Que a sociedade protetora dos animais não tenha acesso a esse texto, mas eu odeio gatos de pizzaria! Isso mesmo, de uns tempos pra cá tenho percebido a numerosa presença de gatos nas pizzarias que freqüento e olha que isso não é privilégio daquela mais caidinha não, tenho encontrado os malditos em todas as pizzarias. Lógico que são gatos diferenciados, de acordo com o local encontro desde os siameses, é verdade, só que completamente vira-lata, até os próprios vira-latas. O grande incômodo de se ter esses bichanos enquanto eu como é que os danados param ao meu lado e começam a me encarar, sem dó nem piedade fazem aquela cara de fome, que a essa altura dos acontecimentos já não sei se o danado quer mesmo a pizza por fome ou é pura manipulação pra comer mais um tasco, pois os animais são gordos. E eu acabo cedendo. E eu não ganho nem um miau por isso. Fazer o quê? Isso seria até simples de se resolver, pois já estabelecido este código -- ele olha com cara de fome e eu lhe dou o tasco de pizza, tudo bem, mas não pára por aí. Podem me chamar de anti-social, preconceituoso, fresco ... o que me deixa mais irritado é quando estou distraído, comendo e conversando e de repente passa ele, o bichano gordo manipulador, esfregando seu corpo na minha perna, completamente sensual, sedutor e mesmo que eu o espante, o rabo sempre dá um jeito de dar uma última pincelada em mim. Que raiva! Em o último fim de semana travei um duelo com um desses, como sempre faço antes de ceder. Segurava o garfo com a mão direita e a cadeira com a esquerda. Sempre que o esfomeado manipulador se aproximava eu o ameaçava com a cadeira. Fiquei nessa rotina até terminar de comer a pizza e olha que neste dia eu pedi uma pizza grande. E eu estava comendo sozinho. É, levou um tempinho. A o terminar, lhe dei duas fatias e quando voltava para a casa dirigindo meu carro, comecei a me sentir enjoado. Sem dúvidas foi aquele movimento todo, garfo, cadeira ... Enfim, nesse fim de semana vou pedir por o telefone e rezar pra que esses bichanos não tenham sido contratados como entregadores por as pizzarias. Sei lá, vai que o dono da pizzaria resolva seguir o ditado ao pé da letra, «se não pode com eles, junte-se a eles». Já pensou? Número de frases: 22 Marcelo Perez Em as andanças por as estradas do país, o programa Decola encontra Emerson do Cavaquinho, um músico-mirim de Amargosa / Ba. O garoto tem 12 anos e arrasa no cavaquinho. Número de frases: 3 O Decola é apresentado por Liliane Reis e é exibido por a TV Cultura, todo sábado, onze horas da manhã. A assertiva acima é do cordelista Arievaldo Viana, responsável por o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula. Publico abaixo a matéria que fiz sobre o projeto e a conversa que tivemos por email. Já me agendava para trazer esse papo aqui para o Overmundo e fui instigado a apressar a postagem por a entrevista que o Pedro Rocha fez com o pesquisador Gilmar de Carvalho (procurar por " O range-range inquieto ...). Aliás, gostaria de ver o que Gilmar diria dessa informação do Arievaldo sobre o analfabetismo de Patativa do Assaré, já que ele escreveu sobre o poeta. Os demais colegas overmundanos podem comentar também sobre a alimentação que se fez na mídia sobre esse «incultismo» de Patativa. Puxei para essa história do Patativa por o inusitado da coisa (ao menos pra mim), mas o projeto de resgate do cordel capitaneado por o Arievaldo é o grande lance, tanto que deixei a questão do Patativa no fim da fila da entrevista. O Arievaldo me mandou depois uma outra entrevista muito mais interessante que ele deu a uma pesquisadora universitária que não reproduzo por falta de autorização, que nem quis pedir, aliás. Espero que ele ou ela se animem a trazê-la aqui. Deixei de propósito as respostas de ele como me mandou na mensagem, incluindo as diferentes letras em maiúsculas e minúsculas, artifício que eu não pude fazer no jornal. Viva a liberdade editorial Overmundana! Cordel de classe Nova geração de poetas nordestinos revive a literatura de cordel e resgata a beleza e o poder alfabetizador dessa arte Forma literária secular que se ramificou por outras manifestações artísticas no Brasil (como a xilogravura e o repente), o cordel já foi importante instrumento de alfabetização, transmissão de conhecimentos e incentivo à leitura, especialmente no Nordeteste brasileiro. O auge do cordelismo se deu entre os anos de 1940 e 1950. Quase se extinguiu como cultura de massa, mas está ganhando novo fôlego por o trabalho de uma nova geração de poetas e chegando às salas de aula por o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, capitaneado por o poeta, radialista, ilustrador e publicitário cearense Arievaldo Viana, 39 anos. Como Arievaldo Viana, há hoje poetas escrevendo novos cordéis -- livrinhos de formato e linguagem originais -- e reeditando obras de cordelistas importantes do passado, como os paraibanos João Martins de Athayde (1887-1959) e Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Esse movimento de revitalização do cordel data do fim dos anos 90, com o surgimento de editoras importantes do gênero como Tupynanquim (de Fortaleza), Coqueiro (Recife) e Queima-Bucha (Mossoró). Em Campina Grande (PB), o cordelista Manoel Monteiro conseguiu implantar um arrojado programa editorial de cordel com apoio dos poderes públicos locais. O histórico do cordel levantado por Arievaldo no livro Acorda Cordel na Sala de Aula destaca o trabalho de poetas-editores como Pedro Costa (no Piauí), o mineiro Téo Azevedo (do Norte de Minas Gerais) e nordestinos radicados em São Paulo e Rio, como Mestre Azulão, Apolônio Alves dos Santos e Gonçalo Ferreira, que revive os livrinhos em bancas na feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Já adotado em escolas de várias cidades, o projeto Acorda Cordel na Sala da Aula contempla um livro homônimo que funciona como um guia do cordel para professores, uma caixa com 12 livrinhos de diferentes autores e um CD com músicas defendidas por repentistas como Geraldo Amâncio, Zé Maria de Fortaleza, Judivan Macedo e Mestre Azulão, além do próprio Arievaldo. O livro-guia traz as origens e o desenvolvimento do cordelismo no país, as técnicas e modalidades e sugestões de exercícios para se trabalhar com alunos. É ferramenta paradidática da alfabetização ao ensino médio, garante Arievaldo, alfabetizado por a avó com os livrinhos. Em que pese a história da poesia popular ter exemplos de poetas analfabetos ou semi-analfabetos que ficaram famosos por explorarem ou apresentarem essa condição em seus poemas, Arievaldo Viana se apressa em dizer que o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula prima por ensinar o cordel de acordo com a norma culta da língua portuguesa. «Desde Leandro Gomes que os cordelistas escrevem e defendem a correção da escrita. E há uma diferença entre o cordelismo e a poesia matuta, os próprios poetas matutos não gostavam de serem tratados como cordelistas», diz, em referência a Zé da Luz (1904-1965) e Patativa do Assaré (1909-2002). Aquisições do kit do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula com o autor por o e-mail arievaldoteh@bol.com.br ou por o telefone (85) 9909-1745 A entrevista -- Lia sobre o trabalho da editora Tupynanquim e fiquei curioso por saber se se produz tanto cordel hoje quanto no auge dessa arte, nas décadas de 40 e 50, como você aponta do livro-roteiro do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula. Em a década de 1990 o cordel esteve ameaçado de extinção e houve mesmo quem fosse aos jornais e tv's anunciar a sua morte. Li matérias de professores universitários que pesquisam a cultura popular dizendo que só havia sobrevivdo o folheto circunstancial, aquele cordelzinho jornalístico de oito páginas. Eu, particularmente, não gosto de produzir coisas dessa natureza ... os únicos cordeis circunstanciais que eu produzi foram sobre a Queda das Torres Gêmeas e a Morte do Papa João Paulo II, que na verdade é uma biografia de um vulto que eu já admirava ... Não foi com interesse oportunista que eu produzi. Tenho mais de oitenta folhetos já publicados, muitos de 32 páginas, que o tradicional «romance». Quando comecei a publicar meus folhetos, no final da década de 90, abracei essa causa com o intuito de revitalizar o cordel e estimulei outras pessoas a produzir e publicar. O poeta Manoel Monteiro de Campina Grande. estava editando seus trabalhos em pequenas tiragens feitas em Xerox ... Depois da minha injeção de ânimo voltou a publicar em gráfica, em grandes tiragens de 3 a 5 mil exemplares e aos poucos a gente foi montando um sistema de distribuição para todo o Brasil. Hoje eu vendo e permuto folhetos com poetas de São Paulo (Marco Haurélio), Janeiro (Mestre Azulão, Marcus Lucenna e Gonçalo Ferreira -- o pessoal da ABLC -- Academia Brasileira de Liteatura de Corde), da Paraíba (Manoel Monteiro, Astier Basílio), do Rio Grande do Norte (Antonio Francisco e Crispiniano Neto), de Pernambuco (Costa Leite e Marcelo Soares), da Bahia (Bule-Bule), enfim ... o cordel repentinamente renasceu em todo buraco. Como diz o poeta Manoel Monteiro, a poesia popular é igual a saúva ... não tem quem consiga matar. Hoje, editoras como a TUPYNANQUIM e a Queima-BUCHA são responsáveis por o lançamento de quase mil títulos, em dezenas de tiragens ... Mesmo assim, o cordel ainda não atingiu a mesma intensidade do tempo de João Martins de Athayde, quase se faziam tiragens de até 50 mil exemplares de clássicos como Proezas De João Grilo e Pavão Misterioso. -- Em a sua opinião, por que a literatura de cordel em prosa não floresceu no Brasil como na Europa? Justamente devido à musicalidade do povo brasileiro ... Um povo que tem a melodia no sangue e já fala cantando e anda gingando. É natural essa clara preferência por a poesia rimada e metrificada. Mas existem alguns casos de cordel em prosa, só que muito raros aqui no Brasil. Em uma coleção de quase quatro mil títulos que eu tenho, existem apenas uns quatro ou cinco textos em prosa. O resto é feito em sextilhas, setilhas e martelos. -- São vários exemplos de uso do cordel como fonte de músicas conhecidas. O que move essa proximidade entre cordelistas e músicos? Apenas a poesia como fonte de letra para as canções explica a relação? O Cantador e o Cordelista são essencialmente musicais. A questão da métrica está sempre presente e o ritmo de leitura do cordel em voz alta é pura música ... Veja o caso de JACKSON De o Pandeiro ... o único tipo de literatura que ele consumiu a vida toda foi o Cordel. Se você analisar a obra de Jackson, de Luiz Gonzaga, de João do Vale, de Gordurinha e da nova geração de compositores nordestinos, vai ver que todos tiveram influência da cantoria e do cordel. E por que isso? A poesia popular oral foi que deu origem as cantigas, as canções de eito (de trabalho) e está presente no mundo todo ... Em a Península Ibérica, no México, na Argentina. Só que, ao chegar no Nordeste, não foi impressa como simples «folhas corridas» ou «pliegos sueltos». Lá no México era uma folha de papel ofício dobrada ao meio e ilustrada com uma gravura do grande José Guadalupe Posada, os temas eram muito parecidos com os nossos. A história de bandidos famosos como El Tigre De Santa JÚLIA, ou as escaramuças de Emiliano Zapatta correspondem aos feitos de Antonio Silvino, Conselheiro, Lampião, Padre Cícero e outros personagens brasileiros. O que diferência o nosso cordel é o formato. Foi Leandro Gomes de Barros quem primeiro adotou o sistema de dobra a folha de ofício em quatro partes orginando com isso o formato 16x11cm, que sobrevive até hoje. Os folhetos são sempre múltiplos de oito páginas, oito, dezesseis, vinte e quatro, trinta e duas, quarenta e quarenta oito páginas. Podem vir num, dois ou três volumes, como é o caso de clássicos como Romance De Um Sentenciado, que é uma adaptação do Conde De Monte Cristo, do Alexandre De umas. Os trovadores franceses, espanhóis e portugueses narravam os feitos de Carlos Magno e os Doze Pares de França ... Donzela Teodora, Jean de Calais, João Grilo, Pedro Malzartes (ou Pedro de Urdemales). Esses temas foram a base do nosso cordel, juntamente com as gestas do Ciclo do Gado (Boi Espácio, Rabicho da Geralda, Boi Vermelhinho, Boi Mandingueiro, Vaca do Burel, etc). Surgiram inicialmente em quadras e em forma de Abcs. Vieram também os Abc's de Jesuíno Brilhante, de Lucas da Feira, do Cabeleira e outros bandidos do primeiro ciclo do cangaço. Essas histórias tinham uma melodia que foram reaproveitadas posteriormente por muitos compositores. De aí que um cara como Zé Ramalho, Ednardo ou Alceu Valença nada mais são que «violeiros eletrificados» ou trovadores eletrônicos, como diz o Belchior. -- O hip hop é um complexo de manifestações artísticas norte-americano que junta canto, dança e grafite. Há paralelo possível entre o hip hop e as técnicas do cordelismo, também uma arte mista que se vale da rima, da xilogravura e eventualmente de músicos (pandeiristas, violeiros)? Inventamos muito antes de eles essa tríade artística? Dá para afirmar isso? Olha, Jackson do Pandeiro foi um dos primeiros caras a fazer uma coisa muito parecida com o Rap. O nosso Coco de Embolada tem o mesmo fraseado melódico. É difícil saber quem copiou quem ... Isso vem da raiz africana e está presente em todos os povos onde há influência da cultura negra. O cantor de funk e de «rap» ainda faz uma coisa muito primitiva, com métrica quebrada e rimas forçadas. Uns garotos de uma cidade do interior do Ceará, que já faziam «rap», participaram de umas oficinas que fiz e depois que tiveram noções de métrica, rima e oração (regras básicas da Literatura de Cordel) admitiram que o trabalho de eles iria evoluir muito mais depois que tiveram essa influência. A poesia popular nordestina tem muitas ramificações: A Cantoria, O Cordel, O Aboio, O Coco De Embolada, A Poesia Matuta e a Literatura De Cordel propriamente dita, que é a poesia popular impressa. Essa coisa da Xilogravura nem sempre esteve presente. Leandro Gomes de Barros não usava, nem João Martins de Athayde, que foi o maior editor de cordel nas décadas de 20, 30 e 40 do século XX. Editores de menor poder aquisitivo, que não podiam pagar um clichê ou uma zincogravura, foram os primeiros a utilizarem esse recurso, a fazer o casamento do cordel com a xilo. Lógico que o resulto foi enriquecedor, porque une duas forma manifestações artísticas diferentes -- a poesia e a gravura. Gabriel O Pensador me surpreendeu ao regravar a música A Mulher Que Virou Homem, de Jackson do Pandeiro. Além de reforçar essa batida de rap, ainda acrescentou algumas estrofes que não existiam no original e que não ficaram nada a dever à obra de Jackson. Eu geralmente levo essas músicas para as minhas oficinas e as pessoas ficam deslumbradas ao saber disso. Até Raul Seixas fez cordel -- As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor e Os Números são duas músicas onde a estrutura do cordel está presente. Portanto, a contribuição da poesia popular está presente também no Rock, no xaxado, no baião e, se duvidar, até na fina flor da MPB. Veja por exemplo as músicas «PARATODOS» e «A VIOLEIRA» de Chico Buarque ... são pura cantoria. -- Fiquei curioso com as informações que você diz ter sobre a erudição de Patativa do Assaré. Fale um pouco mais sobre. Porque isso não foi tão difundido? Ele não quis? Alimentava esse «mito» ou haveria outras razões? Os primeiros folhetos de Patativa eram em linguagem convencional ... são dessa safra Aladim E A Lâmpada Maravilhosa, ABILIO E Seu Cachorro JUPI e outros. Paralamente ele também fazia sonetos e poemas matutos. Em dado momento ele percebeu que seus poemas matutos tinham melhor aceitação, sobretudo depois que LUIZ GONZAGA gravou a Triste Partida. Então ele optou por a poesia matuta, seguindo a escola de Catulo da Paixão Cearense e ZÉ da Luz. Foi uma opção. Mas ele nunca negou que tinha influências de Castro Alves, Gonçalves Dias, Camões e outros poetas eruditos, que sempre leu com frequência. Criou-se um mito em torno do Patativa «analfabeto» que não é verdadeiro, embora ele fosse um camponês e convivesse com pessoas desletradas. Talvez dessa convivência é que tenha surgido esse toque de autenticidade na linguagem que ele escolheu para se manifestar artisticamnte. Número de frases: 114 Obrigado por a entrevista. Resenha de: BUCCI, Eugênio. A TV Pública não faz, não deveria dizer que faz e, pensando bem, deveria declarar abertamente que não faz entretenimento. I Fórum Nacional de Tv's Públicas: Relatórios dos grupos temáticos de trabalho -- Brasília: Ministério da Cultura, 2007. 116 p.. Caderno de Debates. A paciência continua sendo uma virtude. Sento, descanso, leio. P-E-N-S-O. Emancipadamente, consegui alçar meu próprio vôo depois de ler o artigo A TV Pública não faz, não deveria dizer que faz e, pensando bem, deveria declarar abertamente que não faz entretenimento, texto transcrito a partir de uma palestra proferida por Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás, num encontro da ABEPEC (Associação das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais) em Belo Horizonte, em 31 de agosto de 2006. Alcei vôo. Um vôo para bem longe. Bem longe de Bucci. Em vários pontos do texto, fui me aproximando à piano e até gostei quando Bucci definiu entretenimento. Adoro essa palavra. E n t r e t e n i m e n t-o. Grande em sua extensão, em seu significado e eu seu sentido figurado. Só que depois de ler o tópico A arte de vender os olhos da platéia e chegar ao Mito da «natureza da televisão», quis gritar. Por mais que eu concorde com Bucci em vários pontos de sua palestra, não consigo ver a televisão pública sem a presença do entretenimento. Explico isso mais adiante. Jorge da Cunha Lima, ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, ambiciona há muito tempo, a criação da Rede Pública de Televisão, a RPTV. Fato que me deixa pensativa devido a atual, e tão discutida, TV Pública que Franklin Martins, representando o Governo Nacional do Brasil, quer criar. Para quê criar uma nova TV se o projeto, com parte executado, já existe? ( Incongruência!) Essa pergunta ficará sem resposta. Voltando a Cunha Lima, num texto retirado do livro Pais da TV: a história da televisão brasileira contada por Gonçalo Silva Jr., diz em poucas palavras que os programas veiculados por a RPTV deveriam «ser bons para aumentar a audiência e cumprirem seu propósito de educar, informar e entreter». E-N-T-R-E-T-E-R! O que Bucci leva dez páginas para atacar e dizer que é um mal para a TV Pública, Cunha Lima desmitifica em duas linhas. Por que o entretenimento é tão perverso? Por que certas doses de lazer não podem existir na TV Pública? Será, senhor Bucci, que haverá público para uma densa programação baseada em «grandes cursos de cultura»? E que hora eu posso assistir algo mais leve, mais tranquilo? Não é essa uma das exigências do grande público de Wolton? Se a TV pública, não fazendo entrenimento se diferência da TV privada, e isto é bom, fico com essa última. Fico do lado do mau. Não que eu não goste de uma abordagem que me faça refletir, «caminhar» com meu próprio cérebro, pois isto é bom e necessário. O problema reside em só (S-ó!) ter acesso a programas densos. Desculpa, Bucci, mas não cabe somente à Tv Pública o dever de tornar a sociedade crítica, liberta, emancipada. Tenho várias críticas à TV Privada. Não quero parecer o Judas que traiu o mestre. Ela é perversa, mas não foge à regras ditadas por o capitalismo de mercado em que vivemos. É crime vender os olhos da platéia ao mercado publicitário? Espera aí, como sobreviverá essa TV pública (u t o p i c a m e-ne-t-) pensada por Eugênio Bucci? Sem dinheiro? Ou com o dinheiro do Governo? Então teremos uma TV pública e estatal? Dúvidas. Terminei de ler o texto de Bucci e só me restaram dúvidas. Voei e estacionei meu cérebro numa nuvem chamada raciocínio crítico, que, desculpe, caro Bucci, não aprendi a ter com a TV. Isso se aprende na escola com uma boa construção de conhecimento; se aprende com a família, com a comunidade, com bons exemplos. Não venha me dizer que a TV é tão poderosa assim que se torna capaz de emancipar, tornar-nos críticos. Não quero dizer que ela é só entretenimento, longe de mim. Existem programas bons, sim. Aliás, adoro assistir os lights e os cult, mas não me encha destes, pois senão me canso. Número de frases: 57 E quando eu me canso, vôo para bem longe. Jataí é uma cidade a ser inventada. Ela já existe na memória. Muitos já descreveram sua saudade de um lugar que não é mais, outros trocaram em papiros e línguas estranhas a história desse carrefour: Cem anos de Solidão ... O sintoma mais claro dessa cidade é o de que a maioria de seus habitantes perdeu seu chão (literalmente): no máximo temos duas gerações urbanas, que deixaram para trás a segurança (e imobilidade) dos valores rurais para habitar esse lugar e enfrentar os enigmas que Jataí propõe. «Me decifra ou te devoro». Muitos não entenderam nada e acabaram devorados: perderam os bens que possuíam, perderam a paisagem que habitavam e vagam agora por a cidade, trajando as mesmas vestimentas de meio-século atrás, escondendo-se na memória de dias melhores. Perdemos a identidade segura, perdemos o que em qualquer religião significa «o contato com a terra». De alguma forma precisamos nos religar, nos refazer: estamos todos existencialistas. E agora o José não sabe o que significam essas pedras sem caminho! De saudade e memória Itibiri Sá Burunga teceu seu primeiro canto: De as origens ao Cosmopolitismo. Em todo o começo o desafio é o silêncio: é necessário se arriscar para dizer alguma coisa, é necessário amor para cativar as palavras (e é necessária certa melancolia para dar asas a imaginação). Jataí é a paisagem de Itibiri Sá e em De as origens ao cosmopolitismo o poeta se cerca de amigos para enfrentar a esfinge e caminhar por as ruas da memória, inventar sons e tecer cantos, que seguem a lição de " Alberto Caiero: «nenhum rio é mais belo que o rio que passa por a minha aldeia». Kant, pensador que sonhou o cosmopolitismo, nunca saiu de sua cidade natal. Itibiri Sá deu o seu primeiro passo buscando articular -- como a diva Marisa Monte em seu mergulho no samba carioca-o «universo ao meu redor» e o «infinito particular». Como diria o poetinha «Vinícius de Moraes,» um bom samba é uma forma de oração», por isso mesmo o cantor jataiense busca incessantemente religar o homem a terra. Sarava! É essa busca poética que ganha força e dimensão mais elaborada no segundo trabalho de Itibiri Sá, Sombra Azul. Agora, mais seguro, o poeta canta o que será e abre suas portas para o futuro. O amor surge como uma espécie de harmonia entre o homem e o universo: nesse sentido, o poeta pode ser chamado com toda segurança e virtude de pré-socrático. O álbum é um mergulho no melhor da MPB ligando Jataí ao Brasil e apontando para além: se no primeiro trabalho o cantor se prendia à cidade, flanando em suas ruas de memória; agora ele não cita seu nome e convida o ouvinte a seguir seus passos junto à natureza e aprender com a pedagogia da paisagem que o homem pode ser muito mais ... Em Sombra Azul o poeta nos traz uma ética para o que há de vir. O trabalho de Itibiri Sá Burunga é fundamental. Enquanto alguns se contentam em cantar o desencontro e a angústia de mesas de bar e caixas de som com rodas (onde o amor é uma doença), esse poeta se arrisca a dar-nós um futuro, trazendo de volta o sentido da paisagem. Deixo um desafio: escute a primeira música de Sombra Azul -- Diga Você -- e diga você se não dá vontade de sair assobiando por aí ... numa busca por se auto-aperfei çoar e fazer os outros felizes. Podemos ser felizes aqui! (Fico devendo a informação sobre onde encontrar o CD para comprar ... sei que essa música, Diga Você, está disponivel no emule.) Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com) é mestrando em filosofia na UFG. Número de frases: 41 Cadê o trem que estava aqui? Enquanto por um lado propõe-se a instalação do rodízio de carros em Blumenau, a implantação da Ferrovia das Bromélias, entre Rio do Sul e Apiúna, é saudada por os aficionados por trem (inclua-se esta escritora) de forma efusiva. Como paulistana, experimentei por anos o rodízio existente naquela metrópole, desde a sua implantação e convivi com os vários aspectos positivos (melhora da qualidade do ar e trânsito mais rápido) e negativos (fraudes e adulteração das placas, maior número de veículos antigos e com irregularidade de documentação circulando). O trem? Ah, somente quem já experimentou o sacolejo do vagão, o som do apito inconfundível ao chegar à estação ou ainda, a visão da luz de uma locomotiva invadindo o espaço e cortando as dormentes é que sabe o valor e gosto de sentir essa nostalgia. A cidade cresce em ritmo acelerado e perde-se, assim como outras do Vale, na importância do resgate de um dos meios de transportes mais econômicos, nostálgicos e eficazes: o trem. Em esse trilho, o núcleo regional da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) trafega na contramão desse crescimento tentando manter o que resta e resgatar dormentes perdidas, tomadas por o mato e esquecidas por a ambição do progresso. Em o contraponto do crescimento demográfico e da evolução da tecnologia nos transportes, como cidadã que necessita transitar com conforto, rapidez e segurança por a cidade pergunto: Cadê o trem que estava aqui? Talvez a discussão possa ser ainda mais «sacolejada» oportunizando o tema com grupos ambientalistas e ciclistas que lutam incansavelmente por projetos que beneficiam ciclovias. O transporte da «loira» Blumenau merece ser discutido por pessoas que intencionam muito mais do que a rapidez e segurança. Saúde, resgate histórico-cultural e ainda uma boa pitada para o Turismo deixariam a cidade e seus habitantes mais felizes. Piuíiiiiiiiiiiiiiii Fátima Venutti Número de frases: 14 Escritora Bendito castigo aquele que os pais de Raimundo Carrero costumavam infligir ao filho travesso nas tardes quentes de Salgueiro, cidade do sertão pernambucano. Condenado a vegetar atrás do balcão da loja da família, longe das brincadeiras da rua, um dia ele descobriu por acaso uns caixotes largados à toa por ali. Era a coleção de livros de um dos irmãos mais velhos, empacotada depois que ele fugiu de casa junto com um circo. Shakespeare, Ibsen, Graciliano Ramos ... Aquela tarde representou o primeiro encontro de Carrero com a literatura, um amor à primeira vista que o levaria, anos depois, a enveredar por o romance e o teatro. Hoje, em Pernambuco -- e mesmo nacionalmente -- sua fama como escritor de talento já está consolidada. Carrero, na verdade, já entrou naquela fase de receber homenagens e comemorar efemérides. Não é à toa que o jornalista Marcelo Pereira, editor do Caderno C (Jornal do Commercio), idealizou um projeto para comemorar as três décadas passadas desde sua estréia literária, com a novela A História de Bernarda Soledade -- a Tigre do Sertão. Raimundo Carrero -- Trinta Anos começou a despejar no mercado a partir do final de 2005 uma série de produtos em torno da data. Quem primeiro chegou ao público foi o documentário Caçador de assombrações, dirigido por a cineasta Clara Angélica, lançado no formato de DVD. Com locações em Salgueiro, Verdejante, Orobó e Recife, esse vídeo de 28 minutos abre espaço para que o próprio Carrero nos detalhe sua vida e obra, ele que é um narrador nato, daqueles que cativam até numa mesa de bar. Sua risada larga pontua os passos de uma trajetória de início aparentemente contraditório: afinal, como um jovem saxofonista de grupos de Jovem Guarda envereda por a literatura tendo como padrinho nada mais nada menos que Ariano Suassuna, herói sem concorrência das correntes ultra-nacionalistas da cultura de Pernambuco? A resposta, caro navegante do Overmundo, está em Caçador de assombrações. Marcelo Pereira também incluiu no projeto -- apoiado por a CHESF -- a reedição das três novelas iniciais do escritor, reunidas num único volume, O Delicado Abismo da Loucura, editado no final de 2005 por a Iluminuras. Apesar de serem obras de começo de carreira, elas trazem já consolidadas a marca do seu estilo, uma narrativa em tons trágicos, de personagens quase bíblicos, elementares. Dois romancistas de tempos e espaços diferentes, influências assumidas nas entrevistas que dá, explicam muito do que se encontra aqui: Dostoievski e Jack Kerouac trazem, respectivamente, os dramas éticos, religiosos, e a busca da (beat) itude na literatura e na vida, constantes em Carrero. A novela que abre o livro e motiva a festa (Bernarda Soledade ...) quase pirou o jovem autor. Em uma entrevista recente ele contou a esse colaborador: «Um dia, eu paro numa banca de revista -- um menino de 23 anos -- e tem duas páginas da Veja com mim, elogiando. Meu amigo, eu perdi a tramontana. Eu não sabia escrever mais, travou!». A crise durou oito anos e só terminou com As sementes do Sol semeador. Logo em seguida, veio A dupla face do baralho, produto de um sonho estranho: «Eu tava na Conde da Boa Vista e aí vi meu cunhado e meu padrinho, já morto. E aí eu passei perto de ele e ele não falou com mim. E como sonho é um negócio de doido, eu me imaginei falando: só porque morreu não fala com mim. Então ele volta e diz assim: não falei com você porque eu vim lhe avisar que você vai morrer em 15 dias. Aí eu acordei chorando e pensei: bom, já que vou morrer, vou escrever uma novela. Eu morro, mas escrevo uma novela. Raimundo Carrero escreveu A dupla face ... e continua vivo até hoje, para a felicidade dos leitores e de seus amigos. Número de frases: 37 «Baixio das Bestas» espanta por revelar um Pernambuco bem feio, escuro, contorcido por todo o tipo de crueldade. O novo filme de Cláudio Assis mostra mulheres tratadas como animais, espremidas até o bagaço como a garapa que mata a sede dos trabalhadores escravizados por a colheita da cana. Em artigo de duas colunas, apócrifo, publicado na Revista Piauí, edição de maio, «Baixio» (e seu diretor) foi desqualificado como misóginos (machista). Pergunto então a este ghost-writer, e à comunidade overmundista: por se ocuparem da violência social, cineastas como Cláudio Assis e " Sérgio Bianchi (Cronicamente Inviável ") necessariamente fazem parte de ela? Se deixarem de retratar a miséria humana, ela deixará de existir? Artistas que mostram o lado escuro da humanidade tendem a sofrer represálias do tipo. O pintor espanhol Francisco de Goya, por exemplo, esteve por um triz de encarar a Inquisição Católica por suas gravuras nada condescendentes com o clero e demais instituições da época, retratadas de forma tão deplorável quanto os hábitos da plebe. Hoje, as denúncias de Goya, concentradas em sua maioria nas séries «Os Caprichos (1799)» e «Os desastres da guerra (1812)», servem como único registro das atrocidades daquele tempo / espaço. Foi chamado de louco por tratar da loucura e demais perturbações. Enfim: ao filme. Diferente de «Amarelo Manga» (primeiro longa de Assis, sobre as múltiplas realidades do ambiente urbano recifense), «Baixio» não guarda humor algum. É um filme claustrofóbico, parado no tempo de um Brasil arcaico, que se recusa a mudar. Criador e criatura, diretor e filme, se fundem numa coisa só: um canavial que é a própria visão do inferno. Cláudio Assis tem conhecimento de causa para tratar do assunto. Se hoje ele transita entre Olinda e Rio de Janeiro, seus primeiros anos de vida se deram no interior de Pernambuco, nos arredores de Caruaru. Uma realidade pouco propagada (a não ser por os programas de TV sensacionalistas), mas que está aí pra quem quiser olhar. A narrativa gira em torno da tragédia de Auxiliadora (Mariah Teixeira), uma jovem de 16 anos explorada e confinada em casa por o avô Heitor (Fernando Teixeira). Mas é Everaldo (Mateus Nachtergaele) o príncipe deste mundo movido a cana, maconha e prostituição. Ironicamente, ele é o único que poderia trazer luzes de civilização, obtidas durante os estudos na capital. Mas é justamente quem mais bate e estupra, numa busca desesperada e pervertida de satisfação sensorial. Sua primeira malvadeza é obrigar uma meretriz (Hermila Guedes) a fazer sexo e apanhar na frente de todos. A moça reage, e por isso recebe um bocado de chutes na cabeça. Em Everaldo e sua gangue há claras inspirações na crueldade praticada por os delinqüentes de «Laranja Mecânica» (Clockwork Orange). A coreografia da violência se aproxima muito do filme de Stanley Kubrick quando, dentro do cinema velho, uma das prostitutas (Dira Paes) é violentada com um pedaço de pau. A cena é vista somente por sombras projetadas na parede, acentuando o impacto da violência na retina do espectador. O maracatu rural, expressão oficial da cultura da Zona da Mata, não poderia ficar de fora deste painel. A arte contra a barbárie é apresentada como opção, apesar da vida ingrata dos caboclos, entre o corte da cana e a garrafa de cachaça. O momento de catarse vem justamente do encontro da cultura popular com a mais estúpida violência. Mais terrível do que o filme, só a realidade. Em entrevista à Carta Capital, Assis rebate as acusações como as da " Revista Piauí: «Ele (o filme) mostra coisas que a classe média não quer ver. Violento é o Bush, é o programa de tevê que bota a polícia matando adolescentes ao vivo. Eu estou mostrando uma realidade do sertão de Pernambuco. Não é chocante o que acontece no cultivo da cana? Mostrar isso é violento? Pena que as pessoas pensem assim. Aquele filme Irreversível é cult porque tem uns minutos de estupro. Aí tem os Tarantinos da vida. Eles são cult. Eu sou violento." Por fim, a despeito de todos os discursos de desenvolvimento sustentável repetidos em coro por a mídia vendida frente ao novo ciclo da cana promovido por a recente valorização do etanol (há exceções), «Baixio» se torna mais necessário do que o próprio diretor poderia prever em 2004, quando andava por as ladeiras de Olinda com o roteiro debaixo do braço. O amargo na boca ao final do filme, sem redenção ou solução, aponta para a certeza de que a vida real é muito pior do que a ficção. Dentro do cinema abandonado, Mateus Nachtergaele olha forte para todos nós, e diz, como que convocando toda liberdade e a independência do cinema de autor: «sabe o que é o melhor do cinema? É que em ele, você pode fazer o que quiser». Número de frases: 48 E que assim continue, Cláudio. Originalmente publicado no www.mascandocliche.zip.net O título deve ter sido a primeira coisa que ele escreveu com sua inseparável caneta Bic: " 1968 -- o ano que não terminou». Por mais que se pense, por mais que se tenha pessoas criativas e tituleiros experientes, talvez ninguém poderá achar melhor definição para 1968 do que a dada por o jornalista e escritor Zuenir Ventura, em 1988. De fato, aquele ano não coube em 12 meses. E só mesmo Zuenir para dar esse título tão cheio de ares infinitos e começar o livro de uma forma tão curta e objetiva: «A nossa história começa com um réveillon e termina com algo parecido a uma ressaca». Mas nem as quase 300 páginas dessa primeira obra publicada em 88 foram suficientes para relatar tantos acontecimentos entre esse réveillon e essa ressaca. 40 anos depois, 20 após o lançamento do primeiro livro, Zuenir repete a fala: «Como eu ia dizendo ... ou melhor, como eu disse há vinte anos [ ...], a história que eu ia contar começava com um baile de réveillon ..." Mas, desta vez com o livro «1968 -- o que fizemos de nós», o escritor revela o que remanesce de um dos mais importantes anos do século XX, dividindo a sua visão de repórter (primeira parte), fuçando heranças de meia-oito em raves e batidas policiais com a visão de personagens (segunda parte), por meio de entrevistas perspicazes com nomes como Caetano Veloso e Heloísa Buarque de Hollanda. A o final das leituras, nunca se sabe se ambos os livros são as respostas para as perguntas de Zuenir ou as perguntas para suas respostas. O que fica claro é que, parafraseando o próprio escritor, a história desabou sobre sua biografia. Outra certeza é que mesmo os dois livros dedicados ao tema, lançados numa edição comemorativa por a Editora Planeta, numa caixa que reúne as duas obras (1968 -- o ano que não terminou (revisado) e 1968 -- o que fizemos de nós), não são suficientes para dizer tudo sobre aqueles meses. «Talvez daqui a vinte anos eu lance outro livro e mesmo assim o assunto não se esgotará», brinca Zuenir Ventura, que concedeu entrevista durante a Bienal do Livro de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Se a gente pensar em 1945, a gente lembra do fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1989, a queda do Muro de Berlim. 2001, o atentado às Torres Gêmeas. São exemplos de um único dia que marcou todo um ano. Mas 1968 tem uma pluralidade de vários acontecimentos: revolta dos estudantes em Paris, Primavera de Praga, Passeata dos Cem Mil, Ai-05, minissaia, Tropicália, assassinato de Martin Luther King, enfim. Por que tudo aconteceu de uma forma tão conectada exatamente em 1968? Acho que esse é um dos mistérios de 1968. Por que naquele momento em vários países ... país comunista, socialista, capitalista, país com ditadura, com democracia ... em cidades que não tinha nada a ver uma com a outra, sem globalização, sem internet. Por que naquele momento houve tanta sincronia de acontecimentos e mais, de sincronias de atitudes, né? De repente os jovens passaram a usar os mesmos cabelos, as moças a mesma minissaia, todo mundo ouvindo a mesma trilha sonora, Beatles, Rolling Stones. Quer dizer, esse é um dos mistérios que ainda não foi esclarecido. É um desses segredos da história. Não tem como ser respondido. Tinha um autor francês que lá em 1968 dizia assim: ' serão precisos muitos anos para se entender 68'. 40 anos depois, eu continuo dizendo: serão precisos muitos anos para se entender 68. O que mudou na sua visão, do momento em que o senhor escreveu o primeiro livro, em 1988, e o segundo, em 2008? Eu nem ia escrever esse segundo. Ele se escreveu quase que sozinho. Eu só iria fazer uma revisão, mas a medida que eu ia revisitando os personagens, revisitando aqueles acontecimentos, eu fui descobrindo um novo livro. Aí liguei para o editor e disse: já estou fazendo outro. Por quê? Porque eu comecei a procurar vestígios de 1968 nos vários lugares. Tem um capítulo do livro que é «Há um meia-oito». Tem meia-oito no Governo, na oposição, na esquerda, na direita, no Congresso, no Supremo. Todo lugar tem um meia-oito. Incrível! Descobrir vestígios daquele ano até em festa rave. Encontrei 1968 em diversos comportamentos dos jovens de hoje. Ele acabou sendo um diálogo entre as duas juventudes. A juventude de 68 e a de hoje! Então foi um processo de criação completamente diferente do primeiro livro. O senhor mesmo já falou que no caso do «1968 -- O ano que não terminou», foi preciso uma conspiração [envolvendo sua mulher Mary e o Sérgio Lacerda, então dono da Nova Fronteira Editora] para que ele fosse feito. É verdade. Essa observação é perfeita. Esse surgiu naturalmente. Bem diferente do lançado em 1988. Talvez uma conspiração dos fatos ... (risos) É verdade! Bastou olhar com um pouco mais de cuidado para perceber 1968 em todos os cantos, por isso foi inevitável. Perceber a fragmentação, por exemplo? Exatamente! O segundo livro é feito de segmentos. Tem um capítulo que chamo de «Viva o corpo brasileiro!», que fala de mudança. Eu brinco em ele dizendo que sai Freud e entra o cooper. Quer dizer, você hoje não faz mais a cabeça, você faz o corpo, né? Você vai para a academia de musculação, não vai mais para a academia dos livros. Geração é um bom exemplo da fragmentação. Hoje você não fala mais em geração, isso até é uma tendência pós-moderna, na verdade você fala em tribos. É uma grande diferença para 40 anos atrás. O primeiro capítulo do «1968 -- o que fizemos de nós», mostra muito isso. Isso. Fiz uma revisitada ao famoso réveillon da Heloísa Buarque [de Hollanda], no capítulo «Reflexos do baile distante». São três senhoras hoje, avós, cheias de netos que eram as meninas daquela época. E foi exatamente isso. Acabou sendo uma conversa sobre ontem, mas muito mais sobre hoje, muito mais sobre essa ' geração ' fragmentada dos netos de elas. A segunda parte do livro é dedicada a entrevistas. Como se deu a escolha? Há tanto meia-oito importante e com tanta coisa para dizer. Claro. Eu escolhi sete, mas poderia ter escolhido 14, 21 e até 100 mil, como a Passeata (risos). Como a primeira parte é um mergulho de reportagem ... O senhor parou até em rave, até em batida policial. Então. Mas é uma coisa que nós jornalistas adoramos fazer, né? O melhor do jornalismo é a reportagem, é cair no campo e apurar. Sem falar que é a chance da gente fazer coisas que na vida civil não se faz. Aí eu queria que tivesse além desse meu olhar, desse olhar de repórter, tivesse alguns outros olhares. Que fosse uma coisa plural. O critério que usei foi o seguinte: escolhi sete personagens de grande importância naquela época. Insisto. Mas por que esses sete e não outros? Por que não 14, por exemplo? Bem, para cada um usei um critério diferenciado de escolha. Talvez o primeiro que pensei, por exemplo, foi o Fernando Henrique Cardoso, que conheci quando eu estava de férias em maio de 1968, na França. E dos vários personagens que também estavam lá, como o Zé Celso [Martinez Corrêa -- diretor de teatro], a Íttala Nandi [atriz] e outros, Fernando Henrique foi quem chegou mais longe. Quer dizer, chegou à Presidência da República duas vezes. Eu pensei: que experiência maravilhosa. Ele viu tudo começar lá e depois assumiu o cargo mais importante do país aqui. Antes de você continuar falando dos escolhidos. Estar de férias na França naquele maio de 1968 me martela a seguinte questão: 1968 lhe persegue ou o senhor persegue 1968? Por que FHC estar na França, tudo bem. Ele era inclusive professor de Daniel Cohn-Bendit [ex-líder estudantil e atual deputado europeu], já estava engajado. Mas passar férias justamente onde aconteceria um dos maiores, entre tantos, acontecimentos daquele ano ... (risos) Se ele me persegue ou eu a ele? Eu acho que as duas coisas. Foi um ano muito marcante para minha geração e eu sabia que teria que entendê-lo ou pelo menos tentar. Então as coincidências me levam a pensar que ele me persegue, mas eu também o persigo. Até entendê-lo. Eu terminei esses dias uma entrevista com o Jô [Soares] e aí ele disse: ' Zuenir, então daqui a vinte anos você volta aqui com outro livro sobre 1968'. ( risos) Eu falei: ' se bobear, será isso mesmo '. E o assunto ainda não terá se esgotado. Pois é. Serão precisos muitos anos para desvendar 1968. Continua falando dos entrevistados na segunda parte do segundo livro. Depois do Fernando Henrique, eu pensei no José Dirceu porque ele é talvez a figura mais controvertida de todos meia-oito e que foi líder de 1968 em São Paulo, na época, e que chegou a ser o segundo homem do Governo Lula e saiu com toda aquela história. Era muito interessante saber o que ele pensava de tudo isso. Depois pensei no Franklin Martins que além de ter feito frente na Passeata dos Cem Mil, também foi um dos seqüestradores do embaixador americano e hoje cuida da comunicação do Governo Lula. Aí veio o Fernando Gabeira, Heloísa Buarque, o Caetano, que foi o cara que fez a trilha sonora daquele período e, claro, o Cezinha [César Benjamin] que tem uma história muito dramática. Ele ficou preso cinco anos dos quais três em absoluto isolamento. Enfim, são sete personagens com grandes histórias para contar. Achei que com eles a gente teria um grande painel de 68 e dos anos posteriores. Tem um capítulo do livro que é «A culpa é de 68». Ele tem relação com o filme «A culpa é de Fidel» [Dir.: Julie Gavras -- 2006]? Tem. Esse capítulo é uma citação desse filme extraordinário. Foi até minha filha que indicou. Fui ver o filme e descobri que, quando fui preso como todo mundo naquela época, por nada, minha filha tinha 4 anos e ela ia me visitar e eu ficava com medo que ela ficasse traumatizada, aí eu ficava dizendo: ' Elisa, imagina. Isso aqui é ótimo! Eu e o Hélio [Pellegrino] a gente tem 15 minutos de banho de sol por dia, a gente aproveita para jogar basquete, está ótimo! '. Fiquei tentando mostrar o lado bom para não traumatizá-la. Mas aí eu descobri depois que na cabeça de ela eu achava tão bom a prisão que eu tinha escolhido ficar lá em vez de ficar em casa. Ela pensava: ' se está ótimo lá, ele não vai mais querer voltar '. Isso me alertou e aí eu comecei a conversar com filhos de outras pessoas, como o filho do Betinho, por exemplo, e a filha do Ziraldo, que também tinha a mesma sensação da minha filha. Essas histórias me inspiraram para esse capítulo. Outra coincidência foi que logo depois o meu filho, o Mauro [Ventura], me indicou «O Dia que meus pais saíram de férias» [Dir.: Cao Hamburguer -- 2006], e o garoto tem o mesmo nome de ele e a mesma história ... Olha a perseguição de 1968 aí. (risos) Exatamente. O capítulo é todo autobiográfico. Zuenir Ventura tem virado identidade de 1968, certo? Isso não cria uma confusão nos leitores? As pessoas não lhe cobra além de um escritor? Pois é. As pessoas, às vezes, me cobram por 1968 (risos). Eu tenho que dizer sempre: eu sou um personagem que apenas relato o que vivi e ouvi, nem defendo nem acuso. É curioso porque 1968 não é um ano, é um personagem. Vejo as pessoas atribuir a ele adjetivos humanos. 68 é muito besta! 68 é onipotente! 68 é cheio de si (risos). Mas eu não sou responsável nem por os feitos nem por os desfeitos de 1968. O que foi feito e o que foi desfeito politicamente? O que o senhor diria da geração de 68 que chegou ao poder? Essa geração desvirtuou um valor sagrado de 68 que é o valor da ética. Minha principal crítica, e não tenho tolerância com relação a isso, é que foi desfeito esse valor. A ética como uma prática e como um valor. Nada justifica isso. Uma coisa é você fazer acordos políticos, parcerias em função do bem público. Agora, tem limites, há coisas que você precisa dizer: «a partir daí não faço nada». Qual grande escritor o senhor encontrou em 1968 que também é importante para se pensar sobre aqueles meses, 40 anos depois? Eu acho que é Umberto Eco. Eu cada vez mais me identifico com ele. Ele escreveu um livro chamado «Obra Aberta» e deu um novo sentido para as várias interpretações da leitura. É riquíssimo para se entender qualquer ano, mas para 1968, é fundamental. «Obra Aberta» mostra leitura num sentido muito mais amplo. Você olha para um quadro e o lê de várias maneiras. Era algo pouco dito e discutido naquela época. 1968 é um obra aberta (risos) Falta ser dito alguma coisa de 1968? O quê? Não sei, mas certamente faltará sempre. Ele é um ano aberto, assim como o livro do Eco. É um ano muito misterioso, enigmático. A principal coisa é se questionar: por que naquele ano houve essa sincronia planetária? Uma sincronia sem ter nenhuma conexão, sem internet. Acho até que 1968 foi o primeiro evento de globalização do planeta. É isso: por que tantas coisas aconteceram naquele ano? E aí a gente volta para a primeira pergunta dessa entrevista. Vamos começar novamente, então? Número de frases: 194 (risos) É a prova de que muita coisa ainda falta ser dita sobre 1968. Em dezembro de 2006, o público brasileiro consumidor de cultura foi confrontado por uma questão intrigante: e se discos fossem tornados literatura? Uma evolução lógica de experiências, que passam por as referências da novíssima leva de autores surgida principalmente desde o final dos anos 90 e tocam em nomes como Nick Hornby e Douglas Coupland (e, no Brasil, em escritores tão diversos como André Takeda e Clarah Averbuck). A pergunta foi proposta por os editores Danilo Corci e Ricardo Giassetti, que tocam a Mojo Books, editora virtual que disponibiliza gratuitamente, todas as semanas, livros baseados em discos. Não há discriminação em relação a estilo, tamanho, ideologia e nacionalidade, tanto das obras originais oferecida por a Mojo, sob licença Creative Commons, quanto das obras musicais que serviram de inspiração para os livros digitais. Segundo Giassetti, a criação de uma ponte entre os universos da música e das letras pode criar ou resgatar o hábito da leitura num público crescente. A editora, baseada em São Paulo, oferece no momento apenas livros em português, mas já estão sendo preparados os primeiros livros em espanhol e inglês, por autores nativos destas línguas, para o segundo semestre de 2007. Corci e Giassetti, nos anos 90, foram integrantes de uma banda que utilizava referenciais literários para a composição musical. Em parte, esta experiência guiou Danilo para a criação dos alicerces fundamentais da Mojo, iniciando em fevereiro de 2006 um processo de pesquisa sobre os diversos formatos de e-books e as propostas oferecidas ao mercado brasileiro. Os meses que se seguiram até o lançamento do selo literário foram preenchidos por a criação da infra-estrutura necessária para a viabilização do projeto, bem como o contato com os autores para a produção dos livros iniciais da editora. Como modelo de negócio aberto, os editores enfatizam que a música e a literatura, como aspectos de interesse coletivo, devem ser disponibilizados a um público menos restrito. A gratuidade da distribuição de seus produtos é a linha de frente da Mojo Books, sendo que a internet e as licenças CC viabilizam que isto aconteça hoje em dia. Também a interação com o leitor é um princípio que será cada vez mais enfatizado, além da busca por movimentos comerciais fora da grande rede. Giassetti afirma, por exemplo, que editoras já se ofereceram para lançar coletâneas de e-books e alguns sites fizeram propostas monetárias por o conteúdo. Segundo o editor, tais propostas foram declinadas por o fato da editora ser um projeto em crescimento, tanto de modo estrutural como em termos de catálogo, e que, em alguns meses, haverá melhores alternativas para se negociar o conteúdo produzido. O público-alvo primordial da Mojo Books são pessoas de 15 a 50 anos, consumidoras de cultura, notadamente música e literatura. Existem ferramentas no site da editora que permitem uma análise de hábitos de seu público e, segundo estas, neste primeiro momento pessoas com as características de formadores de opinião têm sido o leitor mais enfático. São pessoas com interesses pesados em internet, com blogs e sites muito acessados, jornalistas e músicos. Talvez por isto, segundo os editores, o projeto tenha alcançado um número expressivo de exposições espontâneas nos meios de comunicação -- apesar de, claro, existir um esforço de divulgação por meio de uma assessoria de imprensa. Apoiada por a revista eletrônica Speculum e também parte juridicamente integrante desta, a editora tenciona firmar parcerias que auxiliem na viabilização de novos projetos, tanto de modo financeiro como para a transposição destes para outras mídias. Giassetti explica que a idéia central da Mojo, a tal questão inicialmente proposta, pode ser transposta com sucesso para mídia impressa, televisão ou até mesmo sonora -- o que criaria uma renovação cíclica da proposta. Ainda assim, o projeto ainda não avançou rumo a modelos tradicionais de negócios, devido ao seu pouco tempo de existência: o planejamento inicial prevê que estes sejam efetivamente iniciados após o fim do primeiro ano de atividades, algo que, segundo os editores, provavelmente será rediscutido, graças à superação das expectativas iniciais. O pioneirismo de se oferecer este formato cultural, agregando literatura à música em forma de livros digitais, é o ponto central da estratégia de crescimento e sustentação no mercado. As derivações comerciais deverão ser conseqüências diretas da opção primordial adotada por a Mojo Books. Para isto, estão sendo identificados nichos de mercado que permitam futuras segmentações do processo. Um exemplo poderia ser a massificação de livros baseados em MPB para mercados externos, como o europeu e o japonês. Para isto, a internet provém à editora um meio eficaz para a experimentação, além de permitir a sustentação do projeto de forma independente. Mas dá para participar desta iniciativa, sem concorrência no país e, até onde se apurou, também sem par no exterior? Segundo Corci, completamente. Todos que quiserem produzir e criar para a Mojo podem submeter materiais para a editora, igual ao que se faz com uma editora tradicional. Vale lembrar que todo o material será licenciado necessariamente por uma licença Creative Commons, que é discriminada integralmente em cada edição Mojo. Ocorrem, claro, convites feitos a autores por a própria editora, mas uma das coisas legais do projeto é poder trazer à luz autores novos ou estreantes, prestigiando estes, em caso de aprovação do projeto de livro, com um ambiente profissional para o desenvolvimento de sua obra. Mas o editor avisa que a gestão do negócio está aberta apenas aos parceiros comerciais deste. Danilo Corci aponta que uma das principais dificuldades do projeto é encontrar novos autores dispostos a apostarem no projeto. Esta tendência, no entanto, pode ser uma impressão inicial: a editora informa que seu cronograma está com quatro meses de gaveta (ou seja, ao menos 16 novas edições já estão prontas) e este fôlego, claro, é fundamental para a avaliação mais acurada do material crescente que chega para avaliação dos editores. Com conteúdo totalmente original e respeitando os direitos de cada escritor segundo as leis vigentes, estão garantidos os futuros ganhos dos autores, mediante contrato por prazo de tempo, caso haja futura comercialização de seus materiais intelectuais. Direitos estão também garantidos aos distribuidores de conteúdo, também por meio de contratos. Há duas motivações para tais garantias. Uma de elas é a ética, ou seja, se a editora lucrar com o produto que idealizou, por que não também os que colaboraram para que este fosse construído? A segunda é que, agindo desta forma, é, além de algo justo, também uma garantia de produção de conteúdo, com conseqüente aumento de catálogo e, assim, há maiores possibilidades de comercialização deste, o que é bom para todos os envolvidos. Segundo os editores, sem as novas tecnologias, o projeto não seria possível. Além da Mojo Books ter sido desenvolvida em cima de ambiente digital, os meios convencionais possuem as amarras da convencionalidade, o que restringiriam a abrangência do projeto e, também, as possibilidades de experimentação deste. Acrescentam que, apesar da dificuldade de grande parte da população em ter acesso aos meios digitais, o perfil da Mojo foi desenvolvido para atingir um público inicial que já está habituado a ele. Portanto, ao menos por ora, tal empecilho não atinge o público-alvo original do projeto, que atualmente é bancado por os seus idealizadores e ainda não é auto-sustentável. Por isto e também por ser uma iniciativa recente, os custos até agora estão dentro das margens de gastos previstos para a implementação do mesmo, como hospedagem de site, taxa de transferência de dados, direção de arte e edição. Previsão de retorno financeiro? Não para agora, mas para um futuro próximo, também previsto com antecedência no planejamento inicial da editora; algo possibilitado por o fato de que a Mojo é uma iniciativa paralela às atividades principais executadas por os envolvidos no projeto. Mas os números prometem: para um país que lê pouco, são baixados diariamente 80 livros, totalizando mais de cinco mil downloadas até agora, para um público leitor de aproximadamente duas mil pessoas, devidamente cadastradas por o site. Expectativas? De imediato, conseguir um forte patrocínio e a remuneração dos autores envolvidos. Para que isto aconteça, a diversificação já começou: além da já citada expansão de línguas em que os Mojo Books poderão ser encontrados (cujo primeiro passo é a América Latina), algumas variações sobre o tema inicial estão sendo desenvolvidas, como os Mojo Singles (baseados em apenas uma música), Mojo Boxes (livros especiais e maiores, baseados em coleções e discografias), Mojo Comix (música vertida para quadrinhos) e Mojo Kids (discos transformados em livros infantis). Tudo muito coerente e, segundo Giassetti, porque há um conceito forte e este é o principal diferencial da editora. Porque, como ele lembra, muitos outros sites disponibilizam e-books, bem como muitos blogs disponibilizam letras e músicas; mas nenhum agrega as melhores qualidades e potencialidades destes meios em conjunto. Além, claro de ser um investimento de alta qualidade em literatura em língua portuguesa. Este investimento tem feito sentido, em grande parte, devido ao apoio do usuário de meios digitais. Não são apenas leitores, mas também aliados e vigilantes constantes do processo, apontando falhas e possíveis melhorias para este. O grande erro de muitos é ficar alheio ao seu público e, segundo Corci, se alguém se decidir por iniciar um projeto que envolva internet, a recomendação é a de nunca subestimar os usuários. E é um caminho a ser seguido naturalmente no futuro, devido à facilidade de difusão e criação que as novas mídias permitem. Número de frases: 66 «O alcance global permite ações de impacto, o que, de certa maneira, mudará a maneira de entender a propriedade intelectual, que deixará de cumprir apenas uma legislação específica de um país para cair numa regra ética e geral que será desenvolvida por as novas tecnologias», afirma o criador da Mojo Books, que pode ser acessada em www.mojobooks.com.br. «Depois de sacudir Museus, Centros Culturais e Estações de Metrô no Rio de Janeiro, durante 5 anos, apresentando um panorama das ações culturais de grupos populares, o Tangolomango -- Festival da Diversidade Cultural -- vai ampliar este ano o intercÂmbio artístico em todo o Brasil e está sendo realizado, também, em Fortaleza e Recife. Em cada uma das 3 cidades, trupes de diferentes estados apresentarão um espetáculo comum que mistura dança, teatro, circo, música e artes plásticas». ( texto: www.tangolomango.com.br). Ontem, em Recife, o Maracatu Leão Coroado recebeu as trupes dos diferentes estados brasileiros, para um congraçamento, e foi, realmente, muito encantador ver todos caírem no mesmo ritmo, alternadamente, ora nas umbigadas resultantes do Côco de Mestre Ferrugem, ora nos ritmos Afros do Balé MAJÉ MOLÊ e do Alafin Oyó. Número de frases: 5 Confiram a magia nas fotos anexas!!!!!!!!!!!!!!!! Muito alimento para pouco estômago? Será que passamos por a decadência do gosto?-- palavras de Arrigo Barnabé -- Será que o formato canção é algo que findou-se com o século XX?-- palavras de Chico Buarque. São mais indagações do que respostas. A internet alargou de modo desmedido o tamanho do estômago. Este alargamento vem de bom grado? Quanto mais melhor teria me dito alguém. São mais interrogações do que pontos finais. Minha cidade está a ponto de implodir com tanta canção, eu já passei das cem, quantas mais virão? Pra toda canção há um ouvido à sua espera? Uma banda dos anos 50 influência três bandas dos anos 60 que influenciam 90 dos anos 70 que influenciam 200 dos anos 80 que influenciam 500 dos anos 90 que influenciam 2.000 dos 2.000 que sofrem também influência de bandas dos anos 90, 80, 70, 60 e 50. A palavra influência está desgastada, a palavra experimental é mal usada ... A o terno altivo: nós, os farrapos. Enfim: a palavra nunca foi tão mal empregada. Eis um texto saído do coloquial fantástico para o formal rídiculo: Criado na velocidade da vida, sintetizando as formas, as virando pelo avesso. Ser iconoclasta em inocência juvenil, ser de novo o velho moderno eterno, saudosista do futuro, o futuro nunca cessa. Recriando a partir das lições aprendidas com a bossa, a fossa, a cadência, as rochas estridentes ... Absorvidas de forma corajosa, sem nunca pôr-las num pedestal para serem adoradas, mas sujar-se com a informação adquirida, de forma honesta. Voz concisa, sem malabarismos, deixando a canção falar por si; Violão que devora tanto sutileza, quanto experimento desconsagrado, e lança aos ouvidos este som um tanto estranho, um tanto coberto por a sujeira e imprecisão do ser; Guitarra incorporada por as harmonias da canção popular brasileira, dar às rochas um pouco mais de ousadia; Bateria minimalista, mas ao mesmo tempo agressiva, a simplicidade percorre por labirintos complexos, mas a batucada a procura na cadência ... A idéia abstrata-concreta do Marco Zero. Nunca contentar-se com a cidade construída. Estar sempre pronto a descobrir novas possibilidades, novos Marcos Zero, e não ter pudor em destrui-los como um monstro iconoclasta; e dos destroços absorver a essência, lançar luz independente, livre, mas não ser uma vanguarda escondida em guetos, em grupos conformados com a sua radicalidade, pôr um poema dadaísta como trilha sonora de uma novela brasileira. Tentando reinventar as invenções das prateleiras dos museus, estando prontamente disposto a provocar, a discutir, a discordar, dando voz as opiniões e fazendo dessas vozes uma «géleia geral» onde o feio e o bonito, o velho e o novo, possam ser consumidos, e desta ceia antropofágica é que saem estes barulhos ao qual se intitulam de canções, ao qual se intitula a banda aqui referida. p. Número de frases: 33 s.: Esta banda não existe. Depois que lancei a âncora do Marketing Poético nesta província gordurosa e lobotomizada, muitos equívocos foram engendrados em nome de Chimia Geral. De essa forma, cabe aqui alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar, observe a seguinte vaginação longitudinal: «A moda, assim como a arte de ultravanguarda, é a alegria da ilusão do câmbio». Portanto, creio que ao poeta não resta outra alternativa, em ambas as atividades, senão articular as suas simbologias exaustas a partir do o conceito de «publicidada». (Eu encontrei o conceito de «publicidada» pela primeira vez em Gildo de Freitas, e também no livro «Introdução ao Entorpecimento Intersubjetivo, de Pedro Mandagará». Em esse tempo, já havia me dado conta de que procurar o conceito de «publicidada» era a minha sina, emblema de todos aqueles que saem à noite sem qualquer finalidade exata, razão de todos os destruidores de livros. No entanto, o que me exasperava ao encontrar o conceito de «publicidada» era saber que nunca mais voltaria a estar tão perto da minha liberdade quanto estive naquele tempo em que me sentia encurralado por a Literatura, e que a ansiedade que tinha de libertar-me era meramente uma confissão de derrota.) Em segundo lugar, sobre a Literatura propriamente dita, devo dizer que o Marketing Poético antecipa três tendências fundamentais da pós-contemporaneidade: a poesia inexistente (também chamada de Totalitária), o consumo do vazio (a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação) e o amor das criaturas humanas (sexo bom é sexo pago). Número de frases: 11 Com efeito, o que chamo de Marketing Poético, em última análise, é o que o estilista Joõo Mognon definiu como a «lógica da pornografia sacionada», e não somente, como alguns argumentaram, a necessidade de sobrevivência no mercado, mas» o ciclo do próprio desejo, o processo interminável por meio do qual o corpo é decodificado e recodificado para definir e habitar os mais novos espaços territorializados da expansão da alma do capital». Entao Cá Estamos Nós Agora em Pleno Direito Exercido Por a Nossa (Democracia) RECEM SAIDOS De o Poder do Nosso Voto, Onde Podemos Escolher em Quem Votar, E Cobrar do Politico SE Ele Nao Fizer O Que Prometeu. Comtinuamos A Saga Com A REEDIÇAO De o Boneco Fantasiado De Social N: 2 Com Seu Sequito De RETOGRADOS, Mais O Resto Com Suas Varias Formas, Mas Todos Com Uma Coisa em Comum, Saqueadores, E A Gente Aqui Agora Com Cara De BUNDAO D' NOVO Agora Acho Que SE Constatando Bem Mais Claro De essa Vez, que O Voto Esta Servindo Apenas Como Carta De Corso, Como Os Reis da Europa Davam Pra Legitimar Duas Guerras A Piratas E Saqueadores, Aqui no Caso Somos Nós, Só Que Os Reis Ganhavam A Parte no Saque De eles, Quanto A Nós Só Somos Saqueados, Assim Me Vejo Com Cara De BUNDAO Porque Posso Votar, Ou Melhor Sou Forçado, Número de frases: 6 Reclamar Pra Quem, Nao Creio em Mais NINGUEM, De a Justiça Vejo O Nosso Poder Tao Podre Quanto O Resto, Penso Que Esses Canalhas Nao Fariam TAMTA SUGEIRA SE Nao Houvesse Sempre Um Juiz Pra Dar Um HABEAS Corpus, Conceder Uma Liminar Ou Outra Picaretagem Qualquer, Nao Vejo Nada Alem De Uma Montanha De Lixo Ver Esses Caras Fazendo O que Fazem E Nao Ter Nenhuma OPÇAO, PORQUE Reclamar Depois Os Amiguinhos Livram As Caras Uns DOS Outros, Uma REVOLUÇAO Cultural HEHE Deu Em o que Esta, Uma REVOLUÇAO Armada Seria ESTUPIDO POS Seria MISERAVEL Matando MISERAVEL Pois É no Estamos Tornando, E A Canalha Continuaria Lá SE Divertindo, Talvez Eu Esteja Escrevendo Mais Uma Estupidez, PROVAVEL Porque Estou Me Sentindo ESTUPIDO, Porque Nao Vejo Como E Onde Posso Fazer Algo Alem De Ficar Com Cara De BUNDAO, 15/12/06 J.ALVES O nome pode ser estranho, o carro pode ser estranho, mas a 5ª Corrida Nacional de Jericos é a grande sensação na região central de Rondônia. A pequena cidade de Alto Paraíso triplica sua população, que é de 16 mil habitantes, durante a festa, que acontece sempre no dia 11 de fevereiro, aniversário do município. O município fica a 215 km de Porto Velho. Espera aí. Mas o que é Jerico mesmo? Bem, Alto Paraíso se auto intitula a Capital Nacional dessas maquinetas. Os tais carros são uma febre na cidade, todos montados quase manualmente aproveitando pedaços de outros veículos, como chassis de caminhonetes, motores de fusca e volantes de caminhão. Em o início, essas carroças motorizadas eram utilizadas só na lida do campo, mas aí o pessoal da cidade resolveu encher de lama uma pista e colocar as geringonças para disputar uma engraçada corrida automobilística. Aí o Jerico se transformou no símbolo de Alto Paraíso. Pois bem, depois de explicada a história do Jerico, dá até vontade de ir lá ver essa corrida, então é bom dizer que a festa não é só isso. A Secretaria de Cultura e Esporte do Município também realiza vários eventos para não deixar ninguém parado enquanto não roncam os motores. Em a programação estão incluídos torneios, feiras e shows musiciais. Em Alto Paraíso não há hotéis, por isso não esqueça de levar sua barraca de camping, que lá há casas e apartamentos para alugar, dois locais reservados para o acampamento, com água, banheiro e churrasqueira, talvez os restaurantes não atendam à grande demanda, por isso é bom levar uma boa farofa na bagagem, uma máquina fotográfica e disposição para dar boas risadas durante a corrida. Número de frases: 13 Dalva de Oliveira nos céus do Brasil. Serguei quer viver para sempre. Deus salve a América. Viva o 69 e o glamour. A figura emerge do lobby do hotel saída direto de uma outra dimensão onde os anos 60 nunca terminaram. Calça de tricô estampada com a bandeira dos Estados Unidos, camiseta preta por baixo de uma camisa multicolorida, feita com um tecido que lembra as cortinas da casa da minha avó. Em os pés, All Star branco surrado. Em os braços, pulseiras de bronze. O cabelo, arrepiado, lembra um pouco o do guitarrista Ron Wood, dos Rolling Stones. Ou mesmo de Rod Stweart, o eterno fanfarrão do pop. Uma caricatura rock ' n ' roll que até combina com a decoração do lugar, uma mistura eclética de arte amazônica com estátuas clássicas e espelhos emoldurados em entalhes rococó. Eu, que fui até lá entrevistá-lo por conta de um show em Belém, fico parado olhando o sujeito sem sabero que fazer. Serguei está animado e chega logo falando do Museu do Rock, um empreendimento dedicado aos anos 60 que mantém na sua casa em Saquarema, litoral do Rio de Janeiro. Confinado em seu santuário -- que ele abre para visitação pública, das quatro da tarde às nove da noite, já que acordar antes do meio-dia, em suas próprias palavras, lhe faz «passar mal» -- ele esquece que, lá fora, Janis Joplin morreu, os Beatles acabaram e quase 40 anos se passaram desde que Jimmi Hendrix encerrou o festival de Woodstock com a hoje lendária versão para «The Star Spangled Banner», o hino nacional norte-americano. Mas quem disse que ele liga? Seu barato é justamente esse, viver a sua lenda pessoal, a profissão de fé na contracultura e no rock ' n ' roll, entre imagens de Jim Morrison, almofadas com motivos indianos e antigos discos em vinil. A única coisa remotamente nova é um pôster com a capa de um álbum da banda norte-americano Sublime, cujos membros encerraram as atividades em 1997. O sustento vem dos shows que realiza por todo o Brasil e de uma pensão como aposentado autônomo que recebe mensalmente do INSS. De repente, ele pára de falar e olha o rio que cerca a área de recreação do hotel, um trapiche de madeira com algumas cadeiras, um restaurante e um bar. Pensa um pouco e engata uma conversa sobre o tempo em que trabalhou como comissário de bordo da Panair do Brasil. Com orgulho, lembra das refeições servidas por a empresa durante os vôos, dos pratos de louça chinesa e dos talheres de prata. Depois de servir os passageiros, ia para os fundos do avião e imitava Dalva de Oliveira e Elvis Presley para os colegas de trabalho. Em seguida foi demitido da empresa e passou a trabalhar na Varig, de onde foi mandado embora após pular em cima da mesa da atriz Gina Lolobrigida numa boate em Barcelona usando uma peruca loira. Aproveitando o embalo, lhe deu um banho de sangria e a tirou para dançar. Em a saída, ainda encontrou disposição para sair no pau com o dono do lugar. A o chegar na sede da empresa, um relatório com as suas estripulias já estava na mesa do chefe. Corriam os anos 50 e Serguei viajou o mundo todo por conta da profissão. Inclusive Belém, que visitou várias vezes. Só não foi para a selva. «Isso era com o pessoal do Catalina, que pousava bem ali», diz ele apontando para o local onde hoje está localizado o complexo turístico Ver o Rio. A conversa muda de rumo mais uma vez. Serguei fecha os olhos e ergue os braços num discurso sobre a necessidade de preservar a Amazônia e as vantagens da reciclagem de lixo e da doação de orgãos. «Mas na época da Panair», grita ele de repente voltando aos seus dias de comissário de bordo,» Tinha glamour, tinha estilo. Hoje em dia tem o quê? Aquelas caixinhas de plástico que dão para a gente comer no avião! Cadê o estilo? Cadê o glamour? Porra! Isso tudo morreu nos anos 60». Os temas se atropelam, os assuntos vão e voltam e Serguei jamais lembra de datas e nomes com exatidão. Durante alguns momentos, se perde em digressões. Como quando pergunto sobre a sua ida aos Estados Unidos. Era o começo dos anos 60 e, cansado do rigor das companhias aéreas, foi para Long Island, onde morou com a avó materna. Em aquela época, ainda se chamava Sérgio Augusto Bustamente. Sem o Anderson, sobrenome da parte norte-americano da sua família que ficou fora da certidão de nascimento. Em a Terra de Marlboro, viveu de perto o desbunde flower-power, deixou o cabelo crescer, experimentou tudo o que pôde e viajou o país de costa a costa. Em 1973 volta ao Brasil e vai morar em Saquarema com os pais. «Eu amo a América», diz beijando a sua calça estampada com a bandeira norte-americano,» América, home of the brave and land of the free. Lá tem respeito, tem seriedade, tem liberdade. Aquele povo lindo tocando flauta por as ruas. Uma beleza. Depois veio o Maio de 69 (N. A: o evento a que ele se refere é o Maio de 68). Não um 69 daqueles que a gente faz com a língua, mas o 69 dos estudantes franceses gritando nas ruas de Paris que era proibido proibir! E depois Woodstock. Mas aqui, quando voltei, não queria nem saber se tinha Ditadura. Vivia a minha onda. Andava de cabelo grande, flor no cabelo, uma máscara em forma de sol na cara, muito antes dos Secos e Molhados. Minha mãe dizia ' cadê o vinco da tua calça, menino? '. Porra, pra que eu ia querer calça com vinco? Queria era rasgar as calças, andar com o joelho para fora. Mas aí morreu a Janis, o Hendrix e o Jim Morrison. Depois o movimento hippie acabou e eu me dei conta de que o sonho tinha chegado ao fim». Se a contracultura escorreu por o ralo com a chegada dos anos 70, o mesmo não pode ser dito de Serguei. Enquanto no mundo todo ex-hippies cortavam o cabelo, tomavam banho e iam procurar o que fazer, ele continou a acreditar na salvação através do rock ' n ' roll, ainda que só conseguisse encontrá-la nas areias da praia de Saquarema. Em suas próprias palavras, nada o impediu de viver intensamente o epiteto «sexo, drogas e rock ' n ' roll». De o famoso namoro com a cantora «Janis Joplin --» Serguei is the craziest person I ' ve ever saw», é o que ela teria dito após conhecê-lo -- à transa com uma árvore em Saquarema, ele então abre o baú e começa a contar suas histórias. «Essa história da árvore é verdade, bicho. Pô, tava com o maior tesão na praia e não tinha com quem dar uma trepadinha. Aí vi aquela árvore toda bonita, umas folhas verdes grandes, o tronco ... Me passou uma energia muito boa e acabei dando um abraço em ela. Tava tão gostoso que acabei gozando. Sexo pra mim não tem limites. Não caso porque corro o risco de me apaixonar por a família da noiva e pode dar problema. Gosto de experimentar de tudo. Já trepei dentro de um barco em pleno Rio Negro. Como a gente tava muito animado, ele acabou virando e caímos na água. Fiquei apavorado porque me disseram que lá era cheio de piranha. Já pensou se levo uma mordida?». Engana-se no entanto quem acha que a idade amaciou o homem. Se tem uma coisa que lhe aborrece é quando lhe dizem que está velho demais para o rock ' n ' roll. Ele se levanta e começa a protestar. «Bicho ... Pra que ficar rotulando os outros? Tu faz 30 e te chamam de ' balzaqueano '. Depois vira ' coroa ' e já querem logo te enterrar. Porra, coroa ... ' Ah, coroa, o pai da Martinha, chato pra caralho '. Eu lá quero ser coroa? Outro dia eu tava com o Roger, do Ultraje a Rigor, e uma menina chegou perto de ele e disse ' ei, tio, me dá um autógrafo '. Ele ficou sem saber o que dizer e eu comecei a rir. Tu acha que eu ligo pra isso? Eu não. Eu tô inteiro e ainda faço as minhas estripulias. Não tenho sexo e não tenho idade, eu ando solto por a cidade. Mas com muito rock na cabeça». Aproveito a deixa e pergunto se ele gosta da música feita no Brasil hoje em dia. Se, por exemplo, já foi a um baile funk. Serguei se aborrece, dá um pulo da cadeira e começa a dançar imitando a cantora Tati Quebra-Barraco, rebolando até o chão com as mãos nos joelhos. «Baile funk? Eu odeio funk, bicho. Me dá vontade de vomitar só de pensar numa coisa dessas. Não tem melodia, não tem mensagem. É um lixo completo. Não é os Beatles, saca?». O papo termina. Em o caminho para o lobby do hotel, diz «bom dia» para todo mundo, cumprimenta os funcionários e fala com os integrantes de um congresso de representantes de medicamentos que acontece no auditório. Quem não fica chocado se diverte com aquela figura destoando dos engravatados que aproveitaram a pausa nas palestras para tomar um cafezinho. Em frente a um espelho gigante, emoldurado num quadro de madeira com entalhes rococó, ele pára e começa a fazer pose. «Pô, bicho, esse espelho é o maior barato. Queria levar para casa " «Até que tu pode. Acho que não pega nada. Se não me engano, na tua idade a pessoa já é iniputável. Não vai mais para a cadeia», respondo. «Ah é? Pô ... Massa " Nos despedimos. E então ele me chama mais uma vez antes que eu vá embora. «Cara ... Tenho uma parada pra te falar ..." «Diga lá " «Putz ... Me esqueci ..." Fico parado esperando. «Pô, lembrei ... Hoje é dia dez de novembro, meu aniversário. Faço 73 anos, bicho!" A mim, só restou lhe dar os parabéns. Número de frases: 127 Visto assim de perto, nem parece. Em um fim de tarde de outubro nos encontramos na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Eu, Manoel Ricardo de Lima, Julia Studart, Bruno e Walter Castelli; este último, antigo conhecido de Cleber Teixeira, que nos acompanharia até a casa de ele para um bate-papo informal. A recepção foi com um café que já estava posto a mesa. E, enquanto conversávamos, o anfitrião (e suas histórias), além do próprio ambiente, dava um toque todo especial e tornava a visita agradável. Poderia dizer que, para muitos, nada demais, além do relato de algumas pequenas e significativas experiências -- para nós um encantamento. E aqui, neste momento, se pudermos diferenciar vivência de experiência, gostaria de pontuar: acho que o Cleber se enquadra / enquadraria no hall das pessoas que desdobram a vida e conseguem carregar com si além da vivência, uma boa dose de experiência. Em contrapartida, e cada vez mais em voga -- e com isso nem sei se não seria deselegante da minha parte dizer, acredito que um bom bocado das pessoas vive, vive e vive, no entanto, as experiências não batem a porta do hall das vivências. Não transbordam. Funciona como se elas tivessem vivido em tais lugares (tais situações) e esse universo todo não tenha deixado calos. Saliências. Saberes. E talvez esse tenha sido o encantamento maior. Claro, a experiência de Cleber Teixeira está nos livros, mas em especial, na bagagem (fardo) de vida que carrega a tira colo (o que de fato torna a vivência apenas um acessório. como se fosse um colar, um brinco, um anel, um pindurico ...). E isso tudo, durante a nossa visita, reluzia em cada gesto, em cada momento, em cada observação, ou numa simples gentileza, delicadeza, afeto ... É como se a biblioteca -- que, óbvio, causou em nós um impacto inicial, tenha desmoronado aos nossos pés, todavia esse desmoronar de livros só acontecia porque estávamos diante daquilo que jogava a biblioteca ao chão. Simplesmente, porque o ato de esparramá-la por a casa não passava de mais uma gentileza. como se o gesto, vale lembrar que, sem ser pensado / programado, não passasse de um «faz favor» que nos permitisse (um contato maior) uma aproximação. (E depois deste impacto inicial, fiquei pensando cá com meus botões, interrogando minhas interrogações, e a pergunta, por um instante, era de uma força assustadora: será que ainda seria possível desarmar as pessoas -- e as tensões mundanas -- com um simples gesto, com uma despretensiosa gentileza? Mas junto com essa mera especulação veio uma outra um pouco mais cruel da minha parte: como isso poderia acontecer se a experiência parece estar se transformando em artigo de luxo?) Retomando. Essas gentilezas permitiram que pudéssemos tentar, nada mais que tentar, tocar o universo de Cleber. Esse faz favor (aproximação) permitiu que adentrássemos ao mundo deste carioca que escolheu, durante a década de 70, Florianópolis para morar, e junto com ele trouxe na bagagem o know hall (que por aqui se desdobraram) de lidar (não apenas) com o livro. Ter por o livro uma afeição, um carinho. Por suas mãos passaram muito daquilo que podemos considerar imprescindível (em qualquer biblioteca) da poesia editada no Brasil da década de 60 até os dias de hoje. Entre outros, Cummings, Mallarmé, Augusto de Campos ... Em seu hall de amizades uma infinidade de escritores -- muitos que já se foram -- que passa por nomes como Graciliano Ramos, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, Torquato Neto ... No entanto, esse universo todo passa silencioso em sua fala. Reluz, mas não ofusca. Em tempo, para não alongar mais o texto, para quem desconhece, Cleber Teixeira é poeta (autor de Armadura, Espada, Cavalo e Fé), tipógrafo, editor, dono e responsável por a editora Noa Noa. Ele mesmo produz os livros de maneira artesanal. Tem todo aquele (que para nós, em alguns momentos, parece trabalho) cuidado de compor página por página, fazer a capa, e para finalizar, imprimir a obra num equipamento centenário que contraria todas as lógicas imagináveis de um mundo computadorizado / robotizado (e por que não, como uma das conseqüências, por mais paradoxal que possa parecer, brutalizado). Para muitos, diante da correria do mundo moderno, essa gentileza a que me referi durante o texto, (não passa de) um fetiche, para o Cleber, e aqui recorrendo a Barthes, o que dá sabores / saberes, ou simplesmente, o tempero da vida. Número de frases: 35 O projeto Tradições Étnicas Entre os Pataxó no Monte Pascoal: subsídios para uma educação diferenciada e práticas sustentáveis esta em fase de conclusão. Até o dia 15 de setembro de 2008 os produtos estarão prontos e será iniciada a fase de distribuição disponibilização dos mesmos. A saber, serão dez vídeos didáticos de doze miutos e um video de Awê Pataxó meridional com 120 minutos de duração (quatro horas de vídeos no total) -- mil cópias, um livro sobre a cultura Pataxó com 500 páginas -- 500 cópias em papel e mil em CDROM e um site onde tais produtos estarão disponibilizados. Os lívros, vídeos e CDROMs serão distribuídos para bibliotcas públicas do país, escolas do Extremo Sul (ES) da Bahia e para as aldeias Pataxó meridionais. Este projeto é financiado por o Programa Petrobrás Cultural 2004/2005 e recebe os benefícios da Lei Rouanet MINC. O projeto vem sendo conduzido por o Núcleo de Estudos em Comunicação, Culturas e Sociedades NECCSos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia UESB com o apoio do Programa Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro PINEB Universidade Federal da Bahia UFBA. Número de frases: 7 Pessoal que faz teatro é tudo bicha, drogado e adora uma putaria, e todo mundo sabe disso (pelo menos todo mundo que não gosta ou não faz teatro). É a partir desse preconceito que surge um dos personagens da peça " Em a Noite da Praça ": um morador da praça Roosevelt que odeia todo o movimento gerado por os teatros. Apesar de não serem citadas na peça, certamente outras características do personagem seriam jogar ovo nos boêmios da calçada, ligar para o Psiu para reclamar do barulho e dormir abraçado a seus poodles (a Roosevelt é certamente a maior concentração de poodles da cidade, é cachorro chato demais para tão pouca praça). Em uma noite de terça-feira repleta do que fazer, ele testemunha e denuncia uma cena de pederastia ao ar livre que vê de sua sacada, bem ali na praça. A polícia cai em cima e descobre um famoso estilista da TV com a boca numa botija que, para seu azar, pertence a um menor de idade. A partir deste acontecimento fatídico, a peça -- inspirada num conto de Alberto Guzik -- apresenta as versões de diversos personagens para a história: o vizinho moralista, o estilista afetado, o garoto de programa «dimenor» e a divertidíssima garçonete de um bar da região, que sempre acaba sabendo de tudo o que acontece na praça. Em tempos de estilistas roubando vasos em cemitério, e de rabinos de cabelo engraçado afanando gravatas mundo afora, não é difícil de entender a repercussão deste fato na vida de Elói, o protagonista do escândalo. Mas se analisarmos com calma, vemos que a peça não é exatamente sobre isso, ou não em sua totalidade: ao entrarmos no teatro já percebemos que o camarim foi convertido em parte do cenário, e os atores estão vestidos como se estivessem numa montagem de Sade, nos revelando que existe mais um ponto de vista, que é o mais forte na montagem: a visão dos Satyros com relação aos problemas que vêm enfrentando com seus vizinhos. Esta metalinguagem se repete nos diversos momentos em que os atores oscilam entre os personagens da trama e atores que discutem no camarim sobre o escândalo de Elói. A direção do espetáculo tem grandes méritos por a escolha de abordar o tema com humor e sem grandes aprofundamentos, excelente saída para não tornar o espetáculo pedante: é uma fotografia de alguns personagens que transitam por a praça, sem pretensão de ser uma radiografia. A ressalva fica apenas na construção do garoto de programa, que traz uma consciência social sobre sua própria realidade que parece ter mais cara de um ator e crítico de teatro do que de um garoto de programa de dezesseis anos. Número de frases: 16 Fora isso, este espetáculo sem grandes pretensões é uma das melhores opções do projeto «E se fez a Praça Roosevelt em 7 dias», da companhia Os Satyros. Cantor e compositor, Esso está apresentando o seu primeiro disco por selo próprio. O cedê contém 10 faixas autorais, alinhadas entre indícios sonoros da bossa e do roquenrol, num cruzamento de referências que costuram retalhos musicais da mpb a outras fontes, universalizando cada vez mais o trabalho de que já dava sinais durante o tempo em que atuou como vocalista da banda Os Quatro (Natal / RN). Lançado em abril na capital potiguar, em São Paulo o cd será apresentado em primeira audição na Livraria Cortez, no bairro das Perdizes (R. Bartira, 317 -- prox PUC). Em a ocasião serão também mostrados fragmentos do show «Instinto Dissonante», com o qual Esso vem fazendo um intercâmbio junto a outras cidades do país para divulgar o seu trabalho. Gravado entre Santos e Natal, de 2004 a 2006, Bossta Nova é basicamente um cruzamento de bossa e roquenrol, aliciando em suas interpretações infinitos sons e propósitos, dedicados a expor uma pequena parte, mas representativa, do catálogo do compositor. Já o show enfoca a trajetória mais recente de sua criação num desfile musical que ganha caráter em Florais de Bar e Sopro Sobre o Arvoredo, expressando seus contornos em Sem Medo de te Amar e Vivinho, com as quais interagem às vezes ruídos pre-gravados, ativados mecanicamente. Também presente no cedê e show uma nova versão para ' Gig ', composta e gravada em Sampa, que tem como tema a própria cidade. A mesma música, em edição especial registrada em estúdio através do músico e produtor Paulo Bira, faz parte ainda da coletânea Musiclube II, publicada no Brasil em janeiro de 2007. Esso assina 9 entre as 10 faixas do seu disco, uma das quais ao lado de Wal Martins, tendo gravado também a canção Depois do Cansaço (Franklin Mário), interpretada no disco com a participação vocal da cantora natalense Diana Cravo. Esse seu primeiro registro discográfico contém ainda outras músicas que retratam em momentos distintos sua atuação há 15 anos no palco, incluindo uma leitura de Dialética e para o texto de Loucura!!!, que conta com o sopro solto de Teco Cardoso. Lula Alencar, também responsável por a direção técnica do trabalho, além de dividir o crédito nos arranjos, toca o acordeom em Vaga. fel / com ouça as canções Turva Fuga (con) TRASTES PS. CD Bossta Nova (Elephante Registros / 2006) preço prom. lançamento R$ 20 Livraria Cortez -- 28.06.07 (19h) R. Bartira, 317 (Perdizes -- prox PUC) Número de frases: 23 Em o bairro do Recife Antigo, na Rua da Moeda, o principal evento da semana pré carnavalesca em Recife começou nessa segunda feira dia 12 de Fevereiro, é o Pré Amp 2007. Após uma enxurrada de shows e palestras da Feira Música Brasil, os visitantes e nativos da região terão essa semana a oportunidade de conhecer os mais novos trabalhos de artistas emergentes e outros mais experientes e conhecidos da cena pernambucana, que muitas vezes não encontram espaço nos grandes festivais da cidade. A festa começou na Casa da Moeda, cybercafé da empresária Patrícia Lyra e do artista plástico Sérgio Altenkirsh na rua de mesmo nome, os ativistas da Amp -- Articulação Musical Pernambucana -- receberam com coquetel os músicos, produtores, gestores de cultura e a comunidade cultural em geral. Em a ocasião, foi feita uma projeção do DVD ' Recife Transatlântico Sound's ', projeto de coletânea com músicos ligados ao Fórum Permanente da Música de Pernambuco -- assim que houver tempo vamos postar os vídeos aqui no Overmundo. Mas, quando abriu o palco do Pré Amp, eram nove da noite e a partir daí o primeiro dia foi marcado por a diversidade, característica que marca o evento. Em o palco do Pré Amp há espaço para todo tipo de música, do frevo ao eletrônico, do choro ao pop-rock. A primeira atração, a Orquestra Feminina de Frevo, formada por trinta instrumentistas, as meninas mostraram a alegria contagiante das ruas e muita irreverência. Depois, Naara apresentou sua pesquisa sonora a partir dos folguedos populares, trabalho acústico delicado e participações de músicos como Guga, da banda Azabumba na Rabeca. A noite bastante movimentada para uma segunda-feira, a rua da Moeda se viu povoada de artistas e produtores culturais de todo canto do planeta, apareceu por lá o Makoto Kubota, importante músico e produtor musical japonês que vem pesquisando e divulgando a música pernambucana no Japão. A festa continuou com o show do B.U, projeto do baterista da Devotos, banda punk da cena pernambucana, em ela Canibal e Cello trocam de instrumentos, o primeiro passa a tocar bateria e o outro assume os vocais, o resultado inusitado é um som pop rock anos 80. A Diversitrônica, como diz o nome, é pura diversão e sons esquisitos produzidos nos estúdios da dupla Leo D e William P. Para coroar a noite com muita alegria e prazer estético de ouvir boa música, chega a hora de Alessandra Leão presentear o público com sua voz ao mesmo tempo clara e forte, Brinquedo de Tambor é nome do seu primeiro CD e que oxalá seja o primero de muitos. A ex-Comadre Fulozinha tem a graça e frescor de quem constrói seu trabalho sem muita pressa, os arranjos do violeiro Caçapa aproximam a música da região da Zona da Mata de Pernambuco com a musicalidade caribenha do Cabo Verde, todos se maravilharam com a performance precisa e segura da cantora, por o jeito essa vai ganhar o mundo, viva o Pré Amp, o festival dos músicos para todos os sons e tendências. Número de frases: 13 Mai informações, músicas e fotos no guia do Overmundo, procurar por Pré Amp 2007. Olhos E Coração] Sucesso no final da década de 80, as séries Sabrina e Júlia, romances sentimentais da Editora Nova Cultural tem público cativo ainda hoje e vende 2 milhões de exemplares por ano O capitão Hawke é obcecado por encontrar o vilão que destruiu sua família e o impediu de receber a posse da herança de seus ancestrais. Jovem, loiro, alto, másculo, forte, íntegro. Um deus grego. O capitão, príncipe dos mares, tem seus planos colocados em risco quando conhece a bela e destemida Adrienne, moça simples, mas de grande coragem e astúcia. A raiva inicial é, na verdade, o mais puro dos amores que vai mudar para sempre a vida desse dois seres unidos por um único desejo: serem felizes para sempre. Em o Centro da cidade de Fortaleza, se desvia da multidão que se atropela. Em as mãos, meia dúzia dos livros terminados em pouco mais de um mês. Eliane da Silva Valentim, 43, simpática morena baixinha e de óculos, caminha até a Banca Ravera, em frente à Esplanada. Lá, Sérgio Freire organiza a pilha de livretos amarelados. A costureira se direciona ao monte em organização, por detrás das revistas pornográficas, em busca de seu tesouro. Lá está, Júlia -- Paixão Clandestina, a história do mesmo jovem, loiro, alto, másculo, forte, íntegro capitão Hawker, um dos títulos da chamada Biblioteca das Moças que ainda não leu. Pronto. Está garantida a viagem para um conto de fadas. Mesmo já superando a marca dos dois mil livros entre Sabrinas, Biancas, Júlias, Mirelas e Bárbaras que Eliane consome vorazmente, em dois, no máximo três dias cada exemplar, sempre tem coisa nova, novos títulos com histórias não tão novas assim. Esses livros eram, para a maioria das moças do final da década de 70, a única fonte de informação sobre sexo. «Minha mãe não me disse o que ia acontecer depois que eu casasse. Fiquei sabendo por esses livros». Eliane casou com 17 anos, sonhando com os príncipes dos livros. Começou a ler pra passar o tempo, o marido trabalhava muito, passava o dia sozinha em casa. Gostou e não largou mais. Comprava, trocava. Reunia-se com as amigas quando ainda morava no bairro José Walter só para conversar sobre Sabrina, Júlia. Em a casa que mora hoje, no Jockey Club, um cantinho reservado para as suas preciosidades. «Preciso de eles para trocar por outros». «Quando eu estou lendo, me envolvo. Choro, rio, meu marido diz que eu sou perturbada». A mudança de bairro Jockey Club não diminuiu o contato e as conversas com as amigas, todas casadas, com filhos e fãs da literatura das moças. Em o telefone, o assunto são os enredos, os desfechos, indicações dos melhores exemplares e, claro, marcar encontros para trocar os livrinhos. «A história sempre acontece em alguns países distantes, Havaí, Paris, me sinto transportada para lá. Me sinto no lugar da personagem. As pessoas dizem que eu sou masoquista, mas eu gosto quando a mulher sofre. Quando é muito melosa, eu não gosto. É legal daquelas quando o cara faz ela sofrer muito e depois descobre que está apaixonado. Ele luta por o amor de ela, ou ela luta por o amor de ele, são as melhores. Quando ele é muito galinha eu não vejo, eu paro de ler». A costureira faz dos livros sua inspiração. Quer ser mais romântica no casamento, levar café na cama. «Mas meu marido pergunta ' o que é isso, mulher? ', ele não é romântico não. Hiii, no pensamento ele é chifrudo! Eu já traí ele com vários homens dos livros». O melhor de todos? O primeiro que leu. Sabrina, Primeira Noite de Amor, segundo Eliane, uma história linda, de amor proibido. «Ela achava que tinha ficado viúva e se apaixonou novamente. Quando descobriu que o marido estava vivo, teve que renegar seus desejos para fazer o que é certo». Em os mais de 25 anos de leitura, já deixou muito arroz queimar de olho nas histórias. É com uma mão mexendo a comida, e a outra com o livro da mão. Só gosta desses livros, não lê outra coisa não. Sobre o preconceito com seus romances, Eliane não se importa nem um pouco. «O importante é que eu gosto e me faz bem». O sobrinho de ela, Daniel Campo, completa. «Pelo menos ela está lendo alguma coisa, se ocupando, sonhando». Em a banca do Sérgio, todos os dias, cerca de oito mulheres procuram os livrinhos. As bancas e os sebos são o ponto de encontro das leitoras que querem adquirir aquele título que a amiga falou bem, aquela série especial com duas histórias, aquela história mais bem-humorado ou mais triste, mais picante. Tudo para sonhar. Um escape. Seu livro mais 0,40 centavos é o preço de um exemplar dos usados na banca. «A maioria só quer os antigos, pra trocar, os novos vendem menos, antigamente tinha muito mais procura. E quem vem mais é senhora, a maioria são as mesmas de 20 anos trás», explica Sérgio. Em a pilha, um exemplar de 1979: Bianca -- Paris, Cidade dos Prazeres. 230 cruzeiros. «Esses aí eu não vendo não. Só troco. Porque temos que ter variedade, senão a cliente muda de banca. E se gente vende um desses, não recupera nunca mais». Sérgio já sabe a preferência das leitoras mais assíduas. A série Sabrina é mais romântica e com sexo light, Júlia é para a mulher madura e independente, Bianca aborda o casamento com humor, e as novas Mirella e Sabrina Sensual são mais apimentadas. Atolada em livros, revistas, jornais, Zilmar Bezerra agora assume a banca que foi do finado marido. O Maciel, nome da sua banca na Praça do Ferreira, e do marido também, não faz trocas, somente vendas dos livretos novos. «Meu marido levava sempre para a casa aí eu lia. Gostava muito, viajava, era muito bom». O tempo fez Zilmar perder o interesse por as histórias, mas, entre um cliente e outro, ainda hoje dá uma espiadinha em Sabrina. «Meu marido dizia que era livro de besteira, mas não deixava de levar um lá para casa». As vendas do livrinhos diminuíram muito. «Mas ainda tem quem procure». Luíza Aurélio também já leu muito Sabrina. Até os seus 15 anos, a cabelereira e professora só queria saber das histórias da literatura cor-de-rosa. «Uma amiga bem mais velha me emprestava e lá em casa lia eu e minhas irmãs. Bem no início da década de 80 era moda, todo mundo lia. Era sempre a história de uma mocinha classe média ou pobre, que encontra um cara muito rico numa viagem, às vezes ela precisava se hospedar na casa de ele por causa do trabalho e os dois de odiavam, até se descobrirem apaixonados. Em todas as histórias tinha também um vilão, como nas novelas mexicanas. Só mudava o nome dos personagens e o cenário, que era perfeito: as ilhas gregas, praias afrodisíacas em Acapulco. O mocinho tinha os olhos azul cobalto e eu me perguntava ' que diabos de azul é esse? '». Era fase. Luíza se interessou por outros assuntos, outros autores, embora ainda prefira o romance. «As cenas de sexos eram bem sutis, talvez por a época. Mas o irmão de uma amiga, que era advogado, não queria que ela lesse de jeito nenhum. Colocava os livros debaixo da cama e ela tinha que ler escondido», conta. Luíza, como tantas outras moças por o mundo afora, enquanto lia, sonhava com o príncipe encantado que traria para ela ovos mexidos com bacon. «Quando descobri que bacon era toicim, pense na decepção». Para ela a fase já passou. Mas para as milhares de mulheres que desde a adolescência aumentam as cifras da Editora Nova Cultural, especializada em livros de banca, a série de romances sentimentais ainda é mania. Os números, de fazer inveja a qualquer autor de best-seller, são apenas de exemplares novos, que a editora publica semanalmente, um livro de casa série. Isto sem contar as trocas diárias que acontecem por aí a fora. Grande parte das leitoras prefere as histórias antigas. Dizem que são melhores. Best Seller nas bancas Os romances sentimentais ainda são uma febre. Os críticos torcem o nariz para as publicações na linha fast-food, mas a verdade é que vendem feito pão quente. As séries Sabrina, Júlia, Bianca, Bárbara arrastaram uma geração de moças, hoje jovens senhoras, fiéis à literatura água-com-açúcar da Editora Nova Cultural. Pasmem: 2 milhões de exemplares por ano. 40 mil / mês somente da série mais antiga, Sabrina, lançada em 1978. Esses são números atuais, 2004 e 2005 e não dos anos em que a leitura era mania entre as adolescentes. Os preços também são irresistíveis, entre R$ 5,90 e R$ 12,00 o exemplar. O sucesso, claro, não acontece hoje como na época de seu lançamento no Brasil, no final da década de 70, quando um único número chegava a marca de 600 mil exemplares vendidos. Ressalte-se que as edições eram semanais. Como o secusso perpetua, a Nova Cultural a cada ano lança novas séries, compondo-se hoje de nove títulos diferentes, com assuntos desde romances de época até os que abordam suspense, mas, claro, todos mostram o mais belo amor, romântico e intenso em que é preciso vencer desafios para chegar a um final feliz. As histórias são importadas de editoras americanas, principalmente a Kensington e desde janeiro 2005, algumas escritoras brasileiras entraram para o quadro da Nova Cultural. Por mês, a editora recebe cerca de 1.200 e-mails e cartas de leitoras fiéis dos exemplares. Em a estratégia de marketing, já houve até uma promoção para que as leitoras escrevessem seus próprios livros. Não deu outra: centenas de mulheres escreveram suas histórias, seus sonhos e um de eles foi publicado. Para as brasileiras, nada de cenas fortes de sexo, com exceção, claro, das séries picantes. Durante a tradução dos exemplares importados, o principal cuidado é com relação às expressões que se referem a sexo (um exemplo é a substituição de tetas para seios), pois são muito mais explícitas na literatura americana. A leitora brasileira prefere discrição e reclama se ver termos chulos, prefere a narração do ato do amor de uma forma mais abstrata, quase mística. Os novos folhetins A repetição de um modelo, que se renova por a variação, e não por a ruptura. Essa é a principal característica dos romances sentimentais, para Simone Meirelles, mestre em letras por a UFPR, que está fazendo doutorado sobre os romances sentimentais. «É um produto voltado ao lazer, e não para a arte. A leitora romance sentimental sabe que o casal vai terminar unido -- o importante é como isso acontecerá». Para desenvolver sua tese, Simone entrevistou 20 mulheres que são leitoras assíduas desse tipo de literatura. O público alvo da editora são mulheres na faixa etária a partir dos 15 anos. Mas as principais consumidoras estão na faixa dos 25 aos 45 anos. «São mulheres que acompanharam a fase áurea desses romances, entre os anos 80 e 90». O sucesso das séries sentimentais está calcado em alguns fatores. Para Simone, os romances repetem uma tradição que vem de antes ainda dos primeiros folhetins publicados no século XIX, com elementos também dos contos de fadas. Outro ponto é a facilidade de acesso: os livros são encontrados em bancas de revista em todo país, a preços acessíveis, e existe ainda um grande comércio paralelo de exemplares usados, trocas entre leitoras e até leilões na Internet. O consumo de romances sentimentais tem um histórico que remonta o século XIX. Primeiro foram traduzidos do francês, o que se chamava de novelas, com muitas lágrimas e dramas. Depois, vieram os romances da coleção Biblioteca das Moças, que no começo do século XX chegava ao Brasil via Portugal e começou depois a ser publicada aqui. Um dos maiores autores desses textos era M. Delly, que era na verdade o pseudônimo de dois irmãos franceses. As leitoras entrevistadas por Simone buscavam, nesses livros, a fuga de um cotidiano massacrante. São mulheres em sua maioria com dupla jornada de trabalho que, quando lêem, fazem algo por si mesmas, não para agradar alguém, não para os outros. «Esses momentos representam as horas em que não precisam se submeter a um universo limitado às paredes de suas casas, horas de liberdade». Esta não é uma leitura que não necessita de muita atenção. Pode ser feita nos ônibus, em frente à TV, entre uma atividade e outra. Como elas têm pouco tempo para leitura, algumas leitoras entendem que, assim, podem parar e voltar ao texto sem perder o rumo da narrativa. «Elas têm consciência crítica, sim, mas de forma superficial. Percebem que os romances narrados são do plano imaginário e não real. Que é tudo idealizado», afirma Simone. Número de frases: 145 Matéria publicada no caderno Vida & Arte do jornal «O Povo» Não estude música. Ser profissional de música no Brasil é fogo. Aqui é muito difícil. A não ser que você tenha dinheiro para fazer disso um hobby. Começa que pra você entrar para a escola de música tem que fazer vestibular. como se fosse para medicina ou qualquer outra coisa. Depois, tem que aprender um instrumento, estudar oito horas por dia, e aí não se tem tempo para mais nada. Aqui, só se pode fazer isso por diversão." Esse depoimento foi tirado de uma entrevista de Radamés Gnattali. Pode ser lido na internet desde a recente inauguração do site www.radamesgnattali.com.br, neste ano em que se comemora o centenário do compositor e arranjador. A pergunta dizia respeito ao conselho que ele daria a quem está começando na música, numa entrevista concedida ao Pasquim, em 1977 (que pode ser lida na íntegra na seção Álbum de recortes). É desanimador. Pode até ser verdade. Mas antes de chegar a conclusões precipitadas, conversei com Roberto Gnattali, sobrinho de Radamés e coordenador do site, para entender melhor o contexto em que o depoimento se insere. Roberto explica: «Dizem que Radamés tinha mau-humor. Em a verdade, acho que ele ficou triste com o sistema. Ele era muito sensível, trabalhou demais, de graça demais, acreditou demais em todos e foi muito sacaneado a vida inteira. Seu projeto no rádio (se é que podemos afirmar que Radamés tinha um projeto consciente desse tipo) fracassou, basta ouvir as rádios de hoje. Assim como fracassou o projeto de Villa-Lobos de musicalizar as crianças do Brasil. Veja o que é o ensino de música nas escolas, hoje. Esses grandes homens, nossos mestres, quando falam uma coisa dessas é uma barbaridade, a gente fica desestabilizado. Mas isso não quer dizer que Radamés tenha nos abandonado, pelo contrário, sempre esteve, até perto de morrer, atuando com gente jovem, acreditando no trabalho, dando força para a juventude. Essa declaração de ele foi sincera e muito boa pra que a gente se toque da situação, a que ponto chegou, ou que deixamos que chegasse. Não tem mais Radamés, não tem mais Villa, não tem mais Tom, nem Darcy, nem Barbosa Lima Sobrinho, e tantos outros. Agora é com a gente e, principalmente, com a gente que vem vindo." ( Parênteses: esse tipo de depoimento como o do Radamés sobre «fazer música» provavelmente já foi ouvido por gente de todas as profissões. Eu mesma, quando decidi fazer comunicação, ouvi de vários jornalistas: «Não faça jornalismo!" E eram os mais apaixonados, em geral também os mais desanimados com a situação. Fecha parênteses!) Definitivamente Radamés não abandonou os jovens. Já mais velho, por exemplo, foi um grande incentivador da Camerata Carioca, grupo criado em 1979 por jovens como Raphael e Luciana Rabello, Mauricio Carrilho e Luís Otávio Braga. O contrário também procede: os jovens nunca abandonaram Radamés. Li o depoimento do compositor no dia seguinte à minha ida ao pocket-show / coletiva de dois músicos que, possivelmente, ele incluiria na categoria «jovem». E hoje o homenageiam. Caio Marcio tem 25 anos. Marcos Nimrichter, 36. O primeiro toca violão à beça, foi aluno de Hélio Delmiro, integrou o grupo de choro Tira Poeira e é habituê de rodas de choro. O segundo é professor de piano na UFRJ, já tocou com um monte de medalhão da MPB e, depois de se formar, começou a se arriscar no acordeon (hoje acaba sendo mais chamado para tocar este último do que o piano). Ambos fizeram faculdade de música, lugar onde hoje em dia Radamés é uma referência forte (o que não deixa de ser engraçado quando se pensa no tal depoimento). São intérpretes e também compositores. Para completar o painel das coisas em comum, eles têm discos-solo lançados por uma gravadora -- coisa cada vez mais rara no mercado fonográfico, ainda mais quando se fala em música instrumental -- a Biscoito Fino. Como Radamés, os dois circulam bem por os intrincados afluentes que ligam os rios da música popular e da erudita (pelo menos o que se convencionou chamar de erudito). E agora se juntaram em duo, que dedicou o primeiro trabalho ao mestre: o disco «Radamés em Companhia». Aproveita o bom momento do centenário, mas, mais do que é isso, é uma escolha natural para um duo recente e disposto a fazer as combinações possíveis entre violão /piano/acordeon/guitarra -- convenhamos: não é tão simples encontrar um compositor que caia tão bem em todas essas formações. Radamés deve ter dado o depoimento lá de cima num momento de extremo pessimismo. Em a seção Auto-biografia do site há trechos muito interessantes contando a exploração do trabalho nas rádios, o não-reconhecimento do arranjador, a tristeza de não conseguir tempo para estudar piano e ser concertista. Mas nem tudo é negativo na sua fala. Há comentários bem-humorado e / ou irônicos e contradições animadoras, como quando diz: «Sempre me interessei muito por a música popular, talvez já pensando no futuro. Dizem que isso é premonição, não é?" Ou " Nunca me frustrei em fazer música popular, faço isso com todo o prazer ... Se eu tivesse ido à Europa, poderia ter sido um grande pianista, mas nunca seria um compositor brasileiro». O Brasil agradece. Caio, Marcos e um monte de músicos das gerações seguintes, sobretudo. Em o ano do centenário, Marcos viveu intensamente a obra do compositor. Solou o concerto para acordeon e orquestra. Participa do Novo Quinteto e com ele gravou outros dois discos que saíram este ano em homenagem à efeméride: «Radamés Gnattali 100 «e» Radamés e o Sax» (acompanhando o saxofonista Leo Gandelman). Em «Radamés em Companhia», o duo dosou reverência e ousadia para criar arranjos e formações muitas vezes inusitados para obras do mestre. A escolha do repertório já diz muito do contraponto erudito / popular que tanto marcou a vida de Radamés: estão lá peças complicadas como os Estudos n 5 e 7 para violão (naturalmente aqui não só no violão), mas também a carimbada «Valsa Triste» e o choro «Pé de Moleque». A «Companhia» do título se refere à gravação de obras de compositores que influenciaram, foram influenciados e / ou conviveram com o homenageado. De essa salada saem «Batuque», de Ernesto Nazareth, é para piano solo e aqui é executado por o violão de Caio; «Perfume de Radamés», de Guinga e com participação luxuosa do próprio; «Sonoroso», o choro clássico de K-Ximbinho em que usam e abusam da improvisação. A única faixa em que a partitura é reproduzida ipsis literis é «Invocação a Xangô». Por quê?" Porque ela foi escrita para piano e guitarra. Contempla a formação que fazemos. Então não foi preciso mudar nada», explica Caio. Para Radamés nem sempre foi fácil conviver com o estranhamento causado por sua mobilidade entre os dois tipos de composição. «Eu gravei um disco na Continental, de música popular, com orquestra, e um crítico disse que o disco estava muito bonito, mas que eu tinha levado, um pouco, para o lado clássico. Porque eu não tinha colocado o que todo mundo estava acostumado. Quando eu toquei pela primeira vez o Concerto Carioca N. 1 com a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, com o Morelembaum dirigindo [maestro Henrique Morelembaum], o pessoal comentou: «Ih, no Municipal até samba estão tocando agora». Hoje, graças a Deus, não tem mais isso." Os tempos são outros e hoje não é só erudito e popular que estão embolados. É praticamente tudo. Marcos explica: «A gente é de uma geração que aprende música popular no colégio, na faculdade. Em a época de ele havia uma barreira. Talvez por isso ele pudesse ser visto como um compositor hermético. Ficar nessa fronteira podia ser perigoso, porque fazia com que músicos eruditos rechaçassem a obra e os populares não se aventuressem a tocar." Caio completa: «Hoje não é tão complicado, não sofremos com isso. Mas sentimos do mesmo modo uma dificuldade em colocar nossos discos-solo numa prateleira específica das lojas de CD." * * * Obs 1: Se você gostou de ler esses trechos de depoimentos do Radamés por aqui, não deixe de entrar lá no site oficial. Os comentários sobre bossa nova também são sensacionais, bem como as fotos e trechos de partituras. Há ainda um CD-Rom com material semelhante ao do site que pode ser solicitado gratuitamente por instituições musicais. É só falar com o Roberto Gnattali por o email robgnattali@terra.com.br. Obs 2: Muito bom o formato de coletiva que a Biscoito Fino adotou nesse caso: a dupla ia tocando e conversando com os jornalistas, explicando as opções, destacando detalhes dos arranjos antes da execução ... Número de frases: 95 Ninguém parecia lembrar que estava ali a trabalho. Olá, meu amigo ou amiga! Muitos me perguntam: «como posso desenhar melhor e me tornar um artista?», ou " como faço para me tornar um artista se não tenho condições de estudar arte em academias renomadas?" e ainda: «não tenho tempo nem dinheiro para freqüentar aulas ou comprar materiais caros e não consigo me encaixar nos horários das escolas de arte. Como fazer para estudar sozinho e me tornar um artista?». Escrevo este artigo para refletir sobre todas estas questões. E saiba que este tipo de dúvida ronda a cabeça de muitos jovens e adultos que sonham com o mundo das artes, em especial com o mundo do desenho e da pintura. Um mundo de glória e fama! Quem nunca sonhou em pintar um quadro e ver sua obra sendo vendida por milhões? Quem nunca sonhou em dar autógrafos e passear na rua admirado e reconhecido por todos? Em primeiro lugar, ser um artista não acontece da noite para o dia e não tem nada de glamuroso no trabalho desse profissional, seja ele um ilustrador, um desenhista, um designer, um aquarelista, um animador, um artista digital ou pintor. Todos transpiram muito e se esforçam para fazer melhor a cada dia. Não se consegue ler meia dúzia de textos ou copiar meia dúzia de desenhos e pinturas de artistas famosos para se tornar um verdadeiro mestre. Ser um artista é um caminho muito longo e cheio de obstáculos, que talvez você não queira realmente seguir. Antes de se tornar um artista é preciso saber se você é um trabalhador; obediente, estudioso e persistente, uma pessoa que consegue trabalhar por um objetivo não importa o que aconteça. É preciso saber se você é uma pessoa daquelas que se as coisas não estão muito boas, você encontra forças para tentar de novo até conseguir o resultado esperado. Pense nisso antes de continuar lendo este texto, e pense nisso antes de se decidir por este caminho profissional. Você deve avaliar seus sentimentos e ter consciência de que um artista experiente só consegue produzir os resultados que vemos, acontecendo como que por milagre, depois de muito estudar e se dedicar ao longo da vida. Uma pincelada de Michelangelo não aconteceu da noite para o dia. Uma simples ilustração de Andrew Loomis não ficou pronta em menos de 5 minutos. Um desenhista como Alex Ross demorou anos para se aperfeiçoar e poder criar maravilhosos desenhos para a Marvel. Todas as obras desses grandes artistas carrega em cada traço o peso de suas descobertas ao longo do caminho. E mesmo os trabalhos mais rápidos de mestres experientes como estes somente puderam acontecer depois de certo amadurecimento, conseguido com prática e dedicação. Não estou dizendo que arte é sofrimento, mas sim que é necessária uma boa doze de esforço para se conseguir aprimorar o trabalho. Felizmente, o ato de desenhar, ou pintar é muito prazeroso e nós podemos nos agarrar a isso quando o desânimo bater. E mais prazeroso ainda é saber que se pode produzir sozinho coisas maravilhosas, dignas de orgulho e alegria. Acho que é isso que me fez vir para este mundo das artes visuais. E eu acredito seriamente que qualquer um que deseje produzir trabalhos artísticos pode aprender tudo do nada. Aí volto à questão do esforço, antes de sonhar com o fim da estrada: «o estrelato», concentre-se no que você faz durante o caminho e aprenda com cada erro, evitando cometer a mesma falha no próximo desenho. Mas eu ainda não te dei as instruções corretas de como percorrer este caminho da melhor maneira possível! Este papo filosófico e abstrato ainda não é o meu objetivo aqui. Muitos outros alunos me perguntam como fazer para seguir adiante. E é nisso que você deve se concentrar. Quantas vezes você não ficou perdido tentando desenhar algo sem saber exatamente o que fazia, e sem gostar nem um pouco do resultado do seu trabalho? Quantas vezes também você já não se sentou para desenhar e nada vinha à mente e dava uma vontade danada de largar tudo? Esta é a outra parte da nossa conversa. Para desenhar ou pintar existem vários caminhos, você pode fazer o que quiser, só que às vezes queremos desenhar algo muito mais complicado do que conseguimos e nos perdemos nos detalhes. O fato é que independente do que você deseja desenhar ou pintar, você precisa começar do mais fácil para o mais difícil. Somente depois de conseguir fazer bem feito o fácil é que você deve aumentar o nível de dificuldade. Este é o maior de todos os segredos da prática artística, e que ninguém fala, porque só gosta de mostrar os desenhos difíceis que fizeram. Lembre-se sempre, comece por os fáceis, fique bom em eles e vá aos poucos conquistando as tarefas difíceis. Depois você deve conhecer algum método, um plano de ação. Não é uma camisa de forças que vai fazer seu desenho parecer engessado, não é isso! Trata-se de um método simples, que você até já deve conhecer, mas nunca conseguiu aplicar à sua atividade de desenho. Vou descrever em passos a seguir, as etapas de um método para aprendizado, que você pode usar para praticar e aprender desenho sozinho. O método de aprendizado de desenho ideal: -- Defina os assuntos que você mais gosta de desenhar, ex.: casas, flores, animais, carros, o corpo humano, retratos ... Tente escolher um único assunto para você seguir com ele até aprender os procedimentos corretos. -- Use materiais simples no começo. Lápis barato, porém macio (4 B ou 6 B) e papel jornal ou sulfite. Se isso não for acessível use caneta vagabunda, papel de embrulho ou que der. -- Reúna uma certa quantidade de modelos, talvez 10 ou 15, sobre o assunto que você escolheu. Recorte fotos de revistas, se for o caso. E organize estes modelos em ordem de dificuldade, do mais fácil de fazer para o mais difícil e cheio de detalhes. -- Treine a técnica de observação de contornos. Escolha um dos modelos e comece a copiá-lo para seu papel, percorrendo os contornos externos, ignorando as sombras ou brilhos, para fazer um desenho só com linhas. Olhe mais para o modelo do que para o papel. Risque cada contorno que você percebe. Não se preocupe se sair errado. Evite ficar apagando. Só se dê por satisfeito se o desenho ficar muito parecido com seu modelo. Tente uma, duas, três, quatro ... mil oitocentos e noventa e sete vezes ... até se sentir satisfeito com o resultado. -- Se organize para fazer no mínimo um desenho por dia observando estes modelos (sempre indo do mais fácil, com poucos detalhes, para o mais difícil cheio de ornamentos). Use o que você puder para tentar fazer seu desenho parecido com o modelo. Leve cerca de 30 a 50 minutos por desenho. -- Depois de treinar bastante a observação. Escolha mais modelos. Você deve ficar bom no desenho de contornos. O desenho de contorno é o que chamamos de esboço. É ele que define a forma e mostra os erros e distorções, antes da etapa de aplicação de luzes e sombras. Tente deixar seu desenho linear limpo e correto. -- Selecione os melhores desenhos de contorno para aplicar luz e sombra. O seu modelo vai te mostrar onde há zonas de claro (que você deve deixar em branco) e áreas escuras que deve preencher com o lápis. Desenhe primeiro os claros e vá escurecendo aos poucos. Verifique onde estão as áreas pretas e reforce bem o preto para valorizar seu trabalho. -- Faça vários desenhos observando modelos. O grande desafio da arte é criar coisas que se pareçam com a realidade. Treinar o desenho de observação é uma prática adotada por todos os artistas do mundo, principalmente porque ele nos oferece repertório e idéias novas para criar desenhos e pinturas inéditas. E este é todo o processo do desenho. Você deve ver e desenhar. Não há barreiras, você não precisa aprender grandes teorias. E não deve se aprisionar em seus medos: medo de errar, medo de não ser aceito, medo de não conseguir um bom resultado ... Desenhar é ver, e praticar é aprender. Quando tiver feito os seus desenhos observando os modelos, você vai perceber a evolução do seu trabalho, aí o próximo passo é continuar treinando outras técnicas artísticas, variando com modelos de outros assuntos e estudando as teorias artísticas e suas possibilidades de expressão. A o final dessa jornada, com certeza terá se formado um grande artista. E vai chegar o momento que copiar modelos não será mais necessário. O segredo está na jornada. O fim é a acumulação do que se aprendeu durante sua jornada de descobertas. Se tiver acumulado muito em termos de experiências próprias, com certeza será capaz de produzir uma arte mais rica. Caso o assunto desenho ou pintura lhe interesse visite meu projeto: www.desenhotudo.com onde ofereço cursos de desenho on-line com vídeo-aulas para você praticar e aprender mais sem ter que sair de casa. Um grande abraço! Número de frases: 101 Cristina Jacó Depois de assistir a Ponto de Vista, essa porcaria de quinta grandeza, percebi que algo estava errado com mim, ou com os outros que gostaram do filme. E em retrospecto comecei num flashback gigante, e nem estou numa ilha perdida, analisar as principais referências que eu tinha da realidade que vivo. Cheguei a uma conclusão alarmante. Dane-se a educação do povo, temos é que educar as elites. Com perdão do vocabulário forte, mas por o amor de Jah! Nossos professores são tão estúpidos quantos nossos alunos. E se os melhores colégios desse Rio de Janeiro são destinados a criarem o futuro pensante de nosso país ... alguma coisa está errado. Estudo na digníssima UFRJ e digo que a estupidez é algo que flui abundantemente de nossos magistrados. Não um desconhecimento de suas áreas particulares, mas um mínimo de cultura geral e pensamento próprio. Todos estão totalmente inseridos na realidade da patotinha que se auto promove e auto bajula para se manter «em dia» com seus egos. Se por acaso os professores federais são assim, os de ensino médio são como? Outro dia deparei-me com uma declaração de minha namorada, que é formada em História, mais ou menos assim, (ela ajuda a prima mais nova nos estudos de história) " é um absurdo o que diz esse livro que ela aprende, isso é vergonhoso, não sei se ensino o certo ou o errado para ela." E isso resume perfeitamente o espírito de nossa realidade. É exatamente esse pensamento que corrói até o fundo nossas almas. Ensinar o errado? O que devemos fazer é ir até o raio daquele colégio e protestar com qualquer incompetente que lá esteja por a escolha daquele livro ridículo e do professor de mierda que lá leciona. O problema endêmico da educação do Brasil hoje é puramente da elite. Quem aprova verbas para a educação pública? Quem é que reforma, dá base e sustento para o ensino do povão? Quem é que por um acaso antes de mais nada estuda em casa antes de falar qualquer besteira em público? Qual das pessoas são responsáveis por um bom ensino? O professor público, que não consegue ensinar nada por as condições, ou o professor particular que não ensina nada por que é realmente uma anta? Ou, ainda, aquele diretor pedagógico daquela escola bacana que o máximo interesse de ele em pedagogia é ver o seu salário em dia e ver no jornal «Colégio X aprova 4 mil para faculdades públicas»? Falta hoje qualquer coisa parecido com um senso crítico, um pensamento autônomo, ou qualquer coisa que o valha em nossas elites, em nossos companheiros, com nós! Olho ao redor e vejo as pessoas passando batidas por um ano sem ler um livro. Sem sair da mesmice de Jornal Nacional -- Novela das oito -- Tela Quente ou Futebol. Já fiz minha parte, desliguei minha televisão. Olha que simples ato pode mudar uma nação, imagine que nossas elites, por um passe de mágica tipo filme hollywoodiano para adolescentes, simplesmente desliguem seus televisores? Que quando dona Maria servir o chá com biscoitos e se prostrar para conversar o Sr. Endinheirado dissesse " mas que isso, você assiste a televisão ainda?" Pelo menos o exemplo, como sempre me foi ensinado, vem de cima. Se nossas elites são exemplos claros de como que uma elite mal educada e muito pouco refinada consegue des-educar uma nação, algo não está bem. Veja por o lado mais contundente da coisa, educar significa passar valores. De nada adianta o sujeito gravar a porcaria do livro de história (todo errado por sinal) se ele não questionar aquilo que lê, não procurar saber se foi aquilo mesmo que está lendo, e até, de propriamente ler o livro de história que têm, pois certamente irá achar várias contradições ao longo do próprio livro. Ser alfabetizado não significa saber ler. Ler é um ato complexo, reconhecer as letrinhas qualquer criança faz com a sopa. As pessoas não lêem hoje em dia não porque não gostam de ler, mas porque não sabem! E se nos assuntos atuais a coisa vai mal, no ensino clássico então! Veja se algum adolescentezinho que saia do seu magnífico colégio e passe no vestibular tem alguma noção do que seja cultura clássica? O Brasil, infelizmente, só possui quinhentos anos, a história contemporânea, infelizmente, só possui pouco mais de cem anos. Há um peso de mais ou menos uns dez mil anos de história da civilização que é totalmente ignorada por nossos professores e nossos queridos alunos sequer chegam a conhecer. E se a escola não lhes mostra essa pequena parte da construção universal, não será dentro de casa que isso irá acontecer, não porque os pais não possuem tempo, ou nada disso, é porque desconhecem também, e o que é pior, muitas das vezes, não só desconhecem como também repudiam! Esse país tem verbas suficientes para se mudar, para mudar o próprio rumo, e essa verba é particular, vinda dos bolsos das classes mais altas. Eles pagam seus estudos em dia, outros ficam devendo (já que a inadimplência é grande, mas faz-se qualquer coisa para dar uma «educação» boa aos filhos), mas no fim das contas o dinheiro está ali, presente. Existem professores e condições, louças brancas, pilots, projetores, salas com equipamento de som e ar condicionado. As condições são extremamente boas, mas falta uma coisa, uma boa cabeça para fazer tudo isso valer à pena. Se antes de lutar por a educação do povo as elites olharem para o próprio umbigo e enxergarem que são tão antas quanto o povo, talvez no nome do livro tão em moda hoje em dia fosse «Lula é minha Anta, e eu também», e assim pudéssemos começar a educar realmente o povo desse país, aqueles que vão poder mudar alguma coisa, aqueles que deveriam por obrigação moral saber d' alguma coisa. A educação nunca teve tanta verba quanto tem hoje em dia. O problema é a educação mesma ... e não a verba em si. Devemos apontar para cada parceiro, para cada lado que olhamos e dizer " Olha aqui filho da mãe, você tá reclamando de que? Sabe porque essa merda vai mal? Por sua causa, por minha causa e por causa da gente conjuntamente! Pois tu reclama que o Aluísio fala errado, tu reclama que a Carla Perez é uma anta, tu reclama que o Faustão é deprimente, mas tu sabe alguma coisa além do que ele sabe? Falar certo é cultura? Tu tem noção alguma de história universal? Tu tem alguma idéia de arte? Tu sabe alguma coisa de filosofia? Tu pensa por si mesmo? E o pior, seu reclamão de merda, tu dá o exemplo? Tu é o primeiro a descambar e discutir, sair na porrada, não saber de seus direitos, querer vingança! Você é o primeiro a sentar todo dia na sua casa e ficar vendo a novela das oito! Quer mudar? Número de frases: 63 Muda você primeiro!" Convidado por a Coordenação-Geral da I Bienal Internacional de Poesia (que acontece em Brasília / DF, de 3 a 7 de setembro), o poeta Rubenio Marcelo, que reside em Campo Grande, participa do importante evento, que reúne -- em várias atividades culturais -- grandes expoentes da poesia nacional e do exterior. Cerca de 36 poetas estrangeiros e 50 nacionais foram chamados para participar do grande evento cultural. Como parte integrante da programação oficial, Rubenio Marcelo -- que é o secretário-geral da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras -- autografou o seu livro recente, «Graal das Metáforas -- Sonetos & Outros Poemas» (Ed. Viena, SP), no dia 03 de setembro, na Biblioteca Nacional de Brasília (BNB), que juntamente com outros órgãos está cuidando da organização. Em a ocasião também foi lançado o magnífico livro «Poemário» (Thesaurus Editora de Brasília), obra oficial da I Bienal Internacional de Poesia, organizada por a BNB: uma magistral antologia que traz e documenta (para o Brasil e o mundo) poemas e informações biobibliográficas dos poetas -- nacionais e estrangeiros -- convidados (textos de Rubenio Marcelo constam nas págs. 210, 211, 212 e biografia na pág. 268 do referido livro). Além de mostrar e registrar, no evento, a sua eclética poesia e marcar a presença do nosso Overmundo no grandioso programa, o escritor overmano Rubenio Marcelo participará de Sessões Magnas da Bip, que acontecem no auditório do Museu Nacional (Conjunto Cultural da República) e são dedicadas aos poetas convidados, que farão apresentações franqueadas ao público (com projeções em telões especiais). Rubenio também estará participando de Poemações na companhia dos demais convidados e do coordenador da Bip (poeta e professor Antonio Miranda). Diversos espaços culturais de Brasília estão recebendo várias atividades programadas para os convidados da Bienal, que conta também com as presenças de cineastas, músicos, performers e acadêmicos, ligados ao exercício da poesia em suas áreas. O evento reúne assim as novas tendências da poesia contemporânea brasileira e internacional. Conforme consta no site da I Bip, a Bienal visa a tornar o DF um solo fértil à produção de qualidade e celebração da poesia, e nasce em ano pródigo, quando Brasília conquista o título de Capital Americana da Cultura. Sua preparação contou com o apoio de parceiros variados, em discussões sistemáticas promovidas na BNB, desde setembro de 2007. A Biblioteca Nacional de Brasília tem a direção do ilustre poeta e professor da Universidade de Brasília, Antonio Miranda. A abertura da I Bip aconteceu às 19h deste dia 3, no auditório lotado do Museu Nacional. Em a cerimônia, o poeta Affonso Romano de Sant'Anna proferiu palestra sobre o tema: As muitas vidas e muitas mortes da Poesia. A noite encerrou-se com o concerto poético-musical da cantora chilena Elga Perez-Laborde. A eclética programação da Bienal Internacional de Poesia consta ainda: -- de um Simpósio de Crítica de Poesia; -- Poemações, que são sessões de recital na Praça da Cultura do Conjunto da República, no Café Literário da Feira do Livro de Brasília, na rede de bibliotecas públicas das cidades satélites; nos espaços do SESC no Plano Piloto e satélites; na Barca Brasília por o Lago Paranoá; -- Exposições; -- Mostra de Cinema-Poesia; -- Espetáculos teatrais e Shows; -- Oficinas gratuitas de poesia em português e em espanhol; -- e Palestras. Número de frases: 27 OBS -- Com informações do site oficial da I Bip e também da ASL. «A escolha das personagens que fazem parte deste trabalho foge do padrão comum de quando o assunto é História, porque o foco integral é um só: a mulher. Neste particular, a história é altamente discriminadora. Talvez alguém estranhe mais, porque tenham sido listadas aqui pessoas que normalmente são colocadas de lado quando se discorre sobre fatos ou personalidades históricas. Mas não se pode descartar que os personagens e fatos aqui citados foram, ou são, importantes para construir a História de Rondônia." Albuquerque, Lúcio -- A Mulher em Rondônia (pg. 05). Antes de começar a entrevista, um alerta: «não sou historiador, nem pretendo ser». Lúcio Albuquerque, jornalista há mais de trinta anos e escritor, é um daqueles amazonenses que preferem ir direto ao assunto. O prefácio acima deixa bem claro que em seu mais recente trabalho, o livro «A Mulher em Rondônia -- de Tereza de Benguela a Coronel Angelina», Lúcio direciona seu foco para o resgate e a importância da mulher na construção daquilo que chamaram, mais tarde, de Estado de Rondônia. Uma obra que vem dividida em três partes: a cronologia com datas, fatos e personagens da presença feminina antes da criação do Estado. Em seguida, momentos e fatos históricos da participação da mulher na construção de Rondônia, com temas envolvendo a cultura, educação e religião. O último capítulo, porém, ilustra mulheres que se destacaram -- e ainda se destacam -- ao longo de uma história que começa em 1753, com a coragem de uma negra chamada Tereza de Benguela, a rainha do quilombo do Piolho, que era situado na região de Cabixi, hoje localizado no interior do estado. «São poucos que conhecem a existência do quilombo formado por negros evadidos das senzalas de São Paulo e Mato Grosso que eram liderados por Tereza de Benguela», disse o jornalista. Segundo ele, Tereza havia sido presa por tropas do governador do Mato Grosso, Luiz Pinto de Souza Coutinho, e, para não voltar a ser escrava, a rainha acabou cometendo suicídio. Quase cem anos depois, em 1850, é registrada a primeira seringalista no rio Madeira: a paraense conhecida como Dona Vitória. Em aquela época, pois, a mulher no seringal era pouco valorizada e feita como mercadoria para satisfazer os desejos dos seringueiros que possuíam saldo com o patrão. «Não se exigia qualidade, bastava que fosse mulher», explica o autor. Mas foi em Santo Antônio -- quando a área fazia parte do Mato Grosso, hoje pertencente a Porto Velho -- que a mulher iniciava sua participação na cultura, em 1913, cantando num coral formado por moças e senhoras, devidamente registrado por o jornal Extremo Norte. Para se ter uma idéia, a mulher em Rondônia teve que esperar, após ter o direito ao voto, em 1930, mais de 60 anos para ocupar um cargo parlamentar, mérito obtido por a professora Aliete Alberto Matta Morhy, eleita vereadora do município de Guajará-Mirim, em 1972. De lá pra cá, a mulher rondoniense vem conquistando ainda mais o seu espaço. Prova disso é a coronel PM Angelina Ramires, nomeada para comandar a Polícia Militar, em 2003. A primeira «Rainha da Beleza» de Porto Velho, por exemplo, não foi escolhida por um júri, mas por o voto popular através de um cupom incluso nas edições do jornal Alto Madeira, que era posto numa urna na redação do jornal, nos idos de 1918. O concurso teve a participação de oito candidatas e a vencedora foi Maria de Lourdes -- conhecida como Liquinha -- com 1332 votos. A historiadora Yeda Pinheiro classifica a obra como «uma página da nossa história ainda esquecida ou ignorada, revelando a historiografia rondoniense com uma marcante presença feminina», aponta. A jornalista Ivalda Marrocos expõe que «negar a presença feminina na construção desta terra é, no mínimo, miopia». Lúcio Albuquerque conta que o levantamento e a pesquisa para fazer o livro duraram mais de quinze anos. «Em a verdade, eu tenho um acervo considerável sobre o início da história da mulher em Rondônia, mas foi preciso ir atrás de muita informação também», revela. Ele explica que «o que chamou mais atenção foi a história de mulheres anônimas», citando o exemplo da tacacazeira Darli de Lima, que há quase quarenta anos vende tacacá no mesmo lugar desde 1970. «São personagens que ainda estão vivendo com nós, são anônimos e mantém uma história riquíssima», acredita. O livro teve tiragem de 2.000 exemplares, mas será reeditado em breve. Para quem ficou interessado e quiser saber mais da história da mulher em Rondônia, a obra pode ser encontrada na livraria localizada no Aeroporto Internacional Gov. Jorge Teixeira ou ligando para editora responsável por a publicação do livro, a Primmor Forms, nos telefones (69) 3224-6756/3224-7348. «Parece que, propositadamente, não querem admitir que elas fazem nossa história. Mulheres que nunca deixaram de lado seus deveres de companheiras, amantes, mães, educadoras -- muitas vezes assumindo a família, quando perdiam seus homens por as tocaias, malária ou quando eram abandonadas», convida o autor a todos para uma reflexão sobre as mulheres de Rondônia. Número de frases: 37 Certa vez acordo de um cochilo vespertino com uma ligação interurbana do Rio de Janeiro, era um amigo músico daquela cidade que precisava de informações de Aracaju para a realização de um programa para TV que tinha como tema o cenário musical da capital sergipana. Tentei fazer uma descrição breve, um apanhado das coisas interessantes e mais relevantes da cidade, daí saiu este texto que pensei em publicar aqui. «fala camarada, Demorei um pouco pra te devolver a mensagem por conta de estar fazendo um levantamento de idéias pra se encaixar no projeto, Aracaju e Sergipe, sobretudo, estão vivendo um excelente e estranho momento da produção musical, diversas bandas de vários estilos e tendências estão aparecendo e fazendo de tudo pra tocar, os lugares disponíveis são poucos como em qualquer cidade equivalente, mas, realmente juntam o público sedento pra assistir aos shows das bandas nativas ou dos visitantes. Aracaju possui diversas características que acho especiais, se compararmos especialmente a capitais de mesma proporção como Natal, Vitória, Maceió. Em a capital sergipana não existe uma rádio que faça o padrão pop-rock / dance nacional e internacional, (na linha que Transamérica e Jovem Pan fazem), isso dificulta muitíssimo o contato do grande público local com o que anda acontecendo no resto do país e do mundo, mesmo coisas bastante comerciais, ou seja, isso atrapalha de podermos trazer artistas que estejam surgindo (porque pouquíssima gente conhece) bem como atrapalha os djs comerciais de tocar hits (já que o público não conhece as músicas de maneira coletiva, através de rádios e MTV aberta por exemplo), não existem muitos hits, e sim alguns mega hits. Por conta disso as bandas locais conseguem estar um pouco desconectadas das obrigações de padrão e estilo, não que aqui seja um celeiro de formatos, mas este descompasso gera uma certa da liberdade criativa para à molecada que começa. Pequenos festivais independentes acontecem a cada 2 ou 3 meses sem muita regularidade e podem bombar de gente ou serem bem vazios, diferentemente da alguns outros lugares como Salvador, Maceió e até mesmo Recife onde festivais com ingressos pagos e com o mesmo padrão não acontecem com tanta freqüência. Estes festivais alternativos, com baixíssimo orçamento, podem ter um público de até mil pagantes. Pra se ter uma idéia, consideram festivais alguns eventos pra pouco mais de 200 pessoas em Salvador, boa parte das principais bandas alternativas baianas na década de 90 fizeram seus maiores shows em Aracaju, exemplos Pitty com sua banda Incoma e Retrofoguetes (antiga dead bilies). Este potencial dos pequenos festivais de Aracaju é atribuído a mídia internética (o antigo IRC, os atuais MSN, flogs, orkut e o clássico «Span» são responsáveis por divulgar eventos que ignoram a mídia oficial (panfletos, cartazes e outdoor). Um excelente exemplo disso é o evento «Derrota Fantasy» (um mix de festa à fantasia e festival de bandas independentes e outras vezes covers) que numa de suas edições chegou ao assustador número de 4 mil pessoas, sem ao menos um panfleto! Estas e outras coisas deixam Aracaju e especialmente Sergipe num patamar totalmente diferente do resto do país, no que diz respeito a características específicas, algumas bandas que lançam mil discos conseguem vendê-los em menos de um ano, outra coisa muito interessante: já temos mais lojas de CDs e vinis usados na cidade do que lojas especializadas em CDs, (o Sr Quirino, grande nome dos cebos em Aracaju possui sozinho 4 lojinhas no centro, sem esquecer da Freedom, loja do histórico Silvio da banda Karne Krua). Temos alguns lugares religiosos, como o Muquifo, o Bombar e o Café Poyesis, sem esquecer do Tequila Café, palco onde muitas bandas surgiram e sumiram também, estes são lugares onde as coisas aconteceram e acontecem, mas no passado da cidade existem o Cultart e o DCE, ambos da UFS (Universidade Federal de Sergipe), e o antigo MAHALO disco club, nestes últimos pode se dizer que a cena alternativa da cidade se construiu e se estruturou, eu mesmo comecei a sair indo ao DCE e ao cultart em eventos clássicos que entraram para a história da noite de Aracaju, como o Porão Cultart e o Castelo Ratinbum. Breve te escrevo um pouco mais sobre detalhes deste parágrafos, no mais um forte abraço." Patricktor4 é músico e DJ, formando em radialismo. Número de frases: 17 O Grupo Cultural Afro Reggae, completa em 2008 15 anos de existência e o Prêmio Orilaxé chega à sua 9ª edição. O Prêmio Orilaxé foi criado em 2000, para a celebração dos sete anos de existência do Grupo Cultural Afro Reggae, o Orilaxé vem se consolidando como uma importante premiação por parte dos movimentos sociais. A cada ano, sempre acompanhando o evento comemorativo dos aniversários do grupo (cuja data oficial é 21 de janeiro), o Prêmio contempla pessoas ou grupos distribuídos por treze categorias *: «Jornalismo»,» Veículo de Comunicação "; «Fotografia ";» Cantor "; «Cantora ";» Grupo Musical "; «Tradição Afro-Brasileira removeme;» Cultura Popular "; Afro Reggae "; " Responsabilidade Social "; «Empreendedor Social "; Direitos Humanos «e» Projeto Social». Em a linguagem dos povos iorubás, nossos ancestrais africanos, orilaxé quer dizer «a cabeça tem o poder de realização». A cabeça não tem uma tarefa fácil pois muitas das vezes terá que estar preparada para lidar com situações de conflito, onde a ética e a criatividade deverão ter papéis fundamentais nas soluções a serem tomadas. Portanto, Orilaxé não é apenas uma premiação, é mais que isso. É o reconhecimento de que cada um de nós tem a responsabilidade e a possibilidade de mudar a realidade que nos cerca, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos e do nosso planeta. O evento será dia 25/06, a partir das 21:00, no Theatro Municipal -- Janeiro. RJ E em primeira mão a lista dos premiados em 2008: Jornalismo: Amélia Gonzáles (RJ) Veículo de Comunicação: Canal Moto Boy (SP) Fotografia: Berg Silva (RJ) Grupo Musical: Siba e a Fuloresta (PE) Cantor: Rappin Hood (SP) Cantora: Roberta Sá (RJ) Cultura Popular: Mestre Felipe (MA) Tradição Afro-Brasileira: Mercedes Batista (RJ) Responsabilidade Social: Olinta Cardoso (RJ) Direitos Humanos: João Tancredo (RJ) Projeto Social: Banco Palmas (CE) Empreendedorismo Social: Fundação Casa Grande (CE) Produção de Conhecimento: Edson Cardoso (DF) Inovação Social: Programa Cultura Viva -- Minc (DF) Políticas Publicas: Carlos Minc (RJ) * O texto em negrito foi retirado do site do AfroReggae * * Número de frases: 33 Este ano serão 15 categorias. Papo D' skina, Urubu com Chicória, Toca dos Cobras. Ahn? Pode parecer estranho, mas esses nomes são bem conhecidos numa cidade apaixonada por brega e forró. O ritmo e as atitudes dos freqüentadores podem ser questionados: melodia pobre, letras não muito criativas, briga, confusão. Não importa. Essa é a cultura que os doutos do outro lado da cidade não querem admitir. Em os bares da periferia, nas boates da galera, não adianta vir como outra música. Porto Velho é brega, e com orgulho. Prova disso é que a rádio que tem maior audiência na cidade não pára de tocar Calypso. Não é à toa que aqui tem até Ascron (?). Bem, é a Associação dos Cornos de Rondônia, com direito a programa semanal de rádio de tudo. Casas de show lotadas? Pode apostar, é brega. Negar esta tendência cultural é negar a formação e produção do povo. A tal Música Popular, aqui, não é a produzida por poetas com violões nas mão, o popular aqui é falar de traição, de romances mal resolvidos, paixões impossíveis, tendo como pano de fundo uma batida cadenciada e muito swing. Em o Papo D' skina, o grupo Café com Leite, usa, com maestria, guitarra e teclado, mais a irreverência de seus vocalistas para deixar o salão bem animado até às 5h da manhã, todas as sextas e sábados. Para quem acha muito, é porque aos domingos não sabe da festa no Balneário de mesmo nome, onde a festa começa a partir das 13h e vai até 20h. Mais sete horas de forró, brega e cerveja. Em o domingo também é dia de Toca dos Cobras, onde a mais tradicional banda de forró da cidade faz o show ao lado dos seus apadrinhados, da Piolho de Cobra. Se ainda restar fôlego, à noite é só emendar até o Urubu com Chicória, que vara por a madrugada do domingo. Há quem até desdenhe dessa pecha, mas Porto Velho é brega, e que bom. Número de frases: 22 Os Mortos São Meus Vizinhos Elizete Vasconcelos Arantes Filha Recentemente fui a um velório do pai de uma amiga numa casa de velórios muito elegante aqui na cidade do Natal. Os amigos, aos poucos foram chegando em seus belos carros, com as suas belas roupas, e com as suas belas palavras de condolências. Como boa observadora, fiquei encantada com o ritual funerário apresentado, tudo era muito bonito, limpo, organizado, muitas flores, muitas faixas de saudades vindas dos quatros cantos da cidade, com nomes de famílias importantes escritas em dourado ou prateado, de certa forma combinando com os demais acessórios. Após o culto ecumênico, todos se dirigiram ao cemitério, não menos suntuoso, um grande espaço afastado da cidade, com muros altos, estacionamento com manobrista, muitas luzes, com uma entrada digna de um condomínio residencial de luxo. Em o último adeus, após a decida do caixão à sepultura, uma salva de palmas e uma chuva de pétalas de flores. Até ai, nada demais, a maioria dos leitores também já vira cemitério e rituais funerários dignos de enredo de cinema. O que vocês nunca viram é o que vejo todos os dias numa comunidade esquecida por Deus e por os políticos, num bairro muito afastado das badalações, do comércio e dos condomínios de luxo, comuns à cidade do sol, em que todos os dias eu passo por a frente, indo e vindo. Enquanto os «cemitérios de bacana» têm nomes poéticos, como Morada da Paz, Cemitério Nosso Senhor do Bomfim, Paraíso, Pedaço do Céu e outros tantos, em tantos lugares que já visitei. O Cemitério Pajussara, no entanto, está localizado num bairro chamado Brasil Novo. A confusão já começa por aí, é normal os cemitérios serem destinados a várias comunidades, mas esse em particular é centro de algumas polêmicas, pois não há espaço suficiente nem para enterrar os mortos de uma única comunidade, imaginem atender os mortos de tantas. Só sei que o cemitério favorece vários bairros, Pajussara, Brasil Novo, Parque das Dunas, Bairro Novo, República Nova, Pajussara Sítio, Novo Horizonte e outros. Estas comunidades cresceram ao redor deste cemitério e para encurtar a conversa todas se denominam de vizinhos do cemitério, portanto, todas têm o direito de enterrar seus mortos lá. Bem, o cemitério serve aos mortos e aos vivos também, se alguém quiser achar uma rua, ou um estabelecimento comercial, ou alguém que mora na comunidade, tem como base o cemitério, a conversa sempre começa assim: «Você vai direto, quando chegar ao cemitério você dobra a esquerda», e / ou para quem vem de dentro da comunidade sempre sinaliza assim, segue em frente e ao «chegar ao cemitério, dobra a direita» e outra, «vai direto, direto, passa por o cemitério e ainda vai direto», na verdade todos têm que passar por este lugar, pois é a entrada para todas as comunidades e a forma mais viável de se chegar à praia de Genipabu, sim, aquela famosa praia com dromedários e que a global Ana Maria Braga, de vez em quando vêm fazer matérias para o seu programa. Voltemos às comunidades que ainda têm muitos habitantes remanescentes dos empregados de uma antiga fazenda, cujo dono, seu França, como é conhecido no local, antes de morrer, foi deixando as famílias se apossarem e se estabelecerem no local. A o levantar esta história entrevistei os moradores mais antigos e registrei através de fotografias. A história começa bem antes da época em que foi construído há 60 anos, ou seja, em meados de 1940, primeira metade do século XX, mas há registros orais dos habitantes antigos de pessoas enterradas desde 1900, pois não havia um espaço destinado para os mortos na região e os mesmos eram enterrados debaixo das árvores aos pés de pitombeiras e timbaubas, árvores ainda existentes no local. Mas não eram todos, os brancos eram enterrados num cemitério pertencente à prefeitura de Extremós município do Rio Grande do Norte e ou no Cemitério Inglês no bairro do Igapó em Natal e, só os negros, eram enterrados debaixo das árvores, pois a maioria não tinha registros ou identificação de existência e não podia pagar para ter «seus últimos sete palmos de terra» e o transporte ficava dispendioso para as famílias. Em a época, o número de mortos era de um ou dois por ano e, às vezes, passavam -- se três anos sem haver óbitos. No entanto, com o passar dos anos e com o aumento demográfico e, consequentemente, do número de óbitos, foi necessária a construção do cemitério, com as terras doadas às famílias dos empregados negros. Seu Genival 66 anos -- alfabetizado, um dos remanescentes dessas famílias me mostrou o mapa das terras riscando no chão e explicando como foi a sua distribuição dizendo: " [ ...] finada Batista tinha a maior parte junto com Nanete. A minha parte era essa aqui. O filho de Nanete começou a plantar verdura e legumes no terreno do cemitério, já que tinha terreno sobrando ... para venda em supermercados da cidade e para o consumo dos habitantes locais. A covisa mandou ele fechar o negócio, ele abriu ali na frente junto ao rio, o negócio prosperou, muita gente daqui é empregado de ele. Ele é um bom patrão». Em a década de 1970 um vereador do município de Ceará Mirim / RN o Sr. Roberto Varela, na tentativa de angariar votos da comunidade, assume a doação das terras passando em cartório a documentação como sendo o proprietário e doando à comunidade em nome da política. Consequentemente a prefeitura da Cidade do Natal assume a administração trazendo algumas melhorias, como a construção de um muro que delimita o espaço e uma pintura durante a época das eleições. No entanto, essa demarcação das terras também se tornou motivo de disputa já que a prefeitura só construiu o muro utilizando a metade do espaço utilizado por o cemitério, a outra metade que foi invadida por o filho de Nanete, ficou de fora e não mais passou a ser considerada como espaço pertencente ao cemitério. Sendo apossada posteriormente por uso capeão causando indignação a todos da comunidade vizinha ao cemitério. Entretanto, logo as terras delimitadas para uso do cemitério foram ficando insuficientes, sendo forçoso diminuir a profundidade das covas e a largura e, em alguns casos, colocar um morto em cima do outro e até de lado, fora das regras ambientais que estipula um prazo de três anos entre um sepultamento e outro, já que não há uma divisão de concreto entre uma urna e outra. A situação do cemitério na atualidade vem provocando um desequilíbrio ambiental. Alguns moradores reclamam do lixo que se jogam ao redor do cemitério, restos de caixão de madeira, ossos e até fetos, dos trabalhos de «macumba» com galinha morta, da areia fofa de tanto remexerem a terra, do vento que leva o mau cheiro de carne putrefata até os vizinhos do cemitério, dos moradores desinformados sobre questões ambientais e saúde pública. Conversei com o coveiro, o sr. Jovenilson, Ele disse: «tenho que cavar 1.30 de profundidade, mas não dá, quando chego na metade a areia cai em cima de mim, uso bota e luva de plástico, mas sei que corro risco. Faz 60 anos que enterramos gente aqui, a terra já está contaminada, fede ... todo mundo me alerta, mas não posso fazer nada, sou analfabeto, não vou consegui outro meio de vida». Recentemente a área que estava destinada para aumento do cemitério foi vendida ilegalmente e o novo proprietário iniciou a construção de um condomínio residencial, ficando muro a muro com o cemitério. Os lideres comunitários responsáveis por o cemitério solicitaram a desapropriação do terreno à prefeitura local, as casas que estavam em construção foram interditadas e proibidas novas construções. Mas até então a prefeitura não liberou o terreno para uso do cemitério e segundo o administrador do local o sr. Arapuan José do Nascimento, " [ ...] quando o cemitério era particular, os moradores tornavam organizados. Depois a prefeitura assumiu, virou bagunça. Já solicitamos mais terrenos, mas a prefeitura se nega, tem terreno ali do lado, mas a prefeitura não quer pagar por ele, o negócio é colocar um defunto em cima do outro, mesmo fora de tempo. Se morrer duas ou três pessoas da mesma família em curto prazo, a gente abre a cova e bota o morto, quem sofre é o coveiro, que tem que abrir e fechar e levar toda a poeira». O coveiro o sr. Jovenilson, inconformado me disse: «a gente enterra os mortos aqui em qualquer lugar, nos cantos da parede, entre uma cova e outra, onde tiver espaço. [ ...] Não sei quantos metros tem o local, não senhora». Houve uma ocasião que eu estava fotografando os túmulos e pisei numa areia fofa, logo o sr. Jovenilson veio ao meu socorro e disse: «moça, ai onde a senhora ta, tem um defunto enterrado, cuidado para não afundar». É importante dizer que já fazia algum tempo que havia sido enterrada uma pessoa ali e, não havia nenhuma identificação. Voltei um mês depois ao mesmo local para fotografar novos túmulos e no mesmo local onde quase afundei, tinha mais três covas recém fechadas e sem identificação, só algumas flores. Também existe a contaminação do lençol freático por o formol e por as doenças, já que há no local o percurso do rio doce, cuja água é utilizada para aguar as plantações e para dar de beber aos animais. Quando falta água encanada à comunidade, os vizinhos mais próximos utilizam a água do rio para fazer as lavagens domésticas; e esse mesmo rio é utilizado como um lugar de lazer (banho e pesca) para os moradores e comunidades adjacentes. Outra questão que merece ser sublinhada é que a delimitação como área urbana só acontece na região que fica ao lado do cemitério, atravessando a rua já se distingue como área rural, possuindo todas as características. Uma das consumidoras de hortaliças da região confidenciou: «várias famílias sobrevivem da plantação de verduras, não queremos que eles saiam daqui, o que queremos é que o cemitério seja fechado e abram outro espaço para os mortos em outro lugar». Os vizinhos do cemitério reclamam da situação, mas não sabem a quem mais recorrer, haja vista o descaso da prefeitura e de alguns lideres comunitários que querem tirar proveito próprio: " [ ...] a gente não agüenta mais a falta de respeito com os nossos mortos. Esse trabalho que a senhora tá fazendo vai ser bom para despertar esse povo que não tem amor nem consideração. Eu tenho uma filha e um neto enterrado lá, cuido do túmulo de eles e sei que também um dia vou ser enterrado junto com eles. Quero que o cemitério seja preservado. ( Sr. Genival -- 66 anos). Lembrando aos leitores que esse terreno de toda essa controvérsia é o mesmo que já tinha sido doado há 60 anos atrás e que foi invadido ilegalmente para plantação de verduras e depois apossado por uso capeão, que posteriormente foi vendido para construção de um condomínio residencial e agora os moradores estão querendo que a prefeitura compre-o de volta. A prefeitura nega-se a comprar, pois não quer pagar o valor exigido e o conflito continua. Esses problemas atípicos a um cemitério, que até então acreditava-se ser um lugar de paz vêm interferir na auto-estima dos moradores adultos e dos jovens e crianças que são exatamente os vizinhos do cemitério, que ao menos na morte, gostariam de ter um pouco de paz e até um pouco de conforto. Fontes: pesquisa oral com os vizinhos do cemitério Pajussara. Número de frases: 70 Fotografias de autoria da pesquisadora Belém, sexta-feira, 30 de dezembro de 2005. Antevéspera da virada, dia internacional das retrospectivas de fim-de-ano. Que véspera que se preze não é véspera, é dia. E dia de virada é putaria certa, principalmente nas idéias alteradas de quem é desse mundo perdido de distorção e gritaria. Cabeças, aliás, não faltavam no porão de prestigiada casa de espetáculos da cidade, onde estavam reunidas a fim de fazer valer a data e rememorar, na medida do possível -- aproveitando para armar os esquemas do reveillon --, traumas e glórias que pudessem auxiliar na busca de uma solução para a crise de identidade que vem passando o tão em voga rock paraense, de pernas para o ar num divã disposto no centro da rodinha por o músico e produtor Nicolau Amador, da banda Norman Bates e um dos presentes. Como mediador da sessão (há anos sendo cobaia de terapeutas e afins, achei-me em condições de assumir o papel, ainda que sem o devido diploma médico para tanto), dei início aos trabalhos: «De acordo com a moderna psicanálise, o distúrbio de personalidade múltipla ...». «Que isso, métodos didáticos pra se lidar com o rock ´ n ´ roll? Usar uma palavra dessas num contexto rock é a mesma coisa que falar de controle de natalidade na época do carnaval. Deixa de enrolar, rapaz, e vamos logo ao assunto», impacientou-se de cara o jornalista Marcelo Damaso, interrompendo minha exposição em seus primeiros quatro segundos. Já aí, pude ter um vislumbre claro do que viria por a frente. Entretanto, dotado de uma paCiência de Jó que sou, retomei a palavra sem me deixar abalar: «Como dizia, o distúrbio de personalidade múltipla, ou seja, várias identidades convivendo dentro da mente de uma mesma pessoa, geralmente ocorre quando esta sofre algum tipo de transtorno psicológico no passado com o qual não consegue lidar, protegendo-se do mesmo através da criação dessas tais personalidades que lhe dão a força para suportar o peso emocional que sozinha não conseguiria. Vi isso num filme e, até que me provem o contrário, estou convencido de que é o quadro do caso em questão». Mal encerrei meu pensamento e, num pulo, o promoter Bernie Walbenny foi logo emendando com ar aflito e um tanto exaltado: «Se foi bem o que entendi, não vejo a cena afetada negativamente por o episódio Corujinha. Poderia ter gerado uma má imagem da produção local, mas as pessoas conseguem separar o bom do que não presta. Não foi a primeira vez que ele aprontou das suas. Em todo caso, o prejuízo que deixou limitou-se ao bolso de algumas pessoas que não o conheciam. Tem muita gente aqui querendo trabalhar honestamente e fazer um negócio decente. Mas, enfim, é página virada». Para quem passou o ano em coma numa unidade intensiva, explica-se: às vésperas da realização de um show da banda Ludov na capital, promovido por Bernie e Alex Zambba, vulgo Corujinha, a verba arrecadada até então e quem de ela tomava conta sumiram misteriosamente, causando um ligeiro mal-estar entre os que permaneceram (procurado em seu esconderijo no estado de Minas Gerais, Alex não quis se manifestar sobre a questão, limitando-se a informar que não estava). Enquanto o jornalista Vladimir Cunha consolava Walbenny, reafirmando-lho quão bacana era seu nome, o produtor musical e homem por trás da Cultura FM, Beto Fares, tratou de encerrar o assunto: «A verdade é que isso não cheirou e nem fedeu. Só doeu nos roubados mesmo», com o que todos concordaram num silêncio de avestruz em buraco. De fato, caso houvesse de se falar em abalos do passado, bem mais plausível seria que fossem trazidos à baila acontecimentos, por assim dizer, mais relevantes à formação do que hoje é a mentalidade do cenário roqueiro paraense e a como se dá seu funcionamento (não desmerecendo inclusive as trapalhadas de Zambba, que, justiça seja feita, a seu modo contribuiu com a cena), desde as trocas de farpas nos bastidores que se sucederam aos primeiros sinais de um relativo êxito do movimento no fim dos 80, pondo tudo a perder de vez, à busca sistêmica por uma fórmula própria que mesclasse regionalismo e guitarras distorcidas, nos moldes do que tanto se fez na época, uma década depois. Não nos esquecendo da herança maldita de Roosevelt Bala e seu Stress, que, de 1979 em diante, aterrorizou os piores pesadelos trash de garotos nerds que só queriam uma vida mais tranqüila, sem fugas no recreio culminadas em passeios por os cestos de lixo. Outro dado que, na ocasião do encontro, ânimos já recuperados, pareceu-nos de suma importância, uma vez que o abuso sexual na infância é uma das causas mais freqüentes da geração de múltiplos egos, os quais, bem ou mal, acabam atacando por várias frentes. De esta maneira, através de todo um trabalho de reestruturação no que toca tanto aos interesses dos envolvidos quanto à boa vontade dos mesmos em se reciclarem em nome de uma maior profissionalização da base ao topo do negócio, uma nova paisagem foi surgindo no horizonte para a música pop feita no Estado com a abertura da programação de rádios como a Cultura FM e as comunitárias, principalmente, que vinham se proliferando. E quem é que não sabe? O que não presta sempre acaba na boca do povo. Com o rock não foi diferente e as casas de shows perceberam o fenômeno de passagem. «A situação melhorou muito. Há espaço na rádio, em eventos, locais pra ensaiar, interação cada vez maior com músicos e produtores de fora, vários estúdios de gravação surgindo, vários músicos dando vazão a vários projetos ao mesmo tempo -- ou seja, satisfazendo-se musicalmente das várias formas que seu talento lhe permite. Isso só ocorre porque há meios pra que trabalhos distintos sejam aceitos e mostrados ao público. É cada vez maior o número de casas que investem na música autoral e / ou de bandas alternativas ou até mesmo instrumental». Com estas palavras, André Coruja, da banda La Pupuña, além de quebrar o gelo que havia esfriado o clima, devolveu ao recinto a eloqüência necessária para que a sessão continuasse, fazendo olhos cintilarem na escuridão. Daí em diante, porém, todos quiseram emitir suas opiniões a um tempo só e a confusão voltou a reinar no porão. Bernie era ainda inconsolável e Vladimir esgotava sua verborragia com o garoto. De o jeito que as coisas iam, ninguém se entenderia nunca, muito menos tomaria conhecimento um do outro -- mais uma particularidade marcante da múltipla personalidade. Resolvi, então, colocar ordem na muvuca e passei a correr feito doido por o salão com os braços estirados para o ar, fazendo as vezes de uma seriema esganiçada. Deu certo e todos se aquietaram, espantados. Pigarreei, pedi desculpas por o arroubo de espontaneidade e, de imediato, estabeleci uma seqüência ordenada de oradores. Visto que Coruja havia dado o mote para o tópico «casas que investem na música autoral», achei por bem conceder a vez a Marcelo Damaso, quem chefia a Dançum Se Rasgum Produciones ao lado de seus comparsas Eduardo Feijó, Randy e Gustavo -- os primos Rodrigues --, trupe de fundamental importância para a guinada da atual fase do rock ribeirinho, responsável por inferninhos quinzenais já lendários e um intercâmbio que se fez constante ao longo do ano. Agoniado desde o princípio, não deixou passar a chance. Afastou as madeixas do rosto, dando um trago em seu cigarro, e desandou a falar: «O que aconteceu é que o rock cover habitual das casas noturnas recuperou um pouco do espaço que havia perdido em 2004. E mesmo assim nem são os lugares em si, mas as produtoras que realizam esses projetos. Acontece. A DSR, por sua vez, trouxe seis bandas de fora esse ano. O intercâmbio rolou. Duas bandas daqui foram para festivais no Centro-Oeste. Principalmente quem a gente tem trazido pra cá (Wander Wildner, Drosophila, Réu & Condenado, Sapatos Bicolores, Nervoso e Los Pirata, além do Rodrigo Lariú e Lúcio Ribeiro)», alisou o queixo com o dedão direito, " está deslumbrado com a parada. E isso é legal porque rola a propaganda. Nervoso fala para a Matanza que tocar em Belém é do caralho. Matanza diminui as despesas pra vir tocar aqui. Sapatos Bicolores fala pra Los Pirata que tocar em Belém é muito massa, Los Pirata faz de tudo pra facilitar a vinda de eles também. O mais legal é que todas as referências são boas, pois o que se espalha por ai é que a DSR é super profissional. Sério, se fala muito desse profissionalismo. As bandas de fora que vieram dizem que essa é uma característica nossa. De aqui. Damaso ainda quis retomar o fôlego, mas antes mesmo que eu pudesse passar a bola para o orador seguinte, Nicolau Amador balançou a cabeça e foi soltando que " cara, todo mundo se liga nisso. Mas acho que eles estão esperando acontecer algo por aqui. Todo mundo se amarra em vir tocar aqui porque, além de ser um lugar diferente e novo, há essa expectativa a respeito da cena paraense. Esse ano a movimentação acabou sendo pouca e os caras não puderam ver as bandas daqui ao vivo. Seria ótimo se nessas vindas as bandas de fora tivessem maior oportunidade de ver as nossas tocando. Em o mais, ninguém fará o que só a gente pode fazer, que é desenvolver essa porra por aqui, nós mesmos». Estava claro que moral era algo que eu definitivamente não tinha naquele meio. E estava decidido a não mais fazer questão de aumentar meu débito, perdendo um pouco mais do que nunca tivera nos lucros. Não era tumulto o que queriam? Que o tivessem, os putos. Soltei as rédeas. E eles começaram a se entender, vejam só. Ninguém soube dizer direito como as coisas de deram. Fato é que, de repente, os músicos Elder Fernandes (Suzana Flag, Johnny Rock Star) e Jayme Catarro (Delinqüentes) ensaiavam um cancã no salão, agarradinhos, enquanto um Bernie já totalmente recuperado arriscava cambalhotas mortais. Vladimir dormia no divã, esgotado, de costas viradas para o rock. «Temos uma dinâmica favorável! Dá pra fazer as paradas com pouca grana! Computador é foda, cara! A gente encontra amigos que podem ajudar, o Suzana fez clipe na brodagem, com qualidade boa, e vamos fazer muito mais!», berrava Elder, seguido por Catarro: «Acho que 2006 pode vir com mais força, vai depender da união de alguns segmentos, senão vamos ficar sempre nessa! Tem que fazer acontecer! E quem faz acontecer? O público incansável, as bandas que não desistem, os poucos produtores que ainda acreditam na história e naqueles que, pra fazer um pequeno ou grande show, carregam seus amplificadores e baterias nas costas, muitas vezes sem ganhar nada! Algumas poucas pessoas, como o Beto Fares e o Ná, esses sim, verdadeiros guerreiros!». Verdadeiros, sem dúvida. Exemplo recente foi o prêmio que levou o nome do empresário Ná Figueredo, voltado para as produções locais de clipes, que em sua primeira edição agraciou o grupo Madame Saatan por o vídeo da música «Perfume, sombra e um drink de veneno», dirigido por Roger Elarrat e Thiago Conceição. Mas, de modo algum, os únicos, como bem lembrou Nicolau: «O pessoal da DSR, o Ney Messias (presidente da Funtelpa), os produtores Marcel Arêde, Jackie Araújo, Karina Sampaio, o próprio Bernie aqui presente, entre outros, são pessoas que trabalham pra que isso tudo dê certo. A maioria por trás dos refletores, o que é de grande importância». Sim. Por raro que fosse, fazendo vista grossa ainda se encontrava, aqui e aculá, um que guardasse seus momentos de lucidez. «Sempre se pensa em alcançar mais algumas coisas, andar sempre para a frente. Problemas existem, mas projetos também. Se alguém tivesse sempre uma solução pra tudo, não estaríamos aqui discutindo», arrematou Beto Fares, com seu semblante zen de sempre, alheio ao burburinho. Discussões e projetos que, embora um tanto esparsos, acabaram desembocando em conquistas várias e numa evolução sem precedentes. A o escutar seu nome, Walbenny se estatelou no chão e, como que iluminado por o baque, ergueu o indicador direito e fez o resumo da ópera: «Foi um ano produtivo. O rock feito no Estado teve uma presença forte em eventos importantes realizados no país e foi bastante elogiado em artigos de importantes meios de comunicação. O Suzana Flag, em especial, teve um ano espetacular. Entrou 2005 com o pé-direito, sendo anunciada como Revelação Nacional no prêmio London Burning. Depois teve o Abril Para o Rock na seletiva do Claro Que É Rock, a Feira da Música Independente em Brasília, o show do Ampli Festival Volume 01 no Sesc Pompéia em Sampa, o Banda Antes MTV, a participação no disco Tributo a Odair José, lançado por a Allegro Discos -- junto com Paulo Miklos, Zeca Baleiro, Pato Fu e outros artistas renomados. Outra banda que conseguiu uma repercussão muito boa foi a Madame Saatan, com direito a fã-clube, clipe premiado, matéria no Jornal Hoje, da Globo, e participação no Bananada, em Goiânia. Por fim, acho que a grande revelação foi o Johnny Rock Star, oriundo do fim conturbado da Eletrola. Quem assistiu pode afirmar que a banda veio pra ficar». De um canto escuro, ouviu-se o ruído rouco de Damaso: «La Pupuña, caralho. Os caras atualmente fazem seis shows por semana e sempre tocando música própria». A folia que já rolava solta, a partir de então virou bolsa de valores -- mais engraçado que o bingo semanal dos ex-funcionários das câmaras setoriais reunidas --, cada um querendo se gabar mais alto que o outro na hora do lance. Stereoscope, Norman Bates, A Euterpia, Delinqüentes, Coletivo Rádio Cipó, Evil, DHD, Buscapé Blues e mais quem sambasse na toada do crioulo doido. Um autêntico carnaval de estilos fora de época. Vladimir acordou assustado, prevendo boas novas para 2006. Não quis revelar nada, entretanto, pois, segundo ele, sonho contado não se torna realidade. No meio de tamanha agitação e com a certeza de que ninguém notaria minha falta de qualquer jeito, aproveitei para ir ao encontro de Fabrício Nobre, da banda MQN (que se apresentou em Belém no início de 2005, trazida por Zambba) e um dos sócios da goiana Monstro Discos, que, a meu convite, observava a sessão por detrás de um espelho falso, tecendo sua própria análise sem o conhecimento dos demais. Sempre bom ter uma segunda opinião, de quem não é da casa. «E aí, qual é teu parecer? Tem futuro ou pode internar, que é caso perdido?». «Rapaz, Belém é uma das cidades que tem a cena mais divertida do país hoje. É do caralho! É aquela coisa, tá alavancando. Falta só um festival de rock independente, que, por o que sei, já está a caminho ... a cena aqui é foda, tem tudo pra dar certo. Não há modelos a serem seguidos, sabe. Existem exemplos pra se ver o que pode e o que não pode ser legal na realidade local. Vocês estão bem na fita!». «É, isso de modelo a ser seguido já era. Qualquer tentativa de forçar essa barra será ideológica e provavelmente falha. A ideologia do rock paraense deveria ser a união e a diversidade, só que a diversidade é muito grande e parece que nossa união ainda é muito difícil por as nossas poucas condições materiais. É aquela história: quando todos estão com fome, todos brigam por um pedaço do cavalo morto no chão», fomos surpreendidos por um Nicolau onipresente que havia me seguido em surdina. Alguém tinha sentido minha ausência, enfim. Nem fiquei puto por isso. E, afinal, ele estava certo. Sintoma básico do distúrbio de personalidade múltipla: uma geralmente não tem consciência da existência das demais, cada qual possuindo raciocínio e sentimentos próprios, embora parte de um mesmo indivíduo. O que não impede, vez ou outra, a comunicação entre as várias, ocasião em que figurinhas são trocadas num bafo agradável de cachaça, farinha e peixe frito. De volta ao porão, já não estava mais no divã. Temperamental que só ele, o rock paraense havia dado o fora sem avisar. Número de frases: 139 * matéria batizada em homenagem à comunidade homônima criada no orkut por Nicolau Amador, com o propósito de discutir questões referentes a tão ilustre paciente. Meu irmão está longe. Não acredito em mais nada. Me fecho ainda mais intensamente na minha armadura. ( Pierre-François em Epiléptico) Não costumo ler HQs. Nem quando era criança tinha paciência pra histórias em quadrinhos. No geral, achava tudo um pouco estúpido. Menos por a deslumbrante harmonia de corpos bem-talhados do que por os muitos buracos que via nos roteiros de títulos como X-Men, Wolverine, Super-Homem e tantos outros. Não exatamente buracos, mas aspectos que me faziam achar as motivações dos heróis um tanto inconsistentes e as batalhas intermitentes sem motivo que as pudesse justificar. De esse modo, passei grande parte da infância e adolescência longe do universo dos super-heróis mais apreciados por os colegas de mesma idade e condição social. Até tentei me obrigar a gostar de revistas, mas não nunca fui além de dois números de Spawn e dos três da versão 2099 dos mutantes mais famosos do mundo. Acabo de ler Epiléptico (Conrad Editora, 2007), de David B. É uma revista em quadrinhos, sim. Uma HQ, portanto. Uma história contada por meio de imagens e balõezinhos contendo as falas das personagens. É em preto e branco, não tem as cores berrantes e os efeitos que somente a computação gráfica consegue imprimir a muitas páginas laminadas das revistas mais vendidas em bancas de todo o mundo. Os desenhos não são perfeitos, os personagens não têm queixos quadrados, cabelos esvoaçantes, pernas e braços cujos músculos quase chegam a se desprender do próprio corpo. Seus olhos não disparam raios nem eles podem voar. Os heróis de Epiléptico não exibem quaisquer anomalias que os tornem diferentes. São como você e eu. Mas não foi exatamente por isso que, ao fim das cento e setenta e três páginas do livro, passei a considerá-lo uma das melhores coisas que já li até hoje. Pra falar a verdade, não sei por que a história do francês David B., pseudônimo de Pierre-François Beauchard, me fez dar giros em volta de mim mesmo. A exemplo de Jean-Christophe, o epiléptico do título, estou perdido e só me resta um dragão chinês como companheiro. Antes de Epiléptico, tinha lido V de Vingança, de Alan Moore. Boa revista, sim. Infinitamente superior ao filme. Antes de ela, nem lembro. Acho que foram cinco ou seis números de Watchmen, do mesmo Moore. Se me esforçar bastante, chego, agora, à série que narra de forma dramática a morte do Homem de Aço. Li aos dezessete anos. E aqui se finda o histórico completo de minhas experiências mais ricas com quadrinhos. Não sou, portanto, um grande entendedor do assunto. E é como um quase leigo -- acostumado apenas ao universo da literatura e do cinema -- que repito: David B. é uma das melhores coisas que já li até hoje. Seus desenhos são alucinados. Seu senso de humor é fantástico. Ele tem uma escrita literária. Constrói situações que fazem rir e chorar. A história que conta -- a sua própria -- é dramática. Ele trata de um período muito caro a qualquer um de nós: a infância. Faz isso de forma primorosa. Não é piegas nem saudosista. É implacável com todos. Por isso Joe Sacco o considera um dos melhores quadrinhistas da atualidade. Tem sacadas geniais. Ele é Genial. Não tenho medo de dizer isso. David B. é Genial. Sei que ainda é muito cedo pra afirmar uma coisa destas, mas lá vai: tenho a impressão de que minha vida seria um pouco diferente se não tivesse acabado de ler Epiléptico, de David B. Como são dois ou três livros, já nem lembro, estou pensando em comprar o segundo amanhã mesmo e devorá-lo sem dó. Se você é dos que torcem o nariz para os quadrinhos, David B., com sua maestria, certamente deve estar cagando pra isso. * Em a revista, a doença do irmão de David B. é representada por uma espécie de dragão chinês. Ele o acompanha a todos os lugares. Serviço: Epiléptico (Volume I, Conrad Editora). Número de frases: 56 Preço: quarenta reais. Mulungu, cabaça, isopor, empanada, contra-mestre, chula, fuleragem, Mateus, Catirina e Tiriridá. De esse povo abestado de mão molenga e pulso firme, eis a invenção da arte dos bonecos. De as oficinas de criação aos palcos de apresentação, os bonecos ganham vida com feições e atitudes que se misturam as características próprias dos criadores. De o desenho nas pedras, da sombra e gestos definindo imagens -- quase tão antiga quanto o homem -- uma nova arte surgiu, dos bonecos. De a soma do medieval teatro de marionetes, totens indígenas e máscaras ritualísticas africanas, nasceu o mamulengo. Suas diversas formas de manifestação são registradas em todo país: «João Redondo «no» Rio Grande do Norte», «Babau» na Paraíba, «João Minhoca» na Bahia, Minas Gerais e «Rio de Janeiro»,» Briguela «em São Paulo,» Cassimiro-côco «no Piauí e» Cassimicôco» nas terras do Serigy. Alma do Mundo Uma tarde chuvosa. Flocos brancos a voar na oficina repleta de imensas cabeças, silhuetas de espuma e pés pintados. Em o fundo da casa, uma equipe a passos rápidos. A o canto da raspagem do isopor, as encomendas tomam formas. Há 25 anos, Anselmo Seixas foi contaminado por um «vírus». Foi quando ele desistiu do teatro de palco e resolveu trabalhar com animação. Em a década de 80, Fernando Lins realizava o projeto a «Escola vai ao teatro». Então resolveu fazer ao contrário, trazer os bonecos para as unidades de ensino. «As primeiras figuras eram feitas de cabaça. Não esqueço do dia. Fizemos a manipulação com luvas e sem tenda. De repente, eu e Marcos Gaspar não existíamos mais em cena». Anselmo afirma ter aprendido através da observação e pesquisa, como autônomo. «Sou um boneco também uso meu corpo molde. É difícil saber até onde sou parte daquilo que crio», completa. A os 44 anos, esse titereiro confessa ter tentado outras profissões. Trabalhou em banco, fez concurso público. Mas hoje, em meio às oficinas, pedidos e montagem de espetáculo, sua vocação realmente o completa. Em a elaboração de peças, ele parte do nome do seu grupo, Anima Cosmos, por a busca daquilo que significa «a alma do mundo». Três cocos, sucupira, mulungu, pajaú «Venho de uma família de toadores e cantadores populares. Pago promessas para bonecos todos os anos. Tenho uma ligação muito além do trabalho». Assim o aracajuano, criado na Fazenda Siriri na cidade de Rosário do Catete, filho de Maria Barreto e Isidoro Dória, começa a explicar aquilo que ele crê ser sua missão no mundo, a de brincante popular. Augusto Barreto foi criado numa casas com cinco irmãos, sua mãe de Neópolis e seu pai de Própria, ambos vindos com suas tradições ribeirinhas. Sua infância foi cercada de bonecos, brincadeiras e causos populares. «Eu sempre ouvi Seu Lula, Marines. Ia muito aos circos, às feiras, brincar de cassimicôco, dançar com os folguedos, ver o teatro de marionetes em Aracaju», lembra. Em 1978, a teatróloga Aglaé Fontes, em parceria com a Universidade Federal de Sergipe, funda um grupo chamado Mamulengo de Cheiroso. Inicialmente com a participação de seis universitários bolsistas, a proposta era fazer da arte bonequeira um elo entre cultura popular e o teatro. Por trás da empanada, havia os reisados, folguedos, danças, jornadas, guerreiros, batucadas, côco e muito forrobodó. Os personagens eram velhos conhecidos dos autos e dramas populares: Mestre Cheiroso, Catirina, Mateus, Professor Tiridá, Simão, o Papa Figo, Quitéria, de entre outros. Foi quando Aglaé Fontes, que tinha um irmão casado com uma das tias de Augusto, o convidou para entrar no grupo, do qual hoje é diretor. Vivendo há 28 anos de teatro, ele assume o personagem Mateus e dentro ou fora da tenda faz folia com safona, triângulo e zabumba. «Pra se danar, você tem que ter gogó, saber o dó-ré-mi, cantar parabéns». O Mamulengo é composto por seis pessoas: três na música e o restante no comando dos bonecos. «Primeiro, você precisa saber louvar, trovar, cantar e, por último, interpretar», resume. Número de frases: 48 «Minha razão de vida são os bonecos, na minha casa em meio às galinhas, bichos e gente, são eles os protagonistas da minha história», finaliza. A banda Camundogs e o selo Catraia Records formaram parceria com o Mira Shopping, em Rio Branco (AC) para o projeto Em a Garagem. De quebra encampam o projeto as bandas autorais acreanas. A idéia do grupo é abrir espaço para a produção musical independente e autoral acreana. Um dos meios para quer isso aconteça, que está em fase de implantação é o Estúdio Comunitário de Ensaio. Em a Garagem trabalha com dois importantes pontos: criar espaço para ensaios e abrir palcos para a apresentação de bandas independentes. Mas, a idéia que ferve na cabeça dos rapazes é fomentar e incentivar as bandas a criarem um trabalho autoral. Com a palavra o Max Arraes, do " Catraia Records: «Nada contra o cover, mas esse momento fica para espaços como bares e casas noturnas. A música autoral, composta aqui, é que precisa ganhar espaço e ser incentivada». O pontapé inicial do Em a Garagem, aconteceu no último dia 23, a partir das 17 horas, no estacionamento do subsolo do Mira Shopping, centro de Rio Branco, com a apresentação das bandas Camundogs, Los Porongas e Nicles. O espaço ficou pequeno para o público que balançou com os ' alicerces ' do Em a Garagem. Depois do tapete estendido, o Em a Garagem, segundo os articuladores do projeto, acontecerá com apresentações quinzenais das bandas acreanas de rock autoral independente, aos domingos, das 17 às 22 horas, no mesmo espaço. Em a agenda: Pia Vila, batizado por o Fernando Rosa (Senhor F) de " Iggy Pop do Norte "; Dona Xica; Sufrágio, Alt F4, Teu Pai, Dead Flowers e outras. A cada idéia lançada, a cena da música independente no Acre vem se construindo e descortinando, através de ousados projetos do Catraia Records. Número de frases: 18 -- E o senhor tá feliz, seu Zé? -- Como é que não tô? Tô satisfeito. Não careço de nada mais do que isso, não! Depois de assistir ao Balandê Baião cercado por a gente da sua terra, na praça principal da cidade, com flashes pipocando por todos os lados, o personagem principal do filme, Luís Pereira de Andrade, o mestre Zé Coelho, 86 anos (perdão, errei a idade de ele aqui), era a imagem da alegria. Conversou, tirou fotos, cantou, dançou e falou um pouco de sua vida para o Overmundo. Contou sobre as viagens que fez para divulgar o filme, junto com o amigo Antônio Noronha (o diretor). «Doutor Antóin Filho não deixa faltar nada. Até ' caché ' ele arruma pra mim quando eu tô doente, cuida de mim. Só me zanguei porque não botaram meu fumo na mala, fiquei doidin querendo e não tinha. Mas mesmo assim foi bom. Dancei até para o Gilberto Gil, imagine eu dançando prum homem daquele, comentou. Para quem nasceu e se criou em Monsenhor Gil, pequena cidade no interior do Piauí, estar num filme, se ver na tela contando sua própria história e revelar ao mundo uma dança que tinha como destino ser esquecida dentro de pouco tempo é uma experiência única. O mestre Zé Coelho acha tudo uma grande vantagem. «E não é vantagem, moça? Eu tô no mundo inteiro agora. E eu sou um ' véi ' que não tem nem leitura. Minha leitura é só cantar, dançar, tocar meu ' cafanhoto '. Esse filme aí é a melhor coisa que o doutor Antóin Filho fez pra mim, foi melhor do que me dar uma fazenda de gado». O'cafanhoto ' é uma espécie de castanhola mais comprida, parecida com um gafanhoto, que ganha vida nas mãos do mestre do balandê. É preciso agilidade e muita coordenação motora para tocar o tal instrumento, além de disposição, porque a dança é longa e o ritmo é ditado por ele. Lá em Monsenhor Gil muitos meninos já se arriscam a tocar, sob os olhares do Mestre Zé Coelho, que proclama orgulhoso: «Tem que ter jeito, menino. Me dá aqui que eu mostro». E toca. Logo um monte de meninos ficam arrodeando e começa a cantoria. Bonito demais de ver. Ele conta a história do ' cafanhoto ': «Esse ' cafanhoto ` quem me mostrou foi um tio meu, o tio Chico Cosmo, que já morreu. Ele comprou não sei de quem por ' três tões '. Me vendeu por um cruzado aí eu não quis mais largar. Para o som ficar bonito, o'cafanhoto ' tem que ser feito de pau d' arco, aroeira ou pau roxo. Se for de outra madeira não presta», sentencia. «Eu inventei essa dança " A história do balandê, segundo Zé Coelho, foi iniciada por ele, quando era bem moço ainda. «Quando chegava o mês de maio, a gente rezava o mês todinho para a Maria. Todo dia na boca da noite a gente rezava e depois ficava todo mundo reunido no terreiro, aí eu inventei a dança e tomei de conta. Fui inventando e aprendendo. Depois os outros começaram a dançar também e era uma brincadeira bonita». Muitas das senhoras que dançaram o balandê depois da exibição do filme por o projeto Revelando os Brasis em Monsenhor Gil assistiram, ainda crianças, aos primeiros passos do mestre, hoje a figura mais famosa da cidade. «Deus num vende salvação " Mestre Zé Coelho se separou da mulher com quem teve seis filhos porque ela resolveu ser evangélica. A esposa começou a implicar com as danças, com as festas, com o jeito de bon vivant da roça que o povo de Monsenhor Gil diz que ele sempre teve. Aí não teve jeito. Ele revela que nenhum dos filhos quis seguir o caminho do balandê-baião, para impedir que a dança fosse esquecida depois de sua morte. «São tudo crente igual a mãe de eles. Eu não gosto não. Não gosto dessa história de pastor querer que a gente tire comida da boca dos filhos pra dar pra eles. Falam como se Deus vendesse a salvação, e isso não tá certo, não. Deus num vende salvação, inda mais em porta de igreja. Eu já acho errado o crente dizer que tem que ' entrar para a crença ' pra se salvar ... quer dizer que só vai pra lá ficar com eles quem tava perdido?», questiona, acrescentando que conhece muito «crente que se perde por falar da vida alheia o dia todinho». Morando com uma filha e um genro (" não é casado com ela não, é só amigado. Mas é um homem bom, melhor do que se fosse casado», comenta, rindo), Zé Coelho diz que não sabe quantos netos e bisnetos já tem. Sabe que são muitos. Queria que algum de eles se interessasse por o balandê. «Mas não querem não. Eu nem chamo mais», lamenta. «Tem nada, não, seu Zé. Tem muita gente que quer. Esses meninos que estão aprendendo com o senhor a tocar gafanhoto vão eternizar o balandê-baião. Eles têm muita energia», eu disse. «Rum, tem nada. Pra me acompanhar o caba tem que ter junta no mêi da canela», finalizou. E foi dançar. E ste texto também faz parte da parceria do Overmundo com o projeto Revelando os Brasis, do Instituto Marlin Azul (ES), que tem o apoio da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e passou dois meses viajando por o país, exibindo filmes produzidos por moradores de pequenas cidades do interior do Brasil. Em Monsenhor Gil e Teresina foram exibidos «Balandê / Baião», de Antônio Noronha; Tropeiros (PE), de Artur Gomes dos Santos; Pipa, Praia em Poesia (RN), de Mary Land de Brito Silva; Esperança (CE), de José Welliton Moraes e Uma Pescadora Rara no Litoral do Ceará (CE), de Sidnéia Luzia. O Overmundo acompanhou as exibições em vários Estados, leia mais nos textos com a tag revelando-os-brasis. Número de frases: 72 BLOG http://choqueculturalny.blogspot.com/ O pessoal da galeria Choque Cultural está fazendo a primeira exposição fora do Brasil. Chama-se Ruas de São Paulo. Eles estão em NY, na Jonathan Levine Gallery, e fizeram um blog para documentar com muitas fotos tudo que está acontecendo lá, É um grande salto para a galera da street-art brasileira, já que antes estava mais restrito a artistas como Gêmeos e Speto. Número de frases: 5 Tenho certeza que depois dessa eles vão rodar o mundo. Não há um museu sequer em Nova Iguaçu. Não por falta de histórias para contar -- e resgatar. Se alguém duvida do potencial histórico desse município da Baixada Fluminense, que possui mais de 800 mil habitantes e originou outras seis cidades, emancipadas ao longo do século passado -- Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Queimados, Japeri e Mesquita, certamente não conhece o professor Ney Alberto Gonçalves de Barros. Tive o prazer de encontrá-lo por acaso. Em uma rara tarde sem muita correria, vi um banner no Espaço Cultural Sylvio Monteiro sobre a exposição fotográfica «De Iguassú a Iguaçu», da qual ele foi curador, e entrei. Moradora de Nova Iguaçu desde os primeiros dias de vida, olhando aquelas fotografias, eu descobri um lado da cidade com o qual nunca tivera contato. E, atrás de mais informações para divulgar aqui no Overmundo, acabei na sala que o professor Ney ocupa no Espaço Cultural. Ele se prontificou a percorrer a mostra com mim e contar as histórias por trás das fotos. Essa aula inicial durou cerca de meia hora. E abordou desde o surgimento da Vila de Iguassú até episódios pitorescos como um protagonizado por Antônio Joaquim Machado. Vice-prefeito que assumiu a prefeitura após a cassação do titular, Machado mandou derrubar o imponente prédio da Câmara-Prefeitura, após receber um pedido para tombar aquele patrimônio (pra quem leu a nota que postei em Agenda, esse fato já é conhecido. Aliás, a exposição foi prorrogada e ficará em cartaz, pelo menos, até 1º de julho). Também soube da estratégia adotada por o coronel Alberto Melo, para assegurar sua posse como prefeito, em 1929. Segundo o professor, o pessoal da família Soares, adversária política do coronel, o havia ameaçado, caso insistisse em vir a Nova Iguaçu para assumir a prefeitura. Em uma foto, após desembarcar na Estação de Nova Iguaçu e a caminho do prédio da prefeitura, na Av.. Marechal Floriano, aparece o coronel Melo cercado por capangas, utilizando chapéus " Palheta. «Quando o entrevistei em 1960 (o professor escreveu para jornais na Baixada, como o Hoje e O Correio da Lavoura), ele contou que debaixo dos chapéus havia garruchas», diz Ney, chamando minha atenção também para um certo volume sob o terno dos capangas -- provavelmente, mais armas escondidas. As histórias aguçaram minha curiosidade. E, dias depois, decidi explorar mais os conhecimentos do professor -- e conhecer sua própria história. Nascido no Hospital Iguaçu, em 1940, ele reúne fotos, documentos, mapas e livros desde 1954. Adolescente, alguns de seus programas preferidos eram acampar no meio do mato com amigos para explorar ruínas e pesquisar em bibliotecas e no Arquivo Público. O aprendizado se dava até mesmo nos castigos impostos por seu pai, Newton, um professor de Filosofia. Se quisesse ir ao Maracanã num domingo, por exemplo, tinha de cumprir uma tarefa ao longo da semana. «Ele me trancava na biblioteca e me dava um livro para ler. Em o dia do jogo, eu tinha de responder a diferentes perguntas sobre a obra. Tinha de saber tudo, da primeira à última página. Se acertasse, podia ir ao estádio», lembra. A o concluir o curso ginasial (atual ensino fundamental), aos 18 anos, Ney obteve autorização temporária do MEC para dar aulas de História. Em o início dos anos 60, se submeteu a um curso de aperfeiçoamento de ensino secundário e conquistou o status definitivo de professor registrado por o MEC. A carteirinha que lhe garantiu esse direito, ele ainda traz no bolso e exibe com orgulho. Já o título de arqueólogo recebeu após fazer um curso no " Museu Histórico Nacional: «Em aquele tempo, não existia faculdade de Arqueologia». Tempos depois, graduou-se em História e Direito. Em 1962, fundou o Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu, junto com amigos dos tempos de exploração histórica em Tinguá e adjacências. Nomes como Ruy Afrânio Peixoto e Zanon Paula Barros. Hoje o acervo do instituto tem mais de duas mil fotografias históricas -- e serviu de base para a exposição «De Iguassú a Iguaçu». Sem muitos registros documentais da história iguaçuana, o professor Ney sempre investiu nos depoimentos de moradores da região, num resgate da memória oral da cidade. E ele mesmo é um exemplo dessa memória. Atual diretor do Setor de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, deixou de exercer o magistério em 1980 (a família é proprietária do tradicional Colégio Leopoldo), após sofrer um acidente grave ao saltar de pára-quedas na Amazônia. Apesar do nome pomposo do cargo público, o professor ocupa uma sala modesta à entrada do Espaço Cultural. Em a decoração, o destaque fica com as inúmeras caixas de papelão com documentos, espalhadas por o chão, uma máquina de escrever antiga e um pequeno aparelho de som sobre a mesa lotada de papéis. Nada de computador, nem telefone. Ali, o entra-e-sai de pessoas quase não pára. Pode ser um amigo que viu a exposição e vai cumprimentá-lo. Ou uma estudante de Turismo, em busca de informações para uma pesquisa sobre a existência de quilombos em Nova Iguaçu. Ou compositores da Baixada, que participam de um levantamento musical para apresentação de suas obras a uma gravadora. E assim descubro que, além de historiador, professor, arqueólogo, advogado e escritor, Ney Alberto também é compositor: já teve músicas gravadas por Bezerra da Silva e Agepê, entre outros cantores. Isso explica o equipamento de som sobre a mesa de trabalho. Entre uma visita e outra, insisto em perguntar mais sobre os causos de Nova Iguaçu -- e o professor Ney demonstra prazer em compartilhar seus conhecimentos. Em a seqüência da aula, ele fala sobre Arruda Negreiros -- que dá nome a um colégio perto de minha casa e sobre quem não sabia nada mais. Prefeito da cidade, por três vezes, Negreiros fundou a Escola Municipal Monteiro Lobato, uma das mais tradicionais de Nova Iguaçu. Mas o professor me contou passagens corriqueiras protagonizadas por o político. «Arruda Negreiros costumava chegar cedinho à prefeitura. Certo dia, um vigia quis agradar e disse que havia sonhado com ele. Ele mandou o homem direto para a Divisão de Infração e o exonerou. Afinal, se tinha sonhado é porque havia dormido em serviço», ri o professor. De outra feita, um cavalo foi atropelado por um trem, e criou uma polêmica, envolvendo dois órgãos municipais, sobre quem tinha a responsabilidade de retirar o animal de lá. O professor diz que Negreiros resolveu a pendenga com uma decisão meio surreal: «Ele mandou serrar o cavalo ao meio». Causos à parte, o professor Ney revela que havia mais de 160 aldeias indígenas nas Baixadas Fluminense e de Sepetiba. «Os indígenas se associaram aos franceses protestantes e foram massacrados por empenho de José de Anchieta», fala. Em Mesquita, havia um cemitério indígena. «Em o período de terraplanagem do Morro da Jacutinga, para a construção da Rodovia Presidente Dutra, destruíram muitas peças indígenas. Lá ficava a aldeia Jacutinga." Todo um patrimônio arqueológico perdido. Já vestígios da história dos escravos e seus quilombos são encontrados em Tinguá. «Lá tem um lugar chamado aldeia da pedra. O Ribeirão das Galinhas, na verdade, é Ribeirão dos Galinhas. Os Galinhas eram escravos vindos da África Oriental, e fizeram um quilombo na região». O professor fala ainda sobre a possibilidade de ter havido outro quilombo nas proximidades da cratera do vulcão, na Serra de Madureira, Maciço de Gericinó (em Guia, Descobrindo a Serra do Vulcão). A suspeita tem a ver com o bairro K-11, próximo ao centro de Nova Iguaçu e ao pé da serra. Segundo documentos, o nome do lugar em 1799 era Quanza e, em 1909, mudou para Cuanza. Coincidentemente ou não, a moeda de Angola é kwanza e aquele país tem uma província chamada Kuanza Norte. De lá teriam vindos os escravos que viveram naquela região iguaçuana. A aula prossegue. «A Avenida Niemeyer foi construída por o iguaçuano Conrado Jacob de Niemeyer, com dinheiro do próprio bolso. Você sabia?" Não, não sabia. E duvido que fosse a única a desconhecer esse detalhe sobre um dos cartões-postais da Zona Sul carioca. O comendador Conrado Jacob Niemeyer (neto) nasceu em Tinguá, fundou o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e era um apaixonado por a Praia da Gávea. Segundo o professor, Niemeyer construiu uma igreja dedicada a São Conrado naquela região e financiou, anos depois, a construção da avenida -- que havia sido iniciada por o poder público e abandonada (prática comum até nossos dias, vide as pontes que ficam pelo meio do caminho). É difícil absorver tanta informação num só encontro: Maxambomba, antigo nome da cidade, significa carro de boi; Francisco Soares de Melo, um rico fazendeiro, amigo e fã de D. Pedro II, se auto-exilou na França e doou quatro fazendas à Santa Casa de Misericórdia, desiludido porque o imperador não foi nomeado o primeiro presidente do país; o cemitério da cidade foi transferido de lugar duas vezes, com direito a remoção de " seus moradores "; três caminhos do ouro, no tempo do Império, passavam por Nova Iguaçu; e por aí vai. Em uma pesquisa na Internet, após essa aula especial, descobri que um desses caminhos do ouro, Porto da Estrela (atual Inhomirim, em Magé), foi decisivo para que a História conquistasse de forma definitiva o professor " Ney. «Em 1954, eu vou explicar agora, de certa forma, como eu comecei a me interessar por geo-história. Nós formamos um grupo (de amigos) para reunir as melhores poesias de amor. Eu estava no curso ginasial, peguei uma série de poemas e um me chamou a atenção de maneira muito interessante. Era um poema de Tomás Antônio Gonzaga ( ...), e ele dizia o seguinte, num dos trechos: ´ Meu sonoro passarinho / Sabes do meu tormento / E queres dar-me cantando / Um doce contentamento / Procuro o " Porto da Estrela ... «Eu já tinha ouvido falar no Porto da Estrela, mas nunca tinha feito uma excursão até esse local e resolvi visitar o Porto da Estrela. ( ...) ainda estava com as ruínas visíveis e eu fiz umas escavações no pé de um monte, que tinha uma parte de pedra e cal, e achei uma chave muito grande. Em esse instante, eu passei a me interessar, ao mesmo tempo por geografia, por história e por arquitetura», contou o professor, em 2003, em depoimento ao Centro de Memória Oral da Baixada Fluminense (leia aqui a íntegra do depoimento). Para finalizar, gostaria de corrigir uma informação dada nesse texto: o professor Ney Alberto não abandonou o magistério em 1980. Em a verdade, suas aulas de História só não estão mais restritas aos colégios. Número de frases: 102 E eu tive o prazer de ser uma de suas alunas mais recentes. Veja só como as coisas acontecem / aconteceram. Tá tudo dominado, tá tudo em rede. Meu amigo Cláudio Manoel, fundador do Pragatecno entre outras excelentes atividades, ficou amigo da Stef, DJ alemã que morou (ainda mora?) em Salvador, que por sua vez conhecia o Daniel Haaksman, DJ e agitador cultural de Berlim. Em o final de 2003, entrei nesse circuito depois de receber email do Cláudio querendo me colocar em contato com o Daniel, que viria para o Rio «pesquisar o funk carioca». Dei sinal verde para a conexão, pois fiquei curioso: já tinha visto muitos gringos chegarem aqui no Rio para fazer pesquisas musicais, mas geralmente o interesse era samba e outros ritmos considerados mais autênticos. Pela primeira vez eu receberia alguém que queria ouvir apenas pancadão. Dei uma entrevista para o Daniel, que durante a viagem arrumou tempo para escrever artigo sobre funk encomendado por a Groove, talvez a principal revista de música na Alemanha. Aproveitei o encontro também para entrevistá-lo: queria saber o que na nova música das favelas cariocas tinha chamado sua atenção. Fiquei mais surpreso ainda ao descobrir que seu repertório de informações sobre o Brasil ou a música brasileira era bem precário. Nunca tinha prestado atenção na MPB ou na Bossa Nova, não sabia direito nem reconhecer a voz de Caetano Veloso ou a de João Gilberto. Não tinha nada a ver com aquele gringo clássico que chegava aqui apaixonado por o filme Orfeu Negro, ou o mais moderninho que tinha descoberto nossa música numa coletânea pós-tropicalista lançada por David Byrne. Seu negócio sempre tinha sido música eletrônica, e era atrás de música eletrônica que tinha cruzado o Atlântico. Daniel me disse que, quando ouviu funk carioca pela primeira vez, sua excitação estética foi comparável à que sentiu quando ouviu jungle também pela primeira vez. Estava tudo ali: a urgência, a crueza, a utilização criativa da tecnologia, a invenção de um novo estilo de bricolagem sonora de extrema potência dançante. A viagem rendeu muitos bons frutos (além da nossa amizade, que se mantém até hoje). Daniel tinha uma pequena gravadora, a Essay Recordings, que já havia lançado maravilhas como a compilação da Bucovina Club, festa quentíssima que introduziu a nova música cigana para a geração pós-rave européia. Por a Essay saiu, em 2004, a Rio Baile Funk -- Favela Booty Beats, primeira coletânea dedicada apenas ao funk carioca lançada fora do Brasil, criando até o nome internacional da música, que estrangeiros passaram a chamar de «baile funk». Foi a partir desse lançamento, reforçado por as festas do Favela Chic parisiense e por a importantíssima adesão de Diplo e M.I.A. (já que falamos de ela: a música nova, Bird Flu, é brilhante), que o pancadão conquistou popozões alucinados por o planeta inteiro, entrando em cena via os clubes mais centrais e não via os periféricos-favelados. O sucesso de vendas não foi estrondoso, mas Daniel gostou tanto do funk, e do Brasil bem particular recém-descoberto, que resolveu criar um novo selo -- o Man Recordings -- para, principalmente, ecoar mais alto a batida do tamborzão. Como nem tudo é tão linear assim -- e é bom que seja quase nada linear -- o primeiro lançamento do Man foi uma compilação de pós-punk paulistano do início dos anos 80! É por causa dessa não obviedade que considero o Daniel um dos melhores e mais ativos embaixadores que o Brasil jamais sonhou ter -- deveria ganhar a medalha do mérito cultural do MinC. Recebo de vez em quando, por o velho e tradicional correio, um suculento pacote com pré-lançamentos das gravadoras do Daniel. A mais recente remessa chegou esta semana, com CDs contendo as faixas dos vinis que serão enviados paras as lojas européias em abril e maio. São as segundas edições de duas sensacionais séries de EPs da Man Recordings. Transculturais até a medula, como tudo o que eu realmente gosto. A primeira série se chama Funk Mundial e é resultado sempre do encontro entre músicos brasileiros e europeus. O primeiro lançamento, Jece Valadão/Uepa, reunia Edu K. e Joyce Muniz com o produtor austríaco Stereotyp. Em o próximo disco a conexão é ainda mais improvável: do lado de cá do oceano temos o MC Thiaguinho, que foi do Bonde do Tigrão, e na Europa, diretamente das pistas de dança mais hypadas de Londres, participaram os produtores Sinden e Count of Monte Cristal (também conhecido como Herve). Sinden já fez remixes para Basement Jaxx e Lady Sovereign, entre outros. Herve para Bloc Party e Jimi Hendrix (!) Os dois juntos criaram uma base de speed garage para o MC Thiaguinho cantar. Isso mesmo: speed garage é um dos estilos precursores do dubstep e do grime -- a proposta parece retrô mas tem muito futuro. O encontro de sonoridades distanciadas por a geografia e por a história cria algo incrivelmente bom de dançar. A segunda série, Baile Funk Masters, apesar de ser produzida apenas por músicos brasileiros, não é menos transcultural ou repleta de novidades. O impulso europeu foi fundamental para o resultado, pois esse tipo de experimentação não tem lugar nos bailes cariocas, mais preocupados -- como convém -- com aquilo que vira sucesso imediato fazendo o público cantar. Em o seu primeiro lançamento, o DJ Sandrinho, que por algum tempo acompanhou o MC Catra, solta pancadões instrumentais e mostra que é craque no MPC. Como tudo que é lançado no Rio gira em torno dos vocais, são raras as oportunidades como essa de ouvir com detalhes a intricada e rica teia eletrônica das bases. Em o EP do DJ Sandrinho tudo isso está na frente, totalmente evidente. É uma boa preparação para o segundo lançamento da série Baile Funk Masters, agora sim um tiroteio sonoro como o funk carioca nunca ouviu. O release preparado por a Man Recordings não exagera ao falar de «pós-baile funk». É mesmo algo totalmente novo no gênero, que amadureceu esse tempo todo na cabeça e no sampler do DJ Sany Pitbull, o inventor das 5 faixas do novo EP. Escute logo (o site só tem 45 segundos da música, mas dá para começar a sentir o impacto) Tribos, onde o tamborzão convive com gongos japoneses e cantos indígenas. Não fica nada a dever ao que de mais radical e dançante o Kode 9 tocou no seu desnorteador set do festival Hipersônica. É a prova mais contundente que o funk carioca está na vanguarda da eletrônica mundial, não precisando baixar a cabeça para ninguém. E tem mais: o som de guindastes e trens em Funk Alemão, a homenagem ao Kraftwerk em Kraftfunk, tudo perfeito e avassalador ... Incrível que tenha sido um alemão, o Daniel Haaksman, que nos deu a oportunidade para ouvir essas coisas e pensar essas coisas. Por isso gosto de interferências estrangeiras em outras culturas: mesmo quando são equivocadas (o que não é o caso da intervenção funqueira da Man Recordings -- muito pelo contrário, aquilo vem de um entendimento maior da importância artística do funk, coisa rara por aqui), nos fazem ver coisas que não percebíamos em nossas próprias culturas, chamando atenção para elementos que estavam invisíveis (como David Byrne fez ao relançar Tom Zé). E podem produzir no Brasil outros impulsos, para outras boas novidades. Em este caso específico, a relação transcultural tem muito bons antecedentes: no Rio, a popularidade da polka, ritmo desenvolvido no Império Austro-Húngaro, foi acontecimento essencial para a invenção do maxixe, que por sua vez participou da invenção do samba urbano carioca e assim por diante. Em outros tempos, o amor de negros americanos por a música do Kraftwerk foi dar no hip hop do Bronx nova-iorquino, depois no Miami Bass, depois no funk carioca. Agora, a Alemanha dá o novo troco, nos ajudando a arquitetar -- em rede -- o futuro do pancadão. O Rio vai ter que criar novo significado para uma de suas gírias preferidas: para o funk, «alemão» definitivamente não é o inimigo. Tá mais para melhor amigo. Número de frases: 64 Dança do Ventre Lílian Maial Hoje assisti a uma apresentação de «Dança do Ventre de Senhoras Aposentadas», numa comemoração de uma instituição de Previdência, que me comoveu. Não eram senhoras cinqüentonas afogueadas ou exibidas, mas todas mulheres acima dos setenta anos, sem tentar camuflar as marcas do tempo, assumindo a terceira (já para quarta) idade, mas com uma alegria, um empenho, uma união e seriedade que dificilmente se encontra nos mais jovens. Elas estavam a caráter, porém com trajes discretos, e cobertas por véus e kaftans, bem maquiadas, penteadas, descalças e esplendorosas. Os passos bem ensaiados, juntas, ali, como um grupo de amigas atemporais, deram seu recado, mostrando que não há limite de idade para se ser feliz ou simplesmente alegre. Não percebi nessas mulheres o desespero de enganar o tempo, muito menos o ridículo de quererem aparentar o que não são. Não! Nada disso! Estavam ali se divertindo, brincando, exercitando a feminilidade, que não se perde com a flacidez ou a mudança física. Eram almas femininas e extremamente sensuais na inocência, na alegria, na integração de mente, corpo e espírito. Como era uma apresentação em local público, naturalmente várias pessoas riram de elas, debocharam de seus ventres flácidos e sem atrativos eróticos, ventres esses que já deram muito prazer, já acomodaram e protegeram muitos dos homens que poderiam estar ali. Mesmo esses, que inicialmente hostilizaram as doces e lindas damas, ao final as aplaudiram veementemente, porque perceberam a mensagem que estava embutida em cada passo tímido, em cada trejeito com as mãos enrugadas, em cada sorriso livre de máscara, numa entrega ao simples festejo de poder caminhar, dançar e encantar. Aquelas senhoras lavaram minha alma, por vezes conturbada com a ameaça do tempo que passa, com os problemas que chegam e vão, com a lei do inquilinato da vida, que vem cobrar o aluguel e avisar do futuro despejo. Elas simplesmente dançavam ao sabor das batidas marcadas da música árabe, como suaves borboletas bailando no ar, com seus pezinhos pequeninos, suas mãos de veludo e seus olhos de esperança, sua homenagem à vida. Que suas vidas sejam sempre uma linda dança do ventre! Salem Aleikum! ( Que Deus as abençoe!) OBS: Mais que simples movimentos de quadril, a dança do ventre é uma manifestação que permite à mulher redescobrir as suas forças femininas que o dia-a-dia e a repressão trataram de esconder. É uma dança milenar que seguramente já existia na época dos faraós, onde as mulheres dançavam para louvar divindades femininas. Com origem sagrada, esta é uma dança de celebração, em que comemoramos nossas alegrias. Ela é, acima de tudo, uma linguagem que usamos para interpretar as belas canções árabes que falam de amor, alegria e paixão. Através desta dança podemos expor sentimentos que encantam; aprendemos com o corpo e com o olhar a falar coisas que nem o mais habilidoso poeta consegue transmitir. Número de frases: 22 * * * * * * * * * Franceses amigos, em Berlim, pouco antes da disputa de pênaltis. Imaginem agora: você é brasileiro. Você é brasileiro e tem o melhor time de futebol do mundo. Você é brasileiro, tem o melhor time do mundo, é apaixonado por futebol, e sabe que vai estar no dia da final da Copa do Mundo exatamente na cidade onde o jogo ocorrerá. Pois é. Estávamos lá. Berlim, 9 de julho de 2006. A frustração, no entanto, não podia ser maior. Depois de uma euforia de aproximadamente duas semanas, quando descobrimos que veríamos a partida juntos em solo alemão, veio a frustração atômica da eliminação da nossa seleção. Restou-nos o alento de que, dois dias após a final, embarcaríamos para Paris e de que, se a França fosse campeã, iríamos comemorar com eles e acompanharíamos um 14 de julho histórico na Cidade Luz. Então, dá-lhe França! Bom. O final da peleja todo mundo já sabe. Gol da França. Gol da Itália. A cabeçada do Zidane. Pênaltis. Itália campeã. Não vamos chorar nossas mágoas. Deu tudo errado mesmo, e isso todo mundo já está cansado de saber. O que talvez nem todo mundo saiba é como foi ser brasileiro em plena Berlim neste dia -- o dia em que gritamos «campeão» abraçados com italianos, franceses, alemães, argentinos e com quem mais se juntasse à celebração de um título que sabíamos -- de antemão -- não iria ser nosso. * * * * Não iria. Mas foi. Não cederíamos tão facilmente assim. Fosse o que fosse, o nosso espírito estava preparado para comemorar alguma coisa. A tarde começou com um combinado: antes do jogo, passaríamos por a porta do estádio a fim de ver como estava o clima para a final. Em o metrô, em direção ao evento, parecia, de modo muito estranho, que estávamos indo assistir a uma partida entre XV de Jaú e Íbis, dada a ausência absoluta de qualquer torcedor no vagão. «Ok, estamos no primeiro mundo, ninguém precisa sair com antecedência», pensamos. Chegamos ao estádio. Um pouco mais de movimento. Equivalente talvez a um Madureira e Bangu. «Cadê a turma, meu deus? É final de Copa, minha gente! Não é possível. Estamos mais nervosos que esses europeus que não gostam de futebol. São 20hs e não tem ninguém por aqui». Opa. São 20hs. Pois é. Vacilamos. Em o horário alemão, até então, todos os jogos noturnos haviam sido às 21hs. O caso é que assim, como quem não quer nada, percebemos, por a pequena televisão de um restaurante, que o jogo já havia começado e que, na verdade, erramos por uma hora o horário inicial da partida. Pior. A idéia era que estivéssemos pelo menos 30 minutos antes no Portão de Brandemburgo, lugar em que os «sem-ingresso» feito nós veriam a partida. Ainda pior: diferentemente do Brasil, não tem -- realmente não tem!