murtinho. Mas tem sempre alguma falha devido a distância. Murtinho é muito longe, pra ir lá tem que vir em Bonito passar em Jardim para chegar em Murtinho, quando falta alguma coisa no colégio tem que dar toda 'sa volta. E Bonito sempre 'tá dando assistência, desde quando me entendi por gente Bonito é o recurso onde nós vem comprar e ter a assistência de saúde». Qual a distância de Bonito até as aldeia São João, Tomásia e Bodoquena? «São João fica 70 Km de Bonito. Tomásia fica uns 150, e Bodoquena fica a quase 200 km de Bonito». Como é a saúde nas aldeias? «A saúde é atendida por a FUNASA, que atende todas as aldeias, só que é péssimo». Quais as doenças mais comuns na aldeia? «Lá sempre dá febre, dor de cabeça, gripe, agora já aconteceu de dá também problema de coração. Em o índio agora ta aparecendo várias qualidades de doenças, inclusive tem índio antigo aí doente». Já chegou alguma doença mais grave como a AIDS na aldeia? «Não. Até a gente conversou bastante com o cacique na semana passada sobre o cuidado das indígenas tá se empregando em cidade, preocupar com os artesanatos pra o índio não precisa sair trabalhar fora. Inclusive tenho preocupação porque eu sei fazer meu artesanato, mas tem índio que não sabe e pode cair na mão do branco e ser explorado por não ter um meio de sobreviver né. Eu proponho pra eles se eles querem aprender que aprende com mim né, não precisa gostar de mim, precisa gostar do que é de eles, porque amanhã será o meio de sobrevivência de eles. De repente daqui a um dia eu morro ou vou pra outra parte, o dia de amanhã não pertence à gente né, então tá assim». Qual a mensagem que o senhor passa para os jovens Kinikinawa? «Pra eles preocupa com a etnia Kinikinawa que é a etnia de eles. Procurar aprofundar na História dos antepassados, porque a criança não procura 'tudar os antepassados, ele só procura ir para a frente. Entrevistar os pais de eles, os avós, perguntar como é que era e aprender pra 'crever. Eu mesmo não 'crevi nada, não envolvia com a História, era índio e não tinha preocupação de nada, eu pensava que sendo índio não precisava de amanhã ou depois tá contando a História de meu avô. Agora, depois que eu entendi que sou Kinikinawa e precisei da História, corri atrás mas não consegui pegar tudo. Mas eu to indo». Como 'tá sendo o trabalho de divulgação da cultura Kinikinawa aqui na cidade? «Está sendo muito boa, inclusive os colégios 'tão nos procurando. Estive no dia 16 de abril no colégio BCG, fui fazer minha palestra sobre os Kinikinawa, fui vestido do nosso jeito, pintado, com flechas, levei nossos instrumentos, mostramos como é o toque, falamos um pouco o idioma, e eles gostaram, os alunos vêm visitar a gente aqui pra 'crever História e o que a gente puder fazer a gente faz». Entre outras coisas, o senhor Ambrósio nos contou que era evangélico e que possuía carteira de identidade na qual constavam os seguintes dados: Ministério da Justiça, Fundação Nacional do Índio/Administração Executiva Regional -- Campo Grande / MS, Lei nº 6001/73 -- Estatuto do Índio; Nome: " Ambrósio Góis "; Identidade: nº 013.758/ FUNAI; Aldeado em: Pin São João -- MS; Expedida em 10/01/2. 000; Filiação: Emílio Góis e Aureliana Marques; Nascido em 07/12/1949; Local: Aldeia São João / Porto Murtinho / MS; Cútis: Morena; Nação: Kinikinawa; Sexo: Masculino; com assinatura do portador e da Administração Regional/FUNAI-MS. Após longa conversa comunicamos a Ambrósio nossa pretensão de conhecer as aldeias São João e Tomásia, externando nosso desejo de tê-lo como guia, o que de pronto foi bem aceito por ele, que já há algum tempo procurava meios de retornar à aldeia São João, como sempre costumava fazer, mantendo-se em viagens entre a cidade e o campo. Em o Land Rover 4 x4 que servia como transporte para nossa equipe partimos no mesmo dia ainda pela manhã, seguindo por a rodovia MS / 339, que liga Bonito à localidade de Baía das Garças e Morraria do Sul. A 60 Km da cidade de Bonito encontramos o boliche (pequeno armazém de secos e molhados) «Prentisi», o primeiro ponto de referência para encontrar a aldeia São João. De ali, virando à direita, saímos da MS / 339, percorrendo mais 10 Km de 'trada de chão até chegarmos a nosso objetivo. (continua) Número de frases: 164 O que é a seqüela? Seria a ausência de comunicação no cérebro para localizar uma informação? A falta de sinapses suficientes no córtex para que acionemos o que desejamos na hora solicitada? Como não sou doutor e Internet não é faculdade de Medicina, prefiro não arriscar cientificamente. Em a prática, por sua vez, me considero uma autoridade máxima. Frases como " Onde está minha chave?" viraram até comunidade de site de relacionamento. Pudera. Que palavra 'crota: «pudera». Não sei porque lembro de 'sas palavras e não de outras mais interessantes como: ' argonauta ', ou ' bucéfalo ´ que remete a.. Mas de que 'távamos falando mesmo? ... .... Ah! Sim! Seqüela! Algo que a gente não lembra nem porque 'tava falando sobre ... Então voltemos a prática. Ou a praticá-la como inevitavelmente acabo fazendo. Já que podemos avaliar por nós mesmos as causas do 'quecimento, coloquemos as motivações para tal. Provavelmente ao gerar uma pressão diretamente relacionada com o prazo em que você deveria voltar a ter o objeto perdido em suas mãos, um 'tresse é causado e a ' geringonça ' (" lá vem outra palavra idiota ") toda emperra. Fica travando em loop, se é que me faço entender. Como que uma ironia da situação toda, quanto maior a necessidade que se sente do que perdeu, mais complexo fica para encontrá-lo. Foi assim com minha carteira, que não continha dinheiro algum dentro, mas sim minha carteira de motorista, do plano de saúde, o cartão de banco e de crédito, uma foto do meu pai, e um telefone anotado num papel de bar. Que é bom ressaltar, nada comprometedor. Mas eu tava falando tudo isso por quê mesmo? Não, não 'tou brincando, vou ter que retroceder alguns parágrafos pra ' repescar ' o fio da meada ... Só um momento por favor. Ah! É! Claro! Sobre a minha carteira perdida por a segunda vez em mais ou menos dois meses de diferença. Assim como as idéias na cabeça, na verdade «semi-idéias», que só serão possíveis uma vez que forem imediatamente anotadas. De a primeira vez, por descuido. Caiu do meu bolso quando saía do banco. Que sorte né não?! Mas da segunda, ou a mais recente (claro que não foi a segunda vez na minha vida que perdi a carteira ou outro objeto de valor), depois de eu ter cancelado todos os cartões e revirado todos os ambientes que freqüento; além de ter ligado para alguns 'tabelecimentos que 'tive no último fim-de-semana, fui dormir com a cabeça 'gotada de tanto tentar aquela velha tática de entrar numa máquina do tempo mental e fazer o caminho contrário pra buscar possíveis locais da perda. Finalmente, ao acordar bem cedo na manhã seguinte, com a mente límpida (se é que isso é possível), um insert mental me jogou a imagem da minha mão depositando a carteira dentro do meu tênis antes de fazer uma viagem. Uma precavida atitude que tomei justamente para não perder a carteira ... Número de frases: 32 A queridíssima Zezé Gonzaga nos deixou na madrugada deste 24 de julho e aqui vai a minha homenagem à pessoa gentil e corajosa que ela foi. A entrevista que você vai ler a seguir foi publicada no Jornal Musical, site editado por Tárik de Souza, em 2006. Ao invés de um minuto de silêncio, acho que ela gostaria bem mais se colocássemos um disco de ela para rodar na vitrola. Vamos fazer isso? A os 81 anos, completados em setembro último, Zezé Gonzaga se auto-proclama ' apenas uma senhora que ainda canta ', título de seu primeiro álbum lançado por a gravadora Biscoito Fino, em 2002. Foi mais um trabalho idealizado por Hermínio Bello de Carvalho, com quem mantém efetiva amizade há mais de meio século. «Esse cara eu apelidei de ' meu anjo barroco ' por causa dos cachinhos. Se eu tivesse um filho, gostaria que fosse como ele: inteligente e dono de um coração que não tem tamanho», diz a cantora mineira, nascida Maria José Gonzaga, na pequena cidade de Manhuaçu, neta de maestro e filha da união da flautista Oraida com o luthier " Rodolpho Gonzaga. «Acho que vim ao mundo com o passaporte para cantar», brinca. Entre tantas obras-primas gravadas em quase sete décadas de carreira, um disco se destaca. É ' Valzinho, um doce veneno ', de 1979. Em uma entrevista em fevereiro daquele ano, Hermínio resumiu numa frase o valor do álbum que reúne o violonista e compositor Valzinho e a cantora: «Foi o disco mais importante que fiz e por o qual 'perava há dez anos». Em a época, fazia tempo que Zezé e Valzinho 'tavam afastados da cena musical. «Valzinho, chamado Norival Carlos Teixeira, precedeu a bossa-nova em vinte anos. Foi um incrível compositor da década de 40 e músico requisitado nas rodas de Pixinguinha, João da Baiana e Luperce Miranda, logo marginalizado e rotulado de ' maldito '. Os problemas emocionais fizeram com que ele abandonasse o violão, para retornar em 'te disco», emenda Hermínio, o produtor da bolacha, hoje um clássico da discografia brasileira. Desde que perdeu a filha adotiva para um câncer violento no intestino, em 1999, Zezé sorve os dias entre as paredes de um apartamento na Praça da Bandeira, Zona Norte carioca. «A Maria da Penha veio morar com mim quando tinha nove anos e, depois de ela, não quero dividir a casa com mais ninguém», arremata. Visitas, é claro, são bem-vindo (" A Áurea Martins 'tá sempre por aqui "). Solteira convicta, Zezé lembra que usou anel de noivado duas vezes. «Sabe por que nunca me casei? Só me aparecia rapaz com a metade da minha idade!" exclama. Uma das exceções foi Clímaco César, autor de ' Inverno ` e namorado da moça em 1949, quando ela gravou seu primeiro 78 rpm, que trazia ' Desci ', de Alcyr Pires Vermelho e Cláudio Luiz, no outro lado. A intérprete conta que 'tes samba-canções foram 'colhidos por a gravadora. «Eu ainda não conhecia quase nenhum compositor». De a infância mineira, Zezé coleciona boas histórias. «Lembro que tinha sempre gente tocando lá em casa. A os cinco anos eu já gostava de cantar. Meu pai arriscava umas canções no piano, que ele aprendeu de ouvido, e eu acompanhava. Foi assim que ele viu que eu levava jeito porque tinha ritmo e era afinadinha. Ele começava a melodia devagar e, de repente, acelerava, achando que eu ficaria para trás. Só que eu seguia sem perder o compasso», diz. Outra história, ótima, é a do instrumento exótico que o pai luthier fez para o Luperce Miranda, batizado de ' Raquete sonora '. «Era de corda, mas com ares de raquete: um bojo oval e um braço longo. Só tinha uma diferença: nos instrumentos de corda, primeiro faz-se o bojo, depois o braço e depois encaixa tudo. Em a raquete não: O bojo e o braço eram uma coisa só. Ficou lindo, com cordas duplas. Luperce adorou». Em a adolescência, a fama de boa intérprete correu a região da Zona da Mata e Zezé passou a ser chamada para animar as festinhas de aniversário da garotada. A os 13 anos, recebeu um convite para ser crooner de um conjunto que se apresentava num clube local, o Rex. «Eu cantava direitinho em 'sa época e o conjunto cresceu rapidamente. A gente até fez alguns bailes em outras cidades. Toda vez que contratavam o grupo, diziam: queremos vocês, mas tem que levar a menina. A menina era eu», recorda. Generosa e muito ligada à família, Zezé entregou o primeiro cachê, no valor de 100 mil réis, ao pai, que ganhava 75 mil réis por mês para atuar como marceneiro nos trens da " Central do Brasil. «Papai era extremamente inteligente, mas não parava em emprego nenhum. Ele sempre sabia mais do que o chefe (risos) e nunca se negou a pegar no pesado, mas ganhava pouco. E eu fazia o que podia para ajudá-lo». Estrela da indústria do rádio Em 1942, a cantora puxou a mãe, dona Oraida, por o braço para se inscreverem no programa do " Ary Barroso. «Ganhamos cinco, que era a nota máxima. Cantei uma música que 'tava em voga na ocasião, ' Sempre no meu coração ', e mamãe tocou ' Dinorah ', do Benedito Lacerda». Quem passava bonito por o gongo exigente de Ary ganhava o direito de participar do ' Escada de Jacó ', comandado por " Zé Bacurau. «Eu não queria ser profissional. Pelo menos, naquele instante, não», diz. O negócio era cantar por prazer. Em seguida, Zezé assumiu o pseudônimo de Deise Barbosa para soltar a voz no programa de calouro ' Pescando Estrelas ', do " Arnaldo Amaral. «Eu ainda morava em Minas e vinha muito ao Rio de Janeiro de férias. Inventei um nome porque não queria que ninguém me reconhecesse». De volta à cidadezinha mineira, foi trabalhar numa empresa de marcas e patentes, de propriedade de um amigo da família. «De aí me ligaram da Rádio Clube do Brasil, convidando a tal da Deise Barbosa para voltar ao programa do Arnaldo Amaral. Resumindo: Cantei uma música mexicana, ' Mi oración ', mas, muito prosa que eu era, cantei em 'panhol, acompanhada por o piano do José Maria de Abreu. Fiquei em segundo lugar». A bela interpretação lhe rendeu um contrato de 300 mil réis com a emissora. Em a ocasião, ficou amiga da cantora Odaléa Sodré, filha de Heitor Catumbi, que era do grupo de João da Baiana, e formaram um duo vocal muito interessante, chamado ' As moreninhas do ritmo ', depois simplificado para ' As moreninhas '. «Gostava muito de cantar com a Odaléa, mas, olha, eu era uma caipira boba, muito desconfiada. Ainda sou um pouco, mas já fui pior. Mal acabava o programa e eu ia embora, não gostava de ficar de conversa fiada nos bastidores. O pessoal sempre pedia para eu ficar naquela rodinha. E foi exatamente numa de 'sas que recebi um convite para procurar o Victor Costa, diretor da Rádio Nacional. A Odaléa já era da Nacional e ele também me queria no elenco. Fui ver isso de perto. Qual não foi a minha surpresa quando o elevador da Nacional abriu e 'barrei com o cantor Nuno Roland. Ele veio falar: Já sei, você é a Zezé Gonzaga. O seu nome 'tá muito badalado aqui na rádio». O contrato com a antiga emissora só vencia em dezembro e o executivo da Nacional lhe ofereceu um salário de 2.500 réis. «Mas eu não tinha noção de dinheiro e respondi um ' 'tá bem ' meio seco», lembra, às gargalhadas. Ainda sem contrato, Zezé foi 'calada para cantar na rádio de ali a poucos dias. Entraria num horário vago, entre a novela e o programa ' Balança, mas não cai '. «Cantei duas músicas sem saber que era, na verdade, um teste. Cantei direitinho, fui muito aplaudida. Victor reuniu os jurados, entre eles o Paulo Tapajós, e perguntou se todos 'tavam de acordo. Disseram que sim e ele anunciou: ' Dona Zezé Gonzaga é a mais nova contratada da Rádio Nacional '». Zezé recorda que a Rádio Clube praticamente rasgou o contrato anterior e a deixou livre para trabalhar na concorrente. Isso foi numa quinta-feira de 1948. «Em o sábado, eu já 'tava cantando no programa do César de Alencar». A Rádio Nacional foi uma grande 'cola para Zezé, na época uma jovem de 22 anos. «Para mim, valeu muito, mas vi muita gente perder um dinheirão lá. Era o seguinte: Você tinha que chegar, no máximo, 15 minutos antes da hora que 'tava programado para entrar no ar. Se atrasasse, não cantava e ainda pagava uma multa». Zezé era muito responsável e nunca chegou depois do horário combinado. «Por ter facilidade para aprender, quando faltava um, me chamavam para fazer o número daquela pessoa. Eu dava uma olhada na partitura e cantava ao vivo. Ficava um primor. Uma das cantoras que eu mais substituí foi a Nora Ney». Zezé: «Já 'tou pagando hora extra na vida " Em o final dos anos 1950, Zezé gravou discos infantis por a fábrica ' Carrossel ', sob a produção de Paulo Tapajós. Era um ensaio para a Tape Produções, que ela abriu poucos anos adiante em sociedade com o maestro Cipó e com Jorge Abicalil. Juntos, criaram um punhado de jingles, vinhetas e trilhas sonoras, entre elas o bem famoso tema de abertura do Projeto Minerva, apresentado por a Rádio " MEC. «Este fizemos eu e o Luiz Carlos Saroldi. Foi veiculado por muitos e muitos anos». Zezé evoca 'tas lembranças com uma dose extra de leveza, mas também coloca a boca no trombone: «Eu nunca gostei de amolar os outros e sempre 'perei por o momento que não veio. Agora não interessa mais, já 'tou pagando hora extra na vida». Outro dia, a produção do ' Fantástico ', da Rede Globo, telefonou para a cantora a fim de convidá-la para participar de um quadro do programa dominical, um dos mais antigos da emissora. «Ah, tive que dizer à menina: Desculpe, minha filha, você não tem culpa, mas não aceito fazer parte deste programa porque em 64 anos de carreira ninguém nunca cometeu a delicadeza de me chamar para fazer um número. Obrigada, mas não vou. Não tenho nada de importante para falar sobre a minha carreira. Aliás, a mídia nunca me prestigiou como eu vejo prestigiar outros artistas, embora eu sempre tenha feito o meu trabalho com a maior dignidade possível», desabafa. O coração de Zezé andava descompassado e em março de 2006 ela implantou um marca-passo. «Fumei a vida toda, sem nunca tragar. Tenho os pulmões limpinhos, mas quando comecei a ficar sem ar, os médicos cogitaram que fosse um problema respiratório. Cheguei a tomar remédios fortes e caros para uma doença que não tinha. Até ser levada por a Áurea para um cardiologista e ele descobrir qual era o meu problema na verdade», conta Zezé, homenageada na véspera do seu aniversário de 80 anos por a Escola Portátil de Música, na Uni-Rio. Zezé recebeu o diploma de Mestra Honorária da Canção Brasileira depois de assistir junto aos alunos às imagens de ela acompanhada ora por o violão de Raphael Rabello ora por o piano de Radamés Gnattali, de quem era uma das intérpretes prediletas. Falar de Zezé Gonzaga também é evocar o sucesso ' Ai, ioiô (Linda flor) ', de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto. Em 1956, a intérprete ganhou um disco de ouro por a recriação deste samba, que traz uma das melodias mais refinadas do cancioneiro popular. «Era uma boa época. Os autores faziam grandes músicas para nós. Hoje, não. Hoje os autores fazem e gravam eles mesmos. Você não é mais lançador de sucessos. Acho isso ruim demais. Qualquer um diz que é cantor, mas não posso falar mal porque vão dizer que sou recalcada». Entre seus passatempos favoritos 'tá jogar buraco contra ela mesma. «Zezé é a mão 'querda e ' ela ', a mão direita», diz, enquanto distribui as cartas. «Mas eu brinco direitinho e não roubo, não. Podia enganar. Ninguém 'tá vendo, não é?», Número de frases: 140 ri. Clevelândia do Norte é o lugar de um episódio pouco conhecido da história amapaense e brasileira. Fica localizada no município de Oiapoque, no Amapá, extremo norte do Brasil. Esta localidade, durante os anos 20 do século passado, foi instituída como colônia penal, para onde foram mandados os agitadores políticos, de diversos movimentos de caráter «subversivo». A criação e o funcionamento da Colônia Penal de Clevelândia do Norte é conseqüência direta dos reflexos da conjuntura política nacional e internacional de repressão ao anarquismo e ao comunismo a partir de meados da década de 20. Essa época no Brasil foi marcada por grandes agitações sociais e culturais, assim como a Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista brasileiro, em 1922, o Movimento Tenentista, as campanhas anarco-sindicais e por aí vai. Clevelândia do Norte, situada na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa, foi pensada como um núcleo colonial, na perspectiva da ocupação do território, ao norte do Amapá, que até então era território integrado ao Estado do Pará. Clevelândia foi inaugurada oficialmente em 5 de maio de 1922, recebe 'te nome em homenagem ao presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland. Em meados de 1924, já no governo de Artur Bernardes, que governou o país sob 'tado de sítio, amontoavam-se sob custódia do governo federal centenas e centenas de presos em navios aportados em ilhas próximas do litoral do Rio de Janeiro: cárceres provisórios. Clevelândia do Norte foi indicado como um dos lugares que melhor serviriam para uma colônia penal: seu total isolamento dentro da floresta virgem, e a provável recusa dos outros 'tados em aceitar presos políticos dentro de seus territórios. Diante das intensas agitações que desestabilizavam o governo vigente, o presidente Artur Bernardes (1922? 1926), que representava os preceitos dos interesses oligárquicos, transformou o que era uma colônia agrícola em colônia penal, tornando-a o que passou a ser denominado «Inferno Verde». É a partir de 1924 que os primeiros navios-prisão lotados de prisioneiros começam a chegar em Clevelândia do Norte. Sendo a maioria dos presos anarquistas, tenentes rebelados, e todo tipo de pessoa que fosse considerada perturbador da ordem. Estes foram submetidos a duras condições de sobrevivência, sendo vítimas de violência policial, epidemias, trabalhos forçados e fome. Foram levas sucessivas entre fins de 1924 e meados de 1925. Com os que se evadiram (262 fugas registradas, quase 28 % dos presos), surgem denúncias, publicadas às vezes em outros países, driblando a censura, falando dos obstinados que teimavam em se organizar, como o núcleo de anarquistas, mesmo dentro da colônia penal. Domingos Passos, Biófilo Panclasta, Antônio Alves da Costa, Antônio Salgado da Cunha, Nicolal Parado, Domingos Brás, Nino Martins e outros nomes de importantes lideres anarco-sindicais foram enviados para o «Inferno Verde». Segundo Alexandre Samis, no livro ' Clevelêndia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil ', o primeiro anarquista a 'capar do «Inferno Verde» foi o pinto e decorador Pedro Aleves Carneiro, em 17 de fevereiro de 1925, rumo a Belém. As fugas se faziam por a Guiana e, 'pecialmente, por Saint George. Com o fim do governo Artur Bernardes, a censura diminuiu consideravelmente, e aumentam o número de denúncias sobre as deportações. Tendo sido Clevelândia do Norte palco destes fatos, há quem a considere forte fator de desestruturação dos movimentos anarquista, comunista e tenentista da década de 20. Centenas de prisioneiros políticos foram vítimas fatais do episódio. Após a anistia dos presos sobreviventes, o movimento sindical e a efervescência dos movimentos sociais, 'pecialmente o anarco-sindicalismo, não seriam mais os mesmos. Número de frases: 26 A República conseguiu bloquear a resistência popular, prendendo e eliminando seus líderes. Pense num caldeirão com ingredientes fortes da cultura indígena, andina, síria libanesa e nordestina. Um lugar onde a arte 'tá sempre se renovando e mostrando novas formas de expressividade. Foi 'sa ebulição cultural que levou o pesquisador e músico Narciso Augusto partir em caravana por municípios acreanos com o objetivo de obter informações sobre as particularidades da cultura musical daqui. O projeto foi batizado de Baquirí. O termo Baquiri em sua formação morfológica é composto por a fusão das palavras baque e Aquirí. «A primeira palavra é dedicada aos profissionais da velha guarda musical acreana, que em muitos casos a usavam quando se referiam à condução rítmico-musical e, algumas vezes, até mesmo em substituição a designação de ritmo. E a segunda refere-se à expressão que os povos indígenas utilizavam na denominação do rio Acre», explica o músico. O projeto Baquiri, segundo Narciso, lança mão de um olhar interiorano, busca revelar, ou seja, trazer à superfície sonora, o «Sotaque» da expressividade musical acreana, através de um pequeno grupo de compositores, intérpretes e instrumentistas que também insistem em alertar para a grande importância desse elemento na formação da 'trutura que irá compor as bases de uma possível indústria musical no Acre. Com 27 anos de carreira, enriquecida com participações em festivais, Projeto Pixinguinha e apresentações musicais por vários 'tados como Rondônia, Paulo, Janeiro, Brasília, e outros, Narciso vem trabalhando desde a década de 80 com a pesquisa da música regional, das letras de músicas indígenas e as cantadas nos rituais do " Santo Daime. «A partir deste trabalho, percebeu-se nos textos a falta de consciência instrumental», revela o pesquisador. O projeto Baquiri rendeu vários shows com artistas convidados. A gama de elementos pesquisados serviu para a composição das letras das músicas que foram apresentadas nos shows. Em a pesquisa entre os elementos encontrados figuram o Xacundô e o Mariri. Xacundô Ainda na década de l980, uma boa parte dos profissionais que faziam parte da «elite» musical de Rio Branco, situando-se as bandas que se preocupavam em elaborar uma reprodução fiel das músicas veiculadas por os meios de comunicação de massa, utilizavam as palavras xacundô ou xacundum -- termo na maioria das vezes carregado de intenção pejorativa que fazia referência às bandas ou grupos musicais que tocavam nos bailes populares da cidade, por o fato destes não se renderem a certos cuidados com a originalidade dos arranjos propostos por os artistas da mídia. Mesmo tratando-se de terminologias carregadas ou não de intenções pejorativas, o certo é que 'ses grupos, ou seja, a turma do Xacundô, acabava elaborando e apresentando muitas vezes, produções musicais bem diferenciadas ou sem o sotaque daquelas executadas nas rádios locais. Como exemplo: o antigo forró do Romeu, Rabo-de-Saia, o Bené do Cavaco, Os Alquimistas, Frank Alden e outros. Marirí Um dos elementos importantes encontrados na cultura musical acreana é o acompanhamento solo violonístico executado paralelo à melodia vocal. Sua presença figura nos registros fonográficos da maioria dos hinos religiosos do mariri (Santo Daime, ayahuasca). Uma melodia entoada através do canto é acompanhada, além dos efeitos de percussão dos maracás, por o solo do violão em uníssono com a voz. Número de frases: 23 As sandalias 'tão 'quecidas ... «Estamos diante de uma bela demonstração de que a modernização da educação é séria demais para ser tratada somente por técnicos. É um caminho interdisciplinar e a aliança da tecnologia com o humanismo é indispensável para criar uma real transformação. ( ...) Em síntese, só terá sentido a incorporação de tecnologia na educação como na 'cola, se forem mantidos os princípios universais que regem a busca do processo de humanização, característico caminho feito por o homem até então». ( Renato, Eduardo José. Informática e educação, 1997,05). «A importância da reforma dos sistemas educativos é apontada por as organizações internacionais como uma prioridade na preparação dos cidadãos para 'sa sociedade pós-moderna. Não é à toa que a introdução das novas tecnologias digitais na educação apresentou mudanças para a dinâmica social, cultural e tecnológica." Entendidas por 'pecialistas e educadores como ferramentas 'senciais e indispensáveis na era da comunicação, as novas tecnologias ganham 'paço efetivo nas salas de aula. Computadores ligados à internet, software de criação de sites, televisão a cabo, sistema de rádio e jogos eletrônicos. Estas são algumas das possibilidades existentes e que podem ser aproveitadas no ambiente 'colar como instrumentos facilitadores do aprendizado. Entretanto, apesar de muitas 'colas possuírem 'tas tecnologias, as mesmas não são utilizadas como deveriam, ficando muitas vezes trancadas em salas isoladas e longe do manuseio de alunos e professores. Existem, segundo 'tudos recentes, professores e 'colas que não conseguem interligar 'tes instrumentos às atividades regulares. De acordo com o pedagogo «Arnaud Soares de Lima Júnior,» o acesso às redes digitais de comunicação e informação é importante para o funcionamento e o desenvolvimento de qualquer instituição social, 'pecialmente para a educação que lida diretamente com a formação humana». No entanto, ele ressalta que os modos de viver e de pensar a organização da vida 'tão em crise. Está em curso uma mudança qualitativa em virtude da rápida transmissão de informações entre as sociedades, rompendo com isso as barreiras geográficas dos países. «Por isso, cabe à educação uma parcela de responsabilidade tanto na compreensão crítica do (s) significado (s) de 'ta transformação, quanto na formação dos indivíduos e grupos sociais. Estes devem assumir com responsabilidade a condução social de tal virada, provocada, entre outros fatores, por a revolução nas dinâmicas sociais de comunicação e de processamento de informação», analisa Arnaud. Modernização -- Em 'te cenário, a importância da reforma dos sistemas educativos é apontada por as organizações internacionais como uma prioridade na preparação dos cidadãos para 'sa sociedade pós-moderna. Não é à toa que a introdução das novas tecnologias digitais na educação apresentou mudanças para a dinâmica social, cultural e tecnológica. Modelos pedagógicos foram quebrados, tornando-se desatualizados frente aos novos meios de armazenamento e difusão da informação. Em 'te momento mudam também os conteúdos, os valores, as competências, as performances e as habilidades tidas socialmente como fundamentais para a formação humana. Apesar de tentar responder a 'tas questões imediatas, muitos educadores salientam que a inserção, no contexto educacional, de 'tas tecnologias ainda é encarada como uma articulação problemática. «Esta parceria entre educação e tecnologia é muito difícil de ser efetivada. No que se refere às tecnologias digitais, principalmente, os professores têm dificuldades de interação. Eles já até admitem utilizar o computador e a internet para preparar as suas aulas, mas não conseguem ainda utilizar as mesmas nas suas atividades em sala de aula, como instrumento pedagógico», observa a pedagoga Lynn Alves. Para Lynn, o uso da tecnologia não deve se restringir a mera utilização ilustrativa ou instrumental da tecnologia na sala de aula. Exemplo disso, segundo a pedagoga são as aulas de informática de colégios particulares e públicos, que assumem apenas o papel de ensinar o uso dos programas. «O jovem já sabe disso, ninguém precisa ensiná-lo. Por 'te motivo, 'tas aulas acabam se tornando um 'paço de «desprazer», porque os 'tudantes querem utilizar a tecnologia para criar, re-significar, construir e intercambiar saberes. Infelizmente, 'te potencial todo a 'cola ainda despreza», frisa Lynn. Internet e " Educação «A Internet é muito mais que um mero instrumento. Além de um dispositivo, ela representa um modo diferente de efetivar a comunicação e o processamento social da informação». Esta observação é feita por Arnaud Soares Júnior, professor do mestrado em educação e tecnologia da Universidade Estadual da Bahia e autor do livro «Tecnologias Inteligentes e Educação: currículo hipertextual». De acordo com o educador, em 'te panorama de efetiva transformação, o uso da Internet não representa grande desafio para que os professores aprendam a sua utilização, porque suas funções mais sofisticadas são acionadas até mesmo por intuição. Isso por causa da expressão «interface amigável», que viabiliza o manuseio rápido e fácil. «Para acessar a Internet não se requer nenhum grau mais elevado de operação mental. Mas, discriminar suas características tecnológicas, sua lógica de funcionamento, e sua natureza comunicativa e informacional, de modo crítico, criativo e politicamente engajado, requer um processo de formação mais abrangente e conseqüente. Tal não poderá ser feito, por exemplo, por os cursos relâmpagos de informática, nem por os treinamentos em informática básica», analisa o professor. Já no que diz respeito a utilizar a internet como meio para atrair a atenção dos 'tudantes, Arnaud salienta que não basta prender a atenção dos 'tudantes com a tecnologia, porque isto já acontece naturalmente, em virtude das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) exercerem fascínio nas novas gerações. «A questão mais importante é como garantir uma educação de qualidade com a utilização das TICs e como definir sua utilização mais pertinente em cada contexto de formação. Para tanto devem ser consideradas as condições e as necessidades inerentes a cada contexto, além das novas tensões sociais que aí se refletem em função do crescente processo de globalização», explica Arnaud Soares. Para finalizar, o pedagogo menciona que diferente do que muitas pessoas acreditam, a Internet não é só uma rede meramente técnica e digital. «A Internet dever vista por os educadores como uma rede de comunicação, de cultura, de socialização e sociabilidade. Ela 'tá relacionada aos interesses políticos e mercadológicos, além de sua dinâmica 'tar submetida aos efeitos dos desejos e de representações sociais», conclui Arnaud. Jogos eletrônicos: ferramenta importante na aquisição do saber «A presença dos elementos tecnológicos na sociedade vem transformando o modo dos indivíduos se comunicarem, se relacionarem e construírem conhecimentos. Somos hoje praticamente vividos por as novas tecnologias». A partir de 'ta reflexão, Lynn Alves, professora do mestrado em educação e contemporaneidade da Uneb e autora do livro: «Game Over: Jogos Eletrônicos e Violência», demonstra a importância da tecnologia, em 'pecial os jogos eletrônicos na vida dos jovens contemporâneos. Encarada por muitos como nocivo e prejudicial ao desenvolvimento cognitivo dos jovens, os jogos eletrônicos vêm ganhando 'paço entre vários 'tudos e demonstram que podem ser mais um instrumento pedagógico no ambiente 'colar. Esta reflexão partir da concepção que existe hoje uma geração submerso no mundo da tecnologia, que tem acesso seja através da televisão ou dos vídeos-game ou das LAN house. De acordo com 'tes 'tudos, os sujeitos nascidos na pós-modernidade 'tão imersos num mundo altamente tecnológico. Esta geração é defendida por os 'tudiosos como os «nativos digitais» ou «geração mídia». Uma categoria que vem sendo largamente discutida na atualidade. Com a utilização de alguns jogos eletrônicos, a exemplo do Simcity, Civilizations e RPG, «os professores podem trabalhar o aprendizado em geografia, história, porque em 'se jogo desafia os 'tudantes a administrar recursos, criar cidades, enfrentar catástrofes, fazer 'colhas, planejar, entre outras coisas», comenta a educadora Lynn. Em 'ta perspectiva, e através do jogo eletrônico, os 'tudantes são 'timulados a saber quais as conseqüências de colocar uma 'cola perto de uma fábrica poluente, além de verificarem quais os problemas sociais ou de saúde as ações realizadas durante o jogo podem causar. De acordo com Lynn, até mesmo nos jogos violentos, tanto crítica por inúmeros pais, podem servir de fonte de aprendizado e 'tímulo entre o público jovem. «Você pode trabalhar a questão cognitiva, pois 'tes jogos exigem uma habilidade sensorial e motora muito grande, tomada de decisão e planejamento 'tratégico», conclui Lynn. Número de frases: 62 Somos brindados com uma cena de sexo exibicionista, seguida por o típico day after do casal que acaba de se conhecer: Ciro e Marcela. Quase típico, não fosse a apatia de Ciro, que nós 'pectadores, assim como Marcela, ficamos na dúvida se é genuína ou apenas uma fachada do momento. É de fato uma fachada, mas não momentânea. Adaptado do primeiro romançe de Daniel Galera, Até o dia em que o cão morreu, Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca, 'tréia ainda no primeiro semestre. A história conta as dores de um jovem formado em letras tentando achar seu lugar, enquanto lida com as figuras que independente de suas atitudes 'tão à sua volta, entre eles um cão. Ecoando o 'tilo de O Céu de Suely, o filme é direto e simples, mas não simplório, e conta com ótima atuação do par principal. A mão firme de Beto Brant, que nos deu o excelente O Invasor, de início me pareceu uma ótima pedida para o filme. Mas logo após sair da sessão achei 'tar enganado, e ter confundido firme com duro. Passados alguns dias, conclui que o filme é duro sim, mas isso não é necessariamente ruim, minha opinião é que ele precisa ser digerido, sua dureza é conseqüência da dureza do protagonista, e do mundo à sua volta, um ignorando do outro. Cão Sem Dono, como toda adaptação que se preze, toma algumas liberdades com a obra, e a maior de elas é ser um filme. Em um documentário sobre Quadrinhos do History Channel Kevin Smith disse algo como: " O filme não tem a mesma capacidade do Quadrinho de nos colocar na mente do personagem». O mesmo, obviamente, vale para um livro. Como num Apanhador no Campo de Centeio dos pobres *, muito do que acontece no livro corre na mente do protagonista, o típico underachiever arrogante urbano contemporâneo, e nada disso vemos na tela. As soluções que visualizo são ridículas: Engolfar o filme em narrações, inventar cenas de visitas a psicólogos ou fazer o pobre personagem falar sozinho; não há alternativa fácil para uma situação como 'sa. Por sorte Beto Brant se 'quivou de recursos baratos como 'ses e optou por nos tirar de dentro do protagonista e colocar ao seu lado. Ciro parece não sair do lugar enquanto tudo corre alheio a ele, é possível traçar um paralelo com a narrativa do filme, onde somos colocados tão de lado quanto o personagem, meros observadores de sua angústia e perdição, seus motivos cabe a nós deduzir. A os que leram o livro, imagino que haja um grau de insatisfação para puristas, e é verdade que alguns elementos ainda me incomodam, dois de eles mencionados na entrevista que fiz com Daniel Galera; o terceiro é a cena final, cujo tom parece distante daquele que imprimi ao ler o livro. Mas afinal, de nada serve uma adaptação se ela não toma o máximo proveito de seu meio respeitando suas limitações. Número de frases: 23 -- * Expressão jocosa para simbolizar «versão brasileira» Estou lançando mais um livro infanto-juvenil. Este já é o décimo sétimo. Trava-LINGUA Quebra-QUEIXO Rema-REMA Remelexo saiu agora recentemente por a editora Cortez e já se encontra à venda no site da editora, nas livrarias cultura e em breve em todo o Brasil. Gosto de brincar com as palavras e acho que a criança deve receber o livro como se fosse um brinquedo. ~ Com certeza assim 'taremos formando novos leitores. Curiosos. Sensíveis. Amigos. Humanos. Talvez a leitura simplesmente não melhore as pessoas e nem as salve, sabe-se lá do que. Mas com certeza ela pode indicar caminhos, sonhos, viagens ... Ler com certeza é melhor do que não ler. Idéias vêm mais facilmente com a leitura. Diferente dos filmes, das novelas, dos desenhos, dos games, a leitura nos força a imaginar. Faz o nosso cérebro trabalhar. Remoer palavras e conceitos. O meu castelo do livro é só o meu castelo. Imaginado por mim e diferente dos castelos dos outros leitores. Em a formação do leitor, o humor também deve 'tar presente. É ele a calda do sorvete. É ele aquele tempero gostoso da comida. Humor e palavras e rimas e ritmo. Tudo junto no caldeirão dos sentidos. Pandeiro e som. Palavras e som. Rimas e som. Dois pequenos leitores (que não gostam muito ou quase nada de ler) pegaram o livro Trava-LINGUA Quebra-QUEIXO Rema-REMA Remelexo e para surpresa da avó 'tavam de repente, sem ninguém pedir, fazendo rap. Sim, fazendo rap com os poemas trava-linguas. Que felicidade! Nada melhor para um 'critor do que saber que o seu texto 'tá chegando até as crianças. Nada melhor para um 'critor do que saber que o seu texto 'tá realmente chegando até as crianças. Naturalmente. Como uma descoberta. Como um tesouro. Um «tresouro». Um «tresrouro» do rato que roeu a roupa da rainha do rei da Rússia. Em o livro, brinquei com trava-linguas tradicionais e inventei outros. Alguns adultos se divertiram bastante também. E é aí, penso eu, que 'tá o segredo. O grande segredo. O livro infantil deve ser pensado para as crianças, mas para as crianças de todas as idades. E se ele não consegue despertar na criança que ainda existe no adulto magia, imaginação, sonhos, brincadeiras, sorrisos, olhos brilhantes, pouca coisa conseguirá com a criança-crian ça. Coto Croto Cotovelos Cotovelhos Cotovrelhos Cotrovelando-se Crotovelhando-se Cotrovelhando-se ... Número de frases: 47 Em a minha dor de crotrovrelhos. Outro dia um filho meu, jovem de 25 anos, foi chamado de senhor por uns garotinhos. Ele levou um susto, pois nunca houvera sido chamado daquela maneira: senhor. Justo ele, um patinador radical. Bem, ele achou que talvez fosse por a barba, sem fazer havia 20 dias ou mais, e se apressou em cortar. Fiquei na minha, ouvindo e observando, deixo que ele mesmo vá descobrindo que em 'se campo as coisas só vão piorar. Pois é. Estou falando do preconceito contra as pessoas idosas. Todo mundo acha que sabe o que é uma pessoa idosa só de olhar para ela. Cabelos brancos, muitas rugas na face e por aí vai. Ninguém tem dúvidas sobre o que é um velho ou uma velha, não é mesmo? Aconteceu, porém, que eu fiquei com os cabelos brancos e tenho uns, digamos, sulcos faciais bem definidos. Meio excêntrico, curto muito meu carrinho branco, um Voiage / 83. Vez por outra ele vai para um spa de carros, a oficina de lanternagem do Adilton, para remoção de ferrugens, pintura nova, etc.. Acho até que já 'tão chamando isso de revitalização. Em uma de 'sas 'tadias de ele lá na revitalização experimentei três tipos de transporte para o percurso casa-trabalho casa: a pé, bicicleta e ônibus circular. Conclusão: por razões diversas, nenhum de eles atende as necessidades de uma pessoa, idosa ou não idosa. Detenho-me um pouco hoje no caso do ônibus circular. De cara qualquer um vê que não existem abrigos verdadeiros para uma pessoa 'perar. Os abrigos são uma farsa. Isto todo mundo sabe que é assim mesmo e ninguém liga. Mas 'tá errado. É preciso fazer um movimento de caras pintadas aí para gente ter abrigo nas paradas? Quando eu me aposentar vou encher as caixas postais dos políticos. Aí eu entro no ônibus, 'calo um degrau cuja altura enorme é inversamente proporcional à largura, me agarro nuns ferros, o motor ronca e o bicho vai andando com mim meio pendurado. Segui o conselho do Indiana Jones, não olhei para baixo. Ufa! Escapei daquela. Consegui chegar na roleta e aqui é que a coisa fedeu. A cobradora, amável, sugeriu que eu ficasse por ali mesmo, não precisava passar a roleta, nem pagar a passagem. Fiz questão de pagar e passar, agradeci, sentei já perto da porta de saída e fiquei pensando no porque daquilo. Aquela área sugerida por ela é onde teve ou tem ainda uma placa horrorosa dizendo ser reservada a «idosos, grávidas e deficientes» -- 'queceram as crianças, pensei. Tudo bem, a existência de 'sas placas e locais já constitui aberração, mas com mim não, ainda não assumi qualquer das duas condições possíveis a mim. Nem um sujeito velho nem pessoa portadora de necessidades 'peciais, apesar do que resta de meus cabelos brancos e rugas, com muitos e horrorosos erros e erres. Dia seguinte outro cobrador tenta me envolver numa operação financeira em que me devolvia R$ 0,35 e ele ficava com R$ 1,00. A passagem de circular custava R$ 1,35. Recusei a oferta, afetei uma classe que nem tenho, mas consegui pagar e passar sem grosserias. Fui de novo filosofar lá perto da porta de saída. Puxa vida, o cara quer que eu me passe por velho. Ele fica com um Real e eu com trinta e cinco centavos por a tramóia contra o dono da empresa, patrão de ele? As empresas de ônibus merecem um boicote mas, não, isso é uma ofensa à velhice. Meu carrinho 'tá há cerca de 30 dias na revitalização e durante 'se tempo vários cobradores tentaram corromper minha juventude. Não aceitei nem aceito. Quando me aposentar vou encher as caixas postais dos políticos com e-mails caras pintadas exigindo leis e cumprimento de elas quanto ao respeito às pessoas, idosas ou não. Número de frases: 43 Como diz na letra da música Selvagem?, todos apresentam armas. De os policiais, cacetetes; dos negros, 'perteza; dos políticos, discurso; das cidades, caos. João Barone também apresenta suas armas: baquetas e música. «As baquetas mais rápidas da américa latina» presta um bom serviço à música brasileira e da américa latina há mais de 25 anos. Além dos Paralamas do Sucesso, contribuiu em trabalhos de gente como Rita Lee, Titãs, Kid Abelha, Lenine e Ed Motta. Vale lembrar que Barone também foi o (ir) responsável por criar um dos hits mais engraçados dos Paralamas, o Melô do Marinheiro. Elefante Bu -- Tem gente em Brasília que fala até hoje, e jura de pé junto, que os Paralamas do Sucesso é uma banda que nasceu na capital. Você como o integrante que nunca morou na cidade se diverte com 'sa história? O que acha de 'sa requisição de posse regional de uma cidade que ainda busca identidade e ídolos? João Barone -- Herbert e Bi começaram a se interessar por música aí em Brasília, de alguma forma a «gênese musical» dos Paralamas passa por aí, ainda mais quando a mesma turma do Bi e Herbert tinha gente como Renato Russo, Dinho, Dado de entre outros amigos. Assim, quando começamos, era mais «apelativo» dizer que viemos de Brasília do que da Universidade Rural, no distrito de Seropédica, zona oeste do Rio, onde Os Paralamas se conheceram e se apresentaram pela primeira vez na história. Só depois veio o Circo Voador e a Rádio Fluminense FM. Ainda por cima, agora somos cidadãos honorários de Brasília, uma homenagem justa para quem sempre amou 'ta cidade com seus lados bons e ruins e ajudou a colocá-la no mapa da música no Brasil. Elebu -- Sobre a carreira dos Paralamas, Selvagem? é considerado um dos discos mais importantes e revolucionários dos anos 80. A parte do «importante» é indiscutível, mas você o considera o disco mais revolucionário da banda? Barone -- Talvez a gente nunca tenha 'se distanciamento para afirmar isso, mas sentimos até hoje que 'te álbum foi muito marcante, uma guinada 'tética, na música e no discurso. Deixamos de ser aquela banda engraçada cantando Óculos para arriscar um Alagados e ver o que acontecia. Deu certo. Elebu -- Qual foi o seu maior momento de glória na terra dos hermanos? Ainda há planos de prosseguir com a carreira internacional com discos em 'panhol? Barone -- São várias histórias. O jornal El Clarin já nos explicou como «a melhor banda argentina que canta em português». As pessoas quando nos reconhecem na rua, nos chamam por «maestro!». Várias vezes entramos em restaurantes de Buenos Aires depois de shows e as pessoas batiam palmas quando nos viam. Coisas assim. Elebu -- E no período de hiato dos Paralamas, você tocou com outras pessoas, o mais emblemático em 'se período foi com a Rita Lee. Dá para ficar plenamente realizado quando você deixa temporariamente o seu trabalho para colaborar com de outra pessoa, mesmo sendo alguém tão grande quanto a Rita? Barone -- Bem, a Rita me chamou e eu não deixei de ser eu mesmo. Rsrs! Mas certamente tive que me adequar ao trabalho de ela, tocar menos pesado, por exemplo. Quem me chama para gravar ou tocar sabe que vai ser o João Barone dos Paralamas acertando tambores e pratos. Ninguém me chama para tocar diferente do que eu toco, se não, chamariam outro músico. Mas rolam algumas sutilezas no processo. Elebu -- Depois de 25 anos de carreira, milhões de discos vendidos, músicas que deixaram o patamar do hit e viraram clássicos de fato, sucesso continental, livros foram 'critos, foram tema de teses acadêmicas, e mais nada a provar ... qual é o maior desafio não apenas dos Paralamas do Sucesso, como também seu, como músico? Barone -- Ainda 'tamos querendo muito. Se depender da nossa empolgação, aquela chama inicial que 'tá acesa desde o começo da banda vai queimar ainda por muito tempo. Por exemplo, 'tamos preparando um novo álbum de inéditas, que deve sair no começo do segundo semestre. Hoje, mais que nunca, um novo álbum é começar do zero novamente, o que é muito edificante e desafiador para nós. Elebu -- Vocês sempre conviveram muito bem com novas bandas, deram força para muitas de elas. Dá para citar a Nação Zumbi até shows em parceria com a Los Hermanos. O que é mais legal em 'sa troca de 'tilos e de gerações? Barone -- Sempre inspirador ver o novo surgindo. Em 1985, participamos de um show em homenagem aos 20 anos de carreira do Gil. Pensávamos: chegaremos lá? Hoje, nós 'tamos com 25 anos de 'trada. A Rita mesmo 'tá com 40 anos de 'trada! Vimos muitas bandas e artistas indo e vindo, outros ficando. Muita gente vem nos pagar respeito, é sempre uma honra receber 'te tipo de consideração. Somos velhos vampiros, ou o personagem Highlander. Elebu -- Temos bandas emos dominando o rock, novas cantoras da MPB fazendo sucesso, independentes que ainda não conseguiram boa visibilidade, um novo mercado de música, internet, youtube ... qual é o futuro próximo que você vislumbra para a música brasileira? Barone -- Acho que os shows e apresentações são e serão os diferenciais para manter a música viva. Pirataria e downloads podem ter mexido com o mercado fonográfico, mas o show business vai se fortificar cada vez mais. Tudo bem ouvir e ver música na tela do computador, no home theater, no dvd ou na tv paga, mas todos querem ver música ao vivo, real, no palco, e isso ninguém vai substituir por nada. Esta 'trevista foi publicada originalmente do fanzine Elefante Bu. Número de frases: 61 Confira a matéria e a entrevista completa por lá. ( De Florianópolis) A chuva caía lá fora na noite fria e umas dez pessoas se apertavam na 'cadaria do Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) em vão -- as portas já 'tavam fechadas e os mais de 400 ingressos, 'gotados. A o ver a cena, meu amigo carioca que há anos vive em Floripa emendou: «Deram mole. Projeto Pixinguinha, só comprando com antecedência [como ele, precavido, já tinha feito]. Mesmo sem saber qual é a atração, se tá no projeto, é porque vale a pena ver». Fiquei impressionada, sobretudo porque ao falar isso ele tomou por referência apenas os últimos dois anos, já que o Pp foi retomado em 2004. Dificilmente ele sabia do histórico do evento, que antes, de 1977 a 97, lançou artistas e reuniu nomes famosos em palcos de todo o país, de Cartola a Djavan, de João Bosco a Zé Ramalho. Em aquela noite do dia 10 o público catarinense lotou o tradicional teatro para ver artistas que não têm popularidade, digamos, avassaladora -- como é bem típico do projeto. Almir Gabriel, compositor do Belém, o carioca instrumental Trio Madeira Brasil e outro trio dedicado à música caipira, formado por o mineiro Ivan Villela, o brasiliense Lenine Santos e a paulista Suzana Salles. E o que 'tava eu, uma legítima representante do Rio de Janeiro, fazendo lá no meio daquelas pessoas claras de olhos azuis? Fui convidada por o Projeto Pixinguinha e por a Petrobras (patrocinadora do projeto) para 'crever trechos do catálogo da série e, de quebra, aproveito para contar as impressões aqui no Overmundo. * Mas agora, antes de falar do show propriamente dito, queria usar aquele recurso tão comum dos filmes de voltar um pouco no tempo para dar uma amostrinha do dia-a-dia da turma que corre o país fazendo 'ses shows. Dez horas antes ... Por sorte, em 'te caso, o teatro era ao lado do hotel. A produtora Maria do Carmo Ferreira deve ter atravessado a rua umas 20 vezes para resolver pepinos que iam dos detalhes da luz à lista de pagamento ao ECAD. Gugu, o responsável por o som, praticamente criou raízes nos fundos do teatro para arrumar tudo. Os músicos, que não são de ferro, foram passear naquela tarde chuvosa e fria -- para eles, nem tão fria assim, já que 'tavam vindo de um show em Caxias do Sul. Almir aproveitou para almoçar com o cunhado. Zé Paulo Becker, o violonista do Trio Madeira, se ocupou das entrevistas locais. E eu, muito por acaso -- por encontrar no meio da rua mesmo -- acabei acompanhando por Floripa a dupla Lenine e Suzana (apelido dado de brincadeira por o pessoal da produção, por lembrar a antiga parceria formada por o homônimo pernambucano e o percussionista Marcos Suzano). Ivan, como bom mineiro, 'tava mais na de ele em algum canto do hotel. Vale contar que a dupla se conheceu cantando uma ópera de Arrigo Barnabé e Tim Rescala (nada mais diferente do que fazem hoje). Chamaram o professor de Itajubá para acompanhar aquilo que antes faziam nos intervalos das apresentações: cantar músicas que ouviam na casa de seus pais e avós. Demétrio Panarotto, meu colega catarinense que também participa do Overmundo, era o quarto elemento a se juntar à trupe. Fomos a pé ao Mercado Municipal, à feira do livro, a um café charmoso ... Era falar qualquer palavra que Lenine e Suzana tiravam uma toada do tempo do onça da cartola e começavam a cantar para nós, no meio da rua. Eu mesma ganhei uma serenata improvisada com uma música que fala de Helena quando me apresentei (não é fofo?). Pois é, tudo andava assim singelo, mas o povo tava ali para trabalhar e então fomos para a passagem de som. Tá aí, se tem uma coisa que gosto é passagem de som. É aquele momento em que tudo parece caótico, ninguém se entende direito, a viola desafina, e quando você 'tá distraída de repente a coisa se encaixa e começa a funcionar. A do Trio Madeira Brasil deveria ser incluída no pacote do show. Cada hora, um levantava do palco e ia para o meio da platéia opinar no som do outro. Um bonito trabalho de cumplicidade, me parece, que ajuda a explicar por que o grupo 'tá junto há dez anos. De volta Bom, voltamos ao ponto em que 'távamos. Teatro lotado e show começando. Almir Gabriel é bom de 'quentar platéia. Faz o 'tilo figuraça, é falante, simpático, e faz aquele som que, segundo ele, mistura carimbó, reggae e guitarrada do Pará -- pombas, que vontade de conhecer o Pará ao ver um show de gente de lá! Não sei qual foi a mágica, mas já na primeira música o povo já 'tava cantando o refrão. Mesmo no refrão de Homem-bomba, que não era assim chiclete para o povo aprender de cara, ele deu um jeito de dividir a platéia em dois grupos à la Simonal e botou o povo para cantar do jeito que deu. Difícil falar da qualidade do som. Porque não tenho intimidade mesmo com o 'tilo. O show é simpático -- muito também por a participação do guitarrista Davi Amorim. Chutaria dizer que ele é um autêntico representante da guitarrada (que levada que eles têm!). Mas Almir ganha a platéia muito por o lado showman. O ápice foi quando falou mal da Globo, do Fantástico e do 'cambau e disse que seu sonho era instituir, como no caso de certas religiões, um dia do jejum, só que do consumo. A platéia veio abaixo. E 'sa mesma platéia que cantou refrões se silenciou respeitosamente para ouvir o Trio Madeira Brasil. Era, digamos, o oposto do paraense -- José Paulo Becker, Marcelo Gonçalves e Ronaldo do Bandolim são de falar pouco no palco e impressionam por a execução. Começaram com choro, uma boa forma de atrair o público, que só saía da hipnose para explodir em palmas no fim das músicas. Vamos dizer que os rapazes sabem 'colher repertório: emendaram «Agüenta seu Fulgêncio» (Jacob do Bandolim e L. Lamartine) com «Santa Morena» (só Jacob) -- 'ta última, uma 'pécie de «hit number 1» dos regionais de choro de hoje. Os arranjos do grupo são primorosos -- o destaque é o de «Assanhado», extremamente original, seja para a música brasileira ou para o que veio em seguida: «Danza de La Vida «Breve» (Manuel de Falla) e «Fuga e Mistério» (Piazzola). Zé, Marcelo e Ronaldo têm a preocupação de encontrar peças que representem os países e que se encaixem bem à formação tão peculiar Para acabar, foi a vez de nossos recém-melhores amigos da música caipira tradicional. Mais um choque de 'tilos. De o instrumental elegante para as vozes cadenciadas e a viola límpida do novo trio, que começou a trabalhar junto em 2003. O repertório sentimental arrebatou o público -- e olha que a maioria de ele era bem jovem. Teve de «Índia» (Guerreiro / Fortuna / Flores) e «Meu primeiro amor» (a dupla anterior + Pinheirinho Jr). E todo mundo cantou junto! De certa forma, pode-se dizer que a 'trela da noite foi a platéia camaleônica, que soube se transformar e absorver tudo de bom e diferente que saiu do palco. O que é fundamental no Pixinguinha. Em 'te show 'pecífico, os 'tilos dos artistas eram realmente bem diferentes, como não deixa de ser a proposta do projeto. Imagino que muitas vezes não funcione tão bem. Mas ali funcionou que foi uma beleza. Deu até para fazer o bis típico do Pixinga, que junta todos os artistas no palco. Em certa altura do show, achei que aquilo seria inimaginável. Soube até que eles tentaram outros formatos nos shows anteriores da turnê e que nem tudo deu certo. De o processo tentativa / erro saíram os definitivos «Trenzinho caipira», de Villa-Lobos (uma boa sacada, que remete ao percurso do Pixinguinha) -- e teve até solo de guitarra do Davi Amorim -- e, claro,» Carinhoso». Este sim deve ser o maior hit de todos os-tempos para homenagear o autor, que leva o nome do evento. Mas ali tava valendo. E a platéia catarinense foi embora feliz, com discos autografados embaixo do braço e a sensação de que melodia nos faz muito, muito bem. Venha ela do Rio, de Belém ou de São Paulo. Número de frases: 75 * De aqui a alguns dias 'crevo do Rio Grande do Norte contando como foi a vida da caravana que 'tá por lá. A fumaça densa que 'capa de cigarros e charutos invade todo o Veloso, bar do Leblon, Rio de Janeiro. Ar típico de botequim carioca cheirando a cevada derramada. ' Garçom, um chope! ' ', diz o músico Tom Jobim, incisivo, para depois encerrar com um alegre ' Garçom, um beijo! ' '. As ' quantidades industriais ' ` de cerveja, como diz o maestro, são tomadas em companhia da cantora e amiga Miúcha, com quem Tom gravou dois discos nos anos 70, sem nenhum planejamento. ' Nossas gravações foram feitas entre o Veloso e as nossas casas, da forma mais descontraída ', lembra Miúcha. Tempo áureo da bossa nova, os jovens saem do bar inspirados, vendo anjos em cor de chope, para se reunir na casa dos Buarque de Hollanda e tocar até, quem sabe, o 'quivar da luz do dia. O violão ' Vinícius ', sob a posse de Miúcha, embala os saraus e noites musicais. ' ' Bebia-se muito no Veloso, hoje conhecido como Garota de Ipanema. E Tom dizia: ' Miuchinha, a gente nunca vai fazer parte dos Alcoólicos Anônimos. Nós somos os Alcoólicos Notórios ' ', diverte-se a intérprete. ' O clima de brincadeira se 'tendia às músicas que a gente queria gravar '. Em um desses encontros, a música ' Vai Levando ', de Caetano Veloso e Chico Buarque, recebe novos versos. Tom e Miúcha, embalados por os colarinhos altos da cerveja, levam a canção adaptada ao 'túdio, onde gravavam Miúcha & Antônio Carlos Jobim. A o repertório, adicionam um ' Vai Levando ' ` que troca o'$' mesmo com toda lama ', por ' toda picanha '. Os devaneios, 'quisitos e 'pirituosos, são as fontes de inspiração dos parceiros de vida, bebidas, quitutes e cantorias. Não há piano no Veloso. Tom dedilha na mesa, inventando bossas e combinando palavras como se fossem peças de quebra cabeça. ' O Tom adorava inventar histórias, brincar com as palavras ', conta Miúcha. ' Uma de suas composições que mostra isso muito bem se chama ' Chansong ', que é uma mistura de chanson, canção em francês, com song, canção em inglês. Situações inesperadas também fazem parte do repertório do Maestro. ' Muitos americanos pensavam que seu nome era Joe Bim. Em um tratamento mais formal, no aeroporto, chegando em Nova York, ele era Mr. Bim. Para os mais íntimos, apenas Joe '. Com um caderno sem pauta e lápis na mão, Tom começa a 'boçar a música ' Boto ', que demoraria dois anos para ser finalizada. Miúcha, com olhar atento, lapida os versos, sugere outros. ' Em a falta do caderno, servia o lado em branco daquele papel de embrulhar pacote de cigarro. Tenho algumas letras rabiscadas assim ', completa a cantora. A composição, considerada complexa, é cedida à voz delicada de Miúcha. ' Nunca pensei em ' Boto ' como uma música fácil ou difícil, talvez por ter tanta intimidade com ela. Durante quase dois anos eu vi o Tom burilando 'sa sua letra tão cinematográfica ', revela. Duas pessoas cantando a mesma música em tempos e tons distintos. ' Gostávamos de experimentar diferentes vocais. Muitas vezes a gente saia do bar e ia ou para o meu apartamento, na mesma rua, ou para a casa do Tom, ali perto, para experimentar no piano as vozes que criávamos 'pontaneamente. Era muito gostoso, parecia uma brincadeira que não ia acabar nunca '. Os encontros em apartamentos da Zona Sul rendiam muitas composições que nunca foram prensadas em disco. Ainda 'tão guardadas em fitas caseiras. O convívio, íntimo e afetuoso, traz histórias além de mesas de bar. ' Tom e eu costumávamos gravar juntos, um olhando os olhos do outro, prestando atenção na respiração, na divisão das palavras ', lembra. ' Nunca encontrei uma pessoa tão delicada, tão elegante, compartilhando a música. Ele mesmo dizia que adorava acompanhar cantoras. O que não é muito comum. Mas ele 'perava o final da respiração, jogava com os silêncios, rolava uma verdadeira telepatia e, é claro, uma grande emoção, um enorme prazer, que acredito 'tar registrado em cada canção '. Para se despedir, Miúcha entoa versos de ' Matita Perê ', música que não chegou a ser cantada junto ao Tom, desejando planar nos céus como os urubus que ele tanto admirava. Número de frases: 46 Ystatille Gondim Um sujeito de perna de pau passa correndo feito o Tiranossauro do filme. Uma roda junta mais Tiranossauros, dois de eles lutam com bastões. Os outros batem palmas e 'talam os pés de madeira no chão. Fazem barulho. Mais ao lado, uma turma leva um som -- guitarra, baixo, baqueta, flauta e sax em mãos. Dentro da roda, um grupo faz passos de dança guiado por a voz forte de um cara de amarelo. Começa uma cantiga de infância que acalma os sentidos: «Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá ...». O lugar é um galpão enorme, em Santo Cristo, Janeiro. O que 'tá acontecendo é o ensaio para 6º Festival de Diversidade Cultural -- Tangolomango, que vai ocorrer de ali a 48 horas, dia 4 de novembro, no Circo Voador. Aqui no Overmundo, você pode ler como foi o 'petáculo em Fortaleza e em Recife, adiantando um pouco a explicação de como se dá o show arquitetado coletivamente por vários núcleos de criação. Em o Rio, entram na roda a dupla de artistas de rua Irmãos Saúde (DF), os músicos, atores e dançarinos do grupo Dona Zefinha e os Bufões (CE), os malabaristas da Cia.. Aplauso (RJ), do Crescer e Viver (RJ), dos Gigantes por a Própria Natureza (RJ) e do Movimento Rua do Circo (DF), as cantoras e os dançarinos do Jongo da Serrinha (RJ), o cantor de coco Mestre Ferrugem (PE) e os músicos da banda Dr. Raiz (CE). Tia Maria Centenas de pessoas brincam no local. O Tiranossauro já não assusta, mas ainda impressiona. Sobretudo quando tenta dar uma «parada de mão voltando de invergada» e cai de cara no chão. Marco Aurélio, do Movimento Rua de Circo, 'tá bem. Levanta, faz todo o ritual de novo. Ajoelha e se benze. Apóia a mão no piso, fica de ponta cabeça, curva a coluna e faz uma ponte, umbigo apontado para o ar, perna de pau no solo, ergue-se, agora 'tá de pé. Todos aplaudem muito. Em um cantinho, sentada, Tia Maria acompanha com as mãos o som das últimas palmas. Ela é a matriarca do grupo Jongo da Serrinha, fundado há mais de 40 anos no Morro da Serrinha, em Madureira, Zona Norte do Rio. Muitos dizem que o jongo, canto e dança afros embalados por tambor e trazidos ao Brasil por os 'cravos, é um dos ritmos precursores do samba. Um olhar cruzado já chama para a conversa. Com 86 anos, ela parece realmente ter a idade que tem. Menos por a aparência do que por a vivência, é verdade. É uma velhinha negra com voz firme e boa postura, mas com histórias que entregam o tempo. Sem entrar na questão da origem dos bambas, complicada à beça, Tia Maria -- também fundadora da 'cola de samba Império Serrano -- conta, quase sem ser perguntada, a sua relação com os dois 'tilos: -- Prefiro ir ao jongo. É um grupo menor que o samba, né? A gente se torna uma família. Em o Império Serrano tem muita gente 'tranha. Antigamente, era um pessoal mais conhecido. Lá no Império, eu me sinto 'trangeira agora. Nem parece que foi a casa que eu fundei. O jongo não, ele é meu. Lá é minha casa. Outros aplausos. Nem se sabe direito o que houve, mas é possível ver que uma menina ao fundo desce enrolada num tecido. Tia Maria gosta muito de piruetas e palhaçadas. Mas no seu tempo, circo era coisa mal vista. «Quando eu era criança, diziam ' artista de circo vai embora com o circo '. Tinha medo de me levarem», ri. E pede para a moça ao lado: «Menina, pega as fotos para eu mostrar!" Os retratos são de uma carreira em ascensão. Shows em outros 'tados, no exterior, temporada em teatro famoso, CD, DVD, visita ao presidente em Brasília. Quando a foto com Lula chega, Tia Maria abre um sorrisão: -- Adorei ele. Uma simplicidade. Dispensou segurança. Ficou com mim e com as crianças. Para mim, que não 'tudei, não dá para entender as palavras que poliglota fala. Com ele não. É simpático demais. Tudo o que ele fala você entende, sabe? Não tem palavra complicada -- conta.-- E sabia que o Jongo vai se apresentar num casamento? Católicos chamando um grupo de música afro para embalar a festa? Curioso. Até Tia Maria 'tá receosa com o show, no próximo sábado. «Nem vou cantar, vou só para apreciar», diz. «A Igreja Católica tem 'sas coisas. Todas as igrejas têm, né? Acham que o jongo é uma religião. Mas não é. O jongo é só um afro. Só que vestimos saia rodada, colar, pano na cabeça. Pensam logo que é umbanda, candomblé. Quando a roda acaba, não tem isso, vai cada um para a sua casa fazer o que quiser." Depende mesmo do olhar. Porque logo ali, ainda suado descansando do ensaio, o irmão saúde Ankomárcio fala justamente sobre o Jongo da Serrinha, uma descoberta, para ele, 'piritual. -- Estou na 'trada desde o início. Em Fortaleza, o show foi de um jeito. Em Recife, de outro. Aqui no Rio já sei que vai ser diferente. Estamos recebendo o Jongo, um grupo que tem uma vertente quase 'piritual. Por isso mesmo merece um olhar diferenciado. É uma coisa religiosa, o envolvimento é outro. Nós vamos ter que entender 'se movimento de fé para que ele possa ser incluído e envolvido em 'se processo. Só de chegar perto da Tia Maria você se arrepia todo -- explica Ankomárcio, num sentimento absolutamente compreensível para quem não ouviu a defesa de Tia Maria, ali ao lado, poucos minutos atrás. Mestre Ferrugem Fé pode não ser o termo mais adequado para descrever o comportamento de Mestre Ferrugem. Mas chega perto. Se não fala de Deus, o que não falta a ele é crença na palavra. «A palavra do homem é um tiro», diz, ao ser avisado que não havia, naquele momento, dinheiro para comprar o CD. «Me pague depois, no show de domingo, certo?" A os 57 anos, Mestre Ferrugem teve de passar quase uma vida cantando coco para gravar as suas mais de 200 músicas. Mestre quando canta discípulo tem que respeitar (2007) tem 12 músicas e, embora seja de coco de embolada, guarda uma diferença para o 'tilo -- em vez de perguntas e respostas em frases curtas e satíricas, as letras de Ferrugem são grandes e de natureza existencial. Os versos da música homônima ao CD jogam luz sobre a profundidade da filosofia de Mestre Ferrugem: Eu vou perguntar a meu mestre Aonde fica o canal Meu mestre me respondeu Fica do lado de lá É barco de leme no meio Só para não perder o tino Parece que 'tou ouvindo Em o outro lado chamar Derrubada, a última faixa do CD, é um remix. «Coisa do produtor», dizem. E é mesmo. Pedro Rampazzo, produtor de Ferrugem, conta por que chamou Berna Vieira, ex-integrante dos pernambucanos Bonsucesso Samba Clube e Eddie, e colocou um DJ no palco para dar uma pitada «moderna e contemporânea» ao coco de Ferrugem: -- É uma 'tratégia de trabalho. Estamos na década do rock em Pernambuco. Por incrível que pareça, depois de tanto sucesso das misturas na década de 90, hoje se nega tudo o que é regional. Isso é feito para inserir o Ferrugem num circuito, para que ele seja olhado como um artista como qualquer outro. DJ, remix, modernidade; nada disso parece fazer a cabeça de Ferrugem. Também não desfaz. Sobre a questão, ele responde: -- Gosto mais de cantar solto com o meu grupo. Mas bom, se o pessoal quiser com um DJ, para mim tanto faz. É para fazer eu faço, pronto, acabou. Com mim não tem aperreio não. Ferrugem se diz um «homem sofrido que nasceu para ser feliz». Muito desse sofrimento se deve às mentiras que cruzaram a sua vida. «É muito bonito um homem, ou mesmo uma mulher, andar sempre com a verdade. Nada é pior que a mentira», diz. Em a mesma linha coisa de hômi, agora falando sem parar, acrescenta. «Se me derem um tiro, eu quero que seja por a frente. Homem tem que morrer com tiro por a frente». Dia do 'petáculo Domingo: cai um toró no Rio. De a água entrar no tênis. Dada a condição da cidade, o Circo Voador até que tem público. Pessoas sentam-se em torno do palco, deixando o 'paço onde a platéia costuma ficar para os grupos circenses se apresentarem. Há gente também nas arquibancadas, mais acima. Em o palco, os cearenses do Dona Zefina, alguns de eles integrantes também dos Bufões, fazem a base musical para a turma do picadeiro apresentar o 'petáculo. Muito do que foi ensaiado pode ser visto. Tudo mais organizado, é óbvio. São coreografias que parecem ter dado um trabalho danado para aprontar, ainda mais no tempo recorde de dois dias. O Jongo da Serrinha entra, ilumina com três músicas, e sai do palco. Dão lugar ao Mestre Ferrugem, que canta pouquinho e vai embora também. Sargentelli disse uma vez que artista sempre tem de acabar o show um pouco antes da hora 'perada, deixando a sensação de «quero mais». O fim repentino das apresentações, tanto do Jongo quanto de Ferrugem, não parece ter sido proposital. Mas a tática à Sargentelli, para ambos os casos, funciona. Festa que segue. O pessoal do Dr. Raiz, companheiro do Dona Zefinha no Movimento Cabaçal cearense, assume os instrumentos. Perto do fim, já no bis, o vocalista da banda avisa que vai cantar uma música, mas que àquela altura tudo é improviso. Bom, se é improviso, Tia Maria assume o microfone, interrompendo o animado músico. «Queria pedir licença para cantar uma canção do meu Império Serrano. Porque eu sou do jongo, mas também sou do samba». E as jongueiras começam o histórico samba-enredo do Carnaval de 1964, Aquarela brasileira: Vejam 'ta maravilha de cenário / É um episódio relicário / Que o artista num sonho genial / Escolheu para 'te Carnaval. Ankomárcio deve 'tar arrepiado por ali. A fé no jongo (e no samba) de Tia Maria se faz ouvir. Junto, de alguma forma, ela traz no tom a crença na palavra de Mestre Ferrugem. Abençoa todo o evento. A dívida do CD, claro, é quitada no final do show. Número de frases: 149 A palavra do homem é um tiro. A avenida Beira-Mar, em Fortaleza, continua linda. Além da responsabilidade da natureza por a construção do cenário, há ainda a parte delegada ao homem, ou seja, a montagem da infra-estrutura que hoje faz parte de todo o complexo que constitui a avenida. A junção dos dois trabalhos nos enternece quando por ali resolvemos passear como turistas ou simplesmente tomar o sorvete acostumado do final de semana. Quando criança, fui uma das que gastei muitos dos dias de minhas férias percorrendo 'sa orla. Em o caminhar, ia contando os barcos atracados na praia. Terminada 'sa contagem, partia pra outra, a dos hotéis. Estes eu tinha o cuidado de não perder nenhum de vista, por isso a atenção para os números que diziam a quantidade de prédios situados na orla. A matemática rolava solta até eu me entreter no próximo sorvete e naquele mundo azul instalado à minha frente. A partir daí 'quecia os barcos, os hotéis e os números. De fato, minha conversa séria sempre foi com o mar. Em o final do calçadão, que pra muitos é o começo, tem o Mercado dos Peixes. Este dá o ar da graça ao local; é como se fosse a cereja do sorvete. Os cheiros do peixe e do sal do mar acompanham a corrida dos turistas, a venda do café e a vigilância dos policiais. Vidas se constróem no perfume da Beira-Mar, lugar capaz de aglomerar outros lugares, outras línguas, lembranças, descansos e afazeres. Além dos passantes, há os parados. Iracema, Martim e Moacir há tempos 'tão ali, 'táticos, prontos para os flashes. Lugar de intensa movimentação e centro de assaltos na avenida, a 'tátua da índia, não fugindo às regras de hoje, tem uma cabine policial destinada à sua segurança. Paulo Ricardo Nogueira de Souza Matos, 15 anos de polícia e 4 meses a serviço na Beira-Mar, reconhece que a cabine de segurança intimida a ação dos assaltantes na área. Isso não quer dizer que impeça os atos de violência. Vários transeuntes são alvos de furto todos os dias no local. «Aqui é dois, três assaltos por dia. Os meninos não podem ver um cordão». Ao longo de todo o calçadão são 6 cabines que distam 300 metros uma da outra. Cada uma com a atuação de dois policiais. O aparato técnico desses profissionais é a ronda de uma viatura que atende também aos bairros vizinhos, como Castelo Encantado, Mucuripe e Serviluz. Muita demanda pra pouca 'trutura, o que torna o trabalho dos policiais quase ineficaz tendo em vista a onda de assaltos no local e a facilidade de fuga dos pequenos ladrões. Quando eu já 'tava de saída, o rádio transmissor de Paulo chia e vem notícia ruim. Mais um companheiro é assassinado na grande Fortaleza. De 'sa vez foi com uma troca de tiro com marginais no bairro São Cristóvão. O soldado com o rádio ao pé do ouvido se revolta. «Tem é que matar 'ses porra tudo». Tento, em vão, acalmar o homem armado com revolta no olhar; agradeço a entrevista, me calo e saio. As guaritas de segurança na Beira-Mar não são lugar confortável prum policial trabalhar, claro. Além do perigo, requer muito da atenção desses seguranças do Estado. Atenção que também faz parte do trabalho de José Márcio de Lima, há 3 meses trabalhando como flanelinha na avenida Já morou um tempo em Fortaleza e voltou pra Russas, sua cidade natal. ' Enjoou ' o interior, rumo à capital novamente. O que ele acha de Fortaleza? «Essa cidade é abençoada», fala alto o russano com riso largo e olhar atento. Ele veio pra cá através de um tio. «Cheguei por aqui e fui ficando. Fui gostando." às vezes ele dorme na Beira-Mar mesmo; ali perto dos barcos. O perigo existe, mas José Márcio tem dois cães, figuras responsáveis por a sua segurança durante a noite. «Os bicho são 'pertos. Um latidim e a gente fica 'perto também (sic)». Não pensa em voltar pra Russas tão cedo. «A gente abusa a cidade que se criou». Saindo da avenida e se voltando para a praia vem o encantamento. Além da imensidão azul, próximo ao Mercado dos Peixes tem a conversa fiada, o café quentinho e o canto do galo (sim, há pessoas que criam e comercializam galos na beira da praia!). A sombra das árvores convida. O olhar desconfiado dos que ali passam o tempo tenta afastar. Insistindo, chego até os pescadores e facilmente avisto um homem agarrado a uma rede de pescar. A aproximação é inevitável. José Cardoso da Silva costura, ou melhor, remenda redes já gastas por o tempo. Depois de 51 anos trabalhando no mar, Seu José encontrou em 'se trabalho uma forma de não se afastar daquilo que, mais do que parte da sua vida, foi, e ainda é, a razão de sua existência: a pesca. Nascido no Mucuripe, Seu José aprendeu a pescar com o pai, que também foi pescador e sustentou a mulher e os três fihos através desse ofício. Por muito tempo nosso remendador de redes obedeceu a uma rotina que tinha início às 4 da manhã com destino ao mar. As histórias são muitas. Algumas contadas com tantos detalhes que fica até difícil dizer que não passam de histórias de pescador. Ele vai no remendar da rede e no contar dos causos. Só não pesca mais por causa da coluna. Coisas traçoeiras da idade. «Se não fosse as costas eu ia para o mar. Se eu tiver em casa, parado, me dá uma fadiga. Aí eu venho pra cá." Seu José chega na praia às 5 da manhã todos os dias. Fica lá até a tardinha, quando volta para a casa e descansa. Em os tempos de boa saúde e muita farra, parava nos bares e se rendia ao fumo e à bebida. A farra durou até 1999, quando teve de passar por uma cirurgia. Era úlcera. Exibe a cicatriz com o orgulho de quem superou o vício. Hoje, até tomando refrigerante fica cismado. «Um dia me melei com uma coca» (risos). Em a volta para a casa, é como se voltasse para o mar. Encontra a solidão, e dorme. Está separado da mulher há 8 anos. Se ele sente saudades? A resposta vem pronta e certeira: «Se eu tenho saudade de coisa ruim? Quem já viu uma coisa de 'sa?!" Em a versão de Seu José, um dia, depois de chegar em casa cansado da pesca, sua 'posa, depois de uma discussão com o filho, tinha vendido o fogão. «Como era que eu ia fazer meu café de manhã? Porque ela não fazia pra mim." A discussão começou e perdurou. Em 'se mesmo dia o pescador saiu de casa e não voltou mais. Foi de 'sa aí que eu arribei». Hoje Seu José complementa a aposentadoria cuidando das redes. Com o trabalho chega a faturar R$ 70,00 por semana. «É bom. Dá pra viver». Em o embalo do remendo conta as histórias dos anos em que o mar foi seu companheiro maior. Um dia 'tava numa lancha com mais quatro colegas pescadores e o motor «caiu arribada». Ficaram por 7 dias sem comer ou beber em alto mar. «O vexame foi grande. Pra acalmar a fome eu molhava a corda na água salgada e chupava». A sorte é que encalharam na costa da Tabuba. Encontraram uma mulher que lhes ofereceu umas comidas e um café. O suficiente pra voltar para a casa e no dia seguinte recomeçar a pesca. As histórias de Seu José se misturam ao cheiro do peixe e às risadas dos colegas, que duvidam da inocência de suas palavras, apesar do respeito que têm por o seu trabalho e por a sua conduta. A vida distante das sofisticações continua para o homem das redes, que hoje, além da solidão aparente do olhar, tem o andar lento e seguro. Seu José é o próprio mar em movimento nas ruas da cidade. Número de frases: 106 1ª Motivação Dia desses li uma matéria da Bloomberg que comparava os investidores do pregão às crianças que colecionam figurinhas. Não era o repórter quem dizia, mas tudo dava a entender que ali 'tavam os nossos corretores do futuro. 2ª Motivação O cara entrou aos quarenta e dois do segundo tempo e fez o gol. Em poucas palavras, um cagão. Os mais polidos diriam: é um atacante com 'trela. Mas a simpatia que ele despertou não se dissipou com o apito do árbitro. E, não fossem os cinco quilos que o Ronaldo emagreceu para o jogo contra o Japão, a 'sa altura, 190 milhões de brasileiros 'tariam 'bravejando nas ruas: «Bota o Fred, Parreira!" 3ª Motivação O Ancelmo Góis publica na quarta-feira da semana passada uma notinha nO Globo, dizendo que uns camelôs do Rio de Janeiro vendiam figurinhas dos jogadores que não 'tavam no álbum oficial da Copa do Mundo. Ele cita Fred e Cris, como contemplados. Em a minha época, completar um álbum de figurinhas era trabalho hercúleo. Exigia paciência, disposição, sorte, e, acima de tudo, grana. Em toda a minha vida, jamais completei um álbum sequer. Mas cheguei próximo em dois. Um de eles -- o da Copa de 90, na Itália, quando me faltaram apenas duas figurinhas (das 448 de então) -- me acompanha para 'crever 'sa reportagem. Sinto um certo orgulho ao folhear as páginas abarrotadas de cola, daquela época em que as figurinhas não eram auto-adesivas. E, sim, um quê de frustração por aquelas duas malditas que me restaram. Havia, claro, a opção de encomendarmos as figurinhas na editora, mas eu nunca conheci quem tivesse feito isso. E continuo não conhecendo. Ingenuamente, trocando em miúdos, eu me pergunto: qual é a graça de colecionar quando a coleção já 'tá completa? Pois de lá para cá, torci muito por o Brasil no tetra (ano em que meu interesse por o álbum da copa seguiu na proporção inversa do sucesso da seleção nos jogos), por o Mengão (seja na terra, seja no mar -- como, aliás, tem sido o caso ultimamente), por o Brasil na França, e por o Felipão no penta. Em pelo menos duas das quatro ocasiões, minha torcida foi efetiva, de modo que não posso ser considerado um torcedor pé-frio. Mas, à medida que o tempo passava, minha efervescência diminuía. E, hoje, confesso envergonhado não saber de cor a 'calação dos 23 convocados para jogar na Alemanha. Mesmo assim, copa que é copa levanta os ânimos de qualquer um. Mesmo sabendo que a coisa é comprada, que não teve pênalti, não teve impedimento, que a Nike loteia o mundo com a Adidas, e que o Ronaldo, mesmo gordo e convulsivo, tem cadeira cativa (ou melhor, não tem cadeira cativa, já que não fica no banco) na 'calação dos titulares. Sim, sim, há quem diga que ele bate um bolão, mas eu não quero que isso seja motivo de desavença; até porque, ruim por ruim, eu tirava o Cafu, o Roberto Carlos, o Emerson, o Lúcio etc etc.. Importa que, desde que o Ronaldo deixou o diminutivo para o Gaúcho, eu não coleciono um álbum de figurinhas. Aliás, o Ronaldinho (o que atualmente atende por o peculiar sobrenome de Fenômeno) não constava na relação de jogadores do álbum de 94. Em seu lugar, figura, 'fuziante, um retrato do Evair. Ronaldinho, portanto, -- já ouvi dizer que a mudança de nome, por si só, já seria motivo de um sem número de sessões de análise -- não foi o primeiro e nem o último. Apenas mais um dos tantos que se celebrizam sem, contudo, darem as caras no livro ilustrado da Panini. A Panini, tradicional editora italiana 'pecializada em álbuns, quadrinhos e afins, é a responsável por as figurinhas oficiais da Copa do Mundo desde 1970. Mas o compromisso com os colecionadores não é sempre levado a sério por os técnicos das seleções como por os editores; o que faz com que, copa após copa, seja criado um limbo de jogadores que 'tão na copa e não 'tão no álbum, e outro dos que 'tão no álbum e não 'tão na copa. Dito isto, sigo na minha excursão por o mercado de valores das figurinhas da Copa 2006. Ou melhor, por o «mercado negro». Fui imbuído da missão de ir à Uruguaiana, tradicional camelódromo da cidade, procurar a bendita figurinha do Fred. Fui imbuído, na verdade, por ninguém a não ser eu mesmo, porque depois de ler a notinha do Ancelmo, senti que tinha uma bandeira a carregar -- no caso a bandeira do Brasil. Chego à Uruguaiana ainda meio tímido e pergunto a um homem que vendia quinquilharias verde-e-amarelas na 'quina onde é que podia encontrar figurinhas da copa. Muito amável, ele sorri meio banguela, e aponta um dedo sujo de graxa ou outra coisa preta que eu-não-quis-saber sem dizer uma palavra. Depois volta para outra cliente, como se eu não existisse mais. Sem remédio, vou até o lugar que ele me apontou, na verdade, uma clareira próxima a uma banca de zinco. Rodeio como cachorro atrás do rabo, meio tonto, meio perdido. Até que acho um, dois, três, quatro, cinco, um montão de bandejinhas dispostas em linha e cada uma com centenas, milhares de figurinhas 'palhadas debaixo de um elástico «que é pra não voar». Mesmo assim voava. Sabe como é: os caras têm que ficar manuseando o bolinho, se não tem graça nenhuma. Cheguei, e fiquei olhando. Alguns logo me desconfiaram. Mas eu fiz cara de ingênuo. Me acharam tímido. Um soltou: «Fala, patrão, o que que manda?" Eu me aproximei. Disse: " Estou só olhando. Quanto é a figurinha de jogador do Brasil?" Era 50 centavos. Uns vendiam por 40, mas eu tinha acabado de chegar, novo no pedaço, não era hora de pechinchar. Vi um sujeito aparecer com uma lista enorme, números que não acabavam mais. Era quase o álbum completo. E ele queria completar. Pediu para o camelô: «Quais cê tem aí?" Depois disso, eu vi que a prática era mais do que comum. Os caras chegavam com o papelzinho anotado e deixavam na banca de sua confiança. Iam embora e voltavam em 30 minutos. O camelô conferia uma por uma e entregava a encomenda honestamente. Aliás, honestidade era o que não faltava entre os negociantes. Os clientes pegavam o bolão na mão, com a maior liberdade, e 'colhiam as que interessavam. Algumas bancas ostentavam um gordo fichário que organizava as figurinhas de um modo impressionantemente ágil. Era só chegar e falar a numeração ou o time e o vendedor abria no plástico certinho e tirava uma repetida. Repetida. Fiquei matutando um bom tempo até entender como era o 'quema. Cheguei a pensar que ali só tinha colecionador, trocando as suas próprias repetidas. Mas não. Não era só isso. As banquinhas enfileiradas tinham um dono comum. Uma eminência parda que não consegui descobrir. Volta e meia vinha um mal-encarado discretamente perguntar: «Já fez quanto? Tá precisando?" E só muito mais tarde fui entender que aquela pergunta fazia menção ao desempenho do vendedor. E o «tá precisando» não era «de ajuda», mas de alguma figurinha que porventura 'tivesse 'gotada no 'toque. Qualquer coisa, o intermediário repassava um bolinho. Ou um 'porro, se as vendas 'tivessem fracas. Peguei um intermediário para conversar. Falei: " E aí? Como é que funciona isso tudo? Vocês compram figurinhas direto da Panini?" Ele riu. Demorou um tempo até que a intimidade permitisse que ele me vazasse umas informações. Fiquei envolvido no suspense da história de um grupo de investidores -- que ninguém sabe quem é (e quem sabe não diz o nome) -- chega a comprar 25 mil pacotinhos de figurinhas por dia. A Panini Brasil não vende seus produtos para pessoas físicas, a menos que os colecionadores façam o pedido através do cupom inserido no álbum, mas isso é só para quando faltarem menos de 40 figurinhas -- e o preço do frete é bem salgado. Em as palavras do camelô, " não compensa, melhor fazer negócio com a gente." O grupo que compra diretamente da Panini é formado por gente «graúda». É uma empresa que repassa os pacotinhos (são cinco figurinhas em cada) para distribuidoras nos 'tados. O endereço da distribuidora no Rio, eu fiquei sabendo da boca do intermediário. Mas quando falei para o camelô, o que vi foi a boca de ele aberta, e a resposta: «Como é que você sabe isso? Quem foi que te falou?" Um clima de mão invisível. Coisas de mercado negro. Em a conversa com o intermediário, fiquei sabendo também que há uma rede de operadores, em âmbito nacional, que separa as figurinhas de acordo com a sua cotação no mercado. E aquele mito de que há, sim, uma figurinha mais difícil que as outras é inteiramente verdade. Em o álbum da Copa 2006, o jogador mais raro é o Plasil, da República Tcheca. Está cotado em pelo menos dois paus. Entre os 'cudos -- figurinhas prateadas e brilhantes com o emblema das confederações dos países -- o da CBF é o mais valorizado. Custa de três a cinco reais, dependendo da 'perteza do vendedor e da ingenuidade de quem compra. A formação da Argentina, com a foto oficial da equipe unida, é, sem dúvida, uma das mais raras. E -- talvez por serem os maiores mercados da Panini -- as seleções e os jogadores de Itália, Holanda e Estados Unidos também figuram entre os cromos mais procurados. Cromos. Há quanto tempo não ouço falar de cromos. Em o álbum da Copa 2006, são 596. Os camelôs da Uruguaiana fazem por R$ 100 o álbum já completo. R$ 130, se o comprador quiser ele mesmo colar as figurinhas. É a lógica do mercado negro. O preço do álbum, ainda vazio, nas bancas, é de R$ 3,90. Cada envelope custa 60 centavos. O cálculo fica por sua conta. O que eu posso adiantar é que as figurinhas mais comuns, como as dos jogadores de Togo, são vendidas a 15 centavos; as mais difíceis podem custar R$ 0,50. De aí para diante, só os 'cudos -- um real cada -- e as raras de que falei antes. Fiquei acompanhando de longe toda a negociação. Vinha um, vinha outro, um grupo aqui, outro acolá. Em o álbum da Copa 2006, as equipes têm entre 15 e 17 jogadores, mais a figurinha da formação, mais o 'cudo. O Brasil traz 17 nomes, dos quais apenas 14 participam do campeonato. Os outros três, que seguiam nas convocações de Parreira, mas que foram descartados na última hora, são Júlio Baptista, Roque Júnior e Renato. Renato é a figurinha mais difícil do Brasil. O camelô diz: «Não tem jeito. Os caras passam o dedo, no sorteio, e 'colhem: 'sa aqui vai ser difícil. Aí fabricam poucas e fica todo mundo caçando." De o outro lado da moeda, Júlio César, Rogério Ceni, Cris, Luisão, Gilberto, Mineiro, Gilberto Silva, Ricardinho e Fred não 'tão no álbum, mas foram relacionados para ir à Alemanha. Como a empresa precisa confeccionar as figurinhas com alguma antecedência, e os técnicos, em contrapartida, precisam fazer aquele suspense até a última hora para surpreender os adversários, dá nisso. Em todo o álbum da Panini, são cerca de 60 jogadores que não 'tão na copa. Coisas do futebol. A própria Panini, diante da lesão às vésperas da copa do atacante da azzurra, Christian Vieri, resolveu lançar uma versão alternativa da figurinha 339, com seu substituto, Filippo Inzaghi. A idéia é que os interessados colem a 'tampa -- que, inclusive, é um pouco maior que as demais por trazer também as indicações de peso e altura do jogador -- por cima da outra, para compensar o erro. «Eu encomendei umas vinte de 'sas para um amigo que 'tá na Itália. Já 'tão todas vendidas», conta um dos camelôs, chamado curiosa e coincidentemente de Gordinho, por os amigos. Em a Alemanha, a Panini também homenageou o goleiro Jens Lehmann, que à última hora virou titular do time. Além desses brindes, a editora italiana reserva ainda outras três novidades para os colecionadores. Uma de elas é um selo 'pecial com o logo da empresa e a numeração 00. Com distribuição limitada, a figurinha pode ser colada na segunda capa do álbum, num 'paço que poucos percebem. A outra é a coleção virtual de figurinhas da Coca-Cola, coisa de cibercriança. E a última surpresa fica por conta do MyPanini, site em que é possível criar a sua própria figurinha, com detalhes e cores das seleções de sua preferência -- de preferência a brasileira, claro. Quando soube disso, foi só juntar o útil ao agradável: «Eles fazem a figurinha no computador, põem a foto do Fred, imprimem e colam nas costas aquele papel da etiqueta, com a numeração e tudo. Fica igualzinho, perfeito», ouvi mais de um me contar. Mas sabe como é. Mercado negro. Um falava isso, e o outro dizia: «É nada, rapá. Isso é invenção." A o que eu retrucava, " E o Ancelmo Góis? O cara tem fontes ..." «Sabe nada. Eles vêm aqui, vêem uma coisa e falam outra." Dá pra acreditar? Um outro se aproximou e falou: «Pára com isso, mostra logo a figurinha pra ele." Alguma 'perança. Eu insisti. Nada. Mais tarde, um terceiro fala baixinho só pra mim: «Semana passada deu polícia, ninguém pode vender 'sas coisas aqui, não!" O fato é que, no «figuródromo» da Uruguaiana, vai gente de todos os gêneros e todas as idades. Vai criança, vai adulto. Vai marmanjo, vai gatinha. Uns pais acompanham os filhos, ensinando a manha de colecionar álbum. Em a minha época, completar um álbum de figurinhas era trabalho hercúleo. Ingenuamente, trocando em miúdos, eu me pergunto: qual é a graça de comprar as figurinhas avulsas pra completar o álbum? Qual é a graça? O pai ajudava o filho com a negociação, pegava o bolinho do vendedor e falava: «Eu também já fui criança." Fui saindo de fininho, triste por não encontrar a figurinha do Fred, meio incomodado em descobrir que eu tinha sido uma criança diferente daquelas ali. Fred. O cara que fez o gol aos quarenta e cinco do segundo tempo. Queria saber a quantas andava a cotação do artilheiro, quem tinha tido a idéia da figurinha, o que cargas d' água faz tanta gente ir até ali só pra completar um álbum, tantas perguntas e acabei sem nenhuma resposta. Comprei três figurinhas (a do Roque Júnior, a do Renato e a do Ronaldinho Gaúcho -- pra contrabalançar), conversei com três compradores e tirei três conclusões: 1ª Conclusão É. Não tem graça nenhuma colecionar desse jeito. 2ª Conclusão Se é que ela existe, vender figurinha do Fred não devia ser pirataria. Porque, afinal de contas, não há um original. 3ª Conclusão Aliás, não há nada mais original que 'sa idéia ... Em a manhã seguinte, acordei e fui jogar bafo com meu irmão caçula. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da participação do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país. Número de frases: 195 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag 'pecial copa, no sistema de busca do site. Que país é 'se? Boa pergunta formulada por Renato Russo (compositor, poeta e cantor) numa de suas canções de protesto. Sinceramente -- não sabemos! Será que a pergunta não foi formulada aos «pais» e por erro proposital, o líder da banda «Legião Urbana» colocou a palavra com um acento, ficando «país» e gerando controvérsias. Alguém vai questionar que a frase 'taria errada 'crita na forma: Que pais é 'se? Sabe-se que a arte sobrepõe-se à forma, ficando o artista, livre para criticar a atual falta de educação nos lares, e o apoio governamental à causa da educação. A ausência de pais educadores é algo inédito e os valores éticos de alguns grupos, 'tão corrompidos por a frase «toma lá dá cá». Entende-se que na moderna sociedade, casais heterossexuais e homossexuais comungam os novos papéis de educadores e o «Estado» (em qualquer continente) tem o dever de apoiar tal função. Por onde começa a educação? Percebe-se que nos mamíferos, a educação começa no aleitamento e no aconchego materno. Em o Reino Animalia, a Classe Mamalia (mamíferos) é um observatório dos caminhos e descaminhos da educação das 'pécies. A educação da 'pécie Homo sapiens é um caso complexo para análise. Em o contexto aparece uma palavra brutal: matar -- causar a morte; destruir; extinguir -- tão presente no dia a dia da maioria das 'pécies vivas do planeta Terra e facilmente explicada por a Evolução das Espécies ou forma de sobrevivência das mesmas. O Ser Humano passou por tais evoluções e no caminho ao atual 'tágio de desenvolvimento tecnológico e moral, conservou os instintos irracionais primários de outras 'pécies menos desenvolvidas intelectualmente (será verdade?), e a palavra matar, continuou usual e diária -- ainda faz parte do vocabulário de todos os povos que vestem o título de civilização. Matar é necessário? Onde 'tá o homem civilizado? As formas de comunicação do Ser Humano civilizado mostram barbaridades cometidas por ele, em nome da lei, do fora-da-lei e daquele, que por algum motivo pessoal ou impessoal, mata ou extingue outro Ser Humano. Qual é o motivo? Existe motivo? Por onde começa a educação? Que país é 'se? Que pais são 'ses? Os pais de uma nação são seus dirigentes ou não? O filho de qualquer mamífero vê no pai ou na mãe o exemplo de sobrevivência. Como educar um mamífero numa ambiente, onde os pais ou país, não propiciam valores éticos para o verdadeiro desenvolvimento moral dos filhos ou filhotes? Alguns péssimos exemplos: os Eua exterminaram e ainda exterminam no Iraque. São milhares de pais, mães e filhos dos mesmos Seres Humanos civilizados, mortos em nome da sobrevivência do petróleo. Vários países europeus trataram e ainda tratam outros Seres Humanos como mercadorias e sub raças, e disseminaram e disseminam nos guetos das antigas colônias e sede do império, a competição sem 'crúpulo, deseducando as novas gerações dos próximos 300 anos. Talvez o 'pelho de «Narciso» seja a causa da violência! Será? A violência é um conjunto de fatores, multiplicados por milhares de condições propícias ao crescimento e não solução. Alguns falam na construção de presídios, pena de morte, pena perpétua e outras medidas de impacto para apaziguar os ânimos da sociedade dita moderna. E depois do dia «D»? Como serão as novas formas de correção? Olhar os próprios pés ou mesmo, o próprio rabo (somos mamíferos e alguns possuem rabo) é o começo da mudança tão almejada por 'ta sociedade hipócrita, vestida de preconceitos e injusta, que acha que o atual modelo de civilização é o ideal. Sites: http://lailtonaraujo.blig.ig.com.br/ Número de frases: 43 http://www.recantodasletras.com.br/autores/lailtonaraujo ... e eu pra não ficar por baixo resolvi botar as asas pra fora " * A gente quando viaja faz coisas nos outros lugares que nunca faria na cidade em que a gente mora. Quando fomos a Paris, fiz questão de ir ao túmulo de Jim Morrison, que, por coincidência, fica ao lado do hotel em que nos hospedamos. Cris não gostou da idéia: -- Era o que me faltava. Estou em Paris e tenho que ir visitar cemitério. -- Poxa, Cris, é o Jim. The Doors ... «Come on, come on, come on now touch me, baby ..." * Após um tempo, enfim, a convenci. Eu fui com uma camisa do The Doors e, assim que entramos no cemitério, antes de eu perguntar qualquer coisa, um cara me apontou onde ficava o túmulo de Jim Morrison. Segundo o livro Fromer's, 'se túmulo é o ponto turístico mais visitado de Paris, tanto que a prefeitura queria tirá-lo de lá por causa das bagunças que os fãs faziam. O cemitério é cinza. Aliás, é preto e branco, mas o túmulo de Jim 'tava cheio de flores e limpinho. Tinha também uma grade que o separava do público, mas eu, brasileiro de nascença, não pude resistir e pulei a grade para tirar a clássica foto. » ... can ' t you see that I am not afraid?" * * Em 'sa de ser brasileiro, quando 'távamos em Roma, no albergue em que ficamos tinha internet grátis, a partir das nove da noite, porém cada hóspede tinha direito a vinte minutos. Cris 'tava usando o computador e eu era o próximo na fila do banheiro. Aí chegou um cara e ficou na 'pera, colocando-se como o próximo da fila do computador. Como eu queria usar a net também, disse para Cris, num bom português: -- Fique no computador até eu sair do banheiro. Esse cara não sabe que você 'ta aí há mais de vinte minutos, tá bom? -- Tá bom -- respondeu ela. -- Vocês são brasileiros?-- perguntou ele. PQP, o cara tinha a maior cara de alemão, mas era de Porto Alegre. A o sair do cemitério, descobri que Oscar Wilde também 'tava enterrado lá. Cris me convenceu a não ir, pois o cemitério era gigante e, vendo o seu mapa, constatamos que, para chegarmos até o túmulo de Oscar, teríamos de andar muito. -- E chega de cemitério, 'tá um dia de sol e 'tou em Paris, Paris -- disse ela. Realmente, a cidade é incrível. Pegamos uma fila gigante para entrar em alguma coisa e fiquei de mau humor, mas, depois de dez segundos, pensava: «Porra, 'tou numa fila, mas é em Paris». E então olhava ao redor e via, de um lado, a Torre Eiffel, de outro, Notre-Dame, o Sena, as francesas ... e a fila virava diversão. Fomos à Sorbonne, mas não pudemos entrar. FHC é prova do que 'crevi na primeira linha. Lá, em Sorbonne, ele 'creveu uma coisa, mas fez tudo diferente, quando voltou para o lugar onde mora. De lá, fomos para o Jardim de Luxemburgo. Talvez tenha sido o lugar mais impressionante que eu e Cris vimos. É um jardim gigante, muito grande, perfeitamente bem cuidado, com flores e gente por todos os lados. Havia lugares para recém-nascidos, para crianças, adultos e idosos. Uma coisa fantástica é que tinha um campo de botcha, aquele jogo que é como se fosse de gude, só que as «gudes» são bolas maiores. Os velhinhos, bem velhinhos, ficavam jogando. Porém, mais fantástico do que isso eram as 'posas de eles, todas bem velhinhas, sentadas do lado de fora, comemorando cada lance. E tinha árabe, americano, africano, japonês (pra caralho), 'panhol, judeu, nenéns, pai e filho, mãe e filho, vó e neto, 'tudantes, namorados, gente com laptop na mão 'crevendo textos. O mundo 'tava ali. É por 'sas e outras que o americano Jim, o inglês Oscar, o brasileiro FHC e outros tantos foram a Paris buscar inspiração. Chico Buarque ainda vai. Mas 'pero que ele, quando chegar a hora, seja enterrado aqui, no Brasil. FH pode ser por lá, se quiser. Assisti ao 'pecial com Chico produzido por a Direct TV. A cena de ele cantando com Caymmi é uma das coisas mais incríveis já filmadas no planeta. A música é assim: «Se fizer bom tempo amanhã, se fizer bom tempo amanhã ... eu vou. Mas se por exemplo chover, mas se por exemplo chover ... não vou " * * *. E, em 'se filme, Chico fala que busca inspiração nas ruas de Paris, caminhando, vendo, assistindo ... mas que também faz isso nas ruas do Rio. Ele contradiz a primeira frase desse texto. Quando me mudei para a Ondina, demorei uns quatro meses para curtir e descobrir as inúmeras vantagens do novo bairro. Porém, numa sexta, de noite, assistindo a Chico, falei para Cris: -- É isso, todas as manhãs agora vou andar na orla para ver o mundo. Fazia isso na Europa, por que não fazer aqui? -- É bom, você tá ficando gorducho! Vai começar quando? -- Se fizer bom tempo amanhã, eu vou. Mas, se, por exemplo, chover, não vou. E lá vem o Sol ... Saí de casa, atravessei a rua e, quando 'tava passando por a porta do Clube Espanhol, vejo o guardador de carro gritando com a mulher da Vega, que limpa as ruas. -- Salário?? E isso é salário? Aí, pegava o boné e fazia igualzinho a Seu Madruga, jogava no chão, pulava em cima e dizia: -- Isso é 'mola. Esmola -- gritava. Ele percebeu que eu 'tava olhando, olhou para mim e disse: -- Ô, rapaz, num tô brigando com ela não, tô só brincando -- e abriu um sorriso 'buracado.-- Você sabe qual o problema do país?-- perguntou para mim. Em 'sa hora fiquei pensando se dava uma resposta rápida e continuava andando ou se parava. Lembrei de Chico e parei. -- O problema é que aqui ninguém pára pra ver o mundo. A mulher da limpeza ficou rindo para mim, como se dissesse: «vai dar atenção a 'se doido?" e foi saindo. Eu fiquei dando atenção ao doido. Ficamos por quase uma hora conversando. A mulher da limpeza, quando voltou, depois de quarenta minutos, ficou sem entender ao perceber que eu ainda dava atenção ao «doido». -- Você que é da elite, vive bem?-- ele me perguntou já respondendo.-- Não vive que eu sei. Vive com medo, trancado em sua casa e no carro ... -- O Brasil só vai ter jeito quando tiver uma guerra, como foi na Alemanha, Holanda ... onde os sobreviventes ficaram com vergonha do que a intolerância foi capaz de fazer e, só assim, passaram a viver se respeitando -- vociferava ele. O genial é que, quando passava alguém fazendo cooper, ele gritava para a pessoa: -- São todos hipócritas. Estão preocupados com a barriga que tá crescendo e se 'quecem que milhares 'tão com a barriga vazia. Querem fazer a barriga diminuir? Distribuam a renda, classe opressora. Se entupam menos. E continuava: -- Tá todo mundo se dizendo decepcionado com o governo, com o mensalão, mas ninguém contesta que um jogador de futebol, num país miserável como 'se, possa ganhar cem mil por mês ... qual a diferença disso para a corrupção? Nenhuma ... Mas a elite burra e o povão sem educação continuam enchendo os 'tádios, fazendo do futebol a única razão de tudo ...-- berrava ele. Robinho que 'tá certo: «Quero ir para a Espanha porque aqui no Brasil não se pode nem mais ganhar dez milhões em paz que já ficamos com medo de seqüestro." Me despedi de seu Carlos, que tem diversos cursos técnicos no currículo, mas que 'tava desempregado. Me disse que sábado que vem levaria o currículo para ver se eu podia fazer alguma coisa. Chego à praia do Barravento e 'tão acontecendo dois jogos de futebol. Um num 'paço grande, aproveitando a maré baixa, com os times uniformizados e outro do lado, menorzinho. Fico olhando o jogo e, subitamente, acontece uma briga no jogo menor. -- A bola não entrou -- berrava um. -- Entrou sim, foi gol ... E, subitamente, por um motivo que não deu para ver qual, acontece outra briga no jogo maior. Putaquepariu. A areia virou uma arena. Todos brigando, dando sangue por o futebol. Os chutes agora miravam duas bolas. A polícia entrou «em campo» e virou 'petáculo. Acho que os policiais deviam fazer cooper na orla também. Todos barrigudos. Como é que pode um policial barrigudão, numa roupa pesada, de bota, com um Sol de 32 graus na moleira, correr mais que um larápio de shorts e Nike? Chego ao Porto da Barra e vejo nosso Jardim de Luxemburgo. O mundo também 'tá ali. Tem de tudo e de todos. PQP, inclusive um ninja, um cara que fica de kimono preto fazendo exercícios de meditação, com duas varas na mão. Ando mais e ouço um cara gritar com uma mulher: -- Você lave a boca pra falar do meu Baêa. Vou entrando por o 'tacionamento do Yacht Clube e vejo seis trabalhadores, todos pretos, uniformizados com calça e camisa azul, furando o asfalto quente com picaretas e enxadas. De o lado de eles, um Audi, todo preto, com dois caras brancos sem camisa, ouvindo Racionais MC's nas alturas: «A maioria, negros, já não é segredo, nem novidade. Vivem como ratos jogados, homens, mulheres, crianças. Vítimas de uma ingrata herança ..." * * * * Eu, particularmente, prefiro o rap de Caê com Gil que diz que " o Haiti é aqui ... ou não». * * * * * Em tempo: para não fazer igual a FHC, 'sa semana prometi ir ao Jardim da Saudade, ao túmulo de Raul. Já que fui ver Jim Morrison em Paris, tenho de ir ver Raul Seixas em Salvador. Como tenho medo de 'sas coisas, só não sei se vou dizer «Toca, Raul». Vai que ele toca ... (*) Jardins da babilônia, de Rita Lee e Lee Marcucci. Gravação: Rita Lee, disco «Babilônia», Som Livre, 1978. (*) (* * *) Touch me, de Densmore, Krieger, Manzarek e Morrison. Gravação: The Doors, disco «The Soft Parade, Elektra, 1969».-- Nota do Tradutor: Venha, venha agora e me toque, baby! Você não vê que eu não tenho medo? (* * *) Maricotinha, de Dorival Caymmi. Gravação: Tom Jobim com participação de Dorival Caymmi, disco «Antonio Brasileiro, Globo Columbia, 1994». (* * * *) Beco sem saída, de Edy Rock e KLJ. Gravação: Racionais MC's, disco «Holocausto Urbano, RDS Fonográfica, 1990». (* * * * *) Haiti, de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Gravação: Gilberto Gil e Caetano Veloso, disco " Tropicália 2, Polygram, 1993. Número de frases: 154 Olá, Gostei muito da entrevista da Helena Aragão com o músico gaúcho Vitor Ramil, intitulada Beleza feita de Vazios. Eu queria apenas fazer um comentário sobre o texto de ela e me empolguei tanto que ficou muito grande. Assisti a uma apresentação de ele aqui em Campinas recentemente. Ele tocou coisas do próximo disco que é uma parceria com o percussionista Marcos Suzano. A música que ele tocou foi feita junto com o Jorge Drexler (aquele que canta «Otro lado del» no filme de «Walter Salles Diários de Motocicleta», sobre as viagens de Che Guevara por a América Latina, e evitou entrar em território brasileiro). Quando as coisas foram se juntando na minha cabeça, o ouvido ia captando o sotaque e o coração batia de saudades por Porto Alegre e sua gente, eu já 'tava vendo a paisagem que Vitor se refere no seguinte trecho da entrevista: «A Estética do Frio vem gerando muito interesse, é novidade para muita gente, muitos me dizem que sempre sentiram isso e nunca chegaram a formular. Em o começo teve gente achando que eu 'tava tentando ditar regras. É coisa minha, não há pretensão de criar movimento. Mas o tempo mostra que minha expressão individual encontra eco. Quem tem uma paisagem de planície, no frio, dificilmente vai compor uma música como Caymmi ou um axé. Ele se volta mais para dentro de si. Agora, tudo isso é opinião minha, e só." Provavelmente, um pouco deste sentimento de paisagem e de pertencimento ao entorno, é o que levantou o Rodrigo Teixeira, em seu comentário sobre a entrevista de Helena, quando chamou atenção para «o Brasil invisível». Quero dizer que, para quem cresceu apreciando 'ta paisagem de campos e pampas, que por sinal não é exclusividade do «Sulista» (que preferimos chamar de Gaúcho), e nem é exclusivo do território brasileiro. Os campos cobrem boa parte do Sul da América do Sul -- Argentina, Uruguai e, inclusive, o Brasil (para conhecer mais, ver entrevista com o Prof. Hasenack ou um relato sobre o projeto de mapeamento dos Campos). Em 'te caso o título do post da Helena poderia ser «Beleza feita de Campos Abertos». Pois é isso que é a paisagem daquela porção do planeta. São Campos, que apesar de aparentemente, ou à primeira vista, 'tarem vazios, eles abrigam uma biodiversidade muito original (nada a se comparar com o Brasil tropical de Matas Atlânticas e Amzônias, mas que tem o seu valor). São os campos abertos por onde o gado passa e pasta. Pois bem, Vitor Ramil se criou em 'ta paisagem. Natural do sul do Rio Grande do Sul, onde é mais fácil e rápido ir até a Argentina ou Uruguai e suas capitais, do que o Rio de Janeiro (capital do Brasil, na época) e Porto Alegre (capital do RS). Pelotas é cidade natal de grandes artistas (Vitor, com seu carinho por a cidade, além de uma pitada do que minha tia Evelina caracterizou como «Barroco», apelidou-a de SATOLEP, um anagrama bem-humorado). É bom que se diga que por lá habita um povo historicamente muito culto, e que por lá existem importantes universidades (sugiro dar uma olhada na homenagem dentro das páginas pessoais da Universidade Federal de Pelotas). Em o mais, é isso. Dá licença que vou tomar meu chimarrão. Tchau!! PS -- Hoje entendo melhor meu colega Gabriel Hofmann, quando ele ia com o Prof. Hasenack em saída de campo para o Pantanal e levava sempre um disco do Vitor Ramil pra fazer companhia ... PS 2 -- «Poema» " Querência " de João da Cunha Vargas, musicado e cantado por Vitor Ramil em Longes (2004). Reproduzo a parte que corresponde aos 30 segundos que editei. «Por 'tes campos afora deste Rio Grande infinito De pago em pago ao tranquito Repontando o meu destino De o campo grosso para o fino Fui me criando solito» Número de frases: 37 Em conversa com o Overmundo, Criador do site Senhor F fala sobre sua relação com o rock e, entre outras histórias, revela que comprou seus primeiros discos com o dinheiro de jogos de botão Fernando Rosa é um cara superlativo. Conhece muito de música. É criador e editor do site Senhor F, o maior sobre rock e grupos independentes do país. Produz diversos shows. Inventou um selo para lançar as bandas de que mais gosta. É pai de duas meninas. Agora inventou de apresentar um programa de rádio. E ainda é bacana pra caramba. Tão bacana que, não raro, acolhe em sua própria casa os músicos de outros 'tados convidados para seus eventos. Em 'sa entrevista ele conta um pouco de sua trajetória, de Pinheirinhos (RS) a Brasília, dos seus discos e bandas preferidos e, claro, do seu site, ponto de partida para todo o «complexo» Senhor F, que já se tornou referência no país. Fernando, qual o primeiro disco que você comprou? Olha, existe uma polêmica sobre isso. Não lembro se foi o Álbum Branco ou o Sgt Pepper ´ s, ambos dos Beatles. Ou talvez os dois ao mesmo tempo, não sei. Mas foi por volta de 1968/69, quando já morava em Taquara, na região do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, para 'tudar. Até então, ouvir as músicas no rádio bastava para a gente. Em a verdade, o que eu mais gostava, que era Beatles e Jovem Guarda, tocava bastante no rádio. E disco era caro para um garoto vindo do interior. Se não me falha a memória, comprei os discos com uma grana que ganhei no jogo de botão. Era bom nisso. Então «fabricava» craques que, como acontece hoje, eram vendidos para os outros times. Um pouco caros, claro. Assim sobrava uma grana pra cigarro e pra 'ses discos. Mas isso pode ser apenas uma lenda ... Então você é gaúcho. Conte um pouco sobre sua infância e adolescência no Rio Grande do Sul. O que 'cutava em 'sa época? Havia boas bandas locais? Nasci num distrito chamado Pinheirinhos, mas nunca vi ali um único pinheiro! Fica no interior de Santo Antônio da Patrulha, acho que a cidade mais antiga do Rio Grande do Sul. Sou descendente direto de João Magalhães, o primeiro povoador do 'tado, lá por os idos de 1726. O cara que abriu o caminho sertanejo para os paulistas capturarem o gado e venderem para os mineiros, ocupados na extração de ouro, ou algo assim. Em a casa de meu avós, de origem portuguesa, tinha luz elétrica, mas na minha, não. Então, tínhamos um rádio a bateria, onde ouvíamos jogos de futebol, Jovem Guarda, Beatles e seus derivados, tipo Herman Hermits. Era isso que tocava o dia inteiro, sem contar os programas 'peciais. Em Taquara havia grupos de rock, mas a pouca idade nos impedia de freqüentar as festas. Só quando já tinha cerca de 15 anos e morava em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, pude assistir a shows. Alguns dos grupos que mais me fascinaram na época foram Liverpool, Boogaloo, tipo Santana, e Impacto, um conjunto de baile que resultou da fusão de grupos de garagem local, entre eles The Cleans. Este é hoje considerado um dos pilares do rock gaúcho, junto do Liverpool e dos Brasas. Em discos, gostava de ouvir os Mutantes, que alguns moleques da turma colecionavam. Balada do Louco era hit das festinhas por volta de 1972. E quando você começou a se interessar em 'crever sobre rock? Qual foi sua primeira experiência na área? A primeira matéria foi sobre Os Tápes, um grupo folclórico moderno que procurava resgatar a cultura indígena local. Foi publicada na primeira edição da revista Livre, do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. Idéia de um grupo de gurizada, então liderada por o Olívio Dutra, que era funcionário do Banrisul, onde eu 'tagiava. Foi no início dos anos 70 e Os Tápes não eram bem rock. Mas eu já era meio rebelde com alguns conceitos fechados que imperavam na época. Depois produzimos um programa na Rádio da Universidade Federal, chamado Clube da Esquina. Éramos eu, Rodolfo Lucena, hoje editor do caderno de informática da Folha de S. Paulo, e Maria Clara Jorge, que transava teatro e depois trabalhou com assessoria de imprensa de grandes gravadoras. Tudo com a benção do Carlos Urbim, um importante 'critor gaúcho. Era para ser de MPB, mas a gente transgredia e botava pra tocar Novos Baianos, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Lô Borges e os nordestinos que, para a gente, era rock. Em o final dos anos 8 o, já morando em São Paulo, colaborei com o fanzine Rabo de Peixe, 'pecializado em rockabilly, ao lado de gente como Eduardo Moreira, o saudoso Eddy Teddy, Ayrton Mugnaini Jr. e Sérgio Barbo, entre outros. Em 1993, 'crevi uma matéria para a Bizz, que acabou tornando-se meio histórica, chamada A história secreta do rock brasileiro. Ali, pela primeira vez, com grande destaque, as bandas de garagem dos anos 60 eram lembradas. Quantos discos você tem? Quais são os preferidos? Devo ter uns 5 mil, entre CDs, hoje a maior parte, LPs, compactos e fitas-cassete. Quanto aos preferidos, é difícil. Claro, alguns se destacam imediatamente na lembrança, como Revolver dos Beatles, Exile on Main Street dos Stones e O Inimitável do Roberto Carlos. Mas gosto de coisas variadas e 'quisitas como Link Wray, Cramps, rock latino, bandas de garagem dos anos 60, rockabilly, música brega ... Em cada um desses gêneros teria um disco clássico para citar. E qual sua banda preferida? E entre as atuais? Olha, a primeira, como não poderia deixar de ser, é Beatles. Mas a segunda já entorta, pois sou um apaixonado de carteirinha por os Sonics, uma banda de punk-garagem dos anos 60. Assim como tudo que tem a ver com melodia, música bem resolvida e de qualidade remete aos Beatles, toda a tosqueira que sacode o rock and roll até hoje é herdeira direta desses primitivos de Seattle. Depois, Bob Dylan, que ouço com prazer até hoje, 'pecialmente as coisas mais antigas, que mantêm o frescor da ousadia, da contestação e de um profundo humanismo. Ainda tem Stones, Animals, Beach Boys, Grateful Dead, Ramones, Hendrix, Mutantes, Troggs, Zombies, Seeds e centenas de outros. De os mais atuais, acho que Radiohead é o último grande grupo de que gostei. Mas ainda tem os menos famosos e mais recentes, como Hal, Magic Numbers e Damien Rice. Entre as bandas independentes brasileiras, existe alguma que você goste mais? Bah, é uma resposta difícil, porque gosto de dezenas de bandas, até por ter uma proximidade maior, sacar melhor cada uma. A cena independente atual é uma das mais ricas da história da música jovem brasileira, apesar da censura do jabá ou a da falta de visão dos meios de comunicação tradicionais, ainda com peso da formação de opinião. Então não vou citar uma 'pecificamente. Como surgiu o site Senhor F? Você sempre fez tudo sozinho? Em o início era praticamente eu que tocava tudo sozinho. Desde pauta, textos, edição e publicação na rede. Com o tempo surgiram os colaboradores, que enriqueceram a revista. Hoje eles são uma rede informal 'palhada por o Brasil. Não apenas jornalistas, mas músicos das bandas, agitadores da cena e toda sorte de fanáticos por rock and roll. Somos uma mega-corpora ção virtual. E a produção de eventos, quando e por que decidiu entrar em 'sa? Quantos já foram realizados? Acho que a decisão de produzir shows foi uma 'pécie de «recaída» de minhas atividades de militante político organizado, já que fui militante do MR8 por muitos anos, desde os anos 70. Em o início da década, em Brasília, havia poucos locais para os grupos tocarem. E os shows, apesar do 'forço da molecada, eram precários. Junto com alguns amigos que tinham bandas, decidimos organizar um evento, aproveitando o 'paço e a credibilidade da revista e o programa de rádio que apresentava na Usina do Som. Por idéia do Fernando Brasil, do Phonopop, criamos o evento Noites Senhor F, que já 'tá indo para a 35ª edição. Em 'se período, contribuímos para fortalecer a cena local e integrar a cidade no circuito independente nacional. Fale um pouco sobre o selo Senhor F. Quem já foi lançado? E o que vem por aí? A idéia do selo surgiu da vontade de contribuir com o processo editorial da cena independente. É uma parceria de Senhor F com o Estúdio Daybreak, de Philippe Seabra, da Plebe Rude. E surgiu dentro do mesmo 'pírito que nos levou a montar os eventos, que se desdobraram no Senhor Festival, realizado no fim de 2005, em Brasília. Temos vários 'paços de divulgação da música independente nacional, como a Parada Senhor F, o Senhor F Virtual (uma plataforma para lançamento de singles por a internet) e a edição de coletâneas físicas, como o CD Clássicos da Noite Senhor F. Mas queríamos também experimentar, ver qual é, descobrir como se virar para tocar um selo, construir um conceito em 'te terreno. O selo, então, é mais um 'paço, onde exercitamos um aspecto mais particular de entre as nossas iniciativas. Já lançamos 'sa coletânea e os álbuns de 'tréia do cantor e compositor brasiliense Beto Só, da banda recifense Volver e dos gaúchos do Superguidis. E 'tá em processo de mixagem o segundo disco da paraense Stereoscope, que será o próximo lançamento. A banda Mordida, de Curitiba, também 'tá mixando. O disco de eles foi gravado no 'túdio Daybreak, e sai depois do Stereoscope. Você 'tá sempre no meio de músicos. Aprendeu a tocar algum instrumento? Não toco não. Quando era moleque, com uns 11, 12 anos, cheguei a tocar violão. Com meus primos, e primos de eles, tentamos montar um conjunto. Mas como só tínhamos violões, o lance não progrediu. Acho que também faltava talento. Ficou nisso. De onde você tira seu ganha-pão? E como arruma tempo pra cuidar de todos os «produtos» Senhor F? Assim como a maioria do pessoal da cena independente, incluindo as bandas, temos de bancar uma dupla jornada. Nada que a maioria das mulheres não faça cotidianamente. Em o meu caso, trabalho como assessor de imprensa na Comissão Parlamentar do Mercosul, no Congresso Nacional, em Brasília. A revista, os shows, o selo e tudo o mais é tocado na dupla jornada, nos finais de semana, feriados etc.. Tenho a vantagem de dormir pouco. Mas, claro, melhor seria se fosse ao contrário. Contatos: Site -- www.senhorf.com.br E-mail: senhorf@senhorf.com.br Bandas: Beto Só -- www.betoso.com.br Mordida -- Comunidade no Orkut Phonopop -- www.phonopop.net Plebe Rude -- www.pleberude.com.br Stereoscope -- ubbibr. fotolog. com / stereoscope Superguidis -- www.superguidis.com.br Volver -- www.volver.com.br Em o rádio: Número de frases: 133 Programa Senhor F -- Rádio FM (100,9 Mhz) -- 5 as feiras, das 22h às 24h. «Vivi no canavial trabalhando pesado no corte da cana. Com 54 anos, vi um cidadão tocando violino na televisão e fui na mata, cortei a madeira, deixei secar, e quando secou fiz a rabeca, e acertei." Esta é a história de Nelson dos Santos, o Seu Nelson da Rabeca, como ele é conhecido por todos. Músico e luthier autodidata de 80 anos, sorriso fácil e simplicidade que irradia uma mágica tão incrível quanto sua história com a música. Em 2008, Nelson da Rabeca lançou seu terceiro «CD O Segredo das Árvores», com apoio da Petrobras e Ministério da Cultura. São 21 composições da mais autêntica música rural. Em 'te mesmo ano, lançou também o primeiro DVD, onde o público pode captar toda a beleza e poesia do artista. Quando Nelson foi apresentado ao público alagoano anos atrás, as pessoas ficaram encantadas com aquele senhor, tão carismático na alegria de tocar seu instrumento, e que vivia um drama enfrentado por tantos alagoanos, a falta de moradia. Em todas as entrevistas, Nelson falava do seu maior sonho «O que eu mais queria era ter uma casa pra receber meus amigos, todas as pessoas que me ajudam». Antes de dizer que queria uma casa pra morar, Seu Nelson queria uma casa para receber as pessoas, e conseguiu. Muitos produtores e músicos, entre eles Hermeto Pascoal, fizeram uma grande movimentação em Maceió, doaram seus cachês, promoveram eventos para arrecadar recursos e realizar o sonho da casa de Nelson e sua mulher Dona Benedita. E já vão 8 anos de «felizes para sempre» na nova morada. Fui visitá-los em sua casa sonhada no centro histórico de Marechal Deodoro. Logo na entrada da cidade, uma grande 'tátua de Nelson dá as boas vindas aos visitantes. Encontrei o endereço com ajuda de indicações das pessoas nas ruas de Marechal, a rabeca sobre a porta anunciava o ilustre morador. De o lado de fora da casa verde com grandes janelas de madeira, 'cutei uma melodia, aquele inconfundível timbre do instrumento. «Seu Nelson! Ô de Casa!" gritei. A música parou. Fui recebido por Dona Benedita, companheira de Nelson na vida e na música, ele toca, ela canta e os dois compõem canções singelas de beleza rara, coisa do amor mesmo. «Ah, por favor, entre, ele 'tá tocando lá dentro, a gente 'tava ensaiando." E entrou falando «Nelson, tem um rapaz aqui, ele é jornalista, mas é músico também, olha que bom» e me levou pra dentro, onde eles ensaiavam um xote que Nelson compôs na noite anterior. Escutei em primeira mão. Ele tocava a rabeca e ela o chocalho. Dona Benedita mostrou que é boa percussionista também e não perde o ritmo. Terminada a música, Nelson olhou pra mim, sorriu e disse «'se é um xote que eu fiz ontem à noite, se chama ' De a Rabeca '», e começou a contar sua história. Depois de construir (ou seria reinventar?) suas rabecas, Nelson começou a tocar. «Eu trabalhava na fazenda durante a semana e no fim de semana tocava para os turistas na Praia do Francês, onde eu ganhava dois tantos a mais que durante a semana, foi lá que comecei a ser divulgado, hoje tenho três discos gravados e já toquei no Brasil todo. Fortaleza, Salvador, São Paulo, Alegre, em todo canto. Hoje sou feliz com minha rabeca. Eu ouvia dizer que cavalo velho não aprende passada, mas aprende. Eu aprendi. Estou com 80 anos e não paro de criar, continuo fazendo música». Ele conta que já fez e vendeu mais de cinco mil rabecas «pelo meio do mundo», e que gosta mais de tocar que de fazer o instrumento,» gosto também, mas tocar é como uma pessoa que dirige um carro. Vai pra onde quer». Seu filho, Gilson, também começou a tocar e se apresenta na praia do Francês, seguindo os passos do pai. Nelson participou de duas edições do Circuito Nacional de Música Sonora Brasil, fez algumas turnês, sempre acompanhado de Dona Benedita. A 'posa sente saudades de viajar, «é bom demais, nem fale que dá vontade de ir embora de novo, conhecemos tantos lugares e pessoas tão legais». Durante a conversa, Nelson contou algumas histórias de suas andanças por o Brasil afora. «Fui tocar em Porto Alegre com o Zé Gomes (rabequeiro gaúcho), e achei a tocada de ele tão bonita que eu disse que se morasse ali ia pegar explicação com ele. De aí ele me disse que uma tocada que nem a minha eu que devia dar explicação. Já o Mestre Salustiano, de Pernambuco, me disse ' Seu Nelson, se brincar o senhor toca mais que eu ' e olhe que ele toca bonito e com aquela animação toda." E sorri contente por o reconhecimento dos colegas. Aliás, a carreira musical de Nelson é cheia de encontros musicais com figuras do calibre de Hermeto Pascoal, Antonio Nóbrega, o saxofonista norueguês Rolf-Erik Nystrom e o sanfoneiro alagoano " Tião Marcolino. «Já teve gente de chorar quando me vê tocando, eu fico muito feliz», disse Nelson com gratidão. Durante a cerimônia de tombamento da cidade de Marechal Deodoro como patrimônio histórico nacional, Nelson fez um improviso com o ministro da cultura Gilberto Gil, sobre a experiência ele diz «foi bom que só conhecer ele, não conheço as músicas de ele, mas ele é muito gente boa e nos fizemos um repente no palco». Perguntei que tipo de música ele gosta de ouvir, Nelson disse que " foi música, eu gosto, nasci com isso. Em o começo, eu tocava Asa Branca do Luiz Gonzaga na praia, e todo mundo gostava, aí depois toquei 'sa mesma música no Programa do Jô. Em a hora Deus me iluminou e eu toquei ela bem bonita». Discografia: Caranguejo Danado Para os Amigos O Segredo das Árvores Os CDs de Nelson podem ser encontrados a venda na Banca Zumbi dos Palmares, Centro de Maceió. Número de frases: 55 Contato com a banca no (82) 9305-5311. há Pouco menos de Um Ano, ir a um dos banheiros do terminal de ônibus de Messejana, bairro de Fortaleza, significava 1) aspirar, logo à entrada, o azedo imperecível de urina, 2) patinar no piso de cerâmica desgastado, 3) martirizar-se ao encostar as nádegas nas bordas imundas dos sanitários e, por fim, 4) afligir-se com uma inelutável falta de papel higiênico. Hoje, após passarem por uma reforma ampla, plural e irrestrita, os novos banheiros guardam apenas o péssimo hábito de não terem papel. Ao menos não à mão. O único rolo disponível fica 'condido numa touceira de plantas rasteiras ou preso ao cós das calças de zeladores sempre dispostos a barganhar sobre o tamanho exato do papel quando o momento pede urgência. Pedro de Santos Carvalho, 64 anos, é um de eles. Há duas semanas o enfezado zelador amarga a rotina que reza: periciar, no início das jornadas de trabalho, as condições físicas das novas instalações; lavar e enxugar obsessivamente piso, paredes, 'pelhos, pias e sanitários a cada vinte minutos; abastecer o recipiente destinado ao sabão líquido; manter-se atento ao que entra e sai dos banheiros; e, finalmente, entregar tudo cheirando a novo antes de ir embora, às 23 horas. Para ele, a cereja do bolo dos terminais tem custado caro. «Além de perder o meu ônibus todas as noites, tenho de ficar limpando o tempo inteiro. Não sei por que um negócio desses pra quem não merece. Tem gente que quer tomar banho e mijar na pia. Não sabem nem usar o mictório. Queria voltar para o Siqueira [outro dos sete terminais de Fortaleza]. Lá não tinha besteira." Tanta nostalgia não chega a ser um sentimento totalmente impenetrável ao entendimento humano. Pedro acredita que, quanto mais fedentina houver num banheiro, mais sossegadas serão as suas seis horas diárias de trabalho. A capital cearense abriga, ao todo, sete pontos de integração destinados aos cerca 1,6 mil ônibus que, faça chuva ou sol, se desdobram para atender a uma demanda de mais de um milhão de usuários vindos dos mais de cento e oitenta bairros 'palhados por seis regionais (algo como as subprefeituras de São Paulo). Em bom português, os terminais carregam sobre as suas colunas de concreto a dura tarefa de facilitar a vida de quem acaba aprendendo, a bordo de linhas como Paranjana e Grande Circular, medonhos conceitos como o de calor latente, coeficiente de atrito, queda dos corpos e lançamentos horizontal e vertical. Pedro talvez não saiba, mas só em Messejana são 149 mil bexigas e intestinos grossos e delgados circulando a cada vinte e quatro horas. como se não bastasse o 'tresse implicado na intrincada missão que é apanhar um ônibus numa metrópole, 'ses organismos são inexoravelmente bombardeados por coxinhas, enrolados, pastéis, caldos, bolos, sanduíches e sucos manufaturados ali mesmo, nas dezessete lanchonetes que matam a fome de quem vem e vai. Não raro, 'sa mistureba termina por conduzir uma fração do contingente que depende dos ônibus aos cuidados de Pedro. Ele se 'força para manter os cinco aparelhos sanitários e os três mictórios da marca Celite, as pias e divisórias de granito, as portas de madeira, as torneiras e descargas, os dois 'pelhos (à proporção que nos aproximamos ou nos afastamos de eles, nossos membros e tronco são exageradamente 'ticados ou encolhidos) e os mais de setenta metros quadrados de cerâmica tão formosos quanto os primos ricos que povoam as galerias de arte contemporânea. E, claro, prontos a receberem os dejetos das mais variadas formas, cores e natureza. De Aparência Frágil, quase desmontável, Pedro acredita que tanto luxo corresponda, sem tirar nem pôr, ao desperdício que é lançar pérolas aos porcos. O zelador reprova o comportamento abusivo de alguns usuários. «Aqui mesmo no terminal tem um rapaz, um branquinho de cabelo comprido que vem no banheiro pelo menos umas dez vezes só no meu horário. Não sei o que faz tanto. Ele chega, entra ... Depois vai no 'pelho e faz assim ..." -- Pedro alisa os poucos tufos de cabelo que tem e arremata: «É uma coisa ..." Há uma semana, a incipiente rotina do zelador foi sacudida por alguém cuja maneira de usar as novíssimas instalações sanitárias 'capou ao rol de funcionalidades previamente 'tabelecidas. De modo geral, as pessoas buscam 'ses 'paços sociais quando querem muito a) urinar, b) evacuar, c) se masturbar ou d) simplesmente lavar as mãos. «Ele entrou aqui como qualquer outro. O problema mesmo foi a demora. Dez, quinze, vinte minutos e nada», relata Pedro, que também é perito em 'peras. «Eu tive que entrar lá pra ver. Fiquei parado na frente da porta, mas não ouvi qualquer barulho. Então saí. Contei mais vinte minutos e comentei com um colega de trabalho: só pode 'tar morto." Não 'tava. Impaciente, Pedro voltou a fazer guarda à entrada da cabine. Até que o som da chave sendo girada o animou: o homem não morrera. Ao contrário, 'tava vivinho da silva e, segundo o zelador, sem quaisquer vestígios de que realizara algum trabalho sujo ou limpo nos últimos dois terços de hora. «Falei com o rapaz. Ele disse que 'tava cansado e que tinha resolvido sentar ali e 'perar o ônibus." Em aquele Mesmo Dia, ele ainda seria procurado por um usuário à caça de papel. Em uma conversa pontuada mais por gestos do que palavras, o zelador lhe explicou: a supervisora resolvera encerrar todos os rolos numa saleta e tirar o dia de folga. O jovem, que viu imediatamente uma nuvem 'pessa de desamparo abater-se sobre si, entrou no banheiro de mãos abanando. Empunhando um rodo com um molambo preso em sua extremidade, Pedro foi lamber, pela enésima vez, a cerâmica branca da entrada dos sanitários. Esfregou tudo até desaparecerem as marcas dos solados de chinelas e sapatos e o sem-papel, já à porta, imprimir novas tatuagens no piso. Mais leve e envergonhado do que há cinco minutos, ele se dirigiu até a pia e lavou as mãos. Em seguida, mirou-se demoradamente no 'pelho, que refletiu uma cabeça dez ou quinze vezes maior que a original. Antes de ir embora, olhou em torno. Encostado à parede, Pedro resmungou: Número de frases: 63 «É muito luxo pra quem não merece». Este caso ocorreu em Carapina, grande Vitória, no dia 20/03 de 2007 e foi o primeiro homicídio que cobri como fotojornalista do jornal, A Tribuna. Mais um jovem de 20 anos morto, por envolvimento com drogas na região. Quando recebemos a notícia no carro, para seguirmos para o local do crime, ouvi a repórter lamentar o fato do homicídio ter acontecido com uma pessoa pobre. Por o fato que isto não dá notícia e realmente não deu. Pelo menos por parte do jornal, não teve nenhum respeito. Por se tratar de um caso comum já banalizado em nosso cotidiano. Acontece que a lamentação da repórter, apesar de ter me chocado, não aconteceu uma única vez, pude vivenciar o caso com outra repórter um tempo depois, em situação semelhante. Chegando ao local, fui de encontro à mãe da vítima M. N., 40, que se encontrava rodeada por os vizinhos e em 'tado de choque. Fui de encontro ao corpo e registrei o fato. Fotografei a situação da mãe, com o intuito de mostrar que 'ses jovens, tidos por a maior parte da sociedade, como marginais que merecem a morte, também tem família e que suas mães sofrem as conseqüências de 'sa sociedade injusta e 'tão sofrendo todos os dias. A o fotografar 'sa mãe desejei que a sociedade voltasse os olhos para ela e se comovesse com a sua situação que representa a situação de muitas outras mães. Comover-se não é apenas chorar por ela ou rezar, mas pensarmos juntos, em como podemos lutar para mudar 'te quadro. Pois, se é para mostrar a desgraça alheia, que 'ta exibição não seja consumida como um filme de terror e sim que sirva como reflexão e 'topim para mudanças efetivas. Para cobrarmos das autoridades nossos direitos. O direito a cidadania, a educação, saúde, empregos. Para que nossos jovens tenham opção de 'colha. O depoimento da mãe foi ouvido e confirmou o envolvimento do filho com as drogas, falou de sua dor e nada mais. Nada mais tinha a dizer. E a justiça? Onde 'tá em 'tas localidades? Isto não pode continuar assim? O fato nem saiu no jornal e a foto ficou com mim, para que eu pudesse publicá-la agora em nome de todas as mães que perdem seus filhos, em 'te mundo de hipocrisias. Número de frases: 23 http://quasarte.blogspot.com/ O homem sempre foi um ser por natureza gregário e revolucionário. Com o primeiro qualificativo, talvez todos concordem. Não persiste uma existência sem outra que lhe sirva de testemunha. O homem, em outras palavras, nasceu para presenciar a aventura dos seus iguais.";;;; O homem é um animal social ";;;; já formulavam os antigos. Não há como se isolar um ser humano dos demais sem destitui-lo de sua 'sência, qual seja, a sua racionalidade. Não existe, pois, idéia sem que haja uma outra que a contradiga. Em 'se ponto Hegel guardava largos méritos. O homem, resumindo, só adota tal elemento descritivo enquanto parte de um todo (mais, ou menos, heterogêneo, mas sempre untado por suas próprias particularidades). Por outro lado, o homem vivência em sociedade uma crescente atualização dos meios materiais disponíveis para subjugar a natureza, dos quais também faz uso no intento de submeter seus pares. Assim, se de um lado fenece o meio ambiente, também se 'truturam mecanismos de dominação cada dia mais vis e que vão de encontro justamente à idéia utópica de convivência societária harmônica e paritária. Ora, uma vez que a convivência se impõe por sua própria primazia e caráter necessário, é mister que se ajuste a nossa atual realidade de sujeição e servilismo, a uma nova cultura (ou mais antiga) revolucionária. Não compreendamos, todavia, revolução como a tendência à consumação de uma nova ordem através das armas e de meios violentos. Não é o caso. Até porque a própria dominação tem seus alicerces em ideologias muito bem urdidas e 'tratagemas econômicos, cujo 'mero e cuidado disciplinar tornam qualquer ofensiva um acinte à própria noção de ente social e de unidade. É preciso, outrossim, passarmos, de uma formação baseada na hierarquia impenetrável dos poderes, para uma cultura de movimentos. Entende-se cultura de movimento como a generalizada articulação de entes e entidades da sociedade civil em torno de causas que induzam a formulação de um renovado ";;;; status quo ";;;; naquilo que 'te lhes parecer injusto e anacrônico. Não nos apeguemos, porém, por demais, ao conceito. Existe movimento quando determinada comunidade ribeirinha defende-se do descaso 'tatal e monta uma cooperativa de pescadores. Existe movimento quando uma equipe de jornalistas se utiliza de meios, ainda que eticamente questionáveis, para veicular um abuso de poder ou um tráfico de influências. Há movimento quando a opinião popular deflagra o fim de uma programação e o início de outra. Há, enfim, inúmeros exemplos de culturas de movimento. Estas fazem parte da própria dinâmica do todo social e são, em última análise, a sua melhor forma de expressão. Todas as formulações advindas do poder dominante são no sentido de mistificá-las e desacreditá-las. Ou na direção oposta, cooptá-las. É importante ressaltarmos que os movimentos não devem possuir, grosso modo, vínculos de intimidade ou parasitários com o poder como autoridade constituída. Este não deve compor seus objetivos, muito embora nada impeça que, como cidadãos, uma parcela dos seus membros concorram e façam parte integrante do Estado como dirigentes ou legisladores, desde que o poder, em si mesmo, não lhes seja um mérito mas apenas uma ferramenta. Os cidadãos devem, então, agregar valor às instituições legalmente constituídas, e nunca deixar perderem-se no caminho a sua própria identidade e os laços com as forças que os motivaram inicialmente. Cultura de movimento é, por assim dizer, a negação do poder como o reconhecemos nos nossos dias. Um poder corporativo, muitas vezes autoritário, e não raro, corrompido. O principal, entretanto, é tratar-se de um poder defasado em relação aos movimentos sociais, dos quais seus integrantes muitas vezes nem fizeram parte, mas utilizaram, à sua maneira, como degrau de sustentação. Uma cultura de movimento, em certa medida, colocaria em pauta as contradições do próprio organismo social e a sua superação. Culminando, à maneira do velho Marx, na supressão das desigualdades de classe ou, por outra formulação, mais direta, no fim do Estado e criação do paraíso na Terra. Em a nossa visão, a utopia de uma sociedade engajada em sua totalidade continuaria parte de concepções religiosas ou filosóficas. O que teríamos seriam núcleos 'parsos de cidadania, dentro de uma sociedade politicamente madura. O que ensejaria um enriquecimento do conceito de nação, em detrimento da concepção de Estado, em poucas linhas, um Estado culturalmente mais humanizado. Tudo isso, contudo, depende de uma única e absoluta palavra: educação. Educação que não se restringe aos bancos 'colares, mas uma educação para a vida. Em 'se ponto em particular, os exemplos que vêm da nossa conjuntura histórica são desestimuladores. A supremacia do mais forte sobre o mais fraco parece refutar qualquer idealização de uma cultura de movimentos. Cabe às mídias difundir as iniciativas positivas do Brasil que se movimenta e consegue bons resultados. Cabe a todos os brasileiros perseguir um ideal aglutinador já explícito na doutrina do Cristo e racionalmente elaborado no imaginário marxista. Número de frases: 45 Domingo, 16 de setembro, dona Canô chamou a Bahia para comemorar seu centenário em Santo Amaro da Purificação. Por tabela, eu fui; afinal, um chamado de dona Canô não se pode negar. Entrando na malcuidada Santo Amaro, que me lembrou Camocim sem mar, fiquei pensando como é que daquele confim saíram Caetano e Bethânia para o mundo. Lembrei que dona Canô teve uma educação exímia: aprendeu inglês, francês, tocou piano e cantou muita música popular para seus meninos, introduzindo-os na arte para sempre. Foi a primeira dor funda do dia: lembrei que hoje quase não existe mais isso. Os pais enfiam seus filhos em colégios, pagam tufos de dinheiros, lavam as mãos e sequer ouvem ' Leãozinho ' junto a suas crianças. Em a sacristia, ao 'perar o início da missa em ação de graças a dona Canô, fiquei observando o vaivém das gentes todas que chegavam para o aniversário. A imagem de Nossa Senhora Aparecida também veio de Aparecida, em São Paulo, para os cem anos. Devotos, com celulares ou máquinas digitais em punho, faziam questão de fotografar a imagem. Adoração à imagem número um, dor funda número dois: mais importante do que rezar era fotografar a santa. A adoração à imagem de Nossa Senhora apenas se juntou à adoração às imagens de Caetano, Bethânia, Regina Casé, Elisa Lucinda, Jacques Wagner ou de qualquer outra pessoa não anônima que se encontrava lá, que eram muitas, por sinal. O que era para ser uma missa em ação de graças, um encontro da família, tornou-se um 'petáculo, que seria visto mais tarde em todos os jornais. Eu, que fiquei nos bastidores, quase não vi o branco dos cabelos da dona Canô. Ela 'tava a 20 metros de mim, mas eu não conseguia ver a miudeza da criatura. Cinegrafistas, fotógrafos, jornalistas e caras-de-pau abarrotavam os acessos, a vista, o vento, maltratavam dona Canô com a luz das câmaras. Adoração à imagem número dois, dor funda sem-número: mais importante do que a celebração dos cem anos era mostrar tudo mais tarde por a televisão. Como testemunha ocular do meu tempo, coisa que aprendi com meu pai, queria ver dona Canô, queria ver uma pessoa de cem anos, queria ver a missa, mas o jeito era seguir o foco das câmaras. Em um dos momentos, percebi todos os flashes voltados para um certo canto, pensei que fosse dona Canô, mas não, era Bethânia e Caetano. Dona Canô 'tava do outro lado, 'quecida, 'ticando o pescoço, tentando ver, entre os câmaras e fotógrafos, os filhos cantando na missa de seu centenário. Eu quis sentir pena dos padres, que foram obrigados a dividir o altar com os cinegrafistas e caras-de-pau, mas nem, os padres também faziam parte do fuzuê do 'petáculo: queriam loucamente ser fotografados e fotografar as celebridades. Antes da missa começar, um dos padres (a missa foi celebrada por o cardeal arcebispo de Salvador com o auxílio de 14 padres) me pediu para que, se eu pudesse, ficasse com a máquina digital de ele e, quando eu tivesse uma oportunidade, o fotografasse perto de Bethânia e Caetano, só desses dois, ele frisou, o resto não. Eu neguei, pedi desculpas com cara de desprezo por um padre que 'conde uma máquina debaixo da batina enquanto faz olhar de compaixão diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Mas enquanto eu fazia a minha cara de desprezo, o governador da Bahia, Jacques Wagner, entrou no recinto. O padre pidão quase quis que eu o fotografasse com o governador, fiz um olhar matador e ele desistiu. Saiu saltitando, foi pedir para uma outra pessoa. Adoração à imagem não sei qual número, dor funda: eu ria de tristeza. Esse padre-auxiliar não foi o único. Durante a missa, volta e meia, os padres se revezavam, arranjavam uma brechinha, iam lá na frente, levantavam o braço e registravam Bethânia e Caetano, Regina Casé e etc. A o final, depois de, com toda razão, se irritarem, Caetano não deu entrevista para a imprensa. Bethânia deu um grito quase assim: uéu, deixa eu tirar minha mãe daqui. A aniversariante foi embora, o fuzuê continuou: Regina Casé foi a sensação. Fui embora de Santo Amaro da Purificação querendo ter vivido no tempo de dona Canô, quando o melhor as câmaras não 'condiam, quando o melhor era o presente, era 'tar perto, ver para crer. Fui embora de Santo Amaro da Purificação sentindo pena de dona Canô, por ela ter vivido até ver o mundo se transformar nisso. Até que ponto vai a sociedade do 'petáculo? Até desistirmos de presenciar acontecimentos e ficarmos enfurnados em casa, vendo tudo por a televisão. Número de frases: 44 De noite, vi dona Canô bonitinha, miudinha, quietinha, com um vestido brilhante, no Fantástico ... Vejo a 'trutura 'colar dos Estados Unidos como a grande 'cola de serial-killers do nosso tempo. Em a terra dos hambúrgueres (como ensina o Pasquale), existe até ranking dos maiores massacres no instigante ambiente 'colar americano. O último foi perpetrado por Cho Seung-Hui, sul-coreano doidão que matou 32 pessoas em Virgínia Tech e, vejam só, tinha duas peças de sua autoria quando se matou. Cho, infelizmente, teve meios de concretizar seus sonhos. Tornou-os reais. Rubem Fonseca fez da sua literatura a concretude dos crimes que concebeu. Ok, ok, não dá pra dizer que Rubem Fonseca e Cho tenham mais paralelos que diferenças, mas dá sim pra dizer que em ambos, em algum momento, brotou um fascínio por a morte. Em Rubem, 'se fascínio se transformou em crítica social. Em Cho, acabou em massacre. Todo 'te prólogo é pra compreender que existem muitas formas de representar e fazer uso da morte e da violência num 'petáculo. No caso de O Cobrador, em cartaz no Teatro X, 'se uso tendeu para um certo realismo bizarro / grotesco, que tem seu valor, mas parece que não vai até seu limite na montagem. Se a proposta era fugir do simbólico, as cenas ficaram realmente bem literais. Isso quer dizer, querido leitor, que você pode ficar procurando sentidos mais profundos em cada cena, mas eles não virão. Por mais cara de conteúdo que você faça. Um serial-killer representado por dois atores é o personagem central da montagem. Ele resolve cobrar tudo que não tem. Quase como os seqüestradores do repórter da Globo, que resolveram cobrar na forma mais hedionda, o meio de expressão que nunca tiveram. Este personagem não seqüestra, mas 'tupra e mata para cobrar o que acha seu por direito (a lista é grande, não me lembro de tudo, vale assistir pra lembrar). O que não me deixa compreender o realismo da peça são os elementos que 'tão na forma do 'petáculo; luzes laterais são uma alternativa fantástica para demonstrar as várias facetas do personagem; o cenário em forma de prédio nos remete a 'se ambiente urbano-carioca onde age o cobrador; a trilha se faz por vezes com sons dos próprios objetos de cena, fazendo de eles parte do ambiente da peça. Tudo isso seria melhor aproveitado se a montagem tivesse mais simbologia. O discurso do cobrador é questionável na medida em que se torna uma violência desmedida. Em o início, ele segue uma 'pécie de código ético, de acordo com o qual só cobra quem realmente deve muito, por ter tido muito durante a vida toda. Tal ética, entretanto, perde a lógica quando ele se relaciona com uma das que devem ser cobradas. Constato, enfim, que se lá entre os irmãos da América do norte, a própria 'cola é o ambiente propício para a criação de serial-killers, aqui podemos ter exércitos de cobradores por as ruas, se a ficha destes cair em algum momento. As formas de cobrar podem ser muitas. Número de frases: 29 O Cobrador nos apresenta a mais trágica de elas. Está acontecendo em 'te fim de semana, no Centro para Internet e Sociedade «da faculdade de direito de Stanford (San Francisco -- California), o simpósio» Cultural Environmentalism at 10 «que marca 10 anos de criação da metáfora» Ambientalismo Cultural». Não poderíamos deixar de destacar o evento, já que o blog Ecologia Digital e o site correlato nasceram de minha perplexidade frente à pertinência e propriedade da abordagem elaborada por James Boyle há uma década. O próprio Boyle, acompanhado de ninguém menos que Lawrence Lessig, 'tarão comandando o simpósio e recebendo os conferencistas selecionados: Molly Van Houweling irá explorar a manipulação voluntária da propriedade intelectual (ex.: licenças creative commons) como ferramenta de ambientalismo cultural; Susan Crawford irá ampliar a perspectiva de Boyle focando as 'pecificidades do universo das redes; Rebecca Tushnet comentará sobre como a tendência generalizadora das leis pode inviabilizar o " ambientalismo cultural '; e Madhavi Sunder aborda como a metáfora do ambientalismo cultural interfere na questão do conhecimento tradicional ('te é quente!). Em recente artigo no Financial Times, onde agora é colunista de " new economy ' (!), James Boyle relata que em 1996 tentou publicar um texto sobre propriedade intelectual, costurando os temas ' internet ', ' liberdade de expressão ` e ' acesso à informação ', e o editor achava que o tema central seria pornografia e censura. Não era. Boyle tratava de patentes de software e regras para o direito autoral no ambiente digital. Já naquela época preocupava-se com regulações que responsabilizavam os provedores por qualquer coisa que um usuário fizesse online, e com as persistentes extensões do período de cobertura dos direitos autorais que resultaram no confinamento de toda a cultura do século XX (mesmo os conteúdos não disponíveis comercialmente). Tudo isso acontecendo exatamente no momento em que poderíamos sonhar em tornar tudo isso facilmente acessível por todos. Boyle percebeu claramente que, em 1996, o tema propriedade intelectual era árido o suficiente para só interessar a 'pecialistas da indústria. Em a prática, 'tavam sendo redigidas as regras básicas da ' era da informação», que iriam interferir dramaticamente na liberdade de expressão, na inovação, na ciência e na cultura do futuro próximo, e ninguém -- exceto os players da indústria -- 'tava prestando a devida atenção. Foi aí que surgiu a analogia ao movimento ecológico que, de forma brilhante, tornou visível os efeitos de decisões sociais relativas ao meio ambiente, trazendo à luz do debate democrático um conjunto de assuntos que, até então, eram restritos a 'pecialistas. Era urgente a formulação de um ambientalismo da mente, uma economia política para a era da informação -- era necessária uma ecologia digital. E tudo começa com o lançamento do livro «Shamans, Software and Spleens» (1996), enfocando uma decisão da Suprema Corte americana em 90 (Moore v.. The Regents of the University of California) que regulamentou a possibilidade de se patentear DNA retirado do corpo de terceiros. Expandindo as idéias apresentadas na «Declaração de Bellagio» de 93, que contou com sua co-autoria, Boyle buscou construir uma teoria social da sociedade da informação. De lá para cá, parece que a ecologia digital vem colecionando derrotas: os termos limite de copyright foram extendidos, alargaram-se os limites da lei de marcas, e a lei de patentes avança na cobertura de algoritmos e idéias básicas. Registre-se que em nenhum desses casos houve demonstração evidente de que a nova proteção seria necessária ou desejável. Mas existem motivos para otimismo. A existência deste Overmundo " no Brasil pode ser um sinal, um reconhecimento de que 'tes são assuntos que merecem atenção e difusão pública, e sobre os quais cidadãos podem / devem debater. E já temos os nossos equivalentes do Greenpeace. Também a indústria, devagar, começa a compreender que seus interesses no assunto podem ser vistos sobre novas perspectivas. Boyle sugere as diferenças marcantes entre IBM e Microsoft, e entre a indústria de hardware e a da música como exemplos do novo quadro. Na medida em que a propriedade intelectual começa a interferir na vida de quem participa na criação da cultura digital, o cidadão comum começa a ter algo a dizer no assunto. Pode ser que o debate ainda não 'teja equilibrado, mas pode-se dizer que hoje, trata-se de um debate -- e não um monólogo da indústria do conteúdo. Número de frases: 31 Portanto temos o que comemorar, e vamos tentar acompanhar o simpósio para trazer as novidades pertinentes ao público da ecologia digital. A igreja não tem cara de igreja. Em o teto, um globo 'pelhado igual ao das discotecas, além de oito luzes ultravioletas, iluminam gente fantasiada de caipira, com chapéu de palha e terno xadrez (é dia de festa junina). Em o altar transformado provisoriamente em palco, seis dançarinos animam o público batendo palmas e fazendo uma coreografia que todos acompanham, alguns de forma bem desajeitada. Depois começam a pular e levantar os braços, como se dançassem ao som de música eletrônica. Em seguida, pára a música. Um jovem com o microfone pede para que todos dêem as mãos. «Façamos um compromisso 'ta noite. Vamos nos abandonar a Deus. É isso que Deus quer, que aproveitemos 'ta noite como nunca aproveitamos lá fora. Deus quer conquistar o seu coração. Ele é apaixonado por você!" O jovem com o microfone pede para que todo mundo repita, olhando para a pessoa do lado: «Deus é apaixonado por você!». Todos repetem, enquanto, quase imperceptivelmente, o padre João Henrique passa pelo meio do povo com seus auxiliares rumo ao altar, decorado com bandeirolas verde-amarelas. O padre também bate palmas. Uma barulhenta banda -- duas guitarras, baixo e bateria -- quase 'toura as quatro caixas de som posicionadas em dupla de cada lado do altar. «Boa noite a todos, bem-vindo à Cristoteca», proclama, com forte sotaque italiano. É meia-noite, vai começar a missa. Toda sexta-feira, na Monsenhor Andrade, uma rua sem saída do Brás, num dos pontos mais pobres e abandonados de São Paulo, é realizada a Cristoteca, uma balada voltada para jovens católicos. Cigarro e bebida não são proibidos, mas ali não há clima para isso, assim como não se vê amassos entre os cerca de mil jovens que a freqüentam toda semana. «Quando vem uma banda mais famosa, pode chegar a duas mil pessoas», conta Vanderson dos Santos Costa, de 22 anos, que 'tuda para ser padre e também é o organizador da festa. Por «famosa» entenda-se famosa para os católicos. A que levou mais público foi a Banda Dominus, equivalente católica às bandas gospel que lotam 'tádios com evangélicos. A balada sempre começa com uma missa comandada por o padre João Henrique, que não raro passa de duas horas de duração, como na última sexta-feira, celebrada num galpão ao lado da Casa Restaura-me. A igreja improvisada não tem bancos, todo mundo senta-se no chão mesmo. Em o altar, além do crucifixo, apenas uma imagem de Nossa Senhora. Embora em alguns momentos alguns jovens comecem a conversar durante a missa e celulares toquem, a maioria participa cantando, dançando e batendo palmas. Como num show, a igreja fica 'cura e as luzes seguem o padre João enquanto ele faz o sermão, permeado de frases como " Fique 'perto, cara, para quando Jesus passar." A missa é parte da balada. «Entendam», diz «padre João,» nós não podemos não fazer festa, não podemos não pular de alegria." Uma salva de palmas e assobios entusiasmados. Número de frases: 32 Balada cristã é isso. «Deixa o frevo rolar / Eu só quero saber / Se você vai ficar / Ah! Meu bem, sem você não há carnaval / Vamos cair no passo / E a vida gozar " E todas as atenções em 2007 são para ele! Pois é, não é pra qualquer um não! E em nove de «frevereiro» de 1907 surgiu pela primeira vez no «Jornal Pequeno» a palavra que melhor traduz o Estado de Pernambuco. Não tem como dissociar um do outro. «Pernambuco tem uma dança / Que nenhuma terra tem. / Quando a gente entra na dança / Não se lembra de ninguém ... [ ...] É uma dança, que vai e que vem / Que mexe com a gente / É frevo, meu bem!», já dizia Capiba, o maior compositor pernambucano do século XX. Ah! E vai virar patrimônio cultural imaterial do Brasil, tal qual o samba-de-roda da Bahia! Nós pernambucanos temos um orgulho danado e aqui todo mundo vai levá-lo à exaustão. O Carnaval de 2007 promete ser o melhor de todos os tempos e você vai ter que fazer clone de você para participar de 'sa frevação e da gigantesca programação do Recife e Olinda (sinta só no www.pernambuco.com). «E eu quero entrar na folia, meu bem / Você sabe lá o que é isso / Batutas de São José / Isso é parece que tem feitiço». Os passos do frevo têm origem na capoeira, enquanto que a música vem dos dobrados tocados por as bandas militares (imagine só!) aos quais juntaram-se um toque de polca, valsa, maxixe, galope e marcha e deu no que deu. Ninguém sabe quem surgiu primeiro, se foi a música ou se foi a dança. São mais de 100 passos diferentes, cada um mais acrobático que o outro. Mas tem a sombrinha para dar equilíbrio e beleza aos frevolentos movimentos. É pra quem pode, não é pra quem quer! «Quero sentir a embriaguez do frevo / Que entra na cabeça / Depois toma o corpo / E acaba nos pés." O frevo é dividido em três categorias: o frevo-de-rua, o frevo-canção e o frevo-de-bloco. O primeiro, que tem algumas subdivisões (abafo, coqueiro e ventania), é tocado por as orquestras de metais e é puramente instrumental; o segundo é iniciado por uma forte introdução de frevo-de-rua, seguida por uma canção; e o terceiro, mais lento, é executado por uma orquestra de pau-e-corda, acompanhado sempre por um coro feminino, sendo o mais lírico dos três. Durante o Carnaval, são os ritmos dos clubes, troças e blocos que desfilam por as ruas e ladeiras de Olinda e Recife: Homem da Meia-Noite, Galo da Madrugada, Vassourinhas, Elefante, Pitombeira dos Quatro Cantos, Cachorro do Homem do Miúdo, Mulher do Dia, Madeira do Rosarinho, Eu Acho é Pouco, Eu Quero Mais, Cordas e Retalhos, Bloco das Flores, Lenhadores, Siri na Lata, Ceroulas, Enquanto Isso na " Sala da Justiça ... «Bom demais / Bom demais / Bom demais / Menina, vamos em 'sa / Que 'se frevo é bom demais». Número de frases: 30 Evoé, Pernambuco! Dois livros de histórias em quadrinhos 'tão entre as coisas mais bacanas que eu li 'se ano. Primeiro foi Persépolis, de Marjane Satrapi. O livro, adaptado belamente para o cinema, conta a história de uma menina iraniana politizada, que se sente deslocada tanto em seu país de origem como na Europa supostamente pós-colonialista. De a safra nacional, temos outra garota, a Menina Infinito. O albúm homônimo foi lançado no último sábado (19/07) em Copacabana, por a editora Desiderata. Menina Infinito é o nom de plume da personagem Mônica, uma jovem adulta meio gordinha, meio loser, meio indie e bem irônica. Seu modelo de ética é Amelie Poulain e ela não consegue durar muito tempo em relacionamentos e empregos. Os quadrinhos desenhados por Paulo Lyra não tratam do entendiante universo cult. São como o gosto cinematográfico de Mônica: algo entre o filme cabeça e o pipocão. É divertido ver nos cenários de Lyra o boneco Sexy Boy do Air ou o famoso leitinho do clipe do Blur. São hilárias também as alfinetadas nos emos e nos filisteus pseudocults que acham Los Hermanos o máximo. Os mundo trash também 'tá bem representado. Dario Argento e George Romero são as grandes referências existenciais de Pedro, melhor amigo da protagonista. São nomes que não costumam freqüentar o mundo indie, acostumado a consumir material de terror de segunda-mão, via Tarantino. Infelizmente o albúm traz poucas histórias, mas muito bem ambientadas com um visual de fanzine. Todos que sonham com o Morrissey assim como a personagem Mônica, já 'tão sonhando com mais desventuras da Menina Infinito. Número de frases: 18 De aqui para o futuro não haverá futuro. E não é que será assim; é que já é assim. Chego a 'ta conclusão longe de ter sido a primeira a chegar. A ficção científica, por exemplo, profetizou a existência do não-futuro quando descobriu até onde chega (ou não chega, porque é imensurável) o imaginário criativo do ser humano, dando asas -- ou carros voadores, ou poderes tele-transportadores, como quiserem interpretar -- a 'sa capacidade da massa encefálica sapiens de concretizar algumas incredulidades futurísticas na «vida real». Os automóveis, ufa!, ainda não voam. E para a minha frustração, exceto com o meu poder de abstração, ainda não consigo viajar no tempo. Entretanto, a humanidade já deu início, numa velocidade quase que invisível aos nossos sentidos cada vez mais dispersos, ao fenômeno mais comum da ficção científica, o qual a maioria de nós imagina ainda não ter passado de um produto ilustrativo dos quadrinhos e dos filmes: o da ciborguização do ser humano. Isto mesmo: Eu, você, eles e elas, nós, Robots. E não adianta tirar o corpo de fora. Somos todos, em maior ou menor grau, com mais ou menos carne do que osso, com mais ou menos parafusos soltos, robôs. Não é mais coisa do futuro! A constatação vem desde o marca-passo no peito do seu avô até aquele agricultor de subsistência que mora num miolo isolado de mata atlântica, sem energia elétrica, mas conectado ao mundo com o seu aparelho celular; vem também do fato de você não receber uma carta na caixa de correios da sua casa desde que abriu sua conta de e-mail e mergulhou de vez na internet, com as soluções que tornaram sua vida mais prática e o mundo um quadrado dinâmico que cabe no monitor do seu computador; vem da capacidade de tornar seu corpo multiplamente presente e atuante, em variadas freqüências, quando digita coisas de trabalho, atualiza seu blog, em seguida seu flog e, ao mesmo tempo, baixa um disco raro de psicodelia tropical de 1977 da Wanderléa (e existe, eu encontrei!); bate-papo com alguém num chat; responde a outro alguém no orkut com um scrap, conversa por o skyp e dando tchauzinho pra webcam, e ainda distrai-se com quem acabou de bater na porta do seu quarto, ou do seu 'critório, ou da cabine da lan house, ou do pico de uma montanha, onde você e seu laptop 'tão respirando ar puro. Só uma máquina é capaz de ser, 'tar e fazer tanta coisa em múltiplos 'paços ao mesmo tempo. Chaplin, em Tempos Modernos, já tava sacando tudo de longe. O fato é que a realidade virtual sempre existiu como o «suco de frutas Gammy» da ficção científica, e seu universo de mecanismos práticos, desconstruindo e reconstruindo 'paços, tempos e corpos onipresentes e entrecruzados hoje é possível concretamente no que é chamado de ciberespaço da cibercultura. Ou seja: no mundo, 'te mesmo em que a gente 'tá e participa, em nossas relações mais cotidianas. A cibercultura é a nova maneira da cultura se 'tabelecer em todo o globo terrestre para qualquer que seja a dimensão étnica, geográfica e experiencial da cultura, em relações humanas que se 'tendem com / contra / através /sobre/sob organismos eletrônicos. Em harmonia com o que Pierre Lévy chama de «universalidade sem totalidade», a cibercultura é a condição do tempo presente-futuro para que o mundo se torne uma enorme e única» aldeia global», por meio de redes tecnológicas de ramificações compartilhadas por interesses e afinidades, no sentido de promover a integração das experiências do conhecimento em trocas intencionadas na igualdade de direitos e bem 'tares da população mundial. Em harmonia também com a própria natureza planetária, o ciberespaço, pressupondo decisões, atuações e armazenagem de dados em ambientes virtuais, desperdiça menos o ecossistema. Mas! Como vivemos sob um projeto de sociedade que impõe à vida a oposição entre o bem e o mal a jugo de interesses dos que alimentam 'te duelo, todas 'sas alternativas é que não ficariam de fora da faca de dois gumes. De que lado da faca você 'tá? Não, acho que a pergunta certa é: pra quê faca? A que grande futuro vamos chegar? E com quantos futuros se faz uma jangada para o grande futuro? Depende. Se levarmos em consideração as previsões catastróficas para o mundo, em menos de 100 anos, serão necessárias trocentas e zilhares de jangadas construídas com futuros de material reciclado para atravessarmos inundações de diâmetros continentais. E, ainda, nos lugares onde a do aquecimento global for a de aquecer geral, jangadas serão inúteis para chegarmos até o futurão. Provavelmente em 100 anos já tenhamos carros voadores. A questão é se haverá combustível para 'ses automóveis «alados», pois petróleo e biocombustível já terão se transformado em peças de museu desde a 3ª Guerra Mundial -- a mais high tech de todas. 'pera-se que tanto terrorismo em torno do futuro não passe mesmo é de ficção científica hollywoodiana, ou de 'peculação imobiliária falida daquelas que são as maiores responsáveis por os transtornos ambientais do Planeta: as multinacionais, as transnacionais e as demais. Caso contrário, se possível for até lá, vou preferir realizar meu sonho de viajar no tempo e voltar lá para o passadão da Terra, e conhecê-la no seu momento mais fértil e virgem. Alguma vez na vida você teve 'sa vontade? De 'tar no Planeta no momento exato do seu primeiro e grande respiro? Já imaginou como era em 'sa época a densidade, o arrepio, o gosto, o cheiro vindos do ar? Nunca pensou como foi o primeiro colorido de todas as cores, sem nódoas de poluição? Ou como era de fato límpida, inodora e abundante a água? E quanto daqueles 'paços continentais de terra não prometiam ser férteis, acolhedores e duráveis a todas as 'pécies? E a natureza nem sequer sabe o que é durável ou descartável. Mas foi obrigada a viver na linha tênue de 'ta condição. O ser humano decidiu aquilo que considera necessário para si como durável ou não. A idéia de durabilidade das coisas é humana. Porque as coisas duráveis na sua existência apenas são. Hoje somos seres cibernéticos de um mundo tecnológico onde o futuro é nada mais que o nosso pensamento; é o que na verdade antecede o presente, que é a ação concreta do pensamento, cabendo ao passado ser o resultado predestinado dos dois. São os tempos do impossível no possível. O futuro é tão imediato quanto o presente e a humanidade o quer cada vez mais urgente e saciador de suas efemeridades. Este raciocínio é cíclico, vicioso e em ele 'tão contidas todas as relações de tempo, 'paço, seres e acontecimentos de agora. Em 'te exato instante, por exemplo: à medida em que você vai lendo o que 'crevi, zilhões de futuros já viraram passado. Já 'tão 'quecidos, inutilizados, descartados. Boa parte, por sinal, virou lixo e, provavelmente, alguns seres humanos 'tão catando em 'te minuto o que sobrou de tanto futuro. * Título inspirado em: Número de frases: 62 Pato Fu -- De aqui para o Futuro Adoro encontrar Joel Pizzini. Ele é um legítimo bom papo. De aqueles que as horas passam sem a gente notar. Sempre quis transformar ' palavras ao vento ` em entrevista oficial. Não deu outra. Faltou fita para a conversa. A primeira vez que ouvi falar de ' Joelzinho ` foi nos anos 80 ao assistir a Caramujo-Flor, curta baseado no ' universo ` do poeta Manoel de Barros. Desde então acompanho a trajetória de Joel no cinema brasileiro. A os 47 anos, 'te carioca de nascimento e sul-mato-grossense de coração é um dos cineastas mais originais do país. Ele Revira arquivos, reabilita películas raras, redescobre pérolas nacionais, resgata personagens, reconta biografias ... Logo na 'tréia, em 1988, Joel foi vencedor do Festival de Huelva, na Espanha, com o curta Caramujo-Flor, que também ganhou Melhor Direção e Fotografia no Festival de Brasília. Uma década depois fez seu primeiro longa-metragem 500 Almas, em que enfoca os quase extintos índios guató. Resultado, abocanhou quatro troféus Candangos no Festival de Brasília (Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e Melhor Som) e ganhou o prêmio de Melhor Documentário do Júri Oficial no Festival do Rio. Durante a entrevista, Joel me confessa que o MOMA de Nova Iorque 'tá em vias de comprar uma cópia de 500 Almas para seu acervo de filmes. Joel 'tá indo longe. O curioso é que para ir longe, Joel busca o passado. Seu último lançamento, por exemplo, é Helena Zero, curta-metragem sobre a baiana Helena Ignez. Só quem é ligado ao cinema conhece a atriz porque ela ficou longe da tevê. No entanto, participou de momentos fundamentais do cinema brasileiro, como o primeiro curta-metragem de Glauber Rocha -- O Pátio, em 1959, e de longas clássicos como O Assalto ao Trem Pagador, em 1962, O Padre e A Moça, em 1965, e O Bandido da Luz Vermelha, em 1968. Antes de Helena Ignez, Joel já havia ' biografado ` em curtas também os atores Glauce Rocha e Leonardo Villar. Se ' lambuzar de passado ' é a marca do diretor. E ele gosta. Não só gosta como é um cineasta que 'tá dedicando sua carreira a transformar o passado em presente e assegurar um futuro. Tanto que 'tá envolvido com um material de arquivo que é ouro puro. De aqueles que reluzem a quilômetros de distância. Junto com sua 'posa Paloma Rocha -- primogênita de Glauber fruto do casamento do cineasta com Helena Ignez --, ajuda a restaurar a obra do pai do Cinema Novo. Este ano mais três filmes vão complementar os DVDs da Coleção Glauber Rocha: Idade da Terra, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e Barra Vento. Não bastasse a restauração em si, que já é de suma importância, o material virá acompanhado de extra em que vai se ' explicar ` a obra e entrevistas de apreciadores e 'tudiosos ' glauberianos '. O DVD de O Dragão ... virá com uma entrevista com ninguém menos que Martin Scorsese, que ' rasga a seda ' para o gênio baiano. Não é pouca coisa. Mas o diretor ' carioquense ` não sossega em sua mania de reprocessar histórias e reavaliar diretores. Joel planeja seu primeiro longa-metragem de ficção. Vai se chamar Mundéu -- A Invenção de Limite, referência ao Limite de Mário Peixoto, e será ambientado nos anos 30. Ele garante que vem se preparando e 'crevendo o roteiro há muito tempo e que 'te será o filme de sua vida. Quer fazer uma reflexão quanto as motivações 'téticas e a história tecnológica do cinema brasileiro. Joel não perde a mania de revirar o passado. E o'universo ' conspira a seu favor. Limite, o clássico mudo de Mário Peixoto, de 1931, que serve de inspiração e ponto de partida para o primeiro longa de ficção de Joel, foi exibido no Festival de Cannes 2007, na seção Classics, e na inauguração da World Cinema Foudation, organização criada por o fã de Glauber Rocha, Martin Scorsese, para arrecadar fundos para a restauração de filmes antigos. Tudo a ver. Vamos à entrevista! -- Em Que Pé Está Esta Restauração da Obra De o GLAUBER? Pizzini -- Já foram lançados Terra em Transe e O Deus e O Diabo na Terra do Sol. Mas participo de 'ta nova leva. A idéia é restaurar e lançar três filmes 'te ano. Idade da Terra, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e Barra Vento. O drama do Glauber é que tanto Terra em Transe quanto O Dragão os negativos foram incendiados no laboratório francês que pegou fogo. Então olha a importância da revolução digital. Foram criados novos negativos a partir de contratipos que existiam na Alemanha. O trabalho 'tá sendo feito na Inglaterra com um brasileiro, o João Sócrates, uma das maiores autoridades em restauração, e outra parte nos 'túdios Mega em São Paulo. É um trabalho de arqueologia. E é fascinante sobretudo pelo modo de produção. O Deus e O Diabo foi feito por seis pessoas no sertão. E é considerado um dos maiores filmes da história do cinema. Tive oportunidade de entrevistar o Martin Scorsese sobre a paixão de ele por O Dragão da Maldade. Ele fez uma cópia para sua cinemateca particular, tanto de O Dragão quanto de Terra em Transe. O Scorsese ficou 40 min falando dos filmes. Vai 'tar no DVD. É uma aula de ele sobre a importância do Glauber. O Scorsese mostra para os atores antes de filmar e assiste freqüentemente os filmes de Glauber. O GLAUBER Era Um Diretor De Ator Antes De Tudo? Ele era um desconstrutor. Criava 'tratégias para buscar a 'sência, a alma de cada personagem. Procurava destilar toda mecanicidade e os vícios de cada ator e fazia que o filme nascesse de aspectos biográficos de cada um. Uma das 'tratégias de direção que ele criou, por exemplo, era a técnica do cochicho. Tinha roteiro, ensaio, rigor na construção, mas ele ia desmontando o filme para criar um 'tado de vertigem com o ator. Cochichava no ouvido do ator uma coisa e o contrário para o outro. Quando eles se perdiam, o Glauber saía com a câmera e buscava 'te 'tado da memória do ator daquele texto. É meio o ator inventando e não repetindo, reproduzindo. Não era aquela coisa de ser um diretor burocrata, realizador de um roteiro. Ele reinventava o tempo inteiro na montagem, no ' misancene ', valorizando a cultura popular ... Com Todo Este Envolvimento Com A Obra De GLAUBER, A Sua Maneira De Fazer Cinema Está Influenciada Por Ele? Como 'tou me preparando para mergulhar num projeto de ficção, então todos 'tes filmes e ensaios com os atores são formas de entender um pouco o processo de atuação. Cada um tem seu método, sua linguagem pessoal, corporal ... Para mim o Glauber é um mentor 'piritual. É impossível reproduzir o método de ele, porque ele era um sujeito épico, operístico ... Ele flertou muito com a linguagem da ópera. Acho fascinante em 'ta adoção é que era uma forma de ele 'capar, transcender o melodrama. Porque a tendência nossa latino-americana é sempre cair no melodrama, no sentimental. E a maneira que ele exagerava e levava o ator a exaustão, ia destilando 'te nosso lado latino. Ele Tinha Um Lado De Realismo Fantástico Ou Não? Acho que não. Ele tinha uma coisa alegórica. Alegoria trabalha com os arquétipos. Em Terra em Transe ele constrói um país imaginário, onde não existe geografia. É um país da América Latina. Em vez de botar o exército inteiro ele põe uma figura, que é o Mário Lago, um ator. Aí 'tá filmando na rua na época da Ditadura, passa uns caminhões do Exército, ele filma e incorpora ao filme. Então não é uma linguagem realista. É uma linguagem alegórica, no sentido de permitir uma carnavalização, o transe. Ele sempre perseguiu o transe. O transe como forma das tendências. De abordar as contradições, os paradoxos da cultura. Ele perseguia muito a descolonização. Buscar uma linguagem que descolonizasse ao máximo. Ia filmando, tirando, 'cavando ... Um cinema que buscava a 'sencialidade. Os mitos fundadores da cultura brasileira, a herança do índio e do negro, sempre trazia isso para uma abordagem onde o transe desencadeava a ação narrativa. Então todos 'tavam em transe com ele, a equipe inclusive. Então o cinema como religião e não como a realização do produto. Em o Palco Não SE Tem Muito Controle do Que Pode Acontecer. Tipo Aquela Coisa De o CHUCK BERRY, De Não Tocar Igual A Mesma Música 2 Vezes. Sim. Em A Idade da Pedra ele chegou tão ao extremo disso, que ele entrou como ator. Ele não conseguiu ficar de fora e entra no filme, dirigindo, mas sendo um ator do próprio filme. Aí o momento que ele chegou no final e disse ' o projecionista tb vai participar '. Então ele não enumerou os rolos para que cada sessão do filme o projecionista organizasse de acordo com a ordem que quisesse. Era uma coisa ' working-progress '. O filme nunca acaba. Isso é fascinante. Ao mesmo tempo tem um rigor, tem um conceito. Não é algo aleatório. Com certeza o set era o palco do Glauber. Em o Terra em Transe, ele ficou descontente com a primeira mixagem e foi ele e o Edson Machado, baterista, e refizeram toda a trilha com sons de bateria e tiro. Ele mesmo. Lembro que o montador 'tava doente, fazendo uma operação, e ele foi lá para o 'túdio e foi dirigindo a bateria. Como um músico. Aí ele desmontou uma banda sonora que ele achava que 'tava um pouco melosa, excessivamente colada. Como Foi Produzir ABRY, Um Curta Com A Mãe De o GLAUBER, A Dona Lúcia? Bem antes de me casar com a Paloma, fui visitar a Dona Lúcia na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ela me ligou chamando para ir lá. Ela queria falar que 'tava numa situação limite ... Eu tinha uma câmera pequena e tal, não sou um cara que opera muito bem a câmera mas, naquela circunstância, que não tinha autorização, era num quarto de hospital, ela me pediu para gravar com ela. A D. Lúcia deu o nome de Abry ao filme porque ela falou que o médico disse ' a senhora pode continuar vivendo assim, mas se não fizer a operação a sua vida vai 'tar abreviada '. E ela respondeu: ' então abre '. A pessoa é cerrada no meio e por a segunda vez ela 'tava sendo cerrada no mesmo lugar. Era uma situação limite. De alto risco. Comecei a aprender a usar a câmera dentro do hospital. Ela que me introduziu na era digital. A partir daí comecei a aceitar a idéia de fazer câmera. Em uma parte o Edson Audi fez a câmera. Este filme foi o preço só das fitas, que calculo em torno de 2 mil. E é um filme que tem meia-hora e 'tá circulando o mundo inteiro. Vai sair por a Programadora Brasil e a cinemateca do Ministério da Cultura vai lançar também. Estava em pânico onde ia dar aquilo e teve um final feliz. E a música Rei de Janeiro, com letra de Glauber, é cantada por a neta, que é a Ava, a capela. Filmei e ficou lindo. E depois incorporei a música na interpretação de Jads Macalé. A Maioria De Suas Produções Tem A Ver C0M A Memória. Como É A Situação DOS Acervos Que Você Encontra? Como Anda A Memória De Nosso Cinema? Não existe praticamente nada de uma atriz como a Glauce Rocha, por exemplo. Em a televisão encontrei 2 capítulos da novela O Hospital na cinemateca brasileira que era uma novela da extinta TV Tupi. Então realmente o material na televisão vai se desgastando com o tempo, com exceção da Globo, os acervos nas tevês públicas são uma tragédia. Fiz um documentário sobre o Iberê Camargo e o 'tado do material que encontrei é de chorar. Para você ter uma idéia a França, que inventou o cinema, tem uma consciência tão grande da importância da memória que tem uma lei que obriga que todo material relativo à memória do país precisa ser filmado em película. E preservado. Eles sabem a importância e o poder. Porque memória significa poder. Poder sobre uma cultura, a consciência sobre o seu tempo. Não Deveria Haver Uma Pressão Para Que As Emissoras Brasileiras Cuidassem Mais De Seus Acervos? A tevê aberta não quer investir e nem arriscar. Tem medo do novo. A própria Globo com o Festival de Cinema Nacional faz o maior sucesso e mesmo assim tem resistência em programar os filmes brasileiros. Nós temos uma mentalidade colonizada. Um medo de investir, apesar do público responder. Há uma resistência enorme. Nunca Passou Terra em Transe na Tevê? Nunca. Segundo o Arnaldo Jabor a Globo não passa Deus e O Diabo e Terra em Transe por causa do padrão técnico, mas são filmes com um acabamento técnico primoroso. Este padrão de qualidade é uma coisa ditatorial. Os filmes se 'vaziam porque vão colocando botox. Nós somos um país imperfeito. Tava lendo que o Caetano Veloso chegou a dizer que as pessoas se aproximavam do Glauber por o 'tilo de ele e não por o acabamento. Têm filmes que a imperfeição se torna o próprio charme. Se exige 'te lance higienizado, que vem da moda fashion, aquela coisa de ' ilumina-se o máximo para vender tudo '. Você Acredita Que O Livre Acesso Que A Internet Permite Pode Melhorar Esta Questão? Pode sim. Por exemplo. O filme do Di Cavalcanti que é proibido por a família pode ser visto. O Glauber filmou o enterro e a família não liberou. Mas com a internet o acesso acaba acontecendo. Este é o aspecto interessante de democratizar o controle, mas é preciso alfabetizar e socializar o acesso. O que me incomoda é 'te efeito solitário e cinema é colaborativo. Mas isso vai ser reinventado. O digital proporciona você romper com padrões e criar alternativas. Quanto Custou Helena Zero? 15 mil reais. E O Caramujo Flor? Custou uns 60 mil. E O 500? 1 milhão. Mas eu fiz um filme de 2 mil reais que é o Abry. Filmei num hospital e ele 'tá ai circulando. O Custo É Muito Relativo Quanto ao Resultado Obtido? O 500 Almas foi filmado na Alemanha, no Pantanal, com uma equipe de 19 pessoas. E só poderia ser feito daquele jeito. Não acho que um substitua o outro. Em o Brasil sempre tem 'ta coisa. O 35mm, a película, tem outra natureza. É como o pintor que quer usar o guache, nanquim ... Cada matéria tem um custo e um tempo de maturação, de preparo ... Cada linguagem sugere uma determinada solução 'tética. A tendência é fazer filmes mais baratos e mais econômicos. Mais Em Cima da Idéia. Exato. Que É O Que O GLAUBER Fazia. A maturidade de um artista, no caso de um cineasta, é filmar menos. Porque você já sabe o que não vai usar. Então é tolice sair filmando e na hora da montagem você se perder no meio de tanta imagem. Helena Zero fiz em dois dias de filmagem. Toda a energia foi em cima da pesquisa dos materiais, direito autoral ... Você Acredita Que Hoje Ainda Não SE Dá O Devido Valor à Memória no Brasil? É porque a memória que interessa ao poder é 'ta memória nostálgica, a memória mumificada. Por exemplo. à medida que venho trabalhando com a obra do Glauber percebo uma resistência muito grande com a memória de ele. Porque ele cria um padrão de exigência. Então é melhor que ele fique na cinemateca. É tipo ' vamos deixar ele lá, senão a gente vai ter que enfrentar 'te fantasma '. E a gente tem que enfrentar os nossos fantasmas. É preciso continuar a tradição. A gente tem uma produção e história incrível. De Joaquim Pedro, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Luís Sérgio Person ... A gente precisa recuperar 'tas imagens porque é nossa paisagem originária. Ficar negando, achando que vai fazer uma ruptura negando, é bobagem porque na verdade precisamos dialogar. Mesmo recusando, a gente precisa conhecer a nossa imagem. Mas Hoje em Dia O País Está Pior em Termos De Educação. Em o Sentido De Que Uma Pessoa Para Entender Um GLAUBER, Um PERSON, É DIFICIL. Precisa De Uma Ajuda ... É por isso que defendo, em 'te trabalho que venho fazendo junto com a Paloma de restauração da obra do Glauber, um critério que a gente adotou: todo filme tem de ter um documentário sobre ele. Justamente para recriar 'ta memória e não lançar o filme simplesmente. Primeiro porque o filme é preto e branco. Já existe uma resistência ao preto e branco por uma lógica hierárquica. E de repente você vai ver o documentário e vai entender o período. No caso de Terra em Transe tem os jornalistas da época, o elenco, a equipe, o sistema de produção que foi usado, o período da ditadura, o golpe ... É fundamental contextualizar para a pessoa começar a perceber porque o filme teve aquele acabamento, porque é aquele tipo de luz ... O Compositor GERALDO Roca Fala Que A Maioria das Pessoas do Interior De o MS Nunca Ouviu Falar De Tom Jobim. O GLAUBER Também Tem Um Pouco Isso? Mas tem outro aspecto que é a questão do mito! É como se fosse cristalizado. É algo que você tem que reverenciar e perde-se a perspectiva humana do mito. É importante que 'tes mitos sejam conhecidos, sejam vistos, são pessoas imperfeitas, sonhavam, eram atormentadas, tinham uma paixão por o país. No caso da restauração da obra do Glauber, a gente 'tá humanizando o mito ao máximo. Fazendo a perspectiva do artista, desmistificando 'te negócio de gênio. Porque fica todo mundo ' ah não ele era um gênio iluminado, por isso que tinha 'te talento ', como se a gente não pudesse produzir da mesma forma. Trazer o ideário de 'tas figuras. Tom Jobim tem a influência do Villa-Lobos. É preciso conhecer a história e massificar a informação sobre ele, tornar acessível. Porque o repertório de ele tem uma universalidade incrível, mas como ele é um mito, fica aquela coisa meio ' nome de aeroporto '. Vamos Falar Um Pouco do Helena Zero. Como Você Situaria A Helena Ignez na Dramaturgia Nacional? Ela é uma atriz que nunca entrou na Globo. Por isso, não ganhou notoriedade. É uma antiestrela. A Helena pesquisou muito o corpo. Então a forma de interpretação de ela sempre foi revolucionária porque se expressou por o corpo e a arte de representar de ela era muito na contramão do psicologismo. É uma atriz 'sencialmente cinematográfica, que não tem os vícios da teatralidade over. Ela foi homenageada na Suíça, no festival de Friburg, e foi apontada como uma sucessora da Marlene Dietrich, enquanto no Brasil nunca houve um ciclo com todos os filmes de ela. Nunca foi uma atriz deslumbrada. Pelo contrário. É inventiva e autoral. Criou uma linguagem e 'colhe os seus projetos. Ela foi assistir ao curta Glauces uma vez, saiu comovida e veio falar com mim. A gente acabou se aproximando muito, mas não encontrava um eixo para um trabalho. à medida que fui convivendo percebi que ela tinha uma inquietação e ao mesmo tempo um senso crítico irônico corrosivo. Achei fascinante. O Helena Zero traz isso. Um distanciamento crítico. Por Que Você Mostra Ela Fazendo Tai CHI CHUAN Em o Curta? Ela pratica de verdade. Uma época foi do Hare Krishna e teve uma aproximação com o teatro japonês. Achei interessante trazer o tai chi para o filme porque é um ritual ao mesmo de dança e de luta. Para uma atriz que chegou no 'tágio de ela, sempre 'ta questão da memória se coloca como uma luta para poder reinventar a memória. Por isso também Helena Zero. Em o simbolismo oriental o zero tem uma conotação e ela é uma atriz que 'tá começando e se reinventando sempre. O zero no ponto de vista ocidental sugere algo negativo. Tirar zero. Zero à esquerda. Mas para ela é sempre recomeçando. Sugestões que apontaram no caminho e tai chi no filme é evocativo da memória. Para sair um pouco deste 'quema evocativo de que a memória é algo do passado. Além De Atuar em Filmes Importantes, Ela Foi Casada Com Alguns Diretores Também. Antes do Rogério Sganzerla ela foi casada com o Júlio Bressane e o Glauber Rocha. Ela 'treou em O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério, um filme iconoclasta da história do cinema brasileiro. Em os anos 70 ela criou com o Rogério e o Júlio uma produtora que fazia filmes com baixo custo. Um cinema de tribo. Aí ela se identificou com o teatro de vanguarda, fez Brecht ... Muita coisa. Recentemente 'tá envolvida com o seu primeiro longa A Canção de Baal, uma adaptação do Brecht. Ela fez uma peça recente chamada Sete Afluentes do Rio Ota e 'tá trabalhando na restauração da obra do Rogério. Pesquisar Material Antigo É Praticamente Uma Obstinação Para Você? Sou fascinado com isso e como a gente viveu uma época de saturação de imagens, hoje é mais difícil rejeitar uma imagem do que produzir uma imagem. E como quase tudo já foi feito, 'ta idéia de recombinar o que já foi feito, mergulhar no passado, na memória dos arquivos, é uma coisa que pode resignificar completamente o que se tem a dizer. Tem muita coisa que ficou interditada. Por exemplo, o filme Carnaval na Lama, que utilizei em Helena Zero, provavelmente nunca ia ser visto. Fale Um Pouco do Carnaval NA Lama. É um material que encontrei do Rogério Sganzerla dos anos 70 que tinha sido feito em película, mas o som não foi localizado. Não descobria o que a Helena dizia e ela não lembrava a música do Jorge Mautner, que tinha sido filmado no Central Park e a gente recorreu ao Instituto de Surdos e Murdos. Eles identificaram algumas palavras, o Mautner regravou Vampiro e depois ele fez várias sugestões, como foi a música Sassaricando. A origem baiana com a música da Carmem Miranda. São ironias, como colocar uns diálogos sobre a velhice. Para o ator a questão do tempo é 'sencial. Como o Helena Zero não tem depoimentos fui buscar elementos na trilha musical. Em 'te Carnaval na Lama Estava O Lenny Gordon, Que Acabou Participando da Trilha do Helena Zero. Isso. Foi uma outra descoberta. O Lenny Gordon foi o grande guitarrista da Tropicália, todos os grandes hits o Lenny 'tá lá. E ele foi para o ostracismo. Ele faz uma performance no Carnaval na Lama e se auto dublou. Número de frases: 305 Acabou fazendo a trilha toda. Matar Sem Cair no Clichê Aníbal Beça Aníbal.Beca@vivax.com.br Matar 'tá tão banalizado que eu vou me ater às mortes sim, mas na ficção dos folhetins de televisão. Até porque o brasileiro não fala em outra coisa. Não sei se sou eu que 'tou ficando rabugento, mas não sei como se dá tanta importância a 'sa manjada e gasta fórmula dos autores de novela. Leitor, amigo, veja se não tenho razão. Faça um exercício, puxe por os neurônios, cascavilhe a memória visual e auditiva e veja quantas novelas já se utilizaram desse mesmo gancho, desse bordão: «Quem matou a tal da Odete Hoitman?" Para não dizer que não falei do terceiro mandato do Lula, dou aqui o meu palpite: «Foi a falta de criatividade do autor». E não me venham com a história de que se faz isso em nome de audiência. O pior disso tudo é o 'paço que ainda ganham das mídias impressas. Tudo bem que as revistas de fofoca, que correm atrás do «fiquei» da Ivete Sangalo com o'cara da hora ' se debrucem com toda força sobre o assunto. Como dizia outra personalidade da obviedade border line: «Faz parte». Agora, jornais de respeito e de responsabilidade, no máximo, deviam dar, com generosidade, apenas dez linhas. Pois bem, a 'tética do déjà vu é mais pródiga do que se imagina. Os textos e situações criadas são de uma inverossimilidade bestial. Quem já viu magistrado, delegado, advogado e médico de novela, mesmo não sendo de 'sas profissões, sabe que 'ses profissionais na vida real não têm nada a ver com aqueles outros. Aumentando as linhas do lugar comum, proponho ao leitor fazer um teste rápido aos que assistem novela. Quantas novelas já assistiram com trama de gêmeos, DNA, seqüestro, rapto, prisão do herói sem nenhum motivo? Mas a campeã é a internação fajuta em hospitais psiquiátricos. E não sei como a ABP Associação Brasileira de Psiquiatria não representa contra a emissora. Todos os psiquiatras são venais e corruptos. Donos de clínica, nem falar. Será que já não 'tá em tempo de se fazer uma revisão crítica desse produto? Por que confiar nos achólogos do «time que 'tá ganhando não se mexe»? E é claro que sabemos muito bem do prestígio de nossas novelas mundo afora. Mas as que mais ganharam audiência foram aquelas de adaptações de romances como «A 'crava» Isaura. ( La 'clava que ha dejado el comandante Fidel de rodillas ...) E as minisséries? «Grande sertão: veredas», «O primo» Basílio, as adaptadas de romances de Érico Veríssimo, de Machado de Assis. Mesmo nas novelas há casos de sucesso sem 'sas fórmulas anacrônicas e corocas: «Gabriela «e todas as de» Jorge Amado; «O bem amado», «Saramandaia» e todas de Dias Gomes e as de sua imbatível mulher, Janete Clair, no gênero. Parece que se perdeu também a presença de compositores contratados para as trilhas sonoras. Tempos de «Irmãos coragem», Verão vermelho» que revelaram o meu amigo maranhense Nonato Buzar. Dori Caymi, sem opção de trabalho hoje, vai muito bem obrigado, fazendo trilhas para Hollywood. Os irmãos Marcos e Paulo César Valle, Ivan Lins, Nelson Mota, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Chico Buarque no ora veja, dando sopa de primeira e, nada ... E o que se ouve? O som ralinho dos apaniguados do diretor. Aí nos impingem músicas já ouvidas e consumidas como as do Fábio Junior, por exemplo. Por 'sas e outras é que a nossa MPB anda no ostracismo. Apesar de pequenos sinais como a volta do «Som Brasil». ( Que bom foi ver o velho Ivan Lins cantado por vozes femininas novas). Tomara que em 'sa onda benfazeja, mesmo mensal, voltem também os musicais como aqueles da dupla Miele & Bóscoli. Número de frases: 50 Livre é sonhar! Em a última noite do festival Motomix 2007, o que se via e se sentia no Vegas Club era um público animado e ansioso por a apresentação do «Boys Noize,» projeto de um garoto só " do dj alemão Alex Rhida. Clube cheio e com o subsolo fechado, porém ainda com 'paço o suficiente para a circulação e pra fazer social com o povo da cena alternativa de São Paulo -- jornalistas, blogueiros, DJs, designers, fashionistas, fãs e seguidores do hype e das tais «novas tendências» musicais. Era apenas questão de saber para onde olhar e encontrar o seu pequeno nicho dentro da cena. Gil Barbara abriu a noite com um set diversificado e empolgante de electro, new rave e remixes próprios -- ponto alto para a versão engraçadinha de Gasolina, do Bonde do Rolê, que rendeu um coro animado do público, já em polvorosa com a presença inesperada do Boys Noize na cabine. Que se provou alarme falso logo em seguida, só pra deixar a tensão correndo solta no ar, enquanto Jô Mistinguett começava sua apresentação. Acompanhada de um DJ que soltava as bases eletrônicas mezzo funk, mezzo electro para suas intervenções vocais, Jô empolgou pouco a pista, deixando a responsabilidade de reanimação para Alex Ridha. Pode ter sido a insegurança por 'ta ser sua primeira apresentação, mas deu pra sentir que a garota tem uma trilha interessante a seguir se superar a síndrome da primeira vez. Eis que Boys Noize sobe na cabine, e armado de seus indefectíveis boné, graves e agudos de sutis a ensurdecedores, tomou o público de assalto com o que só se pode definir como uma das noites mais intensas do ano. Fazendo uma comparação brincalhona, se as garotas conversaram no Tim Festa (em outubro, na The Week), aqui os garotos fizeram barulho. Muito barulho. A tensão do público logo se tornou compreensível. Não porque todos ali não soubessem o que 'perar, mas por o caos sonoro e 'quizofrêncio criado por o jovem DJ alemão. Com domínio do público como poucos conseguem ter, Boys Noize incitava todos a dançarem e vibrarem com seu som de alta voltagem, intenso e pulsante. Abriu com Don ' t Believe The Hype, e assim seguiu noite adentro, alternando entre faixas de seu álbum de 'tréia, Oi Oi Oi, e seus já famosos remixes para gente como Bloc Party, Kaiser Chiefs, Monster Magnet e Justice, entre outros. O momento alto da noite ficou para o primeiro single, And Down, que fez a pista (a 'sa altura já lotada) cantar em coro, num volume muito mais alto do que a própria música, o refrão «Dance dance dance!». E o garoto barulhento ainda teve 'paço pra fazer brincadeiras com faixas de Michael Jackson, Prodigy e Miss Kittin; provou assim que DJ bom não é só aquele que toca o que o público gosta, mas que sabe renovar o que na mão de outros poderia soar como truque de DJ preguiçoso e sem repertório. Para fechar a noite mais densa e schizo do Motomix, o «remix do ano», de My Moon, My Man, da canadense Feist. Número de frases: 19 Momento mais do que 'pecial para um público já extasiado com tudo que havia presenciado na pista do Vegas Club, todos cantaram e aplaudiram a despedida do mais novo querido DJ alemão por 'tas bandas. Foi assim que o grande poeta Vinicius de Moraes definiu o cantador Elomar Figueira de Mello. Um verdadeiro representante da música nordestina, ou erudita, como ele mesmo define. Nasceu em Vitória da Conquista, Bahia, em 21 de dezembro de 1937. Estudou arquitetura e música na cidade de Salvador, Suas composições são bastante influenciadas por a tradição ibérica e árabe, que a colonização portuguesa levou ao Nordeste. O 'tilo de Elomar denota influência da música medieval, o que reflete o uso de linguagem diferenciada, baseada no falar na região da caatinga, embora também utilize palavras eruditas e rebuscadas. Boa parte dos textos na música de Elomar são 'critos em linguagem dialetal, que ele mesmo denominou "; sertaneja "; Começou a compor aos 11 anos, aos 16 teve notícias dos menestréis, conheceu os cantadores do sertão, de feira em feira, de fazenda em fazenda. Em a época nem sabia que existia disco, teatro. Cantava como um trovador, um rapseto. Foi para cidade, descobriu o disco, o auto-falante, o rádio. Mesmo depois de se formar, já com muitas composições, ainda assim não pretendia gravar, sempre achava que música tinha que ser apreciada ao vivo. O induziram a gravar um disco, gravou, depois o público cobrava mais música. Elomar diz que não faz shows, faz concertos e cantorias. Odeia a língua inglesa por questões culturais, faz citações em latim e compõe em dialeto sertanês. Se recusa a ser filmado, acha que sua imagem é sagrada, e que a imprensa brasileira é uma cópia vergonhosa da americana -- assim como os filmes. Diz também que a televisão é uma bela invenção, mas 'tá nas mãos dos maus, dos poderosos. Eleva a música do sertão de forma sublime. Em o seu labutar, confessa que tem de 'crever sem perda de tempo, pois que a obra é imensa e o tempo já declina por a tarde. Já deixou a Casa dos Carneiros, na Gameleira, onde demorou por um bom tempo de sua vida e donde saiu o grosso do ciclo das canções. Ali de volta, pretende concluir sua obra bem longe, bem distante dos mundos urbanos, pois que não só sua obra, como também sua própria pessoa, não é outra coisa senão antagônicos dissidentes irrecuperáveis de sua contemporaneidade tendo em vista sua formação 'tritamente clássica e regionalista. De a Bahia leu todos os poetas, 'critores e profetas hebreus; leu os mélicos e os clássicos gregos; os latinos, incluindo Esopo e o Fedro; os italianos, franceses, ingleses, 'panhóis, russos e, por último, os alemães, tendo, é claro, antes disto perpassado por os 'senciais patrícios. O mestre, como é chamado por os seus companheiros de cantorias Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo, tem 15 cds gravados. Sua vasta produção como compositor, além das canções mais conhecidas, inclui galopes 'tradeiros, canções de alta influência regional, além de óperas e autos já registradas em partituras, ainda não gravadas. Em o dia 02/06/07 foi inaugurada Fundação Casa dos Carneiros, uma sociedade civil, de direito privado, de caráter cultural, educativo, ambientalista ecológico e social, sem fins lucrativos, sem caráter político-partidário ou religioso. A entidade vai sediar o acervo elomariano, aberto para pesquisa, com histórico de suas obras: discografia, canções, poesias, árias de ópera, roteiros para cinema, romances de cavalaria e tudo mais que diz respeito às produções de Elomar. Faço das palavras de Dioclécio Luz as minhas: «Com a mídia ocupada no fugaz, no trivial, a alternativa inteligente para o Brasil é um artista que seja raro, único, criador do belo e eterno. Porque eles passarão; Elomar, passarinho, ficará. Há uma angústia cercando o país. Tão rico em arte, tão farto em cultura, vive ilhado entre a moda e o modismo, olha para o futuro e não vê. A biodiversidade nacional parece que não existe quando se liga a televisão ou a rádio modernosa. Onde foi parar o que de melhor o Brasil tem? Cadê a nossa cultura tão larga e volumosa? Morreu? Não. Ocultaram-na. É hora de descobrir o Brasil mais uma vez. É preciso que o Brasil revele seus tesouros culturais. Elomar é a cultura que nos cabe. Por uma questão de sobrevivência: sem cultura não temos alma, não somos nada. É hora de 'palhar a alma brasileira por os sertões, litorais e campos gerais, cerrados e praisas, pampas e pantanais. Vamos resgatar a verdadeira cultura de nosso país! Número de frases: 49 Uma caixa cheia de vinis, dois toca-discos, o computador no centro da sala, uma mesa pequena de jantar com um cinzeiro metálico e a varanda do vigésimo andar na rua da Aurora, que revela a paisagem natural do rio Capibaribe. É em 'se ambiente que Helder Aragão, mais conhecido como DJ Dolores, abre seu baú da memória e apresenta alguns momentos da sua vida. O jeito tímido pode não demonstrar as experiências vividas por 'se sergipano de 40 anos, mas no decorrer da entrevista ele vai se revelando um artista que sabe muito bem o que quer: criar música. O currículo de Helder é invejável: ele se apresentou nos principais festivais de música da Europa dividindo o palco com artistas de peso como Bjork, Moby, Chemical Brothers e Elvis Costello, remixou músicas de Bob Marley, assinou a trilha sonora do filme e da peça A Máquina de João Falcão, ganhou o recente prêmio Tim conquistado na categoria música eletrônica e realiza freqüentes turnês por o mundo com a Aparelhagem (banda que o acompanha há dois anos). O que muita gente não imagina é que mesmo tendo acumulado tantas premiações e participado de muitos eventos importantes, Dolores não se arrisca a tocar nenhum instrumento. «Desde pequeno sempre fui muito envolvido com a música e o caminho natural de quem não toca nenhum instrumento é virar técnico, produtor ou DJ. Eu 'colhi a última opção». Em o pequeno quarto do seu apartamento, entre laptops, microfones, samplers e teclados midi, são criadas as principais elaborações do artista, que afirma produzir 80 % dos seus discos em casa. «Minha música ainda segue a 'trutura da canção, mas a forma de compor não obedece, definitivamente, ao formato violão e voz». Dolores diz pensar no ritmo, ou na melodia e a partir daí começa a criar as batidas, utilizando os programas que simulam som dos instrumentos. Passada 'sa fase, ele reúne os músicos e começa a dar um formato de som de banda. «A música eletrônica cria uma 'fera lúdica, brincar com os programas acaba gerando uma batida legal e daí surgem as canções e remixes». O som de Helder têm a capacidade de conjugar influências que a principio possam parecer contraditórias, mas que funcionam muito bem no resultado final. Essa facilidade de tráfego livre por diversos 'tilos o acompanhou da sua formação familiar até os tempos em que, juntamente com Chico Science, Renato L. e Fred 04, iniciou os encontros que originariam o movimento manguebit. «Nasci em Propriá, interior de Sergipe, e desde pequeno convive constantemente com as manifestações populares e com a música dentro de casa. Meu pai era músico e gostava de choro e jazz». Em a mudança para Aracaju, durante a adolescência, veio a afinidade com cultura punk e o gosto por as músicas produzida por The Clash e Sex Pistols. A partir daí, os cabelos ganharam cores e as sobrancelhas ganharam alfinetes, como uma forma de identificação com o visual das bandas preferidas. «Eu sempre brinco dizendo que fui o primeiro punk de Aracajú, foi um período que mergulhei fundo em 'ta cultura, mas com o tempo fui sacando que 'tava virando dogmático». A vinda para o Recife abriu o acesso a mais informações e definiu a inclinação para trabalhar com arte, quando Helder começou a desenvolver animações, clipes, vídeos e capas de discos (a primeira capa do Mestre Ambrósio foi feita por ele). Foi justamente da parceria em projetos audiovisuais com Hilton Lacerda que surgiu a dupla Dolores e Morales. O nome foi adotado por o DJ para os trabalhos com música, que começaram quando ele fez a trilha do filme de Kleber Mendonça Filho, Enjaulado (1994). «Compus toda trilha com um programa para editar recados de secretária eletrônica» diz, relembrando os tempos em que a tecnologia era incipiente. DJ Dolores faz sigilo quando o assunto é o novo disco. «Estou aqui no Recife para gravar meu novo CD, só sei que tenho que terminar até o início do próximo ano, caso contrário terei que cancelar nossa turnê européia», afirma. Apenas um fato entristece o DJ: o de não se apresentar na sua própria cidade. «Moro no Recife porque adoro 'se lugar, 'tou sempre criando coisas novas, e gostaria de ter mais oportunidade de poder mostrar o que faço para as pessoas». Número de frases: 30 A campainha toca e Dolores se despede para voltar a gravar algumas bases para o seu novo disco. O texto abaixo mostra um pouco do que observei quando, alguns dias atrás, viajei a Porto Velho -- RO. Corro o risco de ser paulistano demais, de minha visão ser carregada de preconceitos e, para isso, 'pero a colaboração dos colegas rondonienses. Por favor, me corrijam no que acharem que não faz sentido. Viagem a Rondônia Percorro com os dedos o mapa do Brasil para saber para onde 'tou indo. Longe. Logo após voltar dos Estados Unidos, viajei a Rondônia para observar o impacto da provável construção de duas usinas hidrelétricas no Rio Madeira. Mais do que isso, queria conhecer o Brasil, redescobri-lo. Voando sobre a Amazônia durante a madrugada, não se distingue o céu da terra. Negro quase absoluto, pontilhado por solitários pontos de luz que poderiam ser de casas ou de 'trelas. O que denuncia o chão, além da gravidade, é o reflexo da Lua, que persegue o avião acompanhando os rios e lagos que irrigam a floresta. Diante de uma paisagem completamente nova para os meus olhos, tendo a chamá-la de «outro mundo», para em seguida refletir se o mundo que é outro não seria o nosso, paulistano, metropolitano. Rondônia, distante do eixo comercial e industrial do Brasil, é um lugar que vive de ciclos. Quando o mundo precisou da nossa borracha, uma leva de migrantes ocupou a região. Quando o assunto era ouro, outra leva. Cada uma de elas teve começo e fim, deixando para trás apenas as marcas e a saudade dos ' bons tempos. ' Quando um novo ciclo se aproxima, como anuncia a promessa das usinas, a população fica ouriçada, 'perançosa. Ouvindo as pessoas, fica difícil culpar a maioria de elas, que busca, como grande parte dos brasileiros, a chance de uma vida melhor. Foi 'se desejo que levou àquela distante região gente como Seu Zé Henriqueta, que chegou do sertão nordestino há mais de 40 anos, e é o mesmo desejo que os mantém por lá. Há muita coisa que pode ser dita. Aqui vão algumas impressões. Chuva de cinzas Pela manhã, uma fina camada de poeira cinza empalidece a acaboclada pele do pescador que dorme ao relento. Flocos negros mancham o chão empoeirado. Uma névoa malcheirosa 'conde o verde do horizonte e resseca as gargantas daqueles obrigados a respirá-la. A Amazônia chove em cinzas sobre Rondônia. Viajando por a Br-364, de Porto Velho a Abunã, na divisa com a Bolívia, percebemos o clarão que a 'trada abre na mata. Em o lugar de árvores, pastagens; no de animais selvagens, um monocromático mar de chifres. A floresta fica longe, ao fundo. As resistentes castanheiras tentam em vão quebrar a monotonia da paisagem. Em os vilarejos da região, como em Jacy-Paraná, a ineficácia do Estado se reflete num ótimo negócio. Junte seus tratores, derrube uma área de floresta e venda seus novos lotes. Sem documentos? Ah, um dia o governo vem e legaliza. E assim Rondônia, agora com 'peranças reacendidas por a boa nova das usinas, vai se transformando num imenso loteamento. à noite, voltando por a mesma 'trada, fogo. A os olhos 'trangeiros, uma tragédia. Árvores queimando. A castanheira tenta resistir. Em a visão dos moradores locais, apenas mais uma, causada provavelmente por um fumante incauto. Mentira, penso. Em a manhã seguinte, névoa branca, poeira cinza, flocos negros e a garganta irritada. De o Nilo ao Madeira É provável que Seu Zé Henriqueta (foto) nunca tenha 'tudado a história do Egito. Mesmo assim, ele 'tá mais próximo dos antigos egípcios do que imagina. Todos os anos, o Rio Madeira tem uma fase de cheia e uma de seca. A diferença no nível da água chega a dezenas de metros. Quando as águas baixam, deixam fértil uma larga faixa de terra às suas margens. Os egípcios do Rio Nilo conheciam o fenômeno; os ribeirinhos do Madeira idem. Zé Henriqueta planta, entre outros, batata, melancia, melão, milho e feijão, além do capim que alimenta suas cabras. Apenas o que sobrar é vendido. Além de tudo isso, o rio dá peixe, e como. A família toda foi criada ali, no sítio de nome sugestivo: Vista Alegre. Alguns metros abaixo, a cachoeira do Santo Antônio, futura sede da usina. Seu Zé Henriqueta ainda não sabe para onde vai. Seu Rubinho não planta, mas acabou de construir um bar próximo ao rio. Dona Maria, mãe do Seu Pedro, passou a vida viajando até achar a Cachoeira do Teotônio, um lugar tão bonito que a fez ficar. Enquanto Pedro pesca, ela faz a sua colheita. Como eles há muitos outros, e a história se repete toda vez que é invocado o dever de promover o crescimento da Nação. Não vou entrar aqui na politicagem do projeto -- ainda não me considero apto a tanto. Enquanto Seu Zé Henriqueta 'tá incerto quanto ao próprio futuro, depois de viver mais de 60 anos, outros Zés e Franciscos celebram o desenvolvimento. Arrisco-ma opinar que, tal como nos outros ciclos, as promessas são muitas. Em Rondônia, no entanto, a História não tem sido eficiente ao cumpri-las. Vejam o slideshow com as fotos da viagem no meu site. Número de frases: 67 A maior franquia já instalada no interior de Pernambuco são as próprias cidades. Gravatá lembra muita coisa de Arcoverde e Garanhuns, que lembram muita coisa de Caruaru e por ai vai. Com descuido, você acaba perdido numa rua querendo chegar aonde só existe em outro lugar. São palcos do perfeito conflito entre centro e periferia. Cidades enxertadas de lan houses e restaurantes caros, mas carentes de asfalto e saneamento. Todas carentes de uma atenção disputada no tamanho de seus valores. Caruaru diz ter o maior São João do mundo. Gravatá diz que tem o mais animado do mundo. Em pólos 'pecíficos, são apresentadas até os maiores pé-de-moleque, canjica, pipoca e outras receitas de milhos. Também do mundo. Gravatá fica a 80 km da capital Recife. É conhecida como a «cidade dos morangos», e também é o reduto, no interior, da classe média alta de Pernambuco. Escolhida para algumas das maiores granjas e haras da região. A temperatura é baixa, comparada com as cidades centrais. Varia entre 17 e 20 graus de noite. Em a programação de São João, foi a única cidade que, 'te ano, não deu um 'paço maior ao pé-de-serra. Então, as atrações ficam para nomes como Calypso, Saída Rodada, Bruno e Marrone, entre outros. Por lá, passam cerca de 160 mil pessoas entre os dias 23 e 24 de junho. A ' cidade dos morangos ' se livra de todos os 'tigmas no período junino. A imagem de lugar frio, bucólico e tranqüilo dá 'paço para ruas quentes -- cada casa tem, mesmo em ruas apertadas, uma fogueira na frente -- movimentadas e em ritmo diferente de festa. As razões para a fama que Gravatá tem de segurança -- são oito anos sem registrar nenhum homicídio na cidade -- aparecem rápido. Aqui, tudo é feito seguindo a regra, sem pestanejar. Os shows começam pontualmente, mesmo que num horário ainda cedo para reunir o público. às 19h, a concentração maior é no palco Dançando o Nordeste, reservado para vários trios de pé-de-serra. Lá, o público ainda é mais velho, dançando até suar. Em uma velocidade cada vez mais rápida, sempre ao lado das fogueiras, todos parecem entrar em transe. O palco principal dá margem a momentos 'tranhos, como o músico Elifas Jr. gritando «Ah, eu to maluco», cercado por triângulo, zabumba e sanfona. E para Bruno e Marrone se sentirem à vontade para 'trear uma música inédita, um samba que, de samba, é idêntica as outras do repertório. Mas em 'se transe de felicidade, ninguém dá muita atenção. Pula, grita e dança acochado. A expectativa do público do domingo foi bem maior, atraído por o fenômeno semi-nu da Saia Rodada. Com direito a strip tease no palco, a banda fez o show do novo DVD, reunindo o que deveriam ser 200 mil pessoas. Em o camarote, o global Luiz Fernando Guimarães achava o máximo. «Em 'sa época não tem manifestação no Rio [de Janeiro], então to achando ótimo, me divertindo bastante», contou. Bem no meio do furacão, naquele tradicional empurra-empurra, a recifense Flávia Dias, 26 anos, era o resumo de toda folia da noite. Sorriso de orelha a orelha e suor que negava os 20 graus que faziam. Dançava com as amigas, os amigos e sozinha. «Eu sempre ia para o [São João] de Caruaru, 'sa é a primeira vez que 'colhi Gravatá e to adorando», disse. O positivo é que toda 'sa gente pode ver também o show seguinte, de Genaro e Walkiria. Ele, sanfoneiro que acompanhava Luiz Gonzaga e hoje um dos mais elogiados do país, trouxe junto com a companheira um pé-de-serra autêntico e rico em referências. Conseguiu segurar mesmo quem só tinha ido para o «arrocha». Não teve a mesma sorte Daniel Bueno, que 'ticou até às 4h, para um público já menor. Como tudo que acontece no interior de Pernambuco, o São João de Gravatá é um evento muito político. O nome do prefeito é citado por todas as bandas entre cada música. Os apresentadores fazem constante agradecimento a figuras políticas que 'tão nos camarotes. Entre eles, o já candidato a presidência Geraldo Alckmin. Campanha Para todos os efeitos, na noite de 23 de junho (sexta-feira passada) em Gravatá, o Governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) já era Presidente da República. «Por aqui, seu Presidente», repetia sempre o colega de partido e prefeito do município, Joaquim Neto, que também repetia o título para apresentar o convidado no São João da cidade para os pedestres no caminho. Ele foi acompanhado o tempo inteiro por uma comitiva modesta, formada também por o governador Mendonça Filho e o ex-Ministro da Saúde Humberto Costa (PT). Em a passagem de pouco mais de 30 minutos na cidade -- vindo de Caruaru -- ele comeu 'condidinho de charque e pamonha. E disse que tudo 'tava uma delícia. «Em a minha terra chamamos isso aqui [a pamonha] de Curau», em tom de felicidade com a descoberta por a culinária de milho. Alckmin já 'tá em discurso de eleição (ele se candidata em coligação com o PFL) e, para os jornalistas, falou da importância de parcerias 'tratégicas com o Nordeste. Para os amigos, preferia comentar as cerca de 150 mil pessoas que ouviam seu nome ser repetido por os apresentadores da festa no palco do Pátio de Eventos. Para os dois grupos, entretanto, falou bem pouco. Apesar da fama de pouca simpatia, o abraço do pré-candidato foi disputado. Maria das Graças, que veio do Recife para vender 'petinho no São João de Gravatá, pediu também dinheiro para ele. «Ainda não vendi nada desde que cheguei aqui, o movimento ainda tá (sic) fraco», disse depois, sem vergonha de ter pedido, «ele não quer ser presidente?», justificou. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do São João no país. Mapeando a variação dos 'tilos musicais, comidas, danças, brincadeiras etc.. Vendo como a tradição sobrevive fora do nordeste, sua evolução no próprio berço, nos grandes festivais onde bandas modernas convivem com as tradicionais. Número de frases: 64 Para ler mais relatos, busque por a tag Especial São João 2006 no sistema de busca do Overmundo. Vitória, sexta-feira, 29/06/2007. Nem sei como falar sobre o que já 'tá sendo por tantas vezes dito. Contudo, por saber que muitos sabem e por saber que mesmo sabendo ainda fingem não saber, deixo aqui o meu repúdio à apatia social, que deixa a mídia ser como é e que a sustenta. A mídia assim como a política, é reflexo de nossa sociedade. Marcada por o ódio mal direcionado e alienado. Deixo o meu repúdio àqueles que amam e veneram a alienação, que foram paridos por ela e não conseguem se desvencilhar da barra-da-saia de 'ta «mãe desnaturada». De o mau do capitalismo. Meu repúdio aos consumistas inveterados, aos play boys e burgueses, aos pobres de 'pírito. A os que consomem a cultura lixo das rádios, jornais e revistas de fofocas que não ajudam em nada. Pois quem consome a burrice a alimenta e é cúmplice de toda 'sa impunidade. Despejarei aqui todo o meu ódio sobre a mídia, aos maus políticos que muitos de nós somos a cada dia, à apatia social. Deixo o meu repúdio não só aos donos da mídia, mas à todos aqueles que se vendem à ela, que a servem, que não enxergam que precisam lutar por os seus direitos em busca de uma sociedade mais justa. Trabalhei no jornal A Tribuna de Vitória, no Espírito Santo e posso, com base em minha vivência de determinados fatos deixar aqui a minha opinião. Será preciso contudo, 'crever inúmeras páginas à respeito começarei por o mais «quente», a exploração da violência por parte da mídia. O mundo 'tá violento, 'tá uma merda, as pessoas se matando a todo tempo, em 45 dias de operação da polícia militar, no Rio cerca de 45 pessoas já foram mortas, de entre elas crianças, jovens e pessoas inocentes. Até Deixo aqui o meu repúdio a todos aqueles que por desconhecerem a realidade de 'sas localidades, acreditam que a polícia 'tá fazendo um belo papel e não entendem a raiz do problema. As tropas brasileiras invadiram o Haiti há três anos e 'tão fazendo o mesmo que a polícia militar nos morros do Rio e poucos sabem os verdadeiros motivos a que vendemos nossos alienados soldados. O que nós 'tamos falando a 'se respeito? O que a mídia 'tá dizendo? Não 'tamos conseguindo mudar nada!! A mídia não cumpre o seu papel, pois a mídia, assim como os comandantes da PM, do exército e das elites defendem apenas os interesses da minoria, que se acha privilegiada, mas que já sente as ameaças do sistema exploratório que 'tá levando à miséria e ao desespero grande parte da população nacional. De que lado nós 'tamos????????????? Vocês repórteres e fotojornalistas, de que lado 'tão? Quando ao fotografarem um morto, a sua foto não sai, pois são tantos os mortos, que já não vendem mais jornais? Mas tem sempre lugar para uma loira burra nas capas (e isto em 'pecial para o jornal A Tribuna do ES). Cadê a família desses mortos? Cadê a voz desse povo que não se houve na mídia? Precisamos sim, ouvir inúmeras vezes qual é a verdadeira raiz do problema até que paremos e pensemos juntos maneiras de resolvê-lo. Só ouvimos as vozes da polícia, dos generais e das «autoridades». Sou do Povo! Quero Ouvir A Nossa Voz nos Jornais, Revistas, Canais De TV, Rádios. Quero ter um 'paço para declarar o meu repúdio às operações genocidas e convocar meus semelhantes para tomarmos providências contra isso pois isso não pode continuar assim. O 'paço da internet é pouco, quero as rádios, as praças, os palanques, para gritar a todos que saiam dos shoping centers, parem de pensar um pouco em si mesmos e olhem para o que 'tá acontecendo à volta, para mudar. Estarei colocando em meu blog uma série de críticas à mídia, e aos meus colegas repórteres, colocando algumas das experiências que vivenciei quando fotografava para o jornal e denunciando o que deve ser feito, mas não é. Denunciando a mídia que assim como a justiça nacional, abraça a impunidade em 'te país. A maior parte dos repórteres não são vítimas são cúmplices, carrascos e algozes. Em sua maioria perdem a sensibilidade e ao amor próprio. Se vendem e se alienam, são como os PMs e soldados. Executam e são treinados por as universidades brasileiras a não mudar nada, sem bases sociológicas e éticas. Sem porra nenhuma! Tecnicismo não muda nada para melhor. Número de frases: 42 http://quasarte.blogspot.com/ 2007/06/ rpdiore-mdia-alienao.html Uma delegação de oito tocadores e seis sambadeiras saiu do Recôncavo Baiano para uma turnê por o País: os Filhos da Pitangueira. Passaram por Fortaleza. E relevaram o samba chula, da tradição de seus gritadores. Como Mestre Zeca Afonso. Ele fala do metiê dos Filhos Fuçar as nuances da música regional por o Brasil é coisa rara em tempos de perpetuação da zoada intragável. E aqui não cabe rotular o que seja, cada um faz seu juízo. Nem tampouco tem a ver com música em volume alto simplesmente. O que dizer do tradicional samba chula, então ... O 'tilo vem das «entranhas» da Bahia. Mais preciso: do Recôncavo Baiano -- região ali da Maracangalha. Lembra? Aquela mesma que Dorival Caymmi eternizou: «Eu vou para a Maracangalha, eu vou ...». De lá, os Filhos da Pitangueira vieram a Fortaleza. Cumpriram agenda de shows da zona norte do Estado ao Cariri. Mestre Zeca Afonso e Cia. 'tiveram em Sobral, Crato e Juazeiro do Norte. Os Filhos brincam de samba e levam sua manifestação de encontro ao preconceito datado. O samba chula, rótulo que lhes puseram, bebe da cultura genuína afro-brasileira -- herança do tempo 'cravista. O «chula» do samba é a poesia da performance, a combinação de fraseados vocais. Sem relação com o imprestável. Zeca fundou o grupo há 20 anos. Foi levado às rezas de São Cosme, São Roque e Santo Antônio, aprendeu canto e o ritmo da chula. Os Filhos da Pitangueira mantiveram seus laços. Sem receio de hoje parecer mofado, apesar do desinteresse da juventude por a cultura popular. Pelo contrário, o mestre briga. Larga o «cagaço» nos jovens. «O povo novo não quer aprender a tocar o machete (viola tradicional da chula). Montei uma 'cola em São Francisco do Conde (BA) para ensinar e não adiantou nada. Tinha 18 pessoas e ninguém aprendeu. Só querem saber de banjo, cavaquinho pra tocar pagode. Acham que o machete é coisa do passado», enfatiza. Ele assegura que, em turnê, os shows funcionam plenamente. «As pessoas 'tão aderindo. Todo show é casa cheia. Levamos 500 cópias do CD para Santa Catarina e vendeu tudo rápido», diz Zeca. Ele sinaliza, de jeito leve, matuto, que o grupo não se propõe a dominar -- ou melhor, explicar -- o conceito do que faz. Zeca se apóia no sufoco do assédio do público para justificar a postura. Não dá tempo pensar. Em o palco, os Filhos têm seus dias de celebridades. «A gente vê as coisas de um jeito que não pode analisar. Porque quando termina o show, é muita festa, o povo pedindo autógrafo, tirando foto, falando, uma loucura», conta. Zeca Afonso canta e toca pandeiro. O grupo viaja ainda com Zé de Lelinha (machete), Aurino Paciência (pandeiro e voz), Nemézio Isaías (pandeiro e voz), João da Mata (violão), Djalma Afonso (tamborim), Edmundo da Cruz (marcação), José Valberto (pandeiro), Antônio Carlos (sanfona), Lindaura, Neuza, Railda, Celina, Ilda e Arlina (sambadeiras). O samba chula exige sustância vocal: no palco, o negócio é gritar. Quem canta, em 'sa brincadeira, é «gritador». «O instrumento de corda fica muito alto. Não ia dar para 'cutar», explica o mestre. A porção feminina dos Filhos só samba. A mulher se insinua. Enfatiza seus atributos. Nada a ver com a tosquice do axé ou do pagode ginecológico. Não há receios de cair no 'tereótipo. É a regra. «Desde o princípio foi assim. Homem não dança, só mulher», pontua Zeca. Número de frases: 59 Um pouco após o golpe militar, Plínio Marcos 'creveu um texto com metáforas das relações políticas da época. Depois de muitos anos, e com encenações censuradas por o caminho, Abajur Lilás ganha agora duas remontagens realizadas por o grupo Tusp. Uma das versões foi chamada de «light» e, segundo um resumo baseado em release, seria uma montagem mais lírica. A outra versão, a «heavy», com raízes no realismo. Com diversidade de cores e música brega, a versão «heavy» mostra um universo de oprimidos e ditadores, em que o mais fraco sempre acaba sendo o mais prejudicado. Todos os personagens tentam sobreviver e conquistar seus objetivos de alguma forma, mesmo que seja à custa do sofrimento dos outros. A história se passa num bordel opressivamente lilás. A cama é lilás, a cortina é lilás, a mesinha é lilás, a vitrola é lilás, o disco da vitrola é lilás, o abajur é lilás e o cafetão, que também faz parte do lugar, é lilás. Normalmente reconheceria tudo como roxo mesmo, mas se o título diz, o ambiente era Lilás. Dentro de tanto Lilás, vivem três prostitutas, o cafetão gay, e o capanga deste. Cada personagem tem a sua cor (com exceção do capanga) e seu conflito. A puta mãe de família (vivida por Nathália Lorda), com seu figurino branco até nos fios de cabelo (falando em música brega), junta dinheiro para o filho ter uma vida melhor e, assim, evita se meter em encrencas. A puta bêbada (Aline Borsari), de vermelho, pretende revolucionar o ambiente para deixar de ser oprimida. A puta novata (Flávia Couto), de preto, joga com os dois lados para se dar bem. O cafetão (Otacílio Alacran), Lilás, batalhou pra formar o bordel, e agora quer viver por meio do 'forço dos outros. E o capanga (Rafael Lemos), sem cor, é sádico. Todas 'sas figuras não são boas nem más (com exceção do capanga). Elas só 'tão tentando sobreviver como podem num ambiente degradado, que normalmente tem pouca importância para a maioria das pessoas. Um universo simplesmente 'quecido nas ruas das cidades. Abajur Lilás é encenada num 'paço intimista para 40 pessoas, antiga sala de ensaios do Tusp, em formato de teatro de arena. Os atores são bons (com nova exceção para o capanga), e a gama de cores ajuda a dar o clima do ambiente e a identificar as características de cada personagem. As únicas ressalvas são alguns diálogos que passam sucessivamente a mesma mensagem, deixando a peça um pouco cansativa. E uma senhora loira da platéia que ria alto, até em momentos de forte conteúdo dramático, e, num instante, chegou até a bater palmas sozinha no meio da peça. Sorte de quem não viu a peça naquele dia. As duas versões 'tão em cartaz no Tusp em horários diferentes. A redação da Bacante 'tá se organizando para assistir a versão «light», para ter uma maior reflexão. Número de frases: 26 Mas como somos um pouco desorganizados, quem sabe quando iremos novamente. Conheço algo que pode te interessar. Coisa fina. Uma mistura de horas mortas, dias pintados de chumbo, gatos à noite nos telhados, lágrimas negras de noites insones, sorriso arrancado como grama, sal que 'tanca a alma raptada, saudade que 'traçalha serenidade, ódio 'pesso mantendo a calma, vozes ecoando nas 'tantes, palavras feito encruzilhadas. Junto à poesia contida em 'ses versos, doses ideais de guitarras dissonantes e com múltiplos efeitos, linhas de baixo navegando em maremotos sem perder o prumo, bateria trovejante e uma voz rasgada, verdadeira e singular. Tudo isso embebido em melodias inspiradas, daquelas que parecem ter nascido com nós, que despertam identificação imediata com algo adormecido, como se já as conhecéssemos de outros mundos. É isso. Apresento-lhes meu entorpecente favorito. Um brinde à Theatro de Seraphin. Formada por Artur Ribeiro (voz / guitarra), Cézar Vieira (guitarra), J. Wilquens Dantas (Bateria) e Marcos Rodrigues (baixo), a banda acaba de finalizar seu primeiro EP, que contou com produção de Jera Cravo (Lou) e cujo lançamento oficial por os selos Big Bross e Atalho Discos acontecerá no próximo dia 26 de março, às 19h, na Boomerangue (Rio Vermelho). As seis canções que compõem a obra -- «Sombras Chinesas»,» Cólera, «Doze por Oito» (predileta de 'ta que vos fala), «Doralice»,» Súbito «e» Tristeza «-- no entanto, já 'tão disponíveis para download na página da banda na Trama Virtual, onde também se encontram outras cinco músicas (" Nada a Fazer»,» Arqueiro Cego», «Dionísio»,» Em a Rota das Estrelas Cadentes «e» Tempestades Risonhas ") gravadas no período da primeira formação, que contava com Candido Soto (Cascadura e Banda de Rock) na guitarra. As demais canções registradas em 'ta fase, a exemplo de «O Mágico de Oz» (com participação da cantora Danny Nascimento) e «Em a solidão dos Campos», serão disponibilizadas no mesmo site em breve. Em a ativa há quatro anos, a Theatro já se consolidou como uma das principais bandas de rock alternativo de Salvador devido à competência, talento e determinação de seus integrantes. As apresentações, sempre marcadas por a visceralidade e um certo clima noir, têm atraído um público fiel e chamado a atenção dos desavisados. A banda ficou entre as cinco finalistas da seletiva baiana para o festival Claro que é rock, realizada em 2005 na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, tendo concorrido com Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Brinde, Los Canos e Cantos dos Malditos na Terra do Nunca. Também abriu um show de Marcelo Nova no Rock in Rio Café no mesmo ano, juntamente com a banda Koyotes, e participou de diversos festivais locais, sendo o mais recente o Boom Bahia Festival. Apresentou-se também em eventos de rock no interior do 'tado, a exemplo de Bom Jesus da Lapa, Camaçari e Santo Antonio de Jesus. Com influências de bandas como Doors, Joy Division, Echo & the Bannymen, Smiths e Smashing Pumpkins, utilizadas de forma pessoal e contemporânea, a Theatro traz ainda vestígios inevitáveis da experiência de seus membros em trabalhos anteriores, a exemplo da Treblinka e Cravo Negro (Artur Ribeiro), Brincando de Deus (Cezar Vieira) e Via Sacra (Marcos Rodrigues). Embriague-se!!! Número de frases: 19 Minha primeira experiência 'colar foi absolutamente desastrosa. Corria o ano de 1951 e meus pais moravam na casa de meus avós numa pequena rua do bairro da Água Branca, em São Paulo, A rua chamava-se Melo Palheta em homenagem, foi o que me disseram, ao homem que trouxe a primeira muda de café para o Brasil. Aliás, ainda se chama. Fica a um quarteirão do Parque da Água Branca, parque 'tadual dedicado à Zootecnia e um local de lazer extremamente agradável a dois minutos (de carro) do centro de São Paulo (final do Minhocão, hoje em dia). Em 'te parque funcionou uma? Escola de Aplicação ao ar livre? ( é o que diz um caderno 'colar do meu irmão, datado de 1952). Não me perguntem, porque não vou saber responder, a qual instituição de ensino normal ela 'tava vinculada. O fato é que meu irmão mais velho foi protagonista de um episódio que minha mãe sempre contava. Aliás, só agora me dou conta, que a mesma orientadora educacional citada na minha colaboração? A Escola era Risonha e Franca: Reminiscências? era quem tinha a mesma função (acredito eu que fosse a mesma) na Escola de Aplicação supra citada. Meu irmão, dos 4 para os cinco anos era uma criança de tipo mignom, menor que os meninos da idade de ele e, quando minha mãe quis matriculá-lo na 'colinha houve resistência por parte de 'ta mulher, que se chamava Eli ou Hely. O fato é que foi aplicado um teste psicológico e meu irmão classificou-se em primeiro lugar, superando, inclusive, meninos mais velhos que ele. Quando cheguei à idade em que meu irmão tinha entrado no prézinho (quatro anos) minha mãe me deu a mão e me levou para dentro de uma sala de aula da tal pré-'cola. Sei lá, acho que não tinha entendido muito bem que chegara a hora da separação da saia da mãe, e, principalmente, dos cuidados da avó. O fato é que me vi perdido na sala de aulas e até apavorado. Não sei quantos dias durou aquele pesadelo, só me lembro de dois fatos: a professora chamava meu nome e eu nada respondia, e aí um coleguinha, meu primeiro real instrutor 'colar, se chegou a mim e disse?? Quando ela disser teu nome diga? Presente? Esta é uma das coisas que me lembro. A outra é que, quando me soltei um pouquinho comecei a brincar dando voltas em redor de uma das mesinhas (eram mesas quadradas para quatro crianças cada). A professora me pôs de castigo e nisso eu pirei, chorando muito e tudo. Desde então, o que já era um sacrifício virou um martírio para mim não sei precisar por quantos dias mais. Uma tarde meu pai 'tava deitado na cama de eles e minha mãe 'tava trabalhando. Deitei perto de ele (minha mãe foi quem me contou os detalhes da conversa com o meu pai) e disse:?? Papí (era como nós o chamávamos e, a ela Mamí) não conte nada para a Mamí, mas a professora me pôs de castigo na 'cola?? isto já cheio de lágrimas nos olhos?? e eu não quero mais voltar lá (ou coisa que o valha)?; enfim, desabafei um peso que 'tava carregando. Bom, resumindo; é claro que meu pai falou com a minha mãe e ela virou uma fera, ou quase, indo tomar satisfações com a professora e me desobrigando daquela tão cruel experiência. Não fui pré-'colar por muito mais do que dez dias. Mas, pensando hoje, eu não sei dizer se meus pais agiram corretamente dando mão forte à minha revolta. Afinal, no mesmo período ainda havia 'colas que ainda adotavam castigos físicos e o meu castigo não chegou nem perto disto, isto é, não sei dizer se não fui mimado em excesso. Talvez Em Tempo: Um Achado (no Google) Grupo Escolar Pedro Voss. Engenheiro: E. R. Carvalho Mange, 1952 Crédito: Extraído da revista Habitat nº 9, 1952, p. 5? A Escola Nova? Em 1948, São Paulo tinha 48 mil crianças sem 'cola. O plano do Convênio Escolar pretendia que em 1954, no ano do IV Centenário, nenhuma criança 'tivesse sem vaga. Em as 'colas construídas em 'se momento vemos uma complementaridade entre a postura educacional e o edifício 'colar. A organização do Programa de Necessidades da 'cola definia um novo resultado. As 'colas construídas na época não eram apenas um conjunto de salas. Dentro do prédio da 'cola tínhamos ambientes com funções de ensino, de recreação e de administração. Seriam 'sas as três? zonas da 'cola? Em a zona de ensino localizavam-se as salas de aula, o museu 'colar, a biblioteca infantil e a ginástica programada. Em a zona de recreação ficavam o galpão para recreio coberto, o cinema educativo e um palco para dramatizações. Em a última zona, a da administração, 'tavam as salas da diretoria e da secretaria, o arquivo, o depósito de material 'colar, a sala de professores, a biblioteca didática e o almoxarifado, além da assistência 'colar, que abrangia o aspecto médico, dentário, social e de nutrição. Número de frases: 53 O texto acima, acompanhado da foto do grupo escolar exposta ao lado, foi extraído do site São Paulo 450 anos Oi pessoal!!! Tomei coragem e depois de alguns pedidos, transcrevo aqui pra vocês a «historinha» que já há algum tempo 'crevo sobre meu Sarau e a cultura de onde vivo, a maravilhosa e deliciosa Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Esta crônica é referente a edição de n. ° 520, que aconteceu quarta-feira passada, dia 4 de julho. Tentarei anexar uma música nova, numa gravação caseira, que fiz em parceria com o Carlos Melo, o Castelo e a qual, dedico à Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul. Espero que vocês gostem do texto e da música! Beijos! Comentem por favor! Um grande abraço do Zé Geral! Sarau 520 -- Independência? Usa? Brasil? Nossa? 04 de julho ... Hoje, por a data, me lembrei da grande amiga, ajudante fiel do Sarau em épocas remotas, a «americaninha» Bethany Burton, que na verdade é brasileira pra caramba! Mas 4 de julho é aniversário da Independência dos Eua (que pena!) e a amiga Beta, nasceu lá. Não tive dúvidas em dedicar (depois do sopro do anjo) o Sarau a ela e de quebra, à memória de um grande romancista, poeta e draumaturgo, o 'critor Oswald de Andrade. Com o pensamento de que realmente independência é uma coisa poderosa e que é ela que busco desde pequenino, comecei a semana, com a mesma rotina das últimas: -- Tentando me acertar com as idéias, atitudes e decisões que devem ser tomadas daqui para a frente para a concretização do sonho: Centro Cultural Maria. E a coisa vai caminhando como eu 'perava: Muitas dificuldades! Pouca ajuda! Vários projetos eu venho desenvolvendo atualmente, entre eles, o Sarau Infantil e o Rock Total, que 'tréiam em 11 de agosto, além do trabalho que dá, a manutenção e sustentação de movimento tão peculiar como meu Sarau. Artes finais, propagandas, aulas, entrevistas, divulgação, manutenção do 'paço, remanejamento de pessoal e equipamentos para o Sarau, busca incansável de parcerias, colaboradores e patrocinadores, elaboração de horários e programações de eventos que já começam a acontecer por lá, além de manter família, casa e cachorro. Tudo isto realmente toma tempo e gasta muitos neurônios. E o pior de tudo é que não os reponho, muitos por os contrários. Mas isso é uma outra 'tória. Independência é minha busca, meu caminho, minha meta de vida! Se sou um pobretrão, vocês podem ter certeza que é em função de 'ta minha teimosia em ser independente, desvinculado como sempre fui do poder, da política e de toda sujeira produzida por 'tes Merdas! Por 'tes Calhordas! Se realizo um movimento que tem o alcance e o respeito que tem ... É por meu próprio mérito!!! Evidentemente o Sarau do Zé Geral, que é o maior encontro de músicos que 'te terra conhece, fomentou inúmeros projetos parecidos, tanto em caráter independente, como em cópias e imitações baratas de produtores, donos de bares e da própria Fundação e Secretaria de Cultura, deste e de outros governos do Mato Grosso do Sul. Vocês querem saber mesmo ...-- Eu não 'tou nem aí pra tudo isto!!! Simplesmente eu faço de coração e amor à música, à arte e aos artistas de 'ta terra que tanto amo e que tanto apanho! Mas eu faço o que gosto e o que for preciso! Com dignidade e respeito!!! Pulemos as entrelinhas da semana que corrida continua sendo, para chegar logo a quarta-feira 4, amanhecida sob o domínio do sol e do «calor» deste «inverno» de julho. Meu vizinho foi assaltado ... Pudera ... O mato do quintal de meu outro vizinho e a falta de muro na entrada do imóvel, facilitou a ação dos bandidos. Queixei-me com o proprietário do imundo quintal. Prometeu providências! Vamos ver! De manhã fui ao Centro Cultural. Cuidei da parte elétrica do palco que exigia reparos. Recoloquei nossa faixa publicitária na frente, montei o som e perto de uma da tarde, fui em casa buscar minha Val, para organizar as fichas e material do bar, que hoje, devido a uma falha muito grande do sócio Alex, será administrado e «servido» por nosso atual fornecedor. Ai, ai, ai, ai ... Que será de 'ta noite? às 20:00, depois de uma correria sem tamanho, para que meu violão «falasse» e em busca do cubo para o baixo, levei minha menina, a Emmilim, que se deslocou para a feira, buscar meus incensos, enquanto eu retornava à casa para buscar a Val e a Tawane. Oito e meia. Todo mundo a postos. Roberlei, o fornecedor, já havia coordenado o pessoal para a noite e passado as fichas para a Val. Minhas meninas, prontas para ajudar a mãe. Patrícia já na portaria, Davi também. Gabi assumiu seu posto às nove, enquanto o Alex, buscava os últimos produtos de bar e higiene para a noite. Nove e meia, benzeção feita, Brasil ... 1x0 ... Comecei a cantoria. Desde a semana que antecedeu a dedicatória ao Alex Batata eu introduzo a abertura do Sarau, com Panis et Circenses, do Gil e do Caetano, com um enorme sucesso de gravação com Os Mutantes. Enquanto cantava, corria meu olhar para me aperceber do imenso público, formado em sua maioria por lindas mulheres que aproveitam da promoção e entram antes das 22:00 hs, economizando o dinheiro do ingresso. Minha previsão de público para hoje, mais uma vez 'tava certa e eu ao menos, 'tava preparado para os noventa músicos que viriam. O pessoal do bar ... falhou feio e mais uma vez, várias reclamações acirraram meus ouvidos e os da Val. 500 pessoas foi muito pra eles! Paciência! Semana que vem não vou deixar mais isto acontecer! Mas não vou deixar mesmo! Vocês acreditam que 'cutei da Emmilim, que além do dinheiro do bar, também queriam o da bilheteria? Mas vejam bem ... Se bem que eu não o vi, também! Mas ... Voltando ao início do Sarau ... Sem a bateria, que só seria montada por volta de 22:30 hs, fiz uma sessão de violão, cantando Caetano, Geraldo Espíndola e outras músicas minhas. De praxe cantei Magoada Senhora, depois de Senhorita do Zé Geraldo. Chamei para a primeira canja o Bicho Grilo, que com seu carrón, já 'tava no palco com mim e o Celso Cordeiro na flauta. Depois de ele chamei a dupla Paz Armada. Pop e regional rolava. De repente foi uma chuva de músicos de uma só vez: Zeca do Trombone, Zé Pretim, Caxingue, Leandro Abrão, Lucio Val, Jucy Ibanes, Carlinhos batera, Zezinho do Forró, Caio Costa, Linquinho Gouveia, Eduardo Akimura ... Em os olhares eu percebia a «sede» por tocar e cantar! Bateria montada, banda de apoio formada com Kundera, Jane Jane, que mais uma vez conseguiu emprestar o cubo para o baixo, Caxingue na guitarra mais a percussão do BG, cantei mais umas três com a banda e chamei o Eduardo Cunha, que veio de Jardim para uma canja no Sarau, trazidos por os amigos Dagô e Dino, que me alegraram e muito, com a presença no nosso «novo» 'paço! Altíssimo astral ... Em 'tas alturas o ambiente já 'tava quase que completamente lotado. Subiu ao palco, aproveitando da banda montada o Vitor Verruga da 7 Copas, que cantou umas quatro de seu repertório Legianístico! Enquanto isso, memorizei as chamadas, mais ou menos por ordem de chegada, depois do Moreto, chamei o Zé Pretim que mais uma vez «enlouqueceu» a platéia que delirava com tanta diversidade musical em 'ta noite. Fez uma meia dúzia de ótimos blues e aí chamou o Zeca do Trombone para lhe acompanhar e solar um pouco ... Só um pouco! E o público delirava! Cedeu o palco para a Jucy Ibanês, com o Lucio Val, no baixo, dando merecido descanso à Jane Jane, nossa princesinha, que confessara a mim, não 'tar muito boa hoje, com problemas 'tomacais. Seu Kundera, meu batera, também descansou para que o Carlinhos acompanhasse a Jucy. Sem contar que o Bahia, também deu canja na bateria, no começo. E dê-lhe flauta, com o Celso Cordeiro fazendo várias intercessões. Em seguida à excelente apresentação da queridíssima Jucy, chamei o Caio Costa, que ao chegar à cidade, meses atrás, foi no Sarau, que ele encontrou «sua turma». Mais uma vez, seu suingue foi contagiante! Black music e pop rock. Quanta música boa! Quantos músicos bons! E veio meu brado: -- Viva os artistas e a música do Mato Grosso do Sul!!! Terra abençoada! Foram noventa, os músicos presentes hoje. O menino da 'caleta voltou e acompanhou vários. Em o meio aquele aperto de gente, pude ver o Miguel Ângelo (nunca mais nos falamos ... Eu e o cineasta), o Randolfo bateu algumas fotos e tomou algumas cervejas. Presentes também: Ângelo Augusto, Beto Cavaco, Bruno Piazza, Coringa, Danilo Rosa, Cristiam, Demétrius, Diego, Eder, Suzana Nakasato, Joe, Wellington Leitoa, Silvio Aguiar, Ricardo Cunha, alguns dj's e a malabarista e pirofagista, que me perguntara se sempre caberia sua apresentação. Bastava uma ajudazinha ... a qual eu prontamente: -- Te a na mão!!! à noite transcorria numa paz e numa alegria que «dava gosto». Depois de algumas providências pra banir e varrer de ali, pessoas desagradáveis que «inflamam» a frente da casa, tumultuando um pouco e energizando negativamente o local, pude perceber por o bom fluido de músicos e músicas que a «coisa» rolava às mil-maravilhas. 