-- uma viva alma com uma televisão 10 polegadas antena-de-Bombril vendo o jogo. E aquele restaurante que tinha a TV podíamos esquecer. Estávamos barradíssimos, pois o pouco recheio das nossa carteiras não permitia tal desfrute. Sem saber muito pra onde correr, corremos. Em o caminho, cruzamos com autênticos franceses e italianos caminhando tranqüilamente por as ruas, conformados de não terem conseguido ingresso para o jogo. «Meu amigo! O jogo, corre. É a final da Copa», pensamos alto pra ver se eles ouviam. Nada. Parecia que só a gente estava importado com aquele ' detalhe '. Depois de uma minimaratona de 30 minutos, já a caminho do metrô que nos levaria de volta ao centro da cidade, ouvimos o belíssimo som de uma TV em sintonia: outro pequeno restaurante, esse, sim, de acesso livre, transmitia a partida. França 1 a 0 já. Comemoramos feito um gol do Ronaldo. Ninguém entendeu nada. Fingimos discrição e fomos sentar nos fundos do local, ao lado da mesa de um sujeito com a camisa da França. «Opa, temos um companheiro para torcer aqui», pensamos. -- Parlez-vous anglais? -- Oui -- De quem foi o gol (em inglês). -- De o Zidane, de pênalti (em inglês). -- Você é francês? ( em inglês). -- Não, sou argentino (em inglês). -- Ah!! A gente é brasileiro! ( em portunhol). -- Então somos inimigos (em bom castelhano). Qué isso, rapaz. Viva a América Latina. Bom, o caso é que o argentino não era tão mau assim. Era só fachada. Logo, começamos a conversar e entendemos o motivo do aparente aborrecimento. Antes, o susto: -- Quer um ingresso para assistir a este jogo? -- Opa -- Eu tenho. Tá aqui ó ...-- e abriu uma pequena pochete, de onde tirou, de fato, um ingresso -- Uma pena que é falso. -- Ahn?! Como assim? -- É ... é falso. Paguei 1.500 euros por esse ingresso. Não percebi que não valia. Bom, " c ' est la vie " Ficamos ' quase-amigos '. Descobrimos, os três juntos, que a TV da parte mais interna do restaurante estava pelo menos cinco segundos à frente no tempo da que estávamos vendo a partida. Isso porque a Itália fez o gol e a turma de dentro comemorou muito antes da de fora. Ok. Vamos para a parte de dentro. Barrados. O argentino falou de pronto: «olha, pago o jantar de todo mundo aí dentro se conseguirem uma mesa para mim». Não foi por mesquinharia não, embora estivéssemos com fome, foi mais mesmo pra ver até onde aquele argentino estava falando a verdade que conseguimos uma mesa no restaurante. A essa altura, dois franceses muito bêbados já tinham se juntado ao nosso grupo latino-americano. E o mais engraçado: dos cinco ali, os que menos se importavam com a final eram os franceses. Sentamos à mesa. O amigo argentino logo perguntou se aceitavam cartão de crédito. «Nein», foi a resposta da garçonete alemã. -- Bom, é uma pena, pois assim não vou poder pagar nada -- tratou de avisar o argentino. Ok. Desconfiamos, mas seguimos em frente. Agora, já tínhamos mais dois polonenes somados à nossa turma. Éramos sete. Todos torcendo por a França. Durante o primeiro tempo, tentamos puxar um «allez les bleus» no restaurante. Não deu muito certo não. Os companheiros franceses estavam mais preocupados em pedir um monte de cerveja e apontar para o copo sugerindo que nós pagássemos. Sob o risco de termos de sustentar bêbado francês e endividado argentino, pagamos nossa parte das cervejas e corremos, no intervalo do primeiro tempo, em direção ao Portão de Brandemburgo. Pularemos a parte aqui da confusão que foi pegar o trem, autenticar o ticket, perder o trem, pegar um novo trem e ser enganado por o policial que disse que a Itália tinha virado o jogo por 2 x 1. Nada disso se compara à nossa felicidade quando, 55 minutos depois, chegamos ao Portão e o jogo ainda estava empatado, no final do segundo tempo, indo para a prorrogação. Festejamos muito. Em aquela hora, éramos franceses com muito orgulho e muito amor. Jogo tenso. Procuramos um grupo simpático de franceses para ver o jogo ao lado. França jogando de branco, né?, e não de azul ... Acostumados com os gritos espontâneos das torcidas aqui do Brasil (alguém devia estudar isso, é incrível!), tentamos o infame «allez le blancs» (branco em francês, em substituição ao azul " bleu "). Demorou, mas pegou. Incrível. Puxamos um grito e logo, cinco ou seis, sei lá, noruegueses estavam cantando a mesma coisa que nós. Que sucesso! Mas foi por pouco tempo, porque logo o nosso ânimo de francês arrefeceu com a cabeçada do Zidane. Foi então que começou um belo coro de ironia ao último jogo de Zinédine: «Au revoir Zinédine Zidane, au revoir Zinédine Zidane», cantava a torcida italiana, parodiando uma melodia muito usada por os alemães para incentivar a seleção dona-da-casa ao longo do Mundial. Deixa estar. Hora dos pênaltis. «Agora nos provocaram», pensamos. Hora de tocar na ferida mais funda e mais viva da história recente do futebol italiano. Olhamos em volta, procuramos a maior concentração de italianos num raio de 50 metros e: -- " Roberto Baggio, Roberto Baggio, olê olêêê!!!" -- começamos a gritar feito doidos no meio da torcida de eles, poucos segundos antes de começar a nervosa disputa de pênaltis. Gritamos sem parar. Repetidamente. Insistentemente. Ninguém teve coragem de nos acompanhar nesse canto de geração espontânea, o que nos fez crer que, ou nos faltava carisma, ou era aquilo mesmo que já tínhamos constatado: só no Brasil esse tipo de criação coletiva inusitada e de momento vai para frente. Ou as duas coisas. Ainda no mesmo esquema, ' homenageamos ' Baresi e Massaro -- os outros dois que perderam pênaltis na final de 94 -- ao pé dos ouvidos dos italianos. Fim. Perdemos a partida. Perdemos de novo e agora Com a França e não Para ela. O que fazer? O italiano que assistiu ao jogo perto de nós já cruzava a torcida para nos perturbar. O coro da música Seven Nation Army já era cantado aos brados por a torcida italiana, que tomou emprestada a canção do White Stripes como hino, desde o início da Copa. Ferrou. Mas não. A festa ali era nossa, sim. Seria de qualquer jeito! Afinal, sonhávamos desde moleques em estar naquele lugar, naquele momento, gritando e comemorando um título in loco. É Itália, meu amigo? Então que seja «Itália». «Azzurra, Azzurra!!!!!" Começamos a gritar. Logo aprendemos a falar tetracampeão: «Quattro volte, quattro volte». E todo povo veio festejar com nós, legítimos italianos. «Quattro volte, quattro volte», continuamos, até acalmar a euforia de campeão. Só depois disso, pudemos perceber o óbvio, que aqueles italianos à nossa volta estavam realmente orgulhosos do quarto título. Quatro títulos que nós, brasileiros, já tivemos o prazer de comemorar há distantes 12 anos -- justo contra eles. Depois, já pudemos comemorar inclusive mais um. Com a reflexão vem a idéia, e não esperamos muito para começar novamente a idiotice, agora com uma carta a mais na manga: «Quattro volte, quattro volte, Azzurra!!!». E todos os italianos nos abraçavam. Pois bem. Em o auge da euforia de eles, nós então gritávamos mais alto ainda. «Itália, quatto volte!! E Brasil!!!-- apontávamos para os pequenos indícios de verde-e-amarelo nos nossos trajes -- Brasil, cinque volte!!!! Êêê ... Roberto Baggio»!!! êêê». Que alívio que deu fazer isso. Bom demais! O susto de eles quando percebiam que não éramos italianos, que na verdade só estávamos aproveitando o título de eles para celebrar o Brasil, era o nosso troféu. E o que tornava a nossa alegria ainda maior era a reação amigável de quase todos (fizemos isso feito criança umas mil vezes, adoramos a sensação de ver cada cara amarela dos campeões). «Bravo, bravo», diziam rindo, aprovando a brincadeira e sorrindo ainda mais. Trocadilhos infames surgiam, como quando nos perguntaram nossa cidade natal e dissemos «do Rio». Perguntamos de volta e, com a resposta «Roma», não resistimos a um» Roma, Rio, Roma, Rio, Romário!!! êêê». E emendávamos num novo " Roberto Baggio, Roberto Baggio, olê olê!!!" E os risos se multiplicavam, a alegria crescia e só nos restava levantar mais um brinde aos bem humorados e alegres italianos. * * * * Nos sentimos realmente pentacampeões naquele dia. Nós éramos, sim, campeões do mundo naquela noite. Os maiores campeões. De certa forma, entendemos um pouco mais que todo brasileiro é pentacampeão de futebol -- independente daquele papo chato de que os jogadores é que são, que ganham milhões para isso e que, na verdade, nós não somos nada. E também deixamos de lado a mágoa de pensar no futebol como ópio do povo e nos permitimos nos entregar ao simples fato de que tínhamos um motivo para sorrirmos e nos confraternizarmos com quem estava ao nosso lado. E esse motivo era o mais simples possível: aquele momento. Aquele momento era único para nós, era único para eles. Ninguém se conhecia, ninguém se reconheceria no dia seguinte, mas a importância de momentos e instantes como aqueles por o resto de nossas vidas era enorme. E isso bastava para sermos felizes. Bastava para sermos campeões do mundo, seja lá o que isso, de fato, signifique. Brasileiros felizes da vida perdidos no meio do mundo. Em uma noite, falamos castelhano, francês, inglês, alemão e português. Por fim, gritamos o nosso «Brasil pentacampeão na língua dos vencedores da Copa do Mundo de 2006». Os sem-pátria mais brasileiros da Alemanha. * * * * Ah! E o Bruno que, no início do texto usava a camisa número 10 do Zidane, a essa altura, já estava vestido com o seu casaco da Itália. Já o Thiago, que quando chegou à Alemanha receava se arrepender de ter ido para Berlim sem o Brasil na final, cantarolava feliz da vida Seven Nation Army com os italianos campeões. * * * * A colaboração acima é a segunda de uma pequena série de textos que pretendemos escrever a respeito da nossa estadia na Europa. Durante duas semanas viajamos juntos por França e Alemanha. As experiências vividas são descritas com o olhar de quem já estava no velho continente há dois meses -- o Bruno Maia -- e de quem tinha acabado de chegar por lá -- o Thiago Camelo. Conhecemos pessoas e vivemos situações que, ao menos para nós, parecem de interessante relato aqui no Overmundo. Nada mais do que uma descrição despretensiosa da visão compartilhada de dois amigos brasileiros. Para encontrar mais textos sobre a nossa viagem, por favor, pesquisar por a tag viagem-europa. * * * O texto que você acabou de ler também faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da participação do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 203 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. Onde está a música experimental em Fortaleza? A pergunta tinha cabimento, e era exatamente isso que preocupava estudantes de música, compositores, mestres em música, físicos, produtores culturais, poetas e designers que começaram a se reunir em março de 2006, no Fórum de Música Experimental. Com reuniões quinzenais abertas acontecendo no SESC-CE, o Fórum tem como objetivo fomentar a difusão e a reflexão sobre o fazer musical no fértil campo da música contemporânea. Concebida e produzida coletivamente por o Fórum, a I Mostra de Música Experimental vem para abrir as cortinas e dar visibilidade à produção local: serão mais de dez grupos se apresentando. Todas as quintas-feiras de julho, às 20 horas, acontecem shows e performances no palco do Teatro SESC Emiliano Queiroz. Além das apresentações, vão rolar palestras e oficinas gratuitas, sobre temas como síntese sonora, tecnologia VST, música fractal, rock in opposition, poesia e vídeo com música experimental, tapping no baixo elétrico, música microtonal, música de ação e construção de instrumentos experimentais. A intenção é também abrir intercâmbio com produtores em outros estados. Está confirmada, por exemplo, a presença de Didier Guigue, doutor em Música e Musicologia do Século XX por a Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris e professor da Universidade Federal da Paraíba, e Thelmo Cristovam, que prepara uma mostra semelhante em Pernambuco no segundo semestre. Número de frases: 10 A programação da I Mostra de Música Experimental está disponível no endereço www.forumexperimental.blogspot.com. Há cerca de dez anos, quando a trama de O cravo e a rosa, escrita por Walcyr Carrasco, trouxe grande audiência com sua comédia ambientada na década de 1920, a TV Globo passou a destinar seu horário das 18h às chamadas «novelas de época». Foram raras (e mal sucedidas) tentativas de voltar a ambientar tramas em época atual -- o «passado», revisto em novelas como Chocolate com pimenta e Sinhá Moça, comprovou ser um bom filão a ser explorado. Em 2005, veio a público o ápice da nova fórmula de se fazer «novela das seis». Assinada por Walcyr Carrasco, Alma gêmea trouxe excelentes índices para a emissora do Jardim Botânico, e, muitas vezes, superou em pontos as outras novelas exibidas na casa (na época, Bang bang, às 19:15, e Belíssima, às 21h). O «grupo de discussão» (pessoas designadas por a emissora para opinar sobre os altos e baixos de cada novela) revelou a razão principal: o «amor além das vidas» -- Rafael e Luna, um casal apaixonado era separado por uma tragédia (o assassinato de ela), mas a alma da moça reencarnava na índia Serena. Atenta ao interesse do espectador na discussão sobre o espiritismo, a TV Globo programou para a seção Vale a pena ver de novo (horário no meio da tarde que reexibe novelas antigas da emissora) a novela A viagem. Escrita por Ivani Ribeiro, esta reedição de um sucesso da extinta TV Tupi tinha ido ao ar em 1994 no horário das 19h, e reapresentada à tarde no ano de 1997. A «Vênus Platinada» pegou o espírito da coisa, e programou para outubro de 2006 (sucedendo uma reedição de novela -- Sinhá Moça) uma nova abordagem do espiritismo. Aliás, nem tão nova. O espiritismo voltou à telinha na reedição de O profeta -- novela também assinada por Ivani Ribeiro, exibida originalmente na TV Tupi em 1977. Mas a história de Ivani sobre o paranormal que, com o passar do tempo, cai na tentação de usar seu dom em benefício próprio teve uma sensível mudança, adequada ao padrão global do horário. De a época atual do texto original, esta adaptação de Duca Rachid, Thelma Guedes e Júlio Fischer retornou ambientada nos anos 50 -- escolha certeira, pois talvez não ficasse muito verossímil em pleno século XXI a comoção em torno de um homem que diz que prevê o futuro e pode enxergar o passado das pessoas, além de ver e conversar com espíritos. O profeta chega ao seu fim com uma considerável audiência -- aquém da bem sucedida novela espírita Alma gêmea, mas, ainda assim, no posto de única novela da grade global a não estar com índices preocupantes para os executivos da TV Globo. Ao que parece, por maiores que sejam os avanços tecnológicos da maior emissora de televisão do país e por mais que a teledramaturgia tente se adequar às discussões que estejam em voga nos dias atuais, a nostalgia das «novelas de época» ainda é a única verdadeira garantia de sucesso dos folhetins. Em a próxima segunda, estréia Eterna magia no lugar de O profeta. Ambientada no início do século XX, a novela de Elizabeth Jhin traz feitiçaria como um de seus trunfos. Número de frases: 18 Será em tom profético a TV Globo apostar novamente numa trama que envolve o sobrenatural? Vivendo A Vida De LEE WOODSTOCK «Rogério Ratner» É Lee, é calça Lee, é Lee, é calça Lee ..." ( baixa o som do jingle, entra a voz com eco, com muita energia e rapidez na dicção): «na superquente Continental, o novo movimento, o som daqui, já gravado no estúdio 2 da superquente, especial para Mr. Lee em concerto, isso é viver a vida de Lee, é você estar ligado na Continental, ao natural, curtindo o que os nossos têm pra nos dizer, gente daqui, o novo movimento, a força do som local ( ...) "; «superquente Continental, fique parado aí xará, é gente nossa, som feito aqui no Porto, aqui na superquente com Mr. Lee, os melhores da música do sul do país, o som que levou mais de cinco mil pessoas para o Araújo Viana, pra curtir o Concerto número II, você está sintonizando, curtindo a superquente ( ...) "; «Lee, a proposição de uma força nova, uma coisa daqui, com a força total da superquente Continental ( ...)». ( «Living the life of Lee, living the life of Lee ...», baixa o jingle, entra a voz): «Vivendo a vida de Lee, o importante é você olhar pra uma Lee e saber que é Lee, Mr. Lee em concerto, pra você ficar por dentro do que está acontecendo de bom, um trabalho de estrutura, pra você curtir o som local, valorizar a nossa música, saca o som, o ritmo autêntico, o recado natural, com a liberdade de Lee, saca a força desta guitarra ( ...) "; «isso é viver a vida de Lee, é você estar ligado na Continental, ao natural, gente daqui, do novo movimento, a força do som local, um lançamento de Mr. Lee para todo o sul do país, Mr. Lee em concerto, dando força para os novos talentos, saca o som, o recado ( ...); «pra qualquer hora, qualquer lugar, em qualquer tempo, Lee jeans, veio de muito, muito longe, andou muita estrada pra ficar junto de você, jeans, a roupa que dá consistência ao corpo e «guenta» o tirão, pra você curtir a total liberdade num mundo todo azul, prestigie e valorize os nossos músicos, «vamo» curtir o recado, com Mr. Lee em Concerto, dando força para os novos talentos, a onda 1120 superquente Continental, com 20 Kilowatts transistorizados ..." Quem viveu na década de 70 em Porto Alegre e era jovem -- ou criança, como eu, que tinha por volta de dez anos, à época -- certamente nunca mais se esqueceu da voz e da animação incontrolável do Mr. Lee, captada em nossos incipientes radinhos de pilha, ou então nos velhos rádios e eletrolas dos «coroas». Mr. Lee -- personagem hoje mítico no imaginário das novas gerações do «som local» e na lembrança de seus contemporâneos setentistas, que a princípio deveria corresponder a um cowboy americano, mas que aos poucos foi se transmutando num legítimo «magro do Bomfa» (O Bomfim é o bairro onde aconteceram alguns dos principais agitos artísticos e musicais dos anos 60 em diante em Porto Alegre, e está intimamente ligado, enquanto cenário, ao rock e à música popular feitos na capital gaúcha), encarnado de corpo e alma por o genial radialista Júlio Fürst, na igualmente espetacular e revolucionária Rádio Continental AM, emissora pertencente ao Sistema Globo de Rádio. A Rádio Continental AM, que já existia desde os anos 60, mas que era uma emissora com programação semelhante a das rádios AM do interior, sem uma direção clara em sua programação, foi adquirida por o Sistema Globo de Rádio no final dos anos 60. Em o início dos 70, Fernando Westphalen e Marco Aurélio Wesendonck assumem o comando da emissora, e recebem carta branca para repaginá-la. Assim, surgiu no dial portoalegrense uma proposta nova, sendo a Continental um dos primeiros veículos a apostar na segmentação da audiência jovem, uma vez que as demais rádios AM, de um modo geral, atuavam no esquema que ainda é atualmente utilizado naquela faixa de emissão, de notícias, entretenimento, esportes, política, etc., para o público em geral, não separado por faixas etárias. A Continental então traçou o «mapa da mina» cujos rastros foram seguidos a partir do início da década de oitenta por diversas rádios FMs na capital dos gaúchos e em seu entorno -- quando a música jovem trocou de faixa no dial do AM para o FM, formato que se alastrou por todos os «rincões do pampa» e que, guardadas as proporções, vigora até hoje. Além de Júlio, a rádio contou com diversos disk-jóqueis inovadores, tais como o Cascalho (a quem se pode atribuir a paternidade da expressão «magrinho», tão em voga na Porto Alegre da época, e que identificava a» galera " jovem), Clóvis Dias Costa, Beto Roncaferro (que era o programador musical da rádio), entre outros. Veiculava também um programa dos então professores do cursinho pré-vestibular IPV, José Fogaça (atual Prefeito de Porto Alegre) e Clóvis Duarte (Programa Câmera Dois, na TV Guaíba). Inovava na locução, na linguagem, na informalidade de seus locutores e apresentadores, no marketing, na propaganda-que era feita especialmente para ser rodada em suas ondas, contava com o comentário diário do escritor Luis Fernando Veríssimo, entre muitas outras novidades, sendo a primeira emissora «cientificamente» criada no Sul especialmente para o público jovem e universitário. Isso numa época em que tudo no país era muito «quadrado», o Brasil estava em plena ditadura militar, momento da vida nacional em que o» É proibido proibir do maio de 1968 «descambou no pesadelo do» Nada é permitido, inclusive pisar na grama». E a Continental não raras vezes bateu de frente com a ditadura e sua famigerada censura, tendo inclusive sido retirada do ar em determinados ocasiões, além de ter que conviver diariamente com o «bafo» dos censores. Analisando-se o fenômeno em que se constituiu esta rádio -- e sem embargo quanto a todos os seus inegáveis méritos e o papel de vanguarda em diversos aspectos, como já assinalado, observa-se que o trabalho de Júlio Fürst na Continental indiscutivelmente se revestiu de um caráter único, não apenas por o estilo próprio de apresentar o seu programa, mas também por a proposta que destemidamente bancou junto aos diretores da emissora, que trouxe conseqüências espetaculares para o desenvolvimento e a divulgação do rock gaúcho e da MPB feita no sul. A história começa mais ou menos assim: Júlio, que é baterista, atuava num conjunto melódico (tocavam em bailes e festinhas) nos anos 60, e no início dos 70 teve uma loja de discos na Avenida Independência, então um dos points da juventude portoalegrense. Um amigo seu que veio a ser proprietário de inúmeras casas noturnas famosas na capital gaúcha-, indicou-o para trabalhar na Rádio Pampa AM, que tentava fazer frente à monopolização que a Continental estava obtendo frente ao público jovem das classes A e B (e parte da C). O trabalho de Júlio chamou a atenção da Continental, e após um tempo ele e o seu «fiel escudeiro» Beto Roncaferro se foram de «mala e cuia» para a concorrente. Inicialmente, Júlio apresentava um programa de soul / funk americano, encarnando «Julius Brown», um negão» típico " do Bronx que transmitia em português, embora o locutor seja um indisfarçável descendente de alemães. Chegou a discotecar festas no Clube Floresta Aurora (entidade quase que exclusivamente freqüentada por a comunidade negra da capital, que fazia festas semelhantes aos bailes realizados no Rio nos anos 70, em que vicejavam Banda Black Rio, Cassiano, Tim Maia, etc.), caracterizado como «negão black» clássico, ladeado por duas dançarinas com cabeleiras black power, na maior cara-de-pau. Então, ocorreu que, à época (início de 1975), a fábrica de roupas gaúcha Renner (da qual se originaram as Lojas Renner, hoje uma cadeia nacional) decidiu estabelecer uma espécie de franchising com a Lee americana, para produzir no Brasil as calças jeans como «originais», tendo em vista que até então as calças da marca que circulavam por aqui eram todas importadas. Em os Eua, a Lee já tinha um programa transmitido coast to coast de música country, inclusive promovendo shows ao vivo. A Renner, que queria justamente penetrar na faixa de mercado do público jovem, propôs à Radio Continental que a emissora produzisse e transmitisse um programa nos moldes do americano. Então, «Julius Brown» foi aposentado e Júlio Fürst passou a encarnar o «Mr. Lee». Desta forma, a partir de abril de 1975, Júlio apresentava (narrando em português, obviamente) o programa do Mister Lee, encarnando uma espécie de cowboy brasileiro e veiculando country americano. Em julho daquele ano, Júlio foi convidado para ser jurado do Musipuc, o festival mais importante de música universitária que se realizava na década de 70 em Porto Alegre. Encantado com a qualidade dos trabalhos que viu e ouviu ali, teve a idéia luminosa de propor à direção da Continental que os artistas locais gravassem suas músicas no próprio estúdio da Rádio, no gravador de dois canais constantes do Estúdio B, e que as músicas passassem a rodar em seu programa. Os diretores acharam a idéia um pouco maluca, e disseram que o risco seria do próprio radialista, caso aquilo redundasse num fracasso de audiência. Júlio, corajosamente, decidiu abraçar a «bronca». A proposta -- que inicialmente consistiu na oportunidade dos músicos registrarem de forma semi-profissional seus trabalhos, gravando suas canções nos estúdios da própria rádio, numa época em que Porto Alegre não era dotada de estúdios efetivamente profissionais, e, melhor ainda, com a veiculação iterativa e efusiva das gravações no programa do Mr. Lee, e, posteriormente, inclusive na programação normal da rádio -- desembocou num verdadeiro movimento musical sem precedentes na cena portoalegrense, que não somente ganhou o Estado, como inclusive marcou presença no Paraná, apresentando o trabalho dos gaúchos aos paranaenses, e vice-versa. Foram shows e caravanas de músicos por o sul do país, com auditórios lotados e, não raro, tumultos e fãs histérica (o) s. Quando os artistas apresentavam-se nos shows denominados «Mr. Lee in Concert», subiam ao palco não raro tendo a platéia» na mão», uma vez que o público jovem já conhecia as músicas por ouvi-las reiteradamente antes na rádio, não raramente cantando junto as canções. Em estes shows -- e nos shows individuais e coletivos que os artistas passaram a fazer a partir daí -- havia uma total identidade entre os espectadores e os artistas, assim como eles, jovens típicos da classe média gaúcha (e de outras classes também). Geralmente os artistas e o público estavam imbuídos das mensagens de «paz e amor», de sonhos e utopias, nos rastros do movimento hippie e de outras viagens típicas dos anos 70. Além disso, as apresentações eram recheadas de toques sobre a «liberdade» e o vazio do mundo do consumo, mensagens que, diga-se de passagem, tinham que ser muito bem metaforizadas para conseguir «passar» por a censura. Os shows, guardadas as proporções, eram traduções miniaturizadas de Woodstock, festival americano no qual Júlio procurou se inspirar, e em vários aspectos eram mesmo correlatos deste. É claro que não tinham e nem podiam contar com toda a estrutura, a «piração» e liberdade vigorantes nos Eua dos 60, afinal ainda estávamos em plena ditadura, e a própria reunião de um grande número de jovens num local fechado já era muito mal vista por os censores, que exigiam que o radialista e os músicos lhe submetessem previamente o conteúdo do que iam falar ao público. Mas com certeza, em termos de número de atrações, qualidade, variedade, duração dos shows (o show no auditório Araújo Vianna durou uma eternidade) e animação, havia sim semelhança com o grande festival americano, guardadas as proporções, enfatiza-se. É preciso destacar também que, naquela época, meados dos anos 70, em que reinavam soberanos os vinis, os discos independentes eram raríssimos, limitando-se a eventuais e bissextas «matérias pagas» de algum «incauto» ou «milionário», de forma que o esquema do Mr. Lee proporcionou que artistas amadores (em termos profissionais, não em questão de qualidade musical) e independentes pudessem registrar o seu som e divulgar de forma totalmente gratuita o seu trabalho, sem qualquer esquema de jabá ou coisa que o valha, muito ao contrário. Pra não fugir da regra, tudo isto somente aconteceu porque na hora certa estava no local certo a pessoa certa, com a atitude certa. Sem dúvida, se não fosse a coragem pessoal do Júlio Fürst, então no início de sua promissora carreira profissional de radialista e apresentador (a que, após este ciclo, deu continuidade, já despido do personagem, mas de forma não menos brilhante, na própria Continental e em diversas FMs da cidade, sendo que atualmente desempenha na Rádio Itapema FM), nada disso teria acontecido. É preciso lembrar que os fatos a que fazemos alusão ocorreram num cenário em que não havia significativas apostas em artistas jovens locais por parte da mídia -- com raras exceções de incentivadores, tais como o grande radialista Glênio Reis, Pedrinho Sirótsky e o seu Transassom, bem como o suporte dado por a mídia escrita, especialmente por Juarez Fonseca, Maria Wagner, Osvil Lopes e Nei Gastal. O contexto do mercado musical gaúcho era tal que os talentos surgidos inevitavelmente tinham que migrar para o centro do país para obter maior projeção e o merecido reconhecimento, sem que gozassem ainda de um ilimitado prestígio por aqui, tal como ocorreu nos anos 60 com Elis Regina e com o Liverpool (banda de rock tropicalista que na década seguinte deu base ao também lendário Bixo da Seda). E é justamente por conta desta realidade local, que a postura que Júlio decidiu abraçar com unhas e dentes se afigurava então uma incógnita, e se apresentava virtualmente temerária, não apenas comercialmente para a Rádio Continental, mas inclusive para o próprio futuro profissional do radialista. Com efeito, não havia muita referência acerca da viabilidade comercial desta proposta inovadora, à época, mas é indubitável hoje que, se não fosse por o pioneirismo de Júlio e dos diretores da rádio, que respaldaram a sua idéia, certamente o mercado local de música em Porto Alegre não seria o que depois veio a ser, e tampouco o que é hoje. E o que chama mais atenção, e que nos revela que a coragem foi ainda maior do que se poderia inicialmente supor, é a extrema qualidade dos trabalhos veiculados, o que indica que a diretriz era no sentido de se promover um verdadeiro nivelamento «por cima» junto ao público. De fato, Júlio não «facilitava» para o público, não nivelava «por baixo», não» empurrava «músicas fracas e escancaradamente comerciais» goela a baixo», em busca de maior penetração junto à audiência. Ao contrário, os trabalhos musicais que o Mr. Lee apoiava não ficavam em nada a dever em relação ao que era produzido de melhor, à época, no resto do país, em termos de MPB, Pop e Rock. Júlio, com sua audácia e originalidade, demonstrou que era (e é) possível sim veicular música jovem de qualidade feita em Porto Alegre e obter com isso respaldo popular e resultados comerciais em termos de faturamento da emissora. Infelizmente, o programa do Mister Lee deixou de ser produzido em face do desacordo havido entre a empresa patrocinadora e a direção da rádio, quanto aos valores do contrato de publicidade. De este modo, Júlio já entrou o ano de 77 não mais como o cowboy, mas como «Mestre Júlio», e sem o» gás " que o patrocínio proporcionou em termos de respaldo para a produção dos shows, que por serem coletivos e durarem horas a fio, envolviam altos custos. O fim do programa, em que pese a força que o radialista e o restante da equipe da rádio continuaram dando ao som local, representou um considerável revés para alguns dos trabalhos musicais que eram divulgados naquele espaço. Alguns outros artistas da cena conseguiram manter uma projeção ascendente em suas carreiras, em que pese tal fato. Não seria arriscado dizer que possivelmente muitos de nós hoje não conheceríamos os excelentes músicos que afloraram daquela geração portoalegrense e gaúcha, que Júlio catapultou em seu programa e nos shows que promovia. Alguns destes artistas, se não fosse a ousadia do seu «empurrão» inicial, talvez não se tornassem tão famosos nacionalmente no futuro, tais como Kleiton e Kledir (então membros dos Almôndegas), Hermes Aquino (é, aquele mesmo da Nuvem Passageira) e Joe (roqueiro que começou por a MPB, vencendo uma das linhas da Califórnia da Canção, festival de música regionalista gaúcha, como Zezinho Athanásio, depois transmutando-se em «Joe Euthanásia» -- observação: não chegou a participar de show do Mr. Lee, mas era rodado no programa), e Mauro Kwitko (autor de algumas das pérolas do repertório de Ney Matogrosso em sua carreira solo). Além, obviamente, talvez não viessem a obter projeção tantos outros nomes importantes que surgiram naquele período, tais como Fernando Ribeiro, Gilberto Travi, Inconsciente Coletivo, Nelson Coelho de Castro, e muitos mais. Mas não apenas isso, se não tivesse acontecido o movimento capitaneado por o Mr. Lee naqueles frenéticos dois anos aproximadamente em que o programa foi ao ar, do meio para o fim da década de 70-, não seria delírio pensar que muitos outros trabalhos importantes como os de Nei Lisboa, Bebeto Alves, Gelson Oliveira, Totonho Villeroy, Vitor Ramil, Júlio Reny, Jimi Joe, Wander Wildner, Frank Jorge -- ou seja, um espectro que abrange o próprio Rock Gaúcho dos Anos 80, que estourou Brasil afora, talvez não houvessem obtido tanta repercussão no futuro. Ocorre que vários dos radialistas importantes surgidos na década seguinte (a grande maioria inclusive hoje ainda na «ativa "), que deram o» empurrão «inicial necessário para impulsionar as carreiras destes músicos, eram fãs dos programas veiculados na Continental, e foram influenciados de alguma maneira por o» modelo " do programa do Mister Lee, adotando a mesma postura de divulgar e apoiar valores locais novos em suas respectivas rádios FM. Pode-se rastrear a influência da Continental AM, ainda que de forma reflexa, na formatação das rádios Ipanema FM, Atlântida FM, Unisinos FM (notadamente em sua versão inicial, mesmo porque o seu criador assim o declarava), Band FM (o manager Kamarão também reconhece a influência), Gaúcha FM (atualmente Itapema), Pop Rock e FM Cultura (especialmente na época em que Zé Flávio foi o Diretor de Programação). Ou seja, nas principais estações de música jovem, rock e mpb da capital gaúcha. Seguem abaixo alguns dos trabalhos e artistas veiculados por o Mister Lee e por a Rádio Continental AM nos anos 70. Não é ocioso registrar que, em entrevista pessoal que Júlio Fürst me concedeu, perguntei-lhe porque o Bixo da Seda, então o principal nome do Rock Gaúcho, não fez parte do «circo» do Mr. Lee. Segundo Júlio, isso deveu-se ao fato de que, embora tenha feito o convite ao empresário da banda, o mesmo pediu uma alta soma à guisa de cachê, o que a produção não tinha condições de cobrir, tendo em vista que os valores alcançados por o patrocinador mal suportavam os custos de produção, sendo que os artistas (não raro dez ou doze bandas por evento) rateavam apenas o que sobrava, após o abatimento dos gastos, da renda da bilheteria. -- Inconsciente Coletivo: banda que misturava folk e mpb num formato «Peter -- Paul -- Mary», com João Antônio (atualmente dono do Abbey Road, uma das principais casas de shows musicais de Porto Alegre, na qual é sócio de Júlio Fürst), Alexandre (um dos proprietários do Sargent Peppers, outra casa noturna importante da cidade) e a (psicóloga) Ângela. Um som suave, com violas e vocais, bem legal, em que se destacavam as músicas «Voando Alto» e «Terras Estranhas», gravadas num compacto lançado em 77 por a gravadora carioca Tapecar. -- Bizarro (posteriormente Byzarro): banda de rock progressivo, hard rock, jazz e o que mais pintasse. Criada nos anos 60 sob a alcunha de Prosexo, contou em sua formação com Carlinhos Tatsch (guitarra), Gélson Schneider (baterista, que posteriormente pertenceu às bandas Trovão, Swing e Câmbio Negro), Mário Monteiro (baixo) / Mitch Marini (baixista que também integrou as bandas mencionadas de Gélson). Fizeram vários shows em dobradinha com o Bixo da Seda. Destacam-se no repertório «Sombras» e «Betelgeus Star». -- Bobo da Corte: na época do Mr. Lee, a banda tinha na formação Zé Vicente Brizola (filho do próprio e fundador do Bixo da Seda), Gatinha (bateria, posteriormente atuou no Saracura em sua fase inicial), Chaminé (baixo, depois Saracura) e Otavinho (guitarra). Fughetti Luz chegou a participar de uma das formações desta banda, antes de entrar para o Bixo. Rock direto levemente hard, numa levada bem juvenil, sendo de destacar «Genial Colegial». -- Almôndegas: Banda seminal da música gaúcha dos anos 70, da qual participavam Kleiton e Kledir, e, ainda, Quico Castro Neves, Gilnei Silveira e Pery Souza. Depois, saíram os três últimos e entraram Zé Flávio, João Baptista e no finzinho (79) Fernando Pesão, este na bateria. Transitava por o rock, bossa nova, milongas, temas regionais do Sul, Mpb e o que mais pintasse, com ótimas letras. Destaque para a Canção da Meia-Noite, que foi trilha da novela Saramandaia da Rede Globo, e Rock e sombra fresca no Quintal (ambas do genial guitarrista Zé Flávio). -- Hallai-Hallai: banda de country / folk rock, num estilo bem acústico, fazia um som muito legal, contava com Necão e Paulinho, entre outros membros que foram se revezando, sendo que em 1987, com Jorge Vargas no baixo, gravou um disco por a gravadora 3 M, intitulando-se apenas como Hallai. Em destaque, as músicas «Cowboy» e «Quando viajar para o Norte» (esta de Fernando Ribeiro). -- Zé Flávio e o Mantra (posteriormente Mantra Jazz Rock circus): Número de frases: 94 Banda capitaneada por o guitarrista Zé Flávio, o qual, antes de monta-la, participou da banda-show Em palpos de Aranha, que também chegou a se apresentar em show do Mr. Lee. A Bandalheira Paidégua surgiu, como sugere o nome, de uma bandalheira entre amigos e vem dando muito certo. Trata-se de um projeto musical que mistura num só balaio ritmos nortistas como carimbó, siriá, marabaixo, além de batuque, ciranda e o que mais rolar. Os amapaenses Ton Rodrigues (voz e percussão), Bárbara Castro (voz e percussão), Aline Castro (guitarra) e o paraense Fábio Lobo (voz e violão), se encontraram no Rio de Janeiro e na terra do samba resolveram fazer um som multicultural. As primeiras apresentações eram nas festas de amigos, até que começaram a surgir os convites para shows, não apenas por o ritmo dançante e contagiante dos estilos regionais adotados, mas também por o visual e por a atitude performática peculiar do grupo. A Bandalheira mistura elementos da musicalidade afro, indígena e caribenha, mas foi a pegada de raiz do carimbó que chamou a atenção do percussionista e produtor musical, Reppolho, que está produzindo o disco da banda, ainda nas primeiras etapas do trabalho de gravação. «A Bandalheira tem de especial essa possibilidade de misturar o popular e o contemporâneo, afirmando uma identidade musical que mesmo sendo nova, chega valorizando esses ritmos tradicionais como o marabaixo ou o carimbó, sem medo também de inserir elementos tecnológicos e é nesse sentido que o disco está sendo trabalhado», diz o produtor pernambucano. O termo carimbó é originalmente referente ao instrumento musical, mas desmembrou-se também em música e dança. A música mistura vozes, instrumentos melódicos e percussão, tendo como base os tambores. Mas a formação instrumental do carimbó não é rígida e pode abarcar violões e cavaquinhos, incluindo fontes acústicas e também eletrônicas. Grupos musicais contemporâneos como a Bandalheira Paidégua, utilizam instrumentos como a guitarra, o contrabaixo elétrico, a bateria e até o teclado, estabelecendo uma identidade com outros estilos. A dança tem chamado a atenção dos cariocas, que já começam a entrar na roda e a imitar as coreografias que representam o erotismo e a conquista, em movimentos sensuais de cortejo. A poesia revela os elementos culturais do trabalho cotidiano ou do lazer da cultura amazônica, enfocando elementos como o caboclo, a fauna amazônica, o amor, a culinária, entre outros. Em o repertório da Bandalheira Paidégua estão músicas tradicionais de domínio público, sucessos consagrados de mestres do carimbó como Verequete e Pinduca, melodias do compositor paraense Nilson Chaves e os trabalhos autorais que revelam estas e outras influências musicais, afirmando uma personalidade nova no cenário musical carioca. A difusão dessa identidade cultural é a base de todo o resultado que a banda vem conquistando por onde passa. As próximas apresentações da Bandalheira Paidégua irão acontecer nos dias 26 e 27 de outubro, no Largo das Neves, em Santa Tereza, por ocasião do I RioCírio, o Recírio do Rio de Janeiro, em homenagem a N. Sra.. De Nazaré. Uma oportunidade única de aproveitar os sons e gostos do norte. Serviço: Tel.: 93568785/ 99470874 Número de frases: 21 E-mail: bandalheirapaidegua@gmail.com Simplicidade. Essa característica tão marcante da obra de Oscar Niemeyer é o fundamento de Fabiano Maciel na realização do excelente ' A vida é um sopro ', documentário sobre a vida, e a obra, do arquiteto de quase 100 anos de idade, completa em dezembro, e com mais de 60 de eles dedicados à carreira que o tornou um dos nomes mais respeitados da arquitetura mundial. Os morros, as praias e as mulheres do Rio de Janeiro são a origem do traço puro e cheio de curvas que faz o trabalho de Oscar Niemeyer tão reconhecido. E é desta mesma forma suave e sinuosa que ' A vida é um sopro ` mostra a biografia do arquiteto. Sem engrandecimento exacerbado, sem tom de exaltação, sem culto nem mistificação, Oscar Niemeyer se mostra (e é mostrado) como é realmente: um homem com muita história para contar. ' Eu tive uma vida como a de qualquer outra pessoa, e a vida passa como um sopro. ( ...) Se me perguntam o que eu acho do meu trabalho ser reconhecido no futuro, penso que quem reconhecer daqui a todo esse tempo vai morrer também, então a pergunta passa a não fazer o menor sentido '. ' A vida é um sopro ' tem narrativa em primeiríssima pessoa, é o próprio Niemeyer quem narra os acontecimentos da sua vida, em ordem cronológica e com rara simpatia. A lendária dificuldade de acesso ao arquiteto desaparece conforme as histórias vão sendo contadas entre tragadas da cigarrilha companheira e rabiscos despretensiosos na prancheta. Também desaparece, na edição primorosa, a figura do entrevistador. A conversa direta entre o arquiteto e o espectador se funde perfeitamente com os depoimentos de amigos e admiradores como o poeta Ferreira Gullar, os escritores Carlos Heitor Cony, Eduardo Galeano e José Saramago. Imagens atuais de prédios e monumentos projetados por Niemeyer, assim como imagens antigas das construções e inaugurações dos mesmos, servem como ilustração, mas sem qualquer pedantismo didático. Soam tão naturais quanto os palavrões ditos por o arquiteto, tão naturais quanto ao fato de ele ter se casado por a segunda vez no ano passado, tão naturais quanto à lucidez de um homem que, à beira de completar um século de consistência e coerência inabaláveis, continua em plena atividade, desenhando de forma livre como se ainda fosse o menino que desenhava com o dedo no ar. ' A vida é um sopro ' mostra simplesmente que, na verdade, ele ainda é. Número de frases: 15 O que o Pato Donald, Homer Simpson e o Cebolinha têm em comum? Vejamos. O Pato Donald é uma negação. Perde todas as paradas para seu primo Gastão. Homer Simpson é daqueles que começa bem e termina mal. E o Cebolinha? O simpático personagem de Maurício de Souza sempre tem um plano para derrotar a Mônica, mas, na última hora, vai tudo por água abaixo. Azar? que nada. Os três heróis atravessados são vítimas da famosa Lei de Murphy -- aquela, segunda a qual, se algo tem a chance de dar errado, pode ter certeza, vai dar errado mesmo. Mas de onde vem esse princípio perverso? Sua origem é creditada ao capitão da Força Aérea norte-americano Edward A. Murphy Jr.. Em 1949, ele participou de uma pesquisa sobre os efeitos de impactos violentos em acidentes de aviões. O trabalho foi realizado sob a supervisão de George E. Nichols, da Northrop Aircraft. Nichols conta que Murphy, indignado com o mau funcionamento de uma correia de polia, devido a uma falha de ajuste, resmungou: «Se houver uma maneira de fazer a coisa errada, todos a fazem!». Imediatamente, Nichols batizou o equívoco de Lei de Murphy. O nome pegou e fez história. No entanto, há quem diga que a Lei de Murphy só serve para criar curiosidades de almanaque, sem qualquer utilidade prática. Segundo o físico inglês Robert A.J. Matthews, não é bem por aí. Formado por a Universidade de Oxford, ele ficou célebre por atribuir preceitos científicos a coisas sem importância como o fato do pão cair quase sempre no chão com o lado em que foi passada a manteiga. Murphy leva coisas do tipo a sério e já fez vários testes para provar que não há a mão do acaso nem qualquer travessura de um duende nisso. «Um pão tem a tendência natural de cair de cabeça para baixo porque o torque gravitacional não é suficiente para que ele gire completamente sobre si mesmo, antes de chegar ao chão. Em geral, a distância entre a borda da mesa e o solo só permite que ele dê meia-volta. Isso não tem nada a ver com a ação de algum gnomo invisível. É ciência básica. Se a distância entre o topo da mesa e o chão fosse maior, o resultado seria diferente», ele esclarece. Matthews cita ainda o caso de pessoas que saem à rua com um guarda-chuva, quando o céu está nublado, na expectativa de que sobrevenha um temporal -- e nada. «É que a chuva é um fenômeno mais raro do que se imagina. Mesmo aqui na Inglaterra, onde chove muito e o serviço meteorológico é considerado eficiente, a chance de chover em determinado horário é sempre menor do que a de não chover», ele comenta. Seja verdade ou não, a Lei de Murphy tem aspectos, na maioria das vezes, pitorescos. Em a parte, por exemplo, das tentações amorosas, é quase certo que quando você encontra um rapaz inteligente e charmoso, ele está com a esposa ou namorada. Em o dia-a-dia, então, nem se fala. A Lei de Murphy impera. Confira estes 12 casos e veja se eles acontecem ou não com você: Basta mudar a toalha da mesa para que caia uma gota de café em ela; A fila do lado anda sempre mais rápido; Você amou o sapato que está na vitrina. Mas não tem o seu número. Para conseguir um empréstimo é fundamental que você não precise de ele; Em o Bingo, você está por a boa, a bolinha 54. Mas sai a 53 e alguém da mesa ao lado bate; Quando algo pequeno cai no chão, sempre rola para a parte mais inacessível de qualquer aposento. Por mais tomadas que você tenha em casa, elas quase sempre estão atrás dos móveis; Você sempre encontra aquilo que não está procurando. Oitenta por cento do exame final de sua prova na faculdade será baseado na única aula que você perdeu e no único livro que você não leu. Você joga fora alguma coisa imprestável, mas logo acontece de precisar de ela; Quanto mais você está atrasado para um compromisso mais sinais vermelhos encontra por a frente; As chances do pão cair com o lado manteiga para baixo são, sempre, diretamente proporcionais ao valor do tapete. O mais interessante em tudo isso é que o capitão Edward A. Murphy Jr. considerava-se, de acordo com seus amigos, um sujeito pra lá de otimista. Número de frases: 49 «As notícias de minha morte foram exageradas» (Mark Twain). Em janeiro, a MTV estreou a sua nova programação. Ganhou destaque, na ocasião, a propalada ínfima participação dos clipes na grade de programação da emissora. O que, nesses seis meses seguintes, se mostrou mais que falsa. Boa parte das manhãs e da tarde são ocupadas por clipes. Há ainda vários enlatados estrangeiros que pouco acrescentam. Com isso, perdeu, e muito, em qualidade, porque os clipes são exibidos misturados, não há uma linha coerente de exibição. Quem gosta de rock ou música eletrônica, por exemplo, terá de caçar na programação. Ou então utilizar a internet, o que parece ser o objetivo do canal. Ou seja, é um canal que pede para seus telespectadores saírem ... de frente da TV. «Apostar em clipe na televisão é um atraso." A frase é de Zico Góes, diretor de programação da MTV. Ora, mas foi com clipes que a estreante Mix TV venceu a MTV. Outra emissora paulista que investe em clipes é a Play TV (emissora que, nos seus primeiros 179 dias no ar, ficou 101 dias à frente da MTV, na média). Essas duas são abertas. Há também o Multishow, que aposta no filão na TV paga. Além do argumento acima, a MTV também alega que clipes não dão ibope. Mas não foi esse o alicerce da sua programação por tanto tempo? Não seria a queda da audiência um fenômeno mais creditado à concorrência desses novos canais listados acima do que à fadiga dos clipes? Afinal, antes a MTV não contava com concorrentes. Coerência, no Brasil, é algo raro. Mas vale a pena ler o que Zico Góes disse à Folha de São Paulo, em oito de agosto do ano passado. Quatro meses antes da MTV optar por deixar de lado os clipes. «O Ibope não é ferramenta para medir o sucesso numa TV segmentada. Nós somos segmentados, falamos com público pequeno. Em o dia em que começarmos a falar não apenas com o jovem, mas com o pai de ele, a avó de ele, deixaremos de ser a MTV para sermos uma TV generalista." A emissora desdenha índices de audiência, mas utiliza isso como argumento para descartar o que mais lhe caracterizava? A MTV local pensa, creio eu, que segue a estratégia da MTV americana. Mas lá se criou inúmeras alternativas, como o canal VH1, voltado para os mais velhos, com mais documentários, e a MTV2, que só passa clipes. A MTV americana investiu mais no filão de programas de entretenimento. Por aqui, a criação de uma versão da MTV2 foi arquivada. Há também o argumento que os clipes agora pertencem ao meio on-line. E o que não pertence? Apesar do sucesso da versão local da MTV Overdrive, site que conta com um acervo gigante de clipes, num país em que poucas pessoas têm computador, e menos ainda acessam via banda larga, faz sentido trabalhar com essa visão? E para os que não tem essas regalias no momento de acessar a internet, a MTV não poderia ser uma opção para esse público assistir clipes? Essa audiência de excluídos, aliás, é maior do que as pessoas que tem acesso de qualidade. Se a MTV não consegue cativar esse público, erro de ela, da sua programação para lá de capenga, e não dos clipes, que parecem ter sido eleitos para justificar a pouca audiência do canal. Para terminar, a MTV divulgou, também no começo do ano, que planejava lançar sua própria rádio, em parceria com uma emissora já existente em São Paulo. Para quem considera exibir clipes algo datado, investir em rádio seria uma opção inovadora? Número de frases: 40 Chegamos no mês do carnaval, a maior festa popular do mundo e na nossa área, o samba, as grandes escolas de sambas por o País afora se preparam para se apresentar e mostrar sua cultura e esforços que rendem um trabalho durante o ano inteiro, você sabia que o Acre já teve o melhor carnaval da região norte, no que diz respeito aos desfiles das escolas de samba? Pois é, só que graças a ação irresponsável e corrupta de alguns governantes e administradores de escolas da época, tudo isso acabou, acabou como se nada tivesse existido, sabemos das dificulades de formação de novas escolas, porém esperamos que os nossos novos governantes olhem um pouco para esse lado do carnaval acreano e incentivem novas escolas. Enquanto essa ação não sai, continuamos admirando os desfiles do Rio de Janeiro, que esse ano vem recheados de enredos sobre a nossa Amazônia, o nosso querido Jamelão, esse ano não interpreta o samba da Mangueira, que pena!!! Mas temos vários outros motivos para acompanhar os desfiles, inclusive (com a autorização do Ed Bastos) Avante Portela!!! Que esse ano fala sobre os jogos panamericanos, com um samba de enredo lindo. Número de frases: 5 As crônicas de AFFONSO Romano De SANT ' ANNA são muito boas. Eu adoro. Porém, essa que foi publicada no Correio Braziliense na primeira semana do mês de novembro foi particularmente especial entre as especiais. O grande autor e poeta, de volta ao Chile para participar da Feira do Livro de Santiago, cai nas suas lembranças e se vê entrando no prédio da Biblioteca Nacional como fez em 1992 para um encontro com outros 20 diretores de bibliotecas nacionais liderados por a venzuelana Virgínia Bentancourt e com o apoio do governo espanhol. Em a comemoração do quinto centenário da descoberta das Américas, aquele país investiu uma boa grana na arquivologia dos países latino-americanos. Quero dividir só uns trechinhos dessa crônica com vocês -- overmundistas ou apenas turistas ou curiosos passeando por aqui. Caindo Em o Passado «A memória vai girando em torno de si mesma como esses fusos que tecem tapetes e tecidos com tramas e urdiduras. Ter memórias é um luxo." ( ...) O passado não passa o futuro não chega e o presente ameaça. ( ...) Depois de certa idade, é comum a gente cair. Cair de diversas maneiras. Por isso, o texto bíblico diz; «Aquele que está em pé, olha que não caia». Mas a gente cai. Os mais velhos quebram o fêmur, o braço, caem no banheiro, caem tropeçando no tapete ou por causa do cachorro. ( ...) É issso. O presente ameaça o futuro não chega o passado não passa. Ainda bem. Se assim não fosse, a vida não tinha graça. Número de frases: 25 Com eles é vapt-vupt. O grupo campo-grandense Caras de Pau se especializou em atender com rapidez os mais diversos pedidos de peças criadas para secretarias de governo, empresas, escolas, ONGs e instituições. Muitas vezes peças encenadas uma única vez. Os temas variam conforme o freguês e o gosto pode soar esdrúxulo. Como receita fiscal, transporte público e AIDS, por exemplo. Mas se este fast-food teatral parece indigesto a atores de formação clássica, para os integrantes do Caras de Pau soa como música para os ouvidos." Quando começamos nem sabíamos o que era teatro empresarial ou educativo, que falam que o grupo faz hoje. A gente sabia simplesmente que aquilo era divertido», afirma o ex-office boy e hoje jornalista Eduardo Romero, um dos atores do núcleo fixo do Caras de Pau. Em a verdade, o grupo é um dos poucos em Campo Grande que cria textos específicos para determinado cliente e situação. A história de eles começou em 1993, após iniciarem um grupo estudantil chamado GET na escola estadual José Barbosa Rodrigues, no bairro Universitário, em Campo Grande. Depois se apresentarem algumas vezes na própria escola, sete dos 30 integrantes foram chamados para se juntar a uma turma que iria fazer performances em terminais, pontos e dentro de ônibus municipais de transporte. A empresa queria conscientizar a população e não ter mais os ônibus depredados e danificados. Em uma confusão de nomes na reunião com o responsável por a empresa, de Cavalo de Pau, o grupo ganhou a alcunha de Caras de Pau." O contratante da empresa brincou que a gente precisaria mesmo de cara de pau e sentimos na hora que o nome tinha de ser este. Tinha tudo a ver com a proposta e a referência ficou mais fácil», acredita Eduardo. Durante 1 ano e meio o grupo trabalhou exclusivamente para esta empresa de transporte de Campo Grande. Montaram a peça batizada de O Ônibus Nosso de Cada Dia e começaram o que para eles ainda parecia uma brincadeira e para o público campo-grandense era inédito." O pessoal estava esperando o ônibus e chegavam sete pessoas vestidos de preto, rosto pintado de branco e fazendo encenações sobre o cotidiano do ônibus. Em o começo todo mundo estranhava, mas como eram 12 apresentações por dia, logo nos tornamos conhecidos na cidade», afirma o ator e também fundados do grupo Elânio Rodrigues." Mas a gente era adolescente. Saia das festinhas nos bairros e ia direto encenar. Queria era se divertir», complementa. Depois de ter ajudado a empresa a diminuir os custos com a frota -- no começo do projeto a empresa gastava o valor de um ônibus por mês para recuperar a frota e quando terminou passou a gastar o mesmo valor em três meses -- o grupo passou um ano tendo de se virar. Um dos integrantes acabou virando inclusive motorista da própria empresa. Resolveram levantar de novo o Caras de Pau, montaram a peça País das Letras e foram à luta novamente. Saíam de bicicleta para vender a peça para as escolas da periferia e região rural de Campo Grande e cobravam de 0,50 a R$ 3 reais por pessoa, dependendo da quantidade de alunos do local." Até que fomos contratados por o Detran, com a peça Em o País das Ruas, e fomos obrigado a profissionalizar de vez o grupo, abrir firma e registrar o nome», ressalta Eduardo. O pulo do gato do Caras de Pau aconteceu em 2001 com a peça sobre DST / AIDS. Prevenção é a Solução passou por mais de 100 escolas de Campo Grande e sete estados brasileiros, levou o grupo à África e passou a ser o carro-chefe do Caras de Pau. Além de capitais como Porto Alegre, Pessoa, Brasília, Cuiabá e São Paulo, a peça foi encenada em lugares distantes, como Wanderlândia, cidadezinha de oito mil habitantes que fica a 4 horas de avião e mais 9 horas de ônibus da capital tocantinense." O padre da cidade não queria liberar os alunos sem a gente cortar algumas cenas e claro que não aceitamos. Em o final, todos os alunos viram a peça na praça da cidade e o próprio padre reviu a sua posição», lembra Elânio. O trabalho na África, no entanto, foi a certeza de que o grupo está no caminho certo. Em o final de 2005, foram convidados por a ONG norte-americano Pathind, que atua em 20 países, e por o governo moçambicano para dar uma oficina teatral na capital Maputo para grupos das 11 províncias do terceiro país mais pobre da África." Fomos lá para ensinar como os grupos poderiam montar peças tratando do tema AIDS, escrever os textos colados a realidade de eles, criar cenários com material reciclado e sensibilizar as pessoas», conta Eduardo. Foram 20 dias de oficinas diárias de 10 horas de duração com 66 jovens do país inteiro e de grande reflexão. O ator diz que a dificuldade começa por a própria política pública de saúde em Moçambique, um país que precisa prevenir a doença, mas não distribui preservativos de graça. Apesar do português ser o idioma oficial, cada estado fala um dialeto e muitas vezes uma etnia é inimiga da outra." Lá o pior problema é ainda a sobrevivência em si. Aqui no Brasil temos a AIDS também, mas a população de uma maneira ou outra tem acesso a alimentação, saúde e educação. Lá o problema é o acesso mínimo a alimentação diária. Como fazer o sujeito pensar em não contrair AIDS se ele não tem nem um prato de comida em casa? Teve dias que eu me desesperava e pensava em desistir», assume Eduardo." Mas no final da oficina todos os 11 grupos estavam com peças montadas sobre a AIDS e atingimos o nosso objetivo. Isso mais uma vez nos deu a certeza que o Caras de Pau está no caminho certo», comemora o ator. Mas mesmo com o reconhecimento na área do teatro educativo, o Caras de Pau não tem uma agenda regular. Passa por momentos de paradeira e os integrantes não se dedicam exclusivamente ao grupo. Participam de outras atividades artísticas, se dedicam a outras profissões e selecionam mais os pedidos de peças. Mesmo assim, Eduardo e Elânio, por exemplo, não esquecem que pagaram a faculdade particular de jornalismo com o dinheiro vindo das apresentações do grupo." A questão é como manter a equipe só com o Caras de Pau. A alternativa é estar sempre juntos nos trabalhos bacanas e que funcionam. Não dá mais para fazer tudo que aparece, nos tornamos mais seletivos», explica Eduardo. Para Elânio, o mais importante é não perder o espírito do início do grupo." O importante é não perder o link com a periferia e sempre manter as oficinas com os estudantes. Nós usamos a linguagem teatral como ferramenta de apoio a comunicação e nunca fomos um grupo elitizado. Nunca podemos esquecer isso», ressalta Elânio. O grupo Caras de Pau é formado por Eduardo Romero, Elânio Rodrigues, Tati Vieira, Marcos Rubens e Valdeir Santana. * Alguns meses depois desta entrevista o jornalista-cara-de-pau Eduardo Romero se lançou numa aventura: rodar o Brasil numa moto. Com certeza, a experiência em Moçambique mexeu com o rapaz e trabalhar enfurnado numa sala é para quem precisa mais do que muito do emprego. Edu resolveu investir no projeto Duasrodas -- GIROBRASIL. Se apresenta nas cidades como ator e registra a viagem como jornalista. A rede de overmanos fique ligada. Número de frases: 63 Ele pode estar aí na sua cidade! Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras / pomar amor cantar. / Um homem vai devagar. / Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar ... as janelas olham. / [ ...] «Cidadezinha Qualquer», do livro Alguma Poesia, de Drummond É bem este espírito drummondiano que se pode sentir na atmosfera pacata da pequena São Pedro do Itabapoana, distrito de Mimoso do sul, ao sul do Espírito Santo. A cidadezinha, rodeada de cafezais, bananeiras, laranjais e infâncias saudosas tem cerca de 1000 habitantes e fica a 460m de altitude. As rodas de sanfona e viola são comuns nas esquinas e bares do vilarejo e dão harmonia sonora ao cenário remanescente do ciclo cafeeiro: uma igrejinha do final do século dezenove ao centro e, ao redor, o belo casario preservado sobre ruas de pedra. Há 20 anos, o povoado foi tombado como patrimônio cultural do estado e, há 10, sedia, sempre na última semana de julho, o Festival de Inverno de Sanfona e Viola. O evento reúne músicos e turistas de todo o país, que vão a busca de boa música do gênero e uma bucólica paisagem. Além das apresentações dos competidores, músicos famosos se apresentam no Festival. Este ano, Pena Branca e Chico Lobo se apresentaram num dos palcos, em praça pública. Mas, uma importante preocupação -- a de manter e formar um público jovem que valorize e se interesse por a música da região -- fez com que, além das apresentações do Festival, todos os moradores e visitantes pudessem participar de oficinas gratuitas de sanfona, viola, violão, percussão e harmonia. De as oficinas, que aconteciam somente na semana do Festival, surgiu, em 2005, a Escola de Sanfona e Viola, com crianças e jovens do município. Com a escola, eles passaram a ter aulas gratuitas de música durante todo o ano e formaram a Orquestra de Sanfona e Viola, que se apresenta nas ruas na semana do Festival e em outros eventos culturais. Além disso, a tradição das rodas de tocadores é reforçada no «Vem Viver o Patrimônio», evento que acontece sempre no último sábado de cada mês. Este ano, músicos de todo o país se inscreveram no Festival e 13 representantes de cada uma das duas categorias -- sanfona e viola -- foram selecionados. Os três primeiros lugares, escolhidos por um grupo de jurados, e o candidato mais aclamado por o público receberam prêmio em dinheiro -- R$ 1500,00, R$ 1000,00, R$ 500,00 e R$ 300,00, respectivamente. Além de música de boa qualidade, bela paisagem e um clima que beira os 10 graus no inverno, pode-se comer o melhor da comida do interior capixaba em restaurantes como o «Café Canção», da própria Escola de Música, ou tomar uma cachaça da boa num dos botecos da cidade, que também servem cerveja gelada, apesar do frio. Outras boas opções são a Casa do Artesanato, com peças em fibra vegetal, madeira e cerâmica; o museu São Pedro de Alcântara do Itabapoana, que reproduz os hábitos de moradores antigos, já que foi ambientado num dos casarões do sítio histórico; e o Antiquário São Miguel, com raridades de fazendas centenárias. A idéia de se fazer o Festival surgiu após o tombamento do sítio histórico. Segundo Rosângela Guarçoni, secretária de Cultura do município, «além da revitalização física do casario, era preciso fazer algo que pudesse valorizar a cultura local, afim de reanimar os moradores, para que eles se orgulhassem ainda mais a cidade onde vivem». A opção por o gênero musical extraído da sanfona -- nome dado, em algumas regiões do Brasil, ao acordeão -- e viola veio do resgate de um costume antigo da população: o de se aglomerar nos fins de tarde, quando os trabalhadores chegavam da roça, ao redor de algum tocador de sanfona que ecoava seus acordes sentado numa das calçadas do vilarejo. A viola, menos popular, mas também tocada por os antepassados, foi agregada ao evento e, hoje, há jovens que aprenderam a tocar os dois instrumentos. Cama, café e boa prosa Em a falta de hotéis para receber os turistas, a cidade aderiu ao sistema «cama e café», em que moradores abrem suas casas para hospedagem, com diárias que incluem café da manhã. De essa forma, o turista também participa do cotidiano da família que o hospeda. Há cinco anos, atraídos por a hospitalidade e por o desejo de relembrarem a infância na roça, os amigos Luiz Carlos Tofano, Isvani Matielo e Ivonei Moreira, juntos com filhos, esposas e outros parentes -- ao todo, 22 pessoas -- deixam a cidade de Cachoeiro de Itapemirim e sobem a montanha para o Festival. Em sua última edição, mesmo com chuva, a cidade recebeu cerca de 15 mil turistas. Para os moradores, o evento representa mais uma fonte de renda, já que a economia local se baseia na produção de café e leite. As Divas Cortam e Culturam E foi pensando na renda de moradoras do Sítio Histórico que, em 2006, a Secretaria de Estado da Cultura organizou uma Oficina de Costuras e Bordados por meio do projeto «Corte e Cultura», conduzido por a design de moda Gaby Lima. A partir da oficina, surgiu a grife As Divas onde trabalham 25 mulheres com idade entre 12 e 70 anos. Os bordados e acabamentos das peças são inspirados em motivos da cultura e natureza locais. As roupas também vestem a Orquestra de Música e são exibidas num desfile em praça pública durante o Festival. O sucesso foi tanto, que As Divas foram convidadas para abrir oficialmente a programação do Fórum Internacional de Economia Criativa, que fez parte do Fórum Cultural Mundial no Rio, em 2006. Número de frases: 43 A acolhedora São Pedro do Itabapoana tem o aspecto das pequenas cidades do interior do Brasil, mas está longe de ser uma cidadezinha qualquer. A o ouvir a mesma música repetidas vezes nas principais FM's (e AM's também) a impressão que temos é que a música em si está sendo veiculada por mérito próprio, ou seja simplesmente por a aclamação do público, mesmo quando o gosto nos parece duvidoso. O que a maioria das pessoas sequer desconfia é que por trás do aparente sucesso de algumas obras fonográficas está um esquema de merchandising, mais conhecido no meio musical como «jabá», abreviação do termo popular» jabaculê " (do Aurélio: gorjeta, dinheiro usado para subornar alguém). A tal «música de sucesso» é executada mediante o pagamento de uma quantia considerável em dinheiro (que varia de 5 mil a 20 mil reais), ou qualquer outra forma de pressão exercida por as grandes gravadoras. Trata-se de um negócio extremamente lucrativo, em que a gravadora vende uma quantidade enorme de cópias de CDs dos seus principais artistas enquanto as emissoras de rádio, e de TV também, têm neste tipo de promoção uma das suas grandes fontes de renda. A pergunta que fazemos a partir daí é «quem se prejudica?», a princípio o público, que é enganado já que é levado a acreditar que os seus cantores favoritos permanecem no «topo» graças à genialidade de sua obra artística, como o próprio B Negão (ex-Planet Hemp) definiu uma vez é «engano ao consumidor». O público ainda é lesado em outro aspecto já que este tipo de esquema não permite o acesso a outros trabalhos artísticos limitando o conhecimento das pessoas ao eterno «mais do mesmo». De o outro lado está o artista, aquele que não possui meios (ou se nega) a pagar para que seu trabalho seja veiculado nas rádios. Este acaba prejudicado porque o espaço nas emissoras não depende do seu talento e sim do seu poder de compra. E engana-se quem acredita que essa prática seja recorrente apenas nas rádios convencionais, algumas emissoras que se auto-intitulam «comunitárias» fazem o mesmo. Importante lembrar que não se trata de nenhum tipo de preconceito contra essas formas de comunicação alternativas, muito pelo contrário, a intenção aqui é estabelecer a diferença entre as verdadeiras comunitárias e aquelas que apenas utilizam a alcunha, por mera convenção. Existem ainda aqueles artistas que, mesmo não possuindo recursos financeiros para tanto, acabam conseguindo, às custas de economias forçadas, a quantia necessária para pagar as tais emissoras (sejam convencionais ou " comunitárias "). O problema é que quando o músico resolve colaborar com este esquema ele ajuda a alimentar o que há de mais sujo na indústria musical, o famigerado e imoral jabá. O disco deixa de ser arte para virar produto, tudo bem que seja «produto», mas ser reduzido a apenas isso? O resultado é visível «bunda-music», e» emo-boy bands " aos montes na programação diária. Dizer que a música brasileira está degradada é uma mentira, o que acontece é que gravadoras e afins investem alto, financeiramente falando, em produtos de qualidade baixa e fácil digestão, mas os bons artistas ainda estão aí, mesmo que sem espaço nas emissoras. Caso como o do Nação Zumbi, uma das melhores bandas do Brasil que «estranhamente» não tem suas músicas executadas nas rádios convencionais, simplesmente porque não participa deste esquema de merchandising. Isso sem falar de uma infinidade de músicos talentosos Brasil afora que procuram alternativas para a divulgação de suas obras, felizmente estas «alternativas» existem, são as rádios livres, rádios comunitárias (apesar do papel repressivo da ANATEL) e os espaços existentes hoje na web (coisa impensável há alguns anos atrás). Todas estas opções constituem um «furo» no bloqueio imposto por o oligopólio das emissoras de rádio, tv e grandes gravadoras, as chamadas majors. Apesar disso o alcance destes meios alternativos ainda é limitado, sendo que a grande via de acesso para a produção musical ainda se dá através dos grandes veículos de comunicação. O projeto de lei idealizado por o músico Lobão e o deputado Fernando Ferro em 2003, que propunha a criminalização do Jabá (com penas que variam de um a dois anos), gerou polêmica e contou inclusive com o apoio do nosso ex-Ministro da Cultura, Gilberto Gil, apesar disso o PL número 1.048/03 ainda aguarda na fila para apreciação em plenário. O pedido de urgência apresentado por o deputado Miro Teixeira do PDT -- RJ foi negado por a mesa diretora da câmara. Número de frases: 23 Me parece que o lobby da indústria da comunicação ainda fala mais alto que o bom senso. As singularidades culturais do Acre no processo de construção da identidade cinematográfica é a proposta de discussão do Primeiro Fórum Acreano do Audiovisual (Vídeo, Televisão Educativa e Cinema), de 23 a 28 de outubro de 2006, na Usina de Artes João Donato, em Rio Branco (Acre). Um dos objetivos do Fórum, segundo os idealizadores, é construir ações para a criação de um pólo formador e produtor de conteúdos para o cinema, vídeo e televisão no Acre, e buscar a inserção da produção acreana no imaginário cultural brasileiro. O historiador e cineasta Ney Ricardo explica que o Fórum é um plano estratégico que articulará, de forma integrada, ações do governo nas esferas municipais, estadual e federal, com adoção de medidas a curto, médio e longo prazo. «Entendemos que o processo irá facilitar à comunidade acreana o conhecimento das linguagens, dos conteúdos e das técnicas que possibilitem o acesso aos meios de produção do audiovisual. O programa pretende articular a construção da identidade cultural e cinematográfica acreana, através de um amplo processo de profissionalização, capacitação, reciclagem técnica, fomento e veiculação da produção audiovisual local». O processo de construção da identidade cinematográfica do Acre pressupõe, segundo Ney, a realização de ações integradas. «à ABDC-Acre compete três objetivos fundamentais: formação, produção e difusão e à TV Aldeia a veiculação de produções locais, criação do Departamento de Documentarismo da TV Aldeia do Acre, que alimentará a produção e difusão dos vídeos locais». O Fórum contará com oficinas de direção, edição, ator e captação de som; as mostras Vídeo nas Aldeias e Fronteira -- Peru, Bolívia e Acre, o 1º Encontro das ABDs Norte: AC, PA, RO, AP, AM e RR, mesa-redonda com o tema: Formação do Olhar (Kinoforum) e palestras sobre as singularidades culturais acreanas no fazer cinematográfico. «Para as oficinas pretendemos trazer o diretor Roberto Berliner, a atriz Leona Cavalli e o editor Léo Domingues, tá cotado o Eduardo Coutinho para uma palestra sobre o documentário no Brasil». O grupo responsável por o projeto pretende articular a formação de um núcleo de produção. «A idéia é criar uma produtora audiovisual coordenada de forma colegiada por a ABDC-AC. A produtora será dotada de um parque básico de equipamentos para realização de vídeos digitais com qualidade semi-profissional e profissional. Esse núcleo será multiplicador e formador dos grupos, que usarão os equipamentos em sistema de rodízio», explica Ney Ricardo. Outro ponto, em relação ao fomento e sustentabilidade é a criação de um Fundo do Audiovisual (Estadual e Municipal) com aproximadamente 20 % dos recursos destinados às Leis de Incentivo a Cultura e a " Publicação de Editais. «A criação de editais por o Governo Estadual através do recurso anual da Assessoria de Comunicação que incluiria no seu orçamento 1 % do recurso da comunicação que seria destinado a publicação de editais para a produção de dois vídeos de ficção e dois documentários». Número de frases: 20 Garoto de 11 anos revela talento de comediante com improvisação e espontaneidade Por Georgiana de Sá Com uma capacidade nata para fazer os outros rirem, João Pedro Fredelli Machado, 11, conta piadas, algumas de sua própria autoria, e encanta platéias em bares e lanchonetes de Belo Horizonte. Em suas apresentações, o autodidata faz também imitações divertidas de personalidades e de políticos como o " presidente Luís Inácio Lula da Silva. «Para alegrar, sou capaz de fazer piada com quase tudo. Em a imitação do Lula eu dou um jeito de perder o dedinho." brinca ele, enquanto esconde o dedo mínimo da mão esquerda. Matriculado na rede pública de ensino, o jovem humorista exibe orgulhoso suas provas com notas máximas e garante que, todos os dias, ao final da aula, a professora reserva um tempo para a turma ouvir suas anedotas. J.P.Fredelli já encenou peças de teatro e hoje tem vontade de trabalhar na TV. «Vi, por acaso, o Saulo Laranjeira. Ele me convidou para ir ao ' Bar Arrumação ', conversamos e tiramos foto. Depois de conhecer um comediante como ele, me deu vontade de trabalhar na televisão». Segundo Gabriela Teixeira, 60, mãe do artista mirim, aos dois anos de idade o menino já era capaz de reconhecer as letras do alfabeto e, na escola, nunca teve dificuldades de aprendizagem. «João Pedro sempre mostrou características de criança precoce. A professora tinha que fazer um para-casa diferenciado porque ele achava os exercícios fáceis demais». Para Gabriela, o bom humor, a alegria e a determinação do filho ajudam a família a superar perdas. «Não somos ricos, já passamos privações financeiras, situações difíceis como o falecimento da minha mãe, e a alegria do João foi fundamental. Ele consegue motivar os outros e a si mesmo», conta ela. Vai começar o show. J.P.Fredelli, como gosta de ser chamado, tira do bolso um livrinho imaginário e folheia atentamente suas páginas «para encontrar o riso», explica ele. O menino tem na memória um arsenal de piadas para todo tipo de gosto e atende os fregueses com anedotas de gago, português, loucos e bêbados. «Algumas piadas eu aprendo lendo, outras escutando, mas também gosto de inventar minhas próprias histórias. Não tenho vergonha de nada, sou um verdadeiro palhaço, pau pra toda obra. Se ninguém rir na hora da apresentação eu solto gargalhada assim mesmo, só porque contei uma piada sem graça», diz. Fazendo trejeitos e tiques o menino solta uma de suas piadas: «A loira está no ponto do ônibus quando chega um gaguinho e pergunta: -- Pô ... pô ... por favor, onde que ... que fi ... fi ... fica a ê ... ê ... escola para ga ... ga ... gagos? A loira impaciente responde: -- Para que você quer uma escola para gagos meu filho? Você gagueja tão bem!». Número de frases: 35 As vésperas de mais uma eleição «para mudar os rumos da nação», dessa vez o foco do debate (de entre os que ainda acreditam que votar faz alguma diferença) deslocou-se para o» votar nulo «ou o» votar consciente». Sei que aqueles que preferem o caos à tirania (real ou imaginária) logo me dirão para eu tomar «cuidado!», pois desacreditar do voto é acender uma vela às ditaduras. Mas para esses respondo rapidamente: as ditaduras no Brasil seguirão cíclicas como tentativas desvairadas de por «ordem e progresso» no caos. Portanto, não será um niilista não lido por ninguém como eu que vai apressar a próxima ditadura. Não superdimensionem o falso poder das palavras. O caos brasileiro trará a próxima ditadura por si mesmo, com ou sem textos como esse. Assim, sigo em frente ... Muitos eleitores brasileiros mantiveram até depois de 2002 esperanças de que o PT fosse «dar um jeito no país», ou pelo menos deixar algum resquício de esperança de que isso ainda fosse possível; talvez reduzindo ao menos o medo coletivo de um futuro precocemente trágico nessas bandas tropicais. Estes decepcionados, duplamente enganados -- primeiro por o PT, que sempre prometeu o imaterializável, e depois por a crise do PT (do " mensalão "), plantada por a mídia quando o PT apenas fez o que todos os brasileiros precisam fazer nesse país, se corromper para adquirir poder plutocrático ou para sair da lama, hoje se dividem entre os que querem o voto nulo e os que tentam incentivar novos PTs (PSOL, PSTU, PCO, etc), para ver se assim conseguem manter o sonho democrático por mais alguns anos, quiçá algumas décadas. Para desespero dos Nulistas sinceros, os juristas brasileiros, mestres em tentar manter a moral por a via do menor esforço (dos conchavos e conluios cínicos), fizeram de última hora uma nova «reinterpretação» da palavra «nulidade», dizendo que a» nulidade de mais de 50 % dos votos " nas eleições não invalida o pleito (a eleição), pois esta nulidade se refere a votos anulados por irregularidades na campanha, irregularidades no registro de um ou mais candidatos, irregularidades no registro dos eleitores, e coisas do tipo; e não por o voto intencionalmente nulo do eleitor. Ou seja, somos realmente uma democracia moderna: de conchavo em conchavo a população tem como única opção a Obrigação de escolher entre os picaretas que a plutocracia eleitoral impõe. E plutocracia, pra quem não sabe, significa governo do mais rico, dos que têm dinheiro para fazer publicidade cara, para corromper jornais e televisão, convencendo o povo-bunda a lhe dar o voto; e convencendo-o de que democracia é isto, este bacanal, e ainda o ameaçando com a velha sombra da ditadura ao menor som de sua voz. ( Mas qualquer ditadura no Brasil pode até arrebentar com pessoas como eu, «classe média» que escreve o que quer. Mas para o povo-bunda e miserável desta zona, ditadura já é esta merda de plutocracia. Um burguês como eu ainda consegue fazer seus conluios cínicos e levar suas vantagens, mas o povo-bunda não consegue nada, nem roubando, nem levando porrada e nem se arrebentando. Nada!) Mas os ingênuos ainda persistem, travados de medo de perderem a ilusão nesse sonho desencantado de Brasil «país do futuro»,» Brasil «país da esperança»,» Brasil de quem nunca desiste». Eu nasci no ano do «Ame-o ou deixe-o», mas nem o amo nem o deixo, e este último ato somente por falta de opção. Nascer brasileiro virou uma condenação para a maioria desses milhões de fodidos. Se querem acreditar em «carma» e feitiços, aí está um de verdade: a brasilidade de nascença ou a brasilidade entranhada ao longo dos anos. Mas contra o desespero de ser prisioneiro de um futuro destruído, ou de futuro algum, é melhor todo o esforço para manter a ingenuidade e a ilusão. Assim, os que querem porque querem continuar fingindo o jogo democrático agora tentam inutilmente incentivar o voto nulo. Tentam ser radicais porque desse modo acham que parecerão «politizados» (estudantes universitários que não saem da Internet sempre acham bonito e sedutor dar uma de politizado e antenado) ou tentam ser radicais porque estão mesmo revoltados (mas só um pouco, já que o brasileiro típico nunca se revolta muito, por medo ou por senso precoce da inutilidade ou de prejuízo com qualquer revolta). Vão para a Internet, onde acham que conseguirão revelar a «Matrix» (o brasileiro atual vive mais no mundo fantasioso de novelas e filmes do que em experiências reais do mundo à sua volta), e ficam horas tentando convencer outros de votar nulo, para escancarar a revolta, para esculhambar de vez, ou para ver se algo de verdade acontece; e para ver se esta merda de país deixa de caminhar inexoravelmente para seu futuro inglório (o qual, aliás, já chegou, não se enganem: basta desligar o computador e a TV e sair a passear naqueles bairros e ruas, cada vez mais numerosos, que todos te avisam para nunca sequer atravessar). De outro lado, revoltado com os Nulistas, batendo boca com eles (é praxe do brasileiro olhar pra quem aponta o dedo, e não pra onde se aponta), estão os Conscienciosos. Querem porque querem crer que se todos fizerem o seu papel, pesquisando a vida e o trabalho dos candidatos, escolhendo o mais compromissado com a população, o mais honesto e etc, a situação ainda pode mudar. Estão, obviamente, exercendo a finalidade última da democracia nas sociedades «modernas», que é manter a ilusão quanto à participação de todos no poder, nos rumos e na construção do futuro das nações. Sem a crença em paraísos celestiais a esperar suas almas, ainda acham que o futuro reserva algo de bom para si ou para os seus. Trocaram deus por o progresso da humanidade, e agora não querem perder a crença no progresso da humanidade antes de alcançarem novas ilusões. Os europeus, norte-americano e japoneses ainda vivem sustentados por esses sonhos irreais de progresso sem fim ... O difícil tá manter esse sonho no Brasil! ... Por uma questão de fé e de autopreservação, no entanto, gosto mais destes últimos, dos que querem votar «com consciência». Vai que um dia saio candidato e ainda votam em mim!? Poderei ganhar dinheiro suficiente, e talvez até cargo de diplomata, para enfim viver burguesmente longe dessa merda. E garanto que só farei projetos de lei e medidas provisórias com a intenção verdadeira de tirar o país dessa lama, e farei isso com dedicação verdadeira e preocupação sincera com todos estes miseráveis que se avolumam ao meu redor. Serei um parlamentar ou governador honesto, não tenham dúvida, pelo menos em relação a tudo aquilo que é capaz de chegar aos olhos do povo. Porém se dependesse de boas intenções e de trabalho duro e honesto, o brasileiro não estaria como está. Mas os ingênuos continuam não querendo saber disso. Problema de eles! ... Número de frases: 46 Que fiquem então aguardando por a TV as últimas decisões dos mais recentes conchavos, e dos últimos ditames plutocráticos! ... Todo ator que inicia a sua vida de teatro sonhou com a sua primeira apresentação no Teatro Alberto Maranhão. É como se fosse o grande momento de suas vidas. Imaginamos tudo perfeito. Pois não é muito bem assim. O que me incomoda muito é a falta de conservação do teatro sobre a direção de Hilneth Correia e a falta de educação que os funcionários do teatro têm com a maioria dos atores que se apresentam (pagando e caro!) no recinto. Bem, vamos por ordens! O Teatro Alberto Maranhão está totalmente adaptado ao «Jeitinho Brasileiro» sem nenhuma reforma em seus camarins nas minhas apresentações noto que as portas são pregadas com pedaços de madeira para que não possa passar a corrente de ar condicionado no local e tentar assim desse modo tão Improvisado assegurar um ambiente agradável aos atores. O sistema de refrigeração também é uma coisa especial, todos os ares condicionados são quebrados sem aquelas palhetas de direcionamento do ar frio. Aliás, falando em ar condicionado o próprio gerador da platéia ficaram uns bons meses fora de funcionamento possibilitando um «Enorme conforto aos espectadores». Agora Vamos falar do enorme tratamento oferecido por o recinto. Quem não conhece aquele coordenador chefe do teatro que corresponde ao nome de João? Pois é ele mesmo trata com total arrogância os atores principalmente os mais jovens que são tímidos a reagirem às críticas feitas por essa pessoa. O interessante é que agente paga para que eles falem do jeito que quiserem em direção a nós mesmos. Engraçado ... O que me parece mais justo são as críticas feitas por a classe artística em relação à isso." Ali são todos recauchutados do governo que não têm aonde se instalarem e acabam indo para o teatro». uma pouca vergonha junta num só lugar sendo o Teatro Alberto Maranhão um espaço para a difusão artística para toda a população de Natal e de quem vem assistir um bom espetáculo aonde a sensibilidade é fator fundamental na elaboração do processo. Número de frases: 19 ... um espaço nosso nessa decadência " ¹ Estava conversando com uma pessoa de banda que estava lançando um disco e que me perguntava como fazer para divulgá-lo na internet. -- Eu já fiz fotolog, um myspace, um blog, youtube, página no orkut, na showlivre, trama virtual, flickr ...-- dizia ele. -- Apague tudo -- respondi. Ele achou que eu estava brincando. -- Se a música é boa, use a internet, inicialmente, para divulgar apenas a música. É ela que tem de aparecer -- disse para ele. Que alívio da porra! A partir dessa conversa, me livrei de um trauma e finalmente descobri o motivo de minha rabugentice com bandas novas. Eu consigo encontrar talento -- «consigo encontrar talento», diga-se de passagem, em relação, única e exclusivamente, ao meu gosto pessoal, caro leitor rabugento -- em muitas bandas e artistas atuais, mas não passa disso. -- Man, ouça isso agora, isso é o que vai salvar o rock -- disse um amigo por o msn, mandando um arquivo em mp3. Ouço a música, gosto de ela, me interesso por a banda, vou no site e, em duas horas, eu já tenho todas as músicas. E fotos da banda. E fotos da equipe técnica da banda. E foto dos amigos da banda. E vídeos. E depoimentos dos fãs. E o que eles comeram no almoço. E diários dos integrantes da banda com os temas «Criar é doloroso» e «O sucesso é complicado». E, assim, o que ajudou a destruir os Beatles em 10 anos, nos anos 60, e o Rpm em dois anos, nos anos 80, destrói qualquer banda em duas horas, nos atuais anos 00. Em duas horas, eu não agüentava mais aquela banda. Acredito que o artista, naturalmente, goste de se expressar e de se expor, seja lá qual for o meio para isso, mas, diante do imediatismo atual, talvez, mais do que nunca, seja preciso que antes o seu público peça por isso. Se a música é boa, ela já expõe o artista. Já expõe até demais e, ainda assim, a banda dá de bandeja o resto todo?! Aí perdeu a graça. Tive de andar em muito sebo para conseguir ler entrevistas e / ou poder achar uma foto nova de Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, para assim poder saber o que eles pensavam e se as atitudes batiam com o que cantavam. O fato de ter de ir buscar a informação era um grande motivo para alimentar a curiosidade. Já perdi (ou ganhei) muito tempo ouvindo rádio, esperando tocar uma música nova para eu poder apertar REC e gravar. O tempero é a fome. Um cara de uma grande gravadora me disse recentemente que «hoje em dia, a banda tem de bombar na internet». Que o fotolog tinha de bombar, o myspace tinha de bombar, o blog tinha de bombar, que tudo tinha de bombar. E essa tem sido a fórmula do sucesso difundida mundo afora. Fazendo um paralelo, isso é como nos anos 80, quando houve uma revolução nos estúdios de gravação e todos resolveram usar tudo o que podia ser usado. O resultado foi que os sons dos discos dos anos 80 se parecem. As baterias, os baixos, as guitarras, os discos ... tudo com o mesmo efeito hi-tech da época. Aquele reverber futurista. Em os anos 90, aconteceu o mesmo com o design. Com a revolução do microcomputador e, consequentemente, dos programas de edição de imagens, todas as imagens dos anos 90 têm cara de Corel Draw. Usaram todos os recursos que podiam. Em tudo. Sobressaiu e ficou quem enveredou logo por outro caminho. Nem que tenha sido de forma sutil. Acontece o mesmo agora. São as revoluções por minuto. Como mostra bem a história, em toda ela, os caras da gravadora sempre estiveram errados. O marketing certo a ser seguido não existe. Acredito que quem alcança o objetivo desejado é aquele que toma as decisões de acordo com o que vê. A banda britânica Radiohead, em 2007, olhou para o mundo real e virtual em que ela estava inserida, e pensou ao observar o entrave «se o mundo tá desse jeito, vamos lançar nossas músicas e dizer ' pague o quanto puder '». O resultado disso foi que 40 % pagaram uma média de 18 reais por o download de 10 músicas, do disco «In Rainbow». Estima-se que o faturamento do grupo tenha sido em torno de 10 milhões de dólares. Agora em 2008, o Radiohead lançou o disco físico dessas músicas (com dois vinis, encarte especial, músicas exclusivas ...) e o fenômeno é que boa parte dos 60 % que não pagaram por a internet, eu inclusive, estão agora comprando o disco nas lojas. Foi lançado esse ano e já é o primeiro nas paradas americanas. E o disco custa, em média, 150 reais. Foi um olé na pirataria, nas gravadoras e na própria internet ao mesmo tempo. O pirata tem tudo, mas não tem encarte com as letras. Publicidade é mostrar o diferencial que uma coisa tem em relação a outra. Seja loja de varejo ou banda de rock. E no mercado do rock, hoje em dia, o seu «concorrente» tem tudo, mas não tem discrição. Um tempo atrás, fui conversar com um cara que queria empresariar uma banda em que toquei. Ele já era do ramo, empresário da alegria baiana, experiente ... -- Já tenho o esquema montado. Conheço o mercado. É tudo feito no marketing certo. Temos as datas certas para cada coisa -- dizia ele. -- Como assim?-- perguntamos. -- Tipo, janeiro e fevereiro é bom pra show; março e abril vocês criam; em junho a gente lança; agosto, setembro e outubro é para shows e divulgação bombando; novembro DVD ao vivo, pois é perto do Natal e blá, blá ... A melhor parte foi «março e abril vocês criam». Não importa o quê, criem qualquer merda, pois o cronograma do marketing do sucesso não pode ser quebrado. A música é o que menos importa. O artista é mais importante. Ele ainda disse que ia colocar a gente em outdoors espalhados por a cidade com nossa foto. Juro que tentei, mas quando ele disse isso, não resisti e dei risada. -- Isso mesmo, au-te-dors -- soletrou ele, empolgado por a minha risada. Ele deve ter achado que era de felicidade. E ainda chamam o Radiohead de «rock triste». Número de frases: 83 (1) Rádio Pirata, de Luiz Schiavon e Paulo Ricardo. por Marcela Bazilio e Bender Arruda Para você parece estranho ser um universitário e morador de uma favela carioca? Os dois perfis combinam? às vezes muitas pessoas acreditam que «isso não é pra mim», mas a empreitada dos moradores de comunidade em universidades só está aumentando. Porém existem alguns " atritos ": casos que, em contato com universitário, os outros moradores se sentem diminuídos, incapazes de realizar tal feito. Como experiências em que moradores de favela se sentiram afrontados por a presença de um universitário num certo local e resolveram hostilizá-lo. Devemos ressaltar os preconceitos, pois alguns moradores acreditam que o outro conseguiu porque teve mais oportunidade. E as pessoas de «fora» não vêem possibilidade de um favelado cursar uma universidade, pois acreditam numa série de mitos que foram construídos através dos tempos, sobre a vida em comunidades. Quando estes universitários são encontrados, há um impacto como se houvessem encontrado um diamante em meio a um deserto. Este movimento dentro das comunidades tem se fortalecido, por causa de iniciativas como Pré-Vestibular Comunitários, Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Prouni, maior interesse do jovem em buscar melhores condições de vida por meio do estudo e da especialização. Mesmo que algumas destas iniciativas sejam boas e ajudem a muitos, não é o ideal, pois quando você faz uma educação complementar para prosseguir numa nova etapa, prova que a Educação oferecida não é tão boa. Há também o outro lado da moeda, em que jovens se sentem mais motivados a se aventurar por esta difícil jornada, a partir do sucesso de um companheiro, vizinho ou amigo. Gerando um movimento em cadeia, um grande efeito dominó do bem! O importante é que, formal ou informalmente, todas as pessoas busquem conhecimento e se eduquem, se instrumentalizando, passando adiante, e desenvolvendo sua comunidade. Número de frases: 16 Escrevendo em linguagem referencial, e não metafórica, João Cabral de Melo Neto é poeta de facil compreensão, instigando, por um lado, a leitura parafrástica na qual os críticos repetem em prosa, a narrativa biográfica em que procuram instintivamente respostas para as perguntas implícitas a que os textos não sabem responder. São poemas numa dimensão, como os antigos desenhos egípcios ou a pintura bizantina, em que tudo está no primeiro plano, sem linhas de fuga nem efeitos de perspectiva: vemos as figuras e as paisagens, mas, ao contrário do que pensava Amiel, a paisagem não é, nessa poesia, um estado de alma. Palavra, esta última, e a coisa que representa, encaradas com horror por o poeta: José Castello viu-o com agudeza quando o qualificou de «Homem sem alma» (Rio: Rocco, 1996). É, diz ele, «um dos mais importantes poetas da língua portuguesa no século XX», se não pode outros motivos, acrescento eu, por os prêmios que recebeu e por o número de estudos que lhe foram consagrados, situação tautológica em que a importância, justificando os estudos e prêmios, os prêmios e estudos confirmam a importância. Em esse quadro, os «Cadernos de literatura brasileira» sagraram-no, na edição de lançamento (março de 1996) como «a pedra de toque da poesia brasileira», imagem ao mesmo tempo mineral (derivada de sua natureza de poeta) e ligada à joalheira, o que não é menos mineral mas têm conotações irônicas, conhecendo-se a sua revulsão física por o parnasianismo, pois João Cabral, à primeira vista, está longe de» imitar o ourives quando escreve». Mas, estará mesmo? Sua busca obsessiva da perfeição de fatura coloca-o, ao contrário, na mesma bancada oficinal dos poetas que despreza, pois eles também rejeitavam a facilidade e os automatismos da «inspiração» em favor do rigor técnico e da perfeição lingüística. Por escandaloso e até ofensivo que pareça, João Cabral é um parnasiano da poesia moderna, sendo inegavelmente parnasiana a sua «atitude» diante da página em branco. Quanto a isso, ele encara erradamente o parnasianismo por os lugares-comuns depreciativos e simplistas que correm como verdades aceitas. Enquanto «pedra de toque» da poesia brasileira, isto é, como o padrão de qualidade por o qual se deve medi-la e julgá-la, sua obra propõe um dilema inevitável: ou é uma idéia subjetiva e opinativa, sem nenhum valor crítico, ou ignora que ela se situa deliberadamente por oposição ao corpus literário com que se defronta." É negando a poesia que Cabral se faz poeta», escreve José Castello, confirmando-lhe, aliás, a reivindicação de ser «o contário do que em geral se chama poeta.». Isso, porque sua concepção de poeta é curiosamente idiossincrásica: «A palavra me dá arrepios. Ela traz uma conotação de sujeito romântico, sonhador, irresponsável e até homossexual." Ele gosta das imagens fortes, inclusive na qualificação dessa «outra poesia» com adjetivos coproláticos. Esse é o paradoxo central de sua obra e personalidade: a sua é uma " poética antilírica e até antipoética." Ele escreve «para ocultar um impasse», diz José Castello, o impasse em que se meteu com essa visão literária ou em que foi metido por um temperamento fora de série (fora da série brasileira). Poeta insular, escreve a poesia anti-incoativa por excelência. Desde cedo, isto é, desde os tempos de colégio, ele manifestou «verdadeiro horror à poesia» tal como a encontrava nas antologias didáticas. Ora, essa era a poesia brasileira representada por o autores paradigmáticos, de forma que, então como hoje, João Cabral negava-lhe legitimidade ou autenticidade a partir das suas próprias singularidades de temperamento. Em outras palavras, a poesia brasileira estava e, a julgar por o jaspe de sua oficina, continua «errada» ou, pelo menos, de duvidoso quilate. Trata-se, como é sabido, de um poeta cereberal, absolutamente infenso à sensibilidade, mesmo a sensibilidade artística. O máximo que se permite é o que os franceses chamariam de amour de tête, sem ofensa para o poeta martirizado a vida inteira por a cefalalgia, afinal curada, numa espécie de licença poética cirúrgica, por o corte do nervo vago (sem trocadilho). Poeta de gama reduzida, tentado, diz «José Castello,» por as facilidades do automático e da repetição que a experiência confere», irrita-se, entretanto, contra os críticos que vivem repetindo as mesmas coisas sobre uma poesia que, tudo bem considerado, diz sempre as mesmas coisas. Ele pensa que críticos literários descobriram meia dúzia de clichês a respeito de sua poesia, e que passam a vida repetindo esses lugares-comuns. ' Isso não acontece só com mim ', admite. Mas minha poesia é particularmente vulnerável a esse tipo de esclerose de julgamento, porque é uma poesia basicamente uniforme. Seria preciso sublinhar fortemente estas últimas palavras, pois elas reconciliam os críticos com o seu poeta. Em o conjunto dessa crítica repetitiva e, como ficou dito, incapaz de ir além do texto imediato, José Castello escreveu o primeiro livro inteligente sobre um poeta dominado por o cerebralismo. É estudo que nos faz realmente compreender-lha poesia (e não apenas as palavras dos poemas), se, por uma questão de afinidades eletivas, nem todos estarão predispostos a amá-la. É «um dos poetas brasileiros mais importantes» numa literatura que talvez esteja mais bem representada por outros poetas que ele mesmo e os seus admiradores mais entusiastas julgarão menos importantes. Número de frases: 35 Per Fabricio Ungaretti Coutinho http://contraofensiva.blogspot.com www.odiluvio.com.br O HQ «Maus», de Art Spiegelman, é a história de um sobrevivente. A primeira parte que retrata meados dos anos 30 até o inverno de 1944 «Meu pai sangra história», é composta de 6 histórias em quadrinhos que foram publicadas na revista Raw entre 1980 e 1991. São elas: O Sheik, lua-de-mel, prisioneiro de guerra, o laço aperta, buraco de ratos e a ratoeira. O autor conta a história de seu Pai, Vladek Spiegelman, com momentos de sutileza e rara compreensão humana até momentos de pura brutalidade. A verdade nua e crua desvendando a história e as atitudes estúpidas que o preconceito causa. Em este caso o tempo marca uma das maiores perseguições contra uma raça, um povo (uma de tantas outras perseguições, como por exemplo o apartheid na África). Não sei ao certo o número de mortos, mais ou menos 5 milhões de Judeus, mas depois de ler «Maus» consegui ver a segunda guerra, o nazismo e a matança de Judeus de uma forma muito íntima que relata não somente a parte de análise histórica mas também a partir do mais profundo conhecimento, a p ´ ratica. Art mostra os dramas vividos por seus pais desde o início do poder de Hitler, passa por a ocupação da Polônia e mostra as atrocidades do campo de concentração em Auschwitz. Spiegelman, ganhador do prêmio Pulitzer, ilustra também um pouco de sua própria história e de maneira corajosa expõe todas suas angústias e seu relacionamento difícil com o pai. Para ilustrar algo tão pessoal, ele utiliza elementos gerais de rápida associação coletiva. Seus personagens são bixos. Os judeus como aqueles que são submetidos a situações degradantes, em lugares obscuros e imundos, os ratos. Os nazistas, como aqueles que caçam, os gatos. Talvez não fosse a intenção mas foi uma bela homenagem à linda história de amor de seus pais, Vladek e Anja, desde o casamento, em 14 de fevereiro de 1937, na bela mansão do sogro capitalista dono de fábrica em Sosnowiec, na Polônia, até o auge da perseguição, que é a captura e o campo de concentração e extermínio em Auschwitz. Em a segunda parte " Aqui meus problemas começaram. De Mauschwitz às Catskill e mais adiante " que tem mais 5 quadrinhos: Mauschwitz, Auschwitz (o tempo voa), ...e aqui meus problemas começaram, salvo e a segunda lua-de-mel. Art também desenha os momentos em que passa entrevistando seu pai. Art é Artie. Quando Mala, a segunda mulher de Vladek, vai embora, Artie, têm que passar uma semana no chalé do velho Vladek." nesse momento que o autor tem um choque com sua própria realidade e afloram variadas emoções a partir de todo conflito com seu pai. Vladek conta para seu filho todos horrores." a parte mais nebulosa da história, é a carnificina, o gás zyklon B, os fornos, as covas, os corpos empilhados, Auschwitz. Vladek vai para um lado, Anja vai para o outro. Cada dia é um dia de sobrevivência. Vladek ensina inglês para um «Kapo» durante a quarentena, carrega pedras, trabalha como funileiro, sapateiro, e só reencontra Anja em Sosnowiec no fim da guerra em setembro de 1945. As ilustrações de Spiegelman são em preto e branco. Uma é a total ausência de cor, a outra são todas as cores. Uma completa a outra. Perfeito para contrapor a concepção racial de Hitler. E o que fica é o aprendizado de que alma não tem cor e que o amor salva. Número de frases: 35 Confira a entrevista que o Arnaldo Antunes concedeu ao jornal A Gazeta (Santo) em março de 2007, sobre o disco «Qualquer». Por Vitor Lopes Quando você compõe, se sente desafiado por a língua portuguesa? Em qualquer língua que você trabalhe há esse embate das possibilidades e existe esse desejo de explorar os limites da linguagem. E aquilo que você pode fazer com as palavras e a sintaxe é sempre um desafio. É sempre prazeroso usar materialmente a língua como algo que vai potencializar sensações ou alterações de consciência em quem lê. Isso é um trabalho muito material, quase um constante corpo-a-corpo com a língua portuguesa. Seja pra fazer poesia escrita ou pra fazer canções. A língua te traz mais interrogações ou soluções? (Pensativo). Eu não sei dizer. As duas coisas, na verdade. Você acaba usando as virtualidades do repertório que você tem a favor de uma criação. É como se ali tivesse soluções adormecidas e latentes que você potencializa. É difícil dizer. Você chega a pesquisar a origem da língua? Eu não sou um pesquisador acadêmico, não faço um trabalho constante de estudo etimológico. Mas eu sou um interessado (risos). Geralmente quando eu estou fazendo um trabalho, consulto os dicionários; o dicionário analógico, que te dá um campo semântico das palavras, de todas as palavras afins. Adoro o dicionário de rima, o próprio Aurélio, o dicionário da língua portuguesa. Gosto do dicionário etimológico, saber as origens das palavras. Essa rede de relações que a língua oferece, eu sou interessado. É mais em prol da minha produção, quando estou com desejo de expressar uma coisa, recorro a esse arcabouço. Você tem quantos dicionários em casa? Eu tenho vários, sem contar os de outras línguas, espanhol, inglês, tenho dois de rima, sinônimo e antônimos, um etimológico, um dicionário da língua portuguesa, que é o Aurélio, que tenho em versão digital, dentro do computador, e o dicionário analógico, que é o meu mais querido, um grande auxilio. ( risos). Muitas vezes dá vontade de ficar só lendo. É um objeto de consulta. Eu acabo lendo e fico viajando em ele. Você escreve em algum outro idioma? Algum te dá esse mesmo prazer? Eu não domino bem outros idiomas a ponto de criar em outras línguas. Isso não acontece. Eu quebro um galho para falar nas viagens, mas fica por aí. Mas tem interesse maior por outra língua? Não me vejo escrevendo em outra língua. Eu tenho um certo bloqueio nessa coisa de línguas. Sempre estranho. Já tentei fazer algumas investidas, mas nada muito certo. O que eu já fiz foi versões traduzidas, versões de canções em inglês, em espanhol, mas é esporádico. E o que eu faço é quando tem uma tradução. Por exemplo: foi feita agora uma antologia de poemas meu que vai sair na Argentina e eu acompanho a tradução. Coloco questões para os tradutores, procuro achar soluções conjuntamente. Eu, realmente, partir de outra língua para a criação ... Quem sabe um dia quando eu dominar bem essas outras línguas, se eu chegar a dominar, pode ter esse desejo. Você conseguir um ponto de chegada em outra língua com a mesma inventidade deve ser um desafio e tanto. Você costuma ler livros nas línguas originais? Pouca coisa. Em espanhol leio bem. Em inglês eu não tenho tanto conhecimento. às vezes dou uma olhada, comparando as traduções, mas em espanhol sim. Você tem retorno dos estudos acadêmicos que fazem da sua obra? Tenho. Recebo teses, textos, ensaios, me interesso, leio, comento com os autores. Esse movimento existe. É sempre um prazer ter um retorno do próprio trabalho. Quando eu estava no colégio, a maior parte dos autores que eu estudava na aula de literatura já tinha morrido. Você saber que seu trabalho está sendo usado na sala de aula, seja no primário, no secundário, na universidade, isso traz uma satisfação muito grande, porque é um reconhecimento gratificante, é um sinal de que o ensino está mudando e que as pessoas estão tentando acompanhar a produção contemporânea. É um bom sintoma. Esses trabalhos acadêmicos ajudam a você entender a sua própria obra? Algumas coisas eu discordo, às vezes aponto falhas e às vezes me trazem revelações de coisas que eu nem mesmo tinha me dado conta, mas que estavam ali de certa forma presentes, que eu não tinha nem feito conscientemente. Algumas relações que as pessoas descobrem ali são surpreendentes. E quando isso acontece é um prazer (risos). Como nasce uma obra sua? Como decide se uma idéia vira música poesia, arte digital ...? Existe esse território da palavra que tudo que eu produzo envolve o trabalho com palavra, seja ela com o código musical pra virar uma canção, seja ela com algum aspecto visual que transforme aquilo num vídeo, num cartaz, enfim, num poema visual. Eu acho que a palavra é como um porto seguro de onde me aventuro para outras linguagens. O trânsito entre essas linguagens acaba sendo fluente por a própria presença da palavra poética em tudo que faço. Mas geralmente ao fazer, no processo de feitura, eu já sei o estilo que aquilo vai ter, se é pra ser cantado ou se é uma página. Quando é uma idéia visual muitas vezes já vem. Isso não quer dizer que seja sempre assim. Muitas coisas que fiz originalmente como texto foram musicadas mais tarde por mim mesmo ou por outras pessoas e acabaram virando canções. Ou às vezes faço uma canção e descubro um jogo visual ou uma forma gráfica que ressalte outro aspecto daquela letra e aquilo acaba virando um poema visual. Mas de uma maneira geral, as coisas já vêm um pouco encaminhadas, eu já prevejo se é pra ser cantado, lido, algo que passe com movimento, com cor. O mesmo Arnaldo Antunes da poesia é o mesmo da música? O jeito de compor é diferente do outro? Claro. A adequação ao meio é essencial. No caso da palavra cantada, ela está intrínseca ligada aos aspectos melódicos do ritmo, como você vai dividir na cadência musical, a maneira expressiva da voz. Tudo isso tem de estar adequado a essas questões e é diferente de você apenas ler. Muitas vezes você pode ter um poema maravilhoso, mas se for musicado inadequadamente vai ficar uma canção franca. Você tem um desprendimento fácil da sua escrita para os outros musicarem? Acontece muito processo diferente. Alguém dá uma letra e alguém musica, às vezes põe a letra na música de uma pessoa que já tem uma melodia criada, às vezes crio a letra estimulado por aquela melodia. Eu tenho um certo desprendimento, eu não tenho esse preciosismo do que eu escrevi eu tenho de musicar, não. Eu tenho muitos parceiros, gosto desse embate criativo com outras pessoas. Isso traz questões novas. Acabo fazendo coisas que sozinho não faria. Isso estimula. Em o disco novo você regrava algumas músicas, como ' Eu Não Sou da Sua Rua ` e ' Acabou Chorare '. Qual o motivo de regravar uma música? Eu sempre escolho o repertório de cada disco dependendo do tipo de sonoridade que estou buscando. E esse disco tem uma característica muito própria, marcante. O fato de não ter bateria, percussão ... Queria fazer um disco com sonoridade mais leve, com cordas e pianos. E vi nisso uma oportunidade de reler algumas coisas, minhas ou não. Eu queria dar informações novas, uma versão pessoal daquilo, como «Eu Não Sou da Sua» «Rua, Lua Vermelha «e» As Coisas». E eu nunca tinha pensado em regravar, inclusive, porque as originais, uma por a Marisa Monte, outra por a Maria Bethânia e outra por o Caetano Veloso e Gilberto Gil no disco Tropicália 2, já tinham sido muito bem gravadas. Mas o desejo de gravar veio muito em função da formação desse disco novo, do tipo de repertório que eu fui descobrindo. Eu gosto de reinterpretar canções já gravadas quando vejo uma possibilidade de inserir um novo olhar nessas canções, alguma informação nova que de certa forma revitaliza a musica, traga uma novidade mesmo. O «Acabou Chorare» aparece por que? Eu sempre fui fã dos Novos Baianos, sei as musicas de cor, ia muito aos shows nos anos ' 60 quando era adolescentes. Sempre tive desejo de regravar alguma coisa daquele repertório, mas não tinha pintado ainda um contexto que justificasse. De essa vez eu acho que ficou muito próximo do que eu estava buscando como som e o tipo de canção que eu queria gravar nesse disco. E claro que o desejo de gravar veio com um certo receio por admirar muito a versão original. Mas daí o Dadi, que participou da gravação original, me encorajou a fazer a versão. Ficou bem bacana e suficientemente diferente para que eu incluísse no disco. Porque eu imagino ser difícil se desprender de uma canção cuja melodia já está consagrada há 30 anos Pois é. Muitas canções dos Novos Baianos já foram regravadas posteriormente, por a " Marisa Monte. «Acabou Chorare», eu não conhecia nenhuma regração. E eu achei bacana por causa disso. O disco é uma fuga do experimental, é mais silencioso. Isso surgiu antes ou durante o processo? Foi uma escolha prévia. Eu quis fazer um disco que evidenciava as canções e também que propiciasse arranjos que tornassem o contexto favorável para cantar nessa tonalidade mais grave, que é um tipo de canto que vem ocupando cada vez mais espaço nos meus discos desde o «Paradeiro», no Tribalistas e no» Saiba», eu venho explorando essa região mais grave da minha voz, onde eu me sinto muito confortável, mas que não se compatibiliza com o arranjo mais pesado, em que você tem de ter mais volume de voz, tem de impôr uma postura mais errada. É naturalmente um timbre que eu já tenho menos volume de voz, em que eu passo uma interpretação menos impostada, mais natural e tudo isso. Esse desejo de fazer um disco sem percussão e bateria tem muito a ver com o desejo de cantar cada vez mais nessa região, nesse tipo de interpretação mais intimista, mais natural, mais confortável mesmo para minha voz. Em a verdade é um tom mais próximo da minha voz naturalmente. Mas não parece que há um abandono da percussão, pois elas aparecem na sua voz e nos outros instrumentos E você tem ali elementos percussivos na batida do dedo na corda do violão. Em a percussão do canto. Você não deixa de ter percussão. Eu tive essa dúvida durante o processo, mas depois que o disco ficou pronto, acho que ficou bacana e não senti falta. Inclusive quando eu escutei o disco com o Carlinhos Brown ele disse: «é, realmente, está ótimo, não precisa de percussão, está tudo aí» ... ( risos) Se o Carlinhos Brown disse isso ... (Risos) O Carlinhos falando isso eu fico mais aliviado em relação a essa dúvida. Você falou da forma da canção. É um momento de experimentar menos? Eu não acho que a canção foi embora para poder voltar. Ela continua atual. O que acontece é que a gente tem um repertório maior de recurso para renovar a forma da canção. A música eletrônica oferece as possibilidades de editar sons ... Você tem tecnologicamente novas situações de criação que a criação da canção acaba fazendo uso a favor, usando esse repertório a favor da criação. Não acho que haja uma crise. Muita gente fala em crise apontando o hip-hop e o rap que são músicas mais faladas. Mas você tem ali um uso da musicalidade da fala que é próprio da arte da canção. Pensando em Brasil, desde os sambas dos anos 20, você tem o samba de breque, tem o Noel Rosa que usava inflexões na fala, na maneira de entoar a letra. Eu acho que isso faz parte da natureza da canção Para o disco você chegou a compor algo em digital? Esse disco foi gravado ao vivo em estúdio, com todos os músicos gravando disco. Tem essa valorização dessa espontaneidade de uma criação conjunta. Não teve muita edição. É como se fosse um registro de uma execução ao vivo. Em outros discos eu acabo usando bastante. Como será o show em Vitória? Tem essa novidade da sanfona, que é um timbre que não tem no disco. Eu rearranjei algumas músicas do meu repertório, como «Socorro»,» Silêncio «e» Saiba». Algumas de elas a gente não só rearranjou, mas algumas eu mudei o tom da música para poder interrpetar adequadamente a esse contexto. Refaço, «Não Vou me Adaptar»,» Pulso», coisas do Titãs. Acabo abrangendo um leque maior que o disco novo, mas o que dá direção é o disco novo. O disco novo inaugura um tipo de som, de interpretação que eu quis trazer pra esse formato. Isso pode ser uma linha para os próximos trabalhos? Você quer investigar mais isso? Eu não entendo nunca um disco que fiz como um ponto de chegada. Realmente, sinceramente, eu não sei o que vou fazer no próximo disco (risos). Eu estou adorando cantar nesse show e isso tem a ver com uma conquista nesse disco e nesse show. Cada disco tem sempre uma novidade e acabo tendo novidades de fazer algo novo a cada trabalho. Não dá pra dizer que eu cheguei num formato que eu vá seguir, ou algo assim. Eles não são conceitos fechados. Como está a vida na Biscoito Fino, uma gravadora menor? Em a verdade, o disco é uma parceria que foi lançado por o meu selo, o Rosa Celeste. O último disco, «Saiba», era em parceria com a Sony-BMG, minha gravadora anteriormente. A indústria fonográfica está vivendo uma crise séria por a própria pirataria, mas também por a possibilidade de baixar música na Internet. O repertório digital trouxe questões sérias para a indústria fonográfica. E eu estou gostando de estar num selo menor, porque me dá uma atenção maior, por não ter um casting muito amplo. Você chega a baixar coisas? Eu não tenho tempo, demora muito baixar na Internet. Eu acho complicado ficar na Internet. Eu gosto de ir em loja de disco. Eu sinto uma certa pena das lojas de discos estarem fechando. Acho um programa bacana comprar um disco por a capa, sem conhecer. Eu tenho esse apego. Não creio que o suporte de disco irá acabar, mas o mercado deu uma contraída muito agressiva. Número de frases: 175 Jovens do projeto Nós na Tela superam limites e produzem vídeos em duas semanas de curso de audiovisual * Juliana Cordeiro Durante a semana de 21/01 a 31/01, adolescentes com idades entre 12 e 17 anos participaram de oficinas de audiovisual realizadas na Casa da Videira, localizada na Vila Fanny, em Curitiba. O objetivo da atividade era a produção de dois mini-documentários, em que os temas foram definidos por os participantes. Os jovens tiveram a oportunidade de trabalhar em equipe, fotografar, fazer roteiros, gravar e editar vídeo, além de aprenderem a lidar com o público durante a realização de entrevistas. Divididos em dois grupos de cinco jovens, os participantes foram às ruas do centro de Curitiba para perguntar quem é a pessoa mais importante na vida dos entrevistados e o que poderiam fazer para aproveitar melhor sua vida. Os dois documentários têm duração de um minuto e quarenta e cinco segundos cada e foram baseados nessas perguntas. A terceira produção dos adolescentes foi um Making-off, que mostra a dificuldade em se entrevistar as pessoas. Relato de uma jovem documentarista Thais Cristina da Silva Crescêncio, 15 anos. As oficinas eram interativas e mexiam com a nossa imaginação. Em o início dos nossos encontros líamos o diário de bordo, onde contávamos o que fizemos e o que gostamos na oficina do dia anterior. Trabalhamos durante quatro dias sem divisão de grupos. Já no quinto dia de atividades fomos separados em dois grupos de cinco pessoas e começamos a preparar os nossos roteiros. O meu grupo fez um roteiro baseando na pergunta: Como você poderia aproveitar melhor sua vida? O nosso objetivo era retratar a vida de milhares de pessoas que se ocupam tanto com trabalho e acabam esquecendo da família e do lazer -- que são tão importantes quanto o dinheiro e o trabalho. As respostas nos surpreenderam e fizeram com que o nosso documentário pudesse ser interativo e ao mesmo tempo causar uma reflexão nas pessoas que o assistem. Já o segundo grupo trabalhou o tema Quem era a pessoa mais importante na sua vida? Foi muito difícil se adaptar a um vídeo de um minuto e quarenta e cinco segundos, pois fizemos uma filmagem de quarenta e cinco minutos e tivemos de reduzir a menos de 2 minutos. A proposta do vídeo tinha que ser clara e objetiva. Depois de editados, os documentários superaram as expectativas de todo o grupo. Todos ficaram satisfeitos e felizes por participar do projeto. Diário de bordo de produção do documentário: na voz de um jovem Jonas Henrique Saddock de Sá, 15 anos. Meu nome é Jonas. Participei do projeto Nós na Tela por meio da Ciranda, que me indicou para participar do curso. Vou falar um pouco sobre o que aprendi no curso e o que fiz nos dias em que eu estava lá. Em o 1º dia: Em a terça-feira o professor Dago apresentou todo o pessoal do curso, professores e alunos. O tema de foi Fotografia: como tirar uma boa foto? Aprendi que precisa ter uma quantidade certa de luz, um tempo certo para tirar a foto. A palavra fotografia significa escrever com luz, que é você interpretar o que vê. Foto = luz, grafia = escrever. 2º dia: O professor Dago apresentou um vídeo para os alunos sobre o que é o Nós na Tela, achei muito legal. Depois, o professor Willian falou um pouco sobre figuras simétricas e não simétricas e explicou que tudo tem uma forma, um cheiro, um pouco de tudo. 3 º dia: Tivemos uma noção básica do que é roteiro, vimos um roteiro do filme Esta não é sua vida e logo começamos a planejar nossos roteiros. Começamos a ter idéias loucas, que depois de um tempo começaram a ser produtivas, foi então que decidimos o que fazer. 4º dia: Em a sexta apresentamos o nosso roteiro, em que estava previsto entrevistarmos várias pessoas a partir da pergunta: «você acha que já ouviu de tudo nessa vida?». Em o sábado nós iríamos começar a filmar. O local seria a Rua XV, na Boca Maldita. 5º dia: Arrumamos os equipamentos e saímos para entrevistar as pessoas. Isso foi uma guerra, uma experiência nova. Muitas pessoas se recusaram, a desculpa era que estavam atrasadas para o trabalho, outras com vergonha, mas o pior de tudo é que umas pessoas nos tratavam mal. Chegávamos com educação e o pessoal esculachava, mas até o final foi muito engraçado. Todos ficamos muito felizes com o resultado e com o que tínhamos gravado, daria para fazer um vídeo bem legal. 6º dia: Segunda-feira. Começamos a editar o vídeo. Como um dos integrantes da equipe não estava com nós, começamos editando um «erros de gravação». Ficou bem legal. Todos nós demos muita risada e aprendemos a editar um pouco. 7º dia: Começamos a editar o nosso vídeo. Fizemos algumas modificações no que estava previsto e ficou bem legal. Eu quero agradecer a equipe da Ciranda e da Casa da Videira por terem me dado essa oportunidade, pois aprendi não só de como se faz um filme, mas também como analisar, ter um olhar mais crítico das coisas que vejo e vivo no dia-a-dia. O projeto Nós na Tela O coordenador do projeto Nós na Tela, Dagoberto Ludwig Schelin, nos contou um pouco mais do projeto: «A idéia de fazer esse projeto surgiu quando eu e o Cláudio Olivier, diretor da Casa da Videira, observamos que adolescentes brincavam de fazer vídeo, com equipamentos velhos que acharam no depósito da Casa da Videira. O projeto iniciou no segundo semestre de 2006, com adolescentes do bairro Vila Fanny e tinha como parceiros a PUCPR e TV Lúmen. Em 2007, o Canal Futura entrou como parceiro também e hoje o projeto acontece por a terceira vez. Fazer projetos com jovens é uma mão dupla, pois o jovem ganha por estar aprendendo uma arte e os facilitadores que com eles atuam aprendem a viver e a continuar a sonhar. Foram superadas as expectativas porque eu não esperava ter um grupo tão fácil de trabalhar, tinham me falado que teria participantes com 12 anos de idade e isso me fez achar que teria mais dificuldade, mas acabou se tornando mais fácil». Lançamento dos vídeos Em a noite do dia 30/01, jovens, pais e parceiros da Casa da Videira participaram do lançamento dos vídeos produzidos por os adolescentes. Como uma cerimônia de graduação, os participantes do curso ganharam copias dos vídeos e relataram a experiência de pensar, planejar e realizar um documentário. Continuidade das atividades com os jovens As atividades deste ano do Nós na Tela reiniciam em março deste ano e serão realizadas duas vezes por semana, com duração de três meses. Serão 15 jovens, indicados por parceiros, selecionados em escolas e que participaram da última edição do projeto. Mais informações sobre o projeto ou sobre a Casa Videira por o telefone (41) 3016-9609. * Eu sou Juliana Cristina Cordeiro tenho 16 anos, participei do projeto Nós na Tela e vou participar provavelmente da próxima edição. Participei também do projeto Luz, Câmera ... Paz! na Escola, em 2006. Número de frases: 78 Tradição portuguesa trazida por navio para o pedacinho de terra perdido no mar, é isso mesmo, a procissão do Senhor dos Passos é uma manifestação litúrgica da cultura portuguesa mais precisamente açoriana inserida na cultura ilhéu de Florianópolis. A procissão do Senhor dos Passos representa o caminho sofrido de Jesus em seus últimos minutos de vida, sua crucificação, a morte e sua ressurreição. Essa manifestação era feita em Portugal entre o século XIV e XVIII na última quinta feira santa da quaresma. A imagem usada por os fiéis na procissão de Florianópolis tem uma história incrível, diz os fiéis que a imagem do Senhor dos Passos, feita na Bahia por Francisco Chagas tinha como destino a Barra do Rio Grande do Sul, mas quando o navio que trazia a imagem chegou à altura de Desterro (atual Florianópolis) os tripulantes da embarcação foram surpreendidos por uma tempestade com isso adiaram a viagem, mas tentaram seguir a viagem nos dias seguintes tentaram ao todo três vezes, mas nas tentativas a tempestade impediu que eles seguissem a viagem com a imagem junta como sendo esse o desejo da imagem os marinheiros deixaram a imagem em Desterro com esse ato o navio pode prosseguir a sua viagem. A imagem do Senhor dos Passos foi esculpida por Francisco Chagas na madeira em tamanho natural, seus olhos são de vidros e se moviam dando a sensação de quem estivesse olhando que a imagem observava quem acompanhava a procissão nas em virtude dos acidentes que isso causava entre fiéis como desmaios e até mesmo infartos historiadores fixaram seus olhos, seus cabelos são naturais e suas vestes de tecido natural, a imagem ainda possui partes em seu corpo que são articuláveis como o joelho. A procissão do Senhor dos Passos foi feita pela primeira vez dois anos depois da sua chegada em Desterra em 1766 por os açorianos e até hoje essa tradição é mantida por a Irmandade do Senhor Jesus dos Passos que está localizada no Hospital de Caridade no centro de Florianópolis. Os momentos mais importantes da procissão são a lavação, a transladação e a procissão sendo a lavação feita por duas crianças menores de seis anos. A procissão acontece no Domingo à noite à imagem é levada da Catedral até à capela do menino Deus representando nesse trajeto todo o calvário que Jesus sofreu na paixão por as ruas de Florianópolis. A procissão é realizada na Quinta-Feira Santa sendo nesse dia a descida da imagem da capela menino Deus e levada até a Catedral metropolitana de Florianópolis. Quintas-Feiras da semana anterior ao Domingo de Ramos a imagem desse junto com a imagem da Nossa Senhora das Dores. O momento de maior número de fiéis é na a saída da imagem da Catedral metropolitana de Florianópolis e o destino final e a capela do menino Deus localizado no Hospital de Caridade em Florianópolis no Domingo. Número de frases: 11 Autoramas detonando no Calango em sua terceira edição. Uma gurizada atrevida, em 2001, meteu caras, corações e muita coragem quando resolveu fazer um festival próprio para as muitas bandas que surgiam nas garagens da capital matogrossense. Vinham com muitas idéias fervilhando e um forte intuito de fortalecer a cena musical alternativa de Mato Grosso. Cheios de energia lançaram uma semente que encontrou terreno fértil para o crescimento. Ousadia e percepção de momento dos caras marcaram esse início. Fervilhava um movimento crescente-emergente em vários Estados brasileiros de uma cena musical identificada como indie, alternativa, independente, a exemplo de outros países. Pipocavam bandas pra todo lado marcando mais uma virada na história do rock. Brasília com o Porão do Rock, Goiânia chamando a atenção da mídia nacional com a afirmação de um selo forte, a Monstro Discos, que logo se transformou em referência para todo o país. Com propostas de criar novas formas de distribuição, visão de mercado, ações planejadas e contínuas, seduziu milhares de jovens. Bananada, Goiânia Noise, Porão do Rock (com uma estrutura que se agigantou) mostravam que o Centro-Oeste brasileiro estava abrindo novos caminhos para um movimento que não parou de crescer e continua contagiando outras geografias. Hoje já são cerca de vinte festivais no país. O primeiro festival Calango contou com a participação de 10 bandas de Mato Grosso e lembro que ao chegar no Centro de Eventos do Pantanal fiquei chocado com o tamanho da aventura que aqueles meninos estavam empreendendo. Filas enormes, público jovem e bonito com suas roupas típicas, piercings, tatuagens, não pude deixar de admirar aquela pequena massa de quase 3000 pessoas dançando, pulando e delirando aos primeiros acordes que abriam novos caminhos na história musical de Mato Grosso. A expectativa se concretizava de forma fabulosa. Eram muitos os sonhos. Não pude deixar de me emocionar ao ver que a coisa era definitiva por aqui. Não tinha mais volta. O movimento a partir daquele momento se consolidou. Foi um longo tempo germinando por aqui, desde a década de 80, quando se iniciou uma história cultural com características mais urbanas, quase vinte anos de um rock vigoroso buscando conquistar espaços, ora mais forte, ora mais frágil. Acreditávamos que num momento a coisa viraria, se tornaria forte e auto-sustentável. Talvez esteja um pouco longe ainda de gerar um mercado próprio, o apoio do Estado, através da Lei de Incentivo à Cultura, ainda é fundamental, mas as raízes se espalharam, novos grupos estão surgindo, é um movimento que, com certeza, não pára mais. Os números do Calango mostram uma evolução surpreendente: veja só, em 2001 contabilizou um público de 2.900 pessoas, de cara o maior público de um evento musical local nesse segmento; em 2003 o festival bateu seu próprio recorde com um público de 6.000 pessoas. Em 2003, os integrantes do Espaço Cubo, liderados por Pablo Capilé, partiram para a segunda edição do Calango, ampliando a estrutura, mudando de lugar após terem constatado problemas de transporte no Centro de Eventos do Pantanal. Conseguiram realizar o segundo festival nos estacionamentos da UFMT, um lugar que já tinha tradição em eventos culturais, espaço livre e amplo, muito mais adequado para o deslocamento das pessoas. Ampliaram a estrutura, montaram dois palcos, as bandas tocaram sucessivamente, sem pausa, agora em número de 22. O Calango, nesse ano, conseguiu chamar a atenção da cena nacional. Era a consolidação de um movimento que o Espaço Cubo iniciara dois anos antes e que após uma avaliação percebeu a necessidade de ações intermediárias de fomento para o fortalecimento de uma cena efetiva. Não bastava realizar um festival. Perceberam a necessidade de agir de maneira mais sistemática envolvendo outras atividades. Ouviram com atenção a avaliação de um olheiro que trouxeram em 2001, quando ainda acreditavam num modelo que vinha sendo superado, o de conseguir emplacar algum trabalho através de corporações já consolidadas. Tadeu Valério, da Paradox Music foi taxativo: «O festival é grandioso, mas ainda não existe cena e ele acaba se tornando uma ação isolada!" Pablo Capilé afirma que 2003 foi o ano que deu visibilidade ao festival: «Ali iniciou a ligação do Festival Calango com o circuito nacional, pois numa das nossas ações intermediárias, além das já criadas em 2001, como o concurso de redação, bandas nas escolas e pré-evento, trouxemos organizadores de outros Estados para assistir e discutir o fortalecimento do Centro-Oeste. Em aquele momento, mais amadurecidos, decidimos por a participação de produtores da região do Centro-Oeste, e de selos e festivais independentes." Mas Cuiabá, há anos, já se movia de forma silenciosa, aliás, abafada por as paredes das garagens que nunca se calaram. O terreno era fértil e as ações do Espaço Cubo tiveram grande importância para o desenvolvimento de uma cena rock que se expandia. A história contabiliza vários movimentos importantes que aconteceram em Cuiabá e continuam a acontecer com outros grupos. O Festival Calango é parte de um movimento cultural urbano mais amplo que vem acontecendo aqui. 2005, com a realização do terceiro evento, foi o ano definitivo da inserção do Calango entre os festivais que conquistaram visibilidade nacional. Ousadia e muita determinação foram as marcas desse evento que paralisou Cuiabá em seus três dias de duração. Com a criação da Cidade das Artes, fruto da parceria com A Fabrika e a Samba de All Stars, duas outras frentes de atuação cultural, ampliou as ações com oficinas, debates, mostra audiovisual, atividades literárias, pista de skate, oficina de hip hop e a participação de 45 bandas. Músicos de Mato Grosso e de vários estados brasileiros, representantes legítimos do que havia de melhor despontando na cena nacional: Zeferina Bomba, Pata de Elefante, Forgotten Boys, Autoramas, MQN, Vanguart, Ecos Falsos, Daniel Beleza e os Corações em Fúria, Irmãos Rocha, Fuzzly, Caximir, Macaco Bong e uma porrada de outras. Média de 5.000 pessoas por dia, shows arrebatadores, mídia local presente com tvs, jornais impressos, rádios, foi uma mobilização marcante para a história local. O Festival Calango se tornou o maior evento cultural alternativo de Mato Grosso. Algumas iniciativas paralelas foram fundamentais para esse crescimento. Abriram vários palcos por os bairros da cidade com apresentações classificatórias para o Festival principal, gerando público, provocando novas demandas. Prévios Calangos no CPA, Coophema, Mercado do Peixe no Porto, para selecionar bandas iniciantes que não dispunham de músicas gravadas. Foram várias ações estratégicas e certeiras pois foi criando um clima muito legal elevando as expectativas para o Festival principal. Cuiabá surpreende cada vez mais com esse segmento que mostra ter fôlego para se afirmar como uma das grandes forças da expressão cultural da região. Vem aí, dias 18, 19 e 20 de agosto, o quarto Festival Calango. É esperar pra ver. A programação completa você pode conferir no blog do Espaço Cubo. Número de frases: 57 Fiz uma busca no overmundo e não acreditei quando este evento não foi encontrado! Achei muito interessante a proposta e mix de cultura e diversão que o evento oferece, fica aqui a dica! De 13 de agosto a 9 de setembro o File -- Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, promove sua oitava edição na Galeria de Arte do SESI, com instalações, performances, screenings, documentários e palestras com artistas e intelectuais de 30 países. O File, com entrada franca, promove um dos maiores eventos do gênero no Brasil, exibindo o que há de mais atual na recente produção de Arte & Tecnologia mundial. File Media ART A arte das mídias caminha por os browsers, transforma os softwares, cria sistemas de criatividade eletrônica, imaterial e interativa. Com grande enfoque na arte de tornar a internet um ambiente artisticamente maleável, a categoria Media Art apresenta mais de 200 trabalhos que transitam em bytes de originalidade. Hipersônica Participantes A geração de artistas que vivenciam a Internet e platafornas digitais como ambientes próprios para a criação também inclui músicos, sound designers, compositores e outros criadores das artes sonoras. O mundo do som reverbera cada vez mais por as mídias interativas na nova categoria do Hipersônica. Performances Qual é o papel da música numa cultura cada vez mais tecnológica? Qual é a nova plasticidade que a música eletrônica oferece aos ouvidos? O Hipersônica lança as bases deste debate com novos e conhecidos talentos da música experimental mundial, de 14 a 17 de agosto. Instalações Andar, falar, pular, escrever, mover, sentir são algumas maneiras de interagir com a gama de instalações desta edição. A instalação eletrônica não só propicia um contato corporal com a obra, como retransmite, retransporta e reprocessa imagens e sonoridades no espaço e no tempo. Screening O Hipersônica Screening é a nova categoria do File que exibe obras audiovisuais que utilizam meios digitais de produção, como visual-music, animações e videoclipes. Entre as performances do Hipersônica, no auditório do SESI, a platéia poderá assistir à seleção de Screenings do Hipersônica 2007. Symposium Para analisar os sintomas das relações mais diversas entre tecnologia, sociedade e indivíduo, estudiosos, intelectuais e artistas discutem a cultura digital em todas as suas facetas no File Symposium. De 14 a 17 de agosto no Mezanino do SESI, o File promove 34 palestras com o conteúdo teórico e técnico da edição 2007. Games A game-art é a produção artística em jogos eletrônicos que trabalha conceitos e visões dentro de um ambiente de entretenimento interativo e lúdico. O File Games 2007 exibe jogos que promovem diversão sob uma ótica diferenciada, nas mais variadas linguagens de artistas nacionais e internacionais. Cinema Interativo O (ex) espectador torna-se atuante e decide o destino das personagens e do enredo dos filmes, no File Cinema Interativo 2007. Transformar a narrativa, recriar o tempo, unir pessoas são algumas das novas possibilidades do cinema mediado por a tecnologia. Destaques Instalações Alexa Wright Andrew Johnson & David Tinapple Bjørn Wangen Chris Sugrue Daniel Palacios Jimenez Rafael Beznos Ernesto Klar Helen-Nicole Kostis Interactive Sonic Systems (Günter Geiger, Marcos Alonso, Martin Kaltenbrunner, Sergi Jordà) Jay Yan Julie Freeman Karolina Sobecka Kenji Ko Leonardo Solaas Marcio Ambrósio Markus Kison Paula Gaetano Adi Paula Perissinotto Sci-arts Silvano Galliani & Eleonora Oreggia (xname & kysucix) Susigames (Gutleber, Hawranke, Kai Welke, Ole Ciliox, Vahrenkamp) Thais Stocklos Mais informações em: Número de frases: 43 www.file.org.br Brasileiros no Japão organizam, no exílio, torcidas para seus times de coração Em o Brasil, domingo é dia sagrado. Quem é de reza, vai para a igreja. Quem é de bola, para o futebol. De manhã, a famosa pelada. à tarde, é ver o time de futebol do coração arrebentar no campo. Roupa para a ocasião? É especial: a camisa oficial, o chamado «manto sagrado» que representa não apenas o amor por a equipe, mas o pertencimento a um grupo exclusivo, formado por gente que teve a sorte de amar o melhor time de todos. Quando a coisa vai mal, o coração sofre, bate mais forte. Aliás, no futebol, a relação nem sempre é de amor. Se o time do coração anda mal das pernas, vale xingar o jogador e os dirigentes. Em o campo, são os 11 que correm. Porém, dizem que a torcida é como um décimo-segundo jogador, capaz até de influenciar num resultado. Fora do estádio, pensar no time também é parte da rotina. Ler as notícias nos jornais e na internet, comentar com os colegas de trabalho e nos fóruns virtuais são quase que rituais diários. Não adianta apenas ver o que está rolando em campo, é preciso entender os bastidores, as disputas políticas e tudo o mais que está por trás do espetáculo. Tem que ser bom de contas, entender de tabelas e, de vez em quando, ser um pouco futurologista. Também não é suficiente amar. Sempre que possível, deve-se demonstrar o amor por a camisa. Em casa e na rua, é preciso exibir o escudo e os galardões do time. E, claro, defendê-lo. Nem que para isso seja preciso partir para o confronto, que pode variar de um simples bate-boca até uma verdadeira batalha campal. Em este caso, torcedores organizados acabam se tornando guerreiros e, não raramente, criminosos. Todo este amor e admiração atravessam fronteiras. Em esse texto, você vai ver como é o universo das torcidas organizadas brasileiras no Japão e como os torcedores, mesmo tendo cruzado o mundo, preservam as tradições e o amor incondicional por seus times de coração. Amor que atravessa o oceano Muitos brasileiros aportam no Japão com sonhos nas malas e uma enorme esperança de retorno ao Brasil. Alguns de eles incluem na bagagem a camisa de seu time de futebol preferido. Apesar de muitos de nós não terem a mínima intimidade com a bola, não se pode negar que o futebol é, doa a quem doer, uma paixão nacional. E muita gente aprende a amar o esporte porque, antes de tudo, aprendeu a amar um time. Para muitos, torcer para uma equipe é algo passado de geração em geração. A vinda para o Japão não diminui o interesse dos brasileiros por o futebol. Mesmo com a rotina estafante do trabalho nas fábricas, os dekasseguis (nipo-brasileiros migrantes na Terra do Sol Nascente) acompanham seu time de coração como podem. Por a internet, é possível ler notícias e participar de fóruns. Ninguém fica desinformado. E foi a rede que tornou possível algo que muitos sequer imaginaram quando se mudaram para o cá: formar uma torcida organizada. Partindo de fóruns e comunidades on-line torcedores apaixonados organizaram sub-sedes no Japão de três das maiores torcidas organizadas brasileiras: Gaviões da Fiel (Corinthians), Mancha Verde (Palmeiras) e Torcida Independente (Paulo). E era uma vez a internet ... As origens das três sub-sedes são mais ou menos parecidas. Todas começaram com torcedores que começaram a trocar idéias por a internet, marcaram um encontro e viram surgir o sonho de trazer uma sucursal de sua torcida para o Japão. Porém, como torcida organizada é coisa séria, entre o sonho e a realidade, o processo foi longo. Os membros da Torcida Independente Japão, por exemplo, só se viram reconhecidos como uma sub-sede oficial no final de março, apesar de terem começado a se organizar em 2005, ano em que ofereceram todo seu suporte na campanha em que o São Paulo faturou a taça no Mundial de Clubes. Os gaviões no Japão também tiveram que mostrar muito empenho para provar para a Fiel que eram capazes de representar o Corinthians na Terra do Sol Nascente. Para isso, eles contaram com uma embaixadora no Brasil, Miriam Aiko Yokomizo, que atuou como elo entre os torcedores no Japão e a diretoria no Brasil. A oficialização permite às torcidas não apenas representar seus clubes mas, também, a venda de produtos oficiais dos times bem como o reconhecimento por parte dos torcedores e das diretorias das equipes e, ainda, o direito de organizar eventos comemorativos e beneficentes e cadastrar novos associados. Os diretores locais fazem contatos diretos com as lideranças no Brasil, de quem recebem as instruções e os produtos oficiais que são vendidos no Japão. Redes de amigos As torcidas costumam organizar atividades sazonais para reunir seus membros. São festas, torneios e encontros que ganham contornos especiais quando se vive longe de casa. Enquanto no Brasil, as maiorias das sedes e sub-sedes concentram torcedores de uma mesma cidade ou região, os encontros realizados no Japão atraem gente de todo o país, alguns viajando mais de cinco horas para confraternizar com seus pares. A família Hayakawa é um exemplo. Ricardo Takão, a filha Rebeka e a esposa Graciede viajaram da província de Tochigi até Daito (província de Shizuoka) para participar do encontro da Gaviões da Fiel que ocorreu em março. «Foram cinco horas de viagem», conta ele. A participação nas torcidas amplia a rede social dos torcedores, algo que é uma vantagem para quem vive como imigrante e precisa de contatos para encontrar trabalho em outras regiões, por exemplo. Os encontros também são uma forma de ensinar aos mais novos, principalmente àqueles que nunca foram ao estádio no Brasil, um pouco da cultura do clube. As lideranças sabem que o amor ao time é algo que passa por a educação dos novatos nas coisas próprias de cada equipe, em sua história e, principalmente, em suas glórias. «Mostramos que fazer parte da Gaviões não é moda», conta Cristiano Minoru, um dos membros mais ativos da torcida do Corínthians no Japão. Ele explica que a cada encontro são feitas reuniões com os novos membros para explicar as normas da torcida e para ensinar a cultura da Fiel. Bateria, alegorias e adereços Em os eventos, é possível ver em ação a bateria, uma instituição dentro das torcidas organizadas mais tradicionais. Tanto a Gaviões como a Independente possuem uma bateria com ensaios periódicos agendados. A torcida do Corinthians criou, ainda, a Escolinha de Bateria que se reúne 2 vezes por mês em Hamamatsu (província de Shizuoka) para ensinar as técnicas aos corinthianos interessados. A Mancha tem instrumentos mas, por falta de tempo dos ritmistas, não faz ensaios. As baterias não apenas servem para levantar a torcida na hora dos cantos de guerra nas partidas mas, também, para animar os eventos onde vale a máxima de que tudo acaba em samba. Outro orgulho das torcidas organizadas são as faixas e bandeiras. Em este caso, o quanto maior, melhor. No caso do Japão, onde raramente é possível ver os times do coração jogar, as flâmulas são usadas nos eventos e, em alguns casos, são levadas ao Brasil por algum torcedor para que sejam vistas nos estádios durante algum jogo. Ver a bandeira ou a faixa da torcida numa partida televisionada, por exemplo, pode significar para muitos torcedores a glória de ter sido visto em pessoa na partida. É mostrar para os outros torcedores do Brasil que, mesmo estando longe, quem está no Japão não se esquece do time. «Um membro levou uma faixa nossa e ela apareceu uma vez num jogo», conta Leandro Henrique Pereira Leite da diretoria da Mancha Verde --» Japão. «Ela nos representa. Para a gente que está aqui, isso é bastante coisa», diz ele. Em prol do outro Além das confraternizações, as torcidas organizam eventos e campanhas beneficentes. O objetivo é integrar-se à comunidade local. A Mancha Verde, por exemplo, está engajada na ajuda a uma criança doente. Eles procuram recolher doações entre associados e não-associados para repassar à família da criança. A torcida corinthiana, por seu lado, organiza anualmente um evento onde todos os valores arrecadados são destinados a uma entidade filantrópica. Leandro, da Mancha Verde, afirma que esse tipo de evento é importante para mudar a imagem que as pessoas têm das torcidas organizadas. Aliás, a preocupação com a imagem é algo que passa por os três grupos. Ainda mais quando, recentemente, membros das torcidas Independente e Mancha se estranharam num evento de voleibol em Hamamatsu. Apesar de cada torcida envolvida ter sua versão sobre o que ocorreu naquela noite há alguns meses, seus representantes afirmam que tudo começou no Orkut. O site de relacionamentos atua não apenas como um espaço de conexão entre os membros da mesma torcida como, também, é o palco de muitas celeumas, como a que culminou com o confronto físico entre sãopaulinos e palmeirenses em Hamamatsu. Os líderes das três maiores torcidas do Japão expressam preocupação com a violência e todos garantem que procuram ensinar os torcedores a evitar conflitos. Membros dos dois times afirmaram que, depois do incidente, a vigilância nas comunidades foi redobrada. Mesmo a Gaviões, que se orgulha de não ter participado de nenhum confronto no Japão, tem cuidado com a comunidade do Orkut. O objetivo dos líderes é evitar que provocações entrem nos tópicos de discussão. Eles, também, procuram conversar entre si para evitar confrontos e outros problemas. Leandro Leite da Mancha Verde conta que tem um canal aberto com a liderança da Gaviões. Ele conta que costuma combinar com os rivais para que as torcidas compareçam em eventos em dias ou horários diferentes de modo a não haver problemas. Entre a Gaviões e a Independente também há um diálogo aberto. Joel da Silva Fineza Junior, da diretoria da torcida sãopaulina, afirma que falta que falta estabelecer o mesmo canal com a Mancha Verde. Em o ninho dos Gaviões Somente um total desinformado pagaria essa. «Tira a camisa», dizem. «De camisa verde, não entra», surge outra voz vinda sabe-se de onde. De repente, o repórter está cercado de gente insistente no pedido. Por uma brecha, ele olha um aviso enorme na porta: era proibida a entrada de homens de brinco e de quaisquer um vestindo roupas ... verdes. Alguns minutos de negociação e o repórter tenta usar seu casaco para esconder a blusa verde com a qual ele exibia, orgulhosamente, sua brasilidade. Mas, não cola. Diante da regra (e da superstição), entrar de verde não vale. Alguns minutos mais e, pronto, o repórter, para desespero dos passantes, mostra seus quilinhos mais e atende aos pedidos dos torcedores. Ele está iniciado e, agora sim, é bem-vindo no mundo da torcida Gaviões da Fiel, sucursal japonesa. Não permitir a entrada de pessoas vestidas de verde é parte da tradição da torcida. Verde é a cor do Palmeiras, time que é, talvez, o maior adversário do Corínthians. Mas, o cabelo comprido e o brinco ainda ficam na cabeça do repórter, enquanto ele começa a explorar o ninho dos Gaviões. Como num filme das antigas, tudo é em preto-e-branco. O local do encontro, um restaurante brasileiro na cidade de Kakegawa (província de Shizuoka, região de Tokai), apinhado de gente e todo coberto por bandeiras e faixas que demonstram o amor por o Timão. A maioria é formada por homens jovens. Mesmo assim, mulheres e crianças também marcam presença. Por todos os lados, o que se vê é gente confraternizando, trocando idéias. Amigos que não se vêem há um bom tempo, gente que se fala todo dia por a internet. Prato do dia: a tradicional feijoada. Maurício Okabayashi de 23 anos é um dos fundadores da Gaviões da Fiel -- sub-sede Japão. Ele conta que o primeiro encontro oficial dos Gaviões ocorreu em 2002. «Foram umas 30 pessoas», conta ele. A idéia de formar uma sub-sede já estava presente em alguns membros do grupo inicial. Porém, a empreitada foi árdua até que o grupo conquistasse a confiança da diretoria da primeira torcida organizada independente do Brasil e ganhasse o direito de representa-lá e atuar em seu nome do outro lado do mundo. Maurício conta que, mesmo com toda a dedicação foi necessária a intervenção mais que especial de uma corinthiana apaixonada que se identificou com os «meninos do Japão» e decidiu interceder por eles na diretoria do clube e da Gaviões da Fiel. Miriam Aiko Yokomizo teve seu primeiro contato com os Gaviões do Japão por causa da grafia de uma bandeira feita por os torcedores daqui. Depois deste contato, Miriam foi solicitada a buscar informações sobre os procedimentos para abrir uma sub-sede e, mais que isso, acabou sendo o canal que liga os Gaviões dos dois lados do mundo. O trabalho de Miriam não foi simples. «Tentei por várias vezes, exaustivamente, contato com a diretoria», conta ela que se encantou com a força de vontade dos corinthianos do Japão e, atualmente, é considerada a madrinha torcida. Em 2006, Miriam veio ao país apenas para conhecer a rapaziada da Gaviões. Além disso, ela presta suporte aos corinthianos que vão ao Brasil e querem conhecer a quadra e assistir aos jogos. Apesar do ar do ambiente predominamente «cueca», mulheres também são vistas na imensa quadra em que se transformou o restaurante onde a Gaviões se encontrou naquela clara tarde de domingo. Daiana Saka é uma de elas. Apesar de torcer para o Cortinthians desde o Brasil, a moça de 23 anos se associou à torcida somente no Japão. «Eu queria me associar no Brasil, mas era muito caro para os meus padrões», conta ela que é uma espécie de musa da Gaviões. Outra torcedora bastante popular é dona Renê, chamada de «A Babá da Fiel». Sem revelar a idade, dona Renê esbanja simpatia e energia na hora em que a bateria canta os hinos de guerra do Corinthians. O som certeiro da bateria e a excitação do ambiente corinthiano alivia o repórter depois da entrada pouco amistosa. Mas, não tira de sua cabeça as outras restrições da entrada no evento. Afinal, por que cargas d' água alguém de brinco não pode entrar na festa? Quem explica é " Cristiano Minoru. «A torcida tem 38 anos e foi fundada numa época em que homem de brinco e cabelo comprido era considerado ... Então, nós entendemos que essa proibição faz parte de nossa história», diz ele. Mas, então, como fazem os homens dos dias de hoje que não apenas usam brincos mas outros acessórios que, há 40 anos atrás, eram coisa de mulher? «A pessoa tira o brinco quando entra ou quando vai ao estádio», ensina Minoru. O negócio funciona tão bem que não é difícil ver orelhas furadas aqui e ali na festa. Porém, há outros que assumem postura mais radical. É o caso de Maurício que, simplesmente, desistiu de usar brinco. «Eu ia a tantos eventos do Corinthians que vivia tendo que tirar e colocar o brinco. Um dia, eu acabei perdendo e achei melhor parar de usar», conta o rapaz. Independentes e ... reconhecidos Depois do périplo para visitar os Gaviões, o repórter seguiu para Toyohashi (província de Aichi) onde a Independente fazia a festa para comemorar sua oficialização como sub-sede da maior torcida do São Paulo. De as três grandes torcidas, a Independente foi a única que teve o prazer de ver seu time de futebol ganhar um título internacional em terras japonesas. Aliás, foi a possibilidade de ter o São Paulo jogando por aqui que fez com que os membros da Independente sonhassem com uma sub-sede no Japão. O ano foi 2005 e o São Paulo estava prestes a conquistar uma de suas maiores glórias quando o grupo que se reunia por a internet para discutir os jogos decidiu se reunir. O objetivo era prestar suporte ao time na empreitada que estava por vir. «A gente começou a se organizar por a internet e fizemos um encontro para arranjar a ida aos jogos», conta Joel da Silva Fineza Junior, um dos líderes da Independente -- Japão. A torcida organiza eventos de 3 em 3 meses para confraternização de sócios e simpatizantes do time. Além disso, a diretoria se reúne sempre que necessário para discutir sobre os eventos e outros tópicos. Os independentes sãopaulinos exibem com orgulho a flâmula gigante do time, confeccionada no Brasil. Mas, parece que a menina dos olhos do time é mesmo a bateria. «Quase todos os domingos fazemos ensaios», conta Joel. Lucas Sato, 25 anos, faz parte da torcida desde o começo. «Depois do mundial, nunca mais deixei de comparecer a nenhum evento», conta ele provando o efeito poderoso da vitória do time nas terras japonesas. Lucas é o típico torcedor, daqueles que pensam no time a maior parte do tempo. «O São Paulo faz parte da minha família. Meu dia-a-dia é pensando no time», conta ele que é casado, mas já conquistou a esposa para a torcida. «Mas, ela gosta», defende-se ele. Sato conta que a sua entrada na torcida aumentou sua rede social. «Fizemos muitos amigos. Gente que, se não fosse por a torcida, a gente não iria conhecer», diz ele. Patrícia Midori Massuda é uma das esposas que acompanha o marido na Independente. «Ele fica o tempo todo no telefone falando do São Paulo», entrega ela. Porém, com o tempo, a torcida ganhou um significado para Patrícia. Em os encontros, encontrei muitos amigos», diz a moça que mesmo assim ainda se irrita com o fato do marido deixá-la de fora das conversas. Marisa Kashiwabara também é outra que virou sãopaulina por influência do esposo. «Eu já gostava de futebol antes. Ia para ver os times», conta. Marisa tinha preconceito contra torcida organizada antes de se engajar na Independente. «Achava que as pessoas eram todas violentas», relembra ela. «Mas, descobri que há muita gente que ama o time». Marisa curte a torcida e participa das atividades mas acha que o marido passa dos limites. «Ele fala de São Paulo o tempo todo», conta ela. «Mas, o pior é quando ele fala no celular porque, daí, não dá para eu participar», conclui. Orgulho alvi-verde Leandro Henrique Pereira Leite é o escudeiro da Mancha Verde no Japão. Um dos membros fundadores da torcida, ele conta que foi nos idos de 2004 que a Mancha foi fundada. «Deixei mensagem no fórum da torcida na internet e começou a aparecer gente», conta ele. O primeiro encontro tinha 8 pessoas. Foi esse grupo que decidiu fazer um primeiro evento com o objetivo de vender artigos e mostrar para os palmeirenses que a torcida estava se organizando no Japão. «Fizemos um luau em Kosai e, depois disso, cadastramos mais ou menos 350 pessoas», conta ele. Diferente da maioria dos líderes de torcidas brasileiras no país, Leandro já era parte da Mancha antes de chegar ao Japão. «São 18 anos de torcida», diz. Ele tem uma consciência bastante apurada da sua função com líder, função para a qual dedica de 3 a 4 horas do seu dia. «Tem que ter muita vontade», diz ele destacando, porém, que não está sozinho. «Sozinho, não se faz nada. Tem a diretoria e trabalhamos em conjunto», afirma. Como as demais torcidas, a Mancha Verde Japão organiza eventos ao longo do ano. «A cada dois meses fazemos encontros», conta Leandro. A Mancha organiza também torneios de truco, de futebol de salão e outros eventos que são abertos, também, a pessoas que não são palmeirenses. «Em o nosso torneio de futebol, vai gente de outros times, de outras torcidas e não há brigas», garante. Leandro se preocupa com a imagem das torcidas aqui no Japão. Ainda mais depois do episódio ocorrido em Hamamatsu, que envolveu a palmeirenses e a sãopaulinos. «Brincadeiras, provocações há», conta ele. «Mas, não podem partir para o lado pessoal», prossegue, citando como exemplo as provocações que pipocavam no Orkut antes da Mancha decidir fechar a comunidade para não-membros. Leandro critica aqueles que vão para os eventos ou jogos com o intuito de brigar. «Tem gente que acha que camisa de torcida é capa de Super Homem», compara o diretor. Por isso, ele afirma se empenhar pessoalmente para evitar confrontos. «Temos que mudar a imagem que as pessoas têm da gente», afirma o líder. A rotina de Leandro inclui, também, assistir aos jogos do Palmeiras por a TV Mancha Japão, um canal na internet que exibe as partidas ao vivo. «A galera toda entra no MSN e a gente acompanha os jogos, vai comentando», conta ele que lamenta a má-fase do Palmeiras. «Mas, estamos confiantes. A função da torcida é essa: ter confiança e dar apoio ao time», afirma ele. Como todo torcedor mais engajado, Leandro acabou envolvendo a família nas questões da torcida. «Minha esposa virou palmeirense por livre e espontânea pressão», brinca ele, que educou o filho na mais genuína cultura alvi-verde. «Ela pensou que, com a minha vinda para o Japão, tudo ia acabar. Mas não adianta, não tem jeito», confessa ele. Realmente, o sentimento de um torcedor por o seu time de coração parece ser o exemplo perfeito daquilo que as pessoas chamam de amor. Número de frases: 218 Publicado anteriormente em Alternativa. Campo Grande (MS) -- Próximo dia 19 é comemorado o Dia do Artesão. Instituído no mesmo dia em que se festeja o dia de São José Carpinteiro, esta data homenageia aqueles que representam diversidade cultural e criativa do povo brasileiro. Artesãos de Mato Grosso do Sul já vêm garantindo seu espaço no mercado nacional, e a visibilidade dos produtos é alcançada principalmente por a participação em feiras estaduais e nacionais. Profissionais do Estado também conquistaram o prêmio Top 100, do Sebrae, obtendo reconhecimento por a qualidade dos produtos. Com uma programação especial, a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul comemora a Semana do Artesão. Arlene Barbosa, gerente de desenvolvimento de atividades artesanais da FCMS explica as peculiaridades do setor, conta sobre os trabalhos que vêm se destacando e sobre o desenvolvimento deste mercado no Estado: O que é considerado artesanato? Arlene Barbosa -- Existe uma definição para artesanato. Dentro dessa definição, artesanato é tudo aquilo que é feito à mão, mas também pode ter o uso de máquina e que vem da matéria-prima local, como as fibras, a argila e a madeira. Existe também o artesanato que é chamado trabalho manual associado à cultura e o outro trabalho manual que não expressa um valor cultural, não tem uma iconografia, como por exemplo chinelos e panos de prato. Existe ainda a arte popular, onde são criadas apenas uma única peça, não são produzidas peças em grande escala e não visam a um grande mercado. Existem também os trabalhos indígenas e tipologias diversas como a fibra, a tecelagem, o trabalho em madeira, os trabalhos de osso com madeira, cabaça e taboa (fibra com madeira). Em Mato Grosso do Sul, qual é o artesanato que mais se destaca? Arlene Barbosa -- Um trabalho lindo feito em Jardim que ganhou o prêmio Top 100 do Sebrae, com osso e madeira. As bugras da Indiana, presidente do Sindicato dos Artesãos, também ganharam esse prêmio. É um trabalho diferenciado e que retrata muito a nossa cultura. Quais são os trabalhos que têm levado a marca do artesanato sul-mato-grossense para outros estados e países? Arlene Barbosa -- O trabalho com osso, as bugras da Indiana, o trabalho da Cristina Holf com cabaça e o trabalho com couro de peixe, feito por o projeto Mulher Peixe em Coxim, e os tradicionais bugrinhos da Conceição dos Bugres, que hoje são produzidos por seu neto Mariano e sua nora Sotera. Como está o mercado de trabalho para quem faz artesanato no Estado? Arlene Barbosa -- O mercado de trabalho têm crescido muito. O Sebrae e a Fundação de Cultura têm dado muito apoio a essa parte de mercado. Têm proporcionado aos artesãos sua participação nas feiras nacionais, nas feiras estaduais e as que ocorrem nos Festivais de Bonito e América do Sul. Só no ano passado, participamos de 5 feiras nacionais, entre elas as de São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba. Estamos nos empenhando no escoamento da produção. As instituições que são nossas parceiras aqui no Estado são o Sindicato dos Artesãos, a Associação dos Artesãos de Mato Grosso do Sul (Artems), a Federação dos Artesãos (Fenarte) e a União dos Artesãos (Uniarte). Como têm sido feita a capacitação dos artesãos? Arlene Barbosa -- Nós estamos trabalhando com oficinas dando prioridade aos municípios do interior do Estado, porque Campo Grande já foi muito trabalhada neste sentido. As cidades do interior têm uma carência maior de ações como essa. Ano passado, nós desenvolvemos 6 oficinas. Em Anastácio teve uma oficina de bolsas, em Aquidauana uma oficina de panos de prato que utilizam a técnica de abrólio milenar. Antigamente tinha um núcleo desta produção lá, mas que com o tempo foi acabando e nós estamos agora resgatando essa produção. Em Corguinho desenvolvemos uma oficina de doces de frutas da região, por causa de uma solicitação da prefeitura que já disponibilizava uma casa com cozinha industrial. Em o quilombo Boa Sorte, também no município de Corguinho, fizemos uma oficina de fibras, já que a região é muito rica nesta espécie de matéria-prima. Em Rochedo e Chapadão do Sul, também fizemos uma oficina utilizando a fibra da palha da bananeira. Então, aonde as prefeituras solicitem e exista a matéria-prima em abundância, a gente oferece a oficina, mas isso em parceria com a prefeitura, para que o projeto tenha continuidade. Este ano temos a previsão de realizar mais 10 oficinas no interior. Em abril começa uma oficina em Bodoquena com bambu. Como a FCMS vêm unindo o artesanato com a geração de renda? Arlene Barbosa -- Nós imaginamos, exatamente nestas oficinas, que vai ter mercado para os produtos produzidos. Exatamente por isso, a gente não incentiva o trabalho manual que existe por aí, pois é um trabalho que existe em todo lugar, e atende apenas ao mercado local. Nós buscamos desenvolver produtos que ainda não existem no mercado para que os artesãos consigam colocar estes produtos nos mercados nacional e internacional. Se eles têm um trabalho diferenciado, eles irão conseguir um mercado melhor para trabalhar. A FCMS desenvolve junto com os artesãos as oficinas técnicas e o Sebrae, que é nosso parceiro, oferece cursos de design, para o artesão aprender a desenvolver linhas de produtos que serão colocados no mercado. Produtos elaborados que seguem a tendência de mercado. Sempre dizemos aos artesãos que eles têm que ser criativos. Eles sempre têm que estar criando coisas novas, porque o consumidor quer comprar sempre produtos diferentes. O Sebrae entra também na área de gestão, ou seja, ensina o artesão a colocar preço no seu produto, a saber gerenciar seu negócio. Com esta parceria, temos a intenção de tornar o artesão um empreendedor. O artesão que quer participar dos projetos da FCMS tem de fazer o quê? Arlene Barbosa -- Ele tem que primeiramente se encaixar nos nossos critérios. Nós desenvolvemos apenas trabalhos que têm um cunho cultural. Um artesanato que utiliza a matéria-prima local, como as fibras, a madeira e a tecelagem. Para expor seus produtos, eles têm que se cadastrar na Casa do Artesão, fazer uma demonstração do seu produto e retirar uma carteira do artesão na qual vai constar as peças que produz. Este ano passaremos também a trabalhar com a carteira nacional do artesão, que é mais rigorosa nos seus critérios, que vai possibilitar uma triagem mais eficiente dos profissionais. Queremos, por meio deste novo cadastro, conhecer mais de perto os artesãos do nosso Estado. Como se dá a parceria da FCMS com a Fundação de Turismo de MS, na circulação dos produtos artesanais do Estado? Arlene Barbosa -- O papel da FCMS é responder às diretrizes do Programa de Artesanato Brasileiro. O Turismo não deveria trabalhar neste setor que nós desenvolvemos, mas ele trabalha mais com a parte de mercado. Assim como nós, o Turismo apóia a participação dos artesãos nas feiras, para a demonstração dos produtos. Quais são os trabalhos em artesanato do Estado que as pessoas não podem deixar de conhecer? Arlene Barbosa -- Em geral, todos fazem um bom trabalho. As pessoas podem ir à Casa do Artesão de Campo Grande, onde estão expostas peças diversificadas de diversas regiões do Estado. Outra opção é conhecer as lojas das entidades de artesãos como a Artems, localizada no shopping Campo Grande. Além disso, indico o trabalho da Indiana Marques de Araújo, e da Fania Catarina Martins dos Santos. Como foi feita a programação especial da FCMS para a semana do Artesão? Arlene Barbosa -- A programação vai acontecer entre 14 e 19 de março e pode ser conferida no site da FCMS, que é o www.fundacaodecultura.ms.gov.br. Faremos a exposição de artesanato de diversas regiões do Estado além de organizar palestras e workshops. Para definir a programação das palestras e workshops, nos reunimos com as entidades de artesãos do Estado para detectar com os profissionais as necessidades de informação na área e buscamos consultores para proferirem as palestras. Número de frases: 69 Vale a pena participar e conferir. Lembro do concurso de Calouros no Programa do Sílvio Santos. Parece-me, que este concurso, era um dos poucos televisionados. A questão que tem perturbado este pobre ganso, é: por que há um excesso de concursos televisionados? Concurso para garota do tchan; concurso para quem faz coisas mais incríveis em 30 segundos; concurso para melhor calouro infantil; concurso para melhor calouro adulto; concurso para quem cozinha o melhor prato; concurso para quem faz a melhor invenção; concurso para quem faz melhores arranjos nos automóveis; concurso para super-heróis; concurso para o melhor cantor do planeta (american idol); e o mais perturbante de todos: Concurso Para Quem SE Relaciona Melhor Com O Outro. Deus do céu, por que este excesso de concursos na televisão? Claro que, devemos olhar o mundo numa teia complexa, porém, há um ponto de convergência óbvio. O excesso de informação fez com que o homem perdesse a referência. O mundo é muita coisa, o mundo hoje é enorme. Como saber quem canta bem? Todos os dias vemos novos cantores. Como saber quem cozinha bem? Todos os dias surgem novos pratos -- a última moda é: regional contemporâneo. Como saber quem é boa pessoa? Todos os dias, dissolvemos relações e construímos outras igualmente efêmeras. Em um mundo repleto de imagens, qual de elas é a mais significativa para minha existência? Como devo proceder? A saída óbvia para essa problemática são os concursos. Precisamos hoje em dia de gurus espirituais que saibam apontar o melhor e, o pior. Vejam o grave problema, isso é diferente dos esportes. Anteriormente, eram os jogos que fascinavam as pessoas. A competição tinha regras claras e definidas. Campeonatos de volley, basquete, handboll, iron man; hoje não, como podemos saber, diante do excesso de informação, o que serve e o que não serve? Este é o erro daqueles entusiastas que criticam o cartesianismo. Desde Husserl, a filosofia decretou que não há distinção entre sujeito e objeto. Adorno faz o mesmo: vamos acabar com as velhas dicotomias. Sartre, ao afirmar que a existência precede a essência, deixa os pólos em aberto. Heidegger mais ainda: a essência está na existência. Os grandes especialistas afirmam: ninguém mais vai falar em dicotomia, porém, o mundo clama, através dos concursos, de gurus que apontem: este é o melhor; este outro é o pior. O maniqueísmo jamais findou. Está vivo como de antes, está pulsando no cotidiano. Não me venham com esses nobres discursos: acabar com a dicotomia, com as diferenças. Claude Lévi-Strauss tem razão. O homem pensa, originalmente, de forma dicotômica. É nossa estrutura biológica. Não adianta se esquivar. O Big Brother é o mais doentio de todos. Agora, os homens não reconhecem as suas relações, precisam de espelhos que permitam ver: diante de tantas amantes, qual de elas é a melhor? Diante de tantas amizades vazias, qual de elas é a mais significativa para mim? Eis mais um concurso, eis mais uma dicotomia não superada. Com amor e carinho, Número de frases: 61 Ganso Gracioso .... tem muito samba, muito choro e rock and roll " --? Quando eu era pequeno, eu achava que Chico cantava que «aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba e muito Show de rock and roll». Mas logo que vi que eu tava errado e que Chico tava certo. Até tão jogando futebol, tem também muito samba e muito choro, mas rock and rool que é bom tá cada vez mais difícil, meu caro amigo Chico. A coisa aqui tá preta. Quem mora na Bahia, além de morar num estado um tanto atrasado em diversos aspectos, sofre com as notícias sobre os artistas que vem ao Brasil, mas que nem passam perto daqui. E os outdoors dizem que é o estado que mais cresce. Além de não ter shows internacionais aqui, ainda temos que torcer, pra que quando tiver, para o tal artista não passar mal ao comer uma iguaria. Nick Cave cancelou seu show na última hora após um abará. Bjork, que veio num carnaval e não ia se apresentar, mas que talvez rolasse algo, passou mal com um vatapá e cancelou qualquer chance de uma apresentação. Stevie Wonder teve aqui em 2006 para à 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora e nem «Hi» no microfone ele disse. Meu Deus, Stevie Wonder veio e não soltou uma nota. Com o perdão do trocadilho Stevie, mas isso só se vê na Bahia. Esses dias recebi um mail de um amigo dizendo que ele poderia morrer em paz se fosse assistir aos shows internacionais que acontecerão fora da Bahia no ano de 2007. Um outro amigo respondeu que ele já viu de tudo ... Pixies, Stooges, Flaming Lips, Nine inch nails, Sonic youth (2 x) e Teenage fanclub ... e que isso já tava bom pra uma vida. Como nunca vou aos shows internacionais que (só) acontecem fora da Bahia, nunca vi muita coisa. Alias, nunca vi nada. Só Placebo, que até hoje as pessoas perguntam se ocorreu mesmo aquilo em Salvador, e Information Society, que tocou com Asa de Águia no Baiano de Tênis em 1991. Prefiro gastar de dois em dois anos com viagens mais duradouras e até pra fora do país. Um dia, quem sabe, por o acaso, posso estar em alguma cidade onde terá algum show de meu interesse. Tava dando uma repassada no meu cerebelo pra lembrar do que já vi em Salvador e, entre outras, selecionei Wander Wildner com Tom Capone no baixo, Cigarettes com Spencer no baixo, brincando de deus na formação original, Dead Billies (? vezes e uma de elas com uma stripper no palco), Engenheiros do Havaii com Gessinger, Licks e Maltz, Titãs com Arnaldo Antunes, Legião Urbana, Cascadura lançando o primeiro disco com três guitarras, Úteros em Fúria também na formação original, Paralamas com Herbert em pé, o que era uma coisa absurda, extraordinária ... Vi também a banda carioca Pelvs tocando no Calypso ... Em Lisboa ganhei na mega-sena. Comemorei como um louco, pois vi de longe um anuncio do R.E.M. Eles em tamanho natural. Olhei procurando a data do show, pois só ficaria em Lisboa por quatro dias, quando finalmente vi em letras garrafais «07/01/05». Não ganhei na mega-sena por três dezenas erradas. Eu estava em 14/10/04. Me contentei com uma foto com eles, já que estavam em tamanho natural. Em Santiago no Chile, em 2006, foi com Placebo. Apesar de já ter visto, não perderia a oportunidade de ver de novo. Mas o show era pra de ali a duas semanas e eu já estaria em Salvador. Tirei outra foto com o cartaz. Pra mim, um pobre baiano, ver cartaz desses shows é raridade. Em a Bahia, o único cartaz que vi foi de um show do Ramones. Que não teve. Era boato. Putaquepariu. Só na Bahia pra ter um boato de um show do Ramones. E com cartaz. Pena que não fotografei. O único show que consegui ver fora do país foi em Madri. Saí de Salvador pra ver Moreno Veloso em Madri. Mas valeu a pena. Era com banda completa, Kassin, Domenico e mais três, num teatro massa e barato. Bem mais barato que seu pai na Concha Acústica, semanas atrás. E mais ainda que Chico Buarque no TCA, um mês atrás. Apesar de ter visto Chico nas ruas do Rio de Janeiro, queria ver ele num palco. Faziam 13 anos que Chico não se apresentava em Salvador. Em o Teatro Castro Alves seria perfeito. -- Compre no SAC do Iguatemi -- disse Cris. Cheguei meio-dia e peguei a senha, pra esperar o atendimento, de número 86. Estavam chamando a senha 38.-- Mas ainda tem ingresso? -- Tem sim senhor -- respondeu o cara que organizava a fila. Esperei por exatamente duas horas e meia. -- Mas conseguiu comprar?-- perguntou Cris ao telefone. -- Consegui, mas acho que você não vai gostar muito ... -- O que foi? -- Só tinha sobrado a fila zê. -- Fila Zê?-- gritou ela. -- Em a verdade ... zê dois. Quase que Cris desiste e manda eu vender. Mas ela concordou que era Chico e que talvez não tivéssemos outra oportunidade. A sociedade baiana é engraçada. Senhoras de vestido longo preto e cabelos armados só pra ver Chico. É como se arrumar pra viajar de avião. O show foi muito bom, Chico veio com A Banda e a distancia não foi problema. A única coisa ruim do show foi o cheiro de maquiagem que carregava o ar do teatro. Mulheres de Atenas, hein Chicão? Em o show de Chico tem de tudo. Gente de todas as idades, tipos, tamanhos, formas ... Madames, engravatados, ripongas, o governador e a primeira dama, gente com camisa do Los Hermanos ... Até minha terapeuta eu encontrei no show de Chico. Nunca a vi em lugar nenhum. Nunca, só no consultório, mas a encontrei na fila da água antes do show começar. Fiquei naquela sem saber se ia ou não falar com ela, mas achei melhor não. -- Minha terapeuta tá ali -- disse eu. Cris queria ver quem era, insistiu, mas não mostrei. Oxe, minha mulher conhecendo minha terapeuta? Nem a pau. As duas sabem tudo de mim. Imaginei paranoicamente as conversas que poderiam acontecer e achei melhor não mostrar. -- E aquele problema que ele tem de blá, blá ...-- diria uma. -- Ah, mas pior é aquele outro problema que num sei o quê -- diria outra. Nada de apresentar uma a outra. Cris ficou tentando adivinhar por a aparência, mas me mantive frio e não dei pistas. Foi a primeira vez também que vi Dra. Maria de maquiagem. A de ela tava leve, mas era uma maquiagem. «Mirem-se no exemplo daquelas mulheres ...», né Buarque? Semanas depois teve Caê na Concha Acústica. Eu já tinha visto Caetano, mas fiquei pirado, pois era na tour de Circuladô, em 1992. Fiquei pirado por causa dos outdoors. Foi quase igual a história com o Ramones. Era Caê e Daniela Mercury (início de carreira) e tava no outdoor «Caetano Veloso e Daniela Mercury». Esse outdoor ficou assim por três semanas e faltando dois dias para o show colocaram embaixo da palavra Caetano Veloso, em letras minúsculas, «Voz e Violão». Eu tinha o CD Circuladô ao Vivo e queria ver a banda toda, não ele voz e violão. Mas já tinha comprado e fui. Não vi Daniela. Saí antes. Mas dessa vez na Concha era com banda. E de rock. Em a Concha não tem lugar marcado e ficamos num lugar que, a priori, parecia ruim, pois era em cima da mesa de som. Porém, por parecer ruim, não tinha ninguém, um vazio no meio da platéia e por isso se transformou no melhor lugar do show. O show durou cerca de 1:40 e durante a primeira hora o que mais se ouvia era a palavra «senta». Algumas pessoas queriam dançar e outras queriam ver o show sentados. Como estava no meio, pude presenciar várias confusões ao redor. Os «sentados» gritavam «senta, senta, senta» e por causa disso, na minha frente, quase que um cara senta a mão no outro. «Vão dizer que a violência é culpa do rock», pensei. Uma hora rolou uns aplausos, logo no início de uma música, e Caê achou que era pra ele e sorriu em direção ao grupo que aplaudia. Mas eles estavam aplaudindo o cara da frente que finalmente sentou. De o meu lado, um casal que era visivelmente «público TCA». Faixa dos 45, ela de preto, ele de camisa de botão, ela maquiada, ele de barba bem feita ... Ela em pé, ele sentado ... Imagino que foram para o show de Caetano no modo " é Caetano? Então vamos». Ela batia palmas cada vez mais desmotivadas enquanto seu marido tapava os dois ouvidos por causa da barulheira que o guitarrista de Caê, Pedro Sá, fazia no fim de uma música com sua guitarra. Uma microfonia dissonante à Sonic Youth. -- Caetano tá tão estranho -- comentou ela no fim da musica. Aquilo que falei no início do texto sobre a Bahia não receber astros internacionais vale pra qualquer tipo de «coisa», menos para o reggae. Uma vez teve um festival de reggae que era tributo ao mundialmente famoso reggaeman Peter Tosh. Em esse evento teria o show do filho de ele, Andrew Tosh. Xandão, um amigo meu, tava pirado com as pessoas dizendo " ah, vai ter Andrew Tosh e eu vou porque Andrew Tosh é massa, é filho de Peter Tosh, é o máximo e blá, blá ..." -- Porra de Andrew Tosh -- dizia Xandão -- ninguém nunca ouviu falar em ele, ninguém sabe a história de ele e agora vai a baianada babar só porque é filho do cara? Se é assim, todo mundo devia ir babar no show de Preta Gil -- finalizava ele. Um dia depois desse festival, quem quisesse maconha era só ir para a Avenida Paralela e procurar por o acostamento. Em a hora do show teve blitz policial. Todo mundo dispensou por a janela do carro. Esse negócio de filho é foda. Só de Bob Marley já veio uns 10 pra Salvador. E Bob Pai nunca veio tocar quando vivo. Veio jogar bola, inclusive com Chico, onde bateu a clássica foto de time de futebol com Toquinho e Paulo Cezar Caju, campeão mundial em 70. Uma amiga minha que tá em Madri me disse que viu o show de Sean Lennon por lá e que foi emocionante ver o filho de Lennon, que ele parece muito com o pai e tal ... Sean realmente seria interessante. -- Vi um Lennon -- disse ela tirando vantagem de mim. -- Mas eu vi Chico -- respondi triunfalmente, por saber que ela é fanática por o carioca. Para o show de Chico eu fui com um amigo que é advogado, Gustavo. Em a entrada, ele encontrou com um cliente de ele que era um dos organizadores do evento. -- Em o domingo, depois do último show, vai rolar um baba com o Chico, quer ir?-- perguntou o tal cliente. Ele disse que sim e me chamou. Eu não poderia ir. Tinha uma viagem a trabalho marcada. Como o trabalho era no Vale do Capão, não foi tão dolorido. Gustavo foi e no caminho passou por a porta de um amigo em comum da gente, Faustão, que estava naquele momento entrando no edifício. -- Tô indo para o baba com Chico. -- Chico? -- Buarque. Foram juntos. Os dois torcem para o Bahia, mas jogaram com o uniforme do Vitória. Chico jogou com o uniforme do Bahia. O Bahia e o Vitória deram uniformes completos. Bateram a clássica foto de time de futebol. Chico bateu com os dois times. Estavam presentes os ex-jogadores Bobô, Sandro, João Marcelo (todos campeões brasileiros por o Bahia em 88), além de jornalistas, convidados e a primeira dama do estado, que estava torcendo por Chico com uma empolgação balzaquiana. Mulheres de Atenas, né Carioca? O jogo foi 4 x 4. Quase igual ao 6 x 5 real do último Ba x Vi. Faustão fez um gol, marcou Chico, que segundo eles me disseram, parecia ser admirador da elegância sutil de Bobô e ainda trocou de camisa com ele no fim do jogo. Faustão não viu o show de Chico, mas diz que se contentou com o fato de ter jogado futebol com o próprio, que tava de bom tamanho ... -- Foi show de bola -- disse ele. Número de frases: 168 (?) Meu caro amigo, de Chico Buarque e Francis Hime. Desde o tempo em que o tempo não era contado homens e mulheres inventam diferentes formas de organizar os afazeres da vida. Relógios e calendários fazem hoje a intermediação na relação das pessoas com o tempo, mas nem sempre foi assim. Alguns organismos sociais já tiveram suas dinâmicas ditadas por o tempo da natureza. Tempo que com as variações da temperatura, por exemplo, indica quando se deve plantar e colher. Com a percepção de uma temporalidade linear e a invenção da História a idéia de tempo cíclico foi perdendo força. Mas engana-se quem acredita que o domínio da técnica sobre a natureza tenha extinguido todas práticas relacionadas ao tempo cíclico. Digo isso apoiado no que observo aqui onde moro, São João de Meriti, cidade localizada na Baixada Fluminense, RJ. A molecada daqui organiza parte de suas atividades recreativas em ciclos que os próprios chamam de temporada. As temporadas se dividem basicamente em quarto: bola de gude, pique, peão e pipa. Não estou muitos anos distante da minha infância, mas mesmo quando era criança não compreendia muito bem quando, como e por que se decretava o início e o fim de determinada temporada. Lembro apenas que um belo dia se chegava na rua e cada um dos moleques portava sua lata repleta de bolas de gude. Em minutos os triângulos eram riscados no chão e as gudes postas em jogo. Curiosamente, no final da temporada, as bolas de vidro eram colocadas em recipientes fechados -- garrafas, latas -- que deviam ser enterrados em algum terreno baldio. As bolinhas se tornavam uma espécie de tesouro que, após enterrado, voltaria a tona apenas na próxima temporada. A temporada de pique era a menos marcante. Talvez por ser a única das brincadeiras que não dependia de nenhum equipamento em especial. Os piques, em todas as suas variações (pique-pega, pique-alto, pique-tá) consistiam basicamente numa correria desenfreada. Essa característica pode explicar também o porque dos piques ganharem maior adesão no inverno. Quando era a vez do peão reinar no mundo das brincadeiras vinha acompanhado da rainha que, certamente, se chamava nostalgia. Era o período onde mais se ouviam histórias dos mais velhos. Era um tal de «as brincadeiras do meu tempo eram assim, essas crianças de hoje em dia não sabem de nada». Minha geração, nasci em 1982, não tinha lá muita intimidade com a cordinha que girava o peão. Acredito que o grande fascínio da molecada nos anos oitenta girava em torno do fliperama. Eu sonhava com centenas de fichas que alimentavam as máquinas, que por sua vez, realimentavam meus sonhos. O primeiro brinquedo que ganhei foi o clássico vídeo-game Atari, me sinto filho legítimo de toda essa (re) evolução dos games. Curioso é observar como vinte e poucos anos depois da chegada do Atari (com seus humildes 8 bits) no Brasil, até o mais moderno PlayStation (80 GB) a molecada ainda se rende a mais concorrida das temporadas: a das pipas. De fato, entre todas as outras brincadeiras que citei até então, a pipa é a que exige uma dedicação maior. Vejamos: tudo começa com a preparação das varas, a fabricação da cola de arroz, o corte do papel fino. Esses elementos formam a estrutura da pipa. Em a seqüência, um pedaço de linha recebe algumas fitas de papel, formando a rabiola; outro pedaço de linha é usado para fazer o cabresto. Para o moleque disposto a não perder sua pipa no cruzamento com outras pipas oponentes falta um elemento fundamental: o cerol. A perigosa mistura é conseguida quando certa quantidade de cacos de vidro, embrulhados num saco plástico, é colocada na linha do trem. O choque do trem mói o vidro que, adicionado a cola, é passado na linha da pipa, dando a mesma um aspecto cortante. Só mesmo durante as férias escolares que a molecada tem tempo pra se dedicar a um processo que de tão demorado e trabalhoso beira um ritual. O momento máximo desta experiência ocorre quando várias pipas sobem ao céu e se enfrentam num bailado que visa cortar a linha do adversário. O pipeiro mais habilidoso não só corta como também apara e trás para si a pipa que, depois de cortada, é chamada de avoada. Número de frases: 41 A paisagem que normalmente varia do cinza da poeira, para o avermelhado do barro e das paredes de tijolo, de tempos em tempos ganha novas tonalidades que invariavelmente continuam deslumbrando a molecada de São João de Meriti. 14 de Novembro, terça feira, será lançado no restaurante Nosso mar, 115 Norte, o livro Eta Mundinho: De as barrancas do Rio das Velhas aos Brejos de Santana. O livro funde a história do Brasil com a do caminhoneiro Raimundo José da Silva Filho, que nos anos 50 e 60 abriu estradas no interior do Brasil na base do facão, foi candango na construção de Brasília e transportou para a nova capital «desde rapadura até vestido de noiva» na carroceria. Apesar de ter estudado apenas até o segundo ano primário, Mundinho encheu cadernos e mais cadernos com a sua letra miúda. O trabalho de organização foi feito por Nilson da Cunha Gonçalvez, que nos concedeu essa entrevista: Entrevista Com NILSON Cunha, O Redator do «Texto Final do Livro» «ETA MUNDINHO!». P: Resumidamente, do que trata o livro «Eta Mundinho!?». R: Trata-se da história de vida de Raimundo José da Silva Filho, um senhor hoje com 81 anos e que trabalhou boa parte de sua vida como caminhoneiro na época da construção de Brasília. É uma autobiografia, cujo texto original foi por nós trabalhado literariamente, mantendo-se a essência da história original. P: O que pode haver de interessante na vida de um caminhoneiro para merecer que sua história seja contada num livro? R: Veja bem, é comum quando tomamos conhecimento de uma história de vida muito interessante, sairmos com a frase: «Puxa, a vida desse sujeito daria um livro, é um verdadeiro romance», não é mesmo? Já disse um autor famoso, que qualquer história de vida daria uma livro, mas temos que convir que algumas são inequívocamente muito mais interessantes do que outras para serem contadas, não é? É esse o caso de Seu Raimundo. Em a sua história de vida existe romance, aventura, decisões inacreditáveis, uma fuga mirabolante, viagens épicas, uma de elas por a navegação fluvial do São Francisco, outra por terra desbravando o chão agreste do centro-oeste na década de 60. Há também uma parte importante que nos desvenda como tem sido feita a política nas pequenas cidades do interior do Brasil, nos chamados grotões. Enfim, o livro é dinâmico, pleno de ação e estou certo de que irá prender a atenção do leitor da primeira a última página. P: É, parece bem interessante. E como surgiu a idéia do livro? R: Bem, sendo genro do autor, muitas vezes estive a visitá-lo em Santana, cidade onde mora no oeste da Bahia. Em os bate-papos informais durante essas visitas, ele sempre me contava histórias tão interessantes que isso acabou por me despertar a idéia de reunir tudo num livro. Falei sobre isso com ele que achou a idéia simpática, mas nada de concreto. O tempo passou até que um dia recebi de ele, de surpresa, um caderno espiral grande com a história de como ele chegou um dia àquela cidade para ali iniciar uma nova etapa de sua vida. Confesso que de início não fiquei muito entusiasmado com aquilo. Tudo escrito à mão, uma caligrafia nem sempre muito fácil de entender. Porém, como havia prometido a ele, iniciei o trabalho de passar as histórias para o computador. Fui fazendo isso de forma intermitente, às vezes passava mais de um mês sem escrever, até que me chegou um segundo caderno e eu vi que ele estava mesmo levando a coisa a sério. Então continuei escrevendo e à medida que fui mergulhando na história, comecei a ficar cada vez mais fascinado por o que estava lendo e fui tomado por um indescritível sentimento de empolgação. Veja bem, eu sou um leitor voraz, desde meus tempos de adolescência e sei muito bem avaliar o que é uma boa história. Aquilo que eu estava vendo diante de mim era uma verdadeira preciosidade, tinha mesmo que ser trabalhado e publicado. E assim, foi. Depois de dois anos de trabalho, estamos agora concretizando aquilo que era um sonho para ele e que se tornou também um sonho para mim: ver publicado o livro com a sua história de vida. P: Muito bom. E quando e onde será o lançamento do livro? R: Será no dia 14 de novembro de 2006, terça-feira, véspera do feriado de quinze de novembro. O local será o Bar Nosso Mar, aqui em Brasília, a partir das dezenove horas. O simpatissíssimo autor, seu Raimundo, estará presente, confraternizando com todos. Número de frases: 48 Os dias 09, 10 e 11 de julho de 1999 marcaram de forma irreversível a história do Centro Cultural Martim Cererê: acontecia ali a TRASH -- 1a Mostra Goiana De Vídeo Independente. O evento, de caráter não-competitivo, deu vazão a diversos «cineastas» cujas obras jamais haviam chegado aos olhos e ouvidos do público. Aproveitando o chavão (sempre pertinente) de «uma câmera na mão e uma idéia na cabeça», todos aqueles que possuíam qualquer trabalho audiovisual estavam convidados a se inscrever. A surpresa veio em grande volume. Dezenas de filmes participantes e sessões sempre lotadas para assisti-los mostraram que em Goiânia há tanto uma produção latente quanto um público sedento por conhecê-la. Quase seis anos depois, entre 25 e 27 de fevereiro de 2005, ocorreu a segunda edição da TRASH, no mesmo Centro Cultural Martim Cererê. As 4.500 pessoas que passaram por os três dias do evento atestam o sucesso obtido. Mais que isso, elas nos deram a certeza de que a TRASH deveria assumir uma periodicidade anual. Objetivamente, ocorreram 138 inscrições, das quais tivemos 79 filmes exibidos (vindos de São Paulo, Santa Catarina, Janeiro, Rio Grande do Sul, Gerais, Bahia, Distrito Federal, Paraná, Tocantins, interior de Goiás e, principalmente, Goiânia). A repercussão espontânea de mídia também superou as melhores expectativas: a TRASH foi destaque em quase todos os veículos regionais de informação, seja em TV, rádio ou jornais. Visto que a entrada para a mostra se deu através da doação de alimentos não perecíveis, o volume de 1,5 toneladas arrecadadas é outro índice da popularidade atingida por a 2a TRASH. Todavia, o grande destaque da 2a Mostra Goiana de Vídeo Independente foi a presença da lenda do cinema nacional José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Além de curador da 2a TRASH, Mojica participou de debates, exibiu filmes clássicos de sua extensa carreira e ainda ministrou um workshop que resultou no curta «As Injustiçadas». Agora, a moviola volta a esquentar. A os dias 15, 16 e 17 de setembro próximos será realizada a TRASH -- 3a Mostra Goiana De Vídeo Independente. Desta vez, ao lado do veterano videomaker catarinense Petter Baiestorf, o convidado especial e homenageado do evento será Ivan Cardoso. Um dos principais nomes da geração super 8 na década de 70 e diretor de clássicos como «O Segredo da Múmia» e «As Sete Vampiras», o carioca Ivan Cardoso dará uma palestra acerca de sua obra, oferecerá um workshop com vagas limitadas e ainda fará na 3a TRASH a estréia local de seu novo longa (após quase 15 anos),» Um Lobisomem na Amazônia». Imperdível! A idéia por trás da TRASH -- 3a Mostra Goiana De Vídeo Independente permanece a mesma: se você possui algum filme, vídeo, ou produto audiovisual de qualquer espécie, não deixe de se inscrever. A data final é 01 de setembro de 2006. Basta conferir o regulamento (absolutamente anti-burocrático) para ver os procedimentos e arregaçar as mangas. Divulgue a idéia, pois vale lembrar que filmes de todo o país serão aceitos. Além da exibição dos vídeos selecionados e das palestras e debates acerca da produção independente, serão montados stands de discos, filmes, roupas e alimentação. O bar do Centro Cultural Martim Cererê funcionará em tempo integral. Livros e revistas serão lançados no evento, cuja entrada é franca. Ou melhor, os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível destinados à instituições de caridade. Sessões especiais à meia-noite exibirão clássicos do cinema alternativo brasileiro. E na noite de sábado (16/09) haverá shows com bandas de rock. -- 3a Mostra Goiana De Vídeo Independente promete ser um espaço de veiculação de trabalhos autorais e totalmente descompromissados com os formatos comerciais pré-estabelecidos. Criatividade é a única tônica do evento. Viva o cinema de invenção!!! Informações sobre a mostra: Número de frases: 35 marciomechanics@unb.br / 62 32815358 / eventos@monstrodiscos.com.br Estamos Diante De Mais Um Caso De Pedófilia, «Abominável», Mas Não Quero Discutir Aqui Este Assunto, que Apesar De Gravissimo, Me Levou A Perceber Um Outro Tão Grave Quanto. «ONTEM» -- 12/12/06 -- Foi Divulgado Por a Imprensa Local O Envolvimento De o Apresentador De TV DENNY Oliveira, Em Um Caso De Pedófilia, Não Quero Entrar nos Detalhes SE Ele É Culpado Ou Inocente, Mas Apesar da Nossa Indignação Com O Fato, Quero Levantar A Questão da Falsa Liberdade De Imprensa que Acredito Ser Um Mal Em Todo O Brasil. Vivemos NA Verdade Uma «LIBERDADE DE EMPRESA», Todos Souberam De esta Notícia A mais de Uma Semana E Só Ontem Foi» Divulgado «Por» NOSSA IMPRENSA». O Q É Isso???? Temos Que Denunciar, Nos Revoltarmos Tanto Quanto O Caso De Abuso De Menores, É Muito Grave. É Por Essas E Outras Que Temos Q Defender Com Unhas E Dentes A Criação De TV ' S E Rádios Públicas, Sem Vínculo Com O Poder Financeiro, A Vergonha Maior Em esse Caso (Salvo A Internet, E aos Novos Meios De Interação; Celulares, Etc.) É De essa Imprensa Hipócrita, E Aí É O Que Todos Nós Temos Obrigação De Denunciar E Nos Perguntar: Quantas Coisas São Omitidas??? QUE Isso Acontece, Sempre Soubemos, Que A Imprensa Só Divulga O Que Lhe Convém Tb, Mas Esse Caso Foi Descarado!!! SE Não Agirmos A G O R A, Número de frases: 13 Casos Como Esse Sempre Vão Acontecer E Ficar Por Isso Mesmo!!! Já li em alguma reportagem que a Parada Gay de São Paulo do ano passado teve 40 % de pessoas que se declaravam heterossexuais. Talvez seja um ' achômetro ' tosco, mas não deixa de ser um ponto de partida para se pensar a pluralidade da festa. Deculpe-me por a falta de precisão da fonte, mas resolvi escrever este texto munido apenas das minhas impressões pós-passeio na Paulista. Acredite: é divertido pacas. Para tudo quanto é público. A os eremitas abrigados numa caverna escura que não têm noção de como é uma parada gay, ou jamais ouviram falar no assunto, tentarei usar meu poder de síntese para ilustrar a cena. Imagine uma micareta. Cheia de trios. Agora troque os gritos de ' aiê aiê ', ' são Salvador! são Salvador! ' e demais encontros vocálicos que sonorizam o carnaval da boa terra por o bate-estaca eletrônico. Predominantemente house. Retire o sistema de castas provocado por os abadás em troca de uma livre circulação por toda a área da Parada. Adicione uma massa de curiosos e simpatizantes que vão desde vovós acompanhadas por enfermeiras até crianças histéricas com seus tênis de rodinha no calcanhar, capotando por os cantos. Eu acho estes calçados assassinos. Sério. Tem mais, claro. O comércio de isopores lotados de cervejas, como é de se prever em eventos de massa como este -- foram 2,5 milhões de pessoas --, esteve a pleno vapor. Vendiam desde energéticos e bebidas até toneladas de souvenirs em barracas próximas. Pingente? Bandeirinha? Pulseira com as cores do arco-íris? Tem de tudo. Disneylândia perde feio. De graça, só as camisinhas distribuídas a quem transitasse por as ruas. Em meio a tanta organização, uma falha estratégica me chamou atenção. Uma enorme garrafa de vinho (daqueles de pobre) era vendida por apenas R$ 5 por os ambulantes. Para quem queria economizar em escala, era a melhor opção para terminar a noite bêbado, deitado inconsciente numa calçada e com a boca lambida por o cachorro da rua. Só que o vinho manchava os dentes de quem o bebesse, deixando-os avermelhados, e a cor acumulava de forma mais acentuada nas frestas entre os dentes. Parecia que a cobaia que se aventurasse a provar a birita estava com gengivite. Em uma festa em que o clima de azaração entre gays é pulsante, não teve outra: o estoque de vinho foi um encalhe, pois dava péssima aparência. Sem saber destes problemas, perguntei despretensiosamente quanto custava uma garrafa. -- Cinco reais -- disse o ambulante, com semblante tenso. Agradeci e prossegui o trajeto. O cara simplesmente correu atrás de mim e começou um leilão. -- Eu faço por quatro reais! Quatro! Anda! Compra!