13 músicos fizeram cadastro hoje. Todos aprovados! Depois da canja do Caio Costa, que teve ajuda nos vocais de uns três novatos, eu pedi a presença no palco do Lincoln Gouveia, para nos animar com sua boa sessão de reggae. Ele subiu com um baixista que me 'queci o nome, infelizmente, e depois de detonar a ponto de quase ficar sem voz, deu passagem para mais uns três novatos. Depois o Eduardo Akimura (Sãos e Sóbrios) matou sua saudade do Sarau, tocando e cantando MPB, regionais e Pink Floyd. Chamei então o Harley Castro, que hoje recebeu uma orientação minha, para a melhora de suas canjas no sarau. Houve também a canja do Luciano Mauro e da Camila com algumas mpbs. Cantei mais no final que no começo do Sarau. Aproveitei o momento de MPB e deixei o Caxingue debulhar meu violão. Popular e Bossa-nova num instrumental de primeiríssima qualidade. Houve algumas interrupções, mas a noite terminou com o Caxa ao violão e já eram 6 da manhã, quando guardávamos tudo. Eu e Ricardinho. Alan não veio hoje. Estava adoentado. Patrícia se desdobrou. O bar foi um fiasco e infelizmente várias pessoas saíram com uma má impressão, por conta do péssimo atendimento. Mas com tudo isso, a noite foi tão maravilhosa que um único constrangimento ocorreu quando, por volta de três e meia da manhã um carro tranca nosso portão de saída, por quase uma hora, impedindo o Roberlei, que trouxera mais cervejas, de sair e dar a carona para as minhas meninas, obrigando-ma repetir várias vezes o chamado ao proprietário do veículo. Chamei umas duas vezes, cantei durante um blues no improviso um repente para o tal carro. Até que quase uma hora depois, irritado, dei uns berros ao microfone, para o distraído motorista, que em seguida desocupou finalmente a saída. Depois de guardar tudo ao som do Pink Floyd e acertar com os «donos do bar» o movimento da noite, peguei meus dois violões: O Pinho que não 'tava muito bom, depois da última visita à oficina do Seu Zé e a Val, que com barriguinha à mostra foi com mim numa padaria que descobri, aqui pertinho de casa, na 15 de Novembro, tomar o Café da Manhã. Teimosa bebeu antes o seu. Foi tão bom, que a partir de hoje suspenderei minha passagem por o posto da Afonso Pena, em busca de chocolates! Por falar em padaria, minha comadre Ivone, para minha alegria, 'teve lá hoje, com o maridão! Estou feliz com eles, que com muito trabalho, em 3 anos, conseguiram sua independência financeira. Por falar em independência, agora mais do que nunca é ela a direção. Sexta, 6, me desabafei, perante uma incompetente comissão, lá na Fundação de Cultura, instituída para decidir os participantes do Som da Concha, Mais uma vez, 'tou fora! Prometi então, depois de passar por uma humilhação e um constrangimento medonho, nunca mais por meus pés lá! E assim farei! Desisti de pedir a Lenilde Ramos pra me ajudar com o som que preciso pra começar o Rock Total, junto com o Sarau Infantil e tomei a decisão daqui por diante dedicar a minha composição Não-CANÇÃO, em parceria com o Carlos Melo, para 'ta instituição chamada de Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul. A letra do Castelo, coube como uma luva para a referida fundação, mas a que eu deveria cantar mesmo é aquela musiquinha que rolou na net por várias semanas consecutivas ... Anexei minha dedicatória! Espero que goste! Até a semana que vem! Fique com Deus!!! Número de frases: 146 A entrada é um garajão imenso, que nos leva a um longo corredor arborizado, com mesas 'palhadas ao seu redor, e ao fundo um quadro na parede que se destaca. Uma figura com traços marcantes, típicos do norte, de terno e gravata. Uma de 'sas fotos amareladas que o tempo insiste em desgastar. Personagem principal na história deste Espaço Cultural underground da cidade. O ilustre Marreta. O Espaço Cultural Marreta, com apenas um ano, já é uma referência cultural na cidade de Boa Vista. Lugar agradável e familiar que consegue atrair todas as tribos. Um ótimo lugar para se passar o tempo, aliás, o tempo pode ser contado através de diversos quadros com fotos e recortes de jornais 'palhados por as paredes do 'paço. Estive conversando com Franco de Souza Cruz Soares, 37 anos, responsável por o Centro Cultural, que me contou um pouco da história do 'paço. «Em a verdade a idéia do 'paço foi acontecendo ao longo dos anos. O site bvroraima, que é um site de 'porte e cultura surgiu em 97 e de lá pra cá veio crescendo e serviu de base para vários concursos públicos, onde as pessoas usaram de base para conhecerem o 'tado e virem pra cá. É a primeira revista virtual do 'tado de Roraima e com o passar dos anos divulgamos muitas fotos e imagens em ele, então resolvemos unir 'se material, 'se conteúdo e disponibilizar no Espaço Cultural Marreta, para que as pessoas pudessem conhecer um pouco do 'tado». Franco logo me 'clareceu a razão do nome Marreta, que é uma curiosidade de todos que ali chegam pra conhecer o 'paço. «Marreta é uma homenagem ao meu avô». Isso mesmo, Marreta foi um saxofonista muito famoso em Boa Vista. Estava sempre presente nas festas locais, Carnaval, eventos sociais, ele era um ótimo saxofonista. «Divertiu durante muito tempo o povo de Roraima». Diz o neto com orgulho. «Fazia parte das bandas que levavam o povo para as ruas pra brincar o Carnaval, na época das batalhas de confete. Divulgou muito a cultura, a dança do boi, quadrilhas juninas e foi uma homenagem a ele». O apelido foi dado por os amigos de quartel, pois ele era baixinho, gordo e parecia mesmo uma marreta. Durante muito tempo trabalhou como pedreiro e construiu mais de 200 casas em Boa Vista, inclusive foi mestre de obras do antigo prédio da prefeitura. O Espaço Cultural Marreta tem o 1º sebo do Estado de Roraima, apesar do 'paço ter apenas um (01) ano. «Este material será disponibilizado na internet», diz Franco. Existe um acervo muito interessante sobre a história de RR. «Desde que o 'paço foi inaugurado eu sempre venho aqui pra 'tudar. Em a época do vestibular encontrei muita informação importante no sebo. A história de Roraima 'tá ali e pra concursos públicos também vale a pena dar uma pesquisada», diz Paulo, funcionário público e freqüentador do 'paço. Ainda é possível de se encontrar um dos primeiros jornais do 'tado, O Átomo, de 1950. Encontramos também algumas curiosidades 'condidas como um rádio que funciona à corda, uma coleção de vinis e um toca disco bem antigo, que contribui para o charme do local e muitas fotos de programas de auditório da década de 50. Quando os programas de rádio eram realizados no Teatro Carlos Gomes. Por ali não é difícil de encontrarmos artistas, poetas e músicos, que muitas vezes utilizam o 'paço para ensaio e apresentações. «Quando começo a ensaiar algum 'petáculo, sempre venho aqui. O lugar é calmo, dá pra 'tudar o texto numa boa», diz Priscila, atriz. Grupos de teatro como o «Malandro é o Gato», que ensaiou seu mais recente 'petáculo por lá, agora já fizeram do 'paço o seu ponto de encontro, onde se reúnem regularmente para tratarem de assuntos pertinentes à trupe. «É difícil de encontrar um lugar como 'se aqui na cidade. O bacana é que temos uma parceria bem legal, aqui temos acesso livre», diz Renato Barbosa, diretor do grupo. Durante a semana, a comunidade utiliza bastante o 'paço para leitura, 'tudo e pesquisa no cyber café. Ainda dispõe de cursos de teatro, salas de ensaio, feira de artesanato local, competições de xadrez e o restaulanche, com pratos variados e deliciosos. «Estamos abertos para todas as manifestações culturais. Divulgar a arte desse 'tado é o nosso objetivo», diz Franco. Serviço: Segunda a sábado: De 8:00h até quando tiver gente usufruindo do 'paço. End: Rua Cerejo Cruz, 786 -- Centro. Fone: Número de frases: 47 95 XX 3623-4841 Estive no último dia 28 de maio na solenidade do Prêmio Tim, no Rio de Janeiro. Foi no decadente Theatro Municipal (precisa mesmo da reforma que se anuncia na fachada). Era a sexta edição do evento e fui a convite da assessoria do prêmio para o jornal goiano O Popular. Não sei se o caro leitor sabe, mas 99,99 % das viagens dos repórteres dos jornais do país são bancadas por os interessados nas coberturas. Cobertura de todo tipo, de festivais a lançamento de carro, anúncios de investimentos empresariais etc, pautas de turismo então é um 'cândalo. E o mais doído disso é que às vezes os colegas não dizem isso aos seus leitores. Mas é justo observar que alguns jornais ('pecialmente os do eixo Rio-SP) não deram muita pelota ao Prêmio Tim de 'sa vez. Em que pese a correria que costuma ser 'sas viagens, gosto de aproveitá-las para rever grandes figuras do ofício, como o sapiente Zé Teles, jornalista musical de longa jornada no recifense Jornal do Commercio. Aliás, não entendo por quê 'se cabra não virou chefe por lá ainda ... Quis visitar os colegas coordenadores desse Overmundo também mas, sorry, não deu. Pois bem. Já exponho de cara o único momento brilhante que vi no prêmio: a homenagem a Dominguinhos. Além de justa e acertada (aliás, 'sas homenagens têm sido a única coisa elogiável no prêmio ao longo dos anos), o show de ele com super-banda comandada por Rildo Hora e convidados foi bacana, mesmo com a feia derrapada de Zezé Di Camargo e Luciano na letra e no desafino de A Vida do Viajante (de Dominguinhos com Hervê Cordovil) e da pouca voz do impagável Genival Lacerda. O vaxame dos irmãos pop-sertanejos foi devidamente limpado do 'pecial que foi ao ar no domingo seguinte na TV Globo. Mas o que me mais me chamou atenção na coisa toda foi perceber como um prêmio que se pretende importante para a música popular do país conforma-se em figurar como mero palco de celebridades e vitrine da mesmice. Não consigo mensurar se a produção do prêmio é míope ou 'pertalhona. Escrevi para o jornal que o Prêmio Tim não é para principiantes. Sucessor do Prêmio Sharp idealizado por o empresário José Maurício Machiline (que segue à frente da nova versão), o prêmio da empresa de telefonia é voltado basicamente para condecorar nomes conhecidíssimos e atrelados ao que resta da grande indústria brasileira da música. É, portanto, missa para convertidos, com direito a muitos e gratuitos confetes. Basta conferir os premiados deste ano para perceber isso (não vi o resultado final publicado no site oficial -- www.portaistim.com.br -- mas uma buscadinha qualquer no São Google o mostra). Os principais prêmios foram de novo endereçados a discos revisionistas de longas carreiras de medalhões, que pouco ou nada têm produzido de relevante artisticamente nos últimos anos. É sintomático que o finado e grande violonista Baden Powell ainda apareça como destaque num prêmio de 2008 e com um disco lançado há anos (foi o Melhor Solista da categoria Instrumental com o álbum Baden Plays Vinicius). Confusão de critérios e modalidades 'tipuladas no prêmio aumentam 'sa impressão. Jorge Benjor 'tá num incompreensível título de Melhor Cantor de Pop/Rock com um disco reeditado dos primórdios de sua carreira. E o que dizer de duas categorias para mostrar a mesma coisa e abrigar os de sempre? ( Canção e Canção Popular). Ivete Sangalo vira a Melhor Cantora de «Regional». Assim, bons e desconhecidos artistas entram apenas como azarões (como o gaúcho Vitor Ramil que faturou como Melhor Cantor no Voto Popular) e tudo o que não 'tá no eixo Rio-São Paulo vira «regional» no prêmio. Talvez seja o que explique dar (mais um ...) título a Ivete e confinar um trabalho universal como o do pernambucano Siba no gueto regional. Em entrevistas na semana da premiação, José Maurício Machiline disse que o prêmio recebeu 15 % mais de inscrições em relação à edição anterior e creditou o aumento à crescente participação dos chamados independentes. Primeiro é discutível se são mesmo independentes ou se são artistas de gravadoras pequenas e medias que trabalham no mesmo modus operandi das grandes. E depois é só observar bem quem ganhou as mais importantes honrarias do certame para ver que nem foram 'ses «independentes» a que se refere Machline os mais agraciados. Em o final das contas, saí alimentando de novo o enigma do biscoito: não se sabe se os figurões precisam do prêmio ou se é o prêmio que busca luz nos figurões. Se for a segunda opção, acho um desperdício de gente e grana. Em 'se aspecto, a administradora de cartões gasta mehor o dinheiro de ela no Prêmio Visa. E a própria Tim gasta melhor também no Tim Festival. Ou não né? Se 'sas iniciativas buscarem leis de incentivo para se realizar, nem é dinheiro das empresas que entra na jogada, é o nosso mesmo ... Não sei, há que checar 'sa informação. Por fim, acho que vale aqui listar os nomes do corpo de jurados do prêmio em 'te ano: Ana Costa, Antonio Carlos Miguel, Amora Pêra, Bernardo Araújo, Bi Ribeiro, Carol Saboia, Charles Gavin, De a Gama, Daúde, Davi Moraes, Dé Palmeira, Donatinho, Dudu Falcão, Itamar Assiere, José Maurício Machline, Lauro Lisboa, Lucinha Lins, Marcelo Camelo, Marcelo Janot e Nelson Gobi. Número de frases: 45 Pólo de formação crítico-cultural, o Sobrado Cultural é um dos interessantes projetos incrustados em bairros cariocas Existem muitas iniciativas interessantes, 'palhadas por os bairros do Rio, para incentivar a comunidade a participar ativamente de projetos culturais e alicerçar o senso crítico coletivo. Uma de elas fica em Vila Isabel e se chama Sobrado Cultural. Como explica um dos coordenadores do projeto, o 'critor Flávio Corrêa de Mello, o projeto foi gerado em 1989 por iniciativa de jovens alunos de diversas áreas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É uma iniciativa privada, concebida em homenagem ao ex-dono do terreno onde hoje se localiza o Sobrado, Cláudio Paulino -- que foi uma das vítimas do famoso incidente com o navio Bateau Mouche IV, na virada daquele ano. O filho de Cláudio é, também, um dos idealizadores do projeto, que demorou quase uma década para ser viabilizado de fato, tendo sido oficialmente iniciado apenas em 1998. Em o terreno do Sobrado Cultural, onde antes havia uma oficina mecânica, hoje se encontra um grande pólo de formação da juventude. Em o começo, no entanto, não havia um foco definido. Flávio explica que houve inicialmente associação com movimentos sociais, como o Instituto Imagem e Cidadania. Os objetivos primordiais, de luta por a democratização dos meios de comunicação a partir da elaboração de políticas públicas focadas na juventude, nunca foram perdidos. Mas houve, como não podia deixar de ser, um processo natural de tentativa e erro nas diversas ações que o Sobrado lançou à comunidade de Vila Isabel. A experiência, a cada ação tomada, delineou o projeto definitivamente como um centro articulador da juventude local já a partir de 2000. Há uma clara intenção de que os jovens do bairro passem a ser produtores e disseminadores críticos de informação. Para que 'te objetivo seja atingido, diversos cursos e projetos são mantidos. Um de eles é o Poesia no Sobrado, que acontece mensalmente e tem por intuito formar e divulgar novos autores, além de aguçar o senso 'tético e a percepção da poesia como forma de comunicação efetiva. Há também projetos de cinema (chamado Tela Livre), de produção jornalística (que mantém um periódico de nome Geração) e também de fotografia. Flávio destaca que o projeto de fotografia, utilizando a técnica do pinhole (no qual as imagens são obtidas com uma câmara caseira, baseada em princípios fotográficos dos primórdios da captação de imagens 'táticas), teve uma exposição apoiada por a Petrobras e por a Tangolomango. Outros parceiros, como o Sesc Rio, também já se interessaram por projetos do Sobrado Cultural. Número de frases: 18 Para conhecer mais sobre 'ta iniciativa, entre em contato por o e-mail imagemecidadania@unikey.com.br. Vencer barreiras é uma coisa, ' ficarem ' lembrando disso pra você o tempo todo é outra. Criado há pouco mais de um ano (em janeiro de 2005) por os bailarinos Anderson Leão, também diretor artístico, e Roberto Morais, o Grupo Gira Dança já nasceu com pinta de gente grande. Antes mesmo de pisar em palcos potiguares, com apenas quatro meses de formada a trupe mostrou potencial na Mostra Arte, Diversidade e Inclusão Sociocultural no Rio de Janeiro (maio de 2005), com companhias de todo o Brasil. Era a 'tréia pública oficial. Em Natal, só seis meses depois ... A idéia não surgiu assim de repente, do nada. Em a época da universidade -- 2002, 2003 -- Anderson e Roberto participaram de um projeto de extensão do Departamento de Arte da UFRN que lidava com 'sa vertente (inclusiva) da dança. Depois de formados, maturaram a idéia e inscreveram projeto em edital público. Devidamente chancelados, começaram a produzir Envolto, coreografia que tenta explicar com movimentos as relações humanas dos sentimentos e acontecimentos, a migração interior-cidade, encontros e desencontros, a tradição e a alienação. Amparados por projeções de imagens, os bailarinos apresentam fragmentos de uma urbanidade louca, mas ainda com salvação. O tom claustrofóbico do figurino também ajuda a passar 'sa idéia de 'tarmos enrolados nas próprias amarras -- amarras modernas, onde um lance mais consciente do livre arbítrio pode quebrá-las com facilidade. A experiência no Rio de Janeiro serviu para motivar os bailarinos, que na época ainda não eram sete -- os não-deficientes só entraram no grupo em julho do ano passado. «Lá tivemos contato com os melhores grupos de dança contemporânea para portadores de necessidades do Brasil. Envolto foi bem aceita por o público, surgiram propostas para possíveis voltas, um ótimo começo pois só tínhamos quatro meses de grupo», lembra Anderson Leão. Reconhecimento por o que é e não por o que representa Além do diretor artístico, completam o grupo os bailarinos Álvaro Paraguai, Emily Borges, Rodrigo Batista, Sue Ellen, Joselma Soares (deficiente visual), Roberto Morais e Marconi Araújo (' cadeirantes ') e Daniel Rocha (iluminador). Os figurinos são de Maria Rocha e Heinkel Huguenin, vídeos de Fernanda Gurgel e produção de Rafael Telles. O primeiro obstáculo a ser superado por o grupo é não precisar da bandeira ' inclusão social ' para ser reconhecido. «Nossa intenção é transformar o Gira Dança num grupo de dança contemporânea profissional, e não um grupo de dança inclusiva só porque trabalhamos com portadores de necessidades 'peciais. Não somos amadores, precisamos inovar sempre, procurar novas técnicas, novas linguagens. A partir desse trabalho teremos as mesmas condições para participar de festivais como um grupo de dança de referência», planeja Anderson. Por mais que não queiram, a associação é inevitável: o Gira Dança oferece como retorno em projetos justamente o discurso social. «Aproveitamos 'se diferencial e levamos às 'colas apresentações e palestras sobre a experiência do convívio entre os bailarinos, as montagens, o preconceito», enumera. Além de Envolto, a única coreografia já maturada, o Gira Dança vêm lapidando De o outro lado e Interior do interior. Continuidade é a palavra de ordem A aprovação no edital do Programa BNB de Cultura 2005 (o ponta-pé inicial) mais as parcerias locais garantiram o mínimo à manutenção do projeto durante o ano passado. Hoje o grupo tem sede própria, rolos de linóleo (o'tapete ' emborrachado dos bailarinos) e equipamento de som básico. «Em contrapartida fizemos camiseta, um gibi (historinhas com personagens do grupo Gira Dança) para distribuição nas 'colas, palestras, apresentações. Este ano 'tamos tentando de novo, por todos os lados». Os planos para 2006 também incluem, além da própria sobrevivência enquanto grupo, a ampliação de Envolto -- a coreografia passará de 30 para 50 minutos de duração, num 'petáculo único que deve 'trear em meados de abril. Parte da trilha sonora já 'tá definida: a ' eletronicidade ' do potiguar Macacco, mais as raízes de Luiz Gonzaga, experimentos do franco-argentino Gotham Project, DJ Roger Moore, o islandês Sigur Rós, e Tom Jobim, interpretado por Ney Matogrosso. Número de frases: 34 Ou seja, a salada 'tá servida. Ela passa o dia atendendo clientes no consultório, marcando consultas, ligando para confirmar as datas. Também manipula pinças e peças babadas por quem 'tá na cadeira do dentista. Basicamente 'ta é a rotina de Lucineide, por volta dos seus trinta-e-poucos, com algumas rugas no rosto e um ar que mistura melancolia e simpatia. Fica numa ante-sala cheia de revistas em quadrinhos e papel de parede de bichinhos. Ela faz questão de dizer que odeia o Recife todas as vezes que encontro-a no consultório. «Aqui é muito sujo, a cidade fede muito. Meu sonho mesmo é ir para o Rio onde as oportunidades acontecem», mas no Rio não é perigoso, minado e sufocante? «Não, não. Lá é maravilhoso». Lucineide nunca foi para o Rio de Janeiro. Só conhece o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar por os cartões postais que compra e por as matérias que lê no jornal. Ainda assim é fascinada por a cidade, fala com um brilho nos olhos. Ela não assiste televisão. Ou melhor, até assiste, mas se resume a TV Cultura, seu xodó. Passa de noites e madrugadas vidrada no que o canal veicula. «Meu programa preferido é o jornal da cultura. É o único de eles que é imparcial. Também sou fã dos filmes brasileiros que passam lá». Ela fala de cinema com carinho. Sorri com o canto da boca todas as vezes que as sílabas ci-ne-ma saem, tímidas. E ela menciona isso enquanto uma broca fura minha arcada dentária sem muita piedade. Lucineide fala sem parar, ela precisa compulsivamente se comunicar. Como sua vida limitada não permite, ela se resume a conversar com os pacientes da dentista. Puxa todo e qualquer assunto, os entulha de informação. «Ela fala demais, não pára nunca», reclama um paciente, quando saio da sala. «Sabe o que eu amo? Eu amo Cantando na Chuva. Adoro aquela cena onde os três ficam dançando juntos». Ela ainda solta observações sobre outros vários filmes sem ao menos eu ter provocado. Depois revelou que quer ser diretora de fotografia. Perguntada se costuma fotografar, ela diz que nunca teve uma máquina. «Mas eu penso como uma câmera de cinema. Eu olho tudo num ângulo de cinema, eu já nasci com 'sa característica». Entre seus planos para o futuro, 'tão USP, UFF ou Faap. «Quero sair daqui o mais cedo possível. Eu gosto do Rio, mas São Paulo iria me receber muito bem também. Com certeza é lindo por lá, gigante. Eu adoro aquela cidade», diz, assumindo depois que também nunca foi à capital paulista. Enquanto 'se dia não chega, Lucineide continua recebendo os pacientes de sua chefe na cobertura do oitavo andar. Número de frases: 40 Quais vocês querem? Acabo de ver por a televisão, uns garotos gritando aos montes -- como vendedores de produtos em baixa, por isto os gritos, ou como divulgadores de merchandising nos programas matutinos -- diversos nomes, me pareceram nomes de possíveis bandas, sites, comunidades, seitas, sei lá ... Sei apenas que gritavam. Tive pena. Eles parecem não saber como se deve vender um produto, quanto mais um produto da magnitude da música. Não quiseram aprender. As gravadoras 'tão falindo, é verdade, mas ainda conseguem dar os seus gritos derradeiros ... Vamos aos possíveis gritos: Música contemporânea expressionista pós-dodecaf ônica viola cravo e clarinete dois dedos de percussão minimalista sons eletro-eco-acústicos ... Música moderna do sul da Europa com toques inerentes da áfrica oriental com voz e violão de orquestra de cool jazz mexicano tocado num cabaré de cuba ... Música brasileira no grammy latino disco ao vivo do rock ` n ` rio gravado em lisboa com público francês e organizador com nome de cantor popular residente em são paulo que nasceu em minas de onde uma 'quina se fez famosa por suas harmonias e seus miltons ... Eu tenho uma banda de Udigrude sem tambores de recife com teclados desintetizados de melodias distorcidas das grandes óperas com cantores sertanejos com suas roupas de grife e suas mansões pequeninas se comparadas aos negros americanos que são tão racistas quanto os brancos que fazem raps preconceituosos e mulheres de peitos e bundas grandes que não sabem o nome dos seus produtores e confundem wonder com Ray ou John com Paul ... Eu tenho umas bandas mais, mas ... Antes de formar um público, tenho que admitir que já tenho três discos ao vivo gravados em 'túdio e dois dvds de 'túdio gravados de modo caseiro mas que podem ser comprados e ou achados nas ruas ou nas ruas da rede, não me importa o jeito que você irá adquirir 'tes produtos -- a minha empresária disse para a eu falar assim, o importante é que ouçam ... Viva a música impopular ... A o terno altivo: nós, os farrapos. Número de frases: 17 Por Rúbia Cunha Concursos literários surgem aos montes, dando às pessoas prêmios em dinheiro, livros contendo a publicação, ou apenas o reconhecimento do autor novato. Crônicas, contos e poesias são 'tilos encontrados em tais concursos. Essa é a parte fácil. Complicado é quando se resolve publicar um livro, e as dificuldades tendem a aumentar dependendo do gênero que se 'colhe. A temática medieval, por exemplo, encontra muitos entraves para conseguir chegar ao mercado. «Tanto novatos, quanto veteranos sofrem com o pouco 'paço dado ao gênero por as editoras, com a quase inexistente atenção dada por a grande mídia ao assunto e até com o descaso de livreiros que, em geral, jogam os livros nacionais do gênero na última 'tante lá no fundo da livraria», disse a 'critora» Helena Gomes. «Apesar de tudo, vejo o momento atual com 'perança. Há autores que 'tão conseguindo publicar livros de fantasia e até por uma ou outra editora grande», complementou a 'critora que possui obras publicadas na Rocco, Devir e Idea. Foi pensando em facilitar um pouco a vida para novos 'critores de gêneros que não costumam ter lugar nas grandes editoras que nasceu a Andross Editora, organizada por Helena Gomes, além de Edson Rossatto, Cláudio Brites, César Mancini e Carlos Francisco. Tudo começou no campus da Universidade Cruzeiro do Sul (SP), com o objetivo de abrir 'paço no mercado aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. O projeto cresceu e conseguiu se manter graças a um modelo de negócio diferenciado, que é a publicação de antologias. Hoje a Andross comemora três anos com 25 títulos publicados e começa a planejar a expansão do seu catálogo, alcançando uma diversificação não só de 'critores, mas também do próprio produto. O possível lançamento ainda em 'te ano da graphic novel, que já se encontra em produção por o novo selo, Andross Comics. Em os próximos meses também deve chegar ao mercado mais seis antologias, nas áreas de contos, crônicas, poemas e micro-contos. Anno Domini -- Manuscritos Medievais é a mais nova antologia organizada por Helena e Cláudio. Ela reúne tanto contos ambientados na realidade histórica quanto aqueles passados em universos mágicos inventados por os próprios autores, tendo a participação 'pecial de Raphael Draccon ( Dragões de Éter, da editora Planeta), e a capa ilustrada por Octavio Cariello (The Queen of the Damned, de Anne Rice), conceituado desenhista de inúmeras HQs de editoras americanas, como a DC e Marvel. «É uma honra. Tenho sorte. Em o Livro Negro dos Vampiros 'tive ao lado de um grande entendedor do assunto, Kizzy Ysatis (Clube dos Imortais, editora Novo Século), e agora no Anno Domini a parceira é um dos grandes nomes da literatura fantástica. É uma honra e uma grande oportunidade de aprender muito! A Helena é um amor e 'tá num gás contagiante. Todos só temos a ganhar com ela em 'se projeto», comentou Cláudio Brites. Escrever é Reescrever Vários autores ao 'crever seus textos muitas vezes não conseguem encontrar seus próprios erros, achando-os perfeitos e mandam para os editores. Mas não pense que a Andross «engole» os de baixa qualidade apenas porque o 'critor é novo e promissor. «Quando recebo os textos aqui na Andross, percebo que a maioria dos autores os envia sem fazer nenhum tipo de retrabalho 'tilístico ou revisões», revelou» Edson Rossatto. «Muitos acham que não precisam revisar suas obras. Ledo engano. Drummond dizia que um bom texto é 10 % inspiração e 90 % transpiração." O alerta não deve ser visto como algo amedrontador, e sim como um conselho. «Espero tornar oportuna a primeira publicação literária desses talentos ocultos. É gratificante saber que por minha 'colha -- e por o talento da pessoa, é claro -- aquele autor terá a chance de se tornar conhecido». Cláudio Brites faz coro a Edson e defende que os autores precisam entender a necessidade da reescrita, e que existe também a necessidade de ajudá-los, pois muitos ainda não 'tão maduros. «A maioria acha que o texto bom sai pronto e 'quecem que a arte da 'crita envolve muita reescrita. Graciliano fala muito disso, de você lavar e enxugar e bater o texto até ele ficar limpo. Os 'critores não tocam no texto e acabam deixando a obra como um diamante mal polido. Nós 'peramos trabalhos criativos e autores dispostos. Ou seja, uma obra não precisa vir pronta. Contos redondos. Mas se a premissa dos contos for boa, mesmo que a obra ainda precise de ajustes, 'tamos dispostos a trocar emails com 'se autor e dar dicas para que ela fique bem acabada para a publicação. Se o autor não 'tiver disposto a trabalhar, fica difícil». Mesmo sabendo que receberão apoio de editoras como a Andross, para ter alguma chance de publicar, os novatos ainda têm medo e velhas perguntas acabam surgindo durante o envio de um texto. As mais comuns dizem respeito aos direitos da obra, ganho financeiro, publicidade e integridade do texto. Algumas modificações se tornam necessárias, porém nem todos são aprovados. De acordo com as regras da Andross, depois de aceitos os manuscritos que serão publicados, a editora entra em contato, celebrando «contratos de edição», que se destacam por manter o autor como legítimo titular dos direitos autorais sobre a obra, o que não acontece em» contratos de cessão de direitos autorais», bastante conhecido em vários dos concursos literários. Quanto aos gastos financeiros de ambas as partes, o envio de obras é gratuito para o autor, contudo, a confecção dos livros gera custos. Para que 'tes sejam pagos, o programa desenvolvido por a editora dar-se da seguinte forma: cada autor se compromete a vender vinte exemplares do volume num período de trinta dias, após a data de lançamento do livro. Os custos de cada um possuem um valor mínimo para que a cota seja alcançada. Para o autor ter algum retorno financeiro, basta seguir o conselho da própria editora: vender do livro por alguns reais a mais. Sendo assim, o 'critor tem a certeza de que a editora dará a ele no mínimo, uma quantidade determinada de livros para o pagamento da publicação de sua obra, sendo possível uma segunda edição e mais uma determinada cota é entregue aos autores devido aos seus direitos autorais. Portanto, oportunidades não faltam àqueles que desejam ter suas histórias publicadas. Em a Andross os 'critores podem iniciar suas carreiras. Mas o principal conselho continua sendo: tenha carinho por seus textos, revise-os, dê uma polida e mãos às obras. Você não vai querer desistir agora, vai? Serviço: Telefone: (11) 6943-7687 site: http://www.andross.com.br e-mail: Número de frases: 63 andross@andross.com.br Esta matéria foi publicada originalmente no fanzine Elefante Bu. Queridos amigos: Em o último dia 18 de dezembro de 2008 encerrou-se o prazo 'tabelecido para a captação de contribuições ao nosso livro colaborativo que irá contar com a participação de 26 overmanos e um total de 41 contribuições publicadas (veja, abaixo, as 'tatísticas). O empreendimento em si, porém, em 'tes 3 meses e pouco em que se desenrolou, movimentou inúmeros outros overmanos que, de maneira geral, o incentivaram. Muitos até declararam sua disposição em participar, embora não tenham concretizado 'ta intenção. Seja como for, para o bem ou para o mal, o Overlivro «Reminiscências da Escola», foi gestado nas entranhas do Overmundo que é, aliás, o único útero em que 'te projeto poderia desenvolver-se, e que, portanto, é seu lócus próprio e não uma barriga de aluguel. Aliás, também não havia outra alcova em que a idéia deste livro pudesse ser concebida. Por isso tem tudo a ver 'te balanço / prestação de contas que hora intentamos. Para agradecer o apoio de todos, inclusive da administração do site. Para falar da alegria que me dá termos cumprido 'ta etapa, isto é, termos congregado num único objetivo tantos talentos overmundanos, por a tesouro em que se constitui, na sua emocionante diversidade, o conjunto de textos coletados, por as energias super positivas que emanam dos colaboradores, por a excelência das colaborações, tudo isto nos incentivando a prosseguir na perspectiva de ir além e conseguir transformá-lo num livro de papel por mais obsoleta que possa ser 'sa nossa aspiração coletiva. Em 'se sentido, além do balanço, quero reafirmar o nosso propósito de publicar um livro, e sabemos que, para realizá-lo, precisaremos encontrar apoio institucional. É preciso, no entanto, dizer que, dado o DNA do projeto, será muito mais fácil obter que isto ocorra, inclusive porque nunca vi um livro tão comentado antes mesmo de ter sido 'crito. E agora já 'tá! Estou completamente ciente: muito trabalho por a frente no próximo período! Também sei, porém, que não há maior diversão do que um trabalho feito com entusiasmo. Espero que todos nos ajudem a manter acesa a chama! Beijos e abraços De o Joca Oeiras, o anjo andarilho 1 Adilson Sarti, ES, pública, laica 2 Adroaldo, RS, pública, laica 3 Agenor, SP, pública, laica 4 Aldo Votto, RS, pública, laica / religa 5 André Pêssego, PI, privada, 'pecial 6 Ana Luiza, RN, privada, religioso 7 Ana Mineira, MG, privada, religioso 8 Baduh, RJ, pública, laica 9 Brigitte, GO, privada, religioso 10 Bruna, GO, privada, laica 11 Carlito, SP, pública, laica 12 Cavalheiro, RJ, pública, laica 13 Cida Almeida, GO, pública, laica 14 Crispinga, RJ, pública, laica 15 Daniela, SP, pública, laica 16 Ériton Berçaco, ES, pública, laica 17 Filipe Mamede, RN, privada, religioso 18 Frazão, MS, 'pecial, laica 19 Ize, RJ, privada, religioso 20 Joana Eleutério, MG, Pu / Pri, laica / reliiosa 21 Joca Oeiras, SP, pública, laica 22 Letícia, RS, privada, laica 23 Nato Azevedo, SC / PR, privada, religioso 24 Nivaldo, RJ, pública, laica 25 Roberta, GO, privada, religioso 26 Saramar, GO, pública, laica Cidades onde ocorreram as reminiscências: Alto Paraguassu-SC Alvinópolis-MG Anastácio-MS Araucaria-PR Bom Despacho-MG Cordeiro-RJ Currais Novos --RN Divinópolis-MG Fundão-ES Gilbués-PI Goiânia-GO Ilha da Marambaia-RJ Indaiatuba-SP Jataí-GO Muqui-ES Natal-RN Porto Alegre-RS Resende-RJ São Manuel-SP ' São Paulo-SP Colaborações ao Overlivro (por a ordem alfabética dos autores): 1-" De o fundão do meu coração " 196 votos Adilson Sarti, Duque de Caxias (RJ 2-" Em aqueles tempos de Dolores " 301 votos Adroaldo Bauer, Alegre (RS) 3-Meus doces anos de Agricolino " 199 votos Agenor, MS " 4-" De o laico ao religioso, do público ao privado " 167 votos Aldo Votto, Floripa (SC) 5 «Grupo Escolar Gabriela Mistral» 146 votos Aldo Votto, Florianópolis (SC) 6 «Em o tempo do pecado» 139 votos Analuizadapenha, Natal (RN) 7 O Mestre dos Doutores -- Reminiscências da 'cola anamineira * Alvinópolis (MG) * 10/12/2007 21:23 * 197 votos * 8 Meu querido Jardim de Infância -- Reminiscências anamineira * Alvinópolis (MG) * 17/9/2007 13:30 * 97 votos * 9 Retrato d' uma Escola sem retrato " 375 votos André Pêssego, Paulo (SP) 10 Dona Umbelina», Educadora 104 votos " Baduh, Rio de Janeiro (RJ) " 11 Muita alma em flor ... foi 'tragada por o Professor " 321 votos Baduh, Rio de Janeiro (RJ) " 12-" Geometria ... Zero!" 128 votos Brigitte, Goiânia (GO 13 Primeiros Passos e um vexame (reminiscências)) 94 votos Bruna Célia Palmas (Te o) 14 -- Escola Pública, sim senhor!" 204 votos Cida Almeida, Goiânia (GO) " 15-Pré-Primário e Primário ... Reminiscências 230 votos Crispinga, RJ (RJ) " 16-E eu, pobre de mim, gostava de 'tudar " 120 votos Dani Cast, Paulo (SP) " 17-Nossa mãe e o muro que nos unia " 132 votos 18-Meus chãos de Escola " 291 votos Filipe Mamede, Natal (RN) " 19-" A Professora Peteca " 178 votos Frazão Brother, Anastácio (MS) 20-" O inferno existe?" 117 votos Ize, Rio de Janeiro (RJ) 21-Meus sete anos-O primeiro ano na 'cola " 166 votos Joana Eleutério, Brasília (DF) " 23-" O resumo da ópera " 391 votos Joana Eleutério, Brasília (DF) " 24 Era uma vez um jardim " 150 votos Joca Oeiras, Oeiras (PI) " 25 «Reminiscência 'colar da velhinha gagá» 98 votos Joca Oeiras, Oeiras (PI) 26 «Reminiscência 'colar:» 112 votos Joca Oeiras, Oeiras (PI) 27 «Mor Orgulho de ser idiota» 195 votos Joca Oeiras, Oeiras (PI) 28 " Aarin Chu-Presente!" 306 votos Joca Oeiras, Oeiras (PI) 29 «A 'cola era risonha e» franca " 294 votos Joca Oeiras, Oeiras (PI) 30 Era uma vez um jardim de infância " 271 votos Letícia Möller, Po Alegre (RS) " 31 Vida em preto e branco " 136 votos Luiz Antonio Cavalheiro, Cordeiro (RJ) " 32 «A Estrelinha e o Inconformado» * 267 votos Marcos Paulo Carlito * Coxim (MS) 33 Velhos tempos, belos dias " 233 votos Nato Azevedo Ananindeua-PA 34 «Em o princípio, era o verbo» 104 votos Nato Azevedo Ananindeua-PA 35 Entre o francês e o latim " 83 votos Nato Azevedo Ananindeua-PA 36 Reminiscências reúnem amigos após 43 anos " 197 votos Nivaldo Lemos, Rio de Janeiro (RJ) " 37 «Aventuras de dois coroinhas no colégio interno» 159 votos, Nivaldo Lemos, Rio de Janeiro (RJ) " 38 «Dores e alegrias de uma Escola à beira-mar» 269 votos Nivaldo Lemos, Rio de Janeiro (RJ) " 39 «As lições que o Bom Conselho me deu» 102 votos " Roberta Tum, Palmas (Te o) " 40 «As quatro 'tações e outras lições da Escola» 194 votos Roberta Tum, Palmas (Te o) " 41 «A 'cola de Vênus 6/10/2007 15:13 * 188 votos *» Saramar * Goiânia (GO) * Total de votos: 7.341 média de votos por colaboração: Número de frases: 100 179 Editorial: Bem vindo ao Vitrola, um projeto multimídia para quem gosta de ouvir música à moda antiga, com bom gosto e riqueza de informações, sem abrir mão das vantagens que as novas tecnologias oferecem (acesso por a internet, downloads, vídeos, etc). Nosso foco inicial será a música do extremo sul do Brasil, tão boa e tão carente de divulgação. Embora haja certo preconceito quanto ao foco, o projeto é justificável, tendo em vista que é inadmissível artistas do quilate de Doidivanas, Toni Konrath, Kininho Dornelles, Sidney Bretanha e vários outros (incluindo Kleiton e Kledir) não terem 'paço na mídia regional. Se rádios e jornais, principalmente do interior, raramente os põem em pauta, aqui serão o prato principal, tanto em matérias como na programação. Também é nossa intenção manter viva a tradição dos fanzines (folhetim de fã). Por isso o Vitrola será um site com design despojado, porém dinâmico, usando o modo simplista de se fazer fanzines a favor da rapidez de atualização do sistema, contando também com a versão radiofônica onde a trilha sonora serão as canções dos artistas em pauta a cada edição, entrevistas e gravações exclusivas. Em o site do Vitrola o internauta terá, logo na página inicial, a última edição do fanzine digital, com dicas e matérias exclusivas, produzidas por a equipe, por colaboradores ou publicadas em outras mídias, arquivo de edições anteriores, links para sites de artistas recomendados, vídeos e «otras cositas más», além das opções de contato. Já o programa, é sempre uma caixinha de surpresa a cada edição, com transmissão nas sextas-feira, das 17 às 18 hs, por a Rádio Difusora de Arroio Grande-RS (AM 1580 Khz e rádio online). Todo programa ficará ainda à disposição aqui no site do Vitrola, nos dias posteriores, antes de cada próxima edição. E eis o Vitrola, criado para divulgar a boa música do extremo sul do Brasil e seus grandes artistas, principalmente os que não 'tão na mídia tradicional. Onde vamos chegar não importa. O que importa é que 'tamos nas ondas do rádio e acessível a qualquer computador «plugado» na internet. Está cansado dos «sucessos do momento»? Quer indicar algum artista que ninguém toca? Quer divulgar o seu trabalho e ninguém te dá atenção? Venha para o Vitrola! Contamos com sua audiência! E solta o som DJ!!! Número de frases: 19 Toda grande cidade tem a sua Avenida Dropsie. Ela 'tá presente na arquitetura ou nas pessoas, deslocadas socialmente, que habitam as suas ruas. A cada metro percorrido reconhecemos uma nova faceta melancólica em nossa cidade. Dropsie é aqui. Dropsie é ali. É todo lugar que tem gente vivendo para sobreviver o próximo dia, assim como a barata, mas o personagem humano filosofa: «A diferença entre eu (pessoa) e você (barata) que é eu preciso saber por quê?!». Assim como todos nós, angustiados com a vida, precisamos saber por quê? O pior, a cada resposta, uma, duas, três e muitas outras novas perguntas surgem. Conheci Avenida Dropsie no teatro. Já tinha ouvido falar da obra, quadrinhos que narram as lembranças de Will Eisner. Em o teatro também já tinha ouvido falar da adaptação dirigida por Felipe Hirsch. Com olhos atentos em todas as nuances, assisti a peça em Curitiba quando o Circuito Cultural Banco do Brasil passou por aqui, primeira quinzena de novembro de 2006. Ler, desfrutar, ver ou assistir Avenida Dropsie é aprender sobre o nosso presente. A melancolia, a tristeza e os loses do quadrinho 'tão em carne e osso no palco. Eisner permanece vivo e bem representado na peça. As fragmentadas histórias são como os personagens: profundos, mas incompletos na sua existência. Sempre falta algo, alguma coisa para preencher as suas existências. Por lembrar os personagens, apenas oito atores (Erica Migon, Guilherme Weber, Leonardo Medeiros, Magali Biff, Maureen Miranda, Mauro Zanatta, Paulo Alves e Duda Mamberti) interpretam dezenas, talvez centenas de personagens. Tudo na peça de Hirsch tem o sentido de ser. Seja a perfeita interpretação dos atores, seja o prédio com quatro pavimentos ou na pontual trilha sonora. Hirsch, com a cenografia de Daniela Thomas, faz chover no palco. É isto mesmo, por mais de 10 minutos chove. A marca registrada da Sutil Companhia de Teatro, uma fina tela branca antes do palco, o qual projeta informações, pensamentos e afins, também se faz presente. As histórias também é destaque na Avenida Dropsie. Existem os três mosqueteiros bêbados. Logo chega mais um. Porém 'te é incompleto por não possuir alguém, um amor ou algo parecido. A aventura desses mosqueteiros é beber, fumar, ver o tempo passar ou ser saudosista. Quando a ação acontece: um assalto bem na frente de eles. A «reação» vem como a de qualquer cidadão de uma grande cidade: A inércia. E quando Eisner, na voz mais do que apropriada de Gianfrancesco Guarnieri, explica o Homem da Cidade. É uma aula de sociologia que presenciamos todos os dias na grande cidade. «O Homem da Cidade só anda no claro», e lá aparece um personagem andando com uma lâmpada embutida. «O Homem da Cidade só anda em grupo», e o personagem com a lâmpada volta com outras pessoas grudadas em ele. E quando o Homem da Cidade é assaltado? Em a confusão os papéis são invertidos e o Homem da Cidade passa a ser o assaltante. E aquele personagem que começa olhar para cima. Não tem nada lá, você sabe, mas dá uma olhadinha mesmo assim, só pra conferir. Então, quando todos olham para cima, ao lado um personagem começa a passar mal. Os outros pedem para ele calar a boca. O homem morre, ali, ao lado de todo, e a única preocupação de eles é continuar olhando para cima. Depois que todos se vão, aparece um tranqüilo policial. A o perceber o homem morto no chão, coloca um jornal na face do defunto para o Homem da Cidade não ver a morte, para o Homem da Cidade não ver a realidade. Tudo 'curo. A explicação da cena é projetada. Agora os personagens 'tão andando de metrô. Seus pensamentos também são projetados. Um homem olha uma mulher. Uma mulher olha para o homem. Cada um começa a sonhar com o futuro de ambos. Em o final, cada um por si ... Um trovão. Agora a chuva é inevitável. E não é que começa a chover no palco. A simplicidade da chuva se transforma numa verdadeira poesia teatral. Alguns personagens correm para não se molharem, outros andam. Existe aquela que aproveita a chuva. Pessoas com máscaras contra gás se entrecruzam ... Então, com a alma lavada, os personagens continuam a sua rotina de sobrevivência. Os 'trangeiros, assim como em toda grande cidade, 'tão presentes. São 'panhóis, ingleses, italianos, judeus e alemão. Avenida Dropsie é uma experiência única, mesmo que 'ta experiência acontece todos os dias, bem ao nosso lado. É mais fácil percebemos a nossa realidade nas artes do que presenciarmos ao nosso lado. Também, como veremos a realidade se 'tamos mais preocupados em sobreviver? Número de frases: 68 Para quem quiser mais informações sobre 'ta adaptação é só visitar o site da Sutil Companhia. Tambores de São Paulo é uma iniciativa de trazer à tona os valores culturais do 'tado de São Paulo para todos que são apaixonados por percussão e não só. A questão é 'ta: se você for para Pernambuco e perguntar qual é o ritmo em voga irão lhe dizer inúmeros, se for para o Maranhão igual, para Bahia igual, etc ... Mas se perguntar qual é o ritmo paulistano, a resposta será ...? É 'ta questão que precisamos resgatar, não só para nós mesmos de São Paulo, mas para todo Brasil. Em São Paulo acolhemos milhares de migrantes de todo o país, das mais diversas culturas. Em São Paulo acolhemos também inúmeros imigrantes de várias partes do planeta. Isto faz parte de nossa cultura de acolhimento, mas precisamos acolher com carinho as culturas dos nossos Índios, Quilombos, Caboclos, enfim todos aqueles que nos deram a origem e herança de nossas existências. Por isso é que você é educador cultural, professor de música popular ou erudito, professor de percussão em Conservatório, pesquisador, musicólogo, músico apaixonado. Vamos fazer com que constem no Programa de aula de Ritmos do Brasil os ritmos de São Paulo e fazer com que fique tão apaixonante e atrativo quanto os ritmos do resto do país. Para isso é importante formar grupos, gravar as músicas, filmar, enfim registrar e apresentar em Festivais de música ou Festivais próprios de encontros de Percussão. Esta não é uma idéia nova. Muito pelo contrário, muitos já fizeram, pesquisaram e registraram. Número de frases: 14 O que falta é atitude de todos nós para tornar público e presente para as nossas crianças e 'tudantes que 'tão descobrindo a música, nomeadamente a Percussão Brasileira. Não seria nos trilhos da NOB o nosso metrô de superfície? Relatório da Fifa aponta deficiências no sistema de transportes públicos. Ge -- O relatório divulgado por a Fifa na última quinta-feira foi favorável ao Brasil, mas deixou seis cidades que 'tão na disputa para sediar partidas da Copa do Mundo de 2014 em situação delicada. Florianópolis, Maceió, Rio Branco, Natal, Cuiabá e Campo Grande são municípios que hoje não têm condições de seguir na briga. Em os seus projetos de candidatura, todas apresentaram o ônibus como o principal meio de transporte. E nenhuma de elas possui o metrô, queridinho da Fifa, como opção. Não é a falta de metrô, apenas, mas um sistema de transportes deficiente o vilão, pois outras candidatas como Belém e Curitiba tampouco desfrutam desse sistema de transporte. A decisão da Fifa sobre as cidades sede será entre 10 e 14 de julho de 2008. O relatório traz um perfil das cidades candidatas a sub-sede da Copa, citando infra-estrutura dos 'tádios e transportes, por exemplo. Em as páginas 44 e 45, a Fifa trata do transporte e cita que as cidades de Cuiabá, Campo Grande, Rio Branco, Natal, Maceió e Florianópolis não têm atualmente capacidade adequada para se tornarem sub-sede da Copa de 2014. Cultura 21/1/2005 O ator Jonas Bloch, que participou do 2º Festival de Cinema de Campo Grande, criticou, em entrevista a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, a retirada dos trilhos na cidade. O carioca, que realizou oficinas e divulgou filmes durante o evento, afirma que soube da retirada da malha e que não há compreensão da população do significado da preservação histórica. «Parte da população acha que isso é progresso. Então não há uma compreensão do significado da preservação histórica», revela. Segundo ele, todo mundo quer ir para a Europa, ver a cultura tradicional, mas em seu próprio país acha que tem de derrubar e não entende a importância disso. «Não só pelo lado da preservação da identidade brasileira, mas que a gente evolua numa sociedade que 'tá tão consumista e individualista e tão apoiado na superficialidade», finaliza. E agora! Vamos chorar os trilhos retirados? Número de frases: 20 O que o chutômetro disse para o achômetro a respeito das baixas bilheterias de nossos filmes? O porquê dos filmes brasileiros não 'tarem levando mais público aos cinemas pode e deve ser investigado. Porém trata-se de assunto para ser avaliado mais por cientistas -- pesquisadores e comunicadores profissionais -- do que simplesmente por cineastas ou jornalistas. Estes sim são, entre outros, objetos dos segmentos a serem ouvidos. E há muito o que se fazer para descobrir o que se passa nos «mistérios» do mercado, antes de se ligar o achômetro. Que mistérios existem, existem. Mas a cada rodada de investigação leiga só aumenta a desinformação e a mistificação de teoria A ou B. E não justifica 'se empirismo, já que o Brasil detêm tecnologia para realizar pesquisas quantitativas e qualitativas que podem trazer luzes novas às sombras que se confundem numa seara que não permite suposições ou visões siluetadas. O que faz filme A ou B ter melhor desempenho nas salas? Ninguem sabe, a verdade é 'sa. O exercício do livre pensar pode ajudar nas etapas que antecedem à elaboração de uma pesquisa, mas além disso só atrapalha. E pesquisas não são infalíveis e podem ser inúteis ou fotografar outros focos que não interessem se for mal planejada. Antes de qualquer passo em 'se sentido, é importante saber quem e o que pretende-se auscultar. Definir 'se universo passa por deter dados anteriores sobre o micro e o macro ambiente econômico e social a ser investigado. No caso das pesquisas para diagnosticar 'sa «enfermidade» de nossa relação investimento x audiência serão necessários mais que uma linha de pesquisa. E para isso é preciso antes de tudo, que as cabeças pensantes e interessados se desocuparem dos arraigados preconceitos que envolve o uso das ferramentas do marketing -- área demonizada por os xiitas e chaatos -- e fundamental em 'se pacto para compreender melhor 'se mercado novo, que entre suas peculiaridades traz a principal: ser um mercado dominado por produtos 'trangeiros turbinados por 'ta própria tecnologia e suas ramificações como publicidade, promoção, lobby, endomarketing, merchandesing e outros derivados. Para melhor desempenho dos produtos brasileiros no mercado não adianta tatear no 'curo; ou se investe um pouco em 'se setor ou 'taremos a cada semana contando ingressos e condenando os filmes e as leis de benefícios como os vilões. Onde 'tão os dados que provam isso? Se as 'tatísticas só se referem ao desempenho cópia x bilheteria. Onde 'tão as pesquisas ou os cruzamentos de dados entre investimentos em mídia e número de 'pectadores? Onde 'tão as pesquisas qualitativas que podem apontar as preferências nos segmentos de público ou a relação entre os valores agregados à produção, como temas, gêneros, atores e marcas famosas. A onde 'tão as leituras mais aprofundadas sobre as questões das outras mídias de entretenimentos x cinema, ou relativas às peculiaridades de cada região ou períodos do ano? A onde 'tão os dados comparativos com outras cinemaografias? É compreensível que a cada matéria sobre o tema em jornal da grande mídia, se avente apenas a superfície das opiniões e percepções vivenciais, já que 'tes dados abrangentes não existem. E mais ainda: mesmo que tomemos algumas metodologias aplicadas em outras áreas, a aplicação de 'tas na área do cinema vai exigir também um pouco de paciência, para se chegar às metodologias mais apropriadas. Deixando os profetas do apocalipse de lado e levando o tema a sério, urge arregaçar as mangas e unir forças: governo, associações, acadêmicos e empresários para inaugurar programas sistemáticos e regulares que possam levantar informações que gerem novas técnicas e modalidades de comunicação, para assim otimizar as relações custo x benefício das nossas produções. São muitas as camadas do processo entre o tema e a tela que precisam de 'tas técnicas; praticamente todas as áreas da atividade cinematográfica no Brasil ignoram ou desprezam 'sas ferramentas -- por desconhecimento, por preconceitos ou por falta de recursos fisicos ou humanos. Elas podem ajudar muito se houver disposição, humildade e despreendimento. É quase um tabu tocar em 'se assunto. Há os que acham que qualquer pesquisa é manipulação do ethos de sua obra. Nem tanto à terra nem tanto ao mar. O mercado não é um templo da monocultura, há igrejas de muito matizes e vende a alma a Deus ou ao Diabo quem quer -- ingênuo ou auto-nocivo é fazê-lo sem consciência disso. Em 2007, se o conjunto de operadores do cinema brasileiro não incrementar bem 'sas áreas, deixará os flancos abertos para os concorrentes desleais -- o capital 'trangeiro subsidiado e desproporcional e principalmente para os defensores da retração das políticas de benefícios fiscais à produções. Como diria o filósofo: O preço da liberdade é a eterna vigilância. E junto com a vigília deve 'tar a tecnologia e o bom senso em investir, para decifrarmos os «mistérios» sem usar bolas de cristal. Deixemos 'sas pseudociências para os personagens nas telas. E as pesquisas podem mostrar, não serem necessáriamente nas telas do dito cinemão ... por José Araripe Jr. Cineasta lança em maio o longa Esses Moços: Número de frases: 45 www.essesmocos.blogspot.com/ Catálogo traz um crioterioso levantamento sobre cultura, recursos naturais e folclore de Roraima A história, a cultura, os recursos naturais e o folclore de Roraima ganharam um novo reforço na sua identidade e preservação: o catálogo Elementos da Iconografia de Roraima -- Volume 01. O livro é resultado de um criterioso levantamento histórico-cultural que contou com a colaboração de profissionais de áreas distintas como consultores, jornalistas, agrônomos, designers, fotógrafos, artesãos, arquitetos, poetas e outros representantes de vários segmentos do conhecimento. Para a concepção do projeto, Roraima foi dividido em três regiões com características geográficas diferentes. Em cada uma de elas foram identificados os ícones mais representativos da flora, fauna, arquitetura, tradições populares, paisagens e todas as manifestações culturais significativas. Os ícones identificados foram visualizados em fotografias e sugestões gráficas e, posteriormente, acompanhadas de textos com seus significados e informações. Com design altamente moderno, concebido por Lars Diederichsen e Angélica Aoki, o catálogo Elementos da Iconografia de Roraima registra como ícones eminentemente roraimenses o traçado urbanístico da capital Boa Vista, inspirado em Paris e Belo Horizonte, o Parque Anauá -- um dos maiores parques urbanos da Amazônia -- o Monumento ao garimpeiro, o Portal do Milênio, a Prelazia, a Igreja São Sebastião, a antiga residência do coronel Bento Brasil, o bairro Beiral -- um dos mais antigos da Capital -- as savanas, o Monte Roraima, a Pedra do Breu -- ou Pedra do Esconderijo. A obra, que terá continuidade com um 'tudo sobre a iconografia indígena, também é soberba no registro da flora e fauna, destacando-se as orquídeas existentes no Estado com mais de 450 'pécies, e os cavalos lavradreiros ou selvagens, provavelmente descendentes de animais introduzidos na região por colonizadores 'panhóis e portugueses há mais de duzentos anos. O catálogo ainda produz uma réplica da Casa da Intendência do então Município do Rio Branco. O prédio foi demolido quando houve a mudança para Território Federal, na década de 40. A consultora de design e arquiteta Giselle Brito de Carvalho, que integrou a equipe técnica de elaboração do trabalho, diz que «artesãos, artistas, designers, arquitetos, profissionais que lidam com artes gráficas e moda, podem compreender, através deste catálogo, o caminho que se percorre para alcançar um ícone e ao mesmo tempo podem conhecer seus significados e aplicá-los conscientemente». O jornalista e historiador Amazonas Brasil, que também participou do trabalho, considera o catálogo um marco na história e na cultura de Roraima. «Vem de longe a luta para melhorar a qualidade do nosso artesanato. Ícones, temos à mão-cheia. Seja nos murais rupestres seculares, nas fachadas de nossas casas ou na arquitetura ribeirinha, nas selas e arreios de nossos vaqueiros garbosos em sua montaria. Enfim, em tudo aquilo que a cultura roraimense produziu e ainda produz. Faltava, entretanto, a pesquisa credenciada por a técnica, para selecioná-los. Eis que o Sebrae supre 'sa lacuna. E o resultado é um catálogo farto em qualidade e beleza», disse. A identificação dos traços iconográficos de Roraima, após intensos 'tudos e pesquisas envolvendo pessoas altamente qualificadas e que merecem destaque em 'ta obra, mostra um novo caminho para caracterização do Estado de Roraima para o resto do país, seja através do artesanato, da arquitetura ou do desenho. «Temos consciência de que não temos em mãos um trabalho pleno e que há outras informações a serem registradas. Todavia, consideramos válida a tentativa de promovermos a publicação do que se conseguiu coletar, levando-se em conta o extraordinário trabalho de todos que de uma forma ou de outra participaram da construção de 'tas valiosas referências», registra o superintendente do Sebrae em Roraima, Armando Freire Ladeira, a respeito do trabalho. Serviço Catálogo Elementos da Iconografia de Roraima -- Volume I Design e Concepção: Lars Diederichsen e Angélica Aoki Número de frases: 28 Edição: Sebrae Roraima Sabemos que as colaborações sobre cultura, entretenimento, poesias, contos, artes visuais entre outros, jorram por o Overmundo. No entanto, talvez falte um algo mais sobre engajamento social. Claro que, não é um texto qualquer e 'te assunto é de ampla discussão e entendimento entre todos visitantes do site. Podemos fazer mais ao meu ver e divulgar trabalhos, não só de cultura e entretenimento, mas ir mais além e fazer uma dicotomia do que serve sobre tais assuntos dentro do Overmundo. Garimpar a socialização, fazer com que todos tenham acesso à permanência de colaborações sobre a igualdade de oportunidades as críticas construtivas com punho forte e fixo e poder ter a capacidade de andar sozinho, para quem as lê. Ai sim ... Digitar Politizado: Particípio Passado -- politizado Por a cultura e entender o que não tem autoridade sobre outros aspectos, pois a grande e 'magadora massa não tem o mínimo de condição para isso. O 'tado é falho sabemos nós. Mas com um pouco mais de respeito a 'tes cidadãos menosprezados e até mesmo por o nosso próprio umbigo, onde nem respeitamos 'tas pessoas e também para os que aqui 'tão Overmanos e Overminas. Os textos, contos e artes visuais com 'ta perspectiva já mudariam quem é displicente a 'tas necessidades, jamais querendo trazer um condicionamento e nem um desvio a proposta do site, mas em tempos de discussões como aquecimento global em falta de água para a humanidade num futuro não muito distante acredito que as cabeças pensantes dos participantes daqui e com sua 'crita formidável e suas fotos 'petaculares poderiam ter 'tes aspectos a favor para demonstrar um pouco mais de coragem ao fazer suas publicações com temas mais agudos de punho político e acreditar que seu trabalho possa tocar muita gente que por aqui passa. Acredito que através de 'ta perspectiva teremos uma camada maior de pessoas, que com 'te meio de comunicação formidável pode e deve ter acesso a 'te tipo de entretenimento e engajamento social com um olhar diferenciado dos textos que fabricamos com nossa ambição do gostar da literatura e da arte como principio maior da cultura, podemos ajudar, talvez não muitas pessoas, mas as poucas que entenderem a missão já irão servir para um fortalecimento de uma sociedade mais justa. Lógico, não iremos acabar com as injustiças, mas com certeza com um pouco de doação nossa e também podemos fazer por aqui e assim no mínimo 'tufar o peito e dizer que algo você fez. Número de frases: 14 Precisamos, com urgência, de uma revolução mental, e isso só se da com uma boa educação -- digo Boa educação -- nem o Master, nem o Amadeus, nem o Salesiano, colégios ditos inflentes na boa formação dos cidadões aracajuanos, são capazes de contribuir para tal revolução, pelo contrário, colaboram com a miséria mental de 'ta juventude condenada por a produção em série, Incrível, são todos iguais, buscando a mesma merda na vida, sem visão instigante e adoração por o além, por o infinito, por o desconhecidos, completos conservadores e PRÉconceituosos, que se vêm infelizes, justamente por 'tarem vazios por dentro, jovens que não sabem conversar por não terem o que conversar, jovens sem conteúdo, sem leitura, sem reflexão, adoradores do óbvio, que se apóiam em metas ridículas. Enfim, Vítimas, vítimas de empresários (donos de colégios e universidades) frustrados, que também foram vítimas, e a tendência é o ciclo continuar. Uma pena, pois 'tão todos condenados a solidão e ao completo desânimo para com 'te universo fascinante. Número de frases: 3 Para os Uchôas da vida (que mercantilizam e castram a necessidade de expressão humana) Caros, Diante do Plano de Desenvolvimento da Educação, anunciado semana passada por o presidente Lula, resolvi mandar para o Overmundo algumas reflexões, que tenho tido oportunidade de fazer ao trabalhar com a educação em diferentes 'tados do Brasil. A maioria dos meus amigos e parceiros investem tudo o que têm a favor da arte e da cultura brasileira e eu tenho muito orgulho disto, mas não vamos chegar ali na 'quina se a educação não se tornar um tema crítico para nós. Então começo com 'te post, que é uma forma de dizer e buscar contribuições para que os ministérios da Cultura e da Educação voltem a trabalhar e pensar juntos seus projetos por o Brasil. um abraço a todos, Reforma da Educação -- Por onde começar? Informações baseadas no excelente livro de João Batista de Araújo Oliveira, editado lançado no final de 2005 por o Instituto Alfa e Beto -- www.alfaebeto.com.br «Principais indicadores: Acesso -- sobram vagas, falta eficiência e qualidade. -- levamos 8 séries para fazer mal o que poderíamos fazer em 4. Progresso -- a maioria 'magadora dos alunos e 'colas do Brasil não atinge aos padrões mínimos de qualidade. -- entram 4.817 Mm alunos / ano no fundamental e formam 2.413 Mm alunos / ano no 30 ano, só que 'ta geração é formada por um grupo de 40 % de repetência branca. Isto é: temos uma evasão / repetência absurda -- apenas metade dos alunos da oitava série domina o que era de se 'perar na quarta série. -- é preciso 4,5 alunos brasileiros, para ter o resultado 'colar de 1 aluno europeu. Sucesso -- 53,3 % dos alunos brasileiros em 'cola pública possuem sua média em matemática inferior a 1,0.-- 25,2 desses alunos possuem média 3 em português, sendo que 26,5 é inferior a 1,0. Equidade -- em nosso país, a educação é o único passaporte para a ascensão social. -- o Projeto de Reforma Universitária em debate no congresso vincula 75 % dos recursos em educação às universidades, isto significa que de cada real, 75 centavos irão financiar gratuitamente o 'tudo de jovens que vem de grupos socialmente mais ricos -- faixa de 15 % do jovem brasileiro. Gerenciamento Para funcionar a 'cola deve combinar autonomia e responsabilidade por os resultados. -- a 'cola tem autonomia financeira para 'colher seus parceiros e prestadores de serviços? -- a 'cola tem autonomia administrativa para adotar ferramentas atualizadas de gestão, que são imprescindíveis a qualquer instituição? -- a 'cola tem autonomia pedagógica? Ela recebe pronto programas de ensino e tem que aceita-los. -- os pais participam de 'ta gestão?" Ou seja: -- Nossa má educação não é falta de recurso, não é falta de vaga, pode ser uma questão de gerenciamento adequado. Para Refletir: -- Em o programa de Ensino Médio que trabalho, em Pernambuco -- 'cola integral, com uniforme, alimentação, livros e tecnologia -- o custo mensal por aluno é cerca de R$ 300,00. -- A mensalidade do Colégio São Vicente de Paulo no Rio de Janeiro, para a mesma série é R$ 830,00 (detalhe, o menino 'tuda somente 4,5h, nós pagamos R$ 500,00 por os livros, e R$ 200,00 por o uniforme); Por que continuamos a pagar a 'cola privada, se uma 'cola pública pode oferecer mais aos nossos filhos e aos nossos jovens? Número de frases: 35 A arte é a representação da realidade a partir do ponto de vista das experiências pessoais de um artista. Todo aquele que representa a sua realidade a partir de técnicas visuais, sonoras ou qualquer outra forma de expressão sensorial pode ser considerado um artista. Independente do reconhecimento do que dizem o merchand A, o patrocinador B, o jornal X ou a revista Y. «Sou como artista, o impulso metamorfósico inconstante das formas. Em o caule do meu elemento imaginário, habita o anseio do novo em minutos e horas. A 'tagnação e vazio do pensamento são causas para o surgir. Não há certezas de incertezas, mas o signo de ira e amor, de dor e pétalas, dos meus sonhos, da minha sombra e dos meus passos. Encontrarei na imagem apenas aquilo que eu próprio tiver colocado em ela. Se na percepção o saber se forma lentamente, na imaginação ao contrário, o saber é imediato. Em o ato mesmo por o qual imagino uma imagem, 'tá incluído 'se conhecimento: a imagem nada me dá de novo, nenhuma surpresa pode me causar». A auto-defini ção acima abre o blog de Tito Oliveira, o artista que mais insinua do que revela. E é assim, insinuando-se, que 'te artista vai pouco a pouco seduzindo, a partir da percepção seja de seus quadros, desenhos, instalações ou mesmo de suas palavras. O lirismo é o que prevalece. Nascido em Lagarto, agreste sergipano, passou grande parte da vida em Salvador, rodou por cidades do sul, sudeste, nordeste e da América do Sul, até chegar a São Paulo, onde vive, pelo menos até o fechamento de 'ta matéria. Influenciado por a 'tética pop, sua obra cutuca a hipocrisia nossa de cada dia. Alfineta a modernidade, seus valores superficiais, a brevidade das relações interpessoais, os tecnologismos da sociedade de consumo do século XXI e até mesmo a nossa própria identidade. Washington Silva dos Santos há apenas dois anos se tornou «Tito Oliveira,» junção de um apelido de infância com o sobrenome de meu pai», explica. Se a alcunha ficou mais simples e breve, o ser adquiriu meios para expressar toda a sua complexidade. Filho da dona de casa Vera Lúcia dos Santos e do motorista Carlos Oliveira dos Santos, Tito se auto-intitula «um verdadeiro vestígio de uma colonização mal planejada». Para os pais, a transformação de Washington em Tito foi um sintoma de ascensão social, quase um milagre ou, como prefere o artista, «uma fenomenologia dos deuses». Como um Basquiat brasileiro do século XXI, Tito se define como «um pesquisador e autodidata». Desde a infância teve contato com a arte. Era daqueles meninos que passava as aulas de matemática fazendo a caricatura do professor que 'crevia no quadro negro. Seu talento é então revelado no colegial por sindicalistas. Desenhava charges, quadrinhos e ilustrações políticas para veículos de classe. «Lembro que os sindicatos pagavam dez reais por desenho», conta. Os amigos músicos, então, começaram a chamá-lo para desenhar as capas de seus discos. É quando tem contato pela primeira vez com o universo artístico e do business. «Lembro da sensação de ser invadido por a arte, a observação de todas as construções de formas, a iluminação dos cenários e o contato com outros artistas, renomados e famosos», deslumbra-se. Passou também a freqüentar a " Escola de Belas Artes da Bahia. «Embora não encontrasse muitos artistas, adquiri uma visão mais ampla na exploração dos materiais». Mas, segundo ele, a revelação veio do ostracismo, quando passou oito meses vivendo numa colônia italiana, na região metropolitana de Salvador. «Sem meio social, conversando muito com mim e com a pintura, senti a obra me manipular, me redimir e me construir». A os 28 anos, o menino de Lagarto já chegou mais longe do que muitos acreditavam. A Bahia ficou pequena quando, em 2005, Tito venceu o prêmio A Qualidade do Brasil, na categoria «Decoração conceitual e cenário» e, no ano seguinte, levou o primeiro lugar do Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia, em Vitória da Conquista. O prêmio, concedido por a Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), lhe rendeu um prêmio de R$ 5 mil. Em 2006, Tito arrumou as malas e foi mostrar seu trabalho na Europa. Sua obra Pudores, da coleção Nuances, foi selecionada para a London Biennale, a exposição mundial de desenhos da capital inglesa. O artista também recebeu o prêmio da Fundação Cultural Européia (Amba), em Roma, na categoria «pintura». Foi também na capital italiana que realizou a sua primeira exposição individual no Velho Continente: Fotografia de orifício manipulada (foto abaixo). Antes disso, porém, Tito precisou superar as muitas dificuldades financeiras. Foi aprovado no vestibular para Artes Plásticas da Universidade Católica de Salvador (Ucsal), mas não teve como pagar as mensalidades. Assim, teve que se virar como pôde para manter o sonho vivo. De 2000 a 2005, mudou-se para São Paulo para tentar a vida e também assimilar novas referências artísticas. «Fui garçon, vendedor de griffes famosas em São Paulo, recepcionista de grandes festas, lavei pratos e banheiros numa pousada em Buenos Aires», lembra rindo. Como dizia Gonzaguinha, Tito «pensava que era um guerreiro com terras e gentes a conquistar». Buscou saída em outras culturas. «Com uma realidade instável, era inevitável que me tornasse nômade», diz. Assim, pôs o pé na 'trada e conheceu Rio de Janeiro, Recife, Alagoas, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Buenos Aires e Viña Del Mar no Chile. Morou em Sergipe, Ceará, Salvador, Teresina e São Paulo. Conta ainda que sofreu preconceitos, mas conseguiu se impor. «Muito embora minha interação social fosse vulnerável a rejeições, devido à minha origem, sempre fui contemplado por meu nível intelectual e erudição inexplicável». E cita Platão: «Quanto menos se fala mais se aprende». Esteve na Argentina em meio à crise econômica e a atmosfera de auto-supera ção do povo platino contagiou o artista. «Fui tomado por o senso político e de justiça argentino», recorda. Tanto que, quando o dinheiro acabou, para não deixar de imediato o país, entrou em acordo com a dona da pousada. «Combinamos que enquanto não tivesse dinheiro, ajudaria com os hospedes». E assim foi feito. Teve contato com pintores do país, mas «não me dei o prazer de interferir», conta. Depois, seguiu para Viña del mar, no Chile. «Visitei galerias e conheci superficialmente alguns artistas. Mas o resumo da aventura mesmo foi a exploração antropológica», avalia. Expansão, trabalho vencedor do prêmio Funceb, na Bahia, em 2006, faz parte da coleção Simbiose. Os quadros chegam a ser perturbadores, pois Tito apresenta um futuro em que homem e máquina se fundem devido à extrema velocidade tecnológica em que vivemos. Apesar disso, o artista acha positiva a intervenção de novas tecnologias nas técnicas artísticas convencionais. «Para mim, isso é bastante favorável», afirma. Mas ressalva que o artista precisa se utilizar das novas linguagens sem perder de vista o seu objetivo final, ou seja, a arte. «O que proponho no projeto Simbiose, é uma consciência maior da velocidade que vem ocorrendo e sobre o que isso implicaria em nosso bem 'tar num futuro muito próximo. Portanto, minha interferência é a consciência», diz. Atualmente, Tito trabalha em Impressão Digital, coleção que representa as várias etapas evolutivas na vida de um homem através de manipulações com impressões digitais, propriamente ditas. «A concepção representativa é proveniente da relação entre as interferências circunstanciais na formação de uma personalidade e a necessidade do 'tabelecimento de um signo, compatível aos padrões exigidos para a sua inclusão social», diz em seu blog. Identidade Nacional é outro projeto que caminha para sua fase de conclusão. As obras têm um caráter macunaímico, buscando interpretar a nossa realidade através de nossa origem miscigenada, como o fez Mário de Andrade na primeira metade do século passado. Quase como um anti-herói nacional, Tito joga na cara tanto de incautos xenófilos, quanto de imberbes xenófobos, nossa ancestralidade antropofágica inegável. Tito utiliza como base as teorias contidas em Literatura e subdesenvolvimento, de Antônio Cândido, para explicar as origens dos nossos próprios males. Cândido afirma haver as tendências de cópia e rejeição para com uma cultura dita 'trangeira. «Em o primeiro caso, postula-se uma subordinação total e declarada aos padrões da cultura 'trangeira. ( ...) Em o segundo caso, a idéia de rejeição aponta para uma recusa intransigente de todo e qualquer contributivo que venha de fora, buscando a todo preço uma originalidade ilusória. ( ...) não nos damos conta da recusa de uma importante junção cultural para o surgimento de uma nova cultura. Esta recusa implica, em todo caso, em genocídios culturais, artísticos e, sobretudo, no desenvolvimento do homem em sociedade», afirma no blog. O trabalho de Tito não se resume às telas. Ele também ministra o curso «Desenho Artístico e Pintura -- Introdução à Arte Contemporânea» para funcionários do núcleo de medicina da Unifesp e moradores da Vila Mariana e de Santa Cruz, bairros de classe média de São Paulo. O convite chegou através de uma psicóloga adepta da arteterapia. O trabalho permite que Tito perceba o distanciamento do brasileiro médio do universo da arte contemporânea. «Existe, por parte da mídia uma influência no sentido de afastar as pessoas deste conhecimento. Embora existam programas e documentários interessantes sobre artes em redes fechadas e abertas, a atenção é direcionada para transmissões cada vez mais rasas», analisa. Mas o artista não se preocupa apenas em ensinar arte para a burguesia paulista. Em novembro de 2006, Tito deu aulas para jovens de Macajuba, cidade de 3 mil habitantes do sertão baiano. O convite partiu da ONG Cria (Centro de Referência Integral de Adolescentes), que organizou o IV Encontro Ser-tão Brasil -- Fé na Terra, Pé no Chão. Os 28 alunos, que até então tinham referências baseadas apenas no grafite, tiveram, em apenas três dias, uma iniciação à arte contemporânea, em que aprenderam técnicas de pintura em muro. «Foi uma experiência muito favorável para o meu trabalho e para mim, como cidadão», diz. O artista também desenvolve instalações, trabalhos de intervenção urbana e decoração conceitual. «Embora minha iniciação artística provenha da linguagem pictórica, sou um artista contemporâneo / pós-moderno e prevaleço por a exploração em experimentos para novas linguagens e expressões», define-se. Entre os trabalhos realizados 'tão as instalações da exposição Filtros, no interior da residência do colecionador e crítico de arte Dimitri Ganzelevitch, na Rua Direita do Santo Antônio, em Salvador, em 2006. Em 'se mesmo ano, Tito 'teve na 3ª etapa do Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia, em Alagoinhas, com a obra Luzes dos Escuros (foto abaixo). Atualmente, Tito divide seu tempo e 'paço entre o trabalho e a família. «Meus princípios como cidadão foram literalmente alterados», garante. «A boemia era uma constante em minha vida e isso interferia em minha disciplina e em minha concentração. Devo à minha 'posa Carla muito do que sou hoje», derrete-se. Mahanah, filha de Carla, vive com os dois. «Em o início, a dificuldade maior era a falta do 'paço necessário para criação dos meus trabalhos. Agora, em nossa nova casa, disponho de uma área externa para concluir meus projetos». Tito admite que apesar da adaptação difícil, o contato com o universo infantil, o fez observar novas possibilidades, a ponto de ter ingressado numa faculdade de Pedagogia. «Com tantas trocas sublimes, fui percebendo que 'tava ficando mais rico». Tito demonstra incrível lucidez na condução de seu trabalho e nos objetivos de sua obra. Abordando temas existencialmente inquietantes, questiona de maneira igualmente incisiva passado e futuro. «Para a construção do meu trabalho é preciso que sua condução seja coesa a uma filosofia». Embora sempre muito lírico, dá pistas de qual seja 'ta filosofia. «Penso que o que me favorece é a provocação de reflexões diante do que consiste em meu trabalho, enquanto condição humana». Pescou? Quanto às futuras gerações de artistas, Tito observa uma dicotomia a ser superada: «Certos artistas contemporâneos se moldam, neuroticamente, a cada salão que surge para vender currículo e não arte», declara. Mas como viver de arte sem precisar se adaptar aos tempos da arte-business? «Quantos talentosos artistas violentam sua arte na 'perança de conseguir alguma medalha ou ser aceito em algum salão? Quando me indagam qual requisito seria necessário para o participante lograr êxito, respondo: coerência», aponta. Para ele, apenas a obra dirá quem é o artista. «O artista só se torna maduro ao longo de vários anos de exercício de sua arte. E a sua arte é sua convicção artística. O resto é monitoramento», afirma. Tito propõe o rompimento como saída para a arte e cita expoentes da arte pop como exemplos. «Depois da revolução artística da arte pop nos anos 60, com Andy Warhol, Tom Welsseman, Dan Flavin, Dan Graham, Duchamp e outros, romper os lugares obsoletos para interferir em 'paços inusitados é algo bastante arrojado. Além disso, o mundo moderno disponibiliza recursos tecnológicos, para pesquisas, construindo um viés maior para a exploração de novas linguagens e expressões», conclui. Número de frases: 126 Ciço Pereira é jornalista e autor do blog Manifesto Plural O gângster Kakihara tortura integrante de uma gangue rival em Ichi The Killer, dirigido por Takashi Miike, um dos cineastas preferidos da galera dos cineclubes de Belém do Pará. Ichi the killer, de Takashi Miike, talvez seja o filme mais insano, brutal e (pasmem) engraçado já produzido por o cinema japonês. As cenas de tortura, as eviscerações, a violência graficamente explicita e caricata, o sexo bizarro e as sátiras aos animes e aos filmes de artes marciais formam uma combinação maluca de 'tilos que, de alguma maneira misteriosa, funciona de modo exemplar. Ichi the killer pode ser violento, pode ser engraçado ou pode ser uma obra de péssimo gosto. Ainda assim, sob qualquer perspectiva que você o analise, ele será interminavelmente fascinante. O meu primeiro contato com Ichi the killer -- e, na verdade, com toda a produção recente do cinema de horror oriental -- foi num cinema mal-cuidado, com problemas de som e localizado num centro cultural decadente e visivelmente carente de verbas localizado no centro de Belém do Pará. Era uma mostra de cinema extremo japonês, organizada por um grupo autodenominado apropriadamente de Cinema em Trashformação. Já na entrada dava para sentir a empolgação dos presentes com o que viria a seguir. Não só dos 'pectadores como também dos organizadores, afoitos em saber qual seria a reação do público àqueles filmes visualmente chocantes e de temática bizarra. «Mermão, tem que pelo menos um passar mal e ir embora senão eu não vou ficar satisfeito», bradava um dos organizadores no lobby do cinema. A fanfarronice adolescente do rapaz fazia sentido. Como me confidenciou algum tempo depois o técnico em informática Carlos Mendes, um dos criadores do Cinema em Trashformação, as primeiras exibições de Ichi the killer no auditório do Cefet, centro de formação tecnológica onde 'tudaram todos os integrantes do grupo, foram marcadas por desmaios, ânsias de vômito e debandada geral da sala de exibição. «Tivemos um problema com um rapaz que passou mal durante a exibição do filme e também em outras sessões de filmes extremos. Algumas pessoas mais idosas saíram no meio da sessão reclamando das cenas de violência e brutalidade», me explicou ele durante uma entrevista para 'sa matéria. Ninguém passou mal, todos demos risadas nas cenas engraçadas, ficamos um pouco chocados nas cenas de violência e desde então o Cinema em Trashformação foi se tornando um nome freqüente no mundo dos cineclubes de Belém, uma tradição da cidade desde meados dos anos 60. Após uma série de mostras restritas apenas ao cinema de horror japonês, o grupo alcançou o auge de sua popularidade com o festival As Influências de Quentin Tarantino, que exibiu todas as obras obscuras que o diretor homenageou em seus filmes desde Cães de aluguel até Kill Bill. Realizado em agosto de 2005, ele contou com exibições duplas e, às vezes, triplas, tamanho o sucesso de público. Foi o que bastou para que o grupo se animasse e começasse a se levar um pouco mais a sério como um cineclube. E como todo processo de crescimento, 'te também envolve um certo amadurecimento. Para Carlos Mendes, a hora agora é de se afastar um pouco do cinema extremo oriental e se aventurar por outras regiões do planeta. «Não queremos nos 'pecializar em filmes chocantes, gostamos também de comédia, policial, ficção e até mesmo drama. Ficar preso apenas a um 'tilo seria contradizer o objetivo inicial do grupo. Queremos, inclusive, realizar uma mostra com os filmes do Lucio Fulci e de outros cineastas europeus e americanos», diz Carlos. Atualmente, Cinema em Trashformação mantém uma bem-sucedido parceria com a produtora Dançum Se Rasgum Produciones e o blog Ressaca Moral na realização do Cinebizarro. Toda quarta-feira, no bar Café Com Arte, são exibidos gratuitamente filmes de terror, produções japonesas e obscuridades dos anos 70. Em um mês de mostra, por lá já passaram filmes como Bubba Ho Tep, de Vincent Coscarelli, e Vampyros Lesbos, do mestre do cinema erótico Jess Franco. Além é claro, de Ichi The Killer, do sempre presente Takashi Miike, um dos diretores preferidos do público dos cineclubes de Belém. Para o futuro, 'tão programados ainda Inside The Deep Throat, documentário sobre a história do filme Garganta Profunda, e uma mostra sobre o cinema de horror na Era Nixon. A única coisa que talvez não mude seja o modus operandi do grupo. Assim como na época das sessões quase clandestinas no auditório do Cefet, o Cinema em Trashformação continua obtendo seus filmes através de sistemas P2P de troca de arquivos, como o Soulseek e o Emule, e por meio de colecionadores 'pecializados que vêm apoiando o grupo desde a sua fundação. Para o futuro, a realização de um sonho que persegue os seus integrantes desde a sua formação: a realização do primeiro festival de cinema fantástico de Belém do Pará. Através do 'cambo digital de arquivos via internet, a luta continua. Cinema e política Tão extremo quanto o Trashformação, mas no sentido político da coisa, o Potoca Freestyle surge com uma abordagem um pouco diferente para os padrões dos cineclubes paraenses: a exibição de filmes de teor político em 'paços públicos da cidade. Sua primeira mostra, realizada no Bar do Parque -- que já foi um dos redutos da 'querda e da boemia paraenses e que hoje é notório reduto de prostituição de Belém -- contou com filmes como Febre de funk, The corporation e Não começou em Quebec e não vai terminar em Seatle. A idéia de exibir filmes políticos num 'paço povoado por prostitutas, traficantes e menores de rua me parece tão extrema quanto, digamos, as extravagâncias carnais de Ichi the killer. Se deu resultado? Para a designer gráfica Giseli Vasconcelos, uma das organizadoras do evento, o saldo foi positivo, apesar de algumas dificuldades que seguramente acompanham uma iniciativa com 'sa. «As pessoas foram pegas meio que de surpresa com uma exibição de vídeos num bar ao ar livre. Tô falando de gente que não tem acesso a jornais e não sabia o que nós 'távamos fazendo ali. Essas pessoas nem sempre têm tempo para assistir a todos os filmes que exibimos ou mesmo a um filme inteiro. Para elas termina por ser uma experiência fragmentada. Mas eles se divertem e acabam por gerar uma nova expectativa para o lugar. Uns dispersam, outros atentam para os detalhes, para o som ... Em o Bar do Parque surgiram elogios, reverências, sono, bêbados concentrados e até um pedido de permanência da iniciativa por ali», afirma ela. Um pouco mais seguros com a experiência no Bar do Parque, o grupo seguiu em frente e armou uma segunda mostra. Desta vez na Feira do Açaí, entreposto comercial de compra e venda de açaí que já foi também um 'paço cultural e atualmente se encontra em franca decadência. O tom político continua. Desta vez em filmes como Além do cidadão Kane, sobre a hegemonia de poder da Rede Globo na mídia brasileira; Retratos de uma guerra particular, sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro; e Iracema -- Uma transa amazônica, contundente filme sobre a situação sócio-econômica da região Norte em plena Ditadura Militar. A produção local também foi lembrada com A Festa na pororoca, Açaí com jabá e A descoberta da Amazônica por os turcos encantados, documentário sobre a gênese do tambor de mina em Belém do Pará que causou polêmica e dividiu opiniões em sua pré-'tréia no final do ano passado. De o Bar do Parque para a Feira do Açaí, o Potoca Freestyle reafirma o seu compromisso com a apropriação de 'paços públicos inusitados. Prática que se reforça no discurso de Giseli, que trata a questão da retomada desses locais e a sua transformação em pólos irradiadores de cultura como um dos compromissos do cineclube. «Por que a produção áudio-visual tem que ser exclusiva de exibição em áreas privadas? São salas que têm donos e funcionam com um controle muito rígido. Creio que podemos oferecer à população 'sa produção cinematográfica como um bem cultural e de domínio público. Nem todo circuito cultural precisa de endosso, aprovação ou de leis de incentivo. Qualquer cidade como um organismo vivo vai tecendo suas vias e saídas públicas de acesso livre. Número de frases: 61 O ir e vir ainda não 'tá por completo cerceado», declara. E Deus fez o mundo em seis dias e seis noites ... É por isso que tudo é interligado, somos uma pequena parcela de um organismo vivo chamado terra (ou Gaia) e como todo organismo vivo é preciso equilíbrio para que haja «saúde». O Homem vem alterando incrivelmente rápido 'te equilíbrio e as conseqüências 'tão aí. Não é possível aceitarmos que o maior poluidor não assuma a culpa e ainda se dê ao direito de não assinar um tratado para tentar melhorar as coisas. Tentar porque será necessário muito mais que o citado tratado propõe. Deus, ou qualquer nome que queiram dar, 'tá presente em tudo, ele mostra sua grandeza em locais como a Baia da Guanabara, que parece ter sido criada com toques divinos vindos do Céu. O homem vem 'tragando as obras divinas sem nenhum pudor, contudo se alguém vandalizar uma pintura de Picasso num museu será preso e 'crachado por a opinião pública. O que faremos com os vândalos que destroem as fantásticas criações artísticas da Natureza, como devemos nos comportar com tanto descaso com o que é de todos e que sem ela não existiria vida. Agravando mais ainda o quadro vem o descaso com a vida, a violência vem crescendo exponencialmente nos locais mais belos como Rio de Janeiro e, pasmem, Maceió, terras brindadas com paisagens naturais dignas de inveja (no bom sentido, se é que isso é possível.) do resto do mundo. Parece que a piada da criação do Brasil se aplica a 'tes locais, quando o anjo pergunta por que privilegiar os mesmos com tantas belezas naturais, Deus responde: «Espera para ver o povo que colocarei lá." Não quero generalizar, mas temos que defender o que é nosso, nossas vidas. A apatia torna-se combustível para os problemas crescentes em nosso mundo, vamos mostrar nossa insatisfação com a maneira que nossos representantes conduzem à sociedade, vamos cobrar dos responsáveis a solução para os problemas causados majoritariamente por eles e se não a tiverem que financiem, onde quer que seja, as pesquisas para 'tas. Não vamos borrar mais ainda o quadro pintado por Deus para ilustrar nossas vidas, vamos recuperar o que foi feito e lutar para não repetirmos os mesmos erros. Número de frases: 16 Vamos salvar o mundo, vamos nos salvar ... A Jequitibá Cultural promove no próximo dia 11 de abril, na cidade de Jacareí (SP), o pré-lançamento do vídeo-documentário «Sapucaia», uma experiência regional que resgata a participação do homem na construção do patrimônio cultural do Vale do Paraíba paulista (Cone Leste de São Paulo). Produzido ao longo de 2006 e finalizado no primeiro bimestre deste ano, o vídeo conta com o patrocínio da NovaDutra, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com apoio institucional da Prefeitura de Jacareí e da «Fundação Cultural Jacarehy José Maria de Abreu». A direção de «Sapucaia» é da produtora e agente cultural Sílvia Bigareli, doutoranda em Comunicação e Semiótica (Puc -- SP), mestre em Multimeios (área temática -- Cinema, por o Instituto de Artes da Unicamp) e 'pecialista em Arte Educação (Escola de Comunicações e Artes -- USP). Memória e poesia visual O vídeo «Sapucaia» construiu uma linguagem poética, mesclando textos visuais, sonoros e com o objetivo geral de documentar significativos aspectos do patrimônio cultural da região. «A proposta foi focar a intervenção humana através de exemplares da cultura material (objetos utilitários, por exemplo) utilizando registros arqueológicos de cerâmica indígena como elo temporal, conceitual e metafórico ao longo do documentário» afirma Sílvia Bigareli. A 'trutura do roteiro parte do barro como identidade, combinando a cerâmica da tradição tupiguarani com a intencionalidade 'piritual. Passa, ainda, por as chamadas «veias do Vale» (o Rio Paraíba do Sul, a 'trada de ferro e a Via Dutra como caminhos de distribuição da riqueza regional), indo ao conceito de Vida / Morte / Vida a partir do fruto da Sapucaia, símbolo de ressurreição e forma referencial para criação de urnas. Estimular a reflexão O vídeo também aborda os dias atuais, traçando um contraste entre as obras artesanais e rudimentares e a tecnologia do século XXI, como a arte de produção de mapas geográficos em contraposição às imagens científicas produzidas por o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Com 21 minutos de duração, o vídeo-documentário «Sapucaia», já tem 15 exibições programadas em 'paços comunitários, além de 1 mil cópias e 10 mil folders didáticos que serão distribuídos entre instituições educativas e culturais. «Vamos 'timular a utilização do documentário por educadores e multiplicadores para debates e reflexões sobre a cultura valeparaibana em 'colas, instituições e 'paços públicos de toda a região», afirma Bigareli. «Sapucaia " Ficha Técnica: Realização: Jequitibá Cultural -- Patrimônio, Educação e Arte Direção Geral: Sílvia Bigareli Direção e Roteiro: Sílvia Bigareli e Victor Menezes Assistência de Direção: Beatriz Borrego Produção Musical e Trilha Original: Victor Menezes Direção de Fotografia: Cesar Baio Assistência de Fotografia: Walmeri Ribeiro Direção de Produção: Beatriz Borrego Assistente de Produção: Wagner Rodrigo Fotos de Still: Wagner Rodrigo Making Of -- gravação e edição: Victor Menezes Pesquisa: Andressa Capucci Edição: Cesar Baio e Walmeri Ribeiro Número de frases: 31 Videografismo e Finalização -- Cesar Baio Planalto, planilhas, plataformas e palafitas. O mês de março aqui no Rio foi de intensos debates sobre a indústria cultural. Um mais voltado para a indústria da música e seus afluentes, outro com foco nas últimas pesquisas do IBGE sobre a conectividade no Brasil e seus implicadores e implicados e ainda outro sobre exemplos dados por as periferias latino americanas sobre modelos de negócios nascidos da informalidade. Em a verdade antes de começarmos seria bom introduzir o termo Indústria Criativa já que o mais conhecido por nós é Indústria Cultural. Comecemos por 'se trecho da entrevista feita no Portal Literal por Bruno Dorigatti com Anna Jaguaribe. Anna é socióloga e trabalhou como consultora da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) para as indústrias criativas e redigiu o documento do órgão sobre o assunto. Anna disse: «A idéia da indústria cultural, termo muito utilizado por a Unesco, foi rejeitada em 'se processo de criação do Centro Internacional da Economia Criativa, pois a idéia é enfatizar mais a relação entre a criatividade e uma economia que produz e faz circular bens simbólicos. E quando se utilizava o termo indústria cultural, na verdade, o que a Unesco procurava enfatizar era a relação entre o comércio e as tradições culturais, entre o que eles chamam de patrimônio cultural e inovação. E o que nós 'tamos aqui levantando é que não é tanto uma questão de você olhar para o seu patrimônio e dizer: «Olha, isso aqui é um patrimônio cultural em movimento». Estamos saindo da idéia de cultura como uma 'pécie de repositório de símbolos para transformá-la em inovação. Mas é fato que a forma de produzir e circular símbolos modificou-se, e isso que é o cerne principal de 'sa questão das indústrias criativas. Essa diferenciação é uma outra maneira de cair fora de uma discussão que, no fundo, é inútil para 'tes propósitos, a clássica discussão sobre se 'tamos ou não comercializando a cultura. Quando você pensa em termos da economia criativa, você já parte do predisposto que existe uma circulação de bens e serviços simbólicos. O que me interessa saber é como isso se produz». Bruno Dorigatti acresenta: «como isso se produz e como pode ser usado para modificar um cenário de crescente oligopolização, não só da circulação e do controle sobre a distribuição, mas, também do controle sobre a informação». O advogado da FGV Bruno Magrani, que voltou recentemente da Nigéria, nos deu algumas pistas sobre indústrias criativas e nos contou que lá existe uma Indústria Cinematográfica chamada Nollywood (referência óbvia a Hollywood e Bollywood), as duas maiores indústrias do Cinema Mundial. Nolywood produz mais filmes que as duas, 1.200 filmes por ano contra 900 e tanto de Bolywood e 800 de Hollywood. Cada filme custa em media 10 mil dolares para ser produzido e 3 dolares para os consumidores nas ruas. Isso mesmo, nas ruas, ou no camelô se você preferir. Em a Nigéria não existe nenhuma sala de cinema. Antes em videocassette e agora em dvd, os filmes são assistidos em casa. Com o período de Guerra e a ditadura 'querdista que veio a seguir, foi proibido a entrada do cinema americano lá. Isso e a criatividade de um empresário local para desencalhar milhares de videocassetes seus, produzindo o primeiro filme, possibilitou uma outra engrenagem bastante simbólica de produção, circulação e comercialização de bens. Exemplos como 'se vemos aqui bem perto. É o caso do «mundo funk carioca», do tecnobrega no Belém do Pará ou das lan houses nas favelas brasileiras. O Ministério da cultura, o BNDES, a Petrobrás, a Ancine, etc, por sua vez já perceberam que o grande gargalo da cultura é a distribuição ou circulação desses bens culturais por eles incentivados. Como lemos acima 'ses modos de distribuição já apresentam novas e diferentes formas de fazer circular a cultura. Porque então ainda pensar em Mercado num país que consegue distribuir mal apenas 60 filmes por ano e 'ses filmes não tem retorno financeiro? E não precisamos só ficar na 'fera cinematográfica, a maior persona do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro, não produz nenhuma peça sua sem incentivo fiscal. O mesmo pode se dizer dos grandes icones da nossa MPB. Alguma 'peciê de vício? Pode ser também ... Mas mesmo assim penso como a advogada da FGV Oona de Castro, já que os cds, filmes, livros, peças, balés, etc, não tem por diversos motivos uma sustentação e circulação satisfatórias com 'se modelo herdado, porque não modificar as leis e proporcionar que um número bem maior de empresas tenham que praticar a lei de incentivo a cultura? Se o mastercard gasta uma fortuna para dizer na sua propaganda que «vale mais o sorisso do seu filho que qualquer outro ben financeiro», acredito que levar cultura gratuitamente para a população interesse ao target do seu ou de qualquer marketing empresarial. Os produtores por sua vez que já foram remunerados em toda a sua cadeia produtiva seriam generosos com a circulação desses bens a um preço bem barato ou até de graça para a população pois também lhes interessa que cheguem ao maior número de pessoas possível. Penso no filme Cartola que acabou de 'trear em 12 salas de cinema no Brasil todo. Será que se o dvd do filme fosse vendido a 1 real na Rocinha não veriamos a multiplicação de «salas» de cinema? Se para o autor seria bom, se para a empresa patrocinadora também, que dirá para a população que teria finalmente acesso a todo tipo de filme, música, livro, etc por um preço aquisecível. Fui recentemente a um concerto de música clássica com meu filho no Teatro Municipal. Custava 1 real. Lotou de ficar gente para fora. Quando o maestro pediu que levantasse a mão quem nunca havia visto uma orquestra no municipal, 99 % do teatro quase fez uma Hola! Como disse a «Fernanda Montenegro,» não vamos dividir a miséria». Se a lei for modificada serão centenas de editais, cada um com um tipo de curadoria diferente, contemplando assim um número diversificado de produções e no país inteiro. Em a Inglaterra já foi criado o Ministério das Indústrias Criativas. As criações britânicas empregam 1,3 milhões de pessoas e geram 194 bilhões e 992 milhões de dólares. Em os Estados Unidos já são o Segundo maior produto de exportação. E Segundo dados do Banco Mundial já representam 7 % do PIB do planeta. Em o Brasil ficam entre 1 e 3 % do PIB. Já que a quantidade de computadores e tvs vendidos ano passado foi quase a mesma e inevitavelmente a conectividade irá se multiplicar ano após ano, seria interessante se todos pudessem visualizar uma rede de tv digital com tv pública «linkadas» a lanhouses e 'colas de segundo grau, camelôs, vendedoras de cosméticos, casas de show, radiolas, cine clubes digitais e o que mais for sendo inventado. Se o bolsa família conseguiu tirar 11 % da população da linha da miséria, fazer a cultura circular gratuitamente em 'se país possibilitaria ai sim, a formação primeiramente de uma platéia mas bem instrumentalizada para depois, quem sabe, chegarmos de fato em algum Mercado. Política e economia andam juntas desde sempre, ciência e arte são velhas parceiras, o encontro entre a cultura e a economia, sob um novo prisma, é recente e 'tá apenas no começo. Que as novas plataformas na web 2.0 e os números nas novas planilhas governamentais venham a apresentar semelhantes ramificações. Planalto, planilhas, plataformas e palafitas. Número de frases: 58 Informações disponíveis em dicionário e portal Os artistas visuais de Sergipe 'tão representados em dicionário que cobre os últimos dois séculos da produção feita no 'tado. Com tiragem de 2.000 exemplares, a publicação é uma iniciativa da Secretaria de Cultura de Sergipe -- Sec e materializou-se com recursos obtidos no edital Conexão Artes Visuais de 2007, financiado por o MinC / Funarte / Petrobrás, a partir do projeto elaborado por Silvane Azevedo, diretora de planejamento da Sec, por o artista plástico Elias Santos e por o curador Walter Chou. O volume engloba 130 artistas, entre pintores, 'cultores e fotógrafos consagrados e novos, em verbetes de A a Z que sintetizam informações biográficas e de suas obras. Além de pretender manter viva a memória, o dicionário tem como objetivo disseminar informações sistematizadas de 'sas expressões artísticas, notadamente em 'colas públicas, que receberão exemplares da obra para utilização preferencial nas aulas de artes. A pretensão é que o material possa 'tar disponível, ainda, em versão digital, gravada em CD. Enquanto isso, os interessados poderão acessar o conteúdo por meio do site, que 'tá no ar desde abril deste ano. Em a pagina on line, os artistas que não foram incluídos em 'sa primeira edição impressa poderão fazer a inscrição e cadastrar seus dados. O lançamento acontecerá amanhã, dia 15 de julho. Número de frases: 9 Confiram os detalhes na Agenda. Apesar de todo aspecto invernal associado à imagem mundial do Natal -- neve, pinheirinhos, trenós e toda uma sorte de objetos que ganham conotação alienígena aqui na região dos trópicos austrais -- a tradição natalina encontrou no Brasil um terreno fértil em manifestações musicais, associadas aos mais diferentes contextos culturais. As primeiras manifestações musicais natalinas ocorridas no Brasil datam entre os séculos XVI e XVI, devido à colonização portuguesa e ao trabalho evangelizador da Companhia de Jesus. Os primeiros exemplos de música natalina tiveram como base hábitos e tradições presentes na cultura européia. Isto significa que, com muita certeza, podemos concluir que o primeiro canto natalino entoado por aqui foi na forma de Canto Gregoriano. Entretanto, os «autos» organizados por os jesuítas (peças teatrais sacras apresentadas ao ar livre) tinham por costume misturar elementos europeus com indígenas, preservando a linguagem musical do Velho Mundo em textos cantados num dado idioma local. É possivelmente deste encontro que provém os primeiros exemplos musicais natalinos criados em terra brasilis. Com a consolidação do cristianismo no Brasil, muitas das culturas regionalizadas -- caracterizadas por o sincretismo entre tradições africanas, indígenas e cristãs -- incorporaram temas ligados ao nascimento de Jesus Cristo. A folia-de-reis é, certamente, a festa natalina «tipicamente brasileira» mais conhecida de nossa tradição folclórica, consistindo (grosso modo) em grupos de foliões que na época do Natal percorrem as ruas das cidadelas, vila e bairros. Fantasiados do Reis Magos e acompanhados por instrumentos musicais, os foliões vão cantando de porta em porta, diante de um presépio ou outra imagem sacra. Apesar do forte laço com nossa terrinha, é bem provável que um tipo semelhante de festa natalina já tenha sido praticado na Europa (mais 'pecificamente Portugal), sendo a festa brasileira uma perpetuação de 'ta tradição que, por fim, acabou tomando rumos e características próprias. Mesmo na música clássica houve tentativas de se abrasileirar o Natal com elementos regionais, tal como o álbum infantil «Aconteceu no Natal». Composto por Hekel Tavares (1896-1969) em colaboração com o letrista e dramaturgo Joraci Camargo (1898-973), trata-se de uma obra singular na qual surge a curiosa figura de um Papai-Noel negro, já totalmente livre das influências nórdicas (ao menos na cor de sua pele). Por vezes, o músico brasileiro se sentiu tão à vontade com o Natal que 'ta temática é freqüentemente relembrada nos bailes de carnaval por a marchinha «Boas festas», de Assis Valente (1911-1958) que, ao contrário da regra, fala de um Natal dos miseráveis e sem presentes, no qual» Papai-Noel «com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem». Hoje em dia, numa sociedade de consumo musical amplamente globalizada, muitas são as formas do brasileiro cantarolar o Natal. Desde algum hit internacional, até uma canção natalina interpretada por alguma apresentadora de TV, tudo pode fazer parte de 'ta festa que sempre pendeu entre o sacro e secular. Entretanto, deste imenso caldeirão, é notável a força com a qual o movimento de canto coral se revela nos abafados ares de dezembro. O canto coral natalino 'tá fortemente arraigado na tradição musical brasileira (pode não aparecer na mídia, mas 'tá), e diversos grupos amadores e profissionais em todo país dedicam parte considerável de seus ensaios a 'te repertório. Desde o famigerado «coral da firma» até os poucos grupos profissionais em atividade no país, todos -- em maior ou menor medida -- dispendem boas horas de ensaios em músicas sobre o nascimento de Jesus. Se nas lojas e shoppings centers o Natal aquece as coisas, na música ele ainda mostra que, apesar dos pesares, o Natal é ainda chama e labareda para muita lareira. Número de frases: 20 Mesmo nos calores dos trópicos. Ontem li um artigo falando sobre biopirataria na Amazônia. Em 'te artigo há uma crítica aos pesquisadores 'trangeiros que infiltram na Amazônia para fazer 'tudos / pesquisas na área médica e biológica. O artigo me fez dedicar várias horas de reflexão sobre o assunto. É preciso desmitificar 'sa noção de nacionalismo ufanista que grande parte dos brasileiros têm -- hipócritas. A Amazônia é brasileira, sim! Mas o próprio governo parece que a vê apenas como 'pécie de adorno que confere status. Qual o problema, então, dos pesquisadores 'trangeiros extrairem -- não destruirem -- o que Dráuzio Varela chama de «galhilhos de árvore» (Em defesa aos 'trangeiros) se o Brasil deixa aquela área ao léu? Muito injusto que a maior biodiversidade do planeta pertença exclusivamente a um país que precariamente assiste seu povo e seus recursos naturais. Pois enquanto se discute a permissão de 'trangeiros para fazer 'tudos na Amazônia, os próprios brasileiros desmatam; queimam, enfim, destroem tudo aquilo que poderia contribuir com o ser-humano, principalmente na área bio-médica. Senão tolice, egoísmo é fechar as nossas fronteiras para aqueles que, dotados de uma tecnologia superior, através dos 'tudos científicos podem descobrir inclusive soluções para muitas problemáticas que atingem a região amazônica. Devemos lembrar, por exemplo, que o Greenpeace não é apenas um movimento ativista, mas sobretudo formação de grupos de pesquisadores que vêem o mundo como um só e desafiam leis para a conquista de um objetivo maior. E se for para dar um ar de soberania, que sejam criadas leis regulamentadoras para os pesquisadores 'trangeiros. Em se tratando de Brasil, não se sabe até onde elas assustariam ou limitariam o trabalho dos pesquisadores. Grosso modo, e recorrendo a uma gerenalização proposital, que talvez injustamente englobe os pesquisadores sérios de algumas universidades de nosso país, e também você, leitor desse simples post, a Amazônia deve ser explorada por todos, menos por brasileiros. Número de frases: 16 A viagem da Missão de Pesquisas Folclóricas, organizada por Mário de Andrade e realizada em 1938, é um daqueles acontecimentos centrais para a compreensão dos rumos tomados por a cultura brasileira, e por a noção de identidade brasileira, no Século XX. Mas como tantos outros desses acontecimentos, sempre foi mais citada do que conhecida. Não havia muito como conhecer: até o final de 2006, era quase impossível ter acesso a seus registros (músicas, fotografias, filmes, objetos etc.) a não ser depois de longa peregrinação para uma sala do Centro Cultural São Paulo, onde 'tavam guardados com muito cuidado (o que significava também -- e de certa forma ainda bem!-- uma dificuldade extra para conseguir autorizações para pesquisar as Pesquisas). Então tudo contribuía para que o material ficasse envolto em mitos, ou ganhasse a aura de uma preciosidade artística com a qual nunca poderíamos 'tabelecer contato. Eu sempre ouvia falar dos registros, mas meu único contato com eles foi através de um CD, lançado por a Biblioteca do Congresso Americano dentro do Projeto Música em Perigo (reparem no nome, que certamente ajudava a fortalecer o mito ...), contendo apenas 23 faixas curtinhas. Sabia, por o livro Acervo de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade 1935-1938, que havia mais de 1.200 fonogramas registrados nas viagens. Ficava sonhando com o que eu não 'cutara, e já 'tava me acostumando com a idéia que nunca iria 'cutar ... Mas para alegria geral da nação, o Centro Cultural São Paulo, a Secretaria de Cultura de São Paulo (dirigida por Carlos Augusto Calil, que felizmente havia sido diretor do CCSP e portanto tinha grande familiaridade com o material), e o SESC-SP (que felizmente é dirigido por o Danilo Miranda) deram fim ao mistério lançando uma caixa com 6 CDs (em 'se link você pode ouvir as músicas, ver fotos, ler mais textos etc.) contendo o melhor desses registros sonoros. Diante de tanta demora, saudei o lançamento como acontecimento tão importante quanto a própria realização da Missão! ( E já deu no New York Times!) Então: o material precioso é agora acessível. O que devemos fazer com ele? Poderíamos manter em seu entorno a atitude reverencial que votamos aos mitos mais sagrados, descobrindo ali todas nossas mais profundas raízes de autêntico povo brasileiro. O ideário da Missão alimenta 'sa reverência: era como se aquilo tudo a ser registrado fosse acabar no dia seguinte (e não acabou, muitas de 'sas músicas continuam vivas, e algumas até mais fortes do que eram antes, como pude perceber nas viagens do Música do Brasil); era como se tudo aquilo fosse puro, sem contato com a modernidade (o que 'cutar as próprias músicas desmente, como vou comentar em detalhes adiante). Então minha proposta vai em sentido contrário ao da " busca de raízes ": vamos acabar com o mito de uma vez por todas? Aqui não vai nenhuma sugestão de desrespeito, ou de profanação inconseqüente: na verdade penso no mais profundo respeito, que sirva para dar nova vida para o material, que já 'tá digitalizado e pode ser «manuseado» com vigor, sem perigo de «desaparecimento» dos registros (que 'se era sim um perigo real, físico). Pensei num exercício um tanto ou quanto iconoclasta, mas ao mesmo tempo e paradoxalmente devoto: queria 'cutar as músicas sem pensar em sua distanciadora importância histórica, ou «mitológica» -- queria 'cutar 'ses CDs como se fossem quaisquer outros CDs, lançados hoje -- queria investigá-los para saber o que eles têm a dizer para o mundo de hoje, 'quecendo o seu lado de «peças de museu». O que resta de 'sas músicas, sem o mito? E o que elas iluminam na musicalidade brasileira (seja pop ou " tradicional ") de hoje? É o que vou fazer aqui: uma série de comentários sobre as faixas com as quais 'tabeleci um diálogo, digamos assim, contemporâneo (por favor: não procure aqui rigor etnomusicológico: a intenção é completamente outra ...) Que músicas me fazem dançar? Como ouvir 'sas músicas com ouvidos pós-tropicalistas, pós música eletrônica de pista-de-dança, pós barulho do rock and-roll? Há conexões possíveis? Veremos. O que apresento a seguir é apenas o início dos trabalhos -- é uma obra aberta e inacabada. Vou continuar completando o exercício, nos comentários, toda vez que tiver algo a falar sobre uma outra música, toda vez que 'tabelecer links entre elas e o mundo de hoje (ou com a maneira como o mundo de hoje pensa seu passado musical / cultural brasileiro). Convido todo mundo para entrar na brincadeira. Escute os discos, faça suas próprias conexões. Pode até pegar caronas nas minhas conexões, ou desconectá-las, propondo novos links. Seria bom começar também a remixar os registros (não sei se os direitos autorais permitem ...) ou a fazer logo suas novas versões (como o pessoal do Projeto Axial já faz). O objetivo: aproveitar os lançamentos dos CDs e colocar 'sas músicas novamente para circular. No meu entender, não poderíamos fazer nada melhor, ou ter maior respeito, por elas. Sendo assim ... Vamos às músicas: C D1 -- FAIXA 1 -- Meu Barco é Veleiro -- carregadores de piano (Recife, PE) Uma das músicas que os carregadores de piano cantavam para suportar o peso e ritmar o carregamento. Se tivesse o acompanhamento de viola e palmas poderia se transformar rapidamente num samba de roda baiano, quase sem alterar a melodia ou o andamento. Isso sugere a óbvia conexão entre os mundos do samba e do coco, que se encontram tão entrosados no samba de parelha sergipano. Até os temas dos cantos, sempre repetidos em coro, lembram os temas do samba de roda do Recôncavo. O barco é veleiro, mas o «vapor» 'tá na 'tação: isso remete ao vapor de Cachoeira que não navega mais no mar, cantado também por Caetano Veloso em Transa. Interessante 'se fascínio do tradicional por máquinas: ouvi cirandas sobre aviões, toadas de bumba-meu-boi sobre automóveis. Quem disse que os mestres de 'sas brincadeiras querem viver para sempre num mundo pré-moderno, ou «preservadamente» medieval? Todos querem também o futuro agora, exatamente como continuam querendo os «populares» das festas de aparelhagem ou dos bailes funk de hoje em dia. Tá tudo dominado e misturado! Os carregadores de piano cantam em mais 6 faixas. Uma fala: «vou para Espanha, passear». A outra é a narrativa de um calote: «dona Maria me enganou -- não pagou o piano». Tudo apenas com vozes, mas com um ritmo arretado. A 'cuta me lembrou da curadoria que fiz dois anos atrás para o festival Percpan. Convidamos um excelente grupo da Tanzânia, o X-Plastaz, que mistura hip hop com cantos maasai. Teve gente que, vendo africanos, perguntou ou criticou: mas por que eles não trouxeram também tambores? O «problema» é que os maasai nunca tiveram muita paciência para tambores: são um povo nômade, não gostam de carregar peso pra lá e pra cá. Mas os ritmos que faziam só com o gogó eram incríveis. Como eram também os ritmos dos cantos dos carregadores de piano de Pernambuco. Para mais ritmos construídos com vozes, vale a pena 'cutar as faixas de 12 a 17, do C D3, com demonstrações excelentes do poder de fogo do coco de Pombal e Souza, Paraíba -- tocados só com chocalho, como ainda hoje pode ser ouvido em Maceió e arredores. C D1 -- FAIXA 10 -- Chegada do Manuel -- Bumba-meu-Boi (Recife, PE) O grupo é um bumba-meu-boi mas a música continua coco. Desta vez com percussão pesada, que lembra o que tocam hoje as baianas de Alagoas, que por sua vez lembra o drum ' n ' bass (e quantos remixes d' n ' b de «Boa Tarde Povo» -- música que as Baianas Mensageiras de Santa Luzia gravaram para os CDs do projeto Música do Brasil -- já 'cutei por aí? Nem sei contar ...) Seus ritmos entortam o corpo e a cabeça da gente. Mas em 'ta «Chegada do Manuel» o mais curioso é a fusão do big beat coqueiro com uma viola que tem a sonoridade que hoje 'cutamos acompanhando sobretudo repentistas. O resultado é bem psicodélico: parece árabe (como sempre parece a musicalidade do sertão nordestino), mas um árabe muito negro-africano, meio gnawa (o ritmo quente, quase «baiano», do Marrocos), meio o orientalismo de certo dubstep. Estarei enlouquecendo? A alma de Mário de Andrade vai vir puxar o meu pé da cama 'ta noite? Mudando de instrumento: há um bom coco com sanfona em 'te mesmo CD, na faixa 27, chamada «Sereno do Amor». E permanecendo na mesma brincadeira, o bumba-meu-boi -- as gravações feitas em Patos, na Paraíba (ver por exemplo a faixa 30 do C D2), mostram que não dá para procurar muita coerência entre tradições que adotam o mesmo nome. O bumba-meu-boi de Patos, cidade que não fica tão distante do Recife, é acompanhado por uma banda de pífanos, com sonoridade inteiramente distinta das baque recifense. Quem tem a verdade original do bumba-meu-boi? Há uma única verdade original? Aliás 'se bumba-meu-boi de Patos já cantava (na faixa 32, «C D2)» o meu boi morreu / que será de mim / manda buscar outro lá no Piauí». De onde vem 'se culto por o boi do Piauí? Imagino o que eles pensariam se mandassem buscar o boi e chegasse o bull dancing ... C D1 -- FAIXA 20 -- Toante do Mestre Anandoré -- Praiá (Brejo dos Padres, PE) Em a equipe do Música do Brasil, uma de nossas brincadeiras internas era adivinhar o momento em que 'cutaríamos os versos «aonde mora o cálice bento e a hóstia consagrada» em festas de norte a sul do país, em todos os ritmos imagináveis. Nunca falhava. Para ser claro: 'cutamos 'ses versos numa ladainha para São José no Amapá, numa marujada em Minas Gerais, no boi-de-mamão de Santa Catarina e assim por diante, em praticamente todas as festas que registramos. Mas não imaginava que poderia ouvi-los misturado com línguas indígenas de Pernambuco, como em 'te praiá. A transição do português para o que imagino ser o pankararu, e do catolicismo para o que imagino ser xamanismo, acontece sem cerimônia nenhuma, na voz de Maria das Neves de Jesus -- que muito provavelmente era índia. Sinal que 'sas trocas entre festas e rituais sempre foi motor da criatividade «folclórica» brasileira, felizmente avessa ao culto do puro. As várias tradições nunca viveram isoladas umas das outras, nem precisam temer o contato umas com as outras em nome da preservação (ou pior: do " resgate ") de uma pureza que nunca existiu na histórica cultural da humanidade: foi isso que me inspirou a 'crever um texto que é também um manifesto elogiando A Circulação da Brincadeira. C D2 -- FAIXAS 1 e 2 -- Caboclinho Índios Africanos (Pessoa, PB) Exemplo de sons (muitas batidas boas) que imploram para ser sampleados. Em a faixa 2, os instrumentos aparecem até gravados separados. E mais nitidamente na faixa 1, o sampleador nem precisa usar os efeitos dos plugins do ProTools ou do Live. Talvez por a mudança de posição do microfone durante a gravação, o som de 1938 já vem com efeitos acoplados. C D2 -- FAIXAS 8, 9, 10 e 11-Valsa, Samba, Baião e Toada tocados na viola por José da Luz (Fazenda Corta Dedo, Campina Grande, PB) O nome já diz tudo: José da Luz é um iluminado. Em as quatro faixas, são menos de 4 minutos de toques de viola, o suficiente para eu virar fã. Poderia ouvir seus toques eternamente. Imagino que grande disco teria sido gravado só com eles, algo que seria para a história da música popular brasileira como um clássico do blues é para a do pop americano. Larry Rother, no New York Times, manda bem ao conectar as sonoridades do repente nordestino com John Fahey (outro entre meus grandes ídolos). A «Valsa» parece tocada por um oud árabe. O «Baião» é acompanhado por percussão de coco. Uma maravilha. C D2 -- FAIXA 27 -- A Língua que os índios falam -- toada cantada por Antônio Otaviano Batista (Patos, PB) Há muita boa poesia 'palhada nos 6 CDs. Destaco 'ta, de rimas variadas e interessantíssimas, elogiando as línguas indígenas. Gosto 'pecialmente das rimas em «ura», ou» uro " -- Antônio pronuncia o final das palavras com um efeito vocal curioso e engraçado -- o cara devia ser uma figura! Mas não tão figura quanto o Manoel Lopes, que canta uma «Chula» na faixa 29 (gravada também em Patos), com letra que até Tati Quebra-Barraco ficaria com vergonha de cantar. Prova que a boa safadeza na música brasileira não é produto de uma «decadência» imposta por a indústria cultural ... C D3 -- FAIXA 31 -- Por o Sinal da Santa Cruz -- lundu cantado por Mariquinha Docas (Souza, PB) Mariquinha Docas aparece aqui como a primeira cantora gótica brasileira. A letra é totalmente dark. Por exemplo: «quando o caixão seguir para o cemitério». A voz é um 'panto, meio Diamanda Galas, e o 'tilo -- quando menos gritado -- lembra uma morna cabo-verdiano. Pena que canta só uma música. Outra voz sensacional, gravada em Cajazeiras (quase fronteira da Paraíba com Ceará -- lá no sertão), é a de Manoel Galdino Bandeira, bem rouca, dando ares de blues para repentes em várias métricas, até um «Galope a Beira Mar» (faixa 37, C D3). C D3 -- FAIXA 42 -- Sapo canta na beira do brejo -- coco (Curema, PB) Sensacional! Genial! Cheia de onomatopéias 'tranhíssimas (como a jia que também canta «na beira do rio» na faixa 26 do C D4). Está aqui como uma súplica: Tom Zé tem que regravar 'ta música! A gravação original foi feita por o trio Sebastião Alves Feitosa, José Alves da Silva e Odilon Alves -- mestres totais! Eles cantam ainda títulos como «Eu Vou Você Não Vai» ou «Isto é Bom Poeta». E há também a velha (da faixa 44) que não vadeia mais, mas tem a melhor risada da história da música brasileira. C D4 -- FAIXA 24 -- Sabiá três côco!-- coco (Itabaiana, PB) Quem canta é Manoel Rodrigues da Silva, mas parece Clementina de Jesus. O arranjo vocal é muito 'pecial (para não dizer «muito doido» ... no bom sentido -- é claro). O tema do sabiá aparece em outras músicas, muitas vezes com os mesmos versos. Como o tema da «rosa amarela» da faixa 27 (também C D4). Em o «folclore» é besteira (e contra a riqueza artística) aplicar regras rígidas de direito autoral. C D5 -- FAIXAS 46 a 49 -- Bumba-meu-Boi (São Luís, A) Alegria reencontrar aqui os gritos que animam as toadas de bumba-meu-boi maranhenses, que haviam desaparecido nos registros fonográficos dos anos 60 e 70, e só foram captadas novamente nos belíssimos CDs que Siba e Beto Villares produziram para Humberto de Maracanã. C D6 -- FAIXA 4 -- Dentro dos Jurunas os contrários não entram!-- Boi Pai do Campo (Belém, PA) Alguns bairros permanecem por décadas como focos da maior animação popular de sua cidade. É o caso do Jurunas, em Belém do Pará, hoje quartel-general do tecnobrega e nos tempos da Missão de Pesquisas Folclóricas território do Boi Pai do Campo, que é o recordista em número de faixas (20 ao todo) em 'ta coleção de CDs! Talvez a faixa mais interessante seja 'ta, contra os contrários (como o boi adversário continua a ser chamado em Parintins), mas não por causa da sua letra: a melodia é que mais surpreende pois foi roubada de «Por o Telefone», o» primeiro samba gravado», que por sua vez tem todo aquele histórico polêmico de ter sido registrado por Donga (" samba é igual a passarinho» ...) Prova para muitas coisas. Entre elas: o folclore nunca viveu isolado das novas mídias (naquele tempo: rádio e discos), e o contato com elas pode ter sido muitas vezes enriquecedor. E prova também que direito autoral ... Mas 'tou já me repetindo. E o texto 'tá longo demais. Tenho muitos outros comentários «pitorescos» para fazer sobre várias outras faixas. Mas vou continuar devagar e sempre, nos comentários abaixo. Renovo o convite: Número de frases: 162 se você quiser entrar na brincadeira, é só 'cutar os discos e fazer seus comentários aqui também. ' As crianças ', ' o elenco mirim ', ' os pequenos ', ' os bambinos ` e ' os pimpolhos '. Essas são apenas algumas das expressões que aparecem nas notícias sobre o elenco de jovens sergipanos que interpretarão os 11 músicos do filme ' Orquestra do Meninos ' do diretor Paulo Tiago, que 'tá sendo rodado em quatro municípios sergipanos. Poucos sabem que as ' crianças ` que contracenarão com Murilo Rosa e Priscila Fantim, são na verdade jovens e adolescentes entre 13 e 21 anos, que não têm, nem de longe, cara e consciência de ' pimpolhos '. Quem se depara pela primeira vez com 'sa turma fica surpreso com a maturidade e a timidez de alguns desse jovens atores, que 'tão vivendo uma experiência única em suas vidas. A oportunidade de fazer parte de 'sa grande produção cinematográfica atraiu mais de 300 jovens sergipanos para os testes de seleção. Com ou sem experiência muitos, que desde pequenos sonhavam um sonho infantil de ser artista, viram que o desejo não 'tava muito distante. Portanto, não custava nada tentar. «Quando a gente foi fazer o teste a gente pensava que eles 'tavam querendo crianças, mas fomos mesmo assim. Fizemos tranças, a gente brincava na seleção», conta Adreane Mendonça, 19 anos, que participou do teste junto com suas colegas do Imbuaça: Sandy Soares (18), Pábola Nascimento (17), Rosicléia Moura (20) e Lidhiane Lima (19). «Eu não 'tava confiante porque nunca fiz nada de interpretação, só peça de teatro na 'cola, sem compromisso nenhum. Minha expectativa era zero, fui sem o intuito de ser selecionado», explica Kristhofferson Íris Ferreira, que faz parte do canarinhos de Sergipe e completa 15 anos no primeiro dia de gravação, 27 de outubro. Depois de passar por um disputado processo de seleção, os 11 'colhidos passaram por uma maratona de ensaios, entre passagens de textos e aulas de músicas para fazer no bonito nas gravações do filme. Apesar da correria para conciliar os ensaios com a aulas na 'cola e suas rotinas, eles já colhem um fruto da fama: o reconhecimento das pessoas na rua. O Reconhecimento «É engraçado quando a gente passa na rua e os colegas gritam ' olhe o ator '. Teve um dia que eu tava descendo do ônibus e duas senhoras me chamaram, e me perguntaram. ' Você é o menino que apareceu na televisão? Parabéns '. Isso é muito legal. Mas uma coisa que me toca é me chamarem de ator, e antes eu não era ator?" desabafa Raphael Santos do Nascimento (20), que já atua no teatro do Grupo Imbuaça há algum tempo. O filme nem chegou às telonas mas todos já têm uma história para contar sobre o reconhecimento das pessoas na rua. Carolina conta que uma professora tirou cópia de uma matéria que saiu no jornal e levou para a 'cola; Pábola e outros colegas que participam do elenco e que 'tudam no Colégio Estadual Gov. Valaderes foram homenageados com os nomes no mural da 'cola; Cledson foi ' perseguido ' por um rapaz dentro de um carro que queria lhe dar os parabéns. Para eles, viver 'sas experiências assusta um bocado. Em o bairro, na 'cola, na rua é 'tranho e para alguns ' chato ', o fato de serem parados por a curiosidade das pessoas que querem chegar perto e conhecê-los. No entanto, para Rosicléia 'se fato é perigoso e ela não se sente muito confortável. «De repente quem nunca falou com a gente começa a se aproximar, querer ser amigo», confessa. O Caçula O mais novo ' pimpolho ' do grupo é Artur Costa, que tem 13 anos. Ele nunca fez trabalho nenhum de atuação e quase não consegue uma vaguinha na orquestra. Em o último dia do teste de seleção ele chegou com uma hora de atraso e por muito pouco não é recebido por o diretor Paulo Tiago, que de cara o 'colheu para ser um dos personagens mais importantes e dramáticos do filme. O caçula da turma viverá Erinaldo, um menino desnutrido e frágil que será seqüestrado e protagonizará cenas fortes no filme. Para não assustar as pessoas e para deixar um clima de suspense no ar, o tímido Artur prefere não falar muito da sua participação. «Quase ninguém sabe que eu vou participar do filme» revela. O Futuro A grande maioria desses jovens 'tuda em 'cola pública e tem pouco ou quase nenhuma experiência com atuação. Nove de eles participam do curso profissionalizante do grupo Imbuaça e 'tão prestes a se tornar atores profissionais. Todos pretendem seguir a carreira de ator, apesar de conheceram as dificuldades de lidar com arte em terras sergipanas, assunto sobre o qual eles são bastante críticos. Para Tonhão do Grupo Imbuaça, que também atuará no filme no papel de Vicente e contracenará com um dos seus alunos do curso de teatro, " 'tá sendo uma experiência muito legal para eles. Mas eu sempre oriento eles para não irem com muita sede ao pote. Esse é o primeiro trabalho da carreira de eles e com isso eles não vão despontar da noite para o dia», declara o ator de um dos grupos de teatro mais importante e antigo do Estado. Apesar da curiosidade dos atores e do povo sergipano de ver o resultado final deste trabalho, o filme, que terá locação nas cidades de Aracaju, São Cristóvão, Laranjeiras e Santo Amaro, só deve chegar às salas de cinema no início do segundo semestre do próximo ano. O filme ' Orquestra dos Meninos ' é um filme baseado em fatos reais que conta a história do maestro Mozart. Em a década de 80 no sertão de Pernambuco, Mozart resolve fazer uma revolução, inicialmente silenciosa, de ensinar música para as crianças que trabalhavam no campo. Essa atitude tomou uma proporção tão grande que acabou provocando violência e difamação por parte dos poderosos da sua cidade. Mas independente de tudo e de todos sua orquestra de meninos foi reconhecida internacionalmente e com ajuda de países como a Bélgica e França ele conseguiu erguer uma fundação onde cerca de 200 crianças e jovens aprendem a arte da música. O filme, segundo o diretor Paulo Tiago, será trabalhado sob uma 'tética de documentário de forma que possa trazer à tona a simplicidade e a emoção dos personagens, o que exigirá desses jovens maturidade e profissionalismo. Em a fase inicial do filme eles viverão na pele de crianças entre 13 e 14 anos que dão duro no trabalho da roça. Depois vem a duas fases seguintes, que mostram a passagem da adolescência para a vida adulta. A história verídica do maestro Mozart e sua orquestra de meninos será transportada para a tela com muita música, emoção e lições de vida. Um desafio cheio de responsabilidades para 'ses jovens atores, que 'tão engatinhando na carreira. «Como Laís (preparadora de elenco) falou, a gente tem que emprestar nossas vidas, sentimentos, nosso corpo aos personagens. Falar como se fosse o Kristhofferson, mas com a intenção do Ivanilson», explica o garoto. Número de frases: 58 Perdida no meio do mato que toma conta do Sítio das Porteiras, propriedade da família Moreira há pelo menos um século, a casa de taipa onde nasceu e viveu o maior expoente do coco de embolada (tradição sonora da cultura popular nordestina), Chico Antônio (1904-1993), continua em pé por um mero capricho da natureza. «Escorada» num cardeiro -- nomenclatura muito usual no Nordeste para designar 'pécies de cactos, a casinha de seis cômodos e pé direito baixo guarda relíquias da música afro-brasileira. Correndo o risco de desmanchar no próximo inverno, e tombada por o Patrimônio Histórico do Estado há quase dois anos (maio de 2004), o máximo que o filho caçula do embolador pode fazer enquanto a «ajuda» não chega é tapar «o sol com a peneira», ou melhor,» chuva com um plástico». «Tio Biu, por que o senhor não troca algumas telhas e conserta o telhado?», pergunto inocente. «Não é por nada não. Só que uns ' dotô ' vieram aqui dizendo que não podia mexer em nada, que iam fazer outra casa nova aqui do lado ... Só promessa. Por mim derrubava 'sa e construía outra nova», diz Severino Moreira, 69, solteiro, o mais novo dos sete filhos de Chico Antônio. Parêntese: o que Biu tem a ver com Severino? Diz a «lenda» que Biu é o apelido do Severino no Nordeste. Sondei algumas pessoas em outros círculos, e a lenda existe -- uma história sem explicação sobre a origem. Todos os dias Tio Biu prepara a própria comida, ara a terra, cuida da roupa ('ticada em toda a «sala» da frente). Cada canto da casa, uma história: o altar protegido por São Jorge, Nossa Senhora e um santo sem feições definidas, criado por Severino com um barro negro cru que remete àquelas decorações góticasaos, e que remete à formas góticas do século XV, criado por Severino, os jarros seculares ainda guardam água, a cama do «coquista» praticamente intacta, o lugar para molhar o corpo, depósito caseiro de grãos ... Enquanto o fogão à lenha 'quenta a panela a todo vapor, o simpático guardião cozinha arroz com peixe pescado e legumes colhidos. Além de ser o herdeiro legítimo do Coco de Embolada, seu Severino Moreira também 'tá identificado por a Fundação Nacional de Arte como ceramista. Sem noção da real dimensão da música do pai, seu Severino diz que nunca cantou nem tocou. «Meu pai ia rimar na praia e sempre bebia. Por isso minha mãe dizia ' para a eu ' não fazer isso», lembra já mudando de assunto: «Nunca recebi um centavo das cantorias do meu pai, não visto nem com o dinheiro que 'tão ganhando por aí com a música de ele, desabafa. Luz elétrica e água encanada só na casa de parentes, a meia légua de ali, onde seu Severino dorme. Atualmente Biu só fica na tapera durante o dia, e sua rotina solitária só muda em dia de visita de alunos da rede pública de Pedro Velho -- a «coisa» mais intrigante para 'te nordestino. «Não sei o que 'se povo vem ver aqui. Tudo velho despedaçado. Preservar o quê?! Tem dia que chega uns dez ônibus, as crianças tudo na fila pra entrar na casinha», questiona confuso. Projetos Quem ajuda a preservar a memória que resta é a neta de Chico Antônio, Marta Moreira, e a bisneta Socorro dos Anjos Moreira -- a prefeitura municipal ajuda como pode. Já a Fundação José Augusto, autarquia que direciona a política cultural do Estado, decidiu por inscrever o projeto de preservação do patrimônio num edital público. «Ainda não fizeram nada. Vieram aqui (segundo semestre de 2005), tiraram fotos e disseram que teriam uma resposta em março quando saísse o resultado do edital. Vamos 'perar», torce Marta Moreira. A coordenadora do Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza, Isaura Rosado, braço da Fundação que cuida, de entre outros atributos, dos museus, informou que o projeto também será encaminhado antes de recorrer ao orçamento do Governo. «O projeto de criação do memorial custa cerca de R$ 80 mil, investimento dividido entre Governo e edital. Caso não seja aprovado, recorreremos ao Estado para que banque integralmente», avisou a coordenadora. Calculando o valor por a importância de se preservar chega-se a uma conta bem óbvia (!). Modernismo Em o fim da década de 1920, durante suas andanças por os confins sonoros do Brasil, o musicólogo paulista, poeta e 'critor Mário de Andrade topou com galalau Chico Antônio. A mesma música que viria inspirar o pernambucano Antônio Nóbrega -- Em a pancada do ganzá, primeiro CD solo na carreira de Nóbrega, lançado em 1996, foi dedicado à memória de Chico Antônio, encantou o modernista. Um ano antes, o extinto grupo Mestre Ambrósio (PE) já havia apresentado uma releitura para Usina (tango no mango). O encontro foi tão marcante que Chico Antônio pode ser «lido» em diversos livros de Mário de Andrade, entre eles O turista aprendiz. Em 'sa época, o embolador chegou a passar uma temporada no Rio de Janeiro. Sem recursos e pouco adaptado, voltou a Pedro Velho para trabalhar na roça e cantar cocos nos fins de semana. Isolado por quase cinco décadas, Chico Antônio foi «redescoberto» em 1979 por o pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel, 79." Segui os rastros da história de Mário de Andrade, que falavam sobre a existência de um lendário cantador lá para as bandas do litoral sul do Estado», lembra. Três anos depois, o embolador grava o único disco por a Funarte com nove músicas, entre elas Boi tungão, Onde vais, Helena e Vou no mar. Em 1983, Eduardo Escorel produz o documentário Chico Antônio, o herói com caráter -- em 'se mesmo ano, o potiguar chegou a participar do programa Som Brasil (TV Globo), então apresentado por Rolando Boldrin. A musicalidade de Chico Antônio, 'pécie de precursora primitiva do hip hop de hoje -- o coco de embolada pode ser visto como uma 'pécie de rap do sertão «das antigas», continua inspirando teses, pesquisas e bandas de rock, respectivamente os livros O canto sedutor de Chico Antônio, da historiadora Gilmara Benevides, Usina Brasileira: Centenário de Chico Antônio -- Caderno de Cocos, onde o organizador João Natal transcreve letras e partituras dos cocos, e, por fim, o grupo potiguar de «hard coco» Folcore. Enquanto isso em " Pedro Velho: «Sei de livros falando de Chico Antônio, mas não sei se tudo é verdade. Também não sei direito quem foi Mário de Andrade, dizem que foi um 'critor famoso do Sul. Número de frases: 53 O bom é que a história valoriza a região», pensa o agricultor Joaquim Bezerril, 57 anos, trabalhador rural da região e guia do primeiro contato com a família Moreira. São mais de 35 anos de 70 pra cá. Século passado, milênio passado. Outras distâncias, mais dificuldades. Sem internet, aviões caros, tudo diferente. Mas foi em 'sa década que Fagner, Belchior, Ednardo e o Pessoal do Ceará se aventuraram na descida para o sudeste do país. E bons frutos apareceram (alguns nem tanto). O fato é que vieram, fizeram, voltaram, revoltaram. Hoje a configuração da cena independente no Ceará, em particular Fortaleza, lembra um pouco a década efervescente de 1970. A diferença 'tá justamente na operacionalização da coisa, que enumerei algumas linhas atrás. Agora é século XXI, tudo 'tá mais perto, a internet é o fino da comunicação, as passagens 'tão mais baratas, tudo é mais fácil. Mas na prática mesmo, realmente, nem tudo são flores. A periferia cultural do país ainda é bem distante do paraíso das oportunidades que é São Paulo (talvez porque nem o nordeste é tão periferia assim, nem Sampa é 'se balaio todo de prosperidade). Em o caso 'pecífico do Ceará (Pernambuco teve o caldeirão de Chico e Bahia pensa que é sudeste) muito 'tá se fazendo pra encurtar de fato as distâncias culturais dentro do Brasil. Há tempos que Fernando Catatau, junto com sua instigação, deixou Fortaleza pra trazer o cidadão pra São Paulo. Soulzé em 2003 fez a primeira chegada por a Paulista. Depois vieram Montage e muitos outros, sejam bandas ou músicos solo. E tem uma penca de artistas cearenses que 'tá planejando dar adeus à Praça do Ferreira rumo a terra da garoa. Alguns até já vieram dar o ar da graça em curtas temporadas, como Levant e Macula (que entraram na coletânea Misturada, pra janeiro de 2007), Cacau Brasil, Karine Alexandrino, Switch Stance, Pádua Pires, Fossil, Dr. Raiz e Dona Zefinha. Algumas iniciativas vêm sendo tomadas em Fortaleza, tanto por o poder público quanto por particulares, abnegados uns e outros na disseminação da cultura. Vide a recente mostra de música que movimentou a capital cearense algumas semanas atrás, onde, em ato inédito, música ao vivo e de qualidade foi apresentada nos confins das periferias, tipo Bom Jardim, José Walter e Conjunto Esperança. Isso foi da Prefeitura. Tem também o Ponto. CE, que é o festival mais promissor dentro da capital, tomando ares de se tornar o modelo cearense do Abril Para o Rock, sem exageros. Já rolou um e vai rolar outro no começo do ano que vem. Esse é de iniciativa privada. A 'piral 'tá rodando, o caldo 'tá engrossando, coisas acontecendo, mas na real ficamos sem saber o que é certo, se há algo certo: sair de lá pra vir pra cá; ou ficar lá e vir cá de vez em quando; ou nunca vir pra cá e ficar sempre lá ... As questões 'tão bem acima da busca do sucesso, da fama, da grana, que todo artista, seja músico, 'cultor ou poeta, no seu âmago almeja. A questão relevante mesmo é a que discute a política cultural voltada para o cenário independente dentro do Brasil. Sim, pois o ideal é que se consiga fazer o que se deseja dentro de sua área cultural, sem que pra isso seja preciso deixar a terra natal, certo? Sim, mas o enriquecimento do artista como verdadeiro artista necessita de outras experiências, outros lugares, outros públicos, certo? Certo, mas independente, underground, por-conta própria, sempre sofre muito pra conseguir fazer isso: ficar porque quer, sair quando quer. É aí que entram as iniciativas de política cultural decente, pra incentivar que 'ses artistas super-independentes possam ir e vir pra mostrar sua arte, seja pra São Paulo, Rio, Curitiba ou sei lá mais onde. Até porque os outros também têm o direito de saber o que se produz lá por cima, invertendo um pouco a visão do problema. Os dilemas 'tão todos nas nossas fuças. Alguns tentam resolver. Muitos querem atrapalhar. Mas o caminho sempre começa por a discussão, por o debate, até que as principais e mais viáveis idéias se concretizem e o negócio ande com as próprias pernas. Como diria Neo Pineo: se todo mundo empurrar, com certeza a rural vai desatolar. Se a gente arruma a mala depois, aí é decisão pessoal. M. Número de frases: 46 maia é arquiteto, poeta, contista e baterista das bandas Soulzé, Quarto Elemento, Unit e Ovnil, além de produtor cultural por o Coletivo Supernova As pessoas 'tão 'tranhas. Hoje em dia não se vê ninguém lendo dentro dos ônibus, nas praças, nos bosques -- nem aqui na universidade. A única coisa que se vê é gente jogando lixo no chão e reclamando que nada funciona direito. Seja através da janela da condução, seja andando na rua, o lixo lá 'tá. E a desinformação também. Crianças já não sabem mais quão horrível é poluir a cidade. Mas a culpa não é de elas, é de seus pais que não lêem mais. A falta de tempo é a única desculpa que se ouve. Dois empregos, 'cola, faculdade, limpeza da casa. Contudo, o famoso tempo para assistir televisão nunca é 'quecido. De novelas a telejornais mal produzidos a população 'tá farta e incrivelmente acha que saber o que passou na rede «a gente se vê por aqui» é 'tar bem informado. Se 'tá bem informado por que é que joga lixo no chão? Por que é que não sabe de quase nada que se passa a seu lado? Aqui na Universidade não se vêem movimentos em prol de mudanças. Só um restrito grupo se une em busca de algo, que além de não ser bem 'clarecido a nós, universitários, fica restrito a poucas pessoas. A única coisa que se ouve é reclamação. «Só um aparelho de DVD para a Universidade toda? Que absurdo!». Os bebedouros da universidade parecem 'tar com a água contaminada por coliformes fecais -- deu no jornal -- e nada foi informado a nós. Quem não acha um desperdício usar copos descartáveis em excesso? Não tenho idéia da quantidade, mas sei que diariamente centenas de copos são descartados. Por que não se instala bebedouros que não exijam o uso de copos? Ou por que não trazemos copos de casa -- como fizeram os acadêmicos do curso de Engenharia Ambiental, que produziram alguns copos de alumínio -- para sanar 'se problema? A água 'tá mesmo contaminada? Por que ninguém faz nada para nos informar? As perguntas são muitas e a comunicação é quase inexistente. Nós não lemos, não nos comunicamos, não nos preocupamos com o meio-ambiente. Que diferença faz saber se a água 'tá contaminada, ou se uso seis copos por dia? Alguém vai limpar, reciclar, sei lá. Hoje presenciamos um profundo abandono das causas importantes. Estamos tão acomodados, que pensar sobre a qualidade da água, ou a poluição do meio-ambiente, fica por conta dos realmente interessados. Paro de beber água e pronto, assim não corro o risco de me contaminar e ainda economizo copos. Não leio, não me informo, não me comunico. Acontece uma exposição no bloco da reitoria e só fico sabendo se alguém que trabalha lá informa a algum amigo meu, que depois de findada a exposição vem e comenta: «nossa, muito interessante aquela exposição de árvores de natal, ótimas peças, você viu?». Não, não vi. Aliás, quase ninguém viu. Onde 'tá a comunicação, meu Deus? Que profissionais 'ta universidade vai formar? A união resolveria todo o problema. Os interessados em melhorias reais, deveriam se unir. Deveriam se mostrar, abrir a boca. Parar de achar que só a própria vida importa. Se várias crianças -- cujos pais não lêem e não ensinam que jogar lixo no chão é feio-atiram papel de balinha por a janela do ônibus, em algum tempo as boca-de-lobo ficarão entupidas, logo você poderá 'tragar seu carro num dia de chuva, só porque a rua 'tará inundada. Simples. Querendo ou não, 'sas e outras tantas atitudes poderão um dia te afetar. E por que não fazer algo agora? Eu quero ser uma profissional de sucesso. Quero servir à comunidade, quero ser uma comunicadora social. E você? Informe-se. Comunique-se. Número de frases: 52 www.heniodossantos.com P.S.: Todos os áudios inseridos em 'ta colaboração 'tão na língua materna do entrevistado, o inglês. Era uma vez uma cidade altamente populosa, onde pobres vivem em guetos e ricos em ambientes com segurança altamente reforçada. A distinção entre bandidos e heróis é precária. Há um procurador justiceiro que faz piadas de mau gosto e um policial armado até os dentes e com perfurações de bala por todo o corpo. Políticos corruptos desviam milhões de dólares para uma criação de rãs e os cidadãos protegem-se como podem. Os mais ricos colocam chips 'palhados por o corpo para proteger-se de seqüestro. São monitorados 24 horas por dia e se deslocam em carros blindados. Aqueles (muitos) que tiveram a infelicidade de serem seqüestrados, utilizam ultra-modernas técnicas de cirurgia plástica para reparar as lesões deixadas por os bandidos. Ok, o leitor já sabe do que eu 'tou falando. Aliás, se você até agora não percebeu que a cidade acima mencionada não é a mítica Metropolis de Fritz Lang ou a Sin City dos quadrinhos, 'tá precisando ler um pouco mais. Longe de ser uma peça de ficção científica ou um exercício de futurologia, 'ta cidade existe no presente, chama-se São Paulo e 'tá 'quadrinhada no excelente documentário Manda Bala, premiado no Festival de Sundance 'te ano. O diretor Jason Kohn contou a 'te 'critor detalhes de sua primeira incursão cinematográfica. Kohn é norte-americano mas tem uma 'treita relação com o Brasil. Ele é filho de uma brasileira com um argentino, ambos judeus. ( Ouça o áudio «origem» onde o diretor fala sobre suas raízes.) Nasceu e cresceu em Nova York numa família com múltiplas identidades culturais. Educado nos padrões locais, ele freqüentou, ainda, uma 'cola religiosa, duas vezes por semana. Pré-adolescente em conflito com sua identidade, ele rebelou-se contra os pais e recusava-se a aprender português e 'panhol. Estudou cinema numa 'cola da qual guarda poucas boas recordações. Viveu alguns anos no Brasil onde ficou impressionado com a cultura local. Dedicou-se a conhecer a música brasileira e, através do pai que vive atualmente em São Paulo, conheceu as 'tórias que tornaram-se o ponto de partida para Manda Bala. Em o filme, uma intrincada rede se forma para relacionar a indústria dos seqüestros, a alta tecnologia de blindagem e cirurgia plástica, o mercado de helicópteros, um ranário e a pobreza urbana no Brasil. «Essa 'tória me pareceu ficção científica», conta um articulado Kohn. ( Ouça o áudio «ficcao».) " Mas é a realidade de uma das maiores cidades do mundo», completa. O diretor dá de ombros às críticas de que ele, um cidadão norte-americano, 'teja falando de problemas do Brasil, mas não aceita as comparações e equivalências feitas entre seu filme e Turistas, uma obra de suspense lançada em 2006. «Turistas é um filme idiota», reclama ele. De fato, Manda Bala é bastante sério tanto nas denúncias que faz, quanto na abordagem do tema. Aliás, na reconstituição do 'tado de gravidade que o país foi jogado, imagens de impacto somam-se às entrevistas, tudo com uma fotografia bem elaborada por a brasileira Heloísa Passos, também premiada no festival Sundance. O filme apresenta personagens como o Mr. M, um profissional de informática com pinta de playboy que, para evitar seqüestros blindou seu carro, fez curso de direção defensiva e implantou dois chips localizadores em diferentes partes do corpo. ( «Dois, afinal eu trabalho com informática e sei que 'sas coisas podem falhar», diz ele no filme.) Ou, ainda, o sequestrador «Magrinho», nome fictício de um bandido que foi morto por a polícia depois das filmagens, que se considera o» político " de sua comunidade. Em o cerne, um dos maiores 'cândalos políticos da História do Brasil: o caso do desvio de verbas astronômicas da extinta e recriada Sudam (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia) cujas suspeitas recaíram para o ex-senador da República Jader Barbalho. ( Ouça o áudio «corrupcao».) Em 'sa conjunção de personagens com diferentes origens e motivações, a tentativa de encontrar uma resposta para a questão da pobreza num país como o Brasil. Porém, no ambiente de «ficção científica» retratado por o filme, mesmo os heróis (no ponto-de-vista do diretor, claro), como um Procurador da República e um policial da divisão anti-seqüestro parecem ridículos -- apesar de 'sa não ser a intenção do realizador. Estes homens-da-lei não passam de pastiches numa sociedade onde justiça é algo muito distante da realidade. Em a montagem, uma outra surpresa. Kohn utiliza seus tradutores como personagens do filme." Manda Bala foi produzido, em primeiro lugar, para o mercado norte-americano e eu não queria que as pessoas perdessem a história por 'tarem preocupadas em ler a legenda», conta ele, que vai alternando as vozes reais dos entrevistados com a de seus intérpretes. ( Ouça o áudio «interprete».) A técnica causa momentos interessantes e expõe o processo filmíco, de certo modo. Em um dado momento, um dos tradutores não se contém com uma historia para lá de inusitada contada por o entrevistado e ri. Tudo isso é pontuado por uma trilha sonora recheada do melhor da música brasileira dos anos 60 e 70." Não queria mostrar apenas o lado ruim do Brasil», justifica Kohn a 'colha da trilha que conta com nomes como Tom Zé e Jorge Ben (jor). ( Ouça o áudio «musica».) Em o fundo, 'colhas como a trilha sonora, o caso dos tradutores e a linguagem que se aproxima dos filmes polícias e flertam com a ficção científica revelam muito sobre o realizador e seu modo de pensar o cinema. «Sou um homem de 'querda, mas acredito no cinema como entretenimento», conta ele, num despudor que assusta os mais puritanos realizadores latino-americanos. Não quer dizer que ele não acredite que seu filme tenha uma função política. Mas, segundo ele, não é 'sa visão que pauta seu trabalho como realizador. Aliás, 'se formato que explora os limites do filme policial na tentativa de um diálogo com o público incomodou alguns resenhistas como pode ser conferido em 'te texto. Há, também, o ranço que ainda considera fronteiras nacionais para os problemas e para as discussões sobre eles, como já foi debatido aqui e aqui. Apesar da relevância da obra, Manda Bala não tem previsão de 'tréia no Brasil. Mesmo com o cínico aviso logo no início da projeção (o «'te é um filme que não pode ser visto no Brasil» da cabeça deste texto), Kohn conta que gostaria muito que a obra fosse exibido por aí. «Infelizmente, um dos personagens nos ameaçou de processo caso o filme seja exibido no Brasil e lá não há leis que protejam documentaristas», contou o diretor à audiência do Beat Latino Film Festival, ocorrido em Tóquio no mês de setembro, sem revelar a identidade do possível litigiante. Uma perda para um país, onde a maioria dos cineastas necessita de dinheiro público para fazer filmes e, portanto, obras como Manda Bala andam 'cassas. Visite o site de Manda Bala. Número de frases: 58 adaptado do original publicado em Alternativa. Era um aaammmééémmm que não chegava a ser um grito, mas começava antes e terminava muito depois de todos os améns. Sua devoção enchia todos os 'paços da pequena igreja da Vila. Era moreno, magro, alto e encurvado para frente. Vestia sempre o mesmo terno cinza desbotado e apertado. Estava sempre no primeiro banco do lado direito, quase na frente do altar. Carregava um terço de sementes de manonas entre as mãos sempre em posição de oração. Durante a missa, mantinha uma concentração invejável. Não desviava os olhos do padre para nada. Já eu, sempre viajava por os quadros a óleo pintados na parede lateral retratando o sofrimento de Jesus Cristo durante a via sacra. Também perdia ou ganhava tempo me entretendo nas imagens imensas e tristes de São José e Virgem Maria colocadas uma de cada lado do altar. Ao contrário de ele adulto, eu ainda criança já mantinha a atenção desconcentrada que até hoje me acompanha. Meus olhos iam fotografando roupas, véus, sapatos, anéis, cabelos, bocas, caras ou qualquer outra forma atraente por o belo, 'drúxulo ou feio. Até as trilhas das formigas nas paredes na igreja me abstraiam. Admirava a indiferença prepotente com que passavam por o mundo dos humanos pecadores. Vez ou outra minhas viagens eram interrompidas por as crises de 'pirros e coriza. Perfumes misturados mexiam com minha rinite hoje crônica. Muitos ácaros grudados em roupas pareciam agradecer os passeios dominicais dos católicos solitários, felizes por a possibilidade de atingirem narinas frágeis como as minhas. Em meio às viagens eu o olhava. E lá 'tava ele arquejado, com testa enrugada e olhos fixos no padre. Sua expressão era sempre de paz e resignação. Em o momento da comunhão era o primeiro a entrar na fila. Eu não entendia como alguém podia ser tão fiel ao silêncio do ambiente, quebrado apenas por o bom e arrastado aaammmééémm. Não dizia nada, além disso, A expressão acabou originando seu apelido. Todos o reconheciam por amém, mas ele não suportava o rótulo. E é aí que vem a parte desconcertante da história de um dos homens mais devoto a Deus que já conheci. Quando Amém passava na rua, a criançada gritava o apelido e ele corria atrás soltando palavrões por todos os lados. Aprendi muito de eles com ele. Era e agia como uma criança num corpo de homem crescido. Parecia ter personalidade dupla, se comportando de um jeito na igreja e de outro na rua. Só mais tarde vim saber que era deficiente mental. Recordo-me disso porque imagino quantas pessoas não-deficientes mentais freqüentam igrejas vivendo da mesma forma que o Amém da Vila. Em a igreja, fazem de tudo para se livrar dos pecados por temer o Juízo Final, mas no dia-a-dia continuam pecando ao negar os valores coletivos e a dependência que uns temos dos outros. Dizem-se felizes e otimistas, mas pregam o apocalipse afirmando que 'tamos próximos do fim do mundo que segundo eles será um horror. Outra noite Amém entrou no meu sonho e finalmente falou. Disse que se a humanidade continuar capitalista ao extremo, agindo de forma depredatória com a natureza e todos os valores humanos, vamos mesmo ver o mundo acabar. «E daí um aaammmééémmm já será tarde. Mas talvez reste um tempo para os palavrões», disse ele. Escrito em 16 de Junho de 1999. Número de frases: 40 As boas idéias só precisam de um empurrãozinho para ganharem o mundo. E isso foi comprovado quando o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos noticiou na coluna Gente Boa, do jornal O Globo, que um publicitário gaúcho tinha criado um Super Trunfo baseado em santos católicos. Sim, foi isso o que você leu: Eduardo Menezes, 25 anos, residente da cidade de Porto Alegre, pesquisou a vida de 29 santos para criar uma nova versão do baralho que muita gente já brincou na infância. Depois disso, jornais, sites e revistas do Brasil inteiro atestaram a genialidade da coisa, mas eu sempre vou achar que ela merece mais. A idéia surgiu no ano de 2004, em meio a um papo descontraído de amigos de faculdade, provavelmente meio bêbados. O jornalista e também gaúcho, Antenor Savoldi, 24 anos, jogou a idéia e Menezes comprou. Sim, porque Menezes é famoso em seu mundinho por não apenas idealizar muitas coisas, como também por colocá-las em prática. O publicitário foi, então, à cata da história dos santos, dos mais populares como São Francisco aos mais «quietinhos», como São Gerônimo. Antes do boom da Wikipedia, Menezes teve que recorrer até aos folhetos distribuídos nas igrejas para tornar sua pesquisa o mais verossímil possível. Com o material recolhido, Menezes 'tabeleceu os quesitos para o jogo: fé, milagres atribuídos, número de devotos, ano de canonização e Rpm ou Reação ao Pecado e à Mentira. Este, uma alusão clara às Rotações Por Minuto que vinham 'pecificadas nos Super Trunfos de carros e motos. Assim como o Rpm, o quesito fé foi deduzido, mas não foi tirado do nada. São Tomé, por exemplo, só levou 2 % por ser desconfiado e só acreditar no que via. São José, pai de Jesus, chegou à cotação máxima das cartas, 99 %, por crer que Maria engravidou virgem. Tudo tem um fundamento, como os outros quesitos que foram extraídos de dados oficiais, ou quase. Feita a pesquisa e dado o posto de Super Trunfo a Jesus Cristo, Menezes enviou o material para o designer Pablo Bohrz, 28 anos, que diagramou as belíssimas cartas -- sim, além da boa idéia, o Super Trunfo vale visualmente, com as cartas revestidas por papel camurça -- e mandou para a gráfica. Impressa, a primeira leva de 300 exemplares acabou em semanas, graça ao boca a boca, à popularidade do blog que Menezes mantém no coletivo Insanus. org e a toda a repercussão na imprensa que uma simples nota gerou. Menezes mandou imprimir mais mil e segue a venda de seus baralhos por R$ 20. * * * * * Para saber mais sobre Eduardo Menezes, visite o blog do moço, onde ele publica e divulga grande parte de suas idéias. Além do Super Trunfo, Menezes tem uma editora chamada Árabe Luther que lançou textos como o Nó Cego, disponibilizado no Overmundo por o Eduardo EGS. Há três anos, Menezes 'creveu uma versão em português para o hino russo (não, ele não fala a língua da Sharapova, apenas pegou as palavras e substituiu por fonemas semelhantes para o idioma de Camões) que foi parar num 'túdio, com 20 marmanjos vestidos de vermelho engrossando a voz para cantar o Basta de Estopa (sim, foi como o título do hino ficou em português) e fazer uma versão das velhinhas que dão milho aos pombos da praça Vermelha. Entre tantas idéias, que deram certo ou não, Menezes não pode ser acusado por não ter tentado. Todas elas saem do papel. Para ganharem o mundo, dependem só do tal empurrãozinho. Número de frases: 27 Número de frases: 0 Interlúdico cultural pt. 1 -- primeiros passos da Flip de Paraty Não queria 'crever tão logo minhas impressões sobre o evento, pois suscitaria um caudal de lembranças bastante tenso e pouco digerido. Rá, e também porque muito já foi dito, redito, discutido e televisionado. Mas não posso privar os poucos e fiéis leitores de 'sa parada de ficarem por alto do que aconteceu (pelo menos com mim) em 'sa bagunça. De início: antes mesmo de partir para a Paraty, já havia criado todo um universo de expectativas para aquilo que 'tava por presenciar. E acabei de última hora carregando ainda -- fora as duas malas-gordura mórbida com blusas, tocas de frio, facas, sandálias sola de pneu, etc.--, meu comparsa barbarense e lupino, Lobo. Esse figura aí era marujo de primeira viagem total. Avisei que o processo seria complicado, mas ele encarou mesmo assim. Sorte de ele. Fomos. E como Murphy é nosso grande amigo, lógico que tivemos todos os imprevistos do mundo antes mesmo de atracarmos no litoral. Chegando lá, para nossa sorte, minha ilustre casinha 'tava sem energia elétrica. A crise da Dow Jones abate até os mais singelos caiçaras. Ou seja, banho frio à luz de velas virou atração e um complicador de roteiro. Tranqüilo. Descemos até a cidade para ver e sentir os movimentos. Em o dia de abertura tudo 'tava num clima bem suave, bem na paz. Caímos de cara no tonel de cachaça. De aí realmente tudo que era simpático, começou a ficar mais bonito. Um flerte aqui, outro ali, uma Orquestra Imperial não tão empolgante, mas tudo fiel ao que se 'perava. Passada a abertura oficial da Festa, empreendemos a alegria e o lúdico passo por as ruas afins. Em o dia seguinte, por intermédio de dois queridos desconhecidos Ane e Sergião, descolei um ingresso para ver de pertinho a mesa Uivos, que tinha como temática a relação ou a parecença entre música & poesia de duas figuraças carimbadas; o guru poeta-erê Chacal e o quase político grilo Lobão. Achei muito foda a oportunidade que tive de lançar a pergunta de desfecho da mesa, fora as performances da dupla. Como tenho contato e uma admiração fudida por o Chaca; abordei-o assim que terminou a palestra-show. Em isso já fui automaticamente convidado para o lançamento de seu livro Belvedere no bar do Lúcio. O restante do dia foi permeado por mais cachaça e mendigar com 'tilo um rangão na casa de camaradas da vida toda. Mais à tardinha, eu viria a participar de um varal de poesia da Off-Flip no O Café. Me colocaram na leva dos últimos que iriam falar. Após um belo chá de cadeira e olheiras de botar terror em qualquer criança evangélica; falei alguma coisa, representei e zarpei para a casa. Uma cama era muito, mas muito bem-vindo. -- Ainda no primeiro dia de autores Bodeamos e acordamos podres e ansiosos. Não tinha como; o cansaço era visível, mas encaramos mais uma noitada predispostos a nos surpreender com o desconhecido. Encontrei meus amigos cordas, Supercordas e geral se mandou para o sarau-lançamento do Chacal. Ficamos lá bebendo e observando as pessoas numa mesma sintonia. Coimailinda de se ver! Depois disso não lembro muita coisa além de ficar perambulando sem destino no centro-histórico. Fecha em close e corta para a próxima cena. Em a sexta-feira, acordamos tarde pra burro e como não ia rolar um pulinho em Trindade, fui apresentar o Forte para o Lobón (o Sancho que me acompanhou em 'sa história, não o cantor). Uns papos fluídos e meio grogues com aquela vista maravilhosa. Infelizmente por causa do horário, perdi o 'quema do meu caríssimo Flavinho de Araújo, poeta caiçara raiz. Mas ele perdoou ['pero]. Chegando em casa, minha mãe anuncia que acabara de alugar o nosso cafofo cheiroso para uns casais de passagem. Pronto. A partir desse ponto, triamos todas as nossas malas e pertences para o sobrado tombado e zoneado de minha família. Detalhe: no sobrado havia luz, no entanto, o chuveiro também 'tava queimado. Adoro, adoro ... Foi unânime: nada de banho até que um chuveiro quente se apresente! Sabem aquela peça do Plínio Marcos, ' Dois perdidos numa noite suja '? Se inverter a ordem dos fatores, terá mais ou menos o que éramos -- dois sujos numa noite perdida, ou algo que o valha. E tu acha mesmo que ligamos? Nem fudendo. Mulherada 'quisitintelectual gosta mesmo é de suor, do sujinho-bonitinho, de homem cheirando a cavalo (risos). Virilidade isso (risos). Sacanagem ... Mas verdade seja dita, foi mais um entreato inesperado. Número de frases: 61 Continua ... De bicicleta, chegam, juntamente com o cheiro-verde e o pimentão, as tilápias. Vinham cuidadosamente embrulhadas em sacolas pardas e custaram, segundo o ajudante-de-coveiro, R$ 6 cada uma. Encostado a uma lápide, sob a qual dormem «um enforcado e um envenenado», José Ferreira dos Santos, 73 anos, protesta: antes tivesse depositado o dinheiro no banco, para render. O ajudante, àquela hora 'fomeado, ofende-se e rasga a desrespeitar José Ferreira, chamando-o de «velho doido». «A gente morre, e o dinheiro fica pra quem, velho?», perguntava exasperado enquanto descia da bicicleta. Adriana tem 35 anos e é natural de Fortaleza. Diariamente, pouco antes das dez horas da manhã, sai de casa, no bairro Vila Velha, e apanha o ônibus que a deixa a poucos metros de onde o marido, Francisco Cunha dos Santos, trabalha. «Venho fazer o almoço e acabo tendo de 'perar até ele terminar. Quando tem muito trabalho, a gente dorme aqui mesmo», diz. Ao lado da saleta onde Paulo César de Sousa, o administrador, atualiza o cadastro dos proprietários de lotes, Adriana e o marido aninham-se após cada jornada diária. O cômodo é 'treito, e as baratas, segundo Paulo, são ali os grandes inimigos a serem batidos. Em aquela manhã, Adriana recebe os dois carás das mãos do ajudante-de-coveiro. O procedimento é conhecido de todos: primeiro, retiram-se as guelras e as vísceras da " mistura "; em seguida, após descamá-los, Adriana os deposita numa bacia com água por a metade, na qual ficam durante alguns minutos antes de receberem duas boas mãos de sal. De ali, o próximo destino é, certamente, a panela. Enquanto a água da torneira 'corre na bacia, tornando cada vez mais branca a carne do peixe, Adriana conversa. Não tem filhos, mas os 'pera para breve. De a profissão do marido, coveiro há 23 anos, apenas uma reclamação: não tem folgas. Cunha abre covas de sol a sol e, quando novembro 'tá próximo, o expediente 'tende-se madrugada adentro, sem hora para terminar, tantos são, além dos próprios enterros, os pedidos para reparos na capela do cemitério e nas lápides. O dia-a-dia do casal é, portanto, intramuros -- não os de seu domicílio, mas os do cemitério. Não tem lazer, horas de folga e os momentos de total intimidade são como agulhas encontradas no palheiro. A solução para parte dos problemas que enfrentam, segundo Adriana, seria muito simples. Um carro resolveria tudo, suspira a morena. Distante, Francisco Cunha dos Santos, 41 anos, prepara a argamassa com que irá alisar um dos mais de mil e oitocentos jazigos que, desordenadamente, povoam o 'paço do cemitério Santo Antônio, na periferia de Fortaleza. Além de sepultar, Cunha, como é que conhecido dos vivos e mortos, também é pedreiro e faz, na maior parte do dia, pequenos reparos nos túmulos pertencentes às famílias que podem pagar por o serviço. O que ganha, para variar, não cobre as despesas, e, do carro que corta veloz os sonhos de Adriana, Cunha admite: não pode comprar sequer o pneu. «Se a gente economizasse, Cunha, dava até pra comprar», insiste Adriana, ao pé do fogareiro arranjado entre duas lápides que fazem as vezes de mesa. «Nem o pneu a gente pode comprar», silência o marido. Cavando as memórias Ainda sobre a lápide dos dois homens mortos tragicamente, seu Ferreira talvez 'tranhe: embora tenha a barriga cortada por duas hérnias, o «caboclinho», apelido de infância de Cunha, surpreende por o vigor e coragem. Uma imagem bastante diferente daquela de trinta anos atrás. Vindo de Itapipoca, município do interior cearense, tangido por a seca de 1958, seu Ferreira foi trabalhar na construção civil. Conheceu a mulher pouco tempo depois e logo se casou. De o matrimônio, quatro filhos, dois dos quais calharam de ser coveiros: Cunha no Santo Antônio e o irmão, no cemitério do Mucuripe. Hoje, o pai de Cunha é aposentado, mas ainda faz «biscates» no cemitério, vigiando túmulos de famílias mais abastadas. «Não posso mais trabalhar, já passei por seis operações, todas mal-sucedidas», brinca seu Ferreira, o «velho doido». Quanto ao filho, não 'conde a admiração. E, para confirmar, conta uma história da época em que moravam no Pirambu: «Ele era muito magro, vivia doente. Nasceu de sete meses, gastei muito dinheiro com ele. Chegava o povo e dizia: 'se aí não se cria, não», relembra seu Ferreira, pai de Cunha e pedreiro por profissão. O que se segue, ele conta às gargalhadas. «Até que um dia eu ganhei um peba de um amigo, coveiro no São João Batista. Levei para a casa, engordei o animal. Quando fui abater, tive que sangrar; quando vi, o menino tinha enchido um copo com o sangue do bicho e bebido todo. Pensei que fosse morrer, mas começou foi a engordar». Segundo o pai, caboclinho aprendeu a profissão ainda criança, quando tinha dez anos. Desde então, não saiu mais do cemitério. O primeiro morto a ser sepultado por o filho foi como o último: apenas um corpo de homem ou mulher a ser coberto de terra. Perguntado, Cunha relembra: «O primeiro 'tá duas lápides adiante», diz apontando com a mão 'querda o exato local. Vexame, apenas quando lhe pediram para enterrar um homem ao lado de outro que fora levado para lá havia pouco tempo. A o abrir a lápide, o coveiro percebeu, da pior maneira possível, que o defunto ainda 'tava «fresco». «E o médico da prefeitura ainda tem coragem de dizer que 'se trabalho não é insalubre. De a próxima vez que ele vier aqui, vou jogar um pedaço do morto em cima de ele», desafia Cunha. Antes do meio-dia, macarrão 'corrido, arrroz cheirando na panela, o peixe fica pronto. Apesar da falta de espaço, Adriana 'mera-se na cozinha, caprichando sempre. Cunha interrompe a conversa e o trabalho na lápide para provar mais uma vez do tempero da 'posa. De um jazigo próximo, improvisa-se a mesa para o almoço; Cunha faz da bacia onde Adriana lavara os peixes o seu prato. Olha com prazer as tilápias 'tiradas na bacia. Sequer lembra daquilo que o pai tinha recomendado ao ajudante: Número de frases: 73 que depositasse o dinheiro no banco, para render. A noite ainda é daquelas agradáveis numa das maiores cidades do Japão. Nagoya foi o palco do evento que levou a banda brasileira Mukeka di Rato a tocar num dos templos do rock local, o Huck Finn. Abrindo a noite, 'tavam os caras do Nomares, única banda local formada por brasileiros no line up da noite. A história do caras que formam o Nomares só difere da grande maioria dos brasileiros que são forçados a imigrar por um singelo detalhe: eles amam a música e decidiram fazer algo mais do que apenas 'cutar. Decidiram produzir. Músicos brasileiros tentando a sorte por 'tes lados não faltam. É de conhecimento de muita gente que os japoneses curtem a música brazuca mais tradicional. Porém, novamente, Rafael, Akira e Caju são exceções: o que eles produzem juntos é o mais puro punk rock. E 'tão quebrando barreiras. Perdão por a colocação aparentemente fora de contexto, mas aqui no Japão tem valido a máxima chicobuarquiana: «você não gosta de mim, mas a sua filha gosta». Os julinhos-da-adelaide locais sofrem o preconceito de trabalharem em serviços não-qualificados nas fábricas e por descenderem de imigrantes que deixaram o Japão em alguns de seus momentos mais críticos. Ou seja, para muitos japoneses, os nikkeis brasileiros, a despeito do contrário ser a regra em muito dos casos, são apenas trabalhadores sem instrução, originários de famílias camponesas pobres. É o desconhecimento histórico que leva ao preconceito. Mas que, também, pode 'tar fazendo com que muitos jovens não dêem a mínima para a origem dos nikkeis imigrantes. E, quem sabe por isso, para muitos de eles o Brasil -- e os brasileiros, incluindo os nikkeis -- é / são uma fonte inesgotável de ritmos e 'tilos musicais. Em a noite de 2 de maio, o que se viu foi bem diferente da tensão que separa funcionários brasileiros e japoneses em muitas fábricas. Embora no começo fosse possível ver os jovens em grupos separados, na hora do pogo, nacionalidade foi o que menos importou. Cabeças-quentes, apenas as dos organizadores, todos (muitos) anos acima do mínimo permitido para a entrada no evento. Em o final, os japoneses que inicialmente exclamavam surpresa por o número de brasileiros na casa, comentavam, positivamente, sobre o jeito louco dos burajirujin (brasileiros, na língua local). O punk rock propôs uma experiência que alguns daqueles moleques nunca tinham vivido. Talvez isso já seja suficiente para entender uma turnê do Mukeka di Rato no Japão e a existência e o sucesso entre os japoneses de uma banda como o Nomares. Pode ser que eles não sejam os responsáveis por o fim das divergências étnicas entre japoneses e nikkeis brasileiros no Japão. Até porque eles só pensam em se divertir com a galera. No entanto, pelo menos uma porta de convivência 'tá sendo aberta. Hajimemashite, muito prazer! Sem mais delongas, Nomares: Roberto Maxwell -- Só um profile rápido do Nomares ... Rafael -- O Nomares foi criado em 2005, né? ... Akira -- Isso! Rafael -- ... fevereiro de 2005. A gente 'tá aí na batalha já vai fazer 2 anos ... Em 2005, a gente gravou uma demo (nota: Pensamento Mal ê o nome do trabalho) que 'tá aí sendo distribuída por o Japão, tenho reconhecimento dos públicos japonês e brasileiro. Tá sendo bem legal para a gente porque ... Akira -- ... 'tá tendo bastante retorno de shows, pessoas entrando em contato no nosso myspace ... RM -- E como foi tocar hoje na mesma noite que o Mukeka di Rato e o Vivisick? Rafael -- Cara, sem palavras porque, assim, com 17 anos a gente ouvia Mukeka di Rato, bicho. Hoje a gente tem a oportunidade de tocar aqui com o Mukeka di Rato, com o Muga -- que é uma banda japonesa de amigos da gente ... Akira -- ... das mais respeitadas bandas japonesas. Sem contar a casa de show, que é ... Rafael -- 30 anos? nota:(o Huck Finn abriu em 1981, segundo o site de eles.) Akira -- É um CBGB daqui ... Rafael -- É considerado um CBGB daqui. Akira -- É muito, assim, gratificante para nós. Rafael -- A gente tenta sempre batalhar o nosso ideal, se dedicando para alcançar nosso ideal que é, tipo, agradar as pessoas ... RM -- Além da banda, vocês fazem outra coisa? Vocês já conseguem viver só da banda? Rafael -- Bicho, eu trabalho em fábrica de segunda a sábado. Caju -- Todo mundo é dekassegui aqui. Akira -- Não tem jeito mesmo ... Caju -- Isso aqui é diversão nossa. Akira -- É um prazer. Não tem jeito mesmo. Caju -- Música é diversão nossa. Ensaiar e tocar aqui ... Akira -- A gente tem outras responsabilidades: trabalhar em fábrica como todo brasileiro aqui. Eu e o Rafael também temos uma outra banda de metal tradicional. A gente tenta conciliar tudo isso aí com trabalho, namorada, família, tudo ... Rafael -- Então, o momento gratificante da gente 'tar se divertindo aqui já basta. Akira -- É só ter força de vontade e fazer de coração mesmo. RM -- Mas, rola uma intenção de profissionalizar a banda? Caju -- Isso é conseqüência do que a gente vai fazer mas é diversão. Acima de tudo, é diversão o que a gente faz. Akira -- Acho que tudo começa com isso dentro do underground. Igual o Caju falou é conseqüência se um dia de 'tourar ... Caju -- Mas, se isso não acontecer só por o fato de você conhecer as pessoas, de você tocar para as pessoas, já valeu a pena. Rafael -- Resumindo, ter o reconhecimento da galera, ver a galera pulando ali, acho que é mais gratificante isso ... O tempo que a gente deixa de descansar, a gente 'tá ensaiando ... E quando a gente toca aqui e vê 'se pessoal pulando aqui para a gente, sem palavras. Akira -- Sem barreira de línguas: japonês, brasileiros ... Isso aí é muito legal. RM -- Como vocês vêem a cena de rock produzido por brasileiros aqui no Japão? Rafael -- [ ...] A gente sempre incentiva o pessoal, tipo, a fazer o som aí, mandar bala ... Bem legal, a gente 'tá sempre apoiando a galera aí, a gente 'tá sempre tocando. RM -- Mas, você acha, assim, que não há uma cena? Rafael -- Há uma cena ... Akira -- Olhando antigamente, o negócio tá caminhando, assim, lentamente, mas 'tá. Rafael -- Existe muito festival brasileiro de bandas ... Caju -- Esse negócio, assim, de banda, acho que uma incentiva a outra. A gente foi incentivado, pelo menos para mim, por Diagnóstico, que gravou e teve música própria, fazia show. A gente viu aquilo e «nossa, que da hora» ... Fomos lá e tentamos fazer, sabe? E, tipo, uma banda vai seguindo a outra, né cara? Akira -- Tem muitas bandas batalhando aí no cenário e isso é gratificante. Tá caminhando o underground aqui dentro, assim, em matéria de shows, pessoas que 'tão organizando se profissionalizando, divulgação na mídia, em geral mesmo. Rafael -- Isso é legal, cara, ver pessoas brasileiras aí tocando e tal ... Hoje a gente viu uma banda japonesa que se chama Curioso cantando em português. Isso é gratificante porque você vê que o japonês gosta da música vinda do nosso país, certo? Isso também é legal para a gente. Fico feliz de ver isso aí também. Links Para o Nomares myspace -- www.myspace.com/nomares youtube busca -- http://www.youtube.com/results? Número de frases: 103 search query = nomares & search = Search Eu sou produto da 'cola pública (produto no sentido de resultado). Nunca gastei um tostão com 'cola, exceto uma 'pecialização que fiz em Relações Internacionais, há alguns anos. E desde que me entendo por gente 'cuto acalorados debates sobre as deficiências da 'cola pública, a péssima qualidade do ensino e todas as mazelas que corroem o sistema educacional brasileiro. Eu mesma já me meti em muitos desses debates. Como repórter já retratei descasos monumentais em relação à 'cola pública, aos seus professores e alunos. E também dignificantes iniciativas em defesa de 'sa 'cola sonhada por todos nós. Mas a despeito de tudo isso, de 'sa crua realidade cinzenta que paira não só sobre a 'cola pública, mas sobre tudo que é público em 'te País, como explicar o desempenho satisfatório de um indivíduo da 'cola pública num sistema educacional em que no 'treito funil de passagem a tendência é o massacre, o fracasso, a desistência, enfim, a exclusão daqueles que não foram «preparados» segundo as regras do jogo? E somado à deficiência do sistema ainda o peso da classe social, do baixo poder aquisitivo e dos contratempos da vida de uma família numerosa. Moral da história: fui alfabetizada aos nove anos de idade e ingressei na universidade aos 20. O que não me impediu de fazer dois cursos de graduação numa universidade federal, Comunicação Social (Jornalismo) e Direito, entre os cinco cursos mais concorridos do vestibular da época. Um ano depois de 'tar cursando a faculdade de Jornalismo prestei vestibular para Direito, sem nunca ter feito cursinho ou metido a cara nos livros para 'ta segunda empreitada ('tudei muito sozinha para o primeiro vestibular da minha vida, mas nada que se compare aos vestibulandos de hoje). Em a primeira vez disseram que eu tive sorte. Pode ser. Dizem que na vida também é preciso ter sorte. E não custa nada acreditar que temos sorte. Mas é bom lembrar que além das provas objetivas, a segunda fase já era no chamado canetão, prova discursiva, sim senhor, e com redação. Em o primeiro vestibular da minha vida, lembro que o meu inferno dantesco foi travado com Grande Sertão: Veredas, livro que infelizmente não havia lido -- é que como a imensa maioria das crianças e adolescentes deste País, cresci numa casa sem livros e o dinheiro era muito curto para comprá-los. Lembro que todo dinheiro que eu juntava era pensando em comprar livros. Mas me deixei guiar por Riobaldo e me saí bem naquele canetão de tentar desvendar o sertão rosiano que 'tava em toda parte, o difícil de difícel daquela linguagem. Bom, foram dois vestibulares, dois cursos superiores feitos quase que simultaneamente e, sempre trabalhando, desde os 17 anos de idade. Nunca sai do mercado de trabalho. Claro que reconheço falhas e deficiências na minha formação. E procuro supri-las com 'tudo e leituras. E o mundo ficou tão fácil e farto. Em banca de revistas -- infelizmente muito tempo depois daquela curiosa efervescência do colegial -- fui comprando, a preços populares, os cobiçados títulos capazes de dar aquela camadinha mais consistente de verniz a uma formação universalista. E assim, no varejinho, lá na minha 'tante 'tão Os economistas (coleção que beira uns 50 volumes), obras completas de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Erico Veríssimo, a História do Samba, Os Pensadores ... Mas tocando o bonde, sempre «competi» -- eta palavrinha cruel!-- em situação de quase igualdade com os meus colegas que 'tudavam em 'cola particular, faziam cursos extras para complementar a formação 'colar e não trabalhavam. Então, como explicar o êxito na arena onde a maioria afiadíssima dos meus amigos, não os da 'cola pública, mas os outros, aqueles originários da rede privada, falhou (alguns cansaram de tanto prestar vestibular)? Esforço pessoal, dedicação, vocação para o 'tudo, sorte? Um pouco de tudo, talvez, mas não necessariamente 'sas razões. Embora acredite firmemente que duas coisas movem o mundo: necessidade e querer. Instigada por a proposta do Joca Oeiras, tentei rememorar a minha trajetória e o que sobressai de relevante é a Escola Pública (maiúscula), o que me dá um orgulho danado de dizer de boca cheia que sou resultado exclusivo da 'cola pública. E olha que a rede pública padecia dos mesmos problemas de hoje: falta de recursos, de investimentos, de política de melhorias salariais e incentivos para professores e servidores ... Posso dizer que tive um primário de primeiríssima, mesmo com todos os contratempos do meu entra e sai da 'cola, pois o meu pai em matéria de negócios era meio aventureiro e sempre arrastava a família em 'ses empreendimentos. Vivas à dona Vera, a minha primeira professora, que em pouco tempo e com austeridade maternal me abriu tardiamente a cabeça para aquele mundo de juntar letrinhas, ler, somar, diminuir, multiplicar e (ufa!) dividir. Dona Vera é do tempo em que para se lecionar na primeira fase do fundamental a única exigência era o curso de Magistério. A LDBEN -- Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -- mudou o curso de 'sa história. Se ainda 'tivesse em sala de aula, dona Vera com certeza 'taria entre os quase 90 % dos professores goianos hoje portadores de diploma de formação superior. Mas há oito anos a realidade era outra e não chegava a 30 % o índice de professores do ensino fundamental com curso superior. O panorama mudou graças a um programa 'pecial de formação de professores da Universidade Estadual de Goiás, iniciado em 1999, de Licenciatura Plena Parcelada, em que professores apenas com o diploma do antigo Magistério ou equivalente -- isso depois de passarem também por o crivo do vestibular -- ingressaram na universidade em cursos de graduação parcelada, ministrado aos finais de semana e férias, mas com a mesma carga horária e grade da graduação regular. São exemplos que nos ajudam a resgatar a 'perança de que ainda teremos uma rede pública de qualidade exemplar, que responda às reais necessidades da sociedade brasileira, com toda a sua diversidade e pluralidade. Ainda tocando o bonde das reminiscências, ginásio numa 'cola conveniada, onde entrei por a porta pública. Educandário Campinas, de um professor que fez história em Goiânia, foi até professor do meu pai, José Luciano da Fonseca -- depois homem público, vereador, deputado -- reeleito não sei por quantas vezes --, com seu fusquinha amarelo e ética irrepreensível; um homem de luta, sempre envolvido com causas sociais e ligado à Sociedade São Vicente Paula. Formação impecável. Os conteúdos a gente 'quece, mas os bons professores, jamais. A legião de excelentes professores desse período é grande. Sempre penso em alguns, principalmente na professora de Português, Ana Bonfim (por o nome e o rigor da professora, que reprovava sem dó nem piedade, já dá para imaginar o apelido: Ana Maufim). Mas foi a professora que mais instigou em mim o sentido de identidade, ao comentar a minha letra e assinatura. Em aquela época, nada de novas pedagogias, de 'sas em que não se podia ferir a susceptibilidade das crianças. Tímida que eu era devo ter me sentido ferida de morte, mas aquilo calou fundo dentro de mim um sentimento de orgulho, de sempre marcar com unhas e dentes o território da minha individualidade. É que por as regras da boa caligrafia, meninas eram treinadas para ter letra redondinha, discreta, delicada, feminina, segundo os padrões vigentes. O problema é que eu já vivia encantada com a caligrafia do meu pai, 'paçosa, deitada, forte. E lá ia eu seguindo os riscos da letra de ele. Em plena prova, a professora pára na minha carteira e tasca em alto e bom som: «Que letra de homem é 'ta Maria Aparecida?». Devo ter ficado vermelhinha, não de vergonha, mas daquela subida brusca de temperatura que marca as reações vitais e viscerais, com a força de um rito de passagem. -- A minha letra, professora. Em aquele tempo, década de 70, as linhas pedagógicas eram bem outras. Mas foram tantas notas 10, tantos cadernos cheios de verbos irregulares conjugados em todos os tempos, que o Português foi adquirindo pra mim uma vitalidade de alma. E mais do que a caligrafia tortuosa, deitadona, cheia de personalidade e 'tilosa fui firmando a alma e o gosto por aprender. Só sinto não ter dado mais atenção à época às suas lições de versificação e metrificação. Hoje, que ando envolvida com poesia, lastimo não ter sido mais aplicada. Mas a culpa foi minha. E Ana não teve um bom fim. Morreu vítima da violência doméstica. Mas com seu rigor, me levou tranqüila e confiantemente para as águas futuras de duros embates na vida, me dando largas braçadas de vantagem, em que pese alguns 'corregões (meus e de ela). Cheguei ao ensino médio no final da década de 70. De 1979 a 1981 'tudei no Colégio Estadual Professor Pedro Gomes -- penso que é muito bom 'tudar numa 'cola que leva nome de professor e combativo ainda por cima --, que tinha Pégaso como símbolo -- emblema lindo no bolso da blusa. Aquela 'tátua do cavalo alado quase em tamanho natural no pátio com a inscrição que povoou tanto minha imaginação, de que havia transportado os deuses à fonte da sabedoria. E que colégio grande! Escadarias, laboratórios, biblioteca e uma banda de música tradicional -- ainda resiste -- que fazia tremer os concorrentes nos desfiles e paradas. Não sei se era o auge ou a decadência dos cursos profissionalizantes. Fiz Química. Tivemos pouca prática de laboratório, sofríamos com a falta de professores, alguns nem tão qualificados para o ofício. Os técnicos em Química formados por a 'cola não devem ter vingado na vida profissional. Mas aproveitei bastante tudo aquilo que me foi proporcionado, mesmo que deficitariamente. Em aquele tempo a novela era a mesma: 'colas sem laboratórios e laboratórios sem equipamentos e sem professores. Alunos desinteressados, idem. E os conteúdos não eram aquilo tudo que ia para o registro das aulas ... Mas tive professores extraordinários. E isso fez a diferença. A grande diferença. Está aí a resposta para o sucesso em meio às mazelas que persistem na 'cola pública, na 'fera pública de uma forma em geral, aqueles que sabiam fazer a diferença dentro do sistema, dentro da enferrujada engrenagem, os professores extraordinários, aqueles que sabiam motivar, despertar na gente um desejo de saber, de desvendar, de conhecer, um gosto por 'pecular, uma obsessão por quebrar a cabeça de tanto pensar. Os professores que não desistiam nunca. Professores que compensavam a falta de material didático e giz gastando a saliva. Que não se contentavam com o comodismo da argumentação da falta de 'trutura para enrolar a aula. Por exemplo, a primeira vez que a bossa nova sussurrou nos meus ouvidos não havia música, mas palavras numa folha mimeografada com um trechinho de A Felicidade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes). E toda a minha reverência a 'se professor, que nem lembro o nome, mas que teve a sensibilidade de fazer a diferença com aquele papel borrado de azul na minha formação. E aqueles versos de A Felicidade adquiriram um sentido mágico: " A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor». Não sou da área, mas penso que a 'sência do ato pedagógico é como uma gota mágica com o poder de transformar. E o dia em que Paulo Autran apareceu na 'cola? Santa maluquice daquele professor de Química, Ricardo -- ainda 'tudante de Agronomia --, que cruzou com Paulo na rua -- que tinha vindo a Goiânia pela primeira vez apresentar uma peça, Pato com Laranja -- e não se intimidou. Apresentou-se ao ator, disse que era professor e perguntou se ele toparia ir à 'cola para bater um papo com os seus alunos. Foi o maior auê no colégio, com todas as turmas reunidas no auditório para uma palestra pra lá de diferente de Paulo Autran, que falou umas duas horas para uma platéia «atenta» -- palavras do próprio ator. E foi a primeira vez que vi Paulo atuar, interpretando de duas formas um trecho do Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. Fez de um jeito derramado e depois com aquele tom nervoso que imaginava ser o de Drummond na leitura ideal do poema. A platéia foi ao delírio. Muito tempo depois, também em Goiânia, entrevistei Paulo e parecia que ele não 'tava num bom dia. Agüentei alguns ataques de 'trelismo de ele, o que me fez reverenciar ainda mais a saudável ousadia do meu professor. Contei até 10 e toquei o bonde da entrevista, que rendeu uma linda capa para o Correio Braziliense. E daquelas turmas reunidas naquele auditório saíram muitos jornalistas, médicos, advogados, músicos, enfermeiros e até atores. E não se trata aqui de 'morecer diante do enorme desafio e urgente necessidade de pensar, debater, se envolver e lutar por a 'cola pública. E nem de atirar a responsabilidade às costas dos já sacrificados professores. Mas de reverenciar aqueles que não se conformam com a situação, não fogem das questões emergenciais, não deixam ao léu aquele aluno que 'tá bem ali na sua frente, que nunca perdem a matéria-prima que 'tá em suas mãos. Aprendi muita coisa que jamais precisei na vida prática ou profissional. De vez em quando, só por sacanagem, naquelas discussões afiadas, solto algumas de 'sas pérolas para ver o 'panto dos interlocutores. Depois caio na gargalhada. Grande parte daqueles penosos conteúdos para aprendizado foi 'quecida como que varrida por um vento danado de fresco. Arejou tudo, mas ficou impresso bem fundo a emoção daquele professor que soube nos chamar a atenção para valores, ética e os desafios do mundo além daqueles corredores. Professores que souberam nos empurrar para o próximo passo na construção do próprio conhecimento. E em 'se sentido de empurrar para a construção do próprio conhecimento, até mesmo o autoritarismo que grassava no sistema 'colar era, sim, um instrumento educativo. Por as linhas tortas, mas profundamente educativo. Sublime o germe da subversão iluminando aquelas vidas uniformizadas! Sublime e 'sencial descobrir que tinha sempre um diretor ou professor para contestar, um mundo para mudar, um grupo voraz diante do qual era preciso se impor e se afirmar com todas as nuanças das diferenças e se fazer respeitar. E penso que uma boa dose de repressão não faz mal a ninguém. Pelo contrário, ajuda a fortalecer o caráter, a não crescer naquela frouxidão de vontade de dar pena, a valorizar cada passo da liberdade conquistada e responder por ela em toda a extensão das conseqüências. A os professores extraordinários, na medida do humanamente possível, que fizeram a diferença na 'cola pública e por a 'cola pública onde tive o privilégio de 'tudar, 'sas reminiscências com o orgulho brioso de ostentar o seu emblema. Ah, e minha delicadeza jamais teve letra redondinha. Número de frases: 127 O carioca Max Sette, um dos integrantes da Orquestra Imperial, acaba de inventar uma novidade que 'tá deixando muita gente intrigada: o músico criou uma gravadora -- por a qual 'tá lançando seu primeiro trabalho solo, «Parábolas ao Vento», que não cobra nada por as músicas. O cantor, compositor e trompetista chamou de webdisc o novo formato, que 'tá disponível exclusivamente no site www.maxsette.com.br, uma criação de Pedro Herzog, com qualidade para gravar em Ipod e MP3 ... É só entrar e baixar de graça as músicas, letras, ficha técnica e capa! «Por motivos de força divina disponibilizo o meu álbum, CD, MP3, disco, ou sei lá que mídia é 'sa, enfim meu trabalho ... «Parábolas ao vento», na internet. Os novos tempos 'tão aí, não acho justo vender CD a 'sa altura do campeonato. Baixem e sejam felizes!», aconselha o autor, que 'tá abrindo uma gravadora para lançar outros artistas no mesmo formato. Max diz acreditar no poder de divulgação da grande rede, já que a tendência dos músicos é mesmo sobreviver hoje mais dos shows do que da venda de CDs. O samba «Gomalina», de sua autoria, já contabiliza 20.000 acessos, o que deixou o artista satisfeito, e na torcida pra que o pessoal prestigie o show que ele fará em 'ta quinta-feira, 8 de novembro, no Cinemathèque Jam Club, em Botafogo. Coincidentemente, Chris Anderson, 46, editor-chefe da principal revista de tecnologia do mundo, a «Wired», passou por São Paulo em 'ta segunda-feira, 05/11, para dar uma palestra. Em 'ta ocasião, o jornal Folha de São Paulo publicou a entrevista do repórter Marco Aurélio Canônico, da Ilustrada. A teoria de Anderson é que " A abundância de oferta na internet faz com que os consumidores não tenham como única opção os produtos de massa ( ...). Com isso, as empresas 'tão deixando de faturar alto com poucos hits para vender mais em nichos variados», afirmou. Quer dizer, a oferta aumenta, e a competição também. Experiências como a da banda Radiohead de lançar um álbum on-line e deixar os fãs decidirem o preço, por exemplo, mostram novas alternativas de distribuição de música on-line. A infinidade de produtos oferecidos na internet faz com que o grande desafio hoje seja como conseguir boa visibilidade em meio a 'se caudaloso rio ... Show do cantor Max Sette, quinta-feira, 08/11 Local: Cinemathèque Jam Club Couvert Artístico: R$ 24,00 R: Voluntários da Pátria, 53, Botafogo -- Rio Tel: (21) 2539-0216 (horário comercial), 2286-5731 (a partir das 19h) Horário: 22h Max Sette, voz e trompete Joãozinho Pinaud e Felipe Melo, guitarras Danilo Andrade, bateria Número de frases: 27 Gabriel Bubu, baixo Mais um filme que tive a oportunidade de assistir antes dos meros mortais que não 'tiveram presentes na exibição no FAM, festival de cinema de Florianópolis. Baseado no livro Até o dia que o cão morreu, de Daniel Galera, conta a história da vida alienada de Ciro, alter-ego do 'critor, um poeta que faz traduções e revisões para ganhar a vida. Ciro tem um círculo social bem limitado, uma bela namorada, a modelo Marcela, e não faz muita coisa da sua vida, a não ser fumar, beber, jogar conversa fora com o porteiro e cuidar do cachorro que vive com ele. Admito que fui assistir o longa com o pé atrás, não tive a oportunidade de ler o livro. Não 'perava grande coisa apesar de ser produto de um dos melhores cineastas da atualidade, Beto Brant, em parte por causa de um texto publicado aqui no Overmundo, por um polemista de quinta categoria que nem endeusou o filme mas com certeza execrou o livro. E como acredito no aforismo que diz que com um bom texto se faz um bom filme mas de um texto ruim não sai um bom filme, não sabia ao certo o que 'perar. Por a referência que tinha do livro, livre de preconceito, sei que o resultado poderia descambar para um cabecismo mala, porque tem muitas questões existencialistas e a maior parte da ação, ou falta de, ocorre na mente do protagonista. Ainda bem que é cinema brasileiro e não europeu. E por ser cinema nacional, uma cena de sacanagem mais forte não poderia deixar de ser mostrada, 'tou falando do cunilingus que Ciro faz em Marcela que me pareceu totalmente despropositado, a não ser para se atingir um certo realismo que levou os atores a improvisarem em muitas cenas. Com o desenrolar da história, por as experiências por que passa, acompanhamos a transformação de Ciro de alguém sem perspectivas para uma pessoa mais responsável e madura. O final é feliz, diria até que hollywoodiano, e não compromete. O filme 'tréia dia 15 de junho em SP e Rio. Demais praças não têm datas definidas. Vale assistir, ganhador de vários prêmios, é um filme simples e impossível de não se gostar. Cotação: * * * Outra crítica feita por o Fernando 'tá aqui. Número de frases: 17 «A rua ( ...) é extremamente 'treita; apesar disso, todos os artífices trazem seus bancos e ferramentas para a rua. Em os 'paços que deixam livres, ao longo da parede, 'tão os vendedores de frutas, de salsichas, de chouriços e de peixe frito, de azeite e doces, [pessoas] trançando chapéus ou tapetes, ( ...), cães, porcos e aves domésticas, sem separação nem distinção; e como a sarjeta corre no meio da rua, tudo ali se atira das diferentes lojas, bem como das janelas». A cena descrita é perfeitamente condizível com tantas feiras livres, tão comuns em quase todo Brasil. Pode 'tar ambientada numa das favelas ou outros lugares de condições habitacionais subumanas, como os muitos que infelizmente ainda existem em nosso país. Faz lembrar as ruas que fazem ligação ou 'tão nas circunvizinhanças das avenidas do Centro ou da Barra, que são circuitos para o carnaval de Salvador, nos dias de folia momesca. Denunciam, em suas entrelinhas, problemas sociais como o trabalho informal e as condições precárias de moradia e higiene, em que vive uma substancial quantidade de brasileiros. Estes problemas, por sua vez, apontam para outros como pobreza e falta de perspectiva profissional. A atualidade de 'tas questões sugere que 'tas linhas foram 'critas há pouco tempo. Engana-se, porém, quem pensa assim. Este exerto foi extraído do livro Visitantes Estrangeiros na Bahia Oitocentista, de Moema Parente Augel, onde ela transcreve trecho das impressões de Maria Graham, viajante inglesa, ao passar pela primeira vez por as ruas da conhecida cidade baixa da capital baiana, em 1821. O que, naquela altura, poderia transformar a cena vista por o olhar 'trangeiro de Graham? O mesmo que hoje tiraria das ruas os meninos «guardadores» de carro. E que também faria sumir os catadores de lixo. Algo que impediria o florecimento dos Delúbios e dos Valérios. Que fecharia, quase que definitivamente, os caminhos da corrupção. Que, provavelmente, faria surgir empregos e oportunidades de trabalho nunca antes vistos. Em uma palavra: Educação. Falo de uma educação que 'teja plenamente disponível para todos os brasileiros. Que potencialize, amplie horizontes e incremente a cidadania. Esta educação não reside somente na utopia de gente inocente como eu. Já 'tá ao alcance do poderio econômico do nosso país. Poderia ser implementada se houvesse vontade política para tal. Até quando o que Graham 'creveu será atual? Número de frases: 27 Até quando meu Deus? Confesso que os 250 toques por minutos, ou até mais, adquiridos com a persistência dos treinos dos maratonistas, já me proporcionaram acesso a bons empregos como Secretária. Estranho? E os carbonos, lápis para apagar a letra errada, os malabarismos e criatividade para não deixar borrão nas várias cópias das cartas, memorandos ou formulários datilografados? Alguém pode 'tar construindo a minha imagem como a de uma candidata ao Guiness Book na categoria de brasileira com idade mais avançada! Cuidado, hem!!! Pois bem, eu também me surpreendo com a velocidade das mudanças tecnológicas e eletrônicas das últimas décadas. Evolutivamente, passei da obsoleta máquina de escrever para o computador. Momento histórico de transição não fotografado. Em a institucionalização da informática, tanto empresarial como doméstica, tive certa resistência em usar a web como meio de comunicação com os amigos. Gosto de ouvir a voz, do olho no olho. Quanto às leituras, delicio-me em tocar o papel, levá-lo para o sofá, para a cozinha, para o banheiro e para a cama. Os bate-papos virtuais roubaram-mo toque, a visão da expressão do outro. No máximo a webcam mostra o movimento retardado da ação. Sei que o outro ri quando retorna com o rsrsrs, ouehueuhue, concorda com mim através do blz e outros tantos sinais -- idioma do novo planeta. Recebo bjs ou abc no final. Tive que aprender o msnguês. Descobri que a minha grafia 'tava muito extensa e que eu não podia dizer tudo, só insinuar. Afinal, é a consagração do «Pra bom entendedor um pingo é letra»! Meus amigos 'tão todos aqui, seus endereços e seus perfis. Fiquei perplexa quando descobri que 'tava conectada a 45.991.450 pessoas. São amigos dos meus amigos, amigos destes e por aí vai -- uma multidão add. Que maravilha! Não 'tou só. Imaginem uma big festa com todos. Talvez alguém ficasse ofendido se não fosse convidado ... Mergulhei em 'ta nova realidade. Assinei banda larga, adquiri softwares mais avançados, umas coisinhas aqui e outras ali para turbinar a minha máquina. Já não podia mais navegar em caravelas. Hoje, viajo por o mundo inteiro ouvindo simultaneamente o som do PC, protegida em minha nave, sem o risco de ser atingida por bombas, lava de vulcões, terremotos, over bookings, check-in / out e ainda posso dar um mergulho em direção ao planeta terra, no lugar onde quiser, através do «Google Earth». Não resisto à tentação de me intrometer nos comentários dos outros, de lançar o meu protesto diante de algumas aberrações sociais, de meter a cara na rede. Abro o email de 2 gigas e tento pescar as mensagens importantes. Árdua tarefa. O meu endereço não é só de quem eu autorizei, com todo o carinho, ou para fins de resposta de alguma área de interesse. Mas do mundo inteiro. E os spams? Mesmo protegida e imunizada, eles vêm e tentam de todos os artifícios para me pegarem de surpresa. Embora injuriada, às vezes me divirto com alguns títulos: " Orgasmo Feminino TGTNDCTMI -- Fique horas ..."; «Re: look ...viagra "; «Te adoro» (remetente desconhecido); " Você 'tá sendo traído -- veja as fotos "; «Winning notice ...», etc, sem falar nos nomes exóticos dos remetentes. São necessárias uma superlixeira e uma superpaciência. Fazer o quê? Uma coisa é certa. Quero também o movimento, o caminhar na terra firme, o navegar ao vivo e a cores, aspirar o cheiro do mato, ouvir a gargalhada real, sentir o toque, perceber a direção do olhar, ver você sem retoques, falar a palavra inteira, sem o click ou enter entre nós. Número de frases: 45 Em as aldeias indígenas, as crianças e adolescentes são assumidos por os adultos. Todos formam uma mistura de pai, tio, irmão mais velho ou primo. Lá o ditado «quem pariu Mateus, que o balance» não voga. Isso contribui para que não haja trombadinhas, mendicância, meninas prostituídas, problemas com drogas, pois o que existe são os filhos e filhas da aldeia. Em nossa sociedade branca, «cristã» e ocidental, no entanto, é necessário 'crever na Constituição que criança é prioridade absoluta e é responsabilidade da família, da sociedade e do Estado. Ainda assim, por 'se compromisso não ser levado a sério é que vez ou outra a imprensa nos mostra que muitos adolescentes respondem ao desprezo, à humilhação, ao abandono e à exploração através de agressões a indivíduos e ao patrimônio, furtos e até assassinatos. Em a periferia de muitas cidades e em vários rincões deste imenso país, muita gente boa 'tá recuperando o legado de nossos ancestrais índios e cuidar das crianças e adolescentes para que se transformem em adultos belos, saudáveis, solidários. Afinal, não custa lembrar que o fruto que colhemos depende da terra, da semente e do adubo que resolvemos colocar. Como nos falaram há algum tempo os rapazes do grupo musical «A Cor do Som, Sim, é como a flor, de água e ar, luz e calor, o amor precisa para viver, de emoção e de alegria e tem que regar todo o dia» e Milton Nascimento e " Fernando Brant: «É preciso cuidar do broto, para que a vida nos dê flor e fruto». Em 'se sentido, são diversas as iniciativas socioculturais que têm como objetivo lembrar aos adultos, através do teatro, da dança, da música, da pintura, da capoeira, do audiovisual, dos meios impressos e das emissoras de rádios algo que eles jamais deveriam ter 'quecido e que os adultos do amanhã jamais 'quecerão: que crianças e adolescentes precisam comer, brincar, 'tudar de verdade e não como faz de conta, praticar 'porte, fazer arte e participar das discussões e decisões que digam respeito ao seu bem 'tar físico, moral e intelectual. Porque é assim que se constrói um país que nos faça sentir prazer de ter nascido em seu chão, uma verdadeira «pátria mãe gentil». O Nordeste do Brasil tem sido um campo fértil para o florescimento de muitas de 'sas iniciativas, que se tornaram conhecidas tanto nas outras regiões como no exterior. Aqui na Grande Aracaju, por exemplo, tivemos durante vários anos, no Bairro América o Projeto Reculturarte, além do trabalho desenvolvido no Conjunto Eduardo Gomes desde 1989 por a Academia de Dança Rick di Karllo que tem à frente o ator, bailarino, poeta e coreógrafo Carlos Henrique dos Santos, ou ainda, no Conjunto Jardim, o Grupo Teatral Artes, sob direção do ator e documentarista Lázaro, o Grupo Belas Artes, orientado por a bailarina e professora Welma Karla e o Projeto Ecarte. Há também muitas experiências exitosas em outros 'tados, as quais alguns dirigentes e colaboradores da Ação Cultural tiveram oportunidades de conhecer viajando para o Ceará, Pernambuco, Bahia e Alagoas. Destarte, vale a pena, para quem desenvolve trabalhos de arte-cidadania com crianças e jovens em Sergipe, procurar realizar intercâmbios e troca de experiências com outras iniciativas para conhecer e aprimorar metodologias visando qualificar artistas e / ou educadores de modo que as flores e os frutos cresçam bem robustos e sadios. Vale a pena, sobretudo, 'tudantes e pesquisadores analisarem a contribuição de 'sas iniciativas para melhorar a qualidade de vida de crianças, adolescentes e jovens das periferias. Quem sabe assim a sociedade e os governos se convencem de que é necessário investir mais nos recursos humanos, materiais e financeiros de 'sas ações, em vez de ficarem falando tolices como a redução da maioridade penal ou apenas defendendo as ações policiais e / ou de restrição da liberdade como a melhor maneira de acabar com as ações criminosas que tem crianças e jovens como protagonistas. A realização do II Fórum Popular de Cultura de Sergipe, a ser realizado nos dias 05 e 06 de agosto, no 'paço Sebrae, aponta em 'sa direção, incluir na arte e através da arte, conssequentemente ajudando a contribuir para a construção de verdadeiras cidades da paz. PS. Mais informações sobre o II Fórum Popular de Cultura e textos de aprofundamento sobre os argumentos apresentados acima, 'tão disponíveis no blog: http://acaocultural.blig.ig.com.br ou através dos e-mails: zezito2002@ig.com.br e lucy paixao@hotmail.com.br e do telefone 9961-1954. A o publicar em meio digital e / ou impresso, favor citar a fonte enviando e-mail e / ou cópia para: Rua Goiás, 889 -- bairro Siqueira Campos -- Aracaju -- Sergipe -- CEP 49. Número de frases: 26 075-280. A cidade de Laranjeiras, situada no Vale do Cotinguiba, era um imenso canavial e durante muito tempo a cana-de-açúcar representou seu principal ciclo econômico. Com os engenhos, chegaram os 'cravos e as igrejas, com suas irmandades e festas. A cidade possui 16 igrejas católicas e se orgulha de ter sediado o primeiro templo protestante de Sergipe, a Igreja Presbiteriana, fundada em 1884. Laranjeiras é o maior pólo folclórico do 'tado de Sergipe. É no ciclo de natal, 'pecialmente na Festa dos Santos Reis, que a tradição laranjeirense toma as ruas da cidade. As Taieiras rezam na Igreja de São Benedito, o santo preto e em seguida saem por as ruas da cidade acompanhadas por os Cacumbis, Reisados, Chegança, Congada, São Gonçalo, Caboclinhos e os Lambe -- Sujo. Laranjeiras teve sua colonização iniciada no final do século XVI, após a conquista de Sergipe por Cristóvão de Barros. A presença dos padres jesuítas na região, em fins do século XVII, teve grande influência na colonização e religiosidade. A cidade fixa-se às margens do riacho São Pedro, local onde foi erguida a primeira igreja e, também, a residência dos religiosos, conhecida como Retiro. Em 1734, é concluída a obra da Igreja de Comandaroba, hoje um dos mais importantes monumentos arquitetônicos do 'tado. O desenvolvimento econômico aconteceu com a chegada da cana-de-açúcar, fazendo com que as margens do Cotinguiba se desenvolvessem e atraindo comerciantes de várias partes do 'tado. Em a época existiam muitas laranjeiras no local, dando origem ao nome da cidade que, no século XVIII, com o ciclo de cana-de-açúcar, chegou ao apogeu financeiro. Antes pertencente a Socorro, Laranjeiras é elevada à categoria de vila, em 1832, devido ao seu grande desenvolvimento e vida social intensa. Em 1836 é designada como primeira alfândega de Sergipe, por sua importância como grande centro comercial e exportador. Em 1848 passa à categoria de cidade. A maior parte do patrimônio arquitetônico de Laranjeiras é de influência barroca. A 'sa característica juntaram-se outras influencias gerando uma característica eclética em muitos de seus prédios. Por muito tempo, o que hoje conhecemos como 'tilo barroco foi visto de forma pejorativa, como sinônimo de algo bizarro, prolixo, deformado. A própria palavra barroco, em sua origem, tem uma conotação depreciativa: nas joalherias 'panholas, eram chamadas barrueco as pérolas defeituosas. Observe-se que a atribuição ao barroco de significado depreciativo não é caso único na história da arte: termos como Impressionismo, Fauvismo, Cubismo, no começo, foram assim também interpretados. Parece claro que tal conceito tomava como referencial de perfeição a arte clássica do Renascimento, sua pureza de linhas, seu equilíbrio formal, sua clareza na concepção. A partir do trabalho de autores como Wölfflin e Eugênio d'Ors é que o Barroco se reabilitou, passando a ser percebido como um 'tilo que, partindo de conquistas 'téticas herdadas dos renascentistas, se propôs a introduzir nas formas novos elementos: a emoção, o efeito, a retórica dramática, o movimento, a intensidade expressiva. Em Laranjeiras o Barroco se integra a atmosfera da cidade. Essa total integração entre o patrimônio arquitetônico existente e a paisagem da cidade se fundem de tal forma que os elementos arquitetônicos completam a visão paisagística e nunca são vistos como algo que interfere na paisagem natural. Número de frases: 27 Em uma calorosa tarde carioca, o que fazem jovens moradores de duas favelas marcadas por um histórico de rivalidades? Estes jovens poderiam 'tar em vários locais, com diferentes intenções, mas em 'te belo dia se reuniram na comunidade de Parada de Lucas para um encontro dirigido por pessoas 'pecializadas no trabalho com jovens lideranças. Falar em assuntos como: o que é ser jovem, futuro, empreendedorismo, desenvolvimento local, trabalho e renda para o público jovem não é uma tarefa tão fácil, mas foi realizada de forma suave, dinâmica e participativa. Abordagem que permitiu que o jovem se sentisse um agente de transformação da sua realidade, por meio de debates, produção de 'quetes, dinâmicas de grupo e leitura de textos. O mais bacana é que 'te encontro da juventude recheado com muita criatividade e bom humor, uniu num mesmo 'paço, jovens das favelas vizinhas Parada de Lucas e Vigário Geral, que não se conheciam. Pois não transitavam por o terreno da comunidade vizinha por causa do confronto entre as duas, que ora era mais ameno e ora se intensificava. Mas 'te encontro é uma iniciativa para fazer conexões: urbanas, sociais, musicais, intelectuais. Unir, aprender e Transformar. Jovens alegres, participativos, que anseiam a melhora de suas comunidades e a mudança das relações históricas que foram 'tabelecidas entre Parada de Lucas e Vigário Geral. Para uma atividade de encenação teatral houve formação de grupos com integrantes de Lucas e Vigário e os nomes dados aos grupos foram: «O exalar da 'perança», «Mudança»,» Bem», de entre outros. Os jovens gostaram do evento. «Pensei que ia ser chato, mas foi surpreendente, muito legal», diz Rafaela. Número de frases: 15 -- Moço, você é brasileiro?, pergunta o menino. -- Sim, respondo, por quê? -- Não parece, não é igual à gente. Em o dia da visita dos «gringos», o garoto achou que eu fora o primeiro de eles a chegar, tamanho o contraste. Tive que explicar que ele tinha razão, minha família não veio do Brasil, e sim da Alemanha, mas que isso aconteceu faz muito tempo, e que tanto eu quanto meus pais já nascemos por aqui. Não sei se ele entendeu. Necessário parênteses explicativo: Faz um mês que comecei a frequentar o Espaço Cultural Beija-Flor, em Diadema. O projeto foi fundado por o norueguês Gregory Smith, que há 15 anos veio para o Brasil para tirar crianças das ruas de um país que mal conhecia, e hoje atende mais de 600 jovens. Em os dias 22 e 23 de outubro, o 'paço recebeu a visita da família Ojjeh, uma das donas da 'cuderia de Formula 1 McLaren e apoiadores até então anônimos do projeto. A idéia era conhecer tanto o 'paço quanto a comunidade. A o fim de dois dias, no entanto, a experiência foi bem além disso, como 'pero mostrar com 'se texto. Fecha parênteses. O motivo da pergunta lá do começo é óbvio. Branco e de olhos claros, mesmo falando a mesma língua, ali 'tou muito mais próximo dos visitantes europeus do que dos colegas brasileiros, apesar de morar a apenas uma hora de Diadema e a várias da Suíça. Seguimos por uma 'trada sinuosa, cortando uma cidade que, do alto, deve parecer uma colcha de minúsculos retalhos, todos mais ou menos quadrados. Em o nível da rua, ela lembra aqueles brinquedos feitos de cubos de madeira, do tipo «Pequeno Construtor». O ambiente vai se transformando, os cubos vão se tornando 'cassos e a vegetação passa a dominar. A 'trada, agora poeirenta, nos leva ao Sítio Joaninha, nome até simpático para a realidade que nos aguarda. O Sítio é uma das áreas mais problemáticas que já conheci em SP. Os barracos se empilham numa área antes ocupada por um imenso lixão, hoje desativado. Muitas das famílias se instalaram ali há décadas justamente por causa da renda que tiravam do lixo. Não há saneamento básico e, na área mais crítica, sequer água potável. A água é trazida a cada 15 dias por um caminhão-pipa. A eletricidade, que mantém as TVs sintonizadas nas novelas e programas populares, vem de uma teia de fios ligados a um único poste. O 'goto corre ao ar livre até encontrar os córregos que desaguam na Represa Billings, que abastece a cidade de São Paulo. Se na minha cabeça tudo aquilo já era chocante, imagino o que deveriam pensar os amigos milionários. Conhecemos Dona Paula e seu filho João Vitor, de 3 anos. Paula 'tá grávida, a dias do parto. Tentou fazer a cirurgia de 'terilização, mas a burocracia é tanta que não deu tempo. João Vitor se diverte com as câmeras dos curiosos. O barraco, calculamos depois, é menor do que o ônibus que nos trouxe até ali, e, segundo ela, quase voou na ventania da noite anterior. Conhecemos Dona Cristina, que vive com o marido e 5 filhos num barraco um pouco maior do que o de D. Paula. Aponto para uma das visitantes que somos 11 dentro da casa, não muito mais do que os 7 que lá vivem diariamente. Conhecemos ainda outras pessoas, outros barracos, várias histórias daquelas que já vimos e ouvimos tanto a ponto de ignorá-las. Em o conforto do nosso sofá não há o cheiro, não há o choro; principalmente, não há o olhar do outro diante do nosso. É um olhar que, surpreendentemente, não questiona, não reclama; pelo contrário, oferece-nos um prato de feijão. Voltamos, brasileiros, «gringos», gringo-brasileiros, por a mesma 'trada sinuosa e poeirenta. A 'trada vai limpando, o cenário muda, de madeira para concreto; as pessoas mudam, a cor da pele empalidece. De o Sítio Joaninha, chegamos então ao Hilton Morumbi. P.S.: Gregory 'tá em busca de ajuda para garantir condições mínimas para D. Paula acolher o bebê que 'tá por vir, coisas simples como uma cobertura melhor e um chão de concreto para o barraco. Quem puder ajudar pode entrar em contato com mim ou diretamente com ele. O telefone lá é (11) 4049-4440. Mais: Blog do Espaço Cultural Beija-Flor; Flickr do Espaço Cultural Beija-Flor; Minha galeria de fotos do passeio. * Publicado originalmente em narua. Número de frases: 53 org. Jataí é uma cidade turística. Os turistas ainda não sabem disso, mas quem mora na cidade sabe bem o preço desse título. Jataí tem águas termais (40º C) e alguns eventos que celebram tradições tradicionais ... o problema é que a cidade ainda é pouco democrática, mesmo em suas festas: preços caros, lugares longínquos (que impossibilitam os não motorizados de comparecer), eventos eventuais que celebram pequenos grupos (que não deixam de ser aristocráticos) ... Tudo bem. Existe uma herança autoritária-patriarcal que aos poucos vai sendo expurgada, assim como elementos culturais que devem ser preservados e valorizados ... 'tamos nos inventando: há muito o que fazer! Em 'se fim de semana, na sexta-feira (07/07/2006) ocorreu na cidade o primeiro dia de um encontro promovido por um moto-clube. A festa foi realizada no parque de exposições agropecuárias, a alguns quilometros da cidade, tendo como atrativos motos circulando em meio as pessoas, queimando pneu e exibindo niilismo como valor de mercado, e alguns shows de pop-rock. Em a sexta-feira, Pato Fu. É: Pato Fu é um bom motivo para enfrentar 'sa festa! Alguns amigos dispostos a guardar a sexta-feira santa e lá vamos nós ... o ingresso: 15 reais. Motos potentes jogando fumaça de pneu queimado no seu rosto, não tem preço! ... Ora, isso é um encontro de um moto clube! Mas bem que eles podiam deixar de fazer barulho na hora do show ... O show foi legal. A banda conquistou o público. Mas foi outra coisa que chamou minha atenção: a camiseta de Fernanda Takai. Ela trazia no peito, em francês, a frase: «Je sais voter, et vous?». Gostei. Mas fiquei intrigado ao mesmo tempo: por que o francês? Tem certas coisas que não deveriam ficar implícitas. Quantas pessoas conseguiram ler a frase? Quantas entenderam o que ela quis dizer? Mas já iniciativa deve ser aplaudida. Em o Brasil temos vergonha de falar de política. Vemos «'se negócio de política» como uma coisa suja com a qual é melhor não se envolver." sempre muito bom quando um artista, que é ídolo de muitas pessoas, lembra a necessidade de consciência política. Não podemos desistir da democracia e nos quietar contentes em nossa vida privada! O rock teve um papel histórico interessante em 'se sentido, seja acompanhando as mudanças da década de 60 nos países de primeiro mundo, seja (principalmente nos anos 80) como um elemento do processo de questionamento dos valores e democratização dos países latino-americanos ... Esse negócio de «falar em línguas 'tranhas», em francês principalmente, é também um traço cultural de nossa sociedade. Acho que isso precisa mudar também! Número de frases: 38 Gostar de música alternativa em Manaus e cultivar 'te hábito é um exercício árduo e desgastante. A falta de lojas com uma diversidade de títulos desvinculados dos selos das grandes gravadoras abriu 'paço para a iniciativa de um personagem que se tornou conhecido na cidade por vender informalmente trabalhos de bandas desconhecidas de todo o país. Irreverente e alternativo como a música que vende há três anos, o 'tudante de publicidade Bruno Uchoa, 21, se intitula presidente da multinacional Dog Hot Dog Distro. Para falar sobre o empreendimento, nada melhor do que entrar no ritmo empresarial-sorridente de Bruno. «A Dog Hot Dog Distro é um conglomerado que possui uma banca itinerante, blog e flog na internet. Nosso foco é a venda de CDs de bandas independentes de rock», afirma. Bruno, que além de ocupar o cargo máximo da organização é ainda secretário, relações públicas e faxineiro, explica que o nome Dog Hot Dog é uma homenagem à banda de rock que nunca teve. «Desde criança quis ter uma, 'colhi até o nome, mas como isso nunca rolou achei que Dog Hot Dog encaixava bem na distribuidora», revela. Bruno possui uma rotina muito particular para viabilizar o seu negócio. Aproveitando o nicho de mercado 'colhido, desfruta da amizade dos principais organizadores de shows alternativos em Manaus. Em troca do 'paço de venda, utiliza sua rede de relacionamentos no Orkut, blog e fotolog para divulgar os shows via web. «Assim que os produtores me avisam, inicio um trabalho de assessoria para os eventos». Divulgação feita, no dia das apresentações, Bruno é um dos primeiros a chegar no local, procura uma mesa com a qual arma um 'tande improvisado. Munido de uma mochila lotada de CDs, descarrega todo o conteúdo até cobrir praticamente toda a superfície disponível. Em o mosaico de capas colocadas uma ao lado da outra, bandas como as capixabas Vila Velha Noise Beach e Os Pedreros, a santista Garage Fuzz e até a argentina Fun People. Para diversificar os produtos, o pseudo-'tande da Dog Hot Dog Distro possui ainda camisas de bandas, além de ser o único lugar em Manaus, segundo Bruno, onde o roqueiros vão encontrar o jornal paulista de música independente Antimídia, de distribuição gratuita. «Temos o Antimídia com exclusividade, mas também distribuímos muitos outros fanzines que nos enviam», comenta. Mais do que um vendedor informal com mente empreendedora, Bruno Uchoa é um personagem que encontrou o seu 'paço promovendo a cultura musical que o agrada. Pessoalmente bem-humorado, transmite 'te 'pírito para o conteúdo de suas ferramentas na internet, com destaque 'pecial para o clique inicial de seu blog, onde aparece uma caixa de diálogo advertindo: «Para roubar o dinheiro da merenda de vocês». O internauta só consegue acessar o blog se clicar em «SIM». Começo quase por acaso Amante dos 'tilos hardcore e punk rock, Bruno conta que a sua atividade começou a partir do interesse por o trabalho da banda cearense " Switch Stance. «Enviei uma carta para o vocalista apenas pedindo um CD, ele perguntou se eu poderia fazer uma divulgação do trabalho de eles, daí passamos a conversar muito e as idéias foram surgindo», lembra. Com a venda dos CDs e a divulgação bem sucedida, Bruno passou a multiplicar seus contatos. «Hoje mantenho linha direta com bandas e gravadoras importantes do segmento como a läjä Rekords, Highlight Souds e Urubuz Records, que representam ótimas parcerias». Como principal meta para 2006, Bruno pretende viabilizar um 'paço para realizar um antigo projeto: a " Dog Hot Dog Underground Shop. «É uma loja com a mesma meta, trabalhar com o produto bandas independentes para divulgá-las da melhor forma». Para promover um maior intercâmbio, 'tuda ainda a possibilidade de montar uma produtora de shows para trazer ícones do hardcore nacional como Mukeka di Rato e algumas bandas do Pará. «O Mukeka di Rato foi uma das minhas maiores vendas, e existem bandas muito boas de hardcore e punk rock em Belém que o público amazonense desconhece». Contatos: Bruno Uchôa: (92) 8113-4423 Em a web: Número de frases: 34 www.doghotdogdistro.blogger.com.br ou www.fotolog.net/doghotdog Não, o estrangeiro que assina 'te texto nunca leu Camus e, muito menos, nasceu no exterior. Em sua «naturalidade» cadastrada consta Rio de Janeiro, mas o cabra em questão é gaúcho e «tem cara de baiano», como brincam os que o conhecem. Trata-se um gaúcho que não toma chimarrão, não é branco, nunca usou bombacha e acha que o 20 de setembro tem um quê de patuscada separatista. * * * Se há um lugar com o qual me identifico hoje, 'te lugar é o Espírito Santo. Morei lá dos 15 aos 25 anos. Meu sotaque carregado feneceu à medida que os traços maratimbas foram ganhando terreno. O primeiro passo teve a ver com pés mesmo: abri mão dos sapatos -- e cortei raízes. Antigos símbolos de status no provinciano interior do Rio Grande do Sul, os tênis tornaram-se grilhões. Substutuí-os por as sandálias tão longo descobri os encantos levíssimos de 'sas tiras de couro ou borracha. E aí 'tá um dos pontos fortes do Espírito Santo: a leveza, a descoberta do 'sencial. O Espírito Santo me fez livre. Livre da necessidade auto-afirma ção racial e das posturas belicosas. A antipatia por as tradições riograndenses guardam relação com isso: como quase-negro, era preciso, de certa forma, negá-las. Era questão de honra. Isso explica, possivelmente, minha relação algo mística com o 'tado. O primeiro mito nasceu da necessidade de encontrar minhas bases, da urgência de construir uma história minha, do imperativo de construir um Rio Grande pra mim, que me explicasse / justificasse, já que o que 'tava dado não me pertencia. O Rio Grande com o qual me identifico tem um quê de «velho oeste» e traços de «grande sertão». É um misto das memórias de meu pai com leituras tardias de O Tempo e o Vento. É um território imaginado, um nenhures algo loco de sentidos entrecortados. O outro mito fundamental foi o Grêmio. Em o ano passado, com a leitura de «Febre de Bola», de Nick Hornby, pude entender melhor minha relação irracional com o tricolor. Se Nick encontrou no Arsenal o substituto para seu pai ausente, o Grêmio foi meu elo de ligação com «o 'tranho mundo de Jack». Em uma das tantas mudanças de 'cola, o futebol, antes relegado aos bastidores, passou a ocupar o palco principal. Eu devorava a Placar, mês a mês. Decorava histórias, nomes, 'tatística, artilharias, resultados, títulos, rankings, 'calações. Foi a maneira que encontrei para cavar meus 'paços, ser aceito ... aquela ladainha toda, tão típica da adolescência. ( Essa fase passou, mas, 'tranhamente, o Grêmio persistiu. Guardo com o time uma relação tão particular quanto a que guardo com o 'tado. Trata-se de algo meu. Nunca fui das massas, do 'tádio, da torcida. Minha relação com o time era silenciosa, 'tabelecida por meio de rituais mui sacros, encenados diante da TV. Tratava-se, sim, de uma experiência mística!). * * * O Espírito Santo representou, primeiro, a ruptura. Tudo me impelia a deixar o passado em seu lugar e redescobrir um jeito novo de viver, passando a operar em outra matriz. E não poderia existir lugar melhor pra se fazer isso. O Espirito Santo é a fronteira. Abrigo de todas as «naturalidades», o 'tado tem natureza antropofágica -- possível herança dos botocudos de outrora -- e modela a si mesmo 'premendo-se entre três gigantes culturais: Rio de Janeiro, Gerais e Bahia. Mas nem só de cariocas, mineiros e baianos se faz o Espírito Santo. Faz-se de gaúchos desgarrados, de brasilienses obscuros, de italianos mareados, de pedreiros pernanbucanos, de paulistas alucinados. O Espírito Santo é o 'paço a ser descoberto, habitat de «náufragos, traficantes e degredados». Está aí o seu charme. O Espírito Santo não pede identidade. Dá pra refazer a vida (e a si mesmo) naquele 'paço. Foi isso que fiz. Ganhei novo sotaque (menos imperativo, mas mestiço). Redescobri minha cor (passei, absurdamente, de preto a moreno). Aprendi a gostar de Congo e visitei o Convento da Penha no feriado. Aprendi a ter fé no Espírito Santo. Acreditei em milagres. Aquela terra, que tinha o «zero» na alma, parecia o lugar perfeito para a tentativa, para o recomeço, «para fazer certo desta vez». E, na verdade, o Espírito Santo é mesmo 'se lugar ... * * * Mas aí eu vim parar no Rio e cá 'tou há pouco mais de um ano. O Rio eu ainda não assimilei direito. Idiossincrático ao extremo, o pêndulo invisível que me arrasta de um extremo a outro em questão de seguntos e não me permite fazer da cidade uma retrato muito nítido. Mas algumas imagens já se insinuam nos negativos gerados até o momento: se no Espírito Santo tudo é descoberta, no Rio tudo é ruína. Em o Rio Grande do Sul é preciso desfazer (mitos, preconceitos, complexos de inferioridade mal resolvidos); no Espírito Santo é preciso fazer, porque lá tudo é porvir; no Rio de Janeiro, é preciso refazer, porque aqui tudo desmorona. Minha personalidade 'tá em 'tes interstícios, entre o renitente, o nascente e o decadente. Não há identidade possível, nem naturalidade, nem pátria. A cultura, pra mim, é cada vez mais feita de novelos e mais novelos de linhas entrecruzadas. Andarilho, nowhere man, desgarrado: em qualquer lugar, serei eternamente 'trangeiro. PS: Este texto foi uma 'pécie de resposta poético-confessional ao texto «Cultura Cosmopolitismo e os Direitos Fundametais», publicado aqui. Sempre achei complicada 'sa discussão sobre identidade / tradição. Sempre que enclausurados, 'se conceitos me parecem perder força, 'gotam-se. Pra mim, na cultura, tudo é relação, intercâmbio. Toda postura taxativa, em 'se campo, tem um quê de perigosa. A experiência do desterro é importante, sob 'se aspecto. O ser humano precisa de raízes mais aéreas. Número de frases: 78 Se não me engano, foi com raízes assim -- aéreas, dispersas, díspares -- que a gente fez o Brasil, não? Maju Duarte De o pedestal às camadas populares, a música clássica chega aos ouvidos do povo através de projetos como «Um Piano por a Estrada», idealizado e realizado por o pianista carioca Arthur Moreira Lima, considerado um dos maiores pianistas da história brasileira. Ao longo de cinco anos, comemorados em 2007, foram nove 'tados, mais de 30 cidades e um novo projeto já em andamento: Em os caminhos de JK». De Chopin a Pixinguinha, o repertório do pianista abarca clássicos da música erudita e de compositores brasileiros. Viajando por o Brasil sob um caminhão Scania, o músico partiu de Diamantina (MG), onde nasceu o ex-presidente Juscelino Kubitschek, e finalizará o percurso na cidade de Redenção (PA). Um 'petáculo sobre duas rodas. Esse é o caminhão-teatro: sua carroceria logo se transforma num palco com luzes e refletores. Em apenas uma hora, o público se dá conta de que 'tá num teatro a céu aberto. Em a platéia, jovens, adultos e crianças que nunca assistiram a um concerto de piano ou a outro 'petáculo de música clássica. Um mundo 'tranho e envolvente proposto por a música e por a emoção que chega aos ouvidos já nas primeiras notas. Um projeto caro, trabalhoso, que requer uma grande equipe de funcionários 'pecializados e patrocinadores dispostos a investir na idéia. A equipe do caminhão-teatro é formada por 14 «operários da cultura», como gosta de chamar Arthur Moreira Lima. Iluminadores, motoristas, afinador, fotógrafo, produtor e técnicos de som. Uma grande equipe «mambembe» que passa metade do ano em 'se ir e vir nas rodovias federais, apresentando 'petáculos de música clássica para a periferia das cidades, comunidades ribeirinhas, seringueiros, lavradores. Gente simples e «doutores». De passagem por Brasília, onde realizou dez dias de apresentações em Taguatinga, Santa Maria, Samambaia, Riacho Fundo, Guará e em outras cinco cidades do entorno do Distrito Federal, o músico cedeu uma entrevista no dia 9 de maio, e falou sobre o projeto que leva adiante, sobre dificuldades e histórias engraçadas vividas em 'ses cinco anos de «Um Piano por a Estrada». Quando e como surgiu a necessidade de realizar 'se trabalho de levar música clássica a comunidades mais carentes? A.M.L: Fui subsecretário de Cultura do Dr. Leonel Brizola, quando foi governador do Rio de Janeiro, e eu tive a sorte e a felicidade de trabalhar e conhecer Darcy Ribeiro e trabalhar com Edmundo Muniz. Já tinha feito muitos shows ao livre e como subsecretário de interior desenvolvi um programa de interiorização da música, levando a música instrumental, clássica, popular às cidades do interior. Quer dizer, a Secretaria arranjava patrocínio, bancava, e as cidades davam apoio. E eu vi aquele trabalho de montar aquele palco meia-boca, depois a gente tocava ia embora e tinha que desmanchar o palco. Tudo saía caro para as prefeituras, para a Secretaria, para o patrocinador. Em suma, eu achei que a idéia do caminhão-teatro era uma boa idéia. De aí fui vendo, andando por o Brasil, procurando quem poderia fazer isso até que encontrei 'sa carroceria Argila, em Jaraguá do Sul (SC), e como eu sempre tive um pé em Santa Catarina, porque naquela época eu morava lá, ainda moro, e o pessoal de Jaraguá, uma equipe de engenheiros fazia carroceria sob medida. Em o começo foi tudo com meios próprios. Comprei o caminhão em cinco anos, enfim. Mas a idéia mesmo veio de eu ter trabalhado com Darcy Ribeiro, de ter convivido com pessoas que tinham 'se olhar de democratização, uma preocupação com o povo. É claro que há muita aporrinhação atrás de patrocínio, porque dá um trabalho danado, mas a minha equipe é sensacional: gente de Minas, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio, Paulo, nordestinos. Gente de todo o Brasil. Tudo é muito caro, porque são profissionais categorizados. Nosso 'quema é de circo, entende. Como você avalia a interação do público? A.M.L: Eu faço uma música clássica bastante popular, ou seja, eu toco música clássica que já é quase música popular, por exemplo, a quinta sinfonia de Beethoven, Chopin, Mozart, Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos. Tudo que já pertence de uma certa maneira a um imaginário, quase que 'tá impresso no código genético das pessoas. E eu também falo, porque você tem que interagir, você não pode chegar lá e só tocar, né. Em 1984, percorri o Brasil com um show interativo, com um libreto feito por o Millôr Fernandes, eu tocava e contava histórias. Falava sobre a música, num texto bem-humorado do Millôr, mas também colocava muito «caco» meu. Havia um momento no show em que eu falava: «Vocês sabiam que pianista fala?" ( risos), porque normalmente o pianista chega, senta e toca. As pessoas que moram em 'sas cidades mais simples nunca foram ao teatro, e como eles gostam. Quais os compositores que não podem faltar no repertório das apresentações? A.M.L: Bach, Beethoven, Mozart, Chopin. Aí tem os brasileiros: Villa-Lobos, Nazareth, Radamés Gnatali, Pixinguinha, e também Piazzola, que não é brasileiro, mas é sulamericano. E é um programa básico. Não é que ele seja fácil de tocar, mas não sei porque motivo algumas músicas tanto populares quanto clássicas caem no gosto do público. Talvez a melodia faça você guardar no ouvido. Nem sempre são as melhores músicas, ou são? Isso é uma discussão filosófica. São ou não são? Não sei. Acho que por um lado são. Se uma coisa atravessa séculos tendo sucesso é porque tem valor. Não é verdade? Olha as pirâmides do Egito. São 'sas maravilhas da arte. De entre 'sas viagens tem alguma que você possa destacar algum acontecimento ou história que lhe chamou a atenção? A.M.L: Por onde passamos, conhecemos prefeitos simples, rudes, de cidades do interior, que dizem: «olha, eu não entendo nada, eu sabia que isso aí era importante, e trouxe isso pra cá, mas eu não sabia que isso era tão bonito». Ou seja, vale tudo. Já aconteceu do padre de uma cidade do Acre não deixar a gente se apresentar porque tinha festa da Igreja. Outro em Xique-Xique (BA) que disse «eu não quero isso aqui não», mas isso é muito raro. Outra vez, o prefeito de Cabrobó (PE), em 2003, fez uma coisa linda. A gente ia fazer o «São Francisco -- Um rio de música» e quando o prefeito soube que a gente ia se apresentar em Petrolina, telefonou para a gente e falou: «aqui só tem uma pousada em cima do posto de gasolina, mas vocês ficam na minha casa». E fizemos. Ao mesmo tempo tem um que insiste e outro que não entende. Em o final o show foi lindo, ou seja, 'sas coisas não tem preço, o resto é Mast ... ( risos). Até que podia fazer 'se anúncio, né? Você não pode nunca generalizar o comportamento das pessoas. Mas em geral é bom porque você mobiliza toda a cidade: o delegado, o destacamento da polícia, os secretários de governo, enfim. Em alguns lugares os prefeitos mandavam caminhões para recolher os seringueiros, os trabalhadores rurais para assistir ao 'petáculo. Toquei uma vez na Central do Brasil, na hora em que o pessoal ia pegar o trem. Então eu tocava pra uma porção de gente. Uns ouviam e iam embora, outros ficavam. O Noca da Portela foi meu convidado pra tocar também, cantou «se você sentir saudade ligar para o meu celular ...». ( risos). Qual a sua opinião sobre o conceito de erudito referente ao paradigma alta cultura X baixa cultura? A.M.L: Erudita é a música clássica ocidental, que evoluiu com a Revolução Industrial, com o aperfeiçoamento dos instrumentos, com as Escolas Filosóficas, até porque a música sempre foi atrelada à Literatura, agora isso não quer dizer nada. Por exemplo, eu não conheço nada de música javanesa. E música é música. Eu adoro música clássica, mas tem determinadas músicas que agradam de cara o público. Mas respondendo a sua pergunta, acho que 'se conceito já mudou muito. Você vê que os grandes concertos ao ar livre nos Estados Unidos, na Europa e mesmo no Brasil de música clássica ficam lotadíssimos. Ou seja, há público. O negócio é que é muito caro fazer música clássica. Muito caro. Quando você vê uma orquestra sinfônica, aquele cara que tá tocando ali 'tudou durante vinte anos. É o tal negócio da chamada mão-de-obra utra-epecializada. Quais são as suas expectativas e planos para o projeto «Um Piano por a Estrada»? A.M.L: Eu não quero completar mil concertos com o caminhão, como o Romário com 'sa história do futebol. Hoje é o número 154, mas pretendo chegar, sei lá, ainda não sei. Vai haver um momento em que não vai ser mais necessário, que vai ser mais difícil de fazer, que vou ficar mais velho ou que não vou conseguir mais patrocínio, mas não penso nisso. Para alguém conseguir fazer isso é preciso muita força de vontade e persistência. E às vezes é difícil 'se tino para administração vir do artista. É muito trabalho. Quando não 'tou na 'trada, eu 'tou conversando com as prefeituras, buscando patrocínio. Esse circuito dos nos Caminhos de JK " vou acabar no Rio. Porque uma coisa é o que você planeja e outra coisa é quando você consegue mais do que o 'tipulado no começo. Que conselhos você daria à nova geração de pianistas brasileiros e àqueles que alimentam o sonho de tocar o instrumento? A.M.L: Eu não sei como se faz uma carreira de pianista hoje em dia. Em o meu tempo eu sabia, hoje em dia tudo mudou. Dentro da música você tem muitas coisas pra fazer: empresário, programador, disc-jóquei de música clássica, diretor do departamento musical de uma emissora de rádio, trabalhar na organização de concertos de óperas. A música em si, a arte e a cultura tem um campo em que você pode ser um trabalhador cultural, um operário da cultura. Acho que a gente chega num momento da vida em que a gente precisa dar, utilizando aquela frase do Kennedy, que diz «não é o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por o seu país». Acho que o meu país já fez muito por mim. Me educando, me mandando 'tudar na Europa, e agora é a hora de devolver isso. O que deveria ser feito no Brasil para que a música clássica se difundisse e ficasse cada vez mais acessível a todas as camadas sociais? A.M.L: O Brasil não tem dinheiro, tem tanta coisa que ainda tem que passar na frente da música clássica. O 'porte e a cultura devem 'tar presentes, mas, por exemplo, quando eu morei na União Soviética, se perguntavam por que não se comprava mais pão e se deixava de lado 'sa história de mandar o homem para a Lua. E a resposta era que não, que havia um dever com a humanidade. Mas pra isso você tem que ter muito dinheiro. Você não vai poder montar uma Orquestra Sinfônica no Haiti, vai? Não dá, não é ambiente pra isso. Em compensação, a Venezuela já tem há muitos anos um programa de orquestras jovens, maravilhoso. Mesmo um país pobre, algum dinheiro ele tem que gastar com música. Porque isso faz parte da formação da sua elite cultural, intelectual, e quanto mais gente você puder incluir nisso é melhor. Acho que 'se meu projeto gera um olhar muito positivo sobre a inclusão social. Acredito que 'tou fazendo a minha parte, mesmo que pequena, por a inclusão social. Número de frases: 133 Reuniões de blogueiros e outros tipos de grupos virtuais são incomuns em Macapá, a própria comunidade virtual amapaense ainda 'tá dando seus primeiros passos rumo ao grande universo de possibilidades da comunicação on-line. A divulgação da festa de lançamento do Overmundo e de despedida do Galpão 213 foi feita quase que integralmente via Internet, mesmo assim, foi uma das melhores reuniões jovens dos últimos tempos, na cidade. O fechamento do ' Galpão ' encerra também uma fase da história das noites de rock de Macapá. Como em outros 18 'tados brasileiros, o Festival Galpão 213 e Overmundo aconteceu na sexta-feira, 10 de março, mas no sábado também rolou festa. A programação teve as bandas Pierrot, Base, Stereovitrola e Rebeca Braga. Enquanto todos se divertiam ao som músicas do rock internacional tocado por as bandas (Placebo, Smiths, Muse, Radiohead, Franz Ferdinan etc), a Overmina aqui ia de mesa em mesa entregando para a galera um folder de divulgação e explicando um pouco sobre o Overmundo. Daqui a pouco tinha gente concentrada, lendo trechos das matérias do site e comentando entre si. Como disse anteriormente, o dia do lançamento do portal, também era de despedida do Galpão e 'se era o outro tópico das conversas durante o evento. Estavam todos refletindo, " para onde vamos agora?" ou «o que será de nós?». Mas como em outras despedidas o clima era de «vale tudo» e todo mundo resolveu mostrar seus talentos para a platéia animada e receptiva. Dinho Araújo, jornalista e 'critor, foi campeão nas intervenções e homenageou as mulheres, a juventude, o rock e outras coisas, tudo de forma improvisada entre uma música e outra. Enquanto isso, uma figura tradicional do cenário roquenrol do Amapá era o dono da bola. Bea na bateria, com a banda Pierrot, foi quem lembrou a todos das épocas de ouro do rock em Macapá. Quem ainda lembra de quando as lendárias rockadas aconteciam no Trem Desportivo Clube? Ou das festas no MV13, onde a moda era ser «Heavy-Metal», usar preto ou ser» Gótico»? De as quartas-feiras de pop-rock e rock alternativo, no já extinto Canna Café? E das noitadas no Mosaíco quando as paredes tinham jornais grudados por todos os lados e era possível comprar caipirinha barata? Teve também as festas do Lago do Rock, na praça Floriano Peixoto. Dá pra perceber que sempre aparece um novo lugar para hospedar a rapaziada e as bandas. De temporada em temporada um novo point se descobre e aos poucos em ele vão se reunindo adeptos e amantes do rock. Que venha o próximo! Número de frases: 22 Perebah e Jair chegaram da selva faz 4 anos, mas há a versão de que um foi mesmo príncipe africano, e o outro foi índio litorâneo. Fato é que, apesar de afastados do futebol para tristeza da bola, têm feito ricas embaixadinhas e dribles desconcertantes no dourado poleiro da musica no Brasil. Em o bucólico bairro de Botafogo -- onde exala nas ruas o cheiro do alecrim, e as gentis pessoas passeiam despreocupadas em calçadas largas -- o cantor Jair e o baterista Perebah descalçaram seus tênis precoces. Trabalhavam num 'túdio de gravação e não cabiam mais só na voz ou no bumbo, no samba ou no rock. Perebah, sempre vaidoso, «vaidoso consciente», merecido, inquieto como uma pulga, precisava correr por os palcos. Jair, outro vaidoso (igualmente com justiça), tinha se aborrecido um pouco com a MPB que ouvira desde o berço, e que agora bocejava nos palcos onde desejava correr. Claro que Luiz Gonzaga permanecia imaculado, ninguém se atrevia a não ouvi-lo menos que três vezes por semana. E por amor a Michael Jackson, Jamelão, Mestre Ciça, Hendrix, Coltrane, Little Richard, Thelonious -- todos pretos, reparem!-- abusaram do Pro-Tools e o transformaram em instrumento musical. Claro, muitos já tocam máquinas e programas, (bem-vindo os novos softwares!), piratas, então ... E viva o funk carioca! Dá-lhe dá-lhe! Caíram no rarigári! Corromperam o Hully-gully! Meio avariado por o uso inusitado e violento, o pobre 'trangeiro Pro-Tools liberou nos infantis corações de Perebah e Jair (amantes de Gorila e Preto, Serginho e Lacraia e Marlboro) batidas funk que trazem no acento também o surdo de resposta e de terceira, das baterias de 'cola de samba. E a criançada que ouviu gostou. Os de idade também. Até alguns sambistas ergueram sobrancelhas interessadas! Dois brancos, audaciosos cabelos compridos, se meterem a compor funk??! Mas graças a Deus no Brasil o racismo se combate diariamente, e os brancos são sempre mestiços; o povo acabou nem se incomodando com tal abraço ... Pois 'tes dois mestiços de fé -- em que a dedicação à música é o mesmo que seu cultivo de uma ética do amor --, criaram jóias como a canção Coisa Boa A Gente Gosta, onde diversas idéias rápidas condensam poemas-pílula, com força de slogan, sobre bases kraftwerkkafkianas. Baratas Voadoras trata do problema de locais de alimentação muito desleixados, Cerol Geral brinca com as crianças que soltam pipas sobre as tumbas do cemitério de São João Batista. Caracanta na Central é uma 'pécie de jingle de candidato, convocando os resistentes a permanecermos no Rio de Janeiro e resolvermos nossos problemas com coragem e saúde. Saci anda de bicicleta e faz malabarismos para ganhar a vida, e outros temas da cidade sempre vêm voando livres. Com passagens por o Circo Voador, Teatro Odisséia, vagão da Leopoldina no Rio Cena Contemporânea -- sempre acompanhados por a querida e arcaica Múmia Dançarina, anciã sarada que baila somente com as pontas dos dedos nuas --, os shows de Perebah e Jair têm agitado nas pessoas a vontade de inventar. Suas letras vêm de gravações de longos improvisos, editados, reduzidos a quase nada, 'forço de capturar o viço da 'pontaneidade, do instantâneo de liberdade na mente. Improvisos cortados e descartados quase inteiros, mas que nos garimpam brilhantes átomos irradiadores! É isso que salta do disco (Perebah & Jair, Ritornelo Records): a força do momento primeiro, a gênese das idéias, de versos jamais rascunhados, o improviso sobre uma peça musical laboriosamente 'culpida. Representantes deste novo modo de criar música, que utiliza recortes de sons já previamente gravados como matéria prima para a composição -- gravações que viraram instrumentos musicais!--, a dupla persegue a liberdade para experimentar que os novos tempos têm arejado. Atualmente em cartaz no 'petáculo Outra Opinião, do grupo Nós do Morro do Vidigal, Perebah e Jair também atendem na internet por o sítio www.perebahejair.com.br, onde é possível baixar ou ouvir suas canções, assistir a um vídeo crocante, se deliciar com belas fotos e enviar a sua cartinha. Número de frases: 34 Belo Horizonte. Quarta-feira, 10 de maio. Onze horas da noite. mais de 1.000 pessoas lotando o Lapa Multshow como há muito tempo não se via. O que seria capaz de tirar todas 'tas pessoas de casa no meio da semana numa noite fria e chuvosa? Resposta: a primeira festa do Trama Universitário na capital mineira, com shows dos pernambucanos da Nação Zumbi e da turma hypada da Cansei de Ser Sexy. O evento foi parte da programação de festas realizadas por o Trama Universitário durante o mês de maio para divulgar o projeto por diversas capitais do país, contando com shows da Nação Zumbi e Cansei de Ser Sexy em Belo Horizonte e Brasília e Mombojó e Cordel do Fogo Encantado em Porto Alegre no dia 17 e Curitiba dia 19 de maio. Em a festa de Belo Horizonte os fãs da Nação Zumbi predominavam, mas os aficionados por a Cansei de Ser Sexy, mesmo em menor número, fizeram barulho na frente do palco e acompanharam a performática vocalista Luísa Lovefoxxx durante todo o show, inclusive carregando-a durante seus vários stage dives e dividindo com ela dos mais variados drinks. A partir do momento em que o multiinstrumentista Adriano (ex-Thee Butchers'Orquestra) abandonou os instrumentos e assumiu os vocais ao lado de Lovefoxxx, tudo se transformou literalmente numa grande festa e foi impossível saber quem se divertia mais, o público ou a própria banda. Os momentos mais empolgantes foram durante a pesada versão de «art bitch» e o hit alternativo «meeting paris hilton». Em evolução constante, prestes a ter seu álbum de 'tréia lançado por a legendária gravadora norte americana Sub Pop e a iniciar sua turnê internacional, a Cansei de Ser Sexy agradou os belo-horizontino e os preparou para o show da aclamada Nação Zumbi. Entre um show e outro, hora de descansar e aproveitar um pouco da 'trutura montada para a festa. Misturar as balas recebidas na entrada com um pouco de cachaça, jogar videogame na enorme tv, passar um creme no rosto ou até mesmo criar uma conta no banco (o que não é muito aconselhável caso você tenha bebido um pouco demais). Por volta da meia-noite começou a apresentação daquela que é, sem dúvida alguma, umas das mais importantes bandas brasileiras da década de 90 (senão a mais importante), a Nação Zumbi. Em cima do palco a Nação é inigualável. Não apenas por a incrível guitarra de Lúcio Maia ou por a presença dos tambores, mas por a junção de tudo que a Nação tem a oferecer. E o que ela oferece é uma singular mistura de rock e cultura tradicional nordestina, a batida do mangue, distorção e experimentalismo. Misturando clássicos como «De a lama ao caos» e «Manguetown» às músicas de seu álbum mais recente, Futura, a banda fez uma ótima apresentação, como de costume. Mesmo sabendo que de ali a poucas horas a maioria dos presentes 'taria indo ao trabalho ou à faculdade, a sensação de satisfação era coletiva. Que venham mais festas como 'sa. * mais fotos da festa podem ser vistas aqui. Número de frases: 21 Uma dinâmica de vida 'tressante, a poluição do meio ambiente e o consumo indiscriminado dos recursos naturais há tempos são vistos como as principais causas de um possível colapso da vida no planeta. Por 'sa razão, as ecovilas -- projetos que oferecem alternativas para garantir sustentabilidade e qualidade de vida -- têm se difundido e dado certo em todos os países do mundo. E agora também o público de Florianópolis poderá participar deste debate, nas palestras dos ambientalistas Susan Andrews, Edson Hiroshi e Johan Van Lengen. Eles 'tarão na capital catarinense dia 4 de setembro, no auditório da reitoria da UFSC, para compartilhar sua experiência sobre ecovilas, dentro da programação do Festival Mundial da Paz. As ecovilas são comunidades ecológicas que assumiram um modelo de vida sustentável, conforme as características locais. A partir do princípio fundamental de não tirar da natureza mais do que é possível repor, numa ecovila se pratica atividades que contribuam nas áreas social, ecológica, cultural e 'piritual dos habitantes, como a produção orgânica de alimentos, o uso de sistemas de energia renováveis, o uso de material ecológico nas construções (bio-arquitetura), diversidade cultural e religiosa, a socio-economia solidária entre outras. A idéia é garantir a sobrevivência e a qualidade de vida da comunidade em longo prazo. O Ena -- Ecovillage Network of the Americas, entidade que representa nas Américas a Rede Global de Ecovilas -- 'tima que existam 15 mil ecovilas no mundo e 12 'tão no Brasil. Uma de elas é a fundada por a antropóloga e doutora em Psicologia norte-americano Susan Andrews, que veio ao Brasil participar da Eco-92 e vive no país desde então. Em 1993, em Porangaba, SP, ela fundou o Instituto e o Parque Ecológico Visão Futuro, uma das primeiras ecovilas do Brasil. Autora de 12 livros sobre educação, Psicologia, Saúde, Yoga, Nutrição e Ecologia, Susan virá a Florianópolis para falar da experiência em viver na Ecovila Visão Futuro e das atividades desenvolvidas lá, como agricultura orgânica, reciclagem, trabalho cooperativo e oprojeto Visão Futuro. Feito em sociedade com o World Future Studies Foundation, da Austrália, e patrocinado por a Unesco, o projeto busca desenvolver consciência ecológica entre os jovens universitários. Um trabalho semelhante é realizado por o engenheiro agrônomo Edson Hiroshi, o idealizador e coordenador da Ecovila Clareando, localizada a uma hora e meia da cidade de São Paulo. Seu primeiro contato com a ecologia aconteceu quando passou a 'tudar alimentação macrobiótica para cuidar de seu pai, vítima de AVC. Começou, então, a cultivar alimentos orgânicos e hoje é uma referência em tecnologia de baixo impacto ambiental e ecologia social. Hiroshi já trabalhou com o arquiteto holandês Johan Van Lengen, que em 1987 fundou o Instituto de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura, o TIBA. Sediado em Bom Jardim, RJ, o TIBA é também uma Ecovila, além de um 'paço onde Lengen desenvolve novas tecnologias construtivas, ecológicas e baratas, para pequenos construtores e comunidades, além de ministrar cursos para 'tudantes. Ecovilas -- O conceito de Ecovila surgiu em 1991, quando o Instituto Gaia Trust, da Dinamarca, convidou Robert e Daiane Gilman, editores da revista sobre cultura sustentável In Context, para fazer uma pesquisa de campo e identificar os melhores exemplos de comunidades sustentáveis ao redor do mundo. Quatro anos depois, nove ecovilas de oito países (Eua, Alemanha, Austrália, Rússia, Hungria, Índia, Escócia e Dinamarca) criaram a GEN -- Global Ecovillage Network (Rede Global de Ecovilas), que hoje engloba cerca de 15 mil ecovilas em todo o mundo. Em 1998, a ONU incluiu as Ecovilas entre 100 Melhores Práticas, lista com modos ideais de vida sustentável. Número de frases: 20 Este é um debate que aconteceu em diversos grupos de discussão por a internet depois que eu divulguei uma nota publicada na coluna «Bacana» do jornal Diário do Pará, onde, assim como já aconteceu no programa do Ratinho (SBT) em 1 de outubro de 2002, mais uma vez os afro-religiosos de Belém foram desrespeitados por a imprensa com motivos aparentemente eleitorais. Pensei em relatar o ocorrido, mas depois de voltar a ler as manifestações achei que devia preservar as falas das pessoas em suas próprias mensagens, só lamento ter que editar e cortar algumas manifestações por o limite de espaço no overmundo. Por isso segue apenas uma parte da troca de emails, e em ordem cronológica. Se manifestam sacerdotes afro-religiosos, professores, artistas e produtores culturais, o Coordenador de Igualdade Racial da SEJUDH-PA, profissionais liberais e demais cidadãos que se indignaram com o fato. A discussão aconteceu nas listas de discussão: unifap@yahoogroups.com, Fórum Permanente das Culturas do Pará,, Afro-religiosos da zona metropolitana de Belém, corocoletivo@yahoogrupos.com.br, politicacultural@yahoogrupos.com.br, culturaspopularesBR@yahoogrupos.com.br e por emails particulares. E o debate não 'tá encerrado, e outras manifestações serão acrescentadas como comentário. De: etetuba Data: 30 de agosto de 2008 1h22 min18s GMT-03: 00 Assunto: Alguém se manifesta, é preconceito? É apenas uma pergunta quase inocente ... proponho abrir o debate sobre o caso. link http://www.diariodopara.com.br/colunas ler. php? idcoluna = 50 Caderno D Marcelos Marques Bacana. Pode? Pode!-- O PSol nos apresenta como candidato a vereador .... um pai de santo. Imagina se o cara resolve fazer trabalho nas encruzilhadas da vida para se eleger, Belém vai ficar igual a terreiro de candomblé por a noite, cheio de velas. 2008/8/30 antjose45 Nós afros Religios @ s de Belém, temos que reunir com urgência para, respondermos sobre a nota públicada. Oque temos que responder é que em terreiro de Candoblé e nem em outro não vivem cheios de velas. Temos que responder a 'se cidadão da Familía Barbalho agora, aos afros de Ananindeua pensem bem em votar em Helder. Proponho uma reunião segunda-feira às 17:00 no 'paço afro. para dicurtimos tal assunto. Que oxóssy dê muito axé a 'se cidadão e que iãnsa lhe dê juízo para respeitar a sociedade. Kytalamy 2008/8/30 De: Ekedy Rita mais um caso de intolerância religiosa!!! não podemos cruzar os braços, vmos fazer barulho, colocar nossas contas no pescoço, pano na cabeça e ir para a frente do ministério público pedir providências, direito de resposta e uma retratação por parte desse cidadão 'se cara precisa se informar pra tá falando das religiões de matriz africana, fico me perguntando onde iremos parar quando um jornal de grande circulação abre 'paço pra um cidadão com 'sa capacidade limitada de cultura, conhecimento e intelectualismo possa despejar seus pré-conceitos Que meu Pai Ogum nos de caminho!!! Em 30/08/2008, às 16:37, etetuba 'creveu: acho que a gente deve exigir que a justiça responda ao jornal ... ele perguntou se pode ... e eu entendi que ele quer saber se um pai de santo pode ser candidato ... se foi isso que ele perguntou, quem tem que responder ao colunista é o presidente do TRE ... vamos, então ao TRE pedir que seu presidente lhe responda. mas se a pergunta foi se ele pode acender vela e fazer trabalhos por a cidade? Eu gostaria de ouvir as autoridades constituídas ... O que pensa disso o Secretário de Cultura? Hoje 't ´ lá no Hangar o Sérgio Mamberti, que é o secretário da diversidade do MInc -- poderíamos perguntar pra ele, e o próprio Edilson Moura falou, na inauguração do 'paço afro-religioso da rua Domingos Marreiros, que a Secretaria de Cultura 'tava de portas abertas para as questões da cultura afro-religiosa ... Então, se a pergunta foi se a cidade pode, em 'te ou em outro momento de sua história, ficar parecida com um terreiro de Candombé, talvez seja ao titular da SECULT que caiba a resposta ... Muitas interpretações são possíveis, o problema é que a maioria de elas são maldosas, como bem disse Mametu Nangetu, e acrescento, carregam o peso dos preconceitos cristãos ... Por isso também quero saber o que pensa a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos ... pois questões de preconceito e discriminação cabem a pasta de ela ... Mas é possível que 'sas autoridades não se manifestem sobre o fato, por que a nota se refere a um partido concorrente e 'tamos em pleno processo eleitoral, e pode ser que não interesse a elas defender direitos humanos ou a diversidade cultural quando aparentemente 'sa defesa poderá beneficiar um concorrente ... E vejam bem que eu 'tou apresentando uma hipótese, e uma hipotese que 'pero que 'teja errada, por que se o pensamento for 'se não será os interesses e os direitos da diversidade (em todos os sentidos) o que o atual governo defende ... e se assim for, isso desencadeia varias outras possibilidades e caminhos para a discussão ... Volto a perguntar, Quem se manifesta? enquanto isso, e em apoio as candidaturas afro-religiosas de qualquer partido, bora 'colher um dia pra acender velas ... Táta Kinamboji/Arthur Leandro. 2008/8/30 De: " \> negrinhodopaea@yahoo.com.br A Nazaré Cruz do Mocambo me informou sobre o caso penso que deve haver resposta, para isso, sugiro que na reunião do GT De a COPPIR na segunda feira às 15 horas no auditórioi da SEJUDH para tratar de reunião com o ministro Edsom Santos no dia 03/09/08, seja pautado 'se assunto e portanto, todos 'tão convidados. De o Coordenador da COPPIR Domingos Mocambeiro Conceição. Date: Sun, 31 Aug 2008 07:45:14 0300 From: " \> nangetu@bol.com.br Subject: [ culturasparaenses] PEDIE Para O Pai GILMAR SE Manifestar. Conversei com o Pai Gilmar, ele me falou que foi na rba pedir direito de resposta, falei que 'tamos nós manifestando, para ele tambem entrar na discursão. 2008/9/2 etetuba Tayandô: CARISSIMOS (AS). Mais Uma Vez Escutamos Nossos Irmãos Revoltados Por a Intolerancia Praticada Contra Um Membro De Nossa Comunidade Afro De Belém. Ai O Tempo Passa E Todos Voltam A Cuidar De a Sua Vida E Tudo Fica Em o Esquecimento, Assunto Para Conversas E De Bates Apos Reuniões. Hoje Um Grupo SE Sacerdotes Preocupados Com O Futuro De Nossa Religiosidade, Resolveram Começar Um Movimento Pacifico Mais Organizado E Com Um Objetivo: Criar Um NUCLEO Contra A Intolerancia A os Afro-RELIGIOSOS De o Pará. Em o Primeiro Momento JA Recebemos A Solidariedade E Apoio do Coordenador De a COPPIR/PARÁ SOCIOLOGO Domingos Conceição. De a Reunião Fez Parte ARTUR (TATA KINAMBNOGI), EKEDI Rita, YALORIXA NALVA De a OXUM, ROBSON E Baba TAYANDÔ; Este Grupo Ficou Com A Responsabilidade De Mobilizar As Pessoas De Boa Vontade E De Garra Para Construir Os Caminhos Que Nos Garantirão O Direito A Liberdade De Cultuar Nossa Fé. Que MAWU LISSA Nos Abençoe Baba TAYANDÔ A 'sa mensagem do Babá Tayando no meu iorgute, acrescento que: 1. o Domingos ainda falou que a SEJUDH vai se posicionar oficialmente sobre o caso. 2. a COPPIR se comprometeu em enviar oficio ao TRE denunciando o caso; e também ao jornal pedidndo retrataçao. 3. Domingos ainda falou de provocar processo judicial, mas não recordo exatamento o que foi dito sobre isso. 4. tentamos contato com o Pai Gilmar de Oxossi, um dos candidatos afro religiosos lançados por o PSOL (o outro é o Pai Fábio de Ogum) e que já apareceu na propaganda televisiva, pra perguntar quais as providencias por ele tomadas. Nao tivemos sucesso na tentativa, mas quem o encontrar diga que é preciso registrar queixa o quanto antes. 5. independente da queixa-crime que o Pai Gilmar deve registrar, qualquer afro-religioso que se sentir ofendido pode e deve registrar queixa contra o jornal na delegacia que trata de crimes de racismo e discriminaçnão, que fica na Avertano Rocha prox. a Padre Eutiquio, no Centro (referencia: descer na parada de onibus da praça da Bandeira), e eu, Pai Tayando, Ekedi Rita e Mãe Nalva faremos isso ainda em 'ta terça. 6. dia 3 o titular da SEPPIR 'tara em Belém, e vamos aproveitar sua presença para tratar da intolerancia que sofremos na midia brasileira -- preparem faixas e cartazes para levar para 'se encontro. 7. o Zulu, da Palmares, também 'ta aqui, ele vai fazer uma palestra no CCBEU na tarde de quarta, e também 'taremos com faixas e cartazes por lá. 8. levei o caso a advogados meus conhecidos que atuam na SDDH, ja enviei o jornal scaneado e parte das nossas conversas pra eles. 9. um comite contra a baixaria nas eleições 'ta funcionando na CNBB, na Barão do Triunfo entre almirante barroso e 25 de setembro, e é preciso que alguém leve o caso para o comite o mais rapido possivel -- com copia do jornal (segue novamente no anexo o arquivo em JPEG) é isso, Arthur Em 02/09/2008, às 22:17, etetuba 'creveu: A os diretores e editores do Jornal Diário do Pará. É lamentável que um jornal de grande circulação, como o Diário do Pará, tenha publicado a nota pejorativa sobre o Pai Gilmar, o único candidato a vereador que até o presente momento apareceu em propaganda televisiva caracterizado como sacerdote afro-brasileiro. Em 'sa nota não há nenhuma informação relevante para seus leitores, ao contrário, trata-se de um texto malicioso e maldoso que compromete negativamente a imagem de sacerdotes das religiões afro-brasileiras, coloca em dúvida o direito de um cidadão concorrer e exercer cargo eletivo, e reforça preconceitos históricos que resultam em conflitos sociais que tendem a confinar a prática afro-religiosa em guetos, e seus praticantes ao anonimato. Ao contrário do incentivo a violência psicológica, ao racismo e ao massacre cultural, o que 'peramos de um órgão de imprensa respeitado e competente é o compromisso com a cultura da paz e com a promoção da convivência pacífica entre pessoas de credos e modos de vida diferentes, principalmente numa sociedade formada por tantos povos diferentes como é a sociedade em que vivemos. Isto posto, solicito: 1. a retratação pública do jornal; 2. a orientação para que seus colunistas atentem para o respeito a dignidade e para a promoção dos direitos humanos; 3. a realização e publicação de uma série de reportagens sobre a cultura de terreiros -- cultos, divindades, festas e ações de combate ao preconceito e a discriminaçnão -- divulgando e valorizando positivamente as culturas das matrizes afro-religiosas praticadas em Belém. Como 'sas matrizes são muitas, sugiro que a editoria procure as entidades que agregam os terreiros, como o Instituto das Tradições e da Cultura Afro-brasileira -- INTECAB / PA, que funciona na Tv. Pirajá, 1194, fone 32267599; e a Federação Espírita, Umbandista e dos Cultos Afro-brasileiros do Estado do Pará -- FEUCABEP, que funciona na Tv. Eneas Pinheiro, 697, fone 32764036; e, ainda, os pesquisadores do assunto, como os professores da Faculdade de Ciências Sociais da UFPA e do curso de Ciências da Religião da UEPA. Sem mais, aguardo resposta e ações reparadoras. Arthur Leandro, ou Táta Kinamboji uá Nzambi ria Mansu Nangetu. Artista e Professor Assistente da Faculdade de Artes Visuais da UFPA Mestre em História da Arte por a EBA / UFRJ Diretor do Instituto Nangetu de Tradição Afro-religiosa e Desenvolvimento Social RG 1414229/ SSP-PA -- fone: 91785341 De: «socorro. patello» socorro.Patello@terra.com.br Data: 3 de setembro de 2008 10h45 min49s GMT-03: 00 De fato a nota foi pejorativa, preconceituosa e desrespeitosa para com a diferença de religiões, o que o art. 5º da Constituição Brasileira não permite: «todos são iguais perante a lei» e a ofensa atinge todos os adeptosdo candomblé. O 'critor Jorge Amado, também adepto do candomblé, como todo baiano que se presa, foi candidato e nem por isso Salvador / BA se encheu de velas por as 'quinas. Aliás, Salvador é um grande terreiro, com o tabuleiro de suas baianas vendendo acarajé nas ruas e apresentando Mãe Menininha como um grande personagem de sua história, cantada em verso e prosa. Bem mais civilizado, não? Socorro Patello Em 03/09/2008, às 14:04, claudethap 'creveu: Arthur, a tua iniciativa em buscar retratação e levantar discussão sobre o fato é perfeita. É de 'sa forma que devemos agir contra a intolerância, contra o preconceito e contra a ignorância (Falar do Que Não Conhece), porém, 'sa questão não é localizada. A posição do jornalista e consequentemente do jornal não se apresenta apenas como racista. Eu acredito inclusive, que hoje, diferente da História do passado, o preconceito contra as religiôes afrodescendeste passa por o viés da discussão do cristianismo, haja vista que a religião afrobrasileira apesar de não negar o cristinismo (não seria posível negar valores culturais absolutos), vai de encontro a 'ses valores, haja vista que a cosmovisão da religião afrodescendente vai de encontro as verdades cristãs. Em 'te sentido, acredito que a posição do jornalista, sendo uma atitude contemporãnea, não foi racista, foi uma posição contra os valores diferente dos valores cristãos. Veja só, não quero aqui e agora me apresentar enquanto advogado do diabo (de algo visto como mau). Eu quero apenas, discutir de forma mais ampla, pois, se queremos lutar contra 'ses valores que corróem a sociedade, temos que buscar o cerne, o âmago, além das questões de entorno, é claro. Veja só, não 'tou invalidando sua posição, apenas dizendo que a postura do jornalita e do jornal tem origem além do que parece. Sabemos que a sutileza é mais perigosa do que a forma 'cancarada de se expôr valores. Ora, a religião afrodescendeste, seja, a umbanda ou o candombé sempre foram vistas como religião do mal (do Diabo), E Quem Criou O Diabo? O Diabo é filho do cristianismo! Outro exemplo é a forma como as religiões evangélicas falam, exemplificam e expressam sobre a religião afrodescendente. São informações, expressões (com sutileza e sem sutileza) que são disseminadas diariamente em diferentes veículos de comunicação. E, portanto, como nós queremos que as pessoas se comportem diferente. Como vamos conseguir que elas tenham olhares diferentes? Em a universidade onde você fez o mestrado, inclusive, vi claramente o preconceito contra a pesquisa sobre a cultura, a religião afrobrasileira. ( Com Sutileza É Claro. O Que É Mais Perigoso). Por exemplo, a gente que pesquisa sobre a cultura e / ou a religião afrobrasileira enfrenta diariamente Esse Preconceito. Inclusive, para a situação ficar mais leve, a gente ri, a gente se diverte com a posição das pessoas (com a ignorância das pessoas). Veja só, eu pesquiso sobre: Os EXÚS E Pombas-GIRA nos Terreiros De Umbanda E Candomblé E Sua RESSIGNIFICAÇÃO NA Cidade De MACAPÁ Enquanto Forma De Poder (é o meu projeto do doutorado). As pessoas não falam nada a minha pessoa contra o meu projeto (Que Pena), porém, chega ao meu conhecimento muitos comentários. Fazem perguntas / comentários " inocentes ": -- Porque ela pesquisa isso? -- Com tanta coisa para a ela pesquisar? ela é inteligente ..., com tanta coisa interessante para ela pesquisar! -- Fazer o doutorado pesquisando isso? Risos, muitos risos. Gargalhadas. Bem Arthur, isto é apenas uma pequena parte da amplitude que demosntra que o preconceito é cristão. Um Preconceito Que Começou, Em o Passado, Com A Questão Racial. Porém, Hoje, Atravessou Essa Fronteira. Abraços, Claudeth Em 04/09/2008, às 01:43, etetuba 'creveu: Claudeth, Concordo discordando de ti quando dizes que a intenção do colunista pode não ser racista, e tanto eu considero a hipótese de ser desconhecimento de causa que solicito fazerem reportagens sobre as culturas de terreiros. Entretanto, se a intenção pode não ser racista, o ato o é ... o texto é maldoso ... e entre o que ele quis dizer, o que ele disse e o que os leitores vão entender encontraremos vários abismos ... E aí mana, se a defesa da cristandade se der atacando as demais culturas religiosas, em breve os cristãos 'tarão retomando cruzadas, queimando bruxas e obrigando a catequese dos afro-religiosos, dos xamãs, dos budistas, xintoistas, dos judeus ... Mas o que foi exposto negativamente no jornal, e sem nenhum motivo aparente, foi as religiões de matrizes africanas, e isso acontece por que? Por que é religião de preto? Trata-se do jornal que divulga ser o de maior circulação atual, e veículos de imprensa e jornalistas são formadores de opinião ... Então ... eu disse que a nota incita, ou incentiva, o racismo e a discriminação, e reafirmo o que eu disse, pois ele da a entender que pai de santo não pode ser vereador; a nota transforma a imagem das oferendas públicas em «trabalho para se eleger» e a imagem dos terreiros como " cheio de velas "; e, mais, não sei se isso pode ser caracterizado como crime eleitoral -- pergunto aos professores do Direito -- por que eu acredito que possa prejudicar a campanha do candidato. Enfim, considerando a possibilidade da nota ser resultado de desconhecimento e ingenuidade, ainda assim isso não redime os autores da responsabilidade com a discriminação negativa da imagem pública das religiões afro-brasileiras, dos prejuizos para com a candidatura do Pai Gilmar ... Por que poderia ser considerado normal um jornalista tratar um cidadão, e todos os afro-religiosos e / ou praticantes de Candomblé com desrespeito as suas / nossas crenças e práticas religiosas? E por que a cidade não pode se parecer com um terreiro? Isso não é racismo / discriminação? A constituição diz que:(ver os Art 1 e 5 da constituição nos comentários) Quanto a questão das universidades. 1. o teu projeto de pesquisa é muito bom, mas da mesma forma que existe a possibilidade do colunista do jornal não ter tido a intenção de ser racista e discriminatório, de ser ignorancia, existe a possibilidade da tua proposta não ter sido aceita na UFRJ por desconhecimento de causa, porém tem outros programas ... faz tua pesquisa num programa onde os professores possam contribuir com o seu desenvolvimento -- E mana, larga o povo que faz 'ses comentários,, entrega a Kitembo,, se ficares te desgastando com isso podes terminar não fazendo ... deixa o tempo responder ... 2. o mesmo pode-se dizer dos professores de arte da rede de ensino fundamental, media e superior, inclusive os da UNIFAP e da UFPA, em relação a aplicação da Lei 10659, usa-se a desculpa de que não tiveram formação na área de arte e cultuta africana e afro0brasileira para assumir a postura blazé (e racista?) de ignorar a Lei e não procurarem 'tratégias para a sua aplicação ... No máximo aproximam exemplos de manifestações artísticas africanas com o entendimento de arte eurocêntrico, mas desconsideram toda a diversidade cosmológica, e descontextualizam a produção de 'sa diversidade ao fazerem interpretações formalistas que ignoram o ritual que as envolve. to sem tempo de 'crever mais, mas ... bjs Em 04/09/2008, às 08:45, Rosângela Guedes 'creveu: Arthur, agora entendi tudo e acho q vc 'tá certíssimo, chega de 'sa história de tratarem pai e / ou mãe de santo em tom de deboche. A nota foi maldosa sim e completamente desnecessária, um desrespeito grande. Se eu puder ajudar, conte com mim!! Rosângela Guedes Em 04/09/2008, às 15:26, etetuba 'creveu: Diário De o Pará Belém-PA, quinta-feira, 4/9/2008 Resposta -- Uma nota publicada em 'ta coluna Bacana do Diário do Pará e no Blog do Bacana gerou um protesto de Gilmar de Oxóssi, que mandou-nos a seguinte nota como «direito de reposta». O babalorixá Gilmar de Oxóssi, candidato a vereador em Belém por o PSol, sentiu-se discriminado por o colunista Marcelo Marques, da coluna «Bacana». Em a coluna do dia 28/08, Eu publiquei o seguinte texto: «O PSol nos apresenta como candidato a vereador um pai de santo. Imagina se o cara resolve fazer trabalho nas encruzilhadas da vida para se eleger, Belém vai car igual a terreiro de candomblé por a noite, cheio de velas». Para Gilmar, que é diretor social da Federação dos Cultos Afrobrasileiros do Pará, o colunista teve uma «atitude infeliz». «Só nós sabemos e passamos por a dor da intolerância religiosa, o preconceito. Temos um nome a zelar, seja rico, pobre, preto, branco, evangélico ou afro-religioso», conclui Gilmar. Nota da Coluna: Certamente, Gilmar, fomos infelizes na nota. Fica aqui a minha retratação pública e meu pedido de desculpas a quem se sentiu ofendido, até porque, Gilmar, a discriminação não pode surgir de uma pessoa como eu, que tive um avô umbandista praticante do qual aprendi muito e guardo grande carinho. Mais uma vez, as minhas desculpas. Nota De o BLOG: Certamente Gilmar fomos infeliz na nota. Claro que a intenção não era ofender. Apenas sou contra religiosos -- seja evangélico, católico ou outro qualquer -- serem candidatos. Mas 'ta é uma opinião minha. De qualquer forma fica aqui o meu pedido de desculpas e a minha retratação pública sobre a infeliz nota. Postado por blog do bacana-marcelo marques às 11:23 AM 1 comentários Links para 'ta postagem Em 04/09/2008, às 16:48, Veronica Maia 'creveu: É isso aí Etetuba, mostra quem é feio, quem é pobre. O que não pode é \" % * &! & querendo dar uma de bacana. Abs, Verônica E m 04/09/2008, às 19:09, Flavia Vivacqua 'creveu: Arthur, apos a nota realmente infeliz do tal colunista ... parece que houve um desfecho atencioso. apenas, sinto que seria necessario isso acontecer tambem no proprio jornal, pois o tal colunista dialogou com um publico leitor cotidiano. Número de frases: 219 tambem aproveitaria para uma manifestação simbolica e iluminada Wladimir -- sobrenome desconhecido -- é o retrato cuspido e escarrado do vagabundo clássico, do boêmio despreocupado, do bon vivan, do malandro, do playboy. Já beirando os quarenta -- trinta e tantos, segundo ele -- já exibe com orgulho a cabeleira prateada e o buxo clássico do bom bebedor. Jamais trabalhou. Fez pequenos bicos aqui outros ali, mas sua profissão sempre foi beber. Ele acorda cedinho e vai, todos os dias, secar uma garrafa de 51 ali no bar do Zé. Fica andando para a cima e pra baixo na Asa Norte. Conhece toda a pequena bandidagem das 400, todos os comerciante e principalmente todos os donos de boteco. É sustentado por o irmão -- que tem um cargo de confiança num importante tribunal da capital -- e por o pai, militar aposentado, fumante e ótimo bebedor, inteiro e lúcido como um cavalo, aos 70 e lá vai pedrada. Toda a família se abuleta num dos pequenos apartamentos da 408 e vivem amigavelmente, numa harmonia feliz, todos festeiros e bons de papo. Raquel, sua irmã, é figurinha carimbada nas noites de Brasília desde os anos 80, quando andava com a turma da Colina que introduziu o rock ´ n roll na cidade. Wladimir roda por a vizinhança sempre de bermuda e chinelão, fumando seu derby prateado e tomando as suas doses. Em o fim de semana bota uma beca mais elegante -- geralmente uma calça social e uma camisa florida aberta pra mostrar o peito cabeludo e a medalha de prata da Virgem Maria -- e sai de carro com seus velhos companheiros para tentar penetrar numa festa grafina no Park Way ou no lago sul. Muitas vezes é bem sucedido. «O melhor é boca-livre na casa de embaixador» diz ele. «Fartura globalizada." Ele recebeu nossa equipe no bar do Zé, após uma pescaria no Lago Paranoá. Exibia, orgulhoso, uma chilápia parruda e vistosa de quase dois quilos. «De aí para a cima» aumenta, orgulhoso. Acompanhando-o na mesa 'tão dois dos seus companheiros de pescaria, ambos dormindo pesadamente e babando após o dia inteiro debaixo do sol pescando, jogando baralho e tomando cachaça quente. Wladirir, no entanto, exala saúde. Vira um copo de pinga atrás do outro como se fosse água. Ele relembra, saudoso, quando viajou para a Amazônia. mais de 40 dias no mato. Sem contato nenhum com a civilização. Fui com uma galera da antropolgia da UnB pra mapear uma tribo indígena completamente desconhecida do homem branco. Subi o Rio Amazonas inteiro de barco. Vi onça, boto e jacaré. Comi de tudo o que existe. Anta, paca, tatu, todo tipo de peixe. Pescamos lá um de 200 quilos." Ele afirma que já morou no delta do Parnaíba, no Bahia e no Pará. Ama a natureza. Nenhum lugar, porém, é como " Brasília. «Aqui é minha casa." Afirma." Sou Asa Norte até a morte." Segundo Wladimir existem peixes enorme sob as águas do lago Paranoá. Afirma que existe, também, centas de jacarés " aqueles pequenos, de papo amarelo. Aquele eu pego no braço." Diz que conhece todo o perímetro do lago, as favelinhas que o cercam, as pequenas plantações de maconha e os pomares cultivados por os sem teto. «Outro dia comi uma neguinha ali numa plantação de tomate. Quando acabou ainda levei um monte para a casa. Número de frases: 41 Cada tomatão." Se você 'tiver num show de rock e o vocalista começar a tirar a roupa enquanto engole uma lata de cerveja, você 'tá num show da Honkers: garage rock com referências dos 50 ´ s + 60 ´ s + punk 77 + ska + power pop em inglês, em plena Salvador do axé. Mas há muito mais do que um strip-tease transgressor no som da banda. A Honkers é um dos conjuntos mais batalhadores da cena local, construindo uma base de fãs e lançando dois discos independentes. Os caras fizeram até uma turnê louca de 17 mil quilômetros por o Brasil, Argentina e Uruguai, num Santana Quantum atochado de instrumentos. A banda é formada por Rodrigo Chagas (vocal), Felipe Brust (guitarra base e vocal), Bruno (guitarra solo), T612 (baixo), Dimmy Drummer, (bateria) e Pj (guitarra solo). O movimento 'tá parado por enquanto, conta o vocalista «Rodrigo» " Sputter Chagas " (foto), morador da Cidade Baixa e fã de 'critores beatniks. Ele conta que existem alguns convites para tocar fora da Bahia, e projetos, mas como as expectativas em 2005 não se concretizaram, o grupo achou melhor guardar segredo. Sputter adianta que, em 2006, a banda lança uma demo novo com o primeiro EP ('gotado desde 2004) como bônus. «O disco será prensado. Por isso, 'tá demorando a sair, pois se fosse CD-R já teria saído». O histórico de turnês independentes do grupo é impressionante: em 2003, São Paulo, Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte. Em 2004, a banda tocou em festivais importantes do nordeste como o MADA (RN), Mormaço (PB) e o Punka (SE). Em 2005 rolou a grande turnê já citada. «Tenho 99,99 % de certeza que nenhuma banda brasileira fez 'se percurso de carro, que durou 38 dias e 29 shows." Mas o que é que 'tá faltando para a banda? «Um apoio, ou patrocínio, já que você quase não ganha cachê e, se ganha, não dá nem para cobrir os custos direito." Falta de locais com boa aparelhagem de som também é um dos desafios. «Em o mercado brasileiro as gravadoras só se interessam se você canta em português, as outras bandas que não se encaixam em 'se perfil 'tão fora das rádios, TVs, jornais etc.. Como tudo que a mídia usa, mais uma coisa para vender. Como não nos importamos em apenas aparecer na mídia e ficar dando uma de rockstars, nós continuamos tocando nosso rock, seja para 1000, 100, 10, 1, 0 .... O que importa é o tesão e a vontade de fazer rock and roll. Já ouvi muita gente dizer que, se a banda fosse dos Eua ou inglesa, muita gente ia 'tar babando nosso ovo, mas como o povo teleguiado não foi sintonizado nos Honkers ainda, continuamos viajando de carro e dormindo e comendo o que dão para a gente, e tocando rock até o saco e a coluna vertebral agüentarem." A história de tirar a roupa começou como uma aposta. «Falei pra uma amiga que, se ela fosse no show, eu tirava a roupa, daí ela foi. Em o lugar, não podia nem tirar a camisa. O público começou a pedir, e eu atendi. Mas não é nada premeditado, já rolou de ficar nu total, em protesto à falta de respeito da organização de um show com o público e a banda." São mitos como 'se que alimentam a notoriedade da Honkers, que usa e abusa da internet e os respectivos mecanismos facilitadores (orkut, fotolog, soulseek etc) como meio barato de divulgação. A pedido, Sputter descreveu um dia na vida de um vocalista de rock desempregado: «Geralmente é acordar quase duas da tarde se lamentando da vida. Vou para a net, olho as sete contas de e-mail, os três fotologs, dois orkuts, dou uma olhada no que baixei no soulseek, jogo vídeogame, vou andar na praia, ouço 'porro da mãe porque larguei a faculdade de filosofia (que acho que vou voltar no próximo semestre), ouço 'porro do meu pai porque não tenho um trampo ... encontro com a namorada de tarde e ouvimos uns discos antigos ... olho para minha 'tante e vejo centenas de livros fodas que eu deveria ler e não tenho saco (mas eu Tenho que voltar a ler, são Muitos Livros Bons!!!) e de madruga cultivo o velho hábito da masturbação para relaxar e ir dormir." Essa figura diz que quer envelhecer como Tom Waits, Morrissey, Billy Childish, Ray Campi, Bob Dylan, Iggy Pop, a banda The Cramps e " Lou Reed. «Se 'tivermos 1 % bem, como 'ses caras: Número de frases: 39 com vontade de tocar, nos divertindo, eu acho que dava até para fazer um show no meu enterro, com o público jogando meu cadáver no incinerador e assoprando minhas cinzas por as ruas da Cidade Baixa." É interessante como uma música leva a gente sempre para algum lugar. A o assistir a primeira música do Amaranto no DVD do Itaú Cultural, imediatamente mergulhei nos sons de um Brasil rural. Será por acaso? Acho que não. A começar por o nome. Amaranto é nome de flor. Além disso, tem a questão da origem. O grupo é de Minas Gerais. Foi criado em 2000 na cidade de Belo Horizonte por as irmãs Lúcia Ferraz, Flávia Ferraz e Marina Ferraz. Mas principal justificativa para ir ao lugar que me transportei é a sonoridade. Ouvindo os primeiros acordes, vocais e percussões de Dançapé (Mário Gil/Rodolfo Stroeter), primeira música que elas interpretam, é possível ver uma paisagem de filme de época, com longas extensões de campo, pessoas, bichos, 'tradinha de chão batido, sol laranja lá longe ... Primeira safra de musicistas profissionais vinda de uma família que nutre o gosto por a música, Amaranto resgata a tradição dos conjuntos vocais da música popular brasileira, com um jeito de tocar que é mineiro. Além da forte interpretação das músicas De o Brasil (Wander Lee) e Casa Aberta (Flávio Henrique/Chico Amaral), me chamou atenção visão realista que orienta a gestão da carreira artística de 'tas talentosas musicistas. Flávia comenta num trecho do DVD que " o Amaranto 'tá sempre trabalhando num ano com o olho pra dois, pra três anos para a frente. Isso é o caminho do grupo independente. Você tem que programar, planejar muito, porque é complicado, se não tiver um planejamento a coisa não anda, tem que 'tar na agenda». Falar em tradição, quando se trata do Amaranto, não é remeter o imaginário a uma coisa antiga. Significa dizer que trata-se de um emergente grupo que dialoga com diferentes gerações da MPB com a beleza própria de uma flor. Mais informações sobre o Amaranto Conheça também os outros artistas da coletânea «Cartografia Musical Brasileira», do Programa Rumos Brasil da Música 2004-2005: Antônio Vieira Renata Rosa Número de frases: 22 Brazil Guitar Duo Quando eu saí de casa pela primeira vez, quarenta anos atrás, minha mãe, na primeira visita que fez à minha kitinete, trouxe-me, de presente, vários artefatos de cozinha e um livro bem grosso, com mais de trezentas páginas, «Dona Benta», de receitas culinárias. Editado por a Cia.. Melhoramentos, Dona Benta me persegue: em cada livraria em que entro, por menor que seja, lá encontro o livro à venda, a mesma capa dura, o mesmo desenho da velha quitutando e da criança olhando (ninguém me tira da cabeça, apesar de eu nunca ter-me dado o trabalho de verificar, que se trata de um desenho americano) mesmo que 'te seja o único livro da seção «Culinária». Trata-se, sem dúvida, de um fenômeno editorial de grandeza. Creio que, no caso, se aplica a máxima futebolística -- Não se mexe em time que 'tá ganhando! Mas não vem daí apenas a minha implicância com o livro. Aliás, muito mais que implicância, o que eu tenho é uma opinião formada de que se trata de uma obra muito mal 'crita, mas isso ainda não seria problema se, ao menos, cumprisse, com eficiência, a função a que se propõe e é, justamente, aí que se concentram as suas maiores falhas, As receitas são de um primarismo e obviedade absolutos, raramente saindo da mais crassa trivialidade e, quando isso ensaia ocorrer, há falhas gritantes tanto no «modo de fazer» (encontrei vários que omitem etapas inteiras do processo) quanto na lista de ingredientes. Por outro lado, acho que sei o porquê do fenômeno: o tamanho do livro, a capa grossa e a ilustração, sempre reiterada, (parece que o livro tem mais do que os meus sessenta anos) fazem de Dona Benta uma 'pécie de Enciclopédia ou Dicionário, feitos para se ter na 'tante sem muito compromisso em usá-lo; muito mais que um livro de receitas um ícone do «Lar doce Lar», do lar ancestral do nosso inconsciente coletivo, eis o» appeal " que faz com que o livro continue sendo comprado, apesar de todos os defeitos que apontei, que são reais e irritantes para quem quiser usá-lo com finalidades culinárias, mas não para quem quer dar amor, como queria a minha mãe ou sentir-se na segurança daquele lar idealizado da nossa infância que os anos não trazem mais. Sem dúvida uma grande sacada que se perpetua no tempo, muito embora pudesse ser também, nada impediria, um bom livro de culinária. Imagem: Número de frases: 13 a menina nas fotos 'pelhadas é minha mãe aos seis anos de idade (1920) Próximo de comemorar seus 83 anos, a Banda de Pífanos de Caruaru apresenta o show «Em o Século XXI, no Pátio do Forró», e que também dá o nome ao oitavo disco do sexteto. Em ele, a lendária banda de Pernambuco, retoma a trilha iniciada no álbum anterior, Tudo Isso É São João, o primeiro lançado por a Trama, que saiu em 1999. Criada por o trabalhador rural e zabumbeiro Manoel Biano, em 1924, na região de Mata Grande (em Alagoas), a Banda de Pífanos nasceu para perpetuar a tradição da Zabumba Cabaçal, cultivada ao longo de décadas por a família Biano. Ao lado de Manoel 'tavam seus dois filhos: Benedito (pai de João) e Sebastião, hoje o único remanescente da formação original. Em os primeiros tempos, a banda tocava em novenas, enterros de anjos (crianças) e comemorações religiosas, enfrentando longas caminhadas para se apresentar em cidadezinhas distantes. Até que em 1939 a família Biano chegou a Caruaru, no interior pernambucano, onde decidiu se 'tabelecer. Com a morte de Manoel, em 1955, a zabumba foi assumida por João, o primeiro neto do fundador a integrar o grupo, então batizado oficialmente de Banda de Pífanos de Caruaru. Hoje, Amaro (surdo), José (prato) e Gilberto (tarol), todos membros da família, completam a atual formação, o sexteto. «Forró é a casa onde se dança», ensina João Biano, explicando que, diferentemente do que pensam muitos, forró não é um ritmo musical 'pecífico, mas sim um local em que se dança diversos ritmos da música nordestina. Veio daí a inspiração para o «Em o Pátio do Forró», xote composto por João e Gilberto Biano, que inspirou o título do álbum. «O Pátio do Forró». Fiel ao 'pírito desse gênero, o novo álbum da Banda de Pífanos exibe em suas 14 faixas uma rica variedade de ritmos. De o arrasta-pé «Marina» (de João Biano) ao clássico xote «Vida de Viajante», a banda contagia o ouvinte passando por cirandas, baiões e rojões. Trazendo cinco faixas que mencionam Caruaru nas letras, o novo álbum da Banda de Pífanos também não deixa de ser uma homenagem carinhosa, mesmo que indireta, à cidade pernambucana que acolheu a família Biano durante quatro décadas. Certo de que 'ta fase mais orientada para o forró não contraria em nada o passado musical da Banda de Pífanos, João Biano lembra que o grupo já tinha tradição em 'se gênero. «Nós tocamos muitas vezes com o Luiz Gonzaga, com Jackson do Pandeiro, Anastácia, Marinês, Trio Nordestino, com todo mundo», diz ele, referindo-se aos artistas que deram consistência a 'se gênero musical. Todos eles 'tejam vivos ou não, certamente vão receber de braços abertos mais 'se trabalho dos quase octogenários Beatles de Caruaru. O Prêmio TIM De Música Em o dia 7 de Julho de 2005, aconteceu a segunda edição do Prêmio TIM de Música. A premiação, que ocorreu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, incentiva a música brasileira. Em a categoria regional, a Banda de Pífanos de Caruaru (artista da gravadora Trama) levou o prêmio de Melhor Grupo. João Biano, da Banda de Pífanos de Caruaru, disse que não 'perava o prêmio, mas que foi muito 'pecial. «Foi totalmente diferente do acostumado». A gente recebia muitos elogios, «mas 'se foi um prêmio», disse Biano. «Foi muito contagiante, uma alegria muito forte pegar o prêmio lá em cima do palco», completou o músico. Fundação de Cultura destaca premiação da Banda de Pífanos de Caruaru Fonte: http://www.caruaru.pe.gov.br/interna.asp? idmat = 1030 A Fundação de Cultura parabeniza os integrantes da Banda de Pífanos de Caruaru por a homenagem recebida na tarde da última quarta-feira, 08, no Palácio do Planalto. O grupo foi condecorado com a entrega da Ordem do Mérito Cultural 2006, que há 12 anos premia artistas e entidades da cultura brasileira. O líder da banda, Sebastião Biano, recebeu a medalha das mãos do Presidente da República, Luiz Inácio da Silva. O tema da congratulação 'te ano foi Patrimônios, Memórias e Valores Brasileiros, que teve o objetivo de iniciar as comemorações dos 70 anos de criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. É com enorme satisfação que recebemos 'ta notícia. A Banda de Pífanos de Caruaru representa em 'te momento a riqueza dos valores que nossa cidade gera. A condecoração da Ordem do Mérito Cultural revela que 'tes artistas, que se destacam no sul do país com a nossa música popular, mantêm suas raízes e continuam engrandecendo nossas tradições», diz José Seródio, Presidente da Fundação de Cultura, sobre a satisfação em ter o grupo destacado na premiação. Banda De Pífanos De CARUARU Essa história começou de longa data, em 1924, no sertão alagoano. Lá vivia o precursor de tudo isso, Manoel Clarindo Biano. Herdeiro dos instrumentos de seu pai, um bombo, um prato e dois pífanos de taboca, deu início a uma verdadeira saga. Assim, participava das festas da região, ao mesmo tempo em que repassava seus conhecimentos aos filhos, Sebastião e Benedito. Prosseguiram entre Alagoas e Pernambuco até chegarem, em 1939, à Capital do Forró e dos Pífanos: Caruaru. Passados 16 anos, a família perderia Manoel Biano. Antes de morrer, deixou a incumbência aos filhos, Sebastião e Benedito, de darem continuidade à tradição da banda que ia além, era de geração a geração. Eles então atenderam ao pedido e com seus filhos formaram a Banda de Pífanos de Caruaru, em 1955. Em 1972, a banda viria a gravar o primeiro «LP, Banda de Pífano Zabumba Caruaru». Foi então que rumaram para São Paulo, onde participaram de documentários, 'petáculos e de discos de outros artistas. Em 1973, gravaram o volume 2 de «Banda de Pífano Zabumba Caruaru». Partiram para apresentações no exterior, onde reforçaram o valor dado, também em outros países, à cultura popular nordestina. Vítima de problemas cardíacos, um dos fundadores da banda, Benedito Biano, faleceu em 1999, em São Paulo. A banda continua e ao longo dos tempos, viria a gravar mais seis discos e com eles ser reconhecida no cenário musical nacional e internacional, como o Grammy Latino, na categoria Melhor Grupo Regional de Raiz, com o disco «Banda de Pífanos de Caruaru: no Século XXI, em 2004». Contatos Artísticos MXT -- Produções Artísticas Tel. (11) 9200-0987 mxtprod@ig.com.br Ouça as músicas nos Links: http://www.trama.com.br/portalv2/album/index. Número de frases: 58 jsp? id = 1701 Trânsito lento, sinal vermelho ou engarrafamento. Impossível não olhar a traseira dos ônibus e observar a propaganda ocupando metade ou até mesmo toda a lataria e vidros do veículo. De repente, uma imagem apenas. Sem assinatura, sem explicação. Nada. Apenas uma imagem totalmente diferente do que sempre 'tá lá. Um novo suporte para arte. É o que vai acontecer, em janeiro, em alguns ônibus de Belém. Os anúncios publicitários serão substituídos por obras de arte, que saltaram das galerias e vão percorrer rotas diferentes coladas em 26 ônibus. Terá início, então, a 2ª edição do projeto Itinerários, onde 13 artistas visuais paraenses levarão arte ao centro e à periferia. Por o segundo ano consecutivo, o projeto de arte pública Itinerários vai rodar a cidade nos ônibus e chegar mais perto das pessoas. Este ano, cada artista terá dois ônibus como suporte para suas criações e, então, 'tes farão seus percursos habituais por a cidade, oferecendo arte de graça a toda população. Com a dimensão de público ampliada, o grupo acredita contribuir para uma descentralização artística. «A arte não se faz apenas com o público que freqüenta as galerias. Nós 'tamos nos doando a um grande público e tentando ser democráticos. Não nos limitarmos a um 'paço amplia os sentidos de cada obra através dos vários olhares», afirma a fotógrafa Bárbara Freire. Ao lado de ela, 'tarão os artistas Cláudio Assunção, Roberta Carvalho, Danielle Fonseca, Daniely Meireles, Flávio Araújo, Glauce Santos, João Cirilo, Keyla Sobral, Neuton Chagas e Paulo Cezar Simão, além dos convidados Maria José Batista e Acácio Sobral. A exposição nas ruas da cidade começa a percorrer seus itinerários no dia 10 de janeiro de 2007 e será um presente à Belém, que comemora 391 anos dois dias depois. A o final, Itinerários vai contar com o lançamento de um DVD com encarte impresso, para documentar a interação do público com as obras, suas opiniões, além dos depoimentos dos artistas e da curadora, " Marisa Mokarzhel. «É um projeto que aproxima as pessoas da arte seja por a curiosidade, indagação, prazer ou indignação ao ver a imagem. O cotidiano é interrompido por algo que não é usual e gera uma quebra em 'se olhar», afirma Marisa. «É uma proposta frutífera e muito importante tanto para a população quanto para os artistas entre eles, que discutem arte e a forma de trabalho coletiva e individual», completa. As criações adesivadas nos ônibus não levarão a assinatura dos artistas, legendas, nem qualquer explicação sobre o novo formato. A proposta não é divulgar os artistas envolvidos, mas disseminar a arte e permitir o questionamento livre do público, deixando a obra aberta às mais variadas interpretações. «Não carregamos no projeto o rigor de nos fazermos entender. Cada um vai absorver a idéia da obra como lhe convir. O 'tranhamento do observador ao encontrar uma obra onde nunca existiu, para nós, já é uma quebra muito significativa», afirma Roberta Carvalho. Em sua 2ª edição, patrocinada por o Banco da Amazônia, Itinerários mostra sinais de amadurecimento e sedimentação. Em a edição anterior foram desenvolvidas obras livres. Com a percepção da importante variedade de público, que vai desde o centro da cidade, passa por a periferia e chega a cidades vizinhas, a questão centro-periferia foi eleita como eixo temático para nortear as criações. Além disso, o salto de 12 ônibus -- da primeira edição -- para 26 ônibus, em 'ta, foi significativo. A proposta é ampliar e chegar a mais ônibus e mais artistas, 'tabelecendo um calendário de arte pública na cidade. Número de frases: 32 Texto de Annete Morhy Imagine jogar sinuca dentro de um autêntico salão do início do século XX, nas mesas onde jogaram os grandes mestres, bebendo cerveja gelada e apreciando uma das mais belas vistas do centro. Este paraíso da boemia carioca fica na praça Tiradentes, endereço dos Bilhares Guanabara e Guarany. Começamos nossa viagem por o Rio Antigo no Salão Guarany, o mais antigo da cidade com os seus 111 anos, ainda em pleno funcionamento. O nosso Guia em 'se universo da sinuca é o próprio dono do salão, gerente e faz-tudo, Francisco José dos Santos Leal, o Chico, que nos contou um pouco da história do lugar e do jogo no Rio de Janeiro. «A época de ouro da sinuca no Rio foi nas décadas de 50, 60. A casa ficava tão cheia que enquanto o sujeito aguardava a sua vez para jogar, cortava o cabelo e fazia as unhas dentro do próprio salão», apontando para o mezanino onde funcionava a barbearia. Em aquela época havia no centro da cidade aproximadamente 25 salões, a grande maioria com licença para funcionar como barbearia e manicure. «Era comum ver senhores entrando a uma da tarde e saindo à noite, com a barba aparada e unhas feitas, prontos para a boêmia». O salão Guarany conta com oito mesas oficiais, na maior parte do tempo disponíveis. «A mais nova aqui tem 60 anos. Ainda tenho mais quatro desmontadas que também são de 'sa época». Visitar o Bilhares Guarany é dar um mergulho no Rio antigo, não é à toa que o salão serve de cenário para filmes, como o documentário Meu tempo é hoje sobre Paulinho da Viola, e recentemente para o filme de Ricardo Van Steen, Noel -- poeta da vila, sobre a vida do eterno " Noel Rosa. «Durante um momento de sua vida, Noel morou perto da praça Tiradentes e gostava muito de freqüentar sinucas. A história que os jogadores antigos contam é que ele jogou muito no salão. As probabilidades são grandes, por isso a equipe de filmagem achou bom filmar por aqui." De o outro lado da praça 'tá o Bilhares Guanabara, administrado por o advogado José Moreira, que tem a fama de xerife gente boa no salão. O salão do Seu Zé é provavelmente um dos mais bonitos do Rio, com a famosa varandinha com vista para a praça Tiradentes -- perfeita para 'ses dias de verão -- e com 16 mesas impecáveis, o salão é ponto de encontro de mestres do taco como Jairzinho, que costumam ensinar àqueles que querem aprender os segredos do jogo. Entre as personalidades que já freqüentaram o Guanabara 'tão muitos artistas, do calibre de Zé Ketty, Ataulfo Alves e Mário Lago, que após as suas apresentações iam se divertir no salão. «Mario Lago tinha sua turma, gostava daqui. Mas não jogava muito bem não», relembra o aposentado Benito dos Santos que há 58 anos joga no salão. Quando comprou o salão na década de 80 a jogatina tomava conta do lugar, era comum ver gente apostando e criando confusão. A polícia, segundo Moreira, chegava a prender 20 pessoas num mesmo dia no local. «Levei cinco anos pra expulsar os pilantras daqui. Assim como o Chico do Guarany, Seu Zé afirma que a sinuca não é um negócio rentável: «Eu só coloco dinheiro aqui, não tiro». Já Chico diz que se arrepende de ter investido no salão, afirmação que se contrapõe ao seu entusiasmo quando fala sobre sinuca, e sobre o Guarany. O amor a sinuca fez com que o dois, mesmo com toda as dificuldades, preservassem parte da alma de um Rio Antigo que já não volta mais. Os dois salões ficam abertos de segunda a sábado, de meio-dia até a saída do último cliente. Boas tacadas Serviço: Bilhares Guarany, praça Tiradentes, 87, Centro Preço: R$ 8,40 até às 18:00 após R$ 10,80 Bilhares Guanabara-Rua Pedro I, 7, Centro. Número de frases: 33 Preço: R$ 12 Ouço todos os dias as pessoas falando «Nossos jovens 'tão se perdendo» ou «Nossa geração foi muito mais ousada». Hoje tive a oportunidade de sentir o quanto falta apoio as práticas culturais, fui sem nenhuma pretenção levar um pequeno primo em sua aula de música, ele 'tá aprendendo tocar clarinete, que para quem não conhece é uma 'pecie de flauta, só que muito mais complexa. A o chegar em 'sa 'cola vi várias crianças interessadas, que levantaram as 7 da manhã e com seus cadernos pautados de musica foram para a simples 'cola, chegando lá o professor, que não tem culpa alguma entrega a seus alunos alguns instrumentos, o que me chamou mais a atenção foi 'tado dos instrumentos, como poderia sair som daquilo? o mesmo tinha partes quebradas, 'paradrapos enrolados em toda parte e o pior, alguns alunos tinham que 'perar pois não haviam instrumentos para todos. Talvez 'sa realidade seja diferente nos grandes centros, mais levando em consideração o interior do Estado do Rio, ou até mesmo o interior de outros 'tados isso é uma completa verdade. O professor virou para mim e me perguntou: Como posso? Você me ajuda? Número de frases: 9 Acho que é mais que minha obrigação como alguém que se interessa por cultura, mais talvez a pessoa errada, já que quem poderia 'tá de braços cruzados. André Oliveira tem 13 anos. Fábia de Alencar tem 15 anos. E Maurício Costa 16. O que eles tem em comum? Fácil. Adoram passar horas e horas na frente do computador. Estão conectados ao mundo virtual. Pra ser mais exato, descobriram e adotaram a lan house como o mais novo ' point ' da galera que mora longe do centro, na periferia da zona leste de Porto Velho, nos bairros Tancredo Neves, JK e São Francisco. Ambos tem a internet como fonte de informação, diversidade e, claro, muito bate-papo. Orkut e YouTube também, mas não é só isso. Em a zona leste, a primeira lan house -- S&S. com -- foi criada em 2004 e servia apenas para digitação de trabalhos, impressões de formulários e currículos. A internet chegou mais tarde. Em o início, havia pouquíssimas máquinas e a intimidade dos usuários se aprofundou com um tempo, diz o " gerente Daniel Diego. «Acredite, tivemos que ensinar algumas pessoas como usar o computador, abrir o programa Word e salvar um documento logo quando abrimos a lan. Não foi fácil e isso acontece até hoje». Isto significa, do ponto de vista lógico, que o aumento de usuários nas lans 'tá crescendo muito mais do que se imaginava, mas falta aprendizado. Principalmente na periferia. Segundo Diego, mais de 350 usuários não desgrudam do computador todos os dias na S&S. com." Parece que 'tou em outro mundo quando vou à lan, porque é como se fosse uma viagem que não precisa de muito dinheiro», imagina André sem tirar a atenção do jogo Counter Strike, um de seus preferidos. Uma hora na frente do computador custa R$ 1 real, mas segundo Diego, normalmente a maioria fica mais de quatro horas. No entanto, a preferência é variável. Fábia, por exemplo, exibe toda pomposa suas inúmeras janelas abertas no programa de bate-papo (MSN). São amigas, paqueras e gente que ela acabou de conhecer. «Eu sei que é importante 'tudar, mas navegar na internet e conhecer novas pessoas é bem menos entediante», brinca. Para Maurício, que curte livros e literatura, a internet serve para aprofundar seus conhecimentos e participar de fóruns, blog ´ s e grupos virtuais. «Dificilmente participaria disso aqui no bairro, justamente por a carência de tantas coisas. A internet facilita meus 'tudos», explica enquanto lê Machado de Assis. O professor universitário Geovani Berno aponta a internet, conseqüentemente as lan ´ s, como mais uma ferramenta que vem conseguindo se infiltrar nas comunidades carentes. «As 'colas poderiam ser uma forte aliada em 'se processo, mas ainda falta 'trutura», comenta. E ele tem razão. Somente cinco lan ´ s habitam na periferia da zona leste. Funcionam a partir das 08 horas, mas fecham cedo, às 22 horas. Motivo de segurança. Falta expansão das lan ´ s? Falta. Mas também faltam projetos e investimentos que familiarizem comunidades que ainda não tiveram acesso à rede, muito menos imaginam o que sejam lan-house. Número de frases: 35 Conselho Nacional de Cineclubes encerra Jornada em Santa Maria A 26ª Jornada Nacional de Cineclubes, promovida por o Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, encerrou suas atividades em 'ta sexta-feira, 14, em Santa Maria (RS). Participaram do encontro 60 entidades representativas de 15 'tados brasileiros, que avaliaram as atividades cineclubistas e 'tabeleceram as políticas e diretrizes do movimento. Durante os trabalhos da 26ª Jornada foi eleita a nova diretoria do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC). Ao longo dos cinco dias que durou o encontro, debateram-se, entre outros temas, as principais propostas da nova diretoria do CNC, em continuidade as ações desenvolvidas por a gestão anterior: recuperação do 'paço cineclubista junto à sociedade, reconhecimento institucional do cineclubismo e construção e consolidação de uma ampla rede nacional de cineclubes. Também são prioridades do CNC a integração com o movimento cineclubista latino-americano e mundial, a luta por os direitos de exibição cultural, aprovação das propostas cineclubistas para a Ancinav, participação na regulamentação da Ancinav, constituição de uma frente parlamentar de apoio ao cineclubismo, participação nos debates e nas lutas das entidades do cinema brasileiro, consolidação da interlocução com os governos federal, 'taduais e municipais, 'tabelecimento de projetos de fomento e apoio ao cineclubismo, criação e consolidação de uma ampla rede de cineclubes e consolidação das disposições 'tatutárias. Patrocinadores e apoiadores Promovida por o CNC, a 26ª Jornada foi organizada por o Cineclube Lanterninha Aurélio, Cineclube da UNIFRA Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (CESMA) e Santa Maria Vídeo e Cinema. O evento contou com o apoio da Estação Cinema -- Associação dos Profissionais Técnicos de Cinema e Vídeo de Santa Maria, Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos (APTC/ABD-RS), Prefeitura Municipal de Santa Maria, Petrobrás e Secretaria do Audiovisual do MinC, através do Fundo Nacional de Cultura -- FNC. A diretoria eleita A diretoria eleita do CNC, formada por representantes de cineclubes de todas as regiões brasileiras, ficou assim constituída: presidente, Antonio Claudino de Jesus; vice-presidente, Luiz Alberto Cassol; secretário, João Baptista Pimentel Neto (suplente, Eduardo Benfica); tesoureira, Rosangela Rocha (suplente, Francisco Giovanni Fernandes); diretor de Formação e Projetos, Frederico Cardoso (suplente, Leila Pinto Barito); diretora de Arquivo e Difusão, Débora Butruce (suplente, Marcio de Castri Bertoni); diretor de Comunicação, Beto Leão (suplente, Carlos Alberto Badke). O II Encontro Ibero-Americano de Cineclubes Durante a 26ª Jornada, foi realizado também o II Encontro Ibero-Americano de Cineclubes, do qual participaram 15 representantes de 08 países. O presidente da Federação Internacional de Cineclubes, Paolo Minuto, 'teve presente ao Encontro. Número de frases: 22 Beto Leão -- Diretor de Comunicação do Conselho Nacional de Cineclubes Começo já desmistificando (ou mitificando). Apesar de viver minha infância, paralelo ao final do período de vida de Euclides, eu nunca o vi pessoalmente. Mas isso não é fator para se apreciar algo. Aliás, é para isso que serve a história ou as 'tórias. Para criar uma personagem, de acordo com a perspectiva de cada um. Ainda que se tenha uma referência da imagem deste algo. A perspectiva é sobre o todo e não apenas de uma das partes. Por isso, tiro agora Teixeira Neto da primeira pessoa, com o intuito metalingüístico (e não apenas 'te) de colocar-me como a primeira pessoa para assim relatar meu ponto de vista, meu conhecimento e a imagem que criei do meu Euclides. Ela pode ser parecida com a de outros, mas nunca será igual. Baseio-me em livros (principalmente os 'critos por ele mesmo), algumas teses, periódicos, hipertextos, outras biografias paralelas que influenciaram e vivenciaram no seu mesmo período e em períodos posteriores, captados através da linguagem 'crita, da oral e da imagética. Eis a biografia ... Fui 'cutar o seu nome pela primeira vez quando adolescente. Contato ínfimo para saber unicamente que na minha cidade havia um 'critor. Apenas tardiamente soube que ele tinha outros ofícios e feitos. Um de eles o de advogado; que defendia o povo, principalmente referenciando à classe do trabalhador rural. Chamavam-no de «Dotô Ocride» e de «Advogado de pé de ladeira». Suponho que por o fato de que seu 'critório situava-se ao fim da ladeira da Siqueira Campos, uma das ruazinhas da saudosa Ipiaú (Ba), onde passei anos da minha infância. Em 'ta pequena cidade de várias possibilidades descobri um bairro denominado Fazenda do Povo e um museu, Museu do Lavrador. Em o primeiro, residiam trabalhadores rurais desempregados que tiveram a oportunidade de ganhar 'te pequeno pedaço de terra ao vivenciar o primeiro feito bem-sucedido da Reforma Agrária da Bahia. O prefeito, no ano de 1962, desapropriou uma propriedade rural e por conseqüência sofreu inquérito policial no ano de 1964. Referências observadas nos livros, 64: Um prefeito, a revolução e os jumentos (1983), e Trilhas da Reforma Agrária (1999). Já o segundo, era um local para exposição das ferramentas de trabalho, do trabalhador rural ao profissional de medicina. Surpreendi-me quando soube que Euclides José Teixeira Neto foi o bem-feitor de eles. O museu não foi mais em seu mandato, foi no do então prefeito Hildebrando Nunes Rezende, para a comemoração dos cinqüenta anos da cidade, fundada em 02 de dezembro de 1933 promulgada por a Lei Estadual nº 8.725, com o governo de Juracy Magalhães. O município chamava-se Rio Novo e só em 31 de dezembro de 1943 passou a ser chamado de Ipiaú, de origem tupi-guarani e que significa: «Rio «Novo». Nossa cidade recebeu o título de município modelo da Bahia, no mesmo ano do inquérito. Tenho muita afeição a 'tes fatos, por o caráter possível que Euclides aplicou às doutrinas socialistas. Euclides era socialista declarado. Pode-se observar na sua literatura (priorizando sempre a imagem do trabalhador rural como o oprimido e a do fazendeiro como o opressor), no ofício do direito (quando defende apenas a classe dita, oprimida), na atividade política (realizando a desapropriação, o que antigamente era visto apenas com a característica do oprimido e como pessoa (criando animais com sentimento, não como produto, etc.). Li uma biografia 'crita por o professor e historiador Albione Souza, onde apresenta como fator preponderante para a formação do caráter socialista em Euclides o fato de quando muito jovem, foi morar em Salvador, tinha cerca de11 anos de idade, para 'tudar nos colégios Antônio Vieira e Central; a influência do professor Torrend, que também era padre e proprietário do pensionato onde ele residiu na capital, ainda a formação acadêmica em Direito por a Universidade Federal da Bahia. Vivendo paralelamente à mesma infância de Euclides, Josaphat Marinho complementa que com a experiência de vida de eles naquela época, e principalmente as experiências vividas por Euclides, há a possibilidade de afloramento do socialismo em ele. Por as desigualdades sofridas e por presenciar a ânsia de enriquecer que tinham os fazendeiros e comerciantes. Um senso comum diria que foi uma construção. Foi cronológico. Marinho 'creveu para o Caderno Cultural do jornal A Tarde, na página 05, no dia 20/05/2000, pouco mais de um mês após da morte de Euclides. De a morte de ele eu me lembro. Toda a cidade em luto. Não fui à 'cola para homenageá-lo. Mas também não o vi. Todos pararam seus afazeres por uns dias para sentir a ausência e a importância de ele. O companheiro Ely Fonseca, agrônomo e funcionário da CEPLAC de Ipiaú, desabafa sobra à perda do amigo, ao 'crever que «Ipiaú inteira chorou à partida de um personagem da mais alta relevância que por ali passara». E prometendo «hastear a bandeira» que Euclides ergueu, para seus descendentes, assim o faz. Um dos meus principais influenciadores emprestou-me sua coleção euclidiana. Alguns de eles até autografados. Cito também meu avô, Edward Pereira de Oliveira, que também me doou alguns dos seus livros que ficavam guardados numa 'tante 'pecial do seu 'critório. Suas obras publicadas: «Porque o homem não veio do macaco «(data),» Berimbau (1946)», «Vida Morta (1947)»,» O patrão (1978)», Os Genros (1981)», «64: Um prefeito, a revolução e os jumentos» (1983), «Machombongo (1986)»,» O Menino Traquino (1994)», «A Enxada (1996)»,» Dicionareco da Roças de Cacau e Arredores (1996)», Trilhas da Reforma Agrária (1998)», «O Tempo é Chegado» (2001 -- livro póstumo, de contos, publicado por a EDITUS) e «Os Magros (1956)». Citei «Os Magros» por último propositalmente. Não apenas por ser o livro da adaptação para o roteiro, mas também por 'te livro ser presente 'pecial de uma companheira, Liz Maria Teles de Sá Almeida -- licenciada em Letras por a UNEB. Talvez por isso o caso de amor com o livro. Não agrego maior importância a nenhum de eles, os livros. Acredito que cada um tenha sua devida importância e se complementam. A vontade de levar a bandeira hasteada adiante permanece. E enquanto houver história e possibilidades narrativas, Euclides viverá. Uso como ponto de partida o cinema, minha formação acadêmica atualmente em curso. É o meu compromisso. Será minha história. Cabe enfatizar que, nunca tive um contato pessoal com 'te Grande Homem, mas o contato que tive através de todo material direcionado a ele, foram suficientes para perceber a sua vontade de mudar as pessoas, de mudar o mundo e o que há de errado em ele. E assim eu fui adentrando e conhecendo Euclides com mais atenção, deixei-me permitir e ele agora não sai mais da minha cabeceira. Quem não conhece Euclides, desconhece um pouco da nossa História, da história da Bahia e de Ipiaú. Não sei se ele queria ser um exemplo, mas felizmente ficou o exemplo da Personalidade, da Pessoa Pública e do Homem à frente do seu tempo! Em a verdade chego à conclusão que «Dotô Ocride» nunca morreu de verdade. «É eterno tudo aquilo que reside na memória». ( Rubem Alves). Fico feliz por você existir! Euclides José Teixeira Neto nasceu no dia 11 de novembro de 1925, no povoado de Jenipapo, distrito de Areia (atual Ubaíra). Viveu praticamente maior parte da sua vida em Ipiaú e morreu em 05 de abril de 2000, na cidade de Salvador, conseqüência de uma parada cardíaca. Socialista, acreditava que o mundo deveria ser por 'sência, comunista. Prefeito da cidade de Ipiaú, Secretário da Reforma Agrária do Estado da Bahia, Secretário da Assistência Social, 'critor regionalista, advogado de pé de ladeira. Número de frases: 73 Segundo Alcino Ferreira e Clemente Lizana (in memorian), no texto «A questão do corpo nos movimentos populares», educadores populares da Equipe» Habeas Corpus de Recife: «Os nossos corpos são portadores, por assim dizer, de feridas e de cicatrizes imprimidas por a organização do universo político e por a repressão social." Já Frei Betto, em artigo de sua autoria intitulado corpo cósmico, afirma: «Esse corpo que somos dorme e sonha, sofre e goza, sabe-se feliz ou contrai-se em tristeza, 'banja saúde ou fragiliza-se na doença. Sobretudo, é capaz de algo inacessível a todos os outros animais: sorrir. E, no entanto, ainda vivemos num mundo submerso em lágrimas. Porque 'se corpo, provido de sentimentos e emoções, guarda rancores, iras e ódios, embora tão capaz de compaixão, ternura e amor." Toda 'ta reflexão, se colocada durante as décadas de 60 e 70 como ponto de partida, para discussão de um projeto coletivo junto a pessoas e grupos que atuavam junto a movimentos populares, sindicatos, entidades e a maioria dos agrupamentos de 'querda, seria no mínimo 'tranho, ou acusada de 'tar querendo desviar o potencial de mobilização e / ou politização das massas. Como a maioria das lideranças daquela época não percebeu a importância de valorização dos aspectos ligados a cultura, ao corpo, a 'piritualidade e a subjetividade, algumas reações vieram a tona, como: o cansaço, o isolamento, a perda do sentido do projeto político, o martírio do corpo no exercício da militância que traria, no amanhecer, a revolução. Já no momento atual, constata-se a partir da contribuição de pensadores engajados, principalmente aqueles ligados aos 'tudos da filosofia, das tradições religiosas e da psicologia que um dos principais problemas que impedem a construção de homens e mulheres novos e uma efetiva mudança das 'truturas sociais é exatamente 'ta visão fragmentada, dividida e separada das questões que nos dizem respeito, tanto em termos do ser individual, como do ser coletivo. Urge, parafraseando Proust: buscarmos a unidade perdida, afinal dividimos o mundo em territórios. Quebramos a unidade do conhecimento e do ser. Para os cientistas, damos a natureza; aos filósofos, a mente; para os artistas o belo; aos teólogos, a alma. A própria ciência foi fragmentada de tal forma que, por falta de aproximação e entendimento de profissionais dos ramos diversos, muitos projetos fracassam (ram) com possibilidade inclusive de comprometer a sobrevivência das 'pécies e do próprio planeta. Com o objetivo de possibilitar a colagem das partes, diversos filósofos, cientistas, teólogos, psicólogos, artistas e educadores 'tão buscando no resgate da tradição em diálogo com as descobertas e insights atuais, algumas saídas para a crise individual, social e planetária que aflige a todos nós no inicio deste novo século. Um destes nomes é o de Bernhard Wosien, bailarino e coreógrafo alemão que, inspirado por o imenso potencial das danças folclóricas, e após intensa pesquisa baseada principalmente na tradição alemã, criou em 1976 um movimento intitulado «Danças Circulares Sagradas», que nasceu na comunidade 'piritualista de Findhorn, no norte da Escócia. O resgate de 'sas danças representa uma retomada de antigas formas de expressão de diferentes povos e culturas, acrescidas de novas criações, coreografias, ritmos e significações próprias do homem inserido na realidade atual. Aqui em nossa região, no ano de 1999, o Cenap (Centro Nordestino de Animação Popular) inicia uma série de oficinas com William Walle, em Recife (após 'se momento, outras cidades da região foram incluídas), e através de outros focalizadores, como Álvaro Pantoja. Através das danças circulares, algumas questões tratadas no texto: «A questão do corpo nos movimentos populares», 'crito no final da década de 80, por Clemente Lizana (in memoriam) e Alcino Ferreira podem ser trabalhadas, são problemas de comportamento que freiam o avanço dos processos coletivos decorrentes do: · Individualismo, · De a concorrência, · De a vontade de dominar os outros ou da subserviência, · De a intolerância perante as colocações alheias, · De a falta de confiança nas capacidades próprias, · De a desconfiança nos outros, · De o acanhamento, · De a falta de vitalidade e da passividade, · De a incapacidade de se concentrar. Como já sabemos, 'tas condutas são provocadas e incentivadas, de mil maneiras, para garantir a reprodução do atual modelo injusto e excludente. P.S,: 1) Em alguns 'tados existem pessoas, grupos e entidades que se dedicam em promover a disseminação do conhecimento sobre danças circulares. Procurando no google certamente encontrará alguém ou algum local mais próximo. De entre muitas, destacamos: Roda dos Povos -- Encontro Brasileiro de Danças Circulares ... Sagradas www.rodadospovos.com.br Encontro Nordestino de Danças Circulares (Recife-PE) www.encontro.nordestinodc.nom.br Mana-maní (Belém-PA) www.manamani.org.br Rodas da Lua -- Grupo Rodas da Lua (Brasília-DF) www.rodasdalua.org.br UniLuz (Nazaré Paulista-SP) www.nazarevivencias.com.br Giraflor (Curitiba-PR) www.dancascirculares.org Roda de Luz (Rio de Janeiro-RJ) www.dancascircularesrj.com.br Triom -- Centro de Estudos, Livraria e Editora (S.Paulo-SP) www.triom.com.br/paginas/p04-4 fr.html 2) Em os dias 08 e 09 de Março (sábado e domingo) 'tará sendo realizado aqui em Aracaju, mais um encontro de danças circulares, quem quiser saber mais, clique aqui. 3) Dançar quer dizer, Sobretudo comunicar, Unir-se, Encontrar-se, Falar com o próximo no profundo do seu ser. A Dança é união, de pessoa com pessoa, de pessoa com o universo, de pessoa com Deus. (Maurice Bejart) A canção do bailarino «Tu que moves o mundo, agora moves também a mim Tu me tocas profundamente e me elevas a ti Eu danço uma canção do silêncio, Seguindo uma música cósmica e coloco meu pé ao longo das beiras do céu Eu sinto como teu sorriso me faz feliz». Número de frases: 67 Bernhard Wosien Espremido Entre Uma Grande Fábrica De Transformadores E A Lagoa De o Urubu, O Bairro Floresta, Em Fortaleza, É Pródigo em Embaralhar As Noções Espaciais E Geográficas De Qualquer Forasteiro O Floresta é um bairro onde sagüis saltam dos galhos das árvores e se empoleiram nas cumeeiras das casas à procura de ovos de pardais. Em seguida, porque são muito pequenos e não aprenderam ainda a voltar por o mesmo caminho que trilharam até ali, devem ser retirados do alto por meninotes que ontem mesmo 'tavam «pescando» camaleões às margens da lagoa do Urubu. Em o Floresta, policiais militares interrompem a ronda diária para dar um trato no cabelo no Salão de Beleza do Régis. Aberto das 8 ao meio-dia e das 14 às 20 horas, ele é o mais famoso gabinete da área. Em ele, enquanto um PM embeleza-se, de frente para o 'pelho os demais 'premem cravos e 'pinhas, conferem se o colete à prova de balas 'tá mesmo rente ao peito ou as mangas da camisa preta em cujas costas lê-se «Força Tática» 'tão rigorosamente dobradas, expondo uma ou outra tatuagem. Em o Floresta -- que, na verdade, são dois: o de lá, do outro lado da lagoa do Urubu e o de cá --, o que resta de uma construção em alvenaria apelidada não por acaso de Muro de Berlim serve de anteparo a grupos de meninos que praticam pequenos delitos e depois se 'condem no breu da noite, deixando os moradores em polvorosa. Lá, atendentes de supermercado e entregadores de farmácia se reúnem fora dos seus turnos de trabalho para jogar dama e, via TV a cabo, assistir ao desempenho das duplas femininas de vôlei de praia nas areias pequinesas. Em 'se bairro, líderes comunitários atiram-se na frente dos ônibus de modo a forçá-los a cumprir o itinerário normal, 'ticado até a última casa do bloco G. Para eles, ainda que motoristas e cobradores temam os perigos do lugar, nenhum passageiro deve ser 'quecido sob a sombra de alguma árvore. Ainda no Floresta, todas as casas têm o mesmo número: 624, e as ruas, uma letra que vai de «A» até «G». Os apartamentinhos, por sua vez, têm apenas quatro opções de denominação: 1, 2, 11 e 12. Os dois primeiros números em baixo; os demais, em cima. Em a mesma rua, portanto, há muitas moradas 1 ou 12. É plenamente possível que haja duas donas de casa chamadas Maria que residam no bloco E, casa 1. Pior para o carteiro, o entregador de gás ou alguém que displicentemente desça do ônibus Antônio Bezerra/Álvaro Weyne atrás da fábrica de transformadores e saia caminhando à toa por as ruas. Menos por a distribuição numérica das construções do bairro e mais por sua arquitetura, Francisco Manoel de Andrade, 43 anos, fiscal de trânsito e morador do Floresta, defende: «Isto aqui é como se fosse um condomínio fechado». As ruas de lá não têm propriamente nomes. «Você chama 'ta rua aqui de E, por exemplo, mas na verdade o bloco é que é E», desanuvia. Em o Floresta, as casas -- sala, cozinha, banheiro e quarto apertados -- pertencem a quadras. As quadras, a blocos. Batizados com as primeiras oito letras do alfabeto, os blocos distribuem-se paralelamente. São cortes transversais no quadrado formado por as ruas Frei Odilon, Pedestre, Luiz Guimarães e uma última aparentemente sem nome. Segundo dados da Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza, a última rua não tem oficialmente denominação. Não tem para a burocracia do município. Para Célio, 'pécie de Cristóvão Colombo do Floresta, a rua bem que podia se chamar «Loura». «Seria Rua da Loura», gargalha. A musa inspiradora do mecânico, que também atende por a alcunha de Louro -- aos 51 anos, Célio tem cabelos claros 'fiapados e olhos azuis -- repousa dentro de casa, no quartinho que dá para o amplo quintal à beira da lagoa. Ela tem quase 10 anos, fios dourados caindo sobre os olhos saídos aos do pai. É a cria mais nova do casal Louro & Cléa, que divide os metros quadrados domésticos com Chico & Família. Chico é um sagüi heterodoxo. Chegou à casa de Louro sem ser convidado, mas logo ganhou a confiança de todos. Após ter-se fixado e criado hábitos por os quais ficou famoso, tratou de ganhar o mundo. «Ele ficou uns três ou quatro dias fora», relembra o mecânico. Quando voltou, trazia na algibeira uma 'posa. A família de Louro assustou-se com a proeza do bichinho. Cheia de manha, a mulher de Chico também foi aceita no número 1 do bloco E. Ocorre que, semanas depois, Chico e cônjuge misteriosamente desaparecem. Nem maior, nem menor: o susto de Louro foi semelhante ao da primeira deserção do sagüi, quando ainda era solteiro. Seu novo retorno, porém, seria marcado por 'tupefação generalizada. «Ele chegou trazendo a mulher e um filho." De lá para cá, Chico tem se aquietado. Louro também é o cartão de memória da comunidade. Desfia histórias com a mesma facilidade com que Chico dá 'capadinhas. Ele conta: foi o primeiro morador a chegar ao Floresta. «Quando recebi as chaves, 'tava na Regional I consertando um carro." Fez a mudança no lombo de um Fusca, que vendeu para comprar o Fiat Elba 89. Ele narra: à falta de posto de saúde que atenda os moradores do lado de cá do Urubu, o galego pode ser surpreendido no meio da noite por alguma urgência. Em um salto, põe-se de pé, veste-se ligeiro, corre até a garagem e gira a chave do carro. «Este carro aqui já carregou muito baleado, 'faqueado." Em outro momento, porém, Louro parece mesmo remexer as camadas mais fundas da identidade dos moradores do Floresta. Convidado a historiar, não resiste. Diz certeiro: «Aqui é Floresta porque só tinha mato». Pronto, acabou-se. Perfil do Bairro Entre o Álvaro Weyne, o Jardim Iracema e a Barra do Ceará, bairros localizados na área da Secretaria Executiva Regional I, em Fortaleza, o conjunto habitacional Floresta foi construído e entregue a comunidades de baixa renda ainda no final da década de 1990. Em 1998, moradores de bairros vizinhos e de localidades mais distantes cadastrados nos programas habitacionais do município receberam as chaves de casinhas de quatro cômodos. Conjugados, os pequenos apartamentos 'palham-se através de blocos e quadras dos dois lados da lagoa Urubu. Atrás da Cemec, fábrica de transformadores, fica o bairro Floresta II. Atravessando-se a lagoa, o Floresta I. Juntos, eles têm aproximadamente 28 mil habitantes. Para atendê-los, um único posto de saúde e uma 'cola. Vistas de cima, a partir de fotos de satélite disponíveis no Google Maps, as casinhas que integram os oito blocos do Floresta II lembram peças de montar, de 'sas muito comuns nos jogos Lego. E a silhueta do bairro, um tablete de chocolate mordido numa das quinas. De o outro lado da imensa mancha verde riscada de veias mais 'curas que forma a lagoa do Urubu, o Floresta I, que tem 14 blocos de casas, assemelha-se a um grande peixe fossilizado. Mas sem o rabo. Número de frases: 69 Para ver as imagens aéreas do bairro Floresta ou de outras localidades de Fortaleza, basta acessar o site www.maps.google.com.br. A entrevista com Carlos Lyra aconteceu no 'critório do músico em Ipanema. Ano: 1998. O bate-papo seria sobre a biografia -- um CD-Book -- que Lyra 'tava 'crevendo, além dos 40 anos de Bossa Nova. Demorou uma década para ele publicar o livro -- «Eu e A Bossa» -- e falar publicamente algumas das afirmativas que já discorria em alto e bom som naquela época. Em a entrevista, ele comenta várias passagens da Bossa Nova, a sua ruptura com os companheiros de banquinho e violão, a parceria com Vinícius, a dispensada que Tom Jobim deu em Elis Regina e o seu auto-exílio no México e Estados Unidos para fugir da Ditadura. Também reclamou por Ruy Castro não o ter consultado mais profundamente para 'crever o livro Chega de Saudade e relembrou as aulas que fez ao lado de John Lennon nos anos 70 na inovadora Terapia do Grito Primal. Com vocês, Carlos Lyra! Rodrigo Teixeira -- Por Que Decidiu Escrever O Livro Eu E A Bossa? Carlos Lyra -- Para documentar a Bossa Nova dentro de um ponto de vista econômico, político e cultural. O que significou os anos 60 na cultura brasileira. Houve um grande surto cultural baseado num desenvolvimento fantástico. A época do Juscelino foi riquíssima no Brasil. Bossa Nova, Cinema Novo, bicampeonato no futebol ... Em qualquer área cultural a gente 'tava na frente. Era Primeiro Mundo. E apesar daquela zona que foi o show no Carnegie Hall, a Bossa Nova entrou nos Estados Unidos junto com os Beatles. Isto 'tá muito bem frisado no livro. Esta Análise Mais Voltada Para A Parte Sociológica Que Envolve A Bossa Nova Ainda Não Foi Bem Explorada Por Livros Como O'Chega De Saudade '. Claro que o Ruy comentou coisas pertinentes. Mas perguntei porque ele não havia enfocado o aspecto político e econômico. Ele disse que não queria saber deste negócio e que se eu quisesse, que 'crevesse um livro. Você Acredita Que A Bossa Nova Representava Mesmo A Classe Média? Sim. A classe média não tinha música. Ou você importava ou ia pegar no morro. Era Orlando Silva, aqueles negócios ... A Deusa da Minha Rua, com aqueles errress ... Nélson Gonçalves, Francisco Alves ... Isso não era uma coisa que nos satisfazia absolutamente. A gente respeitava, mas aqui pessoalmente, nunca curti. O Dick Farney não. Eu apagava a luz e ficava ouvindo no 'curo, sentindo um barato interior. Já com o Johnny Alf nunca me emocionei. Você Lembra De Bares De a Época no Livro, Como O VILARINO? Para falar a verdade nunca freqüentei o Vilarino. Eu ia ao Bar do Plaza, no Leme, que é onde tocava os pianistas de plantão e o Johnny Alf era o músico da casa. E ali era bom, porque aparecia todo mundo, Lúcio Alves, Dick Farney, Os Cariocas, Dolores Duran, Tom Jobim, Billy Blanco. Todo mundo pintava naquele barzinho no Leme, que é muito mais importante que o Beco das Garrafas. É Verdade Que O Tom Jobim Dispensou A Elis REGINA De o Show'Pobre Menina Rica '? É verdade. Inclusive no livro botei o depoimento da Elis contando. E Isso Aconteceu Mesmo? Dizem Que O Tom Falou Que Ela Estava Cheirando Churrasco ... Não foi bem assim. A expressão de ele era que ela era muito caipira. Não sei se 'ta era a expressão certa. Talvez mais delicada. Ele, que era um músico fantástico, não viu que a Elis era a maior cantora do Brasil. Não reparou. O visual deve ter impressionado! A Elis era realmente muito vesguinha, e com aquele vestido de chita. Porque ela era muito simples e com o cabelo feio, todo ... o Ronaldo Bôscoli realmente transformou a Elis numa star. Porque foi ele que transformou a Elis de uma caipira numa mulher até interessante. Charmosa. Não Era Um Preconceito Com Os Músicos Que Vinham De o Sul? Era menos preconceito e mais desatenção. Mas no livro coloquei o depoimento de ela. Eu não falei nada, porque se não vão pensar que é bronca minha. Então coloco ela falando " o Carlinhos me deu força, mas o Tom achou que eu 'tava muito crua ..." Era o musical «Pobre Menina Rica» que eu queria fazer o disco. Ouvi a voz da Elis num disco, que ela cantava boleros imitando Ângela Maria, e falei: «Eu quero 'ta mulher». Senti. Mandei buscar a Elis no Rio Grande do Sul. Ela tinha gravado com a CBS, mas não tinha adiantado nada. Nem reparei em vestido de chita, sandália de couro, 'ta mulher canta muito, dá um banho de loja em ela ou o que seja, mas vai cantar no disco. Não vai aparecer. Falei com o Tom e ele insistia: «Mas ela é vesga!!!». Falava que ninguém ia ver isso, olha a voz de ela. Ele teve mais um preconceito visual, do que outra coisa qualquer. Fiz ela cantar para ele, mas o Tom achou que tinha que ser a Dulce Nunes, que era uma menina fina, de sociedade, que era casada com Nenê Nunes ... Depois o Tom saiu, o Radamés entrou e a Dulce continuou. Já 'tava comprometido, ela também era uma amiga querida. Porque o Tom havia falado que com a Elis não dava para fazer os arranjos, porque ela era feia para caramba. Então a produção da CBS, disse que não iria perder o Tom como arranjador e iria fazer sem a Elis. Pediram para arranjar outra pessoa. Que foi a Dulce. Aí que o que aconteceu foi que o Tom acabou não fazendo os arranjos por medo que as letras do Vinícius comprometessem a entrada de ele nos Eua. Porque tinha uma conotação social e ele ficou com medo. Então ficou assim. Paciência. Como Era O Método Para Compor Com O VINÍCIUS? Tinha um hábito de deixar as músicas no gravador do Vinícius e ele colocava as letras depois. Grande parte da nossa parceria foi assim. Com exceção de «Pobre Menina Rica» que a gente foi terminar as músicas em Petrópolis em conjunto. Até pus música em letra de ele. «Minha Namorada», por exemplo, foi dedicada a Anelita. O Vinícius 'tava se separando da Lucinha e casando com a Anelita. Já era o quinto casamento de ele. Este casamento com a Anelita, inclusive, ajudei a raptá-la para Paris. O enxoval de ela ficou na minha casa, porque os pais de ela não queriam a relação com o Vinícius. «Minha Namorada» é de 'ta época. Eles já foram para Paris casados. Ai os pais de ela colocaram no jornal «queremos anunciar o casamento de nossa filha com o poeta Vinícius de Moraes». Mas os dois já 'tavam em Paris. ' Maria Ninguém ` É DE 56. ' Lobo Bobo ' DE 57. Estamos EM 1998, Você Concorda Que A Bossa Nova Está COMPLETANDO 40 Anos? Não concordo absolutamente com isso. Mas não afirmo nada. Ofereço as opções para as pessoas pensarem. Porque quando você força uma barra, as pessoas acham que vc 'tá puxando a brasa para a tua sardinha. 1958, para mim, é o ano menos significativo de todos. Elizeth Gravou Emddd1958 O Famoso Disco Com Músicas De Tom / vinícius ... A Elizeth para mim nunca foi uma cantora de Bossa Nova na vida. Era uma grande cantora de sambas-canções, mas sem suingue. O Vinícius é que gostava muito de ela ... Ainda não tinha aparecido Nara, Elis ... Acho que tinha uma pessoa que poderia ter dado um recado mais Bossa Nova que era a Sylvinha Telles. Até Porque Ela Gravou A Música ' Foi De Noite ' ... Em 1955 ela gravou uma música minha chamada Menina e do outro lado Foi a Noite, minha, do Tom e do Newton Mendonça. Era um samba-canção, mas ali já é uma evolução. Tinha características harmônicas e melódicas de interpretação mais cool, bem classe média, já não era uma coisa de Zona Norte, do samba. Era bem mais o discreto charme da burguesia mesmo. O jeito da Sylvinha cantar já era mais Bossa Nova. Por mais que as pessoas tendem a acreditar que Bossa Nova é uma batida de samba, então ... O Que É Bossa Nova? Marcha-rancho, samba-canção, tudo isso para mim é Bossa Nova. Porque a idéia da coisa, o ritmo, interpretação, melodia, harmonia, tudo isso para mim é Bossa Nova. Então ela foi chegando aos poucos. Ela tinha em 1955, ou até antes, interpretação, harmonia, melodia ... Quando o João Gilberto sentou, pegou o violão e tocou, ele deu uma forma definitiva para o samba bossa nova. Ele cantou marchinha também ... Mas basicamente ele cantava só samba. Eu sou contra 'te preconceito. Acho que Bossa Nova não é só samba. É marcha-rancho, samba-canção, baião, o que for ... A Bossa Nova é mais um contexto artístico de música, melodia, interpretação e ritmo. É tudo isso junto. Quando Você Escutou Por a Primeira Vez O Termo Bossa Nova? Em 1957 eu, Nara Leão, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sylvinha Telles, fomos fazer um show na Hebraica ... Era uma pá, mas não tinha Tom Jobim, Vinícius e João Gilberto. Acontece que naquele show da Hebraica tinha um judeuzinho lá que chega e disse assim «hoje se apresentam aqui na Hebraica 'te, aquele, aquela, e os Bossa Nova». Um judeuzinho ligado em marketing nos botou um nome que a gente assumiu na hora. Então é uma referência importante. Quando foi a primeira vez a se falar em Bossa Nova? Não há dúvida de que foi ali. O primeiro a falar em Bossa Nova foi 'te garoto, judeu, em 1957. Em o ano seguinte a Elizeth grava o disco «Canção de Amor Demais» que não é também o definitivo em 'te negócio de Bossa Nova. Por Que? Foi Em 'te Disco Que João GILBERTO Inventou A Batida Bossa Nova no Violão. Mas Você Não Acha Que Pode Ter Sido Um Acaso, Uma Circunstância Para O João GILBERTO, Já Que O Disco Tinha Realmente Os Arranjos Mais Lentos ... As canções eram todas baladas, modinhas, que para mim é Bossa Nova também, não quer dizer nada. Tem dois sambas ali. «Outra Vez «e» Chega de Saudade», que o João Gilberto atacou de violão no fundo, mas tocou outras coisas que não eram samba. Segundo o violão, aquilo também é Bossa Nova. Este mesmo ano o Tom fez o «Desafinado» com «isso é bossa nova, isso é muito natural». Isso é algo também significativo. Inspirado no judeu da Hebraica. Mas no disco da Elizeth não tem a dupla Tom Jobim/Newton Mendonça, não tem Lyra / Bôscoli, Lyra / Vinícius ... Te a faltando coisa em 'ta comemoração de 40 anos que só tem Tom e Vinícius e não tem nem João Gilberto cantando. Te a manco para dizer que 'tá é a grande referência. Poderia Ser 40 Anos De Quando João GILBERTO Inventou A Batida ... Não foi. Em 55, quando a gente freqüentava o Plaza, ele já tocava com 'ta batida. Já conhecia o João Gilberto há tempos. Quando ele gravou em 1955 com a Sylvinha a minha música eu já conhecia aquilo. Sei porque ele dormia na minha casa, pois não tinha nem lugar para ficar no Rio. E ele já tocava daquele jeito. Os historiadores adoram fazer história, ao invés de relatar a história. Não quero garantir nada. Só 'tou oferecendo o cardápio para você 'colher. Em 1959 o João Gilberto grava «Chega de Saudade», ele cantando, ele tocando, e com duplas Tom / Vinícius, Lyra / Bôscoli, Tom / Newton Mendonça. Estão faltando em 'te disco talvez as duplas Lyra / Vinícius e Menescal / Bôscoli. Mas tem muito mais coisas características da Bossa Nova em 'te disco do que qualquer outro trabalho. Inclusive Influenciou Para Sempre O Modo De Cantar no Brasil, Não Era Mais Preciso Ter Um Vozeirão Para Ser Cantor ... Até o disco do João Gilberto não havia uma exportação da música daqui, nem nada disso. Tinha era uma coisa acontecendo aqui dentro, as pessoas se ligando e coisa tal, mas aquele lance assim, é agora! A hora é 'sa! Se for a hora é 'sa é 57, quando se falou a primeira vez em Bossa Nova ou 59 onde tudo o que tinha para acontecer junto. 58 'tá falho. Esta polêmica é de agora. Os japoneses nos chamaram em 1997 para fazer um grande show no Japão, para mais de 10 mil pessoas a 80 dólares o ingresso, maioria japonês, para celebrar os 40 anos de Bossa Nova no Japão. Por que sabiam que já havia uma data referente a 57. Eles sabiam disso, como eu não sei. Então em 59 apareceu de fato o canto e o modo de tocar do João Gilberto. Já que ele é tão cult, então ele 'tá mais representado a Bossa Nova no disco de ele, mesmo porque a Elizeth não é voz de se apresentar como cantora Bossa Nova nem aqui nem na China. É uma grande cantora, mas não é cantora bossa nova. Mas não é mesmo. A SYLVINHA TELLES Foi Injustiçada E Não Teve O Devido Reconhecimento Por a Sua Importância Em o Surgimento De a Bossa Nova? Ela merecia um maior reconhecimento. Porque a Sylvinha era uma precursora. antes da Bossa Nova se definir ela cantava muita música da gente. E quando a bossa entrou ela continuou gravando. As primeiras músicas minhas e do Tom Jobim a Sylvinha gravou todas. Antes de falecer ela ainda teve tempo de fazer várias coisas. Foi uma das primeiras, antes do João Gilberto. Você Concorda Com O José Ramos Tinhorão, Quando Ele Diz Que A Bossa Nova Não Sabia Quem Era O Pai? Pelo contrário. O Tinhorão, além de ser muito radical, não é um homem observador. A bossa tinha pais em excesso. Eu, Vinícius, Tom, João Gilberto ... É a mãe que 'tá desconhecida. Ninguém sabe quem é a mãe. Pai tem um monte. Você Também Foi O Primeiro A Rachar Com O Grupo. Como Foi Esta Coisa DE 1961, Quando Você Participou do Centro Popular De Cultura? Mas a racha ali era de outro nível. Eu era ali, talvez, o mais politizado. Fora o Vinícius, que era de 'querda há muito tempo. Haja vista «Operário e Construção». Mas dentro dos músicos eu era o único. Tinha o Sérgio Ricardo. Mas não era do CPC e não quis participar disso. Mas O Que Aconteceu Para Você SE Rebelar? A politização minha era muito ligada ao Teatro de Arena, que realmente era muito politizado. Fiz música para peça do Vianinha, baseada em textos de Max. Fui muito politizado por o pessoal do Arena. A politização era o seguinte ... O partido comunista era uma coisa elegante, bonita, não é xiita e radical como hoje. E 'te pessoal todo era do partidão. Eu, Vianinha, Guarnieri, a tropa toda, Paulo Francis ... Todo 'te pessoal visava uma coisa importante que é a mudança de cultura no Brasil. Tem de botar todo jovem na universidade, por exemplo. Dar cultura ao povo. A idéia do centro era isso. A minha idéia era que fosse Centro da Popularização da Cultura. E alguns amigos radicais queriam cultura popular. Eu dizia cultura popular eu não sou. Sou classe média. Quero popularizar a cultura. Levar a Bossa Nova para o povo também. Estamos aqui para isso. Se for diferente eu 'tou fora. E o Vianinha disse que não, que eu 'tava errado. Mas insisti que nem eu e nem ele éramos. Não adianta querer fazer teatro popular que não é assim. Mas existe a música popular de uns caras que são ótimos. Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Cartola, João do Vale ... E eu 'tava certo e o Vianinha me deu razão depois que ele 'tava sendo radical. Afinal, Por Que Você Decidiu Rachar Com O Pessoal De a Bossa Nova? A quebra é isso. Após 1961 a bossa começou a entrar num ritmo que merecia as críticas. Música de apartamento, que é o amor, o sorriso e a flor, o barquinho para cá e para lá ... Tudo isso é legal, mas não saía de 'ta porra. Então senti que 'tava faltando conteúdo na parada. Tinha forma para cacete, mas 'tava faltando conteúdo. E tanto eu tinha razão que quando entramos com o conteúdo, com «Influência do Jazz»,» Quem Quiser Encontrar Amor», «Aruanda», aí o próprio Tom Jobim veio com» o morro não tem vez, e o que ele fez ..." Entrou na jogada, e o Vinícius 'tava aí também. Então juntou, apesar de ser da direita festiva, mas ele 'tava ali, produzindo aquilo que mais tarde vai se transformar em MPB. Depois veio Caetano, Gil, Chico Buarque ... Você não conhece um cara de MPB que seja de direita. Sem condição. Aconteceu Aquele Episódio da Nara Leão Com O Bôscoli, Em que Ele Voltou De Uma Viagem E Anunciou Seu Casamento Com A Maysa Sendo Que Era Noivo De ela. O Afastamento da Nara da Bossa Nova Foi Mais Em Função De o Lado Pessoal Ou Por Uma Questão Política Mesmo? Em a época em que ela 'tava com o Bôscoli, naquela fase o Bôscoli era, apesar de ser chamado de Ronaldo Esquerdo Bôscoli, era mais um cara de direita. Mas descomprometido. O negócio era fazer música. O Tom Jobim também. O talento independe de 'tas posições políticas. O negócio é que a Nara começou a se envolver com um mundo diferente e já havia tido uma referência com mim. Eu cansei de cantar a Nara para 'querda. E quando levei para ela o Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, que ela não tinha nem idéia, ela abriu o olho. Ninguém conhecia de verdade. E falei: já imaginou uma garota Zona Sul cantando os crioulos de 'cola de samba. E Como Era O Contato Seu Com Este Pessoal? Contato direto. Em princípio por causa do CPC. A gente 'tava procurando para arregimentar os extras do filme de Flávio Rangel e a idéia de pegar a música de raiz brasileira para socorrer a música de classe média, que 'tava com muita forma, mas sem nenhum conteúdo. Estava batendo na mesma tecla. Não tinha mais saco para isso. Não agüentava mais 'te negócio de flor. O CPC se dedicou a cavar conteúdo e a verdade é que minha música se enriqueceu com isso. Saiu o show «Opinião» com ele. Poderíamos Falar Que O Show «Opinião» Afundou A Bossa Nova E Levantou A Mpb? Não afundou. Deu um passo a frente, além da Bossa Nova. O show foi 'crito na minha casa. A Bossa Nova era uma coisa nacionalista, queria fazer música brasileira, e a bossa aí passou a ter conteúdo. «Opinião» é Bossa Nova com conteúdo. E daí para frente à Bossa Nova não caiu, ela passou a ter conteúdo. Esta é outra viagem que o Tinhorão perdeu. Ele não percebeu que a Bossa Nova se conscientizou. Em a minha música, Vinícius e de outros mais. O Tinhorão não percebe 'ta evolução. Ele pensa que o Chico Buarque é MPB engajada e que a Bossa Nova é uma música alienada. Em 1964, Com O Golpe, Você Decidiu Impor Um Auto-EXÍLIO? Com o golpe ficou insuportável. Os militares prepararam o terreno e os civis safados, porque o grande golpe foi dado por civis corruptos. Ordinários que 'tão aí até hoje. A gente 'tá vivendo uma ditadura civil. Ninguém notou ainda, mas continua a brincadeira. Ainda tem muita gente ruim mandando em 'te país. Então me exilei, porque se tivesse ficado teria sido preso. Então fui para os Eua. Nova Iorque. Foi Quando Surgiu Para Tocar Com O STAN GETZ? Desde 1962 que o Stan gravava com a Astrud e com o João Gilberto. Os dois não quiseram mais participar e então ele me chamou. Só disse que não iria cantar «Garota de Ipanema», que era compositor e não iria tocar música de ninguém. Ele disse tudo bem. Aí comecei a tocar as minhas músicas com um conjunto maravilhoso atrás de mim, com Chick Corea no piano, Gary Burton de vibrafone ... O Chick reclamava que o Stan Getz não deixava eles tocarem e só queria o arroz com feijão. Isso em 1965. Como Era O STAN? Estava o tempo todo de porre. Mas era um cara legal. Ele divulgou muito a Bossa Nova. Mas não gosto de saxofone. Para mim tem hora, me incomoda um pouco. Depois Você Acabou Indo Para O México. Casei com a Kate na Cidade do México. Fiquei quatro anos e voltei para o Brasil em 1971. Até 1974 quando resolvi ir para Los Angeles passar dois anos sem voltar aqui. Fui em função da Terapia do Grito Primal. É curiosa, você grita, chora, se joga na parede, com a sala toda forrada de 'puma ... Para mim foi fantástico, pois 'tava rolando tudo aquilo no Brasil, e eu fumando feito um louco, com taquicardia ... Comecei a passar bem, inclusive meu colega de terapia era John Lennon. Só toquei com ele na terapia, conversamos ... Isso foi em 1974. Ele falou que aquilo 'tava salvando a vida de ele, que ele 'tava se sentindo ótimo. Em 'ta Época Você Também Se Envolveu Com Astrologia Sideral. Como Foi Isso? Em Los Angeles eu também conheci a Astrologia Sideral, que é para corrigir os signos. Astrologia científica, astronômica. Fui à 'cola de astrologia sideral para saber do que se tratava, fiquei convencido e passei a ensinar lá também. Porque já conhecia astrologia. Quando voltei ao Brasil lancei um livro chamado «Seu Verdadeiro Signo». Então Isso É Verdade Mesmo. ÁRIES Não É Mais ÁRIES ... É a pura verdade. Qual Era O Seu Signo? Era Touro. Agora sou Áries. O signo dos pioneiros. Eu Sou ÁRIES. Devo Ser Outra Coisa Agora, Né? Que dia você nasceu? 11 De Abril. Você é Peixes. Não é Áries nunca. Quando você nasceu o sol 'tava na constelação de Peixes. O que isso significa para o teu caráter, você tem de fazer o seu horóscopo pessoal para ver. Pode mudar muitas coisas. Signo não é definitivo. Mas na Idade Média era proibido falar no movimento dos astros e a Igreja congelou tudo. Por que isso vai mudar sempre. Cada Era que muda, as pessoas já nascem em signos diferentes. Número de frases: 348 Entrevista concedida a Cult Press/CartaZNotícias Uma visita ao Sítio SóArte, no interior do Estado de Sergipe, é, sem dúvidas, uma experiência inesquecível e singular. O sítio, de propriedade do artesão Cícero Alves dos Santos, o Véio, localiza-se mais precisamente na BR 206, entre os municípios de Nossa Senhora da Glória e Feira Nova, na altura do Km 8. Já da 'trada, o visitante vislumbra um cenário insólito. Esculturas em madeira bruta expostas a céu aberto, dispostas nas laterais do acesso à residência do artesão, como a prepararem um corredor que envolve e acolhe aqueles que cruzam o 'tranho umbral. A o atravessar o caminho, o visitante sente-se como quem observa cenas de um mundo incomum, ao mesmo tempo em que é observado por seres bizarros. Contudo, à medida que o impacto inicial se dissipa, é possível perceber que as 'culturas refletem a vida do sertanejo, em suas mais diversas manifestações sócio-culturais, construindo um universo que materializa o imaginário nordestino. As peças, praticamente em 'tado bruto, são apenas readaptadas para sua nova existência, re-significadas para integrarem 'te mundo particular e único. O próprio artista afirma: «A inspiração nasce da visão. Então, numa árvore de 'sas, eu vejo todo tipo de 'cultura que eu posso aproveitar. Só de olhar, eu já sei o que eu vou fazer e qual a história de cada peça». É em 'te mundo que o artista vive: «Aqui eu converso com eles. Eles têm vida, têm alegria, têm tristeza. Cada peça de 'sas é uma pessoa, é um filho, é um irmão, é uma família». Com isso, Véio redimensiona o princípio de atemporalidade da arte, uma vez que suas peças não permanecerão para outras épocas. O próprio artista afirma: «Ninguém é eterno. Então aqui morre peça, se acaba peça e nasce peça. Então, enquanto tem uma se deteriorando, se acabando, ficando velhinha, eu vou chegando todos os dias com novas peças para irem substituindo. Não substitui a peça, mas coloca no elenco uma família que morre e que nasce também». Assim, suas peças, expostas a sol e chuva, têm vida curta, adoecem, envelhecem e morrem. E 'te mundo extraordinário só permanecerá existindo enquanto a mão do artista, tal qual uma mão divina, o mantiver em movimento. Felizmente, há registros que guardarão para a posteridade 'ta obra magnífica. Um de eles é o filme VÉIO *, de Adelina Pontual, produzido por a REC Produtores Associados e Chá Cinematográfico (PE), sob o patrocínio da PETROBRAS. O documentário retrata, de uma forma simples e sutil, todas as nuanças da obra desse artesão magnífico. Vale a pena conferir. * Roteiro e direção: Adelina Pontual Produção: João Melo Vieira Jr. Produção Executiva: Chica Mendonça e Nara Aragão Direção de Fotografia: Jane Malaquias Montagem: João Maria Som direto: Pedrinho Moreira Trilha original: Número de frases: 35 Tomaz Alves Souza " Perder-me [em São Paulo] foi em parte uma experiência dura, duríssima, mas que manifestava um enorme prazer " Reconhecido por a ousadia em romper com métodos clássicos da história intelectual, Massimo Canevacci é um antropólogo que expõe e explica a metrópole contemporânea, a influência das mídias digitais, e ao contrário do que muito da tradição acadêmica sugere, não vê o processo cultural atual como puramente alienante. Ele capta, sim, a imensa possibilidade de interação, participação e de criação de um novo tipo de sujeito, múltiplo e ativo. Em 'sa entrevista, Canevacci explica sua trajetória até chegar ao método Polifônico e sua aplicação à metrópole. Assim, deixa de lado teorias generalistas e visualiza, analisa e procura compreender, cada fragmento com olhares e aproximações próprias, localizadas e efêmeras. Em 'se processo, Canevacci atravessa o concreto, finda com os limites e torna a metrópole contemporânea um 'paço -- material e virtual -- de contornos praticamente indefiníveis. (Entrevista Realizada Para A Publicação Sextante -- FABICO / UFRGS, Sob Orientação do Jornalista WLADYMIR UNGARETTI, Em Agosto DE 2007) Para começar, uma pergunta bastante ampla: o que é a cidade? O processo que iniciou mais ou menos nos anos 70, não é possível precisar uma data certa, no mundo ocidental, mas não só no mundo ocidental, por que também na China, etc, foi a transição da cidade industrial para o que eu chamo de metrópole comunicacional. Isto é, a cidade industrial tinha como momento central a fábrica. A fábrica era o local, não somente da produção econômica, de valor, mas também o lugar de produção política. Era o centro do conflito. Era também o contexto que desenvolveu a forma mais poderosa da lógica, isto é, a dialética. E também a formação dos partidos. Então, a fábrica dava o sentido da transformação não somente econômica, como cultural, sociológica da cidade. E naquela época dava para entender a cidade se relacionando a mesma à produção industrial. O que aconteceu? Em os últimos 30 anos mais ou menos, um processo vem ocorrendo muito lentamente, por que é um processo que ainda não acabou, de transformar 'se centro, num policentrismo. O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre 'se tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado. Para entender 'se tipo de metrópole comunicacional você tem de 'tudar, fazer pesquisa e também transformar 'ses lugares do consumo. E a comunicação na era digital é ainda mais importante. Seja por o aspecto produtivo, seja por o aspecto de valores, de comportamento, por a maneira de falar, de 'tabelecer uma relação com o corpo, e também com a identidade. E também a cultura. Não no sentido antropológico, não como cultura intelectual, mas cultura como 'tilo de vida é cada vez mais parte constitutiva da nova metrópole. Então para entender 'sa nova metrópole é fundamental olhar o tipo de reforma, não somente urbanística, mas de prédio, de loja, e 'pecialmente de museus, de lugares de exposições, que tem como forma arquitetônica um tipo de desenho, mas também de lógica que é pós-euclidiana. Então, se a gente olha um pouco a grande área metropolitana do mundo, 'se é um desafio que é muito 'tagnado. Por que no Brasil, São Paulo que é uma cidade modernista, também Porto Alegre, mas São Paulo muito mais, não consegue desenvolver um tipo de arquitetura adequada à contemporaneidade. É como se a arquitetura no Brasil fosse ainda modernista, ou minimalista às vezes. E não 'tivesse dentro desse fluxo de desenvolver formas inovadoras, que favoreçam um tipo de percepção, de sensorialidade, e de comunicação que outras áreas metropolitanas favorecem. Então, 'se tipo de transição significa que o território não é mais como antes. Que também a etnicidade, a sexualidade, a família, a identidade, são muito mais pluralizados. Tudo é muito mais possível. É raro que uma pessoa possa fazer um tipo de trabalho por toda a vida, que fique no mesmo território, que tenha a mesma família. Então isso tudo flexibiliza muito o contexto, e isso é para mim, 'se tipo de flexibilidade é parte constitutiva do conflito contemporâneo. Então, a metrópole comunicacional é mais baseada sobre consumo e comunicação, justamente. E também o consumo, a comunicação e a cultura tem uma produção de valores, não só no sentido econômico, mas valores no sentido etnográfico, antropológico. Então a dimensão industrial ainda é significativa certamente, mas não é central como na cidade moderna. E 'se cruzamento entre comunicação e tecnologia digital favorece um tipo de transformação profunda na metrópole. Em a metrópole que eu chamo comunicacional, que não é mais baseada numa relação entre o Estado e a Nação. Também em parte, veramente, mas fundamentalmente são grandes áreas metropolitanas e comunicacionais que se competem, que se cruzam, e que desenvolvem um tipo de estilo, que favorece 'se tipo de profunda transição. E o conceito de Cidade continua podendo ser aplicado? Eu acho que o conceito de cidade é baseado numa concepção de cidadania e de produção industrial, que é desafiado profundamente na nova forma, por exemplo, de consumo. O consumo contemporâneo, dos últimos 10, 20 anos, baseado não somente nos shopping-centers, mas num tipo de dimensão mais performática, por exemplo, parques temáticos, etc, desenvolve um diferente tipo de relação entre a individualidade e o conceito de sociedade. Acho também que o conceito de sociedade não é mais forte como era antes. A sociedade era muito baseada sobre a cidade. E agora se desenvolve um tipo muito mais fluido, diferenciado, também de identidade. A cidade por exemplo, desenvolveu um tipo de identidade mais ou menos fixa; uma família, um trabalho, um território. Agora com a metrópole comunicacional, é muito mais fluida a situação, por que se tem uma multiplicidade de identidades. E isso significa também uma transformação rápida no trabalho. Novamente agora é difícil a pessoa fazer o mesmo trabalho por toda a vida e morar no mesmo território. O que seria 'sa dimensão performática do consumo? A dimensão performática é por exemplo, quando você, na nova praça digitalizada, que é, ou 'se tipo de loja, ou shopping, ou cinema, ou teatro, ou Disney World, ou parques temáticos, o público não é mais um público de 'pectadores, isto é, que 'tá na frente de uma obra, que olha, 'cuta e depois vai embora. Isso ainda continua, mas em grande parte, o que a comunicação contemporânea 'tá favorecendo é que o público seja parte constitutiva da obra e que possa representar a sua própria história, o seu próprio conto, a sua própria imaginação. A tecnologia digital 'tá favorecendo a criatividade, ou poderia favorecer a criatividade da pessoa, singular, e também como público, para utilizar uma palavra que talvez seja um pouco atrasada. Isso significa que o público, que era somente 'pectador, vem agora a ser 'pect-ator, isto é, uma mistura do que participa, mas que é também ator. Espect-ator significa 'se tipo de co-participa ção que desenvolve um tipo de atitude performática no público, um 'pect-ator performático. Isto é, que não é mais passivo, mas é parte constitutiva da obra. Isso é muito claro na desenvolvimento da teconologia digital. Quando você vai numa exposição de cultura digital, numa instalação, a pessoa, 'teja sozinha, ou com outras pessoas, não fica parada, sentada, ou simplesmente olhando, mas participa. O corpo, no sentido também mental, é chamado a co-participar, e de 'sa maneira, co-produzir a obra. Isso é uma coisa muito significativa, muito importante, e fica ainda mais claro no you-tube, internet, blogs, toda a possibilidade de gravar músicas que cada menino tem, tudo isso favorece um tipo de potencialidade participativa e criativa que a pessoa agora tem, e que no passado era muito, muito menor. Era, como eu 'tava dizendo, na cidade industrial, o público era mais compacto, mais homogêneo, mais homologado. A potencialidade atual é favorecer um tipo de curso individual que desenvolve um tipo de conflito contra a grande sociedade. Por exemplo linux ou you tube, tem a possibilidade de desenvolver um tipo de participação performática e auto-representativa que no passado não era possível. Como o senhor acha que os meios de comunicação modificam a percepção que as pessoas têm da cidade? Isso é fundamental, por que a nova forma de comunicação que é em parte baseada sobre a tecnologia digital, é a coisa mais forte de transformação. Mas em parte, é também baseada em 'se tipo de experiência de um consumo que não é mais o consumo tradicional. Em o caso, a comunicação desenvolve um tipo de sensibilidade, por exemplo, do olhar, e da experiência de relação com as outras pessoas, que não 'tão no mesmo 'paço-tempo, mas 'tão em outro contexto, que é radicalmente diferente do que ocorreu ao longo da história. Por exemplo, falando de 'paço-tempo, se eu 'tou ligado na internet eu posso ter uma comunicação simultânea com pessoas que podem morar em mais ou menos todos os lugares do mundo, e isso me dá um sentido onde o conceito, um pouco de tempo e de espaço se modifica profundamente. Ao mesmo tempo, eu posso me comunicar com pessoas de 'sa forma, posso olhar um jornal de New York, ou de Beijing, posso 'crever e-mail, posso 'crever para o orkut. Posso fazer uma multiplicidade de coisas, mais ou menos contemporaneamente, o que antes era totalmente impossível. Isso desenvolve um tipo de capacidade, um tipo de relação entre o olhar, o cérebro, o corpo, que favorece uma multiplicação perceptiva e também cognitiva. Acho que isso é a coisa mais significativa do que 'tá acontecendo. O que seria 'sa multiplicação perceptiva? Já na modernidade, o olho é não somente uma janela que abre para o exterior, mas também um órgão que absorve na sua própria sensibilidade. Então olhar é um treino que a minha etnografia desenvolve profundamente. Treinar a olhar e se olhar, olhar-se. Por que não há nada de natural em olhar. Olhar é sempre culturalmente determinado. Então que olhar, olho seja culturalmente determinado significa que agora, no contexto atual, a coisa mais significativa, seja didaticamente seja fazendo pesquisa, é aprender, desenvolver, modificar, inventar, formas novas de olhar. Isto é, a eróptica, nas minhas palavras. Isto é, uma mistura de erotismo com óptica. Eróptica mistura uma dimensão sensual, perceptiva, sensorial, do olhar. E 'se tipo de tecnologia digital, por exemplo, falando de internet, a relação entre olho, tela, mão, mouse, cérebro, corpo, é muito mais interativa do que se poderia imaginar. Não tem uma comparação que se possa fazer com a cultura analógica, isto é, na frente do cinema eu fico 'pectador. Na frente da tela do computador, eu sou interativo, totalmente interativo. É favorecida a minha co-participa ção sensorial. Antes multi-sensorial. E o órgão que é mais ativo sobre 'se tipo de procedimento é o olho. Olhar agora tem uma capacidade de absorver, compreender, uma multiplicidade de códigos num mesmo momento. Isto é, uma tela de um computer emana, emite, uma multidão de informações simultaneamente que o olho, o olhar, 'se treino de olhar, e olhar-se, tem a capacidade de absorver, entender e interagir, e às vezes modificar. Isso é característico da cultura digital. A cultura digital desenvolve uma potencialidade de olhar, olhar-eróptica simultaneamente, interativamente e às vezes, criativamente conceitualmente como nunca foi antes. Em o livro, A Cidade Polifônica, o senhor comenta a necessidade d' a gente entender «os valores e modelos de comportamento que a cidade inventa». Você poderia explicar. A cidade para mim é como se fosse um organismo subjetivo, vital, que absorve como uma 'ponja o que acontece e elabora a sua própria linguagem. Esse tipo de linguagem que a cidade, 'pecialmente a área metropolitana elabora, influência profundamente um tipo de comportamento das pessoas que moram em 'sa área metropolitana. Por isso, poderia se dizer que a linguagem da metrópole é baseada sobre lugares, 'paços, e principalmente sobre interstícios, isto é, interstício, um 'paço que 'tá in between, que 'tá entre, um 'paço conhecido e um desconhecido. Esses interstícios, favorecem um tipo de linguagem, que é dialogicamente interlaçado com a linguagem do corpo. E a linguagem do corpo de cada pessoa, para mim, é muito diferenciada culturalmente e comunicacionalmente, mais que sociologicamente. Isto é, é mais uma auto-percep ção comunicacional que diferência 'sas pessoas que uma diferenciação sociológica. Esse tipo de diferenciação, baseada sobre um tipo de linguagem do corpo e o tipo de linguagem dos interstícios, favorece uma dialógica nova, baseada muito na hibridização e em sincretismos culturais, e sobre extrema mobilidade e fluidez. Essa mobilidade, fluidez e hibridização, é parte da experiência cultural, corporal, e também urbanística, da metrópole contemporânea. O senhor poderia explicar 'sa linguagem dos interstícios, e como a mesma 'taria interlaçada à linguagem do corpo? Dentro da metrópole comunicacional eu gosto muito de tentar focalizar os interstícios. Os interstícios são 'paços in between, zonas in between, isto é, que 'tão entre lugares bem conhecidos. Interstício é uma coisa flexível, mutante, flutuante. Por exemplo, os 'paços das raves eram uma coisa muito intersticial. Então eu acho que a metrópole contemporânea, a metrópole comunicacional, se desenvolve muito graças também aos interstícios. E os interstícios favorecem um tipo de dialógica entre um panorama de corpo, isto é, um body-scape. Eu utilizei a palavra location, em inglês, que é 'paço-zona-interstício. Body-scape, isto é, um corpo-panorama. A dialógica da metrópole comunicacional é justamente 'sa interação entre interstícios flutuantes, e corpos, da mesma maneira flutuantes. Os dois favorecem um tipo de panorama que cruza, incorpora, o que antes era separado, isto é, uma location 'pecífica de um corpo, assim como um corpo de interstícios. Esse tipo de dialógica que mistura orgânico e inorgânico, corpo e coisa, ou nas minhas palavras, body-corpse, body como o corpo vivo, e corpse como o corpo morto. Então body-corpse, no hífen que separa e unifica body e corpse, acontece o trânsito, a dimensão transitiva entre corpo vivo e corpo morto que antes era claramente, rigidamente separada e que agora se mistura de 'sa maneira transitiva. O que seria o multivíduo? O conceito de indivíduo, é uma palavra de origem latina, que traduz uma palavra grega, isto é, atomon. Atomon é igual a indivíduo, isto é, indivisível. A-tomon, não divisível. Por que na cultura ocidental, o indivíduo é a última parcela social que não é mais possível dividir. Por que isso seria loucura, 'quizofrenia ou morte. Então, 'se tipo de concepção do indivíduo indivisível, como é atomon, é uma concepção que pertence à história da cultura ocidental, desde a Grécia, a Roma Antiga, até a modernidade. Eu acho que 'se tipo de relação, o indivíduo tem uma identidade, isto é, ser igual num contexto diferente, 'se é o grande desafio da cultura ocidental. A identidade ocidental é 'se paradigma. Ser igual num contexto diferente. Só que, todo mundo sabe que não funciona. Nunca funcionou. Ou se funciona é num domínio auto-repressivo. O conceito de multivíduo, para mim, é um conceito mais flexível, mais adequado à contemporaneidade. Por que significa que multivíduo é uma pessoa, um sujeito, que tem uma multidão de eus na própria subjetividade. Isto é, o plural de eu, não é mais nós, como no passado. O plural de eu, como eus. Isso pode desenvolver uma multiplicidade de identidades, de eus, que é o multivíduo, isto é, em parte, fazer uma co-habita ção flutuante, múltipla, de diferentes selves, se poderia dizer por exemplo, a palavra em inglês, plural de self, que co-habitam, às vezes conflictuam, às vezes constroem, uma nova identidade, flexível e pluralizada. Acho que o multivíduo é 'se tipo de possibilidade, de potencialidade. Eu 'pero que o multivíduo seja a potencialidade conceitual adequada à metrópole comunicacional. Em uma simetria, uma dialógica, uma interatividade entre metrópole comunicacional e subjetividade multividual. O senhor não acha que isso pode gerar um conflito na pessoa, por que de certa forma a gente continua tendo uma vida. Como lidar com isso? É claro. Em o passado 'sa dimensão era mais interpretada num sentido de uma 'quizofrenia, 'quizo significa dividir. Então 'se tipo de multiplicidade era scizóide, era considerado uma loucura, uma 'travagância ou era um artista, um pintor, um poeta. Agora, é claro que poderia haver sempre uma dimensão de frustração, mas experimentos de multiplicidades conflictual que co-habitam o mesmo eus, eu gosto de utilizar o artigo no singular, e o pronome no plural, isto é, o eus. O eus significa que ele tem 'se tipo de potencialidade de desenvolver 'se tipo de pluralidade co-habitativa, conflitual, mas potencialmente não-patológica. Também a distinção entre norma e desviança, o que é normal e o que é anormal, pertence a um tipo de história da psicopatologia. E muito freqüentemente a psicopatologia do passado definia a pessoa como louca por que era muito poética, muito 'tranha, não dava para aceitar 'se tipo de multiplicidade. Agora eu acho que 'se mundo da tecnologia digital favorece 'se tipo de comportamento, e eu 'pero sempre que seja mais assim. Nós falamos sobre a comunicação via internet, comunicação digital, mas o Brasil é um lugar onde grande parte das pessoas ainda se comunica de pessoa para pessoa. Como o senhor vê isso? Acho que isso é parte verdade e parte não é verdade. Por que as 'tatísticas afirmam que o orkut, somente no Brasil, tem uma distribuição enorme. Então claramente o Brasil, como você sabe muito bem, é um país muito plural, não dá para dar uma identidade ao Brasil. Isso acontece também em outros países, na Itália, nos Estados Unidos, etc.. Em o Brasil, é ainda mais forte 'sa distinção baseada sobre a utilização da tecnologia. Por isso você justamente 'tá dizendo que, o que se chama digital divide, isto é, uma parte da população no Brasil, não somente no Brasil, mas no Brasil, 'tá ainda fora de 'sa comunicação digital. Eu acho que uma política comunicacional no Brasil, deveria favorecer sempre mais 'se tipo de desafio do digital divide, isto é, de 'sas pessoas que são excluídas, por 'sa divisão. Pessoas que ainda 'tão sob influência fortíssima da televisão generalista, que no Brasil ainda é muito, muito forte a televisão generalista. Mas ao mesmo tempo também, no Brasil, há um novo tipo de televisão, televisões podemos dizer, que 'tão se desenvolvendo. Então, para responder a sua pergunta, há uma presença forte, fortíssima, de pessoas que no Brasil utilizam a internet de forma globalizada e localizada ao mesmo tempo. Esse outro segmento do digital divide, eu acho que uma política comunicacional, isto é, não mais tanto uma política social, mas uma política comunicacional, deveria enfrentar. Principalmente, na 'cola pública. A 'cola pública deveria ser totalmente digitalizada, com financiamento não somente público, mas também privado. E 'se eu acho que é o desafio do Brasil contemporâneo. Muitos dos desafios do Brasil contemporâneo se poderia resolver enfrentando um novo tipo de formação didática sobre a comunicação digital. Entrevista NA Número de frases: 171 Integra Em o Banco De Cultura. Bodas (Roberto Martins e Mário Rossi, voz de Carlos Galhardo) Beijando teus lindos cabelos Que a neve do tempo marcou Eu tenho nos olhos molhados A imagem que nada mudou Estavas vestida de noiva Sorrindo e querendo chorar Feliz, assim, olhando para mim Que nunca deixei de te amar Vinte e cinco anos vamos festejar de união E a felicidade continua em meu coração Vai crescendo sempre mais o meu amor por ti Eu também fiquei mais velho e quase não senti Vinte e cinco anos de veneração e prazer Pois até nos momentos de dor O teu coração me faz compreender Que a vida é bem pequena para tanto amor Estavas vestida de noiva Sorrindo e querendo chorar Feliz, assim, olhando para mim Que nunca deixei de te amar * * * Eu sinto saudades. Notem que a poesia nem é tão elaborada, mas as palavras eram de uma singeleza e doçura que não se encontra facilmente nos dias de hoje. Não acredito que muitas pessoas hoje (principalmente as da minha idade) conheçam Carlos Galhardo, Orlando Silva e Altemar Dutra. Talvez até conheçam Nelson Gonçalves, que perdurou na mídia. Eu choro cada vez que ouço «Bodas de Prata». E nem só por ser tão linda. Choro um pouco também por nostalgia. De um tempo ao qual nem pertenci. Número de frases: 29 Choro, e permaneço na torcida por dias de mais poesia. A cada dia que passa tenho mais certeza de que caminhamos para trás. Estamos nos perdendo na nossa progressista retrovisão. A cada carro novo, damos uma vida velha. A cada trago, um pulmão. A cada liberdade, uma cadeia. A cada vitória, uma derrota. A cada remédio, uma doença. A cada cura, uma desilusão. A cada tirano morto, dezenas de inocentes também vão. Acabam de enforcar um assassino! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão?! Enquanto isso, em algum lugar ... Mamãe, ele bateu em mim! Mas, minha filha, bata em ele também! Mamãe, ela bateu em mim! Mas, meu filho, bata em ela também! E assim segue a vida ... As emissoras de televisão brigam entre si, não por audiência e sim por credibilidade. Depois do dossiê Globo os grandes templos da Universal em Elis Regina. Conclusão: 'tamos sem saída! Em as novelas de depois das oito, Manoel Carlos encanta os olhos dos miseráveis que sonham ser ao menos empregados dos empregados de seu cotidiano de Brasil Oficial (como diria Ariano Suassuna), enquanto algum autor desconhecido (é duro, mas admito que só conheço os da Globo!) faz campanha atrasada (ou não) para o presidente Lula, exibindo o promotor que tem uma mãe trambiqueira dentro de casa. Em a internet, algumas pessoas perdem tempo lendo coisas sérias ou 'crevendo-as, se importando com a eminência que morreu, com a guerra que começou, com o presidente que elegeu, com o parlamento que 'colheu e participando de fóruns do tipo: «Como podemos mudar o mundo?!». Outras dão sentido às suas vidas trocando palavras com de quem acabou de se despedir, como se não se vissem houvesse anos, eternizando a efemeridade do tempo e reafirmando o que nunca disseram (isto é o que, realmente, é necessário). Então, como já diriam meus grandes filósofos das praças, dos botequins (acompanho com suco de pêssego) e das repartições públicas (mas ainda sou contra as privatizações): viva o ócio, pois, em 'se futuro em que vivemos, parece que viver é destruir o Planeta! Número de frases: 28 Mais textos do autor no blog Terceiro Mundo no Plural. Tem duas horas que eu venho brigando com as palavras só pra tentar descrever a beleza de Japaraíba, cidade do centro-oeste de Minas, bem perto de onde o Rio São Francisco ainda é menino. Besta eu, bastava falar do horizonte que ela te dá de presente logo de entrada: um mundaréu de cana-de-açúcar num terreno plano que mais parece um tapete verde debaixo do sol forte da região e de um céu com todos os tons azulados, do azul marinho ao azul claro, que de noite 'curece e se 'treleja todo, ficando igual uma raspa de 'pelho jogada num pano preto. Mas sai fora olho gordo, porque Japaraíba também é fabricante e exportadora de belezas e emoções para os céus, olhos e ouvidos de todas as cidades do Brasil e do exterior. Com 44 anos de idade e uma população perto dos 5.000 habitantes, além do 'paço contíguo à Usina de cana-de-açúcar, ela faz parte, junto das cidades vizinhas, do segundo maior pólo de fabricação de fogos de artifício do mundo, encabeçado por Santo Antônio do Monte, ficando atrás apenas da China (até porque foi 'se país que inventou a pólvora no século XI). São dezenas de produtos variados, como as bombas coloridas que cortam o ar e se arrebentam depois nas cores Verde, Violeta, Vermelha, Dourado, em efeitos visuais como o Chorão e o Rabo de Pavão, ou sonoros, como o Apito e os foguetes de até 24 tiros e três respostas. Em a fabricação, trabalham pessoas como o casal Alexandre Modesto Pessoa, o Sandrinho, e Dalila Araújo Pessoa, que, amigos, sempre me hospedam, e desta vez fizeram 'forços para a eu conhecer um pouco das fábricas de pirotecnia. Logo cedo, 6:10, eu e Dalila tomamos o ônibus dirigido por o Sr. Valdir Grigolo, o Gaúcho, e nos juntamos aos demais funcionários uniformizados rumo à Piroshow, na zona rural da cidade, onde cumprem jornadas diárias de 8 horas. Lá, um primeiro portão se abriu e fomos ao refeitório para o café, onde acontecem também palestras periódicas sobre segurança na lida com os explosivos. E às 6h45, todos ocuparam seus lugares e eu, entre tímido, curioso e medroso, parti para a observação das tarefas nos barracões da Cartonagem, uma das seis etapas do fabrico dos foguetes. Em ela, grandes bobinas de papel reciclado são lixadas e picadas em máquinas, e depois se transformam em arruelas, com furos ou tapadas, e tubos maiores e menores, nos quais, depois de secos na 'tufa, serão inseridos os explosivos. Mas 'ta já é outra parte e só acontece do outro lado de um segundo portão (uma das normas para as instalações das fábricas). Para atravessá-lo, os funcionários devem deixar na guarita seus isqueiros, celulares, anéis, relógios e tudo que possa causar atrito e conseqüentemente incidentes, «porque segurança não depende de sorte», diz um dos muitos recados 'palhados por os prédios. Atravessei, colado ao supervisor geral, Antônio Francisco, o Kiko, que me apresentou todos os «barracões», como são chamados os cerca de 50 pavilhões identificados segundo suas atividades, enumerados e 'palhados com cálculo na paisagem ondulada do cerrado japaraibense, coberto, de novo, por um céu sem igual. «Ande, não corra», me disse outro cartaz pregado numa árvore. Abaixo, reduzo as informações colhidas com Kiko (durante 'sa visita) e depois com Sandrinho, porém o processo é complexo demais pra que eu acerte na descrição, mas vamos tentar: fomos ao barracão da «Matriz», onde são prensados nos tubinhos de papel a massa da» 'pera», uma mistura de terra refratária, perclorato e pólvora negra, responsável por a impulsão do fogo -- «numa 'cala de tempo entre a saída do canudo até a altura do 'touro» -- segundo Kiko. De lá, os tubinhos vão para a «Enchimento de rodas», barracão onde serão colocados em formas redondas que depois são transportadas num carrinho para a» Manipulação», barracão em que a pólvora branca (mistura de perclorato, alumínio 'curo e enxofre) responsável por a explosão, é colocada nos tubinhos, que depois serão encaminhados para a «Colação», onde, enfim, os tubos menores são inseridos nos maiores, conforme a quantidade de tiros do produto final. De aí, secos na 'tufa, são levados para a «Arrematação», onde se tornam finalmente foguetes dignos de embalagens (" o forte das vendas», segundo Sandrinho) e transferências para o» depósito de produtos acabados " e a comercialização. Hora e meia depois, terminado o passeio-aula, fui ao 'critório de Júnia Miranda, responsável por a Piroshow, que me disse que as fábricas de pirotecnia são perseguidas por o 'tereótipo do risco de acidentes de trabalho -- freqüente no passado -- e que em parte ainda existe, mas que, com o cumprimento das regras de segurança de órgãos como o Ministério do Trabalho, do Ministério do Exército, mais as de proteção do ambiente ditadas por a FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente), entre outros, pretende-se chegar ao risco zero, «pois mantemos em Santo Antônio do Monte o maior laboratório em pesquisas sobre fogos de artifício da América Latina», ou, corrigindo-se: «do mundo, pois os chineses não mantêm nenhum laboratório». «O que funciona na China são guetos de fabricação de fogos, um por produto, e muitas vezes valendo-se de trabalho 'cravo, segundo informações de empresários em visita por lá, enquanto fabricamos até cem produtos numa só fábrica». E 'clareceu-me ainda que a alavanca das produções durante o ano todo é o foguete 12x1, o «rojão», consumido nos jogos de futebol; e as festas periódicas respondem por as safras, de junho, com as festas juninas, e de final de ano, Natal e Ano Novo, «quando saem mais os produtos coloridos, as bombas de polegadas e as girândolas coloridas (kits com bombas de cores)». Enquanto Dalila trabalha na «Piroshow», no barracão de embalagem das bombas numeradas, que têm efeitos de tiros e são soltas no chão, seu 'poso Sandrinho trabalha como manipulador de cores e drageador na fábrica» Cinco Estrelas», também na zona rural de Japaraíba, que eu visitei no segundo dia, desta vez guiado por Jullya Graziela Martins, técnica de segurança. Com mais coragem e menos timidez, acabei entrando nos barracões e conversando com os funcionários, como o Dinaldo que me explicou o processo de lixar e cortar os papéis da Cartonagem e Giordana, que prensava arruelas nos canudos. Mais pra baixo, do outro lado do portão, conheci, através de Júllya, Noraney e Thaís, envolvendo «apitos»,» uivos tremulantes " e miudezas em papéis coloridos, Jussara 'ticando carretéis de linha e fabricando 'topins numa engenhoca enorme, e tirei fotos dos demais, como as moças responsáveis por os milhares de traques e 'poletas e os manipuladores de pólvoras com botas de borracha imersas num filete de água de 5 cm.-- regra para os barracões de manipulação de produtos mais sensíveis. E, no final do passeio por 'sa verdadeira fazenda de fogos (de propriedade do Sr. Élcio Gonçalves, e sob responsabilidade do jovem David) -- também cheia de árvores e que tem até uma mina d' água natural, os funcionários Geovani e Ronan testaram do lado de fora, para eu ver, o " sputinik ": um artefato do tamanho de uma vela que, quando aceso no chão, solta fagulhas no formato de uma árvore de Natal prateada; e a " metralhadora ": que acesa e lançada ao chão, metros adiante, emite uma rajada de ruídos similares aos de 'sa arma. Mas, antes disso, o barracão em que mais me detive foi o de número 21, o da Drageadeira. É em ele que Sandrinho insere um copo de pequenas sementes arredondadas e umedecidas e, conforme lhes adiciona preparados químicos, elas vão crescendo e se transformando nas «baladas de cores». Depois, de acordo com a quantidade de massa, ele as coloca às palhas de arroz em cumbucas de papelão que formam 'feras, as bombas de meia à dezesseis polegadas, que com os 'topins e pólvoras de combustão, mais o «flash», produto que as faz abrir em circunferências luminosas, são colocadas em canos individuais ou em Kits para as queimas de fogos. Segundo ele, todo preparo que leva o sal bário (nitrato ou carbonato) resulta na cor verde; se é o nitrato de 'trôncio, dá o vermelho, e o amarelo pode vir do carbonato de potássio. Agora, depois de aproximadamente 12 horas de 'crita, constato que faltou muita coisa pra dizer ou que, como adverti, posso ter passado alguma informação trocada sobre cores, químicos e pólvoras. Mas, oh, cada vez mais gosto de Japaraíba que eu costumo chamar de Japaraíso, e qualquer dia eu volto lá e 'crevo mais acertado procês sobre o céu de ela e os japaraibenses. Bom 2008 pra todos os overmanos. Número de frases: 41 «Quanto mais selvagem melhor». Assim uma experiente viajante definia o visual proporcionado por o Rio Negro aos passageiros dos barcos que deslizam por o seu cenário. Era início de setembro. Ainda 'távamos percorrendo os 40 minutos de 'trada e dividindo os R$ 40 reais da lotação (táxi) que separam a cidade de São Gabriel da Cachoeira do porto de Camanaus. O alto preço do traslado é um castigo financeiro para quem perde o único ônibus que passa às sete da manhã (e custa apenas dois reais) e leva até onde as embarcações intermunicipais atracam, longe assim, devido à quantidade de pedras que torna impossível a navegação dos grandes barcos regionais em frente à cidade. A o chegar no porto, hora de comprar a passagem. Em os recreios (nome popular destes barcos) existem 3 opções de acomodação: o primeiro andar de redes é sempre cerca de vinte reais mais barato que o segundo andar, que custa duzentos reais, a diferença se justifica por o barulho dos motores no primeiro piso assim que o barco começa a navegar, além do constante movimento de embarque e desembarque de cargas durante as 'calas, inclusive de madrugada. Quem quiser ficar longe de todos 'tes incômodos e do aglomerado de redes no segundo andar, pode optar por uma viagem nos camarotes, todos com duas camas e ar condicionado, mas o luxo custa 600 reais no caso do trecho em questão. Decidi como sempre atar minha rede no segundo andar, e assim deixamos 'te assunto monetário para trás. Em os barcos regionais é difícil ser o primeiro a chegar. É um hábito comum passageiros embarcarem na noite de véspera para assegurar um bom lugar para atar a rede ou mesmo não perder a viagem. «Semana passada, eu ouvi anunciar que o barco ia sair meio-dia, 'tava vindo ao porto quando o táxi deu prego (enguiçou), fui chegar somente onze horas, mas o barco já tinha saído às dez», lamentou Maria Domingues, que precisou 'perar uma semana para viajar à cidade de Santa Isabel do Rio Negro, pois as partidas de São Gabriel da Cachoeira ocorrem apenas às sextas-feiras. «Parece que o barco 'tava lotado de carga e passageiro, daí a Capitania mandou ele embora mais cedo», explica a passageira que de 'sa vez preferiu dormir na embarcação. Em a Amazônia, a compra antecipada da passagem não garante vaga certa. A precaução é necessária. O porto é improvisado e o barco 'tá levemente encalhado. Em época de vazante o nível do rio Negro baixa da noite para o dia, para conseguir desatracar, todos os passageiros foram «convidados» a descer, menos mulheres com crianças que vão para a parte de trás do barco servir de contrapeso. Indiferente a tudo, apenas um cidadão de meia-idade 'palhando uma alegria alcoólica permanece em sua rede rindo de um infinito repertório de prováveis piadas que ele mesmo conta em voz alta, ninguém entende uma só palavra, mas ao final dos curtos relatos naquele dialeto pessoal sempre sobrava uma gargalhada. «Manda ele empurrar o barco!», sugere uma senhora para um dos tripulantes. «Se fosse Tukano eu entendia, ele já tá ' bacana ' mesmo!», 'clarece. De ré, o barco se liberta para navegar, os demais passageiros reembarcam por uma balsa e às 10h36 a viagem começa. O serviço de bordo Em o custo da passagem 'tá incluída a alimentação básica: café, almoço e a janta, todos em sistema self-service. O barco Tanaka Neto VI possui um sistema mais libertário para os passageiros que podem se servir e comer em qualquer lugar, na maioria das embarcações, uma única mesa em cada andar provoca filas enormes e uma constrangera pressão silenciosa de quem 'tá em pé, aguardando a vez, sobre quem 'tá comendo. Aqui não, montei um prato quantitativamente digno para alguém que não tomou café e fui curtir o visual no terraço, enquanto um casal se acomodava para comer no chão. Nada demais, é apenas mais um dos muitos hábitos mantidos por indígenas e descendentes. A paisagem composta por floresta, rio e montanhas é um privilégio de 'ta região, a Bela Adormecida fica mais próxima e o sentimento de presenciar tudo isso, desperta uma mistura de realização pessoal com uma tranqüilidade imbatível testemunhando ainda o vôo de garças, gaivotas, gaviões, pontas de cigarro, cascas de melancia e asas de frango. É isso mesmo, na mesa ao lado, um grupo de militares muito à vontade jogava tudo o que infelizmente não engoliam para a água, mesmo com um cesto de lixo ali ao lado da mesa clamando para ser usado. Tal interferência me fez mudar de lugar. Uma dupla surpresa Terminei de almoçar presenciando um índio conversar em inglês com um 'trangeiro. Fortunato Ferreira, da etnia Tariano, trabalha como guia profissional há quatro anos utilizando o conhecimento de mateiro (pessoas com extremo conhecimento da floresta) para acompanhar o alpinista alemão, Paul Salomon, na subida do " Pico da Neblina. «Infelizmente 'tamos voltando, fomos informados que os Yanomami fecharam a reserva e não 'tavam deixando ninguém passar», explicou Fortunato, destacando que a montanha 'tá dentro da reserva da etnia. Segundo o guia, a informação dada por funcionários do Ibama foi de que uma equipe de TV e pesquisadores tiveram seus equipamentos e roupas retidas por os indígenas e 'tavam presos há dois dias numa maloca. «Eles 'tavam aborrecidos e cobraram mil e oitocentos reais para deixar a gente passar», conta. Mostrando-se contrariado, o indígena surpreendeu ao criticar o poder público sobre a falta de controle na área. «Eu me pergunto para quê serve Funai, Governo Federal, se eles fazem o que querem lá, dizem que ninguém passa e ninguém passa mesmo», disparou. Confesso que poucas coisas no mundo me surpreendem, mas ao constatar a opinião de um descendente indígena criticando toda uma etnia politicamente organizada por exercitar a autonomia conquistada por lei sobre seu território, percebi que alguns indígenas também podem se voltar contra indígenas. Curiosamente, quem viu o investimento da viagem não se concretizar lamentava ter recebido a notícia apenas em São Gabriel da Cachoeira. Mesmo sem ver a montanha, o alpinista não se considerava decepcionado. «Gostaria muito de subir, mas 'tou muito feliz por 'tar aqui fazendo 'ta viagem, não dá para se decepcionar com 'ta paisagem», afirmou. Dizendo ter considerado alto o valor do pedágio Yanomami, Paul disse que demoraria a voltar ao Brasil sem demonstrar maior insatisfação. «Lamento por ser trabalhoso planejar uma viagem como 'ta, mas se a terra é de eles penso que têm o direito de fechar a porta, vou adiar o Pico da Neblina e priorizar outras montanhas por o mundo», concluiu. A hora do deslumbramento A paisagem que agrada o alpinista alemão ganha o seu momento de maior 'plendor entre onze da manhã e duas da tarde. A posição do sol transforma o leito do rio Negro num imenso 'pelho (foto), refletindo com perfeição as formas das nuvens no azul de um céu onde o barco navega. De tão bonito, chega a ser hipnótico a ponto dos amantes de 'petáculos naturais, como eu, 'quecerem da existência de coisas pequenas e tão sem importância como o tempo. Em as margens, como em todos os rios da Amazônia, a longa faixa de floresta é interrompida por casas isoladas ou comunidades ribeirinhas que podem ser bem observadas, já que o rio Negro apesar de naturalmente largo em comparação com outros rios brasileiros, ainda tem sua largura aquém do visual semi-oceânico da proximidade com Manaus. Somente para situar o leitor, percorremos apenas quatro horas desde São Gabriel da Cachoeira, de uma viagem prevista para dois dias. Gente viajada A os 27 anos, o 'tudante Mauro Dias nunca 'teve além de Manaus, mas adquiriu muitas histórias para contar em suas inúmeras viagens por o Rio Negro. «O bom é ir parando, conhecendo, tomando banho», comenta. Com disposição para desafios, ele conta que quando adolescente fez o trecho entre sua cidade, São Gabriel da Cachoeira, à Santa Isabel do Rio Negro inteiramente de rabeta -- canoa adaptada com motor de pequeno porte. «Saí às seis da manhã e cheguei às duas, fiz isso a primeira vez sozinho, a segunda foi com uma namorada», diz Mauro, que percorreu em tranqüilas 20 horas o trecho que um barco de linha conclui em onze. Pescando o próprio almoço, visitando comunidades, entrando na floresta por terra ou braços de rio chamados furos, Mauro lembra as belezas do passeio. «Em 'sa área aí pra dentro você encontra orquídeas, muitos pássaros e muita coisa natural mesmo de se admirar». Para dormir, ele 'colhia pedras consideradas fora do alcance para alguns animais que oferecem perigo. «É tudo muito bonito, mas é perciso ter cuidado sempre e respeitar a floresta para poder voltar para a casa», recorda, revelando um grande susto durante uma pescaria, tomado pouco antes de se refrescar na água. «Olhei pra baixo antes de mergulhar, era raso tipo um metro e meio quando vi aquele triângulo enorme, um cabeção embaixo da canoa. Quando meu amigo pegou no arpão que fez aquele barulho no casco da canoa, a água balançou toda e bichão desapareceu», diz Mauro, sobre o dia que quase mergulhou para a boca de um jacaré. Transtorno para muitas comunidades, os jacarés tem se multiplicado em áreas protegidas por lei, e sem predadores, já contabiliza superpopulação em várias partes do Amazonas com sucessivos ataques a ribeirinhos. «Tem que ter muito cuidado. De aqui até Barcelos tem demais e dá para encontrar jacaré-açu até de seis metros», adverte. Rotinas no barco Com o sol baixando o terraço começa a ficar mais povoado. O barco começa a entrar num labirindo de ilhas chamado Massarabi e começa a fazer um zigue-zague aparentemente inexplicável. «Aqui tem que acertar o canal. Tem muita pedra no fundo», resume o prático sem tirar os olhos do equipamento de sonar. Dois andares acima, um dos jogos preferidos do amazonense entra em cena formando duplas que duelam no sistema perde-sai. Jogar dominó no Amazonas é como experimentar a sua privacidade violada, pois a habilidade matemática de quem joga é tamanha que seus oponentes sabem o que você tem na mão já no baixar da primeira pedra. Todo barco tem um bar no terraço, a cerveja é vendida um pouco acima do preço de mercado, mas aumenta a empolgação de quem joga ou conversa, tudo ao som de clássicos como Reginaldo Rossi, Frank Aguiar, Zé Ramalho, e os neo-forrós de Berg Guerra, Calcinha Preta, Bonde do Forró e Pepe Moreno. às seis da tarde é servido o jantar e para acompanhar o 'petáculo do pôr-do-sol, o alpinista alemão acomoda seu prato num local privilegiado (foto em detalhe). Esta é também a hora de pico nos banheiros, todos aproveitam o começo da noite para tomar banho. Quando 'curece, a televisão é ligada no terraço para acompanhar as novelas e o Jornal Nacional via parabólica, tarefa só possível graças à abnegação de um dos tripulantes que, de pé, ajusta constantemente a posição da antena para a captação do sinal, isso acontece toda vez que uma TV é ligada durante uma viagem de barco. às dez e meia da noite o barco atraca em Santa Isabel do Rio Negro, com a televisão já desligada para o retorno do dominó e da música alta. O embarque e desembarque de passageiros não demoram mais do que 30 minutos, ao contrário do embarque de cargas que levou uma hora e meia perturbando quem dormia no primeiro andar enquanto passavam grandes caixas de isopor, caixas com frutas e sacos de farinha. à meia-noite o barco zarpa, o bar se fecha e os passageiros vão dormir em suas redes e camarotes. Particularmente, não gosto de dormir na rede com o barco cheio, com a proximidade entre elas você pode ser acordado no meio da noite com uma joelhada na cabeça ao menor movimento do vizinho, logo, com o terraço deserto, subo e monto minha barraca com saco de dormir -- isso não é bem recebido por os tripulantes. Mas a transgressão rende vento constante, céu 'trelado, conforto e uma cabeça sem traumas. Uma viagem não é apenas o deslocamento de um lugar para o outro, é principalmente o que a gente aprende com ela. Vamos dormir. Número de frases: 84 Depois a gente continua ... O Vale Desabrocha Pensar o Vale do Itajaí como sendo apenas uma região turística do sul do país onde se pode ver gente loira de olhos claros, apreciar a arquitetura enxaimel e curtir as festas típicas que acontecem durante todo o ano se não é ignorância, é pelo menos ingenuidade. É certo que muito mais do que o citado não chega aos ouvidos e leituras em outras regiões do Brasil. Mas há que se fazer justiça. Sim. Comecemos por Itajaí, que se apresenta como um excelente exemplo. Pois que é a única cidade do Vale que possui um verdadeiro teatro municipal. Em o mínimo, ousadia. Mas sendo o município da região que mais cresce, pode se ver que não cresce somente economicamente. Há, no meio disso, uma preocupação em desenvolver e aprimorar o gosto por a cultura e por a arte em seus diversos formatos. É o que a Fundação Cultural de Itajaí faz com maestria. Se bem que podemos pensar que, de um município que enriquece, não se poderia 'perar menos. Mas o mais impressionante é que existe uma efetiva procura por cultura. Sem procura, sem necessidade de uso, não haveria sentido a cidade ter, além do teatro, pelo menos mais duas casas de cultura; da mesma forma como não haveria sentido em promover o Festival Brasileiro de Teatro, manter o Salão dos Novos funcionando e outros tantos, tantos eventos interessantes que, como deveria mesmo ser, já recebem 'pectadores de diversas outras cidades-satélites de 'sa humilde capital cultural. Os eventos e projetos itajaienses podem e devem ser conferidos no site da instituição -- por quem mora perto e quem mora longe: se não puder visitar a cidade (Rio Branco não é logo ali), que pelo menos Itajaí sirva de inspiração para cidadãos das mais diversas vertentes brasileiras como uma cidade que promove arte e só ganha com isso. Com Blumenau, acontece -- embora com menor força -- um movimento parecido. Por aqui, (ô terra fabril), muito se reclama e pouco se faz em relação à criação e exposição de ações artísticas. Certo? Errado! Muito já vem sendo feito e pode ser facilmente percebido no projeto Roteiro Cultural que a Fundação Cultural de Blumenau (FCB) organiza junto à prefeitura. Para evitar que os eventos fossem aproveitados somente por participantes de seus respectivos segmentos (música para músicos, teatro para atores, sarau para poetas) como normalmente acontecia, surgiu a idéia de expor toda a programação do mês para todos os segmentos, inclusive para a população em geral, que talvez seja quem mais tira proveito disso. Assim, criou-se um público heterogêneo e os segmentos (plásticas, musicais, poéticas, cênicas ...) podem interagir numa miscelânea de gostos e jeitos às vezes os mais diferentes. Blumenau já conta com o CineArte, com o Circo Acústico e as mostras do Museu de Arte da cidade. Mas conta com uma surpresa. Pois. Não se pode 'perar sempre tudo do poder público. Pensando nisso, um grupo de autênticos atores-artistas criou a Temporada Blumenauense de Teatro, que funciona da seguinte forma: a FCB cede o 'paço e apóia financeiramente a divulgação, mas quem organiza, promove e mantém a Temporada durante todo o ano são os grupos cênicos, sejam eles amadores, acadêmicos ou profissionais. Uma surpresa, sem dúvida, quando a organização (algo tão importante para uma instituição pública) atinge a sociedade civil em prol de uma maioria. Nós. O povo. Santa Catarina é, já em si, mas também para os outros 'tados brasileiros, aquilo que a Europa mostra-se aos demais continentes: um aglomerado de povos com ascendências e aspirações culturais as mais diferentes, que muitas vezes não conseguem dialogar entre si por mera mania. Com O Vale do Itajaí, não é diferente. Se por motivos 'tritamente geográficos (as barreiras naturais: rios, montanhas e mato) ou culturais mesmo (ascendências distintas, como a germânica e a italiana), não saberia lhes dizer, mas eis alguns dos motivos para que você, seja lá onde 'tiver, saiba tanto a respeito da minha região como eu mesmo: pouquíssimo! Porque não se costuma informar e buscar informação a respeito do que se passa ao nosso lado. Mas, pesquisando, encontrei informações que serão utilíssimas para algumas pessoas. Por exemplo: Brusque, uma cidade basicamente têxtil-varejista, abriga há seis anos o Simpósio Internacional de Escultura do Brasil. Já foram homenageados por diversos e competentíssimos artistas Xico Stockinger, Amílcar de Castro, Oscar Niemeyer ... Um simpósio com duração de trinta dias: trinta dias de troca de experiências, informações e ... cultura! Brusque mantém o Museu Internacional de Escultura a Céu Aberto (Parque das Esculturas), que abriga as criações internacionais dos simpósios. E que merece uma visita urgente! Em Rio do Sul, pé da serra, um projeto da Fundação Cultural daquela cidade que merece destaque chama-se " Estação Cultural. «São 'paços que funcionam como 'colas culturais, onde são oferecidos aos alunos cursos gratuitos nas áreas de Artes Cênicas, Artes Musicais e Artes Visuais. As aulas são ministradas por professores da Fundação Cultural.», diz o site do órgão. E isso acontecendo embaixo dos nossos olhos. Para quem não conhece Santa Catarina, envio um sincero convite. Mas não somente para as famosas festas de outubro, para conhecer construções antigas e coloridas ou ver gente loira de olhos claros. Há muito mais por 'te 'tado que tão pouco configura culturalmente na cena nacional. Mas uma pergunta: existe 'se 'paço para Santa Catarina no cenário nacional? E para o Piauí, existe? Existe, no 'paço nacional, lugar para o Acre? Pra quem não sabe, Santa Catarina passa de «'tado de 'pírito» para «'tado que fomenta e induz à cultura». Ainda que timidamente, mas de coração. Certamente. Fundação Cultural de Blumenau Número de frases: 62 Fundação Cultural de Itajaí Fundação Cultural de Brusque Minha mãe adora o Programa Raul Gil e o assiste todos os sábados e domingos. Não tenho muita paciência para ver os «Jovens Talentos» do apresentador interpretando os mais variados gêneros musicais. Mas confesso que foi graças ao programa que redescobri Erasmo Carlos, o eterno ' amigo-irmão camarada ' do Rei Roberto Carlos e de quem me lembrava apenas de Sentado à Beira do Caminho. Gostei da Homenagem que o Tremendão Erasmo Carlos recebeu no programa e particularmente da forma carinhosa com que ele tratou os «Jovens Talentos», de» tio Raul». Foi no programa também que fiquei sabendo do Segundo Volume do projeto Erasmo Carlos Convida. Lembrei-me de ter ouvido, há anos, Erasmo Carlos cantando Café da Manhã com Nara Leão e Cavalgada, com Maria Bethânia e Minha Fama de Mau, com Rita Lee, além de Sentado à Beira do Caminho, com Roberto Carlos. As músicas integravam o primeiro Erasmo Carlos Convida que, realizado na década de 80, provava que Erasmo era «o cara» que sabia das coisas. Em aquele tempo, quando os discos de duetos não 'tavam na moda, ele juntou uma turma de peso para gravar ao seu lado e fazer os fãs de ele e de Roberto, além da crítica, é claro, redimensionarem a sua importância na parceria. Agora, quase três décadas depois, quando o «Rei» se contenta em realizar discos sofríveis nos quais mais parece um cantor gospel e ecológico, sem 'quecer o lado «censor», Erasmo mostra novamente que é» o cara " e que é dono de uma trajetória pontuada por momentos de extrema genialidade e igualmente, fundamentais para a história da música brasileira. Um desses momentos foi, com certeza, o criação, no ano passado, de sua própria gravadora, batizada de Coqueiro Verde, antigo sucesso gravado por o Trio Mocotó. Em a verdade o grande mérito de Erasmo Carlos Convida II é justamente provar que a importância do compositor na música brasileira passa por cima de ritmos e 'tilos. Erasmo transita livremente por a bossa nova, samba e até em canções românticas, normalmente associadas a seu parceiro Roberto Carlos. Isso sem deixar o público 'quecer que ele é um dos pais do rock nacional. Coqueiro Verde foi 'colhida para abrir o disco e ela aparece num dueto com Lulu Santos numa versão que reforça o groove original da música atualizada por os samples e os beats eletrônicos. O resultado é um contagiante samba rock eletrônico. Erasmo acertou ao fazer com que os arranjos de base das versões fossem realizados por os convidados ou seus respectivos produtores. As composições ganharam novo frescor e a interação entre o anfitrião e o convidado foi perfeita. Tema de Não Quero Ver Você Triste, que Erasmo interpreta ao lado de Marisa Monte tem acompanhamento dos músicos da cantora e podia muito bem se encaixar no repertório de Infinito Particular, último disco da artista. De a mesma geração de Marisa Monte, a eternamente cool Adriana Calcanhoto relê Ilegal, Imoral ou Engorda, mostrando que conhece bem o universo de Erasmo e Roberto Carlos. Erasmo já tinha trabalhado com o hermano Marcelo Camelo, na trilha sonora do filme O Casamento de Romeu e Julieta e convidou Los Hermanos para gravar a soturna Sábado Morto que pode entrar para a história da música brasileira como a última música da banda, que anunciou sua separação recentemente. A integração entre as vozes de Erasmo e de Rodrigo Amarante chega a ser assustadora, de tão perfeita. Paula Toller é o destaque de O Portão, interpretada por o Kid Abelha. A vocalista do Kid Abelha, aliás, é a única a participar por a segunda vez de um projeto coletivo de Erasmo: em 1989, ele rendeu homenagem exclusiva à geração 80 em A o Vivo -- Sou uma Criança, cantando iê-iê-iês com Paula, Paulo Ricardo, João Penca & Seus Miquinhos Amestrados e Léo Jaime. Simone se mostra contida e sensual em Vou Ficar Nu Para Chamar Sua Atenção. Não chega a pecar, mas registra a gravação mais anos 80 do disco. Foi a vingança da cigarra que queria regravar a balada lançada em 1970 em seu disco Seda Pura, mas não teve autorização do Rei. O quarteto mineiro Skank assina outro ponto alto do disco: A Banda dos Contentes, uma crítica bem humorada à ditadura militar daquele ano de 1976. Djavan dá nova roupagem para a 'quecida De Tanto Amor. Milton Nascimento é o convidado de Emoções, o clássico de 1982. Sobre a gravação só resta dizer que não deve ter sido fácil reunir vozes tão diferentes numa mesma canção. Nada a declarar. A obscura Pão de Açúcar com o grupo vocal pré-Jovem Guarda Os Cariocas ganha ares de modernidade com uma produção 'perta. Tudo a ver. Um samba bossanovista, assim pode ser definida a versão de Olha, com Chico Buarque que ganhou arranjo de Luís Cláudio Ramos -- maestro de Chico. A música foi a primeira faixa do projeto a ser conhecida do grande público, graças à novela Paraíso Tropical. Há poucas semanas, quando Chico Buarque 'teve em Goiânia com a turnê de Carioca, o público lamentou a falta da música no repertório do show. É interessante ver Chico Buarque transitando no universo de Erasmo e Roberto Carlos. O melhor do disco, no entanto, é o dueto de Erasmo com Zeca Pagodinho em Cama e Mesa, que virou um pagodão romântico de primeira, daqueles que os apreciadores do ritmo já saem batucando na mesa. Já virou hit nas rodas de samba e pagode. Disco: Erasmo Carlos convida -- Volume II Artista: Erasmo Carlos Produção: Mu Carvalho Gravadora: Indie Records Número de frases: 47 Preço: 27 reais Não poderia ser diferente, mais cedo ou mais tarde eu teria que ver o tão comentado e pirateado «Tropa de Elite». Como publicitário, tenho que reconhecer que a produção do filme fez uma das melhores ações no mídia de distribuição, já vista no Brasil, ao inventar a história de que o filme foi roubado e caiu nas mãos dos camelôs. Convenhamos, você compraria de algum camelô um filme que nunca tenha 'cutado falar? Em tempos de marketing viral, a 'colha por a distribuição alternativa foi muito acertada, uma vez que bilheteria de cinema já não garante a produção dos filmes brasileiros faz tempo. Porém, não vou aborrecer vocês com 'se papo chato de publicitário. O Filme 'tá ai, é muito bom e recomendo a todos que vejam, pirateado ou não. Contrariando a imagem «glamorosa» da favela e do narcotráfico deixada por «Cidade de Deus», o filme, protagonizado por Wagner Moura, mostra os todos os lados da moeda. Quando se fala da violência gerada por o narcotráfico, é comum o debate focar sobre situação refém na qual os moradores da favela se encontram. No entanto, «Tropa de Elite» retrata a animalização dos policiais e dos traficantes, que ignoram totalmente o direito à vida dos moradores da favela, mas também revela o papel cruel e passivo da classe média que alimenta financeiramente o narcotráfico. Bem, 'se era o ponto que eu queria chegar. Falar que a polícia é violenta e que os traficantes são maus é chover no molhado, então vou fazer diferente. Vou falar de mim e do meu papel perante o problema. Sinceramente, não temo a polícia ou os traficantes, meu medo maior é quanto à falta de discernimento, pois, a meu ver, a única forma de você ser uma pessoa livre, ou chegar o mais perto disso, é tendo Discernimento e, conseqüentemente, Atitude. Em os cinco primeiros minutos de filme, o personagem de Wagner Moura fala uma fase que reflete perfeitamente o que penso: «As Pessoas Não Sabem Quantas Crianças Morrem Para Que Eles Enrolem Um Baseado». Agora, você deve 'tar dizendo para você mesmo: «O Mauro é um hipócrita sem precedentes, até parece que ele nunca fumou um». Em 'te momento é que entra o tal do Discernimento. Certamente, como todo adolescente normal da década de noventa, já fumei maconha e experimentei outras coisas. Porém, Não posso ser conivente com uma situação que subjuga seres humanos, logo, não participo de 'tas praticas «transcendentais» há muitos anos. Outro bom exemplo dos efeitos que os óculos da hipocrisia causam sobre a visão da classe média são os diálogos da novela que acabou na semana passada, «Paraíso Tropical». Como todos sabem, a trama toda girou ao redor do tema «garotas de programa». Reparem, as profissionais do sexo eram chamadas de garotas de programas e / ou vagabundas por os demais personagens, nunca de prostitutas ou, simplesmente, putas, como todos falamos. Provavelmente porque pega mal e crianças 'tavam vendo a novela. Chegamos num momento tão absurdo do preconceito e da hipocrisia, que chamar uma profissional do sexo de Vagabunda é tolerável para uma criança ver, mas chamá-la de prostituta é transgressor. O mais contraditório é que as prostitutas existem porque o pai de 'ta criança, assim como o tio, o avô e o diretor da 'cola financiam o mercado do sexo. Antes que fique resmungando na frente do computador, já respondo: não vou a prostíbulos ou casas que exploram o sexo como mercadoria. Pode perguntar aos meus amigos que me chamam de careta. Não intenciono que todos sejam como eu, mas ficaria muito feliz se as pessoas reparassem que a satisfação de elas não precisa tolher a vida nem a liberdade de ninguém. Número de frases: 31 Em março deste ano a única fábrica de vinis da América do Sul fechou suas portas. O Ministério da Cultura tenta reverter o fechamento e preservar a fábrica, mas ao que parece ela ainda continua fechada. Em uma época na qual os vinis 'tão mais vivos do que nunca em outros países, através dos DJs e suas pick-ups, por aqui, 'tamos perdendo a oportunidade de ao menos manter em funcionamento a Polysom Brasil, localizada no município de Belford Roxo no 'tado do Rio de Janeiro. A fábrica foi alvo de algumas reportagens entre elas 'ta da Revista Piauí. Não sei se aconteceu ou 'tá acontecendo alguma mobilização em relação aos músicos para preservação da mesma. Não sei se 'tá acontecendo alguma mobilização por parte da prefeitura ou do 'tado. Só sei que perdê-la será péssimo para todos aqueles que gostam de música e do som das bolachas. Enquanto a moda do sleeve face aparece, a única fábrica de vinil em solo brasileiro desaparece. Número de frases: 8 Antes da partida, num vagão vazio, sonolento da noite de farra anterior, 'cuto as marchinhas de carnaval reproduzidas por os alto-falantes da 'tação. Hoje começa o carnaval, hoje finalmente chega a «turma do funil». Ansioso de carnaval e trem, acompanho os turistas retardatários, que em 'ta sexta vêm em pouco número e apresentam um sorriso de leve assombro no rosto. O trem se prepara para a partida. Tocam-se as sinetas. O apito da Maria Fumaça. Sinetas. O despertar de Maria. As marchinhas continuam tocando nos alto-falantes enquanto saímos da 'tação, o sol ilumina os bancos dos vagões. A rua de cidade corre ao lado, ao longo da longa rua que corre ao lado da 'tação uma mãe carrega uma criança. Dois comissários de bordo aparecem e pedem minha passagem. Apito do trem. A cidade vem no lombo do trem. Em um cruzamento, os carros 'peram que a locomotiva passe. Apito. Os vagões balouçam. Um homem de fisionomia 'tranha pára numa 'quina e observa a máquina com nome de mulher, como em outras milhares de vezes. Parece a primeira. Ponte urbana de ferro. Sobre ela, já cantei bêbado certa madrugada. Apito demorado, Maria Fumaça, Maria. «Danceteria Caminho do Trem», lugar de forró e de morenas tímidas. Que se derretem por muito pouco. Atravessamos o bairro do Matosinhos, trânsito novamente parado. Aceno para trabalhadores e não pareço ridículo. A máquina, aqui, é um elo de ligação, não de afastamento. Apito, sinetas. Vamos deixando São João del Rei. Uma moça entra em meu vagão vazio com uma bandeja de cocadas. Obrigado, já 'tou saciado de doçura. Vamos deixando São João del Rei. Já. Rio cheio de chuva. Sítios 'parsos. Cavalos comendo grama. Garotos à beira do rio cheio acenam. Aceno de volta. Uma pena que seja «proibido viajar na plataforma». Começo a entender a fascinação do mineiro por o trem. Natureza dos dois lados horizontais. Vaquinhas ao sol mascando clichês. Tremula belíssimo campo de girassóis. Um Corcel branco debaixo de árvore não abriga casal clandestino. Longo trecho sem apitos. Pequena igreja sulcada nas pedras no sopé de montanha. Apito longo saúda o mundo. Atrevo-ma andar por o vagão, desisto. Milharais. Delineia-se a serra de São José, aquela que conforta Tiradentes e um casal de cinéfilos que não se conhecem de noite anterior. Maria se insinua, e eu lembro de uma Maria, do corpo sobre uma pia de carnaval, eu já sou outro, todos já somos outros, e como isso nos conforta. «Proibido Pescar». Apito, fumaça. Trabalhadores surrados deixam de ser trabalhadores para se verem crianças no trem. Mundo. A serra de São José nos acompanha. Trem. Montanha. 10.38. Ponte de ferro sobre rio revolto, aquele das mortes. Borboletas. Vamos entrando em Tiradentes, cidade chaveiro. Prefiro as cidades que não cabem dentro de um bolso. Em o vagão em frente, a moça das cocadas com pano branco enrolado na cabeça conversa com um dos comissários de bordo. Magnífica paisagem de levantar vôo dos pássaros sobre campos inundados. As crianças de Tiradentes nos recebem com novos acenos, um garoto 'tá com tridente e chifres. Era, é carnaval. Apito, aí vem Maria. Casas com hortas, cachorros. O maquinista capricha em 'ta chegada. Sinetas, pracinha. Charretes 'peram os turistas. Estação, onde 'tá a 'tação. Curva. A 'tação chega, e pára devagar. Fim? A moça das cocadas sorri. Desce do vagão da frente, também vazio. Fala «é tão gostoso que não dá vontade de sair mais do trem, não». Falou pra mim?, talvez se chame Maria, talvez falou para o senhor que vende postais. Desço. Passo por as charretes, por os trilhos. Entro em Tiradentes a pé, querendo pensar em trens que me atormentam. Em a volta, é certo: falarei com Maria de Maria. (As fotos que ilustram o texto são do fotógrafo sanjoanense Kiko Neto. Confira o trabalho de ele em www.olhares.com/kikoneto. Vale a pena também uma visita em São João del Rei ao museu localizado na própria 'tação, que conta a história da origem do transporte sobre trilhos e conta com instrumentos como relógios, alicates de porcelana para troca de fusíveis, injetores de água de locomotiva a vapor, máquinas impressoras de bilhetes, monômetros, telégrafos, etc, além da locomotiva Baldwin 4.4.0, fabricada em 1880 na Filadélfia, Estados Unidos, que transportou D. Pedro II e sua comitiva à São João Del Rei para a inauguração da Ferrovia Oeste de Minas, em 28/08/1881. O museu possui também reproduções de jornais antigos relatando a chegada das ferrovias em Minas. Preço das passagens: inteira ida -- 15 reais; inteira ida e volta -- 25 reais. Funciona sextas, sábados, domingos e feriados). Número de frases: 82 http://www.opdigital.pbh.gov.br O Cavalo de Tróia é um 'paço de movimento. Um 'paço dinâmico que se forma com o intuito de discutir a movimentação artístico-política de «baixo». De uma outra perspectiva. A OCT vem no sentido de desmistificar a grande dependência existencial de artistas as grandes gravadoras, produtores, a mercado consumidor 'tabelecido, ao suposto cordão umbilical que submete a «criação» a uma hierarquia de importância mercadológica, reproducionista. Em outras palavras, a OCT não é um 'paço de concepção político-cultural definido. É um fórum permanente de discussão, que por natureza se propõe apartidarista, horizontal e anti-burocrático (o que significa dizer que não haverá uma hierarquia de função). Em a História da Antiguidade Clássica, o «Cavalo de Tróia» grego foi um meio de se chegar ao inimigo -- os troianos. Em o presente contexto, a auto-organiza ção (característica maior da OCT) será um meio, uma alternativa ' criada ', para se fazer cultura e política, uma vez que os 'paços existentes, ou 'tão dominados por as grandes corporações, ou são disputados numa perspectiva de quem será a força hegemônica. Objetivos Gerais Estimular o debate sobre a auto-organiza ção quando não há 'paços para a divulgação do produto artístico; Estimular um diálogo mais aberto e franco entre os «pares» artísticos, no sentido de desfazer a visão mercadológica que os coloca como rivais, individualizando o produto artístico, que num contexto coletivo pode ser amplamente mais fértil; Objetivos Específicos Estabelecer uma 'pécie de Cooperativa em que os artistas serão os únicos protagonistas e, por conseguinte, na ajuda mútua, se auto-promoverem e criarem condições materiais reais para a criação; Desmistificando os mitos de que a criação artística precisa 'tar condicionada a alguma «corporação» ou «empresa cultural», automaticamente o cenário de artistas cuiabanos se ampliará; Possibilitar o acesso ao produto artistico-independente aos 'paços em que predominantemente há hegemonia do que vem de cima (da grandes vontades financeiras). Tais 'paços podem ser: Escolas, Associações de moradores, Praças Públicas, de entre outras. As primeiras bandas apoiando a iniciativa: Pleyades (Rock Experimental), Partenza (Folk Rock), Menorah (Metal), Raiva em Paz (Stoner Rock), Vitrolas Polifônicas (Blues), Praxis (Rock N'Roll), Antrochaotic (Death Metal), The Heaven's Fall (Death Metal). Cuiabá já teve tempos bem melhores para o rock. Atualmente, no meio do último mês de 2007, não tem nenhuma casa de show na ativa, nenhum show de banda rock marcado, público desagregado. Em o passado havia muito mais bandas de qualidade, locais adequados pra shows, e uma legítima movimentação. Confira. A Equipe OCT planeja com muito critério um evento de lançamento do movimento, em março de 2008, com alguns ' pré-lançamento ' a partir de fevereiro. Número de frases: 24 Junho, 2008 Meu dia naquela segunda-feira começara cedo. Havia sido informado sobre a existência de uma rádio comunitária chamada ' A Voz do Cai N ´ Agua ', localizada bem à beira do rio Madeira, em Porto Velho, e que abrangia apenas aquela área, cerca de um quilômetro aproximadamente. Resolvi averiguar de perto. Segundo comerciantes do próprio local, visitantes e trabalhadores que fazem o transporte de cargas nas embarcações a rádio realmente funcionava e era o maior sucesso. Infelizmente, ' A Voz do Cai N ´ Agua ' fechou sua única porta de acesso há mais de um ano, de acordo com os seus ouvintes. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu. Fiquei frustrado, claro. Voltaria para a casa de mãos vazias? Definitivamente, não. Como ainda 'tava cedo, resolvi fazer uma visita a lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Desta vez, 'tava com uma máquina fotográfica em punhos. Antes de entrar no patrimônimo é impossível não enxergar um cemitério de sucatas, encoberto por matos que serve também de morada para quem não tem onde viver. De o lado de fora do complexo, tive que ser rápido com as fotos porque poderia ser assaltado a qualquer momento, embora o dia ainda 'tivesse claro. Entro e começo por a Rotunda da'Ferrovia ' e o que se vê é o mais completo abandono de uma ferrovia que foi desativada há mais de trinta anos. Existem, dizem, projetos para a recuperação, mas tudo ainda não saiu do papel. Sigo em frente: Museu Madeira-Mamoré e, diante dos meus olhos, vejo a primeira locomotiva que deu vida a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, a ' Coronel Church Nº 12, em 1878, que recebeu 'te nome em homenagem ao coronel americano George Earl Church -- um dos responsáveis por a construção da ferrovia. A mesma locomotiva Coronel Church foi abandonada um ano após sua inauguração, em 1879, depois de percorrer apenas seis quilômetros. Segundo o pesquisador Evandro Rocha Lopes, a locomotiva ' serviu, no vilarejo de Santo Antônio, como galinheiro, forno de padaria, depósito de água e para tomar banho '. Muita coisa não mudou. Um rápido giro e é possível perceber que a palavra ' preservação ' parece não ser muito lembrada nas leis do museu. Quando chove, o local fica decorado com várias poças significantes. As peças antigas quando não tem legendas, 'tão 'palhadas sem organização. Uma aberração. Apenas um vigia é encarregado por a segurança do Museu. Não quero, com isso, culpar ninguém. Nem sei se adiantaria. Saio do Museu, enfim, e duas locomotivas 'tão enferrujando ainda mais em cima dos trilhos. Sabe-se lá quando voltam a funcionar. A última vez que isso aconteceu, no dia dos Finados do ano passado, apenas a máquina Nº 18 fez crescer a 'perança de uma possível recuperação. Pelo menos ainda existe 'perança. O tour chega ao fim e o que poderia ser um dos mais fortes pontos turísticos é visto do alto do Mirante II apenas como um resgaste de uma história que iniciou a história de um Estado. Vejo dragas 'palhadas sugadas por a terra, um barco rebocador servindo de varal e, pra variar, abandonado. Número de frases: 33 De fora, dentro e mesmo lá do alto, não é difícil sentir um grito antigo e cansado de socorro. Durante muito tempo à questão do negro no Brasil só era lembrada na data 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea, em 1888, abolindo a 'cravatura. Normalmente em 'sa data nas 'colas, as crianças negras faziam o papel de 'cravos e a loirinha se vestia de princesa Isabel, nada era falado sobre a resistência e as lutas dos negros, o destaque era por a ação da princesa Isabel. Em os anos 70 com o surgimento dos Movimentos Negros, ocorreu a denuncia desse equívoco e distorção. Assim, começou uma luta para que o povo brasileiro lembrasse e conhecesse as lideranças negras e as muitas ações de resistências dos negros africanos através da história. Um os pontos principais do Movimento Negro da atualidade foi enunciar que o dia 13 de maio não deve ser comemorado enfatizando a passividade do negro diante da ação misericordiosa do branco, afinal, durante a 'cravidão houve muitos movimentos de luta e resistência em diversas regiões do país. De 'sa forma, atualmente os Movimentos Negros atribuem um significado político ao 13 de maio, ou seja, promovem 'se dia como o dia Nacional de Luta Contra o Racismo. O Movimento Negro também deu destaque ao dia 20 de novembro, dia da morte de Zumbi -- do Quilombo dos Palmares -- como uma data a ser lembrada e comemorada, já que ele é considerado um dos principais símbolos de luta e resistência contra a opressão e exclusão vivenciada hoje por os afros-descendentes. A intenção de comemorar 'sa data -- 20 de novembro -- se deu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O primeiro passo foi dado, conta o historiador Alfredo Boulos Júnior, por o poeta Oliveira Silveira, membro do Grupo Palmares, uma associação cultural negra. A o conhecerem o livro «O Quilombo dos Palmares», de Edison Carneiro (baiano), os participantes de 'sa associação entenderam que Palmares foi a maior manifestação de resistência negra na história brasileira. Em o dia 20 de novembro de 1971, no Clube Náutico Marcílio Dias, fez-se a primeira homenagem a Zumbi dos Palmares. Esse foi o primeiro passo para que ocorresse em Salvador no dia 7 de julho de 1978, uma proposta por o Mnu -- Movimento Negro Unificado -- para que em 20 de novembro fosse o dia Nacional da Consciência Negra. Associações e Movimentos Negros de todo o país aceitaram a proposta e 'sa data representa o resgate no sentido político de luta, da resistência contra a opressão social. Assim, a partir da década de 70, Zumbi passou a ser valorizado no contexto de luta contra o mito da «democracia racial», auxiliando na desmistificação que a história apregoa sobre o tipo de relações raciais desenvolvidas no Brasil, como sendo uma 'cravidão pouco violenta e de resistências sem tanta importância. A visão da «democracia racial» ainda tenta apresentar para a sociedade a idéia de que os diferentes grupos étnico-raciais no Brasil existentes viveram e ainda vivem harmoniosamente diferentes da resistência dos outros paises. De aí a importância de Zumbi dos Palmares, sua representação ativa e rebelde se contrapõe a toda 'sa idéia instituída por o branco. A imagem de Zumbi não só representa a resistência negra, mas, contribui também, para que negros e brancos compreendam, aceitem e reconheçam as diferenças humanas. Em 2003, foi sancionada a lei 10.639/03 sendo instituída obrigatoriedade da inclusão da História da África e da Cultura Afro-brasileira no currículo das 'colas pública e particular de ensino fundamental e médio. A lei também determina que o dia 20 de novembro deverá ser incluído no calendário 'colar como dia Nacional da Consciência Negra. Toda 'sa nova leitura sobre o negro se deve principalmente à luta da Comunidade Negra e dos Movimentos Negros de todo Brasil. A o relembrar toda 'sa trajetória de vitórias não só do negro, mas, também do povo brasileiro, por sermos um povo miscigenado e termos como herança nosso jeito guerreiro de ser -- nunca desistimos -- sendo assim, conclamo a todos para refletir sobre a necessidade de acolhermo-nos uns aos outros, pondo por fim o preconceito racial. Que possamos criar em nossos filhos seres melhores e um mundo melhor. A foto postada nos faz acreditar que isso é possível. Confiemos e lutemos, pois, «sonho que se sonha junto se torna realidade». Número de frases: 25 Recebi, através de Dinho K2 de São Paulo (via Multiply), matéria sobre 'se disco do Matéria Rima, grupo de hip-hop de São Paulo que trabalha em 'colas incentivando a leitura e a pesquisa, desenvolvendo temas como folclore, histórias infantis, matérias do currículo 'colar, etc.. Eles dizem: «O ensino brasileiro precisa com urgência de um olhar crítico». Por o ineditismo da iniciativa achei que era importante reproduzir aqui no Overmundo a notícia com o texto de " Roberta Federico: «Este álbum é o marco do fim da busca dos educadores que desejavam uma forma de trabalhar com o Hip-Hop em sala de aula. O trabalho do Matéria Rima tem a produção executiva do Bico do Corvo Ltda e a produção musical de Grand Master Duda, além de contar com a participação de Jorge du Peixe (Nação Zumbi) e Nelson Triunfo. Letras que mantêm a tradição do pensamento crítico e ácido característico do rap, ao mesmo tempo em que abrigam musicalidade e suavidade, são fatores que tornam a obra apta ser usada em sala de aula até com as crianças menores. Aliás, «Matéria Rima -- Procurando Respostas» é resultado de um projeto que o grupo fez em algumas 'colas de São Paulo. A crítica ao «baixo nível da 'cola e da educação» é seguida de propostas de diferentes formas de se pensar a maneira com que os cidadãos brasileiros têm sido formados. Performances de montagens e scratches, História do Brasil, Biologia, Língua Portuguesa, Geografia, Ciências, Cultura Popular e Química dão a tônica do CD. «Procurando Respostas» questiona o papel da 'cola, da família e da sociedade na educação das crianças, uma vez que temos uma 'cola que incentiva a reprodução do conteúdo sem reflexão enquanto a família e a sociedade não parecem se incomodar com isso. A faixa «3 porquinhos (1 ideal)» faz uma releitura da fábula, mas numa linguagem periférica e explorando muito bem os simbolismos. «Menina vem» é a faixa para dançar, e faz um elogio às mulheres brasileiras ao mesmo tempo em que atenta aos perigos do sexo sem camisinha e ainda critica o machismo. Como aposta numa linguagem que ainda não recebeu a devida atenção do Hip-Hop, «Procurando Respostas» se mostrou um grande achado. Visite o website do grupo http://www.materiarima.com.br Roberta Federico Um pedacinho da letra de " POR QUE LER UM LIVRO?" pra sentir a pegada: «A cada segundo, a volta será ao mundo Se você for a fundo com isso Um role por o Cortiço e conheça minha quebrada Paulicéia Desvairada, Vidas Secas quase nada Há muitos Miseráveis 'quecidos Talentos 'condidos que já nascem sem dinheiro e preto Tipo Lima Barreto que através da 'critura, leitura se destacou no gueto É desse jeito a reação, conhecimento, explosão Descobrimento, Admirável Mundo Novo anseio Nós, ele, tu, eu, leio; Lês, lê, lemos, releio E entendo melhor ré, mi, fá, sol, lá, si, dó Em cima do pra que ler é fácil explicar ... Livros à mão cheia é germe que faz pensar ... Em a história de Monteiro Lobato Que mesmo com perdas não se demonstrou fraco Saiu de São Paulo e foi morar no Rio Começou a 'crever para as crianças do Brasil O homem que, até hoje, 'tá na memória nacional Tipo um gol na final. Então, se liga na parada: Número de frases: 37 Quem não lê, não Sabinada." Os quatro personagens da nova peça de Mário Bortolotto são ultra-reais. Eles não cabem no mundo por existirem a partir da radicalização das relações humanas desse mundo. Eles sofrem mais, riem mais, ironizam mais e morrem muito mais do que os humanos normais. Marcus (acho que era 'se o nome) é o alter ego projetado de Bortolotto, personagem presente em muitos dos seus textos. Cris é uma atriz, amiga e ex-amante de Marcus. Ela já recebeu a sentença de morte do médico e 'sa é a situação motriz de toda a peça. Ainda contamos com um amigo / parasita de Marcus que vive de bicos tocando piano em casas GLS e o síndico do prédio: uma bicha declaradamente enrustida e evangélica. Fora 'te último personagem, que, convenhamos, só por a sinopse já é muito exagerado, todos os outros funcionam como um tripé de sustentação da realidade que Bortolotto propõe. Questiona-se o significado da chegada da morte através da imagem da pilha de pratos que se acumula na cozinha, representação da vida. Nem a referência forçada a Ivam Cabral, nem as piadas jogadas sobre evangélicos e nem mesmo o tardar do horário conseguiram diminuir o brilhantismo do encontro desses personagens. A iluminação não ousa, a trilha não atrapalha e o resultado é uma aura de sobrerealidade que só pode entender quem assiste a peça do começo ao fim, e sofre junto com os personagens, nos seus silêncios e risos. Como a peça não vai terminar sempre às 3 da manhã, recomendo que, no próximo domingo, você perca o Faustão (como eu) e confira a montagem no Satyros 1, às 19:00. Número de frases: 14 Mas não 'pere que o fim do seu domingo seja mais feliz por isso. Eram 19h30, e aquela era a última matéria do dia, atravessei a cidade, mais de 8 km até chegar ao Curiaú, numa quarta-feira de agosto, começavam os festejos para o padroeiro daquela comunidade. Tinha uma missão simples, pegar as informações, entrevistar algumas pessoas e fotografar o evento. Aprendemos na faculdade que temos que ser objetivos, sempre 'crever na terceira pessoa e evitar as emoções. Bom, 'tou deixando tudo isso de lado, pois diante da cena que presenciei, não pude não me emocionar e não contar a minha impressão com tamanha beleza e riqueza da cultura de uma pequena comunidade que apesar dos tempos modernos, ainda busca manter sua tradição. Chegando àquela igrejinha, toda pintada de branco, vejo um povo simples de sorriso no rosto. No meio de eles, em destaque 'tá um grupo de homens mais velho, vestidos de branco. Em as costas da camisa 'tava 'crita a palavra «Folião». Eles são os tocadores e cantadores da ladainha, são os guardiões da cultura do povo do Curiaú. Muito respeitados, não por a força, ou por o status social, mais sim por a história, por os seus conhecimentos. A o entrar na Igreja, vi as velhas senhoras, com suas saias rodadas, seus colares de balangandãs, seus rostos mostrando o tempo que passou, mas também a vontade de viver. «Não podemos morrer, pois nossa cultura não pode partir com nós me dizem com aflição nas vozes. Em a busca de manterem sua cultura, tentam convencer as mais jovens, a deixar o jeans e as músicas modernas para aprenderem a dançar o Batuque, a expressão maior de sua tradição, de seus antepassados. Será difícil (por o que observo) as mais jovens largarem as mini-saias, que deixam a mostra a sua exuberante beleza, para adotarem as saias longas. Embora algumas jovens já se interessem por o Batuque, como tocadoras. «Elas agora querem tomar o lugar dos homens», disse um folião. Uma jovem rebate «E por que não?». O impasse continua -- tempos modernos, requer atitudes modernas também: «Se elas não querem dançar, que toquem então, pelo menos assim, continue existindo o nosso Batuque» diz uma dançadeira buscando uma saída para o problema. Então me deparo com as crianças pequenas olhando com admiração para aqueles tocadores Foliões, lá na frente do altar. Quem sabe, a solução 'teja em eles?-- me questiono. Continuo minha observação, no altar os foliões tocam e cantam a ladainha para um jovem rapaz que sofreu um terrível acidente, ele 'tá segurando São Joaquim, a emoção é visível em seu rosto, às lágrimas 'correm por os olhos vermelhos, 'tá em transe, compenetrado por àquela cantoria, que ora é cantada em latim, ora em português. Os Foliões vão um a um até ele para beijar o santo e cumprimentá-lo. Aquela capela parece um palco, onde 'tá sendo encenada uma peça de teatro, ou uma cena cinematográfica, de tantos elementos cênicos que contém. É um 'petáculo de cultura popular que acontece todo mês de agosto, a 8 km da capital do Amapá, Macapá, no Curiaú, um resquício de quilombo, onde se pode dormir com as janelas abertas e as pessoas ainda se cumprimentam e os mais velhos são tratados como se deve, com respeito. Quando se chega ao fim de 'ta missa tão diferente, o povo vem até o Santo para rezar e pedir proteção para a noite que se iniciará, ao som do Batuque na Casa de dona Chiquinha. Com tambores a posto e pandeiros na mão, os batuqueiros dão inicio a festa, a Casa de dona Chiquinha no dia 9 de agosto, serve de barracão para a Comunidade dançar a vontade, com comida e gengibirra, oferecido por ela. E como é bonito ver as quebradas dos corpos no compasso da dança, a força das mãos dos batuqueiros, a graça nas letras do cantador e mais bonito ainda é presenciar isso tudo enquanto ainda existe. As festividades continuaram até o dia 19 de agosto, dia de São Joaquim. Número de frases: 30 Possivelmente poucos brasileiros conhecem a cantora brasileira Luciana Souza. Pois ela é uma das ilustres convidadas de Herbie Hancock no álbum de jazz River -- The Joni Letters que ganhou no último dia 11 de fevereiro o prêmio Grammy de melhor disco de 2007. Notem que não foi o prêmio de melhor álbum de jazz, mas o de melhor disco do ano, desbancando astros da pop music e do rock. Não é pouco, pois isto é fato raro e surpreendente num ambiente marcado por a música comercial e de péssima qualidade. De fato, é a segunda vez que o um trabalho jazzístico ganha o Grammy de melhor disco do ano. A outra vez foi em 1965 com o álbum de Stan Getz e João Gilberto Getz/Gilberto. Coincidentemente com a participação de um outro brasileiro que a partir daí transformaria os rumos da música popular no seu país e no mundo. A Bossa Nova reinventou a MPB, reoxigenou o jazz e lhe deu a beleza melódica de Jobim, Donato, Alf, Lyra, Menescal, Powell, Lobo, Valle, Eça, Blanco, Castro Neves e tantos outros. E, é claro, a voz, o violão e o singular modo de cantar de João Gilberto. Pois agora um disco de um renomado jazzista, que começou sua carreira tocando com Miles Davis, deu belas canjas em discos de Milton Nascimento e é um dos grandes mestres do jazz contemporâneo, leva o mesmo prêmio com um disco talvez tão revolucionário quanto foi Getz / Gilberto. Em ele Hancock obtém êxito naquilo que muitos músicos perseguem: unir a sofisticação do jazz com o pop sem abrir mão de uma música de qualidade excelente. Não é algo simples. Em a realidade é como juntar água e óleo. Apesar do pop flertar com o jazz desde que 'te deixou de ser uma música purista para absorver influências de vários gêneros musicais, a alquimia entre jazz e pop nem sempre deu certo, desagradando tanto a jazzistas quanto a consumidores de música pop. Hancock se saiu bem na sua empreitada porque une a sofisticada beleza de seus arranjos executados por excepcionais instrumentistas do quilate de Wayne Shorter, Dave Holland, Vinnie Colaiuta e Lionel Loueke às vozes de cantoras populares no circuito do jazz como Norah Jones, Corine Bailey Rae, a própria Joni Mitchel (homenajeada e autora da maior parte das músicas), Tina Turner (ícone do rock belamente revigorada numa das mais belas canções do disco) e Luciana Souza, a quem Hancock agradece a «habilidade e precisa navegação» numa exaltação a sua performance tecnicamente perfeita e emocionalmente viajante na canção «Amélia». Mas quem é Luciana Souza afinal? Nascida em Sao Paulo é formada em Composição Jazzística por Berklee e tem uma carreira sólida nos Eua. Já foi nominada ao Grammy como melhor cantora de jazz por três vezes (2002, 2003 e 2005) e já gravou e se apresentou com vários grandes nomes do Jazz. Apesar disto e de cantar muitíssimo bem tanto em inglês quanto em português e, principalmente, música brasileira, Luciana é muito pouco conhecida no Brasil. Aliás ela até tentou carreira aqui, mas sem sucesso voltou às terras do Tio Sam, onde foi melhor acolhida e hoje é considerada celebridade no meio jazzístico. Como João Gilberto e Jobim, Luciana em sua carreira ascendente também pode tornar-se um dos grandes gênios musicais brasileiros a triunfar no circuito da música jazzística internacional. E aí, quem sabe, a reconheceremos no Brasil. Por enquanto seu desconhecimento por aqui parece ser fruto em parte da desinformação que brasileiros têm sobre a qualidade dos seus artistas mais talentosos no exterior e em parte por um certo desprezo por 'tes artistas fazerem uma carreira no exterior, o que revela um misto de xenofobia e preconceito. Número de frases: 24 3 eleitores foram presos em Coxim por irem votar com um nariz de palhaço. Número de frases: 1 Como toda grande cidade brasileira, Fortaleza tem bem definido o que é lugar de pobre e de rico. Um apartheid social absurdo. Por as praias -- por onde a capital cearense é reconhecida e disputada como destino turístico em todo o mundo -- não é diferente. Aqui, a famosa Praia do Futuro vende seu peixe e seu nome por levar uma 'trutura robusta de barracas, incomum em várias cidades praianas. Serve bem à turista. No entanto, o outro lado da faixa litorânea da cidade tem um perfil mais invocado. Além da Praia de Iracema, o visitante que passa por Fortaleza tem a chance de descer por o rumo do Mercado Central até a Leste-Oeste, onde em 'sa avenida se encontra talvez a mais «canelau» das praias daqui. E uma das mais belas vistas da capital. Canelau, pra quem não sabe, é uma gíria que circula fácil por aqui a cada vez que alguém se a refere à gente lisa, pobre mesmo, lascada. Enfim. Lá, só há divulgação popular. A Praia da Leste-Oeste não é reconhecida (nem recomendada) das classes média e alta. Portanto, a elite sabe que ali é uma bagunça e até certo ponto perigoso -- por a ocorrência comum de assaltos -- mas desconhece a boa gente do lugar: autêntica e uma das pioneiras no negócio de barracas de praia. Servem às redondezas: Pirambu, Centro, Jacarecanga. Muita gente. Som alto, criança correndo, pulando. Uma galera movida à cerveja e caranguejo barato. à beira-mar, a vista pega o Marina Park Hotel -- o maior de Fortaleza, a Praia de Iracema e toda a orla da Beira-Mar (Meireles) seguida de prédios aloprados de custo e tamanho. Um privilégio. Por lá, a Barraca da Zizi é uma das pioneiras daquele pedaço. A os domingos, divide a freqüência popular entre os vizinhos barraqueiros. Com a zoada no mundo, ela tenta contar história: «há 15 anos, a gente trazia as coisas num carrim de mão, os vasilhame. Aqui era só uns pau véi», lembra, do tempo em que os freqüentadores, para garantir uma vaga onde sentar, enterravam as cadeiras na areia a cada fim de semana. Desde menino, Daniel Linhares, 41, surfa na Praia da Leste-Oeste. E tem moral pra definir: «aqui ainda é uma praia de elite, por ser uma das mais centrais de Fortaleza. Sendo que a presença é do povão». Ele acha que o turismo ali não vinga por falta de segurança. «É perigosa», diz ele, antes de eu ser avisado que era melhor o fotógrafo que me acompanhava tomar cuidado com a câmera fotográfica. «O mar não é próprio para banho, o lodo coça muito», avisa Daniel, sem dispensar a dica, apesar da coceira. «Em a Praia do Futuro a onda é muito mexida (sem perfeição) pra surfar. Aqui é no ponto». Número de frases: 35 Como a cultura popular é apropriada por grupos nacionalistas com o intuito de legitimar regimes autoritários? O entendimento deste mecanismo é o ponto de partida para a defesa da hipótese da cultura «supranacional», uma nuvem de sabedoria universal que pairaria acima do indivíduo e das sociedades nacionais. A cultura ficaria alocada, em 'ta visão um tanto quanto tresloucada, numa localidade extraterrena neutra, semelhante ao mítico 'paço etéreo no qual 'tariam localizados os Registros de Akasha, o conjunto de todos os conhecimentos humanos e universais. Os indivíduos que conseguissem transcender as noções de «cultura» e de «sociedade» (ou só a de «cultura», já que praticamente 'ta substituiu a de» sociedade ") teriam condições de circunscrever os vértices ideológicos e políticos de uma superestrutura cultural (na acepção marxista) e assim beber elementos da cultura universal direto na fonte. A politização da cultura A propaganda política se vale, não raras às vezes, de expedientes que muito poderiam interessar à comunidade psicanalítica, a saber, técnicas de manipulação de símbolos que, ao serem devidamente inculcados na massa, induzem tipos 'peciais de reações, muitas de elas pavlovianas. Comportamentos 'tes que beiram a histerias coletivas similares às registradas por etnólogos que 'tudam comunidades tribais. O psicólogo russo Serge Tchakhotine, que analisou a fundo o tema, comparou os métodos de propaganda política nazista a um «envenenamento da alma», não muito distantes de uma» coerção psíquica " e, no clássico A mistificação das massas por a propaganda política, 'creveu outras expressões bem familiares aos profissionais do hipnotismo. De que forma os nacionalistas se apropriam de símbolos com o intuito de manipular as massas? Em uma primeira vista é óbvio os nazistas terem 'colhido a suástica como emblema do Partei, um símbolo que é, ao cabo e ao final, ariano. Entretanto, há outras 'colhas não tão óbvias que bebem em fontes folclóricas ou da cultura popular, sejam elas reais ou inventadas. O prato ideal para nacionalistas a procura de elementos culturais que sirvam de calço a objetivos políticos nacionalistas são os costumes, tradições e cerimoniais 'tagnados, em suma, práticas que se 'tabilizaram e se automatizaram no decorrer do tempo. Quanto mais imóvel e imutável, melhor. Os costumes vivos, mais afeitos a releituras, desconstruções e upgrades, não servem para os propósitos nacionalistas por serem alvos móveis. As apropriações da cultura popular para fins nacionalistas não é coisa do passado. Foi assim que surgiu, na antiga Iugoslávia, o turbo-folk, um pastiche de gênero musical que virou o verdadeiro hino dos Chetniks, os nacionalistas sérvios. A introdução de elementos da Eurodance, composta por drones eletrônicos, em antigas canções do folclore sérvio provou ser uma combinação ideal para os nacionalistas xenófobos. A união kitsch entre dois gêneros musicais distintos para fins nacionalistas foi replicada no casamento de Ceca, a rainha do turbo-folk, e Arkam, o sanguinário líder de um exército paramilitar sérvio. Em o caso brasileiro, qual seria a brecha cultural a ser explorada por nacionalistas? O bumba-meu-boi 'taria fora de cogitação devido a sua enorme flexibilidade e dificuldade de se encontrar elementos puros em suas diversas manifestações, sejam elas do Maranhão ou do Piauí (ou outras regiões). O 'petáculo Bull Dancing, concebido por Marcelo Evelin, é uma livre interpretação do auto e foi concebido ao arrepio dos nacionalistas. A história da grávida Catirina, que tem desejos de comer a língua de um boi mágico, foi traduzida com toda a força de uma expressão universalista, passível de ser lida por indivíduos pertencentes a outras culturas. Se um grupo de nacionalistas brasileiros desse um golpe de Estado, teria duas opções para «inventar» uma simbologia de identidade nacional: adotar o carnaval de sambódromo, que há muito tempo tornou-se um cerimonial 'tático e quase vazio de sentido; ou incorporar em sua simbologia tradições armazenadas em perdidas instâncias primitivas, como as indígenas, e assim forjar tradições puras e não corrompidas por as «culturas hegemônicas». Ainda não 'tá claro como a cultura é politizada por grupos xenófobos com o intuito de forjar uma «memória nacional» -- o que se constata é que costumes 'táticos, sem movimento, criam brechas, pontos de irrupção para pontos de inflexão centralizadores. Ademais, o que parece 'tar claro são os alvos 'colhidos para a perpetração das fraudes culturais: tradições que, com o excesso de repetição, tornaram-se cerimoniais vazios. E, se os nacionalistas não encontrarem tal alvo, então eles simplesmente o inventam, segundo a tese do historiador inglês Eric Hobsbawn no livro A invenção das tradições. Cultura e sociedade Logo, as manifestações da cultura popular devem adquirir dinâmicas que não as prendam em bunkers culturais ou regionalismos de diversos matizes que as tornem presa fácil para grupos nacionalistas. Para tanto, devem absorver uma mitologia transcultural e uma universalidade não aristotélica, elementos que dificultariam as apropriações políticas e facilitariam seu ingresso na 'fera dos «bens universais». Tal tarefa é complexa, pois implica em remover a cultura (no sentido amplo) da 'fera das leis positivas e, assim, torná-las sujeitas às forças das leis naturais. O paradoxo é colocar algo que é comprovadamente fruto das atividades humanas no mesmo quadrante, por exemplo, das leis da física (melhor: da mecânica quântica). Problemas 'truturais resolvidos com várias soluções em paralelo: integrais de Alaíde Costa cantando «O Jangadeiro» somando-se aos de Orson Welles filmando It's All True. Buracos de ligação 'paço-temporal. A primeira tarefa é reconstituir o conceito de sociedade à luz de uma inspiração holista e, em seguida, resistir às tentações formalistas de entender a sociedade no sentido de uma comunidade presa a agenciamentos mercadológicos, numa manobra que associa o sistema cultural à economia capitalista. Uma das prioridades, na execução de 'ta empreitada, é separar a noção de cultura da de sociedade -- levando em conta que viver em sociedade significa fazer concessões, e, ao se falar em «concessões», falamos eminentemente de concessões políticas. Faz-se mister, portanto, resolver a equação implícita na antinomia sociedade e cultura e formular uma crítica às políticas da cultura (e não às políticas culturais, tema alheio ao objeto da presente reflexão). É importante ressaltar que não cabe à presente reflexão criar uma nova teoria da cultura ou entrar em detalhes discursivos sobre as grandes dicotomias que têm mobilizado o pensamento antropológico. Frisa-se apenas que a proposta de uma teoria supranacional de cultura 'tá mais associada a uma sociedade como organismo 'piritual do que a uma sociedade tal como é entendida por os arautos da antropologia econômica. Desta forma, ensina-nos Eduardo Viveiros de Castro, a teoria proposta tenderia mais para a noção de universitas do que a de societas. Em suma, e ainda citando o antropólogo: «a cultura seria uma realidade extra-somática de tipo ideacional». O common cultural Em a Inglaterra e no país de Gales, em tempos de antanho, o common (de common land) era um pedaço de terra sem proprietário reservado à pastagem de animais da comunidade. O surgimento da sociedade industrial e a subseqüente introdução de propriedade privada aceleraram o desaparecimento de qualquer vestígio de «terra sem dono». Mas aqui 'tamos restritos ao mundo material, do qual é praticamente impossível destacar as noções de objeto e propriedade. Mas e se a noção de common fosse transposta para uma área cinzenta simbólica, para um setor de onde se originou todo o repertório cultural da humanidade? A visualização de tal substrato cultural suprabiológico e supranacional seria impossível sem os recursos da metáfora, portanto é conveniente justapor com noção de common a figura dos Registros de Akasha, uma 'pécie de banco de dados 'piritual onde 'taria armazenada, além de todo o conhecimento humano, toda a história da existência universal. E os registros têm imanência, como por exemplo, quando dois indivíduos têm a mesma criatividade em locais, circunstâncias e tempos diferentes. Qual seria o elemento mais próximo dos Registros de Akasha nos dias de hoje? Talvez os servidores descentralizados da Internet? Ou uma ilha no Second Life? Seja onde for: longe das tradições puristas (tão caras aos Tartufos da política), livre das dicotomias antropológicas do tipo nacional e 'trangeiro, tradicional e moderno, central e periférico, popular e erudito -- a cultura 'taria pronta para experimentar uma nova abordagem, menos racional e mais fenomenológica, menos religiosa e mais mística. O preço de 'ta transposição é que a humanidade teria obrigatoriamente que repensar conceitos agregados à cultura, como os de autoria, 'tética, governo, privacidade, comércio, amor, parentesco, etc.. Teria que repensar todos os sistemas de vida, enfim. Número de frases: 59 Esse título parece com um conto de realismo fantástico, e foi exatamente o que eu imaginei quando me falaram que saía hoje (28 agosto) uma corrida de bicicletas tipo tandem (de dois assentos) com um surdo e um cego por 150 Km. É verdade que a comunicação entre eles no inicio deve ser meio difícil ... mas é lindo pensar que duas pessoas que têm dificuldade em algo podem funcionar juntas um ajudando na deficiência do outro. O que um evento como 'se faz pensar é que não só os cegos e surdos precisam de 'sa união, todos temos problemas que podem ser minimizados com apoio de outra pessoa, que por sua vez, vai precisar da sua ajuda em outro aspecto. A corrida é simbólica, quase um ilustração do velho ditado «uma mão lava a outra». Em o Terceiro Tandem Tour Bahia eles vão pedalar uma média de 40 km por dia, durante cinco dias. Partindo de Alagoinhas, chegam em Salvador, passando por 4 cidades onde pernoitam. Diz o site do evento que em cada cidade visitada há palestras sobre a inclusão, com apresentações de peças teatrais e música tocada por conjuntos da Escola Comunitária de Atendimento Integral, que incluem pessoas cegas e mesmo alguns surdos. A chegada aqui em Salvador vai ser no dia 1° de setembro no Colégio Antonio Vieira. Número de frases: 9 Não achei muito mais informação do que isso sobre o evento na internet, mas me deu muita vontade de ir para Alagoinhas acompanhar de perto a empreitada, e quem sabe aprender a andar de bicicleta. Os homens se vestem de mulher. Usam até maquiagem. São todos negros. A dança e a música vêm da África e são usadas para louvar santos da igreja católica. A igreja, por sua vez, apóia o movimento, apesar dos maracás, pandeiros, triângulos e bumbos que fazem lembrar as músicas de um culto afro. É o samba do crioulo doido? É não! Falo dos Congos de Oeiras, um dos mais representativos grupos de congo do país. Para quem não sabe, Oeiras foi a primeira capital do Piauí e guarda hoje boa parte do patrimônio histórico e cultural do Estado. Lá existe um bairro que antigamente, nos tempos do Brasil Colônia, era habitado apenas por os negros. Foi no bairro do Rosário que o grupo de congo se formou e começou a louvar em terras piauienses a santa de devoção dos africanos que viviam 'cravizados no Brasil, Nossa Senhora do Rosário. Havia na época duas igrejas em Oeiras, a de Nossa Senhora das Vitórias (padroeira do Estado), que foi a primeira igreja do Piauí e na qual os negros não podiam entrar; e a de Nossa Senhora do Rosário, que guarda até hoje a marca da segregação da época da 'cravidão: uma linha que divide o 'paço onde os negros eram obrigados a ficar. Voltemos a 2006. O grupo que existe hoje não tem ligações de sangue com os primeiros congueiros. É bom ressaltar que o Congo acabou em meados de 1937 -- os motivos ninguém sabe ao certo, talvez por causa da proximidade do período das guerras; ou por a chegada do ' progresso ' a Oeiras, em forma de luz elétrica; pode ter sido também por a migração dos homens simples em busca de melhores empregos e salários no sul maravilha ... enfim, segundo os próprios congueiros de hoje, não há um consenso sobre os motivos. O certo é que a tradição foi resgatada em 1985 e desde então o grupo vem crescendo e contribuindo para o aumento da auto-'tima do povo negro lá do bairro do Rosário. O que era apenas uma festa local agora começa a ganhar o Brasil. Esta semana os Congos de Oeiras 'tão participando por a segunda vez do Festival do Folclore de Olímpia, no interior de São Paulo, que reúne os melhores e mais representativos grupos folclóricos do país. «Seu» Sebastião Vital de Sousa, 57 anos, é um dos fundadores do grupo. Ele fala orgulhoso da participação no Fefol do ano passado e das suas expectativas para 'te ano. «O que mais me marcou foi ver o povo lá de Olímpia, acostumado a ver os melhores grupos folclóricos do Brasil, dizer que nós somos o mais autêntico grupo de congos. Disseram isso porque não 'tilizamos nada, dançamos e cantamos da mesma forma como era feito no começo», diz. Em a apresentação dos congueiros de Oeiras não existe uma divisão entre quem canta, quem toca e quem dança. Todos os homens fazem tudo, ao mesmo tempo. Isso é que é bonito de ver. Perguntei ao Albino Apolinário, outro congueiro, quantas vezes eles ensaiavam por semana. Sim, porque vendo a sintonia no palco dá para pensar que eles não fazem mais nada, só entoam seus cantos e ensaiam seus passinhos marcados. Que nada! «A gente só ensaia quando tem alguma apresentação. O grupo é muito sintonizado e todo mundo sabe direitinho o que tem que fazer, quando tem alguma apresentação 'pecial como hoje (eles se apresentaram no Teatro João Paulo II, em Teresina) ou o Festival de Folclore, a gente ensaia uns dias antes, mas só para desenferrujar mesmo», revela. Os Congos de Oeiras tradicionalmente se apresentam na cidade natal em duas datas 'pecíficas: os festejos de São Sebastião e São Benedito, em janeiro, e de Nossa Senhora do Rosário, em outubro. «A gente canta e dança na frente das igrejas, os padres e os católicos apóiam e aplaudem, mas de longe», comenta Washington Luís, um dos mais novos do grupo. Vale lembrar que entre os maiores incentivadores do renascimento do grupo 'tão um padre -- Pe. João de Deus -- e uma freira -- Irmã Filomena -- que acompanharam tudo desde o início e trabalharam no bairro do Rosário durante muito tempo. É ele quem explica o porquê dos congueiros usarem roupas de mulher. «Antigamente, só as mulheres podiam louvar a Nossa Senhora. Não ' ficava bem ' que o homem também fizesse isso. Então os mais devotos pegavam emprestadas as roupas e maquiagens das suas senhoras e iam louvar a santa, cantando e dançando como as mulheres». E falando nas mulheres, qual o papel de elas em 'sa história toda? «Cuidamos das roupas e das maquiagens de eles, lavamos, passamos e organizamos tudo para que a apresentação saia perfeita. E sempre que é possível, viajamos para acompanhar nossos maridos e filhos», explica dona Maria Lúcia de Sousa, mulher do «seu» Sebastião. Ela diz que os Congos são um dos grande orgulhos de Oeiras e principalmente dos negros do bairro do Rosário. «É uma coisa bonita de ver, gostosa de ouvir. Todo mundo que assiste gosta, isso para nós é importante, aumenta nossa auto-'tima e dá força para continuar com o grupo». Quem 'tiver por perto de Olímpia 'sa semana não pode deixar de ir conferir o 42º Fefol. As apresentações dos Congos de Oeiras acontecem nos dias 12 e 13 de agosto. Para entender o Congo: Os congos vieram da África e representam basicamente a atividade de uma corte africana, que recebe a visita de um embaixador de outro país. O rei conta com a ajuda do seu ordenança e do secretário para convencer o visitante a louvar a Virgem do Rosário e a fé do seu povo. A música é bem ritmada e a dança é feita com pulinhos e muita ginga, que fazem rodar as saias dos congueiros. Eles usam chapéus afunilados e tocam algum instrumento: maracás de flandres, bumbos, triângulos e pandeiros. Número de frases: 58 Existem grupos em vários cantos do Brasil, mas poucos se mantém fiéis às origens africanas, o de Oeiras é um de eles. «Pais, filhos, conversem mais. Nem que seja por o celular." Era assim que o músico Marcelo D2 deixava o seu recado na campanha publicitária da operadora de telefonia TIM, no Dia dos Pais de 2005, criada por a agência McCann-Erickson. O pano de fundo é uma mesa, o filho numa ponta, o pai na outra. O pai lê o jornal e toma café, o filho 'tá com um jogo eletrônico portátil e toma seu cereal matinal. Aparentemente, não há nada de errado: apenas a ausência de comunicação. A tecnologia deveria ser a ferramenta que ajudasse o homem a resolver problemas. Mas, se a gente parar e refletir sobre como 'tá utilizando a tecnologia a nosso favor, poderá notar as pedrinhas no caminho e, até mesmo, muros invisíveis que distanciaram humanos de humanos. É muito comum, nos dias de hoje, ter acesso a produtos tecnológicos, ou até viver tão tecnologicamente condicionado, sem saber ao certo como aquilo foi acontecer (muito comum em países emergentes). Para as empresas responsáveis por a venda e «democratização» da tecnologia, é mais conveniente ignorar o fato de que muitas pessoas não saberão utilizar aquela tecnologia a seu favor do que educá-las e sugerir a elas como utilizar tão poderosas ferramentas, facilitadoras para a relação humana de fato. Enquanto outras marcas do universo tecnológico exploram questões «avançadinhas» do que é ser «moderno» na era da tecnologia, a operadora de telefonia móvel TIM foi na contramão, utilizando sua comunicação publicitária para recomendar formas saudáveis de usar a tecnologia para viver melhor. Uma comunicação simples, sem tantos apelos gráficos e musicais, funciona de forma profunda; afinal, incomoda saber que, na era da tecnologia, a falta de comunicação é evidente, mas ninguém vê; é perfeitamente audível, mas ninguém ouve. Estamos muito ocupados para ver e ouvir. A publicidade educativa que venho comentando aqui no Overmundo é exatamente 'ta. É a comunicação que respeita o consumidor, «joga limpo» e sugere práticas de como viver melhor e enxergar além das belezas plásticas que não pertencem ao mundo real. Enquanto muitas corporações «martelam» o discurso da sustentabilidade e da responsabilidade social, poderiam, elas mesmas, olhar para o umbigo de sua comunicação e aí, sim, cumprir com todas 'sas palavras bonitas das «responsabilidades». Compromisso sincero, prova de generosidade genuína, se expressa com o 'tímulo a práticas conscientes de uso dos produtos. Se o homem se tornou submisso às máquinas, não posso afirmar com toda a certeza. A questão é que ainda há tempo para refletir sobre a tecnologia, e sobre como vamos utilizá-la a nosso favor em dias tão confusos. Que caiam os muros invisíveis. Quero começar a ver. Número de frases: 25 O problema de depender de outros é 'se: não importa o quanto você se 'force, você depende que alguém comprove algo sobre você. Essa é a trajetória de um ator, ele depende do público. Mas 'sa não é a discussão de hoje. A dependência é outra: a mídia. Tanto para o ator, vale também para o jornalista, que é o meu caso (jornalista-ator). Ele depende do editor, da linha editorial do veículo e, claro, de Q.I. (para os leigos, isso quer dizer Quem Indica). Então não adianta um amigo nosso querer publicar a pecinha desconhecida no jornal X. O editor não vai deixar. No caso do ator, não adianta achar que alguém vai querer publicar matéria sobre você, mesmo com Q.I.: vai ter sempre uma peça com algum global 'treando em algum lugar de São Paulo (ai, se fôssemos um grupo do Acre!). Eu fiz Jornalismo. Não, não construí as fundações arquitetônicas da universidade. Cursei o cursinho de Jornalismo. E aprendi que pra ser chefe de redação é preciso de cancha, de repertório. E o repertório diz: o leitor quer saber que pecinha o ator da novela tal vai 'trear. A cancha diz: mesmo que seja mais uma comedinha da qual já 'tamos de saco cheio, o público quer assistir isso, salvo os intelectualóides, 'tudantes de teatro e alguns raros sensíveis «públicos» (o que é uma verdade parcial). Eu sou ator. Desconhecido. E sofro pra conseguir um 'pacinho. Que seja, ali, bem no roteiro de sexta-feira. Vitória aparecer por ali, viu? Ainda mais no fim-de-semana de 'tréia. Não fosse o empenho de preparar press kits bonitinhos com direito a um presentinho para entregar aos jornalistas, nem roteiro dava ... De aí que, na véspera de 'trear uma peça (em tempo, ela se chama: «Amores Dissecados» e o grupo é o Teatro Insano) em pleno Espaço dos Satyros, na super Praça Roosevelt, um epicentro de cultura, oásis de inteligência artística, um movimento (podemos chamar assim já? Registra aí, Magaldi) cultural sem precedentes, eu conto com a mágica de pisar em cena 'perando alguém, pelo menos. Vamos aguardar. O Q.I. funciona, viu? Mas, como ator, você tem que ter cancha. Tem que ter repertório. Um repertório fodido. Uma carreira crescente. Alguns prêmios na gaveta e, talvez, um fomentinho pra poder gastar com publicidade na Ilustrada e no Caderno 2 (tem mais publicidade do que matéria, repararam?). De aí, beleza. Agora, em início de carreira, xi ... Mas a gente continua. O teatro é o que importa. Sempre ... Pensamento do dia: Número de frases: 40 devia ter feito curso de Marketing ... Em a primeira e única vez em que vi Tom Jobim, eu ainda era 'tudante de música na UNICAMP. O ano era 1993, e o Free Jazz Festival acontecia em São Paulo, com shows de grandes nomes da música contemporânea. Juntamos alguns colegas e nos amontoamos em meu velho Corcel 73, saindo de Campinas rumo à capital paulista. A ironia 'tava no fato de que não íamos lá por o Jobim -- nosso interesse musical se voltava para as outras atrações da noite, grandes 'trelas do jazz internacional, das quais não me recordo mais. O maestro seria apenas o «aperitivo». Claro que 'távamos enganados ... Após burlarmos a segurança do festival, já que todos 'távamos duros -- é incrível a «engenhosidade» dos 'tudantes para «penetrar» em eventos de 'ta natureza. Em pouco tempo 'távamos acomodados nas mesas de outros colegas músicos e prontos para assistir aos três shows que seriam apresentados naquela noite. Ainda me lembro bem da aura familiar que se formou tão logo Gal Costa começou a entoar as primeiras canções. O maestro, ao piano, com a economia e classe que lhe eram característicos, desfiou uma a uma suas intrincadas harmonias, fazendo tudo parecer simples e ao mesmo tempo genial. Em o palco, além de Gal Costa -- que brilhou soberana em suas interpretações -- um time de músicos e convidados do primeiro time aqueceu gradativamente a noite: Shirley Horn e Jon Hendricks nos vocais; o sax tenor Joe Henderson -- autor do excelente «CD Double Rainbow», com músicas do Jobim; o pianista Herbie Hancock -- que se apresentou recentemente em Vitória; e o até então pouco conhecido pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, que teria seu solo daquela noite em «Água de Beber» indicado ao Grammy em 97. Tocaram ainda Paulo Jobim (violonista e filho do Tom); Ron Carter (baixo); Harvey Mason (bateria); Alex Acuña (percussão); sob a produção atenta de Oscar Castro-Neves. A música soava tão mágica e absolutamente familiar, que só pude compreender a magnitude do momento nos dias seguintes, relembrando os fragmentos do show. A música de 'ta apresentação pode ser conferida no CD «Antonio Carlos Jobim& Friends» (Verve Records). A despeito do rol de 'trelas que desfilaram por o palco naquela noite, o que realmente ficou daquela apresentação foi a certeza de que Tom Jobim é sem dúvida a maior expressão da música brasileira de todos os tempos. Não é à toa que Jobim virou adjetivo, e se hoje falamos em música jobiniana, logo vêm à cabeça harmonia e melodia irreparáveis, sabor brasileiro com toque universal, e extremo bom gosto. Tomando como exemplo Villa-Lobos e Carlos Gomes, e ainda que 'tes sejam sem dúvida dois gigantes, nem um nem outro foi capaz de alcançar uma personalidade 'tilística clara a ponto de deixar um legado tão bem delimitado quanto Jobim. Sei que muitos vão pular da cadeira ante 'ta afirmação, e reconheço inclusive a forte influência da musica do Villa na obra de Jobim, mas ter sua música veiculada por 40 anos nas paradas de sucesso do mundo inteiro, sem abrir mão da qualidade, e ainda continuar atual, é um feito que poucos conseguiram, de entre os quais posso citar rapidamente Mozart, Miles Davis e os Beatles. Desculpem, mas não se trata de comparar (Jobim é incompárável ...). Voltando ao Free Jazz, é claro que saí do show com aquela sensação de experiência com o divino: extasiado e um tanto amedrontado por a onipotência do deus e sua obra. Em a hora de voltarmos para casa ainda passamos por um sufoco ao constatar que o cabo da vela de ignição -- que havia sido retirado do Corcel para impedir sua partida caso alguém se aventurasse a roubá-lo -- seguira por engano na bolsa de um de nossos colegas, que pegou carona em outro carro, nos deixando numa roubada. Após horas de procura por um cabo de vela sobressalente, fomos salvos por um taxista precavido que levava dois cabos com si, e pudemos enfim voltar para Campinas. O contratempo não nos tirou o humor -- naquele momento nada importava, 'távamos plenos de satisfação e com nossas cabeças fervilhando com a música brasileira sorvida na mais pura fonte. Ainda não sabíamos que aquela seria a última apresentação de Tom Jobim no Brasil. Alguns meses depois ele viria a falecer. Segundo «Arnaldo Jabor,» a morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore, foi a derrubada de uma floresta». -- Não, Jabor! A árvore caiu mas a floresta continua lá, com seus matita-perê, seus urubu-rei, seus bôtos e seus passarim. A vida é pau, é pedra ... é também o fim do caminho. Hoje o maestro 'taria completando 80 anos de vida. Vou colocar o «Urubu» no CD player e ficar namorando o encarte do vinil ('te é um dos poucos discos aos quais não resisti e tive que possuir nos dois formatos). É que eu 'tou sem toca-discos ... Não importa, vou botar «Ângela» no volume máximo e me lembrar daquela noite em que pude ver e ouvir o mestre por a primeira e última vez. Se pudesse, o convidaria para comemorar seu aniversário aqui em casa, oferecendo o que há de melhor na culinária capixaba -- a moqueca, apenas com algumas adaptações. Segue então a receita de Moqueca à Jobim: Ingredientes 1 Kg de Peixe cortado em postas (Surubim ou Guerra-Peixe) 1 Piano de Cauda (não confundir com piano de " calda ") 60 músicos de orquestra em naipes 1 molho de percussão brasileira (berimbau, pandeiro e caxixi) 1 maço de Villa-Lobos 1 maço de Debussy Cravo e Canela 1 litro de whisky 1 charuto cubano Modo De Fazer Primeiro tenha à disposição uma cozinha bem brasileira (violão, piano, percussão). Junte os ingredientes e aqueça em samba lento, mexendo bem até formar um caldo grosso. Acrescente um leve toque de bossa, lembrando de temperar sempre com o molho da percussão. Se for do seu agrado, use um pouco de folclore brasileiro de qualquer região. Tome todo o whisky, até ficar «pronto». Sirva em partitura, acompanhado por maestro e orquestra completa. O charuto cubano completa a receita. Bom apetite, maestro! Número de frases: 64 Se todo crítico de arte é um artista frustrado, Caetano Veloso inverte a regra: suas idéias costumam ser mais bem recebidas em forma de música do que em seus verborrágicos discursos. É moda na imprensa brasileira rechaçar ou ignorar as extensas declarações do doce-bárbaro. A imagem que se tem é de que ele sempre viaja errado, desenvolvendo longas teses sobre temas como a beleza de Osama Bin Laden ou o futuro do neo-concretismo. Por isso me surpreende a lucidez desconcertante do comentário tecido por Caê em seu livro «Verdade Tropical (Cia. das Letras, 1997)», no seguinte trecho, que me permito transcrever: «Um dos meus 'crúpulos mais recentes tem sido, desde 'ses tempos referidos como heróicos, o de submeter todas as minhas pretensões à pergunta: em que medida a oportunidade que se me ofereceu de brilhar como grande figura na história recente da MPB se deve à queda de nível de exigência promovida por a mesma onda de ostensiva massificação que eu contribuí para criar?». A pergunta do cantor baiano resume surpreendentemente bem a pendenga que se instalou na música brasileira desde a passagem do anticiclone tropicalista por 'tas bandas. Não tanto por assumir a criação de uma «onda de ostensiva massificação» na tal «MPB», mas por transparecer uma hesitação de consciência em relação a isso. Críticos mais severos, com razoável facilidade, identificariam no comentário de Caetano seu indisfarçável pedantismo. É bem provável, por exemplo, que o jornalista «Álvaro Pereira Júnior (Escuta Aqui», da Folha de S. Paulo) encontrasse no trecho ainda mais razões para o genial achincalhamento da» MPB " que ele promove habitualmente. Citando o crítico americano Greil Marcus, Álvaro elogiou certa vez Roberto Carlos, por não ser um artista que «pisca» para ele. Ou seja, não é um músico que gosta de parecer «simples e despojado», mas depois faz questão de piscar, para deixar claro: «Em a verdade, sou um grande intelectual cheio de projetos artísticos». Com certeza, ele incluiria Caetano e várias gerações posteriores de músicos brasileiros no rol dos «artistas que piscam». Outro comentário relevante do jornalista diz respeito à falta de tradição de cultura pop no Brasil. Para ele, 'se tipo de cultura deve explorar o fértil terreno que existe entre os fenômenos extremamente populares e aqueles reconhecidos como de alta cultura. Mas nosso país costuma ter apenas os dois extremos, com a agravante da «alta cultura» ser uma farsa, «uma liga pretensiosa de formas musicais populares com verniz erudito». O problema se apresenta, em termos práticos, na transformação da produção industrial de música popular brasileira, desde os anos 70, em sinônimo de arranjos cafonas e plastificados, tentando traduzir com incompetência e atraso as novidades do pop mundial, com letras invariavelmente pretensiosas e inevitavelmente entediantes. Essa tem sido a história da MPB ditada por os pós-tropicalistas, desde o «revolucionário» Clube da Esquina até o «gênio» Zeca Baleiro. Determinados artistas são endeusados, até que se descubra o blefe de sua genialidade ou a moda agonizante que eles copiam morra de vez, deixando os antigos fãs cheios de vergonha interna por terem caído em tal engodo. Ou, no pior caso, eles continuam enganando e djavaneando por décadas. O reconhecimento atual dos «não piscantes» Roberto Carlos, Jorge Ben e Paulinho da Viola, como no livro de Pedro Alexandre Sanches «Tropicalismo -- Decadência bonita do samba» (Ed. Boitempo, 2000), indica o 'gotamento do malfadado ciclo e a tentativa de sair desse mato sem cachorro onde Caetano nos abandonou. Apesar de certo charme no saudosismo e prazer em reabilitar artistas injustiçados, é impossível apagar e reescrever trinta e cinco anos de produção cultural. Corre-se o risco de, em nome da renovação, ficarmos na mesma ou piorar as coisas ainda mais, vide atuais sambistas-rock malas. Compreender o significado e a importância da revolução que comandaram Caê, Gil, Mutantes, Duprat e seus asseclas, destruindo genialmente os conceitos que anteriormente guiavam a música brasileira, talvez seja um caminho mais razoável para saber de onde, exatamente, surgiu 'se 'crúpulo de Caetano que trava há tanto tempo a tão potencialmente criativa produção musical do país. Número de frases: 26 Em 'se sentido, nem a autocrítica de Caetano, nem o radicalismo de Álvaro Pereira Júnior, nem os rigorosos 'tudos de Pedro Alexandre Sanches e nem mesmo louváveis e isolados 'forços práticos como os de Chico Science, nos levam ainda a uma conclusão satisfatória ou saída definitiva para resolver a enorme pendenga que herdamos de Caetano. Lá em Otto tem de tudo: chiclete, sorvete, cigarro, água mineral e cerveja. Salgadinho? Só em pacote! Mesa? Só em pé, na calçada ou na 'quina ... Lá em Otto, lugar batizado por os clientes do próprio, era (e é!) destino freqüente de três amigos que passam por lá -- de vez em ' sempre ` -- para apaziguar a secura da boca. Em a época todos tocavam em bandas diferentes, e as influências musicais mais pareciam um PF com salada, paçoca de carne de sol e macaxeira frita -- no cardápio: reggae, rock ' enrrou ' e progressivo, dub, mangue, clássicos da mpb, ritmos latinos, funk entre outros sabores. Em 'se prato feito, apenas uma unanimidade: o Samba-ROCK corria solto e nítido por artérias sonoras. «Otto, traz mais uma ' gela ` aí ' vai-lhe&lhes a '!, que o papo aqui vai acabar em samba». Assim foram os primeiros ensaios do Trio Boca Seca, entre uma e outra, com o maestro Fabão Rocha (guitarra e voz) botando pilha em Jordan Santiago (baixista e autor da maioria das letras) e no batera Éder Andrade. O time 'tava completo, ou quase, Jeromy Hadriel (guitarra solo), número 4 do Trio, incorporou-se definitivamente ao grupo rebatizando a banda: agora sim, 'tava ' formada a Orquestra Boca Seca. Caíram na noite com Tim Maia Racional, Jorge Ben, mundo livre s / a, Gerson King Combo, Funk Como Le Gusta, Seu Jorge e Nação Zumbi no case, uma seleção com o melhor da black music brazuca servida entre composições próprias. Não deu outra: a balada com a Orquestra logo virou sinônimo de noite pra «dançar-e-cantar junto»! Desde os tempos dos ensaios abertos na garagem da casa de um amigo, a máxima de Dorival Caymmi (versão adaptada) é seguida à risca. O baiano, em Samba da Minha Terra, disse tudo o que se precisa saber em 'sa hora: «Quem não gosta de Samba-ROCK bom sujeito não é / é ruim da cabeça ou doente do pé». Quase dois anos depois, muitos shows na bagagem e a conquista de um público cativo, a Orquestra Boca Seca lança seu primeiro EP com sete músicas, gravado ao vivo no 'túdio. O EP homônimo, que também marca o nascimento do selo Coletivo Records (criado por Fabão para atender incursões de potiguares por a black music), é apenas uma palhinha do que o quarteto é capaz de fazer no palco e prévia do CD ' oficial ' já em gestação: «Queremos gravar pra valer com cavaquinho e a metaleira toda!!». :: Samba-rock potiguar legítimo ganha passaporte no Mada: E quem aterrisar em Natal, durante o Festival MADA (03 à 05 de Maio) vai poder conferir o show de 'sa banda que 'tá conquistando seu 'paço na cidade e promete se revelar para o país. Número de frases: 28 Está 'perando o que pra dar o play?? Surgimento e contextualização. Minas Gerais é um Estado que não possui mar, mas, curiosamente, é responsável por a maior cena de surf music do Brasil, atualmente. Isso se deu graças ao trabalho da Reverb Brasil, a Associação Brasileira de Bandas de Surf Music. Tudo começou com a criação de uma lista de discussão no yahoogroups, em 2000. Os dois amigos que a criaram, Leopoldo Furtado e Daniel Werneck, tinham uma banda de surf music e resolveram unir outros grupos brasileiros numa lista de discussão, com o intuito de divulgar 'se 'tilo de música. Assim que criaram a lista, 'palharam por a internet a notícia. Os seus criadores afirmam que ela é uma lista de entusiastas, já que fazem parte de ela tanto artistas quanto apreciadores dos trabalhos destes. Atualmente são 148 associados -- com origem em todas as regiões do país, mais de 20 grupos musicais representados e já foram trocadas mais de 13 mil mensagens. O que ocorreu foi uma união de pessoas com um objetivo em comum: divulgar a surf music nacional. Há um interesse de um lado dos artistas em divulgarem a própria música, mas também em ver outras bandas do gênero ganhando 'paço e, conseqüentemente, gerando visibilidade para toda a associação. Se há uma representação física da Reverb Brasil, ela 'tá na capital mineira, Belo Horizonte. Pois era lá que eram realizadas as reuniões dos criadores da lista (elas 'tão suspensas até o 'tabelecimento de uma nova sede para a realização das mesmas). Tudo o que é discutido em 'ses encontros presenciais depois é apresentado para a lista, para que haja uma segunda discussão. A criação da Reverb não 'tá ligada a nenhum contexto 'pecífico de Belo Horizonte ou de Minas Gerais. A iniciativa poderia ser facilmente realizada em qualquer outra cidade. Tendo em vista que o 'tilo musical apresenta em sua maioria músicas instrumentais, a transposição de barreiras culturais e geográficas fica assim mais fácil de acontecer. Ela não só pode ocorrer em outros contextos, como, de acordo com seus criadores, a Reverb Brasil se inspirou no modelo de negócio nada tradicional da Psychobilly Corporation, de Curitiba. As duas iniciativas possuem diversas afinidades. Apesar de serem voltadas a gêneros musicais diferentes, elas atuam utilizando a ligação entre fórums on-line e listas de discussão gratuitas na internet com a realização de festivais, 'paço em programas de rádio, websites, etc.. Há uma interligação entre mobilizações de ações online e offline. Para uma iniciativa reconhecidamente informal, a Reverb alcançou resultados expressivos. Um dos sinais disso é o reconhecimento da mídia regional e nacional. Ambas têm conhecimento da iniciativa e praticamente todos os jornais e tvs locais já publicaram algum material sobre 'se trabalho. Nacionalmente, também houve cobertura em algumas revistas, jornais e tvs. Trabalhando em conjunto de forma descentralizada e aberta O caráter informal da criação da lista de discussão acabou servindo como base para todos os negócios que se 'tabeleceram a partir de ela. A horizontalidade nas relações entre os seus integrantes é algo importante a ser destacado. O caráter democrático e livre para a tomada de decisões é um aspecto fundamental para o desenvolvimento de suas atividades. Portanto, apesar de ter sido criada e possuir uma «sede» em Belo Horizonte, há autonomia para que integrantes da Reverb atuem em seu nome em seus locais 'pecíficos. Todos os participantes têm a autorização de produzir eventos sem o aval da lista. Essa forma de atuação visa disseminar o acesso à cultura da surf music. A utilização de diversas ferramentas na internet para a divulgação das suas ações (como Orkut, fotolog, rádios on-line, myspace) são vias para a disponibilização de mp3s, podcasting e quaisquer outros tipos de conteúdo gerado por as bandas integrantes. A facilidade para se ter acesso ao conteúdo musical produzido por os integrantes da Reverb Brasil é fundamental para a multiplicação de shows, eventos e expansão da rede de surf music nacional. A flexibilidade em relação à propriedade intelectual das obras possui o objetivo final (mesmo que não afirmado diretamente por todos os participantes da Reverb) de divulgação dos trabalhos dos artistas envolvidos. Essas tecnologias gratuitas de comunicação são fundamentais para a execução das suas ações. Elas são utilizadas de forma a facilitar e agilizar os projetos. Muitas vezes isso ocorreu de maneiras muito simples, como, por exemplo, a disponibilização de contratos padronizados para a cessão de direitos autorais na lista de emails, para que fossem veiculadas músicas dos artistas da Reverb num programa televisivo. Também em 'se caso não houve pagamento de direitos autorais aos artistas. Mais uma vez, a idéia era conseguir atenção da mídia e do público. É importante ressaltar que a execução das músicas no programa era voluntária, nenhum artista teve a sua obra utilizada sem autorização prévia. Essa facilidade para solução de problemas que envolvem partes geograficamente dispersas é um dos maiores pontos positivos da lista. A parceria mais importante da Reverb é, sem dúvida, a casa de shows belo-horizontino A Obra. Apesar da lista na internet ter sido criada anteriormente a 'sa parceria, o que se 'tabeleceu entre os dois lados é um tipo de relação de simbiose, já que com a atividade gerada, os dois lados são beneficiados. É lá que ocorre anualmente o festival Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe. O «Campeonato» já 'tá em sua sexta edição e é talvez o mais importante braço da Reverb, de acordo com Cláudio Pilha, proprietário d' A Obra, integrante da Reverb Brasil e baterista da banda de surf Estrume ' n ' tal. Uma outra importante parceria 'tabelecida para a Reverb Brasil foi a inclusão do Campeonato como membro fundador da Associação Brasileira de Festivais Independentes, a Abrafin, criada em dezembro de 2005. Essa é uma parceria entre organizadores de festivais com o objetivo de trabalhar em conjunto para atrair atenção da mídia e de investidores e também para demandar apoio governamental, o que já 'tá ocorrendo via Ministério de Trabalho, por meio de apoio do Sesc e do Sebrae. Além de 'sas duas principais parcerias, outras pequenas e diversas foram 'tabelecidas com atores locais: mídia, comércio, empresas de divulgação, hotéis, etc. Os braços da Reverb e a Surf Music como negócio Para facilitar a compreensão, dividirei as diversas formas de atuação da Reverb em três grupos. No entanto, alerto para o fato de que o limite divisório entre eles não é tão claro e definido e, em muitos casos, acabam se interligando. Tomo aqui a noção de «produto» na sua forma mais abrangente e não necessariamente mercadológica. a) Produtos de divulgação: A Reverb possui quatro produtos mais importantes de divulgação. Eles não geram nenhum tipo de renda direta e possuem gastos mínimos. * A própria lista de discussão, que é a fundadora de toda a iniciativa e ainda a maneira mais eficiente de comunicação entre os participantes. * O programa na Rádio Inconfidência (30 minutos dentro do " Rock Brasil "). Sendo 'se o segundo programa da associação, levando em conta que um primeiro foi realizado durante um ano e meio (de 23/12/2001 até 03/08/2003) na rádio comunitária Favela FM. Ambas as rádios possuem proeminência e destaque local. * O website localizado à http://www.reverb-brasil.org/ * A criação de uma banda coletiva, a Reverb All-Stars, composta por integrantes de diversos grupos e que tem a função de se apresentar em festivais de música para divulgar a surf music. b) Produtos diretos e de comercialização: Esses produtos comercializáveis são aqueles em que há algum tipo maior de custo e de renda sendo gerada e que 'tão mais diretamente ligados a um mercado consumidor. * O disco «Reverb Brasil: Uma coleção de bandas de surfe» lançado no formato CD. Esse foi o único disco lançado oficialmente por a Reverb Brasil. * O festival Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe, realizado anualmente, desde a criação da associação, em Belo Horizonte. c) Produtos indiretos e de comercialização: Esse grupo possui as mesmas características do grupo b, com a diferença de que 'ses produtos são difíceis de serem auferidos, pois eles representam os diversos desdobramentos indiretos que ocorreram graças à rede criada por a Reverb. A lista coloca em contato pessoas de diferentes regiões e consegue com isso facilitar turnês e a distribuição de discos. Como a atividade dos participantes da Reverb é altamente descentralizada, não há como saber ao certo quais eventos foram organizados por apenas uma iniciativa individual e quais 'tão diretamente ligados ao grupo, mas, de uma maneira geral, boa parte dos eventos realizados perpassa por a lista da Reverb em algum momento, direta ou indiretamente. Cito aqui alguns exemplos: * Duas edições do Hell Surf em Curitiba (evento que levou a «marca» Reverb) * Duas etapas em Salvador do Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe * Diversos outros shows organizados por o país inteiro com a utilização da rede de informações que foi criada. Como afirmei acima, a separação entre 'ses produtos é apenas para fins de compreensão, pois 'tão todos interligados. Em a maior parte das vezes, a sustentação e a criação de um produto 'tão ligadas à viabilidade de outro. Os produtos do item b não geram grandes somas. De acordo com dados apresentados por o organizador do Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe e proprietário do bar A Obra, Cláudio Pilha, os lucros e prejuízos gerados a cada edição não são muito significativos, portanto, podemos considerar que o evento costuma se auto-sustentar sem muitas dificuldades. Quando há prejuízo, ele é arcado por a casa de show e, quando há lucro, é dividido entre as bandas participantes. Os principais custos do Campeonato são: passagem, 'tadia, alimentação, transporte, divulgação. Eles são pagos com a renda gerada por a bilheteria. Em relação ao disco lançado, a tiragem inicial é de mil cópias. Esse número foi distribuído igualmente entre as diversas partes envolvidas na realização do produto: a Reverb, as bandas, os distribuidores e a gravadora. Cada um desses ficou com 40 cópias e a utilização (comercialização ou não) coube a cada parte decidir individualmente. Em relação aos direitos autorais, 'tes foram mantidos com os músicos e autores. A idéia da Reverb é ser uma propulsora da cena da surf music nacional (tornando muitas vezes o trabalho intangível), então se há algum ganho, ele é direcionado aos artistas, não para a «instituição» Reverb. Não há o objetivo direto em perseguir o lucro, o interesse é que haja um ganho indireto para as bandas que fazem parte da associação. Boa parte dos seus produtos não gera grandes despesas (item a). Os que geram (item b e c) são auto-sustentáveis. A comprovação da eficácia de 'sa rede de troca de informações culturais ligadas à surf music gerada por a Reverb Brasil é explicitada em alguns dos relatos abaixo: 1 " Algumas das bandas foram parar em programas de TV como Gordo Freak Show (MTV), Programa do Jô (Globo) e fizeram turnês por o país e no exterior. Só não sei se tudo isso aconteceu por causa da Reverb Brasil. Certamente algumas sim, como a turnê ' Onde Está Bin Ladi Brasil Surf Music Tour ' de 2004 na qual Estrume ' n ' tal, Go!, The Gasolines e Os Ambervisions saíram em turnê por o país», integrante da banda Estrume ' n ' tal (MG) 2 " A divulgação é inevitavelmente positiva. A partir dos campeonatos começamos a ter maior visibilidade em certos meios de comunicação. O contato entre as bandas nos ajudou a fechar futuros shows. Passamos a ter mais segurança da qualidade de nosso trabalho, pois pudemos vê-lo lado a lado com os maiores nomes da surf music na época que participamos dos festivais, além de ampliar nossa visibilidade, foram passos importantíssimos para a nossa carreira, sem dúvida alguma. Por isso acreditamos no potencial da Reverb para mobilizar e articular eventos, assessoria de imprensa, etc " integrante da banda Dead Rocks (SP) 3 " Fazer parte da Reverb nos ajudou muito. Principalmente na divulgação. Muita gente nos conheceu através do site da associação, e mais ainda por o campeonato mineiro de surfe», integrante da banda Los Muertos Viventes (ES) Questões relacionadas à propriedade intelectual Como as bandas integrantes são todas independentes, não há uma grande preocupação com a cobrança de direitos autorais. O objetivo da reverb é exatamente divulgar o trabalho desses grupos para que eles possam participar de festivais, tocar em programas rádio e televisão brasileiros e também de fora do país. Não há, portanto, uma relação formalizada entre a Reverb Brasil e as questões de propriedade intelectual. Com a observação de suas atividades pode-se inferir que ela 'timula a livre circulação das músicas, com o objetivo maior de divulgação dos grupos e do crescimento da cena. ( respondido nos exemplos acima) Apesar de inexistir uma postura definida em relação ao tema, há uma tendência e interesse por parte dos atuais membros mais ativos -- Leopoldo Furtado e Cláudio Pilha -- em utilizar licenças como o Creative Commons para as produções da Reverb. Prova disso é a disponibilização de metade das músicas da coletânea produzida por a associação aqui no Overmundo. Disponibilização 'sa que foi consentida por todas as partes envolvidas. A maior dificuldade para que isso se torne uma política definida por o grupo 'tá exatamente na raiz do seu surgimento. A forma descentralizada e livre adotada para o projeto dificulta, algumas vezes, a tomada de decisão em conjunto, que represente um opinião unânime. Portanto, internamente, há divergências quanto à livre distribuição das músicas na Internet. Embora a maior parte dos integrantes seja favorável, há algumas vozes mais conservadoras que não vêem com bons olhos 'se tipo de circulação de arquivos de áudio na web. Em razão disso, não há um regime absoluto que responda oficialmente às questões de propriedade intelectual. Cabe a cada músico ou banda autorizar ou não o livre acesso às suas obras. A prova que 'sa voz discordante representa uma pequena parcela da Reverb é o fato de que todos os artistas que foram interpelados concordaram em disponibilizar os seus trabalhos sob a licença Creative Commons no Overmundo. Em relação ao disco lançado pode-se afirmar que ele é uma obra regulamentadas de acordo com o direito autoral tradicional. Já as faixas presentes no site oficial da associação não possuem uma clara definição quanto a 'se tópico. Outra divergência 'tá presente na discussão quanto ao futuro do projeto. Alguns defendem que ele deve continuar ocorrendo de maneira informal e 'sa é uma das razões do seu sucesso, enquanto outros defendem passos «maiores», objetivos mais precisos e práticos. Os próximos passos e alguns apontamentos É interessante perceber que a informalidade como forma de agir coloca-se como uma questão importante ao futuro desse empreendimento. Antes, devo ressaltar que, observando de perto os eventos realizados por a Reverb nos últimos anos, a palavra «informal» aqui não 'tá ligada a uma noção de trabalho «amador» ou de falta de profissionalismo. Se é ao caráter informal e de participação livre (cada um ajuda quando e da maneira que pode) que é atribuído o sucesso do empreendimento é também em função disso que o futuro da Associação Brasileira de Bandas de Surf Music é incerto. Em o momento em que a contribuição 'pontânea se tornar desinteressante para os participantes, haverá em algum nível um abalo na produção coletiva. Mas, ao mesmo tempo, parece haver uma consideração maior e mais consistente por parte dos seus membros em oficializar alguns pontos da associação. Entre eles, destacam-se: * Criação de uma pessoa jurídica da Reverb Brasil * Realização de um fórum anual durante o Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe * Utilização de recursos de leis de incentivo cultural Lembrando que 'sa é uma atividade pouco rentável para as pessoas que a realizam, o empenho e a dedicação dependem, muitas vezes, do tempo livre dos participantes. Para os organizadores, a principal prova que o trabalho (mesmo que informal, 'pontâneo e não muito rentável) tem dado certo é a realização anual do Campeonato Mineiro de Surfe e também o número de shows e discos lançados dentro e fora do país. Embora não houvesse o interesse em que a associação fosse um projeto diretamente rentável na sua fundação, atualmente cogita-se a formalização das suas atividades. A possibilidade de trabalhar com recursos mais amplos advindos de leis de incentivo ofereceria melhores condições tanto para os músicos quanto para os realizadores das próximas edições do Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe. Esse é o único planejamento consistente da Reverb que possui a intenção de tornar os seus projetos diretamente rentáveis. Número de frases: 142 Quando vi a moça de roupa moderninha e sorriso largo, quase 'condida por trás de uma enorme guitarra, corando em cima do palco quando algum de seus fãs ou amigos gritou " gostosa!" de algum lugar da platéia, decidi imediatamente, num ato de molecagem duendesca, qual deveria ser o título de 'ta matéria. Não 'tou também faltando com a verdade de forma alguma ao 'colher 'te título. Admito que costumo ficar empolgado quando conheço um novo artista bacana, mas o show da MarthaV que assistí no domingo passado (04/03) me trouxe algo que eu precisava há algum tempo ver e sentir rolando sobre um palco e sobre uma platéia: Artistas com tesão de se apresentar, para um público com tesão de 'tar ali e ouvir e dançar -- tudo honesto e real. É por isso e, claro, por as bochechinhas coradas da MarthaV sobre o palco quando a chamaram de gostosa, que o nome de 'ta matéria não poderia ser outro. Eu nem sabia para onde 'tava indo quando saí de casa. Apenas precisava desesperadamente sair, e uma amiga resolveu me socorrer me convidando para acompanhá-la ao tal Teatro Odisséia -- que eu ainda não conhecia -- para dar um rolé por o Mercado Mistureba -- que eu também ainda não conhecia -- e assistir um show de alguém que nem eu nem ela sabíamos o nome. Talvez minha amiga seja distraída, e por isso ainda não conhecesse o trabalho da Martha. Eu, por minha vez, tenho a desculpa de ser ainda um 'trangeiro em 'tas terras cariocas. Não é incomum para mim, de qualquer forma, ir parar em shows de bandas que nunca ouvi falar -- sou mesmo um tanto bocó de vez em quando em relação à galera nova que 'tá surgindo -- mas fazia muito tempo que não curtia tanto um show. E por a expectativa e animação do público, parece que a pequena MarthaV já é um bocado conhecida por 'tas bandas cariocas. Ainda bem, pois ela me convenceu que merece a fama da qual já desfruta. Quando, lá por as oito e pouco da noite, ouvimos o anúncio do início do show por os alto-falantes do Odisséia, descemos para ver, curiosos, quem era a tal MarthaV (cujo nome havíamos descoberto por conta dos cartazes vermelhos bacanas 'palhados por as paredes do lugar). Logo de cara me surpreendi com a altura do som. «Isso é bom!», pensei. Gosto muito de quem toca alto. E a moça realmente me convenceu da honestidade de suas músicas, apesar da vocação inegavelmente pop das mesmas. Não que haja a princípio algo de errado com o pop, contanto que não seja um pop desonesto. E MarthaV dançava, e MarthaV gritava, e MarthaV pulava e bagunçava as presilhas de seu cabelo, e MarthaV precisou de apenas uma música para me convencer do tesão e honestidade com que cantava. E MarthaV ganhou mais um fã. Música após música -- e eu juro que gostaria de saber dizer-lho setlist na ordem em que foi executado -- MarthaV e sua banda mostraram mais do que tesão. Mostraram competência musical e intimidade com o público. O tipo de intimidade verdadeira que a gente geralmente só encontra em bandas independentes quando tocam em casa, e que é uma delícia de se ver. Em o intervalo entre as músicas, MarthaV batia papo com um ou outro conhecido na platéia que 'tava, graças a seu carisma meio tímido e às dimensões reduzidas do palco do Teatro Odisséia, bem ao seu alcance. Esta intimidade e naturalidade tornavam toda a sua apresentação ainda mais honesta e ... err ..." gostosa». A empolgação de amigos, fãs antigos e novos fãs (como eu) durante o show fez parte do 'petáculo. Durante os ótimos covers de Enjoy the Silence do Depeche Mode (há um vídeo deste cover, gravado em outro show, disponível no youtube) e de uma versão bacanérrima de Tempo Perdido (do Legião Urbana) ao som da melodia de Paranoid Android (do Radiohead), ou durante a execução de algumas das excelentes músicas da cantora, como Pra Quem Quiser, Dama de Plástico e Os 3 Lados (cujos videos que encontrei são, infelizmente, de outros shows), dava para sentir aquela coisa boa, preciosa, que a gente sente quando 'tá naqueles shows que sabe que vão te acompanhar na lembrança por muito tempo. A banda que acompanha MarthaV no palco é tão merecedora de elogios quanto ela. Mariana Davies (outra excelente artista, que eu já conhecia por o rádio desde meus tempos de Brasília), Daniel Martins (que toca também no Benflos, no Rockz e com o Lobão), Rogério Bassani e Uirá Bueno (que " também não come carne ") formam com a MarthaV um conjunto fantástico. Por falar na Mariana Davies, sua parceria com MarthaV na composição da música «Os 3 Lados» rendeu uma das canções mais bonitas que já ouvi nos últimos tempos. Tanto, que já devo tê-la ouvido umas vinte vezes enquanto 'crevia 'ta matéria. MarthaV já faz sucesso, mas eu sinto que ainda vai fazer muito mais. Seu jeito, sua música e as graças do público ainda podem levá-la muito longe. Isso é bom, e ela merece. Eu só 'pero, de tudo o coração, que o sucesso não destrua a honestidade e o tesão daquela moça que eu ví naquele domingo, pulando e se expondo tão honestamente sobre o palco. É precioso encontrar gente que faz rock-pop honesto e que dá vontade de ouvir mais e mais, não por causa de um refrão grudento, mas porque a música fala com você. É uma tristeza, por outro lado, que a maioria de eles se perca nos caminhos 'tranhos do sucesso. Citando um amigo (que cita um sambista do qual sempre 'queço o nome), «O segredo do sucesso é saber segurar a onda». Espero que a MarthaV não se 'queça disso, e nem de quem é. De resto, desejo a ela toda a boa sorte e também um bocado de diversão. Aquele show realmente me fez muito bem. Ela merece. Como disse por email para a Martha ontem, 'ta matéria já 'tava pronta desde a madrugada após o show, mas eu 'tava à 'pera da confirmação de algumas informações por parte de sua assessoria de imprensa antes de publicá-la. A o não receber nenhuma resposta para meus emails, por pouco não resolvi deletar a matéria. Mas, por fim, resolvi deixar de ser 'corpiano birrento e publicar a matéria mesmo assim. Fica, contudo, o toque: uma das coisas mais importantes que podem existir entre um artista e seu público é a atenção. Isso é particularmente verdade quando se trata do artista independente, que corta os intermediários e marketeiros anabolizantes, e cresce diretamente por conta do carinho e reconhecimento de seu público. O público presta atenção em você e, nada mais natural que 'pere receber de volta alguma atenção. Vale a pena então dar um pouco mais de atenção aos emails dos fãs, inclusive quando eles querem informações para 'crever matérias sobre você e seu trabalho. Por outro lado, imagino que 'te tenha sido apenas um pequeno descuido do qual a Martha talvez nem tenha culpa, mas achei válido aproveitar para dar o toque que se aplica não só a ela, mas a todas as bandas e artistas, acima de tudo os independentes. Pronto, 'tá dada a bronca. De resto, o show e a arte de MarthaV são fantásticos. Não, mais do que isso! Como eu já disse, MarthaV, suas músicas e seu show são um tesão! Serviço: O site da banda com informações de contato, músicas, letras, fotos, links para vídeos de shows da banda publicados no Youtube e para outros projetos dos músicos é: http://marthav.com.br/ O post da agenda Overmundo a respeito do show tem também algumas fotos de MarthaV feitas por Bruna Peixoto e os MP3 de Pra Quem Quiser, Tema Livre, Super 8, Os 3 Lados, Clube dos 5 e Dama de Plástico. Existe uma entrevista de MarthaV no site da WTN (Web Television Network). Há vários videos de apresentações da MarthaV no Youtube. A maioria de eles foi postado por Bruna Peixoto e Candy Saavedra. Nenhum animal foi ferido durante a redação de 'ta matéria. Nenhuma pretensão de imparcialidade ou objetividade foi utilizada durante a redação de 'ta matéria. O Ministério da Diversão adverte: Ser blasé não tem a menor graça. Número de frases: 67 Será que é? Uma questão principal insinuou-se e repetiu-se em mais de um dos encontros do colóquio Rumos Literatura 2007, entre os dias 14 e 17 de março, no centro Itaú Cultural, em São Paulo. Em sua terceira edição, o programa abordou, 'te ano, a crítica com foco na produção literária contemporânea do Brasil. E acabou reprisando uma pergunta que deu título a outro colóquio, o Encontros de Interrogação, ocorrido em 2004 no mesmo Itaú Cultural: Cadê a nova Clarice Lispector? Cadê o novo Guimarães Rosa? A reprise não se dá por cochilo dos organizadores dos eventos em relação à programação. A insistência com que o tema sempre é retomado em qualquer debate sobre a produção literária brasileira atual; o fato de não se 'gotar numa, duas ou dez discussões; seu jeito vago de propor e 'perar a chegada do Grande Romance Contemporâneo, aguardá-lo com cara de moça virginal e sonhadora à janela, tipo de moça que, como o Grande Romance, não existe faz tempo -- tudo isso nos diz que 'tamos diante de uma busca crucial da crítica literária. Fora do universo em que 'sa questão consegue oxigênio para sobreviver, no entanto, no âmbito em que é produzida a nova literatura brasileira, tal busca insistente pode repercutir como disparate. Afinal, nos mesmos debates em que se lastima a ausência de uma Clarice ou de um Guimarães na prosa contemporânea, reclama-se do irremediável (não há cura para 'sa doença) aspecto fragmentado do romance contemporâneo. Devem os novos 'critores juntar seus caquinhos e tentar, em mosaico, formar uma Clarice inteira? Um Guimarães com cola Pritt? A mesa «Funções e importância da crítica literária», no dia 15, com Alcir Pécora, Beatriz Resende e José Miguel Wisnik, mediada por Regina Dalcastagné, evidenciou a importância de uma crítica aparelhada para avaliar a nova produção -- e interessada por ela. «A crítica é contemporânea sempre, os objetos (que analisa), não, «afirmou o professor de Teoria Literária da UNICAMP, 'critor e ensaísta» Alcir Pécora. «Escrevam e morram " «Estamos na eminência da extinção do leitor, porque hoje todo mundo 'creve. É um desequilíbrio absurdo. Escrevam menos, leiam mais. Escrevam e morram, " decretou Pécora. Em a platéia, alguns jovens autores talvez tenham desejado possuir ao menos um marca-passos, na falta de pontes de safena. De acordo com a fala de Pécora, é uma questão de " Saúde vs.": «Se 'tivéssemos vivendo a Era das Trevas nas letras, eu tomaria partido das Trevas, «devolveu, ao ouvir a pergunta da platéia dirigida a ele,» vivemos a Era das Trevas nas Letras?». Sobre a possibilidade de encontrar textos novos de alguma qualidade literária na web, Alcir não tem dúvidas: «Eu acho a internet ótima para a pornografia, mas não sei se é boa para a literatura. Essas novas mídias geram um desastre, 'se excesso de produção literária, 'se excesso de saúde de gente que tenta se enfiar ali, entre os mortos, entre os que permanecem e com quem dialogamos." O 'critor mato-grossense Joca Reiners Terron, autor de, entre outros, Sonho interrompido por guilhotina (ed. Casa da Palavra) e do blog Hotel Hell -- destacado como erudito durante o debate por a pesquisadora, crítica e professora da Unirio Beatriz Resende, de entre os autores surgidos na década de 90 -- reclama que há também um excesso de críticos. «Fui visitar meu pai em Santos. Em a cozinha, puxei uma cadeira, abri uma cerveja ... Aí vem um tio meu, se vira para minha mulher e diz: ' Esse aí sempre desenhou muito bem. Mas como 'critor ... ', " comentou Joca, rindo. Se hoje todo mundo acha que pode 'crever literatura, a mania de «dar uma de crítico» também é bastante popular. Para a 'critora paulistana Andréa Del Fuego -- autora de Nego tudo (ed. Fina Flor), Minto enquanto posso (ed. O Nome da Rosa), entre outros, e do blog que leva o seu nome --, presente no colóquio, " a crítica consegue ser contemporânea se o olhar se 'tende sobre uma obra concluída, muitas vezes, de um autor morto. É difícil ser contemporânea com um objeto de análise em andamento, isso complica a crítica. A crítica pode ser até mesmo uma peça literária; para isso, a 'colha do crítico se dará por motivos de empatia intelecual, por algo que o instiga a verificação e até sua poesia particular e interna. Nós faríamos o mesmo no lugar de eles." O excesso de produção literária, para o compositor e professor de Teoria Literária da USP José Miguel Wisnik, aparentemente não fede nem cheira: desfaz-se em fumaça. «Está na moda a obra que ' se 'fuma ', que se lê e 'quece imediatamente depois do livro ser fechado,» criticou. «Temos manifestações 'palhadas nos blogs, nos muitos livros que não conseguimos ler, mas nada que possa ser fixado." Provocação por provocação ... «Tenho pesquisado muitas manifestações literárias que não foram consideradas como literatura em seu momento, «explicou» Beatriz Resende. «A necessidade canônica, quando se vai trabalhar com o contemporâneo, de saída nos coloca diante de 'sa questão: O que é literatura?" «Em meio às manifestações que surgem hoje, a defesa do imaginário no ficcional é uma coisa que me agrada imensamente; e há ainda a literatura da realidade excessiva, há a literatura egótica -- em que um sujeito de 25 anos 'creve sua ' biografia definitiva '; há a literatura realista da periferia ... com todas as diferenças entre as manifestações, é preciso saber o que é literatura." E quanto à crítica? «Sou por a militância da sedução, nos veículos de imprensa. Não vale a pena gastar um parco e disputado pedaço de papel num jornal para falar mal de um autor. Se um livro não me interessar, prefiro não 'crever sobre ele." E na internet também há manifestações de crítica fast-food: «Há a crítica imediata nos blogs, nos sites; mas há blogs provocativos que tornam 'se imediatismo interessante." Para Beatriz, o único e maior pecado que um 'critor pode cometer hoje tem mais a ver com cifrões do que com letras propriamente ditas. «Só me tira do sério o caminho da busca do mercado, às vezes por autores realmente bons que caem em 'sa tentação." A mediadora Regina Dalcastagné lançou um contraponto à questão, anunciando como uma pequena provocação à mesa sua pergunta sobre quais seriam os critérios utilizados por a crítica para decidir o que é relevante e o que é descartável em 'se cenário. «Provocação por provocação, «brincou Wisnik, introduzindo sua resposta,» devemos ter a capacidade de reconhecer textos cuja complexidade e densidade podem fazê-los canônicos, mas cânones devem sempre ser postos em discussão." «Devíamos reconhecer que trabalhamos em condições adversas. Quem trabalha com a cultura letrada no Brasil, trabalha em condições adversas, " lembrou Wisnik. «Em o Brasil, considerando que é um país iletrado, o fato de Clarice Lispector e Guimarães Rosa (para citar os dois ícones) terem sido reconhecidos, o fato de termos 'tabelecido algum cânone, como o que temos, é impressionante." «O contemporâneo 'tá próximo demais para que possamos olhá-lo sob a perspectiva canônica,» concluiu Wisnik. Eterno retorno Ou seja: também na literatura, nada como um dia depois do outro. Mas o assunto retornou ao auditório do Itaú Cultural na sexta-feira, 16, na mesa que discutiu a «Crítica literária:». A conversa entre a professora Heloisa Buarque de Hollanda (titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), Luiz Roncari (professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) e a editora do caderno literário «Prosa e Verso», do jornal O Globo, Manya Millen, não ficou restrita ao tema destacado por o título do encontro, mas lembrou mais uma vez a desconfiança que paira sobre o novo. «A gente pode 'tar perdendo o novo Guimarães Rosa ali, no meio daqueles 70 e tantos livros que recebemos por semana. Nós nos sentimos na obrigação de dar conta de todos os livros que chegam, mas não é possível. Hoje em dia se produz muito mais literatura, " disse Manya, que consegue ver diferenças entre os livros de papel e aqueles publicados somente na internet. «Em a internet, os personagens e as histórias são mais fragmentados ( ...)