-- implorava. Depois dessa, um cara veio em seguida e levou a garrafa por R$ 3. Os vendedores devem estar com zilhões de garrafas guardadas em casa até hoje, coitados. Mas uma das cenas mais interessantes foi com as crianças. Sem querer cair na nostalgia barata de dizer que os velhos tempos eram melhores, chamou atenção a histeria que elas tinham patrocinada por a tecnologia dos tempos de hoje. As drags eram disputadas a tapa para tirar fotos com as máquinas digitais. Quanto mais coloridas e ' cheinhas ', melhor. E, sem querer, a criançada parecia semear a discórdia no mundinho drag. Lembro-me de uma de elas, vestida de preto, com maquiagem carregadíssima e um aplique quilométrico nas melenas, formando duas chucas dignas de Rapunzel. Ela esbanjava largos sorrisos com os incessantes pedidos de fotos; não deixava de atender nenhuma solicitação da garotada -- que se amarrava. Eis que surge nas redondezas outra drag, de roupa mais colorida, peitões em forma de cone no vestido rosa, acessórios escalafobéticos por todo corpo e um cabelo Dezenas de crianças largaram a drag de preto. Uma horda de cybershots ensandecidas corria atrás da senhora de roupas berrantes, que lançou um olhar blasé-vitorioso para cima da drag rejeitada. Pareciam aqueles manos fantasiados de Pato Donald ou Mickey a disputar a atenção dos guris. Estou quase chegando à conclusão de que a Parada Gay é um misto de Disneylância com micareta, só que embalada por ícones do mundo GLBT. Entre os trios que passavam por a Paulista, havia alternativas ao baticum eletrônico. Um dos carros não-eletr ônicos mais concorridos era o da festa Trash 80's, que toca os hits-farofas da década perdida. Mas havia espaço também para executar as boas bandas brasileiras da época, como Titãs. O set list era mais eclético que a equivalente carioca Ploc 80's, por exemplo, onde as tosqueiras e a produção prestigiada dos anos 80 não são tão misturadas. A presença de um carro da Cut e do Sindicato dos Enfermeiros de São Paulo foi, no mínimo, pitoresca -- não imaginava mesmo achar isso por lá. Mas minha maior surpresa, contudo, foi ver uma ala do PSTU marchando por as ruas. Além de combater os sangüinários banqueiros internacionais, eles apóiam a causa gay. Em a mesma avenida que carregava os rapazes mais burgueses e emperequetados com grifes caríssimas. Viva a diversidade! O público muda de acordo com o horário. Em o começo da tarde, casais hétero, crianças com rodinhas assassinas munidas de cybershots e velhinhas-reaça que votavam no maluf e assistem gugu à tarde enchiam os arredores da Parada. O clima de harmonia impera. Só vi uma briga na festa toda, quando um grupo correu atrás de um sujeito que batera a carteira de um cara. Entre os casais hétero, não era raro ver rapazes usando pingentes ou pulseiras com as cores do arco-íris, andando tranqüilamente com suas namoradas. A quantidade de senhoras que levavam netinhos ou cachorros (tinha muita gente passeando com cães durante a Parada) para ver a passagem dos trios era enorme. A massa de simpatizantes diminuía com o escurecer do dia, à medida em que a Parada ia em direção à Praça Roosevelt -- ponto final da festa, que começara no Masp. Em o clima receptivo da galera que freqüenta o lugar, não é difícil fazer amizades ou levar cantadas -- para os héteros que não sabem levar na esportiva uma olhadela interessada, é melhor nem se arriscar a fazer uma aventura antropológica por lá. Há quem critique -- inclusive entre os gays -- as Paradas, acusando-as de terem se desvirtuado do propósito inicial, da busca por a visibilidade e luta por direitos, em troca da pegação descerebrada. Sinceremante, não me sinto apto para levar este debate adiante. Apesar de achar o universo da militância e da diversão perfeitamente conciliáveis. Mas a seção de comentários aqui do Overmundo, logo abaixo do texto, está aí para isso mesmo, para quem quiser prosseguir a discussão. Aliás, quem foi à Parada e viu outro mundo diferente do que percebi, está mais do que convidado a compartilhar suas impressões. Afinal, como os caras fizeram questão de mostrar, o mundo é da diversidade. Só terei sérias dificuldades em concordar com alguém que tenha gostado do vinho à venda por lá ... Número de frases: 77 O Acústico MTV do Lobão era um dos álbuns mais aguardados deste ano. Quem conhece a trajetória do artista sabe que há muito tempo ele estava brigado com as grandes gravadoras, tendo se tornado uma espécie de «guerrilheiro» da música independente. Em esse período, que compreende o início dos anos noventa até 2005, fez trabalhos elogiados, mas sofria boicote das rádios e da mídia em geral. A volta ao mainstream é uma excelente oportunidade para o público menos antenado conhecer a sua produção recente, e claro, relembrar os excelentes sucessos dos anos oitenta. Desde o fim de 2006, quando foi anunciado o lançamento do álbum para depois do carnaval, comecei a imaginar o que ele aprontaria, afinal, estamos falando de Lobão, e não de outros artistas decadentes de sua geração que tentam a todo custo se manterem nas paradas de sucesso. A minha expectativa era enorme. Confesso que na primeira audição fiquei um pouquinho, mas só um pouquinho decepcionado. Eu esperava mais porralouquices, versões esquizofrênicas e instrumentos inusitados. Tudo isso está lá, só que bem moderadamente. Ele segue a risca o conhecido formato da emissora, com muitos violões, orquestra e piano, mas não vá achando que o disco é ruim, pelo contrário. As composições e a interpretação personalíssima de Lobão ganharam um tremendo destaque. A energia do artista junto ao esporro de violões foi um tiro certeiro. É impossível não se impressionar com as letras de El Desdichado II, A Queda e A Vida É Doce, exemplos primorosos de sua fase independente. Entre as canções mais antigas, ele capricha em Decadence Avec Elégance, Bambina e na descontraída seqüência com Canos Silenciosos, Blá, Blá ... Eu te Amo (Rádio Blá) e Corações Psicodélicos. Em essas últimas, ele faz algumas gracinhas e alterações fundamentais para uma releitura, começando por o grito " aleluia, irmão!" e passando por mudanças de letra e andamento. Meu último destaque vai para a consistente balada Vou Te Levar, canção nova sob medida para as rádios, como nos velhos tempos. Alguém já ouviu? Número de frases: 19 Abaixo-assinado: MuBE -- Público ou Privado? Abaixo-assinado apoiando a Prefeitura do Município de São Paulo em favor da retomada do MuBE por o poder público Desde 1987, o MuBE -- Museu Brasileiro de Escultura ocupa uma área pública de 7 mil m² no Jardim Europa. Recentemente, um despacho do prefeito Gilberto Kassab, publicado no Diário Oficial do Município, rescindiu a permissão de uso da área que o prefeito Jânio Quadros havia concedido à Sociedade Amigos dos Museus por 99 anos. Essa decisão atendeu ao sentimento generalizado entre artistas, curadores, críticos e jornalistas de que existe um desvio de função nas atividades do museu, que nunca se preocupou em reunir um acervo significativo. O objetivo de um museu é conservar e expor coleções de interesse público. Uma revisão da trajetória da instituição deixa claro que não tem sido essa a perspectiva do MuBE. Com exceção do breve período em que foi dirigido por Fábio Magalhães, o espaço do museu vem sendo usado de forma indevida: abriga exposições de pouca relevância e inclui em sua agenda eventos de aluguel, que restringem o acesso a um público amplo, com o objetivo exclusivo de gerar renda à sua mantenedora. Por que um espaço público, cuja edificação (prédio e terreno) custou aos cofres públicos mais de R$ 35 milhões, deve permanecer exclusivo dos privilegiados que freqüentam lançamentos de produtos de luxo e festas particulares? As autoridades municipais, na defesa do espírito público, com esse ato corajoso e necessário, entendem que não é função do poder público patrocinar atividades dessa natureza, subsidiando-as diretamente ou indiretamente. O edifício, projetado por Paulo Mendes da Rocha para ser um complexo arquitetônico com funções de praça, jardim e espaço expositivo, nunca pôde exercer de fato a sua vocação. Se retomado, o edifício deve transformar-se num importante equipamento cultural, à altura da grandeza de nossa cidade. Segundo anunciaram as autoridades municipais, passará a abrigar a Galeria de Arte da Cidade, projeto que pretende revelar ao público o importante acervo recolhido conscienciosamente a partir do decênio de 1930 por o eminente crítico Sérgio Milliet. Além de assegurar um espaço expositivo a essa coleção, até esta data sem sede própria, as autoridades informam que a Galeria de Arte da Cidade irá promover exposições temporárias -- assumindo um papel preponderante na promoção da arte contemporânea em São Paulo, e deverá constituir um acervo de esculturas e objetos tridimensionais em que as obras sejam concebidas e escolhidas em função do diálogo que venham a ter com o belo espaço desenhado por o seu arquiteto. Os abaixo assinados apoiamos a Prefeitura de São Paulo na criação da Galeria de Arte da Cidade e na retomada da área do MuBE, instituição que ao longo de 20 anos não cumpriu a função social e cultural que de ela se esperava. Assine O Abaixo-ASSINADO Em o PETITION Online Publique seus comentários no Canal e ajude a atiçar esta brasa! Acompanhe no Fórum Permanente -- matérias, linques e referências importantes sobre o caso MuBE. Passe esta mensagem adiante ou apenas esta pequena chamada: Abaixo-assinado MuBE: Público Ou Privado? Abaixo-assinado apoiando a Prefeitura do Município de São Paulo em favor da retomada do MuBE por o poder público Número de frases: 24 http://www.petitiononline.com/ MuBE / petition.html A entrevista com Carlos Lyra aconteceu no escritório do músico em Ipanema. Ano: 1998. O bate-papo seria sobre a biografia -- um CD-Book -- que Lyra estava escrevendo, além dos 40 anos de Bossa Nova. Demorou uma década para ele publicar o livro -- «Eu e A Bossa» -- e falar publicamente algumas das afirmativas que já discorria em alto e bom som naquela época. Em a entrevista, ele comenta várias passagens da Bossa Nova, a sua ruptura com os companheiros de banquinho e violão, a parceria com Vinícius, a dispensada que Tom Jobim deu em Elis Regina e o seu auto-exílio no México e Estados Unidos para fugir da Ditadura. Também reclamou por Ruy Castro não o ter consultado mais profundamente para escrever o livro Chega de Saudade e relembrou as aulas que fez ao lado de John Lennon nos anos 70 na inovadora Terapia do Grito Primal. Com vocês, Carlos Lyra! Rodrigo Teixeira -- Por Que Decidiu Escrever O Livro Eu E A Bossa? Carlos Lyra -- Para documentar a Bossa Nova dentro de um ponto de vista econômico, político e cultural. O que significou os anos 60 na cultura brasileira. Houve um grande surto cultural baseado num desenvolvimento fantástico. A época do Juscelino foi riquíssima no Brasil. Bossa Nova, Cinema Novo, bicampeonato no futebol ... Em qualquer área cultural a gente estava na frente. Era Primeiro Mundo. E apesar daquela zona que foi o show no Carnegie Hall, a Bossa Nova entrou nos Estados Unidos junto com os Beatles. Isto está muito bem frisado no livro. Esta Análise Mais Voltada Para A Parte Sociológica Que Envolve A Bossa Nova Ainda Não Foi Bem Explorada Por Livros Como O'Chega De Saudade '. Claro que o Ruy comentou coisas pertinentes. Mas perguntei porque ele não havia enfocado o aspecto político e econômico. Ele disse que não queria saber deste negócio e que se eu quisesse, que escrevesse um livro. Você Acredita Que A Bossa Nova Representava Mesmo A Classe Média? Sim. A classe média não tinha música. Ou você importava ou ia pegar no morro. Era Orlando Silva, aqueles negócios ... A Deusa da Minha Rua, com aqueles errress ... Nélson Gonçalves, Francisco Alves ... Isso não era uma coisa que nos satisfazia absolutamente. A gente respeitava, mas aqui pessoalmente, nunca curti. O Dick Farney não. Eu apagava a luz e ficava ouvindo no escuro, sentindo um barato interior. Já com o Johnny Alf nunca me emocionei. Você Lembra De Bares De a Época no Livro, Como O VILARINO? Para falar a verdade nunca freqüentei o Vilarino. Eu ia ao Bar do Plaza, no Leme, que é onde tocava os pianistas de plantão e o Johnny Alf era o músico da casa. E ali era bom, porque aparecia todo mundo, Lúcio Alves, Dick Farney, Os Cariocas, Dolores Duran, Tom Jobim, Billy Blanco. Todo mundo pintava naquele barzinho no Leme, que é muito mais importante que o Beco das Garrafas. É Verdade Que O Tom Jobim Dispensou A Elis REGINA De o Show'Pobre Menina Rica '? É verdade. Inclusive no livro botei o depoimento da Elis contando. E Isso Aconteceu Mesmo? Dizem Que O Tom Falou Que Ela Estava Cheirando Churrasco ... Não foi bem assim. A expressão de ele era que ela era muito caipira. Não sei se esta era a expressão certa. Talvez mais delicada. Ele, que era um músico fantástico, não viu que a Elis era a maior cantora do Brasil. Não reparou. O visual deve ter impressionado! A Elis era realmente muito vesguinha, e com aquele vestido de chita. Porque ela era muito simples e com o cabelo feio, todo ... o Ronaldo Bôscoli realmente transformou a Elis numa star. Porque foi ele que transformou a Elis de uma caipira numa mulher até interessante. Charmosa. Não Era Um Preconceito Com Os Músicos Que Vinham De o Sul? Era menos preconceito e mais desatenção. Mas no livro coloquei o depoimento de ela. Eu não falei nada, porque se não vão pensar que é bronca minha. Então coloco ela falando " o Carlinhos me deu força, mas o Tom achou que eu estava muito crua ..." Era o musical «Pobre Menina Rica» que eu queria fazer o disco. Ouvi a voz da Elis num disco, que ela cantava boleros imitando Ângela Maria, e falei: «Eu quero esta mulher». Senti. Mandei buscar a Elis no Rio Grande do Sul. Ela tinha gravado com a CBS, mas não tinha adiantado nada. Nem reparei em vestido de chita, sandália de couro, esta mulher canta muito, dá um banho de loja em ela ou o que seja, mas vai cantar no disco. Não vai aparecer. Falei com o Tom e ele insistia: «Mas ela é vesga!!!». Falava que ninguém ia ver isso, olha a voz de ela. Ele teve mais um preconceito visual, do que outra coisa qualquer. Fiz ela cantar para ele, mas o Tom achou que tinha que ser a Dulce Nunes, que era uma menina fina, de sociedade, que era casada com Nenê Nunes ... Depois o Tom saiu, o Radamés entrou e a Dulce continuou. Já estava comprometido, ela também era uma amiga querida. Porque o Tom havia falado que com a Elis não dava para fazer os arranjos, porque ela era feia para caramba. Então a produção da CBS, disse que não iria perder o Tom como arranjador e iria fazer sem a Elis. Pediram para arranjar outra pessoa. Que foi a Dulce. Aí que o que aconteceu foi que o Tom acabou não fazendo os arranjos por medo que as letras do Vinícius comprometessem a entrada de ele nos Eua. Porque tinha uma conotação social e ele ficou com medo. Então ficou assim. Paciência. Como Era O Método Para Compor Com O VINÍCIUS? Tinha um hábito de deixar as músicas no gravador do Vinícius e ele colocava as letras depois. Grande parte da nossa parceria foi assim. Com exceção de «Pobre Menina Rica» que a gente foi terminar as músicas em Petrópolis em conjunto. Até pus música em letra de ele. «Minha Namorada», por exemplo, foi dedicada a Anelita. O Vinícius estava se separando da Lucinha e casando com a Anelita. Já era o quinto casamento de ele. Este casamento com a Anelita, inclusive, ajudei a raptá-la para Paris. O enxoval de ela ficou na minha casa, porque os pais de ela não queriam a relação com o Vinícius. «Minha Namorada» é desta época. Eles já foram para Paris casados. Ai os pais de ela colocaram no jornal «queremos anunciar o casamento de nossa filha com o poeta Vinícius de Moraes». Mas os dois já estavam em Paris. ' Maria Ninguém ` É DE 56. ' Lobo Bobo ' DE 57. Estamos EM 1998, Você Concorda Que A Bossa Nova Está COMPLETANDO 40 Anos? Não concordo absolutamente com isso. Mas não afirmo nada. Ofereço as opções para as pessoas pensarem. Porque quando você força uma barra, as pessoas acham que vc está puxando a brasa para a tua sardinha. 1958, para mim, é o ano menos significativo de todos. Elizeth Gravou Emddd1958 O Famoso Disco Com Músicas De Tom / vinícius ... A Elizeth para mim nunca foi uma cantora de Bossa Nova na vida. Era uma grande cantora de sambas-canções, mas sem suingue. O Vinícius é que gostava muito de ela ... Ainda não tinha aparecido Nara, Elis ... Acho que tinha uma pessoa que poderia ter dado um recado mais Bossa Nova que era a Sylvinha Telles. Até Porque Ela Gravou A Música ' Foi De Noite ' ... Em 1955 ela gravou uma música minha chamada Menina e do outro lado Foi a Noite, minha, do Tom e do Newton Mendonça. Era um samba-canção, mas ali já é uma evolução. Tinha características harmônicas e melódicas de interpretação mais cool, bem classe média, já não era uma coisa de Zona Norte, do samba. Era bem mais o discreto charme da burguesia mesmo. O jeito da Sylvinha cantar já era mais Bossa Nova. Por mais que as pessoas tendem a acreditar que Bossa Nova é uma batida de samba, então ... O Que É Bossa Nova? Marcha-rancho, samba-canção, tudo isso para mim é Bossa Nova. Porque a idéia da coisa, o ritmo, interpretação, melodia, harmonia, tudo isso para mim é Bossa Nova. Então ela foi chegando aos poucos. Ela tinha em 1955, ou até antes, interpretação, harmonia, melodia ... Quando o João Gilberto sentou, pegou o violão e tocou, ele deu uma forma definitiva para o samba bossa nova. Ele cantou marchinha também ... Mas basicamente ele cantava só samba. Eu sou contra este preconceito. Acho que Bossa Nova não é só samba. É marcha-rancho, samba-canção, baião, o que for ... A Bossa Nova é mais um contexto artístico de música, melodia, interpretação e ritmo. É tudo isso junto. Quando Você Escutou Por a Primeira Vez O Termo Bossa Nova? Em 1957 eu, Nara Leão, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sylvinha Telles, fomos fazer um show na Hebraica ... Era uma pá, mas não tinha Tom Jobim, Vinícius e João Gilberto. Acontece que naquele show da Hebraica tinha um judeuzinho lá que chega e disse assim «hoje se apresentam aqui na Hebraica este, aquele, aquela, e os Bossa Nova». Um judeuzinho ligado em marketing nos botou um nome que a gente assumiu na hora. Então é uma referência importante. Quando foi a primeira vez a se falar em Bossa Nova? Não há dúvida de que foi ali. O primeiro a falar em Bossa Nova foi este garoto, judeu, em 1957. Em o ano seguinte a Elizeth grava o disco «Canção de Amor Demais» que não é também o definitivo neste negócio de Bossa Nova. Por Que? Foi Em este Disco Que João GILBERTO Inventou A Batida Bossa Nova no Violão. Mas Você Não Acha Que Pode Ter Sido Um Acaso, Uma Circunstância Para O João GILBERTO, Já Que O Disco Tinha Realmente Os Arranjos Mais Lentos ... As canções eram todas baladas, modinhas, que para mim é Bossa Nova também, não quer dizer nada. Tem dois sambas ali. «Outra Vez «e» Chega de Saudade», que o João Gilberto atacou de violão no fundo, mas tocou outras coisas que não eram samba. Segundo o violão, aquilo também é Bossa Nova. Este mesmo ano o Tom fez o «Desafinado» com «isso é bossa nova, isso é muito natural». Isso é algo também significativo. Inspirado no judeu da Hebraica. Mas no disco da Elizeth não tem a dupla Tom Jobim/Newton Mendonça, não tem Lyra / Bôscoli, Lyra / Vinícius ... Te a faltando coisa nesta comemoração de 40 anos que só tem Tom e Vinícius e não tem nem João Gilberto cantando. Te a manco para dizer que está é a grande referência. Poderia Ser 40 Anos De Quando João GILBERTO Inventou A Batida ... Não foi. Em 55, quando a gente freqüentava o Plaza, ele já tocava com esta batida. Já conhecia o João Gilberto há tempos. Quando ele gravou em 1955 com a Sylvinha a minha música eu já conhecia aquilo. Sei porque ele dormia na minha casa, pois não tinha nem lugar para ficar no Rio. E ele já tocava daquele jeito. Os historiadores adoram fazer história, ao invés de relatar a história. Não quero garantir nada. Só estou oferecendo o cardápio para você escolher. Em 1959 o João Gilberto grava «Chega de Saudade», ele cantando, ele tocando, e com duplas Tom / Vinícius, Lyra / Bôscoli, Tom / Newton Mendonça. Estão faltando neste disco talvez as duplas Lyra / Vinícius e Menescal / Bôscoli. Mas tem muito mais coisas características da Bossa Nova neste disco do que qualquer outro trabalho. Inclusive Influenciou Para Sempre O Modo De Cantar no Brasil, Não Era Mais Preciso Ter Um Vozeirão Para Ser Cantor ... Até o disco do João Gilberto não havia uma exportação da música daqui, nem nada disso. Tinha era uma coisa acontecendo aqui dentro, as pessoas se ligando e coisa tal, mas aquele lance assim, é agora! A hora é essa! Se for a hora é essa é 57, quando se falou a primeira vez em Bossa Nova ou 59 onde tudo o que tinha para acontecer junto. 58 está falho. Esta polêmica é de agora. Os japoneses nos chamaram em 1997 para fazer um grande show no Japão, para mais de 10 mil pessoas a 80 dólares o ingresso, maioria japonês, para celebrar os 40 anos de Bossa Nova no Japão. Por que sabiam que já havia uma data referente a 57. Eles sabiam disso, como eu não sei. Então em 59 apareceu de fato o canto e o modo de tocar do João Gilberto. Já que ele é tão cult, então ele está mais representado a Bossa Nova no disco de ele, mesmo porque a Elizeth não é voz de se apresentar como cantora Bossa Nova nem aqui nem na China. É uma grande cantora, mas não é cantora bossa nova. Mas não é mesmo. A SYLVINHA TELLES Foi Injustiçada E Não Teve O Devido Reconhecimento Por a Sua Importância Em o Surgimento De a Bossa Nova? Ela merecia um maior reconhecimento. Porque a Sylvinha era uma precursora. antes da Bossa Nova se definir ela cantava muita música da gente. E quando a bossa entrou ela continuou gravando. As primeiras músicas minhas e do Tom Jobim a Sylvinha gravou todas. Antes de falecer ela ainda teve tempo de fazer várias coisas. Foi uma das primeiras, antes do João Gilberto. Você Concorda Com O José Ramos Tinhorão, Quando Ele Diz Que A Bossa Nova Não Sabia Quem Era O Pai? Pelo contrário. O Tinhorão, além de ser muito radical, não é um homem observador. A bossa tinha pais em excesso. Eu, Vinícius, Tom, João Gilberto ... É a mãe que está desconhecida. Ninguém sabe quem é a mãe. Pai tem um monte. Você Também Foi O Primeiro A Rachar Com O Grupo. Como Foi Esta Coisa DE 1961, Quando Você Participou do Centro Popular De Cultura? Mas a racha ali era de outro nível. Eu era ali, talvez, o mais politizado. Fora o Vinícius, que era de esquerda há muito tempo. Haja vista «Operário e Construção». Mas dentro dos músicos eu era o único. Tinha o Sérgio Ricardo. Mas não era do CPC e não quis participar disso. Mas O Que Aconteceu Para Você SE Rebelar? A politização minha era muito ligada ao Teatro de Arena, que realmente era muito politizado. Fiz música para peça do Vianinha, baseada em textos de Max. Fui muito politizado por o pessoal do Arena. A politização era o seguinte ... O partido comunista era uma coisa elegante, bonita, não é xiita e radical como hoje. E este pessoal todo era do partidão. Eu, Vianinha, Guarnieri, a tropa toda, Paulo Francis ... Todo este pessoal visava uma coisa importante que é a mudança de cultura no Brasil. Tem de botar todo jovem na universidade, por exemplo. Dar cultura ao povo. A idéia do centro era isso. A minha idéia era que fosse Centro da Popularização da Cultura. E alguns amigos radicais queriam cultura popular. Eu dizia cultura popular eu não sou. Sou classe média. Quero popularizar a cultura. Levar a Bossa Nova para o povo também. Estamos aqui para isso. Se for diferente eu estou fora. E o Vianinha disse que não, que eu estava errado. Mas insisti que nem eu e nem ele éramos. Não adianta querer fazer teatro popular que não é assim. Mas existe a música popular de uns caras que são ótimos. Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Cartola, João do Vale ... E eu estava certo e o Vianinha me deu razão depois que ele estava sendo radical. Afinal, Por Que Você Decidiu Rachar Com O Pessoal De a Bossa Nova? A quebra é isso. Após 1961 a bossa começou a entrar num ritmo que merecia as críticas. Música de apartamento, que é o amor, o sorriso e a flor, o barquinho para cá e para lá ... Tudo isso é legal, mas não saía desta porra. Então senti que estava faltando conteúdo na parada. Tinha forma para cacete, mas estava faltando conteúdo. E tanto eu tinha razão que quando entramos com o conteúdo, com «Influência do Jazz»,» Quem Quiser Encontrar Amor», «Aruanda», aí o próprio Tom Jobim veio com» o morro não tem vez, e o que ele fez ..." Entrou na jogada, e o Vinícius estava aí também. Então juntou, apesar de ser da direita festiva, mas ele estava ali, produzindo aquilo que mais tarde vai se transformar em MPB. Depois veio Caetano, Gil, Chico Buarque ... Você não conhece um cara de MPB que seja de direita. Sem condição. Aconteceu Aquele Episódio da Nara Leão Com O Bôscoli, Em que Ele Voltou De Uma Viagem E Anunciou Seu Casamento Com A Maysa Sendo Que Era Noivo De ela. O Afastamento da Nara da Bossa Nova Foi Mais Em Função De o Lado Pessoal Ou Por Uma Questão Política Mesmo? Em a época em que ela estava com o Bôscoli, naquela fase o Bôscoli era, apesar de ser chamado de Ronaldo Esquerdo Bôscoli, era mais um cara de direita. Mas descomprometido. O negócio era fazer música. O Tom Jobim também. O talento independe destas posições políticas. O negócio é que a Nara começou a se envolver com um mundo diferente e já havia tido uma referência com mim. Eu cansei de cantar a Nara para esquerda. E quando levei para ela o Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, que ela não tinha nem idéia, ela abriu o olho. Ninguém conhecia de verdade. E falei: já imaginou uma garota Zona Sul cantando os crioulos de escola de samba. E Como Era O Contato Seu Com Este Pessoal? Contato direto. Em princípio por causa do CPC. A gente estava procurando para arregimentar os extras do filme de Flávio Rangel e a idéia de pegar a música de raiz brasileira para socorrer a música de classe média, que estava com muita forma, mas sem nenhum conteúdo. Estava batendo na mesma tecla. Não tinha mais saco para isso. Não agüentava mais este negócio de flor. O CPC se dedicou a cavar conteúdo e a verdade é que minha música se enriqueceu com isso. Saiu o show «Opinião» com ele. Poderíamos Falar Que O Show «Opinião» Afundou A Bossa Nova E Levantou A Mpb? Não afundou. Deu um passo a frente, além da Bossa Nova. O show foi escrito na minha casa. A Bossa Nova era uma coisa nacionalista, queria fazer música brasileira, e a bossa aí passou a ter conteúdo. «Opinião» é Bossa Nova com conteúdo. E daí para frente à Bossa Nova não caiu, ela passou a ter conteúdo. Esta é outra viagem que o Tinhorão perdeu. Ele não percebeu que a Bossa Nova se conscientizou. Em a minha música, Vinícius e de outros mais. O Tinhorão não percebe esta evolução. Ele pensa que o Chico Buarque é MPB engajada e que a Bossa Nova é uma música alienada. Em 1964, Com O Golpe, Você Decidiu Impor Um Auto-EXÍLIO? Com o golpe ficou insuportável. Os militares prepararam o terreno e os civis safados, porque o grande golpe foi dado por civis corruptos. Ordinários que estão aí até hoje. A gente está vivendo uma ditadura civil. Ninguém notou ainda, mas continua a brincadeira. Ainda tem muita gente ruim mandando neste país. Então me exilei, porque se tivesse ficado teria sido preso. Então fui para os Eua. Nova Iorque. Foi Quando Surgiu Para Tocar Com O STAN GETZ? Desde 1962 que o Stan gravava com a Astrud e com o João Gilberto. Os dois não quiseram mais participar e então ele me chamou. Só disse que não iria cantar «Garota de Ipanema», que era compositor e não iria tocar música de ninguém. Ele disse tudo bem. Aí comecei a tocar as minhas músicas com um conjunto maravilhoso atrás de mim, com Chick Corea no piano, Gary Burton de vibrafone ... O Chick reclamava que o Stan Getz não deixava eles tocarem e só queria o arroz com feijão. Isso em 1965. Como Era O STAN? Estava o tempo todo de porre. Mas era um cara legal. Ele divulgou muito a Bossa Nova. Mas não gosto de saxofone. Para mim tem hora, me incomoda um pouco. Depois Você Acabou Indo Para O México. Casei com a Kate na Cidade do México. Fiquei quatro anos e voltei para o Brasil em 1971. Até 1974 quando resolvi ir para Los Angeles passar dois anos sem voltar aqui. Fui em função da Terapia do Grito Primal. É curiosa, você grita, chora, se joga na parede, com a sala toda forrada de espuma ... Para mim foi fantástico, pois estava rolando tudo aquilo no Brasil, e eu fumando feito um louco, com taquicardia ... Comecei a passar bem, inclusive meu colega de terapia era John Lennon. Só toquei com ele na terapia, conversamos ... Isso foi em 1974. Ele falou que aquilo estava salvando a vida de ele, que ele estava se sentindo ótimo. Em esta Época Você Também Se Envolveu Com Astrologia Sideral. Como Foi Isso? Em Los Angeles eu também conheci a Astrologia Sideral, que é para corrigir os signos. Astrologia científica, astronômica. Fui à escola de astrologia sideral para saber do que se tratava, fiquei convencido e passei a ensinar lá também. Porque já conhecia astrologia. Quando voltei ao Brasil lancei um livro chamado «Seu Verdadeiro Signo». Então Isso É Verdade Mesmo. ÁRIES Não É Mais ÁRIES ... É a pura verdade. Qual Era O Seu Signo? Era Touro. Agora sou Áries. O signo dos pioneiros. Eu Sou ÁRIES. Devo Ser Outra Coisa Agora, Né? Que dia você nasceu? 11 De Abril. Você é Peixes. Não é Áries nunca. Quando você nasceu o sol estava na constelação de Peixes. O que isso significa para o teu caráter, você tem de fazer o seu horóscopo pessoal para ver. Pode mudar muitas coisas. Signo não é definitivo. Mas na Idade Média era proibido falar no movimento dos astros e a Igreja congelou tudo. Por que isso vai mudar sempre. Cada Era que muda, as pessoas já nascem em signos diferentes. Número de frases: 348 Entrevista concedida a Cult Press/CartaZNotícias Depoimentos Notáveis: VINICIUS NA PAULICÉIA. Marco Antônio Soares de Oliveira * Em dezembro de l965, repórter de «A Gazeta», da Fundação Cásper Líbero, fui fazer uma matéria com o Poeta mais famoso da época, Vinicius de Moraes. A turma do Poetinha como era carinhosamente reconhecido iria dar um show no Teatro Municipal de S. Paulo, em benefício às instituições de caridade. O convite partiu de dona Zilda Natel, esposa do Prefeito de S. Paulo, Laudo Natel. Era por volta das 21 horas, quando o meu Chefe de Reportagem, Hélcio de Castro, recomendou-ma entrevista: Já que você é literato, faça a entrevista com Vinicius de Moraes, que está ensaiando no Municipal! Entregue-a antes da meia-noite, no fechamento da edição! E lá fui eu contente, pois era admirador incondicional do mestre Vinicius para a cobertura. Já o tinha conhecido antes no Rio, no famoso bar Antonio's, em Ipanema. Em aquela época, andávamos duros, sem um tostão no bolso e o nosso grupinho de candidatos à Literatura ficávamos numa choperia em frente batendo papo em Inglês, pois ali freqüentava muitos turistas americanos e quando algum de eles notava que nós falávamos a língua materna pagava alguns chopes para atravessarmos a noite carioca. E foi por o vidro em frente, que notei a presença de Vinicius e fui depressa invadir sua privacidade e bater papo com o Poetinha. Falei-lhe que estava mudando para S. Paulo e dei-lhe meu endereço. O xará, Marcus Vinicius, foi atencioso e semanas após, mandou-me um livro de presente «Para Viver um Grande Amor». Dito e feito fui lá com o fotógrafo Rebello para a reportagem. Quando adentrei o Municipal estavam terminando o ensaio da primeira parte do espetáculo. Vinicius e toda a sua turma carioca: Tom Jobim, Baden Powell, Toquinho e outros elementos destacáveis no cenário musical nacional. Aproximei-me e já fui falando: Vim para uma entrevista. Está disponível? O Poeta reconheceu-me e disse prontamente: Foi bom que você veio? Já estava passando da hora de «bicar» um pouquinho. Levei para o bar da moda: Juan Sebastian Bar. Vinicius já foi pedindo seu uísque predileto. E o capitão-do-mato, poeta, diplomata, o branco mais preto do Brasil já foi falando: Precisava vir urgentemente a São Paulo para desfazer um equivoco. Atribuíram me que tinha dito que " São. Paulo era o túmulo do samba». Nada disso, gosto da Paulicéia e algum jornal publicou a frase. A convite da Prefeitura vim mostrar o nosso amor a São. Paulo por a sua terra e sua gente ... Perguntei-lhe dos livros publicados e o Poeta retrucou: Vamos falar de temas mais amenos: como o do Amor e evidentemente a Mulher. A propósito do livro " Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito: é preciso também ter muito peito -- peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amado como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. «Continuou: «Uma mulher ao sol -- eis todo o meu desejo / Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz / A flor dos lábios entreaberta para o beijo / A pele a fulgurar todo o pólen da luz». Sobre a solidão falou: «A maior solidão é a do ser que não ama, é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo." E assim viramos a noite batendo papo e o poeta recitando parte de seus versos. Quando dei por a coisa, tínhamos esvaziado algumas garrafas de uísque e os raios de sol já apareciam no horizonte. Eram seis horas da manhã e os garçons de braços cruzados aguardavam a nossa saída. Dei conta de que não aparecera no jornal para entregar a reportagem, que quase me valeu o bilhete azul do Editor. Mas no fundo estava aliviado: tinha conversado com o Poeta Maior. Fui visitá-lo antes, de sua morte no Rio de Janeiro, em julho de 1980. E carrego ainda com mim os seus versos daquele encontro, em que aprendi que a poesia é ave que nos transporta para o infinito e somente ela poderá salvar o mundo de amanhã. Vinicius de Moraes, antes de partir, deixou-nos esta mensagem: «Meus amigos, se durante o meu recesso virem por acaso passar a minha amada / Peçam silêncio geral. Depois / Apontem para o infinito. Ela deve ir / Como uma sonâmbula, envolta numa aura / De tristeza, pois seus olhos / Só verão a minha ausência». Número de frases: 57 * Jornalista e escritor ver foto do Márcio e Vinícius de Moraes Independentemente das pesquisas de audiência da novela «Páginas da vida», o comentário geral é de que nunca houve novela tão chata como esta. Duvido da afirmação, pois a memória de todos é curta e os fatos são filtrados ao longo do tempo, mas o que chama a atenção nesta novela mais do que em todas as outras é o seu caráter didático. Já faz algum tempo que a Globo tem levado às novelas lições de saúde e comportamento -- aprendemos sobre como lavar bebês recém-nascidos, sobre como é importante doar a medula óssea, sobre regras de etiqueta, sobre a importância da leitura e da cultura nacional ... Tais ensinamentos, conhecidos como «marketing social», se contraporiam ao caráter alienante de que as novelas são acusadas. Mas «Páginas da vida» supera todas as possibilidades didáticas, de ensinamento moral e / ou com caráter de auto-ajuda em alta intensidade e nível de explicitação. Ninguém gosta de lição de moral o tempo todo. Uma obra de ficção não pode ter como função principal ensinar sobre a realidade. O autor de «Páginas da Vida», Manoel Carlos, declara que sua ficção aproxima-se o mais possível da realidade, o que poderia ser um ponto positivo -- afinal ver parte do Brasil urbano retratada na tv é, no mínimo, bonito. De essa forma, há a menina e sua mãe racista e diálogos sobre como isso é uma doença; pobreza na África e violência no Rio e diálogos sobre como isso é injusto; portador do HIV e diálogos sobre a necessidade de aceitar a doença; casal de adolescentes namorando e diálogos sobre ... Em a verdade, uma obra de ficção pode ensinar muito mais se der margem para a ambigüidade e interpretação. Por exemplo, a cena em que a megera Marta chega em casa furiosa e ameaça bater em seu neto, Francisco. Não é preciso dizer que é errado bater em criança -- basta o olhar de medo e impotência do menino, que possibilita interpretação ao telespectador. Apenas dessa forma a novela pode ensinar alguma coisa. O avô, Alex, chega, impede a violência e convida o menino para o quarto -- não há sermões, não há aulinha sobre o respeito às crianças e o dever de protegê-las. O mesmo ocorre com obras literárias. A função da literatura não é ensinar, embora o faça na dimensão de reflexão sobre a vida e as suas possibilidades. Em a escola, contudo, principalmente nas séries iniciais, a «historinha» tem sempre um caráter moral ou didático. Abordar o tema da separação dos pais, da morte, da cooperação; ensinar as cores, as formas, os números. Os professores costumam «matar» os livros literários ao procurarem em eles apenas características didáticas. Tal postura se relaciona a uma visão utilitarista e prática da vida e da escola -- é preciso «servir» para alguma coisa. Então as crianças acham a escola chata, pois não estão a fim de aprender o tempo todo; os telespectadores mudam de canal e vão ver dramas românticos açucarados, que pelo menos os emocionam e divertem. Número de frases: 27 As pedras falam. Só aparentemente calam. As pedras condenam. As pedras explicam. As pedras gritam perguntas além do tempo dos homens presentes e da vida presente, como diria o poeta Carlos Drummond, que encontrou no meio do caminho uma pedra-enigma. A imagem mais forte que queimou (e queima) dentro de mim como um guardado incômodo na alma é a das pedras da Cidade de Goiás. Impossível andar por as ladeiras e becos de Goiás, a Vila Boa de Goyaz (antiga capital da Província e do Estado), e não escutar as pedras. Em todas as direções, lá estão elas, as pedras do passado, exigindo mais que a atenção dos nossos passos presentes, às vezes displicentes, quase ausentes ou indiferentes. Também impossível não ser tocado por a beleza arquitetônica de Goiás, o Patrimônio da Humanidade que é um espetáculo vivo de tradição, arte, cultura, sabores e encantos naturais, uma redoma ancorada na Serra Dourada e no remanso do Rio Vermelho -- que faz nossos olhos debruçarem-se sobre a ponte e além de ela. O rio lembra o correr da vida, a febre do ouro do tempo dos bandeirantes e dos tempos modernos. Mas o seu sentido mais perene é o fluir e religar o homem ao sagrado da vida. E as águas fluem como o tempo. As águas lapidam as pedras no leito do rio e o tempo, caprichosamente, a alma dos homens, um relógio natural liqüefazendo-se nas entranhas da gente. E nunca as pedras de Goiás me tocaram tanto como da última vez que estive na cidade, em maio último, no III Encontro Afro Goiano, promovido por o Sebrae para incentivar o empreendedorismo nas comunidades afro-descendentes do Estado. Guardo (e guardarei por muito tempo ainda) deste encontro impressões e imagens fortes das pedras. De o cenário natural da cidade à fala da alma de algumas pessoas, as pedras, uma inquietação profunda, que nem o murmúrio das águas e do tempo tem o poder de apaziguar. O homem sábio, com a beleza de seus ritos e mistérios trazidos de uma África imemorial, no Conselho dos Sábios, também foi invadido por as pedras que simbolizam um passado de escravidão. Com altivez de rei sem trono, declarou-se o zelador das pedras, as nossas almas desamparadas. Em a textura das pedras um trauma, uma confissão, um choro antigo, vazando ali, no coletivo das pedras e das almas. A dor da mãe ensinando ao filho a trajetória dos braços e do suor dos antepassados que construíram ali, nas artérias da cidade, por onde seguem os nossos passos e nosso sangue de agora, a lição incontestável das pedras de nossa história. Ali, onde ainda arde na fogueira a dor da bisavó queimada viva. E a voz de trovão do poeta no auditório lotado desperta as pedras do mar subterrâneo de nosso inconsciente coletivo na batida das ondas bravias e revoltadas dos versos de Castro Alves. E Navio Negreiro aporta meio fantasmagórico no ancoradouro de nossas almas, clamando por consciência. Em a calmaria da cidade antiga, becos estreitos das dores de agora, passos lentos equilibrando-se nas pedras, que às vezes parecem movediças, não sei se noite ou se dia o que penso e sinto, o meu silêncio recolhe ao léu estas imagens vulneráveis e humanas: meus olhos espichados além da ponte, no correr eterno do rio; meus passos necessários no silêncio das pedras, que sussurram coisas para dentro das minhas palavras; a altivez de rei destronado nos olhos quentes de João de Abuque, o zelador de almas; o choro de Marta Ivone acordando as pedras; a voz do professor Geraldo Santana sacudindo as pedras do fundo dos porões de nosso imenso e insano Navio Negreiro. Impossível não se arrepiar com os versos: " ( ...) Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura ... se é verdade / Tanto horror perante os céus?! / Ó mar, por que não apagas / Co' a esponja de tuas vagas / De teu manto este borrão? ... / Astros! Noites! Tempestades! / Rolai das imensidades! / Varrei os mares, tufão ( ...)». Sigo as pedras. A esmo erram meus passos, sentidos e pensamentos por os labirínticos e estreitos becos da cidade no silêncio da noite. Sinto, e é mais que uma lembrança, os olhos tranqüilos e silenciosos de dona Maria Gerci -- moradora de uma comunidade quilombola no Nordeste Goiano --, sem ter o que dizer. Serenamente, ela flui como as águas do Rio Vermelho abrindo fendas na eternidade da rocha. E eu sei que é ternura humana que brota do seu olhar. E não posso esquecer a imagem que está aqui, no fundo da caixinha, os olhos curiosos e alegres de Amandinha, com a esperança de todos os passos dando um balanço nobre à imensa saia rodada, a pequena rainha entre as mães e filhas de santo, toda vestida de branco e nobreza da tradição. Bonito de ver o balé de seus pés sobre as pedras, enquanto brinca, corre e ri. E eu sei que é esperança de vida que brota dos seus movimentos. Número de frases: 47 A história musical do Brasil está repleto de boas cantoras. E Maria Bethânia é uma das intérpretes mais aclamadas de sua geração. Considerada por muitos como a própria Diva da MPB. Maria Bethânia Vianna Telles Veloso nasceu em 1946 na Bahia em Santo Amaro da Purificação. Foi para o Rio de Janeiro ainda moça com o sonho de se tornar artista. Durante muitos anos se apresentou em boates de Copacabana de onde ainda guarda boas recordações: Foi ali que aprendi o meu ofício ... o público de boate é molinho, vão ali para conversar, namorar e deixam a cantora quieta no canto de ela. Sua estréia nos teatros cariocas foi em 1965 no Show Opinião ao ser convidada para substituir Nara Leão. De ali saiu sua interpretação da música «Carcará» de João do Vale que a tornaria famosa por todo o Brasil. Em a década de setenta, junto com seu irmão Caetano Veloso e os amigos Gal Costa e Gilberto Gil, realizou no Canecão, no Rio de Janeiro, o Show «Doces Bárbaros» lançado em LP com grande sucesso de crítica e público. Maria Bethânia nunca abraçou a Bossa Nova, um gênero musical considerado mais tranqüilo para o seu estilo com forte carga dramática, por isso, seu repertório é calcado em sambas canções, serestas e canções românticas. A o completar 35 anos de carreira em 2001, Maria Bethânia nos brindou com o show «Maricotinha» lançado também em DVD e CD duplo. Em o repertório a cantora passeia por os sucessos que marcaram sua carreira e declama poemas de Fernando Pessoa. Seu último show intitulado «Brasileirinho» gravado no Canecão do Rio de Janeiro é uma homenagem ao Brasil e sua tradição musical mais remota. Maria Bethânia interpreta canções regionais do folclore popular e peças do compositor clássico Heitor Villa Lobos. Recentemente foi lançado em DVD, um filme que retrata o perfil da cantora e um pouco de sua trajetória artística. O filme Música é Perfume de Georges Gachot é de uma sensibilidade peculiar e convida o espectador a entrar no universo mágico e extremamente músico-teatral de Maria Bethânia. Número de frases: 18 Sempre ouço as seguintes frases, muitas vezes proferidas por pessoas esclarecidas em outros assuntos: «O Cinema brasileiro está começando a ficar bom "; «Cinema brasileiro já está ganhando prêmios "; «O Cinema brasileiro agora é bom» e a pior de todas, mas não rara: «Posso te indicar um filme bom, mas é nacional». As premiações são parte de um processo e são importantes, mas isto não quer dizer que um filme não seja bom, porque não ganhou os maiores prêmios. O Cinema brasileiro é literalmente mal visto por a população brasileira. Assim como em demais segmentos culturais, as estatísticas referentes ao público brasileiro são alarmantes. Para que se tenha noção de um panorama cultural do país, e para que se possa compará-lo diante de outras nações, visite o banco de dados estatísticos da Unesco, que infelizmente não está atualizado. Não podemos nos esquecer de que nosso mercado, estando a serviço do americano, possui uma estimativa de público para filmes brasileiros ainda menor e contraditoriamente, um tempo de permanência de exibição para os filmes brasileiros bem reduzido. Gostaria de lembrar que durante o mandato do Ex-Presidente Fernando Collor, o Ministério da Cultura foi exterminado e transformado praticamente em Secretaria, desinstitucionalizando e erradicando como doença a Embrafilme, o que nos deixou por vários anos sem a produção de um único longa metragem. O filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995) de Carla Camurati foi o estandarte desta retomada de produção, que se tornou muito regular nos últimos anos. Como algumas pessoas ainda conseguem criticar nosso cinema, desconhecendo sua história? Se um filme é de caráter social, dizem que estão aproveitando das mazelas de nosso povo. Se o filme é uma comédia, preferem torcer o nariz. Aliás era na comédia, na chanchada brasileira, que o Brasil ainda contava com uma indústria cinematográfica e um público fiel, um público de massa. Só para dar um exemplo qualitativo, cito o caso do José Saramago, primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, que nunca havia permitido, embora tivesse recebido muitos pedidos e ofertas de todo o mundo, que suas obras fossem adaptadas para o Cinema, entretanto, acabou permitindo ao Fernando Meirelles que filmasse um de seus livros mais importantes: «O Ensaio sobre a Cegueira». Outro diretor brasileiro, Walter Salles, assumiu a responsabilidade de filmar «On the Road» de Jack Kerouac, definitivamente o livro mais importante da contracultura americana dos últimos tempos. Este filme poderia ser filmado naturalmente por americanos: Oliver Stone, Steven Spielberg ou diretores americanos experientes em «road movies» poderiam ter recebido o convite para fazerem este filme. Como se vê, nossa excelência cinematográfica conseguiu vencer as barreiras geográficas. Estes realizadores não são mais vistos como «cineastas brasileiros», mas como diretores genuínos e talentosos, integrados ao que posso chamar de Patrimônio do Cinema Mundial. Portanto, o grande problema é basicamente o de público. O custo médio de um ingresso é inviável para as camadas mais carentes da população. Ir ao cinema torna-se algo extravagante e supérfluo, partindo de um ponto de vista financeiro, preocupação latente na vida destas pessoas. Em países como a Coréia, por exemplo, cerca de 13 milhões de pessoas chegam a assistir a um único filme coreano, sendo que a população do país está na casa dos 50 milhões. ( Fonte: Baptista / Mascarello em Cinema mundial contemporâneo, 2008.) A Nigéria possui uma capacidade produtiva, ainda que muitas vezes precária, invejável. A França consegue manter cerca de 30 % de cinema genuinamente francês em suas salas de exibição. Hoje os realizadores brasileiros produzem, sendo que em algumas vezes, nem chegam a exibir seus filmes fora dos circuitos de festivais, ficando as produções estagnadas, dependendo exclusivamente de vendas de lotes de DVDs. Desta forma, acabam eles próprios sem uma justificativa para o próprio esforço produtivo. Felizmente, existe uma cultura entre cineastas brasileiros, onde muitos fazem cinema por «teimosia», por terem coragem de encarar a realidade social do país e é claro, por vontade, necessidade de se fazer filmes, acreditando que são indispensáveis para a reflexão de nossa própria história. Nosso Cinema sempre ganhou prêmios, sempre foi bem criticado internacionalmente. Conseguimos através do processo do Cinema Novo, criar uma nova forma de pensar a estética cinematográfica, de reconstruir a realidade e de gerar polêmica. Influenciamos em grande parte o neo-realismo italiano e por exemplo, o novo cinema alemão. Falta-nos um processo de democratização de ferramental cinematográfico, agora facilitado por as novas formas digitais de captação, mas ainda muito elitizadas. Se faz também necessária uma nova forma de escoamento da produção, hoje possibilitada também por a Internet, políticas públicas culturais mais eficazes, de entre outras coisas. Não tenho grandes pretensões com este texto, a não ser de buscar instigar a platéia de cinema adormecida ou não do Overmundo. Irei me arriscar em sugerir três possíveis caminhos para maior conscientização e fidelização de público no Brasil: a) O trabalho permanente de exibição e debates sobre filmes nas escolas, inserindo os filmes nacionais em projetos educativos como o «Escola Aberta da Unesco» e Pontos de Cultura do MinC, levando os jovens para assistirem aos filmes, livrando-os da violência familiar e das ruas e possibilitando uma forma de entretenimento gratuito. b) A promoção de um número maior de oficinas, colaborando para a aprendizagem e capacitação de adolescentes e adultos à prática áudio-visual. Afinal, se o cinema no país é feito por o beneficiamento de leis municipais, estaduais e federais de incentivo à cultura, nada mais justo do que proporcionar ao público comum, mas interessado, uma oportunidade de prática áudio-visual. c) A divulgação dos Cineclubes brasileiros. Estas entidades atualmente estão em fase de organização por o «Movimento de Acesso ao Cinema Brasileiro do Ministério da Cultura». De este movimento nasceu a Programadora Brasil, entidade governamental responsável por a catalogação, organização e fornecimento de acervo aos cineclubes brasileiros. Para que estes esforços valham a pena, os cineclubistas e seus freqüentadores devem convidar amplamente o público, favorecendo troca de conhecimentos entre a crítica cinematográfica, novos realizadores e o espectador em geral. Com isto, acho que conseguiremos caminhar lentamente por terra firme, até conseguirmos novamente uma fatia satisfatória de um público consciente, criticamente formado, que valorize e tenha orgulho de nosso cinema, atividade que ainda hoje não garante a seus profissionais uma rentabilidade e um tipo de segurança satisfatória. Ao invés de esperar que o público vá ao cinema, deve-se buscar atingir o público. Estando perto de ele e conhecendo-o melhor, os gestores culturais terão condições favoráveis para atuarem junto dos realizadores, que poderão fazer ainda melhores produtos culturais. Para refletir: Quantos filmes nacionais você assistiu este ano? Quais foram eles? Você já conhece todos os cineclubes de sua cidade? Caso seu município seja menor e não possua um cineclube, não seria este o momento ideal para criá-lo? Comente sobre os cineclubes com seus amigos, os convide, seja um freqüentador destes importantes espaços culturais. O cinema brasileiro é feito para você e como diz um ditado popular: Número de frases: 57 «O que não é visto, não é desejado." Gírias (Autor: Antonio Brás Constante) Quem nunca disse uma gíria, que fale alguma agora ou cale-se para sempre. Calma, não estou rogando nenhuma praga, apenas querendo dizer que as gírias fazem parte de nossas vidas. Estão por toda parte, aparecendo novas expressões a todo o momento. Tudo pode virar gíria. Elas existem assim como os apelidos para que as pessoas possam chamar de forma diferente: objetos, fatos e outras pessoas. Que apesar de possuírem seu próprio nome, por um acaso do destino, acabam ganhando este jeito «novo» de serem chamadas e reconhecidas. Como exemplo, podemos citar a cerveja, que no passar dos anos, foi intitulada de: loira, ceva, boa, gelada entre outras. As gírias em geral são facilmente entendidas, pois são introduzidas gradualmente em nosso meio. Mas se por acaso pegássemos uma pessoa totalmente isolada do mundo por algumas décadas e falássemos com ela utilizando gírias, poderiam ocorrer equívocos de interpretação. Pensem nesse indivíduo escutando que um rapaz estava «azarando» a moça na escola. Provavelmente iria imaginar que o referido jovem estava torcendo para que a tal moça tropeçasse em algo ou que estourasse a caneta no meio de seu caderno, porque para ele «azarar» seria torcer contra e não «paquerar». Outra gíria que poderia ser mal interpretada é o tal «toque» do celular -- aliás, no meu tempo dar um toque em alguém, era dar uma dica sobre algo, para o sujeito se «tocar» sobre algum fato do qual ele não estava muito por dentro --, mas voltando ao celular, a primeira coisa que se pensaria era que os jovens andavam se «cutucando» (sabe-se lá aonde) com seus aparelhos. Pior ainda seria se escutasse que fulano iria mandar um «torpedo» para uma «mina». Entraria em pânico, acreditando se tratar de um ataque terrorista. Brincadeiras à parte, as gírias servem de certa forma para personalizar o jeito como chamamos algo, deixando-o na «moda». Chega como uma novidade, se transforma em pronúncia corriqueira e por fim acaba no dicionário para não cair no total esquecimento. Sites: www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc) Atenção: Divulgue este texto para seus amigos. ( Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos). Número de frases: 24 Quilombo Moderno é o Encontro de algumas comunidades negras de Salvador, BA, em torno do Grupo Quilombolas. Eles estão lançando este álbum educativo, voltado para o Hip-Hop com inclusão de samples de Ilê Ayê, corimas e toques de orixás. Todas as músicas estão isentas de direitos autorais podendo ser baixadas e usadas por o público da maneira que quiser. O grupo pede opiniões, críticas e sugestões. Entrem em contato com: quilombomoderno@webcpd.com.br ouçam as músicas aqui ou aqui. Número de frases: 7 E visitem o portal também aqui. Uma das coisas mais comuns no meio de uma conversa sobre a quantas anda a movimentação da música independente em João Pessoa é ouvir: «Em essa cidade não tem público, não tem espaço e é tudo muito incerto». Ok, isso faz sentido sim, é verdade. Se meter a fazer um show, por exemplo, de uma banda que não esteja no chamado mainstream do rock é correr um risco absurdo, já que o que podemos constatar a cada show é que não há geralmente o interesse por o «novo» e verba nunca foi coisa fácil por aqui. Mas há quem diga que as coisas estão mudando ... Nunca se produziu tanto evento em nossa cidade como agora; uma prova disso é o Festival Mundo. Mas pra falar desse festival eu preciso te contar antes sobre Rayan e como as coisas estavam há uns quatro ou cinco anos. Aqui na nossa cidade havia basicamente dois lugares pra se fazer shows: A Oficina do Capim, no centro histórico (um inferninho com uma estrutura tão precária que se entrassem 200 pessoas perigava a casa desabar), e o Teatro de Arena, onde rolavam apresentações geralmente de grupos já maiores no meio independente e bandas covers (fórmula horrível que até alguns dias era sinônimo de sucesso entre os meninos roqueiros de plantão). Isso atraía mais público e dava pra bancar uma estrutura maior. Em essa época Rayan tinha 16 anos e, como todo moleque, formou uma banda e se deparou com o então maior problema: onde diabos vamos tocar? Foi nesse questionamento que surgiu a idéia de que ele poderia produzir algum show para promover sua banda e de seus amigos, o que acabou nem dando certo naquele período. Uns dois anos depois a idéia já não era só promover sua banda, mas havia também a tentativa de dar uma engrenada num cenário de shows oscilante e cheio de grupos, surgindo assim a idéia do Festival Mundo -- unir estilos diferentes de rock e arte independente. «João Pessoa é uma cidade de panelinhas, então o desafio é criar um caldeirão com o que está sendo produzido de melhor na cultura underground», diz Rayan. E foi com a idéia de misturar as «tribos musicais» da cidade que em setembro de 2005 foi realizado o primeiro Festival Mundo, no centro histórico da cidade. Lembro que fui lá pra cobrir o evento e achei tudo muito impressionante. E não estou falando só dos shows, mas de observar como um cara que nunca tinha produzido nada antes pode organizar e idealizar tão bem as coisas. Não houve uma megaestrutura, até porque megaestrutura nem combinava com evento, mas foi o tipo de coisa bem idealizada e com um clima impressionante, tudo fluía. Dava a impressão, olhando de fora, que era algo feito naturalmente por amigos, que faziam e se divertiam. Um conceito maravilhoso. Eram 10 bandas, sendo duas de outro estado, e um telão com projeções de fotos e imagens de artistas daqui. «Foi tudo acontecendo muito naturalmente: o pessoal das projeções aceitou fazer as exibições, a imprensa deu importância ao evento, as bandas toparam tocar pra receber porcentagem de bilheteria, e o público compareceu, o que foi fundamental. Foi isso que deu gás para uma segunda edição e todos acabaram aderindo ao evento." E a segunda edição se deu no mês passado, nos dias 15 e 16 de setembro, com uma crescida considerável na estrutura. Rayan me chamou pra participar da produção, já que eu tinha experiência no ramo e lá fui eu. Costumo organizar shows, mas um festival é muito mais complicado ... Desde o número de pessoas envolvidas (que quadruplica) até os objetivos. Se para a segunda edição já tínhamos a experiência do primeiro e reconhecimento do público para facilitar as coisas, pra complicar tivemos a idéia de fugir da rotina de shows, agregando ao festival mostra audiovisual, palestras e exposição de artes visuais, coisa nunca antes acontecida na cidade num festival independente. Pois é, estive pela primeira vez num processo de produção de um festival pretensioso para nossa realidade: Pouca verba, todos com mil outras atividades pra fazer, ter que correr atrás de cada patrocínio, ouvir muitos «nãos» para cuidar de viabilizar os três dias do evento (antes era só um), show de dez bandas locais mais cinco bandas de outros estados, discotecagem, mostra audiovisual, palestras e um mês de uma exposição coletiva de artes visuais com artistas novos da cidade. Dois meses de produção depois ... Eis que chega o grande dia, ver a prática de tudo o que se planejou: 14/09 Quinta: às 16h estava começando o vernissage da exposição. Verdeee, Sarah Falcão, Cristina Carvalho, Flauberto, Ana Isaura, Paloma Nogueira, André Falcão, Marcelo Brandão e Joalisson nos presentearam com uma «expressão isenta de artistas comprometidos com uma idéia cosmopolita dos sentimentos e das relações humanas» como disse FabbioQ, que fez a curadoria. E eram expressões nada convencionais, às vezes gerando até o estranhamento de certos visitantes mais conservadores. Pra entender por que basta olhar, por exemplo, as obras de Verdeee. Em o vernissage não tinha muita gente, eram artistas e amigos dos artistas, o que já era esperado. O público do festival ainda entende exposições de arte como algo sacal, justificado por o predomínio estético regionalista evidente aqui na Paraíba. Como disse no primeiro parágrafo, estamos diante de um público que, em sua maioria, não gosta muito de arriscar no novo. 15/09 Sexta Estávamos ansiosos com a mostra de audiovisual. Zonda Bez (responsável por a curadoria da mostra) fez um apanhado histórico do vídeo musical aqui na Paraíba. Documentários de 2000, por exemplo, mostrando a cena underground da época e clipes produzidos desde 1997! Tudo apresentado em ordem cronológica, evidenciando a evolução tanto na parte musical quanto em termos de produção do estado. «O interessante é ver que é um lance educativo mesmo, porque tem uma molecada que só está ligada no que acontece no mainstream do rock! Quando você chega e mostra vídeos da cena daqui antigamente e sua evolução, traz bandas desconhecidas que são tão legais (ou melhores) quanto as que estão na TV, começa um processo de valorização por eles. Começam a participar mais e pesquisar sobre outras expressões, não só no que a MTV indica como o melhor do independente ...», diz Rayan. Os shows começaram as 21:00 e o púbico ainda era muito pouco, mas foi chegando ao longo das ecléticas bandas na noite. Quando a Gauche (PB), primeira banda a tocar, deu seu primeiro acorde, parecia que um peso enorme tinha saído das nossas costas. Nos olhamos e percebemos " Pronto! O principal já foi feito. Te a tudo aí!», mas foi o Superoutro (PE) entrar no palco pra surpreendentemente começar a chover. O local dos shows só tem o palco coberto, mas a chuva foi tão forte que até ele foi molhado, tendo-se que interromper a apresentação. Não tinha o que se fazer, às vezes acontecem uns problemas totalmente fora do nosso alcance de solução, e qual foi o produtor que nunca passou por uma dessas? Sorte que tínhamos um outro ambiente coberto com discotecagem e a festa não perdeu (muito) seu ritmo. São Pedro decidiu dar uma aliviada e os shows continuaram, mesmo uma boa parte do público tendo ido embora por conta da chuva. 3h30 da manhã os shows acabam ... Ter que ir para a casa depois dessa e sabendo que no outro dia vai ser tudo outra vez é desgastante. 16/09 Sábado A programação do festival teve início com a palestra sobre web 2.0 do nosso amigo Bruno Nogueira, representante do Overmundo de Pernambuco. Aproveitamos o festival pra falar um pouco sobre o site e sobre conteúdo colaborativo na Internet, chamando os presentes (que infelizmente não foram muitos) a participar. A palestra foi ótima e foi também, claro, uma ótima oportunidade para a eu saber mais sobre o creative commons (já que entrei há pouco tempo aqui), conhecer o Bruno e trocarmos figurinhas sobre o Overmundo. Logo após a palestra foi dada continuidade à mostra de audiovisual iniciada no dia anterior, encerrando com um debate sobre os rumos da cena underground pessoense: o que podemos fazer e onde vamos parar. Mais tarde os shows foram muito mais tranqüilos que a noite anterior ... O público foi mais forte e apareceram poucos problemas de última hora. São Pedro deu uma folga, dando uma folga também para nós da produção podermos curtir e lavar a alma com a Star 61, já no último show da noite. às 3h da manhã o Festival Mundo 2006 se encerra e podemos fazer um balanço de tudo: horas sem dormir fazendo crachás, carimbando ingresso, correndo atrás das coisas e quebrando cabeça com imprevistos de última hora são absolutamente recompensadores quando a última luz se apaga do local dos shows e podemos ver as pessoas indo para a casa, as bandas agradecendo e os amigos de longe que compareceram se despedindo depois de ter matado a saudade. Costumo dizer que ir a um festival independente é muito mais que ir ver um show. É confraternizar idéias, é reunir gente em prol de um mesmo objetivo, é exalar paixão nas atitudes, porque sem paixão é impossível dar continuidade a algo desse tipo. É bom ver o reconhecimento e agradecimento de gente que você nunca viu na vida, chegar ao fim e ver que estávamos certos na nossa primeira reunião, idealizando o que seria o Festival Mundo 2006. Sei que sou suspeita pra falar, mas gosto deste formato: amigos produzindo e sendo cúmplices de problemas e, claro, bagunças e alegrias que vivenciamos durante todo esse tempo de produção e execução. Juntar isso tudo e perceber que não é tão complicado quanto parece e que fazer funcionar um circuito de shows e eventos independentes em nossa cidade é sim possível. Número de frases: 83 E isso não tem preço. Há algo a celebrar quando um trabalho pioneiro, difícil de ser encontrado em catálogo, é posto à disposição de um novo público interessado na história da música popular produzida no Ceará. É o caso de Terral dos Sonhos -- O Cearense na Música Popular Brasileira, da socióloga Mary Pimentel, relançado em 2006 através do programa BNB de Cultura. Terral dos Sonhos é fruto de uma dupla experiência de Mary no cenário musical cearense dos anos 60 e 70, cuja visibilidade maior acabou traduzindo-se na ascensão dos músicos Belchior, Fagner, Ednardo e, em menores proporções, Téti e Rodger Rogério ao mercado consagrado da MPB na década de 70, geração que ficaria conhecida como «Pessoal do Ceará». A primeira experiência é a participação ativa, como estudante e como cantora, da cena cultural cearense daquele período (época do CPC -- Centro Popular de Cultura, órgão de cultura da Une, e dos festivais de música popular, como o Gruta e Aqui no Canto ...-- tudo muito bem descrito por Mary no livro), concentrada nos cursos universitários da capital, sobretudo os de Física, Matemática e a Faculdade de Arquitetura. A autora integrou os grupos musicais Garotas 70 e Canto do Aboio. Com eles, exibiu-se na antiga TV Ceará, Canal 2, juntamente com outros cantores locais, em programas como Porque Hoje é Sábado e Show do Mercantil (que eu não conheci porque meus 28 anos de sonho e de América do Sul não me permitiram). «O Garotas 70 era eu, minhas duas irmãs, e outras duas irmãs. Participamos de alguns festivais. Ganhamos um, com a música Gira Rola Mundo. Inclusive ela concorreu com Manera Fru Fru, Manera, do Fagner». De minha parte, imagino a cara do Fagner perdendo e deixo escapar um riso. Ela, uma gargalhada. A segunda, a transformação dessa vivência numa pesquisa acadêmica, defendida como dissertação de mestrado em Sociologia por a Universidade Federal do Ceará, em 1992. Dois anos depois, o trabalho foi publicado em formato de livro, lançado por a coleção Teses Cearenses, da Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará. A nova edição preserva o texto original de 1994, sem atualizações -- opção da autora --, mas é acrescida de fotos e de uma discografia atualizada dos principais nomes da música cearense do período analisado por Mary. Opção a ser respeitada, mas passível pelo menos de uma crítica. Amarrado numa estrutura tradicional de análise sociológica, dividida em contexto histórico, de um lado, conceitos de uma «sociologia da arte musical», de outro, e o próprio» objeto de estudo " numa terceira margem, o livro não corta a carne da música do Pessoal do Ceará; arranha, ao buscar compreender o cenário cultural e político da época e as transformações de categorias como popular e regional com a expansão da Indústria Cultural no mercado musical do Brasil na Ditadura Militar. Vejamos: após analisar um conjunto de letras representativas de artistas como Belchior, Ednardo e Fagner, entre outros, associando-as a conceitos como identidade e «cearensidade», Mary afirma que» poderíamos discernir sobre outros elementos referenciais que aludem à configuração de uma identidade musical cearense. Acreditamos, porém, que nossa exposição fornece subsídios para os objetivos a que nos propomos». A constatação da autora não desmerece a relevância do trabalho, mas deixa uma lacuna, uma sensação de que se encerra justamente quando desvendaria esses elementos referenciais. Lacuna esta que, ao longo dos últimos anos, buscou-se suprimir com um conjunto de pesquisas acadêmicas, nos cursos de História, Letras e Comunicação, abordando desde a história dos festivais de música realizados na cidade (como o histórico Massafeira, realizado em 1979 com a participação de vários artistas locais, materializado em disco duplo) à riqueza lingüística das composições. Para eles, o trabalho de Mary segue como um importante referencial. Para o público, com o relançamento, também. Em o livro, você afirma que o termo «Pessoal do Ceará» é portador de uma ambigüidade. Por quê? Mary Pimentel -- Porque quando a gente fala do «Pessoal do Ceará», não é um grupo pequeno e específico de pessoas, é toda uma juventude que se movimentava naquela época aqui em Fortaleza. Pessoas como Augusto Pontes, animador cultural e compositor, Cláudio Pereira, que fazia as caravanas culturais nas cidades do interior, com música e teatro ... Agora, o que a gente chama de «Pessoal do Ceará» é o termo que emergiu quando a Téti, o Rodger e o Ednardo foram para o Rio gravar o disco [Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem -- Pessoal do Ceará]. Foi uma forma de entrar no mercado e ficar conhecido lá no Sul. Uma estratégia ... Sim, uma estratégia mais de mercado do que um grupo específico bem definido. O Belchior, por exemplo, foi chamado para participar do disco Chão Sagrado com o Rodger Rogério e o Ednardo, mas não pôde participar porque já tinha assinado com uma outra gravadora. Então, era uma cena onde alguns compositores como Rodger, Fagner e Belchior ascenderam no mercado fonográfico, ficando conhecidos como «Pessoal do Ceará». Cada artista tinha uma proposta diferenciada, mas todos expressavam uma identidade do Ceará. O Fagner cantando as velas do Mucuripe, o Ednardo trazendo a figura do Pavão Mysteriozo, a literatura de cordel e o maracatu. Trabalhavam com símbolos de nossa cultura, é isso que eu chamaria de identidade. O trabalho é centrado nos conceitos de cearensidade, identidades locais e regionais. Belchior, por sua vez, já cantava que " Nordeste é ficção! Nordeste nunca houve!». Como você vê essa contradição? Não existe música ou criação que seja apenas local ou regional, na medida que ela absorve o consciente individual do próprio criador e um inconsciente coletivo, digamos assim. Era um pessoal super antenado com a época, com a revolução musical que estava acontecendo na época. Não era apenas Luiz Gonzaga ou o Nordeste rural, era «Alegria, Alegria» do Caetano, os Beatles ... Eles eram criadores que estavam envolvidos com o universal, e a partir daí procuravam uma forma que mostrasse o Ceará a partir de uma visão mais abrangente, mais multicultural. Claro que o Fagner, que veio de Orós, o Fausto Nilo, de Quixeramobim, o Manassés, de Maranguape, tinham uma origem rural, mas eram universitários, estavam ligados ao cenário nacional. A identidade não é uma questão de ser regional, no sentido restrito, mas a partir do todo, ter uma visão local. Quando o Fausto Nilo e o Petrúcio Maia fizeram Dorothy Lamour, Dorothy Lamour com ardor, te adorei, Sereia, na areia do cinema (solta a voz, revelando que ainda poderia cantar como nos tempos do Canal 2!), mostravam como eram antenados, era uma música cearense, nossa, mas que contém elementos de uma universalidade incrível, de uma urbanidade. Uma música urbana, apesar da origem rural de alguns daqueles artistas. E todo mundo queria participar de alguma forma das mudanças que estavam acontecendo intensamente naquela época. Essa forma de se colocar, em termos políticos, culturais, é o que chamo de «cearensidade», uma forma de pensar sobre si a partir do todo. A pesquisa identifica duas tendências na «linha evolutiva da música popular cearense», a fase que veio com o» Pessoal «e outra, no final dos anos 70 e início dos 80, com a emergência de» novos compositores das gerações setenta e oitenta na busca de espaços locais para a produção e divulgação de seu trabalho», fase esta que você classifica como mais autônoma. Quais as principais diferenças? Em a época em que o Fagner, o Belchior e o Ednardo saíram daqui, eles não tinham condição nenhuma de se lançarem nacionalmente, se ficassem aqui. Só se conseguia quando saía. Em o final da década de 70, a gente viu surgir aqui espaços como bares, casas de espetáculo, estúdios de gravação, local para masterizar, mais espaços de atuação ... Mas eu diria que até hoje é difícil, quando alguém quer se lançar nacionalmente, talvez precise sair. A [cantora] Kátia Freitas, por exemplo, que foi para São Paulo ... A o abordar a questão da necessidade dos artistas migrarem para o centro, você ressalta o paradoxo de que «o amor ao lugar de origem não garante a permanência em ele, pois» o próprio lugar expulsa aqueles que o ama». Esse dilema não continua? A questão da profissionalização permanece como referencial? É, apresento a expulsão como uma metáfora. Diria que as condições não são satisfatórias, ainda que na passagem dos anos 70 para os anos 80 elas tenham melhorado com a ampliação daqueles espaços. Mas permanece a necessidade de ganhar visibilidade, de se firmar no mercado nacional. E de construir uma carreira profissional. E o mercado aqui ainda é pequeno. Em aquela época, havia uma proposta, de dizer «eu venho do Ceará, das dunas brancas», o que era uma novidade. Hoje é diferente, e penso que a maior dificuldade é entender como funciona o novo mercado fonográfico, cada vez mais segmentado. Por um lado, ele vai segmentando. Por exemplo, o forró hoje dá dinheiro, faz sucesso nacional. Paralelo a ele, existem artistas daqui que não querem entrar em grandes gravadoras, ou aqueles que preferem investir num trabalho mais autoral. Enfim, buscar a afirmação de um mercado independente. Mas esse mercado independente também exige apoio, grana ... Vejo que alguns artistas ainda precisam sair daqui para tentar o reconhecimento e viver profissionalmente da música. O mercado independente cria novos nichos, mas é preciso buscar público, espaços, batalhar para tentar viver exclusivamente da música. Vejo trajetórias individuais, de artistas diferentes, como o Cidadão Instigado, a Kátia Freitas, o Soulzé, Jumenta Parida, entre outros. Número de frases: 80 Eles querem seguir suas trajetórias. Lançamento do site de fotografia www.matyeu.com sobre a arte do acaso. «Sozinho, o olho do fotografo seleciona escrituras e fragmentos de cartaz sobre as paredes urbanas. Nunca a mão interfere para corrigir o que o acaso dos passos errantes vem a descobrir: isso será uma pesquisa diferente de MATYEU." Franca D. Artista. «As cosas falam ... enfim, senão as coisas, esta parte desdenhada do cenário confuso em que vivemos. MATYEU não escolhe, para o olhar da fotografia: um drama, um evento, ele deixa os cartaz rasgados das paredes e as faces inacabadas nos olhar ... Rosto borrado assim que ele aparece num sonho, uma nota atropelada entre uma boca e algumas flores provas de uma festa, ou seus restos ... Isso é um percurso preocupado, perguntas feitas aqui ou lá, como um desafio jogado por a formas que se faz e se desfaz: um passeio de sonâmbulo ao meio das cosas, num lugar, em qualquer lugar ...». Jean Duvignaud Escritor. A arte do acaso é uma pesquisa, uma corrida em busca da arte, a mais complexa que existe ... Parindo sonhos do acaso real de IKARO MAX O acaso só enxerga quando o olho se esquece de que está imerso numa dimensão espacial continente ao objeto & imerso no fluxo esgotante do tempo que dura & repete sua transpiração ... Uma espécie de inconsciente ótico traduz sem linguagem uma espécie de código imanente no fluxo de imagens que passam sem serem percebidas: a partir daí várias cópulas entre luzes & sombras são mimetizadas como segredos pertencentes ao acaso, onde nem o indivíduo nem o próprio objeto pertencem ao delineamento da intenção & do impacto descoberto depois no insight que emerge ao acaso. A Arte do Acaso, como expressão de algo inatingível, & mesmo assim possível, mostra uma faceta de compreensão visceral de uma expressão luz-objeto tempo sem carne & sem leis: uma poiésis que se fabrica sem determinações & provoca apocalipses repentinos como trovões que não são previstos por o intelecto & o instrumental metereológico. Rostos publicitários que provocam arrepios com o mesmo brilho do olhar assustado & cínico de um inseto, uma regurgitação imagística de naturezas opostas & antes irrelacionáveis: uma estética do choque que nos fisga sem amarras & quebra nossos espelhos interiores como uma espinha de peixe apodrecido por os padrões dos sentidos & do senso comum. O nervo central desligado para o julgamento & a percepção total imediata, o corpo se funde numa explosão quântica: ficamos aos pedaços falando várias línguas, sem nenhum centro coordenador que tiranize a sensibilidade & module as linhas soltas do improviso desarticulado do impacto total. Aquele movimento celular de total liberdade, grito, cristais quebrados, é resgatado como algo que sempre compôs as estruturas cognitivas dos seres em geral: é uma recomposição que não se marca por justaposições, mas, por desmanches, por chuva ácida torrencial espalhando fezes, amor & vísceras num mesmo borbulhar vulcânico, um esfacelamento mágico de peyote, iodo & corpos unidos no cordão umbilical pênis-vagina ... Estejam prontos para parir sonhos, deglutir ilusões: Eu vos digo, se preparem para o segredo maravilhoso do Caos ... inspirado no site: Número de frases: 31 www.matyeu.com -- Arte do acaso Que o brasileiro é um apaixonado por cerveja, isso não é novidade nenhuma. Talvez, para ser mais preciso, seria mais sensato dizer que o brasileiro é um apaixonado por cervejas claras e de baixa fermentação, especificamente, as cervejas " Pilsen "; a popular «loira gelada». Quem sabe as exceções ficam por conta da cerveja Malzebier (escura e doce) e da Bock (avermelhada), nada além disso. Um tempo atrás, quando a Antarctica e a Brahma anunciaram a fusão, eu, um apreciador de / apaixonado por cervejas, fiquei me perguntando: será que a qualidade das cervejas brasileiras (do tipo Pilsen) não cairia diante da possível falta de concorrência que estava sendo imposta ao mercado? Afinal de contas, a falta de concorrência me levava a pensar numa padronização ainda maior do produto. Uma padronização que nem sempre leva em conta o paladar do consumidor (aquilo que eu gostaria de-beber), mas sim o bolso do consumidor (o quanto eu posso pagar). Vejam que, para minha surpresa (de leve), um reduto cervejeiro no país fez surgir à margem do grande mercado nacional uma quantidade interessante de pequenas cervejarias que, além da tradicional cerveja Pilsen, passaram a dar alternativas (de boa qualidade) ao consumidor. Além disso, o próprio reduto se obrigou a disponibilizar outros tipos de cerveja que até então, não sei se por falta de interesse ou por não perceber o mercado existente, não disponibilizava. Vale lembrar que a Bohemia, nos últimos tempos, lançou a Bohemia Weiss, a Escura, a Royal Ale, e recentemente, a Confraria. Todas cervejas premium, com a intenção de atingir um público consumidor específico que, me parece claro, se propõe a pagar um pouco mais por um produto diferenciado. Rota das cervejas A forte colonização germânica do Estado e a paixão dos catarinenses por a cerveja concedem (hoje) a Santa Catarina destaque no cenário nacional por a produção de cervejas artesanais. Essa idéia ganhou força a partir das festas típicas dos descendentes de alemães do vale do Itajaí. A Oktoberfest, de Blumenau, é a mais conhecida, mas não é a única. Várias outras festas, nas quais o chope é o combustível, movimentam o Estado durante o mês de outubro. Agora, se pensarmos num roteiro catarinense de cervejas artesanais, esse roteiro, obrigatoriamente, começa em Blumenau, pois ali estão sediadas as cervejarias Bierland e a Eisenbahn, que desenvolveram tipos de cervejas diferentes para o consumidor médio brasileiro. A Eisenbahn, a única que até o momento engarrafa o produto, consegue atingir um público maior, chegando a outros centros, todavia a Bierland, como as demais cervejarias da região, permanecem conhecidas por um público menor, mas que se sente orgulhoso por a qualidade que o produto consegue atingir. Começamos falando da Eisenbahn (www.eisenbahn.com.br). A cervejaria apresenta oito opções (de cervejas) para agradar os vários paladares: cinco de elas Ale (Kölsch, PaleAle, Weizenbier, Weizenbock e WeihnachtsAle -- esta última, produzida especialmente para o Natal) e outras três Lager (Pilsen Natural -- orgânica, Pilsen e Dunkel). As Ales são cervejas de alta fermentação, normalmente mais encorpadas e com uma graduação alcoólica mais alta. As Lagers, por sua vez, são cervejas de baixa fermentação e entre elas está o tipo de cerveja mais conhecido em todo mundo, a popular Pilsen (o nome vem de uma pequena cidade no interior da República Tcheca, Pils). Todas elas são um convite a um mundo de sabores, texturas, tons, aromas e perfumes. Uma passada na Bierland (http://www.bierland.com.br) é caminho obrigatório. A cervejaria apresenta ao mercado três tipos de cerveja, uma pilsen (clara e de leve sabor), outra âmber (escura, um pouco mais encorpada) e uma terceira weizer (de trigo, lançada durante a Oktoberfest de 2005). O controle de qualidade desta cervejaria, como das demais, segue a Lei de Pureza Alemã, de 1516 (Reinheitsgebot). Segundo a Bierland, " a cerveja elaborada sob essa prática, utiliza apenas malte de cevada, água, lúpulo, e levedo cervejeiro em sua composição. Sendo Isenta de qualquer outra fonte de matéria-prima, de aditivos, corantes, antioxidantes, estabilizantes, etc; comumente utilizados na indústria cervejeira». A Zehn Bier é uma outra bela opção, sediada na cidade de Brusque -- distante 40 Km de Blumenau. A cervejaria oferece aos apreciadores dois tipos de chope, além do tradicional Pilsen (suave e bastante marcante no malte), o Bock (mais encorpado e avermelhado). E o roteiro não pára por aí. Outras duas cidades muito próximas a Blumenau também estão preparadas para receber os visitantes com um produto que vai agradar. Em Indaial, tem a Heimat e em Timbó, a Borck -- www.guiatimbo.com.br/vale/borck/home.htm, em Treze Tílias, cidade conhecida como o «Tirol Catarinense», no meio oeste do estado, tu vais encontrar a Microcervejaria Bierbaum. As três últimas trabalham com o chope pilsen, mas cada chope apresenta peculiaridades. As cinco cidades citadas no texto apresentam uma riqueza cultural muito interessante e, é claro, as cervejarias são apenas mais uma opção neste contexto cultural. De a próxima vez que tu pensares em visitar Santa Catarina, se essas cidades estiverem no seu roteiro turístico, tire um tempo para ver como são fabricadas as cervejas artesanais -- cada uma apresenta um sistema diferente para atender o visitante (É legal se informar antes como proceder para visitar cada fábrica). No entanto, todas elas possuem bares / restaurantes vinculados as fábricas, o que facilita, se o interesse for apenas saboreá-las. Quem gosta do líqüido precioso, tenho certeza, não vai se arrepender, mas, por favor, aprecie com moderação, e não pegue a estrada depois de prová-lo, pois é bem provável que tu não vais resistir e vai acabar tomando mais de um. E como dizem os alemães da região: Ein Prosit! Número de frases: 44 Co-produ ções destituem o DNA regional? Está decretada a peleja do árido Movie e do Axé Movie contra o eixo do mal? Em primeiro lugar é melhor explicar bem o que está acontecendo nessas cinematografias: Em um dia de muito sol numa noite no terreiro de Jesus. ( na Bahia até Jesus tem terreiro), dois cabras invocados, leia-se o intrépido Edgard Navarro e o lascivo Lyrio Ferreira fizeram um pacto de sangue, dizem as más línguas que era sangue cenográfico. Mas, pumba! ali na frente de seus pares no terreno infestado de tatus da Jornada Internacional de cinema, batizaram a fusão em homenagem ao indefectível símbolo do festival, de Peba -- que além do bicho de armadura, também significa coisa de qualidade duvidosa. De lá pra cá essas duas cinematografias fizeram muito poucas parcerias entre sí, mas botaram as cabeças para fora e foram em busca de um lugar ao sol, do sudeste, onde dizem brilha mais. O pernambucanos foram de mala e cuia, e como retirantes pós modernos transaram bem com sampa e com a terra maravilhosa. Logo logo estavam nas manchetes do Brasil com um cinema vigoroso e árido. Já os baianos entrópicos e autofágicos, ficaram por Salvador e poucos passos deram em direção ao écran da eternidade. Dizem que trata-se de opção sexual. Calma, calma já eu explico: O cinema baiano é família, até os gays são tradicionalmente casados e criam raízes em sua terra. Produtora lá virou reprodutora. Já o cinema pernambucano é banda vuô. Enquanto baiano toma uma cerveja o pernambuco já tomou uma meiota de cana. Enquanto cineasta baiano faz boda de pratas, cineasta pernambucano casa e descasa que nem o Rui Guerra ou seria o Sergio Guerra. Ah, não importa guerra é guerra. Os pernambucanos são mais criativos dizem o (a) s parceiro (a) s. E o que é que o cós tem com a causa do tal regionalismo? Afinal pernambucanos e baianos juram que fazem cinema universal. Hora Axé movie ou Árido Movie, vai rodando a carrapeta e as duas cinematografias aprendem em timings diferentes que quem não transa com o capeta não chega ao cinema paradiso. Trata-se de uma lei relativa a geopolítica brasileira, nordestino para botar sustança na pança tem que descer para o sul, tem que ser migrante. E como os mestres Caymmi, Gonzagão lá se vão a emprestar seus talentos à industria da comunicação de massa. Mas, como todo bom nordestino (dizem que baiano não é nordestino, que tudo foi jogada para ter o din din da Sudene e pra isso até tiraram o leste do mapa.) não aguentam ficar longe de casa e na hora de fazer sua arte valer é no seio materno que mamam a seiva da musa. E assim caminha a humanidade de nosso cinema: nordestino filmando o nordeste e inventando o bom cinema nacional cabra da peste. Em os últimos anos quem manda no pedaço são os Pernambucamos, é bom que se faça justiça. A receita para esse sucesso não é apenas o mangue beat ou a atitude anti-axé -- chama-se atitude peba -- sair do buraco e ir cruzar com o tatu bola ... A prática da co-produ ção tem rendido a possibilidade de se produzir mais e de gerar advento de visibilidade no centro difusor do país. Enquanto isso os baianos se degladiam em suas crises de identidades para negar, renegar ou assumir que as co-produ ções Cidade Baixa ou O Pai Ò trazem o DNA de suas paternidades. Essa perda de tempo impede que surja uma nova espécie de Tatu, fruto da evolução das espécies? Que bicho é esse? Novos filhotes estão pondo a cara do mundo -- O Cheiro do Ralo é cinema pernambucano por ter sua unimultiplicidade genética ou Dalhia é um filhote desnaturado? João Falcão, Guel Arraes são globais, globalizados ou integrados num processo natural que faz do cinema uma arte industrial de caráter nômade? Luis André de Oliveira, José Frazão e Geraldo Sarno são exilados ou baianos que saíram para trabalhar fora? Em um país em que o bairrismo é mais nocivo que a saúva, fica a impressão nítida que o movimento entre nordestinos e sudestinos em co-produ ções é vital para a difusão do cinema Peba. Até porque no rastro desse eterno processo migratório das aves de arribação -- ainda que esteja nascendo a revolução de Cabaceiras -- roliúde do nordeste -- outros movimentos similares já podem se alinha nesses cruzamentos genéticos de fortalecimento do cinema nacional: O cinema de boa Cepa, que agrupa os talentos da de o Ceará e da Paraíba. Ou o outro mundo do Alma de Alagoas e do Maranhão; já pensou no Cinema Pipa no ar, do Amar e outros cruzamentos produtivos transengênia brazuca? Vice mainha. E alguém se arvora a dizer que o Karin Ainouz, e o Walter Carvalho não são vates afinados desse desafio que envolve o profético Rosemberg Cariri e o luminoso Torquato Joel? Que me perdoem o alinhavo das más palavras, mas fica aqui um mote afamado pra quem quiser glosar: Se não fosse o valor do nordestino, em São Paulo não tinha multiplex ... José Araripe Jr. É cineasta Peba vivendo no Rio de Janeiro Lança em maio o longa produzido na Bahia, Esses Moços Número de frases: 50 www.essesmocos.blogspot.com/ O que justifica um ingresso de 200 reais, num país de salário mínimo de 350 reais e de 32 milhões de miseráveis (1)? Essa realidade de ingressos caros em diversos teatros públicos (e mantidos com dinheiro público) de grandes centros, também se faz presente na nossa cidade, Aracaju. É a clara visão de uma elite que não quer ver a grande população consumindo uma arte de qualidade. O preço da entrada individual para a apresentação de Marisa Monte no Teatro Tobias Barreto causou revolta em muita gente ao lado da indiferença de alguns outros. Gosto de Marisa Monte, sua sonoridade e voz me encantam. Para mim, sua qualidade está em patamares dos grandes músicos brasileiros. É interessante, no entanto, observar que muito da fonte sonora onde ela bebe se encontra no samba da velha guarda e nos morros cariocas. Compositores que são a voz e os sentimentos de um povo tão desprestigiado por os grandes veículos de comunicação e sem acesso aos bens culturais de qualidade. As teias engenhosas das falácias muitas vezes paralisam argumentos e escondem as verdadeiras intenções da elite. Como diria um amigo meu: «falácia é um nome dado para uma mentira bem contada». Geralmente se parte da premissa falsa de que «não adianta passar essas músicas no rádio, fazer shows desse tipo em praça pública porque o povo não quer e o povo não gosta». Quando se tem uma programação gratuita as autoridades administrativas também seguem esta premissa. Como podemos observar todo ano a programação de espetáculos do Encontro Cultural de Laranjeiras (2) é formada por bandas que visam mais o lucro do que qualquer outra coisa. Autoridades ignoram artistas de qualidade e o cachê dos grupos que variam de 300 mil reais a 30 mil faz um contraste cruel com as pequenas ajudas de custo ou lanches dados aos grupos folclóricos que teimam em existir e fazer a sua arte popular. O evento acaba sendo algo completamente oposto do Simpósio Cultural onde se debatem idéias, pesquisas e a produção acadêmica. Não defendo que se ignorem estas bandas de grandes empresários (como àquela da peça de roupa íntima escura ou de um tal avião do forró que seria o inferno sonoro de qualquer controlador de vôo fã de Luiz Gonzaga) ou que sejam banidas completamente de programações culturais. Elas poderiam até estar presentes, mas em menor número, já que estão saturando as programações em rádios e outros shows. Suas apresentações estariam mescladas a espetáclos diferenciadas fazendo o público ter acesso também a outros gostos e estilos musicais de qualidade. Uma necessidade e um direito -- Presenciei certa vez na praça lotada do Marco Zero, no centro do Recife, o povo aplaudir de pé um espetáculo da Orquestra Sinfônica de Recife com o grande mago da sanfona, Sivuca. Em a orla de Aracaju, com atraso de mais de uma hora e ainda com problemas no som, vi um bom público aguardar pacientemente e depois apreciar atento a bela apresentação da Orquestra Sinfônica de Jovens de Sergipe. Posso citar mais alguns outros exemplos bem sucedidos de que o povo quer sim e precisa de cultura de boa qualidade. Essa, no entanto, é uma verdade que parece ser negada por as empresas de produção cultural, parte de certos artistas consagrados e também por autoridades governamentais. É uma verdade camuflada, negada e escondida junto com uma outra mais profunda: cultura de qualidade educa e constrói cidadãos inteligentes e com olhar mais crítico. E isso realmente não interessa a muita gente. No entanto, nem tudo está perdido, é preciso ter consciência do poder de voz e de atuação de todos. Cito como exemplo a iniciativa da Prefeitura Municipal do Recife que cede teatros públicos (o Teatro do Parque e o Teatro Apolo) para fazer seções semanais de cinema a 1,00 real num local e 2,00 em outro. Idéias como esta ajudam a democratizar a cultura, ação fundamental para uma transformação social, provando que cultura é muito mais do somente entretenimento é também direito do cidadão. (1) -Mapa da Fome, elaborado por o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 1993, revelou a fome e a indigência de 32 milhões de brasileiros (algo próximo à população total do Canadá ou da Argentina). (2) O Encontro Cultural de Laranjeiras acontece anualmente (desde 1976) na primeira semana de janeiro e coincide com a folidos Santos Reis no municío histórico de Laranjeiras-SE. A cidade é conhecida por o número e diversidade de grupos tracionais que ainda pulsam e teimam em brincar nas ladeiras e ruas de pedra. Número de frases: 32 Paripe é o último bairro do subúrbio ferroviário de Salvador. Essa região da cidade, principalmente para olhos acostumados a passear por as bandas do centro comercial e por a orla marítima -- Rio Vermelho, Amaralina, Pituba, Costa Azul, até Itapuã -- é de feição muito bonita mas, ao mesmo tempo, um pouco melancólica: são praias planas, onde ainda se vêem restos de antigos cais já desativados, velhos barcos de pesca parados sobre as águas onde se refrescam, quase que exclusivamente, meninos depois do futebol naquela areia escura ... a maioria de eles moradores de ali mesmo, daquelas casas sem reboco que se amontoam nas ocupações ao redor. Em locais como Paripe, a expressão «equipamento cultural», bastante utilizada por produtores culturais nos centros urbanos por ai afora e nas faculdades de comunicação, não faz absolutamente o menor sentido. As iniciativas de promoção de quaisquer formas de arte e cultura que ali possam florescer, para que possam ser viabilizadas e difundidas dependem quase que (um quase aqui colocado com bastante generosidade) totalmente da capacidade e invenção de seus criadores e perseverança (obstinada) de seus apoiadores mais próximos. De maneira que, para um jovem criador -- ator, poeta, músico, pintor, grafiteiro etc -- é um duplo desafio assumir sua produção e mantê-la viva. O desafio «O grupo de teatro que eu coordeno junto com meus amigos, o'Quem somos nós? ', existe desde abril de 2006. Sempre tive vontade de fazer um grupo na minha comunidade, por ser carente de iniciativas culturais. É um teatro que fala não só de morar na lama, na favela, por que não é só isso. Queremos falar da transformação, de ter um sonho, de querer entrar na faculdade, seguir uma carreira, ser professor, médico, ator, atriz ... resgatar o sonho», conta Ronald Assis, de 18 anos. Em 1996, uma chacina realizada por a polícia provocou a criação de um Centro Comunitário, o Medianeira, que existe até hoje e oferece alfabetização para crianças, aulas de capoeira e dança. O Medianeira é também um espaço de encontro dos moradores para discutir questões comunitárias e, como diz Ronald, discutir «o que é ser paripiense». Dentro desse centro, em 2002, surgiu um pequeno esboço do que viria a ser o «Quem somos nós?», quando foi montada a peça» O cotidiano da vida urbana», que tratava, como o nome sugere, de questões do dia-dia do bairro. Depois da primeira montagem, encenada num pequeno festival, o grupo, então chamado Zambelê, ficou parado, até ser reconstruído em abril de 2006. Esta nova fase traz novos integrantes e também uma nova roupagem, tratando também de questões específicas da juventude como a gravidez na adolescência, as doenças sexualmente transmissíveis, as relações entre pais e filhos, entre outras. Além disso, traz também um adendo ao nome antes adotado, agora se chama: «O Cotidiano da Vida Urbana: um sonho, minha realidade», como explica Andréa Juliana, também atriz de Paripe e uma das coordenadoras. Quem somos nós? A questão que permeia a construção do espetáculo é sempre a que dá nome ao grupo: «Quem somos nós?». Como essa é uma pergunta cuja resposta nunca pode estar fechada, terminada para nenhum ser humano, a peça está sempre se renovando, de acordo com o «quem sou eu» dos participantes. É uma interrogação que eles se fazem cotidianamente para construir o roteiro e levam para o palco em forma de provocação para que o público também se faça. «A gente se reúne quando sente necessidade. Nos encontramos, em geral, umas duas vezes por semana no Medianeira», explica Andréa, sobre a freqüência dos encontros. O grupo é formado por 19 jovens moradores de Paripe e bairros próximos, sendo 6 de eles «jovens dinamizadores» do Cria -- Centro de Referência Integral de Adolescentes, que participam de formações em teatro e em diversas outras áreas na ONG (comunicação, produção cultural, gestão de projetos comunitários etc). Além das reuniões internas são realizadas também formações para os membros em algumas áreas, com a parceria do Cria, que se estendem também para o restante da comunidade. «Semana passada tivemos um encontro com Cássia Lima, do Núcleo de Saúde do Cria, sobre direitos sexuais e reprodutivos. Porque nossa peça envolve muitas questões como a droga, a violência sexual, a gravidez na adolescência, DST ... Então levamos Cássia pra dar um suporte na nossa formação», continua ela. A falta completa de condições materiais para divulgar o trabalho de forma mais ampla faz com que o boca-boca seja a única estratégia de comunicação utilizada por o grupo para promover suas apresentações e outras atividades na comunidade. Como toda mobilização cultural que se pratica em comunidades carentes como as do subúrbio ferroviário, iniciativas como esta são importantes tanto no sentido de enriquecimento do humano que a arte já traz intrinsecamente, mas também porque se apresentam como uma alternativa ao jovem que, sem ter opção por esse tipo de vivência, acaba de alguma maneira se envolvendo com a violência, o tráfico de drogas e outras atividades que lesam suas potencialidades físicas, intelectuais, comprometem sua sensibilidade. «A maioria das mães do pessoal que participa trabalha o dia todo e disseram graças a deus por ele existir. É melhor estar num grupo de teatro do que estar na rua», acrescenta Ronald. O «Quem sou eu?», além de um coletivo de pessoas criativas, apaixonadas por a linguagem do teatro, da expressão de seu corpo e de sua voz, é também um grupo de jovens que se reúne para fazer arte -- impulsionados unicamente por a causa mais legítima que é a vontade, para pensar e dizer seu sonho, se ouvindo dizer, para si e para as pessoas que compartilham de seu mesmo espaço, o que querem da vida, da cidade, do seu bairro. O " Quem sou eu?" é antes de mais nada, um sonho dito e feito possível a cada nova apresentação. Número de frases: 40 O escritor que saiu de Andrômeda Entre um plantão e outro na emergência de um pronto-socorro de Belo Horizonte e visitas ocasionais a diversas localidades vizinhas um médico mineiro fez à pesquisa para um dos mais imaginativos livros de ficção científica lançados no Brasil. Em esta entrevista, o autor de Quintessência conta histórias sobre a produção de sua obra independente, descreve coleções de quadrinhos que ocupam caixas de papelão, kombis e quartos inteiros, dá dicas sobre como interpretar uma cadeira no palco de teatro e detalha como foi a formação de um escritor de FC nascido em Andrômeda, vulgo Minas Gerais. Com vocês, o lado B do doutor Flávio Medeiros Jr. Seu livro de estréia pegou muita gente de surpresa -- mesmo entre os especialistas mais dedicados em acompanhar a produção nacional de FC, no famoso eixo Rio-São Paulo. Poderia fazer uma revisão de outros textos ficcionais seus e contar um pouco dos bastidores da publicação de seu primeiro romance? Penso que essa «surpresa» se justifica. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que vivo em Andrômeda, pois Minas Gerais, no universo da FC nacional, fica tão distante do tal eixo Rio -- Paulo quanto outra galáxia. Em a verdade sou um ávido leitor de ficção científica desde adolescente. Comecei com Perry Rhodan, depois Asimov, e daí não parei mais. Tenho toda a coleção da saudosa Isaac Asimov Magazine brasileira. No entanto, só quando já estava escrevendo o Quintessência foi que eu soube que existiam fóruns virtuais para discutir FC. Por isso as pessoas ligadas à FC nacional só souberam de minha existência quase simultaneamente à publicação do meu livro. Antes de ele, só publiquei contos, crônicas e cartoons (que eu escrevi e desenhei) em jornais locais e universitários, a maioria tratando de temas cotidianos. Também escrevi algumas peças de teatro, que dirigi e encenei com grupos amadores, uma de elas inclusive de ficção científica, chamada Proteu, o Protótipo. Quanto ao Quintessência, a idéia inicial surgiu da seguinte preocupação, resultado de minha estupefação diante da crescente banalização da violência ao meu redor: até que ponto as pessoas não cometem crimes, dos mais leves aos mais hediondos, obedecendo aos próprios valores morais, e não ao temor de serem pegos e punidos? Então decidi criar o «supervilão do novo milênio», um personagem com poderes praticamente ilimitados para fazer o mal, e que comete seus atos com a certeza absoluta da impunidade. O interessante foi que eu pretendia que esse vilão fosse a encarnação do Mal absoluto, mas ao longo do texto que fui escrevendo o próprio personagem me fez entender que em termos humanos isso não existe: o ser humano que pratica o mal sempre carrega suas razões pessoais para isso, sempre busca ou fabrica justificativas para seus atos. Aprendi muito com ele. O livro foi publicado no sistema de autopublicação, ou seja, eu mesmo banquei a edição. Ao contrário de alguns, considero esta uma forma perfeitamente válida e digna de publicar um livro, diante das dificuldades que o mercado impõe a novos autores. Esse sistema ainda tem a vantagem de dar ao autor total controle sobre sua obra, desde o conteúdo até a capa. Permite também que o autor negocie melhor o preço de capa do livro e a porcentagem da consignação, que é como a maioria das livrarias trabalha. A enorme desvantagem da autopublicação é o problema da distribuição. Enquanto você está na mídia o seu livro vende bem, mas quando param de falar de ele o fantasma do encalhe aparece. Em relação ao Quintessência, após três anos da publicação ainda tenho a alegria de vender exemplares por a internet ou através de pessoas que leram, gostaram e indicam a outras pessoas. É uma venda em «conta-gotas», mas para mim isso não importa: eu vivo de medicina, escrever é o meu prazer pessoal. A FC é sempre associada a mudanças profundas na tecnologia e no comportamento das pessoas; a dinamismo social, cultural, ambiental. Minas Gerais, por outro lado talvez seja o estado brasileiro mais ligado ao culto às tradições; um lugar em que o tempo parece correr mais lentamente. Algo que pode ser sintetizado na frase célebre do " Otto Lara Resende: «Minas está onde sempre esteve». Como é lidar com este aparente paradoxo de ser um autor de ficção científica mineiro? Como seus colegas, amigos e familiares reagem a seu lado menos convencional? Como você disse, o paradoxo é aparente. Outro dia li num romance a crítica depreciativa de um dos personagens à ficção científica, nos seguintes termos: a tecnologia evolui, as descobertas se multiplicam, mas o ser humano continua o mesmo. Em aquele momento eu me perguntei: «mas não é essa a realidade?" Observe a história da humanidade: como na Antiguidade continuamos nos matando por razões religiosas, ou por ambicionarmos o que os outros possuem. A diferença é que antigamente fazíamos isso usando pedra lascada, depois arco e flecha, e hoje empregamos alta tecnologia, armas de destruição em massa e microrganismos geneticamente alterados. Mas a atitude mudou muito pouco. Nossos tabus, crenças e preconceitos mudam de roupa e adquirem formas de expressão mais rebuscada, mas em essência não mudaram muito nos últimos milênios. Por isso, parafraseando o bom e velho Otto, eu diria que «o Homem está onde sempre esteve». Minha aposta é que isso vai persistir ainda por muito tempo no futuro, de modo que a FC, na minha concepção, precisa considerar essa possibilidade. Quanto à segunda parte da pergunta, outro dia um colega médico me disse que eu sou um dos caras com o «lado B» mais interessante que ele conhece, entendendo-se como «lado B» aquilo que você faz quando não está tratando das trivialidades da vida, como dar atenção à família ou ganhar dinheiro. Esse lado escritor surpreendeu alguns dos amigos mais recentes, pois devido aos caminhos tortuosos que a vida toma, antes do Quintessência eu havia passado uns cinco ou seis anos sem produzir nada de substancial em termos de literatura. Mas quem me conhece há mais tempo, como os familiares e amigos mais antigos, não se surpreendeu em nada. Em a verdade eu escrevo desde sempre, e as pessoas se acostumaram a me ver crescendo assim. Em o curso primário as professoras liam minhas redações para a classe inteira, e emprestavam para as outras professoras lerem em suas classes. Com uns oito ou nove anos pedi ao meu pai dinheiro para comprar um caderno; o dinheiro deu para dois cadernos, e comecei a escrever em eles meus dois primeiros livros: As Aventuras de Falangeta e Cidade Submarina, ambos inacabados. Com onze ou doze anos eu e um primo escrevemos dois livros que eram fanfiction (embora na época eu acho que a palavra ainda não existia) de Planeta dos Macacos e dos Smurfs, que então se chamavam Strunfs. Esses dois livros tenho em casa, foram datilografados numa velha Remington que ganhei de minha mãe naquela época, e encadernados numa gráfica do bairro. Infelizmente, são livros de um só exemplar. Ou seja, tirando aqueles cinco ou seis anos de hiato, sempre fui metido a escritor, e suspeito que agora não vou parar nunca mais. Quadrinhos americanos, ingleses e italianos são uma referência mais que explícita em seu trabalho. Em certos momentos, obras como Sandman, Punisher e Dylan Dog são elementos importantes para se compreender a motivação e o universo particular de alguns dos personagens. Qual o papel dessa mídia na sua formação como escritor? Qual o tamanho de sua coleção de gibis e quão eclética ela é? Entendo que, antes de ser escritor, você necessariamente tem que ser um leitor convicto. E eu aprendi a ler com as histórias em quadrinhos. Os adultos compravam os gibis, primeiro de Walt Disney, depois também de Mauricio de Souza, e liam para mim. Eu ficava do lado acompanhando a história e perguntava, de vez em quando, o nome de alguma letra. Um belo dia, e me lembro da cena como se houvesse sido ontem, já sabendo o nome das letrinhas, uma luz se acendeu na minha mente, e compreendi que bastava juntar o som de cada letra para ler uma palavra. Em esse dia eu li pela primeira vez, antes que a escola me ensinasse, para alvoroço dos adultos ao redor. E desde então não parei mais. Ainda criança, um dos melhores amigos do meu avô era dono de uma banca de revistas, onde ocasionalmente eu passava o dia inteiro lendo de tudo. Em a adolescência me especializei nos quadrinhos de super-heróis, e nos últimos trinta anos tenho colecionado e lido tudo que foi publicado no Brasil em termos de Marvel e DC, além de brasileiros como Ziraldo (A Turma do Pererê), Laerte e Angeli. Também sou fã de Uderzo e Goscinny (Asterix), e de cartunistas, como o argentino Quino (Mafalda) e Bill Watterson (Calvin e Haroldo). Atualmente ainda leio de tudo isso, mas me dão mais prazer os chamados «quadrinhos adultos», de autores como Neil Gaiman, Alan Moore, Frank Miller, Garth Ennis, Mark Millar e Warren Ellis. Eu não saberia te dizer o tamanho da minha coleção, mas apenas para dar uma idéia, no ano passado eu vendi parte de ela para uma feira de gibis usados, promovida por uma livraria de Belo Horizonte. Um funcionário teve que vir até minha casa para separar o material, depois veio uma kombi com mais dois caras para buscar doze caixas de papelão grandes cheias de revistas. Isso me rendeu um crédito de quase oitocentos reais na livraria, e hoje o quartinho de despejo do meu apartamento ainda está cheio mais da metade com grandes caixas repletas de revistas. Aproveito a oportunidade para agradecer publicamente à minha esposa por a compreensão e por a paciência e tolerância infinitas. Você já deve ter pensado na possibilidade de continuação para Quintessência, não? Uma adaptação do livro para HQ ou mesmo uma sequência em tal formato já estiveram em seus planos? Em a verdade, a princípio eu pretendia acabar a história ali mesmo, apesar de que o final do livro gerou reações bem diversas: alguns adoraram, outros quiseram me matar e exigiram uma continuação. Eu respondi, na época, que só escreveria uma continuação se tivesse uma idéia que realmente valesse a pena. Acontece que no último ano eu tive e já andei amadurecendo essa idéia, daí que a continuação do Quintessência deverá ser meu próximo romance. Quanto a adaptações, não penso que os quadrinhos sejam o melhor formato. Observe que o livro é contado em primeira pessoa, e tem que ser assim mesmo, para que o leitor vá fazendo as descobertas, e tendo as surpresas e sustos junto com o protagonista. Ou seja, a história é contada dentro da mente do personagem, que atua como narrador. Os quadrinhos são uma linguagem muito mais visual e dinâmica do que narrativa e reflexiva, então uma adaptação de Quintessência ia ser cheia daqueles balões cheios de falas e recordatórios intermináveis, e não gosto de HQs assim. Se você precisa falar mais do que mostrar, melhor contar a história em texto. Por outro lado, já foi iniciada uma adaptação do livro para roteiro de cinema, que a meu ver está no meio termo entre a literatura e as HQs em termos de estética narrativa. Essa adaptação está meio parada depois que a pessoa responsável começou a fazer mestrado, mas é uma adaptação que considero muito mais interessante. Além de comics e fumetti, quais as obras e autores que influenciaram seu thriller policial-científico? Entre os escritores, há algum brasileiro na lista, como Ignácio de Loyola Brandão de Não verás país nenhum? Pergunto isso porque há alguns pontos de semelhança entre seu livro e o daquele autor, como a questão ambiental em São Paulo e a unificação de forças de segurança, sua Polícia de Elite e os civiltares de Brandão. Confesso que não conheço a obra de Brandão, embora meu interesse por ela tenha surgido recentemente, após ler nos fóruns de discussão a opinião de outros leitores e escritores de ficção científica a respeito de ela. Mas antes de começar a escrever Quintessência eu senti que precisava ler algo em termos de literatura policial de autores nacionais, então li BR 163, de Tony Bellotto, e Enquanto Seu Lobo não vem, de Aluísio Santiago Campos Jr.. Meu estilo nada tem a ver com nenhum dos dois, mas após ler essas obras me senti mais tranqüilo sobre escrever um romance policial com uma ambientação e personagens brasileiros. Quanto a autores internacionais, achei divertido quando alguns leitores compararam meu estilo ao do Dan Brown, e quando li O código da Vinci entendi o motivo: ele usa alguns truquezinhos como eu também usei, de terminar cada trecho de ação num momento de suspense, como nos episódios dos antigos seriados policiais, de maneira a fazer o leitor não querer largar o livro, para saber o que virá a seguir. Quanto a minhas preferências, em termos de estilo admiro autores como Neil Gaiman (Deuses americanos, Os filhos de Anansi) e Stephen King. De este último destaco as obras O iluminado, na qual ele retrata de forma magistral a crise no relacionamento de um casal sob o ponto de vista de uma criança pequena, e Salem's Lot, quando na cena do sepultamento de uma criança morta ele mistura as falas do padre, que realiza sua função de maneira protocolar e impessoal, com as do pai do garoto morto, tomado por um desespero que beira a insanidade. Recentemente também me tornei fã de Philip Roth e seu Complô contra a América, para mim um dos melhores livros de todos os tempos. Esses são os caras que eu quero ser quando crescer. Há toda uma reflexão que os leitores testemunham no fluxo de consCiência de Tom Rizzatti sobre questões de fundo moral: o bem, o mal, o livre arbítrio, a essência mais profunda e definidora disso tudo. Refletir sobre pontos como esses fizeram com que você repensasse pontos de vista? Foi possível chegar a alguma conclusão no final da jornada de 230 páginas? Talvez essas reflexões sejam a essência do livro, ou a principal razão de sua existência. Em a verdade esses questionamentos são os que ficam ali, como a pulga atrás da orelha da humanidade, há muitos séculos. E são importantes, uma vez que se referem nada menos que à própria existência. Muitos buscam as respostas na religião, e se contentam com isso. Outros preferem não pensar a respeito, embora curiosamente essas questões sempre retornem, marcadamente naquelas situações de profunda comoção humana, como mortes e doenças na família, por exemplo. Outros, mais inquietos, continuam buscando. A própria ciência começa a se enveredar nesse caminho, o que não deixa de ser uma ousadia: tratar cientificamente de questões metafísicas. As melhores e mais satisfatórias respostas que encontrei até agora estão na Logosofia, ciência que aborda essas questões e muitas outras partindo do conhecimento de si mesmo. O mais interessante é que, quanto mais respostas, ou partes de elas, você encontra, mais questões surgem. Mas é um estudo muito gostoso de fazer, a partir do momento que você começa a não se frustrar sempre, como se atingisse uma barreira intransponível. E, assim como a vida, não tem fim. Sua formação como médico e a experiência de ex-professor universitário certamente foram úteis para lidar com o lado científico do livro. Mas e os demais elementos da trama? Como foi a pesquisa a respeito dos vários locais reais descritos em detalhes ao longo das páginas, sem falar no básico em termos de técnicas investigativas para a porção policial da obra? Quanto aos locais de Belo Horizonte, minha cidade, foi mais fácil. Fui até o BH Shopping e fiquei de pé exatamente no topo das escadas rolantes, onde ocorre o atentado da abertura do livro. Ali desenhei mentalmente toda a cena. Depois «invadi» a galeria técnica do shopping onde o terrorista vai se refugiar, e imaginei toda a cena da explosão. Para a cena do congresso de neurologia no Minascentro, onde o orador metralha a audiência, aproveitei minha presença lá num congresso e subi ao palco, para ter a visão exata do agressor. Passei por o Viaduto Oeste várias vezes para memorizar detalhes e escrever a cena em que Tom Rizzatti escapa de seus perseguidores subindo o viaduto por a contra-mão. Cenas como as de Lavras Novas e sua cachoeira, e também Visconde de Mauá, também não foram difíceis, pois conheço bem as duas localidades. Fiz mais de um passeio ao lado oposto da Serra do Curral, caminho para Macacos, onde no meu livro vai ser construído o Memorial Leôncio Lamas, para verificar a viabilidade de minhas «teorias». Para a cena ambientada em Paris, no final do livro, entrevistei brevemente uma amiga que morou lá: «você está de pé sobre a Pont Neuf; olha para um lado, e o que vê? E do lado oposto?" Com um mapa da cidade obtido na internet e uma foto da ponte, foi como se eu tivesse mesmo estado lá. Coisas «futuristas» como o domo sobre a região da Savassi e uma rede de autovias passando por os subterrâneos da Praça da Liberdade, são projetos que talvez jamais se tornem realidade, mas que existem, de verdade: alguma imaginação insana pensou nisso antes de mim. Quanto à parte policial, aproveitei que trabalho num pronto-socorro para onde convergem todos os casos de violência urbana de BH, e sempre que chegava uma turma de policiais trazendo alguma vítima ou bandido, eu «colava» nos caras e começava a fazer perguntas. Olha, ouvi coisas que você não acreditaria, nem se eu escrevesse num livro de ficção. Passado algum tempo de sua estréia no ramo da literatura de gênero já deve ser possível fazer um retrospecto. Entre perdas, ganhos e empates qual é o saldo destes primeiros três anos? O saldo é totalmente positivo, já que correspondeu exatamente às minhas expectativas. Escrever para mim é um prazer, não um meio de vida. Quando você escreve por gosto, sem pressões, a chance de ter um bom resultado é melhor. Minha maior alegria é o retorno, geralmente positivo, de quem leu e gostou. Já tive comentários curiosíssimos de leitores de todas as idades, que para mim servem de sinal de que, apesar do trabalho que dá e do tempo que consome o ato de escrever, a recompensa é sempre superior. Não pretendo parar tão cedo. Em uma perspectiva mais geral: em sua opinião, o que está faltando para a literatura de entretenimento ganhar mais espaço entre os brasileiros? Quando falamos de ficção científica nacional, especificamente, há algo que se possa fazer para popularizar o gênero e atrair novos leitores e escritores? Um de meus leitores fez um dos comentários mais significativos, após acabar a leitura do Quintessência: «gostei muito do seu livro, apesar de ser ficção científica». Observo que a maioria das pessoas que afirmam não gostar de ficção científica nunca leu um livro do gênero, e baseia sua opinião na mídia do cinema ou da TV. Então minha proposta é: vamos escrever boas histórias! Coisas com conteúdo, mesmo que não seja nada filosófico, mas um texto inteligente e bem escrito. Ser FC, ou horror, ou policial, ou fantasia, é secundário desde que a história seja boa. De preferência com idéias originais, próprias. Se minha história de FC não passar da descrição de uma perseguição espacial, se meu texto de fantasia não for mais que a descrição da luta entre um príncipe e um dragão, talvez a mídia certa seja mesmo a TV ou o cinema. A pista que dou, porque é a que tento seguir, é: boas histórias têm que ter um conteúdo humano. Uma vez perguntaram a Stanislawski, um dos gênios do teatro, se ele seria capaz de representar uma cadeira no palco. A resposta de ele foi: «Se essa cadeira tiver o sonho de virar uma poltrona, ou se tiver o medo de morrer num incêndio, eu represento. Se não tiver nada disso, você não precisa de um ator: use uma cadeira». Penso que na literatura seja a mesma coisa. Tenho lido muita coisa boa de gente nova na literatura de gênero, e se tivermos mais oportunidades de mostrar esses trabalhos para mais pessoas, através da divulgação e da melhoria do acesso das pessoas à literatura, esse panorama vai mudar. E esse trabalho tem que começar junto à juventude, que tenho encontrado sem muitas motivações e incentivos que transcendam a superficialidade. «O futuro é uma página em branco dentro de um quarto escuro numa noite de neblina». Foi assim que, à altura da página 90 de Quintessência, você definiu o porvir. Mesmo com toda a nebulosidade e escuridão para atrapalhar a vista, o que o futuro lhe reserva como escritor? Idéias é o que não me falta. Estou com um novo romance pronto para publicação, chamado Casas de vampiro. Enquanto Quintessência é uma mescla dos gêneros ficção científica e policial, no novo livro misturo FC e horror. Tenho também pronta uma coletânea de contos leves, de humor e temas cotidianos, chamada Leia e fique rico. Acabo de terminar um conto de FC inspirado por uma música da cantora Tanita Tikaram, que deverá sair publicado numa antologia de vários autores de ficção científica, horror e fantasia. Além disso estou fazendo as pesquisas para um conto no universo da Intempol, e para o romance que será a continuação do Quintessência. E já tenho algum material guardado para o romance que virá logo depois de ele, uma ficção científica mais «pura», sem muita mistura de gêneros, para variar. Ah, nos horários vagos eu cuido do " lado A ": trabalho, família e saúde. Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. O livro Quintessência foi resenhado no Overblog: Número de frases: 186 http://www.overmundo.com.br/overblog/o-dominio do-mal -- Um oferecimento dos sucos Tampico Dia 1º de abril (me escuso de dizer que não é mentira e fazer essa piadinha medíocre, ok?). 21 horas e 17 minutos. Centro Cultural São Paulo vaziozinho. Em o porão, está terminando a peça Chapa Quente, parte da IV Mostra do Cemitério de Automóveis, que comemora 25 anos do grupo. O diademense (sim! Diademense ... É feio, mas é assim que se chama quem nasce em Diadema) Régis Santos, 42 imperceptíveis anos, finalmente aparece, trazendo seu sorrisão e muito assunto pra essa entrevista. Cenotécnico do Cemitério há quase seis anos, ele também faz muitas outras coisas (muitas mesmo!) relacionadas à arte. Multimídia e multiuso, é daquelas pessoas que não param quietas. Em todos os sentidos. Formou-se em artes plásticas na Universidade do Porto, estudou alemão e inglês, fez curso de fotografia pra cinema, iluminação e tentou fazer decoração na Panamericana. «Não terminei porque ficou muito caro." Atualmente, realiza ainda uma videobiografia de iluminadores, que deve terminar até o final deste ano. Não acabou. Régis é, ainda, ' cidadão do mundo '. Portugal, Espanha, Itália, Long Beach ... ( também conhecida por Praia Grande, ' lugar ' da mãe de ele). E o próximo destino deverá ser a Alemanha, onde, a partir de novembro, ele pretende estudar iluminação, com a ajuda de uma bolsa de estudos concedida por o Instituto Goethe, por meio da Unesco. Abaixo, você confere uma entrevista regada a Tampico, no pior lugar possível para qualquer gravador (especialmente para o meu pequenino MP3): um bar com direito a violão e batuquezinho. O que se pode aproveitar disso tudo são as opiniões e idéias de um profundo conhecedor da praça Roosevelt e seus mistérios, que também é chamado por a doce alcunha de Dona Odete. Como surgiu o Dona Odete? A Fernanda disse: «Régis, dá uma força para o Mário, passa essa calça aí para o Mário». A partir daí, o Mário falou: «Ô, dona Odete «e eu falei» Pô, Mário, essa calça aí tá muito amassada!». E ele: «Ô, Dona Odete, pega o ferro aí!" ( risos). Aí acabou surgindo o Dona Odete. Aí ficou. Foi no camarim do Satyros, na peça Homens, Santos e Desertores. Foi antes da gente ir para a Curitiba. Como você define cenotécnica? É um tipo de técnico que trabalha com cenário. Antigamente, tinha carpinteiro, uma pessoa que montava o cenário com madeira, mas o marceneiro, às vezes, não faz tão bem, porque não conhece, não sabe a linguagem do teatro, não sabe se vai usar palco italiano, se vai usar teatro de arena ... Precisa conhecer o que vai rolar dentro do teatro. O mundo é questão de linguagem. Carpintaria e marcenaria é muito importante, mas se você não conhece essa linguagem de teatro, você acaba fazendo um cenário que não dá certo no próprio palco. O cenotécnico tem essa visão, pensa no todo, no conjunto, em como ele vai alterar o espetáculo. Existe essa separação. O cenógrafo já tem uma visão mais funcional. Hoje em dia, tem poucos cenotécnicos bons, tinha o João Quirino, que faleceu, tinha o Espanhol, que para a história do teatro foi muito importante ... Hoje, o técnico de som, o iluminador ganhou ' know how ', já tem um prêmio Shell pra ele, isso faz poucos anos, mas o cenotécnico não, não existe nada que dê crédito pra ele, ele só sai no programa. Em o Brasil é engraçado que não existe um curso técnico. Em a Europa, na Itália, em outros lugares onde eu passei, já existe. E o que acontece? Cenotécnico no Brasil tá sumindo, o Espanhol, o Quirino ... tá sumindo. Aí pagam 10, 20 mil reais pra uma empresa fazer, mas na última hora liga para o seu Joaquim ... O cenotécnico brasileiro acaba consertando o que outra empresa foi contratada pra fazer. E o seu Joaquim é chamado pra ganhar muito menos que 20 mil? Muito menos. Vai ganhar uma diária de 50, 60, 70 reais ... O cenotécnico não tem categoria que protege. Eu acho que o cenotécnico ganha uma média de 700 a 800 reais. Ele é voltado para um grupo que tem fomento, patrocínio. Grupo que tá começando não tem cenotécnico, porque não tem dinheiro pra bancar. Grupos como o da ECA, o da Célia Helena, acabam confeccionando o próprio material. Há quanto tempo você trabalha com teatro? Cinco ... vai pra seis anos. O que você fazia antes? Eu era policial da polícia civil de São Paulo, era investigador. Como foi essa mudança? Me formei em Artes Plásticas em Portugal, na Universidade do Porto. Quando voltei para o Brasil, tinha muito desemprego e meu pai era pedreiro de obra. Ele me ensinou a trabalhar com pintura e textura. Aí peguei um prédio de sete andares, perto do Mário Bortolotto, na rua São Domingos, e acabei reformando tudo sozinho, desde porta, pintura, tudo. Aí, o Mario foi alugar um espaço lá. Eu já conhecia ele do teatro. Ele me reconheceu e falou pra mim assim: ' poxa, você gostaria de trabalhar com mim na Mostra? '. Foi a segunda mostra de 2002. A partir daí, tô com o Mário até hoje, mas já trabalhei com os Parlapatões, já fiz alguns trabalhos fora do Cemitério ... É muito diferente? É diferente porque quando você trabalha com um grupo você tem autonomia. Quando você é cenotécnico, você tem que viajar na viagem do diretor ou do cenógrafo ou consertar coisas que já vêm quebradas e te ligam na última hora pra corrigir. É também uma relação de confiança. Aí as pessoas sabem: ' aquele cara é bom! '. O seu Joaquim, o Quirino. Esses, sim, tinham ' know how '. Eu mesmo, como fico me metamorfoseando direto ... fiz curso de iluminação, agora estou fazendo uma vieobiografia de iluminador, talvez fique pronta até o final do ano ou janeiro. Mas é melhor trabalhar vinculado a um grupo do que com pessoas que você não conhecia antes? É importante você não só trabalhar para um grupo, mas conhecer a linguagem de outros grupos, não ficar preso só no underground, por exemplo, tem que conhecer outras coisas, tem que estudar, tem que ler também. Hoje muitos profissionais da área não lêem muito, porque é um serviço que muitos acham desqualificado. Chama cenotécnico, não cenógrafo. É um serviço desvalorizado. Só que as pessoas precisam entender que isso é importante, que precisa ler, precisa estudar. Eu fui estudar luz pra entender como a textura ficava na luz dentro do cenário, dentro de cada pano. É um conjunto de várias partes. Eu fui montar luz com a Lena Roque, A Disputa, fui montar luz do Tenesse Willians, com a Bernardete (ela faz As Domésticas), chamava-se O Auto da Fé. Como eu já conhecia a linguagem, fica muito mais fácil. Então isso te ajuda. Quando você trabalha com o Mário Bortolotto, com a Lena, com os Parlapatões, você vai descobrindo que cada um tem uma linguagem e começa a respeitar o espaço como um todo. Quando sai da faculdade, qualquer aluno de arte é muito moldado com os professores, não aceita nada, depois de 5 anos que ele fica bom. Igual cozinheira que fica boa depois dos 30. Tem que amadurecer, por isso é importante conhecer outros grupos. Você nunca se meteu numa roubada fazendo isso? É uma coisa de identidade. Quando você tem uma identidade própria, você não se perde. Em tudo o que você vai fazer na vida, você tem que ter sua identidade, você tem que saber escolher. Santo Agostinho já dizia: ' você tem o livre-arbítrio '. A partir do momento que você tem o livre arbítrio, você tem a escolha, é uma questão de evolução. Quando você está aberto a ler novos livros, são novos horizontes, um livro pode te transformar. Um grupo de teatro também pode te moldar, te mostrar novos caminhos. Não que você vá perder a sua estrada! A estrada é sua, você não sabe onde ela vai chegar ... Mas você já encontrou algum espetáculo muito doido? Já, já peguei um espetáculo. Teve uma pessoa que mandou colocar um monte de luz, montei tudo, um monte de luz em tudo quanto é lugar. Era um porão, lembro como se fosse hoje ... ( É antiético citar nome, né?) Aí, o público entrou e começou a sair. Saía público, entrava público e não terminava a peça que tinha uma hora e 15, uma hora e 20. Depois que terminou, tinha um que não tinha ido embora porque tinha dormido e era amigo. Aí ela virou pra mim e falou assim: ' você acha que precisa de mais luz? ' às vezes falta direção, bom senso. Mas quando você trabalha com as pessoas ... o diretor também viaja no cenário, tem que acompanhar a viagem do cara, não posso entrar na minha viagem, eu só passo dar opção, a melhor forma de fazer. Eu ajudo a confeccionar o trabalho, ajudo a pregar o trabalho. Cenotécnico não é nada mais que um marceneiro pra teatro. Entendeu? Só mudou uma linguagem, mas é marceneiro de teatro. Tem muita diferença nas montagens pra teatro e pra cinema? Cinema dá mais trampo? O problema é linguagem. Você tem que conhecer linguagem no cinema. Eu já conhecia porque já tinha estudado fotografia, iluminação de cinema. Meu professor era o Anselmo Duprat, que já faleceu. Era meu professor de iluminação de cinema e eletricista também. Eu ia fazer Paixão Perdida, do Walter Curi, que tinha o Fagundes no papel principal. Mas eu era muito novo. Os caras iam para o Japão filmar. E não deu certo, eu não tava preparado. Até porque eu tinha uma filha. Quantos anos tem sua filha? Hoje ela tem vinte e cinco anos e mora no Japão. De quem está em cartaz, hoje, tem alguém que seja referência? Acho que o Adubo, de Brasília, é muito bom. Estão em cartaz agora no CCSP, é de Brasília. Eles dão um show de espetáculo, de cenário, de tudo. As pessoas deveriam conhecer o trabalho, ter uma noção. O cenotécnico muitas vezes é um cara braçal, termina o horário de ele e acaba indo embora. Não toma cerveja, toma Tampico. ( risos) Muitos acabam não vendo vários espetáculos pra conhecer. Porque não existe curso preparatório, o cara aprende na raça. Ele não é um iluminador, que já existe curso. A escola de iluminação mesmo é nova, não sei se tem oito anos no Brasil. E fotografia de cinema não é nada mais que luz. Não existia aqui no Brasil. A gente tá mudando, tá crescendo, as pessoas estão se profissionalizando. Isso é muito bom, o Brasil está aberto pra isso. Mas o Senac e qualquer outro lugar, não ensina cenotécnica. Se um dia você ver que tem um curso de cenotécnico, me avisa que eu quero fazer. ( risos) De um tempo pra cá, vimos relatos nos blogs (Mário e Fernanda) de que tá cada vez mais complicado montar as coisas da mostra, que tem bastantes dificuldades. Como você vê histórico do grupo neste tempo que você está por aí? Eu acho que no teatro a gente tem perdido muito dinheiro. A gente fez uma mostra agora, de 25 anos do grupo, o grupo já tem uma história, a gente tá construindo uma história. Acontece o seguinte, não vamos falar de grupos que ganham ou não ganham fomento, nem do critério de como é selecionado. A gente, por exemplo, entrou com a lei pra ganhar fomento, sem fomento á difícil manter o grupo. às vezes, em época política, saem distribuindo grana pra grupo que não precisa, que já tem grana pra se manter e, às vezes, a gente que não tem patrocínio da Petrobras, do Unibanco, acaba perdendo a estrutura pra ter um trabalho melhor. A gente tá bancando a luz, tudo do bolso, da bilheteria. Eu, o Marcelo, o Mário, os atores estamos vindo aí com amor, mas fica difícil trabalhar só com amor. A gente precisa de pão, de tudo ... E o porão é alternativo, tudo locado. A gente acaba vindo no sufoco, fazendo a mostra, porque a gente faz teatro por amor. E o que a gente ganha no porão acaba gastando no bar. Eu não gasto tanto porque eu tomo Tampico. Em uma das peças da mostra houve um problema com o som. Já aconteceu com você antes? Tudo, qualquer teatro, todo espetáculo é sujeito a isso. Você, como jornalista, tá sujeito a esquecer o gravador ligado, desligado, a acabar pilha, a não ter mais fita ... Eu aprendi que sempre tem que levar umas coisas a mais. Fio a mais, extensão a mais ... tudo a mais! A gente tá sujeito a queimar uma lâmpada, sujeito ao som falhar e tudo aquilo é um jogo ... É um momento em que todo mundo entra em desespero, em ansiedade, porque o espetáculo depende de todo mundo e todos são papéis principais. Se um for mal, não der a fala, não pegar o tempo, atrapalha o tempo do outro. Vai rolar, você vai ficar muito mal. Você pode resolver, como nós resolvemos, trouxemos o DVD e deu certo, o espetáculo continuou, porque a gente acredita no nosso trabalho, então você tem que acreditar. Com você também pode dar errado, você pode estar atrasado e furar o pneu do carro antes de chegar no lugar. Tem coisas que dão errado e depois fica engraçado? Pra quem tá fora pode ficar engraçado, mas pra quem tá atrás é decepção. Todo mundo quer que dê certo, a gente ensaiou pra dar certo, nunca é improviso, aqui não é o Sai de Baixo, é teatro. Não é teatro do nada, que são textos abertos. Não é teatro experimental, a gente não tá experimentando, a gente tá fazendo teatro. Nós somos contemporâneos, não tamo fazendo teatro alternativo, não é conceitual, tem que dar certo porque a gente ensaiou aquilo. É como se você tivesse ensaiado uma partitura de uma música e não desse certo. Então, todo mundo fica apreensivo, sofre e vai para a casa mal, ninguém sai inteiro, porque todo mundo quer ver seu trabalho bem feito. Os problemas técnicos têm relação com a grana? Sempre tá sujeito a queimar alguma coisa, é coisa técnica, tá sujeito ao CD não ler. A grana ajuda, mas tem coisa que pode rolar ... São falhas ... o ator, tudo bem, pode beber, não estar legal, mas falha técnica não pode rolar. Se o programa não abrir, você pode estar com um computador de última geração e não abre. É muito relativo! Não dá pra falar que grana resolve muito. A gente já fez teatro sem grana mesmo. Quando a gente entra para o teatro, a gente sabe que não dá grana. Não dá dinheiro! Teatro não dá dinheiro! Se quiser, vai fazer novela, vai fazer comercial de TV. Eu sabia que não ia ganhar dinheiro, sabia que não ia ser sustentado com teatro. A maioria dos atores que eu conheço ou vai fazer peça infantil quando sai da ECA, do Célia Helena, ou vai dar aula de inglês, de espanhol, você entendeu? Ele cai numa realidade. São milhares se formando a cada ano. Artistas plásticos e cênicos se formando, pegando DRT, que é aquela febre do DRT, e quantos grupos tem no mercado aqui que a gente conhece? São poucos, gente! Cadê aquele pessoal que se forma cada ano na faculdade? Onde tá o pessoal da ECA, Célia Helena? Pega a São Judas, a Escola Paulista ... Pega uma média de 80 alunos por ano ... cadê? Cadê eles? Onde eles estão? É um mercado em que você tem que competir, você é um produto e não vai ganhar grana. Pode fazer um freela, uma novela, uma puta propaganda, tem muita gente que faz, mas aí é uma escolha. Ou então você vai para a Europa, faz um curso, fica bom e vai trabalhar no departamento cultural, ser chefe de cultura ... aí acabou! Várias pessoas que trabalhavam e eram muito boas, fizeram isso. O Celso Frateschi, o cara foi ser alguma coisa aí do teatro e não mudou muita coisa, não, porque é uma forma de ganhar dinheiro. Os caras estão lá então se engessam porque é o trabalho de eles. Não é dinheiro! Fazer bom teatro não precisa de dinheiro. O dinheiro ajudaria, cê entendeu? Mas o bom teatro você faz com amor, com raça. O que precisa é de uma lei que mude isso, pra que as empresas entrem com abatimento de imposto, pra ficar mais acessível e não ser só iniciativa pública, mas privada também. Isso que tem que acontecer. Tem muitos grupos que falta grana. Tem que mudar essa referência de lei. E não ficar só batendo na mesma tecla: falta grana, grana. Pô, vamos sentar todo mundo e tentar fazer algo mudar, senão ninguém vai fazer mais teatro! Claro que ninguém vai deixar de fazer teatro por causa de dinheiro, o teatro vai continuar ... O seu sustento é o teatro? É o teatro. Eu dou aula também, dou aula de artes plásticas e vou começar a dar aula de literatura num curso comunitário que se chama Ducafo, que trabalha com pessoas carentes e negras. Eu não protejo esse lance de negritude ou de branquitude, porque minha filha é praticamente nissei, então eu não protejo isso, porque também eu sou descendente de negro com branco. Tô lá, ganho dinheiro lá, monto cenário para o Brincando no Quintal, a peça de lá, tô lá, na quinta-feira. Estou com o pessoal do Bonassi, que é O Menino Preso na Fotografia, ganhando uma grana. Então, eu vivo de teatro mais outras coisas. Mas tem gente que só vive disso. Minha proposta era viver só de teatro. Se eu pudesse viver de teatro, ter mais tempo pra teatro ... Mas eu não tenho tempo, então tenho que me virar. Como é o relacionamento entre vocês no Cemitério? A gente é uma família. A gente é uma família como qualquer outra. A gente tem uma coisa muito grande, é uma coisa de estrela, que a maioria das pessoas que trabalham com a gente tem identificação. Eu saí de casa muito cedo, não tive uma família legal, minha família sempre foi o mundo, por vontade própria. O Mário também tem essa identificação, se pegar o blog, algumas peças. O grupo realmente tem muito a ver. Tem o Wiltão (que não sei se está mais, mas é do grupo), o Marcelo, o Gabriel Pinheiro, a Fernanda D' Umbra, o Mário e eu. A gente vem junto trabalhando, se tiver que segurar a barra, segura, ganhar dinheiro ... Se tiver que passar roupa? Vai passar, a Dona Odete tá lá! Isso é o grupo, porque quando você veste uma camisa, você tem que acreditar. Eu acredito no que eu tô fazendo, acredito no que é certo. Dentro do grupo, normalmente, com quem você pega as indicações? Com o Mário Bortolotto. Ele já traz umas coisas criadas, coisas que ele já tem na cabeça o que vai fazer. Há pouco tempo, eu entrei profundo nas luzes. Antes era só cenotécnico, mas como não tem técnico no porão, o Centro Cultural não dá técnico, eu tô aproveitando e tô aprendendo um pouco mais, tá sendo de muito valor. Tô crescendo muito com isso. Deveria acontecer mais vezes. Em o Mário, a gente não trabalha com muito cenário. O cenário é falado. É Shakespeareano. Trabalhamos mais com luz. O próprio cenário diz. É falado: ' aqui é minha casa '. Como nosso trabalho é underground, acaba tendo pouco cenário. Então o ator tem que ser muito bom pra mostrar que ele tá ali. Atuação e texto. Tem que ser muito bom pra mostrar que ali é uma casa, uma floresta ... Quem é a maior referência pra você? Em a cenotécnica? O Joaquim, o João Quirino, o Espanhol são os maiores. O Quirino, infelizmente, já faleceu, trabalhava aqui no Centro Cultural, mas um cara que pode te dar um show de bola é o seu Joaquim, que se encontra vivo e trabalha no Cultura Artística. Ele é cenotécnico! Eu sou aprendiz, eu tô tentando ... ( risos) Fale um pouco da sua empreitada como ator. Eu acho que tudo que você faz na vida, você faz muito, mas tem uma hora que vai ter que fazer uma coisa bem feita. Não dá pra ser muitas coisas ao mesmo tempo. Uma hora, vai chegar o momento, pode ser qualquer hora, não sei quando, que eu vou ter que me aperfeiçoar em alguma coisa e vou ter que dar o melhor de mim. Ainda estou na experimentação, mas quando chegar o momento certo, vou ser melhor naquilo que eu me propor a fazer. Isso é meu conceito. Até então sou apenas um ... aprendiz ... Rapidinha Um teatro: Satyros 1 Uma peça: Inocência Um dramaturgo: Mário Bortolotto Um (a) ator (atriz): Apesar de tudo, gosto da Fernanda Dumbra, ela trabalha bem Um desejo: Tentar ser feliz Um (a) crítico (a): Beth Neves Uma cor de calcinha: Vermelha Um inimigo: não tenho Grelhado ou Assado? Assado Sundown ou Cenoura & Bronze? Cenoura & Bronze Com fomento ou sem fomento? Com fomento -- mas, sem ou com, a gente acaba fazendo. Quem ou o quê não é referência pra ninguém? Fudeu ... porque é muito pesado, né? A gente não deve fazer isso ... Eu acredito que cada pessoa, cada linguagem vai ter discípulos e pessoas que respeitam ela como ela é. Eu odeio teatro experimental, cara. Odeio teatro experimental, mas eu tenho amigos que gostam ... Todo mundo tem um processo de gostar ou não gostar um dia. Eu não gosto hoje, mas daqui vinte anos eu leio uma matéria e falo ' pô, eu amo teatro experimental ', aí me falam: ' há vinte anos você escreveu isso '. Então é uma coisa que eu deixo aberta. Eu nunca sou, eu estou hoje. Eu não vou jogar pedra em nada, deixo sempre aberto, respeito qualquer pessoa. Tem pessoas que gostam de criticar ... Número de frases: 322 eu não ... Estava triste, tristinha ... Foi uma semana difícil: muitas tarefas acumuladas, a burocracia sentando sua enorme bunda sobre a minha ansiedade e uma frustração não curada por conta de uma viagem desejada que não deu certo. A vida exigindo coisas demais e dando energia de menos. Mas enfim chegou a sexta-feira, o dia universal da catarse. E junto com a sexta-feira veio também a abertura da tradicional festa de São Pedro -- o último santo da santíssima trindade de junho. Aqui em Vitória a festa de São Pedro é aguardada ansiosamente por os católicos da Praia do Suá e Jesus de Nazareth, bairros que compõem a paróquia do santo guardião do céu e das chuvas. E também por grande parte da população que tem na festa popular uma oportunidade de curtir, de graça, shows com artistas famosos (bons ou não). A festa dura três dias e termina sempre no domingo com a belíssima procissão marítima dos pescadores na baía de Vitória. Ela completou 80 anos de existência e consegue unir, ainda, o sabor de quermesse paroquiana com o de grandes festas populares, com mega-shows para centenas de pessoas. E o show de abertura da festa esse ano ficou por conta de Zeca Baleiro. A recém inaugurada Praça do Papa, na Enseada do Suá, é um espaço realmente lindo. Em a noite de sexta-feira, estava particularmente bonito, com o nublado do céu reforçando a aura do Convento da Penha iluminado do outro lado da baía e as luzes azuis do vão central da terceira ponte sublinhando a Cruz do Papa projetada sobre a praça e o povo presente. Um cenário perfeito para a festa e o show de Zeca Baleiro. Se tem uma coisa que gosto nessas festas populares é a diversidade de gente presente: famílias inteiras, crianças, adolescentes (muitos) e velhos comungando o mesmo espaço. Gente de meia idade em busca de um bom show e a garotada de várias tribos convivendo em harmonia em torno da música, das barracas de cerveja, churrasquinho e acarajés (porque, inexplicavelmente, a gente quase não encontra na festa de São Pedro é quitute junino). Em esse clima de quermesse, harmonia e diversidade, com as bênçãos do convento e da cruz do papa, e depois do público devidamente esquentado por o forrózinho honesto do grupo Comichão, Zeca Baleiro entrou no palco para seu show. E sua primeira música foi o mega sucesso Telegrama. Eu tava triste, tristinho ... A multidão, de imediato, identificou os primeiros acordes e formou um coro: eu tava só, sozinho ... Esse coral inicial marcou o tom de todo o show, que esquentava a cada música. Um show que teve como maior característica a alegria e participação do público. Quase ao final, com a coisa já bem encaminhada, Zeca atacou de Heavy Metal do Senhor. O som pesado das guitarras animou a platéia, que, a essa altura, já pulava e cantava em uníssono. Ver o público acompanhar a letra nem um pouco crente da música e o contraste de tudo com a cruz e o convento logo ali do lado foi um espetáculo, no mínimo, interessante. O show acabou por volta da meia noite. O povo foi saindo feliz e em paz. Os pontos de ônibus lotados, certa confusão de carros saindo, mas nada que quebrasse a paz do momento. Também fui embora para casa, feliz e suada dos pulos no show, com vontade de beijar o português da padaria ... E fiquei pensando no caminho que a nossa cidade bem que merecia um carinho desses mais vezes por ano. Uma programação cultural efetiva e periódica, que possibilitasse momentos de comunhão da população com a arte e com ela mesma seria algo assim tão complicado e caro para a nossa prefeitura? Leio no Diário de Vitória que semana que vem o espaço da Estação Porto reabre para o público. Com instalações mais adequadas, novo sistema de som e refrigeração, o espaço reabre na quarta-feira, dia 2, com lançamento do CD Vitória em Canto e show de Mart ' nália. Muito bom. O Estação é um espaço que a cidade adotou, principalmente por a qualidade da programação, e era uma pena ter ficado fechado por tanto tempo. Mas e as praças lindas da cidade? Elas, como espaços públicos abertos e democráticos, não mereciam também uma programação constante de boas atrações? Afinal, de que servem os belos novos espaços de Vitória se em eles não circula permanentemente a vida do povo da cidade? Número de frases: 41 Não se fala em outra coisa em Bauru (e em boa parte do mundo). Em as ruas, bares e lares, o assunto -- e a expectativa -- é o lançamento da nave russa Soyuz, hoje às 23h30, que parte do Cazaquistão rumo à Estação Espacial Internacional, levando a bordo o bauruense Marcos César Pontes, o primeiro astronauta brasileiro. O major passará dez dias em órbita sem sair da nave, o que pode parecer frustrante para a maioria, mas não é. O feito coloca o Brasil entre os principais na pesquisa para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, já que vários experimentos importantes serão realizados na missão. Como numa fina de Copa do Mundo ou de um Big Brother, o clima será de festa e apreensão na casa de seus pais no Jardim Bela Vista, um dos bairros mais antigos da cidade. Amigos, parentes e vizinhos prometem reunir-se para torcer por o filho prodígio de seu Virgílio e dona Zuleika, nascido por as mãos de uma parteira, em março de 1963. Foguetes em Brotas O feito do astronauta é tão importante que a cerca de 150 quilômetros de sua cidade natal, ele será homenageado durante quase todo o dia. Em Brotas, cidade conhecida por suas cachoeiras, corredeiras e por a prática de esportes de aventura, a Fundação Ceu (Centro de Estudos do Universo) realiza um evento com palestras, oficinas e até lançamento de mini-foguetes, capazes de voar cerca de 300 metros de altura e atingir a velocidade de 980 km por hora. O Ceu é considerado o maior complexo astronômico do Brasil, incluindo a primeira base de lançamentos de mini-foguetes, que leva o nome do astronauta, para fins didáticos. A base tem capacidade para lançar, por dia, até 16 mini-foguetes produzidos em duas oficinas diárias com a participação dos próprios visitantes, que ganham direito a contagem regressiva nos alto-falantes e outros procedimentos «profissionais». Os foguetes fazem parte de atividades didáticas apresentadas a estudantes e visitantes. Em o local, também pode-se conhecer Planetário, Observatório, Anfiteatro Multimídia e outras estruturas. Assim, hoje, mesmo antes de Marcos Pontes partir rumo ao espaço, muitos lançamentos já terão sido feitos. Cem anos depois do histórico vôo de Santos Dumont a bordo do 14 Bis, o Brasil volta ao topo dos feitos científicos. Bauru, Brotas e a humanidade agradecem. Curiosidade Bem perto de ali, em Brotas mesmo, no Carnaval de 2005, foi realizada uma das maiores festas de música eletrônica do Brasil, a Solaris, com vários DJ de trance e público do mundo inteiro. A região também é ponto de encontro de astrônomos e todo o tipo de maluco interessado em assuntos do espaço, o que faz de Brotas um região quase mística. Serviço A Fundação Ceu abrirá as portas às 14 horas e receberá a visita de 150 alunos das escolas municipais de Brotas, além de visitantes agendados. Os agendamentos podem ser feitos por os telefones (14) 3653-4466 ou (11) 3812-2112. Grátis. www.fundacaoceu.org.br Para conhecer a história do astronauta e acompanhar seu dia-a-dia, acesse www.marcospontes.net. Número de frases: 24 Crítica publicada no blog Motocontínuo Um SESC Consolação quase lotado comporta a apresentação da sexta-feira de Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, protagonizado por Denise Weinberg, Cacá Amaral e Ângela Barros e dirigido por Alexandre Reinecke. Só esse breve currículo já seria o bastante para tornar a peça um evento marcante. Infelizmente não o é. A história por si só é uma cacetada. Jonas (Cacá Amaral) é apaixonado por a filha Glória (Rennata Airoldi) e ela por ele. Por este motivo e por um acontecimento passado, ele procura garotas «puras» com a ajuda da cunhada Rute (Ângela Barros), também apaixonada por Jonas. D. Senhorinha (Denise Weinberg) assiste a tudo e mantém-se impassível. O tumulto revira-se mais quando os filhos retornam para o lar: Glória, expulsa do colégio interno por se envolver com uma garota; Guilherme (Gabriel Pinheiro), apaixonado por a irmã, castra-se e abandona o seminário à procura de Glória; Edmundo (João Vítor D' Alves), expulso por o pai, apaixonado por a mãe, abandona a mulher com quem recentemente se casou. Por fim, Nonô (Eldo Mendes), enlouquecido após grande trauma envolvendo a mãe, corre nu, como um selvagem, mata afora. Reinecke trouxe o Nelson Rodrigues ipsis, com uma cenografia estilizada, porém pouco funcional e até mesmo óbvia, com janelas ao ar e vidros quebrados. A trilha de André Abujamra pontua e serve de transição. Só. Trazer o texto do dramaturgo pernambucano sem alterações reflete alguns problemas da encenação: a começar por a própria platéia, que mais se diverte do que pensa diante dos diálogos específicos do autor. Rodrigues adorava a causticidade e a ironia de seu texto e sabia que a platéia teria acessos de riso, mesmo que risos nervosos. Incômodo foi perceber que, mesmo quando o riso não era pretendido por o texto, ele acontecia. E aí? Problema do recifense? Não. Problema do elenco. De o diretor. Aquelas falas tem uma especificidade que necessita de grandes cuidados. O problema é que a maioria do elenco entende o clichê de Nelson Rodrigues: diálogos passionais. Entende-se que todas as personagens do Anjo Pornográfico eram arrebatadas de paixão e por isso quase todas as falas dos atores eram gritadas, avolumadas, apaixonadas, mais ou menos como as pessoas pensam que Shakespeare é. De aí que é um passo para a comicidade plena numa peça séria. Salvos os diálogos do Speaker (Riba Carlovich), que são tremendamente engraçados e contrastantes, poucos são os momentos de humor, por os temas pesados, e o histrionismo passional lima o público de perceber os reais sentimentos de todos aqueles complexos personagens. Além disso, as soluções cênicas às vezes parecem pastiche, como no momento em que Guilherme atira numa das personagens. Sua fala é tão descuidada, assim como a ação de pegar a arma e atirar -- seguida de um som de tiro extremamente artificial (sabemos que veio da caixa de som -- poderia ser um som ao vivo, uma tábua batendo ao chão, por exemplo) -- que a platéia ri diante da morte de uma das personagens. Rodrigues desenvolvia um potencial muito grandioso para a tensão, armando bate-bolas constantes, interrupções, sobreposição de planos, desvios nas histórias, portanto as soluções cênicas têm de caminhar e respirar junto com o texto. A salvação do espetáculo se dá por os experientes Cacá Amaral, Denise Weinberg e Ângela Barros, brilhantes como sempre. Apesar do registro corporal de Tia Rute ser um pouco eloqüente demais (muitos braços estendidos), Ângela oferece uma credibilidade forte à sua Rute. Amaral constrói um Jonas amargo e forte, apaixonado sem necessidade de gritos. E Weinberg, em sua quarta peça do dramaturgo maldito, brilha como D. Senhorinha, numa composição irônica, frágil e altiva ao mesmo tempo, sem exageros, resplandecendo uma sensualidade feminina que não perpassa aos olhos de Jonas até o final, quando este reconhece na mulher o quê da filha Glória. Weinberg não se deixa enganar por a paixão e transparece da matriarca aquilo que apenas deve, nada mais. Em a contabilização de prós e contras, creio que Álbum de Família seja um espetáculo que a platéia gosta. É correto muitas vezes, mas sem ousadia. E parte do elenco que interpreta os filhos deve prestar cuidados a suas atuações. Menos paixão, menos histrionismo. Menos é mais, se diz muito hoje. Assim, platéia, olhares direcionados para o trio Weinberg-Amaral Barros. Estes valem, sempre. Álbum de Família. Direção: Alexandre Reinecke. Elenco: Cacá Amaral, Denise Weinberg, Ângela Barros, Gabriel Pinheiro, Rennata Airoldi, João Vítor D' Alves, Eldo Mendes, Riba Carlovich, Helena Cerello e Ronaldo Dias. Onde: SESC Consolação, R. Dr. Vila Nova, 245. Quando: Quinta à Sábado, 21h; Domingo, 19h. Até 17 de junho. P.S.: Número de frases: 53 Após a temporada no SESC, o espetáculo ruma para o Espaço dos Parlapatões. Aproveitando a chegada da turnê de «Cê» ao Rio de Janeiro, publico a segunda parte da entrevista com mr. Pedro Sá. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * A segunda (e última) parte da entrevista com Pedro Sá também foi feita por e-mail. Em ela, o foco está sobre o mais recente trabalho do músico, a produção do disco roxo do Caetano, «Cê». A relação afetiva e quase familiar com um dos maiores nomes da cultura pop do século XX -- revelada na parte 1 -- foi se estreitando até chegar ao estágio atual. Um disco de indie-rock, disse " David Byrne. «O melhor do ano». Em o ano em que o Arctic Monkeys quebrou recordes históricos da chart inglesa, trazendo o indie direto da internet para o re$$$to do mundo, Pedro revela ter concebido «Cê» desconsiderando todas as referências tecnológicas e de facilidade de comunicação que marcam essa geração do rock. Contradições que, de certa forma, não surpreendem. Afinal, o disco nem é tão rock assim. Vamos lá então ... (por Bruno Maia) bm: De que forma se desenvolveu a relação profissional entre você e o Caetano, até chegar no convite para produzir o disco? Você conseguiria elocubrar a razão de ele ter te escolhido? PS: Me escolheu por tudo isso que falamos. Sou um cara de bandas e ele queria fazer uma. Então me chamou e agora tenho mais uma. Tenho um diálogo criativo muito rico com o Caetano e ele é muito bom de criar junto, pois é muito generoso e criativo. Mas o fato de eu tocar com o Lenine nos projetos «Em a Pressão» e «O Dia que Faremos Contato» foi fundamental para o Caetano me chamar para fazermos o «Noites do Norte», que foi o começo da nossa parceria. bm: A caminhada para a função de produtor é um trabalho que se deu especificamente por o amadurecimento da sua relação profissional com o Caetano ou é mais um direcionamento de carreira seu, que independe do fato de ter sido com ele ou não? Você já tinha trabalhado com o Rubinho Jacobina e com o próprio Caetano antes, mas é nesse trabalho que se afirma essa particularidade do seu trabalho: o de produtor? PS: Olha eu não defino muito as coisas assim tão estruturadas. Eu gosto de produzir, mas sou um pouco preguiçoso, tanto que, se você reparar bem, sempre divido a produção com alguém. O Kassin é um produtor nato, o Chico Neves é um grande mestre da produção musical. Eu adoro ter idéias e pensar o projeto com um todo, mas sou lento e preguiçoso. bm: A montagem da banda com o Marcelo Callado e o Ricardo Dias Gomes foi orientada por o que? PS: Sempre vi esses garotos tocando com o meu irmão, o Jonas Sá. Conheço-os desde criança praticamente. Lembro do Marcelo, com 12 anos, indo assistir ao MQDS em Botafogo. É muito lindo isso, fazer uma ligação entre o Caetano e eles. Os leoninos se deram muito bem. bm: Em esse álbum o Caetano volta a trabalhar com o conceito de álbum de banda. Como você mesmo falou, além de produtor, é músico da banda também. Como essas funções se diferenciam dentro de estúdio. Qual é o limite de uma e de outra? PS: Eu catalisei e organizei as coisas e os papéis. É claro que o Caetano é mesmo o Caetano e já vem com muitas coisas definidas e trabalhadas. Mas eu chamei o Moreno para ajudar na produção, pois ele é gênio e seria impossível fazer um trabalho que exige tanto da minha performance de instrumentista, sem ter uma visão de fora da banda. Chamei também o Daniel Carvalho, que tem uma ligação linda com o Móca e é um técnico de som fabuloso. «Móca» é um apelido muito antigo do Moreno, da época da Escola Parque. bm: Falou-se muito que «o Caetano lançou um disco de rock». Ouvindo «Cê», percebe-se, sim, essa referência, mas ele não é, definitivamente, um álbum musicalmente calcado em puras referências do rock. Talvez as figuras do discurso e do texto do Caetano sejam mais próximas do que o rock «pregou» ao longo dos anos do que as soluções musicais. Você concorda com isso? De que forma vocês buscaram essas «soluções» sonoras e as referências para os arranjos das músicas? PS: Cara, esse negócio de ser Rock ou não é muito louco. Não é um disco de Rock, mas tem o formato de banda de Rock e ao final é também Rock. O David Byrne disse que é «provavelmente o melhor disco de indie rock do ano». Engraçado, né? Fiquei feliz com esse comentário. Em a verdade tudo o que é criativo e que tem força é inclassificável, inclusive o próprio rock é assim. De todo jeito, eu sou também um cara do rock, toco guitarra e tudo, mas isso tudo é muito relativo. bm: Inevitavelmente, a «época mais rock» do Caetano, a qual ele próprio se refere, é tão longínqua que nem você, nem nenhum dos músicos da banda, viveram. Sobretudo os anos 60 e 70 causam uma espécie de nostalgia em muitos artistas e até no público que defendem aqueles tempos como os melhores e blablabla ... O Caetano é um artista que representa essa época, essa força, e ainda tem com si todo o peso de uma carreira inconteste, de extrema relevância e, imagino eu, os músicos tinham essa consciência de que estavam participando do trabalho de um ícone da cultura do século XX. Você acha que isso, em algum momento, gerou uma certa parcimônia ou um excesso de reverência? PS: Olha, como já disse, o Caetano é o Caetano. Mas ele mesmo define muito bem aonde acaba o de ele e começa o nosso, de uma maneira muito simples e natural. E tudo rolou mesmo de modo simples e natural, como dois e dois ... bm: Em entrevistas, o Caetano citou bandas como Arctic Monkeys, Grandaddy, etc, e até falou de conversas que teve com você sobre elas. O que esse chamado «novo rock» tem de mais interessante pra você? PS: Acho que a sonoridade é muito boa, principalmente o Arctic Monkeys, que achei parecido com o MQDS. Sinceramente achei Grandaddy meio farofa. O Strokes é muito bom também, o Devendra é fabuloso. Wilco é foda e os Los Hermanos arrebentam muito. O som é estético, não é só «bem gravado», mas faz sentido poético, musical, isso eu acho legal e com isso me identifico. bm: Essas novas linguagens e ferramentas de comunicação que dinamizaram a música, como YouTubes, MySpaces, Orkuts, softwares de homestudios, ringtones, etc, se comunicam de alguma forma com o novo trabalho do Caetano? Me pergunto se é possível falar-se num disco de indie-rock, em 2006, sem se considerar essas questões que acabam influenciando esteticamente toda a produção desta nova geração a que nos referimos. PS: Sinceramente não pensei em nada disso quando fiz o disco. bm: Vocês todos, da atual banda do Caetano, têm seus outros projetos, bandas, etc.. Como é que é partir para a estrada, para um trabalho tão grandioso como esse, e ter que parar essas outras atividades? PS: Não temos de parar nada. Como diria o Marovatto, tudo converge. Talvez tenhamos de deixar de fazer um show ou outro. Mas o Caetano não faz assim milhões de concertos num ano. Acho um trabalho bem humano e as coisas vão se ajeitando. bm: Por fim, como é, afetivamente pra você, estar realizando esse trabalho tão grande com o cara que sempre foi uma referência estética e, ao mesmo tempo, pessoal pra você, aos 34 anos? PS: Uma linda Honra. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * texto publicado originalmente em www. SOBREMUSICA. com. Número de frases: 101 br Que tristeza me dá quando acesso o Google (nosso totem contemporâneo) e vejo que ninguém falou ainda da peça sobre que devo falar. É necessário confessar, tenho tido muita sorte com os espetáculos que ando vendo em São Paulo. Cada vez faz mais sentido elaborar um comentário sobre cada pedaço desse movimento de (pra dizer pouco) «fazer teatral muito diverso» que está acontecendo na nossa cidade. A pérola de hoje é O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, em cartaz no Sesc Paulista (sempre o Sesc) até o dia 24 de junho. E como foi longe esse pessoal. A o procurar por o título, facilmente se encontra a referência a Oswald de Andrade e fácil também seria fazer uma montagem naturalista sobre aquele grupo de 22. Foi o caso de Tarsila, que esteve em cartaz no Sesc Consolação há cerca de dois anos, e que não saía de uma mitificação bastante ufanista dos quatro ébrios da semana de 22 (Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti). Essa nova montagem faz questão de voltar quatro anos antes, em 1918, para contar uma história de amores no melhor estilo Wong Kar-Wai de idas e vindas temporais. O Perfeito Cozinheiro nos recebe com uma cenografia inacreditável para aquele prédio que está dito pra ser o núcleo «provisório» na Av.. Paulista do Sesc. A princípio se espera algo que nos faça pular das pequenas cadeiras posicionadas em lugares diversos. Andamos por a terra e sentamos ao lado de uma imensa cerejeira, dentro de um local que parece estar no pôr-do-sol, ao lado de janelas que dão para 10 andares de altura. No entanto o que nos chega ao começar o espetáculo é bem menos, bem mais sutil e por isso acaba tocando muito mais. Carrego uma certa angústia quando noto atuações naturalistas / realistas no teatro. Mas essa expressão não dá conta do que é a interpretação das duas duplas no espetáculo. Há um quê dos silêncios de Jon Fosse, um pouco de novela da Globo (difícil reconhecer, mas há) e muito de um tempo de diálogo extremamente bem trabalhado entre os atores. Fico me perguntando o que fizeram os preparadores corporais nessa peça e suponho que seja frescura, pois o que há sim nessa montagem é uma mão exata nas marcações e um ensaio meticuloso das falas. Tudo, afinal, corrobora pra fazer os três mundos apresentados no espetáculo serem ultrareais. A certo momento, pensamos no melodrama. Sim, ele está presente, sobretudo na trilha. O medo bate quando a equipe Bacante olha para o lado e encara ela, Marie Gabi, a Gabriela e pensa: fudeu. Mas não, não há razões para pânico. Lembramos que ela estava também na noite dos ilustres em que estreou A noite no Aquário, na trilogia de nove peças da Praça Roosevelt. A maior cria da E.A.D. parece que também respira os novos ares do teatro. E voltamos para o melodrama, mas agora ele não assusta mais. De a história, basta dizer que começa com a relação entre Cyclone (musa dos autores que escreveram o Perfeito Cozinheiro) e Oswald de Andrade, e termina com a relação entre Cyclone e Oswald de Andrade. Só que esqueçam a história real. Aliás, isso vale muito para professores de literatura: não levem seus alunos para assistir essa peça. Inclusive, professores, os atores têm sotaque nitidamente carioca pra falar da história paulista. Não há verossimilhança, graças a Deus. Não vale para o vestibular. Enfim, O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, assim como os filmes de Wong Kar-Wai, é peça pra ser vista três, quatro ou cinco vezes. Número de frases: 32 Uma para a cenografia, outra para entender a interpretação e muitas, mas muitas outras vezes para aprender um pouco mais sobre dramaturgia de adaptação. Emissoras de televisão Comunicado do ECAD aos Titulares Janeiro / 2004 Em este comunicado, o ECAD -- Escritório Central de Arrecadação e Distribuição -- tem como objetivo destacar alguns acontecimentos que fizeram de 2003 um excelente ano para a arrecadação e distribuição dos direitos autorais de execução pública musical. O ano chegou ao fim com uma grande notícia: nosso desempenho superou todos os obstáculos enfrentados num ano com cenário economicamente difícil no Brasil, principalmente no primeiro semestre, mas que neste início de 2004 já sinaliza boas chances de recuperação da economia. Conseguimos ultrapassar nossa meta de arrecadação anual prevista ao atingirmos, antes do fim de dezembro, a marca de R$ 200 milhões de arrecadação. Um recorde histórico do ECAD traduzido, ao longo de 2003, numa distribuição fantástica para os titulares de direitos autorais, em torno de R$ 157 milhões, o que representa um aumento de 30,02 % em relação a 2002. Lembramos que uma parte desses valores será distribuída no primeiro semestre de 2004. Obs: dos autores Em o primeiro semestre de 2004 foi bloqueado os direitos conexos (intérprete) referentes aos autores de trilhas sonoras de tv que representam a maior fatia do bolo de arrecadação do ECAD, e mais uma vez foi reduzido o peso royalties de distribuição autoral, para 1/12, e os fonogramas (música instrumental) foram denominados como (background e demais obras). Secundagem Comunicado aos Titulares Novo Critério De Distribuição das Emissoras Globo E Record A partir deste mês de julho de 2005, estamos implementando um novo critério para a distribuição dos valores arrecadados das emissoras de televisão: o da secundagem. Em este novo critério, todo o pagamento dos direitos provenientes de televisão é considerado uma distribuição de obras audiovisuais. Em este tipo de distribuição, é adotado o tempo de duração em segundos das obras musicais e fonogramas executados. O critério da secundagem consiste, em linhas gerais, no seguinte: A programação da emissora é identificada por título de música, autores, intérpretes, produtores de fonograma; A programação da emissora apresenta também o tempo de duração de cada obra musical e / ou fonograma na programação; A verba arrecadada da emissora é rateada por a quantidade total de segundos da programação. E com tudo isso estamos hoje recebendo apenas um valor simbólico por a execução das nossas obras, apenas centavos, às vezes 001 centavo, por conta da redução do ponto royalties e a secundajem este é o verdadeiro comunicado do ECAD aos titulares. Como eles conseguem enganar a todos? Adotando mecanismos técnicos de difícil compreensão. Os titulares não tem acesso às planilhas de execução pública. As atas das assembléias gerais do ECAD não podem ser divulgadas e muito menos fornecidas aos titulares por as sociedades. Quando um titular muda de sociedade ele não tem acesso ao histórico da sociedade anterior. De essa maneira eles conseguem manipular os valores arrecadados em direito autoral sem ter que dar muita explicação aos titulares. Assembléias do ECAD O ECAD calcula os valores que devem ser pagos por os usuários de música de acordo com os critérios do regulamento de Arrecadação desenvolvido por os próprios titulares, através de suas associações musicais. Obs: Isso não corresponde a verdade, o peso das reinvidicações dos titulares nas assembléias do ECAD é irrelevante, tendo em vista que muitas das modificações e regulamentos estabelecidas por as assembléias são de indignação de todos. Por: Número de frases: 38 Roberto Lopes Ferigato Leitores do Overmundo, esta é mais uma da safra de entrevistas que estou disponibilizando aqui no site. O objetivo é socializar informações que acabaram sendo guardadas após a cobertura de algum evento. Podem ficar tranqüilos que apenas serão apresentadas à publicação entrevistas com conteúdo relevante. Como esta, por exemplo, realizada em 2004 na cobertura do Festival do Rio para o site Cineminha. O entrevistado é o diretor argentino Javier Torre que estava acompanhando o seu filme Vereda Tropical, filmado no Brasil, vencedor de prêmios no Festival de Gramado. O filme relata o exílio voluntário do escritor Manuel Puig no Rio de Janeiro. Torre fala sobre a obra e sobre o cinema argentino. Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência. O argentino Javier Torre não é um nome conhecido no Brasil. Mas o Brasil é um velho parceiro desse diretor que veio ao último Festival do Rio para lançar sua mais recente película, Vereda Tropical. Rodado no Rio e em Buenos Aires, o filme conta a passagem do escritor argentino Manuel Puig por a Cidade Maravilhosa, nos anos 1980. Em um elenco constituído basicamente por atores brasileiros, quem rouba a cena é Fabio Aste que vive o escritor e foi premiado na competitiva latina do último Festival de Gramado por o personagem. Produtor independente, Torre levantou uma série de questões vividas por o cinema argentino atual. Não se espante se parecer que ele fala sobre o cinema brasileiro. A situação atual da Argentina também foi um tema, assim como sua ligação com a literatura, matéria-prima para quatro de seus filmes. Simpático e bem-disposto, o diretor falou ao cineminha sobre sua trajetória como cineasta, produção cinematográfica argentina, impressões sobre o Brasil e, é claro, Vereda Tropical. Confira a entrevista: -- O senhor já havia falado que está sempre vindo ao Brasil, que essa não é a primeira vez após as filmagens ... Como o senhor viu a recepção do público ao seu novo filme, Vereda Tropical? Javier Torre -- O público é muito lindo, muito respeitoso, muito caloroso, muito compenetrado. Eu senti que as pessoas acompanhavam a história, estavam interessadas de verdade. Quando o filme captura o público se cria uma comunhão muito linda, um relacionamento forte. Eu senti que, ao final do filme, o público aplaudiu calorosamente. Depois muitas pessoas vieram falar, querendo saber mais coisas. São sinais muito lindos, muito bons, quando se dá esse vínculo com o público que é, afinal, o destino do filme. Como te dizia, nos festivais internacionais os filmes latino-americanos têm um público menor. Aqui a recepção é muito mais quente, quantitativa e qualitativamente. Você encontra uma recepção muito boa, eu gostei muito. Eu quero mostrar mais o filme aqui. Ontem no Estação Botafogo foi muito bom. A sala é lindíssima, a projeção muito boa. -- Quando foram as filmagens de Vereda Tropical? -- As filmagens de Vereda Tropical foram em abril do ano passado. Eu filmei aqui no Rio e, também, em Buenos Aires. Estão mescladas, têm partes que vocês crêem que foram no Brasil, mas foram em Buenos Aires. É uma mescla muito interessante que eu consegui fazer para poder realizar essa imagem dos anos 80 porque é muito fazer um filme nos anos 80. É mais difícil fazer os anos 80 do que fazer o século XIV porque todos se lembram como eram os anos 80 ... Eu, particularmente, acho que deu certo. O tratamento visual do filme respeita esse momento tão lindo, tão especial, tão próximo e tão distante de nós. Então, eu trabalhei em abril e maio do ano passado entre Rio e Buenos Aires e depois tive muito tempo de pós-produ ção onde preparei a trilha sonora e toda parte musical do filme que é muito importante, as músicas daquela época que eu estive trabalhando as vozes. O filme está dublado. Então, foi também um processo complicado. Eu fiz a parte sonora do filme na Argentina, tive que pegar os atores daqui e levar para Buenos Aires, eles fizeram a dublagem em Buenos Aires. Depois tivemos que conseguir brasileiros em Buenos Aires que fizeram outras vozes. Foi complicado. Mas acho que, na estrutura geral do filme, isso ficou bem. -- Por que a opção por não usar o som direto? -- Esse é um tema ... Eu gosto do som direto, mas ... Eu gosto dos dois lados. Dublagem é uma técnica mais antiga. Eu filmo muito, muito ... Gosto de captar muitos detalhes. Depois, trabalho muito na edição dos filmes. Então, com o som direto tem muita disparidade. Especialmente esse filme que teve uma parte aqui, outra lá, outra parte na rua, na Praia de Copacabana ... É muito complicado trabalhar com o som direto. Então, a decisão foi dublar, foi tudo dublado. Tem só alguns sons secundários que são diretos, os meninos na rua ... Mas os diálogos são todos dublados. -- Isso foi uma decisão desde o início das filmagens ... -- Foi uma decisão estudada desde o início por esses motivos, sabido que a gente ia filmar em lugares pouco receptivos para som direto como as casas noturnas, a rua, o mar com o vento, o shopping em Botafogo com vento ... Então, foi tudo dublado. A opção de som direto é maravilhosa ... Cada filme tem seu esquema e, aqui, não dava. Então, a gente dublou. Dublar é caro, complicado, feio porque é um trabalho mecânico. Torna-se difícil porque você tem que recapturar a emoção do ator numa sala escura. É difícil, mas deu certo. Por sorte o ator principal do filme falava português. Naturalmente, ele já falava português porque morou aqui no Brasil quando era menino. Então, isso já ajudou muito porque se eu tivesse que dublar com outro ator, seria uma catástrofe. -- Em Um Amor de Borges o senhor fala de um outro escritor (Jorge Luis Borges). El Juguete Rabioso e Las Tumbas são adaptações literárias. Fale de sua relação com a literatura. -- Eu me criei num mundo literário. Meu pai (Leopoldo Torre Nilsson) que era cineasta, também era escritor. Sua mulher era escritora. Meu avô (Leopoldo Torre Rios) era escritor. Eu escrevi também quando era mais jovem. Eu queria ser escritor, deixei para não morrer de fome. Pensei que no cinema ... ( ri) Mas eu gosto das adaptações literárias. Eu conheço o mundo da literatura. Eu sou atraído por isso. Eu queria fazer uma trilogia de escritores. Eu queria fazer Borges, Puig e queria fazer uma mulher. Não sei se vou fazer, mas a idéia é fazer uma trilogia. Tem diretores de cinema que saber fazer western, tem um diretor argentino muito famoso chamado Carlos Sorín que filma sempre a Patagônia, tem outros que fazem filmes sobre casos policiais ... Então, eu gosto de temas vinculados com a literatura. Tenho outra idéia de continuar com adaptações literárias, também gosto de adaptações. Não sei ... Isso é um caminho. Um caminho que dá satisfações ... Você pode dizer «mas esses filmes não são comerciais, o público não acompanha». Mas, sim, você vê que o filme sobre o Borges foi vendido por toda a Europa. Aqui mesmo, no Rio, teve muitas semanas em cartaz, uma coisa que ninguém pensava ficar 10, 15 semanas em cartaz aqui, ganhou prêmio. Esse filme mesmo (Vereda Tropical) ganhou prêmio aqui em Gramado, foi muito celebrado. O ator também ganhou prêmio. Então, acho que não está tão mal. Tem um setor do público que não é muito massivo mas se interessa por coisas literárias e, se você pensar, nas origens do cinema, na Argentina pelo menos, os primeiros filmes foram adaptações literárias. Os primeiros filmes argentinos, nos princípios do século anterior foram adaptações literárias. -- O senhor também fez algumas biografias, como as dos escritores e a da artista plástica Lola Mora. Por que o interesse por biografias? -- Sim, eu gosto das histórias das pessoas. Eu gosto de focar os destinos das pessoas, como o destino de uma pessoa pode mudar de uma hora para outra, como a vida vai desenhando muita coisa que a pessoa não tinha previsto. A pessoa rica passa a ser pobre, a pobre passa a ser rica. Ou a que era feliz passa a ser infeliz, aquela que tem muita coisa deixa de ter. Eu gosto dessa coisa que tem a literatura francesa, Balzac por exemplo, as guinadas na vida, por que você ficou com tal mulher e depois essa mulher ficou com outro e você passou por tal peripécia. Essa estruturação das histórias, o passar do tempo, eu gosto muito. Tanto de pessoas públicas quanto de pessoas sem uma identidade conhecida, mas que têm histórias muito ricas. A vida é muito rica. Os historiadores falam de uma teoria chamada ' micro-história '. A ' micro-história ' é entrar na vida de alguém por um pequeno detalhe. Eu entro na tua vida por isso ... Onde você comprou isso? Então, eu começo a construir uma história em função dessa micro-história. Eu gosto muito disso. A história de Vereda Tropical se constrói a partir de uma micro-história, de um relacionamento de Manuel Puig. -- Como o senhor chegou à história de Manuel Puig? Como se construiu o roteiro de Vereda Tropical? -- Foram vários fatores. Primeiramente foi a idéia de fazer, como dizíamos, várias histórias. Depois, eu li um artigo maravilhoso de um escritor argentino muito conhecido chamado Tomás Eloy Martinez, que ele escreveu quando Manuel Puig morreu. Eu encontrei na internet esse artigo. Ele contava coisas inacreditáveis, fascinantes. Eu pensei: ' Isso é um filme, aqui você tem um filme '. Contava coisas ainda mais incríveis do que as que estão no filme. Eu limitei. às vezes, você se encontra na história. Em função disso, eu montei uma equipe de pesquisadores que fizeram entrevistas, reportagens, pesquisaram pessoas que tinham conhecido o Manuel. Procuramos muitos artigos, biografias, cartas. Tem o Manuel público e o Manuel privado. Então saiu muita coisa interessante e com isso a gente construiu a história que conta muitas coisas, mas deixa de contar também muitas coisas. -- Como o senhor, então, faz a seleção do que deve ser contado e do que não deve ser contado? -- É uma pergunta muito boa ... Qual tem que ser o foco ... Por que você pode fazer um filme sobre um escritor e fazer uma coisa muito chata, contando verdades. Você como diretor de cinema tem que armar uma estrutura. Eu sempre digo que o diretor de cinema é um artesão, um operário como um chefe de cozinha ... Tem que armar uma estrutura que funcione, tem que trabalhar com fatos que, às vezes são verdadeiros, mas podem ser questionados sobre sua veracidade. ' Por que ele estava com essa camisa, se ele não usava essa camisa? ` ou ' Por que ele falou com essa pessoa que foi inventada? '. O cinema, a literatura, a ficção sempre estão num limite difícil e o diretor de cinema, com todo esse material, que depois é selecionado e se trabalha muito na edição, tem que armar essa máquina que funciona. O público não sabe quem é Manuel Puig, mas o filme funciona. Tem um começo, o desenvolvimento, tem o final. Isso é muito difícil, muito complicado. Qual é o ponto-chave para manter a atenção, a verdade da história? Esse é o trabalho do diretor. -- O senhor escreveu o roteiro de Vereda Tropica em português? -- Não, eu escrevi tudo em espanhol e depois os atores mesmos traduziam as suas partes. Silvia Buarque escreveu suas partes, eu escrevi e ela traduziu. Todos traduziram suas partes. -- Como foi a escolha da Sílvia Buarque para o elenco? -- A escolha foi casual. Eu estava em Gramado e ela estava com sua mãe, a Marieta, para uma homenagem que estavam fazendo à Marieta Severo em Gramado. Quando eu a vi, estava procurando a atriz brasileira que tinha que ter certas características, uma professora, intelectual, uma mulher culta e eu vi a Sílvia e pensei que podia ser ela. Eu sou amigo de Ruy Guerra, o diretor. Então, eu falei para o Ruy: ' quem é ela? '. ' Você quer conhece-la? ` -- então, o Ruy se movimentou -- ' eu te apresento a Sílvia '. A gente se conheceu, ficamos em contato ... Isso foi seis, sete meses antes de começar o filme. A gente fez contato por fax.. Eu mandei os textos e ela se interessou muito, colaborou muito. Ela veio a Buenos Aires para fazer as dublagens, duas vezes. Assim foi ... -- E os demais atores? São tipos bem populares que têm a ver com a história ... -- Tem um que é de Porto Alegre. O distribuidor de Um Amor de Borges é de Porto Alegre, o Beto Rodrigues ... Depois, eu dei umas aulas em Florianópolis e conheci o ator que faz o marido do Manuel ... Depois tem outros daqui, o pessoal do Rio, os que estão na praia, estes são aqui do Rio, são atores de teatro independente. Eu me movimentei. Tem atores de Porto Alegre, de Florianópolis, do Rio. Isso é interessante porque eles não são famosos, não são da televisão, mas eles trabalharam muito bem, se comprometeram. Os atores brasileiros são muito bons, os famosos e os que não são tão famosos. -- E o Fabio Aste? É impressionante como ele se parece com o Manuel Puig ... -- Sabe uma coisa? Eu fui aqui, no apartamento onde morava o Manuel Puig, no Leblon ... Fui para filmar ... O apartamento que você vê no filme é o apartamento verdadeiro. Nós fomos para filmar a frente do apartamento, não dentro, a frente e o porteiro apareceu. Ele quando viu o Fabio ficou assustado porque pensou que fosse o Manuel. Ficou assim ... Eu expliquei ... Era um homem grande, muito bom ... Ele falou: é parente ou algo ou irmão? '. ' Não. É um ator. ' Essa história é muito interessante. O Fábio ... Eu não conhecia o Fabio. Ele é conhecido, mas não muito, na Argentina. Faz televisão, teatro. Eu o vi numa peça de teatro, mas não era amigo. Passavam os dias e eu estava procurando o ator. E não encontrava o ator. Então, Fabio se apresentou ao casting e quando eu o vi, vi que ele era igual. Ele é muito mais jovem que o Manuel. O Manuel, na época do filme, tinha 48, 55, 56 anos. Mas eu retirei essa idéia da idade, fiz uma coisa mais neutra porque a semelhança era extraordinária. Além disso, muito interessante é que Fabio falava português perfeito. Senti um alívio muito grande ... -- São os deuses do cinema ... Precisar de um ator que fale português e ele ainda ser parecido com o personagem e aparecer no casting ... -- Se você buscar, não encontra. Ele ainda é bom ator, ganhou prêmio em Gramado. Foi um pequeno milagre. Essas coisas só acontecem no cinema. Se procurar na vida, não acontece. -- A seleção das locações no Rio de Janeiro foram feitas por o senhor? -- Não, eu tive a Jaqueline Andrade que foi a produtora aqui. É uma menina que faz produção, ela é extraordinária. Quando eu vim aqui ao Rio, todo mundo falava: ' Não vai filmar no Rio. É proibido filmar na praia. A polícia vai te proibir. Os sindicatos vão intervir. ` Eu tive um medo tremendo ... Vim quase escondido filmar no Rio. Essa menina foi extraordinária. Eu falava: ' Vamos filmar na praia '. ' Vamos filmar ` e filmávamos na praia. ' Eu quero filmar no mar. ` Conseguia. ' Vamos filmar no mar! ' ' Vamos filmar na boate tal. ' E ela conseguia tudo. Uma coisa extraordinária filmar aqui no Rio, nas ruas. Tudo foi um pouco clandestino, sem autorização, sem permissão, sem nada ... Mas foi fantástico! Agora, eu posso dizer que é mais fácil filmar no Rio do que em Buenos Aires. É incrível! Foi muito interessante, uma coisa, vamos dizer, um pouco audaz vir a filmar assim. Mas se você for pedir permissão, não tem. Se você pede autorização, não consegue. Eu não pedi nada. Filmei e voltei para Buenos Aires. Mas tive uma pessoa maravilhosa, carioca, que organizava. Número de frases: 245 Foi tudo muito planejado. É fim de semana e um grupo de peixinhos entediados procura o que fazer. A saída? Produzir uma festa de aparelhagem e assim dar início? Pororoca, o encontro das águas que anualmente varre as margens do rios da Amazônica. Pelo menos na visão do diretor Cássio Tavernard, responsável por o curta de animação Festa na Pororoca, uma das mais gratas surpresas do cinema paraense em 2005. Segundo Cássio a idéia surgiu de um encontro com o ator Adriano Barroso. Ilustrador profissional, o diretor procurava textos relativos à cultura amazônica para, a partir de eles, produzir um livro infantil. Por sugestão de Adriano, ele leu o texto da peça infantil A Festa na Pororoca, sobre o tal grupo de peixinhos entediados e que havia sido encenada em Belém por um grupo de teatro local. Enquanto trabalhava na adaptação do roteiro, Cássio decidiu transformá-lo num curta de animação, idéia que se tornou possível de ser realizada após o diretor ser contemplado com uma bolsa do Instituto de Artes do Pará. A partir daí foram quase dois anos de trabalho incessante, com Cássio e uma equipe de animadores trabalhando até 12 horas por dia num estúdio improvisado no apartamento do diretor. Terminado a parte da animação, foi a vez dos atores Adriano Barroso e Aílson Braga, do grupo de teatro Gruta, entrarem em estúdio para fazer as vozes dos personagens do filme. Adriano define a experiência como um processo bastante peculiar. De acordo com ele, além dos personagens terem sido criados a partir das características físicas e vocais dos atores o roteiro foi feito a partir de ensaios na casa do diretor, onde cada dublador dava a sua contribuição improvisando em cima das linhas gerais do argumento original. «Costumo dizer que, na verdade, foram os desenhos quem nos dublaram, pois eles foram criados a partir das nossas características. Além disso, a gravação toda foi bem divertida, uma festa mesmo. Éramos crianças brincando de gravar nossas vozes. Como o clima era bom e todos estavam soltos, aproveitamos alguns minutos de liberdade total dentro do estúdio e nos danamos a falar e falar besteira. Foi essa liberdade de improvisar que resultou em coisas como o Rap da Tia Filica e no Rap do Baiacu, que acabaram incluídos no filme», conta Adriano. Aproveitando a deixa, Cássio explica como surgiu a idéia de associar a pororoca às festas de aparelhagem de Belém do Pará. Em o filme, ela seria decorrente do volume exagerado dos «treme-terras» que sacodem o fundo do mar e provocam a fúria das águas que varrem o litoral paraense. Segundo Cássio, essa associação surgiu após uma viagem a São Domingos do Capim, onde anualmente acontece um campeonato de surf na pororoca. «Precisava ver a pororoca e São Domingos do Capim é local mais próximo de Belém onde ela acontece. Chegando lá vimos um cenário parecido com a idéia inicial do filme, com pessoas na beira do rio, bebendo, se divertindo e ouvindo o som altíssimo que saia de uma aparelhagem. Foi quando resolvi associar a pororoca às festas dos «treme-terras». Em o final das contas o resultado ficou bem engraçado», diz ele. Foi uma estréia bem-sucedido em mostras locais, no festival Anima Mundi e no Ano do Brasil na França, que culminou num DVD lançado no segundo semestre de 2005. Agora, Cássio sonha em dar continuidade ao projeto e fazer uma segunda parte contando as novas aventuras da turma da festa na pororoca. «Já estamos com um projeto de captação de recursos em andamento. E enquanto não começamos a produzir um segundo curta continuamos a divulgar o DVD, que conta com os dois clips do Rap da Tia Filica e o Rap do Baiacu, além de 20 minutos de extras e legendas para deficientes auditivos. Número de frases: 30 Mas o que eu quero mesmo é dar continuidade ao filme e transformar a Festa na Pororoca numa série de animação», afirma Cássio. Tarde ensolarada e escritório vedadíssimo tentando manter a temperatura climatizada em prol do bom andamento das mentes em frentes as telas dos pc's de cada dia. Foi quando adentrou na sala Bruno Kayapy, que trazia em mãos uma marmita aos companheiros que ali trabalhava. De cara, foi acionado. «Bruno, queria fazer uma entrevista com ti ainda hoje, pode ser?». O sim veio seqüenciado de uma prontidão pontual em já responder o questionário que segue abaixo. A primeira resposta revela um pouco do universo daquele que foi considerado por muitos veículos especializados um dos melhores guitarristas do país em 2006, que com sutilidade levanta o choro de sua guitarra para o delírio do público que a cada show desbrava um pouco mais do instrumental do Macaco Bong. Bruno Kayapy carrega em si não só talento nas cordas, leva com si uma militância própria de quem, desde o começo, compõe o hall de batalhadores da cultura que é o Espaço Cubo. A pauta da entrevista era o lançamento do novo CD da banda, previsto para o Grito Rock Cuiabá. O produtor-guitarrista, no entanto, falou mais. Revelou meandros de seu trabalho na Cubo Sonorização, Plug (Núcleo de Sonorização do Fora do Eixo), Volume e outros projetos ao qual está engajado, deixando claro por que comumente afirma que artista é igual a pedreiro. Marielle Ramires -- Quem é Bruno Kayapy? Bruno Kayapy -- Bem, eu sou da Cubo Sonorização que é o núcleo de produção dos estúdios tanto de ensaios quanto de gravação, e que também é o núcleo que faz a produção de palco da Cubo Eventos. O link entre o estúdio Cubo de Ensaios e o de Gravação é por onde se passa todo o processo de pré-produ ção e produção de bandas. Atualmente estou produzindo as Ep's das bandas da Cubo Discos como Claudia's Parachute, Lazy Moon, Asthenia e também estou fazendo a produção do disco do Lord Crossroad. Todos estão previstos para serem lançados no Grito Rock Cuiabá. Marielle Ramires -- E o Kayapy guitarrista? Bruno Kayapy -- Bom, o segundo plano que atuo é como músico. Sou guitarrista do Macaco Bong e estou atuando na comissão de sonorização da Volume Marielle Ramires -- Quanto ao Macaco Bong. Que balanço você faz do ano de 2006 e o que a banda planeja para 2007? Bruno Kayapy -- 2006 para o Macaco foi um ano ótimo! Foi o primeiro ano basicamente. Fizemos cerca de doze festivais integrados ao circuito Fora do Eixo nas regiões Centro-Oeste, Sul, Norte, Nordeste e Sudeste, que foi quando diagnosticamos toda a cadeia produtiva em que é possível estabelecer parcerias com selos e entidades que realizam ações no ramo da sonorização para que possamos trocar tecnologias de produção com quadros qualificados. Para 2007 faremos o inverso de 2006, trabalharemos mais na cena local e faremos poucos festivais, pois daremos ênfase para trabalhar mais os meios de comunicação da banda e fazer a distribuição do disco através das vias fora do eixo! Estamos com o disco pronto e estaremos lançando no Grito Rock Festival 2007. Também estamos na produção do nosso clipe de ' Noise James». O viés ao qual queremos estabelecer na distribuição do CD é investir através do disco a consolidação da demanda dos selos fora do eixo ao qual mapeamos no decorrer dos festivais onde tocamos em 2006. Marielle Ramires -- E a distribuição? Como o público terá acesso ao trabalho? Bruno Kayapy -- Me referindo a cena local, estaremos em parceria na consolidação da Volume Discos que atuará diretamente na distribuição dos materiais no cenário cuiabano. Já no circuito fora do Eixo estaremos distribuindo com um viés próximo ao creative commons. Vamos disponibilizar nos principais meios virtuais na perspectiva de software livre. O principal objetivo na distribuição do disco por o Fora do Eixo será investir na consolidação dos selos do circuito. Iremos disponibilizar o material para que os selos em seus respectivos estados os disponibilizem sem que parte da venda do CD venha para a banda, e sim que vá diretamente para o próprio selo que se interessar em distribuir o material em sua vias locais. A idéia é que a gente consiga integrar mais bandas para a consolidação dos selos Fora do Eixo. Marielle Ramires -- Mas como fica a banda nesse processo? Ela não ganharia com a distribuição? Bruno Kayapy -- Em relação ao capital de giro não, mas sim o institucional do CD! Em a distribuição dos selos locais a gente vai estabelecer uma parceria como por ex: o selo prensa o material e o que eles venderem fica líquido para o próprio selo. Foi como eu disse, a gente vai trabalhar o institucional da banda durante todo o decorrer desse ano e ir amadurecendo uma forma de distribuição institucional. Quem sabe surja algum programa interessante dentro do circuito com esse viés! Esse é o objetivo ideal dos CD's. Estamos experimentando para que posteriormente possamos fomentar o programa. Marielle Ramires -- Quantos selos já estão integrados no circuito? Bruno Kayapy -- Primeiramente, o que estamos obtendo uma relação direta: Travolta Discos (SP), Escárnio e Osso (SP), Peligro (SP), Fósforo Records (GO), Catraia Records (AC), Cubo Discos e Volume Discos (MT), selo de vilhena (RO), entre outros que estamos entrando em contato e apresentando o viés. Marielle Ramires -- E todos trabalhando nessa perspectiva ... Kayapy, mas me diz um coisa, com tanta articulação, que horas sobra para a banda? Bruno Kayapy -- Sempre é no fim da noite (risos), antes de dormir! Se não rola ensaios, é a correria do institucional e vice-versa! Mesmo que busquemos aperfeiçoar a relação cubo sonorização / bandas com o próprio Macaco, mesmo que priorizando as outras bandas que estamos trabalhando, pois em alguns pontos podemos estar mais avançados. O Macaco é o laboratório e assim aplicamos a metodologia na sonorização que, conseqüente, recai nas bandas. Um ideal liga o outro! Macaco (laboratório) bandas (formação) Marielle Ramires -- E o que o público pode esperar do CD? Bruno Kayapy -- Legal ... O nome do disco será ' Pauradjeiemamacupahyeye ' ` gravamos no estúdio do Duda (baterista da Pitty) que nos disponibilizou com muita generosidade toda a estrutura que o norte do áudio da concepção do disco que precisávamos! Regravamos'$' Rancho e Belleza», que na EP disponível no site do trama virtual não estão com boa qualidade de timbre e execução. A gente refez por essa questão. E tem no CD, Noise James, Bananas for You All e Black's Fuck. O CD é uma margem de situações. As músicas remetem tanto para os ouvintes quanto para os dançantes, me refiro a forma de apreciação musical! Marielle Ramires -- Qual a agenda do macaco pra esse início de ano? Bruno Kayapy -- Temos até então o Grito Rock Festival Cuiabá, no dia 19/02, e o Festival Rec Beat em Recife (PE), no dia 20/02. A banda está com nova formação saindo Ney Hugo e entrando Júlio Custódio, que era a pessoa que sempre buscávamos desde o inicio da banda. Número de frases: 67 Uma editora na qual o livro é mais do que um produto, mas um meio de divulgar a tradição milenar de um povo, constituído por grupos étnicos das mais variadas culturas. A Pallas, especializada em temas afro-brasileiros, assume o risco e usufrui as benesses de publicar títulos importantes para o segmento, mesmo aqueles que atraem um pequeno número de leitores. Por trás desta empresa familiar -- e peculiar, há uma mulher branca, de olhos azuis e firmeza no que diz: a historiadora " Cristina Warth. «A cabeça do meu pai, Antônio Carlos Fernandes, era voltada para administração e ele quis investir em livros populares, com orações, receitas e simpatias», diz a diretora, que só foi suar a camisa na empresa depois de muita pressão. «Ele andava mal de saúde e disse que venderia a editora para andar na praia se eu não aceitasse o trabalho. Então, propus algumas novidades e ele concordou, desde que também me comprometesse em preservar os títulos que saíam bem», recorda. Um dos best-seller da casa é o'São Cipriano ', que deve ter quase a mesma idade da Pallas, criada em 1975. «Este clássico vende hoje cerca de 10 mil exemplares por ano, mas este número já foi quase três vezes maior», calcula por alto. É engraçado ouvir a empresária falar com tamanha naturalidade sobre estes livros -- entre eles o também campeão de vendas ' Como agarrar seu amor por a magia ' -- pois eles foram, durante uns bons sete anos, as pedras que afastaram Cristina, então professora recém-formada, da rotina da editora. «Hoje estou apaziguada com esses títulos do meu catálogo», emenda. Ela ressalta que a Pallas trabalha com um universo que há muito necessitava de registro, pois era passado de geração em geração para iniciados e baseado em segredo. Cristina lembra que ficou chocada quando se aproximou pela primeira vez da temática afro-brasileira, sobretudo no que tangia às religiões. «Percebi que a religiosidade de origem africana não recebia um tratamento literário consistente». Atualmente, com o declínio do preconceito contra negros e outras minorias, os assuntos que a Pallas quer aprofundar interessam cada vez mais leitores de todas as raças. Talvez porque não exista mais aquela negativa folclorização do negro e de suas formas de cultuar os orixás. Cristina foi uma das agentes desta mudança. Ela saiu em busca de novos autores para renovar o catálogo da editora. «Parte deste material tem origem na pesquisa acadêmica, mas também convidei o povo-de-santo para contar suas experiências», comenta. Tempo de nitidez A chegada da terceira geração da família ao comando da Pallas, através de Mariana Warth, coincide com o início do trabalho do jornalista Marcelo Pacheco à frente do marketing da editora. Mariana, filha de Cristina, entrou para engordar a prateleira de infantis que colocam o negro como protagonista das histórias e Marcelo quer obter melhores resultados do que a antiga posição de assessor de imprensa era capaz de oferecer. «Editoras vendem conceito e não apenas livros», explica Pacheco. Antes mesmo de efetivar a primeira ação, que vai girar em torno dos 118 anos da abolição da escravatura, a ser comemorada no dia 13 de maio, o jornalista já abriu negociações com uma fabricante de lentes. «Qualquer associação é um mercado que se potencializa. Número de frases: 25 Não será difícil conjugar livros com usuários de óculos e lentes de contato», comenta, sinalizando um tempo ainda mais nítido aos rumos da editora. Resenha de: Llosa, Mário Vargas. Civilização rende-se ao espetáculo. Disponível em: " Jornalista, escritor, crítico literário, dramaturgo e político são umas das muitas profissões de Mário Vargas Llosa. Peruano que se divide entre Londres, Paris, Madrid e Lima, há tempos figura o cenário mundial como um homem que fala o que pensa, escreve o que sente. Quem já se deliciou com algum de seus romances, sabe do que se trata. Maestria em pena. E quem já teve a oportunidade de ler um de seus artigos pode entender a carga teórica que vem de suas linhas. A mídia e o espetáculo estão num de seus mais recentes textos. Eu informo, opino, critico. Essas deveriam ser as palavras mais repetidas por os jornalistas. Em a verdade essas deveriam ser a representação de seu dever para com a comunidade. No entanto, o que se vê é a preocupação com o entreter. E assim, analisando o papel da mídia, Llosa desenvolve um texto leve e coeso. A mídia em geral tem sido reflexo da sociedade ou vice-e-versa? Vários teóricos já se enveredaram por esse caminho complexo e tortuoso de análise dos fatos. Domenique Wolton já falara antes do grande público, do laço social e de várias características do telespectador. Mas não pode-se ter dúvida que o que é oferecido como produto midiático é aquilo que vende, que dá audiência. De aí os grandes conglomerados da comunicação definem que se algo vende é porque existe alguém que quer comprá-lo. Aí subestimam a inteligência do consumidor e o círculo de bobagens se torna vicioso. Llosa afirma que não vai parar de procurar se informar através de jornais, revistas, e programas de tevê e rádio. A o parar de ler em repúdio ao lixo midiático que costuma ser transmitido não se informaria. Imagina? Se quiser ficar longe de notícias sobre gente famosa, silicone, traições, farras e ferraris, a única solução seria parar de ler, ver e ouvir o que os meios de comunicação insistem em transmitir. E transmitem porque vende. Protestar é sua única arma já que, de forma infeliz, acredita que qualquer coisa que se faça para impedir o avanço das babaquices e traquinagens da mídia, seria uma forma de censura. Vivemos numa sociedade permissiva, o vale-tudo encena o circo das imagens e dos papéis. E Llosa protesta de forma elegante, sem ofender, sem xingar, mas será que o único meio de modificar o atual cenário seria um modo censor? Acredito que mostrar que algo vai mal, vai errado e acaba se tornando prejudicial, seja algo de utilidade pública. Não acredito que a «imprensa séria» se rebaixa à imprensa marrom. As coisas não são tão perversas como se pensa. Acontece que não existe mais a imprensa séria e preocupada com o social. O sistema que rege praticamente todo o mundo é capitalista. Tudo por dinheiro ou nada feito. Então qual seria o problema em denunciar? Em punir? Em fazer calar? Foi só dar voz ao que não sabia o que falar é que o mundo virou o mundo que é. Censura. Não defendo a censura da ditadura, mas a censura boa, que seleciona, que reflete, que ensina. Essa permissividade tão ampla destrói, machuca, emburrece. Se eu não posso ser famosa e nem entrar no Big Brother Brasil, não serei notícia. E se for? Será que é sobre o último BBB que o povo quer saber? A mídia emburreceu! Ficamos com a banalidade sem esquecer que só lê, assiste e ouve banalidade que quiser. Existem bons sites, bons programas. Tudo é uma questão de saber selecionar e saber utilizar o olhar crítico e deixar a senhora mídia fazer suas travessuras. Ela é má, não é? Ensine os outros a perceberem seus defeitos. Número de frases: 51 Llosa arrasou. Minha profissão tem Conselho, Código de ética, contribuição anual, carteirinha para garantir o exercício não-ilegal ... Minha profissão permite que se trabalhe de forma autônoma, sua diversidade de atuações é ampla. Mas, se por acaso, ou não, você for funcionário da iniciativa privada, minha profissão tem ainda uma coisa chamada «piso salarial». É essa questão que quero dissecar, feito cadáver, com amor e ódio. Mas através de uma experiência. Eu, Maíra Campos, sou arquiteta e urbanista, brasileira, tenho comprovante de votação, CPF, carteira de identidade, carteira de motorista e carteira profissional (CREA-SE 11.120 D). Sem a carteira profissional, não poderia assinar projetos de arquitetura ou de outra qualquer natureza afim. Meu exercício profissional seria autuado, submetido a multas provavelmente e eu não deveria me apresentar como arquiteta. Formar-me não era tudo. Para ter o acesso ao mundo dos projetos assinados e responsabilizar-se por eles, é preciso apresentar: fotocópias de muitos documentos -- RG, CPF, comprovante de votação, de residência, histórico escolar e cópia do diploma. Para ter acesso à empresa que eu trabalhei era necessário ter mais fotocópias: carteira profissional, histórico escolar, comprovante de residência, carteira de trabalho, CNH, diploma e estar em dia com a anuidade do órgão que sou obrigada a me associar. Carteira de trabalho? Prestem atenção a partir daqui: -- Olha, como você é inexperiente, vamos contratá-la por R$XXX, XX. Sei que não é o que um arquiteto deve ganhar. O CREA nem pode saber que você vai trabalhar assim, mas é que a empresa se está se estabilizando, após um período meio ruim, sabe como é trabalhar com projetos. Nossa área não dá tanto dinheiro assim ... Eu já tinha entregado meus documentos e trabalhava há mais de uma semana quando recebi esta notícia, acreditei no papo do meu patrão, que me convenceu a assinar um contrato de prestação de serviço por três meses, sem vínculo empregatício, claro! Minha primeira oportunidade de trabalhar com arquitetura. «Ok, eu aceito os termos -- depois tudo muda». Muito embora estivesse consciente que estava trabalhando por 1/3 do valor do piso salarial de um arquiteto e dos engenheiros também. Tem uma Lei Federal que regulamenta -- a Lei 4950-A. Indigna com mim, trabalhei feriados, finais de semana, fiz muito mais do que se chama hora-extra e não recebi um centavo por isso. Estava ali satisfeita por não precisar mais ter mesada, por estar atuando em minha área e certa de que seria contratada. Mas, passados os tais três meses de contratação, fui cobrar um posicionamento da empresa. Embora eu tivesse muito trabalho, parecia que a empresa tinha pouco fluxo de caixa. Todos estavam satisfeitos com minha atuação e decidiram que eu ficaria mais uma vez, mas agora por o dobro do valor. Ainda assim não era o piso salarial. A partir daí, vi como as coisas funcionavam no Brasil. A lenda do trabalhador e do empresário era real. Um vínculo de exploração mantido por a necessidade de se atuar e se estabelecer profissionalmente, rompendo códigos e normas de ambos os lados. Para não sofrer, lancei um novo olhar para a situação, mas foi um olhar discreto, tanto que ninguém notou por três anos, tempo que fiquei na empresa. Esta parte que falta é a minha poupança, assim como o fato de trabalhar sem carteira assinada e fazer tremendo número de horas extras. Foi firmado um contrato de Responsabilidade Técnica por os projetos que eu desenvolvia na empresa, mas não tive acesso a minha via. Eram três: uma para o contratante, uma para o contratado e outra para o CREA. Finalmente, eis que o Governo Estadual muda e em Aracaju sentimos a atuação apenas de um partido: o PT -- Partido dos Trabalhadores. Estamos coligados nas três esferas do Poder: PT, PT! Em um ato de sensatez, após uma duradoura tradição de passagens de Governos desonestos, todos os contratos foram submetidos à análise. E a empresa que trabalhava dançou, eu na seqüência e tantos outros funcionários. Em a hora do acerto de contas, recebi como se jamais tivesse trabalhado lá por tantos anos. Exigi. Mas ouvi frases ameaçadoras, as «verdades» sobre minha atuação na empresa, que eu devia agradecimentos por ter aquela oportunidade tão almejada por tantos e por fim ouvi: «assim você não vai chegar a lugar algum, afinal o que acertamos lá no início». que nem o empresário silenciosamente compactua um plano B, a funcionária agora arredia e não mais digna de elogios compactuou com si mesma um plano B -- o de recorrer à Justiça. -- Dr. Advogado tenho em mãos crachá (e em ele diz como data de admissão um «primeiro de abril» do ano X), cópias autenticadas dos meus contratos com a empresa, duas testemunhas, minha família me apoiando, RG, CPF, comprovante de anuidade do meu registro profissional pago, carteira profissional, comprovante de residência e, por fim, vontade de receber minha poupança. As leis que regem minha profissão são estas escritas neste papel (Lei 5194/66, 6496/77, 4950-A, a mais importante de todas). Ah, e já fui informada que ficará com 20 % do valor total ganho na causa. Ouvi apenas: «você sabe que a cidade é pequena e que talvez tenha dificuldade em encontrar um novo emprego?». Com um sorriso no canto da boca, aceitei, não exatamente naquele momento, tive que dormir e refletir. Quero o que é Justo. Não o que vai contra a Lei. E como profissional que me firmei, não aceitarei mais trabalhar nessas circunstâncias, então não há o que temer. E 1º de abril assim deixará de ser uma mentira -- a data em que fui admitida numa empresa que também conhece muito bem o direito do trabalhador e não fez uso por opção. Depois volto para comentar o desfecho que se dará numa mesa que desconheço. Ah, quase me esqueço. Em a recepção da empresa, durante este período foram adquiridas seis cadeiras para substituir as comuns de recepções de empresas. As cadeiras, assim como eu e você, têm nome, chamam-se Barcelona, custam no mercado mais de 10 salários mínimos cada uma. O espaço também ganhou uma TV de plasma, com inúmeras polegadas e o carro do meu ex-chefe praticamente dobrou de tamanho e valor. Mas sem ressentimentos em relação a tais fatos, são apenas para esboçar que talvez o problema não fosse ausência de fluxo de caixa ... Número de frases: 65 Sete horas em ponto. Milhões de rádios ligados por todo o país e milhões de brasileiros só esperam começar a introdução de «O Guarani» de Carlos Gomes, transmitida por a Radiobras, para desligarem o aparelho durante a próxima uma hora: ninguém quer ouvir a Voz do Brasil. O programa foi criado por Getúlio Vargas durante a ditadura para manter o povo informado sobre as ações do Governo e fazer propagandas políticas. Já se passaram muitos anos, vários Governos, mas a «Voz» nunca parou de falar. Mas até agora só ensinou uma coisa aos brasileiros: 19 horas em ponto é a hora de apertar «off» no aparelho de rádio, e rápido. Mesmo assim, outros programas jornalísticos que falam das mesmíssimas coisas, têm grande audiência. Então qual é o problema da Voz do Brasil? Vamos fazer então por um dia, como faz a minoria, ligar o rádio exatamente às 19 horas e ouvir o que diz a «Voz». É um dia qualquer, dois narradores vão falar no mesmo tom, frio e monótono, uma hora sem parar. Primeiro vem um editorial. Em cinco minutos a linguagem seca procura provar que alguma coisa melhorou no país. É difícil saber quando os locutores mudam de assunto. Eles já estão relatando agora as atividades do Presidente da República. Continuamos ouvindo e ficamos sabendo sobre a aprovação de novas leis, a inauguração de obras em algum Estado, etc.. Depois vêm as partes destinadas ao Poder Judiciário e ao Poder Legislativo. Ambos noticiados da mesma forma. E assim, o programa se arrasta por cinquenta e cinco minutos. Os últimos foram guardados para informar que o presidente do partido de oposição (da direita e forte candidato à próxima eleição presidencial) acha um absurdo a crise política em que o país se encontra e que é à favor do impeachment do Presidente da República. Este assunto e tantos outros, todos os jornais da tarde, os rádios e as televisões já haviam noticiado. O monótono narrador anuncia o fim do programa, entra a abertura de «O Guarani» outra vez, milhares de brasileiros voltam à ligar o rádio. São 20 horas. Vai começar o horário nobre. O Governo tem meios técnicos, humanos e financeiros para editar um jornal tão bom quanto qualquer outro, moderno e bem feito, onde os brasileiros pudessem obter informações sobre as ações do Governo, sem informações mentirosas e matérias tendenciosas, onde tivessem entrevistas e opiniões interessantes, e tudo em primeira mão. Mas parece que houve um erro cronológico e a Rádio Brás parou no tempo. A «Voz» deixaria de falar sozinha, e o chamado horário nobre começaria uma hora mais cedo. Número de frases: 27 por Daniel Tocha -- baseado no texto «A voz oficial fala sozinha (Revista Realidade/Agosto de 1966)» -- para o site www.consubter.rg3.net/ 2005 Elielza Bailarina Ramos Freire, 37 anos, aprendeu a viver de uma forma diferente. Ela descobriu na dança uma maneira de levar sempre com si um sorriso no rosto, uma alegria no olhar e uma missão a cumprir: tornar as pessoas, no seu dia-a-dia, mais felizes. Uma missão, segundo ela divina, que a tornou uma das figuras mais conhecidas na cidade de Porto Velho. A simples Elielza deu espaço à ' Bailarina da Praça '. Há 14 anos é assim que ela prefere ser chamada. «Sempre fui muito religiosa, mas, naquele tempo, quando ainda trabalhava na prefeitura do município de Candeias, fiz uma visita à praça Marechal Cândido Rondon, localizada no centro de Porto Velho, e percebi que faltava alguma coisa -- o cenário era basicamente de pessoas sujas, bêbadas e perturbadas», relembra Elielza, que, após feita a visita, começou a estudar a bíblia. «Foi quando Deus falou com mim e disse que eu descobriria quem realmente era através do povo», afirma. Em 93, no dia 17 de outubro, Elielza participa de um show de dança em plena praça Jonathas Pedrosa e descobre, pouco tempo depois, que sua missão era apenas dançar para um público completamente transeunte. Verdade ou não, ela continua com esta saga até hoje. Quando começou a dançar na praça Marechal Rondon -- hoje seu principal local de referência -- Elielza conta que sofreu com ações de engraxates, menores abandonados e gangues, mas ela não desanimou e com o tempo quem a perturbava começou a respeitá-la. «Chegava bem cedinho, dançava o dia inteiro e só ia embora para a casa após varrer a praça inteira, geralmente lá por as 3 horas da madrugada», diz. «As pessoas me viam como uma coitadinha, mas diziam que a ' Bailarina da Praça ' era legal», completa. Todos os dias, a ' Bailarina da Praça ` segue rumo ao mesmo lugar de sempre com uma motocicleta, um gravador e uma caixa de som amplificada. Não ganha nada pra isso. O figurino é de sua autoria, sempre em tons fortes e chamativos. Para ela, cores da alegria. «Me visto assim porque as pessoas me vêem com um olhar diferente, geralmente de críticas ou pensam que sou maluca, mas elas não sabem que eu adoro críticas e que de maluca eu não tenho nada», diz a ' Bailarina ' com um sorriso estampado no rosto. E dá o recado: «eu sou uma pessoa feliz porque tenho muita gente pra olhar». Em o som da caixa, o ritmo é o dance music e não é escolhido à toa. «As batidas fazem mexer o corpo inteiro e eu apenas deixo a música sair de dentro de mim». Trata-se de uma dança completamente inusitada sem qualquer padrão característico a ser seguido por uma bailarina profissional. Mas as opiniões em torno desta figura dançante são diversas. O estudante Fábio Cruz, 24 anos, vê a ' Bailarina ` como um ícone de coragem e demonstração de força de vontade. «O que me chama atenção é que ela não se sente envergonhada de ser o que é, apenas uma dançarina de praça pública sem qualquer intento lucrativo», observa o estudante. Já a vendedora Jasmim Silva, 31 anos, não entende bem o real objetivo da ' " Bailarina '. «Dá até pra sentir a alegria que ela transmite, mas o que ela ganha com isso?», questiona. Divorciada e mãe de três filhos, Elielza não tem emprego fixo e transmite um segredo no olhar quando indagada sobre o que ela faz para garantir o seu e o próprio sustento da família. Os filhos, por sua vez, respeitam o que a ' Bailarina da Praça ' faz, mas não querem seguir o mesmo caminho da mãe. Patrimônio Cultural? Embora seja tradicionalmente conhecida na cidade, a ' Bailarina da Praça ' não se considera um patrimônio cultural, como já foi taxada várias vezes por pessoas que, segundo ela, querem «aparecer». «Realmente inventaram essa história, mas te digo uma coisa: não existe nenhum documento -- eu pelo menos nunca vi -- que comprove que sou essa coisa de patrimônio cultural», esclarece. E completa: «é o público que avalia se eu faço ou não parte da cultura regional». Elielza diz que nunca foi convidada para uma festa cultural, mas, mesmo assim, nunca deixou de ir. «Geralmente me querem longe de qualquer evento relacionado à cultura e eu acabo participando da festa como se fosse um penetra», reclama. Para ela, «cultura é valorizar o talento que cada um tem para oferecer, não julgar por a aparência». Mesmo sem a devida valorização, ela se sente feliz. Diz que, através da dança, transmite a paz e ajuda as pessoas a buscarem ânimo e realizar seus objetivos. Número de frases: 42 Juntos, num show inédito, o grupo paulista Palavra Cantada e a Camerata de Florianópolis encerram a 5ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, neste domingo, dia 16, às 17h, no Teatro Ademir Rosa (CIC). Com novos arranjos para composições já conhecidas da criançada, serão apresentadas as canções Rato, Criança não trabalha e Sopa, entre outras. Músicas do repertório do Palavra como Pé com Pé, Pé de