." Além disso, " o papel ainda tem um peso muito grande. às vezes damos uma resenha no blog e o autor fica meio desapontado, como se não valesse. É como se o autor só se sentisse 'critor quando é publicado em papel, a resenha só valesse quando é publicado em papel." Assim como o aumento da produção literária, o filtro «O que é literatura» também foi repensado em 'te encontro. «Quando fiz minha tese sobre os poetas marginais (26 poetas hoje. Rio, Ed. Labor, 1976), havia um reforço muito grande da academia dizendo que meu objeto de pesquisa não era literatura, «contou Heloisa, que, com a tese, acabou se tornando» madrinha dos marginais». «Sou obcecada por a margem, por o que para os outros não presta», afirmou. Crítica literária, porém, com algumas ressalvas (" Tenho um desconforto gigantesco com a posição de crítica, é uma assunto sobre o qual não costumo falar "), Heloisa apontou a questão que mais prende sua atenção na cena literária atual: «É a questão da autoria, que começa a se cindir, com a internet, com Creative Commons, com os blogs ... e vejo nos 'critos mais novos uma certa ' flutuação ', em 'se sentido», disse, lembrando que o autor, a noção de autoria, é uma construção moderna. «Quero muito saber como vai ser a crítica com comments, comentada, interativa. Quero ver como o crítico acadêmico, que detesta 'sa interatividade, vai se comportar diante da web 2.0, quando começarem a ser interpelados por leitores na internet." A interação virtual sugerida foi bem recebida por a mesa. «Acredito na importância vital da crítica para a literatura e da literatura para a crítica. Aprendem mais uma com a outra do que com sua própria sombra, «completou» Luiz Roncari. «Sonhei com um 'critor que queria me matar " Foi com a narrativa de um sonho que José Castello abriu seu comentário no encontro «Crítico-escritor removeme, em que dividiu a mesa com Cristóvão Tezza e Marco Lucchesi, e o mediador» Flávio Carneiro. «Quando fiz o livro do Vinicius de Moraes, sonhei várias vezes que ele me perseguia e queria me atacar. Com um facão, " contou Castello, falando um pouco do seu lado de crítico literário. Para Tezza, " a nova geração ainda não se consolidou." Foi Cristóvão quem, durante o encontro, mais falou sobre «a vida dupla, o viver dos dois lados do balcão, como autor e crítico». Castello, que tem um romance publicado, O fantasma (ed. Record, 2001), desdobrou os comentários à produção literária contemporânea: «A literatura brasileira hoje 'tá muito mais rica do que a crítica reconhece. Com todas as ressalvas que se pode fazer às novas gerações, a variedade de narradores é maravilhosa. Minha posição em relação à literatura hoje é otimista." Marco Lucchesi, por sua vez, aproveitou para explicar sua " Jihad universitária ": «A primeira coisa que detestei na universidade foi o casamento 'púrio entre pesquisa e burocracia. Muitas vezes a burocracia ditando o caminho da pesquisa». E protestou contra as engrenagens enferrujadas do pensamento: «Eu gosto de encontrar um rapaz de 20 anos que acha que sabe tudo, com aquela força. Número de frases: 105 Mas não é bom encontrar um velho que pensa que já sabe tudo». bem, eu me assossiei em 'te site, mas ainda não sei bem o objetivo de ele. mas tudo bem. 'tou publicando 'sa duvida mas logo faço algo realmente significante «Entendo, logo existo» ( Número de frases: 5 leticia) A bailarina gaúcha do Ballet Elizabeth Santos, Gabriela Xavier Vieira, de 19 anos, foi aceita para cursar uma das melhores companhias de balé clássico do mundo: a American Ballet Theatre. Ganhou uma das apenas duas vagas reservadas para bailarinas brasileiras, eu 'crevi na primeira matéria que publiquei aqui sobre ela e que me incentivaram os comentários vários a fazer 'ta entrevista. Ela já 'tá aprontando passaporte. Tem entrevista com a diplomacia norte-americano já agendada e move-se feito azougue oferecendo rifas, realizanmdo promoções, contatos diversos para patrocínio em busca de completar a soma de U$ 10,000.00 -- avaliação de custos das despesas todas com o curso de seis semanas da ABT. Já arrecadou uma parte que pagou a primeira de quatro parcelas dos custos do curso. Gabriela começou a chamar atenção com a dança antes dos cinco anos de idade. Criança, num veraneio, uma platéia de turistas argentinos entusiasmou-se com ela sobre uma mesa de bar fazendo a coreografia da loira do Tchan. Recebeu até uns trocados de gorjeta, além dos muitos aplausos e pedidos de bis. De lá em diante, ela 'tá com 19 anos, só gastou o dinheiro da família, no início da formação, e agora já também o seu, de professora de dança na Escola de Ballet Elizabeth Santos, em Porto Alegre, e na Academia de Dança Fit, de Alvorada, um município vizinho da capital, para onde se desloca de ônibus. Gabriela só voltou a receber dinheiro por a arte que mostra em palco como raras bailarinas da atualidade em nosso país e na América Latina, quando Gisele Meinhardt convidou-a a integrar o elenco da Noite Branca, encenado em 23 de setembro de 2003, com música de Tchaikowski e Chopin para os clássicos O Quebra Nozes, O Lago dos Cisnes e Les Sylphides, execução da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA, dirigida por o maestro Túlio Belardi, a orquestra de retorno ao fosso do principal palco de 'petáculos do Rio grande do Sul, o Theatro São Pedro, que retornava 'petacular ao seu melhor ambiente local. Gabi apareceu em Les Sylphides, um balé num ato, criado para os Ballets Russes de Serguei Diaghilev, baseado na música de Chopin, coreografado originalmente por Mikhail Fokine, encenado a primeira vez em 2 de junho de 1909 no Teatro de Châtelet em Paris. Ela fora foi selecionada em audição 'pecial como os demais 23 bailarinos do programa, assistidos por Vitória Milanez na ocasião. Esse foi o primeiro dos poucos cachês de artista que ganhou. Vencer prêmios, conquistar lauréis, distinções, menções é rotina para Gabriela, como são as cinco horas de ensaio que realiza às segundas, quartas e sextas-feiras há mais de três anos com Elizabeth Santos. Além dos primeiros dinheiros por apresentações ao público, a bailarina ganhou a convicção para uma definição que logo em seguida iria torná-la o que já é: uma excelente bailarina dona de primorosa técnica. Os aplausos seguidos e crescentes de distintas muito entusiasmadas platéias com a excelência dos seus programas são ainda pagas indescritíveis. Intuição Todo pai que ama uma filha é meio bobo com o sucesso de ela, quer ser quem mais aplaude, quem mais elogia, quer ser o primeiro fã e incentivador. André, o pai da Gabi, não é diferente disso. E ainda pode reivindicar-se do mérito de descobrir a vocação da filha, ela ainda uma criança. Provoco e André não discorda: funcionou a intuição feminina, seus 49 por cento se manifestaram? -- Pode-se dizer que sim. Perdemos de vista a guria numa festa, procuramos por as mesas, nos sanitários, nos voltamos para a pista de danças, que fazia um trenzinho e quem 'tava puxando a fila, ensinando os passos, orientando a coreografia? A Gabi, a menorzinha de todas, de um enorme fila dançante de jovens e adultos até. André arremata a revelação dizendo que se decidiu ali por inscrever a filha numa 'cola de dança. Enfrentou contrariedade da menina, que aos oito anos bateu o pé e disse não querer " aquela coisa chata de jeito maneira!" Gabi conta isso abrindo um sorriso divertido para o pai que a acompanha na entrevista com a companheira Cristina de Souza. -- Quando eu fui ao quarto e vi que o pai tinha comprado a roupinha de malha, a sainha rosa, a faixinha para o cabelo, vesti tudo e fui correndo para a sala mostrar para todo mundo. Ali o bichinho da dança me pegou, recorda Gabriela. Estudou os próximos oito anos, até completar 16, no Studio de Dança Suzana DÁvila no passo D'Areia, em Porto Alegre, apresentando-se em palcos nos programas anuais de resultados da formação, que as 'colas do gênero têm por hábito realizar. Não viajava ainda, não integrava concursos. Concluíra o nível fundamental de ensino formal em 'cola particular, iniciara o Ensino Médio ali e teve que tomar decisões com a família que enfrentava dificuldades para equilibrar as despesas com a receita advinda da Personal Light, uma firma de luminosos e acrílicos de publicidade que André toca embalada por um carrinho desses de 1.000 cilindradas. Gabriela concluiu o ensino médio na 'cola pública. Assinou carteira de trabalho como demonstradora de degustação de uma empresa de refrigerantes, 'sas mocinhas simpáticas que nos abordam em supermercados oferecendo novos produtos de marcas já conhecidas ou nem tanto. Matriculou-se num curso de inglês e no cursinho pré-vestibular, pensando em Arquitetura ou Biologia, por o que até o momento ainda não concluiu definição. Continuou a aula de ballet, agora com quase 16 anos, sem o mesmo entusiasmo, também em razão de perceber que não 'tava encontrando desafios que lhe impusessem 'tudo e aplicação para o crescimento. André diz que, ainda criança pequena, porteirinha, sem os dentes da frente, Gabriela uma vez saiu-se para ele com um inusitado: vou danxar em Novaiorqui. Recorda isso quando falamos que Elizabeth Santos também comentara, observando Gabriela, «aquela menina ainda vai dançar na Broadway». A passagem para chegar lá ela já tem. Em 2007, em junho, Gabriela conquista o primeiro lugar do Festival de Dança de Buenos Aires, consagrada por a crítica como melhor bailarina daquela programação. Era a única representante do nosso país na competição. O prêmio: duas passagens para os Estados Unidos. Seria a segunda vez na vida que ganha algum dinheiro de argentinos, agora por a arte própria, de fina técnica, de robusta construção, de grande desempenho. -- Eu era a trigésima-quarta, faltavam dez para chegar a minha vez, eu na coxia acompanhando o movimento, nervosa, com medo mesmo, de repente ouço anunciarem a representante do Brasil e meu nome e a minha música se iniciando ... Corro para pegar meu adereço -- uma lança, tiro às pressas a roupa de abrigo e 'tou já no palco. Sei que errei um movimento, e tinha visto uma boliviana que me pareceu irretocável de onde pude acompanhar. O resultado 'tava sendo divulgado, ao final das apresentações e aquela menina ficou com o prêmio de viagem na América do Sul, que o Festival tem o patrocínio de uma companhia aérea. Pensei que não tinha ganhado qualquer premiação, porque aquela que eu achava ter sido das melhores 'tava ali, numa 'pécie de segundo lugar. Em 2006, no Porto Alegre em Dança, Elizabeth Santos comentava criticamente para seus alunos a performance de Gabriela. A menina ainda em seus 16 anos chegou-se para perto e gostou do que ouviu sobre os próprios erros ali registrados em vídeo. Conversaram. Ficaram amigas. -- Senti que gostou do que eu falara, convidei-a a visitar minha 'cola. Aguardei que se decidisse. Gabriela tinha oito anos de uma outra formação e amizades antigas constituídas desde menina, contou Elizabeth, ainda hoje muito confiante na inclinação da jovem bailarina como desde a primeira oportunidade em que viu Gabriela dançando. -- Ela ainda vai dançar na Broadway, exclama entusiasmada a professora. Há três anos fazemos um trabalho completo, diferente, novo, rigoroso de técnica, um trabalho com braços, pernas, mãos, movimentos, relata. -- A Tia Bete (como Gabriela chama Elizabeth Santos) é tri severa e exigente. É puxado, sinto que acrescenta ao que já sabia, e aprendi muito, de um modo diferente. Elizabeth confirma a impressão que temos ao falar com a moça e a família de ela: «a Gabriela é uma guerreira, tem uma família que a apóia em todos os passos, o que é 50 % para uma bailarina ser bem sucedida». Assim foi que decidiu dedicar-se inteiramente à dança, deixando o demais: formação 'colar -- não fez o vestibular; troca de 'cola de dança -- dolorida por o afastamento de antigas e sólidas amizades; curso de inglês -- que importava ter de trabalhar para ajudar no custeio da despesa; 'cola privada -- que trocou por a 'cola pública Dom Diogo de Souza onde concluiu o segundo grau; deixar de trabalhar para ganhar algum dinheiro e poder comprar ela mesma as próprias roupas (" nem pensar em griffes, modismos, as melhores sapatilhas ou mesmo novas que uso as mesmas sempre até furarem ") Ela 'tá muito segura de que o restante da educação que não seja a dança terá tempo para ser feito numa outra oportunidade no futuro. Até um namoro eventual é opção secundária de ela, que também não bebe, não fuma e sequer cogita de alguma possibilidade de em futuro breve ter filhos. -- Nem pensar! Eu penso em dançar. Fazer o que sei e aprender sempre mais para fazer melhor. Tenho encontrado muito 'tímulo nos resultados das mostras e festivais em que participo, diz a Gabi, secundada por Elizabeth: «ela ganhou muito confiança com o aprendizado aqui e com os resultados. Tenho certeza que desse modo vai mesmo a Nova Iorque». Com as passagens para os Estados Unidos ganhas em Buenos Aires, Gabriela não pestanejou. Atracou-se na Internet, mandou currículo e registros de atuação para 'colas de dança em São Francisco, Miami, Chicago e Nova Iorque. -- O coração me chegou aos pulos até a boca quando a Cristina recebeu um envelope todo sofisticado da American Ballet Theatre. Eu quase não acreditava. Era ainda só a comunicação de que eu entrara em seleção. Eu já conhecia 'se processo. Inscrevem-se muitas bailarinas, como ocorreu no Bolshoi, quando passei entre 500 outras para seletiva com mais 11. Em aquela semana eu fizera uma entorse, uma ruptura de ligamentos, fiquei de tala e gesso, no gelo. Chorei quarta e quinta-feira, de dor e contrariada por o incidente à véspera da seletiva. Tirei tudo para dançar. Doeu muito, podia ter me 'tropiado mais. Era uma chance que não podia desperdiçar. É o que pensei também quando recebi a confirmação de que 'tou selecionada para uma das duas vagas do American Ballet Theatre, que decidi fazer só o curto de verão porque não tenho como financiar o longo. Só 'se já alcança 'se soma que eu nunca vi de perto e vai pesar tanto nas nossas economias da família. -- Você vai filha. Nem que eu venda 'se carrinho do trabalho para custear as despesas, depois a gente vê, garante André, pai e o fã número um de Gabriel. O ano de 2006 foi fecundo para Gabriela, principalmente, conforme nos diz, depois de ter participado do Seminário de Gisele Santoro realizado em Brasília, em que teve contato com a técnica de reconhecidos professores internacionais. Gabriela tem admiração por a qualidade da arte de Norton Fantinel, como paradigma de performance técnica -- quando olha a cena da dança desde o Rio Grande do Sul; por Ana Botafogo -- quando vê isso desde o Brasil, e por Cíntia Harvey, no restante do planeta, principalmente a performance de ela como expressiva partner em Dom Quixote, «uma aula impecável», diz com a felicidade carreando-lhe ao rosto um alegre sorriso. Gabriela é muito agradecida à irmã Andréia, de cinco anos mais que ela, por tê-la acompanhado à 'cola, pacientemente aguardando meses a fio uma hora inteira na ante-sala no início da formação, tarefa repassada mais tarde para a Tia Marilene, que passou a exercitar a paciência por hora e meia na sala de espera. Assim passaram-se quase cinco anos, pois aos 13 Gabriela já ia e voltava de ônibus sozinha da 'cola e da dança. Em a família, recorda que Luís Felipe Vieira, um tio, era integrante do Ballet Mudança nos anos ' 70. Gabi no palco em junho Essa nossa bailarina, em quem temos os melhores exemplos de persistência, dedicação e arte, distribui 50 quilogramas de peso em 1m67cm de altura, desde menina só apara os longos cabelos negros, calça sapatilhas, tênis e sapatos número 35, mesmo de saltos, que sabe usar com elegância que lhe aparece natural. Não tem tatuagens, nem usa piercing. Vamos vê-la novamente em palco já no dia 1º de junho, na apresentação anual do Ballet Elizabeth Santos, agendada para o Auditório Dante Barone da Assembléia Legislativa, uma quinzena apenas antes da viagem para o curso de seis semanas da American Ballet Theatre, de 16 de junho a 29 de julho. Cartel de Gabriela XavierVieira Premiações De 2007 CIA D2007 -- Buenos Aires, junho 1º lugar -- " Arthêmis " Melhor bailarina do festival. Premiação: duas passagens para os Eua. São Leopoldo em Dança, Junho 1º lugar -- " Arthêmis " 1º lugar -- «Aurora» (Bela Adormecida) Melhor bailarino Melhor performance clássico Premiação: R$ 300,00 Santa Maria em Dança, setembro 1º lugar " Arthêmis " 1º lugar «Aurora» (Bela Adormecida) 1º lugar " Pas de Deux Lendas da Paixão " Festival De Danças do Mercosul, outubro 1º lugar " Arthêmis " 1º lugar «Aurora» (Bela Adormecida) 1º lugar " Pas de Deux Lendas da Paixão " Melhor pas de deux do Festival Melhor conjunto do Festival Premiações de 2006 São Leopoldo em Dança, junho 2º lugar «Corsário» (solo) 1º lugar Pas de deux " Lendas da Paixão " Festival De Dança do Mercosul, outubro 1º lugar solo Variação de " Giselle " 1º lugar solo " Spring Time " 1º lugar Pas de deux " Lendas da Paixão " Festival de Dança de Joinville Aprovada com " Pas de Deux La Fille Mal Gardie em 2006 " Aprovada com Solo «Arthêmis» em 2007 Fale com Gabriela bielavieira@yahoo.com.br Fale com Elizabeth elizabethsantos.Rs@ig.com.br P.S: na primeira matéria inclui indevidamente um primeiro prêmio no Festival de Joinville. Isso ainda não ocorreu. Número de frases: 142 Perdoem, louvei-me em fonte terceira que não era fiel aos fatos. «Campos do Mourão» é uma terra visitada há séculos. Localizado no noroeste do Estado, entre os rios Ivaí e Piquiri, o descampado ganhou 'se nome em homenagem ao antigo governador da Província de Piratininga, Dom Luís Antonio de Souza Botelho Mourão, quando as milícias do seu governo rondavam a região. Mais tarde vieram os tropeiros, as primeiras famílias colonizadoras e a emancipação em 1947, desmembrando-se do município de Pitanga. Atualmente, com largas avenidas e comércio forte, Campo Mourão atrai muitos turistas principalmente em julho, na tradicional Festa Nacional do Carneiro do Buraco. Diante de tantos visitantes, poucos imaginam que a cidade já foi passagem de um misterioso caminho, onde era comum encontrar ali a presença de 'panhóis, jesuítas e exploradores que circulavam por as trilhas dos Peabirús. Antes da chegada de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral na América, existia uma intrigante 'trada que ligava o Oceano Atlântico ao Pacífico. Segundo historiadores, ela integrava o Brasil, o Paraguai, a Bolívia e o Peru, cortando matas, rios, pântanos e cordilheiras, num percurso grandioso com aproximadamente 3 mil quilômetros. Esta enigmática rota, construída por os índios sul-americano, foi chamada de «Caminho do Peabirú». Para os 'tudiosos, a principal teoria é que os Guaranis abriram a passagem em busca de uma mitológica «Terra sem Mal». Esse território mágico seria a morada dos ancestrais, descrito como o lugar onde as roças cresciam sem serem plantadas e onde a morte era ignorada. Com o objetivo de resgatar e mapear a sagrada trilha, um projeto pioneiro apoiada por a COMCAM (Comunidade dos Municípios da Região de Campo Mourão) e FACILCAM (Faculdade Estadual de Ciências e Letras) 'tá promovendo a 6ª Peregrinação no Caminho de Peabirú. Será um dia de palestra com o arqueólogo Igor Chmyz e dois dias de caminhada por os municípios de Campina da Lagoa, Ubiratã e outros. O projeto também visa conscientizar a população local sobre o que é o caminho e como ele poderá ser explorado turisticamente levando em consideração as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômico, social e ambiental. O evento ocorre nos dias 20, 21 e 22 de abril. Saiba mais no blog da Expedição Carona Estrangeira. Número de frases: 17 Há tempos, bem antes de ser considerada arte ou pura «poesia expressada em madeira» como diria João Nicodemos *, a xilogravura era usada em antigos povos como meio de comunicação 'tampada em tecidos. Com o passar dos tempos, 'ta técnica milenar veio adquirindo formas e expressões novas, revelando o seu lado democrático, popular, ousado e artístico. Como é sabido a xilogravura chegou ao Brasil por encomenda dos colonizadores portugueses sob forma de folhetos pendurados em cordas, encontrando terreno fértil para expandir-se como Literatura de Cordel no Nordeste Brasileiro, ganhando fortes e diferentes expressões nos trabalhos de diversos artistas contemporâneos, de entre eles, Maércio Lopes. Artista diversificado, e, ainda anônimo diante da grandiosidade que é o seu trabalho, Maércio Lopes, filho do Cariri, é um exemplo claro da vertente criativa que a xilogravura alcançou em meio às mais variadas temáticas e técnicas de aperfeiçoamento. Em 1999, ainda como 'tudante de Letras, ingressou na Academia dos Cordelistas do Crato-CE onde pôde diversificar tanto o seu talento de poeta popular como também a sua habilidade extraordinária como desenhista, conhecendo, enfim, a xilogravura. Tocado por a magia gigantesca que envolve 'ta arte, o xilógrafo Maércio Lopes, que em fase de aprendizagem técnica, revelava seu talento nato ainda com linhas grosseiras e sem a minuciosidade que hoje lhe é peculiar, expressava-se apenas por meio das temáticas regionais por as quais a Literatura de Cordel é mais conhecida no Brasil. Aos poucos, suas faces artísticas foram se revelando com mais contundência, por meio de um refinamento das linhas delineadas na madeira, com obras inspiradas no famoso desenhista Gustavo Doré, e nos gravadores Pannemaker e Pisan. Era o início -- 2004 mais precisamente -- da sua marca inconfundível de individualidade, requinte e originalidade artística quando o assunto é xilogravura. Acima de tudo, o que Maércio faz acontecer na madeira, seja ela umburana, louro ou pau d' arco, não é simplesmente uma imagem gravada, é, antes de tudo, uma obra de arte que «fala por si» até mesmo diante dos olhares mais leigos. Suas obras são facilmente distinguidas das demais xilogravuras, uma vez que, são imagens que ganham vida mediante linhas e entrelinhas traçadas, devidamente calculadas e que revelam tons e meios-tons ('calas de cinza) raramente vistos em trabalhos de outros artistas do gênero, que tendem a se limitar nas suas antigas formas e temáticas. Antes com desenhos regionais, depois com desenhos clássicos e bíblicos, Maércio, mesmo com algumas ressalvas, se atreve hoje a seguir o caminho da inovação criando xilogravuras com desenhos psicodélicos, abstratos e surrealistas. «A xilogravura para mim deve ultrapassar a barreira do preconceito de que existe apenas uma forma a ser seguida. Ela, como toda arte, só se engrandece quando indiscriminadamente 'tende fronteiras " disse ele na última exposição feita de suas obras na oportunidade de inauguração do Espaço Cultural Coletivo Malungo em Crato. Em as mãos de um artista com tais refinamentos, que ultrapassa barreiras subjetivamente 'tabelecidas e que para atingir uma perfeição desejada, usa como ferramentas de trabalho instrumentos inusitados como hastes de guarda-chuvas, antenas de rádio e pregos para criar novas texturas, a madeira adquire vida, cabendo a 'te fazer com que ela se expresse. Em outras palavras, disse Maércio que «a versatilidade da madeira permite ao artista criar variações de corte e utilizações de instrumentos não convencionais para criar infinitas composições e movimentos que resultarão em diferentes texturas, que nas minhas peças, caracterizam-se nos tons de cinza e não apenas em preto e branco como na maioria da xilogravuras». Existe uma máxima que diz que «um trabalho criativo é fruto de 10 % de inspiração e de 90 % de transpiração». Há quem diga que em se tratando de xilogravura, a madeira tem uma 'pécie de personalidade, tanta que o resultado final independe da intenção do artista, e que, por fim, toda 'sa grandeza só se confirma no momento exato da impressão. O que é incontestável, porém, é que em se tratando da busca por a perfeição artística, a técnica jamais deve andar em sentido contrário ao dom ou talento, que muitas vezes se encontra perdido e jamais resgatado naqueles que não exploram seus potenciais artísticos. O diferencial é a busca, é o interesse, é a sede por o aprendizado e por a descoberta, além da sensibilidade que é inerente a todo artista! Em nenhum de todos 'ses aspectos primordiais a qualquer tipo de arte, Maércio Lopes foge à regra. A perfeição ou aproximação de ela nas suas peças é tão nítida, que muitos, pensando que são gravuras feitas com bico-de-pena, se surpreendem ao saber que aquele desenho 'tampado na folha, é na verdade, o resultado de um trabalho de dias a fio sobre a madeira (matriz) na busca de produzir em ela todos os efeitos da imagem desejada. Este artista, que por trás dos seus óculos e da sua timidez 'conde uma imensidão de talento, seriedade e competência, não expressa suas poesias apenas nos versos em seus cordéis. Maércio Lopes expressa poesia também através da imagem ... Em a figura que «fala» e que nasce através das suas mãos. = = = = = = = = = Em notas: Contato com Maercio Lopes: maerciolopes@hotmail.com http://www.maerciolopes.zip.net Telefone: (88) 9962-0754 (*) João Nicodemos: Número de frases: 29 paulista radicado em Crato, é músico, radialista, poeta, xilógrafo e atualmente divulga seu mais recente trabalho " Chorinhos e Afins " João Filho agora tem celular. E 'tá mais perto de conseguir o seu objetivo de viver de livros -- ainda não são os seus, mas os do sebo Berinjela. Diz que a sina de balconista não acabou ainda ('creveu Encarniçado, seu primeiro livro, praticamente no balcão do comércio). Agora de casa nova, no Engenho Velho da Federação, terminou um livro de poesias, História do corpo. Apesar do título, são poemas metafísicos. Quando fui buscá-lo no posto de gasolina da Avenida Cardeal, me falou que 'tá lendo As seis doenças do 'pírito contemporâneo, de Constantin Noica, romeno. Um resumo das doenças do 'pírito humano, coisa típica dos romenos de mesclar absurdo e lugar-comum, explicou. Esse é o speed em que você vai encontrar João por 'ses dias. O cara tá lendo de tudo mesmo. Conversando, na ida para casa, pensei que o home tinha incorporado um Glauber Rocha erudito & católico & caótico. Disse para a eu 'crever um romance de ficção científica. Botei ele do meu lado e sentei no computador. Meu prazo 'tava acabando. Tentei 'crever de um impulso, fazendo perguntas rápidas para ele, mas desisti de vez quando acendemos uns negócios. Liguei o gravador. -- Tenho a fraqueza do poema-livro -- ri, acendemos uns cigarros. Estou com uma tosse da porra, de febre, tendo alucinações. Ele já tem quatro livros na gaveta. Pergunto do Açougue-Sol, o que 'tá mais próximo da publicação. -- Começa com uma novela que é quase a continuação de Encarniçado, mas nos outros contos busquei nova construção de ritmo e forma, com temática diferente, tendendo para a metafísica. João lembra com tranqüilidade, até um pouco de enfado, da saraivada de entrevistas que deu em 2005, após a FLIP (Festa Literária de Parati). A mídia ajudou a ficar conhecido como 'critor, mas não garantiu sua vida para sempre. O sucesso é uma ilusão. E 'te cara já viu fome demais por aí pra se impressionar com isso. A notoriedade coincidiu com uma longa de fase de desemprego. -- Eu sei que cada livro será uma batalha, como todo o autor brasileiro, mas não me deixei deslumbrar, encarei de maneira natural. Nunca dei tantas entrevistas como naquela época, mas não é isso que vai facilitar a vida econômica. O lado prático é outra história. Realizar literatura não é fácil, você pode ter a bagagem do mundo, mas se não fizer a letrinha funcionar ali, no papel, não funciona. Não que a bagagem não seja necessária, é o que chamo de livro-vivência. Sem bagagem, o cara não 'creve. Tou mesmo no limite, puxando o corpo por várias horas sem sono. Meu olho tá verde. Mas João tá tranqüilo. Bebe água. Disse que minha mãe é bonita, analisando uma fotografia velha. Pergunta da minha família -- 'tamos nós num 15x20 'maecido, na 'tante. Cavo mais. -- João, explica o Encarniçado para os viventes. -- Sempre pensei o seguinte, na idéia do Encarniçado, eu trabalho na sintaxe, e para mim sempre valeu a coisa de que se é pra fazer a mudança da forma, que seja não só na 'trutura, mas também na própria 'trutura da sintaxe. Como Sérgio Sant? anna ('critor) falou que o sexo se faz verbo, quando comentou a linguagem do livro. Agora, a virulência da temática e da forma de fazer isso falar, tudo é gritante, tudo é anguloso, era a fase que eu 'tava passando, morava em Bom Jesus da Lapa e queria enxugar toda aquela vivência nos contos do Encarniçado. A 'sa altura, já percebi a multiplicidade das palavras. Uma variedade de secos e molhados, do balcão da venda. Foi a vida mundana mesmo, João, mas com figuras de outro lado, com vivências riquíssimas. Dedicou seu primeiro livro, o primeiro de prosa do poeta, a todas as personas ali praticadas. E Beethoven? Você toca Violino? Não pra ganhar dinheiro, mas por a religião. Aprendeu a tocar na igreja Congregação Cristã do Brasil, fé protestante de toda a sua família e que começou a freqüentar com seis anos de idade. -- Sou um religioso sem rito e sem instituições. Mas a infância, adolescência e juventude no culto me tiraram todo o sabor da igreja -- a música era sacra, mas por fora ele tocava samba e também ouviu muito rock ' n ' roll, 'pecialmente na fase mais porra-louca, dos 16 aos 24.-- Fase etílica braba, de beber de segunda a segunda, de manhã já tinha três copos de vodka na cabeça, já dormi em cima do vômito com cachorro lambendo a boca de manhã. Por isso não bebe mais. Aliás, a 'colha musical reflete a 'tabilidade deste dias: João é fã de choro e pesquisa a história de seus pioneiros. Ele já tentou vestibular pra direito e letras, em Recife e Salvador, não passou e hoje em dia dá graças a Deus, porque 'tuda sozinho no seu próprio ritmo. Em o final, faz poucas perguntas. Ouve a minha explicação da saga dos paranormais. Aí chegamos no Engenho Velho. Tem um pagodão rolando na rua, ele vai seguindo para a casa com a luz acesa, no beco, lhe entrego a revista Etcétera com sua foto na venda em Bom Jesus da Lapa e o texto Satisfeito como um velho nazi. Ele me aconselha a viver sem ansiedade. O futuro é agora. Número de frases: 65 A o assistir os meus primeiros debates sobre cultura em Porto Alegre, sempre percebi que os discursos seguiam, em sua maior parte, ideologias político-partidárias. Achava que isto 'tava errado e que os assuntos do campo cultural não deveriam 'tar associados a assuntos do campo político. Com o tempo, percebi que 'tava cometendo um equívoco. Se o mundo é um sistema e a maior parte dos problemas ambientais que assistimos ocorrem justamente por a excessiva visão fragmentada dos fenômenos, não teria cabimento eu querer separar cultura de política. Apareceu então o seguinte problema: como vou me posicionar? Como vou agir? Pensei então que precisava conhecer as diretrizes e programas dos diferentes partidos e saber como agiam seus membros, para somente então assumir publicamente uma posição e ser coerente com minha opção. Percebi que em geral, pelo menos aqui no RS, os partidos assumem três posições: 1) achar que no mercado 'tá a solução de tudo; 2) achar que todos os problemas do mundo (inclusive os da cultura) têm sua origem no mercado; e 3) defender qualquer uma de 'tas posições, no período que antecede as eleições e depois nada fazer. Aliás, «não fazer nada» depois que acabam as eleições é um fato comum nos candidatos que assumem as posições 1 e / ou 2. Entendida 'ta questão, pensei em assumir uma das três posições. Depois vi que não concordo com nenhuma de elas, pois o entendimento da dinâmica do campo cultural vai além de inclui-lo ou exclui-lo do contexto do mercado. Por fim, desanimei. Como em Porto Alegre (será só aqui?) a maioria das pessoas que trabalham com cultura se conhece, pensei que não valia a pena me expor publicamente apoiando iniciativas político-partidárias em prol da cultura, prevenindo assim desgastes posteriores, prováveis boicotes dos futuros partidos que viessem a assumir a administração municipal ou 'tadual. O que ganhei com isso? A sensação de que algo precisava ser feito e que a minha posição «confortável», à prova de conflitos, havia me engessado. Pensando sobre isso lembrei da vídeo conferência de Debra Rowe, professora do Oakland Community College (Eua), durante o Simpósio A Universidade frente aos Desafios da Sustentabilidade em 2004, sobre mobilização 'tudantil para cobrar a implantação de uma política de desenvolvimento sustentável nas universidades americanas. Cheguei a conclusão que podia fazer algo. Em 2006 constitui com músicos da banda com quem trabalhava o Coletivo Tarrafa, que desenvolveu atividades até julho de 2007. Também comecei a produzir conteúdo para reflexão e organização do setor cultural. Primeiramente publiquei o artigo " Vamos Educar as Pessoas para a Produção Cultural?" para mostrar a lacuna imensa que temos em termos de formação para produção cultural. Em a sequência, disponibilizei publicamente minha pesquisa sobre financiamento da música. Depois 'crevi artigos falando da relação entre educação e a canção, do exercício da atividade de produção cultural e compartilhei informações sobre cultura colaborativa e software livre. Minha última ação no sentido de contribuir para o desenvolvimento da cadeia produtiva da cultura foi a publicação do livro Aprenda a Organizar um Show. A partir disso, comecei a receber e-mails de várias pessoas me dando um retorno de que 'tão lendo 'tes conteúdos, que situações parecidas ocorrem em suas cidades. Acredito na importância de se educar as pessoas para a produção cultural. Quando falo em «educar para produção cultural», não 'tou restringindo a aprender a encaminhar projetos para leis de incentivo. Me refiro a necessidade de se 'truturar métodos de ensino que permitam aos jovens se interessar por o trabalho com a cultura desde o ensino fundamental, se profissionalizarem no ensino médio e desenvolverem conhecimento de ponta em âmbito universitário. Mobilize pessoas influentes em seu bairro, cidade ou região para pressionar candidatos a incluir educação para produção cultural em seus programas políticos e projetos de governo. Feito isso, redija um documento e peça para que o candidato leia e assine. Veja um exemplo: Compromisso Público De Candidato Eu,, brasileiro, residente a, portador de RG nº, candidato a no município de, por o partido, me comprometo publicamente a cumprir rigorosamente os compromissos a seguir: * Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação e manutenção de projetos, programas, cursos, centros comunitários, 'colas, centros de ensino técnico e universidades, voltados para formação de profissionais que trabalhem com produção cultural, em toda sua diversidade; * Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para formação de professores da rede pública para atuarem como sensibilizadores para o trabalho com produção cultural no ensino fundamental; * Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para capacitação de profissionais de produção cultural para atuarem como professores na formação técnica em produção cultural no ensino médio; * Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação e manutenção de cursos de graduação e pós-gradua ção em áreas que abranjam a produção cultural e que atendam as demandas do Sistema Nacional de Cultura; * Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação de editais para financiamento de publicações didáticas voltadas para o ensino de produção cultural; * Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação de cursos de capacitação empresarial para profissionais de produção cultural atuarem como empreendedores, utilizando os conceitos da economia solidária. Isso é somente um modelo. Você pode adaptá-lo ao contexto de sua cidade. Mas o que realmente importa é fazer. Eu tenho certeza que não tomará tanto tempo do seu presente, mas pode mudar muito o nosso futuro. Mesmo sendo a produção cultural «também» uma questão do Estado, cada indivíduo pode ser um agente de transformação para auxiliar a criar condições que ampliem nosso desenvolvimento através da cultura. Número de frases: 50 «Foi bom. Só faltou luz», diria Biribinha mais tarde, quase travestido de «Teófanes Antônio Leite da Silveira (" o homem que vive à custa de Biribina», como ele mesmo faz questão de ressaltar). Depois de percorrer onze cidades pernambucanas, seguindo o itinerário do Palco Giratório, o 'petáculo «o Reencontro de Palhaços na Rua é a Alegria do Sol com a Lua» veio desembocar na margem 'querda do Rio São Francisco. Mais precisamente, no salão do SESC-Petrolina. Além do encontro de palhaços, o último vagão do Palco Giratório se encontrou com o primeiro do Aldeia do Velho Chico (4° Festival de Artes do Vale do São Francisco). Até dia 16 muita água vai rolar ... E muitos encontros devem acontecer também. O encontro do último sábado, proporcionado por a Cia.. Teatral Turma do Biribinha (Arapiraca-AL), foi com a alegria. Uma platéia muito variada se deliciou com a leveza dos palhaços Biribinha e lingüiça. Mesmo tendo de fazer algumas adaptações necessárias para deslocar a peça da rua para o salão, que implicaram num corte do ritmo, a base dramatúrgica conseguiu ser preservada. Os dois palhaços convenceram o respeitável público de que realmente não se viam desde o Circo Mágico Nelson, do palhaço Biriba (uma referência ao saudoso pai de Biribinha). Para representar o reencontro, Lingüiça teve de se infiltrar na platéia. A peça perdeu, em 'te ponto, a excelente interpretação de Wellington Santos como o mendigo que durante um 'petáculo de Biribinha rouba a cena e atrapalha a encenação. Algo que já causou alguns desencontros durante 'tes dois anos de apresentações. Linguiça já foi preso, teve o braço machucado e tumulto com Associação de moradores. Afinal de contas, não é todo mundo que tem a sensibilidade de perceber que o pedinte é o velho Lingüiça. Só Biribinha mesmo para convidá-lo a reviver os tempos de outrora, num 'petáculo baseado nas 'quetes de palhaços que eles mais gostavam de fazer. É impressionante como a apresentação consegue articular linguagens tão diversas, como o circo, o teatro, a música e a dança, sem perder o ritmo narrativo. Por sinal, a linguagem cênica se faz exatamente na tessitura das outras linguagens, algo que caracteriza a hibridez do 'petáculo. De repente, não mais do que de repente (diria Vinícius), chega-se ao momento do improviso. Os palhaços dividem a platéia em duas torcidas: Biribinha Futebol Clube e Esporte Clube Lingüiça. E assim inicia-se um desafio cuja origem remonta aos trovadores medievais. «De Repente», a 'trofe de um palhaço desconstrói a 'trofe anterior, sempre com a algazarra da torcida e o acompanhamento dos instrumentos. Piano de garrafa, serrote e chocalho saíram da lona do teatro de circo e se adaptaram muito bem ao acompanhamento do violão, da guitarra e de uma 'pécie de bateria. Em determinado momento da apresentação, a emblemática música «Asa Branca» é executada a toques de chocalho. Durante quase uma hora de 'petáculo, a poética dos palhaços saudosistas envolve a platéia de tal maneira que dá para rir, chorar, mergulhar na infância e nadar no melodrama circense sem pressa (e sem lona) ... Biribinha que o diga. Com 50 anos de profissão ele não se cansa de repetir: «Nós não somos meros fazedores de graça. Nosso palhaço da dualidade utiliza muita coisa do tradicional». Talvez seja por isso que ele tenha sentido falta da luz. Em a verdade, tal como Goethe, Biribinha só queria que a gente abrisse mais a janela: da nossa própria consciência ... Número de frases: 35 O Que Os Animais Fazem Quando Não Estão Gravando Globo Repórter?? Está constatado que 90 % dos Globo Repórter são sobre Animais ou Animais em Extinção ou Animais Embaixo De Rochas. Onde foi parar toda criatividade da rede do PLIN-PLIN? Quando eu era menor, toda sexta-feira tinha um assunto novo e Interessante. Aliás, teve uma época que eles Só falavam sobre Extraterrestres, mas, enfim, pelo menos despertava a curiosidade. Milhares de reportagens, seja sobre as luzes que apareciam misteriosamente no céu de Minas Gerais, seja sobre a marca em forma de círculo no capim de uma lavoura em Pindamonhangaba. Sinto saudades de 'sa época. Eu me interessava por o assunto, por mais absurdo que fosse. O mundo não é mais tão insano quanto antigamente. Quem me explica aqueles cortes de grama em forma de Disco-VOADOR?? hehe. Pois repito: não me interessa se o cavalo-marinho macho fica grávido. Não me interessa aonde vivem os aie-aies. Não me interessa quantos peixes cabem embaixo de uma rocha. Queremos Novidades. Sensacionalismo. Extraterrestres. Chega De Rochas!! Número de frases: 18 Bombardeado por a mídia você, vazio, enche-se de prenoções. Curte as superfluidades mercadológicas, empurradas na sua goela, pior, na sua mente. Despreza o grito de resistência fluindo ao seu redor. Um grito alternativo, protestando contra a opressão que atinge a todos nós. A mídia oprime e cria a imagem que bem entende das coisas, dos movimentos, da música. O que é bom? Relatividade a parte, para ela é aquilo que gera lucro, muita grana! O bom moço não existe. Chega de 'sa moral hipócrita. Somos seres humanos e vivemos no mundo das maravilhas, da pura ilusão. O branco da paz perdeu sua luz. Aqui, a paz veste preto! Então, vamos vestir preto, o preto da paz, o preto da alternatividade, o preto do protesto, da atitude de negar toda 'sa m ... (!) que vomitam em nossos ouvidos e hipodermicamente tentam nos injetar. As portas da percepção devem se abrir, eis o símbolo, eis a chave O =». Esse é o Palco do Rock. Paz! Negra, porque a branca é conseguida (?) com guerras. Música! Grito de protesto contra as formas de opressão. Ideal! Número de frases: 22 Fraternidade, em prol da causa comum. O Encontro DOS EX-ALUNOS De o Colégio De MUQUI É O Mais Antigo do Brasil Histórico do Colégio De MUQUI Até 1933. Em meados de 1930 as famílias abastadas de Muqui, nos áureos tempos do café, internavam seus filhos no Educandário de Pádua, na cidade de Santo Antônio de Pádua, no Estado do Rio de Janeiro, a 150 km de Muqui, em busca de melhor ensino. No entanto, houve em 'ta cidade uma epidemia de febre tifóide que tirou a vida de um dos alunos muquienses, Sebastião, de 14 anos, filho de Colina e Álvaro Afonso Freitas Lima, sem que a família viesse imediatamente a tomar conhecimento em razão dos parcos meios de comunicação da época. A o saberem do fato, os pais e tios dirigiram-se aflitos para a cidade vizinha, quando o tio do rapaz, Innocêncio Constâncio da Silva, entusiasmado com o imponente colégio que visitara, naquele instante tomou o firme propósito de fundar em Muqui uma 'cola semelhante que viesse atender à população da sociedade muquiense, carente de um curso colegial, para o desenvolvimento cultural do município. Innocêncio era agricultor em Muqui e comerciante de madeira em Colatina, além de prático em dentista e mineralogista. Era casado com De a. Anita. Como Innocêncio conhecia Lavaquiel Biosca, Diretor do Colégio de Pádua, convidou-o a juntos fundarem igual colégio em Muqui, considerando como local propício para a instalação deste educandário um prédio já construído ao pé da Pedra do Dragão, no Bairro da Boa Esperança, de propriedade de Ana Fraga, que havia sido projetado para ser a Santa Casa de Misericórdia de Muqui. De a. Sinhana, como a chamavam, que se interessava por medicina e era conhecida por todos por suas receitas caseiras de ervas medicinais, construíra o prédio, contando com a promessa do Governo de providenciar o equipamento hospitalar conforme anteriormente combinado, porém muito tempo se passou sem que cumprissem o acordo, resultando na inércia do enorme prédio que não atingira sua proposta inicial. Em razão disso, formou-se uma comissão que então procurou Avides Fraga, um político local, a fim de que intercedesse junto à Ana Fraga, sua mãe, para que repassasse o uso da edificação ao novo projeto. De a. Anna concordou, 'tabelecendo que o Colégio funcionasse gratuitamente por 3 anos, sob a condição de que fossem doadas dez matrículas anuais para alunos menos favorecidos e de que fosse paga uma mensalidade à Santa Casa de Cachoeiro de Itapemirim, no valor de Cr$ 300,00 antigos, mantendo-se a gratuidade das bolsas de estudo. O Colégio funcionaria como sucursal do Gymnasio Municipal de Pádua. Com o apoio do Prefeito Cristiano Rezende, gestão 1932/1935, e de outras personalidades da época, depois de várias reuniões, foram angariados fundos para a reforma. O prédio de dois andares de paredes sólidas e janelões coloniais, em forma de U, precisava ainda ser terminado e adaptado. A obra foi orçada em 38 contos de réis (moeda da época) que representava uma enorme quantia. Felipe Marques doou várias terras para ampliar as instalações do Colégio. Em o morro próximo a 'te prédio, existia uma construção colonial erguida em fevereiro de 1927 onde funcionara o convento das freiras e o referido internato Colégio Paroquial Don Fernando de Souza Monteiro, dirigido por a Irmã Paulina, contíguo à Capela de São José (único prédio que ainda sobrevive no local) que naquele momento encontrava-se desocupado e, em razão disso, foram ali administradas as primeiras aulas do ano letivo de 1933 em caráter provisório. Em o futuro, o prédio do convento também serviu de moradia ao diretor do Colégio; de internato feminino e, mais tarde, de moradia aos padres agostinianos e os porões da residência do Diretor, de sede para o Tiro de Guerra 79, que ali se 'tabelecera de 1955 até 1964. Em julho de 1933, o prédio principal foi oficialmente inaugurado após o término da reforma, sendo que o ano letivo terminou já na nova edificação. Recebeu o nome de Gymnasio Municipal e Escola Normal de Muquy, haja vista ata da inauguração, e em 'te mesmo dia foi reconhecido como de Utilidade Pública por o Decreto No. 79 sob grandes comemorações. Entrevista Hélton-Quem foi o Idealizador desse Evento? «Dª Ketty: «Que eu me lembre, foram vários alunos, mas eu só me lembro de alguns que são: * Dº Seneteses Moraes; * Orlindo Berili e * Idalício Caroni. Hélton-Qual a intenção desse Evento? Essa pergunta Dª Ketty respondeu rapidamente, como se ela já soubesse o que eu ia perguntar, ela disse: «O Reencontro de Amor entre os Ex-Alunos. Hélton-Como era o Encontro dos Ex-alunos em 1967? E Onde era Realizado 'se Encontro? «Dª Ketty: «Os Ex-Alunos Começaram a vim para matar a saudade, comer as comidas da 'cola que eles adoravam quando 'tudavam, sendo que em 'sa época já eram formados, mas mesmo assim, sentiam saudade do Colégio onde passaram pode se dizer que a metade da Infância. Em 1967 o Encontro acontecia no próprio colégio, que ainda existia. Nome: Ketty Ciríllo Lourenço, 83 anos de idade Estudou no Antigo Colégio por 6 anos, e começou a 'tudar em 1935, ela diz quem em 1935 foram formados os primeiros alunos da 'cola normal e três do Ginásio. O Encontro dos Ex-alunos do Colégio de Muqui 'tava marcado para 8:00 da manhã, mas os Ex-alunos só começaram a chegar a partir das 10:00hs. Perfil do Dia: Em os Dias 19 e 20 de Julho de 2008 reuniram-se no Clube Campestre De MUQUI os EX-ALUNOS De o Antigo Colégio De MUQUI, eles se reunem todo ano, sendo que 'te foi o 45º encontro, eles se reunem para relembrar e confraternizar juntos os anos de Glória em que 'tudaram no Antigo Colégio De MUQUI, lembrando que 'tve presente algumas pessoas importantes para a cidade como Dª KETTY CIRILIO LOURENÇO, e alguns famosos 'critores Muquienses, como Dª NEY RAMBALDULCCI. Não 'quecendo os Alunos que fizeram parte da Fanfarra AVIDES Fraga, que se reuniram e fizeram o ensaio, como faziam antigamente, e logo após, seguiram para a Sessão do Grêmio ELCLYDES De a Cunha, que foi realizada no Salão Nobre do Clube Campestre, logo após foram para o desfile na Rua VIERIRA Machado. Número de frases: 45 O músico que ouve desde Araketu até Jazz, passando por A-Ha e funk carioca. «Gosto de músicas e não de 'tilos " A banda de ele ganhou os prêmios de «Melhor Música (O Pobre dos Dentes de Ouro», segundo opinião dos leitores) e Melhor Álbum (de acordo com a crítica) no VI Prêmio Uirapuru da revista O Dilúvio, e ele ganhou o prêmio de Melhor Compositor por a APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), ambos do ano de 2005. Suas músicas são em sua maioria autobiográficas e falam de solidão, amor e devaneios. Seu primeiro cd foi um ciclo dividido em cinco partes e o segundo se tornou um método cheio de experiências. Este é Fernando Catatau, o Cidadão Instigado que saiu de Fortaleza e se tornou um Zé Doidim em São Paulo. Agora, morando na paulicéia desvairada, o músico topou ser entrevistado para O Dilúvio. Depois de uns contatos por email e orkut, nos encontramos no msn. Catatau tinha acabado de chegar de viagem e mesmo 'tando cansado não se importou em responder as perguntas. E assim teve início a primeira entrevista de ambos por o msn. «A gente pode tentar sim, na boa. Se ver que não consigo, falo». Como num dia não deu para terminarmos, concluímos por email. E viva a tecnologia! Em seu primeiro cd, «Ciclo da Dê.cadência», você brinca com as palavras fazendo com que duas virem uma só e tal. Em o título do cd a gente já nota isso. Mas você também faz isso nas letras e nos nomes das músicas. Já no segundo cd, «O método tufo de experiências» você não fez mais isso. E algumas músicas desse cd foram compostas há tempos e coexistem com o tempo do primeiro cd. Como foi feita 'sa divisão? Tipo, você deixou reservada as músicas que não seguiam 'sa 'pécie de padrão para um trabalho futuro ou foi uma coisa natural? E por que o segundo cd não tem nenhuma música com 'sa brincadeira de palavras? Esse lance de dividir as palavras surgiu quando eu comecei a desenhar. Eu desenhava e depois colocava uns 'critos e títulos de duplo sentido. Quando eu fechei o disco (O Ciclo) resolvi dividir ele em cinco partes e brinquei com 'sa história das palavras. As músicas que entraram em 'se disco não tinham muito a ver com o outro. Em o final tudo se encaixou. Então todos os desenhos do encarte do Ciclo são seus? Você bolou tudo sozinho? A arte eu fiz junto com os meninos do Transição Listrada que são de Fortaleza também e trabalham com a gente desde o começo, mas os desenhos são meus. Quem 'cuta ambos os seus cds, nota que no segundo você fala bem menos e o tempo das músicas é menor também. O 'tilo mudou um pouco, mas permaneceu a ponto de você 'cutar e dizer: Isso é Cidadão Instigado. O fato do primeiro cd não ter sido tão bem aceito (e segundo eu li em algum lugar isso ter sido até motivo de você pensar em desistir da banda) influenciou em 'sa mudança? O primeiro disco acabou virando um registro de tudo que eu fiz desde que comecei a compor minhas músicas. Passei 94 e 95 só criando. Em 96 eu montei a banda e só fui gravar em 2001 (acho). Quando o disco foi gravado eu já não agüentava mais nada. Não tive nem muita vontade de trabalhar no disco. Isso não quer dizer que eu não goste de ele, mas fez parte de uma época que não me diz mais muito. A mudança do falado para o cantado foi muito pessoal. Eu aos poucos me sinto mais à vontade pra cantar. O Cidadão é a minha diversão. Se eu não tô gostando do rumo que as coisas 'tão tomando, eu vou e mudo. Então as mudanças foram naturais e não por não ter sido bem aceito. Eu que não aceitei mais muito. Você disse que aos poucos se sente mais à vontade para cantar. Em o Método tufo, na musica «Apenas um incômodo» você fala que " Eu sei que sou meio empenado. Talvez até desafinado». Você se acha desafinado? E agora 'ta se sentindo mais à vontade com sua voz? Eu tenho me sentido mais à vontade sim e até que tenho desafinado menos, mas continuo desafinando. Em a real, hoje eu tento ser mais chapa das minhas imperfeições. Se erro, dou uma consertadinha daqui, outra de ali e de alguma maneira chego num ponto que me agrada. Acho que tenho me aceitado mais. Algumas pessoas dizem que «O Método» tufo " é brega. Mas são apenas aquelas que conhecem a primeira e a última música do cd. Quem o ouve inteiro percebe que podem ser encontrados na realidade, muitos 'tilos ao longo de cada música. Dentro de uma mesma música você já experimenta muitas coisas. Otto numa entrevista disse que não tem um 'tilo somente. Eu sinto isso no Cidadão também. Estaria certa? Acho que sim. Em a real, eu não sou de me apegar a rótulos. Gosto de música e não de 'tilos. Tento ver o que tem de bom em tudo que 'cuto. Em a maioria das vezes gosto de 'cutar música como leigo, sem o ouvido 'tudioso de músico. Tenho vários amigos que não entendem algumas coisas que gosto, mas isso é natural da minha personalidade. Gosto de Hendrix da mesma maneira que de Bob Marley, de Roberto Carlos, The Cure ... Tem alguma banda que você 'cuta, mas pensa: «Esse cara eu tenho vergonha de ouvir»? Não, porque eu não tenho. Gosto até de músicas do A-Ha, Araketu ... ( risos) Muitas pessoas têm preconceito com muitos 'tilos musicais. Como o funk e o pagode, por exemplo. Eu sou fã de funk carioca. Mas às vezes me dá bode ouvir jazz. Em outros momentos adoro jazz. Atualmente você 'tá viciado em algum cd e 'cuta ele direto? Diz aí um show que você foi e pensou: Caralho, eu quero ser músico e fazer isso. Eu tenho 'cutado muitas coisas. Toda hora eu mudo. Tenho 'cutado meus discos do The cure. Músicas lentas sempre. Reggae toda hora. Um show? Titãs lançando o " Jesus não tem dentes ..." em Fortaleza. Você tocou com Otto no DVD Mtv Apresenta e vem acompanhando ele nos shows por o Brasil. Você toca também com Vanessa da Mata. Além de ter feito participações nos cds de Los Hemanos e Nação Zumbi. Isso acaba influenciando o Cidadão Instigado? São músicos que você se identifica de alguma maneira? Eu só toco com quem eu gosto. De alguma maneira eu acabo me influenciando quando participo do trabalho de alguém porque o mais importante pra mim, é conseguir colocar a minha guitarra da maneira que eu acredito sem interferir de maneira prejudicial no trabalho alheio. Não vou tocar com a Nação imitando o Lúcio. Nem dá ... Covardia ... Vamos falar um pouco sobre o processo de composição. «O tempo» foi composta durante as gravações e em ela você toca praticamente sozinho. Você tem alguma preferência para compor? Prefere 'tar sozinho? Normalmente eu componho sozinho. Até porque quando eu 'crevo algo é muito pessoal, daí faço a música pensando na letra. Gosto de fazer música com outras pessoas também, mas normalmente com quem tenho muita afinidade. Quem 'cuta os seus cds nota que as músicas têm um cunho de autobiográficas. Como no caso, por exemplo, de «O silêncio na multidão» que fala sobre a depressão de se ficar sozinho numa cidade com as dimensões de São Paulo. Você foi pra lá com um amigo que logo depois desistiu e foi embora. Você também pensou em desistir em 'sa época? Como foi o processo de conhecer as pessoas envolvidas com música na cidade? Como foi ir conhecendo os músicos e começar a arrumar lugares para tocar e tal ... Em 'sa época (94), foi muito difícil pra mim. Eu ficava bolando por o Bexiga e conhecia algumas pessoas que tocavam nuns barzinhos. Eu pensei diversas vezes em voltar, tanto que depois de um tempo eu mudei para o Rio, que também não foi muito bom, daí voltei para a Fortaleza e foi quando montei a banda. Aos poucos eu fui conhecendo umas pessoas em São Paulo. Vinha pra passar uns dias, voltava, dava uns meses 'tava em São Paulo novamente. Em a homeopatia. Continua sendo. Com que freqüência você volta a Fortaleza? É uma cidade que você gosta de visitar? Fortaleza é minha cidade e eu sempre gostei muito de 'tar e ser de lá. Hoje em dia, por o rumo que ela tomou, me deixou totalmente desiludido. O ruim é que sempre falo isso e não é conversa de quem tá fora. Desde que abriram as portas para o turismo lá, a cidade foi se afundado cada vez mais. Hoje é triste de ver. Não tem um lugar que seja seguro lá. Até sua casa ficou perigosa. Só os que têm muita grana e costas largas conseguem ter proteção. Pra mim é uma decepção. O turismo sexual, a pior arquitetura do mundo na minha cidade. Lá você formou sua primeira banda, a Companhia Blue, que por o nome parece ser completamente diferente do que você faz hoje no Cidadão. Você acha que evoluiu musicalmente ou apenas são 'tilos diferentes? Agora você faz o que realmente sempre quis fazer, por exemplo. A Companhia Blue e o Cidadão são trabalhos completamente diferentes. Em a Companhia eu era apenas guitarrista e o Júnior Boca que cantava. Até as músicas que eu fazia eram pensadas pra ele cantar, mas foi uma época muito legal, e era o que eu queria tocar. O Cidadão é bem mais pessoal. São minhas musicas. Eu canto. Eu 'crevo. Então são momentos diferentes, cada um na sua importância. «Os urubus só pensam em te comer» é a trilha sonora original de um curta-metragem homônimo de Vanessa Teixeira de Oliveira. Ela chegou para você, te mostrou o vídeo e você compôs ou você acompanhou todo o processo de realização do curta e foi compondo aos poucos? A Vanessa me chamou pra fazer a trilha, e eu fiz toda em casa num porta-'túdio de rolo. Toquei todos os instrumentos que na maioria eram teclados, coloquei umas guitarras. O nome do curta é 'se. De aí quando decidi colocar a música para a banda tocar, eu completei a letra e coloquei o titulo em ela. O Cidadão Instigado já tocou no Sesc em São Paulo no Projeto Prata da Casa para o lançamento do «O Ciclo da Dê.cadência». Lá 'se movimento do Sesc rola de uma forma muito legal. Já em Recife e em Fortaleza, por exemplo, o Sesc não é tão forte e não faz tantos shows. O que você acha de projetos como 'ses que rolam no Sesc e também outros como os do Itaú Cultural? Acho fundamental que existam lugares assim. É uma pena que isso não passe do circuito sudeste. às vezes até tem em outros cantos, mas em menos quantidade. Só que mesmo aqui em São Paulo, não é tão fácil tocar em 'ses eventos, então quando acontece de você tocar é muito bom porque se recebe decente, tem um som legal ... A APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) divulgou na última segunda, dia 12, os melhores de 2005. Em a categoria Música Popular você ganhou como melhor compositor. Já no VI Prêmio Uirapuru, da revista O Dilúvio, o Cidadão Instigado levou os prêmios de Melhor Música e de Melhor Álbum. Você acha que os prêmios que vem ganhando é como se fosse uma consolidação do seu trabalho? Uma 'pécie de reconhecimento uma vez que o Cidadão não é uma banda que toca na MTV e nas rádios? Tenho ficado muito feliz com tudo que tem rolado em torno do nosso novo disco. Várias coisas boas 'tão acontecendo agora por causa de ele. É um bom momento para a gente e 'tamos tentando aproveitar ao máximo, fechando shows e tentando chegar mais próximos uns dos outros em termos musicais e emocionais. O bom é que todas as coisas boas que 'tão vindo são naturais. Nunca precisei fazer uma música de determinada maneira pra agradar a pessoa que precisa ouvir. Tenho necessidade de criar música que seja verdadeira pra mim. E mentir não seria muito justo com minha pessoa e com os que 'tão ao meu redor. Como é isso de agora ter um 'túdio, o Totem? Pode-se dizer que agora você tem 'paço para suas pirações? Aqui é meu 'paço de tudo. Gravamos, tomamos café no fim de tarde, às vezes tem churrasco, os amigos passando ... dá nem vontade de sair. Número de frases: 173 (texto originalmente publicado no site O Dilúvio -- www.odiluvio.com.br) Por a sua idade seria normal ouvir dos críticos e dos músicos que o cercam a afirmação: ' ele tem muito que aprender '. Mas poucos ousam soletrar tais vocábulos (eu não ouvi ninguém, por exemplo). Talvez antes de ecoarem tal oração, eles tiveram chance de conhecê-lo e, sobretudo, conhecer suas idéias. Várias perguntas foram respondidas no nosso encontro, mas uma, inconscientemente, martelou minha mulera: por que Pedro Morais, que vicejou em 2003 no cenário musical mineiro, ainda não 'tourou? Talvez nem ele mesmo saiba. Eu também não saberia e, conseqüentemente, penso eu, vocês também não iriam saber, não fosse a carona que ganhei logo depois do papo. Carona que mais que uma condução gratuita, foi uma pequena aula musical. O condutor e professor: Robertinho Brant. A resposta: ' todos cobram sucesso. A família cobra sucesso, os amigos cobram sucesso, mas os músicos que antes de tudo buscam qualidade, preocupam-se primeiro em aperfeiçoar e não seguem o fluxo comercial que seria bem mais rápido e fácil '. Assim ele respondeu, inconscientemente, uma questão que não foi feita. Sem querer Robertinho preencheu uma lacuna que naquele momento, nem eu sabia que existia. Por que eu cheguei a me perguntar sobre o 'touro ou não do Pedro Morais? Primeiro, por a qualidade musical impressa no seu CD de 'tréia; segundo, porque vira e mexe ele gera notícia panegírica nos cadernos dois da vida (isso quer dizer alguma coisa?); terceiro, porque não conheci nenhum outro garoto que trocou uma bola de futebol aos 11 anos por um bandolim; quarto, porque aos 24 (por imposição das células), Pedro Morais mostra maturidade de 30 e musicalidade de 50 anos; quinto, porque ele formula frases como: ' o complexo, às vezes, é ignorante ` e ' o mundo é o resultado dos contrários, da força dos leões e dos otários '; sexto e mais importante, por causa das suas respostas em 'sa entrevista (risonha) abaixo ... Suas músicas são as respostas para suas perguntas ou as perguntas para suas respostas? Elas são as perguntas. Por quê? Talvez porque não tenham respostas. Em a verdade, eu reflito por meio de elas na tentativa de respostas. Em que prateleira 'tá Pedro Morais? Em qual gostaria de 'tar? Cara ... ( risos). Bem, não sei. Não tenho pretensão nenhuma, de prateleira nenhuma. Você é pop? Não. Em a verdade as pessoas precisam de uma referência ... E as lojas também, afinal, elas precisam saber em que prateleira colocar (risos). Pois é. Eu acho que se precisa de um rótulo, o da MPB funcionaria com mim. Mas na verdade ele não descreve nada, afinal, música popular brasileira é qualquer coisa. Quem faz MPB tem muito mais características pessoais do que globais. Posso fazer um samba, um rock e ser o mesmo cara em todas as músicas e as pessoas me reconhecerem por 'se todo. Quem mexe com o todo e é tudo ao mesmo tempo é MPB hoje. O próprio Caetano (Veloso), um dos criadores desse rótulo é o melhor exemplo disso. O fundamental é ter uma 'sência, mas se é preciso um rótulo: MPB 'tá bem servido. Falando nisso, parece-me que hoje é cada vez mais comum a tentativa de fuga dos rótulos. O que isso significa para o músico? Ser diferente? Não, não significa ser diferente, significa não ser igual. Como assim? Ser diferente é qualquer coisa, não ser igual é não ser semelhante a alguma coisa. É poder ser você e ser tudo ao mesmo tempo. Isso é muito importante. Como 'tamos vivendo numa situação de globalização, em que tudo: internet, tecnologia, não-sei-que, nãnãnã ... tudo isso faz com que a cada dia a música afunile mais e leve a discussão musical para uma questão de personalidade. A cada dia é mais importante a forma de interpretar, de compor, de executar. Isso gera um conjunto de fatores que tenha algo a dizer, argumento, que se torna forte. Em a verdade eu não acho que tenho isso, mas me 'forço para ter uma personalidade reconhecível e não me incomodo que me comparem com ninguém, o que acontece sempre. Eu quero que daqui a 30 anos, alguém 'cute uma canção inédita minha e diga: ' 'se é o Pedro '. Isso é reconhecimento, e o conjunto de fatores que gera personalidade sendo reconhecido. Talvez você não tenha percebido, mas nas três primeiras músicas do CD você usa a palavra fé. Qual sua relação com 'se vocábulo? Fé? Fé. Minhas músicas são meio que filosóficas mesmo e a palavra fé é filosófica. É coisa de ser humano. Até os ateus precisam acreditar em algo que não é palpável. Pra mim Deus significa isso: ter acesso a uma coisa que você nunca vai ter. Embora eu seja crente da sua existência, não acho que 'tamos submetidos completamente a ele. Somos nós que geramos, que fazemos acontecer. O que faço na música é questionar o porquê das pessoas precisarem de uma religião. Você pensou nisso para compor 'sas três canções? Claro. ' Terra blue ', por exemplo, uma música que fiz sozinho, ela fala da questão dos negros do Vale do Jequitinhonha, onde eu morava. Querendo ou não, sou influenciado. Nós somos frutos do meio, messsssmo. ' Terra blue ' então fala de fé por que fala dos negros? É. Em a verdade é um trocadilho infame, mas carinhoso. Blue fala de negro, de cor, ao mesmo tempo fala de futuro, de céu azul, sabe? Blue de contraste de cores, de um lugar seco que tem o céu diferenciando. A música fala disso e ao mesmo tempo faz uma relação com a fé. Minas Novas é uma cidade antiga, que fez parte do ciclo do ouro, do diamante. mais de trezentos anos sem evolução. Uma cidade de dez mil habitantes e oito igrejas católicas. Oito! De o lado tem uma cidade chamada Chapada do Norte que é um ex-quilombo. Os primeiros habitantes desses locais vieram tudo da África. Não tinha jeito de não relacionar a imposição católica religiosa e os nossos descendentes negros. A música fala um pouco disso: de 'cravidão, de religião que os negros não conhecem e precisam exercer. Sete das 12 músicas do álbum são feitas em parceria com Magno Mello e Kadu Vianna. Como funciona isso? Era algo disciplinado? Eu sempre fui muito solitário musicalmente. Em a verdade, eu que sempre me senti muito sozinho; eu e meu violão; eu e minha madrugada, e curto isso de uma maneira muito intensa. Nunca consegui colocar uma música numa letra que eu não participei na construção, assim como não consigo colocar letra numa música que já me fosse entregue pronta. Eu preciso sentir as pessoas, saber se 'tamos falando as mesmas línguas e tal. Isso pra mim é fundamental, não sei, talvez seja romantismo demais no processo criativo. Eu tinha isso com o Magno e com o Kadu. Aprendi também com 'se romantismo que nem todas as idéias são boas, ou melhor, quase todas as idéias são ruins e por isso não dá pra se apegar. Quando percebemos que tínhamos afinidades, a gente se comprometeu a nos encontrar, sem obrigação de sair música. Aí definimos que teríamos encontros todas às segundas-feiras. Isso rendeu muitas idéias legais. E quando acabou? Pois é. Acabei parando por muito tempo de compor porque criei um certo vício. Uma dependência química? Quase física? (risos) Isso mesmo. Uma dependência química / física do negócio. Em ' De cada lado ` e ' Gente do ocidente ' você, de uma forma óbvia, mas genial, mostra uma realidade clara, mas nem sempre perceptível do nosso cotidiano. Você pensou em algo do tipo na hora de compor? Isso é uma coisa meio louca. Acho que a idéia não partiu de mim sozinho, mas cheguei a pensar nisso, não de forma tão clara. Nós fomos criando e quando chegamos a conclusão, por exemplo, que tudo mesmo é o contrário, existe o doce e o amargo, o sim e o não ... O feio e o bonito ... Exatamente. Essa idéia criou uma coisa fértil e gerou um texto e um argumento dentro da música. Então buscamos dizer aquilo sem ser óbvio e é isso que você acabou de dizer. A gente falou de uma coisa óbvia de uma maneira não óbvia. E o legal é isso: você falar da coisa mais boba do mundo e não falar gratuitamente. Tudo depende do conjunto. às vezes você cria algo óbvio que beira ao ridículo no refrão, mas que por conta do contexto não fica tão óbvio assim. De repente a melodia é muito complexa e a letra é simples. Eu reflito muito sobre o processo de composição dos outros para aprender com isso. Por exemplo, o Tom Jobim é um cara foda, que tem melodias fantásticas, mas tem letras simples. A bossa nova é muito simples. ' Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça ' (batuca na mesa) ... as letras chegam a ser ridículas. Eu reconheço a simplicidade das coisas e vejo que o simples é lindo e também não é fácil de chegar. Nós temos muitas idéias e acabamos fazendo uma coisa muito complexa e falamos: Nó!! Fantástico!! Arregacei!! A melodia ótima, mas é preciso de um dicionário para entender a letra e interpretá-la. O complexo, às vezes, é ignorante. ' Em o ciclo ` e na última 'trofe de ' Gente do ocidente ' você brinca em inverter orações e palavras. Existe uma explicação ou resume-se em buscar rimas? Em o ciclo foi o seguinte: eu 'tava na montanha, na Serra do Cipó com o violão, quando dei conta já 'tava compondo algo que dizia do ciclo das coisas, que tudo tem um ciclo, tem uma necessidade. Isso é até engraçado porque não consigo fazer uma música de um tema 'pecífico, sabe? Por exemplo, vamos fazer uma música sobre 'se copo azul (aponta para um copo na mesa) ... não rola, cara! Eu viajo demais e abstração é um lugar pra mim, sempre! Então, em 'se dia eu comecei a pensar nisso, ter um tema, mas comecei a viajar total. Em a metade da letra eu tive que voltar para Belo Horizonte. Em uma de 'sas segundas-feiras, cheguei e mostrei para todos. A turma gostou e a gente começou a tentar terminar. Nó! Deu muito trabalho. Até que o Magno pensou em fazer uma mistureba e repetir as mesmas palavras em locais diferentes. Trocamos tudo de ordem e o mais louco é que tudo faz sentido mesmo assim. Alteramos a ordem do trator e isso não alterou o viaduto (risos). ' Pedro vai ... ' é um resumo da sua autobiografia futura? Não. Nem futuro, nem passado. Foi doideira do Magno. Nós íamos nos encontrar na segunda, como sempre, e no sábado ele me ligou e disse: ' Pedrão, to com uma idéia aqui. Quero fazer uma música que o título é: Pedro vai ... '. Eu comecei a rir. Ele começou a explicar e eu fiquei rachando de rir. Nada a ver, música que fala sobre mim, ocê tá doido? Aí ele disse: ' ocê acha que tive 'sa idéia por sua causa? Cê acha que é docê que 'tou falando? ' Aí ele disse que queria falar de um cara que saiu da sua cidadezinha e que se eu me identificava com aquilo o problema era meu (risos). O Magno 'creveu a primeira parte e descreveu a vida de qualquer um que sai da cidade pequena ... pode ser um João, uma Maria e tal. Ficou poético e muito legal. Você acha que não é difícil para as pessoas não associar? Nó! É fácil demais associar. Eu me chamo Pedro, a música chama Pedro vai ... ( risos) e eu assino ainda a canção. É foda porque o povo deve achar que eu me acho (risos). O povo deve pensar: ' o cara se acha demais. Fez uma música falando sobre ele e tal '. Em o fundo, no fundo, o Magno teve uma idéia de meio que me homenagear ... ( risos) ele racharia de rir se ouvisse isso ... mas como eu participei da composição eu me sinto menos homenageado e isso é bom porque não alimenta o ego. ' Cada vez mais perto ' é um outro capítulo de 'sa biografia? Aí seria demais (risos). Não, a música descreve um pensamento de alguém para o futuro. Estamos cada vez mais perto. Só que cada vez mais perto e parando aí, dá possibilidade para zilhões de coisas. Podemos 'tar cada vez mais perto da loucura, do abismo, da riqueza, da felicidade, da 'piritualidade e nãnãnã. Discutir letras musicais sempre me remete para uma pergunta: você acha que as pessoas que 'cutam Pedro Morais em 'se momento recebem 'ses recados? Não, cara. Infelizmente. Por quê? Porque não é todo mundo que consegue abstrair tudo que queremos dizer. Tem também o lance de sermos muito românticos, de querer descrever dentro de uma letra curta muita coisa que no mesmo tempo que não cabe, 'tá, de certa forma, dentro. É uma coisa meio doida. Mesmo assim, algumas poucas pessoas conseguem. Entrevista publicada no blog Mascando Clichê. Número de frases: 203 Conheçam: http://mascandocliche.zip.net Morreu, no dia 14 de dezembro deste 2006, o mestre Sivuca ... engrossando a lista dos gênios da cultura brasileira que se foram sem o devido reconhecimento. Pra lá, 'te ano, também foi Moacir Santos. É em 'ses momentos que surge a revolta de viver num país onde a cultura e a criatividade popular é representada por Bezerros de ouro. De Sivuca fica muita coisa. E eu, que 'crevendo aqui pareço ter saudades de um tempo que não vivi, na verdade sofro de uma revolta atrasada. De aquele que ainda em 2006 descobre (e redescobre) a obra destes mestres que aos poucos se vão. Em 'ses tempos de blogs, p2p, ipods e nostalgia, tenho 'peranças que, da minha geração, todos de 'sa gorda lista recebam o reconhecimento que não tiveram em vida. Número de frases: 8 ... e o ronco do fole sem parar. A Arte integra o currículo nacional de disciplinas obrigatórias, importantes para a formação dos cidadãos, não à toa, ela 'tá presente em todos os níveis de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Médio. Aprender Arte significa muito mais que simplesmente saber de momentos culturais e diversas linguagens artísticas presentes em nosso cotidiano, mas oferecer aos alunos um canal de expressão que nenhum outro é capaz de propiciar, 'sas maneiras próprias de ver as coisas e os fatos ao nosso redor vão de encontro à necessidade intrínseca do ser humano de representar o meio em que vive, momentos de sua época e sua própria natureza humana. É Legitimo e consta no Estatuto da Criança e do Adolescente o acesso à cultura, pois na formação cidadã, social e 'colar 'ses procedimentos de investigação de técnicas, de 'tilos, de movimentos culturais e até mesmo do próprio «Eu» de cada um, sustenta as bases do individuo em formação. O gosto por a arte se dá nas experimentações, não se pode querer que o aluno goste de algo que nunca viu, de algo que desconhece, por isso a importância de sempre lhe oferecer 'tas oportunidades. Os professores são intermediadores entre o 'tudante e o «novo» e toda novidade pode ou não ser bem vinda, saboreada, depende excepcionalmente da maneira como lhe é exposto. A afetividade interligada aos conteúdos traz bons resultados, pois torna-se muito mais fácil o aluno aprender com um professor que 'tima e confia. O despertar para novos caminhos e expansão de horizontes concomitantemente as práticas ousadas do professor mediador dos conteúdos em sala de aula resultam em investimentos muito produtivos no que diz respeito ao aprendizado dos alunos. Já na questão de produção artística, criadores e criaturas 'tão as disposições para a análise dos 'pectadores e em 'te caso refiro-mas questões de obra e aluno expostos para a apreciação do professor orientador e os demais colegas. Há de se ter cautela na maneira como será avaliado e sobretudo valorizar o processo de criação atentando o resultado final. Em 'te resultado final deve-se enaltecer que a obra de cada um é metaforicamente como a caligrafia e não serão iguais, porém todas têm suas representações e importâncias. Retomarei a avaliação como tema, por mais algumas vezes nas próximas laudas deste trabalho por considerar um ponto chave para nosso debate. Em 'te 'tado de criação o aluno aos poucos começa a identificar sua obra como uma marca e se reconhece como autor capaz de produzir culturalmente. Multiculturalidade é considerada uma palavra pragmática para que não ocorra, como corriqueiramente acontece, um etnocentrismo em relação a outros povos, outras culturas e diferentes formas de ver o mundo, 'tas considerações não ocorrem somente em relação a povos distantes e de outros tempos, em nosso próprio país há diferenciações de 'tilos, de maneiras e até de sotaques por a grandeza de nosso território nacional. Buscando respeitar as culturas regionais incentiva-se a valorização de suas próprias manifestações no âmbito 'colar. Alguns procedimentos enobrecem o contato dos alunos com a Arte. Grandes exposições, divulgação dos alunos artistas em formação e interação com outros profissionais 'tão de entre o ciclo que colaboram para o aprendizado, além do mais, ambientalizar o 'paço artístico (ateliê) também é relevante ao desenvolvimento prazeroso do aluno para com o objeto de estudo. Quanto aos instrumentos físicos, outros materiais e trabalhos em produção é preciso que aja organização e disciplina, caracterizando também o conceito ético do respeitar as produções alheias a turma. O brotar de seres sensíveis é peculiarmente possível, uma vez que lidamos com a arte de dentro pra fora (nos insights e idéias que 'tão submetidos) e de fora pra dentro (com os conteúdos e demais temas apresentados para 'tudo) 'te germinal à medida que os apontamos, começam a transformar a maneira de ver os detalhes da vida e em muitos casos encontram caminhos a seguir, incentivos e porto seguro. Ser cidadão e 'tar conectado a arte é em primeira ordem decifrar o código que somos, mapeando as trilhas de nossos dias, as senhas são nossas relações com o mundo e as chaves são os seres que moram em ele. Professor Tiago Ortaet Número de frases: 21 tiagoortaet@yahoo.com.br Como falar da CampusParty e ainda ser original? Inúmeros blogs e veículos 'tavam presentes, cada um com sua pegada no evento. Fazer um texto ultra-pessoal, falando das emoções captadas durante o evento também não cabem aqui, cabem no blog. É preciso entender que apesar da temática tecnológica, e do apelido de nerdstock, o CampusParty foi de fato um evento extremamente plural. Cada um 'tava lá com um propósito: Havia os que queriam jogar até cair o braço; os que foram 'tudar nas palestras; os que queriam conhecer pessoas e fechar negócios; desenvolver projetos e muito mais. É difícil contar o que foi o CampusParty se você não tem uma máquina do tempo para voltar várias vezes ao evento e em cada viagem, experimentar um ângulo diferente. Inicialmente acreditei que iria experimentar as tecnologias fascinantes presentes, como o Reactable ou a Virtusphere e fazer uma cobertura em tempo real. Mas ao chegar, logo fui embriagado por o contato social direto. Em a programação havia atividades e informações de todos os tipos: Como tirar fotos de 'trelas; como começar um blog do zero e campeonatos de CaseModding e robótica. Fora de ela, inúmeras atividades 'pontâneas, como as transmissões ao vivo de campuseiros; o concurso de tatuagens; novos blogs nascendo; vídeos; provocações e brincadeiras com a imprensa -- algumas das quais tomei parte, talvez uma idéia não tão boa. Para os viciados em conhecimento e informação o CampusParty foi uma faca de dois gumes: Era extremamente 'timulante e ao mesmo tempo 'magador. Tudo ocorria ao mesmo tempo e saber decidir do que participar e o que fazer com tanto conhecimento era um desafio. Para próximas edições recomendo àqueles que padecem desse mal como eu que façam uma preparação psicológica prévia. Em 'se aspecto, uma palavra que resume o evento é: Intenso. As inúmeras discussões sobre blogs x imprensa chegaram a ser cansativas. De os dois lados de 'sa disputa 'tão idéias reacionárias que dentro de alguns anos 'tarão completamente diluídas. Apesar do debate ser pertinente, a falta de disposição para chegar a um desfecho que não seja «eu 'tou certo» é frustrante. O lado bom foram as brincadeiras bem-humorado criadas por os blogueiros, numa 'perança de não serem mal interpretados. A falta de uma presença forte do Overmundo foi um ponto fraco. Talvez por culpa da organização do evento e talvez do próprio Overmundo, mas provavelmente dos dois. Portanto eu, Sérgio Rosa e Daniel Duende, com uma ajudinha de Alexandre Youssef, resolvemos dar uma palestra sobre o site. Contando um pouco da história, funcionalidades, problemas, soluções e opiniões pessoais. Estando fora da programação oficial, e com uma divulgação improvisada, tivemos um público reduzido, mas mesmo assim gerou um debate interessante. Os assuntos levantados em ela valeriam um texto próprio, que Youssef prometeu fornecer. Dentro do evento, campuseiros reclamavam das proibições à álcool e tabaco. Sendo que algumas áreas eram mais fiscalizadas que outras, ou mesmo 'trelas convidadas e seguranças aparentemente não 'tavam sujeitos às mesmas regras (notoriamente Clarah Averbuck). Mas nada que um pouco de criatividade e cara de pau não pudessem burlar. Considerando a grande preocupação em evitar o roubo de equipamentos alheios por parte da segurança, é compreensível que tivéssemos incidentes alcoólicos / glicólicos. Boatos sobre incidentes de sexo no parque e roubo de notebooks corriam, mas nada concreto foi noticiado em veículos tradicionais ou blogs -- o que leva a concluir que não passaram de boatos, já que qualquer incidente real era rapidamente registrado. Apesar das confusões de cadastramento e das barracas, além de outros problemas logísticos (como o banheiro porco e falta de opções baratas de alimentação), a CampusParty foi considerada um sucesso por os organizadores desde o primeiro dia, e também por os campuseiros posteriormente. Sugestões para melhorar o evento em sua prometida próxima edição não faltam, e com um público tão engajado, é bom que elas sejam ouvidas. Afinal, como disse Duende antes mesmo do evento, o coração da CampusParty são as pessoas. Assim é também a rede. Ela não conecta computadores, conecta pessoas. -- Fotos (minhas) no flickr Fotos (gerais) no flickr Número de frases: 47 LiveStream -- uma coleção de tudo que foi dito e feito por lá Riram da minha foto da privada, por que tirei uma foto de ela? Acho que queria mostrar seu tamanho, tão pequena, mas tão gloriosa, reina soberana através dos tempos. Mesmo sendo de qualquer tamanho, 'tá lá desde os tempos mais antigos. Por que não uma privada? E toda carga de vida que contém 'te buraco de reflexões profundas. Vidas passaram e elas ficaram, suntuosas, elameadas de bosta! Que descarregamos, assim como descarregamos nossa raiva. Ah! Se não fosse a privada, como seriam meus pensamentos, sempre interrompidos por futilidades que a vida moderna criou, a televisão, o rádio, o computador, a geladeira. Ah! Se não fosse a privada, o que seria de mim e minha pseudo soberania intelectual? Não fosse a privada, talvez não entendesse tão bem «Angústia» de Guimarães Rosa, poema lindíssimo e totlamente condizente com o ato de defecar. Lindo momento, exclusivamente seu e só seu, introspecção pura. Momento sublime e sereno. Número de frases: 13 Ah! Se o mundo fosse igual a uma privada seria mais feliz! Eu, você e a torcida do Flamengo gritávamos em berros munchianos para quem quisesse ouvir nos anos 80 o refrão do duo Mark Knofler e Sting: «I want my i want my MTV». E não é que ela chegava e com ela o reverendo Massari, o Brandão, o Thayde, a Astrid e tantos outros, antes que me acusem, não sou saudosista dos anos 80. Mas vamos voltar ao assunto, no começo da MTV, os ditos «alternativos», tomaram o canal de assalto e colocavam ali seus sonhos e 'peranças, mas o tempo foi passando e a audiência cada vez mais teen e muitos desses caras se mandaram de ali. O canal então passou a ser totalmente teen durante os anos 90 mas mesmo assim ainda era capaz de atrair cineastas em início de carreira para a execução de videoclipes de bandas e algumas coisas interessantes. Hoje vinte anos depois não existe mais MTV e sim ATV, ou seja auditório tv, na pior linha Silvio Santos, Faustão ou Gugu para adolescentes. O canal que era a referência para videoclipes, hoje, a música só existe durante a madrugada. Com 'se 'paço vazio a Globo 'tá resolvendo investir nos «órfãos» da MTV através do canal Multishow, mas ainda muito longe da época inicial da MTV e com aquele padrão de qualidade Globo que bem conhecemos. Tudo bem, existe a Internet com youtube, myspace e os softwares para download, mas talvez fosse a hora de pensarmos por que não organizar um canal de tv interessante, com tanta porcaria entre 'ses mais de 100 canais a cabo, por que não? O mesmo com relação as rádios. Como canta o Otto: «Acabo de comprar minha tv a cabo, acabo de comprar a solidão a cabo» a MTV parece que acabou, mas então algo pode ou não começar. Alguma proposta??? Número de frases: 14 Pouco se conhece a respeito do movimento de rock dentro do 'tado do Pará. Em verdade, muito ainda falta para 'te poder ser considerado maduro, no entanto, existem diversas provas de que há um merecimento de atenção por parte dos músicos. Bandas muito interessantes surgem a todo momento, mas infelizmente, graças a falta de divulgação e interesse da mídia, 'ses trabalhos acabam por se perder, ficando longe do reconhecimento do público. Poucas são aquelas que conseguem alguma notabilidade, como é o exemplo de Madame Saatan, com seu som pesado e influências amazônicas misturadas com blues, jazz e MPB, atingindo um resultado primoroso; ou Suzana Flag, que surgiu despretensiosamente no município de Castanhal-PA e rapidamente chegou à capital, acompanhando uma leva de bandas que surgiam naquele momento. Existe um grande potencial longe das grandes metrópoles, e Belém, sem dúvida, tem 'sa carga de talento. As raízes culturais de 'ta terra, geralmente, trazem grande inspiração para os músicos da região, fazendo com que tenhamos um trabalho diferente e exótico. É interessante se comentar a respeito da subsistência oferecida por os músicos da cidade, que buscam sustentação para seu trabalho em seu próprio 'forço, com muito pouco, ou nenhum apoio para contar. Poucas iniciativas culturais centradas no rock ocorrem, o que é uma injustiça com 'se trabalho tão primorosamente desenvolvido. Talvez as pessoas devessem olhar um pouco menos para o centro cultural do país e buscar novas influências nas periferias, pois 'tas 'tão fervilhando de idéias e grandes novidades que contribuem para o bem da arte e, 'pecificamente, do rock ' n roll. Número de frases: 10 Os office-boys são uma 'pécie de irmandade. Sujeitos 'pertos, sempre têm alguma carta na manga. Ou cigarros Derby, no caso de algum porteiro de banco se negar a dar uma «força» para deixá-lo entrar depois do expediente. Donos de um jogo de cintura invejável, arrisco até afirmar que, no caso do holocausto nuclear, talvez sejam uns dos poucos que irão sobreviver. Além das baratas e do presidente dos Eua -- ou você acha que Bush vai 'tar 'perando a tal bomba em casa assistindo TV por assinatura? Eu já fui um. De os bons. Tinha minhas manhas e alguma influência com baianas de acarajé, secretárias, operadores de fotocopiadoras e os já citados porteiros fumantes. Havia um submundo com suas habituais regras de conduta. Não posso dizer que não havia dignidade no ramo. Ganhava uma mixaria, é bem verdade. Mas isso garantia meus pequenos e eventuais vícios -- gibis, cigarros, garrafões de vinho Dom Bosco e vinis dos Doors comprados no saudoso sebo Dom Ratão. Muito além de simples pagamentos, eu e minha S.W.A.T. de contínuos durangos e 'perançosos, também éramos responsáveis por trazer a comida dos diretores daquele banco. Todos os dias era a mesma coisa: lá por as onze e meia da manhã pegávamos a grana com a secretária e partíamos, cada um para um lado do hoje precário bairro do Comércio. Pouco tempo depois, todos retornavam ao Q.G. com marmitas, sacolas e trocos. Deixávamos tudo na copa. Em um desses dias, em meio à correria habitual de pagamentos e subornos enfumaçados, fui designado a ir a um dos restaurantes preferidos do diretor geral. Ele queria impressionar algum cliente endinheirado. De posse da grana, e de um papel contendo o nome de todos os pratos, parti para o que chamamos de Mercado D' Ouro. Havia um aroma no ar. Denso. Algo realmente marcante. Nada até então tinha me deixado uma impressão tão boa. O local era bagunçado e bastante barulhento. As paredes eram 'curas. Não davam uma impressão limpinha e «clean». Havia muita gente sentada. Comendo, naquele típico silêncio carregado de cumplicidade. Não somente por a fome que sentia -- eu não era bem o topo da cadeia alimentar, por assim dizer; não passava de um mero devorador de mistos, abarás e similares. Era algo maior e mais significativo. O tal aroma -- usar a palavra inebriante é o cúmulo do óbvio, portanto 'queçam -- vinha forte de dentro do pequeno cubículo entulhado de gente visivelmente atarefada. Era a tal cozinha. Fui entrando e tentando me situar. Tinha uma missão e iria cumprir. Afinal de contas eu era um dos melhores na tresloucada e confusa pirâmide social dos office-boys. Mas tinha o tal aroma ... aquele ... Um senhor de imensa barba e cara de poucos amigos -- uma mistura meio sem nexo de Chuck Norris e Paulo César Pereio na década de setenta, certamente vendo que havia um garoto 'tático bem no meio do salão, acabou por me conduzir a um canto. Que 'tava eu fazendo parado bem no olho do furacão, onde alguns garçons tentavam dar conta do recado? Entreguei-lho papel com os nomes dos pratos junto com a grana e me sentei. Sim. A porra do aroma permanecia no ar. Minha barriga roncava e eu me perguntava porque não era um dos 'colhidos. Comecei a questionar se a vida era somente refrescos de maracujá, coxinhas, abarás e hot dogs. Perguntei se era feliz de fato ... A bondade pode vir de várias formas. Caridades, ajuda a orfanatos, pessoas que auxiliam cegos ao atravessar uma faixa, doações para o Criança Esperança. Mas eu nunca tinha visto alguém descolar um prato de filet para um office-boy totalmente perdido e com cara de otário. Não um filet simples. Mas um filet delicioso, macio, grosso, marcante -- e outro bocado de elogios e superlativos. Inigualável -- e nem era uma porção completa, era desnecessário. Então depois daquele dia, em que experimentei o filet do Juarez (restaurante Juarez, Mercado d'Ouro), acho que fiquei mais ligado à comida e menos viciado em X-Saladas de ocasião. Número de frases: 54 Nós do Curtablog encontramos um tempinho livre na agenda do bem humorado 'critor, jornalista, blogueiro, roteirista e cineasta José Roberto Torero para entrevistá-lo sobre sua experiência com curta-metragens. Torero nasceu em Santos no ano de 1963, é autor, entre 13 livros, do Best seller O chalaça. Tem seis curta metragens na sua filmografia, entre eles os premiados Amor!, Morte e A alma do negócio, um longa-metragem chamado Como fazer um filme de amor e um novo projeto na manga, de nome ainda indefinido, em andamento. Torero nos conta sobre a prolificidade criativa e mata o mito da criatividade 'pontânea, segundo ele, uma obra de arte é construída à base de muito 'tímulo com café e de pestanas queimadas sobre a mesa. Sua experiência com curta-metragens certamente lhe serviu de base para a direção de seu longa-metragem, mas Torero afirma que o curta-metragem não é apenas um trampolim para outras coisas, o curta é um formato livre que tem importância per se. Além de cineasta e 'critor você trabalha com TV e é cronista 'portivo. Pode comentar um pouco sobre 'sa pluralidade de seu trabalho? Isso é uma coisa comum para quem trabalha com letras. Machado de Assis 'crevia para vários jornais, fazia contos, peças de teatro, livros. É uma coisa normal. Está dentro do 'crever, e fazer roteiros é 'crever, fazer crônicas é 'crever, fazer contos para revista é 'crever. O roteiro é um pouco diferente. O roteiro pede uma cultura mais cinematográfica do que literária, mas de qualquer forma 'tá tudo dentro do 'crever, então não é uma coisa assim, incomum, 'sa pluralidade. E como foi a transição de literatura para o roteiro? É que eu fiz faculdade de cinema na ECA-SP (Escola de comunicações em Artes) com Pós de roteiro. Não acabei nem a faculdade nem a pós. Fiz jornalismo e cinema e letras na faculdade. Como você se interessou por cinema? Em a verdade eu gostava muito de ver filmes e aí eu pensei: vou fazer o curso de cinema porque aí eu vejo um monte de filmes de graça. Deve ser uma faculdade fácil, fazer filmes ... E eu errei muito porque das três faculdades que eu fiz foi a mais puxada. Mais que jornalismo e letras. Estudei de manhã, muitas vezes à tarde. Trabalhei mais. É uma faculdade melhor mesmo do que as outras duas. Pode falar um pouco sobre o próximo longa que pretende fazer? É um longa, aliás, passado em Brasília. São dois deputados e cada um tem um projeto, para realizar o projeto eles precisam comprar os outros deputados. É uma guerra política para ver quem consegue comprar mais deputados. A idéia do filme é mostrar os bastidores da política. Eu 'crevi um livro chamado Os Vermes, sobre as artimanhas políticas de uma capital federal. Foi baseado em 'se livro. E qual será o nome do filme? Varia muito. Depende da semana. Como comprar um deputado. Elefante vai a feira. Porque um dos caras é chamado de Elefante. Mudando de assunto, como você mantém 'sa atividade criativa constante? Você tem algum método para manter a prolificidade? Café né? Existe 'sa questão sobre criatividade, mas na verdade você precisa trabalhar bastante. Ficar várias horas na frente do computador, fazer, refazer. Não tem 'se mito de que existe uma criatividade 'pontânea. Você precisa começar, e aí você faz. Tem que trabalhar né? O pessoal enfeita demais isso. Ninguém pergunta para uma empregada doméstica: Como é que você mantém 'sa sua energia? Todos os dias a senhora passa e cozinha! Tem uns caras que 'crevem bem de primeira. O Clovis Rossi da folha (Folha de São Paulo), por exemplo, de primeira ele já faz um bom texto. Em o meu caso não. Em o meu caso eu tenho que fazer muitas vezes. E como foi sua experiência nos curta-metragens? Em a verdade eu gosto muito mais de curtas do que de longas. É uma vida mais divertida. Você não tem tanta dor de cabeça, viaja muito mais. Tenho muita saudade do curta metragem, mas depois que eu fiz o longa já não dá mais pra voltar para o curta porque a maioria dos editais deixa de fora quem já fez um longa. Então como eu já fiz longa, na maioria dos concursos eu não posso entrar, porque o pessoal considera que o curta é uma 'cola para o longa, mas não é. Ele é uma coisa em si. Eu poderia fazer curtas a vida toda mas agora não dá mais. Mas apesar do curta não ser uma 'cola para o longa, eles devem ter servido de suporte para a realização do longa. O curta também é uma 'cola. O que eu quis dizer é que ele não é só isso. O curta é bacana em si mesmo, não é que ele seja só uma 'cada para o longa-metragem, ele em si já é importante. Mas você aprende muito fazendo curta. Você aprende como lidar com equipe, como colocar a câmera. Você filma e monta e aí você vê o resultado do que você fez e aí você aprende mesmo a filmar. O curta tem mais liberdade, porque no longa você tem uma certa regra dramatúrgica e tal né? O curta pode ser mais doido. Como ele tem pouco tempo, pode ser feito em formas diferentes, e o curta é até melhor quando é feito de formas diferentes. E 'sa história de editais. Quando você começou a produzir, já começou através de editais? Os meus dois primeiros foram como aluno através da ECA e o terceiro eu ganhei um concurso. Foram três feitos por concurso, um eu paguei do bolso e dois foram feitos por a 'cola. Morte e amor são temas recorrentes em seu trabalho. São temas que você busca naturalmente? São temas recorrentes na vida né? O que tem pra se falar, além disso? Não sobra muita coisa. O poder talvez, mas acho que amor e morte são os dois maiores temas. Eu fiz curtas sobre morte, tentei conseguir dinheiro para fazer um documentário sobre morte, mas não ganhei dinheiro em nenhum edital e acabei não fazendo. A morte é um tema até mais recorrente pra mim do que o amor. O que diria para os novatos do mundo do cinema? Para quem já produz seja de forma independente ou não, ou para quem ainda quer começar. Acho importante fazer. Fazer bem feito. Porque através dos curtas você vai chegando a outros lugares também. Por exemplo, fazendo curtas eu cheguei no Retrato Falado, aquele programa da Globo com a Denise Fraga. Os caras viram os curtas, hoje em dia todo mundo vê curtas, você coloca no youtube, pode fazer sucesso, os caras te chamam. Dá pra usar o curta como trampolim para outras coisas, ou só para se divertir mesmo. Gustavo Serrate www.curtablog.blogspot.com Número de frases: 95 Intolerância também é cultura Em 1992 eu morava em Viena, Áustria. Já 'tava por lá há três anos, de certo modo cansado de tanta civilização e morrendo de saudades daquela saudável bagunça brasileira, cuja lembrança, nos fazia tão bem, às vezes. Além da overdose de ordem e civilização, mesmo depois de tanto tempo por lá, ainda me surpreendia com a quase total ausência de rejeição da população local, diante de pessoas com o meu perfil e o da minha família: Negros brasileiros, muito parecidos com os cubanos, com os caribenhos, com os norte-americano, um pouco com os africanos, negros em suma, quase em nada parecidos com eles, os austríacos. A 'tranheza vinha, principalmente, do fato de não ser, absolutamente, 'ta a maneira como éramos tratados no Brasil, sempre que circulávamos por áreas como a Zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo, onde a 'tratificação social é bem determinada, dividida entre ' Brancos ` (habitantes das ruas elegantes, os ' patrões ` e as ' madames ') e ' Negros ` ou ' Paraíbas ' (habitantes das favelas e dos subúrbios, os empregados ou serviçais). Não percebíamos isto, tão claramente, quando 'távamos ainda por aqui, é verdade. É que já 'távamos acostumados. Foi só em Viena que isto nos chamou mesmo a atenção. Lá só havia, a princípio, a curiosidade e o respeito diante dos 'trangeiros que éramos (turistas, talvez pensassem). Aqui, quase sempre, os olhares de desconfiança ou de desdém (bandidos, desclassificados, seres inferiores, pensavam, com toda certeza). (Gosto de 'ta descrição assim, sem nenhuma filigrana ou arroubo sociológico porque ela é bem clara, síntese perfeita do que realmente ocorre, de como a coisa é vista, assim, do lado de cá da cerca). A 'tranheza com relação a como éramos tratados lá e aqui era maior ainda porque, como bem sabemos, praticamente não existem brancos no Brasil. Os ' brancos ' do Brasil, seriam tratados lá como ... árabes, talvez. Isto ficava límpido e claro para nós quando cruzávamos com aqueles milhares de seres louros de olhos azuis, grande maioria da população vienense. Porque seria que aquelas pessoas tão descaradamente brancas, nos tratavam assim tão bem? Sem nenhum receio, às vezes com certa curiosidade até, pedindo licença para passar o dedo na pele dos mais 'curos para confirmar se não era pintada? Me recordo de várias vezes, ao necessitar de alguma informação, de ser atendido por duas ou três pessoas, uma disputando com a outra, a chance de nos ser gentil. Mas havia sim, um leve incômodo na nossa relação com os austríacos: Éramos, invariavelmente, chamados por eles de Africanisches (africanos), seja lá qual fosse a nossa origem ou do tom de nossa pele. Todos os negros que circulassem por as ruas de Viena, fossem cubanos, norte americanos, para eles seriam africanisches. O adjetivo ganhava contornos bem desagradáveis quando, 'pertos, cometíamos algum ato inaceitável para as regras sociais de eles, tais como jogar papel e guimbas de cigarro na rua, falar alto, andar no bonde sem pagar, urinar na rua, etc.. Aí o termo nos era lançado com todo o rancor de um xingamento, quase uma maldição: Africanisches! Muitas vezes até complementavam a injúria com o que, para eles, eram horríveis palavrões: Mohr! Negger! ( que no Brasil corresponderia aos populares Crioulo! Macaco!) Curiosas analogias pude constatar depois, 'tudando o assunto. Africanisches todos nós éramos porque, do ponto de vista de eles, descendentes de africanos, africanos são. Mohr viria de Mouro, palavra portadora do extremo ódio que, até hoje, as pessoas daquela região tem por os árabes que invadiram e dominaram grande parte da Europa, deixando marcas profundas na cultura de eles, entre as quais os arabescos e capitéis da curiosa arquitetura do Stephandomme (a Catedral de São Estevão) e a prática do islamismo em certas partes dos bálcãs (notadamente na antiga Iugoslávia), são marcas eloqüentes. Como mais um dado a ser inserido na conversa, alguns brasileiros me contaram também, que já haviam presenciado senhoras indignadas com algum mal feito de um africanische, sendo multadas por policiais, na rua, porque se excederam na virulência dos xingamentos. Logo, havia intolerância racial na Áustria sim. Haviam inclusive leis contra o racismo. O que não havia por ali era hipocrisia. A Áustria, como se sabe, é a terra de Adolf Hitler, ali nasceu a semente do Nazismo, o ovo da intolerância. As 'túpidas e inconseqüentes razões do racismo fermentaram ali, do mesmo modo que as frágeis idéias de resistência contra a intolerância racial e as injustiças sociais de qualquer ordem também por ali vicejaram. Ali viveu Sigmund Freud, Beethoven, Schümann, por ali passaram Karl Marx e Frederick Engels, Einstein, Mozart. Não podemos 'quecer também de que, em Viena residem, ainda hoje, muitos descendentes, diretos, dos milhares de mortos dos campos de concentração nazista. Em Viena morei em quase todos os bairros. Desde o Grinzing, no bezirk (distrito) 15, o bairro nobre (mais ou menos como uma barra da Tijuca com morros e sem praia), até o suburbano Gumpendorfstrasse. Em o Grinzing reside gente rica ou moderna, artistas e intelectuais. Ali se curte a vida boêmia, a cultura alternativa, a diversidade racial, cultural e tudo que há de bom na Europa. Em bairros como Gumpendorfstrasse moram os pobres, o povão. Circulando entre um bairro e outro tive uma lição de sociedade e pude compreender melhor como caminha a humanidade e, enfim, saber com quantos paus se faz a canoa que pode nos levar, dependendo apenas de nosso discernimento, para a civilização ou para a barbárie. A vida no apartamento que dividíamos com outra família, era bem tensa. Bairro popular, composto por prédios antigos, do tempo da segunda guerra mundial, no Gumpendorfstrasse não era hábito morarem 'trangeiros. Quanto mais negros. Encontrávamos os habitantes locais todo dia, na pracinha do bairro, passeando com seus cachorros. Velhos, em sua maioria. Quase nenhum jovem ou criança, pelo menos à vista. Quando cruzavam com nós, olhavam para nós com um misto de curiosidade e um mal disfarçado desprezo, cumprimentando-nos por entre os dentes com um " guten Tag!" ou um ' guten abend!" formal. Alguns, mais atirados, as vezes nos inquiriam, querendo saber de onde vínhamos e quanto tempo ficaríamos por ali. Em 'tes momentos de inquirição, sorriam dissimuladamente. Nunca usavam, no entanto, como já disse, aquela sutil hipocrisia daqui de o Brasil. A dissimulação dos sorrisos ficava evidente porque o Strassenbahn (bonde) que nos levava de Gumpendorfstrasse até a 'tação do metrô, que por sua vez, nos levaria ao centro de Viena, tinha a fórmica dos anteparos dos bancos pichadas à caneta hidrocor, com frases que entendíamos muito bem: ' Ausländer haus! ' (' fora 'trangeiros! '). A primeira vez que vi a frase assim, diante de mim, gelei da cabeça aos pés. É que ela 'tava ilustrada com uma inconfundível suástica vermelha. Os outdoors do caminho também continham a mesma suástica com a mesma palavra de ordem assustadora: ' Ausländer haus! ' Em algumas de 'tas pichações a frase era complementada com mais ênfase ainda: ' Ausländer Tod! ( Morte aos 'trangeiros! ') Quem 'crevia aquelas frases? Estava claro que só poderiam ser jovens suburbanos, punks de periferia, neonazistas, filhos daqueles vizinhos francamente inamistosos. A gente via 'tes jovens, sempre, alguns de roupa preta, circulando por os vagões do metrô, em bandos. Os africanos e brasileiros, nossos conhecidos, já haviam nos alertado para não ficar perto de eles, porque costumavam furar 'trangeiros com armas brancas. Eu era apenas um músico brasileiro em Viena. Cantava e tocava na noite. Estava acostumado a cortar a cidade a pé, cruzando a neve, na alta madrugada, rumo à Gumpendorfstrasse, sempre que a grana não cobria o táxi e não havia mais metrô circulando. Eram mais de duas horas de trajeto. Fumava bem uns quatro cigarros em 'te caminho, para 'quentar os beiços. Em uma de 'tas noites, os cigarros acabaram antes do tempo. Pensei com mim: «Nenhum problema. Entro naquele gasthaus (bar ' pé sujo '), pego um bom maço de Hobby na cigarreten machine e pronto. ' Mas havia um homem na porta do gasthaus com um cão pastor alemão na coleira. Devia ser o dono do 'tabelecimento. Achei 'tranho ele não ter se afastado para a minha passagem. Tentei mais um vez e o cão rosnou, ameaçador. O homem nem me olhou, impassível. Aturdido com a situação, desisti de fumar e segui meu rumo, preocupado com a cena. A frieza de ele foi o que mais me assustou. Ela me lembrou outro incidente, também muito 'tranho, ocorrido num dia em que eu fui assinar um contrato para um show num bar latino. Eu andava por a calçada distraído. O bairro era tranqüilo, de periferia. Um barulho de freada e minha atenção foi atraída por a seguinte situação: Um homem gordo, atarracado, com um solidéu na cabeça, árabe, por assim dizer, segurava uma bicicleta minúscula, de seu filho talvez, com o celim alto para que lhe servisse na altura. Engraçada a figura. O sinal havia fechado e um carro conversível vermelho -- um Lambourghinni talvez -- pilotado por um austríaco jovem e bem vestido, havia 'barrado na bicicleta do árabe, quase o derrubando. O austríaco, com o carro engrenado, não se moveu. Não dispensou sequer um olhar para o árabe, ignorando-o. Indignado com a indiferença do outro, o árabe se aproximou de ele e o recriminou, severamente, ainda com educação. O austríaco não se moveu. O árabe xingou o homem, de tudo quanto foi, por o que deduzi, nome feio, na sua língua, é claro, aos berros. O austríaco não se moveu. Foi então que, quase explodindo de raiva, o árabe, cuspiu no rosto do austríaco que, ainda assim, não se moveu, nem para limpar o rosto. O sinal abriu e o Lambourguinni partiu. O árabe olhou para um lado e para o outro, sem compreender direito o que se passou e seguiu, desolado. Testemunha ocular da inusitada cena segui pensando do que seria capaz um ser humano, tão frio e arrogante a ponto de não reagir a uma agressão daquelas, só para não pedir desculpas à alguém que, provavelmente ele desprezou apenas porque era um árabe? Uma coisa, porém, me confortava: Eu 'tava ali incólume. O discriminado era o outro. Eu podia observar e avaliar a situação sofrida por o árabe, de camarote. Aquilo me lembrava também um dia em que, num mercadinho perto de casa, procurei uma fechadura nova para comprar. A marca mais famosa de produtos de segurança em Viena (cadeados, correntes, fechaduras, trancas de automóveis, e outras tralhas do tipo), tinha nas caixas uma curiosa ilustração de um ladrão típico (para o consumidor austríaco): Ele era um árabe com a barba por fazer, mal encarado, invadindo uma casa na calada da noite, com uma lanterna acesa. Racismo explícito, ora, pois. Não sou árabe (pelo menos que eu saiba). Como faz a maioria dos ' brancos ` do Brasil poderia, tranquilamente, pensar: ' pô, que chato, o que o austríaco fez com o cara, né? ' E seguir meu caminho, assoviando. E foi, de fato, o que fiz. Em 'te ponto foi bom. Deu pra ver, friamente, como as coisas funcionavam por ali. Sórdidas, porém, explicáveis. A época, início dos anos 90, coincidia com o recrudescimento da imigração de africanos para o centro da Europa, antes dominada, inteiramente, por imigrantes árabes, turcos em sua maioria. Era a faca de dois gumes da economia globalizada mostrando seus maus efeitos e dando o seu troco. Entre outras regiões do outrora chamado terceiro mundo, com a globalização, a África, deixada à margem do mercado por razões históricas, depauperando-se por a fome, parecia que ia se transformar, rapidamente, numa 'pécie de favela continental. Havia também a guerra entre Sérvios e os Croatas na Iugoslávia, os massacres étnicos contra muçulmanos e a vinda maciça de refugiados para a Áustria, antiga sede do império Austro húngaro que é, até hoje, uma 'pécie de capital da região, que envolve também a Polônia, a Tchecoslováquia e a Hungria, países cujos habitantes fogem da miséria para Viena, exatamente, como os nordestinos aqui no Brasil fogem para as favelas próximas à Barra da Tijuca. Com verdadeiras hordas de imigrantes pressionando as economias dos países europeus mais ricos, os negros, os africanisches de qualquer origem, passaram então a integrar também, a raça dos 'trangeiros indesejáveis. Entre eles 'tava eu. Haus! Fora! Gritavam os furibundos arautos do neo-nacionalismo, bem na minha cara. O partido de direita da Áustria havia acabado de 'colher seu candidato. Ele era um jovem político do sul do país, chamado Jorg Heider, simpatizante confesso de Adolf Hitler. Uma amiga alemã a quem eu pretendia visitar em Munique me telefonou assustada, pedindo-me para não ir para a Alemanha, de jeito nenhum. Neonazistas 'tavam atacando negros da 'tação ferroviária. Haviam incendiado um alojamento de 'tudantes do Ghana e dois haviam morrido no ataque. Por alguma razão que não me recordo agora (talvez o alto preço do aluguel), tive que mudar de bairro. Fui para mais longe um pouco, um bairro de classe média, quase fora dos limites da cidade. Em a pressa, larguei para trás uma caixa de brinquedos do meu filho e tive que voltar ao prédio do Gumpendorfstrasse para buscar. Foi num sábado, de manhãzinha. Um sábado de terror. As paredes da 'cada do prédio até a porta do apartamento no qual eu morara, 'tava toda pichada por os neonazistas: ' Ausländer haus! Fora 'trangeiros! Morte aos 'trangeiros! Africanisches! Negger!-- diziam as inscrições. Suásticas, muitas, suásticas enormes. Tudo pichado. Peguei a caixa e desci, rapidamente, as 'cadas. Sentei na pracinha para tomar fôlego, em pânico ainda. Os vizinhos, os mesmos que eu via todos os dias, passaram com seus cachorros. Não me cumprimentavam mais. Dava para ler no olhar de eles que sabiam das suásticas, sabiam de tudo. Com a expressão ausländer haus ecoando na minha cabeça, lembrei de todos aqueles aterrorizantes filmes de nazistas que assisti na vida. Achtung! Gente de Deus! Agora não era filme não. Era eu mesmo quem 'tava ali, de corpo presente, indefeso 'trangeiro, no meio da branca neve dos outros. Os judeus da vez poderíamos ser eu e minha família. Vade retro Satanás! Vendi alguns dos instrumentos musicais exóticos que levara, alguns postais e até os originais de gravuras que havia desenhado para uma revista de lá, para completar o orçamento e, juntando mais alguma grana emprestada, comprei as passagens. Quinze dias depois 'tava de volta ao Brasil. Me lembro que, ainda no céu, pouco antes de pousar, o avião cruzou com 'tranhos balões de plástico preto que anunciavam o impeachment de Fernando Collor de Mello, o ex ' caçador de marajás '. De volta ao passado, ao velho Brasil de sempre, desembarquei aliviado. É por isto que hoje, quinze anos depois, quando vejo jornalistas e intelectuais como Ali Kamel (de ascendência árabe, por sinal), Demétrio Mangnoli, Ivonne Maggie e Peter Fry (cidadão inglês, se não me engano), muito bem articulados entre si, 'palhando aos quatro ventos e de forma militante, em artigos, teses, manifestos, a sua ojeriza por ações afirmativas e leis de cotas de reparação para os ' não brancos ' do Brasil, me dá um frio na 'pinha. Fico lembrando daqueles últimos tempos em Viena. Tenho minhas razões para não ver 'ta oposição ferrenha que 'te grupo faz às ações afirmativas no Brasil, como honestas e simples divergências de princípios. Foi, exatamente, por isto que contei para vocês logo, de antemão, a minha pós graduação na terra do Adolf. Conheço também de relance, porém, de longa data, as atividades junto ao Movimento Negro da década de 80, de alguns destes intelectuais e acadêmicos, hoje ligados à importantes universidades federais brasileiras. Simpatizantes da luta anti racista de então, convidados por o Movimento Negro para muitas mesas redondas contra o Racismo, formaram suas sólidas carreiras acadêmicas, defendendo teses que agora, por alguma 'tranha razão, passaram a combater. São ainda hoje figuras acadêmicas importantes e poderosas, dirigindo 'tratégicos departamentos no campo da antropologia e da sociologia, na qualidade de 'pecialistas no assunto raça e sociedade. Seriam 'tas suas recônditas razões? Não é cisma, portanto, permitam-me considerar, alguém como eu 'tranhar a mudança de lado de 'tas figuras, justamente agora, a 'ta altura dos acontecimentos. Surpreende-me muito também a fragilidade, quase absoluta, de seus argumentos apoiados, quase que tão somente, por a grande ascendência que possuem junto a certos meios de comunicação, nos quais as vozes que de eles discordam não tem tido, praticamente, nenhuma chance de se manifestar. Observem por favor, que, na intensa campanha que fazem, 'tá embutida também a tentativa de negar, não só, a existência de raças, mas, também a do próprio racismo. Contraditoriamente, portanto, negam agora, o cerne, a 'sência de sua própria militância intelectual do passado. Há, com efeito, no bojo de sua campanha (pelo menos na de Ali Kamel, seu principal porta voz), distorções grosseiras e deliberadas de dados 'tatísticos do IBGE e sobre as recentes -- e a rigor pertinentes-descobertas da genética, preconizando a inexistência de diferenças raciais, usando o torto raciocínio de que, se não há raças como poderia haver racismo? Se nunca houve Racismo por que haveria necessidade de reparação? Anti-abolicionistas tardios, é o que parecem. Contudo, como qualquer 'tudante de história do nível médio deve saber, a prova científica da inexistência de diferenças raciais é justamente atribuída ao 'forço de cientistas engajados na luta contra o Racismo no mundo. Como também se sabe, no caso do Brasil, 'tas falsas diferenças foram adotadas por as próprias elites racistas, logo depois da abolição da 'cravatura, como argumento para a manutenção da desigualdade e da opressão social, por parte de uma aristocracia, de ascendência européia, contra a maior parte da população ' não branca ' que, no caso do Brasil, era -- e é, como conseqüência do próprio racismo -- composta por ex-'cravos africanos, índios e seus descendentes. A afirmação -- e a denúncia-de que, efetivamente, há racismo no Brasil, não poderia, portanto, de modo algum, ser negada, por meio, exatamente, do mais eloqüente argumento que prova que, o Racismo tanto existe quanto precisa ser, veementemente, combatido, por todos os meios que se fizerem necessários, entre os quais as ações afirmativas e as políticas de reparação são os mais pertinentes, principalmente por serem democráticos, legais e, principalmente, pacíficos. Em 'te quadro, é lamentável portanto que, atribuindo a culpa por o crime à própria vítima, os ideólogos de 'ta 'tranha campanha, sem argumentos válidos para justificar o seu reacionarismo, 'tejam acusando os partidários das políticas de ação afirmativa, de 'tarem propondo a institucionalização do Racismo no Brasil (que para eles nunca teria existido) o que, também segundo eles, geraria o ódio fratricida entre as raças (o que, a despeito das centenas de mortos na atual Guerra do Rio, não 'taria ocorrendo). Sua proposta rasa, única, curta e grossa é incluir os excluídos na sociedade de cotas e privilégios que ocupam e usufruem, apenas quando ... a galinha criar dentes. Só peço para que, por conta da forma tão aberta e franca quanto me expressei aqui, eles não tentem me expulsar, de vez, de minha própria terra, aos berros: -- ' Ausländer haus, negão! ' Número de frases: 181 Spírito Santo Junho 2007 Um amigo disse certa vez que todo 'critor precisava ser de «algum lugar». Não precisava ser a origem, onde ele nasceu ... mas onde ele tem as melhores lembranças. Um lugar para se comparar com todos os outros. Eu não tenho 'se lugar. Dentro de mim, as lembranças de cada parte da vida 'tão ligadas a um diferente. Elas são a almálgama da trajetória. O lugar para comparar muda a cada realidade. Meu amigo dizia: junte-se aos iguais, você vai sofrer menos. Mas o que não é o sofrimento senão o aprendizado de uma realidade que nos é desconhecida? Adaptar-se é parar de sofrer, de comparar o presente com o passado. Aprender o significado de cada nicho é transformá-lo em habitat. Saber tirar de ele o que precisamos para viver. E cada um precisa de algo diferente. Dinheiro, trabalho, calor ... E falando em calor, você vai aprender que ele tem várias faces, cores e tamanhos. Nunca subestime o calor de Manaus: da sua gente, da sua cólera, da sua terra. Além disso, todo autor é um pouco autista. Enquanto 'creve, cria um mundo só seu. Não para comparar, e sim para viver. Tem gente que vem para trabalhar ou 'tudar. Outros querem tentar a sorte numa das cidades mais prósperas do Brasil. Eu, assim como muitos outros «migrantes» vim para conhecer a Amazônia e acabei me rendendo aos seus encantos. O grupo ao qual pertenço é o único que 'tá em Manaus por vontade própria. Os outros vieram por a necessidade ou porque tiveram a sensibilidade de reconhecer as oportunidades represadas num lugar ermo, distante e isolado por a maior floresta tropical do mundo. Não é para menos sua fama de destruidora de famílias e reputações. Quem vem de coração aberto e conhece profundamente as raízes desse povo descobre que muito ainda tem a aprender. às vezes, conhece o real sentido da vida e abandona tudo por ele. Outras, é anestesiado por o poder encantador dos caboclos e assim vive até ser resgatado do êxtase. Muitos não conseguem voltar nunca mais. Não existe um meio termo. Amar ou odiar são as únicas opções para quem se aventura na terra do poeta Tiago de Melo. Suas palavras fazem parte do feitiço que encanta quem por aqui aporta. Uma pessoa de talento surpreendente. Poderia ficar ouvindo seus versos por horas seguidas. Mas o motivo por que tanto me identifico com ele, não são só as palavras. O encanto vem da exaltação a uma terra que poucos conhecem. Ainda acho que ele também fora encantado, desde criança, por o canto da Yara e a orquestra de macacos. Com certeza, a Amazônia é diferente a cada um que a vê. Ninguém a conhece. E eu vejo a Amazônia como o Tiago de Melo: como poesia. Número de frases: 45 Bob Marley, Jamaica, Roots, liberdade e, é claro, periferia. Foi nos guetos de Kingston, depois da independência da ilha, no final dos anos de 1960, que surgiu o reggae. Dizem os regueiros, que num verão extremamente quente, o ska, outro ritmo nativo, foi desacelerado, pois os músicos teriam ficado com pena do povo, que mesmo com o forte calor, não parava de dançar. De as favelas da Jamaica para a Jamaica Brasileira. São Luis, capital do Maranhão. De aí, mais 4.434 quilômetros até Rondônia. Mais 'pecificamente em Porto Velho. Para ser ainda mais preciso, na zona leste, onde há a maior concentração de gente na cidade. Onde tem mais maranhense e onde tem mais reggae. Essa pequena introdução ao ritmo de Marley foi feita por o regueiro Jhony Jamaica. Nenhum sobrenome seria melhor para 'te maranhense de 35 anos, que desde os 14 se sente fascinado por a batida preguiçosa e envolvente do reggae. Ele é presidente do folclórico bloco Jamaica. É, isso mesmo. Porto Velho tem um bloco carnavalesco que só toca reggae. Essa, aliás, é a única vez no ano que o reggae deixa a periferia para dar as caras no asfalto. O bloco surgiu há seis anos, da necessidade de organizar o movimento na cidade e dar opção para os chegados curtirem o carnaval com o ritmo jamaicano. Deu certo. Mas enquanto o carnaval não chega, são as cinco radiolas 'palhadas por o bairro JK que fazem a diversão da galera. Radiola? Tudo bem, tem alguém aí que sabe o que é, mas eu tive que perguntar: é o equipamento de som, com enormes e coloridos auto-falantes, mais uma parafernália da qual ainda não aprendi o nome e um dj, que toca reggae nacional e internacional. Quanto mais potente a radiola, mais público e daí mais moral entre os regueiros. Mas Leo Turbo, que para variar também nasceu no Maranhão, garante que não há competição entre as radiolas. «A nossa maior luta é por a valorização da nossa cultura». Léo é um dos responsáveis por o Clube do Regueiro, na rua Benedito Inocêncio, no JK. Essa é a caçula das casas de reggae de Porto Velho. Aliás, 'ses clubes abrem e fecham muito rápido. Quer dizer, não é tão rápido assim, elas vão no ritmo do reggae. Em o início, a intenção do movimento regueiro da Jamaica era levar os negros de volta para a África, mas acabaram ficando lá por a ilha caribenha mesmo. Os regueiros de Porto Velho também não querem sair do gueto. Jhony, que já foi discriminado por a família por o envolvimento com o ritmo, conta que ainda hoje a associação de Marley com a maconha faz algumas pessoas pensarem que nas casas de reggae tudo é liberado. O que não é verdade, «pelo menos aqui», garante ele. Muita gente ainda tem medo de ir a uma casa de reggae, porque todas 'tão na periferia. E quando se fala que é na zona leste, a primeira imagem que vem à cabeça é da criminalidade, da violência, do perigo de andar em 'sas quebradas. Mas Jamaica garante que não é bem assim. «Você pode vir aqui, tomar uma cervejinha com a gente, ninguém vai-lhe bater, não vamos roubar seu carro nem mexer com sua mulher». O convite não foi só pra mim. Foi para todos que ainda têm alguma dúvida em relação à camaradagem dos regueiros. Preço também não é problema. Em geral não se paga mais que R$ 5 para entrar em 'sas casas. Se você tiver a carteirinha do bloco Jamaica, não paga nada. O som é sempre mecânico. A única banda de reggae da cidade, a Leão do Norte, preserva um 'tilo mais ligado a outro traço da cultura jamaicana: a religião Rastafari. A banda faz do som uma expressão religiosa e cultural. «O reggae é nossa vida», afirma PV, líder e vocalista do grupo. Marinalba dos Santos, de 21 anos, que curte reggae há dois anos, mora bem perto de uma de 'sas casas. Ela garante que o ritmo é a melhor maneira de se liberar dos problemas do dia-a-dia. É com a galera do reggae que ela 'quece das ruas sem asfalto, da falta de emprego, de 'colas e segurança para irmãos do gueto. Número de frases: 48 Em o ritmo da Jamaica, a zona leste mostra para o outro lado da cidade que fazer cultura é mais do que fazer festa, é resistir, mesmo com o preconceito, com a falta de apoio e oportunidade. André Gardel é compositor, cantor, poeta e doutor em Literatura Comparada. A proposta principal de seu trabalho é o diálogo, a troca criativa entre poesia e música popular. Sua produção 'tá sempre preocupada com a qualidade poética das letras e com o desenho melódico das canções. Em shows ou CDs apresenta um repertório variado, que vai desde composições próprias e parcerias com outros poetas e compositores, até recriações de obras já conhecidas. Assim, em O encontro entre Bandeira & Sinhô, pesquisa musical e show realizado a partir de sua dissertação de mestrado homônima, publicada em 1996 por a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, criou músicas para poemas do modernista Manuel Bandeira, além de resgatar pérolas do cancioneiro dos anos 20, extraídas da obra do genial compositor Sinhô, considerado, então, nosso «Rei do Samba». Em 1997, lançou o cd Sons do Poema, em que mostra composições próprias, sofisticadas por a sutileza como entrelaça letra e música. Criando, ainda, melodias para a produção de poetas da geração 90 -- na qual se inclui -- como Alberto Pucheu e Carlito Azevedo. Constrói, também, uma insólita parceria com Padre Anchieta, ao musicar Como vem guerreira!, um belo poema do jesuíta sobre os eternos temas da vida e da morte. O CD que ora 'tá lançando, Vôo da cidade, amplia e solidifica sua proposta básica de trabalho, apresentando novas composições de sua autoria em diversos gêneros musicais. Afora isso, concebe melodia para um poema de Eucanaã Ferraz, da nova geração, é musicado por o compositor de mpb-pop Luís Carlinhos e canta, ainda, um samba de raiz de Rody, presidente da ala dos compositores da Mangueira. Número de frases: 12 A Acolhida na Colônia é uma associação de agricultores de Santa Catarina, criada em 1998, com a proposta de valorizar o modo de vida no campo através do agroturismo. Está integrada à rede francesa Accueil Paysan e desenvolve uma proposta alternativa ao modelo de desenvolvimento intensivo de agricultura e turismo. O programa chegou ao Brasil com a engenheira agrônoma, Thaise Guzzatti. Em 1997, ela foi convidada por o Centro de Estudo e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) para um 'tágio na França, com o objetivo de conhecer projetos de turismo rural. O contato feito com a Accueil Paysan resultou num acordo de cooperação e, hoje, a Acolhida funciona como uma filial. -- A idéia era buscar soluções que pudessem ser aplicadas na nossa região. O trabalho seguinte foi adaptar o conceito a ser desenvolvido. Atualmente, somos a experiência mais bem sucedida fora da França -- explica Thaise. O serviço de hospedagem é feito na casa dos agricultores afiliados, no Território das Encostas da Serra Geral. Com diferentes sugestões de roteiros, é possível conhecer o modo de vida, a culinária típica, além de explorar a bela geografia da região. Os programas oferecem hospedagens simples e aconchegantes (o preço médio da diária é R$ 46,00) e o cuidado com o meio ambiente é destacado através da promoção da agricultura orgânica e de atividades que não agridem a natureza. De 'sa forma, o visitante pode compartilhar, em harmonia, o modo de vida, as tradições e a cultura local. Anitápolis, Santa Rosa de Lima, Rancho Queimado, Grão Pará e Gravatal oferecem, principalmente, roteiros com atividades ecológicas, além de visitas a museus e propriedades rurais. Em breve, os visitantes poderão descobrir novos destinos como o «Vale das Cachoeiras», em Presidente Getúlio ou a» Acolhida em Imbituba», no litoral Sul Catarinense. Outros municípios como São Joaquim e Ibirama serão os próximos participantes. Essa maré de expansão da Acolhida não veio à toa. Além do 'forço da associação, a indústria do turismo vem sofrendo significativas mudanças. Foi-se o tempo em que as pessoas tinham somente como opção aqueles pacotes «para inglês ver», com roteiros manjados e pasteurizados. Hoje, tem muita gente cansada de visitar os pontos turísticos convencionais. Este novo turista não quer conhecer um local somente na superficialidade. Ele quer ter um contato mais próximo com a realidade que o cerca. Ele não quer mais visitar o Rio de Janeiro, por exemplo, e conhecer somente o Cristo e o Pão de Açúcar. Ele também quer freqüentar os bares que o carioca freqüenta, passear por ruas anônimas e descobrir outros shows que vão além das mulatas e do samba. E é aí que a Acolhida tem todo o seu mérito, pois ela oferece múltiplas possibilidades ao turista que busca 'tar mais próximo das pessoas e quer ter uma troca de vivências. Fora que o Território das Encostas por si já é um baita programão. -- Nosso objetivo é expandir o programa para todo o 'tado e temos forte apoio do governo 'tadual, através do Órgão Oficial de Turismo de Santa Catarina (Santur) e da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Praticamos uma atividade de baixo investimento e ainda vale destacar que mais de 90 % da agricultura do 'tado é familiar, ou seja, ainda temos muitas possibilidades a serem exploradas -- acredita Thaise. -- Esta matéria foi publicada no Boletim do Instituto Souza Cruz nº 27, lançado em julho de 2007. Aqui, o texto encontra-se ampliado. -- Leia o texto feito por o Obrer, sobre a Acolhida na Colônia, no Guia. Número de frases: 30 De Dentro da Guerra Você chega em Recife, admira prédios e monumentos antigos, sabe que eles têm história, e aí tenta entender através dos livros, mas geralmente a leitura cozinha a cabeça com datas e termos impessoais, repetindo o mesmo cerimonial de aulas irritantes de história. Assim fica o dito por o não dito. O objetivo deste texto não é pra você entender o que aconteceu em Pernambuco e a partir desse momento passar em qualquer concurso ou vestibular, mas sim, pintar um quadro da pirâmide brasileira de antigamente. O lugar onde quase tudo começou foi na cidade de Tordesilhas no norte da Espanha em 1494. Os dois países Espanha e Portugal, 'pecializados em viagens marítimas, depois de tremendo bate-boca, chegaram a um acordo sem comparação no mundo. O rei da Espanha marcou uma linha divisória no mapa mundi começando numa ilha chamada Cabo Verde, perto do continente africano. Mostrou o mapa para o rei de Portugal e disse: «saindo daqui de 'sa ilha, na beira da África, vou passar uma linha reta em direção a outra ilha que futuramente vai se chamar Cuba. E veja, vou indo com ela, até atingir a distância de 370 léguas, o limite chega aqui e pára. Agora, preste atenção que vai ficar excelente para vossa alteza. Para finalizar, farei outra linha descendo no globo terrestre, não vai ficar bonito 'teticamente, mas todas as terras que forem encontradas do lado de cá deste traço, serão de seu país e as do lado de lá, pertencerão a minha Espanha». O monstro 'panhol nem perguntou ao outro se 'tava tudo OK. Parece que ele não era bom desenhista e puxou mais para o seu lado. Essa criação genuína ficou chamada como Tratado de Tordesilhas. Depois desse acontecimento o Brasil foi invadido por os portugueses e eles conseguiram ocupar Pernambuco aos poucos. Era a região que mais dava certo, não era 'tado ainda, se chamava capitania. Mas tinha um dono, o rei de Portugal. Ele na verdade não queria perder o país para os franceses, e aí se prestou a dividir o Brasil em 15 partes. Em a porta do castelo formou-se uma fila indiana para receber 'sas fatias chamadas de Capitanias Hereditárias. Esse nome era porque os donos prometiam ao rei que iam passar de pai pra filho, hereditariamente. As únicas que progrediram foram as de Pernambuco e de São Vicente, mas vale lembrar que os donatários cruzaram o atlântico para monopolizar e até hoje são as mesmas famílias donas das terras e do poder político. Com a chegada desses homens os índios passaram por uma prova de fogo: os que conseguiam sobreviver, viravam 'cravos nos engenhos de cana-de-açúcar. Antes de tudo, os donatários funcionavam como atravessadores mandando pra Portugal, o pau-brasil que os nativos cortavam em troca de 'pelhos. Quem 'tava em Portugal recebia um bom presente, já que a madeira de 'sa região era a melhor do Brasil. A 'sa altura do campeonato, é conveniente dizer que os índios perderam as terras, a língua e a paz. Deve ter baixado um 'pírito de depressão geral nas tribos, um horror sem precedentes. Mas para os senhores de engenho, a 'tratégia não 'tava dando certo e a opção foi ameaçar a vida de outros povos, em outro continente: na África. As caravelas partiram em direção à Guiné e depois ao Congo. O saldo de quem conseguiu sobreviver à viagem, era de ser coadjuvante com os índios no trabalho da cana-de-açúcar no novo endereço na América do Sul. Para completar a intervenção, chegou a equipe da Igreja. O mundo certo era o de eles, e de boca-em-boca, foram dizendo que índios e africanos 'tavam errados e que deveriam se manter longe dos seus costumes. A partir daquela época, os eventos foram proibidos. Mas uns cem anos depois, o sol da ciência raiou em Pernambuco, quando os holandeses fascinados por o comércio do açúcar, enviaram Maurício de Nassau. Ele fez verdadeira revolução no pedaço de mangue que se constituía o centro do Recife. Saneou as ruas e os conflitos, trouxe 'pecialistas pra pintar o exotismo do povo, fez leitura da vida pernambucana com dimensões magníficas, deu liberdade para as religiões se desenvolverem e acabou o duelo das classes. É certo que os trabalhos de Frans Post e Alberto Eckhout abismaram a Europa. O progresso cresceu a perder de vista em Paranã buka, (mar furado), como chamavam os índios. Chega! Guerra nunca mais. Mas inveja é uma desgraça e o conde holandês foi chamado de volta ao país laranja. O desfecho foi cruel, o comandante Von Schkoppe que ficou no seu lugar deu um golpe nas liberdades e a cortina de fumaça voltou para Pernambuco. Em cada 'quina o povo falava mal da figura do comandante. De 'sa vez a luta foi chamada de Insurreição Pernambucana, se encerrando com a expulsão dos holandeses na Batalha dos Guararapes. Passados uma quantidade de décadas depois dos holandeses, os moradores de Recife e Olinda não conseguiam viver em paz. Quem morava em Recife eram os imigrantes de Portugal, negociantes endinheirados que ofereciam seus produtos de porta em porta. Por causa de 'sa cena, foram apelidados de mascates. Os moradores de Olinda eram senhores de engenho endividados que viviam de aparências e também de pedir dinheiro emprestado aos mascates. Os portugueses de Recife aproveitaram pra carregar nas tintas e passaram a chamar os olindenses de «pé-rapado». Com o clima elevado entre as duas cidades, a situação piorou quando o capitão governante achou que 'tava na hora fantástica de transformar Recife numa vila, e pra isso conseguiu a ordem do rei de Portugal. Os homens-bomba de Olinda invadiram Recife e foram à guerra contra os imigrantes portugueses. Esse evento ficou presente na história como Guerra dos Mascates. Se tivesse demorado mais um pouco, quem sabe, poderia ter se transformado na Primeira Guerra Mundial. Ah, mas como deveria ser feia uma guerra naquela época, sem americano nem Rede Globo para 'colher as cenas que devem ir ao ar e fazer o conflito virar 'petáculo. Esse é um perfil do 'tado que sempre protestou, e paramos aqui. A continuidade evidente é 'perar que o 'critor tenha lhe dado o recado certo, em relação à história. Número de frases: 58 Edmilson Vieira é artista plástico e 'creve crônicas.Dnv01@hotmail.com Quem veio ao Rio por a última vez há um ano iria pensar, certamente, que aconteceu algo muito sério quando chegasse hoje a uma banca e visse os jornais. Iria encontrar, é claro, um Jornal do Commercio, unificado às suas outras edições 'taduais no início de 2005, e a valorosa Tribuna da Imprensa, intocada. De resto, no entanto, foram outras cores que dominaram os últimos 12 meses da imprensa carioca. E nem todas restaram para contar a história. O torvelinho começou com o lançamento, no dia 19 de setembro, do jornal Meia Hora de Notícias (ou, simplesmente, Meia Hora), do grupo O Dia. Uma jogada de risco, pronta para atingir em cheio um público que não tem tempo para ler jornal, de classes mais baixas, que querem se manter informadas de, pelo menos, os assuntos que possam ser os mais comentados nas ruas. Foi uma resposta calculada, para abalar a 'trutura do Extra, jornal das Organizações Globo destinado ao mesmo público. E abalou mesmo. Falar em números é difícil, mas basta dizer que os 70 mil exemplares iniciais do Meia Hora não foram suficientes para dimensionar o sucesso da empreitada. Um jornal em formato diferenciado para o público carioca não é novidade. Bastaria lembrar d' O Pasquim, nos anos 60 e 70, feito em formato tablóide justamente para ser irônico com si mesmo, já que os tablóides sempre tiveram a pecha de serem jornalecos ou impressos dirigidos a uma classe menos favorecida. Com o Meia Hora, no entanto, as notícias lidas telegraficamente, no melhor 'tilo Usa Today (o jornal que revolucionou o jornalismo dos Estados Unidos, ao aliar o formato impresso ao texto sucinto da tevê) pegam o público em cheio. Público menos favorecido, num formato tablóide e, apesar das vendas, pasquinesco -- num sentido não muito elogioso. Porém, antes do Meia Hora ser lançado, outro jornal já vinha sendo planejado. E 'treou pouco tempo depois, em novembro. Seu nome: Q! Com uma proposta tão ousada como seu nome, o Q! formou uma equipe que mesclava jovens nomes importantes do novo jornalismo impresso com personalidades formadoras de opinião da internet. O projeto gráfico, também ousado, aliava grande ênfase nas imagens com boa carga de informação. A principal ousadia: ser o primeiro vespertino carioca em décadas. Pelo menos um mês de números impressos como teste foram produzidos até que o jornal chegasse ao público, em meados de novembro de 2005. Porém, à medida que os dias passavam, os problemas se acumulavam. As bancas se recusavam a distribui-lo porque não tinham como pegar o jornal à tarde. Os anunciantes não abraçaram a idéia, em momento algum. A distribuição feita com gazeteiros era fraca e quase sempre eles não tinham o jornal na hora que deveriam ter (5 da tarde). As notícias não eram tão quentes, pois o jornal fechava as matérias por volta de uma da tarde, devido à impressão terceirizada. Tantos senões foram criando um clima tenso na redação, que já sabia, semanas antes do fim oficial do jornal, em 6 de janeiro, que 'te teria um fim rápido e doloroso (aliás, a edição final do jornal foi distribuída, por um último erro, no dia anterior em vários pontos da cidade). A empreitada, encabeçada por Ariane de Carvalho, filha do fundador de O Dia, e empresas associadas (que formaram a Editora Casa da Gávea), teve como maior sucesso, segundo informações oficiais do próprio Q!, uma venda de 10 mil exemplares num dia -- muito aquém dos 60 mil inicialmente previstos. O fim do Q! é obscuro. Há muita gente que se ocupou com teorias à época. Afinal, um investimento de meses terminar repentinamente, sem uma tentativa real de conserto de rumo, é de se 'tranhar. Quando o jornal terminou, Ariane de Carvalho informou que o site continuaria sendo atualizado diariamente e que a equipe seria mantida. Informações que apurei com diversas fontes dentro do Q! no mês de janeiro, no entanto, disseram que, assim que os avisos prévios vencessem, o site www.qonline.com.br também sairia do ar. De fato, desde fevereiro, quando se acessa o endereço eletrônico, o que entra é o site da MPB FM, também de propriedade de Ariane (e responsável por os calhaus diários de propaganda que apareciam no Q!). Hoje, não se toca mais no assunto. Mas 'te é um que merecia. Enquanto isso, o Meia Hora crescia e as Organizações Globo preparavam o troco. Ele chegou no começo de abril de 2006, com o lançamento do Expresso da Informação (ou, apenas, Expresso), nos mesmíssimos moldes (inclusive gráficos) do seu concorrente. O preço dos dois? Idêntico: R$ 0,50 durante a semana e R$ 1,00 aos domingos. Número de páginas regulares? 32. As pautas? Também muito similares. A idéia parece óbvia: absorver leitores do Meia Hora, tanto por similaridade como por o saudável hábito da concorrência. Enquanto o Globo se armava para a batalha por os leitores das classes C e D, uma outra briga se arma em outro nível. Desta vez, envolvendo os jornais mais tradicionais da cidade. O torvelinho ameaçava virar um furacão. Tudo começa com o lançamento do novo O Dia, a duas semanas da Páscoa. Uma reformulação gráfica total, que completava a reformulação editorial que já vinha se processando havia meses, de transformar o matutino num jornal com mais informação e análise, perdendo um pouco de seu cunho popular. Cores novas e ousadas, num projeto que destaca a nova marca do jornal e avisa: há mais uma força no jornalismo carioca querendo brigar por a liderança. A primeira resposta veio duas semanas depois e também vinha sendo 'tudada há algum tempo: o novo Jornal do Brasil, que, agora, é publicado em formato berliner (que é o principal formato europeu e que é padrão em diversas regiões do sul do país). Ainda que os assinantes continuem a receber a versão regular do jornal, as bancas recebem apenas o berliner, que é mais ou menos um tablóide 'ticado ou um jornal standard reduzido em proporção. No caso do tradicional JB, no entanto, o projeto soa 'tranho. Não por causa das novas dimensões, mas, sim, do 'tranho aproveitamento que se tem do novo 'paço físico, que, algumas vezes, beira o amadorismo. Muito ruim para quem 'tá se comparando, por exemplo, ao Le Figaro francês. Apesar de aparentemente alheio a 'ta movimentação, O Globo também muda algumas coisas. Em o fim de abril, por exemplo, reformulou o seu caderno de informática, tomando como mote os 15 anos do mesmo. Porém, se os resultados da concorrência mostrarem ganhos, fique certo de que ainda teremos mais capítulos em 'ta guerra por o público leitor de jornais no Rio. Que aparentemente só ganha com isso, em termos de opções. Porém, o que se percebe é que o conteúdo temático nem sempre é tão diversificado assim. às vezes olhar as novidades nas bancas é algo 'tranho. como se fossem roupas novas para velhas senhoras. Talvez o furacão realmente aconteça e mudanças mais venham. Ou talvez os ventos amainem e uma nova vaga de calmaria chegue por aí. Só se 'pera que o novo rearranjo do cenário seja mais interessante que o antigo para o leitor. Número de frases: 74 Que bons ventos o conduzam. Entre os anos de 2002-2004, um grupo de 'tudantes de composição da UNICAMP criaram, dentro do 'pírito de reestruturação político-pedagógica do seu curso, um movimento artístico que acabou ganhando imensa importância para a produção de um novo repertório de música experimental brasileira, para a criação de propostas de revisão pedagógica para cursos de composição e cuja extensão acabou dando na criação do 1º Encontro Nacional de Compositores Universitários -- ENCUN, encontro itinerante e anual que, em 2007, realizará sua quinta edição. Reunidos em assembléias semanais desde fins de 2001, tais 'tudantes vinham tentando propor de forma consistente uma saída para a situação precária de seu curso de composição que não possuía na época sala própria e produzia quase nada em termos artísticos ou acadêmicos. De 'sas reuniões acaloradas que se seguiram nos próximos anos, surgiram uma série de diagnósticos e prescrições, quase todas decorrentes de uma visão particular das funções e do potencial do 'paço universitário. Espaço universitário em foco: O 'paço acadêmico dentro de um curso de criação musical deve ser ocupado com produção artística tanto dos 'tudantes quanto dos professores. Tal 'paço deve ser valorizado como principal objeto de construção e re-criação desse coletivo. O curso universitário é fruto de um investimento social 'tratégico: a sociedade emprega recursos para o sustento de um locus de produção de conhecimento em determinada área, 'timula a convergência e encontro de indivíduos interessados por o mesmo objeto, configurando um ambiente propício ao seu desenvolvimento. Assim, o 'paço público acadêmico teria como objetivo principal, enquanto investimento voltado para a autonomia e excelência, o seu próprio desenvolvimento. Os indivíduos compõem 'se 'paço mais do que simplesmente usufruem de ele momentaneamente em busca de um diploma. Não deve ser encarado como um mero serviço que o Estado oferece aos indivíduos, mas um laboratório experimental dentro de uma proposta maior por autonomia. O incremento desse locus, a produção artístico-acadêmica que viesse a gerar, comportar e difundir, deveria ser fator de ampliação do Mercado (deveria gerar em 'te novas demandas, adaptáveis a uma música de caráter livre) e visaria superar a noção de que a função da universidade seria a de meramente suprir exigências objetivas por mão-de-obra qualificada. Agir desse modo, investindo exclusivamente em reprodução de conhecimento útil caracterizaria uma sub-utiliza ção do 'paço acadêmico. Tal 'paço deveria criar suas próprias demandas, portanto. Isso só seria realizado de forma sólida com o engajamento dos sujeitos componentes desse 'paço num 'forço por ocupação criativa, re-modelagem contínua e defesa teórica do mesmo. O 'paço do curso de composição deveria ser caracterizado por a mutabilidade e deveria acompanhar as idiossincrasias do corpo móvel de indivíduos que o compunham semestre a semestre. Seriam abolidas as referências a um corpo discente e um corpo docente. Passariam a existir apenas compositores: um corpo 'tável e um corpo transitório. O corpo 'tável (formado por os professores pagos por a universidade) funcionaria apenas como catalisador, sugerindo caminhos dentro de um curso formado quase exclusivamente por disciplinas eletivas, e não haveria obrigações a priori do corpo transitório em relação a ele, nem mesmo avaliação baseada em trabalhos combinados com o corpo 'tável. Todos deveriam mostrar serviço compondo, tocando e ajudando o 'paço a evoluir. Ao invés de oferecer as disciplinas habituais, os professores ofereceriam cursos semestrais sobre assuntos focados em seus objetos de estudo principais de modo a aproximar os 'tudantes de suas idéias a respeito da música lançando-as ao debate. Estas conferências sobre diversos assuntos seriam oferecidas a todos, sem distinção de turma, e os indivíduos (de todos os anos) comporiam as classes de acordo com o interesse. Isso visava à diluição do corpo de 'tudantes dentro do curso, proporcionando o convívio entre indivíduos com experiências diversas. Apenas a prática composicional em suas diversas formas seria 'tabelecida como prioridade em termos disciplinares. Todos deveriam produzir e mostrar o resultado de sua produção aos demais em concertos regulares independentemente das condições técnicas das obras. Isso proporcionaria a troca das várias vivências individuais, a socialização da crítica e o acúmulo real de experiência com produção artística. A apatia do curso de composição da UNICAMP permitiu que os 'tudantes pudessem pôr mãos à obra e criar, entre 2002 e 2004, um dos momentos mais fecundos da história da criação musical universitária dos últimos anos. Com concertos mensais, cerca de 100 obras foram 'treadas, diversos grupos de compositores foram criados, muitos indivíduos formaram-se a partir de 'sa experiência. Logo sentiu-se a necessidade de compartilhá-la com compositores de outros cursos universitários. O objetivo era tornar tal 'forço um precedente para que outros buscassem re-pensar a sua própria relação com a academia e para que a produção artístico-acadêmica brasileira pudesse circular fora do âmbito universitário. Criou-se para isso o ENCUN, o Encontro Nacional de Compositores Universitários. O ENCUN tornou-se imediatamente um evento itinerante, anual, e já percorreu, além de Campinas (2003), Londrina (2004), Curitiba (2005) e Belém (2006), tendo uma nova versão prevista para 2007 em São Paulo. O ENCUN pretende ser uma alternativa para os diversos festivais e encontros nacionais de compositores no Brasil, cuja prioridade é a de servir como vitrine para o que há de melhor na música brasileira de vanguarda, do ponto de vista de uma curadoria 'pecífica. O ENCUN é formado de modo livre: os indivíduos, de todo o país, propõem peças, instalações, conferências, comunicações, cursos, entre outras atividades, e 'se montante de trabalhos propostos compõe o encontro, que em 'se sentido, visa ser um veículo de divulgação do que de fato ocorre dentro dos muros das instituições produtoras de música nova no Brasil. Os únicos vetos possíveis para trabalhos propostos são aqueles ocasionados por impossibilidades técnicas da coordenação do evento, o que coloca o ENCUN como o mais democrático evento desse porte no país. O Grupo de Compositores da UNICAMP dispersou-se vitimado por a imensa inércia da academia, por a impossibilidade de enquadramento do quadro docente num projeto desse vulto, e por o isolamento, domesticação ou formatura dos principais indivíduos implicados no processo. Tal situação fez-me refletir sobre os limites de mudança, muitas vezes inusitados, dentro de uma instituição pública, motivados por o medo que alguns indivíduos têm de perder 'paço e poder. Penso hoje, com cabeça fria, que a universidade, pelo menos no que diz respeito à sua produção artístico-pedagógica, jamais se libertará do jugo da mera reprodução de conhecimento, uma vez que tal formato é mais facilmente digerido por o sistema acadêmico 'tabelecido e proporciona a 'te meios para avaliar o que é certo ou errado dentro de sua visão limitada. A música universitária fez a sua opção por o mesmo, por o 'tável, por a repetição, por a segurança. Resta zelar para que o seu filho promissor, gerado às custas da distração de um momento de perplexidade seu, o ENCUN, possa viver ainda alguns anos como alternativa em 'se mar de tranqüilo desespero da música universitária brasileira: móvel, perigosa e fascinante como a Nau dos Loucos de Foucault, transportando de Estado em Estado da Federação o que resta da fecunda insanidade acadêmica em 'te país. Número de frases: 44 Humor rasteiro, sem criatividade, fácil de fazer, invendável, exacerbadamente regional e sem consciência social. Original, engraçada, bem 'crita e pensada, visionária, libertária e universalmente regional. Estas são algumas das qualidades atribuídas a revista Quase. Amada, odiada e eleita a melhor publicação capixaba no ano de 2002, a polêmica revista em quadrinhos independente acumula ameaças de processos, desafetos e fãs. Mas, paradoxal é o verdadeiro atributo de 'sa revista que, sim promove a chacota indiscriminada, irresponsável e assumida, mas que também tem a coragem de colocar o dedo na ferida. O início A coisa começou assim: quatro 'tudantes de Comunicação Social da Ufes se encontraram numa oficina ministrada por o animador Otto Guerra, durante o Festival Vitória Cine Vídeo, no final de 2002. O contexto era a independência. O objetivo era experimentar. A causa era não levar nada a sério, inclusive a si mesmo. Um ano depois, 'tava pronta a revista Quase número zero. Metade da grana investida veio dos apoiadores, a outra metade do bolso. E, na opinião dos próprios caras, a primeira edição é «um conjunto de coisas prontas, sem linha editorial». Mas fundamental para a definição do que viria a ser a HQ hoje, uma revista de humor. Em setembro de 2003, ficou pronta a & 1. E além dos quadrinhos, surgem as entrevistas e a maravilhosa seção de cartas, onde eles de forma imatura e infantil desrespeitam gratuitamente os leitores. A seção tornou-se um clássico da revista, e vieram as camisas com a temática Sem Escrúpulos, numa paródia a campanha de uma famosa grife. Preguiça, indiferença, rancor, egoísmo e prepotência 'tampavam a primeira leva, um sucesso. As entrevistas, o prêmio na mídia local, o 'porro homérico da mãe da Luli, ex-integrante da trupe, o sucesso da festa de lançamento e a indicação ao Prêmio Ângelo Agostini, um dos mais importantes do segmento no país, levaram os rapazes a continuar a empreitada. Saía do forno a Quase número 2, e começavam os problemas. O Gabriel, um dos criadores, quase foi demitido pois fez piada com a empresa onde trabalhava. Juliano, editor, teve problemas com a cunhada, vocalista de uma banda local. A igreja Maranata não ficou nada feliz com o anúncio da celebração de um casamento gay, sob a foto que dois desavisados integrantes mandaram para ser publicada. E a campanha Anti-Capixabismo, não planejada, se iniciava. Em a capa, caricaturas de artistas locais, protótipos universais e ícones atemporais, como o diabo. Um saindo de dentro do outro, por a boca, numa regurgitofagia antropofágica. Almeida, entrevistado na edição anterior, se tornava crítico e fazia uma resenha de uma banda local. Em a página 14, uma lista de 100 motivos para odiar o Espírito Santo. Os meninos alegam que não houve premeditação. «Não pensamos oba, vamos sacanear os capixabas, mas somos daqui e 'se Estado é um prato cheio. A gente publica as bobagens que a gente fala. Inclusive, não sabíamos que as pessoas iriam ler, por isso horrorizamos tanto. Não sabíamos do alcance." Começavam também os episódios inusitados vividos por os criadores. Foram abordados por o membro de um diretório acadêmico, que discursou «O movimento 'tudantil já tem tantos problemas, e agora isso». Dois de eles participavam de um programa numa rádio, quando o vocalista de uma banda de reggae telefonou e, ao vivo, censurou os cartunistas. Em o mesmo dia as edições se 'gotaram em alguns pontos de vendas. E na edição & 3, eles trataram de agradecer por a publicidade 'pontânea. E aproveitaram a data comemorativa, aniversário de um ano, para lançar as camisetas Anti-Capixabismo com slogans que depreciavam um ritmo e um prato da culinária local, e outro que continha uma mensagem ecologicamente incorreta. E mais uma vez, o tiro saiu por a culatra. Por causa das críticas, os meninos ganharam novamente um bom 'paço na mídia. Sem limites Em a número 4, o Jovem Juliano (alter ego do editor) morre, encontra Deus, um pônei, e termina no peculiar inferno criado por ele mesmo. Daniel, outro idealizador da revista, visita igrejas e publica o teste inmetro do exorcismo. Em a capa da Quase & 5, A Paixão de Keka, cartunista crucificado por a oposição. As reclamações continuam e eles são taxados de racistas, fascistas, niilistas e respondem «As pessoas que não gostam da revista, a levam mais a sério que a gente». Afirmação que se comprova com o evento de lançamento que eles promoveram para divulgar a número 5. Em um clube, ringue armado e uma luta livre clandestina que revelou e catapultou o personagem Homem Galinha ao 'trelato. Todos os culpados por a Quase vestidos com roupas ridículas, lutando no melhor 'tilo telecatch. Dezembro de 2004, sétima edição, número 6 da publicação e a Mônica e a Magali re-interpretadas na artística capa. A avó do Daniel comprou 60 revistas na tentativa de tirá-la de circulação por cauda da piada com o papa. Mesmo mês, dia 25, a rapazeada assistindo a O bebê de Rosemary, toca o telefone. Era o advogado de um grande empresário capixaba pedindo que a revista fosse imediatamente retirada das bancas. Em 'sa mesma época, a avó de outro integrante pediu ao neto que saísse da revista, se livrasse da má influência e voltasse a ser puro. Ele não só continuou na HQ, como se travestiu novamente de Homem Galinha no lançamento da edição número 7. Mais luta livre, e outra capa instigante anunciando a chegada da Paneliga de Artistas Capixabas Paladinos. Só que passou a ser legal ser zoado por a revista, e eles resolveram então expandir o universo das piadas. Mas claro, sempre atentos? sua aldeia, e respeitando os últimos românticos que continuam detestando a publicação. Vale ressaltar também os anúncios 'pecíficos, criados por os próprios redatores, para os apoiadores, e que se integram perfeitamente ao contexto da HQ. A & 8, por enquanto, é a ultima edição da Quase que ora é bimestral, ora é trimestral. O lançamento foi numa casa de strip-tease, onde aproveitaram para divulgar o site. Em a capa, e na matéria principal, uma entrevista com Rodrigo Lima, do Dead Fish. Muitos elogios, e a primeira verdadeira crise: sai um integrante. Porém, os caras não se dão por vencidos, e lançam um concurso para substitui-lo. Visite o endereço da Quase na web para maiores informações. E aproveitem para comprar as revistas. Lá tem todos os pontos de vendas no ES, RJ, SP e GO, e em breve eles vão colocar as edições 'gotadas pra serem baixadas em PDF. Eu fui testemunha. Já vi gente lendo a Quase e gargalhando sozinho, coisa rara hoje em dia. E pude constatar, entrevistando os bons moços politicamente incorretos, que para eles não há limite. «Não vamos deixar de colocar uma piada porque é moralmente inaceitável colocá-la. Ás vezes a graça aumenta quando você percebe como é perversa a piada», afirma Daniel. Se houvesse correio lá onde Nietszche 'tá, eu enviaria um exemplar. Não sei se ele ia morrer de orgulho de ver 'ses meninos rompendo com a moral 'tabelecida, ou se ia morrer de inveja por não ter pensado nisso antes. Moral: do latim, «morus», significando usos e costumes. Seja qual for a sua opinião a respeito de 'sa publicação, é fundamental que, no mínimo, você pense a respeito do significado de 'sa palavra. Digo isso porque muito provavelmente alguma piada vai te incomodar. Vai te fazer rir nervoso e pensar. Através do humor, por vezes 'catológico, imaturo, gratuito, eles te levam a colocar os neurônios pra trabalhar, e a ver que o valor das coisas nós é que damos. Número de frases: 82 E que conhecer a vida implica em sair da longa e antiga negação da vida que toda a moral até hoje produziu, como 'creveu certa vez o bigodudo citado no parágrafo acima. Acho que todo mundo sabe que a maioria das leis brasileiras são inúteis. às vezes porque ninguém cumpre, às vezes porque é impossível cumprir. Isso vem desde o império, claro, junto com a fama da inteligência portuguesa. Passaram-se os anos, o poder trocou de mãos e provou que a burrice não era de origem ibérica: as leis continuaram a ser feitas da mesma maneira: «nas coxa» e por gente que sabe pouco sobre o assunto. Digite «leis imbecis» no google e você vai encontrar um repertório enorme para piadas de humor negro. Veja um exemplo bacana aqui, onde tem o exemplo do cara que raspava a casca de uma árvore para fazer chá e foi preso, crime inafiançável sob a lei Lei Nº 9.605, de fevereiro de 1998. Triste, mas muito 'pecífico. Então para tornar o assunto mais abrangente, um exemplo recente desse tipo de arbitrariedade contra o cidadão: a Lei Seca. Depois de Todo o bafafá gerado, na internet e na imprensa tradicional -- tirando as piadas, que durou uns 4 ou 5 dias, todo mundo se acomoda e dá o «jeitinho brasileiro» de sempre, enquanto os policiais não 'quecem o assunto e páram de encher o saco com blitz em porta de restaurante. Agora a mais nova sensação é a Lei do Senador Eduardo Azedo, aprovada ontem. Nada contra quererem punir crimes como pedofilia. O problema é o mesmo de sempre: burrice na hora de 'crever o texto. De aí a lei segue matando coelhos, lobos e tudo que é animal que 'teja ao seu alcance numa cajadada só. Bota no mesmo saco todos usuários de internet e ameaça suas liberdades dentro da rede. Com repercussão internacional, o assunto provocou milhares de reações dentro da web, até com uma petição online que conseguiu juntar mais de 11.000 assinaturas. Se o projeto passar na Câmara e o presidente sancionar o texto, teremos mais uma para o nosso maravilhoso repertório de leis arbitrárias. Me pergunto se faria diferença, no caso da lei seca, um buzinaço em frente ao congresso, trancando o trânsito em pleno meio-dia. E no caso desse projeto substitutivo sobre os crimes na internet, o que pode ser feito? Podemos 'perar que os nobres legislantes se dobrem por 11.000 assinaturas Virtuais? Oras. Cá entre nós, interneteiros: a importância da internet para 'ses indivíduos é tão grande quanto é 'pecífico o texto da lei. Em 'se ponto, é necessário sair da caverna virtual e fazer alguma coisa. Eu sugiro jogar cocô no carro do excelentíssimo senador, claro. Ou botar fogo no carro de ele (sem ele dentro). Mas tem gente sugerindo iniciativas mais inteligentes, tipo a Safernet ou o AK2 (via Dpadua). Ou quem sabe seguir o exemplo do PiratPartiet? Enquanto o «jeitinho brasileiro» continuar tornando fácil aprovar babaquices como 'ta nos poderes, vai ficar difícil respeitar um agente da lei na rua. Número de frases: 32 Tal e qual os militares não mereciam ser levados a sério a alguns anos atrás. As campanhas do governo contra a prostituição infantil não passam de simples simbologia. Tais campanhas não trazem no seu âmago perspectivas de mudanças, ou seja, de uma vida digna para crianças e adolescentes que vivem submersos num mundo de qualidade tão ruim. Essas campanhas 'tão pautadas em leis cujas funções seriam moralizar e reprimir atuações exploradoras de indivíduos, entretanto, não se vê ações efetivas para sobrevivência desses jovens, há um total descaso com sua realidade social. A situação é bem mais grave do que se possa imaginar e pode ser classificada como uma Tragédia Social. Pesquisa divulgada por a «Secretaria Especial de Direitos Humanos em Janeiro de 2005, denunciou a exploração social comercial de crianças e adolescentes em 937 municípios brasileiros». Segundo a pesquisa, «'tima-se que Cem mil crianças e adolescentes são explorados sexualmente no Brasil» (hoje acredita-se ter ultrapassado Cento E Vinte Mil). Já o IBGE relata que onde se encontra o maior nível de prostituição no nordeste é em Salvador e Recife (apesar de Fortaleza ter um índice muito alto), coincidentemente são em 'sas cidades metropolitanas onde a existência do desemprego e subemprego são maiores. Em Salvador pouco se fala de ações que possam coibir tais níveis de prostituição. Sendo uma das cidades nordestinas mais visitadas por turistas 'trangeiros, apesar do combate policial, ainda existe em grande escala o acesso de 'sa «freguesia». Mas, engana-se quem pensa que o índice maior seja dos 'trangeiros, o trabalho da polícia mostra que a maioria desses clientes é do Brasil de classe média e rica. Muitos são empresários bem sucedidos, aparentemente bem casados. Compõe também a lista motoristas de caminhões e taxistas, gerente de hotéis e policiais. Em Salvador crianças e adolescentes se vendem e praticam atos levianos até por «UM REAL», para poder levar o pão para casa. Um fato é incontestável, nossos jovens tornaram-se reféns de verdadeiros criminosos e não existem soluções governamentais imediatas para resolver 'sa situação. Seria o caso de Instituições privadas fazerem alguma coisa como: ONGS, igrejas, associações de bairros, etc.. Sabemos que o problema 'tá aí e todos devem ajudar de alguma forma, mas, não seria o Estado quem primeiro deveria buscar saídas? A pesquisa mostra que o índice de desemprego em 'sas cidades é altíssimo, logo, não seria obvio começar atacando o desemprego e o subemprego para que as famílias de 'sas crianças pudessem sustentá-las e educá-las dignamente? E já que falamos em educação, por que não utilizar a Escola como um meio de ação governamental contra a prostituição infantil, já que ela é um 'paço de formação e transformação de idéias, ou melhor, deveria ser (infelizmente verificamos o contrário) e que absorve um grande índice de jovens desse «mercado» ('colas públicas principalmente). Não podemos admitir que a hipocrisia que permeia 'sas campanhas continue sem serem questionadas. Não podemos aceitar que nosso país seja conhecido lá fora como o «prostíbulo» do ocidente, já que sabemos da grandiosidade e capacidade de luta do nosso povo. OBS.: Não postei imagem por respeito a 'sas crianças e adolescentes. Número de frases: 24 O mais profundo é a pele. A frase não é minha não. Quem a falou foi o poeta francês Paul Valéry, um cara que gostava de refletir sobre 'tética e linguagem. O filósofo Gilles Delleuze recorreu a Valéry para falar da grandeza de certas poéticas da superfície, que minaram alguns mitos sobre a «profundidade». Essa palavra entre aspas é tão sedutora para nós que o Rogério Flausino, da banda Jota Quest, até canta: «em 'se quarto tão profundo». Quarto profundo? Sedutor adjetivo. Estou falando isso para mostrar que costumamos nos enganar quando nos deparamos com produtos 'téticos, textos, imagens, músicas, etc, que parecem não ter profundidade. às vezes não têm mesmo, 'tão impregnados é de superfície, mas 'sa superfície pode, muito bem, 'tar 'condendo 'tratégias que 'capam ao olhar ou ao ouvido, ali, naquele instante. Delleuze lembra que foram os filósofos gregos da corrente chamada «'tóica», posterior a Sócrates, quem primeiro realizaram uma grande reviravolta na valorização que Platão dava ao mundo das» Idéias " (assim, com inicial maiúscula), uma 'pécie de suposto paraíso da grandeza que 'tamos sempre perseguindo. Os 'tóicos valorizaram muito o humor e o paradoxo, como ferramentas para mostrar que a superfície da linguagem -- o puro jogo de palavras, por exemplo -- 'tá, sim, carregado de sentido. Para Delleuze, nos tempos modernos, um bom exemplo desse gosto por a superfície foi Lewis Carrol, o autor de «Alice no País das Maravilhas». Sem muita pretensão, eu diria que 'sa 'tética da superfície 'tá, também, em gente como o cronista Manoel Lobato, colaborador do jornal belo-horizontino «O Tempo», e já 'tava, por exemplo, num Mário de Andrade, o modernista, que até disse que suas crônicas eram» levianas " (isso mesmo) e era 'sa característica o que mais o seduzia. Portanto, é preciso cuidado ao virar a cara para certas coisas, cheias de superfície. Há muitas coisas bem mais bacanas do que um «quarto tão profundo». Número de frases: 16 «Eu comecei a dançar com uns treze anos de idade. Hoje tenho 67 anos e eu só paro quando Deus falar que é dia de parar. Eu peço a ele que me deixa mais tempo, mas o dia que ele lembrar de mim, é ele que marca, né? É Deus que marca o dia, mas dizer que eu vou desanimar, que eu vou parar, não. Eu tenho amor por o movimento que nosso pai deixou, é uma cultura nossa, então a gente não pode desprezar não." Seu Dola, congadeiro Este artigo apresenta em linhas gerais algumas características do Congado da microrregião de Viçosa, cidade da Zona da Mata mineira. Sei de outros lugares em que há festejos de Congado, como em Ponte Nova. Apesar disso, me detenho nas manifestações presentes em São José do Triunfo, distrito do município de Viçosa, e em Airões, distrito de Paula Cândido. De início, acredito que é importante explicar que a manifestação cultural chamada Congado -- também conhecida como congada ou congo -- pode ser definida como um festejo popular religioso de formação afro-brasileira. Quando vemos o congado na rua, podemos perceber claramente a influência de expressões e costumes da África, mesclados aos elementos religiosos católicos, de origem portuguesa. Olhando o dicionário Houaiss, encontro o fenômeno descrito como " tipo de dança dramática que representa a coroação de um rei (e às vezes também de uma rainha) do Congo, constituída de um cortejo com passos e cantos, onde a música acompanha a expressão dramática dos textos, e que se caracteriza por a embaixada, por evoluções processionais e lutas simbólicas de 'pada. É de criação de 'cravos no Brasil, registrando-se desde 1674 em Pernambuco, mas na sua origem podem 'tar antigas disputas entre tribos rivais do Congo e de Angola.». Por o que já falei, não surpreenderá ninguém que o Congado seja um movimento cultural notavelmente sincrético, principalmente sob a perspectiva religiosa. O ritual, que envolve danças, cantos, levantamento de mastros, coroações e cavalgadas, tem como centro a reverência a um santo padroeiro católico, variando de acordo com a localidade. Em o distrito de São José do Triunfo, o Congado é visto na rua várias vezes por ano. Entretanto, é no mês de outubro, na Festa do Rosário, que todos os elementos do Congado se expressam de forma plena, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. Há registros documentais que comprovam a ocorrência da festa na região desde o século XIX. A verdade é que não mudou muita coisa desde então. Os reis do Congado eram carregados em liteiras por oito 'cravos, enquanto o Congado, representando a guarda do rei, acompanha o cortejo bailando uma dança de luta típica africana. Utilizando 'padas e instrumentos musicais como a cuíca, caixa, pandeiro e reco-reco, os congadeiros vão atrás da cavalgada que segue levando uma bandeira com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Também são carregadas as imagens de São Benedito e de Santa Efigênia por os congadeiros. A o final, então, se dá a coroação dos novos reis do Rosário, com o beijo da coroa, culminando na coroação de Nossa Senhora do Rosário por as rainhas do Congado. De o ponto de vista antropológico, o Congado nos leva a enxergar que a ação de celebrar a tradição coletivamente serve tanto para fortalecer os laços que unem os indivíduos, quanto atua para manter o movimento de recriação da identidade coletiva. Ao contrário do que poderíamos pensar, minha abordagem não provoca o desaparecimento do membro individual, visto que sua história dialoga com a tradição. Em 'te sentido, a palavra falada tem papel central na transmissão do saber popular. Noto uma verdadeira preocupação dos guardiões do Congado em manter viva a tradição, ensinando-as aos jovens do bairro. Em o Congado de São José do Triunfo, desempenham a função de guardiões Seu Zeca e Seu Dola. A verdade é que se a prática do Congado não se perdeu no tempo, isso se deve a 'ses homens. Recentemente temos visto o Congado ser representado em outros ambientes que não só em Airões e São José do Triunfo. Durante a Semana de Nico Lopes promovida por o DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Universidade Federal de Viçosa, os congadeiros de Airões foram chamados para se apresentar no Pavilhão de Aulas da Universidade, durante o horário de intervalo entre as aulas dos cursos noturnos. As fotos deste artigo foram realizadas no referido momento. Creio ser extremamente válida a iniciativa, uma vez que a interação entre grupos socialmente tão distantes, pode ser em muito rica para ambos. É de muita importância refletirmos sobre o impacto da apresentação naquele novo 'paço. Maior parte da população de Viçosa nem sequer conhece o Congado, muito menos os 'tudantes da universidade. Muitos dos que conhecem vêem a manifestação como algo incomum e sem sentido, ignorando o quanto o festejo é importante para as pessoas que de ele participam. Para os congadeiros, tal evento pode significar que suas formas de expressão são reconhecidas por a sociedade. A o 'tudante, por outro lado, foi possibilitado o contato com uma manifestação cultural absolutamente fora do eixo midiático dominante. Número de frases: 38 Vemos aqui que muitas vezes não é necessário viajar longe para ter contato com culturas diferentes. Quem diria que um dia eu começaria um texto falando de Heiner Müller e Dostoiévski citando uma frase de Ângela Dip? Pois é, 'tá acontecendo em 'te momento. Certa vez, quando entrevistávamos a atriz e dramaturga, ela disse que para que um 'petáculo teatral funcionasse, os elementos básicos necessários eram «um puta texto interpretado por um puta elenco». Claro que depois, em 'sa mesma entrevista, ela disse bobagens como «os gregos já inventaram tudo», mas isso a gente pode relevar. Essa citação me veio à cabeça logo após ver Horácio, de Heiner Müller, adaptado, dirigido e interpretado por Celso Frateschi (será que ele também fez o cafezinho?). Em 'te 'petáculo, que integra a 2ª Mostra Ágora de Teatro, o público se senta em semi-círculo numa pequena sala e não assiste ao ator encarnando um personagem, mas sim contando uma história, sem, no entanto, abrir mão da dramaticidade que a boa execução de 'ta atividade requer. Em a cena, com seu 'paço delimitado por um minúsculo retângulo branco, há apenas uma máscara e uma moeda, iluminadas por os dois únicos focos de luz branca utilizados. Frateschi usa um figurino que o torna ... nenhum personagem além do próprio Celso Frateschi, ou de qualquer outra pessoa que se propusesse a contar aquela história (e que usasse jeans, coturno e uma camisa -- preta, se não me engano). A história inicia-se com uma luta entre Roma e Alba, que não é travada por exércitos inteiros, mas sim por um representante de cada lado -- desta forma, os exércitos seriam poupados para que tivessem força contra os Etruscos, inimigo comum a ambos os povos. Acontece de ser nomeado um Horácio o representante de Roma, e um Curiácio o representante de Alba. E acontece dos dois representantes serem cunhados um do outro. Trava-se a batalha e o Horácio ganha, para o infortúnio de sua irmã, noiva do Curiácio morto na batalha. Em a euforia da vitória, o Horácio interpreta a tristeza da irmã como uma traição a Roma, e graças a uma atitude desmedida, passa a ser um assassino que não pode ser penalizado por ser o herói da cidade. O texto é recheado de metáforas fantásticas para os paradoxos da democracia que não poderiam ser ilustrados de forma mais simples do que através da moeda utilizada em cena, com seus dois lados. Poucas horas depois de sair deste curto 'petáculo (apenas meia hora de duração), lá 'tava eu novamente no Ágora para assistir ao segundo monólogo de Frateschi na noite de sábado. Era a vez do Sonho de um Homem Ridículo, adaptação teatral do conto homônimo de Fiódor Dostoiévski, em cartaz na sala principal do Ágora (que, vale o comentário, é uma das salas mais 'quisitas da cidade, com uma platéia tão inclinada que chega a parecer uma porção de mezaninos, um para cada fileira). Enquanto o Horácio era minimalista ao extremo, aqui há um pouco mais de elaboração no figurino e sobretudo na cenografia, que ganha uma poltrona, uma cadeira, uma mesinha, uma cortina e uma parede burocrática (veja o 'petáculo que você entenderá). Frateschi encarna um funcionário público russo que, prestes a acabar com sua vida medíocre, adormece com o revólver carregado em suas mãos e mergulha num sonho fantástico, visitando um mundo distante onde as pessoas são boas e felizes. A interpretação de Frateschi é um dos pontos altíssimos do 'petáculo, mas o texto não deixa para menos. Começa distribuindo bofetadas na cara de uma platéia que se identifica (ou deveria criar vergonha na cara e se identificar) com as mesquinharias e futilidades da vida social que parecem não ter mudado absolutamente nada de 130 anos pra cá. Então começa a descrição do mundo dos sonhos, que chega a parecer mais a narração do paraíso ilustrado na capa da revistinha dos Testemunhas de Jeová do que um texto de Dostoiévski, mas logo em seguida o russo barbudo nos dá uma rasteira e continua nos 'bofeteando com uma porção de verdades e constatações geniais e dolorosas sobre nosso tempo e nossa vida. A sensação é a de sair do teatro destruído após um violento nocaute, depois de um 'petáculo que não inova nada na linguagem cênica, mas que prova que 'ta 'colha é absolutamente OK quando temos uma encenação e sobretudo uma interpretação e um texto sensacionais. Saí me sentindo ridiculamente ridículo. E por a segunda vez no mesmo dia, fui obrigado a concordar com Ângela Dip. Número de frases: 26 Saco. Kashalpynya -- o apelo korubo Kashalphynya é um índio da tribo Korubo do Acre. É de uma etnia nômade que ainda tem o privilégio de ser considerada «tribo isolada» por a Funai. A história de ele é intrigante e curiosa. O significado do nome Kashalpynya é (homem do mato). Segundo ele, o Grande Espírito o enviou para interceder por a natureza junto ao homem branco. A sabedoria desse indígena é de uma grandeza única. De sua boca saem palavras que tocam fundo no sentido de se preservar a vida e o meio ambiente. Em o Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros ele andava entre as pessoas mostrando faixas contra a invasão da região noroeste e arredio sumia para o mato, onde comia cururu (sapo) ou gambá, pois não se acostumou com a comida do homem branco. Falando com ele pode-se notar um sotaque 'panhol, isso devido ao convívio com garimpeiros chilenos quando criança. Estudou como voluntário nas 'colas por onde passou e depois voltou para sua terra onde se casou e teve filhos. Agora se sente na obrigação de ficar indo e vindo e com o contato com o homem branco conseguir um meio de defender as terras indígenas, e por isso entrou na luta com os outros índios na defesa do Santuário Sagrado dos Pajés na região Noroeste de Brasília. Sua família nunca teve contato com o homem branco. Os que apareceram por lá foram mortos e até comidos, segundo ele. Este korubo fala com muito orgulho de seu povo que conserva uma cultura milenar e não conhece a agricultura: têm técnicas diferentes e eficazes de plantio e também vivem da caça, pesca e de frutas silvestres. É um povo ameaçado por os garimpeiros que invadem suas terras. São nômades e nunca ficam num só lugar, sempre se 'condendo do homem branco e procurando locais de melhor caça e água. A caça ficando 'cassa a vida 'tá ameaçada. Ele reclama muito das águas poluídas com mercúrio porque os índios e os bichos ficam contaminados. Porém como todo indígena, não perde a 'perança de que a vida vai melhorar. Sobre o dinheiro, ele sorri e diz: -- Eu não preciso de dinheiro, a riqueza que o Grande Espírito nos dá não é vendida. E aponta para as árvores: -- Tudo que o homem precisa para viver tem na mata, desde o alimento, a água e o remédio e ainda sem pagar imposto. O branco paga imposto, imposto e vive aflito sempre pagando imposto de tudo, até para dormir. O casamento na tribo korubo é muito importante. Ele explica bem: -- A mulher ajunta com o homem depois da primeira menstruação e na segunda menstruação ela já pode ser mãe. O homem aprende com o cacique as regras de caça e pesca aos 15 anos de idade e depois já 'tá pronto para ter mulher e família. A vida na tribo korubo segundo ele, é bem mais longa a não ser quando acontecem doenças. E afirma: -- A mais perigosa é a gripe e há também malária e febre amarela porque as vezes ficamos em lugares de água parada, se água for corrente não dá doença. Segundo kashalpynya seu povo vive até 160 anos porque não comem sal e nem açúcar e nada industrizalizado. Sobre como marca os anos acentua: -- Marcamos com a passagem da lua, tantas luas um ano e aí por diante. Em a tribo só acontecem os acasalamentos na lua cheia, por isso toda lua cheia é dia de festa. Se a mulher não engravidar na lua cheia usa a raiz do truá. Como acontecem muitos acidentes na mata, a mulher pode se machucar então deve ser trocada por outra no ritual. Explica: Quando uma mulher 'tá doente na lua cheia e não pode acasalar então há um ritual onde se pede permissão ao Grande Espírito e 'sa mulher 'colhe uma colega para acasalar com seu companheiro. Para a tribo korubo os perigos da mata existem, porém os piores são a cobra, as feras e o homem branco. Os pais ensinam os filhos a andar com uma borduna (cacete) por isso são chamados de caceteiros), e também uma flecha envenenada com veneno de cascavel. Em detalhes ele conta como tira o veneno da cobra: -- Aperta bem as mandíbulas e colhe o veneno, depois come a carne tendo o cuidado de ver se ela não 'tá com filhote, e se tiver, é solta para aumentar a 'pécie na mata. A cobra não ataca os indígenas. E sobre isso, ele diz: -- Usa um remédio que bota no pé, a raiz uiremixá que é lambuzada com o veneno da cobra e amarrada ao tornozelo, assim se pode passar por muitas cobras e elas não atacam nem se forem pisadas, isso porque o cheiro intimida. Mas se acontecer de ser ofendido é só matar e comer rápido. Sobre o tratamento com os idosos, kashalpynya conta uma história comovente: -- Quando o índio chega a idade final e tem que partir da aldeia para o outro mundo. O cacique faz uma reunião e ele se despede de todos. Ele sabe o momento quando sente que o corpo não quer mais andar. Depois de um grande ritual de despedida ele entra na mata com um bastão e nunca mais volta. Kashalpynya recorda da despedida de seu pai, era ainda um menino mas se conformou porque ele pode ter se transformado numa onça ou ter renascido em alguma lua cheia no corpo de uma criança. O korubo considera a onça como animal sagrado. Muito sério fala: -- A onça é parente, é sagrada. Quando ela tá com fome fica rondando a aldeia, nóis sente o cheiro de ela e os caçadores buscam caça e damos para a ela e assim ela não pega nóis, só os branco que entram na mata. A liderança em sua tribo é por um cacique que tem 150 anos ou muitas luas. Conta como fumam plantas medicinais e fazem a comunicação com os 'píritos enquanto todos cantam os cantos da lua cheia. Os instrumentos musicais são feitos de bambu (sopro); unhas de veado secas que se colocam nos pés para fazer o zunido (triniuxa). Em a aldeia tudo é dividido, se pega um peixe ou uma caça divide com a comunidade. As tarefas nunca são de homem ou de mulher, ambos exercem todas as atividades. O horário de dormir é antes do sol entrar, mais ou menos 5 horas da tarde e acorda com a lua entrando, às 4 horas da manhã ou menos, que é um bom horário para a caça. Kashalphynya 'tá vivendo ultimamente em Brasília onde constrói casas em cima de árvores e caça animais silvestres ou até domésticos para se alimentar. A Funai não o reconhece como índio porque nunca quis fazer documentos e nem tampouco levar algum indigenista à sua tribo. A presença desse cacique chama a atenção na capital federal pois de sua casa no alto de alguma árvore desafia as autoridades que pretendem fazer do parque Noroeste um importante condomínio e afirma ainda que só sai de lá morto. O discurso desse indígena é noticia em todo o mundo, pode se ver alguns vídeos publicados sobre ele na internet. Se depender de ele não haverá o Setor Habitacional Noroeste em Brasília onde será o metro quadrado mais caro da capital federal, considerado o Cinturão Verde da região metropolitana de Brasília. Essa área é para índios sagrada porque foi um cemitério indígena e segundo a concepção de eles nunca pode ser violado e acima de tudo defendem o grande lençol de água que existe na região, ou seja um rio subterrâneo que será destruído se o local for habitado. Mais informações sobre o santuário no texto do overmano Marcelo Manzatti Kashalpynya se juntou a outros índios de 8 tribos que insistem em não sair da área: as etnias Fulni-ô, Cariri-Xocó, Korubo, Guajajara, Pankararu e Tuxá. Para isso eles recorrem à Organização das Nações Unidas (ONU) e têm muitos aliados como fundações, Ongs e voluntários além do apoio de todos indígenas brasileiros. Essa região é habitada por indígenas há mais de 20 anos que lá plantam milho e vivem do artesanato. Kashalpynia insiste em dizer que as autoridades não querem entender que a resistência indígena não é somente porque não querem sair da terra e sim por a defesa do Santuário Sagrado dos Pajés e o grande berço de águas que será destruído com as construções. Muito triste e com a voz pausada, ele repete sempre: -- O Grande Espírito quer os homens protejam a natureza que busquem a 'piritualidade e não só o dinheiro. Kashalpynya representa o índio tal como ele era no ínicio da colonização: não muda e não adere aos costumes do homem branco nem que para isso tenha que enfrentar o mundo. Quando fala da depredação da natureza se emociona e lágrimas correm dos olhos miúdos. Afirma que o homem precisa da 'piritualidade para viver e 'quecer a ganância por o dinheiro. Kashalpynya é uma voz gritando na capital federal junto com outras etnias por o Santuário Sagrado dos Pajés, por os grandes bolsões de água 'condidos no cerrado que eles conseguiram preservar. Sua pureza de 'pírito contrasta com as leis, com a 'peculação imobiliária e acima de tudo com a vontade do maior e do mais forte. Segundo ele o homem branco tem ações contra o índio e contra a natureza e até contra si mesmo como há 508 anos atrás. Número de frases: 88 Existem pelo menos duas formas de começar a contar 'sa história. A primeira de elas passa por Barra Mansa, cidade do Sul Fluminense, e tem como personagem o grupo de capoeira Abadá (Associação Brasileira de apoio e desenvolvimento da arte). O outro cenário possível é Chambéry, capital do departamento de Sabóia, França, em 'te caso os protagonistas são os b. boys e as b. girls da companhia Fradness». Mas a história começa de fato quando as duas cidades se encontram por as pernas, num intercâmbio cultural que já acontece há pelo menos sete anos. Tudo começou quando numa de suas viagens por o mundo o artista circense Thomas Bodinier passou por o Rio. Além de cultivar as artes do circo, o francês mantinha firmes relações com a dança de rua. Por aqui Thomas teve contato com a capoeira e rapidamente ficou fascinado com os movimentos utilizados na dança. Apesar de alguns membros das duas culturas se ocuparem em identificar as diferenças, o fato é que a capoeira e o break compartilham não apenas movimentos, mas comungam também certas semelhanças em seus aspectos filosóficos. A própria história da capoeira e do break tem em comum um denso processo de resistência cultural e afirmação racial. É justamente 'te processo que envolve a construção de identidades (que torna o break mais do que uma dança, e a capoeira mais do que uma luta) que fez Thomas se aproximar da rapaziada do Abadá Capoeira. Podemos até mesmo dizer que 'te choque entre o Hip-hop e a Capoeira é uma encontro entre dois elementos de uma grande diáspora negra. Mas acima de qualquer teorização os fatos ainda me parecem mais interessantes para continuar contando 'sa história. De o lado de cá, o pessoal do grupo Abadá movimenta Barra Mansa no gingado da capoeira, trazendo grande parte da molecada do bairro Vista Alegre pra dentro das quadras e terreiros. De o lado de lá, além de funcionar como uma companhia de dança, o grupo Fradness ´ utiliza o break num trabalho social com a juventude de Chambéry. É curioso perceber que a proposta dos grupos não é muito diferente, talvez porque (salvo as proporções) os problemas vividos aqui e lá também não sejam tão diferentes quanto se imagina. Como em milhares de cidades 'palhadas por o Brasil, a maior parte da população de Barra Mansa é pobre e vive um cotidiano marcado por a 'cassez e a dificuldade de acesso aos bens sociais básicos. Chambéry, como tantas outras cidades francesas, tem uma grande colônia de imigrantes argelinos e marroquinos, pessoas que encontram dificuldades de inserção plena na sociedade francesa. É o contexto de cada cidade e as iniciativas eleitas por cada grupo para interagir com 'ses contextos que tornam possível o encontro entre os capoeiristas brasileiros e os b. boys franceses. Esses encontros já acontecem há sete anos, quando a primeira turma de dançarinos veio ao Brasil conhecer de perto a experiência do grupo Abadá. Daí em diante o intercâmbio não parou mais, brasileiros foram e franceses voltaram. Parte do grupo Fradness ´ veio ao Brasil em agosto para cumprir uma verdadeira maratona: foram mais ou menos quinze dias realizando uma oficina de dança por dia em diferentes bairros de Barra Mansa. Em 'te período, os franceses ficaram hospedados nas casas do pessoal do grupo Abadá. B. boys e capoeiristas dormiam, acordavam, comiam e trabalhavam juntos. Vivência que fez o processo de troca ainda mais intenso. Tive o prazer de presenciar 'te encontro dia 11 de agosto, quando Abadá Capoeira e Fradness " fizeram juntos uma apresentação no SESC de Barra Mansa. Por puro acaso eu 'tava cantando num evento na pista de skate do mesmo SESC. Em o final do show alguns dos franceses se aproximaram e me convidaram para assistir à apresentação do 'petáculo «Eclipse». Fui até o teatro, que 'tava completamente lotado, e conferi um belo diálogo entre culturas, um diálogo sem palavras, proporcionado apenas por os movimentos do corpo. A platéia aplaudiu de pé, foi realmente emocionante. A o final do 'petáculo eu e a dupla Beatbass High Tech (produtores locais de hip-hop) fomos trocar uma idéia com os franceses. Em 'sa conversa conheci Coquinho, um dos idealizadores do Abadá, que me convidou para participar da grande despedida do Fradness `. A festa iria acontecer no dia seguinte na quadra de Vista Alegre. O domingão chegou com um sol forte, o dia prometia! Logo depois do almoço partimos para Vista Alegre, chegamos na quadra por volta das 15h. O lugar já 'tava bem cheio, eram famílias inteiras ocupando por completo a arquibancada da quadra de 'portes que naquele domingo serviria também como palco. Fiquei feliz em saber que já era a segunda edição do evento batizado de «Mostra de culturas urbanas de Barra Mansa», além do break, do rap e da capoeira, chegaram junto também a rapaziada do skate e do basquete de rua. Prova da busca por diálogos entre as diferentes atividades praticadas por a juventude daquela cidade. A mostra é corajosamente organizada por Coquinho que, além de capoeirista do grupo Abadá, tem um programa de rap numa rádio local. Algum apoio foi dado por comerciantes da região e por amigos que correram atrás de arrumar equipamento de som e todo resto necessário para a realização do evento. Depois do grupo Abadá abrir os trabalhos com uma bela exibição de capoeira, Coquinho tomou o microfone e anunciou: «Boa tarde comunidade, vamos fazer uma festa bonita aqui hoje! Eu chamo pra cá um rapaz que veio lá de São João de Meriti pra trazer um rap aqui para a gente». Era a minha deixa. Catei o microfone e acompanhado do meu parceiro Raphael Garcez fiz um dos meus shows mais bacanas. Cantamos no chão da quadra, numa situação onde nós e a platéia 'távamos no mesmo plano. O ambiente era ótimo. O cenário abrigava b. boys e capoeiristas que dançavam enquanto, do outro lado da quadra, o basquete de rua e o skate comiam solto. Em a seqüência a atração foi um grupo de dança da comunidade. Os Novinhos requebraram no ritmo pesado do Funk, as meninas foram ao delírio! Jessy Rap, outra cria da comunidade de Vista Alegre, chegou junto para lançar seu terceiro CD. Como diz a ficha técnica do álbum: «Todas as músicas idealizadas por Jessy Rap», as 14 faixas do disco foram gravadas por o rapper em seu próprio 'túdio caseiro. O microfone foi passado para as mãos do Fraternidade Rap, a dupla de Volta Redonda chamou atenção com um som que canta a continuidade do negro drama. A festa corria muito bem, o público aplaudia, dançava e interagia com cada atração, mas a coisa realmente pegou fogo com a apresentação do Fradness `. Foi aí que o povo desceu da arquibancada e invadiu a quadra sem menor cerimônia. Tudo que acontecia ali foi feito em função da comunidade, as pessoas sabiam disso e não deixaram por menos. B. boys, capoeiristas e o povo de Vista Alegre formaram um corpo só, uma grande roda de break onde os mais corajosos puderam se aventurar a apresentar suas habilidades na dança. Dentro ou fora da roda todos dançaram, riram e viveram um dia 'pecial. Era de fato a comemoração por todo processo vivido naqueles quinze dias em que franceses e brasileiros deram um passo maior que qualquer perna. Um passo que só é possível quando é dado de forma coletiva. Que atravessa fronteiras geográficas e culturais e nos faz perceber que somos todos formados por pés, quadril e coração. Número de frases: 66 Não somos assim tão diferentes quanto se pensa. Conheci o músico e compositor Lenine através de um amigo em comum. A o saber que eu era do Espírito Santo ele foi logo confessando sua paixão por orquídeas, e a vontade de conhecer as reservas desse 'tado. Tava feito o convite, e ficou combinado o passeio então. A orquídea é uma flor hermafrodita com variadas dimensões e cores, que floresce apenas uma vez por ano. Sua floração dura de três dias a um mês, variando de acordo com cada 'pécie. São mais de 35m il 'pécies já descritas, além das formas híbridas produzidas por cruzamento de forma 'pontânea e cultivada. Lenine um dia comprou um sítio e levou lá um agrônomo para mapear o terreno. Durante o mapeamento eles acharam três plantas de uma mesma 'pécie, uma de elas florida. Ele fotografou, começou a pesquisar e o hobby começou. Hoje ele tem uma coleção significativa com mais de 2 mil orquídeas, entre elas, 600 'pécies brasileiras. O Espírito Santo é considerado o lugar do planeta com maior diversidade de orquídeas por m 2. São vários os orquidários 'palhados por o 'tado, e tem muita planta pra ser descoberta ainda. Em o município de Brejetuba tem uma chapada de uns 4 km, ironicamente chamada de Monte Feio, onde a gente tem que olhar para o chão pra não pisar nas orquídeas e bromélias. O passeio, foi ótimo! Fomos falando de nossos colono-exploradores que derrubaram todos os bons paus do Brasil. Fomos mirando as montanhas 'culpidas, e redescobrindo um tempo outro de respirar. Ainda por cima a luz tava linda e eu fiquei ouvindo e aprendendo sobre 'sas particulares e exóticas plantas. Fiquei sabendo que as plantas são classificadas por um nome genérico e outro restritivo 'pecífico. O primeiro nome refere-se ao gênero a que pertence, e o segundo à 'pécie. E é através da classificação que seu modo de cultivo é determinado. E o modo de cultivo determina o desenvolvimento da orquídea. É legal, por exemplo, fazer os arranjos com o xaxim da região de origem da planta para evitar a desidratação. Fiquei sabendo que os pesquisadores que trabalham no resgate das plantas abandonadas por os madeireiros, após a derrubada das árvores, tentam replantar as orquídeas na própria região pra não liquidar com o ambiente natural. E que, em orquidários particulares na Europa, existem varias 'pécies originadas da Mata Atlântica. Algumas que não são mais encontradas aqui, inclusive. Até que a gente pegou uma 'tradinha e chegou ao Orquidário Sávio Caliman, em Venda Nova do Imigrante. O lugar é um sítio com galpões que eu só consigo descrever como uma dimensão paralela disfarçada de 'tufa. Eu, toda atenta, observando pra 'crever depois, entrei no portal e zás: Não sei pra onde fui. Esqueci o Lenine, 'queci a matéria e danei a fotografar. Sei que por os corredores surgiam flores de todos os lados. Arranjos vinham do teto, 'culturas surgiam do chão e uma enorme quantidade de vasos de mudas se 'palhavam por as mesas. Parecia uma galeria de arte com uma única e enorme instalação repleta de detalhes. Sei que conheci as orquídeas: planta, que segundo Confúncio, exala um perfume de reis. E sei que nunca vi tanta cor na minha vida. Nunca vi tanta beleza. Comecei a achar os nomes próprios das belas plantas tão atraentes quanto as cores multifacetadas, e fiquei pensando que preciso separar um tempo pra sentar no balanço de parque, chupar picolé e freqüentar orquidários. Lenine contou que já tinha viajado muito quando pegou a virose incurável das orquídeas. E que ficou pensando como teria sido bom ter descoberto antes 'sa paixão. Ele às vezes utiliza a palavra hobby, mas é por humildade. O cara leva a sério mesmo o cuidado com as plantinhas. E tá construindo um rico banco genético com a sua cuidadosa e catalogada coleção. E também 'crevendo um livro sobre as orquídeas que foi encontrando. «A música tem sido muito generosa com mim e me levado a muito lugares. Em o livro falo das plantas que acabei descobrindo, das pessoas que acabei conhecendo em cada região». Ficou mais fácil entender a paixão de Lenine quando conheci também Dona Tecla e Seu Gustinho, moradores antigos da cidade e pais do gentil Sávio, produtor e pesquisador culpado por o paraíso. Todos gente muito boa! Gente da melhor qualidade que nos recebeu de braços abertos. E como se não bastasse a sinestésica e honrosa experiência de ser apresentada às orquídeas, comemos queijo, tomamos uma dose da pinga fabricada por o Seu Gustin e ouvimos as filosofias desse sábio agricultor. Foi o final de uma trip cujo mote, a gente foi descobrindo: era a generosidade. Lenine levou 20 'pécies de mudas. Eu volto lá sempre que posso. Os madeireiros continuam abandonando as orquídeas, que eles chamam de parasitas. Orquidário Sávio Caliman Rodovia Br-262. Km 105. Entrar no Auto Posto Esmig, prosseguir na Avenida que margeia a Br até a Padaria Bel Pan. Virar à direita, seguir por a Avenida Lorenzo Zantonadi até o final. Seguir em frente por a Estrada de Lavrinha por mais 2,4 Km.. Virar à esquerda imediatamente antes da pequena mata em frente a um galpão, e seguir por mais 300 metros. Número de frases: 61 Oscar Santos é um dos mais importantes nomes da música amapaense. Se 'tivesse vivo já teríamos comemorado seu centenário. Nascido no dia 29 de dezembro de 1905, no município de Abaetetuba, Estado do Pará, teve o bombardino como primeiro instrumento musical e dedicou-se ao ensino da música por vários municípios e localidades paraenses, formando bandas sinfônicas e conjuntos musicais por onde passava. No entanto, seu primeiro emprego no Amapá foi como fiscal de obras (apontador) e não possuía documentos que o habilitassem na área de música. «Meu avô foi um autodidata», diz Lúcia Uchoa, uma das netas. Em a banda Carlos Gomes e no conjunto Euterpe Jazz, mestre Oscar aprendeu, graças à sua afinidade com instrumentos, a tocar percussão, bateria, saxofone, clarinete e flauta transversa. A os 17 anos, começou a compor para a banda e, como 'tudou praticamente sozinho, criou os próprios métodos e técnicas, que logo passou a utilizar nas aulas de música. A partir de janeiro de 1945, durante o governo de Janary Gentil Nunes, primeiro governador do território, Oscar Santos transformou-se num grande educador musical. Foi o responsável por a Academia de Música Oscar Santos, preparando várias gerações através da prática de bandas. De a orquestra Oscar Santos saíram os primeiros grupos musicais do Amapá, entre ele Os Cometas. Este homem revolucionou a educação e a cultura musical, no então território federal, ensinando todos os instrumentos na área de sopros, percussão, violão, violino, acordeon, teoria musical, bandolim e piano. A Banda de Música Oscar Santos, praticamente desativada por falta de apoio do poder público e do setor empresarial, foi fruto do trabalho desenvolvido por o mestre na antiga Escola Industrial de Macapá, que mais tarde virou Ginásio de Macapá, hoje Escola Integrada de Macapá. Funcionou de 1962 a 1976. O convite para que Oscar Santos ensinasse música na Escola Industrial de Macapá foi feito por a professora Aracy Miranda de Mont'Alverne, secretária de Educação. Santos foi recebido por o diretor Antenor Epifânio Martins, mais tarde homenageado com o Dobrado Epifânio Martins. Os alunos da Eim foram homenageados com o Dobrado -- Os bonequinhos, por o fato do uniforme da 'cola ser todo azul e os alunos serem chamados de «bonequinhos de anil». Era assim, através da música que prestava suas homenagens. Joaquim França, hoje regente da Orquestra Filarmônica de Brasília, e José do Carmo Freitas (Nambu), ex-maestro da Banda de Música da Polícia Militar, são dois exemplos de sucesso no resultado do trabalho de Oscar Santos, que também formou um conjunto feminino só de acordeons e percussão e promoveu excursões por municípios do Amapá e do Pará. Aimorezinho, Sebastião Mont'Alverne e Nonato Leal, outros músicos famosos no Estado, também passaram por as mãos do mestre. «Tenho uma lista de pelo menos 30 amigos que passaram por a 'cola de música Oscar Santos», revela o cantor e compositor Nivito, lembrando que ele e seus pais, Ernani Vitor e Marli Guedes, foram alunos do mestre. Exigente, ele determinava que seus alunos lessem a partitura, e os incentivava a «tirar música de ouvido», pois assim aprenderiam a tocar os diversos gêneros da música popular brasileira. Oscar Santos compôs dobrados, marchas, valsas, hinos, missas, boleros, sambas, quadrilhas, choros, frevos, carimbó e poemas. De seus 13 netos, cinco são professores de música e cuidam da preservação de seu acervo. São mais de 560 obras, sendo 123 de elas exclusivas do mestre. Convidado por o diretor pianista Altino Pimenta, em janeiro de 1952, mestre Oscar fez parte da primeira equipe do corpo docente do Conservatório Amapaense de Música, depois transformado em Escola de Música Walquíria Lima (a única 'cola de música da cidade), responsável por as disciplinas: teoria musical, solfejo e harmonia. Canção do Amapá Em abril de 1944, Oscar Santos conheceu Joaquim Gomes Diniz, advogado da prefeitura de Macapá entre 1920 e 1945. Diniz resolveu homenagear o novo território compondo a letra de uma canção e pediu ao mestre Oscar que colocasse música nos versos. Assim surgiu a Canção do Amapá, que virou o hino oficial do Estado, uma composição que fala de um povo destemido de um certo rincão brasileiro. Outro fato importante aconteceu no final da década de 50, com Dobrado 15, de sua autoria, gravada por Altamiro Carrilho e sua Bandinha, através da Som Indústria e Comércio (Discos Copacabana), com o título Dobrados em desfile. Em o disco, não foi divulgado o nome do autor, mas sim a palavra Macapá. Durante muito tempo Altamiro Carrilho procurou o autor do Dobrado 15. Chegou a anunciar em seu programa da rádio Tupi do Rio de Janeiro e nada. Os jornais locais divulgaram o fato e, anos mais tarde, descoberto por Carrilho, mestre Oscar foi parabenizado por a autoria do Dobrado 15. Oscar Santos ainda teve tempo de ver os frutos de seu 'forço. As primeiras bandas marciais das 'colas públicas de Macapá foram organizadas por seus alunos. Alguns de eles ingressaram na banda de música da Polícia Militar e fizeram carreira, como é o caso do tenente Sampaio (Nambu), que chegou a regente. Outros ingressaram no Exército e na Aeronáutica. É o caso do subtenente Marinho, sobrinho do mestre, trompetista que se dedica até hoje a fazer arranjos para bandas de músicas e transcrições de melodias da música popular. Também há aqueles que atualmente são professores de música, Brasil afora, como o professor Biraelson Corrêa, da classe de trompete da Escola de Música da Universidade Federal do Pará. Em 1976, aos 71 anos da idade, mestre Oscar Santos começou a enfrentar problemas de saúde, mas não abandonou sua missão com a banda de música. Faleceu no dia 25 de março de 1976, tendo o seu corpo sepultado no cemitério de Nossa Senhora da Conceição, no centro de Macapá. Em a ocasião de seu sepultamento a banda de música do Ginásio de Macapá passou a se chamar Banda Oscar Santos. Mestre Oscar Santos faz parte do livro Trilhas da música, onde existe um artigo assinado por sua neta Lúcia Uchoa, como resultado de dissertação de mestrado onde ela destacou As bandas do Amapá e o Mestre Oscar Santos. Número de frases: 45 * Texto editado a partir de homenagens prestadas ao músico por os jornalistas Paulo Silva e Walter Júnior, por ocasião do centenário de mestre Oscar Santos, em 29 de dezembro de 2005. A vida é cheia de boas surpresas. Em um dia de mau humor, minha amiga Carol insistia para acompanhá-la a um show. Eu fui sem 'perar muita coisa, confesso. Em a primeira palavra da primeira música, me rendi. Kadu Vianna, 'se mineiro de Nova Lima, dono de uma voz doce e personalidade idem, é simples e charmoso como suas canções, e também vai te conquistar no primeiro acorde. O músico lançou seu último CD Dentro em junho, no Teatro Dom Silvério. Em o show, a característica intimista do álbum se transfere para o palco. O cenário, composto de lindas fotos de objetos de casa plotadas e emolduradas, a iluminação e a banda com formação em trio, com Aloízio Horta no contra-baixo e Arthur Rezende na bateria, trazem um verdadeiro clima de «sinta-se em casa». Sensação parecida eu tive no nosso encontro: quando comecei a entrevista, até tirei o bloquinho onde tinha anotado perguntas, mas nos dois primeiros minutos aquilo virou conversa de bar. Ou melhor, de café. Me senti tão à vontade que nem posso considerar isso uma entrevista, e sim um gostoso bate-papo. Mm: O interesse por a música surgiu de onde? Kadu: Sempre tive contato com a música na família. Meu tio, Eugênio Britto, é violonista, compositor e intérprete, tenho uma tia que é cantora, e minha mãe é artista plástica. Eu nunca tinha pensando seriamente em seguir carreira até que o Flávio Henrique (músico e compositor mineiro) me viu cantando na Babaya (famosa 'cola de música de Belo Horizonte) e perguntou: «Você não pensa em gravar um CD?». Até então não tinha pensado, mas parecia uma boa idéia. Meu pai me ajudou com uma grana e começamos a produzir algumas músicas no 'túdio de ele, mas na época o Flávio 'tava fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, e acabamos interrompendo o trabalho. Mm: Mas como surgiu o primeiro CD então? Kadu: Logo depois da primeira experiência do 'túdio, conheci o produtor Vladimir Garcia, que de cara entendeu minhas pretensões. Sempre quis que o meu som fosse universal, e não somente associado a Minas Gerais. O disco tinha direção artística de Luiz Brasil (que já trabalhou com Caetano Veloso, Gal Costa, Elza Soares e outros famosos da música) e tinha ótimas canções, de músicos queridos como o Moska (Só me Dão Solidão) e o Chico Amaral (Rádio). O álbum saiu em 2003. Mm: Eu já tinha ouvido Rádio na «rádio» antes desse ano ... Kadu: Pois é, isso é engraçado. A versão que toca até hoje é a que gravei com o Flávio Henrique. As pessoas gostam de 'sa música ... Mas gravamos um arranjo diferente em 'se CD. Mm: E a música do Moska? Como chegou até você Kadu: A composição do Moska foi interessante. Pedia muito uma música para ele, que sempre respondia «não tenho». Em o fim das contas, me deu uma canção que fala «não têm» várias vezes na letra. É importante falar do Magno Mello também, que é um grande parceiro. São de ele quatro canções do disco: Coração Polar, Sonhei que Estava todo Mundo Nu, É Onde Você Mora, e Quantas Religiões tem o Mundo? Mm: Existia uma expectativa em torno desse disco, já que tinha tantos nomes importantes da música envolvidos? Como foi a recepção de ele? Kadu: Tinha sim uma grande expectativa em torno desse CD, mas acabei me decepcionando um pouco. Tivemos muitos problemas com divulgação e distribuição, acabou vendendo menos que o 'perado. Foi difícil para mim, 'pecialmente porque 'tava todo mundo falando do lançamento desse álbum. Em 'sa fase entrei num processo complicado, quase de depressão mesmo. Se não fosse a minha família e a Lu (Luciana, noiva do músico) do meu lado, não sei como teria sido. Voltei a trabalhar com o meu pai, que é representante comercial. Já tinha trabalhado com ele aos 18 anos. Entrei para a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) em 'sa época também, em 2004. Mas 'tava indo mal na faculdade, não sabia o que fazer. Mm: Como você superou o momento e gravou o disco novo? Kadu: Um dia meu amigo e músico Chico Amaral falou uma coisa com mim: «A música é muito ciumenta; para a música se dar para você, é preciso se dar para ela também». Fiquei pensando sobre isso e resolvi começar um novo trabalho. Fui reunindo músicas e parceiros, e tive controle de todas as fases de produção. Esse eu posso dizer que é meu disco, ninguém botou o dedo em ele. Ele me reflete musicalmente. As canções são minhas, mesmo que em parcerias, e a produção do álbum também, assim como os arranjos, guitarras, violões e vocais. O CD teve patrocínio da Eletronet e Fran Representações Mm: Qual a principal diferença que você enxerga entre o primeiro e o segundo CD? Kadu: Principalmente na questão de maturidade mesmo. Em 'ses quatro anos ouvi muita música, além de ter começado o curso de Canto Lírico na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Mas vejo que no meu primeiro trabalho, o foco 'tava em encontrar boas canções, mas elas não necessariamente dialogavam entre si. Em Dentro, o repertório foi 'colhido com a preocupação de que todas as músicas tivessem uma guia central. Mm: Esse guia central é o tema «amor»? Você se considera uma pessoa romântica? Kadu: Também, mas existe uma sonoridade em comum entre as músicas. Você ouve o cd, percebe que as canções 'tão dentro de um mesmo lugar. E sou romântico sim, daqueles irremediáveis. Kadu: Você não me perguntou o porquê do nome Dentro ... Mm: É mesmo ... É que para mim pareceu claro, 'sa coisa intimista e particular do disco. Mas não seja por isso: Por que o nome Dentro? Kadu: Então, a história do nome é boa. Eu queria um nome simples, uma palavra única. Primeiro pensei em Quatro, mas logo depois os Los Hermanos lançaram o álbum com 'se mesmo nome. Depois eu queria o nome Quarto, mas daí a Ana Carolina lançou o Dois Quartos. Aí resolvi por o Dentro, torcendo que ninguém pegasse o nome antes de mim! Mas acho que é um nome com várias significações, encaixou bem no disco. Queria dar 'sa sensação caseira mesmo, que tentei levar para o palco. Mm: O CD e o show são recheados de parcerias. Isso é uma parte importante do seu trabalho? Kadu: Super importante. Sou um músico que valoriza demais quem trabalha com mim, e sempre acho que eles aparecem menos do que deveriam. Também tenho uma mania de valorizar mais ou outros que eu mesmo, mas acho que isso é porque tenho consciência que não faço nada sozinho. As parcerias ensinam muito também. O Magno Mello, por exemplo, já fez uma experiência de imersão com mim: fiquei três dias na casa de ele só compondo: sem televisão, computador, rádio, nada. Ele chegou a pedir que eu ficasse nu no meio da sala e cantasse as minhas músicas, sozinho. Quer coisa mais genial que isso? Ele é meu parceiro desde o primeiro CD. Em Dentro, também trabalhei com Leo Minax, Murilo Antunes e Pedro Morais, além das participações super 'peciais de Milton, Flávio Henrique e Marina Machado. O Flávio e a Marina 'tiveram no show de lançamento com mim. Mm: Como foi 'sa participação do Milton Nascimento? Kadu: Ahhh ... Conhecer o Bituca foi demais. Tudo começou quando um CD meu chegou até o Bebeto (aquele da música «Paula e Bebeto», Kadu mesmo explica), e ele mostrou para o Milton. Em a época ele 'tava em Búzios, e não ouviu meu CD logo que recebeu. Mas depois acabou se interessando por o meu trabalho. Em 2005, antes de gravar o Dentro, fui fazer um show no bar Vinnil, e ele quis me ver. Foi até engraçado porque era 1º de Abril, e achei que queriam me pregar uma peça. Mas era verdade, ele foi, nós conversamos, ele elegiou meu trabalho e viramos amigos. Achei que ia ficar nervoso, mas não fiquei ... E a participação no CD foi um presente ... ( Em Dentro, Milton canta a música Miragem com Kadu e Marina Machado) Mm: Ainda te incomoda ser comparado com outros artistas, como Pedro Morais? Kadu: Essa coisa de comparação é muito chata. Eu e o Pedro somos muito amigos, compomos juntos, mas nunca achei que nosso trabalho fosse parecido, muito menos digno de comparação. Conheço ele há muitos anos, mas não vejo porque rotular um como melhor que o outro. Acho que até por isso nós dois começamos a procurar outros caminhos, outros parceiros. Mm: Você acha que novamente 'tá surgindo uma «turma» em Belo Horizonte com algumas características musicais em comum, como já aconteceu com Skank, Patu Fu, Jota Quest? Você, o Pedro, Marina Machado, Flávio Henrique, etc? Kadu: Não acho que seja uma turma tão unida, no sentido de conquistar coisas juntas. Esses que você citou são meus parceiros, mas é tudo muito segmentado. Você não vê o Skank convidar a Fernanda Takai para compor uma música. É uma coisa em 'se sentido ... Surgem sonoridades parecidas, mas isso não significa que a galera trabalha junta, como era no Clube de Esquina, por exemplo. Mm: O que toca no seu som? Kadu: Muita coisa. Norah Jones, Jamie Cullum, Paul McCartney, James Taylor. Uma galera daqui também, Flávo Henrique, Marina Machado, Júlia Ribas, Elisa Paraíso, Mariana Nunes. Tenho ouvido muito o CD novo do Leo Minax. * * * * * * * Kadu Vianna faz dois shows de lançamento do CD Dentro nas próximas semanas. O primeiro acontece em Nova lima, no dia 02 de setembro, domingo, às 20h30, no Teatro Municipal de Nova Lima. O outro, no dia 15, sábado, vai ser realizado no Armazém Digital, no Rio de Janeiro, também às 20h30. PS. A conversa ainda rendeu na pós-entrevista, que de café virou almoço, e coletei outras informações preciosíssimas: Kadu tem três cachorros e uma gata, 'sa que possui o singelo nome de Amélie Poulain, e já teve uma iguana quando era mais novo. Ele morreu de rir da história sobre a fuga seguida de morte de uma das minhas tartarugas, que Deus a tenha. Sonha em fazer parte de uma produção da Broadway e talvez viaje para Nova Iorque ainda 'se ano para tentar alguns testes. Atende os telefonemas da noiva sempre com voz carinhosa e paciente, de eterno apaixonado, e nem por isso deixa de fazer gentilezas para outras mulheres, como abrir a lata de refrigerante para mim, porque senão, como ele disse, «minha unha pode quebrar» ... Número de frases: 158 Entre A Caça E O Caçador O Velho Soneto Resiste «Anibal Beça *» che fanno altrui tremar di maraviglia " Francesco Petrarca Navegando dia desses por a Internet, aventura de capitão de primeiro-curso, dei de cara -- de entre as formalidades mais ousadas do ponto de vista plástico-visual e de linguagem -- com a página de um poeta cibernético. E na telinha do meu pentium, solenemente 'tampado, lá 'tava um velho soneto novo. Ou seria um novo soneto velho? As duas proposições fizeram com que eu saísse do momento sistêmico virtual para a minha realidade real: -- Peraí, mas a poesia não morreu? E o velho álbum de poemas das normalistas do meu tempo ainda existe? Onde? E as moiçolas lânguidas dos saraus? As frases soavam como versos Foi aí que me dei conta, memória de declamador, de que eram versos mesmo, que ficaram bem guardados, do poeta Fernando Mendes Viana, pinçados do seu belíssimo «Alerta ecológico». Fernando, em 'se poema, denuncia e questiona a nossa vida atual, programada em 'cala industrial, que dizima poetas e borboletas. Então o poeta seria um ser em extinção, sem lugar em 'sa Nova Ordem Mundial. Diante deste paradoxo, o poeta, começa a perguntar a si e aos outros, à procura dos culpados: «Afinal de contas não acabaram os domingos, nem acabaram as adolescentes, nem os piqueniques. Há menos ilusões, é bem verdade. E os jardins e as praças 'tão mais poluídos. Mas ainda há poetas e borboletas. Por que nos caçam em extermínio metódico?" A pergunta do poeta se encorpa com a deste que te 'creve, leitor: Por que caçar Poetas? E borboletas? Em o poema, poeta e borboleta se confundem num só gênero do reino animal, mas com a ressalva de que: «algumas variedades acabaram: o poeta romântico e a borboleta de lentas e grandes asas como leques azuis. Transformados de tuberculosos em burocratas e de malditos em bandejas, professores, críticos, homens de propaganda, pires, pratos, medalhões de souvenirs. Somos a 'drúxula atração de alunos e turistas. Espetados atrás de vitrines ou 'magados -- entre as páginas gordas de um dicionário ou Um vademecum de tabus e códigos -- As asas do poeta e da borboleta viram pó. Mas para os poetas há mais 'perança do que para os lepidópteros: Vendemos menos». A sentença sardônica do poeta cai como um paradigma: não se edita mais poesia por que poesia não vende e, por conseguinte, se não vende, morreu. Bom, de 'sas mortes anunciadas, já 'tamos acostumados, aliás, desde que fomos expulsos da República de Platão. Por isso, continuamos mortos, redivivos. O surpreendente de 'sa discussão, o tema que nos interessa aqui, é mesmo a vitalidade desse poema de 14 versos, que desde a sua invenção (atribuída ao poeta siciliano Giacomo da Lentino, 1180-1190?) vem caminhando e construindo sua história com um charme irrefutável. É verdade que ele foi 'nobado por os românticos, mas logo os parnasianos fizeram de ele seu tour-de force tão exacerbado, que os modernistas, em sua maioria, entre muxoxos e mugangas, deixaram-no à margem, mas, imediatamente, a geração de 45 o entronizava de novo. Acredito que a perenidade da forma 'teja ligada ao seu modo de propor o «claro enigma» com seu enunciado, passando por a mensagem até o chamado insight do poema ou como queriam os parnasianos: a chave de ouro. Seja na forma petrarquiana, 'trambótica ou inglesa, o velho soneto vem reagindo e sendo experimentado até por correntes da vanguarda. Claro que a linguagem e sua sintaxe são outras. Mas a questão remete a outro velho imbróglio. A poesia deve se voltar para as velhas formas ou abandoná-las por ousadias ditas modernas? Para ilustrar 'se affaire tomo declarações de vários poetas, que não por acaso vêm de encontro ao que penso e professo. Formalmente, a poesia não poderia chegar a ser mais livre do que já foi até hoje. Todas as experiências com a palavra organizada no conjunto poético já foram tentadas. Diante desse 'gotamento 'tético, percebe-se uma volta, lenta e gradual, à poesia de forma fixa, à rima e à métrica, ou seja, o retorno àquela herança de mais de vinte séculos de prática poética ocidental e que não tem sentido ser 'quecida e muito menos relegada. Para o poeta, ensaísta e tradutor (Baudelaire, Eliot, Dylan Thomas) Ivan Junqueira, um dos representantes mais respeitados de 'sa corrente de pensamento, as vanguardas, sobretudo as que se desenvolvem fora do sistema da língua, aquelas que necessitam das muletas de outras modalidades artísticas, " tornam-se autofágicas e epigônicas, em sua busca pirrônica do novo por o novo, o que levou um poeta como Eliot a exaltar o velho para que o novo pudesse sobreviver. É por isso que costumo dizer que não se pode «make it new» sem, em certo sentido, «make it old» e arremata citando Eliot: «não há o novo sem o antigo, mesmo porque o» tempo presente e o tempo passado 'tão ambos talvez presentes no tempo futuro, e o tempo futuro contido no tempo passado. ( In «O 'tado do Maranhão», 22/08/99, entrevista concedida ao poeta Luis Augusto Cassas). O fato é que as vanguardas se exauriram na busca do novo, ao ponto de, por o cansaço, retornarem com nova leitura, no afã de extrair de tais formas, novos efeitos poéticos. Carlos Drummond de Andrade, em certo momento, inquirido a respeito do assunto, preferiu sugerir outra tarefa: «a de disciplinar o chamado caos moderno, a de pesquisar e 'tabelecer as leis da poética moderna, leis de gosto, de psicologia, de filologia, de ritmo e de métrica». Manuel Bandeira, que iniciou sua carreira poética com um soneto, nos revela em seu «Itinerário de Pasárgada» (ele que havia pregado a licensiosidade contra o surpreendendo críticos e leitores por o seu gosto em poesia, das formas tradicionais: «gosto das formas fixas porque elas são padrões 'tróficos de raro equilíbrio, vivazes, mnemônicos, porque satisfazem o meu gosto de ordem, de disciplina». Para Mário de Andrade, a poesia " se tornará cada vez mais livre, mas no sentido de libertação de 'colas e de definições exclusivistas. Não se trata de voltar a processos de poética que jamais foram abandonados. Trata-se apenas de adquirir maior equilíbrio entre a realidade de um determinado 'tado-de-poesia e os elementos de poética que lhes sejam mais adequados». Citei quatro opiniões de grandes poetas brasileiros como poderia ter trazido as de outros poetas cidadãos do mundo e de outras línguas. A recomendação que se entrega, principalmente para os que se iniciam agora, é, de entre outras coisas, a de que não importa a forma 'colhida para o seu poema. O que importa são as suas idéias, imagens, ritmo, apresentadas a tribo numa linguagem do nosso tempo. Para finalizar, volto ao nosso velho soneto novo e àquele, 'pecialmente, 'tampado no site do cyberpoeta visitado, que me deslumbrou motivando e me empurrando a 'crever 'te artigo e a um soneto que se segue depois deste. Para Fazer Um Soneto Carlos Pena Filho * Tome um pouco de azul, se a tarde é clara, e 'pere por o instante ocasional. Em 'te curto intervalo Deus prepara e lhe oferta a palavra inicial. Aí, adote uma atitude avara: se você preferir a cor local, não use mais que o sol de sua cara e um pedaço de fundo de quintal. Se não, procure a cinza e 'sa vagueza das lembranças da infância, e não se apresse, antes, deixe levá-lo a correnteza. Mas ao chegar ao ponto em que se tece Dentro da 'curidão a vã certeza, Ponha tudo de lado e então comece. * Carlos Pena Filho, poeta do azul como ficou conhecido, era pernambucano do Recife, autor de «O tempo da busca», Memórias do Boi Serapião». Foi um renovador do soneto na temática e, sobretudo, na linguagem, carregada de oralidade, 'sencialmente musical e de forte apelo pictórico. Simples Soneto Anibal Beça * Desejado soneto 'te que é 'crito sem as firulas graves do solene, que leva na palavra o simples rito da fala cotidiana. Não condene no entanto, a falta de um 'tro 'pecioso, nem de brega rotule 'se meu vezo. Apenas sinta o som oco e poroso do fundo mar de anêmonas, o peso rarefeito das algas nos peraus. Essa cantiga filtra nossos medos, as culpas e os tabus, e dá-mo aval para buscar o simples e em querer-lo ornamento de 'tética 'partana na faxina ao supérfluo que se 'pana. * Anibal Beça, é poeta e jornalista, autor, entre outros, de «Noite desmedida»,» Filhos da Várzea», Suíte para os habitantes da noite «(VI Prêmio» Nestlé de Literatura Brasileira) Banda de Asa «e» Folhas da selva -- haiku». Desde 2005 'tá à frente do Conselho Municipal de Cultura de Manaus. Número de frases: 103 Em um passeio para chutar latas invisíveis, encontrei um livro no chão. Chutar latas invisíveis é interessante, você não acorda a vizinhança e é visto como louco; ninguém lhe aborda, lhe pede dinheiro. Ali, na calçada, é apenas você e suas latas. Após chutar uma grande lata de manteiga de padaria, encontrei um livro de 280 páginas; «Sob o olhar de Apolo». Não gostei do nome, mas, 'crever um livro é difícil, pensei. Então recolhi o coitado; dei casa e atenção. Penteei seus cabelos, lhe perguntei seu nome e me respondeu: «Quando se pensa em Atenas, o que se lembra não é o clamor do tráfego perpetuamente congestionado, nem o constante crepitar das brocas pneumáticas e nem mesmo o velho barulho dos cinzéis que desbastam o mármore pentélico ...». É rapaz, pentélico e pneumático. Essa pincelou do caderninho de palavras com p. Está bem, continuei, como se isso não bastasse para presentear meu cachorro com um novo brinquedo além da camisa velha do puxa-'tica; «deve ser ironia da autora». Mas, não. O máximo que encontrei foram parágrafos como 'se: «Levantei os olhos. Não era o garçom tentando fazer-me abandonar a mesa do canto. Era um homem moreno e baixo, com roupas sujas e remendadas, uma camisa azul enxovalhada e um sorriso hesitante por trás do inevitável bigode." Agora, peço fôlego ao leitor. Vejam a sucessão de criatividade: a editora da autora, Mary Stewart, é a mesma que publicou: Aconteceu em Veneza, Aconteceu no Tirol, Aconteceu em Salzburg, Aconteceu na Grécia, Aconteceu em Varsóvia, Aconteceu na Baviera, Aconteceu em Nova York, Aconteceu nos Alpes, Aconteceu na Bretanha, Aconteceu no Oeste, e finalmente, Aconteceu em Washington! A noite foi trash. Tentei ler o livro inteiro, sério. Não julguei por a autora ou editora. De fato, me 'forcei. Mas não deu: li uma zorra de pistas sem algum fluxo de consciência. Não havia verdade. Então limpei a mente com outra mulher, e logo em seu primeiro parágrafo ela me disse: «Os olhos têm aquela expressão vazada de maldade inocente, de suprema condescendência, como dos ídolos talhados em ouro e prata à luz das tochas, indiferentes às cerimônias e ao borbulhar das paixões e sacrifícios humanos; a macia pele do rosto de dezenove anos incompletos transparece e crepita, mas não se deixa tocar e, se o faz, o seu tato é de borracha ou vinil, porque os jovens de dezenove anos incompletos são pequenas monstruosidades portadoras do aleijão psíquico, faltando pedaços como um ombro para se chorar, um olhar atento, o gesto brusco no vácuo do antebraço consolador; os lábios congelados na frase de «Peter Pan» eu sou a juventude eterna!», a mão perpetuamente brandindo a 'tocada final na passagem do tempo. Um adolescente é sempre monstruoso porque desumano, assim como um deus, assim como um anjo, assim como você, Robi». (Hell ´ s Angels, do livro «Animal dos Motéis», Civilização Brasileira -- Massão Ono Editores); as palavras existem para todos, Mary; fazer literatura é que são elas: mulheres como Márcia Denser. http://mastigandolinguas.blogspot.com Número de frases: 42 São objetivos da 'cola e das famílias em geral proporcionar às crianças o acesso ao conhecimento e a formação de indivíduos críticos, comprometidos com si mesmos e com a sociedade, capazes de intervir modificando a realidade, auto motivados e aptos a buscar o aprendizado e o aperfeiçoamento contínuos, o que passa por a formação de leitores competentes. É fato sabido que várias gerações têm demonstrado não apenas o desinteresse por a leitura, mas também a incapacidade de fazê-la coerentemente, compreendendo um texto em profundidade, o que inegavelmente limita o indivíduo em suas possibilidades de acesso ao conhecimento culturalmente construído. Portanto, é tarefa urgente dos pais e da 'cola, em todos os níveis, buscar maneiras de 'timular, mais do que a capacidade de ler, o prazer por a leitura. Apenas propiciando aos sujeitos leitores o prazer da leitura poderemos construir as competências necessárias para sua apreensão e produção. Pensadores como Paulo Freire apontam para o reconhecimento de que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura da palavra 'crita implica na ampliação da possibilidade de leitura do mundo. Assim, concluímos que o não desenvolvimento de bons leitores limita as possibilidades de leitura do mundo, da compreensão da realidade social e da intervenção do sujeito buscando a transformação da sociedade. Em o intuito de desenvolver, desde a mais tenra idade, o hábito e o prazer da leitura, desde a educação infantil devemos oferecer oportunidades de leituras variadas, leitura não apenas de textos 'critos, mas a própria leitura e interpretação do mundo em que a criança 'tá inserida e do qual faz parte como ator social. O acesso a diferentes tipos de texto, mesmo bem antes da alfabetização, permitirá desenvolver tais capacidades, alem de apresentar à criança elementos constitutivos do texto: vocabulário, 'trutura, enredo, coerência interna, elenco de personagens e, além disso, o uso social da 'crita, elementos 'ses que serão fundamentais no processo de alfabetização. Isso porque constatamos que «as crianças constroem conhecimentos sobre a 'crita muito antes do que se supunha» (MEC / SEF, 1998, vol. 3, p. 123). Os Contos Instrumentos privilegiados em 'se sentido são as histórias infantis. Além de desenvolver o interesse por a leitura, vêm também ampliar o universo vocabular, permitir o exercício da fantasia e da criatividade. A o apresentar, de modo maniqueísta, a polarização bem / mal, virtude / vício, recompensa / castigo, possibilitam a discussão de padrões éticos e morais, e a formação de valores. A paixão das crianças por os Contos vem das próprias características de seu desenvolvimento. «Sonhadora e imaginativa por natureza, a criança aceita sem hesitação o ilogismo das narrativas mágicas presentes nas histórias infantis» (Alberton, 1980). Seu interesse e participação nas atividades de leitura de 'sas histórias são poderosas ferramentas na formação de bons hábitos leitores. «O pensamento mágico da criança traz recursos inesgotáveis para que se exercite sua imaginação e fantasia, passando o sonho e a realidade, muitas vezes, a se confundirem, o que reforçaria sua 'pontaneidade criadora» (Nicolau, 1990, p. 131). Dar possibilidade à expressão desses pensamentos possibilitará um crescimento pessoal e social, através da interação com seus pares, que vivem fantasias semelhantes. Em a aquisição e aperfeiçoamento da segunda língua, é fundamental despertar o interesse das crianças para envolver-se no aprendizado, e torná-lo o mais significativo e prazeroso possível. Resgatando conhecimentos prévios, baseando-nos na familiaridade que as crianças já têm com 'sas histórias, poderemos fixar o vocabulário em inglês e apresentar novas 'truturas de linguagem. Essas habilidades de linguagem na segunda língua serão úteis não apenas para conferir-lhes mais confiança em expressar-se em 'se idioma, mas também em constituir um lastro de conhecimento que poderá ser utilizado em situações posteriores em que devam construir frases no idioma inglês. O fortalecimento de suas capacidades lingüísticas e a constituição de um repertório de expressões são objetivos fundamentais deste trabalho. As Poesias As crianças pequenas se encantam com as poesias, que lhes parecem (e na verdade são) brincadeiras com as palavras. O ritmo, a métrica e as rimas são logo percebidos por as crianças, que passam a brincar de fazer poesia, focam sua atenção à sonoridade das palavras, e montam seus versinhos orgulhosamente. Esse trabalho, quando feito paralelamente em Inglês e Português, apresentando poemas nas duas línguas, auxilia a criança a perceber as semelhanças entre os dois idiomas, ampliar seu vocabulário através da memorização de suas poesia prediletas. Os textos informativos O trabalho com textos informativos, encontrados, por exemplo, em jornais, revistas, internet e enciclopédias, permite a formação do hábito de ler para 'tudar, para buscar informações, competência 'sencial por toda a vida. As crianças percebem a diferença entre 'se tipo de texto e os textos de ficção, pois passam a perceber a realidade imediata expressa nos artigos de jornais e revistas, que comparam com as conversas que ouvem, aquilo que vêem na rua e o que assistem na televisão. A o trazer 'ses textos à análise das crianças, vemos surgir acaloradas discussões, onde as crianças põe em jogo aquilo que sabem sobre o tópico tratado, trocam opiniões, debatem e assim a prendem a negociar, a expressar verbalmente suas idéias, a rever seus conceitos. Os textos informativos, quando integrados ao trabalho com textos em geral, amplia as possibilidades de leitura do mundo. As histórias em quadrinhos Embora já tenham sido alvo de preconceito por parte dos adultos, os gibis hoje são aceitos para o entretenimento das crianças. Contudo, as HQs carregam grandes possibilidades de trabalho com texto, pois têm uma linguagem própria, aliando recursos de imagem e texto, apresentando histórias com textos curtos e sendo muito atraentes às crianças. Para os pequeninos que começam a perceber as letras e como elas formam palavras, e aventuram-se por as primeiras leituras, oferece a vantagem adicional de serem 'critos com letras maiúsculas, aquelas que eles começam a identificar primeiro. É imprescindível contar também com gibis na biblioteca familiar e na 'cola. As parlendas e cantigas tradicionais: Hoje é domingo, pede cachimbo ... Eu sou pobre, pobre, de marre, marré ... O cravo brigou com a rosa ... Desde muito pequenas as crianças adoram as cantigas, quadrinhas e parlendas, e demonstram muita facilidade em memorizá-las, passando a cantá-las ou declamá-las em vários momentos. Além de serem textos ricos por trazerem com si a cultura do nosso país, suas regiões e momentos históricos em que foram criados e por terem sido transmitidas geração após geração como um tesouro cultural, 'ses textos são privilegiados para promover a aquisição de vocabulário e, na alfabetização, permitirem a correspondência entre a 'crita e a sua leitura, pois por serem familiares às crianças, ajudam-nas a não se preocuparem com o conteúdo (que já é conhecido) e focalizar sua atenção à forma da 'crita. Bibliografia: ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil, gostosuras e bobices. São Paulo, Scipione, 1989. ALBERTON, Carmen Regina e outros. Uma dieta para crianças: livros -- Orientação a pais e educadores. Porto Alegre, Redacta/Prodil, 1980. Brasil. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, MEC/SEF, 1998. Freire, Paulo. A importância do ato de ler. 39. ed. São Paulo, Cortez, 2000. Nicolau, Marieta Lúcia Machado. Textos Básicos de Educação Pré-'colar. São Paulo, Ática, 1990 Foi-se o tempo que histórias em quadrinhos eram vistas apenas como entretenimento infanto-juvenil. Em a verdade, as HQs sempre foram levadas muito a sério por uma seleta parcela de jovens, e nem tão jovens assim, leitores. Por trás da Disney e da Turma da Mônica há muito mais sustança do que se imagina. Certo, tem os super-heróis e toda a corja de inimigos que querem sempre dominar o mundo a qualquer preço; do outro lado os mangás (quadrinhos 'tilo japonês) com seus cabelos 'petados e roteiros mirabolantes de (verdadeiras) novelas que tomaram de assalto adolescentes ocidentais. Mas os quadrinhos vão além: ficção, terror e erotismo também ocupam um lugar de destaque na 'tante de colecionadores, 'pecialistas e ávidos ' devoradores ' de HQs. Moebius, Manara e Hugo Pratt são alguns dos nomes já clássicos dos quadrinhos mundiais, que marcaram época e fizeram 'cola. Em o Brasil, Carlos Zéfiro e suas mulheres sensuais povoaram o imaginário masculino nos anos 1950, e seus desenhos até hoje enrubescem as maçãs do rosto de muita gente. Internet versus quadrinhos = cinema Não podemos negar que a indústria da HQ perdeu terreno com a chegada da internet, prova disso são as constantes adaptações de personagens de quadrinhos no cinema (Homem-Aranha, Batman, Superman e Hulk, só para ficarmos nos hérois norte-americano mais famosos) passarem a ser a principal fonte de renda dos grandes 'túdios como Marvel e DC Comics. Paixão antiga (a primeira HQ, dizem os 'tudiosos, foi «Takes a Hand at Golf, de 1897», outros defendem» Yellow Kid, de 1895», a primeira a utilizar o recurso do balão com uma narrativa visual seqüenciada) e globalizada, os quadrinhos também inspiram -- como não poderia deixar de ser -- ilustradores e desenhistas potiguares, ainda mais depois que o paraibano Mike Deodato ganhou fama mundial como o atual responsável por os traços do ' verdão ' Hulk. «Com o advento da internet, as fronteiras geográficas deixaram de ser um obstáculo para profissionais de 'sa área. Hoje em dia os grandes 'túdios têm colaboradores 'palhados por todo o mundo», informa Lula Borges, 34 anos, quadrinista profissinal há mais de 10 anos e principal articulador do selo Reverbo e da agência Cosmic Team Creation em solo potiguar. Organização para entrar no mercado O selo / editora ainda é pequeno, atualmente tem apenas uma revista circulando -- a Brado Retumbante (de circulação nacional) -- e alguns zines com a chancela da Reverbo. O selo também chegou a publicar alguns números da BIO 47, um 'quadrão de heróis brazucas. «Entre as colaborações, destaco o herói Lobo Guará, criado por o paraibano Carlos Henri», completa Lula. Oficialmente a agência é formada por Lula Borges, Wendell Cavalcanti, Carlos Alberto de oliveira, Washington Fontes e Victor Negreiro, todos do RN. Em Pernambuco a Cosmic agrega Leo Santana, Cidclay Laurentino, Milton Estevam, José Henrique e " Ricardo Anderson. «Cada um tem seu próprio 'tilo (cartoon, comics, mangá, realista) e uma área de atuação 'pecífica», 'clarece Borges, mais afeito à colorização. «O Wendell prefere trabalhar com histórias futuristas, já o Washington é 'pecialista em ilustração de capa, Carlos Alberto domina bem a diagramação e é arte finalista, e o Victor Negreiro é mais da área publicitária. Temos que trabalhar em sintonia para nos destacarmos no mercado», diz o quadrinista. Borges lembra de outro colega, ex-Cosmic Team Creator, J. B., que hoje é artista exclusivo do 'túdio paulista Lynx. O resto da turma também começa a chamar atenção de ' gente graúda ': o próprio Lula 'tá em fase de testes no 'túdio Impacto Quadrinhos, também de São Paulo. «Estou recebendo alguns trabalhos de colorização e arte final», pontua. Borges também colabora com a HQ do personagem Tristam, criado por o quadrinista capixaba " Estevão Ribeiro. «Estamos tentando exportar as histórias do Tristam, tudo é investimento», diz -- em 'se projeto o potiguaré responsável por as cores do herói. Os quadrinistas citaram outros 'túdios que também 'tão abertos à colaborações: Em os Estados Unidos (principal mercado consumidor de quadrinhos do mundo) tem o ProRoom, que produz material erótico. É só mandar a idéia e aguardar para ver se os desenhos e o argumento são aprovados. Outro é o Infinity Uprising, que 'tá mandando roteiros e definição de personagens para ver como é nosso trabalho, e o 'túdio Dark Commands, 'pecializado em ficção e terror», lembra o grupo, que se reuniu na Garagem Hermética Quadrinhos, única loja 'pecializada em HQ de Natal. Heróis versus ETs Segundo a explicação do pessoal, a principal diferença entre quadrinhos norte-americano e europeus é 'tética. Em os Eua os heróis predominam, enquanto que as histórias de ficção são as preferidas dos criadores europeus», explica Lula. «Outra grande diferença é o sistema de produção: os norte-americano trabalham num 'quema industrial, vários desenhistas e colaboradores são mobilizados para lançar um novo álbum a cada mês. Já os europeus trabalham de forma mais solitária e o produto final é bem mais autoral, tem álbum que pode levar um ano para ser lançado». Questionado sobre o futuro dos quadrinhos brasileiros, a resposta 'tá pronta na ponta da língua: «HQ é coisa séria e gera toda uma cadeia produtiva. Temos bons autores e bons desenhistas, o que precisamos é mais incentivo do poder público», acredita Carlos Alberto, que na década de 1980 publicava um fanzine com quadrinhos seus. «Foi um período engraçado, lembro que desenhava tudo sozinho, usava vários 'tilos e assinava com pseudônimo 'perando que outras pessoas também colaborassem. Acho que ninguém nunca mandou nada por achar que 'tava tudo muito bom daquele jeito mesmo», diverte-se o artefinalista e diagramador. Esquema simplificado para produção de um HQ 1. idéia inicial 2. roteiro 3. definição dos personagens 4. criação propriamente dita 5. quadrinização em grafite / diagramação 6. edição 7. arte final 8. cores 9. letras 10. impressão 11. distribuição \> \> Número de frases: 115 leia mais sobre HQs Macapá é uma cidade que fica no extremo norte do país. Possui menos de meio milhão de habitantes e é cercada de água por todos os lados. Não existe uma saída terrestre do Estado e a mentalidade da galera daqui é meio resistente a novas idéias, principalmente quando elas procuram ou pareçam ser alternativas. Já é costume quando vou pra congressos e encontros de área alguém, ao descobrir onde eu moro, apertar a minha mão e me abraçar como quem encontrou um ser de outro planeta. «Barbaridade chê! Três dias de busu pra chegar até aqui?" -- disse um porto alegrense na última vez que andei lá para o Sul (outro lado do país). E quando reunimos com a galera de vários Estados então? É verdade que as onças andam na rua lá na sua cidade, sô?" -- perguntou uma amiga de Minas. «Você que é o Paulo do Amapá» -- outro goianense interrogou-me cheio de expectativa. É interessante ver o impacto que isso provoca. Causa 'panto quando eles constatam que eu não me diferencio muito de eles ou de pessoas do ciclo de amizade que eles normalmente têm em seus locais de origem, parece causar decepção o fato de eu não parecer nada ou não ter descendência de um índio da região. E quando digo que tenho e-mail, MSN e outras ferramentas de comunicação então nem se fala! Fico imaginando o tipo de informação que é passada na televisão e outros meios de comunicação sobre nosso Estado e sobre a juventude daqui. Por isso me pareceu conveniente mostrar aos caros amiguinhos da civilização um pouco de nossa vida no mundo do Rock. Acesso às músicas mais conhecidas nós temos, pois, acreditem, aqui tem lojas de CD internet, Banco, boleto bancário, gravadora de CD (sim, elas já chegaram aqui há tempos! rsrs) e tudo que se precisa para se 'capar do cenário musical popular globista e tal do país. O brega, que 'tá na moda em todo o Brasil, já 'tá instalado aqui há tempos e isso nos deu tempo para inventarmos vários sistemas para 'capar de eles (sem querer ofender aos novos e antigos bregueiros). O público do Heavy, Black, Gothic, Death e todos os 'tilos «Metal» também 'tão presentes com todos os aparatos que o 'tilo exige: botas, cordões, metais, camisas de suas bandas favoritas e o máximo de preto que se pode usar. Já fiz parte de 'sa tribo. Andava por aí com a camisa do Metallica chamando todo mundo de otário. Levava minha garrafa de cachaça dentro da mochila junto com meus amigos tão vestidos de preto quanto eu. Inclusive no ano novo onde o contraste era evidente, pois quase todo mundo 'tava de branco ou com cores claras. Apesar de tudo eu nunca tive a intenção de formar uma banda, o que é comum em 'te meio. Meu lance sempre foi platéia. O tempo passou e eu me aquietei um pouco, assim como todo o jovem de nosso país (ou ao menos a maioria) passei a me interessar por outras coisas, principalmente depois que entrei na universidade (sim, aqui também tem 'sas coisas! rs). Hoje já me visto da maneira que quero e posso me considerar um cara meio eclético (é claro que isso tem suas exceções). Freqüento, de vez em quando, os ambientes de música eletrônica e os bares de rock alternativo, mas o fato da cidade ser pequena acaba dificultando a variação dos ambientes. Um local que já foi consagrado da galera era o «Liverpool Rock Bar» que, infelizmente, fechou, mas para a felicidade de todos ele vai reabrir nos próximos dias com uma banda que já tem trabalho próprio e que 'tá só aguardando a hora de lançá-lo. Esta banda se chama «Stereovitrola» que tem boas influências de Mombojó, Radiohead e Júpiter Maçã (depois eu falo mais da banda, mas a foto 'tá aí pra todos verem). Assim todos poderão voltar a nos divertir com histórias baseadas em baseados reais. Enfim, avalio que as diferenças entre nós e a juventude que curte o mesmo som numa cidade maior de nosso país são bem pontuais. Já tive a oportunidade de conhecer e freqüentar bares alternativos em grandes capitais e o papo é praticamente o mesmo. Você encontra figuras com idéias legais e tal, mas também 'barra em cheio em algumas malas e assim a gente vai levando e batendo cabeça ao som de uma boa música. Se alguma banda ou grupo de qualquer tipo de manifestação artística 'tiver interessado em mostrar seu trabalho por aqui no Amapá, pode enviar pra mim que eu passo para a galera, pois aqui também tem correio! Só 'pero que 'te post tenha contribuído para saciar parte da curiosidade das pessoas curiosas e que, se quiserem, podem fazer mais perguntas a respeito dos movimentos que existem por aqui. Podem enviar perguntas que 'tamos aqui pra isso: Número de frases: 39 matar a curiosidade de homem da cidade, apenas tome cuidado, porque os índios urbanos daqui ainda comem gente! «Exijo a possibilidade de viver plenamente a contradição da minha época, que pode fazer de um sarcasmo a condição da verdade." ( Roland Barthes) A minissérie global «Amazônia: de Galvez a Chico Mendes» pretende contar os cem primeiros anos da história do Acre. O primeiro capítulo transmitiu a idéia de que a história do Acre começou com a chegada dos nordestinos e que a fundação do Acre ocorre com Galvez. Há uma pergunta que não quer calar: cadê os mais de 150 mil índios, divididos em quase 50 povos, que moravam há mais de 10 mil anos no território que o branco passou a chamar de Acre? O Acre é uma invenção do branco. Um branco do gênero masculino, de classe econômica abastada e de nacionalidade brasileira. A história que 'tamos vendo na telinha turva da Globo é uma representação midiatizada de um discurso marcado por efeitos de poder. Um discurso branco para entreter o próprio branco. A presença milenar dos indígenas nas terras de Galvez se «desmancha no ar». Quem fundou o Acre para o reino da civilização foram os heróis brancos, o que ficou para trás é somente barbárie e pré-história. Índio não tem vez. Índio não entra em cena. Quando entra é para acentuar a bravura dos brancos na saga da conquista e para fazer 150 milhões de telespectadores brancos se divertirem com o que chamam de exótico. A minissérie 'tá atravessada por uma política de produção do saber. Ela materializa um discurso marcadamente ideológico e o faz funcionar como evidência. É a «ordem do discurso» da qual Foucault tanto falava. Os discursos são governados por formações discursivas, que regram o aparecimento de certos enunciados e determinam o que pode e deve ser dito num dado momento e num dado lugar. A «Ordem do Discurso» limita a visibilidade, fixa um sentido desejado e, em 'te caso, dirige o olhar do telespectador. O objetivo da minissérie não é problematizar a história do Acre; pelo contrário, é regrar o olhar de quem a enxerga. Ela põe em funcionamento mecanismos de organização do real, por meio dos quais, somos interpelados a crer que a história é realmente contínua, linear e teleológica. Mas, Nietzsche e Foucault nos afirmam que a história é descontínua. É pulverizada por rupturas. A regularidade histórica é um efeito de sentido criado por a ideologia, que 'conde a emergência da singularidade dos acontecimentos. A unidade histórica 'tá ligada a sistemas de poder -- a uma «ordem do discurso» que fixa um sentido desejado. A milenar presença indígena nas terras de Galvez é sacrificada para que se construa um momento inaugural de origem branca. Esse fenômeno é chamado por a filósofa Marilena Chauí de mito fundador. Jacques Derrida diz que 'se discurso nos remete» ... a uma origem em que nada começou, à gênese de um ego que não existe». Amazônia: de Galvez a Chico Mendes aparece como a narração do «eu» acreano. como se o acreano tivesse marcas de nascença ou uma identidade fixa 'pelhada nos «heróis» Galvez, Plácido de Castro e Chico Mendes. O acreano -- assim como o brasileiro -- não tem um ego, mas muitos, um para cada situação. O «eu» que exterminava os índios nas «correrias» em prol da formação de seringais não é o mesmo que se uniu com os remanescentes indígenas em defesa da floresta nos anos 80. Queremos agitar o que nos mostram como imóvel. A identidade é híbrida, o perfil é movente, a origem é vacuolar. Um mosaico de sentidos, e não um sentido apenas! A mesma retórica que significa uma identidade para o acreano é a mesmo que desloca o índio para a insignificância. Não foi o índio que explorou de forma predatória a seringueira existente no Acre, no conhecido primeiro ciclo da borracha. Não foi o índio que derrubou centenas de árvores acreanas para ganhar dinheiro com o comércio madeireiro. Não foi o índio que queimou milhares de hectares da floresta no Acre para produzir pastos para bois nos anos 70 e 80. O índio não negocia a floresta com bancos internacionais, muito menos ganha dinheiro fazendo minissérie sobre a Amazônia. Quem faz tudo isso, é o branco. Os índios são defensores naturais da floresta, embora não recebam prêmios na ONU, muito menos monumentos no centro da capital acreana. O branco sente a necessidade de criar heróis para amenizar-lha consciência acusadora e para projetarem-se politicamente sobre outros brancos. Todo discurso possui brechas, mesmo os que aspiram ao status de verdade. Em 'se artigo, nos colocamos numa das fissuras desse discurso midiático sobre a história do Acre -- a interdição do índio. É nas gretas que o sentido se mostra tenso. É no entre-lugar que se ouve as vozes silenciadas, que se vê as múltiplas resistências e que se pode reivindicar o sarcasmo como a condição da verdade! Eduardo de Araújo Carneiro é licenciado em História, concludente do curso de Economia e acadêmico do Mestrado em Letras por a UFAC. Número de frases: 51 Programação 'pecial do SESCTV traz sete documentários inéditos, produzidos por o Lisa-USP De 6 a 12 de agosto, o SESCTV leva ao ar sete documentários inéditos, produzidos por o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), da USP. As produções, de caráter etnográfico, foram realizadas com apoio da Fapesp e compõem uma amostra da diversidade cultural representada por o termo «indígena». Apapaatai (2007, dir. Aristóteles Barcelos Neto) apresenta uma visão xamânica do mundo dos 'píritos dos índios Wauja, do Alto Xingu. Curipi (2000, dir. Francisco Simões Paes) aborda as populações Karipuna, Galibi-Marworno, Palikur e Galibi do Oiapoque e o intenso intercâmbio interétnico entre 'ses indígenas e as populações locais na bacia dos rios Uaçá e Oiapoque, extremo norte do Amapá, divisa com a Guiana Francesa. O arco e a lira (2002, dir. Priscila Ermel) trata da arte musical do arquinho feminino iridinam, tocado exclusivamente por as mulheres Gavião Ikolem para expressar seus sentimentos amorosos. Maybury-Lewis, trajetória de vida no Brasil central (2002, dir. Francisco Simões Paes) é uma entrevista com o antropólogo David Maybury-Lewis, pesquisador entre os Xavante e uma das mais importantes figuras na conformação da Antropologia Brasileira. Ritual da Vida (2005, dir. Edgar Teodoro da Cunha) aproxima o público da experiência do ciclo funeral dos Bororo do Mato Grosso. O complexo ritual, articulador de 'ta sociedade, nos defronta com as concepções bororo sobre a vida e a morte. Wauja, a dança das grandes máscaras amazônicas (2006, dir. Aristóteles Barcelos Neto) mostra a adaptação de rituais dos Wauja do Alto Xingu para o Festival de Radio France, concebida a partir do diálogo entre o antropólogo e os artistas Wauja. De o São Francisco ao Pinheiros (2007, dir. Paula Morgado e João Cláudio de Sena) pretende ser um caleidoscópio da visão Pankararu acerca de sua viagem sem fim, da aldeia Brejo dos Padres, próxima às margens do Rio São Francisco (sertão de Pernambuco), a São Paulo. Em a favela do Real Parque, próximo ao Rio Pinheiros, eles somam cerca de 500 pessoas, num total de 1.500 'palhados por o município de São Paulo. As informações sobre datas e horários dos documentários, bem como sinopses mais completas 'tão disponíveis no site www.sesctv.org.br. Classificação Etária: Livre. Para Sintonizar O SESCTV Canal 211, da DirecTV; Canal 3, da Sky; Canal 10, da TecSat. Em as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro Canal 92, da Net Digital Em outras cidades consulte: Número de frases: 28 www.sesctv.org.br " Imortal é o que é do sofrido; tudo abaixo daí, é póstumo». Guimarães Rosa Outro dia li o texto de um menino na internet que falava do quanto o exercício da 'crita tinha aberto os canais de sua sensibilidade. E penso em canais de rio, os subterrâneos da alma que afloram à luz de uma terra fértil. Ele usou a expressão sensibilidade construída. E coincidiu que naquele dia 'tava justamente imbricada com idéias e pensamentos para a criação de um 'paço virtual chamado Em a varanda de Riobaldo, uma varanda lírica onde pudéssemos cavaquear com e sobre autores e personagens que têm lugar cativo na nossa alma e memória emocional. Também numa conversa (virtual) com a minha amiga Maria Emília -- que vive em 'tado de alumbramento com Clarice Lispector --, ela comentou que gosta do que considera o meu eu lírico. E pensamento é mesmo como 'cama de peixe, uns enroscam-se nos outros até formar uma 'trutura que torna possível a travessia para o tangível. Fisgada por a conversa sobre o «Eu» lírico e por a alusão à sensibilidade construída do internauta Eduardo Oliveira, passei novamente por a varanda de Riobaldo (o texto) e ... Meu Deus! Quer expressão maior para o nosso «Eu» lírico (profundo), sensibilidade construída, do que o inquietante e instigante Riobaldo? Assumindo mesmo a força de um arquétipo, um narrador universal -- uma voz imemorial que nos chama desde o poço mais fundo da eterna caverna, mas com uma força persuasiva de Ariadne, tirando-nos do labirinto ou pelo menos nos reconduzindo à luz de novos sentidos, 'pelhos e mistérios, com o fio da palavra. E palavra lírica, que reconfigura a nossa alma, no que ela tem de encantamento e revelação. E o próprio Guimarães Rosa exprimiu o poder de 'sa magia da palavra numa afirmação carregada de lirismo: «Escrevendo sempre descubro um novo pedaço de infinito». E em Riobaldo a trindade mágica: narrador, personagem, interlocutor, 'ticados na tensão do mesmo fio do eterno sertão da humanidade, as nossas dúvidas e incertezas. E gosto imensamente de uma outra frase do Guimarães para a definição desse sertão da alma: «Em o sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua». Ali, naquela varanda de Riobaldo, o homem universal nascido das profundezas do sertão palpável e do intangível que se apossou da alma de Guimarães e com todo o lirismo, poesia e genialidade de que a nossa humanidade é capaz, converteu-se naquelas funduras de palavras, 'cavando minas e grotões, e reacendendo a fogueira de uma voz interior de força inquebrantável. É 'se fenomenal e absurdo diálogo interior que torna possível o ato da criação, a busca de materialidade e expressão para 'sa perplexidade traduzida em ordenamento 'tético, em beleza poética. E que desemboca na divina trindade: autor, obra, público -- construindo sensibilidades, belezas e sentidos, novos pedaços de infinito, se revelando e se explicando mutuamente, num 'pelho vivo. Crocodilo metafísico -- Em qualquer tempo, 'paço ou contexto, Riobaldo vai abrir caminho até a explicação e não explicação do homem no Grande Sertão: Veredas da nossa alma. Um 'pelho lírico e indomável. Vai seduzir e nos fazer sonhar e buscar um fio, por mais tênue que seja, da meada do nosso existir, com ou sem a bravata de Deus no labirinto da caverna de onde nunca saímos. E o velho Chico, real e imaginário, fluindo na eternidade das águas, margeando uma veredinha para dentro da gente até a imensidão das águas grandes e desconhecidas. E isso, definitivamente, pois ninguém lê Grande Sertão: Veredas impunemente. É entrar e sair transformado, uma outra coisa, um outro 'tado de alma. E a força de Riobaldo, não com as armas do jagunço, o ofício, mas com as palavras -- as palavras líricas e fundas de humanidade de Rosa -- faz ruir todas as barreiras, até mesmo a mais engenhosa, que é a da língua. Caetano cantou que só é possível filosofar em alemão. Com a devida licença poética aos grandes pensadores da pátria de Goethe, 'corada numa história que ouvi da boca de Adélia Prado, aqui em Goiânia, Riobaldo arrastou para a sua varanda um alemão que deixou seu país e mudou-se para o Brasil com o intuito de aprender português para ler Grande Sertão na língua daquele jagunço que, depois de toda labuta das armas, já possuindo os prazos, vivia no range rede a 'pecular idéias e encantar a gente. Essas de água batendo no barranco, engolindo cachoeiras, naquela interlocução com todos nós -- os que passaram, os que 'tão passando e os que hão de vir. O diabo existe e não existe? Entre a prosa que recria o seu mundo para uma compreensão necessária de se apossar do vivido -- o que só a arte perpetua -- e o nosso universo sempre em chamas -- e chamamentos --, e a saudade inconformada de Diadorim (a poesia do mundo de Riobaldo), o nosso homem na varanda atira ao vento do sertão 'praiado em longínquos e fugidios horizontes de dentro e de fora as nossas dúvidas que se desdobram em verdades filosóficas -- muitas de revelação sequer arranhadas ainda ... «Quem mói no asp ' ro, não fantaseia», enrijece Riobaldo, explicando aquele mundo de antes, a labuta sem a peneira do reviver nas 'peculações, idéias e emoções desentranhadas. Sempre em sua varanda, o sertão à sombra de Diadorim. Momentos de refrigério e vereda, intervalo, interlúdio, o coração entranhado, Diadorim, a neblina, mas também a poesia da vida -- e poesia sem neblina é mesmo uma impossibilidade sem 'sas camadas fundas que pedem raspagem, penetração. E como disse Guimarães: «Imortal é o que é do sofrido; tudo abaixo daí, é póstumo». Ele, o que 'crevendo vivia no infinito e queria ser um crocodilo, o mestre da metafísica, vivendo nas águas do São Francisco, porque amava os grandes rios, que considerava profundos como a alma de um homem. Mesmo no mais assombrado desvão dos nossos demônios e infernos, as asperezas, as brabezas, as intrigas, as violências, a encruzilhada entre o bem e o mal, o arbítrio, Deus e o diabo se confrontando no profundo da gente, o tempo todo, um insuspeito anseio de absolvição -- um mundo, se Deus existe, e já o matamos; outro mundo, se Deus não existe, e nada nos redimi ou explica. O homem, o único ser que traz a idéia de Deus (Descartes), crendo ou não, 'pichando ali no sempre sendo do sertão de Riobaldo o fio do labiríntico enredo da humanidade, o reverso pactário -- " O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio 'sas melancolias». E deixemos a filosofia de lado e voltemos às inquietações de Riobaldo na mestria de Guimarães. Que sensibilidades construídas naquelas andanças de médico por o sertão de Minas, apalpando dores do corpo e da alma sertaneja, ouvindo, anotando, criando e recriando o encanto visível e invisível do sertão -- uma língua antiga e uma língua nova numa outra cheia de sonoridades, sentidos, pausas e surpresas da inventividade --, 'se sertão recriado do tamanho do universo onde com um mirar fundo num 'pelho mais fundo ainda encontramos a face humana e diversa da beleza; o sertão, o locus de um imaginário onde 'tamos todos nós, aquele alemão solitário em busca de uma vereda -- e terá encontrado dentro da varanda de Riobaldo vereda mais funda que a luso-brasileiro, uma fonte nova de 'pantos que nos torna grandes e pequenos diante da imensidão criativa de Guimarães Rosa -- que acreditava já ter vivido antes e que para 'tas duas vidas um léxico só não era suficiente; os pensadores que se desencontraram de Guimarães no tempo e no 'paço, mas trilharam a mesma vereda 'treita e funda rompendo a caverna com as mesmas dúvidas -- a inquietude original de 'pírito de Riobaldo, o homem e sua solidão. Enfim, todos os que foram tocados por a graça da poesia e da palavra, ali, naquele vai-e-vem da rede-pensamento de Riobaldo, que tem umas ternuras, umas delicadezas, um 'tado de nobreza desde o princípio da pedra bruta rolando na barranca do São Francisco. E 'sa ternura, 'sa convivência, o que terá afetado em Diadorim, mesmo no contraditório do sentimento do valente Reinaldo -- o que os olhos terão dito no âmago de 'sa ternura entre aqueles homens de sertão na pele, no jeito, no ofício e na alma, onde o diabo é às claras, às brutas, e Deus no atraiçoado, naquele imbricado difícil de desentranhar? Penso como Bandeira, que Guimarães devia ter deixado Diadorim homem até o fim, para funduras mais inexplicáveis ainda perscrutar, sem dar alívio ao contraditório do sentimento de Riobaldo (ou nosso). A primeira vez com Riobaldo -- Em pensar que a primeira vez que 'cutei Riobaldo foi às cegas -- um confronto às brutas ao difícil de difícel da linguagem do universo de Guimarães. Prova de vestibular, discursiva, e o sertão chega de armas em punho (onde até Deus tem de ir armado) e eu ainda desarmada no assombro da ignorância de me ver diante de tamanha e incompreensível beleza: «Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus 'teja Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. De aí, vieram me chamar. Causa de um bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser -- se viu --; e com máscara de cachorro. Me disseram, eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, 'se figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram -- era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono de ele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas ... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instintivamente -- depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem um maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho da autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira de ele, tudo dá -- fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossuras, até ainda virgens de 'sas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães ... O sertão 'tá em toda parte ( ...)». Foi ali, numa sala do Colu (Colégio Universitário -- Colégio Estadual Presidente Costa e Silva), numa prova de vestibular que vivi o inferno do sertão de Guimarães, horas de suores aflitivos numa briga mais flagelada ainda com o 'panto daquelas palavras; aquela fala penetrando fundo na minha alma, como uma bala certeira abrindo clareira, vereda dentro da minha ignorância ávida de entendimento; labutei com aquele sertão para responder dez capciosas questões (discursivas. Ufa!). Em a mais profunda 'curidão, li e reli, e quantas vezes mais não lembro, e me deixei guiar por Riobaldo, que foi entrando em mim como uma revelação, o sertão 'tá em toda parte, parte ... E foi abrindo portas e mais portas, e eu vislumbrando clarões, sentindo uma aragem, vendo umas paisagens e também uma secura ... O sertão 'tá dentro de mim. O sertão 'tá dentro do homem. O sertão 'tá no mundo ... O sertão universal. E aquele interlocutor invisível, o que ria certas risadas? O mesmo que vejo lá, no qual eu também me transformo, na varanda eterna e encantada de Riobaldo -- que ouve as histórias e se delicia, e deve também desentranhar o barro de suas funduras e rachaduras, da vida que foi, da vida que é e da que nem sabe se será; o mesmo interlocutor que 'tá em mim desde o dia daquela primeira vez, a prova de fogo, o batismo sacramentando para uma vida toda 'sa devoção às palavras de Guimarães e às inquietações do range rede de Riobaldo. E foi de Guimarães uma frase que colhi como uma rosa rara no jardim de 'sas delícias secretas (e sofridas, ara!) e que depositei como uma oração que acompanhou a minha mãe à sepultura -- que também me 'pera --, e que me consola: «As pessoas não morrem, elas ficam encantadas». E é assim, rindo certas risadas, mergulhando em certas funduras -- já 'cavando a lama de 'sa eternidade de rio --, diante da grandeza e da beleza de Grande Sertão: Veredas, que me deixo levar por o encanto da narração de Riobaldo que brota de dentro de um mundo intuído (o Eu lírico, solitário, imortal, profundo!), laboriosa e genialmente construído por Guimarães, principiando (sem me 'quecer de que no princípio era o verbo e que o verbo era Deus) dentro da gente uma construção de sensibilidades. E Riobaldo transcende, em qualquer tempo ou 'paço, fronteira física ou imaginária, no 'sencial do homem -- as inquietações que sobressaem e seduzem em qualquer língua --, mesmo que dentro de um livro, uma varanda de horizonte sem fim dentro e fora de 568 páginas (19ª edição / Nova Fronteira), a travessia feita com graça, Rosa, e mais que arte, um fôlego, um sopro, como Deus movendo a face das águas, a cantiga do vento nos buritizais de dentro, e Guimarães as nossas almas na fala do sertão que 'tá em toda parte, parte ... Aqui, dentro de nós! E resta a (eterna) varanda lírica, onde só deita na rede quem mói no asp ' ro do sofrido, mas abre as janelas do pensamento e da emoção à aventura da criação, a vida no encantado da fantasia que ajuda a compreender a nossa trajetória no sertão do agorinha mesmo e do sempre. Número de frases: 117 «Vou pedalando. O sol queima a Rua Itaboca, me dá firme na cabeça, os bondes comem os trilhos, é um barulhão que 'tremece até as casas; os trens da Sorocabana e da Santos a Jundiaí vão se repetindo lá em cima do viaduto da Alameda Nothmann, carregados e feios. Gente se pendura até nas portas. Vou pedalando ... Sei lá por que gosto. Sei que gosto. Atravesso 'sas ruas de peito aberto, rasgando bairros inteirinhos, numa chispa, que vou largando tudo pra trás -- homens, casas, ruas. Esse vento na cara ... Agora vou indo lá para o Pacaembu. Vou pegar a Nothmann, subir, desembocar direto na Barra Funda, ô puxada sentida! É me curvar sobre o guidão, teimar no pedal, enfiar a cara. Depois, ganho a avenida larga e, numa flechada, alcanço o 'tádio." O 'critor João Antonio (nascido em São Paulo em 1937 e falecido no Rio de Janeiro em 1996), uma das maiores pontes entre o cotidiano das ruas e o papel impresso, falava em seu conto Paulinho Perna Torta de uma São Paulo que aparentemente não existe mais. Tanto os antigos modos da malandragem dos salões de bilhar da Lapa e dos inferninhos do Bom Retiro deram lugar à violência nos centros e nas periferias quanto os bondes (que já eram lotados) foram substituídos no dia-a-dia por um sistema de ônibus, trens e metrôs deficiente, amparado por a ampla penetração dos carros particulares -- uma equação bem mais violenta e suja. Gigantesca e inchada, prestes a se tornar a segunda cidade mais populosa do planeta, a região metropolitana de São Paulo conta com um sistema de transporte pouco funcional: são mais de 17 milhões de habitantes, 7 milhões de carros particulares congestionando as vias todos os dias (na maioria das vezes só com o motorista dentro), poucos quilômetros de metrô e ônibus quase sempre lotados. Metade das residências daqui acumula pelo menos um carango, já que muitas vezes 'se é o único jeito de chegar onde se precisa. Se de dia já é difícil, imagina na balada -- nem tem ônibus a noite inteira. Assim como pra ir trampar você faz um extrinha camelando na lentidão do tráfego ou se acotovelando nos transportes públicos, à noite você, ou quem 'tiver te levando de carona, vai ter que 'colher entre dirigir e chapar. Siniiiiistro, Jamanta! É aí que entram as bicicletas. Se você vai percorrer cerca de 10 quilômetros, que é mais ou menos a média de deslocamento diário das pessoas pra chegar ao trampo, 'cola ou balada, já 'tá mais do que provado que indo de bike você chega antes. Em 'ses casos -- ou mesmo pra distâncias maiores -- poder combinar umas pedaladas com transporte público seria lindo. Ninguém ia precisar sair de carro mais, mas o 'quema de locomoção em São Paulo é tão legal que você é proibido de entrar no trem, no metrô ou no busão levando sua bicicleta, pura e simplesmente, como demonstrou um recente comercial da Caloi 'trelado por o VJ Edgard. Fora a 'tação de trens de Mauá (onde ficam 'tacionadas cerca de 1.700 bicicletas diariamente!), não há bicicletários. Então, pra embarcar, você teria que desmontar e empacotar (!!) sua magrela. Apesar disso, nos últimos 10 anos, o número de ciclistas diários em São Paulo praticamente dobrou. São pelo menos 400 mil bicicletas fazendo a mesma função dos carros particulares, de um jeito bem mais democrático, limpo e aproveitando bem melhor a paisagem que 'sa cidade ainda tem pra oferecer. Você poderia dizer «mas eu sou louco de sair pedalando e respirar toda 'sa poluição?». Em a real, é bem melhor do que 'tar trancado dentro de um carro, que além de responsável por 70 % da poluição do ar daqui, deixa você bem na altura pra inalar a podreira de ele e dos outros, que vai se concentrar dentro dos veículos. Em o alto, de bike, na mais perfeita união entre homem e máquina (segundo os alemães do Kraftwerk), você respira melhor, além de poder observar de verdade o lugar onde você vive, fazendo um exercício da hora. Claro, existem algumas regras e precauções pra você fazer seu rolê numa boa. Por o Novo Código de Trânsito, a bicicleta tem preferência na pista, isto é, os carros têm que deixar você em paz, guardando um metro e meio de distância ao te ultrapassarem. Um capacete, faróis e refletores também te garantem. Encarar o mar de carros é uma tarefa que exige treinamento e atenção, mas isso em São Paulo é fácil. As chuvas quase diárias dão um belo adianto na dispersão dos poluentes, e 'sa pode ser a melhor desculpa pra você desencavar aquela bicicleta empoeirando na garagem e começar participando de algum dos inúmeros grupos que existem por aqui. Acontecem passeios ou atividades quase todos os dias. É uma ótima pra saber como anda seu condicionamento físico e adquirir segurança pra transitar. Além disso, você vai conviver com gente experiente e a fim de te ensinar o que for preciso. De esses todos, talvez os mais interessantes sejam a Bicicletada e a Coopbike. Ambos organizados através de listas de discussão de e-mails, os grupos tem atividades diferentes, mas complementares. A Coopbike é cooperativa para a troca de experiências de mecânica de bicicletas, e funciona num 'quema de auto-gestão. Número de frases: 45 Já o o grupo Bicicletada faz manifestações mensais em que ciclistas ocupam as ruas pra celebrar o movimento em duas rodas e mostrar que existem outras opções além de um consórcio na sua vida. Véspera de fim de semana, depois de arrumar a mochila rapidamente, um 'tudante sai do apartamento alugado e chega a um dos trevos da saída de Santa Maria. A intenção é conseguir uma carona para a cidade natal, mas a imagem que acaba de ver não agrada: há uma fila de pessoas 'perando, cada uma com plaquinhas mais limpas e organizadas dos que os outros. «O que fazer?», pensa. A solução que lhe vêm é a de ir de ônibus, logo descartada com uma olhada na carteira, quase vazia. Decide 'perar ali mesmo. Acha que conseguirá uma carona, normalmente consegue. Mas não tem certeza, pelo menos não o suficiente para dizer ao companheiro do seu lado, que também 'tá 'perando, que " em duas horas eu saio daqui. Começa a questionar quais as outras opções que têm caso não consiga, mas desiste quando vê que não são muitas. Quer chegar cedo em casa, hoje tem festa na casa de um vizinho. Pensando na festa é que lhe surge uma comparação, que de início até parece 'drúxula, mas depois consegue trazer um pouco de tranqüilidade: «Ficar aqui, 'perando uma carona, é quase o mesmo que ir solteiro para algum lugar à noite que se sabe que outros inúmeros solteiros irão 'tar; pode ser que aconteça de eu ter de ficar sozinho o resto da noite, mas não é o mais provável de acontecer». Glamourizada por uma geração de admiradores dos 'critores «beatniks» americanos, hoje a carona na região de Santa Maria, no centro do RS, é primeiramente uma forma de economizar dinheiro: 'tudantes, caixeiros viajantes e prostitutas vão para as 'tradas nas saídas da cidade porque não tem outra opção mais barata. Entre ficar 'perando um tempo -- que tanto pode ser de 3h ou de 5 minutos -- e pagar um valor de até R$ 50,00 de passagem de ônibus, a primeira alternativa é bem mais em conta. E a maioria das pessoas, ao contrário do que se imagina, consegue ir para casa de carona. Alvacir Rosa, 59 anos, é um exemplo. Em uma tarde de quinta feira, passados alguns minutos das 14h, sol forte e temperatura beirando 30º C, ele 'tá no trevo do Castelinho, que liga Santa Maria ao norte do RS, com uma pequena bolsa e uma placa 'crita «Ijuí», cidade onde mora, há 160 km para o norte. Perguntado sobre há quanto tempo pede carona no trevo, responde até com certo orgulho: «Venho uma vez por mês para a Santa Maria a seis anos, sempre de carona. Só voltei de ônibus uma vez, e ainda porque eu tinha compromisso urgente lá em Ijuí». A pressa é uma palavra que não pode constar no vocabulário dos caroneiros. Quem diz é Guilherme Goergen, 20 anos, 'tudante de Matemática da UFSM, que vai para Três de Maio, mas também aceita ir para a mesma Ijuí (que fica a 84 km de Três de Maio) de Alvacir, que 'tá logo à frente do 'tudante na fila que se forma no local. Embora ninguém ponha regras, todos respeitam a ordem de chegada, uma das primeiras normas de um ainda não 'crito Código dos Caroneiros. Tranqüilo na hora de falar, o 'tudante pretende 'tar em casa no fim de semana. Mas ainda é quinta-feira, e ele não 'tá muito preocupado: «Vim aqui hoje de tarde, se conseguir carona até umas 16h, beleza, porque tá bastante cheio. Se não, venho amanhã cedinho, é mais garantido». Normalmente, entre 17h e 18h, o trevo 'vazia. Quem precisa ir para alguma cidade não muito distante de Santa Maria até fica mais tempo, mas o resto do pessoal desiste, porque a 'curidão dificulta os dois lados: ninguém costuma parar num trevo à noite, assim como ninguém costuma 'perar num trevo à noite. Em o final da fila, 'corada nas proteções da pista que vem antes da ponte sobre os trilhos, 'tá a única mulher pedindo carona. Tati, 22 anos, cara de poucos amigos, reclama: «Hoje tem muita gente, mal sobra 'paço pra ficar na pista. E se eu atacar algum carro vai vir todo mundo em cima». Ela diz que, normalmente, fica pouco tempo 'perando uma carona para sua cidade natal, Júlio de Castilhos, a cerca de 50 km de Santa Maria. Não se sente constrangida e também não teme os perigos que, por ser mulher, 'tá mais propícia a enfrentar: «O pessoal cuida. Os caminhoneiros, que são os que mais param, são educados e gentis, nunca faltaram com o respeito com mim. Uma hora depois, 15h06, nenhum carro parou. A fila diminuiu, mas porque um dos caroneiros não teve paciência e foi embora. Em o outro dia, uma sexta-feira também de sol forte, o trevo, no mesmo horário do dia anterior, 'tá vazio. O que para uma sexta-feira, tradicionalmente o dia mais disputado para pegar carona, é surpreendente. Para «testar» a reportagem, decido ficar no trevo à 'pera de uma carona para um lugar próximo, Júlio de Castilhos, 50 Km de Santa Maria. Espero um fotógrafo convidado chegar, o que não demora 3 minutos, tiro uma folha de papel 'crita «Júlio» da mochila e inicio a gesticulação simpática com a mão direita. Passam alguns carros, que não param, mas os motoristas ao menos fazem um sinal com as mãos de que vão só dar uma volta por a região -- traduzindo, não vão até o meu destino. Surpreendentes 7 minutos depois, uma Hilux preta pára. Corremos até ela, assim como um outro 'tudante que acabou de chegar e também quer um lugar. Converso com o motorista: Opa, tudo jóia? O senhor vai para Júlio? Sim, lugar para dois. Embarcamos, eu e o fotógrafo. Caminhonete grande, janelas fechadas e ar condicionado ligado. Uma daquelas caronas de primeira linha. Depois de uma breve e curta apresentação -- porque uma relação tão efêmera não se presta a maiores detalhes, o motorista já fica conhecido por nós como Seu Hélio, engenheiro civil, pai de duas filhas, que vai a Júlio de Castilhos a trabalho uma vez por mês, e que não costuma parar para oferecer carona muitas vezes: «Olho bem para o rosto das pessoas. Para aquelas prostitutas que 'tão sempre nos trevos, não dou mesmo. Mas vocês tinham isso aí ó -- aponta para a folha de papel que serviu de plaquinha -- e isso conta muito " diz ele. Então, começa a verdadeira conversa. Um dos principais motivos por o qual as pessoas param e deixam entrar desconhecidos nos seus veículos é a necessidade de uma companhia para conversar. às vezes, e normalmente isso acontece com caminhoneiros, o caroneiro nem precisa falar: só 'cuta e balança a cabeça, concordando, deixando que o outro desabafe. Discordar do motorista jamais, pois se corre o risco de ficar na 'trada, mesmo que isso seja pouco comum. Seu Hélio fala bastante, mas não demonstra articular as palavras de maneira adequada. Parece dizer algo para si mesmo, e mesmo colocando o ouvido bem próximo a ele, só compreendemos parte do que é dito. Ainda assim, faço que entendo tudo e puxo conversa, soltando frases incompletas que servem de isca para ele falar, falar e falar. Nem bem uma hora depois, 'tamos próximos do nosso destino final. Quase ao lado da praça, no centro de Júlio de Castilhos, ele 'taciona a caminhonete. Saímos, agradecemos bastante -- praxe de quem costuma pegar carona, agradecer -- e caminhamos por a cidade, pensando já na volta. Quando 'tamos em direção à saída da cidade, um barulho de apito de trem, ainda distante, surge devagar como a sombra de uma nuvem de temporal. O fotógrafo vem com uma idéia: «Ei, vamos voltar de carona no trem! E sai correndo para alcançá-lo. Eu 'pero um pouco e corro atrás, deixando a volta apenas para observar a paisagem, do alto de um vagão de trem. Número de frases: 77 226 áreas, 740 grupos artísticos, 7 mil pessoas, 39 % de músicos, 28 rádios comunitárias, 11 jornais, em 2 anos de pesquisa. Números, números e mais números. O que eles significam? A nossa visão da favela é quase sempre traduzida 'tatisticamente. Números soltos de 'sa maneira podem não significar muito. Esses significam, ao contrário. Principalmente quando revelam um outro «mundo», quando descortinam uma produção cultural» invisível». Ingenuamente invisível. Passaram-se dois anos desde o lançamento do Guia Cultural de Vilas e Favelas de Belo Horizonte. Outros dois foram necessários para que a pesquisa coordenada por a antropóloga Clarice Libânio fosse concluída em livro. Um mapa para a vida cultural das ruas, vielas, becos das favelas de Belo Horizonte. «A partir dos resultados, foi possível perceber que há, nas vilas e favelas da cidade, uma rica, plural e ampla produção cultural, que, entretanto, sem visibilidade e divulgação, não se dá a conhecer, restringindo-se, muitas vezes, ao seu local de produção." De lá para cá, muita coisa mudou. Outros artistas sugiram, o número cresceu. E muito. Em a atualização que 'tá sendo feita 'se ano, o número de artistas encontrados agora, em relação ao Guia, 'tá duplicando e, em alguns casos, até triplicando. Com 'sa perspectiva, o número de artistas pode ter passado, em poucos anos, para 15 ou 21 mil. De acordo com a pesquisadora, a surpresa não é só para quem é de fora, até mesmo as comunidades se 'pantam com tamanha produção. Como áreas tão pobres podem produzir tanta coisa, como podem ter uma vida cultural tão ativa? Pois têm. Sem auxílios, sem patrocínio, sem leis de incentivo, praticamente sem dinheiro, a cultura se move sem gerar renda, pelo contrário, 80 % desses artistas gastam para produzir. E por quê? De acordo com a antropóloga, a palavra mais ouvida nas entrevistas com os artistas foi «auto-'tima». Ou seja, a necessidade da manifestação artística se dá em razão de uma vontade por se expressar, por se afirmar. A via cultural De uns anos pra cá, a solução por a arte tem se mostrado bem mais viável. As oficinas artísticas de artesanato, música, vídeo, graffiti, etc. substituíram os cursos profissionalizantes de pedreiro, manicure, costureira. É um novo conceito de cidadania, ou melhor, uma expansão. Se o crescimento da violência tem inibido a participação política direta, 'ta encontrou uma nova maneira de se expressar. «O produto artístico traz, em si, a história dos agentes culturais e de sua comunidade e as propostas de sua transformação. Em 'se contexto, a arte fornece aos agentes de vilas e favelas elementos de efetiva participação política, que ultrapassa a noção legal», afirma a antropóloga. Mas toda 'sa produção artística que foi incentivada encontrou uma barreira: como vencer a separação entre favela e asfalto? Uma questão de divulgação, de acesso a mídia. Foi aí que entrou o Guia Cultural de Vilas e Favelas. Mas, como afirma a autora, a intenção não era colocar só mais um livro na prateleira das livrarias. Por isso foi criada a ONG «Favela é isso aí», com o objetivo de dar vazão a 'ses números, fazer com que eles alcancem a mídia. Detecta-se que há muitas ONGs trabalhando em prol da produção cultural periférica, o que gera superposição de ações e desgaste do público-alvo, além, é claro, do desperdício de recursos e 'forços», continua a autora. O que não há, na verdade, é um trabalho em conjunto entre elas. Ou seja, não vai demorar para que precisemos de um guia de ONGs. Onde adquirir o Guia Cultural de Vilas e Favelas: Livrarias Travessa, Ouvidor, Leitura, e também no Museu Abílio Barreto. Também pode ser adquirido na ONG Favela é isso aí. Número de frases: 43 Um dos pilares da nova Abrafin, o 12° Goiânia Noise Festival trouxe mais de 30 bandas nacionais à capital de Goiás de 24 a 26 de novembro. De o Ceará, Montage, Karine Alexandrino e o Fossil «ganharam» boa parte do público presente ao Centro Cultural Oscar Niemeyer Há pouco, já se notava a proliferação, mas não havia um fio condutor. É o seguinte: à revelia das corporações da indústria fonográfica, produtores e bandas independentes por o País há tempos organizam festivais como sua melhor vitrine. O Goiânia Noise Festival, realizado no último fim de semana no Centro Cultural Oscar Niemeyer, de 24 a 26 de novembro, 'teve na 12ª edição e hoje é um dos pilares da nova Associação Brasileira dos Festivais Independentes -- instituição que tenta fortalecer o circuito. Não à toa, o «Noise», como é conhecido em Goiás, hoje é um dos festivais mais relevantes de 'sa linhagem. Pela primeira vez, o Noise levou bandas do Ceará para seus palcos. Montage e Karine Alexandrino, dia 24, e o Fossil, 26, «ganharam» boa parte do público presente ao novo Centro Cultural Oscar Niemeyer. Novo, bonito, porém reconhecível: a arquitetura do 'paço se assemelha às feições de Brasília (DF), cidade a 200 km de ali. Cheiro de tinta, aspecto recente e dois palcos. Em o Palco Monstro, o menor, rolava som da melhor qualidade e maior proximidade das bandas com a platéia. Já no Palco Noise, maior, o público e o artista tinham mais conforto -- coisa «fina» mesmo: ar condicionado e carpete -- porém o som embolava. Uma chuva «indecisa» rolava enquanto o Montage começava a tocar, na sexta. De início, o show era frio, o público olhava curioso. No entanto, logo o tempo se abriu. Raio de Fogo era berrada por o público goiano. O que serviu para Daniel Peixoto (voz), Patrick (guitarra) e Leco Jucá (groovebox) perceberem que eram conhecidos por ali. Daniel se banha d ` água, rebola como de praxe e ensurdece o público, que gritava de volta. Ginastas Cariocas foi catarse total. Ótimo show. Karine Alexandrino subiu ao palco Noise acompanhada dos Bofes Mexicanos, sua banda de apoio. A cantora logo evidenciou sua performance. Provocou o público em figurino que a deixava com as pernas de fora, sob o clamor da marmanjada. «Hoje eu tô solteira!», gritou. Karine 'tá em fase de produção e composição do repertório do novo disco, o terceiro de carreira. Chique, cafona, ela «brilha» desengonçada. Satiriza o glamour. O trio instrumental manda um som com arranjos distintos bem combinados. Clayton Martim (Cidadão Instigado), na bateria, arregaça. Em pé ou de pernas para o ar se debatendo, Karine Alexandrino ganhou o público goiano. Saiu aplaudida. E assediada no final. Duas meninas subiram ao palco, seguidas de alguns rapazes entusiasmados ... Parte do público «gamou» mesmo. Em ela e na proposta 'tética. Para outros, pareceu 'tranho. Ou seja, para Karine, normal. Estranho, mas não tanto como o Fossil, quarteto de Fortaleza formado por Vitor Colares (guitarra), George Frizzo (baixo), Eric Barbosa (guitarra) e Victor Bluhm (bateria). Eles mandaram seu som instrumental repleto de efeitos e repetições para uma platéia de bandas pesadas no último dia do festival. «Público «" porrada» demais para o Fossil? Talvez. Música difícil que, por fim, repercutiu bem. Só vendo para entender. A banda deixou boa parte do público goiano impressionado e fora cotado como um dos melhores shows do último dia do festival. Venderam os CD ´ s disponíveis nas banquinhas do evento, tiraram fotos com fãs feitos por ali. Por fim, ninguém precisou subir com sanfona ou zabumba nos palcos do Goiânia Noise para representar o Ceará. Ou melhor, representar não. Porque de referências tradicionais do Estado Montage, Karine Alexandrino e Fossil não têm quase nada. E parecem bem resolvidos assim. Número de frases: 52 Inspirado principalmente no prazer de ouvir, decidi agrupar o que 'tava disperso no Overmundo e falar um pouco sobre um pessoal que faz Música Universal * (ou Livre). A sede da Itiberê Orquestra Família é no Rio de Janeiro, mas a música que produz já pode ser considerada patrimônio vanguardista do Brasil inteiro, com eco no mundo. Um grande divulgador da música instrumental brasileira é Ricardo Sá Reston, que, embora ande meio desaparecido deste 'paço overmundano, tem na rede o imperdível podcast (a nova rádio, por assim dizer) Miscelânea Vanguardiosa. Aqui no Overmundo ele ofereceu, ou colocou na roda (não gosto do verbo " disponibilizar "), há meses, algumas músicas provenientes das Oficinas de Música Universal da Itiberê Orquestra Família, que tomo a liberdade de anexar a 'te texto para aumentar o alcance desse material tão legal que andava 'quecido no meio de tantas colaborações (e viva a licença compartilhada!). Uma tentativa que me deixou de cama Lembro, há alguns anos, de ter tentado trazê-los pra tocar em Floripa. Acabei não conseguindo articular patrocínios e 'paço, mas «vi» acontecer a vinda, por outras mãos (mais bem equipadas). Um professor do curso de música da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), cujo mestrado tratava justamente da IOF, arranjou não apenas um 'paço adequado para eles tocarem (o Teatro Álvaro de Carvalho) como também aproveitou para propiciar que, durante a 'tadia de Itiberê e seus «filhos» na Ilha, ministrassem oficinas na própria universidade. Até onde sei, foi tudo muito proveitoso, mas não consegui assistir à apresentação nem às oficinas. Fruto da simples chegada do inverno, ou somatização do desconsolo por não ter conseguido produzir a vinda de eles depois de conversar ao longo de meses com a Lúcia Casoy, 'posa de Itiberê e produtora da Orquestra-, caí de cama derrubado por uma gripe forte, de desintoxicação. Acho também que a origem pode ter sido o excesso de cigarros de palha. Mas isso não vem ao caso. Sei que, enquanto amigos viviam uma experiência única, eu 'tava deitado, curtindo a minha gripe. A cura Acabei apreciando uma apresentação de perto e diretamente depois, numa viagem coletiva a São Paulo, no Sesc, com entrada a apenas um real (numa noite em que se apresentaram também Naná Vasconcelos, o próprio Hermeto Pascoal, que teve presença do Naná no palco, tocando zabumba, e por último Antônio Nóbrega, que encerrou pulando ao chão e convidando todos para uma ciranda ... nada desprezível, não?) Nem liguei para a acústica meio metálica do ginásio, e tenho fresca na memória a frase do Hermeto: " Todo mundo é músico», reafirmando o título do disco Só Não Toca Quem Não Quer (1987). Retomada do foco Bom ... o fato é que a Itiberê Orquestra Família hoje já 'tá no segundo CD (o primeiro foi Pedra do Espia, de 2001, duplo), chamado Calendário do Som, também duplo, feito a partir de composições do Hermeto (O Calendário do Som é um livro com uma música correspondente a cada dia do ano). Por falar nisso, a base do disco foi o livro com as partituras, mas Itiberê criou e pratica um método (será que pode ser chamado método?) que tem o nome de Corpo Presente. É tudo o que nos falta na vida cotidiana: presença. E é exatamente o que sobra aos músicos que fazem parte da Família. O conceito básico é que a partitura seja apenas uma referência, com a criação musical acontecendo de forma compartilhada entre os músicos e o maestro, sempre no agora. A Orquestra é digna de admiração, já que não é fácil encontrar jovens com gosto musical apurado como ouvintes e, muito menos, como «fazedores» de música instrumental livre, de qualidade e energia viva, com uma transcendência cósmica. Resumo da improvisação Com descendentes assim, Hermeto pode até abrir mão de continuar o trabalho com seu Grupo (sendo Mundo Verde Esperança o último disco lançado com a formação, em 2003), e dedicar-se ao apaixonamento musical com a namorada, Aline Morena Digam o que disserem (e falam por preconceito, porque Chimarrão com Rapadura é ótimo), Hermeto Pascoal já criou um legado muito valioso, que Itiberê Zwarg se ocupa em perpetuar, com aprofundamento e renovação. * " Música Universal foi o termo encontrado por Hermeto para descrever 'sa qualidade avançada de fazer música, poliharmônica, poli-rítmica e rica em combinações timbrísticas que, sem preconceitos, engloba todos os 'tilos, valoriza elementos da tradição musical popular brasileira e, ao mesmo tempo, ultrapassa a barreira entre a música erudita e a popular justapondo traços da música regional de todo o mundo, refletindo com isso sua universalidade." ( fonte: www.itibereorquestrafamilia.com.br) Os músicos da Itiberê Orquestra Família são: Mariana Zwarg Letícia Malvares Karina Neves Joana de Castro Yuri Villar Thiago Queiroz Jonas Corrêa Carol Panesi Renata Neves Maria Clara Chico Oliveira Mayo Pamplona Luciano Câmara Bernardo Ramos Vitor Gonçalves Ajurinã Zwarg Remissões (ou links): Itiberê Orquestra Família Podcast Miscelânea Vanguardiosa Hermeto Pascoal e Aline Morena Matérias de Helena Aragão sobre a Itiberê Orquestra Família Vídeo Songbook de Hermeto Pascoal no Overmundo -- distribuição livre -- 15 músicas organizadas e transcritas por Jovino dos Santos As músicas postadas são faixas do CD «Caminhos da Paz lançado em 2006» ao lado de um caderno de partituras documentando o trabalho das Oficinas ministradas por Itiberê Zwarg. ( Obtidas de colaborações de Sá Reston) Contatos da Itiberê Orquestra Família: iofcontato@gmail.com ou luciacasoy@fonte.org.br Número de frases: 50 (21) 9231-8943 e 22250217 Empina, Jó! Empina, Jó! E lá saia ele, com suas pernas compridas, a passos largos, inclinando o corpo para frente. Era um jovem que, na década de 80, perambulava por as ruas de Rio Branco, principalmente na Epaminondas Jácome e Getúlio Vargas, empinando o corpo quando as pessoas gritavam «Empina, Jó». Quem não teve oportunidade de conhecê-lo provavelmente deve ter cruzado com um rapaz moreno, magrinho, que sempre abordava as pessoas com a típica saudação: «Meu querido, você não teria aí 1 real para me dar?». Agatócles, seu nome próprio, tinha boa formação e era culto. Chegou a trabalhar como figurante no cabaré da novela Roque Santeiro, exibida por a Rede Globo em 1985, porém, perdeu o controle de sua racionalidade e passou a transitar por as ruas pedindo 'mola. «Meu Querido «foi uma figura tão conhecida que ganhou até comunidade no orkut, a» Meu Querido FOREVER», na qual as pessoas trocam curiosidades sobre ele. Esses são apenas dois loucos presentes no ensaio «Fragmentos de Loucura», apresentado por a Companhia Eventual de Artes (Ceva). Como o próprio nome diz, a companhia faz apresentações eventuais, quando surgem convites nos eventos da cidade. Formada em 1998 por o teatrólogo Cleber Barros, a Ceva não tem elenco fixo. «É um 'paço aberto para artistas que gostam da arte do improviso». O ensaio sobre a loucura surgiu da idéia de Cleber de montar um 'petáculo inacabado, com um roteiro que muda periodicamente e com artistas que interagem com o público. Atualmente, os personagens são interpretados por os atores Ivan de Castela, Cleber Barros, Regina Cláudia, Mirna Campos, Verônica Padrão e Yuri Montezuma, mas a companhia 'tá sempre aberta a receber atores interessados. A pesquisa para compor as falas e gestos foi feita por meio do contato com os próprios «protagonistas» e de situações e experiências relatadas por o povo. Um dos «loucos» mais conhecidos da cidade era o chamado «Camaleão Ovado». Já de idade, andava por as ruas do Segundo Distrito, nos anos 70, com roupas velhas e um cajado na mão. Permitia que o chamassem de camaleão, mas perdia a boa educação se o denominassem camaleão ovado, pois tinha a consciência de que isso era papel da fêmea. Tinha também o Raimundo Doido. Uma 'pécie de arauto da cidade. Fazia mandados, pequenos carretos, capinava quintal, baldeava casas e anunciava acontecimentos importantes, como a chegada de autoridades, inaugurações, promoções comerciais e convites em geral. Costumava dizer aos comerciantes: «Escreve ai que eu digo». Calçava sapatos de seringa e levava às calças uma tira de pano. Sempre alegre, ria quando a meninada gritava «Olha o Raimundo Doido». Por sua importância histórica, virou personagem da minissérie «Amazônia -- de Galvez a Chico Mendes», da novelista Glória Perez, exibida recentemente por a Rede Globo. Sobre a Ceva A Companhia surgiu quando Cleber Barros chegou do Rio de Janeiro para uma temporada em Rio Branco. A ele juntaram-se os atores Ivan de Castela e Elineide Meireles, que se reuniam num bar chamado Roça Brasil, no bairro Bosque, para ensaiar o Fragmentos de Loucura. A Ceva não tem sede. É um grupo de pessoas que propõe fazer teatro, sempre, sem complicações e com um figurino simples. «A Ceva tenta mostrar que um grupo de teatro não é aquela coisa linda que você vê no dia da 'tréia. Fazer o teatro é dificílimo. E mais, por que o nome ' Fragmentos de Loucura '? Porque quem faz teatro tem que ser louco», argumenta Cleber. Outros loucos Doida Herege -- Mulher que anda por a intermediação da Rua Rio Grande do Sul e Papoco, semi-nua gritando a não existência de Deus. Em a sua falta de fé, ora e convida a Deus para descer a terra e ter com ela uma conversa. Chica Tolete -- Jovem que, há 50 anos, trabalhou como dama da noite no bairro do Papoco. () Temida por as mulheres e por os homens por não ter papas na língua, ser agressiva verbal e fisicamente. Louca de Cruzeiro do Sul -- Moça nascida em Cruzeiro do Sul e que, em pleno porto do famoso Juruá, despia-se e banhava-se diante de todos. A família, em meados de 1997, a trouxe para fazer tratamento no Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac). Quando tinha licença médica, saía 'bravejando nas ruas e praças da cidade, relatando as experiências vividas dentro do hospital. Ainda hoje aparece no centro de Rio Branco. às vezes dopada, por as constantes idas ao hospital. Número de frases: 47 Era um colégio de freiras. Nossa Senhora do Bom Conselho. Cheguei ali já na 4ª série primária, depois de acompanhar minha mãe, professora primária, por os colégios públicos onde ela trabalhava. Fui alfabetizada em casa, por a babá, aos quatro anos de idade, brincando. Fiz o pré, e «pulei» a primeira série, por que antecipei os conteúdos. Tudo isto rendeu muita discussão. Era década de 70, e já prevalecia um limite de idade para que a criança fosse para a 'cola, e começasse a 'tudar, seguindo, corretamente, cada série. Mas minha vida na 'cola pública tinha terminado na 3ª série, depois de muitas encrencas. É que eu já tinha um 'pírito aguerrido, polêmico, e graças a Deus e ao salário suado de minha mãe, podia ler coleções belíssimas de livros que um vendedor trazia de tempos em tempos naquelas maletas enormes que me transportavam deste mundo. Assim, sobrevivi a algumas «pequenas guerras» travadas na 'cola pública com professores que eu julgava -- na minha pequena infância -- não 'tarem tão preparados para o ofício. A gota d' água foi a polêmica com a professora substituta de português. Ela havia corrigido meu plural para «flores», e afirmado categoricamente que só havia uma opção correta; «Florezinhas». Ora, ora e o «florzinhas» então 'tava errado? Não aceitei a resposta e corri a buscar dicionários e gramáticas. Semanas depois, de envolvidas todas as professoras de português do Colégio Estadual Marcondes de Godoy, e tendo despertado até a intervenção da diretora, a questão foi pacificada: valiam as duas opções. Tive meu ponto de volta, e a 'cola inteira sabia da discussão. Fui embora, eu e minha mania de questionar tudo, rumo ao colégio das freiras. Pela primeira vez meu pai, que sustentava a casa, mas achava desperdício gastar dinheiro com 'cola particular, ia pagar a mensalidade. Tinha que andar muito, sob o sol 'caldante que fazia na minha cidade, a pequena Jataí, para vencer os sete quarteirões que separavam minha casa do colégio. Era novinha, e aquilo me custava muito. Em aquele tampo não havia vans fazendo transporte 'colar, e pegar ônibus seria impensável. Um gasto a mais, desnecessário. O colégio era imponente, erguido à sombra de árvores seculares, com um bem cuidado jardim. Separado por uma trilha cuidadosamente organizada da casa das «irmãs», onde ficava a sala de piano, capítulo à parte nas minhas reminiscências de 'cola. Lá, Madre Pillar, histórica na memória de tantos que cresceram por ali, ensinava piano munida de uma indefectível varetinha de madeira. A o sinal dos primeiros sons equivocados, fruto da pressão nas teclas erradas, lá vinha o castigo: batidinha de vareta nos dedos do infeliz. E eu, por força da determinação de minha mãe, tinha que fazer piano, embora amasse mesmo o violão. Havia dois mundos naquele colégio. O dos ricos, representados por seus filhos, que 'banjavam caminhonetes e outros carros da época, roupas de griffe e tudo que acompanha a arrogância peculiar a quem cresce tendo tudo, e à vontade. E o dos remediados, como eu, e tantos outros cujos pais se 'forçavam para pagar a mensalidade garantindo assim um ensino «melhor» para seus filhos. A divisão era nítida na hora do recreio, quando as turminhas se dividiam, ao som do sino, que dava direito de ir à cantina, comprar o lanche. Tudo no Colégio Bom Conselho era instigante: as histórias e 'tórias que corriam sobre romances das freiras com os padres, as ordens de transferência por motivos imaginários que ficávamos a cogitar. Mas os professores, 'tes eram um capítulo à parte. Tudo ali cheirava a ordem, hierarquia e limpeza. Os corredores, as salas de aula, as 'cadas, e os professores. As irmãs, e a «alta corte», onde incluíamos as mais antigas e valorizadas professoras, 'tavam acima das jovens e novatas. Assim, na 4ª série, ainda me familiarizando, não tive muitos problemas. Me sentia um patinho fora d' água, e mais: um patinho feio, que não tinha o cabelo cuidadosamente 'covado, não chegava de carro, nem usava roupas de griffe. Irmã Iraci, uma das mais temidas e severas, e por a qual eu tinha uma 'tranha simpatia (já que não havia motivos concretos para isto), materializou 'te meu sentimento, num comentário num dia em que passei mal: " O que você tem minha bonequinha feia?" Pode uma crueldade de 'tas? Mas na hora me soou meio que como um elogio, que calou fundo na minha alma, para surtir seus efeitos algum tempo depois. Professora Idelma, no entanto deixou a mais forte impressão. Ela era a poderosa professora de português. Passei a conviver com ela na segunda fase do primeiro grau (era assim que se chamava). Seu salto alto, ecoando por os corredores, ou entre as carteiras na sala silenciosa enquanto fazíamos as tarefas descritas no quadro negro, ainda ecoam na minha memória. Eu já tinha dificuldades em enxergar, mas não havia percebido o quanto. E simplesmente não conseguia distinguir o «Q» do «G». Quero, e guardar, 'critos em minúsculas, eram palavras difíceis para mim. E ela não explicava a diferença. Apenas repetia, do alto de sua superioridade: «preste atenção». E eu prestava, mas não conseguia ver a diferença. Assim, numa tarde, todos foram dispensados, menos eu. A tarefa era 'crever 100 linhas de «q», e 100 linhas de» g». Engoli as lágrimas e fiquei ali, naquela tarefa penosa, hercúlea para mim. Fiz tudo, até que tocou a sineta final. Ela, sem olhar o caderno, me mandou concluir em casa, e levar pronto na próxima aula. Levei para casa, a humilhação e a tarefa, que submeti ao olhar da minha mãe. Ela, observadora, me disse: «filha, um tem uma barriguinha, o outro tem um bumbum». E só então se fez a luz, e eu aprendi a diferenciá-los. Meses depois a professora de uma outra disciplina percebeu meu 'forço em apertar os olhos, e me recomendou uma consulta ao oculista. Era miopia, acima de dois graus. Além da memória do que a rigidez me causou, ficaram as boas impressões. A professora de geografia, que fazia concursos, e um dia ofereceu o próprio automóvel de prêmio para quem soubesse responder por que o pico das montanhas é gelado, se o sol bate lá primeiro? Coisas assim eu nunca 'queci. Uma lição que aprendi para sempre. Em o Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho aprendi a distinguir a visão dos outros e a minha própria, a meu respeito. Amadureci, para não permitir que outras pessoas e conceitos abalassem minha auto 'tima. Mesmo que para isso tivesse que bater -- literalmente -- na líder da turma das patricinhas que andavam atrás de mim falando coisas para me depreciar, como criticando meu cabelo, afro descendente, sempre com ar de despenteado. O tempo passou, e da rigidez do colégio de freiras, fui embora fazer o segundo grau numa 'cola conveniada, e de orientação evangélica. Mas aí então já era adolescente, e sabia me defender, me impor e 'crever. Sim, por que de tanto ler, aprendi a 'crever, organizar idéias e polemizar. Terminei o segundo grau com 16 anos e passei de cara em dois vestibulares: um da universidade federal, e outro de uma faculdade particular. Podia 'colher se faria pedagogia, ou administração de empresas. Mas sonhava em bater asas e voar. Queria ser jornalista, e para isto teria que mudar de cidade, de mundo, e enfrentar novos desafios. Saída de um curso profissionalizante: Técnico em Magistério, nunca usei muito do que aprendi no Colégio Bom Conselho. Especialmente o que ensinavam em duas disciplinas que não existem mais: Educação Moral e Cívica, e Educação para o Lar. A bonequinha feia, nunca alisou o cabelo, e aprendeu a erguer a voz com quem tente subestimá-la. Apesar de tantas lições de inferioridade que a 'cola me deu, sobrevivi, grande, e forte. Com orgulho de mim. Número de frases: 90 «A Aracruz trouxe o progresso. A Funai, os índios». Espalhando frases como 'ta em outdoors por o Espírito Santo, a multinacional Aracruz Celulose 'pera ter apoio da população para impedir a demarcação de 11 mil hectares como terras indígenas. Essa é abertura de uma matéria que saiu no CMI. O caso é grave, mas mais grave ainda é o silêncio sobre a questão, 'pecialmente da mídia em geral, que recebe -- claro -- por anúncios da multinacional. Ainda não consegui mapear quais são os veículos que têm anúncios, mas seria algo interessante de se fazer. Em um comercial de TV recente, aliás, 'tavam lá artistas como Gilberto Gil (que cedeu a música Balé de Berlim), e o Seu Jorge, ajudando a construir a imagem da empresa. Quem quiser entrar na briga, mesmo que seja por e-mail, dê uma olhada aqui. Ou enviem suas mensagens ao Ministro Márcio Thomaz Bastos, para que apenas cumpra sua palavra e assine a portaria que define os limites das terras Tupiniquim e Guarani: Número de frases: 9 gabinetemj@mjh.gov.br O Código Laranja realizará um debate virtual no Laranjada, seu programa de mensagem instantânea. O assunto em questão é: Educação rígida dos filhos Bill Gates revelou numa audiência de negócio no Canadá que controla o tempo de acesso dos seus filhos ao computador e à internet. O criador da Microsoft contou que sua filha mais velha, de 10 anos de idade, não era uma usuária muito dedicada aos computadores, mas que depois que ela entrou para um colégio onde os 'tudantes usam computadores de mão para quase tudo, isso mudou drasticamente. «Ela ficou muito ávida e descobriu uma porção de jogos de computador, incluindo um que roda no Xbox 360 chamado ' Viva Piñata ', onde você toma conta do seu jardim» afirmou Gates completando que ela pode passar duas ou três horas por dia em 'se jogo. Gates conta que 'tipulou com a sua 'posa Melinda um limite de 45 minutos por dia para jogos em dias úteis e uma hora nos finais de semana, isso sem contar o tempo gasto com os deveres de casa. Mas Bill Gates não é o primeiro multimilionário famoso a colocar regras rígidas em seus filhos, a própria Madonna, musa pop que transgressora das barreiras impostas por a sociedade no que diz respeito a sexualidade, proíbe seu casal de filhos de assistirem televisão. As crianças se mantém em contato com o universo infantil através de DVDs, para não ficarem completamente alienadas das outras na 'cola. Será que 'sas são as melhores opções para seus filhos? Por que será que eles se impõem limites tão rígidos para seus filhos? Seria 'sa disciplina rígida uma receita para o sucesso? Não parece 'tranho que no caso do Bill Gates, ele trabalhe em algo tão moderno e transformador mas limite o acesso de suas filhas ao que cria? Que tipo de 'pírito crítico os filhos da Madonna possuem 'tando tão alienados do mundo? Será que as crianças entendem 'sa postura adotada por os pais? Como isso afeta a personalidade infantil num momento em que o que conta é ser aceito por os demais colegas? Com regras tão rígidas os pais não 'tão de fato criando seus filhos para serem anormais? Essas outras questões serão debatidas no Laranjada em 'sa sexta-feira, dia 16/02/2006, às 15:00 e ficará aberto durante todo o final de semana. Os colaboradores do Código Laranja participarão e todos os membros do Laranjada 'tão convidados. Para participar deste debate basta 'tar cadastrado no Laranjada (http://www.codigolaranja.com.br/), entrar no blog messenger e você receberá automaticamente um convite para o debate. Para retornar a sala, basta clicar em ' selecionar ` e pesquisar a sala ' Educação rígida dos filhos '. Contamos com a sua participação! Matérias relacionadas: Bill Gates controla tempo gasto por os filhos na internet asp Para saber mais sobre os debates no Laranjada visite www.codigolaranja.com.br. Número de frases: 25 Quem começou a história toda foi o Dráuzio Varella 'crevendo Estação Carandiru. Aí veio o Hector Babenco e decidiu fazer um filme em cima do livro. Então veio a Globo que inventou de fazer uma mini-série baseada no filme baseado no livro. Aí vieram o Aimar Labaki e o Sérgio Roveri e, a partir de um mesmo conto do Varella sobre um travesti do Carandiru, 'creveram respectivamente O Anjo do Pavilhão Cinco e Abre as Asas Sobre Nós. como se já não bastasse, agora é a vez de Salmo 91, 'petáculo de Dib Carneiro Neto dirigido por Gabriel Villela, também inspirado no best-seller do apresentador das grávidas do Fantástico e que agora é o doutor-dengue. Quando as cortinas do teatro do SESC Santana se abrem, vemos um palco imenso com um enorme retângulo branco delimitado no chão, com cinco portas brancas ao fundo, remetendo a celas carcerárias. A o centro, o ator Paschoal da Conceição (o bom e velho Doutor Abobrinha, manja?) amarrado e declamando com muita força um monólogo. Vem-me uma expectativa de que todo aquele 'paço cênico seja proposital, e que seja utilizado ao longo do 'petáculo. Logo após o monólogo, os demais atores atravessam o palco jogando uma pelada, para minha alegria: «Que bom, eles vão mesmo utilizar 'se 'pação todo!». Engano meu. Segunda cena, Rodrigo Fregnan se pinta com pó de café e em seguida começa um monólogo enquanto utiliza mais do mesmo pó para preparar a bebida numa cafeteira, jogando o café pronto dentro da cafeteira novamente enquanto se refere à tradição da família de seu personagem para o crime. Em determinado momento, vira o bico da cafeteira para fora e, enquanto fala, deixa derramar café fervendo no chão. «Oba, uma peça cheia de simbologias», pensei. Outro engano meu. A cada um dos dez monólogos, o 'paço vai ficando cada vez maior e mais subutilizado, as imagens dos demônios nas pernas transparentes do cenário vão ficando cada vez mais óbvias, as portas brancas ao fundo e a passarela preta que pende sobre elas vão cada vez perdendo seu sentido e se mostrando firulas sem utilidade cênica. Pra quê um 'paço tão grande demarcado por a faixa branca se todos os monólogos acontecem no mesmo ponto, no proscênio? Pra quê um ótimo elenco se eles se restringem a contar suas histórias em primeira pessoa e apenas interagem com objetos de cena que parecem ter sido incluídos como solução preguiçosa para não deixar os monólogos mais parados ainda? Em aquela noite de 'tréia, saí pensando no quanto 'te 'petáculo não acrescenta absolutamente nada de novo ao que já 'tamos cansados de saber sobre o Carandiru. Mais que isso, perde chances fantásticas de radicalizar na linguagem quando opta por utilizar cinco atores brancos para interpretar vários personagens negros: a cena do café sendo 'fregado na cara me remete ao Anjo Negro de Frank Castorf, 'petáculo que radicaliza de forma fabulosa a utilização de um ator branco interpretando um personagem negro. Mas aqui no Salmo 91 nada acontece. Número de frases: 23 Uma pena, uma peça que poderia transmitir um pouco da sensação de barril de pólvora prestes a explodir que era a penitenciária, localizada, coincidentemente ou não, a poucas quadras do teatro, mas que é tão morna que seu potencial explosivo é, no máximo, de 'talinhos de São João. O rock gaúcho coloca o pé na 'trada! Em 'te mês de novembro, as bandas Identidade, Locomotores, Jeans e Pata de Elefante embarcam numa caravana para mostrar ao público de Porto Alegre, Curitiba e São Paulo, o rock com «R» maiúsculo que vem sendo feito no Rio Grande do Sul. Batizado como «Expresso do Rock», a primeira etapa deste evento itinerante acontece dia 23/11 em Porto Alegre, no Stone's, passando por Curitiba dia 24/11, no Porão do Rock, e culminando com o show do dia 26/11, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, durante mais uma edição do festival Street Rock. Durante cinco dias, 26 pessoas (incluindo músicos, equipe técnica, produtores, cinegrafistas e jornalistas) vão 'tar viajando num ônibus com equipamento de som montado, para que as bandas possam ir tocando durante o trajeto. Esta aventura será registrada em vídeo por a artista plástica Janice Martins e se transformará em documentário posteriormente. A MTV / RS também fará a cobertura da viagem e dos shows. E mais: um blog já 'tá no ar (www.expressodorock.blogspot.com), atualizado diariamente por o jornalista Daniel Bacchieri, com imagens e informações exclusivas do que 'tiver rolando por a 'trada. O evento conta com a produção de Cida Pimentel e com o apoio do deputado paulistano Turco Loco. Saiba mais sobre o STREET Rock:(www.streetrock.com.br) Entre os maiores eventos de rock independente na capital paulista, o Street Rock reúne em média um público de 4.000 pessoas a cada edição, na maioria jovens de 14 a 30 anos, de todas as classes sociais. A iniciativa já abriu 'paço para mais de 60 bandas de diferentes 'tados do Brasil. Desde 2001, foram realizadas 20 edições, que arrecadaram mais de 70 toneladas de alimentos destinadas a instituições de caridade. Em o show do dia 26, além da apresentação das bandas gaúchas, que inicia às 15h, haverá ainda a participação da banda paulistana Rock Rocket. O Street Rock tem o apoio de Turco Loco, deputado atuante na defesa de políticas públicas para a juventude, por meio do incentivo ao 'porte, à cultura e à proteção do meio ambiente. Turco já apoiou cerca de cinco mil eventos, entre campeonatos, oficinas e shows, voltados principalmente aos jovens de baixa renda e 'colaridade. As Bandas Identidade -- Formada em 1998, a Identidade tem em seu currículo um disco oficial lançado em 2002 por a gravadora Stop Records, participações em duas coletâneas e em festivais importantes como o Planeta Atlântida e Aquário do rock. Influenciado por bandas sixties e com uma forte pegada, a banda acaba de gravar seu segundo álbum que 'tá sendo lançado por a gravadora gaúcha Good Music Records. O clipe da música de trabalho «Jogo Sujo» já 'tá rodando em emissoras como MTV, TVCOM, TVE, entre outras. Lucas Hanke: guitarra / Eduardo Dolzan: bateria / Erivelton Solano: guitarra / Evandro Bittencourt: voz / Fernando Dametto: baixo Site: www.identidadeoficial.com.br -- Trio de rock instrumental que difere-se por a atenção dada às melodias e por o ímpeto de suas apresentações. A banda vem participando de vários festivais independentes por o Brasil -- entre eles o Gig Rock (Alegre), Bananada (Goiânia), Goiânia Noise (Goiânia) e Calango (Cuiabá). O primeiro disco saiu em dezembro de 2004 por a Monstro Discos e obteve excelente repercussão junto ao público e à crítica. Agora, a Pata de Elefante 'tá finalizando seu segundo disco, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2007. Gabriel Guedes: guitarra, baixo / Daniel Mossmann: guitarra, baixo / Gustavo Telles: bateria Site: www.patadeelefante.com Locomotores -- Com apenas 1 ano de existência, o quinteto Locomotores já é apontado como uma das principais bandas do cenário rock do Rio Grande Sul. Formada por músicos experientes, a banda lançou em 2006 o single Em 'sa Vida / Vermelha e 'tá concluindo seu primeiro disco, a ser lançado no primeiro semestre de 2007. Márcio Petracco: guitarra, e backing vocal / Jerônimo Bocudo: baixo e backing vocal / Maurício Chaise: guitarra e vocal / Alexandre «Papel» Loureiro: bateria / Luciano Leães: teclados e vocal Site: www.locomotores.com Jeans -- Banda mais jovem do Expresso do Rock, o Jeans traz na bagagem quatro gravações independentes no formato «single», lançadas desde 2002. há pouco mais de seis meses em Porto Alegre, foram recebidos como uma grata novidade tanto por o público como por os outros grupos musicais. O último trabalho da banda acaba de ser finalizado e 'tá disponível no site Tramavirtual. Em o palco se destacam os vocais em duas e três vozes, aliadas às guitarras distorcidas e refrões marcantes. Daniel Téo: voz, guitarra / Marco Britto: guitarra, voz / Lucas Tergolina: baixo, voz / Reinaldo Migliavacca: bateria Site: www.tramavirtual.com.br/jeans Agenda EXPRESSO De o Rock Shows com as bandas: Locomotores, Jeans, Identidade e Pata de Elefante 23/11 Stone's ( Av.. Lima e Silva, 898 -- Cidade Baixa), 23h Porto Alegre / rs 24/11 Porão Rock Club ( R. Presidente Carlos Cavalcanti, 1188, São Francisco), 23h Curitiba / pr 26/11 Street Rock Vale do Anhangabaú, 15h São Paulo / SP Número de frases: 66 Ingresso: 1 quilo de alimento não-perecível «Mestre, 'se livro aqui 'tá bombardeado com raios de isótopos. Toda a literatura médica, científica e clássica é bombardeada com raios de isótopos em suas páginas para ser localizada em qualquer parte do planeta." Deitado em sua rede, com um aparentemente trivial exemplar -- desses que podem ser encontrados em qualquer sebo, o marinheiro Milton relata um dos fundamentos tecnológicos em favor da 'pionagem internacional e discorre sobre o tema que mais aprecia e domina: conspiração. A vela é içada para mais uma viagem em direção à ilha de exótico saber do senhor de 72 anos e uma vitalidade que parece ter ancorado em alguma fase da adolescência. O vento que sopra é a voz rouca e rascante -- sempre num timbre acima do usual -- empenhada em desmascarar arapongas e 'tratégias. Marinheiro Milton vai falar e depois de ouvir suas descobertas é impossível olhar com parcimônia até mesmo para uma inofensiva caneta 'ferográfica. «Quem inventou o grampo foi o russo, quem aperfeiçoou foi o alemão. Em os anos 30, a Alemanha mantinha todos os telefones da Europa grampeados. Em os anos 40, até o telefone de Getúlio (Vargas) já tinha 'cuta, e o de João Goulart, nos anos 60», acusa. É certo que não basta ter ouvidos atentos para captar as histórias que mesclam a ficção de Júlio Verne e o cientificismo de Carl Sagan, a literatice de John Grisham e o New Journalism de Truman Capote. É preciso mente aberta para velejar no oceano de imprevisibilidades por onde singra a nau do mestre Milton. Para dar entrevista, ele impôs duas condições. A primeira, de nobilíssimo altruísmo: «Desde que a reportagem não seja para exaltar minha pessoa, mas sim a própria imprensa, que continua me educando e reeducando». A segunda, de ardilosa prevenção: «Tem que ser numa quarta-feira ou no dia 5 de cada mês, pois são os dias de reunião da cúpula da CIA (Agência Central de Inteligência dos Eua)». Ritual investigativo Manhã de quarta-feira e Milton de Andrade Moraes já iniciou o ritual cotidiano de acordar junto com os primeiros raios de sol, deitar na rede da varanda da casa simples no Cabula (uma 'pécie de sítio com residências de outros parentes) e ler vorazmente as páginas dos três jornais de Salvador. O trabalho solitário do ex-praça da Marinha é procurar os sinais ocultos nas entrelinhas, os vestígios nas notícias, as ligações subterrâneas entre fatos aparentemente distantes, como a inauguração de uma 'cola em Sri-Lanka e o lançamento de um satélite no " Cabo Canaveral. Bin Laden trabalha para a CIA desde os 19 anos, vocês (imprensa) que disseram. Um artigo de fundo da revista Seleções afirma que a Al-Qaeda é uma organização patrocinada por a CIA. O Pentágono é a pátria das corporações, a catedral das empresas. O diretor da CIA é o homem mais poderoso do mundo», torpedeia, ligando um assunto a outro e impedindo o interlocutor de acompanhar o raciocínio. Sem sair do conforto de sua rede, Milton, o marinheiro, revela, investiga e 'quadrinha todas as grandes tramóias do planeta. «Mestre, na hora que você toma remédio genérico ou transgênico, evidentemente tem um avião 'pião sobrevoando ou até um satélite para registrar. As notas de dólar e as revistas são criptografadas. Quando você anda na rua com 'te material, as torres e plataformas 'tão te seguindo, 'tamos sendo fotografados e 'cutados minuciosamente. Com o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), o Brasil já 'tá dominando 'sa tecnologia, pois o computador central 'tá em Brasília, decodificando tudo», adverte, provocando na audiência a sensação de 'tar ouvindo uma revisão histórica do clássico «1984», de George Orwell. Torneiro fresador formado por a 'cola de artífices da Marinha, Milton entrou para as Forças Armadas em 1946, levando uma carta de recomendação do major Cosme de Farias. A vida náutica durou dez anos até a aposentadoria. A bordo de navios, o marujo vivenciou histórias que poderiam render uma biografia aventureira. Fugir da polícia de Havana depois de um tripulante dar um calote numa prostituta cubana foi uma de elas. Mas a vocação para o realismo fantástico sublima suas próprias experiências. «O serviço mais inteligente é o de contra-informa ções, que usa muita psiquiatria para fazer lavagem cerebral. A antiga KGB (agência de 'pionagem russa) era useira e vezeira nisso. às vezes eu penso que sofri uma lavagem cerebral, porque tomei 10 centímetros de insulina. Luís Carlos Prestes dizia que insulina também fazia o preso político falar. Tem insulina na cebola, cebolinha, mas tem mais no alho», informa. Filho de bicheiro e lavadeira, Milton saiu da pobreza absoluta e, seguindo o exemplo do pai (que só tinha dinheiro para comprar jornal aos sábados), criou um desejo incontrolável por informação. Além dos jornais, assina quatro revistas militares do Exército e Marinha e tem uma biblioteca de 500 volumes que poderia virar referência curricular na formação do agente 007. Livros como Guerras secretas da CIA (do jornalista que investigou o 'cândalo de Watergate, Bob Woodward) e O FBI por dentro 'tão repletos de anotações de rodapé e até pregadores de roupa para indicar as páginas mais interessantes. Há 42 anos, casou com Raquel, com quem teve cinco filhos e divide todas as descobertas. «Tudo que eu sei, ela sabe. Se algum araponga me pegar, vai ter que pegar ela também», condiciona. Após uma consulta médica que seria uma prosaica revisão dentária, há uns três anos, dona Raquel ficou sabendo de uma novidade que poderia virar argumento para algum episódio da extinta série O homem de seis milhões de dólares. «Eu tenho um sensor de rastreamento em meu pré-molar do maxilar superior. Quem botou foi o capitão-tenente Washington, cirurgião-dentista. Ele disse que tinha recebido ordem superior para colocar em mim. Eu vi na hora que ele testou, o satélite deu um sinal num computadorzinho." Dias de calmaria Os dias do marinheiro Milton são divididos entre as leituras dos jornais e releituras dos livros, em busca de alguma pista que possa ter passado despercebida. Esporadicamente vai à rua (" resolver questões de interesse "), mas prefere ficar na rede, ouvindo o cacarejar das galinhas e se enchendo de cultura. «O que eu faço no dia-a-dia? Penso no Villa-Lobos, que fez música para o cilindro da locomotiva, imitando a entrada e saída do vapor. E o som da bachiana que é da criança subindo o morro com a lata d' ' água na cabeça?», reflete o amante da dança de salão. «Era um gênio, mas aquele charuto Carbonara que ele gostava era de mafioso», completa, voltando para seu tema favorito. Capitão da fragata dos subtextos, Milton tem desconfianças sobre seu próprio passado. «Passei três anos dentro do navio-oficina Belmonte, que não tinha muito conforto. Então eu me recolhia num porão abandonado, que depois fiquei sabendo que tinha armazenado material radioativo. Não sei se me afetou, mas os médicos devem saber», admite. E, com a coragem de quem se lança ao mar revolto, revela suas próprias tormentas. «Tomo medicamento controlado e é justamente na hora da Voz do Brasil. Número de frases: 63 É em 'se momento que o avião do Sivam sobrevoa minha casa." Não sei se é por condescendência ou não, mas todo ano um filme brasileiro encontra lugar nas minhas listas de melhores do ano. Apesar de não ter faltado confete por aí ao último filme de Karin Ainouz (o bom, porém tímido, «O céu de Suely "), há muito não me via tão encantado com um filme nacional como fiquei ao assistir a» O ano em que meus pais saíram de férias», segundo longa de Cao Hamburger (que 'treou em longas-metragens com " Castelo Rá-Tim-Bum, o filme, em 1999 "). Embora a idéia central aparente trazer vários cacoetes do cinema brasileiro contemporâneo (a opção por o passado como tempo narrativo; a 'colha de um tema historicamente " grande "; a necessária ambientação de época; a obrigação de ter uma superfície de relevância política), o filme de Cao Hamburger é mais uma prova de que a arte diz mais respeito ao «como» do que ao " o quê ": mesmo tratando de um período memorial já muito castigado por o cinema nacional (a ditatura militar), o diretor deita sobre seu tema um olhar particular e extremamente sensível. A 'tória acompanha os olhos de Mauro (Michel Joelsas), filho único deixado aos cuidados do avô para que seus pais possam sair «de férias». Ao longo do trajeto, o nervosismo dos pais ao passar por um comboio militar denota as férias como forçadas. Mauro, no banco de trás, olha para os soldados da mesma forma que admira os prédios altos de São Paulo, através do vidro do carro. Chegando no prédio do avô -- um edifício habitado predominantemente por famílias judaicas -- descobrimos com Mauro que seu avô falecera, numa improvável coincidência de eventos que é articulada por o diretor sem nenhuma 'tranheza. O garoto será adotado por o vizinho Shlomo (Germano Haiut), e aos poucos por todo o resto da comunidade, até que seus pais retornem. «O ano em que meus pais saíram de férias «é mais um relato do momento -- sempre sofrido, mas também sempre fascinante -- em que o mundo infantil é atormentado por questões propriamente adultas (tema já explorado com abordagens tão distintas como a de Shinji Aoyama em» Eureka», ou Richard Donner em» Goonies "). Fascinante por a infância ser, talvez, a fase de manifestação mais bruta da humanidade. Mauro se chateia por não poder ver a Copa do Mundo ao lado do pai -- como ele havia lhe prometido -- mas não deixa, por isso, de vibrar com os jogos ao lado de sua nova «família». Ele pode 'tar distante de sua mãe, mas ao mesmo tempo 'tá descobrindo o amor, seja por o platonismo (a seqüência em que o garoto manifesta sua admiração por o namorado de Irene é dos momentos mais cativantes de todo o filme), seja por se sentir simplesmente querido (sua relação com a amiga Hanna, personagem de Daniela Piepszyk, autora da mais notável atuação entre as crianças do filme). Seu avô não 'tá mais presente, mas todos os idosos do prédio se mostram avós em potencial. O filme, porém, não 'tabelece uma lógica de substituição como solução (o que fica claro em todo o desenrolar final), mas sim flagra a capacidade humana de se restabelecer e seguir com a vida. Temos, sim, um mar de tristezas, mas temos também um enorme mundo a descobrir por a frente. Temos a ditadura militar, mas temos também a seleção brasileira de futebol. E, aos moldes de Hayão Myiazaki na obra-prima «Meu vizinho» Totoro, Hamburger guia o 'pectador por os olhos da criança: assim como Mauro, percebemos signos ao nosso redor (em 'se sentido, a direção de arte é preciosa: não temos nenhuma dúvida de 'tarmos vendo uma 'tória que se passa nos anos 70, mas não por isso precisamos ser confrontados com ícones de época a cada fotograma), mas 'ses signos trazem informações insuficientes, incompletas (ainda mais se levarmos em consideração que, não se tratando propriamente de um filme infantil, o 'pectador possui uma bagagem de signos mais ampla do que os olhos infantis de quem os guia). Sentimos os efeitos dos acontecimentos, mesmo que eles só sejam vistos parcialmente (ou sequer isso, como o destino do pai). A câmera, assim como Mauro, enxerga por frestas, por reflexos, por molduras criadas por o próprio ambiente. A História é sempre entreouvida, nunca mais que isso. A comparação com recentes sucessos do cinema argentino, portanto, é explicável: «O ano em que meus pais saíram de férias «traz à superfície o vigor melodramático de» Valentín «(Alejandro Agresti), alinhando-se, nas entrelinhas, à 'tratégia de discurso de Juan José Campanella (que, com o belíssimo» O filho da noiva», fez possivelmente o melhor filme sobre a recente crise política Argentina). A semelhança, porém, 'tá na leveza das pinceladas: toda a abordagem de Hamburger prima por a delicadeza, e a delicadeza é chave de muitas portas. «O ano em que meus pais saíram de férias» é político, mas não é panfleto; é brasileiro (se é que tal idéia existe 'teticamente), mas prefere 'crever com letras minúsculas; é triste, mas faz rir; é cunhado com mãos precisas, porém extremamente leves; é sobre a História, mas é sobretudo sobre como ela transforma a vida das pessoas. A o fim do filme, o que fica é aquela sensação incômoda -- tão particular aos momentos em que decidimos tirar a poeira do passado -- aquela inquietação quando percebemos que a vida, em cada um de seus momentos, é uma 'tranha combinação de tristeza com felicidade. Número de frases: 36 * * * Publicado originalmente no blog Fabito's Way. Título rimado, texto descontraído. Apropriado, quero crer, ao artigo que segue, acerca do show de Caetano, o Veloso, que 'colheu a Capital Federal para inaugurar a turnê do mais recente álbum, Cê, que traz como novidade, uma boa levada de roquenrôu. Não por acaso, aliás, a 'colha de Brasília como ponta-pé inicial. A cidade ainda fervilha com o Rock, e tal ainda é a expressão mais comum de seus jovens, dignos e indignados, dos pensam e fazem, não dos que queimam índios, mas dos que ainda cantam Índios. Fala Caetano Para quem lembra com saudade da época dos festivais, ou mesmo para quem os tem apenas nas memórias que nos chegam por os livros e discos, poderia prever que, senão um discurso inflamado, ao menos um discurso à lá Caê, haveria de se fazer ouvir no show. Simpático falastrão, ora nos surpreende com suas palavras certeiras, ora nos irrita com suas palavras ao vento, sem lenço, nexo ou documento. Polêmico, disse alhures que votara no Geraldo, o Alckmin, no primeiro turno, e que «deixaria o homem trabalhar», no segundo, contemplando o presidente-operário no pleito. De aí que numa de suas entrevistas, publicada num blog de um diário famoso de São Paulo, Caetano pode ver quase in loco a repercussão de suas declarações -- tal é a interessante contribuição de 'ta inter-relação blog-jornal. Segundo o músico, leu-as todas, e divertiu-se um bocado. «De lulistas a alckimistas, desagradei a todos», declarou. «Sinto-me de volta aos velhos tempos, quando não agradava a nenhum lado da banda», concluiu feliz com o resultado. De aí que, para prazer e deleite -- talvez mais de Caetano que da platéia -- fez questão de abordar destacadamente o melhor comentário do blog. «Uma pessoa interessantíssima assim falou: o problema não é quando Caetano abre a boca pra falar besteira, o problema mesmo é quando ele faz um voz-e-violão. Risos gerais, e um brinde à platéia, que se divertia com as guitarras: foi lá o baiano tomar um violão e mostrar que ainda 'tá em excelente forma quando sobe no banquinho. Quatro fabulosos Tudo no show foi um tanto simples. Muito enxuto. Um ar de faça-você-mesmo que contrasta com a muitas vezes proclamada extravagância tropicalista. Em o palco, de sóbria decoração, sem muitos salamaleques apesar da intensidade da cor roxa ao fundo (cor da capa do álbum), três jovem músicos acompanhavam o mestre, com carinho, que não parecia ter mais que os seus eternos vinte anos. Um pequeno erro no meio de uma das músicas, uma guitarra que não entrou: momento para pensarmos numa banda de rock iniciante, recém saída d' alguma garagem, nervosa com o público de Brasília -- notório por ser inclemente com erros tais. Mais que nada, o carisma de Caetano driblou os mais ciosos. O sorriso eterno, 'culpido em todos os filhos de Dona Canô, desculpou-se antes das palavras, e o público acompanhou. Uma atmosfera de encanto e, por que não dizer, de compromisso com a atitude roqueira. Em as músicas do novo álbum executadas no 'petáculo, solos de guitarra (de Pedro Sá) que flertavam, ora com a levada anos 80, ora com a psicodelia das distorções. Bateria (de Marcelo Callado) bem arrumadinha, dialogava com os sons e tons (nada geniais, lembremos, era apenas uma banda de rock de garagem) do teclado (de Ricardo Dias Gomes). O baixo (também de Dias Gomes), que também teve breves momentos de interferência no som, fez um bom feijão com arroz na «cozinha» da banda. E num dos grandes momentos, uma referência musical que ganhou contornos do bom e velho «Blues, Como dois e dois», eternizada na voz de uma Gal, ainda fatal, ou na de um Roberto Carlos, ainda tremendão. Que voltem as guitarras. Diamante em 'tado bruto Um show com a cara de Brasília, um Caetano com cara de candango. Mas com certas falhas de repertório. Nada que rebaixe a qualidade do show, mas uma diferença que faria deste ótimo show, um show inesquecível. Já que a 'colha da Capital do Rock foi emblemática para o show, e decisiva na composição do álbum, apareceram certas lacunas no set list. Como não relembrar uma Cássia Eller, expressão genuína deste tipo de revolta que fez do Rock o que ele é? Como não trazer de volta um Renato Russo, dos maiores poetas de nosso rock que, a fim destes tempos de política na veia, sempre nos fazem pensar Que País é Esse? Ambos mais criadores do que crias de Brasília, fariam um bem danado ao 'petáculo. Mas enfim, Caetano é Caetano, nicurí é o diabo. Êpa! Acho que acabei de relembrar de outro roqueiro que merecia uma referência. PS: Caro (possível) leitor. Talvez você 'teja pensando, «poxa, mas 'te texto ficaria mais interessante com uma foto». A o que concordo. Entretanto, a falta de imagens vai como um protesto ao irritante, e hoje em dia muitíssimo comum, hábito de fazer de nossas câmeras, instrumento de irritabilidade alheia. Ao lado das pipocas que vociferam impropérios quando mais nos concentramos nos cinemas, a etiqueta do bom comportamento, ou mesmo o básico do simancol deveria ser observado em certos shows. Uma foto aqui, outra ali, tudo bem, é interessante que se registre 'tes momentos. Agora, ficar pentelhando o resto da platéia só por que você -- e mais 300 pessoas -- quer usar todo o seu cartão de memória, e tirar 300 fotos do artista, todas com flash, de pontos diferentes do palco, sempre cutucando pessoas para levantar mais a câmera ... porra, aí é demais. Enfim, grito a vocês meu protesto. Afinal, era mesmo um show de rock, mas se o ambiente fosse mais punk, não teria me furtado ao direito de arrancar uma cadeira da casa de 'petáculos e partir para o ataque!!! Número de frases: 54 Você 'cuta uma guarânia no rádio e o apresentador falando em guarani. Vai a padaria e compra meia dúzia de chipas. Em o final da tarde, compartilha com os amigos uma rodada de tereré bem gelado. Você pensa que 'tá no Paraguai? Certo? Errado. Isto é Mato Grosso do Sul, o lado mais paraguaio do Brasil. Estima-se que 300 mil paraguaios e descendentes habitam o Estado, sendo pelo menos 80 mil famílias com base em Campo Grande. É disparado a maior colônia de imigrantes do MS. Onze municípios paraguaios fazem fronteira com o Estado e uma boa parte do território hoje sul-mato-grossense foi anexado (legalmente?) após a Guerra do Paraguai. A influência é tanta que em 2001 foi instituído em MS o Dia do Povo Paraguaio, comemorado todo 14 de maio, justamente o dia da independência do Paraguai da metrópole 'panhola. A cultura paraguaia 'tá impregnada nos costumes sul-mato-grossenses. E cada vez mais aceita por a população. Até porque a colônia é numerosa e acaba conquistando a Capital e interior do Estado com costumes que tem tudo a ver com o clima da região, por exemplo. Em dias de calor 'caldante, não há quem regule o refrescante tereré. A o entardecer já virou coisa corriqueira as famílias e amigos irem para frente das casas tomarem a bebida e jogar conversa fora. Mesmo nas repartições públicas, 'critórios e empresas particulares o tereré é apreciado do patrão ao motorista. O tereré já virou uma instituição em Mato Grosso do Sul, assim como o sobá vindo dos descendentes de Okinawa. Um exemplo da força da cultura paraguaia no MS é a Associação Colônia Paraguaia. Fundada em 1973, é a maior do país com 740 famílias associadas. Possui sede própria na Vila Pioneiros e realiza diversas atividades artísticas e encontros sociais. Reúne aproximadamente mil pessoas no segundo domingo de cada mês em que organiza o churrasco típico paraguaio. Uma das datas mais 'peradas é 8 de dezembro, quando a associação promove a Festa da Virgem de Caácupe, a Padroeira do Paraguai. São várias novenas que passam por os bairros onde residem as famílias e descendentes de paraguaios, encerrando na sede da instituição. Em o local foi construído uma réplica da imagem que se encontra no Santuário de Caácupe, no Paraguai, onde milhares de pessoas vão pagar promessas. O presidente da associação, Amado Leite Pereira, lembra que a Vila Popular, em Campo Grande, é um verdadeiro reduto paraguaio na Capital. Pelo menos 80 % da população do bairro são de paraguaios e descendentes. Isto porque os primeiros paraguaios que vieram para a Capital eram tropeiros, que lidavam com gado de corte, e se instalaram na região porque o lugar que hoje fica a Vila Popular era onde tinha os frigoríficos. Apesar da presença numerosa da colônia no Estado, ele admite que faltam mais projetos em parceria entre Brasil-Paraguai. «Já existem alguns na área de saúde e educação. Muitos brasileiros 'tudam em Pedro Juan Cabalero e outro tanto de paraguaios aqui em Campo Grande. Temos também o Sus Fronteira para atender os paraguaios que vivem em cidades fronteiriças com o Brasil. Mas ainda é pouco», afirma Amado. Um dos objetivos do presidente é montar uma associação de músicos do Paraguai em " Campo Grande. «Temos pelo menos 80 músicos vivendo na Capital atualmente e em situação crítica. A maioria não consegue sobreviver somente da música», alerta Amado. A época de ouro da música paraguaia em Campo Grande aconteceu da década de 50 aos anos 80. Em 'te período era comum nos restaurantes, festas de aniversário e eventos sempre ter uma dupla de paraguaios tocando harpa e violão. Hoje são inúmeros os grupos paraguaios na Capital, como Los Celestiales, Los Latinos, Los Divinos e o cantor Benitez Ortiz, um dos mais conhecidos da cidade. O cachê em média cobrado é de R$ 600,00 por três horas de apresentação. O violonista Cristobal Urbieta, natural de Assunção e componente do grupo Alma Latina, se impressiona quando testemunha em terras sul-mato-grossenses milhares de pessoas bailando ao som da polca paraguaia. «O povo adora dançar polca aqui em MS, coisa que no próprio Paraguai já é difícil de acontecer nos últimos anos. O sul-mato-grossense parece mais ligado ao costumes paraguaios do que os próprios paraguaios», surpreende-se Cristobal. O harpista do Alma Latina, Fábio Kaida Barbosa, é uma prova disso. Natural de Campo Grande, e sem descendência paraguaia, aprendeu a tocar harpa, instrumento genuinamente paraguaio, e diz que leva o Paraguai no coração. Fábio não se conforma que o destino dos grupos de música paraguaia seja tocar apenas em festas de aniversários, bailes e restaurantes. «Até hoje quem é conhecido no Brasil como músicos paraguaios é a Perla e o Luiz Bordon. E eles só conseguiram porque fizeram um trabalho mais profissional. O mais difícil é ter um produto de qualidade para mostrar ao público. Nós temos que fazer mais shows, parar de fazer só festinhas e restaurantes. A música paraguaia tem que ir para os teatros também. Por que não vamos tocar na França como fazem os argentinos com o tango? Temos que sair do amadorismo, nos profissionalizar, ir para São Paulo e Rio de Janeiro e não ficar só aqui», desabafa o harpista. Mas mesmo não tendo destaque na grande mídia, a música do Paraguai influenciou demasiadamente os compositores de MS. Por causa de 'ta influência a produção musical sul-mato-grossense é diferenciada. Artistas como Paulo Simões, Geraldo Roca, Geraldo Espíndola e Almir Sater flertam com guaranêas, polcas e chamamés, misturam o guarani com o português e utilizam fatos da História como inspiração. Exemplos não faltam! Rio Paraguai e Polca Outra Vez, de Geraldo Roca, por exemplo. Ou Sonhos Guaranis, de Almir e Paulinho, música em que a dupla de compositores se refere a MS como «a fronteira em que o Brasil foi Paraguai». Influenciados por 'ta trupe, surge a polca-rock, levando ao extremo a fusão dos ritmos paraguaios com ska, reggae, funk, blues e rock ' n roll. «Esta influência veio de forma natural porque crescemos ouvindo a música paraguaia. Em minha casa tinha muitas serenatas com duplas paraguaias e o Paraguai já 'tava cantado nas músicas que meus irmãos compunham. Por isso a música moderna daqui ganhou 'te toque diferente de tudo que se faz no Brasil, o que se torna uma barreira para cair no gosto popular do país», reflete Jerry Espíndola, um dos cabeças da polca-rock. Além da música, a gastronomia sul-mato-grossense também reflete o Paraguai. Se o tereré virou uma instituição, a chipa é frequente na mesa do cidadão de MS e sucesso de vendas nas padarias. A sopa paraguaia também é admirada por a maioria da população. Aos poucos as receitas acabam sendo abrasileiradas por os culinaristas. «A comida do Paraguai é muito rica e caiu no gosto daqui porque se parece com a culinária gaúcha e mineira, justamente os povos que juntos com o paraguaio desbravaram 'te Estado. O desafio não só para mim, mas para os cozinheiros daqui, é sofisticar 'ta comida e ultrapassar fronteiras. E apresentar novidades, como a sopa paraguaia com catupiry que 'tou fazendo», afirma Mestre Daves, um dos culinaristas mais requisitados do MS. Outro costume que vem do Paraguai é o sapucai. A palavra quer dizer grito em guarani e são aqueles urros que se dá quando começa uma música agitada. Em o MS bastam os primeiros acordes de uma polca paraguaia para alguém puxar os gritos. Música 'ta que pode 'tar sendo ouvida em vários programas de rádio, como o Ñe Ê Ngatu e A Hora do Chamamé, que tocam clássicos paraguaios, tipo Recuerdo de Ypacaray, Mercedita e Pajaro Campana. O sapucai equivale ao jodl vindo dos países dos Alpes e utilizado por os camponeses para se comunicar de uma montanha a outra. Os paraguaios usavam o sapucai também como sinais na lida do gado. Em Assunção, diz-se que o sapucai vem de antes, quando os índios guaranis partiam para as batalhas, o que os soldados paraguaios também faziam nas sangrentas batalhas que tiveram com brasileiros, uruguaios e argentinos na Guerra do Paraguai. Aliás, a Guerra do Paraguai, além de ter tornado o Paraguai um dos países mais pobres da América do Sul, provocou a diminuição do seu território. Mato Grosso do Sul é a maior prova disso. Municípios sul-mato-grossenses como Ponta Porã, Porto Murtinho, Miranda, Bela Vista, Jardim e Maracaju foram tomados dos paraguaios após a guerra, numa apropriação de terras 'trangeiras que aconteceu em outros 'tados também como Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia e Acre. Até a cidade de Nioaque, que fica a uns 200 km de Campo Grande, tudo era Paraguai, 'ta é a verdade. Por isso, nem podia ser diferente: Número de frases: 82 o sul-mato-grossense é o brasileiro mais paraguaio do país. Feito xilogravura colorida em movimento, os Irmãos Aniceto pinotam no rumo de uma cultura de andar compassado no grave da zabumba cavada no tronco da timbaúba; cultura de olhar inquieto como menino novo mirando aquele Véi Anicete, filho de pai e mãe índia, de nome José Lourenço da Silva, fundador da banda, que na sua pessoa materializa o passado de séculos, com a notícia mais antiga datada da tradição dos índios Cariri, que teimavam em ficar por ali, no pé da Chapada do Araripe, antes da colonização, no sul do que viriam a dar o nome de Ceará, e mais detalhadamente, Crato. Viriam a dar o nome de José Anicete ao Lourenço da Silva, e 'te, o de Francisco, Luiz, João, Antônio e Raimundo a seus filhos. O tempo tratou de colocar o plural, trocar um «e» por um «o», e por fazer, primeiro o Crato, depois o resto das terras até a praia da índia Iracema e além mar, conhecer a banda cabaçal de dois pifes, uma zabumba e um tarol -- e mais na frente um casal de pratos -- por o nome de Irmãos Aniceto. Sem a mania de querer legitimar nossas coisa por o reconhecimento 'trangeiro, mas por se tratar de uma experiência muito importante para os próprios irmãos, aviso aqui que entre outras viagens, a banda já se apresentou na França, como parte do ano do Brasil em 2005 e em Portugal como parte das comemorações do aniversário do município português Crato. Também participaram de uma temporada no Sesc Pompéia, um dos principais palcos de São Paulo. Irmãos de sangue de veia poética, que contam seis filhos homens, do Francisco, o mais velho, até Raimundo, intitulado Mestre da Cultura por a Secretaria de Cultura do Estado em 2004, com 72 anos inteirados em 'te ano e uma fala humilde e risada frouxa. Tocador e dançarino da bandinha da família desde o começo dos anos 60, quando da viagem da banda, ainda com seu fundador Anicete -- na época já com um século de vida, para Porto Alegre, em comemoração ao aniversário da TV Guaíba. de facínio que se resume ao velhor: «só vai vendo». A banda, que tem no tempo uma vereda de 'pinho e 'perança, vai perdendo seus integrantes, mas abrindo o caminho dos novos, já na terceira geração, com os filhos de Adriano, Cícero e Jeová, filhos de Antônio e João, netos de José Anicete. Rumando para a quarta com a bandinha infantil criada há pouco tempo, que vai tanger o trabalho dos Aniceto, dos Cariris e sabe lá de quem antes de eles. Por telefone, cinco dias depois da festa em sua casa da Renovação do Coração de Jesus, chegando da roça, da cultura de batata doce e do arroz já na colheita, Mestre Raimundo (tocando pife na foto) contou, antes do almoço, as histórias de 'sa maravilha da cultura, que dizem popular, mas pode bem ser cultura que se faz do lembrar e do viver ao mesmo tempo. Em a conversa, de uma hora e dez minutos, fala da vida e da cultura como uma gororoba em que você não sabe onde começa uma e termina a outra. A entrevista foi publicada inicialmente no jornal cearense O Povo, onde 'tagio, mas disponibilizo em 'se 'paço de público totalmente diversificado por sua importância. O apego ao riso solto e a simplicidade de Mestre Raimundo faz de 'ta conversa impossível de ser editada por o perguntador ... Eis a conversa na íntegra abaixo: Mestre Raimundo, vocês 'tão com uma bandinha nova é? Tem uma novinha, tamo criando uma bandinha nova. Tudo da família, filho de Adriano, de Antônio, tudo é gente da gente mesmo, vi? É bandinha infantil, começou agora 'se ano. Ela já tá se saindo, já fez show ... Qual a idéia principal de formar 'sa bandinha? Porque 'sa bandinha infantil futuramente é quem vai tomar de conta da banda velha né, que meu pai criou. Vai passando de um para o outro. Já vai pra uma quarta geração. O seu pai era índio? Você pode falar um pouco do seu pai? Meu pai foi o fundador da banda. Meu pai criou seis filhos homi, todos tocador, mas deixa que já faleceu quase todos. Só tem eu e o Antônio, o mais velho, que tá tangendo o nosso trabalho. Aí a banda tá completa com sobrinhos, já filho dos meninos que morreram. A banda, menino, tá uma maravilha, já foi boa e hoje já tá é melhor, viu? A banda tá fazendo sucesso dentro do nosso Brasil, tá uma coisa mais linda que a gente nem pensou que era desse jeito. Meu pai foi uma alegria do mundo, foi uma alegria do Crato, todo mundo gostava do meu pai e ainda hoje gosta. Devido ao nome do pai, hoje nós cria 'sa banda. Ele tinha o apelido de José Anicete, mas o nome de pai era José Lourenço da Silva. Aí ficou a família toda por Anicete, mas só apelido. Quais foram os ensinamentos do seu pai? Meu pai era dos índios Cariri, do Crato, aí desde antigamente tinha os componente de ele que contava mais ele. A gente ainda conheceu, finado Danilo, finado Zé Paulo, tudo já faleceu. Aí a gente foi se criando, foi se entendendo, o pai ensinou tudo à gente do que ele já sabia e vinha fazendo, ensinou tudo, né. Aí a gente tangeu a banda para a frente. Meu pai faleceu com 104 anos de idade, deixou 'sa banda, 'sa maravilha para a gente brincar. Aí pediu, antes de morrer, pra que a gente não acabasse a banda, segurasse, que a família era grande, que ele ia morrer mas deixava 'sa coisa para a gente divertir. Aí nós 'tamos hoje continuando a nossa bandinha, tá uma maravilha, boa demais! Como é que foi que ele passou o saber? Eu comecei a tocar com 6, 7 anos de idade, novinho, aquilo era um sucesso quando a gente tava numa renovação tocando, a meninada e meu pai ensinando direitinho. Era uma coisa linda, eu ainda me lembro de quando era garoto. As festas, as renovação do nosso pé de serra, porque toda vida teve as renovação né, aí meu pai ia tocar nas renovação e nós ia com ele, aí ele foi ensinando a gente como era que tocava, como era que provava a mesa do Coração de Jesus, e a gente aprendendo. Ainda hoje a gente faz os trabalho que ele deixou. Até os 100 anos o pai tocou. Com 10 anos nós fomos para o Rio Grande Sul na primeira viagem com meu pai, aí nós comecemo a viajar. Aí com quatro ano meu pai foi se doendo, já véi, se adoecendo depois de 100 anos. Doença da velhiça mesmo, né. Era um véi sadio. Como é que foi 'se processo de substituição dos componentes da banda, mestre? Meu irmão mais velho, o Francisco, ficou no lugar de meu pai, aí depois de Francisco ficou o João. Foi a alegria do Brasil né, o finado João foi uma alegria grande da nossa bandinha do Brasil. Aí hoje apareceu Luiz tombém. Ele tava foragido, ele tava morando no Rio de Janeiro. Aí quando João morreu aqui, ele morreu lá tombém. João levou uma queda aqui e tacou a coxa no tronco. Aí morreu. Aí Luiz levou uma queda lá e lascou a cabeça. Morreu também. ( Risos). O senhor não tem medo da morte? Cuma? O senhor não tem medo da morte? Não, tem não, que é uma coisa natural né, que a gente vem vivo, mas (risos) não deve ter medo não. O senhor acha que vai encontrar seu pai? Rapaz, é capaz. A gente lá em cima não sabe de nada, mas o povo diz que tem um local bom para a gente, vamo vê como é que é, né. Se tiver um local bom, eles vão tá lá 'perando a gente. Em 'se tempo do seu pai não tinha os pratos na banda ainda. Não, os prato é o seguinte. O prato é mineral, a gente não usava antigamente não, era quatro componente a banda, mas hoje toda banda tem um casalzinho de prato. É bom o chiado, o ritmo, é uma maravilha. De quem foi a idéia de botar os pratos? Foi mermo das outras bandas né, que a gente vendo as banda de metal, tudo com um casal de prato chiando. Aí: «vamos botar na banda?». Aí botemo. Foi bom o resultado, uma maravilha. E as danças do 'petáculo? Uma parte já vem de pai meu, ele já foi quem me ensinou como os índios dança. Meu pai ensinou o Corta Tesoura, o Pula Cobra, o Trancelim. Tudo foi meu pai que ensinou. Nós tem uma dança que é Amassa Barro, que é quando a gente faz uma casa de taipa, aí se ajunta muitos companheiros. A gente faz uma panela, compra uma cachaça, uma coisa para os cabas engolir, aí de noite tem o Amassa Barro. É a gente dançando pra amassar aquele barro. E 'sas histórias de imitar animal? Surgiu já com Antônio né, que Antônio é muito inteligente, ele imita vinte e cinco bicho, é jumento, cavalo, burro, peru, pinto ... Ele imita tudo. Aprendeu com ele mesmo, na roça, vendo o canto dos passarinho. Ele remeda tudo. Nós fumo a São Paulo pra fazer um festa do canto dos passarinhos, aí Antônio tirou o primeiro lugar. Tá com três anos. Em a roça mesmo você tem algumas idéias para a música? Isso é uma coisa que a gente tem, faz como poeta sabe, a gente tem um pouquinho da veia, a gente faz na hora. Nós vê o grito de um pato, o relincho de um animal, aí a gente pensa e faz na hora. E fica na cabeça? Fica. A nossa banda não tem letra não, é de ouvido, viu?, isso é a coisa mais linda que a gente tem, porque tudo nosso é de ouvido, nós faz na hora. É uma coisa, uma tradição legal da gente mesmo, uma coisa que Deus deixou, porque tudo é inteligente, tudo sabe ajeitar. E a brincadeira de Jogo de Facão? Bem, 'sa brincadeira de jogo de facão é mais nova, já foi a gente que inventou. Nós chegamos no Rio Grande do Sul, aí assistimos uma brincadeira de quatro componentes jogando facão. Quando nós cheguemo aqui, fizemo de dois, eu e o mestre João. Diz o público que ainda foi melhor do que os quatro de lá, nós fizemos mais bom, nós fizemos e botemos na banda o Jogo de Facão. O senhor gosta da roça, não é? Eu comecei a trabalhar na roça com a idade de 10 anos, e já 'tou com a idade de 72 e sou o caçula de 10 irmão que pai criou. A roça é a maior força da gente, porque muita gente já pensa que a gente é rico, como a gente 'cuta: «Ah, os irmãos Aniceto tão rico». Não, meu filho, tá não. Ele vem aqui em casa: «Mai rapaz, eu pensei outra coisa». Não, tudo é agricultor, tudo trabalha na roça, tudo é trabalhador de roça, trabalha na cultura. A nossa bandinha provém da cultura, da roça, aí da roça nós conhece de tudo, tem uma cobra, um sapo, a gente faz aqueles número tudo bem parecido né, faz bem feito. Mas a roça é na terra dos outros? É na terra dos outros. Nós não tem terra não. Nós pega um pedacinho de terra e planta na terra dos outros. Eu tô acabando de tirar 30 sacos de arroz. Mas trabalhar na terra dos outros é fraco, viu, porque a gente não tem condições de comprar um pedacinho de terra pra trabalhar, aí é o jeito trabalhar na terra dos outros, mas tudo é amigo, tudo é jóia, não existe também muita coisa não. Voltando a seu pai, o senhor pode descrever ele? A orelha de pai era grande, era meio palmo de urêa. A voz era assim meia grossa. «Hoje vocês tudo é pra ir para a roça tombém» (imitando a voz do pai). Ele era meio calado, gostava muito de achar graça, mas era um homem calado. Nunca açoitou a gente não. Ele criava a gente só no rabo do oi. Quando ele tava conversando com um conhecido, a gente ficava por ali, bastava ele passar aquele olhão de ele, a gente já baixava o sentido. E a senhora sua mãe? Mãe? Mãe era mais perigosa. Mãe de vez em quando tacava um cocorote na cabeça da gente (risos). Mas a gente agüentava. Ela era agricultora tombém, trabalhava na roça e ajeitava a comida direitinho, varria a casa, era uma maravilha, batia a roupa da gente, engomava na hora que a gente pedia, era jóia a minha mãe. Ela ajeitava as roupas da banda, ajeitava tudo. Só não fazia fazer, porque é mais complicado né, a gente mandava fazer num modista, aí ele é que faz. O que ela cozinhava pra vocês? Falar em de comer, eu passei uma crise viu, que foi uma crise braba, eu comia até massa de mucunã, miolo de macaubeira, tudo nós comemo. Quando era garoto, até inchando, eu tava inchando de comer comida braba. Eu alcancei uma crise ruim, crise de fome, viu? Era todo mundo no mato caçando mucunã pra comer, aí pisava no pilão, lavava em nove água pra comer com meio pão. Hoje, quem é que quer comer isso, hein? ( Risos). Quem morreu primeiro, seu pai ou sua mãe? Meu pai morreu primeiro do que minha mãe. Com dez anos que pai morreu, mãe morreu. Ainda durou muito ainda. Morreu de velha, morreu com 102 anos. Em 'se rumo, você tem um bocado de anos por a frente ... Ave Maria, rapaz ... Ainda hoje eu tenho o sentimento de que meu pai morreu, minha mãe, era um braço forte para a gente, viu? Aí a gente toca porque tem, mas quando se lembra fica meio triste. Mas a bandinha ajuda quando tá triste ... A bandinha ajuda, é uma maravilha. Ainda 'ta noite, nós tivemos num show lá no Sesc daqui de o Crato. Nós toquemos um choro 'ta noite, mas muita gente chorou de emoção, que a banda contém uma emoção né, a gente se lembra da tristeza, das coisas, e o pife dá uma lembrança, aí muita gente chora. Chora porque se lembra do passado, do tempo que aquele povo mais velho era vivo, que gostava muito da banda, aí o povo mais novo se lembra e chora mesmo. Vocês tocam aonde, seu Raimundo? A gente toca pra tudo, a gente toca para a igreja, a gente toca em procissão, nós temos nove noites de novena, em capela a gente toca, em renovação, toca em casamento, pra batizado, aniversário ... Nós toca pra tudo, até pra quem morreu. Pra quem morreu? É. Acompanhar o enterro tocando hino, tocando um bendito. Acompanhemo o enterro do pai e de mãe tombém, do finado Zé, tudo a gente acompanha, tudo é de um jeito, a gente entende aquele bendito, aquele hino, os santos, a gente acompanha os enterro. Aí muita gente não agüenta não, que é penoso. A gente dá um nó na goela, mas vai (risos). É difícil tocar o pife desse jeito, né? A gente vai devagarzinho, mas acompanha sempre. O senhor é muito religioso? É sim. Eu gosto dos santos, sabe? Sou devoto de São José, Coração de Jesus. Todos os santos pra mim é bom. São José, viiiiiixe beleza, nós toca o mês todim para a São José. Toca nas igreja. Nós toca também em Juazeiro, em Barbalha ... É muito convite? Tem, agora por adiante, num sendo um caso que a gente vá pra um show em Fortaleza, é capaz da gente tocar toda semana. Tem Renovação do Coração de Jesus, agora de junho em diante começa. Agora no dia 15 que foi passado, foi aqui em casa a renovação. Foi uma maravilha, veio até gente aí de Fortaleza, aqui enche e é gente muita. Como é a festa? A festa a gente dá a salva de cinco hora, dá a de mei-dia, e dá a de seis horas da tarde com os instrumentos, com a banda, né. Aí de noite tem as novenas, tem uma mulher pra rezar, um padre vem rezar a renovação. Quando é mais tarde que termina a renovação, tem o bolo, tem café, a gente compra um aimoço bom para os tocador comer, tem quissuque, dá o aluá, é uma maravilha. Qual o significado da festa? A festa é a renovação, né. A gente compra um quadro do Coração de Jesus e manda benzer e traz para a casa, aí tem de fazer a renovação. Depois que fizer a renovação aí fica naquela data, todo ano tem que fazer naquela data. Quando é cinco hora da manhã, a gente bota o bumbo para a riba, aí começa a chegar gente, aqui-acolá nós bota um choro bom daqueles nossos. O senhor tem uma banca na feira do Crato. Rapaz, eu tenho um comerciozinho, é fraquinho, é só comércio de farinha e goma, aí eu boto um saco de farinha e um saco de goma. Tá fraco, não tem mais comércio não, tá fraquinho. Cinco horas da manhã eu tô armando a barraquinha na feira, fico até cinco horas da tarde, é o dia todim. Aqui, aculá, chega um, «bota um litrim de farinha»,» bota um litrim de goma». A farinha tá de um real, a goma é dois real. Já teve mais caro um pouquinho, mas baixou, graças a Deus baixou. De vez em quando eu levo uns pife pra vender tombém. O pife tá de 10 reais. O senhor já pensou em viver só da música? Não, não sustenta não. A gente ama a música que a gente aprendeu, mas pra viver não dá não. A maior força da gente é a roça, a cultura. Os cachê é pouquinho, não dá pra sobreviver não. Um cachê da banda vai todim. Se a gente fosse tomar um copo no setor mesmo, lá mesmo ficava. Aí é onde eu digo que muita gente pensa errado, porque pensa que a gente tá enricando, mas não tem riqueza pra nós não, ainda não. Tudo é pobrezinho, tudo é fraco. A gente ainda daqui a aculá ganha um biscate, compra uma roupa, um par de alpercata, uma coisa, mas não dá pra nós sobreviver da banda não. Hoje melhorou porque a gente tem uma ajuda do nosso governo né, a gente tem parceria da prefeitura, aí nos deu uma ajuda, para a bandinha dos Aniceto. Hoje eu sou o mestre da banda né, eu ganho um salário do governo, aqui no Cariri tem 24 mestre que o governo facilitou um salário. É uma maravilha, ô governo bom, meu Deus. O senhor acha que seu pai tá gostando do que a banda tá fazendo? Acredito que sim viu, já que ele deixou, ele deve tá gostando também, achando bom. Número de frases: 221 Chico é o matuto mais famoso do Tocantins. Também pudera, só tem primos igualmente importantes, a exemplo de Chico Buarque, Chico César, Chico Anysio, Chico Xavier, Chico Mendes, o velho Chico, entre outros. Não é qualquer um que pode ser Chico. E o Chico -- Festival de Vídeo e Cinema de Palmas -- xará dos outros -- sabe bem a responsabilidade de carregar 'se nome e tem honrado com ela. Quem foi à abertura da 6ª edição do Chico, na última quarta-feira, 29, na Sala Sinhozinho, em Palmas, viu de perto que o audiovisual ganhou 'paço no Tocantins graças ao jeitinho manso do matuto. Lotada, a Sala Sinhozinho foi a prova de que o Chico é o acontecimento do ano no Tocantins na área de cinema e vídeo. Universitários, 'tudantes secundaristas, profissionais liberais, gente que faz e que lê a notícia, que produz e consome a cultura, que realiza e assiste aos filmes. Todos lá para prestigiar a primeira noite da mostra nas categorias Universitário e Circuito Aberto. Para o jornalista Marcelo Silva, a presença maciça do público -- tinha gente sentado no chão e em pé -- foi surpreendente. «É um festival importante para criar o ambiente favorável para o desenvolvimento do audiovisual», disse e completou: «Eu fico imaginando o Chico daqui a uns 10 anos, e o quanto ele terá contribuído com o audiovisual do Tocantins». Marcelo fala com conhecimento de causa, produziu e dirigiu o filme «Os caretas de Lizarda» e 'tá produzindo o documentário «Raimunda, a quebradeira». Tudo positivo, bom público, bons filmes, mas há uma observação a fazer da primeira noite de mostra: um burburinho entre a platéia no final da exibição deu conta de que a cédula de votação dificultou o trabalho do público na 'colha do melhor vídeo no voto popular. Alguns queriam que as categorias fossem segmentadas assim como foi para o júri oficial. Mas a ficha de votação do júri popular trazia todos os 'tilos juntos o que pode ter feito o público ser injusto com alguns vídeos. Berço de sucesso Olhando o mapa astral do Chico dá para perceber que ele nasceu para o sucesso. Tudo começou em outubro 1999, quando um grupo de 'tudantes da segunda turma de Comunicação Social da então Unitins decidiu fazer alguma coisa. «O curso, na época, nem era autorizado. E 'tava todo mundo com medo que o curso fechasse. Então eu falei: ' 'tá na hora de fazer um evento que parta da gente, para que a gente possa ter um 'paço para mostrar para a sociedade os trabalhos que são produzidos dentro da universidade», quem disse isso foi Tatiana Fagundes. Tatiana é gente que faz. Jornalista, foi de ela a idéia original do Chico. Mas ela não fez sozinha. «Como eu e um colega fazíamos vídeo brincando mesmo, resolvemos criar o Chico». Auro Giuliano, colega de Tati na época, criou o nome e troféu " Chico. «Quando o Chico nasceu nós não tínhamos a mínima idéia do tamanho que ele poderia chegar», afirmou Auro. Segundo ele, da primeira para a segunda edição houve um salto muito grande. «Ai falamos: ' poxa! Todo festival tem uma cerimônia de premiação ', aquela cerimônia glamourosa, e brincando com isso como o Oscar, o Quiquito ai montamos o Chico, e ficou», completa Tatiana numa entrevista que foi realizada numa mesa de bar, no início da semana, na qual Raquel Oliveira, jornalista e colaboradora do Chico também participou (confira o áudio ao lado). O primeiro Chico era apenas universitário, e teve somente sete vídeos. Yurika Hidaka participou do Chico, em 2001, com o filme «Indigestão» -- de ela e de Cláudia Santos -- e lembra bem da parte experimental do festival. «Não tínhamos muitas noções de produção em vídeo e tínhamos uma idéia inicial do que seria o roteiro, mas ele não 'tava completo, foi finalizado durante as gravações», relembra. Mesmo sem recursos, o vídeo ficou com o prêmio de melhor iluminação. Hoje o Chico tem mais de 100 vídeos inscritos, entre ficção, animação e documentários, e 39 selecionados. «O interessante é que o festival cresceu mais do que a gente 'perava. Esse ano tem muitos vídeos de fora», diz Tati. A divulgação nacional colaborou para isso. O Chico 'tá no Guia Brasileiro de Festivais de Vídeo, uma 'pécie de calendário para os produtores. Um dado triste é que apenas sete produções são tocantinenses. Raquel justifica: «O produtor tocantinense vive em função do Chico e a gente parou de fazer, ficou 1 ano sem festival», disse. Em outros lugares, os produtores fazem filmes o ano inteiro para vários festivais do país, no Tocantins o Chico é uma balança: se o vídeo passar no crivo do Chico, geralmente ele é encaminhado a outros festivais. Além disso, explica Raquel, 'te foi um ano de campanha, e as produtoras 'tavam fechadas. «Diminuiu da universitária, mas a circuito aberto aumentou», acrescenta. Maturidade O Chico 'tá mais maduro, avalia " Auro Giuliano. «Mas não perdeu a irreverência», diz. Ele deixou o Chico quando o projeto começou a crescer, assim como fizeram outros colaboradores. «Acho que uma coisa chata foi o grupo não ter continuado. Cada um começou a querer tocar sua vida. Era um grupo muito bom e cada um resolveu seguir sua história e não 'sa do Chico, mas a cada ano o festival resiste e isso é legal», frisa Raquel. O festival ganhou proporções, conquistou a chancela do MinC, para captar recursos por meio da Lei Rouanet, aumentou o número de inscritos, mas «a batalha continua». Vale dizer que em 2005 o Chico não foi realizado por falta de patrocínio. «A gente tem público garantido no festival, mas a intenção é aumentá-lo. É preciso mais patrocínio também, a Lei Rouanet foi um reconhecimento, mas aqui no Tocantins as pessoas não têm 'sa visão do evento, porque um evento como o festival gera emprego», desabafou Tatiana. Bastidores O Chico também coleciona fatos engraçados. O mais curioso aconteceu quando o cineasta Geraldo Moraes veio para participar da 2ª edição do Chico. «A gente conseguiu patrocínio de veículos e começamos buscá-lo num Santana e terminamos numa Kombi porque o patrocínio foi caindo, caindo ... ( risos)». Geraldo, macaco velho, levou o episódio na brincadeira. «Ele até virou padrinho do festival porque o Geraldo foi o primeiro cineasta que filmou no Tocantins (o filme Em o Coração dos Deuses). Éramos cheios de dedos com ele porque ele é cineasta», relembra Tatiana. E complementa: «Então nós começamos a buscá-lo numa caminhonete S10, depois num Santana e, no, final numa Kombi. O festival era no teatro (Fernanda Montenegro) e um dia falei para ele: ' Geraldo fica aqui no teatro que a Kombi vai voltar, para trocarmos a Kombi por a S10 minute, e ele falou: ' quer saber de uma coisa, vamos logo em 'sa Kombi antes que um fusca venha nos buscar! ' ( risos)». Exibição / premiação O festival terminou no sábado, dia 2. Filmes como «Tapa na Pantera» (Rafael Gomes-RJ), conhecido dos internautas, foi um dos mais aplaudidos na noite de abertura da mostra, assim como «Causa e efeito» (Yussef Abrahim -- AM -- que veio a Palmas 'pecialmente para ver o Chico), «Tem um dragão no meu armário» (Rosaria -- «RJ "),» Taí «(Antônio Fabrício -- Te o) e» Uma pescadora rara no litoral do Ceará «(Sidnéia Lusia da Silva --» CE). «O interessante é que a gente 'tá formando público e 'ses são vídeos que são exibidos somente em festivais, não é todo mundo que tem oportunidade de viajar para outros lugares para ver os vídeos, e serão mostrados aqui», afirma Raquel. A programação incluiu ainda mostra 'pecial para deficientes, com monitores da Apae. A premiação, 'te ano, será só o troféu Chico, foi o que a organização conseguiu. Os vencedores da 6ª edição foram: -- " Melhor Vídeo Universitário ": «Taí», de Antônio Fabrício. O vídeo do 'tudante de Comunicação Social, que fala dos conflitos das realações amorosas também faturou o Chico de Melhor Vídeo Tocantinense e " Júri Popular. «Esperava um no máximo, mas três é demais. Agora é um ménage à trois», brincou ele. Em o circuito aberto, levaram o prêmio «O Buraco» (documentário de Taciano valério " Alvez PB); «Causa e Efeito» (ficção de Yussef Abrahim -- AM). Abro aqui um 'paço para as considerações de Yussef que, por a segunda vez, leva o Chico -- a primeira foi em 2000. «O que é legal de ter acompanhado o Chico em 2000 e 2006 foi ver que o festival acompanha o desenvolvimento da cidade. Porque o crescimento não é só de infra-estrutura, mas intelectual também», disse. Animação, venceu o «Para chegar até a lua» (José Guilherme SP). Por a dificuldade de 'colha, devido ao bom nível dos filmes, o júri oficial formado por Valéria Del Cueto, Marcos Fábio Katudijian, Flávio Herculano e Mailin Milanez, decidiu criar as menções honrosas. Elas foram para «A resistência do vinil» (documentário de Eduardo Castro -- GO / TO); «Bala» (ficção de Daniel Sabino -- SP); e «Engole duas ervilhas» (animação com direção coletiva -- RJ). Ainda falta evoluir um pouco, divulgar mais, fazer oficinas de capacitação para melhorar e incentivar as produções, mas as meninas do CIM -- Centro de Imagem e Som, entidade responsável por o festival sabem disso. De aqui a 10 anos? O Chico quer 'tar vivo e matutando no Tocantins. Número de frases: 98 Quilombolas são os descendentes de 'cravos que formaram os agrupamentos de resistência de refugiados intitulados quilombos. Hoje, no Jornal da Cultura, que 'tá fazendo um 'pecial sobre o tema, foi denunciado a situação política delicada que muitas de 'tas comunidades vivem. Com o direito reconhecido desde a Constituição de 1988, as mais de 2.000 comunidades quilombolas do país têm direito adquirido à terra. Mas, até hoje, dada a tão notório burocracia das instituições, apenas 113 foram reconhecidas, ganhando o processo de titulação. As exigências dificultam o pedido, através de documentos muitas vezes difíceis de se conseguir. Estes grupos, muitas vezes tratados como se a 'cravidão ainda não tivesse sido extinta (na verdade se transmutou em outras formas), a exemplo deste caso, penam sob o ineficiente e paquidérmico Estado brasileiro. como se não bastasse, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB), de Santa Catarina, criou projeto de lei que «simplesmente» visa revogar o decreto presidencial 4.887, de 2003, que referendava a titulação e demarcação de terras quilombolas. Em seu site oficial o também engenheiro agrônomo afirma que «o que 'tá em xeque é o direito constitucional de propriedade, pois legítimos donos de terras reivindicadas para os quilombolas correm o risco de perderem suas propriedades». Traduzindo: entenda «legítimos donos de terra» como latifundiários que muitas vezes adquiriram suas propriedades através de práticas, digamos, «pouco ortodoxas», que fazem parte da imunda fundação e» desenvolvimento " deste país, paraíso das oligarquias e do mandatismo rural. Defender os interesses deste grupo de pessoas parece ser, naturalmente, a principal preocupação do deputado. Sem dúvida que os processos de reconhecimento de terra dos quilombolas devem ser rigorosos e sérios, visando beneficiar que realmente merece e impedindo que aproveitadores se utilizem disto. Isto é o básico que toda ação do tipo deve ter. De aí a revogar o direito adquirido com sangue e exploração destes descendentes é algo que as oligarquias do campo sem dúvida almejam e não devem conseguir. Ainda em seu site, o deputado tem a chamada " já comeu hoje? agradeça a um agricultor». Mensagem admiravelmente humanitária ... ( ironia aqui, por favor) ... talvez devêssemos perguntar a ele, " desfruta de uma vida confortável hoje, com terras produtivas e boa situação financeira de sua família? agradeça aos quilombolas!». Reconhecer o direito à terra que 'tes povos têm é o mínimo que o Brasil deve. Já que devemos a construção deste país aos 'cravos, após séculos de exploração e desmando indevido, parece uma migalha dar a eles o que é de direito -- e nem isto querem! Tomar consciência de 'ta situação e de 'tas lutas é fundamental para cada um de nós, contribuindo com o possível. Conheça mais sobre a história e a situação dos quilombolas: Fundação Cultural Palmares Observatório Quilombola Comunidades Quilombolas Quilombo. org Projeto Quilombos Consciência Net Número de frases: 28 A 'piritualidade do Carnaval «Carnaval é uma grandiosa cosmovisão universalmente popular de milênios passados ... é o mundo às avessas». ( Bakhtin, 1970) O carnaval realizado no Brasil é a maior festa popular do mundo. Grande parte dos foliões brasileiros, no entanto, não conhecem as origens e as implicações de 'sa festa. Pensa-se que o carnaval é uma brincadeira típica do Brasil, mas várias cidades do mundo como Nice (França), Veneza (Itália), Nova Orleans (Eua), de entre outras, também a celebram anualmente. O carnaval, para surpresa de muitos, é um fenômeno social anterior à era cristã. Assim como atualmente ela é uma tradição em vários países, na antiguidade, o carnaval também foi praticado por várias civilizações. Em o Egito, na Grécia e em Roma, pessoas de diversas classes sociais se reuniam em praça pública com máscaras e enfeites para desfilarem, beberem vinho, dançarem, cantarem e se entregarem as mais diversas libertinagens. A diferença entre o carnaval da antiguidade para o de hoje é que, no primeiro, as pessoas participavam das festas mais conscientes de que 'tavam adorando aos deuses. O carnaval era uma prática religiosa ligada à fertilidade do solo. Era uma 'pécie de culto agrário em que os foliões comemoravam a boa colheita, o retorno da primavera e a benevolência dos deuses. Em o Egito, os rituais eram oferecidos ao deus Osíris, por ocasião do recuo das águas do rio Nilo. Em a Grécia, Dionísio, deus do vinho e da loucura, era o centro de todas as homenagens, ao lado de Momo, deus da zombaria. Em Roma, várias entidades mitológicas eram adoradas, desde Júpiter, deus da urgia, até Saturno e Baco. Em a Roma antiga, o mais belo soldado era designado para representar o deus Momo no carnaval, ocasião em que era coroado rei. Durante os três dias da festividade, o soldado era tratado como a mais alta autoridade local, sendo o anfitrião de toda a orgia. Encerrada as comemorações, o «Rei Momo» era sacrificado no altar de Saturno. Posteriormente, passou-se a 'colher o homem mais obeso da cidade, para servir de símbolo da fartura, do excesso e da extravagância. Com a supremacia do cristianismo a partir do século IV de nossa era, várias tradições pagãs foram combatidas. No entanto, a adesão em massa de não-convertidos ao cristianismo, dificultou a repressão completa. A Igreja foi forçada a consentir com a prática de certos costumes pagãos, muitos dos quais, cristianizados para evitar maiores transtornos. O carnaval acabou sendo permitido, o que serviu como «válvula de escape» diante das exigências impostas aos medievos no período da Quaresma. Em a Quaresma, todos os cristãos eram convocados a penitências e à abstinência de carne por 40 dias, da quarta-feira de cinza até as vésperas da páscoa. Para compensar 'se período de suplício, a Igreja fez «vistas grossas» às três noites de carnaval. Em a ocasião, os medievos aproveitavam para se 'baldar em comidas, festas, bebidas e prostituições, como na antiguidade. Em a Idade Média, o carnaval passou a ser chamado de «Festa dos Loucos», pois o folião perdia completamente sua identidade cristã e se apegava aos costumes pagãos. Em a «Festa dos Loucos», tudo passava a ser permitido, todos os constrangimentos sociais e religiosos eram abolidos. Disfarçados com fantasias que preservavam o anonimato, os «cristãos não-convertidos» se entregavam a várias licenciosidades, que eram, geralmente, associadas à veneração aos deuses pagãos. O carnaval na Idade Média foi objeto de estudo de um dos maiores pensadores do século XX, o marxista russo Bakhtin. Em seu livro Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, Bakhtin observa que no carnaval medieval -- «o mundo parecia ficar de cabeça para baixo». Vivia-se uma vida ao contrário. Era um período em que a vida das pessoas tornava-se visivelmente ambígua, pois a vida oficial -- religiosa, cristã, casta, disciplinada, reservada, etc.-- amalgamava-se com a vida não-oficial -- a pagã e carnal. O sagrado que regulamentava a vida das pessoas era profanado e as pessoas passavam a ver o mundo numa perspectiva carnavalesca, ou seja, liberada dos medos e da ética cristã. Com a chegada da Idade Moderna, a «Festa dos Loucos» se 'palhou por o mundo afora, chegando ao Brasil, ao que tudo indica, no início do século XVII. Trazido por os portugueses, o Entrudo -- nome dado ao carnaval no Brasil -- se transformaria na maior manifestação popular do mundo, numa das maiores adorações aos deuses pagãos do planeta e, por tabela, na maior apologia a prostituição apoiada por o Estado. Você vai participar do Carnaval? Egina Carli de Araújo Rodrigues é professora de História das redes pública e particular de ensino no Acre (eduardoeginacarli@blogspot.com) Eduardo Carneiro é acadêmico do mestrado em letras por a UFAC. Número de frases: 40 Número de frases: 0 Pegue três tragédias gregas (recomendamos Agamênon, Coéforas e Eumênides, de Ésquilo), tempere com a história dos países latino-americanos no século XX, um pouco de Brecht e enfeite com uma pitada da realidade do teatro paulistano. Bata tudo isso num grande liquidificador (certifique-se de que 'tá tampado, pois 'sa mistura é um tanto explosiva e pode fazer uma baita meleca). Beba tudo de uma única vez. É 'ta a sensação que temos ao assistir Orestéia -- O Canto do Bode, montagem que o grupo Folias 'colheu para comemorar seu décimo aniversário. O projeto é ambicioso e perigoso (pra não dizer maluco mesmo ...): os riscos de se enroscar em algum clichê são altíssimos, mas a companhia passa praticamente ilesa por 'te abismo. Entrar no galpão do grupo equivale a colocar o copo deste liquidificador na boca e abrir a goela para três horas de uma viagem absolutamente maluca. A montagem, conduzida por um excelente palhaço-corifeu (ou seria um corifeu-palha ço?) interpretado por Dagoberto Feliz, conta a história do povo de Argos, desde a partida do rei Agamênon até o julgamento de seu filho Orestes por o crime de matricídio. Entre 'ses dois acontecimentos, como já bem alertava o palhaço Dagoberto na bilheteria, «acontece a maior desgraceira», como em toda boa tragédia. O paralelo entre o clássico grego e a realidade latina acontece muito graças à universalidade do texto de Ésquilo, mas não se pode negar a competência da encenação que utiliza todo o imenso 'paço cênico com maestria, dos belos figurinos, da eficiente iluminação e sobretudo de um elenco muito bem entrosado. Mas apesar da ambientação histórica, o passado recente latino-americano acaba servindo muito mais como referência 'tética, pois a história grega ainda sobressai com muito mais força na montagem, e isso não quer dizer que a proposta se perca. Longe disso: as imagens que se formam revelam um trabalho magnífico realizado por todos os atores, que embarcam fundo nas soluções (e pirações) cênicas propostas. E mesmo as idéias mais arriscadas acabam funcionando: quem diria que Orestes sendo recebido por um bando de hippies do qual faz parte sua irmã Electra ficaria bacana? Acreditem, 'se visual Hair em temática grega funciona. Assim como uma divertida Clitemnestra interpretada por o ator Danilo Grangheia, que beira a bizarrice de uma drag queen. Em o fim das contas, o 'petáculo é tão bem produzido e há tamanha entrega por parte dos atores, que há muito poucas ressalvas que podem ser apontadas. O tamanho do projeto confunde um pouco a platéia e certamente confundiu ainda mais os criadores, e após o intervalo há uma quebra considerável na linguagem da narrativa, sobretudo com uma projeção um tanto deslocada de imagens de outros grupos de teatro paulistanos. Número de frases: 20 Cinema, Aspirinas e Urubus Semana passada, uma amiga de longa data, amiga que admiro muito e continuarei admirando quis simplificar a minha vida, com algumas «dicas» de ser mais superficial, em linhas gerais ela me dizia para a eu desencanar dos problemas e ser feliz. Uma frase bem comum em livros de auto-ajuda por ai, interessante e bem lembrado num papo com uma outra amiga é que auto-ajuda sempre coloca o leitor como incapaz de se auto-ajudar, logo ele precisa ler auto-ajuda! Minha resposta não muito amigável foi que eu acreditava em encontros e diálogos para o crescimento e não em simplificações da vida do outro, por melhor intenção que 'ta amiga tivesse. Ontem, no meu aniversário, eu me dei de presente uma simples sessão de cinema, o filme era Cinema, Aspirinas e Urubus, um filme que fala de um encontro em 1942 de um alemão que fugia da guerra e de um brasileiro que fugia da fome. Um filme maravilhoso não por ser de-mais, mas por sua simplicidade em relatar um encontro, um dos mais inusitados que já vi. Um alemão amoroso com a vida, um pacifista em tempos de segunda guerra e um brasileiro amargo, amargurado por a sua situação de miséria, sarcástico e egoísta. O filme não 'tereotipa o típico, não simplifica seus personagens e suas histórias, conseguimos ver tanto a alma do retirante quanto a do alemão, daí sua riqueza, a simplicidade de olhar profundamente seus personagens, suas dores e principalmente o que 'te encontro vai transformando na alma de cada um. Viva os encontros!!! Espero que você encontre 'te filme, vá ao site do filme, paquere-o, assista ao trailer. Parabéns ao Marcelo Gómez, valeu a luta dos sete anos para filmar 'te longa. http / www 2. uol. com. br /urubus/pt/home.html Número de frases: 13 Henderson Moret Hoje, após olhar para o calendário, percebi que 2007 corre e já 'tamos passando por o mês de maio. Todos os anos, em 'se período, algo 'tranho me toma. É uma vontade de 'quecer tudo, deixar de lado a vida corrida, a doença de meu pai, os meus quilos extras, o dinheiro que não pára no bolso, o trânsito cada dia mais complicado de Manaus -- devido as infindáveis obras que iniciam quando o político ganha as eleições e só terminam após 4 ou 8 longos anos. Sei que 'se desejo de frear o tempo e 'quecer dos problemas não é uma exclusividade minha. Mas, sei ainda que todos os anos eu e alguns eleitos conseguimos deixar de lado o mundo real e viver uma utopia, um grande sonho por 3 luas. Eu falo de Parintins. Em verdade ouço muita coisa sobre a mais famosa ilha do Amazonas e sobre o festival dos bois realizado lá. Parece até mentira, tudo que já ouvi é pouco para definir o que se vive no encantamento que é aquela cidade durante a festa. E há um detalhe, quem comenta sobre o festejo dos bois Caprichoso e Garantido parece sempre hiperbólico, exagerado. Para se tentar entender por meio de palavras a profundidade da palavra Parintins é preciso ser até grotesco. Só se sabe de fato o que é um orgasmo quando se sente na própria carne. Parintins são 3 noite de intensos orgasmos. Só de me imaginar mais uma vez no meio daquela grande ópera popular já me arrepio. O mês de junho se aproxima. Para se vivenciar 100 % do que 'tou tentando relatar é preciso ir a uma ilha no meio da Amazônia, deixar em casa os títulos, poses, preconceitos, frescuras e apegos. É necessário mergulhar na cultura cabocla, encarnar a alma de um amazônida deixando de lado o luxo, os camarotes Vip's e aviões. A utopia ocorre no meio do povo, na chamada galera. Para ser um fiel membro de uma das galeras azul e vermelha (em Parintins são 'sas as duas principais cores a se usar) é preciso pleitear uma licença ou férias com o patrão, sempre para o final de junho, ou mesmo perder o emprego se preciso for. Para ser integrante da galera é preciso 'tar apaixonado. Um, dois, três dias antes da festa iniciar se corre para o porto de Manaus ('queça a palavra avião) e se embarca em algum navio recreio. Você e uma centena de pessoas desconhecidas seguirão juntas, durante cerca de 18h, amontoadas em redes de pano, dividindo 'paço com bagagens, cocares e muitos sonhos. Durante a viagem as pessoas começam a 'quecer da posição social, de quanto dinheiro possuem no banco e de quantas pós-gradua ções já fizeram. Elas seguem sorrindo, puxando conversa, paquerando as águas coloridas. Ainda no barco, para iniciar o processo de amnésia dos problemas, quem nunca navegou por as águas do Amazonas, será presenteado com as 'trelas e o mais belo luar que os olhos podem contemplar. Em a área de lazer da embarcação, logo que cai a noite já é possível ver, sem a interferência da fumaça e luzes artificiais da cidade, como o céu é 'trelado. Lá por as 5h30 é preciso acordar, por 2 motivos: um é o café da manhã (um pãozinho com manteiga, café e leite) servido a partir das 6h e o outro é uma visão que certamente quem vive numa metrópole nunca imaginou. Antes do café deve-se voltar para a área de lazer e ver literalmente o encontro do dia e da noite. Essa é umas das cenas que mais me marcam sempre que viajo por os rios daqui. É uma cena que máquina fotográfica alguma consegue registrar com exatidão. Água, matas, céu, sol e lua juntos. Diante de toda a exuberância amazônica não há como lembrar dos problemas do cotidiano. Só há 'paço para se refletir e perceber como o ser humano é apenas um pequeno alfinete ante o infinito. Mas, não se demore muito refletindo pois o café acaba rápido! A o chegar a Parintins é natural se 'pantar com algumas coisas e se empolgar com o enxerimento das morenas, ou morenos, que andam com cocares e pouca roupa sob o sol 'caldante. Uma curiosidade que mais chama a atenção dos turistas é a Coca-Cola, lá ela é azul para os caprichosos e a bandeira do Brasil, que é vermelha e cheia de corações para os garantidos. Empolgação e 'panto a parte, é necessário guardar energias para a que acontece durante a noite. Por volta das 3h da tarde se dá início a uma romaria, cerca de 30 mil pessoas se dirigem para o bumbódromo. Alguns de moto-táxi, triciclos enfeitados ou mesmo a pé. É uma romaria pintada por as cores azul e vermelho. Gente das mais diferentes feições e origens. Ruas 'treitas e gente caminhando em marcha, como soldados que vão para a guerra. A o entrar no bumbódromo, 'pécie de arena onde é realizado o Festival Folclórico de Parintins, é nítida a divisão dos bois-bumbás rivais. Lado direito todo azul do Caprichoso, lado 'querdo encarnado como o coração do Garantido. De as 15h as 21h advogados, universitários, 'portistas, funcionários públicos, prostitutas, desempregados, artistas, pescadores, todos iguais (de azul ou vermelho) se preparam para participar de um 'petáculo. Eles são meio 'pectadores, meio atores principais. As coreografias, gritos, o suor das pessoas comuns que compõe as torcidas é o ingrediente principal que faz Parintins ser tão única. Parintins é um alucinógeno que vicia, é uma mistura de ópera a céu aberto, carnaval, candomblé, ritual indígena, 'tádio de futebol no momento do gol, teatro, abertura das olimpíadas e queima de fogos do reveillon. Que saudades de Parintins! De as 21h até as 2h30 da madrugada quem 'tá na torcida vive um misto de sonho e filme embalado por o som dos tambores do povo Parinitintin. Em o fim do 'petáculo, logo após o último ritual indígena encenado, só resta voltar para casa no meio da multidão, com a voz rouca e o corpo cansado, para dormir e recuperar forças para a noite seguinte. O resto não adianta relatar por meio de palavras. Que saudades de Parintins! Número de frases: 53 Percorrer A Pé o trajeto da avenida era o que tinha em mente antes que Magnólia sepultasse qualquer pretensão. «Ela é muito grande», 'tende-se virtualmente através dos incontáveis cruzamentos que interrompem a Perimetral. Sentada na mesinha de plástico da lanchonete do irmão, Magnólia aponta a igrejinha bordejando os cem anos. O gesto havia soado como um quase convite. Fale disto, talvez quisera dizer. Convidado ou não, decido ficar. Peço um suco de caju de caixinha contra o calor, ponho os óculos escuros contra a luminosidade que, em novembro, maltrata a vista. Ainda assim a camisa empapada de suor, os dedos 'corregando na chinela de couro, os olhos apertados. Fiquemos, pois, com a Wenefrido Melo, no Mondubim, apenas um dos cromossomos da vastíssima cadeia de DNAs presentes na avenida Perimetral -- a via que abraça, ou arrocha, a capital cearense. I. A WENEFRIDO Melo é a Perimetral, mas a Perimetral não é a Wenefrido Melo -- longe de qualquer trocadilho ginasial, a intenção é explicar, sim, e não fazer troça com o conhecimento ou desconhecimento do traçado de Fortaleza. Dito de outra forma: a Perimetral é a Presidente Costa e Silva, a rua Vitória, a Leste-Oeste, a Cel. Matos Dourado, a Wenefrido Melo e tantas outras ruas e avenidas que serpenteiam por a cidade. A Wenefrido é um corte de poucos metros, uma fatia, um trecho que vai do Balão do Mondubim aos trilhos da 'tação. Há trinta anos, nem isso. Estacava antes dos trilhos, impedida por um muro que, com o crescimento da metrópole, caiu. A Wenefrido também é um corredor em cujo miolo, não tão imponente quanto a querem os moradores daquela paróquia, repousa a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Patrimônio histórico de Fortaleza, a igreja funcionou como chamariz. Foi olhando para a ela que mentalmente proclamei: fico. Depois disso, as dúvidas foram, uma a uma, definhando. Francisco ajudou a dirimi-las de vez: «Isto aqui tem história». Ele cuida do poço profundo e das filas que se formam em frente às cinco ou seis torneiras que, todos os dias, no canteiro da ruazinha, fazem 'correr «uma água quase mineral». Segundo Francisco, foi com parte de 'sa água que se assentaram os tijolos da igreja quase centenária. É por ela que o amontoado de gente sedenta 'pera, de domingo a domingo, pacientemente. O ritual é o mesmo: de bicicleta, andando ou de carro, eles chegam e encostam os garrafões, garrafas, baldes e toda sorte de recipientes. Depois empurram tudo no porta-malas ou nas garupas. O caso é que não ficam sem ela, a água. «Aqui todo dia é 'se rojão." A os 51 anos, o franzino guardador de águas suspira, confere as horas: quase meio-dia. De ali a pouco deixaria o poço sozinho. Tinha de almoçar. Ele é Francisco Lucimar Martins de Sousa, e diz: tem gente que vem de longe, de perto, de todo canto aparar uns bons cem litros de água quase mineral no centro do Mondubim Velho. Porque, saindo da água e entrando na organização 'pacial ou social ou geográfica do bairro, conforme relatos colhidos sob o sol enfurecido de um sábado, pouco antes do almoço, os Mondubins são cinco: o Velho, o Novo, o Parque, o Grande e o quinto -- Jackson fez as contas, mas não lembra. Evandro, do outro lado da avenida, contou seis Mondubins, os quatro de Jackson mais o Pequeno e a Esplanada. Ali, porém, entre o Balão e os trilhos, apenas um de eles: o Velho Mondubim ou Mondubim Velho, ouço as duas formas. A terceira: apenas Mondubim. Feito de casas velhas, antigas, «Quer saber a idade da casa basta ver a largura do muro», ensina Jackson Cavalcante, irmão de Magnólia. Vejo -- dois palmos de largura, palmos bem 'tirados. Em a 'quina onde funciona a mercearia do irmão, Evandro Ferreira Costa, revólver preso ao cós da bermuda jeans, convida: «Entre e veja a coberta». Ele ergue a vista. «Aquela ainda é a primeira carnaúba que colocaram aqui. Tem mais de cem anos." A mercearia fica ao lado da 'tação do Mondubim. O imóvel é tão velho quanto a igreja e o poço e os pais dos entrevistados, todos muito velhinhos, cheio de histórias mas muito cansados e quem sabe incomodados com tanto calor para sair e dar alguma entrevista numa manhã de sábado. «A carnaúba é a mesma?», fico 'pantado. «É, a gente só mexeu ali pra trás. Aqui para a frente tá tudo igual. Até as telhas. As telhas são pesadas, só vendo mesmo." Lembro: isto aqui tem história. Tem museu, igreja, funerária, 'cola, lanchonete, mercearia, chácara, sítio e redes de pesca pendendo dos galhos de árvores no canteiro. As redes, que bonito são as redes que formam um carrossel. Tem jogo de dominó e do bicho. E uma clínica, policlínica para tratar dos rins. Terá." O terreno foi comprado agora», comenta ao acaso Francisco. Tem Carteado? Não perguntei. Gosto de carteado. Recapitulando: tem um imóvel, quem sabe vários, que conserva a sua primeira carnaúba, as suas telhas bem mais pesadas que as da minha ou da sua casa, os tijolos largos, a igreja, o poço, os pedintes do semáforo etc., as mulheres muito sujas com bebês a tiracolo. «Este mundo 'tá perdido», diz um Francisco incomodado com a chegada do grupo ao chafariz. São as que ficam no semáforo do Balão. Elas se refrescam, faz muito calor. Francisco 'tá sentado à sombra, apenas observa. «Em 'sa idade, podiam 'tar trabalhando. Só querem saber de trepar." Tem muita coisa na Wenefrido. Ano que vem só ficam de pé a igreja, o poço e os 'moléus. A igreja porque é patrimônio histórico, o poço por ter serventia à comunidade. Os últimos por obra do acaso. Uma parte da avenida, sentido Siqueira-Messejana, deverá sobreviver ao metrô que vem por aí. O lado oposto vai passar em breve por alargamento. A carnaúba, os tijolos e as telhas pesadas da mercearia do irmão de Evandro vão sumir. Em frente, a casa ainda mais antiga também vira pó. Em o bairro que um dia já serviu de morada aos magistrados do Ceará (lá mantinham chácaras e sítios), quase tudo promete virar poeira. O Metrofor, empresa responsável por a implementação do metrô da cidade, não pede licença. Quer, a todo custo, modernizar Fortaleza. Entre Um E Outro Aceno, lance de memórias; entre uma e outra ida aos fundos da mercearia, Evandro faz chegar uma garrafa de vinho gelado, carneiro e arroz, que ignoro por 'tar a trabalho, 'crevendo. Ele insiste «Mas 'tá bem gelado», novamente recuso. Ele repete e eu cedo, beberico, fico tonto, largo o copo por a metade. «Não tá bebendo, não gostou?», quer saber Evandro, que é agente penitenciário. Em aquele dia, 'tava de folga. «Não gosto muito de vinho, mas aceito café." Olho novamente a 'tação do Mondubim, o casario. Depois de Canindé tem uma vila de casinhas nem tão antigas quanto 'ta da Wenefrido mas muito parecidas. É com ela que se assemelha aquele corredor da Perimetral, cidade do interior, jogo de dominó, igrejinha, pracinha, 'colinha ou grupo, gente 'corada nos muros, gente conversando nas 'quinas, gente cumprimentando Evandro a toda hora, a cada cinco minutos alguém passa e diz " Como vai, rapaz?!" e ele acena ou responde com um " Opa!" mas o carro ou a bicicleta ou a pessoa já vai longe. Então retomamos a conversa, 'tamos sentados no batente da mercearia, à beira da avenida, sentados e nostálgicos de qualquer coisa que exista ali e que deve ir-se em pouquíssimo tempo. De repente percebo que Evandro é uma 'pécie de prefeito da Wenefrido Melo. Conhece tudo e todos, sobretudo os contraventores, aponta os batedores de carteiras ou ladrões de gado no interior. Todos conhecidos do Olavo Oliveira, o presídio onde trabalha como agente desde 1984, quando prestou concurso. Fala com todos, eles o conhecem e se tem algum no ônibus tentando roubar, desiste quando descobre Evandro entre os passageiros. «Já aconteceu, eles fingem que 'tão de passagem e saem de mansinho." Com o dinheiro que talvez consiga da indenização paga por o Metrofor, Evandro pretende comprar casas para os irmãos, que são quatro. «Todas próximas das outras." Para ele, imagino, irmãos não devem mesmo se separar. E, no caso de sua família, foi o que aconteceu. Ela veio de Canindé em 1982, assentou-se no Parque Santa Rosa, bairro logo ali, ao lado do Mondubim, em seguida mudou-se para uma casinha em frente à 'tação. O passo seguinte foi comprar o imóvel que uma senhora pusera à venda, a tal mercearia. O ano era 1986. A proprietária já idosa queria desfazer-se de ele, era muita coisa pra cuidar e ela, ao que parece, vivia sozinha, os filhos todos formados e morando em Minas Gerais. «Meu pai quis comprar, não tinha dinheiro, mas ela, a dona da casa, disse ' Pra você eu vendo e você vai me pagando do jeito que der ', então meu pai comprou o imóvel, colocou venda de carne de toda qualidade e quitou a dívida em seis meses», resume entre goles do vinho e bicadas no carneiro, que come cheio de cuidados por causa da pressão. Mais sobre Evandro Ferreira Costa: tem 49 anos, dois filhos. Foi lateral num clube de futebol de salão em Canindé, " Jogava muito bem, até hoje tem gente que lembra de mim na cidade." O pai era natural de Mulungu, fazia transporte de cargas, levava feijão, trazia farinha, açúcar. Montado no animal, percorria as veredas ressequidas do Sertão Central cearense. De passagem por Canindé, encontrou a futura 'posa, mãe de Evandro. «Eles faleceram em 1999, quase na mesma época." OBS.: em breve, as partes derradeiras do relato acompanhadas de algumas informações históricas sobre o Mondubim, bairro histórico de Fortaleza. Número de frases: 123 Aguardem ... Através da parceria firmada entre o GPACI (Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil) e a Morgan Music surgiu a idéia do documentário: «Corpo e Alma». Baseado na experiência de um pai, o filme retrada a vivência dos profissionais da saúde e pacientes na luta contra o câncer infantil. Número de frases: 3 www.corpoealma.blog.br Agora em julho o veterano guitarrista paraibano completa dez anos de residência na Europa. É professor na Geneva International School, onde ministra aulas de guitarra, baixo e piano. Obstinado, sua carreira começou no final dos anos 80, já gravou mais de uma dezena de discos no mundo da música instrumental, onde se caracteriza por a personalidade forte, trabalho árduo e rigor nas suas produções. Pontos que norteiam sua qualidade sonora. Este ano de 2006, em meio à comemoração, lança seu mais novo álbum intitulado «G.R.U.E.», conseqüência de uma inusitada sugestão feita por o seu filho mais novo, que ficava vidrado nas gruas de construção civil 'palhadas por a cidade de Genebra. Aproveitando o ensejo para divagar, não é 'tranho associar a simbologia das gruas, como auxiliar de construtor de novas formas, quanto ao novo trabalho de Washington. Em a novidade o guitarrista compositor aventura nas melodias apresentando quatro canções, nas quais vocaliza em duas, constituindo formato pop ao seu trabalho. Em sua breve passagem por João Pessoa, cedeu uma entrevista exclusiva. Como você analisa as características dos mercados europeu e brasileiro para a música instrumental? Acho que a musica instrumental perdeu ainda mais 'paço aí no Brasil, depois que eu saí. Acho que teve um boom na década de 80 com grupos como Pongará, Úvulas Ardientes, JP Sax, Quinteto Itacoatiara Washington Espínola Trio, Metalúrgica Filipéia, Olho da Rua, entre outros. Alguns destes grupos ainda existem, mas, a maioria desapareceu por falta de incentivo e de locais para shows. Sei que tem uma nova geração de músicos que gostam de musica instrumental, mas, o problema são sempre os mesmos. Aqui na Europa pelo menos, temos todos os anos os famosos Festivais de Verão, temporadas de Inverno em teatros e locais underground. É por isso que acho aqui melhor, não dá pra comparar. São dez anos vivendo na Europa. do que mais gosta e o que mais sente falta? Aqui na Europa já me fixei, tenho uma família e são seis CDS feitos em diferentes países, com diferentes músicos, além de uma riqueza cultural enorme, poder tocar piano quase todo dia, ter uma segurança financeira e artística. Sinto falta da família aí em João Pessoa, amigos, a praia. Mas, acho que um mês passado aí é suficiente para recarregar a bateria! Sem falar com a quantidade de shows e músicos com os quais já tive oportunidade de falar: Allan Holdsworth, Pat Matheny, John Mclaughlin, Stevie Winwood, Birelli lagrene, Herbie Hancock, Jean-Luc Ponty, Stanley Clark, Yes, King Crimson, Nile Rogers, etc.. Seria impossível ou eu precisaria de uns 30 anos ai para ver todos 'ses músicos. Qual o balanço desses vinte anos de carreira? São vinte anos de carreira, 11 discos, muitas viagens por o Brasil e Europa. Não tenho do que reclamar, mas eu ainda tenho muita 'trada e projetos por a frente, alem de tentar levar minha musica para outros continentes com a Ásia e a América do Norte. Devagar e sempre, em frente e mais alto ... Este e o meu lema. Muito trabalho e seriedade, disciplina, coragem, dedicação, sorte e bons amigos! Você sempre reciclando e inovando musicalmente. Em 'se novo disco, intitulado G.R.U.E., temos a novidade de quatro músicas cantadas e o seu lado pop mais exposto. O que diz a respeito? Este disco G.R.U.E. realmente é o mais diferente de todos, pois é a primeira vez que eu canto e 'crevo os textos das músicas. Não foi fácil, pois toma duas vezes mais tempo que o instrumental para adaptar letra e música, sou muito exigente, alem do fato de que as letras em sua maioria são em inglês. Gosto muito das composições instrumentais, bem melódicas, sinceras ... Deixei de fora duas músicas, pois não cabia mais no CD, e já compus mais umas três, sendo duas cantadas. São surpresas para um próximo CD, talvez uma coletânea com faixas inéditas, por que não, ainda 'te ano ... A música pop foi e sempre será a minha inspiração básica, pois comecei ouvindo 'te 'tilo, e só depois passei para o instrumental e world music. Sendo assim, nada mais natural que finalmente 'te acúmulo de mais de 30 anos de 'cuta e execução saia para a prática de composição, não é? Você diz que quer expandir e divulgar mais seu trabalho no Brasil. Quais os planos? Agora eu 'tou fazendo o caminho de volta para o Brasil, 'pecialmente o Sudeste, levando 'tes seis discos gravados aqui, e também os do período em João Pessoa, pois nunca fiz shows no Rio ou Belo Horizonte, como líder e ou compositor. Hoje eu tenho material e bagagem para mostrar as pessoas toda uma obra construída com sonhos e lutas, pois, não é fácil chegar num país 'trangeiro e se impor, num bom sentido, e conseguir um 'paço! Em o próximo 29 de Junho começam o Festival de Montreux, onde trabalho e toco faz seis anos, vou ter a oportunidade de novo de falar com caras como Jimmy Page, Robert Plant, Sting, entre outros. Tenho muita fé em minha música. Wasinghton Espínola -- www.wespinola.com Número de frases: 47 Contato: wespinola@mail.com Enquanto todos discutiam se o Romário iria mesmo chegar ao gol de número mil, ele já tinha passado por o milésimo fazia tempo. E mais: com reconhecimento atestado e até menção no International Guinness Book of Records. Em a verdade, José Alpoim Ryoki Inoue não marcou mil gols. Ele 'creveu mais de mil livros. Isso mesmo! A impressionante marca atual é de 1076 livros publicados. Sobre o milésimo livro do autor, o experiente jornalista Alexandre Garcia faz uma comparação ainda maior: «Ryoki é o Pelé da literatura." A maioria das edições dos livros 'critos por Ryoki alcançam mais de 10 mil exemplares. Todos eles são vendidos imediatamente. Chegou a alimentar sozinho 400 mil leitores por mês e hoje publica em média dois livros por ano. Como por exemplo «Saga» (Editora Globo), uma história de quatro gerações de uma família japonesa no Brasil. Outra grande obra é o livro de técnica literária «Vencendo o desafio de 'crever um romance» (Summus) que vem reforçar o primeiro já 'gotado, «Caminho das Pedras». E o próximo lançamento será, «O Fruto do Ventre» (Editora Record), um livro com 560 páginas de muita ação e suspense. Leia também: http://overmundo.com.br/overblog/o leitor e o autor-em o brasil Número de frases: 18 Saiba mais sobre o autor no Site Oficial A história de Nivaldo Eduardo, um dos primeiros milionários com a Loteria Esportiva no Brasil, que hoje mora na rua e sofre com hanseníase Era uma vez um jovem de 20 e poucos anos na idade e nas prioridades de vida, 'tômago e veias sempre calibrados por os melhores uísques que o dinheiro pode comprar, cercado por as melhores mulheres cuja companhia pode ser alugada, certo de que ser um nababo é uma condição perene como ser um diabético, por exemplo. Pois aquele moço, que viajou do padrão de assalariado para a rotina de milionário apresentando um bilhete com o placar certeiro de 13 jogos de futebol, agora é 'te homem abandonado na região do Aquidabã, sobrevivente das migalhas de quem deixa um carro 'tacionado aos seus cuidados. Nivaldo Eduardo dos Santos, um dos primeiros milionários do Brasil com a Loteria Esportiva, aos 62 anos, perdeu de goleada uma partida em que enfrentou a soberba. O conto de fadas que nas histórias da carochinha persiste até alguém ser feliz para sempre para Nivaldo durou, no máximo, seis anos. E seu maior pecado foi apenas ter ficado rico repentinamente com 27 anos de idade. «Que experiência que eu tinha?" A bolada recebida por Nivaldo equivaleria hoje a um pouco mais do que R$ 6 milhões, valores atualizados por o Índice Geral de Preços ao Consumidor, da Fundação Getúlio Vargas. Dinheiro suficiente para comprar mais de 300 carros populares, ou cerca de 60 apartamentos de três quartos num bairro de classe média de Salvador, ou ainda 950 mil sanduíches Big Mac. De certa forma, o prêmio foi torrado em 'se tripé: carro, moradia e gastronomia, além de sessões de um hedonismo proporcional a sua conta bancária. Credita toda a sua ruína a investimentos malfadados em letras mortas e sociedades em negócios falidos, principalmente na instalação do primeiro checkup eletrônico para veículos em Salvador, a Oficina Auto Elétrica 2001, nos Dendezeiros, que originou processos trabalhistas dos quase 20 empregados e uma dívida com a Justiça, que ele precisou pagar cumprindo pena na detenção. Mas parece tomado de uma conveniente amnésia que o faz 'quecer dos 'banjamentos em até cinco Dodge Dart ao mesmo tempo na garagem e que se algum arranhasse a lataria no meio-fio, ele providenciaria passar adiante e comprar um novo na sempre solícita concessionária. E não faz questão nenhuma de mencionar que foi o responsável por a emancipação imobiliária de grande parte das mulheres damas do Pelourinho, que conseguiram comprar casas próprias graças a sua generosidade de cliente priápico e bem-dotado financeiramente. Em a fase boa, fazia da ponte aérea Salvador-Rio de Janeiro um percurso tão banal como ir do Farol da Barra até a praia de Stela Maris. Se tinha jogo do Bahia no Maracanã, pagava a viagem de 20 amigos, de avião, para a capital carioca. Nivaldo já foi assíduo companheiro das mulatas de Sargentelli, hoje vive na sarjeta. Frustração oculta É do tipo que insiste nunca ficar arrependido, frustrado ou saudosista do período de fausto. Só que todas as suas narrativas querem provar o contrário. Lembra com exatidão o valor do prêmio (2,976 milhões de cruzeiros novos), a data da extração (16 de julho de 1972) e até o número do concurso (nº 96, já que a loteria tinha sido criada em abril de 1970). É como aquele namorado que teima em dizer não sofrer com o fim do relacionamento, mas não 'quece o dia em que começaram a namorar, a roupa que ela 'tava usando e até o perfume com aroma de pêssego misturado com alfazema e uma leve fragrância de pasta de dente, cabelos lavados com xampu de babosa. Antes, podia gastar o equivalente a R$ 1 mil por dia que não pensava em pobreza. Hoje, precisa dormir num albergue na Barroquinha e batalha por uma aposentadoria por invalidez. como se não bastasse a desgraça monetária, Nivaldo ainda é hanseniano. Os dedos encolhidos e parecendo 'tar por a metade, a pele descascando em úlceras brancas e secas dão os contornos miseráveis de um corpo sendo carcomido por a doença, enquanto a alma é corroída por lembranças. A diferença é que a primeira, cientificamente chamada de hanseníase, é perfeitamente curável com os medicamentos que ele toma. O segundo mal-estar é de difícil tratamento e um dos principais sintomas é o murmúrio reincidente que se ouve como um suspiro: «Que experiência que eu tinha?" O novo-pobre fala com a boca mole, desdentada, também ela hipotecada por a miséria. Tinha a maioria dos dentes de ouro e quase todos foram extraídos para pagar os 'tertores de sua riqueza. Os primeiros foram trocados por uma dívida, já os últimos serviram para pagar comida. Já foi vizinho de craques do Flamengo, nos apartamentos de Ipanema, hoje passa a maior parte do tempo ao lado do casal Ivan e Maria, que 'tendem um lençol de mendigos na calçada e colocam o filho Ivanzinho como refém e vetor da sensibilidade alheia. Garante não ter arrependimento. «Se tivesse, me suicidava, como já vi muita gente se jogando de carro da ponte Rio-Niterói». ' Oreia ' Em as redondezas do Terminal do Aquidabã, a história desse ser humano falido é de domínio público. Honório, o proprietário da farmácia que vende os medicamentos de hanseníase, indica seu local de trabalho diário. Seu Careca, o veterano dono do bar, com quatro décadas de Aquidabã, foi o principal confidente das memórias cheias de dinheiro e aventura de Nivaldo. Ele não trabalha mais no balcão, mas passou todos os capítulos para o filho Roberto. E mesmo assim, perguntar por Nivaldo é o mesmo que nada. É só falar no milionário da loteria que todos se lembram: «Ah, é Oreia». Com os lóbulos da orelha alargados e amolecidos, como se fossem os lábios de índios deformados por rótulas da tradição, Nivaldo deixa mais do que boas histórias no convívio com os comerciantes da região. às vezes, ele larga, involuntariamente, uns pedaços de carne por o balcão. De os nove filhos que teve com mulheres diferentes, cinco já morreram. Dois de eles ainda aparecem para ver o pai e o tratam como ... leproso. São também desvalidos que só fazem reclamar do fato de ele ter perdido uma fortuna. Em os poucos comentários que elaboram, apenas dizem que 'tariam melhor de vida se 'te não fosse tão perdulário. Mas é claro que não dizem com 'sas palavras. Preferem termos como «imprestável, vagabundo e irresponsável». A companheira mais fiel foi a última mulher, também uma renegada social, que se apoiavam mutuamente na vida de rua. Morreu atropelada há três meses no Aquidabã e Nivaldo não teve direito a receber nenhum tipo de seguro. É difícil Nivaldo admitir, mas continua fazendo uma fezinha. Ele vigia o carro do dono da banca da Paratodos, que se tornou amigo e confidente, Ricardo José, e quando 'te vai pagar R$ 0,50 ou R$ 1 por o serviço Nivaldo pede que jogue na centena ou no milhar. Em mais de 10 anos de hábito seria natural que o ex-milionário ganhasse uns trocados no bicho (apostando no macaco ou na zebra), mas isso nunca aconteceu. «A sorte bateu uma vez na vida de ele e pronto. Ele não soube aproveitar», condena Ricardo. É também uma visão cartesiana de uma trajetória. O protagonista não acha o mesmo. Quando o álcool do uísque vagabundo ou do conhaque começa a fazer efeito, ele desdenha dos interlocutores na roda onde o papo tem invariavelmente o mesmo julgamento moral: «Como é que você foi desperdiçar isso tudo?" Nivaldo encerra o assunto de forma taxativa: eu aproveitei tudo e bem, vocês vão ter três vidas e não conseguirão gozar tudo que eu tive. Realmente, deve ser um cansaço repetir sempre a mesma história, responder sempre as mesmas perguntas sobre como é poder comprar qualquer carro, qualquer bebida, ou quase qualquer mulher na hora em que se quer. Por outro lado, é o momento em que Nivaldo se sente vivo, na oportunidade de recordar, de sensibilizar, de oferecer ao outro uma viagem mental por todos aqueles caminhos que ele percorreu em carne e osso. Curtiu a vida igual a uma cigarra daquela fábula sobre ser precavido ou extravagante. Escolheu ser a personagem de quem todos sentem pena no final. Número de frases: 68 «Mas que experiência que eu tinha?" Por Leca Perrechil e Juliene Codognotto Se você trabalha num daqueles prédios todo envidraçados, com ar-condicionado e mesa própria, e pode dar um tempo nas tarefas para tomar um cafezinho, também pode pagar os R$ 50,00 para ver a peça Andaime, no teatro Vivo mais longe de você. E, claro! Não se 'queça de ir de carro! Assim você pode pagar R$ 12,00 por um lugar no 'tacionamento. Ambientada do lado de fora de um desses prédios, a história retrata dois personagens migrantes que não teriam nenhuma condição de pagar um ingresso com 'se preço. José Mário (Cláudio Fontana) e Claudionor (Cássio Scapin) são limpadores de janela que dia após dia permanecem pendurados num andaime, sujeitos aos riscos do vento, chuva, altura, convivência, vergonhas familiares e de temíveis máquinas capazes de executar o mesmo serviço no Japão. Mesmo longe do chão e de outros seres humanos, acompanham por as janelas a prova de som os hábitos do pessoal do 'critório e até uma aula de ginástica, o «único benefício gratuito do trabalho». Conversam sobre assuntos que correspondem à imagem que os mais afortunados (no caso, a platéia) têm do ' povão ', tais como: bingo, crediário, rifa, cartomante, chefe. Porém, o que faz a peça sair das piadinhas costumeiras e ganhar relevância, é a crítica social implícita no texto de Sérgio Roveri. É como se, na verdade, os personagens 'tivessem num aquário, onde fazem apenas parte da paisagem enquanto o mundo (no caso, de dentro) continua quase sem olhar para eles. Ali, fazem o que alguém mandou. É o mundo das pessoas que só recebem ordens -- usar o equipamento de segurança, ficar pendurado por cabos, não fazer ginástica -- e isso não é só no trabalho, também na vida e até mesmo nos banheiros, quando se recomenda pegar apenas duas toalhas de papel pra secar a mão. A brincadeira da folha de papel é mais do que piada. O texto, que parece ingênuo, fala, na verdade, de um sentimento de exclusão e repressão que o personagem vive em muitas outras situações de seu cotidiano. Fala ainda da vontade de reagir que mora em cada pessoa reprimida por a sociedade e que aflora nos momentos mais inesperados. «Qualquer dia eu vou entrar lá e vou pegar um monte de folhas e quero ver quem é que vai me falar que eu só posso usar duas!». As limitações da vida de um empregado pobre é tema recorrente, talvez central. A única liberdade que eles têm é para fumar, um gostinho do prazer que os fumantes de dentro do 'critório não possuem. Ao contrário de Motel Paradiso, de Juca de Oliveira, em que a platéia ri de si mesma, em Andaime o 'pectador ri dos seus empregados e parece não se incomodar nem um pouco com isso. Com as boas atuações de Cássio Scapin (o Nino, do Castelo Rá-Tim-Bum) e de Cláudio Fontana (que atuou em Fera Ferida, antiga novela da Globo), o diretor Elias Andreato é bem pouco criativo e deixa todo o mérito para Roveri. O que dizer do Nino rebolando pra limpar o vidro? A platéia ri, é verdade, mas há passagens no texto que dispensam completamente gracinhas fáceis desse tipo. Para compensar as falhas na direção, o Teatro Vivo oferece a você um belíssimo Fran's Café (ok, nem tão bonito), poltronas confortáveis, uma exposição, lagos transparentes na entrada e um incrível ' desfile de moda ' (o figurino da platéia foi nota 8,5, superior à do Bibi Ferreira. Número de frases: 26 Aguardem novas avaliações da moda teatro 2007). Pela primeira vez na história de Mato Grosso do Sul, professores de 'colas indígenas se reúnem por um ideal: discutir educação e melhorar o ensino de sua aldeia. Entre os dias 26 a 28 de julho, a Secretaria de Educação do Estado em parceria com o Centro Universitário da Grande Dourados realizou a fase presencial do curso de capacitação de professores indígenas do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) noturno. O curso aconteceu no Núcleo de Atividades Múltiplas da Unigran, na Aldeia Jaguapiru, por meio do Programa Nacional de Incentivo à Formação Continuada de Professores do Ensino Médio (ProIfem). O evento contou com representantes de todas as aldeias do Estado que possuem ensino médio e EJA. Eles se dividiram por áreas: ciências da natureza e matemática, linguagens e códigos, e ciências humanas e suas tecnologias. A coordenadora do projeto, professora Terezinha Bazé de Lima, acredita que pela primeira vez no Estado uma ação de capacitação reuniu 'sa diversidade de etnias, culturas e línguas. «O maior objetivo é que os professores se capacitem na produção de conhecimento, iniciação científica e elaboração de projetos de pesquisa», enfatizou a professora. E acrescenta que a proposta metodológica de trabalho não será capacitar o índio para trabalhar a cultura de ele, mas sim orientar o professor indígena para que ele possa ter instrumentos tecnológicos para construir cientificamente o conhecimento, fazendo com que eles mesmos desenvolvam os projetos que interessem a comunidade. «Queremos despertar no índio o interesse de ele em fazer uma 'pecialização, um mestrado e doutorado», afirma. Para Amâncio Vitorino Delfino da aldeia Água Azul, município de Dois Irmãos do Buriti, professor da Escola Municipal Indígena Cacique Ñandeti Reginaldo, o curso foi proveitoso por a proporção de intercâmbios entre as várias representações das aldeias. «Essa avaliação de reflexão para o melhoramento de ensino nas nossas comunidades é muito importante. E os benefícios são inúmeros», afirma. A diretora da Escola Indígena Toghopanãa, Cilena Pina Pinto, que trabalha com a etnia Guató, na Aldeia Uberaba, no alto do Pantanal, último ponto a noroeste do país, entre a Bolívia e o 'tado do Mato Grosso, viajou um dia de barco, desde a Ilha Ínsua, no Pantanal sul-mato-grossense, até Corumbá, e mais quase 24 horas de ônibus para não perder o curso em Dourados. «A capacitação supre as nossas necessidades. Para nós, foi um prêmio vir aqui. É muito significativo participar desse curso, agora temos o embasamento teórico para fazer os projetos», afirma. Em o primeiro dia, os professores puderam interagir e trocar experiências, discutindo as problemáticas de cada comunidade. Em o segundo, no período da manhã, eles aprenderam a metodologia do projeto de pesquisa, e também como fazer um artigo cientifico. à tarde, os participantes começaram a desenvolver o pré-projeto de suas aldeias, analisando os problemas mais urgentes. Em o último dia, foi a apresentação do projeto. Ali, eles expuseram todas as suas necessidades e possíveis soluções. Os temas percorrem assuntos como o resgate da língua materna, o meio ambiente e o alcoolismo. O curso 'tá adequado às diretrizes da Educação Indígena. E vai continuar a distância, por o correio e por a internet. A o termino da capacitação, eles irão fazer um artigo científico sobre o projeto desenvolvido na sua aldeia. Desde já, eles já têm condições de inovar sua rotina de aula com métodos de trabalho diferenciados. Fizeram parte do evento dezesseis aldeias, cinco etnias, somando mais de noventa e oito professores. São elas, Aldeia Brejão do município de Nioaque, Uberaba (Corumbá), Amambaí (Amambaí), Bananal, Limão Verde e Lagoinha (Aquidauana), Aldeinha (Anastácio), Te ' yikue (Caarapó), Jaguapiru, Bororó (Dourados), Cachoeirinha (Miranda), Córrego do Meio (Sidrolândia), Bodoquena (Porto Murtinho), Buriti e Água Azul (Dois Irmãos do Buriti). Em a foto, oração de encerramento. Número de frases: 32 «As pessoas entram aqui e pedem o novo livro do Harry Potter. Eu digo ' só se lançaram um Harry Potter com a cabeça chata», afirma o gerente Fred Portela. A brincadeira sintetiza a proposta mais do que séria da Livraria Oboé: um 'paço voltado exclusivamente para a comercialização de autores cearenses. Não são poucos os desavisados que adentram a loja procurando best sellers de Jô Soares, Dan Brown, mesmo com uma placa eletrônica anunciando em letras garrafais na entrada: «Livros + CDs + DVDs = Oboé Livraria -- Autores «cearenses». Ainda assim, a livraria mantém firme a filosofia de comercializar apenas obras cujos autores sejam da terra de " José de Alencar. «Como é algo único em Fortaleza, existem clientes 'pecíficos, que acham a proposta bacana. Também aparecem turistas, muita gente que vem para conhecer 'critores cearenses ou até mesmo levar os «dicionários de cearês», explica Portela. A Oboé foi inaugurada em novembro de 2003 e possui atualmente um acervo de cerca de mil títulos de livros e um catálogo de 100 CDs. A venda de DVDs é menos significativa, por o reduzido mercado de títulos genuinamente cearenses. A princípio, 'tá aberta para comercialização de qualquer livro ou disco, desde que tenha uma autoria local. «O autor vem à loja, traz o trabalho e a gente avalia. Mas não precisa ser conhecido, ter um nome na praça, 'tar vinculado a uma editora ou a um gênero literário 'pecífico», diz o gerente. A comercialização funciona no 'quema de consignação, ou seja, à medida que as obras são vendidas, a loja presta conta ao autor. Assim, construiu-se um acervo diversificado, que vai de livros de direito a romances do século XIX, de obras referenciais de José Alcides Pinto a publicações de senhoras que não apresentam o mesmo talento do 'critor mas possuem a vaidade -- legítima, pois -- de ver suas investidas literárias no papel, de livros de fotografia a paradidáticos. Como 'clarece Portela, " a Oboé trabalha com as principais editoras cearenses, como a Fundação Demócrito Rocha, Abc, Livro Técnico e Editora UFC (Universidade Federal do Ceará). Mas a maioria é de livros independentes. Aqui não é apenas um negócio, encaramos como uma responsabilidade cultural». O acervo de CDs não é menos eclético. Em a mesma prateleira, é possível encontrar do forró eletrificado da dupla Rita de Cássia e Redondo a discos de música instrumental. Em a vitrine, o clássico pop da «diva anti-diva neo-tropicalista» Karine Alexandrino, Solteira producta, 'tá bem acompanhado do compositor Fausto Nilo. A os artistas interessados em comercializar suas obras, a loja reserva os dias de terça-feira para lançamentos. Basta procurar o gerente com uma proposta. E apresentar a cidadania cearense, claro! \> Livraria Oboé-Autores cearenses. Av.. Santos Dumont, 3130, Shopping Center Um, Aldeota. Contato: Número de frases: 28 (85) 3264-8080 Quem poderia me responder, por que os grandes revolucionários não duram muito tempo no planeta terra? Outra pergunta, qual o papel da arte no mundo? Vejam, foi assim que li ontem a nóticia no jornal A tarde Online de Salvador: O astro do reggae Lucky Dube foi morto a tiros em 'ta quinta-feira, 18, em Johannesburgo, na África do Sul. Segundo informações do site da BBC, o cantor sul-africano, que tinha 43 anos, foi vítima de uma tentativa de assalto e alvejado por os ladrões que tentaram levar seu carro, da marca Chrysler. Ele foi morto por volta das 20h (horário local, 17h em Salvador) logo após deixar seu filho, que viu tudo e chamou a polícia. É preciso reflitir novamente na violência que 'tá 'palhada no mundo, principalmente nos países pobres. O grande músico Bob Marley já cantava África une-te! De 'sa vez, o grande músico Lucky Dub foi vítima por questões políticas, algo sempre presente por aqueles que se sentem o poder, os donos do sistemas e super héróis do inferno. Como diz Lauren Hill: Alimente os pobres e desarme o mundo! Tiraram a vida de um grande artista, que fazia o povo sorrir, dançar, cantar e acreditar no novo amanhã. Em os meus efêmeros domingos lembarei de suas canções. Um grande salve ao músico negro / africano Lucky Dube. Que sua alma 'teja num bom lugar. Um axé da Bahia a todos que acreditam na revolução através da arte! Número de frases: 16 Todo o corpo sofre quando alguma parte, por menor que seja, 'tá seriamente afetada. Assim é o organismo cultural. E tudo ocorre por falta de medidas preventivas que possam garantir a saúde dos múltiplos órgãos que o compõe, bem como por a omissão e por verdadeiros abandonos por parte dos que têm o poder nas mãos de zelar por o patrimônio cultural brasileiro em todos os seus aspectos. Pois bem, o Museu Internacional de Arte Naif teve suas portas fechadas. Localizado no bairro de Cosme Velho -- Rio de Janeiro, bem ao lado do acesso ao Cristo Redentor, por sinal, candidato ao posto de Uma das Sete Maravilhas do Mundo. É uma triste realidade. Diretores, diversas instituições, o público 'tão em vigília constante na luta por a sobrevivência do museu. Gesto louvável, porém ao focar o âmago da questão, pergunta-se: haveria a necessidade de um movimento popular para sensibilizar os responsáveis por a propagação da cultura? Vemos mega-exposi ções itinerantes 'trangeiras, que demandam altíssimas cifras, para o preparo de infra-estrutura, ambientação, mídia, desta forma, levando multidões ao evento. E o caso Guggenheim? Enquanto isto, diversos museus continuam padecendo por omissão de socorro; obras preciosas são abandonadas como num grande almoxarifado; por deficiência de segurança, peças são roubadas e há ausência de um quadro de pessoal 'pecializado. Os problemas são muitos. Que incentivo 'te fato representa para os diversos grupos de 'tudantes, conduzidos por aplicados mestres em visita guiada? Seriam 'tes jovens as testemunhas oculares dos últimos momentos de vida de uma parte da nossa memória cultural? O que ficaria registrado em suas mentes? Talvez o recado nas entrelinhas dos acontecimentos apontando o destino final de qualquer realização da expressão artística. Seu trabalho vai terminar assim ...-- seria talvez o eco que os acompanharia durante a vida. Transcrevo aqui a divulgação do evento a ser realizado no museu: «Vamos Reabrir O Museu NAÏF! O Clube da Cultura, 'colas, associações de Amigos do Cosme Velho e de Laranjeiras, artistas, intelectuais e pessoas solidárias vão fazer um grande evento no Museu Naïf, em prol de sua reabertura, no dia 18 de maio próximo. Fechado para o público desde 14 de março, o Museu Naïf continua trabalhando e recebendo grupos de visitantes e de 'colares em visitas marcadas. Inconformados com 'sa situação, o Clube da Cultura, as 'colas do bairro, lideradas por a Curiosaidade, a Rede Social e o Corredor Cultural do Cosme Velho, O Trem do Corcovado, a Associação de Amigos de Laranjeiras, o Grupo Off Sina, e muitos outros se propuseram a transformar o dia 18 de maio, Dia Nacional dos Museus, num grande happening, com a participação de entidades locais. As atividades começam às 10h e se 'tendem até 20h. Uma programação voltada para as crianças prevê a pintura de painéis, a presença de contadores de histórias, de artistas naïfs, 'petáculo circense, coral infantil, apresentação de chorinho, dos Flautistas da Para o Arte, do projeto Musica no Museu, etc. Em a mesma oportunidade vai ser lançada a campanha de adesões à Associação de Amigos do MIAN. Você poderá também votar na inclusão do Cristo como uma das sete maravilhas do mundo moderno! Venha Ajudar A Reabrir As Portas do Museu NaÏf!! A programação elaborada até agora prevê: * 10:00h -- início da pintura de painéis -- artistas naïfs e crianças * 10:30h -- Contadores de histórias Grupo Sapoti (OK confirmado) * 12:00h -- Chorinho (a ser confirmado) * 14:30h -- Término da pintura de painéis -- artistas naïfs e crianças * 15:00h -- Grupo Off Sina (clowns) (OK -- confirmado) * 16:00h -- Coral da 'cola Curiosa Idade (OK-confirmado) * 17:00h -- Flautistas da Para o Arte (a ser confirmado) * 18:30h -- Música no Museu (a ser confirmado) " Local: Rua Cosme Velho, n°. 561, a 30 metros da 'tação do trenzinho que leva ao Corcovado Assista ao video: RJTV, de 15/03/2007, colando o link abaixo na barra de endereços: Número de frases: 45 http://video.globo.com/ Videos / Player / Noticias / 0, GIM652039-7823-MUSEU + DE + ARTE + NAIF + FECHA + AS + PORTAS, 00.h tml Enquanto a sociedade brasileira permanecer como 'tá, a arte com orientação étnica, abordando, criticamente, aspectos da realidade do homem negro local jamais permitirá ao público a imparcialidade cômoda de sua falsa democracia racial. Sempre haverá um chamamento: prenúncio de grandes tensões. Caso dos bem arquitetados poemas de José Carlos Limeira erigidos sobre alicerces outros e inabaláveis. Trafegando na contra-corrente da afro-poesia, há mais de trinta 30 no fronte, já provou e comprovou sua capacidade expressiva, representando de forma lírica a dor e o amor de ser diáspora. Reli algumas coisas que 'crevi Em 1970 E pergunto: será que eu era tão atual? Ou o mundo permanece o mesmo? (Espelho 70) Suas incursões poéticas valorizam motivos que representam a beleza e o drama cotidiano por a lente de um homem que acumula a experiência de transitar por a adversidade racial brasileira na condição de negro consciente de si, ciente da grandeza de sua história e admirador da inesgotável beleza de sua gente. Me basta mesmo 'sa coragem suicida de erguer a cabeça e ser um negro vinte e quatro horas por dia. (Diariamente) Reminiscências da infância, homenagens a pessoas queridas, cenas onde flagra a histórica condição dos afro-descendentes compõem sua literatura. Sustenta sua poesia a constante e 'pontânea convivência com a religiosidade dos cultos afro-brasileiros e seus sedutores elogios à beleza da mulher negra -- herdeira em linha direta da temática inaugurada por Luís Gama no Século XIX. Tou com ti seu Zé Teu papo de corimba Protegendo invisível da rua Porque da lua somos Fico mais na minha Qual é a tua pilintra Vamos em 'sa, em 'se verso Vai dar pé. Tou com ti seu Zé. (Para o seu Zé) Falando de nós dois, proibidos dentro dos dias normais e deste gosto de desespero que 'queço no próximo gole de cachaça para agüentar a desgraça até poder 'tar com você Negra negra ( Para uma mulher) Temas e sentimentos sustentados por a constante busca do código poético que melhor lhe traduza, ao modo belicamente praticado por Lima Barreto, José Carlos Limeira rejeita o fascismo do colonialismo literário brasileiro. Escreve bem. Escreve de peito aberto. Escreve em primeira pessoa. Cansei de ser o animal amestrado que vocês 'peram. Afinal já são noventa e um ano de farsa ... Vou expor o gosto das tramas Estarei em cada gueto Em o grito de rebeldia, Em cada beco, Em o atrevimento De mudar no papel Os versos dos poetas. (Consciência) A literatura negra se desenvolve, prescrevendo, sempre, um urgente programa de lutas. Que José Carlos Limeira tem conhecimento de 'sa causa não resta a menor dúvida. Sua produção poética não se dissocia de seu ativismo social. A pena da princesa tinha que ser d' ouro Para dar um pouco de seriedade àquela farsa enojante. (D' ouro) Em as suas incursões literárias, com mestria, supera o velho dilema do feijão e do sonho. Toma partido na liga dos poetas negros, em 'ta frente de batalha fraternal do homem preto com a elaboração do seu discurso no intuito de verbalizar, com beleza e pujança, as experiências exemplares que o conforma numa terra camuflada por a ideologia do branqueamento Queria ver você negro negro queria te ver se Palmares ainda vivesse em Palmares queria viver. ... O ódio do feitor é pegajoso, fecundo ele pode emprenhar até as mentes mais 'téreis com seu pênis de chicote ... Já pensou naquele país da serra da Barriga? sei que talvez não, uma terra onde não fosse possível ver uma negra ter que mostrar a bunda abrir as coxas tirar das entranhas o pão de cada dia ... Por menos que conte a história não te 'queço meu povo se Palmares não existe mais faremos Palmares de novo ... Quilombo Meus sonhos Sofro de uma insônia eterna De viver vocês ( Quilombos) Faz poesia política, mas não cai nas armadilhas do texto panfletário. Sua linguagem segue na missão de emprestar ao leitor um pouco da sua emoção 'pontânea diante de experiências vividas. Repito: sua linguagem. Suas palavras ... seus versos. Eu me recuso a morrer no próximo verso, Seria de uma inutilidade total Deixaria um poema inacabado E frustraria o leitor, Que mora por dentro de cada autor, Por condição, extremamente curioso. (Meu leitor) É fato que o que faz qualquer literatura é a busca de adentrar os bosques da arte no intuito de instaurar seu caráter maior que é a beleza. A crítica 'tética contemporânea instalou um certo mal-estar ao apontar como, no mínimo, antiquado os conceitos exatos e os juízos de valor. Realmente. Falar em literariedade em tempos de diversidade, multiplicidade, diferença, tolerância, reversão, afirmação, equidade, etc e tal, parece um pouco universalista demais. Ou seria melhor dizer fora de moda? No entanto, mesmo com difícil verbalização, não se consegue neutralizar parâmetros na abordagem de textos de beleza. Dias ásperos, caminhos sobre ondas Dias árduos onde o 'curo era dia Até chegar América sonho alheio Que se fez dia de 'poras ... Reconstruir o próprio peito Sal sobre os ombros e A dor de cantar ( Diáspora) Feita a ressalva, não se quer apontar o que se faz universalista em 'ses poemas, mas os traços que os representam como demarcadores da emancipação da linguagem poética do negro brasileiro. Há em José Carlos Limeira, de forma equilibrada, aquele frio na barriga, o suspiro 'pontâneo, aquele sorriso involuntário, a revolta, aquela experiência que seqüestra o leitor de sua miséria cotidiana, a vontade de sair quebrando tudo, o drible que faz a frase gingar para lá e para cá, a paradinha que desconcerta o goleiro na hora do penalti, o abraço forte do grande irmão que sempre aguardamos, os ecos da nossa orgulhosa africanidade. Folha seca: a bola no ângulo e o grito de gol que há séculos 'pera explosão. Em outras palavras, o poeta arrisca efetivamente no trabalho de linguagem, na experimentação do verbo, na sondagem do homem, na revelação da alma, nos prazeres da carne. Dono de minha alegria Solução para todos os dilemas Teu sorriso é poesia Ou melhor e por fim É a alma de todos os poemas ( Considerações sobre teu sorriso) Mergulhar no teu corpo sem lençóis ou cobertas É a rima mais certa, como beber a noite Escondida em cada de tuas 'quinas Sem frio, sem açoite Ora mistérios de mulher De outras macios de menina. (Mergulho) Não repousemos, simplesmente, no arcabouço técnico da crítica com sua frieza enganosa. Deixemos 'sa tarefa de laboratório, longe do turbilhão da rua, aos insensatos que fazem de nós e nossos passos fenômenos carentes da explicação que, pensam, só pode vir de eles. Batamos cabeça a 'se mestre poeta de nosso cotidiano. Cantor de nossas irmãs, mães, avós. Conversador que tem livre acesso aos deuses da afro-descend ência. Cronista de nossas mazelas. Como leitor familiar, deixemos que se nos manifeste a pulsação do texto de José Carlos Limeira -- um trabalho que nos prende -- mesmo inconscientemente. Que exerce sobre nós, de forma balanceada, seu duplo domínio: subjetivo e objetivo. As águas do velho Parágua Nos reconstroem em herança Perpetuam ensejos Refazem 'peranças Regam Áfricas inteiras Permanentes em 'tas terras Descartam tênues fronteiras E pretextos para guerras ( Águas do Paraguassu) Sublevar o prazer que vem da forma do texto em função do pragmatismo da mensagem tem sido uma constante em certa parcela da poesia negra. Lembre-se que o leitor de poesia 'tá sempre em busca daquele verso, daquela imagem, de uma linguagem que traduza seus anseios e o transporte para além de seu delimitado universo. Um texto que empreste à paisagem cores novas, novos ângulos de visão, novos contratos com o real. Em o nosso caso: a urgência da cor e do sentimento pretos local. Estou contando com a primavera Ultimamente não tem havido flores Dentro de mim: Tenho andado meio chuvoso, Horizontes nublados, embora tempestuoso São frios, frios. Hoje de manhã não abri a janela Saí de surpresa, E de surpresa vi o dia: Estava lindo. E fiquei com vontade De mudar minha meteorologia interior. (Estações internas) Mesmo a raiva, a dor e a melancolia, insistindo no máximo do paradoxo, podem causar prazer na sua recepção poética, recuperando nas possibilidades de cada verso, a desde sempre porção insondável do homem. O prazer resgatado da adversidade da vida. Não o prazer por a captação da verdade em si, o que é sonho, mas por a materialidade da arte: a musicalidade, o ritmo, a sonoridade, a 'colha vocabular, a elaboração da imagem, o símbolo, o enigma ... De como na triste 'pera De a promessa vindoura do que haverá Um homem caminha, E a polícia o segue E o cachorro lhe lambe O calcanhar. (Fotoagosto) A Literatura Negra se 'tabelece enquanto convergência da matéria e do 'pírito num texto que pulveriza os limites entre o mundo real e a sua representação de forma a instaurar um outro grau de percepção, de experiência e de subjetividade do homem negro. Uma ação poética que se faz em hora e local determinado, e que, acima de tudo, se apresenta como um convite ao diálogo. Mas antes de memorizar 'sas palavras, leitor, leia com atenção construtivista os versos de José Carlos Limeira, 'te poeta que optou por não se calar ou apagar de seu texto cada angústia, humilhação e sofrimento que lhe vitima a experiência de ser homem preto em 'te Brasil racista. Mas que também não teve medo de ser cavalgado por os deuses africanos em 'ta terra cristã. Nem de amar loucamente a mulher preta em 'te país ariano. José Carlos Limeira tece seu olhar de presente sem desprezar o vigor da linguagem, sem apagar as feridas históricas do nosso povo, e sem empalidecer 'ta tinta forte que nos cobre a pele. Seus poemas é nossa experiência quilombola: «se Palmares não existia mais, eles fizeram Palmares de novo». Sou um negro, mais um, destes que não usariam henê no cabelo, por não querer cabelos lisos ( Mais um negro). Conheço uma pretinha que era mulata mas outro dia deixou de alisar o cabelo e hoje tem a cabeça feita. (Mutação) Depois, olhando na cara do empresário, Vai calma e sacanamente dizer: Se quiser uma mulata meu bem Vá pintar sua mãe de preto. (Não perdem por 'perar) ... ... Fontes dos poemas: Atabaques (José Carlos Limeira e Ele Semog) A razão da chama (Coletânea -- Org. Número de frases: 207 Oswaldo de Camargo) Blacks intentions -- Negras intenções (Ediçã bolingue) Em 1942 surgiu um personagem simbólico no universo da Disney. Zé Carioca, o 'tereótipo de um brasileiro malandro e amistoso, apresentado no filme Alô, Amigos, era o primeiro ícone da política de boa vizinhança que começava a ser empreendida por o governo norte-americano, ávido por angariar a simpatia das nações da América Latina em meio a 2ª Guerra Mundial. Pouco depois, Carmem Miranda, uma baiana 'tilizada, com brilhos, balangandãs e um sorriso permanente, cristalizava a imagem de um Brasil festivo. Tamanho era importante a amizade entre as nações que Carmem -- portuguesa de nascimento -- se firmou 'trela de Hollywood, tornando-se o principal símbolo da cultura brasileira nos Estados Unidos. Sessenta e quatro anos depois, Hollywood mostra que continua com uma imagem 'tereotipada sobre nós. Só que agora o filme Turistas -- primeira longa metragem norte-americano filmado inteiramente no Brasil, que 'treou em 12 de dezembro nos Eua e que chega aqui em fevereiro -- acentua os 'tereótipos, chegando a retratar um Brasil completamente distorcido. Esta mudança é resultado do atual contexto histórico. Entronizados na condição de única superpotência mundial e certos de que a globalização difundiu o american way of life como padrão de vida para populações do Ocidente e Oriente, os Estados Unidos mostram que, agora, pouco importa agradar àqueles que vivem abaixo da linha do Equador. Em Turistas, um grupo de jovens norte-americano curte férias na costa do Brasil. Em o início do filme, naturalmente, predominam as praias ensolaradas. Tudo é festa. Só falta vir até o grupo, oferecer caipirinha, uma mulata sambando, com biquíni de lantejoula, sapatos de salto alto e plumas na cabeça. Só que no Brasil de Turistas os centros urbanos 'tão ao lado de densas florestas. Quando o ônibus em que os jovens viajam sofre um acidente, eles se perdem na mata e o que então era festa começa a se tornar uma luta por a sobrevivência. O grupo é acolhido por moradores de uma prainha, personagens muito diferentes daquele Zé Carioca, anfitrião que, em Alô, Amigos, apresentou as belezas do Rio de Janeiro ao colega norte-americano Pato Donald. A trilha sonora do passeio era Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Em Turistas, tudo o que os brasileiros querem é exterminar o grupo de jovens, para extrair seus órgãos e repassá-los ao mercado negro de transplantes. Antes, éramos retratados num musical. Hoje, num filme do gênero terror. Em aquela ainda recente década de 40, Walt Disney foi designado por o governo dos Estados Unidos para integrar uma lista de pessoas influentes que visitaria os países sul-americano, para promover um 'treitamento das relações políticas. Em o Rio de Janeiro, Disney conheceu as paisagens e costumes que o inspiraram na criação de Alô Amigos. Muita coisa mudou em 'se período. Por isso, é improvável que Turistas tenha sofrido qualquer influência política em seu enredo. De lá pra cá, o governo norte-americano aliou a sua política de dominação cultural à promoção de governos ditatoriais em países da América Latina. Ainda comemorou o fim da União Soviética, cartada que pôs os Estados Unidos na condição de centro econômico do Mundo. Enquanto isso, o Brasil apenas consolidou sua imagem de «República das bananas». Realmente, parecemos muito pouco aos olhos do prepotente George W. Bush. Número de frases: 28 Ele não liga para a gente. O Background Musical Quando J. S. Bach compôs o Cravo Bem Temperado, promoveu, de certa forma, a efetivação de uma tendência da época: a «equivalência» entre as notas sustenidas e bemolizadas. Assim, 'sa 'trutura de sonoridade foi cristalizada e reafirmada por toda a música ocidental nos quase quatrocentos anos subsequentes. Em o final do século XIX a melodia cromática anunciada por a flauta em Prélude à l ' Après-Midi d' un Faune de Claude Debussy, sugerindo uma substancial instabilidade da tonalidade diatônica (maior-menor), prenuncia uma nova era musical onde as velhas relações harmônicas já não têm caráter imperativo. Schönberg e seus discípulos tratam de concretizar de forma radical a desvinculação do sistema tonal iniciada por Debussy, com o uso sistematizado dos doze sons da 'cala cromática, que ficou conhecido como dodecafonismo. Strawinsky, com sua problemática rítmica rompendo com periocidades e simetrias, posterga a ritmia tradicional abrindo caminho para um novo universo musical explorado a partir daí por os compositores em geral. Messiaen por exemplo, autêntico herdeiro de Debussy e Strawinsky, leva a cabo uma sistemática rítmica nos moldes, entre outros, do Canto Gregoriano e da Música Indiana, visualizando o ritmo como meio articulador da linguagem musical. Milton Babbitt nos Estados Unidos, Pierre Boulez na França e Karlheinz Stockhausen na Alemanha ampliam a idéia serial do dodecafonismo para o campo do ritmo, o que propiciou o surgimento do serialismo integral onde, além melodia e do ritmo, aspectos como timbre, dinâmica, textura, etc. eram também serializados. É de longe a necessidade do homem de ampliar o universo sonoro e rítmico até então existente e de se penetrar em zonas do som nunca antes exploradas. Em 1913, apenas vinte anos após a 'tréia do Prélude à l ' Après-Midi d' un Faune, que diga-se de passagem, é contemporâneo da Sinfonia do Novo Mundo de Dvorák e da Patética de Tchaikovsky, um certo compositor futurista chamado Luigi Russolo, pensando numa música que reproduzisse os sons e ritmos das máquinas e das fábricas, construiu uma série de intonarumori (entoadores de ruídos), máquinas com as quais produziria 'tampidos, 'talos, roncos, rangidos e zumbidos em seus concertos. George Antheil com o seu Ballet Mécanique (clique aqui para ver um vídeo), que usava na instrumentação campanhias elétricas e uma hélice de avião, causa 'panto em Paris por volta de 1929. Edgar Varèse e John Cage consolidam de vez o 'treitamento da fronteira do ruído e dos sons ditos musicais, tornando-a tão tênue que possibilitaram o surgimento e consolidação dos dois principais seguimentos que formaram a base do que é hoje chamado de Música Eletroacústica: a Musique Concrète na França e a Eletronic Musik na Alemanha. O Background Tecnológico Desde sempre a humanidade busca a automação e a tecnologia. Mesmo vivendo durante milênios sob a égide agrícola, desde a idade da pedra que o homem caminha para a revolução industrial. Em a música não foi diferente: A Harpa Eólia dos gregos, chamada assim por causa de Aeolus, o deus do vento, era um instrumento de duas pontes nas quais se traspassavam cordas. O som era produzido através do atrito do ar com as cordas expostas ao vento. É provavelmente dos gregos também a criação do órgão hidráulico, que utilizava água para pressionar o ar até os tubos, antecessor do órgão peneumático e do mecânico. Aliás, o primeiro tratado sobre construções de órgãos, data de 890 d.C.. Em os idos de 1650 Athanasius Kircher descreve em seu livro, Musurgia Universalis, um dispositivo mecânico capaz de compor música. Ele usava número e relações numérico-aritméticas para representar 'cala, ritmo e parâmetros de tempo. Em 1738 já existiam órgãos capazes de imitar sons de cantos de pássaros. Em 1761 Abbe Delaborde fabrica um cravo elétrico. Morse inventa o telégrafo elétrico em 1832. Um ano depois o cientista Inglês, Charles Babbage, constrói um grande computador mecânico. Hips, em 1867, inventa o piano eletromecânico. Elisha Gray, parceiro de Graham Bell no projeto do telefone, cria uma 'pécie de piano que transmite sons através de fios em 1876. O próprio Bell em 1880 patenteia vários dispositivos que transmitem e gravam sons. Três anos antes Thomas Edison e Emile Berliner já levavam a cabo projetos de fonógrafos. A pianola aparece em 1895 criada por E.S. Votey (Antheil utilizou 16 pianolas ou players pianos sicronizados em seu Ballet Mécanique). Em 1910 surge o primeiro sistema de radiodifusão em Nova York, antecedendo em dez anos à primeira 'tação de rádio no mesmo local. Em 1922 Darius Milhaud faz experiências com transformações vocais em gravações feitas num fonógrafo de mudanças rápidas. O primeiro gravador em tape aparece em 1935, o piano eletroacústico em 1937. Os anos 40 são a década do aparecimento dos órgãos elétricos. Robert Moog provocou uma revolução nas técnicas da música eletrônica em 1964 com seus sintetizadores controlados por teclados ou outros dispositivos que ofereciam uma enorme variedade de sons prontos para serem manipulados. Os 'tudiosos da organologia referem-se ao advento dos instrumentos eletrônicos como uma grande revolução nos conceitos deste setor da instrumentação que se ocupa da definição e classificação dos instrumentos musicais. O computador vem abrir horizontes antes inimagináveis na área da música tecnológica. E ainda sentimos a sensação de 'tarmos só no começo ... Paris e Colônia Pierre Schaeffer, engenheiro e músico francês, nos idos de 1935 começa a utilizar sons naturais gravados em fita magnética nos seus trabalhos no Studio d'Essai da R.T.F. (Radiodiffusion Télévision Française) de Paris. Com filtros, alterações na rotação da fita, loopings, superposições e outras técnicas ele utilizava material advindo de fontes sonoras naturais das mais distintas 'pécies. Junto com Pierre Henrry ele desenvolveu uma síntese detalhada para o gênero. Realizou um concerto radiofônico numa terça-feira, 5 de outubro de 1948, que é considerado um marco da Música Concreta ou a «música de todos os sons» como gostava de chama-la. Herbert Eimert e sua equipe do 'túdio W.D.R. (Wesdeutscher Rundfunk) de Colônia na Alemanha em meados da década de quarenta começam a gerar sons eletrônicos através de ociladores de frequência. Em 1949 o Dr. do Departamento de Fonética da Universidade de Bonn, Werner Meyer-Eppler, usou gravações que fez em tape com um instrumento chamado Vocoder (Voice Encoder) que funcionava tanto como um analisador como um sintetizador de fala para ilustrar uma leitura sobre a produção eletrônica de sons numa palestra apresentada na Academia Alemã de Musica em Detmold. Eimert uniu-se a Meyer-Eppler e a Robert Beyer, que assistiu à referida palestra e era um dos integrantes do W.D.R., no objetivo de levar à frente o desenvolvimento da Música Eletrônica. Mais tarde, em 1953, Stockhausen veio juntar-se à equipe de Colônia, trazendo na bagagem as técnicas de gravação e montagem assimiladas no R.T.F e iniciando uma minuciosa investigação das tendências de comportamento dos novos materiais, «'cutando como nenhum músico havia feito até então», segundo ele próprio. Os Festivais 'pecializados se constituem em campos e os artigos publicados em periódicos como o Die Rie em armas de acirradas batalhas 'téticas entre os dois grupos (Musique Concrète e Eletronic Musik). Stockhausen e Ernst Krének dão início à reconcialiação e consequente aproximação das duas partes com respectivamente Gesang der Jünglinge e Pfingstoratorium: Spíritus Intelligentiae Sanctus onde usam tanto material concreto como eletrônico marcando assim a fusão dos dois gêneros na Música Eletroacústica. O Que Vem a Ser Música Eletroacústica? O teórico e músico eletroacústico, Rodolfo Caesar, tenta responder: Tautológicamente se diz que música eletroacústica é aquela modalidade de composição feita em 'túdio -- analógico ou digital -- o que de nada serve para diferenciá-la de todas as outras músicas que, cada vez mais, usam os mesmos veículos eletroacústicos: techno, dance, ou até -- por que não?