Nabo, Fome Come e Boa Noite receberam arranjos do maestro Celso Delneri, que vai reger violinos, violas, violoncelos, cravo, piano e contrabaixo da Camerata. Além desse grande encontro, o encerramento da 5ª Mostra reserva outras atrações. Sempre sob o tema da Literatura Infantil, fio condutor do evento deste ano, será lançado o livro De lá pra cá, De cá pra lá. Produzido por 16 crianças da Comunidade Chico Mendes, o livro é resultado da oficina O que é um Livro?, ministrada dentro da programação da Mostra por a professora Gilka Girardello e a designer gráfica Vanessa Schultz. Em ele, os autores contam histórias de viagens, bonecas, pescarias e golfinhos, baseado nas próprias vivências e desejos. De lá pra cá, de cá pra lá será distribuído gratuitamente, domingo, no encerramento da Mostra, com direito a autógrafo dos autores. Como literatura e cinema andaram juntos durante os 18 dias da 5ª Mostra, todos os passos da produção do livro De lá pra cá, de cá pra lá -- da concepção das histórias à criação das ilustrações -- foram registrados por o cineasta Chico Faganello. Ele e sua equipe acompanharam as crianças nas visitas dirigidas que fizeram à Barra da Lagoa, à Universidade Federal e a uma gráfica, para fundamentar as histórias que iriam escrever depois. O documentário mostra também a confecção artesanal de um livro-treino, feito com papel, canetinha e barbante, uma espécie de «ensaio» para o livro final. O resultado é o documentário O que é um livro?, que será exibido pela primeira vez no encerramento da Mostra, antes da apresentação do Palavra Cantada. Além dessas atrações, o público vai conhecer qual o melhor filme escolhido por os seis jurados mirins na Mostra Competitiva Brasil Diversidade. Durante a semana de 10 a 14 de julho, os 40 filmes selecionados para a Mostra Competitiva passaram por a análise de seis crianças de sete a 10 anos -- três estudantes de escola pública e três de escola particular. O júri-mirim vai revelar o vencedor neste domingo, no encerramento na Mostra. A Mostra de Cinema Infantil deste ano trouxe mais de 80 filmes, três oficinas -- duas para educadores e uma para crianças -- e bate-papos com pessoas que ajudam a construir a produção infantil no Brasil, como a premiada escritora Ana Maria Machado e o diretor Cao Hamburger. Isso sem falar nas 15 mil crianças que circularam por o CIC. Muitas de elas, foram ao cinema por a primeira fez. Outras, acompanham a Mostra desde as primeiras edições. Oito mil alunos de escolas públicas ganharam de presente o que poderá ser o primeiro livro da sua biblioteca: o clássico O Patinho Feio, de " Hans Christian Andersen. «Toda esta diversidade é para celebrar a consolidação da Mostra, um evento que auxilia na formação das crianças e já é referência», afirma a diretora Luiza Lins. Número de frases: 24 Em o cerrado tocantinense a Missa do Vaqueiro, tradicional festa realizada no sertão pernambucano em julho para homenagear o vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado dia 8 de julho de 1954, ganha uma nova leitura. A Missa do Vaqueiro em Monte do Carmo, a 89 km de Palmas, assemelha-se à festa pernambucana porque ambas são celebrações religiosas para o homem sertanejo, aquele que lida com o gado no interior do Brasil. Os vaqueiros vão à missa montados em seus cavalos e assim permanecem até o final da celebração: outro ponto de parecença. As divergências estão nas datas: no Tocantins a festa acontece em 20 de janeiro, dia de São Sebastião -- padroeiro do Rio de Janeiro e considerado, por os sertanejos de cá, protetor dos vaqueiros. Os motivos do evento religioso são diferentes, enquanto em Pernambuco a missa é uma criação, datada de 1971, do padre João Câncio e de Luiz Gonzaga -- primo de Jacó, no Tocantins não há um registro de quando começou a comemoração do dia de São Sebastião. Sabe-se apenas que a festa religiosa teria sido interrompida nos anos 80, sendo retomada em 1998. A última celebração aconteceu no dia 20 de janeiro deste ano e reuniu cerca de 700 vaqueiros e mais 1.300 fiéis na Praça de Nossa Senhora do Carmo, principal da cidade. Gente simples, de mãos calejadas e olhar sofrido. Alguns percorreram quilômetros de distância entre suas fazendas e a cidade, no lombo dos cavalos, para rezar para o santo. Esta é a principal ligação entre a missa de Pernambuco e do Tocantins: a fé de seu povo. O vaqueiro Honorato Souza, 72 anos, percorreu 14 quilômetros até a cidade. Foram quase duas horas trotando no sertão, que não pesaram em suas costas. Ele diz que faz esse mesmo percurso todos os anos. «Sou devoto. Venho aqui agradecer as graças que recebi no ano». Doralice dos Santos, 46 anos e vaqueira há 27, já se acostumou com as dificuldades da lida. «Nunca quis outra profissão», afirmou ela que era uma das poucas mulheres na celebração. A missa tem suas curiosidades: em vez do sino, como nas convencionais, o som do berrante marca a passagem da liturgia e da oração da hóstia consagrada; o padre celebra a missa com um chapéu de vaqueiro. «O bispo também usa um chapéu só que com o nome e o formato diferente, chamado mitra. Faço isso porque tenho que entrar na cultura do outro, tentando aproximar ao máximo no linguajar e no modo de vestir», disse o padre Edmilson Costa. Segundo ele, a ligação de São Sebastião com o homem do campo é antiga. «A devoção a São Sebastião está ligada às pessoas fracas e vulneráveis. Em a nossa região, o santo é celebrado em janeiro, mês das chuvas, por ser o período de plantio. Por isso o homem do campo vem pedir a bênção», explicou. Em os momentos de louvor, as músicas são cantadas em ritmo de forró: triângulo, bateria e teclado -- imitando a sanfona -- fazem até os mais tímidos se remexerem nos cavalos. Os sucessos da Missa do Vaqueiro tocantinense estão num CD, lançado recentemente por a prefeitura. Dezesseis faixas trazem as canções animadas e de gratidão a Deus. A distribuição é gratuita. O hábito religioso é antigo -- a história de Monte do Carmo começa a partir do descobrimento das minas de ouro, na primeira metade do século XVIII -- e passa de geração em geração. Valdivam Pereira, 8 anos, não entendia muito o que se passava na missa, mas já estava lá montado em seu burrinho para homenagear São Sebastião. O prefeito da cidade Condocert Cavalcante conta que toda a festa, que começa no dia 18 de janeiro, tem um significado muito grande para a região. «Não se sabe a origem exata da festa, mas, ela acontece por causa da relação do município com a vida sertaneja», disse. Atualmente, a população de Monte do Carmo é de 4.348 habitantes (IBGE 2005). O município vive da pecuária e da agricultura, são mais de 88 mil cabeças de gado. Número de frases: 40 «A festa em si é um resgate de cultura, mas a essência mesmo é a fé cristã do nosso povo que vem agradecer ao santo as graças que alcançou», ressaltou Cavalcante. De que adianta a vida ser um mar de rosas para quem não sabe nadar? Em 1977 eu tinha acabado de entrar para a Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás e já era apaixonada por cinema. Como tinha feito o curso de Tradutor Intérprete no segundo grau, onde o foco maior do currículo eram aulas de inglês, francês e espanhol, via e lia tudo que se relacionava aos idiomas.. Foi naquele ano que conheci o livro -- e o filme I Never Promised You a Rose Garden (até hoje mantenho uma cópia em VHS na minha videoteca). O filme me chamou a atenção porque tinha Bibi Anderson, uma das atrizes prediletas de Ingmar Bergman -- o cineasta sueco cultuado por 10 entre 10 jovens cinéfilos de minha geração. E também por causa de uma música do mesmo nome que fazia sucesso desde 1975 na voz de Lynn Anderson. Foi naquele ano que a cineasta Ana Carolina lançou seu primeiro filme de ficção: Mar de Rosas. O filme chamou minha atenção por o título inusitado e, principalmente, por ser dirigido por uma mulher, coisa rara no cinema nacional da década de 70. Não sei exatamente por que, mas relacionei o filme à produção americana que tinha visto no mesmo ano: mar de rosas, jardim de rosas ... Anos mais tarde, já totalmente conquistada por o cinema de Ana Carolina, descobri que sua filmografia, marcada por o olhar crítico da condição feminina, tinha igualmente como marca a combinação de imagens visuais com trocadilhos e imagens verbais nos diálogos e às vezes até nos títulos. Depois de Mar de Rosas ela fez De as Tripas Coração e Sonho de Valsa. E 12 anos depois de Sonho de Valsa, Amélie. Todos merecem ser vistos e revistos. De Mar de Rosa tenho algumas lembranças. A principal de elas é que este foi o primeiro filme que vi mais de uma vez na mesma semana. Fiquei realmente intrigada com a trama inventiva e desconcertante. Outra memória é da personagem interpretada por Cristina Pereira como Betinha, filha de Felicidade (Norma Bengell). Dona de uma imaginação diabólica, Betinha propõe as mais absurdas situações quando ela e a mãe fogem de Otávio Augusto, capanga do pai (Hugo Carvana), que Felicidade acredita ter matado. Mar de Rosas é uma espécie de road-movie, aonde as personagens, após o ataque de Felicidade ao marido, vão encontrando outras personagens histéricas e vivenciam experiências inusitadas. A própria cineasta definiu seu filme, na época, como uma sátira feroz ao casamento pequeno burguês vista por os olhos de uma adolescente. Humor negro e toques de surrealismo pontuam a história da família em pé de guerra. Agora, exatos 30 anos depois, a Videofilmes está colocando no mercado de vídeo Mar de Rosas, e prometendo que ele é o primeiro da trilogia que Ana Carolina usou -- os outros dois são De as Tripas Coração, Sonho de Valsa -- para falar das várias formas de poder sobre as mulheres -- na família, na escola, na relação amorosa. De as Tripas Coração, datado de 1982, mostra a diretora usando uma tradicional escola de moças para observar o poder na instituição e seus efeitos sobre jovens com a sexualidade à flor da pele. Em 1988, apresentou Sonho de Valsa, o retrato de uma mulher de 30 anos em busca do homem de sua vida. É interessante e divertido assistir a Mar de Rosas 30 anos depois de sua realização. Impossível também não rir das caras e bocas de Cristina Pereira e da forma bem humorada com que a cineasta fala das doideiras que assolavam o País naqueles tempos -- e a gente pode comprovar que pouca coisa mudou em três décadas. Duvida? Assista ao filme e a frases como «A sujeira anda medrando no mundo», Todo mundo se esquece da eternidade ..." e principalmente essa: «Se vocês se elevarem para o espírito, tudo se transforma: o imóvel fica fixo, o iníquo fica inócuo e o histérico fica histórico». A vida em família, definitivamente, nunca foi e nunca será um mar de rosas. Está mais para Parente é Serpente (1993), de Mario Monicelli, que, a exemplo do filme da cineasta brasileira, mostra a relação de pais e filhos de forma cômica, que causa riso. No entanto, no final do filme, o riso é provocado como constrangimento de uma situação desagradável. Os dois filmes só confirmam o pensamento de «de perto, ninguém é normal». Ah! Outro bom motivo para se ver Mar de Rosas é o especial que Evaldo Mocarzel fez com a diretora para a série Retratos Brasileiros, do Canal Brasil; e dois outros extras preciosos. Ana Carolina fala do passado, dos filmes que já fez, e do futuro, dos que pretende realizar. É no documentário que Ana Carolina fala: «As imagens cinematográficas, de certa forma, podem ser o espelho da alma, o reflexo de uma maneira de ser que não teria nenhuma outra forma de exprimir-se se não fosse por meio do cinema». Mar de Rosas (Mar de Rosas) Brasil, 1977 Direção: Ana Carolina Elenco: Norma Bengell, Cristina, Otávio Augusto, Hugo Carvana, Ary Fontoura, Myrian Muniz, Maria Sílvia Número de frases: 44 Se a disposição de mecanismos «tecnologicamente corretos» são escassos, sobra a imaginação e materiais que, para alguns, seriam consideradas meros artefatos de reciclagem. Alfredo Modrack, o sempre esquecido construtor da Fábrica de Sonhos A ilustração deste artigo é uma cópia de 2 dos cerca de 15 resultados encontrados no google para «Alfredo Modrack». A maioria das demais são citações de artigos escritos por mim e publicados em função da Campanha por a restauração do Fábrica de Sonhos. Assim ficamos sabendo, deste modo simplório, que o engenheiro que planejou o Theatro 4 de Setembro e construiu o edifício que abrigou a Fábrica de Sonhos dá nome a uma rua no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro, onde residem alguns de seus descendentes e onde faleceu na década de 30 do século passado. Temos também notícias das proezas do alemão em Natal-RN, onde construiu uma ponte metálica até hoje gabada por os potiguares e onde também residem alguns de seus descendentes. Em o Piauí, no entanto, onde seu nome se liga umbilicalmente não apenas à saga do Dr. Sampaio mas também à construção do mais importante (e belíssimo) Teatro em funcionamento no Estado, aqui se insiste eu desconhecer a importância deste engenheiro alemão que fez do Brasil a sua segunda pátria. Tanto que, numa grande matéria na revista Presença nº 26 de 1999 (órgão do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Piauí) que comemorava a reinauguração do Theatro após importante reforma, a autora, Lourdes Rufino, então presidente da Fundec, sequer cita o engenheiro ao contar a historia da construção do Teatro. Não se trata, essa ignorância, como se poderia supor, apenas da autora da matéria: o atual Diretor do Theatro 4 de Setembro, Açaí Campelo, ficou sabendo do Engenheiro Modrack por meu intermédio, há pouco mais de dois anos! Este desconhecimento, portanto, é algo que perpassa a sociedade piauiense como um todo. Até parece que tudo e todo aquele que se relaciona com a «fábrica de Sonhos» está fadado ao esquecimento na Terra Querida de Da Costa e Silva. Em o momento em que desenvolvemos esta campanha por a restauração da velha Fábrica é mais do que justo que, ao mesmo tempo, se promova o resgate da memória do seu construtor que foi, sem dúvida, um dos maiores engenheiros do seu tempo, algumas das provas disso encontrando-se no centro de Teresina e em Campinas do Piauí. Número de frases: 13 Em o próximo sábado, dia 23, estréia o segundo vídeo clipe do álbum " Ascenção e Queda dos Irmãos Rocha!" (Monstro Discos) no programa MTVLab. A festa de lançamento acontecerá no Ocidente em Porto Alegre no dia seguinte a partir das 20h. A música «Uma Coisa Medonha» ganhou vida numa animação criativa, bem ao estilos dos Irmãos. Em essa entrevista com o diretor do clipe e baixista da banda, Bel, detalhes da realização e de como foram criados os personagens. Quando compôs «Uma Coisa Medonha» você já tinha a idéia para o clipe? Não, a idéia para o clipe veio bem depois da música já gravada e do CD pronto. Eu andava pensando em como não se faz mais clipe literal, que era uma prática comum nos primórdios do videoclipe. Saca aquele lance de mostrar Exatamente o que a letra diz? É um conceito bem ultrapassado e, por isso mesmo, me atraiu. «Uma Coisa Medonha» pareceu ser a música mais propícia pra isso, já que conta uma história mesmo, com personagens, começo, meio e fim, além de ser no espaço, ter monstro. Parecia que podia ficar bacana. Quando surgiu a possibilidade de realizá-lo em animação? A história em si acabou criando essa «necessidade» de ser em animação, já que eu não queria cair naquela linguagem meio japonesa de gente fantasiada de monstro. Pensando nisso, eu desenhei o clipe todo, plano por plano e fui falar com esse amigo meu, o Gibran, que trabalha numa empresa de design e tem a manha de desenvolver personagens. Em a minha cabeça era pra ser tipo um cordel-futurista, o que quer que isso signifique. Ele entendeu tri bem a idéia e, de cara, os personagens já ficaram muito mais legais do que eu tinha pensado. Você fez o storyboard do clipe sem os personagens definidos -- quero dizer, sem traços definidos -- foi isso? É, eu desenhei o clipe que eu tinha na cabeça. Só que com o meu talento para desenho, isso era um homem-palito contra uma ameba de olhos malignos. Foi em cima desses desenhos que o Gibran se guiou pra saber o que precisava para o clipe: as diferentes posições e expressões, os planetinhas para o fundo, essas coisas. De aí é que eu me emocionei mesmo, dava pra ver que ia ficar massa! Não sosseguei até achar mais gente a fim de fazer a animação (o Gibran não faz essa parte). Depois de alguns percalços cheguei nos caras do Estúdio Makako. E acertei em cheio! Eles foram além da minha viagem inicial: animaram em 3 D, coisa que eu nunca tinha pensado, mas mantendo elementos de 2D e as características do desenho do Gibran nas retículas. Achamos a linguagem do clipe juntos. Foi preciso editar a sua idéia inicial ou você fez no tempo aproximado da música? Como eu tinha pensado num plano pra cada frase, o clipe já estava no tempo exato, os planos e cortes praticamente definidos. Mas nem tudo o que eu pensei funcionou na prática, algumas coisas tiveram que ser adaptadas. Ou modificadas totalmente, tipo o plano saindo da goela do monstro, que não tinha no meu desenho original e é, pra mim, das melhores coisas do clipe. Qual a técnica usada para a execução do desenho? ( quadro a quadro?) E eu sei? A minha técnica foi pedir com jeitinho! Eu não sei lhufas da parte prática. Até onde eu sei, os caras do Estúdio Makako modelaram os desenhos do Gibran em 3D e a animação foi feita em cima disso. A junção de imagem e música faz crer que os personagens já existiam no papel quando a música foi composta e não ao contrário ... Acho que esse é dos maiores elogios, porque esse clipe, na verdade, deu um trabalhão. Ainda tenho guardados alguns dos mails com observações que eu troquei com os caras do Estúdio Makako. Alguns chegavam a ter Três Páginas de pirações tipo «mais dois frames pra cá» ou «o plano do olho ainda não está certo», coisas que não interessam pra quem assiste. O grande desafio é que essa atenção ao detalhe não seja o que mais chama a atenção ao se assistir o clipe pronto. Eu quero que pareça simples, fácil, como se tivesse que ser do jeito que a gente está vendo. Se o clipe te deu essa impressão ... bingo! Desde quando você gosta de cartoons, animação, desenhos? Que tipo lhe agrada mais e por que? Quando eu era piá curtia muito desenho animado. Horas e horas com as retinas mergulhadas nos tubos catódicos. E sempre gostei muito ler gibi também, especialmente terror, heróis, esse tipo de coisa. O Surfista Prateado era o meu herói preferido e é um bom exemplo: um cara que deu a vida pra salvar o seu planeta e a sua amada se vê preso na Terra, um planeta estranho e atrasado, onde ele está fadado a defender aqueleS que o atacam ... isso sempre foi mais a minha praia que a Turma da Mônica. E eu sigo lendo quadrinhos, acho um veículo genial, tem muito a ver com cinema, a divisão do tempo, os planos. Até por grana, eu nem tento acompanhar tudo, mas compro umas coisas de vez em quando. Acho que a última leva foi um pacotão de coisas do Crumb, uma edição bodosa do Watchmen, e alguma coisa do Will Eisner ... Número de frases: 57 Não «passei da fase» de ler quadrinhos. Ela é pernambucana, 28 anos, mas mora em Porto Velho há quase dois anos. Maria Silvânia morava no Rio de Janeiro quando começou a participar de feiras de antiguidades. E foi através de um amigo, Antônio Abel Fernandes, mais conhecido como Toninho, que surgiu o interesse por peças antigas. Os dois trabalharam juntos quatro anos na praça 15, no Rio, e foi lá que essa morena de simpatia singular faturou seu primeiro comissionado, algo em torno de R$ 100 reais num dia. Silvânia relembra, com entusiasmo, quando a vontade despertou maior determinação para trabalhar nesse ramo, onde é possível conhecer peças antigas que, na maioria das vezes, não são valorizadas e acabam indo direto para o lixo. Uma vez, conta, se deparou com um prato de porcelana à época do imperador D. Pedro II. Ficou encantada com tamanha raridade e explica por que trabalha nesse ramo. «É sempre ótimo conhecer e aprender, de certa forma, um pouco mais sobre a nossa história», explica Maria Silvânia que há um mês começou uma feira de antiguidade em frente a catedral Sagrada Coração de Jesus, no centro da cidade. A feira ainda é modesta, mas Silvânia promete um acervo maior de antiguidades para os próximos dias. «Me dê um pouco mais de tempo para trabalhar e o público vai conferir, de perto, uma das maiores feiras de antiguidades que essa cidade já viu», promete ao mesmo tempo em que busca apoio de autoridades, ou de qualquer pessoa que queira colaborar. Número de frases: 11 A feira acontece todos os domingos, a partir das 07 horas da manhã e termina, aproximadamente, as 09h:30m, em frente a catedral de Porto Velho. O Impar é a primeira banda brasileira a ter um trabalho vendido por o selo norte-americano Not Lame, o maior selo de Power Pop do mundo. O disco EP 2006 entrou no site de eles no dia 7 de março de 2007, com direito a destaque na primeira página e resenha escrita por o respeitado Bruce Brodeen, dono do selo que abriga artistas como The Shazam e Michael Carpenter. O Impar é uma banda de Power Pop contemporâneo formada em Belo Horizonte no final de 2004. Sua proposta é combinar a energia do Rock e a acessibilidade do Pop em canções diretas, guiadas por a melodia vocal e com arranjos bem elaborados. A intenção de Marcelo Mercedo (voz e guitarra) era juntar um grupo que pudesse reproduzir «ao vivo» as músicas que vinha compondo e gravando em sua casa. Para isso, foram convidados os amigos músicos Bruno Faria (bateria), Yan Vasconcellos (baixo e voz) e Marcos Rosa (guitarra e voz). As influências vão de clássicos como Beach Boys e Beatles até artistas menos conhecidos como Jason Falkner e Jon Brion. A banda já lançou um EP, três videoclipes e se apresentou nos principais espaços da cena alternativa independente no Brasil. O EP foi destaque, entre outros veículos, nas revista Bizz e MTV, nos jornais Estado de Minas e Diário do Pará e nos sites Trama Virtual e BScene. O primeiro clipe (A + B) entrou na programação da MTV e venceu o Prêmio London Burning 2005. O segundo (Melhor Aqui) foi indicado a melhor vídeo do ano na edição 2006 do mesmo prêmio e no canal Multishow, da TV Globo. Os shows passaram por Minas Gerais, São Paulo, Janeiro, Paraná, Brasília, Goiânia e Natal. Em Natal, a banda foi a convite do Festival MADA, em sua edição de 2006. O trabalho está sendo bem aceito fora do país também. A banda anda recebendo boas resenhas da mídia especializada na Espanha e nos Estados Unidos. As canções estão sendo tocadas em rádios espanholas como Onda Madrid. Número de frases: 17 E depois de sua parceria com o selo Not Lame, o Impar foi convidado se apresentar na edição 2007 do IPO International Pop Overtrhown, tradicional festival de Power Pop que acontece há oito anos em Los Angeles, California. O que antes era uma antiga usina de beneficiamento de castanha, abandonada ao tempo, inspirou a criação de um espaço da arte e do coletivo: A Usina de Comunicação e Artes João Donato, inaugurada no último dia 24, com a presença do ministro Gilberto Gil e do músico João Donato, o grande homenageado. Os dois, parceiros em mais de 20 canções, proporcionaram uma rápida jam session com duas composições, para deleite da platéia que lotou o teatro: A Paz e Lugar Comum. João ao piano e Gil com sua interpretação e voz melodiosa. Com investimentos de cerca de R$ 4 milhões, com recursos do próprio governo do Estado, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Ministério da Cultura, a UCA chega como um novo centro de efervescência cultural e de produção das mais diversas linguagens artísticas. É a concretização de um antigo sonho do vice-governador Arnóbio Marques, o Binho. Ele, na década de 80, foi um dos integrantes do Grupo Semente do teatro popular em Rio Branco. A essência do Semente se baseava no processo da construção coletiva. O tempo passou, as teorias do Semente se diluíram, mas o sonho permanecia, a UCA é o resultado desse longo processo coletivo. A idéia do projeto é fomentar o surgimento de novos talentos nas áreas de literatura, comunicação, artes plásticas, música, teatro, cinema. A UCA mantém três blocos. Os idealizadores procuraram manter os silos e caldeiras da antiga usina de castanha. Criaram uma arquitetura que fundiu o antigo com o moderno. Em o bloco A, instalado em meio às caldeiras da velha usina de castanha, funcionará o restaurante, que servirá alimentação para os habitues do espaço. Em o primeiro bloco B fica a área de comunicação, com cursos direcionados a rádio, TV e jornal. Os técnicos são direcionados a teledifusão; operação em câmera; edição de vídeos; redação para rádio; jornal comunitário; iluminação; e sonoplastia. O que chama a atenção neste bloco é o museu da Imprensa, o «Espaço Varadouro», que expõe antigas máquinas do jornal que entre 1977 e 1981 circulou no Acre, responsável por denunciar os graves conflitos que aconteceram no Estado. O último bloco abriga salas de dança, design gráfico, o cineclube Aquiry, atelier, sala de exposição, salas de música e o teatro com capacidade para 300 pessoas com arquibancadas giratórias que podem ser adaptadas em qualquer direção, de acordo com o espetáculo. Dirigida por a atriz Clarice Baptista de Carvalho, a Usina responde à gerência geral de cultura e ensino técnico baseada no Instituto Dom Moacyr, formando uma rede que envolve programas e estabelecimentos educacionais e culturais em Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Um outro projeto a ser desenvolvido por a UCA é a realização de um festival internacional de temática ambiental de vídeo e cinema, com o propósito de intercambiar com realizadores e produtores dos países amazônicos como Bolívia, Peru, Colômbia. Número de frases: 27 A melhor frase que eu já li sobre o clima em Manaus foi de " Luís Fernando Verissimo: «O ar paira sobre as cidades, mas em Manaus ele senta». A sensação é exatamente essa. como se sofrêssemos de uma claustrofobia constante, nos sentimos trancafiados dentro de uma bolha. O ar denso parece pesar sobre a cidade. Os manauaras já se acostumaram a levar para os pulmões esse ar quente e úmido, mas quem vem de fora precisa de um tempo para se acostumar. O primeiro choque é no tubo de desembarque. Como é de praxe, o ar-condicionado do avião é sempre ligado no máximo. As pessoas já acostumadas a voar vêm prevenidas, com sapatos fechados, calça comprida e casaco. Essas são as que mais vão sofrer. O primeiro passo fora da aeronave é quase traumatizante. O que vem na cabeça é sempre: «Com certeza a refrigeração do aeroporto está quebrada». A idéia segue até o saguão do Eduardo Gomes, aeroporto internacional de Manaus, onde as pessoas são obrigadas por o calor a retirarem os casacos. Sempre amaldiçoando o raio do refrigerador que não funciona, seguimos para a parte externa, em busca de um táxi. A o abrirem as portas, o segundo choque é desesperador. A idéia da pane no ar-condicionado do aeroporto some. Um bafo de ar quente e úmido quase nos derruba para trás. A vontade é correr de volta para dentro do aeroporto, mas ao abrir as portas do táxi, já sentimos um ventinho gelado. Entramos no primeiro que nos abre a porta, sempre. Não dá para resistir. O calor já é cartão postal de Manaus. E quem mora aqui até gosta de ele. Eu costumo dizer que é como morar em lugar muito frio. Dentro de todos os lugares precisa ter um aquecedor. Em Manaus todo mundo vive no ar condicionado. É uma Europa às avessas. Assim como na Europa, o ar condicionado às vezes cansa, deixa os olhos vermelhos e dá dor de cabeça em quem não está acostumado. O alívio de sentir um vento fresco se transforma em desespero à medida que o ar não se renova e o ambiente continua esfriando ... Bem no coração da floresta amazônica, a cidade é realmente uma bolha. Cercada por a mata por todos os lados, ela é transformada num microclima. O calor gerado por o asfalto, concreto e poluição não consegue se dissipar. A floresta funciona como uma barreira. Esse ar quente não tem outra saída senão continuar por ali, sentado sobre Manaus. Número de frases: 34 Em o interior de Minas Gerais, mais especificamente na região da Zona da Mata, encontra-se uma pequena cidade chamada Viçosa. Reconhecidamente um dos maiores pólos acadêmicos do país, em ela residem cerca de 70 mil habitantes. Se o leitor pergunta a razão de um centro educacional importante estabelecer-se longe de qualquer aglomerado metropolitano de relevância, afirmo que a resposta pode ser encontrada na atuação política de um personagem histórico bem específico: Arthur Bernardes. Em 1926, o então presidente do Brasil, nascido em Viçosa, inaugurou a ESAV -- Escola Superior de Agricultura e Veterinária. O primeiro diretor da escola, Peter Henry Rolfs, foi um dos maiores responsáveis por a concepção do centro de estudos em conforme com os moldes norte-americano. A verdade é que o projeto rendeu tão bons resultados que em 1969 a instituição se tornou federal, principalmente em virtude da excelência alcançada na área agropecuária, tradição que persiste até os nossos dias. Para se ter uma noção do que a instituição se tornou, os dados estatísticos de 2005 revelam que a atual Universidade Federal de Viçosa possui pouco menos de dez mil estudantes matriculados em seus trinta e sete cursos de graduação. A universidade oferece da mesma forma, diversos programas de estudos de pós-gradua ção e até uma escola de nível médio. É fato que o caráter estudantil da cidade de Viçosa tem se tornado mais marcante nos últimos anos devido à criação de novas faculdades particulares. Somados aos inúmeros cursinhos pré-vestibulares e às escolas técnicas, entendemos por que Viçosa atrai estudantes não só do Brasil como também do exterior. Sabemos que uma parcela representativa do consumo econômico do município é proveniente de estudantes sustentados por a família, fator que pode determinar o baixo custo de vida na cidade. Encontramos um bom panorama da vida comercial de Viçosa na principal avenida da cidade. A avenida P.H. Rolfs é ocupada por lan houses, restaurantes self-service, xerocadoras e papelarias. Em estes ambientes, o estudante conhece um pouco mais o jeito de ser mineiro, repleto de «causos» e histórias de tempos passados. Um espaço de interação com a cultura local que não poderia deixar de ser mencionado são as barbearias. Caso alguém queira se informar dos últimos acontecimentos, digo, saber quem morreu, casou-se ou foi preso, deve considerar uma visita a um desses estabelecimentos. Viçosa também possui alguns personagens famosos que sempre estão na boca do povo. Os chamados «malucos» da cidade são assunto constante e já possuem comunidades no Orkut e vídeos no Youtube. Alguns dos mais famosos são «Amendoim Torrado», Rogerinho e Chapa Halls, que vocês podem conhecer através dos vídeos abaixo: Amendoim Torrado Rogerinho Chapa Halls Após o vestibular, a massa de alunos de graduação se vê polarizada em dois grandes grupos opostos: veteranos, que são aqueles que já concluíram o primeiro ano de curso, e calouros, apelido atribuído aos alunos que acabaram de entrar na universidade. O ingresso do estudante de graduação na UFV é pontuado por um ritual de iniciação denominado «trote», prática corrente em entidades de ensino de todo o Brasil, inclusive. Durante o trote, veteranos munidos do pensamento «me encheram de tinta ano passado, agora é minha vez de dar o troco», submetem calouros de seus cursos a diversas formas de brincadeiras constrangedoras. A recente política de repressão ao trote da instituição surtiu o efeito positivo de estimular propostas alternativas como o trote solidário, em que são realizados trabalhos voluntários, de entre outras atividades amigáveis de integração entre calouros e veteranos. Apesar disso, a realidade é que o trote não foi erradicado e que os tradicionais banhos de tinta sobrevivem. Creio que mais palavras sejam supérfluas, visto que os vídeos abaixo ilustram muito bem o que escrevo: Trote de Engenharia de Produção -- UFV -- 2004 Trote da Nutrição UFV 2004 calourada da agronomia 2004 ufv Trote arquitetura UFV 2006 A maioria dos estudantes mora em repúblicas, sendo que algumas são constituídas por pessoas advindas de uma mesma cidade, outras por integrantes que fazem parte de um determinado grupo religioso, e em alguns casos por alunos de uma mesma turma na universidade. Entretanto é muito freqüente a escolha da moradia por mera viabilidade orçamentária, ou seja, as despesas mensais decorrentes da opção de morar naquela república serem compatíveis com os recursos financeiros da família provedora. Em este contexto, muitos dos que chegam a Viçosa para estudar nunca haviam morado longe de casa. Bem, é de se esperar que a experiência de ser o único responsável por si mesmo numa cidade distante, ter que lidar com a saudade, e se integrar a um novo grupo de amigos, convide o jovem aos bares e às festas. Não creio estar exagerando ao afirmar que o álcool tem um papel central nos eventos comunitários que ocorrem em Viçosa. Este fenômeno é reforçado, inclusive, por a cultura da microrregião, cujos índices de alcoolismo são um tanto quanto elevados. Contudo, tal fato não impossibilita que a vivência na cidade seja uma excelente oportunidade de conhecer traços da cultura que as pessoas dos mais variados estados expressam cotidianamente. É muito comum vermos capixabas, baianos, mato-grossenses e paulistas morando numa mesma república, saindo para as festas ou se encontrando para realizar atividades de uma disciplina da universidade. Possuem diferentes sotaques, hábitos alimentares, religiões e preferências musicais, porém estão sempre em contato, estudando e se divertindo juntos. Número de frases: 41 s.: Estou disposto a desafios. Rio Zona Sul Leblon, Copacabana e Samba O final da minha infância foi marcado por as músicas de ele. Deve ter sido o primeiro prazer musical assim, brasileiro mesmo, que eu curti na vida. Uma música inteiramente diferente dos boleros e guarânias que rolavam no suburbano hit parade do rádio da minha mãe. Agora mesmo, relembrando, me dou conta, surpreso, de que sei cantar até hoje, quase todas as músicas que ele fez. Elas ficaram gravadas na minha memória como fogo brando. Um ' long playing ' de lembranças de um rito de passagem. Fiquei homem ouvindo as músicas desta figura tão fabulosa quanto desconhecida da garotada de hoje, em seus ritos de passagem tão hedonistas quanto estrangeiros. Se for mesmo aprofundar, considerando-se a agudeza do discurso social de suas letras, talvez ele tenha sido -- muito mais do que qualquer Marx ou Engels da vida -- a principal referência cultural na minha tomada de consciência, do que significava ser brasileiro, naqueles tempos confusos, onde se curtia uma necessidade imperativa de saborear a vida, correndo atrás da felicidade sim, porém sem nunca deixar de pensar na vida do próximo. Duros, tesos, pero sin perder la ternura jamás (grande mérito moral e emocional da minha geração). O nome de ele era Monsueto e foi o meu guru sambista, nesta época turbulenta que foi o início dos anos 60. Sorridente xamã bon vivant, do meu rito de passagem para o mundo ' adulto '. Tempo das ilusões -- e das revoluções -- perdidas. O Cara Monsueto Campos Menezes foi, essencialmente, um músico. Baterista de boate, atuou em diversos conjuntos na década de 1940, entre as quais a Orquestra de Copinha, no Copacabana Palace Hotel. Percussionista, cantor, ator comediante, foi também um excelente pintor naïf no fim de sua curta vida (Pablo Neruda, certa vez, adquiriu um quadro de ele). Foi, sobretudo, um compositor popular da pesada, dos melhores que o Brasil já teve. O auge da popularidade de Monsueto, como compositor, se deu por volta do fatídico ano de 1964, quando Helena de Lima, experimentadíssima cantora de boate, gravou (ao vivo) o vinil «Uma Noite no Cangaceiro» (boate da moda na época) incluindo num eletrizante ' pout-pourri ` de Sambas, duas músicas de ele: ' Mora na filosofia ` (também gravada por Caetano Veloso no disco «Transa» de 1972) e ' A Fonte secou '. Nascido no Rio de Janeiro em 4/11/1924, criado na Favela do Pinto, Monsueto perdeu os pais muito cedo, tendo sido criado por uma avó. Quem é que se lembra da Favela do Pinto? Lugar muito especial nesta época, também chamada de Morro do Pinto, a favela onde Monsueto foi criado, era um gueto negro encravado na parte mais nobre da Zona Sul do Rio. Para os elegantes da área, um câncer a ser extirpado. O " Morro do Pinto «De todas as favelas extintas nos anos 60, o caso mais polêmico foi a da Praia do Pinto, no Leblon. Os moradores souberam dos planos da Prefeitura de acabar com a comunidade ainda na década de 50, mas houve forte resistência. Segundo dados do Censo de Favelas de 1949, pelo menos 20 mil pessoas moravam no local. A remoção só foi concluída após um incêndio, em 1969, durante o mandato do governador " Negrão de Lima. «Muitas pessoas não queriam sair. Apesar dos problemas, preferiam continuar morando na Zona Sul. O incêndio obrigou todo mundo a ir embora», afirma Maria Rosa de Souza Noronha, de 62 anos, ex-moradora da Praia do Pinto, depois removida para o Complexo da Maré. Praticamente todos os barracos da Praia do Pinto foram destruídos por o fogo. Em o dia seguinte, policiais colocaram abaixo as poucas casas que sobraram de pé. Até hoje ninguém confirma se foi acidente ou uma última tentativa do Governo de expulsar os moradores. Mas todos os indícios apontam para um remoção forçada». A Chapa quente e a Guerra Fria. Mesmo deixando de lado a crônica crua da destruição da Favela do Pinto, o contexto da época de Monsueto é, historicamente, muito rico. Em a política, a chapa esquentava, devagarinho, numa, crise na conjuntura econômica (e ideológica) mundial, chamada, com certa ironia, de «Guerra Fria» (a Guerra Quente há muito terminara na Europa). É nesta época que, no bojo do intenso rebuliço que preparou o campo para uma nova ordem econômica mundial, nos anos 70, que as sangrentas ditaduras militares latino americanas chocaram seus ovos. CIA versus KGB, Comunismo versus Capitalismo, uma época de ismos diversos em conflito. Cínico, irônico, Monsueto, por exemplo, devia ser adepto do Sambismo, nome possível para uma doutrina onde, evidentemente, só pontificavam os sambistas. Em o aspecto cultural, a época no Brasil (e na área por onde Monsueto transitava, a elegante noite boêmia de Copacabana) também não era de brincadeira não. Sonâmbulos, sonhávamos ainda. Sem nos tocar que a Revolução Cubana significaria algum tipo de ruptura, de perigo para a estabilidade latino americana, vivíamos, tolamente, os últimos capítulos dos ' anos dourados ', para entrar nos Anos de Chumbo '. Um dos principais pólos desta efervescente letargia era Copacabana. Ali se fermentava, se destilava e, principalmente se bebia, uma música popular muito original e híbrida, em vários sentidos. Em as boates de Copacabana se poderia ouvir tanto um Samba na praia de um Cyro Monteiro (figura rara em boates), swuingado, puxado à la Geraldo Pereira, como uma mescla do Samba canção, meloso, com aquele chiquê trágico das canções de Edit Piaf, marca aparente das composições de Dolores Duran e Antônio Maria. Os dois aliás, estiveram de algum modo presentes, na veia seminal de outro tipo de Samba, mais voltado para a inconseqüência burguesa da Côte D' Azur francesa: A Bossa Nova primordial de Jobim e sua turma que, logo em seguida, elegante que era, achou por bem embarcar na tal -- e não menos burguesa " Influência do Jazz '. O que não se fala muito, nesta crônica da música da Zona Sul do Rio de Janeiro, é que haviam outras tendências, tão ou mais, interessantes, como é o caso da corrente da qual, de certo modo, fazia parte Monsueto. Esta corrente, muito rica, integrada por artistas negros oriundos, em sua grande maioria, do âmbito do Morro do Pinto, a partir das mesmas influências, digamos assim, ' pequeno-burguesas ', que geraram mais tarde a Bossa Nova, desenvolvia um estilo mais calcado numa mistura entre o Samba ' de morro ', como já se dizia na época, com lado mais ' africano ' da música de jazz que nos chegava, mais diversificada, com os bons ventos do Desenvolvimentismo, avançando rumo ao que, mais tarde, se cristalizou no estilo sacudido da música de Jorge Bem (o Benjor de hoje) ou mesmo de Baden Powel e seus Afro Sambas. Este estilo, ainda pouco estudado no Brasil, gerou nos anos subseqüentes muitas figuras emblemáticas de nossa música instrumental (muito populares em sua época, ali por os idos dos anos 60) como, por exemplo, Erlon Chaves, um maestro muito popular na TV da época, o fabuloso Dom Salvador (e seu Grupo Abolição), Moacir Santos (' Ouro Negro ') e tantos outros. Monsueto Campos Menezes, cria desta fabulosa geração de artistas, atuou também como ator cômico no cinema (onde trabalhou n, pelo menos, 14 filmes, inclusive europeus) e na televisão. Excursionou para a Europa, a África e a América, falecendo em 17/2/1973. Bem, vocês podem até dizer que eu ' viajei ', que Monsueto não passava mesmo era de mais um bom sambista, mas, primeiro precisamos combinar uma coisa (como diria Paulinho da Viola): O Samba, ' não é só isto que se vê. É um pouco mais '. Spírito Santo Junho 2007 As músicas de Monsueto A primeira composição de Monsueto, gravada em 1951, foi o samba «Me deixe em paz», parceria com Aírton Amorim (gravada por Linda Batista) porém muito mais lembrada na antológica versão de Milton Nascimento no disco» Clube da Esquina». Conheça melhor (e aprenda a cantar) a obra do homem: Me deixe em paz ' Se você não me queria não devia me procurar não devia me iludir nem deixar eu me apaixonar Evitar a dor é impossível evitar este amor é muito mais você arruinou a minha vida me deixa em paz ' O Couro do Falecido Um minuto de silêncio Para o cabrito que morreu Se hoje a gente samba É que o couro ele nos deu Castigue o couro do falecido Bate o bumbo com vontade Que a moçada quer sambar Castigue o couro do falecido Morre um para bem de outros A verdade é essa, não se pode negar ... (Tá bom? Tá ...) (Em 1954, a cantora Marlene estava preparada para gravar a deliciosa -- e quase non sense-' O Couro do falecido ' mas teve que desistir na última hora por que Getúlio Vargas acabara de se suicidar e a letra do Samba poderia ser mal interpretada). A fonte secou (1953, com Raul Moreno e Marcleo) Eu não sou água pra me tratares assim Só na hora da sede é que procuras por mim A fonte secou Quero dizer que entre nós tudo acabou Seu egoísmo me libertou Não deves mais me procurar A fonte do nosso amor secou mas os seus olhos nunca mais hão de secar. Mora na filosofia (1955, com Arnaldo Passos) Eu ... vou lhe dar a decisão botei na balança ... e você não pesou botei na peneira ... e você não passou. Mora, na filosofia ... prá quê rimar amor e dor? Se seu corpo ficasse marcado por lábios ou mãos carinhosas eu saberia (ora vá mulher) ... a quantos você pertencia. Não vou me preocupar em ver seu caso não é de ver prá crer: tá na cara ... O lamento da lavadeira ( Nilo Chagas, Monsueto Menezes e João Vieira Filho) Ô, dona Maria! Olha a roupa, dona Maria Ai, meu deus! Tomara que não me farte água! Sabão, um pedacinho assim A água, um pinguinho assim O tanque, um tanquinho assim A roupa, um montão assim Para lavar a roupa da minha sinhá Para lavar a roupa da minha sinhá Quintal, um quintalzinho assim A corda, uma cordinha assim O sol, um solzinho assim A roupa, um montão assim Para secar a roupa da minha sinhá Para secar a roupa da minha sinhá A sala, uma salinha assim A mesa, uma mesinha assim O ferro, um ferrinho assim A roupa, um montão assim Para passar a roupa da minha sinhá Para passar a roupa da minha sinhá Trabalho, um tantão assim Cansaço, é bastante sim A roupa, um montão assim Dinheiro, um tiquinho assim Para lavar a roupa da minha sinhá Para lavar a roupa da minha sinhá Larga Meu Pé Nega larga o meu pé Vá quando quiser Pra você não falta homem Pra mim não falta mulher Eu quero essa mulher assim mesmo Eu quero essa mulher assim mesmo Eu quero essa mulher assim mesmo Eu quero essa mulher assim mesmo Eu quero Quero essa mulher assim mesmo Baratinada Eu quero essa mulher assim mesmo Alucinada Eu quero essa mulher assim mesmo Despenteada Eu quero essa mulher assim mesmo Descabelada Eu quero essa mulher assim mesmo Embriagada Eu quero essa mulher assim mesmo Intoxicada Eu quero essa mulher assim mesmo Desafinada Eu quero essa mulher assim mesmo Desentoada Eu quero essa mulher assim mesmo [ Número de frases: 159 etc., a critério da inventividade do intérprete.] Me mudei para o sul do Tocantins há seis meses para trabalhar. O choque cultural foi grande e resolvi fazer um blog para contar as peripécias por que passei durante a adapação. Agora entrei para o Overmundo, para mostrar a mais gente essa faceta do Brasil desconhecida por muitos, mas vivenciada por outros tantos. Esse texto é de janeiro. São Salvador, 22 de janeiro de 2007 Sábado, dia 20, chamei um eletricista-encanador para acertar umas coisas na casa e finalmente deixar o hotel. A casa está totalmente sem móveis e nesta manhã estava também sem eletricidade. Estava assistindo o eletricista-encanador e o ajudante apertarem um cano no banheiro, de repente ouço um «beeeep». -- Ué, que barulho é esse? O ajudante olha para a cima e diz: -- É meu celular. Celular? Penso eu. Vai me dizer que chegou celular aqui na Grande S. S. e eu sou a última a saber? -- Celular? Ué, mas funciona por aqui? Com o maior sotaque caipira e um sorrisão amarelo, o ajudante: -- Ésóprasóra ... Ahahahah Esse post é em homenagem à última capa da Veja e da Época que vi antes de voltar para a Grande S. S. e Palms Springs. Ambas estampavam um celular multi-funções na capa e as matérias principais exaltavam as grandes transformações ocorridas ao longo dos últimos anos no campo da telecomunicação móvel. Mas aposto que não comentam, nem lembram, que 40 % do território brasileiro não são cobertos por antenas para celular. Eu também não lembraria, se não estivesse vivendo dentro destes 40 % de terra ... O negócio aqui é o seguinte. Almoçando no Restaurante Tocantins, de repente toca o telefone do estabelecimento. A garçonete-dona atende. «Denise, telefone pra você?». Ou na lan house. Lendo uns e-mails, falando no msn ... A mãe do dono atende do telefone. «Denise? É aquela moça do laptop? Te a aqui sim, só um momento». Ou o recepcionista do hotel chama no quarto: «Denise, o filho do seu Fulano esteve aqui. Mandou dizer que o Fulano pediu pra você ir até a casa de ele pra conversar». ( alguém lembra da piadinha do telefone molecular?). Hoje ainda aprendi a máxima: ligar para o 102 e descobrir o número do orelhão mais próximo de onde a pessoa pode estar. Aí liga pra lá e chama o cara! A tática é ficar antenado nos hábitos do pessoal. Quando precisar falar com alguém, imaginar onde essa pessoa pode estar nesse momento. E ligar pra lá. O mínimo que pode acontecer é a pessoa ter acabado de sair ... Aí é que é o problema. Imaginar agora aonde o cara resolveu ir. A Época diz que o celular é, antes de tudo, uma ferramenta pra ganhar tempo. A gente aproveita muito essa funcionalidade de ele, até sem perceber. Só sente falta mesmo quando percebe que tem que percorrer 40 km pra tentar achar uma pessoa, tratar de um assunto urgente, e ainda corre o risco da pessoa nem estar lá! Número de frases: 48 Aqui na Grande S.S, o celular só serve pra contar o tempo ou, no caso dos mais mudernos, passar o tempo! O rock não e mais o mesmo! Esbravejava um amigo meu de entre as garrafas de cerveja, os cigarros e a mesa de bar. Até que se podia concordar com ele naquele momento. Afinal, quase tudo que se escutava de novo na mídia cabia numa lata de lixo velha. Mas a verdade é que tambem estamos ficando velhos! Disparei para o amigo que sorriu e disse: Meu camarada, tudo bem que o tempo continua caminhando voraz e nossas caras já estão apontando o começo do fim, mas é inegável tambem que rock de verdade se faz primeiro com amor, e depois com verdade e por último com amor também. Essas caras cheias de pose que se dizem rock nada mais são do que a grande falta do que falar que assombra os novos dessa geração.-- Quando o sol se por oh meu amor! Por favor, vê se algo que se preza (ou alguém de verdade) vai se identificar com tamanha inspiração brego-sertaneja ... O novo pagode na guitarra ... Realmente não dá pra agüentar que tamanha tolice e fraqueza de pensamento possa entrar nas cabeças deixando cada vez mais débil a já tão violentada juventude. Primeiro querem (e estão conseguindo) que o consumismo e a vaidade sejam as peças-chave para um molde de vida. Cultivam a ignorância fazendo com que a juventude se espelhe nos idiotas jovens americanos que a tudo abaixam a cabeça e (não) dizem (ou não dizem???) amém. (amém???) O incoerente de tudo isso é que antes as guitarras vinham justamente contrapor todo esse escravidão cega, tentando trazer passos mais vivos para que o futuro não respirasse numa bolha de vidro e os olhos não fossem apenas um enfeite para a cabeca que já se repete incessantemente. Onde estará a poesia que dava o tom áspero que é oxigênio para o rock and roll?? Mistura-se essa mediocridade aos grandes repetidores de sempre que infelizmente conseguem enganar a muitos com suas frases feitas e suas atitudes incríveis e inovadoras como peidar alto em público, como fez uma dessas bandas emo (tpm 22) num programa de televisão direcionado à música -- a MTV. E por falar na MTV ... Onde mais poderiam aparecer bandas de alma realmente rocker?? Essa televisão com toda potência nas mãos tem a cara de pau e a insensatez tórrida de cultivar o rock de supermercado, aquele mesmo que quanto mais tocado, mais rende patrocinadores para a continuação do rock horror show (no pior sentido que isso possa lhe parecer). Vide programação. É de encher a cara quando nos deparamos com bandas raras que têm a verdade estampada em cada solo de guitarra, cada riff e por tamanha luz que incendeia a alma. Essas bandas são simplesmente ignoradas por a moldada MTV, e ficam vivas na alegria de quem tem a oportunidade de conhecer ou por um amigo ou por um descuido de sorte. Aqui no anti-velório do rock fica um grito mudo, observado por o som ligado que nos deixa inertes flutuando fundo nos resquícios vorazes de verdade que ainda sobra no rockandroll nacional. Número de frases: 26 Com patrocínio exclusivo do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), a obra bilíngüe Cancioneiro Humberto Teixeira -- primorosamente editada em Português e Inglês por a Jobim Music e a Good Ju-Ju -- resgata a trajetória e a produção poético-musical de Humberto Teixeira, compreendendo dois volumes: um traz a riquíssima biografia do compositor cearense; e o outro reúne obras escolhidas do autor, com arranjos e transcrição de partituras feitos por Wagner Tiso. Com concepção sonhada por o maestro soberano Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, produção executiva de Ana Lontra Jobim (fotógrafa, viúva de Tom) e coordenação editorial de Denise Dummont (atriz, filha de Humberto Teixeira), a obra conta ainda com supervisão musical de Paulo Jobim (filho de Tom), design gráfico de Gringo Cardia, prefácio de Tárik de Souza, introdução de Sérgio Cabral, texto de Ricardo Cravo Albin e apresentação de Roberto Smith, presidente do BNB. Nascido em Iguatu (CE) em 5 de janeiro de 1915 e falecido no Rio de Janeiro em 3 de outubro de 1979, Humberto Teixeira é co-criador, com Luiz Gonzaga, do gênero que revolucionou a música popular brasileira e permanece influente e admirado por as novas gerações: o Baião. Além disso, é autor de «Asa Branca» (com Gonzagão), um dos maiores clássicos da MPB, e de um vasto repertório de canções perenes -- como «Assum Preto»,» Baião», «Dezessete Légua e Meia»,» Dono dos Teus Olhos», «Estrada do Canindé»,» Juazeiro», «Kalu»,» Légua «Tirana»,» Lorota Boa», «Mangaratiba»,» Em o Meu Pé de Serra», «Orélia»,» Paraíba», Qui Nem Jiló «e» Respeita Januário», entre muitas outras. Em o ensejo desse lançamento, Overmundo entrevista o cantor e compositor Fausto Nilo (1944-), cearense de Quixeramobim, sobre o significado e a herança deixada por o cancioneiro de Humberto Teixeira para a música e a cultura brasileiras. Em o bate-papo, Fausto Nilo também expressa a sua grande admiração por o artista, incluindo-o no restrito cânone dos seus dez autores preferenciais da MPB. Além disso, revela a influência de ele em sua infância, formação artística e futuro como brilhante autor de letras de música: «a obra de Humberto permitiu a uma criança como eu -- com oito / nove anos de idade, no início da década de 1950 -- descobrir o que era poesia, aprendendo todas as suas letras de cor e se emocionando brutalmente». Confira a seguir. Como foi o seu primeiro contato com a obra de Humberto Teixeira? Fausto Nilo -- Sempre tive uma admiração muito grande por Humberto Teixeira como compositor. Em o início da década de 1950, quando eu era garoto, o Humberto Teixeira foi duas vezes na minha cidade, Quixeramobim. Uma das vezes ele se hospedou na casa de parentes que residiam em nossa vizinhança, creio que por volta de 1952. A segunda vez foi em 1954, quando vi Humberto Teixeira com Luiz Gonzaga, no tempo em que Humberto se candidatou e se elegeu deputado federal por o Ceará. Os dois fizeram uma jogada interessantíssima: eles vinham de trem, do Crato para Fortaleza, parando em várias cidades. Em cada cidade, o povo era avisado antes. Então todos iam à estação: eles apareciam na plataforma, faziam um discurso rápido, e Gonzaga cantava. Ali foram distribuídos uns livrinhos, superbem impressos, espécies de songbooks, contendo muitas letras das músicas e fotografias de Humberto Teixeira na Europa. Aquilo gerou em mim uma grande admiração por esse conterrâneo famoso, que além de fazer músicas tão bonitas, passeava por países como a Suécia, França e Inglaterra. Eu e minha irmã Selma ficamos durante muito tempo de posse desses livrinhos, decorando as letras. Aprendi a cantar a letra enorme de «Terra da Luz», aquele hino ao Ceará composto por ele (cantarola um trecho), nesse caderninho. As letras de Humberto Teixeira são populares e sofisticadas ao mesmo tempo? Fausto Nilo -- Acho que as classes médias e as elites sertanejas sentiam a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, mas essa música não entrava muito fácil na casa das pessoas mais ricas. Era uma música da maioria, da rua, dos camponeses e dos migrados em São Paulo e no Rio de Janeiro. Embora depois, meu professor (de Arquitetura) Liberal de Castro, que conheceu demais e conviveu com Humberto, tenha me revelado que ele era um sujeito culto, que conhecia alguma coisa de poesia inglesa e francesa e ainda sabia dizer no original. Então as letras que ele compunha com o Gonzaga são construídas com uma técnica, um tipo de imaginação poética e uma maneira de ordenar os elementos que são populares mas têm uma construção sofisticada. Posso dizer com segurança que, nas técnicas de expressão de idéias em letras de música, e nos efeitos típicos de uma certa maneira de explorar a sonoridade das palavras tipicamente nordestinas (devidamente reelaboradas, claro), ele para mim foi uma grande influência, uma âncora superimportante como autor de letras. Mas ele também utilizava o Português inculto em suas letras, não é? Fausto Nilo -- Ele é culto, eu acho. Ele faz de conta que é inculto! Aquela imaginação que diz assim «quando o verde dos teus óio / se espaiá na prantação» (" Asa Branca, 1947 "), isso é de quem tem jogo, tem treino com poesia sofisticada. Então ele era um cara culto, agora às vezes usava uns termos levemente arredondados para as pronúncias curiosas do sertão. Ele usava um pouco isso para popularizar a canção, mas acho que a construção e o padrão de imaginação eram sofisticados. Não era como essas músicas de forró de hoje. Ele fazia essa adaptação do conhecimento, da situação mais culta, para a situação mais popular. Acho que Humberto era um autor culto, escrevendo de maneira simples, mas nas entrelinhas ali há uma sensibilidade já cultivada. Ele era um grande poeta. Que temáticas preferenciais você observa no cancioneiro de Humberto Teixeira? Fausto Nilo -- A temática da migração, que inclui também a saudade, a amplidão da paisagem, a solidão nordestina por o sol-a-pino -- isso tudo é herança realçada por ele, na minha opinião. O canto solitário na paisagem ensolarada, esse contraste do tempo de chuva e do tempo da seca, a terra estranha, o retorno. Acho que isso é uma organização do Humberto em música popular gravada em disco, comercializada, de grande massa. É uma inauguração de ele, sistematicamente. Sozinho, Humberto preferia compor em que instrumento? Fausto Nilo -- Tem uma coisa que pouca gente sabe: ele começou tocando, era músico. Compunha melodias no piano, tocava flauta. Dizia que as pessoas pensavam que ele era o letrista de Luiz Gonzaga, e isso o aborrecia. Em a realidade, era uma parceria, em que muitas vezes um fazia quase a música toda só. Ele e Gonzaga diziam: «nós nunca vamos revelar e vocês nunca vão saber, mas vocês ficariam surpreendidos de saber quem realmente fez determinada música e quem fez outra». E tem canções belíssimas que Humberto compôs sozinho: «Kalu», «Dono dos Teus Olhos»,» Terra da Luz e Sinfonia do Café» -- esta última, bastante complexa na sua construção musical. Como se deu a gênese do Baião? Fausto Nilo -- Os dois juntos fizeram uma jogada sensacional, que foi inventar esse gênero de música, o Baião. O Gonzaga pega o acordeom, um instrumento europeu, e o adapta para essa música que eles criaram, e de tal maneira isso ficou marcado que o acordeom no Brasil hoje é um instrumento que, tocou um acordeom, já há expectativa de que seja uma música nordestina, quando na verdade ele existia como um instrumento de valsas e polcas européias. Os dois, não só pelo lado do Gonzaga com o instrumento, mas também pelo lado do Humberto, que teve muita influência na criação do pacote, o desenho do pacote todo, da caracterização nordestina, esse lado da roupa de cangaceiro no Gonzaga, o toque do baião -- porque o baião é um toque. Humberto Teixeira falava isso: ele garoto ouvia dos adultos na cidade de ele (Iguatu) os tais toques, entre eles o baião, que tem origem nas cordas de ritmo dos violeiros. Essa idéia que eles tiveram é genial: de criar, com isso, um gênero, um tipo de música o qual todo tipo de autor -- contemporâneo ou pós-contempor âneo de eles -- já experimentou fazer. Em 1958, como deputado, ele cria a Lei Humberto Teixeira, que possibilitou uma maior divulgação da música brasileira no exterior, através de caravanas musicais patrocinadas por o Governo Federal. A iniciativa trouxe renome internacional para artistas como Waldir Azevedo, Radamés Gnatalli, Carmélia Alves, Sivuca, Abel Ferreira, Trio Iraquitã ... Fausto Nilo -- É, essas caravanas viajavam o Brasil também. A o 14 anos, eu tive a ventura de ver esses artistas na quadra (um anfiteatro improvisado) da Fênix Caixeiral, em Fortaleza. Vi na primeira fila. Cheguei lá cinco horas da tarde. Eu vi Guio de Moraes, Abel Ferreira, Russo do Pandeiro, Carmélia Alves, Sivuca, Radamés, era muita gente boa, um grande show com uns 20 artistas. O elenco todo se chamava «Os Brasileiros». Há um pouco do clima das canções de Humberto e Luiz em letras suas com uma linguagem mais explicitamente nordestina, como, por exemplo, «Depois da derradeira» (com Dominguinhos), «Jardim dos Animais» (com Fagner) e «Flor da paisagem» (com Robertinho do Recife), entre outras? Fausto Nilo -- Há composições que são fruto de um trabalho intelectualmente mais arguto, mais elaborado. E há outras que faço por prazer, às vezes, quase diletantismo, quase de uma maneira brincalhona. Estas, que faço dessa maneira um pouco mais livre, e caindo dentro de umas tipologias já consagradas por outros autores, são músicas em que não tenho pretensão de dizer algo superoriginal, mas simplesmente cimentar mais um tijolinho ali numa construção de muitos. Em esse momento, não só Humberto como vários outros autores se apresentam para me apoiar nessa psicografia. Isso é você escrever à maneira de fulano, mas sabendo que jamais será igual. Aí, reconheço que fiz por encontrar uma boa solução para uma canção, mas sem pretender com ela fazer algo de pacto inovador, inaugural. Com o tempo, adquiri uma habilidade enorme de brincar com todos os grandes autores, aqui e acolá, como se fosse uma atitude de citação. Como você analisa o reconhecimento internacional obtido por Humberto Teixeira? Afinal, ele chegou a ser parceiro de Nino Rota, maestro italiano e grande compositor de trilhas sonoras de cinema, e «Kalu» foi gravada em 68 idiomas diferentes, inclusive por intérpretes como Edith Piaf e Yves Montand. Fausto Nilo -- Os cearenses são cavadores de espaços. O cearense é um povo muito de buscar, ir atrás acreditando, e sempre com esse otimismo e crença ... Acho que há um caráter no conterrâneo de tentar vencer em outros lugares de uma maneira definitiva, e isso tem uma ligação muito forte com aqueles que ficaram, como se fosse um troféu a ser conquistado lá fora, mas muito dirigido ao lugar de origem. E isso dá aos cearenses -- a exemplo de Humberto -- esse caráter aguerrido, de quem não desiste fácil. Que canções de Humberto te emocionam mais? Fausto Nilo -- Ah, «Légua» Tirana», em primeiro lugar, adoro. Gosto muito de letra que lhe faz espacializar o pensamento, sabe? E ele sabia fazer isso. Não é todo letrista que sabe fazer isso não. «Asa Branca» é outra, sem dúvida. Eu gosto muito de «Baião de Dois». Essa é legal. «Assum Preto» é campeão. Eu acho que uma canção com uma letra que um garoto de oito / nove anos chega a se emocionar brutalmente, como eu em 1952/53, é demais. E isso sem ter sido escrita para criança. Não é letra da Xuxa. Minha experiência com essas canções é a de quando eu tinha oito / nove anos de idade -- sabendo a letra, ouvindo tudo com detalhes, e me emocionando. «Juazeiro» é outra. Eu gosto muito de «Adeus Maria Fulô» (de ele com Sivuca), também de «Terra da Luz». Gosto muito de «Deus me perdoe» e «Trem ô-lá-lá» (as duas com Lauro Maia). Gosto muito também de «Xanduzinha». Em a sua opinião, quais as melhores regravações da obra de Humberto? Fausto «Nilo -- Asa Branca», com o Caetano, no exílio em Londres. Gosto muito de «Paraíba», com a» Emilinha Borba. «Qui nem jiló «e» Dezessete légua e meia», com o Gil. O Fagner também fez excelentes regravações e realizou notáveis registros junto com o Gonzaga, que para mim são eternos. Qual o significado de Humberto para a música brasileira? Fausto Nilo -- Como brasileiro, acho-o uma pessoa importantíssima, mas não tão lembrado quanto deveria. Ele é um dos construtores da qualidade das letras de canções. Eu vejo no Humberto um compositor culto fazendo uma arte popular, de uma maneira bacana, bem feita. E qual o significado de ele pra você como autor e para a sua formação artística? Fausto Nilo -- Se eu tiver aí uns dez ou quinze autores nos quais eu me agarro o tempo todo e minha vida toda, e que foram referências quando eu comecei a fazer letra de música, Humberto Teixeira é um de eles sem dúvida. Isso é inegável e eu posso confessar com a maior felicidade e orgulho, por ser daqui de o Ceará. Coloco Humberto numa galeria ao lado de Cartola, Ataulfo Alves, David Nasser, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Mário Lago, Orestes Barbosa, Cândido das Neves, Jackson do Pandeiro e mais uns poucos. Ele permitiu a uma criança como eu, no início da década de 1950, descobrir o que era poesia. Ele era notável. Serviço: Eventos de lançamento do Cancioneiro Humberto Teixeira. Realizados em Fortaleza, no Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 -- Centro -- fone: (85) 3464.3108), no dia 22 de Novembro de 2006 (Dia da Música), às 19 horas. Em o Rio de Janeiro, na livraria Argumento (rua Dias Ferreira, 417 -- Leblon -- fone: (21) 2239.5294), no dia 24 de Novembro de 2006, às 20 horas. Cancioneiro Humberto Teixeira. Edição de luxo com luva de polipropileno (formato 23 x 30,5 cm). Biografia 188 páginas (ISBN 85.88757-17-6). Partituras 176 páginas (ISBN 85.8857-18-4). Preço de capa: R$ 176,00. Observação: Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Conterrâneos, edição nº 03, novembro / dezembro 2006. Conterrâneos é uma revista bimestral de comunicação interna dos funcionários do BNB. Número de frases: 145 Acabo de ler A Longa História. Para quem ainda não leu, ou ouviu falar, A Longa História é o romance mais recente de Reinaldo Santos Neves (Ed. Bertrand Brasil, 616 p.). Acabo de ler A Longa História e sentirei falta de Lollia. Não que Lollia seja a protagonista. Não é. Este lugar cabe a Grim de Grimsby, a quem cabe também a missão que orienta a aventura: copiar A Longa História, aprisionado na imaginação de seu criador, Phostumus de Broz, ele também aprisionado (embora voluntariamente) num distante convento. Onde? Em Broz, naturalmente. E Broz fica ali na esquina de uma Europa tão medieval quanto fabulosa, criada por a mente fértil do autor. Mas, acabo de ler A Longa História e sentirei falta de Lollia. Mais que dá Fábula sinto já falta de Lollia. Quase tanta falta quanto da luta que trava o autor contra a personagem. Não sei dizer se A Longa História é o melhor livro de Reinaldo. Tenho um carinho especialíssimo por o Romance Graciano, por Sueli e por Muito Soneto por Nada que tornam difícil aceitar que esta nova Fábula seja ainda melhor. Mas não consigo lembrar de personagem deste autor mais espantoso que Lollia. Se ela roubou o romance ao autor, bem fez o escriba quando deixou-se assaltar. Mais vale uma ação de Lollia que duas fábulas de Grim. Já que o herói é dócil, deixa-se levar por a mão do autor daqui para lá e lhe entrega completamente seu destino, tudo em ele é fábula, é ficção, é resultado dos desejos do deus autor da história. Em Lollia não. Em ela encontramos ação, já não é ficção e não aceita o espaço restrito da Fábula, tomando de assalto a imaginação dos leitores como tomou a pena do escriba. É bem verdade que o autor foi invejoso. Tentou, o quanto pode, afastar Lollia da história. A estuprou e largou por o caminho. Bem que tentou até mesmo assassinar a personagem. E não conseguiu. Roubou-lha mão, talvez para furtar seus gestos e impedir-lha ação. Não revelo a surpresa, mas garanto que não foi suficiente: a rebeldia da personagem emprestou-lhe muitas habilidades. Para saber mais desta história entre autor e personagem, sugiro que leia-se A Longa Histíria, divirta-se com as aventuras e preste atenção a esta heroína rebelde que desfruta do mundo criado por o autor como se seu fosse. Por fim, digo apenas que, deus magoado, o autor enfim expulsa a personagem da história. Mas, como o Paraíso após a expulsão de Eva, sem a personagem também a história encontrou seu fim. PS.: se este texto parece rebuscado e pedante, é porque é assim mesmo. A longa história, com outros livros de Reinaldo, têm o espantoso poder de dar desejo de escrever. Não de escrever uma história, mas de escrever, de organizar as palavras nesta ordem e não naquela, por o prazer de compor e recompor o texto. Se não consigo fazê-lo com as qualidades de manuscrito por as mãos de Lollia, a culpa é minha. Afinal, A Longa História empresta a vontade de escrever, não as qualidades de escritor. Número de frases: 38 Reflexão Sobre A Violência O fato foi (e ainda é) amplamente noticiado: a morte desumana de um garoto de 6 anos. Manchete em todos os meios de comunicação e reação imediata da opinião pública. Volta-se a falar sobre a diminuição da maioridade penal, alegando-se que a impunidade é o principal motivo para tais acontecimentos. Será? É óbvio que os criminosos deverão ser (e com certeza serão) punidos -- nos rigores da lei --, afinal de contas um crime foi praticado. No entanto, algumas matérias que saem na imprensa, incluindo a capa apelativa da edição 1995 da revista Veja, onde aparece a foto da vítima seguido da descrição do crime e a exigência de uma atitude de quem a lê são, no mínimo, perigosas. Pensar que a diminuição da maioridade penal irá fazer com que crimes como estes não sejam cometidos é uma idéia superficial, simplista e estreita. Ora, a situação carcerária no Brasil é péssima, os presídios estão superlotados e a violência continua aumentando. As FEBEMs, em São Paulo, são a prova de que mesmo os «reformatórios» são muitas vezes piores que os presídios. Ninguém é «reformado» ou ressocializado nestes ambientes, assim como a truculência e violência destes meios não inibem ninguém a cometer crimes por o simples fato de que, quem comete um crime -- seja qual for -- não está pensando em ser preso ou punido (embora saiba desta possibilidade), mas apenas em alcançar seu objetivo, que é a motivação para a prática do ato criminoso. O filósofo Renato Janine Ribeiro, ao falar sobre a violência no país, diz que há «mini-auschwitzes» espalhadas por o território nacional. Pensei no texto do filósofo alemão T.W. Adorno, publicado em 1974, intitulado «educação após Auschwitz», em que ele analisa as possibilidades da repetição das atrocidades cometidas por os nazistas no campo de concentração construído na Polônia e questiona como podem ter havido homens capazes de cometer tais atrocidades (desde os projetistas das armas utilizadas no genocídio até os soldados que executavam tais atos). Ou seja, como a sociedade -- e quais mecanismos de ela -- pode ter criado homens assim? Este questionamento me parece bastante apropriado para o problema aqui discutido. Adorno recorre a autores como Freud, através da sentença «a civilização gera a anti-civiliza ção e a reforça progressivamente», citando os trabalhos» mal-estar na cultura «e» psicologia das massas e análise do ego». Não vou entrar aqui neste diálogo com Freud e deixo as obras citadas como uma referência para quem o queira fazer. Quero destacar apenas o que considero fundamental no texto. Diz Adorno: «Aquilo que exemplificava apenas alguns monstros nazistas poderá ser observado hoje em grande número de pessoas, como delinqüentes juvenis, chefes de quadrilha e similares, que povoam o noticiário dos jornais, diariamente. Se eu precisasse converter esse caráter manipulativo numa fórmula -- talvez não devesse fazê-lo, mas pode contribuir para um melhor entendimento --, eu o chamaria ' tipo com consciente coisificado '. Em primeiro lugar, as pessoas dessa índole equiparam-se de certa forma às coisas. Depois, caso o consigam, elas igualam os outros às coisas." Aí está a violência em seu estado elementar: tratar o outro como coisa, ou seja, desprovido de sua humanidade. Veja que a violência não é a agressão física (esta uma das formas de sua manifestação), mas o modo de perceber o outro e a si próprio. Em o dia 13/02, li no sítio Folha OnLine a notícia de que o menor acusado de participação no assassinato do João Hélio havia assumido a culpa apenas porque o irmão lhe ofereceu um celular em troca. Fiquei perplexo tentando imaginar o que se passa na cabeça de uma pessoa que é capaz de assumir um crime de tamanha crueldade apenas por a promessa de aquisição de um simples aparelho celular. Para este sujeito, os objetos -- ou seja, as coisas -- adquiriram um valor maior que a vida. A proposta de Adorno no texto citado está na educação, por meio de dois aspectos: a educação infantil e o esclarecimento geral em que os motivos que levaram ao horror (do genocídio) se tornem conscientes a todos. Deixo esta proposta de reflexão sobre os motivos originados em nossa sociedade que levam a criarmos personalidades com tais valores, equiparando-se a si próprios e aos outros com as coisas. Acredito que desta reflexão -- questionando o papel e as condições da família, da escola, da mídia etc. na formação das pessoas -- poderemos tirar maior proveito para que tantos outros crimes deixem de acontecer, ao invés de ficarmos dando vazão a um desejo de punição que em nada resolve a questão. É preciso uma tomada de consciência de que o acontecimento de um crime não se resume ao ato de sua execução, mas envolvem outras questões que criaram a possibilidade para que ele viesse a acontecer. Será que a mídia é capaz de propor uma maior reflexão ou ficará sempre presa em seu imediatismo? Algumas fontes: Figueiredo, Talita. Adolescente acusado de matar menino acobertou irmão, diz mãe. FolhaOnLine. 13/02/2007. Disponível em http / www 1. folha. uol. com. br /folha/cotidiano/ ult95 u131661. shtml Ribeiro, Renato Janine. Razão e Sensibilidade. Ilustrada. FolhaOnLine. 18/02/2007. Disponível em http / www 1. folha. uol. com. br /folha/ilustrada/ ult90 u68751. shtml MALIN, Mauro. «Mini-Auschwitzes removeme». Observatório da Imprensa. Número de frases: 52 21/02/2007. Disponível em: Prefeito sanciona Lei de Fomento ao Teatro Em o Dia Internacional do Teatro, 27 de abril, o prefeito Nelson Trad Filho sancionou a Lei de Fomento ao Teatro, que destina recursos específicos para produção, criação, iniciação teatral e qualificação dos profissionais, no intuito de melhorar os espetáculos e difundir a arte cênica na Capital. A assinatura aconteceu no Calçadão da Barão, onde grupos teatrais se encontraram para um ato cênico, promovido por os grupos de teatros, em parceria com a Associação Campo-grandense de Grupos Teatrais (ACGT) com a presença do vereador Athayde Nery -- autor da lei subscrita por os peemedebistas Maria Emília Sulzer e Celso Ianase -- e do diretor-presidente da Fundação Estadual de Cultura, Américo Calheiros e da Fundação Municipal de Cultura (Fundac), Solimar de Almeida. Para Nelsinho Trad, estimular o seguimento terá reflexo em todo o município. «Quando se administra uma cidade, as demandas são muitas, às vezes temos que escolher que ponto para estimular e sei que estamos acertando ao investir no teatro, pois se trata de uma das artes mais aplaudidas e difundidas em todo o mundo», destacou o prefeito. O presidente da Fundação Estadual de Cultura, Américo Calheiros, enfatizou a importância da sanção da lei. «Essa lei inaugura um momento novo para o teatro em Campo Grande, no qual política e cultura estão de mãos dadas, porque cultura gera desenvolvimento, equaciona desigualdade e, principalmente, constrói cidadania», declarou Calheiros. De acordo com o vereador Athayde, a lei foi confeccionada por várias mãos, em mais de um ano de discussões. «Com o estímulo do poder público, queremos que o teatro se consolide na Capital, supere os percalços para construir liberdade e cidadania, dando aos campo-grandenses a oportunidade de conhecer e mergulhar na fantasia da arte cênica», declarou o parlamentar. Profeta, Presidente da Associação Campo-grandense de Grupos Teatrais -- ACGT, foi uma luta árdua, mas, valeu a pena, só conseguimos porque o prefeito Dr Nelson acenou positivamente. Com 25 anos dedicados ao teatro, Paulo Preché, do grupo Anteato, também considera a união dos atores fundamental para «convencer quem estiver na cadeira», a destinar cada vez mais recursos para o teatro. O Executivo tem 90 dias para regulamentar a lei, a partir da publicação no Diário Oficial do Município. Número de frases: 13 O " Frevo De Ariano «OLINDA, Quero Cantar A Ti, Esta Canção " Uma luz no entanto parece piscar, pelo menos, no fim do túnel. Em Pernambuco, a folia momina tem resistido a este processo elitista, tão evidente em outros estados Motivos, são vários e louváveis. Mas a constatação, óbvia e gratificante, é que os pernambucanos têm conseguido não apenas «botar», mas manter o seu bloco na rua, com originalidade e tradição, e sem perder a alegria que o momento requer. Não se pode descartar o Galo da Madrugada, maior reunião de foliões de todo o planeta, que no sábado da festa atrai 2 milhões de pessoas às ruas e pontes do Centro do Recife, e tem nos trios e camarotes um discreto, porém real, apelo a baianidade. Leia-se portanto, apelo mercadológico. Porém, a regra do Galo é uma exceção. Um folião que há vinte anos subia as ladeiras de Olinda pouco se surpreende com o carnaval dos dias de hoje. Orquestras de frevo, maracatus e afoxés promovem o mais inusitado e agradável congestionamento de que se tem notícia. Qualquer ritmo que não seja os tradicionais é proibido de ser executado nas ruas. As emissoras de rádios têm um percentual definido de músicas da região a serem tocadas. Mas a mais forte manifestação parte mesmo do povo, que em coro e sem distinção de classe ou idade, canta os versos das músicas mais conhecidas, aquelas mesmas que eram tocadas quando lá estava o folião de vinte anos atrás. Em a primeira capital pernambucana, há um misto de encanto e paradoxo nas ladeiras do carnaval. Foliões dançam nos pátios das dezenas de igrejas que, sombrias, não conseguem transmitir indiferença à badalação. Há um quê de benção a tamanha alegria. Fantasias futuristas, e engraçadas, outras tradicionais, e igualmente hilárias, dão um colorido à festa, que contrasta e completa o sóbrio casario secular. Cada um dança a seu jeito, canta de sua forma. Mas o consenso gira em torno da alegria, do sentimento de paz e acima de tudo por a consciência de que ali não se forçam barras para a folia. A fórmula do carnaval de Olinda é permanente, à disposição de quem de ele goste ou se interesse, sem o apelo comercial dos outros grandes centros. «Em Cada Prédio, Traços De Uma Cultura Interior De as Nossas Recordações " A o Recife coube a difícil tarefa de perpetuar a tradição e repercussão da folia olindense. Centro urbano e comercial dos mais importantes do Nordeste, o caráter de metrópole da cidade certamente combinava mais com os recifolias da Avenida Boa Viagem e seus blocos com esquisitas combinações de frutas e iguarias. Mas no recifense há também a mais arraigada manifestação da cultura popular do estado. A ciranda de Itamaracá e demais regiões praieiras, o coco, o cavalo-marinho e o maracatu da região dos canaviais, além do frevo, eminentemente recifense, cobravam da Veneza brasileira esse caráter cultural. Que o axé tivesse seu espaço nos galos e boas viagens, mas era essencial aos ritmos mais representativos da pernambucanidade ocupar seu posto. Com a recuperação do Recife antigo, a reabilitação do casario e o fato de ser próximo a ícones da história pernambucana, mais recentes ou antigos, desde que ligada ao movimento cultural, como o Marco Zero e a Torre Malakoff, o Recife Antigo adotou essa idéia do carnaval da tradição e de todos os ritmos. Aliada a administrações conscientes e politizadas (no bom sentido), o carnaval do Recife Antigo só cresce, seja em público participante, seja em atrações. E cresce principalmente em qualidade e diversidade. Em 2006, o Carnaval Multicultural se estendeu por nada menos que 16 pólos, sendo três na região do Recife antigo e os demais em bairros da cidade que tiveram a oportunidade de receber as mesmas atrações dos pólos principais. Recebendo músicos tradicionais de Pernambuco como Antônio Nóbrega, Lenine, Alceu Valença, Claudionor Germano, Silvério Pessoa, Orquestra Spock de Frevo e Quinteto Violado, o conceito de multiculturalidade no entanto não foi esquecido. Atrações vindas das praias, da Zona da Mata ou do Agreste completaram a beleza colorida e sonora nas ruas e palcos. Fosse Lia de Itamaracá e seus cocos, Mestre Salustiano e sua Rabeca ou Siba e o excelente coletivo Fuloresta do Samba só pra citar os já renomados, o carnaval do Recife abriu espaço às mais diversas manifestações culturais dos rincões pernambucanos. Em a noite do domingo os Maracatus do Baque Solto encontraram-se no palco do Marco Zero, o principal dos pólos. A beleza e humildade de vestes e gentes encantaram o público que alternava-se em dançar ou apenas assistir ao incomparável espetáculo. O Cordel do Fogo Encantado subiu ao palco no mesmo dia e confirmou com sua música de forte personalidade e teatralidade intrigante por que é uma das bandas mais premiadas bandas do Brasil. Assim foi nos cinco dias de carnaval. Mesmo nomes alheios à tradição musical pernambucana apresentaram-se em meio aos valores locais. A própria segunda-feira com o samba de Martinho da Vila e Leci Brandão aconteceu depois dos blocos de paus e cordas. E, mais importante, todos os shows e apresentações ocorrem nas ruas, com a participação da maior estrela de todos os carnavais: o povo. Número de frases: 44 Terminal de Messejana às 16h37 Domingo, sol em agonia. A cidade aperreia-se, pés sujos de areia da praia, e o movimento no terminal de integração de Messejana, um dos sete existentes em Fortaleza, emparelha-se, em quantidade e barulho, a qualquer romaria das tantas marcadas com um círculo vermelho no calendário religioso cearense. Em a fila do Grande Circular II -- hipérbole razoável --, o bodejado de sempre. Homens, mulheres e crianças de pele curtida por o sol entretidos numa algazarra sem fim. O destino, comum a todos, é integrar os cerca de 180 passageiros (entre afortunados que viajam sentados e supliciados que, à falta de opções, seguem de pé) a embarcar no próximo ônibus, que cortará, em seqüência, os terminais do Siqueira, Antônio Bezerra, Papicu e, novamente, Messejana, num grande e impreciso círculo ao longo de mais de duas horas de viagem. Uma família impacienta-se. Outra empanturra-se com salgados. R$ 1,50, mais o refrigerante, que pode ser de cola ou de guaraná. Vendedores ambulantes, sermões retumbantes, esfarrapados de naipes variados -- era uma tarde bonita. Em a agenda, o compromisso dominical: missa, aniversário ou casamento. Os trajes das crianças, bem-arranjados, e o penteado rigoroso da mulher indicam um destino especial, extraordinário. Após rápida confabulação, a matriarca costura rota alternativa. Em um muxoxo, o homem concorda, ressalvando apenas a demora. «Devia era de ter falado isso antes, há meia hora». Seguem, crianças à frente, em fila indiana. Ônibus à vista; ao redor, inevitáveis cotoveladas e encontrões, distribuídos prodigamente. Em a fila destinada a idosos, deficientes e mulheres com crianças de colo, o empurra-empurra segue à risca o ritual da fila onde vale tudo. O caótico embarque não demora. As portas se fecham. Preso, um passageiro reclama. O motorista, prudente, estaca, abre a porta, e o homem se desvencilha da boca mecânica. Terminal do Siqueira, 17h28 A mãe grita, mas o filho segue numa carreira à Forrest Gump. Rápido, o cobrador de sobrenome Alves a despacha. Angustiada, a mulher consegue segurar o braço fino do garoto. Mãos dadas, mulher e cria caminham através da passarela no terminal do Siqueira, o segundo na seqüência. Lá, o Grande Circular II não se demora, devolvendo ao chão boa parte da carga humana que trazia para, no instante seguinte, engolfar mais um punhado de gente, que se aperta, se ajeita, se arranja no rebuliço do ônibus. Destino imediato: Antônio Bezerra. Em o seu canto, o cobrador observa, as mãos hábeis catando pequenas moedas de cinco e dez centavos. Não há espanto ou estresse, apenas serenidade. Um Buda, diriam alguns, perdido em meio aos solavancos do trajeto que faz diariamente, ao longo de mais de 7 horas de trabalho. Conversador, Alves, um jovem de 29 anos, casado e pai de duas crianças, logo revelaria a origem de tanta retidão: um curso de boas-maneiras. «A gente aprende como tratar os passageiros, como reagir no caso de passageiros grosseiros ou descontrolados», explica numa voz amiudada. Fala realmente baixo, temendo sabe-se lá o quê. Quando uma passageira esquece-se de passar o cartão eletrônico na catraca e dá mostras de que não pagaria a passagem, Alves a amansa. E ela saca da bolsinho que tilinta de moedas a quantia de R$ 1,60. Terminal do Antônio Bezerra, 17h49 Entre o Siqueira e o Antônio Bezerra, e daí até o Papicu, a cara do Grande Circular II sutilmente muda. Mulheres com crianças de colo, idosos e jovens cedem lugar a tipos mais ou menos homogênos, etária e socialmente. Sobretudo no vestir e no falar. Em um repente, o ônibus silencia; as gargalhadas são, agora, apenas eco na memória recente dos que seguem desde o primeiro ponto de embarque, no terminal de Messejana. Os modos espalhafatosos que animaram o trajeto anterior diluem-se a pouco e pouco, restando apenas risos ligeiramente abafados. O ônibus esvazia-se e, acompanhando-o, Júlio expande-se. Conversa longamente e dá detalhes sobre a rotina do cobrador de ônibus. Horários de lanche, por exemplo, são três durante um turno de trabalho, que, no seu caso, começa às 15 horas e se encerra às 0h35. «Quando a última viagem acaba, a gente tem que entregar o ônibus na garagem. Essa é a grande desvantagem de quem trabalha à noite: ter que deixar o ônibus lá», lamenta o cobrador, um preguiçoso assumido. «Só não troco de horário porque não gosto de acordar cedo. Aliás, eu nem consigo». Júlio começou na Via Máxima, empresa em que trabalha há quatro anos, logo após ter abandonado o ofício de açougueiro. «Larguei porque vi que não tinha futuro. O patrão dizia que um dia colocaria um açougue pra mim, e esse dia não chegava nunca. Depois de quase dez anos trabalhando, fui embora», relembra. A morte prematura do pai, há doze anos, rápida e inadvertidamente o transformou em «homem da casa». «Fui atrás de emprego e encontrei esse açougue. Quando entrei, não sabia nada. Fui aprendendo aos poucos». Para chegar aonde chegou, o cobrador dilacerou, sem descanso semanal, as carnes que chegavam ao açougue por as portas do fundo. Como saldo, aponta: «Não sou enganado quando vou comprar carne». Ele ri e revela tratar-se de um hábito passar a perna nos fregueses. A velha história de gato por lebre. Terminal do Papicu, 18h59 Escurece de todo. Em quilômetros, algo em torno de 180, equivalentes a três voltas completas. «Por dia, são três. Nunca mais nem menos que isso», revela o cobrador. Em o relógio, 2 horas e 45 minutos de viagem. Sem livros ou revistas, apenas mensagens eletrônicas no visor verde-musgo do Get e bips a cada novo giro na catraca. «A gente fica acostumado, hoje nem sinto mais». Novo giro na catraca, novo bip. Prancheta em punho, o cobrador registra o número exibido num mostrador de plástico logo abaixo da cadeira. Em o final do dia, o número exato de rostos anônimos que lhe cruzaram, por alguns segundos, o caminho. «Normalmente, são em torno de 450 passageiros, fora os que entram nos terminais», informa. Em datas excepcionais, como o 1º de janeiro, esse número pode chegar aos 700." Foi uma loucura isso aqui no primeiro dia do ano. O ônibus lotado o tempo inteiro. E, ainda por cima, com o estímulo da tarifa a um preço menor». Histórias, apenas as de assalto ou assédio. Por uma razão evidente, as primeiras encontram-se em maior número: viver do transporte coletivo hoje constitui um grande risco. «A gente sabe que, hoje, não tem mais essa de linha segura. Todas são perigosas. Mas, ainda assim, esta aqui é uma das mais visadas por a bandidagem». Há quinze dias, Júlio despediu-se da fama de sortudo. «Tirava a folga de um cobrador na linha Messejana-Papicu», começa. «Era cedo da noite, umas oito horas, e seguíamos em nossa última viagem quando os caras, quatro ao todo, entraram no Messejana-Papicu». Não mais que vinte minutos dentro do ônibus. Enquanto o cobrador permanecia sob a mira de uma pistola (" ela brilhava na minha frente ") e um segundo assaltante mantinha-se ao lado do motorista, cochichando-lhe gentilezas ao ouvido, duas outras pessoas procederam ao que, popularmente, conhece-se como rapa. «Celulares, foram pelo menos oito ou dez», relembra. Era sexta-feira, uma noite de manso sereno no pára-brisa do veículo. Nova leva de passageiros invade o Grande Circular II entre o Papicu e Messejana. Em sua maioria, trabalhadores a caminho de casa. Em comum, um cansaço expresso sobretudo no olhar, fixo num ponto do momento em que sobem ao ônibus ao de desembarque. às 19h30, o motorista manobra e encosta na plataforma de Messejana. alívio: «Este ônibus não vai mais». Não por trinta longos minutos. Antes de seguirem até a lanchonete mais próxima, motorista e cobrador trocam algumas palavras após muito tempo de silêncio. Júlio indica qualquer coisa além, e os dois riem. Em a cantina, uma vitamina com salgado é suficiente para fazer aliviar o cansaço. «Essa vida é difícil, sim, mas eu gosto. Número de frases: 107 Não quero trocar nem de horário, porque, como já disse, tenho uma enorme dificuldade para acordar cedo», arremata Júlio. Uma Casa de Farinha e um Alambique montados em plena praça pública. Enquanto degusta a cachaça assiste a moagem da cana, vê a caldeira, um engenho completo. De a mesma forma, é saborear o beiju que acabou de sair do forno depois de ver a mandioca sendo descascada. Assim é em Utinga (Chapada Diamantina), onde estive neste fim de semana durante a 16ª Semana de Arte e Cultura. Geralmente, um evento como este é feito com muito custo e parcos recursos. Em Utinga, a responsável por a empreitada durante estes dezesseis anos é a diretora de cultura, Urânia Viana, uma pessoa de grande simpatia, bem acolhedora e de muita fibra. É comum encontrar pessoas que torcem o nariz ao se falar em cultura e tradição. Por exemplo, boa parte dos gestores públicos dos municípios tem dificuldades de saber distinguir o momento de se promover o que chamamos de cultura popular (ou regional) e quando é a hora de oferecer o axé music, pagode ou «forró eletrônico», na melhor das hipóteses. Basta ver a programação da festa junina de alguns municípios. Nada contra Chico ou Francisco e viva a diversidade, mas é saber que a moçada que se embala no rock ou na black music vindos de outras fms (e acho isso bacana) é a mesma moçada que vai para a festa de vaquejada. Pois bem, não só de música se faz uma programação de semana de cultura (ou feira de artes, festival, varia de lugar pra lugar). Artesanato, teatro de rua e de palco, dança, tradições folclóricas, feira livre, projetos locais, a economia, religiosidade, tudo se relaciona. Diferente dos grandes festivais, estas semanas culturais oferecem muito mais do que uma mostra ou exposição de alguma coisa. O encontro entre as pessoas para se conhecerem, tocar violão em roda, saborear as delícias da cozinha típica local, paquerar no escurinho da praça, prosear sentado no chão, vender produtos, promover o seu trabalho e trocar contatos e informações, isso tudo faz parte de um evento como este. Voltando a Utinga, percebi que lá a dança é o que atrai os jovens para os palcos da semana de arte. A o estilo street dance ou coreografias de passos sincronizados muitos jovens e adolescentes montam grupos, treinam muito, investem no figurino e gravam fundos personalizados para cada apresentação. Aliada à programação da Semana, aconteceu uma Cavalgada com mais de trinta vaqueiros que chegou a emocionar Wilson Aragão que contava os seus causos de cima do trio que acompanhava o cortejo. Logo depois, à noite, os vaqueiros se animaram na praça com os cantadores de chula, no Palco 2. Outro ponto alto em Utinga foi a apresentação do Grupo Matingueiros (PE) que possui influências regionais do Vale do São Francisco. O repertório varia em coco, maracatu, xote, baião, mas explicam que investem no forró para estarem mais presentes nos palcos das festas juninas. O grupo possui uma sonoridade forte, são performáticos e tem um balé com seis bailarinas em coreografias e indumentárias típicas do maracatu. No meio do show dos Matingueiros, uma grande roda de ciranda se formou na praça juntando pessoas do governo municipal, organizadores da festa, a juventude, senhores e senhoras, todos de mãos dadas. O que certamente não falta nestas semanas culturais são os cantadores, cantores poetas, que identificam na sua música e melodia o nordeste, o sertão, o protesto e o amor. São canções fortes e sensíveis e de uma grande qualidade musical. Entre aqueles que sempre estão nas programações dessas semanas culturais, feiras de artes ou festivais da Bahia, estão: Gereba, Wilson Aragão, Dinho Oliveira, Dão Barros, Paulinho Jequié, Raimundo Sodré, Evandro Correia, Tato Lemos, Alex Macedo, Dão de Abreu, Ton Flores, Nivaldo Santana, Jorge e Lua, Bule Bule, etc. Antes de Utinga, aconteceu o I Festival de Música de Seabra. A próxima, será a VI Semana Cultural de Pintadas, de 09 a 14 de maio, que terá como principal programação o IV Fórum Cultural Regional. Devido à escala de cidades representadas neste Fórum em Pintadas, poderá alcançar tranqüilamente o estatuto de Fórum Estadual, pois, têm atraído participantes dos diversos cantos, instituições, gestores, produtores e artistas. Este ano o IV Fórum Cultural Regional vai tratar de organização de um movimento de cultura no Estado, pautando questão cultural nos diversos espaços como os Territórios de Identidade e governos municipais, estadual e federal. Fazem parte ainda da VI Semana Cultural de Pintadas, mostras das diversas linguagens artísticas, palestras e oficinas. Pintadas fica no Semi-árido baiano, à 250 km de Salvador, sendo 50 km de estrada de terra. Os eventos de cultura no interior do Estado não param por aí. Em seguida terá em Boa Vista do Tupim, São Gabriel e assim por diante. Nos despedindo de Wilson Aragão em Utinga, ele nos diz que é um pecado a despedida, dá uma tristeza e um aperto no coração: «não devíamos nunca nos despedir, e sim, dizer até logo, até mais ver». Eu concordo com Aragão, e por isso mesmo eu digo: «Inté mais ver». Número de frases: 38 Desde agosto de 2002 a borracharia do «Joaquim Borracheiro», no município de Sabará, vem perdendo cada vez mais espaços para os livros. Não que o Joaquim que dá nome ao negócio seja um leitor assíduo, mas devido à Borrachalioteca, criação do seu filho Marcos Túlio Damascena, os pneus agora têm companhia. Marcos teve a idéia de utilizar parte do pequeno espaço da borracharia do pai «para dividir o gosto por a literatura, servir a comunidade e fazer mais leitores», como ele mesmo conta. O marco inicial foram 81 livros doados por a Biblioteca Pública de Sabará. Passados 4 anos desde sua criação o acervo da Borrachalioteca conta com mais de 3500 livros, que já não cabem mais nas instalações da borracharia. Chega a ser difícil locomover-se no local. As frágeis e compridas estantes, cobertas de livros, escondem completamente as paredes e passam a sensação de já não suportarem o peso depositado sobre elas. «Em o início era apenas uma prateleira perto da entrada, agora tenho que guardar livros até na casa dos vizinhos», conta Damascena. A média de empréstimos mensais é de 200 livros, cada um por um período de 30 dias. Além dos livros a Borrachalioteca também oferece aos seus usuários edições diárias do jornal Hoje em Dia, revistas em quadrinhos e semanais e diversas fitas de vídeo. Sorrindo, Damascena relembra o dia em que recebeu as fitas de vídeo: «um sujeito apareceu aqui com um Fusca cheio de fitas de vídeo e doou todas, de vários tipos de filme». Perguntado sobre a razão do sucesso da sua iniciativa, Marcos Damascena acredita que a Borrachalioteca deu tão certo por fugir do modelo das bibliotecas comuns, ambientes rígidos e silenciosos. «O ambiente daqui é muito mais familiar e livre do que o de uma biblioteca normal». Marcos cuida sozinho dos livros e os concilia ao trabalho com os pneus e ao curso de Letras na Faculdade de Sabará, no qual cursa o 3º período graças a uma bolsa conseguida por seu trabalho com a Borrachalioteca. Além da bolsa na faculdade, a Borrachalioteca também rendeu outros frutos a Marcos, como convites para palestras em universidades e empresas. Enquanto conversava com Marcos para fazer esta matéria três pessoas foram à Borrachalioteca fazer empréstimos e outras duas vieram utilizar os serviços da borracharia. Os livros acabam por ser também uma ótima forma de propaganda para o negócio. O único problema enfrentado nos últimos tempos vem sendo a falta de espaço. A situação é tão dramática que atualmente ele só aceita doações em casos excepcionais, enquanto busca uma solução para seu problema de espaço. A Secretaria de Cultura de Sabará, por meio de seu gerente de eventos, Roberto Gomes, afirma não poder ajudar Marcos, já que o mesmo ainda não se pronunciou oficialmente à prefeitura da cidade. «Trabalho aqui (na Secretaria de Cultura) há oito anos e nunca sequer recebi um convite para visitar a biblioteca do rapaz», informa Roberto. Ele também diz que Marcos já poderia ter entrado em contato com a Agência de Desenvolvimento Municipal ou até mesmo com ONG's locais, mas nada disso foi feito. Número de frases: 23 O gerente de eventos afirma que após a manifestação oficial de Marcos para com a prefeitura, uma das possíveis atitudes da mesma seria tombar a Borrachalioteca como bem imaterial da cidade. Foi-se o tempo em que um artista independente era olhado com desconfiança -- e até mesmo pouco caso -- quando optava (ou precisava) lançar um álbum por conta própria. Hoje, com toda essas mudanças causadas por a «revolução do mp3» e por a crise da indústria fonográfica, vemos novos horizontes se configurando para uma gama de artistas que já está sacando toda essa reviravolta. E o Lasciva Lula está nesse barco. O grupo acabou de lançar seu primeiro disco de forma independente e tem conseguido uma repercussão de gente grande no meio musical. A banda nasceu nas areias de Cabo Frio (Região dos Lagos), em 1998. Já mudou de formação e hoje está devidamente radicada na Cidade Maravilhosa. Felipe Schuery (voz e guitarra), guga bruno (guitarra e voz), Jamil LiCausi (baixo e voz) e Marcello Cals (bateria e voz) são os nomes responsáveis por uma das sonoridades mais criativas de que se tem notícia nesses anos 2000. Com três EPs nas costas, passagem por festivais de renome e presença certa nos mais importantes palcos alternativos do Rio, o grupo iniciou em janeiro deste ano sua mais ousada e excitante empreitada: o lançamento do primeiro disco, «Sublime Mundo Crânio». Depois de uma estréia vitoriosa num Teatro Odisséia lotado, o quarteto vem arrancando elogios de toda imprensa especializada e tem agradado os ouvidos das mais variadas platéias por onde toca. Em o som não há muito mistério: O Lasciva faz um rock bem criativo, unindo Pixies, Secos & Molhados, Beatles e Sonic Youth num mosaico de referências que surpreende no final. Os quatro rapazes conseguem transformar todas essas influências num som cheio de novidade e frescor. Junta-se ainda uns traços de jazz aqui, um pouco de MPB ali ... e o engraçado é que essa leveza das músicas é proporcional à dificuldade de categorizar o som que a banda faz. Fato é que o grande mérito do grupo está, como o próprio Felipe diz, em não ter «compromisso de seguir tradição ou acompanhar a modernidade». Há duas semanas tive uma conversa via e-mail com Felipe, Marcello e guga bruno que se segue logo abaixo. Confira. Overmundo: O CD está sendo muito bem recebido por a mídia em geral. Aliás, eu não lembro de um veículo que ainda não tenha falado do disco (risos). Como está sendo o trabalho de divulgação visto que não há uma grande agência por trás? Felipe: A gente acompanha jornalismo musical e acaba sabendo quem escreve sobre o quê, em que meio de comunicação, que som curte mais, enfim, você acaba criando um leque imenso de pessoas que escreve sobre música. Aí, quando o CD sai, é tudo muito direcionado. Além disso, estamos contando com a força da Fernanda Farani, nossa amiga, que é assessora de imprensa e trabalha com eventos, principalmente ligados ao meio musical. Marcello: As coisas não acontecem de repente nesse mundo independente (ih, rimou!), e a gente tem se esforçado um bocado para colocar nosso filhote à disposição para o máximo de pessoas conhecerem o material. De aí a intenção é que muitos veículos falem de ele mesmo, seja bem ou mal. Inclusive falando de veículo, até carro de som já foi cogitado em nossos brainstorms estratégicos. Overmundo: Foi dito em muita resenha que vocês não tem um pé no rock moderno, não estão próximo dos emos e nem tem um quê de Los Hermanos. Como vocês avaliam essa dificuldade que os críticos têm em rotulá-los? Felipe: Em termos de divulgação é mais difícil você convencer alguém a ouvir um som que não consegue rotular. Seria mais fácil criar uma expressão qualquer, tipo «rock salgadinho» (come / ouve aos montes, sempre tomando cerveja), e tentar criar um buxixo em cima disso. Mas tá bonito, não tem erro, a gente toca por prazer e o que sai é Lasciva Lula, sem compromisso de seguir tradição ou acompanhar a modernidade. Marcello: É bom e ruim por os pesos na balança da originalidade versus vendabilidade. Nós, por outro lado, não temos opção senão seguirmos fazendo o som que é o nosso, genuinamente produto de nossas próprias opções estéticas, e fazermos figa pra dar tudo certo e as pessoas gostarem também! Overmundo: Se a dificuldade em categorizar é quase unânime, por outro lado, todo mundo sente um leve sabor circense no som de vocês. De onde vem essa, digamos, vertente? Felipe: Por o fato das letras terem um traço de humor e remeterem a muitos símbolos e imagens, talvez facilite a associação com o universo circense. Em a criação, normalmente eu chego com uma célula musical (estrofe, refrão) já letrada num ensaio, toco e fico observando as caretas e resmungos dos outros três. Essas caretas e resmungos dão uma ajeitada aqui, outra acolá, e cada um vai experimentando algo em seu instrumento até amadurecer. Bem, não é nada objetivo, dá pra perceber (risos). Marcello: É curioso, a intenção por o clima circense nunca existiu. Em a verdade foi algo que só percebemos depois, quando ouviram e nos deram esse tipo de feedback. O processo de criação se dá por o simples aglomerado de influências que temos, de todos os tipos, musicais ou não. Sabe, é como quando você abre a geladeira e vai pegando vários ingredientes que julga gostosos sem saber direito onde aquilo vai dar. Com nós também. A gente nunca sabe onde vai dar (e, como a analogia feita, muitas das misturas já não deram muito certo e foram parar no tambor do lixão!). Overmundo: O mercado fonográfico está em pleno momento de transformação e bandas como o Lasciva Lula estão bem no olho do furacão. Como é ter uma grupo num momento onde não há muita perspectiva em relação às gravadoras, mas a chance de se auto-gerir (e se dar bem) se mostra muito sedutora? Felipe: Viver exclusivamente de música é o sonho de todos da banda. Devagar, estamos conseguindo montar um negócio auto-sustentável e ampliar nosso público. O que for positivo para preservar nosso prazer em tocar e aumentar o número de pessoas que nos ouvem, vamos tentar. Overmundo: De a capa do disco ao visual do site percebe-se um forte cuidado com a identidade visual. Tudo bem que o Jamil é designer ... mas falem sobre a importância de se investir nessa linguagem. Felipe: A gente sempre discute sobre os temas das letras, os climas das músicas e imagens ou quaisquer referências que estejam ligadas àquela atmosfera. Desde a primeira fita cassete, lançada em 2000, foi assim. E desde lá o Rafael Saraiva (designer) faz todas as capas. Ele tem criado imagens sensacionais para traduzir o que pensamos, e o próprio fato de termos feito tudo com ele cria uma identidade muito forte. A gente é do tempo em que se ouvia um CD com o encarte na mão do início ao fim (risos). Overmundo: Até lançar o disco vocês estudaram algumas propostas, aguardaram por algumas chances e analisaram estratégias. Em que momento vocês optaram por lançá-lo de forma independente? guga bruno: Bem, antes de sermos uma banda, somos público, consumidores de música, então queríamos que o CD chegasse barato para o consumidor (vendemos a R$ 10,00 no site e nos shows), porque compramos CDs quando são baratos. Quanto menos intermediários houvesse, mais barato conseguiríamos vendê-lo. Esse foi o fator principal para lançarmos de forma independente! Outra questão tem a ver com o retorno do investimento. Em a verdade, a Lasciva Lula hoje trabalha como se fosse um pequeno selo. Parte do dinheiro que as vendas geram é reinvestido em marketing, divulgação etc.. Passamos mais tempo pensando e discutindo essas questões do que tocando, ensaiando ou compondo. E ainda assim, tem válido a pena!!! Overmundo: Infelizmente o underground ainda não paga as contas de ninguém e o artista independente acaba tendo uma jornada dupla de profissões formais com ensaios, shows etc.. Como vocês se viram entre o Lasciva e o dia a dia no trabalho? Felipe: Nos falamos todos os dias, por e-mail ou telefone, discutindo algo relacionado à banda; ensaiamos à noite uma vez por semana e seguimos na batalha por shows. O brabo é acordar depois de uma apresentação no meio da semana, às seis da manhã, e pegar dois ônibus para Bonsucesso. O resto se leva na boa. Marcello: Tipo o que o Homem-Aranha faz. A única diferença é que os uniformes são menos apertados. Overmundo: A banda conta com uma estrutura bem organizada. Como é feito o trabalho entre vocês e a Jane Deluc Produções? Felipe: A Jane negocia todos os shows e nos tira das megafuradas em que nos metíamos quando cuidávamos disso! Sem dúvida nenhuma, com a Jane, passamos a fazer shows em lugares mais bacanas, eventos renomados e começamos assim a criar uma equipe legal. Tem sido ótimo. Overmundo: O novo disco trouxe muitas novidades no som, mas sem perder a liga com os trabalhos anteriores. Em o que vocês acham que o «Sublime Mundo Crânio» se difere dos demais EPs lançados? Marcello: Para mim, pelo lado de dentro, os quatro trabalhos lançados são muito diferentes. Tem um treco que não sei dizer que os une, mas são muito diferentes. O «Lasciva Lula» me soa com uma referência de um som mais forte, mais duro. O «1ª Edição» é o Lasciva Lula para pular, músicas para a cima, animadas, letras claras. O «Óleo de Saliva» é bem introspectivo, de sonoridade mais obtusa. O que acho mais legal do SMC é que ele, de certa forma, possui elementos de todos os EPs anteriores ao longo das doze músicas. Overmundo: Felipe, as letras da banda são um capítulo a parte! Refletem o som da banda e são cheias de referências. Como funciona seu processo criativo? Felipe: Geralmente pego o violão e fico criando seqüências de acordes, balbuciando melodias e palavras sem sentido. às vezes pego uma dessas palavras, escrevo no topo da página e vou escrevendo a partir de ela, sem saber aonde vai parar, mas sempre amarrando a coisa. Não é aleatório, mas pode ser incontrolável (" A letra da canção desgovernada " fala exatamente sobre isso). Qualquer coisa serve de inspiração. Um filme, uma manchete de jornal, uma placa, um cheiro, uma conversa de fofoqueiras na rua ... Já tirei a harmonia de um samba enredo do Paraíso do Tuiuti, desconstruí tudo e fiz de ele um rock. Overmundo: Disco recém-lançado, tudo beleza, mas os downloads gratuitos estão aí comendo solto. Como vocês estão encarando essa coisa do fim do CD, a explosão dos mp3s ...? guga bruno: Botamos todas as músicas pra serem ouvidas no site, disponibilizamos duas para download, em breve teremos novidades no site relacionadas a isso!!! Mas ainda apostamos no disco. Se considerarmos que uns 10 % da população tem acesso à internet, ainda existem os outros 90 % que queremos atingir! E isso vai acontecer com shows, CDs nas lojas, rádios etc.. Mp3 é o futuro? Com certeza, disso ninguém duvida, mas no momento temos que agir dos dois lados, real e virtual, pra nosso produto chegar ao maior número de pessoas! Overmundo: Acredito que um próximo passo seja alçar vôos mais distantes, ir tocar em outros estados. Como vocês pretendem levar o som da banda Brasil afora de forma independente? Felipe: Já fizemos em 2004 uma turnê por as capitais do sul, São Paulo, Belo Horizonte e outras cidades. Número de frases: 140 Tudo entrando em contato com gente que faz ou produz shows independentes em suas cidades, na ralação. Você está ansioso para dar uma espiada no conteúdo de determinado site e, quando o acessa, recebe a irritante mensagem: 404 Error. The Page Was Not Found. ( Erro 404. A Página Não Foi Encontrada). Então, o que você procurava simplesmente sumiu? às vezes, sim; às vezes, não. Para entender o fenômeno, é preciso primeiro saber o que é esse tal de 404 Error. Em a Web existem clientes (um navegador, que é um software como o Netscape e o Internet Explorer) e servidores (computadores robustos com um ou mais processadores, com grande capacidade de memória e espaço em disco rígido). Eles estão sempre levando um papo: o primeiro pede; o segundo, atende. Em geral, o meio utilizado para manter esse diálogo é o Http -- Protocolo de Transmissão de Hipertexto, sistema que permite enviar e receber arquivos de textos, imagens, sons e vídeo. De esse modo, quando você entra na Web, a conversa se inicia. Seu navegador solicita dados sobre o site que você está procurando a um determinado servidor. A primeira resposta que chega, e que você não vê, é um cabeçalho que contém códigos de status, isto é, informações sobre como estão indo as coisas. Se vão mal, surge, então, o fatídico 404 Error. Naturalmente, você está curioso para saber o que significam esses números. Vamos lá. O primeiro quatro indica dois problemas: ou o endereço do site está truncado ou ele não existe mais. O zero sinaliza para um erro de ortografia. O último quatro aponta para uma anomalia específica chamada «Acesso não autorizado», isto é, você só entra na página que exibe esse alerta se tiver uma senha. O 404 tem uma história curiosa. Sua origem remonta aos escritórios do CERN -- Laboratório Europeu de Partículas Físicas, com sede em Genebra, na Suíça. Em os primórdios da Web, por volta de 1980, no quarto andar do CERN, na sala 404, foi montado um banco de dados, controlado por três cobras em computação. Manualmente, eles gerenciavam pedidos de arquivos e os transferiam para os requisitantes. Quando aconteciam erros, eles alertavam: «Room 404 -- File Not Found». Mais tarde, a expressão foi incorporado ao mundo online por o físico inglês Tim Berners-Lee, o criador da Web. O Error 404, porém, não é motivo para você abandonar suas buscas. Com as dicas abaixo e um pouco de paciência talvez seja possível encontrar o que quer. Acesse a página novamente ou atualize-a. Algumas vezes, o 404 Error não passa de um alarme falso. Procure por erros de grafia no endereço que você digitou e corrija-os. Tente também mudar a extensão da home page. Por exemplo, de html para htm ou vice-versa. Experimente ainda outras extensões como asp e shtml. Tente achar uma versão antiga da página. O The Wayback Machine possui uma ferramenta que leva a uma viagem ao passado da Web. Escreva para o Webmaster. Em o mínimo, você estará-lhe prestando um favor, ao alertá-lo sobre links quebrados. Se você não conseguir absolutamente nada, resta compensar sua decepção indo a sites que fornecem frases e imagens bem-humorado para substituir o seco Was Not Found. Em o Somethingawful há uma mensagem debochada: «Esta página é muito estúpida. O Web site está cheio de gente idiota. Clique no botão atualizar. Depois de muita insistência, alguma coisa deve aparecer». Criativo é o Locksley. O site abre com a foto de uma moçoila dos anos 30, vestida com um corpete. Ela adverte: «Por favor, feche a porta ou eu darei um berro!». Já o ScytheNet propõe colocar o ícone da morte com a legenda: «Trata-se de uma conspiração. Estamos escondendo a verdade de você. Número de frases: 57 Ou, quem sabe, essa página realmente Was Not Found». Estive no Festival de Cinema de Gramado por a sétima e possivelmente última vez, semana passada. O evento, que eu conheci em 1988, onde tive o prazer de ver filmes como Ilha das Flores e Superoutro, e onde ganhei meu primeiro prêmio como cineasta (o de melhor diretor, em parceria com Vicente Amorim, em 1990), foi completamente corrompido por a ideologia das castas de «vips», por o culto vazio às celebridades e por a sanha exibicionista de um dos seus principais patrocinadores, a operadora de telefonia móvel Vivo. Era bom ir a Gramado. Havia um belo painel do melhor da produção brasileira para ver. Havia a convivência diária, próxima, entre cineastas, atores e técnicos de diferentes gerações, do Carlão Reichenbach ao Helvécio Ratton. Em Gramado, conheci alguns dos caras mais bacanas da minha geração, como os gaúchos e gaúchas da Casa de Cinema, como o José Roberto Torero, entre muitos outros. Havia, como tenho certeza que ainda há, a hospitalidade da população gramadense. Uma população que exultava no convívio com os «artistas», isto é, os atores e atrizes de TV de diferentes (e às vezes nenhum) quilates. Essa obsessão por as celebridades globais já era um pouco chata, mas não havia como não ver aquilo com ternura. A cara das pessoas, em geral senhoras e crianças, diante, sei lá, da Malu Mader, era de uma pureza comovente. Hoje, a hospitalidade gramadense, se ainda existe, está soterrada por camadas e mais camadas de privilégios, divisões de áreas e direitos, convites, e outros definições de valor para convidado, num desconfortável sistema de castas incentivado e posto em prática com truculência por a Vivo e suas festas chatas e vazias. Os filmes? são o de menos. As sessões da noite são apenas para convidados, locais e de fora. Em um auditório dividido num zoneamento por cores quase psicótico, é difícil encontrar as pessoas, difícil confraternizar, difícil trocar uma opinião, difícil conhecer o diretor de um filme. O stress é tão grande que tudo que se quer é que a coisa passe o mais rápido possível. Já faz tempo que a maior parte dos filmes se guarda para festivais mais sérios. Já faz tempo também que mesmo os gaúchos, que só precisam pegar o carro e dirigir duas horas desde Porto Alegre, mal passam dois dias no festival. Ninguém vê ninguém. Quer dizer, não é bem assim. Por o longo tapete vermelho, ladeado por lojas e bares, passam todos os convidados -- inclusive grandes nomes do cinema, como Sandy e Junior -- e são vistos por o povo que chega cedo e toma assento à beira do alambrado e às costas dos muitos seguranças. Uma novidade merece ser saudada em Gramado este ano. Contratados como curadores independentes, o crítico José Carlos Avellar e o cineasta Sergio Sanz procuraram dar mais seriedade à seleção de filmes -- coisa que conseguiram -- e encaminhar o festival no sentido de se tornar um encontro de profisssionais -- coisa que ainda estão longe de conseguir, mas que é uma iniciativa louvável. A verdade, no entanto, é que se você quer ver filmes num festival, vá ao Festival do Rio, que começa em setembro, ou à Mostra de São Paulo, que abre logo em seguida. E se você quer conviver com a galera que faz cinema, democraticamente tratados por igual, do curta 16mm ao ator do longa hors concours, vá a Brasília, no fim do ano. Número de frases: 26 Quanto a Gramado, pertence agora definitivamente à Caras. Desde a última sexta-feira, estão em exposição no espaço cultural do Aeroporto Internacional de Val-de-Cans, em Belém, dezoito esculturas do artista plástico paraense Guilherme Pontes, de 36 anos. Até aí nada demais. O especial está nos objetos criados por ele e no material utilizado para transformar as peças em verdadeiras obras de arte. O artista reutiliza sucata de bicicleta, carro, motocicleta, computador e tudo mais que achar interessante para compor sua obra. ' Essa deveria ser a tendência de todo o artista de hoje, o de reciclar objetos que podem virar lixo ', avalia Guilherme. O talento criativo do artista apareceu durante a infância nas ruas de Castanhal, município onde foi criado por a avó Maria Galdino, a dona Cazuzinha, junto com a irmã Célia Pontes. Vivendo com poucos recursos financeiros, brinquedo para os irmãos era dado somente no Natal, isso quando sobrava algum dinheiro. Mas, numa dessas brincadeiras de rua, Guilherme observou um colega brincando com um carrinho feito de lata e achou aquilo muito interessante. Então, começou a juntar quinquilharias daqui e de ali para montar seus próprios brinquedos e fez sucesso. Logo se tornou o'fazedor de brinquedos ' da garotada da rua. A os 13 anos, para ajudar nas despesas de casa, Guilherme foi trabalhar numa oficina mecânica como funileiro e soldador. Algum tempo depois, em 1992, veio tentar a sorte em Belém, mas, sem muitas perspectivas, retornou a Castanhal para trabalhar na oficina do amigo Adilson Angelin, o Bida. ' Ele me deu liberdade para fazer minhas primeiras obras de arte que para mim, naquela época, eram apenas brinquedos, como quando era criança ', conta o artista. Somente quando mostrou as peças aos amigos e ouviu incentivos para investir na carreira, foi que Guilherme resolveu levar a sério o ofício e embarcou novamente para Belém. Mas, como talento só não basta, Guilherme teve que se valer da força de vontade para continuar na luta, já que não tinha material nem recursos para levar adiante o desejo de viver da arte. ' Em o começo fui tudo muito difícil, pois, não tinha as ferramentas para trabalhar. Então, falei com um amigo e ele me emprestou uma maquina de solda e comecei a fazer minhas primeiras obras e vender para os colegas ', relembra. Só que esse amigo precisou da máquina de volta e Guilherme teve que apelar para um outro amigo que lhe concedeu empréstimo para comprar as máquinas que precisava, e assim continuou criando. As coisas começaram a mudar quando Guilherme conheceu a dona de um bar, que pediu para que o artista deixasse algumas peças lá. ' Um dia ela me ligou e disse que tinha vendido tudo, aí comecei a procura lugares para expor e nessas andanças comecei a vender minhas peças nos lugares aonde ia, inclusive para clientes de outros países ', conta Guilherme. Até que em 2006 conseguiu fazer sua primeira exposição, exatamente onde está hoje, no aeroporto. De lá pra cá, já contabiliza doze exposições em lugares diferentes, a maioria em bares da cidade. E dessa forma Guilherme vai ganhando a vida. à noite, pega a mochila, coloca umas quatro obras e sai para vendê-las. às vezes vende tudo, em outras oportunidades, nenhuma, mas nunca perde a chance de buscar novos contatos. ' Muitos gostam das peças, mas encomendam outras mais personalizadas. Só com esse trabalho na noite já conquistei uns sete clientes fixos ', assegura o artista. Ele conta que as esculturas mais pedidas são figuras medievais, como o Don Quixote, e figuras amazônicas, como os ribeirinhos. O valor das peças variam muito, principalmente por causa do tamanho. ' As menores custam 50 reais e as maiores já vendi até por cinco mil ', conta. Segundo o artista, são necessários cerca de dois dias para confeccionar as peças menores e uma média de três meses para dar o acabamento final às de tamanho maior, como foi o caso da obra ' Semeador ', encomendada por um colégio de Barcarena, que tem mais de um metro e meio de altura e outros tantos de largura. ' Esse tempo é necessário porque nem sempre a obra fica do jeito que eu quero logo da primeira vez. às vezes acho que não ficou boa e desmonto tudo para começar tudo de novo ', revela. Guilherme alugou um galpão para produzir suas peças e parte do local ele aluga para um vendedor de sucatas que é a pessoa que lhe fornece boa parte do material que utiliza. ' Antes ia atrás das sucatas nas oficinas, agora elas vêm até mim ', comemora. Também começou a investir na transformação de motos comuns em motos chopper custon, aquelas estradeiras, imortalizadas no filme ' Easy Rider ', com Peter Fonda e Denis Hopper. ' Número de frases: 37 Viver só de arte aqui em nosso estado é quase impossível, se bem que fazer essas motos também é, a meu ver, uma forma de arte ', ressalta. Conhece o clássico «Rosa de Hiroshima»? Gosta da melodia, do violão? Pois quem foi o responsável por resgatar o poema de Vinícius de Morais e musicá-lo foi Gerson Conrad, justo o mais discreto e menos lembrado da revolucionária Secos & Molhados. O Elefante Bu teve o prazer de entrevistá-lo. Elefante Bu -- O que acho curioso é que muita gente relaciona os Secos & Molhados com os Beatles por causa do impacto da música e porque da relação de popularidade e números de vendagens que foi para outro patamar no Brasil. E fazendo uma brincadeira de relações entre uma coisa e outra, a impressão que tenho é que você foi o «George Harrison» da banda: o cara mais discreto e que fez uma das músicas mais bonitas e lembrandas. A coisa é por aí mesmo? Gerson Conrad -- Você não está errada, comparam mesmo, devido ao sucesso que fizemos, cativando um público imensurável de A a Z. Há de se lembrar, de que o grupo ficou com o estigma de divisor de águas referente ao mercado fonográfico. Isso, devido aos números de discos vendidos no chamado período de lançamento. Explico, em noventa dias após o primeiro LP ter chegado ao público consumidor, atingimos mais de 300.000 cópias vendidas. A média até então, «record» conhecida, era de 50.000 cópias durante o ano, no mercado nacional, e só alcançada por o «Rei Roberto Carlos». Nem mesmo a Bossa-Nova, Jovem Guarda e Tropicalismo conheceram tal número no período acima referido. Quanto à comparação de minha pessoa com George Harrison, o que sei, é que apesar de «Ariano, impetuoso Dragão, no horóscopo Chinês», eu sempre fui o mais comedido, entre o Leão (Ney) e o Escorpião (João Ricardo). Alguém tinha que ter os pés no chão. Sem falsa modéstia, eternizei um poema de «Vinícius de Moraes, Rosa de Hiroshima», que talvez, não tivesse alcançado a importância, inclusive internacional, se não fosse a música por mim composta. Elebu -- Havia muita troca de informação entre os músicos e os grandes nomes da música naquela época? Conrad -- Não! Acredito que hoje, haja mais essa troca, e esse contato entre artistas. Em aquela época, encontrávamos ocasionalmente esses grandes nomes ou, nos bastidores das rádios e televisões durante a gravação ou participação de programas. Tivemos um breve contato, mais próximo, com os baianos. Mais Gal e Gil, durante nossa estadia em Salvador, em Fevereiro de 1974. Era uma época em que cada artista já consagrado estava preocupado em conservar seu lugar ao sol, e os «S & M» haviam chegado, fazendo muito barulho. Acredito que isso os assustou um pouco. Elebu -- Acha que aqueles que fazem parte da mídia especializada, pesquisadores e o público afim são justos na hora de contextualizar a importância dos S&M com as pessoas que fizeram parte dessa história? Conrad -- Não! Deixam muito à desejar nesse quesito. Eu, por exemplo, às vezes, nem sequer sou citado. Exemplo: Nelson Motta, durante a pesquisa de confecção de seu livro «Noites Tropicais» me contatou pessoalmente e também pessoas envolvidas com seu trabalho, colhendo informações, e pedindo autorização para uso de imagem, e no capítulo em que dedica aos Secos & Molhados, omite meu nome. Poderia citar outros exemplos assim, mas não vem ao caso. Elebu -- E você está há muito tempo sem lançar um disco seu. Não tem tesão de aproveitar as facilidades de hoje e lançar alguma coisa sua ou quem sabe mexer com produção? Conrad -- Estou mesmo, e explico: Durante muito tempo fui radicalmente contra a «produção independente» em nosso país. Questão de bom senso. Acho que contribuí o suficiente, e bem, para que, a industria fonográfica e cultural para que, as chamadas gravadoras, que tanto afirmam de que o mercado está mudado, me ouvissem. Não o fizeram. Criaram a expectativa de vendas que representasse a terça parte do que havia vendido o grupo e sem o menor marketing direcionado para isso, puro non-sense. Uma coisa era o grupo, outra, seus integrantes. Mas, elas continuam contratando e lançando gente e gêneros de toda a sorte. Confesso que o tempo passou sem que eu tivesse me dado conta. Mas, estou atuante com shows, ao longo desses vinte e poucos anos sem gravar. Fora da grande mídia, por razões óbvias. Esse ano devo entrar em estúdio mas, não tenho data definida. Tesão! sempre enquanto Deus «mo permitir». Elebu -- Que tipo de música você gosta de fazer hoje em dia? Conrad -- Minhas composições ou minhas músicas, refletem aquilo que filtro das informações do cotidiano. Tendências não sigo, pois minha obra é universal em sua forma de expressão. Talvez você possa defini-la como World Music, ou não. Faço, um " pop-rock em seu contexto, com pitadas de todas as influências que possa ter assimilado, e me prevaleço do fato de ser brasileiro ... Elebu -- do que é produzido hoje entre novas cantoras pop que fazem samba, bandas emo, a cena independente e etc, o que te agrada mais? Conrad -- É ..., e está difícil! Difícil de responder porque, ao mesmo tempo em que se tem uma talentosíssima Ivete Sangalo, nos deparamos com aberrações de cunho indefinido, como esse acumulo de bandas «Axé» salvo, algumas exceções, e coisas do tipo, poluindo sem qualidade nossos ouvidos. E pior, sendo-nos imposto por a mídia televisiva. Ouvi-los já é difícil, vê-los, é sacanagem. Elebu -- Mal ou bem, o seu nome é obrigatório nas páginas da história da música popular brasileira. Como você se sente em relação a isso? Conrad -- Evidente que gratificado. Como o ditado popular, " Falem bem ou mal, mas falem de mim!" É sempre bom ser lembrado! Sem discutir talento ou sorte, estou diciorarizado, logo imortalizado, e isso é gratificante, sinal de que minha contribuição por meio de minha obra, teve seu valor e reconhecimento. * Esta entrevista é parte integrante da matéria sobre os Secos & Molhados publicada no fanzine Elefante Bu n°31, de março 2008. Número de frases: 64 É muito engraçado ver a insistência de todo o aparelho da mídia para fazer com que esses rapazes do «Mombojó» consigam respaldo. Não adianta, por mais que o Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco, Revista Continente, e outras instituições as quais as pernas articuladas do leviatã de Mombojó, tentem fazer a divulgação desses rapazes, é sempre uma tarefa da inutilidade. Nunca vi ninguém na cidade do Recife saber cantar uma única frase de alguma música dos bons músicos do Mombojó -- digo bons músicos por terem formação acadêmica em música. As músicas não pegam, é triste ver isso. O produto é ruim, é fruto dos vícios aristocráticos que permeiam a mídia de Recife. O vocalista canta mal, as melodias são fracas. As letras utilizam a desculpa de minimalismo -- aliás, essa é a desculpa de quase todo letrista contemporâneo -- para escrever pequenas bobagens sem nenhuma graça. Enquanto Los Hermanos despontam com bons refrões e, Renato Russo fazia multidões cantarem com " é preciso amar as pessoas ..." os rapazes do Mombojó justificam a incompetência dizendo que " não querem ser os mais vendidos da semana ..." Tal como Sísifo, o Mombojó vive a árdua tarefa da inutilidade. O tempo inteiro tentando pegar. Parentes jornalistas, contatos em todas as mídias -- até mesmo na rede Globo! E mesmo assim, não adianta, só quem escuta são amigos de amigos e indivíduos que pertencem àquelas bolhas sociais estagnadas da velha dinâmica absurda do nordeste. Foi preciso Chico Science forçar tanto a barra assim pra que todos o conhecessem? Por que os jornalistas não desistem? Que protecionismo absurdo é esse para com sua prole? Ah! Continuem tentando fazer suas pobres canções pegarem. O povo não, o povo vai continuar ouvindo as boas coisas espontâneas da vida. Lembre-se, a vanguarda se esgota na apresentação. Não tentem ser vanguarda a todo custo, às vezes, é mais poético ser clichê. Um abraço a todos vocês, Número de frases: 22 Ganso Gracioso. O texto literário mais antigo do qual se tem conhecimento foi escrito por um autor anônimo em tábuas de argila utilizando caracteres que lembram o formato de cunhas. Trata-se de um poema épico dividido em 12 partes que narra os feitos heróicos de Gilgamesh, o rei semilendário de Uruk, na antiga Mesopotâmia, na época em que aquela região da Ásia era ocupada por o povo sumério. Basicamente, conforme foi traduzida no século XIX, após passar milénios no esquecimento, a epopéia descreve como o soberano se embrenhou na aventura em busca de um dom que ele, apesar de ser filho de uma deusa e de um semideus, não herdou no nascimento: a vida eterna. Passados quase 5 mil anos do surgimento daquele marco da literatura, para ser mais exato foi em 2003, um livro nacional de ficção científica fez a transposição de tal mito para os tempos de hoje, com a vantagem extra de trocar os incômodos retângulos de argila por o papel e de ter substituído quase todos os símbolos cuneiformes por o nosso velho conhecido alfabeto latino. O título da obra em questão faz referência a outra inovação típica dos sumérios -- neste caso, arquitetônica -- os zigurates, as primeiras construções a desafiar os limites terrenos se lançando aos céus e que, não por acaso, deram origem ao mito da Torre de Babel. Zigurate -- Uma fábula babélica é o quarto e mais recente livro do gaúcho de Porto Alegre Max Mallmann, atualmente um residente da capital fluminense onde trabalha como roteirista da Rede Globo. Em termos literários, ele, que é formado em direito, estreou em 1989, aos 20 anos, com Confissões do minotauro; em seguida veio Mundo Bizarro; Síndrome de quimera, publicado no ano 2000 por a mesma editora Rocco de Zigurate, foi traduzido para o francês e chegou a ser finalista para o renomado prêmio Jabuti. Já no plano do audiovisual, escreveu sua própria telenovela, Coração de estudante, colaborou com a soap opera Malhação e, hoje em dia, faz parte da equipe de criação do seriado A grande família. Ou seja, há quase 20 anos, ele vem se dedicando a vários temas, dos dramas adolescentes a comédias familiares, passando por trabalhos em literatura fantástica, com ênfase na fantasia. Vamos pegar o exemplo de Mundo Bizarro, publicado em 1996 com recursos da prefeitura da capital do Rio Grande do Sul, quando o escritor assinava com o nome Max Mallmann Souto-Pereira. O livro conta a história de um porto-alegrense que misteriosamente foi parar em outro planeta -- ou seria outra dimensão? Ou ainda um universo paralelo?-- habitado por um povo atrasado tecnologicamente que cultuava três mil deuses diferentes. Foi em Zigurate que ele se aventurou de modo mais explícito, e com maturidade autoral, no terreno da FC, mesmo sem abandonar outras vertentes literárias. Com isso, não só escreveu um dos melhores romances do gênero lançados nesta década, como ainda criou dois dos mais carismáticos e bem construídos personagens de nossa ficção científica em todos os tempos. Em o livro do século XXI, quem repete a epopéia do rei sumério numa longa viagem em busca da Vida é uma pesquisadora francesa chamada Sophie Brasier. A os 30 anos, convivendo com o vírus HIV desde os 20, ela descobre que a mistura do coquetel anti-Aids com os genes ruins herdados do pai a condenou a uma morte certa por ataque cardíaco numa questão de meses. Sem nenhum relacionamento amoroso há anos, sem amigos próximos, tendo como família apenas a mãe ausente e uma samambaia, a parisiense se agarra a única coisa que lhe restou na tentativa de evitar a insanidade: concluir sua tese de doutorado em antropologia denominada Interpolações dos mitos mesopotâmicos no texto bíblico. Para ajudar a explicar o título, vale lembrar um exemplo no caso já citado. Um dos pontos narrados no Poema de Gilgamesh diz respeito a uma grande inundação bastante semelhante àquela presente no trecho da Bíblia sobre a Arca de Noé. A diferença principal é que o protagonista da lenda suméria, Ziusudra, ao contrário do patriarca bíblico, recebeu de seu deus, Ea, a dádiva tão cobiçada por o rei Gilgamesh, a imortalidade. «Sophie não tinha teorias bombásticas, não queria provocar polêmica e nem revolucionar o mundo acadêmico», apontou Mallmann. «Queria apenas escrever uma tese clara, lógica, fria e legível. Como uma lápide, seu último trabalho intelectual antes de morrer». Com tamanha motivação, a antropóloga fez algumas descobertas que, caso pudessem mesmo ser comprovadas, iriam sim causar polêmicas e revoluções. E não apenas na academia. Aqui talvez seja prudente esclarecer um ponto: um leitor de hoje, que não conheça o livro do gaúcho, pode encontrar semelhanças entre a descrição da trama de Zigurate com o megasucesso O código da Vinci, mas a comparação não é de todo procedente. Por uma questão cronológica, a obra de Dan Brown nunca poderia ter sevido de inspiração, afinal, coincidentemente, ela também foi lançada em 2003, nos Eua, e só viria a estourar como sucesso a partir no ano seguinte, culminando com a adaptação cinematográfica de 2006. Além disso, não é patriotada dizer que o material nacional é estilisticamente bem superior ao daquele livro mais famoso -- e, em outra coincidência, que também é o quarto lançado por o escritor americano. Se for para arriscar alguma influência do gaúcho, é mais certo apostar numa dupla de escritores e quadrinistas britânicos. Por a temática, Alan Moore, com a série de HQ Promethea, lançada em 1999, e, por a construção de personagens, Neil Gaiman, principalmente por Morte, irmã mais velha de Sandman, criaturas cult dos anos 80. Voltando a Zigurate. O ponto de partida para a investigação científica foi a carta que Sophie descobriu numa biblioteca francesa, contendo a reprodução do texto de uma Bíblia escrita no século XII. Era uma versão apócrifa e aparentemente herética do primeiro livro que compõe as escrituras sagradas. Em esse Gênesis alternativo, escrito em latim clássico ao longo de 14 versículos, estava contada a origem de um casal anterior a Adão e Eva, os misteriosos Lugal e Nin que vieram ao mundo no sexto dia da criação. Eles sim teriam sido feitos à imagem e semelhança de Deus, tanto que foram agraciados com a vida eterna. Parte disso se explica por o material utilizado na confecção dos seres primogênitos, pois eles foram esculpidos em ouro, único metal capaz de refletir «com seu brilho imperecível» a glória e a imagem divinas. Porém, eles acabaram por afrontar o Criador e, como vaticina o capítulo 2, versículo 5 do texto, acabaram punidos: «O Senhor Deus, arrependido de sua criação, depôs Lugal e Nin do trono do mundo recém-feito. E Deus lhes disse: ' Imortais vos fizemos. Imortais vós sereis. Mas vossa semente será estéril. Não deixareis filhos nem herdeiros. Vagareis sem destino por a terra até o final dos tempos, e nenhuma memória restará de vossa existência, pois este mundo já não mais vos pertence '». Arrependido da experiência pioneira, Deus resolveu tentar novamente, agora com algumas salvaguardas. Trocou a nobreza perene do ouro por a simplicidade fugaz do barro na hora de moldar Adão. Foi assim que o novo homem e, por consequência, a mulher que recebeu sua costela se tornaram um par «debilis et imbecillus, fragilis et mortalis», ou seja,» débil e quebradiço, frágil e mortal». Apesar do ceticismo do orientador da pós-gradua ção, dos protestos da mãe e da gravidade de sua doença, Sophie Brasier mergulhou de tal forma na pesquisa que, ao longo dos meses, acabou econtrando referências numa infinidade de fontes históricas. Os nomes Lugal e Nin, de origem suméria, surgiam, por exemplo, compondo a nomenclatura de deuses e de reis em textos acádios, babilônicos e assírios, além dos citados pais de Gilgamesh: a deusa Ninsun e o rei divino Lugalbanda. Mas não parou por aí. Aparecem pistas nos relatos dos homens do exército de Napoleão que invadiram o Egito e nas listas de condenados à guilhotina durante o período de terror da Revolução Francesa, assim como entre as mulheres julgadas como bruxas por a Inquisição espanhola. Ainda na Espanha, surgem relatos de um Lugal entre os combatentes da Guerra Civil, do mesmo modo que entre os soldados soviéticos que tomaram Berlim no colapso da II Guerra Mundial. Há uma Nin na redação do Pravda durante a Revolução Russa e surge uma foto de ela numa reportagem da Vogue tirada na Inglaterra há 40 anos. Voltando a comparar com o O código da Vinci, até mesmo uma pintura antiga fornece pistas da existência real daqueles misteriosos seres que, a depender da inspiração poética de quem os descreve, têm a pele de um «amarelo solar»,» amarelo mostarda», «cor de uísque»,» matiz ambarino», «anêmica»,» cor de mijo «ou de» gema de ovo frito». Depois de praticamente um ano, contrariando os diagnósticos em relação à sua expectativa de vida, a doutoranda resolve deixar a especulação teórica de lado e parte para a pesquisa de campo. Sua empreitada a leva até à Escócia para tentar ao menos provar a veracidade de parte dos seus achados. Enquanto isso, alheia ao interesse acadêmico que lhe envolve, a outra metade da trama se desenrola num cenário bem mais conhecido dos brasileiros: a cidade do Rio de Janeiro. Por lá, o ritmo da história é outro, substituindo neurônios europeus por adrenalina das Américas. Chovem bala e sangue numa mistura de corrupção política com violência dos morros cariocas. Mas o tratamento dispensado à narrativa também é diferente, Mallmann substituiu o realismo com que tratou o ambiente acadêmico francês por um tom mais de fábula mesmo, como sugere o subtítulo. Por isso, não é o caso de se esperar uma descrição cruenta da realidade urbana nos moldes de um «Feliz ano novo» de Rubem Fonseca; seria mais adequado comparar o lado brasileiro da história com algum roteiro de Quentin Tarantino, algo como um Amor à queima roupa carnavalizado. Isso ajudou a deixar o texto ameno e bem-humorado, mas também acabou abrindo portas para alguns personagens mais rasos, quase caricatos. Talvez Zigurate tivesse a ganhar com a ausência de alguns de eles. Analisando o livro como um todo, em poucas páginas, com um ritmo alucinante e a urgência de um moribundo que se agarra à sua última chance de salvação, Mallmann produz um apaixonante tour por a História, da mais remota antiguidade aos dias atuais. Serve como prova de que a ficção científica pode usar como tema de extrapolação todas as formas de conhecimento organizado, como a antropologia e a filologia, e não apenas ciências exatas -- apesar de, quase ao final das 223 páginas da obra, surgir uma muito interessante possibilidade envolvendo física teórica avançada. O grau de detalhismo e a veracidade com que o autor constrói o cenário e seus protagonistas tornam quase irresistível ao leitor algumas pesquisas por as inúmeras referências textuais. A cada resposta do Google, este novo oráculo onisciente e onipresente, mais impressionante se demonstra a costura do texto e a erudição pop do escritor. Aguça a curiosidade e deixa no ar a pergunta: o que mais poderia ser feito se algumas lacunas fossem preenchidas? A o fim, Zigurate -- Uma fábula babélica não é apenas uma recriação em vários níveis da saga de Gilgamesh por a busca da existência eterna. O livro também é uma apaixonada e muito bem engendrada homenagem à palavra escrita, com as diferentes tecnologias que, ao longo dos tempos, lhe garantiram a existência e, de quebra, também fizeram com que a história e a cultura se tornassem possíveis. Não importando se tais tecnologias sejam laptops, endereços eletrônicos, o lápis ou tábuas de argila gravadas com caracteres cuneiformes. Número de frases: 81 Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. Nara Leão nasceu no dia 19 de janeiro de 1942. Elis Regina morreu no dia 19 de janeiro de 1982. Elis, que implicou muito com a musa da bossa nova depois que ela aderiu ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, teceu elogios à rival numa entrevista ao jornal Última Hora n ... 19 de janeiro de 1976. Coincidências à parte, as vidas de Elis e Nara tropeçaram em pedras semelhantes. Uma de elas tinha nome e sobrenome: Ronaldo Bôscoli. O jornalista, letrista e produtor Bôscoli havia namorado Nara na adolescência. Foi noivo da cantora entre o final dos anos 50 e o início dos 60, na época em que o apartamento da família Lofêgo Leão, na avenida Atlântica, servia de ponto de encontro dos entusiastas da bossa nova. Quase todos bem nascidos e bem criados na Zona Sul carioca, como Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Luís Carlos Vinhas, Sylvia Telles, Chico Feitosa e Luizinho Eça, e o baiano João Gilberto. O relacionamento de Nara e Bôscoli foi por água abaixo em 1961, quando Maysa anunciou à imprensa, sem o conhecimento do jornalista, que se casaria com ele. É certo que os dois dormiram juntos na turnê que haviam acabado de fazer por Argentina, Uruguai e Chile, mas a história do casamento foi invenção de Maysa. E Nara rompeu com Bôscoli de uma maneira enérgica: não atendia nem os telefonemas do compositor, em quem seu pai, o severo Jairo Leão, depositava um bocado de confiança. Pois bem. Elis Regina e Ronaldo Bôscoli casaram-se no civil no dia 5 de dezembro de 1967. Em comparação à idade de Bôscoli, Elis era ainda mais nova do que Nara: 16 anos contra 13 de diferença. O casamento durou cinco anos, entre separações, reconciliações e o nascimento do primogênito João Marcelo Bôscoli, hoje dono da gravadora Trama. Bôscoli, o Ronaldo, só teria novamente acesso à Nara Leão anos mais tarde. O jornalista e compositor Nelson Motta foi testemunha da rixa entre Elis e Nara. «A Elis tinha uma grande voz. Nara Leão era o contrário: tinha poucos recursos vocais, mas usava muito bem a inteligência. Era hostilizada por a Elis por causa da pequena voz, mas reunia os melhores repertórios e trabalhou muito por a música brasileira. Já a Nara vivia dizendo que Elis era uma grande cantora», revela. Até a imprensa sabia que Elis detestava Nara. As duas foram convidadas para estrelar a série ' As grandes rivalidades ', publicada na revista Manchete. O crítico de música e jornalista Sérgio Cabral lembra esse episódio em ' Nara Leão, uma biografia ', lançada por a Lumiar. «O clima era de hostilidade, principalmente por parte de Elis Regina», afirma Cabral no livro. E continua, linhas abaixo: «Bem humorada, Nara até brincou com a rival na hora das fotografias. ' Como é? Estão dizendo por aí que não queremos posar juntas. Podemos ou não? ` Elis nada respondeu e, à medida que as fotos eram batidas, foi perdendo a paciência, até que estourou: ' Vou embora porque não gosto de Nara Leão '. Em seguida, Carlos Marques entrevistou as duas isoladamente». Sérgio Cabral destaca a agressividade de Elis para com Nara. «Elis Regina foi contundente: ' Eu não tinha nada contra a moça Nara Leão. Hoje eu tenho porque me irrita a sua falta de posição, dentro e fora da música popular brasileira. Ela foi a musa, durante muito tempo, mas começou gradativamente a trair cada movimento do qual participava. Iniciou na bossa nova, depois passou a cantar samba de morro, posteriormente enveredou por as músicas de protesto e, agora, aderiu ao iê-iê-iê. Negou todos ... '». Só a título de curiosidade, vale reproduzir o trecho da entrevista ao jornal Última Hora, de Samuel Wainer, na qual Elis aplaudia a paciência da irmã de Danuza e, portanto, cunhada de Wainer, adiantando a postura que adotaria com ela no futuro: «Eu sou esquentada. Tem gente que é calma, a Nara Leão, por exemplo, é uma pessoa que tem uma paciência histórica, sentou, esperou tudo acomodar e fez um disco certo. Aliás, ela sempre faz as coisas certas nas horas corretas e para as pessoas exatas. Número de frases: 50 Eu sou guerreira e pego a metralhadora para sair atrás de quem me enche o saco». «Falo em guitarra, música, o máximo da poesia, quem dera eu ser músico-poeta e tocar a mais insensível das pessoas com a transcrição do sentimento em batida, em acorde, em jazz, em blues que ora frenético ora calmo nos mergulha num solo-poesia. Quem dera ..." Me cito no trecho acima, música em tudo, sou aficcionado. Imagine seu mundo sem trilha sonora. O dia ensolarado em que você se sente nos anos 70, nunca os viveu, mas tem a impressão que alguém nos tais anos se sentiria daquela maneira, misturas de rock, black music, samba, e tudo o que se gosta toca no fundo, a combinação é doce, só você percebe e entende. Imagine o Bonde do Tigrão compondo em tempos de ditadura. Parabéns se conseguiu. Que nada, axé, funk, são o momento. Diga adeus às composições com letra, às melodias com sentido, e aos músicos. Quem precisa de eles? Mete um topete descolorido e umas dançarinas que tá tudo certo. Deixa a televisão instruir, destruir, e se delicie com todas as velhas novidades. Se farte de vazio. Afinal, só queremos dancar, beijar. Deixa pensar pra quem usa óculos. Número de frases: 16 Juliano Drummond Em um bate papo cheio de causos e rimas, dois membros do grupo cultural Rap ' ensando Sussuarana (de cujo trabalho falamos em matéria anterior publicada aqui no Overmundo), Sérgio Bahialista e Danilo Araújo contam «colé de mermo» (em bom baianês) dessa história de hip hop e cordel na comunidade de eles. Além de fazer parte do Rap ' ensando, Sérgio é cordelista e integrante do grupo Simples Rap ' ortagem, um dos mais conhecidos e respeitados de Salvador, e Danilo -- ou CEIS, seu «nome de guerra» no hip hop, é designer e rapper do grupo Os Agentes, que tem despontado por os encontros e festas que «pipocam» por a cidade afora. Vânia: Então, galera, como foi mesmo que começou essa história de Cordel com hip hop na Sussuarana? Sérgio: Começou com um pipoco lá (risos). Em a verdade foi uma provocação minha mesmo. Quando o Rap ' ensando começou, os grupos que se articularam pra formá-lo, na sua maioria, trabalhavam com os elementos da cultura hip hop, principalmente o rap e o graffiti. A gente começou nossa atuação trabalhando com esses dois elementos, fazendo oficinas. Paralelo a isso eu tinha meu trabalho no Cria [Centro de Referência Integral de Adolescentes, ONG que trabalha com teatro e poesia e apóia os projetos do Rap ' ensando], com cordel. De aí surgiu a idéia de levar isso para à comunidade, agregando à nossa atuação no grupo, nas oficinas mesmo. De aí muitos meninos e meninas que participavam passaram a fazer rap e colocar também no formato de cordel. Passou a ter essa fusão. Os desenhos feitos por eles na oficina de graffiti, por exemplo, passaram a ilustrar as capas dos cordéis. Então passou a se fazer essa ligação muito forte na Sussuarana. Mas isso não é uma coisa que acontece em Salvador inteira, é mais uma característica da Sussuarana mesmo, que começou quando eu provoquei o pessoal, com esse novo elemento. Pessoas que já faziam rap lá passaram a utilizar a linguagem do cordel. O grupo os Agentes pegou uma música de eles, chamada «Para o aprendizado das crianças» e transformou também num livreto. Porque o rap e o cordel são muito semelhantes na forma de rimar, na métrica ... Danilo: Tem uma música nossa em que a gente diz que o cordel é o avô do rap (risos). Sérgio: É por conta dessa semelhança mesmo, tem uma musicalidade, um ritmo, a coisa da rima, da métrica. Conta uma história, tem uma narrativa. O pessoal começou a perceber que o cordel estava muito dentro da nossa cultura e que tinha tudo a ver com rap. A primeira «fusão», o primeiro produto dessa mistura foi justamente esse trabalho d' Os Agentes, que é um rap no livrinho de cordel. É como muitos cantadores repentistas fazem até hoje. Acontece muito de eles pegarem a música que fazem e colocar no livrinho de cordel. Vânia: E como é que a galera do hip hop vê isso? Por que tem essa história dos quatro elementos e ai vocês colocam o cordel no meio ... o que eles acham? Danilo: Olhe só. A maioria do estilo de métrica do rap que eu conheço é ligada à quadra. Entendeu? Mesmo que a pessoa não siga rigidamente, tem a quadra envolvida. Em o cordel também existe, mas em ele o pessoal usa mais a sextilha. Quando eu e o restante do grupo Os Agentes tivemos a idéia de fazer o cordel, quando eu falei que era em quadra, Sérgio ficou meio assim ... ai eu falei «ô Sérgio, me permita por o amor de Deus» (risos), por que ele é a referência de cordel que eu tenho. «Permite aí pra mim, se não o negócio não vai funcionar» ... Vânia: Dê um exemplo de quadra para a eu poder entender do que você está falando. Danilo: Por exemplo ... Sérgio, eu falo uma do rap, você fala um do cordel, certo? Tem uma que é assim: no quebrar das ondas eu vejo Yemanjá é no livreto de cordel que consigo me encontrar Isso é uma quadra. Sérgio: Agora uma sextilha ... Vamo lá: Há certas coisas no mundo Que eu olho e fico surpreso Uma nuvem carregada se sustentar com o peso e dentro de um bolo d' água sair um corisco aceso. Em a verdade, são duas estrofes. A de ele é uma quadra, porque tem quatro versos, e a minha é sextilha, porque tem seis versos. Em os cordéis que eu estou fazendo agora, com meu companheiro Guy, a gente tem usado muito a quadra e outras formas de rima, o oitavão, a septilha ... e vamos brincando. Uma vez também a gente fez com os meninos um desafio de rap contra cordel, no Teatro Vila Velha. Foi a partir daí que percebemos que os dois tinham valores que podiam se complementar. Em o final do desafio chegamos à conclusão que, apesar de um ter esculhambado o outro (risos), os dois são cultura popular, tanto o rap quanto o cordel e os dois têm seu devido valor e são bonitos do jeito que são. Então é melhor se unir do que duelar. Em o final, todo mundo ganhou ... Danilo: Eu acho que para à Sussuarana essa fusão só tem a contribuir, a somar idéias positivas tanto do cordel como do rap, para trabalhar idéias de desenvolvimento para o bairro. Quando apresentamos um cordel ou um rap pra uma criança, a idéia é que ela não precise entender «o contexto mundial, num sei o quê», mas sim entender que tanto o rap quanto o cordel querem mostrar o bairro, falar pra as pessoas quem são elas, que existem outros lugares no mundo pra se ir, outros espaços, que existe o livro ... entendeu? Não só o que está fechado ali. Sérgio: Nosso maior fator de identificação ... na verdade são vários fatores: primeiro por conta da própria história do bairro da Sussuarana, que é formado por mais ou menos 85 % de pessoas que vieram do interior, migraram pra cá e vão se pipocando nas periferias. E ai, quando a gente apresenta o cordel lá, a identificação é incrível, porque eles já viram aquilo no lugar de onde elas vêm, no interior. Chegam lá dizendo «ah, meu pai falava muito sobre isso de cordel» e tal. E o rap é uma coisa mais urbana e eles se identificam pra caramba. Então essas duas coisas se agregam rapidinho. Outro fator é que, tanto o cordel quando o rap são literaturas marginais, queira ou não, ficam marginais na sociedade, não têm a valorização que merecem. De uns anos pra cá, nos nossos eventos de rap, que é o «Hip Hop na Onça» [Festival anual organizado na Sussuarana], a gente já vem com provocações com o cordel. Em o ano passado eu fui o mestre de cerimônia e toda vez que eu entrava, recitava um cordel, como se fizesse parte do show. Ora, uma festa de hip hop todo mundo imaginava que só ia ter rap, dj, break e graffiti e ai chega eu sempre pipocando um cordel (risos). E ai foi ficando meio que como esse quinto elemento. Agora todo Hip Hop que a gente fizer, vai ter cordel. Danilo: A gente bebe na fonte do cordel, que a gente considera o avô do rap. E o nosso rap evoluiu pra caramba depois que a gente começou a ler mais cordel, a vivenciar as oficinas com Sérgio, então um ajuda o outro. Vânia: Massa, gente. Acho que a galera vai curtir esse papo. Eu queria dizer, inclusive, mas uma vez, que sou fã de vocês. Danilo: Êa! Sérgio: Vai pipocar! ( Número de frases: 97 risos) Passar por o Piauí e não comer pelo menos um prato à base de bode ou carneiro é tido como sacrilégio. Algo assim como estar na Bahia e não experimentar um acarajé ou ir ao Pará e não tomar um açaí. As carnes de caprinos e ovinos são a base da alimentação de boa parte dos piauienses, pois além do preço ser bastante convidativo devido à abundância de criações no Estado, é uma carne saudável, com baixos teores de gordura, e rende pratos extremamente saborosos, que vão desde uma simples farofa com pedacinhos de bode frito, passando por o risoto de carneiro e chegam ao refinado cordeiro ao molho de vinho, influência da culinária européia. Para celebrar toda a paixão dos piauienses por esta culinária típica, o Sebrae, em parceria com diversos restaurantes de Teresina, organiza todos os anos o Festival Gastronômico de Cabritos e Cordeiros. O festival tem obtido um sucesso crescente ano após ano, e hoje já se enquadra no rol dos mais importantes acontecimentos culturais do Estado, atraindo centenas de apreciadores desses pratos, inclusive de outras cidades. Em esse período, difícil é chegar num restaurante participante e encontrar mesas vazias. Os chefs de cozinha, por sua vez, estão se esmerando em inventar receitas inusitadas, como o acarabode, um acarajé recheado com carne de bode. Pizzas de carneiro também são ousadias aprovadas por o público, sem falar na diversidade de guarnições para acompanhar os pratos, como os molhos de coco ou manga. O mais interessante é que participam igualmente do festival gastronômico os restaurantes chiques, como os dos hotéis cinco estrelas, caso do Rio Poty Hotel e do Metropolitan Hotel, e os botecos e restaurantes populares, como o Bodódromo, a Pizzaria Norte -- que apresentou em 2005 uma inusitada pizza de estrogonofe de carneiro -- e a Churrascaria Brisa Leste. Todos com sua dose de criatividade e aquele tempero especial que cada um alega ser único. O Sebrae quer incentivar a criação e degustação de novos pratos utilizando a carne de caprinos e ovinos, que é gostosa, saudável e mais barata que a carne bovina, como uma forma de alavancar o turismo no Piauí. E por o nível de envolvimento dos restaurantes, parece que a coisa tem funcionado a contento. «O mais estimulante em tudo isso é sentir a satisfação dos empresários, dos chefs de cozinha, com os resultados desse festival, em especial, com o concurso de pratos. Além de motivarmos esses profissionais, incentivamos o consumo desse tipo de carne, garantimos um incremento da renda e promovemos o turismo», avalia o superintendente do Sebrae no Piauí, Trabulo Júnior. O público agradece. «Adoro carneiro, e durante o festival, é a hora de provar as novas receitas, que são sempre de dar água na boca», diz a publicitária Beatriz Ferraz. Em 2005, o prato vencedor na categoria Cozinha Nacional foi o Carneiro ao Molho de Côco do Restaurante Longá, receita da chef Maria do Carmo Alves de Oliveira, que ficou orgulhosíssima com a premiação. «Este prato é um dos mais tradicionais da culinária piauiense, o carneiro é cozido no leite de côco e servido com pirão, arroz branco e uma salada verde. É um dos mais pedidos do restaurante e acho que agora, depois do prêmio, vai ser ainda mais valorizado». Em a categoria Cozinha Internacional, o restaurante Confraria Uchôa levou o primeiro lugar com o exótico Entrançado de Carneiro ao molho Teryaki, criado por a chef Carmen Lúcia Lima. O prato é servido com molho agridoce, arroz e salada e conquistou o corpo de jurados, formado por jornalistas, culinaristas, empresários do setor de ovinocaprinocultura e profissionais liberais. O proprietário do restaurante, Carlos Henrique Uchôa, comentou que ganhar o prêmio por a segunda vez (também foi vencedor em 2004, na mesma categoria), valoriza o estabelecimento e aumenta a auto-estima da equipe. Além dos vencedores, mereceram destaque, na opinião do público, por o sabor e por a apresentação, o Carneiro Seco com Arroz, do restaurante Elmo, e o Carré Francês de Carneiro, do Matisse. Durante o Festival, o Sebrae aproveita para dar orientação sobre novas formas do tratamento da carne dos cabritos e cordeiros, principalmente como elaborar pratos utilizando os conceitos das receitas já consagradas no Piauí. Por o tilintar dos talheres, tudo indica que o Festival ainda vai dar o que falar. Número de frases: 25 E o que provar. Convergência e tecnologia aumentam a comunicação e facilitam golpes eletrônicos Pergunte a um morador de Queimadas (BA, 300 km ao norte de Salvador) onde é que se pode ver e-mails. Ele apontará a Casa Cyber, na rua principal da cidade de 10 mil habitantes. Lá, não se faz ligações interurbanas. «Temos só o Skype», informou o atendente. Em uma sala ampla, doze máquinas são ocupadas por esparsos indívíduos jogando games, teclando nos programas de mensagens ou, se você olhar bem, recebendo de volta os dados criptografados da sua conta no banco. A Junta Comercial do Estado da Bahia contabiliza mais de mil lan-houses no estado, mas desconfia de que possam existir mais -- como as bibocas com um computador e uma máquina de xerox. Há quinze anos, elas não existiam. São lugares como estes que estão democratizando o acesso à internet no Brasil. Em a capital Salvador, é fácil encontrar cibercafés nos bairros periféricos. Antigos donos de fliperamas converteram-se às novas tecnologias e até disputam espaço na Avenida Suburbana, que liga o centro de Salvador aos bairros populosos em Pirajá. O crescimento dos golpes na internet é uma das facetas dessa evolução, e traz à tona questionamentos sobre o potencial inerente em programas como o que o governo federal ensaia atualmente. Com base em pesquisas do Laboratório de Mídia do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e encabeçado por Nicholas Negroponte, foi criado o projeto do PC de US$ 100, com o lema de «um laptop por criança» -- um tipo de acordo gigantesco entre diversos fornecedores de equipamentos para baratear ao máximo ocusto da engenhoca, que pode ser energizada com uma manivela. O objetivo de Negroponte e seus colegas é baratear o acesso à informática em países do terceiro mundo. O Brasil estuda adquirir tais máquinas em escala industrial para distribui-las na rede pública de ensino. Durante um evento anual de voluntariado na escola de uma fundação bancária em Cajazeiras, no 1 de março deste ano, Uéslei Santos, 10 anos, explica como é que o negócio funciona. «Eu vou uma vez por semana na lan-house que fica na rótula (cruzamento). Geralmente no sábado. Custa R$ 2 a hora. Jogo games, warcraft, Cs, entro em chat», diz, enquanto espera na fila para a oficina de informática oferecida gratuitamente. Legislações municipais e estaduais já regulamentam a instalação de lan-houses, enquanto uma proposta de emenda constitucional está tramitando por a câmara dos deputados, sem muita pressa. A lei foi proposta por um deputado paulista, onde foi criada a primeira Associação Brasileira de Lan-house e Cibercafé, e prevê a identificação obrigatória dos usuários, junto com outras medidas como proibir a venda de bebidas ou cigarros. Número de frases: 25 Atualmente, a maioria das casas não cobra identificação dos usuários, embora o Sebrae já ofereça um pequeno manual sobre como abrir um cibercafé e o apresente como uma «oportunidade de negócio». A animação cearense «Vida Maria» expõe, com crítica e poesia, um sério problema da educação no Brasil Nem a chuva, nem o vento que soprava na ilha de Vitória impediram que o público capixaba lotasse o Teatro Glória na última noite do festival de cinema mais esperado do Espírito Santo. Como nos outros anos, ficar em casa e perder uma programação tão variada do 14º Vitória Cine Vídeo -- para nós tão órfãos de cinema de qualidade -- seria, no mínimo, deixar o sonho da sétima arte ainda mais longe dos nossos olhos. Entre as produções, vindas de 13 estados brasileiros, a animação cearense «Vida Maria», de Marcio Ramos, comoveu o público que não poupou aplausos, gritos e assovios -- tanto foi o sucesso, que o curta levou o prêmio do júri popular, juntamente com a produção capixaba» Touro Moreno, de Juliano Enrico». Em meio à árida paisagem nordestina, debruçada na soleira da janela, a pequena Maria José se distrai «desenhando», numa folha de papel, o seu nome, a única coisa que sabe escrever, diante da imensidão de palavras e conhecimentos que o mundo lá fora, além daquela estreita janela, pode lhe oferecer. Mas, enquanto a pequena Maria reescreve seu nome, a mãe a obriga a deixar os estudos e ir para o quintal «procurar o que fazer». Com isso, fecha-se a janela para um mundo que Maria jamais descobrirá. A pequena cumpre a ordem da mãe, vai ajudar nos serviços da casa. O tempo passa, Maria José cresce, casa-se, tem filhos ... e a história se repete. Agora é ela quem impede que a filha, Maria de Lurdes, desenhe seu nome à soleira da janela, pedindo que a menina a ajude nas tarefas da casa. A menina deixa seu caderno e vai fazer o que pede a mãe. E a história se repete ... Permeada por um leve humor -- observado na fala, nos movimentos, e na vida simples e cíclica das personagens, a cadência triste da trilha sonora, de Herlon Robson, revela que o problema da falta de continuidade dos estudos, da evasão escolar e da conseqüente falta de oportunidades futuras, atinge Maria de Lurdes, Maria José, Maria de Fátima, Maria da Conceição, Maria das Dores e tantas Marias e Joões por o Brasil afora. O curta, com pouco mais de oito minutos, expõe uma triste realidade que não é só vivenciada por crianças do Nordeste. Em todo o país, todos os dias, há meninos e meninas que deixam de ir à escola, embora no interior e nas periferias as condições sociais acirrem ainda mais essa bruta realidade e faz com que a idéia de um Brasil mais justo, conquistado por uma educação de qualidade a todos os cidadãos, pareça ainda mais distante. O curta, de roteiro aparentemente simples, sem muitas artimanhas, é criterioso com a linguagem poética e não poupa seqüências em que a câmera «esconde» e revela, na hora certa, o que é inerente à história contada: um ciclo que, como tal, cristaliza uma realidade que assusta, mas que ainda passa despercebida aos nossos olhos; seja porque não vemos, seja porque fingimos desconhecê-la. Número de frases: 20 Durante um bate papo com meu amigo Guilherme Gonser, sujeito engajado da cena musical / independente de Belo Horizonte, discutimos um pouco sobre o conceito de «música independente». Eu tinha bem claro para mim que o termo deveria se aplicar apenas ao pessoal que estivesse fora do «esquemão» das grandes gravadoras, enfim, àqueles que dependem única e exclusivamente dos próprios recursos para produzir o seu trabalho artístico. Repensei essa idéia depois que o Guilherme me mostrou o piloto de um programa de rádio, que ele está desenvolvendo, cujo tema central é justamente o assunto em pauta neste texto. Em o programa, duas figuras importantes do cenário músical em Minas discutiam o assunto: Um de eles é o Leandro Ferrari, músico que conhece de perto a indústria mainstrean e o Claudão, dono do bar «A obra», um dos principais redutos da cena independente de BH (e do Brasil, sem exageros). O Claudão definiu o termo de uma forma que eu não havia pensado antes. Para ele o artista pode ser considerado independente desde que realize a concepção do seu trabalho de uma forma autônoma, sem forçar a barra para se encaixar no mercado, e isso pode ocorrer mesmo estando num grande selo. Definir o termo a partir daí abre parâmetros mais amplos e precisos de avaliação, já que o importante é a forma do trabalho realizado, e não os meios de distribuição e divulgação, pelo menos é assim que eu enxergo a coisa. Alguns exemplos clássicos: Chico Science e Nação Zumbi estavam na Sony durante os anos 90, e nem por isso deixaram de realizar seus trabalhos da maneira que achavam correta. Tem ainda, Marcelo D2 e cia, nos bons tempos do Planet Hemp, e o que dizer então do Cordel do Fogo Encantado? Gosto de pensar na independência por este lado da postura do artista em «brigar» por sua liberdade criativa. Por outro lado, é pertinente indagar até que ponto essa «liberdade criativa» é possível quando se está irremediavelmente atrelado ao mercado da música. Mesmo olhando a coisa a partir desta ótica, considero as observações do Claudão muito válidas. Noto hoje que muitos selos perceberam que dar liberdade ao artista é algo que pode ser perfeitamente colaborativo para o sucesso comercial da empreitada, e não um impecílio como se imagina comumente. A lição partiu dos próprios artistas e selos independentes que vêm surgindo nos últimos tempos. A gravadora Trama, de João Marcelo Bôscoli foi o primeiro selo independente do Brasil a conseguir uma colocação firme no mercado fonográfico. Não cabe aqui discutir os fatores que influenciaram no resultado positivo do selo, o importante é perceber o quanto vêm se tornando cada vez mais viável a produção de uma música compromissada única e exclusivamente com a arte em si e com o público (não necessariamente com a massa). A própria forma de «consumir» música hoje em dia contribui para essa reconfiguração. A possibilidade dos artistas divulgarem seus trabalhos através da web fez com que as gravadoras perdessem o posto privilegiado que ocupavam em outros tempos, quando constituíam a única possibilidade de escoamento para a produção musical. Enfim, os tempos mudaram e ser «independente» não é mais uma questão de estar alijado do grande mercado fonográfico, trata-se de uma determinada postura, uma forma de encarar e construir o trabalho de uma maneira que se possa chamar de «autêntica». Número de frases: 21 Roger Deff é rapper, estudante de jornalismo e colaborador da revista de humor e cultura " Jararaca Alegre " Subverter tudo, construir tudo ( ...) Ocasionar o caos, organizar a construção. O que os artistas têm a dizer? Leonardo da Vinci tratou de deixar tratados para as gerações posteriores, inclusive um sobre a pintura que influência o gosto de muita gente, ainda em nossos dias. Mas, se a prática moderna nos deixou acostumados a ter somente críticos falando dos trabalhos dos artistas em catálogos, jornais, e outros veículos, isso não quer dizer que artistas sejam apenas habilidosos executores ingênuos de objetos geniais. Ao contrário, o fazer artístico se aproxima do que, nas «Teses sobre Feuerbach», Marx diz ser a» atividade revolucionária», «atividade crítica-prática». E se conhecemos a parte prática da arte, é a teoria / crítica que lhe dá suporte que a Editora Jorge Zahar traz à tona com o lançamento do livro Escritos de artistas -- anos 60/70, organizado por as historiadoras Cecilia Cotrim e Glória Ferreira. O livro reune 51 textos (na grande maioria inéditos em português) assinados por 2 grupos e 46 artistas, de nacionalidades distintas, que são expoentes dessa geração: Ad Reinhardt, Richard Serra, Joseph Beuys, John Cage, Victor Grippo, Paul Scharits, Robert Smithson, ou brasileiros como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Grupo Rex, Artur Barrio, Paulo Bruscky, entre outros, tomam parte na publicação. Os textos escolhidos (garimpados como ouro e publicados na íntegra) tratam de temas variados que vão da relação entre arte e política à definição do próprio termo «arte», passando por as intenções dos artistas e seus processos de produção. E o resultado? Talvez seja o que Glória Ferreira identifica no prefácio: artistas se arriscando no terreno da crítica e a revelação do embate dos produtores com outros agentes do circuito. Talvez seja o registro histórico do pensamento artistico de uma época. Talvez seja a História da Arte escrita por a ótica do artista ... Mas talvez seja o complemento que faltava para a arte ser entendida como atividade revolucionária, capaz de provocar mudanças de comportamento. Em o item 6 do «Esquema geral da nova objetividade», texto publicado na coletânea, Hélio Oiticica conclama essa mudança de costumes, e, para isso, ele diz que não basta» apenas martelar contra a arte do passado ou contra os conceitos antigos ( ...) mas criar novas condições experimentais, em que o artista assume o papel de proposicionista ou empresário ou mesmo educador». John Cage vai por um caminho próximo: em «O futuro da musica», diz que não é mais possivel discriminar o» barulho», e que " tudo é válido. Entretanto, nem tudo é tentado». E se a especulação de Cage e as proposições de Hélio Oiticica não forem de todo convincentes, o titulo do texto transcrito da palestra que Beyus fez na Itália indica a confirmação da última hipótese. Para Beuys, «A revolução somos nós!», e ele afirma que quando o homem quer» mudar as condições de seu mau-estar «começa a mudar por a esfera cultural, pelo modo de pensar, e que» só a partir desse momento, ( ...) será possível pensar em mudar o resto». Mas que ordem de afinidades poderíamos eleger entre a experiência da escrita desenvolvida por artistas que trabalharam no período delineado por a grade histórica dos anos 60/70 e as proposições atuais? A pergunta é feita no posfácio por Cecilia Cotrim, a partir do enunciado de Antonio Manuel, quando este explicava que o» ... bode é de ' bode ', e também de ' body arte '». Se tentasse responder esse questionamento aqui daria bode, poderia estar sendo reducionista, e são os artistas da nossa geração que provavelmente responderão. Mas aproveito a liberdade poética que Cecilia demonstra na sua análise para dizer que " as palavras dão carne à imagem-tempo, dão carne ao bode e à (ao?) body, e também uso as palavras de Antonio Manuel para dar titulo à este texto, de um depoimento sobre as «Urnas quentes, em outubro de 1968», e bem que as autoras também poderiam colocá-las como sub-titulo dessa obra ... Por Arthur Leandro, artista e historiador incidental. Número de frases: 32 Alguém já disse que todo autor escreve sempre o mesmo romance durante toda a sua vida, ainda que o publique com vários títulos. A escrita teria, assim, qualquer coisa de re-escrita, de retorno aos mesmos temas. Aceitemos ou não a regra geral, o escritor amazonense Milton Hatoum não parece ser uma exceção: sua última novela, Órfãos do Eldorado (recém lançada por a Cia. das Letras), retoma motivos ficcionais presentes em Relato de um certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte: a família-impossível, a orfandade, a incomunicabilidade, a experiência ambígua da memória. Se nas três obras anteriores Milton Hatoum já explorava os aspectos culturais da região Norte, em Órfãos do Eldorado, o autor elabora um material ficcional no qual o cenário, ou melhor, a semântica simbólica desse cenário é, por assim dizer, o principal esquema de estruturação da narrativa. Hatoum consegue um feito: sua novela está longe de ser provinciana, regional-ista; ao contrário, há, na obra, um efeito que costumamos encontrar nos grandes livros: o movimento do particular para o universal. E essa transição do individual para o coletivo se realiza por meio do mito. A história é narrada por Arminto Cordovil que, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada por a morte: «Até hoje recordo as palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu». Criado por o pai, que parece lhe culpar por a morte da esposa, ele mais parece um bastardo do que um filho legítimo; é, pois, duplamente órfão. Quando herda as propriedades e a empresa do pai, Amando Cordovil, grande capitalista que fez fortuna durante o Ciclo da Borracha, Arminto se mostra sem capacidade e sem disposição para administrar a herança, o que o conduz do luxo à pobreza. Seu amor por uma índia-orfã, Dinaura, não só não se concretiza como o faz delirar; aos poucos, o sonho se torna uma espécie de obsessão: «passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas, mas que pareciam tão vivas que me davam medo». Arminto, então, começa a desejar ir para outro lugar, para um " Paraíso: «Vou embora para outra terra, encontrar uma cidade melhor. Para onde olho, qualquer lugar que o olhar alcança, só vejo miséria e ruínas». Interessa-me, aqui, esse desejo, a crença de que há outro lugar, uma cidade encantada, o Eldorado, no qual se pode viver sem «miséria e ruínas». É por meio dessa esperança mítica que a novela projeta-se como narrativa universal. O Eldorado de que nos fala Hatoum é, portanto, muito mais uma sedução coletiva do que uma lenda amazônica. Não por acaso, num posfácio, um tanto quanto ambíguo e borgiano, o autor (?) comenta: " percebi que o mito do Eldorado era uma das versões ou variações possíveis da Cidade Encantada, que, na Amazônia, é referida também como uma lenda. Mitos que fazem parte da cultura indo-européia, mas também da ameríndia e de muitas outras. Porque os mitos, assim como as culturas, viajam e estão entrelaçados. Pertencem à História e à memória coletiva " (itálico do autor; neg. meu). Essa relação do mito com a História (com H maiúsculo) sugere uma indefinição entre fato e ficção. Indefinição que poderia chamar, para falar com L. Hutcheon, de metaficção historiográfica, isto é, uma novela que problematiza a História e a ficção como criações humanas -- não cabem, portanto, os critérios de verdadeiro ou falso. Isso significa que a lenda não é assumida como uma narrativa mentirosa; o que difere, por exemplo, os retirantes que migram em busca de outra vida, e a índia que se atira no fundo do rio, a fim de encontrar o Eldorado? Não se trata, porém, de percorrer o caminho inverso e idealizar o mito, como uma narrativa verdadeira. Juntamente com o mito, a novela apresenta o anti-mito, isto é, a ruína e o abandono: «E silêncio. Aquele lugar tão bonito, o Eldorado, era habitado por a solidão». Em um dos trechos mais belos da novela, a esperança no Paraíso é desconstruída: «Porque, se fores embora, não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular por as mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar». Desfazem-se, portanto, os abrigos que a narrativa mítica pode oferecer; o mito é universal, mas o sofrimento é individual -- ainda que possa ocorrer em escala social. Em Crime e Castigo, um bêbado afirma que a diferença entre a pobreza e a miséria é que na primeira sempre se tem um lugar para ir, na segunda, não -- e todo homem, por mais pobre que seja, sempre precisa de algum lugar para ir. A novela de Hatoum figura, nessa medida, como o relato de um miserável: quando não há para onde fugir, pode ser que já seja tarde para buscar a fuga. Mário de Andrade (?) Em determinado ponto da trama, encontramos uma referência a uma visita que um escritor paulista teria feito ao Amazonas, em 1927: " Uns anos depois, quando quatro turistas paulistas passaram por Vila Bela, ganhei um dinheirinho. Três mulheres e um homem. Escritor. ( ...) O escritor puxava conversa com todo mundo: índios, caboclos, artesãos e compositores de toadas.». Referência à viagem que Mário de Andrade fez ao estado. Claro, não convém acreditar que o escritor viajante é Mário, mas a referência ali está, justamente, para lembrar ao leitor que lendas não são necessariamente não-Históricas, ou que a História é, também, ficção, como disse acima. Ainda em tempo: interessante observar -- e fica a observação como uma provocação para uma pesquisa futura -- que, no modernismo de Mário ainda havia um «para onde ir». A crença no mito da nacionalidade sinalizava um Eldorado. Norte e Sudeste são para o poetas amalgamados por o nacional Descobrimento [1] Abancado à escrivaninha em São Paulo Em a minha casa da rua Lopes Chaves De supetão senti um friúme por dentro. Fiquei trêmulo, muito comovido Com o livro palerma olhando pra mim. Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! Muito longe de mim Em a escuridão ativa da noite que caiu Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos Depois de fazer uma pele com a borracha do dia Faz pouco se deitou, está dormindo. Esse homem é brasileiro que nem eu! Essa alegoria do nacional com a força de um mito acreditável também aparece plasmada no seu «O Poeta come amendoim», por meio do olhar atemporal e imemorial da voz poética: «Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer ...». Um Brasil que no, sonho do poeta, é quase uma " Cidade Ecantada: Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, / porque é o meu sentimento pachorrento, / porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, / de comer e de dormir " [2]. [1] Andrade, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993, p. 203. [2] Idem, p. 65 Número de frases: 84 Esse texto foi originalmente publicado no site TodoTexto Em primeiro lugar não acredito que essa peleja seja necessária, mas se for para o crescimento do mercado da música independente no Brasil, deveríamos antes de tudo definir as regras do jogo, coisa que não parece ser o que a realidade nos apresenta. A importância dos muitos Festivais de Música Independentes no país hoje, não pode e nem deve ser ignorado por ninguém. Quanto as Feiras de Música, também independentes, é tão importantes quanto, não se pode dizer o mesmo. Tiramos isso por o acontecido com a FMI -- Feira da Música Independente Internacional de Brasília, que perdeu o patrocínio da Petrobras. Sabemos que esse tipo de retirada de patrocínio de um evento onde a empresa já apoiava desde sua primeira edição não é uma normalidade para nossa gingante do petróleo e da cultura. Ora, isso só pode acontecer se realmente for uma mudança de política na gerência de patrocínio. E é aí que começa o jogo. Não estou aqui para advogar a favor ou contra Feiras e Festivais, e sim buscar o entendimento desse novo cenário. Vejamos: primeiro temos os Festivais. Uns grandes, uns pequenos e muitos invisíveis. Esses festivais se especializam em mostrar o que tem de especial na música contemporânea brasileira. Embora a maioria se defina como festivais de rock, com direito a todas as infinitas vertentes. Festivais têm como formato um modelo muito simples, um, dois, três ou mais palcos, dependendo do poder financeiro de cada festival, uma programação que varia entre atrações de peso para garantir a maior presença de público, atrações peso pena e outros grupos ascendentes. E assim vinha rolando a pelota. Por segundo temos as Feiras. Que no Brasil só existia para a área de instrumentos e equipamentos musicais. Estou falando da Expo Music, maior feira do gênero na América do Sul que se realiza anualmente em São Paulo. A partir de 2002 passamos a ter em Fortaleza, uma feira de música voltada para à cadeia produtiva da musica como um todo. Com direito a pavilhão para expositores, conferência internacional e uma programação artística dividida nos diversos gêneros musicais. Fora do eixo esse evento entra em 2008 na sua sétima edição. Mas não parou por ai não. Veio logo em seguida (2005) a Feira em Brasília, também com formato semelhante e no ano passado (2007) veio a Feira Música Brasil realizada em Recife com iniciativa governamental e um montão de milhão bem grande. O que acontece com os festivais agora? Aos poucos estão adaptando seus modelos de forma que passem a ter também outras atividades além das apresentações artísticas, como por exemplo feirinhas da música, debates, palestras, cursos, etc. mudança que me parece saudável. O que acontece com as Feiras agora? Aos poucos estão desaparecendo. Como são muito poucas, apenas três, será muito fácil ainda esse ano não termos mais nenhuma feira de música no Brasil. Basta não acontecer a Feira da Música de Fortaleza que está prevista para agosto, pois a Feira Música Brasil já havia cancelado a edição 2008, a FMI em Brasília acaba de anunciar adiamento sem definir data. Essas sim são mudanças que de forma nenhuma me parecem salutar. Será que é uma boa política para a cadeia produtiva da música, acabar com os eventos em formato de feiras? Será uma boa política para a música transformar festivais em feirainhas? Ou a melhor política é transformar as Feiras em Festivais? São dúvidas sem dúvida! Número de frases: 35 Ize: Léo, você poderia se apresentar? Leo: Meu nome é Leonardo Azevedo, ainda que todo mundo me chame de Léo -- e isso inclui vc ... Eu tenho 28 anos e me formei como professor e pesquisador em História e Geografia. Cursei História na Federal, UFRJ, e Geografia na UERJ, que é para onde eu retornei há pouco para cursar o Mestrado e nós nos encontramos. Ou melhor dizendo: eu tive a felicidade de encontrar você. Bom, continuando, antes disso eu fiz uma Pós-gradua ção em «Políticas Territoriais», ainda na Geografia, e atualmente eu faço Mestrado em Educação. Atuo como professor, dou aula de História e Geografia há seis anos, e isso é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Há cerca de dois anos, um pouco mais, montei um estúdio e comecei a trabalhar na área de quadrinhos, mais especificamente mangás ... Em a verdade fazer quadrinhos sempre foi um desejo muito presente e que eu sempre tive que adiar. Mas agora que as coisas melhoraram um pouco finalmente se tornou possível investir um pouco nesse lado. A tecnologia facilitou bastante toda essa coisa. Então hoje é basicamente isso: aulas, pesquisa e mangá. Ize: Sem rasgação de seda, a felicidade foi recíproca. Não só porque você é um cara super legal, mas também porque a coincidência de ter encontrado um orientando que é também leitor de mangá veio muito a calhar com meu interesse atual de pesquisa, que é o de investigar os sentidos que crianças e jovens produzem sobre produtos da Indústria Cultural. Por falar em mangá, você poderia explicar o que é isso? Leo: O mangá é um estilo de arte sequencial oriental. Suas origens remontam à China, mas é no Japão que eles realmente ganharam força e popularidade, principalmente depois de 1967, com a criação de «A Princesa e o Cavaleiro», do autor Osamu Tezuka. Foi através de ele que o mangá ganhou as características que conserva até hoje, como por exemplo: a opção por o uso de grandes e diferentes olhos nos seus personagens, para maior expressividade; o uso de linhas de movimento para transmitir maior dinamismo nas seqüências de ação; o uso de planos mais abertos, com paisagens detalhadas, e closes muitos próximos, ambos com o intuito de destacar uma dada situação; e também o uso de páginas em preto e branco. Tradicionalmente, a leitura é feita de trás para frente, da direta para a esquerda, devido à forma da escrita japonesa. Ize: E como surgiu seu interesse por o mangá? A que vc atribui o fato desse interesse permanecer até hoje? Leo: Puxa! O mangá surgiu na minha vida quando eu tinha uns dezesseis anos, muito mais por curiosidade que por qualquer outra coisa ... Eu curtia anime, sabe? Desenho animado japonês e o realismo fantástico presente nessas histórias sempre me deixou bastante impressionado ... Eu tenho esse lance de ler revistas em quadrinhos desde muito pequeno. Eu tenho um irmão mais velho, Marcelo, ele é oito anos mais velho, e foi meio que por ele que eu fui apresentado a certas coisas que eu curto até hoje, e levo bastante a sério, como quadrinhos e rock and roll. O meu irmão foi sempre um cara muito esclarecido e ele soube envelhecer sem abandonar certos prazeres, sabe? Tem gente que depois de um certo tempo abandona alguns hábitos por eles perderem o significado de antes. Bem, meu irmão fazia Mestrado em Física e ainda lia «Homem-Aranha» ... Isso me fez sempre encarar os quadrinhos com outro olhar. Nós líamos muito comics americanos lá em casa. Lembro que tínhamos pilhas e pilhas de «Homem Aranha ' e» X-Men» ... líamos «Batman»,» Liga da Justiça», Demolidor e várias graphics novels. Essas revistas estão guardadas lá em casa até hoje. Minha mãe nunca se importou, afinal nós estávamos lendo e ela entendia isso como algo bom ... posso dizer hoje que ela foi bastante sábia e eu sou muito grato a ela por isso. Com treze anos eu li «Cavaleiro das Trevas», Batman: Ano Um» e capotei! A revista era demais ... Aliás, estas revistas São demais. Eram quadrinhos bem diferentes dos outros. Novelas gráficas como «Watchmen», do Allan Moore, e» Reino do Amanhã», do Mark Waid, sempre marcam os leitores dos comics tradicionais -- e muitas vezes os não leitores habituais também! São histórias muito boas ... Você só encontra uma narrativa parecida com essas nos mangás. Quando eu assistia animes -- desenho animado japonês -- eu sempre pensava «deveriam fazer um anime dos X-Men ...». E eu não estava errado. Hoje o que a gente vê é cada vez mais os quadrinhos americanos absorvendo elementos do mangá e da estética de «contar histórias» como é lá no Japão. Em o início da década de 1990 houve um grande boom de quadrinhos e RPG aqui no Brasil. Em esse contexto começaram a rolar vários animes e os mangás começaram a aparecer em algumas livrarias especializadas ... Foi nesse momento que eu descambei para os mangás. Eles apresentavam uma narrativa de qualidade, intensa, com histórias -- na maioria das vezes -- interessantes e foi assim que aconteceu. E fiquei impressionado com a seriedade com que a coisa era contada. Ize: E o que levou você a passar da condição de leitor de mangá para a de produtor de mangá? Como é possível para um jovem brasileiro como você produzir essas HQs tão identificadas com a cultura japonesa? Leo: Essa é uma história meio longa ... Com 16 anos eu comecei a jogar RPG. E RPG é um negócio que quando cai na mão certa você já viu? Vicia Mesmo! Se tratando de um grupo de moleques que curtiam quadrinhos e videogame é meio que infalível ... O RPG é um hobby que me acompanha até hoje. Em o começo eu tinha um grupo de mais cinco amigos que jogavam com mim, mais o meu irmão -- outra vez ele!-- que era o Mestre do jogo -- o Mestre é tipo um cronista que narra a história, propõe uma situação, uma aventura, na qual os demais jogadores interagem e aí rola o jogo. Por causa do meu irmão, que é mais velho e já tinha lido uma penca de coisas, a qualidade dos jogos era realmente muito, muito boa. O comprometimento de alguns jogadores também contribuiu bastante para isso. Não demorou para eu perceber que aquelas histórias eram bastante legais e se fossem devidamente repensadas e trabalhadas elas poderiam ser contadas num outro formato. Foi nesse momento, quando eu ainda tinha uns dezessete, dezoito anos que eu resolvi unir esse dois prazeres: o jogo, com aquelas personagens e a história que eu junto com meu irmão havíamos criado, e os quadrinhos, que eu tanto gostava de ler. Resolvi então quadrinizar as histórias do grupo e comecei a compilar as aventuras e repensá-las. Como fazer isso já foi algo mais difícil. Mas desde muito cedo eu sabia que deveria ser em mangá. Em a verdade, todo mundo achava impossível que um mangá fosse lançado no Brasil traduzido. Havia um domínio absoluto da Editora Abril com os comics da Marvel e da DC ... A Editora Conrad achou uma mina de ouro trazendo esses mangás para cá. Mas mesmo conhecendo os mangás só na sua versão original, naquelas lojas especializadas que já falei, eu sabia que o realismo e a forma de «contar histórias» do mangá seria ideal para eu contar a minha história. Por a sua força ... as expressões e os movimentos no mangá tornam a sua leitura uma experiência única. É como uma escola ... eu sentia que tinha que me filiar àquela escola narrativa para conseguir expressar as coisas que eu queria e transmitir a emoção que eu tive quando joguei aquela história ainda como RPG. O mangá tem isso de nos colocar como protagonistas e nos fazer falar para nós mesmos várias vezes durante a leitura: «Putz!!! Que parada anima!!!». É impressionante. Por essa razão eu acho que o lance de «ser cultura japonesa» não torna o mangá estrangeiro. Pelo contrário! A narrativa de ele envolve valores e elementos universais que quebram a monotonia. Eu sempre digo que, para um leitor de quadrinhos ou para um fã de narrativas de aventura, ler um mangá é como quando um fã de ficção científica vê «Matrix» pela primeira vez. É inovador. A estética do Matrix foi inovadora no seu momento. É tipo, como foi com Blade Runner ... só que com mais explosões (risos). Assim eu acho que eu me identifico com as histórias do mangá, porque são Boas histórias, e isso é o que mais importa. Tem porcaria também é claro! Gente querendo ganhar dinheiro repetindo uma mesma idéia sem inventividade alguma até a exaustão ... Mas acho que existe um comprometimento com a história e o «contar» aquela história que os comics já perderam. Não foi difícil me identificar. Já havia outros elementos no meu dia-a-dia que garantiam isso. Como nós bem temos trabalhado aqui na pesquisa, eu já pertencia a uma certa «comunidade interpretativa» ... ( risos). Ize: E que motivação levou você a tomar a relação do jovem com o mangá como objeto de estudo? Leo: Ora, eu mesmo. E as besteiras que a enorme maioria dos outros professores e ditos intelectuais falam acerca da cultura jovem. Falam muita besteira! Muita! Eles falam de fora com um olhar excessivamente crítico -- no pior sentido da palavra -- e nada reflexivo. Em a verdade eu sempre tive a sensação de que essas pessoas vêem apenas o que elas querem ver. É mais seguro. A escola é muito assim ... Coloca o professor na posição do «senhor do conhecimento» e afirma todo tempo que sem ele o aluno não é capaz de saber e conhecer o que realmente é importante. Os «autores eleitos» entende? Besteira! Aprendi na escola várias coisas inúteis, que não tiveram nenhum significado para mim. E não estou falando do sentido utilitário da coisa não. Estou falando de significado. Muita coisa eu aprendi sozinho, por o meu próprio interesse, por as coisas que participavam do meu universo. Ou você acha que meus professores de história fizeram eu me apaixonar por a carreira? Eu devo isso ao Indiana Jones e ao RPG (risos). Eu deveria mandar um agradecimento ao Spielberg (risos). Em a verdade eu tive alguns professores que me ensinaram coisas importantes, mas foi com o seu exemplo, seu ideal e dedicação. Foi com as palavras que eles dividiram com mim e me fizeram pensar além. Foi isso que me fez querer ser professor. Eu queria fazer a diferença. Ninguém é idiota por ter dezesseis anos e curtir mangás. Eu não era e sei que ninguém é. Eu sabia exatamente a profundidade das coisas que eu ouvia. O que merecia atenção ou não. Por isso eu jamais subestimo meus aprendizes. Eu tive muitos, muitos professores ruins. Profissionais -- se é que eles merecem ser chamados assim -- que sabem muito -- pelo menos têm muitas informações acumuladas -- mas não sabem transmitir absolutamente nada. Penso que o professor deva ser um estimulador e através de seu papel tentar apresentar para o aprendiz elementos que o cativem e que despertem sua curiosidade. Ninguém corre a corrida de ninguém! Isso é uma ilusão. A escola vive de ilusão: ela finge que ensina, o aluno finge que aprende e bola para a frente! Tem sido assim já há um bom tempo. A escola é anacrônica. Ela acha que atua na preservação da cultura sendo eternamente a mesma, mas só conseguiu com isso afastar os jovens dos livros, do aprender, da diversidade cultural existente no mundo. Eu estudo a relação dos jovens com mangá porque eu aprendi muito com quadrinhos. Eu cresci e pude vivenciar naquelas leituras valores que até então eram bastante teóricos para mim. Esse é um outro lado positivo em alguns mangás, eles não são nada maniqueístas. Acho que precisamos devolver a voz aos jovens para que possamos ser ouvidos por eles. Para que possamos lhes dizer coisas que façam sentido pra eles. Coisas que permaneçam como aquelas histórias que ouvimos quando somos pequenos e que depois somos capazes de recontar para nossos filhos. Ize: Léo tudo que você está falando é muito instigante, sabe? Encontrar um parceiro à sua altura para me ajudar na pesquisa é um privilégio. E, por falar em pesquisa, num dos nossos interessantes papos sobre esse ofício você falou do quanto somos felizes quando a «ignorância nos protege», nos dando liberdade para ver TV, assistir a filmes, ler Histórias em Quadrinhos etc, sem a» tutela " da teoria. O ingresso no mestrado mudou sua posição de consumidor de mangá para a de pesquisador do consumo desse fenômeno de comunicação de massa entre jovens. Sua condição atual de «desprotegido da ignorância» mudou sua relação com esse produto? Como vc vê essa mudança de posição? Leo: Claro né ... ( risos) -- Rapidinho: você não esquece esse papo, hein? Olha só, eu realmente não consigo mais olhar com os mesmos olhos, afinal a coisa é muito maior do que aparenta e existem muitas outras questões que hoje habitam a mente do «Léo pesquisador» ... Mas isso não me faz Nunca olhar para outro, o cara lá de quinze anos leitor de Samurai X -- que por sinal é muito bom!-- como " Ai, coitadinho ... É um manipulado por o mercado. Consome estas porcarias e não vê o que realmente tá fazendo». Jamais! Isso seria o mesmo que cometer um suicídio! Negar tudo que me constituiu. O que mais me interessa é: eu cheguei até aqui lendo quadrinhos. Eu cheguei até aqui lendo mangá. Meu irmão se tornou doutor em física lendo Homem-aranha. Nós aprendemos com Peter Parker que «com grandes poderes vêm grandes responsabilidades». Isso em nada difere do que o Pequeno Príncipe quis dizer com seu famoso «você é responsável por aquilo que cativas». É a mesmíssima coisa! Em o final das contas é «o que você faz com aquilo que você tem e como isso se implica sobre aqueles que lhe são caros». Mas Saint Exupéry é um clássico (ou pelo menos seria se não tivesse sido banalizado como leitura favorita das candidatas a miss Brasil) e o outro não! Ah! Por favor, né ... Eu li «O Pequeno Príncipe» e muitos outros livros. O mangá não tirou isso de mim. Meus professores sim, afogados em suas certezas, me alijaram de conhecer e me reconhecer em muitos outros elementos da cultura por sua inflexibilidade tacanha. Apesar de estar em outra posição, acho ainda que ocupo um lugar privilegiado que me dá um trânsito único e uma visão bastante plural. Eu procuro pensar o mangá não apenas como um produto diretor e moldador de vontades. Eu estou mais interessado em refletir sobre o quê esse jovem tem feito com o que ele lê. Quais experiências ele tem tido? O que ele tem construído de valor que a escola não foi capaz de realizar? Eu estudo o jovem e sua relação com o mangá pra perceber como o mangá evoca, de um modo geral em seus leitores, certos sentidos e como isso tem atuado na constituição da identidade dos jovens hoje. Assim como foi com mim. Ize: Léo, a Petrô intitulou uma das nossas atas de pesquisa de «Pano pra mangá». Essa nossa conversa me deu «pano prá mangá». Principalmente porque no campo da educação, a cultura de massa ainda é considerada lixo. Muito obrigada por me lembrar que é possível «fazer história com o lixo da história». Entrevista publicada em: Passos, M.; ALVES, N., SGARBI, P. (orgs). Muros e redes: conversa sobre escola e cultura. Porto / Portugal: Número de frases: 205 Editora Profedições, 2006, p. 200-212 Imagine o seguinte: você conhece uma garota linda, e no primeiro encontro consegue levar ela para um motel. Chega lá, todo empolgado, ela começa a tirar a roupa, bem devagar. Parece um sonho. De repente, sai um cara do armário: -- Essa merece Bis, hein! Ele te mostra a caixinha do biscoito de chocolate e vai embora. Você leva um susto, se recupera, e continua. Mais adiante, atenção total na garota, ela vai tirando o sutiã, super sensual, vai mostrando as partes devagarinho, você não se agüentando, querendo ver mais, ela faz que vai mostrar e ... Te mostra uma Coca-Cola! Aí aparece outro cara: -- Por essa você não esperava, hein! Coca-Cola Zero, gostosa de verdade! E vai embora. O ensaio da Luana Piovani para a Trip de junho me fez sentir mais ou menos assim. No meio das fotos -- e até nas próprias fotos --, produtos. O único conteúdo anunciado na capa da revista é " Luana Piovani nua aos 30! Clicada por J. R. Duran». Quem conhece os dois sabe que só pode ser coisa boa. O editor da capa escolheu, arriscada e talvez sabiamente, não dar pistas sobre todo o resto do conteúdo oferecido para não manchar com letras a imagem da Luana na capa. Basta dizer que tem Luana. Nua. Quem quiser que compre. Eu comprei. Só que, chegando lá, primeiro, nua, mesmo, não tem. Mas isso não é o pior: a publicidade invadiu o conteúdo. Sem avisar, se intrometeu em tudo. Aparentemente, não há mais limite. Ou, quem sabe, a próxima vítima será a capa (que para os jornais diários já virou oferta comercial há muito tempo). Há algum tempo eu não comprava a revista, não sei desde quando isso vem acontecendo. Havia, antes, no jornalismo em geral, algumas regras sobre a separação clara entre o que se convencionou chamar de Igreja e Estado: de um lado, publicidade, do outro, jornalismo. Um não entra onde o outro está. Nem se falam. Nem se conhecem. Parece que os muros construídos para separar esses limites foram virando pontes. Onde começa e onde termina? Imagino que um anúncio bem no meio do ensaio deve render um bom dinheiro. Mas e o leitor? Compra gata e é obrigado a olhar lebre. O máximo do sadismo é o pôster central da Trip. Uma daquelas fotos de três páginas, dobradas, que quando você abre para ver ... é a Luana segurando uma Coca-Cola! E atrás, um calendário da Coca-Cola! Sacrilégio. Fico imaginando como são negociadas essas coisas. -- Vamos fazer um ensaio com a Luana! -- Sensacional! Mas tem que ser um ensaio animal! Vamos chamar um pusta fotógrafo! -- O Duran! -- Isso! Aí levam a idéia para o publisher. ( Será que ele é a ponte entre a Igreja e o Estado?) -- Hum, podemos ganhar um bom dinheiro com isso ... Ele procura o setor comercial. -- Olha, vamos fazer um ensaio com a Luana. Que que podemos fazer? -- Tem um esquema novo aí, vamos vender o anúncio dentro do ensaio. -- Mas não vai atrapalhar o conteúdo? -- Nada, e com esse dinheiro a gente faz uma edição de luxo, com papel especial. -- Legal, legal. Aí tem o ensaio. -- Isso Luana. Tira a parte de cima agora. Linda, isso. Faz biquinho. Número de frases: 67 Agora segura a Coca-Cola. Protesto contra o animal urbano que se julga superior. Divulgar as barbaridades que o homem tem cometido contra o meio ambiente nunca é demais, porque por mais que se fale e se proteste parece que sempre estamos perdendo a batalha. E de batalha em batalha estamos perdendo a maior riqueza deste planeta. Nem precisa dizer o que é ... Quando a dupla coxinense Kurikaka & Makako gravou a música «Congresso dos Bichos», percebemos uma oportunidade lúdica e muito interessante de falar sobre consciência ecológica, e o que é melhor, com uma qualidade musical e artística indiscutível. Em a última colaboração " As mais tocadas na Quartaneira (última Parte) " a postagem da música «Congresso dos Bichos» suscitou pedidos para que a letra também fosse divulgada, pois alguns overmanos e overminas queriam trabalhar com ela em movimentos culturais e ecológicos. Para quem curtiu a música e para atender a inesperada e feliz demanda, aqui vai com todo o carinho de Kurikaka & Makako e de todos os confrades da Confraria do Piau esta pérola da produção regional sul-mato-grossense. Congresso dos Bichos Vamos contar prá vocês uma história aflita De um povo que anda preocupado com a vida No meio dos campos, cerrados e pantanais Um congresso gigante no meio do mato De bichos importantes até carrapato Discutindo o convívio dos homens com animais Lá estava presente a onça pintada Tuiuiú, sucuri, a formiga, a cigarra Em um fórum de debates e assuntos gerais O falatório esquentou quando o papagaio chegou Protestando o incêndio que seu ninho queimou Hoje vive na cidade de favor O jacaré que andava relatando os fatos Disse agora meu Deus o que é que eu faço A exportação do meu couro disparou Surgiram protestos de todas as espécies Araras azuis e outros bichos campestres Contra o animal urbano que se julga superior A o final de três dias de muita euforia Estava pronto o direito que os bichos pediam Em defesa da fauna, da flora e a vida Então votaram a missão prá causar um choque Levando o decreto em forma de rock Aproximando humanos selvagens com poesia Escolheram afinal prá cantar esse fato Kurikaka e Makako que levam o rock do mato A os centros urbanos e periferia Em defesa da fauna, da flora e ecologia Em defesa da fauna, da flora e ecologia Número de frases: 39 Em defesa da fauna, da flora e ecologia Um testemunho histórico! ( exercício pessoal de vaidade) Se um dia a minha biografia vier a ser escrita, muitas pessoas poderão contribuir para, num ou outro aspecto, enriquecê-la ou, mesmo, amesquinhá-la. Mas hoje achei por bem pegar uma carona na biografia de um jovem e promissor artista teresinense, o meu amigo Edmo Campos. O fato do Edmo ser meu amigo, creiam, pouco pesa na minha decisão de escrever este artigo sobre ele. Para quem nos conhece melhor deve ser difícil acreditar nisto, visto que eu devo inúmeros favores a ele e a nossa amizade é grande e não é de hoje. Mas fiz uma análise em profundidade dos motivos que me levam a escrever sobre o Edmo e descobri que o principal tem a ver com a minha vaidade pessoal. Quando, daqui a alguns anos, superadas as indefinições de sua alma inquieta, o nosso herói tiver se firmado como um grande artista em nível nacional e até internacional, vai estar lá na sua biografia: Em 2006, Joca Oeiras já previa isto! Portanto trata-se este de um testemunho histórico! Só não sei predizer, sinceramente, quanto tempo demora para que o que estou afirmando se torne a realidade, inclusive porque vai depender muito de ele. O Edmo é uma das pessoas mais tímidas que eu conheço embora até fique difícil acreditar nesta timidez quem conhece a paixão da sua vida, a esfuziante Manu. Além da timidez, da modéstia e da Manu, outra atividade, para ele apaixonante, concorre com a sua carreira artística: A produção de shows musicais de rockn ' roll. Um dia o Edmo me disse, todo entusiasmado: -- Fui convidado para trabalhar como produtor do Teófilo *. Passados uns meses, não sei o que houve, mas, digamos que, para o Teófilo, não deu suficientemente certo. O Edmo me contou, que a certa altura o Teófilo lhe disse: -- Edmo, meu amigo, um artista, um criador, não pode ficar se preocupando com os detalhes, precisa de tempo livre para poder criar ... E o Edmo, me disse, num exercício de auto-crítica ...-- Então eu pensei: O Teófilo tem razão, eu também tenho a minha carreira artística para cuidar e não ficar me preocupando com a carreira dos outros. E a Manu lhe teria reforçado o argumento " Você não consegue segurar nem as suas pontas ..." Em aquele momento achei que a ficha caíra e que ele faria o que me tinha verbalizado: que nada! Meses depois lá estava ele novamente, preocupado com a produção do 3º Zooeira Festival, o rock no berço do Piauí. Não que eu ache que ele não deva fazer o que bem entende, inclusive promover shows de rock, apenas constato que ele não investe, como poderia (e, ao meu ver, deveria) na sua carreira de artista plástico e / ou gráfico. Eu imagino que o Pelé, desde os seis ou sete anos de idade já fosse um craque mirim reconhecido por todos, que deixava seus pequenos adversários boquiabertos. Mesmo assim, qualquer biografia do rei, podem conferir, tem lá um fulano (que eu não me lembro o nome, mas ta lá escrito o nome de ele) que o «descobriu» em 1955 ou 1956 e o levou para Santos FC. Eu quero ser este cara na biografia do Edmo. Por que este camarada, não é de hoje, tudo mundo que conhece o seu trabalho sabe do seu imenso talento e até há os que, como eu, tem-se aproveitado de ele. Ninguém, no entanto, teve, antes de mim, a idéia de descobri-lo para a fama, de colocar no papel -- Olhem bem para este rapaz que convive em nosso meio, tímido como poucos, conhecido da maioria mais como produtor do Zooeira Festival (Festival de rock e outros ritmos alternativos) do que por os imensos dotes artísticos que possui, esse cara vai longe! Quem viver verá! Beijos e abraços, do Joca Oeiras, o anjo andarilho Número de frases: 36 Saudade: Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta. Registro de um sentimento num dicionário. No entanto, ainda poderia ser acrescentado: recordação feliz e tristonha, ao mesmo tempo, de algo que ainda está acontecendo, mas que logo se acabará. Alguém pode perguntar: «saudade do que ainda nem acabou?». Pois, sim. Um incômodo cá dentro do peito, torturando a alma; lembrando para não esquecer que ano que vem tem de novo -- consolo mais que necessário: essencial. Quantos passaram por aqui ... Quantos ainda passarão? E os passarinhos, aqueles que passam sutis, deixando um registro de amor por aquilo que fazem? ... As sementes vão brotando aos poucos, uma a uma se transformando, alongando caules de experiências, galhos de sabedorias adquiridas e flores de novas esperanças dos frutos que nascem vistosos e recomeçam o ciclo de cultivar a arte nessa cidade acostumada a lidar com as frutas características da região. Em essa 4ª edição do Aldeia do Velho Chico muitas pessoas puderam presenciar a lírica delicada de Madson e Renata com o espetáculo O Palhaço e a Bailarina. Lá na Ilha do Massangano, foi maravilhoso presenciar as reações das crianças, por vezes rindo, por vezes chorando assustadas com a máscara colocada por o palhaço se fingido de bravo. O cenário era algo inédito no festival, as casinhas todas coloridas coladas umas às outras, canoas ancoradas na margem do Velho Chico e mais a frente uma agitação fora do comum: o Fuá na casa de Zé Mané, Rabecando o Gonzagão e o Samba de Véio composto por habitantes massanganos. Tantos outros espetáculos que envolveram por suas temáticas diversas, dança, literatura, artes plásticas, música, teatro, artesanato, palestras, oficinas, performances ... Tanta coisa para não se esquecer jamais! O Aldeia desse ano termina, mas sempre contínuo no coração de quem participou de alguma maneira, seja fazendo-se de anjo acompanhando os grupos, seja os que montam os cenários, e ainda aqueles que fazem sua discreta participação valer muito a pena! Parabéns a todos os que fazem o Aldeia do Velho Chico! Número de frases: 22 Projeto de uso de rodoviária inacabada custa R$ 148 mil Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007 12:03 Aline dos Santos A prefeitura de Campo Grande vai pagar R$ 148 mil à empresa Conceitos Inteligentes em Arquitetura Ltda. para elaboração de projeto de readequação das obras inacabadas do terminal rodoviário e a implantação de um centro cultural. O contrato consta na edição de hoje do Diário Oficial do município. O terreno onde está o terminal inacabado, no bairro Cabreúva, foi doado por o governo do Estado à prefeitura. Em agosto, a justiça autorizou a construção de uma nova rodoviária na avenida Gury Marques, saída para São Paulo, e a transformação da obra inacabada num centro cultural. Em a ocasião, a prefeitura apresentou ao juiz Dorival Moreira dos Santos e ao promotor Marcos Sottoriva um projeto do local, já com a ilustração de como seria o centro. A nova rodoviária será entregue ao setor privado para a construção e exploração por 30 anos, mediante concessão onerosa. Já o centro cultural, que finalmente dará um destino à obra inacabada, vai integrar o projeto Viva Morena. O projeto inclui a revitalização no entorno do trecho que era ocupado por os trilhos da ferrovia. Fonte: Número de frases: 12 Campo Grande News Depois de percorrer onze festivais independentes em todo o país, a banda aclamada por a critica especializada brasileira, desembarca em São Paulo onde realizará cinco shows Que o circuito independente rocker está em franca ascensão, isso é fato, e algumas das forças motrizes são as redes interestaduais de trabalho que tornou possível a circulação de bandas, a distribuição de produtos culturais provindos desses cenários e ainda o estabelecimento de interconexões políticas que viabilizou a formação de instituições como a Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN) ou movimentos legítimos como o circuito Fora do Eixo. Tal configuração se reflete nas diversas tours que estão sendo promovidas por bandas Brasil afora. Poucas, no entanto, foram aquelas que circularam tantos festivais independentes num só ano, como é o caso do Macaco Bong. Grito Rock Festival (MT), MADA (RN), o Campeonato Mineiro de Surf (MG), o PMW Festival (Te o), Laboratório Pop (RJ), Festival Calango (MT), Vaca Amarela (GO), Varadouro (AC), Demosul (PR), Beradeiros (RO), Jambolada (MG). Foram onze os festivais transados por os Bongs durante este 2006. Agora, no encerramento das atividades do ano, será a vez de São Paulo conhecer o som do power trio, conceituado por Gustavo Mini, da banda Walverdes como «uma tritura um monte de influências cheias de climas, paradas e viradas, comprimindo funk, metal, noise, punk e jazz», ou como preferiu Flávio Seixlack, do site» Trama Virtual, «um poderoso e inspirado trio instrumental mato-grossense que abusa de ritmos quebrados e mudanças rítmicas». Casas noturnas paulistanas serão palco das atrações que terão início nesta quinta, dia 07, no Milo Garage, em Higienópolis. Depois será a vez do Satva Bar, no dia 15, e o Oásis bar, no dia 16, onde farão show com as bandas paulistanas Ludovic e Somos. Em o dia 21, será a vez da Outs, onde os meninos se apresentaram no último maio em evento produzido por o jornalista Finatti, da Revista Dynamite. à ocasião conheceram a vocalista Pitty, que chegou a citá-los em entrevista concedida à Revista Época como uma das melhores bandas do país hoje. O derradeiro da temporada será celebrado na Belfiore, no dia 23 (vide agenda em destaque abaixo). A expectativa é que os cinco shows até o momento agendados reúnam por o mil e quinhentas pessoas. Além das apresentações, visitas a redações de veículos especializados, estúdios de gravações, e empresas de sonorização são atividades que compõem a agenda de trabalhos na terra da garoa. Autodenominados como uma banda experimental, que tem como proposta desenvolver um trabalho laboratorial, o power trio é fruto da influência do Instituto Espaço Cubo, onde todos os integrantes empreendem as forças de trabalho nos núcleos de sonorização e comunicação. «A idéia é estimular o cenário independente da música na busca da auto-gestão dos agentes que ali se empreendem. Essa é uma das propostas do projeto e também do Macaco, que é um de seus laboratórios», pontua Bruno Kayapy, guitarrista. Kayapy, o guitar hero a la Jimmy Hendrix, como classifica a imprensa especializada em todo o país, é um dos coordenadores do núcleo de sonorização do EC, junto a Ynayã Benthroldo, baterista. à Ney Hugo, baixista e colunista já reconhecido no circuito rocker, cabe o ofício de ser um dos principais nomes da Comunicação EC. Além da agenda de festivais que ainda cumprirão até este dezembro, a banda promete lançar ainda seu primeiro CD por a «Cubo Discos,» num formato inovador». Número de frases: 21 Não espere um design moderno nem uma diagramação bonita e leve. Pegue a revista De Repente e abra esperando ver o melhor da literatura brasileira de cordel, ver quem está produzindo, quem está lançando folhetos novos, quem está recebendo homenagens. Talvez você não saiba, mas os cordelistas produzem muito e centenas de folhetos são lançados todos os meses. Há quase doze anos a De Repente vem deixando sua marca na história do cordel do país, é o veículo oficial da Fundação Nordestina do Cordel, entidade sediada no Piauí e que congrega os grandes nomes da poesia cabocla. O poeta, violeiro e repentista Pedro Costa é o responsável por a revista e presidente da Funcor, que aliás foram criadas por ele. Homem simples do interior, é impossível encontrar com ele sem que esteja usando um de seus acessórios inseparáveis (ou os dois juntos): o chapéu e a viola. Único membro piauiense da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, foi eleito Personalidade do Século XX por a Academia de Letras do Vale de Sete Cidades. A De Repente nasceu em dezembro de 1994, com a proposta de divulgar o mundo do cordel, ser um espaço aberto para que violeiros e cordelistas mostrassem sua arte para mais pessoas. «Era um cadernozinho quando começamos, com o tempo veio a necessidade de ampliar e agregar outras culturas, não ficar limitada só ao cordel, abrimos espaço para contos, crônicas, artigos históricos e até científicos», conta o poeta. Ele revela que manter a revista circulando exige grandes esforços porque ela não recebe nenhum tipo de ajuda oficial. «Trabalhamos com três fontes: venda, assinaturas e colaboradores, temos também anunciantes que ajudam a revista a continuar. As assinaturas -- principalmente para fora do Piauí -- é que sustentam a De Repente. Nunca estivemos no Acre, mas lá é um dos locais onde temos mais assinantes». A tiragem da revista é de três mil exemplares e a periodicidade é bimestral. «É uma das revistas mais duradouras do Piauí, nestes quase doze anos já vi muita gente criar revista e não passar do segundo número. Fico feliz por já ter editado nossa edição de número 50, por ter novos assinantes chegando, por ter gente se interessando em escrever para a revista», diz. Muita gente por aqui vê Pedro Costa como um obstinado, mas a verdade é que ele abraçou a causa do cordel e hoje vive apenas para ela. «Eu acho que o cordel merece ser mais valorizado. Acho que as escolas do Piauí deveriam incluir a literatura de cordel na grade curricular, em São Paulo já tem isso. Aqui não tem. E as crianças se interessam, elas gostam». Ele fala com propriedade porque coordena o projeto Cordel nas Escolas há cerca de três anos e vê o quanto os jovens estudantes se empolgam ao fazer os primeiros versos. «Para eles, primeiramente é um choque! Depois participam das oficinas e no segundo dia já estão fazendo seus versinhos, a aprendizagem é muito rápida, as pessoas aprendem facilmente porque nós brasileiros falamos em verso». Em o ano passado, o projeto visitou 32 escolas e chegou a milhares de alunos só em Teresina. «Foram mais de 500 alunos que participaram das oficinas e fizeram seus primeiros cordéis. Estamos organizando esse material e vamos tentar lançar um livro com o que foi produzido por eles. O que eu acho mais interessante no projeto é que ele aproxima os grandes mestres do cordel dos alunos e também dos educadores». Pedro mostra-se magoado com o que chama de descaso das autoridades piauienses para com a cultura. «Isso é histórico. Sempre foi desse jeito. O que eu sinto é que, como não são eles que fazem, para eles não é importante. O governo do Estado não tem uma assinatura da revista, que é uma das publicações mais importantes feitas aqui. A Prefeitura de Teresina ainda tem umas quinze ou vinte assinaturas». Ele afirma que o Piauí tem mania de grandeza mas não cuida dos tesouros que tem. «Falam em Serra da Capivara mas não cuidam, temos dezenas de parques e reservas ambientais, mas as entidades civis organizadas é que lutam por a preservação e conservação. Com a cultura acontece a mesma coisa. Tratam o artista como um miserável, dão R$ 1 mil para o pessoal do bumba-meu-boi e querem que o grupo se apresente de graça nas solenidades oficias durante um ano», critica. Diz ainda que acha humilhante ver artistas trocando seu trabalho por um prato de comida, uma dose de cachaça. «Isso não paga arte. Arte não é para ser ajudada, é para ser valorizada e patrocinada. É isso que eu procuro fazer na De Repente. Vou atrás de patrocínio, mas se a pessoa vem com história de ' não vou poder te ajudar este ano ', como se estivesse dando uma esmola, eu não volto mais. Eu não estou pedindo esmola para fazer a revista, estou vendendo um produto e cobrando por ele o que é justo. A assinatura da revista custa R$ 52 por ano, a pessoa paga e recebe um produto. Não é esmola, não é ' uma ajuda '», desabafa. A Fundação Nordestina do Cordel edita cerca de cinco folhetos de cordel por semana e Pedro Costa afirma que existe mercado para isso. «Tanto existe que eu e minha família vivemos disso, meus dois filhos já escrevem e trabalham com isso. Existe um campo de trabalho. Nós trabalhamos a temática das notícias em cordel, podemos ler um jornal cantando e uma revista inteira também resumindo cada matéria numa estrofe de sextilha. Fica lindo». A Fundação participou do prêmio Cultura Viva e ficou entre os trinta projetos finalistas. «Eram 2.532 projetos, ficamos entre os cem melhores e depois entre os trinta. Somos o único representante no Piauí, com a revista De Repente e o Cordel nas Escolas». O prêmio não veio dessa vez, mas Pedro tem planos de criar um site para divulgar as notícias do mundo do cordel brasileiro, precisa de apoio e patrocínio para isso. «Tem estados, como Pernambuco, que estão cuidando bem dessa área, têm projetos e recebem incentivo do governo e de entidades como o Sesc e o Sebrae. Isso nos dá motivação para continuar lutando». Serviço: Número de frases: 60 Fundação Nordestina do Cordel O show A estrada do músico independente é conhecidamente árdua e espinhosa. Seja em Uberlândia, seja em Londres, Nanji é um artista que conhece bem essa história. Depois de tentar carreira alguns anos nos palcos brasileiros, passou outros nos bares ingleses. Aprendeu muito e resolveu arriscar. Deu um passo que muitos ainda relutam em acreditar que pode dar certo: disponibilizou o seu trabalho integralmente na internet. Em março de 2006, o músico mineiro deu o maior passo da sua carreira então: publicou gratuitamente o DVD «à Luz de Velas» em seu site. Tanto o vídeo como todo o material gráfico para que seja montado um DVD gratuito e oficial do músico está pronto para download. Nenhum serviço de entrega é tão rápido e prático como esse: internet, gravador de cd e impressora. Ela, a internet, vilã ou heroína, aliada ou algoz, ataca mais uma vez (ou é atacada). Nenhum artista fica imune ao que ocorre nos dias atuais. Antes esse era um assunto reservado para informatas ou bateristas de bandas de heavy metal desinformados. Hoje em dia todo mundo (artista e público) tem uma opinião para dar sobre a relação entre o seu trabalho e a profusão dessa nova mídia. Nanji tem uma posição clara: «Estamos num momento de transição no mercado cultural. Muito se discute e se aprende com a entrada da internet no processo criativo e de divulgação artística. A recomendação que podemos dar é que não se fechem os olhos para essas transformações, pois o mundo está mudando velozmente e quem não se adaptar pode ficar ultrapassado." Uma nova realidade leva a novas maneiras de agir e pensar. A experiência do dia-a-dia incita um indivíduo a buscar novas táticas e soluções para lidar com problemas e obstáculos. A superação surge da recriação, do reposicionamento do uso e consumo. Constantemente Nanji recorre a sua experiência como artista independente para justificar e esclarecer as suas opções. É a visão daquele que há muito tempo tenta viver da música e enxerga um período em que novos caminhos e possibilidades se tornam visíveis para quem está disposto a arriscar. Sem tirar um olho do seu trabalho autoral e o outro das possibilidades que se apresentam nos momentos atuais da produção e da distribuição musical, o músico lançou uma iniciativa pioneira. A produção e lançamento do DVD gratuito na Internet nunca haviam acontecido até então no Brasil. O novo causa medo. Natural e compreensível. O artista indaga-se: o que farão com a minha obra? Perderei o controle sobre ela? Ficarei mais famoso? Muitos ainda não entraram nessa por receio ou desinformação. A licença Creative Commons ajuda os autores a não caminhar no escuro: elucida e oferece graus diversos de permissão de uso legal das obras. Alguns optam por apenas soltar as músicas na rede, outros preferem fazer um passo-a-passo cauteloso. Foi assim também que Nanji agiu: «É possível que iniciativas como essas e também como a utilização das licenças Creative Commons venham alavancar mudanças. O mercado é generoso com as pessoas que estão sabendo utilizar dessas transformações de uma maneira positiva. A classe artística, principalmente, tem muito a ganhar com essa nova forma de se relacionar com seu público." A produção Além das parcerias musicais, o DVD «à Luz de Velas» foi inteiramente elaborado com o apoio de parceiros locais. A produtora Cine Filmes (filmagem e montagem), o teatro Estação Cultura Luz (realização do show), Estúdio Mazzini (montagem de áudio). O cenário também foi construído por meio de troca por divulgação no resultado final. O site do artista foi confeccionado por o provedor local Netsite, que, em troca de tráfego e visibilidade, hospedou o conteúdo do DVD e é responsável por sua manutenção. Provavelmente os diversos envolvidos acreditaram na iniciativa devido a já conhecida trajetória do artista na cidade. A licença Creative Commons escolhida foi a de reprodução sem alteração de conteúdo e não-comercializa ção. Ou seja, pode baixar, distribuir para a família e amigos. Mas não pode vender e nem mixar ou alterar as músicas. Com muito chão corrido, Nanji atesta com autoridade de quem já correu esse chão: «Os custos para produção de uma pequena tiragem de CDs prensados tradicionalmente nunca são suplantados por a venda direta. Uma grande parcela do material é usada para promoção e o preço final da obra não pode ser elevado, visto que o artista ainda não é conhecido do grande público. Levando-se em consideração o alcance de uma obra prensada tradicionalmente, a opção em levar a música diretamente através da Internet se mostrou a mais viável. Um artista que não disponibiliza seu trabalho na Internet nos dias de hoje acaba tendo um custo elevado com envio de material por o Brasil, buscando divulgação e shows." Para medir o sucesso da iniciativa foi criado o Mouse de Ouro. Fazendo referência ao tradicional, no formato disco, ele é um pequeno sistema responsável por a contagem de downloads e, conseqüentemente, popularidade do material. Atualmente a marca é de 9505 pessoas que fizeram o download. Por que não inverter a lógica do pensamento? «O seu download é o meu salário». Sim, ao menos indiretamente, já que o artista tem certeza que a disponibilização do DVD na rede está diretamente ligada ao aumento do número de shows que ele realiza. Com a repercussão na mídia, principalmente local, os convites para apresentações do trabalho exposto no DVD aumentaram. Tanto o reconhecimento conterrâneo, como os convites realizados por a Prefeitura de Uberlândia, assim como participações em festivais de outros Estados ajudaram ainda mais a repercutir o trabalho do artista em rádios nacionais e estrangeiras. Foi o caminho inverso do jabá: Nanji conseguiu ser tocado fazendo uso da livre circulação da sua obra. O espaço surgiu como resultado e reconhecimento de um lançamento até então completamente inédito no país. Concomitantemente foi feita uma divulgação híbrida que utilizou boca a boca on-line (que quase sempre são muito interessantes e funcionais) e o tradicional press release para a imprensa. Esta, na opinião do músico, ainda faz vista grossa para a conciliação entre arte e internet. Pois não chorem pautas perdidas depois, e nem reclamem de estarem sem rumo no meio desse turbilhão. As mudanças estão escancaradas. O público É certo que ainda o DVD «à Luz de Velas» não paga todas as suas contas. Mas Nanji vive da música: ele dá aulas particulares de violão e compõe jingles para comerciais e campanhas publicitárias. Com bastante experiência na estrada independente, ele sabe que a persistência é ingrediente mais do que necessário para ver as coisas acontecendo. Com os contatos locais e globais fortalecidos, o cantor e compositor afirma que poderia ir tentar carreira na Europa, se quisesse, pois por lá seu trabalho já encontrou grande receptividade. Mas os sonhos residem por essas terras mesmo: a sua vontade maior é ter as suas músicas conhecidas no Brasil, seja na sua voz ou na de algum outro cantor. O segmento do pop rock, por o qual o mineiro lança os seus acordes junto com os músicos Raone (baixo), Raul Bragheto (piano / escaleta) e Bambi Mazzini (percussão), é fácil de agradar o público jovem: exatamente aquele que gasta mais tempo exercitando o direito de baixar tudo o que vê por a frente na rede. Boa parte desse público já cresce sem saber onde ficam as melhores lojas de disco da cidade, mas sabe muito bem como gerenciar os seus programas de download de arquivos. Já diz o ditado: se não pode vencê-los, disponibilize arquivo para eles. Ou algo assim. Para o músico mineiro, o importante é entender os novos (nem tão mais novos assim) espaços de visibilidade. «A divulgação do trabalho e o reconhecimento artístico se tornam mais importante no momento em que um artista não encontra no filão da grande mídia seu espaço. Disponibilizar a obra sem custos para o consumidor não significa perda de receita, mas sim um aumento na visibilidade de seu trabalho e uma porta para um reconhecimento maior." Depois de abrir o caminho, vem a tropa: muitos artistas (até mesmo alguns que possuem contratos com grandes gravadoras) se interessaram e anunciaram vontade de fazer o mesmo. O grito de ordem é «facilitar o acesso». O horizonte próximo Se Nanji considera que a experiência foi bem-sucedido e trouxe resultados importantes, nada mais natural do que continuar nessa trilha. Ele está preparando um novo disco que sairá ainda em 2007. O trabalho será lançado e divulgado seguindo o mesmo modelo que o «à Luz de Velas» e também será disponibilizado sob a licença Creative Commons. A parceria com o provedor de internet deve ser expandida. O objetivo agora é criar um portal para hospedar «qualquer tipo de obra artística», de acordo com o seu criador. Todos os arquivos contarão com o contador Mouse de Ouro, que dará nome ao projeto e que possibilitará aos autores que mensurem a popularidade dos seus trabalhos. Tendo em vista que o seu feito encontrou simpatia entre o meio artístico, nada mais natural do que reunir esforços agora, agir em conjunto e fortalecer a divulgação. Com alguns anos de disputas, brigas, desentendimentos e confusões entre artistas, público e empresários da música, algumas lições já podem ser aprendidas. Não adianta colocar o dedo para conter a represa vazante: para entender, é só olhar o tamanho da onda. A estrada de artista independente continua para Nanji. «O DVD On-line quer mostrar que a Internet pode aumentar o lucro do artista e não ferir sua propriedade intelectual. Número de frases: 104 É provável que algumas instituições mudem sua forma de atuação e revejam seus processos, ao invés de tentar impedir o futuro de seguir seu curso." Em o imenso império da «axé-music» espalhado por esse Brasil afora, há um torrão ainda não conquistado por as famigeradas micaretas ou carnavais fora de época, antes restritos à cidade de Feira de Santana (BA), e hoje disseminadas por todo o país, com os nomes mais esdrúxulos que se possa imaginar: Carnabelô, Micarecandanga, Carnatal, Fortal, Micaroa, Vital e por aí vai. Pelo menos dois focos de resistência ainda não sucumbiram a essa epidemia: Recife e Olinda. Pra quem não sabe, o Recifolia, que era a micareta daqui, foi banida da cidade há alguns anos, para a vizinha Jaboatão dos Guararapes, que por sua vez também não quis esse tipo de carnaval por lá e hoje esse carnaval não é mais realizado em lugar nenhum. O que se sabe é que agora acontece um tal Recife Indoor, onde os admiradores (pena que não são poucos) desse tipo de evento com cordões de isolamento, são confinados numa grande casa de espetáculos, junto aos seus semi-deuses da «axé-music», sem incomodar o resto da população. Deve-se ressaltar que a pioneira nesse tipo de atitude foi a cidade-patrim ônio Olinda, que proibiu até a execução durante o Carnaval. Brigas e divergências de opiniões aconteceram por conta dessa censura, mas funcionou por lá. Em isso tudo, os governos tiveram papel decisivo, pois mesmo sendo os dirigentes de diferentes partidos, entederam que a cultura pernambucana deve ser preservada a qualquer preço. Em o Recife, trio elétrico é só pra amplificar a voz do frevo e, olhe lá, somente no Galo da Madrugada! Claro que ainda está presente em muitos blocos de bairro e micaretas do interior, inclusive o carnaval da cidade de Vitória de Santo Antão, próxima ao Recife, é atualmente conhecido por a grande presença de trios e por o domínio da «axé-music», atraindo muita gente. Hoje, no entanto, grandes nomes da música baiana já inserem músicas pernambucanas, como frevo e hits do mangue beat, em seus trios quando vêm por aqui, com o objetivo de conquistar novos fãs. Em esse sentido, Ivete Sangalo, que não é boba, foi uma das primeiras. Prova disso foi a última edição do bloco Balança a Rolha, que aconteceu na semana pré-carnavalesca em Boa Viagem, quando ela cantou frevos enrolada na bandeira do Estado. Em tempo: aqui no Recife, a prefeitura proibiu blocos desse tipo (com cordão de isolamento), porque incitavam a violência como foi visto nesse mesmo desfile do Balança a Rolha. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 19 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo. Parece já ser uma sensação comum a muitos dos que (, teimosamente, ainda) se interessam por arte: a arte contemporânea -- ou a que se produziu nas últimas cinco ou seis décadas -- está em desencontro. E por desencontro quero dizer, sem graça, sem propósito, sem relevância. Alguns apontam como causas desse desajuste o excesso de teoria (?) e politização e a tentativa (frustrada) de aproximar a arte da vida. Quanto a mim, que me interesso mais por empirias, tomo como índice do fracasso artístico do nosso tempo as perfomances. Em outros termos: o fato de tratarmos essas apresentações como arte é um sinal de que a coisa vai mal, muito mal. Não que eu tenha alguma coisa contra uma pessoa abrir um monte de guarda chuvas simultaneamente para logo em seguida fechá-los. Também não me importa que alguns sujeitos decidam se automutilarem, ou crucificar o corpo no capô de um fusca. Bizarrices humanas são sempre bem vindas: muitos circos ainda continuam lucrando com as mulheres barbadas, com os anões, com homens de três mãos. Mas o que há de estético nessas apresentações? Respondo: nada. São apenas provocações, que quando não são imediatamente tomadas como motivo de riso, caem no esquecimento, rapidamente. O problema das perfomances -- e vá lá, da arte contemporânea -- é o desejo vão de rupturas. Os não-artistas empenham-se em rasurar todos os patrimônios artísticos que os precederam, para isso procuram afastar-se dos ambientes e linguagens que legitimam a tão maltratada Cultura tradicional. Em esse jogo de vale tudo, só há dois motivadores: ser sempre contrário e fazer sempre uma «novidade». O mais risível é que tais não-artistas parecem não se darem conta de que o esquema Cultural que eles querem tanto destruir é o mesmo que cria as condições de produção e circulação dos seus ready-mades ou das suas perfomances. Isso sem falar que a Cultura a ser destruída é a mesma que propicia o arcabouço intelectual que lhes permite hoje dar seus chiliques. Se o urinol de Duchamp teve alguma conseqüência, foi justamente o de reafirmar a necessidade dos meios legitimadores, na medida em que, ao tomar do mundo um objeto e ressignificá-lo como obra de arte, o artista continua a aceitar-se como o legislador: é ele quem determina o que é e o que não é arte. É bem provável que o gesto duchampiano tenha sido orquestrado para chamar atenção para esses imperativos. Mas é ainda mais plausível acreditar que Duchamp pretendia expor o esquema para em seguida destrui-lo. Algo como tese-antítese síntese. A destruição, entretanto, nunca se efetivou. O que assistimos no século XX foi exatamente ao contrário: a institucionalização dos ready-mades, que foram «estetizados», no momento em que se tornaram um fetiche, um símbolo do que era» novidade». Contudo, como muito bem lembra Ferreira Gullar, -- no indispensável o Argumentação contra a morte da arte (Editora Revan) -- o «novo» é sempre datado, por não se constituir como linguagem. Um urinol hoje já não causa nenhum impacto. Já perdeu o seu tom provocativo. Por outro lado, Les Demoiselles d'Avignon continua nos impressionar, a ser ousado. Isso só ocorre porque a transgressão de Picasso não se dá no sentido de destruir a linguagem pictória, mas, sim, de reafirmá-la. É curioso que essa busca insana por a novidade, por o diferente não traga nenhum outro elemento efetivamente novo. Em as atitudes e obras dos profetas contra-cultura (prefiro chamar de não-cultura), nos espetáculos, apertos de mão ou guarda-chuvas, há pouca diferença em relação aos ready-mades feitos no começo do século passado. Em tudo isso há a mesma falta de linguagem, a incapacidade de criar algo menos circunstancial. A evidência dessa carência de linguagem é a percepção que de que tais obras perderam a capacidade de transmitir-se, isto é, de funcionarem como objetos auto-explicativos. Não por acaso, há, por vezes, a necessidade de um manifesto, de uma explicação; sem se dar conta do seu narcisismo ridículo, o artista se alimenta do próprio embuste nas entrevistas: meu objetivo com essa obra era mostrar o horror disso de aquilo, denunciar essa-e-aquela barbaridade. Cabe relembrar o artigo de Monteiro Lobato (O Estado de S. Paulo 20/ dez / 1917) a respeito da exposição de Anita Malfatti (não, não estou comparando Malfatti às mentes brilhantes dos nosso século -- mas é que o paragráfo do Lobato vem a calhar): «A fisionomia de quem sai de uma destas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza, denunciam as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de raciocinar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente. Outros, certos críticos sobretudo, aproveitam a vaza para «épater les bourgeois». Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavrório técnico, descobrem nas telas [, obras e perfomances] intenções e subintenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista e concluem que o público é uma cavalgadura e eles, os entendidos, um pugilo genial de iniciados da Estética Oculta. Em o fundo riem-se uns dos outros, o artista do crítico, o crítico do pintor e o público de ambos." Chama atenção que essa ruptura-a-todo-custo é muito mais característica das artes plásticas do que da literatura. Acreditar que Joyce promoveu um rompimento com os procedimentos lingüisticos, não implica na produção (ou tentativa) imediata de outras realizações como o Ulisses. Também no caso da nossa literatura, experimentamos pseudo-machados, cópias de gracilianos e gente tentando ser Clarice. Mas não vemos até agora ninguém procurando seguir a linha re-estruturante de Guimarâes Rosa. Já do outro lado, não nos param de surgir marcelduchamps. Outro equivoco é tentar aproximar vida e arte. Há nesse empreendimento dois problemas: um ético e um estético. A arte nunca será capaz de fidelizar as angústias e demais reclames da alma humana. A o tomar para si o emblema de representante dessas questões, o homem as reduz -- o que em alguns casos não é apenas ridículo, mas eticamente condenável. A o tentar denunciar os horrores da Guerra do Iraque, decepando a própria perna, ou empilhando milhares bonecos numa calçada, o artista (?) banaliza o sofrimento -- ou sabe-se lá que outros sentimentos -- de um soldado obrigado a experenciar de uma só vez o amor ao próprio corpo, o desejo patriótico e a guerra acachapante. Esteticamente, a arte não pode se aproximar da vida justamente por ser, antes de mais nada, símbolo. Ora, um símbolo não pode, por definição, perder sua materialidade, seu significante. A arte opera sempre por metonímia, por recorte, seleção do todo. Por mais que projete sintagma sobre paradigma, o poeta nunca conseguirá retomar o conjunto de objetos, seres e simbologias que produzem a empiria da vida. Ninguém é louco o suficiente para afirmar que um quadro retratando uma sala é a sala. Isso sem falar que a vida que o autor julga representar não passa de uma resposta axiológica e, portanto restrita, ao todo simbólico que o circunda. Li recentemente não me lembro onde, que na próxima Bienal de arte de SP haverá um espaço vazio. Seria uma forma de protesto silencioso à escassez e pobreza da produção atual. É uma boa iniciativa. Ao invés de tentar salvar o mundo, os artistas deveriam, primeiro, salvar a Arte. Número de frases: 71 Primeiro lugar do Salão Hélio Melo de Artes Plásticas, com a tela Alicerces da Terra, o artista plástico acreano Ivan Campos (44) desde os oito anos pilotava entre pincéis e tintas, criando os desenhos e pinturas para os bordados da mãe, sua maior incentivadora. Ivan recebeu grande influência das histórias em quadrinhos, desenvolvendo sua arte de forma autodidata, descobrindo através de técnica própria, um estilo que ele mesmo prefere não definir, mas que para os cultores das artes plásticas, passeia entre o expressionismo muito particular, quase abstrato, realismo e surrealismo. «Uns dizem que é uma pintura espiritual, nostálgica. Prefiro não definir». As telas, em sua maioria, mergulham nas temáticas amazônicas. Muitas de elas estão nas mãos de apreciadores nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Itália, Argentina e Brasil. Duas de suas obras foram selecionadas para o Projetéis de Arte Contemporânea? Rede Nacional de Artes Visuais Redemergências: uma das abordagens possíveis de um novo olhar sobre a produção artística atual, em exposição no mês de outubro de 2005, na FUNARTE (RJ). Projéteis contou com a participação de artistas de todos os estados e regiões do Brasil. Admirador da obra de Rembrandt, nesta entrevista o artista fala de sua obra, analisa as artes plásticas no Acre e faz um carinhoso elogio a obra de Hélio Melo. Como é para você ganhar o primeiro lugar no Salão Hélio Melo de Artes Plásticas? Em a verdade não esperava que esse meu trabalho ganhasse, pois é uma pintura fora da nossa realidade da floresta, uma pintura marinha, não contava com isso, trouxe essa tela para compor o espaço. Me sinto gratificado. Qual o olhar que você traça sobre a tela Alicerces da Terra, vencedora do Salão? Como veio essa inspiração com o mar? É a minha terceira pintura sobre o fundo do mar. As outras duas que fiz são telas grandes e estão em São Paulo. Essa tela me cobrava por o azul, a maior parte das telas que expus no Salão são nessa tonalidade. Tava em casa de bobeira, e veio aquela idéia de fazer uma canoa na praia, mas achei melhor colocá-la dentro do mar. Levei uns dois meses trabalhando em ela, o equilíbrio de cor, forma, profundidade. Como chegam essas imagens para você? Elas já estão dentro de mim. A mente humana é como um computador que arquiva dentro da gente as imagens, existe algo lá dentro que guarda toda essa parafernália. Uma vez estive no Rio e me pediram para pintar coisas do mar, já que sempre estive ligado mais à floresta. O mar ficou guardado em meu «arquivo». Não saiu como eles queriam, pois a canoa está no fundo do mar furada. ( risos) Você situaria sua obra em alguma escola? Apenas procuro aprender a pintar. Sou uma pessoa que não sabe pintar ainda. Todo dia digo isso para mim, pois preciso me aprofundar cada vez mais, ser um cara completo. Em a verdade estou engatinhando, apesar de pintar a muito tempo, vinte anos, não sei nada. Sobre a definição, não tenho idéia onde o meu trabalho se enquadra, se é realismo, surrealismo, abstrato. Deixo ao critério de quem está expectando. Uns dizem que é uma pintura espiritual, nostálgica. Como é para você ser artista plástico? Creio que na minha família não vai ter mais ninguém assim, porque os meus guris não querem saber de pintura. Geralmente acho que as pessoas enxergam o artista plástico apenas com um lado maldito. O pintor vive à margem da sociedade. O cantor ganha um CD de ouro, os atores as suas estatuetas, o jogador a sua chuteira de ouro e o artista plástico o que ele ganha? O pintor pinta porque é uma missão de ele. O reconhecimento na maioria das vezes chega, quando ele já está de «osso branco». A obra de ele fica, depois que foi para o além. Que análise você faz das artes plásticas no Acre? Em a realidade as artes plásticas no Acre engatinham, não pelo lado do artista. Faltam espaços, galerias e produção para tornar as obras reconhecidas. Mas, vejo que novos espaços estão sendo criados, como o Porão da Tentamen, que abrigou o Salão. O próprio evento realizado por a AAPA em parceria com a FEM é positivo. Os nossos artistas estão num grau bem avançado quanto a seus trabalhos. Nossa pintura em sua maior parte não é acadêmica. Eu por exemplo, venho pintando «por cima da pedra», aprendi com mim mesmo. É verdade que você pinta a maioria de suas telas deitado? Sim, mas também em pé e de cócoras. Deitado é porque o material que uso, dependendo do preparo da tinta, se deixar a tela em pé ela escorre. Tenho que deixar a tela no plano. O resultado cria várias dimensões? Fica ao critério de quem ver. Quem sou eu para dizer que é de uma forma ou outra, porque senão vou conduzir a coisa. Mas, posso dizer que combino a cor e a forma, muitas vezes a cor esconde a forma e a forma esconde a cor. É por isso que o apreciador necessita fazer o movimento de aproximar e afastar. Algum artista inspirou a sua obra? Tenho grande admiração por as pinturas de Rembrandt, para mim é o maior pintor que já existiu na face da terra. Tive poucas oportunidades de ver o trabalho de ele, mas sempre procurei observar que é algo que existe porque estamos vendo, e se jamais tivesse visto não daria para imaginar que existia. Me inspiro na obra de ele. Você costuma produzir quantas obras por ano? Em a base, dependendo da dimensão, três a quatro telas. Minha pintura não é comercial. Não tenho a obrigação de trabalhar todo o dia. A minha pintura é uma coisa de vontade, se não tiver, não tenho como pintar. Não é que espere o momento, às vezes estou com vontade, mas não dá. Fica um vulcão dentro de mim. Se eu não cuidar de colocar aquilo para fora, passa. O que você diria sobre a pintura de Hélio Melo? Uma coisa que me instiga muito em sua obra é a pessoa do Hélio Melo. Uma pessoa bem adulta que traz à tona aquele conceito de criança em seus traços. É difícil um adulto desenhar como uma criança e vice-versa. Ele passava entre essas duas coisas, não tinha um ponto de partida. A pintura do Hélio traz uma criança iluminada, e quem via o Hélio, enxergava essa mesma criança irradiando em ele. Esse lado que me instiga. Número de frases: 78 Um universo muito louco, só um Hélio Melo para fazer. Quando li na Internet sobre a Cowparade fiquei muito animada, gostei de muitas vacas que vi no site oficial e ainda pensei na possibilidade do evento vir para Curitiba. Algum tempo depois a coisa aconteceu, mandei meus projetos e aguardei a seleção. Não fui selecionada, claro. Não há férias na escola da vida. Até aí mais uma coisa da vida ... mas depois que saiu a lista dos selecionados notei que lugar de artistas anônimos é na Internet mesmo. Só a «nata» entrou. Mas até aí tudo bem, parte dois. Puxa, trabalho na cultura, conheço um monte de artista e tal e coisa. Só que as vacas que vi por a rua e locais de exibição, na minha opinião, são básicas demais. Quase pari quando vi uma de elas no MON (Museu Oscar Niemeyer). Gosto não se discute. Pra mim era fim, the end. Chega de vaca, nem como carne mesmo. Eis que Tom Lisboa -- inicia Cowtadinhas, Intervenção paralela e não-autorizada à Cowparade de Curitiba 2006 e dentro da mesma idéia cria Cowtadinhos -- para artistas que não foram selecionados para a Cowparade de Curitiba ou os que foram selecionados, mas não conseguiram patrocínio para suas vacas. Ah sim, a boa e velha Web, sempre ao nosso dispor. Em o regulamento além de envio dos projetos não selecionados, ele solicita que os artistas divulguem as vacas por e-mail e que colem cartazes (ou stickers) com suas vacas por a cidade. Em o início da semana fiz tudo isso e hoje saí colar mais cartazes e fotografar. Corri de vigias e tive que ficar «cuidando» dos guardas municipais. E com esse rebuliço pré-natal, cuidar de não ser atacada por batedores de carteira. Engraçado que no meio desse mar de gente que nem olha onde pisa, não percebe o céu, só olha para vitrines, para a carteira, preços, entra e sai de lojas e devoram comida nas lanchonetes abarrotadas, algumas almas dispersas desse cotidiano natalino paravam para ver o cartaz, outros perguntavam. As pessoas buscam olhar o diferente, interessa ver alguém colando algo no meio da multidão que não seja cartaz de empregos, de compro ouro, empresto cascaio ou mensagem bíblica. Hoje, um calor senegalês em Curitiba, véspera de meu último dia de trabalho (entro em férias, graças ao bom GOD) não poderia ter sido mais interessante. Confiram no site http://www.sintomnizado.com.br/cowtadinhos os meus trabalhos e dos demais artistas. Número de frases: 25 Foi numa noite de 1986 que o maestro de Chico Buarque, Luiz Claudio Ramos, entendeu a música * «Ô chefia», diz o músico» Luiz Claudio Ramos. «Ô maestro», responde Chico Buarque. Eles são parceiros desde 1975, quando trabalharam no espetáculo Chico Buarque e Maria Bethânia. Luiz Claudio é auto-didata, aprendeu quebrando a cara: «É se jogar no meio dos leões e lutar com eles». Escreve arranjos desde muito cedo " com o talento, no peito e na raça; na sensibilidade, no ouvido: ia lá no piano, procurava, mas sem consciência nenhuma». Com a mudança de sua família para Copacabana, o piano foi para a sala de estar, e ele, para o quarto, onde estudou violão. A os 14, diz que já levava a música a sério. Logo depois de completar 16, Luiz Claudio Ramos já tocava com Wilson Simonal. Mas foi numa noite de 1986 que o maestro Luiz Claudio Ramos entendeu a música. «Eu tive um estalo, uma forma de ver. É engraçado dizer isso, mas, um dia, eu entendi como funcionava a música». A partir do estalo, elaborou uma metodologia para escrever, compor, harmonizar e improvisar. «É muito simples; eu descobri que, no final, eram quatro as escalas, os universos musicais, que se desdobravam em outras», afirma. Todas as músicas que fez, desde a descoberta, passaram a usar esse sistema. E foi aí que se considerou músico; até então, tinha medo de estar no meio dos cobrões, achando que não sabia direito o que estava fazendo. Com Chico Buarque a palavra certa é afinidade Já dividiu o palco com Johnny Alf, Elis Regina e, por um longo período, com o Quarteto em Cy. De a parceria com Chico, conta que foi uma afinidade desde o primeiro momento. Com o trabalho por Carioca, o último CD do músico, entrou, na opinião da crítica Maria Luíza Kfouri, para o hall dos grandes arranjadores brasileiros. Comentário esse que ele recebe modestamente, dizendo que não considera estar no mesmo patamar de seus heróis Pixinguinha, Radamés [Gnattali], Chiquinho de Moraes. Junto da banda com que tem uma relação «fraterna», com nomes de peso como Wilson das Neves e Chico Batera, está viajando por o país. O show Carioca, mesmo nome do CD, lotou as três sessões que realizou no Teatro Guaíra no início de abril. Somado ao sucesso, o trabalho com Chico tem três qualidades diferenciais: «Fazemos uma música que gostamos, temos uma relação boa e ganhamos bem. É muito difícil você conjugar esses três predicados num mesmo trabalho». Ele reconhece em Chico uma pessoa generosa, numa contínua busca de não parecer ser a estrela que ele é. «Ele grava com todo mundo; artistas consagrados, artistas iniciantes. Se você pedir para ele participar num disco seu, ele é capaz de participar». Mesmo?" Se você jogar umas três peladas com ele [futebol, passatempo favorito do músico], acho que já é 90 % de chances de ele participar do seu disco», completa o maestro que abandonou o segundo ano do curso de Medicina para aprender a teoria da música na prática. Número de frases: 36 * Matéria originalmente publicada no Jornal do Estado do dia 09/04/2007. O Buraco Em o ONIBUS Acontecencias do dia a dia numa grande cidade como Sao Paulo p / exp Sempre tem uma coisa estupida e demagoga no poder publico, e que custa dinheiro (pra nos meros votantes) essa é só mais uma ponho em foco o transporte publico, os onibus, que deveriam se omnibus, pra todos não pra alguns milhoes que são obrigados a usar pagando caro a passagem e sua sanidade, sempre lotados, carros velhos, e poucos motoristas que dirigem como estivesse carregando batatas, se o sujeito sentado não se agarrar podem ser jogados do assento e são muitos varias vezez no dia. Vou Falar do Buraco Começou a circular novos onibus ha poucos dias, com piso rebaixado, aparentemente deveria ser confortavel ja que se entra ao nivel da calçada, mas dentro é outra realidade pra quem tem algum tipo de deficiência ou idosos. foi feito um buraco no onibus, o espaco rebaixado tem espaço pra 2 lugares o cobrador, e meia duzia de gatos pingadose em pé mas cabe 12, os epaços reservados estão no céu pois foi feito escadas muito mais ignorantes que as que ja tinham. Pois agora tem o dobro de altura que os antigos e com degraus de aproximadamente 40 centimetros, depois mais um pra sentar num assento apertado e alto quase sem apoio pra segurar e do jeito que os motoristas dirigem? essas ideias só podem sair de quem não anda de onibus, que são esses tecnicos que tão mamando em alguma teta e inventa essas (facilidades) pra justificar seu gordo salario e deve se sentir um benfeitor ainda, no ano passado colocaram talvez meia duzia de onibus adaptados com elevador para a cadeira de rodas que deve ter custado uma fortuna, se fez um estardalhaço a Globo divulgou largamente nos noticiarios só que nunca vi um cadeirante dentro de um onibus e nenhum roda mais pois agora ja tem outro quase na mesma linha só não tem elevador (que serve para a nada e ninguem) a gente pagar talvez com certeza alem da passagem. Mas isso é só mais uma acontecência numa cidade grande, e nos somos só voto queira ou nao. J.Alves ... Número de frases: 18 04/03/07 Grito Rock 2008 deve acontecer entre 19/01 e 24/2. mais de 50 cidades devem participar, incluindo Buenos Aires e Montevidéu, pela primeira vez. Serão mais de 500 bandas em festival que tem como foco o trabalho em rede Por Pedro Acosta * Momento chave na cultura brasileira, o Carnaval traz com si duas idéias: o espírito de celebração grupal presente em blocos, cordões e afins; a idéia de estagnação na música que insiste em ser igual ano após ano. Em o Grito Rock, que acontece justamente durante o Carnaval, a primeira idéia é usada para combater a segunda. Pois é dentro de um sistema de trabalho em rede que 50 cidades espalhadas por a América do Sul devem fazer um festival integrado de música nova: o Grito Rock 2008. O Grito começou em Cuiabá, como opção para quem, em 2003, não queria de novo ser «folião» de festas tradicionais de Carnaval. Cinco anos depois, transformou-se em festival integrado, unindo produtores independentes de todo o país. Em 2008, até as fronteiras nacionais serão ultrapassadas: o Grito Rock será realizado também, e pela primeira vez, em Buenos Aires (Argentina), Montevidéu (Uruguai) e Santa Cruz De La Sierra (Bolívia). Estão previstos mais de 500 shows. Software livre: em cada cidade, um Grito Rock próprio Tudo acontece dentro do fundamento do software livre. O modelo de festival adotado primeiramente em Cuiabá fica disponível para quem quiser trabalhar sobre ele, adaptando-o às necessidades locais. O que importa é estar conectado em rede, os produtores trocando tecnologias e experiências, criando uma rede de trabalho, fortalecendo uma cadeia produtiva da cultura nacional. Assim, por exemplo, durante o Grito 2008 (de 19/1 a 24/2), pelo menos 200 bandas devem viajar por os locais que realizam o festival, apresentando-se fora de suas cidades-natais. E a programação do Grito 2008 conta com a adesão de festivais que já aconteciam anteriormente, como o Psycho Carnival (Curitiba) e o Palco do Rock (Salvador), que chega a sua 14ª edição. Mas tão importante quanto a criação dessa rede nacional (e, agora, transnacional), é garantir que o Grito fomente as cenas locais, envolvendo artistas, produtores e comunicadores. Em Brasília, o blog criado para o evento tem abordagem abrangente, falando sobre vários aspectos da cena local. Já em Fortaleza, três produtoras diferentes serão responsáveis por o Grito Rock de lá, cada uma tendo ao menos uma noite própria, com características particulares. Em Cuiabá, o Grito Rock está incluído na programação oficial da prefeitura para o Carnaval. Em o Rio de Janeiro, haverá debate, exposição de quadrinhos e projeções de filmes e vídeos. O diferencial de Curitiba é ter atrações internacionais para o festival de psychobilly (gênero em que o punk encontra o rockabilly), vindas da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Chile. Trabalho em rede gera novas rotas produtivas A integração com outros países da América do Sul é, aliás, ponto fundamental do Grito deste ano. Afinal, por que não há maior intercâmbio cultural entre países geograficamente tão próximos? Certamente, a música independente não é o primeiro segmento a fazer essa pergunta ou tentar aumentar tal intercâmbio, mas talvez seja o que tem melhores de condições de realmente fazê-lo. Afinal, na música, a barreira da língua tem menos valor e o Grito Rock já provou em 2007 sua habilidade de criar rotas produtivas. Que o diga a banda cuiabana Chilli Mostarda (MT), que, por a segunda vez, aproveita o Grito Rock para uma pequena excursão. Em 2008, serão quatro shows em quatro dias, partindo de Cuiabá e chegando a Belo Horizonte. Essas rotas produtivas devem florescer especialmente no Sudeste. Em a região, o Grito acontece em 17 localidades, num território relativamente pequeno (comparando-o à região Norte, por exemplo). Cidades como São Caetano e Sorocaba ainda se beneficiam da proximidade de grandes centros culturais já estabelecidos, como São Paulo. Mas há formas de vencer a distância. Pode ser fisicamente: a banda paulistana Somos deve se apresentar em Rio Branco, no Acre; os paraibanos do Cabruera estão escalados para Porto Alegre. Pode ser midiaticamente: a Rádio Venenosa FM, veículo oficial do Grito carioca, também é transmitida em outros dois estados. Em o total, será mais de um mês de música, as prévias cuiabanas tendo começado em 19 de janeiro e o «enterro dos ossos» em Fortaleza estando agendado para 24 de fevereiro. Mas a idéia é que as redes criadas para o Grito permaneçam ativas por todo o ano, redesenhando o mapa da cultura brasileira. * Pedro Acosta é editor do blog arquivo acosta e colaborador do circuito fora do eixo." Serviço O Que: Grito Rock será promovido em mais de 43 cidades Quando: Entre os dias 19 de janeiro e 24 de fevereiro Mais Informações: Número de frases: 50 www.gritorock.com.br www.flickr.com/photos/gritorock «Aqui é d ´ el Rey. E há que andar por estas ruas e descobrir belezas insuspeitadas. Há que se surpreender em cada esquina entre o colonial e o eclético, entre o barroco e o neo-clássico. Há que se ver mais do que com os olhos, enxergar com o coração, ampla retina que açambarca séculos e transborda espanto e susto " Nada se compara ao povo ocupando a sua cidade após cinco dias e noites de chuva; vão para as ruas neste finzinho de janeiro para ensaiarem a escola, a bateria se reúne nas cercanias da rodoviária velha. A gente do bairro sabe o samba. Espero para ver, mirando, ao redor, um cenário intrigante, a mistura do colonial, eclético, do neoclássico, do moderno, que se não toma o seu espaço com a implosão do edifício anterior, toma aos poucos, como uma doença degenerativa, incorporando janelas, umbrais, portas. O edifício amarelo de esquina é exemplo: parcialmente moderno, com seu térreo ocupado por lojas de autopeças, o segundo andar ainda eclético e o terceiro invadido por a chaga, armações de madeira colocadas no auxílio à repaginação completa do hotel. Bumbos, tamborins. Pergunto-me, como pode uma cidade descrita num folheto de prefeitura por Jota Dangelo ainda existir? Esta é d ´ el Rey, com apóstrofe e hipsilo? Caminhões e motocicletas e automóveis travam disputas por passagem. Como pudera pensar que o tempo havia parado na arquitetura colonial? Uma moto passa, estridente, um caminhão de areia. A andar, andar. Deixo o samba, mesmo que só hoje ele tenha saído, enveredo por os «confins do centro histórico a descobrir vielas pitorescas, o Beco do Cotovelo, o conjunto eclético da Rua Santo Elias, a aparência de presépio do casario da Rua Santo Antônio, o Beco da Escadinha nas proximidades da Igreja do Carmo». A variedade de estilos e cores alegra, a combinação colonial-eclética, especialmente. A o descer algumas ruas na direção do córrego e do centro da cidade, começa a surgir a indesejada mistura colonial-moderna. Este magnífico sobrado à Rua Artur Bernardes (e como, em se tratando de arquitetura, este adjetivo é apropriado), foi cenário em 24 de abril de 1889 de um discurso de propaganda política de Silva Jardim, «adepto do credo republicano, que tentou lançar a sua palavra de apologia para a população sanjoanense, mas foi impedido por a turba comandada por os chefes monarquistas da cidade, tendo seu hotel apedrejado, ocasionando sua retirada às pressas, debaixo de escolta armada devido ao tiroteio entre as duas partes contendoras». ( O relato é do historiador Fábio Guimarães). Este belíssimo sobrado é ladeado por um edifício comercial simplório, triste: uma horrenda placa de metal desenhada com uma boca e seu aparelho ortodôntico avança sobre a calçada. Aqui, apenas o silêncio e o som torturante da broca do dentista. Temos exemplos destes ao longo das duas ruas paralelas à margem esquerda do Córrego do Lenheiro, onde do outro lado se espraia a parte moderna da cidade; as placas dos estabelecimentos, sobretudo, chamativas, desproporcionais, colaboram para este mal-estar, a inevitável pergunta: por que largar a cidade ao deus dará? A andar. Volto em direção às minas. O cenário vai se tornando novamente mais belo, com a mistura colonial e eclética, sem contar o barroco das igrejas. Compreendo que retornar ao córrego, voltar às minas é girar a roleta para que os estilos se sucedam, até que a atenção se fixe em miudezas, detalhes. Não à toa, um dos motes de uma campanha da cidade como «Capital Brasileira da Cultura» 2007 «é» Pare. Olhe. Encante-se». Aqui, mais do que em outras cidades históricas, o tempo passou por o dinamismo comercial que a cidade experimentou, suas correntes modificações de estilos e modismos. Não sou de lamentar, esta beleza e este mal-estar enriquecem, de algum modo, aqueles que por estas ruas andam, compreendendo, condenando o homem que, acima de ser político, é ser comercial. A andar. Por um intrincado jogo de esquinas, o samba retorna. Retorno. Esta é uma cidade embaralhada. Não é turística, não é industrial, não é comercial: é todas elas. «Não lastime possíveis descaracterizações ou aberrações cromáticas de duvidoso gosto que, vez por outra, perturbam a harmonia de conjuntos. Aqui, como em toda parte, nem sempre o homem compreendeu o significado de progresso. Mas sinta que no todo prevalece admirável composição de estilos, preciosidades coloniais e magníficos exemplares neoclássicos e ecléticos como não se há de ver em nenhuma outra cidade do ciclo do ouro. Porque aqui é d ´ el Rey». Amigos, d ´ el Rey precisa saber se se parece com outra cidade ou com outra imagem de cidade que gostaria de ser. A resposta que espero que encontre seja, que ela não se parece. E que assuma, definitivamente, que ainda pode ser a imagem que lhe convir, ou ser São João Del Rei. A andar. Número de frases: 49 Uma homenagem a Camargo Guarnieri e a Villa-Lobos foram a tônica do concerto de abertura da temporada 2007 da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e da Sala Cecília Meireles no último sábado. Com a presença de muita gente ilustre da cena clássica carioca, a apresentação foi a primeira de três, dedicadas à comemoração do centenário do compositor Mozart Camargo Guarnieri. Em o programa, a apoteótica Abertura Concertante e o Concerto para piano n. 2, ambas do compositor paulista. A segunda obra contou com a participação do pianista cubano Orlando Alonso como solista. Para finalizar, e repetida no Bis, Choros n. 6, de nosso mestre Villa-Lobos. Até quem não gosta de música erudita brasileira, ou música moderna em geral, teria apreciado o repertório. Apesar da sonoridade muitas vezes estranha aos ouvidos do Concerto para piano, a Abertura Concertante empolga qualquer um. Isso sem mencionar que Choros n. 6 é uma lindíssima e emocionante obra, repleta de sons e ritmos populares brasileiros, e que consagra Villa-Lobos realmente como o pai da música brasileira. Porque se para muitos existem barreiras entre o «clássico» ou «erudito» e o «popular», ele conseguiu mostrar ao mundo que música é música, e que tem de ser bem feita. Em o primeiro intervalo, o maestro e diretor artístico da OSB, Roberto Minczuk, falou sobre sua emoção de poder reger um concerto com programa inteiramente brasileiro, momento, segundo ele, " raro em sua vida." E nada poderia ser mais adequado para um espetáculo que se propôs a fazer parte das celebrações do Dia Estadual da Música Clássica. Por todas as comemorações que cercaram este evento, muita gente importante do meio musical esteve presente, como o compositor Edino Krieger, o diretor da Sala Baden Powell, Tim Rescala, a diretora da VivaMúsica!, Heloisa Fischer e o Secretário Estadual de Cultura, Luiz Paulo Conde, vaiado por ter chegado quase meia hora atrasado (o que, claro, também atrasou o início do concerto). Os próximos concertos do Ciclo «Camargo Guarnieri& Homenagens» serão nos dias 17 e 31 de março (sábados), ambos às 20h. Número de frases: 14 O ingresso custa R$ 20, com meia entrada, e os estudantes de música da rede oficial pagam apenas R$ 1. O ditado popular diz que o que os olhos não vêem o coração não sente, embora no mundo real seja diferente, pois quem é negro, mora na periferia, com pouca estudo ou que estuda em escola pública, que ganha salário mínimo ou que está desempregado o que vê? Falta de respeito por os direitos humanos mais elementares, o principal de eles o direito a vida, quase sempre negado através da sujeira, buracos, ônibus velhos e atrasados, assaltos, mortes, escolas tristes, falta de praças e de outros espaços para a prática da cultura, do esporte e do lazer, desemprego etc ... E o sentimento dominante é de impotência, de acomodação, de passividade, não adianta fazer nada, é muito difícil mudar, a única solução e entregar tudo na mão de Deus e esperar a solução que virá do alto E assim as pessoas vão vivendo e de tão comum os olhos e ouvidos já se acostumaram. E para fugir da realidade ou para fazer com que as pessoas vejam, mas não enxerguem, há gente de todo tipo. Desde os vendedores de milagres até os traficantes, passando por a maioria dos donos das associações de moradores, das quadrilhas juninas, dos times de futebol, dos bares e muitos, mas muitos cabos eleitorais empregados nas escolas e postos de saúde. Todos eles agindo com a cobertura de uma fabrica de idiotas, a televisão, que como diz o grupo musical «Titãs» Está sempre deixando as pessoas muito burras, burras demais». Mas há pessoas que escapam, há aqueles que querem ver com os olhos do coração, aqueles que querem ver o essencial que na opinião do pequeno príncipe é invisível aos olhos do rosto, há aqueles que começam a querer ver com os olhos e os ouvidos do espirito o qual segundo Jesus Cristo muda a forma de ver, de ouvir e as atitudes. «Quem tiver olhos para ver, veja». «Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça». São nessas pessoas que querem ver e ouvir com o coração, com o espirito, que reside a esperança de um mundo melhor. E estas pessoas estão presentes nos milhares de iniciativas socioculturais espalhados por o Brasil afora. Estas ações desenvolvidos na sua maioria por ONGs, Movimentos Sociais e setores conscientes das religiões, buscam um olhar que valorize o que se é, mas que procure ir sempre além. Um ouvido que descubra outros sons e outros tons, que não somente o superficial, o efêmero que se ouve em quase todas as rádios. Um olhar critico que considere que assim como a dança, o teatro e a música são criações humanas, a miséria, o desrespeito aos direitos do cidadão, a falta de dignidade também são, e, portanto podem ser transformados, porque quem transforma o corpo em instrumento para transmissão de beleza e alegria pode também transmitir mensagens de socorro e de solidariedade e intervir nos acontecimentos políticos como bons artistas que aprenderam a lutar por a justiça, para alcançar a paz. Conta Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços que um garoto chamada Diego não conhecia o mar, seu pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul: Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai.-- Me ajuda a olhar! É isto que me estimula a participar de iniciativas que buscam descortinar através das infinitas possibilidades de beleza e criatividade que a arte oferece um mundo de justiça e felicidade. Penso que seja um bom papel que a arte pode desempenhar num pais que consegue, sabe Deus como, conviver lado a lado com tanta beleza e com tanta feiura. Ajudar a olhar o que das tradições que herdamos merece ser preservado, o que deve ser jogado fora. Ajudar a olhar o que alimenta as nossas esperanças e os nossos sonhos, e o que nos faz deixar de acreditar e de lutar por eles. Ajudar a olhar o que nos torna diferentes e originais, ao contrário daquilo que nos confunde e que nos deixa bastante parecidos com os demais. Publicado no Jornal da Cidade em 19 de maio de 2004 com o titulo " Outro mundo é possivel, outro olhar é necessário." e no Webjornal Balaio de Noticias P.S.: Em o periodo de 23 a 25 de Novembro estaremos participando do 3º Fórum Popular de Cultura esperando que este e outros eventos possam contribuir para diminuir o isolamento e a falta de reflexão que enfraquece o potencial transformador das milhares de experiências que envolvem crianças, adolescentes e jovens e algumas centenas de adultos que não deixaram de acreditar que vale a pena continuar fazendo arte e educação popular para virar esse mundo em «Festa, Trabalho e Pão» como disse um dia, o poeta José Carlos Capinam. Número de frases: 30 Responsável por grandes sucessos da teledramaturgia brasileira a partir da década de 1970, a TV Globo criou em 1980 uma atração estrategicamente interessante, tanto para a emissora quanto para os espectadores. Em maio daquele ano, estreou o programa Vale a pena ver de novo, sessão vespertina dedicada à reapresentação de novelas bem sucedidas na audiência global. Através de ela, o público tinha o horário da tarde disponível para rever tramas que agradaram, e a cúpula global encontrava mais uma forma de lucrar com os gastos de suas telenovelas (garantindo audiência do horário em que aparentemente as donas-de-casa -- boa fatia do público responsável por a consolidação das novelas -- estivessem em frente à televisão). Anteriormente, a TV Globo dedicava esporadicamente horários de sua programação para compactos de suas novelas, mas a partir de 1980, a prática se tornaria constante graças ao pomposo e nostálgico título de Vale a pena ver de novo. A primeira novela a ser reapresentada no horário foi Dona Xepa, trama adaptada por Gilberto Braga a partir da peça de mesmo nome escrita por Adolpho Bloch e exibida em 1977 no horário das 18h. Entretanto, o que seria uma chance de rever telenovelas que fizeram parte da rotina do espectador brasileiro entre seis e oito meses, aos poucos foi esbarrando em algumas das limitações causadas por a ânsia da busca do «padrão Globo de qualidade». Desde seus primeiros anos, a sessão jamais reexibiu novelas da época do " preto-e-branco -- o que deixou no esquecimento novelas como Irmãos Coragem, Minha doce namorada e a primeira versão de Selva de pedra. E, como a primeira novela totalmente feita já na época da TV a cores foi ao ar em 1973 (O bem amado, que se caracterizou por trazer um festival de figurinos com cores berrantes, pois os figurinistas ainda não sabiam do impacto que as roupas coloridas tinham no televisor), mas ainda com restrições tecnológicas, a TV Globo teve receio de passar novelas com critério de qualidade aquém do que ela trazia atualmente. Com isso, a sessão do Vale a pena ver de novo se tornou um mero momento no qual personagens que o público tinha visto cerca de dois ou três anos antes reapareciam no horário da tarde, num horário que variava de acordo com a duração da atração que viria em seguida. Em raros momentos o horário fugiu deste padrão, e em ocasiões extremamente especiais -- casos de Roque Santeiro (originalmente exibida entre 1985 e 1986 com sucesso de crítica e público e que, ao ser reapresentada entre 2000 e 2001 como forma de comemorar os 35 anos de funcionamento da TV Globo, teve minguados 12 pontos) e A viagem (que no ano passado foi reprisada por a segunda vez em função do sucesso de Alma gêmea, então novela das 18h e que também trazia o espiritismo como trama central). Além das limitações causadas por o receio de destinar parte da programação a um produto aquém de sua qualidade atual, a cúpula global afirma que o público pesquisado prefere rever novelas mais atuais, com personagens ainda «frescos» na memória -- caso da novela que hoje ocupa o horário, De a cor do pecado, escrita por João Emanuel Carneiro e exibida no horário das 19h três anos atrás. Um exemplo disto foi a reprise da novela Por amor, de Manoel Carlos, que ao ser reexibida entre 2002 e 2003 conseguiu muitas vezes superar em audiência a então novela das 21h do horário global -- Esperança, de Benedito Ruy Barbosa. No entanto, a emissora agora passa por outra restritividade: o retorno à censura. Com a série de medidas tomadas por o governo para combater a tão falada «baixaria na televisão», todas as emissoras tiveram de adequar seus programas às indicações destinadas para cada horário. Em o horário das 14:30 (em que vão ao ar geralmente as reapresentações de novelas do Vale a pena ver de novo), a indicação é para programas que tenham censura livre, enquanto as novelas do horário das 21h trazem a recomendação de que são adequadas para maiores de 14 anos (por terem temas adultos, assassinatos e insinuações de sexo). O caso mais extremo disto ocorreu com a novela Laços de família, de Manoel Carlos. Em sua passagem por o horário de Vale a pena ver de novo, a personagem Capitu (vivida por Giovanna Antonelli), que era uma garota de programa teve sua participação extremamente reduzida para que a trama se adequasse à censura livre. Desde então, a TV Globo passou a alternar em seu horário tramas que originalmente foram exibidas às 18h ou às 19h. Criado com o intuito de fazer reviver a memória da telenovela brasileira, o Vale a pena ver de novo aos poucos é reduzido a uma coisa qualquer apresentada apenas para preencher espaço na programação global. Número de frases: 20 É a reapresentação diária do descaso com a história da teledramaturgia do país. Em o Maranhão tem muito Ribamar. A Paraíba é conhecida por ser cheia de Raimundos Nonatos e Goiás já tem uma forte candidata a terra dos Zés. É Itaguari, cidadezinha de 4,3 mil habitantes, a 90 quilômetros da capital, que prepara-se para promover dia 18 de março a 3ª Festa dos Zés. Como nas primeiras edições (em 2004 e 2005), o evento deverá contar com cerca de 200 Josés, terá galinhada, shows de duplas sertanejas (Mozart e Mozair), catira (com o grupo Irmãos Oliveira) e forró (com o sanfoneiro Zé Getúlio). Em a abertura, há celebração com católicos e evangélicos lendo passagens bíblicas sobre os Josés que aparecem nos textos do Evangelho. O Zé mais sortudo da festa leva uma bicicleta nova em sorteio. A festa, conta o organizador, José Divino, o Zelão, era para ter começado há seis anos numa das fazendas da cidade, mas a idéia morreu junto com o fazendeiro, também Zé. «Tínhamos muito mais Zés do que hoje, mas ainda assim não conheço outra cidade goiana com tanto Zé como aqui», diz Zelão, comerciante, ex-vereador por dois mandatos e também organizador da festa de folia de reis na cidade há 18 anos, uma das mais tradicionais de Goiás. Para realizar a festa dos Zés, Zelão conta com o apoio de comerciantes da cidade: o José Valdo do supermercado e o Zezico, dono do cartório (José Neto Sobrinho). A prefeitura também ajuda. O nome do prefeito? Não é prefeito, é prefeita, Maria, «que é para quebrar a hegemonia dos Zés», brincou ela, Maria Virlene Moreira Ferreira (PL), em primeiro mandato. Em a lista de convidados, além dos Zés da cidade, Zelão elenca e convida 22 prefeitos goianos que assinam José. Os deputados Zé Gomes e Zé Nelto também costumam ser convidados. Não basta ser Zé A data da festa, segundo Zelão, foi escolhida para combinar com o dia de São José. Mas foi mais por a fama nacional do santo, porque o padroeiro de Itaguari é São Sebastião. A abertura religiosa deve ser de novo bem democrática. Em as primeiras edições, os Zés conseguiram reunir um Zé católico e outro evangélico para a celebração, até integrantes da conservadora igreja evangélica Deus é Amor devem voltar a participar. Em Itaguari, como é comum em todo o país, os Josés nem sempre carregam sobrenomes lisonjeiros. Circulando por a cidade com o repórter, Zelão encontrava tanto José que despertou a desconfiança de que nem todos seriam de fato Zé. Mas ele dava «apelido aos bois». Em a avenida principal da cidade, a José do Couto, Zelão elencava os colegas. «Tem o Zé Pinto, Zé Leitão, Zé Gamela, Zé Paulista, Zé do Pau, Zé Pelanca, Zé Fogão, Zé Taboca, Zé Quiabo, não, o Zé Quiabo mudou para Goiânia», corrigiu. O Zé mais famoso da cidade, por enquanto, é José de Freitas, o André, da dupla com Andrade. Segundo Zelão, eles prometem aparecer desta vez, já que não foram nas primeiras edições. E o esforço para tornar Itaguari a terra dos Zés não é pequeno. Para ajudar a engordar os números da festa, teve Zé que adiou viagem, como fez Zé «Butique» (José Ferreira Sobrinho), que se mudou para Palmas (Te o) e esperou por a festa de 2004 para voltar para casa. Zezico, o primeiro e único tabelião da cidade, mostrou o fichário de seu cartório, que soma 137 documentos com reconhecimento de firmas de Josés, mais 260 registros de propriedades em nome de Zés. Cada livro de registro civil aponta uma média de 43 Josés nascidos na cidade; são seis livros, o que dá uma estimativa de 258 Josés nascidos nos últimos 30 anos em Itaguari, «uma verdadeira zé reforma agrária», ironiza Zezico sobre o município, cujas propriedades rurais têm entre cinco e dez alqueires. A base econômica é gado de leite e há dois laticínios na cidade. Não deve ser difícil ao leitor adivinhar os nomes dos empresários ... Em meio a tantos Zés, até os visitantes correm o risco de serem confundidos como tais. Em os dois primeiros anos os comes-e-bebes foram regados a galinha, mas em 2006 está prometido ter carne mais substanciosa. «Vai ser de boi Zebu», brinca Zelão. Para a festança, desde já deixou extensivo o convite á reportagem do Overmundo, devidamente identificada como «Zé Wander». Festa é insuflada por tradição foliã Boa parte da animação que alimenta a Festa dos Zés de Itaguari vem da tradição em festejos que a cidade carrega na folia de reis. O próprio organizador da festança de hoje é o principal realizador da folia de reis na cidade há 18 anos. Mas a tradição, ele garante, começou há 76 anos por as fazendas da região, quando Itaguari era distrito de Itaberaí, também famosa por as festas populares de fundo religioso. Com apoio apenas da comunidade local, Zelão e a família das cantoras Irmãs Freitas encampam uma reunião de foliões que chega a atrair até três vezes o número de moradores a cada 6 de janeiro. Em 2005, foram consumidas18 vacas e cem latas de doce, além de dezenas de panelões de arroz, feijão e salpicão, números confirmados? in loco? por este repórter. Com a falta de patrocínio, as principais atrações da festa costumam ser os próprios violeiros da cidade, como André e Andrade, e a famosa dupla Zé Mulato e Cassiano, de Brasília, que às vezes vai à cidade sem cobrar cachê. Perfil de São José As principais informações que se tem sobre São José são encontradas nos primeiros capítulos do Primeiro e Terceiro Evangelhos. Existe uma literatura que, embora apócrifa e não pertencente aos autos da Igreja (desconsiderada portanto como " Livro Sagrado "), foi feita na tradição judaica e revela muito sobre a figura de José. Entre essas obras, as que mais abordam episódios da vida de ele, citam-se Evangelho de James, O Evangelho do Nascimento da Virgem Maria, A História de José, o Carpinteiro, entre outras. Esses escritos dão conta de que José nasceu em Belém de Judá e presumivelmente deve ter permanecido por lá até a idade adulta (12 anos, por os costumes judaicos). De a mãe não há informação confiável, mas o pai se chamava Jacó, que levou a família para Nazaré da Galiléia. José, com o irmão mais velho, Cleófas, trabalhou na lavoura, ajudando o pai a produzir alimentos para consumo próprio e comercialização. Com os anos, revelou notável habilidade para o trabalho com madeira, que o levou a trocar o campo por os centros maiores e tornar-se carpinteiro. Foi a época em que conheceu Maria, mãe de Jesus Cristo. Tanto a Bíblia como esses escritos «não-eclesiásticos» falam de um José de poucas palavras, um homem de gênio calmo e retraído, dedicado ao trabalho e às orações. Em o Brasil, o nome do santo ficou associado a enchentes porque a data dedicada a ele, 19 de março, cai justamente num período de intensas chuvas. O nome José por o mundo Em Árabe? Youssef Inglês? Joseph Francês? Joseph Espanhol? José Alemão? Joseph Russo? Jozef Turco? Número de frases: 66 Yossuf Sabe o que faz do brasileiro um dos povos mais empreendedores do mundo? Por quê não desistimos nunca? Os sonhos. Quando ainda estava no quinto semestre de jornalismo, recebi a missão de fazer uma foto com o tema «Viva o povo brasileiro». O professor me pediu que fizesse uma foto alegre, que retratasse a alegria do brasileiro. Só que nós somos mais do que isso ... Aceitei a missão e saí com minha máquina por as ruas de Lauro de Freitas, cidade onde moro, até chegar ao famoso quiosque das baianas, na Amaralina, em Salvador. Resolvi comer um acarajé, e quando estava indo em direção ao tabuleiro, passei por uma senhora, maltrapilha, sentada num suporte de sombreiro sujo, no chão molhado de chuva. Parei, observei bem e percebi que ela estava comendo um sonho, de goiaba eu acho. Perguntei seu nome, mas ela não soube me responder. Olhei a sua volta e outras três moradoras de rua estavam a comer seus sonhos. Perguntei também se, além do sonho que comia, ela teria outro, subjetivo e que a motivasse a sair de ali, daquela posição quase estática. «Tenho sim senhor. Todas nós temos. Sabe por quê estou olhando para lá? Porque meu sonho é chegar lá», disse. Seus olhos miravam um hotel que não era cinco estrelas, mas parecia ter um certo conforto. Pelo menos um cobertor que a esquentasse daquele dia frio e chuvoso. «Quero ter minha cama, minha cozinha e meu banheiro. Quero criar meus filhos. Um dia eu chego lá». Pedi para fazer uma foto, ela deixou sem pestanejar. Fiz em PB, achei que seria melhor. Logo após fazer a foto um rapaz, também maltrapilho me chamou e perguntou por quê fazia fotos daquela mulher. Em uma boa conversa, ele me contou que ela se chama Edinalva e que deixou a cidade de Queimadas há sete anos em busca de seu sonho: morar em frente ao mar. A situação de miséria que vive Edinalva no quisoque das baianas não é tão diferente da que vivia no interior, porém ela ainda possui uma chama que a mantém viva, que é o seu sonho. Assim é o restante do povo brasileiro, que luta por seus sonhos todos os dias, que corre atrás de seu pão do dia-a-dia e com poucos mirréis leva a vida com toda a alegria. Somos assim, não desistimos fácil. Não abrimos mão de nossos sonhos fácil. O que seria de nós sem os nossos sonhos? Sejam eles de goiaba ou de doce de leite, sem eles não seríamos brasileiros. Não seríamos como Edinalva ... Número de frases: 33 Viva o povo brasileiro! ... ou United Colors of Roots, Rock Reggae ². Em o ano de 2000, estagiei por quatro meses no Senac e uma tarefa que eu tinha diariamente era a de ler os jornais Correio da Bahia, A Tarde e Tribuna da Bahia. Tudo. Tinha de ler o jornal todo. Economia, política, rural, revista da TV, informática, classificados, coluna de July ... só pra ver se havia algo falando do Senac. Se eu avistasse o nome SENAC escrito, tinha de copiar a matéria, imprimir, marcar com um hidrocor o nome SENAC, dizer em que jornal foi, de que dia, ano e mês e entregar na diretoria. Em o começo era divertido, mas depois de um feriadão ... O feriado foi de quinta até domingo. Cheguei na segunda e tava lá, na minha mesa, o A Tarde de quinta, o A Tarde de sexta, o A Tarde de sábado, o A Tarde de domingo, o A Tarde de segunda, o Correio da Bahia de quinta, o Correio da Bahia de sexta, o Correio da Bahia de sábado, o Correio da Bahia de domingo, o Correio da Bahia de segunda, a Tribuna da Bahia de quinta, a Tribuna da Bahia de sexta, a Tribuna da Bahia de sábado e a Tribuna da Bahia de segunda (domingo não tinha Tri). Pedi demissão na hora. As campanhas da Benetton, nos anos 90, feitas por o fotógrafo Oliviero Toscani, foram duramente criticadas por os donos de agências e publicitários espalhados por o mundo. Toscani mostrava uma mãe olhando o corpo do filho morto, com uma poça de sangue ao redor. Uma foto real. Em outra, cruzes alinhadas num cemitério militar. Em outra, a roupa de um soldado morto em Sarajevo, com o furo da bala na camisa e o sangue espalhado. Esses anúncios ficavam em cartazes gigantescos espalhados por as principais cidades do mundo, com a marca United Colors of Benetton no cantinho, no terceiro quadrante. Com o tempo, os jornais, pressionados por o dinheiro dos anunciantes das grandes agências de publicidade, passaram a boicotar os anúncios da Benneton. Alegavam que a verdade não podia ser mostrada. Não em publicidade. O mundo jovem, bonito, feliz, com um carro do ano, numa praia paradisíaca, não podia ter seu encanto quebrado. O mundo precisa consumir. Toscani se defendia de forma coerente, dizendo que o que ele fazia era jornalismo. Dizia que não havia diferença entre o que ele fazia e o jornalismo convencional, com anúncios de tudo entre as noticias trágicas do mundo. Depois dos comerciais de Insinuante, Coca-Cola, Skol e Itaú, o Fantástico mostrou, segundo «Zeca Camargo,» com exclusividade», o desenho animado, em cores, de como foi o assassinato de Isabela Nardoni. Em 1994, eu tocava em minha primeira banda. Uma banda de reggae chamada Filhos de Jah. Não durei muito, queria ser do rock, mas como os únicos músicos que eu conhecia eram eles, fiquei na banda até onde deu. -- Man, semana que vem tem ensaio, e a gente tá querendo tocar Filho da Terra ³, você tem que ouvir ela -- me disseram. Ouvi a música sem parar. Até hoje sei ela de cor, cada virada, cada batida no prato, mas mesmo assim, não garanti o emprego. Um outro baterista, que já tinha sido previamente convocado para o ensaio, apareceu no estúdio e tocou pra caralho. Foi a última música que toquei com a banda. É a música de Edson Gomes de que mais gosto. Cito ela no meu livro. Um ano depois, no carnaval, minha casa ficou cheia de gente. Amigos meus e de minhas irmãs. Minha bateria ficou montada na sala, onde eu tentava, insistentemente, tocar em cima de Jokerman;;, música de Bob Dylan, na versão de Caetano Veloso. Segundo o próprio Caetano, Bob Dylan mandou uma carta pra ele, elogiando muito a tal versão, que está no disco Circuladô Vivo. Meu aniversário de 19 anos, em 1997, comemorei no Mercado do Peixe. Ganhei de Rogério Big Brother um CD de uma banda de nome Baia & Rockboys. Mauricio Baia, cantor e principal compositor da banda, é baiano, mas mora no Rio de Janeiro desde pequeno, onde montou sua banda. Em a primeira audição, aquele disco me ganhou. Ouço muito até hoje. As melodias, as guitarras, as letras ... «Sim, acho que não, nessa overdose de lucidez, eu entro em contradição», canta Baia em Overdose de Lucidez;;, uma de suas crônicas musicadas, que são tão interessantes quanto as de Bob Dylan e Raul Seixas. Uma vez, na casa de uma amiga, vi um livro de cartuns. Comecei a folhear e ficar bastante envolvido com os desenhos. Eram crônicas baianas em cartuns coloridos. As cores usadas, as mesmas de um estojo de 12 cores, e a forma de pintura, um traço perfeitamente simples, usados com inteligência e humor sobre o dia-a-dia da Bahia. Procurei o nome do autor e achei «Nildão». Já conhecia o trabalho de ele, sempre vejo seus livros por aí, nas casas de amigos, em bares, livrarias, e os seus textos e desenhos sempre me chamaram a atenção. Mas este, eu nunca tinha visto. O nome é Bahia: Odara ou Desce. Mandei um e-mail: -- Nildão, me chamo Ricardo, lancei um livro (release em anexo) e gostaria de te enviar um exemplar e blá, blá ... Ele respondeu: -- Cury, meu velho, acompanho o seu blog, agradeço a sua atenção, meu endereço é ... Mas eu demorei pra aparecer e três dias depois ele me mandou um outro e-mail: -- E aí, Cury, cadê meu livro? Sou como criança: se me prometem, acredito. Fui na casa de Nildão entregar o livro. Foram três horas de conversa. Formou-se em jornalismo, mas preferiu sair de perto quando começou a trabalhar num jornal e ver a máquina se movendo. Segundo o próprio, desistiu assim que ele percebeu quem eram os verdadeiros donos dos jornais e entendeu o porquê da ausência de liberdade que sentia naquele meio. Foi ser cartunista por conta própria, fazendo o seu próprio jornalismo. Mostrando o que via em desenhos. Seu primeiro livro se chama Me segura qu ' eu vou dar um traço. Me deu conselhos: -- Jorge Amado disse ao escritor Milton Hatoum que, para se angariar público, o escritor precisa publicar cinco, dez livros ...-- me alertando sobre o fato de eu ficar muito tempo sem atualizar o blog. Acho que nesse ponto Dorival discordaria de Jorge. Dorival diria: -- Oxe, Jorge, pra que tanto? Em os anos 70, Nildão passou a fazer dos muros da cidade de Salvador o seu jornalismo. Diante do jornalismo oficial, a única forma de dizer o indizível era nas paredes, de madrugada, com as latas de spray na mão. Ironicamente, as coisas que Nildão dizia nos muros passaram a chamar tanto a atenção que começaram a sair nos próprios jornais, inclusive na Folha de São Paulo. Ele percebeu com isso que o poder da liberdade era maior e mais saudável do que o poder preso da redação de um periódico. Criou com um amigo a UPI -- United Press Imãos Metralhas --, feita, exclusivamente, para divulgar falsas notícias por os muros da cidade. «Irmã Dulce tem conta na Suíça», dizia uma de elas. «Pintanguy desengana João Durval», dizia outra. O livro Bahia: Odara ou Desce, 11 anos depois de lançado, se transformou numa campanha publicitária da Bahiatursa. O jornalismo livre de Nildão, em cartazes espalhados por a cidade e na televisão, onde os desenhos ganharam animação e prêmios. Conversamos sobre meu avô. Sobre suas poesias e a vontade de ele de lançar um livro independente aos 90 anos. Entreguei o meu Para Colorir pra ele e ele perguntou, dos diversos livros que ele já publicou, qual eu iria querer levar. -- O colorido da Bahia -- respondi. Em 1998, Baia & Rockboys era um dos nomes escalados para o evento baiano Garage Rock. Duas semanas antes do show, recebi um telefonema: -- Alô, Ricardo? -- Sim. -- Aqui é Ritinha, amiga da sua irmã. Estive em sua casa três anos atrás, num carnaval, lembra de mim? -- Acho que não ... Era muita gente lá em casa. -- Enfim, lembro que você tocava bateria, Bob Dylan e tal. Você ainda toca? -- Sim. -- Então, eu tô produzindo uma banda daqui de o Rio, não sei se você conhece, Baia & Rockboys ... -- Conheço ... -- Conhece?! -- Conheço, ganhei o CD de presente no meu último aniversário. -- Perfeito -- disse ela. A banda viria tocar em Salvador, no Garage, mas o baterista Pedrinho também tocava numa outra banda, uma de reggae chamada Dread Lion, e não poderia vir, pois a Dread Lion teria um show, no mesmo dia, numa outra cidade. -- Estamos sem baterista e não conhecemos ninguém daí, então me lembrei de você, que ficava tocando na sala e tal ... Você tocaria bateria com a gente nesse show? -- Claro -- respondi na hora. Passei a ouvir o disco sem parar, tentando decorar cada nuance, ansioso por o primeiro ensaio, que seria um dia antes do show. Mas, dois dias antes do show, perdi o emprego. De última hora, o baterista pôde vir. Fiquei pirado. O show foi incrível. Tonho Gebara, guitarrista da banda, assinou em meu «CD» em breve vamos fazer um som juntos». E 10 anos depois, enfim, tive a chance. Mês passado, Waltinho, um amigo do colégio, hoje produtor cultural, me ligou: -- Você ainda toca bateria? -- Não. -- E se for pra tocar com Baia? -- Acho que sim. Claro que sim. Gosto muito do trabalho de ele. Com o tempero de 10 anos depois. Baia acabou de lançar seu primeiro disco solo, sem os Rockboys. Infelizmente, não seria mais possível fazer o som com o sensacional guitarrista Tonho Gebara, que foi» ... dar uma volta do outro lado pra ver como é que tá ";;, em 2005, depois de um infarto fulminante. Ele estava tocando com a banda de reggae Natiruts. Seriam dois shows. Um em Salvador e outro em Feira de Santana. Seriam 20 músicas. Dezenove que variavam por os seus quatro discos, e uma de Bob Dylan, Hurricane;; Tinha três semanas para aprender todas as 20. Algumas muitas desconhecidas. Fiquei ouvindo as 20 sem parar. Onde eu fosse, eu ouvia. Até embaixo d' água. «Será que dessa vez vai?», me perguntava o tempo todo. Uma semana antes do show, houve o primeiro ensaio. Waltinho cantando. A banda toda foi formada aqui. Kiko na guitarra e Marquinhos no baixo. Kiko está sem banda e hoje trabalha como roadie da Timbalada. Marquinhos toca guitarra numa banda de reggae chamada Mosiah. Entrou há pouco tempo. Conheci os dois no primeiro ensaio, que também não se conheciam. Ensaiamos com Waltinho sendo o cantor, até que Baia, finalmente, chegou. Em o primeiro ensaio oficial, todos estavam um pouco tensos, preocupados com a execução, mas aos poucos as coisas foram entrando no ritmo. Ser contratado pra tocar com um artista que se admira é uma benção. Com certeza é algo raro para qualquer músico. Em uma parada para o descanso, cheguei atrasado na salinha onde todos conversavam. Peguei a conversa pelo meio: -- ... isso foi quando eu tocava com Edson Gomes ...-- dizia Marquinhos. -- Você tocou com Edson Gomes?-- perguntei surpreso. Ele não só tocou, como gravou o baixo de muitas músicas do maior reggaeman da Bahia, como baixista da banda de ele, a Cão de Raça. -- Você gravou o baixo de Adultério;;?-- perguntei entusiasmado. Adultério é uma outra música de Edson Gomes que a Filhos de Jah tocava, e que a linha de baixo era muito discutida por todos. -- Não ... essa não fui eu ... Eu ia perguntar se ele gravou Filho da Terra, mas me deu um branco e não lembrei o nome da música: -- Você gravou aquela ... éééé ... porra, me esqueci o nome, adoro aquela música, ééé ... -- Eu gravei Filho da Terra, conhece? O show em Salvador foi muito bom. Casa cheia e público empolgado. O segundo show, em Feira, quase não teve. Kiko teria que viajar com a Timbalada e não daria tempo de arrumar um outro guitarrista. Baia faria o show só com voz e violão, o que ele faz muito bem, mas que não queria fazer dessa vez, pois dividira a noite com outras bandas, daí queria chegar também com banda. A solução era ir como power-trio. Baia voz e violão, mais eu e Marquinhos. A banda se concentrou na casa em que Baia estava hospedado, local marcado com a van que faria o transporte até a cidade de Feira de Santana. Fui o último a chegar. Marquinhos estava no sofá da sala, com o violão na mão, tocando e cantando de forma sublime a música Trem das Cores;;, do disco Cores, nomes, de " Caetano Veloso. «E aqui, trem das cores, sábios projetos: Tocar na Central. E o céu de um azul-celeste, celestial», cantava Marquinhos. Quando ele acabou de tocar a de Caê, dessa vez não esqueci: -- Porra, Marquinhos, por favor, toque Filho da Terra -- disse eu, suplicando. Ele não hesitou e começou sozinho: «Naturalmente, eu transo a mente, o corpo o espírito ...», sendo seguido por todos da sala, que faziam os vocais da música. Em o fim da música, a letra fica repetindo «oh, children, não existe cor, só você sabe que não existe cor, não existe cor ...». Ficamos todos repetindo esse mantra «não existe cor, só você sabe que não existe cor», até que Baia apareceu na sala, e na mesma melodia, perguntou: «E amarelo é o quê?». (1) Aquarela, de Toquinho e Vinicius de Moraes. (2) Roots, Rock Reggae, de Bob Marley. (3) Filho da Terra, de Edson Gomes. (4) Jokerman, de Bob Dylan. (5) Overdose de Lucidez, de Mauricio Baia e Tonho Gebara. (6) Lado Oposto, de Tonho Gebara. (7) Hurricane, de Bob Dylan. (8) Adultério, de Edson Gomes. (9) Trem das Cores, de Caetano Veloso. Número de frases: 201 Criada em 4 de setembro de 1985, a ABD Goiás vai comemorar em grande estilo os seus 21 anos de existência. De 4 a 10 de setembro, a entidade promove a Mostra AB D21 -- Curta Documentário, no Cine Goiânia Ouro, quando fará uma retrospectiva das produções realizadas por abedistas de Goiás e do Brasil, nas duas últimas décadas. Em a oportunidade, a ABD Goiás presta homenagens a Eduardo Benfica, ex-presidente da entidade falecido no dia 19 de agosto último, e a José Petrillo, ex-presidente falecido no dia 21 de agosto de 2000. Em a ocasião será servido um coquetel aos presentes. Além de curtas e documentários, será exibido também o longa-metragem de João Batista de Andrade «Vlado -- 30 Anos Depois», no dia da Independência do Brasil. Logo após haverá um debate sobre a questão da liberdade de expressão. A mesa-redonda será formada por representantes do Sindicato dos Jornalistas, da OAB-GO, lideranças estudantis, produtores de audiovisual e da sociedade civil organizada. José PETRILLO Ganhador de alguns prêmios nacionais por produções de cinema e propaganda, José Petrillo foi um batalhador por o reconhecimento do cinema goiano em nível nacional, tendo formado toda uma geração de diretores e fotógrafos de cinema. Foi pioneiro da animação em Goiás. Faleceu no dia 21 de agosto de 2000, aos 82 anos, três meses depois de ter sido homenageado no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, na cidade de Goiás. Já com a saúde abalada, ele não pôde comparecer à solenidade. Natural de Ouro Preto (MG), no dia 3 de março de 1918, Petrillo veio para Goiânia em 1963, fundando aqui a Truca -- Cinema Arte e Propaganda, em 1966. A Truca exerceu forte influência no cinema goiano. Em 1970, fundiu-se à Telecine de Euclides Nery, nascendo desse casamento a Makro Filmes, que se transformaria na maior produtora do Centro-Oeste na época, produzindo filmes institucionais e de ficção e documentários para cinema. Um dos primeiros filmes produzidos por José Petrillo foi «O Dia Marcado, dirigido por Iberê Cavalcanti em 1970». Três anos após, produziu «O Leão do Norte», de Carlos Del Pino, rodado em Pirenópolis. Em 1974, foi responsável por a produção de «A Lenda de Ubirajara», dirigido por André Luiz de Oliveira na Ilha do Bananal, ganhador do prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. José Petrilo fez praticamente tudo à frente e atrás das câmeras. Dirigiu centenas de comerciais, produziu um sem número de documentários e conquistou várias premiações. O mais famoso é «Cavalhadas de Pirenópolis, curta-metragem em 35mm premiado em 1978» com o Troféu Candango no 11º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília. Em 1982, Petrillo realizou «A Primitiva Arte de Tecer em Goiás», curta sobre a fiandeiras do interior do Estado. Com ' Areia, Cajazinho e Alfenim, de 1984, o cineasta fez uma homenagem ao trabalho artístico de Goindira do Couto, Marcillon e Sílvia Curado. Seu último trabalho para cinema foi «Uma Pequena Viagem que virou Poema», no qual focaliza as muralhas da cidade de Paraúna e as grutas de Terra Ronca, em São Domingos. O documentário foi realizado em 1994, quando Petrillo acompanhou a expedição da antropóloga Mari Baiocchi por as grutas que são consideradas as maiores e mais bonitas do Brasil. Benfica: Ícone De a Cultura Em Goiás Eduardo Benfica destacou-se por sua atuação no audiovisual no Estado. Foi produtor de mostras e festivais, dirigente de entidades, diretor de cinema ou júri e um dos criadores do Cineclube Centro de Cultura Cinematográfica. Foi presidente da Associação Brasileira de Documentarista, seção de Goiás (ABD-GO), entre 2000 e 2001. Era diretor do Museu Pedro Ludovico e membro da direção nacional da ABD. Ao lado do cineasta Beto Leão, dirigiu «Goiânia: do Batismo à Modernidade», e escreveram juntos o livro» Goiás no Século do Cinema». Nascido em 28 de setembro de 1945 em Lages (RN), Eduardo Antônio de Souza Benfica veio para Goiás em 1949, onde passou a infância. Em a virada dos anos 50/60, mudou-se para a capital potiguar, quando participou do movimento cineclubista no cineclube Tirol. Retornou a Goiânia em 1966, época em que foi comentarista cinematográfico no jornal O Popular. Foi um dos membros do Centro de Cultura Cinematográfica, o primeiro cineclube a ser criado na Capital. Ao lado de Beto Leão, co-dirigiu o vídeo «Goiânia do Batismo à Modernidade» e foi co-autor do livro «Goiás no Século do Cinema». Coordenou a Comissão de Seleção do I Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), em 1999, foi membro do Júri Oficial do II Fica (2000) e do Júri da OCIC e da Unesco no III Fica (2001). Esteve à frente das mostras de cinema no III, IV e V Fórum Goiano sobre Cultura (promovido por a Assembléia Legislativa) e foi jurado do XII Festival de Cinema de Natal, em 2001. Presidiu a Associação Brasileira de Documentaristas -- seção Goiás (ABD-GO) 2000 e 2001 e integrou a diretoria nacional da ABD. Debate Sobre Liberdade De Expressão Atenta a esse debate nacional, a ABD Goiás vai realizar uma ampla discussão sobre a questão da liberdade de expressão no próximo dia 7 de setembro, com representantes do Sindicato dos Jornalistas, da OAB-GO, lideranças estudantis, produtores de audiovisual e da sociedade civil em geral. Para estimular o debate no dia da Independência do Brasil, será exibido antes o longa-metragem de João Batista de Andrade «Vlado -- 30 Anos Depois». Longe de ser panfletário, o documentário faz um registro emocionado de um homem que representou muito não só para a imprensa brasileira -- foi diretor de jornalismo de TV Cultura, editor de cultura da revista Visão, entre outros trabalhos --, como também para o fim da ditadura militar no Brasil. Herzog foi morto em 25 de outubro de 1975, após ser violentamente torturado no Doi-CODI (órgão da repressão política do regime militar). A versão oficial sustentava que Vlado, como era chamado por os amigos, se suicidou -- o que não é verdade, conforme foi provado anos depois. Embora existam algumas imagens de arquivo ilustrando a época e os acontecimentos, «Vlado -- 30 Anos Depois» encontra a sua força no depoimento de diversas personalidades que foram amigas do jornalista, além da viúva Clarice Herzog. Número de frases: 47 São sempre depoimentos emocionados de pessoas que sentiram na pele os horrores de lutar para livrar o País da ditadura. há pouco mais de uma década, as grandes gravadoras mandavam e desmandavam na indústria fonográfica. Em a época, gravar um CD-R ainda engatinhava no quesito popularidade, o VHS dominava as prateleiras de videolocadoras, a internet era um luxo discado para poucos e celular só em ficção científica ou no MIT. Espremido entre limitações tecnológicas e a prepotência das majors (Sony, Warner, Universal), o mercado dos games corria por fora na conquista de mais espaço dentro da cadeia econômica mundial. Quem está na casa dos 30 anos, certamente passou por o telejogo e assistiu de camarote à febre do console da Atari. Depois, em progressão geométrica, viu os vídeogames embarcarem num turbilhão de sucessivos avanços tecnológicos até atingirem um patamar que hoje dita muita regra de ordem comercial e, principalmente, comportamental. O antes e o depois Bem, esse blá-blá-blá todo é para chamar atenção ao seguinte detalhe: antes, a empresa que quisesse incluir uma música (devidamente controlada por as ' megagravadoras ') num jogo tinha que rebolar muito para não pagar rios de dinheiro por o uso / direitos autorais. A luta era desigual e sempre favorecia as poderosas da indústria fonográfica. O tempo passou voando, as relações comerciais se inverteram, a internet está aí, as majors perderam terreno para a pirataria e, sobretudo, às iniciativas independentes que passaram a se beneficiar com as facilidades de gravação e distribuição de áudio. Enquanto isso, as empresas criadoras de games -- mesmo com a versão pirata nas esquinas -- nunca lucraram tanto. Hoje a conversa é outra, há fila de artistas querendo ceder gratuitamente os direitos de músicas para integrar a trilha sonora de um game de sucesso. Hoje em dia é loucura ' jogar areia ' para tentar impedir, ou mesmo cobrar por a inclusão de uma composição num jogo como o 2006 FIFA World Cup (Copa do Mundo 2006), da Eletronic Arts -- uma das gigantes do setor. O alcance de um jogo desses, ainda mais em ano de campeonato mundial de futebol, sem falar na possibilidade da carreira de um artista estourar internacionalmente, faz qualquer artista (compositor / intérprete / banda) sair no tapa para garantir uma vaga nesse seleto grupo. De os games às paradas de sucesso No caso da banda potiguar DuSouto, que funde música eletrônica com rock e ritmos regionais nordestinos, a sorte literalmente bateu à porta. Recém contratada por a gravadora carioca Nikita Music, capitaneada por Felipe Llerena, a banda recebeu a notícia com ar de surpresa ... assim de sopetão. «A ficha demorou a cair», lembra o baixista e vocalista Paulo Souto. Destaque no último Festival Música Alimento da Alma (Mada), em Natal, e no Rec Beat, do Recife (PE), o DuSouto também é formado por Gabriel Souto (DJ), Gustavo Lamartine (guitarra e voz) e Joolio Castro (VJ) -- o contato com a Eletronic Arts foi todo feito por a Nikita. O quarteto papa-jerimum e o figura carimbada Sérgio Mendes (há decadas radicado nos Estados Unidos) são os únicos brasileiros escalados na seleção do game (que roda em consoles da Sony, da Nintendo e da Microsoft, mais os PCs). Mendes emplacou a velha conhecida «Mas que nada», de Jorge Ben Jor, e os nordestinos marcaram um gol de placa com» Iê Mãe Jah», mistura eletrônica com toque africano -- na verdade um sincretismo que une sonoridade modernosa a pontos de Candomblé. Em maio último, durante a realização do Festival Mada, Llerena passou ao quarteto os primeiros consoles do Brasil com o novo jogo. «Ainda não sei o que nos espera daqui para a frente, mas tenho certeza que meu sobrinho vai curtir o jogo», brinca Paulo, ainda sem uma noção exata da dimensão que a oportunidade pode oferecer e quem sabe catapultar a carreira internacional da banda. Número de frases: 25 Enquanto aguardamos os próximos capítulos, vale uma partida de 2006 FIFA World Cup só para conferirmos a trilha. Por o calendário oficial, o Dia Estadual da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro é comemorado em 30 de setembro. Mas no dia 17 de junho, as velhas guardas de todas as Escolas de Samba, além de alguns tradicionais blocos carnavalescos, se reuniram na Casa da Cultura da Baixada para um grande evento de confraternização. A festa foi organizada por grandes personalidades da velha escola do samba. Nomes como Nascimento do Vilar, Hilton da Silva, Glória, Bilinha, Sebastiana e Antonio, além de componentes da G.R.E.S Independente da Praça da Bandeira. Também se apresentou a ala mirim da Independente da Praça da Bandeira. A Casa da Cultura foi fundada na década de 90 a partir da união de um grupo de lideranças comunitárias engajadas em proporcionar mudança na vida das pessoas mediante ações culturais. Hoje, ela é a maior ONG da Baixada Fluminense e seu principal objetivo é ser um pólo gerador de cultura de idéias e de inclusão social e cultural. E é exatamente essa a importância do evento para a instituição. Segundo Marcos Ferreira, coordenador cultural da Casa, é imprescindível o intercâmbio de experiências entre is mais diversos pólos geradores de cultura, e isto inclui as escolas de samba. Mais do que isso, o evento serve para lembrar que a Casa da Cultura trabalha por a preservação das tradições culturais mais originais do povo brasileiro, democratizando este patrimônio. Foi valorizando o trabalho comunitário, expressões culturais, valores de sociedade, justiça e democracia que a Casa conseguiu dar início a diversos projetos que buscam enriquecer a vida da população local. Para a Casa, abrigar esta festividade representa resgatar os valores que fazem seus colaboradores trabalharem por a organização a cada dia. A Velha Guarda representa, além do expoente máximo da cultura brasileira, que é o carnaval, o samba de raiz, plantado por antigos compositores que fizeram parte da fundação da escola e são integrantes da Velha Guarda que nasceu com o intuito de valorizar seus compositores e mostrar que escola de samba não é só carnaval. O objetivo foi cumprido. Divulgar a qualidade da música dos grandes sambistas e a preservação da memória das escolas. Mais do que isso, a história das Escolas de Samba do Rio está intimamente ligada a projetos sociais nas comunidades de baixa renda, especialmente nas favelas próximas às suas quadras de ensaio. De a mesma forma, a Casa da Cultura trabalha em prol das comunidades carentes da Baixada Fluminense e abraçar a comemoração da velha guarda significa também apoiar o trabalho social feito por todas as Escolas em suas áreas. «O Brasil de Portinari " De 25 de junho a 07 de julho Horário: De seg a sexta das 08 às 17h Local: Telecentro Casa da Cultura End.: Rua Machado de Assis, lote 12 / Quadra 84 -- Praça da Bandeira -- São João de Meriti Tel.: (21) 27515825 www.casadaculturabaixada.org.br Karen Meohas Assessora de Imprensa RW2 Comunicação Número de frases: 26 karen@rw2propaganda.com.br www.rw2propaganda.com.br Zapeando por a tv num domingo à tarde, dou de cara com um documentário sobre o grupo Rebelde (ou RBD) e sua turnê latino-americana. Uma espécie de making of, mostrando os estádios, a estrutura, a histeria dos (das) fãs e perfis dos integrantes do grupo, exaltando sua beleza, talento, etc.. Todos os elementos que compõem a fórmula de sucesso de uma banda pop adolescente. Os mesmos elementos que já fizeram a fama de gente como Menudo, New Kids on The Block, Westlife, Take That, N Sync, Backstreet Boys e tantos outros. O pop adolescente existe desde que o pop é pop. Afinal, tudo começou lá em Liverpool, na década de 60, com os Beatles. Uma heresia, dirão alguns de vocês, comparar os Beatles com estes outros nomes que mais parecem casas pré-fabricado musicais, mas o elemento principal necessário para categorizar um artista nesta classe -- a histeria dos (das) fãs não por a música, mas por o visual, a estética e a, digamos, «formosura» dos artistas -- começou mesmo lá atrás, sob o nome de beatlemania. Trocando em miúdos, musicalmente existe um abismo, mas esteticamente dá pra dizer que os Beatles inauguraram esta linhagem. Execradas por a crítica em geral e por pessoas com mais de 16 anos de idade, as bandas pop adolescentes cumprem um papel importante na formação musical de muita gente e preparam o caminho para o que vem por a frente. Não são poucos os casos de gostos musicais que foram sendo refinados ao longo do tempo e acompanhando o crescimento da pessoa. Em muitos destes casos, o gosto é refinado de acordo com o amadurecimento musical do próprio artista. Haja visto que até o rei do pop, Michael Jackson, um dia freqüentou esta categoria adolescente e amadureceu (musicalmente, é claro. Como pessoa é uma outra história). Assim como os membros mais recentes desta dinastia -- Robbie Williams e Justin Timberlake, que, em busca de um trabalho musical mais consistente, arrastaram com si as hordas de fãs do passado. E é exatamente aí que a porca torce o rabo. Para a maioria das pessoas, pop não é música. É produto para vendagem, sem qualidade musical e que jamais pode ser comparado com uma banda de rock, por mais chinfrim que esta seja. Discordo veementemente. São dois lados de uma mesma moeda, mas que se confrontam em muitos momentos. Música pop não é feita para suscitar reflexões. É diversão pura, para pistas de dança, para corações apaixonados amolecidos, para consumo imediato, para se ouvir com um sorriso na cara, sem maiores preocupações. É música para momentos ensolarados, felizes, de relaxamento e deleite puro. Muita gente tem dificuldade em aceitar que existe música sendo feita neste sentido, mas os que sabem apreciar conseguem enxergar o valor de gente como os supra-citados Justin Timberlake e Robbie Williams, de musas como Britney Spears, Christina Aguilera, Gwen Stefani, de grupos como Roxette, Spice Girls, Pussycat Dolls e da nova campeã de vendas, Kelly Clarkson. Sempre separando o joio do trigo, por favor. Não custa lembrar que para cada pop bem feito, existe também um mal ajambrado. Ou, para cada Britney Spears existe um Kevin Federline (marido de Spears, que cometeu a horrenda «Popozão», supostamente baseada no funk carioca e na ginga brasileira). Nenhum destes artistas pretende mudar o mundo ou proporcionar reflexões a partir de suas letras. Mesmo porque seus temas são quase sempre os recorrentes do mundo pop: festas, amores perdidos, amores reencontrados, amores impossíveis, amores e amores. Seu propósito é único: diversão. E que mal há em deixar um pouco os preconceitos de lado e tentar embarcar nessa joyride? Seu cérebro não vai derreter ou atrofiar. Muito pelo contrário, vai ganhar alguns neurônios alegres e em busca de um pouco mais de diversão. Número de frases: 33 (texto originalmente publicado na coluna Esquema Novo, produzida por a equipe do programa Alto-Falante, no jornal Estado de Minas) Foi na véspera de natal do ano de 1995 que o ex-auxiliar de tesouraria de uma grande multinacional conheceu as drogas. O nome, ele não esconde, muito menos sua história, que é um exemplo de como nasce um traficante de drogas. Foram cinco anos traficando para altos funcionários do trabalho e mais seis anos para «cartaozeiros». Manuel Valentim Júnior tem 45 anos e é recuperando da Fazenda Esperança, uma casa para dependentes químicos. Ele aceitou conversar com mim e contou tudo ... sem reticências. Uma foto de jornal mostrou a imagem de um procurado por a justiça. Isso foi o bastante para o chefe de tesouraria da multinacional reconhecer que o traficante era irmão do seu subordinado; exatamente, Júnior. Esse foi o primeiro chefe da empresa a lhe rogar drogas, relata. Cinqüenta reais de «camisa de linha», o pedido. Júnior disse ter ficado surpreso com a situação, mas não hesitou na possibilidade de ganhar um dinheiro extra e procurou o irmão a fim de comprar a cocaína para revender. Assim, como «aviãozinho», Júnior, conhecido como Beleléu, teve o primeiro contato com a» farinha», conta. A fala era bodejante. Júnior não escondia o nervosismo com a presença da reportagem. Em o mesmo dia, a convite do chefe, ele relata que foi a uma festa na Praia do Futuro numa barra de praia, onde provou a cocaína: «ai eu gostei». Em cadeia, de chefe em chefe, a venda na empresa tornou-se rotina. «Eu passava mais tempo indo lá em casa do que trabalhando. E tudo era para cargo elevado. Em um era negócio de peão não», diz Júnior. De quinta a domingo, ele tinha que abastecer cerca de 20 pessoas na fábrica da empresa onde trabalhava. «Antes, eu não era ligado com isso. Sabia que meu irmão usava. Mas eu nunca tinha usado. A gente morava numa casa de três andares. Eu sabia que a polícia iria chegar lá pra pegar meu irmão, por isso minhas contas eram separadas pra não misturar as coisas», explica. Em as festas juninas de 1996, o traficante estava consumado. Júnior conta que a demanda aumentou a ponto de ter que estocar o produto na própria empresa, mesmo sem o conhecimento dos chefes: «Eu pegava a moto, dava a volta no quarteirão e simulava que ligava pra meu irmão. Passei a ser traficante já." Em 2001, ele foi demitido da empresa, onde trabalhava desde 1988. A cocaína não fazia mais efeito. O crack, então, era a salvação. Com o irmão preso, ele fala que teve de ir buscar «do mole» cocaína -- para fazer «do duro» ou «brita» -- crack. «Ai, eu conheci o Lagamar e as pessoas que compravam do meu irmão», diz. «O que dá dinheiro é a cocaína e o crack, por isso não procurava outra coisa." Em o Lagamar, ele conheceu os «cartãozeiros», golpistas que utilizam de uma máquina chamada» chupa cabras " para clonar o cartão de correntista de banco. «Eles gostavam muito de mim. Sabiam que eu tinha uma mercadoria boa. Passavam 15 dias usando direto e vinham de Belo Horizonte, Maranhão e Natal», diz Júnior. O preço e o efeito. «Cinco gramas era R$ 110. Depende da qualidade. Chegava até a R$ 200, se for da pedra branca. Eu vendia por R$ 150 e ganhava R$ 40. Chegava a tirar R$ 1.500 por fim-de-semana», explica Júnior. Ele fala que os cartãozeiros compravam em grande quantidade: «Em um faltava dinheiro não. Era dinheiro bem novim na liga». O recuperante diz que os clientes golpistas «davam uma tacada» -- golpe -- e voltavam para o Estado de onde vinham, ao perceber que a polícia estava investigando. «Enquanto eles estavam viajando, eu me acabava aqui com a pedra. O crack vicia na primeira tacada», confessa. Ele explica que os efeitos são diferentes. A cocaína «dá vontade de sair» e «você fica ligado». Segundo Júnior, ele chegou a ficar oito dias acordado por causa da droga. Já o crack, " te interna. Você fica escutando e vendo coisas que não existem», relata. A mãe não sabia. Maria Carmelita Gonçalves Valentim tem 71, é aposentada e desconhece a trajetória do filho. Dona Carmelita somente tinha certeza que as drogas estavam acabando com o filho. «Ele estava muito bravo. Passava o dia fora e voltava acabado», expõe. A memória da mãe não guarda as vezes que o filho passava dias fora de casa, mas as lembranças do filho que não comia e dormia no chão, ela não esquece. «Meu Deus, o que é que eu faço», suplicava a aposentada. Em conversa por telefone com a mãe, o recuperante teria dito que ela saberia a verdadeira história nas páginas do jornal a quem daria entrevista. Uma batida denúncia anônima teria levado uma batida policial à casa de Júnior, onde foi encontrado maconha, cocaína e maconha. De prontidão, atribuiu a posse da droga à Ricardo Willian Gonçalves Valentim, tendo em vista que Júnior já havia iniciado o tratamento para dependentes químicos. Ricardo foi preso novamente, dessa vez, por conta do irmão, diz. O relato da mãe mostra um fim, temporário, para a história de dois filhos envolvidos com as drogas. Um se recupera e o outro está no IPPOO (Instituto Penal Professor Olavo oliveira). Recuperação. Com o intuito de deixar o sobrinho para ser interno na Fazenda da Esperança, Júnior acabou gostando da Casa e resolveu ficar. Ele está há três meses na entidade, onde pretende permanecer até o fim, um ano. A rotina agora é trabalho, oração e convivência com outros 41 ex-dependentes químicos, filosofia da Casa. Júnior diz não saber o que vai fazer quando sair da casa, mas pretende trabalhar e cuidar da mãe. Ele finaliza a entrevista dizendo que tem a sinuca como atividade preferida e que, um dia, vai reformá-la. A Fazenda da Esperança possui 44 unidades no Brasil e trabalha na recuperação de dependentes químicos desde 1999 no Ceará. Ela foi fundada, em 1979, por o frei Hans Steppel e por Nelson Resende. A instituição será a única a ser homenageada por o Papa Bento VII, no mês de maio, em São Paulo. Por isso, a casa está precisando de doações para a viagem. Amador. O delegado titular do Departamento de Investigação de Narcóticos (Dnarc), Bruno de Figueiredo, classificou o tráfico de drogas, no Ceará, de «amador, sem estrutura e sem um poder central». Para ele, o esquema de venda de entorpecentes não pode ser comparado ao do Rio de Janeiro. O Denarc fez um mapeamento da Capital e concluiu que existem quatro áreas onde o tráfico é forte: Região do 6º. Distrito Policial, que cobre a Favela Por-doA-sol e São Miguel; 13º Distrito Policial, correspondente ao Lagamar e Cidade dos Funcionários; 30º Distrito Policial, o mais crítico e pega o Jangurussu e o Conjunto Palmeiras II; por fim, o 8º. Distrito Policial, onde estão localizada a favela Rosalina. Essa última região faz fronteira com o Pantanal. Ele confirma que traficantes presos, portando crack, estão na frente das estatísticas. A maconha é apreendida em maior quantidade, mas menos pessoas estão usando, afirma. O mês de fevereiro fortaleceu os números e registrou, em Fortaleza, a apreensão de 334g de crack, em detrimento de 239,63 g de maconha. Bruno atribui a mudança ao baixo preço da droga, além de viciar mais rapidamente. Ano passado, de acordo com o Denarc, saíram de circulação 91,002 kg de maconha, 24,448 kg de crack, 445,84 g de cocaína, 17.855 unidades de comprimidos psicotrópicos, além de 3.555 mais 190,21 de outros tipos de drogas, que inclui LSD e micropontos. Número de frases: 96 Mestre Narciso, um pescador solitário, recebe, todas às noites, em seu barco, a visita de um violeiro misterioso, que desaparece pela manhã. Essa é a premissa do vídeo de animação capixaba «Esta noite tem peleja», atualmente em estágio de pós-produ ção. O curta mistura animação tradicional com 3 D, e tem voz de Eliezer de Almeida, ator capixaba com participação em produções nacionais como Lamarca e Canudos. A procura por um profissional tão experiente se explica por a característica da narrativa: todo o desenho é contado em versos de cordel, como os «desafios» ou «pelejas» dos repentistas. O professor de língua portuguesa Jonacy Luiz Pereira dos Santos assina a revisão do texto final. As ilustrações que dão base à animação são do desenhista e cartunista Gilmar Gomes, o Gil. Colaborador do site Culturartes, ele optou por a técnica da aquarela para dar vida ao universo praiano de Mestre Narciso. A inspiração para muitas cenas surgiu de importantes pontos turísticos capixabas, como aquelas que remetem aos casarios de São Mateus. A trilha sonora de Darcy Alcantara procura mesclar a moda de viola a temas medievais, envolvendo o espectador na atmosfera misteriosa que trazem as histórias folclóricas: quem é o violeiro? De onde ele vem? Cordas, flautas e percussão, orquestradas digitalmente, se juntam ao canto e ao violão, preenchendo, com melodias características, os versos de cordel, no início e no fim da história. O vídeo, dirigido por Wolmyr Alcantara e Felipe Gaze, resgata um conto tradicional recuperado por Luís da Câmara Cascudo, maior folclorista brasileiro. «Esta noite tem peleja» procura, assim, unir a tradição das histórias contadas em volta da fogueira à modernidade das animações feitas em computador. Um verdadeiro «desafio» que vale a pena. Blog: www.estanoitetempeleja.blogspot.com E-mail: Número de frases: 18 estanoitetempeleja@gmail.com MeMostra! completa um ano e promete premiação para o cinema local * Tudo começou com a exibição de curtas-metragens num bar da cidade. Alguns clientes ficavam incomodados porque os filmes atrapalhavam suas refeições -- " Pô, tô comendo aqui! Desliga esse treco aí!"; enquanto outros ficavam indiferentes. Também havia aqueles que se identificavam, mas que eram atrapalhados por barulhos de talheres, conversas e garçons. A responsável por a projeção, Viviane Follador, logo se deu conta de que ali não era o melhor espaço; tinha que ser no cinema mesmo. Viviane fazia o curso de pós-gradua ção em Cinema da FAP (Faculdade de Artes do Paraná), em Curitiba. Lá, conheceu Fabiana Moro: conversaram e perceberam que os filmes que elas estavam produzindo na faculdade não tinham espaço para exibição: «Finalizávamos um curta e, quando chegava a hora de exibir, apareciam umas cinqüenta pessoas, todas parentes e amigos», explica Viviane. Juntas criaram o MeMostra! «Me mostra porque eu quero que me vejam. E ' mostra ' por exibir filmes também: a produção independente de curtas, médias e longas paranaenses». O projeto acaba de completar um ano: desde março de 2006, apresenta filmes locais e mais um vídeo de outro estado, na última quarta-feira de cada mês. As primeiras mostras foram no Cine Plaza. Espaço que exigia uma limpeza especial após as sessões; muitos usavam as mais de oitocentas cadeiras do cinema com outros fins: lá encontraram camisinhas, seringas e até uma calcinha. Em a última exibição no local, em maio do ano passado, o cinema estava sem energia elétrica. A solução foi buscar um gerador. A data foi marcante e teve o recorde de público do projeto: mais de cem pagantes. Para Viviane também foi emocionante pois, além de trazer um público que há muito não ia ao cinema, marcou a despedida do Cine Plaza, o último cinema de rua privado de Curitiba. Hoje, o imóvel está à venda. Em a seqüência, realizaram uma sessão no Santa Mônica Clube de Campo. Apenas em outubro do ano passado voltaram a ter um parceiro fixo: o Cineteatro HSBC, no prédio do antigo Palácio Avenida, espaço que tem atingido um público de, em média, 60 pessoas. Recentemente, o grupo responsável, que hoje conta com o apoio de mais pessoas, conseguiu promover o lançamento de dois DVD's com vídeos que foram exibidos no MeMostra! Eles estão disponíveis nas locadoras Vídeo 1 e Cartoon Vídeo e foram subvencionados por a soma das bilheterias das onze sessões já realizadas. A Cartoon passou a ser parceira do projeto: os interessados em exibir seus vídeos podem deixar cópias em DVD em qualquer uma das franquias (os endereços estão no final da matéria). Este ano prometem outra novidade. As projeções deverão, muito em breve, ser acompanhadas de uma premiação: «Queremos fazer o MeOscar! Paranaense. Fazer uma premiação com todos os filmes já exibidos ...», comenta Viviane. E o formato? «A ser definido», completa a jovem. Onde deixar seus filmes para serem exibidos no MeMostra! Cartoon Vídeo Cabral -- R. São Pedro, 347 -- fone: 3253-3245 Cristo Rei -- R. Luiz Brambila, 51 -- fone: 3363-6035 Ecoville -- R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 565 -- fone: 3339-3500 Contato: http://www.memostra.com.br/ * Número de frases: 50 Matéria originalmente publicada no Jornal do Estado do dia 05/04/2007. Dentro do calendário de eventos culturais da cidade de Sobral, o período que começa no dia 06 de janeiro, dia de Reis, e que vai até o final do mês, é, como chamam por aqui, a época dos bois. Por toda a cidade, dezenas de grupos se organizam pra se apresentar, seja dentro da programação oficial, elaborada por a Secretaria da Cultura e Turismo, seja em apresentações particulares. Em o ano de 2007, eu fui contratado por a Secretaria de Cultura e Turismo de Sobral, para fazer a cobertura fotográfica das apresentações. Foi um trabalho que me fez ficar apaixonado por essa manifestação cultural. Quase todas as noites, eu saía com uma equipe da Secretaria e iamos procurar os grupos de bois por a cidade. Sempre que víamos uma concentração popular, juntamente com um toque de sanfona, triângulo e zabumba, parávamos pra fazer as fotos. Uma das coisas que acho mais bonitas nessa ápoca é que as comunidades ficam altamente empolgadas. É comum ver o boi de um determinado bairro passando por as ruas e inúmeros moradores seguindo numa espécie de cortejo. Há sempre muitas crianças! E sempre são elas que vão gritando: «Ooooh!! O boi!!!! Imaginem», esse grito com um sotaque bem cearense, ou seja, bem cantado mesmo ... E quando o boi chega pra fazer sua apresentação, é formada uma roda e cada personagem assume a sua posição pra começar, o que posso seguramente chamar de um verdadeiro teatro popular. Durante a brincadeira, a meninada fica o tempo todo «aperreando» a Donana. Imagino que esta seja umas das grandes lembranças que muitos de eles irão levar por toda a vida quando crescerem e ficarem adultos. E nesse momento, percebo que apesar dos pesares, de toda essa violência solta nesse mundo, ainda existe espaço pra ser criança em toda a sua plenitude. E por falar em crianças ... Muitos grupos de bois são organizados por crianças. Um vez, conversando com Mestre Fernando, que é um dos mais antigos Mestres de bois da cidade, ele me disse que fica muito «feliz em ver a meninada fazendo o boi, porque assim, sabe que quando ele morrer, ainda vai ter gente pra fazer o boi ...». Mestre Fernando é tão apaixonado por a brincadeira do boi, que chega a investir dinheiro próprio pra fazer o seu boi. Ele nunca espera por o incentivo financeiro da prefeitura municipal. E isso, segundo ele, já foi motivo de discordias dentro de casa. Havia outro Mestre em Sobral que tinha um dos mais tradicionais bois. Era Mestre Panteca. Mas Mestre Panteca foi chamado pra fazer seu boi em outra dimensão. Soube que no dia que Mestre Panteca se foi, Mestre Fernando quase que vai junto, pois ficou muito emocionado ao chegar no velório do amigo ... Bom ... Mas a brincadeira do Boi é alegre, divertida, enfim, é uma verdadeira celebração. Só vindo mesmo a Sobral pra conhecer de perto tudo isso. Esse ano as apresentações do calendário oficial ainda não começaram em virtude de não ter sido liberado o incentivo financeiro aos grupos por parte da prefeitura. Bom, vocês sabem, em ano de eleição municipal, os dinheiros das prefeituras, que já são complicados de saírem, se tornam mais ainda ... Infelizmente, quem acaba perdendo é a população. Hudson Costa Número de frases: 33 fotógrafo www.hudsoncosta.com A cultura celular Todos nós conhecemos os aparelhos de telefonia celular. Cada qual possui o seu, independentemente, muitas vezes, de poder aquisitivo, a praticidade fala mais alto e quem não possui um celular parece meio perdido no tempo e no espaço. Assim como já houve com os relógios de pulso. As pessoas, ao nosso redor, se observarmos com atenção, cada vez mais parece assemelharem-se com aparelhos celulares. Parecem falar a língua dos torpedos, responder e se ater apenas ao necessário, sintetizar diálogos em minutos, muitas vezes escondem-se por detrás de códigos invioláveis e se desligam com muita facilidade, além, é claro, de muitas vezes ser necessário «carregar suas baterias» pois não lhes basta o fundamental, as ambições materiais suplantam as carências espirituais, fazendo, muitas vezes, dessas pessoas, seres em busca cada vez mais de poder e status. Não. Não pretendo generalizar. Há pessoas e pessoas. Mas o individualismo parece ter se apossado da nossa cultura, transformando seres humanos em celulares e estes em seres humanos. A inversão é bem marcante na Era cibernética. Precisa-se de uma caixa postal mais do que de uma presença pessoal. A competição agressiva não permite, ou dificulta, trocas salutares de conhecimento e vivências. A mediação tornou-se digital. A memória tornou-se menos passional. Em o lugar de chamadas locais são necessários DDI's para falar com pessoas a dois metros de nós. Não há mais indícios daquela fibra e teimosia, crenças em utopias, num socialismo real, num paraíso na terra. Há, no sentido contrário, uma cultura de cada um por si. Uma sujeição a parâmetros e diretrizes que visem apenas o dia de hoje ou, no máximo, o de amanhã. Os filhos, cria-se para o mundo. Contudo, não se forja um mundo que melhor se adeque às necessidades dos nossos filhos. As pessoas, insistem alguns, estão mais próximas e desfrutam de melhor qualidade de vida do que outrora. Mas será mesmo? A voz, de fato, alcança distâncias infinitas, porém um infinito pra lá de particular. As mensagens perdem-se diante do culto ao sucesso e na ânsia de adquirir. Pode-se questionar o conceito de sucesso e a resposta nunca nos seria satisfatória. Porque o sucesso faz parte do pequeno universo celular que criamos. Existem torres que direcionam e ampliam os sinais, como nos aparelhinhos de telefonia. São as nossas próprias esperanças, entretanto, estas assomam incompatíveis com a cultura celular. Como celulares nos preocupamos mais com os acessórios e com o preço das tarifas, do que com a sensibilidade, a solidariedade e os sonhos. Máquinas necessitam de energia, a energia vital é o potencial para sonhar. A vida carece mais do que de seres codificados, a vida precisa de futuros para os quais possa fluir, perene, realizável, como um rio que ruma sem conhecer a imensidão do mar. Com a certeza, todavia, de que à foz não tornará. Deixemos nossas próprias carências de lado por instantes e pensemos em quem deixou aquele recado na caixa postal ou naquele que deu apenas um toque para que retornemos a ligação. Pensemos sobretudo naqueles que estão no outro lado da linha, no outro lado do mundo, no outro lado da cultura celular. Aqueles que não possuem um «número», aqueles dos quais desconhecemos o nome, mas que guardam muitas vezes uma tarja preta no olhar. Aqueles para os quais estamos sempre ocupados, conversando ao celular. Número de frases: 37 O dia 27 de Março é o dia internacional do teatro. E melhor forma de comemorar não poderia ter criado o ator Raimundo Venâncio, atual diretor do Teatro Lourival Batista, equipamento pertencente a Secretaria de Estado da Cultura, e que desde o ano passado homenageia os artistas e técnicos com uma placa de acrílico contendo foto e resumo biográfico de cada um. Essas placas ficam expostos no foyeur do teatro durante o ano todo, para lembrar aqueles que, através do seu talento e do seu esforço, contribuíram e contribuem para manter acesa a chama da arte de representar em Sergipe. Este ano os artistas homenageados foram os que iniciaram as suas trajetórias a partir da década de 80. Um desses artistas é o ator, bailarino e acadêmico de Educação Física, Carlos Henrique, mais conhecido por o nome artístico de Rick di Karllo, e o ator, poeta e acadêmico de letras José Bispo dos Santos, o qual assina as suas criações artísticas com o nome de Jobys. Todos os dois artistas são companheiras de caminhada no movimento cultural desde a década de 80, quando participei, em cargos diferentes, de sucessivas diretorias da Associação dos Moradores do Bairro América e Adjacências, e integrei a equipe que, a partir de 1989 até 1996, idealizou e implementou o Projeto Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte) e que se trata da melhor referência em termos de arte-educa ção popular nos anos 90 em Aracaju, financiado durante seis anos de forma ininterrupta por a agência de cooperação Visão Mundial e, eventualmente, por a UNICEF, CESE e por a Assembléia Legislativa, através de verba de subvenção social. Aquilo se constituiu na primeira ação cultural permanente de uma entidade ligada ao movimento social e que formou artistas, produtores culturais e educadores que trabalham atualmente em diversas organizações, empresas e órgãos públicos ... A o subir para receber o troféu, os dois companheiros citaram o nosso nome como um daqueles que contribuíram com o crescimento do trabalho dos artistas e grupos culturais da periferia. No caso de Jobys, recebemos de ele um apelo para que fosse ainda mais fortalecido o nosso compromisso com a arte produzida por os artistas ligados aos segmentos populares. Segundo a sua opinião, com a qual concordamos integralmente, a periferia produz arte e precisa de muito mais apoio. De nossa parte, uma das saídas que vislumbramos para ajudar a convencer a sociedade e os governos a respeito disso é o estudo coletivo de políticas culturais, gestão e produção cultural. Em este sentido, a Ong Ação Cultural está propondo a criação de um grupo de estudos nesta área e que se reunirá mensalmente com essa finalidade, objetivando, entre outras possibilidades, qualificar os agentes culturais para intervir nas discussões sobre o Plano Estadual e Municipal de Cultura (que dentro em breve deverão ser elaborados), como também melhorar o nível dos projetos de iniciativas culturais, visando possibilitar a captação de recursos junto ao poder público, as empresas e ao terceiro setor. «A saída é estudar», a propósito, é nome de um texto teatral em forma de monólogo, apresentado por Jobys há muitos anos em espaços culturais na periferia de Aracaju e no interior do estado. Outra sugestão -- que foi motivada por os comentários enviados por artistas, literatos e produtores culturais referente ao texto sobre o Consórcio Cultural do Conj. Augusto Franco e adjacências, que publiquei no portal Overmundo há poucos dias, -- é iniciarmos um acompanhamento sobre as políticas públicas de cultura em todos os estados e municípios da federação, a partir das iniciativas do governo estadual, das prefeituras, das empresas, das universidades e da sociedade civil, com o objetivo de criar um banco de dados, visando subsidiar a produção de artigos e projetos, inclusive para serem apresentados aos parlamentos, bem como fortalecer a articulação e mobilização dos agentes culturais. É uma ação que preferencialmente deve ser iniciativa de entidades ou de coletivos culturais e que deve contar com a valiosa contribuição de estudantes e professores universitários através da intensificação e disponibilização dos estudos e pesquisas já realizados na área das políticas e da ação cultural. Para os overmanos e overmanas interessados no assunto, deixo a proposta para escreverem sobre o tema. Em especial, na semana que antecede ao dia nacional da cultura, que é o 5 de novembro, poderíamos produzir textos críticos e propositivos fazendo um balanço sobre os desafios e conquistas naquilo que diz respeito às políticas culturais em cada estado ou município, principalmente no âmbito governamental. Outras datas como o dia do teatro (março), o dia da dança (abril), entre outros, poderiam ser utilizadas para isso, com destaque para uma avaliação sobre as políticas públicas direcionadas para cada linguagem especifica. Isso poderá ser o embrião de uma seção do tipo Observatório Overmundo de Políticas Culturais. P.S.: Para quem tiver interesse em seguir a pista indicada acima, recomendo a leitura das seguintes páginas: http://www.duo.inf.br/ http://www.culturaemercado.com.br/ http://www.polis.org.br No caso da empresa Duo será de grande valia assinar gratuitamente o clipping eletrônico diário que eles publicam, assim como cadastrar-se também no site cultura e mercado para receber as atualizações. Outra sugestão imperdível é buscar no site da polis a publicação em formato digital, através de download, intitulada " Quer um bom conselho?" sobre Conselhos Municipais de Cultura e Cidadania Cultural. Número de frases: 26 Desde sempre ouvi na escola, que o tempo se divide em quatro estações. Por «tempo», entenda-se, os 12 meses do ano. Em a minha cidade, no interior de Goiás, realmente isto é verdade. Lá, nós, estudantes do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, podíamos aprender aquelas lições, e aplicá-las na vida cotidiana, observando. Depois cresci, ganhei o mundo, e vi meus sobrinhos nascerem, crescerem e irem para a escola. Só que agora estamos em Palmas, Tocantins. E aqui, embora os livros didáticos sejam os mesmos, e as lições ainda contenham a divisão do «tempo» em primavera, verão, outono e inverno, esta não é uma verdade absoluta que possa ser observada. O tocantinense, como boa parte dos moradores desta região do País -- me corrijam os overmanos do Norte, nos casos em que eu esteja errada -- só conhece duas estações. Aqui não faz frio, portanto, não há inverno. O outono, se há, passa desapercebido, pois não há muito como distingui-lo. Será o outono em agosto, como agora, quando o vendaval desce sobre tudo que há, derrubando árvores mais do que folhas? Não sei. O que posso afirmar sem sombra de dúvida é que nas estações que se conhece aqui, temos: a das águas, e a da estiagem. Cada uma dura seis meses, sendo que de alguns anos para cá, tem chovido menos, e a estiagem, em conseqüência, durado mais. O que me pergunto é justamente sobre estas diferenças de um País continental que não está acolhida nos livros didáticos. Em a realidade, meu segundo grau foi técnico em magistério, e meu primeiro curso superior, Pedagogia que deixei faltando dois semestres para terminar. Mas neste tempo que passei entre o Campus da UFG de Jataí, e a Faculdade de Educação no setor Universitário, em Goiânia, me apaixonei por a educação como meio de compreensão da vida, e transformação do mundo. Como não haveria de ser assim, bebendo na fonte de tão brilhantes educadores como Paulo Freire e Marilena Chauí? Impossível. Assim foi que nunca me conformei com as coisas desnecessárias que enchem os currículos da escola pública. Perguntas sem resposta que os alunos às vezes nos fazem -- sim, já lecionei para a primeira fase -- como por exemplo: «professora, eu vou usar isto pra quê?" Sinceramente, o aluno da nossa região, precisa ser informado de que enquanto é inverno no calendário oficial das estações -- realidade para os nossos vizinhos de Goiás, em junho e julho, por exemplo -- para nós é pleno verão, com direito à temporada de praia e carnaval fora de época. Estas realidades paralelas, que não cabem no livro didático, ou ainda não foram por ele assimiladas, dão a impressão a estes brasileiros, de que estão «fora do mundo». E não estão, pois o mundo, também é aqui. A inclusão digital, com tendência a abraçar escolas públicas em todo País, de certa forma vem relegando as bibliotecas ao segundo plano. Pesquisar, no meu tempo de escola primária, era uma aventura que sempre levava a outras descobertas. Ir à biblioteca, manusear aqueles livros belíssimos que traziam notícias de todos os lugares do mundo, era fascinante. Hoje, o pequenino lá de casa -- na quinta série -- tem pelo menos quatro pesquisas por semana para fazer. Todas na Internet. Temas que por a complexidade, fico pensando: será que pediram isso mesmo? Ele, pelo menos, tem o privilégio de ter computador em casa, com acesso à net, mas nem sempre foi assim. A escola, pública, não tem equipamentos para atender a demanda de todas as turmas. E lá vão seus coleguinhas para os cybers e lans que nem sempre os pais podem pagar. Os mais ácidos podem estar se perguntando o que pretendo ao levantar esta discussão aqui. Como o cultural é quase sempre o intangível, o impalpável, me incomoda pensar o que de fato a escola ensina quando dá lições erradas, inadequadas, ou exige do aluno o que ele não pode dar. Um velho ditado popular árabe, citado na obra de Khalil Gibran, diz: «a autoridade repousa sobre a razão». E eu pergunto: que razão há neste modo de educar tão desconexo? Em um mundo cheio de diferenças e sutis particularidades, há que ensinar às crianças sobre as diferenças que não estão nos livros didáticos, de modo que elas se sintam parte de um mundo equilibrado. De preferência um em que haja espaço para os livros. Diversos, de autores de todos os cantos do País, e específicos sobre cada realidade. Número de frases: 45 Por aqui muitos clamam o cetro da música urbana: um curriculum lattes habilitando o músico ou intérprete a traduzir a cidade em som. Mas SP é policêntrica, difusa e concreta, por ela toda ninguém pode responder: não vai ser um determinado grupo de pessoas que conseguirá traçar o guia, o plano-diretor, planos e metas pra todos. Em SP há 17 milhões de histórias e contando, e cada uma dessas histórias desdobra contos e pontos. Não há o típico paulistano, só a massa heterogênea, por mais que às vezes algum sabichão desesperadamente agrupe vontades incomuns em momentinhos. Em o trampo de muita gente traços da cidade colorem, preenchendo as lacunas com signos como adjetivos, a arte encarada como um livro de colorir, desses para a criança. No meio dessa corrida, há os que, com sucesso, congelam um pouco da experiência que é viver aqui, tratando a situação como substantiva -- e aí o que importa não é fazer uso de signos que gerem identificação imediata, como referências pra um «job» publicitário, o que importa são as histórias, os pensamentos sobre ela, as reflexões. Lifestyle é uma palavra só apenas em inglês. Ter água suja espirrada na roupa, resultado inevitável do busão sobre os remendos de piche eleitoreiros é coisa que aqui não se xinga: apressa-se o passo pra chegar ao lar. Entre outras coisas, SP é a busca da satisfação individual. Dentro do grupo desses esforços que trincam, como se essas grandes obras fossem geleiras mesmo, que vão se liquefazer e evaporar, para a então se solidificarem novamente sem evidência da forma anterior, está Itamar Assumpção. Antes de chegarmos a ele, vamos só explanar um pouco melhor a imagem. Por exemplo, é praticamente impossível não pensar em Mano Brown, o maior poeta da cidade em atividade, ao ler o falecido escritor João Antônio vociferar com calma termos como «merduncho» e «classe mérdia». É óbvio que o líder dos Racionais não usa esses mesmos termos já que, como os grandes, Brown tem sua própria linguagem. São obras parecem falar com você, não pra você, como uma conversa na língua corrente na rua ou no bar. Os grandes tão te contando umas coisas, não cagando regras. De os processos químicos que remontam a Adoniran Barbosa, Germano Mathias, Geraldo Filme, Cascatinha e Inhana, Região Abissal, Patife Band, Cólera, Mano Brown e tantos outros, nada se copia, só a mudança permanece: como conviver -- a comunicação é a pedra fundamental do movimento. São algumas histórias de como a gente sobrevive, como anda e como pensa, como vamos «tirar mais de mil por mês» (Adoniran Barbosa). Alguns dos paulistanos mais paulistanos, mais amantes dos pequenos acertos dentro dessa funcionalidade que tenta se impor pra confundir, é gente que vem de fora pra morar aqui. Atônitos e apressados demais pra pensar reto, os imigrantes e seus filhos com sede de bola formam uma seleção, distante do elitismo metido a cosmopolita de tantos outros. E talvez um dos maiores tenha sido Itamar Assumpção, vulgo Nego Dito. O músico autodidata, falecido em 2003 vítima de um câncer, sempre carregou a pecha de maldito. Vindo de Londrina decidido a ser músico depois de amargar uma injusta temporada na cadeia, Ita aqui chegou e desabrochou. A sua obra é fundamental: exercendo um profundo respeito por a tradição musical brasileira, ele criou uma linguagem própria, integrando novos elementos e dialogando diretamente com o mundo. Sua poética, que fazia uso fino de ironia, sarcasmo, de trocadilhos e sons das palavras, nunca lançou mão de «truques espertos» ou «sacadinhas», muito pelo contrário. Escutar sua música é perceber que ele realmente falava certas coisas porque Tinha que falar, uma necessidade vital, pra viver melhor. Sua carreira, quase que totalmente independente (um disco por a Continental) ainda é pouco conhecida do grande público, mesmo com as recentes regravações feitas por Zélia Duncan (uma entrou até em trilha de novela da Globo). Eis que surgiu o projeto PretoBrás: Por que eu não pensei nisso antes?, um compêndio de partituras de Itamar Assumpção, recheado com análises e " causos ' sobre sua vida e obra. Organizado por gente muito próxima a ele (como a jornalista Mônica Tarantino, seu ex-guitarrista Luiz Chagas, sua ex-contrabaixista Clara Bastos e sua filha Anelis Assumpção), o songbook consiste na transcrição de 96 músicas gravadas por o cantor e compositor em partituras cifradas, divididas em dois volumes e organizadas cronologicamente por as datas de lançamento dos discos. O presente trabalho inclui as melodias, harmonias e os arranjos de Itamar. Segundo os autores, o objetivo da reunião de sua obra num livro de partituras e letras é preservar o trabalho deste compositor em sua forma básica, uma vez que ele tinha como principal característica retrabalhar os arranjos. As histórias contidas servirão pra contextualizar a obra e esclarecer certos pontos nevrálgicos desse artista que viveu à margem. O Volume I inclui um ensaio sobre biografia e carreira (pesquisa e texto da especialista em literatura Maria Betânia Amoroso), textos sobre estilo de composição e poética (de autoria de Luiz Tatit e Alice Ruiz) e um estudo de Clara Bastos sobre os critérios usados para produzir as partituras. Em o II, entrevistas de Itamar sobre sua música e depoimentos de parceiros e pessoas que conviveram com Itamar ou sua obra, entre eles Alzira Espíndola, Jards Macalé e Glauco Mattoso. Que isso vire o jogo, antes tarde do que nunca. Número de frases: 41 Um final de tarde com clima frio, úmido e escuro. Uma idéia que a cidade pode estranhar. Foge pensamento. Uma praça faz jus ao nome de um Alencar prodigioso e ver seus mendigos, prostitutas e bêbados vendendo os serviços e pedindo dinheiro. É hora do corre-corre para chegar à casa e pensar nos frutos do dia de trabalho. Mas, uma mulher é renitente com o modelo dessa sociedade. O tempo fechou e com as idéias fluentes, a socióloga Mestra em educação, ex-vereadora e professora Rosa Maria Ferreira da Fonseca, ou simplesmente, Rosa da Fonseca, verbaliza a mim um novo feminismo, tendo como ponto de partida a mudança no sistema atual. Homens e mulheres estariam juntos por essa mudança, já que, todos fazem parte do mesmo barco que dá provas de afundamento. Em um banco da praça José de Alencar e com um fundo musical religioso, ela concluiu: «O mundo do macho acabou». Lançando um novo manifesto, a União das Mulheres Cearenses (UMC) vem à público a fim de divulgar uma proposta para homens e mulheres lutarem juntos contra valores e modelos da sociedade contemporânea. Próximo ao dia internacional das mulheres, 8, a UMC antecipa uma manifestação para o dia 7, como forma de repudiar o caráter comercial da data. O encontro acontece às 15h, na " Praça do Ferreira. «O homem criou o capitalismo a sua imagem-semelhan ça. Para Rosa da Fonseca, o grande problema do Sistema foi a «dissociação» entre a vida privada a vida pública. O homem produzia e buscava o lucro, enquanto a mulher era responsável por as atividades, forçosamente subalternas, de amar, cuidar das crianças e da casa, isto é, o homem trabalhava e a mulher sustentava o patriarcado, fala. O crivo econômico atribuído às questões de gênero é inspirado em «O valor é o homem», da alemã Roswitha Scholz. Após vinte anos de pesquisa feminista, a autora rejeita a tentativa que fazem alguns grupos feministas de colocar a lutar para se igualar ao status masculino como a resolução da problemática dos sexos. Complexo ou não, Rosa diz que «não tem como voltar atrás». A mulher e o movimento feminista batalharam para se igualar ao homem, mas isso não funcionou: «nós estamos sendo chamados a ser homem na vida pública e a continuar mulher na vida privada», explica. Ela lembra que o movimento feminista apostou na independência da mulher através do trabalho, mas a conclusão foi que, juntamente com os homens, a mulher fica subjugada à lógica do capital. Segundo Rosa, o homem não vai criar novos empregos para onde escoariam a mão-de-obra que as máquinas estão substituindo. Ela ainda ironiza: «A única saída para o capitalismo seria se encontrasse um planeta cheio de ETs com dinheiro para comprar mercadorias». Solução. Se nós somos inteligentes e criativos, por que a gente não pensa o nosso modelo de sociedade? Esse é o questionamento da ex-vereadora, que, em nome do manifesto «O mundo do macho acabou», propõe» usar a tecnologia para produzir bens para atender as necessidades humanas, eliminando o dinheiro como mediador. Não ter o dinheiro. Não ter a troca, mas sim, um critério acordado coletivamente." Rosa chama esse sistema de " sociedade da emancipação humana." Ela insiste que não é a emancipação das mulheres, e sim, a emancipação da humanidade. «Que a família comece e termine sabendo onde vai, / E que o homem carregue nos ombros a graça de um pai. / Que a mulher seja um céu de ternura, aconchego e calor ... A o som de Pe. Zezinho, com a Oração da família, Rosa sugere um movimento transnacional, horizontal (sem direção e base), em rede, combatente da essência do capitalismo, que é o patriarcado do valor. Não é sindicato, não é partido, não é movimento ecológico nem feminista, é uma tentativa de superar um modelo que sufoca, explica a professora. Ela confessa que não existe uma fórmula acaba, mas o manifesto quer uma «sociedade socialmente igual, humanamente diversa, criativa no ócio produtivo e ecologicamente exuberante». Novo feminismo. Queremos «superar a União das Mulheres Cearense». Rosa argumenta que há uma confusão generalizada no que diz respeito a questão de gênero. É necessário desenvolver atividades que possibilitem uma harmonia entre homens e mulheres. Não se podem comparar diferenças psicológicas com diferenças culturais. O homem lava os pratos do jantar, bem como a mulher pode trocar o pneu do carro, mas isso a sociedade ainda tem como um tabu. Ela não quis citar nome de uma mulher como exemplo a ser seguido, justificando que seria injustiça com as demais que também foram importantes, mas não escondeu a admiração por a pensadora alemã Roswitha Scholz e citou a «razão sensível» como uma característica indispensável à nova mulher. A o comentar a lei Maria da Penha, ela disse que foi o resultado de uma luta, mas não resolve o problema: «a violência está é aumentando. Lutar dentro do sistema não vai mudar nada», declara. A lei 11.340, Maria da Penha, que protege a mulher contra violência doméstica, entrou em vigor em setembro de 2006 e homenageia uma farmacêutica que lutou 20 anos para ver seu agressor na cadeia. Como proposta, o manifesto, o «O mundo do macho acabou» propõe um novo movimento feminista com a participação do homem. Esse modelo não é novo e foi proposto no 8º. Congresso da Mulher Cearense, em 1997. Talvez pouco compreensível para quem se acostumou com o modelo social sem que não questionar porque vivemos assim. Para uns, pode parecer idealismo e um tanto utópico. O certo é que Rosa é porta voz de um possível novo feminismo. Então, se preparem os homens, pois estão na mira do novo movimento feminista proposto. Número de frases: 55 A discussão sobre o uso dos blogs e «redes sociais» pega fogo na Internet questionando a relação professor aluno na web. Já me perguntei sobre o grau de exposição que tenho frente aos meus alunos por o fato de ter um blog e de participar de algumas «redes sociais» como o Orkut, Last. fm, facebook, 43 things e mesmo o del. icio. us. Até então era exclusividades dos «geeks» o debate sobre as possibilidades de interação e sobre o caráter do conteúdo que circula na chamada web 2.0. Agora aparentemente a discussões terá que ser levada mais à sério por todos! O jornal «Columbus Dispatch» do último dia 10 de novembro fez circular uma polêmica no artigo: " Teachers ' saucy Web profiles risk jobs». Eles relatam uma disposição da «Ohio Education Association» (OEA ") que desencoraja veementemente a utilizarem as redes sociais como o MySpace, e o Facebook. A justificativa para tal disposição é uma coleção de citações retiradas de perfis de professores do estado nas redes sociais, como a de uma professora do noroeste de Ohio que afirma ser an aggressive freak in bed, «" sexy» and an outstanding kisser." Os comentários maliciosos deixados por os alunos nos perfís dos professores também preocuparam a OEA. Além de tudo isso há o caso do professor William Eiseman, que foi preso por manter relações sexuais com uma aluna, seu processo de investigação começou com denuncias sobre o conteúdo sexual em seu perfil no «MySpace». A «pendenga» foi armada e uma série de sites, blogs e jornais do mundo inteiro que colocam a questão: O problema está nesses meios de comunicação ou no conteúdo de mensagens especificas que circulam? E no caso específico dos professores a questão é a de abandonar esse tipo de comunicação, ou a de pensar sobre ele? Trabalho como professor há algum tempo, no entanto, durante os dois últimos anos andei afastado da profissão enquanto morava no exterior. Em esse período resolvi criar meu blog a «Casa do João» como um espaço no qual eu poderia desabafar as coisas que estava passando, estudando e vivendo. Em o início a idéia me parecia meio esquizofrênica. Para quem escrevemos um blog senão para um leitor imaginário? Em aquele momento era tudo que eu precisava: " Escrevo para você porque assim será mais fácil do que não dizer nada a ninguém " -- diz o cabeçalho do blog. Com o tempo de «bloging» as coisas começam a mudar. Uma rede de leitores começa a se estabelecer, a maioria amigos, e o blog começa a «dialogar» com pessoas reais afinal das contas. Escrever um blog significa participar de uma rede de blogs, pois, em geral os leitores de blogs também têm blogs. De essa maneira se estabelecem essas redes que se comunicam nos nos temas, nos textos, nos comentários, nas conversas de bar e etc.. Para usar o meu sociologuês há uma economia de trocas simbólicas que se estabelece de entre essas redes de blogs. O grande problema é que apesar dessas redes parecerem extremamente fechadas elas não são, se digitarmos «João Castelo Branco» no google acharemos na primeira páginas a «Casa do João» e o link da minha página pessoal na " Last. Fm». Enquanto eu estava no exterior perceber isso não me incomodava nem um pouco. No caso da «Casa do João» inclusive tive períodos bem pessoais, quando resolvi discutir e desabafar questões bem intimas com esse grupo seleto leitores amigos, mesmo sabendo que o conteúdo era aberto à todos. Contudo no início desse ano, depois de voltar para Curitiba, voltei também a dar aulas. Em essa época eu estava bem feliz com meu blog, mas começou a me incomodar o fato dos meus alunos terem acesso às informações que eu postava, até porque eu descobri que muitos de eles lêem o que eu escrevo. O Orkut e a Last. fm também passaram a incomodar, bem como a idéia dos comentários de alunos nesses espaços me é desconfortável, mas nunca tive problemas com eles, até porque não alimento muito as relações com alunos nas «redes sociais» e nunca me expus como fazia com o blog.. Os argumentos sobre a tal polêmica que me pareceram mais sensatos até agora foram os de Regina Lynn, colocados em seu texto «Teachers Should Blog, Tweet and Flirt Online Like the Rest of Us» no blog wired. com. Ela vai criticar a posição da «Ohio Education Association» como algo completamente absurdo e desapropriado. Afinal de contas, ao invés de pensar sobre o uso que os jovens fazem da internet, propomos que nos afastemos ainda mais de eles. Lynn diz: «Todos os adultos que trabalham com jovens devem estar atentos para as formas que os jovens se comunicam; eu aconselho aos professores à participarem das «redes sociais», a criarem seus blogs e a trocarem textos com suas famílias e amigos. Professores experientes não vão apenas compreender melhor o mundo no qual seus alunos estão vivendo -- alias, o mundo que eles estão criando -- mas vão também vão ter uma compreensão muito maior sobre os jovens professores que começam a entrar na profissão." Quanto aos casos citados por a OEA ela diz: «Já era errado para professores do ensino médio (high school) se envolverem romanticamente ou sexualmente com seus alunos ( ...). Isso já é proibido, não importa como se faça -- telefone celular, castigos depois da aula, notas escritas num papel." Segundo Lynn os professores que entendem a relação apropriada entre aluno e professor não iriam discutir a vida sexual de seu estudantes no MySpace. Ela conclui seu texto dizendo ainda que tentar colocar os professores num pedestal, «símbolos de um ideal pureza que o resto de nós não tem que se preocupar» é impossível e vai contra o objetivo comum de ajudar aos jovens à amadurecem como adultos responsáveis. Eu assino embaixo das reflexões Regina Lynn, e ainda acrescentaria que independentemente de tentarmos compreender o mundo que nossos alunos estão criando, temos que participar desse mundo. Para isso temos que aprender a usar as novas ferramentas que nos são disponíveis para nos comunicarmos. No caso das redes sociais e dos blogs precisamos compreender os esquemas de sociabilidade que ai se estabelecem para melhor nos sociabilizarmos no mundo de hoje. O telefone celular assustou à todos e hoje é uma ferramenta essencial no mundo há quase uma década. As ferramentas de interação da web -- blogs, redes sociais, chats, second life, e etc -- tem se estabelecido como outras possibilidades. Número de frases: 50 Cabe a nós fazermos bom uso, e não nos abstermos! Pare por cinco minutos e imagine que você, leitor, que provavelmente condena a maioria desses programas exibidos por sua televisão, tem, neste momento, a possibilidade de idealizar um programa qualquer. Está em suas mãos, digamos, o poder de revolucionar a televisão brasileira, dependendo do que venha a sua mente e do que você almeja. Se não quiser, não precisa nem ser algo revolucionário, quero simplesmente que você idealize algo que ache que realmente valha a pena, já que existem tantas queixas dos horários e espaços mal utilizados da TV brasileira. Pra ser ainda mais legal, te digo que, para pensar sobre isso, você não precisa levar em conta as exigências de uma TV comercial. O espaço é livre para experimentar. Pode parecer sonho, mas é essa a possibilidade que os alunos de Rádio e TV da Universidade Federal da Paraíba possuem. Em as dependências da universidade, bem próximo ao DECOM (Departamento de comunicação), inclusive, existe o chamado Pólo Multimídia, que de entre outras coisas, possui equipamentos bons para gravação, estúdio e todo o aparato necessário para a execução de programas, com a possibilidade de, tecnicamente, não deixar nada a dever a muitos outros exibidos hoje por a TV convencional. Além disso, este Pólo Multimídia possui uma freqüência, a TV UFPB, um canal a cabo local, dando a possibilidade dessas produções saírem do campus universitário e irem direto para a sua casa. Espaço perfeito para o aluno utilizar como laboratório e experimentação. É sair da teoria, em sala de aula, e passar para a prática: Pegar em câmeras, pensar em pautas, produzir, dirigir, idealizar, vivenciar dificuldades, deparar-se com soluções, tentar revolucionar, modificar e entender como o mundo profissional funciona. Esse espaço existe. Imagina-se que, conseqüentemente, existam inúmeros programas e projetos para a ocupação deste espaço, certo? O que você pensaria, então, se eu te contasse que apenas quatro programas ocupam a grade da TV UFPB, e que, de entre eles, apenas um foi realmente idealizado e produzido por alunos? A escassez é tanta, que, para se ter idéia, o Furdunço (programa feito por os alunos) é reprisado não menos que quatro vezes por semana, duas na terça-feira e duas na quinta, com sua exibição inédita aos sábados. Os outros são de autoria da própria TV, realizados por pessoas concursadas, funcionários da própria universidade. Onde está acontecendo, então? Qual o porquê do espaço mal utilizado? Buscando justificativas A primeira idéia que se tem é que os alunos não estão interessados. Megaron Xavier, Luís Augusto e Marcelo Carpado, alunos do primeiro período me respondem: «O interesse existe, mas, sinceramente, nós não sabemos das possibilidades para isso. Não sabemos quem procurar, como dar entrada nesse possível projeto ... Parece a velha máxima que dentro da comunicação não há comunicação». Sabe tudo que expliquei nos primeiros parágrafos? Eles não sabiam de nada daquilo. Talvez por estarem iniciando o curso agora ... Quem sabe? Dei mais uma buscada nos alunos e descobri que alguns de eles, mesmo em períodos mais adiantados, também não sabiam dessa história. Contudo, esse ainda não é o principal problema. Detectei que, mesmo muitos não tendo estas informações, a maioria conhece a possibilidade. O que seria, então? Fui conversar com Pollyana, aluna do quinto período e diretora do Furdunço, para saber das reais condições de produção dentro da TV UFPB, e saber se era nesse ponto que se encontravam os problemas que geram o desestimulo do alunado. «Realmente é possível veicular e produzir programação televisiva aqui dentro, a TV fornece equipamentos e tudo mais, mas a gente sabe que um programa não se sustenta só disso. TV é uma coisa cara, nós não temos verba alguma. Mesmo sendo um programa experimental, temos que ter uma preocupação com questões como desde cenário, maquiagem, figurino, comprar fitas e DVD's, até a pilha que vai ser usada no microfone dos entrevistados e da apresentadora». Renato Galloti, também aluno e produtor do programa, completa " Fora o enorme gasto eu tenho com telefone, condução ... Quem trabalha com a gente, geralmente fica após a aula e tem que almoçar por aqui, tudo isso é gasto ... É trabalho voluntário mesmo, e tem que ser sério, afinal temos que cumprir nossas datas e fazer um programa por semana, o que não é fácil para nós. Não é porque é experimental que não se tem um compromisso. Talvez o desinteresse venha disso, não é qualquer um que segura todo esse trabalho sem receber nada, pensando apenas na experiência». Procurando respostas As justificativas são válidas, realmente é difícil imaginar a produção de qualquer coisa do gênero sem o mínimo de incentivo financeiro, nem que seja para cobrir os custos de produção. Em o Furdunço, por exemplo, os alunos envolvidos doam R$ 2,00 reais semanalmente para o caixa do programa, além da produção de eventos para arrecadar verba. Você teria esse mesmo pique, tendo ainda que conciliar isso com as aulas e atividades extras? Todos os alunos freqüentemente reclamam das mesmas coisas. Fui ver, então, o outro lado da moeda, afinal, algum posicionamento os diretores da TV UFPB teriam. Em uma longa conversa com o diretor geral do pólo multimídia, David Fernandes, o que se percebe é que não é uma questão de má vontade: «Nós também dependemos de investimento. Temos poucos funcionários, também sofremos com esse tipo de coisa. Nós usufruímos de uma parcela da verba geral que vem para a Universidade Federal, não é só uma questão de querermos financiar os programas dos alunos ou não. Precisamos de mais funcionários, de mais bolsas para os alunos que fazem estágio no Pólo, para lançar editais internos que viabilizem verba para os alunos de comunicação produzirem seus programas com condições ainda mais favoráveis ... Há muito que se fazer, mas acredito que estamos caminhando para um avanço significativo. A TV UFPB foi feita para ter a cara da universidade, não só do departamento de comunicação, e estamos trabalhando para isso. Três novos programas estão sendo idealizados, e devem entrar no ar em breve, envolvendo assuntos de outros departamentos, o que não exclui os graduandos de comunicação de forma alguma, já que estamos sempre com as portas abertas para voluntários aqui». E não é mentira, qualquer aluno de comunicação que se interessar pode colaborar e aprender, encaixando-se na produção de algum programa já feito por a TV. Já para produzir e colocar no ar uma produção idealizada por os alunos, o que David sugere é que se mande um projeto do que se quer fazer para ele, para avaliação: «Temos que lembrar que aqui também não é uma TV de brincadeira. Televisão tem que ter continuidade, caso contrário não funciona, e o graduando que se compromete com nós tem que estar ciente dessa realidade. Talvez por isso que só temos um programa feito por os alunos, nenhuma televisão é fácil, tem que se entender isso. Mas estamos sempre de portas abertas, precisamos de mais interesse dos alunos». Idealizando Soluções Sabendo dos dois lados da moeda, o que se observa como solução é uma maior parceria da TV com o DECOM. É importante que se tenha o incentivo para produção em sala de aula, que os professores despertem nos alunos a vontade de buscar seu próprio caminho, experimentar e abrir as portas da sua profissão enquanto alunos. Isso é tão verdade que a idéia do Furdunço surgiu assim, a partir de um trabalho na disciplina de Introdução à Comunicação, ainda no primeiro período do curso, e está hoje se firmando cada dia mais na TV. Lá dentro da TV UFPB, os planos de David são mais ousados: Estão caminhando para a transmissão do canal universitário em TV aberta, e isso evidentemente será uma motivação muito maior para os alunos, além da possibilidade de crescimento financeiro. Além disso, novas solicitações de verba estão sendo feitas, assim como de concursos para ampliação da equipe do Pólo. É esperar pra ver. E torcer. Número de frases: 71 Brincadeira é coisa séria. Pelo menos é o que pensam cerca de 100 professoras que participam atualmente do curso Brinquedoteca na Escola, em Nova Iguaçu, resultado de uma parceria entre a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Secretaria de Educação do município. Além de serem sensibilizadas acerca da importância das brincadeiras na educação das crianças, as professoras desenvolvem técnicas para criação de brinquedos e livros a partir do reaproveitamento de materiais não-convencionais, como papelão, retalho de tecido, garrafa e sacos plásticos, tampinha de refrigerante, caixote de hortifruti ... e tudo o mais que puder ser alcançado por a imaginação. Elas entram no curso como professoras e saem de lá brinquedistas. O trabalho é desenvolvido por pesquisadores do Cabe -- Centro de Aprendizagens e Pesquisa em Cultura, Corpo, Arte e Brinquedo em Educação, vinculado à Faculdade de Educação da UFF. Mais do que despertar a consciência ambiental, o Cabe levanta o debate sobre o consumo excessivo de brinquedos industrializados e a rejeição das crianças ao livro e à leitura, apresentando alternativas eficazes para o enfrentamento desses problemas. Criação de espaços lúdicos nas escolas De essa forma, um cabo de vassoura velha, um pé de meia, alguns retalhos e muita criatividade são suficientes para fazer um cavalo de pau e garantir a alegria das crianças na escola, e ainda desenvolver aspectos importantes para a formação, como sociabilidade, coordenação motora e orientação espacial. Esse e muitos outros brinquedos e livros-brinquedos ficarão à disposição dos alunos e serão usados em sala de aula como um estímulo à aprendizagem. O resultado desse trabalho estará em exposição no próximo dia 21 de outubro, no Campo de São Bento, em Niterói, das 8h às 14h, durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que ocorre em todo o país, organizada por o Ministério da Ciência e Tecnologia, através do Departamento de Popularização e Difusão de Ciência e Tecnologia. Número de frases: 11 Durante a exposição, haverá oficina de confecção de brinquedos com uso de materiais não-convencionais voltada para professoras, crianças e interessados em geral. Em um outro texto aqui no próprio Overmundo, falei de um filme que fora rodado inteiramente em São Carlos, «Sábado», um indício de que o interior de São Paulo está cada vez mais mergulhado na era do audiovisual. Basta um rápido giro por outras cidades «caipiras» para se perceber a ebulição que vive a área. Em Botucatu (a cerca de 300 km da capital), o diretor Paulo Furtado prepara a transferência para película do filme 3 pedras, rodado no ano passado. Bauru (400 km da capital) roda o curta Perímetro urbano e o produtor Gabriel Fahra teve seu roteiro O sonho de uma vida selecionado por o programa BBC New Talent 2006. Em Sorocaba (100 km da capital), Cafundó, dirigido por o ator Paulo Betti, narra a história de um personagem local e conta com a participação de atores da cidade ao lado de famosos. Filmando no quintal 3 Pedras teve como locação o místico Morro das 3 Pedras, que sustenta lendas locais, como as de que possui um túnel que levaria a Machu Picchu, no Peru, e de ser lugar de sacrifícios no passado (por isso, se ouviriam sons de gemidos e tambores por lá). «O filme é uma ficção que narra a história de um sargento que morre numa guerra, mas fica perdido sem saber se está vivo ou morto. Tem um quê de realismo fantástico, mas não exploramos esse lado místico do lugar. Quisemos usar apenas o visual, que já é muito forte», conta Furtado. Assim como em São Carlos, a produção mobilizou vários setores da cidade, como a Prefeitura, empresários e até o " Tiro de Guerra. «Uma das cenas é uma reconstituição de uma batalha da Revolução de 32, que teve uma base aqui em Botucatu. Conseguimos a participação de 30 atiradores, com armas e balas de festim, cedidos por o Tiro de Guerra», diz o diretor. Em o total, cerca de cinqüenta pessoas participaram da produção, entre técnicos, produtores e atores. O personagem principal é vivido por o botucatuense Domingos Meira, que após as filmagens participou da minissérie JK, da Rede Globo. Ewerton de Castro, Karina Barun e Talita Castro formaram o restante do elenco de «3 Pedras», que tem até efeitos especiais, como explosões e bombardeios aéreos, depois finalizados digitalmente. Gruas e trilhos foram usados nas filmagens. «Locamos toda a maquinária em São Paulo. Também usamos, em cenas da ferrovia, a maquete de uma maria-fumaça feita por ferromodelistas aqui da cidade». Segundo Furtado, noventa por cento das captações foram externas, a maioria de elas feita no Morro das 3 Pedras por causa da iluminação natural. «Em determinado momento das gravações, acampamos por uma semana lá para pegar o nascer e o pôr-do-sol. A luz naquele lugar é uma das melhores para se filmar», diz. «Quisemos filmar em Botucatu por a intimidade que temos com a cidade. É como se estivéssemos filmando no quintal da nossa casa». A história começou a ser pensada em março do ano passado por ele e Domingos, que assinam o roteiro juntos. Cíntia Di Giorgi fez os diálogos e assina como co-roteirista. Foram feitas três versões para as primeiras exibições: uma com 18 minutos, uma com 30 minutos e outra com 70 minutos. «Fizemos algumas exibições na cidade por causa dos prazos com os patrocinadores. mais de 2 mil pessoas já viram». Entretanto, Furtado acredita que esteja na fase mais demorada da produção, que é a transferência para película, já que tudo foi filmado com câmera digital. «Acredito que a versão final mesmo fique pronta só em 2007. Dependemos de vários fatores e é muito caro fazer isso», diz ele. Até agora, 3 pedras já consumiu R$ 25 mil. Furtado também acaba de lançar «Tubinho -- O Filme», uma ficção inspirada no palhaço do Circo Teatro Tubinho, criado há cerca de 80 anos no interior. Sonhando! Já o bauruense Gabriel Fahra, amante da sétima arte desde pequeno, tenta produzir seu primeiro longa, O Sonho de uma vida, que teve o roteiro aprovado por o programa BBC New Talent 2006, da TV estatal inglesa. O produtor, que participou de um workshop de cinema em Hollywood, afirma já ter todo o equipamento necessário para rodar o filme, mas ainda vai selecionar os atores para o projeto. Estreando! Com mais cacife e estrutura que seus conterrâneos caipiras, Cafundó, que marca a estréia de do ator Paulo Betti na direção, ao lado de Clóvis Bueno, não foi rodado numa cidade do interior paulista, mas narra a história de um personagem de Sorocaba, de onde também levou atores locais para contracenar com Lázaro Ramos e companhia. O filme foi rodado em cidades históricas do Paraná. João de Camargo, um ex-escravo preto-velho milagreiro, é o personagem principal, vivido por Lázaro, que levou o Kikito de Melhor Ator no Festival de Gramado do ano passado por sua atuação no filme, que estreou recentemente nos cinemas de Sorocaba e entra em circuito nacional aos poucos. Pode ser mais um passo para o início de uma nova fase do cinema no interior de São Paulo. Basta que os diretores virem suas lentes para dentro do Brasil e saiam do eixo Rio-São Paulo na hora de produzir seus filmes. Número de frases: 45 Começa a segunda semana da mostra e estamos entrando na reta final. Confesso que o pique não é mais o mesmo e agora vejo apenas dois filmes. Como não havia pego os ingressos com antecedência chego um pouco antes do primeiro para pegar ingressos; acabo cruzando com alguns conhecidos e aproveito para debater sobre possíveis roteiros e me atualizar um pouco. Com um pequeno atraso para a abertura da sala, entro na fila para: Delirious -- Unibanco Arteplex 15:00 O filme começa muito bem, com os créditos ao som de Dandy Warhols e um mendigo simpático cruzando Nova Iorque até cruzar com o divertido personagem de Steve Bucsemi. Mas quando a mocinha entra em foco, começa a desandar. A química entre os dois personagens masculinos é muito boa, mas sempre que vemos a mocinha, fico meio impaciente. O filme tem um ritmo bom, e piadas interessantes sobre fama, poder e vaidade; mas a simpatia do mendigo beira o irritante e ao final Bucsemi é sub-aproveitado. Nota 3 por a melosidade excessiva. Londres Proibida -- Unibanco Arteplex 17:30 Uma prostituta e uma menina contra o mundo. Em esse filme que parece uma versão adulta de Guy Ritchie tudo é duro e frio, a leveza é trazida, mesmo que pouca, por a criança, já que ela é a única que tenta bloquear o horror à sua volta, além de fugir de ele. O final é um pouco difícil de acreditar, mas justo ao meu ver, e por isso e questões de consistência o filme leva um belo 4. Antes da seção começar um senhor falastrão comenta com alguns à sua volta sua opinião sobre alguns filmes, que já passam dos 60 apenas nesta mostra. E quem quisesse apenas ler o filme poderia tê-lo feito em cinco minutos enquanto todas as legendas de ele eram mostradas rapidamente na tela antes da projeção; teste que não foi muito útil já que ao final do filme elas foram substituídas por uma tela de windows. Em a saída concluí que retirar os ingressos para outros dias no Frei Caneca não vale a pena, há muita gente querendo fazer isso e de maneira desorganizada, ponto a menos para os organizadores da mostra. Número de frases: 20 Achei melhor ir até o Conjunto Nacional, decisão partilhada por uma garota que também viu «Londres». ( Em a foto acima, a Escolinha de Catira, um dos projetos que já foram contemplados por o Programa de Estímulo à Cultura de Bauru) (* colaborou Ricardo Polettini) Uma das maiores queixas de quem trabalha com produção cultural é a dificuldade de conseguir dinheiro para pôr em prática as idéias. A falta de incentivo público está entre as principais reclamações. Só que, contraditoriamente, incentivo nem sempre é sinônimo iniciativa e realização. Bauru tem desde 2003 o Programa de Incentivo à Cultura, inspirado na Lei de Fomento ao Teatro de São Paulo. «Aqui abrimos para as outras modalidades artísticas», esclarece Ariane Ribeiro Barros, agente cultural da Secretaria Municipal de Cultura, que ajudou na elaboração. Basicamente, estabelece que o município deve destinar 0,2 % do orçamento anual para um limite de trinta projetos culturais, que podem receber verba de até de R$ 20 mil cada. A contrapartida vem na forma de espetáculos, oficinas etc. e logo depois a prestação de contas. Mas, para ter o direito de pleitear os recursos, é preciso ser pessoa jurídica em Bauru, de finalidade cultural, com mais de um ano de atuação na praça (questões que, aliás, estão em discussão para quem possam ser flexibilizadas). Quem seleciona os projetos duas vezes por ano é uma comissão mista de artistas, pessoas ligadas ao setor e representantes do município. Tudo muito bem descrito e organizado, mas ainda pouco aproveitado. Em a estréia do programa, no primeiro semestre de 2004, foram apresentados 11 projetos, oito de eles aprovados. Em o segundo semestre, sete apresentados e apenas três aprovados. Números bens inferiores aos trinta previstos por a lei. Em o ano seguinte, números ainda mais tímidos. Com a mudança de governo (em 2005), houve apenas uma seleção (a previsão inicial era de duas por ano), sendo apenas quatro projetos aprovados, os quais tiveram a primeira parcela do repasse liberada só no começo deste ano e, por isso, começaram os trabalhos com atraso. Este ano, foram apenas cinco aprovações. Resultado: a maior parte da verba não é utilizada para a cultura como poderia ser. Burocracia e suspensão O grande problema detectado logo no início do programa é que a maioria dos artistas não tinha constituído ainda a pessoa jurídica exigida para pleitear o incentivo. Com isso, muitas idéias boas ficaram de fora. Mas Ariane vê avanços. «De 2003 para cá, os artistas começaram a se organizar melhor, novas ONGs foram criadas e aos poucos esse pessoal tem desenvolvido seu trabalho." Esse problema, porém, causou recentemente uma polêmica que, praticamente, paralisou os trabalhos. Para tentar se adequar à burocracia, alguns artistas buscaram na SAC (Sociedade Amigos da Cultura), entidade constituída dentro da própria Secretaria Municipal de Cultura -- e umas das únicas com requisitos suficientes para cumprir as exigências da Lei de Estímulo à Cultura (LEC), apoio para inscrever seus projetos. Este ano, cinco dos cinco aprovados para o exercício de 2006 fazem parte desse grupo. Por isso, o vereador João Parreira de Miranda (PSDB) questionou a validade «a destinação de quase R$ 100 mil a uma única entidade», o que parece, no mínimo, um exagero. Com isso, o secretário de Cultura, José Augusto Vinagre, suspendeu o andamento dos projetos até que a Prefeitura emita um parecer jurídico sobre o assunto para saber se deverá ou não liberar o repasse dos projetos. Atrasos De a forma como foi colocada a impressão é que a entidade já colocou as mãos no dinheiro e que haveria desvios de verba do programa com outras intenções. Mas o fato é que, além de subutilizada com poucos projetos inscritos, a verba tem também sido paga com atraso, o que muitas vezes atrapalha o cronograma e o resultado dos projetos. «Estamos em dia de acordo com o cronogramas dos trâmites que têm de ser cumpridos para liberação da verba), diz Vinagre. A ONG Quilombo do Interior, que difunde a cultura hip hop, conseguiu por a segunda vez ter seu projeto contemplado em 2005. Se o dinheiro tivesse sido liberado, os trabalhos teriam começado ainda em agosto do ano passado. Mas só agora neste semestre a entidade recebeu a primeira das três parcelas para desenvolver o projeto, quando era para estar encerrando o projeto. «Esses atrasos são ruins porque temos de fazer todo o trabalho de mobilização outra vez, tanto dos oficineiros quanto do público», explica Carlos Renato Moreira, ou MC Magú, presidente da entidade que promove oficinas de hip hop. Para ele, o que impede que mais projetos cheguem ao processo de seleção é a falta de capacitação técnica para a elaboração. «Pouca gente sabe lidar com essa burocracia, mas isso não é culpa do artista, ele tem que fazer sua arte e se organizar com pessoas que saibam colocar suas idéias no papel." Alterações na lei e falta de divulgação A discussão pode trazer alguns pontos positivos, já que o secretário admite pedir a revisão e o aprimoramento da lei. A abertura à participação de pessoas físicas (já que a constituir uma entidade ou mesmo ONG é mais burocrático) e a diminuição do tempo mínimo de existência da entidade (hoje estipulado num ano) são propostas que estão sob análise. Vinagre também admite a falta divulgação da lei. E, apesar da suspensão momentânea, esclarece que o edital inscrições para novos projetos, que serão contemplados no segundo semestre, estão abertos até dez de junho. Ainda sob as regras da lei como ela foi redigida inicialmente. Informações em www.bauru.sp.gov.br Número de frases: 47 Telefone: (14) 3235-1072 Tudo bem agora. Em o momento em que este texto é escrito a notícia mais fresca informa que o filme acumulava até a última quinta, dia 25, 1,3 milhão de espectadores em 20 dias em cartaz nos cinemas, caminhando a passos firmes para ser o filme brasileiro mais visto em 2007 e ocupar sua posição no pódio da bilheteria desde a chamada retomada do cinema nacional. Tropa de Elite segue assim sua trajetória como um grande filme, e em breve o fenômeno da explosão pré-lançamento do filme nos camelôs e a polêmica por ela despertada começarão a ser estudados por as agências de publicidade como um caso emblemático de «marketing viral» no país. Mas o filme faz sem dúvida jus a muito mais que isso. Obras marcantes se impõem não apenas por a qualidade, mas também por o timing, por a sintonia profunda que encontram em algum ponto do espírito do seu público e do seu tempo. E Tropa de Elite, ao lado de muita qualidade, tem evidentemente muito timing. O Brasil vive hoje um momento de recuperação do olhar sobre a polícia. Depois de anos, a nota dominante do debate público sobre segurança pública deixa de recair sobre a figura do jovem marginalizado, sua condição, história humana e formas de envolvimento com as dinâmicas e organizações criminosas, para voltar-se às polícias e policiais, suas dificuldades, limitações, desafios e, também, humanidade. Duas décadas de democracia, muitas feridas curadas e novas feridas abertas depois, invertem-se o foco das humanizações, e um Zé Pequeno que um dia foi Dadinho dá lugar a um capitão Nascimento com angústias, lealdade aos colegas e à sociedade e uma família por cuidar. Isso se reflete no peso crescente dado por os meios de comunicação a vozes policiais como parte fundamental do debate sobre segurança (equilibrando assim a divisão do espaço com os pesquisadores e especialistas no tema), no apoio social quase irrestrito a ações de combate que até outro dia seriam majoritariamente descartadas como símbolos da truculência e do equívoco da resposta policial (entre as quais a ocupação do Complexo do Alemão realizada em junho no Rio de Janeiro tornou-se o marco principal), e na recolocação das polícias e da punição como agentes centrais das políticas de segurança pública (em detrimento da ênfase em alternativas preventivas e comunitárias). Passadas as mesmas quase duas décadas do brado também marcante dos Titãs (não por acaso citado no filme), a mensagem-chave da hora é: nós precisamos de polícia. Tropa de Elite encarna tudo isso, e por isso pôde instantaneamente converter-se em símbolo e despertar todas as reações que desperta. Essa é, para mim, a sua principal força e sua mais importante novidade. A aplicação da lei no cotidiano é um requisito essencial de todas as sociedades democráticas, e quando realizada corretamente traduz-se na proteção nos casos concretos dos direitos e liberdades por elas declarados. Uma boa polícia alinha-se assim com bons educadores ou médicos na tarefa pública de construção da cidadania. E recuperar a idéia de que pode existir algo como uma boa polícia e bons policiais, dedicados à aplicação para todos de uma lei legítima, pode mesmo ser sinal de uma sociedade que se fortalece na prática democrática e supera fantasmas do passado. Mas há algo ali que não permite baixar a guarda, e simplesmente apreciar a narrativa arrebatadora e a competência técnica do filme. É que quando se trata de catarses, como de venenos, o problema está na dose. Tropa vai muito além em termos de mexer com tabus e memórias do que a mera reabilitação do tema policial. Trocada em miúdos, a trama que vai se compondo é incrivelmente didática e surpreendentemente pouco original. Um mal onipresente. A alternativa institucional inviabilizada por a completa e incontornável corrupção das polícias e do Estado. A social, desqualificada por a hipocrisia dominante nas elites bem-pensantes. As mãos ocultas do poder degradado por trás de ambos os pólos. Em meio a tudo isso, a obstinação de um vingador, e a sugestão, resgatada dos porões para os morros: tortura e brutalidade podem ser abjetas, repugnantes, mas funcionam. Sua prática pode despertar dilemas de consciência, e nem mesmo o Capitão Nascimento é imune a eles, mas diante da tarefa de derrotar a corrupção e a subversão (e para isso tirar do caminho uma juventude leviana e drogada que não sabe o que faz) pode também ser o único caminho à mão. Opção narrativa segundo o esquema clássico dos filmes de ação? Apenas o ponto de vista de uma personagem? Pode ser. Mas quem traz na lembrança a figura de um delegado Fleury (ou, para ir mais fundo na mesma fonte, de um Filinto Müller ou Moreira César) não pode deixar de inquietar-se com o protagonismo sedutor de um capitão Nascimento. Porque é este -- e não Duro de Matar -- o enredo que faz com que Tropa de Elite acione em algum lugar a sensação de filme já visto. Quando confrontados com a primeira manifestação deste questionamento, o diretor José Padilha e o ator Wagner Moura ponderaram que o objetivo era mesmo o de compreender e trazer para o debate o ponto de vista do capitão, sem em nenhum momento assumir a sua defesa. Não há razão para duvidar de eles. Mas o problema da inexistência de neutralidade na opção original de onde se coloca o olhar é tão velho quanto a ciência e a arte, como é antiga a sabedoria da prudência para se falar de corda em casa de enforcado. O fato é que no seu didatismo moral o filme flerta com um ovo de serpente. A figura idealizada do capitão Nascimento personifica em estampa atualizada as aspirações de vozes importantes da nossa história, e -- mais ainda -- as liberta de longo recalque provocado justamente por o predomínio politicamente correto dos setores sociais e intelectuais que o filme desmoraliza (eficácia da brutalidade e denúncia da hipocrisia da sociedade civil e das universidades são no fim das contas as duas notas fortes da repercussão obtida por o filme). A o fazer isso, aprofunda a conexão com seu tempo e contexto, e termina por encontrar a sua acolhida mais entusiasmada justamente no âmago de um novo conservadorismo em gestação no país, e por tabela ecoar outros debates sobre limites de técnicas de interrogatório e heranças imorais de 1968 em voga mais ao norte. O tema da responsabilidade do artista e da autonomia da obra é também bastante antigo. Importa menos avaliar se há nisso dolo, culpa ou mera inadvertência do autor que perde o controle sobre sua criação. A questão que vale é a do lugar que o filme ocupará como divisor de águas que já é no diálogo entre cinema e sociedade no Brasil. Mexer com fantasmas pode servir para exorcizá-los ou reavivá-los: tudo depende da dose e da oportunidade. O fio da navalha da vez se dá entre a recuperação positiva do lugar e do valor da polícia -- complemento essencial ao entendimento da nossa insegurança alimentado também por os falcões de Mv Bill e Celso Athayde e por o Sandro do Nascimento do mesmo José Padilha -- e a atração perversa por a entrega das chaves aos candidatos a caveiras da vida real. Eu como acredito na maturidade e no discernimento que o país vem sempre demonstrando a cada degrau da construção democrática (e por isso posso também receber a emergência de um conservadorismo renovado como parte de ela), confio em que nos saíremos bem de mais essa. Mas um pouco de barbas de molho com os ardis da ilha de edição da história não faria mal nenhum neste caso. Número de frases: 47 -- Ah, bicho, nem te conto ... -- Quê foi, rapá? Que voz é essa? -- Ntt ... é ... a Ivonete desistiu do casamento. Pois é. Desistiu. Em a véspera. Uma semana depois da minha ter me deixado também. Ainda que não tenha me deixado havia uma semana, separados que estávamos por pelo menos um ano e três meses. Acontece que o simples fato da ter respeitado por esse tempo todo não impediu que ela sentisse a maldita da carência que acabou sucumbindo nesse meu sentimento de perda abrupto. Quase um palavrão. Não foi surpresa, portanto, o povo ter me acudido quando da notícia do outro. Depois da primeira lágrima, eu fui que me abostei no chão, soluçando as conquistas de outras bocas em nome de ela. Para os diabos, porra. Eu estava muito, muito sensível nessa época. Viadinho Ralf, de verdade. Que, reza a lenda, estudou com minha mãe no primário, lá mesmo em Goiânia. Já era inclinado, o garoto. Ou foi o Christian? Acho que dá no mesmo (até porque, por o que sei, inverteram-se os figurinos na esperança da macharada se esbofetear novamente com êxtase). E, então, lá estava eu, após quase três horas de vôo, plantado em frente ao hotel onde aconteceria a recepção do casório do Romualdo Afonso, esse amigo meu. -- Razuk? -- Eu ...? -- Fala, cara. É o Caco. -- E aí? Chegou? -- Tô aqui. Hoje à noite, tô lá. Só precisava de uma ajuda tua. -- Manda. -- Tô precisando de mais uma credencial, cara, para o nosso fotógrafo. -- Ah, de boa, véi. Em a porta, me liga que eu libero. -- Beleza. Era isso ou a pecuária, festa que bombava do outro lado da cidade. Seria apenas mais um corno circulando na exposição. Logo se adaptaria. -- Mas eu nem sei tirar foto ... -- Relaxa, rapá. Em a hora, a gente inventa. Fala que um cachorro engoliu tua câmera e perdemos as fotos. De aí, eles se arranjam. -- Mas como é que um cachorro vai engolir uma câmera, bicho? Avestruz é que come câmera, cachorro se esfrega nas pernas das pessoas ... -- Um avestruz, então, que seja. Sexta-feira, dezenove de maio, às seis e meia em ponto da tarde, estávamos eu e Romualdo Afonso em frente aos portões. O garoto precisava se divertir um pouco. E era minha obrigação fornecê-la, afinal o padrinho era eu. Seria. Diversão. Era o que importava. Fred 04, do Mundo Livre, tomava uma gelada numa barraquinha logo ao lado. Cabeça fria, não ia tocar mesmo. Tinha mais é que ficar light. Ali era o canal. -- Vai beber, vai. -- Mas eu não posso beber ... não estou trabalhando? -- Tia, arruma uma cerveja aqui para o nosso amigo! Duas! Isso tá com cara que vai começar tarde ... Devidamente lubrificado, liguei para o Razuk, Leo Razuk, da Monstro Discos, organizadora do Bananada, conforme combinado. Era a segunda vez que eu cobria o festival, novamente no Martim Cererê, conhecia o figura. Apesar de, a bem da verdade, nunca mais termos nos falado depois disso. Inventei uma história de documentário baseado no livro do Pablo Kossa sobre o Goiânia Noise, outro festival de eles, e acabou não dando certo por causa da minha diligência um tanto dispersa sem Ritalina. De aí a não aparecer mais nos meios virtuais de comunicação, foi um passo. Cansado da vida, de tanta dispersão, que eu estava. -- Já tô chegando aí! Tô só resolvendo um problema e já apareço! Não seria mais um pra ti, amigão. Sem problemas. As apresentações não tinham começado, mesmo. E Romualdo Afonso parecia ter encontrado um outro alguém pra alugar os ouvidos. Uma outra. Coitada da tia da cerveja. E do Fred 04. Tudo bem, outros. Tinha também a groupie que cercava o músico -- uma vaca leiteira das malhadas com rosto de angorá. Mas o Mundo Livre não valia o choro do Romualdo e logo só sobrou a tia. Coitada. 04 saiu mui puto. Os portões do Yguá se abriram. Ou foi do Pyguá? Lá longe, avistei a cabeleira grisalha do Leo, que acabava de chegar. Show time. -- E aí, parceiro? Massa? -- Jóia. Arrumou as credenciais? -- Aqui. Só não deu pra arrumar mais uma, véi. Mas não tem nada, não. Em os outros dias, é só me ligar que eu coloco o cara pra dentro. -- Beleza. -- E cadê ele? -- É aquele ali nos braços da tia da cerveja. -- Tá mals, hein? -- Mulher, rapá ... deixa a gente que é um bagaço. -- Sei ... e ele vai conseguir trabalhar assim? Bem, de todo modo, eu vou deixar avisado na portaria, então. Tenho que entrar agora. -- Combinado. Vai lá. Parcialmente recuperado, Romualdo Afonso e eu entramos no Martim Cererê. A expectativa era grande, haja vista as mudanças realizadas neste ano com relação à programação do evento. Pra quem, na edição anterior, havia fechado as noites com Autoramas, Astronautas e Júpiter Maçã, respectivamente, apostar em atrações locais como headlines no intuito de valorizar as bandas da região e diferenciar o Bananada de seu irmão Noise era arriscado. Senão por a própria bagagem que as forasteiras trazem com si, o fato da grande maioria das goianas ser figurinhas carimbadas nos palcos da cidade preocupava adolescentes fugindo do tédio. -- Espera aí, que eu vou mijar. Mal esguichei o primeiro jato, a distorção da Bang Bang Babies (GO) atravessou as frestas do banheiro químico, ainda impecavelmente limpo. O cheiro forte dos produtos mais a pulsação crua da banda me deixaram um tanto confuso, confesso. Saí zonzo da cabine mictória e me mandei para a platéia de onde poderia pirar de modo satisfatório com os riffs dos moleques. Não deveram nada a um Hives da vida. De o caralho. Romualdo havia desaparecido. Reapareceu dos bastidores, cabeça enfiada num amplificador, com o povo da Pétala Mecânica (GO). Depressão demais para o meu gosto pequeno-burgu ês, mas teve quem gostasse dos ecos de Manson propagados por as caixas de som. Fui tomar um ar. Mais um. Só o tempo do Satanique Samba Trio (DF) -- eram seis ou sete integrantes? Cinco, talvez -- baixar no recinto com sua bossa-noise instrumental. A coisa estava começando a melhorar. E muito. Mordeorabo (MG), também apostando no esquema sem vocais, quase um post-rock, fez bonito. Corri para o banheiro e agilizei pra voltar logo e fechar os olhos para o som dos caras. Simpaticíssimos, por sinal. Forte candidato a melhor show da noite. Mas, cu, cada um tem o seu. Ainda assim, não vi um que não estivesse rebolando na hora dos Shakemakers (GO) e seu rock ´ n ´ roll classicão. Sim, também o de Romualdo. Botaram tudo abaixo. Primeiro mosh do festival, registre-se. Escalação perfeita. A cada novo show, sempre o mesmo pensamento: «pobre de quem tocar depois desses fudidos». Em o caso, a mui esperada Suzana Flag (PA). -- Aê, Chimbinha, toca Calyyyyyyppssssooooooo!!-- de um bêbado. -- Calypso é o caralho.-- do baixista Elder. Recado dado, desceram a lenha no Cererê, confiando num set montado praticamente por as novas músicas, por enquanto desconhecidas do público, que farão parte do sucessor de Fanzine, primeira demo do grupo. Deu certo. Tanto, que, no final, de tão empolgado, o guitarrista Joel arremessou sua palheta pra mim. Não sei andar de bicicleta. Em o basquete, meu apelido era borboleta. Danço pior que o professor de matemática do Big Brother. Agarrar uma palheta assim, de supetão, no ar, então ... não é das missões a mais fácil pra mim e minha coordenação motora. Pelo menos, na cama é vantagem das boas. Mas não estava na cama e lá veio o pedaço pontudo de plástico direto no olho esquerdo. Minha vez de ser acudido por Romualdo Afonso. E tasca latinha de cerveja gelada na lupa, pra desinchar. Resultado: Uncle Butcher (SP) -- muitíssimo aguardado por mim, fã que sou do Thee Butcher's Orchestra --, WC Masculino (GO) e Eta Carinae (PE), não deu pra ver. Fica para a próxima. Ainda do lado de fora -- passe livre é uma das maravilhas do universo --, toca o celular. -- Cadê o Romualdo, seu cretino? -- Afonso! Tua ex ... Meia hora de lamúrias depois, showzaço do Automata (BA) também perdido (segundo relatos, a banda deixou todo mundo ensurdecido com sua podreira -- no bom sentido), estava entornando os últimos goles de mais uma lata de cerveja quando vi meu celular passando por mim. Vejam bem. Saiu das mãos de Romualdo Afonso, de onde foi atirado com brusca violência, pra se espatifar no chão. Putinho, ele. Tudo bem, eu mesmo já havia lançado essa joça umas quatrocentas vezes. Mais uma, menos uma ... era dos vagabundos, os melhores. Não quebram nunca, foram feitos pra serem jogados por os cantos. Até aí, no problemo. Não fosse um cavalo fantasiado de cachorro militar ter cruzado seu caminho e engolido o bicho. Pra ver como é a vida ... -- Putaqueospariste! Meu amigo, teu cachorro comeu meu telefone! -- É, eu vi. Acho que isso deve fazer mal, né? -- Porra, seu guarda, tô cagando pra esse cachorro! Quero saber é do meu celular! Como é que eu fico, agora? -- Não, cidadão. Quem tem que cagar é ele. Agora, espera. E é melhor ficar calminho. De o lado de fora do Cererê, dando uma de babá de cão policial, percebi por a movimentação que o caldeirão fervia lá dentro. Mustang (RJ) iniciava sua apresentação com o melhor do hard rock carioca, botando todo mundo pra bater cabeça. Como o responsável por a confusão havia sido o incauto Romualdo, ordenei-lhe que segurasse as pontas até que eu voltasse. Adentrei o recinto por a sétima ou oitava vez, ainda a tempo de conferir as acrobacias do vocalista Carlos Lopes. Ânimos recuperados, que viesse o Barfly (GO). Não sei se titio Bukowski teria aprovado o som dos caras, meloso demais para o naipe do velho safado. No entanto, não foi o meu caso, nem o de ninguém ali. Variando entre brit-pops do primeiro e do segundo álbum, mostrou por que vem despontando como um dos mais importantes grupos do cerrado. -- E aí, cagou? -- Nada. -- Caralho ... me dá uma cerveja, rápido! -- E eu, não vou entrar? -- Tu vai ficar é aí até esse cachorro cagar meu celular de volta! Nervos à flor da pele, virei mais uma de gut-gut e me mandei para os Señores (GO). Já dizia minha falecida bisavó que nada melhor pra expurgar os demônios do que um bom punk rock. E nessa arte, esses goianos são os caras. Um, dois, três, quatro! E toma-lhe porrada nos tímpanos, adocicado com belas melodias. Favor não confundir com uma emo qualquer. Os garotos respiram tradição. A essa altura, Romualdo e cachorro e celular e ex-mulher e o escambau eram apenas algumas das várias palavras que vagavam sem rumo por o cérebro no piloto automático. Que fossem todos para as cucuias. Eu estava a fim de onda. Adrenalina, porra! Dito e feito. O primeiro galalau que me encarou logo no início do show do MQN (GO), que fechava a primeira noite, recebeu de cara uma canelada que, tenho certeza, doeu mais em mim do que no sujeitinho de um e noventa que a recebeu. Já preparava a retaguarda, quando o mala, educadamente, veio me perguntar se eu estava bem. -- Você não me parece nada bem, amigo. Por que você fez aquilo? Alguma coisa lhe aborrece? Fiquei sem reação. Gritar era a saída. E gritei. Eu e o Fabrício Nobre. E todo mundo em coro. Menos o grandalhão, ainda preocupado com meu bem-estar. Não se fazem roqueiros como antigamente. Não duvido nada que fosse evangélico, o puto. Mas não desisti assim tão fácil e me mandei para o mosh-pit. Esse foi o terceiro show do MQN a que assisti na vida. E no qual levei mais socos e ponta-pés, com certeza. Todo quebrado, o jeito foi sair numa maca direto para o hospital. -- Que isso, bicho? O que aconteceu c ´ ocê? -- Depois te explico. Segue essa maca. -- Mas e o cachorro? -- Amanhã ele leva o de ele. O amanhã, porém, não chegou pra mim. De repouso, curando os inchaços e hematomas, mandei Romualdo Afonso em meu lugar no segundo dia. Eis o relato do moço: «Bicho, se eu te contar, cê não acredita. Cheguei lá na paz, fiquei esperando o Razuk na porta. Não tinha como telefonar, eu não sabia o número de ele. Esperei, esperei e nada. Ninguém sabia me dizer onde ele tava. A essa altura, eu já tinha tomado pelo menos metade de todas. Então, nem pensei muito. Dei a volta no quarteirão e resolvi pular o muro de uma escola que fica ao lado do Cererê. Nunca te contei, mas eu sou um exímio escalador de qualquer coisa. Aquele muro foi moleza. Só não contava com o segurança do colégio, que tava armado. Em a mesma toada em que eu pulei pra dentro, tentei pular pra fora, mas a calça enganchou na grade e eu fiquei pendurado de cabeça pra baixo. O segurança gritando. De aí, quem me aparece? O feladasputa do guardinha com o viado do cachorro de ele que engoliu teu celular, babando um rio. Tava fudido, era cana na certa. A Ivonete nunca mais que ia olhar pra mim de novo. Ou isso ou eu dava uma de doido. E foi o que eu fiz. De a feita que eu me desprendi da grade de encontro ao chão, vi um pedaço de pau por ali e não pestanejei um segundo. O que é um pum pra quem tá todo cagado, afinal de contas? Dei tanto cacete nesse cachorro, mas tanto ... que não sei até agora por que diabos o seu guarda não soltou o maldito para a cima de mim. Isso não acontece em lugar nenhum do mundo! Chegou superior, inferior, bombomzeiro, malaco, tudo pra me segurar. E o guarda ali, na calma, puxando o cachorro que tava doido pra avançar em mim. Tava quase me dando mal, acho que chamaram viatura e tudo. De aí resolvi acabar com a palhaçada, disse que estava tudo bem, pedi desculpas, afirmei que tudo tinha sido uma prova de amor equivocada e dei meia-volta. Esperei só o povo largar do meu pé pra agarrar o pau de novo e tacar com os caralho na cabeça do cachorro, que, de tão puto, conseguiu se livrar do guarda e veio para a cima. Foda-se. Me joguei dentro de um bueiro que tinha por lá e lá fiquei até a poeira baixar. Depois, fui pra uma esquina que ficava a uns dois quarteirões do lugar e não deixei o posto até o pessoal esvaziar o Cererê. à medida que iam passando, eu perguntava como tinham sido os shows. Em pouco mais de uma palavra, eis o que me responderam: Iscariot (GO) -- já tinha começado o festival?; RPDC (GO) -- esses malditos punks filhos-de-uma-puta vão me pagar por esse dente, caralho; Cine Capri (GO) -- desculpa, mas não sei do que você está falando; Downers (GO / DF) -- juro por deus que esse bagulho não é meu, mas ... dá pra devolver?; Lucy and The Popsonics (DF) -- so c ´ mon, baby, shake your hips, baby, c ´ mon!; Os Bonnies (RN) -- polícia! socorro!; Lake (GO) -- só faltou minha flanela xadrez; Los Poronga (AC) -- de onde mesmo que eles são? que foda, hein? existe de verdade; Lunettes (SP) -- aquilo não foi uma ejaculação enquanto as moças tocavam; Trissônicos (GO) -- qual foi mesmo a pergunta?; Sangria (BA) -- isso de rock é coisa do capeta, meu rei; Netunos (RJ) -- não era a banda do jp? volta, cuenca!; The Dead Rocks (SP) -- isso sim é música de surfista macho; The Rockefellers (GO) -- momma, I want my willy back!; Nem (GO) -- chapação é apelido; Violins (GO) -- muito foda, eis o show do festival, voltaram pra ficar, pelo menos até a próxima temporada». -- E então ...? -- Então o quê? -- É isso?! -- Queria mais o quê? Eu sou o fotógrafo, não o jornalista. Não dava pra ser pior. O que exatamente aquilo tudo dizia sobre as bandas e a segunda noite do Bananada, ainda tentei entender por um bom tempo. De uma coisa, entretanto, tinha certeza: não dava pra ser pior. Pois é. Eu e minhas certezas. -- Só pra te dizer que ontem eu fui numa festa com minhas amigas e foi tudo de bom. -- Ah ... foi? -- Tu não atendeste o celular, ia te mostrar o festão em que eu estava. -- Ah, tá ... Estava na cara que aquilo não ia prestar. Ou eu dava um jeito naquela apatia ou a cobertura do festival iria para o beleléu de uma vez por todas. -- Negócio é o seguinte ... tem uma farmacinha bem vagabunda descendo a rua. Usa isso aqui, vai lá e me traz Ritalina. -- Cê tá querendo que eu roube a farmácia? -- Não é exatamente isso. Tu vai pagar por o remédio, só não vai mostrar receita nenhuma, entende? Ao invés disso, tu mostra isso aqui. -- Mas e se me pegarem? -- De aí, tu corre. Mas traz a Ritalina. Três de uma golada. Em quinze minutos, estaria mais que pronto para a missão. Ivonete tinha acabado de deixar uma caixa com alguns objetos pessoais de Romualdo Afonso. Os dois se cruzaram na portaria do prédio, o que acabou não sendo nada bom para o sujeito. Entrou no apartamento de mãos levantadas, urrando palavras desconexas de ordem. Palavras de ordem. Desconexas. Já entornava a primeira do dia. Ele -- eu estava abstêmio por conta da tarja preta. Foi para o quarto e retornou cinco minutos depois. Cabeleira embaraçada, cavanhaque enorme de bode e óculos escuros zangão. Era Raul. -- Simbora. A terceira noite começou mais cedo e não fomos avisados disso. Logo, não assistimos à apresentação da Pelúcias (GO). Romualdo, mamado. Eu, estalando os dedos. Prometia. Esperamos por o Razuk que apareceu nos portões um pouco antes da Sangue Seco (GO) acabar de tocar. Mais um show perdido. Não havia de ser nada. De um ponto de vista estritamente do expectador não profissional, digo. -- Cadê o fotógrafo? -- Pegou um resfriado, trouxe esse no lugar. A tempo de presenciar Johnny Suxxx n ' The Fucking Boys (GO). Não sei se por conta da anfetamina, mas estou quase certo de ter visto o cara do AC / DC no palco, agitando nos vocais. Grande revelação. O caminho estava aberto para o Bando do Velho Jack (MS) fazer a arruaça que bem entendesse. E não deu outra. O velho e bom rock ´ n ´ roll estava salvo novamente. Pelo menos, no Brasil. Pra todos os gostos e estilos, ressalta-se. A exemplo do show anterior, do Porcas Borboletas (MG), que reuniu a nata da intelectualidade tropicalista roqueira, e do seguinte, dos Innocent Kids (DF), onde sobrou porrada pra quem quisesse estar pelo meio da platéia. Tinha todos os motivos pra comemorar. O rock estava salvo, porra! Raul era meu amigo e eu estava solteiro. O que me faltava, então, pra começar a beber? Tarja preta? Sei. De aí não me recordar ao certo do show de The Feitos (RJ) -- a primeira latinha da noite a gente nunca esquece --, apesar de ter a impressão de ter sido do caralho. O efeito foi rápido. Mal se instalou em meu corpo, o líquido quis sair. E lá fui eu ao banheiro químico. A mesma história do pum de Romualdo. E eis que o Seven (GO) surge, numa apresentação magistral que, por o que entendi, pode ter sido a última, ao menos por um bom tempo. Experimentalismo instrumental despejado direto na medula. Vez da badaladíssima Supercordas (RJ). De cujo show também não me lembro. Meu mundo girava. Ritalina, cerveja, bodum, banheiro químico, dor-de-cotovelo e inchaço. Não deu pra agüentar e dormi. Parece ser o que acontece com mim na última noite dos Bananadas. Ano passado, foi na metade do Júpiter Maçã (pra acordar no meio da madrugada, uma semana depois, com o Thunderbird, que tocou baixo como convidado, de carão no meu pesadelo). Em este, quem sobrou foi o Motherfish (GO). Junto com a Valentina (GO). Sorte a minha que são figurinhas fáceis no álbum do povo, dispensando os comentários tão esclarecedores que faço sobre os grupos. As duas que tocaram antes dessas, por exemplo, Pelebroi Não Sei (PR) e Bois de Gerião (DF). O que dizer? Duas bandas com anos de estradas que simplesmente sabem muito bem o que estão fazendo lá em cima. Duas bandas pra quem gosta de mulher. Duas bandas que deixam o cara morrendo de vontade de ter uma banda que possa chamar de sua. E, de preferência, uma mulher também. O festival poderia ter acabado ali mesmo, já teria valido a credencial. Mas tinha de ser com alguém da terrinha, não tinha? Final apoteótico? Todo mundo pirando geral? Era roque que eles queriam pra botar fogo em tudo, menino? -- Toca Rauuuullllllll!!! Esse morreu pisoteado. Mas quase ninguém percebeu. A atenção estava toda voltada para os Rollin'Chamas (GO) ou Cuecas em Chamas -- como preferir --, que acabavam de subir no palco trajando apenas as roupas de baixo. O resto é história. E, ô, história bonita de se ver. O sorriso estampado na cara do Fabrício Nobre dizia tudo. Tudo havia saído conforme o esperado e a tática de valorizar as bandas goianas tinha vingado. Não restava dúvida que o rock nacional passa por um excelente momento em sua trajetória e Goiânia era a prova disso. Seja cantando em português, inglês ou aramaico, o som produzido na cidade está maduro como nunca antes e tem peito pra brigar de igual para a igual com qualquer cena do planeta. Festival pra ficar na história. Raul Seixas só de cuecas ao lado de um monte de macho também só de cuecas em cima de um palco. Só no Bananada. Imaginem o alvoroço que a mulherada em polvorosa não provocou. E seqüestraram Romualdo Afonso. Nunca mais vi o garoto. Deixava o Cererê, auscultando os transeuntes (tente falar quatro vezes rápido depois da ultima noite de um festival de rock sem soar que nem o Clodovil gemendo), quando, bem na minha frente, vi a imagem do diabo. De cócoras, cagando. Meu celular. -- Doeu muito, pai?-- do guarda. Com a ajuda de uma varetinha, liguei o bicho. Você tem uma nova mensagem. «Me liga, urgente. Te o morrendo de saudades. Vc me pareceu tão frio ontem no telefone, desligou o celular hoje. Quem é a putinha que tá com ti? Depois a gente conversa. Pensei muito sobre tudo. Me liga». Pobre de quem tem nojo do amor. Tirei o excesso com uma folha sabe deus de que espécie de árvore e liguei para a ela. Sem stress. Pianinho. Porque é assim. Com mulher, não dá pra ser rock. O cara tem de ser bossa. Número de frases: 412 [publicado originalmente na revista Rockpress] O CD está com seus dias contados. Isso, na verdade, não é uma grande novidade. Diversas fontes mostram que a procura por o produto está cada vez menor. Embora a queda brusca de vendas de CDs apontada por a Associação Brasileira de Produtores de Discos (leia-se grandes gravadoras) nos últimos anos tenha outros fatores, como, por exemplo, a grande crise do setor causada principalmente por o alto custo de seu monopólio da mídia, realmente o futuro do CD parece mesmo ser virar artigo de colecionador. Ou quase. Basta perguntar a si mesmo qual foi a última vez que foi a uma loja comprar um CD. Mesmo que tenha sido recente, esse hábito, com certeza, diminuiu e muito nos últimos anos. Pelo menos eu admito, faz muito tempo que não compro um disco. Mas nem por isso podemos dizer que o público esteja alheio às novidades, ou pouco interessado por música. A Internet está aí pra mostrar o contrário. Blogs sobre música se multiplicam, e cada vez mais artistas disponibilizam seus discos inteiros em diversos sites. Pelo menos os que não têm algum contrato que impeça isso. Em meio a essa revolução digital, cabe uma grande reflexão sobre o tema. Será mesmo que o CD vai acabar? E o que virá em seu lugar? MP3? Venho pensando bastante sobre isso ultimamente e creio que acontecerá algo um pouco diferente do que ocorreu com o vinil ou LP. Em aquela ocasião, o CD veio mesmo pra substituir o saudoso «bolachão», por vários motivos: durabilidade, praticidade (não precisa trocar de lado), qualidade digital, entre outros. E substituiu mesmo, tanto que em pouquíssimos anos praticamente todos os títulos eram produzidos exclusivamente em CD. Hoje, resta apenas uma fábrica de vinil na América Latina, destinada a prensagens limitadas de discos voltados, principalmente, a fãs assíduos desse ou daquele artista e colecionadores. Em essa revolução digital que ainda estamos vivendo, não existe, ainda, nenhum produto palpável para substituir o CD. O MP3 não passa de um simples arquivo, compactado, que fica dentro do computador, I-Pod ou MP3 Player. Para um público mais exigente, que ainda gosta de ter o álbum do artista em suas mãos, o MP3 não tem condições de substituir o CD, tanto por a qualidade inferior do som quanto por a ausência deste produto completo do artista, muitas vezes com um conceito embutido, trazendo imagens, entrevistas e outras informações no encarte, que pode ser também uma obra a parte ou complementar ao CD. Para esse público, que ainda não é pequeno, o MP3 passa a ser algo muito útil para ouvir músicas em casa no computador, no trabalho, conhecer coisas novas e usar no seu I-Pod enquanto realiza seu cooper matinal. Em outras palavras, substitui o velho discman, e não o CD. Entretanto, o mercado de CDs deve continuar caindo. Inegavelmente, as gerações estão cada vez mais acostumadas a baixar músicas do e-Mule, por exemplo, e menos habituadas a comprar um CD. Essa diminuição no consumo de CDs terá, com certeza, um forte impacto nessa indústria, tanto para as grandes gravadoras quanto para os independentes. Porém, um mercado restrito de distribuição dos CDs deve continuar ainda por muito tempo para esses consumidores que fazem questão de ter O Álbum do artista, muito diferente do vinil que se restringe a colecionadores e românticos da «velha guarda» que não conseguem se desfazer de seu acervo. Eu me incluo nessa categoria. Em isso pelo menos os independentes estão «na frente» das grandes gravadoras, digamos assim. Livres de contratos absurdos, alguns desses artistas já perceberam há tempos essa eficiente maneira de distribuição, e lançam seus discos na Internet, muitas vezes músicas inéditas e, inclusive, alguns grupos lançam seu «disco» somente na Internet. Não que as gravadoras não estejam atentas à essa revolução digital. Muito pelo contrário. Tanto que alguns altos executivos já chegaram a afirmar que, realmente, o CD está com seus dias contados do ponto de vista de mercado, e estão apostando em vendas separadas de músicas, por MP3, e até toques de celular. Porém, como grandes corporações, tudo precisa ser calculado e planejado exclusivamente para o lucro. Como os artistas independentes têm outras preocupações além dessa, acabaram enxergando essa vantagem interessante de colocar seus trabalhos na Internet. Viva a Revolução Digital!!! Ou não??? Número de frases: 40 Verde é o amarelo misturado com o azul. Essa foi uma das primeiras lições da escola que não esqueci, sobre as tais cores primárias. Mais importante do que saber que o rosa é vermelho com branco ou que roxo é azul com vermelho. É que melhor do que a magia das cores no papel e nos desenhos com formas indefinidas, era a magia de elas na natureza. Achava que todas as flores deveriam ser azuis com o «miolinho» amarelo para que as folhas tivessem as cores que tinham. Pobre menina eu fui, ao perceber que flores azuis não são tão comuns. Acho que começou daí minha paixão por o vermelho: da falta do azul, que se escondia demais. Olhar para o céu dá tontura, principalmente no sol escaldante de Maceió. Tempos de colégio depois, um pouco mais crescidinha (mas nem tanto, até hoje) vem a tal da bandeira brasileira e os tais dos significados das cores: verde das matas, azul do céu, ouro das riquezas, branco da paz e um lema positivista estampado no meio, que é para fingir que somos avançados quando na verdade éramos conservadores. Não sei se foi o lema que diz muito em tão pouco, mas antipatizo desde sempre com a bandeira do Brasil. Essa simbologia de cores é conversa para boi dormir. Poesia pobre de rima, como diriam os antigos. Falta de criatividade total ao «brincar» com figuras geométricas. Um verde horroroso manda na história, depois vem as tais cores primárias. Tudo termina com o branco, a soma de todas as cores, no meio do azul! Azul e branco caem bem, mas verde e amarelo não combinam. São horríveis juntos. Não há bom senso estético que garanta que os dois podem ocupar espaços comuns. De aí você, que está lendo o texto, a essa altura já deve estar se perguntando: onde diabos essa menina quer chegar? Copa do mundo, futebol, porra nenhuma de senso estético, quero mais é vestir as cores do Brasil e comemorar as (mirradas, até agora) vitórias da seleção, xingar o Parreira e o Ronaldo, tirar onda dos argentinos se eles perderem nas oitavas depois de ter apresentado um futebol melhor que o nosso ... OK. Você venceu. Batata frita é amarela e gostosa, meus queridos, mas é oleosa e duvido você comer com creme verde. O que quero dizer com tudo isso é que época de copa vira tudo do avesso. Eu não uso verde e amarelo, mas encontro alguém com verde, tô de amarelo e torcida é uma coisa só, então ... ai, meus olhos! Quer exemplo melhor (ou seria pior?)