-- bolero. A Música Eletroacústica tem outra faceta peculiar: geralmente se apresenta, em concertos, gravada em suporte magnético: fita, DAT, ADAT, ou qualquer outro meio de armazenamento e reprodução, como discos-rígidos, conversão digital / analógica. Quando as obras eletroacústicas não são mistas, isto é, quando não há participação de instrumentistas, sua interpretação nem por isso é descartada. São difundidas em concerto através de dispositivos de amplificação e reprodução que privilegiam o preenchimento, a 'pacialização e a projeção da música na sala: 'te trabalho é a sua interpretação. E continua dizendo: Sendo uma das perguntas que preferimos evitar, sua dificuldade denota uma riqueza. ( Modalidade em construção, não seria conveniente tentar uma definição " fechada "). Mas sendo que aceita a inclusão de todos os sons -- mesmo os ' não musicais ' -- sabemos que ela é por isso mesmo o terreno onde se indaga com maior intimidade a questão mais fundamental e inevitável: o que é música? Talvez seja 'clarecedora a opinião de Henrry Barraud em seu livro, Para Compreender As Músicas de Hoje, sobre as diferenças de comportamento composicional entre os da música eletrônica e os da concreta: A música eletrônica fabrica sons sintéticos que inscreve diretamente em fita. Utiliza de preferência um som sinusoidal, isto é, um som em 'tado puro, sem nenhum harmônico, que transforma à vontade, conduzindo-o desde o extremo grave até os limites do audível no super-agudo, associando-o às suas próprias metamorfoses em combinações de uma complexidade, de uma maleabilidade, de uma velocidade sem precedentes. O compositor da música concreta atém-se aos sons que lhe vêm de fora, sons de uma origem qualquer, mas de preferência acústica, que se tornam os materiais de uma montagem isenta de todas as servidões que o instrumento e o instrumentista carregam com eles. Ele não age, como um músico eletrônico, em virtude de uma depuração abstrata da qual seu trabalho realiza a tradução no concreto; ele elabora sua obra por tateios, por improvisações sucessivas, em função das possibilidades que o material 'colhido lhe revela no decorrer de suas manipulações. Entra, portanto, em 'se método, uma grande parte de empirismo e de confiança musical, na 'colha e até mesmo na invenção dos sons a serem manipulados, partindo de tudo o que nos é oferecido por a natureza em 'se campo. Diferenças à parte, some-se as filosofias de procedimentos a uma gama inesgotável de equipamentos manipuladores e transformadores de som, multiplicando-as daí por um profundo interesse investigador por o evento sonoro e talvez tenhamos como resultado algo que se aproxime do que é chamado de música eletroacústica, pelo menos num contexto mais erudito. O Que Dizer do Que se Ouve? A inesgotável capacidade de avaliar e alterar sons através de manipulação em 'túdio dão um caráter completamente peculiar e inusitado às composições eletroacústicas. Não há notação nem qualquer outro tipo de unidade tradicional para análise. Descrever 'te universo sonoro se constitui então numa tarefa quase insana. Alguns teóricos classificam 'sas peças como eventos sonoros que confundem os limites entres os dois termos: som e música. Schaeffer usa em suas publicações metáforas e expressões subjetivas que sugerem um profundo mergulho no interior do evento e de toda a sua massa 'pectral. Caesar, que é grande admirador das idéias de Schaeffer, versa sobre o som de um sino: ... uma pequena granulosidade dá ao evento uma textura rica, quase tátil, talvez irregularmente distribuída (por se aperiódica) entre o fim do ataque e o início da extinção. Apesar de ser um som iniciado por um ataque percussivo o corpo granuloso mostra sinais de tratamento por atrito. A irregularidade dos grãos é comparável àquela provocada por a fricção de um arco, porém muito mais larga do que a dos grãos dos arcos que conhecemos. Até aí os critérios schaefferianos de avaliação deste tipo de música talvez satisfaçam alguns mas com certeza fazem com que outros perguntem: e o contexto efetivamente musical? O próprio Schaeffer diz: «um som entra em contexto musical assim que é colocado com outros numa rede, de onde extraímos relações de permanência e transformação. Os sons em 'sa rede se relacionam com outros por o que têm de semelhante e diferente». Caesar acredita que «o melhor que temos a fazer é lermos as palavras sonoro e musical como se 'tivessem entre aspas, como se fossem vetores em sua precariedade e transitoriedade» e finaliza: «Gostaria de concluir reafirmando que devemos empregar todos e quaisquer recursos para a análise e apreciação de peças eletroacústicas, por mais absurdos que sejam o resultado «afirmando que» é um exercício necessário para a discussão e a aprendizagem de 'ta música." Um Novo Conceito de Espacialidade Os concertos de Música Eletroacústica trazem peculiaridades bastante incomuns: a ausência de intérpretes convencionais (as vezes até mesmo sem interferência humana no palco), e o uso de alto-falantes exigem um tratamento 'pacial diferenciado. Músicas 'tereofônicas e quadrifônicas fazem com que a localização dos alto-falantes em relação á platéia tenha importância fundamental na audição das peças. Shaeffer em Tratado de los Objetos Musicales explica a ausência de um foco de atenção visual no palco como um dispositivo 'timulador da concentração durante a audição e remonta à Grécia Antiga (século VI a.C.) quando Pitágoras fazia-se invisível a seus discípulos, atrás de uma cortina, com a finalidade de, na 'curidão e em rigoroso silêncio, acurar a atenção dos seus ouvintes. Não é por outra razão que a Música Concreta ficou conhecida também como música acusmática, que vem do grego akousmatikós e quer significar: 'tar disposto a ouvir. O controle 'pacial da sonoridade já era uma preocupação de Stockhausen mesmo em composições com instrumentação convencional. Em Gruppen ele usava três orquestras dispostas em diferentes partes de um auditório fazendo com que acordes fossem projetados de um lado para outro da sala. Com relação a Gesang der Jünglinge ele salienta: «Em 'ta obra eu tentei inserir no interior da própria composição a direção sonora e a movimentação 'pacial dos sons». Seguindo 'ta tendência a Música Eletroacústica acabou por inaugurar uma nova dimensão da experiência musical onde a emissão sonora pode ser mobilizada no 'paço e produzir efeitos auditivos nunca antes imagináveis em 'petáculos musicais. A Live Eletronic Music Passada a euforia dos primórdios da Música Eletrônica gravada e dos concertos acusmáticos, era preciso que houvesse alguma outra motivação. Este impasse foi resolvido com a inserção de equipamentos musicais eletrônicos nas apresentações e de sua manipulação por «músicos» durante a execução. Desde 1939 que Cage com sua Imaginary Landcape tinha lançado a idéia mas 'ta só veio mesmo se concretizar com Mikrophonie I de Stockhausen na qual um Tantã era percutido por dois executantes com vários objetos, enquanto mais dois recolhiam as vibrações com microfones e outros dois controlavam e transformavam eletronicamente o som. Essa «novidade» veio acrescentar ainda mais dinâmica e amplitude à questão da sonoridade eletroacústica já tão rica em 'se aspecto com suas características de equipamento e de 'pacialidade. A Computer Music A Computer Music é técnica que se desenvolveu nas universidades americanas a partir dos anos 60 por serem 'tas munidas de equipamento adequado e por terem em seu corpo docente muitos compositores. Porém os primeiros trabalhos de sintetização por computador foram realizados nos Bell Telefones Laboratories por Max Mathews que usou várias gerações de um programa chamado «Music». Ainda hoje 'te software é adaptado e desenvolvido por vários compositores na geração de sons em suas obras. É incontestável a popularidade entre os compositores eletroacústicos de um outro programa chamado Csound, utilizado na tarefa de gerar sons a partir de dispositivos computacionais. Contudo os computadores também são poderosíssimas ferramentas quando se trata de gerar materiais de orientação na criação de composições. Compositores como Lejaren Hiller e Iannis Xenakis são pioneiros em 'te tipo de utilização. Aqui no Brasil temos um nome de grande importância na área: Jamary Oliveira não só desenvolve importantes pesquisas no setor como também é responsável por o PCN (Processador de Conjunto de Notas), software que oferece, a partir de uma série de doze sons dada, o quadrado serial além de uma gama de outras relações vinculadas a ele como também processa dezenas de operações baseadas na teoria dos conjuntos de notas. Legados de Stockhausen e Schaeffer A utilização de meios eletrônicos transformou para sempre o fazer musical mundial. Hoje é muito difícil se encontrar uma manifestação onde exista música que não tenha alguma interferência eletroacústica. É inconcebível imaginar música num sentido amplo sem instrumentos eletrônicos (guitarra, baixo, teclados, etc.), microfones, amplificadores, caixas de som e toda a parafernália usada na sonorização de eventos, gravadores digitais para registrar as performances musicais, 'tações de rádio para executa-las, aparelhos eletrônicos como rádios e players para ouvi-las e tantos outros dispositivos de elaboração e propagação musical que passam de alguma forma por processos eletroacústicos. Aliás, desde o advento do gramofone que o aspecto tecnológico se associou perenemente à música. Em a qualidade de compositor não consigo mais me imaginar trabalhando sem um computador. Ele 'tá para mim assim como o piano 'teve para Mozart e Bethoven. Um sentimento sempre moveu os artistas de vanguarda: a busca incessante, quase que desesperada e obsessiva por o novo. Stockhausen até hoje não admite repetir uma idéia composicional. Essa maravilhosa «doença» que ataca o criador enchendo-o de profunda inquietude, é a alavanca que desloca o mundo na contínua evolução, no sentido mais amplo, da 'pécie humana. Enquanto houver alguém preocupado em criar algo novo, a humanidade 'tará salva. Este artigo foi publicado originalmente no periódico on-line de música Urucungo. Número de frases: 134 Resolvi postá-lo aqui no Overmundo, revisado e adicionado de links que ampliam seu caráter informativo, por considerá-lo conteúdo complementar de um outro 'crito por «Laine M. Souza, A Evolução da Música Eletrônica» e na 'perança de contribuir com as discussões overmundistas acerca de música eletrônica. Acerca da pré-história da modernidade muito ensinaria a análise da mudança de significado sofrida pela palavra sensação ( ...). Ela se transformou no grande desconhecido e, finalmente, na excitação maciça, na embriaguez destrutiva, no choque como bem de consumo. Ser ainda capaz de perceber alguma coisa, sem se preocupar com a qualidade, substitui a felicidade porque a onipotente quantificação tirou-nos a própria possibilidade de perceber. T. W. Adorno, Minima Moralia. Finalmente nós paraenses já podemos nos orgulhar de nosso Estado e de nossa gente. Em os últimos meses, diante de milhões de telespectadores, a Banda Calypso freqüenta os programas mais assistidos das maiores emissoras do país. O Anormal do Brega já foi no Jô, o Wanderley Andrade 'tava em cadeia nacional. De verdade! Não é um projeto social qualquer, não é uma tragédia, não matamos nenhuma missionária americana, não fuzilamos os sem-terra, não batemos um novo recorde por assassinato na luta agrária, de jeito nenhum, somos nós mesmos, inteiros, cantando e rebolando para todo mundo ver quem somos de verdade e como é animada nossa música e nossa cultura. Não precisamos mais nos envergonhar de nossa condição de atrasados, índios e preguiçosos, saímos da condição de pobres da periferia do país para o lugar de 'trelas. Podemos ser vistos em São Paulo, Rio de Janeiro, Alegre, Fortaleza, Salvador, de ponta a ponta do Brasil, todos podem ver o que é um paraense, contrariando o que os preconceituosos de São Paulo e do Rio sempre acharam: que éramos parte do atraso do país e que eles -- os paulistas -- tinham que trabalhar dobrado para que nós pudéssemos dormir depois do almoço. Humilhação nunca mais. Críticos de música, produtores, antropólogos, todos elogiam o Tecnobrega como um momento maravilhoso da música paraense, junto com o funk carioca, o hip-hop paulista, a tchê music gaúcha, o lambadão mato-grossense, o forró amazonense e toda a música das periferias das grandes cidades. É de verdade, não 'tamos diante de uma enganação da mídia. Vocês não viram no Fantástico? Nós seremos lembrados como aqueles que conseguiram enganar as grandes gravadoras, vendendo milhões de cópias nas barbas de um empresário fonográfico embasbacado, que não sabia onde ficava Belém no mapa do Brasil. o Brega, quer dizer, o Tecnobrega -- afinal já somos modernos -- vai invadir tudo. Só se fala nisso. Podem bater no peito e gritar: é Pará isso. Em o final da década de 60 o Brasil descobriu um outro momento desse ser amazônico: Paulo André, Rui Barata e Fafá de Belém. Nossa música também circulava livre e nacionalmente. Fafá era uma 'trela ascendente enquanto Paulo e Rui jogavam alto no quesito letra e música. Nenhum nome das gerações posteriores chegou tão longe. Eu tinha orgulho de conhecer de perto compositores como Vital Lima, Paulo Uchoa, Edir Gaya, Walter Freitas, Ronaldo Silva, Gilberto Ichihara e tantos outros, tão próximos, tão vivos ... hoje entendo um pouco melhor o percurso de nossa mais popular cantora. Entendi que ela trocou a música da Amazônia por a opção da diversidade mercadológica. Décadas depois de um silêncio tumular, a popularidade da dupla Joelma / Chimbinha é incomparável. O Pará é, novamente, foco das atenções. O grande mérito do Tecnobrega não diz respeito à qualidade da música -- quem os celebra não entra em 'se mérito --, mas à capacidade de ter nascido avesso às gravadoras (ver texto de «Pedro Alexandre Sanches, A música fora do eixo», Carta Capital, n° 380). No entanto, ironicamente, por que as emissoras abertas levam a Banda Calypso pra tocar no horário nobre da TV, que todos sabem que trabalha em conluio com as gravadoras? Os mecenas Faustão, Gilberto Barros, Gugu, Luciano Huck descobriram repentinamente como é boa a fusão do Caribe com a Amazônia? Por que Regina Casé ganhou um quadro no superalternativo Fantástico pra tentar provar que só os chatos não gostam de 'sa música que brota livre nas periferias? Resposta: porque se 'sa música não tivesse passado por um processo de adequação, de pasteurização, de uniformização ela jamais tocaria na TV. Para 90 % das grandes corporações de mídia televisiva brasileira só interessa música ruim, é assim há pelo menos duas décadas. Quando o Brega começou a tomar conta de Belém e se sobrepor ao Axé, todos os méritos deviam ser dados. Mas louvável era a consciência que os bregueiros pareciam ter da extensão de sua música. O axé-music sempre se levou a sério, com o aval de medalhões da MPB. Os bregueiros não, sempre foram 'pecialistas na auto-ironia, no riso-de-si. A Banda Calypso guarda 'sa auto-ironia, não é possível que o figurino da Joelma ... bem ... eu ouço Brega quando quero lembrar do cheiro do interior, do clima erótico da cidade em que nasci, da graça impagável das letras. Não se trata aqui de uma crítica negativa ao Brega, todos nós cumprimos um papel, o Brega também. Trata-se de uma tensão necessária, para evitar que a gente comece a achar normal a necessidade de torcer e sentir orgulho até da Thaís do Big Brother porque ela é paraense. Se a música comercial não pode mais ser boa -- sim, porque já foi um dia, então toda 'sa música se justifica como um grito social. Mas, o deslumbramento de pessoas do meio musical com 'sa música me causa grande 'panto. Confesso não perceber quão grandiosa ela é, moderna e antenada. Devo 'tar perto demais. Por fim: já se pode ir a uma bregão de aparelhagem na Assembléia Paraense? Estão 'perando o quê?! Precisamos fazer como o funk carioca, que vê a nata da sociedade se acabando na pista, numa quebra das barreiras sociais. Ainda que no fim da festa os bem criados voltem para casa de Mercedes Classe A e durmam em cama branca com ar condicionado, enquanto a moçada da perifa 'pera o busão. Isso não interessa não é mesmo? Questão menor diante da alegria de ser brasileiro, de ser paraense. Henry Burnett Número de frases: 58 texto publicado no jornal O Liberal, fev 06 Um músico carioca encantou-se por os horizontes sul-mato-grossenses e na terra campo-grandense fez sua morada. Escolheu para viver um lugar muito diferente do subúrbio do Rio de Janeiro, onde dedilhou os primeiros acordes do seu violão. Em o seu refúgio, nas proximidades da Lagoa Itatiaia, Arlyson Loureiro, artista apaixonado por a poesia da Música Popular Brasileira, compõe uma nova história. Longe da violência à que sua cidade natal foi submetida e que aprisiona aqueles que um dia prestigiaram a boemia carioca. Há 3 anos vive em Campo Grande de bar em bar, onde canta músicas que atualmente já não fazem mais parte do repertório das novas gerações. Bisneto do maestro Algredo José Nunes, antigo regente da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, foi criado em meio à música brasileira. Com a banda Trem Azul, durante oito anos realizou grandes eventos e acompanhou artistas do quilate de Jorge Ben Jor, Rosana e Almir Guineto. Agora o compositor quer dar a sua contribuição para o desenvolvimento da cultura de Mato Grosso do Sul e compartilhar suas experiências musicais conquistadas em turnês por diversos 'tados brasileiros e países da Europa como Dinamarca, Holanda, Suécia e Alemanha. E acredita que a miscigenação cultural, característica do Estado, é propícia para as experimentações de 'tilos musicais, desde que 'tas mantenham a raiz da música legitimamente brasileira. Arlyson Loureiro prima por a qualidade técnica em seus projetos musicais. Como resultado de sua perseverança, acabou conquistando a admiração do maestro Turíbio Santos, diretor do Museu Villa Lobos, que depois de ouvi-lo tocar e cantar, o presenteia com a coleção de seus discos. A 'trela americana, considerada a diva da Soul Music, Dionne Warwick, também ficou impressionada com sua qualidade musical num show que Loureiro fez no Rio Othon Palace. E em turnê na Bahia, o violonista conhece o empresário dinamarquês que o contrata para o projeto da gravação dos CDs intitulados «Noites do Rio», cantados em português e com arranjos e acompanhamentos divididos com a banda Huligg de Copenhagen, ligada ao Conservatório Nacional da Dinamarca. O compositor Arlyson Loureiro ingressa no próximo dia 25 de julho, nos projetos da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul para conquistar um 'paço no cenário musical sul-mato-grossense. Em o Espaço da Poesia, sua participação homenageia os 50 anos da Bossa Nova. Está previsto também seu show na 2ª edição do projeto Som da Concha no dia 24 de agosto. Com aquela 'pontaneidade carioca, o violonista concedeu uma entrevista exclusiva para o Overmundo. Acompanhe a entrevista: Como começou seu interesse por a música? Arlyson Loureiro -- Comecei a tocar violão na varanda de casa como a maioria das pessoas, eu tinha 11 anos, a vizinhança e os amigos começaram a ver e pintou uma oportunidade aos 16 anos para tocar numa 'colinha do bairro, no subúrbio do Rio de Janeiro. O engraçado é que na primeira noite que peguei um violão num palco, faltou luz. E aí o povo começou a cantar junto, no meio da 'curidão, e 'te fato eu achei muito bacana. Logo depois começaram os bares, e a formação de bandas. Em 'sa época eu toquei também em grupos católicos de teatro e música para iniciantes, quando surgiu a possibilidade de eu começar a concorrer em festivais de música sacra promovidos por a Arquidiocese do Rio. Ganhei duas vezes o primeiro lugar. Qual foi a sua primeira banda? Arlyson Loureiro -- Foi a banda Trem Azul. Juntamos uns amigos, nos inspiramos no nome de uma música do Milton Nascimento, Beto Guedes e Lô Borges e começamos a fazer bailes na nossa vizinhança. Quando você começou a fazer um trabalho solo? Arlyson Loureiro -- Eu sempre gostei de tocar violão, das composições, da inquietação, da poesia. E tudo isso foi acontecendo paralelamente com o trabalho da minha banda. Eu acreditava que o artista Arlyson Loureiro não poderia se apresentar sozinho por fazer parte de uma banda, aí eu comecei a fazer um trabalho de violão e voz, fazer minhas composições e músicas. A partir deste momento, começaram a surgir as viagens, os convites para tocar com outros artistas. Isso aconteceu quando eu tinha entre 16 e 20 anos. Tornei-me um profissional de canto e violão e me apresentei em quase todas as cidades da Região dos Lagos, no Estado do Rio. Quais são os 'tilos que você mais gosta de tocar? Arlyson Loureiro -- Eu gosto de tudo que é do Brasil. O que for autenticamente brasileiro eu gosto. Eu gosto de tocar forró, jazz, bossa, samba, mas principalmente de música bonita. Quais foram os artistas que mais te influenciaram? Arlyson Loureiro -- Eu venho do subúrbio do Rio de Janeiro, e como todo bom suburbano, eu sou sambista de carteirinha, de sangue. Mas como já andei muito por aí, descobri que a música do nordeste é maravilhosa. Sou influenciado por o forró e por o baião do Luis Gonzaga, por o jazz americano, a minha música é negra, eu não gosto de música de branco. Me inspiro na Billie Roliday, em orquestras de grandes músicos americanos e misturei com a influência da negrada carioca. Gosto muito também do cancioneiro brasileiro, do repente, do congado mineiro, da música do amazonas, do berimbau da Bahia, do samba-rock de São Paulo e do samba-rock do Jorge Ben Jor. Quais foram os artistas nacionais que você já acompanhou? Arlyson Loureiro -- Eu toquei com o pessoal da Alcione, do Ivan Lins, da Leny Andrade, Almir Guineto, Wanderley Cardoso, Rosana. Conseguir tocar com 'sas bandas foi uma conquista. Eu era guitarrista de um bar do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, chamado Chopp Terrace. Em 'te momento a Alcione só fazia um show por mês, e aí a banda de ela 'tava meio ociosa. A gente se juntou para fazer um trabalho no Aeroporto Internacional e ficamos tocando durante uns dois anos. E quando tinha show de ela, tocávamos juntos. E quanto às suas composições? Arlyson Loureiro -- Estamos aí, né? A gente tem que colocar a cara para bater. Eu sou um intérprete violonista. E para o trabalho da noite, que eu venho fazendo há tempos, eu tenho que tocar as músicas dos outros, Milton Nascimento, Chico Buarque ... Mesmo porque suas composições são exuberantes em beleza. Em a minha forma de compor, na minha maneira de colocar as canções eu gosto de falar de amor, de aventuras, até da inquietação da própria vida do artista, do panorama nacional ... O Chico Buarque tem até uma música que tem um verso que fala: «músicos a pé». Eu também venho falando da realidade do músico brasileiro, da realidade do artista brasileiro de uma maneira geral, isso me inquieta muito. Porque o artista vive como um turista. Vive sem documentos, sem olerites, sem imposto de renda, ou seja, sem a proteção de ninguém. O cara fica aí largado no mundo. E é um perigo isso, pois voltamos aos anos 30, onde o músico era tratado como marginal. Como acontece o relacionamento entre os artistas no Rio de Janeiro? Arlyson Loureiro -- É bem legal, porque o mais importante de tudo, é uma coisa implícita, o respeito à música. A gente ficava horas discutindo um acorde. Em o Rio a gente tem 'sa mania de não tocar errado, de não tocar feio. De sacrificar até o sotaque e se moldar à beleza e à exuberância da música brasileira. O Rio tem 'sa coisa interessante, e se você é desse metiê, gosta de tocar as músicas com qualidade, com respeito ao autor, que compôs aquilo com suor, você conquista parceiros. Porque fazer música não é fácil. Não pense que o Ivan Lins, ou o Chico Buarque sentam e a música sai inteira. É tudo mentira isso. Tudo é feito com muito suor. E quando a gente prima por 'se valor à música as coisas vão acontecendo de uma maneira muito 'tranha. Os compositores acham você tocando em algum barzinho e falam para você aparecer na casa de eles. Quando você tem um certo 'mero por a música brasileira, você acaba se entrosando com os artistas cariocas. Porque eles querem qualidade, eles querem música boa. Muitos músicos se encontram para 'tudar as partituras das músicas, mas muitos também têm resistência a isso, porque não gostam de 'tudar música e não querem deixar seu ego de lado. Mas o entrosamento lá no Rio só acontece via qualidade musical. Mas os artistas cariocas são abertos? Arlyson Loureiro -- Em a medida do possível eles são sim. O Djavan tem um verso que eu acho muito legal que resume mais ou menos 'sa questão: «Eu só quero 'tar com quem me serve e o de resto serei breve». É meio isso. Se você não tiver nada para trocar, não adianta. Se você só quiser sugar, se valer da música de eles, da mídia que eles têm, eles vão sacar e não irão dar a abertura que você necessita. Agora se você for com a certeza que vai aprender música, com humildade, chegar perto de eles, ser igual, eles serão iguais a você também. Não são todos, mas muitos de eles são assim. E foi assim que aconteceu o seu encontro com o maestro Turíbio Santos? Arlyson Loureiro -- Isso foi uma sorte danada. Tanto ele, quanto a Dionne Warwick, que é uma mega 'trela americana. Foi por acaso, eu 'tava tocando num bar e o pessoal do Turíbio Santos alugou o bar para fazer uma reunião e ele 'tava muito zangado porque tinha música ao vivo. Um cara da expressividade de ele não gosta de ficar ouvindo besteira, violãozinho. Ele viu meu retrato lá na porta e ficou muito bravo. E foi muito engraçado, porque depois que ele me viu tocando, ele achou legal, chegou perto, mas eu não sabia quem era ele. Ele chegou perto e pediu para eu tocar uma canção minha. Eu disse para ele que não tinha nada a ver tocar uma canção minha na noite, mas ele insistiu falando que era músico, na maior humildade. Ele insistiu e eu falei que tudo bem. Foi aí que me deu um 'talo. Eu sabia que conhecia aquele cara de algum lugar. Aí eu perguntei para ele se ele era o Turíbio Santos. Ele disse que sim. Minhas mãos começaram a tremer, eu toquei a música toda errada e a gente sentou para beber depois e ficamos amigos. Ele é um cara super acessível. Eu fiquei feliz porque ele me procurou por a qualidade. A gente não se conhecia, ele não foi apresentado a mim e ele gostou do meu trabalho. Foi um presentão! Para você ter uma idéia da generosidade de ele: ele doa todo o salário de ele para a Fundação Villa Lobos, de onde ele é presidente, e vive dos concertos internacionais. Ele é violonista e faz concertos das obras do Villa Lobos. Tudo isso foi altamente gratificante. Como aconteceu seu encontro com a Dionne Warwick? Arlyson Loureiro -- Ela se sentou no bar do Othon Palace Hotel, na avenida Atlântica, Copacabana e começou a tirar fotografias minhas. Ela batia palmas e eu comecei achar que era uma mulher louca. Ela 'tava com um turbante. Aí vieram me dizer que era ela. Pediram para eu sentar na mesa e eu fiquei com aquela cara de bobo. A mulher tinha tocado com o Michael Jackson, Quince Jones, George Benson, e ela ali gostando do meu trabalho. Como foi a sua experiência na Dinamarca? Arlyson Loureiro -- Eu 'tava tocando na Bahia, aí apareceu um dinamarquês chamado Jesper Rhode Andersen. Começamos a conversar e ele disse que queria vender o meu trabalho lá em Copenhagen. Gravei para ele um disco violão e voz, e ele foi embora. Em 1996 ele levou o 'se disco e em 1997 eu já 'tava em Copenhagen. Em o início deste ano, já tínhamos 18 shows vendidos e começaram a aparecer convites dos conservatórios de música de lá. Todos os países do primeiro mundo tem uma cidade chamada, Tomorrow City (Cidade do amanhã). Tudo de moderno no mundo, eles levam para 'sa cidade para testar. Em a Dinamarca, 'ta cidade chama-se Farrum, que fica a 120 Km de Copenhagen. Eu fui em 'te lugar para tocar para professores e artistas. Eles queriam ter contato com a música brasileira. Tive a oportunidade de tocar nos conservatórios das pequenas cidades e no Conservatório Nacional da Dinamarca. De 'tas apresentações, o meu produtor montou uma banda com mim e os professores dos conservatórios e gravamos dois discos de música brasileira. Tocadas por dinamarqueses e cantada em português. Eles respeitam a nossa língua. Foi uma 'cola para mim. Lá havia um quarteirão inteiro só de 'túdios de música. Os dinamarqueses têm a consciência de que a música é a salvação cultural de um país, de que sem música, o país não enxerga direito. Fiquei sabendo de músicos que já tinham ido para a Dinamarca e a Escandinávia, mas nunca encontrei um que tenha participado deste projeto. Foi muita sorte minha. Essa experiência foi fundamental na minha vida. O que motivou a sua decisão de mudar-se para Mato Grosso do Sul? Arlyson Loureiro -- Eu ia sair do Rio de qualquer jeito porque morar lá ficou insuportável. As notícias que 'tamos vendo agora eu já vinha prevendo há 3 anos, época em que me mudei para cá. O descontrole da violência, eu já tinha sido assaltado 12 vezes. As casas noturnas fecharam por causa da violência e as pessoas não saem mais de casa para verem poesia. Não se ouve mais música no Rio. Descobri 'ta terra maravilhosa na qual quero ajudar a vislumbrar novas visões na questão cultural. As experiências que a vida me deu eu quero repassá-las e revivê-las aqui. Quero aproveitar 'te momento de total tranqüilidade. Aqui em Campo Grande você sai na rua e sua concentração não é abalada. Você anda por aí concentrado, não tem tiro, não tem batida de carro, não tem engarrafamento, não tem uma energia humana negativa na cidade. Ficamos ainda subordinados à natureza que aqui ainda existe. Isso é maravilhoso. Para o poeta isso é um prato cheio. A função do artista é se 'praiar mesmo. Ao contrário do que é posto, a sociedade necessita do artista. Ele é o pensador, o filósofo, o apoiador de idéias. Se ele chega de uma maneira respeitosa, com um trabalho sólido, ele conquista qualquer lugar. O povo daqui é ávido por saber coisas. É tudo que o artista precisa. Busquei um novo horizonte e Campo Grande me deu isso. Estou vivendo um momento que já tinha vivido há anos atrás no Rio de Janeiro. Como você conheceu os artistas de Mato Grosso do Sul? Arlyson Loureiro -- Em o Rio eu conheci o Paulo Simões, o Antônio Porto, o Sandro Moreno, artistas daqui que eu sempre tive o maior carinho por eles, o maior respeito. Eu não tinha noção do tamanho do trabalho do Paulinho. Achei muito bacana o trabalho de ele e nós começamos a nos freqüentar um pouco mais. Eu ter vindo morar aqui tem muito a ver com o universo da poesia de ele. Ele é um cara super acessível, um poeta maravilhoso e um ótimo músico. O que você tem a dizer sobre a música sul-mato-grossense? Arlyson Loureiro -- Eu a acho muito rica e eu vim aqui dar a minha contribuição para a cultura deste Estado. O movimento musical 'tá rolando e eu quero fazer parte de ele, quero mostrar meu som, minhas músicas. Eu quero fazer parte do contexto, porque apesar daqui existir o título " a música sul-mato-grossense, regionalizada, o pensamento não é regionalizado. A atividade musical não é regionalizada, mas talvez a cabeça do artista seja regionalizada. Eu concordo com ele, porque ele é um cara que vive no universo daqui, mas eu vejo a oportunidade de haver uma simbiose, uma troca maravilhosa, de um manancial de música que eu trago do Rio de Janeiro e do resto do Brasil. Quero promover a troca, a não 'tagnação, o aprendizado e outras influências. Os músicos daqui tiveram influências que eu não tive, e eles não tiveram as que eu tive. Isso é fundamental e eu percebo que tem muito trabalho pra ser feito e ser apresentado nos Festivais do Estado, como o América do Sul e de Bonito, nos 'paços que a Fundação de Cultura dedica à música, como o Espaço da Poesia, Som da Concha e projetos como o MS Canta Brasil. A vida cultural aqui é bem movimentada mas o manancial de músicas pode crescer ainda mais, com novos 'tilos. Não é uma questão de regionalizar ou desregionalizar. É preciso usar novas fórmulas musicais. A cabeça do músico local pode ser nacionalizada e até internacionalizada. Ele pode ser um representante não só da música sul-mato-grossense, mas ele pode se abrir para um campo ainda mais vasto. O processo cultural leva para 'ta direção. A cultura, pelo menos a musical, deve ser aberta. Você acredita que Mato Grosso do Sul pode virar referência da cultura nacional? Arlyson Loureiro -- Sem dúvida nenhuma. Basta a gente querer, acabar com as pequenas manias. Primeiro os artistas e depois os condutores da cultura 'tadual. É preciso acabar com os vícios e de querer imitar a cultura de outros 'tados, tentando se adequar ao mercado do Rio e São Paulo, por exemplo. Nós temos que encontrar as nossas próprias soluções, nossos artistas e nossas músicas. Com o pouco tempo que 'tou aqui, percebo que a música do Estado perante o resto do país ainda 'tá indefinida. Fica entre polca, chamamé. O chamamé é do Rio Grande do Sul. A polca é música do Paraguai. A música é bonita, tenho respeito, mas é para paraguaios. Aqui no Estado existe uma vertente de artistas que se influenciam por ela, mas eu acho a música brasileira muito mais rica que a do Paraguai. Se você for a Assunção, você vai ver a música brasileira ser tocada. Os músicos de lá tocam a nossa música, e os músicos de Mato Grosso do Sul tocam a música do Paraguai. Aí eu não entendo. E outra questão. Se for para tocar a música do Paraguai, vamos falar o 'panhol corretamente, em respeito à língua de eles. Porque quando os paraguaios tocam e cantam a nossa música, eles respeitam a nossa língua, a cantam até sem o sotaque. Mato Grosso do Sul precisa repensar tudo isso. É preciso respeitar as outras influências musicais e não só aquelas que nós achamos que são só as de Mato Grosso do Sul. Nós temos que achar uma representatividade histórica para nos influenciarmos. Querer ser autêntico, mas sem o respaldo do cunho popular e cultural da nossa terra, não adianta. Eu falo nas minhas canções dos animais, das plantas, da terra, das cidades, do povo, das árvores, dos rios. Se existe isso aqui, é pouco divulgado. Os gringos fazem músicas com os nossos nomes e nós não falamos. O que 'tá acontecendo? Número de frases: 213 Mato Grosso do Sul tem todas as condições para ser um Estado de referência cultural, se cada um dos artistas não ficarem preocupados com seu próprio quinhão. Depois que passou da moda do relativismo absoluto, do pós-modernismo 'cancarado e alienado, do antropologismo raso de boteco, as pessoas começam a notar que: não, não se deve respeitar todos os valores de uma outra cultura simplesmente porque é uma outra cultura, e que se ela transgride os direitos humanos, vai contra a liberdade de expressão e sufoca minorias étnicas e raciais, não há relativismo fajuto que aguente. E não venham tentar me convencer de que as mulheres no Islã gostam de usar um pano negro que lhes cobre a cara num calor de quase quarenta graus, de que elas o usam por opção, porque toda falácia tem limite e, por mais convincente que seja, vai se vergar ao peso da obviedade praticamente pornográfica da questão. Mesmo aceitando o pressuposto de que os direitos humanos básicos devem ser respeitados, há um tipo de intelectual mal informado e mal intencionado que elege valores intocáveis, que não podem ser sequer discutidos. Religião, por exemplo. O assunto começou a ficar bom no começo do ano com a polêmica das charges -- engraçadíssimas -- e agora com o quiprocó comprado por o Papa ao se referir de modo pouco sutil à selvageria terrorista do fundamentalismo islâmico. Há quem alegue que não se deve brincar com a religião alheia, que ela é coisa séria e que deve ser respeitada. Bem, vamos por partes: se é coisa séria ou não, isso é irrelevante. É séria para quem a considera como tal. E quem é o paladino da moralidade que elege o que deve ser respeitado? Um celibatário 'quizofrênico do vaticano? Um aiatolá maluco que faz apologia da jihad e da conversão por a 'pada? Segundo os meus critérios -- e de muita gente 'clarecida por aí -- são 'ses os menos aptos a atuar como formadores de opinião. Se existem valores que devem ser respeitados sobre quaisquer circunstância, 'se são os direitos humanos e a liberdade de expressão, o resto é conversa mole e quem muito reclama dá bom dia a cavalo e se torna um obscurantista inconveniente e desagradável. É impressionante como a comunidade muçulmana fica toda ´ ofendidinha " com qualquer menção ao seu profeta. Como reagem violentamente e desporporcionalmente a uma ou duas gracinhas. Por que? Justamente porque os líderes fanáticos transformam 'sas besteiras casuais em sérios incidentes internacionais. E a multidão, sempre usada como massa de manobra, vai na onda desses cretinos irresponsáveis. O povo conta piada, fala putaria, brinca e sacaneia. Não é -- e nunca foi -- moralmente asséptico. É o fanático talibã que quer lhe impor uma moralidade obtusa, anacrônica e hipócrita. A verdade é que todo mundo se julga ofendido em alguma circunstância, por algum motivo. Se formos respeitar o a sensilidade de cada um, fica difícil sair do lugar. É como naquela frase de Paulo Mendes campos, a respeito dos puristas que criticavam o teatro de " Nelson Rodrigues: «Se admitirmos, por hipótese, um mundo mentalmente asséptico, varrido de todos os preconceitos, 'tejamos certos de que o drama e a tragédia desaparecerão dos palcos." Por mim, 'tariam abolidas piadas, gracinhas e referências desrespeitosas à: tricolores, brasilienses, narigudos, branquelos, gagos, pessoas que tem a língua presa, que tem chulé, que tem micose ou que tem cera no ouvido. Também não quero ouvir mais um pio sobre a minha religião -- o hinduísmo cyberpunk -- e exijo um pedido de desculpas público e uma retratação formal a qualquer um que ridiularize cães, gatos e papagaios. Não quero banalizar a questão e fazer apologia do 'cancaramento opinativo. Em uma democracia laica nenhum psicopata vai defender o racismo, a pedofilia ou a opressão das mulheres. Por que são questões palpáveis e concretas. Agora, me digam qual o problema de se sacanear um profeta religioso que viveu séculos atrás? Como isso poderia possivelmente prejudicar alguém? Pois é. Não prejudica. É o líder religioso -- cercado por suas fajutas representações alegóricas -- que quer te convencer a se sentir desrespeitado, quando a sua integridade 'tá assegurada. Me dêem um Cristo de pau duro. Quero ver Xangô e Iemanjá se lambuzando numa suruba e dançando o batidão do funk proibido carioca. Ou um Maomé alucinado com uma bomba na cabeça e uma crise de diarréia. Ou um buda obeso e letárgico fumando uma tora de maconha enquanto assiste Cine Privê na décima quarta dimensão. Tudo isso é banal, prosaico e inofensivo. Essas entidades não ficarão ofendidas ou magoadas com ninguém. São seres altamente evoluídos -- se é que existem -- e devem até achar graça de tanto barulho por nada. Número de frases: 45 Número de frases: 0 São quase 150 anos de história e histórias. Mas num vai-e-vem tão rotineiro, que poucos prestam atenção. Um mundo onde circulam cerca de 200 mil pessoas por dia. Em um percurso máximo de 61,8 km.. E que atravessa seis cidades. Em 79 minutos, nem sempre tão exatos. Uma viagem de personagens e artistas anônimos, protagonistas absolutos, num mesmo palco: os trens do Central-Japeri, o maior e mais antigo ramal ferroviário do Rio de Janeiro. Há anos, acompanho 'se mundo de longe, com um olhar um tanto desatento e passageiro, mas sem bilhete de embarque. Moro quase às margens de um trecho cortado por o ramal, mas nunca me aventurei a percorrê-lo por completo. Em as minhas raras viagens de trem, nunca fora além da 'tação no Centro de Nova Iguaçu -- até Japeri são mais cinco. Mas dia desses resolvi me aventurar por aqueles trilhos. Embarquei na Central, no Centro do Rio, 'tação de partida para Japeri e outros ramais de passageiros, administrados por a concessionária SuperVia. A mesma Central do Brasil imortalizada no filme homônimo de Walter Salles. Se não foi cenário de grandes produções cinematográficas, Japeri e seu ramal ganharam destaque na música. Já inspiraram Ed Motta, que junto com o guitarrista Luiz Fernando formou a banda Conexão Japeri e 'teve em versos cantados por Djavan (Tem boi na linha) e Zeca Pagodinho (Shopping móvel). O trem partiu às 10h55 de uma quinta-feira. Quase vazio. Não quis enfrentar um vagão cheio, em pleno rush. Em 'ses, é quase impossível observar qualquer coisa. Mal dá pra apoiar os dois pés no chão! Também optei por uma composição das antigas, sem ar condicionado. Em os bancos 'treitos, compridos, instalados sob as janelas e de frente uns para os outros, poucas pessoas, de diferentes idades. E de observadora passei a observada. Tudo porque para fotografar sem problemas, precisei pedir autorização à SuperVia e, obrigatoriamente, fui «'coltada» em toda a viagem. Por uma assessora de imprensa, a Melina (em sua primeira ida a Japeri também e um amor de pessoa), e quatro seguranças -- até a Melina se assustou com tamanha 'colta! Segundo ela, em filmagens para a tevê, geralmente só um segurança acompanha a equipe. Devem ter levantado a minha ficha e detectado que sou de alta periculosidade! Diretamente, eles não interferiram em nada. Mas indiretamente sim. Os tradicionais ambulantes, que vendem de tudo o que você possa imaginar nos vagões e um pouco mais, não puderam circular por ali. O comércio ambulante é proibido nos trens, com exceção dos funcionários cadastrados para a venda de um jornal popular e, se não me engano, de produtos da Nestlé -- graças a parcerias das empresas com a SuperVia. Mas voltemos aos trilhos. O Ramal Japeri é uma linha semi-expressa, por assim dizer. Isso porque a Central-Deodoro é paradora -- do tipo pinga-pinga, parando em todas as 'tações -- e atende os passageiros de diferentes bairros do subúrbio carioca. Pesquisando sobre a história dos trens do Rio, descobri o depoimento de Raimundo Albuquerque Macedo, que falava sobre a irritação dos usuários dos «trens diretos» quando passageiros de 'tações próximas embarcavam em eles para chegar mais rápido ao seu destino e lotavam mais ainda 'sas composições: «Eles, simplesmente, se 'premiam para impedir a saída do incauto passageiro na 'tação pretendida. Eu mesmo fui vítima desse «castigo». Lembro-me que, aos 17 anos de idade, na pressa ao voltar para casa, peguei o «direto» 31, de Queimados, na 'tação D. Pedro II (Central). O trem 'tava superlotado e, ao chegar a Deodoro e tentar saltar, fui impedido por os passageiros que diziam: «Vai chupar laranja com nós em Nilópolis!" Os laranjais, em 'sa época, predominavam naquelas áreas. Realmente, só consegui saltar em Nilópolis, quarta 'tação depois de Deodoro. Eram tempos difíceis, porém saudosos!" Cotonetes, isqueiros, chocolates e muito mais Em 'se primeiro trecho da viagem, o Japeri só pára em cinco das 18 'tações: São Cristóvão, Engenho de Dentro, Cascadura, Madureira e Deodoro. A paisagem é típica do subúrbio -- casas, lojas e pequenos prédios -- e passa correndo por a janela. Mas o passageiro mais atento pode ver, mesmo que só de relance, dois cartões-postais 'portivos do Rio: o Maracanã e o Engenhão ('tádio construído para os Jogos Pan-americanos, que fica no Engenho de Dentro, vizinho à 'tação de trem daquele bairro). Os passageiros de todo dia nem prestam atenção à paisagem. Alguns lêem, outros ouvem seus walkman ou MP3. Uns poucos conversam, enquanto outros cochilam e até dormem a sono profundo. Sem os ambulantes, a viagem é quase silenciosa. Nada de «isqueiro eletrônico a» R$ 1», 120 cotonetes só R$ 1 e tantas outras ofertas «imperdíveis». A música Shopping móvel, de Luizinho e Claudinho do Cavaco, traça bem 'se perfil: «Tem sempre tudo no trem que sai lá da Central baralho, sorvete de coco, corda para o seu varal tem canivete, benjamim tem cotonete, amendoim Sonho de Valsa e biscoito integral tem sempre tudo no trem que sai lá da Central chiclete, picolé do China, guaraná natural tem agulheiro, paliteiro desodorante, brigadeiro e um bom calmante quando a gente passa mal e quem quiser pode comprar o shopping móvel é isso aí é promoção desde a Central a Japeri." Depois de Deodoro, são mais 13 'tações e paradas: Ricardo de Albuquerque, Anchieta, Olinda, Nilópolis, Edson Passos, Mesquita, Juscelino, Nova Iguaçu, Comendador Soares (ou Morro Agudo), Austin, Queimados, Engenheiro Pedreira e Japeri. Só 'se trecho é considerado o Ramal Japeri. Cidadania fora dos trilhos Entre uma parada e outra, fui conversar com meus companheiros de viagem. E descobrir suas histórias. Brasileiros como D. Maria de Lourdes Souza, de 59 anos, que duas vezes por semana pega dois trens para chegar à casa do pai, em Austin, e garantir um prato de comida e uns trocados para a passagem de volta e um ou outro alimento básico. Merendeira, prestes a ser despejada por falta de pagamento do aluguel, ela luta por a aposentadoria e pra receber na Justiça o salário devido por a última empresa que a contratou. «Olha aqui, minha filha, os papéis do processo no INSS. O médico pediu um exame, mas não tenho dinheiro pra fazer», contou. O drama de Dora, personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil, é «café pequeno» perto da história de d.. Maria. A cidadania parece 'tar fora dos trilhos no nosso país. O trem sacoleja um pouco. O cheiro dos freios invade o vagão. E vou até um rapaz que lê «O Monge e o Executivo, de James C. Hunter». Ao mesmo tempo, ouve uma música num walkman. Wladimir Miguel tem 29 anos, mora em Japeri e 'tuda História, em Padre Miguel (Zona Oeste do Rio) -- faz baldeação (troca de trem) em Deodoro para chegar à universidade. Pergunto a ele curiosidades das viagens no trem. «Hoje em dia o pessoal lê muito, principalmente os jornais populares ... Os ambulantes ainda existem. Só incomodam quando o trem tá muito cheio, mas há uma tolerância dos passageiros, porque afinal eles 'tão trabalhando ... Há tem o vagão dos crentes e o da sueca (jogo de baralho) também." Crentes e chupetas Vagão dos crentes? Que história é 'sa? Melina diz que não é algo oficial e pouco acrescenta à informação. Há pessoas que embarcam num vagão e pregam o Evangelho, e só. Mas isso não é novidade. Lembro de já ter visto pastores circulando nos trens em minhas viagens de outrora. Mas nunca haviam delimitado um vagão como território fixo! São 12h15 e o trem chega a Japeri -- 'tação inaugurada em 1858. Eu, que já decidira retornar de trem, por minha conta e risco, pra observar os ambulantes, também quis investir mais na história dos tais «vagões 'peciais». Em a 'tação final, antes de me despedir de Milena e da minha 'colta -- que fora trocada no meio do caminho, não resisti a entrar numa composição mais antiga que seguiria para Paracambi -- três 'tações adiante -- e fotografar as «chupetas»! As chupetas eram tradicionais nos trens do Rio. Atualmente, 'tão em extinção. Pra quem não é íntimo, são aquelas alças, em forma de pingentes, que servem para os passageiros se segurarem durante a viagem. Elas vão e vêm ao sabor do balanço do trem. E nos horários do rush, ficam submersas sob um sem-número de mãos, disputando cada centímetro seu. Coitado de quem ficar por baixo! No meio da tarde, depois de andar por a cidade, o que rendeu três notas na seção Guia -- Centro Cultural de Japeri, Estação de trem de Japeri e Internet na praça, além de uma no Banco de Cultura -- A árvore e o muro, embarquei num trem em Engenheiro Pedreira, que pertence ao município, em direção a Nova Iguaçu. Pude então observar a ação dos ambulantes. Por causa da repressão, eles não circulam mais como nos velhos tempos: com a mercadoria à mostra o tempo todo. Hoje eles formam um exército de mochileiros. A mercadoria fica 'condida em bolsas e mochilas, enquanto mudam de vagão, nas diferentes 'tações. Só é exposta e anunciada aos consumidores entre uma 'tação e outra. É um jogo de gato e rato com os seguranças da SuperVia, como registra 'se vídeo postado no YouTube. Nem dá tempo de conversar, eles têm um olho no freguês e o outro no segurança mais próximo. Jesus e a " chapadona " Desci umas quatro 'tações depois de Nova Iguaçu, para embarcar de volta num trem mais cheio e, com sorte, no vagão dos crentes ... Em Nilópolis, entrei num Japeri mais pra lotado, mas nada. Ainda perguntei a um ambulante se ele vira algum grupo de jogadores de sueca ou crentes naquela composição. Desci em Mesquita. Anoitecia e eu pagando meus pecados, já acreditando que não havia salvação pra mim. Outro trem, mas cujo destino final era Nova Iguaçu -- e mais pra vazio. Sentei desanimada ... até ouvir o primeiro «Aleluia, irmão!». Câmera na mão, saí à cata do pastor. E, meio por acaso, sentei ao lado de Josilene Barbosa de Moura. A os 35 anos, 'sa copeira se converteu à Assembléia de Deus há dois anos, num vagão dos crentes. «Eu aceitei Jesus aqui. Tava chapadona (bêbada) no dia. Mas quando o pastor perguntou quem queria ser salvo por Jesus, eu levantei a mão e comecei a chorar», contou. Josilene me explicou o funcionamento dos vagões 'peciais. «Tem vagão dos crentes, dos jogadores de sueca e dos pagodeiros. Todo mundo sabe quais são. O dos crentes é o quarto. Em a hora do rush, tanto de manhã como à noite, vem sempre um pastor pregando, acompanhado por outro irmão." Por o que falou, há quase uma 'cala de horários e pastores para os trens. De manhã, eles pregam no sentido Japeri-Central, desde a madrugada (o primeiro trem sai de Japeri às 3h55), e à tarde, no sentido inverso. Josilene foi minha salvação! (Poucos dias após minha viagem, dois trens do ramal Japeri colidiram nas proximidades da 'tação de Austin. Oito pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Número de frases: 141 Em respeito às vítimas, decidi segurar por um tempo 'se texto, que pretende mostrar mais os bastidores de um 'petáculo cotidiano sobre os trilhos.) 74 mil ingressos vendidos. É o que divulga a Brasil 1 -- empresa 'treante no ramo de shows que comprou o produto The Police para o Brasil e 'tá encarregada de sua produção. Com pequeno atraso, por volta de 5:15, os primeiros fãs entram por os portões. Ao invés de revistar, um segurança pergunta: «Tem garrafa? Lata? Tá armado? Então, entra." Ufa, pelo menos a máquina fotográfica (proibida no verso do ingresso) não corre risco de ser confiscada." Os cartões magnéticos, personalizados para o show, são engolidos por as catracas eletrônicas. Eles não são devolvidos, para o desapontamento de quem pagou até R$ 500,00 para assistir o retorno, depois de 23 anos, do maior trio do rock mundial. O Maracanã é realmente gigante; um monstro. É tão grande que se perde a noção da distância dentro de ele. 100 ou 200 metros? Não dá para dizer. O palco tem 60 de largura, mas parece haver o triplo do seu tamanho de cada um dos seus lados até os limites do 'tádio. Quando o templo do futebol mundial 'tá praticamente cheio, nota-se que, pelo menos, 50 % do público não saberia dizer o nome de 3 músicas da banda e, desses, um terço não saberia dizer nem o de uma. Não é o caso da família que acaba de chegar. O pai tem 50 e poucos anos, 'tilo pirata-motoqueiro, rabo de cavalo grisalho, com camiseta da banda. O filho, cerca de 25, cabelo comprido, também 'tampando «The Police» no peito numa camiseta baby-look. Em primeira análise, pensei tratar-se de um argentino, mas depois que o ouvi falando, descartei e formulei outra teoria: seu pai, fã incondicional da banda inglesa, lhe deu 'sa camiseta quando tinha 10 anos de idade e foi fazendo lavagem cerebral na criança, até que ela soubesse a ordem de todas as músicas de todos os discos do trio. O guri veio, então, vestindo a própria, como certificado inexorável de sua devoção policiana. A filha, com seus 18 anos (muito generosos, por sinal), veste a frase «Rock Hookers», a qual, tenho impressão, não saber o que significa, muito menos seu pai e irmão. A mãe, 'tá de verde. «Vital andava à pé e assim achava que 'tava mal." São oito horas em ponto. Os Paralamas iniciam o show de abertura da banda que serviu de cartilha para seus primeiros álbuns. «Em cima de 'tas rodas também bate um coração «canta um Herbert Vianna guerreiro, parodiando sua própria canção sobre o» acessório inseparável» com o qual ele não nasceu. Só que, agora, os aros são outros. O público gosta, respeita e aplaude. São os Paralamas do Sucesso. E isso basta. É claro que o som 'tá ruim onde eu 'tou. Meu consolo é pensar que melhorará quando o Police entrar e que só deve haver um local ideal para se ouvir: bem no centro, em frente à mesa de som, se soqueando com umas 30 mil pessoas que querem ocupar o mesmo 'paço. Mudo de idéia. Tá tribom aqui. «Just a castaway. An island." Nove e meia. Uma parte importante da minha vida musical 'tá diante de mim. Um «diante» meio distante, é verdade. Apesar dos braços enormes, Stewart Copeland é uma formiguinha. Ainda bem que há sete telões. Somente umas poucas mil pessoas, que pagaram 500 pratas para ficar bem frente ao palco, devem ter visto a olho nu que Sting usa algo como umas 30 pulseirinhas douradas. Só quem não precisa mais provar nada pra ninguém na vida, como ele, teria coragem de usar. O pai da família ao meu lado, grita toda a letra da música, desesperadamente, em coro com seu filho. A filha e a mãe olham para trás assustadas com a cena que 'tão presenciando. Seria aquele seu verdadeiro pai ou o que não lhe deixa voltar tarde da balada? Seria aquele o marido quem casara ou o que reclama, frequentemente, que sua camisa não 'tá bem passada? Cada vez que o guitarrista Andy Summers aparece no telão mais próximo, pai e filho gritam uníssonos «Andy, Andy, Andy». É muito engraçado, pois é o guitarrista, reconhecidamente, o mais desprovido de virtusismo e carisma dos três. É, também, o que comete os deslizes mais perceptíves. Andy faz parte, sem dúvida, da química de uma banda (perfeita em suas mazelas) onde Sting é o compositor, maestro sensato e celebridade de plantão. Copeland é a energia, segurança, técnica e performance. Andy, no máximo, é um músico com bom gosto, que sabe ouvir o que seus colegas de banda mais talentosos sugerem, principalmente, o baixista. Ele 'quece de fazer os backings, Sting faz por ele. Ele erra uma entrada, Sting fuzila com o olhar. Quando é a hora de solar e as atenções se voltam a ele, Mr. Summers, faz uns barulhos, alguma frase melódica infantil ou numa 'cala que ele mesmo inventou: «Escala Summers de Improvisos A o Vivo». Mas o pai e o filho, não deixam passar: «Andy, Andy! Andy!" Gritinhos histéricos de meninas de 15 anos não me convencem. Boyzinhos marrentos brigando por cerveja também não. Aquela família, sim, merece 'tar aqui e faz questão de demonstrar. Teorizo: o pai, com o filho, chegou em casa com os ingressos em mãos dizendo para as duas: «Vou levar vocês para ver a melhor banda do mundo de todos os tempos. Será meu presente de Natal a todos." A mulher pensou: «Lá se foi a lava-louças que eu tanto queria." As músicas vão passando. As que eles não sabem as letras, urram somente as vogais finais das rimas -- " Ai meus ouvidos." Mas lembram de todos os iê-ios. Sentem, sem dúvida, a falta de «Spirits In The Material World» e se surpreendem com as improváveis «Next to You» e «Invisible Sun», ilustrada nos telões por fotos de crianças pobres e famintas. O pai ficará sem voz por uma semana. O filho chora todas as lágrimas de um ano inteiro, que vão parar no vestido verde da mãe. Ela e sua filha descobrem que até os homens mais brutos não passam crianças quando brincam com o que gostam. Sem dúvida, a turnê mais lucrativa de 2007 é também o 'petáculo mais elaborado e complexo na carreira da banda, pausada abruptamente em 1984. Quando vieram ao Brasil, dois anos antes, tocaram para dez vezes menos público e, naquele tempo, não havia a cultura dos megashows. Agora são telões, painéis luminosos, moving-lights que iluminam as nuvens. Melhor para a família do tiozão, que assiste a um 'petáculo de primeiro mundo, com uma excelente banda, no maior 'tádio do planeta, compartilhando entre si a alegria de um pai que realiza seu sonho. O show acaba. A família vai embora. Mas, ainda em tempo, nas rampas de acesso, com um resquício de voz: «Andy! Andy! Andy ...». Imagino-os acordando na madrugada, se é que vão conseguir dormir 'ta noite, 'baforidos, como quem desperta de um sonho bom, com a garganta arranhada, tentando chamar por o guitarrista:» ...! ...!" Número de frases: 87 Mas não há mais voz. A cidade de Corumbá (MS), Capital do Pantanal, abriga de 20 a 27 de maio a terceira edição do Festival América do Sul A história cidade de Corumbá (MS), a Capital do Pantanal Matogrossense, é palco da terceira edição do Festival América do Sul. O evento acontecerá de 20 a 27 de maio de 2006, com uma grande variedade de manifestações e apresentações artísticas, além de debates, seminários e palestras. Por a sua grandiosidade e diversidade de atrações já é considerado um dos maiores encontros culturais do continente sul-americano. A realização do Festival América do Sul é do Governo de Estado de Mato Grosso do Sul, com patrocínio do Banco do Brasil e apoio do Governo Federal e da Prefeitura Municipal de Corumbá. O evento é coordenado e organizado por a Secretaria de Cultura do MS, Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, com a participação da Prefeitura de Corumbá. De acordo com o diretor-presidente da Fundação de Cultura de MS e coordenador-executivo do Festival América do Sul 2006, Pedro Ortale, a realização do evento em Mato Grosso do Sul se justifica por o fato do Estado ser um genuíno representante da cultura brasileira e sul-americano. «Somos um Estado de arte, casa de Almir Sater, Paulo Simões, Emanuel Marinho, da família Espindola com Humberto, Celito, Geraldo, Jerry, Alzira e Tetê. De aqui também saíram Manoel de Barros, Aracy Balabanian, Ney Matogrosso, Apolônio de Carvalho, Glauce Rocha e tantos outros maravilhosos artistas». O evento -- O Festival América do Sul é realizado na bicentenária cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. O município é banhado por o Rio Paraguai, 'tá localizado no coração do Pantanal e faz divisa com a Bolívia. Durante o Festival, Corumbá se transforma na capital cultural da " América do Sul. «Já andei muito e não conheço no Brasil um encontro como 'se, um encontro de todas as artes. O Brasil inteiro tem que saber o que acontece em Corumbá», afirma o 'critor Ignácio de Loyola Brandão, presente no Festival América do Sul do ano passado. Em as duas primeiras edições, em 2004 e 2005, foram registrados aproximadamente 300 mil 'pectadores, entre artistas, intelectuais, pensadores, autoridades governamentais, turistas, 'tudantes e a comunidade dos municípios de Corumbá e Ladário, no MS, além de Puerto Quijarro e Puerto Suarez, na Bolívia. As atividades do Festival América do Sul incluem o lançamento de livros, exposições de artes plásticas e fotografias, mostra de artesanato, cinema e vídeo, shows musicais, apresentações de teatro de rua, dança e circo. A programação é composta por artistas de diversos países da América do Sul, num grande encontro que revela a diversidade cultural de nosso continente. Fito Paez, Pedro Aznar e Celeste Carballo (Argentina), Dante Ledesma (Uruguai), Isabel Parra (Chile), banda Paiko, Willy Suchar, Hugo Ferreira e Alberto de Luque (Paraguai), Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Alceu Valença, João Bosco, Dominguinhos, Pato Fu e Barão Vermelho 'tão entre alguns músicos que se apresentaram nas edições de 2004 e 2005 do Festival América do Sul. O Festival América do Sul também homenageia personalidades sul-americano, por sua importância cultural, histórica ou política. Em 2004 foram homenageados Milton Nascimento, Mercedes Sosa, Domitila Barrios, Marta Guarani, Manuel de Barros, Apolônio de Carvalho, Augusto Roa Bastos e Pablo Neruda. Em 2005, o Festival homenageou Alberto De Luque, Fernando Solanas, Gabriel Garcia Márquez, Simón Bolívar, Gabriela Mistral e Lídia Baís. Para 2006, as homenagens serão feitas a Eduardo Galeano (Uruguai), Salvador Allende (Chile), Mario Zan (Brasil), Josué de Castro (Brasil), Jorge Enrique Adoum (Equador) e Túpac Amaru (Peru). Edição 2006 -- A terceira edição do Festival América do Sul terá aproximadamente 300 atividades durante os oito dias de evento. A programação é apresentada em diversos locais da cidade de Corumbá e também nos municípios de Ladário, Puerto Quijarro e Puerto Suarez, os dois últimos, na Bolívia. Entre as atrações musicais internacionais 'tão o grupo Los Pantaneros (Bolívia); América Contemporânea, formado por os músicos Lucía Pulido (Colômbia), Benjamin Taubkin e Ari Colares (Brasil), Carlos Aguirre (Argentina), Cristian Galvez (Chile) e Lucho Solar (Peru); Rigoberto Arevalo y su Trio de Siempre (Paraguai); Puerto Candelária (Colômbia); Generación (Paraguai) e Liliana Herrero (Argentina). Em o teatro de rua e manifestações folclóricas teremos as apresentações dos grupos La Gran Marcha de Los Muñecones (Peru), grupo de dança Muyacan (Equador), o Carnaval de Oruro (Bolívia). Em a literatura teremos o lançamento de obras de Arias Manzo (Chile), Feliciano Mejía Hidalgo (Peru), Manuel Lozano (Argentina), Hernando Ardila Gonzalez (Colombia) e Nélida Piñon. Destacam-se na programação nacional a trupe dos Irmãos Brothers, Mambembrincates, Cyclophonica e Udi Grudi. A música brasileira 'tará presente nos shows de Lulu Santos, Mv Bill, Zeca Baleiro, Zeca Pagodinho, Cidade Negra, Inezita Barroso, Tarancón, Renato Borghetti e Altamiro Carrilho, além dos sul-mato-grossenses Marcio de Camillo, Gilson Espíndola e as bandas Olho de Gato e Filho dos Livres, entre outros nomes de Mato Grosso do Sul. Em Corumbá, no prédio histórico da Casa de Cultura Luis de Albuquerque (ILA), serão realizadas as exposições de artes plásticas " Aspectos da Plástica Sul-americana removeme, com obras dos artistas Abílio Escalante (Bolívia), Alberto Cedrón (Argentina), Carlos Monsalve (Equador), Julio César Alvarez (Paraguai) e Antonio Caro (Colômbia); e «Introdução à História do Modernismo na Fronteira Extrema do Centro-Oeste Brasileiro -- Mato Grosso e Mato Grosso do Sul», com obras de Ilton Silva, Jorapimo, João Sebastião Costa, Clóvis Irigaray, Adir Sodré, Gervane de Paula, Mary Slessor, Conceição dos Bugres, Dalva de Barros, Nilson Pimenta, Alcides Pereira dos Santos e Benedito Nunes. A programação audiovisual terá 51 títulos, entre produções do Brasil, Argentina, Venezuela, Chile, Colômbia e Equador. Serão onze médias-metragem, sendo quatro brasileiros, dois do Equador e três chilenos, com co-produ ção de Venezuela e França; 31 curtas, sendo 25 nacionais, dois colombianos, três argentinos e um chileno; e sete longas, sendo dois nacionais, quatro argentinos e um boliviano. Em a programação de longas destacam-se «Mulher sem Destino», de Rocio Fernandez (Argentina), vencedor do 21º Festival do Mar Del Plata, que será exibido pela primeira vez no Brasil; «A dignidade dos ninguéns», do argentino Fernando Solanas, além dos brasileiros «Os dois filhos de Francisco», de Breno Silva e» Mulheres do Brasil», de Malu de Martino. Seminários -- Em meio à extensa programação artística também são realizados seminários, debates e palestras durante o Festival América do Sul. Este ano os temas serão: Encontros com o Mercosul; Encontro com críticos de Artes Plásticas da América do Sul; Fronteiras: Turismo como Integração; Recursos Hídricos: Patrimônio da América do Sul; Sistema Nacional de Cultura; Experiências e Perspectivas das Políticas Públicas para o Turismo na América do Sul; Desenvolvimento Local e Oportunidades de Conservação Ambiental; conta-satélite: Instrumento de Mensuração da Atividade Turística; Juventude: Retrospectiva e Perspectivas na América do Sul; Cultura Popular: Diversidade e Identidades na América do Sul; TV Digital: Comunicação e Integração; Mulher, Desenvolvimento e Integração na América do Sul; Teatro sem Fronteiras na América do Sul. Todos 'tes eventos têm a participação de representantes governamentais, não-governamentais e intelectuais ligados à cultura, turismo, meio ambiente e integração. As discussões terão ligação com a «América do Sul do Futuro, tema 'colhido Festival América do Sul 2006». Contatos: Escritório do Festival América do Sul 2006 Fone:(0xx67) 3318-6114 3318-6110 e-mail: fas@festivalamericadosul.com.br site: www.festivalamericadosul.com.br Coordenadoria de Imprensa do Festival América do Sul 2006 Marcelo Armôa Fone:(0xx67) 3318-6162 9928-7790 e-mail: Número de frases: 66 imprensa@festivalamericadosul.com.br A entrevista a seguir foi concedida a Ademir Pascale, editor, 'critor, roteirista, crítico de cinema, ativista cultural, criador do Portal Cranik: e do «Projeto de Inclusão Social» «Vá ao Cinema!». Colunista de diversos sites culturais, é também editor do site Divulga Livros: Ademir Pascale: Como foi o início de Cláudio Villa na literatura? Cláudio Villa: Desde criança eu sempre gostei de 'crever e ao contrário dos meus colegas de 'cola adorava as aulas de redação. Como a maioria dos adolescentes eu comecei 'crevendo poesias e às vezes, no meio da madrugada, acordava e não conseguia dormir até 'crever uma página mesmo que o texto ao final não fizesse muito sentido. Quando eu conheci minha 'posa em 1998 eu acabei deixando as poesias de lado e passei a 'crever histórias. Em 'se mesmo ano eu tentei 'crever meu primeiro livro, uma história sobre um personagem com o qual jogava R.P.G (Role Playing Games). O livro acabou com cem páginas, mas o resultado não me agradou e acabei deixando ele de lado. Ademir Pascale: Por favor, fale-nos um pouco sobre a sua obra «Por o Sangue e Por a Fé». Como surgiu a idéia inicial para a criação de 'ta obra? Cláudio Villa: Por o Sangue e Por a Fé começou a surgir em meados de 2001. Em a época eu participava de um grupo chamado «O Graal» que organizava jogos de R.P.G ao vivo (Live Actions). Em 'ses jogos, ao invés de ficarmos ao redor de uma mesa, nós nos vestíamos como os personagens e passávamos o dia perambulando por um sítio enorme interpretando nossos personagens. Para poder participar do jogo eu precisava criar um personagem e 'crever brevemente sobre seu passado. Acabei saindo com o Jonathan Devilla e uma história de uma página que se tornaria a base do livro. Eu joguei com Jonathan ao longo de três anos e lentamente fui conquistando, através da interpretação, um 'paço e o respeito entre os jogadores. Em 2001 eu me vi obrigado a ficar afastado dos jogos por um problema de saúde e fui convidado por a organização a 'crever algumas tramas para os lives. Terminado 'se período, achei que juntando as experiências vividas em jogo juntamente com o que eu havia criado daria uma boa história e passei daí a converter isso num livro. Para não 'tender muito a resposta, «Por o Sangue e Por a Fé» trata da história de Jonathan, um jovem soldado que luta contra a província vizinha, habitada por os demoníacos Elfos da Lua. Porém, quando a guerra toma um rumo inesperado, Jonathan terá na fé seu maior aliado enquanto uma ameaça muito maior do que 'se conflito se forma lentamente no horizonte. Ademir Pascale: A obra «O Vento Norte» é uma continuação de «Por o Sangue e Por a Fé»? Cláudio Villa: Não. Eu sou bastante crítico em relação a 'crever livros em série, 'pecialmente quando se é um autor iniciante. Eu quero que meu leitor, ao comprar o meu livro, tenha certeza que a história terá um fim e não que precisará 'perar uma continuação para saber como ela acaba. Um autor novo pode levar anos até lançar um segundo livro e ao se 'crever uma série você pode não só frustrar seu leitor (que terá de 'perar por a continuação) como pode ter dificuldades futuras em vender a segunda parte do seu livro (já que existe a possibilidade do primeiro não 'tar mais disponível para venda). «O Vento Norte «passa-se no mesmo mundo só que vinte anos antes de» Por o Sangue e Por a Fé». Esse livro dará ao leitor a oportunidade de revisitar alguns lugares e conhecer o passado de alguns personagens comuns entre os dois livros, mas ambos podem ser lidos independentemente. Ademir Pascale: Gostei muito do layout e conteúdo do site «Mundos de Mirr». Quando ele foi ao ar? Cláudio Villa: ( Risos) Em a verdade ele 'tá bem novo, foi ao ar no dia 06/07/2008. Eu já vinha mantendo um blog atualizado semanalmente desde 2005, onde narro os desafios e dificuldades de ser um 'critor de fantasia no Brasil. A Mirr Enciclopédia surgiu como um novo projeto que permitirá ao leitor explorar o mundo além do livro, conhecendo mais a fundo seus lugares e personagens favoritos. Esta wiki conta com uma equipe que é a mesma responsável por a criação do mundo, onde se passa minha história e que 'tará sempre adicionando novos conteúdos e expandindo o mundo. O blog continua com suas atualizações e artigos, mas agora é parte desse site maior. Ademir Pascale: Você 'teve na mesa redonda do simpósio de literatura fantástica Fantasticon? Se sim, como foi? Cláudio Villa: Sim, participei da mesa «Os Desafios de Escrever Literatura Fantástica no Brasil» ao lado de pessoas maravilhosas como a Nazareth Fonseca, Cristina Lasaitis, J. Modesto e Nelson de Oliveira. Foi a minha segunda participação numa mesa redonda e foi sem dúvida uma experiência fantástica. Essas mesas são para mim a oportunidade de transpor pessoalmente os pensamentos e idéias que se tornam textos em meu blog. Por mais que 'ses textos recebam comentários, o contato direto com o público e a oportunidade de debater idéias ao invés de simplesmente expor-las tem me enriquecido bastante. Além disso, 'ses eventos têm me colocado em contato com outros 'critores, muitos com anos e anos de 'trada na minha frente, e 'sa troca de idéias tem me ensinado muito. Ademir Pascale: É verdade que os leitores brasileiros 'tão se interessando mais por a literatura fantástica? O que você acha disso? Cláudio Villa: Sim e eu diria que o cinema é o principal responsável por 'sa mudança. A literatura de fantasia ainda é vista por muitos como uma literatura juvenil e undeground, 'pecialmente por grandes editoras e livreiros em geral. Porém, filmes como o «Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia» têm ajudado a dar uma nova visão a 'se tipo de história. Antes do filme você teria dificuldades em encontrar alguma edição do «Senhor dos Anéis» numa grande livraria, hoje os livros de Tolkien são produtos indispensáveis em suas prateleiras. Acho que ainda existe um caminho longo a se percorrer, mas pouco a pouco os leitores vêm percebendo que não existe idade para se ler fantasia e que muitos romances são próprios para o público adulto. Ademir Pascale: Em relação ao mundo editorial, as editoras finalmente 'tão deixando um pouco de lado os 'critores internacionais e se voltando para os nacionais. Em a sua opinião, foi o interesse crescente dos leitores brasileiros por os autores nacionais ou algo mais? Cláudio Villa: Eu acho que o caminho vem sendo aos poucos desbravado, mas lhe digo que as grandes editoras ainda têm muito receio em apostar no autor nacional, 'pecialmente no iniciante. O público em geral também ainda fica receoso em livros de ficção nacionais, preferindo se pautar por os best sellers e por o que a mídia divulga. Acho que o caminho realmente deve ser semelhante ao que vem ocorrendo no cinema nacional. A pouco mais de dez anos o cinema era dividido em filmes de terror, ação, comédia, drama, aventura ... etc e ... filme brasileiro. O cinema nacional era quase que um gênero a parte, porém hoje 'sa distinção vem caindo por terra graças à qualidade com que 'ses filmes vêm sendo feitos. Com a literatura é a mesma coisa, quando tivermos grandes editoras investindo em autores nacionais, arriscando publicar seus livros e 'pecialmente divulgando 'ses autores na mídia, ai acredito que o preconceito com a literatura nacional vá desaparecendo e se abra uma 'trada semelhante à aberta por o cinema. Ademir Pascale: Existem novos projetos em pauta? Cláudio Villa: Sempre. Além do livro «O Vento Norte», que venho 'crevendo, tenho agora a missão de inserir conteúdo na Mirr Enciclopédia (tornando-a sempre interessante de ser visitada. Venho também desenvolvendo um projeto com outros autores para desenvolver um universo de ficção científica, mas 'ses detalhes ainda são segredo de 'tado. ( risos) Perguntas rápidas: Um livro: Duna Um autor (a): Frank Herbert Um ator ou atriz: Não tenho nenhum favorito. Gosto daquele ator que no momento sabe me contar uma boa história. Um filme: Coração Valente Um dia 'pecial: O nascimento do meu segundo filho, o Pedro. ( O primeiro foi o livro que nasceu seis meses antes) Um desejo: Que minhas histórias mexam com a imaginação das pessoas, assim como as de meus autores favoritos mexeram com a minha. Ademir Pascale: Foi um grande prazer conversar com ti. Desejo-lhe muito sucesso. Cláudio Villa: O prazer foi todo meu e agradeço a oportunidade de expor algumas de minhas idéias. Quero convidar todos a conhecer o meu site, reformulado, no endereço www.mundosdemirr.com e deixar meu endereço de e-mail que é o. Para quem viajar por Mirr e quiser um pouco mais de aventura, o livro «Por o Sangue e Por a Fé» pode ser encontrado nas principais livrarias e nos sites da Livraria Cultura, Fnac e Saraiva. Número de frases: 97 Obrigado Ademir mais uma vez por o bate papo e 'pero que seja o primeiro de muitos. Quando tentava montar minha grade de horários para o fim de semana na Mostra por a segunda ou terceira vez, cruzei com Wu Ji, e com 'sa belíssima imagem que uso para ilustrar 'se texto. E pensei: " Preciso ver 'se filme», e um amigo também entusiasta do cinema oriental logo decidiu me acompanhar. Não consigo lembrar de um filme oriental que tenha me decepcionado, e se houver, com certeza não me decepcionou tanto quanto 'te. Eu me pergunto onde Chen Kaige, também diretor de Adeus, Minha Concubina, 'tava com a cabeça. Fazendo um trocadilho barato, o filme prometia, e durante os primeiros dez minutos 'tava entregando o 'perado. A introdução é fantástica, com uma fotografia embasbacante, mesmo que carregada de efeitos 'peciais. Depois da grande batalha com os búfalos (ao menos acho que são búfalos) o filme começa a se perder, e cerca de meia hora depois quando a princesa é raptada ele descamba completamente. Não há qualquer caracterização dos personagens que não seja totalmente baseada emum clichê: O covarde traidor, o 'cravo sensível, o general astuto, o duque malvado e a mocinha pobre coitada. Resumindo a históra o filme realmente parece interessante, mas o roteiro é fraquíssimo, e o uso de efeitos 'peciais chega a ser nauseante. Em o início do filme a maioria de eles é usada para realçar elementos e criar uma beleza fantástica; conforme o tempo passa parece que o dinheiro diminuiu enquanto a ambição aumentou, pois os efeitos aumentam em quantidade e diminuem em qualidade, mesmo objetos de cena parecem feitos de material barato. A impressão que fica é de uma tentativa de realizar um Senhor dos Anéis chinês, mas que acabou se tornando um Ameaça Fantasma. Vale notar que o guia da Mostra dá muito destaque para a trilha sonora, de fato muito boa, quase tanto quanto para a biografia do diretor. Número de frases: 16 Me parece que não é à toa. Nascido em Machacali; s, MG, Carlos Farias; cantor, compositor, psicologo e produtor artistico. Seu gosto por a musica veio do avô paterno, boiadeiro e tocador de viola. Em Belo Horizonte 'tudou canto e participou da extinta oficina de teatro com Pedro Paulo Cava. Em 1985 volta para o Vale e participa ativamente dos movimentos culturais, sendo um dos vencedores do VII Festivale. Durante o biênio 92-93 presidiu a Casa de Cultura de Almenara. Seu primeiro LP foi lançado em 1994 e em 1996 relançou seu primeiro disco em CD. Carlos Farias e Coral das Lavadeiras O cantor, psicologo e pesquisador cultural Carlos Farias fundou, juntamente com outras pessoas da comunidade, quando presidia a Casa de Cultura de Almenara, entre 1992-93, o Coral das Lavadeiras. A idéia surgiu ao perceber que as mulheres integrantes da lavanderia comunitária do Bairro São Pedro, que cantavam durante o trabalho, cantavam muito bem. O repertório inicial era constituído de canções de domínio público: batuques, cirandas, cantigas de roda, folias, modinhas. A 'se repertório Carlos Farias acrescentou várias cançõses resgatadas por ele mesmo do folclore do Vale, em suas andanças por a região a partir de 1985. Em 2001 foi realizado o sonho de gravar o primeiro CD, Batukim Brasileiro. Em 2006, foi aprovado o projeto de mais um trabalho de Carlos Farias e do Coral das Lavadeiras. Contatos para Show: (31) 3476-3579 carlosfarias@terra.com.br Coral Trovadores do Vale O Coral Trovadores do Vale é da cidade de Araçuaí, Vale do Jequitinhonha. Nasceu no último ano da década de sessenta, quando Frei Chico (Frei Francisco Van Der Poel) convidou um grupo de jovens pobres de Araçuaí; para cantar as músicas do povo da região. O repertório dos Trovadores é composto, exclusivamente, de canções aprendidas com os moradores do lugar. Em o seu programa 'tão cantos de canoeiros, tropeiros, boiadeiros e machadeiros -- batuques, beira-mar, roda, contradança, folias, benditos, excelências e cantos de penitência. Os instrumentos musicais em consonância com a política de valorização da regionalidade também são típicos: tamborzeiro, roncador, pirraça, pandeiro, caixa e violãoo. O coral lançou seu primeiro CD em 1983, Ainda Bem Não Cheguei, produzido por o Movimento de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha. O segundo, Beira-Mar Novo, foi gravado ao vivo na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Araçuaí. O repertório, selecionado por Frei Chico e a artesã e pesquisadora Lira Marques. Déa Trancoso Cantora revelação do Vale do Jequitinhonha, Déa Trancoso é natural da cidade de Almenara. Chico Lobo, seu parceiro, a considera como a flor mais mimosa do que a do Ipê. Voz de quem conhece, vive, sofre e se alegra com as artimanhas do coração. Para ele, Déa Trancoso é dona de uma voz que não 'tá presa nas linhas dos conceitos e regras, mas é livre e se empresta á viola com uma gratuidade própria de quem, na beira de rio, bate a roupa nas pedras da vida e canta. Canta com a alma. E encanta qualquer violeiro que se atreva a pontear sua viola em noites de lua; nas beiras, vargens, igapés, igarapés e mares, como sereia. Número de frases: 37 O Violeiro e a Cantora é o seu Cd de 'tréia. Se 'tivéssemos na idade média os «loucos» da cidade provavelmente seriam colocados numa barca /balsa/barco e lançados no rio Uruguai (que faz a divisa entre os 'tados de SC e RS) de preferência num período de cheias para que o destino os conduzisse o mais longe possível da cidade, de preferência até a Argentina. Mas como os tempos são outros e não é mais possível jogá-los ao léu, ou mesmo, queimá-los nas fogueiras da idade média, a sociedade se obriga a conviver com eles (e quem segura?). No entanto a impressão que fica é que sempre se dá um jeito de, sorrateiramente, livrar-se destes intrusos, na grande maioria das vezes, indesejados. Talvez porque funcionam como 'pelhos do mundo civilizado. Quando falo em loucos, de imediato vem em mente a canção que Tom Zé fez para os «doidos» de Irará -- Maria Bago Mole, sem registro fonográfico, ou ainda, Schlomo, o personagem do Trem da Vida (uma comunidade inteira que se deixa guiar por as idéias, por que não, geniais de um louco), Quincas Borba de Machado de Assis, de entre tantos, mas, em 'pecial, aqui, em 'te texto, como Tom Zé, me refiro àqueles personagens folclóricos que perambulam por as cidades e lembram freqüentemente aos demais (loucos), no caso, aqueles que conseguiram se enquadrar (ou foram enquadrados na moldura social), que a loucura destes últimos pode ser muito mais perniciosa do que a dos primeiros. Muitos desses personagens, que vagam por a cidade, têm endereço, mas são reconhecidos por o «'tar na rua», e é claro, por algo que caracteriza 'te» 'tar na rua». Em a grande maioria das vezes um tique nervoso ou um outro cacoete qualquer. Galeria dos Loucos (não tem necessidade de moldura) O primeiro nome que vem a mente, não poderia deixar de ser, carrega no apelido o título proposto por o texto, me refiro a Maria Loca. Um dos maiores clássicos chapecoenses da década de setenta. Uma senhora que perambulava por a cidade com um saco nas costas segurado por uma das mãos (que nem o Papai Noel) e um pedaço de pau na outra. Fazia sucesso com os adultos e com a criançada. Os pais utilizavam um velho (e eficiente) truque para manter (amedrontar) a autoridade diante das crianças mais levadas: cuidado que a Maria Loca te pega! Se tu não te comportares eu vou te entregar para a Maria Loca. Aí era um desespero para a criançada quando 'tas encontravam com a dita cuja na rua. Era inevitável, não tinha como não passar por a cabeça as frases pronunciadas por os pais em momentos tão delicados. Eu, por exemplo, quando a via me borrava todo, até hoje acho que tenho medo (a sorte que nunca namorei com uma Maria, imagina só o desespero -- um trauma sem precedentes). A história da Maria Loca ganha desdobramentos, afinal de contas, o tempo passa e duas décadas depois aparece uma outra Maria Loca, assim chamada por a nova geração. O pessoal da velha guarda não admitia a comparação alegando que a segunda não passava de uma imitação barata (um simulacro) e defendiam a posição dizendo que a primeira (saudosismo puro) era muito melhor por ser a primeira (a original) -- e acabavam, sem perceber, como uma 'pécie de advogados das causas públicas, isentando a loucura de 'ta para validar a própria. Os mais novos que, por sua vez, não haviam conhecido a anterior, é óbvio que achavam a Maria Loca de eles muito mais interessante, ainda mais que 'ta andava por as ruas rodeada de crianças (e as lendas se duplicavam, do tipo, quem eram os pais de toda aquela piazada? Uma das crianças o povo dizia que era filha de um ex-prefeito, outra que era filha de um empresário e assim por diante: prefeito, leiteiro, empresário, padeiro, delegado ... mas como falei, isso tudo não passa / passava de lendas urbanas). Pequeno à parte para um delírio desnecessário -- pode passar para o parágrafo seguinte se quiseres: (Tu chegas na bodega e pede: Dá uma Coca. O bodegueiro responde: Light ou normal? Não sei se foi só com mim, mas me obriguei a rir. Vejam só o que é o mundo, depois do surgimento da light a outra passou a ser a normal. E o mundo segue, que nem cavalo de padeiro, se babando todo para subir a ladeira ... aaaaaaaai!!!) Voltando a nau dos loucos (quem?) -- que provoca arrepios por atravessar os conceitos 'tabelecidos, por deslocá-los causando um certo desconforto, a Maria Loca tinha na época vários outros nomes para fazer frente ao seu reinado: o Cinco Pila (pra tudo pedia cincão), O Pepê, o Bodão, o Pedrinho Punk, o Tuté, o Pulga, o Vaca (uma mescla de Fred Flinstons e Tião Macalé que chegava perto das pessoas sem ser observado / percebido e iuuuuuhhhhhuuuuuuu!-- e aí era aquela festa, se divertia com o susto que as pessoas levavam. Que pegadinha do Faustão que nada), a muda, o mudo (no caso, mais que um mudo, um de eles lavava por conta própria os carros -- 'tacionados na rua -- e ai de tu não dar uns trocados: surtava; o outro até hoje chamam de Roberto Carlos por causa dos óculos escuros igual ao do rei; e onde tem mudo, lembrando Decameromn do Boccaccio, as freiras ficam todas em polvorosa) e assim o barco vai andando. Um outro clássico da cidade era a " Nega Tifú ": ficava parada numa das 'quinas da avenida principal, óbvio que, no local mais movimentado da cidade, e quando passava um rapaz qualquer ela levantava o vestido (no 'tilo) colegial, é claro que, desprovida das roupas de baixo, e gritava: Olha a Buceta! O sorriso ingênuo (de repente o ingênuo era eu) de ela diante de um olhar de surpresa do transeunte dizia tudo, não tinha maldade, talvez uma necessidade inconsciente de afronta. Com o sorriso acabava por expor a boca desprovida de dentes, numa felicidade que não se importava de expor as intimidades. Agora, o mais famoso de todos foi o Pé-de- Boxa (tinha 'se apelido por causa de um problema de nascença, não tinha os pés formados, apenas dois tocos). São inúmeras as histórias do Pé-de- Boxa, as mais engraçadas são contadas (em algumas rodas da cidade) de ele dando um jeito de se livrar da polícia, como nem sempre conseguia, nas segundas-feiras era comum vê-lo nos programas policiais por pequenos furtos (entrava na casa dos médicos, enquanto 'tes não 'tavam, e ao invés de roubar algo tomava as garrafas de whisky importado e, sem condições de ir embora, dormia 'parramado / emgarrafado no sofá). A história mais famosa de ele aconteceu na quaresma, no interior de um município próximo, vamos aos fatos que não passam de uma interpretação (adaptada por 'te que vos fala) colhida entre os moradores da cidade: -- primeira cena: de um lado da cidade a moça queria ir ao baile, mas o pai não queria deixar, pois, segundo a sua crença, era pecado tu não respeitar o período da quaresma (período de abstinência); -- segunda cena: do outro lado da cidade convidaram o Pé-de- Boxa para ir ao baile, deram um chá de loja no cidadão, perfume e até calçado (que o dito cujo não usava) deram para ele usar. Terceira cena: façam de conta que é filme (da sessão da tarde) da Globo. Vocês não vão acreditar, os dois se encontraram no baile e depois de trocarem alguns olhares, de ele gaita (dois pra lá e dois pra cá num vanerão de fazer suar até a alma). Lá por as tantas, depois de dançarem mais que um par de vaneras, veio aquela lentinha pra aproximar ainda mais os interessados que ainda restavam no salão e não haviam se decidido (Peço um pouco de imaginação agora, uma boa dose de suspense e a trilha sonora pode ficar a sua 'colha). A moça acomodou a cabeça no ombro do Pé-de- Boxa e quando olhou para baixo, os calçados do cidadão apontavam um para o norte o outro para o sul. Desfecho da cena nos próximos capítulos ou na nota-de-rodapé. O Último dos Moicanos O último nome da galeria (quando digo o último não gostaria de fechar, apenas acho que o povo que perambula por as ruas hoje apresenta para a sociedade um pacto diferente de um tempo atrás -- a malandragem parece ter sido substituída por uma certa maldade, digamos que, sem precedentes) é o Chocolate -- um desses cidadãos de rua que onde 'tiver vai 'tar sempre abraçado numa garrafa de qualquer coisa alcoólica. A história de ele vai dar números finais ao placar e, assim sendo, promover a interrogação final (sem a intenção de interrogar ninguém) que o texto irá deixar no ar. Em as eleições municipais de 2004 lançaram o cidadão candidato a vereador sem uma oficialização partidária (não era filiado). O que acontece é que em poucos dias tinha santinho do Chocolate (sei lá eu bancado por quem) em todos os cantos da cidade (o lema, entre tantos, era -- " para agüentar a sem-vergonhice só de cara cheia "): primeiro ponto, os eleitores passaram a reconhecer o Chocolate como possível candidato, sabiam que era brincadeira mas não tinham certeza se a brincadeira era oficial (se 'tava registrado) ou se era mera sabotagem; segundo ponto, a situação chamou a atenção de uma «associação dos direitos ao cidadão» (acho que é isso) que considerou de uma tamanha leviandade lançar como candidato a um cargo público uma pessoa que, aparentemente, não tinha aprovado 'sa condição; terceiro ponto, com o Chocolate não tinha como (des) confirmar absolutamente nada -- 'tava sempre de cara cheia. Vejam, não quero entrar no mérito da brincadeira (quem fez? Por que fez? Se ela é de bom ou de mau gosto?) pois, afinal de contas, para o Chocolate, isso é o que menos importa. Gostaria apenas de salientar uma das situações que considero importante: de como a sociedade organizada parece sempre dar um jeito de se livrar do indesejado. O Chocolate passou (mais de) dez anos perambulando por as ruas da cidade sem que ninguém o notasse. Caído, literalmente, na sarjeta, mas em nenhum momento 'ta situação (para uma associação qualquer) era motivo para que alguém intercedesse com algo que pudesse tirá-lo de 'ta situação (acho até que ele dava graças a deus que isso não acontecesse); por sua vez, a candidatura (não oficial) foi motivo para que uma associação de direitos humanos intercedesse (retirando o Chocolate das ruas) com aquele discurso hipócrita de que apenas queria protegê-lo (de um possível desgaste público ou sei lá do que -- isto, apenas, até que terminasse as eleições de 2004, depois ele voltou, literalmente, outra vez, para a sarjeta). Por sua vez, sem ir muito a fundo na questão (pois o causo já 'tá se alongando), imaginem só se 'ta onda pega, e a cada tentativa de lançarem alguém candidato (sejam eles chocolates, chuchus, bergamotas ...) a algum cargo eletivo (qualquer) apareça uma associação (qualquer) para botar água na fervura? Isto por um lado seria maravilhoso, poderia nos livrar de cada situação incomoda; por outro lado, provocaria chiadeira de todos os tipos, acho que até greve de fome, os possíveis candidatos, seriam capazes de fazer (lembre-se que, no Brasil, mas não apenas em 'te, o poder tem cheiro de teta fresca -- ou seria leite?). Os demais, com tantas coisas para perderem, não sei o que diriam diante de uma situação de 'ta. O Chocolate, por sua vez, para deixá-lo em paz, como resposta para a situação, parafraseio uma outra figura (mais ou menos) anônima -- O Vanderlei -- que perambulava por as ruas de Chapecó e quando era enxotado dos bares (por não ter sido convidado para a festa) respondia em alto / baixo e bom tom: «Mesas são mesas, cadeiras são cadeiras, garrafas são garrafas, o sol nasce para todos e ninguém é mais do que ninguém." Nota de rodapé. A moça entrou num desespero e saiu gritando do baile, é o diabo! O Pé-de- Boxa continuou por lá, a moça nunca mais viram, e como a história do mundo sempre foi baseada na dos vencedores, permaneceu viva a lenda do Pé-de- Boxa. Número de frases: 90 Só Deus sabe o sacrifício que um pai e uma mãe de família tem que fazer, para alimentar sua prole! O salário mínimo é uma 'mola e as preces do povo -- nas procissões da vida -- são repetitivas ... Já não causam comoção nacional! As artimanhas dos homens de gravatas e bravatas -- em Brasília e outros pontos de negociatas -- perderam a originalidade. Os ratos roem as migalhas nos projetos rurais e urbanos. Os olhos das «carrancas» 'tão abertos! O som do «baião» dá o ritmo certo ou incerto da coreografia. Em o teatro da vida, um elefante voador flutua sobre as pirâmides do Novo Egito. O Hino Nacional é tocado às margens plácidas do Nilo Brasileiro (Rio São Francisco). O Brasil não é mais um império. É uma república: República do Açúcar e do Álcool. As legiões brasileiras de desempregados rezam para que o «PAC» do São Francisco, não irrigue os hectares dos novos canaviais (o produto final será o etanol) que poderão ser plantados às margens do «Velho Chico». Em a margem 'querda do Rio São Francisco, em Pernambuco, fica a cidade de Petrolina -- que lembra a palavra petróleo -- e que parece com a Petrobrás -- empresa que tem o controle total do etanol. Segue abaixo uma música em defesa do «Velho Chico». Nilo Brasileiro (Rio São Francisco) ( Lailton Araújo/Wanderley Araújo) Em as entranhas da " Canastra " Nasce um grande aventureiro «Nilo», nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Em as lembranças, sinta voltar A criança que 'tá em você São Francisco é fauna, flora São Francisco é santo, rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso Navegarei no infinito Navegarei com São Francisco As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas, hidrelétricas O menino viu passar Em a pureza da magia Em as cidades que nasciam Em Minas Gerais, Bahia De Januária à Curuçá São Romão, Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba, Brejo Grande Águas tão nordestinas Em o toque da minha cantiga Irrigarão a caatinga Ouça a música no link abaixo: http://www.recantodasletras.com.br/audio.php? cod = 1348 Número de frases: 47 Gravação: Banda MOXOTÓ O problema se repete por todos os Estados, provavelmente. Talvez São Paulo fuja um pouco à regra, já que possui o interior desenvolvido economicamente e, conseqüentemente, culturalmente. Mas se pode afirmar sem muito erro: o interior do país sofre de uma invisibilidade cultural, quando comparado aos centros, às capitais. Daniel Valentim já tratou do mesmo assunto aqui no Overmundo, quando 'creveu a respeito do contexto manaura. Pessoalmente, eu senti 'sa diferença por ter nascido e vivido boa parte da minha vida numa cidade do interior. Não tão pequena, é verdade, mas infinitamente menos interessante do ponto de vista de acontecimentos e opções culturais, quando comparada à Belo Horizonte. Itabira, uma cidade localizada à 100 km da capital mineira, mesmo com a proximidade da capital, não goza de uma vida cultural rica, pelo contrário. É a cidade onde nasceu Carlos Drummond de Andrade, um dos nossos maiores poetas e, sim, realmente existe uma certa tradição cultural no município. Penso que ouvir um jovem falar «não há nada de muito interessante para se fazer em 'sa cidade» seja um fato comum a várias cidades do interior desse país. «Essas cidades (do interior) vivem o problema de isolamento cultural. A produção cultural existente acaba ficando fraca por falta de incentivo e público nos municípios. A cultura, em geral, é relevada a um 2º plano. A necessidade de uma mobilização da cultura no Sul de Minas vai fortalecer nossa identidade, criar a visibilidade para os produtores culturais e nos possibilitar a criação de projetos maiores e ousados», 'se é o retrato que faz Emanoel Gusmão. Desde o ano passado, ele tem tentado unir forças ao redor do chamado Pacto Cultural do Sul de Minas. O objetivo prático é um: atrair atenção para a região. Mostrar que lá se produz, mas que a necessidade por incentivos é grande. Exemplifica: " Em Ouro Fino, o grupo de teatro ficou ensaiando e montando por 5 meses a peça de teatro ' O exorcista ', adaptado por Vitor Góes. A peça teve 3 apresentações sucessíveis em Ouro Fino, com grande sucesso e parou por falta de condições de se apresentar em outra cidade (falta de contato, problemas financeiros, etc.). Ou seja, os produtores culturais vão desistindo de seus sonhos e seus projetos." O problema de concentração do apoio cultural é tão grande que existe um projeto para que Minas Gerais tenha sua Lei de Incentivo à Cultura regionalizada. O Projeto de Lei nº 2880/05 busca distribuir melhor os recursos financeiros, ao dividir o 'tado em dez regiões. Com isso pretende-se atingir os projetos de municípios menores, como é o caso de Ouro Fino e a sua companhia de teatro. Para clarear um pouco mais. Imagine a periferia da periferia. Se podemos considerar Belo Horizonte como a periferia do eixo Rio-São Paulo no que diz respeito aos investimentos culturais (quase 80 % se concentram no dois 'tados), o interior de Minas Gerais é a periferia de Belo Horizonte (a capital mineira chega a concentrar 75 % dos investimentos). É a migalha da migalha. Há algumas explicações, é claro. A primeira de elas é que a maior parte das empresas patrocinadoras e participantes da lei de incentivo 'tá na capital e, portanto, acaba procurando apoiar financeiramente os projetos que aqui se encontram. A lógica é: o investimento vai onde 'tá o consumidor. Mas há outra causa para 'se problema apontada por o texto do Projeto de Lei da Deputada Elisa Costa (PT). «Em o período de 1998 a 2002, a região Central concentrou 78,5 % dos projetos apresentados». Ou seja, o interior do 'tado deve demandar mais, apresentar mais propostas. E é em 'se sentido que entra o Pacto Cultural: de organizar e coordenar os trabalhos dos produtores culturais do Sul de Minas Gerais e, assim, se tornar mais forte e interessante aos olhos de quem investe em cultura no Brasil. Entre em contato: Número de frases: 39 Nova Iorque, Londres, Tóquio. Quem acompanha obras de ficção científica em seus diversos formatos -- seja em livros, quadrinhos, filmes, seriados de TV, animações, videogames ou jogos de RPG -- 'tá sempre sendo apresentado a visões futurísticas daquelas metrópoles mundiais. Menos usual é acompanhar 'peculações do tipo em lugares célebres por apresentar forte resistência a mudanças, mais afeitos às tradições que ao ritmo adrenalizado das revoluções tecnológicas. Lugares assim como a infinidade de pontos pretos que sinalizam nos mapas os municípios de Minas Gerais, o 'tado-símbolo do tradicionalismo quando se pensa no Brasil, algo que pode ser resumido numa frase famosa de um filho da terra, " Otto Lara Resende: «Minas 'tá onde sempre 'teve». Por isso mesmo, por o fato de usar Belo Horizonte e outras cidades mineiras ainda lutando para preservar suas características históricas num futuro não tão distante -- ou «no outono do século XXI» -- é que Quintessência já começa surpreendendo os leitores. O livro representou a 'tréia de um novo 'critor brasileiro de FC: Flávio Medeiros Jr., médico 'pecializado em oftalmologia nascido, criado e formado na capital mineira, que em 2004, mesma época de seu aniversário de 40 anos, resolveu se lançar na nova atividade por as mãos da conterrânea editora Monções. A segunda surpresa da obra é a constatação de que seu autor levou bastante a sério a novidade, muito mais que a média dos iniciantes em 'te mundo complicado da literatura de entretenimento nacional. Em a criação da intrincada trama de Quintessência, ele demonstrou que décadas acumuladas de leitura -- principalmente de quadrinhos, já que as referências a eles são onipresentes na obra -- acabaram servindo de formação para um contador de histórias muito bom. Em as primeiras 20 páginas do livro, a impressão que pode passar é a de que 'tamos diante de um Robin Cook made in Brazil. Flávio Medeiros Jr. tem muitas semelhanças com aquele 'critor americano que não só é médico, como também conta com 'pecialização em oftalmologia e tem um passado de professor universitário. Cook é considerado o responsável por a introdução de temáticas ligadas à medicina na literatura popular, sempre as misturando com outros gêneros: suspense, horror e até ficção científica. Para completar, tal e qual o brasileiro novato fez em seu primeiro livro, o veterano é conhecido por dar títulos com apenas uma palavra a suas obras, alguns exemplos são Febre, Coma, Cérebro, Invasão. A impressão é reforçada por algo a mais que tais coincidências. Em aquele trecho inicial, o detetive Tomaz Rizzatti, personagem narrador do livro, passa por uma longa -- e realista -- consulta em que é diagnosticado como portador de epilepsia do lobo temporal, condição muito rara por atingir duas áreas distintas do cérebro e provocar súbitos apagões de consciência. Mas 'se é só o início da história. Ao longo de 232 páginas, Medeiros vai bem além da sessão Plantão Médico, há muitas outras referências, diretas ou indiretas, em seu trabalho. O caso em que o protagonista 'tá envolvido -- a serviço de uma força policial que unificou agentes civis e militares -- é a investigação de uma série de ataques terroristas em sua cidade. O atentado que abre o livro é cometido num shopping de Belo Horizonte: um homem não-identificado abre fogo contra visitantes do local e, quando parece que vai ser capturado por a segurança, comete suicídio graças a um poderoso material bélico de uso controlado. Pistas vão aparecendo e tudo indica que há uma bizarra ligação com outros casos de assassinos suicidas, um de eles investigado anos antes por o próprio Rizzatti, o de um franco-atirador em ação na Lagoa da Pampulha, e ainda muitos outros, 'palhados entre Europa e Eua. Há motivos para se supor que todos 'tes crimes tenham sido cometidos por uma mesma pessoa, apesar desse detalhe inquietante levar a se pensar na existência de um suicida serial. Diante do alcance globalizado dos atentados, que podem 'tar sendo coordenados por um terrorista internacional, igualmente dado como morto, Tom Rizzatti carrega uma sombra em suas andanças por os municípios mineiros: um agente paulista da Interpol. O que começa como rivalidade profissional -- e aquele sentimento arisco bem mineiro -- vai se degenerando em desconfianças mútuas, perseguições automobilísticas, tiroteios, trocas de identidades e todos os componentes que tornam um thriller apto a receber a classificação chavão de «cinematográfico». Essa porção do romance é marcada por descrições rápidas e precisas das paisagens reais, ainda que em suas versões futurísticas. Lembra um tanto os pontos fortes do inglês Frederick Forsyth, velho mestre dos livros de 'pionagem pé-em o chão, como O dia do Chacal, O Manipulador, Dossiê Odessa, Ícone e longa lista. O clima policial do livro continua mesmo após a grande virada que ocorre pouco antes da metade de suas páginas. É uma descoberta feita por o detetive narrador que faz a trama levar suas características de FC a outro nível, para além da descrição de traquitanas tecnológicas e previsões futebolísticas. Tentar comentar, em 'te ponto, alguma referência da literatura ou do cinema seria entregar surpresas que aguardam os futuros leitores. Porém, mesmo a reviravolta não muda o rumo de película impressa de Quintessência. Antes pelo contrário, a velocidade da história aumenta, o número de personagens que se alternam e deixam 'capar mais algum detalhe do enredo se amplia, sem perder o foco geral. Em a verdade, o autor só altera mesmo o ritmo no clímax, nas aproximadamente 40 páginas finais, nas quais o livro deixa de lado o teor cinematográfico. Com um longo, muito longo, quase interminável diálogo -- praticamente um monólogo -- o mais correto seria dizer que, ao final, o andamento 'tá mais para o do teatro que para o da tela de cinema. Por sorte, Medeiros é hábil na construção das falas de seus personagens e, com isso, o texto continua fluindo nas revelações finais de sua obra. Para ser mais exato, em 'se ponto o autor dedicou 'pecial atenção a detalhes que costumam ser ignorados por muitos 'critores de ficção científica, tanto brasileiros quanto 'trangeiros. É o caso da 'peculação sobre como evoluiria a linguagem oral nos quase cem anos que separam nossa realidade e o período em que se passa a história. O 'critor soube ser sutil quando necessário para se 'baldar quando há oportunidades. Em as conversas do dia-a-dia, entre adultos, pouco mudou, com apenas o acréscimo de um ou outro neologismo. O mais utilizado é um enigmático «bandjo» que parece ter substituído completamente expressões como «cara»,» malaco «ou» malandro». Já nos momentos em que surge algum adolescente no enredo, começa um verdadeiro dilúvio de gírias, felizmente traduzidas por o contexto. Detalhes pequenos mas que tornam uma trama de FC bem mais plausível. Outro fator que ajuda a garantir a credibilidade do texto é a construção dos personagens, principalmente do protagonista. Tomaz Rizzatti não é só o detetive com um problema grave de saúde, recém-divorciado -- ele se recusa a pronunciar o nome da ex-mulher, prefere chamá-la por a alcunha de Desgraçada -- e fã de todo gênero de quadrinhos antigos imaginável. Já que somos testemunhas de seus pensamentos, flagramos suas reflexões sobre o assunto que dá título ao romance: qual a quintessência, a natureza mais profunda do mal? Qual o papel do livre arbítrio, do poder de decisão, nas nossas 'colhas morais? Diante das atrocidades que é obrigado a investigar, algumas tão chocantes quanto o massacre das dezenas de pessoas na abertura do livro, 'se é o tipo de questionamento a martelar o cérebro já atingido por a tal epilepsia do lobo temporal. Acaba sendo um contraponto interessante ao cinismo canalha da maioria de seus colegas da ficção o comportamento deste detetive tão preocupado com o real alcance do domínio do mal. É bom avisar: tais questionamentos são sempre feitos a partir de um ponto de vista laico, não religioso. Até para caracterizar tal visão de mundo agnóstica, o autor reitera constantemente que em seu universo as religiões são coisa do passado. Em diferentes trechos da obra, referências bastante óbvias a mitologias greco-romana e indiana, além do próprio Cristianismo, passariam despercebidas aos personagens caso eles não as pesquisassem na ultranet, o próximo passo evolutivo de nossa internet contemporânea. Tudo bem, mas num ponto isso fica pouco crível, quando uma das referências 'tá ligada à identidade do já citado terrorista internacional. Que a população comum não perceba a ligação seria bem razoável de se acreditar, mas quando falamos de um agente que 'tá na caçada há anos e que, obrigatoriamente, já teria trabalhado na formulação do perfil psicológico de sua presa, isso não soa muito lógico. Este, porém, é um dos raros deslizes de uma trama muito bem trabalhada, funcionando dentro das melhores tradições dos gêneros a que 'tá afiliada. Com Quintessência a literatura 'peculativa nacional somou alguns ganhos. O Brasil foi apresentado a Flávio Medeiros Jr. um novo autor de ficção científica que garante ainda ter novas histórias para contar quando surgirem as oportunidades. Aquele clube de detetives que existe entre as ruas Morgue e Baker recebeu Tom Rizzatti como um novo embaixador brasileiro. E os mineiros ganharam um romance de FC que, mesmo com todas as influências internacionais, é tipicamente seu, no mesmo sentido que o distópico Não verás país nenhum, de Ignácio Loyola Brandão, é tipicamente paulista e o lascivo O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro, é tipicamente baiano, isso para citar apenas dois clássicos do gênero produzidos no país. Vale a pena conferir, nem que seja para tirar a limpo se, no futuro próximo, Minas vai continuar onde sempre 'teve. Serviço: Para entrar em contato com o autor utilize o email livro.Quintessencia@terra.com.br Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. Número de frases: 66 Em o mês de janeiro, é realizada em Campos dos Goytacazes a festa em homenagem a Santo Amaro, padroeiro da cidade, tendo como principal atração a Cavalhada, feita há 327 anos. A festa é realizada no dia 15 de janeiro e reúne cerca de 40 mil pessoas a cada ano, contribuindo para a manutenção de um dos principais patrimônios históricos da cidade. A cavalhada representa a luta entre cristãos e mouros, constituída há 1500 anos. O duelo acontece por causa do amor que o rei mouro sentia por a filha do rei cristão. O rei cristão não aceitava que sua filha se unisse a um homem que não tivesse a fé cristã. Em o combate os cristãos saem vencedores, demonstrando lealdade e bravura, pois eles lutaram contra as invasões islâmicas na Península Ibérica durante o século VIII. A primeira cavalhada em Santo Amaro aconteceu no dia 15 de janeiro de 1736, sendo hoje uma das poucas a serem realizadas no Brasil. A encenação foi trazida para Campos por os monges beneditinos. Participam da cavalhada, seguindo a tradição, 24 cavaleiros posicionados de um lado do poente. Os 12 cavaleiros que representam os cristãos são vestidos de azul e os 12 representando os mouros são vestidos de vermelho. Além das roupas também há o cuidado como os cavalos, que tem suas patas pintadas, além de usarem plumas na cabeça e metais polidos. A festa, que 'te ano completou a sua 276º edição, mostra-se como uma boa opção para aqueles que pretendem passar as suas férias no norte fluminense. Número de frases: 12 A produção de games no Brasil deu largada no início da década de 80, com Amazônia, um adventure em texto produzido por Renato Degiovani, que resolveu levar o «milagre tecnológico» do computador além dos cálculos, da diagramação de páginas e da editoração eletrônica. O objetivo do jogo era bem simples: uma vez perdido em meio à floresta amazônica, contornar a situação digitando comandos, dentro de um número limitado de tentativas. É bem provável que tenham existido outros jogos tupiniquins antes de Amazônia, mas a obra de Degiovani acabou ganhando bastante expressão e popularidade, institucionalizando-se como o ponto de partida de um setor que, no final das contas, passou praticamente em branco por o resto dos anos 80 e 90. A exceção foi Incidente em Varginha, da Perceptum, que chegou às prateleiras nacionais em 1996. Inspirado na suposta aparição de alienígenas na cidade mineira, o game de tiro em primeira pessoa dava ao jogador a missão de capturar ets foragidos, em cenários como o centro de São Paulo, a 'tação Sé do Metrô e até a Baía da Guanabara. Incidente em Varginha rompeu fronteiras e foi comercializado na Europa, Ásia e em outros país da América do Sul. Curiosamente, fez muito mais sucesso no exterior que no Brasil. Somente a partir do ano 2000 é que o cenário nacional da produção de games deixou para trás as iniciativas isoladas e passou a se mostrar interessante para investimentos. Houve um jogo em particular que atestou o potencial do país para produzir títulos com qualidade equivalente aos «blockbusters» norte-americano: foi Outlive, game de 'tratégia em tempo real produzido por a paranaense Continuum. O problema é que Outlive demorou quase três anos para ficar pronto, por causa da falta de verba da Continuum e por a dificuldade em encontrar um canal atraente de comercialização. Ainda assim, Outlive foi lançado em 2000, recebeu boas críticas da imprensa e chegou ao exterior. Muitas empresas começaram a surgir no país e, com o tempo, percebeu-se que, para lucrar com o mercado de games, não eram necessários projetos megalomaníacos e de orçamento milionário. Há os jogos para celulares, advergames (jogos para o mercado publicitário), sem falar na possibilidade de produzir títulos sob encomenda para vender no exterior. Ao mesmo tempo, os aspirantes a programadores de jogos viam um cenário mais profissional e organizado com o surgimento de diversos cursos 'pecializados em instituições de ensino. Em um levantamento da Abragames, a Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos (sim, nós temos uma de 'tas também), em setembro de 2004, havia no país 40 empresas dedicadas ao desenvolvimento de games e mais de 35 jogos tupiniquins lançados nos últimos dois anos. Paralelamente a isso, o mercado de games como um todo começou a achar novos 'paços. Hoje a imprensa 'pecializada, por exemplo, abrange revistas e até programas de TV; há feiras de jogos acontecendo em São Paulo e Rio de Janeiro, sem falar nos eventos mais direcionados (sobre programação de games, animes etc); até mesmo o governo, através do Ministério da Cultura, lançou um concurso, o JogosBr, para 'timular a criação nacional de games. Em 2003, o Senac publicou o Game Brasilis, um catálogo com 32 jogos desenvolvidos no Brasil, que foram comercializados nas lojas ou tiveram vida útil longa. De entre os listados, 'tava O Show do Milhão, versão em game do programa de televisão homônimo, apresentado por Silvio Santos. O sucesso foi tanto que, para alguns, até hoje o título é considerado o jogo mais vendido no país. Depois de O Show do Milhão, vieram ainda Qual é a Música?, além de games 'trelados por apresentadores como Ratinho e Gilberto Barros -- 'tes dois últimos, por sinal, de gosto bastante duvidoso e puramente caça níqueis. Em suma, o Brasil aderiu à «cultura gamer», algo que nem a pirataria ou os altos impostos puderam evitar, à medida que o ato de jogar se tornou comum na vida das pessoas, 'pantando a imagem do game como uma brincadeira limitada aos mais fanáticos. O que falta para o país aparecer no mapa mundial do desenvolvimento de games é uma política que 'timule e acredite no crescimento do setor. Com pouca verba e quase nenhum apoio, num território praticamente sem lei, o Brasil obteve muitas conquistas admiráveis, mostrando um potencial criativo enorme. Imagine se houvesse uma atenção maior à área, através de um plano de ação organizado. Número de frases: 30 É o que sugere a Abragames, no Plano Diretor da Promoção da Indústria de Desenvolvimento de Jogos Eletrônicos no Brasil, cuja leitura é recomendada, principalmente aos governantes. Foi lançado recentemente um webgame baseado em turnos com enredo todo 'truturado na história antiga, tendo como objetivo principal o acúmulo de riqueza (ouro). É o Batalha Medieval -- www.batalhamedieval.com. O game é bastante dinâmico, o jogador deverá 'tar muito atento para gerenciar seu império e conquistar novas cidades, pois haverá outros impérios com a mesma ambição e objetivo que o seu. Para desenvolver seu reino, a distância entre a diplomacia e a guerra declarada contra seus inimigos é muito tênue, exigindo muita 'tratégia do jogador, é aí que entra a diversão, porque você deverá criar alianças e ter um pouco de 'pírito político para juntar forças com outros jogadores, e olha que são centenas de eles. Além disso, a construção de 'truturas em suas cidades também decidirá toda 'tratégia usada durante o jogo, fazendo com que no andamento do round o jogador tenha que mudar sua tática várias vezes para poder superar seus inimigos. E a cada final de round, os 10 primeiros colocados são eternizados numa galeria de vencedores. Número de frases: 7 Recomendo para os amantes de jogos de 'tratégia, é diversão garantida. Quem nunca ouviu falar da beleza bucólica de Maria Bonita, da bravura e da vaidade de Lampião e de seus capangas, com certeza, conhece muito pouco da história do cangaço nordestino. No máximo deve ter sabido de causos e anedotas que davam conta de Lampião hora como herói, hora como bandido. Certeza maior é ninguém ter ouvido falar que cangaceiro fosse santo. Pelo menos até agora! Porque é exatamente isso que acontece na cidade de Mossoró, região do oeste norte-rio-grandense. Lá por os idos da década de 20, a trupe de Lampião já tinha saqueado, matado e 'folado por tudo quanto fosse interior do nordeste. Como de costume, o grupo analisava a região onde aportava e decidia quais seriam os melhores lugares para a «labuta». Resolveram que a próxima parada seria na abastada cidade de Mossoró, onde pensavam obter muito lucro. A cidade tinha sido avisada, mas ninguém acreditou, a não ser o prefeito. Em a tarde de 13 de junho de 1927, no meio de uma chuva que caia, ouviram-se os primeiros disparos. Teve quem pensasse que fosse barulho de trovão. Rodolfo Fernandes, o prefeito, recebeu do próprio Lampião um ultimato cobrando 400 contos de réis pra deixar a cidade em paz. O prefeito negou o pedido. Os bacamartes cuspiram fogo ... Em aquele dia Mossoró só dispunha de pouco mais de 20 soldados. O prefeito organizou a resistência e se entrincheiraram como puderam em meio a sacas de algodão. Entre uma saraivada de bala e outra, o grupo de Lampião perdeu dois dos seus mais destemidos homens, Colchete, que morreu de tiro, e Jararaca que ferido, foi capturado por a polícia. José Leite de Santana, o Jararaca, penou quatro dias na cadeia pública da cidade, ferido no peito e nas pernas. Em a noite de 18 de junho, foi levado para o cemitério. A guarda que o conduzia obrigou o cangaceiro a cavar a própria cova. O soldado João Arcanjo o sangrou, mas o povo diz que o bandido foi enterrado ainda vivo. Tinha apenas 26 anos. Alguns dizem que Jararaca morreu de sede, clamando por um copo d' água. Mesmo oito décadas depois de sua morte, seja por os diferentes rumos que a história toma, seja por a religiosidade pura e simples do povo, Jararaca é venerado por milhares de pessoas que acreditam que o cangaceiro é milagroso. Todos os anos, durante o dia de finados, o túmulo de Jaraca é, de longe, o mais visitado da cidade. Apesar de mais pomposo e imponente, o túmulo do prefeito Rodolfo Fernandes, herói da resistência, pouco é lembrado por o povo. Episódio épico da cidade de Mossoró, a resistência ao bando de Lampião deixou cicatrizes não apenas no imaginário da população. Mesmo 80 anos depois, ainda hoje é possível ver as marcas de bala na torre da igreja e em outros prédios da cidade. Número de frases: 29 Em a ocasião foram apresentadas as novidades da segunda edição do festival de Poesia de Porto Alegre, que ocorre de 06 a 12 de outubro de 2008. Além disso, também foi lançada a primeira edição (número 0) do jornal PortoPoesia Literatura & Arte. Em o dia 16 de julho foi lançado a segunda edição do PortoPoesia -- Festival de Poesia de Porto Alegre, com apresentação das novidades que o evento traz em 'te ano, entre elas, a parceria com o Shopping Total, que sediará toda sua programação. Esta parceria foi oficializada durante o evento, com assinatura de termo de colaboração entre a organização do festival e representantes do Shopping. A parceria entre o PortoPoesia e Shopping Total se insere no novo conceito do Shopping, em valorizar a cultura, iniciado com o projeto de Lifestyle que 'tá transformando o conjunto de prédios tombados da antiga Cervejaria Bopp, em 'paços para diversas expressões da arte, com operações exclusivas distribuídas em alamedas e largos temáticos. De acordo com Marco Celso H. Viola, um dos realizadores do evento, 'sa parceria «desacraliza a poesia, tirando-a de dentro das livrarias e colocando-a num dos 'paços mais tradicionais e belos da cidade, ao alcance de todos os públicos». Durante o evento, também foi lançado primeira edição do jornal PortoPoesia Literatura & Arte, uma publicação cultural que visa resgatar a tradição do jornalismo literário no Estado, abrindo 'paço para a divulgação da produção local. O jornal possui um Conselho Editorial, composto por os gestores do PortoPoesia, que elegeu três gêneros prioritários para publicação: poesia, conto e ensaio. O jornal, em formato tablóide, possui 12 páginas e terá periodicidade mensal e distribuição gratuita. A segunda edição do festival PortoPoesia será realizada de 06 a 12 de outubro de 2008 e contará com uma programação intensa que contempla 12 palestras, 22 sessões de leituras de poesia, 4 rodas de poesias para crianças, 14 performances, 11 debates, 12 'petáculos, 10 oficinas, diversos lançamentos, sessões de autógrafos, saraus, apresentações livres, sessões de cinema e exposições de acervos, entre elas uma Mostra Nacional de Revistas de Poesia. Serão 10 horas diárias de atrações totalizando 85 apresentações em 70 horas de atividades culturais. A organização 'tima a participação de mais de 8 mil pessoas, durante o evento. Até o momento, mais de 50 profissionais da área da cultura e poetas confirmaram suas presenças no comando das atividades, entre eles, Armindo Trevisan, Donald Schüller, Alcy Cheuiche, Lau Siqueira, Luiz Coronel, Oliveira Silveira, Paulo Custódio, José Eduardo Degrazia, Mario Pirata, entre outros. O evento acontecerá em diversos 'paços do Shopping Total. Como na edição anterior, a programação é gratuita e aberta ao publico. O PortoPoesia é um festival de poesia concebido da união dos poetas locais, com o objetivo de abrir 'paço para as produções gaúchas e tornar conhecido 'te importante gênero literário, a fim de democratizar a informação literária em Porto Alegre. A idéia é mobilizar pesquisadores, professores universitários, 'colas de ensino médio, tradutores de poesia, profissionais do teatro, músicos, artistas plásticos, letristas, e poetas convidados, propiciando o acesso à cultura e educação, 'timulando o desenvolvimento do gosto literário em crianças, jovens e no público em geral. Além do Shopping Total o PortoPoesia conta com o apoio das Secretarias de Educação e Cultura de Porto Alegre. Número de frases: 19 (press-release 'crito por Sarah Goulart, assessora de imprensa do Porto Poesia) por Ronald Augusto 1. Em o prólogo ao seu livro Elogio da Sombra, J. L. Borges diz algumas coisas acerca da relação entre poesia e emoção, vejamos: «Comum é afirmar que o verso livre não é outra coisa senão um simulacro tipográfico; penso que em 'sa afirmação se oculta um erro. Para além de seu ritmo, a forma tipográfica do versículo serve para anunciar ao leitor que a emoção poética, não a informação ou o raciocínio, é o que o 'pera». 2. Vamos interpretar um pouco mais 'ta ficção de Borges. Antes de tudo, o 'critor argentino se limita a reforçar uma visão tradicional de poesia, segundo a qual 'te gênero -- talvez porque sua gênese seja coincidente com a da música, linguagem por definição não-representativa ou não-verbal e que 'tá nas antípodas da racionalidade, não obstante ser irmã siamesa da matemática, seria o veículo, por excelência, do inefável e da emotividade. Em Homero, por sua vez, vamos encontrar -- e quase como que em abono à afirmação borgeana, a imagem de que as dores e aflições humanas vêm à tona apenas para servir de matéria ao canto dos poetas. Nota-se, no entanto, que o poeta grego é menos sentimental do que Borges, pois para o autor da Ilíada, todo o drama dos mortais não passaria de uma agitação feroz e vã, servindo tão-só de tema ou de signo à fatura do poema. O poema, assim, se converte num objeto 'tético, numa beleza inútil que, ao fim e ao cabo, trata de coisas que não têm sentido. 3. Por que razão o verso (o poema) 'taria condenado a expressar só a emoção (poética), não a informação ou a racionalidade? Se é verdadeiro o que afirma Borges, ou seja, que «a forma tipográfica do versículo serve para anunciar ao leitor [que] a emoção poética ...», podemos dizer, então, que 'sa emoção «sentida» por o leitor (crédulo?) se produz a partir de uma convenção ou de um símbolo arbitrário, isto é, o poema, enquanto «forma tipográfica», resultaria numa 'pécie de sineta pavloviana condicionando o apetite do leitor para algo com o qual ele, de antemão, já sente uma necessária propensão a emocionar-se. Por fim, o leitor agradece ao poema por 'te não lhe ter ministrado nada além do que ele aprendera a precisar. Diante de um poema ou de sua mancha gráfica na página, e, diga-se de passagem, a uma distância improvável a qualquer leitura, mesmo assim, o leitor teria a garantia de sua satisfação; diria: «emoção à vista!». O poema se apresentaria, para usar um conceito da semiótica, como um índice; um «sinal de fumaça» indicando o fogo da emoção com a qual o leitor se depararia, sem dúvida, logo depois da próxima curva. Mas, um poema deveria ser uma terra de ninguém. Um lugar nunca conquistado. 4. Aquele «simulacro tipográfico» que era o verso, agora pode ser descrito como num simulacro de emoção. A idéia de que tal simulacro anuncia / antecipa ao leitor a emoção que ele «naturalmente» encontrará durante a leitura, conforma a forma (que deveria ser fugidia) do poema, antes de qualquer coisa, como uma chave léxica (key lexical) de uma experiência sensório-emotiva não mais irredutível a 'se leitor. Pois como a emoção, no final das contas, se torna um clichê, isto é, uma reação causal a um comando de condicionamento, evento medíocre porque produto de uma convenção, todos 'tão aptos a compartilhar 'ta emoção, por assim dizer, automática. A telenovela é, em outro âmbito, o melhor exemplo de um «simulacro audiovisual» da sentimentalidade que anuncia ao telespectador -- enquanto o adestra para -- emoções certas e imperdíveis. Satisfação garantida. 5. A questão fundamental parece ser a seguinte, o sentimento tem que se resolver em forma; signo 'tético. Tudo acaba num livro segundo Mallarmé. O poema não é um receptáculo neutro onde se derrama a emoção. Não há, a rigor, emoção nenhuma num poema. E a contribuição do leitor, em 'te caso, é decisiva. A emoção é um evento que se localiza aquém ou além do poema. O que se tenta no poema é fazer uma alusão à emoção, convertê-la em figura, imagem. Um lembrete do poeta " T. S. Eliot: «a poesia não é um perder-se na emoção, mas um 'capar de emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade», mas Eliot acrescenta em seguida e rapidamente: «porém, de fato, só aqueles que têm personalidade e emoção sabem o que significa querer 'capar de 'sas coisas». 6. A propósito de assunto semelhante, José Paulo Paes 'creve:» ... uma confusão entre o imaginário e o real. Por o simples fato de ser uma representação da vida, a literatura não se confunde absolutamente com 'ta nem lhe pode fazer as vezes. Trata-se, antes, de um prolongamento, de um complemento de ela, mesmo porque já se disse que a arte existe porque a vida não basta». Escrever / ler não substitui o viver. O poema, por meio do ritmo e da linguagem, nos dá rastros, restos, enfim, memórias imprecisas de eventos sensório-emotivos. Recordação na tranqüilidade daquilo que nos intranqüilizou com sua beleza. Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004). Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e. cummings (MG); Revista AT (MG); Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG); www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Assina os blogs: www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net. Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs. Número de frases: 65 E-mail:(dacostara@hotmail.com). O convite 'tava aceito. Iria cobrir a vinda do Revelando os Brasis em Mato Grosso do Sul. Até aí beleza! Adorei o projeto e a idéia de levar um cinema todo 'pecial para o interior do país. Corguinho seria uma das 40 cidades com menos de 20 mil habitantes, sem sala de cinema, que o Revelando iria passar em 29 de junho de 2007. Tudo certo a não ser o fato de que a cidadezinha de 6 mil habitantes, localizada a aproximadamente 100 km de Campo Grande, é conhecida por ser, digamos, ' parada certa ` dos Ovnis, vulgarmente batizados de discos voadores. Para aumentar ainda mais o'clima ', o filme produzido por as sul-mato-grossenses Luciana De antes e Lidiane Libai na pequena cidade se chamava ' Corguinho e Seus ETs '. às 15h do dia 29 lá 'tava eu dentro do ônibus da viação Cruzeiro do Sul rumo a Corguinho. Duas horas depois me encontrava na minúscula praça da cidade vazia. Nem sinal do caminhão, música ou equipe do Revelando os Brasis. Em a rua, muito pouca gente. ... corta para o dia 06 de março de 1982, em Campo Grande. Estádio do Morenão, jogo entre o Operário e o Vasco da Gama. Minutos antes da partida por o Campeonato Brasileiro (acabou 2 x 0 para o time da casa) lá 'tava eu (com 13 anos) sentado na arquibancada coberta com meu pai ao lado. Aquela festa toda comum em 'tádio, buzinadas, falação, fanfarra, vendedores e eis que de um segundo para outro o silêncio impera. Olho para o outro lado, na arquibancada descoberta, e vejo a multidão olhando para o céu. Miro o campo e jogadores operarianos e vascaínos, árbitros, reservas, técnicos, massagistas, radialistas e o 'cambau 'tão com as cabeças voltadas para cima. Acho 'tranhíssimo. A bola parada no meio do campo. Aos poucos surge então o que todos viam menos os que 'tavam nas cobertas: luzes fortes de várias cores! Lentamente elas se concentram em cima do campo, emitem do meio de algo vários tons coloridos, parece ficar imóvel por alguns segundos (uma eternidade) e num piscar de olhos sobe um pouco mais alto e, zaaaap, some da vista de todos. Fui um dos 23 mil que 'tavam naquele lugar, naquele dia, naquela hora. O'fenômeno ' foi muito noticiado, inclusive no Jornal Nacional. Ou seja: acredito em Disco Voador, mas não faço questão de encontrar mais nenhum por a frente ok! Dito isto. Sigamos nossa aventura em Corguinho. Descobri que os documentários do Revelando os Brasis não seriam mais exibidos na praça da cidade. O evento aconteceria no Ginásio Municipal Ézio Massi (nome de um ex-prefeito da cidade, eleito três vezes) e ficava a umas 6 quadras de onde 'tava. Era dia, céu azul e fui andando lentamente para o local. Avistei o ginásio, andei umas duas quadras numa rua sem asfalto e lá 'tava eu diante da telona e das cadeiras do Revelando. Tudo vazio, a não ser duas meninas sentadas numa das laterais do ginásio. Fui até elas e se tratava exatamente das diretoras do doc ' Corguinho e seus Ets ', Luciana e Lidiane. Feito o primeiro contato e sabendo que o evento só iria rolar às 19h30, resolvi procurar o hotel da cidade e lá fui eu refazendo todo o caminho de pouco tempo atrás. Até agora nada de anormal. Nenhum sinal de ETs, luzes 'tranhas ou algo fora do comum. Estava de olho! Depois de uma soneca, banho tomado e reanimado, deixei o hotel rumo ao ginásio. Estava 'curecendo e a lua minguante já enfeitava o céu. A temperatura baixava. Relaxei um pouco. Cheguei ao ginásio e muitos moradores da cidade já 'tavam por lá. Pelo menos 100 dos 200 que assistiram aos documentários. Foi preciso o locutor convocar as pessoas a sentarem nas cadeiras para que todos se acomodassem devidamente. Percebi que várias crianças 'tavam presentes. Um de eles era o Fabrício Neves de Moraes, de 4 anos. Calado, observando tudo e bem diferente da irmã Fernanda, 14 anos, que não parava de falar, era a primeira vez que Fabrício viria um filme numa tela de cinema. A irmã também era praticamente uma 'treante, pois só tinha visto uma telona uma única vez na praça da cidade, mas nem lembrava o nome do dito cujo. Fabrício me encarou por alguns minutos. Não disse nadica de nada. Fernanda soltou: «Queria que tivesse cinema em Corguinho». Antes que ela tivesse tempo de emendar a conversa, as luzes se apagaram e a projeção começou. Ufa! Foi curioso ver o ministro da cultura, Gilberto Gil, falando palavras difíceis para aquele público que mal sabia quem era ele de fato. Enfim, começa o documentário das meninas. Logo que as imagens da praça aparecem, com os habitantes da cidade se vendo, começam os gritos, conhecidos como sapucaí, típicos de quando se 'cuta uma polca paraguaia. Bacana. Fabrício não se mexe na cadeira. Tá vidrado na telona, como sua irmã. Comovente! O documentário de 15 minutos deixa claro a vida pacata da cidade. Em 20 anos, apenas um assassinato. Hotel, delegacia, prefeitura, praça, rodoviária, posto, farmácia, banco, tudo fica bem próximo. Corguinho tem 56 anos e sua história tem ligação com o garimpo de diamantes. Em o dia seguinte, poucos antes de embarcar de volta, iria 'cutar de um morador: «Se os rios secassem por aqui, muita gente iria enricar. Tem muito diamante debaixo d' água». Em o documentário surge o senhor Renato, presente no evento, com uma história 'tranha. Ele garante que os 'píritos de seus familiares falecidos se encontram na árvore de 59 anos que ele cultiva em sua casa. Em ÓVNIs e ETs ele não acredita. Vai entender! O filme das meninas finalmente começa a mostrar o que interessa. A comunidade Boa Sorte, que fica a uns 50 km de Corguinho, região onde também se encontra o controvertido Projeto Portal. É em 'ta região que muitas pessoas dizem verem luzes no céu. Como a moradora de Boa Sorte, a Marcelina, e um outro senhor que guarda uma pedra em forma de ovo há cinco anos e jura que vai sair de ali um ' filhote de ET '. A coisa começa a apertar para o meu lado e a afirmativa de Marcelina retumba no meu ' cérebro eletrônico ': «Eu já vi luzes no céu!». Calado como Fabrício, penso: «Eu também». Começa a falar no documentário o pesquisador Olávio Gonçalves. Ele 'tá lá perto dos morros, onde existem ' marcas de 'paçonaves nas rochas ` e um ' portal ` que é possível ver muitas naves em movimento. Ele teoriza: «Nave metal existe, assim como pessoas de outro lugar, com uma tecnologia muito melhor. Eles 'tão numa quarta dimensão. Com mais energia e menos matéria ..." As imagens mostram os chapadões, os morros, as rochas com marcas redondas e abauladas ... O documentário termina em clima de mistério. A platéia aplaude timidamente. Fico cá com meus ' botões de carne e osso ': «Ninguém acredita, mas ninguém desacredita também. Este povo parece desconfiado». Mais desconfiado que eu impossível. Olho para a cadeira de Fabrício e ele já vazou com a irmã. Nem percebi. Assisto aos outros documentários do projeto. Já dá para sentir a temperatura baixando. Terminada a sessão, vou conversar com o pessoal e conheço o vereador Jeffer. Solícito, combinamos de ele me pegar no hotel no outro dia cedo para me mostrar os points da cidade. Decido encarar o fato de frente e cumprir com meu dever profissional e pergunto se tem como irmos a comunidade de Boa Sorte." Olha até tem. Mas demora um pouco. A 'trada não é muito boa». Decido resolver a situação com um " eu volto com mais calma e a gente vai sem pressa para lá. Com certeza quero fazer uma matéria sobre a comunidade " e tudo fica combinado. A comunidade de Boa Sorte é uma 'pécie de quilombola e 40 famílias moram por lá. Próximo fica o Projeto Portal, comandado por o controverso Urandir Fernandes de Oliveira. Em o site do projeto, o seu perfil começa da seguinte maneira: «Paranormal e Ufólogo, foi contatado pela primeira vez aos 13 anos de idade, quando, conscientemente, foi sugado de seu quarto e levado para uma nave através de um raio de luz violeta." Escrevendo a matéria, decido ligar para o meu ex-professor de química orgânica que só falava de Disco Voador e que hoje é o editor da Revista Ufo, o Gevaerd. Mas logo encontro um artigo de ele na revista com palavras nada positivas sobre o Projeto Portal e Urandir: «O Projeto Portal também aglutina pessoas de todo o Brasil que, atraídas por seu dirigente, acreditam que podem ser salvas do fim do mundo através do que chamam de «ensinamentos cósmicos», que recebem do senhor Urandir. A Comunidade Ufológica Brasileira repudia veementemente as alegações infundadas constantes de 'sa farsa. ' Vixi. Rola entre a população que Fábio Júnior, Elba Ramalho e outros artistas já foram ao projeto. Com certeza, o Urandir é uma boa pauta. Assim como o Boa Sorte, o lugar se chama assim por causa do garimpo de diamantes. Quando as pessoas iam para 'te lugar, todos desejavam ' boa sorte '. Meu lado repórter clama para voltar a Corguinho para concretizar as pautas. O outro lado, daquele menino que viu as luzes no ' Jogo do Disco Voador ', não se empolga tanto. Assim que o público começa a sair do ginásio, percebo que um cachorro, um vira-lata puro-sangue, deita no carpete em frente ao projetor e se ajeita para dormir. As pessoas passam por cima de ele, quase pisam, e ele imóvel. Começa a dormir. Todos saem e o cachorro dormindo já um sono profundo. Tiro algumas fotos. Os flashs 'pocam. O cão não abre o olho, nem balança o rabo. Um frio na 'pinha de leve." Estes cães de Corguinho são 'tranhos». Fico sabendo depois que os rapazes da equipe do Revelando penaram para por o cão dorminhoco para fora do ginásio! Ajudo a desmontar as cadeiras e eu e a Gabriela, assessora do projeto, vamos andando para o hotel. Teria um baile mais tarde numa fazenda. Uma festança das boas que os moradores 'tavam todos ligados. Com sono e com trabalho para o outro dia de manhã, resolvo ir para ' o berço '. Me despeço do pessoal, concordamos como a cidade tem cachorro, e 'tou-me-a-ir para meu quarto. Durmo embalado por a radicalidade democrática do projeto Revelando os Brasis! mais de 25 mil quilômetros rodados levando cinema para Fabrícios e Fernandas, crianças-jovens que crescem como milhares de outros do interior do Brasil, numa distância abissal dos seus semelhantes nas cidades grandes. Lembro que quando era criança, com 8 anos em Caçapava do Sul, cidade do interior do RS, ia ao cinema assistir aos filmes de Teixeirinha, Os Trapalhões, faroestes ... Há muitos anos 'te cinema fechou, como outros muitos por o interior do país. Um flagelo cultural. Não sonho! Acordo disposto a saber o que afinal a população de Corguinho acha de 'ta história de ' cidade dos Ovnis e ETs '? Encontro no hotel, o médico da cidade. Não tenho dúvida. Se alguém tem um termômetro do que o povão fala, é ele! Entrevisto o ortopedista de 25 anos, há 2 anos trabalhando na cidade com uma bolsa que recebe do CNPq (baixa, segundo ele). Nome: Paulo Torres. Corguinho não tem hospital, só o que chamam de Unidade de Saúde. Rodrigo -- Qual a vantagem de se medicar pessoas no interior, numa cidade como Corguinho com 6 mil habitantes? Médico -- O médico acaba conhecendo toda a família. O paciente do interior é assim. A população vê o médico como um resolve tudo. Então conhece-se todos e fica-se mais próximo, por isso a manutenção é melhor. E o paciente fica mais confiante no médico. -- A população de Corguinho sofre de alguma doença 'pecífica da região? Quais os principais problemas de saúde da população? -- Aqui acontecem as epidemias sazonais, de acordo com o período, como em todos os lugares. Mas detectamos problemas respiratórios porque existem carvoarias e por isso recebemos pessoas com ' pneumoconiozes '. Também é comum acidentes com trabalhadores rurais. Todos são encaminhados para Campo Grande. -- Se você fosse eleger um problema para melhorar em Corguinho qual seria? -- O maior problema é a violência familiar. Aqui não tem muito aquela violência urbana, mas tem a familiar. Se focasse num único problema seria 'te. A violência familiar. -- Você já viu luzes 'tranhas no céu de Corguinho? Ou extraterrestres? O que os seus pacientes falam em relação a isto? -- Nunca vi. Mas muitas pessoas falam, principalmente, as que moram na região do Boa Sorte e do Taboco. Dizem que exergam luzes. De ET nunca ouvi ninguém falar. Interessante a fala do doutor. Esta região do Boa Sorte realmente deve ser 'pecial. Onde tem fumaça, tem fogo não é mesmo? E interessante ele ressaltar a questão da violência familiar no interior. Acredito que tem muito a ver com alcoolismo e falta de opção de lazer. Um fenômeno não muito diferente das periferias das cidades grandes. Me dirijo então para a frente do hotel. Vou tomar um café e conversar com o pessoal. O ônibus sai para Campo Grande às 13h. Puxo papo com o atendente: Rhandyllon Costa Ferreira, de 19 anos. Confessa que foi com a turma da 'cola no Projeto Portal. Não viu nada nem lá e nem em lugar nenhum. Caçoa do projeto e da fama da cidade." Isto é besteira. É bom só para atrair gente pra cá», resume. Não desafirmo. Surge então um tipo de 40 anos, o Nelson, como se apresenta. Diz que uma vez 'tava indo para Boa Sorte e que algo aconteceu com seu carro: «O carro ficou planando no ar. Era um Uno. Fiquei muito cabreiro. Mas acho que 'ta fama é boa para cidade. Movimenta». Entendi! Ele é do tipo que aumenta mas não inventa. Sei! Tá chegando a hora de ir pegar o ônibus do outro lado da rua. Se aproxima de mim então um senhor de chapéu e todo vestido de preto. É o John Waynne pantaneiro????? Ele vai direto como um dose de whisky quente: «Eu sou o maior pinguço de Corguinho. Você tem que tirar uma foto pra sua reportagem!" Achei engraçadão e o levei até a frente do orelhão-peixe para registrar a figura. Ramão Pereira Rosa, de 72 anos, resumiu a viagem, o documentário, as reflexões celestiais e discussões filosóficas com a pérola: Número de frases: 204 «Eu já vi luzes em Rochedo (cidade-vizinha de Corguinho), mas eu bebo bem!" A partir de janeiro de 2008, Brasil, Portugal e os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa -- Angola, Brasil, Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, Príncipe e Timor Leste -- terão a ortografia unificada. A informação foi distribuída no orkut por Literatura e Arte citando como fontes, sem data, Revista Isto É, Folha de São Paulo e Agência Lusa Assim posto, vamos ao fato: O português é a terceira língua ocidental mais falada, após o inglês e o 'panhol. A ocorrência de ter duas ortografias atrapalha a divulgação do idioma e a sua prática em eventos internacionais. Sua unificação, no entanto, facilitará a definição de critérios para exames e certificados para 'trangeiros. Com as modificações propostas no acordo, calcula-se que 1,6 % do vocabulário de Portugal seja modificado. Em o Brasil, a mudança será bem menor: 0,45 % das palavras terão a 'crita alterada. Mas apesar das mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país. Resumindo: o que muda na ortografia em 2008: -- As paroxítonas terminadas em «o» duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo. Ao invés de «abençôo»,» enjôo «ou» vôo», os brasileiros terão que 'crever «abençoo»,» enjoo «e» voo». -- mudam-se as normas para o uso do hífen -- Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos «crer»,» dar», «ler»,» ver «e seus decorrentes, ficando correta a grafia» creem», «deem», «leem «e» veem». -- Criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como «louvámos» em oposição a «louvamos» e «amámos» em oposição a «amamos». -- O trema desaparece completamente. Estará correto 'crever «linguiça»,» sequência», «frequência» e «quinquênio» ao invés de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio. -- O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação de «k»,» w «e» y». -- O acento deixará de ser usado para diferenciar «pára» (verbo) de «para» (preposição). -- Haverá eliminação do acento agudo nos ditongos abertos «ei» e «oi» de palavras paroxítonas, como «assembléia»,» idéia», «heróica» e «jibóia». O certo será assembleia, ideia, heroica e jiboia. -- Em Portugal, desaparecem da língua 'crita o «c» e o p nas palavras onde ele não é pronunciado, como em «acção»,» acto», «adopção» e «baptismo». O certo será ação, ato, adoção e batismo. -- Também em Portugal elimina-se o «h» inicial de algumas palavras, como em «húmido», que passará a ser grafado como no Brasil: «úmido». -- Portugal mantém o acento agudo no e no o tônicos que antecedem m ou n, enquanto o Brasil continua a usar circunflexo em 'sas palavras: / acadêmico, génio / gênio, fenómeno / fenômeno, bónus / bônus. Número de frases: 31 Os artistas do segmento teatral 'tão mais felizes em Boa Vista/RR. Não é de hoje que levar público ao teatro é uma tarefa quase que Hercúlea, mas os bons ventos resolveram contribuir para o sucesso dos grupos que atuam em 'se 'tado. Desde o ano passado, várias capacitações já ocorreram, de entre elas: teatro de rua, linguagem circense, técnicas de teatro do oprimido, teatro de sombras, elaboração de projetos teatrais, enfim, os artistas não podem mais reclamar que não têm oportunidade de capacitação. Além disso, conseguimos no início do ano mais duas aprovações de projetos por o edital de suplência da FUNARTE. A Federação de Teatro de Roraima -- FETEARR, que surgiu em 27/01/07, já tem conseguido várias conquistas para 'te segmento. Desde junho foi dado início ao projeto de 'tudos teóricos dos grupos que fazem parte hoje da federação, de dois em dois meses grupos selecionados deverão apresentar o resultado de seus 'tudos, que anteriormente foram pré-selecionados. Em o mês de Junho tivemos o «Grupo Lo Combia Teatro de Andanzas» com o tema Teatro Grego e Teatro Romano. O que enriqueceu muito os artistas que compareceram ao encontro. Em Julho iniciou-se o projeto «BANQUETE TEATRAL», no último sábado, 07/07/07, no qual os grupos que fazem parte da Federação apresentaram cenas de 15 min. na Praça das Águas, em Boa Vista. O público adorou a iniciativa e pediu mais intervenções como 'ta. Foram seis apresentações, no qual cinco grupos se apresentaram com muito êxito e conquistaram toda a platéia. «Esta iniciativa tem como objetivo a formação de público. Nós queremos mostrar para 'se público que tem muita gente fazendo teatro de qualidade em Boa Vista», disse Marcelo Perez, Presidente da FETEARR. Este evento contou com o apoio da Pizzaria e Choperia Trevo e de toda mídia que 'teve presente cobrindo as apresentações. As próximas intervenções acontecerão em setembro e novembro. Os grupos que fazem parte da Federação de Teatro de Roraima -- FETEARR: Ø Cia. do Lavrado Ø Cia.. Arteatro Ø Grupo Criart Teatral Ø Grupo Malandro é o Gato Ø Grupo A Bruxa Tá Solta Ø Grupo Lo Combia Teatro de Andanzas Ainda 'te ano a FETEARR pretende realizar sua 1ª Mostra de Esquetes, que tem como objetivo atrair os grupos que 'tão afastados do circuito teatral e todos os artistas e pessoas interessadas em fazer teatro. «Acreditamos que com 'sas ações iremos fortalecer ainda mais o teatro no nosso 'tado», concluiu Marcelo Perez. Número de frases: 25 A linguagem é a substituição do mundo. O formalismo modernista, pai do 'truturalismo e avô do derridadismo, era talvez uma fuga do mundo complicado demais, depois que Napoleão subiu ao poder e 'tourou a Segunda Guerra. Os autores da guerra pareciam cercados por cinzas e ruínas. «Não vejo qualquer traço de qualquer lógica em parte alguma» -- diz Beckett. O medo aos «sistemas» iluministas e nazi-stalinistas que propunham um cientificismo único, lógico, abria para a liberdade absoluta, o que deixou a nós, artistas, sem modos de entender o mundo político e econômico. Hoje, entre o «naturalismo» do mercado que prega bom-mocismo (no fantástico mundo TV, a vida como «posição credora» ou " posição devedora "), força de vontade individual e o totalitarismo dos modelos de ser que nos penetram, e a violência que ocupa o 'paço de um Estado abandonado por os ricos para montar a fábrica na Indonésia, lutamos para ver alguma lógica em algum lugar. O que isso tem a ver com «Em o Vão da Escada», do Grupo Teatral Falos & Stercus? Acho que 'tamos, de algum modo, passando (se pudéssemos supor um certo movimento insinuado em 'sas contradições que somos nós) da idade modernista e pós-modernista para uma fase de realismo complexo (vide texto de Fernão Pessoa Ramos, hoje, na Folha, sobre documentários e narrativas na primeira pessoa) uma fase em que as conquistas são mantidas e se supera os excessos. ( Recentemente vimos filmes sobre Berlusconi, a rainha e Lady Di, aquecimento global e a Guerra de Bush.) Sempre gostei do trabalho do Falus (se é que me entendem), mas, assim como ocorreu com «Cassandra em Progress», da bi-décade Terreira, acho que aqui texto, direção e atuação simplificam e ganham. Luciana Paz mostra que uma grande atriz 'tá presente sempre. Quando falo grande quero dizer grande, pois ela humanizava as frases mais «contadas» do personagem e mantinha o olhar para cada pessoa do público. Também o trabalho com o corpo que marcou a trajetória do grupo é retomado num movimento difícil e coeso. Marcelo Restori criou um texto beckettiano, falando do fim do mundo, um mundo sem portas, nada novo para 'se grupo que luta por teatro inovador enquanto invade uma ala abandonada de um Hospital Psiquiátrico e lá se apresenta. A geração que foi à rua no início dos anos 90 era marginal porque-diferente do que dizem os falsos liberais que tiveram o «pai» lhes dando proteção antes de «fazerem por si mesmos» não dá para primeiro crescer e 'tudar para depois viver: a arte era (é?) lixo no mundo privatizado. O grupo jogou na cara do mundo (reconstruída) 'sa violência que é ter só FunProArte para financiar, o peso da cidade (o frio que vem do tempo em que se degolava inimigos) e nossa ultra-intelectualiza ção, que muitas vezes vai de Derrida a Tchecov, mas tem medo do novo. ( Marília Pera uma vez disse: «Sei como é o público de Porto Alegre: num primeiro momento mais quieto, não reage tanto quanto o de outros lugares, mas no final é muito caloroso " Zero Hora, 2º C, 20/05/06) Voltando à dramaturgia, achei um texto mais concreto e sensível do que, por exemplo «In Surto», mais fragmentado e desesperançoso, e mais maior. Aqui algumas narrativas se juntam ao metafísico, suavizando a linguagem. ( Gosto da comunicação «'saéminhavida», provavelmente ainda quero mais» o que eu fiz e por que "). Nietzsche, Foucault, AIDS e Collor faziam parte de uma 'curidão absoluta nos anos 90. Nada saiu de cena, mas soubemos fazer nosso 'paço, afinal existe o Carnaval, João Gilberto e a Cidade Baixa (dizem que o gaúcho é bairrista, para quem é off-POA, significa Quartier Latin + Copacabana sem água). Esse grupo marcou a história de Porto Alegre por ir ao extremo, por ser puro fogo. Agora sinto que é o momento em que as conquistas são valorizadas como poesia: sabemos nossos limites, mas sabemos o que somos e podemos. Começam a aparecer 'peranças, dentro de um novo realismo. Número de frases: 30 O 'paço mediastino no contexto pós-moderno se tornou o grande palanque no qual os grupos minoritários buscam visibilidade bem como sua legitimação no plano sócio e político. Por sua vez, a mídia representa 'tes grupos segundo os conceitos tradicionais, cristalizando 'tereótipos enraizados no subconsciente coletivo. Em o âmbito da pessoa com deficiência a grande mídia mostra-se dicotomia reafirma 'sa constatação, em 'se texto vamos começar a compreender como e por que 'se processo ocorre. Considerando o fato de que os meios de comunicações tendem a ratificar o pensamento predominante no seu discurso, somos obrigados a 'tender nossa analise questão da Deficiência em seu aspecto social. como 'sa sociedade vê e representa o conceito de deficiência? Como 'se conceito é tratado Cultural e socialmente? A raiz da compreensão das causas do preconceito, seja no enfoque mediastino seja em qualquer outra 'tância 'tar o conhecimento profundo de que significações o conceito, a palavra deficiência e o que ela gera em 'sa coletividade? Preliminarmente vamos vê que a deficiência, como símbolo, mexe com três tabus: a incapacidade Produtiva; a debilidade mental e física e a questão sexual. A imagem que se tem de 'ta pessoa 'tar ligada ao mito da impossibilidade em 'ses três níveis que, por si fundam no ideário coletivo como grandes impedimentos a uma existência social. Este pensamento expõe a condição de discriminação com que a pessoa com deficiência traz no plano imaginário, no qual a mídia e principalmente a tv atuam de forma imperativa. Porem, em contraponto a 'se mito do imaginário coletivo, existe no plano real um grupo de 'sa mesma sociedade «os portadores de deficiência» que de uma forma ou de outra, precisam ser legitimado. A o se deparar com 'sa necessidade a sociedade opta por configurar um padrão o qual ela reconhece como aquele que, na visão de ela, tem condições de ser incluso, de participar do processo sócio, político e econômico e outro a quem ela julgar totalmente incapaz de ter voz em 'se contexto. A mídia então potencializa 'ses dois 'tereotipo nas vezes em que os veículos de comunicação tem que falar de 'sa parcela da população Isso ficar bem claro na imagem propagada dos deficientes nas maioria das vezes que tende Ou há um heroísmo: ' aquele super exemplo de virtudes ' ou se cai no tradicional paternalismo: A grande questão que se evidência é, justamente, a incapacidade de 'sa sociedade e de 'sa mídia em dialogar com a pluralidade de enf0ques contidos em 'sas pessoas e que devem ser explorados, não apenas, nas matérias, entrevistas e reportagens que são produzidas sobre as pessoas deficiente é preciso que a midia e seus profissionais se relacionem com 'se endivido que colocamos no ar de uma forma humana, focando suas idéias e não sua condição física. Como pessoa deficiente e 'tudante de comunicação social. Creio que ao pretender 'tenotipar 'sa pessoa a mídia se divorcia de seu próprio preceito de ser um 'paço onde o contraditório afora e onde a sociedade se reconhece na sua diversidade. Em pese o fato do discurso mediastino ser padronizado 'te, entretanto, não pode se cristalizar no tradicionalismo cujo empobrece não somente os veículos bem como, a nós, profissionais que em ela atua. O profissional da mídia não se permitir prender em 'sa teia de conceitos, preconceitos e 'teriotipos que colocam determinados grupos e indivíduos num plano superficial. Temos que ter possibilidade de fazer com que o publico de defronte com a ' pluralidade humana '. É diminuir a função dos meios de comunicação se tentar mostrar deficientes apenas como coitados ou heróis, negros como marginais ou pagodeiros e tantos outros exemplo de 'sa dicotomia midiastico. Cabe a nossa capacidade criativa tentar conceber programas e matérias que tragam as pessoas deficientes para o contexto humano, social, como pessoas que 'tão imersas numa sociedade e não fora de ela como extras terrestres. Imaginar que em 2006, com a gama de possibilidades de informação que temos, ainda pautamos nosso olhar em 'tereótipos de 20 anos atrás é não acreditar em nossa capacidade de, enquanto agentes de 'sa midia e de 'sa sociedade, em criar novos paradigmas, tanto da comunicação como no da sociedade que fazemos parte. Fabio Fernandes. Estudante do 6º de jornalismo Universidade Estácio de sa. Contato: Número de frases: 30 Falar que existe uma «cena mineira» de audiovisual tem incomodado muita gente. A principal retratação é a de que 'se rótulo acaba reduzindo e apagando as nuanças entre os trabalhos de diversos realizadores. Embora seja verdade que, por outro lado, dar um nome a 'sa produção ajuda a divulgar as obras que têm dificuldade de circular por o país. Fora os festivais e as salas dedicadas exclusivamente ao cinema-arte, os 'paços são limitados para 'se tipo de produção que costuma fugir tanto 'teticamente quanto politicamente dos padrões comerciais. Há hoje uma certa expectativa em relação à produção mineira de cinema e principalmente de vídeo. Este último é de longe a forma de expressão audiovisual mais forte no 'tado. Desde que os primeiros trabalhos do videoartista Éder Santos deram o que falar na década de 80, a imprensa 'pecializada do país inteiro passou a olhar com mais afinco para 'sa produção local. De lá para cá novas gerações de realizadores surgiram. As universidades, as produtoras independentes e os festivais chamam novos nomes à baila. Depois da geração da videoarte, ganhou destaque e virou pauta a geração digital. De o fim da década de 90 para cá surgiram jovens realizadores que ajudaram a sedimentar a produção de vídeo, curtas e documentários em Belo Horizonte. Em um emaranhado de passados, presentes e futuros alguns se destacam: Cao Guimarães, Leando HBL, Conrado Almada, Carlos Magno, Marcellvs, o coletivo Teia e muitos outros. De: serg.Eva@xxx.xxx.xx -- oi Sérgio, vou responder as perguntas. Quero deixar claro entretanto que 'ses são apontamentos pessoais, não sei se exatamente um pensamento da Teia. É bom lembrar que são pessoas com afinidades, mas também com diferenças. A última frase de Sérgio Borges é representativa. Ela resume boa parte das opiniões que pessoas diferentes possuem a respeito da produção contemporânea de audiovisual em Minas Gerais. Borges, junto com Clarissa Campolina, Helvécio Marins Jr., Leonardo Barcellos, Marília Rocha e Pablo Lobato formam o grupo de artistas audiovisuais que levam o nome de coletivo Teia. O coletivo é um dos nomes sobre o qual atualmente recai mais atenção. O grupo, que foi formado em 2003 com uma mistura de novatos e experientes do circuito mineiro de audiovisual, ganha relevância por a sua produção que valoriza o lado autoral e um 'tilo peculiar de produzir cinema. Para saber mais sobre o assunto e tentar construir um quebra-cabeça impossível era necessário que fossem desencadeadas várias conversas paralelas, não necessariamente ligadas umas às outras. Para: jpdumans@xxx.xxx.xx -- Oi, João. Tudo bem? Preciso conversar com você. Em a próxima quarta, às 19 horas, aí no café do Palácio das Artes. Pode ser? Dumans é curador do Cine Humberto Mauro, principal 'paço em Belo Horizonte para a exibição da produção audiovisual de Minas Gerais. É lá que diversas mostras acontecem o ano inteiro. O Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (julho) e o Fórum.doc (novembro) são os que atraem maior público. Em uma conversa de um café e outro e diversas anotações de nomes, telefones e emails, por coincidência, apareceu Sérgio Borges. A Escola que não existe A concepção de uma Escola Mineira vem sendo utilizada principalmente para dar conta de alguns nomes que vêm se destacando com premiações dentro e fora do país. Além da Teia, incluem-se aí os nomes de Cao Guimarães, Carlos Magno e Marcellvs. Os dois primeiros são categorizados na produção de documentário-experimental. Novo rótulo, novas oposições a ele. O termo é 'corregadio e não ajuda muito a entender a individualidade de cada um de eles. Apesar de algumas similaridades 'téticas e da realização de alguns trabalhos em conjunto (" Acidente», obra de Guimarães em parceria com Pablo Lobato, da Teia), o óbvio é que cada um de eles tem os seus trabalhos com características próprias e singulares. Até mesmo dentro do trabalho coletivo da Teia preza-se por os projetos individuais e paralelos. O ser «diferente» é muito mais fértil para a criação do que o «igual». A produção atual é formada por uma rede de referências: o vídeo experimental, o videoativismo, a literatura, o quadrinho, as artes plásticas, o cinema, o buteco. As várias intertextualidades de 'sa produção não podem ser traduzidas apenas no termo guarda-chuva do «experimentalismo». Há, naturalmente, uma referência à geração da videoarte, encabeçada por Éder Santos. Uma das principais heranças do trabalho do videoartista é o gosto por a utilização da câmera de vídeo como expressão audiovisual e o desenvolvimento de técnicas de edição e tratamento de imagem. Digital pós-videoarte Apropriaram-se desse pensamento Conrado Almada e Leandro HBL. Os dois foram os criadores, no fim da década de 90, do 'túdio Mosquito. O 'túdio -- que teve muitos outros integrantes, inclusive alguns que fazem agora parte da Teia -- exerceu um papel importante de mostrar que era viável realizar projetos com poucos recursos técnicos. Os trabalhos iniciais, principalmente com vinhetas televisivas e videoclipes, mostravam que a criatividade era acirrada por o pouco material que se tinha em mãos. «O princípio básico do mosquito que eu vejo que se mantém hoje em BH é ao invés de você sentar e chorar, você produz com o que você tem. E, outra coisa, para ser um realizador você não tem que ver tudo. Quem disse que você tem que ver Glauber Rocha? Éder Santos? Não precisa ver nada. Em a verdade, acho até bom dar um tiro no 'curo, o trabalho sai de uma forma mais 'pontânea», afirma Almada. Leandro HBL, parceiro de Almada desde a época dos corredores da faculdade, explica que há algumas coincidências em torno de 'sa «geração digital» dos anos 90. Com o dólar em baixa, as câmeras digitais de qualidade ficaram mais baratas. As leis de incentivo ao audiovisual voltaram a ser uma política pública. O mercado local não conseguia assimilar todos os profissionais que saíam das faculdades cheios de vontade de produzir e experimentar. Parte de eles procurou abrigo em outras capitais, brasileiras ou não. Por trás disso tudo há um pano de fundo literário e poético inerente ao mineiro, que carrega um passado cheio de referências e influências da literatura. Esses diversos fatores foram 'senciais para formar 'sa massa de artistas audiovisuais mas que de maneira alguma, na opinião de HBL, forma uma cena entre eles. Para Cao Guimarães, realiza-se em Minas Gerais o «cinema de cozinha». As pessoas que há um tempo não conseguiriam se expressar artisticamente através do audiovisual, hoje 'tão produzindo. Elas trabalham com uma equipe reduzida em pequenos 'túdios caseiros e independentes de uma grande 'trutura. Os projetos demoram mais para serem executados, mas, por outro lado, permitem que o resultado final seja mais autoral e aprimorado visualmente. Essa sim talvez seja uma característica encontrada em diferentes gerações de realizadores mineiros: 'tar fora do principal eixo econômico e cultural do país, obriga-os a se virar com o que têm, a procurar maneiras mais baratas de filmar e que não dependa de condições econômicas favoráveis. De: overmundo.Mg@gmail.com -- Oi, Carlos. Você recebeu o meu email anterior? De: karlmarx@xxx.xxx.xx -- Recebi e responderei suas perguntas com respeito. Premiado por melhor direção (Kalashnicov, dirigido junto com Chico de Paula), na última edição do Festival Internacional de Curtas de BH, Magno tem uma origem social e formação política bem diferente da maior parte dos atuais realizadores mineiros. Magno é de opiniões muitas vezes desagradáveis a um sugerido status quo do audiovisual mineiro. «Cinema em Minas Gerais sempre foi um lixo, até que chegaram as novas tecnologias e possibilitaram pessoas como Éder Santos e Cao Guimarães a serem autores genuínos. ( ...) Hoje vivemos um momento que tudo isso 'tá na universidade, um videorealizador faz um curso de comunicação, filma gente pobre ou tenta imitar pessoas como o Éder (Santos) e o Cao (Guimarães)», afirma. A crítica de Magno é principalmente em relação à política de troca de favores entre curadores e realizadores, ao abuso das leis de incentivo e à benevolência da mídia. Ocorre também um certo processo de «standirzação» da produção. Em a 'teira de nomes que alcançam alguma relevância surgem outros tantos que tentam repetir a técnica criada por os primeiros, como se aplicassem um filtro de photoshop. «Á margem disso tudo temos pessoas como Dellani Lima que tenta fazer um trabalho autêntico, Marcellvs, que atualmente mora em Berlim, Sara Ramo, pessoa reflexiva e ativista que faz trabalhos que dialogam com as novidades contemporâneas e Cíntia Marcelle; artistas de grande importância para a transformação deste panorama provinciano que é o panorama mineiro do audiovisual», completa. De -- " \> l.Marcellvs@xxx.xx.x «Não faço parte de nenhum grupo e muito menos de qualquer 'cola», assim Marcellvs resume a sua visão sobre a tentativa de se categorizar artistas e produções tão diferentes entre si. Em 2006, ele foi o artista mais jovem a participar da Bienal Internacional de São Paulo. Atualmente ele reside na Alemanha, onde, no ano passado, foi premiado num dos festivais de curtas mais importantes no mundo. Antes do prêmio, Marcellvs havia enviado 15 cópias do vídeo 0778 man. road. river para festivais nacionais. Em apenas um de eles ele foi selecionado. Após o aval europeu, o interesse foi despertado pelo lado de cá. Isso tem se tornado comum na trajetória de quase todos os artistas: as suas obras rodam o mundo, ganham o reconhecimento dos festivais e críticos 'trangeiros para depois se tornarem mais conhecidas dentro do Brasil. «Acredito que [o Festival de] Oberhausen foi mais um exemplo, e infelizmente não será o último, do que acontece muitas vezes no Brasil. Alguém precisa afirmar uma opinião para que depois outros corram atrás», explica o videoartista. A tal cena mineira tem mais dúvidas do que certezas quanto à sua identidade. É mais heterogênea do que se pensa e vive mais de autocrítica do que de vanglória. Como se sabe, mineiro não tem a habilidade de falar bem de si mesmo e solidariedade não é uma das suas principais qualidades. Entre o «muito barulho por nada» e o elogio precoce resta o óbvio: a necessidade de não deixar o trem parar, de manter a produção em alta, com os recursos que 'tão à mão, com ou sem a atenção da mídia. Número de frases: 101 Mesmo não simpatizando com o trabalho do diretor vou assistir a apresentação de «O Vampiro contra Curitiba». «Vamos lá», penso, «dê mais uma chance, afinal 'ta peça é uma adaptação de alguns contos do grande Danton Trevisan». Então, com pensamento positivo, faço questão de conferir a peça numa apresentação gratuita. Com casa lotada percebo que grande parte do público não é freqüentador de teatro. Isto é bom, possibilitar o acesso às artes cênicas para um maior número de pessoas. Quando inicia a peça um problema: O público não fica quieto de imediato. Mas, graças a todos os Deuses, os presentes entraram logo no 'pírito e ficam comportados, mesmo aqueles jovens em grupo, que quando saem juntos querem de todas as maneiras chamar a atenção ... E a atração começa com um incontestável Trevisan: «Curitiba de 30 buracos por habitante ... Centenas de mortos andam por a rua XV de Novembro ... Não me toque! Tenho horror a contatos ...», e por aí segue. Vários contos do «Vampiro de Curitiba» são encenados. O casal, a prostituta, a solteira mãe de três filhos, o homossexualismo, a pedofilia, a garota de rua ... o que é de pior nas entranhas do ser humanos, e de Curitiba, 'tão presentes na obra de Trevisan e no palco. A o falar «as verdades sobre a capital paranaense», Trevisan demonstra o seu muito particular amor por Curitiba. As suas verdades são incontestáveis. Os personagens excluídos da classe média consumista 'tão todos lá. É impossível não ligar os textos de Dalton com Avenida Dropsie de Will Eisner. Ambas mostram a realidade cotidiana que não percebemos em nossa volta. Porém o curitibano é mais ácido. Como a história da menor moradora de rua e viciada em drogas. É obsceno, é repugnante, é revoltante, mas é real. Ande por uma grande cidade e em cada 'quina verá muitas iguais a ela. O que fazemos para mudar 'ta realidade? As cidades abrigam cada vez mais pedintes e pessoas que assaltam o cidadão classe média para sustentar o seu vício. E a história da mãe de três filhos pequenos? O pai abandonou e é cafetão de velhinhas. Pensão? Nem pensar. Então a sobrevivente sai de casa para pagar uma conta, mas não aceitam porque 'tá atrasada. Antes de sair de casa, a filha mais nova pede um ovinho de páscoa. A sobrevivente anda por uma loja. Percebe a felicidade em todos comprando, consumindo, gastando ... Ela lembra do pedido da filha. Em um impulso materno pega três ovinhos, «um para cada filho». Porém a façanha não dá certo. Descoberta é humilhada por os empregados e por a polícia. Com medo, «quando gente some», continua sendo humilhada na delegacia ... A realidade 'tá aí, mas não dá para agüentar. O cidadão classe média logo pensa: «Este mundo não existe ... É pura representação teatral ... É somente uma obra literária de um 'critor amargurado ..." Queremos que o mundo mude, mas fazemos algo para isto acontecer? Também como querer mudar quando a maioria das pessoas necessita sobreviver antes de tudo. Querem é se dar bem ... Em uma sociedade alienada em seus desejos de consumo, e com uma educação abaixo da linha da miséria, é complicado querer que tudo mude. Bem, voltamos a apresentação de «O Vampiro contra Curitiba». O texto de Trevisan é perfeito, intocável, pena que não se pode dizer o mesmo da adaptação. Os atores (Marino Jr, Guilherme Osty, Larissa Neufeldt, Jader Alves, Sonia Bacila, Vanessa Vieira, Florival Gomes e Juliana Biancato) conseguem passar o mundo dos personagens. Mas o resto ... Cenário pobre, transparente onde os personagens mudam de lugares entre um conto e outro. Nada de novo. Lembro outras adaptações de Trevisan para o teatro como «Pico na Veia» e o monólogo «O ventre do Minotauro». Estas sim existiam alguma coisa nova, mas «O Vampiro contra Curitiba» não existe nada de novo. E a musiquinha entre as transições de cena? É melhor nem comentar. Mesmo com direção e cenografia abaixo das outras adaptações já realizadas sobre os contos de Trevisan, apresentar o autor curitibano para um público superior a 500 pessoas é um fato memorável. Número de frases: 60 no Uruguay. Celton é o nome do herói de HQs criado por Lacarmélio, artista de Belo Horizonte. Suas histórias cheias de aventura são ambientadas na capital mineira. Lacarmélio é cheio de estilo, principalmente nas capas das revistas. É também um exemplo de amor, dedicação e perseverança no que faz. Lembro que ainda nos anos oitenta certa vez surgiu pixada no muro em frente à casa onde eu morava no bairro Sagrada Família a inscrição «Leia Celton». Depois percebi que a mesma inscrição 'tava em vários locais da cidade. Muitos se perguntavam o que significava aquilo. Até que um dia descobri que Celton era o nome da «revistinha» de Lacarmélio e as pixações eram sua forma de divulgação. Depois de levar uma dura das autoridades ele deixou de usar os muros da cidade e começõu a pensar em outras maneiras de se promover. Lacarmélio é um cara pioneiro. Se atrevia a fazer algo que normalmente nos chegava por Disneys, Marvels e, no máximo, Maurícios de Souza da vida. Pra mim foi o primeiro quadrinista de Belo Horizonte. E seu afã em 'sa atividade era e ainda é digna mesmo de um super-herói. Contra todas as dificuldades, Lacarmélio continua a desenhar, 'crever e publicar suas histórias, inspiradas em fatos reais e cotidianos da cidade, como «A modelo e os políticos» e «Motoboy», ou em lendas urbanas, como a» Loira do Bonfim «e o» Capeta do Vilarinho». A consagração veio quando foi convidado para dar entrevista no Programa do Jô. Pode-se dizer que o próprio Lacarmélio se tornou uma lenda belorizontina, personagem de uma história de luta e heroísmo. Uma verdadeira inspiração contra o marasmo. Número de frases: 18 Que continue. Mekron, para quem não conhece, é um ícone da música em Floripa. Volta e meia aparece em programas de auditório, ora como jurado, ora como atração. Até na Lucianta Gimenez ele foi. Ele é um ícone não no bom sentido, já que ele não pode ser levado a sério. Seu visual AXL Rose, o vocal totalmente fora do tempo e fora do tom parece piada mas é verdade. Rosas Negras II, seu segundo CD, é a prova de toda a falta de talento desse nosso querido Joselito. Nostalgia é o carro-chefe, tem até clipe. Diria que a minha preferida é Camarilla, onde revela como foi influenciado por Misfits. Quando 'cutei o referido CD não acreditei, era ruim demais para ser verdade, já vi demos, das em fita K7, menos piores. O resultado da obra é mais feio do que bater na mãe. Ainda assim, por 'ses insondáveis mistérios da vida, ele fechou acordo de distribuição com uma rede de lojas de departamento e tem conseguido bastante mídia local. Fico imaginando como seria a repercussão se o produto fosse bom. Como o Superman, fui exposto a um tipo letal de criptonita e a coisa só piorou quando soube que ele andava atrás de mim para que fizesse seu clipe. Como dizer não para alguém assim? Dizem que ele tem bon$ argumento$. O que me motivou a 'crever 'sa contribuição não é chover no molhado, é relatar um fato que aconteceu com o artista em questão. Afinal eu posso 'cutar, detestar e redigir 'se texto para dizer o que penso de ele ao overmundo, tenho 'se direito. Podem até fazer uma comunidade «homenagem» pra ele no orkut como fizeram. Vai uma grande diferença disso tudo a tacar limão, cuspir em ele e quebrar sua aparelhagem, fato ocorrido no dia 23 de junho, quando se apresentava no festival Pé-na-Jaca, com a banda Tumor Maligno. Fica aqui o meu profundo repúdio ao ato de selvageria de meia-dúzia de metaleiros mal resolvidos. Confira o site oficial da figura. Número de frases: 22 Sobre as ilustrações apresentadas: Apresento-lhes um conjunto de cinco frames, concebidos digitalmente, sem nenhuma forma de captação e / ou captura de imagens utilizando artefatos periféricos ao computador, como scanner e máquina fotográfica. Esta Coleção, intitulada «Monsieur Chat», também submetida ao Banco de Cultura do Overmundo, sugere a natureza felina, fria e premeditativa, imersa no imaginário e na, também premeditativa, performance silenciosa e sorrateira do voyeur, que, sob certa ótica, encarna conceitualmente o 'pírito da predação erótica. De o desenho direto no computador Há décadas tenho coabitado (v. t.. Habitar em comum. / -- V. i. Viver em comum.) dois campos do conhecimento, aos quais poderia chamar de «santos ofícios» se não envolvessem remuneração, quais sejam: a Engenharia Mecânica e a Comunicação Social. Em todos 'tes anos, venho presenciando discussões acalouradas, seja na academia, seja no dia-a-dia profissional, sobre o desenhismo e suas técnicas e, não raras vezes, assisti debates polêmicos sobre o desenho direto no computador, sem o emprego prévio, antes da digitlização, da concepção manual. Conceitos ou preconceitos a parte, visualizo 'ta discussão pertinente e conveniente em se tratando processos técnicos de design, que, para Vidal Negreiros, 1996, em seu livro Desenhismo, é todo tipo de desenho voltado para às necessidades da indústria. ( GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Desenhismo. 2. ed.-- Santa Maria, RS: Ed. UFSM, 1996.) Contudo, no que tange à expressão puramente artística, considero irrelevante o conflito teórico, pois ela a arte concede superpoderes de expressão ao artista e liberdade total ao 'pectador em sentir, ou não, um determinado tipo de manifestação como obra ou fato artístico. Particularmente, penso que independente do processo adotado, a relevância 'tá no resultado final da obra. Número de frases: 17 Julgo pertinente e muito interessante, para não dizer, até mesmo filosófico, um método que permaneça intocado, desde a criação até a exposição de uma obra sem passar por a interferência materializante, permanecendo, o objeto e sua atmosfera, imanifestadamente intocáveis e intocados, no semi-imaginário ambiente digital. O trabalho do ilustrador hoje 'tá não somente em jornais, revistas e livros, mas também em cartazes e story-boards, embalagens, videogames, cenários de cinema, animação e TV; rótulos de produtos, publicidade, internet etc. Basta olhar ao redor para perceber o quanto 'tes artistas vêm ganhando mais e mais 'paço. Sua arte é criada não para museus, galerias ou paredes de casas, mas sim para a reprodução e a comunicação de massa. A criação da SIB, Sociedade dos Ilustradores do Brasil, veio para resgatar os valores e a história de 'ta profissão no país, além de propiciar uma aproximação entre artistas e profissionais que usam a imagem ilustrada em seus projetos. Através de encontros regulares, exposições e eventos como o Ilustra Brasil!, a entidade tem proporcionado o intercâmbio de idéias entre ilustradores e mostrado ao público em geral um pouco do universo destes artistas que, trancados em seu 'túdios, inventam o mundo onde antes havia apenas o papel, a tela, o mapa de bits em branco. Passados 5 anos desde a sua criação, a Sociedade dos Ilustradores do Brasil já conta com mais de 250 profissionais, de entre eles os veteranos Rui de Oliveira (criador da primeira abertura da série Sítio do Pica Pau Amarelo), Benício (ilustrador de todos os cartazes de filmes dos Trapalhões), Guto Lacaz, e também nomes como Patrícia Lima, Hiro Kawahara, Lelis de entre outros. Em o portal da SIB os interessados vão encontrar amplas informações sobre a sociedade e seus artistas, bem como importantes ferramentas de trabalho como contratos, orçamentos e leis de direitos. Em 'pecial, vale checar a Galeria virtual, o Siblog e também fazer o download do Info SIB, o jornal eletrônico com entrevistas e artigos sobre a arte da ilustração. Surgida diante da necessidade de unir os ilustradores face a tantos desafios na arena profissional, a SIB vem traçando um sólido plano de trabalho, para crescer e ficar à altura da tarefa de representar 'tes artistas tão importantes para a cultura gráfica do país. Número de frases: 12 Com um trabalho sério por a normatização da atividade da ilustração no Brasil, a entidade vem 'tabelecendo como referência uma postura profissional e ética por parte de seus associados, com a finalidade de defender a arte, o mercado, e a formação das futuras gerações de ilustradores. Quem vem do bairro das Rocas ou quem desce da Cidade Alta não tem outro jeito, senão contemplar o secular Teatro Alberto Maranhão, monumento tombado por o Patrimônio Histórico e Artístico do Rio Grande do Norte. Inaugurado um ano antes da chegada das luzes de acetileno que iluminariam as ruas do bairro da Ribeira em 1905, o teatro teve outro nome de batismo. De 1904 a 1957, o teatro levava o nome do maestro e compositor de O Guarani, Carlos Gomes. A 'tréia cuidadosamente preparada por o governador Alberto Maranhão e por o primeiro diretor do Teatro, o professor Joaquim Scipião, deu-se com a apresentação da Banda do Batalhão de Segurança, além de dramatizações, monólogos e recitações de poemas. A concepção do teatro conserva, até hoje, linhas e elementos da arquitetura francesa do final do século XIX, além de cerâmica belga como revestimento do piso de entrada e da platéia. Obedecendo à planta do engenheiro José de Berredo, no Governo Ferreira Chaves, sob a direção do Major Theodósio Paiva, a construção teve início em 1898, e se deu simultaneamente a outros no Brasil: o Teatro Amazonas em Manaus é de 1896; o Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado em 1909; o Teatro José Alencar, em Fortaleza, iniciou as atividades em 1910; e o Teatro Municipal de São Paulo começou a funcionar no ano seguinte. Eles assumiam a função de vitrine cosmopolita para as novas elites. Em 1910, o Teatro Carlos Gomes, como era chamado àquela época, guardava a forma de chalé, com 18,30 metros de largura por 78,60 de extensão, tendo três portas e uma 'cultura de Mathurin Moreau, denominada «arte», encimando a fachada. Em o segundo Governo de Alberto Maranhão, o Teatro passou por uma nova reforma, sendo alvo de críticas por parte do jornal Diário de Natal, que apontava a falta de sensibilidade dos governantes, afirmando que o governador só tinha olhos para a sua grande obra, o teatro, consumindo em ele, recursos desmedidos, enquanto os flagelados padeciam as misérias da seca, que se prolongava desde 1902. Mesmo criticado, o então Teatro Carlos Gomes acabou ganhando um pavimento superior, portões e grades de ferro vindas da França (Fundição Val de Osnes), assim como os balcões e obras de arte na fachada. A Gran-Campa ñia Española de Zarzuela, Opera y Opereta Pablo López reinaugurou o teatro no dia 19 de julho de 1912 com a opereta «Princesa dos dólares» de Leo Fall. A partir de então, companhias francesas, 'panholas e portuguesas não deixavam de incluir o confortável Teatro Carlos Gomes em seus roteiros de viagem. E, em 1936, houve o primeiro recital da cantora lírica Bidu Sayão, em Natal. Em 1957, sendo o Teatro da municipalidade, o Prefeito de Natal, Djalma Maranhão, mudou a sua denominação para Teatro Alberto Maranhão -- Tam. Sobre a mudança de nome, o teatrólogo Meira Pires, diretor do Tam de 1952 até 1982, ano de sua morte, disse o seguinte: «Alberto Maranhão não podia permanecer relegado a um 'quecimento total. Esse o motivo da batalha gloriosa para dar seu nome à casa de artes que ele construiu, movimentou e amou como um novo Romeu». Em 1955, o teatro, ainda com o nome de Carlos Gomes, foi palco do 1º Festival de Teatro Amador, «certame idealizado por o teatrólogo Meira Pires, comemorativo à reabertura do teatro e do qual participaram os Estados da Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará». Poucos anos depois, Meira Pires, de 10 a 20 de outubro de 1958, realizou o 1º Congresso Brasileiro de Teatro Amador. Em a ocasião foi fundada a Sociedade Nacional do Teatro Amador -- Sonata, sob o patrocínio do Ministro da Educação e Cultura Clóvis Salgado e do Governador Dinarte Mariz de Medeiros. Em 1959, ainda no governo de Dinarte Mariz, o teatro foi reformado integralmente, com obras do engenheiro Wilson de Oliveira Miranda, sendo reaberto em 24 de março de 1960. Em o dia 11 de março de 1977, a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte 'treou no palco do Tam, bem como o sistema de ar condicionado central. Pouco mais de uma década depois, a Fundação José Augusto, presidida por o jornalista Woden Madruga, iniciou, em junho de 1988, uma nova reforma contando com o apoio da Fundação Nacional de Artes Cênicas e a Fundação Banco do Brasil. Em 'se reparo foram incluídos camarins, salão nobre, jardim, platéia e palco, buscando restaurá-lo sob supervisão técnica da Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado. Em 2004, por ocasião do centenário do Teatro Alberto Maranhão, uma nova reforma foi realizada. Esta obra deu ao Tam uma melhor acessibilidade, já que foram construídas rampas da rua para a praça, da praça para o Teatro e também nas entradas dos banheiros. Além disso, um moderno sistema de climatização foi implantado, sendo instalados condicionadores de ar nas platéias, salas administrativas e salão nobre. Também foi feita uma nova pintura no teatro e restaurados a iluminação, o piso, o mosaico e o mobiliário original. O pátio interno foi ampliado e seu piso trocado. O prédio ganhou um novo café, loja e banheiros. O salão nobre e hall de entrada foram revitalizados e toda infra-estrutura do teatro foi restaurada. Para Hilneth Correia, atual diretora do «Teatro Alberto Maranhão,» os sons, as letras, as cores, os movimentos, e os gestos, são presenças vivas em 'sa casa». «O Teatro Alberto Maranhão é um exemplo -- o Brasil deveria mirar-se em 'te 'pelho. Trabalho, beleza, dedicação e seriedade. Saudade ..." " Bibi Ferreira «A o Teatro Alberto Maranhão, por a sua história, beleza arquitetônica e tradição, a felicidade de 'tarmos aqui, pisando em 'te palco tão cheio de passado artístico». Fernanda Montenegro e " Fernanda Torres. «O Teatro é um encanto. Quisera 'te país querido 'tar repleto de 'paços como o Alberto Maranhão». Número de frases: 44 Leila Pinheiro Especial para a Caros Amigos por " Bosco Martins «Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens». A o completar 90 anos o poeta Manoel de Barros se considera um songo. Em matéria exclusiva ao jornalista Bosco Martins à revista Caros Amigos, o poeta narra o encontro com seu mito Guimarães Rosa, fala do amor por Stella, sua companheira há sessenta anos e da vanguarda primitiva. O poeta aniversaria em 19 de dezembro e nos presenteia com um poema inédito, Um Songo. O mito se encontrava apoiado na balaustrada da embarcação, olhando andorinhas que se dirigiam ao pôr-do-sol. A cena se passa na década de 40 e o encontro se deu num barco no «mar paraguaio» do pantanal sul-mato-grossense. Transbordando encantamento, o rapaz franzino se aproxima do grande 'critor, que todo aristocrático, se abanava num leque. «Andorinhas encurtam o dia». A o fazer o verso de improviso, iniciou-se naquele momento a amizade entre o poeta e o seu mito. Os indícios de 'ta amizade 'tão na biblioteca Guimarães Rosa, que é conservada na Universidade de São Paulo, onde há exemplares de livros de Manoel de Barros. As semelhanças entre Guimarães Rosa e Manoel de Barros adquiriram formas evidenciadas em suas trajetórias literárias e pessoais, a partir daquele instante. As 'truturas formais de sua poesia se assemelham do mistério semântico da obra de Rosa. Não só criam e remexem com as palavras, mas se servem de uma maneira bastante simbólica da linguagem popular, mesmo tendo 'crito em gêneros diferentes, um em poesia e outro numa prosa poética. Como no romance de Rosa, a poesia de Manoel de Barros também pode ser lida em vários níveis. Existem pontos de leitura que tornam indiscerníveis os limites das palavras rosianas e dos lugares manoelês. Especialista das obras de Barros e Rosa, o professor da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande / MS, Marcelo Marinho, aponta que «como numa cartografia holográfica, uma 'pécie de mata, que conforme o lugar de onde olhamos, percebemos outros lugares, de possibilidades infinitas ou quase infinitas, formando ainda uma cartografia hologramática». A originalidade lingüística do poeta e do 'critor dificulta, segundo o 'tudioso, a tradução da obra de ambos para outras línguas «alguns tradutores quando não entendem o sentido da palavra a suprimem», assegura Marinho, que 'tuda os campos semânticos, que são campos de palavras próximas, das obras de Barros e Rosa. Ambos são autobiográficos na construção de suas obras. A pronúncia para Riobaldo seria Bardo, Riobardo. Bardo é o poeta, rio em italiano, o r do próprio Rosa, daí então podemos perceber que Grandes Sertões: Veredas, qualificada por o próprio Rosa, era uma «autobiografia irracional» de personagens reais. A guerra de Riobaldo (alter ego de Guimarães) contra Hermógenes significa uma profunda critica contra a literatura da década de 50 que já havia se tornando 'téril. Era uma literatura que não dizia sobre nada, não tinha mais para onde ir. Então Riobaldo ao lado de outros jagunços, como De os Anjos, simbologia para o poeta Drummond, combatem a má literatura. Remanescente de 'ta filiação literária, Manoel de Barros também bebeu na fonte dos clássicos e tem influências dos «faróis» da literatura mundial, como Homero, Valéry e Baudelaire. Aliado de Rosa contra a poesia ruim, seus personagens também são reais, como Zezinho-Margens Pláscidas, fazedor de discursos patrióticos; Maria-Pelego Preto, tão abundante de por o no pente que o pessoal pagava pra ver; Mário-Pega-Sapo, que 'folava os batráquios a canivete para ver o futuro dos outros nas entranhas e Bernardo, o transfazedor da natureza. Com recorte original e formas diferentes de se fazer leitura de sua poesia, alguns enxergam em ela o erotismo. Uma relação quase carnal com as palavras, com a intenção do poeta de dar a luz a novos mundos. Essa trajetória de erotismo pode ser observada desde as pinturas nas cavernas, na pintura rupestre, até chegar então em Guimarães Rosa e Manoel de Barros. Não é só o primitivo que encanta Guimarães Rosa e Manoel de Barros, os dois tinham o mesmo sistema de trabalho: um caderninho de anotações. Em 'ta entrevista, o poeta revela outra forma de se manifestar, responde as perguntas de forma poética, batendo à máquina, numa velha Olivetti. Bosco Martins -- Em o ano em que completa 50 anos que Rosa lançava «Grande Sertão:» Veredas, você completa 90 anos, também recriando e remexendo com as 'truturas formais da literatura. Trace um paralelo do que representa 'te momento. Manoel de Barros -- Outra vez o Rosa me contou: Precisei botar o nosso idioma a meu jeito afim que eu me fosse em ele. Botei minhas particularidades. Usei de insolências verbais, sintáticas e semânticas, me encaixei na linguagem. Fiz meu 'tilo. Eu achava que o 'critor havia que 'tar pregado na existência de sua palavra. E você, Manoel? Me perguntou. Respondi: eu andei procurando retirar das palavras suas banalidades. Não gostava de palavra acostumada. E hoje gosto mais de brincar com as palavras do que de pensar com elas. Tenho preguiça de ser sério. -- O que ficou na sua cabeça de seu encontro com Rosa? -- Conheci o Rosa na primeira viagem que ele fazia para o Pantanal. Fui ao encontro de um mito. Porque para mim ele era um mito. Porém no instante que o conheci ele se tornou um ser amável e bom de conversa. Conversamos sobre nada e passarinhos. Foi uma conversa instrutiva! -- A os noventa anos sempre voltamos à infância? Você afirma que seu conhecimento vem da infância, é porque talvez, como Sócrates, tudo que sabemos é que nada sabemos? -- A metáfora era 'sa mesmo. Tudo o que eu aprendera até meus noventa anos era nada; meus conhecimentos eram sensoriais. O que aprendi em livros depois não acrescentou sabedoria, acrescentou informações. O que sei e o que uso para a poesia vem de minhas percepções infantis. -- Fale um pouco sobre a infância, a juventude e a velhice. -- A um editor que me sugeriu que 'crevesse um livro de memórias eu respondi que só tinha memória infantil. O editor me sugeriu que fizesse memória infantil, da juventude e outra de velhice. Estou 'crevendo agora minhas memórias infantis da velhice. -- Tem uma frase de um ator que nunca me saiu da cabeça. Dizia que Deus fez tudo bom, só cometendo um erro: a duração da vida. A vida é muito curta e deveria ser não infinita, pois seria muito chata, mas pelo menos o dobro. Duas vidas, uma para ensaiar e outra pra representar. Você concorda com isso? -- Concordo sim. E até proponho uma solução científica. Seja 'ta: O Tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer É só amarrar o Tempo no Poste. Eis a ciência da poesia: Amarrar o Tempo no Poste! E respondendo mais: dia que a gente 'tiver com tédio de viver é só desamarrar o Tempo do Poste. -- Se a angústia é um 'pinho na carne, que não se pode tirar, para o poeta a passagem do tempo é angustiante? -- Para mim, viver nunca foi angustiante. Tirando o nunca até que venho bem até aqui. Sou como o vaqueiro Santiago. Santiago, no galpão desafiou que não cairia de um cavalo famanaz de brabo que havia na fazenda. Todo mundo zombou do Santiago que 'taria a contar vantagem. Então arriaram o cavalo Famanaz e Santiago amontou de 'pora e chicote. O cavalo saiu disparado e a corcovear de lado e para a frente. A o passar por o galpão os peões viram 'crito à 'pora na paleta do animal 'ta frase: Até aqui Santiago veio bem. Pois é: até aqui ... -- O que há de se fazer frente ao mistério das coisas? E para o poeta, qual o sentido da vida? -- Sou um homem de fé. Me acho incompleto e por isso preciso do mistério. Pra mim a razão é acessório. Preciso acreditar que 'tou nas mãos de Deus. Sem fé eu me sinto um símio. -- O que o poeta teria a dizer sobre o amor, a inveja e o ódio. -- Algum tempo sonhei meu socialismo. Seria baseado nas palavras de Cristo «Amar o próximo como a nós mesmos». Logo enxerguei que o sonho era utópico. Porque o ser humano nasce com ambições diferentes. Ambição de poder. Ambição de dinheiro. Como então amar ao próximo como a ele mesmo? A palavra de Cristo é genial e por isso utópica. A ambição destrói qualquer amor ao próximo. A inveja e o ódio também. -- O pintor Mark Shagal, morto em 1985, dizia que a coisa mais importante na vida para ele era o amor, «Se você tem uma mulher a quem você ama, então isso é tudo». -- Encontrei na Stella a mulher e companheira de todas as horas. Em a alegria e na tristeza -- como nos prometemos no casório. Conseguimos um amor profundo e sonhado em todos os dias. -- Um dos seus poucos livros «inéditos» e fora do prelo, Nossa Senhora da Minha Escuridão, é um livro um tanto deísta, meio católico para quem o leu. Você crê mesmo em Deus, ou como a maioria dos poetas, no fundo, é um agnóstico? -- Eu não sou agnóstico. Eu creio em Deus mesmo. E não precisei ler muito para descrer; eu aprendi alguma coisa lendo. Mas onde eu aprendi mais foi na ignorância. A inocência da natureza humana ou vegetal ou mineral me ensinaram mais. Quem não conhece a inocência da natureza não se conhece. Não há filosofia nem metafísica nisso. O que sei, na verdade, vem das percepções infantis. Que não deixa de ser o ensino por a ignorância. -- Por que alguns acham graça na sua poesia? Seria por expor um dialeto infantil? «Memória Inventadas -- A Segunda Infância», por exemplo, seria na sua concepção, uma brincadeira de criança? -- Aprendi com meu filho de cinco anos que a linguagem das crianças funciona melhor para a poesia. Meu filho falou um dia: Eu conheço o sabiá por a cor do canto de ele. Mas o canto não tem cor! Aí veio Aristóteles e lembrou: É o impossível verossímil. Pois não tem disso a poesia? -- Seus versos têm mesmo pernas, bocas, sexo, etc? A humanização das coisas 'tá em sua poesia? -- Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Em as visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como 'tão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal. -- Se tivesse que ser crítico de seus poemas, quais temas você diria que são mais recorrentes? -- Acho que ser gente é o tema tão mais recorrente. Ou não ser gente. Se o tempo não é humano eu humanizo. Amarro o tempo no poste para ele parar. Boto a Manhã de pernas abertas para o sol. Me horizonto para os pássaros. Uma ave me sonha. O dia amanheceu aberto em mim. -- Por que os clássicos são sempre necessários e quais influências na sua literatura, dos «faróis» da poesia mundial, Valéry, Baudelaire e Homero? -- Penso que a partir dos «faróis» o poema passou a ser um objeto verbal. Por antes ele andava romântico. Recebia inspirações celestes. E até se falava em mensagens poéticas. Depois de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, poesia passou a ser feito de palavras e não de sentimentos. Poesia é fenômeno de linguagem e não de idéias. -- Quanto tempo da «inspiração súbita» demora para virar um poema? -- Inspiração eu só conheço de nome. O que eu tenho é excitação pela palavra. Se uma palavra me excita eu busco nos dicionários a existência ancestral de ela. Em 'sa busca descubro motivos para o poema. -- Você 'tá 'crevendo algo no momento? E além de 'crever, o que dá mais prazer ao poeta nos dias de hoje? -- Estou 'crevendo a terceira parte das minhas Memórias Inventadas. Em o demais releio minhas velhas preferências literárias. E de tarde, bem na hora do crepúsculo do dia que emenda com o meu crepúsculo, ouço música. A música erudita, principalmente, desabrocha minha imaginação. Acrescento um pouco de álcool que me ajuda a ter visões. Mais tarde elaboro as visões. -- De que forma você recebe as críticas positivas e negativas sobre o seu trabalho? -- Não sou diferente: as críticas contra fazem um gosto amargo na alma. As boas melhoram o nosso ego. -- Você tem fascínio por o primitivismo e já morou com índios. O que seria o conceito de vanguarda primitiva? -- Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios. Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens. Não sei se isso é um gosto literário ou uma coisa genética. Procurei sempre chegar ao criançamento das palavras. O conceito de Vanguarda Primitiva há de ser virtude da minha fascinação por o primitivo. Essa fascinação me levou a conhecer melhor os índios. Gosto muito também de ler as narrativas dos antropólogos. -- Em a sua concepção, o ódio não se caracterizou muito em 'te último século? Para o poeta ainda existe alguma 'perança no futuro? -- Eu me considero um songo no assunto. «Um SONGO " Poema inédito de Manoel de Barros Aquele homem falava com as árvores e com as águas ao jeito que namorasse. Todos os dias ele arrumava as tardes para os lírios dormirem. Usava um velho regador para molhar todas as manhãs os rios e as árvores da beira. Dizia que era abençoado por as rãs e por os pássaros. A gente acreditava por alto. Assistira certa vez um caracol vegetar-se na pedra. mas não levou susto. Porque 'tudara antes sobre os fósseis lingüísticos e em 'ses 'tudos encontrou muitas vezes caracóis vegetados em pedras. Era muito encontrável isso naquele tempo. Ate pedra criava rabo! A natureza era inocente. P.S: Escrever em Absurdez faz causa para poesia Eu falo e 'crevo Absurdez. Me sinto emancipado. Mais informações: Número de frases: 222 www.boscomartins.com.br Um balcão de mármore ou de alumínio, com bancos altos, bancos com assentos de madeira nua ou 'tofada de couro preto. Nem sempre há bancos e as pessoas ficam de pé, curvadas, com os cotovelos sob o balcão. Uma 'tufa de vidro e alumínio, onde pairam inertes alimentos 'tranhos, nem sempre visualmente atrativos, e muitas vezes gostosos-o 'tômago humano não é tão diferente do 'tômago do avestruz; ou do tubarão, que come madeira, borracha, plástico, coral, além dos peixes e dos nadadores incautos. Já tive aventuras gourmet com vis salgados de 'sa 'pécie e hei de me transformar numa xícara, porque toupeira já sou faz tempo. Havendo 'paço, armam mesas de metal, dentro do recinto ou fora, em frente, na calçada-coisa que já foi motivo de debate mais ou menos acalorado entre os pedestres, porque as calçadas andam cheias e não chegamos ainda à tecnologia de um mundo a la Blade Runner. As paredes são cobertas por azulejos e isso dá a impressão de se 'tar numa macro-cozinha. Caso o lugar seja mal-conservado e invisível à vigilância sanitária, pode lembrar um banheiro, mas em 'se caso, convém passar no meio-fio, ainda que se corra o risco de ser atropelado por uma bicicleta de entregador de farmácia. Botecos são instituições nacionais, como os cafés europeus e os pubs. Esses últimos são mais chiques? Sem duvida, embora os primeiros tenham o seu charme, digamos, decadente, cafajeste. O boteco é como o Carnaval sob a ótica do DaMatta: «evento «onde são todos iguais, onde» nobreza «e» plebe» extravasam suas fantasias em comunhão. E como somos criaturas ambíguas, temos nossos momentos de fala alta de conversa jogada fora, bermudão e chinelos, bem como os momentos de vestir preto, tomar um uísque e discutir Camus e as benesses da nanotecnologia-apesar do boteco e da erudição não serem antípodas: botecos 'tão intimamente ligados à vida universitária nacional. Botecos são lugares elásticos: podem ser consultórios, congressos de ciências humanas, casas de festas, fraternidades de letra grega-obrigado, tio Weber-, botecos podem ser tudo. Botecos são o barro, fregueses são os oleiros. Não fosse a atividade dos botecos, certos bairros pareceriam cemitérios à noite, com o restante do comércio fechado e os prédios taciturnos metidos em grades. Claro que ocorre todo o tipo de debate num boteco. Já presenciei os mais bizarros. Certa vez, discuti sobre migração de almas com uma figura que tinha algo de mago às duas da manhã, nós, as personagens do diálogo, com as auras cheias de 'puma de cerveja. O líquido alcoólico pode ser o Letes de que falava Platão, só que um Letes daqui, não do Hades. Em uma outra ocasião, chega um homem com uma bolsa de papelão de supermercado-algo da era pré-plástica, década de 80 do século passado-e começa a falar em francês. Logo em seguida, traduz o que havia dito, era um trecho d' O Pequeno Príncipe, e antes de girar os tornozelos e de sair com um sorriso enigmático, fala " Desculpe, estou bêbado!" Em um boteco, você chega e entra numa conversa em três minutos, não importando o que você foi fazer lá-tomar um café, uma bebida, comprar cigarros, balas. Em termos de comunicação, boteco é banda larga, enquanto que os outros lugares são conexão discada. Outro dia, passava eu por um bairro onde já morei e percebi que um desses botecos, embora em atividade, tinha uma placa de «Vende-se» pendurada na porta, placa de papelão com as palavras 'critas por caneta pilot, coisa bem boteco. Pensei sobre a complicada situação do comércio e também nas vezes em que parava por ali por cinco, dez minutos, para conversar com pessoas que conhecia antes de partir para outros destinos do sábado à noite. É possível que continue a ser um boteco, mas também pode ser convertido numa pet shop ou num salão de cabeleireiro. De qualquer forma, na lembrança, continuará funcionando como um boteco, dos antigos, com azulejos e tudo mais. Número de frases: 30 HI-BRAZIL traz para a música eletrônica o ambiente mágico do realismo fantástico Lançado por uma licença da Creative Commons, trabalho de 'tréia do HI-BRAZIL é composto por 13 faixas que passeiam por ritmos globais, atmosferas lúdicas e imaginário iconográfico. Let's do the Samba! Este é o nome do álbum de 'tréia do HI-BRAZIL, que pode ser ouvido e baixado de graça no site da banda (http://homepage.mac.com/hibrazil). O trabalho marca a chegada de uma nova safra de músicos que 'tão tendo a possibilidade de produzir e lançar seus próprios discos através de licenças da Creative Commons, uma entidade sem fins lucrativos que disponibiliza licenças flexíveis para a publicação de projetos artísticos, científicos e educacionais. O álbum traz 13 faixas e três videoclipes, dois de eles dirigidos por o pessal do 666 rmx., e que revelam sutis características da trama e dos personagens centrais de 'ta novela musical criada por o HI-BRAZIL. O samba, o mais popular ritmo nacional, surge como o fio condutor do misterioso enredo que cerca a obra, unindo o canto tradicional irlandês ao baião, o Quarup indígena aos sons de máquinas industriais, o banjo norte-americano à tabla indiana. Mas não se trata, segundo o grupo, de utilizar os elementos musicais 'trangeiros numa colagem do tipo chinoiserie. O objetivo é celebrar a transformação da consciência no mundo globalizado de hoje, quando ela finalmente percebe que somos uma só tribo. E a tribo a que se refere Let's do the Samba! não precisa necessariamente ser composta apenas por habitantes do planeta Terra, como nos sugere o pessoal do HI-BRAZIL, pois discos-voadores, alienígenas e abduções também 'tão presentes no trabalho, como na explícita e divertida Putz!, que acaba de ganhar um videoclipe, e a perturbadora -- mas viajante -- Delivery, que abre o disco. Em 'te universo delirante, Carmen Miranda surge dançando entre cubanos, ao som de marimbas e pássaros luxuriantes e duendes verdes de calcinha e sutiã vermelhos. Bananas caem do céu, arremessadas por naves espaciais e fertilizam a terra. Alienígenas são destacados para salvar o planeta azul colocando bombas de quarks em fábricas e centrais de inteligência. Almas saem por as bocas das pessoas e tomam o controle de seus corpos, instaurando a nova era da intuição e da liberdade de expressão. A razão deixa de comandar o homem e ele abre novamente seus braços para a Natureza, abandonando todas as tristezas, doenças e angústias do processo civilizatório. O homem agora é feliz. Ele agora é livre! Número de frases: 21 Let's do the Samba! Chega-se a uma idade em que ter um carro é indispensável. Normalmente aos 18 -- para a maioria dos adolescentes de classe média ou alta. Alguns desavisados, ou por não pertencerem à classe média ou alta, ou por terem se dedicado a outras aprendizagens que não dirigir, adentram os trinta ou mais anos sem ter um carro. A situação é grave. Se a pessoa morar numa grande metrópole fará pouca diferença. Ela poderá utilizar metrôs ou ônibus de qualidade para se deslocar na cidade e sentirá falta de um carro apenas para viagens. Se o desavisado tiver a infelicidade de ser um desmotorizado numa pequena cidade, além de ter dificuldade de se deslocar para locais que não sejam casa /trabalho/casa, terá de enfrentar alguns desafios: * os olhares de surpresa ou curiosidade dos colegas de trabalho, que o consideram um alienígena. Além de ser algo muito incomum não ter um carro, há a situação desconfortável de terem de oferecer carona; * para as mulheres, é impossível ser perua sem ter um carro. Caminhar uma ou duas quadras com um sapato de bico fino não é para qualquer supermegaheroína -- é necessário ter verdadeiros poderes sobrenaturais, começando por a levitação. Ademais, não amarrotar a roupa nem desfazer o cabelo num ônibus é impossível. * só quem não tem carro carrega volumes para os 'paços fechados, como restaurantes e consultórios médicos: guarda-chuvas em dia de sol, sacolas, pastas, livros. Encher a cadeira ao lado de pertences mostra que você anda a pé. Ou seja, um desmotorizado pode ser reconhecido por o que carrega com si. Nem tudo são tristezas, porém. Quem anda de ônibus ou de metrô tem suas vantagens. Quando alguém compra um carro quase sempre ganha de brinde uns 4 kg de peso. Só quem não tem carro sabe o quanto caminha diariamente. Afinal, tomar um ônibus para andar apenas algumas quadras não vale a pena, mas quem tem um carro o tira da garagem. Além da elegância, a saúde do desmotorizado também agradece, pois exercícios fazem bem. Este é um argumento comum a favor de não possuir um carro, mas facilmente contestável, pois, teoricamente, quem tem um carro tem mais tempo e facilidade para realizar atividades físicas. Aí 'tá um ponto interessante: o tempo. Quem não tem um carro e anda de ônibus ou de metrô, ao contrário do que muitos pensam, ganha muito tempo! Principalmente em cidades pequenas, no caso de ser necessário utilizar apenas uma linha de ônibus para se deslocar ao trabalho ou ao 'tudo, ganha-se tempo livre na viagem. Ficar de 20 a 30 minutos sem nada para fazer raramente é possível no dia-a dia. O ônibus é o único lugar em que todos se dão ao direito de não fazer nada -- o período reservado ao deslocamento é totalmente inútil. De 'sa inutilidade surgem interessantes oportunidades de despender o tempo: -- olhar por a janela; -- olhar as pessoas; -- dormir (o ônibus é o lugar para dormir com tranqüilidade, pois não há culpa por não 'tar fazendo outra coisa); -- ler; -- 'crever (pequenos textos podem ser iniciados e 'truturados no deslocamento para o trabalho -- 20 min rendem um bom começo); -- 'cutar música; -- enviar mensagem de texto (os amigos não entendem por que chovem torpedos em suas caixas de mensagem em determinadas horas do dia ...) ou acessar a internet por o celular; -- conversar; -- fazer anotações; -- rezar. O princípio é o seguinte: o tempo reservado ao ônibus ou ao metrô é totalmente próprio, que pode ser utilizado da forma desejada, sem pressões. Justamente da limitação do 'paço e do tempo surge a liberdade de pensar e agir. Número de frases: 45 «É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado». O trecho da canção ilustra um comportamento social que virou cultura em vários nichos undergrounds carioca. O funk batidão, ritmo criado no 'tado do Rio de Janeiro, desde os anos 80 é exportado para o resto do País, porém em nenhum lugar conseguiu atingir tamanha aceitação como em seu próprio quintal. Eis que surge um carinha chamado Diplo para facilitar o trabalho do cansado DJ Marlboro. O marido de M.I.A, ano passado, fez a cabeça da ' gringaiada ' com o ritmo favelado garimpado dos morros. E agora, mais fã do gênero que nunca, assume mais uma de suas descobertas sonoras. É o grupo curitibano Bonde do Rolê, uma versão kitsch do sempre controverso batidão carioca e que 'tá divertindo de «tuia» a franja de muito indie por aí. A banda é engraçada e jogada, bem ao 'tilo do Cansei de Ser Sexy e sua fórmula bem sucedida da «despretensão pretensiosa». Em o som que sai das pick ups, «chupações» irônicas de riffs do rock gringo (Alice in Chains e The Darkness) e samplers dos hip hops «vem cá meu macho». Os vocais do Bonde são rasgados e intencionalmente 'catológicos para completar a palhaçada. A postura anarquista do «faça você mesmo e alopre na egotrip» funcionou primeiramente como uma instigante piada, agora é mais que isso, rende até cash. «Como tudo aconteceu muito rápido. Foi difícil se organizar de uma hora pra outra», afirma o DJ Rodrigo Gorky, que também declarou que tudo foi meio sem querer. «Era apenas uma brincadeira, sem intenção nenhuma. Só que tudo foi tomando uma forma gigante que não 'távamos 'perando», completa. Rumo à América Essa proporção extraordinária no rumo das coisas é paupável quando você visita a página do grupo no MySpace -- site de relacionamento do MSN. Está lá exposta uma agenda lotada de shows. E o incrível é que já tem apresentação agendada para o dia 12 de agosto em San Diego, na Califórnia. Detalhe que as datas anteriores a 'sa, contemplam lugares igualmente notáveis como Toronto, Vancouver, New York, Baltimore, Seattle, Portland, Los Angeles, San Francisco, Boston. «A gente ama os gringos e eles amam a gente», resume Pedro, ao ser perguntado se não assusta tamanha aceitação. Toda 'sa superexposição do grupo encontra em Diplo o principal articulador. O DJ acaba de lançar por o próprio selo (Mad Decent) um vinil do grupo com sete faixas. Quanto à importante parceria com o norte-americano, a vocalista Marina Ribatisk foi simplória. «Foi fácil, ele entrou em contato com a gente por o MySpace e daí rolou o convite para lançar o vinil e no futuro o CD do Bonde». Mesmo virando fenômeno na gringolândia, pode-se dizer que a banda não é muito conhecida no Brasil e ainda não teve a oportunidade de armar o baile por aqui. Segundo Marina os shows em terras tupiniquins 'tão devagar quase parando. «Temos um registro, no JUCA, dia 16 de junho e alguns ainda pra fechar, mas são poucos comparados com a agenda lá de fora. Queríamos fazer mais shows por aqui!», desabafa a jovem emergente de 21 anos. Para os produtores que curtem hypes e modinhas, fica a dica: mexam-se enquanto o novo ainda é novo. Com a palavra os fãs: «See you Aug 11 in Los Angeles!" ( Vejo vocês dia 11 de agosto em " Los Angeles) «I looove melo do tabaco." «Your music so subversive ... we love it!!" ( A música de vocês é tão subversiva. Nós adoramos.) «Bonde do role rule!" ( Bonde do Rolê comanda) «Yall are sooo HOT!!" ( Vocês todos são um tesão) «We love your sound, together with Diplo you are unbeatable!" ( Adoramos o som de vocês, junto com Diplo vocês são imbatíveis) * Número de frases: 46 mensagens extraídas do movimentado myspace do grupo (http://www.myspace.com/bondedorole) Porto nacional é uma cidade centenária do novíssimo 'tado do Tocantins, um lugar repleto de tradições e de forte apreço cultural, de onde saíram diversos músicos, pintores, atores, 'cultores e 'critores, tendo no nascido Amilton Pereira, mas conhecido como Pedro Tierra, um dos principais exemplos de 'sa «parição» cultural do município. A educação era outra marca da cidade, com grande contribuição das freiras e frades dominicanos, vindo da França, no final do século XIX, o elevou a fama de Porto e fez receber 'tudantes de várias cidades vizinhas e de outros 'tados, como Piauí e Maranhão. Atualmente a cidade vem perdendo um pouco de suas tradições, e culturalmente sobrevivendo das resistências de alguns fazedores de cultura, que mesmo sem muito incentivo, trabalham com muita persistência em prol da cultura da cidade. E é em 'se contexto, que vale ressaltar uma outra grande resistência, de uma cidade em que alguns ainda resistem à globalização, que seria impossível de se imaginar suas ruas sem as presenças das bicicletas e o que seriam de 'sas, sem as oficinas de consertos. De onde poderia se 'perar alguém para desempenar os «frizes», para acochar os» raios " e finalmente quem remendaria os pneus. É por 'ses e outros motivos que a oficina do Zé das bicicletas, localizada na Getúlio Vargas; pequena rua 'treita que desemboca no porto de Dantão; onde ancoravam os baletões vindos de Belém do Pará, resiste à famigerada globalização (das motocicletas e dos carros sofisticados). O ofício de consertador de bicicleta, um dos mais antigos da era industrial, mas, porém não é só na China que ele sobrevive, em Porto Nacional o comandante e tambozeiro Zé, entre o som dos tambores da «sussia» -- música genuinamente tocantinense trazida por os negros -- e os quadros das «magrelas», ele vai resistindo, com muita persistência, as medidas atrozes de um mercado virtual que nunca quis saber o valor real de uma bicicleta. Globalização e resistência do oficio José Alves do Santos, mais conhecido como Zé das bicicletas, abriu sua oficina no ano de 1956, e é com satisfação que ele lembra de seu primeiro trabalho, a primeira bicicleta que arrumou foi uma monark azul de uso feminino, de propriedade de Dona Eulina Braga, uma professora que foi grande referência na educação dentro do município. Zé afirma que naquela época sabia direitinho quantas bicicletas existiam na cidade, e que hoje isso é impossível de se ter uma previsão. Mas mesmo com 'se maior número de «magrelas» nas ruas da cidade, Zé afirma que o volume atual de trabalho não chega nem perto daquela pilha de bicicletas que se amontoava em frente a sua oficina 'perando a vez de serem concertadas. A oficina do Zé não foi a primeira oficina da região, mas sem sombra de dúvida, foi à única que resistiu ao tempo e às tempestividades do mercado. Passando adiante Zé não chegou a ter funcionários de fato, embora atualmente 'teja sozinho em sua oficina, no mesmo lugar há 48 anos, ele sempre teve ajudantes, o que ele prefere chamar de aprendizes, que com ele aprendeu o ofício de consertador de bicicleta, Zé se orgulha de se lembrar que em suas mãos passou 23 aprendizes, todos garotos, que tiveram ali a chance de algo próximo ao primeiro emprego, sendo que alguns atualmente 'tão com sua própria oficina, passando adiante os ensinamentos do Zé, o Zé Alves, o Zé do Tambor da Sússia, o Zé das Bicicletas. ( Número de frases: 17 Colaborou Elizeu Lira) Moda e política, embora não combinem e tenham graus de relevância e impacto opostos no cotidiano e na vida das pessoas, já andaram juntas, tempos atrás, quando a 'tilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, fez protestos nas passarelas para denunciar os desmandos da ditadura militar que vitimaram seu filho, Stuart Angel. Em o início da década de 70, Zuzu Angel já era uma 'tilista bastante conhecida no Brasil e no exterior. Seu filho Stuart, militante do MR-8, organização de 'querda brasileira, foi preso, torturado, assassinado e dado como desaparecido político no governo militar de Médici, em 1971, quando tinha 26 anos. A partir de então, ela iniciou uma luta ávida e destemida por a localização e recuperação do corpo de seu filho e protestou contra o regime militar com o instrumento de que dispunha, a moda. Denunciou através de suas vestes e de antológicos desfiles, como o realizado no consulado brasileiro em Nova York, no qual ela, que tinha os anjos como marca de suas confecções, devido a seu sobrenome, utilizou como motivo das 'tampas de sua coleção anjos machucados, feridos, sangrando. Em seus «desfiles políticos», os manequins desfilavam com vendas nos olhos e mordaças na boca. Sem perder tempo, fez denúncias à ONU, fez protestos até em aviões, aproveitando suas viagens e pediu apoio a artistas, intelectuais e políticos de 'querda. Há exatos trinta anos, Zuzu Angel morreu num 'tranho acidente de carro, no túnel Dois Irmãos (que posteriormente recebeu seu nome), no Rio de Janeiro, uma semana após 'crever uma carta a seu amigo, o compositor Chico Buarque de Hollanda, dizendo-se ameaçada e responsabilizando o governo dos militares, ou os assassinos de seu filho, como ela se referia a eles, por algo de ruim que porventura lhe acontecesse. Em o ano seguinte à morte da 'tilista, em 1977, Chico Buarque compôs em sua homenagem a bela música Angélica, em parceria com Miltinho, do conjunto MPB-4 (ver letra ao final do texto) e gravou-a em seu disco Almanaque, de 1981. Em um comovente artigo publicado em 2004 no «JB Online, Letra para uma mãe lutadora», Hildegard Angel, irmã de Stuart e atualmente colunista do Jornal do Brasil, conta como se emocionou ao 'cutar a gravação de 'sa música por o conjunto Quarteto em Cy, enviada para ela por as integrantes do grupo. Seu depoimento é tocante, principalmente quando se refere a um trecho da letra que diz: «Só queria embalar meu filho que mora na 'curidão do mar». O corpo de Stuart Angel nunca foi encontrado, tendo sido jogado ao mar, segundo relatos da época. Sobre 'se fato, ela diz que, anos depois, encontrou uma poesia feita por seu irmão na adolescência, parafraseando Dorival Caymmi, ao afirmar que «é doce morrer no mar». Diz também que, à época de seu desaparecimento, recebeu de um pai-de-santo a notícia de que ele se encontrava no fundo do mar, quando ela ainda alimentava 'peranças de encontrá-lo vivo. Ainda mais inusitado é o fato de que o pai-de-santo era o compositor Herivelto Martins. Esta página infeliz da nossa história foi registrada no filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, com roteiro de ele e de Marcos Bernstein (o mesmo de " Central do Brasil ") e produção de Joaquim Vaz de Carvalho, amigo de Stuart. Em o elenco, além de Patrícia Pillar no papel de Zuzu Angel, 'tão Othon Bastos, Nelson Dantas, Leandra Leal, Daniel de Oliveira, que interpreta Stuart Angel e Luana Piovani no papel da simpática Elke Maravilha (que, aliás, faz uma ponta no filme), a modelo preferida e amiga íntima da 'tilista, que foi presa por protestar em sua defesa, em episódio retratado na película. Relembrar 'se episódio é sempre importante, para que as gerações mais novas possam saber melhor quem foi 'sa mulher, pois a moda agora é 'quecer que 'tilistas sem talento que costuraram o triste destino do Brasil e modelos que desfilavam na Arena daqueles tempos, vestindo-se num 'tilo conservador e retrógrado, e que se mantiveram na mídia até bem pouco tempo, querem, agora, voltar às passarelas, pôr novamente as mangas de fora e posar travestidos de «prafrentex», como se dizia naquela época. Angélica (Miltinho -- Chico Buarque) Quem é 'sa mulher Que canta sempre 'se 'tribilho? Só queria embalar meu filho Que mora na 'curidão do mar Quem é 'sa mulher Que canta sempre 'se lamento? Só queria lembrar o tormento Que fez o meu filho suspirar Quem é 'sa mulher Que canta sempre o mesmo arranjo? Só queria agasalhar meu anjo E deixar seu corpo descansar Quem é 'sa mulher Que canta como dobra um sino? Queria cantar por meu menino Número de frases: 36 Que ele já não pode mais cantar Domá da Conceição bebeu nas fontes do rock e dos filósofos alemães para reencontrar seu porto seguro na música folclórica em Goiás Depois de exibir seu primeiro e único disco como um troféu, o cantor, compositor e violeiro goiano Domá da Conceição comemora outro feito na carreira de mais de 20 anos: ter exibido na França um documentário contando sua vida e obra. O curta Anjo Alecrim, homônimo ao CD de ele lançado há três anos, foi produzido e dirigido por Viviane Louise e recupera passagens importantes da vida e carreira do artista, um dos mais destacados representantes das folias de reis do Centro-Oeste. O filme foi exibido em Paris, em outubro do ano passado, na programação do Ano do Brasil na França. São 21 minutos rodados em película de 35 milímetros cuja trilha, assinada por o protagonista, ganhou prêmio de melhor trilha sonora no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), realizado em junho de 2005 por o governo 'tadual em Goiás Velho, cidade histórica que virou Patrimônio da Humanidade há quatro anos. Domá da Conceição conheceu Viviane na época em que buscava patrocínios via Lei Municipal de Incentivo à Cultura para gravar seu primeiro disco. Passados dois anos de conversas e planejamentos, o documentário foi filmado numa semana. Com textos do próprio Domá e da diretora, o roteiro mistura fato e ficção. As cenas repassam o início da carreira em Abadia de Goiás (vilarejo então ligado a Trindade, município a apenas 17 quilômetros de Goiânia), passa por a capital, de onde Domá iniciou a carreira em festivais, e volta às origens, no sítio da família em Abadia, hoje emancipada, onde Domá redescobriu sua matriz musical. O objetivo do violeiro e folião agora, conta ele, é lançar o documentário em DVD. Lindomar Alves da Conceição, ou simplesmente Domá da Conceição, chegou ao primeiro disco redescobrindo a vocação ancestral de sua música. Ancorado nos ritmos da folia de reis, catira, guarânia, do chamamé e da congada, Anjo Alecrim é uma reunião de peças de domínio público e composições próprias que Domá burilou ou mesmo recuperou depois de se desvencilhar da influência pop que o marcou por anos. O CD foi produzido por o violonista Luiz Chaffin, contou com bons músicos nas gravações e a participação da folclorista Ely Camargo, grande incentivadora do cantor, que canta com ele numa das faixas (Está Dito). Ele compôs quatro das 11 faixas do disco. Em os festivais da década de 80, comecei a tocar violão de 12 cordas depois que vi Jimi Page (guitarrista da extinta banda inglesa Led Zeppelin) fazer o mesmo. Tinha vergonha de falar que tocava viola caipira», confessa Domá. Era década de 70. Lindomar Alves da Conceição, então com 17 anos (hoje com 46), chegava a Goiânia na 'perança de seguir carreira musical. Em a bagagem, a cultura arraigada da viola e a voz marcada por as toadas que aprendera com o pai violeiro limpando roça em Trindade. A mãe de Domá, Olívia Maria, tecelã que também tem veia de foliã, ainda sobe aos palcos acompanhando os filhos. Cantor, instrumentista e compositor, Domá da Conceição iniciou a carreira em festivais de música em Goiás e outros 'tados. Essas apresentações traziam a marca de uma influência desconexa que mais tarde ele não reconheceria mais. «Bebi de tudo com vontade, de Bob Dylan a Iron Maiden», diz. Em a década de 80, em Uberlândia, onde Domá morou por um tempo, veio o primeiro safanão. Ele viu Juraíldes da Cruz e Genésio Tocantins, dos dois mais reconhecidos cantores e compositores populares do eixo Goiás-Tocantins, apresentando-se em festival da cidade. «Quando olhei para eles no palco, com aquelas roupas simples, violão na mão e sandálias nos pés, aquilo mexeu com mim, revela Domá. A retomada das folias e dos ritmos da infância veio devagar. Domá continuou sua peregrinação por os festivais durante os anos 80. Era o auge do rock rural defendido por Zé Rodrix, Tavito, Sá & Guarabyra, 14 Bis e outros. «Mas ainda usava a viola roqueira de 12 cordas. Foi em 'sa época que ganhei muitos prêmios em Inhumas (interior de Goiás), Minas Gerais e São Paulo», recorda. Abadia e Nietzsche Prêmios em festivais, no entanto, não significavam mais garantia de sucesso imediato como antes. Os festivais começavam a dar os primeiros sinais de 'gotamento. «Aí me frustrei, perdeu a graça. Comecei a beber muito, fiquei deprimido e voltei para a roça, em Abadia», relata, lembrando que o irmão (João Anacleto, o Nenzinho da Viola, que aprendeu com ele a tocar e hoje segue carreira solo com dois discos gravados) o ajudou a construir um «ranchinho» no local. Domá passou a receber visitas freqüentes da folclorista Ely Camargo. Foi com Ely que Domá da Conceição teve seu segundo e definitivo «insight». «Quando ela disse que meu trabalho era educativo, 'se termo me chamou tanto a atenção que comecei a sonhar com palhaço, criança e a cantoria de meu pai», afirma. A partir daí, Domá deixou o violão, que ainda o acompanhava no rancho de Abadia, pegou a viola caipira e começou a percorrer 'colas mostrando os ritmos tradicionais do interior. A tradicional folia de reis de Abadia de Goiás voltou a receber a voz rascante e a figura carismática de Domá. Em os shows, passou a usar as fitas coloridas que tradicionalmente enfeitam as folias e máscaras que ajudam a compor seu figurino único. De os périplos por as 'colas, surgiu a idéia do disco e outros convites para apresentações. Um de eles importante: o da Universidade de Brasília (UnB), onde Domá ficou como convidado por quase um ano, em 1999. Morou com 'tudantes e participou de atividades acadêmicas, inclusive debates de filosofia, além de divulgar a folia, catira, chamamé, congadas e outras toadas. A vida de eremita (ele ainda vive apenas na companhia de uma cadelinha e um gato vira-latas) levou Domá aos livros e à religião (passou a ser devoto da Ordem de Rosa Cruz). Goethe e Nietzsche, filósofos alemães, passaram a ser hábito de alguém que não passou da 5ª série. «Quanto mais leio 'ses caras mais me convenço de que preciso continuar tocando minha violinha», diz em tom confessional. Em as folgas, diz que gosta de ouvir música clássica. «De preferência Bach." A volta às folias, diz, é para valer. «Só apresentarei 'se disco quando puder colocar toda a banda no palco e com boa produção, é o que 'pero conseguir em 2006. Chega de improvisos», promete a si mesmo sobre novos shows. O cantor mandou algumas cópias do CD para Itália e Suíça e mostra-se otimista com a ampliação do 'paço da cultura popular. É tal a nossa saturação musical hoje em dia que não vai demorar muito para 'ses rituais terem 'paço cativo, inclusive nas rádios», arrisca, meio que sonhando. Número de frases: 58 A entrada de uma mulher de 70 (?) anos no palco provoca os primeiros movimentos. As pessoas se remexem nas cadeiras. Ela fica lá, 'tática. Assistindo a quem 'tá lá para assistir. Muda. Só olhando. Vem a moça, assiste à platéia, olha nos olhos de um, de outro, outro. Fala do Piauí e nos cochichos da platéia percebo que o texto é motivo de admiração. A autora é Arianne Pirajá, 'tudante de Letras da Universidade Federal do Piauí. Anote o nome de ela. Entra mais uma pessoa no palco, mais outra. Gente de todo jeito. Criança, velho, velha, moça, moço. Gente bonita e gente feia. Gente «comum» e gente «'quisita». Já entra aqui a primeira questão: 'quisita por quê? Por causa do cabelo? Por a expressão do rosto? Por nunca ter pisado num palco e 'tar ali, na maior tranqüilidade? As pessoas vão entrando e saindo do palco do Teatro Municipal João Paulo II sem trocar palavra. Estão ali apenas e tão-somente se expondo para nós, que fomos lá assistir. Mas elas nos olham tanto que é impossível não achar que eles 'tão ali porque nós 'tamos na platéia e eles querem ver o que 'tamos fazendo. E não o contrário, como seria o natural. Comecei a prestar atenção em algumas situações, no comportamento dos atores -- vale ressaltar aqui que são 40 pessoas, 'colhidas num teste seletivo no qual se inscreveram mais de 120, e a maioria jamais tinha pensado em ser ator, são moradores da vizinhança do teatro que simplesmente tiveram vontade de participar e encararam o desafio de trabalhar com dois diretores que não falam uma palavra de português, o belga-alemão David Weber-Krebs e sua assistente belga Sarah Vanhee. Fábio Crazy, do Centro de Criação do Dirceu, ajudou com a tradução. David e Sarah apresentaram In a Land pela primeira vez em Amsterdã e, naquela ocasião o diretor do TMJP2, Marcelo Evelin, imaginou que poderia ser interessante realizar uma montagem em Teresina, com a comunidade do bairro Dirceu Arcoverde. Após o teste seletivo, os novos «atores» tiveram poucos dias de ensaios, só o suficiente para captar a idéia dos diretores; que é mostrar pessoas interagindo com o ambiente em que vivem, sem interferências externas. Como laboratório, David e Sarah viajaram por o interior do Piauí -- passaram por Oeiras, Parnaíba, Luís Correia e arredores de Teresina -- captando imagens de pessoas e seus lugares, o quintal de suas casas, suas janelas, suas salas. O comportamento dos «atores» em cena me lembrou cenas de uma rua, ou uma praça, ou o mercado ali mesmo no Dirceu; mas que poderia ser qualquer lugar. Você não conhece todo mundo, passa por as pessoas e não as vê. Mas também vi relações sendo 'tabelecidas -- e peço licença aos diretores para minhas divagações. Me chamou a atenção o menino andrógino que entra, encara a platéia e vira de costas, passando a encarar um pequeno grupo de pessoas que eu percebi como uma família -- pai, primo, avó, um ou outro amigo, talvez. Enquanto todos olham para o menino, o ator que -- na minha cabeça -- é o pai, desvia o olhar. Uma mulher que 'tá na platéia sobe no palco e fica ao lado do menino, o resto do grupo sai de cena, ficam só os dois. Alguns passos juntos, ele se distancia, sai. Ela vai depois. O que você percebe? Arrisco dizer que vi uma família confusa, com um adolescente gay em casa, cujo pai se recusa a aceitar e uma mãe que fica ao seu lado até quando ele resolve ir cuidar da própria vida. Mas 'sa é a minha interpretação. A amiga que 'tava ao meu lado não viu nada disso. Em outro momento, outro amigo percebeu que a idosa e depois o idoso que ficam sozinhos por longos momentos no palco podem representar a solidão trazida por a velhice. Isso eu não percebi, mas faz muito sentido. Por cerca de 50 minutos, os atores entram e saem do palco em completo silêncio. Cada um vivendo a sua vida ali, sem conhecer o outro, sem conversar, como qualquer um de nós ao passar por uma rua, ou praça, ou mercado onde não tem ninguém conhecido. Depois voltam, um a um, dois a dois, até que todos 'tejam no palco e se dêem as mãos. Um largo sorriso no rosto. Nós aplaudimos, eles aplaudem. Quem 'tava assistindo? Número de frases: 51 Parkour, também conhecido como Le Parkour, é uma disciplina onde os praticantes -- conhecidos como traceurs, ou traceuse, no feminino -- usam seu corpo para passar obstáculo de uma forma rápida e fluente. Em o Parkour você aprende técnicas desde como subir um muro, até como pular de um lugar alto, porém o parkour Não É Um Esporte De Pular Prédios. Ele consiste num homem correndo de alguém / algo e nenhum obstáculo pode pará-lo, mas, ele não é só isso, além de passar os obstáculos, você deve executar os movimentos da forma mais natural possível usando o obstáculo como se fosse parte do seu corpo. Vale a pena ressaltar que você treina o Parkour para você mesmo, você não faz movimentos para impressionar outras pessoas, até por que, isso pode resultar em sérias quedas. Quais os riscos físicos? O Parkour se torna uma disciplina que requer muita concentração e dedicação, devido ao fato de que uma pessoa pode sofrer sérios machucados caso execute uma técnica errôneamente. Certos movimentos necessitam de muita concentração e dedicação para serem executados, é preciso treiná-los antes, e quando o praticante adquire confiança no seu corpo e na sua mente, passa a executá-lo. Podemos pensar num iniciante que tenta executar algo que 'tá acima de seu domínio, em 'te caso, dependendo do risco do movimento, ele pode até morrer. É importante no Parkour ter objetivos principais, e mantê-los acima de sua aparência, afinal, o Parkour é uma luta contra você próprio, isso que torna o Parkour uma disciplina tão cativante. Movimentos? Movimentos ou técnicas é como se chama os modos de se passar por um obstaculo. Estes movimentos são muito variáveis, e é recomendável que o traceur treine a técnica básica do movimento para depois executar numa run. A repetição é muito importante para evitar ferimentos, e o traceur deve ter consciência de quais são seus limites, de oque pode treinar. As vezes uma técnica ajuda a execução de outra. Run? O Run é a «alma do parkour». Em ele você aprende como usar todas as técnicas que você aprendeu. O Run são dois pontos, A e B, você corre do ponto A ao B, atravessando todos os obstáculos que encontrar por a frente. Em uma Run você aprende a ter maior visão de onde suas técnicas podem ser aplicadas. Imagine uma pessoa que treine as técnicas por anos, porém, nunca fez uma Run, e no momento, tenha que fugir de algo. Ela com certeza em certos momentos, vai ter de parar para pensar em oque executar para passar certo obstáculo, pois ela ainda não desenvolveu a habilidade de imaginar os movimentos. Esse é um dos motivos por o qual uma Run é importante no Parkour, você treina técnicas e usa elas na Run, assim você pode passar obstáculos facilmente, rapidamente e naturalmente. Como surgiu? O Parkour surgiu na década de 80, na França. David Belle, usou inspirações no seu pai, um dos combatentes na Guerra do Vietnã, que usava alguma das técnicas do Parkour (que naquela época não possuia 'te nome) na guerra. David Belle então adptou 'sas técnicas e as batizou «Le Parkour» (O Percurso). Após isso, ele treinava a sua disciplina, e com muita dedicação e tempo, foi reunindo pessoas. Mais tarde, ele apareceu em várias reportagens na mídia, então o Parkour passou de desconhecido à uma disciplina praticada no mundo todo. Existem competições? Essa é a parte legal do parkour, Não Existem Competições, você apenas compete com você mesmo. O Parkour se baseia na superação de limites, depois de um bom tempo treinando, você consegue coisas que antes achava impossível. O Parkour também é a liberdade, você aprende a interagir com o ambiente, e você se torna livre. Duas frases que acho importante para completar 'te tópico: «É como se seu corpo 'tivesse ficado sempre no piloto automatico, aí você descobre pela primeira vez que é capaz de controlá-lo». «É ridículo procurar liberdade e acabar numa cadeira de rodas». O que é preciso para treinar? Outra coisa legal do Parkour é seu custo, não é necessário gastar dinheiro com acessórios caros. O que você precisa é de um bom par de tênis, uma calça e camiseta leves, e muita vontade de aprender. Mais tarde você até pode comprar um tênis mais sofisticado para melhorar sua performance, mas no início não é recomendado. Uma pergunta freqüente entre iniciantes é sobre utilizar ou não luvas. Não é proibido, mas também não é recomendado, quando você 'ta com as mãos «nuas» você tem melhor controle dos seus movimentos. Vale mais a pena passar a fase de dor, e 'perar suas mãos calejarem. Outra detalhe é que o Parkour é uma disciplina totalmente independente de professores ou instrutores, o interessado deve procurar alguem que ja treine para conseguir algumas dicas, ou procurar dicas na internet. Filosofia? Sim, o Parkour não é só composto de movimentos. Por trás de cada movimento há uma filosofia de porque executá-los. O Parkour não foi feito para impressionar outras pessoas, ele foi feito por motivos de que cada traceur deve buscar o seu. Acrobacias não são Parkour, fazem parte de outras atividades como o Circo Acrobático e a ginástica olímpica. Muitos praticantes de Parkour o fazem por conseguirem, mais sempre procuram fazer a distinção entre uma acrobacia qualquer e os elementos do parkour propriamente ditos. Existe 'ta diferenciação porque no parkour geralmente opta-se por aquilo que é mais eficiente ao inves do que é mais performático. Sempre supondo que a meta é se locomover da maneira mais eficiente e rápida possivel. Como posso começar? Antes de nada, você vai necessitar de um preparo físico, levando em consideração que seu corpo será muito exigido durante a pratica. Outro detalhe importante: os alongamentos e o aquecimento antes do treino. Após faze-los, você pode treinar as técnicas que 'tão na nossa seção de tutoriais. Para mais detalhes veja o tutorial de como começar. Lembre-se, o parkour requer muita dedicação, e não tente fazer o que você não tem certeza que consegue. Segurança é mais importante que beleza. Número de frases: 59 Texto e mais no site da ABPK A Lei secreta da Narrativa do Livro Invisível de Vicente Franz Cecim Por Carlos Pará Um Livro para Todos e para Ninguém ... Atravessar o que nos nega, chegar ao sim. E é assim que tu verás um S em 'tes dias cegos É assim que a Viagem a Andara começa. Começa antes do texto, antes do livro, antes de tudo, começa com uma negação da negação. Atravessar o que nos nega. Nossa vida não pode ser mais uma pedra da muralha psicológica construída logicamente para nos cercar com o falso imaginário que nos r-odeia. A luta em favor da liberdade de poder ser si mesmo no mundo reproduz-se na 'critura do homem que 'tá a caminho de conquistar o seu poder próprio de ser em 'ta vida. Andara é uma geografia interior feita de ossos e sonhos, carne residência de fogos imensos onde criaturas brotam dos ecos, da voz e dos ossos, das folhas e de tudo o que é elementar. A 'curidão, o medo, o temor e tremor não intimidam o 'critor começar assim, com uma negação para chegar ao sim e a sua Voz 'panta fantasmas, 'panta nossa atitude de se afundar cada vez mais na 'curidão dos desejos ex-óticos, porque " Nós somos homens invisíveis / Depois de nascidos, visíveis / Entre o início invisível e o invisível final, nós somos os homens visíveis. É na in-transitoriedade que vivemos. A Existência é um intervalo entre o nascimento e a morte, entre a palavra e a imagem, entre o silêncio e o som, passagem íntima do dia para a noite ou da noite para o dia através do verbo passagem súbita da luz para o 'quecimento. Por que 'crever se nada fixa-se no mar da imutabilidade e Tu ainda 'creves um livro com tinta invisível. Por que fazes isso? E o que te faz s [urgir do meio do Nada ou melhor, se lançar para dentro do Nada, fora de si? Somos feitos de imagens ('tofados de sonhos) e criamos imagens para existirmos, para existir então é necessário que alguém nos veja além das aparências, pois no caso saberemos que existimos e não existimos. No caso do «romance» de Vicente Franz Cecim sua narrativa é uma luta muito obscura travada entre toda a narrativa do livro invisível em encontrar Andara dentro de si numa possibilidade de lugar coletivo. Andara existe e não existe assim como todas as coisas, o 'tar-aí é luta na qual a imprudência de Franz Cecim e o que há em ele de verdade humana, de des-mistifica ção, de alquimia, de iluminação, de aptidão obstinada por a 'critura para ficar 'curo, ausente, disperso, na unidade da narrativa reunir seus fragmentos que o tempo leva para des-construir e a unificar no vôo da asa e da serpente, nos animais da terra, nos jardins e a noite, na Terra da sombra e do não, no Diante de ti só verás o Atlântico, nO sereno, nas armas submersas, no Silencioso como o Paraíso, Ó Serdespanto, no que chamam de romance, é novela kafkiana, é poesia é prosa é teatro é vertigem é viagem utópica é linguagem é vôo é reinvenção é e não é o que achamos que seja, a dialógica da alquimia transformando a matéria do silencio obscuro das coisas impostas por a censura, mudar, mudar, mudar a solidão, a saudade, o sentido da realidade e a direção do sonho de uma terra inconsolável e a sensação de criar um novo mundo, gritar o sonho mais profundo no grito de um pássaro mitificado na totalidade de sua poesia, breve início quebrando as leis do medo e assim podemos nos comunicar com todos os animais da terra e outros seres ou coisas, 'tigmatizados numa literatura de não-viagem a buscar outras palavras não reveladas, colocar palavras de ordem nos muros invisíveis de 'ta cidade e a sua voz, muda o cuidado do tempo que leva para nos ruir. «As palavras de Ordem que se impõem aos transeuntes é 'ta: que Seja excluída toda alusão a um objetivo e a um destino! Andara!!!! Mudar constantemente de direção, ir ao desconhecido, ao in-'perado, ao in-audível, ao in-visível, ao in-tocável, ao sonho, ao vôo, ao retorno, à v ida evitar qualquer objetivo ou classificação num movimento de in-quieta ção e des-'pero que se transforma em e retorna ao Vazio, desse Vazio que sua obra, naturalmente é uma obra que vai exaltar e denunciar, atravessar e preservar o mito in-decifrado do autor-obra-de-arte, que ele vai preencher o que o preenche. Em o começo, antes de qualquer empreendimento ou decisão de se movimentar por 'ses caminhos em que ele acredita atingir a plenitude ou até mesmo o sofrimento, pois o põe em contato com sua 'pontaneidade, a integridade e a desintegração de seus sentimentos e uma adesão quase completa à continuidade das coisas que já se cristalizam, em ele e em sua obra, como Andara, no momento em que a sua vontade se dispõe a organizar a sua riqueza, suas descobertas, 'sa re-velação é des-vendada por partes, numa 'calada 'catológica, ontológica e fragmentada q apresenta seu Universo por partes, daí a sua Unidade num Livro Invisível, que já se desdobra em Ó Serdespanto e em K-o 'curo da semente e assim sucessivamente em outros mistérios territórios. Andara é encontrar o mapa invisível, o território da linguagem, a geografia interior feito de ossos e sonhos, a carne a residência de fogos imensos onde brotam criaturas da voz e dos ossos do demiurgo. O autor pede que sua narrativa seja lida ouvida como um «todo contínuo» e faz seus personagens s [urgirem com outros nomes ou desconhecidos do eram antes, em que não há experiências nem fatos e os personagens que ressurgem vivem num uniVerso que foge a qualquer sentido, inclusive o interpretativo, como é o caso do Sargento Nazareno. ViVer o que se lê ouvir de olhos fechados ultrapassa o entendimento. Andara é para ler como quem sonha com toda a razão, certamente. A Justificativa do existIr, a utilidade e a necessidade do indivíduo para o bem comum não interessa mais ... Ninguém pode pôr-se em 'se caminho com a intenção deliberada de atingir Andara, ninguém pode rumar para 'se lugar, e aquele que decidisse fazê-lo só chegaria por acaso, um acaso ao qual 'taria ligado por um acordo difícil de entender. As palavras de ordem são, portanto: silêncio, descrição, abandono, 'quecimento, abertura fundura e o desejo de nada pretender, não-ser é a questão, acompanhar o risco não linear da cartografia humana. «Há um real submerso no homem que a literatura linear, de mera denúncia da disparidade social, não alcança e quase como o grande visionário, o poeta Novalis, Vicente Cecim também confirmaria que je poetisher, umso wahrer ": quanto mais poético, mais verdadeiro». Leo Gilson Ribeiro / «O universo de Vicente Cecim, criado por inspiradas metáforas e alegorias». Aproveitemos para ver-me os E então ir 'crevendo outros livros, em 'tes jardins, todas 'sas asas, para que um livro vá se fazendo Mas não em si. De ele não se verá nem sombra das palavras Em o papel. Viagem a Andara. O não-livro. Não existe, não existe Literatura fantasma. Não foi 'crito. Enquanto texto, tudo o que teremos de ele é um título. E a pergunta seguinte é: E o que são livros, os livros que se 'creve Livros de Andara. Livros-miragens. Pois uma vez 'crita, da vida só resta a alucinação literária. Situação dos livros de Andara: condenados à visibilidade para que Viagem a Andara, o livro invisível possa existir como pura ilusão. Andara, a viagem ela mesma, nunca será 'crita direta- Mente. Ela 'tá começando assim «Andara é perto e longe. Andara 'tá dentro de ti. E fora. E dentro de mim Diz a voz " Franz Cecim talvez não seja vítima da ilusão propriamente incompreendida, nem de uma possível relação problemática com Maya. Vítima do imediato, do transitório é o passageiro que leva toda a sua história na sua 'tranheza. Onde ocorreu 'sa experiência, em que tempo, em que mundo, tu viveste realmente o que foi 'crito, sonhar é viver? Nenhum autor nos deve nenhuma justificativa, nenhuma verdade 'clarecida, nenhum interrogatório, nenhum processo investigativo e por isso nenhuma censura. Ele seria mesmo incapaz de nos dizer com palavras o que 'creveu com palavras, sangue ossos sopro e um punhado de substâncias químicas Ele não 'creve só para dizer Andara é «Ter um lugar aonde ir». O começo da viagem no «A asa e a serpente» é o relato da aparição de uma assombração militar em Santa Maria do Grão. Em uma história totalmente humana, demasiada humana, " a uma realidade que traumatizou sua geração: a época do grande medo, que se tornou assombração política e fantasma histórico na cidade do Grão ou em qualquer outra parte do Brasil após 64. Mais firmeza ganharia a fábula se maior contraste houvesse entre o plano prosaico da narração e o plano lírico da expressão poética, conciliando o sonho e a alegoria. Com a dominância do lado onírico, ganhou por certo o lirismo, que transforma a narrativa numa assombração literária impetuosa. Sujeito e objeto de metamorfose, o texto se interioriza, e o fantasma da História tende à história fantástica «como alude o filósofo». «Tenho pressa de relatar o que não sei». Escrever é descer às profundezas dos antigos registros de uma vivência anterior interior e qualquer coisa encontrar que lhe dê sentido significado para existir perceber e poder entrar na memória do Universo, emergir do vazio, da eterna condição inexprimível do verso, substância múltipla e transitória do Universo e ao retornar transfigurado não ter mais palavras, só o imenso olhar, imenso como a noite. É certo que Andara é Terra da sombra e do não, é uma selva e uma noite de 'curas árvores onde não faltam mistérios, uma floresta de símbolos onde podemos ver sem os olhos e passar entre os homens que dormem com um rosto de pedra. Em o vento passam os prisioneiros do infinito, as maldições do pó. Andara é um dia na vida do homem sem memória, uma plantação de urtigas, uma cor rente fria que leva corpos para parte alguma, mas aquele que não temer a sua obscuridade e a sua irrealidade aparente encontrará dentro de suas entranhas uma exploração que não destrói a Natureza, uma realidade sondável, volúvel e selvagem, no seu 'tado bruto, desconhecida, impura, uma realidade substancialmente ou existencialmente feita de sangue, ossos, ecos, vozes, imagens, movimentos, inércias, ar, fogo, terra, água, vegetal insone, minerais profundos e principalmente, Animal. Onde quer que se encontrem o teu mistério, os venenos do ar, respira sem medo. Adiante te 'pera um rosto de areia. Relógios de pedra afundam em nosso sono. Em o negro que se ¬ gue às luzes que se apagam, no movimento das águas frias, nos lábios que beijam a palavra mais cruel do idioma, há incêndios nas florestas, animais que buscam a aventura, rigorosos e de ¬ sesperados, enquanto queimamos 'ta cabeleira ao vento 'tre ¬ mecidos de beleza. Outra observação que me vem a lembrança que podemos identificar o Livro Invisível são as palavras do nosso velho mestre Francisco Paulo Mendes, no seu artigo «Notas sobre a Poesia Contemporânea» publicado na Revista Encontro em 1948 onde já definia o sentido da poesia como uma atividade mística a superar os limites da matéria e dos sentidos e a procurar conquistar um conhecimento fora das vias normais do conhecimento racional e sensível para transmitir por a poesia uma verdade supra-sensível e supra-racional elaborado nas fontes do ser, em sua alma, o seu próprio fundo substancial. «O poeta deve praticar uma exploração impiedosa e minuciosa da sua vida interior, da sua subjetividade que o instinto poético leva a verdade. Uma exploração que não somente abranja os 'tados da consciência e de vigília, mas que vá além -- trabalhar dentro de uma mina literária, sobre os 'tados semi-conscientes, vagos e oníricos. Exploração extensiva e intensiva que atinge as zonas que ficam fora do campo de consciência e que consiste em captar as diversas formas da vida da atividade dissimulada e abismas do nosso «eu», correntes ilógicas de pensamentos, idéias absurdas, desejos obscuros, sentimentos aberrantes, os sonhos e os delírios, toda uma confusa mas fervilhante vida subterrânea do nosso ser. De tudo isso se apodera o poeta e para ele adquire um significado e constitui uma linguagem inteligível que dá o sentido do Universo. Abandonando-se as vagas do pensamento não discursivo, deixando-lhe levar por as formas inferiores da vida afetiva, por os 'tados oníricos e até mesmo por o historicismo e por a alucinação, entregando-se sem opor resistência a forças desconhecidas e irracionais e envolvendo-se na agitação de uma atividade semi-consciente conseguirá o poeta atingir o íntimo das coisas porque a 'sência de elas se acha refletida, «presente», no seu 'pírito e, sendo assim, por uma exploração extensiva e intensiva do eu, elas entregarão-se-e desvendarão-se-». Sim, o poeta Vicente Franz Cecim narra sua existência em 'tes sentidos. Seu 'tilo veio com o milagre de uma prosa poética, musical, sem ritmo, sem rima, bastante maleável e bastante sacudida para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos 'pelhos e os seus duplos, aos sobressaltos da in-consci ência e da memória ancestral, assim como também sonhou Baudelaire, em seus dias de ambição, sonhou com 'sa forma bastante lúdica, ao aplicar à descrição da vida moderna, ou antes, de uma vida moderna e mais abstrata o procedimento que ele aplicara na pintura da vida antiga, tão 'tranhamente pitoresca. Andara é mais geografia interior feito de ossos e sonhos, a carne a residência de fogos imensos. É a narrativa de uma vida secreta desvelada por o autor. Agora, ele só conhece 'se caminho além do grau zero da 'crita carregando um cadáver nos ombros? Partir ímpar de um Nada criativo em que seu rastro, a 'crita, cenário de palavras reunidas ou de marchas militares absurdas para um público de fantasmas, atravessou todos os 'tados de uma solidão progressiva: no começo, o olhar, depois a dor de arrancar seus olhos com o bico de um pássaro de presságios fatais e jogar fora seus medos, para sentir, a ausência. Seu 'tilo é produto de um surto e de uma intenção. Movimento de negação a impotência de completá-lo num lapso de tempo, e fazer da Literatura herdada de seus antepassados que não encontraram a pureza em 'te ofício a não ser na ausência de todo o signo, propor enfim o cumprimento desse sonho órfico: um 'critor sem 'critura. A 'crita invisível, último episódio de uma paixão da Literatura, que segue folha por folha a dilacera-se da floresta humana, demasiada urbana. Mas a lógica interior da concepção impõe-se por si mesma, cada vez mais. A constante liberdade da excitação foi acelerada no surgimento de Andara, sua natureza determinada, constante descida para a morte onde surge o princípio de tudo. Linguagem consistente, profunda, carregada de mistérios, dada ao mesmo tempo como sonho e como ameaça que provoca os sentimentos existenciais atados no interior do vazio de toda narrativa que o 'critor e o leitor fatalmente encontram em seu caminho, e ele tem de olhar, enfrentar, assumir, sumir, des-aparecer e que agora, jamais poderá destruir sem destruir a si mesmo como autor. Há trinta anos que toda a sua 'crita é assim um exercício de repulsa em face de toda a repressão da Literatura como forma-objeto de consumo num modo de circulação socialmente «privilegiado». Circulação sem depósito fiel, concurso ideal de um 'pírito universal classista e de signos decorativos, suspensos sem 'pessura sem peso sem vida, sociais, artificiais, sem responsabilidade, não com os outros, mas principalmente com si, enganar não os outros, mas a si mesmo é a pior mentira de uma literatura que se prostitui como autor. Pelo menos em ele caberá toda a realidade de um rumor de mundo que se pretende ignorar. Estes das luzes e das sombras. Tudo se dá aqui, e não lá, onde se prosta, aspirando e expulsando como um pontapé no cú o vapor dos venenos cotidianos, o leitor impossível de tocar de outro modo, à traição. Com 'tas mãos. As mesmas que revelarão uma última porção de terra fértil na palma, depois que o último homem houver passado, distraído, olhando os pés que vão porque querem ir em 'te texto que fala de uma tarde dada ao acaso. O morto voltou numa tarde, então começo por 'sa tarde. Também retornam os guinchos e os animais que fazem uma careta cômica para a origem do bem e do mal. Esta é a mesma história. Como o verão. Eu falo do tecido fino onde a vida dá sentido à vida. Esse é o relato. Extrair um militar sem vida, um tanto 'tragado e mutilado depois que o matou pela primeira vez. «E sujo de terra depois que eu o enterrei com a ajuda de um cortejo de miseráveis e infelizes criados por a imaginação, ou sonhados, ou é sem dúvida a memória. Ou dos quais apenas me lembro desde que me dispus a falar de improviso, sem nenhuma realidade sob os pés. E no entanto eu não minto. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * " Tenho pressa de relatar o que não sei. Por isso vou narro logo o que sei, sem 'colher as palavras. Quero chegar naqueles trechos mal-iluminados onde a intenção se perde e uma voz passa em meu ouvido como cascos selvagens num caminho recém-descoberto por os olhos. O que ele quer dizer com isso, pergunta-se. Basta de novos enigmas, gritam. E atiram bosta na minha cara. O Sargento Nazareno 'tá regressando para começar a segunda vida, na qual ele recusará todo o horror e as cruzes de vidro que o dia de ontem alimentou no seu ventre com rações de violência. Não teremos mais seus dentes à mostra. Eu falo de um homem que dirá adeus às cidades e penetrará no rio com vegetais vermelhos, em busca da felicidade, com uma provisão de mistério em cada lábio. Cecim alude, parece-me, a uma realidade muito próxima que traumatizou sua geração: a época do grande medo, que se tornou assombração política e fantasma histórico na cidade do Grão ou em qualquer outra parte do Brasil após 64. Mais firmeza ganharia a fábula se maior contraste houvesse entre o plano prosaico da narração e o plano lírico da expressão poética, conciliando o sonho e a alegoria. Com a dominância do lado onírico, ganhou por certo o lirismo, que transforma a narrativa numa assombração literária impetuosa. Sujeito e objeto de metamorfose, o texto se interioriza, e o fantasma da História tende à história fantástica. Benedito NUNES na apresentação do livro " A asa e a serpente " A narrativa começa onde a razão e o pensamento que é o seu instrumento, não vão. A narrativa é anti-heróica, pois o herói da história é um morto que não tem vida própria e permanece vivo como fantasma, assombração, fantoche nas mãos do 'critor. O sargento voltava. E carregava seu caixão na cabeça. Ia entrando, com passos exaustos, por a rua que o levaria à sombra dos monumentos irônicos que 'piavam a vida na praça de Santa Maria do Grão enquanto os olhos ocultos o viam chegar. E não respire, não viva. Ninguém quis acreditar no que viu. Ele 'tava acabado como um morto que segue em busca de uma 'trela, naquele fim de tarde de resto igual aos outros, lento, parando para se deixar engolir por a noite. Assim o sargento Nazareno se apresenta a cidade do Grão, regressa à vida, como um animal É verdade que a narrativa em geral, relata um acontecimento excepcional que 'capa às formas do tempo cotidiano e ao mundo da verdade habitual, talvez de toda a Verdade. «A narrativa não é o relato do acontecimento, mas o próprio acontecimento, o acesso a 'se acontecimento, o lugar aonde ele é chamado para acontecer, acontecimento ainda por vir e cujo poder de atração permite que a narrativa possa 'perar, também ela, realizar-se. Franz Cecim livre de entraves embora fixado no seu livro, anda em direção do lugar imaginado que parece prometer-lho poder de nomear, de falar e de narrar, com a condição de ali des-aparecer. Aparecer e desaparecer é o paradoxo de todo o 'critor. Essa é uma das 'tranhezas ou melhor, das pretensões da sua narrativa. Escrever, sonhar um Não-Livro e ainda com tintas invisíveis, para ouvir com os olhos e ver com os ouvidos, para ler como quem sonha solitário até ficar 'curo como o verbo, velho farol da existência, encontrar-se-desencontrar se em Andara, revelar 'sa realidade é ocultar-se em si mesmo, é um des-velamento que tenta abolir a razão do ato de 'crever. A vida ama ocultar-se, algum lugar é nenhum lugar, encontro tão imponente e tão particular que transborda em todas as páginas em que ocorre, não é dentro do livro que ocorre a história, é fora, distante do sujeito que narra, todos os momentos em que quisermos situá-lo, e parece ter acontecido antes mesmo que o livro começasse. Mas também de tal natureza que só poderia acontecer uma única vez, com aquela única pessoa, no futuro da obra e naquele lugar que será a obra transformada por cada leitor, igual ao rio de Heráclito. Infelizmente um livro, que interroga os limites da existência e da literatura, apenas um livro de uma literatura fantasma, se é assim que podemos classificar em nosso mundo categoricamente conceitual. Para entender o que acontece é preciso compreender 'tas palavras de Raimundo Lúlio: Deves saber, meu filho, que o curso da natureza é transformado, para que tu ( ...) possas ver, sem grande agitação, os 'píritos que se evolam ( ...) condensados no ar, sob a forma de diversas criaturas ou seres monstruosos que vagueiam de um lado para o outro como nuvens. Tudo vem como sombra do Um e para o Um volta como sombra. Aqui, na breve Residência, a vida, imersos em 'ta luz cheia de penumbras em que somos e não-somos, pois permanecemos sendo lá no Um enquanto aqui até parece que somos, as sombras 'tão no Vários, e se tornam coisas ( O 'curo da semente, livro de Andara.) Número de frases: 164 A narrativa é movimento e As festas na Universidade Federal de Santa Catarina sempre foram um atrativo para a comunidade 'tudantil e também para a «comunidade» das adjacências. Creio que o fator que melhor contribui para o sucesso de 'sas festas é o tamanho do campus, que, 'tando entre os poucos do país com 'sa característica, agrega a maioria dos cursos. A distância entre o Centro Tecnológico e as áreas de Humanas (claro, se medirmos em metros) é mínima, coisa de poucos minutos. Em os bons tempos, das boas festas, que (para mim) se resumem aos anos de 2001/2002, às sextas, e às vezes, aos sábados, pipocavam festas nos diversos cursos da UFSC. Não raro, peregrinávamos entre as festas. Tinha festa na Saúde, na Filosofia, na Arquitetura, no Sócio-econômico e no Básico (um dos primeiros prédios da universidade onde, «antigamente», todos cursavam um curso básico antes de se aprofundarem em determinada área). E o mais legal é que todas as festas tinham banda tocando. Foi um período feliz para as efêmeras «bandas universitárias». Comprovando vocação que ia além de 'sa fronteira, foi possível, em 'sas festas, ver a ascensão da Pipodélica e a consolidação d' Os Ambervisions, bandas que, com a Repolho, melhor representam Santa Catarina no cenário nacional. Muitas coisas mudaram de 2001 pra cá e a UFSC passou por um período de 'tagnação, no que dizia respeito a festas. Entretanto a coisa parece 'tar em processo de modificação. Desde meados de 2005 elas vêm voltando, de forma tímida, se centralizando em Centros Acadêmicos ou as reuniões da Rádio de Tróia, mas demonstrando, até, um novo fôlego para o já tuberculoso movimento 'tudantil. Se se fala de 'tagnação, uma parcela disso pode ser creditada à administração da universidade. A partir do ano de 2003, se tornou muito complicado realizar uma festa dentro da universidade. A burocracia vai longe: autorização do centro, autorização da reitoria, autorização dos bombeiros etc.. Sem falar, principalmente, na má vontade mesmo com que se encara tais propostas em cada uma de 'sas instâncias. Mas, se houve, em 'se período, restrições a festas, feitas inclusive por motivos políticos, a justificativa sempre girou em torno da segurança ameaçada dos participantes de tais eventos. E segurança, entenda-se aqui, como sendo ameaçada por os «malacos» da Serrinha. Continua não sendo fácil, em termos de burocracia, promover uma festa dentro da universidade e também, agora com mais vulto, o problema dos arrastões voltou à tona. Seja como for, as notícias desses acontecimentos permanecem, na medida do possível, abafadas, assim como tantos relatos de assaltos e 'tupros não confirmados. A segurança, em última instância, cuida do patrimônio. Quanto ao patrimônio humano, existem outras maneiras de se operar. Polícia no campus já é normal. Entretanto, 'sa não é a questão central. O que vemos na UFSC, atualmente, tem origem numa complexa série de eventos e 'tratégias. Sem ter para onde se expandir fisicamente a universidade cresce para cima e põe prédio em cima de qualquer árvore menos precavida. O seu entorno não é diferente, a 'peculação imobiliária na região da UFSC, como em toda a ilha, é enorme e insana. A cada ano, aumenta o número de prédios em 'sa região, direcionados, sobretudo, para os 'tudantes e a população dos morros é «empurrada» mais para a cima. Esse empurrão afasta cada vez mais a universidade da comunidade local (mas pode ser também o 'topim de uma crise que sabemos nacional). Outro fator que colabora em 'sa «política de higiene» tem a ver com a administração municipal. Florianópolis foi, e é, vendida país afora como cidade-paraíso. Entretanto, se era possível fazer um paraíso, pouco se fez além de propaganda e do favorecimento de construtoras, o que resultou numa elevada taxa de povoamento, que não pára de aumentar de forma desordenada. Diferentemente do que planejavam a prefeita e o prefeito, o fluxo migratório atrai não só investidores, mas também trabalhadores em busca de melhores condições de vida, que acabam não encontrando nada e são «absorvidos» por o continente, indo parar em Palhoça ou em outras cidades da «grande Florianópolis», distantes daquilo que haviam sonhado. E o que encontramos no paraíso? Uma miniatura, ou melhor, uma maquete de grande centro com cabeça de província. Em função disso, a população começa a ver os limites entre «morro» e «asfalto», cada vez mais 'treitos (o que é engraçado em Floripa porque em função do maciço que ocupa sua porção central, vemos muitos» casões " nos morros). E o que fazer em 'sa hora? Chamar a polícia para que seja possível realizar uma festa? Contratar seguranças particulares? Exigir da administração universitária uma solução (o que significaria chamar a polícia ou acabar com as festas de vez)? Ou, como comunidade acadêmica (e, no caso da UFSC, como grande contingente de " 'trangeiros "), procurar atuar de maneira positiva em relação a 'sas comunidades seja através da (verdadeira) extensão universitária, com projetos que contribuam para situações 'pecíficas, como o saneamento básico e instalações elétricas, ou projetos educacionais e de apoio à formação 'colar, que contribuam para a elevação da 'tima e capacidade crítica de 'sas comunidades? Outro ponto fundamental é a participação na política municipal, transferir o título para a cidade pode ser o primeiro passo em 'se sentido. Mesmo porque alguns problemas são, também, fruto de uma postura que se assume em relação à cidade, sendo a mais comum uma postura vampiresca, que trata a cidade como algo descartável: «depois de formado eu vou embora mesmo ..." Seja como for, o vulcão 'tá prestes a entrar em erupção. Resta saber quem ficará para sorver o magma e respirar a fuligem. Número de frases: 47 O projeto foi criado por três fotógrafos: Lena Amorim, Luiz Sombra Yoav Passy Hora do Brasil tem todo um calendário de eventos com as principais festas do folclore brasileiro, como o Carnaval, Festa da Boa Morte, Bumba Meu Boi, Copa do Mundo, entre outros. Em vídeo, você poderá apreciar uma coleção de clipes gravados como instalações na área portuária do Rio de Janeiro. Nosso som reúne o melhor da musica do país, do samba ao HipHop carioca Marcelo D2, e muito mais ainda. Só ligar e curtir. O grupo de criação do Hora do Brasil participou do FotoRio, Zona Franca e vários outros eventos, com suas fotos, instalações e apresentações multimídia. Deixe seu mouse deslizar e vibrar com 'te site da Hora. www.HORADOBRASIL.NET Número de frases: 9 Teve início. em 'ses primeiros dias de 2007, a enésima edição dos Jogos Abertos do Rio de Janeiro. Mesmo com as constantes reedições, a tempo e fora de tempo, o certame continua a impressionar e a chamar a atenção de todos. As disputas, verdadeiras batalhas, transcorrem normalmente, quase como de rotina, enquanto policiais, traficantes e milícias brigam sobre a moribunda sociedade carioca e os Neros, acompanhados da nobreza nas sacadas de seus palacetes, tocam suas liras diante da olímpica cidade, que arde mergulhada em horror, impotência e incompetência, que são os ingredientes principais para o sucesso dos jogos e para o desfrute das mídias. Agora, a novidade chegou fazendo 'tardalhaço nos meios de imprensa: foram mobilizados seiscentos homens e mulheres da chamada «Guarda nacional»! O pessoal que não gosta muito do 'porte pensou que 'te seria o golpe de misericórdia na vergonhosa baderna em que se transformou o Rio.-- Agora vai! Brindaram os otimistas incuráveis ...-- Palhaçada! Diziam outros mais céticos ... Em a verdade, nada muda ... nobres cantam, plebeus choram ... é parte da festa e os pretorianos vindos da distante capital, em crise existencial, culpam a própria culpa, afinal, não foram treinados para 'se negócio de correr atrás de traficantes. Quem sabe as Forças Armadas ..., mas elas só podem agir após decretada a falência do 'tado, então 'peram que 'te se renda e entregue os pontos, o que o 'pírito «olímpico» jamais permitirá. Diante disso tudo, o já 'perado e interessante comportamento coletivo da sociedade continua reticente e descrente. Não obstante, como bons desportistas, diante dos expressivos resultados dos jogos, os cariocas passaram a contabilizar as «baixas» a favor e contra, publicadas em forma de tabelas nos jornais diários. É o fenômeno do grande o que é que eu vou fazer?" que fermenta nas mentes e se 'parrama por as ruas em sincronia com as 'pumas transbordantes dos chopinhos gelados do calçadão de Copacabana. Crise que nada, afinal, os turistas chegam sem parar na pan-americano cidade. Favorece-lho fato de 'tarem de passagem ..., já que em caso de permanência podem ser convocados a atuar como atletas incautos dos jogos, nas raias livres e sem barreiras da impunidade. Que situação ... o carioca, 'perto, relaxa no calçadão, fazer o quê? O Brasil assiste apreensivo, registrando o placar nas tabelinhas. O resto do mundo tem notícias 'porádicas da bizarra competição e os «narco-jogos de verão» continuam, dia após dia, enquanto a chama do ônibus-pira permanecer flamejante na Arena maravilhosa. Alex V. L.Costa Número de frases: 27 26/01/07 A despeito de ainda não ter definindo por completo os objetivos finalísticos e nem o formato organizacional, o Consórcio Cultural do A. Franco e Adjacências já é quase realidade. O lançamento público aconteceu em 29 de setembro de 2007, quando foi realizada a III Noite Cultural no «Complexo Cultural O Gonzagão». O evento reuniu dezenas de artistas e grupos culturais emergentes, que se apresentaram para um público de aproximadamente 400 pessoas. Segundo o depoimento de algumas de elas, foi possível relembrarem os melhores tempos em que o Gonzagão era uma casa de shows bastante concorrida. «Gostaria que a nova direção trouxesse de volta os shows que Joe Feitosa {produtor e radialista realizava com Lairton e outros artistas. Eu vinha com minha mãe e irmãs, faz muito tempo que não venho aqui, gostei muito do que assisti na III Noite Cultural, mas sinto saudade do passado aqui, com Diego, Pholhas, Bandas de Forró». ( cf.. Relatório de avaliação do público presente a III Noite Cultural.-- 29 de setembro de 2007). A realização da noite cultural confirmou o que disse os dirigentes da Quadrilha Junina Asa Branca que afirmaram semanas antes: «A data de realização da noite cultural é para nos encontrar, comemorar sempre e deixar registrado em mossa memória como a noite da integração cultural do Conjunto Augusto Franco e Adjacências». Em termos de gestação, o consórcio começa a se tornar realidade a partir das reuniões realizadas desde maio de 2007, quando assumimos a direção do Gonzagão, com a decisão de promover um modelo de gestão inspirada nos princípios da democracia participativa e do controle social -- o que é lamentavelmente bastante citado em prosa e versos, mas pouco implementado efetivamente. A idéia inicial foi a formação de um conselho gestor ou uma associação de amigos ou de usuários. Entretanto, devido às crescentes demandas para apoio financeiro e logístico aos artistas e grupos culturais da comunidade e adjacências, e em razão dos problemas de restrições orçamentárias e da necessidade de investir na capacitação técnica dos agentes culturais, na tentativa de acessar outras fontes de patrocínio, foi aceita a proposta de ampliar o raio de alcance das discussões e ações coletivas. A partir deste entendimento as reuniões não 'tariam voltadas apenas para tratar de assuntos internos do Gonzagão, mas também para aspectos referentes às políticas públicas de cultura, à divulgação de 'paços / oportunidades para aprimorar o conhecimento na área de gestão e produção cultural, à realização de parcerias dos artistas e representantes de grupos culturais para ações conjuntas, dentro e fora do Gonzagão etc ... E muito foi feito em 'te sentido, como por exemplo: * Realização de duas reuniões mensais (em média) envolvendo de 7 a 20 agentes culturais; * Abertura do 'paço do Gonzagão para o ensaio de quadrilhas juninas, grupos de teatro, bandas de forró e grupos de dança (sem burocracia e / ou má vontade); * Realização de um cadastro de iniciativas culturais do Conj. Augusto Franco e dos bairros do entorno; * Promoção de quatro rodas abertas de diálogo, encontros cuja metodologia inclui a apresentação de um 'pecialista que apresenta um tema de interesse para quem 'tá diretamente envolvido com o trabalho social educativo com linguagens artisticas -- na seqüência é realizado um debate e para concluir uma apresentação artística relacionada ao tema. Como unir juventude e tradição cultural, para o qual foi convidado o professor José Paulino e que reuniu 30 pessoas no mês de julho. O legado de Luiz Gonzaga para o povo brasileiro, sob a coordenação do Professor José Augusto, com a presença de 100 pessoas. Como educar crianças e jovens para a paz utilizando as artes e a sabedoria ancestral, sob a coordenação da Caravana Arcoiris, com a presença de 50 pessoas, e Canudos ontem e hoje, sob a coordenação do Pesquisador Enock de Oliveira com a presença de 80 pessoas); * Participação em oficinas, videoconferência, fóruns etc.. organizados por o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Ministério da Cultura, Ong Ação Cultural; * Apresentação em slides do programa Mais Cultura do Ministério da Cultura para os integrantes do Consórcio Cultural com a presença de 20 integrantes do consórcio cultural; * Palestra sobre o crediamigo do BNB (o banco financia a juros baixos grupos de 3 a 10 pessoas que desejem dinamizar seu empreendimento cultural. A reunião contou com a presença de 15 integrantes do consórcio cultural); * Coleta de sugestões visando subsidiar o planejamento das ações culturais em 2007 e para o ano de 2008 no Gonzagão. Como conseqüência positiva, de entre várias, tivemos: * A apresentação pela primeira vez de projetos de captação de recursos para organismos governamentais por parte das duas quadrilhas sediadas no Conj. A. Franco (local onde 'tá sediado o Gonzagão). A Quadrilha Luís Gonzaga apresentou projeto para o BNB, e a Quadrilha Asa Branca para a Sid / Minc; * A criação do grupo cultural Asa Branca, cujos integrantes são jovens egressos da quadrilha junina Asa Branca e cuja organização foi bastante 'timulado por as discussões no Consórcio Cultural. Estreou na III Mostra Cultural e recebeu diversos convites para apresentações gratuitas e com cachê; * Alguns artistas e grupos culturais passaram a ter a uma visibilidade ampliada em termos midiáticos (jornais, internet, agenda cultural da Secretária de Estado da Cultura); * Tivemos também o convite para apresentações remuneradas a grupos de dança e grupos musicais que participaram e / ou participam do consórcio cultural. Perspectivas de futuro. No decorrer do ano de 2008 pretendemos encaminhar as discussões e organização jurídica da Associação de Amigos ou de Usuários do Gonzagão ou de um Conselho Gestor. A pretensão e criar uma instrumento de participação cidadâ voltado para as questões internas do Complexo Cultural, funcionará como um braço administrativo do Gonzagão e cujas potencialidades além do controle social, poderá servir como porta de acesso para realizarmos parcerias e obtermos patrocínios junto a organismos governamentais, empresas e terceiro setor. Quanto ao consórcio cultural, pretendemos iniciar a discussão de um regimento interno buscando garantir e ampliar o 'paço de articulação e mobilização para ações conjuntas envolvendo os agentes culturais que integram o consórcio e com possibilidades de expandir o raio de ação para além do atual território que compreende os bairros adjacentes ao Gonzagão. Pedras no caminho É verdade que para atingirmos os objetivos que inicialmente 'tamos propondo, teremos que afastar muitas pedras do caminho. Em anos anteriores, já tivemos envolvimento com algumas iniciativas da criação de redes e fóruns que encontraram (e ainda encontram) bastante dificuldades e resistências para seguirem em frente. Podemos citar como exemplo a Rede de Agentes Culturais (RAC) 'timulada por o Sebrae, a organização da Rede Provai, apoiada por o Vereador Magal da Pastoral (em seu primeiro mandato), e a Rede Sergipe de Cultura (iniciativa da Ecos Entidades Culturais Organizadas). Quanto às dificuldades e resistências, que ao contrário do que muita gente pensa, não é somente da parte dos poderes constituídos, vale a pena lembrar algumas de elas registrados na Carta Cultural da Periferia, resultado do I Fórum Popular de Cultura, em 2005: * É preciso ampliar a quantidade de grupos articulados, através de fóruns e redes para possibilitar maior intercomunicação; * É preciso superar o 'trelismo e o individualismo existente no meio artístico; * Falta amor próprio e auto-respeito por parte dos artistas e produtores. Um exemplo disso é a falta de iniciativa de muitos artistas e grupos populares, que ficam apenas 'perando o financiamento de projetos por parte do governo; * Sofremos muito com o imediatismo do próprio artista, reconhecemos que precisamos nos organizar mais, e o fórum é o caminho para 'sa perspectiva de um futuro melhor; * Há necessidade de unir os grupos para fortalecer as ações culturais; * A dificuldade principal é buscar pessoas competentes para trabalhar com cultura junto a crianças e jovens; * É necessário ampliar os 'paços e as oportunidades para se obter formação; * Como conseguir incrementar projetos num ambiente avesso ao patrocínio cultural? * Como enfrentar o descaso e a desvalorização dos órgãos culturais governamentais que valorizam mais o trabalho dos artistas de fora? Para concluir, diante de tantos desafios só nos resta dizer como o poeta que: «sonha que se sonha só é só um sonho e sonho que se sonha junto é realidade». Portanto, a continuidade e sustentação do consórcio cultural será obtido a partir do desejo e do trabalho cotidiano de vários agentes culturais, grupos e entidades que compreendem que apenas com ações isoladas não obteremos sucesso duradouro. Oxalá, 'sa compreensão já 'teja bastante clara para muitos e que através de ações coletivas, compartilhadas e com base em relações éticas e transparentes, seja possivel evitar aquilo que disse o Ministro Gilberto Gil, em discurso na Câmara dos Deputados em 2004: " ( ...) Número de frases: 59 Há muitas iniciativas culturais que nascem, e na maior parte das vezes morrem, nas periferias e no interior do nosso país, sem que o Brasil possa se dar conta de quanto talento é capaz o seu povo.." Muito tem se falado ultimamente sobre o papel da banda cover na nossa cadeia produtiva, e iniciarei aqui algumas leituras que possam elucidar os participantes deste debate, a começar por as palavras da promoter do Bar do Neurô, Elaine Santos, que recentemente teceu alguns comentários sobre 'se assunto nos coments no HellCity, um dos blogs da Volume, alguns pontos: Elaine disse que todas as bandas que são realidade hoje em dia começaram tocando cover e que só quem nasceu em berço de ouro ou conta com patrocínios não conhece 'sa realidade. Então pra começar vamos falar de 'sas bandas que hoje já são realidade no nosso cenário, entendendo por realidade aquelas bandas que 'tão gravando seu material, contam com um público que canta suas músicas, que 'tão rodando o país e colocando a cara para as mídias 'pecializadas, que já conseguem apoio da iniciativa privada e do poder publico e etc. Vanguart: O Vanguart começou há alguns anos com o Helio Flanders já fazendo músicas próprias e gravando-as no «El Gordo Studios», um 'túdio caseiro do Reginaldo Lincoln, que na época era vocalista e guitarrista do Deefor e hoje é baixista da referida banda. Em 'se começo o Helio e o Reginaldo gravaram dois CDs e lançaram virtualmente, com muitas músicas que fazem parte do repertório da banda até hoje. Nesse meio tempo Helio foi para a Bolívia e quando voltou de lá retomou o Vanguart e começou a se apresentar nos eventos, com um set list predominante de músicas próprias e poucos covers dos Beatles e Bob Dylan. Ou seja, mesmo com pouca idade os músicos da banda já começaram seus trabalhos na perspectiva autoral, e 'tão hoje colhendo os frutos que plantaram, sendo literalmente 'sa Realidade a que a Elaine se refere. E não saem de casa hoje sem passagens pagas e cachê de 1000 reais, e aqui em Cuiabá já conseguiu 'tabelecer um padrão de cachê também que já possibilita a auto-gestão da banda. Macaco Bong: O Macaco Bong já nasceu derivado de uma outra banda que priorizava a música própria como a base de suas apresentações, o Donalua, que contava com uma maioria 'magadora de músicas próprias em seu set list e pouquíssimos covers. O Macaco, por exemplo, só teve um cover até hoje em seu set List que foi Jeremy, do Pearl Jam, que tocaram no máximo três vezes, todas as outras musicas sempre foram autorais. E também 'tão colhendo o que plantaram, rodando o país, e mais incrível, sendo altamente reconhecidos no circuito indie mesmo tocando música instrumental que possui uma dificuldade maior de inserção. O Macaco Bong é outra realidade da cena Cuiabana. Revoltz: Desde o começo da banda uma das frases mais faladas por o Ricardo Kudla era: só tocamos músicas próprias. Não me lembro até hoje de vê-lo tocando um cover sequer, sempre na busca por a identidade autoral e por a difusão das suas composições. Também 'tão colhendo o que plantaram. Gravando CD, assinando com selo, recebo cachê, fazendo turnê, e cada vez mais 'tável em São Paulo. Fuzzly: A mesma coisa, desde a época do Noise Jam os caras já priorizavam a música própria, e quando virou Fuzzly então, sempre prevaleceu no set list a produção autoral. E, hoje, são uma realidade do underground nacional, com turnês internacionais, disco gravado, propostas de selos, etc. Lord Crossroad: Uma das bandas mais queridas da capital e com público mais fiel. Sempre apostou na música própria e também tem colhido os frutos disso tudo. Iniciando em 2007 sua caminhada por o circuito nacional se apresentando em Goiânia já no Carnaval. Além de 'tas 5 é difícil analisar outras bandas que realmente já são uma realidade consolidada na cena autoral em Cuiabá, e por isso a Elaine já começa se equivocando, já que deturpa os fatos de forma conveniente aos seus interesses, já que Nenhuma das Realidades da cena basearam seu set list em covers. Mas se a Elaine 'ta citando as bandas Hátores, o Kayamaré, o Mano joe como realidades aí é outra historia, podem até ser realidades da cadeia produtiva da música, mas não são realidades da cena autoral, e acho que é aí que a Elaine perde o foco, no momento em que ela não sabe diferenciar 'sas realidades. Mandala Soul e Cachorro Grande 'tão muito próximos da realidade de Hátores e Mano Joe, E É Isso Que Precisa Ficar Claro. Não adianta anunciar que os grupos Mandala Soul ou o Cachorro Doido 'tão começando a produzir músicas próprias e blá blá sendo que o caminho que a banda toma é muito parecido com a de Hátores e Mano Joe, que também anunciaram suas produções próprias mas nunca abandonaram o ciclo vicioso da banda de bar que toca cover. Mano Joe e Hatores tem até CD Gravado só com músicas próprias, e é fato que nenhuma de 'tas participa da cena autoral. Ou seja, no fim das contas tanto Cachorro Doido como Mandala Soul vão tocar 5 músicas próprias no seu set lis e 20 covers, e vão se perpetuar em 'sa eternamente, já que participar do Circuito Autoral é também participar do Mercado Autoral, participar de 'tas 'tratégias, e trabalhar a distribuição, a circulação, a divulgação e também o consumo. E cá pra nós, Mandala Soul e Cachorro Doido 'tão completamente descontextualizados dentro desse mercado e não mostram nenhum indício de entrada ou aproximação de ele. Vamos exemplificar: Cachorro Doido vai e compõe músicas próprias, aí vai e toca para o público da cidade, aí 'se público gosta daquelas músicas, aí eles gravam CD, e prensam aquelas mesmas mil cópias que Hátores, Mano Joe e Kayamaré prensaram ... Aí coloca uma matéria na Folha do Estado, tenta veicular a música na Rádio Cidade e no Programa do Fabinho. Pronto. Qual o resultado disso? O mesmo das outras bandas citadas! 1 -- Dezenas de CDs encaixotados com pouquíssimas vendas, já que o público consumidor foi pessimamente trabalhado, num plano de mídia amador que se pauta apenas em Palco + matérias apadrinhadas em jornais + músicas uma vez ou outra na radio. 2 -- Desperdício de verba pública ou pessoal já que a péssima distribuição não possibilitará 'sa difusão. 3 -- Um pseudodiscurso de produção de música autoral que na prática se mostra extremamente ineficaz e descontextualizado. 4-Vendas somente em lojas de CD de shoppings como CD Player, City Lar e etc., sempre em 'paços dificílimos de se visualizar. Pra vocês terem uma idéia, quando o Kayamaré lançou o CD de eles, fui em algumas lojas onde o CD 'tava à disposição e questionei o atendente sobre as vendas do CD da banda, e para minha surpresa ele disse: Tá Vendendo Muito Bem. Embasbacado e sem acreditar, me refiz e perguntei novamente: O que seria 'se muito bem? E ele me disse: Todo Mês Saem Por o Menos Dois! Intrigado, saí da loja e fui fazer as contas: se eles vendem 2 CDs por mês, vendem também 24 CDs por ano. Se as outras duas lojas que também 'tavam vendendo o CD tivessem a mesma média os caras venderiam 72 CDs por ano. Ou seja, os mil que foram feitos demorariam pelo menos 10 anos para serem completamente vendidos. Qual a conclusão disso? O CD já nasce morto. Já nasce pensando pequeno, pois a 'tratégia é de mesa de bar, a 'tratégia é amadora, a 'tratégia 'tá baseada em pilares extremamente viciados e falidos. E quais as conseqüências desse amadorismo? Não vão viver nunca da música própria já que não vão conseguir difundi-la e vão se perpetuar tocando covers em bares alegando que precisam de 'sa grana para sobreviver. Então, se pensarmos friamente, talvez os caras são tão amadores até para poder se manter em 'se ciclo vicioso e confortável do cover. Não 'tou dizendo aqui que é proibido basear seu set list em covers, e sim que é preciso diferenciar 'ses nichos para conseguirmos ler tudo isso de uma maneira mais clara. Estamos dentro da mesma cadeia produtiva, mas os interesses são antagônicos e muitas vezes vão se chocar. E quanto mais as bandas autorais se organizarem mais conseguirão lutar para garantir seus 'paços em detrimento destes Lobos em pele de cordeiros! Falarei em breve sobre como o Vanguart de ontem se transformou no Vanguart de hoje, mostrando assim o que seria 'se tão dito circuito autoral que possui 'tratégias antagônicas, as utilizadas por as bandas cover, e por que o Before Vallegrand só precisou de um ano para vender as mil cópias que o Kayamaré demoraria quase 10 para vender. Abraços! Número de frases: 64 Queridos amigos: Dentro de bem poucas horas o nosso postado 'tará á disposição para ser votado sejam lá as bobagens que em ele 'tejam 'critas. E para nós, 'te postado não serve pra nenhuma boniteza apenas pra nos asjudar a editar 'te livro. por isso eu peço a todos que compreendam e relevem as falhas que certa e inevitavelmente existirão, mormente em se tratando de uma obra em construção. Tomara que todos os erros e imperfeições aqui transmigrem em acertos quando da edição do livro. Há apenas três semanas, com a força que me deu a Ize, me animei em postar um texto denominado «A 'cola era Risonha e Franca .... Reminiscências», texto 'te que sublinhava a minha disposição de levar avante o projeto de um livro colaborativo, produto do site overmundo. Já, naquele momento, havia três outros textos (Muita Alma em flor foi 'tragada por o professor, do Baduh, «O Inferno existe», da Ize, e» As quatro 'tações e outras lições da Escola», da Roberta Tum), que se identificavam com a temática do livro, e quase concomitantemente, acatando a minha sugestão, o Aldo Votto postava o seu " Grupo Escolar Gabriela Mistral, 1972 " De lá para cá já adensa a mata das reminiscências 'colares com vistas à edição do livro colaborativo por mim proposto, tanto sob o ponto de vista do número de colaborações quanto em termos da quantidade de colaboradores. E sob o ponto de vista da qualidade dos textos, embora preferisse que outras pessoas falassem sobre isto, devo declarar a minha grande (e crescente) satisfação. Não que 'perasse menos de alguns overmanos (aparentemente) pouco experientes, mas o que mais me impressiona é a homogeneidade «para cima» das contribuições até aqui publicadas. A variedade das histórias, é bastante satisfatória indo de Escola de Freiras a Escola Pública, de Seminário menor a 'cola kardecista, de salas de aula funcionando em casas de farinha em Gilbués, a edificações construídas 'pecialmente para abrigar 'colas, em São Paulo Puxando por a memória, Baduh reencontrou uma figuraça, grande mestra Dona Umbelina que tem até comunidade no orkut a ela dedicada e que, ainda hoje, com 95 anos, continua ensinando gratuitamente crianças carentes. Por ter 'crito sobre o Colégio em que fiz o ginásio, fui descoberto por uma atual aluna envolvida com as comemorações do sexagésimo aniversário daquela instituição de ensino, o Instituto Estadual de Educação Professor Alberto Conte, exatamente a mesma idade cronológica que 'tarei completando em novembro próximo. Morando em SAMPA, André Pêssego 'creveu sobre suas interessantíssimas memórias 'colares piauienses vividas em Gilbués (extremo sudoeste do Estado), enquanto eu, morando no Piauí, 'crevo sobre minhas memórias paulistanas. A personalidade forte da Cida Almeida impediu que a professora lhe impusesse padrões de caligrafia e, graças à ousadia, lucidez, e mesmo cara-de-pau de um professor (de Química) da 'cola em que ela 'tudava, em Goiania, o colégio foi presenteado com uma brilhante palestra do grande Paulo Autran. Tudo isto e muito mais ela nos conta no seu " Escola Pública sim Senhor " Uma revistinha do Carlos Zéfiro, encontrada num sebo, avivou, na Ize, lembranças do colégio de freiras que ela frequëntou no Rio de Janeiro. O Adilson Sarti ainda se lembra da Uniclasse em que 'tudou, isto é, de umas sala de aulas com alunos de diversas faixas etarias e níveis de aprendizado também diversos. Essa lemnbrança ficou no " Fundão do seu Coração " «Para o seu próprio bem», segundo sua tia, o Nato Azevedo foi levado a 'tudar num seminario menor onde, «Entre o Francês e o Latim», chegou a proteger das brincadeiras dos demais colegas um japonezinho de apenas nove anos. Apesar da plena juventude que vive, a Bruna Célia conseguiu encontrar, num traumatico vexame infantil, inspiração para os seus " Primeiros Passos e um Vexame " Filha de militar, a carioca e minha queridissima amiga Crispinga passou por muitas 'colas, e de elas guarda inúmeras e saborosas lembranças Duas mineiras, a Ana e a Joana, também publicaram interessantes memórias 'colares dos primódios, a Ana sobre o jardim das freiras de Alvinópolis e a Joana sobre o seu primeiro ano do primario Adilson Sarti -- Agenor -- Aldo Votto -- Ana Mineira -- André Pêssego -- Baduh -- Bruna --- Cavalheiro-Cida Almeida Cincinato Azevedo-Crispinga -- Daniela Castilho -- Ize -- Joana Eleutério -- Joca Oeiras Roberta Tum. Número de frases: 25 Poeta Manoel Monteiro -- O " Maior Expoente do Novo Cordel «As minhas asas para levantar vôo do ninho paterno foram os folhetos de cordel. E tão bem coladas foram 'tas asas, que ainda hoje eu continuo voando ..." ( Manoel Monteiro) E ra um sábado. Chovia na fria e plúmbea tarde julina (de 26/07/2008) em Campina Grande ... Amenizando as saudades do tempo em que residi [há mais de 15 anos atrás] naquela sedutora urbe, eu percorria -- na companhia do meu amigo (e poeta) Fernando Cunha Lima -- as alamedas movimentadas da formosa Rainha da Borborema (como também é conhecida aquela próspera cidade serrana, que se situa a 120 km de João Pessoa / PB). Tínhamos um destino certo: a Rua Vigário Virgínio nº 52, Bairro Santo Antonio. Motivo: um encontro fraterno-cultural com o mais evidenciado bardo popular da atualidade e o maior representante do chamado Novo Cordel do nosso país: o poeta cordelista Manoel Monteiro. Assim, às 16h34 min, batemos palmas na frente da modesta casa situada no supracitado endereço ... Não demorou, e eis que surge, na porta, o nosso ilustre anfitrião, que -- com porte altivo, traços naturalmente fidalgos e um franco sorriso 'tampado na face -- nos convida para entrar. A o transpor o umbral daquela morada simples (e enquanto eu abraçava o carismático vate, naquela sala aconchegante, repleta de paz e de folhetos de cordéis), a impressão que tive -- sob a suprema energia do momento mágico -- foi a de que 'tava adentrando o Reino Encantado da Poesia: a seara feraz que desperta as mais sublimes dádivas da alma, delineia as raízes singelas da beleza e resgata a transcendente doçura dos sonhos 'quecidos. Destarte, à luz prefulgente daquele augusto bardo (prodigioso semeador dos desígnios de Leandro Gomes de Barros e núncio legítimo do Cordel Moderno), ali ficamos falando principalmente de poesia popular (e de literatura em geral) e -- em 'te contexto -- também relembrando notáveis companheiros contemporâneos de arte, como Ronaldo Cunha Lima, José de Sousa Dantas, Geraldo Amâncio, Moreira de Acopiara, Medeiros Braga e Zé Maria de Fortaleza. Enquanto conversávamos, fomos presenteados com diversos cordéis do vigoroso acervo manoelino (verdadeiras pérolas de inestimável valor). E, finalmente, para perpetuar 'te nosso memorável colóquio, registramos -- num pequeno gravador -- uma consistente entrevista cultural com o eminente menestrel (material que também publicarei aqui, a seguir). A tarde molhada 'vaiu-se como num piscar de olhos. As girândolas sagradas do útero lunar começaram a 'pargir raios de prata no céu de Campina. Eu e Fernando precisávamos retornar a João Pessoa, onde tínhamos agendado outros compromissos culturais. E, assim, após nos despedirmos de Manoel e, já na noturna trilha rumo à capital paraibana, de volta ao ritmo normal do ríspido cotidiano -- matutando, ainda envolto na infinita 'tesia daquele magnífico encontro -- pude perceber que realmente havíamos 'tado, por instantes, no paraíso. Sim, conviver com o talentoso poeta Manoel Monteiro, interagir com a sua verve divinal, conhecer de perto o seu vigor artístico e a beleza indescritível da sua grandiosa obra, é contemplar a 'sência das messes soberanas e exercitar os enlevos do semblante edênico da primazia. Um iluminado mestre, um erudito popular, um épico, inda mais dotado de uma das maiores virtudes do ser humano -- a humildade -- assim é Manoel Monteiro, 'te preclaro versista que tece [com naturalidade] 'tâncias como a que reproduzo a seguir: «A os 12 anos, e vão / De aqui pra lá uns sessenta, / Que 'te poeta inventa / História em versos que são / Feitos com tanta paixão, / Tanto ardor, mas pouco brilho, / E tanto me maravilho / Desvirginando o papel / Que cada novo cordel / É como parir um filho." -- ( in «Uma longa viagem -- de Campina a Santa Teresa», referente ao seu discurso de posse -- em versos -- na ABLC). Manoel Monteiro da Silva nasceu no município de Bezerros (PE), em 4 de fevereiro de 1937, e reside em Campina Grande (PB). É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) e do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano. Com o genuíno lema «O Cordel facilita o trabalho do Professor na sala de aula» e autor de mais de uma centena de folhetos (de tematização vária), o poeta é o principal mentor do movimento intitulado Novo Cordel, que vem, com sucesso, inserindo 'ta fecunda literatura como instrumento educativo nas 'colas brasileiras. Fiel defensor das causas ambientais [e caracterizado também por o seu burilado imaginário e a sua linguagem 'correita], sagrou-se -- com sua composição «O Nosso Planeta Água 'tá pedindo socorro» -- campeão do 1º Concurso Nacional de Literatura de Cordel promovido em 2005 por a Biblioteca Belmonte -- Santo Amaro / SP. Já teve a sua biografia e as nuanças da sua eclética obra enfocadas no «Documentário Manoel Monteiro -- Em Vídeo, Verso e Prosa», um Projeto do DOCTV/TV Cultura. Cumpre atualmente extensa agenda, ministrando palestras e cursos em várias partes do Brasil. De os títulos de cordel da sua prolífera lavra, podemos destacar: «O Crime da Sombra Misteriosa «(um dos seus romances pioneiros),» Salvem a Fauna, Salvem a Flora, Salvem as Águas do Brasil «(premiado por a Universidade Federal da Paraíba),» A Evolução do Papel -- da China aos dias de hoje», «Cartilha do Diabético»,» A os Heróis da FEB nossa Eterna Gratidão», Holocausto dos «Homens Nus»,» Uma Lenda do Povo Caiapó», «Um Paraíso Azul Chamado Brasil»,» Os Games na Escola», «Uma Tragédia de Amor»,» Uma Paixão no Deserto», «O Castigo da Soberba», Cartas Sertanejas ou Cantigas do Exílio» (em parceria com Moreira de Acopiara, seu confrade da ABLC), «Cordel do» Consumidor Consciente», «Nova História da Paraíba (recontada em Cordel)», Manual de Primeiros Socorros» e «O Milagre do Algodão Colorido», de entre tantos outros. Como lídima personificação da sua pura simplicidade e modéstia inata, Manoel costuma (no fechamento das suas correspondências para amigos) definir-se com o cognome de «velho aprendiz de poeta». A propósito, enfoco trechos de uma carta que recebi do Velho Mestre do Novo Cordel (como o defino) -- 'crita na sua antiga máquina manual -- na data de 12/06/08, referindo-se a uma publicação impressa de minha autoria (que lhe chegou às mãos) e timbrando assim: «Poeta Rubenio Marcelo, saúde, paz e inspiração. Recebi o cordel de sua lavra sobre o nosso saudoso Patativa. Você foi muito engenhoso, conseguiu plantar belos quadros e atingir, com isso, a sensibilidade do leitor. Você merece, pois, os meus sinceros parabéns. Estou enviando-lhe dois folhetos do Projeto Paraíba Grandes Nomes ... Abraços do velho aprendiz de poeta, M. Monteiro». O certo é que -- trazendo permanentemente a literatura popular introjetada no seu modus vivendi -- Manoel Monteiro é um predestinado senhor do vernáculo, um íntegro cidadão do mundo, um poeta sensato e eternamente inspirado, pois nunca perde o sábio entusiasmo dos que se consideram eternos aprendizes. É também por isso que o resultado das suas produções literárias é sempre coroado de pleno êxito. Por julgar oportuno, enfatizo em 'ta ocasião os versos recentes do ilustre 'critor e ativista cultural José de Sousa Dantas (de Pombal / PB), que -- resumindo numa setilha a sua judiciosa impressão acerca deste virtuoso artista -- assim se expressou: «Sou um admirador / De o mestre Manoel Monteiro, / Um dos grandes cordelistas / De o Nordeste brasileiro, / Eficiente e capaz, / O trabalho que ele faz / Tem valor no mundo inteiro». E eu, fechando o roteiro, / Quero, em verdade, saudar / Este poeta altaneiro, / Dizendo, para encerrar: / Viva Manoel Monteiro / E todo o nobre celeiro / De a Cultura Popular! Número de frases: 49 ® RUBENIO MARCELO A Band colocou no ar no último dia 25 a minissérie Haru e Natsu -- As Cartas Que Não Foram Entregues, a primeira superprodução da TV japonesa sobre a questão da migração nipônica para o Brasil. A série conta a saga da família Takakura, que deixa Hokkaido (norte do Japão) para fazer dekassegui no Brasil, ou seja, para migrar de forma temporária, em busca de trabalho. Os Takakura se inscrevem no programa e são levados para Kobe (no centro-sul), para a triagem dos imigrantes e uma das filhas, Natsu, é diagnosticada com uma doença e impedida de viajar. Sem um de seus rebentos, a família parte com destino ao incerto, mas com a promessa de retornar em breve. Cumprindo uma promessa feita antes da partida, as duas irmãs seguem 'crevendo cartas uma para a outra. Porém, por uma série de percalços, as missivas não chegam ao seu destino. Os anos se passam e, como ocorreu com boa parte dos japoneses que migraram para o Brasil, os Takakura acabam se alojando definitivamente no Brasil. 70 anos após a partida, Haru volta ao Japão com o objetivo de encontrar a irmã. Com a ajuda do neto Yamato, 'te um brasileiro vivendo no Japão, ela descobre que Natsu se tornou uma empresária de sucesso. O reencontro das duas é traumático. Natsu é uma mulher amargurada. Alega ter sido abandonada. Porém, muitos anos depois de terem sido enviadas, as cartas chegam às mãos de suas destinatárias e ajudam o 'pectador a desembrulhar o passado das duas irmãs. O passado 'quecido A minissérie Haru e Natsu foi produzida em 2005 para a comemoração dos 80 anos da primeira transmissão da NHK -- Nippon Hooso Kyookai, a rede de comunicação 'tatal japonesa -- para o Brasil. Mas, também, pode-se dizer que serviu a um outro propósito: justificar a presença de imigrantes brasileiros no país. Muitos japoneses sabem pouco sobre o passado recente de seu país, sobretudo os mais jovens. Um dos grandes problemas da educação na Terra do Sol Nascente é o ensino de História. São poucas as linhas nos livros didáticos sobre temas polêmicos. A diáspora de japoneses durante as eras Meiji, Taisho e Showa é um assunto obscuro nos livros didáticos japoneses. Portanto, a série cumpre o objetivo de mostrar ao grande público 'se pedaço desprezado da História. Estranhos na terra de seus ancestrais Os imigrantes dos períodos citados são muito mal-vistos na sociedade japonesa. O cientista social Takeyuki Tsuda relata em seu livro Strangers In The Ethnic Homeland como muitos japoneses ainda vêem seus compatriotas que foram para o Brasil, Eua, Peru, Havaí e outros lugares. Para quem ficou, 'ses imigrantes são gente do «mato» (inaka no hito), que «abandonou o país quando ele mais precisava». Voltando ao Japão dos dias de hoje, os chamados nikkei burajirujin (brasileiros de descendência japonesa) 'tão na base da pirâmide social. De o mesmo modo que seus antepassados que atravessaram o oceano rumo ao Japão, são conhecidos como dekassegui e desde 1990, quando a Lei de Imigração foi flexibilizada para recebê-los e aliviar a pressão por mão-de-obra desqualificada, vêm aumentando em população. Sua presença é notada de diversas formas. Mas, ultimamente, a mais visível é a relacionada com os problemas sociais. Brasileiros na mídia japonesa Crimes envolvendo brasileiros no Japão vem sendo amplamente noticiados por a mídia japonesa, muitas vezes de forma sensacionalista. Esses eventos foram ganhando mais destaque quando vários dos acusados fugiram para o Brasil, anulando as possibilidades de eles serem julgados por uma corte japonesa e provocando a ira de vários grupos locais. Vale lembrar que o Brasil, como muitos países do mundo, não pratica a extradição de nacionais, mesmo que sejam criminosos. Um dos eventos que mais teve repercussão foi a morte de uma menina japonesa na província de Shizuoka. Uma motorista brasileira foi acusada de avançar o sinal vermelho, provocando a batida que arremessou a menina para fora do carro dos pais e a matou. Poucos dias depois, a acusada e toda sua família fugiu para o Brasil. Grupos nacionalistas iniciaram movimentos pressionando o governo japonês a tomar atitudes contra aquilo que chamam de «'calada dos crimes cometidos por 'trangeiros». Aqui cabe um parênteses: a criminalidade no Japão vêm aumentando nos últimos anos. Casos envolvendo nacionais 'tão incluídos no pacote. As autoridades, porém, voltam seus olhos para os delitos cometidos por 'trangeiros. Alegam que há desproporcionalidade na participação de 'trangeiros em atividades criminosas. Porém, 'quecem-se da forma desproporcional com que 'tes são achatados no topo da pirâmide social. Além disso, grupos contrários à entrada de migrantes aproveitam-se dos eventos para mobilizar a opinião pública e gerar pressão social. Casos envolvendo brasileiros acabam gerando problemas para a comunidade brasileira, principalmente em cidades onde há alta concentração destes imigrantes. Por isso, movimentos sociais de brasileiros uniram-se aos japoneses para mostrar que a grande maioria dos imigrantes não 'tá de acordo com a criminalidade. Ambos iniciaram um movimento para obrigar os governos dos países a criar um acordo de cooperação jurídica que permitisse a aplicação da lei aos que cometessem crimes e fugissem do Japão (ou vice-versa). Com tanta promoção negativa em cima dos brasileiros imigrantes, a produção de uma série como Haru e Natsu tem a função de mostrar os nikkei à sociedade japonesa de uma forma positiva. Além disso, a repercussão entre os nipo-brasileiros também seria um meio de mostrar que o governo japonês 'tá sensível aos problemas que ocorreram no Brasil, no passado, e aos que ocorrem atualmente com os dekassegui no Japão. Personagens cheios de representações Em a série, Natsu (cujo nome significa stress verão stress) representa o Japão atual. Ela se sente abandonada e rejeita o contato com a irmã. Em o primeiro encontro, trata Haru (cujo nome significa stress primavera stress) com desprezo. stress Vocês vieram aqui como dekassegui? stress, pergunta ela à irmã e ao sobrinho-neto Yamato (que é o antigo nome do Japão). Em 'te caso, ir para o Japão como dekassegui quer dizer «falhou como trabalhador no Brasil». A o redescobrir as cartas enviadas por a irmã (ou seja, a História), Natsu vê não apenas o que lhe foi 'condido durante anos mas, também, que sua irmã sofreu dificuldades na terra para onde emigrou e lhe enviara, com frequência, uma parte do pouco dinheiro que recebia. Muitos historiadores revelam que os migrantes japoneses no Brasil não apenas faziam remessas de dinheiro para o Japão como vendiam o excedente da produção agrícola a preços baixos para o país de onde vieram. As cartas seriam, portanto, o meio que desfaz os mal-entendido entre os que se foram e os que ficaram. 1 litro de lágrimas A 'colha 'tética, como vale para qualquer drama televisivo japonês, é a do dramalhão, com direito a muitas lágrimas, em 'pecial no primeiro capítulo. «As novelas japonesas têm que fazer o público chorar, senão são consideradas ruins», explicou pesquisadora Mii Saki Tanaka ao jornal fluminense O Globo. Talvez, isso afaste um pouco parte do público brasileiro, não muito afeito ao 'tilo. As atrizes que vivem Haru e Natsu na infância são lindas e fazem um trabalho bastante digno. Os personagens porém são arquétipos bastante conhecidos do público. Não faltam a stress madrasta stress má (no caso, a tia que fica com Natsu no Japão), o desconhecido que ajuda a mocinha ... Como 'tamos falando, também, de Brasil, destaque para o capitão-do-mato, personagem que já 'tá no imaginário brasileiro por conta das novelas de 'cravidão. Também há mortes, conflitos de gerações, questões de identidade, tudo bem ao gosto dos amantes do gênero épico. A recriação da cena do embarque dos emigrantes para o Japão é muito bem produzida e a viagem tem seus quês de Titanic, o filme multi-premiado de James Cameron. Afinal, não pode faltar romance, também. A imprensa brasileira divulgou que apenas a narração foi dublada, ou seja, os idiomas originais -- japonês e português -- foram mantidos. Porém, não vale rir do sotaque do Yamato. O ator é japonês e foi uma infeliz 'calação. Em o mais Haru e Natsu, é uma interessante viagem no universo da migração japonesa para o Brasil do ponto-de-vista dos que ficaram. Quem quiser conhecer o outro lado da moeda, pode ter uma boa surpresa em Gaijin -- Os Caminhos da Liberdade, de Tizuka Yamazaki. Mas, por gentileza, privilegiem a raríssima edição original. O filme exibido por a Globo há alguns anos não é fiel ao que foi lançado nos cinemas em 1980. De a mesma diretora, Gaijin -- Ama-me Como Sou é uma 'pécie de continuação da saga do filme anterior, incluindo o movimento dekassegui. Os dois filmes têm algo bastante interessante: Número de frases: 81 o papel da mulher no processo de imigração e assimilação à sociedade receptora. Panorama De a Poesia BLUMENAUENSE -- Entrevista Com O Escritor MAICON TENFEN Introdução A pergunta mais lógica a ser feita, em princípio, é: por que entrevistar um prosador para falar sobre poesia? A questão não é 'sa. Primeiro, faltam leitores de poesia. Mas o que falta mesmo é uma leitura crítica de literatura. E se já são raros os leitores de poesia em Blumenau, o que dizer então de leitores de poesia blumenauense. Maicon Tenfen não somente 'creve, mas lê. E lê criticamente. E lê procurando, como poucos, respostas para significados além das metáforas e metonímias. Tendo conhecido praticamente todos os autores contemporâneos blumenauenses, ou pelo menos suas obras, Maicon tem uma opinião acerca do que acontece literariamente em Blumenau. Professor de literatura brasileira da FURB, o Doutor Maicon Tenfen é um (dos poucos) que ainda ousa pensar a linguagem além das linhas e entrelinhas. Pois que resolvi entrevistá-lo para saber sua opinião a respeito do que pensava da produção poética blumenauense. O resultado é o que se poderá ler em seguida. Existe Uma Literatura BLUMENAUENSE? Para responder a 'sa questão, é necessário fazer uma outra pergunta: afinal, o que é literatura? «Se literatura é a produção 'crita, simplesmente, não há como negar sua existência." Afinal, 'crevemos. Proponho então uma livre interpretação do conceito de Jakobson, que propõe ser a literatura ' uma violência organizada contra a fala comum '. Ou seja: que a literatura seria uma forma de propor a revolução constante da linguagem. Estabelecida a definição que utilizaremos de Literatura, vem a resposta de Maicon: «Já houve, sim, uma literatura blumenauense." Maicon chega aonde eu queria chegar com a nossa conversa: no experimentalismo literário dos anos de 1990. 1960-1990 Sabe-se que até os anos de 1990, o que imperava em Blumenau, apesar do aparecimento, poucos anos antes, de José Endoença Martins, era a literatura Blumenalva, de exaltação do germanismo local, do bucolismo de uma cidade colonial etc.. Temos, em 'se ponto, como figura máxima o poeta Lindolf Bell e seus respectivos seguidores -- que não poderíamos citar aqui, de tantos que são. Uma poesia que, apesar de toda a repercussão e de tanta propaganda, chegou poucas vezes a um patamar literário superior. A década de 1990 e o verdadeiro movimento literário que houve em Blumenau fez história por justamente revolucionar a linguagem. Foi uma época, nas palavras de Maicon Tenfen, de verdadeira efervescência cultural, tendo como poetas principais os nomes de Dennis Radünz, Marcelo Steil, Mauro Galvão, Tchello d ´ Barros e José Endoença Martins. Experimentalistas A revolução maior talvez tenha ocorrido em função da noção de coletividade dos próprios poetas. «Eram poetas da intertextualidade, que pesquisavam a linguagem», diz Maicon. A importância desse movimento deve-se, portanto, à sua «ousadia, à sua coesão e à sua proposta literária». Sem dúvida. Enquanto os poetas bellianos (como são chamados os autores que ovacionam a cidade) insistiam em retratar o rio, os vales, as carroças e as flores -- alguns poetas perceberam que havia por trás de tudo isso um mundo. O Mundo, por assim dizer. Vê-se que o grande responsável por 'sa pequena -- mas tão válida -- produção localizada em alguns livros e num curto 'paço de tempo, foi o poeta blumenauense Dennis Radünz, criador da alcunha Nauemblu -- e dos poemas que, que define teoricamente a literatura de 'sa época. Propunham-se 'tes poetas, na visão de Maicon Tenfen, a «não somente discutir, mas fazer Literatura». Pergunto a Maicon Tenfen por que, então, não se ouve falar desses poetas e de suas obras. A o que ele me fala do hermetismo de sua poesia. «O que parece é que as obras poéticas década de 1990, com exceção da de José Endoença Martins (que era justamente a mais popular), falavam de e para o próprio grupo." A respeito disso, Maicon me diz que, apesar de parecer um erro dos poetas, 'crever para si próprios talvez tenha sido uma meta alcançada, pois que foi a década de lançamento de alguns dos livros mais importantes de poesia publicados em Blumenau, entre eles Exeus, de Dennis Radünz; Fogofurto, de Marcelo Steil e Sincretinismo, de Mauro Galvão. Entre A Instituição E A Marginalidade A conversa com Maicon Tenfen ruma para o presente. É quando aparece a figura de Douglas Zunino, poeta marginal oriundo dos anos de 1970. «Zunino sempre 'teve por aqui», diz Maicon, referindo-se ao poeta de rua que volta e meia publica um livro não oficial, ou seja, com publicação custeada por ele ou por algum patrocinador e que insiste em não oficializar a obra. «Douglas Zunino tem uma obra boa, mas que não tem vazão. Ele deveria transcender o marginal e ocupar um 'paço oficial», diz Maicon a respeito do poeta que, ainda segundo ele, «apesar de ter 'tado entre os poetas experimentalistas, não se perdeu no hermetismo da ocasião», reflete o professor. «O Douglas sempre quis comunicar». A verdade é que, em complemento ao assunto corrente, falamos do momento atual, em que literatura blumenauense sofre com sua institucionalização através de sociedades de 'critores: «Poeticamente falando, 'tamos na jequice das instituições literárias». Pois que, ao contrário de Douglas Zunino, há poetas que investem na coletividade e criam instituições literárias, seja ela uma sociedade de 'critores ou mesmo uma academia de letras. A respeito de tais instituições, Maicon elogia suas atitudes de divulgação, que são realmente muito interessantes, como a ocupação vista na mídia local e nos calendários de eventos. «Em o entanto», diz, «as entidades literárias daqui não são realmente significativas». O Presente Maicon Tenfen não vê, no momento, ninguém com uma obra poética representativa em Blumenau. José Endoença Martins, por exemplo, há anos não publica um livro de poesia -- e parece mesmo que terminou seu trabalho em 'se âmbito. Dennis Radünz foi para Florianópolis, Tchello d ´ Barros nunca passou dos poemínimos, «Mauro Galvão, por o silêncio», diz Maicon,» deve 'tar 'crevendo, mas há tempos nada publica "; o único poeta que ainda 'creve e publica poesia de verdade é Douglas Zunino. Mesmo que na marginalidade, por assim dizer. Em o mais, o que enche nossas páginas e nossos olhos é pura «poesia ginasiana», conclui o professor. Número de frases: 67 Passei minha infância e adolescência na Bahia, e sei que em muitas cidades do nordeste palavras como demônio, desgraça ou ódio, tempos atrás, eram quase que proibidas. A sábia cultura popular as reprimia, e até era comum ver uma pessoa fazendo sinal da cruz se uma de 'sas palavras era pronunciada. Há 10 anos moro numa metrópole, Rio de janeiro, e hoje presencio crianças de 5, 6 anos dizerem gratuitamente que «odeiam», e confesso que fico surpreso e incomodado. A impressão é de que cresceu muito nos ultimos anos a frequência da palavra «odeio» na nossa cultura. Hoje, pelo menos na minha cidade, é quase impossível bater um papo sem ouvir a frase «odeio tal coisa» ... Em o Orkut, as comunidades com «odeio isso, odeio aquilo» são incontáveis. Ódio é uma palavra pesada, que traz uma aura negativa e que representa algo involuído. Ódio é um extremo, é um impulso. Como diz o budismo ou o Taoísmo, devemos exercitar o controle da nossa impulsividade e não gastar energia com extremismos, muito menos negativos. Muitas outras religiões dizem que o ódio envenena, e basta ter um pouco de evolução 'piritual pra saber que o caminho mais sadio é o do amor, justamente o oposto do ódio. Então divido aqui com vocês a análise e o questionamento: o ideal não seria seria educar o ódio a um nível mínimo? Alias, por que usar a palavra «ódio», tão extrema? Somos um povo de sentimentos fortes, mas não precisamos ser tão «passionais», não é?;) Porque não passamos a usar «não gosto»? ... Tá bem, vamos negociar ... acho um grande passo pelo menos trocarmos pra «detesto», que é menos pesado que» odeio», será que conseguimos?;) Eu tenho tentado ...;) Particularmente acredito que podemos modificar, pouco a pouco, a «cultura dos ódios gratuitos» pra sermos mais leves e saudáveis. É um exercício, depende de cada um fazer a sua parte. E fica aqui a semente da reflexão sobre o assunto, sem nenhum intuito de parecer radical. Número de frases: 21 O Artesanato é 'sencialmente o próprio trabalho manual ou produção de um artesão (de artesão + ato). Mas com a mecanização da indústria o artesão é identificado como aquele que produz objetos pertencentes à chamada cultura popular. O artesanato é tradicionalmente a produção de caráter familiar, na qual o produtor (artesão) possui os meios de produção (sendo o proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalha com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima, até o acabamento final; ou seja, não havendo divisão do trabalho ou 'pecialização para a confecção de algum produto. Número de frases: 4 Em algumas situações o artesão tinha junto a si um ajudante ou aprendiz. Uma artista da nossa terra viajará dia 27 para um mundo outro. Deixará-nos-por dois anos sem performances contemporâneas, sem instalações inquietantes, sem figurinos criativos e instigantes, sem interações solidárias aos que da arte necessitam para abrir caminhos mesmo onde não há tetos, nem camas, nem comida, mas sobram limites e incompreensões e desumanidade, uma abundância demasiado desnecessária em 'ses tempos pós-modernos e globais, em que a tecnologia tudo faz e a humanidade cada vez mais perde. Ainda que descoberto O corpo não 'tá liberto Mesmo só, há limites Concretos. Nu, há partes Aprisionadas a imaginário Outro. Não é ele, só corpo E, no entanto, se move ... Em cena, eu a percebo dramática, irreverente, pessoa vibrante em expressar o corpo, a arte, a dor, o prazer, a opressão, a felicidade, o 'panto ... As palavras e as pequenas telas lhe são poucas, por o tanto que busca o deslocamento da cena, as ruas, o povo, as explosões dos limites e dos consensos opressivos. Ela fez dança dos quatro aos 18 anos e se graduou em comunicações e Artes do Corpo por a PUC de São Paulo, participou de algumas companhias, mas se encontrando em videoarte, como fez com Rafael Adaime. Veja aqui e mais aqui. Quando interpretava Frida Kahlo num balê sofreu acidente em que a cirurgia de reparação determinou a perda de parte significativa do menisco de uma das articulações de um dos joelhos. O corpo mexido por a mente inquieta e criativa exigiu e se a via fazendo, mesmo apenas sentada, figurinos e máscaras para instalações e performances. É também roteirista, figurinista, coreógrafa ... Tem prêmios, distinções, é aplaudida e querida por o que faz só ou com demais parceiros em artes e 'petáculos e ações outras em que aplica o que lhe vai ensinando a vida. Dia 27 de agosto, Veridiana Beatriz Zurita vai para Enschede, Holanda, fazer mestrado sobre As mobilidades possíveis no processo de criação Dutch Art Institute (Dai). Ganhou uma bolsa que cobre dois terços do valor do curso que 'pera fazer em dois anos inteiros. Entrevista Com A VERIDIANA Amigos comuns leram a matéria postada aqui por mim ainda em edição e tornaram possível uma breve entrevista com Veridiana Beatriz Zurita. Fiquei feliz de ela ter conhecido o postado, ter gostado de ele e aceitado conversar com nós. Disse que após a formação acadêmica percebeu-se num processo acelerado de demandas de criação, o que é comum apresentar-se ao artista que decide se bancar com o próprio trabalho de criação, mas num tempo outro, mais lento do que o que lhe ocorreu. Deu-se conta logo de que 'tava sem condições de tempo, de espaço, de relações, de processo mesmo ... de pensar a qualificação da arte que fazia, de 'tudar o próprio trabalho, iinvestir em si como pesquisadora do próprio gesto de criação. -- Eu não tinha tempo de adentrar mesmo em questões pertinentes ao meu trabalho ... sempre me senti em produção acelerada para entrar em festivais ... nunca com tempo de me envolver, de me perder nas propostas ... É a razão porque Veridiana apresenta projeto para o Dutch Art Institute (Dai). Lá, por dois anos irá refletir sobre o próprio fazer artístico e criar a partir do que refletir. Em as palavras de ela: ter a criação como mecanismo disparador e não como produto final. Para Veridiana, é 'sa uma discussão sobre o processo de criação muito presente na arte da performance desde que os dadaístas começam a subverter as questões da obra de arte. Não é apenas uma solitária necessidade individidual. Conforme salienta: é como a questão do processo torna-se algo fundamental para o artista. Repito a ela um trecho de ela mesma em que diz que o corpo se reconfigura, o figurino, o som que o impele, a luz que o 'caneia, a roupa que o veste ou despe em razão do corpo, o corpo em razão de elas ... Veridiana -- o corpo se reconfigura quando há diálogo ... quando interage com o entorno inevitavelmente se reconfigura. AB -- Isso contraria a tua formação acadêmica ou se impõe à formação e a evoluciona, supera, nega? Muito da dança contemporânea de alguns grupos aqui e fora tem experimentado o movimento do corpo, instrumentos diversos, 'paços diferenciados e mesmo sons que, é fato, o comum das pessoas não chama de dança ou música. O corpo, no entanto, se move, contrariando dogmas, conceitos prévios, regras. Veridiana -- Não há negação da academia no meu caso ... mas uma necessidade de contraposição. Urgência em 'tar na academia, mas fora de ela também. O artista não me parece vivo quando adquire um discurso sem tensão. Então, salienta, a contraposição não é um discurso do trabalho, mas no processo do fazer acadêmico. Veridiana -- Quando ainda me formava, sempre procurei 'tar em outros ambientes. Trabalhei com coreógrafos que na época não eram sequer reconhecidos na academia. Minha formação é em dança mesmo, mas acho que nunca fiz um trabalho de dança. Diz com uma tranqüilidade sem menoscabo da formação 'pecífica que a aproximação de ela com as artes visuais acaba sendo o seu forte ainda que não tenha surgido para ela em ambiente institucional. Veridiana -- Sempre achei muito difícil fazer um trabalho de dança apesar de ter a dança no meu corpo. E quando fiz meu primeiro trabalho em vídeo compreendi uma fluência da minha criação. Em os últimos anos meu trabalho passou a ser aceito muito mais em ambientes das artes visuais do que nos de dança e isso naturalmente foi me direcionando mais para as artes visuais como no Vídeo Brasil por exemplo, explioca a artista. O ocorreria no mestrado. Envia o mesmo projeto para 'colas de dança e de artes visuais e acaba sendo um instituto de artes visuais que se interessa por a proposta. Veridiana -- É uma 'cola de artes visuais ... não tem aulas de dança ou performance. Meu projeto é sobre as mobilidades possíveis no processo de criação ... mobilidades entre os processos metodológicos entre dança, performance e artes visuais. Em 'se sentido ... há total coerência eu fazer um mestrado de dança e performance numa 'cola de artes visuais ... AB -- Há nomes lá que te inspiram já ou é o 'paço em si, aquela gente de outro mundo que é a Holanda? Veridiana -- Estou muito interessada em retornos de outras áreas. Pensar em como um retorno de artes visuais num processo de dança pode ser rico. Os críticos de dança só assistem dança e eu acho isso muito restrito. Minha inspiração mesmo 'tá no deslocamento. Sinto entender o meu país quando 'tou fora de ele. Em 'se sentido, minha inspiração é o deslocamento e não algo em 'pecífico com a Holanda ou nomes de lá. AB -- Êpa! Não sei se entendi. És brasileira e te entendes e ao país quando não 'tás no território de ele? Isso não é só distanciamento geográfico ... É também tua busca de outras posições para o corpo, para os movimentos, para os gestos ... por o que percebo, se as trocas permitem aprendizado, havendo democracia nas relações, também vais ensinar lá. Veridiana -- Não é distanciamento geográfico é o distanciamento do lugar comum enquanto artista. Quando digo entendimento do Brasil não se trata de uma pesquisa sobre o país, mas sobre o deslocar-se e, aí, não importa o lugar. AB -- É que o deslocar-se relaciona-se com um 'paço dado, ou criado, ou imaginado ... Veridiana: Existe um processo de 'cuta que é fundamental para minhas interações com outras áreas nas artes. Desde que conheci meu parceiro, f? Com ele realizei e ainda realizo muitas criações, minha interação com as artes em geral se potencializou muito. Em termos de processo porque se trata de um casal em criação em que vida e arte se misturam, mas também porque o trabalho de ele me questionou muito em como recriar o corpo em diálogo com a música e com as imagens. Principalmente por causa da questão sonora, o sensorial dos meus trabalhos passou a ser questão fundamental desde então. http://daspartes.blogspot.com [ As Partes Veridiana Zurita, 14 min, São Paulo Dentro de um 'paço restrito o corpo se reconfigura por meio da própria pele. Em o enquadramento a figura realinha, reposiciona camadas e próteses da própria existência. Em a reinvenção 'pacial os membros e contornos se ajustam a uma nova realidade, é como visitar continuamente o interior que também é caixa, 'paço restrito e dilatado no próprio movimento.] [ Outono de 2005, performance junto à ocupação da galeria Prestes Maia -- SP por sem tetos] [ Número de frases: 91 Quando não atua, 'tuda, organiza 'paços e orienta artistas, como na curadoria que fez no Espaço Viga, na I Mostra Viga de Performance, em 6 e 7 de outubro de 2007 no Viga Espaço Cênico. Pedro tinha apenas 20 anos, jovem fotógrafo do jornal O Globo. Início dos anos 70, os militares ditando o sim e o não no Brasil, o Exército farejando guerrilha para as bandas do Araguaia. «Subversivos» entocados na selva conjurando contra a Pátria que avançava rumo ao desenvolvimento, abrindo veredas em direção ao Norte, floresta adentro. Progredir é abrir 'tradas, uma de elas era a Cuiabá-Santarem (Br-163). Mas tinha uma pedra, índios, gigantes e ferozes, os Panará, no meio do caminho. Fronteira entre Mato Grosso e Pará. A 'trada ia passar. O Globo mandou um fotógrafo para cobrir o 'tabelecimento do contato com os índios. Adoeceu. Mandou outro. Problemas de novo. Em a redação ninguém ia queria se embrenhar. Mandaram Pedro. Três anos acompanhando a expedição chefiada por os sertanistas Cláudio e Orlando Villas Boas para conseguir 'tabelecer contato pacífico com os índios gigantes, conhecidos na época por Kranhacãcore. Três anos namorando, chegando de mansinho, enquanto o pau comia no Araguaia. Pedro Martinelli acompanhou o processo até o 'tabelecimento do contato que no final deixou apenas 70 índios vivos, dos 300 que tinham antes de chegar sarampo, gripe e outros produtos de exportação made in homem branco. E desde 'sa época fez da Amazônia sua causa, se revezando entre ela e a selva de pedra São Paulo. Acompanhou a volta dos Panará, depois de 20 anos no Parque Indígena do Xingú, em 94. De aí publicou o livro Panará: a volta dos índios gigantes em 98. Suas andanças por o mato foram publicadas no Amazônia o Povo das Águas em 2000 e Mulheres na Amazônia, seu último trabalho, em que pegou a beleza das mulheres da região, o avesso da 'tética afrancesada das fotografias de moda que fez durante seu trabalho na Abril. Formado nas grandes redações do jornalismo brasileiro, Pedro Martinelli foi fotógrafo do O Globo de 1970 a 1975, depois fotógrafo e editor de fotografia da revista Veja (1977-1983) e diretor de serviços fotográficos no conjunto de revistas da Editora Abril (1983-1994). Fotógrafo de 'portes, Pedro Martinelli correu atrás da foto, grandes lentes para capturar a imagem, o momento, até comprar um barco, pedir demissão da Abril e começar a fazer a sua fotografia em que o mais importante são os bastidores, a convivências, as pessoas e a vida. É sobre 'sa experiência que ele falou por telefone, enquanto um 'tudante de jornalismo perguntava e a cada resposta pensava: «Caralho, o cara faz com uma câmera tudo que eu pensei fazer com as palavras». Como você criou 'se relação tão íntima com a natureza? Em a verdade com o mato. O mato é a 'sência da vida. O matão. Mato virou uma palavra pejorativa. Mato hoje significa lugar abandonado, sujo, imundo. E mato não é isso. Eu fui criado no mato, na Mata Atlântica, por isso se chama mata Atlântica. Eu nasci do lado da Mata Atlântica, meu pai caçava e eu acompanhei meu pai. Então eu sou mateiro desde de criança. Então a minha relação com o mato vem desde de criança, e o meu sonho era conhecer a Amazônia. Em 1970 eu era fotógrafo do O Globo, tinha 20 anos de idade, e O Globo mandou dois fotógrafos antes de mim, para fazer a cobertura do contato dos Panará, mas pra fazer o contato tinha que caminhar até chegar os índios, caminhar na 'trada Cuiabá-Santarém. Os dois tiveram problemas de saúde, e ninguém mais na redação quis ir. E o meu chefe mandou eu ir e eu não voltei mais, fiquei três anos lá. Foi lá que eu conheci o Cláudio Villas Boas, que vamos dizer foi meu mestre de vida e entendimento de 'sas questões todas que 'tamos vendo hoje. E a partir daí eu comecei a ter uma proposta, uma visão sobre a Amazônia, sobre 'se processo de degradação que nos 'tamos vivendo hoje. Em a verdade o Cláudio já sabia o que ia acontecer. Como você vê 'se contato? O Brasil sofria muita crítica com relação ao tratamento que tinha com os índios. O Brasil começou matando os índios, dizimando, os bandeirantes iam matando tudo que viam por a frente. Em 70, a coisa ficou mais moderna, eles passavam uma 'trada em cima de uma aldeia, era a forma de se matar rapidamente. E era inevitável. Eram 300 índios, morreram 230 índios com o contato. Isso é o grande drama de uma comunidade, 'se 70 que sobraram foram para o Xingu, saíram da região e foram viver dos lados dos maiores inimigos, os Caiapós, e ai eu os reencontrei, depois de 20 anos. Eles voltaram hoje a ser um grupo próximo do que eles eram antes, 300 índios. Eu acompanhei o processo de volta para a região, houve uma pressão e a Funai demarcou uma terra próxima a antiga e eu acompanhei 'sa mudança, isso em 94. Eu sinto uma culpa de ter viabilizado isso na figura de um branco. Hoje 'tão lá, 'tão bem, claro que eu apesar de ter sido quem expressou 'sa dor imensa, o índio não sabe se você é jornalista, fotógrafo, pra ele você é um branco imundo e eu na figura do branco fui o único cara que voltei a velos depois do contato. Eu voltei lá e foi um encontro muito interessante, um princípio tenso, mas hoje eles entenderam, e eu vou lá de vez enquanto e tem uma convivência muito boa. Você reaprendeu a olhar depois que saiu das redações? É engraçado isso, porque quando eu fotografava em jornal eu era fotógrafo de tele, de objetivas grandes. Quando eu decidi mudar, pedi demissão da Abril depois de 17 anos empregado. Eu decidi ir para a Amazônia comprar um barco pra fazer meu primeiro livro. Primeiro eu comprei um barco, me 'truturei, depois pedi demissão e era uma decisão difícil, porque eu era editor, era executivo, ganhava bem. A partir do momento que era isso que eu ia fazer, eu mudei tudo, mudei inclusive o meu jeito de olhar, porque o que me fez mudar foi tudo que eu deixei pra trás nos outros anos, toda sensação de perda do jornalismo medíocre que a gente faz no dia-a-dia. Então eu decidi que agora eu vou fazer as coisas do jeito que eu acho que devem ser feitas. Então se eu tiver que 'perar um mês pra fazer a fotografia que eu quero, eu 'pero. É outra fotografia, a minha. Não preciso de tele, vou fotografar o que tiver ao meu alcance. Eu fui me acalmando, virando outra figura, fui deixando de ser um fotógrafo e fui virando cada vez mais um sujeito preocupado com o entorno que eu tava fotografando, com o compromisso com 'sas pessoas. A fotografia serve pra massagear o ego do fotojornalista, então você tem que pensar se a fotografia que você tá fazendo faz bem para as pessoas que 'tão sendo fotografadas. Eu uso a fotografia hoje como um compromisso com as pessoas que eu tô fotografando, com as coisas que eu acredito. Então muda a relação, eu tenho dois prazeres: o primeiro lugar é conviver com 'sas pessoas que eu gosto, que são meus heróis, o caboclo, o índio, 'sa pessoa que ainda não foi contaminada por as grandes cidades. Eu tenho que fazer uma fotografia que seja compatível com aquilo que eu acredito. Como é o processo de conhecer as pessoas até apontar a câmera? É exatamente o que eu te disse, como fotojornalista eu recebia ordens, tinha prazo pra fazer as coisas, tempo, dinheiro. Então você 'tava sempre tenso, entrando nos lugares sem pedir licença, dar bom dia, querendo fazer as fotografias. Eu gosto de fazer as coisas no tempo em que elas têm que ser feitas. Eu chego não como fotógrafo, mas como cidadão. Não adianta chegar fotografando, porque eu não sou fotógrafo de foto única, minhas fotos têm que ter enredo. Eu tenho primeiro que explicar para a comunidade o que eu faço, quais são as minhas intenções, deixar isso muito claro. Eles me acolhem. Eu começo a fazer a fotografia que as pessoas dizem que parece que não tem fotógrafo. Eu passo a conviver com eles, enfiado nos confins do mundo. Eu gosto mais de 'tar junto do que fotografar às vezes, então isso é um diferencial para a fotografia, você 'tar no tempo dos fotografados. Você vai na roça colher mandioca na hora que tem que colher mandioca, você não vai na hora que o fotógrafo tem que bater a foto. Então quando você passa a enxergar o mundo como ele é, sem interferência, acompanhando, convivendo, é outra fotografia. A fotografia seria um pretexto para 'sas experiências? Sem dúvida, se eu não fosse fotógrafo, provavelmente eu teria outro rumo na minha vida. Infelizmente é isso que acabou. Desculpa, mas o jornalismo morreu, o jornalismo de verdade morreu. Hoje é uma atividade como qualquer outra, burocratizada total, as pessoas ficam no computador, pesquisando na internet, ninguém viaja mais. Eu sou da época do jornalismo que a gente tinha que ir nos lugares, viajar, e é isso que faz uma cultura. Hoje você não paga para o fotógrafo ir aí no lado. O que melhora o indivíduo é a 'trada, a vida, o mundo, mas hoje ele fica enfurnado na frente do computador, fazendo entrevista por o telefone como a gente tá fazendo aqui. Não vamos generalizar, você não viria aqui só para fazer uma entrevista, mas seu Estado é uma maravilha, eu voltei alguns anos atrás no Sertão dos Inhamuns, apesar de toda a seca, é uma das coisas mais maravilhosas do mundo. Quando você vê o Sertão dos Inhamuns na televisão? Você não vê uma abordagem de 'sa gente, ninguém quer ir lá, porque não tem hotel, nem tem outras coisas ... Agora não se anda, não se pesquisa, não se faz nada, então não se descobre. Qual o equipamento que você usa hoje? Trabalho com Leica M6 e M7, não sou mais um fotógrafo que anda fantasiado, ando como cidadão, menos fotógrafo possível. Trabalho só com lentes pequenas 35mm, 28mm e 50mm. Eu era um fotógrafo de 'porte, eu sempre fui fotógrafo de 'porte, de trabalhar com grandes lentes. Eu cobri duas Copas do Mundo, Olimpíadas, trabalhei na Gazeta Esportiva que foi meu primeiro emprego. Mas no trabalho pessoal, mais importante que a fotografia pra mim é 'tabelecer o contato com as pessoas que eu vou fotografar. A tele serve pra você roubar uma imagem e eu não quero roubar uma imagem. Eu deixei de subir em cima da mesa, invadir lugares, coisas que eu fiz a vida inteira como fotojornalista. O mato foi me civilizando, o caboclo a Amazônia, foi me civilizando. Porque não trabalha com equipamento digital? Primeiro porque ninguém me pediu nada em digital ainda, no dia em que alguém me pedir uma foto digital e o trabalho for bem pago eu compro uma câmera digital. Eu não vejo muita diferença, eu acho uma pena um ponto de vista querer eliminar o outro. A fotografia digital em si é uma maravilha, depende do que você quer da vida, eu acho que do ponto de vista cultural o filme é muito mais rico, porque precisa ter um entendimento de todo processo químico e mecânico. A fotografia digital é igual um telefone celular, quem mexe num celular sabe mexer numa câmera. Isso é muito legal porque socializou a fotografia, por outro lado banalizou também. As pessoas acham que a fotografia é cor e qualidade. Eu acho que não, a fotografia é emoção, você pode ter uma foto fora de foco que passe emoção. Pra mim tanto faz, se eu tiver de fotografar com uma câmera digital, mecânica, um pedaço de pau, tanto faz. Pra mim vale o que tá na cabeça. A câmera só serve pra decodificar o que tá na sua cabeça. Número de frases: 114 www.pedromartinelli.com.br Isidoro Ferreira de Sousa, mais conhecido como Seu Isidorinho, é um dos fundadores de São Salvador do Tocantins. Foi ele também o responsável por trazer a primeira 'cola para a região, quando ainda era distrito de Palmeirópolis. Antes disso, aprendeu a ler por conta própria, com ajuda de um aqui, outro acolá. Primeiro aprendeu o nome, depois «o a, o be, o ce, o de, o e, o fe, o gue ...». Mas não foi muito além disso não. Ele já vai completar 74 anos e diz ter «só» 20 filhos. O mais velho de eles tem 52 anos e a mais nova, Silvinha, tem 4 aninhos. A 'posa tem 38 anos e é mãe de cinco dos 20 filhos. O mais velho de ela tem 21 e já é pai. Em o dia em que fui conversar com Seu Isidorinho, o encontrei no meio da roça, roçando como se tivesse metade de sua idade. Entrou no carro, e seguimos para sua casa, para conversar melhor. Em o caminho, passou por nós uma menina a cavalo. Perguntei: -- Sua neta? -- Não, minha filha -- respondeu orgulhoso. Ele jura que quase nunca toma remédio de farmácia. Quando tem algum problema de saúde, busca no mato as ervas para se curar, seguindo ensinamentos que aprendeu desde os 15 anos com os mais velhos da região e também com um índio que passou por ali uma vez. Aprenda as receitas do Seu Isidorinho para chegar aos 74 com uma filhinha de 4: Xarope para combater a gripe: Basta ferver folhas de eucalipto, folhas de negra mina, raiz carrapicho de ovelha e folhas da laranja numa panela com mel de abelha. Depois de bem fervido, coar para tirar as folhas e a raiz. Seu Isidorinho aconselha tomar 2 a 3 colheres por dia até curar a gripe. É bom colocar dentro da geladeira para conservar o xarope por mais tempo. Chá " dispectiorante ": Folhas de imburana com folhas de carro-santo na água fervendo. Misturar mel de abelha oropa ou açúcar mais ua colherinha infantil de óleo de mocotó ou de soja. Tomar até ficar curado. Remédio para cólica, dor no útero ou na bexiga e antibiótico: Ferventar com água: folha da mulatinha, folha de erva Santa Maria (ou mastruz), folha do gervão. Adicionar uma pitada de sal Chá para infecção intestinal: Folha sete dor, folha de boldinho e uma pitada de sal. Ferver bem a mistura. Xarope para garganta: Segundo «Seu Isidorinho,» é muito melhor que o de farmácia, porque é todo natural e grátis, e faz o mesmo efeito». Leve 3 caroços de vage de sicupira ao fogo até roxear. Apague o fogo, pegue os caroços com um algodão séptico para não contaminar. Amassar com açafrão e ½ colherinha infantil de sal. Misture na água fervendo. Esse xarope não é para beber, mas para «gargulejar» Número de frases: 41 O Casamento Por o Voto ( Autor: Antonio Brás Constante) Os casamentos não são fáceis. Exigem compromisso. Confiança. Apoio de ambos os lados. Talvez por isso a atual união entre governo e povo 'teja tão abalada. A fé e as 'peranças de muitos caíram por terra, diante de tantas denuncias e 'cândalos. Mas não é a primeira vez que isto acontece. De quatro em quatro anos a população rompe o matrimonio político com 'te ou aquele governo, se lançando ao encontro de uma nova aventura. Pois sempre a oposição fica nos seduzindo com ares de amante. Tentando nos convencer a ficar com ela. Dizendo que é melhor em todos os sentidos. E nós, povo brasileiro, muitas vezes nos deixamos enfeitiçar por suas promessas doces de sonhos coloridos. O governo já foi uma de 'sas amantes. Que perdeu completamente seu encanto ao se tornar nossa «patroa». Devemos lembrar que a 'posa tem uma tarefa árdua nas mãos. Mais do que agradar ao marido, ela tem de se preocupar com as finanças do lar. Precisa deixar a casa arrumada, cuidar do que vamos comer, vestir, etc.. Trabalhar para que nossa residência não desabe. E isto é uma tarefa extremamente difícil. Exigindo diversos sacrifícios. Que acabam muitas vezes desagradando aqueles que só se interessam por os benefícios que ela pode oferecer, sem se preocupar com as diversas obrigações, também embutidas em 'ta relação. como se aquelas obrigações fossem um problema apenas de ela e não de todos que ali vivem. Em 'te ano teremos novamente que 'colher entre renovar as promessas de apoio a nossa atual 'posa, cujos defeitos e virtudes já conhecemos. Ou partir mais uma vez em busca de uma amante perfeita. Cheia de artifícios e juras extraordinárias, tentando nos convencer que num passe de mágica poderá solucionar os problemas do Brasil. Prometendo satisfazer todas as nossas vontades e necessidades. Ou seja, novamente poderemos cair na armadilha das promessas impossíveis. Vivemos um casamento político turbulento. Fomos traídos em muitos sentidos. Fomos enganados, perdendo uma grande parcela da fé que tínhamos. Descobrindo que ao beijar o sapinho barbudo que nos governa, ele não se transformou no príncipe encantado que nossa nação sonhava. Mas ao mesmo tempo, não podemos negar que alcançamos melhorias em 'te pântano de lama chamado Brasil. Ainda não conseguimos transformar o tal pântano lamacento num lago dourado. Mas apesar de todos os tropeções que ocorreram, já é possível ver uma certa luz iluminando suas águas barrentas. Águas que foram poluídas por diversos governos no decorrer da história deste imenso país, e que demorarão ainda muito para se tornarem limpas e transparentes. Manter o atual casamento, ou partir para uma nova aventura? Está em suas mãos decidir quem ganhará a aliança do seu voto. Dados De o Autor: Natural de Porto Alegre. Residente em Canoas RS. Bancário. Bacharel em Ciência da Computação. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores). Sites: www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc) Atenção: Divulgue 'te texto para seus amigos. ( Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos). Nota do Autor: Caso queira receber os textos do 'critor Antonio Brás Constante via e-mail, basta enviar uma mensagem para: Número de frases: 50 abrasc@terra.com.br pedindo para inclui-lo na lista do autor. Quando sobrou pra mim a tarefa de continuar tentando uma entrevista com o fodástico Max Gehringer, entrevista que há muito os colegas aqui da redação tentavam desenrolar para o house-organ de um de nossos clientes, de imediato eu pensei: «se os profissionais que trabalham aqui com mim na Assessoria de Imprensa (muitos de eles também fodásticos) ainda não conseguiram a bendita, um inexperiente 'tagiário com pretensões à trainee como eu é que não vai conseguir». No entanto, dois meses e meio após o início das conversas, eu já 'tava editando as respostas oferecidas por o Max aos meus questionamentos e me perguntando o porquê daquela descrença toda em mim mesmo. Pois veja só: além de conseguir a entrevista para o jornal corporativo, ainda vi o Max responder prontamente a uma entrevista exclusiva que lhe propus para meu blog pessoal sobre construção de uma carreira fora do mercado corporativo -- ou seja: sobre uma possível futura carreira para 'te pretenso 'critor. A verdade é que, como o Max é «o cara» para falar sobre gestão de carreiras, pensei com mim: «por que não pedir a 'se cara dicas para quem, como eu, não tem vocação para o 'critório, mas que precisa e gosta tanto de grana quanto qualquer engravatado?». Bem ... arrisquei. Mandei-lhe um e-mail propondo as entrevistas, brincando com o fato de elas terem uma importância 'pecial para mim -- afinal, uma exclusiva com Max Gehringer seria um incentivo e tanto para meus chefes me darem a tão aguardada promoção. E na verdade, não " seria ": foi. Entrevista já no meu disco rígido, assino trainee agora. Talvez não «só» por causa disso, mas muito provavelmente «também». Segue a bendita abaixo. Pretenso Literato: Minha pergunta tem a ver com quem, assim como eu, não deseja enveredar-se por o mundo corporativo, mas sim por outros campos de profissão como Artes Plásticas, Música Popular, Literatura ou Circo, por exemplo. É possível para 'tas pessoas construir sistematicamente uma carreira tal qual se faz no mundo corporativo? Como? Max Gehringer: A vantagem do mundo corporativo é a coletividade. Em uma empresa, um empregado que executa uma determinada função pode ser substituído por outro, com 'colaridade e experiência. Em o mundo das Artes, o que conta é o talento individual. O que existe em comum em dois mundos tão díspares é a necessidade de construir um bom networking. Uma mãozinha sempre ajuda, tanto para quem quer conseguir um emprego quanto para um músico que quer mostrar seu trabalho. P. L.: Mas existem perspectivas de prosperidade financeira para quem deseja se lançar em 'tas carreiras menos formais? Pergunto porque algumas de 'tas carreiras prescindirem em parte da formação acadêmica, ou de um «plano padrão» de desenvolvimento, como a inserção numa grande companhia, o aprimoramento através de cursos etc. Max: Ao contrário do mundo corporativo, em que uma carreira é progressiva, e vai sendo construída através dos anos, o mundo das artes requer habilidades que podem ser constatadas muito cedo. Um 'critor que não tenha imaginação aos 20 anos não a terá aos 40. Qualquer pessoa que pretenda viver da arte deve ter em mente que, se nada acontecer até os 30 anos, dificilmente algo irá acontecer depois disso. Portanto, seria conveniente ter uma carreira paralela, numa empresa formal, para o caso do pendor artístico não resultar num meio de vida. (Pensamentos inevitáveis deste pretenso literato: " Faço 27 anos em novembro. Merda! Tenho apenas três anos para ' acontecer ', ou meu destino acabará sendo engordar a barriga atrás da mesa de uma ' repartição '. Putz, agora ferrou!"). P. L.: Qual seria então, em 'te caso, «o caminho das pedras»? Ou melhor: existe um caminho das pedras para 'tas situações? Max: Um bom exemplo é o dos palestrantes profissionais. Temos cerca de 10 mil de eles no Brasil, sendo que 80 % são palestrantes eventuais (professores, consultores e profissionais de empresas que fazem duas ou três palestras por ano). De os que sobram, não mais que 50 conferencistas conseguiram fazer das palestras uma atividade rentável, o que muita gente 'tranha, já que falar parece ser a coisa mais simples do mundo. Esses poucos montaram um material diferenciado e possuem carisma suficiente para manter uma platéia ligada durante duas horas. Quando muitos tentam e tão poucos conseguem, a resposta é a que a maioria não gosta de ouvir: a de que o talento que a pessoa imagina ter é menor do que os eventuais contratantes enxergam em ela. (Pensamentos mais que inevitáveis: " Não me fala que eu não quero ouvir! Não me fala que eu não quero ouvir!"). Então é isso. A verdade é que gostei tanto do lance das entrevistas que, de agora para a frente -- se a sorte e o acaso me ajudarem a conseguir entrevistados bacanas como 'te --, frequentemente vou publicar uma entrevista interessante em meu blog. ( Talvez nem sempre com um caso engraçado antes, vá lá, mas sempre com o foco relacionado à pauta do blog). * Max Gehringer é dos maiores 'pecialistas do Brasil em carreira e nas regras do mundo corporativo, além de 'tar tirando do prelo o seu nono livro sobre o mundo empresarial: «Emprego de A a Z». Número de frases: 52 Max 'creve semanalmente para a revista Época, dá dicas na rádio CBN e mantém um quadro fixo no programa Fantástico. Tenho ficado impressionada com algumas coisas, mas não sei por quê. Notei a «hegemonia do pensamento único» em muitas das coisas que vi desde que encontrei o caminho da pseudo-não-aliena ção e tentei lutar contra isso, me refugiando em Jean Baudrillard quando ele diz: «debruçado sobre a fonte, Narciso sacia a sede: sua imagem já não é outra, ele é sua própria superfície que o absorve, que o seduz, de forma que ele pode apenas aproximar-se sem nunca passar além de ela, pois ela só existe além na medida da distância reflexiva entre ele e ela ... o 'pelho d' água não é uma superfície de reflexão, mas uma superfície de absorção». Isso me reconfortou ao ponto de entender o 'pasmo mental que várias pessoas sofrem a cada dia com o poder que uma simples imagem tem de manipular as suas vidas, como a imagem de uma pessoa que, embora mostre a cada dia que é mais medíocre, ainda inebria. A tal ponto de afogá-las em seu próprio ópio. Sabe por que as pessoas reclamam quando você é contra a beleza massificada? Porque isso inverte a lógica da relação de forças, daí o seu impacto sobre elas. As coisas, com o advento da televisão, adquiriram um valor nunca antes imaginado em 'ta proporção: o valor 'tético. O recurso da superexposição de imagens fez com que as pessoas, cada vez, mais se preocupassem com a associação da aparência com o que realmente faz o caráter. E 'se foi o grande erro que nós (sim, inclusive eu) cometemos, nos condicionando a meras vistas sobre algo, condicionando o imaginário a mera competência do que é mostrado, moldando percepções e adquirindo isso como verdade de uma cultura. Não há como entender os seres humanos, em seu 'tado globalizado, se não fizermos uma reflexão sobre o que se é. Somos mídias ambulantes, ou aspirantes a uma de elas. Somos frutos de uma verdadeira indústria da manipulação de consciências, onde nada é discutido e aprofundado. Não aprendemos a refletir. E quando o fazemos, somos amadores. A busca por algo é remetida somente a uma alienação «saudável», que não faz diferença pra muitos no final das contas. A «deusificação» hoje em dia é mais importante que a análise da banalização das nossas vidas. Por isso é que se brinca tanto com a gente. Tire um tempo da sua vida. Pare. Pense. Eu sei que às vezes dói, porque pensar não é exercício pra muitos, imagine tentar tirar conclusões disto. Mas 'se é o único jeito de se «libertar» de um mal que a muito tenta afogar vocês. Mas como já dizia o sábio «imagem não é nada, sede é tudo». E onde é que 'tá a Sua sede? Número de frases: 28 Ouço diversas pessoas, de diversas classes sociais, de diversas formações, de diversas idades, todas reclamando que Salvador é foda. «Aqui não tem cultura» é a frase mais falada por 'ses residentes da Bahia. E, muitas vezes em 'sas elucubrações, a cidade de Recife é citada de forma preconceituosa e ao mesmo tempo elogiosa com «até Recife tem mais cultura que Salvador». Em junho, por conta da inauguração de mais um mega shopping center, Salvador recebeu um outdoor com os dizeres: Agora Salvador tem um mega centro de cultura. Esse anúncio é da livraria Saraiva, que acaba de inaugurar sua primeira loja em Salvador. Quando viajei com Cris por a Europa (2004), umas das coisas que mais nos deixou impressionados foi o Palácio Real de Madri. Cada salão, cada janela e cada móvel do palácio merecia uma observação minuciosa. Cada quarto dava pra ficar, sem se entediar, no mínimo, 30 minutos. Por conta disso, o Palácio de Versailles, nos arredores de Paris, nos pareceu fró-fró. Pisos soltando, tetos descascando, os 'pelhos da Galeria de Espelhos um tanto enferrujados ... Também tinha coisas interessantes, principalmente relacionadas a fatos históricos, mas o 'plendor do de Madri fez Versailles parecer um casebre. Em a faculdade de história, o não-amado professor Andorinha disse uma vez que todo o ser humano tem cultura. Não importa nível de 'colaridade, nem nível de acesso a informação, todos têm cultura. Aquele menino de 14 anos, que, porventura, não sabe ler nem 'crever, tem cultura. Cultura de ele, da vida, do que ele viu e ouviu. De aí, acredito que cada ser humano é uma cultura. Cada um leva dentro de si a sua, seja ela o que for. Os brasileiros são comumente chamados de um povo multicultural graças as diversas influências deixadas aqui. Assimilamos tudo como um computador. De repente, somos um povo cheio de cultura justamente por não termos educação, o que nos faz aceitar toda e qualquer coisa que seja mostrada. Advogado baiano que mora no calor insuportável da Bahia tem a cultura de trabalhar de terno e gravata porque os franceses do frio gostoso, que inventaram o terno, disseram que terno e gravata é o power. Conheci a cultura de Cissinha. Fui na farmácia e na fila do caixa duas senhoras gordas que 'tavam na minha frente, faixa dos 50, carregadas de maquiagem que derretiam no calor baiano, começaram a conversar, após olhares recíprocos de uma na cestinha de compras da outra. A da frente, sem ninguém perguntar nada, já foi se defendendo: -- Com 'se aqui já perdi um quilo e meio em dois dias -- disse arregalando os olhos enquanto balançava a cabeça afirmativamente. Deve ter passado dos 120 quilos pra 118, 5. Ela também carregava, alem dos três potes desse tal remédio, dois cremes que fariam a pele de ela ficar igual a de minha sobrinha de quatro anos, um creme de alisamento pra cabelo e uma edição da revista Boa Forma com as manchetes: «Pílula anti-barriga, a opinião de quem tomou "; «Maracujá bloqueia gordura "; «Dieta anti-oxidante, menos 2 Kg em 5 dias», e «As 'covas que garantem o liso perfeito». Em a capa, o casal modelo da cultura de Reality Show, Alemão e Íris, com o subtítulo «Ela se transformou para conquistar a fama e o coração deste gato». Curiosamente, 'se exemplar da revista Boa Forma 'tava numa prateleira ao lado de um folhetim com o mesmo casal na capa, porém, separados por um rasgão na foto, como fazem alguns casais de namorados quando brigam, com o subtítulo " A caipira que eu me apaixonei na casa não é mais a mesma. Ela mudou." Surreality Show. Logo após ter respondido sobre sua cestinha, ela olhou para a cestinha da de trás como se perguntasse «e você, com 'sas quatro embalagem de Bromazepan, aí?». A de trás entendeu o olhar e prontamente disse: -- Aqui é tuuuudo para a Cissinha -- enquanto fazia círculos com a mão, rodeando a cestinha, pra deixar bem claro que naaaaada da cestinha era para a ela. A da frente respondeu com outro balançar de cabeça, só que agora com um olhar blasé, a boca fechada e as narinas abertas como se dissesse " sei, me engana que eu gosto. Tudo para a Cissinha, né?». Esse olhar parece tê-la atingido, pois ela se virou pra mim, que 'tava logo atrás, e disse, enquanto dava risinhos de desculpas: -- Hehehe, de vez em quando eu tomo um, né? Hehehe. Agora foi eu, a gorda de 118,5 e a menina do caixa que fizemos o movimento " sei, me engana que eu gosto. De vez em quando, né?». E ela então começou a falar sobre Cissinha. A caixa-registradora tinha emperrado e ela teve tempo suficiente pra dizer sobre todos os problemas de Cissinha e assim, nos fez entender o porquê das quatro caixas do tarja preta. Caro leitor, se você um dia conhecer alguma Cissinha, fuja. Pode ser que não seja a mesma, mas é melhor não arriscar, fuja. Em o fim ela ainda disse: -- Ainda bem que agora as embalagens 'tão vindo com 30 comprimidos. Por conta da cultura do terno e gravata, dois anos atrás tive que comprar um para os eventuais casamentos que começaram a aparecer. A passagem da vida pode ser medida por o tipo de evento em que você passa a freqüentar. Teve um ano que eu só ia para a festa de 15 anos. Depois teve a fase formatura e agora tô na fase casamento. A fase batizado também tá chegando e em breve vai entrar a fase festa de 1 ano. Meu avô chegou na fase enterro, pois não cansa de dizer que de todos os seus amigos, só dois 'tão vivos. É o evento que ele mais compareceu nos últimos anos. Comprei um terno pra justamente passar despercebido em meio aos seguranças e convidados de um casamento. O problema é que meu terno fica 99 % do seu tempo no armário e só lembro de tirá-lo no dia da festa. Sempre passo a festa toda 'pirrando. Eu e quem 'tiver do meu lado. Em junho de 2007, a nova Secretaria de Cultura da Bahia promoveu um café da manhã com o intuito de lançar os editais que apoiarão a cultura no Estado. Uma amiga disse que eu deveria ir, já que 'tou precisando de recursos para a concretização do livro, e que o edital relativo a literatura poderia ser interessante aos meus objetivos. O café foi no Palácio Rio Branco, no centro de Salvador. Lugar que eu nunca havia ido. Esse palácio já foi sede do governador da Bahia e fica em frente a prefeitura da cidade. Cheguei cedo e fiquei 'perando na balaustrada do palácio pra ver se assistia o prefeito subindo as 'cadarias da prefeitura, mas em seguida, o faxineiro que passava por ali me disse que ele só entra por a garagem. -- Trabalho aqui há mais de 25 anos. Nunca vi um prefeito entrar na prefeitura por a porta da frente. Só no dia da posse. Parece que depois ficam com medo do povo -- disse ele, que me 'queci o nome. Lembrei da conflitante cena do papa Bento XVI na sua chegada a São Paulo, onde de dentro de uma redoma de vidro blindado ele ouvia a multidão gritar «Papa, eu te amo». O evento seria no andar de cima, onde havia uma ante-sala com uma mesa no centro com uvas, maçãs, melancias, melões e os editais 'palhados à disposição dos convidados. Tinha edital para a dança, para a arte visual, música, teatro ... só não tinha para a literatura. Encontrei-me com o amigo e músico Messias e falei sobre a falta de um edital de literatura. -- Porra man, relaxe, pelo menos você pode comer uma uvinha -- disse ele. Com o tempo, a sala foi enchendo de artistas. Encontrei outro amigo, o artista plástico J.Cunha, e perguntei se ele conhecia o secretário de cultura. Ele disse que sim e que no decorrer da manhã me apresentaria a ele. Antes disso, entrei na sala onde teria a exibição dos projetos e conheci um amigo virtual, o filósofo André Stangl. Comentei também com ele sobre o fato de não haver um edital para a literatura e ele logo disse: -- Vou te apresentar a um cara que vai saber te falar tudo sobre isso. Enquanto era apresentado a Geraldo Maia, fui observando-o e percebi se tratar de uma figura culturalmente de 'querda e bastante caricata. Barba grande, cabelos desarrumados, terno puído, uma leve mágoa no olhar e, naquele momento, com a braguilha da calça aberta. Ele é responsável por o Núcleo de Leitura e por as políticas da Fundação Pedro Calmon para o 'tímulo à circulação das mais diversas manifestações literárias. Depois de falar mal sobre os «inacreditáveis trâmites burocráticos do poder», ele me disse que a secretaria achou melhor separar literatura das outras culturas e que só teria edital lá para o segundo semestre. No meio de sua explicação do porquê disso, uma mulher, ignorando a minha existência e ignorando o nosso assunto, chegou e interrompeu nossa conversa perguntando a ele, toda bem humoradinha: -- E seu amigo ACM?-- em relação ao fato do recente 'tado de saúde do senador baiano. Geraldo parou a explicação que me dava pra responder a ela, perguntando: -- Você viu meu último cordel? -- Vi ...-- disse ela com o mesmo sorrisinho com que fez a pergunta. -- Então ... é aquilo ali ... -- Ah, Geraldo, você é meu anarquista predileto -- disse ela, me dizendo, sem querer, que a braguilha aberta poderia ser uma coisa proposital. Percebi então que Geraldo 'tava mais à vontade falando mal de políticos adversários do que me dando uma explicação, e achei mais proveitoso ir comer outra uva. A sala foi enchendo e o lugar perto do cafezinho era o que mais aglomerava gente. Era o principal atrativo do palácio Rio Branco e permaneceu cheio mesmo durante a apresentação dos editais, feita por o secretario Márcio Meirelles. A cultura do cafezinho, pra algumas muitas pessoas ali, parecia ser mais interessante. Outra cena conflitante, pra mim, era o secretario da cultura da Bahia de terno e gravata. Acredito que os secretários de cultura deviam se influenciar por a cultura francesa dos livros e não das roupas. Um terno azul e quente. Tão azul e quente quanto o céu e o clima daquela manhã soteropolitana. Não achei J.Cunha e eu mesmo fui me apresentar ao secretário para questioná-lo sobre a falta dos editais para literatura. Em meio ao seu suor torrencial, ele me respondeu dizendo que ia me apresentar a uma pessoa que me responderia tudo sobre aquilo. «PUTAQUEPARIU, de novo, não», pensei. Ele disse que era pra segui-lo. Enquanto o seguia, aproveitando que a sala 'tava cheia, achei melhor usar a mesma cultura que ele, e saí à francesa. Fui comer outra uva. Em tempo: Muitos amigos me disseram «porra, você tem que ir na nova Saraiva, é incrível e blá, blá ...». Fui, achei a livraria muito cara e um tanto fraquinha, talvez, por o fato de eu ter tido a sorte de conhecer uma bem melhor em Recife, a Cultura Título do texto é citação de «Pelado», música de Roger Moreira, Ultraje a Rigor. Número de frases: 116 Crítica original do blog Motocontínuo Se existe uma atriz que pode personificar o Teatro, 'sa é Ângela Barros. Sempre surpeendente, de uma energia fortíssima, uma mãezona, tal e qual uma Cacilda Becker de nosso tempo. Se Cacilda dizia que «se fingia que cantava, todo mundo acreditava», Ângela pode dizer: «se eu interpretar o próprio Teatro, as pessoas irão acreditar». E é isso o que acontece em O Amor do Sim, em cartaz no Espaço dos Satyros Um, na Praça Roosevelt. Ela literalmente rouba a cena dos outros competentíssimos atores em 'sa comédia de Mário Viana, integrante do projeto E Se Fez a Praça Roosevelt em 7 Dias, com uma peça para cada dia, ligada à Praça que abriga vários teatros. O Amor do Sim é a de segunda-feira. Comédia leve, como deve ser o começo da semana. Entretanto, Viana insere pitacos interessantes, aproveitando o encontro de quatro personagens distintas: o 'pírito do Teatro, um iluminador (Otávio Martins), uma manicure (Flávia Garrafa) e um homossexual (Alex Gruli). A manicure Sueli foge da barbárie que assola o mundo lá fora e é salva por um iluminador, Louro, que a ajuda a se 'conder no teatro. Eles acabam se interessando um por o outro quando descobrem a existência do 'pírito do Teatro, de nome Dirce (Ângela Barros). Entretanto, o homossexual Buri surge, também fugindo do caos, para colocar fogo na relação entre o artista e a 'teticista. Aparentemente despretensiosa, a comédia dirigida por o requisitado Alexandre Reinecke (diretor também da há-pouco 'treada Álbum de Família, em cartaz no Sesc Anchieta) lida com situações para provocar o riso, muitas vezes auto-referenciais e metalingüísticos, não bastasse a cenografia reproduzir o Espaço Um dos Satyros na verossimilhança-'pelho. Só faltava cópias do público sentado. Sueli 'tranha aquele teatro, o teatro não-convencional, sem drapeados e ornamentos. É a voz do dito «povão», que credita ao Teatro a alcunha de» difícil de ser entendido " e elitista. Quando a manicure diz a Dirce sobre as novelas, o 'pírito do Teatro quase se apaga. A comicidade surge desses tipos, logicamente: um iluminador descolado (porque se entende que gente de teatro é assim), um homossexual afetado e uma manicure alienada. As interpretações 'tereotipadas, numa primeira análise, seriam passíveis de crítica ferrenha, já que é o que se faz atualmente: qualquer falta de complexidade de personagem é tremendamente criticada; tipos só na Commedia Dell'Arte ... Mas eu não achei que foi o caso. Há uma proposta. Os tipos não pretendem atingir só o riso. Em a verdade, servem a múltiplas funções: abrangem a variedade de pessoas na Praça Roosevelt (gays e pessoas da classe teatral) e o povo que desconhece o lugar (moradores da periferia). Objetivam o macro, o foco maior: a Barbárie contra a Arte, o Teatro, o Povo, os Artistas e os Excluídos. Além do mais, os detalhes de composição que cada ator utilizou para as personagens retira o viés pejorativo do «'tereótipo» daqueles seres ficcionais. Ponto para Reinecke e os atores. Com todos 'ses prós, um contra me deixou de dar nota 10 à comédia: a resolução rápida dos conflitos 'tabelecidos numa lógica muito bem aceita para comédias românticas, mas inaceitável para dramaturgos e encenadores experientes. Entretanto, a peça diverte e é crítica, coisa que poucas comédias hoje fazem. Portanto, relevemos. O Amor do Sim. Direção: Alexandre Reinecke. Elenco: Ângela Barros, Flávia Garrafa, Alex Gruli e Otávio Martins. Onde: Espaço dos Satyros Um, Praça Roosevelt, 214. Quando: Segundas, 19h. Até 30 de junho. P.S.: Número de frases: 44 Sem foto de divulgação, pois não conseguimos encontrá-la no formato utlizado por o Overmundo, apesar de ter lindas fotos da Lenise Pinheiro aqui. Tarde de domingo, três da tarde. Uma pequena multidão de pessoas de todas as idades (em sua maioria adolescentes e pré-adolescentes) se aglomera em frente ao marmóreo Teatro Alfa, lá longe. Apesar de faltar uma hora inteira para o início daquela matinê, todos já 'tavam lá e ansiosos para assistir àquele que possivelmente seja o 'petáculo em cartaz com os ingressos mais caros da cidade: o musical My Fair Lady, adaptado de O Pigmaleão de George Bernard Shaw. Sandrinha Souto, consultora de estilo da Revista Bacante (ou As Bacantes, segundo constava no envelope com nossos ingressos) também 'tava presente e constatou que aquela platéia é uma das mais chiques da cidade e mostrou que adora bater palmas (inclusive em cena aberta e para coisas tão bobas quanto um personagem 'tender o braço para que uma personagem o acompanhe). A Broadway em São Paulo Aguardar o início da peça ouvindo a orquestra afinando os instrumentos dentro do fosso me fez lembrar a temporada do musical Lés Misérables, que reinaugurou o Teatro Abril, antigo Paramount -- que até a reforma (pra não dizer demolição e reconstrução) dividia seu imenso 'paço entre peças infantis (para as crianças) e filmes pornô (para seus pais). Em aquela época, o Abril era uma locomotiva que dava suas primeiras apitadas para uma tendência que faria um imenso sucesso na cidade. As megaproduções musicais ainda não tinham a mesma visibilidade e o mesmo público que têm hoje: os ingressos não eram tão caros, o elenco era inteiro de desconhecidos talentosíssimos e Daniele Winits ainda não havia mostrado seus peitos com vida própria (não num musical da Broadway) e tampouco seu pouco talento (ainda 'tou me restringindo aos musicais da Broadway -- produções do Wolf Maia não contam). Hoje o musical caiu no gosto dos paulistanos e tudo indica que tão cedo a cantoria não vai acabar (e que o céu é o limite quando o assunto é o preço dos ingressos). O presidente Lula já não conseguiria contar nos dedos das mãos a quantidade de franquias e produções da Broadway que já passaram por os palcos paulistanos nos últimos dez anos, e 'se mundo mágico das dancinhas continua em ebulição: foi considerável a evolução dos musicais desde que Cláudia Raia era o maior nome do gênero com sua trilogia (composta por Não Fuja da Raia, Em as Raias da Loucura e Caia na Raia, que eu era pequeno demais para assistir -- o que certamente me salvou de algumas boas horas de análise), até a chegada do know-how 'trangeiro. Agora os musicais 'tão dando um passo a mais (ou seria um pulinho coreografado?). Assim como ocorreu com a recente montagem tupiniquim de Sweet Charity ('trelado por uma Cláudia Raia menos 'pivetada e inspirado nas Noites de Cabíria de Fellini), a versão paulistana do clássico My Fair Lady não é uma franquia importada, daquelas que são tiradas da caixa, ligadas na tomada e já saem funcionando, sob supervisão das detentoras dos direitos de produção e sem um único neurônio queimado para releituras locais -- a única exceção são os neurônios do tradutor, que acaba sempre sendo o Claudio Botelho. Finalmente My Fair Lady Em 'te 'petáculo os belos e originais figurinos foram todos desenvolvidos por Fábio Namatame para a produção local, e os dez cenários criados por a cenógrafa Daniela Thomas. Tudo novo, tudo feito exclusivamente para 'ta montagem. Mas as diferenças e as liberdades criativas param por aí. As letras e as músicas permanecem as mesmas (traduzidas por o mesmo Botelho das montagens da Cie Brasil, dona do Abril) e, apesar de não ser uma franquia da Broadway, a montagem assume o mesmíssimo formato das produções da rua que atravessa Manhattan (sem, no entanto, ficar atrás na qualidade técnica e, sobretudo, no desempenho dos atores). A maior ressalva 'tá na decepcionante cenografia, que apesar de possuir um ou outro cenário bastante bonito, é tão naturalista que só serve para indicar à platéia onde se passa cada uma das cenas, sem agregar ou dialogar com a linguagem do 'petáculo. Talvez tenha sido exatamente a encenação e 'ta linguagem «Broadway-wannabe» que tenha impedido Daniela Thomas de criar com a ousadia que vemos em seus outros trabalhos. A troca dos cenários também é pouco explorada, deixando claro que a cada vez que os atores vêm ao proscênio e cantam / dançam em frente a uma tela branca ou preta, é sinal de que lá vem troca de cenário. Enfim, perderam a chance de ousar para fazer um pouco mais do mesmo, mas c ' 't la vie. Apesar de todas 'tas ressalvas, seria injusto demais dizer que o 'petáculo não funciona ou que não tenha havido muito capricho e talento em sua criação e execução. Acontece que 'tes pontos todos na verdade não passam de observações de um chato perfeccionista que, apesar de tudo, confessa ter se divertido à beça com a peça (uia, rimou! Será que se colocar uma música algum dos atores cantaria isso?). A montagem 'tá ótima: o elenco inteiro 'tá afinadíssimo, tanto nas vozes como nas coreografias, e o texto traz sutilezas e ironias deliciosas que são muito bem apropriadas por os atores. Daniel Boaventura (um dos protagonistas prediletos dos produtores nacionais, ao lado de Saulo Vasconcelos), 'tá excelente no papel do professor de fonética Henry Higgins, desafiado a transformar a vendedora de flores Eliza Doolittle (interpretada aqui por a ex-Trem da Alegria Amanda Acosta) numa Lady. Outros ótimos destaques são as hilárias e competentes atuações de Francarlos Reis no papel do pai de Eliza, e de Frederico Silveira no papel de Fred, um jovem apaixonado que acabou tão pouco explorado que deixou um certo hiato na história. Em a verdade, existem outros hiatos, sobretudo na transformação da abóbora em princesa, mas deixa pra lá. Número de frases: 33 O que importa é que My Fair Lady vale muito a pena, mesmo. A matéria «Vá dormir com um barulho desses» assinada por Adriana Bernardes por o Correio Brasiliense de domingo, dia 4 de fevereiro, revela depoimentos de comerciantes e moradores sobre o barulho nas quadras por causa dos bares. Para aquecer a discussão O Futurista entrevistou Ana Regina Neri, mais conhecida como Jujuba, proprietária do Bar Capela, na 408 Norte: O Futurista: Como resolver o problema da barulheira, se é que há solução? Jujuba: A questão do barulho é: A gente trabalha numa quadra comercial. O nosso público é gente da UnB, funcionários públicos, artistas, músicos. Acho que não incomoda tanto 'se barulho. Em o meu caso é um boteco pequeno onde vão pessoas mais velhas, professores da UnB, da 'cola de música, uma galera que 'tá lá para tomar uma cervejinha mesmo, falando bobagem e discutindo arte. Com relação ao barulho, converso com os moradores. Em o período regular de funcionamento não incomoda tanto. O que incomoda é depois. Como solucinar isso? Mais policiamento seria interessante. Aqui a gente não tem. É um direito de cada um reclamar. Dizer que os donos dos bares são culpados por o barulho: Não! Pelo contrário, devemos cobrar de quem deve. Inclusive quem faz o serviço de limpeza urbana aqui são os donos dos bares. Então vamos cobrar direito. A gente paga imposto, gera emprego, promove arte, cultura. Enfim, o policiamento na quadra vai coibir quem quer bagunçar. O Futurista: Qual a maior vantagem de ser dona de bar? Jujuba: É uma realização porque constituí um negócio. É uma forma de satisfação. A gente conhece muitas figuras diferentes, conversa sobre vários assuntos. É muito bom. O Futurista: E a maior desvantagem? Jujuba: Muito trabalho. Não é só abrir e fechar. Tem que resolver um monte de coisas, desde o fornecedor até a despesa do lugar, correr em administração para conseguir apoio, é tudo muito difícil. O futurista: Você passou a beber mais depois que abriu o boteco? Jujuba: Mais constantemente talvez. O futurista: Como funciona a concorrência entre os bares do Complexo-Pôr-do-Sol? Jujuba: Tem público pra todo mundo. Fico feliz por ter um lugar diferenciado, que tem identidade. O Capela. O bar do Leandro. O bar da Ana. É diferente. É a vanguarda. O Futurista: Mudou algo para os comerciantes depois do Arruda? Jujuba: Não. O Futurista: Você costuma levar muita cantada? Jujuba: Algumas vezes sim. Mas os bêbados geralmente são respeitadores. Ou senão eu corto logo e mando procurar sua turma. O Futurista: Qual a faixa econômica do seu público consumidor? Leandro (o sócio): Pobre. Jujuba: Classe média da Asa Norte. Gente de toda idade. Quem vai lá quase todo dia tem 30 anos, gente já formada, uma galera mais coroa de 50, 60 anos. O futurista: Você lembra de alguma história engraçada? Jujuba: Tem uma figura aqui na quadra. Um senhor que tem um probleminha de amnésia. Ele é todo educado. Ele chega pra você, por exemplo: você é um gentleman! É vascaíno, diz que foi dono do Rio de Janeiro, morou em São Paulo com um tal de Edson Arantes do Nascimento, cunhado do Nilton Santos, grande amigo do Garrincha. É bom que ele pague antes de beber porque fatalmente vai 'quecer. Ou não paga ou paga duas vezes. Uma vez chegou lá: Leandro, você é um gentleman! Me vê uma dosinha de Seleta. Aí lá por as tantas -- toma pinga virando, que nem água -- falou que tava tudo certo. E o Leandro: Não, falta pagar. O vascaíno ficou irado: como assim seu moleque, sempre pago todas as minhas dívidas, e saiu xingando de tudo quanto é nome. Falou que nunca mais ia voltar. Nunca mais pisarei aqui em 'te boteco! Todo trágico. Aí no outro dia voltou: Leandro, você é um gentleman! Uma figura mitológica. O Futurista: E a Copa Capela? Jujuba: Vai rolar. A Capelada -- Copa Capela de Futebol e Arte. E também um bloco de carnaval, o Concentra Mas Não Sai. Número de frases: 100 A TV Globo iniciou ontem um momento importante para a carreira do autor Walcyr Carrasco. Reconhecido por crítica e público por suas «novelas de época» 'critas para o horário das 18h da TV Globo (O cravo e a rosa e Alma gêmea), o novelista foi promovido de horário (para as 19h) e promoveu uma mudança significativa no cenário de sua nova trama -- Sete pecados. De o charmoso início de século XX das suas novelas anteriores, Carrasco agora ambienta sua primeira «novela das sete» na caótica São Paulo deste início de milênio. A trama não tem tanto sabor de novidade: Beatriz (vivida por Priscila Fantin) é uma moça rica, cuja herança do pai desaparecido sustenta toda sua família. Sua primeira aparição na novela é numa cartomante (que mais tarde o público descobrirá se tratar do «anjo» Custódia, participação 'pecial de Cláudia Jimenez). A vidente afirma que a patricinha encontrará um homem com alma de anjo, mas a moça não acredita porque a descrição física não se assemelha à do homem que a pedirá em casamento dentro de algumas horas -- Pedro (vivido por Sidney Sampaio). O extremo oposto da «pecadora confessa» Beatriz (ela assume gostar de pecar numa de suas primeiras falas) é apresentado em seguida: o taxista Dante (vivido por Reynaldo Gianecchini), homem capaz de sacrificar o dinheiro da poupança da família para ajudar o vizinho Nino (interpretado por Flávio Migliaccio), vítima de um enfarte. Casado com a doce Clarice (papel de Giovanna Antonelli), o motorista de táxi, cujo nome faz alusão ao 'critor italiano Dante Alighieri, passará por uma trama com leve inspiração em A divina comédia -- poema célebre do poeta e que, com o passar dos anos (foi 'crita no século XIV) parece não ter perdido a atualidade. Em sua história com a «tentadora» Beatriz, Dante passará por os três «'tágios» narrados por xará da vida real mas de sobrenome Alighieri: Inferno, Purgatório, até chegar ao Paraíso (ou não) no capítulo final que será 'crito por Walcyr Carrasco daqui a cerca de oito meses. Em torno da trama amorosa principal, Walcyr enumerou personagens com qualidades e defeitos, mas que trazem em eles cada um dos sete pecados capitais. O entrecho cômico promete ser a família de Perseu (a cargo de Zé Victor Castiel), o dono da pizzaria que é guloso a ponto de não sobrar queijo para a pizza de mussarela. A avareza foi apresentada na figura do Romeu feito por Ary Fontoura (papel semelhante a Nonô Correia, que ele interpretou na novela Amor com amor se paga, assinada por Ivani Ribeiro e exibida na TV Globo em 1984), que, no trajeto do táxi, recriminou Dante por ele dar 'mola a dois meninos de rua. A soberba se tornou vaidade na pele de Rebeca, a mãe de Beatriz -- outra personagem que promete ter situações inusitadas, mas que perde muito da sua comicidade pois a atriz Elizabeth Savalla usa o mesmo tom de humor 'candaloso que criou para Jezebel, bem sucedida vilã cômica que ela fez em Chocolate com pimenta, novela das 18h assinada por Walcyr Carrasco e exibida entre 2003 e 2004. Alguns pecados ainda não foram apresentados de forma concreta, mas o decorrer dos capítulos se encarregará disso -- e também dos perfis dos anjos Custódia e Gabriel (que será feito por Erik Marmo), um 'piritismo cômico, no 'tilo de Deus nos acuda, uma também novela das 19h, mas assinada por Silvio de Abreu. Em compensação, dois pecados roubaram a cena e fizeram a primeira página do folhetim Sete pecados ser promissor. Um de eles foi acentuado após uma situação constrangedora. Em a inauguração de uma casa noturna que tem como inovação mostrar em suas paredes vídeos amadores da Internet, apareciam imagens nas quais Beatriz e um homem se agarravam numa praia, e ela tirava o biquíni para fazer amor com ele dentro do mar. Uma interessante alusão à Daniela Ciccarelli (flagrada por um paparazzi em situação parecida com o namorado numa praia da Espanha no ano passado), inclusive no momento em que a avó da personagem (assim como a avó da modelo na vida real) afirmava não ter achado nada de mais. Entretanto, na novela, diante daquela situação, Pedro viu despertar em ele o pecado da ira, da raiva diante da traição exposta em público. O outro pecado veio à tona de maneira sutil. Alguns instantes depois do 'pectador ver a áspera reação de Pedro e a fuga de Beatriz num carro, o autor revela que o homem que 'tava com ela no vídeo foi contratado por Ágatha, a inveja em pessoa que quer tomar o dinheiro da protagonista -- e, graças à direção de Jorge Fernando, tornou a personagem de Cláudia Raia sombria sem ser caricata. Em seu retorno à 'crita de um recorte contemporâneo da realidade (coisa que não fazia desde a longínqüa e 'quecida Cortina de vidro, que 'creveu no SBT em 1984), Walcyr Carrasco parece ter adequado seu 'tilo ao molde dos folhetins exibidos no horário das 19h da TV Globo. Sete pecados traz a correria, a ação e a comédia que caracterizam o horário, mas reservam 'paço para o tom de fábula das tramas do dramaturgo. Entre anjos e arcanjos, a TV Globo roga aos telespectadores para que o horário das 19h consiga uma redenção de audiência -- e usa um «milagreiro dos sonhos» que consolidou as 18h como o paraíso da audiência global. Número de frases: 27 A emissora também reza para que Walcyr Carrasco não deixe o público cair na tentação de mudar de canal na hora em que Sete pecados 'tiver no ar. Falações é um livro. Poderia dizer «Falações é o meu livro», mas assim me limitaria a 'crever sobre mim, sobre os poemas que ali 'tão, e não é isso que pretendo fazer. Falações é um livro e um livro de poemas (" mas não 'ses poemas que as pessoas se acostumaram a ler», costumo frisar: " Falações é um livro de poemas de mau-gosto). Há muito tempo que 'tava pronto e há muito tempo que pensava em torná-lo público. Alguns amigos advertiram: «Labes, não faz isso, primeiro publica em papel, depois publica em pdf, etc e tal». Aceitei o desafio -- e a angústia da 'pera -- depois de ter percebido que, de fato, é muito difícil ser lido com atenção por as telas de computadores. Além do mais, já há anos publicava prosa e verso em blogs por aí: já era tempo de ocupar um novo 'paço, experimentar um novo formato. Blumenau, a cidade onde moro, há três anos foi beneficiada com o Fundo Municipal de Cultura, projeto aguardado há duas décadas. Advertido sobre as dificuldades de se publicar -- de romance experimental a receita de bolo -- quando se é 'treante, pensei: «uai, não tenho dinheiro mesmo ... vamos ver o que pensa o Fundo a respeito disso». É certo que o projeto entregue é mais do que a publicação do livro. Desde seu início, o blog Falações tinha por objetivo discutir literatura, criticar, promover dúvidas e debates (que aconteceram e eu juro como quiseram me processar por isso) entre os leitores e 'critores daqui de Blumenau. Portanto, o projeto vai além: em agosto, dois eventos marcam o Projeto Falações: no início do mês, uma oficina sobre literatura blumenauense, suas determinações cronológicas e teóricas; no final do mês, uma mesa-redonda com poetas (poetas mesmo, nada de tentativa de) blumenauenses, onde se procurará discutir algumas questões sobre a produção literária local. Pois bem. Falações, então, conseguiu dinheiro para ser publicado. O que faltava, agora, era uma editora. Mas pensei: se a capa, que surgiu de uma brincadeira do amigo Pedro Dieter, de Vitória, com colagem do americano Justin Kauffmann, dos Estados Unidos, aconteceu, por que então não conseguiria uma editora? Porque em Blumenau é assim: tu 'creves, tu publicas, tu distribuis ... e depois tu ficas com algumas centenas de livros em casa, porque quem tinha de comprar já comprou e não tens dinheiro pra mandar o livro pra fora. É aí que entra a editora. Falações saiu por a Editora da Furb e numa semana começa a ser vendido em alguns 'tados brasileiros (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro) e na internet. O livro saiu numa edição muito bonita: da capa à orelha ao posfácio, posso me dizer orgulhoso. No entanto, aprendi que um livro não lido não passa de um objeto. Para que o meu deixasse de ser um enfeite, fui atrás de leitores. O padrinho do projeto, o 'critor Viegas Fernandes da Costa (o cara que dizia «olha, Labes, 'pera»,» Labes, fica tranqüilo», " Labes, não é assim que se faz ") 'creveu uma suntuosa orelha, que transcrevo a seguir: A vida é um imperativo, 'tá aí, tal qual nosso mal-estar ao constatarmos a sentença: há um princípio, há um fim! Soco no peito saber das coisas assim. Pronto. E temos Falações a preencher toda 'ta 'catologia. Os versos do Labes são 'te punho de pugilista ... sem luvas. Tendões e nervos desnudos da pele, e não sabemos se dói mais nossa face, ou se suas próprias mãos. Porque aqui temos o poema sincero, o poema direto. Porque se há a ferida, há também um dedo a 'caranfunchá-la, sem piedade. Incomoda-nos, porém, sabermos que a ferida borbulha em nosso peito, aberta como boca sedenta, e o poeta aqui se mete, invade como seta, revolve e rebenta tudo, órgãos, veias, músculos. Por fim, sabemos-nos** irmanados: a dor é sempre a mesma! Há muito que venho lendo os poemas do Labes; melhor, há muito que os poemas do Labes vêm me revolvendo o íntimo, 'tabelecendo 'ta relação bizarra, febril, como o homem que morde os lábios para sentir o prazer da dor. Há um incômodo nisto tudo, claro 'tá, mas para que serve um poeta senão para isto? E os poemas reunidos em 'te livro têm 'ta capacidade de desestruturar, de chocar, de socar, de revolver. São curtos, são duros, eloqüentes! Devolvem à palavra todo seu peso de dizer! Dizer de Falações um livro de poemas, é dizer pouco, muito pouco. Talvez dizer que há muito 'távamos precisados de um acontecimento assim, é dizer mais, é dizer o justo. Falações é 'te acontecimento literário que ainda vai dar muito o que falar. Pois é, acho que não tenho muito a dizer. Em a verdade, nem quero, porque posso 'tragar uma possível leitura ou uma das possíveis interpretações. Em o mais, é necessário dizer aos autores eletrônicos que é sim possível dar um passo adiante. E que, de repente, 'se passo pode parecer muito maior do que as pernas. Mas não: a verdade é que, antes de se querer publicar um livro, é necessário se expor a isso, se expor ao próprio livro e aceitá-lo. É claro que não poderia deixar de convidá-los para o lançamento. Mas para não tornar 'te texto uma nota de agenda, deixo 'te endereço aqui como referência. Uma dica: ele acontece dia 22 de julho, próxima terça feira, aqui mesmo em Blumenau. Quem quiser e puder, que apareça. Número de frases: 67 «Lenços giram no ar limpando o pó / que cai agora e sempre / As Rezadeiras Rogam ao Tempo / o Tempo e Maré não 'peram por ninguém " Rezadeiras (um poema), de Claudia Puget. É um ambiente de fé e de luz a casa de uma rezadeira. Quem já procurou alguma para se benzer sabe do calor humano que se pode sentir ao 'tar diante de uma das figuras mais mágicas e singulares da cultura popular brasileira. O olhar, o acolhimento, as vibrações positivas, o sentimento de proteção, são coisas que enchem nossa alma de felicidade. Em uma casa simples, na 'quina ali na frente, numa casa no morro ou na baixada, numa cidadezinha de inteiror, numa 'trada na roça, num lugar singular é sempre possível encontrar alguém com o dom da reza e da cura. São rezadeiras, curandeiras (os), benzedeiras, rezadores, pessoas que dedicam grande parte do seu tempo para simplesmente ajudar os outros. Mas, como bem diz o poema «Rezadeiras», de Claudia Puget, o tempo não 'pera por ninguém. E, com o passar do tempo, as rezadeiras têm sido menos procuradas e, também, já não se encontram tantas rezadeiras por aí, como nos tempos da minha avó. Ou das minhas avós, já que ambas são rezadeiras. Para falar deste tema aqui no Overmundo, fui à busca de conhecidas rezadeiras aqui em Muqui, sul do Espírito Santo. Em a cidade, mesmo sem nenhum registro oficial do número de pessoas que rezam, e mesmo já não tendo tantas rezadeias como antigamente -- algumas já faleceram, ainda é possível encontrar senhoras conhecidas por livrar muita gente de males que às vezes a medicina oficial desconhece. E o que não faltam são notícias de gente que só conseguiu alcançar sua graça (seja ela a cura de uma doença ou mesmo a recuperação de algum objeto perdido) por meio da bênção de uma rezadeira. Uma das rezadeias mais conhecidas de Muqui é minha avó materna, dona Philomena Mateinni Bernardi, 86 anos, filha de italianos e católica fervorosa, rezadeira há mais de 50 anos. É difícil quem não a conheça e quem nunca tenha ido pedir suas bênçãos. Em média, Dindinha -- como a chamamos recebe cerca de 5 pessoas por dia em sua casa. Mas, como ela diz, «já teve vezes de receber gente o dia todo». O que ela reza com mais freqüência é «'pinhela caída», que, segundo ela e outras rezadeiras, trata-se de uma dor no 'tômago, provocada por o deslocamento de uma nervura, ou cartilagem, localizada na» boca do estômago " -- saída do 'ôfago para o 'tômago. Para os males, rezas e ervas medicinais Além da 'pinhela caída, os males mais comuns curados por as rezadeias são o mal olhado, o vento virado, cobreiro, íngua, quebranto, torção muscular (destroncado), erisipela (vermelhão na perna, resultante de uma infecção causada por a bactéria 'treptococos) e mal de simioto. Os chás e banhos de ervas medicianais também são, muitas vezes, receitados. As ervas podem ser benzidas, o que torna sua eficácia ainda maior. Um emplasto com sumo folhas de saião com sal é tiro e queda para destroncado; também pode-se tomar o sumo da erva que age como antiinflamatório. O chá de rosa branca é ótimo para o útero e doenças relacionadas a 'sa parte do corpo da mulher. O chá de erva-doce é recomendado para 'pinhela caída e age, também, como calmante. No caso de Dindinha (Dona Philomena), ela também reza contra pragas em plantações e faz o Responsório de Santo Antônio. O Responsório é feito para se encontrar algum objeto perdido. Ela conta que um produtor de café da região procurou por ela, pois haviam roubado muitas sacas de café de seu armazém. Ela rezou o Responsório e pediu que ele tivesse fé. Uma semana depois, o agricultor voltou dizendo que as sacas haviam sido recolocadas no lugar. «De certo que a pessoa se arrependeu de ter roubado e devolveu o café. Santo Antônio, com o poder de Deus, faz com que a pessoa se arrependa do que fez e devolva o que roubou», conta dona Philomena. Muita gente que tenha perdido relógio, celular, e dinheiro a procuram. No caso de dinheiro, ela diz que é mais difícil de recuperar, pois como é algo que se gasta fácil, a pessoa talvez já não 'teja com ele quando ela faz o Responsório, o que dificulta a devolução. Outra conhecida rezadeira na minha família é a Madrinha Elisa, avó paterna. Elisa Gomes Berçaco, tem 76 anos, é descendente de uma índia com português. De 'sa mistura -- além dos traços fortes: pele morena e cabelos negros e 'corridos, surgiram as orações católicas (portuguesas), mas com o ritual indígena de rezar passando um galho de erva (vassoura ou vassourinha) embebido em água sobre a pessoa rezada. «Eu rezo desde os oito anos de idade. Aprendi a rezar com o meu pai. Eu rezo com galhinho de vassoura, rezo com a mão». A reza de mal olhado é bastante curiosa: quando a pessoa 'tá com mal olhado, o galhinho verde fica murcho, de imediato. Caso contrário, ele se mantém viçoso. Isso não foi ninguém que me contou, eu pude presenciar. Mesmo morando na zona rural, Madrinha Elisa reza pessoas de casa e de fora, que procuram por ela. Dona Chica Procurando por outras rezadeiras, fui até a casa de Dona Chica -- Francisca Paula Siqueira, de 82 anos. Devota de São Cosme e Damião, além de ter cumprido por 10 anos a promessa de dar doces e balas às crianças, há mais de 50 anos é «médica de Deus», como se autodenomina. Segundo ela, o dom de rezar veio quando ainda era solteira e ela vivia chorando, sem motivos. «Por qualquer coisa eu chorava, menino. Chorava, mas chorava muito. Aí um dia eu pedi a Deus, com fé, que ele transformasse 'se choro num dom, porque não era comum chorar daquele jeito». O dom veio quando uma senhora a procurou com o filho pequeno, que 'tava doente. A mulher pediu que ela rezasse a criança, ela rezou e a criança ficou curada. «Aquela criança foi um anjo que veio trazer o dom que eu pedi a Deus», conta emocionada. Quando voltei à casa de Dona Chica, para fazer a foto para a matéria, ela havia acabado de rezar dona Maria Jesuína da Silva, sua vizinha de 95 anos. «Quando eu não 'tou me sentindo bem eu venho aqui. Venho sempre. Ela me reza de mal olhado e 'pinhela caída», conta Dona Jesuína, que ficou feliz com a minha presença, já que não tirava foto há muito tempo. O conselho de dona Chica é simples, «você rezando à noite, com fé, o Creio em Deus pai (ou Credo), você deita despreocupado e nada te atenta». Dindinha também já dizia: «O'Creio em Deus Pai ' afugenta o demônio, você sabe». Hibridismo religioso e conhecimento popular A origem de muitas rezas pode ser puramente religiosa, ou fruto de um hibridismo de religiões, ou mesmo de um misto entre conhecimento popular com práticas religiosas. Em geral, as rezadeiras se dizem católicas, mas muitas recebem influência de crenças 'píritas, como as das religiões afro-brasileiras e dos rituais indígenas. A cultura das rezadeiras, como é conhecida no Brasil, não se trata apenas de uma tradição nacional, claro. A reza, a oração, o ato de impor as mãos (providas ou não de objetos sagrados como crucifixos, livros sagrados, ervas, entre uma imensa variedade de coisas) é comum em muitas culturas ocidentais e orientais. Hajam vista alguns rituais budistas, hindus; e mesmo entre evangélicos a cultura das orações por meio da imposição das mãos não deixou de existir. Embora a maioria de eles -- ex-católicos -- reprovem a prática das rezas. Mal de simioto Um dos males que costuma afetar muitas crianças, é o mal de simioto, ou mal da tesourinha, que deixa a criança abatida, desnutrida, que a faz definhar de maneira à se assemelhar a um macaco; daí a palavra simioto. O nome «tesourinha» refere-se a uma marca que pode ser vista na base da 'pinha dorsal da criança, em forma de uma tesoura aberta. Em Muqui, além de dona Chica, quem reza 'te mal é dona Eurides Capettini Gonçalves, de 75 e descendente de italianos. A oração, que, segundo ela, é a única que pode livrar a criança deste mal, é rezada em italiano. «Eu não sei dizer se a criança tem ou não o mal, a pessoa traz e eu rezo. Se tiver, vai ser curada, mas também peço pra procurar um médico, porque pode ser outra coisa que só um médico vai diagnosticar», conta. As rezas resistem ao tempo Mesmo em tempos atuais, com os avanços da tecnologia e com os mais modernos recursos de que dispõe a medicina do século 21, a cultura das rezadeiras, ou benzedeiras, ainda resiste. Se em número menor nas grandes cidades brasileiras, no interior do país ainda há pessoas que rezam e acreditam na cura por meio da palavra. A assessora parlamentar, Vera Lúcia Santolini Borges, residente em Vitória, conta que sua mãe a levava em duas rezadeiras conhecidas da zona rural de Muqui, onde ela passou a levar seus filhos. Mas, infelizmente, as duas rezadeiras vieram a falecer e ela não conhecia ninguém que rezasse na região. Só recentemente, descobriu uma rezadeira em Vitória, onde passou a levar seus filhos: «De vez em quando eu peço para a ela rezar meu filho, quando ele 'tá muito agitado, caindo muito». Para a psicóloga Thereza Maria Galvão da Silva, as rezadeiras, ou curandeiras, desempenham, no imaginário popular, o papel de milagrosas, principalmente onde a questão religiosa é muito forte. «As pessoas vão às rezadeiras em busca de algo sobrenatural, acima de elas, como se as curandeiras tivessem o poder mágico de curar». E daí a cura por a crença, por a fé. Thereza acrescenta, " as pessoas transferem para o curandeiro a fé que elas têm, reconhecendo que ele tem uma força maior, mágica. Em o interior, onde o acesso a cuidados médicos costuma ser precário, o curandeiro é aquele que socorre, aquele que acolhe." A importância de 'sas pessoas em regiões do interior do país é tanta, que no Ceará, segundo matéria da Folha Online, o Programa de Saúde Familiar (PSF) conta com a ajuda de rezadeiras para garantir que muitas famílias tenham acesso a informações sobre prevenção e tome cuidados com a saúde. Antes, as rezadeiras representavam um empecilho para os médicos, pois orientavam seus «pacientes» que não procurassem por a medicina oficial. Agora, rezadeiras e médicos trabalham em parceria. Censo mapea Rezadeiras Um interessante registro de 'sa manifestação sociocultaural é o realizado por o Censo Cultural da Bahia, por meio da Secretaria da Cultura e Turismo daquele 'tado. O levantamento, feito no período de 2002 a 2006 em 417 municípios, registrou cerca de 700 rezadeiras. O curioso é que, desse total, apenas cinco rezadeiras são de Salvador. O que mostra que 'sa cultura é mais difundida no interior. O censo também revelou a idade das rezadeiras. Tanto nas cidades da Bahia, como em Muqui, é difícil encontrar rezadeiras com idade inferior a 60 anos. Esse dado reflete a realidade de 'sa manifestação sociocultural em outros municípios brasileiros. A maioria das rezadeiras 'tá em idades avançadas. Para Dona Elza Fernandes Rosa, de 70 e poucos anos -- como ela disse, rezadeira há mais de 30 anos, «não há problema em ensinar às pessoas mais jovens a rezar, a dificuldade é encontrar quem queira aprender». Nova Geração de Rezadeiras Em muitas cidades do interior do Brasil, ainda é comum encontrar na genealogia de algumas famílias uma pessoa que reze. E, geralmente, a oração foi ensinada por os pais, ou avós, mantendo assim a conhecida prática da transmissão oral de conhecimentos populares. Só na minha família há duas rezadeiras tradicionais, além de outras mais jovens que vêm aprendendo o encanto de poder abençoar os rostos de sua gente e acolher os que sofrem de toda falta de sorte. Preocupada em ter alguém para rezar o próprio filho e pessoas da família, a comerciária Élida Maria B. Félix, de 22 anos, procurou a avó -- a Madrinha Elisa -- com quem aprendeu algumas orações. Depois, ao levar seu filho para rezar com dona Eurides, acabou aprendendo outra oração importante. «Eu aprendi a rezar mal de simioto e 'pinhela caída». Por enquanto, ela só reza pessoas da família, mas diz que sente que todos têm mais fé nas rezadeiras mais antigas. Além de Élida, sua irmã e duas primas também já aprenderam algumas rezas e são a garantia de que a tradição não vai se perder. Outra rezadeira jovem, mas que já reza há 25 anos, é Elizete Almeida, de 43 anos. Segundo ela, aos sete anos recebeu uma visão. «Um anjo saltou em minha cama e eu vi a imagem de Jesus na Santa Ceia. Contei para minha mãe e ela me disse que aquilo era um dom». Desde então, ela desenvolveu o dom da oração. Elizete recebe pessoas de vários lugares. «Vem gente até de fora do Espírito Santo». Com a grande procura, ela resolveu 'tabelecer horários para a reza, porque não 'tava dando conta de cuidar dos serviços da casa. Em geral, as rezadeiras não têm horário certo para rezar. Porém, há algumas restrições: algumas rezam só durante o dia, outras não rezam aos domingos. Dona Eurides, no entanto, disse que reza em qualquer dia e horário, pois «Deus 'tá todos os dias e todas as horas com a gente». Elas também não cobram para rezar, já que entendem que têm um dom e não devem cobrar por isso. Mas, também não recusam agrados. «Tem gente que traz algum mantimento da roça, outros trazem bolo, biscoito. A gente aceita, né?», conta Dona Chica. Fé Todas as rezadeiras se dizem intermediárias entre Deus e o homem. Para elas, o dom da cura é dado por Deus. Em a maioria das vezes, as orações utilizadas são o Credo (creio em Deus pai), o Pai Nosso e a Ave-Maria. Dona Eurides Capettini diz que qualquer um que tenha fé pode rezar. Dona Philomena me explica que para rezar tem que ter fé. «Rezar sem fé é o mesmo que pegar um balde d' água e jogar fora. Você perde a água e perde seu tempo». A forma como rezam varia. Algumas usam apenas as mãos puras, outras usam um terço, como Dona Chica. Dona Elza chega a usar uma faca, para cortar (simbolicamente) a íngua. Já Dona Philomena não usa o tradicional galhinho de «mato», ela benze 'pinhela com uma fita de tecido, por meio da qual sabe se a pessoa 'tá, ou não, com a 'pinhela caída (ferida, machucada). «Não sou Benzedeira, nem Rezadeira " É muito comum, entre as mulheres que rezam em Muqui (onde a maioria da população se diz católica), a recusa do jargão «rezadeira» ou «benzedeira». Talvez por a associação a outras crenças, em que a palavra 'tá vinculada ao 'piritismo ou ao candomblé. «Não gosto que falam que eu sou rezadeira, nem benzedeira, porque a gente não precisa ficar se exibindo, falando, que reza, que cura. Graças a Deus, todo mundo que eu rezo fica bom, mas não precisa ficar falando, né?», diz dona Philomena. Perguntadas se pretendem parar de rezar algum dia, elas dizem que não pretendem, pois não se pode deixar de exercer um dom de Deus. Elizete Almeida disse que já pensou em parar de rezar, mas, segundo ela, o mesmo anjo que lhe anunciou o dom da reza disse-lhe que ela não devia parar, porque 'te era seu destino. Ir ao acolhimento de uma rezadeira é, também, ir ao encontro de si. Número de frases: 152 Ouvi dizer por aí que festa de São João em cidades que carregam o nome do Santo é um evento quase obrigatório. Se a afirmação é plausível, São João de Meriti, minha querida terrinha, vai muito bem, obrigado. Uma grande festa junina movimenta a vida dos moradores em 'sa época do ano. A festa, organizada por a Igreja da Matriz, vai muito além da questão religiosa e revela curiosidades até mesmo pra quem é nascido e criado na cidade. A festa acontece a tanto tempo que ninguém sabe precisar com exatidão quando, ou como, começou 'sa história. O fato é que a tradição se mantém e continua cada vez mais forte. Em 2008 foram 10 noites de festa, entre os dias 19 e 29 de junho. Em 'se período, milhares de pessoas, a cidade concentra a maior densidade populacional da América Latina, circularam por a área da festa. O ponto central é o palco montado em frente à Igreja da Matriz, mas a festa se 'palha por a praça e se 'tende por uns bons duzentos metros Rua da Matriz acima. Um dos pontos curiosos é a disposição 'pacial das barraquinhas e a conseqüente organização dos freqüentadores da festa. As barracas da Igreja são postas entre o palco e a Praça, na região mais ' «família» da festa. Administradas por fiéis, que oferecem a mão de obra como trabalho voluntário, o lucro obtido por as vendas é revertido em obras de ação social. O sucesso de vendas por ali é a famosa fogaza, o popular salgado italiano. O povão também enfrenta longas filas pra conferir o aipim com carne seca e alguns dos doces típicos de festa junina. Tudo preparado por o pessoal da Igreja. O palco principal recebe atrações bastante variadas, em todos os anos que freqüentei a festa não me lembro de ter assistido um cantor católico. Em o começo da festa as apresentações são voltadas para as crianças, o sucesso de 2008 ficou por conta do Abelhinha, uma animadora de festas que agitou a molecada com musicas e coreografias. Tudo bem inocente, bem infantil. Abelhinha fechou sua participação anunciando a gravação de seu DVD num clube local. As apresentações de quadrilhas não são o forte de 'ta festa, mas 'te ano rolou 'paço para algumas formadas por crianças. Conforme cai a noite as atrações são voltadas para o público adolescente e adulto. Acompanhei apresentações de grupos de dança (de lambaeróbica à dança do ventre), bandas de rock e diversos grupos de pagode, gênero que proporciona a maior comoção dos festeiros. A festa mistura doses homeopáticas de tradição e inovação. Bem da verdade, sobe no palco um pouquinho de tudo aquilo que o povo quer ver, talvez 'teja em 'sa dinâmica o segredo de tanto sucesso. Subindo por a Rua da Matriz a festa vai ganhando um ar ligeiramente pagão. Enquanto as barracas da Igreja ousam ao máximo em vender cerveja, as demais atacam com as chamadas bebidas quentes. A mais procurada é a tradicional Caipifruta. A bebida é preparada com leite-condensado, a fruta 'colhida, e servida com ou sem álcool. As opções de comida também são bastante variadas, vão desde crepe até uma infinidade de churrasquinhos e tapioca. Mesmo com a presença de diferentes barraquinhas não posso deixar de citar um clássico local, o «podrão» do Ratão, tradicional vendedor de cachorro-quente. A porta do antigo Colégio Fluminense é um dos 'paços mais concorridos da festa, é por lá que rola a concentração dos adolescentes. mais do que um ponto de encontro, é o lugar onde acontecem as trocas de olhares e as conseqüentes ficadas. Um pouco mais para a cima, em frente ao trailer do Ratão, fica o segundo palco. Conforme você se aproxima o som já denuncia o clima do 'paço. Em o ápice da festa a Rua da Matriz se transforma num verdadeiro baile funk, com direito a apresentações de diferentes DJ ´ s e MC ´ s. Moradores não só da cidade, mas de bairros próximos como a Pavuna aguardam o ano inteiro por a festa. O evento gera uma infinidade de postos de trabalho temporário, o que serve de alívio para uma população tão afetada por o desemprego. É uma economia baseada na celebração, numa festa que só não dança quem não quer! Não sei vocês, mas eu não conheço nada mais santo do que isso. A festa de São João em São João de Meriti prima por a diversidade. São católicos, funkeiros, pagodeiros, roqueiros, doceiros, cervejeiros, crianças, jovens, adultos, idosos. Até mesmo os evangélicos, avessos a adoração dos Santos católicos, batem ponto na festa. Flagrei meia dúzia de eles dançando e comprando nas barraquinhas da Igreja. Contribuindo para os projetos sociais por os quais, a despeito do desejo dos pastores, eles também são beneficiados. Somos feitos de 'sas contradições, enriquecidos por 'sa diversidade. Em São João acaba todo mundo junto e misturado, tudo por o apelo da festa. Pra fechar a celebração com chave de ouro, a surpresa deste ano foi o show do sambista Arlindo Cruz. Acompanhado de músicos muito talentosos, que vestiam calças largas e camisões como rappers, Arlindo fez um show e tanto. Poucas vezes, em 'ses quase 26 anos de vida e de festa, vi a Praça inteira cantar com tanta emoção. Voltei para a casa arrepiado! Número de frases: 50 Feliz da vida por ter a sorte de ser mais um João de São João de Meriti. A capital de Rondônia, Porto Velho, jamais viu algo parecido. Também pudera. Foi a primeira vez que a caravana do «Sesi Bonecos Brasil», em seu quarto ano de existência, chegou por 'sas bandas. Por dois dias -- sábado (15) e domingo (16) -- o 'paço conhecido como Flor do Maracujá virou uma cidade repleta de cultura, ou melhor, um céu de mamulengos, marionetes, teatro de sombras, shows e exibições de mestres mamulengueiros vindo de vários Estados do país, como Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paulo, Gerais e Rio de Janeiro. Não tinha como não gostar e se encantar, por exemplo, com os bonecos gigantes de Olinda. Foram eles e uma cobra enorme que sempre davam início, embalados por as marchinhas de carnaval, ao evento que reuniu, durante os dois dias de apresentação, mais de 20 mil pessoas que queriam 'tar em todos os lugares ao mesmo tempo. Havia dois palcos principais onde eram realizadas as atrações maiores. Em o domingo, por exemplo, a programação ficou por conta das companhias Caixa do Elefante (com o 'petáculo Histórias da Carrocinha), Pia Fraus (apresentando Gigantes de Ar), do RS; e Giramundo (encerrando com Cobra Norato), de Minas Gerais. Quem não conseguiu ficar perto dos palcos, tinha a chance de não perder nada através dos quatro telões 'palhados no local. O «Pavilhão Exposição» era destinado a mamulengos e fantoches. Lá, a fila sempre 'tava quilométrica, mas as visitas eram em forma de rodízio. Uns cinco minutos para cada grupo de pessoas conhecerem os personagens que compõem dimensões históricas de uma cultura popular. Teve gente que acabava de sair e retornava à fila para entrar novamente. Só vendo. Em o «Atelier dos Mamulengueiros», um grupo de nome peculiar -- Mamulento Teatro Riso Mundo Encantado dos Bonecos -- fez com que a gargalhada e os aplausos fossem os componentes principais de histórias simplesmente nordestinas. A designer Claudia Gazola, 37, parabenizou a organização do evento e disse que participou de uma experiência maravilhosa. «É muito bom sair de casa e ter a opção de ver várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, tudo relacionado à cultura», revela. A 'tudante Paula Stolerman, 26, ficou satisfeita ao ver tanta gente interessada em 'se nicho cultural. «A valorização da cultura vem através de incentivos, dando meios gratuitos da população conhecer uma história importante como a dos mamulengos», explicou. A grande idealizadora deste projeto, que já percorreu 21 Estados brasileiros, chama-se Lina Rosa Vieira. Ela conta, com um sorriso enorme, que em todas as cidades onde os bonecos se apresentam a euforia toma conta do público. «Em cada lugar, a receptividade das pessoas me surpreende e aqui (em Porto Velho) não poderia ser diferente», confessa. Rosa acredita que o sucesso do projeto deriva da carência de incentivo de cultura à população, «que geralmente não tem acesso a histórias que não fazem parte do seu cotidiano» e completa: «temos a responsabilidade de resgatar e transmitir uma história muito forte que é a dos mamulengos». Os bonecos deixaram Porto Velho na manhã de 'ta segunda-feira (17). Seguem agora rumo a Rio Branco, próxima cidade a ser contemplada com o projeto, previsto para encerrar em novembro, em Macapá, após passar por Manaus e Boa Vista. Será difícil 'quecer de eles que fizeram, apenas num final de semana, tanta gente feliz. Número de frases: 29 Quando me mudei pra São Paulo, em 82, eu era criança, e as paredes marcadas da cidade foram uma revelação. Os pixos pareciam coisas muito novas, inusitadas e fantásticas, incompreensíveis e sedutoras. Talvez por não ter acompanhado o assalto dos 'paços públicos por as tintas, nunca consegui concordar com o senso comum que classifica 'sa forma de expressão como puro vandalismo. Cheguei e já era. Essa prática vem das manifestações políticas dos anos (19) 60, e foi mudando muito ao longo do tempo. De as palavras de ordem contra a ditadura até frases de efeito como «Celacanto provoca maremoto» (titulo de um episódio da sério «National Kid), Rendam-se terráqueos» e «Sou pipou», que conquistaram territórios por o nonsense no fim dos anos 70, chegamos ao 'tágio da identificação codificada, a divisão entre turmas com nomes e 'tilos de caligrafia próprios. Pelo menos foi aí que eu cheguei, numa cidade lotada de propagandas legais e ilegais, que mudou muito e continua igual até hoje. Essa transição para as letras gigantescas e organizações em grupos tem ligação direta com a cultura hip hop 'tadunidense: entre outras entradas, na metade da década de 80 foi exibido nas salas de cinema daqui o filme «Beat Street» que, apesar de um roteiro água-com-açúcar, mostra claramente a organização dos grafiteiros. A maneira como a opinião pública, via mídia e repressão policial, lida com 'se fenômeno sempre me pareceu a pior possível. Em os anos 80, a equação tinta + muro foi reconhecida por artistas plásticos como o finado Alex Vallauri, que adotou a técnica de stencils (ou máscaras, moldes de desenhos ou frases para serem preenchidos por tinta) em seus trabalhos e usou muros como telas, abriu-se uma janela de aceitação. Em a verdade, não foi bem uma janela, foi mais um filtro. Porque foi a partir daí que surgiu uma distinção que fez muito mal para os grafiteiros de São Paulo, a divisão entre o que é graffiti e o que é pixação. Reconhecidos como válidos graças a uma apreciação 'tética mais imediata, os graffitis, peças com ilustrações coloridas, foram eleitos a «evolução» ou «salvação» da pixação. O problema é que isto condicionou os traços de muita gente: o padrão 'tabelecido era o dos grafiteiros gringos, e a expressão genuinamente nacional foi deixada de lado por muitos. O graffiti em Nova Iorque começa como marca territorial, e invade os trens de metrô, já que lá uma composição cruza vários pontos da cidade fora dos túneis, à vista de todos. Por aqui, a procura por «ibope» (fama) leva os pixadores brasileiros para o topo dos prédios. A 'colha do látex no lugar das latas de spray (material mais barato e mais prático para as dimensões desejadas), aliado aos locais onde as grafias seriam colocadas definiu o 'tilo paulista. Tipos gigantescos, garranchos se adequando a ângulos retos, mensagens de agressão e comentários cotidianos que beiram os hai-kais. A luta por «picos» de difícil acesso e grande visibilidade, a demarcação de zonas em territórios e os encontros com trocas de assinaturas em cadernos e folhas, tudo bem abaixo dos radares da sociedade, é que constituíram 'ta história, uma forma de expressão viva e em mutação constante. Em lojas do Centro apareceram artefatos de 'sa cultura, como vídeos amadores mostrando proezas (do alto de prédios até carros de polícia sendo assinados), e até os dois volumes do álbum de figurinhas «SóPixo», editados por as próprias grifes (nome dado as turmas de pixadores), com fotos de qualidade» familiar». Subterrânea até hoje, aparece uma mudança nos horizontes. Há alguns anos os graffiteiros daqui começaram a incorporar as letras de pixo aos seus trampos, a razão eu desconheço. A pixação foi tratada com propriedade em pelo menos dois trabalhos acadêmicos do curso de Sociologia da USP, as teses de Alexandre Manoel Ferreira (bibliografia desse texto) e de Lucas Frettin, na cadeira de Antropologia Visual. O trabalho de Lucas é um documentário excelente chamado «A Letra e o Muro», e foi realizado graças a uma bolsa no Lisa (Laboratório de Imagem e Som da Antropologia). Ele começou sua pesquisa em 1999, atraído por a organização social dos pixadores em gangues e grifes além de pontos de encontro e festas de pichadores. Para a antropologia a pixação é um prato cheio, para a antropologia visual mais ainda, porque a organização social na pixação vem do seu aspecto visual. Fiz um trabalho de etnologia durante um ano, só depois comecei a filmar ...», conta ele. «Quando fui filmar, já conhecia o point, tinha feito rolês (sessões de pixação), fui parar na delegacia, já tinha uma idéia do que era pixação». Os traços originais impressionaram as platéias européias. «Já mostrei o documentário na França e na Espanha, e as pessoas ficam impressionadas com o 'tilo gráfico, que é unico. A pixação de São Paulo é muito original, única no mundo, totalmente diferente das pixações (tags) da Europa, inspirados no 'tilo Americano». Recentemente a Editora do Bispo, nova no mercado, lançou o livro TTTSSS. Trata-se de um livro baseado num caderno com várias assinaturas de diferentes grifes. O volume de autoria desconhecida caiu nas mãos do grafiteiro Boleta em 1988, que seguiu coletando assinaturas singulares por 9 anos. O livro combina as assinaturas com alfabetos inteiros nas fontes originais, fotos de João Wainer e textos de ele, de Pinky Wainer e do jornalista Xico Sá. Se isso vai de alguma maneira abrir as portas (e os olhos) dos descolados para o fenômeno, eu também não sei. Que as grafias vêm sendo cada vez mais incorporadas ao design, isso é certo. Mas o 'pírito transgressor inerente à atividade é completamente avesso à legalidade. Um bom paradoxo. Outra entrada por a porta da frente pode ser o novo projeto de Lucas: «Atualmente 'tou realizando um segundo documentário sobre o mesmo assunto, que deve 'tar pronto 'se ano. Fiz duas filmagens, uma em julho de 2004 e outra em dezembro 2005. Diferente de «A Letra e o Muro», 'te novo filme retrata a vida de um pixador em seu cotidiano, além de outros personagens ligados à pixação, mas que têm outro ponto de vista, como proprietários, juizes, urbanistas e artistas. Terá duração de 80 minutos». Fiquemos no aguardo. Você pode assistir ao documentário «A Letra e o Muro no Lisa», dentro da USP, nos seguintes horários: Número de frases: 49 2ª e 4ª das 9:30 as 19:30, 3ª 5ª e 6ª das 9:30 as 16:30. Marcar sessão através do e-mail lisa@usp.br. Toda cidade tem uma figuraça que perambula sozinha falando coisas sem nexo. A representante de Aracaju 'colheu um templo do consumo para disseminar sua ('tranha) mensagem Em toda cidade pequena existem aquelas figuras que todo mundo conhece -- tipo o bêbado, ou o louco -- que costumam transitar por os mesmos lugares. Todo mundo já viu e cada um tem uma história pra contar sobre ele. Aracaju tem a Véia do Shopping. Uma figura bizarra e no mínimo extravagante, que constantemente chama a atenção dos circulantes dos shopping-centers de Aracaju, em 'pecial os freqüentadores do Shopping Jardins. Sempre de óculos escuros, roupas nada convencionais, cabelos arrepiados e uma maquiagem branca pesada, a Véia do Shopping, como foi apelidada, acabou virando uma 'pécie de lenda urbana, com 'peculações de todo o tipo acerca de sua personalidade, e pesquisas a respeito dos motivos os quais a levaram a um 'tado mental ... curioso. Em a comunidade do " Orkut Você já viu a Véia do Shopping?!" 'tão cadastrados mais de 10.000 membros, que se julgam fãs, apesar de muitos aparentarem mesmo um certo asco, 'pecialmente devido ao suposto odor causado por a grossa camada de creme branco que nossa personagem passa no rosto moreno. Recentemente, passaram a aparecer também manifestações de protesto por a chacota que muitos tiram da nossa personagem: alguns se dizem indignados e perplexos com o que chamam de falta de respeito com quem é 'pecial. Mas, enfim ... O que se diz é que ela não fala. Há vários relatos de funcionários de lojas daquele shopping que contam que ela se comunica através de bilhetes, muitas vezes equivocados. Diz-se que uma vez a gerente de um supermercado a abordou, perguntando se ela não achava o tom de sua maquiagem muito clara pra sua pele, e a resposta foi o bilhete «Você Pode Me Dar Um Litro De Caldo De Cana?». Outro atestado de que há algo de errado com a Véia é a compra repetida de papel higiênico. Testemunhas a viram levar R$ 99,00 do produto, sendo que constantemente vê-se a Véia com sacolas e mais sacolas. às vezes ela as pede nas lojas, mesmo sem comprar nada. Mas quem é 'sa senhora que desperta tanta curiosidade? Bem, as 'peculações são muitas. Seu nome é Maria Augusta, apesar de muitos insistirem que ela na verdade se chama Maria José (Augusta?), com apelido de Zezé. Ela mesma já disse (ou 'creveu) -- em resposta aos crescentes assédios -- que é formada em Enfermagem por a UFS e Teologia na Católica da Bahia. Uma informação que parece unânime é a de que ela foi chefe de equipe como enfermeira, e teria tido dois empregos, o que explicaria a boa aposentadoria. Mesmo assim ela age como se ainda trabalhasse no mesmo posto de saúde, assinando ponto todos os meses. Outra informação recorrente é a de que ela teria seqüelas de um trauma. A versão mais repetida é que ela surtou após a morte de sua mãe. Desde que a genitora ficou doente, ela passou a viver em função da mesma. Assim, após o falecimento, levaram quatro dias para retirar o corpo da casa, pois dona Augusta não aceitou a perda, e continuou cuidando da mãe como se nada tivesse acontecido. Há quem conecte seu visual atual a uma tentativa de se parecer com a mãe quando morta! Mais ainda, dizem que o andar de cima da casa em que habita sozinha é repleta de papel higiênico e fralda descartável, pois em seu delírio ela ainda 'taria cuidando da mãe. Outras versões da história atestam que ela na verdade foi rejeitada por a mãe, por sofrer de alguma doença de pele, e também que ela já teve um marido rico e o mesmo foi quem haveria falecido, deixando dona Augusta sem sentido na vida. Uma versão obscura conta que, no dia de sua formatura, a família que morava no interior 'tava vindo a Aracaju quando o carro capotou, matando todos! Mas o relato mais surpreendente é sobre o suposto passado da Véia do Shopping. Anterior a tudo aquilo relatado acima, um internauta de João Pessoa conectou a foto da comunidade com uma notícia de jornal local datada de 1952, alegando que a foto de dona Augusta era idêntica à foto da suposta mãe noticiada. Segundo a reportagem, aos 10 anos de idade, seus avós maternos teriam sido assassinados por os avós paternos. como se não bastasse, seu pai teria envolvimentos com magia negra, levando a mãe de dona Augusta a fugir para Sergipe. Em 1958, outra notícia, o pai teria tentado matar a 'posa, que teria sido salva por a filha!!! De acordo com o relato, a mãe sofria de graves alucinações, vestindo-se e maquilando-se de maneira incomum. A Véia do Shopping não teria nada de original, no fim das contas. De certo mesmo só há que a Véia do Shopping vai 'tar sempre lá, qualquer que seja o dia da semana: de pasta branca na cara, comprando papel higiênico e pedindo sacolas. Impressionante é como basta ser extravagante para ficar famoso. Número de frases: 43 Com 'sa a Véia realmente não contava! Algumas vezes já me perguntei o que passa por a cabeça de uma pessoa que trabalha fazendo sinopses de filmes, quando se deparam com obras do David Lynch, do Vincent Gallo ou da Lucrécia Martel. Depois de assistir VemVai -- O Caminho dos Mortos, em cartaz num andar inteiro do Sesc da Avenida Paulista, passei a querer me corresponder com 'ses redatores de sinopses, pra, talvez, aliviar a angústia do meu resenhar. Não que eu 'creva sinopses, mas o problema 'tá nas palavras. Não há palavras para definir algumas imagens, sons e sensações que a Cia.. Livre propõe em 'se 'petáculo. Seja porque não fazem parte da nossa tradição narrativa ocidental, seja porque são diferentes de praticamente tudo que eu já havia visto sobre o tema. Há duas semanas, 'tava em cartaz no CCSP a peça Adubo ou a sutil arte de 'coar por o ralo. Os paralelos com a montagem de VemVai são tantos que me arrisco a dizer (ou suplicar) a quem viu aquela, que veja também 'sa do Sesc Paulista. Processo coletivo de criação, construção de imagens, poucos elementos cênicos muito bem explorados, entrega total dos atores, extensa pesquisa de textos não necessariamente teatrais são só os aspectos mais vísiveis do diálogo. A morte é o tema central de ambas as peças, mas como ficaram diversas as montagens! VemVai propõe um diálogo-refei ção. Em todos os momentos do 'petáculo os barulhos da Avenida Paulista não nos deixam 'quecer onde 'tamos presenciando aquele ritual proposto por a Cia Livre. Esse ritual apresenta a cultura dos povos ameríndios como o prato principal e nós, como convidados do banquete. Sem exageros, até salsicha é servida no 'petáculo como forma sublime de representação. E eu comi. Estruturalmente, o único elemento narrativo material que vai do começo ao fim de VemVai é o vaká, que depois aprendemos que é o duplo (ou alma) para a etnia dos Marubo (viu como nós lemos o programa da peça?). Rasgando a montagem em diversos pedaços, temos cenas que vão desde rituais de canibalismo funerário até vendedores de tapioca apressados. Música, vídeo, dança, conversas, interação física com o público e até teatro (vejam só) são os elementos para transportar o público para o diverso. Diferente de Adubo, que 'cracha a morte para celebrar a vida, VemVa i coloca a morte como passagem e por isso os seus rituais. Não nega a dor da passagem, mas demonstra que é possível encará-la de forma menos 'petacular que as atuais coberturas da mídia, menos aterrorizante que os mitos das religiões ocidentais, menos fim-de-tudo e «despedida» como são concebidos os velórios e enterros dos nossos dias. Número de frases: 21 VemVai demonstra que nossa sociedade precisa reaprender a morrer, para aproveitar com mais intensidade a vida. Quem foi ao Teatro Goldoni em 'te final de semana pôde ver uma verdadeira palhaçada! E 'ta, aliás, foi a boa notícia da noite chuvosa da Capital Federal. A comédia «Bagulhar» (direção de Denis Camargo e Ana Flávia Garcia) contou com a presença marcante de um dos grandes artistas de Brasília, Zé Regino, que, aliás, segundo consta nos autos e baixos do teatro candango, é dos maiores 'pecialistas na complexa arte de interpretar clowns, que, não raro, é capaz de fazer rir e chorar. E foi isso mesmo o que aconteceu! Junto com Elison Oliveira, encenou as agruras de dois moradores de rua, na batalha cotidiana de (sobre) viver às intempéries do tempo, à falta de comida, ao universo de invisibilidade a que 'tão condenados os que pouco ou nada a tem em 'te mundo, talvez só mesmo uma garrafa ou duas de pinga para aplacar as dores usuais de quem se aventura por a vida. Cara de palhaço, pinta de palhaço Em palco, Zé Regino é um clássico. Deu vida ao mendigo «Micóbrio», acertadamente o mais carismático. Carregava com 'te personagem a veia da simplicidade e do desleixo, da singeleza e da inocência. Tanto que compartilhava as folhas de jornais, que o protegiam do frio da noite, com seus sapatos, a quem cobria carinhosamente. Difícil não nos remetermos ao olhar de Carlitos (o do cinema, leitor, pelamordedeus!!!) ou mesmo do Chaves; destes personagens mágicos que apanham da vida mas fazem crer, sem pieguices, que a tal da vida é, de alguma maneira, bela. Realmente bela. O contraponto era o mal-humorado -- mas nem por isso menos bem quisto -- personagem interpretado por Elison Oliveira, que se irritava com a presença de Micóbrio, mas de ele se aproveitava, ora roubando-lhe objetos bagulhados no lixo, ora enganando-o na divisão da 'mola pedida. Aliás, pediram 'mola meeesmo!!! O melhor é que o público entrou no clima, e moedas foram jogadas aos montes. Entretanto, animados por os personagens, o público começou a jogar notas, e então talões de cheques, e então carteiras, e bolsas ... uma catarse bem humoradas que divertiu a todos. Alma lavada Enfim, uma comédia muito bela, muito bem executada por os atores. O ponto fraco foi o tempo: a peça alongou-se em cenas que muito bem poderiam ser limadas. E ao final, onde os atores encerram as piadas para lembrar que a velha máxima «seria mesmo cômico, se não fosse trágico», nem todo mundo entendeu. Mas nada que tire o brilho da peça que tratou de maneira delicada uma situação sofrida que só ela. E a dupla de atores arrancou risadas até mesmo dos mais rabugentos 'pectadores da platéia (grupo no qual me incluo, imerso que 'tava na melancolia costumeira das noites de chuva de Brasília). Não demorou muito para afrouxar o riso, e me divertir com as situações de comédia pastelão. E se o nome disso é teatro? Talvez chamar de magia fosse mais apropriado! Número de frases: 30 «O Ser Humano é um Produto do meio em que ele vive." Esta frase ficou martelando em minha cabeça. Como engenheiro, acostumado a coisas práticas porém um eterno questionador, cheguei a uma conclusão. A mesma 'tá errada, melhor, incompleta. Tendo como base o dito que «A Matemática é a linguagem universal», concluo que tudo se relaciona matematicamente, como as leis da física, química, enfim, as leis regem o universo. Sendo o Homem uma parte infinitesimal deste, o mesmo também é regido por a matemática. Vejam o «Homem Vitruviano» de De a vinci mostrando que o corpo humano se relaciona entre si através de proporções. Levando-se em consideração que, matematicamente falando, o produto é o resultado da multiplicação entre dois ou mais números, elementos, enfim ... Defendo a tese que o correto seria afirmar: O Ser Humano é o Produto do meio em que ele vive por a sua Psique. Pois é fato, mesmo dentro de um ambiente hostil, existem pessoas pacificas, mesmo em ambiente onde a dita imoralidade se sobressaia existem pessoas corretas. De o mesmo modo que dois irmãos criados igualmente, no mesmo meio, são diferentes, não me refiro somente nas pequenas coisas, pode-se ter um que é altamente competitivo e outro que seja passivo, assim como pode ser fruto de um lar 'tável uma pessoa má, como no caso da Suzane Von Richthofen e seu irmão, ela planejou e matou os pais ele sofre até hoje ... e não me venham falar que ela é louca ... ela é má, isso sim. Está enraizado na alma, acredito em pessoas más, dá para perceber, algumas vezes, já na fase de criança. Não quero dizer que não tenha jeito, quem é mal deve ser exterminado, apenas creio que deve ser mais bem orientado. Com isso não devemos transferir a culpa por os criminosos para sociedade, a culpa também é de eles. De a mesma forma que optarão por o crime, existem pessoas na mesma comunidade que tem uma vida de luta, de 'perança, de fé. Não culpam o mundo por a vida que levam, tentam mudá-la através de ações boas e produtivas e, algumas vezes, conseguem. Porém sempre colhem frutos de 'sa 'colha, frutos como paz de 'pírito, exemplo a ser seguido, exemplo de 'perança na humanidade, de fé num futuro melhor. Exemplo de Ser Humano. Número de frases: 21 Peço licença para divulgar um documentário que venho realizando há quatro anos. Urna de Esperanças acompanha a vida de quatro brasileiros durante o mandato do presidente Lula. A partir de entrevistas realizadas na boca de urna da eleição no dia 27 de outubro de 2002, 'colhi quatro personagens anônimos para acompanhar ao longo do governo eleito. A o final de cada ano, sempre entre o Natal e o Ano Novo, realizamos entrevistas, visitando os personagens em suas casas e locais de trabalho. Meu objetivo é fazer um paralelo entre as mudanças nas vidas e nas expectativas de 'sas quatro pessoas com as mudanças que acontenceram (e as que deixaram de acontecer) no Brasil nos últimos quatro anos. Realizarei a última rodada de entrevistas no dia do segundo turno da eleição de 2006, quatro anos depois de iniciado o documentário. Disponibilizei no youtube vídeos com declarações de cada um dos personagens, uma 'pécie de promo de cada um. http://www.youtube.com/profile? user = marcosguttmann Prosseguir com 'te projeto sem qualquer apoio financeiro ao longo de quatro anos tem sido um desafio. Nenhuma empresa pública ou privada se arrisca a investir num filme com 'ta temática. Os apoios que tenho são da equipe técnica e da N Filmes e Beck Studios, onde editei a promo. Não é pouco, mas também não é suficiente para levar um longa-metragem às salas de cinema, mesmo em projeção digital. Espero através da divulgação viral na web despertar interesse por o projeto e conseguir uma verba para finalização. O que mais me motivou ao longo desses quatro anos foi a confiança que obtive dos personagens. Diria até que eu não os 'colhi. Eles é que se 'colheram para participar do documentário por o tempo, interesse e comprometimento que eles dedicaram desde o início ao projeto. Isto pautou uma última pergunta que tenho feito a eles: «Porque você 'tá dando 'sa mesma entrevista outra vez?" Afinal, o filme se sustenta em cima de repetição das mesmas perguntas ao longo do tempo. Percebi a dimensão que 'te formato propicia no fabuloso Anna dos 6 aos 18, de Nikita Mikhalkov, que revela a transformação da União Soviética dos anos 70 até a Perestroika dos anos 80 sob a ótica da filha do cineasta russo. Espero em breve poder voltar à edição e assim que tiver montado outros blocos de personagens, atualizarei-os no youtube. Recomendo em 'pecial o vídeo do Héber Cunha, que é o único com as entrevistas de 2006. Número de frases: 23 Maiores informações em http://www.solarfilmes.com/urna.htm Meu Bom Jesus ajunta nós moço faceiro mundo tudinho deve ouvir nosso cantar ( ...) a nossa seta volta para a Guaraqueçaba novos caminhos no horizonte vai brilhar Em o início, eram apenas idéias, pensamentos, experiências, que de uma forma ou de outra 'tavam lá, juntas e misturadas, confusas e enfileiradas, atabalhoadas, acochadas, emperiquitadas. Surge a proposta de organizar tudo isto e aquilo. Assim como um mestre construtor de rabecas (de fandango, é claro) que na mata acha a sua matéria-prima do jeito que a natureza a concebe, e de lá ajuíza todo o processo para que ' aquilo ' soe algum dia como música em nossos ouvidos. Depois corta, serra, 'culpe, perfura, raspa, prepara, lixa, canta, sapateia, encordoa e por fim, afina. Assim como um 'petáculo, a rabeca depois de pronta, busca sempre a melhor afinação, o melhor timbre, nunca encontra a perfeição, mas uma forma de soar bem. De a mesma forma acontece quando se concebe uma peça teatral. Montar um 'petáculo a luz da cultura popular não é a mais fácil das tarefas, deve-se ser seletivo, vista a tamanha diversidade e beleza de nossas manifestações, puramente brasileiras, no entanto, o nosso principal foco é a nossa terra, nosso chão, o que já dá pra engrossar bem o caldo. Guaraqueçaba 'tá localizada ao extremo leste do 'tado do Paraná, e possui uma população de 8.618 habitantes (IBGE / 2005). A ocupação em seu território ocorreu por volta da metade do século XVI, na região da Baia de Pinheiros, próxima a Ilha se Superagui. Atravessou diversos ciclos econômicos, inclusive o achado das jazida de ouro nas encostas de Serra Negra e serviu de comunicação fluvial entre os portos de Antonina, Paranaguá (PR) e Iguape (SP). Em todos 'tes processos, manteve grande parte de sua Floresta Atlântica preservada, levando à constituição, na década de 1980, de uma série de Unidades de Conservação, que fazem parte da maior área de mata atlântica remanescente do Brasil. A região possui mais de 40 comunidades dispersas por todo o seu vasto território. A cultura caiçara é predominante entre os moradores tradicionais, que preservou diversas de suas manifestações mais expressivas como o Fandango, a Bandeira do Divino, o Terço-Cantado, a dança de São Gonçalo, e toda a mitologia e sabedoria popular. O grupo Fâmulos de Bonifrates surgiu em 1999, com o intuito de pesquisar, conhecer, preservar a cultura local e transformá-la em dramaturgia. Para tanto, não demos conta de colocar nossos pés somente em andanças por o nosso litoral paranaense, e botamos os pés em outros lugares também, mas só com a pontinha. Em 2004, já haviam sido montados 7 'petáculos, mas a empreitada que 'tava por vir era muito mais complexa que imaginávamos, porém gostosa e divertida de trilhar. Itaércio Rocha, arte-educador, músico e 'tudioso da cultura popular, que em 1999 havia realizado um trabalho junto ao grupo, fora convidado para coordenar e executar a oficina que iniciara, que o grupo idealizou em parceria com a ONG SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) com recursos do Programa de Proteção ao Papagaio da Cara-Roxa (também conhecido como Papagaio Chauá). A oficina pode ser delimitada entre Março de 2004 e Fevereiro de 2005. A proposta era de encontros que tivessem como foco coletar material de pesquisa como contos e lendas, rezas e músicas, em meio aos moradores tradicionais e familiares dos alunos. Em os quatro primeiros meses era necessário que fosse criado um bom repertório de conhecimento. Em o início foram cerca de 30 jovens envolvidos nas pesquisas e oficinas de Rabeca com Daniela Gramani, Percussão e Canto com Melina Mulazani, e encontros com mestres fandangueiros. Que eram realizadas paralelamente as atividades de pesquisa, improvisações e construção de bonecos. É em 'ta fase, onde são elaboradas as primeiras propostas de roteiros a partir das histórias coletadas. Em os encontros realizados posteriormente, já se pode compreender a segunda fase, três meses, realizou-se os trabalhos de composição da dramaturgia, abrangendo a criação das músicas e 'boços de construção de bonecos. Para os bonecos foram utilizados materiais regionais, como cipós e fibras da mata, além de contar com o apoio de artesãos locais. Bonecos criados e sendo criados, músicas compostas, vinte e cinco pra ser mais exato, e um texto em construção, os ensaios aconteciam. Assim surge uma história de amor e aventura, a grande festa de casamento dos Chauás é interrompida por o Chimbicão, o homem grandão, que rapta a papagaia e a carrega para os confins das lonjuras dos cafundós. Os amigos unem-se, Guará, Anú e Paco, o Chauá. Decidem correr todos os riscos necessários para resgatar a noiva. Sem saber como chegar a casa do «vilão», eles evocam e recebem a ajuda dos seres da mata, Velha do Porco, Bilizome, Cabeção, Mãe d ´ agua, Lilicona e o Boca de Caçapa, que representam as forças da floresta e os levam por montanhas, mares e matas brenhas ao encontro do» raptor». A união da amizade encontra a papagaia e o Chimbicão recebe o seu merecido. Em a elaboração do texto, foram consideradas todas as sugestões, e ainda as experiências realizadas com improvisações e as músicas já compostas. Situada na 'fera dos autos populares a 'trutura que foi respeitada fazia parte de todo o arcabouço de conteúdos, no que diz respeito à dinâmica do 'petáculo, as características dos bonecos, as cantorias e a vivacidade, dos grandes 'petáculos que surgem do povo, através de dedicação, trabalho e muita alegria e festa. «Procurando a ânima dentro dos autos populares nos deparamos com a nossa alma de Chauás em risco de extinção. Desde que formos descobertos como seres dotados de beleza e saberes sofremos o processo de extinção e maltrato perigoso, antigo e constante, mas resistimos. Formamos grupos, Criamos canções, Dançamos e festejamos o nosso saber a nossa vida, resistimos." ( Número de frases: 43 Itaércio Rocha) O imprescindível. O básico. O excesso. Desta forma dividi-se o trio cearense de electro punk Montage, que se apresentou em Belo Horizonte na sexta-feira dia 05 de maio como uma das atrações do festival Showcase, na recém-aberta boate Mary In Hell. Dissecando a formação da banda, o papel de cada integrante da Montage poderia ser descrito da seguinte forma: · o imprescindível: Leco Jucá, com seu laptop Macintosh e demais apetrechos eletrônicos, proporcionando bases certeiras, variáveis de synth pop ao industrial. · o básico: Patrick Bachi, sua Fender Squire e uma pedaleira 'trategicamente localizada em cima da mesa, resultando em distorção, muita distorção e acordes bem tocados. · o excesso: no dicionário electro tupiniquim a palavra excesso vem ao lado do nome Daniel Peixoto. Este nome aliás, é acompanhado também das palavras poser, glam, andrógino e wannabe. Ou seja, ele é uma pessoa que significa muito. Mais do que vocalista da Montage, Daniel é seu frontman, um performer que entretém mesmo quando é substituído por frios vocais computadorizados. Sem contar que ele empina o bumbum para ser apalpado por a platéia ... Em cima do palquinho da Mary In Hell a Montage provou o porque do destaque recebido por a banda ultimamente. Muito melhor do que em 'túdio, o som da banda ao vivo é encorpado, com um incrível punch, em grande parte devido à ótima guitarra de Patrick. Músicas como «i trust my dealer» (que abriu o show) e «raio de fogo», que já são ótimas em 'túdio, ficam ainda melhores ao vivo. «Ginastas cariocas», que em 'túdio praticamente não tem guitarras, ganha um peso incrível e com certeza foi uma das melhores da apresentação. A dinâmica de palco da banda parece detalhadamente programada e ensaiada, mas funciona muito bem. De um lado o blasé Patrick cuspindo riffs barulhentos, quase imóvel durante todo o tempo, dando o ar rock n roll à banda. De o outro lado, Daniel, o Brian Molko brasileiro, fazendo caras e bocas, se jogando no chão e cumprindo com louvor seu papel de vocalista-entertainer. E lá no fundo, atrás da mesa, o que parece ser o cabeça da banda, Leco, suando horrores para manter as bases que mantém a Montage (se Leco é a cabeça da banda, encare Patrick como a alma e Daniel como, bem, o corpinho sarado). Para ter uma idéia de como foi o show da Montage em BH, imagine uma mistura de Ladytron, Placebo e Miss Kittin, tocado por os personagens do filme Party Monster num verdadeiro inferninho electro. Aliás, a cover tocada no show foi justamente da trilha sonora do filme, a música «money, success, fame, glamour». Ao menos uma de 'tas quatro coisas a banda já tem de sobra. De certa forma a sonoridade chega a ser repetitiva e um pouco básica demais em alguns momentos (leia-se pouco original), mas a sonoridade não é o único fator importante na Montage. Trata-se de uma banda na qual a imagem é quase (ou igualmente) tão importante quanto a música. Um show não apenas para dançar ou bater cabeça, mas para extravasar, 'timular a libido e pensar, ao menos por um momento, que o real não importa. -- -- -- fotos do show Número de frases: 30 tramavirtual da banda Não é exagero dizer que o gaúcho Radamés Gnattali foi um dos mais fundamentais e brilhantes artistas do século XX. Pianista, arranjador, maestro, arquiteto e artífice da música brasileira moderna, trabalhou durante 30 anos na Rádio Nacional, sendo um precursor dos arranjos de cordas para música brasileira -- 'pecialmente notadas em «Lábios que beijei», sucesso na voz de Orlando Silva e» Aquarela do Brasil, com Francisco Alves, gravada em 1939». Compôs peças para teatro e cinema, inclusive para filmes como Tico Tico no fubá e Argila, de Humberto Mauro. Manteve amizade com artistas como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Tom Jobim, Cartola, Villa-Lobos, Donga, João da Baiana, Francisco Mignone, entre outros. Radamés interpreta Radamés foi lançado em 1958, e retrata fidedignamente a versatilidade genial de instrumentista e compositor através de maxixes, sambas e choros. O LP foi relançado algumas vezes, sob o título Radamés e a bossa eterna, fazendo alusão a uma orquestra que simplesmente não existe na gravação. Aqui, Radamés é acompanhado por o Quarteto Continental, composto por ele, Pedro Vidal Ramos (contrabaixo), Luciano Perrone (bateria), José Menezes (violão e cavaquinho), além do auxílio luxuoso de Heitor dos Prazeres no afoxé e reco-reco. * & * Em o mesmo ano em que lançou 'te álbum, Radamés Gnattali 'teve envolvido com mais dois projetos fonográficos: as peças «eruditas» " Brasilianas n. 7 e 8, para piano e saxofone tenor, contando com Aída Gnattali no piano e Sandoval Dias no sax; e Radamés Gnattali em ritmo de samba, álbum no qual o compositor interpreta os sucessos de amigos do samba, como Ataulfo Alves, Bide e Marçal. Dez anos antes, com o mesmo grupo que gravou Radamés interpreta Radamés, o maestro lançou, por a gravadora Continental, a canção de sua autoria «Fim de tarde», para alguns o prenúncio mais claro do 'tilo de arranjo e composição que mais tarde viria a caracterizar a bossa nova. Durante 'te período, a produção de Radamés dialogava tanto com a música erudita, como com a música popular, muitas vezes promovendo uma sonoridade indistintiva entre os dois registros, expressando sua preocupação em 'te sentido inclusive em entrevistas. Pode-se dizer, sem exagero, que Radamés é um músico moderno por definição, atento aos paradigmas constitutivos (e desconstrutivos) da música feita no mundo, mas que sempre manteve a ênfase de seu discurso voltada para a música produzida no Brasil. O pensamento à vontade para circular por entre as vanguardas mais radicais, porém integrado a uma lógica produtiva interna, que se articula entre as cadências e sonoridades criadas no Brasil, sem abrir mão da vocação antropofágica. De certo modo, Radamés prefigura aquilo que Hermeto Pascoal veio a consolidar mais tarde: uma música total, culta no discurso e no som, incorporada de todos os elementos possíveis, ainda que eqüacionados num formato 'pecífico. A habilidade de Radamés, sua mobilidade, foi fundamental para a música brasileira do século XX, e poderíamos até dizer que, junto a Ismael Silva (inventor do samba urbano), Clementina de Jesus (o elo perdido) e Luiz Gonzaga (o primeiro grande astro nacional), Radamés realizou o trabalho mais determinante da música que se fez e que se faz no Brasil. Indistinção entre popular e erudito, entre nacional e mundial: a música de Radamés representa uma fonte inesgotável de inspiração e 'tímulo, embora nem sempre de uma maneira condizente com sua genialidade. Não há dúvida que Radamés interpreta Radamés é um exemplo contundente da presença decisiva do maestro e compositor na música brasileira, pois, em doze faixas, quase todas de sua autoria, desfila por o choro, por o maxixe e por o samba com a 'pontaneidade e o poder de síntese que caracteriza a música brasileira. Equilibrado, o álbum traz uma série de momentos admiráveis, graças a alguns princípios que parecem nortear sua composição e execução. Primeiro, alia, de forma aparentemente simples, rigor e sentimento, equilíbrio e improviso. Traz uma ousada concepção de arranjo, que só encontra paralelo na história do choro com o álbum Confusão urbana, suburbana e rural, de Paulo Moura. Como a música de Tim Maia, cuja audição não permite a adequação imediata em nenhum gênero (" Coroné Antônio Bento», por exemplo, é rock, baião ou soul?), da mesma forma Radamés e seu quarteto criam peças com alto teor de originalidade: choros amaxixados (" Zanzando em Copacabana «e» Papo de anjo "), chorinhos «eruditos», com forte apelo clássico (" Pé de moleque "), samba-canção (" Amargura», que mais tarde ganhou letra de Alberto Ribeiro), samba de fato (" Escrevendo para você», uma das poucas parcerias do disco, com o mesmo Alberto Ribeiro) e até mesmo um fox-samba (" Gatinhos no piano "), num dos momentos mais ousados de todo o disco. ( Aqui, deve-se levar em consideração que o chamado foxtrote representava o 'pírito americano na década de 40, papel que o rock ' n ' roll veio a desempenhar alguns anos mais tarde. Isto, obviamente, despertava a ira dos conservadores, puristas e xenófobos que não pouparam críticas à música livre de Radamés ...). Não quero aqui tirar lições nem conseqüências morais de um trabalho tão expressivo e, apesar de sua candura, vigoroso. Mas, numa época em que se retomam argumentos vetustos acerca de uma suposta «raiz» da música brasileira, nada como repor ao debate o ponto de vista de artistas que, embora relativamente 'quecidos, contribuíram para a música que se faz hoje por 'tas bandas. E, em 'se caso, visto que muitas vezes a ignorância é irmã do 'quecimento, vale destacar 'sas palavras de Radamés, tão irônicas quanto amargas: «Quando as coisas 'tão acontecendo, ninguém dá importância nenhuma. Mais tarde é que vão se lembrar, aí ninguém sabe mais nada». A julgar por a música brasileira que se ouve por aí ultimamente, na qual os artistas se destacam por a capacidade de emulação, parece que tanto o 'quecimento quanto a ignorância tomaram proporções nefastas. Radamés interpreta Radamés pode até não ser antídoto, mas, certamente, documenta uma direção divergente da que a música de mercado brasileira vem tomando, configurando-se em documento precioso da peculiaridade de nosso talento. ( Número de frases: 36 Bernardo Oliveira) A pele, o corpo e o tamanduá Paulo Sergio Duarte A pintura de Carlos Zilio, na sua paleta, nos seus movimentos, na sua reflexão, solicita certa distância, jamais qualquer empatia efusiva. Distância que pede inteligibilidade e que não se 'conde em nenhuma pacotilha metafísica. Como toda pintura contemporânea, exige o contato subjetivo com sua materialidade, muito presente tanto na ação do artista marcada na superfície quanto nos contrastes presentes no uso da tinta e do pincel. Sua generosidade não se dá no encontro fácil, tampouco em qualquer dissimulação ou macetes de procedimentos que divertem e enganam. É generosa porque já na sua aparência se entrega por inteiro. Esqueçamos, por um momento, a erudição do artista e alguns dos títulos de suas telas: «Banhistas», seguramente uma referência a Cézanne e não a Renoir, ou «Et in Arcadia ego» a Poussin e Erwin Panofsky. Entreguemo-nos ao acontecimento plástico. A paleta toca em surdina, como o trompete de Miles, mas não é seca como um Martini de Buñuel. Transpira certa sensualidade e inevitáveis associações à cor da pele em muitas áreas da superfície. Muitos desses campos são calmos e preparam o olhar, como um intervalo pitagórico, em consonância com a paleta, para o confronto com as áreas de turbulência nas quais dominam o preto e o branco; ocorrem matizes de cinza que vão se misturar à cor da pele nos movimentos circulares. O discreto refúgio do olhar nos 'paços monocromáticos é chamado à agitação, como se encontrássemos juntos privacidade, individualidade, e a ruidosa vida pública, anônima e urbana. Essa oposição, reiterada em diferentes telas, não admite passagens nem transições. A pintura de Zilio trabalha mais na disjunção do que na conjunção, mais com a descontinuidade do que com a continuidade, em ela encontra-se mais genealogia do que gênese. A 'colha de nos possibilitar 'sa experiência é visível nas divisões de muitas de suas telas por a linha vertical 'truturante. Mesmo quando se apresentam fisicamente como dípticos, trípticos ou polípticos, a articulação entre os elementos tensionados por a força da oposição é poderosa, sempre predomina a sensação de unidade, a presença de um ente pictórico único sobre qualquer relação de complementaridade, não há independência dos elementos entre si. É sempre uma e somente uma pintura. Eventualmente 'se modo é contrariado; por exemplo, quando um círculo vermelho -- uma «maçã» -- se divide entre duas áreas e é segmentado por a linha vertical. Aí o sistema se desdiz: há divisão, transição e passagem, enfim, continuidade; mas reforça-se o aspecto da unidade de cada obra. Depois da pele, há outras evidências da relação da obra com o corpo que vão além daquelas que encontramos em toda boa pintura. As voltas dos círculos são a marca indelével de uma pincelada traçada por o braço inteiro, distantes das curtas pinceladas de pulso dos impressionistas e em 'se traçado tanto expulsam nosso olhar para além dos limites físicos da tela como o puxam para múltiplos e incertos centros. Mais do que a ênfase planar das superfícies monocromáticas, os múltiplos círculos deslocam qualquer possibilidade de um centro onde o olhar possa encontrar apoio ainda que provisório. Com os círculos e suas braçadas as dimensões das telas passam a ser conseqüências diretas do ato de pintar na 'cala do corpo. A medida é determinada por um campo para o ato de pintar e não decisão arbitrária para preencher uma parede. às naturezas mortas evocadas nas figuras dos crânios vem se juntar uma natureza viva, vivíssima na sua forma pictórica: o tamanduá. Mas nem por isso a paleta se abala, mantém sua serenidade e discrição apesar da figura 'drúxula que se infiltra em 'sa pintura suportada por rigorosa reflexão. Há uma anedota biográfica para a presença do tamanduá: era o bicho de estimação do pai de Zilio quando criança no interior do Rio Grande do Sul. E o tamanduá brincava descendo o corrimão da 'cada dos avós do pintor. Mas a palavra tamanduá não designa somente o mamífero latino-americano comedor de formiga e cupim; usa-se também para nomear uma grande mentira. Mas não é isto que o artista 'tá nos mostrando? Isto não é um tamanduá da mesma forma que o cachimbo de Magritte não era um cachimbo. Maçãs, crânios ou tamanduás descendo 'cada, caindo ou se enrolando nos círculos, hoje, nos interessam porque é pintura. Zilio 'colheu e constrói seu destino: 'sas telas materializam um dos capítulos de mais de quarenta anos de prática artística e trinta anos de pensamento pictórico. Rio de Janeiro, 2 de setembro de 2008. * Paulo Sérgio Duarte é crítico, professor de história da arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados/Cesap da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro. Leciona Teoria e História da Arte na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro -- Parque Lage. Foi Assessor-Chefe do RIOARTE (1983-85) e primeiro diretor geral do Paço Imperial/Iphan, de 1986 a 1990, responsável por a sua implantação como um centro cultural, período em que foram realizadas, entre outras, as exposições Lygia Clark e Hélio Oiticica, Brasil Holandês, Lasar Segall, Sergio Camargo, Miró e Gaudi, Expedição Langsdorf, Amílcar de Castro (única retrospectiva do artista em vida), Tesouros do Kremlim e Carlos Vergara. Publicou os livros Anos 60 -- Transformações da arte no Brasil [Rio de Janeiro: Campos Gerais, 1998]; Waltercio Caldas [Paulo: Cosac & Naify, 2001] e Carlos Vergara [Alegre: Instituto Santander Cultural, 2003], além de diversos artigos e ensaios sobre arte moderna e contemporânea, de entre os quais se destacam os 'tudos «A trilha da trama» [in: Antonio Dias. Rio de Janeiro: Funarte, 1979]; «O que Seurat será?" [ in: O Olhar. Org.: Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 1988]; «Amilcar de Castro ou a aventura da coerência» [in: Novos Estudos Cebrap, n. 28. São Paulo: Cebrap, 1990]; «Modernos fora dos eixos» [in: Arte construtiva no Brasil. Org.: Aracy Amaral. São Paulo: DBA Melhoramentos, 1998]; «As técnicas de reprodução e a idéia de progresso em arte» [in: Mostra Rio Gravura -- Catálogo Geral. Rio de Janeiro: Instituto Municipal de Arte e Cultura -- RIOARTE, 1999]; «Chega de futuro?-- Arte e tecnologia diante da questão expressiva " [in: Arte & Ensaios. Ano IX. No. 9. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002]; «Lasar Segall: O Navio de Emigrantes» [in: Nossa História. No. 7. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, maio de 2004]. Número de frases: 76 Gostei do Calango, um festival que cresce a cada ano em importância e que ampliou suas ações para além da música alternativa. Está colocado entre os maiores dos vários festivais independentes que se consolidam ano a ano no Brasil e que 'tão comprovando ser a grande força emergente no cenário musical do país. O Festival Calango incluiu no cardápio outros segmentos artísticos, como o audiovisual, a literatura e as artes visuais, além de debater questões importantes como a comunicação e 'tratégias de mercado. Aliás, a comunicação é encarada como fator 'sencial para conectar e fazer circular produtos, idéias, 'tratégias de ação política cultural e compartilhar experiências. O Espaço Cubo, que realiza o festival, tem despertado reações ambíguas na cena cultural urbana e alternativa em Cuiabá. Apesar de 'tarem conquistando importantes 'paços na cena nacional, sofrem uma dura oposição de outros produtores locais. Algumas pessoas 'tão reagindo de forma bastante agressiva em relação ao comportamento ousado desses intrépidos agentes que fazem muito barulho e realmente 'tão marcando a história da cultura urbana por aqui. Pablo Capilé & Cia trabalham muito, mas também são duros em seus posicionamentos, não têm meio-termo em suas declarações e provocam reações agressivas e contundentes de outros grupos e pessoas que não concordam com seus métodos. O Espaço Cubo tem desenvolvido ações bastante pertinentes e 'tratégicas com um sentido político bastante claro e que tem dado resultados práticos inserindo Cuiabá como referência nacional no rol dos maiores festivais independentes (não compactuo com o termo pois somos todos interdependentes, ninguém faz nada sozinho, as parcerias são fundamentais em 'sas produções) do país. Mas, sem amaciar ninguém com sua verve ferina, Pablo vem colecionando furiosos inimigos em 'sa sua sanha de disparar o verbo contra tudo e todos que não se alinham com seus posicionamentos. Leia a entrevista que fiz com ele aqui mesmo no Overmundo que desencadeou outra no blog Matula Cultural do overmano Rodrigo Teixeira, uma reação da galera de Campo Grande a suas observações contundentes. Acho que as reações têm demonstrado uma total ausência de conteúdo e lançam o debate para um vazio de idéias que preocupam. Polemizar com bons argumentos é bem bacana, gosto disso. Nunca deixei de responder a provocações de quem quer que seja, mas com argumentos sólidos, com posições políticas claras, definindo meu território, disputando e abrindo 'paços novos, avançando sobre preconceitos e imobilismos conservadores que querem perpetuar seus podres poderes. Fui o primeiro grande debatedor com o pessoal do Espaço Cubo, reagi a suas provocações publicamente e não me arrependo. Não concordei com seus métodos na realização do segundo Calango e não participei, mas isso não impediu que, em outro momento, nos alinhássemos, pois entendo a sua importância no cenário matogrossense e acho mesmo que depois de um longo período pós início (marcantes anos 80) da arte urbana em Cuiabá, eles representam a consequência natural de todo 'se processo que revolucionou e muito a cultura por aqui. Admirei o atrevimento com que 'ses garotos na época se atiraram em 'sa aventura radical com ímpetos revolucionários e uma disposição incomum. Não acho que sejam melhores nem piores que ninguém, não é por aí. Cada um cumpre seu papel histórico e fim de papo. Gosto de toda 'sa movimentação que vem acontecendo em Cuiabá, em todo o Brasil e o Espaço Cubo vem conquistando um lugar muito importante no país. Admiro todo 'se trabalho dos caras. Mas admiro também o Jomar que lidera a ASCUM (Associação Underground), é um cara porreta e fiel a sua tradição roqueira, oriundo do rock underground, força original do rock cuiabano. Dou a maior força ao pessoal do Amostra Grátis, que vem conseguindo manter uma continuidade positiva na produção de eventos, abrindo 'paços para novas bandas e mantendo viva a movimentação do segmento. Espaço das Tribus, do Rafael Zardo e da Fran, também vem mantendo uma continuidade na produção de shows junto com o Cachorrão, no Cavernas Bar, outro reduto underground. Enfim, vida longa para a cena cuiabana que se constitui de vários movimentos, a soma disso resulta numa conquista mais ampla para a cultura local. Como 'tava com o pé quebrado, não pude ir aos shows do primeiro dia do festival. Mas no segundo e terceiro dias fui, vi e gostei. Bem menor o público comparado ao festival do ano passado, mas não é só isso que importa. Existem vários motivos bem concretos pra justificar isso: o local, 'tacionamento da Unic (Universidade de Cuiabá), dificulta a ida de muita gente que depende de transporte coletivo, aliás 'sa questão de 'paços adequados para eventos 'tá se tornando um problema sério em Cuiabá, para não dizer que sempre foi assim. Outro fato que atrapalhou bastante foi a divulgação, muito aquém daquilo que se 'perava por o porte e importância do evento. Atraso na liberação da verba do Fundo Estadual da Cultura também implicou numa série de dificuldades operacionais. É tudo feito com muita garra e disposição heróica. A história do rock sempre foi marcada por os confrontos com os segmentos sociais mais conservadores, difícil ensaiar sem gerar conflitos com vizinhos, difícil encontrar 'paços públicos e privados para realizar eventos, difícil conseguir apoio e mercado para a auto-sustentabilidade. Em Mato Grosso, o Espaço Cubo conseguiu inserir o Festival Calango na agenda dos governos 'tadual e municipal e captar recursos das leis de incentivo à cultura. Mas nunca cobre todos os custos. Acho até que os realizadores deviam repensar o modelo, adaptar para a realidade dos recursos que conseguirem. Fica difícil e é muito desgastante administrar prejuízos que possam ocorrer num evento desse porte. Foram 48 bandas, de Cuiabá e de 16 'tados brasileiros, uma maratona musical. Vi bons shows, conheci pessoas bacanas e o ambiente 'tava bem legal. Tudo muito bem organizado e contando com uma superestrutura de palco, som e iluminação. Bem profissional. Quem quiser saber sobre as performances das bandas pode ler os artigos do Humberto Finatti, na revista Dynamite, que cobriu o evento em todos os seus dias. Pode ler também no site Urbanaque. Espero que o Calango continue vivo. Resistente, firme e forte no coração alternativo da Hell City. Número de frases: 46 Deglutições culturais da 'pontâneidade à parte, o graffiti * vem crescendo em Salvador, seja através de iniciativas 'tatais ou no velho 'tilo independente. Junto com outras obras de arte que particularizam o 'paço urbano em Salvador, há muros grafitados em profusão, até com emblemas oficiais da Prefeitura Municipal. Em as unidades da rede de ensino pública 'tadual do projeto Escola em Tempo Integral, com mais de dez mil alunos, há oficinas de grafitagem. A Prefeitura de Salvador, em parceria com a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, já tem um projeto de inclusão social através do graffiti. Áreas da cidade como Barra, Avenida Contorno, Comércio, Calçada, Coutos e o Subúrbio Ferroviário já passaram por intervenções artísticas comandadas por grafiteiros. Em uma iniciativa inédita, 27 grafiteiros profissionais foram contratados a salários de R$ 400 mensais com benefícios. Em seis meses de projeto, a prefeitura afirma já ter grafitado 3.500 metros de muro. Para o artista plástico e grafiteiro Denis Sena, 29 anos, o graffiti tem crescido muito na cidade. «É uma arte que ainda é nova em Salvador, a cidade tornou-se plástica e isso é subversivo. Antigamente havia muito preconceito, chamavam você de pichador, era uma coisa pejorativa. Com a aceitação maior da arte de rua, fica mais fácil levar o nosso trabalho para outros 'paços e gerar alternativas de renda para os grafiteiros», diz Sena, que é autodidata e pretende fazer um curso de design. De entre os seus trabalhos, 'tá um graffiti feito no navio do grupo ambientalista Greenpeace, que 'teve em Salvador, e diversos painéis por a urbe, como o muro da Escola de Administração do Exército. Este ano, vai ministrar oficinas de grafitagem para cidadãos da terceira idade. O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) realizou no ano passado o projeto Graffiti no Pelô, com uma turma de 20 adolescentes do Centro Histórico de Salvador. Com a ajuda do Centro de Tecnologia Musical Eletrocopeerativa e do grupo Grafipaz, o Ipac buscou unir hip-hop com graffiti em oficinas e apresentações musicais para afastar os adolescentes do crime numa zona altamente turística, capacitando-os para usar a experiência aprendida no projeto em atividades remuneradas. A Eletrocooperativa já trabalha com inclusão social através da música, capacitando jovens de 18 a 24 anos para trabalharem como produtores musicais ou DJ's. * O termo «graffiti» é empregado com 'ta grafia a pedido da fonte, que a considera mais precisa para simbolizar o seu trabalho, em detrimento do «grafite» encontrado no «Dicionário Houaiss». Número de frases: 17 «Graffiti» é o termo empregado por o dicionário de língua inglesa Webster's. A o passar por a Rua das Trincheiras, em Jaguaribe, é impossível não perceber o lindo casarão branco com traços de arquitetura Art Noveau que ainda impera em meio a prédios decadentes. Trata-se da sede de um revolucionário projeto cultural universitário criado por a Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (PRAC) na década de 70, o Núcleo de Arte Contemporânea. Tal Núcleo fez a cultura local ferver entre as décadas de 70 e 80 com um banho de arte de Vanguarda jamais visto na «província». O projeto ainda existe. Porém, apenas na teoria. Seus dias de glória aconteceram entre o verão de 78 e o inverno de 85. A idéia foi lançada num seminário que ocorreu no Museu de Arte Assis Chateaubriand, em Campina Grande. Em a ocasião, discutiu-se a criação de um Núcleo de Artes Plásticas e assim nasceu o NAC. A época também era favorável à sua criação. O Estado 'tava há 20 anos sem mostrar nada de novo no meio artístico. Tudo o que era produzido aqui 'tava nos moldes da Semana de Arte Moderna de 1922, portanto já não era mais algo de vanguarda. Além disso, a UFPB também 'tava passando por um momento de transição com a gestão do reitor Lynaldo Cavalcanti -- um dos defensores do NAC. Com o renomado artista plástico Antonio Dias (na época professor do Departamento de Artes da UFPB), Chico Pereira (também artista plástico) e o teórico Paulo Sergio Duarte à frente do projeto, a idéia seria utilizar o 'paço para exposições que serviriam de estudo de Arte para 'tudantes de todas as áreas da UFPB. Essas exposições 'tariam abertas à comunidade local, fazendo ao mesmo tempo uma reciclagem da arte vista na cidade. Porém, no Departamento de Artes da UFPB não havia professores que trabalhassem em 'sa área. Foi aí talvez o grande trunfo do NAC e ao mesmo tempo o que o fez entrar em decadência. Os diretores tiveram que fazer valer de suas influências no meio artístico para assim trazer exposições de grandes nomes da arte contemporânea mundial e brasileira. Para isso, o artista seria contratado como professor por seis meses. Em 'se período ele daria aulas na Universidade, 'taria à disposição dos alunos para 'tudos da sua obra e montaria o seu projeto de exposição. Para que isso tudo desse certo também foi fundamental o apoio da Funarte junto à Reitoria. Com isso, o NAC se transformou num dos grandes pólos de Arte Contemporânea do país. «O NAC se tornou o eixo fora do eixo», diz o artista plástico e crítico de arte Diógenes Chaves a respeito da importância nacional do NAC na época. Isso porque as grandes investidas artísticas 'tavam apenas no Sul do país com alguns movimentos como o «Nervo Ótico» (Alegre), o MAM-Rio, MAC-SP e etc. O projeto foi tão ambicioso que para demonstrar a sua importância 'tavam presentes no NAC em sua abertura os artistas Mário Pedrosa, Roberto Pontual, Carmem Portinho (ex-diretora do MAM-Rio e ex-diretora da Escola Superior de Desenho Industrial), Alberto Buettenmuller e Ziraldo. O NAC foi o primeiro lugar no Brasil a mostrar a fotografia como arte. Suas exposições eram pautas de grandes matérias do Jornal do Brasil e até do Le Monde. Foi também um dos primeiros lugares no país a mostrar os livros de arte e livros-arte. Em seus dias de glória, passaram por o local artistas como Flavio Tavares, Gustavo Moura, Cláudio Tozzi, Fred Svendsen, Tunga, Breno Matos, Rubens Guerchmam e Paulo Roberto Leal. A decadência do NAC começou em 85 quando o projeto já não dispunha do apoio financeiro que havia no começo. Além disso, o prédio passou dois anos sem funcionar. Quando aconteceu a reabertura já não havia interesse dos professores e artistas em continuar o projeto. A revolução artística já havia acontecido na cidade. Os fundadores do Núcleo não 'tavam mais na UFPB. Sendo assim, o projeto ficou abandonado às baratas. Chegando a ponto de exibir exposições de artesanato e cerâmica para as senhoras da «alta sociedade paraibana». Os artistas locais sem entender o propósito do Núcleo voltaram-se contra o projeto alegando que 'te não dava vez aos artistas conterrâneos. Sendo assim, selou-se a «morte» do NAC. Em 2000, o crítico de arte Fabio Queiroz (FabbioQ.) fez uma tentativa de retomada da ousadia das exposições do NAC. Ele organizou a curadoria de uma exposição chamada «Sem Título». A investida não obteve os resultados 'perados na época, porém foi algo que mexeu com a (mais uma vez) pacata cena artística de João Pessoa. A 'sa altura, o projeto não funcionava e nem teria como funcionar sem a ajuda financeira e interesse da Universidade em mantê-lo. Em o final do ano passado, a professora do Departamento de Artes, Marta Penner, assumiu a direção do Núcleo com a idéia de reviver o gigante adormecido. Para isso, 'tá tentando promover grandes exposições, além de reativar os cursos de cerâmica e litografia e os projetos de extensão do Departamento. Além disso, o curso de Educação Artística passou a ser separado em Artes Visuais, Teatro e Educação Musical. É provável que todas 'sas transições tragam bons frutos para o NAC. Entretanto, é necessário que o projeto atual seja reavaliado para que funcione de acordo com as condições vigentes. Em uma grande investida de Marta Penner à frente do Núcleo, 'tão em exposição as telas do artista suíço Dieter Ruckhaberle. O artista passa seis meses na Paraíba em seu atelier produzindo e seis meses em sua terra natal. Suas obras giram em torno de histórias, geralmente inspiradas no Oriente Médio. O tema da exposição em cartaz é «Abisague de Sunem e o Rei Davi». As telas 'tarão no NAC até o dia 31 de Março. Número de frases: 53 O NAC fica em João Pessoa-PB na Rua das Trincheiras, em Jaguaribe. De as bandas que têm aparecido em João Pessoa, e são inúmeras, há uma que sempre me chama atenção. Em todo e qualquer aspecto a banda Burro Morto é uma das únicas que em minha opinião vão conseguir respirar acima do mar de descaso que o cenário underground paraibano se encontra. Em o aspecto profissional os caras já mostraram que não 'tão para molecagem. Desde sua formação, em principio como um coletivo artístico, a banda resolveu que não valia a pena brincar de ser músico, ainda mais na vertente que preferiram navegar, algo entre o groove e o afro, entre o dub e o jazz. Tantas influências e fontes sonoras exigiam sempre muito 'tudo e quando me encontrava com algum de eles na rua, ficava no mesmo cumprimento: «vamo rala Alberto, vamo ralaaa». Tanta ralação resultou num som bem trabalhado, bem executado e certeiro na idéia, 'forço que já 'tá tendo reconhecimento. A musica Indica foi 'colhida para participar da coletânea Amplifica Vol. & 1, que foi lançada junto com a sexta edição da revista + Soma. Puxa vida né?! Bacana pra uma banda com apenas cinco apresentações, mas a qualidade é muita, demais, tanto que não ficou só ai. Além de participarem do lançamento da coletânea que aconteceu na festa de comemoração de um ano da revista, no CB Bar, a banda fechou mais quatro shows em Sampa. Não pude 'tar lá com os caras, mas quando voltaram fiquei imaginando como teria sido 'sa experiência, sair de Jampa Village para Sampa Mega City. Sentei meia hora com a Burro Morto para saber e o resultado ta ai. Alberto Nanet -- Qual foi o impacto que vocês sentiram em São Paulo? Ruy José -- Eu achava que a cidade seria muito rock and roll e de repente a galera não 'taria muito a fim de curtir o som da gente. Até o bar que a gente tocou primeiro era muito rock e fiquei meio naquela né? Pow será que vai rolar. Leonardo Marinho -- Em o primeiro show a casa tava cheia, era uma festa «open bar», a galera já tava meio alta, a gente tocou num horário bom, acho que era uma da manhã, então acabou sendo muito bom. Estávamos meio tensos porque já fazia algum tempo que não ensaiávamos, a gente 'tava concentrado na finalização do nosso disco e eu tive que viajar com outra banda em 'se mesmo período. Então acabou que fizemos apenas quatro ensaios, ficamos uns quinze dias sem se ver e nos encontramos novamente no dia do show. A expectativa era grande, mas acabou dando tudo muito certo. Alberto -- Fiquei sabendo que o pessoal da revista curtiu. Leonardo -- Muita gente veio falar com a gente dizendo que gostou e que 'tava surpreso porque não 'perava que vindo da Paraíba o som fosse aquele. Ruy -- Lá realmente há uma grande concentração de cultura, talvez por isso, ainda exista muita gente pensando que fora de ali não circula informação. Em a verdade a gente sabe que por aqui sempre houve uma galera comprometida com 'se lance da criação de novas formas, da experimentação e do não comprometimento com rótulos. Acho que foi isso que eles mais curtiram. Leonardo -- A galera lá sabe que rola alguma coisa em recife sabe, recife é uma referência, mas saber que aquele som vem da Paraíba foi uma surpresa. Alberto -- Então foi surpresa dos dois lados, tanto de vocês com o lugar como do público com vocês? Ruy -- De certa forma foi sim, até o cara que chamou a gente não sabia se a gente ia se garantir no palco, por exemplo. Porque a gente com 'sa formação ainda não fez nenhum grande show, então não tinha comentários em torno da gente, tipo ele não tinha nenhuma referência. Então ... Foi uma loteria, ele curtiu e resolveu apostar. Leonardo -- Ele viu o myspace e viu uns vídeos no youtube e gostou. O cara até disse que a galera achava que a gente iria de ônibus então eles colocariam a gente pra tocar de todo jeito. Alberto -- E a relação entre o som que vocês fazem e o som que vocês ouviram por lá, tudo casou direitinho ou vocês se sentiram fora do ninho? Leonardo -- Em a verdade a gente se sentiu mais dentro do que nunca. Lá tem muita gente produzindo coisas com diversas referencias. Muita gente com a mesma base. Ruy -- Todas as bandas que nós conhecemos, com quem tocamos juntos, eu curti, todas tinham certa afinidade com a gente, algum ponto em comum. Alberto -- E a volta? Como é que é voltar depois de ter acompanhado o ritmo de São Paulo? Ruy -- A maior diferença é 'sa né?! A velocidade das coisas. Lá meio que todo mundo se preocupa com o que produz. Os bares, por exemplo, já tem o seu próprio equipamento de som, naturalmente, se os caras já sabem que vão fazer show toda semana, varias vezes por semana até, então não vão ficar alugando som todo dia. Sai caro e as vezes você corre o risco do cara não aparecer. Aqui é normal tu chegar pra tocar e não ter técnico de som, não ter nada montado, ou não é? Muitas vezes marcam uma passagem de som três da tarde quando dá umas oito é que tão terminando de montar o palco. Lá, pelo menos nas tocadas que agente fez, se você chegasse meia hora atrasado já te olhavam de cara feia e quase não dava mais pra passar o som. As pessoas tentam se levar a sério mesmo, sabem que é um mercado e tem gente ali tentando sobreviver de alguma forma. A galera ta sempre pensando em fazer a coisa funcionar. Leonardo -- Lá em todo lugar tem diversas idéias em 'sa área da arte que a galera compra mesmo, que a galera patrocina mesmo. A galera faz coisas viáveis e tem iniciativas privadas que apóiam, lá não é tão absurdo você chegar e pedir patrocínio pra fazer um show. É outro nível de produção e o pessoal tem consciência de há um retorno. Alberto -- E agora que voltou qualé o plano? Leonardo -- Agora é ensaiar mais e produzir pra tentar ficar lá e lô. Alberto -- Vocês acham que se conseguirem se fixar por lá vão conseguir produzir tanto quanto aqui? Leonardo -- Acho que sim, mas teríamos de trabalhar mais. A gente ia ter que se virar mais. Daniel -- Se tivéssemos a mesma 'trutura que temos aqui lá em SP, seria possível. Mas como a realidade é outra, a produção acabaria diminuindo. Ruy -- acho que ainda vai demorar um pouco para a gente decidir ficar mesmo por lá. a correria tem vários pontos negativos. Mas por outro lado até seria bom também, você acaba tendo que acompanhar o ritmo da galera e consequentemente produzindo mais, porque se não nego véi, se quando chegar a hora de mostrar teu trabalho você não 'tiver em forma, ai tu volta para a casa. É uma questão de seleção natural, né?! Se a concorrência é grande, quem não sustentar a pisada vai ficando pra trás. A banda Burro Morto 'tá finalizando seu primeiro CD e já tem balas na agulhas para o próximo EP. Número de frases: 67 Meu conhecimento sobre Vitor Ramil se limitava a pouco mais que a informação corriqueira: «é irmão do Kleiton e do Kledir». Quando recebi seu «CD» " Longes " no jornal onde trabalhava, ouvi uma vez e pensei: «Caramba, 'se cara é denso». Em a correria de jornal acabei não encarando tamanha densidade de novo, mas fiquei com a pulga atrás da orelha ao ler críticas bem positivas. Aí veio a oportunidade de cobrir a caravana do Projeto Pixinguinha onde ele era o principal artista. Fui para Natal preocupada. Seria ele tão denso quanto o CD me pareceu na primeira ouvida? Seria um sujeito difícil, pouco disposto a papear? Logo descobri que não. Pelo contrário. De primeira, ele já me passou o livro «A 'tética do frio» e o CD «Tambong», que eu ainda não conhecia. Ficamos de conversar mais depois, já que teríamos tempo (passaria três dias com ele e a galera na 'trada). Tratei de correr atrás do prejuízo e descobri um artista impressionante. Fiquei com aquela sensação: «Que otária, como não tinha ouvido o som desse cara até agora?!" Confessei o crime e me diverti com a resposta de ele, sem nenhuma pinta de bolação ou pretensão: «Você não é a primeira a me dizer isso ..." Depois de ouvir e curtir a música, meu segundo levantar de sobrancelhas foi por o fato de nunca ter conhecido um músico que refletisse tanto sobre a carreira e sua relação com o lugar de origem. E o mais curioso era ter contato com tudo isso, com todo aquele pensar sobre o papel de um artista do Rio Grande do Sul, em pleno calor do Nordeste, nas horas que ele e o povo voltavam da praia. Nossas conversas se 'tenderam por almoços, ônibus e saguões de hotel (no de Mossoró, com direito a mosquitos me devorando e interrupções para ver uns sapos enormes que passavam por lá). O livrinho «A Estética do Frio» é um dos principais resultados de tanta reflexão. Escrito para uma conferência que ele deu em Genebra em 2003, o texto trata da distância que o sulista sente dos 'tereótipos do Brasil tropical (o Sul, temperado, também não pode ser abençoado por Deus?). Em o trecho que foi para a quarta-capa do livro, ele define: «Precisamos de uma 'tética do frio, pensei. Havia uma 'tética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma 'tética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes num país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente?" ( um trecho maior do texto pode ser lido aqui). Desde que 'creveu isso, ele segue em busca de respostas para 'sas perguntas através de sua própria obra. Nada a ver com correntes separatistas do sul, música gauchesca e coisas do tipo (ele tem uma certa alergia a tudo isso). É um caminho bem pessoal, como ele contou: «A Estética do Frio vem gerando muito interesse, não é novidade para muita gente, muitos me dizem que sempre sentiram isso e nunca chegaram a formular. Em o começo teve gente achando que eu 'tava tentando ditar regras. É coisa minha, não há pretensão de criar movimento. Mas o tempo mostra que minha expressão individual encontra eco. Quem tem uma paisagem de planície, no frio, dificilmente vai compor uma música como Caymmi ou um axé. Ele se volta mais para dentro de si. Agora, tudo isso é opinião minha, e só." Durante a conversa, parei para pensar em alguns textos que tenho lido aqui no Overmundo. Será que só o Sul é que se sente «meio out» do país? Talvez não seja uma característica de 'tados de fronteira com outros países latino-americanos? Externei minha indagação e ele respondeu que até poderia ser, mas certamente não no mesmo nível ... Será? Ele continuou: «Quer ver uma coisa? Quem saía do Nordeste para fazer carreira no Rio era visto como vencedor, para os gaúchos era considerado traíra. Kleiton e Kledir foram crucificados por isso numa época. Hoje os tempos são outros, ainda bem. Não existe mais o papo separatista e nem 'sa idéia de traição por sair do 'tado. Ainda assim, o Sul continua muito peculiar no quesito ' refletir sobre si próprio '." Para o próprio Vitor, foi fundamental sair de lá por um tempo e viver o «Brasil» (aspas de ele, feitas com os dedos no vazio enquanto falava). De 85 a 91, morou no Rio de Janeiro, e foi em plena Copacabana que teve o insight para formular a «Estética». Depois (choque térmico!) voltou direto para Pelotas, sua terra natal, onde a carreira como compositor de fato tomou rumo. «Graças a 'se retorno me livrei da possibilidade de me prender ao mercado. É verdade que dei sorte, porque isso aconteceu na época em que surgiu o CD, a internet ... Dava para levar a carreira no interior». E então ele passou a 'tabelecer uma relação bem particular com o tempo: «Minha carreira 'tá sempre no começo, enquanto muita gente da minha geração já considera suas carreiras 'gotadas. As pessoas querem fazer as coisas quando jovens, e eu 'tou apostando no meu crescimento sempre. Eu era muito mais velho aos 18. Como comecei cedo, as pessoas ficavam curiosas, ' nossa, como ele é jovem '. Sou o sexto filho, o caçula, todos tocavam instrumentos, eu tinha muita coisa para provar para meu pai e para mim, e se bobear ainda 'tou tentando me provar coisas. Ninguém pode envelhecer criando? Eu posso. E depois que refleti e 'crevi a Estética do Frio, entendi que minha carreira tinha um sentido. Em o começo eu queria fazer tudo, não tinha uma identidade. Hoje minha música é muito mais nova, smells like teen spirits». E agora o desafio é 'te: fazer com que as pessoas se interessem em ouvir alguém de 44 anos. Aos poucos, 'tá conseguindo. Seu público 'tá consolidado no Sul. Mas vem crescendo em faixa etária (de jovens a senhores) e geográfica (ele considera Belém, por exemplo, uma segunda Porto Alegre: o lugar do Brasil onde ele sente maior identificação com o público depois, claro, do Sul). A turnê por o Nordeste com o Projeto Pixinguinha foi valiosa para conhecer 'tados onde nunca tocara antes. João Pessoa e Maceió causaram 'pecial boa impressão. O cidadão pelotense desabafa, meio brincando: É reconfortante saber que meu público não me deixa sentir a carência da fama. Porque, sinceramente, acho que não tenho tempo para ser famoso». Sim, ele quer tempo de sobra para criar. Fez isso à beça durante a viagem (um dia entrou num quarto onde 'tava a turma de músicos e mostrou uma canção que 'tava fazendo. A galera ficou tão passada, no bom sentido, que a farra acabou e todos foram dormir, pensativos. Em o dia seguinte contavam isso às gargalhadas no café-da-manhã). Melodias e harmonias próprias são, portanto, os alvos da caça. Para ele, é preciso que as pessoas se libertem da harmonia da bossa, da vanguarda do tropicalismo. Mas não com o que é considerado novidade hoje. «Tem muita gente jogando as fichas no ritmo, a melodia fica em segundo plano. Joga-se um ritmo novo numa música velha, de letra velha e melodia velha. Nada contra a onda eletrônica, não mesmo. Minha crítica é só aos que dizem que isso é o novo. Em geral uma casca nova em cima de uma coisa velha. Eu poderia ter feito o'Longes ' mais eletrônico, para aproximar mais 'se povo. Mas ele foi ficando tão rico com aquela simplicidade que ia 'tragar. Busco música e texto feitos de vazios. Senão fica igual a tudo." Belos vazios os que Vitor tem encontrado ... Número de frases: 96 * * * Agradeço ao tecladista Marcos Cunha por ter cedido a foto, tirada num dos palcos do Projeto Pixinguinha. A imprensa gosta de alardear, com razão, os sucessos que a Internet tem no país: uma das maiores taxas de crescimento de usuários do mundo, maior tempo médio de conexão, maior comunidade do Orkut, um dos maiores acessos do YouTube, país mais premiado em propaganda interativa, o merecido prêmio que 'se Overmundo recebeu recentemente, e por aí vai. No entanto, os porquês são sempre fantasiosos, poéticos, pouco objetivos: o brasileiro adora novidade, ou o brasileiro é mais criativo -- ou o mais gozado de todos --, o brasileiro é um povo surpreendente. Mas tem uma outra possível explicação. Possível e mais interessante. E mais crível também. Quem já foi a uma LAN house de periferia, quem já conversou com a sua empregada doméstica, com o filho da sua empregada doméstica, com o amigo mais pobre do filho da sua empregada doméstica talvez tenha um início de resposta. Que tal pedir emprestado o pen-drive que a garotada carrega no bolso, na mochila ou no pescoço? De os meninos dos Jardins ou do Jardim Ângela. Tem música, tem trabalho de 'cola, tem foto de tênis de marca, tem as fotos que ele tirou com o celular para ilustrar sua página pessoal e seus nicknames do MSN, tem até umas experiências de colagem fotográfica, uns vídeos caseiros, umas letras de hip hop. E quantitativamente, a constatação salta aos olhos: a penetração da Internet nas classes mais pobres tem um crescimento exponencial. Todas as pesquisas dizem isso. Uma vez, perguntei a um garoto da Cidade de Deus como ele gastava o dinheiro de ele. A resposta foi óbvia: «Metade para minha mãe, um quarto para meu acesso à Iinternet em casa (banda larga, claro), mais um pouco para a recarga do meu celular (não dá pra ficar sem) e para minha academia. O restante é para me divertir." Nada muito diferente de muito garoto bem-nascido, com exceção da ajuda familiar. E se a gente começasse a perceber que a Internet é um sucesso porque o Brasil é pobre? Porque existem milhões de pessoas que vivem à margem das oportunidades de trabalho, 'tudo e inserção social. Porque existe uma imensa maioria da população que acha injusta a distribuição de renda do país. Porque toda 'sa gente quer crescer, quer ganhar dinheiro, quer se informar e se divertir. Porque todos os brasileiros querem se expressar, querem ser ouvidos. Porque a Internet permite isso tudo e talvez seja a única ferramenta acessível, a única 'perança. Bem-aventuradas sejam todas as iniciativas 'tatais (e privadas) contra a exclusão digital, de investimentos em 'colas, de relativização dos direitos autorais, de software livre, de digitalização de trabalhos de domínio público. Bem-aventurados todos aqueles que acreditarem que 'ta é a maior oportunidade que o país tem de 'capar de um sistema perverso que concentra riqueza e distribui 'molas. Número de frases: 28 Terça-feira -- 23/01/2007 Beto Lago conta todos os detalhes da volta da Parada da Paz Beto Lago é o idealizador do Mercado Mundo Mix Os jovens de São Paulo vão ter que 'perar um pouco mais. Depois de cinco anos carentes da Parada da Paz, o evento, que deveria acontecer no próximo dia 25, foi adiado. Mas a razão é boa. A festa tomou proporções maiores do que as 'peradas e, por isso, foi remarcada. Bem mais cultural, já que o circuito passa por todos os monumentos da cidade que já foram restaurados, a festa jovem acontecerá no feriado da Páscoa. Beto Lago, idealizador da Parada e do Mercado Mundo Mix, conta os detalhes desse retorno. E o MMM? Vai muito bem, obrigado. Confira: 01. Como surgiu a idéia de retomar a Parada da Paz? Desde o começo do ano passado, quando participamos com o Mercado Mundo Mix em duas viradas culturais, a administração da atual Prefeitura de São Paulo me disse que queria um evento que levasse o público jovem ao centro da cidade. A última edição da Parada, com mais de 200 mil pessoas, foi em 2002 e pensei que 'se era o evento ideal para unir os jovens. É um acontecimento incrível, juntar os jovens num evento que celebra a paz e, de quebra, introduzi-los na história de São Paulo, já que o circuito passa por todos os monumentos da cidade que já foram restaurados. 02. E quais são as novidades do evento? Esta Parada não será apenas eletrônica, porque hoje tudo 'tá mais diversificado. As próprias casas noturnas não tocam mais apenas música eletrônica. Tem a noite gay de house, outro dia de rock, outro de eletro, outro de hip hop e por aí vai. E queremos também ter tudo isso lá. Além disso, o trajeto é muito cultural. Vai passar por a Estação da Luz, Casa São Paulo, Museu da Língua Portuguesa ... Também queremos fazer uma parceria com a Parada Gay, que é o grande evento de São Paulo. Quero que eles 'tejam representados lá. 03. Quais casas vão participar? Por enquanto temos o Vegas, A Loca, Lov. e, D-Edge, Royal, Gloria, Studio SP e The Week. 04. E por que ela foi cancelada, já que era para acontecer no próximo dia 25? Não chegamos a divulgar nada oficialmente. Marcamos para o dia 25, no aniversário de São Paulo, mas a Parada, que era para ser pequena, acabou tomando outras proporções e o impacto que ela teria no transito da cidade, mesmo sendo feriado, seria grande. Aí optamos por adiá-la. Agora vai ser no feriado da Páscoa, no começo de maio. 05. E como anda o Mercado Mundo Mix? Vamos lançar o calendário do Mercado Mundo Mix para 2007 em São Paulo. Serão nove eventos em três países: Brasil, Portugal e Espanha. O primeiro será em São Paulo, nos dias 13 e 14 de abril, no Memorial da América Latina. Em os dias 13 e 14 de maio, 'taremos em Lisboa, no Castelo de São Jorge. Em junho, dias 16 e 17, voltamos para São Paulo. Dias 3 e 4 de agosto, no litoral de Portugal. Em o segundo semestre do ano também vai ter MMM em Madri ou Barcelona. 06. Falando em MMM, o evento foi muito importante para a moda brasileira, já que não havia nada parecido por aqui. Mas como foi chegar na Europa? Foi novidade por lá também? Essa foi a minha grande surpresa. Achava que talvez não emplacasse tanto, por serem mais evoluídos na moda. Lá existia muita feira de rua, mas o conceito do MMM, que é multicultural, foi inovador, não existia. E 'tá fazendo o maior sucesso por lá. Só no ano passado mais de 150 mil pessoas passaram por lá. 07. Alguns dos grandes 'tilistas brasileiros de hoje começaram a vender suas peças no Mercado Mundo Mix. Por lá apareceu o Marcelo Sommer, o Alexandre Herchcovitch e Cavalera, entre outros. Já descobriu e lançou alguém em Portugal? Muitos talentos já passaram por lá. Mas tem dois nomes, a Story Taylors e o Ricardo Preto, que começaram no MMM e deram muito certo, já 'tão na semana de moda de Lisboa e de Paris. 08. E o que um novo 'tilista deve fazer para expor no Mercado? Estamos renovando o quadro de 'tilistas brasileiros. Então, os novos 'tilistas, e artistas em geral, que quiserem participar do evento podem se inscrever através do site, porque o processo de seleção começa a partir de março. O legal é que o MMM não é apenas um lugar para expor. Nós prestamos consultoria para 'sa nova geração, ensinamos como abrir a própria marca ... E não são apenas 'tilistas, trabalhamos também com músicos, DJs, artistas ... 09. E você, com o Mercado na Europa e aqui no Brasil, virou cidadão do mundo? Virei. Fico em São Paulo, em Lisboa, em Madri. Mas não faço parte da geração que foi morar fora do Brasil. Vou para onde tiver trabalho. Mas um dos motivos por o qual voltei com o Mercado no Brasil foi a saudade. E o Brasil, aliás, também é talvez o principal fator do sucesso do MMM lá fora. O fato de ser um evento brasileiro conta muito, todo mundo adora. 10. E por que você foi embora do Brasil? Muita gente achou que o Mercado tinha acabado. Muita gente falou que tinha dado errado, mas foi uma atitude mercadológica. Decidi dar um tempo aqui no Brasil para que ele amadurecesse e tivesse, também, outras referencias. Mas o MMM nunca deu errado, muito pelo contrário. Aqui no Brasil as edições 'tão sempre lotadas, na Europa fatura mais de 400 mil euros por ano. acessar: http://ego.globo.com/ Entretenimento / Ego / Entrevista / 0, ENN472-5279,00.h tml ( Número de frases: 87 texto de Rosana Rodini, que autorizou a republicação no Overmundo) Batucando no Parque é um projeto cultural, que pretende integrar o trabalho artístico musical à comunidade. Consiste na apresentação de concertos do grupo de percussão K-TZ em parques ecológicos e praças públicas de Cidades Satélites do Distrito Federal, 'timulando a população local ao aproveitamento dos «'paços de lazer», oportunizando o conhecimento e a vivência de diversas formas, linguagens e instrumentos musicais além de incentivar a produção artística cultural em 'ses 'paços públicos. Os concertos «Batucando no Parque» trazem em seu programa diferentes instrumentos e formas musicais, que transitam entre o erudito e o popular. Apresentando ao público conhecidos instrumentos tocados de desconhecidas maneiras ou também instrumentos nem tão conhecidos como a marimba, um enorme teclado de madeira de origem africana que possibilita a execução de melodias e harmonias. O programa abrange de forma concisa e lúdica as diversas famílias de instrumentos de percussão, passando por os sons marcantes dos tambores, por o colorido sonoro da marimba e do glockenspiel, por os conhecidos pandeiros e chocalhos alem de inúmeros outros. A percussão atua como personagem principal e convida, para alguns números, a flauta transversal e o pífano, instrumentos que formam um par sonoro riquíssimo, somados aos de percussão. Entre músicas de M. Ravel, J. Barrière, M. Miki, Pixinguinha, L. Gonzaga e principalmente composições próprias, o grupo transita de maneira dinâmica e descontraída, entremeando pequenas explanações a respeito das obras, instrumentos e técnicas utilizadas, acreditando na dimensão didático-cultural do concerto, dando ao público sons e movimentos talvez nunca vivenciados, ampliando assim sua capacidade expressiva e criativa. As apresentações 'tão sendo realizadas desde dezembro de 2006 com o apoio do Fundo da Arte e da Cultura -- GDF, o grupo já passou por Sobradinho, Planaltina e Paranoá, e tem sido recebido com enorme entusiasmo e curiosidade de diferentes gerações. Até o meio do ano passará por mais cinco cidades. Em breve na Agenda ... O grupo K-TZ foi criado em 1997 por Carlos Tort, Francisco Abreu, João Catalão e Luciano Zampar, então alunos do bacharelado em percussão na Universidade Federal de Santa Maria-RS sob a orientação do prof. Dr. Ney Rosauro. Música contemporânea, arranjos diversos de Debussy a Milton Nascimento e uma série de composições próprias fazem o intercâmbio entre a contemporaneidade e a tradição trazendo à tona a riqueza rítmica e sonora das diversas fontes que alimentam a cultura brasileira. Graças a 'se trabalho singular, em 2005 o grupo foi finalista da 6ª edição do International Percussion Competition Luxembourg, gravou em 1999 o CD Brazilian Music for Percussion Ensemble de Ney Rosauro e tem sido convidado para diversos festivais no Brasil, América do Sul e Europa. Número de frases: 14 O Pseudônimo. Certa feita, ocorreu a um distinto senhor, dado às práticas da 'crita, ter de assinar uma obra por pseudônimo. Não vou elencar aqui os porquês, que muito suscitariam discussões, contra-razões e prolongariam de sobremaneira a angústia do leitor. Porém, entregarei-me-a os fatos. Francisco Carlos era eleitor, federalista, solteiro e devoto da Santa Igreja Católica. Mal saído dos trinta anos, dedicou-se quase exclusivamente à sua gênese literária, certo de que a função exercida no Ministério nada mais proporcionaria a ele que dividendos. Passava horas datilografando sozinho, em seu gabinete, compondo personagens e depositando-os gentilmente nos respectivos enredos. De aquela vez, entretanto, não era tão fácil a fabricação da personagem. Caberia-lhe-a árdua tarefa de batizar o tão temido pseudônimo, a corporificação verbal de sua personalidade. Saiu à caça. As ruas são vasto campo de pesquisa. A multidão disforme, porém, atrapalhava o encontro inevitável. A cada novo rosto, maior o desespero, mais distante era sua meta, até que, parado do outro lado da rua, a mão 'querda no bolso e a direita suspendendo um cigarro, 'tava o seu pseudônimo. Exceto o detalhe ostentado à destra, já que Francisco Carlos era antitabagista, o pseudônimo era uma cópia exata do seu ser. Atravessaram a avenida simultaneamente qual um 'pelho bizarro, e trocaram um aperto de mãos no canteiro central, diante do busto augusto de Augusto de Lima. Francisco Carlos e o seu pseudônimo trocaram impressões, falaram de política e futebol. O pseudônimo até se arriscou a tocar em assunto religioso, mas a expressão beata do outro causou-lhe assombro. Por fim, convenceu Francisco Carlos a se sentar num bar e conversar, coisa que não fazia há muito. Não provou do vinho da casa, mas já era de bom grado a companhia. As luzes caíram no Cantina do Lucas, que assistia o poente. As garrafas de Caubernet-Sauvignot acumulavam-se na mesa, e os cigarros de marca vagabunda do pseudônimo 'tava dispostos no cinzeiro como um castelo de cinzas e guimbas. Por horas, falaram de lembranças, coisas de infância, modismos, até da paixão compartilhada por Ginalba. Ainda que lados opostos do 'pelho, rostos idênticos com humores diferentes, e opiniões distintas sobre as mesmas memórias, que a um causava sofrimento e a outro divertimento, era fato que os dois padeciam do mesmo ardor por a italiana Ginalba. Francisco Carlos amava seu sorriso, sonhava com seu olhar, perdia-se no perfume de ela, enquanto o pseudônimo sentia-se tentado a apertar aqueles melões, lamber a nuca imaculada e arrancar-lha virgindade em 'pasmos de prazer. Eram, definitivamente, diferentes em sua semelhança. A noite era voraz e logo seria amanhã. Francisco Carlos encarou longamente seu pseudônimo. Há muito tempo não se divertia tanto. Precisava de um amigo como aquele, mas era chegada a hora. Por o meio-dia se encontraria com o editor, entregaria seu último romance. Ganharia uma boa soma de dinheiro, teria o nome em letras douradas numa capa verde. Era preciso que o seu pseudônimo ocupasse o lugar de direito, afinal, era para isso que existia. Foi bom conhecê-lo. Francisco Carlos encarou o pseudônimo novamente, desta vez com olhos 'gazeados. De o outro, o olhar era assustado. Tinha que publicar. Nunca teve um amigo como ele, apesar das diferenças. Que ele perdoasse, e não fizesse qualquer reprimenda. O pseudônimo assistia a tudo com embotamento, aguardando o desfecho do raciocínio de Francisco Carlos. Enfim, após todas as palavras gastas, surgiu na expressão do pseudônimo um sorriso malicioso de quarto crescente. Mostrou a capa do livro interminado. A boca de pseudônimo abriu lentamente, indecisa, e sua voz fraca custou muito a deixar 'capar: «não, não, você não entendeu, é você que vive o romance." E o pseudônimo encerrou Francisco Carlos em letras douradas na capa do livro, eternamente, até que as traças o devorem. Número de frases: 44 Em o dia 19 de Janeiro deste cabalístico ano, foi realizado no restaurante / bar Hipódromo do Baixo Gávea (aquilo é mesmo o BG?), no Rio de Janeiro, o primeiro Encontro de Colaboradores do Overmundo do Rio de Janeiro. Como no primeiro encontro de Brasília, e talvez de uma forma ainda mais festiva, o encontro foi uma festa de boa conversa, camaradagem, carinho, bom chopp e uns petiscos bem razoáveis (embora 'te que vos 'creve ainda prefira os 'petinhos do saudoso Steak Rio). Embora os primeiros participantes a chegar -- Hermano Vianna, Thiago Camelo, Saulo Frauches (que eu jurava que se chamava Sanches), Viktor Chagas e Helena Aragão (todos da turma do " 'critório ") além do simpático 'cocês Andrew (ex-correspondente brasileiro da revista Time, agora um observador 'cocês independente) -- tivessem se aboletado numa mesa bem ao fundo do bar, eventualmente todos ('peramos nós!) aqueles que foram acabaram encontrando a mesa e se juntando às conversas e festejos. Fábio Fernandes, Oona Castro e Inês Nin chegaram logo depois de mim, e o encontro só 'quentava ... Os relatos abaixo contam um pouco do que se passou por lá, e das impressões dos participantes. Em o post da agenda que convidava o pessoal para o encontro, Hermano Vianna e Fábio Fernandes 'creveram já algumas de suas impressões. O Fábio disse que: » ... foi ótimo. Estou em Sampa agora, debaixo de chuva, saboreando os bons momentos, muito feliz de ter conhecido pessoalmente Thiago, Duende, Helena, Viktor, Saulo, Oona, além de rever o Hermano. Acho que encontrei um novo grupo de amigos, e isso é sempre muito bom." E, por sua vez, o Hermano respondeu que: «foi realmente muito bacana -- achei que ia mais gente, mas é assim que as coisas começam -- o Overmundo já teve 133 visitas diárias, na semana passada batemos novamente nosso recorde com mais de 14 mil ... e os números continuam crescendo -- então: a conversa foi bem produtiva e surgiram várias idéias boas para o futuro do site -- o Duende era o mais organizado, trazendo várias questões para colocar em debate, sempre nos chamando de volta para o motivo principal da reunião: então acho sim que ele poderia fazer o post inicial, enumerando os temas da conversa e poderíamos fazer nossas observações nos comentários, chamando mais gente para participar -- assim continua bom para vocês?" Bondade do Hermano dizer que sou organizado. Por minha parte, também achei o encontro fantástico. Foi muito bom conhecer todas 'tas figuras que só conhecia virtualmente, e foi melhor ainda conspirar com elas sobre a vida, o overmundo, a arte, a cultura e a beleza da cidade do Rio de Janeiro. Escrevi um relato bem mais extenso do encontro, mas de tanto reescrevê-lo, acabei por desistir de ele. Salva-se apenas uma parte, onde descrevo as conversas que rolaram: » ... Com toda a mágica dos encontros de overmanos e overminas, o assunto fluía naturalmente para dentro e para fora dos temas overmundanos. Discutimos sobre os últimos assuntos que passaram por os forums, e sobre as mudanças que já ocorreram e a que ainda se planeja fazer no sistema do site. Falamos sobre Karma e sobre karma-bitches, forums e comentários, e sobre a importância do carinho e do incentivo para os novos colaboradores. Era impressionante a sintonia das conversas, onde ora concordávamos, ora nos encontrávamos complementando as exposições um do outro num adorável exemplo de pensamento coletivo. O fluxo de conversas foi tão natural que optei por deixar de lado a pauta que havia ensaiado na cabeça. Tudo encontraria um momento para ser dito, pensei eu. E eu tinha razão. Após ter mencionado em certo momento que havia trazido algumas idéias que queria discutir, fui interpelado por o Fábio e por o Hermano ao final do encontro sobre as mesmas. Discutimos então, e fiquei supreso por a ótima recepção que encontrei para minhas divagações kármicas e reputacionais ... ' Tudo aconteceu naturalmente ' como nas melhores histórias romanticas, ou nos melhores sonhos de encontros de overmanos e overminas ..." Posto tudo isso, o Hermano nos passou (logo alí embaixo, no primeiro comentário) as suas anotações práticas sobre as conversas. Não é necessário, portanto, repeti-las aqui. Assim como fez o Hermano, os outros colaboradores participantes publicarão suas impressões alí mesmo nos comentários. Portanto, 'te é um daqueles posts em que você vai querer Mesmo ler os comentários ... E, com eu não poderia deixar de dizer ... Abraços do Verde.: Número de frases: 38 D O diretor André Martinez não podia ter 'colhido melhor personagem para sua ousada 'tréia no longa-metragem. Jorge Mautner e sua teoria do KAOS são os protagonistas de Os Quatro Elementos Em Siou O Guru Selvagem que 'treou recentemente num cinema no Rio Grande do Sul. A primeira grande ousadia do filme 'tá na 'colha do suporte de captação das imagens. Martinez não se deixou intimidar por a baixa resolução das imagens de uma câmera cybershot de 8.0 megapixels, aquela inseparável companheira de balada, e percorreu três 'tados brasileiros para contar o homem atrás do mito e redescobrir o mito atrás do homem. O diretor ressaltou a importância de trabalhar com um equipamento tão pequeno e um set bastante diferente da realidade das equipes tradicionais. Para ele, que já trabalhou com dança, a câmera foi quase uma extensão do corpo. «Não é apenas o meu olhar que eu tento imprimir nas imagens mas, também, toda uma corporiedade». Leia fragmentos da entrevista com o diretor para conhecer um pouco desse trabalho: Roberto Maxwell: Que limitações você encontrou para filmar com cybershot? Por outro lado, que possibilidades se ampliaram com 'te suporte? André Martinez: Eu não apontaria limitações em filmar com a câmera fotográfica digital. Pelo contrário, é um ato de liberdade, pois a lógica que eu tenho usado para a realização dos ciberfilmes (alguém se habilita a criar o conceito?) é totalmente interdependente com relação a 'te recurso tecnológico. A portabilidade da câmera permite grande flexibilidade e versatilidade no momento de filmar. É um processo orgânico que permite um tipo de preparação muito mais centrado no conteúdo. A forma flui naturalmente. No caso de Os Quatro Elementos Em Siou O Guru Selvagem, eu, o Jorge (Mautner) e o (Nelson) Jacobina, conversamos muito antes de iniciar as filmagens, para encontrarmos e aprofundarmos um sentido conjunto no que queríamos captar. Combinamos anteriormente os argumentos e as locações mas, na hora de filmar, não 'távamos «presos» a um roteiro, a um storyboard, a um desenho pré-'tabelecido de produção, a um orçamento. Tudo aconteceu com uma 'pontaneidade e uma intimidade que não seriam possíveis num set cheio de equipes e equipamentos. RM: Como foi gravado o som? Em a própria câmera? AM: O som direto foi captado por a própria câmera. Para a exibição em salas de cinema, houve a necessidade de uma reedição de áudio. RM: O filme foi um projeto para a tela grande, como foi a questão da adequação da qualidade da imagem? Você fez 'tudos preliminares? AM: Eu utilizo a câmera digital para fazer ciberfilmes, ou seja, no momento da concepção não há uma preocupação com a forma como o filme será exibido posteriormente. A idéia é que, sendo ciberfilme, represente uma experiência audiovisual livre e autônoma, seja no seu microcomputador, seja numa sala de cinema. O fato da definição da imagem ser baixa não interfere na beleza da fotografia nem na poesia da obra. O mais importante é que a imagem, independentemente da definição, seja acolhida por o 'pectador, e 'ta é uma questão muito mais artística do que técnica. RM: Houve fotografia do modo tradicional, ou seja, iluminação com os mesmos recursos do cinema / vídeo tradicionais? AM: Tento fotografar dentro da realidade da cybershot, buscar uma linguagem própria, efeitos que apenas seriam possíveis com 'te tipo de câmera. Utilizo recursos de iluminação muito simples, mas pensados para funcionar dentro da proposta. A idéia é criar uma obra audiovisual que se aproprie da tecnologia que 'tiver disponível, de forma poética e sem se tornar refém de padrões industriais. RM: Qual a carreira comercial que você pensa para o filme? AM: Isso ainda é uma incógnita. Não há limites para pensar as possibilidades do arquivo. mov (formato de vídeo). É uma outra lógica econômica, a ser desvendada ainda, que foge da cadeia padrão de financiamento, produção e circulação industrial de cinema. Hoje, 'tamos operando com uma rede de parceiros que permitirá que o filme seja exibido em salas de cinema em várias capitais brasileiras para depois ser lançado em DVD. Mas, como a coisa toda é muito nova, é difícil dizer como se comportará um mercado tão condicionado a formatos institucionalizados. Mais que o filme seja um sucesso comercial, 'pero que sirva de 'tímulo para outros realizadores independentes ousarem e buscarem novas possibilidades de produção audiovisual. Conheça mais sobre o projeto no www.guruselvagem.com.br. Número de frases: 52 Publicado originalmente em Alternativa. Eu não queria. Juro. Mas a coisa acabou no velho lugar: uns defendendo o Software Livre a todo custo, outros defendendo o proprietário, com base em provocações. Em o começo de tudo, falei aqui da falta de coerência entre a política e a prática «governamental» na questão Software Livre. E era justamente nisso que eu queria me ater. A poeira foi levantada por o sites www.ebc.tv.br, desenvolvido em wordpress e o www.tvbrasil.org.br, desenvolvido em asp. Tudo porque na Agência Brasil, veículo da ex-Radiobrás, temos o portal de notícias em Plone, rodando em servidores Apache e o cacete, enfim: o orgulho da mamãe. Acontece que a iniciativa não foi copiada por a neném «Empresa Brasil de Comunicação» nem aproveitada para o broadcast da «mais nova» Tv Pública, a TVBrasil. E aí o bafafá degringolou para um ranço entre desenvolvedores que só distrai, porque o buraco é mais embaixo. Ou mais acima, como queiram. Não sou xiita, muito pelo contrário. I love Action Script. Flash, do proprietáriozão mesmo. Sou tão Adobe que meu note tem tudo original. Em a Agência Brasil, tudo que é infografia e conteúdo 'pecial é desenvolvido em Flash. E por necessidade (aquele que conseguir desenvolver interatividade Igual com software livre será meu mestre). Então, meu objetivo com o post não era exatamente condenar quem desenvolve em plataforma Microsoft. Que atire a primeira pedra, amiguinho, aquele que nunca 'creveu uma linha no Word. Eu só queria ressaltar que 'sa política do Software Livre do governo não funciona. Aliás, o governo não deveria ser associado ao Software Livre (embora eles insistam em fazê-lo). Basta lembrar o que move a pedra da libertação dos códigos: torná-los uma alternativa onde o usuário tem o controle. Filosofia que vem acompanhada de um viés nerd, onde as pessoas sabem do que 'tão falando. Aí vem uns gordos ultrapassados e dizem: «somos a favor do Software Livre «e» governo vai incentivar a inclusão digital». Duas bandeiras que podem ser bem separadas. Primeiro, ser a favor do SL não significa exatamente defendê-lo até a morte (do Bill Gates, claro), ou aprender tudo sobr PHP numa semana. Segundo, inclusão digital pode ser feita até por celular, de maneira muito mais fácil e barata do que vendendo computadores a preços subsidiados por impostos ou financiando Lan Houses. Digo que não adianta Impor a política condenando colaboradores do governo que ainda usam Oracle ou. asp, que têm lá suas vantagens (o site de um banco não seria seguro em php, Hoje). A filosofia do SL foi adotada como política por ser fácil de usar, não ter dono e não ter explicação para muitos. Houve aí, em algum momento, uma apropriação indébita. Software livre significa Gastar dinheiro com desenvolvedores e seu crescimento profissional. Significa Ensinar nas 'colas o tamanho do patrimônio que representa a parte do orçamento que é gasta hoje com software para o governo. Significa fazer propaganda do BrOffice em Cadeia Nacional para valorizar o negócio nacional. Significa Botar Grana na mão dos responsáveis por o desenvolvimento do produto, sejam eles pesquisadores ou moleques de 19 anos. E eis minha pergunta: Número de frases: 39 me diga um, apenas Um ministério onde não rode nenhuma máquina Windows, e eu n ão digo mais nada. Por que se faz um filme ou vídeo? Essa é a pergunta que um projeto como o «Revelando os Brasis» (rvbr) provoca. A imagem que ilumina a tela de cinema ou o telão do projeto nos conduz por o 'curo túnel de nossas vidas. A imagem projetada é o reflexo de nossas almas. Nossos sonhos são como frames, e o caminho que 'colhemos seguir se assemelha ao ângulo ou ao corte que 'colhemos fazer quando produzimos um filme. Ultimamente 'tamos anestesiados diante de tantas imagens. Quase não conseguimos mais nos emocionar com os dilemas da vida alheia. A dor, a alegria, o sofrimento e o prazer do outro, hoje em dia, só nos atinge bem embalados por efeitos 'téticos ou 'peciais. A bela fotografia nos conforta, pois distancia a realidade da tela, daquilo que nos 'pera quando o filme acabar. Um efeito curioso da precariedade das produções do rvbr é a suspensão da ilusão. O que vemos na tela é a realidade, a ficção é a nossa vida nas grandes cidades. A o assistir um dos vídeos do rvbr um tipo diferente de olhar é necessário. Não 'pere enxergar nada, se você não conseguir ver o ser-humano que existe ali na tela. Celismando e Valdete são dois baianos revelados em 'sa tela. Eles existem, mas nunca foram vistos, são como os milhares de fantasmas que habitam o nosso país. Invisíveis, pois a distância dos centros 'maece seu verniz. A experiência de participar do rvbr abre uma porta de 'perança para quem perseverou na luta cotidiana contra o poder que injustamente tem silenciado a voz de tantos ouvintes e telespectadores. Só lembrados quando o exotismo é noticiado, ou quando alguém que já viveu por ali relembra, idealiza e dramatiza o que poderia ser a bucólica e dura vida de quem ainda vive por lá. É bem diferente quando a câmera 'tá na mão de quem ainda vive 'sa realidade. Tudo o que 'tiver «errado»,» feio», «tosco» ou «belo», num vídeo desses, é de fundamental importância, pois diz algo que a cegueira da hábito não nos deixar ver. Assisti-los é, para nós, os «cultos» habitantes da cidade grande, uma excelente oportunidade de voltar a sentir algo. Sem que seja necessário uma gota de sangue, um grito de horror, uma cena aberrante, uma montagem alucinada, ou um enquadramento elegante. O caminho para compreender de forma mais aprofundada o que alguns desses vídeos promete pode ser encurtado através da antropologia. Nenhum dos realizadores, nem seus atores, freqüentam as revistas de fofocas, não 'tão disputando o seleto 'paço dos cadernos de cultura, dificilmente serão eleitos, ou mesmo aceitos, nos concursos de misses, nas mostras, ou nos festivais. Não é a 'tética de eles que irá atrair-nos, mas sim sua verdade. Não são feios, nem belos -- são visões de um mundo que a gente desconhece. Por isso acho que a antropologia é uma ferramenta preciosa se quisermos compreendê-los. Bem diferente é a situação dos conterrâneos dos realizadores, e bem mais contundente é sua apreciação. Gostando ou não, dificilmente conseguem ignorar a arrebatadora força de ver sua cidade na tela. É como se alguém fizesse um filme sobre sua família. Tentei etnografar algumas de 'sas impressões (a etnografia é um jornalismo mais chique, e ao mesmo tempo mais fofoqueiro). Cena 1 -- o desagravo Apesar do nome, a recepção em Água-Fria foi quente. mais de 3.000 pessoas 'tavam na praça. Antes de começar a exibição, fomos brindados com a apresentação dos cantadores de toada Elpidio Maciel, o Dudu, e Robenilson, seu filho. Um clima atemporal pairou no ar. Em a Grécia antiga, o canto dos aedos tinha o papel do cinema. Era através de versos cantados que o público da Grécia era transportado ao cenário de batalhas como o da história de Aquiles (hoje mais conhecido como o Brad Pitt de " Tróia "). Logo em seguida foi a vez da uma divertida quadrilha junina encenar simbolicamente os percalços da vida a dois. «Gente, eu 'pero que depois desse vídeo a história do Santo Antônio que foi condenado não amaldiçoe mais nossa cidade». Foi mais ou menos com 'sas palavras que Valdete Cunha, a diretora, apresentou seu desagravo. Um trabalho fruto de 10 anos de pesquisa sobre a história de sua cidade, com 'pecial atenção para o nebuloso episódio da injusta condenação. Seu documentário «O Santo que foi condenado» tenta, através de depoimentos e da reconstituição de algumas cenas, trazer luz e 'perança aos conterrâneos que ainda creditam os infortúnios da região a um fato meramente burocrático que, ao longo da história, ganhou os contornos mitológicos de uma praga. Fundada em 1562, a comarca de Água-fria entrou para a história por conta da rigidez com que cumpria as leis, ao ponto de condenar um santo. Segundo conta " Câmara Cascudo: «Em o início do século XIX, houve a fuga de um 'cravo na comarca de Jacobina, na Bahia; na fuga o negro matou um homem. Após o crime houve uma pendenga judicial; o dono do 'cravo, ao pagar uma promessa, tinha doado o negro em cartório para Santo Antônio, prática muito comum entre os devotos. A justiça, provando desde a época sua proverbial competência, intimou o santo para depoimento no processo. Santo Antônio foi retirado do altar da capela mais próxima e transportado para a Vila de Água Fria, onde respondeu, na qualidade de proprietário do negro, ao júri e perdeu os bens que possuía na comarca. Escravos e terras que tinham sido doados ao santo em pagamento de promessas foram levados a hasta pública e arrematados». ( no blog: Histórias do Brasil) Para Marinalva Menezes da Silva, cada um conta a história de um jeito. Muitas são as versões do que aconteceu. Para Gerson Santos, a história foi verídica. Ivan Alves acha que o santo nunca foi condenado. O vídeo de Valdete provocou um rebuliço danado na cidade, repensando a história e convocando todos para o que ainda virá. Se nada for feito hoje, patrimônios de valor inestimável, como a Igreja de São João Batista, podem desaparecer. O tecido da história é frágil, cabendo muitas possibilidades de interpretação. Dependendo de quem conta e de quem ouve, o passado também se move. Foi sobre 'sa superfície incerta que Valdete caminhou com o objetivo claro e definido de dar um chega pra lá no papo de maldição que sempre ouviu em sua cidade. Segundo ela, o fato existiu, sim, não foi lenda, nem folclore. Mas a maldição foi alimentada por a superstição e fez, sim, muito mal para a auto-'tima da cidade. Cena 2 -- como se fosse eu Gabriel mora em Água-Fria, tem 9 anos e olha atentamente a tela onde 'tá passando o vídeo «Moinhos de Tempo» realizado em Angical por Ronaldo Trindade. Em ela, um garoto como ele também fica só. O que ele vê lá na tela e a mesma coisa que ele sente lá no fundo de seu coraçãozinho (há pouco tempo Gabriel perdeu seu pai num acidente de moto). Juntos, o garoto da tela e ele, agora, não 'tão mais sozinhos. Cena 3 -- a liberdade dos pássaros A cena já é clássica: a cidade reunida, autoridades, familiares e crianças, a tela branca, as cadeiras, o burburinho, a paquera e as pipocas. Celismando Sodré, o Mandinho, 'tá emocionado, seu discurso de agradecimento tem quase a mesma duração de seu filme. A projeção começa e a panorâmica que abre seu filme «O Valor da Liberdade» causa verdadeira comoção no povo de Barra do Mendes. No decorrer da exibição, temos a impressão de 'tar assistindo a uma partida decisiva da copa do mundo, tal é a intensidade das reações. São quase 1.500 pessoas hipnotizadas por o imenso 'pelho erguido na praça. Assim que o filme do conterrâneo acaba, o encanto já não é o mesmo, mas a boa vontade continua (além do curta de Celismando, são exibidos mais três curtas baianos e uma 'pécie de making of do projeto). Algumas horas antes conversei com o Cristiano, conhecido como Kiu Som, ele trabalha numa barraca com DVDs genéricos. Ele ficou muito curioso quanto ao filme, mas como tinha vindo de outra cidade apenas para a famosa feira da segunda-feira, teria de voltar antes da exibição do filme na mesma praça em que agora convivem roupas, frutas, panelas e brinquedos. Segundo ele, um DVD como 'se ia vender muito bem, pois o povo do lugar normalmente gosta de ouvir os músicos da terra, mesmo sem gostar, ouvindo mais por curiosidade do que por gosto. José Rodrigo Abade dos Santos, o Zé, é office-boy. Ele já tinha assistido ao filme de seu conterrâneo no Canal Futura, mas não gostou. Segundo ele, faltou gente e informação. Apesar do 'forço e da importância do feito para sua cidade, ele prefere comédias como «O Máscara» e «As Branquelas». Ele não vê muito filme de ficção e gosta mais de assistir aos jornais. Gilmazinho já foi guitarrista, rodou o Brasil num circo e hoje tem uma oficina mecânica. Mas sua paixão sempre foi o cinema. Em o final dos anos 70, ele foi um exibidor itinerante de filmes como os de Tony Vieira. Segundo ele, a TV acabou com tudo isso. Quando ele chegava numa cidadezinha e montava sua tela, a novidade era tanta que tinha gente se agachando com medo das balas nas cenas de tiroteio. Hoje em dia os meninos acham tudo na internet, até os filmes de Tony Vieira. Ainda assim, ele afirma que vai ser bem interessante assistir a um filme rodado na cidade num telão no centro da praça. «O Valor da Liberdade» é uma bonita reflexão sobre a condição humana e a consciência ecológica. O curta narra a história de Pedro, um jovem amante da liberdade e seu pai Joaquim, que tem como hobby a criação de passarinhos. Segundo Celismando -- que além de 'critor e agora diretor de curtas, também é professor de história e geografia -- sua intenção foi chamar a atenção para o risco que o aparente inocente hábito de criar passarinhos pode ter sobre o equilíbrio ecológico. O roteiro é uma adaptação de um conto de sua autoria, publicado no livro «O Poeta e O Vento», 'crito em parceria com o poeta Wésio Pimentel e inspirado na música» Canarinho Prisioneiro, de Chico Rey & Paraná». Em o enredo, a metáfora da condição humana se completa quando o pai do protagonista vai preso numa divertida cena de bebedeira, passando, então, a experimentar do mesmo cerceamento que impõe aos seus pássaros. Só temos consciência do valor da liberdade quando a perdemos, mesmo porque o desejo de liberdade, segundo Sartre, é a base de nossa consciência. O risco é nos habituarmos às nossas «prisões» cotidianas, perdendo, assim, a capacidade de lutar por a sobrevivência, como na já famosa cena (pelo menos em Barra do Mendes), quando um velho coqui (graúna ou pássaro-preto) é devorado por um gato. O seu canto triste evocava em Pedro a ausência de liberdade e a morte foi sua única «liberdade». Uma parte do processo de produção que Celismando gosta 'pecialmente é a montagem, onde se dá o sentido da história. Para ele, filmes como «Ben-Hur»,» Um Sonho de Liberdade e Olga " nos ensinam a ser seres-humanos melhores. Cidadezinhas como a sua tão querida Barra do Mendes também precisam ser mais lembradas. Para ele, não é o tamanho da cidade que determina sua importância cultural. Para o ator Miguel Nunes Pacheco, que fez o papel de Joaquim e também é poeta e ecologista, a liberdade só é possível num país democrático, onde se valorize a ética na utilização do dinheiro público. Segundo ele, foi uma grande emoção ter se visto na TV quando o curta foi exibido no Canal Futura. Foi como se a porta da gaiola tivesse sido aberta. Estive com a equipe do circuito em duas cidades: Barra do Mendes (no sertão baiano) e Água-Fria (no Recôncavo). Seria um capítulo a parte relatar a aventura desses missionários da imagem (vale conhecer o blog do circuito). Fica aqui registrado o meu sincero agradecimento. Número de frases: 112 Em os anos 70, os festivais de música popular brasileira não tinham mais a mesma força que na década anterior e os artistas então revelados não mais buscavam reconhecimento, sendo já bastante admirados por o público. Ao mesmo tempo, a censura abria suas asas e soltava suas feras, em dias nem tão dançantes, de tanta mentira, tanta força bruta ... Foi em 'se cenário que a gravadora Phonogram, atual Universal, reuniu seu 'pecial elenco de cantores, os quais representavam o que havia de melhor na MPB à época (e ainda hoje) e realizou o memorável encontro batizado de Phono 73, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, durante três dias do ano de 1973. Essa histórica apresentação foi lançada, em 2005, numa caixa com dois CD's e um DVD, 'te último, infelizmente, sem a íntegra dos shows, mas apenas 36 minutos de imagens ainda inéditas, entre apresentações e bastidores, tudo o que conseguiu ser recuperado do material filmado na época. Embora a qualidade do som, tecnicamente falando, não seja tão boa e assincronismos entre som e imagem sejam bem perceptíveis em alguns trechos do vídeo, isso não compromete a coleção, que vale por a reunião de tantos talentos, em performances tão ousadas e inovadoras, que fazem o nosso século XXI parecer bem careta em frente àqueles tempos, aos olhos de quem assiste. O melhor momento do show, registrado no DVD, é quando Chico Buarque e Gilberto Gil aparecem numa das primeiras apresentações públicas da canção «Cálice», de autoria dos dois, recém-composta. Censurada, a música não podia ser executada em ambientes públicos. Foi então que Gil, com toda sua perspicácia e imaginação, começou a cantar a melodia, emitindo sons vocais por ele inventados, em substituição à letra da música e Chico respondeu, cantando apenas seu inofensivo refrão. Tudo ia bem, até que Chico pôs um «arroz à grega» no meio da letra, em alusão ao fato de que os jornais da época, quando tinham suas matérias censuradas, colocavam em seu lugar receitas culinárias. Foi o suficiente para cortarem o som do seu microfone durante a apresentação (em 'se dia, colocaram um censor 'perto para acompanhar o show, mas nem tanto, como veremos a seguir), ao que ele protestou ao final da música, dizendo que 'se corte não 'tava programado e era desnecessário (" Estava no programa que eu não posso cantar a música Cálice nem Anna de Amsterdam. Não vou cantar nenhuma das duas, mas desligar o som não precisava não "), o que ficou registrado, graças ao som da mesa de áudio, que permaneceu ligado. A o cantar, depois, a música Baioque, de sua autoria, Chico afirmou: «Vamos ao que pode», momento também registrado no CD. «Cálice» só pôde ser gravada em LP no ano de 1978, num de seus melhores discos, que continha, além de 'sa, outras duas músicas que haviam sido liberadas para execução naquela ocasião: «Apesar de você «e» Tanto mar». Como todo autoritarismo é irracional e incoerente e o censor não era tão 'perto assim (ou só tinha ouvidos pra o bicho-papão Chico, o chico-papão), apesar da proibição de «Cálice», permitiu-se que o conjunto MPB-4 cantasse a música» Pesadelo " (ver letra ao final do texto), de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, de letra bem contundente e direta. Alguns cantores apresentaram-se, sozinhos ou em duplas, em exibições bonitas, polêmicas, contestadoras ou provocantes (não necessariamente em 'sa ordem, nem fora de ela). Caetano Veloso incorporou com sensibilidade e perfeição o sertanejo, ao cantar «A Volta da Asa Branca», de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, quase sem acompanhamento, apenas (?) sua voz e depois dividiu o palco com o cantor «popular» Odair José sob vaias da platéia, ao que respondeu chamando o evento de «Caphono 73 e dizendo que» não existe nada mais Z do que público classe A». Maria Bethânia e Gal Costa, belas e sensuais com suas barriguinhas de fora, cantaram juntas a bela «Oração de Mãe Menininha», de Dorival Caymmi, beijando-se na boca ao final e Sérgio Sampaio, autor de» Eu quero é botar meu bloco na rua», numa de suas poucas aparições públicas, fez coreografia um tanto quanto despudorada, considerando-se que naquela época não se 'tava acostumado com boquinhas da garrafa nem tampouco com vizinhos querendo comer coelhinhos, como hoje em dia. O DVD exibe, ainda, participações de nada menos que Toquinho e Vinícius, Elis Regina e Raul Seixas, entre outros. O manifesto do evento falava da diversidade da nossa música e da necessidade de se aceitarem todas as formas de expressão, «porque negá-las seria negar comunidades inteiras». E citava uma frase de Gilberto Gil, a qual sintetizava o 'pírito do festival (que, não por acaso, tinha como subtítulo " O canto de um povo "), e que vem norteando toda sua notável carreira: «Há várias formas de fazer música brasileira. Eu prefiro todas». Pesadelo (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro) Quando o muro separa uma ponte une Se a vingança encara o remorso pune Você vem me agarra, alguém vem me solta Você vai na marra, ela um dia volta E se a força é tua ela um dia é nossa Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando Que medo você tem de nós, olha aí Você corta um verso, eu 'crevo outro Você me prende vivo, eu 'capo morto De repente olha eu de novo Perturbando a paz, exigindo troco Vamos por aí eu e meu cachorro Olha um verso, olha o outro Olha o velho, olha o moço chegando Que medo você tem de nós, olha aí O muro caiu, olha a ponte De a liberdade guardiã O braço do Cristo, horizonte Número de frases: 42 Abraça o dia de amanhã, olha aí Já se foi o tempo em que tocar música punk era certeza de se apresentar para alguns poucos caras dançando numa roda. Desde o inicio dos anos 00, o hardcore se popularizou no Brasil e hoje é um fenômeno, principalmente entre a garotada mais nova. Muita coisa mudou em 'se mercado desde que o punk rock / hardcore aportou no Brasil em meados dos anos 80, com bandas como Ratos de Porão e Garotos Podres na região do Abc paulista. Os temas de revolta social das letras deram lugar aos assuntos do cotidiano da garotada, a nova onda punk do fim dos anos 90 trouxe o 'tilo de volta com força e conquista os públicos, sobretudo os adolescentes, de todas as regiões do país. Bandas como Cpm22 e os veteranos do capixaba Dead Fish trataram de tornar o 'tilo uma febre jovem no Brasil. O guitarrista Thiago Hóspede do Dead Fish fala sobre 'se processo. «A coisa mudou muito desses 15 anos pra cá, na época que a gente começou mal tinha instrumentos de qualidade pra serem comprados e muito menos um veiculo de comunicação fácil e rápido como a internet, era tudo por carta mesmo. Depois da Mtv o público juvenil aumentou muito e hoje quem consome mais rock é a molecada." Interessante é que não são somente 'sas bandas mais conhecidas, com grandes gravadoras e toda a 'trutura decorrente disso, que conseguem fazer sucesso de fato em 'se mercado. Aqui em Alagoas mesmo tem uma banda que é verdadeiro fenômeno de público, o Mutação. Eles 'tão parados atualmente por motivo de viagem do vocalista Alan Huston, que hoje mora em Barcelona, para a tristeza de centenas de fãs no 'tado, mas a banda promete voltar no ano que vem. Recorde de downloads na internet, 1.330 fãs em comunidade no Orkut, shows sempre lotados. O guitarrista do Mutação, Daniel Saraiva, fala mais sobre o grupo. «Gravamos um disco por a Empire Records, já vendemos mais de 1000 cópias e 800 camisetas. O caderno de cultura do jornal Gazeta de Alagoas anunciou que somos a banda alagoana com o maior numero de downloads na internet». Daniel já foi proprietário da casa de shows Fábrica 86, reduto do hardcore local. Sobre o lugar ele diz, " o Fábrica proporciona um intercambio muito forte com outras bandas de vários 'tados, foram mais de 40 shows de 'sas bandas por aqui. O Mutação, com 6 anos de som, já tocou quatro vezes em Salvador e Fortaleza, três vezes em Aracaju e Natal, umas três vezes em Recife também, João Pessoa, Teresina. Tudo em 'se 'quema de intercâmbio». Ele completa. «O hardcore é massa!" Aditive -- Independência e atitude Fiquei surpreso com a quantidade de gente no show dos paulistanos do Aditive aqui em Maceió há algumas semanas. A banda é independente total, divulga seu material através de um blog e viaja por o Brasil inteiro tocando pra uma verdadeira legião de fãs de todas as regiões. Sem rádio, sem grande gravadora, sem jabá, venderam mais de 10.000 discos em 'ses tempos de crise do mercado fonográfico!!! Impressionante, o que será que acontece com 'se tipo de música? Com 'sa cena sem fronteiras? Conversei com o baixista Sergio Sofiatti, do Aditive, 35 anos, músico e produtor experiente, que já tocou em muitas vertentes, do bar na noite de São Paulo aos palcos da Europa com o Wado e Realismo Fantástico, sem contar o Skuba, banda que tirou Sergio de Curitiba, sua terra natal, pra cair na 'trada música. Segue a conversa: Marcelo -- A banda que te arrancou de Curitiba foi o Skuba, lembro que vocês fizeram certo sucesso aquela época, qual era o hit? Sergio -- Sim, o hit era «Não existe mulher feia», tocava muito nas rádios, tocamos no programa da Xuxa, no Jô Soares ... -- E o Aditive? A banda é totalmente independente e sustentável? Os discos são lançados por algum selo? -- Somos uma banda totalmente independente e sustentável. Os dois primeiros discos foram lançados por a Urubuz Records, selo independente do Rio de Janeiro. Fazemos shows em várias cidades do país onde vendemos os discos e outros produtos como bonés e camisetas. M -- Quantos anos tem o Aditive e quais as principais influências de vocês? -- São cinco anos de banda, nossas principais influências são grupos como o Rufio, NOFX, Em o Use for a Name, bandas de hardcore ... M -- Fale sobre o público do Aditive e do hardcore em geral, da receptividade Brasil afora. É como a que vi em Maceió? Explica como 'se público garante a sustentabilidade do projeto musical de vocês? S -- É simples, a molecada gosta de verdade das bandas, apóia, acha justo comprar o CD, pagar pra ver um show, porque sabe que a banda precisa sobreviver. Falamos sobre coisas do cotidiano, o nosso cotidiano, o de eles, a gente 'tá meio perdido, mas em busca de algo, eles se identificam com as músicas, rola uma comoção geral ... Existe muita verdade ali em cima do palco e na platéia. Não acho que as letras precisam ser ricas poeticamente pra ter valor, talvez uma frase feita ou uma rima simples valha mais pra 'sa turma que 'tá 'cutando ... M -- Mas a poesia pode ser o máximo da simplicidade, aliás, palavra não é pra enfeitar, é pra dizer, como disse Graciliano ... -- Claro, e penso que tudo isso faz a cena sobreviver. Música é a uma mensagem, que tem que chegar ao receptor sem distorções, de uma forma simples. Distorções mesmo só nas guitarras. Os nossos fãs são os verdadeiros consumidores de música no Brasil, molecada de 11 a 20 anos. -- Então, me diga o que você acha que acontece quando as pessoas completam 21 anos? Perdem a paixão por a música? Os trabalhos voltados para um público mais maduro, digamos assim, os que se destacam me parecem ser um sucesso de crítica e um fracasso de vendas e público, mas posso 'tar errado ... S -- Não, 'tá certíssimo! Não dá pra entender mesmo, parece que a galera mais velha hoje em dia só quer sair pra 'quecer os problemas da semana, catar umas minas, biritar. É engraçado, mas em 'se meio hardcore a molecada é mais pura, vai num show pra 'cutar as músicas, cantar junto, se entregar ao show mesmo. Pode ser 'se fenômeno do «se tornar adulto» e nada fazer mais sentido, aliás, tudo ter um sentido ... não precisa ter. M -- O hardcore agrada em todas as regiões do país? O Aditive já tocou de norte a sul do Brasil, me fale um pouco de 'sa experiência e do 'quema de produção e agenda desses shows. S -- Os shows são agendados normalmente por os membros das bandas locais, em cada 'tado, que organizam os festivais, arcam com as despesas e ainda tocam na noite. Funciona, todo mundo se conhece em 'sa cena, então fica fácil fechar uma tour amarrando alguns shows. Sobre as diferentes regiões, é engraçado, mas parece que nos extremos do país os shows são mais intensos, acho que por a dificuldade das bandas excursionarem devido à distancia, mas se bem que em São Paulo os shows também são muito intensos, acho que não tem diferença de lugar pra lugar ... É meio geral mesmo, deve ser coisa da globalização ... A internet faz isso. M -- Mas faz sentido, o que você falou dos lugares mais distantes, eles têm menos acesso, então não perdem o show de jeito nenhum e vão aproveitar e curtir a coisa toda ao máximo. S -- É, mas, por exemplo, em São Paulo, nos nossos shows no Hangar (templo alternativo paulistano), vem gente da periferia, cidades vizinhas, e isso aumenta a força da platéia em receptividade. É assim que funciona: Número de frases: 69 Tem show, o pessoal vai se gosta da banda, mesmo se não gostar vai lá pra ver qual é e fortalecer a cena. Ainda não nos conhecíamos pessoalmente, até aquele momento apenas nos falávamos por e-mails e telefone, marcamos a entrevista numa noite de sábado, que seria um pouco antes do show do Ebinho Cardoso que aconteceria ali perto. De longe, quando cheguei ao local 'pecificado, vi um cara com uma certa 'tranheza, num bar sujo postando uma cerveja na mesa de plástico e um copo na mão, andei um pouco à frente, ainda de longe, ele me viu e levantou a mão, como que se me conhecesse. «Iaê, cara, beleza», eu disse. Ele respondeu com as mesmas saudações que as minhas olhando pra minha camisa, onde era pintado um certo cantor folk americano chamado Bob Dylan, ele já perguntou se eu 'tava usando a camisa por ele gostar do cantor, tomei um susto, encolhi, falei que não, tentei convencê-lo de que era apenas uma influência de um pretenso jornalista. Sentamos e começamos uma pequena conversa sobre qualquer assunto, perguntas vagas que só serviram para quebrar as formalidades que ainda existiam. Disse a ele como seria a entrevista, tirei o gravador do bolso, coloquei na mesa, e logo depois, na sua perna, em função da música alta que rolava no bar. A música não era as das melhores, das vezes que me lembro, ouvi a voz do Marrone, que faz par sertanejo com o Bruno, nada contra o ritmo! Já criando o clima da entrevista, comecei com perguntas básicas, indagando-o sobre como foi e por que a idéia de uma banda folk em Cuiabá, por o fato de não ser comum. Ele me olha 'pantando e diz: -- cara, é uma coisa de momento, se fosse hoje, por exemplo, eu não sei de faria! Em a hora pensei, como assim? O que eu iria perguntar mais? Mas ele continuou: -- mas há cinco anos isso fazia muito sentido pra mim, e não era uma banda, então, eu não 'perava que chegasse às proporções de hoje, justamente por que nunca foi uma banda de verdade, e que tocava folk em Cuiabá. Continuei perguntando sobre a aceitação do público cuiabano, como foi até alguém gostar do show, pois sabe-se que folk não é um tipo de música que um cara de 15 anos 'cuta em casa? Cara, passamos um ano aqui e foi bem 'tranho, respondeu e continuou, a gente tocava em festas com oito bandas, e todo mundo de metal, rock e tudo mais, quando entrávamos era aquela coisa bizarra, até por que nós ainda tocávamos sentados, hoje a gente é até meio rock, (meio, não muito) mas na época não era nada rock, foi mais na coragem, com a cara mesmo. Tinha gente que gostava, que falava bem, mas a gente já foi até ameaçado, muitas vezes, o cara vinha e dizia: -- põe peso em 'sa porra, viraram a caixa uma vez, mas não foi suficiente pra tirar nosso fôlego. E quando a banda sentiu que ia dar certo? Eu nunca achei que fosse chegar ao publico de verdade, mas no Grito Rock de 2005, (nossa, parece que faz muito tempo), a gente ganhou o festival por o voto popular, aí eu comecei a desconfiar e «oh», fez ele uma cara 'tranha, vimos que podia dar certo, lembrava. A 'sa altura, a entrevista já 'tava solta e já nos sentíamos a vontade, novas cervejas 'tavam na mesa, já existia um ar de velhos conhecidos. Antes da entrevista, 'cutei algumas musicas do Hélio sem banda, quando ele ainda andava com um violão de baixo do braço por o bairro, por festas. Perguntei sobre a vida sem muitos ensaios, de como é tocar o que gosta e sempre sozinho, ele diz que antes do Vanguart, tinha outra banda, só que achava a maior besteira, «pensei até em desistir da música por que era uma galera que não tava no mesmo clima que eu, e que não queria tocar as mesmas coisas e isso desanima muito, e deve ser por isso que as bandas acabam» disse. Então decidi ficar sozinho, justamente pra não «caguetar» ninguém, era um saco mesmo, ter que marcar ensaio, sozinho eu não precisava ensaiar, era só compor minhas musicas e gravar sozinho em casa, falava. Mesmo com toda 'sa aversão a ter uma banda, pensei como então ele formou uma, como foi o processo de se acostumar a tocar com eles, como um foi se chegando ao outro, ele quis me contar a história desde o começo, disse que o computador de ele não tava mais gravando, então ligou para o Reginaldo, que já era velho amigo das antigas, e pediu: -- Cara, posso gravar meu disco aí? Ele aceitou e produziu com mim, gravou bateria em duas músicas e ficou palpitando, fez toda a coisa burocrática. Mas ainda não era uma banda, era só alguém dando uns toques. Aí foi dando certo, um certo dia eu liguei pra ele novamente pra fazer um som falando: Vamos tocar junto ali! Só pra tocar mesmo, porém a relação que criamos foi tão boa que me fez voltar a acreditar que uma banda poderia ser legal, e deu certo. Os outros vieram depois e, engraçado, o Reginaldo foi o último a entrar oficialmente, que foi depois da saída do Júlio, o nosso primeiro baixista. Depois que formamos a banda, tive que me adaptar mais uma vez, pois meninos são muito bons musicalmente, e eu sou tosco, aí eu comecei a passar vergonha, eu não sabia afinar, por exemplo, no meio do show se o violão desafinasse, eu tinha que chamar o David e ele afinava, aí eu resolvi, comprei um afinador, hoje eu já sei afinar, mas isso é só um exemplo. Eu nunca 'tudei música, e acho que nem vou 'tudar, mas querendo ou não, tocando 2 anos seguidos com uma banda boa a gente aprende muito, ainda mais eles que já sabem muito. O Douglas é macaco velho, o Reginaldo e o David 'tudaram um pouco e o Lazza é muito intuitivo, ele toca tudo, tanto é que 'sa é a primeira banda que ele toca teclado, ele se propôs a aprender, se aperfeiçoou e tá até hoje segurando. A partir daí a entrevista já 'tava no supra-sumo, na história o Vanguart já ficava bem conhecido aqui em Cuiabá, e também em outros 'tados. Em uma de 'sas viagens, em passagem por São Paulo, foram encontrados por o pessoal da MTV, no qual resultou na apresentação no programa MTV Banda Antes, e depois, na Tour do Banda Antes, quando perguntei sobre, ele deu um pulo: -- Caaara, foi surreal o negócio, quando a gente voltou de São Paulo, o produtor chamou a gente pra tocar na festa da Tour, depois soubemos que não teria mais a festa, a gente ficou maior «deprê», mas aceitamos tocar na festa. Em a hora do show, já no dia da tal festa, o Daniel Beleza me chamou e disse: A galera da MTV tá toda aí! como se ele me dissesse, faz um «showzão», aí eu falei, beleza! O show foi uma droga, totalmente tosco, muito ruim, arrebentou corda, o palco desligava os instrumentos, o som do teclado e do violão sumia de repente, tem uma parte que no meio da música o Lazza percebe que o teclado tá desligado, levanta e vai até o outro lado do palco e aperta o botão «ligar». Totalmente bizarro! Quando acabou, assim que desci do palco veio um produtor e uma mina da MTV falar com mim dizendo para a gente gravar já no sábado (era segunda) aí eu falei: -- Ôh louco!! Vocês vão tá aí? Ela me perguntou, eu falei vamos, claro. Então gravamos o 'túdio, isso era março, a turnê só rolou em julho. Em 'se momento o Hélio já puxava toda a sua memória. Continuei perguntando sobre a turnê, sobre ficar famoso, sobre os «fãs» que iam falar com ele, pessoas até mesmo distantes, que moravam em 'tados longínquos. Ele diz que não acontece muito 'se negócio de ficar famoso no meio independente; é bem relativo, dá um pouco de 'panto, mas é aquela coisas, «só acredito no semáforo» é uma frase que todo show vai ter, vai tocar lá em «piraporinha», isso por causa da internet, se não fosse ela, não rolaria. Mas em alguns shows mais que outros, é normal a gente ouvir, mas a gente chegou em lugares que tem muitas pessoas cantando; tem uma gravação no Youtube que é bizarra, não dá pra ouvir a banda, gravaram no meio do público e só 'cuta o pessoal cantando. As pessoas vêm falar com mim, por a proximidade, é normal, mas a 'sência da banda não mudou com isso, mesmo com 'se ano de correria, em que muita coisa mudou. Logo, perguntei sobre a sonoridade, no que mudaria, de como 'se amadurecimento, de tantos shows e regiões diferentes mudavam o tipo de música que eles tocavam, ele respondeu na lata que, embora não tenham muito tempo pra compor, 'tão amadurecendo muito, mas depois do CD, vão se aventurar numa nova sonoridade, se reinventar, falei até sobre as várias mudanças do Dylan, e ele dispara: -- Ele mudou até pouco (risos). Depois então de algum «sucesso», daí para passos mais largos não seria muito distante. A conversa se prolongava e chegamos na idéia do clip. Um dia ele 'tava na casa de ele, quando o Paulinho Caruso ligou e falou: «iai, eu sou o Paulinho Caruso». Ele explicou a idéia toda, queria fazer o clip da música ' Last Days of Romance ', mas eu falei que era melhor fazer de uma cantada em português, ele disse que 'cutou ' Semáforo ` e que poderia ser ela. Falei que era melhor com a música ' Cachaça '. Mandei pra ele e achou mais cinematográfica. De aí então vieram os trâmites, rolou um apoio da prefeitura, a gente finalizou com orçamento de 4 mil, meio irrisório até, ainda mais que passou depois para a película. A galera que trabalhou em ele era muito boa, e todo mundo trabalhou de graça, 'se preço foi mais pra equipamento mesmo. Estamos programando pra fazer ' Semáforo ' para o ano que vem, talvez comece a gravar em março, não sei, e 'pero que a gente consiga fazer aqui no 'tado, que é mais caro, mas é em casa. Seria na 'trada de Chapada. No dia anterior ao da entrevista, a banda havia finalizado o primeiro CD, que tem previsão para sair em março, e que ainda não tem nome definido. Em o disco comportará 14 músicas, que incluem quatro inéditas em português, sete em inglês, e uma em 'panhol, além de alguns singles como ' Semáforo ` e ' " Cachaça '. «Estamos vendo a proposta de alguns selos, por isso a demora, mas se não fosse isso, seria mais rápido o lançamento. Espero que fique bom, aí depois a gente vai poder fazer uma turnê, construir shows mais profissionais», finalizou. Em 'se momento, já 'távamos nos finalmente, então encerramos, pra chegar a tempo do show mineiríssimo do baixista cuiabano, um som instrumental que arranca elogios dos grandes mestres brasileiros da música. Quando voltamos ainda rolou uma carona, e o que não faltou, é claro, foi assunto. Publicado na RockPress / RJ Em o SenhorF / DF Número de frases: 77 E no BusZine / MT Bem, explicando sem mais delongas o trocadilho, 'se texto não é um guia para onanistas interessados em saber como se dar bem no Japão por a porta de trás. É um texto sobre como seis malucos decidiram iniciar um evento de curtas-metragens e música brasileira do outro lado do Atlântico. Estes malucos 'colheram para si o nome de The Rabadas Cultura Clube e 'tão em plena atividade (sem trocadilhos, por favor) difundindo obras contemporâneas brasileiras na Terra do Sol Nascente. Quem são os Rabadas? Além deste que vos 'creve, os The Rabadas são três brasileiros (Pamela Hata, 'tudante de chinês; Sabrina Hellmeister, cantora; e Sarah Chieko Kimura), uma japonesa (Asumi Hiramoto, pedagoga, e de malas prontas para o Brasil) e uma francesa (Pauline Cherrier, a qual morou em São Paulo e 'tuda questões sobre os migrantes brasileiros no Japão). Este grupo divide entre si as tarefas de produzir o evento, selecionar e legendar os filmes, divulgar na empresa brasileira e na japonesa, produzir um blog e um zine (clique aqui para baixar a versão em português), de entre outras coisas. O primeiro Rabadas a gente nunca 'quece ... O primeiro evento do grupo rolou em julho e trouxe três filmes brasileiros para a churrascaria Que Bom, um pequeno restaurante na área de Asakusa, a antiga região boêmia de Tóquio. Em os dias de evento, mesas e cadeiras dão lugar a um 'paço informal e aconchegante, onde engradados de cerveja viram (quase) confortáveis assentos. A edição inaugural trouxe os filmes Neguinho & Kika de Luciano Vidigal, Pretinho Babylon de Cavi Borges e Emílio Domingos e Tá Tudo Dominado, deste que vos reporta. Já a segunda edição, que rolou no primeiro domingo de agosto, trouxe Acadêmicos do Morrinho Partes 1 & 2 de Fábio Gavião, Renato Dias, Nelcirlan Souza, Chico Serra; Operação Morengueira de Chico Serra e Godô Quincas, 40 Dias de Clara Angélica e Manguetown de Pedro Paulo Carneiro. Para as duas primeiras edições, os filmes foram selecionados por temas. Porém, como é difícil trazer o material do Brasil para o Japão, decidimos que o Brasil já é um grande tema para o evento e que diversificar as obras ao máximo pode ser muito mais interessante para quem 'tá participando do evento. Mas, como se pode perceber por a seleção, todos os filmes exibidos até agora têm a música como um componente forte. Isso é uma 'tratégia para atrair um nicho de mercado, que é o dos japoneses que curtem música brasileira. DJs japoneses? Em as duas edições anteriores do evento, todos os DJs convidados foram japoneses. Tocaram no The Rabadas Cinema Clube Loko2Kit (funk carioca), DJ Popozuda (baile funk), Antonio Yodobashi (residente da festa, 'pecializado em MPB dos anos 60 e 70), Shinji (soul e disco music brasileira), Minoru Takahashi (samba-soul) e Yoshihiro Narita (pop black music brasileira). Os DJs são, em geral, pessoas que produzem algum tipo de evento, festa ou distribuição de música brasileira ou, ainda, possuem algum tipo de atividade ligada à cultura e que fazem DJ como forma de divulgar seus trabalhos. Há, ainda, os amadores, que tocam por paixão por a música brasileira, tendo como meio de sobrevivência algo totalmente diferente da arte. Loko2Kit, por exemplo, é considerado o pioneiro do funk no Japão. Porém, anda pensando em aposentar as carrapetas para se dedicar à sua loja de roupas, uma das preferidas das tchutchucas de Shibuya. Já Antonio Yodobashi, apesar de sua imensa coleção de vinis e CDs, trabalha numa empresa de ar condicionados. Shinji tem uma loja de discos, cheia de raridades brasileiras. Não preciso dizer que ele é o fornecedor de muita gente. A DJ Popozuda 'tá começando no ofício. Ela mora em Miyazaki, uma pequena e pobre província no sul do Japão. stress Como lá não tem brasileiros stress, ela diz que acabou tendo que se tornar DJ para tocar para si mesma, em sua casa no alto de uma montanha. Apesar do exercício solitário, a moça não deixou a peteca cair com a pista cheia. Shinji e Minoru Takahashi tocam e produzem a festa Terça, um inusitado evento dedicado ao soul e à disco brasileiros. Já Yoshihiro Narita é um dos organizadores da SambaNova, uma festa de música brazuca bastante conhecida e bem 'tabelecida na cena toquiota. As duas festas lançaram coletâneas com as músicas mais baladas. O pessoal da Terça lançou três compilações com músicas dos anos 70 e 80. Já a galera do SambaNova 'tá na 18a. edição de sua coletânea. Desafios Nâo são poucos os desafios do grupo, que trabalha apenas com o patrocínio do restaurante Que Bom, onde o evento é realizado. O custo do evento é alto e o restaurante cobre apenas uma pequena parte de ele. O restante vem do trabalho voluntário de cada membro. Tradução dos filmes para o japonês e legendagem são feitos por os participantes. São serviços ultra-'pecializados e caros. O envio dos filmes tem sido feito por os próprios diretores ou, ainda, por amigos que vivem no Brasil, como a cineasta Candy Saavedra. Outro desafio é temático. O Brasil é grande e mostrar a diversidade do país com obras inovadoras, desafiadoras e que despertem o interesse do público japonês é algo bastante difícil. Há muito material disponível na rede, o que facilita a curadoria dos filmes. Mas, há muitas obras e poucos produtores na rede. Por exemplo, é possível encontrar um filme no excelente Porta Curtas Petrobrás, mas encontrar o diretor ou os produtores é uma jornada. E, quando finalmente parece ter sido achado algum tipo de contato, rola o problema da resposta. Muitos simplesmente não dão retorno ao email enviado. Outros o fazem semanas depois. Porém, o evento vem dando certo. O público da primeira e da segunda edição aprovou o The Rabadas Cinema Clube. A idéia, agora, é crescer, trazer mais gente nova e, claro, incluir os brasileiros que vivem no Japão. Estes, não apenas como público mas, também, como produtores. Além disso, claro, conquistar mais gente aí do Brasil para fazer parte de 'sa nossa rede. E aí, topa? Número de frases: 60 Você vai ver que enRabar o Japão vai ser gostoso! O ar é para todos. Essa é a premissa da radiodifusão livre. A história das rádios comunitárias carrega em seu percurso uma relação direta com as lutas políticas, sejam revolucionárias (a exemplo de Che Guevara, que utilizou 'se tipo de frequência na guerrilha) ou de resistência democrática. É uma conquista recente (a Lei nº 9.612, é de 1998), oriunda dos anseios por a democratização das ondas radiofônicas, por a liberdade de expressão e difusão de idéias, informações, prestação de serviços, enfim, uma luta pelo direito de aproximar as comunidades de sua própria realidade através desse instrumento de comunicação social. Refletir sobre seus problemas, conectar pessoas de uma mesma abrangência geográfica em torno de suas necessidades, desejos e condições 'pecíficas. As rádios comunitárias vêm se difundindo por todo o país, 'tima-se que existam dez mil no Brasil, e têm como prerrogativa exibir programação com conteúdo de qualidade, cultural, educativo, informativo e de prestação de serviço. Mas, será que isso 'tá acontecendo? Como fiscalizar e obrigar 'sas rádios a cumprirem suas funções fundamentais de atender às comunidades para as quais são destinadas? A entidade responsável por a Rádio Comunitária do CPA, FM 105. 9, a Associação Movimento Comunitário Rádio Educativa FM de Cuiabá, uma Ong sem fins lucrativos fundada por dirigentes sindicais, da Cut, Sindicato dos Motoristas, Sindicato dos Bancários, Trabalhadores da Informática e Professores da Rede Privada, é comandada por Geremias dos Santos, que afirma ser outro o problema: «O maior problema que vejo aí é a burocracia do Ministério das Comunicações. Por exemplo, 'tamos no ar há 7 anos e há apenas um ano 'tamos legalizados. Em 'se tempo de luta por a liberação tivemos um episódio em que tivemos todo o nosso equipamento tomado por a Anatel, numa ação da Polícia Federal, no ano de 2005. Mas de nada adiantou, juntamos as entidades novamente, fizemos cota, readquirimos equipamentos novos e continuamos no ar." A história das comunitárias carrega na bagagem vários focos de resistência política e cultural. É uma reivindicação da sociedade democrática e, arrisco dizer, consequência do princípio das rádios livres com suas ações transgressoras, questionando o controle do ar e desafiando as normas reguladoras das concessões. Por ser um instrumento poderoso na formação de opinião, o mau uso que políticos e religiosos fazem é um risco constante, pois usam das facilidades que têm para conseguir concessões e abusam do poder comercial que o instrumento lhes confere. Geremias admite que as rádios ainda 'tão bem longe do formato ideal: «As rádios comunitárias no Brasil ainda 'tão em busca de seus 'paços próprios, definindo seus perfis e formatos, em suma, é uma busca constante de aperfeiçoamento para uma maior interação com a comunidade. O modelo da maioria das rádios comunitárias ainda se 'pelha nas rádios comerciais, é uma questão cultural. Queremos envolver mais a comunidade, queremos conscientizar as pessoas dos seus próprios problemas, precisamos interagir." Em Cuiabá, alguns exemplos têm demonstrado a importância desse tipo de comunicação, pois vêm obtendo grande receptividade em suas áreas de abrangência e é flagrante (apesar da falta de pesquisas) o crescimento da audiência e maior participação da comunidade. Existe uma grande procura para divulgar eventos dos bairros do CPA, ligações telefônicas com pedidos de músicas e aspirações aos prêmios oferecidos por os programas. A Rádio Comunitária do CPA tem forte influência na vida da comunidade e isso fica bastante perceptível no orgulho e carinho que alguns moradores demonstram em relação ao veículo que se situa tão próximo de suas vidas. Quando fui até a sede da comunitária do CPA para 'crever 'se artigo, logo na entrada, encontrei uma senhora que abordei e fui logo perguntando se ouvia a FM 105. 9. Acompanhada da filha pequena, Valdirene Monteiro, dona-de-casa, 38 anos, pele curtida de sol, entusiasmada com a FM 105. 9, disse, em alto e bom som: «Vim buscar meu CD. Ganhei no programa do DJ Claiton 7. Ele coloca boas músicas para a gente ouvir. Todo dia ouço a Comunitária, a 105." A o indagar sobre a audiência no bairro onde mora, o Altos da Glória -- que 'tá dentro do Grande CPA (conjunto de bairros com cerca de 200 mil pessoas), ela dá uma bela gargalhada e tasca: «Pelo menos a maioria da minha rua ouve, pois coloco o som bem alto! E olha que ouço o dia inteiro ...!" Sai, rindo, puxando a pequena filha por a mão. O ônibus que a levará até aos Altos da Glória 'tá partindo. Entro no pequeno prédio onde funciona a rádio comunitária por uma 'cada apertada que vai dar direto no 'túdio. Para o alto! Alguns programas voltados para o público jovem têm sido importantes para a difusão da cultura hip hop no Grande CPA, como o «Versão Hip Hop Brasil», o» Soul Gueto «e o» Direção Hip Hop». Um programa híbrido que mistura pop, dance, eletrônico e rap, o «Top Dance», comandado por o DJ Claiton 7, também tem se destacado com boa audiência e participação da comunidade na seleção musical. A música alternativa roqueira tem seu lugar na 105.9 com o programa «Vitrine do Rock», que veicula músicas de bandas locais, realiza entrevistas e acompanha os movimentos culturais jovens da cidade. Além desses programas culturais mais alternativos, abrem muitos 'paços em sua grade para programas de entrevistas e debates de questões de interesse público. Sábado é o dia de maior audiência. A Rádio Comunitária Pedra 90, é outro canal que tem valorizado a cultura local e obtido boa resposta da comunidade. O produtor cultural, Anselmo Parabá, do Instituto Cultural Mandala, que atua na região, 'tá animado com a repercussão: " Algumas bandas locais têm se destacado e é muito grande o número de pessoas pedindo para tocar as músicas de 'sas bandas." É outra emissora que tem programas voltados para o hip hop e o rock alternativo em sua grade. O rádio tem características muito interessantes que o torna um veículo poderoso, seja por a agilidade, baixo custo operacional, equipamentos acessíveis, audiência cativa e participativa (quando provocada), é um meio muito bacana para a interação das pessoas com seus próprios ambientes de vivência. Uma possibilidade concreta de ouvir outras vozes. Vida longa às rádios comunitárias 'palhadas por 'se Brasil de tantas vozes e sons. Número de frases: 49 Há muito que não via o Jornal Nacional. Em o último dia 25 me lembrei porquê. Em uma reportagem, o Jornal anunciou que «começou a funcionar em quatro universidades um sistema que pretende acabar com as cópias ilegais de livros». Choramingando que embora o número de universitários no país tenha dobrado e as vendas de livros caíram por a metade (eu enquanto entusiasta do rigor metodológico, gostaria de saber como fizeram 'ta pesquisa) dizia então José Manuel Moran, diretor de faculdade: «a minha recomendação é que eles comprem o livro porque é mais importante ter um livro como um todo. Agora sei que existe a indústria da cópia, por isso temos que encontrar uma saída que seja legal». O que o jornal não lembrou (por acaso?) é que não se trata somente de direito autoral e crime de cópia ilegal (aliás, verdade seja dita, 'se apelo à idéia de prática criminosa já é mais do que oportuno). Sei que 'tamos falando de uma rede nefasta, não sei se criada por as editoras e associações de proteção aos direitos autorais, mas hoje é uma barbaridade. Pois, sob a desculpa de que defendem os interesses dos autores, lançam-se numa cruzada de caça às bruxas. Em parte acho até que seja verdade a história de defesa dos autores, mas só em parte. Uma pequena parte. Não vou começar a filosofar aqui-mas o que o Jornal Nacional 'queceu de mencionar é que livro aqui no Brasil é um artigo de luxo. E falo justamente dos altos preços. Sim, o livro no Brasil custa caro, não é pra qualquer um. E não 'tou nem falando de Best Sellers. Se a conversa é sobre conhecimento, os chamados livros acadêmicos, percebemos o mecanismo cruel de não-democratiza ção do saber. As chamadas leituras necessárias à nossa formação são vendidas a peso de ouro. Acho que todos prefeririamos ter nossa vistosa biblioteca a crescer a olhos vistos com o passar do tempo e o amadurecimento do sujeito. Mas sinceramente, quando entro nas livrarias que vendem livros novos, saio de lá deprimido. E do mesmo jeito que entrei: de mãos vazias. A Associação Brasileira de Direito Autoral diz ter descoberto uma alternativa: vai vender trechos dos livros. «Para controlar o número de cópias, o nome e o CPF do 'tudante serão impressos com letras d ´ água embaixo do texto. A promessa de preços parecidos aos das copiadoras, mesmo com o acréscimo da parcela do autor». Nossa, quanta consideração com os pobres autores. Aliás, me ocorreu: a menos que você seja um autor de best seller, tua porcentagem num livro não seria pífia? Enquanto isso, vou montando minha xeroteca que divide 'paço com aqueles valiosos livros que compro nos sebos. Número de frases: 30 Em as Asas da Esperança & A Um " Passo da Fama «Pego carona nas asas da 'perança e renasço a cada minuto. Sempre com fome e sede de viver». Assim começa o livro «Em as asas da 'perança de Robson Leal Pereira um humilde lavrador nascido no bairro Bom Jesus, em Machado (sul de Minas), em 1977)». Tendo como fonte de inspiração uma frase, uma palavra e, principalmente a MPB (Música Popular Brasileira), Robson começa a 'crever (dar vida) aos seus primeiros poemas. Após mostrá-los ao Prof. Clêuton Pereira Gonçalves e receber do mesmo palavras de encorajamento, Robson partiu em busca de um sonho: publicar o seu primeiro livro. Graças ao dinheiro do seu suor (na colheita do café), e de alguns patrocinadores machadenses, Robson finalmente pode realizar o seu sonho. Em o dia 20 de dezembro de 2006, na Biblioteca Municipal de Machado, ocorreu o lançamento do seu livro, organizado por a Prof. ª Carmem. Foi homenageado por os professores Rosa Maria Ferreira e Clêuton P. Gonçalves. O cerimonial foi comando por Juliano Paes. Um dos momentos mais emocionantes foi a presença da Companhia de Reis do Jamil, da qual Robson faz parte representando o «Bastião». Junto com Juliano Paes, Robson vem 'crevendo, dirigindo e atuando no palco sagrado do teatro. Em 2003 atuou em «A aparição de N. S. de Aparecida», uma peça realizada próxima ao Lago Artificial de Machado, durante o jubileu do Cônego Walter M. Pulcinelli. Em 2004, na cidade de Alfenas, eles apresentaram a peça «Calote em alto 'tilo», contando as peripécias de um sujeito que se finge de morto para não pagar suas dívidas. O problema é que, inesperadamente, todas as pessoas as quais ele deve comparecem em seu velório ... Em Machado, no mesmo ano, eles encenam a peça «A um passo da fama», uma comédia sobre dois caipiras que querem ficar famosos na cidade grande. Tudo acontece num ponto de ônibus, arrancando gargalhadas incontroláveis dos 'pectadores. A peça foi reapresentada em dezembro de 2006 no teatro do colégio Iracema Rodrigues (Machado-MG). Em o elenco 'tavam: Janaína Freire (hoje substituída por Cassiana Cordignole), Rafael do Lago, Prof. João Marcos (substituído por Douglas Soares), Juliano Paes, Robson Leal Pereira e sonoplastia de Ilzenir Serafini. Ainda 'te ano a peça será apresentada em Campestre-MG. Contatos: Robson (35) 9915-4880 e Juliano Paes (35) 9901-5005. «Você é do tamanho do seu poema» (" Prof. José Vilela) «Se a poesia existe nos fatos, o fato de se fazer poesia já é poético» ( Prof. ª " Olga Caixeta) «Minha poesia é o luar. É a vontade de subir ao céu e derramar uma chuva de paz " ( Robson Leal Pereira) Número de frases: 31 É cada vez mais visível a importância que a cultura assume nos dias atuais. Não é exagero pensar que a cultura é o elemento responsável por o grande propulsor do capitalismo contemporâneo, que é o consumo. Isto se considerarmos que o que engloba os padrões de vida, o modo de ver o mundo, é, em última instancia, a cultura. Basta olhar em torno e logo se percebe o papel destacado da comunicação de massa, veiculando cotidianamente a venda de 'tilos de vida, modos de ver o mundo. De 'ta maneira, impulsiona a consolidação do habitus de classe dominante cada vez mais como o único possível e sob a égide do qual todos devem viver. Reside em 'te ponto o lugar bastante peculiar da preocupação em englobar as ações em cultura no conjunto de ações dos movimentos que criticam o atual 'tado de coisas. Pensar a ação política no mundo contemporâneo é cada vez mais pensar a diversidade da ação humana e a multiplicidade dos aspectos da vida. Porém, 'ta preocupação precisa 'tar atrelada a uma madura e reflexiva crítica das atuais configurações do jogo social. Enquanto arena de disputa, a cultura é o 'paço onde a hegemonia busca se impor e onde as culturas que não fazem parte da casta dominante, ou as culturas populares, resistem, às vezes conciliando, às vezes combatendo, ao processo de dominação da hegemonia. Pensar na cultura como um campo de disputas significa pensa-la em sua dinâmica, ou seja, na circularidade entre cultura erudita e cultura popular, nas formas como os diversos agentes de 'tas culturas se apropriam dos elementos uns dos outros, re-elaborando os seus usos cotidianos. Este 'tado de coisas precisa 'tar em mente quando se fala na formatação da política cultural do Cuca -- entendendo 'ta como o conjunto de diretrizes conceituais que norteiam a atuação da organização, seus aspectos metodológicos de gestão tanto quanto suas metas e objetivos práticos. O Cuca da Une -- Centro / Circuito Universitário de Cultura e Arte -- surgiu em 2001 com o intuito de diversificar as ações da União Nacional dos Estudantes. Tem hoje doze núcleos 'taduais, sendo dez destes Pontos de Cultura (parte do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura) e sua ação visa a circulação dos produtos culturais universitários e o fomento a novas formas culturais. Diante de 'ta configuração da cultura contemporânea, é preciso saber qual o lugar de atuação do Cuca, quais ações devem ser fomentadas, quais padrões 'téticos serão adotados, qual linguagem precisa ser fomentada: uma reprodução da hegemonia ou o incentivo às formas culturais que 'tão fora do eixo do mercado de arte tradicional? A reflexão sobre 'se aspecto peculiar precisa ser feita com cautela. Apesar de ser uma instituição autônoma, suas ações integram o conjunto do movimento 'tudantil, tanto que é definido como a política cultural da Une. Seu papel, então, precisa ser aglutinador de diversas formas de pensar e fazer cultural que corresponda à realidade das universidades brasileiras. Então, chega-se a dois paradigmas principais que 'tão na base conceitual do Cuca enquanto um projeto cultural: por um lado há uma responsabilidade crítica perante a situação concreta da cultura contemporânea e por outro há o compromisso em ser amplo o suficiente para que não exclua de suas demandas de circulação o que é produzido nas universidades. O primeiro paradigma refere-se ao que é produzido por os Cucas. É referente à 'tética a ser fomentada por os Núcleos de Teatro, à linguagem utilizada nos filmes produzidos por o Cuca, ao tipo de oficina ministrada e principalmente aos produtos de elas. Aquilo que cabe ao Cuca realizar precisa ter um compromisso com a visão crítica da cultura contemporânea e ser fomentador de um fazer cultural cada vez mais valorizador das diferenças, da liberdade do conhecimento e do desenvolvimento de novas 'téticas. Inclusive, é 'te o eixo conceitual que justifica uma parceria entre o Programa Cultura Viva e o Cuca. Tornar os Cucas Pontos de Cultura não pode ser apenas um fruto da política mais pragmática e sim um efetivo instrumento de ação política e transformação dos padrões culturais vigentes. O segundo paradigma é aquilo que não deixa o Cuca se afastar das universidades. Mesmo não sendo uma organização representativa dos 'tudantes que produzem cultura nas universidades, aquilo que oxigena atuação e cria pontos que extrapolem a circulação para além de rede dos Cucas é o diálogo com 'tes setores. Portanto, 'te se liga ao que entendemos como circulação da produção. O Cuca deve ser um 'paço para receber as diversas produções, independente de seu compromisso ou não com uma postura mais crítica diante da realidade cultural brasileira. A perspectiva da antítese entre o que é produzido por os Cucas e o que é produzido nas próprias universidades e é circulado por o Cuca pode ser uma interessante ferramenta para impulsionar discussões sobre a produção cultural contemporânea. Por em contato perspectivas diversas, por vezes antagônicas, é uma interessante forma de ir de encontro à fragmentação contemporânea e transformar as ações do Cuca em modificadoras concretas dos padrões culturais, pelo menos daqueles padrões que 'tão ao nosso alcance. Número de frases: 31 Três dias de rap, eletrônico e muito rock nas terras potiguares que alimentou não só a alma, mas também o 'tigma do evento. Pelo menos nos últimos cinco anos, 'ta foi a melhor de todas as edições, em programação, público e qualidade dos shows. Quinta O trocadilho é infame, mas num festival que tem o alimento no mote, cabe dizer que o principal prato da culinária potiguar é o Rap. A primeira noite do Mada veio para dar voz a um movimento que, até então, não ecoava por o restante do Nordeste. Público que fez questão de ficar na frente do palco enquanto o céu inteiro caia na forma de chuva. Cabia bem ter sido uma noite totalmente dedicada ao hip hop. De o Recife, a banda Volver passou no filtro dos shows mais agitados do festival. Sorte, para uma noite que parecia ser segmentada. O público de Natal não tem preconceitos, 'tá sempre na frente do palco, dançando e, na devida oportunidade, até cantando novas músicas. Em o mesmo clima deslocado, se deram bem as bandas Macaco Bong e Montgomery. Mas o que vale destacar são as apresentações do Neguedmundo e Agregados Família do Rap. Qualidade afiada, trabalho bem feito, e relação com o público de fazer inveja. O hip hop do Rio Grande do Norte merece mais atenção depois de 'sa noite. Cerca de seis mil pessoas fizeram parte do momento. Sexta Noite equilibrada, com bandas de rock mais acessível. O público da segunda noite (cerca de sete mil) era excessivamente jovem, numa engraçada caricatura de camisas de rock, mas postura inocente. A banda Zeferina Bomba (PB), desapareceu e a programação encurtou em meia hora. Quem também sumiu foi a chuva, garantindo um clima ideal para a celebração as guitarras. Quem se destacou foram as bandas Revolver (de Natal), com um rock que lembra a fase agitada dos Beatles. Som maduro, gritado e instigante, que já virou um CD que chega às lojas próxima semana. Os donos da noite foram os meninos da Reação em Cadeia (RS). A melhor resposta de público do todo festival, com gente pulando, gritando e entrando no clima. A melhor surpresa da noite foi o glam rock da Cabaret. Banda do Rio de Janeiro, com letras em português e muita, mas muita afetação no palco. Travestidos de personagens que se apresentam como Peter Glitter, Sid Licious, Marvel e Myself Deluxe, eles venceram uma barreira forte que tinham com um público duvidoso e somaram mais carisma na noite. Sábado A chuva voltou, para 'pantar a produção, o público e atrasar exatos 30 minutos do evento. A última noite do Mada prometia pouco, com shows que dividiam bastante a opinão da crítica. Essa foi a melhor parte de todo o festival, aquela onde os ditos 'pecialistas precisam admitir que erraram frente ao público. às 10h, o Cansei de Ser Sexy fez o show mais louco da noite, com uma galera enorme cantando na frente, 'térica e obsessiva, pedindo mais, mais e mais. Nem que fosse uma simples atenção da banda, um olhar ou sorriso. Vale a pena também guardar o nome do Moptop. Os cariocas foram responsáveis por um dos melhores shows do Tim Mada. Energia no último volume, vocais gritados e comparações com o Strokes só vinham para somar. Em o fim da noite eram cerca de sete mil pessoas provando que podiam somar o melhor da música farofa, com o independente, numa única experiência. Ponto para o festival, ponto para a cidade de Natal. Número de frases: 38 Ambos de parabéns. Acontece 'ta semana, de 27 a 30 de novembro, a série de intervenções urbanas da artista visual Roberta Carvalho. O trabalho é resultado da Bolsa pesquisa do Instituto de Artes do Pará. Em um projeto inovador para a cidade, a artista vai fazer ações de projeção de curta duração nas fachadas de alguns pontos 'tratégicos da Cidade Velha. O projeto, cujo o título é Pretérito do Presente, tem por objetivo criar uma poética, ou simplesmente desvendar o pretérito que ainda permanece no Presente. Para isso, foram retiradas matrizes de dentro da própria cidade, que serão a matéria-prima das projeções. É uma proposta ampla de trabalho (fotografia / história / intervenção / arte pública), que busca através da construção de imagens a memória da cidade em seus traços que restam. O trabalho foi divido em 4 dias seguidos de ações. Em o dia 27, às 19hs, acontece a ação «colors» e «Fragmentos», na Ladeira ao lado do forte do Castelo, na 1ª rua de Belém. Em 'te dia luzes coloridas surgirão de uma casa e ao lado haverá projeções de fragmentos de um cidade antiga que a nova urbanidade 'conde. Em a terça-feira, dia 28 às 19hs, na Joaquim Távora próximo a Praça do Carmo acontecerá a ação «trancas», uma projeção numa casa em 'tado de abandono com uma série de imagens que se referem ao 'tado fechado e abandonado de algumas casas históricas de Belém. Em a quarta às 21hs e quinta-feira às 20hs é a hora do Prédio do Bechara Mattar. Em 'te dia, a artista fará projeções no alto do prédio de antigas paisagens da Belém antiga, apropriando-se de fotos e cartões postais de Belém. Além disso, o público poderá conferir o registro de todo 'te trabalho, na noite do dia 8 de dezembro, no IAP, ocasião do lançamento do dvd «Pretérito do Presente», dentro da mostra Arte Final. Roberta Carvalho, 26, é artista visual e designer gráfica. Produz fotografia, vídeo-arte, intervenções urbanas, web-art e trabalhos com novas mídias. Principais exposições e prêmios: Fronteiras Entrecruzadas, 2006: Alex Flemming, Keyla Sobral e Roberta Carvalho. Espaço Cultural Casa das 11 Janelas -- Laboratório das Artes. 2º Grande Prêmio do Salão Arte Pará 2005, Menção honrosa no Salão Unama de Pequenos Formatos 2006, 2º Prêmio do Salão Universidarte (Belém), Bolsista de Pesquisa, Criação e Experimentação 2006 do Instituto de Artes do Pará com o projeto Pretérito do Presente. Número de frases: 20 www.cademeureal.com.br) E de tanto passar, descer e subir, se fez reportagem o cotidiano. O grupo TR.E.M.A. conta numa seqüência sem começo nem fim, o que e quem passa por os terminais de ônibus de Fortaleza, enquanto a cidade transa, se embriaga, dorme ... Cadeiras Com Rodas contará em capítulos * as histórias ao léu de quem passa, trabalha ou mora por lá, ai, bem ai, debaixo das venta de quem passa por os terminais de ônibus apressado no pico das 18. Experiência-apura ção: Ramon Cavalcante, Pedro Rocha e Tiago Coutinho Texto: Pedro Rocha Capítulo 1: e na guarita do terminal de ônibus do Papicu às 2 horas da madrugada de uma quinta-feira ... Paulo tira um saquinho de pó de guaraná e despeja nos dois copos de café, um pra ele, outro para o Carlos. Bebem como remédio. Em o rádio da guarita, forró; o trocador do terminal passa o tempo ouvindo FM 93 e Liderança, quando não, conversando com o segurança Carlos e dando uma volta sem largar o olho da roleta. Em 'sas madrugadas mais lentas, como as de uma quinta-feira, ela roda de 100 a 170 vezes. Um movimento mais calmo, mas que diz tanto do urbano, quanto o pico caótico das 18 horas. O terminal é decadente e silencioso no que têm de mais urbano 'sas palavras, no que têm de silêncio o olhar e o ruído. Marquise segura para pedintes, moradores da rua que se 'preguiçam nos bancos talhados em concreto. Em 'sas horas em que os dias rebentam em fim e começo, o percurso vai de uma ponta a outra, dos restaurantes da beira do mar à periferia. Quem passa nas madrugadas por o terminal, descendo e subindo em corujões, são os mesmo que servem caipirinha, cerveja, lagosta grelhada, e principalmente, em 'ta quinta-feira, caranguejos. Carlos é um preto de 41 anos, gordo de cabelo ralo e bigode 'curo que guarda desde setembro com mais dois colegas as madrugadas do Terminal do Papicu. Seu 'cudo amarelo e preto da Thompson Segurança contrasta com sua fala simpática, nada da frieza dos homens de preto. Sabendo do assunto, introduz o tema enquanto aponta para uma mulher que anda com os seios para o lado de fora. -- Tem muito é isso aí aqui de madrugada ... tem droga, aí é complicado, porque se você pega e toma, eles endoidam, faz 'cândalo ... pior são os homossexuais do banheiro, caba chega aqui às 19 horas e fica até 3, 4 horas só de tocaia no banheiro ... quantas vezes tive que ir lá, tirar de quatro viado fazendo as coisas ... se comendo ... -- E ai, faz o que? -- E o pior que eles são cheios de razão, um dia desse eu tive que ir lá por causa de reclamação de usuário, tirei ele de lá e trouxe bem para aqui [apontando para o meio da plataforma vazia] aí ela saiu gritando que tinham mantido ela em cárcere privado ... Os que dormem ele deixa pra acordar às 5 horas, quando o movimento aumenta, fica um tanto constrangido, e quando o terminal tá mais calmo deixa os sonhos se 'picharem mais um pouquinho. Moradores do terminal, como aquele deitado no banco com uma cadeira de rodas ao lado, que na história contada por Carlos é um velho que tem casa, família e aposentadoria, mas vive no terminal com direito a visita das suas filhas. Aquela outra ali vem toda noite, só dormi sentada ... Margarida Marques Fernandes de Lima, dita ela pausadamente. Pergunta de que família sou, pede referências, tenta adivinhar a linhagem. Quantos anos? «Vou fazer 57, não, fiz 57 em novembro», mas bem poderia ter feito 70 antes de ontem. Capítulo2: Dona Margarida 'pera sentada ... dorme nos bancos cinza-industrial, sempre sentada, «durmo não, cochilo». Uma mochila no colo, olhar cansado, voz baixa, enrolada até a testa com panos que encontrou no lixo, bem a imagem de uma retirante que fez o caminho ao contrário, nascendo em Brasília, passando por o interior do Ceará até Fortaleza, ainda com 18 anos de idade. Há quatro anos dorme ali no terminal, abancada a 'pera do filho, que em 'sa alturas deve tá com uns 16 anos diz ela. -- Eu ouço ele ... ele diz ... 'tuprado ... -- Tão 'tuprando ele? -- Eu num já disse ... Os malandro tão com meu filho, ai eu ouço, o menino. -- Que malandros? -- Os malandros tão com meu filho, seqüestraram ... eu vou já cobrar da policial porque tão matando o meu menino e não fazem nada, eu vou lá cobrar de ela, ela tá recebendo, tem que fazer o trabalho. Mal dá pra ouvi-la, fala com sono, colocando o pano na frente da boca como a bocejar. Conta uma história enrolada, confusa, em tom confessional, conspirando alguma coisa. Como assim, não entendi direito? «Eu num já disse ..." Começa tudo de outro ponto. Ouve o filho e volta todas as noites para 'perá-lo, não pode voltar para Brasília sem o menino. Junta dinheiro pra vê se compra uma televisão e o filho volta. «Fui para o interior, ai mangaram muito de ele porque não tinha televisão». Dormiu uns tempos na casa da madrasta, mas o ouvia reclamar que 'tava só na rua e voltou para cá. Dorme curvada sobre a mochila, coberta por os lençóis achados. Em a mochila traz panos e roupas velhas, que também enchem uma sacola de plástico branca. «Eu num já disse ..." e lá se vai a conversa para as banda da Igreja Universal, do marido que fez trabalho pra afastar o filho de ela, " foi até para a África parece ..." Era obreira e evangelizadora junto com o filho quando o marido fez 'sa arrumação. Trabalhou também de doméstica, lavando e passando. «Eu trabalhei com um senhor que falava que a situação de Fortaleza nunca seria resolvida. Mas tem que ser resolvida». Fala a velha, no limiar entre acordada e sonolenta, lúcida e louca. E dorme. ... E Carlos vai apontando, avisa que daqui a pouco chega uma lôra que toda noite tá aqui tentando arrumar um namorado entre motoristas e trocadores. Aquele ali é o irmãozim doido, prega quase toda madrugada no terminal, aquele ... ( segue no próximo capítulo) * 'se texto faz parte da proposta do blog: Número de frases: 71 www.grupotrema.blogspot.com Em meados de 2007, a universitária Iva Kareninna da Silva Câmara colocou a mão no canudo quando concluiu o curso superior de Tecnologia em Controle Ambiental com a feitura do seguinte trabalho: Turismo e Crescimento Urbano: Elementos que transformam o ambiente natural de Pipa, município de Tibal do Sul. O referido Trabalho de Conclusão de Curso (famigerado TCC) ganhou nota 9,7 por a excelência na sua elaboração, mas, por se tratar de uma monografia 'crita, caiu no limbo das prateleiras da biblioteca universitária. Atualmente Iva se aproxima do fim do seu segundo curso superior: Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo. Como colega de classe desse curso, acompanhei suas agruras para a confecção da monografia e sabendo da qualidade do trabalho, combinamos de fazer o nosso TCC de Jornalismo juntos, transformando o tal " Turismo e Crescimento Urbano: Elementos que transformam o ambiente natural de Pipa, município de Tibal do Su l», numa linguagem visual, ou seja, num documentário. Discutimos os detalhes, preparamos o roteiro e nos demos conta de que faltava uma peça importantíssima. Aliás, várias peças. Basicamente percebemos que não tínhamos câmera para filmar o trabalho. Além disso, nos deparamos com um fator chamado ' preço '. Preço de aluguel de equipamento, preço de fita, preço de edição e preço de sabe-lá-Deus o que mais ... Foi aí que entrou da jogada o meu querido colega Bruno Marques. Além de termos 'tagiado juntos na Pró-Reitoria de Extensão da UFRN, Bruno é um dos editores de imagem da TV Universitária, ao passo que eu sou um dos repórteres que a casa dispõe. Ele se afeiçoou ao trabalho e tem nos ajudado, praticamente, na base da camaradagem. ( Isso existe ainda. Aleluia!) Com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, fizemos a nossa primeira visita à Praia da Pipa com o objetivo de percorrer os mesmos caminhos que Iva percorreu, mas de 'sa vez, percebendo a realidade com as lentes registradoras de uma filmadora digital. Em 'se primeiro encontro com nosso objeto de análise, procuramos entrar em contato com os principais eixos temáticos que o nosso documentário deve abordar. Um de eles é a história do lugar. Pedra do Moleque: A Origem A Praia da Pipa também foi chamada de «Ponta do Cabo Verde», por a visão admirável da Mata Atlântica que se tinha ao longe. Hoje o local é conhecido como Pipa, designação atribuída ao formato de uma rocha num dos seus pontos extremos, a Pedra do Moleque, que se assemelha a um barril de vinho ou cachaça, uma pipa. Fizemos imagens de 'sa pedra, mas, para termos a mesma perspectiva que os navegantes tiveram em épocas remotas, invariavelmente, teríamos que encarar uma viagem de barco. Em 'se caso, o único empecilho seria uma palavra de cinco letras à qual já me referi aqui: preço. Pois é. O preço cobrado por um passeio de barco na Praia da Pipa, pelo menos, para mim, um reles universitário, fica por a hora da morte. Mas, à exemplo da câmera, conseguimos a viagem de barco graças à Dona Conceição, mãe de Iva. Por ser freqüentadora da Praia há mais de duas décadas, ela conhece alguns pescadores, como é o caso de Damião, nosso barqueiro anfitrião. De o Barco Em relação à pequena viagem de barco, a idéia era sairmos de Pipa e nos encontrarmos com Damião no Porto de Tibal do Sul, município do qual Pipa faz parte. Damião aceitou nos levar até as proximidades da Pedra do Moleque para que pudéssemos fazer umas imagens da Pedra que deu origem à Praia. Queríamos captar, de repente, uma imagem parecida com a vista, cujos navegantes tiveram em épocas outras. Mas antes de zarparmos, tivemos que 'perar, além da maré encher, os pescadores terminarem de fazer alguns reparos no barco de Damião. As duas horas que ficamos à mercê do mar foram então aproveitadas para observar um pouco da lida daqueles homens do mar. A primeira coisa que chamou nossa atenção foi o zelo que eles têm com seus barcos. Apesar de rudes, o cuidado com a 'tética da embarcação é permanente. Quando ainda não havíamos chegado ao Porto, Damião e seus amigos já tinham pintado uma das laterais do barco. Agora era preciso pintar a outra. Eu e Bruno ajudamos a desvirar o barco e, a partir daí, outra coisa nos fisgou o pensamento. De repente, um dos pescadores que trabalham com Damião pegou uma 'pécie de maçarico e ateou fogo no fundo do barco. Como pretenso jornalista não poderia deixar de perguntar para que diabos servia aquela prática. Luis Antônio de Lima, pescador desde os doze anos de idade, diz que 'sa técnica serve pra tirar «as doença que dá na madeira do barco». Ele nos disse ainda que " antigamente isso se fazia com palha de coqueiro. Aprumava o barco, botava palha de um lado e oto e tocava fogo». Não demorou muito e Luis sentenciou: «Agora com bujão ficou primeira». Deixando A Pesca Depois de um breve histórico da Praia, refletir sobre os impactos sociais seria, também, outro eixo temático. E um exemplo patente de atividades que sofreram mudanças com a expansão do Turismo é a pesca. Em o pequeno trajeto entre os portos de Tibal do Sul e Pipa, perguntamos sobre como era atividade pesqueira da região. Francisco Barbosa, irmão de Damião, nos conta que antigamente no porto da Pipa ficavam abrigados cerca de 90 barcos, cada um dando emprego à, pelo menos, três homens. «Hoje 'se número caiu mais da metade. Ninguém quer levar mais a vida sofrida que pescador leva». Pensando de 'sa maneira, Damião e Francisco já começaram a incrementar sua profissão. Além da atividade pesqueira, os irmãos promovem agora passeios e alugam o barco para pesca 'portiva. Pipa Como Espaço Natural E Social Se antes a Praia da Pipa chegou a se chamar Ponta do Cabo Verde por a exuberância da mata, hoje, o que se vê são as construções irregulares que foram erguidas na cidade. A a 'peculação imobiliária, a descaracterização do lugar, fazem parte de mais um dos eixos temáticos que pretendemos abordar. Munidos da câmara filmadora e da minha câmera fotográfica para fazer uma 'pécie making-of do documentário, captamos diversas imagens de moradias (Algumas são verdadeiras manções), no meio da Mata Atlântica. Como objeto de análise, a Praia da Pipa oferece uma gama variada de percepções. Como tudo na vida, o lugar se caracteriza por os seus prós e contras. Pois, se por um lado, a Praia deixou de ser um simples reduto de pescadores e agricultores, sendo hoje, um lugar onde é possível se ter certa mobilidade social, por outro, problemas como o mau uso da paisagem, crescimento urbano acelerado, violência e perda de identidade, se fizeram presentes. Número de frases: 64 Seis bandas, doze canções e uma vontade em comum de expandir fronteiras. A coletânea A casa da árvore foi criada como uma maneira prática de driblar as dificuldades financeiras e as barreiras de divulgação que os grupos roqueiros da cidade sempre enfrentaram. Mas veja como as coisas são: o disco 'tá pronto desde julho do ano passado, tanto a masterização do CD quanto a arte do encarte; o projeto foi aprovado naquele mesmo mês por a Fundação Villa-Lobos (FVL), da prefeitura de Manaus, que se comprometeu a prensar uma tiragem de duas mil cópias até outubro de 2005. Depois passou para 1,5 mil CDs em novembro, que acabaram ficando para dezembro, pulando para janeiro de 2006 e, agora, novamente prometidos para abril, com a paralisação dos projetos por a transformação burocrática da FVL em Secretaria Municipal de Cultura. Para entender o caso, vamos por partes: De a situação Tudo bem que a internet desconhece geografia e hoje se configura como o meio mais democrático e barato para a divulgação irrestrita de qualquer coisa sobre qualquer coisa; mas ainda assim, as bandas manauaras permanecem praticamente no mesmo isolamento a que sempre foram submetidas devido às distâncias amazônicas. De ônibus ou de carro, não se vai longe; não se vai para fora do Amazonas porque passagem aérea é cara; e a principal via de acesso ao interior é fluvial, demorada e dispendiosa. Mesmo que uma banda decidisse fazer uma turnê só por o Estado, por exemplo, ela só se pagaria com patrocínio, o que nos leva a um outro ponto. Em o Amazonas, não há dinheiro fora de Manaus -- a não ser quando se leva em conta o tráfico de drogas nas proximidades da Colômbia. 80 % a 85 % de toda a arrecadação do Estado vêm somente da capital, e o principal responsável por 'sa soma é o Pólo Industrial de Manaus (Pim), a polêmica Zona Franca. Como todas 'sas empresas instaladas no nosso Distrito, nacionais e multinacionais, já são isentas de imposto por aqui, nenhuma investe em cultura no próprio Estado; toda 'sa verba fica no Sudeste, onde há mais possibilidades de isenções por meio das Leis de Incentivo à Cultura. Bem, então sobra Manaus para se trabalhar, uma capital cheia de bandas com trabalhos próprios de qualidade, muitas de elas com dez ou mais anos de 'trada, mas onde impera uma certa «ditadura do cover». Para tocar nas casas noturnas de maior público, é preciso ter um repertório médio de 40 canções, sendo que apenas duas ou três de elas podem ser da própria banda, o resto é clássico ou sucesso de rádio. Quem quer mostrar suas próprias músicas toca nos bares mais underground, que são muito bacanas mas não oferecem retorno financeiro; ou nos 'paços mantidos por a Secretaria de Estado da Cultura, que pagam muito bem e por isso são disputadíssimos. Quando os editais são abertos, no início do ano, cada banda consegue, em média, três ou quatro apresentações no ano todo. De a idéia Aí você se pergunta, o que isso tudo tem a ver com gravação de disco? Em Manaus não há gravadoras nem selos independentes, e gravar um disco com qualidade razoável ainda sai muito caro, pois mesmo com a proliferação de equipamentos digitais, mais baratos, há pouca gente trabalhando em 'sa área, e, menos ainda, quem conheça as artimanhas do rock em 'túdio. Para se ter uma idéia, os primeiros CDs de rock gravados em Manaus saíram em 2003, no projeto chamado Valores da terra, da FVL. Antes, só uma coletânea bancada por a mesma Fundação em 2001, de qualidade técnica no máximo mediana, porque as bandas não tinham experiência nenhuma de 'túdio, nem os técnicos tinham muita noção de timbragem e métodos de gravações mais afeitos ao rock. Resumindo, gravar com qualidade sai caro -- salvo exceção, uns R$ 9 mil incluindo prensagem e as bandas, por os motivos abordados no primeiro tópico, normalmente não têm dinheiro para bancar uma empreitada de 'sas. O resultado é a quase completa dependência do dinheiro público. Diante de tudo isso, Marcos Terra Nova, o vocalista e líder da banda Espantalho -- considerada o pai do indie rock manauara -- teve a idéia de reunir algumas das bandas mais antigas da cidade e fazer uma coletânea, diluindo os custos de gravação, e apelar para as Pastas Culturais na hora de fazer a prensagem. O objetivo era fazer uma vitrine para os grupos, enviar o disco para a imprensa 'pecializada do Rio e de São Paulo, por onde o vocalista já passou e conquistou contatos. «Com seis bandas fica mais fácil, são seis chances de você ser fisgado», brinca. De o disco De as bandas com muita 'trada, 'tão no disco Espantalho, Chá de Flores, Platinados, Charlie Perfume e Several, e a Casa da árvore acabou deixando um grupo da nova geração entrar, a Infâmia. Com exceção de 'ta última e da Espantalho, todas as demais já tinham gravações prontas, incluídas em seus próprios CDs que ainda não foram prensados -- adivinha!-- por falta de recursos. Entre janeiro -- quando surgiu a idéia -- e abril de 2005, a Espantalho e a Infâmia gravaram o material e juntaram-no às canções das demais. Em junho, o CD e o encarte 'tavam prontos. Marcos fez o projeto, encaminhou-o -- FVL e fez marcação cerrada. Ficou na porta da sede, conversou com o presidente do órgão, o cantor e compositor de toadas de boi, Tony Medeiros. Em julho, saiu a aprovação e a primeira data de lançamento: outubro de 2005. Marcos, então, 'perava ter o disco em mãos para começar uma nova etapa do trabalho: enviar o CD para outros Estados e sair novamente em busca de patrocínio para fazer shows por o Sudeste, utilizando, por exemplo, o Circuito Cultural do Sesc de São Paulo, por onde já passaram diversos artistas da MPB amazonense em parcerias com a prefeitura de Manaus. Outubro, novembro, dezembro, janeiro ... agora resta 'perar. De a promessa e dúvida Entre 2 e 13 de fevereiro, a reportagem do Overmundo entrou em contato com a Fundação Villa-Lobos -- ou Secretaria Municipal de Cultura -- sete vezes e ficou sabendo que o responsável por os projetos musicais é o cantor e compositor Gê Lins, coordenador das atividades culturais, que seria o único que poderia falar sobre o assunto, mas que 'tava de licença médica -- segue-se uma profusão de «liga amanhã que ele deve 'tar de volta» ou «acho que só semana que vem». Contatada por o Overmundo, uma funcionária da Diretoria Cultural do órgão -- que não quis se identificar -- pesquisou na lista de projetos para prensagem de discos e declarou não ter encontrado A casa da árvore. E agora, será que o disco sai? Finalmente encontrado por a reportagem, fora do ambiente de serviço, Gê, que declarou 'tar de férias na verdade, garante que sai. «Não há problema algum (com o projeto de A casa da árvore). É uma coletânea com seis bandas de rock. Vai sair», atesta. De acordo com o coordenador, a relação dos discos para prensagem 'tá acertada desde dezembro. O atraso, segundo Gê, só aconteceu devido -- transformação da Fundação em Secretaria de Cultura, fato que paralisou todos os projetos. A leva de discos na qual A casa da árvore 'tá inserida será lançada na primeira quinzena de abril. Número de frases: 58 Agora resta 'perar. I Mostra Popular do Nordeste traz grandes nomes da arte popular da Paraíba, Pernambuco e Ceará As apresentações acontecem em 'te final de semana nas praças da Paz (Bancários), Coqueiral (Mangabeira) e Bela (Funcionários II) em João Pessoa. Os mais importantes grupos de cultura popular da região nordeste 'tarão reunidos em João Pessoa, em 'ta sexta-feira (19), sábado (20) e domingo (21), na I Mostra de Cultura Popular -- O Nordeste Mostra sua Arte, um evento promovido por o coletivo cultural Muriçocas do Miramar que tem o objetivo de salvaguardar e valorizar o patrimônio imaterial dos Estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. São grupos de coco, ciranda, repentistas, maracatus, emboladores, cavalo marinho, reizado, aboiadores e tribos reunidas para mostrar o universo de suas brincadeiras e tradições. As apresentações acontecem em três praças públicas da cidade de João Pessoa: Praça da Paz, do Conjunto dos Bancários, Praça Coqueiral, localizada no bairro de Mangabeira, e na Praça Bela do bairro Funcionários II. Entre as atrações de 'ta primeira mostra 'tão programadas as apresentações da dupla de repentistas Bebé de Natécio e Daudete Bandeira (PB), Chico do Canolino (CE), Maracatu Leão da Fortaleza (PE), Coral de Aboiadores (PE), as emboladoras Terezinha e Lindalva (PB), o grupo Caiana dos Crioulos (PB), Cavalo Marinho do Mestre Zequinha (PB), Selma do Coco (PE), Reisado de Zabelê (PB), Pandeiro do Mestre (PE), Marzuca do Mestre Zé Preto (PB) e Lia de Itamaracá (PE). De acordo com o diretor executivo do bloco Muriçocas do Miramar, Marconi Serpa, a proposta é abrir uma nova possibilidade de entretenimento e vivência cultural, atingindo jovens, artistas, a população da cidade, turistas e com isso fazer com que mais um evento passe a fazer parte do calendário de eventos culturais da cidade. A 'timativa dos organizadores é de que compareçam em cada local cerca de duas mil pessoas. A realização da primeira edição da Mostra de Cultura Popular só foi possível graças ao patrocínio da Lei de Incentivo a Cultura do Governo Federal, da Eletrobrás e ao apoio da Prefeitura Municipal de João Pessoa e do Sebrae -- Paraíba. A intenção do diretor executivo do bloco Muriçocas do Miramar é que 'se evento seja ampliado para outras praças do nosso Estado e cada vez mais a cultura popular dos brincantes seja salvaguardada no Nordeste. «Queremos fazer circular a arte, mostrar a dança, o canto e encanto de nosso povo», acrescentou Marconi. Artistas populares de Pernambuco, Paraíba e Ceará na Praça da Paz As atividades da primeira edição da Mostra de Cultura Popular têm início em 'ta sexta-feira (19), a partir das 19h30, na Praça da Paz dos Bancários, com a apresentação dos artistas populares Bebé de Natércio e Daudete Bandeira, Chico do Canolino (CE), o Maracatu Leão da Fortaleza (PE) e o Coral de Aboiadores de Serrita -- Pernambuco. Bebé Natércio é compositor, poeta popular, cantador e contador de causos bastante conhecido no nordeste. Herdou das suas andanças por os sertões e da vivência com grupos e mestres populares a proximidade com a rua e a cultura popular. Atualmente reside em João Pessoa e faz parte da cena cultural da cidade, sendo freqüentemente encontrado em pontos de convergência social e artística, onde diversos artistas, professores, 'tudantes e pessoas de diferentes categorias se encontram. Em 'ta apresentação ele faz parceria com outro conhecido cantador Daudete Bandeira, que já declamou poesias com outros cantadores e tem um disco gravado com o cantador Oliveira de Panelas. O disco que se chama, Musique do Munde -- Brazil Improvised Song, chegou ao Brasil com poucas cópias e teve vendas 'gotadas. Daudeth Bandeira se apresentou em vários festivais de repentes, uma de suas grandes apresentações foi no Festival de Cantadores de Pombal (PB), em que apresentou canções como Nordestinação, Brasil Virgem, Homem na 4a Ronda, Sonho de Leandro (uma homenagem ao poeta Leandro Gomes de Barros), Ladeira de Tambaú, Provocação de Vizinho, Manicure, Conversando com as Águas, entre outras. Em seguida se apresenta Francisco Cassiano Nazaro, artisticamente conhecido como Chico do Canolino, de Baixio (CE). Chico é um músico popular, que toca um instrumento por ele criado, semelhante ao violino, feito de canos de PVC. Seu Chico do Canolino é um autodidata que toca sanfona e cavaquinho desde os oito anos de idade, quando inventou seu primeiro instrumento, um violão, feito de lata de doce. Com uma curiosidade incomum, ele aprendeu sozinho observando os músicos da sua cidade. Não freqüentou 'cola de música, toca de «ouvido» e confessa que desconhece os nomes dos acordes, mas quem prestigia seus shows fica encantado com o seu 'tilo. Ele tem se apresentado nas principais festas populares, da padroeira, em praças e terreiros dos sertões cearense e paraibano. Anualmente mostra seu trabalho em Cajazeiras (PB), na festa da cidade ao lado do renomado sanfoneiro Chico Amaro e também tem tocado ao lado de Nonato Cearense no São João promovido por as prefeituras da região. Outra grande atração da sexta-feira (19) na Praça da Paz é o Maracatu Leão da Fortaleza (PE), fundado na cidade de Flecheiras (PE) e tem como dono o senhor José Beto da Hora. É formado por vários fogosões, a exemplo do caboclo de lança, mestre e o terno de seis, Burra, Mateu, Catirina entre outros. Logo após se apresenta o Coral de Aboiadores de Serrita, também de Pernambuco. O coral foi formado em 1999, por a Fundação Quinteto Violado e desde então não parou de realizar apresentações por o país. O grupo foi convidado para participar do 'petáculo «Além da Linha D´água», em São Paulo, com a atriz Marília Pêra. Em tão pouco tempo conseguiram gravar três CD ´ s e participar com oito músicas no CD tributo a Geraldo Regis. É formado por os compositores e vocalistas Chico Justino, Cícero Mendes, Dedé, Quesado, Edgar, Murilo, Paulo Pedro, Cícera e Elonir. O repertório das apresentações é composto por músicas de aboios, toadas e capelas, além de muito improviso e interação pública. Praça do Coqueiral recebe Selma do Coco Em o sábado (20), a partir das 20h00, a Praça do Coqueiral do bairro de Mangabeira recebe a cantadora Selma do Coco (PE). A pernambucana Selma Ferreira da Silva ou dona Selma, como é mais conhecida, viveu no interior até os dez anos, quando travou contato com as festas juninas e as músicas da região, como o coco de roda. Mudou-se com a família para o Recife, casou-se, teve 14 filhos e ficou viúva aos 30 anos, quando foi viver em Olinda (PE). Lá trabalhava como vendedora de tapioca, e nos horários de folga começou a promover rodas de coco em seu quintal, que ganharam fama e a fizeram viajar para se apresentar em eventos e casas de 'petáculos. Em 1996, participou do badalado festival Abril Para o Rock, que provocou uma guinada radical em sua carreira artística. O «hit» que impulsionou o sucesso foi «A Rolinha», gravada por outros artistas e muito executada no carnaval de 97. Foi convidada a se apresentar em São Paulo (SP) e de lá para a Europa, notadamente a Alemanha, onde fez diversos shows. Em 1998 a Paradoxx lançou o disco «Minha História», também lançado na Europa. Outra atração da noite não menos importante são as emboladeiras, cantoras e compositoras Terezinha e Lindalva de Santa Rita (PB). Elas possuem um 'tilo satírico. As irmãs paraibanas tornaram-se conhecidas por apresentarem-se ao público no Largo da Carioca, Centro do Rio de Janeiro, cantando suas composições e vendendo fitas cassete de suas músicas. Apresentaram-se em outros 'tados em festas como a de folia-de-reis em Alto Belo, em Minas Gerais. Em 1999, lançaram por a Eldorado / Pequizeiro o CD «Terezinha e Lindalva», na série» Grandes repentistas do Nordeste», onde interpretam, entre outras, as emboladas «Proseado»,» Coco da baiana», O rico e o pobre «e» Coco do seringueiro», todas de autoria da dupla, além de «O macaco e o ferreiro, de Zé Monteiro e Curió». Está programada ainda a apresentação do grupo Caiana dos Crioulos de Alagoa Grande -- PB. Eles são integrantes reconhecidos por os Palmares como um dos 13 legítimos quilombos brasileiros teve os seus primeiros negros (Século XVIII), vindo de Mamanguape -- PB, de uma rebelião ocorrida num navio que aportou em Baía da Traição -- PB. Há 20 ou 30 anos atrás usavam roupas coloridas, onde ainda hoje se vê as tradições herdadas dos seus ancestrais africanos. A Caiana é um pedaço do continente africano nas terras do Paó. Os negros de Caiana já foram exemplos de pureza étnica. Alguns afirmam que Caiana surgiu por 'ses negros no passado terem fugido de Palmares. Seus instrumentos, suas músicas, danças e costumes, ainda guardam um pouco de sua cultura e de sua história. Até algum tempo atrás, era difícil o contato do povo da cidade com os negros, pois eles tinham medo do homem branco. O Cavalo-Marinho de Mestre Zequinha se apresenta também no sábado (20) na Praça do Coqueiral de Mangabeira. O grupo é o único em atividade na Paraíba e dos mais importantes do Nordeste. É reconhecido por diversos pesquisadores como possuidor de um 'tilo ímpar na apresentação musical dos diversos gêneros que perfazem 'se folguedo, como as toadas, abios e baiões. O 'tilo é bastante diferente do encontrado em grupos semelhantes do Rio Grande do Norte ou Pernambuco. Esse folguedo, ou «brincadeira do cavalo-marinho», como é denominado por os seus membros, representa atualmente a continuidade de uma longa tradição advinda da zona rural e, no passado, encontrada em cidades como Guarabira, Santa Rita, Borborema, Mari, Bayeux e outros. Mestre Zequinha é o que mais diretamente dá continuidade de uma longa tradição dos mestres que o antecederam, como Mestres Paizinho, Raul, Gasosa e Neco. Por 'se cavalo-marinho já passaram brincantes que hoje são mestres em folguedos semelhantes, como o Mestre Pirralinho, do Boi-de Reis Estrela do Norte, e João do Boi, do Cavalo-Marinho Infantil do bairro dos Novais. Lia de Itamaracá na Praça Bela dos Funcionários II Cirandeira de Itamaracá, ilha perto de Recife, Maria Madalena Correia do Nascimento é a grande atração da terceira e última noite da Mostra de Cultura Popular que terá como palco a Praça Bela do Conjunto dos Funcionários II, em João Pessoa. A apresentação cirandeira 'tá prevista para começar às 19h00. Lia de Itamaracá ficou conhecida por 'se nome nos anos 60, quando a compositora e cantora Teca Calazans registrou a quadra «Esta ciranda quem me deu foi Lia / que mora na ilha de Itamaracá». Lia canta e compõe desde a infância, e em 1977 gravou seu primeiro disco, o LP «A Rainha da Ciranda». Mas não enveredou por a vida artística e continuou trabalhando como merendeira numa 'cola de sua cidade. Em a década de 1990 foi redescoberta por o produtor Beto Hees, que a levou para participar do festival Abril Para o Rock em 1998, com grande êxito. Com repertório que inclui coco de raiz e loas de maracatu, além, é claro, de cirandas, acompanhadas por percussões (ganzá, surdo, tarol, congas) e saxofone, gravou o segundo álbum em 2000, o CD «Eu Sou Lia», lançado inicialmente por a Ciranda Records e depois por a Rob Digital. Por ocasião do lançamento, apresentou-se em outras capitais e ministrou workshops. Além de Lia de Itamaracá se apresentam no local o Reizado de Zabelê, o grupo Pandeiro Mestre (PE) e Marzuca do Mestre Preto (PB). O Reizado é uma das manifestações mais autênticas da cultura folclórica paraibana. Teve sua obra conhecida em todo mundo devido ao lançamento do primeiro CD da cantora Sandra Belê, outra artista de Zabelê que 'tá mostrando seu trabalho para o mundo. O Reisado teve início na localidade a partir da grande devoção ao Padre Cícero. A história começou em 1919, com a iniciativa do Senhor Manoel Venceslau, mais conhecido como Manoel João, que era praticante do Reisado na cidade de União dos Palmares em Alagoas. Fazem parte ainda do elenco as figuras do Rei e da Rainha, do Mestre e do Contra-Mestre, dos Embaixadores, do Médico, do Boi, do Jaraguá, dos Mateus, da Burrinha, dos Soldados e outros membros secundários, todos com indumentárias e funções próprias ao evento. Em geral as indumentárias têm como base a cor azul (com calças e saias brancas, enfeitadas com miçangas, 'pelhos, fitas de diversas cores, coroas que representam a Igreja do Município), máscaras, botinas e sapatilhas. Os instrumentos musicais utilizados são o cavaquinho, alguns maracás, um violão, uma caixa e um bombo. Serviço: I Mostra de Cultura Popular -- O Nordeste mostra sua arte Dias 19, 20 e 21 de outubro Locais: Praça da Paz (Bancários), Praça Coqueiral (Mangabeira) e Praça Bela (Funcionários II) Hora: a partir das 19h00 Programação DIA 19 De Outubro (Sexta-FEIRA) Hora: 20h00 Local: Praça da Paz do Conjunto dos Bancários Ø Repentistas Bebé de Natécio e Daudete Bandeira (PB) Ø Chico do Canolino (CE) Ø Maracatu Leão da Fortaleza (CE) Ø Coral de Aboiadores (PE) Dia 20 De Outubro (Sábado) Hora: 20h00 Local: Praça do Coqueiral de Mangabeira Ø Emboladoras Terezinha e Lindalva (PB) Ø Caiana dos Crioulos (PB) Ø Cavalo Marinho do Mestre Zequinha (PB) Ø Selma do Coco (PE) Dia 21 De Outubro (Domingo) Hora: 19h00 Local: Praça Bela Funcionários II Ø Reizado de Zabelê (PB) Ø Pandeiro do Mestre (PE) Ø Marzuca do Mestre Zé Preto (PB) Número de frases: 107 Ø Lia de Itamaracá (PE) A população brasileira tem acesso restrito à produção audiovisual independente do país. Não somente por que 'se conteúdo não encontra 'paços de distribuição e exibição, mas também por que muitas vezes nem consegue ser produzido, por a dificuldade de financiamento. Isso sem contar a quase inexistência de políticas públicas para 'sa área. O Brasil não possui nenhum tipo de fundo para financiar os projetos independentes. O que existe hoje são alguns mecanismos possibilitados por brechas na Lei do Audiovisual. O artigo 3o 'tabelece que os contribuintes do imposto de renda sobre remessa para o exterior podem utilizar 70 % do imposto devido na co-produ ção de longa-metragens, telefilmes e minisséries e obras cinematográficas, sempre de produção brasileira e independente. Já o artigo 39 da MP 2228-1/01 possibilita que a programadora de TV fechada que destinar para a produção ou co-produ ção de obras cinematográficas e videofonográficas brasileiras independentes 3 % da remessa de lucro para suas matrizes, fique isenta de pagar 11 % do seu faturamento para a Condecine (Contribuição Nacional para o Desenvolvimento da Indústria do Cinema). Em o livro «Democracia Audiovisual», o autor André Martinez aponta que» a produção de televisão tem uma série de 'pecificidades que não são contempladas devidamente por leis de incentivo tradicionais. Essas leis foram pensadas para realizar filmes, mas isso é apenas parte da programação televisiva." Em a mesma obra, ele apresenta o PROAV, um projeto 'tratégico para o desenvolvimento audiovisual, que contempla o incentivo à produção independente em TV. Duas das propostas descritas no livro são o Banco de Producão Independente para Televisão e a Incubadora de Produção Independente para TV na TV pública. Mas se os incentivos fiscais ainda se mostram tímidos enquanto fomento da produção independente, o problema é ainda maior quando se trata da distribuição e exibição, pois não existem leis ou políticas públicas que possam garantir 'ses canais. No caso do artigo 39, as programadoras acabam exigindo a exibição da produção nos seus mercados 'trangeiros, e muitas vezes ficam com os direitos patrimoniais durante alguns anos, antes de deixá-los nas mãos das produtoras brasileiras, o que seria o previsto em lei. Em janeiro passado, a Record e a Fox passaram a exibir simultaneamente a série «Avassaladoras», uma co-produ ção entre a produtora independente Total Entertainment e a Fox, produzida parcialmente com benefícios ficais. A Record comprou os direitos de exibição, levantando polêmica. Alguns profissionais da área audiovisual entenderam que uma rede de tv aberta (que é concessão pública) acabou sendo indiretamente beneficiada por os recursos públicos, sem oferecer nenhum tipo de apoio à produção independente. As emissoras de TV costumam se defender argumentando que 'tão dando um benefício ao 'pectador, que passa a ter acesso a mais conteúdo produzido nacionalmente. Assunção Hernandez, representante brasileira da Federação Ibero-Americana de Produtores de Cinema e Audiovisual, defende uma cota para a produção independente na TV. «O modelo que melhor funciona é o da França. Há uma regulação do 'paço nas TVs, com restrições a horários competitivos para exibição de programações ou publicidades que concorram com o cinema." Ela também é a favor da taxação: «O modelo da Espanha é bastante conveniente. Destina-se um percentual do faturamento para as produções independentes de audiovisual. Há também uma taxa sobre as mídias virgens que são usadas para copiar conteúdo audiovisual. O resultante de 'sa taxa vai direto a um fundo da entidade que representa os produtores». Hernandez lembra que o cinema nacional na França ocupa 50 % das salas de exibição e algumas vezes supera 'te percentual. «Há cotas de exibição de filmes franceses e europeus, como exigência de legislação nacional e do parlamento europeu." A França é um dos únicos países no mundo onde o cinema local consegue enfrentar a hegemonia hollywoodiana. Em os Eua, que possui a indústria audiovisual mais forte do mundo, as redes de TV têm um limite de horas para exibir programação própria. Os seriados e reality shows americanos que tanto sucesso fazem ali e no mundo são geralmente realizados por produtoras. Para 'tas, Newton Cannito, diretor do IETV (Instituto de Estudos de Televisão), defende políticas de financiamento para as pequenas, médias e até mesmo as grandes. «O erro histórico do audiovisual brasileiro foi ter políticas públicas que patrocinam projetos. As políticas têm que aprender a financiar empresas e processos. É isso que dará a futura 'tabilidade do mercado. Essas políticas seriam a partir da apresentação de planos de negócios de vários anos. Seriam empréstimos, no modelo do BNDES para financiar outras empresas. Com o complemento de políticas de capitais de risco, que podem seguir modelos que a FAPESP usa para financiar empresas de softwares (que a grosso modo tambem são conteúdos e precisam de investimento de risco)." Um projeto de lei de autoria da deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ) 'tipula regras para a veiculação na TV de produção independente e regional, conforme o Estado onde 'tão localizadas as sedes da emissora e suas afiliadas. Criado em 1991, o projeto vem tramitando no Congresso desde então, e encontra-se agora na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Outro projeto para a área é do deputado Chico Sardelli (PV-SP), e institui o Programa de Estímulo à Produção Audiovisual Independente (Pepai) e também um fundo para captar e destinar recursos para o financiamento do programa. A proposta 'tá na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara. Mas a televisão e o cinema não devem ser pensados como os únicos canais para a distribuição e exibição da produção independente, de acordo com Cannito. «É possível criar produtos direto para o mercado de DVD, alguns distribuídos diretamente em bancas de jornais e outros para públicos como a Rede Pública de Ensino. E ainda outros para mídias novas, como celular. Em geral, o ideal é ter produtos com 'tratégias simultâneas para lançamento em variás mídias, das quais o cinema é apenas uma das possíveis no leque de janelas do plano de negócios." Como saída para driblar as dificuldades internas, muitas produtoras têm buscado o caminho da co-produ ção e exibição internacional. A Mip-Com, que acontece em outubro na França e é o principal evento mundial de programação para TVs, tem sido um dos focos. O Brasil já tem um 'tande na feira e em 2005, foram fechados negócios que representaram cerca de US$ 15 milhões. Com a riqueza cultural do país, as produções locais costumam ter boa recepção no evento, mas as produtoras nacionais muitas vezes não conseguem fechar os negócios por não terem como viabilizar a sua parte financeira no acordo. A Apex-Brasil (Agência de Promoção de Exportação), através do seu Projeto de Promoção de Exportação da Indústria Brasileira de Áudio-visual, tem realizado ações que visam inserir as produtoras nacionais no mercado externo. Christiano Braga (Gerente Nacional da Carteira de Projetos de Serviços, Cultura e Entretenimento) explica melhor: «Esse projeto buscará ampliar a participação de novas empresas no mercado mundial de TV considerando as vantagens competitivas do Brasil, assim como criando condições para aprofundar a participação do país em segmentos 'pecíficos desse mercado como é o caso da animação e da programação infantil." Segundo ele, o potencial é promissor: «Com constantes investimentos em mão de obra e tecnologia, o Brasil pode competir de igual para igual com seus concorrentes internacionais." Apoiar e fomentar o conteúdo audiovisual independente significa democratizar a comunicação, criar novas oportunidades de emprego, evitar a formação de monopólios em 'se setor e dar abertura para que a diversidade cultural do país seja mostrada aos brasileiros. Essa produção é ainda um dos vértices fundamentais para desenvolver e consolidar a indústria audiovisual brasileira, como os Eua e a França já provaram. Número de frases: 57 A equipe de arqueólogos da Uece (Universidade Estadual do Ceará) comandada por a Dra. Verônica Viana descobriu várias fundações e objetos datados do século XVII, durante 'cavações realizadas para implantação do sistema de saneamento básico da cidade. A CAGECE (Companhia de Água e Esgoto do Ceará), responsável por a obra, contratou uma empresa 'pecializada para acompanhar as 'cavações, a fim de preservar o importante sítio histórico. De entre os achados mais importantes encontra-se 'ta fundação, que tudo indica ser o casarão dos «Zaranzas», tradicional família portuguesa que chegou por aqui no início do século XVII, no ciclo das charqueadas, quando Aracati ainda era um importante pólo-econômico. As 'cavações continuam e tudo indica que mais achados importantes irão brotar, visto que muitas construções foram destruídas, irresponsavelmente, para dá lugar ao progresso. Aracati é famosa por suas belas praias, destacando-se entre elas a internacional Canoa Quebrada, e por seu patrimônio histórico. O conjunto arquitetônico de Aracati passou a ser considerado Patrimônio Nacional em abril de 2000 sendo tombado por o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -- IPHAN. Suas construções datam dos séculos XVIII, época do Ciclo do Gado; século XIX ciclo comercial e do algodão, e século XX, ciclo industrial, demonstrando sua importância histórica e artística. De entre as diversas construções destacam-se: Cruz das Almas, datado de 1748 e que se constitui no 'paço urbano mais antigo da cidade, onde, segundo a tradição popular, teriam sido enforcados os primeiros 'cravos condenados à morte. A Igreja N.Senhor do Bonfim, inaugurada em 1774, uma importante referência da cidade por abrigar a festa do Senhor do Bonfim, um dos maiores eventos religiosos do município. A Casa de Beni de Carvalho, nascido em 03 de janeiro de 1886, Bacharel em ciências jurídicas e sociais, professor da Faculdade de Direito do Ceará, Vice-presidente do Estado do Ceará, deputado federal e interventor federal em 1945. A Casa de Jacques Klein: ilustre músico, nascido em 10 de julho de 1930. A Casa de Adolfo Caminha: importante literato nascido em 29 de maio de 1.867. O Sobrado do Barão de Aracati: Construído no século XIX e que abriga o Instituto do Museu Jaguaribano fundado em 15 de novembro de 1968. A Casa sede da Confederação do Equador que serviu de sede do governo da Confederação do Equador no Ceará em outubro de 1824. A Casa da Câmara e Cadeia datada de 1779 e que segue os moldes tradicionais das casas de câmara e cadeia no Brasil. Em 1960 o prédio foi restaurado por o IPHAN. Até o ano de 1988 funcionou como cadeia e atualmente abriga a Câmara dos Vereadores de Aracati. Oratório Bom Jesus dos Navegantes dedicado ao Senhor Bom Jesus dos Navegantes, sendo o primeiro templo de Aracati a ser construído exclusivamente para evangelizar os 'cravos, já que eles não podiam freqüentar as mesmas igrejas que seus senhores. A Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário que é uma construção dos primeiros anos do século XVIII, concluída na segunda metade do século XIX. Fontes: Número de frases: 26 Dr. Antero Pereira Filho, Historiador e PMA E foram felizes para sempre ... Você acha que toda história infantil deve terminar assim? Então, como diz a propaganda, 'tá na hora de rever seus conceitos. Os contos de fada são considerados um pré-vestibular para a idade adulta e preparam de uma forma subjetiva, as crianças para a trajetória rumo à idade adulta que, todos nós sabemos, não implica em acertos e vitórias o tempo todo. Mas, por desinformação e imbuídos das melhores intenções, a maioria dos educadores e pais amenizam os finais dos contos de fada que não apresentam um desfecho otimista, celebrado muitas vezes com um interminável beijo de amor. Ora, todos nós sabemos que infelizmente os casamentos não duram mais «até que a morte os separe» e que, mesmo os que se perpetuam, não são um mar de rosas o tempo todo. Por que, então, ficarmos condicionados a incutir desde cedo na cabeça dos pequenos (e principalmente das meninas) a idéia de que a grande sorte da vida é um bom casamento? Estaremos fadando nossas filhas a viverem uma existência sonambúlica caso não consigam se casar? Que tal pensarmos em histórias que também apresentem outras possibilidades de crescimento e evolução existencial ou então que contem sobre princesas que disseram não ao pedido do príncipe abestalhado com cabelinho repartido no meio? Quando sentirmos dificuldade em dar voz aos contos que tratam de questões polêmicas, o melhor caminho é primeiro investigarmos a nossa formação e a criança que ainda somos internamente. Em a maioria das vezes constatamos, após 'sa reflexão, que a dificuldade é nossa e não dos nossos alunos ou filhos. Adultos inseguros foram, na maioria das vezes, assombrados por pais igualmente temerosos. Educadores e pais que foram na infância assombrados por pais inseguros passarão «batidos» por o Ciclo da Morte Lograda que faz parte do imaginário popular. Sempre relato uma experiência que me fez refletir muito sobre 'se tema: numa das sessões numa enfermaria pediátrica (referência em tratamento de soropositivos), 'tava contando «Maria vai com as outras» da saudosa Sylvia Orthof que, em determinado trecho, traz a palavra veterinário. Por não ser comum ao universo infantil, perguntei se alguém sabia o que era um veterinário. Um de eles levantou o dedo e respondeu: «é o lugar para onde a gente vai quando morre». Desconcertado, mas sem perder o fio da história, respondi que veterinário é o doutor dos animais e o lugar ao qual ele havia se referido era cemitério. Segui em frente, mas saí da sessão muito «mexido». Nunca uma intervenção da platéia me ensinou tanto quanto aquela. Até então achava que por 'tar contando histórias num ambiente hospitalar (e principalmente numa enfermaria com aquelas características), deveria mostrar um mundo cor de rosa e repleto de leveza. Mas, na verdade, 'se era o desejo do menino Laerte que fora criado num ambiente no qual o tema morte era 'camoteado e nunca citado. No entanto, aquele ouvinte com seu aparte me mostrou que a dificuldade era só minha e que 'perava encontrar em mim um interlocutor para falar disso. A partir de ali, percebi que deveria sim contar histórias alegres, mas comecei a trabalhar no meu repertório outras que tratavam de ruptura e transformação, contos em que o protagonista tinha que vencer dragões e gigantes para fazer jus ao ser feliz para sempre. Em os trabalhos com comunidades, repetimos o mesmo engano: nossa intenção é sempre enaltecer a honestidade e o amor ao próximo para um público que sofre com o tráfico ou em instituições que cuidam de menores infratores. Por que não começamos simplesmente divertindo? Não é 'sa uma das funções fundamentais da contação de histórias? É preciso 'tabelecer elos com os ouvintes e eles não se entregarão se, logo de cara, você vier desfilando conceitos e dogmas. Depois que aqueles ouvintes tiverem se divertido com a sua história de abertura, você poderá narrar os contos que dão maior ênfase à moralidade e à ética. Mas, por favor, pegue leve na moral das histórias! Nunca o indicador em riste para finalizar um conto! A moral deve ser «lida» nas entrelinhas. Sempre digo que contar histórias é «servir um banquete» e quando você se propõe a servir uma lauta refeição, não pensa num prato só, não é mesmo? Você serve a entrada: as histórias mais leves e divertidas, facécias ou contos que enfatizem a importância do narrar. Depois, vem o prato principal: os contos mais extensos e, finalmente, a sobremesa, fábulas, lengalengas ou contos acumulativos. E aí, é só entrar por a perna do pato, sair por a perna do pinto e quem quiser que conte quatro. A contadora de histórias Rosana Mont ´ alverne citou numa oficina que ouvira de um contador africano que a maior qualidade de um narrador é a brevidade. Desde então, venho refletindo sobre isso e inserindo, pouco a pouco, na minha prática. É importante que diversifiquemos os temas tratados na Hora do Conto (mesmo como preparação para o sono) para que possamos ampliar na criança as inúmeras possibilidades que a vida apresenta. Nem só de sucessos a vida é constituída; às vezes, aprendemos muito mais com os erros e uma das funções da contação de histórias é acordar a criança para a vida. E nunca exagerar: é melhor que fique um gostinho de quero mais. E, tomando minha dica para mim mesmo, vou terminando 'se artigo por aqui. Quem quiser trazer questões para a coluna, é só me passar um e-mail, que vou adorar colocá-las na roda. Número de frases: 49 Talvez o que menos apareça no documentário Homens (22 min), de Lucia Caus e Bertrand Lira, sejam os homens (o dito gênero masculino da 'pécie humana). E aqui me arrisco em dar palpites sobre o porquê do título da obra. Ironia pode ser um de eles, porém, por o desenrolar do filme fica claro que o que acontece é um desconhecimento sobre o que vem a ser identidade de gênero por parte de quem produziu e dirigiu a obra. Diz muito sobre a postura documentarista que beira o turismo exótico por vivências diversas daquelas de quem documenta. Entre as nove personagens que aparecem no documentário, apenas três de elas performatizam uma identidade homossexual masculina. Bianca, Amapola, Bárbara, Ângela entre outras (sim, são nomes femininos!) fazem referência a si sempre no feminino. O que mais seria preciso para se perceber que 'sas ('ses?) sujeitas (sujeitos?) não são homens? A maioria das personagens se encontra na margem, na fronteira, ora ultrapassando-as, de e entre os gêneros. O preconceito, a discriminação e a violência que sofrem se devem justamente a 'se «desrespeito» aos limites. É por borrarem as categorias de gênero que uma (um?) de elas (de eles?) não pode agradecer a graça recebida na igreja e que outra (outro?) foi 'pancada ('pancado?) no canavial. E é por não perceber que aquele corpo masculino não condiz com a sua identidade de gênero que Bianca quis fazer com as próprias mãos a mudança de sexo. Então quais evidências seriam necessárias para que os diretores percebessem que aqueles corpos tidos como masculinos negam 'sa condição e não aceitam o fato de que possuir um pênis lhes põe um destino fixo como homens? Amapola, uma das personagens, 'teve presente na sessão de lançamento, que ocorreu no último dia 12, no Cine Jardins, em Vitória. Ela, visivelmente feminilizada, demarca claramente 'se pertencimento ao gênero feminino: " Tou agradecida por 'tar na cidade de Vitória». A percepção desse borrão não é evidente para todos, nem as (os?) próprias (próprios?) sujeitas (sujeitos?) que vivem a transexualidade e a travestilidade constroem um discurso contra-normativo assim tão claro. Mas, definitivamente, o documentário não fala de homens, mas aceitemos momentaneamente a ironia do seu título. O filme perdeu a chance de ir atrás das poderosas 'tratégias que fazem 'sas ('ses?) sujeitas (sujeitos?) terem um cotidiano extremamente violentado, mas não sucumbirem a uma completa inadequação existencial -- o que leva muitos ao suicídio antes mesmo de vivenciarem o desejo não heterossexual ou de se permitirem ultrapassar as fronteiras do gênero. Mostrou-se sim o quanto eles e elas se a dedicam ao lar, ao trabalho e foi ressaltada a busca por a felicidade como uma compensação à sua existência transgressora. Zé da Viúva, 'te (claramente?) um dos três homens do filme, fala de 'sas 'tratégias: já idoso se permitiu vivenciar uma homoafetividade, pois senão teria uma síncope ou algo parecido. A vida falou mais alto, negociou com a família, trouxe o objeto de afeto para o convívio íntimo e ainda deixa claro que a sua afeição é algo para além da relação erótica, o que desestabiliza ainda mais nossa percepção acerca das relações homoafetivas. Mas o que prevalece ao longo do filme é uma coleção de tipos exóticos. Os mais desinibidos diante da câmera ganham mais tempo, outros só poucos segundos. Falta uma maior contextualização, falta-nos o cotidiano. Algumas personagens 'tão visivelmente constrangidas quando interpeladas por ' fale da sua história! Como foi a sua descoberta? Como procura ser feliz? '. Há um misto de vitimização, heroísmo e humor -- mecanismos que depois de um certo momento do filme causa constrangimento (pistas de como se deu a relação personagem X equipe de produção). O que seria um momento para empoderar aquelas (aqueles?) sujeitas (sujeitos?) é, mais uma vez, uma apropriação 'tereotipada de suas vidas. O cartaz já é um indicador desse recorte. As flores de plástico -- componentes da cenografia e elemento kitsch da decoração de um lar no interior nordestino -- marcam uma feminilidade também 'tereotipada naqueles corpos. O que significa Bárbara arrumando e decorando caprichosamente a mesa senão a perfomance de uma dedicada dona de casa? Mas o documentário não se propõe a falar de homens homossexuais do interior nordestino? Aquelas (Aqueles?) sujeitas (sujeitos?) não seriam homens? São e não são. São o que as teorias de gênero mais contemporâneas chamam de identidades queer, isso mesmo, 'tranho em inglês. Estranheza positivada, pois 'sas ('ses?) sujeitas (sujeitos?) mostram o quanto o investimento normativo para a construção da dicotomia dos gêneros masculino e feminino é falho e artificial. Não dá conta dos nossos desejos, afetos, prazeres e expressões. Por isso, o corpo -- patrimônio primeiro da nossa existência -- borra, bagunça e denuncia 'sas categorias. Homens diz muito pouco dos homossexuais do interior nordestino, e menos ainda sobre homens nordestinos. O título destoa do conteúdo do documentário. É mesmo uma ironia, apesar de eu não crer na intencionalidade de ela. E assim como as tecnologias do gênero 'quadrinham nossos corpos, desejos, afetos antes mesmo de nascermos, Homens 'quadrinhou a vida daqueles (daquelas?) sujeitos (sujeitas?) queers nordestinos (nordestinas?). O documentário reforça a 'tranheza, agora aqui negativada, daquelas personagens. E mesmo que o riso alivie um pouco desse mal 'tar da suspensão categórica, ele continua lá a nos incomodar. Ao que parece, os diretores darão continuidade a 'se trabalho e produzirão um longa-metragem com o material gravado de que já dispõem. Espero que a nova obra tome outro rumo, que as vidas daqueles (daquelas?) sujeitos (sujeitas?) ganhem amplitude e que outras relações -- para além da sexualidade e de um projeto de felicidade compensatória -- apareçam. Que não seja apenas uma ampliação da coleção de tipos exóticos. Número de frases: 72 O poeta peruano Mirko Lauer 'colheu como epígrafe para o seu livro Os poetas en la republica del poder, 'ta maravilha de José Lezama Lima, que diz assim:» ... el encapotado odio de siempre de los poetas tejedores de la gran resistência en contra de los asquerosos y progéricos, porcinos y tarados protectores de las letras». Uma provocação, ou um reparo que poderia ser aditado à divisa do autor cubano é o seguinte: muitos poetas também se encontram entre os asquerosos, porcinos e tarados protetores das letras e da poesia. Isto até não seria de 'tranhar, inclusive porque, em nossos dias, parte importante de eles se forma e se formará cum laude dentro dos muros da academia, instituição cuja apetência museológica se presta apenas para ratificar e amparar o consagrado. De outra parte, o papel, a ingerência da crítica num suposto aprimoramento da poesia no Brasil é reconhecido por os leitores das revistas dedicadas ao gênero? Sabe-se lá. A rigor, a crítica só contribui para o aprimoramento da crítica. A tarefa crítica, naturalmente, deveria propor leituras novas mesmo para as obras arraigadas em chão canônico. Ao mesmo tempo, ela não pode descurar de interpretar o que carece de interpretação. No entanto, por mais genial que seja a explicação de um poema, ela jamais poderá substitui-lo. E 'sa meia-idéia serve de salvaguarda contra a presunção de uma hiper-interpreta ção -- como também de uma hiper-tradu ção -- teorizante e toda-poderosa, que reifica e eviscera o poema de modo a fazer com que sua existência se justifique apenas para servir às necessidades de 'ta mesma interpretação, refém de uma série de interesses e mistificações. à crítica resta tão-só secundar o poema. Um reclame antigo aponta falta de curiosidade e ousadia à maioria dos críticos. As revistas literárias (seja em papel, seja em pixel) deveriam contribuir mais para a problematização das disputas de poder que suportam as imposturas do sistema do que apenas servir para irrigar o narcisismo intertextual dos grupelhos que de elas participam. O aparecimento e a continuidade de diversas revistas literárias, e o atrito competitivo entre elas, só fazem aperfeiçoar ou radicalizar os projetos editoriais e 'tético-críticos desse setor. Elas fazem a metalinguagem necessária, bem, digamos que deveriam fazer. Revistas são meios, e, muitas de elas, apenas a serviço do mercado livreiro-editorial, ou de um controle convencional ou interesseiro da interpretação. E, hoje, em poucos casos, poderia-se-afirmar que sua função se presta à discussão de idéias e de questões 'téticas atinentes à contemporaneidade. Não há mais chance para a figura da revista-manifesto. As melhores são aquelas que aboliram o compadrio. No entanto, a questão que fica é: qual de elas barganha menos? Frente às condições brasileiras, a poesia e a literatura contemporâneas 'tão bem representadas ou servidas, quer em suportes tradicionais, quer no âmbito da internet, por diversas publicações. Um dado significativo é a vida relativamente longa e a dinâmica das transformações de algumas de 'sas experiências. Posso lembrar, por exemplo, as revistas Coyote, Inimigo Rumor, Sibila (que não se restringe apenas ao suporte papel), e Babel; entre as de cepa internética, cito, entre outras, a Revista Critério, Germina Literatura e Cronópios. Se não 'tou enganado, a idade das publicações aqui citadas ronda a casa dos dez anos, algumas para mais, outras para menos. Segundo «Friedrich Nietzsche» o comentário demasiadamente elogioso produz mais indiscrições que a censura», assim, no bojo da minha análise lacunar a propósito de 'sa hemeroteca viva em cujas páginas -- às vezes a contragosto -- nos vemos 'pecularmente, tento aplicar algo desse 'pírito reflexivo preconizado por o pensador não-alemão. Portanto, os limites de 'sas revistas e publicações são os limites de suas opções de linguagem, isto é, os limites do seu pensamento que se desdobra em tensões de fundo-forma. O que se nota, grosso modo, é que as revistas emprestam seu charme a 'sa erudição perdulária ou a 'se 'nobismo de prontidão que moldam, no presente, a linguagem de certa parcela da poesia dos nossos pares. Os 'tímulos sobre a sensibilidade aumentam em progressão geométrica e produzem o «mal de Usher», do conhecido conto de» Edgard A. Poe, A queda da casa de Usher», onde se descreve a mórbida agudez dos sentidos do personagem, o embotamento da percepção por o extremo requinte, e 'ta narrativa, ao menos como ironia, serve de metáfora para o poema do nosso agora-agora. O altíssimo grau informacional atingido por o fazer poético do pós-tudo e o risco-oportunidade de repetição ou de inovação que nos ronda, «otimizam» a tal ponto o nosso faro experimentado e burguês, que só conseguimos suportar, agora, a forma mais insípida de poesia e fruir textos de uma certa densidade intransitiva que, por seu turno, flertam com um prosaísmo fashion. Não se trata de reivindicar uma «poesia melhor». Proponho apenas uma poesia não-emasculada. Em a recente edição da revista Inimigo Rumor, com a bela capa em prata e preto, comemorativa dos seus dez anos de circulação, alguns desses gestos da expertise contemporânea como que ganham a moldura requerida à sua fruição. A revista enfeixa colaborações críticas muito interessantes, destaco o ensaio «Hagiografias» de Flora Süssekind, que 'tuda as formas hagiográficas trabalhadas por Paulo Leminski em sua obra; e a multi-resenha de Leonardo Martinelli, cujo título, de inegável corte acadêmico, parece tema de seminário ou simpósio de Letras, «Primeiras impressões e segundas intenções da crítica diante de certa poesia contemporânea». Martinelli, num primeiro momento, resenha e confronta os livros Página órfã, de Régis Bonvicino e Sol sobre nuvens, de Josely Vianna Baptista; e, num segundo tempo, se debruça sobre as obras de alguns novíssimos, a saber, 20 poemas para o seu walkman, de Marília Garcia, Rilke shake, de Angélica Freitas, a cadela sem Logos, de Ricardo Domeneck e Estudos para o seu corpo, de Fabrício Corsaletti. Tentando «discernir entre o que parece importante e o que de fato importa» -- sirvo-me das palavras do crítico, ou ainda, me perguntando sobre as «segundas intenções» ou precipitações subjacentes à matéria da resenha, noto que com relação aos livros dos poetas não-novíssimos, isto é, Página órfã e Sol sobre nuvens, Martinelli, 'colhe uma visada no mínimo menos leniente no que diz respeito às eventuais imperícias detectadas e apontadas por ele em 'sas obras. O senso comum diz que a cobrança deve ser feita a quem mostra mais competência. Se 'te é o parti pris do crítico, o dispêndio de atenção devotado às obras das vocações promissoras, parcela então a cada um o seu quinhão. Embora, como argumenta «Leonardo Martinelli,» o campo da poesia contemporânea 'tá longe de ser uma 'trutura solidificada de nomes e posições», também é verdade que as quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos. Trata-se do bom e velho ponto de vista baudelairiano a respeito da parcialidade da crítica. A inexistência de testemunhos desinteressados; o analista que se situa. A revista carioca 'tampa ainda em suas páginas o fundamental ensaio «Crise do verso», de Mallarmé (até agora não havia para 'sa peça histórica uma tradução para o português, e a tarefa foi levada a efeito por Ana de Alencar). Pois bem, a certa altura do ensaio, o autor de Un Coup de Dés, 'creve que «Jules Laforgue» iniciou-nos no charme seguro do verso falso», deixando de lado a discussão anacrônica acerca da crise ou mesmo do encerramento-enterramento do verso, fiquei tentado a tresler a afirmação de Mallarmé aplicando-a contra o elenco de poetas reunidos nas páginas de Inimigo Rumor. Em a presente edição há uma coesão transversal no que toca à dicção dos poetas. Tanto os mais, quanto os menos conhecidos se mostram convencionais versemakers da fratura, da fragmentação. O aproveitamento acrítico desse verso fake resolvido na 'tabilidade de uma sempre elipse. «Eduardo Sterzi: «Temos que / castrar os gatos / (Não há quem / durma)», do poema Berceuse. E o falso lirismo relax dos poetas de 90, coloquialismo de blogueiros, " Júlia Studart: «Você nunca me enganou / com 'sa conversa frouxa / ( ...) / Depois, / pus vasos / de orquídeas / no meio do vazio». E de lambuja, muitos poetas gastando o seu divino latim na prática indecorosa da prosa poética, ou seja, a proesia, como querem uns e outros. Em cada revista se plasma um recorte do 'pírito de uma época e de um lugar. Uma dialética entre destinação e recepção. O descolamento ou não do contexto, é produto de uma conquista. Qual a imagem possível do contexto sobre o qual deslizam 'sas revistas? Não é muito fácil colocar a poesia atual dentro de uma mirada cujo enquadramento seja suficientemente amplo a ponto de permitir ao observador o vislumbre de uma figura que faça sentido em seu conjunto. Em os últimos anos tenho pensado e 'crito bastante a respeito da produção poética recente. Um exemplo é «Lugares-comuns removeme» (http://www.overmundo.com.br/overblog/lugares comuns da poesia contemporanea), artigo que 'crevi analisando a linguagem de boa parcela da poesia dos meus pares, mas por meio do livro Planos de fuga de Tarso de Melo. Experimentei fazer uma crítica metonímica: vislumbrei as virtudes e os vícios da atual poesia encapsulados no volume do poeta paulista. Assim, posso resumir as figuras a que cheguei na tentativa de descrever a verdade cambiante de 'sa poesia: ( 1) numa perspectiva panorâmica, a competência poética define a nossa práxis, nos tornamos excelentes diluidores dos modelos consagrados; ( 2) o elogio de uma pluralidade hipocritamente tolerante 'tá na base desse ecletismo poeticamente correto; ( 3) cada vez mais, os poetas parecem necessitar das credenciais da academia e do mercado editorial; e (4) uma retomada algo virtuosística de um vanguardismo como mise-en-scène, agora, apenas um recurso de estilo constante do repertório oferecido por uma tradição bem recente. Entretanto, os poetas relevantes para a cultura do país 'tão todos mortos. Seus livros vendem muito bem. Poesia precisa de tempo. Há poetas de agora-agora que conseguem excelentes tiragens para os seus livros, todos eles irrelevantes. Como diria o socrático Zé Paulo Paes, cada um de eles é o poeta mais importante de sua rua. (*) verbavisual Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007). Número de frases: 79 Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com A supremacia da 'tética Ele apresenta duas motivações 'tranhas para ter iniciado o curso de Artes Plásticas na Universidade de São Paulo: uma curta carreira de pintor de rodapés na Inglaterra e a proximidade que teve com os maiores museus da Europa enquanto 'teve naquele continente. De volta ao Brasil, passou a se dedicar mesmo a outra forma de expressão, a literatura, tendo recentemente lançado seu segundo livro, Será um romance distópico de ficção científica, e ainda abriu uma editora que pretende se 'pecializar em 'te nicho literário. Falando diretamente da capital paulista, o 'critor e pintor comenta as diferenças entre 'ses dois mundos artísticos; descreve as vantagens da FC para se contar histórias que tenham a sociedade como protagonista; e filosofa sobre a função da 'tética. Com vocês, o filho 'piritual de Friedrich Nietzsche e de Clarice Lispector, Ivan Hegenberg. Você é um artista plástico por formação, mas tem se dedicado à literatura como forma de expressão. Poderia fazer um breve retrospecto de sua produção literária e nas artes plásticas? Antes de entrar em Artes Plásticas, na USP, eu cursei um ano de Letras, já pensando em me tornar 'critor. Logo vi que Letras prepara bons professores, mas não me ajudaria muito a 'crever, e tranquei a faculdade para ficar nove meses vagando por a Europa. Não sei se foi minha experiência como pintor de rodapés em Londres ou a proximidade com os principais museus do mundo, mas quando voltei 'tava decidido a enveredar por as artes plásticas. Eu sempre gostei de desenhar, e acho que há situações que se expressam melhor com cores do que com palavras. Mas não parei de 'crever, a 'sa altura eu 'tava terminando os contos do primeiro livro. A grande incógnita circulou pouco mas teve uma boa aceitação por outros 'critores. Foi fácil perceber que o ambiente literário, por mais que tenha seus problemas, 'tá bem mais arejado do que o das artes plásticas -- não é à toa que 'te ano teremos em São Paulo a primeira Bienal do Vazio. Acho que 'capar um pouco do ambiente de artes plásticas e 'crever o Será me deu ânimo para agüentar bobagens desse tipo. De uns tempos para cá, tenho 'crito alguns artigos sobre arte contemporânea, tentando combater as idéias fixas que eu encontro nas exposições e na crítica. Em seu primeiro romance, apesar de ele 'tar inserido num nicho da ficção científica dos mais tradicionais, a distopia, é notável a influência que outros autores fora da literatura de gênero exerceram sobre você, sem falar da área da filosofia. Friedrich Nietzsche e Clarice Lispector são os mais notáveis, mas não devem ser os únicos. Que outros 'critores, de FC ou não, 'tão entre seus preferidos e lhe servem como referência? Em a verdade, não me apego muito aos gêneros. Acho que o melhor da ficção científica -- por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, K. Dick -- vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. De o mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe 'creve terror para assustar criancinhas. O importante é que o livro seja bom. James Joyce é quase o oposto de Kafka, mas os dois são excelentes. Guimarães não tem nada a ver com Bukowski, mas os dois me interessam. Não dá pra fechar a lista, mas, de todos, considero Nietzsche uma 'pécie de pai 'piritual, sendo Clarice minha mãe. Também tenho lido bastante Deleuze, que a meu ver coloca Nietzsche diante dos problemas de hoje. Por que você 'colheu um cenário típico de ficção científica para contar uma história tão atípica de ficção científica? Qual sua ligação com 'te gênero 'pecífico da literatura fantástica? Em os meus primeiros contos eu falei muito do indivíduo, e de 'sa vez eu quis falar sobre a sociedade. Mas em vez de colocar meus personagens no mesmo mundo em que vivemos, preferi criar um outro ambiente, para olhar alguns problemas a uma distância 'tratégica. Decidi então jogar um monte de coisas em que eu 'tava pensando para o futuro. Um dos elementos atípicos do Será é o fato de termos um futuro 'tagnado, uma desaceleração na história do homem, apesar de ainda repleta de conflitos. Minha intenção era fazer com que os problemas fossem percebidos com o máximo de pureza, por isso não podia ser uma história no presente: eu não queria que as conseqüências fossem atribuídas a circunstâncias meramente conjunturais. Eu busquei em 'ses homens do futuro forças muito semelhantes às que agiam no homem primitivo, e que com o tempo só vão se sofisticando, mas não desaparecem. Para mim, as questões principais do livro não se remetem nem ao presente nem ao futuro, acredito que sejam eternas, mas uma das coisas que mais me divertiu no processo de 'crita foi compor a ambientação. O oxigênio retirado da água, o sangue como moeda de troca, as ações do Comando Água, a telepatia rolando solta, os experimentos científicos radicais, etc.. Acho que é 'se o grande barato da ficção científica: a imaginação se mostra capaz de recriar o universo inteiro, não só uma situação isolada. E ainda assim, o link com a realidade permanece, tanto que os franceses chamavam a literatura FC de «romances de antecipação». Um dos capítulos que mais chamam a atenção em seu livro é «O Supremo Esteta», no qual você 'pecula sobre uma nova religião que passa a ser predominante naquele cenário, um ideário mítico que sobrepõe conceitos 'téticos a questões morais. Desde o lançamento do livro, já houve alguma reação dos leitores às idéias contidas naquele trecho da obra? Sim. Já chegaram a me perguntar como faz para se converter. É bom deixar claro que é uma ficção, portanto «Será» deve ser entendido como «Poderia ser». Acho que se eu fosse realmente 'perto, fundaria uma religião, em vez de levar tão miseravelmente 'sa vida de 'critor. Quantas seitas 'quizofrênicas, uma mais bizarra que a outra, lucram com a ingenuidade alheia? Acho que se eu fosse mais cara-de-pau, o 'teticismo-maior poderia mesmo vingar como religião, mas prefiro mantê-lo na ficção. Além da leitura puramente 'tética, que outras intenções nortearam aquele capítulo? Eu mesmo não entendo muito bem o que eu quis dizer com «O Supremo Esteta». Se eu soubesse com muita precisão tudo o que quero transmitir, eu nem me daria ao trabalho de 'crever ficção. Aliás, aí é que 'tá a força da 'tética: o fato de ela não poder se reduzir a nenhuma lógica identificável, por mais que alguns acadêmicos acreditem que sim. Acho que mais de cem anos depois, Nietzsche ainda não foi compreendido, caso contrário todo intelectual evitaria leituras moralistas de uma obra de arte, e infelizmente não chegamos a 'se 'tágio de 'clarecimento. Está mais do que confirmado que a moral só serve para 'cravizar o povo, pois nem a promessa católica de danação da alma por toda a eternidade impediu que os senhores abusassem dos servos. Sendo assim, como pensar que o moralismo das ideologias seria capaz de conter nossos instintos destrutivos? O homem 'tá em perpétua mutação, mas se tem algum traço constante é a oscilação entre a vontade de criar e a de destruir. A 'tética é o campo ideal para exercitarmos as duas coisas ao mesmo tempo, mas 'sa ânsia deveria ser satisfeita livremente, sem o condicionamento de qualquer doutrina. Os autores que me fazem bem, que me aliviam das neuroses, são os que assumem uma visão trágica da existência. Ou seja, os que entendem que não existe bem nem mal, que a vida não faz sentido algum, que só tem felicidade quem suporta também o sofrimento e que nossos sentimentos e convicções costumam ser ambíguos. Vão em 'sa linha as traduções dos bons observadores da natureza humana. Em a minha vida fui obrigado a me confrontar com tudo isso, que pode assustar mas também liberta, porque nos permite criar a vida conforme o paladar, sem dogmas, bela e inexplicável como uma obra de arte. A ética que cada um segue sempre foi, no fundo, uma questão de gosto pessoal, mas é mau gosto quando não se percebe como tal, pois se torna postiça, subserviente. Os personagens do livro fazem constantes referências a um período histórico em que não viveram, que muitos de eles chamam de «no tempo do capitalismo». Curiosamente, apesar de muito do cenário proposto lembrar conceitos igualitários do socialismo, e mesmo com parte da trama se desenrolando em cidades como Pequim, não existe nenhuma comparação entre aquela realidade e as várias experiências socialistas reais que existem ou existiram em nosso mundo. Há alguma razão para 'sa ausência de referencial? Boa pergunta. Eu não senti necessidade de falar diretamente sobre os países que vivem hoje o socialismo real porque seu processo histórico parece 'tar no fim, e portanto não alterariam muito os eventos que desembocariam na derrocada do capitalismo. Não considero a China um país socialista: 'tá claro que vive uma lógica capitalista ainda mais selvagem que a nossa, com a agravante de 'tar sob uma ditadura. Por 'sa reviravolta Marx não 'perava, e rasteiras da realidade desse tipo são ótimos motivos para os artistas não facilitarem uma captura muito materialista. Acho que se eu falasse muito do socialismo real, as interpretações tenderiam para a macropolítica, que eu considero ultrapassada e redutora. Eu deliberadamente evitei deixar o sistema social falar mais do que as personagens, exatamente porque creio que nosso campo de batalha 'tá na subjetividade, e não nas grandes ideologias ou nos modelos econômicos. Arte não tem capacidade para mudar o mundo e faria muito melhor se tentasse mudar as pessoas. Você pensa em retornar algum dia a 'se mesmo universo ficcional ou já explorou tudo o que tinha vontade de ele? Sim. Escrevi um conto, «Vladja», sobre um personagem coadjuvante de Será, que vai sair numa coletânea da Record. O conto me satisfez tanto que eu já planejo um livro só com histórias curtas retomando o universo do Será. O seu livro de 'tréia, A grande incógnita, foi publicado por uma pequena editora, a Annablume. Seu segundo livro já saiu por uma editora da qual você é um dos sócios, a Ragnarok. Pode fazer uma análise desses dois extremos tão distintos como forma de publicação? A Annablume não é assim tão pequena, ela tem porte equivalente ao de uma Hedra, mas como trabalham mais com não-ficção, ainda 'tão construindo sua tradição na literatura. Estão no começo, mas acho que é uma das poucas editoras sérias do Brasil, que carece de gente com visão. Para o Será eu já queria uma editora um pouco maior, achei que o livro merecia divulgação, que ele podia desencadear discussões fortes, e despachei originais para todas as grandes. Foi uma decepção enorme, que diz muito sobre nosso mercado editorial: obtive ao menos duas respostas em que consideraram o livro muito bom, e mesmo elogiando não se arriscaram a investir. A lógica é 'sa mesma, acho que falta visão e falta coragem por conta dos editores. Eu 'crevi para o Nelson de Oliveira desabafando, e ele me convidou para montarmos a Ragnarok. Tem sido um prazer trabalhar com o Nelson, que é um bom amigo e uma das figuras que mais respeito da nossa literatura. Outra coisa bacana é que ao montar uma editora independente você aprende muito sobre todas as etapas do processo. Quais são os planos de sua editora para novos lançamentos? A Ragnarok pretende se 'pecializar na área da literatura fantástica? Ela faz avaliação dos originais de outros 'critores do gênero? A Ragnarok já nasceu 'pecializada em ficção científica e fantasia. Não é exatamente uma empresa, 'tá mais para um clube, já que não bancamos as despesas do processo, mas também não 'tamos interessados em lucrar com o autor. A idéia é orientar sobre a capa, a gráfica, a diagramação e a divulgação, para que o livro, mesmo saindo em 'quema independente, não faça feio diante de um produto das editoras profissionais. Em os nossos planos 'tá um livro de crônicas do André Carneiro, deliciosas de se ler, e um romance do Nelson, que ainda 'tá sendo 'crito. A gente faz avaliação de originais, com o tempo vamos mostrar algumas surpresas. Pode ser um pouco piegas citar Renato Russo, mas de fato o futuro não é mais como era antigamente, 'tamos num momento em que a ficção científica tem de tudo para se renovar. E você como 'critor, já tem outros projetos planejados para o futuro próximo? Pretende voltar a trabalhar com temas da FC? Recentemente, ganhei uma bolsa do governo de São Paulo para concluir meu próximo romance, Puro enquanto, que talvez seja meu livro mais ambicioso. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, e os costurei na história de um publicitário que entra em coma. Em certo momento, ele percebe que 'tá sonhando e quer despertar, mas «despertar» ganha outros sentidos. A linguagem é pouco usual, com texto e imagens em constante diálogo. Também quero 'crever para teatro e cinema. Quanto à ficção científica, só não quero 'crever nada que me pareça inferior ao Será, mas assim que eu tiver um material consistente, lanço uma coletânea de contos. Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. O livro Será foi resenhado no Overblog: Número de frases: 114 http://www.overmundo.com.br/overblog/nao-veras mundo-nenhum Pajé-CURANDEIRO KISIBI SUMU A Aldeia da Lua é um dos pontos mais atrativos do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros. Etnias indígenas como Krahô, Avá Canoeiro, Kamayurá, Guarany-Mbya, Fulni-ô, Apinajé, Dessana se misturam numa grande festa onde todos apresentam sua maneira tradicional de viver como: danças, comidas típicas, vestimentas e outras particularidades. De entre 'sa mistura chama a atenção o Pajé Curandeiro Tradicional, Kisibi Sumu, ou Raimundo Veloso Vaz da Comunidade de São João do Tupé à 25 quilômetros de Manaus, onde ele é o líder 'piritual da comunidade de 35 pessoas que habitam duas malocas (ou ocas) com 6 casas. Como líder ele ensina à sua gente a ter respeito com as pessoas e principalmente conservar sua cultura. A família para ele é sagrada. Todos se ajudam e se respeitam e as crianças merecem uma atenção 'pecial. A 'posa do Pajé, Yupahkó (ser humano da noite símbolo da lua) muito séria, diz: -- Criança não pode 'pancar, bater nos filho 'traga a cabeça, o miolo vira e perde a inteligência, para educar é só com conversa ou então diz que vai deixar sem comer, aí eles obedecem. Outras vezes promete levar no passeio no rio ou outro lugar. Kisibi Kumu, segundo ele, quer dizer «símbolo do sol -- curandeiro». Seu Raimundo trabalha com plantas medicinais e rezas tradicionais que é uma herança de seus antepassados do Alto Rio Negro no município de São Gabriel, já na fronteira com a Colômbia e Venezuela. Sobre o uso das plantas nativas da Amazônia ele diz com muita segurança: -- Em o reserva florestal onde moro há muita planta medicinal, tenho prática e cuidado para não 'tragar a mata. Isso ser muito importante porque precisamos das plantas sempre. A planta mais usada por ele é a sacarura mira, que serve para asma, inflamações do útero, reumatismo, dor de cabeça, febre, câncer e aids. Porém afirma que além das plantas precisa também haver a pajelança, a reza tradicional. Pode citar e comprovar inúmeros casos de cura de 'sas doenças. A cura da AIDS ele descobriu há pouco tempo. Foi quanto 'teve num encontro de Pajés Curandeiros no Rio de Janeiro e já no final do atendimento uma senhora lhe pedia, por favor, que falasse com ela e insistia: -- Seu Pajé, por favor o sr sabe remédio para AIDS? -- Não, nunca fiz remédio para AIDS, só para câncer e outras doenças. A mulher insistiu: -- Por favor Pajé, minha filha 'tá morrendo, já 'tá muito magra e caiu quase todo o cabelo! Ele respondeu: -- Minha senhora infelizmente não posso fazer nada, não vou mentir, não sei remédio para 'sa doença. Diante da insistência da senhora, o Pajé lhe passou uma garrafada, fez a prece tradicional e lhe deu a seguinte instrução: -- Pare com todos os remédios que ela tiver tomando, dê só a garrafada e eu vou continuar fazendo a reza por ela. A sra lhe perguntou: -- Como faço para saber o resultado? Sorrindo ele conta: -- Esse galho é fraco: a senhora joga fora os remédio da farmácia e toma o caseiro. Toma as garrafada e leva no médico só para examinar. De aí a três meses seu telefone toca: -- Seu Pajé tenho uma notícia para o senhor! Ele responde: -- Se for boa conta, se for ruim, desligo! Chorando a mulher fala: -- Fica na linha, por favor! Com aquele remédio minha filha sarou até criou cabelo e engordou! Pajé Raimundo diz ainda manter contato com 'sa família e a moça, que na época tinha 15 anos de idade, agora já se casou e tem família. Então quando lhe propuseram pagamento não quis receber, pois se sentiu ajudado e tinha que agradecer por saber que seu remédio foi aprovado e que podia também curar a AIDS. A 'posa do Pajé ouve atenta o que o marido diz e depois confirma muitas curas que já presenciou ao longo da vida juntos. Exemplo da própria família: os filhos Umusîpo (Gisele); Mirupu (Reginaldo); Tôrâmú (Gilmar) e Dyakara (Wesley). Todos foram tratados com plantas e rezas tradicionais. O Pajé ensina aos filhos a prática de cura com plantas e rezas, mas afirma ser difícil é só com muito tempo e muita fé. Assim ele baixa a cabeça e fica pensativo, dá um suspiro e continua: -- Queria que o governo entendesse que eu posso curar o que os médicos não curam. Se ele me pagasse um salário eu podia ensinar os médico nos hospitais e curar muita gente! Pajé Raimundo fica de pé e fala com muita segurança: -- Eu sou profissional com as plantas e as rezas, os médico são profissionais na medicina de eles, se junta com mim nos vamos curar muitas doenças. O governo tem que me 'cuta, eu quero ensinar o que sei e ajudar na cura do câncer, da AIDS. Yupahkó a 'posa e Umusîpo, a filha de 18 anos ouvem atentas enquanto o Pajé fala alto e acena insistindo para que alguém lhe ouça e entenda que ele é um curandeiro de verdade. Os turistas páram e um se aproxima para receber a pajelança. Com muita segurança o Pajé ministra mais um trabalho que resume sua força, fé e muito mais a continuidade e preservação de sua gente, da sua história. Contato com Pajé Raimundo: Número de frases: 62 92 96128952 «Viu como funcionou!?», eu dizia para mim mesmo enquanto olhava para aquela mesa cheia de gente animada falando de tanta coisa bacana, inclusive do Overmundo. Mesmo com a organização dotada de uma dinâmica toda particular, e talvez justamente por causa de 'sa dinâmica surpreendente que começa a se mostrar nas atividades da tribo que se reúne à volta do Overmundo, o encontro aconteceu e provou que quando pessoas que tem o que dizer querem se encontrar para conversar, elas fazem acontecer, e se organizam quase naturalmente para tal. O segundo Encontro do Rio de Janeiro de Overmanos e Overminas (que tinha, mais uma vez, mais forasteiros que cariocas) foi um experimento de organização emergente aliada à boa vontade dos santos e deuses que protegem a arte, e muito mais. Quando eu e Ana Cullen, acompanhados de nosso amigo Rafael Patchanka, descemos do ônibus, tínhamos apenas uma vaga idéia de onde ficava o bar Mofo. Fazendo uma pergunta aqui, outra pergunta alí, admirando-nos com a beleza do Largo do Machado e com a energia da cidade, errando o caminho uma ou duas vezes e quase sendo atropelados por um taxi, acabamos chegando ao bar. O Thiago já nos 'perava sorridente na porta. Antes de terminarmos as apresentações e pedirmos o primeiro chopp no simpático O Mofo, já avistávamos a ciclística overmana Helena entrando por a porta do intimista 'tabelecimento. Felizes em ter conseguido encontrar ao menos com os dois adoráveis overmanos cariocas, começamos a trocar figurinhas sobre matérias que planejávamos fazer para o Overblog, ou sobre histórias do Rio e de Brasília, e todas aquelas coisas que velhos amigos overmundanos que se conhecem há 20 minutos costumam conversar. Foi então que os outros alquimistas começaram a chegar ... Primeiro o / um pixel (" com p minúsculo para não fazer propaganda enganosa "), depois o Marcelo Terça-Nada! ( que não é uma xícara, afinal) e sua simpaticíssima companheira Brígida Campbell. A mesa cresceu e as conversas multiplicaram, assim como a animação do encontro. As pessoas contavam o que andavam fazendo, e traçavam expectativas sobre coisas que 'tavam começando a fazer, e aventavam colaborações e brodagens. Assim como no encontro passado, a conversa saía por seus próprios rumos, e voltava quando queria -- no momento certo -- para o Overmundo, apenas para depois seguir novamente os rumos que bem entendia. As cervejas e as bonitas picanhas d' O Mofo deixavam o encontro mais gostoso, enquanto os queridos companheiros que se conheciam agora há algo entre uma hora ou duas confabulavam e tinham mais e mais idéias, e as trançavam na trama bonita de um encontro de gente com vontade de fazer coisas bacanas. Falamos sobre Tags do overmundo, e sobre a importância do taggeamento (papo que bem merece um post no forum!), e falamos sobre edição de vídeos em software livre, e sobre a delícia de se filmar com câmeras fotográficas digitais -- mesmo as mais simples. Falamos dos Pontos de Cultura das comunidades de favela do Rio, que seriam visitadas por caravanas da galera que 'tá participando da V Bienal de Cultura da Une, e de iniciativas culturais e artísticas que surgiam de poucos recursos e muita vontade de fazer. Falamos sobre as primeiras conversas do Conselho Overmundo, e sobre as perspectivas das centenas que ainda virão. Falamos de grandes posts do Overmundo, ou daqueles que nos são queridos por algum motivo; e falamos da preocupação com que o Overmundo não se torne indevidamente auto-referente, olhando sempre mais para fora, para a Cultura Brasileira da qual se teceram suas redes, do que para si mesmo. Foram boas as conversas, e falamos de muitas coisas mais. Só quem vai a um encontro de overmanos e overminas pode imaginar o quanto se pode falar de coisas legais em tão pouco tempo quando se 'tá lá naquela mesa com aquele pessoal. Assim foi em Brasília, e assim foi aqui na semana passada, e assim foi ontem naquelas mesas e lugares. Assim são os encontros do overmundo, alegres e cheios de uma energia realmente impressionante de idéias e carinho. Quando começávamos a levantar o acampamento, e o encontro parecia 'tar chegando ao fim, aparece sorridente o Hermano Vianna. Dizia que não havia conseguido nos contactar por telefone (por algum capricho magoado de Graham Bell, imagino eu), mas que havia vindo mesmo assim para ver se nos encontrava. O encontro ganhou então novo fôlego, e resolvemos zarpar em dois taxis para a Fundição Progresso, na Lapa, onde 'tava rolando a Bienal da Une. Depois de um passeio bonito por o Catete e por a Lapa, chegamos ao local do evento. Havia 'palhada por todo lado gente colorida e sorridente, com uma energia bem semelhante ao do nosso apequenado grupo, correndo para um lado e para o outro, eletrizada, cheia de uma vontade de ver e fazer que nos contagiava. Foi gostoso sentir a sinergia de nossa pequena «reunião itinerante» com a Bienal, e alí se traçaram mais algumas idéias de trabalho. O pixel (cujo nome nunca pode aparecer no início de uma frase, pois, segundo o mesmo, Tem que ser 'crito com letras minúsculas) convidou o Thiago e o Hermano para falar sobre o Overmundo no debate sobre Inclusão Digital e Tecnologia na Educação da qual 'tá participando no SENID2007. Depois de rodarmos um pouco por a Fundição Progresso, sacar o ambiente e ver a beleza do evento, era hora de procurar mais uma mesa e um garçom amigo para nos aconchegarem para uma segunda rodada de bate-papo do encontro, agora integrando o Hermano e o Mark Daives (do GIA -- Grupo de Interferência Ambiental, lá da Bahia), que se juntou a nós em nossas andanças por a Bienal. Após meia hora de caminhada por a Lapa em busca de um boteco aberto, na qual o Thiago mostrou como sua simpatia é magnética para os ébrios do bairro e o Hermano nos mostrou sua habilidade para encontrar o melhor e mais aconchegante bar de um lugar (mesmo que seja o único bar aberto da Lapa), aboletamo-nos na Pizzaria Guanabara. As conversas continuaram animadas, enquanto o pixel nos contava de mais algumas idéias que vinha nutrindo em sua cachola azul e o Thiago mostrava sua paixão por a cidade ao fazer uma lista dos trinta e tantos lugares que a Ana «não pode perder a chance de visitar» em sua 'tadia de 4 dias no Rio. Hermano também nos surpreendeu com histórias acumuladas em seus périplos por os morros e favelas do Rio, motivados ora por suas pesquisas para seus 'critos (muitos de eles já publicados por aqui), ora por o seu tesão de conhecer todos os lugares e todas as pessoas, ora por os dois. Poisé. Encontro de overmanos e overminas é todas 'sas muitas coisas que eu contei acima e é, entre todas elas, cultura e diversão. Este é um relato do encontro como eu o vi, como eu o vivi. Abaixo, nos comentários, ou mesmo em outros posts, os outros participantes vão contar suas versões e suas experiências, desmentir exageros, acentuar cores 'maecidas por o meu cansaço ao 'crever o texto e, sobretudo, partilhar imagens para o caleidoscópio experiencial que é um encontro deste tipo. Número de frases: 40 Vale a pena encontrar para ver e viver e fazer ... Bem, que se pode dizer de um sarau? Uma reunião de novos poetas e pessoas que gostam de poesia e uma parte de curiosos ou pessoas que foram porque receberam convites. O destaque ficou por conta dos poetas que foram lá quase exclusivamente para ler os próprios poemas. De o ponto de vista literário, o valor foi bem menor do que o conteúdo crítico social, que parece algo muito importante para a poesia cotidiana. Acaba sobrando até para «distribuição de camisinhas», que a poeta organizadora do evento condena num de seus trabalhos, considerando que a prática» incentiva a promiscuidade». Em seguida, iniciou-se uma cantoria. Dei uma «canja» [fria e sem sal] de «Luz dos Olhos», do Nando Reis, com o violão de cordas de nylon da minha sobrinha [odeio cordas de nylon, faço rock]. Um rapaz que 'tuda com a minha mãe tocou três músicas sensacionais do Roberto Carlos. Uma de elas, «Detalhes», a meu pedido. Ganhei a semana. Ou o trimestre. Em seguida, ele e o prefessor Vitale [de matemática] cantaram várias músicas sertanejas de raiz. Li os poemas «A 'trada que não peguei» [" The road not taken "], de Robert Frost e «Os Sapos, de Manuel Bandeira». Também li a crônica «O abridor de latas», de Millôr Fernandes, que provocou muitas risadas entre os presentes. A melhor parte mesmo foi ter enchido o pessoal de bebidas. Resolvi não cobrar nada. Enfiei 'panholas, hi-fis e outros drinks na galera a noite toda. Fogo é que chega uma hora que o sarau cansa e ninguém mais aguenta aquele negócio. E nem foi muito, só das 20h até 23h30m, com um intervalo a meu pedido. Mês que vem tem mais ... Número de frases: 21 e olha, vou dizer uma coisa, o próximo sarau vai lotar. Mudei para São Paulo há pouco mais de uma semana. Cidade que eu temia e que hoje me acolhe em silêncio, com uma promessa de permanência que deve me manter aqui por muitos anos. Em meio às descobertas iniciais, algumas caminhadas a esmo por as ruas do bairro, novos sotaques, novas comidas, reencontro, num programa da TV Cultura, um artista chamado Rolando Boldrin. Reencontro porque é uma figura que eu não via desde criança, em Belém. Muito antes de descobrir o violão, naquela época, década de 70, talvez início dos 80, eu acordava domingo de manhã para assistir a um programa que nunca 'queci, o Som Brasil. Quando o vi agora, seu sorriso doce e seu talento trouxeram de volta imagens e sons do programa e da época de infância. A música que eu ouvia era uma representação de uma Brasil diferente, desconhecido. Foi em 'sa época que me tornei admirador de artistas como Renato Teixeira, Almir Sater, Luiz Gonzaga, Pena Branca e Xavantinho, o próprio Boldrin e tantos outros. Não tenho nenhuma dúvida quanto ao papel que 'ses artistas exerceram em minhas predileções musicais até hoje e, da mesma forma, percebo com alegria como algumas das minhas canções se apropriaram de elementos, por assim dizer, caipiras. Em 'se momento em que o «Não para magoar» -- título do meu último CD que pode ser baixado aqui -- começa a trilhar seu caminho, é importante pra mim notar que uma canção como «Noite úmida» contém muito de Renato Teixeira e de Rolando Boldrin, talvez não na forma ou no conteúdo textual, nem na riqueza, mas na simplicidade extrema. É motivo de orgulho mesmo, porque são artistas de muita integridade e de um talento sem igual para revelar o Brasil ao brasil. Como disse Maria Bethânia, na entrevista que deu à revista Bravo deste mês, o brasil quer deixar de ser o Brasil. Ontem foi ao programa «Sr. Brasil» Jards Macalé. A aparente 'tranheza de ver Macalé num programa dedicado à música do interior -- nem de longe o programa é só isso -- logo deu lugar a uma intimidade total entre eles. Em a verdade Boldrin já 'teve muito próximo desses cânones da MPB que até hoje produzem sem perder o viço. Seu ótimo site contém informações preciosas sobre sua vida para quem não faz idéia de quem eu 'tou falando. Em o programa anterior vi um sambista carioca que não me recordo o nome. Depois de cinco anos morando no Rio, tive uma sensação diferente vendo-o. Em o Rio, existe hoje uma grande onda de sambistas jovens e um retorno à cena de outros tantos nomes que ficaram obscurecidos nos últimos anos. Mas uma coisa é muito nítida para mim: todos procuram, a seu modo, se apropriar do gênero, num movimento até certo ponto compreensível de defesa, como se dissessem que não querem ver o samba novamente apagado. Mas isso tem muito de carioquice, e de uma certa arrogância que vem a reboque. Ouvi, por exemplo, que não poderia compor sambas porque não nasci no Rio de Janeiro; em outro momento, depois de ter dado uma canja numa roda de samba, ouvi de um carioca muito elegante a seguinte frase: «que país maravilhoso é o nosso; você [eu] vem lá da PQP [Belém] e consegue tocar Igual A Nós». Eu já morava há 4 anos no Rio e, bem, achei melhor levar «na boa». Mas quando assisti ao sambista no programa do Boldrin, vi pela primeira vez o samba «dessacralizado», ou seja, fora do contexto» original». Quando Boldrin cantava junto então eu notava o quanto de admiração ele tem por o gênero e como mesmo na música popular coisas 'tranhas podem acontecer, como 'sa aura com a qual as pessoas revestem o samba e acabam por aprisioná-lo. O programa sempre começa com Boldrin em close, recitando um poema popular. Suas rugas e seu cabelo branco realisticamente enquadrados são uma afronta aos imbecis padrões da TV brasileira em 'se momento, onde a juventude aparece sempre linda e fútil. Em seu rosto a marca do tempo, do acúmulo de saber, da liberdade de pensamento. Sua presença deixa uma 'perança de que um dia 'se país se reconheça. Viva Rolando Boldrin. P.S. de Manuel Bandeira -- ao descobrir que um samba que ele ouvira cantado por o próprio Sinhô (dizendo que havia composto na noite anterior) era na verdade de um compositor chamado seu Candu: «Isso tudo me fez refletir como é difícil apurar afinal de contas a autoria desses sambas cariocas que brotam não se sabe donde. Muitas vezes a gente 'tá certo que vem de um Sinhô, que é majestade, mas a verdade é que o autor é seu Candu, que ninguém conhece. E afinal quem sabe lá se é mesmo de seu Candu? Possivelmente atrás de seu Candu 'tará o que não deixou vestígio de nome no samba que toda a cidade vai cantar. E o mais acertado é dizer que quem fez 'tes choros tão gostosos não é A nem B, nem Sinhô nem Donga: é o carioca, isto é, um sujeito nascido no Espírito Santo ou em Belém do Pará». (" Manuel Bandeira». Número de frases: 43 «Sambistas», in Crônicas da província do Brasil, São Paulo, Cosac Naify, 2006). Quando a Casa Hoffmann --Centro de Estudos do Movimento nasceu em 2003, a impressão era de que seria um 'paço para a pesquisa e, portanto, direcionado a uma parcela mais segmentada da comunidade curitibana, performers e bailarinos. Passados três anos, ela surpreende não só por ter tido aval da atual gestão para continuar com bolsas de 'tudos para aperfeiçoamento profissional, mas também com projetos simples e interessantes que 'tão conseguindo, de verdade, aproximar a entidade de uma parte da população mais periférica, que é autodidata. Este é o primeiro 'paço de dança na cidade com proposta de fazer pensar. Não é uma companhia de dança, mas um lugar de 'tímulo aos experimentos, que também 'tá interessado nas manifestações que acontecem num circuito não profissionalizado, sem se prender unicamente ao conhecimento acadêmico. O segredo é ter os pés no chão e lidar com a realidade para conseguir avançar -- e ter gente que ama o que faz, cuidando de tudo. Hoje a Casa oferece 11 vagas e foram criados novos 'tágios de bolsistas. Tem a Bolsa Residência, com três vagas para três meses e uma verba total de R$ 1.500 por artista pesquisador; sete bolsas vão para a iniciação à pesquisa em dança contemporânea e também tem bolsa para a pré-produ ção de pesquisa em andamento. «O artista entra para a pesquisa e pode fazer os cursos gratuitamente; depois pode ganhar verba por três meses para desenvolver suas idéias e, por fim, um valor de R$ 3.900 para a 'truturação coreográfica e apresentação pública. Ou seja, são editais linkados que propiciam a continuidade, o que é muito difícil de se conseguir no nosso meio», comenta Marila Velloso, bailarina e professora de dança, hoje responsável por o 'paço. «Os valores 'tão dentro do nosso contexto de verba destinada para a área da dança, 'ta é nossa realidade», completa. Transição A proposta foi criada por a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e implantada em 2003 num belo casarão -- construído em 1890 para abrigar uma família de imigrantes austríacos -- já oferecendo workshops com nomes fortes do circuito mundial da dança. A o assumir a Casa Hoffmann, no entanto, Marila ganhou também a missão de coordenar a área da dança da cidade, o que significa, avalia ela, uma ampliação institucional dentro da FCC. «É um momento político importante porque uma coordenação envolve toda uma área de conhecimento, então é uma mudança político-institucional», comemora Marila, que durante toda a conversa com o Overmundo manteve o tom apaixonado por o projeto. Depois de um período de adaptação, a nova coordenação de área encarou 2006 com uma série de propostas que envolvem as regionais de Curitiba -- 'pécies de sub-administra ções que existem nos bairros da cidade -- e, por o entusiasmo com que a atual administradora conta sobre os retornos que tem recebido, 'sa aproximação já é uma realidade. Uma mudança necessária em 'ta nova fase, explica Marila, foi afunilar o perfil das propostas para bolsas só para dança contemporânea. «Sabemos que são tênues as divisões, mas foi preciso», diz ela, completando que em alguns 'tágios o aluno tem o aval de orientadores que ajudam a «complexificar» o tema proposto. «Cria-se um outro tipo de relação que, aliás, começa a ficar mais comum no mundo todo. Estamos dando conta das demandas que existem e ao mesmo tempo criando novas», comemora a coordenadora, contando ainda sobre convites para projetos de intercâmbios com outros 'tados brasileiros. E as razões para comemorar não param por aí. Também 'tá começando uma parceria com o Centro em Movimento de Lisboa (Cem), um 'paço voltado à dança contemporânea, para trazer gente de lá para 'tudar aqui e vice-versa. «A seleção é muito natural, através da observação das pesquisas e ao longo dos cursos», explica ela, que em breve recebe duas 'tudantes do Cem. «Depois quem veio e quem foi se encontram para criar projetos para suas comunidades». Marila reafirma que a Casa não quer ser uma 'cola e, para se diferenciar, tem que ter um perfil dinâmico. «Somos um programa de políticas públicas, temos que ir observando as questões e transformando», explica. «De um semestre para outro os cursos mudam completamente, mas tem um jeito de pensar dança contemporânea parecido, porque há que se respeitar as 'pecificidades da atual proposta da Casa», observa. Novidades Mas, a menina dos olhos de Marila são as atividades crescentes com a comunidade. A coordenadora e sua equipe arregassaram as mangas e foram ajudar a organizar as coisas também na periferia de Curitiba. E que surpresa boa todos tiveram. Primeiro, foi feito um mapeamento nas regionais, para identificar o que cada região queria. «Foi muito lindo, reunimos amadores e profissionais, sem nenhum julgamento de valor. Ficou claro que eles não precisam necessariamente da gente -- e nós não temos todos os recursos que eles precisariam. A gente media as demandas e eles 'peravam soluções. Porém, nós só podemos mediar as dificuldades», diz. E foi colocando os «pingos nos is» desta forma que ela conseguiu um resultado que define como maravilhoso. Só colocar os vários grupos numa mesma sala para que eles se conhecessem, vissem as similaridades do que fazem, já foi o suficiente para que encontrassem suas próprias soluções. «Vimos que a primeira coisa não era ensinar, mas socializar, para vencer resistências», ensina. Foi assim que surgiu a primeira ação: Dança quem quer. Um evento onde as pessoas se inscrevem na hora. «Para evitar a cultura de shows, que prima por o me mostro e vou embora e 'timular a auto-organiza ção», pontua. Agora o evento virou mensal. «Isso nos fez também conhecer as lideranças, pois como não temos recursos para resolver todos os problemas, precisamos potencializar o que existe lá e formar multiplicadores». Outra idéia que 'tá em andamento é a construção de um acervo em cada regional. Porque, defende Marila, não adianta ter uma enorme quantidade de material se fica tudo na Casa, na região central. «Tem que ter um acervo, singelo que seja, nos bairros e depois os fazemos circular. Agora, tudo que é feito é filmado e eles ganham cópias. Passou a ser tudo vezes nove», conta, rindo. É aquela coisa do ditado: tem que ensinar a pescar ... «E trabalhar com a realidade, pois é isso que funciona», garante Marila, já comentando que haverá um segundo fórum desses grupos. «Não é um festival. Nossa tarefa é informar e politizar, temos uma preocupação com o indivíduo», diz, lembrando também o Dança Solidária, projeto no qual colegas seus de faculdade dão aulas. «As coisas não são tão difíceis, precisa ter comunicação, nós 'tamos tentando», assegura. Tudo isso, observa a bailarina, tem efeitos no mercado. É necessário, diz, trabalhar com a gestão pública, para fortalecer a atuação dos profissionais de dança como um todo. «Minha geração nunca teve mercado para a produção em dança, sobrevivi sempre como professora. Hoje temos a verba do Fundo Municipal de Cultura para os Editais Públicos 'pecíficos para a dança e uma verba, que antes não havia, para a área da dança. Estamos preparando o terreno. Temos muito por a frente, mas pela primeira vez se pode vislumbrar um mercado no futuro em Curitiba». Número de frases: 64 Crianças da comunidade Chico Mendez 'crevem um livro na 5ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis Durante as duas primeiras semanas da Mostra de Cinema Infantil, as crianças conheceram todo o processo de criação de um livro, desde a produção das histórias e das ilustrações, até a diagramação e impressão. É a oficina O que é um livro?, coordenada por a professora Gilka Girardello e por a designer gráfica Vanessa Schultz. Elas orientaram as crianças para a criação de todo o conteúdo de um livro, que será publicado e distribuído no encerramento da Mostra, domingo, dia 16 de julho. O primeiro passo foi reunir idéias sobre o que seria contado no livro, muitas de elas baseadas nas vivências e vontades das crianças. «A literatura é uma ponte para a imaginação, e desperta sentimentos. As histórias foram criadas a partir dos desejos que transpareceram nas idéias de eles, explica Gilka. Assim, uma brincadeira de boneca, uma pescaria, uma viagem a Lages de bicicleta, um golfinho que joga bola e um menino que aprendeu a voar são alguns dos temas explorados por as crianças. Visitas dirigidas ao Laboratório de Mamíferos Marinhos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a uma comunidade de pescadores e uma conversa com um 'pecialista em cobras serviram para ajudar os alunos a fundamentar suas histórias. Além da produção do texto, outro passo importante do trabalho foi a concepção gráfica. Para conhecer 'se processo, os alunos visitaram uma gráfica e produziram, de forma artesanal, um livro-treino chamado Todas as Mãos, 'pécie de ensaio para o que eles vão publicar no final da Mostra. «Em a gráfica e com o livro-treino eles ficaram sabendo que o processo pode ser feito tanto em larga escala como em casa», explica Vanessa. Todas as Mãos foi produzido com papel, canetinha, barbante e fotos individuais dos alunos fazendo pose com as mãos. Em o texto, cada um contou o que gosta de fazer com as mãos: brincar, limpar e mandar beijos. Essa brincadeira inspirou Renata Lapris Amaral, de 11 anos, a fazer um livro em casa. Junto com os colegas da Oficina, ela vai contar uma história de boneca. «A menina da história brinca com as amigas, fazendo todas as brincadeiras que eu gosto: pular elástico, jogar bola, jogar vôlei e brincar de Barbie», resume Renata. «E ela também que ser advogada e ter dois filhos». Amanda de Oliveira ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas anda com um caderninho a tiracolo. «Vou 'crever uma poesia para colocar no livro», revela a garota. Em o encerramento da Mostra, os autores-mirins e a platéia assistirão a um documentário com todos os passos de 'sa oficina. Em o final, depois da distribuição dos livros, os aprendizes das letras receberão o público para a sessão de autógrafos. Texto: Número de frases: 26 Ana Pessotto, Duda Hamilton e Kátia Klock Enfim, vi o tão comentado Tropa de elite (se você não viu, eu recomendo). Um filme merecedor de toda repercussão que teve, 'sa, funcionando como uma 'pécie de «trailler» boca à boca resultando em 'se sucesso, ainda que na versão pirata. Aliás, a polêmica inclusive, foi bem usada por os camelôs: «Tropa de elite, compre antes que os policiais proibam» era mais ou menos o que gritavam para vender as cópias, e o pior (ou melhor), vende-las como água. A tática em transformar histórias das periferias brasileiras, principalmente as do Rio de Janeiro, em «'petáculo», vem dando certo na grande mídia faz alguns anos. Não é à toa que filmes e seriados foram sendo produzidos acerca do assunto, como «cidade dos homens»,» Carandiru», «Antônia» entre outros. Mas, ao contrário do primeiro grande sucesso cinematográfico «Cidade de Deus», o» Tropa de elite «explodiu como algo fora do controle dos seus produtores,» vazando " por a internet, no momento certo, mas na hora errada. Ou seria no «momento errado», mas na» hora certa»?! vou tentar explicar: Nem o mais profeta dos homens imaginaria 'se resultado (ou, o mais profeta dos homens é brasileiro e o melhor marqueteiro do mundo). Praticamente zero de gastos em divulgação e o filme é um verdadeiro 'touro (o momento certo). Em compensação, o fato das pessoas deixarem de ir ao cinema quando o «tão aguardado» 'tivesse nas telonas, traria um medo eminente. Seria um grande paradoxo um filme sucesso de público com fracasso de bilheteria (a hora errada). Com certeza, o público 'perado para assisti-lo era o da clásse média, o mesmo que se impressionou com as maldades do «Zé Pequeno» e cia ltda. lotando as salas de cinema como se tudo aquilo não existisse (mesmo eles assistindo ao filme nos shoppings centers colados a barracos de alguma favelinha de 'sas), mas, logo quando a pirataria é algo forte no nosso dia-a-dia (o tal «momento errado "), o longa 'tá sendo visto por a massa, por pessoas que possivelmente 'tão mais proximas daquela» ficção «para os que tem mais condições-, ou» realidade " -- para elas, tendo como consequência a popularidade da obra além de muitos debates e discussões sobre o que é relatado em ela: A crise da polícia, do Estado e da sociedade frente ao narcotráfico e o crime organizado (a tal " hora certa "). A partir daí, algumas questões ficam na minha cabeça: A pirataria tem o seu lado bom em tornar mais acessível a arte e a cultura (que é um bem de consumo hoje) e, de alguma forma, levar um pouco de conscientização à muitas pessoas? Ou devemos apenas enxergar todos os seus males (sonegação fiscal, desvalorização de direitos autorais, a própria corrupção, também mostrada no filme, etc)? Bem, é bonitinha a campanha que os artistas insistem em fazer na luta contra a pirataria, se tornando até justa em certo ponto. No entanto, não dá mais pra remar contra a maré! A pirataria é um fato! comprar qualquer produto pirata já é um hábito social ... Todos fazem ou os consomem de alguma maneira, todos tem suas necessidades e desejos consumistas. As pessoas são bombardeadas o tempo todo por propagandas, e vão atrás do que é anunciado seja lá qual for suas condições financeiras. É exatamente ai que os piratas vendem, alimentando organizações clandestinas poderosas que envolve de fiscais à juizes, de policiais à traficantes. Sabemos o quanto é dificil conseguir algo justo em 'se país. Mas colocar na cabeça de qualquer brasileiro que ele deve gastar um terço do seu sálario (se 'se 'tiver empregado) na compra de um CD, ou levando sua família ao cinema, por exemplo, 'tá realmente fora de cogitação! A pirataria parece de alguma forma, democratizar a informação, como uma resposta da pobreza à elite, e já existem empresas que perceberam isso, se adaptando a um novo mercado com novas maneiras de sobreviver dentro deste. Tropa de elite ainda não 'treiou em todo Brasil. Não sabemos qual será seu retrospecto de bilheteria, mas numa coisa ele é original e " incopiável ": Em a sua capacidade de abranger tantos temas importantes e oportunos ao mesmo tempo em todos os aspectos possíveis que uma obra possa ter! Eu pretendo dar minha contribuição indo a uma sessão, mas vou ainda torcendo para que entretedimento de qualidade como 'se, possa ser mais acessível, sem quaisquer manobras maliciosas. Por Jeorge Segundo, 'tudante de jornalismo da UFPB. Número de frases: 35 João Pessoa, 10 de outubro de 2007 Acabo de chegar do SALIPI 2007 (Salão do livro do Piauí), realizado no Centro de Convenções de Teresina. Em 'tes encontros sempre há uma troca de percepções agudas entre leitores, produtores e autores. A produção local fica toda exuberante na vitrine a mostrar o que é, pra que veio e quem faz. Ficar isolado, confinado sobre muralhas, 'premido entre o Maranhão e o Ceará, isolado ao mundo, pensamento individual numa coletividade restrita, apenas faz impedir que a auto-'tima tão baixa do povo piauiense celebre a sua mudança, há tempos aguardada, que tanto merece se elevar. Isolar-se as grades do bairrismo 'túpido do passado e a efervescência do presente não irá fazer renascer a pulsante cultura do Piauí no seu devido lugar de destaque que é para ocupar. Faz-se necessário o intercâmbio com outras nações culturais. Bairrismo em meio à interpelação cultural de 'tados vizinhos é querer decepar um corpo que se é erguido como num todo, cultivado com luta, gritos e dor. Lá no subsolo dos subsolos há uma união sem 'tado, sem nação e de um povo só. Há uma ligação entre as raízes e, afinal de contas, lutamos com a mesma bandeira de que se leia mais em 'te país de boicote as letras. Ficar aos uivos da separação e se isolar ao seu mundo próprio faz insistir na permanência dos erros, faz voltar e 'tagnar ao 'quecimento no Brasil de imêmore. A auto-afirma ção não é de hoje que se dá com bairrismos medíocres. O mestre Patativa do Assaré teve que sair da sua terra natal para poder publicar seu primeiro livro (que por sinal foi o Crato-CE que o acolheu), Luis Gonzaga teve que ir ainda mais longe, ao sudeste do Brasil, para poder ser o Rei do Baião, porque então não poderia ir até o Piauí, e não ao sul maravilha, e mostrar o meu humilde trabalho? Acuado fiquei. Único 'critor cearense em meio às feras letradas do Piauí. Alguns bairristas encapuzados presentes a sala de bate-papo com o autor. Que pavor! Mas, minha ligação com o Piauí vem de muito antes. O primeiro autor, que um dia sonhei a fazer o primeiro prefácio para um livro meu foi o mestre Assis Brasil. Até cheguei a enviar uma carta convidando para conhecer, e caso gostasse, providenciar um prefácio para o romance, Individuais, carta 'ta que nunca foi respondida. As lendas do Piauí me chamam atenção. Desperta-me para uma coisa: como morar vizinho a um 'tado rico de letras e causos e não conhecer seus autores vivos e atuantes? Como não conhecer um guerreiro Cineas Santos, Um apaixonante Luiz Romero, um lutador Ytalo? Talvez porque a proposta de cultura embutida em 'te mundo de conceitos determinados seja 'ta mesmo de bairrismos ridículos que muitos até hoje defendem com unhas e berros; cada um é o rei do pedaço e não interessa ver, ler ou 'cutar os reais vizinhos de sangue; que pensamento mesquinho, pequeno. Conhecer os adjacentes da cidade, do 'tado e dos 'tados vizinhos se faz bem ao movimento das letras, das idéias. A prata da casa tem realmente que ser valorizada a ouro seja aqui em Fortaleza, lá no Piauí ou em qualquer lugar do mundo. Agora se isolar achando que a independência autoritária valorizará em dobro os artistas e talentos locais é uma piada de péssimo gosto. Isolamento 'te de ir e vir, mão dupla, não contribuirá em nenhum ponto para a consagração e afirmação da auto-'tima do povo piauiense. Em o SALIPI fui tratado como um astro. Não por merecer. Mas, 'critores têm realmente que serem os astros de 'ta sociedade que prefere inverter valores. Não por mim, mas por a necessidade da visão aguçada e da percepção de mundo a dividir com todos. Afinal a 'crita é o maior show do universo. Repito: se até o mestre Luís Gonzaga e o divino Patativa saíram de suas terras para alguém lhe dar valor, porque então, não poderia sair, não para o destemido sul ao mapa, mas para as raízes profundas e aguçadas das bandas do Piauí? De parabéns o mestre Cineas Santos que acolheu surpreendente os meus modestos 'critos e batalhou para a realização do 5° SALIPI, conduzindo-o como um verdadeiro herói. De parabéns o também mestre Luis Romero por dar o ar da rouquidão de sua voz a direção literária nas rotas do Salão, por incentivar autores novos como eu, por sonhar maior que as cabeças de cuias do bairrismo, a ficar sempre no 'quecimento. De parabéns todo povo do Piauí por fazer um salão do livro de forma tão 'pontânea, contagiante, pedagógica e natural. Servindo de exemplo, de modelo para muitas bienais do Livro de todo o Brasil. Peço meus singelos agradecimentos à organização do evento por ter dado a oportunidade única de ter ido mostra meu trabalho aos piauienses, ausente do terror do bairrismo 'túpido. Não é dando o troco que se faz o correto. Volto de Teresina mais convicto ainda que as letras sejam de fato as armas mais poderosas de todo o mundo. Número de frases: 43 Tudo começou como uma brincadeira para Rubens Carvalho. A idéia era relembrar sua adolescência nas ainda vazias quadras de Brasília, quando se juntava com seus amigos para 'cutar os vinis que cada um tinha. Em 'ses encontros sempre alguém fazia as vezes de DJ, enquanto os outros 'cutavam as músicas e batiam papo. É exatamente 'se mesmo clima de camaradagem que Rubens procurou levar para a Quarta Vinil. Realizada religiosamente desde abril de 2000, é um 'paço onde ele, proprietário do famoso Gate's Pub, recebe seus amigos para dividir a discotecagem por uma noite. «Quem toca aqui não é necessariamente DJ», afima. «A maioria é amador. Traz os discos que tem em casa e vem se divertir». O próprio Rubens não é um profissional no assunto, mas gosta de iniciar as noites tocando jazz e música instrumental, num aquecimento para a entrada do convidado de cada edição. É a diversidade dos convidados que garante a graça do projeto. Diferente da música digital, facilmente reproduzível, o vinil existe em quantidade limitada. E o repertório da noite depende do que cada um tem em casa. Há quem leve discos há muito tempo fora de catálogo. De vez em quando pinta um Tim Maia Racional ou Os Afro-Sambas, de Vinícius e Baden Powell. E há outros que discotecam com suas coleções de compactos importados de bandas atuais, como Strokes, Franz Ferdinand e Coldplay. Muita gente teve na Quarta Vinil sua primeira experiência como DJ. Eu, por exemplo. E a conseqüência imediata disso foi o aquecimento do mercado de sebos em Brasília. Em o Musical Center, o maior da cidade, é comum 'barrar num ou outro DJ amador caçando raridades. E também não é raro 'cutar por ali alguma conversa referente às democráticas noites do Gate's Pub. O evento virou uma febre em Brasília, e houve épocas em que era impossível entrar sem 'perar pelo menos uma hora na fila. Hoje 'tá menos cheio, mas a pista de dança ainda ferve ao som das músicas consagradas a hits locais, como Não vá se perder por aí, dos Mutantes, ou Cities in dust, da Siouxsie & The Banshees. Rubens é o maior entusiasta da noite. É sempre o primeiro a chegar e último a sair. E não é raro vê-lo no meio da pista, dançando alegremente. Ele já perdeu as contas dos momentos memoráveis que presenciou, mas aponta alguns dos mais marcantes. «Teve uma vez que o Gate's virou um baile de carnaval, com todo mundo brincando de trenzinho», recorda. «E uma outra em que as pessoas ficaram impressionadas de 'cutar ali músicas que ainda nem tinham saído em CD no Brasil». Tanto prestígio já atraiu ao simpático pub algumas personalidades. «O Ed Motta já veio aqui. Não resistiu e foi bater um papo com as duas irmãs que discotecavam, aproveitando para sugerir algumas músicas», conta " Rubens. «Outro que veio aqui e adorou foi o 'tilista Alexandre Herchcovitch. Gostou tanto que depois realizou uma festa aqui no Gate's, onde ele mesmo era o DJ». Longe de terem cheiro de bolor, como muita gente pode imaginar, as Quartas Vinil mantém ainda um ar de novidade. A cada semana, um convidado com seu história musical. Quem sabe qual será a da próxima? Só indo lá. Número de frases: 37 Autor: Professor Acúrsio Esteves * Treze de maio de 1888 passou para a história do Brasil como o dia em que teria se acabado a 'cravidão em terras tupiniquins. Depois que a pena da princesa anunciou por decreto que não mais haveria jugo, a população negra a partir de então seria livre, não teria mais senhorio e poderia viver com dignidade e igualdade. Assim a 'cola me ensinou, assim eu aprendi e assim acreditei durante longos anos da minha vida. É certo que nunca entendi bem porque a «Princesa Isabel, A Redentora», decidira tomar tal atitude contrariando os interesses dos que detinham o poder e entrando em sintonia com os anseios da subjugada população negra, de alguns poetas, intelectuais e políticos sonhadores que se diziam abolicionistas. Pensava: foi uma verdadeira revolução sem sangue feita por uma mulher de coragem. O que a 'cola nunca me ensinou foi que à época, os negócios do açúcar brasileiro, que era a principal fonte de riqueza nacional e onde 'tava alocada aproximadamente 90 % da mão-de-obra 'crava, iam de mal a pior. O açúcar da América Central era mais barato, mais próximo dos grandes mercados e de melhor qualidade que o nosso. Não dava para competir. Infelizmente só aprendi a «História da Conveniência», e Geografia Física onde os aspectos políticos e econômicos» não eram " de nosso interesse. O imenso contingente de 'cravos tornara-se então um fardo para os senhores de engenho. Como sustentar 'ta «horda» de homens, mulheres e crianças, mesmo sob miseráveis condições, diante de tal crise econômica? Era a pergunta que não se calava e que teve apenas uma resposta: Demissão em massa. Sim amigos e amigas, a demissão em massa foi a solução encontrada para os trabalhadores e trabalhadoras forçados que edificaram e sustentavam a economia nacional. E foi a maior, mais cruel de todos os tempos e quiçá de todas as partes do mundo. Foi uma demissão sem direitos trabalhistas, quando milhões de trabalhadores saíram do único abrigo que conheceram por toda a vida apenas com seus míseros pertences e a roupa do corpo. E não tinham direito a ficar se quisessem. Só os mais aptos ao trabalho ou os que possuíssem alguma 'pecialização foram mantidos como empregados, apenas por o interesse do seu senhorio capitalista. Esta demissão teve um nome bonito: Lei Áurea. Antes de ela, porém, vieram outras da mesma forma convenientes aos interesses da classe dominante. Vejamos: A primeira foi a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que proibia o tráfico. Como a Inglaterra na prática já havia decidido interceptar e apreender os navios negreiros, libertando os 'cravizados, então, foi uma lei inócua. A segunda, a Lei do Ventre Livre, 1871, serviu apenas para diminuir a pressão social dos abolicionistas. Ela não tinha aplicação prática, pois, como a criança pode ser livre com pais 'cravos? Será que ela, a criança, teria 'cola, moradia digna e cidadania enquanto seus pais 'tavam nas senzalas? Ela, que ainda seria tutelada até a idade de 21 anos por os senhores de seus pais, teria vida de cidadã ou de 'crava? A terceira, a Lei dos Sexagenários, 1885, foi a mais perversa de todas, pois a expectativa de vida do cidadão livre à época era de 60/ 65 anos e a do 'cravo 32/40 anos. Eram raros os que chegavam à idade contemplada por a lei. Era muito difícil ter o controle da idade exata do 'cravo. Ainda hoje não são poucas as pessoas que não possuem registro de nascimento. Então, se o negro 'tivesse apto ao trabalho, forte, com boa saúde, era fácil dizer que ele ainda não tivesse alcançado a idade prevista por a lei. Porém se ele 'tivesse doente ou imprestável para o trabalho, nada mais cômodo que conferir-lhos 60 anos e mandá-lo embora. Após a «libertação», o imenso contingente» livre», de entre os quais 'tavam os fracos, doentes, velhos, crianças e outros «excedentes», foi enxotado de uma hora para outra para o olho da rua. Não havia uma política agrária nem instrução pública e gratuita para os libertos, como defendia Joaquim Nabuco. Você já parou para refletir sobre as futuras condições de vida dos (as) que foram «libertados»? Onde iriam morar? Como iriam sobreviver? Iriam ser respeitados de uma hora para outra como cidadãos e cidadãs? Que tipo de oportunidades a «sociedade» que eles construíram ofereceria para que 'ta gente construísse sua vida? Não é preciso ser 'pecialista em sociologia para responder a 'tas indagações. Mas onde foi parar 'ta gente 'corraçada das ruas das cidades por «vadiagem»? Que não tinha trabalho para sustentar a si nem a sua eventual família, nem moradia digna? Foi parar na periferia das cidades, morando em casas (?) miseráveis, sem 'goto, luz, água tratada, lazer, trabalho, educação, saúde, dignidade ... Onde permanece, em sua grande maioria, até os dias atuais. Alguma semelhança com a Rocinha, Alagados, Por a Porco, Buraco Quente, Vigário Geral, Jardim Felicidade, Vila Zumbi, não é mera coincidência. Morros, favelas, invasões, palafitas; ícones da desigualdade social convivendo lado a lado com o progresso, o conforto, a saúde, o lazer, a educação, o trabalho, a vida digna. Morros, favelas, invasões, palafitas; locus do subemprego, da miséria, da violência, da informalidade, da contravenção, da exclusão, da fome, da morte em vida, da vida que finda a mingua, da injustiça social ... Vergonha nacional. Nova versão do antigo jugo 'cravocrata, quilombos urbanos do século XXI. * Acúrsio Esteves é professor da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, Faculdades Jorge Amado e FACDELTA, em Salvador, Bahia. É também autor do livro A «Capoeira da Indústria do Entretenimento» e de Pedagogia do Brincar em parceria com a professora Disalda Leite. Contactos: (71) 9946-4743 / (71) 3233-9255 -- acursio1@gmail.com!?! Liberdade -- Abolição -- Escravidão?!?-- 13 de Maio -- Uma data para refletir ... Por Luciano Milani Em o próximo dia 13 de maio o Brasil completa 119 anos de Abolição. Para não deixarmos 'ta data passar em «branco» e para fomentarmos uma reflexão em torno deste assunto, o Portal Capoeira sugere: !?! Liberdade -- Abolição -- Escravidão?!? Como tema deste mês. Separamos 'pecialmente para os leitores e visitantes do Portal uma série de textos que abordam a Abolição, a Consciência, a Liberdade e a Escravidão ... Fica aqui a dica de boa e proveitosa leitura!!! Para ler outras matérias relacionadas com o tema, visite: Número de frases: 69 Portal Capoeira O cheiro da entrada fica entre a gordura de comida e a nostalgia. São cerca de 20 mil pessoas que por aquelas saídas e entradas circulam diariamente. Suor, pressa e fumaça. A primeira 'cada rolante -- que não rola mais --, o restaurante mais conhecido, a boemia mais famosa, a maior concentração de livrarias, a lan house mais barata, a galeria mais mal-cheiroso: o Maletta tem fama. O público é predominantemente universitário (o mesmo que ocupa a maior parte dos apartamentos dos andares acima). Por a necessidade de morar e trabalhar no centro ou por a opção de vida: alguns 'colhem o Maletta, outros são 'colhidos por ele. A diversidade das histórias que passam por ali diariamente e aquelas que ali mesmo ficam significa duas coisas: pluralidade e complexidade. Conflitos entre moradores, locatários e a administração do condomínio ilustram a dificuldade natural de convivência de tantos num só local. «Gosto muito daqui, não tem nada de ruim, nunca vi assalto, nem nada. Só coisa boa», apressa-se para dizer o Sr. Maciel, proprietário há 36 anos da barbearia Máximo. Mora há outros sete e só sai de lá aos domingos, quando tudo fecha e o Maletta descansa. Nelson Chavez passa quase 12 horas dentro do edifício. Chega cedo e vai embora à noite, só para dormir em casa. Diz-se calejado e, de dentro da sua alfaiataria, não quis falar a princípio. «Não há nada novo para ser dito. Não tenho o que dizer». Mais tarde cede e lamenta: «você acaba fechado dentro desse casulo. Eu vim ' para aqui ' menino: a vida passou e eu não vi». O contraste do vazio e da quietude da loja de Nelson 'tá exatamente do outro lado do salão. A lan-house Maletta @ net é um incansável entra-e-sai de universitários, que pagam 1 real por a hora de conexão. Os melhores preços de cds virgens da região: ninguém sai de lá sem levar um ou outro. O glamour dos políticos e artistas que desfilavam por os corredores iluminados do Grande Hotel cedeu lugar para a revolução de costumes dos intelectuais a partir da década de 60. Aos poucos, 'tes foram se levantando das mesas dos bares num processo de descaracterização gerado por razões diversas, mas principalmente econômicas e sociais. As mudanças do mundo lá fora trazem para dentro dos salões um novo público: os cidadãos comuns, o trabalhador do dia-a-dia, os consumidores de comida a quilo popular. Restaurantes a todo vapor. A o lado, a Cantina do Lucas busca manter 'tática a passagem do tempo: a mesma comida, os mesmos garçons, a mesma decoração. Lá pouco mudou nas últimas décadas. As identidades se sobrepõem: os tempos dos intelectuais são constantemente evocados por o atual proprietário numa tentativa de amenizar os efeitos da popularização e o abandono do centro de Belo Horizonte. Tempo-'paço De freqüentador e cliente a proprietário atual, Edmar Roque resume a ambigüidade da atual administração da " Cantina do Lucas. «Nada fica impune a 'sas circunstâncias do tempo, a maior parte das lojas tradicionais fechou. É claro que 'tamos preocupados com a história, a identidade ... mas antes de tudo temos que nos preocupar é com o serviço, com o público, com uma linguagem do mercado, que seja eficiente comercialmente e que mantenha a fidelidade à história do Lucas». O que antes era centro, hoje em dia se pulverizou em diversos endereços da capital. O centro tradicional se tornou um local de passagem, temporário e provisório: indesejado por a maioria. A tal classe média intelectual se dispersou, abandonou o barco e saiu de cena. Enquanto alguns pontos ainda tentam manter a história viva, outros dão uma nova referência para o Maletta. A enorme quantidade de sebos que por lá surgiu na última década proporciona um novo tipo de reconhecimento para o local. «São vinte e um ao todo. Não há outro lugar no Brasil que concentre tantas livrarias como o Maletta. Aos poucos vai sendo reconstruída a imagem que as pessoas têm daqui. Para a geração mais jovem, aqui vai começar a ser lembrado como o local dos livros e não só dos bares», garante Oséias Ferraz. Historiador e dono de um dos maiores e mais antigos sebos do andar da sobreloja. O que para alguns é um local de passagem, um atalho entre a Augusto de Lima e a Bahia, para outros é trabalho, moradia e diversão. «Trabalho e moro no Maletta», «passo o dia inteiro aqui»,» às vezes nem sei o que acontece lá fora: se 'tá sol, se chove, se é dia ou noite ...», «só saio do Maletta para dormir em casa: chego cedo na manhã e saio tarde da noite». As pessoas que chegam de fora trazem as notícias do mundo exterior. A roupa molhada, os óculos escuros e até o ritmo dos passos traduzem a sensação do tempo. Projeto supra-sumo dos tempos modernos belorizontinos, o Maletta foi divido em três: um prédio com apartamentos de um quarto, outro com salas comerciais, e um terceiro com apartamentos maiores, de três quartos. «Alguns meses ... uns cinco», " moro até hoje. Não penso em me mudar daqui, «fiquei por aqui alguns anos, quando cheguei do interior»,» já não sei mais ao certo, tem muito tempo». A impressão é que a vida dentro do Maletta marca as pessoas. Muitos dos que freqüentavam passaram a morar. De esses, uma boa quantidade resolveu voltar anos depois para trabalhar. Refúgio, sobrevivência, 'tilo de vida, nostalgia. Entre idas e vindas à Belo Horizonte, a maior parte de eles parece 'tar ligada fortemente àquele local. Ninguém é imune à história pessoal e particular que foi cultivada ao longo dos anos com o edifício. O colossus de concreto erguido no centro da cidade causa um efeito de suspensão naqueles que adentram a sua grande barriga. «A cidade dentro da cidade», um dos seus slogans mais conhecidos, traduz as milhares de pessoas que por aquelas entradas e saídas circulam, os 20 andares comerciais e os 31 residenciais ocupados por famílias e pessoas distribuídas em 359 apartamentos, que vão e vêm em 12 elevadores. Adormecido no cruzamento da Avenida Augusto de Lima com Rua da Bahia, ele observa silenciosamente a história moderna da cidade. Número de frases: 74 Mais fotos. O pavilhão do artesanato do 9º Festival de Inverno de Bonito, que aconteceu de 30 de julho a 3 de agosto, é considerado por os artesãos como um 'paço de intercâmbio cultural, troca de informações e novos negócios. Em o local 'teve em exposição os mais variados produtos que agradou os visitantes tanto por a qualidade quanto por os preços acessíveis. De todas as faixas etárias, o público pesquisou novidades, conheceu curiosidades sobre as matérias-primas e participou da integração do artesanato sul-mato-grossense. O clima da sustentabilidade também tomou conta do lugar que apresentou produtos que usam material reciclável como matéria-prima. O artesão campo-grandense Jorge de Barros, que é um participante assíduo dos festivais sul-mato-grossenses, apostou no artesanato para as crianças. Para ele, a cultura dos festivais já foi criada no Estado. O artesão considera o evento como uma oportunidade para cada artista apresentar sua proposta de trabalho e vender seus produtos. «Produzo bonecos de fantoches articulados. As pessoas já colecionam meus bonecos e a cada edição dos festivais eu crio novos personagens para vender. As crianças adoram pois aqui existe pouco artesanato para elas», explicou. A matéria-prima utilizada por Barros é 'puma, tinta acrílica e tecidos. Seus personagens, em sua maioria são os bichos do pantanal como o macaco prego, a onça pintada, o bugio (outro macaco que vive nas regiões alagadas do Pantanal), o tucano, o tuiuiú e o jacaré. Mas seus palhacinhos também levam a alegria para a criançada. Seus fantoches também são utilizados como brinquedos pedagógicos por professores. Em o festival os bonecos foram vendidos a 15 reais. O projeto Mãos à Obra, idealizado por o Sebrae -- MS e que tem o apoio da Prefeitura Municipal de Jardim, levou ao festival produtos que utilizam como matéria-prima o osso de boi. Este é um trabalho social feito com pessoas carentes que encontram no artesanato uma forma de geração de renda. Treze artesãos participam da iniciativa. Eles produzem porta-canetas, chaveiros, petisqueiras, bozó, semi-jóias e outros produtos com um acabamento requintado. O chifre é um dos materiais mais usados na produção. «Este é o segundo ano que participamos do festival. Muita gente de outros municípios passou a conhecer nosso trabalho e os comerciantes se interessaram por nossos produtos. Estes contatos nos atraem para participarmos sempre dos festivais», afirmou a coordenadora do projeto Dirlenia Campos. O design campo-grandense Paulo Sérgio Batista 'pecializou-se na confecção de bijuterias que têm como base as sementes e cipós cultivados em solo sul-mato-grossense, além de chifres e ossos de bovinos. Ele começou seu trabalho em 1997 depois de fazer cursos no " Sebrae de Campo Grande. «Participar deste festival é muito importante porque conhecemos novas pessoas que nos repassam outras técnicas e idéias. Esse intercâmbio é fundamental. Assim nosso trabalho evolui 100 %», comemorou. As sementes utilizadas como matéria-prima são as do Jatobá, Olho de Cabra, Pau-Brasil, Jacarandá, Coquinho Pindó, Saboneteiras, Olho de Pombo, além da casca de coco e madeirinhas. O bracelete é o produto que mais vende. Os preços das bijuterias variam de 5 a 30 reais. A cerâmica da etnia Kinikinau, localizada entre os municípios de Bonito e Porto Murtinho, também 'teve presente no festival. A índia Agda Roberta, presidente da Associação Ceramista de Kinikinau, e seu marido José Hugo Albuquerque encontram no Festival de Inverno de Bonito a oportunidade de divulgar os trabalhos feitos por seus patrícios. A comercialização dos artigos ajuda no aumento da renda das famílias indígenas. As pinturas são feitas com tintas naturais produzidas por meio das plantas nativas do cerrado. A cor preta provém do genipapo e o vermelho, amarelo e rosa da argila e do urucum. O brilho é dado por a resina da almessica. Os Kinikinau produzem também albanicos, chucalhos e cestas de palha de carandá e pindó. O couro do boi também é utilizado em algumas peças. Jovens, homens e mulheres confeccionam o artesanato. «É importante participar do festival porque vivemos só com a renda da cerâmica. Em o festival as peças têm grande saída e fazemos muitos contatos», explicou Agda. Para a turista carioca Rosana Gurgel 'te é um festival de maravilhas. «Os preços do artesanato são excelentes. Tudo é muito justo», concluiu. Contatos: Jorge de Barros -- Cel. Número de frases: 48 (67) 9917-9896 Paulo Basílio -- paulo basilio@hotmail.com http://vozesdafavela.blogspot.com Favela! isso mesmo! Aquele nome de planta que virou sinonimo de agregamento social, tem voz! A favela produz conteúdo e faz acontecer, grande parte da cultura brasileira vem de ela, como Machado de Assis e grandes outros nomes. A nova geração também tem vez, o Funk é um exemplo que o jovem quer criticar e mostrar a cara, o rap, o samba, o rock ... Muita coisa acontecendo fervendo dos «guetos», periferias, becos e vielas. Não so na música, mas em diversas expressões de artes 'palhas por ai, sendo até exportada para outros paises. Um grande exemplo disso é o Grupo Cultural AfroReggae possibilitando que 'sa galera tenha um canal para explodir suas ideias e fazer acontecer eu cresci lá aprendi informatica lá e hoje faço faculdade de design gráfico e 'tagiando numa das maiores empresas de publicidade F / NAZCA. Alguém ainda dúvida do poder da nossa voz ... Falando isso tudo, lembro que sou um filho AfroReggae, hoje 'crevendo 'te texto ponho minha voz, ou melhor minhas palavras para o mundo inteiro ler, comentar e opinar sobre meu modo de 'crever, expressar, meu português ruim e coisas assim, mas não quero academia, quero que a voz da favela seja divulgada por todos os cantos todos os lados. Número de frases: 10 veja aqui o texto do meu brother Marcos Vinicius sobre a origem da favela Mundo, mundo, vasto mundo se eu me chamasse Brilhantino não seria uma rima, talvez uma solução * Brasileiros e gente de todo o mundo que foram ao 5º Cine Fest Petrobras Brasil, em Nova York, no início de agosto, puderam assistir, de entre curtas e longas da produção recente do cinema brasileiro, ao documentário de curta-metragem Brilhantino, um dos 40 vídeos produzidos por o Projeto Revelando os Brasis ano 1. Escrito e conduzido por mim -- com muito medo de fazer algo que nunca havia feito -- o curta mostra o dia-a-dia de João José Brilhantino, um senhor de 71 anos que há mais de 20 vive numa 'pécie de caverna, numa região montanhosa, de difícil acesso, a 7 km da sede do município de Muqui, sul do Espírito Santo. Com a notícia de que Brilhantino seria tema de «filme», os ânimos de todos na pequena cidade, de 15 mil habitantes, ficaram aguçados. O homem da caverna, um cidadão que sempre transitou às margens -- sentado num bar, falando pouco, repudiando falácias a seu respeito, 'bravejando com pessoas inconvenientes que o tiravam do sério e, algumas vezes, sendo gentil com os que o tratavam com o devido respeito -- ganhou visibilidade. Estive com ele várias vezes desde nosso primeiro contato. Minha aproximação não foi fácil, Brilhantino sempre se mostrava muito arredio, até que um dia aceitou fazer o vídeo, mas, mesmo assim, sob a desconfiança de quem, muitas vezes, só dispunha de um lugar à margem para ser. As pessoas começaram a indagar-lhe na rua sobre o tal «filme» e ele me dizia: «Olha o que você foi me arrumar ...». Em 2005, o vídeo ficou pronto e foi lançado no Rio, junto com os outros 39 produzidos por o Projeto Revelando os Brasis. Brilhantino foi com mim. Era sua primeira viagem de avião. Enquanto eu me preocupava com o seu bem-estar, ele achava tudo muito natural, nada que o deslumbrasse. «Andar de avião é igual andar de roda gigante, só que é mais alto «e, olhando pra mim,» Você tá morreno de medo, né?». Eu 'tava. Em o Rio -- onde ele já havia ido outras vezes -- passeou sozinho por o Centro e por Copacabana, onde moram duas de suas filhas. E mesmo na cidade maravilhosa, não abriu mão do saco que carrega nas costas com seus pertences. Por onde passava -- no aeroporto, no hotel, nas ruas -- era seguido por olhares curiosos. Depois de ter sido exibido na TV, em mostras e festivais de cinema e vídeo no Brasil e no exterior -- como o festival Brasil Plural, em países da Europa, em 2005; a mostra realizada por o Projeto Copa da Cultura durante a Copa do Mundo na Alemanha, em 2006; e o Festival Internacional de Guadalajara, no México, em 2007 --, em maio deste ano, «Brilhantino» foi exibido em Muqui, num telão de cinco por oito metros, na praça central da cidade. Foi o vídeo de abertura do Circuito de exibição das cidades participantes do Projeto Revelando os Brasis. mais de três mil pessoas foram assistir ao documentário. Brilhantino era o centro das atenções. Seus filhos vieram de Vitória e do Rio, veículos da imprensa nacional também vieram -- entre eles o Overmundo, com a Helena Aragão. Foi uma festa! Gente que nunca tinha ido ao cinema se sentiu num. Ver o Brilhantino da rua no telão foi uma novidade. Perceber que aquele homem era maior que as dimensões da tela, por o seu caráter, sua humanidade, sua postura diante da vida, foi uma surpresa para muitos. Depois da 'perada exibição em Muqui, ele me disse 'tar muito feliz e que queria saber quando íamos fazer outra festa igual àquela. Mas, segundo ele, mesmo com o sucesso do documentário, sua vida continua a mesma. «Eu fiz isso aí, mas eu não sou um homem de televisão, eu sou um homem da terra. Eu cuido das minhas plantas, eu vivo a minha vida». Ele continua morando em sua caverna, de onde jamais pretende sair. «De aqui não saio, daqui ninguém me tira». Para os moradores da pequena Muqui, cujo olhar sobre o gauche homem já era gasto e quase ignorado, foi impossível não reacender as opiniões sobre o conterrâneo, que saiu na TV e 'tá (o vídeo apenas) rodando o mundo. «Antes eu ouvia algumas histórias, mas não sabia muita coisa do Brilhantino. Depois do documentário, eu passei a prestar mais atenção em ele, disse-ma funcionária pública aposentada, " Angela Maria Fernandes. «Eu ri muito vendo o filme! Eu o via na rua e sabia que ele morava numa oca. Depois do filme, eu percebi que as pessoas começaram a falar mais com ele, dar mais atenção», conta a comerciante " Rosemary de Souza Gorçani Cordeiro. «Ele é meio de veneta. Tem dia que tá bem, tem dia que tá atirando fogo por as ventas. Ia todo dia no bar. Em os dias que saíram as matérias no jornal, ele ficou diferente. As pessoas falavam: ' você tá famoso! '. Ele dizia: ' eu sou o mesmo Brilhantino que eu era '», contou-me Seu Kito (Roque Neves Junior), antigo dono do Bar Vitória, freqüentado há décadas por Brilhantino. Minha intenção -- pobre intenção do autor -- era a de que o olhar marginalizante de alguns moradores pudesse ser colocado em questão, pois muitos conheciam Brilhantino, mas poucos o conheciam como um homem alegre, que tira poesia -- não poemas -- das coisas; canta e parodia músicas que ouvia no radinho de pilha, ou em fitas K7, na década de 70. Poucos tinham ouvido Brilhantino interpretando Roberto Carlos e expondo tão emocionado, e às vezes irônico, suas impressões sobre si e sobre o mundo. Tudo isso porque, antes, talvez poucos tivessem parado para ouvi-lo de maneira respeitosa. A vida e o vídeo Brilhantino optou por 'ta peculiar moradia após evolver-se em conflitos de terra e ser expulso de sua casa. Resistindo a tudo e a todos, até mesmo ao apelo dos filhos, ele passou a viver sozinho sob uma rocha em forma de concha, no alto de um morro, nas terras que havia comprado com muito 'forço. Sua vida ganhou narrativa audiovisual graças ao Projeto Revelando os Brasis, fruto de uma parceria entre o Ministério da Cultura e o Instituto Marlin Azul. Vai, João! ser gauche na vida O termo gauche, gentilmente «surrupiado» do poema de Drummond, vem do francês e pode significar «à esquerda»,» desajustado», «torto». Ser gauche não é, necessariamente, algo pejorativo. Muito pelo contrário, ser desajustado é 'tar na contra-corrente da cultura repetidora de padrões sociais sob os quais vivemos, e de dentro dos quais raramente ousamos sair. Brilhantino não só tem uma 'tatura encurvada, como também vive à esquerda do mundo, na contra-mão do que poderíamos chamar de estilo de vida comum. Além disso, ele é gauche no que fala, no que pensa, na forma como o faz, sempre convicto, superior. Vem daí, desse desprendimento de Brilhantino diante do mundo, a minha idéia em mostrá-lo, no vídeo, como um ser grandioso, com sua humanidade evidenciada. A câmera baixa, num ângulo de baixo para a cima (contra-plongé) valoriza o personagem. O enquadramento, sem a preocupação de trazer Brilhantino sempre dentro da tela, é, também, uma 'tratégia que remete a 'te homem que ora transita por o centro, ora por a margem, um homem que não se enquadra no «quadro» quadrado, talvez ultrapassado, da vida. Em o início do vídeo, no bar, outro plano, o fechado, adentra a emoção do personagem que se revela, por um momento, saudoso com a lembrança do pai. No decorrer da narrativa visual, outros planos fechados do fotógrafo Orlando da Rosa Farya buscam o interior do personagem à medida que ele adentra o interior de sua caverna. Apesar da curiosa moradia de Brilhantino, o que mais me chamou a atenção foi a sua humanidade fervorosa, sua vontade de viver, sua relação singular com o mundo, com a solidão, com a morte. Ele, que não gosta de se olhar no 'pelho -- talvez, como disse Arnaldo Bloch, para se sentir sempre jovem -- tem em seu cantar a tradução lírica para sua vida, já que, para cada situação do cotidiano, busca uma música que ritme aquele instante. Quando da gravação do vídeo, eu pedi que nos mostrasse fotos, das quais iríamos pegar detalhes, e ele, prontamente, disse: «Vai pegar detalhes? Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra 'quecer ...». Brilhantino e Noel Rosa Em o 5º Cine Fest Petrobras Brasil, em Nova York, Brilhantino foi exibido antes do filme Noel -- Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen. Noel Rosa revolucionou, ou «gaucheou», a música ao unir periferia e asfalto em torno do samba. Brilhantino é o reflexo de um gauche que também transita entre o meio e a margem, a caverna e a rua, com a naturalidade de quem colhe jaca na Serra da Morubia e anda no centro do Rio, cantando a vida. Em o Bar Vitória ou no Bar Ideal, em Muqui, Brilhantino também se descontrai numa Conversa de Botequim e pouco se importa com que roupa vai a 'te ou àquele lugar. Até porque não 'tá preocupado com o sucesso, nem com o que falam de ele. Como ele bem diz: «Eu nunca precisei disso (do vídeo sobre ele), eu tô fazendo isso pra te ajudar. Artista? Eu sou artista desde quando eu nasci!». Em o Banco de Cultura A Comunidade Overmundo poderá conferir o vídeo na íntegra aqui no Banco de Cultura. O vídeo tem apenas 15 min. de duração. Número de frases: 89 * A 'trofe que epigrafa o texto é uma adaptação de «Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade». Meia hora de encontro, e 11 dos 14 músicos, alguns acompanhados das namoradas, já 'tavam em local e hora combinados. Mais 30 minutos de mobilização generalizada, e a roda passa a contar com quase 20 pessoas conversando sobre j-rock, animes e Naruto (!!?). Rock, mangá e Jaspion soam mais familiares? Pois bem, a 'sência é a mesma -- e o «J» vem de «japanese». Legítimas representantes do rock japonês ' made in ' Natal, únicas por sinal, a veterana Pandora no Hako (formada em 1999) e a novata Saigo Ni, respectivamente «Caixa de Pandora e Último Instante», vêm chamando atenção de jovens e adolescentes fascinados por a cultura pop japonesa. O caminho para se montar uma banda de j-rock parece seguir a mesma trilha: para começar, todos são fãs de mangá (HQ japonesa). Vidrados em animes (mangás em filmes animados) e em todo o universo que cerca os Cavaleiros do Zodíaco, logo a trilha sonora das séries também passa a ser alvo de curiosidade. A partir daí, juntar um grupo de amigos para tocar covers de bandas do pop / rock nipônico, como as clássicas X Japan, L'arc-en-Ciel e Luna Sea, passa a ser uma questão de tempo. «Quando percebemos, 'távamos ouvindo mais rock japonês que assistindo aos animes», lembra Luciano Sabino, 22, vocalista da Pandora no Hako. Sabino, único que cursa música na universidade, também é cantor de ópera e 'tudante de violino há dois anos. Porém, apesar do gênero remeter a bandas de aparência andrógina, onde o cuidado com o figurino extravagante e a maquiagem sombria são tão importantes quanto instrumentos bem afinados, as potiguares não adotam o «visual kei» -- ou «visual rock» -- popularizado por a X Japan, considerada a pioneira do 'tilo com projeção internacional. «Requer toda uma dedicação, não temos nem como pensar em figurino tendo que cuidar dos equipamentos. Já pensou a maquiagem 'correndo com o suor? Não ia dar certo», observa Anchieta Cruz, 24, baixista da Pandora e responsável por o registro das experimentações no 'túdio caseiro. Além de Anchieta, bacharel em Direito e originalmente mais pianista que baixista -- instrumento que aprendeu a tocar justamente para completar o grupo, e Luciano, ainda fazem parte da Pandora os guitarristas André Herman, 23, que cursa engenharia agronômica, e Paulo Dantas, 22, 'tudante de filosofia, Roberto Lima, 22, baterista e licenciado em educação artística, Daniela Cavalcanti, 19, tecladista e recém aprovada no vestibular para economia, e o'chefe ' dos roadies Flávio Augustus Maia. Já a Saigo Ni, que num ano de existência fez três shows -- todos com a Pandora, sendo dois de eles como segunda banda e o outro como atração principal --, traz na formação o programador e baterista Tarso Nunes Aires, 24, o tecladista Victor Cavalcante, de 17 anos, o 'tudante de publicidade e baixista Marcus Vinícius, 22, os guitarristas Christi Rocheteau Paiva, 19, e Andreidy Andry de Andrade (ou «And³ "), 23, 'tudante do curso de geologia e mineração do Cefet, mais os vocalistas em experiência Bruno Henrique, 18, e» Maíra Rinoa. «Nosso vocalista anterior perdeu o interesse», justifica Tarso. O que muda é a língua Como no rock ocidental, podemos definir a Pandora como uma banda de j-rock e a Saigo Ni de j-pop / rock. «Tirando a língua, a harmonia é a mesma desde Bach. Por isso, a diferença entre um rock ocidental e um japonês é tão difícil descrever quanto conceituar o que é rock europeu e o que é rock americano!», explicou Anchieta, sem deixar brechas para novas dúvidas sobre a questão. Diante da diversidade de influências musicais, se pudéssemos somar todas criaríamos a criatura mais abominável que os heróis de anime poderiam imaginar. Anchieta é ligado à música clássica, Sabino ouve de ópera a Cristina Aguilera, Bruno também canta numa banda de hardcore e 'tuda violino. Marcus também toca pop / rock em português e Rocheteau confessa disfarçadamente que prefere HQ norte-americano, enquanto Victor seria o intérprete oficial numa possível turnê por o país do Sol nascente. Ele é o atual (2005) campeão brasileiro de oratória em japonês da categoria B -- para quem não fala fluentemente (!). «Conheci Salvador e São Paulo falando japonês», contou o natalense. «Um dos prêmios é uma viagem para o Japão, mas ainda falta um teste ... ainda não sei direito. A princípio ficou marcado para outubro deste ano», planeja o também ' quase ' técnico em rede de computadores formado por o Cefet / RN. A regra básica Quanto ao repertório, nova coincidência: as duas lançam mão do mesmo artifício. «Misturamos músicas de animes com covers de bandas famosas de j-pop / rock, no caso damos ênfase para composições da L'arc-en-Ciel», adianta-se Tarso. «Para tocarmos uma música é importante gostarmos de ela, e saber que o público também gosta», enumera Victor, único do grupo reunido que 'tuda a língua japonesa com afinco há quatro anos. «Nosso público é muito exigente, já chega nos shows sabendo o que quer ouvir, por isso a dificuldade em introduzir músicas nossas no repertório», completa Anchieta. A Pandora no Hako inclui nos shows temas do Cavaleiros do Zodíaco, Changeman e Jaspion. Ambas preferem não fazer muitos shows para não saturar o público, normalmente a média -- no caso da Pandora no Hako -- é de 4 ou 5 apresentações por ano. «É uma regra básica», notifica Anchieta, o'cara do home 'túdio '. A média de público chega a 300 pessoas por show: «Tem alguns velhões, mas maioria 'tá na faixa dos 15, 16 anos», emenda. Questionados sobre entender ou não tudo o que canta, o baixista da Pandora adianta-se: «Podemos não saber a tradução de palavra por palavra, mas temos uma idéia clara do contexto. A preocupação é fazer boa música e articular corretamente os vocábulos», simplifica. As letras ' emo ' são uma constante e falam de amor, superação, desafios da juventude, paixões e desilusões -- melhor que responder: «a inspiração vem do cotidiano» (!). Ainda sem CD lançado, a Pandora no Hako vem se arriscando nas composições autorais, todas 'critas em português e traduzidas por Victor, da " Saigo Ni. «Não temos 'sa preocupação com a concorrência, quanto mais gente curtindo nosso som melhor. E que surjam outros grupos», afirmam em uníssono. Apenas uma banda brasileira de j-rock tem CD lançado com músicas próprias, a carioca Psygai. Como não poderia deixar de ser, o perfeccionismo e o padrão de qualidade japonês influenciam até na hora de gravar uma demo. «Muitas vezes passamos meses gravando uma música. As gravações são repetidas à exaustão até ficar como queremos», conta Anchieta, que também faz as vezes de produtor musical. «Uma vez, mexemos tanto numa música, que acabamos danificando o arquivo aberto (apto à manipulação em programas 'pecíficos para áudio). Como já tínhamos uma versão em mp3 gravada, acabamos disponibilizando do jeito que 'tava na internet», lamenta. As coisas acontecem na rede Ferramenta indispensável para interagir com núcleos de outros 'tados, a internet é o ambiente ideal para compartilhar informações e músicas em mp3. As poucas já distribuídas por a grande rede de computadores já fizeram a fama da Pandora no Hako Brasil afora. «Antes os contatos eram via mIRC e ICQ (programas de conversa e compartilhamento de dados on line), hoje o Orkut é o principal meio de divulgação», disse o guitarrista André Herman. O primeiro show da Pandora no Hako fora RN, tida como uma das pioneiras do j-rock no País, 'tá marcado para agosto deste ano, durante a terceira edição anual do evento Super Hero Con, em Recife, Pernambuco. Voltado para 'se segmento da cultura pop jovem japonesa, o Super Hero Con é o segundo maior encontro do gênero no Nordeste -- em 2005 reuniu cerca de 6 mil pessoas em 2 dias, ficando atrás do Sana (Super Amostra Nacional de Anime), realizado há seis anos em Fortaleza, Ceará, que tem o dobro do tamanho. Ou seja, 12 mil pessoas jogando vídeo game, lendo mangá, ouvindo rock japonês, assistindo palestras e trocando figurinhas sobre Animes no mesmo lugar. «Em São Paulo, o Anime Friends e o Anime Con, os maiores do Brasil, somam juntos mais de 100 mil participantes», informa Victor. A versão potiguar desse tipo de festival chama-se Saga de Entretenimento, que em outubro do ano passado juntou cerca de 600 aficcionados em mangás num dia de evento. Inclusive, a ocasião também serviu para a Saigo Ni pisar pela primeira vez num palco. Por enquanto ainda não há previsão para lançamento de CD, mas a Pandora no Hako adiantou que 'tá trabalhando na gravação de um disco em homenagem à banda japonesa Lareine, com direito a inclusão de uma música própria no repertório. Contatos Pandora no Hako Telefone: 84 9925-6789 ou 84 9431-7655 E-mail: bewasdal@yahoo.com.br ou neptuno@digizap.com.br \> \> ouça Pandora no Hako no Banco de Cultura do Overmundo Saigo Ni Telefone: 84 8834-9114 ou 84 9906-7785 E-mail: tnaires@hotmail.com ou shinji rn@hotmail.com