? Tá, vivemos num mundo onde tudo se transforma em mercadoria, não é mesmo? Então a simbologia das cores vira produto de beleza. Vira moda. Está nas bocas, nos olhos, nas orelhas, nas unhas, nos cabelos, nas roupas, nos pés. E não é dos garotos que jogam bola desde que engatinhavam, ou das meninas que conseguiram driblar o machismo tão presente na família e no meio social para praticar o esporte mais festejado do mundo. É por Elas, aquelas que não suportam ouvir falar do joguinho do namorado no sábado de praia, que acham que escanteio é quando um cara dá um fora na menina (" fulana foi colocada para escanteio ") ou que nem imaginavam a existência do Fred até ele marcar um gol contra a Austrália. Ah, sabem que o Kaká é lindo. Muitas de elas nem torcem para nenhum time brasileiro, não ligam a mínima para futebol. Mas é copa do mundo, é festa, é farra e ... é moda! Isso explica, superficialmente, o fato de eu ter aberto o caderno de cultura de um jornal no domingo e ter me deparado com uma coluna social mostrando looks em verde e amarelo das socialites locais. A marca Brasil na copa é status. A cultura da copa é instituída, quase como um carnaval, e muitas vezes se desassocia do fato que lhe deu origem. Que seleção, que nada! Vale a farra, o desfile, a exibição e um grito de gol histérico, que é para não ficar por fora da comemoração ... Alguém pode achar até que estou sendo preconceituosa, que mulher brasileira gosta de futebol, que estou reforçando estereótipos. Para deixar as coisas bem claras: não estou generalizando nada. Estou falando de fatos que, de forma alguma, pretendem ridicularizar a mulher brasileira (tão diversa quanto qualquer outra do mundo, tão contraditória quanto qualquer ser humano na sociedade atual) ou defender que futebol é coisa de homem. Longe de mim. Quero, antes disso, brincar com as palavras ao contar algo que me parece meio óbvio: da copa como moda, da fetichização do esporte, da simbologia das cores que não combinam, mas que passam a ser esteticamente aceitáveis: me interessa aqui o fato de haver um público que, efetivamente, não gosta de futebol, que não inclui o esporte na sua vida, mas que não somente entra no clima desse mês como o colore até o último adereço! Não percebi isso agora. Também teve nos outros anos, mas agora me pareceu maior. Deve ser proporcional, quanto maior o número de títulos maior o fanatismo e a ditadura do verde e amarelo. E se o Brasil não for hexa, quem se arrisca a usar as duas cores? Cadê o patriotismo? O fato é que desde o início do ano, já se falava na copa da Alemanha. E não apenas por os jornais, nas páginas de esportes, da boca de quem programava a viagem ... falava-se nas vitrines também. Se a bandeira do Brasil fosse esteticamente bonita ou se brasileiro fosse -- nesse ponto em especial -- ridiculamente patriota como aqueles americanos que dormem enrolados no símbolo da nação, explicaria-se o fato de eu ver, antes do carnaval, lojas com biquínis estampados com as cores verde e amarelo, combinando com ... sandálias verde-amarelas. Para completar o visual (tcharannnnnn): prendedores de cabelo com a mesma combinação. Quem, que mulher, em sã consciência formada por as regras estéticas tão presentes no nosso inconsciente, usaria tal bizarrisse? Por que tantas mulheres brasileiras que tanto maledizem o futebol escolhem as cores da seleção para se enfei (t) ar nos dias de jogo? Ou você vai dizer que unhas verde-amarelas são bonitas? Unha amarela parece doença! Eu tive unha amarela quando estava com hepatite! Maquiagem é algo que não uso, mas acho bonito nos outros; mas sombra canarinho não dá para não rir! Ainda bem que a gente pode fingir que está rindo da furada do Ronaldo ao tentar chutar a bola, com o risco de ser xingada por o fanático que achar a piada sem graça ... xingar pode, rir jamais! Não sei se alguém comprou o biquíni em fevereiro, mas não foi só lá que o vi. Estava travestido de camisetinha, de sainha e de outras vestimentas comuns às mulheres e a homens mais ousados por as ruas de Maceió. Imagino que não deva ser diferente nos outros lugares: do carnaval pra cá, a coisa só piorou. Exagero dizer ser preciso vasculhar as lojas atrás de outras cores menos na moda. Não que isso me irrite: minhas retinas é que ficam irritadas. Eu às vezes entro nas lojas só para conferir as novidades nas cores da seleção e conversar com quem está comprando! E tenho senso de humor, sim. Senão sequer escreveria esse texto. Se torço para o Brasil? Sim, atentamente, com várias cervejas e vários amigos, de preferência. O primeiro jogo foi com camisa amarela (sem verde), porque essa já era a cor de ela, sem copa nem nada que impulsionasse o tingimento na fábrica ou em casa. Claro, a escolhi para entrar no clima. Entretanto, de maneira diferente do que pra muita gente, acaba a copa e ela continua no meu guarda-roupa, onde já está há uns dois anos. De vez em quando sai para passear com mim, grudada no meu corpo. Ela, uma calça jeans e nada verde. Nem roupa íntima. Lugar de verde é nas plantas. Amarelo junto, se for flor eu aceito, se for canário (o pássaro) também, desde que não seja na gaiola. Em o mais, ainda bem que no Brasil não tem jogador metrossexual ... O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 96 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. Este texto faz parte do catálogo da exposição «ONG Morrinho», que acontece de 12 de julho até 19 de agosto de 2007, no Centro Cultural da Caixa Econômica, na Av.. Almirante Barroso, 25, Centro, Janeiro. É imperdível! A popularização dos meios de produção cinematográfica abriram, em escala mundial, um lastro enorme de produções caseiras e amadoras. Beneficiadas por o advento do Youtube, essas produções passaram a figurar no cardápio cultural, e já se fala hoje em verdadeiros blockbusters da exibição digital -- como o já clássico «Tapa na Pantera», entre outros ... Especificamente no Brasil, este processo estimulou o surgimento de uma série de projetos sociais que, associando educação, cultura e arte, abriram perspectivas de vida realmente diferenciadas para jovens habitantes das comunidades do Rio, São Paulo, entre outros estados. Através da realização de oficinas de cinema e vídeo, ONGs e projetos apoiados por o terceiro setor viabilizaram a alguns jovens a inclusão num universo com o qual eles nem poderiam sonhar. Guardadas as devidas peculiaridades de cada caso, podemos citar a Boca de Filme, da Cidade de Deus, a oficina da Central Única das Favelas (CUFA) em Madureira, o Cinemaneiro, na Lapa, as Oficinas do Kinoforum, em São Paulo, entre tantas outras por o Brasil afora. Não desejo aqui discutir se são projetos imperfeitos, ou se estimulam dentro das comunidades um despropositado culto à celebridade. Ao contrário, desejo ressaltar que, levando em consideração as condições em que vivem esses jovens, seus filmes me admiram por vários motivos. De 2003 até hoje, as oficinas de cinema e vídeo chegaram a produzir algo em torno 100 filmes que, entre outros méritos e virtudes, revelam a perspectiva criativa e valiosa de uma geração desprovida das condições adequadas para seu desenvolvimento. Os filmes oriundos das oficinas em comunidades têm sempre um intenso valor documental, pois representam o testemunho de um imaginário que não se deixa abater diante da situação, e responde com o exercício da criatividade. Ainda assim, mesmo com toda dificuldade, esses filmes exprimem, com humor e sinceridade -- às vezes, com alguma amargura -- uma tensão constante entre o cotidiano das comunidades e os projetos familiares, entre a dura realidade e as aspirações pessoais. Tudo isso pra dizer que a TV Morrinho não é somente um dos projetos mais interessantes que surgiram nos últimos anos, como também alguns elementos característicos de sua experiência são absolutamente originais em relação aos outros projetos. A TV Morrinho surgiu de uma brincadeira de crianças, se transformou numa escultura que já viajou o mundo, que por sua vez se tornou uma série de filmes geniais, criados e produzidos por jovens habitantes do morro do Pereirão, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio. Gostaria de listar três pontos que me levam a considerar a TV Morrinho um projeto sui generis. -- Primeiro, me parece fundamental observar que a TV Morrinho não começou de fora pra dentro, mas de dentro pra fora. Foram os irmãos Nelcirlan e Maycon, filhos do mestre de obras Nelson que, numa folga do pai, começaram a escavar janelinhas no tijolo, simulando a maquete de uma casa. A sacação cresceu e se tornou a escultura referida. De modo que, ao contrário das oficinas citadas acima, o estopim da TV Morrinho surgiu com a criatividade da rapaziada, e não com a inserção institucional característica das outras oficinas. -- A TV Morrinho não era originalmente um projeto orientado para a produção de cinema e vídeo, mas a pura expressão criativa de um grupo de jovens que se tornou uma escultura, depois uma série de filmes absolutamente curiosos, e já começa a produzir música, através do já citado Maycon, o MC Maiquinho. A base da TV Morrinho é a pura e simples criatividade dos jovens habitantes do morro do Pereirão. -- Por fim, saliento a forma livre, bem humorada e singela com que os jovens artistas da TV Morrinho reproduzem as situações cotidianas nos filmes. Não seria exagero dizer, extrapolando até o sentido educativo do projeto, que os filmes da TV Morrinho são dignos de nota não somente por seu caráter social, mas também por uma dimensão estética que escapa brilhantemente à mera (e usual) reprodução do cinema americano e da tevê. Aparentemente preocupados em reencenar situações reais, os filmes da TV Morrinho realizam saltos sofisticados e surpreendem. Exemplo de que não estou nem exagerando, nem sendo benevolente, é o enredo do genial «A Revolta dos Bonecos», no qual os bonecos utilizados, insatisfeitos com o trabalho árduo e irritados com as viagens da turma para Veneza, promovem uma revolta contra seus próprios inventores. Este alto grau de metalinguagem apenas confirma e atesta o grande diferencial da TV Morrinho: por lá, arte e vida estão absolutamente misturadas, uma alimentando a outra, uma tornando a outra possível, mais criativa, mais produtiva e, sobretudo, mais divertida. P. Número de frases: 30 s.: Os filmes da TV Morrinho estão disponíveis no Youtube. Eis que uma estudante de jornalismo de uma faculdade de classe média alta do Recife, decide eternizar o que muitos puritanos gostariam de um dia esquecer. A recifense Flávia da Rosa Borges, aspirante ao ramo audiovisual, sem nenhum pudor, optou por representar cinematograficamente uma banda que tanto mexeu com os brios moralistas dos pernambucanos. Com o ousado e premiado documentário Textículos de Mary e outras Histórias, a garota conseguiu transmitir fielmente a atmosfera bem humorada, escatológica, gay, debochada e suja da banda mais polêmica surgida nesse País. A responsabilidade de representar visualmente esse fenômeno era grande, pois quem conheceu o Textículos de Mary sabe que a banda tinha uma proposta multimídia e priorizava performances teatrais em detrimento do próprio som. E para complicar, Flávia só tinha ouvido falar, nunca tinha escutado o som, muito menos presenciado um show do grupo. Isto é, ela seria a última pessoa escolhida para a empreitada. O desafio estava lançado. «Faziam tanto terror da banda. Em o começo fiquei um pouco com medo de não conseguir passar a essência para o vídeo, pois tinha que respeitar», afirma a diretora. A partir daí, começou a incessante busca por informações sobre a banda. O Google, grande parceiro, foi o responsável por o pontapé inicial. «Após algumas pesquisas na internet, achei um telefone por acaso. Era o contato de Fábio Mafra [vocalista]. Falei com ele e marquei logo uma entrevista. Foi ele quem me deu o telefone de todo mundo», lembra Flávia. Porém, como toda pesquisa na web é limitada, a videasta foi obrigada a cair em campo. Foi no encontro com o Molusco Lama Cuquinha que Flávia achou a galinha dos ovos de ouro. O artista plástico -- amigo próximo da galera em Olinda -- possui todas as imagens de arquivos de shows, making of, primeiro videoclipe etc.. «Cuquinha meio que fazia a cenografia dos shows, teve uma participação importante na história dos Textículos. As bonecas do clipe de She-Ra estão com ele, fotos antigas do Pina de Copacabana também. Se eu não tivesse acesso a tudo isso, o vídeo teria ficado fraco», conclui. Foi a partir de ele também que veio a idéia de oferecer ao videasta Fernando Pérez, a oportunidade de editar o vídeo. «Em a mesma hora fui à casa de Fernando, expliquei a proposta do projeto e ele topou. Disse pra mim que sempre quis fazer esse doc., porém nunca tinha encontrado tempo." Portanto, rodeada de pessoas certas, a diretora tinha a oportunidade única de produzir um vídeo histórico. Como complemento, Flávia buscou personalidades interessantes da sociedade pernambucana que tiveram uma ligação estreita com a banda ou que simplesmente acompanharam de perto toda evolução. Então listou bons nomes como: Renato L [jornalista], Roger de Renoir [agitador cultural], José Teles [jornalista], Paulo André [produtor cultural], além de entrevistas com a própria banda. «Renato L era um entusiasta da banda, já discotecou em festas que o Textículos tocou. Paulo André pegou até briga com as sócias para escalar a banda na programação do Abril para o Rock. Em a soparia de Roger, aconteceu os primeiros shows do grupo», conta Flávia. 24 min Textículos de Mary e outras Histórias tem sugestivos 24 minutos de duração e não perde o fôlego em momento algum. Com uma narrativa intensa, ancorado por boas entrevistas e imagens de arquivos da banda e de filmes antigos, o vídeo consegue prender o espectador no universo de colagens e tosquidão que tanto fazem sentido para a banda e sua história. O documentário é de uma relevância considerável para a história da música feita em Pernambuco, pois retrata com propriedade o espírito iconoclasta da banda e transmite para aqueles que não conhecem o grupo, o peso de seu discurso e postura. Agora especialista no assunto, ao ser questionada sobre a importância da existência da banda, Flávia é enfática. «Textículos de Mary foi pioneira por ter botado a cara para o povo bater e o povo bateu mesmo. Se não fosse a reprovação de boa parte do público, a banda poderia estar aí, na ativa. Mas acho que nada foi em vão, o público ter consciência de que existem pessoas com coragem, consequentemente se encoraja também." * Número de frases: 40 Assita o vídeo na íntegra aqui A história do chargista brasileiro que irritou nazistas «Charge!». Quando a ordem era gritada por os comandantes em algum campo de batalha, a artilharia francesa entrava em ação e os canhões disparavam. O termo bélico foi tomado emprestado por o mais combativo exemplo da união entre texto e desenhos que, quando bem empregado, faz tanto estrago quanto as tais balas de canhão. E durante a II Guerra houve um desses raros momentos, graças ao trabalho do chargista paulistano Belmonte (1896-1947) que do Brasil lançou carga contra todos os figurões do eixo: Hitler, Mussolini e Hirohito. Belmonte, ou Benedito Carneiro Bastos Barreto, incomodou muita gente com suas charges. O embaixador do Japão no Brasil prestou queixa contra as citações ao imperador de seu país, afinal os japoneses tinham Hirohito como um deus. De a alemanha, outro ilustre leitor de Belmonte reclamou do tratamento dado a seu patrão. O famigerado ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, usou de sua principal arma, a Rádio de Berlim, para provocar o paulistano. «Ele ataca os alemães porque é muito bem pago por os ingleses e americanos», teria declarado o homem do marketing nazista. A resposta cínica de Belmonte, entitulada «Obrigado Dr. Goebbels», nós reproduzimos abaixo. Dando sua contribuição para incomodar a vida dos nazi-fascistas, Belmonte uniu forças com as centenas de pracinhas brasileiros que ajudaram os Aliados a derrubar as forças do Eixo. Contribuição dada mesmo que só disparando as balas de canhão metafóricas, o que deixou o trabalho do chargista no mesmo nível das crônicas de Rubem Braga, outro brasileiro genial que usou arte contra aviões, tanques e submarinos. E mesmo indo para guerra com o que parecia ser uma desvantagem das mais injustas, eles saíram da empreitada como vencedores. Apesar dessa participação nas trincheiras da II Guerra, o chargista é mais lembrado por seu personagem Juca Pato, uma espécie de versão urbana do Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Aliás, ao ilustrar os primeiros livros deste escritor, Belmonte foi o responsável por a imagem que os brasileiros tinham dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, só sendo superado por a estréia da versão televisiva da série. Ele também atuou como jornalista, escrevendo artigos e reportagens, e certa vez definiu desta forma tão precisa a nossa profissão: «A nossa vida não é das piores. Nós dormimos tarde, levantamos cedo, estudamos quando não escrevemos, esprememos o cérebro até pingar a última idéia, somos malvistos por os políticos, quase sempre perseguidos, às vezes assassinados, mas em compensação levamos uma vida de cachorro». Não parece a imagem de um bem pago agente dos ingleses e dos americanos, certo? Em o mundo, Belmonte ficou mais conhecido por suas charges, publicadas em periódicos como Judge (Eua), Abc (Inglaterra), Le Rire (França), Kladeradatsch (Alemanha) e Caras y Caretas (Argentina). Um lado seu bem menos citado foi o trabalho como quadrinista, fato que foi resgatado por o n° 1 da Phenix (é essa mesmo a grafia), revista publicada por o Clube dos Quadrinhos comemorando o centenário de nascimento de Belmonte, em 1996. Phenix traz uma análise extremamente minuciosa das 210 páginas de HQs que o artista publicou, entre 1933 e 1936, no jornal infantil A Gazetinha. Mas essa história fica para uma próxima parada. «Obrigado Dr. Goebbels A rádio de Berlim, a famosa D.N.B, onde pontifica o não menos famoso dr. Josef Goebbels, ministro da Propaganda, tem como norma indeclinável falar mal de personalidades muito importantes -- Roosevelt, Churchill, Stálin, Eden, Getúlio, Aranha, enfim, de todos os estadistas que não concordam com a violência nazista, nem com o seus desesperado «lebensraun» [nota: «espaço vital "]. Enquanto a ofensiva aérea do marechal Goering vai de mal a pior e a ofensiva terrestre do chanceler Hitler está sendo desencadeada em vice-versa, o dr. Goebbels faz questão de manter em dia a ofensiva radiofônica, atacando por todos os lados, numa verborragia de melhor sorte. Ainda há poucos dias, a famosa emissora do dr. Goebbels, num gesto que muito me honra, resolveu promover-me à personalidade importante e, numa de suas irradiações, mimeoume com uma porção de desaforos. Não sei se o dr. Goebbels teve conhecimento de inhas ' charges ` através das ' Folhas ` ou via Estados Unidos, onde o'Saturday Evening Post ' reproduziu duas, ainda há pouco. De qualquer forma, o sr. ministro da Propaganda do Reich, mandando a sua locutora agredir-me com vários desaforos, fez de mim uma excelente propaganda em todo o mundo. Não posso pois deixar de consignar-lhe, aqui, os meus agradecimentos. Danke herr " Goebbels " Número de frases: 33 Matéria originalmente publicada em www.omalaco.hpg.ig.com.br Alguns gostam de chamar de esporte do «Homem Aranha» outros dizem que isso tudo é para fugir do muro da escola. Mas na verdade, todo praticante de Parkour, chamado de traceur ou traceuse (feminino), prefere descrever esta prática como uma atividade física de transpor obstáculos urbanos ou naturais, movimentando-se do ponto A ao B da forma mais eficiente possível. Difícil? Objetivo? Arriscado? Doloroso? Gratificante! O Parkour, uma variação do termo francês pra «percurso», além de ser uma tribo urbana é uma disciplina com influência de treinamentos militares, ginástica olímpica, artes marciais e até mesmo de danças. Aliás, seus movimentos muitas vezes remetem àqueles praticados na infância, desenvolvendo visão espacial, testando novas sensações, criando formas de comunicação que atrai olhares não por uma causa, mas por uma conseqüência. A primeira vez que soube desta prática criada na França por David Belle, foi assim: «Filha! Olha essa reportagem! É a sua cara!». Insanidade? Bom, eu praticava dança contemporânea há oito anos, tinha jogado basquete por outros quatro, talvez minha mãe pensasse que era uma espécie de dança no concreto. E mal ela imaginava que numa semana eu conheceria praticantes de Parkour por o Orkut, marcaria um treino no fim de semana seguinte e sairia sozinha pulando com mais uns 20 garotos. GarotOS. Fazer Parkour já é estranho, agora imagine voltar para casa com um hematoma na perna, arranhão no braço e um sorriso enorme: Subi Em o Muro! Mamãe ligava: «Filha, tem mais meninas com você?" Eu respondia: «Claro, mãe! Tem mais umas 3 aqui!" Essa resposta demorou dois anos para se tornar verdadeira, pois agora muitos eventos de Parkour têm acontecido e reúnem praticantes do país inteiro e até convidados internacionais. Em o dia 13/07/2008 ocorreu o 3º Encontro Paulista de Parkour que reuniu representantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Maringá, Florianópolis, Itajaí, Porto Alegre, Sorocaba, Campos do Jordão, Campinas, Jundiaí e São José dos Campos, com presença em número recorde de 10 meninas! ( Havia umas 100 pessoas no evento, enfim!). A importância dos eventos é que eles aumentam o convívio, a troca de experiências e o exercício de cooperação. O que estimula uma prática independente e contínua, desenvolvendo habilidades físicas, mentais e comportamentais, como: força, impulsão, coordenação, observação, controle, paciência, cooperação, comunicação, humildade e respeito. A maioria das meninas inicia seus treinos de Parkour quando alguém muito íntimo já está praticando, geralmente o namorado, o irmão, melhor amiga ou amigo. É natural sentir-se mais confortável quando acompanhado, mas como o Parkour é uma prática autônoma e uma disciplina é preciso se desprender desta «zona de conforto». Em o início as garotas têm a impressão de que o ambiente é totalmente masculino, mas acabam se surpreendendo com o incentivo dos praticantes, que se orgulham e vibram com a evolução feminina. Cria-se um clima amigável entre homens e mulheres, pois esta convivência saudável é a base para a concentração. Em a mídia pergunta-se muito sobre a diferença de força muscular e flexibilidade entre homens e mulheres, mas essa é uma discussão biológica. Uma perspectiva mais interessante é analisar o repertório motor do ser humano que é determinado culturalmente. Seria o histórico de experiências do seu próprio corpo. Em a infância os meninos são mais estimulados a subir em árvores, jogar bola na rua, andam sozinhos mais cedo e é esse contato com a cidade e com o concreto que mais diferencia: a experiência e a familiaridade com o espaço. Um exemplo clássico: quando crianças em desenvolvimento estão muito ativas alguns pais têm o costume de colocar os meninos no futebol para gastarem as energias e as meninas no balé para saberem contê-las. Em estes ambientes onde a quantidade de garotos ou garotas é predominante pode-se dizer, segundo a filósofa Judith Butler (1993, Bodies that), que masculinidades e feminilidades são construídas a partir da sedimentação de ações no cotidiano. Uma questão pontual são as diferentes maneiras como homens e mulheres tomam decisões sob os efeitos de tensão, dor, pressão social e autocobrança. Pois segundo a historiadora Joan Scott (1996, Gênero: uma categoria útil para a análise histórica), o princípio de masculinidade baseia-se na repressão necessária dos aspectos femininos. Eles lidam desde cedo com o enfrentamento, a virilidade, o adversário, o brusco contato corporal e a atividade constante do corpo. Aliás, a defesa pessoal é tida mais como um valor do que uma habilidade. E elas são estimuladas à delicadeza, sensibilidade, expressividade. Ou seja, em geral os meninos exercitam mais cedo o controle do corpo quando submetidos a um turbilhão de emoções intensas. Todavia, o que torna o Parkour compatível com garotas nos dias atuais é o fato da cultura social agora enxergar a coragem, a iniciativa e a independência como valores não só admiráveis, mas necessários para homens e mulheres. Em o Brasil o Parkour Feminino têm se desenvolvido em quantidade e principalmente em sua qualidade. É difícil desafiar os próprios limites quando os parâmetros são unicamente masculinos e por isso as traceuses têm se arriscado mais, se exposto mais e superado mais medos. Esta atividade física é individual, mas esta prática como um todo nunca está isolada. Há sempre uma comunicação com um conjunto, seja por linguagem corporal ou verbal. Ela é independente de gênero, raça, cor ou idade, mas sempre está carregada de especificidades que nos torna únicos e mais complexos. Viva à diferença! Trace um percurso diferente. Para saber mais sobre o Parkour, acesse: Vídeo da equipe Br Tracer: http://www.youtube.com/watch? v = KVILYuq7ZKs Site do grupo Le Parkour Brasil: http://www.leparkourbrasil.com.br/ Comunidade no Orkut: http://www.orkut.com.br/ Community. aspx? cmm = 185400 Priscila Caccuri, praticante de Parkour há dois anos, estudante de Têxtil e Moda na USP, gosta de momentos intensos e realizar desejos impossíveis. Número de frases: 65 Quando se fala em carnaval, em Porto Velho, é quase impossível não lembrar de ela, que arrasta multidões todos os anos: a Banda do Vai Quem Quer. A maioria espera ansioso para desfilar na Avenida Carlos Gomes, vestido ou não de mulher. Aliás, peculiaridade aceita até por ' machões ' que, nesta época, se soltam e têm a cor rosa como preferência. Uma graça. Mas a história da banda teve início há trinta anos. Como não existia nenhuma manifestação pública para comemorar o carnaval à tarde, um grupo de dez pessoas, aproximadamente, decidiu mudar aquela realidade. Inspirado na banda de Ipanema, do Rio, no meio de uma guerra de maisena, entre um gole e outro, o fabuloso Pedro Emil Gorayeb Filho, o Emilzinho, sugeriu o nome Vai Quem Quer, explica Manoel Mendonça, o Manelão, que, além de ser um dos idealizadores, é o responsável por a organização e tradição da Banda. Até hoje, muita gente quis e ainda quer entrar na folia. Em o primeiro ano da Banda, em 80, foram confeccionadas 350 camisetas. O lucro era destinado apenas ao pagamento dos músicos. Acompanhando a Banda, mais de 2.000 mil pessoas. Manelão diz que «é o único lugar onde o pobre tem o seu lugar garantido». Pobre, rico, criança e adulto ... em ela só vai quem quiser. Sempre foi assim. Em aquela época, para se ter uma idéia, apenas uma bandinha da Polícia Militar animava os foliões, que, ainda tímidos, ficavam admirados em cada esquina por onde a banda passava. E quando ela passava, aí, caro leitor, difícil era não cair na folia e cantar as marchinhas. Também, com um hino desses: «Chegou a banda, a banda ... A Banda do Vai Quem Quer ... Nós não temos preconceito, na brincadeira entra quem quiser ... Já tentei brincar organizado, isso nunca deu pé ... Hoje eu estou realizado na Banda do Vai Quem Quer». E o hino é apenas um aperitivo para as outras canções que compõem o repertório da folia momesca. Atualmente, calcula-se que mais de 100 mil foliões percorrem o trajeto da Banda animados por um trio elétrico, num percurso que dura mais de cinco horas. É, ainda, considerada o segundo maior bloco de rua do país, perdendo apenas para o Galo da Madrugada, do Recife. A maioria, como disse, principalmente os homens, gosta de participar vestido a caráter: trajes totalmente femininos. Até são constituídos blocos que se destacam, como é o caso do ' Bloco das Cachorras ` e das ' Piranhas ' também, entre tantos outros. Travesti, por exemplo, é visto como rainha por os foliões mais exaltados e são beijados sem a menor vergonha. É gente de todo tipo ao som da banda Carijó, a responsável por as marchinhas e uma das mais tradicionais da capital. A cada música, uma vibração diferente. É como se, embalados por a energia carnavalesca, fosse o último ano de folia. Porém, o carnaval ainda está iniciando, como diz a canção: «Vou iniciar meu carnaval no sábado, na Banda do Vai Quem Quer ... Vou brincar descontraído, eu vou ... De metade de mulher». Como nem tudo são só serpentinas, infelizmente, no ano passado, a Banda sofreu um grande impacto negativo depois que um trio elétrico não pertencente à organização do evento tombou em plena avenida, matando duas pessoas e deixando vários feridos. Até foi destaque nacional. Nem por isso, a Banda perdeu o seu brilho. Segundo Manelão, o incidente serviu para melhorar ainda mais a segurança da folia. Em este ano, apenas o trio elétrico da Banda desfilou na avenida. Nem vendedores ambulantes, nem carros de som tiveram espaço durante o trajeto. Em 2007, a Banda do Vai Quem Quer comemorou seu 27º aniversário. * * * O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo. Número de frases: 48 Luís Capucho é assim: muito consciente do que fala e faz. Cantor, compositor, escritor, ele não é nome fácil nas rodinhas dos antenados nem na imprensa cultural. Tampouco é um artista complexo por auto-considera ção, daqueles que se sentem injustiçados por não terem sua genialidade reconhecida. Coisas de quem esteve muito perto da morte, a ponto de ter recebido uma (in) consciente homenagem póstuma dos amigos, numa coletânea. Capucho faz parte de uma geração que levantou a bola da composição popular carioca no início dos anos 1990, quando o mercado musical passou do processo de esgotamento da fórmula do BRock para a popularização de ritmos por estação e a (re) criação do rótulo «MPB» com o intuito de forjar uma idéia de «música de qualidade» em contraposição aos tais sucessos sazonais. Essa geração pré-internet acabou engolida por os rumos do mercado que descobriu, ainda, o público jovem de classe média formado por a MTV e se lançou vorazmente a ele. Enquanto a geração atual de bandas nasceu com o download de músicas por a internet, esse grupo que inclui artistas como Mathilda Kóvak, Suely Mesquita, Arícia Mess, Bia Grabois, continua sobrevivendo entre a «realidade» do mundo físico dos CDs e a pressão de um mercado que só aceita artistas rotuláveis e passíveis de serem remodelados por os departamentos de marketing das gravadoras. Nada disso, nem de longe, afeta a criatividade de nenhum de eles, que seguem produzindo seus trabalhos, mesmo depois de um tempo em que, unidos, mobilizaram o cenário carioca com a coletânea «Ovo», hoje item de colecionador, e shows em diversos locais hoje considerados cult. Luís Capucho é a prova dessa «sobrevivência». Sem estar nos holofotes da mídia lançou o disco Lua Singela que recebeu as mais elogiosas críticas, o livro Cinema Orly e continua compondo e escrevendo num ritmo que nada tem a ver com os das fábricas de «sucessos», mas, sim, com a evolução pessoal de um artista. Em a entrevista que se segue, Capucho revê a sua carreira, fala dos novos trabalhos e mostra que existe muita vida além do que os cadernos culturais consagram. Roberto Maxwell -- Fale um pouco do cidadão Luís Capucho, onde ele nasceu, quando e por que veio parar no Rio de Janeiro: Luís Capucho -- Muito legal você juntar na mesma pergunta o lugar onde nasci, o Rio de Janeiro e minha cidadania, porque minha vinda para Niterói -- uma cidade maior que Cachoeiro do Itapemirim, onde nasci -- tem a ver com o fato de que, aos 13 anos, quando aflorou minha sexualidade, eu querer, justamente, cidadania. Em aquela idade tudo era muito confuso, eu estava em pânico com o meu desejo sexual e vir para uma cidade maior pareceu-me possibilitar alguma liberdade. Em 1970, minha cidade era muito conservadora. Hoje, aos 44 anos e morando em Niterói com minha mãe, estou experimentando um romance. RM -- Quando a música entrou na sua vida? Quando começou a compor e cantar? LC -- Comecei a compor aos 23 anos, quando minha mãe me deu um violão Tonante, com cordas de aço. Eu tocava Secos & Molhados, Fagner antigo e alguma Bossa Nova, mas as letras muito heterossexuais da Bossa Nova me desestimulavam. Gostava também de tocar Caetano [Veloso], [Gilberto] Gil e Rita Lee. RM -- Quais as influencias musicais que você teve? O que ouvia quando era moleque e que acabou te influenciando na musica? LC -- A primeira música que me lembro ter decorado eu estava com 3 anos. Era essa: «Quando você se separou de mim / Quase que a minha vida teve fim / Sofri, chorei tanto que nem sei ..." [ «Quase», canção de autoria de Roberto Carlos, lançada no álbum Em Ritmo de Aventura, de 1967. Além da Jovem Guarda eu ouvi música caipira, música brega, MPB e rock. Normal ... RM -- O nome Luis Capucho é sempre associado a Mathilda Kóvak, Pedro Luis, Suely Mesquita, Paulo Baiano. Onde esse povo todo se encontrou? Como esse povo se reuniu para fazer a coletânea Ovo? Isso foi em que ano? LC -- Tudo começou com o Marcos Sacramento, meu parceiro, que me apresentou aos outros. Eu não sou muito inteirado de como tudo aconteceu, sempre fui meio out, meio alheio, pouco articulado, na minha. De repente, acho que começaram a haver reuniões na casa da Mathilda para organizar o projeto Ovo. Mas eu morava em Papucaia, longe, e não participava. Quando começaram as gravações para o disco eu estava em coma e não podia participar. Isso foi em 1996. Então, pegaram minha voz de uma gravação que tinha com Suely Mesquita, arranjaram e minha música O Amor é Sacanagem entrou. Quando saí do coma me mostraram. Tinham colocado um coro de anjos no início e no final da música, como se eu estivesse cantando do Céu. Mas não fui para o céu. Estou aqui! RM -- Você pode contar exatamente o que rolou? LC -- Eu entrei em coma após um porre homérico de cachaça! Fiquei em coma convulsivo por um mês. Saí de ele com incoordenação motora e vocal. Meu lado esquerdo parou. Quando acordei me contaram que eu estava com o vírus HIV. RM -- A sua recuperação foi lenta, mas eficaz e sua voz se transformou totalmente. Como você reagiu com o lance da voz? LC -- Quando ouvi as gravações que tinha em casa, dos meus showzinhos por o Rio, eu chorei muito. Demorei um grande tempo para perder a referência de minha voz como era. Entretanto, me divertiu e me inspirou muito ganhar uma voz nova, mais grave e rouca. Comecei a fazer música levando em conta meus novos limites. Quando saí do hospital na cadeira de rodas, todo fodido, não entendi bem quando o médico disse que minha cabeça estava boa, porque pensei: pra que eu quero uma cabeça legal, se eu estou todo fodido! Só depois entendi que minha criatividade ficou intacta. Alguns amigos não gostam mais de minha voz, preferiam a suavidade de antes. Outros acham que traduzo melhor o que digo com essa nova voz. Demorei a assimilar, mas estou assimilado. Sou uma outra versão de mim mesmo. Eu sempre penso no que teria sido se não tivesse o coma, mas, agora, ficou tudo bem. RM -- Depois do reconhecimento da «nova voz», você gravou o Lua Singela que saiu por um selo pequeno, mas acabou conquistando uma legião de fãs. Como foi o processo de gravação do álbum, a escolha das músicas que iam entrar? LC -- Eu tive que reaprender a tocar violão, que é o meio que tenho para compor. Ficou um violão rude, batido, sujo. Quando consegui fazer três acordes, já estava com muita música feita. Chamei uns amigos para fazer um show. Conseguimos um bar em Botafogo e fizemos. Paulo Baiano assistiu com uma expressão fria, distante. Depois, disse para fazermos um disco, ele havia curtido à beça. Essa nova safra de músicas dentro de minha estética suja, além das minhas letras, tem também letras dos meus parceiros habituais: Marcos Sacramento, Mathilda Kóvak e Suely Mesquita. Então, o Lua Singela tem também esses meus parceiros. Marcos Sacramento cantou Incubos pra mim, uma das letras que incluí na narrativa do Cinema Orly. O Baiano fez tudo em torno do meu violão de dois acordes. Achei bem legal que o disco, após ter passado por o filtro da tecnologia de gravar, tenha mantido meu tempo particular, meus acordes batidos e tal, traduzindo, assim, melhor meu universo. RM -- Há uns 3 anos rolou um evento organizado por a Mathilda e por a Suely que se chamou Bolsa Nova. O evento acabou parando na segunda edição e aquele grupo que fez o Ovo também deu uma distanciada. O que ocorreu? LC -- Fiz duas edições do Bolsa Nova, ambas no Sesc Copacabana. O Bolsa Nova é um projeto feminino de música, mas alguns meninos parceiros fizeram parte: Marcos Sacramento, Glauco Lourenço, Beto Brown. A vida é dinâmica, e assim como os compositores que se reuniram no disco Ovo, as compositoras do Bolsa Nova não estão se juntando mais. Tudo é uma tentativa de chegar ao mercado, de entrar na engrenagem onde se movem os artistas e viver de música. Um ou outro consegue galgar até esse espaço mais luminoso, tipo o Pedro Luís e, talvez, o Fred Martins. Mas nós, os outros, ficamos submersos no lado mais obscuro da engrenagem, ligados a pequenos selos, fazendo um show aqui outro ali, tentando fazer novo disco, tudo muito disperso e precário. Mas, no meu caso, penso que sem volta. Então, em 2006, fui escalado para a Pauta da Música Brasileira, um projeto da Sala FUNARTE (Fundação Nacional de Arte) Sidney Miller do Rio de Janeiro. Isso me animou muito dada às características meio rock ' n ' roll do meu novo som serem assimiladas por a MPB que, no fundo, é o que é o meu som. Foi muito bacana. Seria um bom momento para estar junto a um grupo. A disposição das coisas muda com o passar do tempo. É preciso que haja interesse em se juntar. Alguém que administre isso, entende? RM -- Além de compor musicas e cantar, você também escreve. Os teus textos podem ser lidos no blog e você lançou um livro chamado Cinema Orly. Como foi o processo de escrever o livro? Tem a ver com a época da sua recuperação, não? LC -- O Cinema Orly foi escrito na época em que eu não conseguia compor por causa das seqüelas motoras com as quais fiquei. Eu estava chocado com o que havia me acontecido. Ter ficado em coma por um mês como que me deixou uma página em branco. Minhas lembranças, pensamentos, imaginação, enfim, minhas funções cerebrais ficaram amortecidas, tornei-me um cara apático. Eu precisava voltar a funcionar, me reinventar. Eu precisava me reescrever, pois tudo tinha se apagado. Então, fiz o Cinema Orly, que é um livro muito querido. Em 2005, ganhou o Prêmio Arco-íris dos Direitos Humanos [oferecido por a ONG Arco-íris, aos que se destacaram no âmbito da defesa dos direitos da minorias sexuais no Brasil]. RM -- Eu considero o Cinema Orly uma «historia romântica». No entanto, o livro fala sobre um personagem que freqüenta cinemas de pegação, faz sexo com desconhecidos, uma coisa relativamente freqüente na historia de vida da maioria dos gays. No entanto, me parece que vem se buscando uma higienização da (homo) sexualidade, talvez como forma de «enquadramento» ou de «inclusão». Você concorda com isso? Você acha que o Cinema Orly serve, de certa forma, como afronta a uma «caretização» da (homo) sexualidade? LC -- Que pergunta difícil! Quando escrevi o Cinema Orly apenas queria contar uma história de um ponto de vista que é o meu, que sou um cara tímido mas ousado, um cara contestador mas na minha. Não sou um ativista, um militante. O meu livro terminou por ter esse viés político porque é um livro que fala de liberdade. E quero me casar, ter um parceiro, viver a experiência do casamento, sim. Como você pôde ver, o Cinema Orly é uma narrativa romântica. Um romance que mantive com o Cinema, porque sou um cara apaixonado. Hoje, quero me casar com o meu namorado! RM -- Falando em cinema, a Sétima Arte te persegue. Eu tenho material filmado sobre você prum documentário que acabou não saindo (ainda). O [cineasta] Antonio Molina, com quem eu estudei na [Universidade] Estácio [de Sá], estava roteirizando o Cinema Orly. Você chegou a anunciar um outro documentário sobre você, com produção de um grande cineasta. Afinal, você tem noticia do andamento dessas obras? Sobre o meu material, ai como eu queria finalizá-lo ... E sobre as outras? LC Além de seu documentário e do documentário do Silvio Figueiredo, um cineasta do Pará, fiz um pseudo-documentário tendo como cenário a FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) de 2005. Éramos dois escritores, eu e Márcia Denser, e dois atores que se fizeram passar por escritores. Nós conduzíamos a apresentação da FLIP por o cineasta Bruno Barreto. Não, tenho notícia desses documentários, infelizmente. Sobre a roteirização do Cinema Orly para o cinema, parou. Agora, há o interesse, em São Paulo, de colocá-lo no teatro. Tomara que role! RM -- O sucessor do Cinema Orly se chama «Ratos», certo? Sobre o que se trata o livro? Como esta o processo para que ele chegue ao mercado? Não. Chama-se Rato. Soube que na literatura brasileira existe um livro chamado Os Ratos. O meu chama-se Rato. Assinei um contrato com a Editora Rocco, que disse irá publicá-lo em 2007. Quando fiz o Cinema Orly e procurava uma editora que se interessasse por publicá-lo. Mandei o original para uma editora paulista especializada em publicações gays, que, após lê-lo, me enviou uma carta sugerindo que eu transformasse o Cinema Orly num livro de contos por ele não ter a estrutura de um romance. Assim, os travestis no banheiro seria um conto, a bicha baleira outro e tal. Eu disse que não faria isso, mas que faria um outro livro tentando o romance. E fiz o Rato. No entanto, não mandei para a editora paulista por achar ela careta. É uma história anterior ao Cinema Orly, de uma bichinha com o complexo de superioridade. O nome Rato é para dar uma baixada na bola de ela. RM -- E o «Lua Singela», tem sucessor? Você não pára de compor, como eu li no seu blog. Aliás, você também tem tido novos parceiros, como a Kali C. Fala um pouco dessas parcerias e se as canções vão render novo disco. LC -- Eu tenho adorado fazer músicas a Kali C. Temos já algumas músicas e o disco que ela está terminando terá o nome de uma de nossas parcerias: Você é Muito Lindo. Eu estou fazendo um novo disco, sim, e não sei quando irei conseguir terminá-lo, pois não conto com o selo que lançou o Lua Singela. Estou aprontando devagar cada uma das faixas. Tenho três ou quatro de elas prontas. Paulo Baiano, Ricardo Mansur, Mary Fê, ficaram de aprontar outras e, assim, vou montando aos poucos, sem pressa. O Lua Singela tem sucessor, sim. Não quero ser autor de um único disco. Nem de um único livro. Eu tenho música para caramba! Site do cantor Luís Capucho. Blog do cantor Luís Capucho. Número de frases: 170 Que a cidade de São Paulo é repleta de opções culturais todos já sabem. É só pegar os roteiros de cultura encartados nos principais jornais e revistas e optar entre as centenas de opções de shows, exposições, teatros, baladas, entre outros passeios. Porém, um olhar mais atento perceberá que a imensa maioria dessas dicas estão concentradas no centro expandido da capital. Fica a dúvida: será que fora de bairros como Jardins, Perdizes, Vila Mariana, Consolação não acontece nada em termos culturais e gastronômicos? É óbvio que não, os bairros mais afastados do centro também possuem vida cultural ativa. O que acontece, é que o público-alvo da grande mídia não está na periferia, por isso, o foco editorial dos guias está centrado para o, adivinhem, o centro. Somente o que já foi assimilado por a classe-média está nesses guias. Com essa situação, surge uma dúvida: como as pessoas que moram nesses bairros ficam sabendo dessas atividades? Normalmente, através do famoso boca-a-boca. Com o intuito de organizar uma agenda do que está acontecendo nessas regiões fora da cobertura «oficial», o jornalista Gilberto Dimenstein, em parceria com a UNIESP (União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo) criou o Catraca Livre. Além de apresentar possibilidades de diversão e aprendizado gratuitos ou a preços populares, o projeto pretende ir além da simples agenda. O site também serve como um repositório textos e dicas de leituras para que o leitor amplie o seu conhecimento e possa ter mais referências ao visitar uma exposição, assistir a um filme ou a um show musical. «Queremos fazer da cidade uma escola a céu aberto, na qual um museu ou um teatro se transformam em salas de aulas encantadas. Catraca Livre significa que o prazer da convivência é o prazer do aprendizado», explica a Equipe do Catraca Livre em entrevista ao Overmundo. O site, lançado no dia 24 de junho deste ano, é dividido em 11 áreas. Em o canal ' interessante por quê? ` são colocados os destaques da programação cultural da cidade e há um espaço para os professores fazerem comentários sobre as dicas. «Há alguns dias, nós falamos sobre um show do Arnaldo Antunes, que aconteceria no Shopping Metrô Tatuapé, mas no pacote, incluímos informações a respeito da poesia concreta, que é um dos campos de atuação do artista», conta a Equipe. A ' rádio catraca ` é um podcast com notícias da nova cena cultural. A edição que está no ar tem o sambista T. Kaçula -- uma das novas revelações do samba paulistano -- contando onde é possível cair no samba de graça em São Paulo. Em o ' programe-se ', como o próprio nome diz, ficam as atividades futuras -- cursos, peças de teatro, shows, palestra etc. ' Para ir de metrô ` são atividades que os leitores podem fazer utilizando o transporte público. Em esse aspecto, o Guia do Jornal da Tarde foi pioneiro ao criar uma seção similar. Uma das áreas mais interessantes do site é o'2 em 1'. Em ela são apresentados dois programas diferentes num mesmo passeio. Por exemplo, no Espaço Caixa Cultural, o visitante pode ver uma mostra de artes plásticas sobre Jorge Amado e outra que traça um painel sobre a gravura brasileira a partir da coleção de Mônica e George Kornis. Os leitores que tenham vontade de contar em detalhes os seus passeios podem mandar relatos para a seção ' repórter catraca '. O'centro ilustrado ` é um mapa da região central em que é possível fazer um passeio virtual e ver fotos dos principais pontos de interesse. Roteiros, museus e prédios importantes da cidade estão detalhados nos ' clássicos de SP '. Em ' Fim de semana ` e ' para as crianças ', como os próprios nomes dizem, são focados nessas duas atividades. A única área que ainda não está ativa é a de ' blogs '. «O projeto começou a ser pensado no primeiro semestre deste ano, por volta do mês de abril. A idéia era, realmente, de fazer um produto que contemplasse num só espaço a programação cultural e gratuita que acontece na cidade de São Paulo. Mas não apenas mostrar a questão cultural -- o Catraca Livre tem um viés educacional», conta a Equipe do Catraca Livre. O próximo passo é criar uma versão off-line do site, um jornal mural que será afixado em Centros Culturais, Sescs, Telecentros, Universidade e no bairro de Heliópolis. «Queremos fazer da cidade uma escola a céu aberto, na qual um museu ou um teatro se transformam em salas de aulas encantadas. Catraca Livre significa que o prazer da convivência é o prazer do aprendizado», finaliza a Equipe. Periferia Outro projeto que também aborda a programação cultural que está fora da grande mídia é a Agenda da Periferia. Elaborado por a Ação Educativa há pouco mais de um ano, a publicação está na sua décima sexta edição. «Buscamos com esse guia cultural, jogar um pouco mais de luz sobre a produção cultural feita nas margens da metrópole paulistana. A publicação tem uma tiragem de 10 mil exemplares e é distribuída em mais de 70 pontos, quase todos na periferia. Uma iniciativa de afirmação. Não é «resgate» nem «resistência», como certos setores da esquerda gostam de ver. Nem «inclusão», ou» protagonismo», como classificam, na maioria das vezes, as organizações do chamado «terceiro setor» (fundações, institutos, empresas) e a «grande» imprensa. O objetivo é produzir um sentido político de mobilização com perspectivas de emancipação, baseado em valores de cidadania: ou seja, de garantia de direitos», afirma Eleilson Leite, da Coordenação Editorial do guia. De periodicidade mensal, a agenda é divida em sete seções. Em hip hop, samba, literatura, cinema e vídeo, especial e outras cenas são colocadas atividades realizadas em bairros periféricos da cidade. A única seção que se diferência desse modelo é a Periferia no Centro, onde estão atividades populares na periferia que estão sendo apresentadas em bairros centrais. É uma forma de mostrar que a periferia também vai para o centro. «Esses dois guias são de fundamental importância para as comunidades que não estão cobertas por a grande imprensa. Número de frases: 53 Pois, é uma forma da população menos rica se enxergar como parte ativa da vida cultural da cidade», explica Fernanda Miura, pedagoga que atua com projetos sociais. Planeta Terra, Brasil, 2007. O PT ganha o segundo mandato em reeleição com expressiva votação. Faz um mês que Luis Inácio Lula da Silva tomou o poder reeleito. Entre acusações, cpmis da vida, está lá nosso petista no poder. Digo nosso, pois de uma forma ou de outra ele governa o país e querendo ou não todos estamos sobre seu governo. Muitos a minha volta não gostam de ele, não votaram em ele e nunca votarão. Ainda bem, isso que diz o que é uma democracia ou não. O que mais me impressiona é o modo como as pessoas vêem isso. Como que a política é encarada de forma distorcida e pragmática por muitos. Concordo que a maioria das pessoas que votou em Lula não têm muita capacidade de discernimento, povão como dizem, e isso diz muito. Que ele já foi analfabeto? Que ele fala o português popular? Que ele é um metalúrgico aposentado por acidente de trabalho? Que isso diz de ele? Diz muito como pessoa, como indivíduo, mas muito como cidadão. Muito pouco como político. Muito pouco mesmo. E assim é e sempre será. As virtudes pessoais não dizem muito em relação à política, a não ser aquelas que são pertinentes à pratica política. E com certeza estão longe de ser as que apontam os mais afoitos em ataque a sua pessoa. Político é aquele que defende interesses. Um grupo de pessoas vota em alguém para defender seus interesses, assim é o processo democrático. Devemos votar em alguém bom? Em alguém culto? Em alguém técnico? Não acredito que respectivamente um Betinho, um Arnaldo Jabor ou uma Miriam Leitão receberiam votos para a presidência. Alguém discorda que em matéria de política, mentir (quando necessário), fazer coalisões, medir esforços de interesses é o principal? Nunca vi ninguém sincero e falando somente a verdade chegar ao poder, seja lá de que tempo ou local da face do planeta. Nunca conheci ninguém altruísta como presidente nem que seja da comissão de formatura do filho. Com certeza passamos por uma crise grave em nossa política. Mas uma crise muito mais de descrença que de prática. Antigamente a esquerda era revolucionária, a direita conservadora, existiam (poucos) centristas. Que esquerda hoje é revolucionária? Que direita extremamente conservadora? Infelizmente qualquer política hoje em dia é econômica. Como dizer moralmente aos patrões das empresas que sejam bons e contratem pessoas? Se nenhuma política em prol disso for feita, esqueçam os empregos. Quem acredita que direita ou esquerda ou centro ou cima ou baixo hoje em dia se dá bem no poder? Estamos com taxas de desempregos altíssimas e de muito tempo. Oito anos de Fernando Henrique, vamos para cinco de Lula, não vejo tanta diferença assim. Em nossa ultima eleição vimos a Heloísa Helena. Que se proclama mais radical. Mas como? Ela se rebaixaria as mesmas armas que os outros tem para governar. Taxas de juros, impostos, empresas ... Ser bom nesse momento conta? Só se for para ganhar simpatia ao sair desastrosamente do governo escorraçada. Estamos no momento político que diz que tanto direita quanto esquerda devem governar mais ou menos igual. Mas se fosse assim daria no mesmo votar numa ou outra. Votar em Alckmin ou Lula daria no mesmo. Dá? Não, pois temos interesses diferentes e assim que a coisa tem graça. Lula é político, sabe politicar, mesmo que seja dizendo que não sabe de nada, que os culpados serão punidos (alguns foram mesmo), como falar mal de ele se ele conseguiu segurar seu barquinho no meio da tempestade? Isso que é um político. Basta saber se ele está do lado do seu interesse ou não. Alguns acusam-no de seguir a política econômica de FHC. Seria muito rir desses? Em uma conjuntura em que esquerda e direita ditam tudo menos a economia não era de se espantar. Esquerdistas e direitistas que se vangloriam de querer reformular a economia, de alterar o estado em que está, drasticamente, só podem ser motivo de desconfiança. É realmente difícil dirigir um país que, além de tudo, não pode primariamente defender seus interesses. Os interesses do Brasil, mal ou bem, tem que ser atrelados aos interesses do mundo inteiro. Principalmente de órgãos reguladores e dominadores como FMI. Governar politicamente é conseguir os espaços de manobras para realizar tudo que não for primariamente econômico. De aí vejo a diferença entre esquerda e direita. Hoje em dia para a direita, saúde, educação, saneamento e todo o resto da infra-estrutura é algo a ser dado às empresas privadas. Enquanto que a esquerda não compartilha desses ideais. Votei na esquerda, principalmente por isso. Confundir as ordens é confundir tudo. Que a economia de mercado é boa, me parece muito difícil de discordar. A competição leva melhores preços, melhores vantagens, etc.. Mas como acreditar numa educação de mercado? Uma saúde monetária? Indiscutivelmente também o mercado não é um meio a nada, é um fim em si mesmo. A educação é sim um meio, a saúde é básico (um meio), o saneamento básico é sim o meio. Quanto eles estão presentes são o básico para se estruturar uma vida, nunca ninguém se contentará com um encanamento decente, uma escola pública de qualidade e hospitais funcionando dignamente. Há mais, e hoje é a noção de cidadania. É cidadão quem consome. De aí a política econômica de geração de empregos, inserção social. Só participa da vida publica quem consome e quem tem dinheiro para tal. O sistema capitalista, o que não temos como fugir, é para pegar. Mas nem por isso é para aplicá-lo a mais ordens distintas. Entre um sujeito de bom coração e um empresário frio, para gerir uma empresa, fico com o empresário. Melhor ter boas empresas gerando trabalho para todos que um bando de gente boa esfomeada. Mas uma coisa não impede a outra, só não são totalmente compatíveis. Ninguém duvida que um bom empresário possa ter um bom coração. Mas, infelizmente, a empresa não tem sentimentos. Se para ela sobreviver precisar-se demitir tantos funcionários ... paciência. É exatamente nesse ponto que a economia acaba e a política entra. A política está aí para balisar o mercado, para não deixar a vida à mercê da economia, pois não somos seres econômicos, somos seres sociais. A política luta por interesses. Os interesses da direita não estão mais certos que os da esquerda. Mas existe muito mais gente passando fome que milionária. Colocando tudo em pratos limpos o PT subiu ao poder porque a direita não criou empregos, não administrou bem a saúde pública, privatizou demais, lógico por interesses próprios. Mas estamos aí para lutar por os nossos. Eu estou muito mais perto da pobreza que da riqueza. É uma conta simples. O dinheiro é um só, para poucos terem muito muitos têm que ter pouco. A direita não se contenta com isso e quer tirar o pouco dos que só tem aquilo e dar mais a quem já não sabe o que fazer com o dinheiro que tem. Em termos de política nunca é o mais certo e o mais errado, nunca é o bad guy contra o herói. Se alguns querem enriquecer outros querem sobreviver e aí que está a força da esquerda hoje. O povo, por falta de opção (que seja), votou na esquerda. Lula está aí, íntegro em seu segundo mandato porque por mais escândalos que existirem sua figura é política. Vai mentir? Qual político não mente? Vai passar maus bocados? Toda política passa. Mas se mantém forte por mais quatro anos. Em esse ponto não temos o culto que sabe o que é o melhor para o país, isso seria uma ditadura erudita. Em esse ponto não há benfeitor que seja o caminho, Deus não é político. Em esse ponto não há especialista que possa fazer as vezes de político, um economista entende bem de economia, mais que de política? Admiro Lula por ser o político que é, pode ser diferente? Que lutem com as armas que têm os que não concordam com tudo isso. Perderam nas duas últimas eleições. Em tempos em que a política é massacrada e desacreditada por os meios de comunicação com estatísticas, comparações esdrúxulas, estimativas furadas, com a palhaçada que fazem parecer a ordem política, nesses tempos como incentivar a juventude a votar? A se interessar? Felizmente esse é o único meio de mudar alguma coisa, ainda sim o voto. Ainda sim cidadãos políticos que lutem por seus direitos. Que hão de conferir as contas públicas, lutar por a clareza da demonstração das contas públicas. Exigir punição dos culpados se houver tais. Enfim lutar por o que acreditam. A crise política de hoje está aí. Não há um fim visível, que faça o povo acreditar que a política é um meio. Esses terminaram. Dominar o planeta? Dar supremacia a uma raça? Converter fiéis? A política não tem mais essas ilusões de antigamente, mas passou a ser política humana, pura. Aquela que precisa ser praticada a cada dia por nós para que possamos viver melhor. Eu acho pelo menos que o fim da vida é viver e como viver sem política? Lutemos por nossos interesses, se não forem mesquinhos vale o esforço. Número de frases: 131 leandroDiniz Ainda existem muitos brasileiros que tentam fugir da realidade insuportável da vida neste país (ou será no mundo?) mergulhando de cabeça nos seus trabalhinhos acadêmicos, congressos, publicações em revistas «científicas», batalha por somatório de pontos para concorrer a bolsas de pesquisa ou grana da Capes, etc.. Não tenho pena alguma dessa gente. Que se explodam antes dos outros! Porém não é bem isso o que geralmente acontece. É possível viver, e até razoavelmente bem, no Brasil decadente, como profissional do academicismo local, e até conquistar a possibilidade de transitar fora do país como um intelectual de cátedra que «traduz» o Brasil para os gringos, como certos antropólogos falseadores do país fazem (e ainda são festejados como sábios quando de férias no Brasil das aulinhas de falsa brasilidade " para inglês ver "). A podridão da classe média no Brasil não se restringe a políticos de carreira, empresários carniceiros ou profissionais liberais sem escrúpulos. Nossa podridão invade de cheio a intelectualidade local, e sem muitas brechas para exceções. As poucas exceções, na verdade, estão morrendo de velhas ou de desgosto, por saberem que ao se aposentar a podridão dos intelectualóides que tomaram conta das cadeiras de professor nas universidades não terão mais vozes discordantes. E restará apenas um simulacro de gente com capacidade de pensar, numa exaltação vazia, por parte da grande mídia e dos próprios intelectualóides, afirmando que a educação poderia tirar o Brasil de sua trajetória de degradação crescente. Para quem é muito ingênuo (ou se esforça para ser) e não está entendendo nada do que estou dizendo, vou explicar devagarinho, em poucos parágrafos, o que é o academicismo brasileiro. Imaginemos uma jovem universitária brasileira, bem-intencionado, terminando sua faculdade de ciências sociais e, por falta de outra coisa a fazer com seu diploma para ganhar dinheiro, e assim poder comprar sua tão sonhada vida de classe média consumidora de futilidades, resolve fazer um mestrado. Enquanto faz mestrado e continua a morar na casa da mãe (que vive da pensão do ex-marido que era professor universitário, ou alguma outra categoria de funcionário público), a jovem ganha alguns salários mínimos por mês para trabalhar em órgãos públicos como o IPHAN (instituto do patrimônio histórico nacional, ou coisa parecida). Lá no tal órgão sua função é catalogar (simplesmente colocar no papel) os «bens culturais» do Brasil, com a intenção de que eles sejam preservados em sua «tradição e diversidade» (entre aspas por ser apenas o discurso formal desse tipo de órgão burocrático, e não sua função real). Contudo, enquanto muita gente fica catalogando tais bens (se é que são «bens», como o que sobrou de culturas indígenas ou de outras tradições brasileiras), na prática eles vão sendo destruídos por o caos nacional ou por o desgaste do tempo (como não poderia deixar de ser). Mas isso não importa, o importante é que esta função digna de um humanista social gere algum dinheirinho para a nossa jovem acadêmica poder continuar motivada com seus estudos e seu futuro promissor (a burocracia pública brasileira não tem mesmo outra finalidade, a não ser gerar emprego e dinheiro para aqueles que de ela dependem). Empolgada com algo que parece dar sentido à sua vida -- até então vazia e inútil, regada apenas a maconha, um pouco de álcool e namoricos com alguns caras escrotos (que só pensam em beber, fumar, «tirar um som» e " pegar mulher ") -- a jovem começa a escrever sua dissertação. Assiste aulinhas tão bobocas e desentusiasmantes quanto às do tempo de faculdade, ouvindo as mesmas lorotas dos mesmos professorzinhos de anos anteriores. Já teve que puxar saco (fazendo trabalhinhos ou serviços de datilografia) de um destes professorzinhos durante a graduação, para que ele lhe aprovasse para o mestrado. Para quem não sabe, a universidade pode ser pública, mas os professores é que têm a posse das vagas, escolhendo aquele aluninho que demonstre que não lhe pressionará muito, não lhe exigirá muito esforço mental e nem muitas horas de trabalho em orientações, e ainda poderá-lhe resultar um ou outro artigo a ser publicado levando seu nome, mesmo sem ele, o professor, jamais ter conseguido sequer ler toda a dissertação uma única vez. E não se assustem, caros leitores ingênuos, é assim mesmo: os orientadores de mestrado e doutorado no Brasil frequentemente não lêem os trabalhos de seus mestrandos e doutorandos, às vezes nem mesmo na hora da banca que aprovará finalmente o aluno ou não (quer dizer, sempre aprovará -- como teriam coragem de reprovar algo que nem sequer têm o trabalho de ler?!). Em a hora da banca, o professor orientador do mestrado ou doutorado costuma convocar o seus amigos professores que já sabem que o esquema é esse (de aprovação automática), para evitar qualquer «susto» de última hora (algum professor desavisado que leve a coisa a sério). De esse modo, também os demais membros de uma banca de mestrado ou doutorado não costumam ler o trabalho do aluno; ou quando lêem, escolhem apenas algum pedacinho, para poderem fazer seus comentários genéricos em torno deste pouco que lêem, discutindo em torno de algum detalhe para parecer que tudo segue com a seriedade devida. Mas a jovem aluna do mestrado (no nosso exemplo genérico, de ciências sociais), estreante no academicismo brasileiro, ainda não sabe que este será o fim de sua bela dissertação (não ser lida por ninguém, nem mesmo por aqueles que terão a obrigação formal de aprová-la). E não achemos que o orientador de nossa jovem irá-lhe dizer que estas são as regras informais de nossos joguetes acadêmicos. Obviamente, a maior parte do tempo, o orientador é um dissimulado, cabendo a nossa jovem descobrir (ou não) tais regras sem que ele lhe diga. Assim, na ignorância de como as coisas realmente são, nossa jovem mestranda começa a ler alguns trabalhinhos e livros que, por tradição (e raramente devido ao seu conteúdo), todos os alunos têm que citar nos seus textos. Ela os lê, contudo, por cima, apenas para poder citá-los no seu próprio trabalho, e poder passar ao seu orientador a impressão de erudição. Colecionar citações de autores, mesmo que inutilmente, é bem vista no academicismo brasileiro. Além disso, frequentemente os mestrandos amestrados (desculpem-me, leitores mais sérios, mas eu não resisti ao deboche) são também pressionados para citar os trabalhinhos do seu próprio orientador, como também direciona a Capes (um órgão público formado por professores que se cansaram de dar suas aulinhas «decorebas», e que tem a função burocrática, além de dar emprego aos tais professores, de gerir a distribuição de verba públicas às» pesquisas brasileiras «-- ou seja, um lugar onde se faz lobby oficial para se direcionar o dinheiro público para certas» pesquisas "). De esse modo, o número de citações dos trabalhinhos do professor aumenta e ele ganha mais pontinhos na Capes, os quais lhe dão mais direitos a «incentivos» para pesquisa (ou seja, dinheiro para complementar o salário). Nada mais justo do que, como professor universitário falido (esta é a imagem que tais professores vendem à população, o que está longe de ser verdade para boa parte de eles), ele precise aumentar sua renda da maneira que for possível. E como ele não é da área da saúde, e não pode cobrar mais caro no consultório particular por o status de professor, nem criar falsos projetos de assistência a «minorias carentes» (projetos que quase sempre passam a existir somente no papel ou em alguma espaço de fachada), o que ele pode fazer é mesmo tentar aumentar seu currículo e tirar dinheiro do governo através da Capes ou de outros incentivos oficiais a pesquisa e «extensão» (em geral, é um pouco daqui, um pouco de ali ..., e assim vai se acumulando um renda razoável). Não raro o professor também empresta seu nome a ONGs, e com o mesmo objetivo de sugar o dinheiro público com um aparente discurso de solidariedade social. Não é à toa que o petismo e boa parte da intelectualidade acadêmica brasileira se deram tão bem no Brasil dos anos 1980 e 90. Enquanto isso, a nossa jovem aluna do mestrado corre atrás de seu orientador para que ele lhe oriente em sua pesquisa. Mal sabe ela que em poucos meses estará é fugindo de seu orientador nas raras vezes em que este responder alguns de seus e-mails. Em as suas orientações, contudo, e, principalmente, nas conversas com os colegas mais cínicos que já estão no doutorado, nossa jovem mestranda começa a perceber sutilmente que as coisas não são como aparentam. Há um conchavo de classe no meio acadêmico, e ninguém fala muito abertamente sobre os joguetes do academicismo, já que algum delator é, em geral, discretamente impedido de progredir dentro da aristocracia acadêmica brasileira. Mas aos poucos nossa jovem vai conseguindo entender alguma coisa. Primeiro ela percebe que o seu orientador parece não ler o que ela lhe mostra de seu trabalho. Entretanto, para camuflar a sua não leitura, ele passa a ordenar sistematicamente, em cada encontro de orientação, que ela faça alguma mudança em algum detalhe do texto (tipo trocar uma palavra por algum sinônimo, trocar um aposto de lugar, mudar algum subtítulo, acrescentar vírgulas, etc.). Em o encontro seguinte, porém, sem conseguir saber o que disse no encontro anterior, o orientador diz algo exatamente oposto ao que nossa jovem havia mudado a seu pedido no encontro anterior, ordenando que ela retorne para como estava antes. Em um terceiro encontro, com o orientador já tendo outra vez esquecido o que falara no primeiro e no segundo encontros, ele acaba por mandar que sua orientanda modifique outra vez o que havia mudado no segundo encontro, para o jeito que estava no primeiro. Frequentemente um orientador faz isso em três ou quatro itens de um trabalho, ao longo de meses ou mesmo anos de orientação. E «ai» da orientanda se ela ousa dizer ao mestre que ele está se repetindo e fazendo mudanças circulares, redundantes, que não chegam a lugar algum. Se cometer tal ousadia, ela poderá encontrar muito cedo a fúria de um grande ego insuflado e ferido, a descontar sua ira no primeiro subordinado que encontrar por o caminho (em outro texto sobre o academicismo brasileiro dissertarei sobre o ego insuflado dos acadêmicos nacionais). Em geral, na orientação de um trabalhinho acadêmico, um orientador se apega a um ou dois detalhes do texto, frequentemente dentro da metodologia (a única parte que às vezes lêem, juntamente com a conclusão), e fica a cada sessão de orientação fazendo idas e vindas em algum detalhe daquele trecho escolhido. É uma «técnica» também comum em psicoterapias «embromations», e também em supervisões de psicoterapia: circularidades retóricas em torno do nada. Rapidamente, nesse percurso, nossa jovem mestranda poderá aprender, embora sem dizer isto ao orientador, que seu mestre apenas escolhe aleatoriamente algo no seu trabalho e diz para ela mudar, sem qualquer finalidade, todas às vezes que se encontram, de modo a ter a sensação de estar exercendo seu poder de orientador e fazendo alguém acatar o seu saber. Tais mudanças, como já dito, são feitas aleatoriamente, sem qualquer parâmetro «científico», sem coerência alguma, apenas para que a orientação proceda sem que seja exigido de ele, do orientador, algum esforço maior em relação a discutir ou mesmo entender o que está escrito no trabalho. O trabalho acadêmico em si, como logo aprenderá nossa jovem, não terá nenhuma importância, apesar de ela ter passado suas noites em claro fazendo modificações Mas antes de aprender sobre a (des) importância de sua dissertação, ela aprenderá que não precisa fazer nada, ou quase nada, do que o seu orientador lhe ordena (ou, como ele sempre insiste em dizer, lhe " sugere "), pois o orientador nem se lembrará depois o que foi, já que ele não está muito ligado no que está fazendo, esquecendo-se rapidamente do que diz. Logo, portanto, ela se lembrará do que algum colega cinicamente terá-lhe dito no começo de sua jornada: «Faça a dissertação do jeito que você acha que deve. Balance a cabeça e finja se entusiasmar com o que o seu orientador disser, tratando-o como alguém que tem muito a ensinar, e jamais o contrariando. De essa maneira, sem stress, seu título de mestre por uma das faculdades mais famosas do Brasil estará em suas mãos. E é só o isso que importa». Percebendo, desse modo, que a orientação em si é uma enrolação para justificar a autoridade do orientador, bem como para fazer jus ao nome que ele colocará no resultado do trabalho de seus orientandos, nossa jovem mestranda conclui que fazer o trabalho é mesmo com ela, e que seu orientador, em realidade, não existe, ou, mais frequentemente, apenas atrapalha. Em isso ela se lembrará de outro ditado popular do meio acadêmico: «Orientador bom é orientador que não atrapalha». Com tal conclusão, e ainda sem desanimar em seu início de vida acadêmica, nossa orientanda passa a se dedicar por alguns meses a fazer um bom levantamento bibliográfico; mantendo, claro, as citações de seu orientador e também citando os autores colegas de seu orientador que ele tem interesse em puxar o saco, como de alguém que possa lhe favorecer na liberação de «fomento à pesquisa» da Capes ou de outro órgão, convidá-lo para algum congresso internacional, ou que lhe facilite a publicação de seus artigos, etc. A o tentar estudar por conta própria, entretanto, nossa jovem mestranda se vê perdida em relação ao que fazer com todo aquele material que ela foi selecionando. Percebe que sozinha não consegue alguma metodologia que pareça fazer sentido. Como continua sendo obrigada a ir às orientações, tenta arrancar alguma ajuda de seu orientador. Ele, sentindo-se algo pressionado, e não gostando disso, faz durante algum tempo um discurso retórico que não se refere a nada do que ela havia perguntado. Cita alguns autores aleatoriamente; e, aí, para que sua mestranda se vire sem ele, retira do armário um trabalho de ele próprio ou de alguém conhecido seu e diz para ela fazer igual. Nossa jovem, não entendendo, pergunta se é para citar o tal autor do trabalho que ele lhe estende à frente. Em este instante, ele chega mais perto de ela, e como que não dizendo nada demais, fala para ela «cortar» e «colar» a parte da metodologia. «Copia!», resume ele; em seguida voltando a mais alguns minutos de discurso retórico, vazio, entremeado de citações aleatórias de autores que ele considera que são respeitados na sua área (a maioria dos quais ele nunca leu). Assim encerra-se mais uma orientação. Um pouco atordoada, mas ao mesmo tempo feliz por ver que irá solucionar de modo tão fácil o que lhe tirou o sono nas últimas noites, nossa jovem mestranda volta a se lembrar de vários colegas que cinicamente tomavam café no intervalo das burocráticas aulas da pós-gradua ção. Um de eles, da área da saúde, ela se lembra de ter respondido assim a uma pergunta sua: " Qual a metodologia da minha pesquisa?! Ora, querida, tanto faz ... Eu coloco lá um parágrafo falando da «arqueologia» do Foucault, mais um sobre a «complexidade» do Edgard Morin, enalteço a interdisciplinaridade como aquela que salvará o mundo, encaixo a análise do discurso da Bardin, um negócio que ao mesmo tempo serve para tudo e para nada, cito uma dúzia de antropólogos e sociólogos famosos, num texto meio genérico, igual ao de todos os trabalhos que têm por aí, e pronto! Está aí metade do meu trabalho, e sem diferir em nada de tudo que se produz atualmente. Esse é o segredo: fazer seu trabalho igual a todos os outros, porque aí ninguém terá como criticá-lo». Não é à toa que até em classificados de jornais é fácil encontrar gente que se especializou em produzir trabalhos de pós-gradua ção, e mesmo artigos, em série, para vender àqueles que não estão dispostos a perder tempo com algo tão inútil e que não será mesmo lido por ninguém. As regras do academicismo são outras: nas faculdades particulares, pagou, levou. Em as públicas, é só fazer os deveres dos jogos de poder dos aristocratas de cátedra, servindo-lhes de mão-de-obra gratuita e puxando seu saco, e retirar o diploma na saída. Especializar-se em fazer trabalhos para os outros parece uma profissão promissora no Brasil decadente; ainda mais porque o fato de ser ilícito não faz diferença no país do vale-tudo por dinheiro e poder. Respeitar leis é tarefa para idiota. Burlá-las a seu favor, e tentar usá-las com rigor contra adversários, faz parte da ética da sobrevivência no caos brasileiro. Lentamente, com alguns momentos tendo que recorrer solitariamente à maconha para não pensar em nada e se alegrar, nossa jovem enfim aprende que a dissertação em si não tem mesmo nenhuma importância. Basta a banca aprová-la por ter feito uma dissertação que não diferi em nada da mesmice inútil que se produz aos montes por aí, e que ela receba o título de mestre; e depois o de doutora, e de pós-doutora, e o que mais forem inventando para escalonar a hierarquia da aristocracia acadêmica brasileira, bem como a divisão de cargos públicos nas universidades e do dinheiro do estado no custeio desta aristocracia, e é isso o que importa. Aprendendo com um certo vagar, lentamente os valores morais próprios de nosso academicismo vão fazendo morada no modo de pensar de nossa jovem. Não é fácil chegar a uma aceitação de tais valores quando já se acreditou que o saber, mesmo dentro do academicismo, pudesse algum dia ter servido para algo mais. Porém, no Brasil, qualquer estudantezinho de merda, que não tenha queimado muito neurônio com álcool e maconha em excesso durante a faculdade, consegue descobrir para o que realmente servem os títulos acadêmicos -- utilidade que nada tem a ver com a produção do saber. Nossa jovem, não sendo das mais estúpidas, fica um tanto quanto decepcionada, durante alguns dias, embora ao mesmo tempo com uma sensação de que já soubesse de tudo aquilo, apenas não de modo tão claro e escancarado. Passados algum tempo, contudo, ela começa a sentir um grande alívio. Vai voltar a ter tempo de ir ao shopping, de arranjar algum novo namorado ocasional (embora sempre sonhando com o " viveram felizes para sempre ") e até poder estudar, ainda antes de terminar o mestrado, para algum concurso público que lhe dê estabilidade de emprego. «Até a Capes parece que vai ter concurso este ano», lembra-se de alguém dizer nas conversas paralelas de umas de suas inúteis aulas. E agora ela terá um currículo bem melhor para concorrer a uma vaga na burocracia pública, com um diploma de mestre. E «isso é tudo de bom!», alegra-se, usando até em pensamento um dos muitos chavões que as modelos-atrizes jovens das novelas da Rede Globo popularizam para usufruto do povo semi-analfabeto. Nossa jovem logo se acomoda por aí. Um destes namorados ocasionais logo lhe deixará um filho, que sua mãe, com a pensão do marido, ex-funcionário público, vai «ajudar» a criar. Se der «sorte» (quer dizer, conseguir puxar bem o saco, metafórica ou literalmente falando, de alguns professores em alguma universidade), nossa jovem poderá até virar professora universitária, perpetuando o «saber acadêmico» brasileiro nos moldes em que aprendeu a ser mestre. Com sorte, também poderá encontrar num desses namorados ocasionais o sustento financeiro para o resto da vida; e, de vez em quando, quando estiver muito entediada com sua vida de «dona de casa» (auxiliada, é claro, por alguma das mulheres negras e nordestinas da periferia brasileira, personagens tão comuns nos estudos acadêmicos dos quais se lembrará sem mínimo saudosismo), poderá se dedicar a mais alguma pós-gradua ção, para assim seguir o conselho de seu terapeuta, fazendo algo «produtivo» e «para si mesma», de modo a aliviar a» depressão " e ter algum sentido na vida. Mas se der «azar», como a maioria de seus colegas da época de faculdade, proseguirá com empreguinhos temporários, cada vez mais temporários, ou com longos desempreguinhos, vivendo amarguradamente às custas da mãe ou de alguma pensãozinha deixado aos seus filhos por os seus» ex-s». Contudo, apesar do drama humano dos brasileiros ajudar muitos cineastas a vencer em festivais internacionais de cinema, aqui nos interessa mais o que vai acontecer com a dissertação de mestrado dessa nossa típica universitária brasileira do que com ela própria. Após sua aprovação automática e com louvor (é provável que alguma banca brasileira de pós-gradua ção somente reprove algum trabalho se este for apresentado em branco, e apenas se isso não acontecer em alguma «faculdade de artes "), o trabalho de mestrado vai ter que virar artigos a serem publicados em revistas» científicas». A geração de artigos «científicos» a partir do seu trabalho de mestrado é o que mais enriquecerá o currículo de nossa jovem estudante, e, principalmente, o currículo de seu orientador; o qual, apesar de não ter feito nada, ou mesmo ter atrapalhado, constará como co-autor dos artigos que resultarem da dissertação (sendo que o «mercado acadêmico brasileiro» tem pressionado os orientandos e orientadores a fazerem suas dissertações e teses de pós-gradua ção já no formato de artigos para publicação, a fim de diminuir o risco do orientador não levar a co-autoria dos artigos, caso algum aluno mais rebelde se interponha a esta pilantragem institucional). Número de frases: 117 (Continua em) Uma nova tendência vem ganhando espaço entre jovens de diversas capitais brasileiras, festas de música eletrônica já fazem parte do calendário oficial de baladas, drogas são o combustível de festas que chegam a durar mais de 24 horas. Sábado três horas da manhã, o despertador começa a tocar, Juliana dá um pulo da cama, ela mal dormiu essa noite tamanha era a ansiedade. Um banho demorado, lápis nos olhos, short curto, blusinha tomara que caia, bota de veludo, cabelos presos com a tatuagem de uma borboleta a mostra no pescoço, quase tudo pronto, só faltam meia dúzia de pulseiras e o óculos «Style» para fechar o visual. O relógio já marca quatro horas da manhã, o amigo Lucas já deve estar a caminho para pegá-la. A mãe ainda sonolenta acorda com o barulho vindo do quarto da filha de 19 anos. -- Que barulhada é essa? -- Te o saindo mãe, o Lucas deve chegar em 5 minutos para me pegar. -- Mas a essa hora? Ninguém sai de casa neste horário. Muitos realmente não saem de casa a esta hora, eles já estão na rua. Tiago e mais três amigos de faculdade estão tomando uma cervejinha no postinho 24 horas da Avenida Brasil, eles a pouco saíram de uma festa numa boate da Savassi, mas ir para casa não está nos planos de nenhum de eles, os ingressos já estão na mão, só falta comprar o maço de cigarros, o chicletes e a última cerveja pra ir tomando no caminho. -- Ficar de boca seca nos 30 minutos de viagem daqui até lá não rola né. -- E as paradas? -- Combinei de pegar com o Marquito lá na porta, tem erro não. Marquito é um jovem de 22 anos, estudante universitário, mora num bairro de classe média alta de Belo Horizonte, possui uma vasta rede de amizades, dirige carro do ano e é muito requisitado entre as garotas. Ele mal dormiu essa noite também, o telefone não parou de tocar um segundo, ele precisa chegar mais cedo ao local, pois combinou de encontrar muita gente na porta. A camiseta regata combina com o corpo malhado e deixa as tatuagens á mostra, são duas, um dragão no braço direito e um tribal no braço esquerdo, uma bermuda confortável e um chapéu estilo cowboy dão fim a produção do rapaz, só falta pegar a mochila com as encomendas e tomar o caminho da festa. -- Esta trance vai ser a melhor, os Dj ´ s são demais e a decoração do lugar também promete, sem contar que vai estar cheio de gatinhas. Trance? Este é o mais novo estilo de música eletrônica que vem conquistando os jovens das principais cidades do Brasil e que tem Belo Horizonte como um de seus grandes expoentes. O estilo nasceu nas praias de Goa, na Índia. Os maiores astros vêm de Israel. As festas geralmente acontecem em lugares mais afastados das cidades, e não dentro de galpões fechados, o ambiente a céu aberto e em lugares paradisíacos promove o encontro dos participantes com a natureza. Festas de grande porte costumam acontecer na capital mineira de mês em mês, o ingresso gira em torno de R$ 40 a R$ 50 reais, vários DJ ´ s embalam as festas que chegam a ter mais de 24 horas de duração. Os eventos costumam contar com superprodução, organizadores investem pesado na decoração e na contratação de artistas circenses para alegrar e entreter o público. A Trance da vez ocorrerá num condomínio localizado a cerca de 30 minutos do centro da cidade e cerca de 7 mil pessoas são aguardadas no evento. O relógio marca 5 horas da manhã, Juliana acompanhada do amigo Lucas e mais três amigas chegam ao estacionamento do local. O Movimento já é grande, a festa começou por volta de meia noite, mas o público chega em peso entre 4 e 6 horas da manhã. -- Pelo menos o estacionamento é de graça, sobra mais grana para a água. -- Você não consegue ficar sem sua água né Lucas. -- Claro, é o que me ajuda a agüentar o tranco. Água? Para agüentar o tranco? Em eventos desse gênero o consumo de água é maior do que o de cerveja, refrigerantes e demais bebidas. A demanda é tanta que o valor pago por uma garrafinha de 500 ml de água são os mesmos R$ 3 reais pagos por uma latinha de cerveja, porém bem mais barato que os R$ 9 reais pagos por a dose de Vodka. Tiago e os amigos chegam eufóricos ao local do evento, de longe ele avista Marquito, com quem falara ao telefone minutos atrás, o valor de 100 reais por as encomendas já está no bolso, os dois se conhecem de diversas festas de música eletrônica no passado, se cumprimentam e em 2 minutos fazem negócio. -- Te a ai, as balas que você me pediu. São 4 no total, 25 reais cada. -- Essas são boas né? -- As melhores, o nome é Passarinho verde, no final da festa você me conta como foi. Bala? Passarinho Verde? Em festas de música eletrônica as principais drogas ingeridas por o público são as sintéticas Ecstasy e Lsd, mais conhecidas como bala e doce respectivamente. Vendida em pílulas de diversas cores, tamanhos e formatos, a «bala» em muito se assemelha a um típico remédio para dor de cabeça. Não tem o forte cheiro de um cigarro de maconha e nem exige um ritual para ser consumida, como a cocaína. Por isso é mais discreta e fácil de esconder da polícia. Os responsáveis por o comércio da droga geralmente são jovens de classe média, a não proximidade dos morros atrai outros jovens de classe média, que acham menos perigoso pegar a bala com o amigo de faculdade ao invés de correr o risco de subir a favela à procura de outras drogas. O dia começa a amanhecer, parece que o sol ficará tímido durante todo o domingo, o tempo nublado deixa o clima mais fresco, e se torna um aliado dos «tranceiros», que por ali ficarão durante muito tempo. Não existe muito empurra-empurra para entrar na festa, os públicos femininos e masculinos se dividem na entrada, após uma breve revista dos seguranças Juliana já está dentro do local, essa promete ser uma das melhores Trances de que ela já participou. O lugar já está cheio, do lado esquerdo, o palco em formato de uma pirâmide de cerca de 20 metros de altura chama atenção, do lado direito, um bosque cheio de árvores, cores e mais cores fazem parte da decoração, parece um lugar encantado que tem a Lagoa dos Ingleses ao fundo dando o toque final. Juliana está super feliz, ela combinou de encontrar várias amigas no local, a música já é alta e excitante, uma rápida passada no banheiro e ela já está pronta para se acabar na pista de dança. Tiago e os amigos também já estão dentro da festa, as 4 balas compradas com Marquito já foram divididas, uma para cada um, os quatro amigos tomam as drogas ao mesmo tempo. -- É só colocar na boca e engolir. -- Credo, essa coisa é muito amarga, pior que novalgina. -- De aqui a uns 30 minutos agente não vai sentir mais nada. Criado em laboratório em 1914, o ecstasy é parente das anfetaminas, drogas presentes em vários remédios para emagrecer. É uma droga moderna sintetizada, cujo efeito na fisiologia humana é o bloqueio da reabsorção da serotonina, dopamina e noradrenalina no cérebro, causando euforia, sensação de bem-estar, alterações da percepção sensorial do consumidor e grande perda de líquidos, o que explica o consumo excessivo de água por os frequentadores das Trances. As alterações ao nível do tacto promovem o contacto físico, embora não tenha propriedades afrodisíacas, como se pensa. A esse ponto Tiago e os amigos ja estão em total euforia, o sorriso estampado no rosto de cada um é o sinal de que a droga ja fez efeito, nenhum de eles consegue ficar parado por um instante, a música incessante dita o ritmo, e eles não estão sozinhos, a multidão vai a loucura quando o principal Dj do dia sobe ao palco, a poeira do chão toma conta do lugar, como uma espécie de nuvem, devido a agitação do público. -- Caramba cara, eu tô muito doido. -- Que sensação boa, não consigo parar. -- É meu amigo, se continuarmos nesse ritmo, só vamos embora amanhã mesmo. -- Pena que não rola de chegar nas gatinhas. -- Pode crer, ninguém dá idéia. A lucidez era o que chamava a atenção de Tiago, a consiência das alterações no corpo faziam com que ele se sentisse no comando. E por ali eles ficaram durante horas, com uma garrafa de água numa mão, e o cigarro em outra, Tiago a muito não se sentia tão feliz, porém após algum tempo seu corpo ja não era o mesmo, o relógio marcava 1 hora da tarde, ele estava na rua desde as 11 horas da noite do dia anterior, e nem sequer lembrava qual fora a última vez em que houvera se alimentado. Aos poucos a euforia foi dando lugar a fraqueza, ele se sentia tonto e as pernas começavam a bambiar. -- Véi, não estou me sentido muito bem. -- O que houve? -- Não sei, to sentindo uma fraqueza, acho que vou desmaiar. -- Segura a onda ai que vou te levar na enfermaria. A o chegar na enfermaria Tiago foi prontamente atendido por a equipe de primeiros socorros do evento, uma tenda montada para dar suporte médico ao públibo que contava com oito macas, 1 médico e cerca de 5 enfermeiros. Após tirar a pressão e fazer algumas perguntas o diagnóstico do médico já estava pronto. -- Qual foi a última vez em que você se alimentou? -- Nem me lembro Doutor. -- Você teve uma baixa de pressão, vai precisar se alimentar e ficar de repouso durante um tempo. Segundo o médico responsável por a enfermaria do evento, esse tipo de atendimento é o mais comum, pessoas ficam muito tempo sem se alimentar e gastando muita energia, o que em alguns casos chega a causar uma queda brusca de pressão. A enfermaria ja tinha atendido cerca de 50 pessoas que não se sentiram bem no dia, duas de elas tiveram que ser removidas para o Hospital pois estavam com princípio de Taquicardia, devido ao aumento dos batimentos cardíacos. As muitas horas sem se alimentar decretaram o fim da festa para Tiago, após comprar e comer uma pequena porção de macarrão por R$ 7 reais, ele passou o resto da festa repousando numa das macas da enfermaria, enquanto os amigos ainda curtiam lá fora. -- Essa Merda que o Marquito me vendeu é que me detonou. -- Daqui a pouco ele deve aparecer aqui na enfermaria também passando mal. -- Que nada, vi o Marquito agora a pouco la fora, neguinho tava viajando, só andando de bicicleta. Andando de Bicicleta? Marquito não tomou nem uma bala dessa vez, ele resolveu experimentar uma droga diferente, a bike 500, é o nome do mais novo tipo de Doce (Lsd) disponível no mercado. Por isso «andar de bicicleta» já virou termo comum entre os simpatizantes da droga. Todas as encomendas foram vendidas, o dinheiro investido para a festa foi recuperado com louvor, Marquito agora não só tinha dinheiro pra sustentar o vício, como também pra colaborar com os amigos. A festa estava demais, logo ao entrar Marquito ingeriu ¼ da droga para aquecer os motores, poucos minutos depois tamanha era a ansiedade ele ingeriu o restante, e não satisfeito ingeriu uma segunda dose. Os efeitos do Lsd variam conforme a personalidade da pessoa, o contexto (ambiente) e a qualidade do produto, podendo ser agradáveis ou muito desagradáveis. O LSD pode provocar ilusões, alucinações (auditivas e visuais), grande sensibilidade sensorial (cores mais brilhantes, percepção de sons imperceptíveis), sinestesias, experiências místicas, flashbacks, paranóia, alteração da noção temporal e espacial, confusão, pensamento desordenado, sentimento de bem-estar, experiências de êxtase, euforia alternada com angústia, pânico, ansiedade, depressão, dificuldade de concentração, perturbações da memória, psicose por «má viagem». Poderão ainda ocorrer náuseas, dilatação das pupilas, aumento da pressão arterial e do ritmo cardíaco, debilidade corporal, sonolência, aumento da temperatura corporal. A ingestão de dois «Doces» em nada assustava Marquito, que se lembra de numa festa anterior ter tomado quatro balas. -- Fiquei doidão demais, mas foi de boa. O ritmo cadenciado da música aliado ao efeito da droga faziam com que Marquito alterasse seu humor diversas vezes, alternando momentos de euforia e de inquietação, a temperatura do corpo estava visivelmente alta, garrafas de água eram consumidas sem parar. Por alguns minutos ele se sentiu distante e permaneceu em silêncio, a «ausência» do amigo causou estranheza entre os colegas que foram perguntar se estava tudo bem. -- Te a de boa ai Marquito? -- Véi, o que foi isso! Viajei demais. Me senti como se eu estivesse fora de mim, e não conseguia voltar mais, uma sensação ruim, eu queria voltar pra dentro do meu corpo e não conseguia. Ufa, ainda bem que passou. -- Relaxa brother, vamos sentar um pouco que rapidinho a «nóia» passa. A experiência de certa forma assustou Marquito, que percebeu seus exageros, e ficou o resto da festa com um ar de preocupação, nem de longe lembrava o Marquito animado de sempre. 8 horas da noite, hora de ir embora, Juliana não aguenta mais suas pernas, ela dançou como a tempos não dançava. Os amigos reunidos, música empolgante, ambiente paradisíaco, nem uma confusão ou briga foi presenciada por a garota que vai embora para a casa com o sentimento de dever cumprido. -- Há tempos não me divertia tanto, mau posso esperar até a próxima Trance, so preciso descansar um pouco por que o dia foi agitado. Enfim, o movimento Trance no Brasil é considerado por muitos um novo modismo, porém indepedente de estar na moda ou não prova ter força e popularidade para durar anos. Afinal, esse gênero emergente abriga diversas tribos e tem a luz do sol como iluminação durante o dia e as estrelas durante a noite. * Os nomes dos personagens dessa reportagem foram trocados para preservar a imagem dos mesmos. Número de frases: 106 Se ainda não viu, vale a pena assistir ao vídeo da campanha Free Hugs. O filosófo e escritor italiano Umberto Eco diz que a «internet é a comunidade da solidão». Talvez seja verdade. De certa forma, sentamos em frente aos nossos consoles de computador e virtualmente tentamos nos reconectar com o mundo de uma forma artificial e mediada. Mas talvez existam outras verdades que tragam esperança e estimulem ações tão legais e simples como essa. Segundo fontes «não fidedignas», a campanha iniciou na Austrália, em 2004, por iniciativa de um sujeito que abraça pessoas desconhecidas na rua. Ele se apresenta sob o pseudônimo de Juan Mann. A canção do videoclipe é autoria da também australiana banda de rock Sick Puppies. O vídeo já contabiliza mais de 4 milhões de visualizações no YouTube. Em a esteira de outros fenômenos do YouTube, como o curta-metragem free marihuana Tapa na Pantera, o vídeo erótico da Cicarelli ou do Fernando Vanucci embriagado que fizeram muito sucesso em plagas brasileiras, a campanha tomou novo vulto nos últimos dois meses e tem ocupado espaço na mídia global, como nos programas Good Morning America e 60 minutes, nos Estados Unidos. Há uma entrevista bacana com o criador da campanha no jornal Sidney Morning Herald ou no próprio YouTube. Além do portal de vídeos, a Free Hugs está se espalhando de forma viral na internet através de mensagens de e-mails entre amigos, fóruns, listas de discussão e blogs. Em Taiwan e na Coréia, estudantes também criaram campanhas semelhantes. Em o dia 1° de outubro, os australianos promoveram uma Free Hugs massiva no calçadão de Pitt Mall Street, local em Sidney onde foram gravadas várias cenas do vídeo, em comemoração ao Dia do Trabalho no estado de New South Wales. Com tanta comoção «interplanetária», é necessário ficar de olho nos excessos melodramáticos e nos aproveitadores de plantão. Mas abrace sim, pô! É uma boa notícia para tempos tão tensos, violentos e caóticos. Mais informação no Wikipedia ou, em português, neste site. E, como costumo dizer, um Baita Abraço a todos! Número de frases: 19 dMart é jornalista, músico e escritor free-lancer, escreve nos blogs RodrigoNS, Produção Independente e txtdMart .... e que namora um menino eletricista " ¹ Depois de 5 semanas do lançamento do livro, eu estava me preparando para executar a segunda parte do plano. A primeira estava indo bem. Em o dia do lançamento, 180 livros foram vendidos e, após esse dia, alguns amigos que não puderam ir (ou nem sabiam que eu estava lançando um livro) passaram a comprá-lo, deixando a marca em 412 livros vendidos. O mais interessante é que está rolando o bom e velho efeito amigo-do-amigo, que faz com que o livro esteja sempre entrando em novos territórios. Isso foi a parte 1 do plano. Está funcionando. A segunda parte do plano -- plano este que é fazer com o que o livro me consiga trabalho e / ou seja lançado por uma editora -- era esperar o livro vender um pouco para ter dinheiro e história para contar quando fosse com ele ao Rio de Janeiro e São Paulo. Fiz isso quando tinha banda em 2006 e achei que poderia repetir a estratégia, porém com um pouco mais de experiência. Fiz uma lista de editoras, agentes literários, jornalistas, revistas, jornais, músicos e escritores, e comecei os contatos. Com o dinheiro e a clipagem debaixo do braço, procurei promoções de passagens aéreas. Decidi que iria 13 de maio. Em as horas em que estou trabalhando em prol do livro, sempre me pergunto «por que esse cara pra quem tô querendo enviar o livro vai se interessar por ele?». Essa dúvida é antiga. Em o dia que o livro foi para a gráfica, eu pensei " que merda que eu fiz. Quem é que vai querer saber que tive diarréia em pleno carnaval, com o Asa de Águia tocando Take it Easy?». A dúvida era se o livro seria interessante só para as pessoas citadas e / ou que convivem naquele universo do livro ou se ele despertaria a curiosidade de pessoas alheias. Inclusive muitos me diziam «acho que o livro só vai ser mesmo para a galera do rock da Bahia». Mas era nisso que eu confiava, o que está no livro é o meu universo, e, apoiado numa frase que meu avô cita frequentemente, «se queres ser universal, canta a tua aldeia», do escritor russo Leon Tosltoi, achei que valia a pena pagar pra ver. Algumas respostas que tenho recebido me aliviam um pouco em relação a essa questão, como os e-mails de Karina M, que disse «eu era roqueira e nem sabia», assim como» agora minha mãe sabe que você se cagou no carnaval», do amigo Dudare. A dúvida, porém, sempre volta e, enquanto estava olhando a lista de pessoas a quem eu levaria o livro, eu o peguei para tentar descobrir alguma resposta sobre o porquê que ele seria interessante para alguém. Folheei um pouco e bati os olhos num trecho de uma crônica sobre a minha ida ao Rio e SP para levar o disco da banda que eu fazia parte e, nessa crônica, eu reclamava que quase nunca eu era atendido por a pessoa que eu queria, sempre tendo que deixar o disco com uma secretária ou com o porteiro do local, e que, se soubesse disso, teria ficado em Salvador, mandando o disco por o correio. Eu tenho recebido alguns pedidos de pessoas de fora do estado da Bahia. Por semana mando dois ou três livros para outro estado. A maioria de amigos que moram fora e alguns de leitores do blog. Sempre envio por o correio daqui de a rua, no Chame-Chame, onde também funciona uma floricultura. Os dois são no mesmo ambiente. E lá sou sempre atendido por Geisa e Angélica. Em a minha terceira ida, Angélica perguntou «esse livro é de quê?». -- Ah, é um livro de histórias ... crônicas ... -- Ah, massa. Deu R$ 15,30. O frete para São Paulo sai por volta de R$ 12,30, e com a caixa, para o livro chegar inteiro, que custa três reais, dá um total de R$ 15,30. Em a quarta vez que fui lá: -- Foi você que escreveu? -- Foi. -- Pô, que massa! Deu R$ 14,30. Para o Rio de Janeiro é um pouco mais barato. Minha maior diversão tem sido jogar caixa fora. Alegria da porra. Quando os livros chegaram, vieram em 67 caixas, cada uma com 15 livros. Entupiu um quarto da casa de minha mãe. O que era o meu. Semana passada, antes de ir ao correio, abri uma caixa nova de livros para pegar alguns e achei um defeituoso. -- Mas é um livro de quê assim?-- perguntou Geisa, na minha quinta ida ao correio. -- Tome um livro pra vocês. Dei o livro, mostrei o defeito, elas disseram que não tinha problema, que estava ótimo e iriam ler logo. -- Obrigada por o livro -- disse uma. -- Você matou uma curiosidade nossa. Deu R$ 16,30 -- disse outra. Para o interior de São Paulo é mais caro ainda. Quando eu li que escrevi no meu livro que eu deveria ter ficado em Salvador enviando os discos por o correio, encontrei a resposta. Era a tal da experiência. Rolou um paradoxo da porra: era eu dizendo para mim mesmo o que fazer, através do meu livro. Em o dia seguinte, fui num outro correio só para fazer o orçamento de quanto seria mandar tudo daqui de Salvador e quanto seria se eu mandasse por o correio de São Paulo. De SP para SP. Assim como do Rio para o Rio. Jandyra deu a idéia de eu enviar os livros por alguém que esteja indo e depois contratar algum amigo que esteja em São Paulo (e outro no Rio) procurando emprego (achei 18 na minha lista de contatos) e assim contratá-lo para um dia de trabalho, que seria postar os livros. O preço da postagem de uma cidade para a mesma cidade não fez tanta diferença, e somando isso à contratação do amigo-carteiro diarista, o valor final seria maior do que se eu mandasse por Salvador mesmo. As duas formas também saíram mais baratas do que se eu fosse viajar. Em essa viagem, eu gastaria muito tempo. Para chegar em todos os lugares, precisaria ficar uns 10 dias em São Paulo. Me imaginei nos engarrafamentos, tentando chegar em algum lugar e, quando conseguisse, ouvir «ele está numa reunião, deixe aqui que entrego pra ele». Todo dia no Bom Dia Brasil, telejornal matutino da Rede Globo, tem uma matéria sobre o trânsito de São Paulo. Todo santo dia. Parou um pouco agora por causa do caso casal alexandre madrasta avô crime delegacia advogado depoimento família isabella menina morte mãe nardoni pai perícia polícia. Tá um deleite. A melhor novela dos últimos anos. As emissoras nunca faturaram tanto. «Quem Matou Odete Roitman?" já era. Se cada criança assassinada no Brasil recebesse essa audiência ... Aqui em Salvador a polícia matou alguns adolescentes recentemente e o máximo que aconteceu foi dois BA TV. A policia também está sendo digna de seriado americano. Descobriram através de aparelhos hollywoodianos a posição em que a menina ficou no chão enquanto o agressor pensava no que fazer; que o agressor pisou na cama e quase escorregou; que esse quase escorregão desarrumou o lençol; a posição que ela foi jogada e qual foi a última mão que Isabella soltou. «Gelo em Marte, diz a Viking. Mas no entanto, não há galinha em meu quintal " ². E, para aumentar a diversão, tudo mostrado em animação gráfica. Ainda tá rolando o, já em extinção, «a seguir cenas do próximo capítulo». Os telejornais começam com Isabella, depois entra a dengue, o biocombustível, a recessão americana, futebol e termina com Isabella. E todos os intervalos vêm precedidos da chamada «e veja ainda nessa edição mais informações sobre o caso Isabella». O Bom Dia Brasil (eu contei) está com oito intervalos comerciais. E é pior que novela, pois novela você sabe quando vai ser o final, mas essa não, aí todo dia pode ser o final, o último capítulo ... -- Ah, não, só vou sair depois de Caso Isabella, hoje o pai de ela vai falar, e (no capítulo de) ontem o advogado disse que blá, blá ...-- me disse um amigo. Já Ana Maria Braga recebeu da direção da novela a personagem de jornalista. Conversando com um criminalista em seu programa, ela disse: -- Porque eu acho que nós da imprensa temos que exigir a apuração desse episódio ... Não me espantarei muito se daqui a um tempo aparecer a manchete «irmã de Alexandre Nardoni vai posar nua». «Descobrimos o que nem a polícia descobriu», diria o anúncio da revista Playboy. Ninguém consegue sair da frente da TV, assistindo a todos os anúncios de bancos, geladeiras, cervejas e carros com atores (e até bichos) dirigindo em estradas boas e vazias, dizendo para você comprar um carro hoje, logo após Alexandre Garcia fazer uma crônica cheia de carga emocional, onde traçava um paralelo sobre o trânsito de São Paulo e a existência humana. Se você, caro leitor, tiver dinheiro, vou te dar uma dica empresarial: não compre carro. Compre terreno e faça um estacionamento. É o negócio do século XXI. Vá por mim. Uma vez, nesse ano de 2008, Alexandre Garcia fez uma crítica dura e ao mesmo tempo lírica sobre o número de crianças no tráfico de drogas carioca e, no dia seguinte, só que de noite, ele abriu o Jornal Nacional, com um rosto sorridente, dizendo «começou hoje o maior carnaval do mundo». Seriam atores os jornalistas? Enviando por o correio, não pegaria engarrafamento. Poderia perder algumas oportunidades, mas não pegaria engarrafamento. Fui ao correio com 25 livros e 19 endereços. -- Bom dia -- disse eu. -- Bom dia. Tô lendo o livro, viu? É massa ... Aquela história do morcego é verdade?-- perguntou Angélica assim que eu cheguei. -- É, sim, é tudo verdade. Cris tá lendo o livro e de vez em quando ela dá um grito de «que mentira da porra, essa aqui é mentira, eu não disse isso ...», aí eu tenho de dizer que ela disse ... -- Eu não disse. -- Disse. -- Não disse ... E fica nisso um bom tempo, até eu dizer que uma coisa que acontece, para ela pode ser banal ao ponto de ela apagar completamente da memória, ao mesmo tempo que para mim pode ser algo relevante ao ponto de eu transcrever num texto. -- E, além disso, você disse. Quando eu disse que iria enviar 25 livros, Angélica e Geisa perguntaram que embalagem eu usaria. Alguns endereços receberiam três livros, e a caixa para três livros custava quatro reais. -- Ô, fazer o quê?-- disse eu. -- Nada disso -- disse com autoridade Geisa --, você vai agora comprar 15 folhas de papel-metro e 10 de papel-bolha que a gente vai montar as embalagens. Como é que diz «não»? Fiquei três horas no correio, que é bem vazio. Em todo esse tempo, só quatro pessoas entraram lá: uma mulher que comprou um arranjo de flores; um bêbado querendo enviar uma carta, «dava todos esses livros para ler essa carta», pensei na hora; e um sóbrio que aparentava uns 40 e poucos e que também queria enviar uma carta. Vendo o trabalho em série, ele perguntou «que livro é esse?». Antes de eu responder, elas se adiantaram: -- É de ele. Ele que escreveu. Ele ficou folheando o livro e fazendo perguntas. -- Quando foi o lançamento? Saiu no jornal? Para alguns lugares, junto com o livro, eu mandei também a clipagem do que saiu na imprensa. Ele pediu pra ver. -- Você toca na brincando de deus?-- descobriu ele por as reportagens. Falei que a banda estava num período sabático. -- Já fui a muito show de rock aqui em Salvador -- disse ele, destilando uma enorme lista de bandas baianas dos anos 80 e algumas do inicio de 90. Depois me pediu para tirar uma cópia da clipagem. Não entendi bem o porquê, mas disse que não tinha problema. Ele ainda me disse que também escrevia, mas que não tinha coragem de publicar, mensagem essa que tenho recebido de muitas de pessoas que, ao saber do livro, me dizem que escrevem também, mas que nunca mostraram a ninguém. Ele garantiu que entraria em contato para comprar o livro. Ninguém almoçou. Elas cortavam as folhas nos tamanhos certos, embalavam e me davam para eu preencher os endereços. Economizei exatos 42 reais. Durante o trabalho, fizeram perguntas sobre as crônicas, os rodapés, sobre o envio dos livros, expliquei sobre as pessoas e endereços para quem estava mandando, meu plano, me falaram de elas, que Geisa tá fazendo regime ... -- Deu R$ 235,00. Tirei o dinheiro e paguei. -- Fique tranqüilo que o plano vai dar certo -- disse Angélica. Obrigado, Angélica e Geisa, saí do correio confiante na minha decisão de não ter viajado. «E sem engarrafamentos», pensei indo embora. O único problema foi que desde o momento em que ela perguntou sobre o texto do morcego, a frase «PUTAQUEPARIU, elas sabem da diarréia» permaneceu em minha cabeça. Em tempo: hoje, feriado (21/04), dia de Tiradentes, um dia antes do descobrimento do Brasi, um dia depois do Ba-Vi que foi 4 x 1 para o Bahia, eram 18h quando acabei esse texto e entrei no msn. O amigo Tiago Ramone, que estava procurando emprego em São Paulo e que foi contatado para ser o carteiro-diarista, e logo depois desativado da função por causa da minha decisão de não viajar, estava on line: tiago ramone disse: e aí, rubro negro? Cury disse: foda, mas domingo que vem tem outro Cury disse: to confiante, rodrigão vem ai tiago ramone disse: huahuahua tiago ramone disse: posso «ler» um trecho de seu livro pra você? Cury disse: claro tiago ramone disse: «Fui embora sem deixar disco nenhum. Sabia que teria a chance de entregar em mãos e, assim, conversar, trocar idéias, falar de música ... Acredito que isso é o mais importante da divulgação. Se for para deixar na portaria, ficaria em Salvador mandando os CDs por o correio." tiago ramone disse: e aí? você acha mesmo que não tem como entregar os livros pessoalmente? Cury disse: caralho, acabei de fazer um texto sobre isso tiago ramone disse: =) tiago ramone disse: coincidência, ou não, né? Cury disse: coincidência da porra, tô de cara tiago ramone disse: eu também tiago ramone disse: não esperava Cury disse: seguinte, eu acho e não acho Cury disse: acho que devo ir, sim, mas que, esse primeiro contato não precisa ser pessoalmente, ate porque já mandei para 19 endereços por o correio, justamente por causa desse trecho Cury disse: é disso que falo no texto que tô escrevendo Cury disse: muito doido isso ... tiago ramone disse: então nem vou pedir pra você me explicar tiago ramone disse: vou esperar o texto, né? tiago ramone disse: até porque vou ser citado!!! Cury disse: porra, nem vai Cury disse: ou vai, não sei ( 1) O descobrimento do Brasil, de Renato Russo e Marcelo Bonfá. (2) Eu também vou reclamar, de Raul Seixas e Paulo Coelho. Número de frases: 211 Já imaginou um monte de programadores (e uma meia dúzia de advogados) pulando no meio da pista do Teatro do SESI, nos estertores de Porto Alegre, cantando «alterna pé e faz biquinho / Tu entrou na dança / Em a dança do patinho»? Pois é. Essa foi apenas uma das diversas cenas interessantes transcorridas no 1º Festival «Criei, Tive Como» de Cultura Livre. O Festival, que foi realizado durante o VII Fórum Internacional de Software Livre (FISL), congregou arte digital, cinema e música para mostrar que existe verdadeiramente algo de novo na forma por a qual artistas têm criado e disponibilizado suas obras, e na forma por a qual o público em geral tem obtido acesso às mesmas obras. Trata-se da chamada cultura livre. O Festival Criei, Tive Como nasceu de uma parceria entre o Creative Commons, o Overmundo, o Festival Tangolomango e a organização do VII FISL, com o patrocínio da Petrobras, via Lei de Incentivo à Cultura. O ponto alto do Festival, sem dúvida, foi o show no qual se transcorreu a inusitada cena narrada acima. O show foi realizado no enorme Teatro do SESI, em Porto Alegre, no dia 21 de abril. Apresentaram-se para um público derivado em grande parte do próprio FISL, o coletivo Media Sana, o grupo paraibano Totonho e os Cabra e o rapper carioca BNegão, acompanhado dos Seletores de Freqüência. Tanto Totonho como BNegão contaram ainda com as projeções do VJ Pixel. Logo no início do show, uma prova de que algo de diferente estava acontecendo ali: os apresentadores comunicaram ao público que, ao contrário do que geralmente ocorre em shows, o público era aconselhado a tirar fotos das apresentações. E mais: se possível, que o público mandasse as fotos para os seus amigos. Para começar, o Media Sana bombardeou a platéia com 45 minutos de batidão eletrônico e um turbilhão de imagens e provocações sincronizadas. Os juros altos, a sensibilidade do mercado, o poder da informação e as manobras usadas por a propaganda foram alvos do ritmo marcado do coletivo que bota pra pensar. Em o final, um remix de personagens folclóricos como Richard Stallman, Gilberto Gil e Cláudio Prado deu a tônica do discurso: quem é o dono da informação? E o que podemos fazer com ela? O público aplaudiu em diversos momentos as projeções. O pensamento crítico falou alto na apresentação. Mais alto do que o som nas alturas do Teatro. Foi bom para fixar. Em seguida, veio Totonho e os Cabra. Como resistir a letras como «Você ta doida pra me dar ...»? Durante o show, Totonho desfilou uma série de máximas que deveriam entrar para qualquer enciclopédia de música contemporânea, com destaque para: «Em a Paraíba a gente não faz house. A gente faz casinha de palha». Totonho une o bom humor nordestino com bases eletrônicas (também chamados de «sons de Peter Pan» por o artista). O mais curioso na obra de Totonho é o seu fascínio por astronomia. As referências a planetas, satélites, constelações e demais adereços espaciais estão em praticamente todas as músicas. Durante o show, a platéia aprendeu sobre os efeitos da poeira estelar e foi informada de que a lua está precisando de saneamento básico e medidas de impacto. Foi alarmante. Para completar a salada musical, Totonho tempera as suas referências espaciais com evocações do tipo «super-heróis». Isso ficou bem claro na música «Jaspion do Pandeiro» e naquela que fechou o show (" Totonho venha salvar o mundo "). Então é isso: Totonho vive nas estrelas. Totonho é um super-herói. Se tivesse sido criado por o Stan Lee, Totonho seria o Surfista Prateado (de casaco de lantejoula). Para encerrar a noite, BNegão e os Seletores de Freqüência subiram ao palco. Imediatamente o público, que até então estava sentado, foi em sua maioria para o espaço entre as poltronas e o palco. BNegão não perdoou e atacou com os maiores sucessos do seu «CD Enxugando Gelo». O artista, que disponibilizou as suas músicas na Internet, não perdeu o ritmo durante todo o show, e ainda conversou com o público, mencionando a importância de se ter uma nova percepção da cultura e de se romper com os paradigmas tradicionais da propriedade intelectual. Talvez ele não tenha dito isso com essas palavras, mas foi o que eu entendi de cada uma das inúmeras vezes em que ele falava que a gente tinha que ter «responsa». «Classicamente». O show do rapper levanta morto do túmulo, faz buraco na calçada e esquenta miojo mais rápido do que o microondas daqui de casa. Já no final da apresentação, quando mandou ver na música «O Processo», o cantor ainda disse que aquela música tinha tudo a ver com o que se estava fazendo naquele feriado ensolarado em Poa, ou seja, a revisão do processo, já que» o processo é lento». Por fim, o show se encerrou com a mensagem irônica da «Verdadeira Dança do Patinho». Partindo das bases de um tradicional funk carioca, o rapper construiu um retrato verdadeiro das humilhações e dos desmandos aos quais nós nos submetemos e somos submetidos cada dia. Em o refrão, o público cantou junto e pulou sem parar. Tinha filósofo, cientista social, advogado, economista, estudante. Todo mundo entrou na dança do patinho. O mais legal do show foi mesmo perceber que todos esses artistas estão pensando em novas formas de se manifestar, disponibilizando as suas músicas de maneira a não ficarem presos apenas no modelo de negócio tradicional, ou seja, a compra de cds em lojas de música. A Internet está ai para mudar a sociedade. Assim como o software livre rompe com as licenças predominantes no mercado para aquisição e uso de programas de computador, é importante ver que a liberdade não começa a ser priorizada apenas no campo da informática. Arte digital, cinema e música também estão nesse processo de revisão. O show mostrou que, no Brasil, o pingüim e o patinho andam juntos. Música e programação estão inseridas nas manifestações brasileiras de cultura livre. Número de frases: 58 Os gêmeos paulistas Fabio Moon & Gabriel Bá são bastante conhecidos no Brasil e, sobretudo nos Estados Unidos, para onde costumam enviar boa parte dos seus trabalhos. Começaram a carreira publicando fanzines, ilustrando para revistas e enviando amostra de HQs por correio para editoras americanas. Hoje ambos vivem dos quadrinhos. A dupla esteve no Rio de Janeiro no dia 27 de agosto para ministrar um workshop de roteiro dentro do Ilustrando em Revista, evento super bacana que acontece no Centro Cultural da Justiça Federal e que já foi noticiado aqui (confira rolando o mouse para baixo). «O maior trunfo do nosso zine era ser semanal, editar 15 edições semanais, cada uma com quatro páginas» explicou Moon sobre o início da carreira. «Então bancamos nossas passagens e fomos para a Comicon, em San Diego, onde vendemos 300 revistinhas em cinco dias». A Comicon é um das maiores convenções anuais do planeta. «Também levamos a RNR, uma HQ de rock sem falas, muda, pra mostrar na gringa». Bá completa: «Em aquela época a gente fazia ilustrações para poder fazer quadrinhos. Ilustramos muito para publicidade, por que era rápido e pagava bem, mas também para revistas infantis como a Recreio. Só importava que fosse fofo e colorido. Mas as ilustrações que fazíamos qualquer um poderia fazer». Foi uma fase de muita ralação. «Em a vida de um ilustrador free lancer todos os dias são iguais, seja final de semana ou feriado, não tem horário». Moon retoma a palavra: «Normal, no início você tem que fazer o que aparece mesmo. Com o tempo passamos a filtrar mais. Hoje a gente escolhe os quadrinhos que queremos fazer. Acho importante que seu quadrinho tenha a sua cara, o seu estilo, a sua marca». Quando o assunto é mercado nacional, os gêmeos mostram uma opinião bem definida. «O mercado só vai se expandir se tiver material. Precisa ter gibi em todas as bancas, facilitar o acesso. O investimento no mangá, por exemplo, é pequeno por aqui ele é um subproduto, já vem pronto do Japão». Então por que esta tendência de se investir no quadrinho como livro, para venda em livraria? «Pra dar cara de que quadrinho é mais sério, é leitura de adulto» responde Moon. «Mas não dá pra viver disso no Brasil. As tiragens são pequenas e você ganha só 10 % do preço de capa. Ou seja, vai levar dois, três anos para vender todos os dois mil exemplares e você receber R$ 4.000», completa. Polêmica mesmo só quando o assunto é internet. Minutos depois de criticar um dos trabalhos desenvolvidos por um dos alunos do workshop, que usara «blz» ao invés de «beleza», por que é assim que se tecla na web, Gabriel Bá lembrou que» internet é ótimo para tiras, humor, coisas rápidas. A HQ impressa é para histórias longas, em capítulos, que exigem aprofundamento. Número de frases: 32 Mas em ambas é importante escrever corretamente em português». Entre os dias 27 a 30 de setembro do ano 2007, Ipiaú realizou sua I Mostra de Cinema e Cultura. Um evento que significa uma retomada para as exibições públicas e gratuitas de imagens em movimento e que apresentou os primeiros trabalhos profissionais da linguagem audiovisual, de realizadores da cidade. O evento foi produzido por o cantor Tito da Cruz (uma personalidade popular do sul da Bahia), com parcerias diversas: desde a secretaria da Educação e Cultura da cidade, SEBRAE e Truq Cine TV e Vídeo. É interessante apresentarmos tudo isso como foi escrito anteriormente para entendermos e discutirmos sobre algumas especificidades e sobre o todo da cultura do interior da Bahia. Uma cidade como Ipiaú, diante de toda relevância cultural e histórica que tem para o estado, passa por um momento de crise em sua cultura. E sei que muitos vão resmungar por tal afirmação. A cidade que já foi eleita município modelo da Bahia em 1965, possuiu quatro cinemas, um dos quais é tombado como Patrimônio Histórico e Cultural, e revelou vários artistas e personalidades importantes para o desenvolvimento da região (como o escritor e político Euclides Neto, o fotógrafo Rogério Ferrari, o artista plástico Fauzi Maron, o jornalista José Américo Castro de entre outros), debate-se numa constante discussão sobre a cultura na e da cidade. Com o apoio da Truq Cine TV e Vídeo, a curadoria a cargo do comunicólogo e cineasta Edson Bastos, apresentou três filmes de longa metragem recentemente lançados nos cinemas do Brasil, todos realizados por diretores baianos e produzidos dentro do estado. Esses Moços de José Araripe Jr., Samba Riachão de Jorge Alfredo e Eu Me Lembro de Edgard Navarro (que já cedeu entrevista ao fotógrafo Rogério Ferrari, editor da antiga Revista Atitude). Merecem destaque os documentários produzidos por realizadores ipiauenses. Dona Nena, de Edson Bastos, retrata do sincretismo religioso presente na cultura sul-baiana (e em todo o estado). A rezadeira que dá título ao filme, faz caruru todo dia 04 de dezembro em homenagem à Santa Bárbara. O documentário apresenta poeticamente a relação entre o ser-humano e a fé. Dona Nena nos conta a sua história de vida, de frente para o espelho penteando seus cabelos longos e brancos. Como se tornou rezadeira, porque realiza o caruru ... Todo o ritual do caruru é apresentado durante a narrativa. O documentário 105,9, dirigido e produzido por o jornalista ipiauense, Kaike Lamoso, nos conta a história da Rádio Livre Comunitária de Ipiaú. O Projeto foi pensado inicialmente por um grupo heterogêneo de pessoas, para dar voz aqueles que não têm voz e desempenhar uma função essencialmente comunitária. Durante os primeiros passos, algumas divergências ideológicas surgiram e daí aconteceu o Racha entre os integrantes (fato que consequentemente aconteceu com várias rádios comunitárias após o surgimento de elas). Os que se sentiram prejudicados, afirmavam que um determinado grupo usava a rádio para benefício próprio e por isso foram até o local para ocupá-lo. A polícia federal foi acionada para retirá-los do local. A edição do vídeo foi muito bem realizada e dividiu a narrativa em três atos. A grande maioria dos planos são fechados, exceto as imagens da cidade em grandes planos, apresentando ao espectador belas paisagens e monumentos históricos da cidade. Apesar de toda uma divulgação sobre a Mostra, uma pequena parcela da comunidade prestigiou o evento. menos de três mil pessoas circularam por a Praça Ruy Barbosa desta cidade, durante todos os dias do evento. A Mostra concorreu com o final da novela das 20:00h da Rede Globo e como todo nosso país é educado audiovisualmente por as novelas desse canal, ou através da locação de dvd's de filmes hollywoodianos, qualquer produção cinematográfica brasileira perderia de lavada. Em se tratando da região sul da Bahia, exceto Itabuna que possui um cinema (que exibe filmes comerciais) as únicas formas de acesso ao audiovisual, são as citadas anteriormente. Discute-se a priori, não sobre a efetividade do evento, mas sobre a necessidade de se (re) educar o público, para as nossa produções audiovisuais e acima de tudo, para a valorização da nossa cultura. Será que todos sabem que praticamente todos os filmes nacionais de longa-metragem são financiados por o nosso bolso? O imposto que pagamos é convertido em lei de incentivo à cultura. Será que isso é o suficiente para haver uma discussão sobre o fato ou é preciso outra perspectiva? Foi um momento ímpar, poder prestigiar produções baianas a nível internacional, sendo exibidas num palco, ao lado do Cine Teatro Éden, o cinema tombado, que atualmente funciona uma loja de moveis (representação da situação cultural da cidade). Podemos observar uma confusão na cabeça de várias pessoas, quando se depararam com imagens provocantes como às do filme Eu me Lembro nas seqüências de nudez, sexo e drogas e em algumas seqüências do documentário Dona Nena, com as possessões durante o caruru. Pessoas que confundiram Riachão com Dorival Caymmi e Dorival com Jorge Amado. Será uma jornada difícil, cheia de peripécias e pontos de virada, mas precisamos levar o acesso destas produções, às populações que não têm. No meio do caminho, várias pedras. Covardia maior é saber que pedras existirão e desistir antes de passar por elas. Continuemos caros irmãos, nesta eterna luta. Usando do nosso pensamento íntimo, para a construção de um pensamento coletivo, na busca de mais uma revolução. A revolução da cultura. A revolução do audiovisual. Edson Bastos Número de frases: 44 edsonchunior@gmail.com www.edsonbastos.blogspot.com A nossa overmana Ize, Maria Luiza Magalhães Bastos Oswald e a colega de ela Rita Marisa Ribes Pereira organizaram o livro Infância e Juventude -- Narrativas Contemporâneas, de um conjunto de autores acadêmicos. A edição teve um lançamento comentado em fins do último abril em Porto Alegre num encontro nacional de Educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Lendo o trabalho, entendo que o conteúdo e a tese que aborda exigem a mais ampla publicidade. É o que estou fazendo nessa apresentação, que não é exatamente uma resenha do livro escrito, mas impressões da leitura do meu exemplar autografado e que trata de coisas que uma filha minha de 17 anos faz há já uma década, o que nos diz também o livro já na apresentação, alto e bom tom: as inovações tecnológicas deslocam a cultura ocidental de seu eixo letrado. Um cosplay é uma forma de leitura do mundo, assegurou-me Ana Laura, essa filhota minha de quem falei. E ela, a publicação, trata à excelência das maneiras de entender o mundo que pode ser percebido de diversos modos e da disputa já multissecular de letrados, oralistas, imagéticos, apocalípticos, integrados e tantãs ... aqui não exatamente os tambores. E já na apresentação, que resume a obra inteira, pode-se ler: -- Crianças, jovens e adultos são sujeitos históricos que produzem cultura ao mesmo tempo em que se produzem em ela. Em sendo assim, alerta, as produções culturais são grandes espelhos por onde as sociedades se olham, se repensam, se recriam Eu penso que nenhuma pessoa, menos ainda um profissional, seja ou não de Educação, que já foi criança, já viveu sonhos e desilusões juvenis, já foi de gang, de crew, de grupo, de turma, de patota, o escambau, pode deixar de entender que este mundo que já lemos por nossos códigos, tem novas leituras possíveis, diversas, por as juventudes que nos sucedem, nossos filhos, nossos netos, que, inclusive, dispensam olimpicamente a chamada cultura letrada e se atiram de cabeça, tronco, membros e alma limpa nas ilustrações e imagens, sejam em que suportes se apresentem, sendo elas mesmas, muitas vezes, os suportes das leituras que fazem e das leituras que propõem ... quase uma metamorfose ambulante. Número de frases: 14 Em a minha infância, uma vez por ano, eu comia muito cocô de rato. E suspiro, e maria mole, e peito de moça, e doce de abóbora -- em formato de coração, durinho por fora e molenga por dentro ... Guloseimas típicas dos saquinhos de São Cosme e São Damião -- que quase não se encontram à venda no resto do ano!, que todo dia 27 de setembro, eu e milhares de crianças disputávamos por as ruas do meu bairro. Tempos felizes de uma tradição brasileira que parece estar morrendo. Durante muitos anos, eu integrei um «arrastão festivo e infantil», que não assustava a ninguém, na busca por doces. Éramos todos coleguinhas, irmãos, vizinhos. Em as mãos, sacolas plásticas para guardar o maior número possível dos saquinhos de papel, predominantemente verdes e com a estampa de Cosme e Damião. Em aqueles tempos, não havia ainda saquinhos plásticos. E todos tinham o mesmo tamanho. Quando a sacola enchia, era hora de fazer um pit stop em casa -- e despejar o conteúdo em bacias ou panelas. Em o final do dia, geralmente, eu e minha irmã Sandra tínhamos duas vasilhas cheias de guloseimas, cada uma. E separávamos os preferidos para consumo mais imediato -- no meu caso, além dos que citei acima, ainda tinham os pirulitos, a geléia de duas cores (amarela e vermelha) e com cobertura de açúcar, e muitas balas, como Juquinha e 7 Belo. Estoque garantido para a semana inteira. E, não raro, no final ainda jogávamos doces fora. Por muito tempo, meus pais distribuíram doces. Primeiro, em cumprimento a uma promessa de minha mãe. Depois, só por a tradição mesmo. Montávamos os saquinhos na véspera, geralmente. Em os anos iniciais, minha mãe também preparava uma mesa, com pratinhos de canjica e de doces, para sete crianças. Todas até 7 anos de idade. Era uma festa! E, na hora de dar os doces, um alvoroço só no portão de casa. Era só juntar duas ou três crianças para chegar, sabe-se lá de onde e como tão rapidamente, um bando de pequeninos de todas as idades, alguns de colo ainda, carregadas por suas mães ou irmãs mais velhas, algumas grávidas. E suas mãos disputavam freneticamente os saquinhos. Quase sempre havia mais crianças do que saquinhos. E ainda tinham os espertos que queriam -- e, às vezes, conseguiam -- pegar mais de um. Em a tentativa de driblar essa esperteza da garotada e também evitar a decepção de alguns que saíam sem os saquinhos, tinha gente que optava (e acredito que ainda há quem o faça) por distribuir cartões de véspera. Cada cartão, um saquinho. Mas qual o quê? Em a hora da distribuição, sempre aparecia criança de última hora e sem o tão cobiçado vale-guloseimas! Dificilmente sobravam doces. Foi exatamente num ano em que sobraram saquinhos em minha casa que percebi que a tradição de São Cosme e São Damião sofrera um baque. Em a época, meu pai passara a distribuir os saquinhos, que não eram tantos, somente entre filhos dos vizinhos -- muitos dos quais cresceram disputando as guloseimas com mim e no nosso portão. Batia de porta em porta, numa entrega de saquinhos em domicílio! E, como disse, chegou um tempo em que ele voltou, triste, para casa com a sacola ainda cheia de doces. A maioria dos vizinhos recusara as guloseimas, porque havia se convertido a uma religião evangélica, contrária à distribuição dos doces de Cosme e Damião. Depois disso, acho que nunca mais comemoramos o 27 de setembro com doces na minha casa. Sinceramente, não vejo o costume de dar doces de Cosme e Damião sob o ponto de vista religioso. Muito embora saiba que a festa está muito ligada à Igreja Católica e aos cultos afro-brasileiros, como a Umbanda e o Candomblé. Mas, pra mim, o que mais importa é a tradição. Vejo-a como parte do folclore nacional. Como uma festa que deve ser preservada. Um halloween tupiniquim, no melhor sentido da expressão. Cultura típica brasileira! E por vê-la como cultura, e sob ameaça, propus no Fórum, há algum tempo, uma pauta coletiva no Overmundo sobre essa tradição, mostrando as particularidades de cada região do país. Lá soube por o Benny Franklin, por exemplo, que no Pará se distribui bombons. Já a Crispinga lembrou que muitos motoristas saem distribuindo doces por as ruas da Zona Sul do Rio e também há quem prefira concentrar a ação em orfanatos. Já o Humberto Firmo, de Brasília, contou que por lá havia o costume de se pintar os dedinhos das crianças, para evitar que elas tentassem ganhar mais de um saquinho -- algo que nunca ouvi falar antes! São tantas curiosidades Brasil a fora. Tomara que possamos registrá-las por aqui. Já há pelo menos dois textos: o Viktor Chagas, do Rio, escreveu sobre a procura por doces em seu prédio e a Priscila Silva, de Aracaju, nos trouxe informações sobre a história dos santos, a tradição no Candomblé e na Umbanda, principalmente na Bahia, onde é costume comer caruru, além dos doces. E no dia 27 passado saí por as ruas, numa tentaiva de registrar a tradição aqui na Baixada Fluminense. Em a minha rua, não vi nenhum movimento especial. Em uma das maiores distribuidoras de doces do centro de Nova Iguaçu, o movimento era fraco. «Antigamente a loja ficava lotada nessa época de Cosme e Damião. Esse ano, não vi diferença alguma dos outros dias. Ainda tem um ou outro freguês que compra mais doces para distribuir, mas pra mim essa tradição acabou», afirma Telmo Martins, um dos sócios da Distribuidora Parada. Para ele, a razão principal é a falta de dinheiro do povo. Também há muitas pessoas que mudaram o calendário: preferem dar doces no Dia das Crianças, 12 de outubro. Em a loja, de carrinho cheio, a cabeleireira Sandra Maria de Almeida alimenta minhas esperanças de que a tradição não se perca. «Esse ano vou distribuir uns 500 saquinhos. Já teve ano em que dei dois mil. É uma tradição que mantenho há 16 anos», diz ela, que mora na Suíça, mas a família reside em Santa Rita, um bairro pobre de Nova Iguaçu. Segundo Sandra, a festa ainda é forte na sua rua (Infelizmente, não pude assistir à festa lá!). E, mesmo quando não pode vir ao Brasil, não deixa as crianças na mão: sua família faz a distribuição de doces por ela. Mas se tem costume, então por que está comprando tudo em cima da hora? «Ah, eu já tenho um monte de saquinhos lá em casa. Eu distribuí cartões, mas sei que sempre aparece mais crianças. Por isso, vim comprar mais doces», explica, empurrando o carrinho de supermercado cheio de caixas de cocada, pé-de-moleque, maria mole e, é claro, cocô de rato -- ou melhor, pipoca de arroz, em saquinhos de 2 g. Você já experimentou cocô de rato? Tomara que sim. Número de frases: 75 Eu não resisto, e após tirar a foto principal dessa página, mato as saudades dos meus bons tempos de criança! De os vários milhares de autores que todos os anos tentam ser publicados por as editoras chamadas convencionais, apenas alguns poucos conseguem alcançar seus objetivos. E quando se trata de autores estreantes, são menos ainda. Independentemente de ser um autor estreante ou não, uma vez sozinho, ele tem de investir tempo e dinheiro na busca de editoras, em registrar sua obra, enviar cópias para editores e ... aguardar respostas que, na imensa maioria das vezes é uma negativa e que, indefectivelmente demoram meses e meses a chegar. A função do Agente Editorial é ser o elo de ligação entre o autor e a editora, concentrando todos os esforços para a publicação da obra numa única pessoa e, assim, evitando perda de tempo e dinheiro para o autor. O Agente Editorial é o primeiro a avaliar a obra e é o profissional que deverá levá-la para a editora que melhor se enquadre no perfil do trabalho apresentado. Além disso, também é função do Agente Literário cuidar do contrato que o autor celebrará com a editora e de todos os processos burocráticos compreendidos por essa negociação. Também é função do Agente Literário fiscalizar a divulgação, a distribuição e a comercialização da obra por a editora e, até mesmo em pontos de vendas, no sentido de possibilitar ao autor as informações sobre esses processos. No que diz respeito ao relacionamento do autor com a mídia, é da responsabilidade do Agente Literário orientá-lo nas entrevistas e nos eventos em que a presença do autor for solicitada. A remuneração do Agente Literário é feita através de um acordo com o autor e pode ser de várias maneiras, desde a cobrança de uma taxa mensal por um determinado período de assessoria, a um percentual sobre os ganhos em direitos autorais, percentual este que pode variar de 10 a 20 % sobre o montante de ganhos do autor. por Georges Kirsteller Fonte: Editora K2 (www. k 2 editora. Número de frases: 14 com. br / agenciamentoliterario) Recentemente foi disponibilizado para download no site do Trama Virtual, o último trabalho da cantora e compositora soteropolitana Manuela Rodrigues: Rotas. Uma mulher que, quando ainda menina (segundo as histórias da própria gurizada do prédio na época), treinava piano num desenho de teclado que fez na sua própria cama. Lenda ou não, só ela pra confirmar, mas certamente talento e gênio comprovados através deste trabalho e das rotas que já percorreu. Abaixo uma apresentação mais detalhada, retirada do próprio Trama Virtual, desta artista pronta para o Brasil. Ouçam que beleza de som! Versatilidade e talento a toda prova Uma artista versátil. Esta é Manuela Rodrigues, cantora, compositora e atriz. O talento para as artes foi revelado cedo, ainda na infância, quando aos nove anos iniciou o estudo erudito do piano. A música popular caminhava lado a lado com o conhecimento musical acadêmico, que culminou com a graduação em Canto Lírico por a Universidade Federal da Bahia. A formação de multiartista se revela em seu currículo de diversas maneiras. Somente no ano de 2005, Manuela apresentou seu show Rotas, baseado no CD homônimo, atuou no espetáculo teatral Boca de Ouro, fez a preparação vocal do elenco da peça As Noviças Rebeldes e ainda participou como cantora e compositora do Festival de Música da Rádio Educadora da Bahia. Em o caminho desde o estudo do piano, e, mais tarde, da flauta, à opção por a música popular, Manuela se descobriu como compositora. Ainda adolescente, com 15 anos, escreveu a música Velha História, que abre seu CD de estréia, Rotas. A porção cantora se exercitava com sua participação no grupo musical Octeto Vocal Sai do Canto, grupo com o qual participou de gravações de CDs de artistas como Fafá de Belém, Tuzé de Abreu e Joatan Nascimento. Junto ao grupo, Manuela expandiu seu conhecimento do repertório de música brasileira e de arranjo, graças ao contato com o compositor e arranjador Sérgio Souto, diretor do Octeto. A os 21 anos, recém formada em canto lírico, Manuela deu um novo passo em direção à carreira profissional: recebeu uma bolsa para estudar música em New Orleans, nos Estados Unidos. Em o berço mundial do jazz, Manuela descobriu semelhanças culturais com Salvador, sua cidade natal. De entre coisas que realizou antes de viajar estão sua participação como corista na Orquestra Sinfônica da Bahia, na ópera Aida (1998), regida por o maestro Pino Onnis e em concertos do Madrigal da UFBA -- onde foi bolsista durante os dois anos -- regida por o maestro José Maurício Brandão. Como solista, participou de recitais, além de concertos com a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia. Recém chegada de New Orleans, a busca por a liberdade musical, improviso e por a experimentação musical levaram Manuela ao trabalho autoral de MPB. Apresentando-se em teatros da cidade ela foi premiada com o Braskem de Cultura e Arte de 2003, com seu projeto Rotas. Seu primeiro CD, que leva o mesmo nome do projeto, foi gravado no mesmo ano. Músicas deste trabalho participaram e foram premiadas em festivais de todo o Brasil, a exemplo das canções De Volta (melhor arranjo no festival Sesi), Enquanto Eu Me Encontro (26º FEMUCIC), Só Bermudas e Profisssional Liberal (Festival Educadora FM 2004 e 2005, respectivamente). O interesse por o trabalho de intérprete levou Manuela a buscar o teatro. Como atriz, estreou em cena com Curso Livre de Teatro da Ufba, em 2004, ano em que apresentaram como resultado cênico a montagem «Pouco Amor Não é Amor», com direção de» Pedro Henriques. Boca de Ouro, montagem dirigida por Paulo Cunha em 2005», foi o segundo trabalho como atriz de Manuela, também como parte do Curso Livre. Ainda em 2005, foi convidada por a TVE-Cultura Nacional para gravar um especial. Trabalhou também como preparadora vocal, unindo música e teatro, com o elenco de As Noviças Rebeldes, peça da Companhia Baiana de Patifaria, dirigida por Wolf Maia. Mais uma prova da versatilidade da artista. Número de frases: 33 (Fonte: Manuela Rodrigues, Trama Virtual) Uma música composta com pré-inten ções de vanguarda, certamente, estará presa ao seu tempo. E que mal há nisso? Os Beatles sabiam que disco finalmente sairia quando preparavam o Sgt. Peppers? Tudo já foi feito, disseram-me, não há mais necessidade de novas canções. As bandas parecem balas perdidas, e quem se beneficia da confusão? Não há vítimas nestes tiroteios, os calibres crescem, de vez em quando soltam algumas bombas atômicas, elas vêm aos montes, as rádios estão cheias de hidrogênio, e nos becos, as bandas que se intitulam independentes estão com suas espingardas de festim, mas loucos -- alguns de eles, sejamos justos -- para adquirir as suas automáticas, e não se importando de que modo venha essa arma. Não há tráfico na música. Tudo é permitido. «Eu não sei fazer música, mas faço. Eu não sei cantar as músicas que faço, mas canto. Ninguém sabe nada." O simples fato de tocar uma guitarra era considerado um ato de vanguarda, hoje em dia ... Ouvir um frevo de Capiba numa rádio de Recife é muito difícil, quanto mais uma nova canção do Mombojó, Eddie, Profiterolis, Rádio de Outono etc ... Ou ainda Cidadão Instigado, + 2 etc. Isto é vanguarda, vanguarda é uma palavra velha, uma palavra de retaguarda, eu amo as curvas, as parábolas ... As bandas que tentaram a ousadia, que tentaram algo novo, mas sem pensar em conseqüências, fizeram com honestidade, e quando se viram, algo de ali brotava, mas depois, acabaram caindo numa armadilha, os seus contemporâneos teimavam em descaradamente imitá-los, sugando assim toda a sua força criativa, como posso reinventar uma velha forma? ... Vejam o caso dos Strokes, não há nada demais nesta banda, mas quantos urubus surgiram em seus calcanhares? E quantos urubus brotaram dentro dos mangues? As minhas palavras são sem nexo, não sou jornalista, por isso prezo por a confusão de assuntos, não tenho que dar satisfação a ninguém. Número de frases: 19 Quando você fala que quer fazer um filme que se chama O Cheiro do Ralo, a reação é sempre imediata. Ou gera curiosidade, ou repulsa. Em o meu caso, foi curiosidade. Curiosidade gerada por o Heitor, meu amigo e diretor que me fez ler o livro, o roteiro e comprar de cara essa idéia louca. O passo seguinte foi trazer meu primo Matias, recém formado na NYU, bem sucedido produtor executivo num low budget (o nosso bom B.O. em verdinhas, rodado no Brasil por um diretor russo com dinheiro Americano), para conhecer o Heitor e também o projeto. Matias foi mais um que comprou a estanheza do nome, do livro, do diretor, do roteiro. Somados aos outros dois produtores, Rodrigo Teixeira e Marcelo Dória, então sócios na GC, tinhamos um time completo e dinheiro suficiente para rodar o Cheiro. Heitor dizia que colocaria o filme na lata com trezentos mil reais. De onde veio esse número? De a cabeça do nosso diretor, que até hoje não consegue nos explicar qual foi a equação matemática que usou para chegar em ele. Só sabemos que ela começou com o produtor de elenco, Chico Aciolly, dizendo a ele que depois de um ano tentando captar dinheiro de empresas sem sucesso, ele deveria tirar o Cheiro do papel mesmo sem incentivo. Bom, aconteceu. Matias pode dizer melhor do que eu como trezentos mil se encaixaram no orçamento, mas acho que a melhor forma de se explicar é que o orçamento se encaixou em trezentos mil (corrigindo: trezentos e trinta. Apareceram mais trinta mil aos quarenta e cinco do segundo tempo). Era o que tínhamos, nem mais nem menos, até porque mais ou menos sairiam do bolso de cada um de nós. Vale dizer que este orçamento não deve ser considerado real. O filme só custou tão pouco porque foi formado um esquema de cooperativa entre todos os cabeças de área da equipe. Traduzindo. Fotógrafo, diretora de arte, figurinista, maquiadora e claro, diretor, produtor executivo e assistente de direção (essa que vos fala) foram pagos com uma porcentagem do filme. E vale dizer também que toda a preparação que o Heitor faz nos seus longas foi fator essencial para que não se estourasse o orçamento. Foram meses de análises técnicas, planos de filmagem, conversas com equipe, tudo isso antes mesmo de entrarmos em pré produção. É o tipo de set que você entra confiante de que nada vai dar errado. Claro que dá, mas fica muito mais simples de consertar. Eu penso que tudo o acontece numa filmagem, mesmo que não esteja ao alcance das câmeras, fica impresso na película. Se você for ver o Cheiro, você vai ver que o set está lá. Foram quatro semanas com todo mundo acordando as cinco da manhã morrendo de vontade de chegar lá e fazer acontecer mais um pedacinho daquela história. De ver o Selton incorporado com aquele personagem que a gente amava, depois odiava, depois morria de pena, depois queria matar, depois achava engraçado e assim por diante. De ver o Lourenço Mutarelli, autor do livro que deu origem ao filme, atuando brilhantemente como o segurança da loja de Lourenço, o personagem (significativo assim). E cada ator que entrava ali para vender alguma coisa duelando com Selton / Lourenço. Isso sem falar na Paula Braun e na Silvia Lourenço, que dispensam comentários. ( veja o filme e me diga se estou errada.) Depois de quatro semanas, a gente sabia que, mesmo que o Cheiro seguisse sofrendo preconceitos por causa do nome, aquilo ali ia virar um puta filme. Mesmo que nenhuma distribuidora quisesse peitar o mercado, tinha valido cada centavo daquele dinheiro. Mas claro que isso é discurso romântico, a gente queria uma distribuidora e saiu correndo atrás. E foi aí que o Estação apareceu para a gente, e apostou no filme antes de qualquer reconhecimento, antes dos três prêmios no Festival do Rio, dos outros três da Mostra de São Paulo, antes da seleção para a Sundance, Punta, Guadalajara e mais um monte de milhagens aéreas. E aqui estamos, a uma semana da estréia, estressados, cansados, nervosos, mas acima de tudo, felizes. Todos nós não só queremos, mas estamos fazendo de tudo para que o Cheiro seja para os outros o que ele já é para a gente: um sucesso. Já valeu. Número de frases: 38 Tomara que valha ainda mais. Caixas estampadas com a história de Cáceres, peças de biojóias feitas com materiais reciclados, cerâmica, vestimentas feitas por artistas da terra, especiarias gastronômicas de diversos gêneros, entre muitos outros produtos culturais comporão a seleção artesanal que estará disponível no quiosque Ispiaqui a partir do dia 09 de dezembro. O espaço faz parte do projeto de aproveitamento do resíduo do coco verde, cujo consumo produz só em Cuiabá 190 toneladas do lixo destinado aos aterros sanitários municipais. O dado foi levantado por o Instituto Vetor, numa das cerca de dez pesquisas promovidas por o projeto com foco na identificação do potencial econômico do setor e no mapeamento da cadeia produtiva do fruto em municípios do estado. Além de itens voltados para jardinagem, indústria têxtil e engenharia civil, peças de biojóias, xaxim, vasos, entre outros artesanais são exeqüíveis a partir da fibra do coco, é o que conta a artista plástica e pesquisadora, Margarette Regina Borges, idealizadora da iniciativa. «Com minha formação de designer, observei a potencialidade artística da fibra do coco. Foi aí que resolvi elaborar o projeto e desenvolver as pesquisas, inscrevendo-o em editais como o da FAPEMAT, que encampou a idéia e financiou a empreitada», conta, revelando que ainda há outros estudos em andamento. Enquanto os últimos diagnósticos estão sendo levantados, o projeto segue em ritmo forte com o lançamento do «Ispiaqui». A idéia é criar no Mercado do Porto, espaço tradicional na cidade, um ponto de popularização de cultura, ciência e tecnologia. «Nada melhor que o mercado popular para incentivarmos os artistas a trocar knowhow, ocupando um espaço que agrega um público de várias classes sociais, estimulando assim uma cadeia produtiva e mostrando de maneira cooperativa as produções culturais oriundas de nossa terra», defende Borges. O espaço está aberto a todos os artistas que tiverem interesse na comercialização de seus trabalhos. Para isso, basta que entre em contato através do número que será disponibilizado abaixo. Ispiaqui -- Pelo menos vinte e cinco artistas terão seus trabalhos expostos a partir deste sábado, na inauguração do espaço. São peças produzidas em Cuiabá, Cáceres, Juína, Chapada dos Guimarães, entre outros municípios do estado, que comporão o acervo disponível ao público do Mercado Municipal. Coleções como a Vila Maria Artesanato, projeto cacerense com vistas ao desenvolvimento do turismo e artesanato da região sudoeste de Mato Grosso, com suas caixas decorativas com ilustrações da história do local; Almofadas bordadas com estórias do bairro Renascer capitaneada por a Fundação Alphaville; Bijouterias feitas com aproveitamento de garrafas PET, e outros; bonecas de palha de milho feita por as mãos de artistas do Assentamento Cabocla, a 30 km de Livramento; bolsas de jornais, compotas de doces, bombons com frutos da terra, geléia de pimenta, torradas com especiarias. Uma diversidade que agrega nomes diversos do artesanato no estado. A curadoria foi feita por a produtora cultural Marina Capilé, que através de levantamentos realizados junto ao SEBRAE, entidades representativas de classe e artistas locais, buscou mapear a produção do gênero e convidar neste primeiro momento, os artistas a conhecerem o espaço. Além da plasticidade das peças, revela ela, uma das questões priorizadas na seleção dos trabalhos foi a preocupação com a questão ambiental. «O projeto de aproveitamento do resíduo do coco tem essa proposta. E há artistas que fazem dos resíduos motivas de sua obra de arte. Por isso a importância deste ponto cultural, que além desse aspecto, tem um potencial turístico que agregará valor ao Mercado do Porto», avalia. Marina também destaca a importância do estímulo à cultura do consumo de obra de arte como forma de impulsionar a atividade dos fazedores de cultura em MT. Cultura -- Formação, Produção, Circulação e Consumo são quadriláteros que compõem a cadeia produtiva da cultura, conforme pontuou Carlos Prestes Filho, em seu livro, Economia da Cultura. O «Ispiaqui» vem atender tanto o viés de produção, estimulando os artistas à elaboração constante de novos trabalhos e o consumo do público num espaço permanente de cultura num dos ambientes mais democráticos da cidade. A iniciativa é encabeçada por a ONG AMATERRA em parceria com a empresa Olho Verde. Número de frases: 29 A o Sr Secretário de Estado da Cultura do Maranhão, João Ribeiro. 01. Terça feira, 05 de agosto de 2008. Por ser São Luís, estava quente. Entrei na repartição por o único motivo possível: dinheiro. Após alguns minutos, fui encaminhado ao departamento financeiro. Lá, descobri que do total de 6.225,00 R$ que a repartição me devia, 1.186,79 R$ seria retido como imposto de renda. «E ele vai ter que comprar uma nota fiscal avulsa, viu, lá na prefeitura», disse a funcionária pública, à outra, ao telefone. Também soube que teria que me cadastrar no Siagem. «Então ele vai ter que se ca ¬ dastrar, se não ele não tem como receber. Porque o Estado só paga, meu filho, se for cadastrado." Falei que não abriria uma nova conta em banco e ouvi que então o problema era meu e que «se não fizer isso você não recebe, querido». Disse que eu teria que me cadastrar como prestador de serviço e receberia dentro da misteriosa «rubrica 32», quando antes eu já havia dito com todas as letras: -- Eu não estou prestando serviço para o governo do Estado, eu ganhei um concurso! 02. O concurso em questão é o que carrega o nome do Gonçalves Dias ou o plano edito ¬ rial 2007, lançado em meados do ano passado. O nome em si carrega dois contra-sensos, já que aparentemente não há nenhum plano por trás do prêmio e, obviamente, não se editou nada. O objetivo de «estimular e valorizar a produção literária no estado», estampado no edital, ganha ares anedóticos com o desenrolar dos fatos, e mostra o comprometi ¬ mento, interesse e competência da Secma em gerir as propostas que a mesma Secma formula. O plano amontoa uma série de equívocos e esta carta é um pequeno relato de minha experiência com ele. Mandaria um rim no envelope se tivesse me sobrado. 03. Quando me inscrevi no prêmio, cometi a patacoada ingênua de achar que a repartição seria capaz, em algum momento, de compreender, lidar ou editar uma ou um conjunto de obras literárias. Com a iminência de publicação e pagamento dos prêmios dois meses antes das eleições, me vem a idéia de que talvez eu possa ter sido ainda mais ingênuo e que compreender, lidar e editar um ou um conjunto de obras literárias deveria realmente ser um papel para editores profissionais e não de FPs. Trabalhos inscritos, a premiação, que originalmente seria divulgada no dia «19 de novembro, no site da Secma», só saiu no dia 14 de janeiro do ano seguinte. A repartição ar ¬ gumentou que «a demora na divulgação do resultado deu-se em virtude do volume de obras inscritas», o que demonstra, como eu diria ... um certo despreparo em operacionalizar seu edital, ou ainda a incapacidade de lidar com um edi ¬ tal que apresente bons resultados, dando a entender que a competência da Secma é di ¬ retamente proporcional à impopularidade de suas ações. O fato é que o atraso já deve ¬ ria constar aos senhores como um alerta de que algo estava errado em vossa gestão (ou seria normal?) e que as pessoas que confiaram à secretaria suas obras mereceriam al ¬ gum respeito. Vale lembrar que a promessa feita ano passado, como adendo à desculpa por a trapalhada, foi de que o novo edital sairia mais cedo, para que não houvesse atraso nos resultados. Este prazo vocês (também) já perderam. A Sra do financeiro, que se identificou como Maria, respondeu, ao ser questionada sobre as exigências não estarem no edital, que " aí eu não sei, se erraram isso lá por o edital isso é problem ... ehhh ... o SADC que tem que te explicar o que eles botaram no edital», também me disse que o pagamento do plano do ano pas ¬ sado está sendo feito com dinheiro do de este ano, já que o de 2007 foi devolvido por não ter sido pago a tempo por vocês, o que me faz pensar em como os pobres inscritos no prêmio deste ano receberão. Saí da Secma com um nó de ódio enfiado na garganta, por ter sido humilhando, ter perdido meu tempo e por morar num lugar no qual o Estado se põe a editar livros e promove um embuste. 04. O edital diz que «Após a divulgação dos resultados, os autores contemplados terão o prazo improrrogável de 72h para a entrega dos originais definitivos, que serão enca ¬ minhados para a gráfica, para impressão e publicação», mas no documento do resul ¬ tado consta que» Os contemplados devem aguardar o contato da Secretaria, que lhes orientará com relação à entrega dos originais para publicação das obras e agendará so ¬ lenidade de premiação». Tanto os originais não foram requeridos como este contato nunca aconteceu, a «solenidade», suponho, deve estar marcada para breve. A palavra «grosseiro» seria elogiosa para descrever o edital, do qual se espera algum valor legal, coerência, informações precisas e que fale com a seriedade e lisura que se exige de uma secretaria de estado. 05. mais de sete meses se passaram do resultado e eis que recebemos um e-mail da repartição, infor ¬ mando a intenção do pagamento do prêmio. Foi-nos solicitado que levássemos «com a maior brevidade» (no que se constitui um humor refinadíssimo. Parabéns!), documentação que incluía um nada-consta da Caema! Por o que entendi (e repliquei o e-mail pedindo detalhamento), o procedimento seria o seguinte: Primeira fase: Ir ao Shopping do Cidadão (constava assim no e-mail) e conquistar o nada-consta com a Caema. Segunda fase: Obter cópias de RG, CPF, comprovante de residência e extrato de uma conta corrente no nome do beneficiado. Terceira fase: Entregar toda a documentação na repartição, que lhe agraciaria com uma declaração. Quarta fase: Entregar esta declaração no Siagem, para então obter o cadastro como prestador de serviço do governo do Estado! ( esta fase poderia ser pulada se você fosse funcionário público). Quinta fase: «Comprar» nota fiscal avulsa na prefeitura e, naturalmente, pagar os impostos devidos (no meu caso, teria de tomar emprestado os já citados 1.186,79 R$). Sexta fase: Retornar à Secma com a nota fiscal, entregá-la e esperar o depósito. Fase final: Virar o novo Gonçalves Dias! Nenhum destas fases consta no edital e também não há nenhuma menção à necessidade de conta corrente, nada-consta, inscrições como prestador de serviço e muito menos à participação em algum tipo de gincana de humor negro. Nenhuma das exigências se sustenta dentro do nosso acordo. 06. Em a minha opinião, a Secma falhou antes de tudo com o restante da gestão esta ¬ dual e da imagem que de ela se registrará, no que tange as ações voltadas para o fomento da literatura. A repartição parece ter cabulado a aula básica do exercício do poder, que diz que apontar o que há de melhor na produção literária de um lugar é exercer autoridade e legitimar o próprio papel do Estado. O recorte obtido por o que se referenda, edita e distribui é nada mais que um recorte de si mesmo e o que se vê é que o recorte da Secma é o do atraso, na inação e da nulidade de suas pró ¬ prias propostas, no que vocês provavelmente argumentarão ser tradicionais na gestão do Estado e que eu treplico com vossos próprios slogans de campanha. Se há algum tipo de estratégia genial por trás disso que me tenha escapado, por favor, esclareçam. 07. O fato é que até hoje não recebi nada, não tive nenhuma obra editada por a Secma e me sinto desrespeitado, lesado e ofendido por a falta de seriedade desta secretaria. Nenhum desconto estava previsto e não posso de forma alguma aceitá-lo. Não entrega ¬ rei meus originais para impressão por esta secretaria. Se vocês trataram o prêmio assim antes da publicação, imagino que o que farão com o material impresso (no caso, 700 cópias de cada título) será, no mínimo, tão amador quanto. Minha obra é melhor que sua repartição. Tenho ver ¬ gonha da Secma e me sinto burro e derrotado por ter achado que um apinhado de fun ¬ cionários públicos pudesse ter consciência da importância de suas ações e capacidade técnica para operacionalizar seu ofício. Imagino que a sensibilidade exista por o simples fato de ser uma gestão «de artistas», carregada de uma aura messiânica que reflete a esfera federal, mas a capacidade técnica, no tocante ao plano editorial, me faz pensar que o Maranhão ainda precisa de bons compositores. A repartição não demonstrou nenhum planejamento ou preocupação em relação ao prêmio e parece fazê-lo mais por pressão de lei que por alguma compreensão de que seu metiê, a «cultura», difere do pa ¬ pel mais exposto do Estado de construir pontes, tapar buracos e jogar responsabili ¬ dades para os mandatos vizi-nhos. A Secma deve aos autores um pedido formal de desculpas, por atrasar suas obras e seus planos para elas, inadimplência e por usar de burocracia autoritária para efetuar os pagamentos. A Secma me deve dinheiro e isto, para parafrasear sua nobre colega, é problema inteiramente de vocês. E viva a maranhensidade! bruno azevedo Número de frases: 77 bazvdo@hotmail.com São Luís, 19 de agosto de 2008 Em ano de eleições e de copa do mundo o ano (parece que) não começa nunca, o pontapé inicial está sempre sendo adiado. Mais do que isso, sempre se tem uma desculpa para protelar as coisas; um celular (bola da vez) que, de mero coadjuvante, passa a ser o foco (desfocado) das atenções, mas nem por isso a vida pára. Efetivamente, segue. Como tenho certeza que, para muitos, ainda não consegui ser claro, esclareço que: o texto não pretende desvendar absolutamente nada, mera conversa jogada fora, conversa pra boi dormir como diriam os antigos. A os que pretendem seguir lendo, vamos lá; aos que param por aqui, obrigado por a atenção. Começo fazendo uma pequena retrospectiva. O ano começou daquele jeito, janeiro e fevereiro são meses de férias, afinal de contas, ninguém é de ferro. Em fevereiro (deste ano), como na maioria dos anos, carnaval. Em março foi a vez da ressaca do carnaval, neste caso, me refiro aos lugares em que a folia já havia, aparentemente, terminado. Abril, para contribuir com 2006, um feriado por dentro do outro, oficiais, se contarmos com o dia 1 de maio, foram três, sem contar o povo que, em muitas repartições públicas, simplesmente, deu aquela esticadela (um pouco de refresco não faz mal a ninguém). Maio, além de ser véspera de Copa do Mundo e os preparativos para o evento andarem a todo o vapor, o PCC resolveu dar uma força e parar São Paulo por uma semana. Agora vou dar uma de Nostradamus dos trópicos (gelados), uma espécie de previsões para os próximos meses andarem daquele jeito: Junho e julho tudo girando em torno da Copa do Mundo. Em dia de jogo do Brasil todo mundo parando antes para acompanhar a amarelinha (teve gente que nem foi trabalhar, outros aproveitaram para pedir folga ou para compensar horas trabalhadas a mais). Nos demais dias, com um olho no gato e outro no peixe, trabalhando e acompanhando os possíveis, possíveis e possíveis futuros possíveis adversários do Brasil (e secando a Argentina, é claro). Independente do resultado da copa a ressaca será a única certeza. O que me faz imaginar que julho será um mês daqueles, sem contar que é um mês de férias para alguns. A outra certeza é que o fígado vai estar em frangalhos. Se o Brasil ganhar a tal da copa, em agosto (setembro, outubro ...) ainda vai ter neguinho comemorando. Euforia pura, não me assusta em nada se o Enéas ou qualquer outro maluco for eleito presidente do Brasil (que me perdoem os eleitores tradicionais do Enéas). Em a euforia prolongada (se essa rolar) o brasileiro se solta e põe pra fora as suas emoções (e um sentimento de nacionalismo aflora nessas horas, talvez, apenas nessas horas. É uma beleza). De julho em diante posar para fotos com a seleção será uma espécie de passaporte para o sucesso (se o Brasil ganhar, já proponho uma aposta, quem será o Vampeta da vez que descerá a rampa do planalto rolando?). Se o Brasil perder vai rolar a foto também, só que com aquelas caras amarelas que nem a camiseta canarinho-belga. Mesmo agosto sendo um mês muito próximo das eleições falar sobre o assunto, com a copa do mundo ainda tão fresca na mente dos brasileiros, será quase um sacrilégio. Acho que essa coisa permanecerá durante o mês de setembro também, vou mais longe, jogada de mestre agora, se preparem: nem na boca de urna será permitido falar em eleições, talvez no segundo turno (se tiver). Com as eleições definidas ainda no primeiro turno precisaremos escolher / barganhar os ministérios (não se esqueçam que vivemos num mundo capitalista, e quem investiu precisa cobrar os investimentos). Em mês de negociações não se trabalha, se negocia (sem deixar de lembrar que, para muitos, negociar é uma arte, mais do que um trabalho). Vejam que, se tiver segundo turno, as eleições adentrarão o mês de outubro e esse momento solene (de barganha) ocorrerá apenas no apagar das luzes de mais um ano (que ainda não começou). O mais divertido é que essa negociação toda (de ministérios, e olha que estou deixando as eleições estaduais, praticamente, de fora), que começa antes das eleições, vai ser prato cheio (pano para a manga) para aquela quantidade de CPI's que vai rolar nos próximos anos (que óbvio, vai empatar a vida do brasileiro) e que não vai dar em absolutamente nada (como todo mundo já sabe). Pois bem, com segundo turno ou não o mês de novembro vai ser um mês de uma obviedade assustadora, dá para dizer, um mês sonolento, as pessoas cansadas a espera do mês seguinte; uma espécie de desfecho de algo que talvez nem tenha começado. Dezembro. Festa. Natal. Fim de Ano. Retrospectiva. Certeza de não ter cumprido todas as coisas que (a maioria) havia planejado no final do ano anterior, mas imaginando (com aquela esperança de) que tudo aquilo que não se fez no ano que se finda pode ser muito bem realizado no próximo ano. Sem contar a quantidade de pessoas estressadas com o mundo, programando as férias de janeiro e fevereiro que começam, efetivamente, na metade de dezembro. Fim do devaneio. Voltando a realidade de junho. Há muitos carnavais o ano passa mas nem sempre começa, e como esse (acho eu) não vai ser muito diferente, reafirmo (sem muita convicção) que 2006 começará (mesmo) em 2007 -- e olhe lá. Mas não podemos esquecer de um outro fator, uma outra questão que, acredito, precisa ser considerada: o pior de tudo é que vendem (aos quatro cantos do mundo, inclusive para os brasileiros, muitas vezes, seus maiores clientes) essa morosidade burocrática (esse não andar) como sendo algo cultural, como se isso estivesse impregnado no sangue do brasileiro -- mais do que isso, a enfatizam todos os anos. E isso só acontece porque, e aqui levanto uma outra questão que considero pertinente ao assunto: foi nesta morosidade que as rodas das fortunas se construíram; e o segundo pior é que, talvez, este texto não tenha servido para muita coisa mesmo: Peço que ignorem as bobagens escritas acima, deixem pra lá, afinal de contas, não falta muito para o Brasil estrear na copa, e eu, como todo brasileiro, já estou fazendo o meu ritual, botei as Bohemias pra gelar e reservei um costelão (com o Jamir do açougue Kretzer) para assistir a Brasil e Croácia. E vamos falar do que, neste momento, interessa: vocês acham que o Brasil fatura o caneco ou não? E esse miolo de zaga vai ou não vai? Se o Robinho entrar entra no lugar de quem? Em a minha modesta opinião de torcedor só o Parreira pra levar o Ricardinho! Eu escalaria o Serginho na lateral esquerda, mas o Parreira é safo, levou um cidadão para a reserva que não faz sombra ao titular para ninguém poder contestar o Roberto Carlos (tudo bem, se manteve coerente as suas convicções, será?). E o Ronaldinho -- o que se acha branco (o das bolhas) -- faz quantos desta vez? Tem alguém torcendo contra? E o bolão do OVERMUNDO sai ou não sai? Número de frases: 60 Caldeirão de ritmos compõe as 36 classificadas para o 1º Festival AP da Canção do Norte. Cinco são do Amapá Carolina Menezes De a Redação de O Liberal Em o total, foram 310 inscrições, vindas de quatro das cinco regiões do país, o que é um recorde. Belém nunca teve tantos inscritos num festival de músicas inéditas. De entre as inscrições, todo tipo de ritmo que se pode imaginar, do tecnobrega à valsa, do lundu ao samba-funk. De cara, esse é o perfil que define o 1º Festival AP da Canção do Norte, promovido por a Assembléia Paraense: um evento que prioriza, acima de qualquer coisa, a diversidade de estilos musicais. As inscrições terminaram no último dia 19 e, no dia seguinte, foram divulgados os nomes dos 36 semi-finalistas, que terão de encarar mais três seleções até a grande finalíssima, prevista para acontecer no dia 29 de novembro, no salão refrigerado do clube (sede Almirante Barroso), mesmo local de realização das eliminatórias anteriores. Compositores do Amapá, Amazonas, Brasília, Ceará, Gerais, Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro estão entre os concorrentes, e competiram 270 compositores de sete municípios paraenses -- Abaetetuba, Ananindeua, Belém, Castanhal, Marituba, Santarém e São Caetano de Odivelas. Em o site http://www.aponline.com.br podem ser conferidas as canções classificadas, que, deverão ser disponibilizadas para download o quanto antes. De acordo com o coordenador geral do Festival, o jornalista Tito Barata, a intenção primeira é atrair o que há de melhor na música atualmente. «E é claro que, para isso, precisamos oferecer bons prêmios. E, conseqüentemente, por conta disso, optamos por uma seleção mais rigorosa. Em esse primeiro momento, olhamos, principalmente, para letra, melodia e qualidade de gravação, e isso não significa que precisava gastar muito para gravar, queríamos apenas uma gravação limpa, sem chiados, para o melhor entendimento do júri ', explica Tito. Em o total, serão distribuídos R$ 30 mil reais em prêmios. O Festival é um realização da AP com o apoio da Lei Semear e da Celpa. ' O clube está bancando cerca de 50 % do custo total do evento ', garante o presidente da Assembléia Paraense, André Sobrinho. Estrutura ' Trabalhamos nessa idéia desde o ano passado, desde a gestão administrativa anterior, e ficamos muito felizes com o número de inscritos. Faz parte da rotina do clube investir em cultura, no ano passado, o Festival Literário foi um sucesso, mas nesse 1º Festival AP da Canção do Norte nós estamos surpresos não só a quantidade, mas com a qualidade das músicas que entraram. São letras muito boas, intérpretes maravilhosos, a gente nem tem idéia de quantos cantores excelentes nós temos. Os festivais deram uma parada desde os anos 90 pra cá e nossa idéia é retomar isso, realizar esse concurso a cada ano. Até onde eu sei, nenhum outro clube recreativo do país fez isso. A AP investe na cultura, sempre investiu na música paraense. Prova disso é que, de quinta a domingo, temos músicos da terra se apresentando lá, temos gente que fez nome, que começou cantando na AP ', diz André. ' Me deixou muito feliz também saber que grandes compositores, nomes consagrados da nossa música acreditaram nessa iniciativa e se inscreveram para competir. Uma das músicas inscritas era cantada por o Vital Lima, e outra, de um grupo do Maranhão, era cantada, olha só, por a própria Alcione ', revela Tito. Dificuldade O escritor e poeta João de Jesus Paes Loureiro foi jurado na primeira etapa, junto com o músico Pedrinho Cavallero, o próprio Tito e ainda Avelino do Valle. ' Não foi fácil porque são músicas muito boas de ritmos muito diferentes. Tivemos de agrupá-las de acordo com o estilo para estabelecer uma comparação e definir quais as músicas que entrariam no grupo das 36. Infelizmente, não deu pra juntar todo mundo, mas eu queria deixar claro que as canções que ficaram de fora não são, nem de longe, ruins. Muito pelo contrário. Só não entraram por uma impossibilidade mesmo ', justifica. Etapas As eliminatórias acontecem nos dias 1º, 8 e 14 de novembro, sendo que a grande final está marcada para o dia 29 do mesmo mês, sempre no salão de festas da sede da Almirante Barroso do clube. A cada eliminatória, 12 músicas das 36 serão apresentadas e quatro são selecionadas para participar da última etapa. O critério para análise será melodia, letra e adequação entre um e outro. O júri de cada eliminatória será bastante popular, formado por empresários, jornalistas, músicos, artistas plásticos e profissionais das mais variadas áreas, e os nomes dos jurados não serão divulgados até o dia de cada apresentação. Em o dia 29, serão 12 canções executadas para a escolha dos vencedores e nesse dia, o júri será composto por 15 avaliadores. As três melhores músicas serão premiadas com o Uirapuru de Ouro (R$ 15 mil), de Prata (R$ 8 mil) e de Bronze (R$ 4 mil). Haverá ainda as premiações ' José Guilherme de Campos Ribeiro ` para o (a) melhor intérprete, ' Guilherme Coutinho ` para melhor arranjo e ' Antônio Carlos Maranhão ' de aclamação popular para canção -- essas de R$ 1 mil cada. As Canções do Amapá De as 36 canções classificadas para o Festival cinco são do Amapá. Algumas (confira no placar abaixo) de compositores já consagrados como: Osmar Júnior, Enrico Di Micelli, Dilean Monper e os irmãos Ademir e Aroldo Pedrosa. Para assistir às eliminatórias, será cobrado o ingresso simbólico de R$ 10, sendo que estudante paga meia-entrada, e toda a renda será revertida para uma instituição de responsabilidade social. Em o dia 29, será vendido, também a preço popular e com a mesma intenção, o CD com as 12 canções finalistas ', adianta Tito Barata. Número de frases: 49 Confusão e poluição são duas palavras que parecem traduzir perfeitamente a modernidade dos que não sabem lidar com o moderno. Nosso tempo deixa tudo mais fácil, tudo mais visual que sensível e as informações borbulham todas misturadas e em grande número, esperando serem filtradas por cabeças pensantes que, justificadas por toda essa loucura, são as mais confusas possíveis. Se tudo isso traduz o moderno, o moderno traduz Thiago Verdeee (escrito assim mesmo), um sujeito que parece ter saído de uma nave espacial e desembarcado na Paraíba, com grandes olhos verdes e pele branca, observando e desfilando suas enormes mãos com veias estufadas por aí. Ele parece ser de qualquer outro lugar, menos daqui. Mas é, mesmo não querendo ser. Pra saber exatamente quem é essa criatura, o que ela faz e o que diabos é essa imagem um tanto peculiar da virgem Maria ilustrando este artigo, me acompanhe: Verdeee é artista plástico e essa Maria foi maquiada e caracterizada por ele, chamando a atenção, curiosidade e principalmente o espanto de visitantes das mais variadas classes e gêneros, numa das galerias mais populares de João Pessoa, a Archidy Picado, no Espaço Cultural. Quem não o conhece e vê suas obras o acha louco, perturbado e que, claro, vai para o inferno. Fator que parece não assustar muito o garoto, já que além da Maria enfermeira, fez de Jesus um Mickey, pregou o novo testamento queimado na parede da galeria e pôs imagens de autopsias de fetos e bebês rabiscadas e pintadas naturalmente, como se fossem paisagens. E olha que ele sabe fazer todas as orações, ensinadas por sua avó. Essa exposição foi a segunda edição do projeto Laboratório, entre maio e julho de 2006, do curador Fábio Queiroz, reunindo vários artistas novos, que transformou a galeria num grande atelier durante um mês, fazendo os artistas criarem em suas dependências e trocarem experiências e impressões, a partir do texto «Acabar com as obras primas» de Antonin Artaud. Depois desse mês de criação, as obras ficaram expostas durante dois meses. Explicado o ocorrido, voltemos ao sujeito: Verdeee mora com os pais e uma irmã de 16 anos. Fui fazer uma visita a ele para uma conversinha, desvendando o pensamento dessa criatura e pra saber onde danado ele quis chegar com todo o choque causado nos «cidadãos de bem». Para meu espanto, ele me diz de forma clara e direta: «Não quis chegar a lugar algum, está tudo aí, é o que se vê. É tudo estético». Seu quarto é um cubículo de 3x2, coberto por imagens do chão ao teto, mescladas por títulos e frases como «Bebê que fuma vai para o pote»,» Tudo se cria ou se sampleia», Mate-me por favor «e» Kill all», além de textos existencialistas. Entre seus muitos Vinis e Cd's, estão Iggy Pop, Suede, Rolling Stones, Portishead, muito jazz e eletro punk. Entre os poucos livros, Mate-me por favor, alguns do Woody Allen e publicações sobre dadaísmo (movimento adorado por ele). Em os vídeos e dvd's, estão Trainspotting, Virgens Suicidas, Yellow Submarine, Em o direction home, Stoned e Clube da Luta. Entre os artistas preferidos está Basquiat (Nome que visivelmente gera enorme influência sobre ele). Verdeee consegue e é, mais que ninguém, o que tem, o que lê e o que ouve. Como o próprio diz, suas obras e seu mundo são diretamente influenciados por «tv, paisagens artificiais, capitalismo, pop, nossa sociedade hipocondríaca, crianças de 5 anos, bulas de remédio, insônia, poluição, lixo, john cage, desintegração, duchamp, rimbaud, punkrock, o fim das coisas, o desconforto, o inútil, o desconcertante». E pode apostar que é muito mais. Toda essa informação o deixa com os olhos arregalados e com as frases às vezes desconexas. Talvez por isso seja calado, à primeira impressão. E quando cala gosta de produzir, mas isso não é regra, principalmente porque é comum encontrá-lo tempos sem fazer nada, dormindo (esse, inclusive, parece ser um dos seus esportes favoritos). Deprime-se fácil e quando isso acontece não quer conversa com ninguém, a não ser com suas infinitas imagens coladas na parede. Ele não trabalha nem estuda. Terminou o colegial e diz que nada interessa realmente, principalmente por não ver muito futuro profissional interessante por aqui. Quer viajar, mudar de estado, de amigos. Acha que já viu tudo que tinha de ver por essas terras. Não gosta da maioria dos artistas locais, acha que tudo é conceitual demais e ele não tem estômago para aquilo. Detesta temas regionalistas e não acredita que muitos ainda tenham paciência pra desenhar ou fotografar casinhas de taipa, burros, cavalos e ouvir maracatu. Como eu disse anteriormente, ele é espelho muito mais do urbano e todos os problemas sociais. Verdeee não sabe nem quando se descobriu artista. Desenhava bonequinhos minúsculos com aspectos cansados, sujos e com olheiras durante as aulas no colégio. Pintava seu quarto e foi com fotos de ele, inclusive, que o curador de sua primeira exposição (a qual falei no inicio) o descobriu, e ele se deu conta que todas aquelas montagens e rabiscos, como já suspeitava, eram arte. Verdee ainda está se descobrindo, mas acha que só pode ser disso que vai viver, misturando arte visual, com referencias de música, cinema e literatura. Vomitando o atropelo das informações de forma confusa, suja e esteticamente feia. É o espelho da forma que ele vê o mundo e as reações. Sem muitas explicações, sem conceitos. Pinta e faz o que vê e entende do mundo para ser visto, simplesmente. E detesta os psicólogos ou metidos à, é clássico cidadão do admirável mundo novo. Número de frases: 46 Faz De Conta Que Eu Acredito ... (Autor: Antonio Brás Constante) Vivemos num País de faz-de-conta. Isto pode ser comprovado nas ruas quando vemos, por exemplo, uma mulher correndo para pegar o ônibus. De salto alto, com seus passinhos miúdos que podem ser ultrapassados por um simples pedestre caminhando ao seu lado, mas que juntamente com suas mãos gesticulando ao motorista, servem para demonstrar que está se esforçando ao máximo para alcançar o veículo, antes que o mesmo parta rumo a novas paradas. Sendo assim, ela «finge» que está correndo, na esperança de comover o referido motorista, para que o mesmo espere que entre no ônibus. O faz-de-conta é algo institucionalizado. Um produto mundial, mas que pode ser considerado tipicamente brasileiro, pois aqui neste Brasil sabemos fazer de conta como se fosse de verdade. É uma técnica que literalmente vem de berço. Podemos verificar isto ao observarmos algumas crianças fazendo de conta que comem. Elas ficam remexendo com a colher em seus pratos, tentando enganar suas mães, fazendo-as acreditar que já abocanharam algumas colheradas de comida, para enfim retornarem ao doce lazer da televisão. Outras, nas ruas, olham através das vidraças de restaurantes a comida farta colocada nas mesas e fazem de conta que pertencem aquele mundo, que também podem comer ali, na esperança de enganar seus estômagos famintos. Procuramos iludir através do faz-de-conta até mesmo o coração, Como já dizia um pensamento destinado aos amores impossíveis: «Elas fingem que gostam e nós fingimos que não», proferido por um sábio ao seu então discípulo, num dos tantos textos da vida. Em a base do faz-de-conta nossa nação vai andando, um passinho para frente e outro para trás, com gente fazendo de conta que trabalha aos olhares de gerentes que fazem de conta que gerenciam. De pacientes que tentam ganhar um atestado, fazendo de conta que estão doentes, forçando tosses e gemidos diante de médicos que fazem de conta que sabem o que estão examinando. Somos um povo que faz de conta que é feliz para convencer os «gringos» a virem passear em nosso grandioso país. Dançando como loucos ao som do carnaval. Mostrando bocas onde faltam dentes, porém não faltam sorrisos. Demonstrando que ainda conseguimos sobreviver mesmo em meio a uma violência verdadeira. Protegidos por uma segurança imaginária. Esperando em filas reais por atendimentos em hospitais que parecem pesadelos de concreto, desses que somente deveriam existir em filmes de terror. Torcemos para que nossas crianças consigam ir as escolas sem serem molestadas, atacadas por marginais, ou seduzidas por o mundo das drogas. Fazendo de conta que tudo que acontece a nossa volta não é com nós, e que não vai nos atingir. Escondendo nosso medo e desespero dentro de nosso próprio peito. Mas eles teimam em sair, sufocando nossas gargantas para que não possamos gritar de agonia diante da miséria que nos cerca. É neste mundo de faz-de-conta que ouvimos políticos berrarem em microfones que tudo irá melhorar. Abraçando velhinhos e pegando no colo crianças, visitando hospitais para segurar a mão de doentes, fazendo de conta que se importam com eles. Jurando coisas que nunca conseguirão ou sequer tentarão cumprir. Pois almejam um poder egoísta, voltado apenas aos seus interesses mesquinhos. Seguem em caravanas pedindo apoio, votos e confiança. Expondo seus dentes brancos para quem esteja disposto a fotografa-los ou filmá-los, garantindo-lhes assim o seu desejado ibope. Sorridentes perante seu povo. Um sorriso que se mantêm após suas vitórias. Conquistadas com promessas falsas. Recheadas de mentiras verdadeiras. (Sites: www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc) Atenção: Divulgue este texto para seus amigos. ( Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos). Número de frases: 39 Blush Azul, banda da cena acreana rock ' n ' roll, prepara-se para tocar no Grito Rock Vilhena. Em meio à correria do Grito Rock Acreano, entrevisto a talentosa baixista da banda, Giselle Lucena. Walquíria Raizer -- A Blush Azul está tocando há quanto tempo e onde vocês ensaiam? Giselle Lucena -- A Blush toca desde março de 2006. O primeiro show foi no I Garimpo Alternativo (projeto realizado no Galpão das Artes) e eu ainda não estava na banda. Bom, quanto aos ensaios, o domingo é sagrado, sempre tem ensaio na casa da Kaline (batera), durante a semana a gente ensaia alguns dias, quando dá, por que eu trabalho o dia todo e estudo a noite. A Kaline e o Vitor estudam o dia todo. Normalmente, quando rola um tempo vago em comum a gente ensaia ... Ah, e estamos ensaiando, vez e outra, no Catraia. Walquíria Raizer -- Achei ótima aquela descrição no orkut «banda das garotas e do garoto». Como vocês chegaram a essa formação? Giselle Lucena -- A formação se deu bem por acaso. Eu já tinha tocado com o Vitor há muito tempo atrás. A Kaline já tinha feito umas participações numa outra banda que eu tocava. Em a Blush eu entrei só pra fazer uma música e acabei ficando. Walquíria Raizer -- E a influencias, Gi? Quais as influências musicais da Blush? Giselle Lucena -- Ah, Wal, é The Strokes, Franz Ferdinand, Beatles, The Donnas, Autoramas, Incubus, Coldplay, The Libertines, The White Stripes, Los Hermanos ... Walquíria Raizer -- O que você acha dessa movimentação Fora do Eixo? E como é isso na banda? Giselle Lucena -- Ah, o que eu poderia pensar? Acho a idéia ótima para integrar as bandas em busca do fortalecimento dessa cena musical ... Todos na banda estão inteirados do assunto, buscando contatos com produtores, trocando materiais com outras bandas, enfim ... Walquíria Raizer -- Você, Gisele, como surgiu essa coisa de ser baixista? Você teve uma outra banda antes não é? Como veio para o mundo rocker? Giselle Lucena -- Olha, Wal, sabe que ninguém nunca me perguntou isso? Assim, numa entrevista e tal?! Em a verdade, eu quis por tocar baixo por causa do meu primo, que também é baixista, e um dos meus ídolos musicais. Eu e uma amiga minha fomos fazer aula de violão. De aí uma outra amiga me chamou pra montar uma banda de Punk Rock, chamada Epidemia HC. Tocamos na praça e num festivalzinho que teve. Dai, ela foi embora e a banda acabou. Continuei tocando, porque eu queria era juntar a galera nos fins de semana e brincar de fazer um som. Tive algumas outras bandinhas e toquei algumas outras vezes, até que comecei a tocar na TPM. Mas a TPM foi e indo pra um rumo que não estava me satisfazendo mais, ai eu resolvi sair ... Hoje estou na Blush Azul e fazendo o som que me agrada, com uma rotina que me agrada ... Walquíria Raizer -- Como estão as expectativas para o Grito Rock? Giselle Lucena -- Ah, estamos super felizes por a banda ter sido selecionada pra tocar no Grito, uma vez que o Acre está cheio de bandas competentes, com estilos próprios e ótimos trabalhos; nos sentimos mais integrantes dessa cena musical acreana. Tenho certeza também que esse não vai ser o único grito rock acreano, e que nos próximos anos ele vai se repetir e ter grande repercussão nacional, assim como o Varadouro. A expectativa é a melhor possível. Acho que, assim como qualquer outra banda, queremos fazer um show que supere as expectativas ... Por isso, está difícil concentrar em outra coisa a não ser em ensaio, ensaio ... Walquíria Raizer -- Vocês vão tocar em Rio Branco e em Vilhena, não é? Giselle Lucena -- É, e é o primeiro show fora do Acre que a banda vai fazer. Somos uma banda nova, e ninguém nunca viajou pra fazer show, mas estamos ensaiando, ensaiando ... A Banda Blush Azul, formada por Irlla Narel (vocal), Kaline Rossi (batera), Victor Lima (guitarra) e Giselle Lucena (baixo), toca no dia 17/02 Grito Rock Vilhena (Rondônia) e no dia 19/02 no Grito Rock Acreano, em Rio Branco. Número de frases: 48 Matutei, matutei. Conclusão: vou postar essa entrevista na íntegra. Sem cortes. Aline Figueiredo é crítica de arte, animadora cultural e escritora, figura fundamental no cenário da arte contemporânea matogrossense. É importante também para o Brasil porque coloca Mato Grosso na cartografia da arte nacional. Depois de alguns protestos de artistas insatisfeitos com a exclusão de suas obras na seleção do 23° Salão Jovem Arte Matogrossense, do qual é curadora, silenciou, não deu entrevistas, não se pronunciou, se recolheu a um mutismo deliberado. Abri o jogo com ela: quero que você fale tudo, como você vê essa história toda. Ela resolveu falar ... Você, ao lado de Humberto Espíndola, foi a grande animadora de uma cena fortíssima em Mato Grosso. As artes plásticas produzidas aqui representam o que há de mais forte e consolidado nas Artes. Foi difícil tal realização ou vocês encontraram um terreno fértil para isso? Não foi nada fácil, principalmente porque o terreno que encontramos não poderia ser mais árido. Não fosse a crença inabalável de um ideal, embasado no talento e aliado a força de nossas juventudes, dificilmente teríamos o alento para desempenhar tal invento. Pois é, essa frase que acabo de pronunciar que parece até um poema épico, é a mais pura verdade motivadora da minha animação. Quando você diz que eu, ao lado de «Humberto Espíndola,» fui a grande animadora de uma cena fortíssima em Mato Grosso», fique claro que, não fosse ter surgido a plástica de Humberto Espíndola, lá naquela segunda metade da década de sessenta, e com ela poder contar, eu não teria os argumentos de como animar. Eu não teria o passaporte para dialogar com o Brasil, sem sair de Mato Grosso! Aliás, eu não, foi a plástica de Espíndola, engajada aos teores sociais e políticos e principalmente com a solução contemporânea de suas formas, quem de fato dialogou com o País e chamou a atenção da crítica brasileira para o interior do País. Até então, só Minas Gerais, que não tem mar, conseguiu chamar tal atenção, para o interior. Mas Minas tem a tradição do Barroco desde oséc. 18. Bom. Então, contando com a plástica contemporânea de Espíndola, fundamos a Ama (Associação Mato-grossense de Artes) que funcionou em Campo Grande entre 1967 a 1972, que tendo Espíndola como carro chefe, conseguiu arregimentar nossos valores a exemplo da Dalva, João Sebastião, Clovis Irigaray e Conceição Freitas da Silva, e levá-los para exposições coletivas realizadas no Rio de Janeiro e São Paulo. Entre outros artistas que fomos descobrindo e animando. Em esse tempo o Estado de Mato Grosso ainda não havia se dividido, eu e Humberto morávamos em Campo Grande, mas atuávamos em todo o Estado, trazendo também exposições e críticos importantes, a exemplo de «50 desenhos de guache do jovem Di Cavalcanti» (1968) em Cuiabá e Campo Grande; 28 artistas das novas gerações (1968) Campo Grande; ambas do acervo do MAC da USP; individual de Weja Néri (1969) Cuiabá e Campo Grande, entre outras. Críticos trouxemos Geraldo Ferraz, Walter Zanini e Clarival Valadares para proferir palestras, além do autor Antonio Bivar para falar de teatro. Quais foram as ações mais estratégicas para o sucesso desse trabalho? Nosso trabalho, desde Campo Grande, com a Ama (1967/1972) ou a partido MACP da UFMT (1974) e com a então Fundação Cultural de Mato Grosso (1975) sempre foi norteado por ações capazes de desenhar o perfil de uma animação descentralizadora do circuito de arte brasileira. Para tanto, a defesa de uma arte contemporânea, envolvida com a problemática do mundo com a visão de mundo do artista e o modo como soluciona a sua visão de espaço nesse mundo. A plataforma do MACP da UFMT, por exemplo, estava alicerçada em cinco diretrizes básicas: a problemática da arte brasileira; o desenvolvimento da arte mato-grossense; o indigenismo; a cultura popular e o Centro-oeste. ( ver Artes Plásticas no Centro-oeste, pág. 175/176) Como se deu a sua inserção no pensamento crítico nacional ao lado de figuras como Araci Amaral, Roberto Pontual, Walmir Ayala, Frederico Moraes e outros? Então, essa «plataforma de ação foi mesmo considerada de» ação exemplar " por a crítica brasileira no sentido de projetar artistas -- de uma região então considerada remota, de modo a contribuir para a arte brasileira. Levar a contemporaneidade e apoiar a produção popular de qualidade irrecusável foi sempre muito bem visto por a critica. A própria pesquisa, e publicações foram também instrumentos de consideração na verdade, nosso trabalho quebrou as barreiras -- ou pelo menos diminuiu a distancia entre a arte litorânea e arte de dentro do Brasil. O fato de trazermos a Mato Grosso os artistas mais expressivos da arte brasileira desde lá de 1968 seguido em todos os anos setenta, também acredito tenha sido pontos positivos para diminuir essas distancias e proporcionar nossa ligação com o meio critico nacional. E agora, dando um salto no tempo, com a pulverização da crítica, ou do seu papel, diante da velocidade com que as informações circulam, tornando praticamente impossível acompanhar tudo que vem sendo produzido mundo afora, como sobreviver a esse caos, que a web, por exemplo, vem proporcionando? Não vejo bem assim. Acredito que embora tenha pulverizado, o papel da critica continua. E por o contrario, não vejo a web como proporcionadora do caos. Ela proporciona exatamente que possamos acompanhar a velocidade de informações, tornando possível, sim, acompanhar a produção do mundo, pois o «mundo afora» como você disse, agora esta praticamente todo dentro do computador, pois não? E o papel da critica, mais uma vez, ai está para traçar o fio condutor com a maior lisura, sem a tirania do mercado ou da mídia. Além do que, eu por exemplo, sobrevivo muito bem, com ou sem o «caos» que a web proporciona. Basta não dar tanta atenção assim a ela e continuar fazendo o seu trabalho nesse mundo globalizado, tentando contribuir para o desempenho de sua região em relação ao seu país e ao mundo, ou seja, a comunidade internacional. Para tanto, costumo utilizar uma frase que escrevi num catálogo de uma coletiva que o MACP realizou em 1978: «o mundo é redondo, qualquer ponto, portanto é um ponto». Um ponto para se dialogar com o mundo o discernimento critico vem em primeiro lugar. E o surgimento de novos suportes tecnológicos, como isso pode interferir no futuro da pintura? Acho que o surgimento de novos suportes tecnológicos só vem a contribuir para o futuro da pintura e de outros suportes ou categorias. Ou se não vem a contribuir pelo menos, não creio, que a curto ou médio prazo virá a tanto interferir ao futuro da pintura. A pintura tem suficiente carga e reserva de magia plástica e matérica que lhe garante a longevidade expressiva. Veja bem, lá nos anos setenta, no auge da arte conceitual, alguns afoitos proclamaram: «A pintura está morta». E o que aconteceu? Aconteceu uma aversão, uma saturação do hermetismo conceitual que só foi sanado por o apego a pintura no mundo todo. Aí está a resposta da arte figurativa e / ou abstrata incorporada por a geração 80, no Brasil e no mundo, revelada por a transvanguarda italiana, manifestada também na Iugoslávia ou nos Estados Unidos, são exemplos contundentes de como a pintura foi o suporte escolhido para acolher as angústias ou alegrias de uma «pluralidade reencontros», conforme se expressou o crítico italiano Aquile Bonito Oliva o grande teórico lançador do movimento. A propósito, nós trouxemos a Cuiabá, Bonito Oliva em 1975 para proferir palestra e ver nosso movimento. Ele foi o curador da Bienal de Veneza em 1980 e de mais uma ou duas Bienais. A o definir a sua transvanguarda, ele graceja perguntando: «Transe ou transa da vanguarda?" Isso para explicar que a pintura, ou a arte, tem a liberdade de transar ou transitar por as reservas inesgotáveis da história da arte exatamente para ver o cruzamento dessa pluralidade de reencontros. De o mesmo modo é o comportamento do Neo-expressionismo alemão, uma extensão da transvanguarda, assim como a Bad Painting, nos Estados Unidos. Como dizia os nossos suportes tecnológicos podem até interferir no resultado pictórico. Mas não anulá-lo, dissipá-lo. Pois a pintura, ah, meus amigos, a pintura sempre pintará a verdade plástica de seu tempo. A pintura tem o cheiro, as cores têm o fascínio matérico, a tela ou o espaço em branco sempre serão desafios. O Salão Jovem Arte de Mato Grosso em sua 23ª edição sofreu uma certa rejeição de um grupo que contesta seus critérios de avaliação. Como você analisa tal comportamento? Qual a importância do Salão para a Arte produzida em Mato Grosso? Aqui, sofreu, e não é a primeira vez. Acho saudável tal rejeição, pois demonstra que o Salão é um objetivo que todos querem alcançar. Quanto aos critérios de avaliação, atualmente distribuídos em pólos, devido à extensão territorial do Estado, acho que devem ser reavaliados. Então, vejamos, se os casos de rejeição a esses critérios acontecem, de duas uma: ou se extingue a pré-seleção nos pólos, onde se inclui Cuiabá, ou se acredita na lisura dos critérios da comissão de pré-seleção. Até agora seus membros foram formados por artistas plásticos e animadores criteriosos, que souberam descobrir e valorizar talentos. Mesmo que estivessem estes misturados no turbilhão de equívocos. Ora, meu caro, veja bem, Dalva de Barros, Gervane de Paula, Adir Sodré, Benedito Nunes, Ludimila Brandão e Serafim Bertoloto, entre outros, já participaram de algumas dessas pré-seleções. Eu mesma participei das duas últimas. Será que esse quadro não tem respaldo para tal tarefa? Se não, o que estamos fazendo aqui? Quanto a importância do Salão para a arte que se faz em Mato Grosso, é imensa. É tanta, mas tanta, que até o Governo do Estado, que o promove sabe disso. Vejamos se consigo explicar tal importância. O fato de ter um Salão de Arte com vinte e três edições, é importantíssimo para a história da cultura mato-grossense. Surgido em 1976, o Salão poderia estar comemorando a trigésima edição este ano, mas vá lá, percalços acontecem. Importa sua existência enquanto parâmetro para toda essa gente de todos os pontos do País que busca morada e esperança em Mato Grosso. Importa a existência para Cuiabá, modo de consolidar sua cultura enquanto capital também cultural para toda essa gente que chega e para todos os que aqui vivem. Em esta época tão veloz, qualquer 20 anos, já é tradição. O Salão tem mais ou a mesma idade que dezenas de cidades que aqui surgiram no momento histórico da expansão das fronteiras agrícolas do País. O Salão é bom para os artistas mato-grossenses espalhados e para o meio artístico reunido. É ótimo para a Secretaria de Estado de Cultura contar com um instrumento de eficiente diálogo popular e democrático como poucos. É bom para o interior e para a capital. É bom para provocar o novo quanto para escrever a tradição. As realizações do Salão Jovem Arte para a arte que se produz em Mato Grosso são contribuições importantes tanto no sentido de revelar, estimular, quanto de confirmar talentos. É muita coisa. Você acredita na capacidade de renovação das artes plásticas de Mato Grosso? Bom, lá se vão 20 anos em que as leis incentivo tentam se afirmar. Desde o plano Federal (Lei Sarney, Lei Rouanet), Estadual ou Municipal e acredito que estejam conseguindo medrar por esse terreno tão difícil entre nós. Nossos empresários não tem a tradição de subvencionar a cultura como aconteceu com mecenas de outros paises desde a primeira metade do século 20. Não vamos dizer que não tivemos tal exercício do mecenato. Tivemos. Aí está o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (1947), os Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo (1948) e a Fundação Bienal de São Paulo (1951). Mas foi só. A ditadura tratou de varrer essa experiência. Mas como dizia, as Leis de Incentivo em todos os níveis estão tratando de adequar e ajustar para facilitar esse beneficio. É claro que as leis de incentivo ajudam. E estão aí para melhor aproveitar os benefícios e o bom emprego do dinheiro público. É claro que a transparência do Conselho Consultivo, que nomeia esses projetos é fundamental no sentido que esses mesmos projetos escolhidos sejam de relevante contribuição junto à política cultural, seja em qualquer nível, federal, estadual ou municipal. Em a verdade é o «dinheiro» quem move a ação, porque, banca a ação. De aí a lisura do Conselho, porque no fundo ele acaba trancando a política de animação. Depois da explosão de nomes como João Sebastião, Adir Sodré, Dalva de Barros, Gervane de Paula, Benedito Nunes e muitos outros que estão aí produzindo ainda, você acredita em novos talentos? Podem surgir, ou estão surgindo novos e tão bons quanto os citados acima? Faltam muitos entre os citados acima Victoria Basaia, Jonas Barros, Regina Pena precisam ser relacionados. Sim acredito em novos talentos, sempre acreditarei e em eles deposito a minha fé. Eles estão surgindo, via o Salão Jovem Arte, estimulados e confirmados por o Salão e / ou por o Museu MACP. Se serão tão bom como os citados só o tempo poderá dizer, mas a garra com que levam o invento pode garantir o sucesso e a renovação das nossas artes. A cultura está em crise diante de um mercado tão voraz? Como vê essa dicotomia cultura x mercado? Mercado voraz? Pelo menos entre nós, o mercado se já existe, está longe de ser voraz. Mas vá lá, vamos falar da arte internacional. Você bem empregou a palavra «dicotomia», nesse assunto. Não acredito que a cultura, ou seja, o valor do artista de hoje possa se reconhecer por o seu sucesso de mercado. Alias, não só de hoje, mas de ontem e antes de ontem. A história da arte está aí para mostrar. O valor de mercado, o sucesso do mercado, está muito mais ligado aos valores midiáticos do que propriamente à cultura. Aí está, voltando ao início da nossa entrevista, quanto ao papel da critica. Pode estar pulverizado junto ao frenesi ou ao oba -- das paginas da web ou dos espaços televisivos. Para mim, no meu entender de animadora nunca relacionei o valor cultural da obra de um artista com o valor o sucesso de mercado de sua obra. Nunca, nunca. E digo mais, vi quem muito vendeu (não estou falando daqui), na venda se estilizou. É claro, o mercado, esse mercado voraz, só gosta do que se conhece. Compra de boa fé, mas não paga ou não gosta de pagar por a produção da obra nova, aquela que o artista está lutando para resolver. Número de frases: 137 Tiros pra todo lado. Banditismo, heroísmo e toda sorte de ' ismos '. Eis o enredo da peça teatral Chuva De Bala no País De MOSSORÓ. A peça Palco de uma batalha perdida por o bando de Lampião, no finalzinho da década de 20, a cidade de Mossoró organiza todos os anos um espetáculo contando a saga do seu povo contra o rei do cangaço. Encenada ao ar livre, a peça é protagonizada inteiramente por artistas da terra e acontece no adro da Capela de São Vicente, onde até hoje, é possível ver as marcas do confronto. Escrita por o professor da UFRN Tarcísio Gurgel, e com música do maestro Danilo Guanais, o espetáculo é dirigido por João Marcelino, que também é responsável por o cenário. A 6º edição da peça, conta com 70 atores que encarnam o bando de Lampião, o padre, a ' poliça ' e o prefeito Rodolfo Fernandes, líder da resistência. O texto O texto lembra o episódio histórico de modo simples e direto, como é próprio a uma obra cênica de natureza narrativa, mas revela algumas reentrâncias curiosas, que quebram a linearidade da fábula, contrapõem ideologias e insinuam a presença do povo, da arraia miúda, entre as duas forças antagônicas: o Poder Constituído, de um lado, os cangaceiros, do outro. E o povo, na verdade, é joguete manipulado e quase sempre vitimado por um ou outro lado. ( Como sempre) O bilhete de Lampião «Cel Rodolfo Estando Eu até aqui pretendo drº. Já foi um aviso, ahi pº o Sinhoris, si por acauso rezolver, mi, a mandar será a importança que aqui nos pede, Eu envito di Entrada ahi porem não vindo essa importança eu entrarei, ate ahi penço que adeus querer, eu entro; e vai aver muito estrago por isto si vir o drº. Eu não entro, ahi-mas nos resposte logo. Capm Lampião." A resposta do prefeito «Virgulino, lampião. Recebi o seu bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo o que o Sr. queira fazer contra nós. A cidade acha-se, firmemente, inabalável na sua defesa, confiando na mesma. Rodolfo Fernandes " O confronto O ano era 1927. Comandos por o prefeito, a tímida guarda da cidade, que dispunha naquele 13 de junho de pouquíssimos homens, afugentou o bando de Lampião. Rodolfo Fernandes, o prefeito, negou-lhos 400 contos de réis, e ainda, diminui o número de cangaceiros do bando de Lampião. Colchete morreu de tiro e Jararaca foi preso na Cadeia Pública, atual Museu Municipal Lauro da Escóssia e enterrado vivo -- segundo dizem -- no Cemitério Público. De cangaceiro passou à santo. O túmulo de Jararaca é venerado porque o cangaceiro é tido como milagroso. Uma verdadeira epopéia sertaneja, o encontro marcou profundamente a paisagem local e a alma da sua gente. Apresentações da Peça Dias 14, 15, 16, 17 21, 22, 24, e 28, 29, 30 e 1/07 Número de frases: 34 Um pouco mais sobre essa história, clique aqui!. «Eu, Joaquim Maria Machado de Assis, morador à rua do Cosme Velho, n. 18. Sou natural da cidade do Rio de Janeiro, tendo aqui nascido a 21 de junho de 1839, filho legitimo de Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis ...». Trecho do rascunho do testamento de Machado de Assis. In: Exposição Machado de Assis. Janeiro: MEC, 1939. O rascunho acima não se trata apenas de um trecho do testamento de Joaquim Maria Machado de Assis. Ele exemplifica também as raridades que muitos dos visitantes encontrarão na nova exposição do Museu da Língua Portuguesa, localizado na cidade de São Paulo. A exposição -- Machado de Assis, mas este capítulo não é sério -- instiga logo no primeiro passo ao leitor machadiano e, principalmente aos mais desavisados sobre as obras deste ícone da literatura brasileira. Praticamente toda exposição, que teve seu início no mês de julho, envolve. Seja por meio de frases, fotos e áudios de trechos dos seus livros, ou seja por os escritos contidos no chão e nas paredes, dedicando uma total sintonia entre autor e leitor. Todo o cenário é composto por trechos das obras do escritor: moveis que retratam a época, cartas de amigos e alguns documentos sobre o cronista. A atualidade dos textos deste intenso contista -- possivelmente um dos maiores do mundo, traduz um mundo não ultrapassado e que a cada trecho lido planta-se na mente do duvidoso leitor o dia-a-dia que Machado de Assis relatava tão bem e que ainda persiste em acontecer. Toda essa ousadia de Machado é a prova que a mostra dignifica ao precioso leitor. «Se lhes disser desde já, que não tenho papas na língua, não me tomem por homem despachado, que vem dizer coisas amargas aos outros. Não, senhor; não tenho papas na língua, e é para vir a tê-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui está o que é; eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício. A única explicação dos relógios era serem igualzinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como o do meu barbeiro. [ ...] Foi por essas e outras que descri do ofício; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos». Crônica de Bons Dias! 5 de abril de 1888. Ainda bem que Machado de Assis escolheu este outro ofício. A o caro Leitor Machado era um atento observador da cidade do Rio de Janeiro. Em o corredor que retrata ele como ' O Folhetinista ' pode-se encontrar um imenso painel com casos que ele sempre publicou nos vários dos seus contos. A tecnologia sempre presente no museu amplia-se com uma linguagem diferenciada, para declamar toda astúcia do homem observador. E, com mais palavras e / ou frases o visitante e simples leitor logo atende ao recado e inspira-se a viver dentro da exposição n ' um momento único, como se andasse por a famosa rua do ouvidor. As diversas facetas do maior escritor brasileiro, em tempo é lembrada por diversas personalidades num determinado bloco da exposição. E é por este faro, que o agora duvidoso leitor desenvolve novo pensamento sobre machado. «As palavras são como acaso e fatalidade, lançam idéias e sentimentos, nos faz despertar e acordar de um sono, de um sonho que parecia não ter mais fim. É um sentimento ímpar este». Um pensante leitor, traduzindo de um modo geral a exposição. Palavras em circulo e um pensamento inesperado, surgem de frente ao esporte que Machado adorava praticar -- o jogo de xadrez. Uma pequena mesa ao centro e o desenrolar de algumas frases num cômodo ímpar, aplica-se no visitante uma sensação incomparável. Toda astúcia machadiana é destacada neste trecho, que anexado a um outro sentimento que o agora atento leitor encontrará nos próximos passos. Interatividade ao nobre leitor Um corredor escuro e um imprevisto, figuram em grande destaque cinco telões, sendo um de frente para o outro e cada um seguindo uma linha de raciocínio, aplicando-se um verdadeiro gabinete de leitura. Imagens e sons, tudo bem explícito. Vozes de algumas personalidades exaltam textos e pensamentos machadianos. Em este determinado ponto o assíduo leitor passa para atento ouvinte. Xico Sá, Malu Mader, José Celso Martinez Corrêa, José Miguel Wisnik, são alguns dos que emprestam suas incomparáveis locuções para uma sensação sem rumo, sem contexto -- que é à parte que mais ousa com os escritos de Machado de Assis. É uma ligação não desastrosa ao espelho, que antecede ao abismo. O delírio Uma última saliva, pois a garganta não cansa em absorver os pensamentos dos textos deste nobre autor. O delírio se faz na parte final da exposição. Aparece então aos olhos mais atentos o angustiado leitor. Trechos de outros contos de Machado; documentos; testemunhos da vida do escritor e folhas das primeiras edições dos seus livros ficam avulsos na parede do museu. Tudo é um delírio a solta. «[ ...] restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevia interroga-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem parecia sem destino. -- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos. [ ...] contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulo dos imperfeitos, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. [ ...] Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás de ele os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cano tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último! [ ...] [ ...] um nevoeiro cobriu tudo menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel ...». Alguns trechos do Delírio, capítulo VII das Memórias Póstumas. Todo ' delírio ' pode um dia chegar ao fim e é assim que a mostra instiga e depois convida o procurado e incansável leitor a concluir sua leitura num último bloco da exposição. Uma enorme estante com diversos títulos de Machado de Assis e muito outros títulos sobre o autor, para deleite do último e voraz leitor, que não contente com tudo que leu, ouviu e assistiu, ainda assim, persiste numa última varredura, justificando, portanto, toda essa atualidade Machadiana. Em o fim, sobra para você, talvez ' distraído ' leitor, que numa última e atenta chamada, ainda assim, não se contenta com este capítulo que insiste em não se fazer de sério. -- " A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus." -- ' A o leitor ', Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881. Em tempo: este curioso e atento admirador do Museu da Língua Portuguesa, por gostar tanto da nossa língua e deste maravilhoso museu, já atendeu outras três exposições neste recinto. A primeira o instigou, mas ele por erro maior não trouxe seus relatos por aqui. A segunda foi o verdadeiro encontro com a estrela maior. O terceiro é decerto o encontro que amplia o pensamento para as nossas raízes e este último que atravessa a barreira do imaginário faz despertar a verdadeira essência da nossa língua, como este nobre museu sempre ousou. Número de frases: 82 Um homem é morto em frente a uma obra de arte de inestimável valor histórico. Perto de si, deixa uma pista que só poderá ser desvendada por a pessoa com quem iria se encontrar naquela noite. O homem, que ocupava um cargo de grande importância na preservação histórica e artística, havia encontrado a ponta do novelo que revelaria, se desatado, uma das maiores descobertas da história da humanidade. Se isto faz com que você se lembre imediatamente de O Código da Vinci, obra de sucesso mundial do escritor Dan Brown, é porque foi proposital. Porque a história acima também descreve um thriller nacional, a ser lançado por a editora carioca Garamond no dia 10 de maio (uma semana antes, portanto, da estréia do filme baseado na obra de Brown). O nome também remete ao livro arrasa-quarteir ões de 2003: O Código Aleijadinho. A primeira idéia é se pensar que tudo não passa de um pastiche, de um modo jocoso de se ganhar dinheiro com a fama alheia. Mas o autor, Leandro Müller, juntamente com dois livreiros seus amigos, tiveram a idéia de transpor a premissa de Brown para o Brasil. E então, como seria? A escolha de Aleijadinho, um dos maiores nomes da arte de todos os tempos no país, não foi à toa. Desde o nascimento, a vida de Antonio Francisco Lisboa está sob suspeita e envolta em camadas de mistério. E, com obras tão diversas em termos de grandiosidade e riqueza, bem como os supostos segredos acerca de algumas de elas, pareceu óbvio que a mistura de ficção, história, arte e conspirações poderia dar um belo jogo. E, na verdade, O Código Aleijadinho é um livro que nos faz passear por o universo não só do escultor mineiro, mas, também, do passado histórico da Inconfidência Mineira e de toda uma época literalmente áurea para as Minas Gerais. Com efeito, todo o ambiente envolvendo religiões, mistérios e tramas mundiais obscuras tornam-se críveis. Porém, com um efeito diverso do livro de Brown. Afinal, Robert Langdon (citado ironicamente, inclusive, por Müller em determinado trecho da trama) é quase um superinvestigador e reconhecido mundialmente, enquanto o herói tupiniquim, Leloir, é isolado e praticamente desacreditado por os que mantém algum contato com ele. Leloir tem a ajuda de Anna, filha do diretor-geral do Iphan, Walter Pilares, que é misteriosamente encontrado morto dentro de uma igreja na cidade de Mariana. Pilares também é um dos dois únicos amigos de Leloir e, juntos, buscam há anos desvendar os segredos ocultos nas obras do famoso escultor. O outro destes amigos é o obscuro bibliotecário Germano, que, como eles, busca os segredos que, segundo apuraram, pode levar à eternidade. Por Pilares ser uma pessoa de grande influência no cenário político, no entanto, uma ordem presidencial encarrega a Abin de solucionar rapidamente o caso. E o encarregado por as investigações, o cético César Rodrigues, que já era agente quando a agência ainda torturava presos políticos, nos tempos em que se chamava SNI. Portanto, osso duro de roer e com experiência em tirar informações de pedras, fosse como fosse. E César tem um suspeito principal: o pobre Leloir. O paralelismo proposital entre os dois Códigos é, como se nota, uma bela armadilha. Mas a condução do autor, em sua estréia, é precisa, apesar de alguns pequenos deslizes estilísticos, que certamente serão maturados com o tempo. É um livro vivaz e imaginativo, mesmo que estruturalmente calcado à moda de O Código da Vinci. Não poderia ser de outro modo, por ser uma homenagem explícita, inclusa inclusive nos agradecimentos. Por isto mesmo, este livro se destaca de outras obras que, aparentemente, tentam se aproveitar de modo finório do filão de Brown. Além, claro, de ser um livro nacional. Com potencial comercial, certamente, mas com muita qualidade. O autor, em bate-papo informal com o Overmundo, informou que a divulgação do livro contará com um elemento diferencial: um trailer de cinema do livro. Até onde se pôde apurar, é a primeira vez que uma ação deste tipo é feita com um livro nacional. Número de frases: 34 Este material estará, em poucos dias, disponível no site da Garamond. Saborosas, crocantes, macias de desmanchar na boca à primeira mordida, assim são as famosas broas, feitas há 27 anos por as mãos de Frascisco Pereira da Silva, 61 anos, o Chico da Broa. Produto artesanal e «made in» Acre, a receita do biscoito é simples: água, açúcar, goma de macaxeira e clara de ovos. «Herdei de um compadre lá do Ceará, é simples, mas é preciso habilidade para que fique saborosa e crocante. A goma tem que ser pura, se tiver alguma impureza não serve. Mas, tem que ter carinho», receita Chico da Broa. Em a pequena fábrica montada em sua casa, no quilometro 57, da estrada de Porto Acre, Chico da Broa, com ajuda do filho, fabrica as broas que serão comercializadas, aos sábados e domingos, numa pequena banca, no Mercado Elias Mansour (Centro de Rio Branco). Todo o processo de fabricação artesanal do produto demora dois dias para finalizar. O artesão conta que a produção chega a 400 sacos de broas, comercializados de 1 a 4 reais, cada, o que para o fabricante, assegura o sustento da família. «Consegui criar meus filhos vendendo as broas. Até porque me conformo com tudo aquilo que Deus me dá». Um dos sonhos de Chico da Broa é expandir o pequeno negócio, começando com investimentos na pequena fábrica artesanal, para em seguida conseguir legalizar a marca e junto ao mercado, o selo de qualidade para comercialização das saborosas broas. «Até porque pretendo comercializar as broas em supermercados, mercearias e outros estabelecimentos comerciais. A gente tem que pensar assim. Meu produto é bem aceito», destaca. Sabor natural e inconfundível Chico da Broa possui uma clientela eclética, de pessoas mais simples a políticos e empresários. Alguns clientes arriscam dizer que as saborosas broas tem algo de ' sagrado ', pelo menos no formato, pois se assemelham a uma hóstia. «Sagrada ela é no sabor. É isso o que meus clientes costumam dizer. Alguns brincam falando que parece a uma hóstia», diz Chico da Broa. Degustador da saborosa broa, cliente antigo de Chico da Broa, Francisco Maia, não consegue ficar sem o produto, e todos os finais de semana corre ao mercado. «Conheço o Chico há 20 anos. As broas que ele fabrica são deliciosas. É um produto ótimo, aceito por a maioria. O sabor é inconfundível e o que chama mais atenção é que não tem influência química. É um produto natural», discorre o antigo cliente. Como fabricar a broa Tempo de fabricação para 400 sacos: 2 dias Ingredientes: água, açucar, goma e clara de ovos A broa é toda feita no fogão a lenha, o que para Chico da Broa dará um sabor melhor ao produto, tornando-o 100 % natural. Primeiro a goma é colocada no fogo para derreter e se transformar num grude. Em outro vaso se coloca o açúcar, que vai ao fogo, para em seguida acrescentar o grude, formando uma espécie de melaço. Deixa ferver até apurar, põe para esfriar para depois acrescentar o restante da goma aos poucos, mexendo até formar uma massa parecida com a do pão. Depois se mistura na massa a clara dos quatro ovos -- isso se forem utilizado os quatro quilos de açucar. Bata a massa até que a mistura fique homogênea. Agora é só levar a massa numa mesa limpa para cortar no formato das broas. Abre-se a massa com o rolo e com um molde, que pode ser a boca de um copo. Número de frases: 40 Depois é só levar ao forno em formas para assar no forno à lenha. Recebemos por e-mail ( caso a autora que enviou autorize divulgar o seu nome corrigiremos na edição). Quando nós da «ACGT» propomos falar com o prefeito «Dr Nelson Trad Filho» no inicio do debate do 1 %, ninguém deu a menor importância, veja ai ...!!! Será que os vereadores vão garantir esta bronca? Sent: Friday, September 28, 2007 1:03 PM Subject: Notícias da audiência pública do 1 % Pessoal, Envio pequeno relato da Audiência Pública ocorrida ontem na Câmara de Vereadores para o conhecimento de todos. Audiência pública -- 1 % do orçamento municipal para a Cultura Realizada (26/09/2007) na Câmara Municipal de Campo Grande. Em a sessâo estiveram presentes os vereadores: Athayde Nery, Maria Emília, alex do PT, Cabo Almi, Vanderlei Cabeludo, Gilmar Olarte, Silveira, Paulo Siufi, Pedra. O Plenário cheio de artistas, produtores, pessoas da cultura e da arte. De Amambay e Amambaí, Professora Raimunda (Movimento Negro), Idara Duncan, a jovens atrizes e músicos, todas as gerações tentando um diálogo necessário a favor do investimento público na cultura. Glorinha Sá Rosa classificou o evento como um marco histórico na cultura campo-grandense, disse nunca ter visto a classe artística tão unida. A presença dos artistas se fez com várias intervenções artísticas, iniciando com Lenilde Ramos tocando sanfona e cantando um emocionante e peculiar Hino Nacional, Cenas Teatrais, Mímica, Circo, o Mágico Ric Thibau, Márcio de Camillo cantou «Terra Boa», belíssima canção que homenagea Campo Grande. à noite, a Audiência foi transmitida inteira por a TV Câmara. Todos os vereadores que usaram o microfone para falar, creio que foram 8 de eles, manifestaram o apoio ao projeto. Reafirmaram que muitos outros que não estavam presentes e o próprio Prefeito apoiariam a proposta. No entanto houve manifestações de preocupação com relação à aprovação do Prefeito. E sugestão de que o Movimento por o 1 % se apresente ao Prefeito Municipal para saber sua posição sobre o assunto. Depois da Celebração na Audiência, vimos hoje com a notícia do orçamento que chegou, vindo do Executivo, na Câmara -- a Cultura não é citada. http://www.midiamax.com/view.php? mat id = 297836 http://www.campograndenews.com.br/view.htm? id = 393512 A Cultura e a Arte não estão na agenda da sociedade campo-grandense. A questão, agora, está na mão dos vereadores. Cabe a eles analisarem o orçamento e propor emendas. Número de frases: 29 Um abraço, Papel e caneta. Esses foram os instrumentos utilizados por a artista plástica Vera Aparecida para retratar a sua convivência com índios ianomâmis. O resultado desse trabalho poderá ser visto na mostra ' Resgate Cultural: A Gente da Floresta ', que ficará em exposição de 15 de julho a 06 de agosto, no Centro de Informações Turísticas da Prefeitura de Boa Vista (RR). Ao todo serão expostas 30 peças, incluindo artefatos produzidos por os ianomâmis que serão utilizados na ornamentação do espaço. Esta é a primeira exposição organizada por a artista em Boa Vista. Segundo Vera Aparecida, a intenção é homenagear o povo ianomâmi, além de sensibilizar o público sobre o preconceito que existe em relação aos indígenas. «Eu gosto de temas que levem o público a refletir sobre as diferenças. Em o Rio de Janeiro, trabalhei muito a questão do preconceito em relação aos negros. Aqui, estou abordando a questão indígena. Espero que esta exposição seja um instrumento para que as pessoas se conscientizem da necessidade de conhecer melhor a cultura indígena», explicou Vera. A artista também vai mostrar um pouco do trabalho que desenvolveu no Rio de Janeiro. Segundo ela, os visitantes terão a oportunidade de comparar as semelhanças existentes entre a cultura indígena e a afro-brasileira. O Centro de Informações Turísticas funciona no antigo prédio da Intendência, na Orla Taumanan. O espaço fica aberto para visitação de terça a domingo, das 16h às 22h. Histórico -- Vera Aparecida é carioca e veio para Roraima a convite do irmão. Já atuou como professora de artes no Projeto Crescer, mantido por a Prefeitura de Boa Vista. A oportunidade de conviver com os ianomâmis surgiu quando ela começou a trabalhar como enfermeira atendendo às comunidades indígenas. «Eu tive a oportunidade de conhecer a intimidade desse povo. Durante 10 meses, visitei 16 malocas e fui registrando com caneta e papel -- que eram as únicas coisas que eu tinha à mão -- as paisagens, o cotidiano e as situações vividas por eles», explicou. O gosto por as artes foi uma influência do pai que também era artista plástico. Com dez anos, Vera já arriscava os primeiros traços. Ainda no Rio de Janeiro, confeccionou peças abordando o preconceito em relação aos negros. Em Boa Vista, Vera conta com o apoio da Prefeitura de Boa Vista e do curador de sua exposição, Wilson Lessa. Outras informações podem ser obtidas por o telefone: 3621-3958 ou 9963 4949. Número de frases: 27 Em maio de 2006 o jornalista Eduardo Palmério, o impagável crítico da burguesia paulista e carioca dos anos 40 a 60, completaria 100 anos. Irmão mais velho do escritor Mário Palmério, Eduardo nasceu na cidade de Sacramento, no Triângulo Mineiro, em 1906, mas no final da década de 10 mudou-se com a família para Uberaba. Em a juventude foi morar no Rio de Janeiro para estudar Odontologia e ficou deslumbrado com a produção cultural carioca, manifestada sobretudo na imprensa da capital. De volta a Uberaba, seu entusiasmo por os livros levou o jovem dentista a fundar a Livraria Abc, que nos anos seguintes tornou-se ponto de encontro dos intelectuais uberabenses. O combate a favor da leitura seria um tema sempre presente nas crônicas que viria a escrever na imprensa paulista. Em um artigo publicado na década de 40, Palmério manifestaria seu entusiasmo perante o fato de que os livros custavam relativamente pouco naquela época. «Pode-se morrer de fome no Brasil por falta de dinheiro para comprar comidas, mas ninguém morre de burrice por falta de dinheiro para comprar livros», dizia. Para demonstrar sua tese, Palmério comparou alguns preços: «Um romance de Eça de Queiroz vale bem mais do que um quilo de bacalhau, e custa bem menos», contabilizava, lembrando também que era possível encontrar, nos sebos paulistas, livros de Jorge Amado por o custo de «dois palmos de lingüiça» e cartilhas escolares por o preço de um maço de cigarros. Para ele, o problema era que as pessoas, em geral, não davam valor aos livros. O próprio político mineiro Benedito Valadares, ironizava, era desses que não entrava em livraria nem para se esconder da chuva. Sua conclusão para esse caso é antológica: «Ninguém é burro por falta de dinheiro, -- a maioria o é por excesso ..." Mas somente após 1943, quando mudou-se definitivamente para São Paulo, é que passou a dedicar-se integralmente ao jornalismo. Eduardo Palmério tornou-se um comentarista deliciosamente satírico ao refletir sobre os costumes de granfinos, empresários e políticos em suas colunas. Talvez mais por diversão do que por algum receio em assinar seus textos, Palmério passou a adotar vários pseudônimos. O mais famoso de eles era «Camarada Lorotoff», uma dupla zombaria com a retórica anti-comunista e ao mesmo tempo com a lorota comunista. Com esse pseudônimo, Palmério publicou, em 1948, o livro «A Grande Mamata», uma série de reportagens hilárias sobre a indústria do leite. Em o ano seguinte, reuniu seus melhores artigos e publicou a antologia «100 comentários». Em 1951 lançou «Solteiros no civil e no religioso», seu primeiro romance, todo encenado no ambiente característico dos jornais paulistanos da velha guarda. Eduardo Palmério lançaria ainda, por a editora José Olympio, o romance «A noite é nossa», sempre com aquele espírito bolchevista anárquico, atento ao ridículo das convenções e das máscaras sociais que procuram maquiar a violência das injustiças na sociedade. Palmério continuou escrevendo e publicando até as vésperas de sua morte, no dia 4 de janeiro de 1976, aos 69 anos de idade. Uma das grandes características de toda a sua carreira jornalística foi o caráter eminentemente ético de seus artigos. Em seus textos satíricos fica evidente a crítica social e o esforço para se pensar uma nova ordem para o Brasil. E para não deixar dúvidas sobre o propósito de sua produção intelectual, essa disposição ficou registrada por o próprio autor, no prefácio que escreveu para um de seus livros: «Afirmam os homens ' sensatos ' que é perigoso mudar a ordem natural das coisas. Mas pergunto: essa ordem é natural? Acredito que, no desejo de melhorar nossas condições particulares ou gerais, toda insensatez é perfeitamente justificada. Mais vale errar por conta própria do que deixar que acertem por nós." Número de frases: 30 Este foi o Camarada Lorotoff! A Obra, sexta-feira, 10 de março, 11:00 da noite. O Esquadrão Atari terminava a passagem de som e o Overmundo iniciava o seu lançamento «físico» na capital mineira. O coletivo, há apenas 5 dias no ar (a sua versão integral), já havia interessado a imprensa local. Restava descobrir se público de futuros integrantes do coletivo atenderia o chamado. Em aquelas 11 horas os primeiros discos começavam a girar nas mãos do (s) DJ (s) Overmundo. A pista, o balcão e as escadas ainda vazios. Onde eles estariam? Conjurados por o refrão de «Fight the power», do Public Enemy, ou por mero atraso numa noite de sexta, o público passou tomar todos os espaços. Fila para entrar, comprar cerveja e ir ao banheiro (na ordem natural das coisas): bom sinal. Intervalo para o DJ, era hora do Esquadrão Atari. Outra fila se formou. Agora na frente do único televisor que resolveu funcionar no momento da apresentação. Após quase 1 hora de vídeo e música o esquadrão encerrou ali o seu último show. O próximo agora só com músicas novas e após o retorno de Chien LaHaine, ex-integrante do conjunto que se encontra atualmente num safari no continente africano. O trabalho novo será produzido sem gastar um centavo e sem precisar de nenhum estúdio. Entre a desmontagem do aparato elétrico / eletrônico do esquadrão e a entrada do Arrebite, os DJs Overmundo voltaram a assumir o toca-discos. Não demorou muito para que Raul Costa e Rafael Ferreira subissem ao palco e assumisem o laptop e o controlador midi, respectivamente. Seguiu-se mais 1 hora de música eletrônica. Foi a vez do breakbeat da dupla que prepara o lançamento do seu primeiro disco. O EP Bicuda sairá por a gravadora alemã Phantomnoise Records, no início do segundo semestre. Muito calor, sem descanso. Até as cinco da manhã boa parte das pessoas ainda aguardava as últimas músicas do set final dos DJs Overmundo. Como todos sabem, a festa ainda não acabou. Número de frases: 25 Ela continua hoje e daqui para a frente e sempre, nesse coletivo. Tropa de Elite passou como um furacão por o ano de 2007, quebrando paradigmas, causando polêmicas e alertando para a sociedade a realidade nua e crua do Brasil, em especial o Rio. Polêmica na forma como foi vista na maioria do país, em DVD pirata antes do lançamento no cinema, o que se tornou rapidamente um fenômeno. Polêmica em seu discurso inovador, que remete a figura do consumidor de drogas da dita classe média brasileira como parte fundamental e financiadora do tráfico de drogas nacional. Em uma cidade onde se comercializa mais de 1000 toneladas de maconha e 100 de cocaína por ano é de se esperar uma relação de inter-depend ência enorme com quem tem dinheiro. Em o filme, o «playboy da zona sul» sobe o morro para pegar droga pra vender na faculdade. Financia o comércio ilegal de drogas e ainda contribui para o aumento da violência, gerada por disputas internas de poder e batalhas com a polícia. Polícia corrupta e doente, que ao mesmo tempo que faz vista grossa para a entrada de tóxico e armas na favela, trava guerras com os barões e seus soldados do tráfico. Em o Brasil tivemos a certeza do quão frágil está nossa sociedade, hierarquicamente falando, com essa verdadeira inversão de valores. A figura do capitão Nascimento, agora endeusada por as crianças e adolescentes por o seu modo truculento e controverso de encarar a bandidagem no filme faz sucesso em todo país. Foi dado o alerta para a necessidade de uma polícia eficaz e bem equipada, e, principalmente sem a banda podre corrupta que tanto colabora para a má imagem da polícia e alimenta o crime e tráfico organizado. Em nossa realidade cearense, tivemos de lidar desde o final do ano com a nova polícia de Fortaleza. A ronda conta com 100 viaturas modernas e de grande porte, com 1000 soldados novatos e jovens (média de apenas 22 anos de idade) treinados para monitorar e serem um pouco menos truculentos que os atuais soldados da pm tradicional alencarina. Em o início criticados por a sua falta de experiência e erros primários em alguns dos muitos casos registrados na cidade, sua presença já é percebida, e o que é melhor, elogiada nos diversos bairros formadores da metrópole. Será uma luz no fim do túnel, uma exemplo para o Rio? Só o tempo vai dizer. Mas o comentário comum a respeito da Ronda é positivo. A maioria dos cidadãos aprova e ajuda na elucidação de crimes com informações sobre o ocorrido no momento. A colaboração com a polícia tradicional não era feita antes dessa forma. Resta para nós tentar apontar soluções que não sejam apenas paliativas para um problema gravíssimo, que envolve toda a sociedade e merece nossa atenção. Segurança e patrulhamento é fundamental e se faz necessário, mas é preciso uma política de longo prazo para tirar o menor e futuro infrator da armadilha do tráfico. Número de frases: 21 às vezes fico aqui com mim, será mesmo que a banda Los Hermanos é uma tentativa frustrada de juntar Chico Buarque com rock. Ou o velho Chico já é rock? Ou o Los Hermanos é música popular brasileira? É engraçado o quanto tentam sempre rotular alguma coisa, seja o que for. Não que rotular seja coisa ruim, logo porque, todos nós somos rótulos de algo, mas quando se tem um rótulo, fica até mais fácil para falar sobre. Falo isso, depois de uma pequena discussão com um amigo, tive uma série de leituras quanto a esse fato. Los Hemanos, é uma banda dos anos 00', mesmo tendo nascido nos anos 90. Em o início, sua influência hardcore era muito mais visível, batidas fortes, rápidas, e por que não nervosas? E isso distanciava (ou piorava) a distinção da banda quanto às outras. As letras poéticas e intelectuais chegaram aos ouvidos de um primeiro público, falo isso antes mesmo do primeiro Cd, onde ainda eram conhecidos por as Demo «Amor e Folia» e «Chora», trabalhos independentes que deram a banda uma certa notoriedade, alguns showzinhos em faculdades, e pequenos bares do Rio de Janeiro, como uma vez disse» Bruno Medina, «era moda alguém ter a nossa fita», lembrou o tecladista. Pois bem, logo depois do primeiro disco, o falado e falado Los Hermanos, de 1999. Que tem a música que foi axézada, sertanejada, forrozada, dancezada Anna Julia, e que serviu para dar todo o impulso da banda pra uma gravadora, mídia nacional, Faustão, Fantástico, Sbt e tudo mais que se tem hoje em dia. Disco esse que ainda trouxe outros clássicos da primeira fase da banda como Primavera, Quem Sabe, Azedume, Pierrot e Outro Alguém ... Porém, ainda como músicas populares, de fácil arranjo e no formato Chiclete (que é o que cola) Se via de longe, por a batera e guitarradas sujas, a enorme influência da banda punk, hardcore e indie, então aí vai uma dica, vale a pena ouvir Primavera, Azedume e Tão sozinho, gravadas nas primeiras fitas demo da banda, que podem ser ouvidas no site oficial -- (www.loshermanos.com.br). Falo das influências, para se chegar «no ponto» da discussão, que é a vinda do Chico Buarque à Banda. Em o segundo e terceiro disco, o Bloco do Eu sozinho e o Ventura, respectivamente lançados em 2001 e 2003, os 4 amigos cariocas, sem o baixista Patrick Laplan, e com a produção de Chico Neves, tomam uma nova sonoridade, sem jogar muito as guitarradas sujas, e um vocal menos gritado, e mais sufocante. As músicas que antes falavam de amor perdido e severo, agora falava de saudades, da euforia, com uma nova perspectiva musical. Ali, era o ponto que o Barba começa a se provar, aceitando novos desafios em colocar batidas mais complexas, variações de tempo e fusões rítmicas mais elaboradas, o que ele confessa tempos depois, ao falar que gosta do problema, e assim, montar algo por cima da música. A partir daí, Los Hermanos começa a experimentar novos timbres, e a maturidade singular para, dois anos depois, fazer um disco tão bom quanto. Em a minha cabeça, esse é um disco que poderia ser duplo, assim como o Revolver e Rubber Soul, dos Beatles, tamanha a semelhança entre os dois, tamanha a continuação da idéia. Em esse momento, a banda já havia esquecido dos anos 90, da época da faculdade, e agora ouvia Noel Rosa, Cartola, Beth Carvalho, Jair Rodrigues, Paulinho da Viola, Bob Marley, Tom Jobim, Tom Zé e Chico Buarque. De aí se seguia a 4, o último Cd da banda, que gerou toda essa polêmica. Número de frases: 22 Sobre isso, falo logo mais na parte 2. Como uma fagulha esperta despejada sobre a palha digital, a carta de Steve Jobs, presidente-executivo da Apple, sobre a possível extinção do DRM (Digital Rights Management) ampliou o debate sobre o assunto e parece ter pousado sobre as mesas das gravadores e outros provedores de música online legalizada. É bom deixar claro que este debate não é novo, consumidores de música (honestos ou não) já sabem -- ou presentem -- há alguns anos que o DRM navega na corrente contrária à demanda e expectativa de um mercado na qual reina a dúvida sobre o futuro dos negócios e a preservação de um «extrativismo rústico». Digital Rights Management O clássico sistema de DRM é aquele na qual o usuário obtém conteúdo em formato protegido (tipicamente encriptado) com uma licença que especifica os usos permitidos para este conteúdo. Pode-se, por exemplo, permitir que o conteúdo seja executado em apenas 2 ou 3 computadores, utilizado por períodos determinados de tempo, impedir a execução em alguns aparelhos ou softwares, etc.. Basicamente, a responsabilidade do DRM é fazer com que: a.. O usuário não possa remover a encriptação do arquivo e enviá-lo para um servidor P2P; b. O usuário não possa «clonar» o sistema de DRM para fazê-lo ser executado em outro servidor; c.. O usuário obedeça as regras estipuladas por a licença e; d.. O usuário não possa separar as regras do conteúdo protegido. De acordo com o próprio Steve Jobs, não há outra teoria para proteger conteúdos que não a «manutenção do segredo». Mesmo com a utilização da mais sofisticada trava criptográfica para proteger a música, a chave que destrava o arquivo deve sempre manter-se em segredo." Ninguém ainda implementou um sistema DRM que não dependa de segredos para sua operação», explica Jobs. A questão é que existem diferentes e incompatíveis sistemas de DRM em operação. A Apple desenvolveu o FairPlay DRM e a Microsoft criou o WMA DRM. Isso só para citar os dois principais concorrentes no mercado de música digital. O problema? A incompatibilidade dos sistemas DRM, aquilo que a indústria passou a chamar de ausência de interoperabilidade entre sistemas de DRM e devices / players. A carta aberta de Mr. Jobs Publicada no site da Apple no dia 6 de Fevereiro de 2007, a carta apresenta três possíveis saídas para a questão do FairPlay DRM, a trava criada por a empresa a pedido das «big four» (Universal, Sony BMG, Warner e EMI) que, além das restrições básicas citadas acima, impede a execução de músicas vendidas por o iTunes em equipamentos que não utilizem o mesmo sistema do iPod e permite a reprodução em apenas 5 computadores diferentes. Em resumo, as saídas apresentadas por Jobs em sua carta são: * A manutenção do sistema atual, ou seja, manter o DRM da forma como hoje é utilizado, o que implicaria na multiplicação de diferentes sistemas de DRM e na consequente manutenção da incompatibilidade entre arquivos e players; * O licenciamento da tecnologia FairPlay DRM para outras companhias afim de torná-lo uma «trava universal» o que, segundo o próprio Jobs afirma, seria um ótimo negócio para sua companhia, mas a «abertura» -- e o vazamento -- da tecnologia possibilitaria o surgimento de ferramentas capazes de quebrar o sistema; * Enfim, Jobs propõe a abolição do DRM. Steve Jobs deixa claro que a Apple estaria disposta a acatar a última alternativa, ou seja, a extinção do sistema DRM. Segundo suas próprias palavras: «Apple will». Esta alternativa para a venda legal de músicas possibilitaria que qualquer equipamento fosse capaz de tocar os arquivos adquiridos em qualquer loja online, encerrando o problema da «incompatibilidade de gênios». As possíveis razões de Mr. Jobs A possibilidade mais ingênua para justificar a iniciativa de Steve Jobs pode ser a de que ele finalmente reconheceu que o usuário / consumidor detesta o DRM e as restrições impostas por o sistema, ou seja, Mr. Jobs não avaliou as consequências positivas ou negativas da abolição do DRM para seu próprio negócio e simplesmente se colocou no lugar do usuário honesto. Comparativamente, as travas nos arquivos digitais o tornam um produto supostamente menos atraente do que o CD que pode ser extraído para diferentes hardwares, em diferentes formatos e copiado inifinitas vezes. O próprio Jobs deixa claro em sua carta que a solicitação das «big four» para que toda música vendida online fosse protegida com DRMs guarda em si uma contradição, pois «essas mesmas companhias continuam a vender bilhões de CDs por ano que contém músicas desprotegidas». Nenhum sistema realmente eficaz de proteção de CDs foi criado até agora. Outra possível razão já abordada em artigos que trataram do assunto é a de que a Apple estaria prestes a perder milhares de potenciais consumidores na Europa. A hipótese é a de que alguns paises europeus estariam alinhando forças para acabar com o DRM, reinvindicando que tais práticas são proprietárias e eliminam a competição. O argumento utilizado seria o de que se o iPod possui 85 % do mercado e você deve necessariamente utilizar o iTunes para adquirir músicas online significa que o uso do iPod reitera a prática proprietária quer você se dê conta ou não. Acatando este ponto de vista, a carta de Mr. Jobs configura-se como uma ação estrategicamente calculada para prevenir o desgaste da Apple no mercado Europeu, afinal, a carta transmite a responsabilidade da preservação do DRM para as «big four» que dominam o mercado mundial da música e cuja maior parte do capital é europeu. Terceira alternativa: a abolição do DRM faria com que o iTunes ampliasse sua base de vendas, hoje focada nos donos de iPod. A esta possibilidade devemos agregar um fato importante e síncrono: a Apple Inc. de Mr. Jobs resolveu uma antiga pendência com a Apple Corps Ltd. dos Beatles sobre o uso da marca. A Apple Inc deterá agora todas as marcas registradas relacionadas a «Apple» e irá autorizar o uso de algumas dessas marcas à Apple Corps. A grande virada? Agora Mr. Jobs poderá vender e até produzir música. Até então, o iTunes configurava-se como uma empresa de «transmissão de dados». Como indagou Pena Schmidt na entrevista concedida para este artigo: «Um iPod que vem com músicas dos Beatles. Um Ipod com a obra completa dos Beatles, irresistivel ... por apenas quanto? Com DRM ou sem DRM?». Não só um iPod, mas agora também um iPhone e mais quantos «i ' s» Mr. Jobs for capaz de criar. Para finalizar as possibilidades que justificariam a carta, temos a hipótese da ampliação nas vendas de iPod's, iPhone's e os futuros etceteras da Apple. O aceite da abolição do DRM por toda e qualquer companhia de produção e / ou distribuição de música cria um ambiente amplo para a Apple incrementar ainda mais as vantagens de seu player. Algo como «seu iPod agora realmente pode tocar qualquer coisa em qualquer lugar». Um fato parece importante para desenvolver o trabalho com esta hipótese: a multiplicação dos players disponíveis atualmente no mercado que abrange desde o Zune da arqui-rival Microsoft até os aparelhos produzidos por os asiáticos disponíveis a um custo bem menor. Copio e colo o comentário de Pena Schmidt que despeja luz sobre esta questão: «Enquanto isso, na rua, o custo de memória RAM cai sem parar e o iPod se transforma num «EuPosso» de 1 Gb que custa 100 reais (fevereiro de 2007) e carrega 15 CDs, toca rádio, grava aulas e serve de transporte USB de programas e fotos, do tamanho de um isqueiro Bic, tão revolucionário e popular quanto. Diz a Apple que cada iPod vendeu 22 músicas, porem está cheio de músicas que foram tiradas dos CDs, sem DRM. Estas são as músicas que encherão os bilhões de EuPosso que saem aos borbotões das fábricas asiáticas. Este mercado de rua vai definir -- mais do que o charme e acabamento dos iPods -- o que, de verdade, vai acontecer no futuro do licenciamento de arquivos digitais de música. Há uma barreira transposta dos «100 dólares» que traz para o consumo as classes B, C e D. Isto já aconteceu com o celular, com o VHS, com o DVD, com o walkman, com o microondas, com os perfumes, os tênis e os óculos escuros. A música digital passa a ser fenômeno de massa, várias vezes maior que a penetração da internet, bem mais rapidamente. Sem DRM, sem loja, logo mais dentro do celular, o PC vira posto de gasolina." Estaria Mr. Jobs preocupado com a concorrência? Em os primeiros nove meses de 2006, a Apple contabilizou um aumento de 91 % nas vendas unitárias do iPod, passando de 16 milhões de unidades no mesmo período de 2005 para 30,7 milhões em 2006. Parece incrível, não? Mas qual o potencial do mercado de players portáteis? A irritação da Europa com o DRM não poderia conduzir o usuário a optar por outro dispositivo? E se isso se estender para o resto da maça? Enquanto o iTunes vende músicas com DRM que só tocam nos iPods, outros players já aboliram o DRM antes mesmo de criá-lo. Mas uma coisa é certa: Mr. Jobs já tornou o processo de venda de seu produto supérfluo. Criou o desejo de aquisição com maestria. Palmas para a equipe de marketing da Apple. Repercussão Logo após a publicação da carta, multiplicaram-se os comentários na rede sobre o tema e a proposta de abolição do sistema DRM. Para começar, o diretor-executivo da Warner Music, Edgar Bronfman, afirmou que o argumento de Jobs não tem «nenhuma lógica» e que sua companhia acredita na contínua proteção da propriedade intelectual de nossos artistas. «Acreditamos na interoperabilidade», disse ele. A Recording Industry Association of America (RIAA) também afirmou que a resposta ao problema está no licenciamento por a Apple do sistema FairPlay DRM para outras empresas, acatando a segunda saída proposta por Jobs. O mesmo argumento aparece no recém divulgado relatório da IFPI sobre música digital. Está lá num tópico específico denominado «DRM promotes consumer» (DRM promove flexibilidade para o consumidor e protege o conteúdo) que fecha o relatório: «Um aspecto chave é a limitação da oportunidade para que os consumidores transfiram a música adquirida legalmente entre serviços e dispositivos. Entretanto, este não é um problema causado por o próprio DRM, mas por a distribuição feita por algumas companhias de tecnologia de sistemas DRM sem interoperabilidade." Rumores no mercado dizem que a gravadora EMI estaria negociando o lançamento de grande parte de seu catálogo de músicas para venda na web sem DRM. Uma porta-voz da EMI informou que a empresa não comenta rumores. Entretanto, disse que a gravadora já experimentou o lançamento de músicas em MP3 e tem lançado singles de artistas populares como Norah Jones e Lily Allen nesse formato." Os resultados foram positivos», afirmou a porta-voz da EMI, acrescentando que «a falta de interoperabilidade entre uma crescente variedade de hardware e plataformas digitais de entrega de música está se tornando um problema cada vez mais importante para os consumidores e a EMI tem trabalhado com vários parceiros para encontrar uma solução». Indagado por o editor da revista Playlist sobre o assunto, o vice-presidente sênior de música da RealNetwork (mantenedora do Rhapsody) e um dos principais concorrentes do iTunes, Dan Sheeran, disse acreditar que a abolição do DRM «é apenas uma questão de tempo». Um estudo da consultoria Jupiter Research feito na Europa com representantes de pequenas e médias gravadoras, serviços de venda de música e organizações de direitos digitais antes da publicação da carta de Mr. Jobs (durante os meses de dezembro e janeiro) mostra que quase dois terços dos executivos do setor acham que a remoção do DRM aumentaria a venda digital de música. Lê-se no site da " BBC News: «O estudo revelou que cerca de 54 % desses executivos acham que os atuais sistemas DRM são restritivos demais. Também, 62 % de eles crêem que eliminar o DRM e lançar faixas que podem ser tocadas em qualquer tocador MP3 daria impulso à decolagem da música digital no geral». Os resultados da pesquisa revelam também que, fora das gravadoras, 73 % dos pesquisados concordam que a eliminação do DRM aumentaria as vendas de músicas em serviços online em todo o mercado. 70 % de eles acham que o futuro da música online depende de tornar as faixas compatíveis com qualquer tocador, mas 40 % acham que governos ou órgãos de defesa do consumidor deverão intervir para que isso aconteça. Em o Brasil Felippe Llerena do site iMusica, pioneiro na venda legalizada de música digital no Brasil, acredita que " a interoperabilidade é fundamental para o crescimento da indústria da música digital. Se isto significa abolir o uso do DRM que seja, portanto, apreciada esta possibilidade por as majors. Como exemplo, temos o site da eMusic (Usa) que hoje vende em MP3 aberto, somente com conteúdo independente, sem nenhuma restrição, pois o usuário tem a possibilidade de ouvir a musica em qualquer device». Maurício Bussab, da distribuidora Tratore, diz achar espetacular a abolição do DRM. «Em a ausência de um DRM único, de aceitação universal e fácil uso, acho que o modelo de distribuição digital vai funcionar, sem DRM. Parafraseando o dito popular: «quem tem dois padrões não tem nenhum». Eu sou assinante do eMusic e apóio a venda de MP3 como uma das possíveis saídas para a distribuição digital. A Tratore já tem boa parte de seu catálogo como MP3 destravado à venda no eMusic. E existem boatos que no Brasil uma empresa vai começar a oferecer isso também». Para a Gerência de Informações Estratégicas do Ministério da Cultura, o tema específico da utilização do DRM por as gravadoras é da esfera privada e não cabe ao MinC interferir diretamente. Para o Ministério, a promoção de um evento como a Feira Música Brasil, realizada em Recife de 7 a 11 de fevereiro de 2007, é a resposta que adequada ao impasse causado por o paradigma digital na indústria da música. De acordo com José Murilo Junior, editor da seção Cultura Digital no site do MinC, está claro para (quase) todos que DRM não é o caminho, e que o fenômeno da cauda longa " combinado com a maior disponibilidade dos meios de produção digital cria um cenário completamente novo para os músicos. «O Ministro Gil acredita que o novo contexto deve ser amplamente debatido e explorado (objetivo da FMB), entendendo que as novidades são favoráveis aos agentes criadores do segmento, e em última instância também para a indústria. Fato é que neste novo contexto os músicos aumentam a possibilidade de participação direta no negócio, enquanto à indústria da música cabe perceber que o jogo mudou e que suas inclinações não mais definem o mercado. Prova disso (além da manifestação do Steve Jobs) é a realização de uma feira de negócios do setor musical no Brasil sem a participação das grandes gravadoras, o que certamente seria impensável há alguns anos atrás». Após uma série de tentativas, a ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos) não se pronunciou sobre o assunto. Também não foi possível entrar em contato com a UOL Megastore e com representantes do serviço Sonora do portal Terra. Agradeço o auxílio imprescindível de Pena Schmidt e José Murilo Junior durante a pesquisa e redação deste artigo. Número de frases: 120 (Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de Jules Verne, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta mensagem com vocês. Chamei-a de " O Diário de'O ') «O Airtrain passou por a minha janela agora, fazendo a vidraça trepidar levemente, num frêmito. Aquela mancha súbita, incômoda, era pior ainda à noite, quando a luz do letreiro da boate em frente tremeluzia, trôpego, me assustando como um fantasma fugidio. Bobagem ainda acreditar em fantasmas a esta altura da vida, mas, fazer o que? Sou do tempo do crack tecnológico de 2098, a época em que o mundo parou por quase 3 anos, travado por a crise provocada por o esgotamento súbito das reservas de biocombustíveis, que culminou com a desertificação parcial das terras do sul do planeta, levadas a beira da esterilidade total por a monocultura energética, e por os efeitos catastróficos da Grande Enchente, no Norte. Evento há muito tempo esperado, como resultado irremediável do aquecimento global, esta inundação catastrófica só ocorreu mesmo, subitamente, no ano novo de 2095. A maior entre todas as tragédias da humanidade, na qual milhões de pessoas desapareceram, a Grande Enchente foi como se retornássemos ao dilúvio bíblico. A o fim do processo, o refluxo das águas, incompleto, formou no centro da Europa, uma região aprazível, denominada Grandes lagos do Norte, onde os milionários do mundo e as grandes instituições que governam o planeta se fixaram. Tornada, no entanto a última opção de combustível abundante, capaz de dar vazão a grande demanda de consumo energético do modo nababesco de vida dos povos do Norte, a água dos Grandes Lagos, logo secou. A o Downtime, como ficou conhecido o apagão energético do mundo, se seguiu então a chamada Guerra da Água, conflito ocorrido nas Américas, com milhares de mortos e envolvendo os Estados Unidos e o México (associados às potências européias), contra os aliados Brasil, Colômbia e Bolívia, por a posse da bacia hidrográfica do Amazonas. A Guerra da Água foi de um barbarismo sem precedentes. Em ela, pela primeira vez na história, foram usados combatentes zumbis, soldados induzidos á lutar até morte, com as mentes controladas por computadores. Derrotadas, as nações do Sul passaram a ser obrigadas a comprar a sua própria água que, desviada por o Aqueduto internacional para as terras do Norte, é vendida hoje em tonéis, cujo preço exorbitante torna o abastecimento de água para as populações dos desertos do Sul, um problema dramático. A Guerra e o Downtime tiveram, contudo, alguns poucos resultados benéficos. Um de eles foi volta de muitas de nossas crenças mais primitivas, hábitos culturais antigos -- tais como este, de acreditar em fantasmas, em Deus ou mesmo na redenção do ser humano, esta coisa patética em que nos transformamos. Este incômodo com a mancha instantânea do Airtrain só me ocorre assim, nas noites de insônia. Quando mergulho nestes tristes e melancólicos pensamentos de saudade dos velhos e bons tempos que se foram, para sempre. Ah, quanto não daria para ter um copo de leite morno nestas horas. Deus do céu, entre todas, esta é uma das maiores e mais insuportáveis provações. Não existe mais leite na Terra. As vacas há muito se foram deste mundo. Meu bisneto viu uma de elas num holograma do VirtualZoo de sua escola. Teve pesadelos durante três dias. Disse que foi do nojo que sentiu, ao ver que as pessoas bebiam aquele líquido infecto, que saía das entranhas de um animal tão gordo e asqueroso. Ah, uma gota, um sorvo só que fosse, deste líquido precioso e abençoado, que não provo há mais de quarenta anos. Acho que, como um elixir da juventude, este sorvo me remoçaria. Parece mesmo loucura lembrar como as coisas eram antigamente. Quem poderia imaginar que não criaríamos mais animais para matar a nossa fome? Quem suspeitaria, há 100 anos que fosse, que esta história de cadeia alimentar seria, um dia, apenas mais uma das remotas lembranças de nosso passado biológico? E que, mesmo assim, o tardio da decisão de preservar a vida animal na Terra, nos tivesse privado da maioria das espécies que havia? Estas milhares de coisas exóticas que vemos agora nestes tristes e melancólicos hologramas dos VirtualZoos escolares. Sim. Estamos quase sós no planeta, nossa velha natureza é agora mais pobre e medíocre do que jamais foi. Com força de vontade, se poderiam enumerar, no máximo, umas seis espécies de animais ainda não extintas, e isto, contando com nós, é claro. Não é preciso nem pensar muito: Sobreviveram os Cães, os Pombos, os Corvos, os Ratos e as Baratas. Vi na Hologram-Tv outro dia que há num certo canto remoto do Brasil, uma tribo que come os seus próprios cães e domesticam seus ratos, segundo eles, excelentes farejadores de dejetos orgânicos, outro hábito cultural surgido na época do Downtime e praticado por os endinheirados do Norte, pobres de espírito, que pagam caríssimo por o produto, cuja venda é controlada por um grande cartel de traficantes denominado " The Monopol '. Os dejetos, conhecidos por o estranho nome de Cocablood, distribuídos sob a forma líquida ou pastosa, são considerados uma iguaria afrodisíaca. Era de se esperar uma reação como esta diante do insípido hábito que adquirimos de ingerir pílulas. Asco. É por estas e outras que tenho desprezo profundo por estes tempos modernos. Principalmente por sua fauna. Ontem saí de casa depois de seis meses de reclusão. A idade avançada reduziu bastante o meu apego por os passeios, mesmo os noturnos. Não estou mais tão benevolente para aceitar ficar sendo observado, fotografado, quase tocado por estes inconvenientes jovens Seestrangers, que ficam postados em frente a minha janela; gente que nunca viu, assim de perto, um ser humano real, como éramos antes do Downtime. Definitivamente não me agrada ser este tipo de celebridade. Em a verdade sou mesmo quase um bicho raro. Como caminhamos para o ponto onde não existirão mais as antigas diferenças estéticas, biotípicas entre as pessoas, o aspecto que os seres humanos mais novos (' normais ' como já se diz, com certo desprezo por os mais velhos) adquiriram, é tão diferente de mim, que sou conhecido aqui no meu bairro como " O Turvo ' (uma alusão ao tom pardo e baço da minha pele, bem diferente do tom claro e brilhante da pele dos mais jovens), sofrendo, todas as vezes que saio às ruas, os constrangimentos mais absurdos que se possa imaginar. Meu bisneto tentou me convencer um dia destes a aceitar a proposta que um professor de sua escola lhe fez, para que eu, em troca de algum dinheiro -- uma verdadeira fortuna, na verdade -- posasse como modelo, para imagens holográficas a serem disponibilizadas aos alunos no VirtualZoo local. «Como as imagens da vaca?" -- Indaguei, para que ele se lembrasse do que sentiu por o bicho que dava leite e que tanta má impressão lhe causara. Ele não compreendeu a sutileza. Tive que rejeitar a idéia, veementemente, com argumentos bem mais diretos. Não temo afirmar que a extinção total da diferença entre as raças, ocorrida em 2099, foi de um pragmatismo por demais cruel, (atributo que, infelizmente, se tornou corriqueiro entre nós). Determinados para abolir um componente de nossa humanidade, considerado então prejudicial á boa convivência entre os povos e as nações, os procedimentos científicos que iniciaram, ao fim de longo debate, a extinção das diferenças raciais foi, em quase cem anos, a decisão mais polêmica tomada por a Cúpula Planetária, instituição criada em substituição da ONU, um pouco antes do Downtime. (como se pode observar em qualquer VirtualBook, desmoralizada por um formidável esquema de corrupção, liderado por proeminentes membros do antigo Conselho de Segurança, envolvendo tráfico de armas e negociatas com mercenários, a ONU foi extinta em 2097). Segundo os especialistas consultados, sociólogos e antropólogos em sua maioria, a diversidade étnica, entre outros inconvenientes (como a inevitabilidade do racismo, por exemplo) seria um recurso já totalmente ultrapassado, do tempo em que a humanidade, do ponto de vista de sua evolução biológica, apenas engatinhava. O principal impulso a esta decisão, foram os avanços da engenharia genética no século 21, a partir da descoberta das células tronco, o que tornou viável a maravilhosa esperança que será o ser humano homogeneizado, o Homem Mestiço, sem qualquer traço de diferenciação racial. Segundo a minha modesta e suspeita opinião, mais uma aberração, entre tantas, que o homem criou depois que passou a se julgar o Deus de si mesmo. O processo, no entanto, se prevê, poderá incorrer em diversos inconvenientes e muitas conseqüências indesejáveis, como, por exemplo, já ocorre com o crescente surgimento de movimentos que preconizam a expulsão de pessoas contrárias á homogeneização para os distantes desertos do Sul. Chamadas por a imprensa de Racialistas, estes grupos contrários á homogeneização, foram criados por clérigos progressistas do Norte, que fundaram o Movimento Racialista da Humanidade (conhecido como a última fronteira da religiosidade humana) que prega a manutenção da diversidade étnica e racial, afirmando que a homogeneização irá produzir uma praga genética pandêmica, que dizimará mais gente do que a Grande Enchente. Logo após o Downtime, com a explosão dos movimentos migratórios para o Norte, a medida que boa parte do sul do planeta se desertificava, as pressões da Cúpula Planetária acabaram forçando ainda mais a expulsão em massa de racialistas para as áreas desérticas, onde já viviam as populações originais, largadas á própria sorte por as potências do Norte. Regredindo, com o decorrer dos anos, a um estágio de civilização primitivo, bem semelhante aos modos de vida dos humanos do início do século 21, a população destas terras do sul, atualmente são governadas por a irmandade dos clérigos racialistas e uma casta aristocrática de emigrados recentes, fugidos ou banidos do Norte, que pregam uma guerra violenta contra os povos do Norte. As áreas desertificadas da Amazonia e do Sudeste asiático são os habitats mais característicos destes povos, entre os quais os Mulatos do Brasil e os PanChinos da Tailândia se destacam por a selvageria. A maioria dos seres humanos, muito em breve, será «Flex». Não existirão os gêneros humanos, homem, mulher, tais quais os conhecíamos. Serei um dos poucos exemplares vivos dos homens convencionais, Proto-hetero, como a ciência já nos classifica hoje. Mais um constrangimento que me faz pretender, para mais breve ainda, a minha partida deste mundo. Os «Flex» não serão homens nem mulheres. A evolução dos seres humanos para o estado «Flex» se tornou um imperativo, na medida em que o intercurso sexual, com fins de procriação, se tornou uma prática totalmente desnecessária entre os humanos. A formidável evolução científica nesta área, possibilitou a implantação definitiva da gestação por meio da inseminação artificial de células tronco, permitindo que qualquer indivíduo, homem ou mulher, passasse a poder gerar e gestar filhos, naturalmente. A revolucionária inovação, no entanto, não conseguiu abolir, absolutamente, o prazer que, desvinculado da necessidade de haver intercurso sexual, mesmo que simbólico, entre seres de gêneros diferentes, passou a ter exacerbados os seus aspectos mais primitivos, ancestrais, como vício mesmo, ou necessidade atávica cuja saciedade, apesar de transgredir regras sociais atualmente vigentes, precisa ser conseguida, irresistivelmente, a qualquer custo. Foi assim que o sexo acabou se transformando em droga proibida, cuja comercialização assumiu proporções avassaladoras quando se descriminalizou a prática da pedofilia (outrora tolerada apenas quando praticada por ricos) para fins sexuais amplos, desde que normais e controlados. A decisão, que causou grande polêmica entre a população, só foi decidida por intermédio de um disputadíssimo referendo mundial. A vitória dos adeptos da Pedofilia Controlada, como não podia deixar de ser, provocou o surgimento de um mercado clandestino, dominado por traficantes e voltado para o atendimento á clientes viciados naquelas aberrações anteriormente toleradas, tais como a mutilação e / ou assassinato de crianças pra fins de canibalismo. É comum aqui, por esta razão, a apreensão, quase diária, de comboios de Airtrains, carregados de jovens, meninos e meninas, criados nos desertos do Sul (principalmente no Brasil) exclusivamente, para alimentar este mercado abjeto do Norte. Mais um Airtrain passou agora mas não me animei ainda em pegar um. A hora está chegando, mas o esforço mental para pegar um veículo destes, mesmo com o confortável procedimento da Teletransportation, é tão grande -- ainda mais na minha idade -- que quase desfaleço, só de pensar. O fato é que morro em breve. Posso saber disto, assim, com tanta convicção, porque as mortes perderam a inevitabilidade natural que tinham antigamente e precisam ser programadas hoje em dia. Como sempre foi com tudo na vida, vivem mais os que possuem dinheiro. Para os pobres a morte é líquida e certa. Sempre achei este procedimento, chamado popularmente de Morte Legal, um total absurdo, mas, o departamento do governo que cuida do controle populacional já me comunicou: meu tempo se encerra daqui à três meses e exatamente às 16 horas de dia 5 de setembro de 2185 serei declarado oficialmente morto e terei que ser fisicamente apagado. Vivo ou morto, no entanto, 2185 será, com certeza, o meu ano inesquecível. Por isto pegarei o Airtrain por a última vez ainda hoje. O processo é simples e indolor, posso garantir. Você mentaliza o seu desejo de embarcar no momento em que algum sinal da vinda do Airtrain se processa. Uma tremida da vidraça, o trepidar do assoalho, qualquer indício é o sinal. Assim que veículo passa por a sua janela, o embarque é instantâneo. Num átimo você está dentro do veículo rumo ao destino que mentalizou. Sem que os funcionários da LifeDelete saibam, partirei. Os traficantes de matéria são facilmente encontrados no interior do Airtrain. Eles me teletransportarão para as terras do sul sem problemas, a um custo bem em conta, se julgarmos a enorme alegria que terei. Estou decidido a passar meus últimos dias numa tribo do Brasil, minha origem genética, perto de pessoas iguais á mim. Morrer naturalmente, definhando, é o que eu desejo. Chego até a sonhar com alguém que reze por mim aquelas velhas rezas do passado. Velas acesas, flores. Gurufim com tambores. Talvez um velho Samba na voz da Clementina de Jesus. Incelenças, ladainhas. Pontos de Jongo ou de Macumba. Velhos rituais ancestrais do tempo em que tínhamos ainda resquícios de humanidade. A vidraça tremeu. Não sei por que, no meio dos pensamentos de embarque, surgiu o rosto de ela, daquela que foi a minha última mulher, exatamente como estava no dia em que nos conhecemos. O vestido estampado, as pequenas flores de flamboyant no cabelo. Linda. Ah! Como é doce esta felicidade. A os meus sonhos mais antigos, portanto, satisfeito e conformado eu vou." Número de frases: 114 Spirito Santo Maio de 2007 (Fotos Roberto D' Angelo) De dia, o retrato de uma boca do lixo qualquer que pontua o centro da cidade: pessoas no corre-corre, relógios apontando atraso, prostitutas recolhidas, mendigos exalando descuido, camelôs, buzinas apressadas e o estresse correndo solto por as ruas estreitas do centro de Belém. Próximo a um dos cartões postais da capital, a Praça da República, fica a rua Riachuelo, onde, na esquina com a travessa Primeiro de Março, de sexta-feira em diante o movimento começa a ficar um pouco mais intenso. No entanto, nada que remeta a uma zona do meretrício como manda a história. Lá, veteranas e novatas observam o movimento de carros com o olhar cansado sentadas na porta das pequenas casas antigas do bairro da Campina. Vagabundos rodeiam como urubus de olho num cachorro quase morto. Bêbados oriundos do Ver-O-Peso e trabalhadores dos portos da Cidade Velha são os eventuais clientes. Por ali não há glamour, tampouco diversão. Não há sequer a alegria de um local com putas, gente bêbada e brega no volume máximo. Em esta mesma esquina, há cerca de um ano, o grupo de teatro Cuíra escolheu um galpão para montar seu espaço e, com isso, apresentar suas peças, ensaiar, fazer leitura de textos etc.. «Somos um grupo que trabalha com artes cênicas. Há muito procurávamos um local para nos estabelecer. Para ensaiar, apresentar nossos trabalhos, ficar em cartaz por o tempo necessário», conta Edyr Augusto Proença, escritor responsável por os textos encenados por os Grupo Cuíra. Em essa procura, o grupo finalmente chegou ao local em questão e, como uma das divinas intervenções do acaso, pessoas dos arredores começaram a aparecer e perguntar o que diabos estava sendo «construído» ali. Este foi o primeiro insight para a criação do espetáculo teatral Laquê, em cartaz há quatro meses em Belém, sempre com casa cheia. Edyr, que em seguida passou a colher depoimentos de prostitutas e moradores do entorno, conta que a primeira idéia nasceu desse contato. «Chegamos, passamos a limpar o local e as pessoas entravam, perguntando o que iria acontecer ali. A idéia de trabalhar com essas pessoas foi imediata», revela o autor. O enredo do espetáculo Laquê mostra a época áurea do endereço na metade do século passado, época em que «a zona cheirava a Laquê». A história se passa num carnaval dos anos 30, quando marinheiros franceses desfilaram nus protestando numa greve no navio. O episódio faz parte da história real de uma das prostitutas do elenco. Ela, apaixonada por um cliente, descobre que ele vai casar com uma virgem rica e resolve levar as colegas para a igreja. Após a bagunça feita no casamento, elas são presas e retornam para a «casa da luz vermelha» onde viviam. Lá, a protagonista veste-se para uma noite de gala e toca fogo no próprio corpo. O espetáculo, dirigido por Wlad Lima e por o ator Cláudio Barros -- um dos fundadores do Cuíra -- tem duas horas de duração e junta atores profissionais, estudantes de teatro da Universidade Federal do Pará e dez prostitutas que vivem nas redondezas e passaram por a peneira das oficinas de teatro adulto, realizadas por o grupo. Em novembro de 2006, a diretora Wlad Lima deu início às oficinas com várias que pessoas que, com o afunilamento natural das atividades, poucas foram ficando na peça. Zê Charone, produtora do espetáculo e atriz do grupo Cuíra, diz que não havia como o Cuíra se estabelecer naquele lugar sem olhar para o entorno: «Ele era muito presente ali». A princípio, a casa estaria aberta a outros projetos ligados à zona de meretrício, mas com a curiosidade e a vontade mostrada por a vizinhança, o processo natural foi se encaminhando para o surgimento de Laquê. «A gente não sabia o que ia acontecer», revela Zê, que enfatiza que o aprendizado está sendo muito grande para os dois lados -- prostitutas e grupo teatral. O lado social, muito presente no projeto, surgiu de maneira genuína e honesta, sem forçar nenhuma barra para querer atrair os holofotes da imprensa e público. «O trabalho social, aplicado à zona do meretrício veio do convívio com o entorno. É o teatro que recebe todas essas pessoas, entre moradores, profissionais do sexo, de ambos os sexos, camelôs, enfim. Há oficinas direcionadas para o teatro e outras para o público em geral. Esse trabalho social entrou de maneira natural», confirma Edyr. As prostitutas que trabalham no espetáculo receberam cuidados maiores através de apoios conseguidos por o grupo Cuíra, como tratamento odontológico, limpeza de pele, corte de cabelo etc.. Em agosto, começa o trabalho de alfabetização adulta, pois várias meretrizes não sabem ler e escrever, como é o caso de Vitória, uma das maiores revelações do espetáculo. «Ela chegou aqui pedindo para ouvirmos as composições de ela. Pedimos para ver a letra e ela disse que não tinha, mas que ia cantar a música. Hoje em dia, quando atua na peça, você não sabe diferenciá-la dos atores profissionais que estão no elenco», conta a produtora. Sobre a continuidade das prostitutas na carreira teatral, Edyr diz que " algumas dizem claramente querer se tornar atrizes. Prosseguiremos com Laquê, mas já temos outro projeto, onde esse povo do entorno participará como coro teatral». Zê complementa dizendo que «o que levanta suas auto-estimas e as transforma em cidadãs mantém acesa a vontade de continuar na carreira artística». Laquê ficou quatro meses em cartaz, inicialmente às terças-feiras, depois, graças ao sucesso de casa lotada em todas as exibições, passou para as sextas-feiras. O espetáculo deu uma pausa durante o mês de julho, onde Belém vira uma cidade sem vida cultural, e retorna em agosto, sempre às 21h das terças-feiras. O grupo Cuíra deixará a peça em cartaz durante um ano. O Grupo Cuíra iniciou suas atividades no Pará em 1982, quando jovens atores, egressos de diversos grupos, encenavam peças de outras companhias de teatro paraenses. A partir de então, grupos paralelos se formavam e o Cuíra há 19 anos segue uma carreira bem sucedida com peças premiadas e sempre lotando teatros e espaços culturais por onde passa. Em o novo espaço, Edyr diz que as portas estão abertas " para a vida que circula em seu entorno e dentro, se transforma em mágica, seja com teatro, música, artes plásticas. Fazemos teatro para mudar o mundo». Número de frases: 50 Vida de correria, falta de tempo, exposição constante ao cenário imagético da vida cotidiana ... quantos são os motivos que nos afastam hoje da ritualidade própria da leitura, que demanda do leitor disposição para se implicar com a «quietude» do livro. Mesmo sendo amante inveterada de literatura, como não estou imune a este contexto, vinha há algum tempo experimentando a dificuldade de me envolver com este objeto de desejo. E, diante da culpa por entregar-me ao ócio da leitura que interrompe o ritmo frenético do cotidiano, não hesitava em declinar deste prazer ... Afinal, «Deus ajuda a quem cedo madruga» ... Mas eis que, como que caído do céu, o livro de Adroaldo, que conheci por acaso no overmundo (bendito acaso!), me devolveu o direito à preguiça. «O Dia do Descanso de Deus». Se Deus descansa, por que eu, pobre mortal, não poderia também descansar? Mal sabia eu que à preguiça divina sobrevém a insídia pérfida do diabo. Eu aqui de livro nas mãos deliciando-me com a novela -- deixando de lado a rotina escravizante do dia-a-dia -- enquanto as criaturas da novela se lascavam num redemoinho de tragédia. Seria isso justo? Tanto não seria, que o descanso tão esperado não me foi dado ... Magistralmente fabricada, a trama não me concedeu nenhum sossego: a ausência de temporalidade linear exigiu de mim atenção e esperteza; o suspense me deixou tensa; o envolvimento com os dramas das personagens me tirou o fôlego. Adroaldo você não me deu nenhum descanso e, ainda assim, não me resta outra coisa senão lhe agradecer de coração. Seu livro me devolveu o que Ítalo Calvino considera como faculdade humana fundamental: Número de frases: 19 a capacidade de fazer brotar -- do alinhamento de caracteres alfabéticos negros deitados sobre o papel -- a sensibilidade e a imaginação, ingredientes sem os quais a vida não passa de uma página em branco. Quem trabalha com cultura sabe que tem por a frente uma luta árdua e constante. Ainda mais num estado que ainda não se descobriu como um poço de infinitas possibilidades como o Piauí, vasto em história e arte. Mas, não se descobriu massificadamente falando. Ainda não se reconheceu como tal. Entretanto, não faltam pessoas atentas, conscientes e preocupadas com nossa arte e história. Mas, muito penosamente, trabalham com a esperança, de chegar a seus objetivos, encardida. Esperanças, como a de guardar a memória cultural de uma localidade, ou manter de pé as lembranças que alicerçou a vida cultural que nós respiramos hoje. E é atrás disso que corre a Fundação Nogueira Tapety, ao tentar revitalizar o que passou a ser chamado de «Fábrica de Sonhos». Que é na verdade a Fábrica de Laticínios de Campos, inaugurada em Campinas do Piauí, no ano de 1897, fechada e abandonada em meados do século passado, e que hoje tem, como memória, o prédio arruinado que a abrigou. A construção elaborada por o alemão Alfredo Modrack (o mesmo que fez a planta do Theatro 4 de Setembro), outrora imponente, abriga hoje em suas ruínas uma memória adormecida e um carinho latente da população vizinha. Por esse e vários outros motivos, a fábrica tem que voltar à «vida». Não mais para produzir manteiga, e sim para azeitar a relação de um povo com sua história. O prédio tem que voltar a fabricar, mas, dessa vez, cultura. Embora esteja quase aos escombros, o prédio foi tombado por a lei estadual nº 7.298, de 26 de janeiro de 1988, por o então governador Alberto Silva. O tombamento, teoricamente, obrigaria o Estado a proteger o Bem tombado. Mas não é o que acontece. Por um lado entristece, pois nota-se o descaso; mas por outro revigora as forças, já que isso já é uma arma. Mas, infelizmente, não adianta apenas o cavalo e a lança dos nossos Quixotes. Em nossos tempos, para derrotar esse tipo de dragão, e revitalizar um prédio assim, precisa-se de dinheiro. E para isso a Fundação Nogueira Tapety começou uma campanha popular, em busca de todo e qualquer adepto, para se conseguir por de pé a memória do Piauí. Em 2004, a pedido da Fundac foram concedidos à fábrica os benefícios da Lei Rouanet. Valeram para 2005 e foram renovados em 2006, mas expiram, sem apelação, no próximo mês de dezembro de 2006. Mas nada ainda aconteceu. Em busca do apoio do Programa BNB de Cultura também já se foi. E ... nada ainda. Nenhum mecenas se dispôs a lançar os recursos para esse sonho. Contudo, como foi dito no início, quem entra nessa luta sabe o que tem que enfrentar. Espera-se que a esperança não entre em ruínas também. Em 15 de Abril de 1997, o povo de Campinas «comemorou» os cem anos da inauguração da fábrica na praça que fica bem defronte às suas ruínas. Tomara que não se espere mais cem anos para ver sua reinauguração. Saiba mais sobre a fábrica e sobre a FNT clicando aqui. Número de frases: 33 * artigo publicado originalmente no Solcultura " Detesto aqueles Photoshops que deixam todo mundo igual, com cara de plástico." Sem vergonha das rugas e dos efeitos da idade, Ney Matogrosso ainda simboliza, aos 66 anos, as máximas do rock ' n roll: atitude, provocação e quadris. Em meio à turnê de seu show Inclassificáveis, o artista recebeu a reportagem da revista Rolling Stone (www.rollingstone.com.br) e abriu o peito para falar sobre absolutamente tudo: drogas, homossexualismo, a relação conflituosa com o pai, AIDS e reviu seu namoro com Cazuza. «Ele foi um dos três grandes amores da minha vida. Eu tinha muito medo de relacionamentos. Com ele vi que era possível um relacionamento além do sexo», conta. Esta foi a primeira seção Entrevista RS produzida no Brasil desde o lançamento da revista, em outubro de 2006. Por incrível que pareça, Ney tomou conhecimento sobre o homossexualismo na Igreja Católica, quando fez a " Primeira Comunhão. «A o me confessar, o padre logo perguntou: ' Você já fez saliência com as meninas? ` Eu disse que não e ele emendou: ' E com meninos? ` Então me perguntei ' E pode? '». Mas sem fazer nenhum julgamento do sacerdote. «Não sei porque ele me perguntou isso. Ele devia perguntar para todos os meninos», reflete Ney. A opção sexual o deixou com a certeza de que era soropositivo na primeira vez em que fez o exame de HIV. «Eu tinha passado por a mão de vários que estavam doentes. Quando deu negativo, eu pedi a vários médicos uma explicação. Não tem." Se foi na Igreja que ele soube (mesmo que indiretamente) do homossexualismo, foi na Aeronáutica que Ney conheceu a maconha. «Era pra dar larica, todo mundo fumava pra conseguir comer, porque a comida era horrível», diz. Em o serviço militar, porém, experimentou apenas uma vez. Mesmo tendo dito que não fumaria mais, acabou se rendendo aos efeitos reflexivos da erva e de drogas alucinógenas. «Sempre usei droga para abrir minha percepção. Quando tem uma dúvida, uso maconha como terapia. E aí aflora, porque a resposta está dentro de mim." Outros destaques da edição de maio: Em a primeira capa política da revista, Fernando Gabeira fala sobre legalização da prostituição e do aborto, revolução, ditadura e tanga; o funcionamento do sistema de grampos que ajuda as investigações da Polícia Federal; a Igreja Virtual Pornô que discute a indústria pornográfica por a ótica do cristianismo; a cantora Pitty fala sobre sucesso e a «síndrome do underground» e de até que ponto iria para divulgar sua música. Em a seção Arquivo RS, a primeira entrevista com Steven Spielberg e Harrison Ford sobre o filme Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, publicada em junho de 1981; o guru dos projetos sociais do Google quer realmente ajudar o planeta ou está ajudando a empresa em sua dominação mundial?; uma reportagem sobre o muro que Israel está construindo para separar a Palestina e o cotidiano dos moradores de seus arredores. E mais: Rolling Stones, Madonna, Raconteurs, Sarah Jessica Parker e o filme da série Sex & The City, a nova música dos Mutantes; o primeiro longa-metragem do criador do Dogma Feijoada e muito mais. Sobre a Rolling Stone Fundada em 1967 por Jann Wenner (editor até hoje) e Ralph J. Gleason, a Rolling Stone nasceu no fervor da contracultura hippie dos anos 60. Em uma época em que as revistas em circulação desprezavam a cena musical, foi o primeiro veículo a tratar o assunto seriamente. Logo se tornou conhecida por permitir a livre expressão tanto do artista quanto de seus jornalistas, fazendo história com artigos pungentes sobre sexo, drogas, comportamento e política sem rabo preso. Em o Brasil, a publicação retorna por as mãos da Spring Comunicações. Sobre a Spring Publicações A Spring Publicações foi fundada em 2003, por José Roberto Maluf e Miguel Civita, e é uma das principais empresas de editoração e mídia customizadas do país. Produz, edita e comercializa também, além da Roling Stone Brasil, as revistas Aero Magazine, Studio W, Cavallino, Golf Digest e Rossi. Mais informações: Linhas & Laudas Comunicação www.linhaselaudas.com.br Tiago Agostini: tiago@linhaselaudas.com.br Tel.: Número de frases: 52 (11) 3801-1277 Matéria produzida durante o Seminário Nacional Para as Culturas Populares -- que aconteceu em novembro de 2004, na Galeria Olido, Paulo -- e que teve como tema a importância da Oralidade no universo da Cultura Popular. Destaco o figuraça Seu Zé Borba, o «Mateus» do Cavalo Marinho Boi Pintado de Aliança (PE), que apresentou uma de suas composições criada «da sua mente». Sensacional também a forma como ele descreve a estrutura da sua música, usando termos próprios. Aquilo que nós músicos conhecemos como cabeça, parte A, B, ponte, encerramento etc. O perigo é a Ordem dos Músicos ver este vídeo e querer multar o artista por não possuir essa aberração que é a carteira da OMB. Produção e Reportagem: Ad Luna Câmera: Márcio Moreira Edição: Gabriel Braga Direção-geral: Walter Abreu Blog Ad: Número de frases: 11 http://interdependencia.blogspot.com/ O cantor se chama Rubi. O Cd se chama Infinito Portátil e é o segundo na carreira do brasiliense radicado em São Paulo. Rubi é um desses caras que quem já ouviu se pegunta o porquê de não ser mais conhecido; o porquê não se encontrar a música de ele nas lojas. Rubi canta as canções dos amigos. A música que faz com os amigos. Assim: indiferente às discussões sobre tecnologias que evitem a digitalização de músicas. A caixinha do cd é de madeira. O clima é conscientemente artesanal. Rubi conta com um pequeno público. Pequeno, mas fiel. E que não por acaso tende a ser o mesmo público que acampanha os trabalhos de Kleber Albuquerque, Ceumar, Gero Camilo, Tata Fernandes. E que também não por acaso são os mesmos com quem formou em 2005 o grupo Canto de Cozinha e que assinam a maior parte das canções que canta. Em Infinito Portátil Estevan Sinkovitz, com quem fez os arranjos, é o cara da guitarra, do violão, do bandolim ... Figura fundamental para compor a sonoridade do disco. Arte sincera. Bonita. Um excelente Cd, mas que provavalmente não estará na lista dos melhores do ano quando estas listas forem feitas. Está gravado desde 2004 e só agora foi lançado por o selo Sete Sóis numa única apresentação realizada no Teatro Crowne Plazza no último dia 29 de março. Mas é o tipo de trabalho que não se encontra sem esforço. Vai na base da raça. É preciso ir atrás. Ficar atento nas datas dos shows. Caçar nas lojas que comercializam artistas pouco conhecidos. São 10 música e uma vinheta. Rubi é um cantor de muitos timbres, por vezes doce, voz feminina, quase açucar. Em outras vezes soa como num brado, voz seca na canção de Kléber Albuquerque, autor de 4 músicas: «furei a camisa com a brasa do meu cigarro, engoli a neblina engasgada dos carros». Em os shows agradecimentos ao pessoal do orkut que usa a comunidade de relacionamentes como um espaço de divulgação. Em o ano passado Rubi ficou em terceiro lugar na edição vocal do 8.º Prêmio Visa de Música Brasileira. Era o favorito do público. Pra quem quiser conhecer um pouco do primeiro trabalho do cantor, no site MusicExpress é possível fazer o download de 4 músicas que estão no primeiro Cd, e que está esgotado. O nome: Número de frases: 32 Rubi. O cenário é inusitado. Não por a grandeza de inovações estéticas, mas exatamente por a simplicidade dos elementos essenciais de composição do espaço. Em o Plano Geral: uma vila de pescadores, localizada à beira das lagoas, rios e praias do segundo menor Estado do país em extensão, mas não em magnitude. Close: nos rostos atentos de crianças, jovens, adultos e idosos, uma espécie de encantamento instantâneo, provocado por a multiplicidade de imagens, sons e idéias projetadas numa velha conhecida: a vela de jangada. É esse o suporte não-convencional escolhido por o cineasta e cineclubista (adjetivo que faz questão de ressaltar: faz parte de sua personalidade) Hermano Figueredo para a retomada de seus projetos de democratização das produções nacionais. As projeções acontecem para um público que, em condições normais, não têm o cinema como fonte de diversão. A iniciativa recebeu o inspirador nome de Acenda uma Vela, e está sendo desenvolvida através da ONG Ideário, recebendo o apoio do Ministério da Cultura. O nome do projeto tem ainda inspiração na frase de Confúcio «mais vale acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão». Ou seja, não adianta apenas vociferar contra os problemas na produção, distribuição e exibição de filmes no País. É preciso, antes disso, buscar caminhos para se contrapor a esta realidade. O reinício de um trabalho de projeção para populações carentes aconteceu no fim do ano passado e foi concluído em fevereiro, com uma exibição para mais de 200 pessoas no Posto Sete, praia de Jatiúca, em Maceió. Mas as atividades de cinema itinerante não param aí: a Ideário já está em busca de novos incentivos, apresentando a experiência bem-sucedido. Tampouco a proposta é novidade no currículo de Hermano. Desde 1987, em Natal, no Rio Grande do Norte, foca suas ações no cinema itinerante. Em Maceió, tudo começou em 1999. Mais recentemente, um projeto de extensão na Universidade Federal de Alagoas, o Olhar e Ver, garantia que as comunidades carentes próximas ao Campus A.C Simões pudessem conferir os curtas e longas-metragens disponibilizados por a Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), da qual Hermano é diretor de relações institucionais. «O Acenda uma Vela nasceu como um alevino na esteira de uma atividade à qual venho me dedicando há quase 20 anos, desde as minhas primeiras exibições performáticas como cineclubista», conta o cineasta. Em Maceió, o projeto teve início no fim do ano passado, mas a experiência aconteceu antes no litoral cearense, de 1995 a 1997. A utilização da vela de jangada nasceu da busca de um suporte que tenha um significado, uma representação cultural para os espectadores. «Em a verdade, venho incorporando provocações, e procurando simbologias para meu trabalho. Quando as pessoas começaram a falar que cinema desta forma não era mais viável, que o grande lance era a internet, a rede mundial de computadores, por exemplo, passei a exibir os filmes numa rede de dormir. A rede é algo antigo para os moradores», brinca Hermano. Tudo começou quando, numa dessas exibições, uma moradora questionou seu trabalho, alegando que as crianças precisavam de comida, não de filmes. A resposta foi imediata: iniciou a projeção na barriga de um menino. «As mudanças são culturais por excelência e políticas por decorrência», sentencia. Assim, a proposta é aliar a poesia simbólica do próprio ato de projeção com as possibilidades da atitude cinematográfica: os espectadores interagem com o momento; e o momento, com a cultura da comunidade. Para Hermano, tudo isso tem uma razão muito simples de existir: possibilitar a seres humanos sem acesso aos filmes que não são transmitidos via TV a chance de conferir a produção nacional, que, diga-se de passagem, ainda tem pouco espaço nos cinemas brasileiros. «É um contra-senso muito grande: nunca se produziu tanto no País, mas cada vez menos filmes chegam ao grande público. Em dois anos, foram mais de 100 produções, mas só 20 foram lançadas comercialmente», revolta-se. As alfinetadas vão, em especial, para a cultura dos filmes nos moldes da indústria cinematográfica e a redução das salas de cinema aos ambientes de shopping-centers. Mas as saídas apontadas, ao menos como formas de se contrapor a esta realidade, estão, ao seu ver, na multiplicação de cineclubes e nas ABDs espalhadas por o País. «Este trabalho que fazemos aqui em Alagoas é um indicativo. Ele mostra para as pessoas que há, sim, um grande público para o cinema no Brasil, e que este público está marginalizado. Jacaré dos Homens, Pirimpirim, Xexéu, mais do que nomes exóticos, são lugares onde há pessoas ávidas por cultura, pessoas que indiretamente financiam a produção de filmes e que não tem dinheiro para pegar dois ou mais ônibus e pagar ingressos para ir ao cinema. O acesso ao cinema é um direito e um desejo», diz, ressaltando a importância do apoio do Ministério da Cultura nessa sua empreitada. «Atualmente, só temos o apoio do MinC para desenvolver nosso trabalho. Não há lei municipal e estadual para a cultura por aqui. Em contraposição a isso, estamos produzindo cada vez mais em Alagoas. Isso não é apenas um desabafo, mas um convite para que os órgãos públicos abram os olhos para a importância da cultura alagoana», diz. Luzes, câmera, projeção! A afirmativa de que o público para o cinema nacional existe fica claro quando se acompanha iniciativas como a da Ideário. Quando Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) defendia a importância da produção cinematográfica brasileira, afirmando que o pior filme nacional nos diz mais que o melhor estrangeiro, implicitamente também evidenciava uma constatação: o povo brasileiro gosta de se ver representado nas telas. E era exatamente isso que acontecia na Massagueira, localizada às margens da Lagoa Manguaba, em Marechal Deodoro, na primeira quinta-feira deste ano de 2006. Era também a primeira vez que a comunidade recebia a equipe da Ideário para assistir à exibição de filmes. mais do que um lugar onde se encontra um complexo gastronômico, o local é residência de centenas de pessoas que têm na pesca sua fonte de subsistência. A divulgação foi feita através de panfletos e na propaganda boca-a-boca. Em frente à igreja Divina Pastora, o espaço ideal. Crianças brincavam e os moradores se espalhavam por o local, acomodando-se nas calçadas ou nos batentes. Em a tela, ou melhor, na vela, dois curtas mineiros, um de eles, Negócio fechado, dirigido por Rodrigo Costa, arranca risos da platéia. Antes da exibição, Hermano exibe seus dotes narradores, explica do que se trata o filme, vencedor de inúmeros prêmios (Escolha do Público no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2001, Prêmio Especial de Roteiro/ABD-RJ no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro -- Curta Cinema 2001, Melhor Roteiro no Festival de Curitiba 2002, entre outros). Em seguida, apresenta seu filme, um média-metragem de quase 50 minutos, intitulado Mirante Mercado. A película registra a alma de trabalhadores informais alagoanos, que têm na criatividade a sua arma para a sobrevivência. E foi justamente o filme assinado por o exibidor que mais encantou Jorge Vitorino, 63 anos, pescador e morador de Massagueira. «Eu nunca tinha visto esse tipo de coisa, não», relata, ao ser questionado sobre o que havia achado da apresentação dos filmes na vela da jangada. «Tudo muito bonito. Gostei de todos os filmes. O nosso, alagoano, então, é uma beleza, não sei se é porque é nosso, mas é bom a gente ver nosso povo, né? Tudo o que eles disseram no filme é muito bonito e certo. É a batalha da vida, porque a vida é assim, e a gente dá o melhor para a ela», diz, avaliando o depoimento dos personagens. Apesar de gostar de filmes, seu Jorge Vitorino não vai ao cinema há muito tempo. Sua diversão é assistir a TV, especialmente jornais e humorísticos. Ficou sabendo da exibição na pracinha através do filho. «Então eu vim ver. Gosto de ver tudo e depois contar o que vi», finaliza, mostrando outro dote além da pescaria: o de contador de histórias. Mesmo sem a experiência de vida de Seu Jorge, Leonel Gomes dos Passos, 10 anos, também assistiu atento a todos os filmes, diferentemente da maioria das crianças do local, que brincavam aguardando a hora dos infantis. Trazido por o avô Ponciano, diz ter gostado muito dos curtas-metragens. «Só tinha visto filme no cinema e na TV, mas assim também é muito bom. Se tiver de novo, eu volto», entusiasma-se o garoto, que também mora na Massagueira. Apesar de adorar as produções cinematográficas, Leonel confirma as estatísticas: quase não vai ao cinema e vê TV todos os dias, até mais de meia-noite. Mais do que quebrar a rotina dessas crianças, adultos e senhores, o Acenda uma Vela mostra tanto aos que participam quanto aos que olham de fora que a realidade brasileira é muito mais plural do que se imagina. E que isso não é apenas um discurso, mas um retrato de uma sociedade que anseia por outras possibilidades. Seja no cinema, na música, nas artes cênicas ou visuais. E criatividade não falta para produzir. Nem para divulgar essa produção. Prova disso foi o aceno de um dos espectadores para esta que vos escreve (e que estava lá somente para registrar o ocorrido): «A gente gostou muito, viu? Parabéns! De a próxima vez, avise a gente para avisar o pessoal». Pois é, Massagueira já está de braços abertos, para que outros espectadores e admiradores possam surgir, outras velas possam se acender e outros olhos possam brilhar com tudo aquilo que não passa na tela da TV. E que assim seja. Quem é Hermano Figueredo Hermano Figueredo é um pernambucano nascido em Campina Grande-PB, que se considera «mais alagoano que o pé de pau da praça Rayol» (referindo-se à árvore centenária localizada no bairro do Jaraguá, em Maceió). Sua história com o cinema vem desde menino, mas foi na década de 70 que iniciou um trabalho não-mercadológico com o sétima arte, organizando exibições de filmes no Cine Teatro do Parque e no Cine Art Palácio, em Recife. Embrenhou-se por os caminhos do teatro, mas trocou-o por o cinema. Aliás, trocou, não. A veia teatral (e a paixão por o que faz) se revela numa simples apresentação de filme, o que lhe valeu o adjetivo de «cineclubático-performático» no meio cinematográfico. «Queria compartilhar com outros os filmes que queria ver», simplifica. Em 1978, no Cine Teatro do Parque, anunciou O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, mas lá o público teve uma surpresa: era Encouraçado Potekim, de Sergei Eisenstein, proibido por a ditadura brasileira, que seria exibido. Em a década de 80, continuou sua peregrinação por o cineclubismo, tornando-se uma das lideranças nacionais. Para ele, um filme sempre era mais do que uma projeção: era um espetáculo, uma possibilidade de ação social. O cinema itinerante invadiu grotas, vilas, favelas e bairros da periferia de cidades como Campina Grande, Maceió, Fortaleza e Natal. Hermano acabou revelando sua paixão também detrás das câmaras, em produções como São Luís Caleidoscópio, sobre a cultura popular do Maranhão; Choveu, e daí?, relatando experiências de convivência com o semi-árido alagoano e O que vale no Vale, que aborda o cooperativismo no Vale da Paraíba. Recentemente, lançou A última feira, retratando o derradeiro dia de funcionamento da histórica feira de Arapiraca, já cantada por Hermeto Pascoal. O curta, de 17 minutos, já foi premiado no Festival de São Carlos e exibido no Festival de Tiradentes. O convite para participar do Festival de Cinema de Maceió por a então prefeita Kátia Born acabou aproximando-o ainda mais de terra, onde acabou se fixando, em 1998 (" Apesar do festival praticamente não ter existido», denuncia). Mirante Mercado, seu penúltimo filme, é uma declaração de amor à cidade. Não uma declaração formal e simples, ressaltando suas belezas naturais, mas ao seu povo. «Existem inúmeras Bahias, São Paulos, Alagoas. Você escolhe que Estado, que País você quer ver. Eu escolhi a Alagoas de um povo forte, criativo, belo», conta. Em o filme, Hermano colhe depoimentos de pessoas que nunca chegaram a ter uma carteira de trabalho. Mirante Mercado era um nome de uma antiga linha de ônibus em Maceió, mas é também uma contraposição: mirante representa beleza, sonho; enquanto que mercado dá a idéia de trabalho, de luta por a sobrevivência. Em a tela, personagens inusitados: poeta de feira, amolador de tesoura, vendedor de veneno, um carroceiro que se intitula o homem-motor sem destino, o vendedor de amendoim que, com sua lábia peculiar vende produtos «diet, light e kuat» e diz que não «nasceu para ser mais um». Hermano também não. Número de frases: 121 E assim segue, revelando os Brasis dentro de Alagoas e do Brasil. Roncam os motores. E toda uma multidão de pessoas sobre duas rodas sai viajando por o país, carregando no bagageiro sua própria cultura, seus códigos, produtos, moda, música, tudo. Mais ou menos como se o irmão Peter e o irmão Dennis (Fonda e Hopper), em seus papeis no filme Easy Rider (1969) fossem eternizados e multiplicados por toda uma rede de pessoas, que cruza oceanos até, uma comunidade sólida, conectados por a paixão por suas motocicletas. São os eventos de moto clubes, que acontecem em todo o País, em cidades pequenas e grandes, nos lugares mais distantes, lá vão eles, com suas jaquetas de couro e motos custom, e aquela trilha sonora inevitável de «born to be wild» do Steppenwolf ao fundo. Por o sexto ano consecutivo, aconteceu um evento bem estabelecido por aqui chamado Maceió Cycle, um encontro de centenas de motociclistas de moto clubes do Brasil Inteiro e do exterior. O evento é um sucesso, todo ano. O Maceió Cycle envolve não somente os admiradores dessas máquinas, mas gera um movimento na cidade, contemplando sempre os admiradores do bom e velho rock ' n ' roll, todas as noites o evento apresentou shows com bandas locais, sobretudo o pessoal da cena mais classic rock, como o Som de Vinil, o Alma de Borracha e o Barba de Gato Blues Band. Legal demais, combinam com a festa, e tudo de graça, para o povo ver. Em o evento, pude satisfazer minha curiosidade em conhecer um pouco aquela cultura do moto clube, que adquiri depois de conviver há mais ou menos um ano com três sujeitos de moto clubes aqui em Maceió, com seus códigos e conversas para «iniciados». O moto clube denominado Abutres estava com sua tenda armada lá no evento, todos os anos marcam presença, foram os que mais despertaram meu interesse, tentei entender eles durante esses dias de " Maceió Cycle. Abutres. Raça em extinção " é o que diz o brasão em suas jaquetas pretas, aliás, a cor domina o guarda roupa dos caras, bandanas, metais, típico visual Hell's Angels, fui conversar com eles ... O Abutre, que logo vai saber por que não digo o nome, me disse o seguinte, «Os Abutres são mais que um moto clube, é uma irmandade, não importa em que lugar do país ou do mundo, nem posição social, um abutre é um abutre, e vale por dez abutres, sempre terá o apoio dos seus irmãos». Por o que eu entendi, apesar de haver certa hierarquia, essa coisa da igualdade é muito forte entre eles, segundo ele não faz diferença se você é juiz, pedreiro, médico, mecânico, se sua moto é um modelo modesto ou uma Harley Davidson. E isso, convenhamos, é um ideal louvável em qualquer comunidade civilizada. E é por isso, e porque o entrevistado me pediu, que esta vai ser uma história sem nomes, o personagem é o coletivo. Eles são os Abutres, e isso basta. O abutre com quem eu mais conversei me contou que está na estrada desde janeiro (o Maceió Cycle foi em agosto) e já tinha rodado 60 mil km desde o sul do país até Alagoas, com o ônibus dos Abutres, entre um evento como este e outro. E são tantos que simultaneamente ao Maceió Cycle rolava outra moto-festa como essa em Caruaru / PE. Além de uma irmandade, Os Abutres são também uma empresa, que se mantém financeiramente. Em as suas tendas em eventos de moto clubes, vendem de tudo, chapéus, luvas, capacetes, jaquetas, miniaturas de motos, caveiras, anéis, camisetas, muito couro, moto wear total! Além de acessórios para motos. O moto clube dos Abutres conta também com as contribuições mensais dos seus 1273 homens (nem tão em extinção, bastante gente) com facções espalhadas por todo o Brasil, além de Argentina, África do Sul, Espanha, Unidos, Japão e Portugal! Os abutres surgiram em 1989, em São Paulo, possuem um hino tão importante pra eles quanto o hino nacional, mantém uma creche-escola onde as crianças entram pequenas e saem com 18 anos, com curso profissionalizante, além de duas casas de repouso para anciãos. Realizam também campanhas educativas de transito, num país com tristes estatísticas de acidentes nas estradas. Não se espante, com aquele visual Mad Max, os preconceitos são muito facilmente incutidos nas nossas cabecinhas, e temos a desagradável tendência de julgarmos o diferente, o cara que se veste de outro jeito, ou pensa de outro jeito. Particularmente, tenho certa aversão a agremiações desse tipo, cheias de regras de conduta e disciplinas quase militares, o que é um tanto contraditório, se a idéia central do motociclismo é o ideal de liberdade, mas é justamente por estar numa posição distante e de diferença, que me intriga tanto esse fenômeno de organização social movida ao amor por a moto. E não é muito difícil que seus sentidos sejam completamente capturados e seduzidos por aquelas máquinas, não sei, pode ser coisa de «menino», mas me dá um frio na barriga o ronco dos motores, o design daquelas motos, tem algo de sedutor mesmo, desperta algo ... Por o que vi nos meus dias de Maceió Cycle, nesse ano e nos anteriores, os moto clubes me pareceram ser formados por pessoas apaixonadas, entre eles observei que há muitas famílias, marido, mulher e filhos estrada afora, com o ideal da liberdade na cabeça, e duas rodas comendo chão pelo meio do mundo. Número de frases: 29 Entra sem avisar, muda a estação da rádio, me leva da bossa nova ao blues, do samba ao rock n ' roll. Sorri, pareço um tonto, perco os sentidos ao entrar em seus olhos e notar a diferenças da vida. Conversa com mim numa língua estranha -- não há dicionário para traduzir seu efeito. Morde minha orelha e diz que vinho bom é vinho quando se ama. Toco suas costas e conto cada poro com a boca. É uma conta sem fim. De seus dedos, tocando-me, parece sair música. Danço o ritmo que ela quer. A angústia de sua chegada é como a angústia da partida. Rio, choro, grito, maldigo seu efeito em mim. Não sou mais homem. Sou criança pedindo atenção, pássaro sem asas, sonhador rogando por imaginação. Esfrega-se em mim e penso que Deus é justo, mesmo sem acreditar em divindades. Um riso em meu peito é um roce na pouca paz que ainda me resta. Depois me aperta, ajudando-ma não fugir de minha condenação. Fecho os olhos e acho que enfim sou feliz enquanto rabisca sua poesia para marcar em mim seu território. E a madrugada vira manhã, tarde, noite, infinito. De repente, alma entregue, corpo submerso, navego, flutuo, deslizo até o vulcão. Queimo, rio, é janeiro e acho que chove lá fora. Número de frases: 19 Começa no próximo dia 03 de agosto, por a cidade paulista de Pindamonhangaba, a maratona de exibições do Cine Tela Brasil em cidades que margeiam a via Dutra (Rio-SP). Ao todo, serão visitadas 14 cidades e realizadas 164 sessões gratuitas de cinema, sendo metade de elas destinadas a crianças. A previsão é que mais de 35 mil pessoas sejam abrangidas por esta ação, a maioria de elas nunca foi a um cinema formal. Criado e produzido por os cineastas Laís Bodanzky e Luís Bolognesi (autores e " Bicho de Sete Cabeças "), o projeto Cine Tela Brasil é patrocinado por a NovaDutra, por meio do Programa CCR Cultura nas Estradas, com apoio da Lei Rouanet. O projeto visitará as cidades de Barra Mansa (RJ), Belford Roxo (RJ), Caçapava (SP), Cruzeiro (SP), Guaratinguetá (SP), Jacareí (SP), Nova Iguaçu (RJ), Pindamonhangaba (SP), Piraí (RJ), Queimados (RJ), São João de Meriti (RJ), São José dos Campos (SP), Taubaté (SP) e Volta Redonda (RJ). Originário do Cine Mambembe, que no final da década de 90 promovia exibições em escolas, centros comunitários e praças públicas para populações pobres, o Cine Tela Brasil realiza sua segunda edição em 2007. Entre junho de 2005 e abril de 2006, os cineastas já haviam rodado cidades lindeiras da Dutra com sua tenda itinerante. Dentro de um caminhão O Cine Tela Brasil consiste numa grande tenda de 13m x 15m, onde são instaladas 225 cadeiras, equipamento profissional de projeção 35mm (cinemascope), tela de 7m x 3m, som stereo surround e ar condicionado. Toda a estrutura é montada e desmontada a cada visita, sendo transportada por um caminhão próprio, que durante as sessões transforma-se em sala de projeção. As sessões têm duração média de uma hora e 30 minutos, sempre com a exibição de um filme brasileiro de longa-metragem. O projeto promove quatro sessões diárias de cinema. Duas de elas são dedicadas às crianças, às 14h00 e 15h30, com a exibição de «Turma da Mônica -- Uma Aventura no Tempo». às 18h30, o objetivo é atender ao público jovem, com o filme «O Casamento de Louise» e às 20h30 é a vez do filme «Se Eu Fosse Você». A entrada é gratuita e os ingressos são retirados com antecedência no local. Por que na Dutra? Segundo estudos realizados por o Sistema CCR, holding controladora da NovaDutra, 69 % das cidades servidas por as estradas do Sistema não possuem salas de cinema (excluindo-se as capitais: São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba). A Via Dutra é um dos 10 trechos rodoviários visitados por o projeto. «Levando o Cine Tela Brasil a essas cidades, a NovaDutra e o Sistema CCR estão contribuindo para oferecer oportunidades de lazer de qualidade às populações menos favorecidas», destaca Maurício Negrão, Diretor-Presidente da NovaDutra. Além da NovaDutra, são abrangidas por a ação a AutoBAn (Sistema Anhangüera-Bandeirantes), ViaOeste (Sistema Raposo Tavares -- Castello Branco), Ponte S. A. (Ponte Rio-Niterói), ViaLagos (rodovia dos Lagos, RJ) e RodoNorte (Br-277 e Br-376, ligando Curitiba no Norte do Paraná; PR-151, entre Ponta Grossa e Jaguariaíva, e Br-373 -- entre Ponta Grossa e o Trevo do Caetano). outras informações: Número de frases: 22 www.cinetelabrasil.com.br O tempo não perdoa. E, se faz esquecer de recentes operações da Polícia Federal país afora, o que dizer dos artistas brasileiros que merecem o seu devido espaço na história da arte? Trabalhos como o do pernambucano Paulo Bruscky, sem nunca ter exposto em Alagoas -- apesar de ser nosso vizinho --, deveriam merecer um olhar mais cuidadoso dos produtores culturais de nosso Estado. Só agora Bruscky nos é apresentado, através da exposição «Work in Progress e Objetos Inúteis», com abertura na última quarta-feira (26), na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), localizada de frente à Praça Sinimbú. É também a abertura do calendário de exposições da instituição em 2008, cuja escolha por o artista trará reflexões sobre as artes visuais na contemporaneidade da produção nordestina, embasada numa aproximação com o cotidiano e fundada numa precariedade intencional. Dito isto, esqueça qualquer pré-julgamento acerca da mostra: o artista em questão ficou famoso nos anos 1970, quando começou a fazer experimentações no campo da arte conceitual, com pesquisas envolvendo materiais diversos e intervenções, como happenings, carimbos, áudio, copy art e super-8. Mas, nem por isso, está «fora» do mercado da arte atual. Passa por um momento de revigoramento, sendo chamado a participar das mais importantes exposições do cenário nacional. Bom para os alagoanos interessados em firmar sua posição num sistema de promoção da arte contemporânea dominado por o eixo Rio-São Paulo. Em este seu revigoramento, grande parte do mérito vai para a crítica de arte, pesquisadora e curadora Cristina Freire. Em dezembro de 2007, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), Freire organizou uma retrospectiva intitulada «Ars Brevis», primeira individual de Bruscky em museu paulista, na qual reviveu o que há de mais consistente e questionador no trabalho desse pernambucano em sua carreira. Paralelo à mesma, ocorreu o lançamento do livro " Paulo Bruscky: Arte, Arquivo e Utopia " (Companhia Editora de Pernambuco, 2007, 271 páginas), de autoria da curadora, a ser lançado também em Alagoas nessa quarta. A exposição «Work in Progress e Objetos Inúteis», em cartaz até o dia 18 de maio, não é de alguém que se alimenta apenas de um (bom) passado: Bruscky, atualmente, aos 59 anos, ainda é apontado por a crítica nacional como um artista promissor. Prova disso é sua participação na mostra desse ano «Futuro do Presente», no Itaú Cultural (SP), a qual reviveu um de seus mais famosos trabalhos: «Meu cérebro desenha assim». Esta sua segunda versão, de 2007, foi concebida para a exposição -- que buscou mostrar obras fundamentadas na experimentação, como um apontamento para o futuro das artes visuais. Amelia Toledo, Cildo Meireles, Nelson Leirner, Chelpa Ferro, estiveram entre os artistas escolhidos por os curadores Agnaldo Farias e Cristiana Tejo. É este o trabalho encontrado na primeira sala da Pinacoteca da Ufal. Batizada de EEG Arte, Bruscky «revela» o que seu cérebro «sente», uma analogia para a percepção do público sobre de que maneira sua experiência estética com as artes visuais interfere na mente do artista. Revela, assim, uma possibilidade de fruição estética do espectador advinda de situações até então impensadas por qualquer artista contemporâneo, blefante ou não, que queira mostrar sua produção a partir de novos suportes. «A o tomar os registros dos aparelhos como recurso gráfico, subverte os lugares e sentidos da ciência e da arte. Transforma o hospital em seu laboratório de criação para buscar aí correspondências entre o mundo da tecnologia moderna e as emoções e sentimentos humanos mais profundos», diz Cristina Freire sobre a EEG Arte. Novos suportes são uma constante na produção do artista. E, na segunda sala, pode-se observar um pouco dos experimentos do artista, como nos registros do «Meu cérebro desenha assim» (Parte 1 e 2); da exposição «Exercícios» (1980), realizada a partir de performance, instalação, xerox, arte-correio e videoarte; e «Arte Pare» (1973), documentando um projeto de intervenção urbana que consistiu em colocar uma fita cor-de-rosa com um laço na cabeceira da ponte da Boa Vista, em sua terra natal. Outro destaque da sala de projeção são os xerofilmes, realizados através da seqüência do processo «xerográfico» -- o nome é advindo das máquinas copiadoras da marca Xerox -- criado e desenvolvido por o próprio. «Xeroperformance (1980) «e» Aépta» (1982) compõe este tipo de videoarte, os quais mostram um pouco mais do relacionamento corpóreo do artista com as máquinas -- visto que, na primeira sala, a relação é com o eletroencefalograma. mais de 30 produções dos anos 1970 e 1980 fazem parte dessa mostra, na segunda sala do espaço expositivo. Objetos que revelam uma certa inutilidade, como em «Ancoradouro», o qual mostra a imagem de um porto com uma porta que leva -- e fecha -- a lugar algum estão presentes na terceira sala. Em Maceió, um trilho esfacelado na Avenida Buarque de Macedo, intitulado «Arquitetura dos Trilhos (2008)», da série» Arte em trânsito e em todos os sentidos», compõe a mostra dos «objetos inúteis». Mas se for para discutir utilidade na arte, o que se faz útil? A resposta é subjetiva: deleite estético e enriquecimento da percepção humana. Ou não, pois, para ele, a discussão deveria ser muito maior, englobando até a utilidade das ciências -- desde o Renascimento consideradas como a grande atividade humana. Pioneiro e inovador Bruscky faz parte da primeira geração da videoarte no Brasil, junto com os artistas Anna Bella Geiger, José Roberto Aguilar, Ivens Machado, Letícia Parente, Regina Silveira, Paulo Herkenhoff, Fernando Cocchiarale e Mary Dritschel, de entre outros. A partir de 1973 entrou no movimento Internacional de Arte Correio, tendo mantido contato com integrantes dos grupos Gutai e Fluxus e participado de exposições no Brasil e exterior. Por o contato com esses grupos, é também possuidor de grande acervo documental acerca das vanguardas artísticas a partir da década de 1960, incluindo trabalhos originais. Principalmente no que se refere à Arte Postal, tendência artística originada em 1968 por Ray Johnson e sua Escola de Arte por Correspondência. Consiste em trocar mensagens criativas -- imagens, ícones, pinturas, desenhos, carimbos, adesivos, envelopes, colagens ou composições -- utilizando o sistema de correios para a veiculação. A partir de 1979, realizou mais 30 filmes -- os quais podem ser vistos na exposição da Pinacoteca. Foi em 1980 que inventou os «xerofilmes», abrindo um novo campo para o desenho animado e o cinema experimental. De acordo com Walter Zanini, historiador da arte, Paulo Bruscky, em Recife, inclui pela primeira vez o vídeo em seu aspecto multimídia no final dos anos 1970. Um ponto peculiar do artista é o fato de parte de sua obra ser feita em seu ambiente de trabalho; sim, ele utilizava de suas folgas de funcionário do Hospital Agamenom Magalhães, de Recife, para subverter aparelhos como aparelhos eletroencefalógrafos (EEG Arte), eletrocardiogramas, raio X, mimeógrafo, xerox, fax, carimbo etc.. Seu apartamento é também escancarado, como observa-se as imagens das janelas na terceira sala da exposição, criando o efeito de que estas são reais devido à semelhança com as do prédio onde está a Pinacoteca. Outra característica é a multiplicidade de trabalhos: além dos suportes falados anteriormente, faz também poesia visual feita a partir de objetos do cotidiano, como remédios. Nem as caixas destinadas ao transporte das obras passam despercebidas, as quais ele expõe na terceira sala da Pinacoteca da Ufal com os dizeres: «Arte se embala como se quer». Bruscky revela traços de sua produção com a cultura nordestina, mas fugindo ao regionalismo preconizado por muitos como bandeira. Este caminha na mesma idéia do alagoano Delson Uchoa, que sempre proclama: «minha arte tem traços da minha região, e eu assumo, de forma que se estivesse no Alaska teria um trabalho totalmente diferente». E é isto que dará a tônica da terceira sala da exposição, pois será observado ao final da mesma o que foi feito em Alagoas no work in progress «Objetos Inúteis» e comparar com os resultados em Paris e Salvador, onde foram realizados o trabalho recentemente. É um processo de constante descoberta, tanto para o artista como para os alagoanos que se desafiarão a compartilhar com a experiência de fruição estética de Bruscky. Como acontecido em outros lugares, todos os momentos dessa sala serão documentados e uma parte será exposta na próxima exposição, em João Pessoa, no segundo semestre. Como se observa, sua videoarte está também «em progresso». O trabalho enfoca como tema principal a relação do ser humano com o ambiente. Assim, será construído um «monumento» com a participação do visitante, cujo papel é de co-autor, que durante todo o período da exposição poderá levar seus objetos «inúteis» a serem incorporados à estrutura montada por o artista. Um cartaz na Pinacoteca e os convites enviados pedem ao público para levar objetos «inúteis». Quem sabe, dessa forma, estes tornem-se úteis? O artista responde: «é essa minha pretensão, refletir nos parâmetros de utilidade / inutilidade para cada pessoa. Isto envolve o aspecto afetivo humano quanto aos bens materiais e ao consumismo exacerbado da sociedade». Essa relação com o público torna-se tão importante para Bruscky que ele não hesita em afirmar que o considera mais importante que qualquer crítico. «Todo artista tem obrigação de dialogar com o público, pois a arte é sempre questionamento; é sempre quebrar com idéias pré-estabelecidas do cotidiano». Tal reflexão é influência assumida do artista Marcel Duchamp, cuja homenagem acontece em dois momentos da exposição: no tabuleiro de xadrez intitulado «Jogo do Acaso» e na fotografia do jarro de flores em Copenhagen denominada «Homenagem a Marcel Duchamp». Precariedade e regionalismo em sua obra O artista tem na precariedade de sua obra um elemento provocador, irônico; é, também, traço marcante de sua influência com a cultura nordestina, marcada por a habilidade de seus habitantes a viver e criar em condições adversas. «O mais importante é o saber e não o fazer», adverte Bruscky num letreiro na parede da terceira sala da exposição. Cristina Freire trata também da precariedade na proposta de ele, em texto sobre a exposição no MAC-SP: «O transitório-permanente da obra desse artista pernambucano, em sua assumida precariedade, revela outros sentidos para o decurso da nossa história da arte contemporânea». Para o crítico pernambucano Moacir dos Anjos, a produção visual contemporânea brasileira possui um «sotaque» que tem como uma de suas principais características promover a aproximação e o contágio entre elementos que, em outros contextos, se antagonizam e se repelem, tais como o vernacular e o erudito ou o inacabado e o pronto. Isso confere, aos sentidos enunciados na contemporaneidade, um caráter híbrido e flexível, exprimindo uma capacidade de adaptação do país a uma condição adversa e complexa no mundo, tão bem encapsulada no termo «gambiarra». A o tratar da contemporaneidade no campo das artes, Ferreira Gullar sugere, em seu livro «Argumentação Contra a Morte da Arte», uma observação aprofundada do contexto no qual o artista está inserido, a exemplo de Bruscky. «Arrisco dizer aos artistas jovens que tentem buscar na realidade de nossa terra e de nosso povo os estímulos que já não vêm de fora. Sem medo de errar. Dispostos mesmo a errar. E errar aqui pode ser apenas abandonar o que já se sabe, voltar as costas às conquistas alcançadas por um século de experiências, e começar de novo. ( ...). Há que desvencilhar-se dos preconceitos novos que, mais pretensão que verdade, esterilizam o artista, minam-lha generosa capacidade criadora». A precariedade na produção brasileira funcionou como elemento constante e potencial. É inclusive em Hélio Oiticica que Moacir dos Anjos tratou ao falar das principais influências na contemporaneidade brasileira: «Não há como negar que os artistas brasileiros crescem em meio a uma genealogia só nossa. Seus trabalhos têm uma referência forte da Antropofagia, da tradição concreta, da Lygia Clarck e do Hélio Oiticica. Essas são as nossas especificidades». Paulo Bruscky sabe muito bem disso, ao revelar sua relação com uma arte experimental e conceitual e influência do concretismo brasileiro -- como nas suas poesias visuais e nos resultados obtidos por a EEG Arte. Ainda sobre a precariedade, a jornalista Gisele Kato, em reportagem à Bravo de outubro de 2007, fala que o país vive sob o «encanto da imobilidade». «Driblamos um obstáculo e aparece logo um substituto». A precariedade, não só no campo da arte, é uma maneira de afirmação, de permanência num país onde conseguimos nos adaptar e «driblar» as adversidades para seguirmos em frente -- uma criatividade para trabalhar com o precário que muitas vezes nos é apresentada como a única opção para produzirmos. «Somos anarquicamente criativos», diz Bruscky. Portanto, ao contrário do que se pensaria, a condição precária na produção não foi problema para o artista em questão, nem recebeu da crítica a alcunha de " mal-feito "; mas, sim, uma possibilidade que o deixou bem à vontade: o pernambucano é criativo e inquieto ao extremo, sem esquecer da sua ironia: características que o fizeram expor seu traço nordestino e fazê-lo internacionalmente reconhecido, tendo participado de mostras realizadas na Itália, Canadá, Unidos, Venezuela, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Portugal e Espanha. Agora, o público alagoano, muitas vezes desavisado do que chega às galerias de seu Estado, pode apreciar e se inspirar. Número de frases: 102 E não se esqueça de comparecer também no último dia da exposição (18 de maio), para um debate com o artista sobre o resultado do seu work in progress alagoano. Abdo Handam é carioca, 52 anos, mora com um filho, também carioca, em João Pessoa, desde 1992. Cansado do ritmo urbano do Rio de Janeiro e reforçado por motivos pessoais e familiares acabou se fixando em João Pessoa. Em o ano de 1993, fez um curso técnico de turismo e começou a trabalhar na área. Abriu seu próprio negócio baseado nas experiências que tinha visto dar certo na cidade vizinha de Natal. Comprou um buggy e partiu para fazer roteiros turísticos por a cidade. Em o roteiro do litoral incluía trilhas e as praias do sul -- Jacumã, Coqueirinho, Tambaba, Praia Bela e Barra do Graú. Em o roteiro histórico do centro conduzia seus clientes por a parte antiga da cidade, passando por os museus e finalizando nas construções mais recentes e significativas culturalmente. O diferencial oferecido estava no nível de informação passado aos turistas que faziam o roteiro com ele. A duração desses passeios pode ser de até oito horas de belos visuais e muita informação. Ciclista desde criança, (" não sou ciclista de competição, apenas gosto de pedalar e uso a bike como instrumento diário de locomoção, sempre que preciso fazer algo e não estou apressado», ressalta), resolveu pensar numa alternativa ao serviço de bugueiro, como são chamados aqueles que fazem esses roteiros turísticos de buggy, já que a concorrência tem aumentado muito. «Acho que chegou a triplicar o número de bugueiros trabalhando hoje em João Pessoa», reclama. A alternativa viria inspirada nos roteiros de cicloturismo da região de Provença, na França, ou Toscana, na Itália, nos quais os turistas percorrem toda uma região histórica de bike e, lá, encontram estrutura para isso. «Infelizmente, por aqui essa estrutura ainda não existe», lamenta. Mas a idéia persistiu e ele resolveu criar um circuito de cicloturismo por o centro histórico da cidade. «Faço nos fins de semana, porque é mais tranqüilo pra pedalar no centro», esclarece. Tem razão, nos fins de semana o centro da cidade fica quase deserto e extremamente propício para a prática do cicloturismo, exceto por o fato de que alguns pontos turísticos não se encontram abertos a visitantes. «Os roteiros de igrejas do centro histórico, um dos principais da cidade, estão abertos», argumenta. Esse roteiro indo da orla até o centro histórico, visitando os principais pontos e retornando a orla tem cerca de 25 km de distância e leva de quatro a cinco horas pra ser feito incluindo as paradas para visitá-los. «Mas se uma pessoa de 52 anos, como eu, que não é ciclista profissional, faz isso com facilidade, qualquer pessoa o fará, com certeza», explica. O roteiro é pensado para cicloturistas, o que pressupõe que os interessados, além da familiaridade com roteiros de bike, carreguem com si algum equipamento, como bermudas específicas para a prática do ciclismo, luvas para os que preferirem e capacete de segurança. As bikes podem ser alugadas em alguns locais na cidade. O roteiro não tem uma data específica para acontecer, geralmente é feito aos domingos, dia de praias lotadas e ruins para roteiros com buggys, mas é preciso agendar. Ele revelou que o roteiro por o litoral está sendo estudado e inclui trilhas e canyons, exigindo fisicamente um pouco mais dos interessados. Outro percurso que vai ser feito e estudado para incluir nas opções aos cicloturistas é o roteiro do Padre Ibiapina, um religioso que ajudava populações carentes da região do brejo, sempre percorrendo os caminhos a pé. Esses caminhos ficam próximos a Guarabira e só abrem para visitação durante quatro dias por mês, entre os dias 15 e 19. Abdo pensa em fazer os 80 km do roteiro em dois dias, com pernoite, pousada e acompanhamento. Dentro da cidade, até agora, Abdo dispensa o carro de acompanhamento, usado para conduzir eventuais desidesistentes no meio do caminho. Ele aconselha que se leve barras de cereais e tem paradas estratégicas para água de coco e bebidas isotônicas. Acostumado a utilizar a bicicleta para ir e vir na cidade, ele acredita que a Paraíba, como um todo, tem uma estrtura privilegiada para o cicloturismo. Uma loja de bike da cidade faz alguns desses roteiros, mas com uma visão mais esportiva e menos turística. «Pretendo valorizar minha formação turística e passar informação as pessoas», afinal nossa formação cultural está atrelada a nossa história. Mais informações: www.pbdalando.tur.br Contato: (83) 8844.0104 Número de frases: 34 e-mail: abdo@pbdalando.tur.br Essa atividade física é novidade e promete entrar na moda. Você já ouviu falar em aerocountry? É a combinação: dança country + aeróbica. Em Mato Grosso do Sul, essa atividade física é novidade e promete entrar na moda! uma coisa é certa, foi uma grande idéia, já que os ritmos country e sertanejo são apreciados por quase todo o país. O aerocountry tem a cara do nosso estado '. Diz a dançarina Daniele Barilli. A o som de música sertaneja brasileira e internacional, os alunos malham o corpo e queimam calorias. Os movimentos são simples e adequados para todas as idades. ' Em o aerocountry a pessoa malha, dançando e se divertindo. Todo mundo pode fazer. É importante lembrar que a falta de exercícios está associada, em grande parte ás doenças crônicas, que matam 33 milhões de pessoas ao ano no mundo, segundo a organização mundial da saúde '. Diz Ivan Sousa, professor de dança. Entre os males relacionado a falta de exercícios, estão os cardiovasculares, pulmonares, alguns tipos de câncer, a osteoporose, o diabetes, e é claro a obesidade. Em a década de 90, a ginástica aeróbica virou ' febre ' nas academias. Homens e mulheres buscavam na atividade, principalmente perder calorias. Com o passar dos anos, a modalidade foi sendo adaptada e hoje consegue proporcionar aos praticantes importantes benefícios para a saúde do corpo e da mente. Como o ritmo foi atraindo muita gente de vários estilos, os tipos de aeróbica foram variando. Surgiu o aeroboxe (aeróbica + boxe), aeroaxé (aeróbica + dança axé), aerolambada (aeróbica + dança lambada), aerosalsa (aeróbica + dança salsa) entre outros, além do aerocountry. As variações foram sendo criadas nos estados onde predominam os ritmos combinados com a aeróbica. ' O aerocountry integra a cultura de Mato Grosso do Sul e sua capital Campo Grande, seus componentes estruturais têm influência marcante, contribuindo para a manutenção de um sistema de representações culturais configurado nas festas em fazendas '. Explica Ivan. Trazer a nova modalidade para Campo Grande foi idéia dos professores de dança Ivan Sousa e Daniele Barilli, que inclusive em junho deste, foram campeões de dança esportiva na IV copa da ESEF (escola superior de educação física) em Jundiaí, interior de São Paulo. ' Sempre participamos de concursos fora, nestas viagens conhecemos novas tendências na área de dança e ginástica. Foi assim que encontramos o aerocountry, um ritmo inédito para o nosso estado '. Diz Daniele. Ivan de Sousa e Daniele Barilli são verdadeiros amantes e estudiosos da dança de salão. Casados há mais de um ano, se conheceram através da dança, fato que os inspirou a um objetivo de vida claro e determinado: ensinar a dança de salão, divulgando a arte e incentivando cada vez mais a prática dessa atividade que tão bem faz ao corpo e a mente. Ivan Sousa é graduado em educação física e em administração de empresas. Iniciou a carreira de bailarino em São Paulo, dançando street dance no grupo Domínio. Passou por a academia Jazz In Company, onde aprendeu jazz e balé. Dançou forró e zouk no grupo Sol Nascente. É confederado e multiplicador da confederação brasileira de dança esportiva. Daniele Barilli é graduada em pedagogia e atualmente cursa especialização em psicopedagogia. Estudou balé moderno, dança de salão e dança esportiva com Bettina Ried. É especialista em dança criativa e também é confederada e multiplicadora da confederação brasileira de dança esportiva. Número de frases: 38 Interessados podem solicitar mais informações por o telefone (67) 8404.0504. A obra musical das Lavadeiras de Almenara e do compositor Carlos Farias virou objeto de estudo e continua influenciando outros artistas e estudiosos da cultura popular, em diversas partes do Brasil e do mundo. Vejam o texto abaixo, da autoria da professora Sâmara Rodrigues de Ataíde, publicado, também, no sítio http://www.coraldaslavadeiras.com.br Rua das pedrinhas e Ai flores do verde pinho: um diálogo possível ( Por Sâmara Rodrigues de Ataíde, mestranda em Literatura Portuguesa por a Universidade do Estado do Rio de Janeiro -- UERJ -- e em Ciência da Literatura por a Universidade Federal do Rio de Janeiro -- UFRJ) Embora desmereçam, muitas vezes, a atenção dos especialistas, por serem consideradas em gênero menor, as composições que são ouvidas, contadas, recitadas ou cantadas por o povo pertencem ao acervo de uma nação. Se partirmos do pressuposto de que a cultura trovadoresca ainda permanece nos nossos dias, mesmo no Brasil, que não vivenciou a Idade Média, segundo os valores da civilização européia ocidental, podemos considerar o repertório de Carlos Farias e do Coral das Lavadeiras de Almenara como uma transformação e extensão do cancioneiro medieval trovadoresco. Em as cantigas recolhidas por o pesquisador e folclorista preserva-se a principal característica das cantigas de amigo medievais: o sentimento feminino que exprimem. Sendo transmitidas ao longo do tempo, de geração em geração, as canções sofreram transformações com supressões e até mesmo adições, mas ainda assim podemos estabelecer similitudes como o ambiente rural descrito nas cantigas, a presença da natureza, a mulher camponesa / lavadeira tendo como confidente um elemento da natureza personificado. A estrutura de diálogo e a utilização do refrão ou estribilho (repetição de versos) e do paralelismo (construção que se repete com pequenas alterações a cada estrofe) são características facilmente percebidas. Produzidas em épocas diferentes, separadas por séculos, podemos estabelecer alguns elementos aproximativos entre as cantigas a seguir: «Ai, flores do verde pinheiro, / Se por acaso sabeis novidades do meu amigo, / Ai, Deus, onde está ele?" ( Dom Dinis. Antologia da poesia galego-portuguesa. Porto: Lello & Irmão, 1977. «Lá na rua das pedrinhas, oi cio Onde fui fazer minhas «queixa» oi cio As pedrinhas responderam oi cio O amor é firme não lhe deixa só " (Informante: Crisolina Guimarães e Lia Lavadeira. Carlos Farias & o canto das lavadeiras. Batukim brasileiro. Estúdio Via Sonora: Belo Horizonte, maio a setembro de 2001). Nota-se que em ambas as composições temos um eu lírico feminino, ou seja, uma voz de mulher, dialogando com elementos da natureza (o pinheiro na primeira e as pedrinhas na segunda). Estes elementos, maravilhosamente, respondem às suas interlocutoras que o amado / namorado se encontra vivo e com saúde e que, não faltando à sua palavra, estará com a namorada / amiga no prazo combinado. Vós perguntais por o vosso amado? Eu bem vos digo que ele está vivo e são. Ai, Deus, onde está ele? Vós perguntais por o vosso amado? Eu bem vos digo que ele está vivo e são. Ai, Deus, onde está ele? ( D. Dinis) Por baixo da água é lodo oi cio Por baixo do lodo é peixe oi cio Meu benzinho fica ciente oi cio Que por outra eu não lhe deixo oi cio ( Carlos Farias & Coral das Lavadeiras de Almenara) Ambas as cantigas expressam um sentimento amoroso. A cantiga de amigo trovadoresca medieval (D. Dinis) é uma das mais conhecidas da literatura portuguesa, apresentando uma situação curiosa em que o eu lírico dialoga com um pinheiro solicitando notícias do amigo (namorado ou amante) que a deixou. A cantiga de roda entoada por o Coral das lavadeiras, Rua das pedrinhas, retrata a mesma situação, o eu lírico feminino interroga e queixa-se à Rua das pedrinhas quanto à intensidade do amor e, por sua vez, as pedrinhas lhe respondem que não há motivo para lamentações e preocupações, pois «o amor é firme e não lhe deixa só». Portanto, nas duas cantigas referidas neste breve ensaio, o eu lírico se dirige a elementos feminilizados da natureza: flores / pedrinhas. Outro aspecto semelhante observado é o fato de que as duas cantigas possuem sua origem na inspiração popular, o que explica sua linguagem fácil, ou seja, menos rebuscada e mais musical, destinando-se ao canto e à dança. Geralmente mais populares, as cantigas de amigo não se ambientam em palácios e sim em lugares mais simples, como o campo, por exemplo. Mostram freqüentemente, cenas do cotidiano, em que a moça vai lavar roupa, vai a uma romaria ou freqüenta uma festa. Além disso, expressam uma visão mais «realista» do amor, pois é colocado no plano terrestre dos desejos humanos e da sensualidade. A o se pensar na valorização do patrimônio cultural e do popular da região do Vale do Jequitinhonha, bem como na sensibilização quanto à preservação dos valores culturais da região a ser pesquisada, torna-se instigante o fato de que um grupo de pessoas submetido a situações tão adversas continue mantendo práticas e modo de viver seculares que nos saltam aos olhos devido a sua singeleza ingênua e bela. Obs.: Este é um texto adaptado e faz parte de um projeto maior, escrito na ocasião do exame de seleção para o Mestrado em Literatura Portuguesa na UERJ cuja dissertação será apresentada em março de 2009. Como o processo seletivo envolvia, em suas diversas etapas, o julgamento a respeito da pertinência da abordagem e do corpus escolhido, bem como uma entrevista realizada com professores da instituição, a cantiga «Rua das pedrinhas» foi de extrema importância para que pudesse lograr êxito no concurso. Contendo características visivelmente equiparadas às cantigas de amigo medievais, emocionou aqueles que participaram do processo. A aprovação do projeto logrou êxito, tendo conquistado os primeiros lugares de entre as vagas disponíveis. Vale dizer que o interesse de conhecer «mais de perto» Carlos Farias e o Coral das Lavadeiras de Almenara foi manifestado por todos os presentes tocados por o encantamento provocado por a voz de Dona Crisolina Guimarães numa interpretação singular. Saiba mais sobre as lavadeiras nos endereços: http://www.myspace.com/lavadeirasdealmenara Número de frases: 55 http://www.myspace.com/carlosfariasmaxakali Infinitas são as representações do saudoso veículo em crônicas, músicas e poesias. Através de seus estribos, bancos, ou mais adiante, janelas, poetas e escritores viram o mundo. E o registraram. Uma imersão ao mundo dos bondes é uma viagem nos tempos e costumes de décadas não tão passadas. Percebamos, como Drummond, o bonde que passa cheio de pernas. Meu diário bergantim, meu aeroplano, minha casa particular aberta ao povo, eu te saúdo, te agradeço; e em pé no estribo agarrado ao balaústre, de modesto que é, faço-te ilustre Carlos Drummond de Andrade Trabalho pra burro Em o início eram a burros. Pobres burros, que puxavam o bonde, às vezes com um expediente de 18 horas. O primeiro veículo, por iniciativa de Thomas Cochrane, rodou no Rio de Janeiro em 1859. A «Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boa Vista» faliu em 1866, após implantar o sistema de bondes a vapor. Dois anos depois, o serviço seria reinaugurado com grande pompa. Em 9 de outubro de 1868, com D. Pedro II como passageiro ilustre, a companhia «Botanical Garden Rail Road Company» fez a viagem inaugural. Sistemas semelhantes foram sendo criados por o país. São Paulo foi apenas a décima segunda a implantar, em 1872, atrás, por exemplo, de Belém do Pará, onde em 1868 um americano com o incrível nome de James Bond inaugurou o sistema de bondes a vapor. Onde não havia o vapor, sob chicotadas e berros, os animais faziam quatro viagens por dia. Terminado o expediente, eles se recusavam a continuar e eram substituídos por outra leva. Em subidas íngremes, um outro burro era atrelado. Ele ficava esperando na ladeira, e se juntava aos outros quando os via chegar. Terminada a jornada, descia sozinho e esperava no mesmo lugar. Eles tinham lá suas particularidades. Só atendiam por o nome, e chamado por um cocheiro conhecido. Sofrimento era para os novos funcionários. Em São Paulo, a primeira empresa a explorar o bonde a burros chamava-se Companhia Viação Paulista, cuja sigla era CVP. Em homenagem aos constantes empaques e descarrilamentos (ocasião em que todo mundo descia para ajudar a colocar o carro nos trilhos de novo), o povo a apelidou de «Cada Vez Pior». Choque de gerações Os bondes elétricos chegaram ao país em 1892, também no Rio de Janeiro, capital federal. Mudaram radicalmente o cotidiano das pessoas. Eram o passaporte para o mundo, mesmo nos limites do município. Foram vistos com medo e admiração: «Eu tinha notícia por o pretinho Lázaro, filho da cozinheira de minha tia, vinda do Rio, que era muito perigoso esse negócio de eletricidade. Quem pusesse os pés nos trilhos ficava ali grudado e seria esmagado facilmente por o bonde. Precisava pular. ( ...) ( Oswald de Andrade, em O Bonde e a cidade) " Em crônica para A Semana, em 16 de outubro, Machado de Assis registrou suas primeiras impressões: «O que me impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu bond, com um grande ar de superioridade. ( ...) Sentia-se em ele a convicção de que inventara, não só o bond elétrico, mas a própria eletricidade." Catorze, quinze anos depois, eles ainda eram vistos como uma ameaça, o «perigo amarelo». Um exemplo é o que publicou o Correio da Manhã, em 11 de outubro de 1906: " Não é que a Light decidiu exterminar a honesta população desta cidade? ( ...) Os bondes elétricos continuam a esmagar e trucidar inocentes passageiros." Em maio do ano seguinte, era a vez da revista Fon-Fon alertar: «Os estropiados aumentam e a população de tais lugares, se de todo não desaparecer, em breve ficará privada de braços e pernas». O bonde e as mulheres O novo transporte deu liberdade para que as pessoas conhecessem a própria cidade. As mulheres puderam enfim sair de casa, acompanhadas. Causava reações. A opinião é do jornalista França Júnior, no fim do século 19: " Se o impulso dado por o bonde à nossa sociedade for em escala sempre ascendente, havemos de ver em breve as nossas patrícias discutirem política ( ...), irem à praça do comércio ler os jornais do dia, ocuparem-se de tudo enfim, menos do arranjo da casa». Preconceitos à parte, elas deveriam se cuidar: " Anda a gente por os bondes / Sem poder se virar / Porque logo grita um anjo: / Este homem quer bolinar " A letra cantada por Eduardo das Neves fala de um tipo oportunista: o «bolina», assim descrito na revista Fon-Fon de julho de 1922:» tipo paradoxal que a cidade inteira conhece, o tal que só acha lugares vazios nos bancos onde viajam moças e meninas. ( ...) E enquanto o bonde corre, já uma perninha ameaça um assalto, depois a mão, logo em seguida o joelho, depois tudo ... Se ela reage, ele se melindra, protesta e desce para esperar outro bonde e outra vítima. Se ela consente, ele só não se senta no colo porque os outros protestam». Já existiam, naquela época, as «maria-bonde», meninas que esperavam o bonde passar para flertar. Ramos Cotoco, modista cearense, notou: «Em uma rua onde passa o bonde / Moça não pode engordar» e continua adiante: «Se o bonde passa está na janela / Se o bonde volta ainda está ela / Namora a todos, é um horror / A os passageiros, ao condutor». «Um para a light, dois pra mim " As passagens eram cobradas por o condutor, que ao contrário do que o nome sugere, era o responsável por ir de passageiro em passageiro, pedindo o dinheiro. às vezes, com a falta de fiscalização, o condutor «esquecia-se» de marcar no contador. O povo ironizava: «din, din, é um para a light, dois pra mim». Havia a mamata para os amigos, como confessa a música de Leonel Azevedo e J. Cascata, de 1937: «Não pago o bonde, Iaiá / Não pago o bonde, Ioiô / Não pago o bonde / Que eu conheço o condutor». Em o carnaval, quando os bondes ficavam apinhados de gente, era comum o não pagamento. Em essas ocasiões, muitas vezes o veículo vinha enfeitado por o próprio motorneiro. Era o transporte para os desfiles. «O motorneiro é cuidadoso, não conversa em serviço " A plaqueta ficava à vista, e muitas vezes vinha acompanhada de um outro aviso: «prevenir acidentes é dever de todos». Estes aconteciam com alguma freqüência. Descarrilamentos, colisões com outros veículos, e até mesmo as conseqüências de um pulo desastrado no bonde andando eram comuns. Contra maiores estragos nos atropelamentos, os bondes possuíam um sistema interessante. Quando a pessoa ia parar de baixo do veículo, colidia com uma barra de madeira, que acionava uma pá. Ela arrastava a vítima, impedindo que ela fosse atingida por as rodas. Mesmo assim, não foram raros os casos de quem perdeu algum membro por abusar da sorte. De a onde vem o bonde? A versão mais aceita para a origem da palavra bonde vem dos bilhetes emitidos por a Botanical Garden Railroad, no Rio de Janeiro. Era as passagens, chamadas «bond». Outros pesquisadores sugerem que ela é derivada de «Eletric Bond& Share», nome de uma das empresas que explorava o serviço no Brasil. Uma versão curiosa diz que a palavra originou-se a partir do sobrenome de um cônsul americano, que em 1868 tornou-se dono da primeira empresa de bondes de Belém do Pará. Seu nome: James Bond. Reclames A partir de 1908 os bondes passaram a circular com propagandas, ou reclames, como se dizia antigamente. Por uns tempos, valeu a regra: os anúncios não poderiam " causar distúrbios, manifestações hostis, em língua estrangeira, ofensivos à moral ou alusivos à moléstias secretas e repugnantes " Mas não teve muito jeito. Farmacêuticas eram as maiores anunciantes. A mais conhecida de todas as propagandas é a do Rum Creosotado, cuja autoria é a atribuída ao poeta Bastos Tigre: Veja, ilustre passageiro O belo tipo faceiro Que o senhor tem ao seu lado. E no entanto, acredite. Quase morreu de bronquite Salvou-o o Rum Creosotado. Mais um: Esse nervoso irritante Que não o larga um instante Bem pode ser de sua vista Por que a um oculista não corre De a casa A Especialista?" Estação final Por cerca de 50 anos, os bondes dividiram as ruas com outros veículos. Estes, cada vez em maior número, nem sempre conviviam amigavelmente. Em São Paulo, ano de 1911, foi construído por os irmãos Luiz e Fortunato Grassi o primeiro ônibus brasileiro. Por volta de 1920, com o petróleo mais barato que a eletricidade, o Brasil começa a importar jardineiras do Estados Unidos. Em 1930, só na capital paulista elas já passavam de 400 unidades. A pressão das empresas de ônibus para o fim dos bondes foi aumentando. A Light queria desistir do serviço, mas um decreto de Getúlio Vargas, em 1937, a obrigou a prosseguir. São Paulo (1968) e Santos (1971) foram as últimas cidades a aposentarem seus bondes. O bonde de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, foi a única linha urbana no País que nunca parou de circular. A última viagem do bonde Camarão, que saiu da Vila Mariana em 26 de março de 1968, em direção à Santo Amaro, foi motivo de comoção nos paulistanos. Em marcha lenta, seguido por automóveis, ele fez o último percurso. «Para um despedida, até que foi um festa bonita, sentimental demais», escreveu a revista O Cruzeiro. E relembrou: «O bond criou moda: motorneiro que se prezasse tinha quase a obrigação de deixar crescer o bigode, para combinar com o uniforme escuro; e o bonito era o rapaz pular do bonde andando, na ladeira da Augusta». Curiosidades Tipos de bonde elétrico «Aqui em São Paulo o que mais me amola / São esses bondes que nem gaiola / Cheguei abrir uma portinhola / Levei um tranco e quebrei a viola / Inda pus o dinheiro na caixa da esmola» (Bonde Camarão -- Cornélio Pires/Mariano) Personagem querido da cidade, o bonde tinha as funções mais diversas, e apelidos curiosos. Caradura (Taioba) -- Inicialmente, os antigos bondes com tração animal foram atrelados ao bonde principal, para que as pessoas pudessem levar grandes volumes. Como custava a metade do preço, virou uma opção de transporte barato, mas que também era usado por quem tinha mais dinheiro. De aí a «caradura». Bonde de ceroulas -- Assim os cariocas apelidaram o bonde de gala, que era forrado com um brim branco, para eventos sociais. Bonde dos mortos (funerário) -- Em o carro principal iam os parentes. Em o reboque, o morto. Bonde do correio -- carro de serviços, assim como o que carregava carne e o que fazia manutenção nas linhas elétricas. Bonde de areia (reboque) -- Os motoristas dos carros tinham o costume de andar sobre os trilhos. Isso fazia com que a borracha se acumulasse, e nos dias de chuva os bondes derrapavam nas ladeiras. Para evitar acidentes, de tempos em tempos passava esse reboque, jogando areia. Bonde Camarão -- Assim apelidado por sua cor vermelha. Fechado, circulou nas ruas de São Paulo. Tinha capacidade para 51 passageiros sentados. Último bonde a circular na cidade. Bonde Centex (Gilda) -- O mais luxuoso bonde que circulou em São Paulo. Foi assim apelidado em homenagem à personagem de Rita Hayworth no cinema americano. Tinha calefação automática. Teve seus similares. Em Olinda, havia o bonde Zeppelin. Em Vitória, o bonde Tobias (todo revestido de espelhos, em ele não entrava homem sem gravata). Bonde-salão -- Entrou em operação na cidade de Salvador, em 1911. Era reservado para eventos de autoridades, casamentos e batizados. São Paulo também tinha o seu. O luxuoso Ipiranga adquirido por a Ligth em 1905. Abençoado por o Cardeal Arcoverde, era alugado para eventos, e festas no próprio bonde. Bonde ambulância -- Construído a pedido do governo do Rio de Janeiro, ajudou a cuidar dos feridos da revolta do forte de Copacabana em 1922. As regras de Machado É curioso ver como os problemas que enfrentamos hoje em ônibus e metrôs eram quase os mesmos de um séculos atrás. A constatação fica clara a lermos as 1 0 regras de comportamento para andar de bonde, sugeridas por Machado de Assis. A primeira, vai abaixo. Art.. I -- De os Encatarrhoados -- Os encatarrhoados podem entrar nos bonds, com a condição de não tossirem mais de trez vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa que não permita esta limitação, os encatarrhoados têem dous alvitres: -- ou irem a pé, que é bom exercicio, ou metterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarrhoados que estiverem nas extremidades dos bancos devem escarrar para o lado da rua, em vez do fazerem no proprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçonico, vocação etc., etc. Dicionário do bonde Almofadinha -- virou sinônimo de frescura, excesso de arrumação. Como os bancos do bonde eram de madeira, alguns levavam sua almofadinha para ter uma viagem mais tranqüila. Andar na linha (do bonde) -- Ser correto e sincero nos negócios. Balastro -- areia, saibro ou cascalho que se lança nas vias. Comprar um bonde -- Cair no conto do vigário. Fazer um mal negócio. Condutor -- Cobrador Mortorneiro -- Motorista do bonde Pegar o bonde andando -- Entrar no meio de uma situação ou conversa em andamento. Perder o bonde da história -- Perder-se no contexto de algo. Pongar -- (e despongar) subir (ou descer) no bonde sem que este pare. Tocar o bonde -- Levar algo adiante. Tomar o bonde errado -- Ver frustrado seus intentos. Trombada -- Em a São Paulo dos anos vinte, um elefante fugiu do circo e derrubou um bonde com a tromba. Virou sinônimo de colisão. Para Andar De Bonde Restam poucos bondes em circulação no Brasil, a maioria de eles em São Paulo, turístico, e com circulação reduzida. Aos poucos, cidades como Santos vão dando nova vida aos trilhos. Belo Horizonte estuda a implantação de uma linha. Belém está prestes a inaugurar um trajeto, e Manaus também projeta a reativação. As duas últimas com assistência da empresa santista Clinimaq, a única no país com licença para restaurar e construir bondes. Linhas atuais São Paulo -- SP Um pequeno trajeto saindo do Museu do Imigrante, no Brás, relembra a história dos bondes na cidade. Bonde aberto, movido à gasolina. Campos do Jordão -- SP Linha turística com oito quilômetros de extensão. Através das janelas, uma bela visão do centro da cidade. O bonde é fechado, condição providencial em dias mais frios. Campinas -- SP Trajeto turístico, de quatro quilômetros dentro do Parque Portugal. Bonde aberto. Belém -- PA A linha está pronta. O bonde, restaurado. Mas no meio do caminho estão 180 ambulantes, que não permitem a passagem por o centro. A previsão da prefeitura de Belém era que no início de 2007 ele já estaria rodando, assim que os comerciantes fossem realocados. A cidade de Santos prestou assessoria para a implantação e escolha do roteiro. Santos -- SP Em 2000 a cidade do litoral paulista reinaugurou a linha de bondes. Hoje, três de eles fazem um circuito de 1.700 metros por o centro histórico. Guias acompanham o trajeto. Dentro do programa «vovô sabe tudo», antigos motorneiros organizam o embarque e contam histórias do tempo áureo dos bondes. A previsão é que o trajeto seja ampliado para 5 quilômetros. Santos tornou-se referência em restauração de bondes, e hoje presta assessoria para outras cidades que desejam seguir o exemplo. Mais sobre os bondes de Santos: http://www.novomilenio.inf.br/santos/obondex.htm Santa Teresa enfrenta o verdadeiro perigo amarelo «Mas inauguram-se os bondes. Agora é que Santa Tereza vai ficar à moda." Machado de Assis não se enganou. O bonde de Santa Tereza esteve sempre «à moda», nunca deixou de circular, desde 1896, quando foi inaugurado. Hoje é um dos símbolos da cidade, deslizando sobre os arcos da Lapa. As crianças adoram. Vão se pendurando, sem ligar muito para os riscos. Turistas se empolgam e realizam o sonho de «pegar o bonde andando». O motorneiro e o cobrador são sempre atenciosos, caraterística histórica do transporte. O passeio de bonde por o bairro histórico, com casas do tempo de Machado de Assis, é um imersão no passado. Mas o bom e velho bonde sofre com a falta de investimentos estatais. De os 14 bondes, apenas quatro estão rodando. A passagem, de R$ 0,60, não sofre reajuste há dez anos. O valor, comparado ao do bondinho do Pão de Açúcar (R$ 35) ou do trem do Corcovado (R$ 36) é mínimo. O trajeto que vai de Santa Tereza ao Silvestre, na junção com a Estrada de Ferro do Corcovado, teve sua fiação roubada, e não há planos de ser reposta. Segundo a Central, que administra a linha de bondes, lugar é ermo e não «vale a pena» o investimento. Já os moradores e motorneiros consideram o trecho mais bonito de todos. Todos os sábados, às 10h e às 14h, o bonde realiza um percurso cultural de duas horas, passando por os diversos museus do bairro, com acompanhamento de uma guia. Número de frases: 233 Uma das paradas é no Museu do Bonde, que funciona junto à oficina de restauração. Tenho acompanhado alguns bons debates a partir de algumas publicações aqui no Overmundo e recordei deste resumo que fiz ano passadp do trabalho de Bright para o sítio Shvoong há algum tempo. Parece-me adequado e atual falar de ele aqui, porque trata de produção literária. Ainda que não seja um manual local, nem proponha um método, orienta e instiga um bom debate. Pode não ser considerado adequado e, então, basta que não votem no postado. Considero pertinente porque resolve algumas falsas querelas do tipo nu e cru, escrachado, bobo ou ofensivo. E sequer, penso eu, tem reserva alguma sobre o direito a pensar e expressar o pensamento. Eu não as tenho. Quero dizer que também não dói. Em um verdadeiro guia para escritores de erotismo, Susie Bright dá orientações para os autores evitarem censuras, e que façam jogos e exercícios em que percam suas próprias inibições para escrever em estilos e em contextos diferentes. O livro apela aos que focalizam apenas relacionamento sexual (quaisquer) e aos escritores de outros gêneros que querem apenas suas cenas do sexo aparecendo transversalmente para que as incluam de modo realístico e relevantes ao contexto do trabalho. Susie é uma pioneira do erotismo e há muito tempo promove autores novos destacando mulheres autoras lésbicas que começam a aparecer bem num mercado antes dominado por o autor masculino. Sua abordagem não é um absurdo. Por exemplo, diz que livro algum deve ser aberto por seus melhores bocados. E defende que as cenas do sexo devem estar no contexto com tudo o mais. O seu trabalho inclui extratos de um bom número de bons autores, entre eles Anne Rice e Mario Puzo. Susie fala a quem escreve e também a um público mais geral. Recomenda a fuga dos clichês e da gritaria orgásmica. Adverte que o uso do linguajar vulgar pode ser legitimado por o contexto, mas que pode transformar-se em mera prosa chula se usado como única alternativa a qualquer outro tipo da escrita. Gratuidade e superficialidade são desnecessárias, recomenda Susie. Não é um guia geral sobre sexo, mas uma ferramenta para autores e um recurso para leitores. Sugere compartilhar masturbação e poesia, ficção e erotismo como circunstâncias e estilos associados. Recomenda uma ruptura longa entre esboços (portanto, também recomenda fazer esboços) e edição final para um exame acurado e criterioso do trabalho concluído. Dá garantias de que escrever erotismo não causa dano qualquer a própria vida sexual do autor (nem a leitura do gênero ao leitor). Susie não se considera ídolo, embora tenha fãs, mas rejeita a mistificação da mídia que espera do sexo-novelista que seja perito em sexo ou e também um maníaco sexual. A atitude mais saudável em relação a isto, sugere a autora, é ignorar os ignorantes. Número de frases: 26 Ser você e pensar no que você escreve será sempre a melhor receita. O projeto é ousado, a aventura é imensa, mas o que a Avesso Filmes está se propondo fazer com o filme documentário «Rota do Sal» é o resgate de uma história já quase esquecida. Antes que os mais velhos morram. Em este final de novembro, André Braga e Cardes Amâncio percorreram gabinetes, fazendas e corrutelas por o Tocantins a dentro para buscar mais apoio e referências históricas para o seu projeto. Eles pretendem refazer a rota que os antigos ribeirinhos faziam de Paranã (Te o) a Belém (PA), por o rio Tocantins em busca de sal. Sim, o mesmo sal que se compra fácil e barato hoje em dia no supermercado, mas que já foi poderosa moeda de troca no começo do século XVIII. «Os antigos contam as histórias que ouviram de seus pais e avós, e antes que esta memória se perca, queremos registrar», conta André Braga. Para reviver a saga que os ribeirinhos enfrentavam, viajando sempre na cheia, numa viagem por 3 mil km de água, uma vez ao ano, a equipe de produção da Avesso Filmes vai utilizar uma canoa. «Em a verdade esta viagem não era feita de canoa, e sim em antigos batelões, que levavam tudo: produtos para troca, pessoas. Mas para nosso documentário, vamos utilizar uma canoa moderna, que permita a nossa viagem e o contato com estas comunidade às margens do rio Tocantins " -- explica o cineasta. Em a verdade, a idéia surgiu durante um outro trabalho feito por a equipe, o vídeo intitulado «Olhar Calunga». Ouvindo as histórias e estórias de antigos moradores, descendentes de negros africanos, em comunidades quilombolas, eles perceberam a necessidade de fazer o registro de tradições transmitidas por diversas gerações através da oralidade. A rota do sal feita por a água, começava normalmente no mês de março, nas «águas grandes», quando partiam os batelões. A volta só acontecia no ano seguinte, também na cheia. Ao longo do rio, como ao longo das estradas, é que as comunidades prosperavam, vivendo de ele, e se locomovendo através de ele. As pesquisas prévias feitas por a equipe mostram que o hábito de viajar de batelão começou a cair em desuso por volta de 1920, quando rotas alternativas, por terra, e feitas com tropas de burros, começaram a se multiplicar. O sal, que só se encontrava a beira mar era trazido para o então interior goiano, passando por todo território, hoje tocantinense, até chegar às comunidades que de ele necessitavam. «Estamos recontando parte da história deste Brasil central, tão pouco conhecida. Queremos registrar a memória destes protagonistas. É interessante também que as pessoas deste interior do país se vejam na tela. Isto as fortalece», explica André. O projeto que tem o apoio do Iphan, e teve a produção aprovada dentro da " Lei Rouanet. «Estamos buscando patrocinadores, apoiadores do projeto», disse Braga em reunião na Secretaria de Recursos Hídricos e Meio Ambiente do governo do Tocantins, onde esteve em busca de apoio. Braga e Cardes também fizeram diversos registros fotográficos e estiveram em contato com o presidente da Fundação Cultural do Tocantins, Julio César entre outras autoridades. «Queremos que a comunidade abrace o projeto e nos ajude a realizá-lo» -- destacou Cardes. Em o conjunto todo da proposta do filme documentário «Rota do Sal», está a publicação de um ensaio fotográfico, um livro de fotografias e reportagens contendo a história da viagem e produção, além de 5 mil cópias em DVD e mais 2 mil cópias em VHS. A intenção da equipe é que este material, depois de pronto, volte para as comunidades ribeirinhas e seja exibido em salas de aula, para que a própria comunidade se veja, e se reconheça como protagonista de uma história. Registro da memória de um tempo difícil em que cidadãos brasileiros resistiam, abrindo, com muita fortaleza e perseverança, as fronteiras de um Brasil desconhecido, na rota de suas necessidades mais básicas. Como o sal. Número de frases: 30 Alvinópolis, cidade mineira, cercada por montanhas e vales na zona da mata, sempre teve destaque na parte da Educação. Em os meados dos anos 60 já contava com um curso técnico de Contabilidade e o Magistério. Todos os meus professores se formaram na Escola Estadual Professor Cândido Gomes, com exceção da minha primeira professora, a Irmã Margarida. Em 1959 comecei minha trajetória escolar no Jardim da Infância, que nascera da boa vontade das Irmãs de Caridade que chegaram em Alvinópolis para cuidar de um Convento com o nome de Beneficência Popular. Lembro do meu primeiro dia. Bem cedinho, minha mãe entrou por o quarto me sacudindo, falando ansiosa que já era hora de ir para a escola. Levantei meio sonolenta e até aflita vestindo minha sainha xadrez vermelha e branca, uma blusinha branca acompanhada da gravatinha vermelha, um Chuá!!! Lavei meu rosto, quase esquecendo de escovar os dentes para chegar bem depressa no «Jardim de Infância». Nossa! «Jardim de Infância» ... Hoje estou entendendo o significado desse nome. Pensem: As crianças eram recebidas na escola como flores, viçosas flores! E todos da escola eram «psicologicamente» preparados para cuidar dessas mudinhas que estavam chegando para fazer parte de um jardim. Íamos para a escola felizes. Lembro que além de brincar e estudar, ajudávamos as irmãs a cuidar da horta. Em a hora do recreio brincávamos debaixo do pé de Cipreste, que até hoje, só de pensar sinto o cheiro das suas folhas. Lembro que minha mãe me aprontava e me deixava na escola e eu não chorava nem um dia, nem as outras crianças, pelo contrário, eram só risos e pulos nos corredores do convento. Ficava doidinha para chegar na sala de aula, desenhar, ouvir as histórias narradas por a professora, os quebras-cabeças (feito por as irmãs) sentada naquelas cadeirinhas simples de palha. E a Irmã Margarida não esquecia de rezar para o Papai do Céu nos dar inteligência e saúde. Hoje devido a vários movimentos sociais engajados na formulação da nova LDBEN e do Estatuto da Criança e do Adolescente, a creche (que atende crianças dos O aos 3 e 11 meses), a pré-escola dos 4 aos 5 anos e 11 meses) estão incluídos na Educação Infantil, denominação que substitui a nomenclatura Jardim de Infância, que por sua vez está incluída na Educação Básica. O que a Legislação pretendeu foi enfatizar que a criança não se desenvolve naturalmente, mas precisa de uma educação com qualidade que promova a construção de conhecimentos. Só que, na prática, esqueceram que a criança não só aprende muito mais, como também, a partir da imaginação que procede do brincar, se constitui criadora de cultura. Levaram a ferro e fogo a educação infantil a não se diferenciar dos objetivos do Ensino Fundamental e isso é muito ruim, pois Brincar vem sendo preterido por aulas, por a exigência de se alfabetizar cada vez mais cedo. Conversei com uma psicopedagoga e com alguns pais e o que vemos é que as crianças estão chegando da escola irritadas, estressadas e inseguras. Por um lado, as escolas estão cheias de novas tecnologias, salas de informáticas, laboratórios, até boas bibliotecas, mas estão esquecendo que as crianças não são robot. É por isso que lembrei com saudade da minha primeira escola, meu querido jardim da infância, onde eu aprendi brincando, dançando, gargalhando e minhas noites eram recheadas de sonhos maravilhosos. As crianças de hoje devem ter pesadelos ... Número de frases: 26 Sementes, galhos, ouriços e cipós, uma verdadeira parafernália florestal, nas mãos de um grupo de crianças com idade de 5 a 14 anos, dos bairros Wanderley Dantas, Adalberto Sena e Xavier Maia, em Rio Branco (Acre) se transformam em instrumentos de percussão, através da Oficina Som da Floresta, projeto sob a batuta da Ong Vertente. A garotada sob a orientação de professores aprendeu a confeccionar bumbos tradicionais, chocalhos, blocos sonoros, paus-de chuva, tambores inspirados na cultura Ashaninka, além de participarem das aulas de educação ambiental sobre a importância da preservação da floresta e a utilização de seus recursos, com respeito ao meio ambiente. A professora de canto, poeta e compositora Neiva Nara em dobradinha com o percussionista Rogério Moraes, responsáveis por o trabalho musical, procuram desenvolver a criatividade do grupo a partir da temática ambiental. As músicas em sua maioria são de compositores amazônicos. As letras são debatidas por o grupo de forma lúdica. Hoje, após três anos de criação do Som da Floresta, não falta convite aos pequenos para se apresentarem em shows e eventos na capital. A música, para eles, é a porta de entrada para o amplo universo da cultura e para a descoberta de seus direitos como cidadãos. Abriram a Conferência Estadual do Meio Ambiente (2005), a Feira de Produtos da Floresta (2005). Uma das últimas apresentações do Som da Floresta aconteceu na inauguração da Usina de Artes João Donato, no dia 24 de abril. Em a platéia entre artistas acreanos, produtores culturais, o ministro da Cultura Gilberto Gil e o cantor e compositor João Donato. O grupo arrancou aplausos por a original interpretação do Hino Acreano, tocado e cantado em ritmo de baião. Criada em 2003, hoje a Oficina Som da Floresta se transformou em Ponto de Cultura, do Ministério da Cultura. As atividades que antes eram desenvolvidas na Paróquia Santa Luzia, no bairro Adalberto Sena, possuem espaço próprio, adquirido através de recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, tendo com patrocinador O Boticário. Em o espaço serão desenvolvidas, a partir de maio deste ano, atividades envolvendo as diversas linguagens artísticas: artes plásticas, cinema, música e artes cênicas. O projeto não pára por aí. Uma parceria entre o Ministério da Cultura e o Ministério do Trabalho, fez com que a Oficina Som da Floresta ampliasse sua atuação, direcionando suas ações aos adolescentes dos bairros. Com idade entre 16 e 24 anos. Eles já participam de cursos profissionalizantes e debates sobre meio ambiente e cultura, além de receberem um auxílio de R$ 150 do Ministério do Trabalho. A idéia dos coordenadores do Ponto de Cultura em 2006 é envolver toda a comunidade dos três bairros. Trabalhar com as mães das crianças e jovens, oferecendo cursos com o objetivo de geração de renda e ao mesmo tempo de aproximá-las do projeto. «Para a Vertente é importante que a comunidade se sinta dona do Som da Floresta, conduza o processo. Temos que ficar como apoio e expectadores dessa maravilhosa ciranda, essa mistura», diz Foerneck. Número de frases: 23 Se o Rio de Janeiro tem o Nós do Morro, a Bahia tem o Olodum, São Paulo o Bate Lata e Os Meninos do Morumbi, o Acre tem o Som da Floresta. Em a segunda parte da série sobre o teatro carioca em maio de 2006 se abordou a produção. Durante pouco mais de quarenta minutos, uma conversa com três dos integrantes da Ordinárias Produções Artísticas foi registrada por uma câmera de filmagem e por o um duo iPod-iTalk. Ordinárias Produções Artísticas: reação e ação Apresentação dos personagens (por Bruno Maia): Três jovens que se dizem quatro. Carolina Portes, Pablo Sanábio e Fabrício Belsoff participam da conversa e registram a ausência de Moacir Siqueira, que «está na rua resolvendo coisas de produção». O pouco material levantado na pesquisa não me permite uma pré-impress ão. Tudo é novidade ao encontrá-los e, também por isso, nada surpreende muito. Têm a mesma faixa etária que eu. Parecem amigos de amigos que conhecemos nas mesas de bar por as noites de sextas-feiras afora. PABLO: Sorridente, de ar tranqüilo e fala agitada. As mãos acompanham a fala e o olhar é dinâmico. Camiseta vermelha sobreposta por uma blusa social cinza com as mangas dobradas na altura dos cotovelos. Calça jeans escura. FABRÍCIO: Austero e parcimonioso. Olha para a câmera enquanto fala. Camiseta regata branca, calça jeans cortada na altura dos joelhos desfiada. Carolina: Baixinha, pilha pura, uma inquietação típica de artista. Olha para o interlocutor. Blusinha azul, saia comprida jeans, All-Star vermelho. Óculos escuros na testa, pasta grossa e verde na mão. Apresentação feita por os próprios: -- " Olá, nós somos a Ordinárias Produções Artísticas. A Ordinárias é composta por mim, Pablo, «Pablo Sanábio». -- «Carolina Portes». -- " Fabrício Belsoff." -- «Tem mais um que é o Moacir Siqueira que não está aqui, está na rua resolvendo coisas de produção agora». ( risos) A Cal (Casa das Artes de Laranjeiras) é uma das escolas mais tradicionais de teatro no Rio de Janeiro. Foi lá, no curso de formação de atores, que esse grupo de amigos se conheceu e forjou sua personalidade artística que hoje começa a lançar frutos. Formados no final de 2004 -- mesma época em que este que digita retirava o diploma de jornalista (pff) --, se depararam com a falta de perspectivas para inserção de jovens profissionais no mercado de trabalho -- característica que, definitivamente, não é particular das artes e assola a imensa maioria das áreas. Não vamos entrar na discussão sobre as razões disso. Nem vamos falar da baixa taxa de crescimento que assola o país há um quarto de século. Isso não interessa aqui e não interessou a eles, que se reuniram e resolveram formar uma pequena empresa para produzir as peças que eles tivessem vontade de montar para si e para seus amigos. «A gente é ator. Nós resolvemos juntar o que sabemos fazer, que é atuar, com esse outro talento que nós fomos descobrindo na escola, que era produzir com os mesmos interesses», explica Carol -- é assim que todos a chamam. «Eu saía da aula e ia para a casa ler o site do MinC pra saber da Rouanet, pra me aprofundar, porque eu gostava daquilo. A professora tocava no assunto e eu ia atrás», relembra a produtora / atriz. A auto-afirma ção como ator vem também da atuação em projetos de outras pessoas, para os quais são convidados. O'lado produtor ' de eles é movido por um olhar na direção da sua própria geração. «Existe um nicho de mercado, uma galera que está querendo produzir coisas e não consegue um produtor. A gente começou a pegar esse pessoal», diz Pablo, antes de ser completado por Carol: «É uma galera da nossa geração». A experiência deu muito certo e, em menos de dois anos, os resultados são frondosos. A primeira montagem foi a peça «Esses anos estúpidos e perigosos», do escritor canadense George F. Walker, que ficou um ano em cartaz e permitiu ao grupo viajar por todo o Rio de Janeiro, fazendo o circuito dos SESC's. A montagem foi dirigida por João Fonseca, que se tornou uma espécie de padrinho da produtora. Em os quatro primeiros meses de 2006, o grupo já se envolveu com a montagem e produção de mais sete espetáculos, sendo que o principal de eles ainda está por vir: CAROL: -- " ' A Ratoeira ', da Agatha Christie, foi um dos projetos que nos estimulou a criar esta produtora e agora está saindo. Já conseguimos uma parte da grana, estamos terminando a captação, mas é fato que nós vamos lançá-la no segundo semestre». Ela vai ser a única entre os sócios que vai estar no elenco de atores do espetáculo. Os outros três vão trabalhar na produção. O critério de análise sobre a participação, ou não, de um de eles nos espetáculos foi, inevitavelmente, o norte da pergunta seguinte. Como resposta, a explicação de que o desejo pessoal era levado em consideração, mas que não se sobrepunha ao que todos acordavam como sendo o melhor para o espetáculo. Esteticamente, as opções do grupo ainda não são claras. Os interesses estão diretamente ligados às vontades individuais e coletivas de momento e não a uma proposta estética de teatro. (sem pausas, conversa rápida) CAROL: -- " Nós escolhemos fazer o que a gente gosta. Algum de nós chega com um texto, os outros lêem e a gente discute " PABLO: -- " De repente, se é um texto importante, ou de repente, se é um clássico, ou de repente, se é um autor que não é muito conhecido no Brasil, ou, sei lá, um novo dramaturgo brasileiro, sabe? ... A gente quer tentar ter alguma coisa de inédito, ter um diferencial nesse ponto. Ter algo de qualidade que as pessoas possam queiram ver e ... e muita coisa do ousar também ... a gente gosta da ousadia ..." Carol: -- " É, é isso, a proposta vem de qualquer lugar " Pablo: -- «E principalmente que tenha qualidade» ... (em cima da fala de Pablo) -- «E o legal é sempre ler e vamos sentar para conversar ... --» ... a gente quer tentar produzir o filé mignón do teatro ..., rsrs " (interrompendo as reticências de Pablo) -- «Mas como assim? O'filé mignón ' se dá sobre qual paradigma? O que vocês usam para avaliar a qualidade dessa carne? FABRÍCIO (sereno e austero): -- «Acho que varia muito. Agora nós temos dois projetos que partiram das nossas cabeças, então vamos tomar um como exemplo. O «Esses anos estúpidos e perigosos» tinha todos esses critérios que o Pablo falou, de ser uma peça inédita, interessante, de ter sido um autor moderno, contemporâneo, que fala de coisas legais, mais o quê? O que mais chamou nossa atenção era o fato de ser um texto que tratava de questões dos jovens. Por quê? Eu tenho 21 anos, Carol tem 23 ... CAROL (surpresa): -- " Vinte e cinco!?! hanhanhan, Caramba!" -- «Ah! 23 .... O João (Fonseca, diretor) também é um cara novo. O Pablo também é super jovem, tem 23 anos. Então naquele momento, nós queríamos falar sobre os jovens e o espetáculo caía como uma luva». Em maio de 2006, parece que é redundante dizer que, para um ator, ser ator não basta. Lugar comum, quadro constante, figurinha repetida. «É necessário fazer várias coisas, senão nada acontece. Tem que levantar o projeto, escrever, correr atrás do patrocínio, atuar. Temos que ser empreendedores. Eu acho que, quando se acumula muitas funções, você não consegue aproveitar ao máximo o que cada uma de elas têm a oferecer de legal. Você acaba estando no palco, fazendo uma cena e pensando que o prego do não-sei-o-quê tá solto, e os trabalhos ficam dispersos ...», discorre Pablo, com a ansiedade de quem vive tempos velozes. Fabrício, mais pausadamente, completa: «Acho que é uma tendência contemporânea entre os atores que estão se inserindo no mercado. Ser autônomo, dono do seu trabalho, produzir suas coisas, é algo super normal. A gente vê muitas pessoas trilhando um caminho parecido com o nosso. Não nos interessa mais separar o produtor do ator. Em esse nosso formato, nós somos donos do que escolhemos, e pensamos muito bem o que vamos e o que não vamos fazer. Como ator, as escolhas que isso envolve, do que fazer, com quem fazer, me parecem muito interessantes. É um privilégio. E eu não abro mão desse privilégio». A conversa continua e toma o rumo da comparação barata -- introduzida por mim -- entre a escola oficial, a Cal, e a ' escola da vida ', com o perdão do clichê. Carol explica que a Cal os ensinou o ofício do ator, mas não o lado da produção. Ora, mas se ' ser autônomo, dono do seu próprio trabalho, produzir suas coisas ` é ' uma tendência contemporânea ', o formato desta escola não está ligado na contemporaneidade, mas, sim, afastado do mundo real, certo? «Não, é diferente», rebate Carol, defendendo a escola. «Eles até dão alguma coisa, mas não tem tempo. Os professores diziam que o curso é curto para se formar um ator, que dirá para se trabalhar o lado produtor. Eles ensinam mais a parte do ser ator..», completa a atriz / produtora. Mas isso não faz parte da formação do ator hoje?!? «Total», é o que ela diz. Xi, esse papo não vai avançar. Tostines vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Pablo intervém e tenta dar um rumo conclusivo: «Eu acho assim: daqui a pouco vai começar a ser algo fundamental na universidade, na faculdade, o fato do ofício do ator está junto da coisa da produção. Deixar claro que ' oh, pra você acontecer, tem que produzir suas coisas também ', porque não vai acontecer sempre de vir alguém e descobrir». Cena final: (Debate provocador sobre a relevância ou não do trabalho que o grupo faz. O interlocutor lança a pergunta: E por que vocês acham que o que vocês fazem tem alguma relevância para outra pessoa que não vocês mesmo. Grupo discute.) -- «O que a gente faz não é nenhuma novidade. O que há de novidade, eu acho, é o fato de nós sermos tão jovens, com uma carreira tão curta e com tanta coisa feita. É assim que eu sinto e acho que as pessoas também. Quando eu encontro alguém na rua, ' pô, você tá bombando, hein ', porque rola um boca-a-boca e é bacana. Pra mim, o mais importante é as pessoas saberem que tem um monte de coisas acontecendo e que eu estou ali». -- " O reconhecimento que nós esperamos alcançar é geral sobre todas as nossas funções. O prestígio que nós queremos ter como atores é o mesmo que queremos alcançar como produtores, entendeu? Quando a Ordinárias se torna uma referência, eu como ator me sinto com o mesmo reconhecimento porque faço parte deste produto de qualidade. Não acho que o fato de montar um clássico, como A ratoeira, que é parâmetro de romance policial, de literatura clássica, seja um fator conflituoso com o compromisso que nós temos com a nossa geração. Muito pelo contrário. O fato de nós termos vinte e poucos anos, fazendo espetáculos e querendo atingir um público da nossa idade ... eu acho que este público vai se interessar por este tipo de peça também. Eu acredito que a qualidade, mais do que o tema, é importante, entende? Shakespeare, por exemplo, vai ser sempre atual e vai ser sempre visto, não importa se você tem 8 ou 65 anos. É o humano que está ali. Eu, com business na cabeça, não tenho esse receio. E como artista, não me sinto ofendendo o meu público.». (O interlocutor encerra e agradece. Fabrício o cumprimenta e sai rapidamente. Carol e Pablo permanecem sentad os.) «Valeu, eu preciso subir, já estou atrasado. Tenho que ver um negócio lá no palco». (Som clicado de câmera indicando fim das filmagens. Número de frases: 150 Fecham-se as cortinas.) «Então está combinado. Vendemos um produto que ainda não existe com 50 % de desconto. Umas 350 pessoas compram. Juntamos uns R$ 15 mil assim. Temos mais R$ 6 mil pra dar do nosso bolso. Ótimo, com R$ 21 mil já dá pra começarmos o negócio». É claro que o diálogo e as contas foram mais elaborados que esses daí de cima, mas é de assustar que a verba inicial para um projeto tão ambicioso quanto o site Camiseteria tenha sido captada por meio da venda de um produto que ainda pairava no mundo das idéias. Para entender a dimensão do espanto, é necessário compreender -- antes -- do que se trata a iniciativa. E para entender a iniciativa é importante, já por agora, começar de algum lugar: sim, o Camiseteria é uma loja virtual de camisetas. Até aqui, tudo conforme a lógica de mais de uma década -- nada de novo no fato de se venderem produtos por a web (afinal, o que não se pode comprar no mundo virtual?). O que subverte o mercado neste caso certamente não é o " o quê?" -- não é o produto --, é o «como?», como se desenham as camisetas. Em o Camiseteria, é o usuário quem faz as estampas. Os desenhos são enviados para o site e, por meio de uma votação também gerida por o público, é dado o aval (ou não) para se produzirem camisetas com aqueles traços. As notas, que variam de zero a cinco, carregam sempre subtextos. O do zero, por exemplo, é «Detestei», já o do cinco é» Uau! Faz meu estilo! EU COMPRARIA!». Quem tiver sua criação escolhida para ser reproduzida ganha R$ 350 em dinheiro e R$ 350 em compra de produtos no próprio site. -- Em a verdade, há um concurso permanente. A estampa fica por dez dias na votação. Em o final desse período, ela vai receber uma nota-média, tendo a possibilidade de entrar no ranking das dez melhores estampas. Periodicamente, uma ou duas vezes por mês, escolhemos de cinco a dez desenhos novos desse ranking para começar o processo de produção -- explica o analista de sistemas Fábio Seixas, 32, um dos idealizadores do Camiseteria, que, desde o seu começo, em agosto de 2005, já produziu 70 estampas diferentes e vendeu cerca de 5 mil camisetas. Voltando ao começo do texto Serão muitos números até o fim destas linhas. Mas, com os dados mencionados até aqui, já parece possível entender o baque que se tem quando se descobre que um negócio, no mínimo promissor, começou praticamente com um rateio entre amigos. Fábio e os sócios e designers Rodrigo David e Tiago Teixeira arriscaram: eles apostaram tudo no sucesso instantâneo da iniciativa. Com a crença de que com aquele capital inicial poderiam criar uma estrutura interessante o suficiente para atrair usuários, venderam pacotes de seis a dez camisetas por a metade do preço. Arrecadaram R$ 15 mil nas pré-vendas para 350 pessoas. Eles precisaram, ainda, realizar um investimento pessoal de R$ 6 mil, o que fez com que os R$ 21 mil necessários para começar o projeto finalmente estivessem em mãos. Confiança de que o modelo de negócio que vislumbraram daria certo nunca faltou: -- A gente entende que esse modelo colaborativo de criação de estampas é perfeito para realizar um produto ao gosto do cliente. Então, não produzimos uma estampa que a gente acha bacana. Fazemos um produto que o público acha bacana. O que melhora muito a qualidade e a aceitação das camisetas -- diz Fábio. Aceitação. Talvez seja essa palavra o grande segredo para que o Camiseteria nunca tenha ficado no vermelho, mesmo nos primeiros dias de funcionamento, quando tudo inevitavelmente é mais incerto. Praticamente a totalidade daquilo que é produzido é vendido, e a margem de erro nesse caso tende a zero. Por quê? Fábio tem a explicação: -- A gente vende 98 % de tudo que fabrica. É uma taxa de saída enorme. É um modo praticamente perfeito de produção, porque, com o nosso sistema de votação, se consegue saber quase com absoluta certeza o que o mercado quer comprar. Por isso, uma das coisas que levamos em conta na hora de produzir a estampa é o percentual de nota cinco, que é o grau máximo e é quando o usuário diz, «eu compraria». Manifesto de negócio: todo poder ao usuário A voz ativa da frase «eu compraria» tem significado importante -- falar na ordem direta possivelmente é a principal crença do Camiseteria: «Eu faço», «Eu voto», Eu comento "; ter a opção da escolha é a justificativa de Fábio para considerar o seu projeto um modelo de negócio alternativo à maioria vigente: -- O Camiseteria é um modelo de negócio em que você dá o poder na mão do seu usuário. Isso é uma mudança de paradigma muito grande, principalmente no mercado da moda. Esse mercado é formado basicamente por uma marca que tem um ou dois estilistas por trás criando toda uma identidade. O Camiseteria subverte a moda nesse sentido, porque a gente passa a não depender de um designer, ou de uma linha ou de uma tendência do mercado. A gente passa a considerar única e exclusivamente o gosto e a criação do usuário. É uma mudança de poder muito grande no sentido de quem define o que vai ser produzido. A vontade de ter o usuário no processo de criação acabou gerando um manifesto dentro do próprio site. O Camiseteria mostra suas intenções por meio de frases como " nós acreditamos: ' em preço justo ', ' que o povo tem o poder ', ' que moda é para o povo e não para o mercado ', ' que moda é reflexo da sua personalidade ', e, não coincidentemente, ' na coragem de pequenos empresários '». Esta última vem acompanhada de dizeres que sugerem uma idéia: nem toda iniciativa de cunho idealista (e o manifesto já joga luz sobre um certo idealismo) precisa, necessariamente, abdicar de ambição financeira: Somos uma empresa jovem e nem por isso pensamos pequeno. Queremos ser os melhores no que fazemos. Queremos ser competentes. Queremos que essa competência tenha impacto direto no nosso serviço. Teremos sempre a coragem de fazer o melhor para o Camiseteria, independente das adversidades econômicas e burocráticas brasileiras. Teremos a coragem de sempre almejar mais. Mais satisfação sua, mais qualidade, mais produtos. O alvo A pensar: um site que se presta a vender camisetas e, além, propõe que o próprio usuário crie o produto tende a possuir um público-alvo muito específico, certo? Nem tanto. Seguindo o raciocínio de Fábio, se «70% da população mundial usam camiseta», o Camiseteria realmente não teria propósito de focar num grupo reduzido de pessoas. E realmente não foca, ao menos, no que diz respeito a quem utiliza o site apenas para comentar, votar ou comprar. Mas uma coisa acaba sendo inevitável: a maioria dos desenhos, sobretudo os vencedores, é feito por designers, gente que tem experiência com a prática de criar estampas. -- A gente atende a dois públicos, na verdade. O público que vai ao Camiseteria para criar, para debater design, pra conhecer design. E tem o outro público que é o que consome os produtos, que não necessariamente é formado por designers. São pessoas que gostam de camiseta, que curtem os produtos, vão lá e compram e também participam da comunidade. É claro que a gente foca em gente entre 20 e 30 anos, que é um público mais interessante, que está começando a fazer design e já tem alguma experiência e é, também, um grupo que se interessa por camisetas como as que a gente produz -- aponta Fábio, com a segurança de quem possui em mãos alguns números animadores: o Camiseteria já tem cerca de 33 mil usuários cadastrados e conta, em média, com 10 mil acessos diários. Mais: até hoje, 2.900 designers diferentes mandaram suas estampas e, entre esses, 41 já foram premiados e tiveram os traços impressos em camisetas. Ou seja, além de um negócio próspero para quem participa da equipe interna, o site também abre portas para a comunidade, incluindo-a em parte dos lucros. A idéia é que, em muito pouco tempo, a soma do valor do prêmio dado a cada vencedor chegue a R$ 1 mil. Para angariar ainda mais público e na carona de um conceito criado em 2004 por o editor-chefe da Wired (revista famosa por estar sempre apontando aquilo que vai dar certo no novo mundo de negócios e tecnologia) Chris Anderson, Fábio explica o raciocínio de Cauda Longa (ou " Long Tail ") que acredita se aplicar ao Camiseteria. -- A Cauda Longa sugere que os consumidores estão comprando menos produtos de hit e mais de nicho. Em o Camiseteria acontece justamente isso. Nós somos uma Cauda Longa de centenas de designers competentes que não têm como divulgar o trabalho. Servimos como filtro para mostrar o que está na Cauda Longa e é bom. Com a licença É questão de tempo até que a pergunta se faça inevitável: mas e os direitos, como o Camiseteria lida com a questão autoral? A resposta parece bastante clara: o designer, em princípio, mantém os direitos sobre o trabalho. A cessão comercial continua sendo de ele. A parte negociada é -- apenas -- o direito sobre a comercialização e a reprodução do desenho em peça de roupa ou vestuário. Sim, a possibilidade de negociar e vender as camisetas fica com o Camiseteria. Mas é importante lembrar: somente os desenhos que viram camisetas são do site. As outras tantas estampas que não ganharam contornos em camisetas pertencem exclusivamente ao autor: -- Mas a gente tem uma política bem aberta sobre isso. Se o criador da estampa vencedora me pedisse para comercializá-la por conta própria, teria prazer em autorizar. A gente faz questão da cessão de direito mais para proteger, não só o desenho, mas também o próprio autor. A gente vê que existem terceiros que tentam tirar proveito disso e o Camiseteria, em função dessa cessão, acaba tendo como proteger o próprio trabalho do designer -- diz Fábio, explicando que já houve mais de um caso de usuários solicitando a produção de camisetas com estampas de designers que não tiveram seus traços premiados -- Quando isso acontece, quando é uma estampa que não produzimos mas ainda é bem vista no site, não temos o que fazer, cabe ao autor decidir se deixa ou não que produzam a camiseta -- completa. Boca-a-boca virtual e remuneração Para quem já fez alguma faculdade de Comunicação -- entre numa máquina do tempo e volte àquelas longas aulas de História da Publicidade, quando o professor dizia: «O melhor modo de fazer conhecer o seu produto é promovendo-o em veículos de massa. Não é à toa que um comercial no horário nobre é tão caro, são milhões de pessoas assistindo à sua marca». De volta para o futuro, já se pode imaginar esse professor arrependendo-se e remodelando o tema da sua aula. A nova lição: marketing viral. É assim, ao menos, que bandas, filmes, vídeos e artistas vêm sendo descobertos dentro da rede -- numa espécie de boca-a-boca virtual, naquele relacionamento «um pra um pra milhões» que costuma acontecer quando surgem as correntes de e-mails e mensagens na internet referindo-se à mais nova descoberta do momento. É, e foi exatamente assim, apostando desde o início no mínimo de publicidade formal, que o Camiseteria começou a se fazer conhecer: -- Até investimos em assessoria de imprensa, ação de promoção online, essas coisas. Mas a questão viral é a base da nossa divulgação. Um exemplo, as próprias pessoas chamam os amigos para votar em suas estampas e isso já gera uma propagação viral absolutamente natural. A gente não precisa nem incentivar, ela já é auto-incentivável -- explica Fábio, que conta com equipe tão reduzida que definitivamente não teria material humano para se dedicar com toda ênfase à questão publicitária: além dos sócios Fábio e Rodrigo David (Tiago Teixeira saiu há pouco do projeto), o Camiseteria possui apenas mais dois colaboradores. Aliás, essas duas pessoas são contratadas e remuneradas. Ficam na sede do Camiseteria, no Centro do Rio, onde reside o estoque e -- também -- são feitas as reuniões do projeto. Fábio e Rodrigo ainda não guardam no bolso o dinheiro que a loja virtual ganha. Eles preferem reinvestir tudo no próprio site e, assim, fazer a máquina rodar: aumentar a produção, aumentar a premiação, melhorar, melhorar. E, depois, faturar: -- Isso vai mudar bem em breve. É questão de poucos meses para que nos dediquemos apenas a isso -- revela Fábio, que coordena uma equipe de desenvolvimento de sistema na Telelistas durante o dia e, à noite, cuida do seu «xodó», o Camiseteria. Sobre a Internet e com alguns planos A relação dinâmica que há entre tempo de envio de estampa, votação, aprovação e produção é essencial para o Camiseteria. Seria necessária uma tecnologia que não só se caracterizasse por ser ágil nas relações, mas que também pensasse internamente suas potencialidades, já que uma das principais características do site é a de sempre estar se aperfeiçoando. É barbada descobrir que a ferramenta escolhida por o Camiseteria foi a Internet: -- É essa rede que viabiliza o nosso modelo de negócio, sem a Internet ele não seria viável. Ela possibilita atingir uma grande gama de usuários e, conseqüentemente, no caso do Camiseteria, são usuários que fazem o produto -- afirma Fábio, aprofundando -- A Internet está há mais de 12 anos quebrando paradigma atrás de paradigma e nós, os empreendedores, pessoas que estão participando dessa revolução, temos que aproveitar essa quebra de paradigma para alavancar o desenvolvimento da própria Internet. As oportunidades estão aí, basta a gente aproveitar. E foi essencial para o site que os fundadores entendessem a tecnologia com a qual pretendiam lidar. Os três trabalhavam com Internet há anos, o que possibilitou aprender com erros de projetos passados. Aprenderam tanto que, para o Camiseteria, decidiram não contratar equipe alguma de desenvolvimento. Montaram toda a estrutura sozinhos, da tecnologia ao design: -- Eu diria, inclusive, que o layout do Camiseteria foi um dos principais fatores para termos um site de sucesso. O bom gosto e a boa navegabilidade do site vieram do aprendizado e da experiência de mais de uma década trabalhando com a rede. Por isso, quando se fala de concorrência, Fábio parece entender que o seu projeto se estruturou tão bem que, mesmo que surgisse uma outra iniciativa parecida na rede (e, ao menos de venda de camisetas, ainda não há), ele acredita que a disputa seria bem-vindo, pois ajudaria a melhorar a marca e fortaleceria ainda mais o mercado. Enquanto a cavalaria não chega, Fábio continua tendo idéias para ampliar ainda mais o produto e -- a reboque -- os usuários do Camiseteria. Uma das principais é a parceria com uma loja física, o que complementaria as vendas e, ainda, ajudaria na divulgação do site. Sobre novos produtos, já pensou no lançamento, em breve, de um concurso de frases, para que não só os designers mais experientes possam atuar criativamente -- qualquer pessoa com um bom trocadilho vai poder enviar sua idéia. Para aproveitar sugestão dada em conversas entre os próprios usuários (todo mundo que se cadastra ganha automaticamente um blog por lá), também existe um plano de se produzir um livro com as melhores ilustrações do site. Ranking da comunidade, versão em inglês para abarcar a demanda de visitantes estrangeiros ...; todos os planos parecem caminhar para um afluente comum: a tentativa de cuidar e de também fazer um agrado a quem visita com freqüência a página da loja virtual: -- Porque é assim que se cria credibilidade. Cuidando do seu cliente. Em o nosso negócio, que é venda, a pessoa não compra de quem não tem credibilidade. Por exemplo, a gente tem uma política que é trocar sem reclamar. A gente sabe que é complicado comprar camiseta na Internet, você não veste o produto, então a gente tem essa política muito aberta, respeitamos a comunidade. Pra não dizer que só falei das flores Em todo jardim tem sempre uma abelha. E se até aqui a Internet e o modelo de negócio colaborativo apareceram como a última maravilha do mundo, Fábio sente-se compelido a relativizar um pouco. Ele aponta a necessidade de ser absolutamente transparente -- tendendo ao exagero -- como a maior e principal dificuldade em viver desse sistema: -- Isso, por um lado, é até bom, mas acaba trazendo dificuldades, como administrar essa transparência fora do normal. Quando você está falando com dezenas de milhares de pessoas, acaba sendo questionado o tempo inteiro por uma série de coisas. Perguntam bastante, por exemplo, por que determinada estampa não foi produzida. É uma dificuldade, mas certamente é muito mais vantajoso do que não ser transparente. Esse comportamento participativo acaba refletindo, em alguns momentos, numa certa agressividade da comunidade nos comentários das estampas. Segundo Fábio, por se tratar de um produto de assimilação estritamente visual, é bastante prático julgar em poucos segundos um desenho, dizendo -- sem muito cuidado -- a primeira coisa que vem à mente: -- Já estudamos formas de como melhorar o sistema de comentários. Rixas? Não, parece mais o reflexo de um comportamento esperado quando se oferecem ferramentas para pessoas se relacionarem e falarem o que bem entenderem. O inverso aparenta ser verdadeiro e também suscita um raciocínio: nada deve ser mais natural que, com tanta intimidade adquirida entre afagos e pontapés, alguns desse grupo de milhares queiram se encontrar pessoalmente: -- E se encontram. Já combinaram, dentro do site, de se ver. E deu certo! Apareceram umas 15 pessoas num bar. Aconteceu uma coisa muito legal, todo mundo ficou desenhando umas coisas em vários guardanapos de papel. Todo mundo falando, " pô, tem que fazer uma camiseta desse desenho do guardanapo, tem que fazer!" -- Número de frases: 174 conta, empolgado, Fábio, visivelmente feliz com a turma que conseguiu juntar. A Poucas Trancas é uma banda de rock de Santo André (SP). Formada em 2004 com uma proposta de diversificação e criatividade, que incluia um certo toque teatral, a banda desde sua primeira apresentação no projeto «Canja com Canja da Prefeitura de Santo André» já mostrou do que era capaz. Tocando covers de pérolas do rock brazuca dos anos 60/70, como Mutantes e Secos e Molhados, a banda impressionou o público presente. Depois dessa apresentação a banda começou a fazer o circuito de shows em bares e centros culturais do Grande Abc tocando seus covers, muitos de eles com um toque autoral; como «Construção» de Chico Buarque, onde até uma furadeira entrava em cena ... A partir da experiência adquirida começaram a gravar sua primeira demo, lançada em 2006 com o nome de «Demo-niac». Em esse cd já aparecem duas composições próprias da banda, «O Céu E o Abismo» e «Se Eu Fosse Músico», além de quatro covers. Em esse trabalho a Poucas Trancas já mostra uma marca que viria a ser definitiva: a diversidade na exploração dos timbres e possibilidades da música. Com o lançamento da demo a banda começou a realizar um número maior de shows, onde, aos poucos, novas canções eram mostradas. A banda finalmente reduzia seu repertório de covers e as novas canções mostravam todas as influências que seus integrantes assimilaram, desde o «drum ' n ' base» até modas de viola, mas sempre com uma pegada rock ' n ' roll. Em Novembro de 2007 a banda é convidada para tocar no clube Aramaçan, no evento «Encontro das Trupes», que tinha como atração principal o Teatro Mágico. E é nesse evento que é lançado o primeiro albúm independente do grupo, Urbano que contava com 15 faixas, três de elas instrumentais. Depois disso a banda teve uma breve pausa em virtude da saída de seu baterista. Após a vinda de um novo baterista e um tempo de adaptações a banda volta em 2008, com uma sonoridade mais enxuta e pesada, mas sem perder a qualidade e originalidade de sempre. www.poucastrancas.com.br Número de frases: 17 www.myspace.com/poucastrancas Manoel Dourado Marques. Cidadão do mundo. Cidade onde mora: Itiquira, interior do estado de Mato Grosso, divisa com Mato Grosso do Sul, 380 km da capital MT Cuiabá de todos os santos, São Benedito, ave! Magia dos portos que nos fazem partir, ou voltar, chegar em algum lugar. As histórias da vida são tão ricas em diversidade. Tantos fatos motivando alterações de rota, ou mesmo, correções de rota. Sabe-se lá o que nos reserva o destino. Sabe-se lá, alto lá! Diz o guardião de mundos secretos. Aquilo que virá. Manoel, hoje com 52 anos, foi de São Paulo para Itiquira em 1978. Casou e mudou. Ele e Maria Clara, ela, portuguesa com certeza, morava em Nova Iorque. Estão em Itiquira até hoje. Ele foi um dos contemplados com o edital do projeto Revelando os Brasis, que abriu concorrência para realizadores de audiovisual em municípios com até 20 mil habitantes. Você nasceu onde? São Paulo capital. Quando veio para Itiquira? Há vinte e nove anos. Em a época eu fazia direito em São Paulo e trabalhava na rádio Tupi, como contato publicitário representando o Rio de Janeiro. Em aquela época eu já lidava com cinema. Namorava uma sobrinha do Cassiano Gabus Mendes, e foi ele quem me deu todas as dicas de roteiro. Lembro que ía na ECA, Escola de Comunicações e Artes da USP, e pegava os roteiros para estudar. Quando me deparei com o roteiro de Vidas Secas, do Nelson Pereira dos Santos, vi lá: PM (plano médio), PG (plano geral) e falei: «Mas, o que é isso?" ( risos). Então foi o Cassiano que me deu toda a orientação, me mostrou como era a estrutura do roteiro. Em a época, eu estava querendo gravar «O homem nu», do Fernando Sabino, e o Cassiano tinha feito isso para a Tupi, então, eu acho que ele se apaixonou por a idéia de ver aquilo remontado e começou a dar muitas dicas, foi muito interessante. E também no cursinho, eu fazia o cursinho pré-vestibular, o meu professor de física era o Francisco Ramalho Jr.. Aí deu casamento perfeito, porque eu não aprendia física, não tinha nada a ver com engenharia e ele também só dava aula de ótica porque dominava lentes. O Ramalho estava montando o filme «à flor da pele» e me levou na rua do Triunfo, me mostrou como montava. Ele também me ajudou bastante. Mas eu fiquei com saco cheio de São Paulo e falei: «Quer saber, eu vou para Mato Grosso!». Meu avô tinha umas terras aqui na região e estava tudo abandonado, vim mais por aventura. E como é que foi o choque cultural proporcionado por essa mudança? Ah, foi muito grande, porque você imagina: sair de uma cidade como São Paulo, e cair numa currutela que não tinha energia elétrica, não tinha televisão, não tinha absolutamente nada! Eu me senti caindo no túnel do tempo, há cinqüenta anos atrás, voltando.. E, tive uma grande satisfação de ver o que é, a chegada da televisão numa cidade pequena. Foi uma coisa absurda, um impacto, como ela vem e devasta, é um trator de esteira devastando a cultura local. Altera o comportamento da comunidade? Totalmente, totalmente. Eu conheci pessoas aqui que descaracterizavam a cultura local. Não sou contra a televisão, mas é que ela causa um impacto muito grande. Em aquela época não tinha essas redes que tem hoje. Tinha só uma informação, do eixo Rio -- Paulo, ou do litoral do país. Por exemplo: ao começar a assistir à televisão, viam todo aquele apelo publicitário e não tinham dinheiro para comprar as coisas, teve gente aqui que quase se matou, tomou umas cachaças e se jogou no rio, porque ficou frustrado: «Eu não consigo isso». Tomou contato com a realidade exterior, aquele apelo da propaganda? Foi violento. Eu me lembro que na época daquela novela, «Pai herói», foi quando a televisão chegou aqui, com Tony Ramos, aquela coisa toda, não tinha muro para segurar o colégio, porque eles queriam assistir à novela, queriam ver aquilo, foi muito interessante. Depois veio aquela novela, «Roque Santeiro», nessa novela eu percebi que tinha uma linguagem, tinha um personagem que fazia um diretor de cinema e ele falava coisas ligadas à cinema, eu pergunto: por que aquilo ficava na cabeça do telespectador local? Quando cheguei aqui não se via uma camiseta com escritos em inglês. Depois, com a televisão, camisetas com «Madonna» e não sei mais o quê. De gozação, eu chegava e falava: «Você sabe o que está escrito aí?». Falavam: «Não». Eu dizia: «Eu sou veado» (risos). Inclusive o seu roteiro capta esse momento de passagem, a partir do momento em que a televisão entra na vida da comunidade ... Sim, a ação acontece no momento em que o sinal da TV chega até aqui. As pessoas se deslocavam até vinte e cinco quilômetros para assistir à televisão. Mas, vinte e cinco quilômetros, por quê? Porque a antena era lá! A antena era via terrestre não tinha satélite ainda. A repetidora da TV Centro América (Globo de Cuiabá) ficava a vinte e cinco quilômetros daqui. O sinal lá chegava melhor, então eles iam até lá. Você chegou a ir lá também? Não, nunca fui. Porque era muito distante, era difícil a estrada, muita poeira, não sou chegado a comer poeira. E eu já conhecia televisão. Era muito interessante o fato de que, antes da chegada da televisão, porque já tinham prometido a chegada da televisão mas não instalaram, então você entrava na casa das pessoas e encontrava os aparelhos com ornamentos em cima, porque aquilo se tornou um mero móvel. E o Revelando os Brasis, como aconteceu? O Revelando foi o seguinte, um dia eu fui levar uma carta ao correio e vi o cartaz do projeto, pensei: «Vou participar desse edital». O que eu não esperava foi o alcance que isso teve, porque eu fiz mais como um escritor, um roteirista, colocar um pouco isso pra fora, e foi bom porque divulgou muito o município. Esse lado do Revelando, que eu comparo com o que aconteceu na Índia nos anos 70, onde as produções do sul passavam para o norte e do norte para o sul, que integrava o país culturalmente de enorme diversidade cultural. Acho que o Brasil é um grande continente em que as diferenças culturais são absurdas. Não precisa ir muito longe, nós aqui em Itiquira temos um tipo de procedimento cultural que difere do Pantanal, que fica a 70 quilômetros daqui, tipo de música, tipo de comida, os utensílios, a forma que você se integra com a natureza, é muito diferente. Agora, imagina um país com oito milhões de quilômetros quadrados! As pessoas com quem convivi, os diretores, autores desse país, de todos os cantos do país, houve uma soma muito grande. Vi coisas que eu não conhecia, tiinha um total desconhecimento de alguns fatos. Não sabia, por exemplo, que chouriço se comia com doce, que é do nordeste, a gente conhece o chouriço salgado, são detalhes que nos enriquece muito. Então essa parte do Revelando foi bom. Para Itiquira, o mais interessante foi ter despertado em algumas pessoas a vontade de atuar, escrever, fazer um roteiro, esse lado foi muito bom. E a produção do filme, atores locais, quer dizer, é um princípio do projeto também? Não, não necessariamente, o projeto quer que você conte uma história local, que tem a ver com a sua realidade. Agora, eu percebi no Revelando, que o projeto deu mais atenção aos documentários. Optei por a ficção, uma ficção surrealista, que foge totalmente ao conceito. Optei por trabalhar com atores locais, pessoas que têm uma certa ligação com a arte, como a Ivete, a idéia de ela era ser atriz, o Magno que trabalha como protagonista também já é artista-plástico, demos uma modelada e fomos embora. A parte de produção do equipamento foi locado em Rondonópolis, nós não temos aqui na cidade, ainda mais aquele equipamento digital. Aquilo foi uma maravilha, fiquei maravilhado com isso, porque eu só conhecia película, apesar de trabalhar direto com edição de foto, eu nunca tinha trabalhado com edição de vídeo, então deu pra perceber que o que se faz com foto se faz com vídeo, eu tiro, ponho, altero. Eu procurei usar esses atores locais, pessoal local, e nós fizemos uma grande descoberta com uma garota que foi nossa continuísta, a Marli, ela sem ter o roteiro na cabeça, ela apontava erros, a visão que ela tinha de cinema sem saber.. Tanto que o pessoal da produtora falou que, o dia que eles forem fazer alguma coisa de ficção, vão chamar essa menina, porque o olho de ela é impressionante: «aquele fio está aparecendo», como é que ela sabe que o fio está aparecendo, se ela não tem nem o monitor na frente de ela? São coisas assim que marcam. Depois do filme pronto, editado, eu chamei o pessoal aqui pra mostrar, a Marli chegou e disse: «Manoel», eu pensei: «Lá vem cacetada». Ela continuou: «olha, o artista do filme estava sem camisa, ele aparece com camisa e volta sem camisa». Aí já manda de novo o filme para reeditar. Ela foi um achado. O Revelando teve isso, ele revela outras coisas para a gente, acho que o nome foi muito feliz. São realmente vários brasis dentro de um grande Brasil. Em esse aspecto eu achei sensacional. É lógico que, como é um projeto novo, pioneiro, existem falhas que eu acredito que, com o tempo, eles consertem, façam alguns ajustes, algumas adequações. Houve também um lado muito interessante, dos grandes profissionais de cinema conhecidos ficarem revoltados com o fato do Ministério da Cultura investir um milhão de reais em amadores, como também ficaram revoltados com outros projetos, como o DOC TV, entende? Putos da vida, porque se acham: «Eu sou o diretor!" Descentralizando, abrindo para outros olhares ... E eles ficam indignados ... Então, você sente também uma pressão vinda dos setores já conhecidos da área de cinema, uma certa indignação, isso deu pra perceber. Existe política pública para a cultura em Itiquira? O Mato Grosso está passando por uma grande transformação na questão do agronegócio. Isso agora começa a render dinheiro, quer dizer, já rende, não é? Mas onde que vai investir isso? Vamos colocar isso em cultura, isso é um filão que pode se abrir, que está se abrindo, e, naturalmente, vai se abrir. A política de cultura de Itiquira acompanha isso, que também vemos hoje, você não tem uma política cultural no estado, não existe um direcionamento pra você expandir isso. Infelizmente, a política de cultura local ainda engatinha. Agora, acredito que a própria secretária de cultura encontre dificuldades de entender o que está acontecendo no município, porque ela não é daqui, ela não nasceu aqui, mas isso não quer dizer nada, ela poderia buscar os canais daqui. Sinto que falta, por exemplo, uma lei para eles aplicarem melhor, fazer uma política de incentivo fiscal local para atender isso. A população também não tem que depender só dos órgãos públicos, que, acredito, têm de fazer o papel só de gestor, de incentivador. A cultura tem que vir do povo, se a pessoa não se entusiasma por aquilo que está fazendo, se ela não vai atrás, não é o prefeito, o governador ou o presidente que vão fazer. Falta um pouco disso aqui, mas o povo também vive, geralmente, acomodado. Sinto isso com relação a mim porque tenho alguns roteiros e falta aqui uma produtora. Conversamos com o prefeito, por causa da exibição do Revelando os Brasis, e ele se entusiasmou. Nós estamos vendo agora algum mecanismo pra tornar o cinema, o vídeo, um pouco mais viável no município, foi legal nesse aspecto. A quantidade de pessoas ali foi surpreendente, achei muito bacana. Inclusive, na exibição dos filmes deu para perceber mais uma vez que «a vida imita a arte». As pessoas reunidas na praça assistindo a um filme que tratava justamente de uma pessoa que, numa certa época assistia a filmes por a televisão de forma coletiva, a vinte quilômetros da cidade. Agora, o filme veio até eles, mas se reuniram, sentaram e assistiram. Muitos nunca viram uma tela daquele tamanho, não é só questão do tamanho da tela, mas nunca viram uma exibição em tela, e foi muito legal. São novas tecnologias que as pessoas conhecem através da arte, então isso é muito legal. De alguma forma são sementes que vão caindo, porque você pega uma árvore e vê, quantas centenas, milhares de sementes que tem e só uma ou duas frutificam. Isso também é cultura, é um reflexo do macro dentro do micro. Valeu a pena ter vindo para a Itiquira? É uma pergunta complexa de responder. Se eu tivesse ficado em São Paulo com certeza eu estaria ligado à área de comunicação. Eu acredito que seja uma missão, não acredito que a coisa aconteça por acontecer, tinha que, talvez, resgatar uma história dos meu avós que começaram uma história aqui. Acho que é uma missão realmente ter vindo para cá, dar movimento à cidade. Não sei se faria tudo de novo, mas não posso analisar assim, não é por aí. Eu acho que tinha que estar aqui, aprendi demais estando aqui. Gostaria talvez de ter direcionado a minha vida mais para o lado da arte, fiquei muito tempo afastado de ela, mesmo escrevendo os roteiros. Com certeza, se eu estivesse em São Paulo já teria morrido, porque eu gosto da vida boêmia, mesmo não bebendo hoje, não fumando, eu sou muito chegado à vida noturna, gosto do underground, porque acho que no submundo você é muito mais autêntico do que no mundo padronizado, então, com certeza, eu já estaria morto (risos). Sinto-me como quem tem que resgatar uma história ainda, que tenho de trazer o cinema pra cá. Sinto-me, às vezes, um pequeno arauto da cultura local, não querendo ser arauto, mas uma voz que busca: «Vou dar um toque, existe isso pra fazer, vamos fazer um livro agora, ou um filme, etc». Teve gente que não gostou, mas foi assistir ao filme. São coisas que a gente vai trazendo para a cidade que, com certeza, necessita disso. Não sei o que faria numa cidade grande, acho que o meu papel é por aqui ainda. Fale um pouco de tecnologia. Por exemplo, em Itiquira, você está aqui hoje plugado nesse meio digital, a internet. Mesmo estando aqui, distante dos centros urbanos, sente-se mais integrado ao mundo? Sim, com certeza. Posso dizer, sem dúvida alguma, que eu trouxe muita inovação tecnológica para cá. O primeiro vídeo-cassete foi meu, que foi um barato, quando eu liguei a primeira vez, chamei uma pessoa e falei: «Está vendo o Jornal Nacional?». Aí gravei o Jornal Nacional e disse: «Agora você vai ver ele de novo». Foi um choque. Algumas pessoas não tinham a menor noção do que era aquilo. A primeira máquina de gravar vídeo, VHS, fui eu que trouxe pra cá. Sempre fui muito ligado em tecnologia. Quando a internet já existia no Brasil, aqui não tinha nem telefone. Em novembro de 98 eu consegui a primeira conexão, via discada por Cuiabá, era um sistema jurássico, lento, mas foi a primeira conexão. Então, quando chega agora a internet banda larga, que o sinal é 99 % sem problema, eu estou no mundo, eu me correspondo com várias pessoas ligadas à arte. Uma professora do Rio Grande do Sul que é escritora e vai lançar um livro de contos, Maria Luisa, a gente troca muita figurinha. Hoje você tem acesso ao Youtube e você está dentro de casa com o mundo lá dentro. A internet quando você quer usar bem, você consegue. Através do Orkut consegui contactar pessoas ligadas ao Coronel Fawcet, objeto de uma pesquisa minha, que eram pessoas que iam do Rio Grande do Sul para Mato Grosso que me deram informações, através das quais consegui contato com o Cacique dos Xavantes que me passou muitas informações. Em esse aspecto a internet elimina as distâncias. Hoje em termos de tecnologia não estamos atrás de ninguém. Agora tem o site Overmundo, vamos começar a trabalhar em cima disso. Novos caminhos. Novas possibilidades ... O padrão não quer dizer nada. Inclusive, eu achei muito interessante um fato que aconteceu com a apresentação do Revelando os Brasis, numa cidade do interior de São Paulo, em que o nosso filme, «O quadro», foi rejeitado violentamente por causa da nudez. Aconteceu uma procissão antes da apresentação e logo em seguida o filme com mulher pelada. Disseram que o padre ficou indignado, que queria entrar na cabine de projeção, quebrar os equipamentos, que foi uma coisa horrível. Fico aqui pensando: que interessante que é a hipocrisia social, enquanto os padres ficam comendo criancinhas e ninguém fala nada, ou a igreja procura encobrir, vem esse que se sentiu agredido, porque eu acho que a má intenção estava dentro de ele, aí aflorou, vem e faz todo esse movimento pró-moralismo, um falso moralismo. Por isso que o underground é mais interessante e por outro lado, eu acho que a arte tem que chocar mesmo, porque no momento que choca, desperta alguma coisa em você. A arte não pode ser uma coisa fixa, parada, estática, passiva, ela tem que realmente movimentar, agredir no sentido da movimentação, da pessoa se tocar. Acho que caberia até tentar entrar em contato com esse padre para a gente discutir algumas coisas, porque eu acho um absurdo a Igreja Católica, ou o poder religioso, querer decidir o que o povo deve ou não deve ver, quando eles se esquecem que eles queimaram pessoas durante 300 anos na fogueira e vem hoje dar uma de bonzinho. Então, eu acho legal esse fato do filme chocar. Número de frases: 187 Para começar explico logo de cara: sobá não é igual a yakisoba. Ambos vêm da culinária japonesa, têm macarrão, legumes e carne, mas são bem diferentes. O sobá tem como base um macarrão feito artesanalmente e um caldo especial que obriga o indivíduo a comer numa cumbuca. O prato ainda leva omelete cortado em tirinhas, um bocado de cebolinha e carne de porco bem frita. Joga-se shoyo a gosto ou pedacinhos de gengibre. Esta é a receita que faz a cabeça da população de Campo Grande há décadas e que nos últimos anos virou uma verdadeira mania. Como é difícil de se fazer em casa, o campo-grandense tem que ir procurar o sobá na rua. Por isso, do centro aos bairros mais populares, sempre se encontra um bar, barraquinha, trailer, feira livre e até restaurante residencial vendendo a iguaria. «O sobá é a maior contribuição da colônia japonesa para Campo Grande. Virou um símbolo cultural», afirma a jornalista Maristela Yule, diretora do documentário Arigatô, que relata a história da colônia japonesa no Estado. Em a verdade, o sobá é um prato de Okinawa, um departamento do Japão. Como a maioria dos japoneses que habitam Campo Grande é originária desta ilha-continente, o sobá veio naturalmente junto. Em 1914, quando a estrada de ferro finalmente ficou pronta e chegou a Campo Grande, muitos japoneses adquiriram lotes para plantar café e se estabeleceram na área rural. Mas o preço do café caiu e eles resolveram investir em hortas. Com isso, começaram a ter mais contato com as feiras livres. «Quem estava na cidade fazia o sobá para esperar os que vinham das granjas. Era tipo a marmita de eles. Todos iam comer numa barraquinha, que tinha uma cortininha impedindo que os outros vissem dentro. Era comer escondido mesmo. Até que um brasileiro abriu a cortininha, viu o que eles estavam comendo, perguntou o que era, experimentou e gostou. Em pouco tempo o sobá já estava conhecido em toda a cidade», relata Maristela. Mais do que conhecido, o sobá é um verdadeiro astro da culinária local. Em a Feira Livre de Campo Grande, por exemplo, existem 20 restaurantes especializados. O local reúne facilmente duas mil pessoas consumindo vorazmente o prato vendido a R$ 9,00 (grande), R$ 8,00 (médio) e R$ 7,00 (pequeno). Em a Barraca da Amélia, uma das mais tradicionais do local e que produz o prato desde 1990, vende-se uma média de 100 sobás por dia. Anísia Higa, irmã de Amélia, garante que não é fácil fazer o sobá e quem vê o prato sendo montado em menos de 30 segundos não imagina o grande preparo que é preciso para dar conta do público esfomeado e aficcionado na iguaria. «Não é qualquer um que faz. O caldo tem um segredinho que só a Amélia sabe e trazemos muita coisa já pronta, como o omelete e as carnes», explica Anísia, uma típica okinawana campo-grandense. Não existe o macarrão para sobá industrializado, por exemplo. Por isso, não só a Amélia, mas a maioria dos comerciantes precisa comprar o macarrão de algumas senhoras que fazem em grande quantidade o produto. O quilo do macarrão sai por R$ 5,00 e é suficiente para preparar dois sobás grandes e um médio que rendem R$ 26,00. Mas existem os outros gastos, como as oito cartelas de ovos (aqueles de duas dúzias e meia) para fazer o omelete todos os dias. «Mesmo não tendo um lucro muito grande, o sobá segura muita gente no comércio. Antes as pessoas comiam mais na feira central, mas agora tem cada vez mais restaurante nos bairros e a concorrência aumentou muito», analisa Anísia. Um exemplo de concorrência é a senhora Antônia Pereira Borges, que monta a sua barraca nas feiras livres que acontecem durante a semana em vários bairros de Campo Grande. Ela vende no mínimo 30 sobás por dia, chegando a triplicar dependendo do lugar. «O bairro Piratininga é o campeão. Lá são no mínimo 25 quilos de macarrão de sobá por noite», comemora a feirante de 60 anos. O detalhe é que o sobá é um prato extremamente saudável, como toda a culinária de Okinawa, um dos motivos para o local abrigar a maior concentração de pessoas centenárias no planeta. Aos poucos, por exemplo, dona Amélia, Antônia e companhia vão criando mais artimanhas para atrair os campo-grandenses, como substituir a carne de porco por carne de boi, frango e até mesmo dobradinha dependendo do gosto do freguês. «Como descendente me orgulho de toda a população de Campo Grande gostar de sobá, um prato que veio da colônia, mas que atinge pessoas de todas as raças e idades», reflete Anísia Higa. Número de frases: 42 Arto Lindsay tocou quarta-feira passada no Rio. Pra quem tem alguma curiosidade sobre o trabalho de ele, imperdível. Em uma aconchegante Casa da Gávea, cerca de 60 pessoas lotaram as cadeiras para vê-lo. Em o palco, apenas um pedestal com microfone, uma guitarra azul, dois pedais e um amplificador. Quando ele entrou em cena com aquele rosto lânguido, meio Woody Allen, meio Antonio Adolfo, disse boa noite, vestiu a guitarra e começou a distorcer o silêncio que enfeitava com a sua voz. A viagem de Arto Lindsay é desconcertante. A mão acerta a corda, que não acerta o som, seco por sua outra mão. A melodia da voz vem despida da harmonia e eu não me entendo bem. Os ruídos sempre me incomodaram. Eu não gosto de Sonic Youth. A mão direita bossanoveia, eu me desconcerto. Cadê a harmonia que estava ali? Eu continuo fazendo as mesmas observações, as mesmas questões. Sinto o silêncio do lugar. As inserções do trovão azul apitam, sobram aos ouvidos. Entortam. Tem gente rindo. Eu levo a sério. Não sei bem o porquê, mas levo. O repertório passa por canções que talvez sejam do blues americano. Não conheço, mas pressinto. Al Green estava lá, salvo engano. O português claro, carregado de sotaque nordestino e novaiorquino, é outra materialização da estética que junta as sobras e distorções da bigapple com os silêncios de um lugar remoto qualquer. Conheço as (poucas) canções em português. Não são de ele. Quando eu chego em casa nada me consola é o que ele começa a silabar com seus entrecortes agudos e baixos abafados. O som não é limpo jamais, a não ser por o excesso de limpidez de sua voz. Meio baixinho, meio João Gilberto. Mas por vezes o grito rompe, geme, uiva. O artista se retorce e o som vem. Jackson Pollock. A força do afoxé «O mais belo dos belos» é lapidada, não bruta. A melodia dança em labirintos desacompanhada do surdo, da percussão, e se revela surpreendentemente sutil. Não conheço seu inglês, me encontro no nosso português. O tempo verbal é infinito, randômico e contínuo. Ainda ecoa por aqui. Me acho de novo quando ele evoca o Mar da Gávea, canção de Lucas Santanna, das mais belas dos anos 90, gravada por Arto no disco Mundo Civilizado (1996). Maneiras. Se ele quer fumar, fuma, se quiser beber, bebe gemendo. Ele tem fé no apego e não chora de barriga cheia. Não chora. Todos riem. Cadê a piada? Levei a sério demais a idéia de descontrução? Talvez. Fui falar com ele. Talvez esclarecesse algumas questões que minha percepção não resolveu sozinha. Número de frases: 45 Um cidadezinha da fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai é conhecida por um produto que agrada a maioria dos brasileiros. Orgulho dos habitantes do município, a iguaria, consumida em todo o Estado, é a famosa lingüiça de Maracaju. Não comecei o texto desta maneira para falar do sabor especial deste autêntico produto regional feito com carne bovina nobre curtida em suco de laranja. Me refiro a uma pessoa que também saiu da cidade de Maracaju e que se transformou, literalmente, no ' homem-lingüiça ' mais famoso do Brasil nos anos 70 e 80. O nome: José Darcy Cardoso ou simplesmente David Cardoso! Rei da Pornochanchada e O Homem das Mil Milheres são os principais rótulos que carrega mesmo aos 63 anos. As máximas fazem sentido. Em o currículo de David estão 76 longas, oito novelas -- sendo quatro como galã -- e seis peças de teatro. O maracajuense estreou como ator em 1966 em Corpo Ardente, com ninguém menos que Walter Hugo Khouri na direção. Quatro anos depois David chegava ao estrelato com A Moreninha, do diretor Glauco Mirko Laurelli, baseado no clássico de Joaquim Manoel Macedo. Um dos únicos filmes censura livre da cinematrografia do ator e que marcou a estréia de Sônia Braga como atriz. Mas se tudo indicava que David poderia virar o galã típico bom moço com o sucesso do filme, o que veio por a frente nos anos 70 foi uma avalanche de filmes de pornochanchada, que se diferenciavam dos pornográficos por não poder conter sexo explícito. Mostrar genitália, dos homens, nem pensar. Vamos a alguns nomes dos filmes feitos nesta época: ' Os Maridos Traem ... E as Mulheres Subtraem / 70', ' Quando as Mulheres Paqueram / 71', ' A Infidelidade ao Alcence de Todos / 72' ... Veio então ' Sinal Vermelho -- As Fêmeas / 72' e David conquistou a atriz estreante, uma beldade que David cita como a mulher mais bonita do cinema nacional. A loira Vera Fisher! Como eu era adolescente nos anos 80, não tem como não citar as outras atrizes que David contracenava e a primeira que vem a cabeça é Matilde Mastrangi. Mas tem ainda Helena Ramos, Nicole Puzzi, Zilda Maio, Zaira Bueno ... É claro que David não desmente se chegou perto ou não das mil mulheres. Em as três horas que ficamos conversando, em nenhum momento se dirigiu desrespeitosamente as atrizes. Como bom modelo ' latin-lover pantaneiro ' não deixa de dizer que traçou metade de elas. Em este mesmo período, em 1973, fundou a própria produtora. A DaCar Produções Cinematográficas, montada com o patrocínio dos amigos José Rolim, o Zezinho (já falecido), dono do cartório do 4º Ofício de Campo Grande, e do conterrâneo Gilberto Adrien. Com a produtora, David entrou para a história do cinema nacional. Ele produzia com o dinheiro da iniciativa privada e não do governo é bom deixar claro. Fez mais de 30 filmes com uma média de 200 mil dólares por longa. O maior orçamento foi 19 Mulheres e Um Homem, em 1977, quando estréia na direção e roda praticamente todo o filme em locações sul-mato-grossenses durante dois meses com uma equipe de 50 pessoas. Gasta em torno de 1 milhão de dólares e é recompensado com os 2 milhões de espectadores que compareceram as bilheterias de todo o país. David então vira galã e produtor. Em 1980 ganha longa entrevista na Veja como, nas palavras da revista, «o homem que mais fatura com o cinema nacional». Dois anos depois chega ao ápice do sonho que começou quando ainda era garoto e ficou um dia inteiro no Cine Metro, em São Paulo, emendando as sessões de Mogambo e querendo ser Clark Gable, que interpretava um caçador de gorilas africanos, rodeado por as beldades Grace Kely e Ava Gardner. David protagoniza a novela O Homem Proibido, da Globo, numa boa oportunidade de deixar na lembrança a época de pornochanchadas e entrar para o seleto grupo de galãs da emissora. Em vez disso, talvez embalado por o próprio sucesso em doses cavalares que a tevê proporcionou, decide sair candidato a deputado federal em seu próprio estado, que havia acabado de ser desmembrado de Mato Grosso. Começa então a paulatina saída de cena de David, que se enfurna em causas ecológicas ligadas ao Pantanal e acompanha de perto, como uma espécie de braço direito, o lutador Maguila. A amizade durou 10 anos até o boxeador chegar ao máximo que seu talento permitia, sendo campeão sul-americano e mundial. Atualmente David está construindo uma casa em Terenos, município que fica a 35 km de Campo Grande. Conversando com o ator é fácil perceber que só a carcaça parece bruta. Em a verdade, David é um sujeito passional. Ele próprio reconhece que fala demais e fecha portas por causa da sinceridade aflorada." A maioria dos cineastas cariocas tem apartamento na Avenida Vieira Souto com dinheiro da antiga Embrafilme que eles pegavam e superfaturavam a grana». Esta é uma das típicas rajadas que saem da sua metralhadora giratória. Mas David é emotivo. Fica vermelho, eleva a voz, carrega no sotaque fronteiriço e agita-se quando fala de coisas que acredita como injustiças óbvias. Reclama que foi o único que fez cinco longas em MS -- Caçada Sangrenta, 19 Mulheres e Um Homem, Corpo e Alma de Mulher, Caingangue e A Pontaria do Diabo -- e que jamais foi reconhecido por isso. Tenta doar suas toneladas de equipamentos que estragam em seu sítio há 18 anos e não consegue apoio sul-mato-grossense. Tem certeza que ele próprio deveria ser o Embaixador do Pantanal e não Luiza Brunet, que subtrai ainda o'Sul ` do ' Mato Grosso '. Em seu escritório repleto de fotografias e fotos na parede, David emenda uma palavra na outra como num transe hipnótico. A claquete não pára nunca de sinalizar a próxima cena para David. Aliás, Rei David! Rodrigo Teixeira -- O que você está fazendo como ator neste momento? David Cardoso -- Acabei de gravar o filme ' Los Niños de La Guerra '. Este rapaz (o diretor Miguel Horta) não tem um tostão, por isso tem que ajudar. Estou muito contente porque nunca vi nada mais importante do que isso aqui (mostra o roteiro do filme). ' Los Niños ` é todo falado em guarani. O tema é principalmente a batalha de acosta-Ñu, que aconteceu em agosto de 1869. Foi a última grande batalha da Guerra do Paraguai e quando as forças paraguaias, composta por velhos e crianças, são aniquiladas. Lopez foge, mas é morto em Cerro Corá, por os brasileiros, seis meses depois. O filme conta a mortandade de dois mil paraguainhos por as tropas brasileiras, uruguaias e argentinas. Os paraguaios não tinham homens para colocar na guerra e mandavam aqueles meninos de 12 anos, com carvão na cara, ombreira grande e uma espingarda de pau só para fazer volume. Olhavam por o binóculo e ' meu deus, olha a tropa paraguaia ', só que eram crianças. Fale um pouco do seu personagem, Coronel Dionísio Cerqueira. Ele é um embaixador do Brasil em Paris e vem para o Rio de Janeiro para passar férias e, já com 62 anos, relembra quatro décadas atrás, quando ele era tenente. Quanto custou um filme como 19 Mulheres e Um Homem? Este foi o mais caro e o grande sucesso. Os meus filmes custavam uma média de 200 mil dólares. Hoje em dia o'19' com menos de 1 milhão de dólares não seria feito. Porque o negativo é caro e fiz em 35mm, a equipe tinha 17 pessoas, mais 19 atrizes e o pessoal local. Foram 40 pessoas filmando dois meses em MS. Onde você filmou o 19? Em Campo Grande, na fazenda no Pantanal que não tenho mais, e na fazenda do Nasser. Uma raridade com certeza. Poucas vezes se realizou isso. Mas fiz mais. Fui o único a produzir cinco longas em Mato Grosso do Sul. Também sou o único ator do Brasil a sair duas vezes na capa da Veja. Não teve Lima Duarte, Raul Cortez, que admiro como um dos maiores, não teve ninguém. A última em 1994 e a primeira em 1980, como ' o homem que fatura mais com o cinema nacional '. Era eu nos anos 80. Quantos filmes você fez? 76 entre longas e documentários. O último filme foi em 1988. Já pensou se tivesse continuado? Teria mais de 100 filmes. E parei há 18 anos. Este é o dado importante. E o que aconteceu? É uma incógnita. Meu filão estava acabando, mas devia ter ficado na Globo. Fiz O Homem Proibido como galã na Globo. Estava meio quente. E 20 anos atrás com 40 e poucos anos estava no auge. O Toni Ramos perguntou: ' Mas por que você quer ir embora se a Globo quer te segurar? '. Falei: ' Roubaram minha fazenda, pegaram meu avião para fazer salto de paraquedas em Naviraí ... ' Tinha muita coisa aqui, como tenho, não dá lucro, mas tenho. Tenho 11 ações na justiça. É uma vergonha. Por que você veio embora afinal? Primeiro por o amor pelo meio ambiente e Pantanal. Dentro na minha cabeça o que tinha era a tal da política. Queria entrar para defender este lado ecológico. Isto agora é moda, mas antes não era. Concorri em 1982 para deputado federal e obtive 7.800 votos e precisava de 15 mil. Perdi, mas dinheiro do meu bolso ninguém viu, porque não sou ladrão. Depois para vereador perdi outra vez. O cara pedia para pagar o IPTU em troca de voto e eu mandava ele sair. Sou ecologista militante há 40 anos. Falei sobre ecologia no Raul Gil quando ninguém falava nisso. E sempre combati a caça criminosa e a pesca predatória. Sempre gostei disso. Fui fiscal colaborador do Inamb. Nunca ganhei nada. Não quero ganhar dinheiro, mas nem um reconhecimento? Nada! Fiz cinco filmes no estado e nunca me levaram ao Festival de Bonito? Não é possível! O único cara que filmou cinco vezes no estado não dá para levar e falar ' olha este aqui é um gonorréia, mas é o único cara que fez cinco filmes no estado com recursos próprios '. Porque com dinheiro do governo qualquer cara faz cinema! Mudou a maneira de se fazer cinema? O que mudou é que nós -- Mazzaropi, meu grande mestre, Zé do Caixão, Anselmo Duarte, Toni Vieira, eu ...-- fazíamos filmes e corríamos para a porta do cinema para ver o resultado da bilheteria para ver se ia emplacar e poder fazer o próximo. Hoje não existe mais isso, com raríssimas exceções. O que tem hoje é: o filme é X, levanta este dinheiro através de leis, pegam este dinheiro e é o seguinte: ' David Cardoso você quer fazer o papel de delegado? Quando você quer ganhar? '. E eu ' quero 1 milhão de dólares, mas se me der 100 reais eu faço, to parado! '. Resposta: ' A gente vai te dar 10 mil dólares e você vai assinar um recibo de 30'. Então eles roubam na produção. Não interessa o cinema. O negócio é roubar. Tanto é que a maioria dos cineastas cariocas tem um apartamento na Avenida Vieira Souto com dinheiro da antiga Embrafilme. Eles pegavam a grana e superfaturavam. Tem casos escabrosos que a imprensa noticiou, como o Chato que dizem que é chato para caralho. O cara não terminou e ficou com não sei quantos milhões de dólares. A Norma Bengell, minha amiga, pegou 2 milhões para fazer O Guarani, gastou um e pôs um no bolso. Porque o cara pode roubar, só que tem de ir para a cadeia. E é o que não acontece no nosso país. Em a minha época um filme era passado no cinema e depois de um ano que ele ia para a televisão e depois de dois anos que podia sair em vídeo. O que aconteceu com o Tropa de Elite? Antes de entrar nos cinemas já estava sendo vendido a R$ 2 aqui no camelódromo. Então não há fiscalização. Vou dizer uma coisa que nunca imaginei, porque fui super perseguido por a censura. Mas eu tenho saudades do regime militar em relação ao cinema. Porque passava por o crivo da censura, cortavam as cenas, mas a gente trabalhava. E agora? Cadê o dinheiro para fazer o cinema popular? Não tem mais cinema. Maracaju, Ponta Porã, Três Lagoas, Corumbá, Aquidauana ... Não tem mais. Acabaram com as salas do interior do Brasil. Onde é que vai passar o filme? Quantas pessoas assistiram seus filmes? Só no 19 dois milhões de espectadores. Não era a população de hoje. E outra coisa. Um dia encontrei na praia com o Renato Aragão e ele disse: ' Ce viu meu filme David? Explodi. Coloquei dois milhões e meio de espectadores. Sou o recordista! '. E eu ' Não. Eu ganhei. Porque coloquei dois milhões num filme de 18 anos e o seu é livre. ' Ele ficou puto, mas é a verdade. Não trabalho na Globo. Sou eu com eu. E seus filmes iam para onde? O Brasil todo. A maior bilheteria, assim como Mazzaropi, era São Paulo. A cidade onde fiquei 25 anos. Com a DaCar fiz 34 filmes. Mas trabalhei para Anselmo Duarte, Osvaldo Massaini, Roberto Farias, Walter Hugo Khouri e com o Mazzaropi com que comecei em ' O Lamparina ', em 1963. Como aconteceu? Era continuista. Depois de dois anos com Mazzaropi fiz o Meu Japão Brasileiro com ele, já tinha trabalhado com Walter Khouri no melhor filme de ele, A Noite Vazia, voltei a trabalhar com o Mazzaropi e perguntei: ' Será que não dá para me dar um papel de galã? '. E ele: ' Você não é galã porque não quer, Cardoso. É só você dormir com mim e você é galã no outro dia! '. Ele não atacava, mas cantava. São histórias que rolavam, mas com mim não. Nunca fiz galã no filme de ele. Mas outros fizeram, como o Roberto Pirillo, Franscisco de Franco e Tarcísio Meira. Você tenta doar o seu material e arquivo há 18 anos para fazer um museu. Como está esta história? O meu acervo pode não ficar em MS por a morosidade e por as promessas que vêm se arrastando há 18 anos. Não agüento mais. 80 % do material não tem mais condições de recuperar. O negativo tinha que estar a 8 graus e está a 38 fechado num cubículo. Já procurei todo mundo e são só promessas. O prefeito Nelsinho (de Campo Grande) fez um discurso inflamado há 10 meses e as coisas não acontecem. Diz ele que em frente a Ferroviária, numa das casas recuperadas, será o Museu David Cardoso. Ele falou isso na frente de desembargadores, vereadores e deputados. Agora o Puccinelli (governador de MS), através do Américo Calheiros (presidente da fundação), falou que tem um espaço no Memorial. Não estou vendendo e sim doando. Infelizmente parece que vou ter que levar para São Paulo. Tem duas cidades interessadas, que são Altinópolis e Batatais, além da Cinemateca Brasileira em São Paulo. O eco disso seria bem maior. Mas sou de MS. O que gostaria é que estas coisas ficassem por aqui mesmo, já que fiz cinco filmes no estado. Como é para você ter que carregar o rótulo de astro pornô? Não era ' astro pornô ', era ' rei da pornochanchada '. Este termo ' pornô ` é para sexo explícito. Eu era ' O Homem das Mil Mulheres '. Me ajudou por um lado e atrapalhou por outro. Em a matéria que saiu em O Estado de SP está no título ' Astro pornô quer doar equipamento '. Mas nunca fiz filme de sexo explícito como ator. Nenhum filme aparece genitália, até porque não podia. O que eu fazia melhor que os outros era conduzir uma cena para o espectador punheteiro, que estava dentro do cinema, ficasse louco. E saía de ali num estado deplorável. Quando você fez O Homem Proibido não teria sido a hora de ter quebrado este estigma, como muitos atores e atrizes que também fizeram pornochanchada e foram incluídos no elenco global? O problema é que não fiquei lá. Mas foi mais uma coisa sua ou de eles? Foi minha. Eles não têm culpa. A Globo queria fazer um contrato de dois anos. Eu não quis. Só que eu deveria ter saído de la ´ tipo ' muito obrigado Mario Lucio Vaz por tudo. Não posso agora porque vou fazer um longa. Mas poderia no ano que vem aparecer por aqui? '. Não devia ter falado este tipo de coisa. Não devia ter dado declarações como a que dei na entrevista da Veja tipo ' não sou pornográfico, pornográfica é a televisão brasileira, é a Globo '. Comprava briga e é assim ainda. Vamos falar sobre algumas produções. O Lamparina? Primeiro filme, como técnico. Era continuista. Tem uma aparição minha cantando, um close, fazendo parte de um coral. E aí veio Noite Vazia. Aí sim foi o primeiro que eu apareci numa participação especial e que me notaram. Aí que começou a surgir o David Cardoso como ator. Porque foi uma coisa pequena de cinco minutos, mas que marcou. O filme todo eram quatro atores: Mário Benvenutti, Gabrieli Tinti, Norma Bengel e a Odete Lara. Depois fiz Meu Japão Brasileiro do Mazzaropi e Corpo Ardente do Walter Cury. Trabalhei cinco anos como técnico. Até surgir uma oportunidade por um mato-grossense chamado Reynaldo Paes de Barros, que fez O Pantanal de Sangue. Ele disse: ' Você vai ser o ator principal do meu filme '. Então há 40 anos, lá em 1966, eu estreiei num filme chamado Férias no Sul como galã. Com A Moreninha você ficou conhecido. Este foi o filme que me lançou e lançou a Sônia Braga. Fazia o Augusto, personagem central. O Cine Ipiranga foi todo pintado e remodelado para o filme e é um dos mais vistos do cinema nacional. Era censura livre. Tinha um beijo só. Em Sinal Vermelho -- As Fêmeas você lançou a Vera Fisher. Sim, foi o primeiro filme de ela. Fiquei apaixonado por ela e ela por mim e rolou um romance. Mas este filme era o Fauzi Mansour. Eu era o diretor de produção e galã. E o filme Cainguangue, um dos cinco que você rodou em MS? Para mim é uma obra prima. Foi todo filmado em Maracaju. Tenho uma cópia de Cainguangue em 16mm. De vez em quando passo para as pessoas e eles choram. O tempo acaba dando a dimensão do valor de uma obra? A única coisa que não vai te trair nunca é o trabalho. É isso que você está fazendo. Explica, está indenizado. Então sabe o que eu sou hoje? Cult. Quando chego falo meu nome aqui todo mundo vem falar com mim. Uma vez o Chico Anysio fez uma pergunta para a Luiza Brunet: ' Voce nasceu aonde? '. E ela: ' Em Mato Grosso '. Ela é Embaixadora do Pantanal e não sabe o nome do estado onde ela nasceu. Não a culpo e sim quem a pôs neste cargo. Põe o Almir Sater, um Espíndola, o Aurélio Miranda ... Um monte de gente boa. Mas por certo deveria ser eu. Porque ninguém falou mais de Mato Grosso do Sul do que o David Cardoso. Tem artista que sai da sua terra e bate a porta e não volta nunca mais. Você me parece que é bem o contrário, até exageradamente! O Ney Matogrosso tem que mudar de nome. Ele tem que ser Ney Mato Grosso do Sul. Ele é de Bela Vista pô! Isso daria uma puta mídia, mas eles não estão nem aí para o nosso estado. Vou te contar uma passagem que aconteceu e me machucou muito. Estava sentado aqui e chegou um rapaz apressado. Isso faz uns seis anos. Ele disse: ' Queria falar com o David Cardoso. ` Eu disse pode falar. ' Não, quero falar com o David Cardoso '. O que você quer, sou eu, isso aqui é meu! ' Não é que eu vim do Libanês e nós vamos fazer um Miss Pantanal e o presidente do clube quer saber se você não quer ser o presidente do júri? '. E eu: ' Claro, legal, gosto de participar '. Ele perguntou então se eu tinha smoking. Disse que sim, que estava em São Paulo. E ele disse ' mas não vai dar tempo? Porque é hoje as nove da noite. Vou te contar a verdade. O Raul Gazzola não veio '. Perguntei ' como vocês iam conseguir o Gazzola de graça? '. E ele: ' Não a gente ia pagar cinco mil para ele '. E eu: ' Então não vou '. Quer dizer eu tenho que quebrar galho. Não valorizam os artistas da terra. Fui no primeiro Pantaneta em Aquidauana, quando cheguei lá só via baianada e me enojou. Porque cadê os artistas da terra? Se eu for lá em Salvador, não quero comer a lingüiça de Maracaju, nem mandioca, nem churrasco, quero comer acarajé, conhecer as coisas de lá, quero escutar a música de lá. Eles que venham escutar as nossas coisas daqui. Como a gente faz o peixe, os nossos cantores ... Aí traz um de fora para o encerramento. O resto tem que ser tudo com artistas daqui. A baianada vem aqui e tem que agüentar eles cantando. Eu não sou contra eles, eles são unidos e nós não temos união. Principalmente neste estado. Parece que falta alguém com visão. Muito se fala que os diretores cantavam as atrizes dos filmes. Como era isso? Sou contra este tipo de coisa. Nunca fiz um filme e falei ' dorme com mim que você vai ser a atriz '. Nunca fiz esta troca. Porque como é que vou olhar para ela e ela para mim? Vai trabalhar de que forma? Com que sensibilidade se faço uma proposta indecente desta aí? Abomino isso, apesar de saber que tem muita gente que faz. Nunca fiz. Embora tenha traçado talvez a metade de elas, mas tinha que ser normalmente. E sempre depois que acabava o filme. É verdade que você tem um contrato com o Pelé para fazer um filme no Pantanal? Sim. É o filme Amor Pantaneiro. Com o David Cardoso Junior como galã e a Camila Pitanga como pantaneira. A história de um cantor em ascenção que se apaixona por uma menina que tira leite de vaca. E fica louco por ela e quer abandonar tudo. Só que no meio tem seqüestro e crime ambiental. O Pelé seria um delegado de Corumbá cujo filho foi morto e não quer mais tocar o barco. Mas faço um jornalista e provoco dizendo ' que vamos bater de frente com os poderosos '. E a gente entra na história. Quanto isso não representaria para o nosso estado? Tenho este contrato desde 1988 e não consigo realizar. Mulher mais bonita do cinema nacional? Vera Fisher. Uma cena de transa de todos os filmes? A Noite das Taras 2 com a Matilde Mastrangi. Número de frases: 341 A gente começava em cubículo dentro de um armário. David x Golias Em recente comunicado a seus associados, adotando um estilo melodramático, difamatório e um tanto desesperado, o ECAD, que responde a uma enxurrada de ações na justiça, partiu para o ataque contra um dos grupos de compositores que luta para fazer valer seus direitos na justiça e, em especial, contra mim. O órgão já teria, inclusive, dado entrada numa ação criminal, supostamente baseando-se na lei de imprensa, agindo da mesma forma que a Igreja Universal, que recentemente tentou calar a imprensa nacional, que denunciava suas irregularidades. Parece que o ECAD ainda não se deu conta de que não vivemos mais numa ditadura e que essa forma de pensar e agir não encontra mais respaldo na sociedade, nem mesmo em sua parcela mais conservadora. O curioso é que um dos defensores do ECAD, o compositor Fernando Brant -- presidente da UBC, criticou duramente o ministro Gilberto Gil em artigo publicado exatamente no mesmo jornal e na mesma página que o meu, mas nem por isso foi ameaçado de processo por ninguém. O que é lamentável nesta história é ver que colegas de profissão, que no passado clamavam por liberdade de expressão, denunciavam arbitrariedades e exigiam democracia, hoje engrossam as fileiras do fisiologismo e do acúmulo de capital. Os idealistas de ontem são os oportunistas de hoje, infelizmente. O ECAD -- uma empresa privada que parece ter o aumento de receita como meta principal, mas que as vezes finge ser de utilidade pública, dependendo da ocasião, já está habituada a «levar pau». Está, inclusive, sofrendo auditoria da Receita Federal sobre seus cinco últimos exercícios. Mas como eu faço parte de uma ação que está dando muita dor-de-cabeça para seu departamento jurídico, reagiu com pedras. A gota d' água para este maremoto foi um artigo meu publicado na sessão de opinião do jornal O Globo, comentando o que foi dito no seminário sobre direito autoral, promovido em dezembro último por o MINC-Ministério da Cultura, evento este que terá prosseguimento em 2008. Em todas as mesas só se falou mal do ECAD e o que fiz foi dar minha opinião, obviamente também contra os desmandos do órgão, já que eu era um dos poucos músicos presentes no evento. O compositor César Costa Filho, presidente da ADDAF, que em seu pronunciamento no seminário também criticou duramente o ECAD, está também sendo processado por o órgão. Aliás, parece que o que o ECAD mais faz é isso, processar e ser processado. A opinião geral foi de que o ECAD precisa ter controle do estado, assim como acontece com a maioria absoluta das sociedades arrecadoras no mundo todo, como nos mostrou a especialista Vanisa Santiago no mesmo seminário. O ECAD adotou então a estratégia de tentar colocar a classe musical contra mim e o grupo de oito compositores de trilhas, do qual faço parte, estigmatizando-nos. Este grupo, apesar do que diz o ECAD -- apoiado em inverdades e informações incompletas, não é o único a gritar contra as arbitrariedades do órgão. Atualmente estão em andamento na justiça cerca de 4.000 ações envolvendo o ECAD (1, 2, 3, 4, 5) de entre elas muitas semelhantes à nossa. E o próprio ECAD considera este um número pequeno, pois já chegou a 7.000! Para que a classe musical não continue sendo ludibriada por gente que de música não entende nada, mas que manipula números muito bem, vamos aos fatos: O lobo em pele de cordeiro Até 2001 o ECAD pagava igualmente por as músicas veiculadas em programas de televisão, fossem temas de personagens ou backgrounds, de autores contratados por as emissoras para fazer isso ou não. Em uma decisão absolutamente unilateral e arbitrária, sem consultar nenhum dos principais atingidos, a toda poderosa assembléia do ECAD (tendo a UBC como voto majoritário), começou a diminuir gradativamente a pontuação de quem era contratado para fazer este trabalho, mas mantendo o ponto inteiro para as chamadas músicas pré-existentes, ou seja, as que não foram compostas especialmente para este fim. Inicialmente para 1/3, depois 1/6 e, finalmente, para 1/12. Com este novo critério, os compositores de trilhas para televisão viram seus ganhos reduzidos, mas isso não implicou em cobrar menos das fontes pagadoras, ou seja, as emissoras de televisão. ( Muito pelo contrário. Passou a cobrar muito mais: 6 milhões mensais, só da TV Globo). Aí está o pulo do gato: as emissoras continuaram pagando o ponto inteiro. A matemática criativa do ECAD foi então a de manter a cobrança do ponto inteiro das emissoras, mas pagando apenas 1/12 para os compositores de trilhas. Para onde foi o restante do dinheiro arrecadado? Se o ECAD acha que backgrounds em trilhas de televisão valem 12 vezes menos que temas de personagens, por que não acha o mesmo das trilhas para cinema ou para teatro? Seria por que as sociedades majoritárias na assembléia tem em seus quadros compositores que trabalham nesta área? O que esses colegas diriam se o ECAD usasse o mesmo peso e a mesma medida para reduzir seus dividendos, como fez com nós? O órgão chegou a dizer que os backgrounds deveriam valer menos porque não possuem letra. Ora, quer dizer então que música instrumental vale menos que música cantada? Será que vamos ter que debater num nível tão baixo de entendimento do que seja a arte musical? Sabe-se que no mínimo 50 % da música veiculada em TV é de autoria dos compositores contratados para esta exercer esta atividade. Sabe-se também que cerca de 50 % do que o ECAD arrecada vem da televisão. A arrecadação do órgão em 2007 chegou a R$ 250 milhões, sem falar nos ganhos financeiros, que somaram R$ 100 milhões. Se o ECAD recebe inteiro e repassa apenas 1/12, imaginem com quanto ficou a mais em seus cofres! E para renovar seu contrato com a Globo o ECAD quer receber mensalmente, nada mais, nada menos, que 2,5 % do faturamento da empresa! Enfim, o ECAD quer se tornar sócio da TV Globo sem fazer esforço. Quer ser sócio apenas nos lucros. O ECAD reune 10 sociedades autorais, mas apenas 6 de elas votam nas assembléias. As outras ficam caladas, sem direito a abrir o bico. Isso porque em 1999 iniciaram um movimento para que o ECAD não tivesse o monopólio da arrecadação autoral no Brasil. Foram castigadas com a expulsão, por sugestão da UBC, algumas retornando logo depois, mas desde que ficassem caladas. E assim tem sido com a ANACIM, a Assim, a SADEMBRA e a ABRAC, que entrou depois. As quatro apenas dizem amém para as outras seis, UBC, Amar, SBACEM, SICAM, ABRAMUS e SOCIMPRO. Existem outras sociedades arrecadoras no país, mas que, graças à lei vigente, não conseguem entrar no ECAD, que é o escritório centralizado r. A votação em assembléia desta empresa sui-generis, cujas regras estão longe de serem democráticas, diz que «manda mais quem ganhar mais», como acontece no mundo capitalista. Mas o que faz com que o ECAD seja único em todo o mundo é que nas outras sociedades há uma regulamentação e um supervisionamento estatal, justamente para não permitir distorções como as que ocorrem no Brasil. De o jeito que a coisa está, sem qualquer órgão regulador em funcionamento, a sociedade que arrecada mais num ano mandará mais no ano seguinte. E quem tem arrecadado e mandado mais há muitos anos é a UBC, cujos percentuais, de 2001 a 2005, foram 54 %, 50 %, 48.2 %, 51.7 %, 47.4 %, 43,8 % e 47.4 % dos votos. Foi por mérito próprio? Mantendo a hegemonia nas votações e, por conseguinte, nas decisões das assembléias, a UBC impera, toda poderosa. Voltemos então à questão do ponto para descobrir como a coisa funciona de fato: De os compositores de trilhas, sejam eles de qualquer emissora, praticamente nenhum está na UBC. Mas os compositores das chamadas músicas pré-existentes, que continuaram recebendo o ponto inteiro, estão em peso nesta sociedade. Para qual sociedade vão então os 11/12 restantes? Bingo!!! Outra conclusão óbvia: se manda mais quem ganha mais, se a televisão é responsável por 50 % da arrecadação e se a UBC não tem compositores de trilhas em seu quadros, o que ela fez? Reduziu o ponto destes compositores, afastando a ameaça de perder sua hegemonia na assembléia, pois, em seguida, no ranking do ECAD está a ABRAMUS, a qual são afiliados diversos compositores de trilhas, como é o meu caso. Engenhoso, não é? E o que podem fazer as outras sociedades diante disso? Nada, por incrível que pareça. Por isso os compositores de trilhas estão na justiça contra o ECAD. Não apenas oito, mas praticamente todos. Mas vejamos agora o que se passa com a ação que o ECAD diz que vai tirar o pão da boca dos compositores, tentando colocar colegas contra colegas. Colocando músico contra músico O ECAD diz que apenas este grupo de 8 compositores reclamou dos novos critérios adotados. É Mentira. Não só estes oito, mas praticamente todos os compositores de trilhas da TV Globo entraram na justiça contra o ECAD, o que também fizeram outros compositores que trabalham para as demais emissoras. Existe ação semelhante de 25 compositores paulistas, lutando por os mesmos direitos e apontando as mesmas injustiças e distorçõe s. O compositor Eduardo Dussek, por exemplo, que não é contratado de televisão nenhuma, também está na justiça contra o ECAD, lutando para receber os direitos referentes a uma de suas composições, usada como tema de personagem numa novela da TV Globo, mas considerada, para efeito de pagamento, como background por o ECAD. Veja também: 1 e 2. O órgão diz que esses novos percentuais adotados refletem o que ocorre em termos mundiais. Não é verdade. Há variação de percentuais sim, mas nunca de 1/12, e, mesmo assim, há países onde não houve redução nenhuma, como Áustria, Alemanha, Holanda, Dinamarca, França, Argentina, Espanha, Iugoslávia, Suécia, Suíça e África do Sul. E quando há alguma mudança a ser feita, todos são consultados, mesmo porque as sociedades internacionais de gestão coletiva, como é o caso do ECAD, são assistidas por orgãos reguladores estatais. Todas, sem exceção. Já no Brasil não há ninguém que fiscalize o ECAD, pois o governo Collor, assim como fez com tanta coisa que dava certo neste país, extinguiu o CNDA, Conselho Nacional de Direito Autoral. Desde então impera a incerteza e a desconfiança. Tratemos então agora especificamente da ação dos produtores musicais: O período ao qual uma das ações se refere vai de 2001 a 2005 e é apenas uma de entre muitas. O valor de R$ 140 milhões que o ECAD diz ser absurdo e de não ter sido alvo de perícia foi baseado nos próprios documentos do órgão. Se este valor é absurdo, é absurda também toda a contabilidade do ECAD e todas as suas planilhas, que, aliás, escondem mágicas contábeis que fariam Malba Taham morrer de inveja. O valor alardeado é tão somente um déposito para garantir o pagamento dos autores, caso vençamos a ação. Não é portanto, uma cobrança. E se vencermos, a justiça, obviamente, reverá este valor e saberá estipular o valor correto e justo, seja maior ou menor, se assim considerar procedente. O que importa para nós não é pois ganhar 140 centavos, reais, mil reais ou milhões de reais, mas sim que a justiça seja feita. E fazer justiça neste caso é pagar igualmente a música pré-existente ou composta especialmente para um programa, independente de estilo, gênero e, principalmente, da sociedade arrecadadora que administre seus dividendos. Este é o ponto que o ECAD tenta encobrir, fazendo-se de defensor dos oprimidos e tentando nos caracterizar como vilões. Esta quantia supreendente é proporcional à ganância do próprio ECAD, que estipula valores exorbitantes para quem deve pagar direitos autorais, mas repassa valores ridículos para quem deve receber, ficando com a diferença. Que se faça então uma revisão profunda e ampla de todos esses percentuais praticados por o ECAD, desconhecidos por a grande maioria dos compositores. Há muito o que ser explicado e é disso que o ECAD se vale: da nossa ignorância sobre o que relmente se passa lá dentro. O ECAD diz também que nós queremos ganhar mais no Brasil do que ganhamos fora. Não é verdade. Nosso recebimento do estrangeiro não teve qualquer mudança arbitrária como aconteceu aqui. Esta é mais uma manobra do ECAD para iludir os compositores mais desatentos. Eu, por exemplo, faço parte da SACEM, que me paga da mesma maneira que pagava antes. Muitos compositores, aliás, decepcionados com a situação da arrecadação no Brasil, acabam optando por filiarem-se a sociedades estrangeiras. De entre os compositores filiados ao ECAD, há muitos ganhando a soma aviltante de R$ 0,01 por mês! Isso mesmo! Um centavo por mês!!! Diante disso não pode ser admissível, por exemplo, que o ECAD faça generosidade com o bolso alheiro, custeando edições de livros ou fazendo doações filantrópicas. Que pague primeiro os autores que estão à mingua. A realidade, nua, crua e desafinada Embora eu tenha apontado em meu artigo alguns pontos nebulosos da gestão do ECAD, já apontados por outros colegas, há, infelizmente, muitos outros, como estes: Os diretores do órgão premiam-se com percentuais ganhos em soluções de litígios, o que nos faz crer que a ação milionária dos produtores deve estar é estimulando muita gente a conseguir acordos também milionários. Seria esta a razão por a qual existem tantas ações contra o órgão? Os procedimentos híbridos, de caixa e de competência, de suas planilhas e balanços, altamente reprováveis em contabilidade, sugerem auditorias urgentes em suas contas. As ATS das assembléias do ECAD não estão disponíveis para seus associados e são registradas em cartório apenas quatro ou cinco meses depois de terem plena eficácia. As tentativas de ameaçar e intimidar quem levanta a voz contra o órgão, como acontece agora com mim, são comuns. Isso acabou de acontecer, quando o ECAD tentou calar a imprensa que noticiava a chamada CPI do ECAD no Mato Grosso do Sul, que concluiu seus trabalhos recentemente. Esperamos que ao menos na região centro-oeste do Brasil a pizza não seja tão apreciada quanto aqui no sudeste. Enfim, caros colegas, vamos abrir os olhos. O poder econômico do ECAD é enorme e sua capacidade de persuasão também. Eles mantém o poder há muito tempo e não querem largar o osso de jeito nenhum. Procurem se informar sobre o que o MINC pretende fazer para mudar esta situação e, sobretudo, não assistam calados e omissos, como as sociedades minoritárias do ECAD são obrigadas a fazer, à mais esta tentativa de intimidação que o órgão está promovendo. O ECAD, não se contentando que a justiça analise e decida sobre a briga judicial que tem com mim e com outros compositores, renegando o debate, extrapolou o âmbito judicial e passou para a difamação pública pura e simples. Num momento que tanto se fala de resgate da moral, de ética e de cidadania, façamos valer os nosso direitos. Não deixemos que o ECAD, atrás de seu vidro fumê, nos impeça novamente de enxergar o que se passa lá dentro. Não vou me intimidar diante do poderio econômico do ECAD e de seu exército de 80 advogados. Seguirei em frente, mesmo que esta luta seja como a da foto em anexo, um David contra um Golias. Como sabemos, ao final da peleja, David saiu vitorioso. Acredito no empenho do MINC de mudar o panorama atual, pois, pior do que está, não pode ficar. Tim Rescala Depoimentos sobre o assunto Ivan Lins, cantor e compositor Essa do ECAD de querer pegar nosso Tim é mais um episódio da falta de liberdade de expressão que certos órgãos, que se acham acima do bem e do mal, que são verdadeiros quartéis da razão e da virtude, armados até os dentes com suas verdades inquestionáveis, com seu departamento de censura, seus porões de pressão e convencimento, como se fossem melhor que quaisquer governos, que são gosados, criticados, em imprensa aberta, impõem, e vêm a público, com pompa e circunstância, processar uma opinião divergente. Posso até não concordar com tudo que o Tim colocou no seu artigo publicado n ' O Globo, mas dou a ele todo o direito de colocar sua opinião. Acho extremamente saudável trazer e levantar questões ainda polêmicas e questionáveis nas gestões do direito autoral nesse país. O Tim estã sendo tratado como um subversivo furioso e perigoso, de diabólica influência em toda a classe musical brasileira, um Bin Laden comandando uma imensa e monstruosa rede de fanáticos que querem aniquilar o ECAD. Infelizmente, sinto no ar ainda um pouco do aroma pesado de certos maus hábitos dos militares da época da Ditadura. E de algumas pessoas que até lutaram contra ela. É uma pena. Realmente lamentável. Mas tenho esperança, e que me perdomem as palavras, que essa babaquice desses «Senhores» donos da verdade», tenha sido somente um pequeno lapso de arrogância, que está a caminho de ser corrigido e cancelado, em favor de um debate adulto, cristalino (Mesmo!), aberto e democrático, como devem fazer os cidadãos honestos e de bem. Tenho dito. Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro O centenário Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro expressa sua solidariedade e integral apoio ao músico Tim Rescala, que, num ato de coragem «ousa» questionar as ações do Escritório Central de Direitos -- ECAD. Durante seus cem anos de existência o SindMusi tem esclarecido dúvidas, acolhido requerimentos e registrado queixas sobre as mais variadas questões relacionadas com a nossa atividade profissional. Entre todos, a questão do Direito Autoral é, de longe, o tema que mais suscita dúvidas e insatisfações. Todos reconhecemos a efiCiência do ECAD quando se trata de recolher as taxas referentes aos direitos dos artistas em todo o país. No entanto, quando tentamos tomar conhecimento do (s) processo (s) que regem a distribuição dessa arrecadação, reina a obscuridade, apesar da suposta transparência do (s) mesmo (s) propalada por o ECAD. Em a maioria dos países a questão do direito autoral é administrada por o governo, com o que concordamos inteiramente. Em o Brasil, urge uma intervenção o mais abrangente possível do governo nessa área. Adicionalmente, apoiamos a criação de uma agência ou uma reestruturação do CNDA, para que regulamente, fiscalize e exerça o mais absoluto controle sobre as questões pertinentes ao direito autoral. A Constituição de nosso País garante a qualquer cidadão o direito de expressar-se livremente, tal como Tim Rescala está fazendo. Por isso mesmo, não merece reprimenda, castigo nem qualquer outra forma de punição ou censura. Ao contrário, Tim Rescala merece nossos parabéns e incentivos, para que continue a praticar a Democracia em sua melhor forma, que é a do livre pensar e expressar-se, desde que respeitando a Lei. Tim Rescala é um profícuo criador, dono de excelente reputação e ótimo caráter. Sua atividade, que exerce de maneira incasável, gera numerosos empregos para nossa categoria profissional, tão carente de boas condições de trabalho e direitos. Sua posição não reflete um interesse pessoal e sim as dúvidas e anseios de toda a nossa categoria. Por isso permanecemos firmes, apoiando integralmente o generoso colega Tim Rescala, que, relativamente ao tema de direito autoral, Fala PÓR Todos Nós. Débora Cheyne Número de frases: 164 Presidente Escuta e MP3 [1] giuliano obici [2] Codificação do Sonoro: MP3 MP3, ou MPEG Layer 3, é um algoritmo de codificação digital baseado numa técnica de compressão de dados audiovisuais. Ele foi um dos primeiros tipos de compilação que conseguiu comprimir arquivos de áudio com eficiência significativa. A redução no tamanho do arquivo é de cerca de 90 %, dependendo do algoritmo usado, e sua qualidade se aproxima à de um CD. [ 3] A compressão dada por os algoritmos está fundamentada em estudos de psicoacústica. As partes do sinal sonoro que percebemos com maior distinção são codificadas com alta precisão, enquanto as freqüências sonoras às quais temos menos sensibilidade sofrem compressão menor. As regiões que fogem de nosso campo de percepção, por sua vez, são descartadas ou substituidas. [ 4] Isso se dá «através de bancos de filtros, quantização, compressão entrópica e exploração da redundância nos dois canais de som estéreo». Dizendo de outro modo, o MP3 tem a função de extrair informações do sinal que fisiologicamente não conseguimos captar, por causa dos fenômenos de mascaramento e das limitações da audição humana [5]. Uma das característica que tornaram o MP3 bastante difundido é que seu sistema também possibilita transmissões por streaming, onde o arquivo pode ser decodificado à medida que é feito o download [6], ou seja, não é preciso esperar a transferência completa do arquivo para iniciar a reprodução. História do MP3 Os estudos que levaram ao MP3 começaram em 1970, com pesquisas para comprimir música a partir do sinal das linhas de telefone [7]. O primeiro processador de sinal digital capaz de compressão auditiva foi desenvolvido em 1979. Posteriormente, houve um longo processo de pesquisas e formulações de algoritmos, que passaram a explorar propriedades da audição humana com base em princípios de psico-acústica [8]. Faremos um resumo dos principais algoritmos desenvolvidos até o MP3. O algoritmo LC-ATC (Low Complexity Adaptive Transform Coding -- 1987) possibilitou a construção de um codec de tempo-real. O OCF (Optimum Coding in the Frequency Domain -- 1989) foi o primeiro a remover sons abaixo ou acima do limiar fisiológico da audição humana. O ASPEC (Adaptive Spectral Perceptual Entropy Coding) foi proposto, em 1988, para o grupo da MPEG (Moving Picture Experts Group) como o futuro padrão auditivo. Em 1992, a MPEG e a Iso (International Organization of Standardization) desenvolveram o sistema digital de áudio comprimido e os padrões de vídeo nomeado como MPEG-1 para uso em vídeo CD (CD-I). O MP3 (MPEG-1 layer 3) resultou de algumas mudanças sofridas por o formato original [9], como a adição de codificação estéreo. Ele se constituiu como padrão mais eficiente, e foi adotado como modelo de armazenamento de música em disco rígido por ser relativamente pequeno, voltado para PCs com a finalidade de transferir arquivos de música por a Internet por modem de 28.8 kbps [10]. Em o ano de 1995, a extensão de arquivo de MPEG-1 layer 3 foi definida como o formato para o sistema de radiodifusão auditivo digital do satélite da WorldSpace. Em 1996, a MPEG iniciou um novo trabalho, chamado de Interface de Descrição do Contéudo Multimídia MPEG-7, para especificar um conjunto padrão de decodificadores que podem ser usados para descrever vários tipos de informações multimídias. Em 1998, iniciou-se uma era de portabilidade de MP3, com os primeiros tocadores portáteis com memória flash em estado sólido para armazenar e tocar música e arquivos comprimidos em MP3. A popularidade resultante dos tocadores de MP3 levou várias empresas a oferecer música-comprimida, e conduziu ao desenvolvimento de codecs auditivos adicionais para uso em PCs e em dispositivos móveis. Em virtude da capacidade de armazenar milhares de músicas num pequeno tocador portátil, de poder selecioná-las e procurá-las por álbum, artista, título, gênero ou até mesmo por listas geradas automaticamente, o MP3 despertou, assim como, em outros tempos, o rádio e o walkman, um outro comportamento à escuta. Cada um pode agora carregar uma discoteca inteira, sendo possível acessá-la por um toque de botão. Um MP3 player pode armazenar, bem como apagar e regravar arquivos, de modo que esteja sempre pronto para tocar onde se desejar: em casa, na praia, em seu carro, no trem, ou no avião. Podcasting Surgiu no final de 2004, a partir de um sistema de produção e difusão de conteúdos sonoros via Internet. Funciona a partir da disseminação em larga escala de informação por um procedimento distinto de trocas de arquivos de áudio. Trata-se de um método de publicação de arquivos por a Internet que permite aos usuários subscrever e retroalimentar novos arquivos auditivos. Ele é distinto de outros sistemas de compilação de arquivos de áudio, e usa o «agregador» RSS (Really Simple Syndication) [11]. Para funcionar, o sistema necessita de um computador doméstico equipado com microfone e softwares de edição de som. «O usuário grava um programa, salva como arquivo de áudio e depois o disponibiliza em sites indexados em ' agregadores ' RSS. O usuário baixa o arquivo para o computador e daí para seu tocador de MP3." [ 12] Questões de mercado, direito e propriedade Com esse tipo de compressão de arquivos sonoros, teve início a troca de arquivos de áudio em condições que desafiam, ainda hoje, os fundamentos do capitalismo, a questão da propriedade e os direitos autorais, bem como sua fiscalização e comercialização. Um exemplo está na possibilidade de difundir em segundos, por a Internet, o conteúdo de um disco para muitas pessoas por todo o mundo, seja por e-mail ou outros dispositivos como o podcasting e compartilhadores de arquivos, como eMule, Soulseek, Kazza, WinMX, eDonkey ou iMash. [ 13] O licenciamento do MPEG-1 / 2 Layer 3 é controlado por a Thomson Consumer Electronics, que reconhece e regulamenta patentes de diferentes softwares em países como Japão e Eua [14]. A Thomson decidiu cobrar pelo direito de uso do MP3, apesar da forte rejeição que tem gerado em mercados como, por exemplo, o europeu [15]. O instituto alemão Fraunhofer, que ajudou a desenvolver o MP3, divulgou um comunicado, em setembro de 1998, a diversos desenvolvedores de software, de acordo com o qual seria necessário licenciamento para vender ou distribuir decodificadores e / ou codificadores do MPEG Layer3 [16]. Com a patente do padrão MP3, teve lugar uma redução no desenvolvimento de programas de computador para ele, proporcionando a popularização de outros padrões. A Microsoft desenvolveu um sistema operacional próprio, o Windows Media Audio (WMA). Em contrapartida, a comunidade de software livre optou por criar um outro codec isento de patentes: o Ogg-Vorbis [17]. Desde meados da década de 1980, o Gnu, movimento que viabilizou a criação, de maneira colaborativa, do LINUX (1991) -- sistema operacional totalmente livre, que qualquer pessoa tem direito de usar e distribuir sem ter de pagar licenças por o uso --, passou a se preocupar em criar estratégias para o registro de software livre a partir da General Public License (GPL) [18]. Em dezembro de 2002, inspirada, em parte, no Gnu, a organização Creative Commons começou a atuar segundo códigos internacionais e nacionais, preocupando-se em desenvolver estratégias jurídicas em vários outros tipos de produção imaterial, como: websites, música, filme, fotografia e literatura [19]. [continua ... com Escuta, MP3 e Poder] notas: [1] Este texto é um pequeno trecho da dissertação Condição da Escuta: mídias e territórios sonoros (Comunicação e Semiótica -- PUC-SP, 2006). Em a dissertação, questões apontadas neste artigo são apresentadas conceitualmente entre elas: 1) mapeamento do desenvolvimento tecnológico dos dispositivos midiático-sonoros; 2) os conceitos de objeto sonoro e escuta acusmática (Pierre Schaeffer), soundscape (Murray Schafer), território e ritornelo (Gilles Deleuze e Félix Guattari), poder (Michel Foucault); 3) aspectos do fenômeno do MP3 e podcasting, as mídias-sonoras portáteis (mp3 player, celular) e a produção imaterial gerada a partir de elas; entre outras. [2] Músico, psicólogo, mestre em Comunicação e Semiótica por a PUC-SP.Giulianobici@yahoo.com.br. www.oraculosonoro.blogspot.com [ 3] IAZZETTA, Fernando; KON, Fabio. A Música Efêmera da Internet. ANNPPOM: Rio de Janeiro, 1998, p. 5. [4] Cf.. FRAUNHOFER, Institut Integriert Schaltungen. Http://www.iis.fraunhofer.de/amm/techinf/ layer3, 2006. [5] Os algoritmos de compactação cumprem papel semelhante ao dos filtros que permitem passar determinadas freqüências do sinal sonoro. O telefone, por exemplo, possui um filtro que elimina determinadas faixas do som, para valorizar as freqüências médias, nas quais a voz humana opera. Lembremos que toda transformação de energia (som -- onda mecânica) tende a sofrer perdas, o que acaba configurando uma espécie de filtragem. O microfone, transdutor por excelência, ocupa a função de filtro. «A princípio, qualquer operador ou dispositivo que modifique um sinal de áudio pode ser considerado um filtro. De um modo mais explícito, um filtro atenua a quantidade de energia presente em certas freqüências ou faixas de freqüências de áudio. De esse modo, superfícies ou quaisquer obstáculos presentes no meio de propagação de uma onda sonora podem atuar como filtros mecânicos, uma vez que, ao proporcionarem a reflexão ou absorção de certas faixas de frequência, alteram as características das ondas sonoras. De o mesmo modo, os botões que controlam a quantidade de «graves» e «agudos» presentes em aparelhos de som são filtros elétricos. Sistemas mais sofisticados são implementados em equalizadores nos quais pode-se controlar com maior precisão as faixas de frequências que serão afetadas na filtragem. Filtros digitais podem também ser implementados na forma de algoritmos em computadores e outros aparelhos digitais." ( IAZZETTA, Fernando. Tutoriais de áudio e acústica: Filtros. http://www.eca.usp.br/prof/iazzetta 2005.) [ 6] Cf.. WIKPEDIA. http://pt.wikpedia.org/wiki/ Mp3 2006. [7] Vale lembrar que os regimes de poder têm se configurado em torno da liberdade de expressão e de comunicação a partir do telefone, radio, internet e outros meios e que o mp3 é hoje é padrão de áudio dos celulares. «The right to free speech is not the right to speak for free." ( LESSIG, Lawrence. Code: and other laws of cyberspace. New York: Basic Books, 1999, p. 164) [ 8] Cf.. FRAUNHOFER, Institut Integriert Schaltungen. Http://www.iis.fraunhofer.de/amm/techinf/ layer3, 2006. [9] «The early version of the format, MPEG-1 (1992), was defined as» the standard for storage and retrieval of moving pictures and audio on storage media». The format specified a compression scheme for video and / or data conceptualized in a traditional way. ( MANOVICH, Lev. The language of new media. Massachusetts: MIT Press, 2001,, 2001, p. 141) [ 10] Cf.. FRAUNHOFER, Institut Integriert Schaltungen. Http://www.iis.fraunhofer.de/amm/techinf/ layer3, 2006. [11] Cf.. WIKPEDIA. http://en.wikipedia.org/wiki/ Podcasting 2006. [12] Lemos, André. Podcasting: emissão sonora, futuro do rádio e cibercultura. Http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/ 404nOtF0und, 2006. [13] " Using MP3 technologies, for example, a CD recording can be compressed to a file the size of the Word file containing this book and in seconds e-mailed to one hunderd friends around the world." ( LESSIG, Lawrence. Code: and other laws of cyberspace. New York: Basic Books, 1999, p. 49) [ 14] Cf.. WIKPEDIA. http://pt.wikpedia.org/wiki/ Mp3 2006. [15] WELT. DieWelt. www.welt.de, 23 dezembro 2005. [16] Cf.. WIKPEDIA. http://pt.wikpedia.org/wiki/ Mp3 2006. [17] Cf.. WIKPEDIA. http://pt.wikpedia.org/wiki/ Mp3 2006. [18] " É permitido a qualquer pessoa copiar e distribuir cópias sem alterações deste documento de licença, sendo vedada, entretanto, qualquer modificação. ( ...) As licenças da maioria dos softwares são elaboradas para suprimir sua liberdade de compartilhá-los e modificá-los. A Licença Pública Geral do Gnu, ao contrário, visa garantir sua liberdade de compartilhar e modificar softwares livres para assegurar que o software seja livre para todos os seus usuários. Esta Licença Pública Geral é aplicável à maioria dos softwares da Free Software Foundation [Fundação do Software Livre] e a qualquer outro programa cujos autores se comprometerem a usá-la." tradução dos termos da Licença Pública Geral do Gnu (GPL) apud (" CREATIVE COMMONS. «Some Rights Reserved ": Building a Layer of Reasonable Copyright. http://creativecommons.org, 2006.). [19] Cf. «CREATIVE COMMONS." Some Rights Reserved ": Building a Layer of Reasonable Copyright. http://creativecommons.org, 2006. Número de frases: 130 Nove meses após a estréia, a platéia de mais de mil lugares continua lotando o nonagésimo espetáculo de Paulo Autran, O Avarento. O público cativo do Cultura Artística também permanece o mesmo: muitas pessoas acima dos 50 anos de idade que gostam de fazer social no foyer do teatro enquanto tomam espumante ou vinho branco nacionais (ao preço módico de R$ 10 a taça -- é sempre preciso ressaltar). E todas devoradoras de pizzas, possivelmente as melhores (ou mais caras, como preferir) da cidade, segundo Sandrinha Souto, nossa consultora de estilo. O figurino da platéia também continua o mesmo, atingindo uma das escalas mais altas de emperequetação da cidade, palavra também de Sandrinha. O espetáculo, dirigido por o carioca-curitibano Felipe Hirsch (sabe aquele que o Gerald Thomas acusa de plagiador?) continua tão lindo quanto na época de sua estréia. A cenografia de Daniela Thomas (sabe aquela ex-mulher do Gerald Thomas?) dá conta de converter todo aquele palco gigantesco (que beira a aberração) num espaço cênico ideal para o espetáculo, reduzindo consideravelmente a profundidade do palco com uma estante torta e vazia, que traduz de forma subjetiva e eficiente o tamanho da riqueza e ao mesmo tempo as dimensões da avareza do protagonista Harpagon. A incorporação de elementos clássicos como as pancadas de Molière ou o uso da ribalta, sem abrir mão da modernidade, tornam a encenação impecável: a linguagem estilizada da commedia dell'arte é incorporada sem soar pedante, falsa ou forçada. O elenco (excelente e sem ressalvas) se apropria do texto com total domínio, sem se render a ele. Só fica a impressão de que em alguns momentos ocorrem pequenos lapsos de concentração que não ocorriam no início da temporada. Talvez eu tenha revisto a peça num dia ruim, mas pode ser também um sintoma de mecanização de um espetáculo que já está há bastante tempo em cartaz. Mas a platéia papa-pizzas se delicia da mesma maneira, sem perceber nada estranho. Assistir o espetáculo sem o deslumbramento do ineditismo faz notar que o elemento mais impressionante não é o texto, as atuações, ou a cenografia isolada: mas sim a iluminação. Não tem como não se impressionar com a precisão e sutileza com que a luz do espetáculo é desenhada, contrastando o tom amarelado da cenografia e dos figurinos do lado «de dentro» da casa de Harpagon com o azul vivo do céu que existe do lado de fora. É feita com tanto cuidado que até mesmo as cenas de transição, iluminadas apenas por a ribalta, se tornam bonitas. Uma iluminação bem-feita como todo bom espetáculo deveria ter. Pena que deve ser caro para a xuxu contratar o Beto Bruel ... Então a gente chega no ponto crucial que não pode ser ignorado. Não tem como falar do Cultura Artística e das produções que ali aportam sem falar de dinheiro. Por incrível que pareça, raramente vemos naquele palco grotescamente grande e que só recebe atores globais produções à altura desta encenação de Molière: um espetáculo caro e indiscutivelmente comercial, mas que oferece uma qualidade que reflete o valor pago por o ingresso. Não que seja um valor justo, porque eu não acredito que seja, mas ao menos ao sair do teatro é pouco provável a sensação de ter jogado dinheiro no lixo. Não se trata de avareza (ahá!), mas de senso crítico (que a maioria dos papadores de pizza não tem). Absolutamente nada contra o teatrão, desde que por trás da futilidade dos espumantes e das conversas de foyer haja algo que reflita em qualidade o dinheiro investido. Uma pena que não exista muita cultura de que fomentar público é mais do que chamar gente pra ver gente da novela: é trazer qualidade para que este público se interesse por teatro. Número de frases: 31 Em este raciocínio, O Avarento nos mostra que teatrão pode sim ser sinônimo de grande teatro. Delinquentes -- Memorial do Rock 05/05/2006 Quando em 1993 as gangues de rua de Belém transformaram o festival Rock 24 Horas numa praça de guerra, assustando a classe média local que compareceu ao avento e banindo o rock das rádios e das casas noturnas da cidade, tal e qual um Obi Wan Kenobi punk após o massacre jedi Jayme Catarro partiu para o seu exílio no underground. à frente dos Delinqüentes restou a ele recomeçar. Foram dez anos carregando amplificadores nas costas, tocando para 30 pessoas em bibocas malcheirosas e perdendo integrantes para as drogas e para a falta de perspectivas enquanto -- amaldiçoado por o final trágico do festival, uma espécie de Altamont amazônico -- o rock perdia terreno para a axé music e era progressivamente esquecido por a juventude paraense. Jayme sobreviveu. Lutou e chegou vivo à primeira década dos anos dois mil com 20 anos de música nas costas, testemunhando o nascimento e o fim do movimento punk paraense, a explosão e o sucesso de público do rock local no começo dos anos 90, a decadência pós-24 Horas e o renascimento do estilo como segmento de mercado quando o Suzana Flag fez as malas e se mudou de Castanhal para Belém do Pará, emplacando sucesso após sucesso com aquele hit singles pack que eles batizaram de Fanzine. Pelo menos por enquanto, os tempos difíceis ficaram para trás. Nada dos palcos apertados e do som vagabundo do Go Loko, da Rhynos e de tantos outros mafuás nos quais vi os Delinqüentes se apresentarem ao longo desses anos. Em essa noite chuvosa de sexta-feira eles tocam no Memorial do Rock, realizado numa praça ao lado de uma vila de palacetes do final do século XIX, com um som inacreditavelmente bom, para mil e quinhentas pessoas e com o apoio do governo do estado do Pará. De onde estou, enquanto a banda toca o terror em cima do palco, consigo ver o secretário de cultura do município e o presidente da TV estatal local em estado de graça, dançando e cantando alguns dos sucessos dos Delinqüentes. Mudou o Sistema, esse eterno culpado por todas as dores do mundo, ou mudaram os punks? Difícil dizer. Jayme, por outro lado, continua o mesmo. Quando ele sobe na torre de luz do palco para cantar «Planeta dos Macacos» o faz com a mesma raiva que o levou a ser preso em 95 por desacato à autoridade durante uma batida policial a uma festa da MTV Belém, incidente que lhe serviu de inspiração para compor a música. O público, claro, adora a peripécia e aplaude o seu herói enquanto membros da produção tentam lhe tirar lá de cima com medo que ele despenque junto com a torre de luz. Beto Fares, radialista e um dos diretores do evento, aparece no backstage e ordena que deixem o vocalista em paz. Para alívio geral o show continua numa boa, sem grandes possibilidades de terminar em tragédia e se transformar num segundo Rock 24 Horas. O que me faz, aos 31 anos, continuar a ser fã dos Delinqüentes é que eles nunca me decepcionaram. Enquanto os grupos de sua geração protagonizam revivals medíocres e oportunistas agora que o público paraense redescobriu o underground, a banda nunca parece estar velha demais para o rock. Pegue «Cemitérios da Civilização», Carcaças Vazias» ou qualquer outra música que Jayme tocou na noite de hoje e elas irão soar tão boas quanto soavam em 87, 94 ou 2001. Mesmo com poucas mudanças no arranjo, mesmo sendo o hardcore um estilo que não faz sentido para quem já passou dos 20 anos. Em essas horas eu até espero que algum boçal venha me acusar de ser parcial, uma tiete anarco-punk que escreve movida por a memória afetiva e por o saudosismo da adolescência, do mesmo jeito que os babacas que pagam uma fortuna para dançar ' nos bailes anos 80. Pode até ser, não estivesse eu em minoria numa platéia formada basicamente por adolescentes e jovens nos seus vinte e poucos anos. Me pergunto que idade deve ter hoje em dia Gabriela, a filha de Jayme nascida no começo dos anos 90, e fico um pouco chocado ao descobrir que muita gente ali tem idade para ser seu filho. Ou mesmo de qualquer outro integrante da banda. Momentaneamente isso me tira da cabeça a idéia de estar participando de um baile da saudade rock, embora me leve a conclusões mais assustadoras sobre as armadilhas de se chegar à idade adulta. Mas o que nos livra de entrar no terreno do mero saudosismo é que, ao contrário das duas bandas de abertura e o seu horrível pastiche indie-pop, Jayme mantém a integridade, uma vontade atávica em fazer rock e a crença na sua lenda pessoal. Quando o grupo finaliza com «Gueto», vários integrantes da nova geração do hardcore paraense sobem ao palco para cantar o refrão junto com o seu mestre, como sempre acontece nos shows do grupo. É a mesma cena que vejo ser repetida desde os anos 80 no Bar Celeste, no Festival Variassons, nos protestos do Nuclear Pra Que?, nos shows do squat Morada da Arte e nas matinês de domingo do teatro Waldemar Henrique. Jayme já fez isso milhares de vezes, mas sempre consegue me convencer que essa é a primeira. Número de frases: 32 É o que torna a sua música tão sincera e, ao mesmo tempo, tão poderosa. O fazer está imbuído de representações que nos são caras. Em tudo que tocamos reforça o nosso desejo em viver, buscando orientações daquilo que nos cabe, percebendo que energias nos fazem aproximar ou não de alguém ou alguma coisa. Saber o que nos move, o que nos movimenta, é fundamental para que essa alteridade entre os seres se efetive em ato. Nada mais justo do que sair do urbano e perceber que há vida na periferia. Nenhuma novidade para os que lêem jornal escrito, para os que assistem à televisão, ou que participam, de uma forma ou de outra, da vida existente na periferia das cidades. Imperatriz, segunda cidade no Maranhão em população, foi uma das primeiras a serem contempladas com um Ponto de Cultura. Executado em Imperatriz desde novembro de 2005, o Projeto Ponto de Cultura «Folguedos Boi Valente» é fruto de uma parceria do Instituto Sinergia com o grupo de dança popular Boi Valente, financiado por o Ministério da Cultura, através do Programa Cultura Viva. O projeto oferece oficinas culturais a adolescentes e jovens da Região do Grande Santa Rita. De entre as atividades do projeto têm-se as Caravanas Culturais: apresentação das produções do ponto para a comunidade. Via de regra, as caravanas constam de dança do Cacuriá e do bumba-meu-boi; participação de outros grupos como o Kizomba (danças populares), Quadrilha do Zé Comeu e Lindô da Dona Francisca -- danças características de parte do estado do Maranhão, bem como de atividades lúdicas, como cantigas de roda, pula-corda, pintura, leitura e jogos com bola, como pelada de várzea e queimada. Nada mais justo, não só como contrapartida do financiamento, mas também como mecanismo em disponibilizar à comunidade a outra face do espelho. Em uma cidade que carece de espaços de cultura e de cidadania, com altos índices de analfabetismo, pobreza que assola -- não estou sendo dramático, acreditem -- é inegável o sorriso estampado nas crianças por onde a caravana passa. E não é a bolacha de água e sal e o refrigerante local, que chamam de «espoca-bucho», que faz a alegria das crianças, mas sim o desejo de pegar na bola, e no tecido que parece tenda de circo. Joana e Rita são irmãs, e nunca viram um circo de verdade, e gritam «olha o circo, olha o circo», quando teimam em não deixar a bola cair de sobre o tecido colorido. Quando o estado se faz presente é quando fica mais perceptível a sua ausência. Nice Rejane, coordenadora do Sinergia, reforça essa presença / ausência do poder público quando diz que «a participação governamental é adequada, na mediada em que democratiza os recursos a projetos executados em cidades do interior, de difícil acesso a tudo». Por mais que essas atividades sejam pontuais, a representatividade dessas ações está além do instante em que se mostram. E não é a constância dessas caravanas nesses locais -- provavelmente elas não passem novamente por o mesmo caminho piçarrado -- que vai fazer com que percam importância e qualidade. Quando percebemos nosso reflexo, refletimos sobre nossa vida, sobre o nosso fazer. E refletir é um dos caminhos para a mudança, quer seja individual quer coletiva. Quando lia a proposta das caravanas, não percebia esse caráter, essa abrangência. Depois que constatei, através de acompanhamento para registro, de algumas de elas, pude perceber o que retrato agora: meus olhos exigentes do concreto, deixaram de ver que as pequenas ações são determinantes para um processo se iniciar, e sem retorno possível. Número de frases: 26 Até onde se estende o reinado da consciência? Quem, nesse mundo tão vasto, pode me dizer o que é razão, sem chorar de solidão? Eu navego nesse mar desconhecido que se chama vida e trago dentro de mim uma criança de olhos livres como um guia de cego a me levar por a mão. Já atravessamos desertos mais silenciosos do que as estrelas na tempestade. Muitas noites, muitos dias, minutos de césio, contados, lacrados, incógnitos. oscilantes. Poeira ao vento. Alguém sabe do que estou falando? Diga-me por favor. Qualquer pista serve. Eu não tenho nenhuma mesmo. Sei lá ... para mim a razão nunca teve razão. Quer dizer, nunca fez sentido. É assim ... como o concreto do abstrato ... o silêncio do trovão. A mentira que permeia todas as verdades ou a verdade que sustenta todas as mentiras. Número de frases: 17 Ísis Marimon Junte energia. Some juventude. Bote aí uma pitada de bom humor. Agora, misture tudo isso sob uma batida envolvente. Não esqueça de colocar sensualidade, persistência e muita, mas muita vontade de fazer da música um meio de vida. Eu tô falando de uma galera, que da periferia de Porto Velho, sonha em ganhar as pistas de todo o Brasil. O mais longe que eles já chegaram foi à vizinha cidade de Humaitá, no Amazonas, a cerca de 300 quilômetros de da capital de Rondônia. E eles não desistem. Viver de música ainda é uma utopia. Mas viver com música, aí meu irmão, você pode chamar. «É melhor fazer música do que fazer assalto, usar droga». Isso é que disse Djavan de Andrade, 22 anos, ou melhor, MC Wanzinho, o maior nome do dance nacional em Porto Velho. Morador do bairro JK, na zona leste da cidade, o cantor conta que tudo começou quando surgiu a oportunidade de gravar a primeira música (Será que ele é ...), em 2002. E eles são abusados, como se fala por aqui. As músicas de Wanzinho retratam o cotidiano, mas sempre com muita irreverência. «Nós já temos tantas tristezas, acho que a minha música é assim, para você dançar, sorrir, se divertir». A música de trabalho do grupo é «Tem que ter motor», que brinca com a velha história de que as meninas preferem os caras que têm carro ou moto, ao invés da galera da bike. Tem que ter motor Eu tinha uma mina E eu gostva muito de ela Ela me deu o fora Só por causa da magrela ... Tem que ter Tem que ter Tem que ter é um motor Pra pegar certas gatinhas Não precisa de amor Mas nem tudo é só graça para esses meninos. A violência é sempre um desafio para quem mora nos bairros mais distantes do centro de Porto Velho. O grupo de Wanzinho já foi vítima deste mal. Em 2004, um dos seus dançarinos foi assassinado. «Nós ficamos desnorteados, não sabíamos o que fazer», conta ele, que deu a volta por cima e não desistiu de mostrar que fazer arte ainda é uma das melhores respostas ao crime. «Enquanto isso eu vou fazendo música», brinca o rapaz, que ainda transparece no sorriso fácil, o jeitão de quem cresceu, mas não deixa de lado o espiríto de criança. Mas olhe lá, não se engane. O sucesso de MC Wanzinho também é resultado das coreografias feitas no palco por Bruno (21), Jacson (19), Guilherme (17) e Cássio (17). Um dos passos que mais chama a atenção nos show é justamente da música «Tem que ter motor». Em um misto de criatividade e equilíbrio, os rapazes formam uma bicleta no palco, com direito a pedal e tudo. Sonho Gravar um CD. Este aínda é o sonho de Wanzinho. Reunir toda sua obra num trabalho simples, capaz de mostrar toda a criatividade da juventude da periferia de Porto Velho. «Nós já juntamos tudo, e pretendemos ainda este ano ir para o estúdio para gravar nosso primeiro trabalho», afirma Contato Quem ainda não conhece o trabalho de MC Wanzinho, pode entar em contato com o grupo por o e-mail: mcpvhwanzinho@hotmail.com ou por os telefones 69 8418 2961 e 69 9959 5527. Número de frases: 45 O grupo ainda não tem site, e, segundo Bruno, ainda estão dando os primeiros passos na Internet. 3º Encontro Ibero Americano de Cineclubes CNC Assinará Termo De Cooperação TV Brasil Canal INTEGRACION Dentro da programação do 3º Encontro Iberoamericano de Cineclubes, o CNC deverá assinar um termo de cooperação com a TV Brasil Canal Internacional, que entre outras coisas, permitirá uma significativa ampliação do acervo da Filmoteca Carlos Vieira. A parceria prevê ainda a possibilidade do Conselho vir a exibir programas produzidos por a própria entidade ou por os cineclubes filiados. Segundo o presidente do CNC, «Antonio Claudino de Jesus A iniciativa atende aos objetivos de ampliação e qualificação do acervo da Filmoteca, abrindo a possibilidade de uma maior aproximação e intercâmbio com realizadores sul-amenricanos, já que a grade de programação da TV Brasil Canal Integración e portanto o acervo que nos será disponibilizado por a emissora, é resultante de uma parceria firmada por dezenas de Tv Públicas e Educativas da América do Sul e Caribe». Ainda segundo Claudino, não deixa de ser significativo o fato do termo de cooperação com a Tv Brasil estar sendo firmado durante o 3º Encontro IberoAmericano de Cineclubes. «O fato apenas reforça a tendência de aproximação do movimento cineclubista com as Tvs e Cinematecas Públicas Iberoamericanas numa articulação que visa ampliar as possibilidades de distribuição e exibição das produções nacionais, que estão via de regra sufocadas por a falta de espaços de exibição em seus própios países. Assim a assinatura deste termo é motivo para comemoração para nós " -- finalizou. Já o secretário do CNC, João Baptista Pimentel Neto chama a atenção para as outras possibilidades de cooperação previstas no convênio. «A parceria abre por exemplo a possibilidade do Conselho roduzir e veicular programas dentro da grade da emissora. Estes programas poderiam ser produzidos por a própria entidade ou simplesmente viabilizar programas produzidos por os cineclubes filiados». «Por outro lado, existe hoje uma vasta, crescente e diversa produção audiovisual brasileira e nós sabemos também, que atualmente, muitos cineclubes, além de se dedicarem a exibição, são coordenados por curta-metragistas, cujas produções acabam sendo apenas exibidas dentro do circuito cineclubista, em mostras e festivais. Assim, talvez o papel do Conselho seja o de apenas articular e viabilizar programas produzidos por os cineclubes filiados, fato que garantiria a veiculação de olhares e produções mais diversas». Falando por a TV Brasil Canal Integración, seu coordenador Adriano de Angelis afirmou ver na assinatura deste termo de cooperação a possibilidade de fortalecer o processo de integração cultural latinoamericana através do audiovisual objetivado por a emissora ao ampliar as possibilidades de exibição do acervo da TV. «Os cineclubes e o movimento cineclubista sempre estiveram presentes nas lutas por a democratização do acesso à informação e a cultura e por isso acho que são aliados importantes na consolidação do processo de integração cultural latinoamericana» -- justificou. A assinatura do termo de cooperação será realizada na abertura do 3º Encontro Iberoamericano de Cineclubes, que acontecerá às 20h30, no Teatro Treze de Maio, em Santa Maria, RS e faz parte das comemorações dos 60 anos da FICC -- Federação Internacional de Cineclubes. O evento conta com o apoio do Ministério da Cultura através da SAV -- Secretaria do Audiovisual, do Santa Maria Cinema e Vídeo, da CESMA -- Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria, dos cinelcubes Lanterninha Aurélio e UNIFRA, do Secretariado Latino-Americano de Cinelcubes-FICC e da FICC -- Federação Internacional de Cineclubes. Patrocínio do Fundo Nacional de Cultura -- MINC. Saiba mais sobre a TV Brasil Canal Internacional A Tv Brasil é resultado de uma iniciativa inédita dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário brasileiros e se propõem a estimular e desenvolver o intercâmbio informativo e cultural entre os países da América do Sul, de forma a atender à cidadania sul-americano seu direito à informação. Dirigido por um Comitê Gestor com representantes dos poderes referidos, a TV Brasil é operacionalizada através da Radiobrás. Primeiro canal público internacional do Brasil, a TV pretende ser uma janela aberta a pluralidade dos olhares e da diversidade brasileira e latino americana. Para maiores informações sobre a TV Brasil acesse http://www.brasiltv.tv.br Visite também o ambiente do Ponto de Cultura Rio Claro Número de frases: 26 http://www.cineclubes.org.br JBPN 2007 Jayme à frente dos Delinqüentes no festival Memorial do Rock Foi em 1986 que Jayme Catarro, até então um menino de classe-média cuja noção do que era rock começava e terminava no heavy-metal, se encantou com o movimento punk e decidiu montar os Delinqüentes, um dos nomes mais festejados e respeitados do rock paraense e um dos inventores da cena hardcore local. São duas décadas de shows memoráveis, confrontos com a polícia, palcos minúsculos, amplificadores vagabundos e troca de integrantes. 20 anos depois de descobrir que podia fazer música mesmo sem saber tocar direito, Jayme e os Delinqüentes se preparam para gravar o seu segundo CD e já podem se dar ao luxo de tocar em lugares maiores, com som decente e uma boa estrutura de palco. Quem conta essa história é o vocalista dos Delinqüentes, que fala ainda sobre a gênese do movimento anarquista em Belém do Pará. Com vocês Jayme Catarro. De menino classe-média a ícone punk, como foi que se deu essa transformação? Já conhecia alguma coisa de rock antes disso? A minha ligação com o punk vem de muito tempo. Eu era bem novo e já curtia alguma coisa de rock. Lembrando que na época não existia no Brasil nem MTV e nem videoclips. Então fui a um show num bairro bem afastado da cidade. O palco foi feito durante a madrugada mesmo. A galera ficou lá se chapando e ouvindo as novidades da época (Venon, Exciter e Metallica) enquanto montava a estrutura para ao show do dia seguinte. Em esse show rolou uma banda que me chamou a atenção, que era o The Podres, embrião do Insolência Públika, considerada a 1ª banda punk de Belém. A identificação veio de cara. Comecei a andar com a galera, mudei meu visual (que até então era de headbanger) e por aí vai. E como tu te envolvestes com o hardcore, o anarquismo e o movimento punk? Isso foi alguns anos depois, na metade da década de 80, quando formamos o movimento punk, que era mais politizado. Fazíamos reuniões sobre anarquismos em praças, colégios e etc.. E, lógico, muitos shows e atos em praças públicas. Quando era adolescente não tive essa fase de andar com mauricinhos, nem nada. Minha moçada sempre foi underground. Como era o cenário rock em Belém nessa época? Era fácil conseguir informações, discos e etc? O pessoal do Insolência tinha contato por cartas (internet, naquela época, nem pensar) com a galera de São Paulo, Porto Alegre, Alemanha e Finlândia. Por conta disso começamos a ter esse tipo de intercambio também. As informações eram escassas e raras, não havia lojas especializadas na cidade, tínhamos que pegar tudo de fora. E pra divulgar nosso som tínhamos que mandar tudo em fitas cassetes, as famosas demo-tapes, que hoje ninguém produz mais. Existia um intercambio com bandas e outros grupos anarquistas e punks foram de Belém? Quais eram esses grupos e bandas? Como falei, era tudo através de cartas mesmo. Em a época do Insolência, eles tinham contato com a galera do Replicantes, do Garotos Podres, com o Cólera e outras moçadas. Inclusive o movimento punk de São Paulo. Já na nossa época (tipo 88, 89 em diante), fizemos muitos contatos com o pessoal do Nordeste. São contatos que duram até hoje, com o pessoal de Aracajú, João Pessoa, Fortaleza. Rola também um intercâmbio com São Paulo e Rio. Só pra tu teres uma idéia, quando saímos em turnê em 2000 por o Nordeste, teve gente em Aracaju que pedia músicas da nossa 1ª demo-tape, que nem eu mais tinha. Essa mesma fita eu consegui recuperar uma cópia de ela em São Paulo em 2002 com um cara que tinha um guardado. O intercambio dessa época tinha esse poder, pois as coisas eram mais difíceis, porém mais valiosas também. E os ensaios? Dá pra imaginar o perrengue que era conseguir instrumentos em Belém nos anos 80 ... Geralmente tínhamos que juntar umas duas ou três bandas para fazermos uma vaquinha para comprar equipamentos e alugar local de ensaio. Não havia estúdios de ensaios profissionais como hoje. E os equipamentos, pelo menos da punkarada, eram pra lá de precários. Mas havia uma garra de querer fazer acontecer a coisa, e acho que isso que era bonito. Fora o rodízio de lugares que já passamos. Acho que a Delinqüentes já ensaiou em quase todos os bairros de Belém. Em essa época, quem abria as portas para o hardcore e o punk rock aqui em Belém? Era fácil arrumar lugar para tocar? Eram raras as casas que nos aceitavam. Foi por isso começamos a fazer nossos próprios eventos. Em o início fizemos muitos shows em centros comunitários e em casas em cima de pontes, em lugares onde não tinha nem saneamento básico. Uma vez colocamos num cartaz: «Foda-se a igreja» e não sabíamos que os donos do centro comunitário eram os padres. Eles ficaram putos e queriam barrar a gente na véspera do show. Só tocamos porque fizemos uma reunião com os líderes religiosos do local para explicar qual era a nossa posição política. Foi nessa época que o movimento começou a se politizar mais, pois procuramos ler sobre aquilo que falávamos nos palcos. Mas houve algumas casas de shows depois, como o bar Celeste, cujo dono era o Rolo, um cinqüentão que já tinha tido uma banda de rock nos anos 60 e ele dizia que entendia nossa situação. Então ele abria as portas de sua casa (que era de MPB) para as bandas de metal e punk da época. Depois houve o teatro Waldemar Henrique, mas isso já é outra história. Foi nessa época que rolou a primeira demo de vocês, a que tu não tinhas mais a cópia. Fala um pouco de ela. Os estúdios eram todos de brega e quando gravamos nossa demo, acho que nem disco ainda havia sido lançado de rock, quanto mais de uma banda de hardcore. Então fomos cobaias do Rato, um batera que está até hoje na ativa e na época tinha um estúdio bem precário. Gravamos as bases lá e os vocais fizemos numa aparelhagem de bar. Como não tinha headphones, ficávamos na sala ao lado com os microfones nas mãos (eu e o Sandro Srur, que hoje voltou para a banda) cantando com os ouvidos na porta, ouvindo as bases por as frestas para ter uma idéia de quando a gente tinha que cantar. Parece piada, mas foi assim mesmo que gravamos. Além dos Delinqüentes, que outras bandas faziam parte do movimento punk / hardcore nos anos 80? Em a segunda fase do movimento na cidade, havia o Contraste Social, a Gestapo, o Anomalia, o Protesto e o Desgraça Periférica. Essas bandas eram todas ligadas ao anarquismo? Pelo menos um integrante de cada banda ia nas reuniões que fazíamos. Éramos muito radicais na época, e quem não participava, não era considerada banda punk. Rolava até boicote aos shows. Existiam bandas que só tocar, sem preocupação ideológica? Sim. Chegamos a discriminar os brothers dos Babiloyds por causa disso. Quando lembro disso ... Quanta besteira. Mas também era bom, pois era diferente de hoje, em que eu não vejo o pessoal fazendo nada. Não nos reuníamos apenas para beber. Fazíamos reuniões mesmo, e de ali saíam os atos, os panfletos, as demos, os shows ... Como foi que surgiu esse movimento punk anarquista em Belém? Tu eras diretamente ligado ao movimento ou se concentrava mais no som? Eu estava inteiramente ligado, embora não tenha sido algo que durou por décadas (como a minha relação com o Delinqüentes, por exemplo). Esse movimento partiu da necessidade natural de nos organizarmos. Não sei como está o movimento anarquista hoje na cidade. Tenho alguns amigos que ainda são, mas não tenho ouvido falar em ações. Mas na época, o anarquismo surgiu do movimento punk e não o contrário, como aconteceu em algumas cidades. Mas éramos muitos jovens e poucos tinham realmente uma identificação real com o assunto. Eu queria que tu falasses um pouco sobre a Morada da Arte. Em a tua opinião qual foi a relevância de ela para a cena underground paraense? A Morada da Arte teve várias fases também. Eu cheguei a ir lá na época que existia um grupo de quadrinhos da cidade, e havia a gibiteca. Foi lá que tive contato com os quadrinhos underground. Essa é uma recordação particular muito boa de lá. Anos depois, foram os anarquistas que tomaram conta da casa, então rolavam alguns atos, haviam algumas festas, como a «noite do vinil», que homenageava aquilo que já se encaminhava para uma suposta extinção. E outras mais. De lá me lembro bem também quando eu estava participando da banda Norman Bates. Foi a estréia da banda num show super precário, com caixas amplificadas, mas significativo e marcante (além de bem barulhento). Esse cenario punk / hardcore ainda existe hoje em dia? Existe em alguns poucos casos, mas na maioria das bandas, isso está adormecido. Fora as bandas que já nascem pensando que punk é aquele cara da MTV que fala de amor em cima de um skate. E ainda tem esse visual new «rebelde» que agora ajudou a confundir tudo. Não sou dos extremos. Acho que um pouco de ideologia pra essa moçada, mas sem o radicalismo que já passamos, não faria mal. Afinal, essa é a base de tudo. Depois do início punk o Delinqüentes aparece nos anos 90 com um som bastante diferente, voltado mais para o metal crossover. O que aconteceu? Mudou a banda ou mudou o movimento punk? Os dois. Várias bandas já haviam feito essa mudança. Não fomos os primeiros. Mas o nosso se deu por um fator natural: as mudanças na banda. Quando o Pedrinho (outro que está de volta) entrou, ele trouxe as influências heavy nos seus riffs e nós achamos legal. Mas o bacana disso tudo é que nossas influências não param apenas no thrash metal, pois aceitamos outras influencias também que se acoplam perfeitamente ao nosso hardcore.. E os fãs antigos da banda? Em o princípio alguns torceram o nariz. Isso aconteceu com bandas como Ratos de Porão e DRI, que também mudaram seu som. Mas os caras que curtiam a gente depois acabaram entendendo, e hoje já aceitam isso como uma grande evolução da banda. Queria que tu falasses um pouco sobre aquela batida policial no Afrikan Bar. Isso te inspirou a compor algumas músicas do Delinqüentes, não foi? Eu fui querer ser sincero com os policiais, que estavam acabando uma festa injustamente (N.E: um dos freqüentadores da festa foi pego com maconha na casa e a polícia acabou fechando o recinto). Fui preso, jogado no chão e passei a noite na cadeia apenas por reclamar de um direito meu e de todos que estavam lá naquela noite. De aí saiu a letra de «Planeta dos Macacos» que retrata bem a nossa impotência diante da «Lei». O que mais te inspira na hora de fazer as tuas letras? A temática punk / anarquista ainda prevalece ou tu vais buscar inspirações em outras fontes? A realidade urbana sempre me fascina, mas qualquer fato pode virar letra. Hoje elas estão mais diversificadas, mas nem por isso menos ácidas e agressivas. Só que de certa forma elas estão mais abertas a outras palavras e frases, o que é bem natural acontecer depois de duas décadas compondo. Como tu analisas o cenário rock paraense nesses 20 anos de atividade? Quando começou tudo era escasso, até os shows, tipo um festival por semestre. Lembro-me da Adega do rei, onde tocava o Mosaico de Ravena, o Metrópolis e outras, todas bandas que eu curtia. As bandas punks estavam totalmente na margem de tudo, a não ser o Insolência Públika, que conseguiu furar esse bloqueio. Em os anos 80 havia o festival Variassons. Em esse o Delinqüentes chegou a tocar. Depois se proliferaram as bandas, veio o teatro Waldemar Henrique (que nos anos 80 e 90 foi a meca do rock local) e as bandas se multiplicaram. Aí rolou o Rock 24 Horas, que acabou em porradaria na sua 3ª edição e tudo esfriou. Foram mais de 10 anos em que o rock estava meio que numa panela de pressão, só esperando a hora para explodir. Agora acho que o momento chegou. Número de frases: 143 www.heniodossantos.com Há algum tempo assisti ao fabuloso filme de Mel Brooks (enquanto ele ainda era o cara), Primavera Para Hitler. Rapidamente procurando na internet aqui está a sinopse do filme achado no site adorocinema. com, " Um desonesto produtor pretende ganhar muito dinheiro produzindo uma peça teatral que seja fracasso de bilheteria, contando para isso com o apoio um escritor neurótico e um diretor louco. Dirigido por Mel Brooks (Banzé no Oeste) e com Zero Mostel e Gene Wilder no elenco. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original." O argumento do filme era básico, um produtor coleta de muitos investidores dinheiro os prometendo os logros dos juros caso a peça se dê bem, mas caso ela vá mal, todos perdem dinheiro, logo se o produtor arrecadar X, gastar na produção da peça X-Y e essa for o fracasso total sem margem alguma de lucro ele sai com Z, o resto que não investiu na produção. A idéia parece genial, pois ao juntar a pior peça, atores insanos e um diretor de quinta a peça não tinha como dar certo ... mas deu. E isso não conta do filme, pois o que conta é ele em si, suas performances, seus diálogos, etc. Ontem, vendo o programa Malhação me deparei com cena inusitada, Priscila (Monique Alfradique) uma patricinha declarada está passando apertos depois que seus pais travaram seu cartão de crédito (sic) e procura de todas as formas ganhar um dinheiro para manter seus cremes, salões de beleza e outros luxos (sic 2 x). Então que o seu pai liga de algum canto do mundo pedindo a ela que fosse até o contador levar uns papéis importantes. Ela como uma legítica Bitencurt não iria se prestar a esse papel e se ela não iria até o contador, este viria até ela. Após tramar algumas desculpas ele vai até a república estudantil na qual ela está instalada. Em uma conversa muito da influenciada e tão natural como refrigerante, ela fica sabendo que ele está no ramo do investimento teatral. E ele lhe explica como funciona a coisa. O produtor teatral reúne todos os investimentos, e produz a peça, escolhe diretor, atores, locação, cenários, etc.. E explica mais ainda. O teatro é um investimento de risco que os investidores nunca sabem se vão ter lucro ou não. «Ué, mas se a peça for uma fracasso?" a loira pergunta, ele incisivo «o produtor já investiu o dinheiro na peça e tudo mais, ninguém ganha nada». Em essa hora eu já sabia o que ia acontecer, mas continuei vendo. Priscila então com sua total falta de conhecimento cinematográfico numa coincidência enorme acaba tendo a mesma idéia que Max Bialystock (Zero Mostel) em Primavera Para Hitler. Alguns dias antes ela teve contato com uma peça escrita por uma de suas professoras e achou o que leu terrível. E agora tudo começava a se encaixar em sua cabeça. Se ela produzir a peça terrível da professora, sem gastar todo o investimento que conseguir arrecadar ela sai por cima da carniça. Como é uma idéia um tanto inusitada para a trama de Malhação, creio que essa idéia inserida foi uma referência direta ao filme, que em nenhuma parte recebe seus devidos créditos. E mais ainda, sabedor dessa triste realidade, não tendo mais como considerar uma homenagem ao filme, só vejo como um plágio descarado e sem firulas da trama de Mel Brooks, que como no filme, adivinha como vai terminar? Só ver Malhação nos próximos dias. Que a equipe que escreve o programa tenha idéias melhores que simplesmente copiar tramas de filmes já existentes. Número de frases: 28 Maestro carioca de música contemporânea e professor da UFMT, Roberto Victório é acima de tudo transgressor. Por isso, é admirado por alunos e estranhado por muita gente O mundo é pop? Arrisco dizer que é pop, é rock, é samba, é tecno, brega, tecno-brega, rap, blues, rasqueado, lambadão e mais uma infinidade de comportamentos culturais-musicais. É erudito também, e alguns grupos estão se movimentando, formando novos atores nesse processo de desenvolvimento de novas linguagens e novos meios de transmissão musical. Sempre indo em frente, embalados nas ondas sonoras de todas as partes desse planeta louco e multifacetado. Em Cuiabá, o maestro carioca de música contemporânea e professor da UFMT Roberto Victório é um legítimo representante das vanguardas musicais -- que, mesmo consideradas anacrônicas por muitos, resistem e avançam. Ele comanda um grupo que atua na formação de novos compositores e novos regentes, valorizando sobremaneira a música erudita e transgressora no que essa prática tem de revolucionária. Roberto Victório é professor titular da Universidade Federal de Mato Grosso e tem um currículo invejável com incrível reconhecimento internacional. Desenvolve um trabalho fascinante em sua atuação acadêmica. Sempre com um forte teor de ruptura. Ele foi maestro da Orquestra Sinfônica da UFMT por um ano. Experimentalista, provocador, compôs e interpretou composições de sua autoria com poesias de Wladimir Dias Pino, Silva Freire e Manoel de Barros. Quebrou tudo com suas partituras de notações malucas. As músicas soaram estranhíssimas aos ouvidos que esperavam Chopin, Bach, Beethoven, Villa Lobos e cia. Roberto disse que foi demitido porque não podia assinar dois contratos com a mesma instituição e não dava para continuar comandando a orquestra sem receber para isso, por a responsabilidade e gigantismo da tarefa. Como não queria interromper o trabalho que realizava no departamento de Música, preferiu a demissão. Uma pena, pois já existiam alguns convites para apresentações na Europa. O grupo pesquisa e compõe músicas nas mais variadas formações e estilos: eletro-acústica, viola caipira, duos, trios, música de câmara, cameratas. Eles deram início à Bienal de Música Contemporânea em Cuiabá que terá sua segunda edição em 2006. É importante salientar que têm surgido bons compositores aqui em Mato Grosso, criadores de algumas obras musicais já interpretadas em outros estados brasileiros no circuito de música contemporânea. A Orquestra de Câmara do Departamento de Artes da Universidade Federal (UFMT), por exemplo, é resultado dessa ação. A orquestra vem desenvolvendo um trabalho incansável de formação de novos regentes, além de se apresentar para públicos das mais novas gerações difundindo a música de concerto. É coordenada por Beth Alamíno, que, segundo «Roberto Victório» é uma compositora de raro talento e criatividade», e tem na regência a maestrina carioca Flávia Vieira, que trabalhou anteriormente com o maestro no Grupo Música Nova na Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente leciona na UFMT. Um time de peso que está colocando Mato Grosso nos trilhos da vanguarda. Ainda que tardia. Mas qual é mesmo o tempo certo? Número de frases: 28 Edson Strafite, jornalista responsável por a revista Buttman, da famosa produtora de filmes pornográficos de mesmo nome, concedeu-me por e-mail esta entrevista sobre a indústria de filmes adultos no Brasil. A produtora internacional atua há mais de 15 anos no Brasil, vende mais de 30 mil DVDs por mês no país e é a que mais lança filmes no mercado nacional, mais até que as produtoras de filmes convencionais. A produtora também mantém a revista, com tiragem de 40 mil exemplares, e o canal a cabo, Buttman TV. Em as respostas, Strafite -- jornalista formado por a Universidade Tuiuti, de Curitiba, e à frente da revista da produtora há três anos -- ensina o melhor caminho caso você queira se aventurar por o mundo das produções eróticas. A entrevista foi publicada originalmente num de meus sites. como se tornar ator de filmes pornográficos? Sempre que candidatos ou candidatas telefonam, a primeira coisa que pergunto é a idade, pois apenas passamos as informações e trabalhamos com pessoas maiores de idade. Eles devem enviar fotos de rosto e corpo, sem roupa, para avaliação. Recebemos uma média de 15 cartas por semana, sendo que 90 % são de candidatos rapazes. Tem teste? Não!!! Há «lendas» sobre estes famosos testes. Mas aqui, e mesmo nas outras produtoras sérias, isso é papo furado. A avaliação é por fotos. Para uma garota entrar no mercado basta ser bonita. Ou seja, não é necessário teste. Claro que é necessário ver o corpo, mas nada além disso. Já para os rapazes é bem mais difícil entrar no mercado, pois a «ação» de eles é diferente em cena. Os produtores e diretores preferem sempre trabalhar com atores conhecidos ou com rapazes indicados. Quais são as características básicas necessárias para o ator? Para ser ator é fundamental ter mais de 18 anos e conseguir ter ereção em cena, num estúdio onde estão aproximadamente três pessoas além de ele e da garotas ou garotas. Não sofrer de ejaculação precoce, beleza, também ajuda e ter um pau de pelo menos 18 centímetros. Essas características mudaram muito ao longo do tempo? Não. Houve períodos em que era normal ter rapazes com cabelos compridos em filmes e garotas com cabelão armado. Hoje está tudo básico. Qual costuma ser a origem dos atores? Via de regra são garotas que já trabalham como acompanhantes. Ou são funcionárias de diversos segmentos. Como as atrizes são encontradas, selecionadas e contratadas? As garotas são apresentadas para o agências ou indicadas por as próprias atrizes. Existem garotas que procuram a produtora para se candidatar aos trabalhos também. A seleção é feita por foto. Sempre. Depois disso, se a garota é iniciante, conversamos com ela, explicamos como o trabalho acontece. Sempre é bom saber sobre as experiências sexuais anteriores das garotas. Por exemplo, se ela curte beijar ou transar com outras mulheres, se já fez sexo anal ... É possível um ator viver só de filmes pornôs? Sim, mas como em qualquer outro tipo de trabalho, depende. Pois o cachê do elenco é por cena. Se gravar muitas cenas vai ganhar bastante ... e aí depende do custo de vida desta pessoas. Aparece muita gente sem noção se habilitando para o cargo? Diariamente. Tem homens gordos (todos mandam fotos), peludos, anões, caras com pau muito pequeno, banguelas. Vários tipos bizarros. Muitos atores tomam viagra ou outro medicamento para estimular e manter a ereção? Raramente os atores usam estimulantes em nossas cenas. É mais comum acontecer em cenas com travestis. As produtoras já vêem o público feminino como mercado ou ele não é representativo? É um público que cresce regionalmente, mas não se compara ao público masculino. Em lugares como Bahia e Minas por exemplo, cresce muito o consumo de produto erótico por o público feminino. A produção brasileira como um todo está deixando de ser precária? Todos nossos vídeos são captados em câmeras HD (High Definition) desde o fim de 2005. Usamos nossa própria iluminação, temos fotógrafo, diretor, maquiador, assistente de produção desde o início da produtora, há mais de 15 anos. Os salários dos atores está em que faixa? Salários de homens e mulheres têm diferenças? Cachê feminino por cena, entre R$ 1.000 e R$R$ 3.000. Cachê masculino por cena, entre R$ R$ 500 e R$ R$ 1.000. É verdade que há atores que chegam a trabalhar de graça só para poderem fazer parte da produção? Não, aqui nunca houve cena sem contrato e cachê. Como anda a camisinha na indústria pornográfica brasileira? O mercado não absorve mais os filmes gravados com preservativo. Nossas produções, brasileiras ou americanas são sem camisinha. Como os atores se comportam em relação a isso? É um mercado pequeno. Quase todos se conhecem. Eles são obrigados a fazer exames todos os meses, embora cada exame seja válido por 3 meses. O público brasileiro é muito diferente do público europeu e do americano? É possível identificar características básicas desses três públicos? Sim. Aqui o que mais vende filme é mulher bonita e gostosa de bunda como a Monica Mattos, a Ju Pantera, a Morgana. Número de frases: 70 Em a europa, o que mais vende são as garotas peitudas e sem silicone. O «Ilustre Escultor Mineiro» «Aleijadinho». * Elmara Helena Silva O Barroco foi um movimento que propunha resgatar fiéis para a Igreja Católica devido ao movimento de Contra-Reforma. Teve seu início em Roma entre 1600 e 1750. Posteriormente espalhou-se por a Europa chegando à Espanha e Portugal. O estilo barroco chega ao Brasil por as mãos dos colonizadores, sobretudo portugueses, leigos e religiosos. Seu desenvolvimento pleno se dá no século XVIII em Minas Gerais. As primeiras notícias da fé cristã na região das Minas ocorreram no fim do século XVI. O maior expoente em Minas é Antônio Francisco Lisboa conhecido por a alcunha Aleijadinho em razão de uma doença degenerativa que o acometeu por volta dos 50 anos de idade. Com a corrida por o ouro, em 1699 é descoberta a região de Ouro Preto por a bandeira de Antônio Dias. A tranqüilidade das aldeias indígenas ali encontradas com a descoberta do ouro modificaria totalmente o cenário. Em os sertões mineiros surgiriam «as vilas do ouro» destacando Mariana, Sabará, São João Del Rey e Vila Rica. Uma característica que marcou a religiosidade mineira foi a proibição por o governo real da entrada de padres e do clero regular e ordens religiosas para não interferir na administração da atividade aurífera. Couberam as irmandades e confrarias a construção das igrejas. A rivalidade serviu como alimento para a criação artística. Em decorrência floresceu a possibilidade de artistas e arquitetos se expressarem e diferenciarem seus estilos. Foi nesse contexto dinâmico que Aleijadinho nasceu. A data de seu nascimento é tema de muita controvérsia adotando-se a data de 29 de agosto de 1738. Filho de Manuel Francisco Lisboa, arquiteto português e de uma de suas escravas, a negra Isabel, o mulato «Aleijadinho» e sua mãe foram alforriados por o pai no ato do batismo. Desde a infância e também na adolescência aprendeu diversos ofícios trabalhando com o pai no canteiro de obras. Posteriormente o pai o encaminharia para os estudos no Mosteiro onde prestava seus serviços. Junto aos frades foi sendo alfabetizado e também o aprimorava profissionalmente. Outra forte influência que recebeu veio do mestre João Gomes Batista. A morte do pai influenciaria em sua obra como também lhe renderia amadurecimento e responsabilidade total na execução das encomendas. Concretizaria assim, sua fama de escultor, arquiteto e entalhador em toda a região das minas. A pedra-sabão que antes era utilizada na região para confecção de vasilhames nas mãos de Antônio Francisco teve fins escultóricos: Uma Revolução Artística. Executou obras importantes nas cidades da região: Vila Rica, Mariana, Sabará, São João Del Rey e Congonhas do Campo. Os traços característicos das obras são baseados no constante contato com a hagiografia e a leitura bíblica, que nos momentos de martírio da doença se apegava. A religiosidade junto ao sofrimento culminaria na obra de Congonhas do Campo encomendada por um mineiro em pagamento de uma promessa. De 1800 a 1805 esculpiu os 12 Profetas de Congonhas para o adro do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. Em a maciez da pedra-sabão retrata perfeitamente uma sociedade que ali se estabelecera. Encerra-se o ciclo do tão sonhado tesouro. Em os anos posteriores realiza mais alguns projetos para algumas igrejas, repentinamente perde a visão e a doença acelera. Em 18 de novembro de 1814, entrevado numa cama e frente a um crucifixo roga a morte. Falece Aleijadinho. Um exemplo de superação e inovação deixando um legado para Minas Gerais e para a humanidade. * Elmara é Graduada em História, artista plástica e colaboradora do Fanzine Episódio Cultural. Ela autorizou a divulgação do seu texto, o qual foi publicado na sétima ediçâo do fanzine. Número de frases: 41 Um passeio por os sebos de São Luís do Maranhão. Entre tradição, modernidade, paixões e idealismos, a resistência de um ofício -- infelizmente -- quase em extinção. Andar por São Luís é, por si só, um passeio ao passado. Se por um lado a cidade tem uma das mais novas frotas de veículos do país, por outro, o Patrimônio Histórico da Humanidade, título outorgado à Ilha há quase dez anos, conserva -- às vezes nem tanto assim -- os imponentes casarões de séculos passados. Outrora Atenas Brasileira. Hoje, em crise de identidade, a capital maranhense quer saber se é Jamaica -- Ilha do Reggae, apregoam os aficionados por o gênero musical -- ou «apenas» brasileira. As tradições literárias da capital maranhense vêm diminuindo pouco a pouco. É cada vez menor o interesse por livros, é cada vez mais difícil a publicação de obras por aqui, ao menos com o apoio de uma das esferas de governo. Os idealistas, utópicos -- tolos, diriam outros -- resistem. Para os apaixonados, restam oásis neste imenso deserto: entre o mofo de velhos volumes, a paixão dos proprietários, boas doses de conversa e outros prazeres quase em desuso, os sebos resistem, apesar do cenário adverso. São Luís é um sebo, vários sebos São Luís Se em São Luís convivem harmoniosamente -- mas nem tanto -- tradição e modernidade, o mesmo acontece com os sebos da Ilha. Hoje, eles já não se resumem ao «pó, poeira, ventania» -- como canta Lô Borges numa canção não sobre sebos -- e misturam-se a locadoras de dvd e cibercafés. Curiosos foram os fatos que batizaram alguns becos de São Luís, de nomes curiosos, redunde-se -- Quebra-bunda, caga-osso -- os sebos também têm, em sua origem, suas curiosidades: «caga-sebo era, no século passado, o nome que se dava aos vendedores de livros usados. As livrarias em que são vendidos volumes em segunda mão são ainda hoje chamadas sebos, mas os vendedores passam a ser sebistas», nos conta Magalhães Júnior, em seu «Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos (1974)», citado por Márcia Cristina Delgado em sua» Cartografia sentimental de sebos e livros (1999)», obra não por acaso, comprada por um dos repórteres num sebo. Um giro por os sebos da Ilha Indagada sobre há quanto tempo está no ramo de sebos, Raimunda do Nascimento Prazeres, sócia do Bonanza, na Avenida Magalhães de Almeida, Centro, não sabe precisar: «faz muito tempo. O meu marido, Antonio Prazeres, lembra que começou com o sebo nos moldes que está hoje, ainda na década de sessenta, quando ainda era adolescente». Com aproximadamente quatrocentos livros, de seu acervo particular, José de Ribamar Silva Filho, o Riba do Poeme-se, entrou no mercado há dezesseis anos. Em o formato «loja», é o mais velho da capital. O acervo cresceu e soma hoje mais de 30 mil volumes e cinco mil cds, principalmente de música maranhense. O sebo, que atende em dois pontos -- Praia Grande e Rua do Sol -- é também um aconchegante cibercafé. Farmacêutica com mestrado em Parasitologia e especialização em Entomologia, Moema Alvim trilhou caminho parecido com o de Riba: ao se aposentar como professora da Universidade Federal do Maranhão, abriu o sebo como passatempo, há 14 anos. «Nós temos cerca de 12 mil livros, três mil cds e sete mil elepês. Como professora, eu viajava muito, e também não podia comprar livros em livrarias. Aí comecei a freqüentar sebos e fui acumulando muitos livros. Quando me aposentei, não quis ficar parada», conta ela, que contabiliza, de seu tempo como sebista para cá, a abertura de aproximadamente 20 Unidades de Ensino Superior e o fechamento de sete livrarias na capital maranhense. Entre os sebos de São Luís, o Chico Discos -- que é também locadora de dvd -- é o caçula. Seu proprietário, Francisco de Assis Leitão Barbosa, que todos conhecem apenas por Chico ou Chiquinho, é um apaixonado por artes: literatura, cinema, música. Com o vasto acervo de discos, livros e dvds que tinha em casa, montou seu espaço, na Fonte do Ribeirão e hoje, com apenas um ano e meio, já é uma referência. Lá são realizados saraus, exibições de filmes para os freqüentadores mais assíduos e, atualmente, escritores maranhenses reúnem-se por lá para formular propostas de políticas públicas para a literatura, a serem entregues ao novo Secretário de Cultura do Estado, quando o novo governo tomar posse. Etimologia dos sebos O Papiros do Egito ganhou esse nome por ter funcionado inicialmente na Rua do Egito (Centro. O nome permanece, apesar das mudanças de endereço: após passar por a Rua dos Afogados, hoje está na Rua da Cruz. Em o primeiro endereço, funciona hoje uma espécie de filial, voltada apenas aos livros didáticos-escolares, sob a administração de Josilene, ex-funcionária de Moema, que não opina sobre o funcionamento da casa, apenas indicando-a aos insistentes que teimam em querer vender-lhe livros escolares. Sobre livros escolares, Chico tem opinião formada: «Dá dinheiro, mas é um trabalho muito chato. às vezes as pessoas compram errado, querem trocar, é uma dor de cabeça danada». Os últimos volumes que ainda lhe restam, são vistos à entrada do sebo com uma placa indicando preços que oscilam entre R$ 0,50 e R$ 0,99. O batismo de seu sebo-locadora traz uma historinha hilária. «Ia ser Cine Discos, eu já tinha até mandado fazer a placa, quando o poeta Dyl Pires disse: ' Não, rapaz, não bota não. Bota Chico Discos '. Aí eu botei. Quando eu fui mandar fazer os recibos, a pessoa disse que deveria ser ' Chico's Discos '. E eu disse: ' Rapaz, não. Eu sou só um '», conta-nos entre risos. O Poeme-se de Riba traz este nome herdado do grupo de poesia do qual o poeta -- adormecido, tem na gaveta o inédito «Poema Completamente Inacabado» -- fazia parte nos idos anos oitenta, que agitou a cena literária, com algum barulho e eco, em São Luís do Maranhão. Os idealistas Entre diversos aspectos que podem ser determinantes para a formação do acervo de um sebo, destacam-se a rotatividade e a raridade da obra. Em o Chico Discos, é fácil se deparar com um disco interessante, e quase sempre difícil, e ouvir como resposta para a pergunta «quanto é?», um «esse eu não vendo». O que não vende, Riba deixa em casa, em sua nada pequena coleção. Moema Alvim acha que quem está (e resiste) no ramo de sebos é um idealista. Indagada sobre o mercado sebista de São Luís, responde, enfática: «É péssimo! Péssimo e não só para sebos: é para livros. Os grandes empresários abrem franquias de roupas, tênis, móveis. Mas quem abre uma livraria é um idealista, que vai ficar com livros acumulados». Idealista, utópico, sonhador, teimoso. Em o sábado em que a reportagem passou por o Papiros do Egito, Moema contabilizava: dois clientes, até ali, quase meio-dia. Um chato cobrava um cheque: tinha, cedo, deixado uns livros ali. O repórter acabou saindo com dois discos de Egberto Gismonti nas mãos. Perfis O perfil dos freqüentadores de sebo muda pouco de uma casa para outra. Estudantes, professores, jornalistas, colecionadores. Hoje é possível encontrar quem vá a um sebo acessar a internet, tomar cerveja, café ou locar dvds. Há também quem vá procurar o último best-seller da moda, após ver um livro citado em algum programa de televisão ou na lista dos mais vendidos de alguma revista. «Há clientes que não sabem procurar livros em sebos. Dão o título dos livros como se estivessem numa farmácia, entregando uma receita ao farmacêutico. O grande charme dos sebos é atirar no que se vê e acertar no que não se vê. As pessoas vêm procurar determinado título e acham outro, que às vezes já buscavam há tempos», conta-nos Moema, entre metáforas e risos constrangidos, fazendo aí um paralelo entre os sebos e as esquinas virtuais dos hipertextos. Raimunda Prazeres, do Bonanza, perfila seus clientes: «Nós temos todo tipo de clientes, desde colecionadores, estudantes universitários, pais de alunos do ensino fundamental e médio, até aqueles que compram apenas revistas usadas. O que é engraçado é que há pessoas que vêm aqui com vergonha de serem vistas comprando em sebo». Vergonhoso é, arriscamos, identificar-se como parte dessa triste estatística sebística. Guia -- Para mais, vai lá! Bonanza -- Av.. Magalhães de Almeida, s / nº. Centro. Chico Discos -- Rua do Ribeirão, 319, Centro (Fonte do Ribeirão). Papiros do Egito -- Rua da Cruz, 150, Centro. Fone: (98) 3231-0910. Poeme-se -- Rua João Gualberto, 52, Praia Grande. Fone: (98) 3232-4068. Rua do Sol, 451, Centro. Fone: (98) 3221-1869. Home-page: http://www.poeme-se.com.br Número de frases: 96 Colaboraram: Luiz Henrique Silva e Ricardo Milan. São 14h50, cerca de 30 mulheres, cada uma com uma lata de tinta na mão e uma idéia na cabeça. Em o dia 31 de março, grafitts feitos por mulheres estão no muro da Previdência Social de frente ao viaduto Angelo Gaiarsa, em Santo André. Grafiteiras passam a realidade do dia-a-dia, com toques de «amor e ódio». «Muita mulher passa para o desenho o sentimento reprimido, passar realmente o que sentimos», diz Liliana Pereira. Desenhos sobre amor, sexo, família e problemas sociais é o que mais expressa os sentimentos dessas mulheres. Algumas já são mães e além do desenho há a preocupação com os seus filhos. De cada grafitt pronto percebe-se o olhar sério da grafiteira, analisando o desenho, vendo a obra pronta, o que aquilo que foi desenhado pode significar. O futuro? «Não consigo dizer se esse desenho que terminei é sobre o futuro, não vejo o futuro como tempo distante, acredito no meu agora», fala Carol Carvalho. Outro fato importante em ver as mulheres grafitando foi notar o interesse dos homens por o que está sendo realizado. Os grafiteiros dão a maior força para as meninas, dão toques sobre os desenhos, tipos de cor na pintura, são considerados integrantes principais para as produções dos grafitts de elas. «Não vejo eles como inimigos, tudo que sabemos até agora devemos a eles, não há concorrência, eles respeitam os nossos desenhos e nós os de eles, Crivelari Andrez. As mulheres estão influenciando as novas gerações com as pinturas, os irmãos Jonathan Furtado e Agatha Furtado, ficam ao lado da mãe desenhando heróis, " não forço as crianças a nada, desde muito pequenos eles me vêem desenhando quadros, mais como hobby e hoje eles estão aqui me ajudando no graffit, conclui Cibele Furtado. Número de frases: 14 Trocando em miúdos ... O vídeo-documentário sobre a Praia da Pipa tem o intuito de divulgar como, em poucos mais de duas décadas, a acanhada vila de pescadores tornou-se um dos principais destinos turísticos do Brasil. A narração histórica é sustentada sob alguns discursos: o relato de historiadores, «estrangeiros» e de antigos moradores. Estabelecidos os fatores determinantes para mudanças socioespaciais bruscas, parte-se para a análise crítica dos benefícios e prejuízos oriundos da atividade turística. De entre os aspectos negativos trazidos com o dito progresso, tem-se o intuito de destacar no vídeo o fato das tradições locais estarem em processo de extinção, sendo gradativamente suplantadas por os costumes cosmopolitas. Finalizado o documentário, a exibição para a comunidade é a última e principal ação empreendida no trabalho. A divulgação entre moradores, comerciantes e visitantes pretende levar informação e gerar uma consciência coletiva que garanta a atratividade e, sobretudo, a sustentabilidade da Praia da Pipa. Complicando um pouco ... Fundamentalmente, desde seu viés metodológico, este trabalho procura contribuir com uma reflexão sobre a urbanização acelerada, a especulação imobiliária, a descaracterização do lugar, a mobilidade social dos moradores da Praia da Pipa. Esta pesquisa, animada por a existência de poucos trabalhos contemporâneos sobre a localidade, deixa de lado as formas tradicionais e clássicas de coleta de dados e procura diálogos, pontos de convergência e novos métodos de aproximação com outros territórios, de maneira especial o cinema e, mais especificamente, o documentário. O ensaio áudio-visual propõe enfocar o universo das narrativas orais e imagéticas em torno da Praia da Pipa. Em termos de abordagem, a entrevista é o carro-chefe, revelando o ímpeto de «dar voz», de abrir os microfones aos atores sociais, opção que tem correspondente, de forma latente, à menor participação de voz over interpretativa ou totalizadora, interrogando-lhos efeitos do real que lhe são apresentados. Em outros termos, através das narrativas dos ' contadores ', ou sujeitos retratados, se pretende acessar o imaginário coletivo em torno de diversas circunstâncias, criando um canal de expressão para grupos sobre os quais pesava uma identidade social imposta e abstrata -- ou a invisibilidade. O documentário busca seu tema através do recorte mínimo, a expressão autêntica e singular de cada elemento. Além das narrativas, a exploração imagética da paisagem estará presente como um dos eixos centrais, desempenhando um tipo de metalinguagem em relação aos depoimentos das personagens do documentário. Personagens As personagens dessa narrativa audiovisual se configuram em importantes fontes de pesquisa, na medida em que externam suas percepções e idiossincrasias a respeito da historiografia da região. Suas declarações nos ajudaram a compreender uma pouco melhor a dinâmica da Praia da Pipa, geografia essa, marcada por mudanças físicas, sociais e, sobretudo, culturais. Zilda Marinho, rendeira, 73 anos. A os sete anos, ao observar o bordado de sua mãe, ela aprendeu sozinha o primeiro ' ponto ', o chamado «olho de pombo». Daí em diante, a famosa «Dona Zilda» passou a entrelaçar com maestria os fios que depois de meses de trabalho viram almofadas, colchas e vestidos. Por ser uma das poucas rendeiras de bilro na Praia da Pipa, ela acabou se tornando mais uma atração turística. João Peixinho, pescador, 74 anos. Tendo o ofício de pescador desde criança, João Peixinho acompanhou as mudanças ocorridas com o a pesca de subsistência. Ele aponta a diminuição do número de ' homens do mar ', como uma causa das supostas facilidades que a Praia da Pipa foi adquirindo com o passar no tempo. Domitila Castelo, ex-professora, 84 anos. Membro da família Castelo, uma das primeiras a povoarem a região da Pipa, Dona Domitila foi a primeira professora nascida na Praia, sendo responsável por a alfabetização de muitos moradores. Ela conta sobre as lendas existentes na região como o Lobo-homem, Batatão e Caipora. David Husset, Coordenador do Santuário Ecológico. Encantado com a fauna e flora local, no final da década de oitenta, o inglês David Husset adquiriu uma área próxima à Praia da Pipa, transformando-a no Santuário Ecológico, local onde a mata atlântica é preservada. Aberto a visitação, em ele existem dezenas de trilhas e alguns mirantes de onde se têm as mais belas vistas da região. Francesco Delvederi, empresário, 55 anos. O italiano Francesco conheceu a Praia durante suas férias no verão de 1994. Atento à capacidade de desenvolvimento do local, em 1999, Francesco montou uma restaurante de comida italiana na Pipa. Casado com uma brasileira, Francesco fala sobre as motivações que o fizeram mudar da cidade de Roma para o lugarejo praiano. Márcia Nascimento, Coord. Ong. Núcleo Ecológico da Pipa, 43 anos. A jornalista e fotógrafa Márcia Nascimento trocou a vida agitada do Rio de Janeiro por a tranqüilidade que a Pipa oferecia no início da década de 90. Ela acompanhou nos últimos 15 anos, as mudanças ocasionadas por o aumento do turismo da região. Atualmente, Márcia é Coordenadora da Ong. Núcleo Ecológico da Pipa, instituição que busca discutir a cadeia produtiva da Praia. Clique Aqui E Acompanhe O Começo. Número de frases: 43 A poesia de Manoel Ricardo de Lima agora circula por as páginas de As mãos, último livro do autor, de 2003, editora 7 Letras. Uma novela em que Manoel nos conta com simplicidade uma história que pode ser de amor (ou de uma outra coisa qualquer). Uma história que repousa no diálogo e no singelo entrelaçar das palavras. Uma prosa de fim de tarde, embalada por uma rede, olhando o horizonte muitas vezes obstruído por as edificações das cidades contemporâneas. O leitor, se tiver vontade, pode se inserir no universo proposto por o autor ou, simplesmente, se retirar sem nem ao menos ter feito parte de ele. Um alguém, um outro alguém, um sentimento, um lugar, uma casa, uma rua, uma cidade que podem ser qualquer cidade (rua, casa, lugar, sentimento, outro alguém, alguém ...), pois a história não tem endereço. O texto não cria raízes. Os personagens não têm nomes. ( As coisas não são nomeadas ou, porque não, são nomeadas diferentemente). Passam por nós despercebidos como uma história qualquer que observamos num lugar qualquer e logo nos esquecemos onde a presenciamos, mas não nos esquecemos de ela, da história, talvez, o que (menos) interessa. É isso que permanece no texto de Manoel. Permanece a história. Permanece a poesia. Permanece o sentimento, não como presença. Simplesmente, ausência. Lembranças, suspiros, soluços ... chego a pensar em solilóquios que insistem em futricar a razão. O livro começa «entre paredes» e finda na percepção de que " Lá fora ( ...) não existe mais». «Não durmo, logo não acordo» (29). «Perdi necessidade de nome ..." e " A cidade ostenta a causa maior da minha dor ..." ( pg. 29) diz o autor, que parece precisar tocar a cidade que, por sua vez parece refutar qualquer tipo de aproximação, quanto mais um toque. É como se o autor não se contentasse com um simples olhar e buscasse algo mais, que me parece, tão somente, se aproximar. Mas a cidade, enrijecida por a modernização, violentada por o tempo, parece refutar qualquer tipo de aproximação. O texto nos deixa com a impressão de que a cidade não se permite mais. Alguém poderia perguntar, não se permite mais o quê? Não se permite e pronto. Simplesmente, tensão. As mãos de Manoel são calejadas por uma leitura da cidade em perspectiva, todavia, no texto do autor, a mesma aparece quase como um pano de fundo. Quem sabe o autor queria mesmo acabar com a perspectiva, para que a cidade existisse apenas no tempo, dentro, sem geometria ou cartografia, apenas a do olho, que está turvo, embaçado por a isenção. É isso que acontece, a cidade pode até nos saltar aos olhos, mas não se identifica, não se apresenta, não diz quem é, nos deixa com a impressão que pode ser qualquer cidade de qualquer canto deste país. Desta forma, o leitor pode ler o livro como se fosse a sua própria cidade e, se não gostar do que lê, não se identificar, pode, tão somente, abrir mão de ele (a). Agora, se localizar e se identificar com o texto, um lembrete: «O que nos é real, talvez seja, ao menos, uma ilusão de fato» (21). Por sua vez, se não o localizar, não tem problema, pode ser porque é «Tudo difícil, turvo, embaçado, como achar o outro em lados estranhos que parecemos estar agora» (11). Talvez um «lugar amorfo» (11). No entanto, não te esqueça que, por mais estranho que pareça, como nos diz o autor,» ... orávamos, não para deus, mas orávamos ..." ( 30), quem sabe, por ti ... Manoel, para quem não conhece, nasceu em Parnaíba-PI, morou muito tempo em Fortaleza-CE e hoje é professor substituto na Universidade Federal de Santa Catarina, na qual faz o Doutorado em Teoria Literária. Antes de lançar As mãos, havia publicado Embrulho (poemas, 7 Letras, RJ, 2000), Falas inacabadas -- objetos e um poema, com Elida Tessler, artista plástica (Torno editorial, RS, 2000) e Entre percurso e vanguarda -- Alguma poesia de Paulo Leminski (ensaio, Ambulante, SP, 2002). Número de frases: 43 Coçando o Saccro é uma peça pra dar dor de barriga de rir. O elenco que segue o consagrado estilo Clube do Bolinha, é composto por um monte de mulecotes abusados. As esquetes trazidas por eles brincam principalmente com religião e ciência e são de provocar problemas intestinais em todos os públicos (ok, aqui talvez possamos excluir as velhinhas dos teatros da Brigadeiro). Essa tal ousadia «unânime» tem cara de grupo iniciante, que dá a cara pra bater e ainda se diverte com isso. Mas, neste caso específico, iniciante em termos: o Olaria Grandes Bosta está exercendo sua função laxante, por meio do riso, há mais de seis anos. Vamos à história. Bem, não vamos. Não espere por um eixo central, um fio condutor, uma linha narrativa. Não. Só o que você vai encontrar é o diabo /demo/cuzaruim, numa tentativa de ligação entre os pedaços de encenação. Apesar de muito divertido, o chifrudo não consegue cumprir plenamente essa função e a montagem fica meio «descolada», no sentido de cola mesmo. Tipo Tenaz. Relevando a falta de acabamento das cenas, que parecem ser feitas sem muito perfeccionismo (o que, aliás, pode ser proposital, num tom desleixado que combina, de fato, com o que é mostrado), é imprescindível ressaltar a capacidade criativa dos caras. Tomando a TV como referência -- tanto sua linguagem quanto alguns de seus programas -- o Olaria consegue tirar algum proveito de quadros tristes de tão malfeitos, como o Teste de Fidelidade, atração que compunha o programa do caricato João Kléber, da Rede TV. Mais impressionante do que isso, o grupo consegue deixar engraçado um dos grandes favoritos a programa de comédia mais sem graça de todos os tempos: a Escolinha do Professor Raimundo. Peço perdão a quem gosta do Chicão, mas a transformação do professor que ganha pouco em füher caiu como uma luva. A maior parte das cenas é completamente apoiada em preconceitos já consolidados na sociedade. Em essas, vale zoar gays, japoneses de pinto pequeno, judeus, nerds. No entanto, quando você pensa em começar a xingar os atores de segregacionistas malditos, eles apresentam um preconceito menos comum, tão limitado e generalista quanto os outros, claro, mas muito original quando recriado naquele contexto: o preconceito contra os advogados, numa improvável cena de uma célula eucarionte que resolve sair de casa para se formar em Direito. De essa forma, expõem e riem dos critérios sociais bizarros que geram os preconceitos mais radicais e utilizam com leveza o potencial crítico imensurável do que é risível. Sacadas como as citadas acima somadas a efeitos simples e inteligentes, como um «rewind» numa cena em que Judas está lavando roupas no rio, nos obrigam a voltar as atenções ao trabalho do Olaria e torcer pra que eles continuem criando e consigam basear seus vôos criativos em temas menos batidos. E aí, depois de muito praticar, quem sabe eles consigam parar de rir de si mesmos. Número de frases: 24 Mas, claro, só enquanto estiverem em cena. A o som da Família Lima, São Luís do Maranhão completa 394 anos. Com ou sem motivos pra comemorar. A cidade de São Luís amanheceu de ressaca. E ressaca não no sentido geográfico, do encher e vazar da maré, que a gente vê da rampa Campos Melo. É duro aniversariar após um feriado nacional. Começou a encher a cara às 18h, fim do expediente, do dia 6 de setembro, em botecos espalhados por a Madre Deus, entre os paralelepípedos do calçamento da Praia Grande -- que uns insistem em chamar «Reviver», nome de um projeto de recuperação do Centro Histórico, ainda inconcluso, tantos anos depois --, em barzinhos da moda (ou nem tanto) ilha afora / adentro. São Luís emendou a farra com o feriado da Independência. É sempre assim: meninos e meninas desfilam no «Anel Viário»,» orgulhosos " das escolas onde estudam e tiram boas notas. Em o Grito dos Excluídos, movimentos sociais reivindicam causas justas. E São Luís pedia mais uma dose de sua cota etílica, como o poeta, compositor e professor universitário Joãozinho Ribeiro, sobre Amália, sua mãe -- São Luís, sua filha, irmã, cúmplice enfim --, em «Paisagem Feita de Tempo», poema-livro declaração de amor por a Ilha: «mamãe bebendo tiquira / na quitanda de Seu Biraci, / Após deixar / Dia-após-dia / Sua quota de mais-valia / Em os teares de Santa Isabel», fábrica têxtil que já não existe. E, ao receber os convidados, São Luís estava de ressaca, quiçá ainda bêbada, e mais bebia, que era (seu) dia, e a Ilha-menina, hoje já nem tão rebelde quanto lhe apregoa a alcunha, merecia. Merece! Jornais diários traziam cadernos coloridos, azulejos bonitos com mais cores que qualquer soma de arcos-íris pós-chuva ou sol, que o tempo doido (e às vezes doído) de São Luís do Maranhão nunca sabe (nos) dizer se é inverno ou verão (e mais estações não temos). Propagandas gritavam o amor de empresas, empresários, políticos e similares espécies por a Capital do Estado do Maranhão. Encartes contavam histórias da Atenas Brasileira, já rebatizada por os regueiros que a povoam, de Jamaica Brasileira. E tantas vezes nos perguntamos: será, agora, São Luís, «Apenas» Brasileira? As propagandas da Prefeitura Municipal mostravam os feitos do grupo que gere a cidade há dezoito anos. São Luís, maior de idade, Ilha-moça -- virgem, não mais --, completará 400, em 2012. «O rato roeu a razão, roeu o rumo, o riso " Com frases assim, acompanhando os roedores, a artista plástica Marlene Barros presenteou São Luís: doze bustos de ratos -- animal asqueroso por natureza -- ocuparam o lugar dos bustos de (em ordem alfabética, como manda o figurino) Arnaldo Ferreira, Arthur Azevedo, Bandeira Tribuzi, Clodoaldo Cardoso, Coelho Neto, Corrêa de Araújo, Dunshee de Abranches, Gomes de Castro, Gomes de Sousa, Henriques Leal, Humberto de Campos, Maria Firmina dos Reis, Nascimento de Morais, Raimundo Correia, Silva Maia e Urbano Santos, letrados que conferiram (conferem?) à Ilha de São Luís o epíteto (hoje contestado, como já dito) de Atenas Brasileira. Os bustos dos intelectuais, de bronze, foram retirados da Praça do Pantheon (no Centro da capital maranhense) em agosto de 2005, a pedido do então presidente da Academia Maranhense de Letras, Jomar Moraes. A idéia era protegê-los da ação de vândalos, restaurá-los -- o mau-trato por o tempo já era grande -- e devolvê-los à apreciação da sociedade. Marlene Barros criticou a falta de espaços para exposições em São Luís e fez um duplo protesto, com arte e inteligência. Ludovicensidades (ou O que é ser ludovicense) Upaon-Açu. Quem tem uma relação afetiva com São Luís, chama-a assim e sabe o que isso significa, é um autêntico ludovicense, «título» dado aos que nascem na Ilha. Quem já se emocionou ouvindo músicas como «Panaquatira», de» Sérgio Habibe, Ilha Bela», de Carlinhos Veloz, ou «Ilha Magnética», de César Nascimento, declarações de amor à Ilha Grande (Upaon-Açu), idem. Quem já foi à Litorânea (o nome de um político vivo, dado à Avenida, nunca «pegou» para a população, que também só chama a ponte entre o Centro e o bairro do São Francisco de Ponte do São Francisco) para fazer caminhadas, andar de bicicleta, tomar cerveja e / ou comer arroz de cuxá (mistura de farinha seca, camarão e vinagreira, erva típica local). Quem conhece o sabor -- e admira, além da estranheza da cor (de rosa) -- do guaraná Jesus. Quem sabe o que é (e já dançou, mesmo que nas festinhas de escola no ensino fundamental) cacuriá, tambor de crioula, bumba-meu-boi, quadrilha. Quem sabe cada significado da (mesma) expressão «hein». Quem, voltando de Alcântara, acha a vista de São Luís, da lancha, a oitava maravilha do mundo. Quem etc. O poeta e jornalista Celso Borges, radicado em São Paulo desde 1989, confessa atualmente uma vontade de voltar à Ilha natal. Ele acaba de lançar «Música» livro-disco com 25 poemas-faixas e mais de cinqüenta participações especiais, entre maranhenses ou não. Há, ali, tanto elogios quanto críticas à Ilha que o pariu, na Rua da Paz, paralela à sua maior via comercial: a Rua Grande (ou Osvaldo Cruz) -- outro símbolo de ludovicensidade. «Vivi 30 anos em São Luís», diz o poeta aos 47." Minha alma é toda formada por a cidade: memórias, infância, pessoas, família, três filhos, tambores, amigos, becos, batuques, vento, claridade». Prossegue, admitindo uma relação nada fácil com a cidade: «Ora profundamente próximo, ora muito distante. Recarrega e descarrega a bateria. Muitas vezes me sinto estrangeiro. Duas cidades dentro de mim. Tudo muda quando desembarco aí. O cheiro, o intestino, o coração, tudo vira pelo avesso. Dá muitas horas de conversa». Fiquemos, pois, por aqui. E, claro, com sua poesia, em «São Luís: segundo movimento», poemúsica do livro-disco novo: «cidade dos azulejos / ilha minada de lodo por todos os lados / nos mirantes rachados / nos casarões desabados da Praça João Lisboa / nos condomínios fechados da cidade nova / nos outdoors da Avenida dos Holandeses / nas cadeiras, poltronas do Teatro Arthur Azevedo / na Litorânea que ri do mar à sua frente / nos olhos d' água da praia do Olho dÁgua / na correnteza do Anil, o Tejo d' aldeia». Prova inconteste de que o ludovicense, distância e tempo, não esquece / esqueceu os detalhes de uma São Luís ao mesmo tempo feia e bela. O «festejo» oficial A cidade de ar provinciano ouve, quando em vez quase sempre, a reclamação de sua jovial turma: nada há para se fazer. Embora borbulhem, para quem sabe procurar, atrações para todos os gostos. Ainda mais em se tratando de data festiva, São Luís, 394 anos. Se Os Foliões -- tradicional bloco carnavalesco -- batucavam para um lado fazendo a festa para a Ilha, barzinhos fervilhavam como se aquela fosse uma noite comum. E não era? Ao menos havia a desculpa do envelhecimento da única capital brasileira fundada por os franceses, como outrora gostava de apregoar um apresentador de televisão, hoje candidato a deputado. A festa «oficial», no entanto, aconteceria na Praça Maria Aragão, da bela arquitetura de Oscar Niemeyer, o homem que construiu» A Capital Federal», título de peça teatral de ilhéu ilustre, Arthur Azevedo, que batiza um dos mais belos e antigos teatros brasileiros. Chiquinho França e Eliésio do Acordeom, não necessariamente nessa ordem, abririam a noite, representando a porção maranhense da festa para os ludovicenses. O guitarrista, a certa altura, parece alfinetar: «Temos que mostrar nossa música, pois aqui tem muita coisa boa». Parecia uma provocação -- não era -- por o fato da Prefeitura Municipal ter organizado, através da Fundação Municipal de Cultura, uma comemoração em que a atração principal era a Família Lima, grupo que comemora dez anos de carreira e aproveitava para pisar pela primeira vez o solo da cidade aniversariante. O colunista social Bruno Leone, descendente de italianos, aprovou a idéia: «Eles são maravilhosos; ótima idéia tê-los trazido», disse, sobre a vinda da família musical. Opinião diferente tinha o ator " Urias Oliveira: «O Maranhão tem tanta gente boa ... Dava pra ter feito uma festa só com valores nossos, inclusive para além da música, mesmo que trouxessem nomes nacionais, maranhenses que fazem sucesso lá fora, como ano passado», lembrando o, à época criticado, Tecnomacumba, novo show apresentado por Rita Ribeiro; na ocasião, também apresentou-se em São Luís a paraibana Elba Ramalho. Quantos poemas foram paridos naquela noite de oito de setembro, com, sem ou apesar da música? A lua cheia dividia o espaço com os postes que iluminavam o público: casais de namorados de mãos dadas, ambulantes aproveitando para ganhar um extra, barracas vendendo cervejas e comidas típicas, flanelinhas disputando carros e motoristas. O povo tomava conta da Praça Maria Aragão e do gramado que a separa da Gonçalves Dias, defronte à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Indagada, ainda cedo, sobre ir ou não ir ao show por o aniversário de São Luís, a radialista Jackeline Lima saiu-se com esta: «De família Lima, basta a minha». Número de frases: 81 Contarei agora o que acompanhei nas últimas três semanas até a realização dos dois dias de shows do festival que considero (e muitos concordam) o mais importante da região Norte. De três edições, a primeira que participei. A idéia era fazer, além das resenhas sobre as bandas, uma cobertura que levasse em conta o comportamento da platéia e seu interesse por as artes integradas exibidas no espaço dos shows. Tudo isso já estava de bom tamanho para o meu talento observador e minha escrita convencida de quem acha que entende alguma coisa, não fosse a oportunidade de assistir de perto ao trabalho intenso da equipe de produção. Uma conversa rápida por MSN e pronto: estava na reunião da produção de conteúdo do Varadouro na sede do Catraia Records. Faltavam poucos dias para os shows e nesse tempo «produção de conteúdo» era o que todos respiravam, pensavam, agiam. Volta um pouco Começou com o «Guerrilha», um festival embrião que integrou a cultura alternativa do Acre e Rondônia. Em o ano seguinte, ficou mais sério. Um grupo de amigos -- artistas, músicos e produtores -- que participou do Guerrilha idealizou um festival que reunisse somente bandas independentes do estado e demais regiões do país, além de exposições de outros trabalhos artísticos como zine de poesias, fotos e vídeos etc.. Para isso articularam-se com o Circuito Fora do Eixo e o Espaço Cubo e ajudaram a fundar a Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Nascia no Acre o Festival Varadouro. As bandas locais, nesses três últimos anos, cresceram em número e em qualidade de composições próprias, o que também gerou um público específico bastante interessado e até um pouco exigente. Mas não quero enfadar a todos com digressões sobre ação artístico-cultural e reação do público, até porque posso ficar presa aos lugares comuns tão bem usados em textos sobre música e não chegar a contar como foram as duas noites de «roquenrol» tão esperadas por aqui. Em a produção Contei umas sete pessoas que fariam as resenhas, duas que fariam os ensaios fotográficos, mais quatro que trabalhariam com a divulgação nas rádios (spots e entrevistas). Perdi a conta dos que cuidariam das páginas na internet. Havia ainda quatro cubistas com planilhas e idéias que iam desde a disposição dos palcos até uma maneira prática de contar o público, já que a entrada era livre. Pessoas da Fundação de Cultura cuidaram da produção dos folders, assistência às bandas e gerador de energia ... Haja trabalho! Dava uns 30 voluntários só na organização. Vale dizer que a expectativa para o festival era grande. Descola um patrocínio daqui, uma ajudinha de ali, faz um milagre para dar passagens e estadias às bandas que virão só por o prazer de mostrar sua música em outro lugar e torce para que não chova em dois dias de outubro na Amazônia! Primeiro dia Choveu. Cancelado o campeonato de skate que aconteceria antes dos shows, corre para cobrir os palcos e não deixar que o atraso chegue a três horas. Quem disse que para dar certo tem que ser perfeito?! Acreano não tem medo de «pé d' água», não se via um guarda-chuva aberto. Enfim, estava tudo muito normal até o som começar. A banda que abriu o show foi a de heavy metal Survive / AC -- as resenhas das bandas estão aqui -- e foi quando vi que nada seria comum a partir de ali. A platéia gostou demais, alguns pingos não poderiam incomodar um público alternativo. Em a seqüência veio Escalpo / AC, a banda meio punk do meu bairro; Recato / RO, apresentada por Diogo Soares como " os garotos recatados com uma sonoridade melancólica "; Lord Crossroad / MT, que trouxe um pouco da cultura do Centro-Oeste; o estilo banda de garagem da Tetris / AM; a despretensiosa Filomedusa / AC que traz a voz relaxante da Carol Freitas; Superguidis / RS; as poesias musicadas dos Camundogs / AC e a apresentação efervescente de Madame Saatan / PA, última banda nem um pouco pouco cansada da noite. Segundo dia Não choveu. O som começou cedo com a Marlton / AC; passou para o «rock ' n roll sem frescuras» da Mr. Jungle/RR; fez acalmar com as doces «meninas e um menino» da Blush Azul / AC; Nicles / AC; os exorcistas Ludovic / SP, até que veio -- e vou levar um tempo nessa -- Mapinguari Blues / AC, banda veterana de Rio Branco com uma levada gostosa assumidamente ao estilo Steve Ray Vaughan e grande intimidade com o público. Os músicos estão juntos há onze anos e posso dizer que suas apresentações não estão limitadas apenas ao som: «Salvem o Judia! Está agonizando e é nosso patrimônio», dizia o vocalista cheio de indignação. Concordei com gosto, lugar e hora ideais para invocar a consciência ambiental. O Quarto das Cinzas/CE foi, para mim, a melhor banda da noite. Sua vocalista encarna Afrodite e canta «Circulares» com Diogo Soares de uma forma envolvente e bela. Depois se junta à platéia para assistir ao vocalista dos Los Porongas / AC ser «cortante como a lâmina da língua» e homenagear a banda Capú, pioneira em música autoral no estado do Acre. Los Turbopótamos, banda peruana, fechou o festival com um " viva a integração da América Latina!" O Varadouro 2007 terminou com um novo passo de seus idealizadores que é criar o Coletivo Catraia -- grupo de pessoas que curtem os movimentos independentes, gostam de escrever sobre música e tem como objetivo consolidar a cena acreana das bandas e das artes. A idéia é agregar o maior número de parceiros dispostos a trabalhar na produção de festivais, exposições e shows sem precisar convocar voluntários para cada evento. Atitude louvável e que estou certa de que trará ótimos resultados. Quero deixar aqui meus sinceros elogios a essa equipe sensacional de artistas, universitários e interessados que realizaram mais um festival magnífico, tendo que trabalhar contra o tempo e a custos mínimos numa demonstração de eficiência e cumplicidade que vi poucas vezes. Não cito nomes porque todos são heróis. Saudações amazônicas! Número de frases: 60 Você já foi a Bahia, nego? Assim perguntou o saudoso Ary Barroso. A cidade da Bahia, cresceu aos olhos do Brasil, sua marginalidade, seus carros, sua história, suas ruínas são vistas e revistas, por poucos, que tentam prestar um pouco mais de atenção na bela cidade, crescida a partir do mar e construída com o suor negro e sofrido dos baianos, que ainda buscam um bom lugar ao sol. Número de frases: 3 O que marca na Bahia, é a sua inegável herança africana, está no povo, na religião, nos costumes, na comida e no jeito de ser, que de preguiçoso não tem nada e temos é muito trabalho, sobretudo a maioria pobre e negra. As plantas são muito importantes na decoração de Natal. Muitos não sabem mas a escolha das espécies está relacionada a simbolos tradicionais do Natal, como a árvores, as estrelas, as bolas vermelhas, etc.. Este artigo dá uma ajudinha aos jardineiros amadores a se inspirarem na escolha das plantas. Veja aqui! Número de frases: 5 Por alguma razão, sempre achei que Uberlândia fosse um pouco o túmulo do rock. Especialmente em contraste com outras cidades da região, as atividades roqueiras por aqui nunca tinham me chamado muito a ateção. Araguari, por exemplo, situada a exatos 29 kilômetros de Uberlândia, sempre teve uma vocação mais rock, com uma profusão de bandas não só de metal, mas também experimentais e «indie». Uma das explicações possíveis para isso é o fato da cidade ter servido de experimento para o governo federal no final dos anos 80. Não sei bem o porquê, mas Araguari foi escolhida como a primeira cidade do Brasil para receber um sistema de TV a Cabo, ainda em caráter experimental. O resultado disso foi bombástico. Quando as primeiras transmissões da MTV ocorreram em 1990, foram assistidas ao vivo e a cores por toda uma geração de araguarinos. Considerando-se que na época apenas três canais de televisão eram recebidos na região (Globo, Bandeirantes e Manchete -- nada de SBT ou de Record), o resultado foi impactante. Isso conjugado com a disponibilidade de uma série de canais estrangeiros (o início da Guerra do Golfo também foi assistido ao vivo através da CNN), acabou trazendo um certo cosmopolitanismo para a cidade, que acabou se refletindo na sua cultura jovem. A o sair para uma «balada» em Araguari na década de 90, era flagrante a diferença do tipo de música que se ouvia na cidade em comparação com outras da região. Uberlândia, nesse mesmo período, firmava sua imagem nacional de capital do pagode, especialmente por a emergência do Só Pra Contrariar, capitaneado por o carismático Alexandre Pires. Além disso, mostrava sinais de vitalidade também com relação ao metal, talvez o único estilo musical realmente universal no mundo de hoje, presente desde o Triângulo Mineiro até as províncias mais obscuras da Índia. Em essa área, destaque para o Sarcófago, venerada banda de death metal uberlandense, autora de canções como The Black Vomit e Deathrash. A banda alcançou um certo destaque nacional e internacional, um pouco na esteira do sucesso do Sepultura, mas inegavelmente também por mérito próprio, como sua estética radical (roupas de couro e aparelhos ortodônticos nos dentes). Pano rápido. Estamos em fevereiro de 2007. Fico sabendo que no dia 14 haverá em Uberlândia uma edição do Grito Rock, o incrível festival simultâneo espalhado por diversas cidades brasileiras na época do carnaval. Desconfiado, vou ao site do evento procurar qual a programação na cidade. Resultado: nada. Todas as cidades tinham confirmado suas programações, mas Uberlândia não. Mais desconfiança. Aproveitando as matérias sobre o Grito Rock no Overmundo, posto comentários em pelo menos duas perguntando se alguém sabe me dizer qual a programação do Grito Rock em Uberlândia. A resposta chega quase que imediatamente, dizendo que o melhor é aguardar mais um pouco que a programação seria confirmada através do site. A desconfiança aumenta ainda mais. Poucos dias antes da data marcada para os shows, leio no jornal Correio de Uberlândia que a programação tinha sido confirmada. As seguintes bandas estão escaladas: Dia 14 de Fevereiro Juana Barbera Porcas Borboletas (de Uberlândia) Asthenia (MT) Dia 15 de Fevereiro Mersault e a Máquina de Escrever (Goiânia) 1 Bando e o Fim da Quadrilha Nanji (de Uberlândia) A notícia é dada por a jornalista Adreana Oliveira, que escreve a coluna Giro Indie no jornal Correio de Uberlândia. Em a mesma matéria, a colunista Adreana informa estar de malas prontas, já que optou por assistir ao Grito Rock em Cuiabá em vez de permanecer em sua cidade de origem. Minha desconfiança atinge níveis perigosos. Chega o dia 14 de fevereiro e me dirijo à Universidade Federal, onde estão programados os shows. Minha expectativa não é das maiores. Talvez um evento para alguns gatos pingados que não sabem muito bem o que está acontecendo, num lugar pequeno, algo mais para o lado mambembe. Quando finalmente chego, percebo que as coisas estão animadas. A Juana Barbera está no processo de tocar suas duas últimas músicas, para uma platéia de cerca de 400 pessoas, todas animadíssimas. Por o pouco que consigo pegar do show, trata-se de uma banda legal, cantando em português um rock viajante e alto. Por a reação do público e por o tamanho da fila da cerveja, vejo que a festa está boa. Fim do show da Juana Barbera. Mais gente chega. Calculo que o público atingiu seu ápice com cerca de 700 pessoas aguardando ansiosamente o show dos Porcas Borboletas, sem nenhuma dúvida a banda mais esperada da noite. Enfrento a fila da cerveja por cerca de 30 minutos e me posiciono estrategicamente em frente ao palco aguardando o início. Bastaram cinco minutos de apresentação para que toda a minha imagem de «túmulo do rock» associada a Uberlândia caísse por terra. Tenho em casa o CD dos Porcas Borboletas, mas nunca tinha visto uma apresentação da banda (apesar de saber que causam boa impressão por todos os festivais que passam). A música de eles cava um buraco direto dos anos 70 para os anos 2000, com uma estética divertidíssima. O público fica cada vez mais animado a cada música nova. O baixista da banda, tocando um seríssimo baixo de seis cordas, vestindo camiseta vermelha e camisa verde, em estilo Napoleon Dynamite. Percebo em certo momento um coro de veneração a ele, puxado por parte da platéia, que por alguns momentos o chama de «gênio». Constrangido, ele muda momentaneamente de lado do palco. Impossível não notar também os dois vocalistas de estética indescritível, uma mistura de indie-índio (um de eles combinava um calção estilo adidas, do mesmo tipo muito apreciado por vários povos indígenas da amazônia, com um colete marrom de inspiração claramente «mod», bem britânico / britrock). O momento do ápice vem quando a banda canta «Cerveja», com sua divertida letra: Melhor chorar: «Amor, acabou a cereveja!" do que " Cerveja, acabou o amor!" A platéia canta e pula juntinho e o show prossegue até que a banda é convocada ao bis, onde para felicidade geral manda mais duas músicas. Fim da desconfiança: aquilo era um show de rock e dos bons, acontecendo para uma platéia bem grande, no meio da Universidade Federal da Uberlândia. Noto gente de todos os tipos na platéia. Não só universitários, mas faixas etárias diversas, garotos e garotas que estão ali por a paquera, alguns metaleiros, alguns indies e uns poucos (muito poucos) emos. Ou seja, rock funcionando de verdade. Andando por o lugar, esbarro numa amiga de faculdade, excelente fotógrafa profissional, que não via há bastante tempo. Conversa vem e ela me diz que deixou SP e o Rio e se mudou definitivamente para Uberlândia. Não deixo de notar uma satisfação inegável na afirmação. Pergunto se ela está gostando de morar aqui depois de tantos anos fora e ela responde entusiasticamente que sim. Pergunto se ela vai voltar no dia seguinte, para assistir ao show do Nanji e das outras bandas. Ela diz: não sei, shows como esse acontecem toda semana por aqui. Eu arregalo os olhos, surpreso, e decido não perguntar mais nada. Já entendi porque ela está feliz em Uberlândia. A cidade está cada vez mais legal. Número de frases: 75 De meados do século XIX até o início do XX, um grupo de homens de vida nômade aterrorizou as estradas de terra batida do Nordeste. Temidos e respeitados por onde passavam, os cangaceiros acabaram se tornando ícones da cultura local. A partir da tentativa de resgatar a memória de um período histórico que contribuiu para a construção da identidade do povo pernambucano, a Fundação Cultural Cabras de Lampião criou o Centro de Estudos e Pesquisa do Cangaço (CEPEC), no último dia 15, na cidade de Serra Talhada, Sertão do Pajeú. Funcionando com recursos próprios e visando arrecadar material relacionado ao tema, a organização lançou uma campanha de doações. «É mais importante dispor a todos o material do cangaço. Não adianta nada ter uma foto ou livro histórico que ninguém possa ver ou estudar. Assim, esperamos que sejam doados diversos materiais que contribuam para o toda a população», disse o presidente da Fundação, Anildomá Williams de Souza, 44 anos. Desde pequeno, a paixão por o cangaço o fez colecionar livros, documentos, tudo que pudesse encontrar sobre aquela época, quando o banditismo social era uma forma de reação à miséria e repressão dos vaqueiros. Partindo de seu material pessoal e de doações de moradores de Serra Talhada, na rua Cornélio Soares nº 254, foi instaurado o CEPEC, também conhecido como Museu do Cangaço. O local abriga uma biblioteca com mais de 350 livros, teses de mestrado, além de uma exposição com 300 fotografias raras e inéditas. Entre as preciosidades do acervo, há inclusive radiografias da cabeça de Lampião, Corisco e Maria Bonita, e o laudo da causa da morte de eles, cedido por o Instituto Médico Legal de Alagoas. Além disso, o espaço, instalado no antigo Salão Paroquial da Igreja Nossa Senhora do Rosário através de um aluguel de R$ 200, também consta com 500 títulos de literatura de cordel. «Não conheço outro lugar como este no Brasil, somos pioneiros», se orgulha William, autor de 4 livros. A Fundação Cultural Cabras de Lampião também mantém a casa do cangaceiro que lhe dá nome como um museu a céu aberto. Com recursos próprios e apoio de comerciantes da região, o Sítio Passagem das Pedras, onde morou a avó de Virgulino Ferreira, dona Jocosa, foi completamente restaurado em 2001. «O objetivo é estimular os visitantes e fazer com que eles se sintam como na própria época do Cangaço», explicou Anildomá. Os interessados podem contribuir com a campanha e o acervo do CEPEC por o telefone (87) 38312041. O correio eletrônico é o cabrasdelampiao@bol.com.br. O período se encontra imortalizado por obras da literatura, como «O Cabeleira, de Franklin Távora e Lampião», de Rachel de Queiroz. Número de frases: 17 Já no cinema, o cineasta baiano Glauber Rocha retratou as ações do «Diabo Louro Corisco, em» «Deus e o Diabo na Terra do Sol», de 1964. O sim por o não. O não por o sim. Assim eu prefiro: tudo subvertido. Para o senso comum, que não entende as entrelinhas, mais pareço uma aberração. Minhas idéias e concepções a despeito da sociedade em que vivo não coincidem com as de pessoas que vivem uma vida ao sabor do acaso -- não tão acaso assim -- da decisão alheia sobre o que é certo ou errado. Eu prefiro caminhar com minhas pernas, guiadas por minhas escolhas pessoais, agüentando firme a conseqüência de minha opção. Fujo do caminho tradicional, abrindo a golpes de facão uma nova trilha em meio a consciência da humanidade. Ignoro os caminhos deixados no chão. Essas trilhas são seguras demais pra mim. Aliás, eu prefiro caminhos sem chão, sem noção de espaço, sem noção de tempo. Odeio a pressa sem sentido da cidade. Onde as pessoas geralmente encontram a certeza eu só vejo dúvida. O que as torna feliz, me entedia. Onde normalmente procuram proteção eu sinto solidão. Suas respostas surgem como fonte dos meus maiores questionamentos. Mas essa vontade que as pessoas têm de ser mais do mesmo, de seguir tradições, também não é problema, apesar de não servir como solução para os meus problemas. A escolha de parâmetros para a vida deve ser pessoal e não cabe a ninguém julgar tais preferências. Deve-se viver e deixar viver. Ser e deixar ser. Esse é o fato que me impulsiona a buscar o diferente, o não convencional e os conseqüentes desafios que suscitam. Com a liberdade que todos podem usufruir. Quando descubro novas alamedas, por mais tortuosos que pareçam esses caminhos, eu me sinto mais íntimo de mim mesmo. Algo auto-afirmativo, às vezes doloroso, mas sempre recompensador. As diferenças entre eu e os outros fortalecem o meu eu. É como se eu estivesse lapidando minha alma, manufaturando um diamante do mais alto valor. Não esse valor monetário que estimula a concorrência ambiciosa, fetichista dos gananciosos miseráveis. Trata-se de um outro valor, muito mais significativo e enriquecedor, escondido nas pequenas coisas da vida, na satisfação dos gostos pessoais. Como aquela que sinto ao admirar as verdadeiras obras de arte, expressões tão claras da alma humana. Cada nova abstração, cada sensação, cada interpretação, cada descoberta afinal. São milhões e milhões de opções espalhadas em cada alma ao redor do planeta e, apesar dos códigos comuns da linguagem humana, cada alma é uma. E só uma. Cada ser humano é um universo isolado dentro de si. Por outro lado o contato social direto possibilita novas descobertas com a transmissão de impressões e concepções, que cada indivíduo acumula dentro de si, adaptando-as a seu próprio entendimento e logo as retransmitindo com um novo formato. Entender e aceitar essas diferenças e o que elas somam a nossa alma é o fator essencial do espírito coletivo e social humano. A chave de uma vida mais justa para todos. E esse reconhecimento é que possibilita a criação de laços entre grupos. E a formação de grupos é primordial para a busca do espaço a que todos têm direito desde seu nascimento. Contudo, vejo que a verdade não está na palavra, instrumento de interligação entre indivíduos. A verdade está no corpo biológico, nas vísceras. As palavras causam medo, geralmente mentem, distorcem e não são suficientes para refletir toda a substância da alma, dos sentimentos. Eu prefiro as mensagens misteriosas escondidas atrás das pupilas, esses buracos negros, caminhos intransponíveis para dentro desses diferentes universos. O calor do corpo. O odor. As vibrações do coração, ora lentos e sensíveis, ora arrebatadores. Assim como a respiração, o ar que toma os pulmões e volta para a atmosfera, a sensação de pertencer a natureza. A massa trêmula de prazer, de medo, de alegria. A ansiedade que esmaga o estômago. O âmago. As entranhas. Em as reações naturais do corpo está a verdade do ser, que ao mesmo tempo carrega o mistério maior, a pulga atrás da orelha da razão humana. E não há como desvendar esse mistério gerador da incerteza, tão boa de sentir. Geradora dos mitos! As reflexões despertadas por a dúvida sobre a dádiva. Nasce a confusão mental provocada por as idéias racionais humanas e suas mais variadas concepções, desde as mais autoritárias, fascistas, que tentam impor verdades padronizadas até as mais libertadoras e tolerantes. A viagem do pensamento bombardeado por disputas ideológicas, imagens, sons, lembranças, esperanças, propagandas. Não há como existir paz no meio de tantas perspectivas bloqueadas por a concentração do conhecimento, a manutenção da ignorância. O saber parece não ter força para pular os muros das Universidades (Universidades?). O pensamento não deve ser limitado, delimitado, padronizado. As alternativas pessoais, que não têm como objetivo prejudicar os semelhantes, mas apenas a própria satisfação e o prazer, não podem ser classificados como certo ou errado. Falta reflexão sobre o conhecimento e as possibilidades revolucionárias esmagadas por a ignorância dos falsos intelectuais, pop stars que vivem no interior da Academia, necessitados de reconhecimento inútil. Falsos comunistas, falsos socialistas, falsos liberais! As ideologias que sustentam essas utopias aparentam ser as maiores mentiras já inventadas por a razão humana em nome e a serviço da busca e manutenção do poder. Ninguém pode mais que ninguém! Em a verdade uns mentem mais que outros, apoiados por suas próprias verdades ignorantes e miseráveis. Os homens ainda vão entender que não são mais que manifestações da vida da terra. Que todo o alimento vem da terra. Que tudo que ingerimos volta para a terra. Que todos os seres vivos vem da terra e voltarão para a terra. Mesmo que as mãos e as habilidades humanas modifiquem quase tudo que tocam, tudo vem da terra. Essa que nos cospe e depois nos suga. De a terra nos alimentamos e de ela somos o alimento. A energia não pára em nós. A energia passa por nós. Por isso, ainda serão os homens capazes de entender que não há necessidade de escravidão, de trapaça, de mentira. O verdadeiro conhecimento que liberta deve estar disponível a todos, sem exceção. Número de frases: 77 Leonardo André é estudante da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e colaborador do Pula o Muro. Grito Rock no Acre, marcado para acontecer no dia 19 de fevereiro traz também bandas que estão surgindo no cenário local, como a Marlton, ex-banda Afasia. Em uma noite dessas, via google talk, o Diego Dito vocalista da promissora Marlton concedeu entrevista que segue: A pergunta clichê do momento: por que vocês mudaram de nome? Além de já existirem varias outras bandas espalhadas por o Brasil com nome de Afasia, a formação também esta totalmente diferente. As músicas novas e a sonoridade mudaram bastante, questão de influência e tudo mais ... Juntando tudo isso, vimos a necessidade de mudar de nome, pois a identidade já tinha mudado totalmente.. Você fala de influencias, quais são as influencias da Marlton? Somos 5 caras. Cada um tem suas influências pessoais, mas apenas 2 compõem na banda. Eu e Rodrigo. O Rodrigo tem várias influencias do metal. Isso dá um peso nas nossas músicas, uma coisa mais progressiva ... Eu, tenho influencias do metal, mas também de rock nacional, principalmente do rock mais atual Então a gente jogar tudo isso nas nossas músicas, tenta mesclar riffs com terças e notas com oitavadas bem trabalhadas ... As letras, bem tem que ter sentimento, são feitas com sentimento, nunca algo vazio. Me fala desse processo de produção. Como é isso? ... Pra fazer as melodias, a gente usa um programa chamado Guitar Para o. É um programa que simula instrumentos em formato midi. A gente tem a idéia do que fazer e então joga lá no Guitar Para o. Quanto às letras é coisa de inspiração mesmo. Surge uma idéia, ai sento e escrevo. às vezes de uma conversa, as vezes, de historias que estão se passando com a gente ou com pessoas conhecidas. Rola uma identificação do publico com as letras porque na maioria das vezes são historias que podem acontecer com você, com qualquer outra pessoa. Me dá um trecho de uma musica ... Você vai dizer Vai me procurar Tentar encontrar alguma coisa Em meu coração. Mas não vai achar, Acho que passou Você não notou Quando o meu peito era escuridão. Não quero mais lembrar do tempo em que eu era cego Não posso mais sonhar com ti E se sonho Eu nego Como estão os ensaios, quando e onde vocês ensaiam? Bom, bom os ensaios estão indo bem. Em a verdade melhor do que o esperado. Estamos ensaiando todas as segundas, quartas e sextas no estúdio do Catraia *. Até o festival Grito Rock estamos na correria, por que queremos mostrar as musicas novas, apenas as novas, então temos que ensaiar bastante pra poder fazer um show de impressionar. A Marlton tem alguma idéia de gravação, de ir para o estúdio em 2007? Sim, sim! Em a verdade estávamos programando gravar 3 músicas no mês que vem. Só que ai entrou o grito rock na nossa agenda. Íamos voltar aos palcos somente em março, mas como o Grito foi uma coisa muito boa para a gente, então mudamos de idéia. Vamos adiar as gravações para o mês de março. Ou quem sabe até mesmo no final de fevereiro. Tudo depende da empolgação. E a empolgação pode vir junto com a do publico no grito rock? com certeza ... esperamos uma aceitação boa. pelo menos, estas são as expectativas! estamos bem confiantes ... as musicas estão bem legais.. do jeito que a gente quer! e pra isso ... estamos ensaiando bastante! madrugadas acordados compondo! sdiuashd mas no fim, tudo vale a pen! pena * Os músicos da martol tem que idade? entre 16 a 18 anos. novos ainda. hehehehe acabei de atualizar o flog O que vc penso sobre o circuito fora do eixo? vejo que é essencial que as bandas ' rejeitadas ` da grande mídia possam se unir em busca de um ideal convergente. que no caso é poder mostrar seu trabalho para o maior número de pessoas. já diz a máxima, ' unidos venceremos ' música independente vai na contra-mão da ' cultura de massa '. prezamos por a qualidade musical e não por a aparência e quanto você pode render financeiramente. não somos produtos de prateleira, somos obras de arte para serem analisadas e apreciadas ... não simplesmente vendidas.. ( estúdio do Selo Fonográfico Acreano Catraia Records em parceria com a Banda Camundogs disponibiliza o espaço a um preço simbólico para que as novas Bandas possam ensaiar) «Diego DiTo» -- Vocal Rodrigo Oh -- Guitarra André -- Guitarra Gênesis -- Contra-Baixo Número de frases: 81 Rafael «rafifi» -- Bateria O dia: 16 de dezembro de 1991. O Espaço Cultural 92º abria a sua porta na rua Visconde do Rio Branco, no pacato bairro Mercês, em Curitiba. Sob o comando de JR Ferreira, o lugar virou uma concentração de shows de bandas locais, nacionais e até do exterior para um considerável público que não pagava (e não paga) caro para curtir a noite. O porão ficou conhecido como o mais underground da cidade. Não é pra menos. Ali muitos grupos subiram pela primeira vez no palco e tiveram a oportunidade de mostrar seu som a uma fervorosa platéia. Até quem era de outros «palcos» do Brasil estiveram tocando no bar como os roqueiros Raimundos antes mesmo de serem conhecidos por o país. E o reflexo do 92º não parava por aí: mais de oitenta bandas internacionais já tocaram no bar, entre elas a americana Fugazi. JR, como é mais conhecido, diz que a casa surgiu devido a um espaço desativado. «Ali funcionava uma lavanderia, fechou e então abri o bar». Se por um lado a barulheira era aclamada por aqueles que estavam dentro do ambiente, o mesmo não podia ser ouvido -- e apreciado -- com tanto entusiasmo por quem morava nas proximidades do 92º. «Começamos a fazer muito barulho e os vizinhos não gostaram da idéia». Três anos foi o tempo que o bar teve o endereço na Visconde do Rio Branco. Logo depois, JR e suas parafernálias tiveram suas instalações por alguns meses na Alameda Cabral. Agora o 92º está num espaço maior e com uma acústica mais apropriada para não vazar o som para fora do ambiente no bairro Alto São Francisco. Em esta casa é possível notar (e sentir) desde a entrada a filosofia que o 92º quer passar desde sua estréia há dezessete anos: com fotos de bandas, adesivos, iluminação, palco, o bar em si, tudo dentro no lugar ferve rock ' n ' roll. Pra quem sempre esteve em contato diretamente com o barulho: «Meu primeiro emprego foi numa loja de música como atendente», JR vive hoje de produções, locações de som e do próprio espaço 92º. «Outras atividades no bar ajudam a manter a casa como oficinas de teatro, por exemplo», conta o proprietário. A palavra-chave para conseguir deixar as portas abertas do bar há tanto tempo, JR responde na lata: «Comunicação é ponto para eu conseguir chamar as pessoas para o 92º, sempre buscando novas idéias para renovar a casa e agregar os amigos é o que faz a coisa ir para a frente», diz o dono que logo brinca puxando a sardinha para o seu lado: «E ainda posso tomar cerveja de graça! Brincadeira». (risos). Se é árdua a batalha para ecoar o som do bar, JR diz que compensa o sacrifício de trazer bandas e provocar um intercâmbio. «Aqui o espaço é exclusivamente para grupos que trabalham música autoral. Levantamos a bandeira do som independente e muitas bandas quiseram vir pra cá para tocar no 92º», revela JR que se diz orgulhoso por ser pioneiro ao dar espaço exclusivamente para música própria, diferente da época em que abriu a casa que a «onda» era tocar cover nas casas noturnas. Muitas bandas tiveram e ainda têm sua primeira oportunidade de mostrar o seu som no porão mais underground de Curitiba. Para dar aquele empurrãozinho, JR procura encaixar os grupos e incentivar quem almeja fazer um barulho. Quando perguntado se essa seleção para tocar implica em qualidade das bandas, o proprietário do 92º logo rebate: «É como a fórmula 1, não tem só gente boa, tem de tudo e nem por isso deixa de ser legal. E você só vai saber se é bom vendo a banda tocar. Quem é bom se destaca. O espaço aqui é pra todos, democrático». A música sempre esteve por perto desde adolescente «Em 83, tinha uma banda ' Caso Sério ' onde eu era baterista e tiramos o 2º lugar no colégio», lembra JR revelando que toca alguns instrumentos. «Não toco nada, mas toco de tudo um pouco. ( risos) Sou compositor, toco bateria, baixo, guitarra». Pra quem já teve algumas bandas no currículo como «Entre Aspas»,» Estranhos», «July et Joe»,» Intruders», «Excelente»,» Magnéticos «(com esta banda, JR e sua trupe chegou a abrir o show dos Sex Pistols em São Paulo),» Limbonautas», «Biotenix», ele também esteve à frente no projeto» Bloody Records " onde gravou 26 títulos de artistas locais. Outro feito que merece ser lembrado é o festival National Garage. O evento existe desde o início do bar e mais recentemente o festival chegou a ter cem bandas (locais, nacionais e internacionais) tocando em dez dias!! Com esta categoria invejável (falem bem ou mal), as lendas roqueiras de Curitiba -- o 92º e o JR -- continuam escrevendo e contribuindo para a história musical da cidade. A sonzeira que ecoa do bar há dezessete anos sob a maestria de seu ousado proprietário deve permanecer por muitas noites fazendo um show à parte para os roqueiros de plantão. «Apareeeeeçam!», convida JR. Espaço Cultural 92 Graus R. Des. Benvindo Valente, 280. Alto São Francisco. Fone: (41) 3308-2792 Confira o site e a programação de shows: www. 92 graus. com * Em o dia 10 de agosto sobem ao palco do 92º: CJ Ramone e Bad Chopper, além de bandas locais Boobarellas, Ovos Presley e Em o Milk Today. Os shows começam a partir das 16h30. Número de frases: 54 Ingressos à venda no 92º. Você seria capaz de navegar por um site, usando o mouse, mas sem clicar em absolutamente nada? Este é o desafio Dontclick. Antes de você enfrenta-lo, página avisa que você terá uma última chance de fazer um clique. Depois ... Bem, depois é tentar e tentar. Se não resistir à tentação de um clique, receberá uma mensagem de «I'm Sorry» e um convite para votar no projeto do Institute For Interactive Research. Para você não desistir logo de cara, lembro aqui um ditado hacker: «Não sabendo que era impossível, foi lá e fez». Gostaria muito que o leito me desse um retorno, dizendo se realizou ou não a façanha. Número de frases: 9 shtml -- mantras para praticar durante a prestação de contas. Uma qualquer Recife Uma qualquer Recife cidade sitiada é a escuta Psi, a escritura psiu de seus arquitetos da mais sutil urbanidade ao redor dos favores da Santa Casa De Misericórdia. Restauram apenas fachadas em cores vivas, reinventando a cidade-cartão-postal global em sua dignidade tão degradante, sufocada, turismo mimético do Pelourinho e advertências. Uma cidade, além das dúvidas e suspeições, é o conjunto de seus buracos. Imanentes e galácticos. Cartesianos e dionisíacos. Gilbertianos por todos os séculos. -- Jomard Muniz de Brito Sofri meu primeiro atentado poético quando voltava de casa para o trabalho. Confesso que só conhecia aquela figura, que passava todos os dias caminhando nas transversais da principal avenida do centro do Recife, a Conde da Boa Vista, tempos depois. Bermuda, meias longas, cabelos brancos sempre penteados para trás, óculos de armação grossa e escura. Jomard Muniz de Brito sempre passava com sua pasta, com várias folhas impressas -- ou eram xerox?-- com algo de sua autoria. Não entrega a qualquer. Depois que soube disso eu tive até orgulho. Não lembro muito bem sobre o que era o então atentado. Isso porque, daquele fim de tarde até hoje, quando vim a conhecer todos os detalhes sobre o que considero ser o maior livre-pensador em circulação na capital, perdi a conta de quantos tantos outros recebi. Sobre o Papa, sobre as eleições, Caetano Veloso, o 11 de setembro e o que mais fosse notícia. Jomard sempre desenvolveu seu fraseado com uma das construções mais inteligentes de palavras que já li. Sempre de maneira despretensiosa, divertida, aparentemente sem compromisso. Sua presença é sempre certeza de uma inquieta pausa na correria (sub) urbana para muita reflexão. E ele está sempre presente em todos os lugares. Em tantos, que me permiti o prazer de não entrevistá-lo formalmente, mas de descobri-lo. Com 70 anos completados há poucos meses, uma das primeiras coisas que descobri é como é fácil cair no clichê de recitar ofícios quando o assunto é Jomard Muniz de Brito. Professor da Universidade Federal da Paraíba, ainda insistente aluno da Universidade Federal de Pernambuco, poeta, ator, diretor, escritor, crítico de cinema e de música, cineasta. A lista cresce o tanto quanto a paciência do ouvinte permitir. De as salas de aula, aos porões da ditadura militar, gosto de pensar em Jomard como o perfeito antagonista a outro famoso paraibano, o escritor Ariano Suassuna. O que o segundo propõe de tradição, o primeiro oferece de modernidade. Ariano condenou o manguebit, Jomard freqüentou o festival Abril para o Rock. O dualismo mais divertido que já observei, antes de descobrir que ele foi nosso principal representante do tropicalismo. Qual seria minha surpresa, tempos depois, pesquisando, ler que o hoje secretário de cultura já deu dois murros no jornalista Celso Marconi, justificando que «era para Jomard, mas já que ele não está aqui, leva você mesmo». Bingo. Estava mesmo certo. «Filho da pernambucana Maria Celeste Amorim Silva com o paraibano José Muniz de Britto, nasci na Rua Imperial, bairro de São José, em 1937. Sou híbrido de nascença, mas errante por opção antiprovincial. Mas foi o escritor José Rafael de Menezes que me levou a ser professor titular da UFPB». Em entrevista ao Jornal do Commercio Seus atentados poéticos nasceram de uma proposta editorial para publicar um livro. Funcionam como uma coletânea de trabalhos, mas que nunca pararam de ser gerados após o dito chegar às prateleiras. Já haviam sido anunciados em 1997, quando na ocasião de um disco, Jomard começava a discorrer sobre uma «filosofia pop». O termo, entenda como quiser, é o melhor filtro para observar as passagens de Jomard Muniz de Brito. Autor também de «Contradições do Homem Brasileiro», que foi recolhido por a ditadura, que forçou sua aposentadoria sob o argumento de que ele influenciava negativamente a mente dos jovens. Se é que você me entende ... «Ele dizia que, sem o mínimo consenso de humor, a tragédia brasileira seria muito mais insuportável», lembra, evocando o ex-caixa do Banco Econômico, na Bahia. Jomard apressa-se e corrige a frase: pede para tirar consenso. «Não gosto, de jeito nenhum. O pensamento homogêneo, único, o politicamente correto, tudo isso vem do nosso capitalismo tardio e onipresente», fala o homem que acumulou vários rótulos ao longo de sua existência: tropicalista, iconoclasta, agitador, maluco, marginal e até baiano. Tudo por causa de sua conhecida e íntima relação com figuras como Glauber Rocha e Caetano Veloso, entre outros. Em entrevista ao Jornal do Commercio Observar esse trânsito de Jomard em tantas camadas intelectuais -- da vernisage ao show de rock, da mesa de debate a mesa de bar -- é perceber o quanto o tempo não passou. Ou, mais grave, o quanto tempo ainda precisa passar. Este «último dos Dandis», como já foi citado, ressurge sempre apresentado por um novo sorriso de quem percebe os trâmites do pensamento, mas não se importa em revelar. A modéstia é sempre seu maior charme. A maneira como ele a consegue expor -- nos fazer perceber que ele está sendo modesto -- é sempre um irresistível convite a seus atentados poéticos. «Nós, ainda intelectuais, precisamos perder ou dispensar tanta arrogância de salão ou de televisão. Confiar menos na potência de cantos e cátedras. Suspender afãs de julgamento. Trapacear com as linguagens estabelecidas. Cultivar a ironia socrática nos aforismos nietzscheanos. Cortes epistemológicos arrebentando o núcleo das complexidades." Em entrevista a revista Trópico Palavras que, importante reforçar, não tomam apenas forma escrita. O atentado de Jomard é visual, auditivo e como mais ele conseguir expressar. Em tempos em que a vida e a função do CD está em questão, ele fez o que é mais recomendado para compreender essa história. Gravou um, junto com a banda Comuna, e disponibilizou inteiro na Internet. Seguiu com a história. Abriu uma conta no MySpace e no Youtube. Uma metáfora perfeita para avisar que Jomard Muniz de Brito abriu as portas de sua produção, para todos aqueles que estejam interessados em também descobri-lo. «Amador, como um contra-burgu ês, tal diz Roland Barthes; e um amador, como um incompetente, tal diz o senso comum», explica. «Comungo a anti-ambição de ser um cineasta profissional. Minha única atuação profissional foi lecionar " Em entrevista a Folha de Pernambuco Como seu trabalho não está em Creative Commons, seguem alguns links oficiais de Jomard -- Baixe o disco de Jomard com a Comuna -- Seus principais curtas-metragens -- Número de frases: 86 MySpace de Jomard Mais uma vez a historia se mostra repetitivamente tola. Bastou o Los Hermanos apresentar uma proposta honesta e simples, falando de um jeito bem próprio dos mais variados temas, que no nosso Recife explodiram bandas chupa-cabras que imitam descaradamente. Tem banda que acha que é so deixar a barba crescer, o cabelo ficar desgrenhado e fazer músicas melódicas que já serão a grande coisa. O pior é que até mesmo as roupas são imitadas ... O que fazer?? Nada ... A Pitty, que na minha opinião merece mais crédito por a honestidade do que por a atitude e por o som que faz, trouxe com si uma leva enorme de bandas-com-meninas no vocal, e mais uma vez ficou evidente que todo mundo tenta trilhar a nova onda do momento, o que «deu certo», e acham piamente que o caminho se faz por o óbvio ... É a axelização do rock ... ( copiando o sucesso do verão). Enquanto isso, a gente vai fumando porque também sem o cigarro ninguem segura esse rojão!! ( Número de frases: 10 já que a onda é copiar ...) Há seis anos, associação artística sacode a produção cultural alagoana através de criações que têm a multilinguagem como expressão. Com vocês, os Saudáveis Subversivos. Bem-vindo ao espetáculo. Aqui, você não é platéia, mesmo que esteja sentado do lado oposto ao palco. Ou no computador, lendo esse texto. Afinal, a arte é uma expressão humana que revela uma leitura sensorial do mundo no qual você e eu estamos inseridos. Somos, portanto -- e no mínimo -- parte desse teatro, desse artigo, e fonte de inspiração direta ou indireta para as inquietas almas corroídas por as possibilidades de expressão. Pode até parecer impróprio (e perdoe-me se o for), mas ao apresentar a Associação Artística Saudáveis Subversivos, gostaria de pedir desculpas por os limites das palavras. No entanto, uso desta arma e assumo-me -- e convido-o a ser também -- uma pessoa saudavelmente subversiva. Pois, como define o jornalista e músico Fernando Coelho, nosso ex-quase correspondente oficial do Overmundo em Alagoas e um dos idealizadores da associação artística, ao lado do multimídia «Glauber Xavier,» saudáveis subversivos somos todos nós, pessoas comuns, mas inquietas, que buscam através da expressão pessoal ou coletiva, gerar a reflexão necessária para aperfeiçoarmos nossa contribuição no eterno combate às injustiças sociais». Feito o convite para a identificação e pedidas as desculpas por a limitação, dou início à empreitada, fazendo uma retrospectiva desse teatro da vida real. A história começa no fim dos anos 90. Foi nessa época que Glauber, ex-baixista da histórica banda alagoana Living in the Shit e então estudante do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Alagoas, procurava outras formas de expressar suas inquietações, usando todas as possibilidades de aplicação da arte numa sociedade carente de tudo, inclusive de uma cultura reflexiva e engajada. Encontrou Coelho nessa empreitada, e, idéias afins, produziram o vídeo Saudável subversividade, exibido em outubro de 2000, na festa Sexta Básica, em Maceió. Pronto. Começou daí uma série de criações inspiradas e premiadas, sempre experimentando e buscando formas de ultrapassar os limites do senso-comum, seja através da escolha dos temas ou da forma como tratá-los. «O grupo nasceu da necessidade de utilizarmos nossa criação artística para provocarmos reflexão no público. Reflexão sobre o meio, sobre a sociedade, sobre o papel do ser humano no mundo, sobre seu relacionamento com as coisas que o cercam e com ele próprio. De mostrar que essa reflexão deve ser constante», explica Coelho. E para que esse mecanismo de reflexão (grupo) -- ação (arte) -- reflexão (público) se materializasse, os suportes poderiam ser muitos. E melhor, deveriam ser multimídias, aproveitando todas as possibilidades de criação humana no campo artístico na atualidade, embora tenham as artes cênicas como ponto-forte. Em o espetáculo Experimento zero, por exemplo, Glauber, junto aos músicos Alvinho Cabral e Wado, criaram uma trilha sonora que pode ser conferida no segundo CD de Wado, Cinema auditivo. A faixa intitula-se Rotina. Aliás, Glauber participa de nove das 14 músicas deste CD, seja no comando das programações, baixo ou voz. Um impulso essencial para a expansão dos Saudáveis aconteceu com o projeto de conclusão de curso de Glauber, em julho de 2001. Tomando como fontes inspiradoras o texto O mendigo ou o cão morto, de Bertolt Brecht; depoimentos de crianças vítimas de guerras e o livro O Corvo branco, de Klaus Sonnefeld, Glauber concebeu a premiada instalação cênica Sábia sarjeta. Em discussão, o poder da mídia no mundo contemporâneo, tema que norteia outros trabalhos da associação. O trabalho recebeu, em julho de 2002, cinco prêmios, incluindo melhor espetáculo no Festival Nordestino de Teatro de Guarabira/PB. Com o resultado da montagem, Glauber e a atriz e bailarina Valéria Nunes também receberam o convite para fazer parte do Projeto de Integração de Atores do Nordeste, numa experiência de quatro meses no Centro de Pesquisas Teatrais do NE, em Fortaleza-CE. E outros subversivos vão se incorporando ... A entrada de Valéria Nunes no grupo se deu, como no caso de Coelho, por a sintonia ou, mais precisamente, as semelhanças nas aspirações artísticas no teatro e na dança. De aí nasceu o espetáculo de dança Experimento zero -- uma história de amor, pensado e executado para o aniversário do Teatro Deodoro em novembro de 2001. Mais uma vez o poder da mídia se faz presente na temática: a proposta era abordar a forma clichê como o quarto poder trata o amor (geralmente de forma repetitiva e vazia). Com a produção pulsando e a entrada do ator multimeios Flávio Rabelo; da jornalista, atriz e roteirista Márcia Danielli; do web designer Marcelo Dogat e do ator e programador Vicente Brasileiro, o grupo se tornou um projeto consolidado e pode, definitivamente, denominar-se uma associação artística. Mas os saudáveis não se resumem a um grupo permanente. Prova disso é o jogo cênico Não tenho palavras, que contou com atores dos cursos de Artes Cênicas e de Formação do Ator da Ufal, selecionados especialmente para desenvolver e participar do projeto. «Enquanto artistas somos muitos, mas Glauber e Valéria são o cerne, o núcleo das ações», conta Flávio Rabêlo, que, desde 2003, tem focado sua contribuição ao grupo principalmente através do gerenciamento e questões burocráticas, além das reflexões estéticas e sociais. «Aos poucos os saudáveis subversivos vão se multiplicando», conta Flávio. Para Fernando Coelho, há uma inquietação do grupo também na busca de novos integrantes -- seja para «associar-se» ou para participar de projetos isolados. «Tentamos encontrar os artistas periféricos, que não têm espaço, nem um canal de divulgação de suas obras», explica Coelho. Prêmios e projetos Além dos prêmios concedidos à Sábia sarjeta, outros projetos e instalações dos Saudáveis mereceram o reconhecimento da crítica. É o caso de Uma janela para cada balanço -- uma cartilha de menina, que em abril de 2002, recebeu o Prêmio Dança em Cena da CAC (Capital Americana da Cultura), em Maceió. Trata-se de um espetáculo de dança que aborda um tema singelo -- apresenta a beleza da amizade entre duas mulheres. A proposta era construir um novo vocabulário corporal, respeitando limitações, possibilitando o desenvolvimento do grupo, e, como explica Glauber «anulando a competitividade e atitudes pré-concebidas». Em 2004, foi a vez do projeto Pega ladrão receber o prêmio Alagoas em Cena -- Artes Cênicas. Mais uma vez, uma provocação ao público, ao tratar de forma tragicômica a banalização da violência na mídia. Um recorte mais que necessário, quando percebemos que o retrato desse problema é geralmente feito por os meios de comunicação de uma forma descontextualizada e espetacularizada. Em o ano passado, o vídeo-dança Burka foi selecionado para o Move Berlim -- Panorama Brasil. A iniciativa nasceu de um projeto de pesquisa de Valéria Nunes, abordando de forma simbólica as opressões cotidianas, as burkas que cobrem as mulheres na atualidade. O vídeo é mais uma demonstração da versatilidade dos Saudáveis: através da autogestão e vídeo caseiro, registradas por um vídeo-maker amador, editaram o material num PC doméstico. Geralmente desconsiderada por a cultura científica ocidental e contraditoriamente sendo muitas vezes ponto de partida para a produção de medicamentos, a medicina popular foi o tema que inspirou o projeto itinerante Menina planta, que percorreu algumas ruas da cidade difundindo a prática e incentivando o plantio de árvores nativas. A iniciativa foi contemplada por o Programa BNB de Cultura -- Artes Cênicas -- 2005. Também no final do ano passado, o grupo recebeu o Prêmio de Fomento a Dança da FUNARTE e Petrobras, com o projeto " Quixotes. «Esta obra busca a construção de uma cultura do imaginário -- uma cultura de todo lugar ou uma cultura de lugar nenhum. Trabalhamos o coreógrafo como um DJ -- um misturador de materiais pré-existentes de diferentes naturezas, como qualidades de movimentos codificados, abertos e pessoais, luminosidades, imagens e sonoridades», revela Glauber. Além disso, os Saudáveis produziram, ainda dentro das Oficinas de Áudio Visual do Sebrae -- 2005, o curta-metragem Bate ferro, exibido na mostra Sebrae de vídeos, e no projeto Curta Jaraguá, em dezembro de 2005. Em o campo das produções conjuntas, os Ss participam da Cooperativa de Performance -- Grupo de estudos e execução de performances, em parceria com a Cia.. Sentidos Teatro Dança Música Artes Visuais e o NACE -- Núcleo Transdisciplinar de Pesquisas em Artes Cênicas e Espetaculares da Ufal. Periodicamente, esta cooperativa organiza excursões da Caravana Alagoana de Arte Contemporânea. Em janeiro do ano passado, eles estiveram no ENTEPOLA -- Encontro de Teatro Popular Latino Americano em Santiago do Chile com a instauração cênica Em Branco e o projeto Desenho do desejo; e no IIIº Festival Internacional de Teatro Popular UN Teatro pa ' Todos, em Bogotá, na Colômbia, com Em branco. E outros trabalhos no campo das performances de rua também se fazem presentes, como La ursa elétrica, que propõe uma interferência em outras performances, através de Glauber Xavier como performer-câmera-man, instigando e registrando a ação e interação do público e dos performers; Estranho um cara comum, no qual Flávio Rabelo pesquisa dentro da Cooperativa de Performance, fazendo questionamentos a partir do ato performático de ficar (in) visível aos olhos da sociedade (12 horas sentado em frente à Catedral de Maceió); Desenho do Desejo, projeto que esteve presente no Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre, dentro da programação do Museu Vivo da Diversidade, e que reúne elementos como interatividade, provocação, reflexão, ação consciente, participação e vontade. Consiste na construção de obras visuais coletivas, por diferentes grupos de pessoas através de intervenção de acontecimentos performáticos provocativos em espaços públicos, com foco no estudo e aplicação dos resultados em comunidades carentes. «As obras resultantes dessa experiência têm como fim a captação de recursos a serem aplicados em capacitação técnica e artística de comunidades em risco social», explica o grupo. O trabalho dos Ss também marcou presença nas artes visuais, com a Trilogia: O absurdo pós-moderno: A surpresa -- A sensação -- O espanto, instalação com sucata e fotografias artesanais, de 1998; a exposição A arma que atira para todos os lados, de 1999, também instalação, com fotografias, cenografia a base de barro e alumínio e performance; A empírica Felipa Parckson, datada do ano de 2000: tinta óleo sobre tecido velho, música, vídeo, quadrinhos e performance; Pormenor de um íntimo relacionamento, cuja técnica foi papel colado; Um samba para o meu teatro, também de 2000, instalação que se valeu de colagem, fotografia, cenografia, texto, música e vídeo; Natureza morta de fome, no ano de 2000; Saudável subversividade, colagem de vídeos caseiros e MP3; Será indolor ser artista contorcionista, 2001/2001, outra instalação que se utilizou de fotografias artesanais, música e textos; Inversos felizes, 2003, uma performance poética; Orfélias, instalação com piscina plástica, água, papel laminado, flores e performance; Restos, instalação com vídeos, luzes e restos de acervos; e Pormenores de uma contracultura, reunindo fotos, vídeos, luzes, cenários e instrumentos musicais em outra instalação proposta para invadir sensorialmente os seus receptores (?). Além disso, o grupo manteve funcionando no bairro de Jaraguá, em Maceió, uma sede, a Saudável Casa Subversiva, por mais de um ano com atividades semanais. «Cada artista tem o público que merece " Segundo o saudável subversivo Flávio Rabêlo, o trabalho desenvolvido por o grupo reflete uma forma de ver e pensar o mundo. «Produzimos influenciados por o nosso espaço e nosso tempo, real e virtual, numa relação dialética e reflexiva sobre nosso cotidiano». Inquietos e buscando transgredir as fronteiras do óbvio (o óbvio aqui é entendido como percepção imediata, e não como o imediatamente correto) e refletir e agir num cotidiano repleto de injustiças, o grupo apresenta sua arte em locais díspares. Em a verdade, a proposta é justamente não se ater ao convencional. Como a mudança é constante, todos as experimentações são também experiências, e vão se refletir no trabalho final. Aliás, minto. Não há um trabalho final, mas uma construção contínua. Por isso mesmo, cada apresentação pode ser entendida também como uma soma na percepção de um mesmo tema, sendo o público e o cenário também parte dessa visão que pode contribuir na formulação ou reformulação de outros espetáculos. Por isso mesmo, as exibições, jogos e instalações geralmente não se restringem a um espaço fixo, já que são, eles mesmos, elementos do trabalho. A o citar apresentações em espaços não-convencionais e até díspares, de um hotel luxuoso até típicos canaviais alagoanos, com cortadores de cana, Flávio Rabelo explica que «isso fortalece nossa formação e, principalmente, aumenta nossas possibilidades reflexivas, estéticas e sociais». Essa atitude não só demonstra a constante preocupação com os espaços e com o crescimento do trabalho, como também é resultado de uma reflexão do grupo sobre a própria realidade alagoana e sua formação cultural. Para Fernando Coelho, a dificuldade em assimilar arte em Alagoas é resultado de um processo histórico. «Temos uma elite que sempre foi escravagista e provinciana, mesquinha e omissa», define. Por isso mesmo, acha que o problema não está em chamar o povo para a arte, mas levá-la onde ele está. E a resposta a iniciativas nesse sentido, acredita, está sendo extremamente positiva. Em a mesma linha de pensamento, Flávio acredita que " o público é uma conseqüência do trabalho do artista; cada artista tem o público que merece, e vice-versa». Claro que a afirmação não é algo determinista, ou correríamos o risco de estar reproduzindo uma lógica de auto-exclus ão. É, antes, um ponto de partida para questionamentos maiores sobre o que leva o público a aceitar determinados trabalhos e quais as formas de ação que podem permitir uma mudança nesse quadro, que não é algo imediato, mas que se constrói, como acredita Flávio, com «tempo e ações constantes». Para ele, público e artista estão sempre em formação. Por isso mesmo, os saudáveis subversivos vão se multiplicando. Transformando e transformando-se. Transgredindo e travestindo-se. Indo além das vozes e do corpo, mas se comunicando também com eles (e para fora de eles). Sendo os mesmos e os outros, respirando mudança, beleza, dor, sentimentos. Exalando o perfume exato e confuso da arte, com uma inquietação que se pretende função, resistência. Buscando novas linguagens de dizer e sentir mais do que ninguém sabia (ou que estava em silêncio). Subvertendo enfim, toda essa estranha lógica, em busca de outros caminhos. Número de frases: 116 Produzir e exibir em face dos direitos autorais. Pra onde vamos nessa lógica mercadológica? Produzir um filme no Brasil ainda é penoso, rolam altas dificuldades, não só na produção, mas também na exibição. Aos poucos, com as novas tecnologias, o cinema brasileiro vai se popularizando. Já é possível assistir produções regionais de alta qualidade e ainda é possível que um estudante, um jovem trabalhador, com o uso de simples equipamentos, possa colocar suas idéias em prática e socializá-las com os outros. Alternativas de exibição e principalmente de distribuição estão surgindo. O CNC -- Conselho Nacional de Cineclubes a fim de socializar ainda mais as produções alternativas e regionais, criou o Circuito Cineclubista de Estréias -- CCE, onde a cada mês um estado participante faz a curadoria com obras de seu estado e as envia aos demais estados participantes. Com isso os curtas produzidos no Rio Grande do Norte, podem ser vistos no Rio Grande do Sul e vice-versa. Também foi lançado por o Ministério da Cultura um edital que selecionou 100 projetos para receber os equipamentos necessários do Programa «Ponto de Difusão Digital». Recentemente foi criada a Programadora Brasil, disponibilizando um bom acervo de curtas e longas brasileiros a um custo acessível às entidades que exibem produções cinematográficas sem fins lucrativos. Vamos caminhando, mesmo a passos curtos rumo a uma maior popularização do cinema, não só na formando de público, como também, na formação de produtores. Ocorrer, que tanto produtores como exibidores, esbarram no chamado «direito autoral». O exibidor não comercial constantemente se depara com filmes que exibem a tarja: «O titular de direito autoral da obra audiovisual incluindo sua trilha sonora, somente autoriza seu uso privado e doméstico. Estão proibidas quaisquer outras formas de utilização, tais como: " ( ...) exibir ou difundir publicamente ( ...). A violação de qualquer destes direitos exclusivos do titular, acarretará em sanções previstas nos artigos 184 e 186 do Código Penal». E aí como ficamos? As salas comerciais só exibem enlatados, as próprias produções brasileiras tornam-se inacessíveis à população, as salas comerciais cobram ingressos caros, que poucos podem pagar e os cineclubes, que se contrapõem a essa lógica de mercado, também não podem exibir? O produtor independente esbarra num problema semelhante. A o criar seu vídeo e utilizar trecho de alguma trilha sonora, tem que se adequar a Lei dos Direitos Autorais. Consta na referida Lei que, depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, a exibição audiovisual, cinematográfica ou por processo assemelhado. Agora como um simples produtor conseguirá a autorização do autor? Chegar até ele é muito difícil. No caso das músicas, as gravadoras nunca respondem aos e-mails e quando respondem, estipulam a cobrança de um valor altíssimo, impossível de ser pago por a maioria dos produtores independentes. Em esse caso deve-se esquecer o tal trecho de música que se fazia necessário? O valor comercial deve sempre prevalece sobre o cultural? A alternativa encontrada por muitos é a utilização de trilhas de grupos musicais também «alternativos», grupos que por sinal encontram inúmeras dificuldades para produzir e socializar seu som, que continuam a esbarrar nos» jabás». É mais fácil conseguir autorização de uma banda que ainda não seja famosa e acaba rolando uma troca justa, pois a maioria das bandas visualizam o vídeo como mais uma forma de divulgação de seus trabalhos. Mas e quando é preciso uma trilha do tipo «famosa», de» alta " gravadora? O que muita gente tem feito é citar a fonte corretamente e mandar um abraço para o «gaiteiro», mas do ponto de vista» legal», continuam praticando um crime. Entendemos que não pode ser crime socializar a cultura, a informação. Crime ao nosso ver, é proibir a população de ter acesso às diversas manifestações artístico-culturais. A grande maioria dos produtores independentes nunca trabalham na lógica do lucro, pelo contrário, em muitos casos os vídeos são produzidos na base de «vaquinhas» e empréstimo de equipamentos. Assume-se o risco de não pagar pelo direito autoral, por não poder pagar e por acreditar que ainda existe o bom senso, desde que partindo do pressuposto que qualquer produção cultural vai além da busca de obtenção de lucro. Todos os temas de interesse geral da sociedade são tratados da mesma forma. Diariamente é exibido nos telejornais matérias dizendo que a violência aumentou, aí surgem as campanhas de grupos mais conservadores, que apontam soluções do tipo: «a solução para queda da violência é a redução da maioridade penal». A solução é sempre repressiva, de cima para baixo, sempre recaindo para a cima de quem pode menos. Aqui traçamos um paralelo da Lei de Direitos Autorias com a violência, pois nos dois casos, o debate acaba sendo direcionado para o campo da marginalidade, sem nunca discutir profundamente a causa dos problemas. O comércio de produtos piratas no Brasil é grande, mas se esquece que o povo compra mercadorias piratas por não conseguir comprar as originais e não por não querer. A Rede Globo e tantos outros canais que exibem comerciais de produtos de consumo para a elite, exibem os mesmo comerciais nos lares pobres. Mas a pirataria é trada apenas do ponto de vista «aufandegário» esquecendo-se que numa sociedade que se mantém numa lógica mercenária, os desejos e os sonhos de consumo são os mesmos. A saída apontada por os conservadores é a cadeia e para os mais progressistas, a educação. Exibir obras culturais gratuitamente, socializar a cultura e a informação, em muitos casos são consideradas atividades criminosas, mesmo que essas atividades sejam realizadas num Estado que não dá conta de suas atribuições, num Estado em que o aparelho jurídico-burocrático está a serviço só de uma pequena parcela da população. É crime justamente por isso!!! Mas é assim, «quem pode mais, chora menos» e na lógica do capital, cultura também é vista como algo muito mais comercial que sócio-educativo. Número de frases: 47 Cantor, compositor, guitarrista, rabequeiro, mestre na poesia rimada, por três discos Siba capitaneou o Mestre Ambrósio, um dos grupos mais expressivos do manguebeat. Após o fim do grupo e de uma estadia de 7 anos na cidade de São Paulo, Siba retornou a Pernambuco e fixou residência em Nazaré da Mata, importante eixo de produção musical de maracatu rural, coco, ciranda entre outros. A partir da instalação de um home studio, criou o grupo A Fuloresta, reunindo a nata dos poetas e instrumentistas da Zona da Mata: Biu Roque (percussão e voz), Mané Roque (percussão e voz), Zeca (percussão), Roberto Manoel (trumpete), Galego (trombone), João Minuto (sax tenor) e Bolinha (tuba). O grupo lançou em 2002 o independente e aclamado Fuloresta do Samba, e, em 2007, Toda Vez Que Eu Dou um Passo o Mundo Sai do Lugar, com as participações da cantora Céu, do guitarrista Lúcio Maia, de Fernando Catatau e de Isaah, ex-integrante do Comadre Fulorzinha. * & * Em o registro da música «folclórica», a acessibilidade ocasionada por a evolução dos equipamentos de gravação e edição digitais favoreceu a expansão dos títulos numa escala nunca experimentada antes. De os anos 30, particularmente dos esforços compilatórios de Mario de Andrade, até meados da década de 90, contam-se nos dedos as iniciativas de registro das manifestações musicais rurais ou oriundas de contextos urbanos menos favoráveis. Os esforços mais representativos nesse sentido: o Documento Sonoro do Folclore Brasileiro, projeto da Funarte, parcialmente relançado em CD, e o Mapa Musical do Brasil, produzido por Marcus Pereira, ambos com pretensões de registro; anos depois, o cd quádruplo Música do Brasil, uma compilação de artistas de todo o Brasil, dirigido por Hermano Vianna e Beto Villares, gravado no intuito de flagrar a diversidade musical brasileira em plena atividade. Em ambos os casos, diferentes abordagens do problema da cultura popular, ao qual poderíamos anexar o «resgate» levado a cabo por Ariano Suassuna (mas também por o rótulo " samba de raiz ") e a proposta de diálogo com a cultura estrangeira do manguebeat. Em a iniciativa da Funarte, o registro funcional das manifestações musicais; no sistema de Suassuna, uma perspectiva sobre a cultura que subscreve a produção a uma essência " nacional "; na iniciativa de Hermano e do manguebeat, a preocupação com o presente e com o futuro das práticas musicais e culturais. Este painel, incompletíssimo, apresenta no entanto algumas posições fundamentais nos debates sobre música no Brasil: primeiro, o fetiche da essência, a crença na imobilidade e o respeito à tradição; depois, o bem intencionado e institucional cultivo do registro; e, ainda, a promoção de meios para a mobilidade constante e da interlocução da música com as mais diversas formas de produção cultural. «A vida não dá certeza, pois tudo se movimenta ": com seu último disco, ainda que Siba e Fuloresta se posicionem de alguma forma neste debate, o fazem de modo a superá-lo definitivamente. Pois em ele, apesar de termos perfilados uma série de cocos, cirandas e frevos, gêneros considerados «folclóricos» e / ou «regionais» e que, por isso, são arrolados em alguns dos discursos listados acima, pode-se dizer, com segurança, que as palavras «registro»,» essência», «tradição» e, até mesmo, «mobilidade» e «interlocução» não comportam toda a invenção que grupo e álbum nos trazem. A música da Fuloresta reside à parte deste universo, válido, mas excessivamente acadêmico, burocrático e idealista. Com Toda Vez ..., o grupo afirma pelo menos duas novidades interligadas: uma naturalidade, uma sabedoria, um «estar-à-vontade» em relação aos gêneros trabalhados, e, ao mesmo tempo, uma disposição para recriá-los às antípodas das gravações que até então foram consagradas a eles. É música viva, que se explica por si só, que não carece de adendos e notas. Aqui, não cabe o velho discurso sociológico, que a cada faixa tem de perfazer toda uma gama de fenômenos extra-musicais para explicar, por exemplo, o que é o coco (" Com influência africana e indígena, o coco é uma dança de roda acompanhada de cantoria e executada em pares ..."). Devo observar também que, ao contrário da música da Nação Zumbi ou de Marcelo D2, que acabaram por privilegiar o elemento estrangeiro, Siba e a Fuloresta propõem que a base seja criada a partir dos sons de Nazaré da Mata, e que o adereço seja «estrangeiro» (uma guitarra, um piano, um efeito na voz, um sample ...). Obviamente, digo isso sem preconceito, mas é uma diferença digna de nota, observável não só em toda a carreira de Siba e a Fuloresta, como também em Candombless, de Carlinhos Brown. Dito isto, vamos à matéria. Trata-se de um disco extremamente dançante e bem humorado, itens que lhe conferem uma leveza em nada comparável com a banalidade da MPB pseudo-chic que vigora por aí. Primeiramente, porque Siba e a Fuloresta desenvolvem um trabalho sólido de composição sobre o vocabulário do frevo, do coco e da ciranda. São belas canções como «Alados», parceria de Siba com Lúcio Maia; irônicas em diversos momentos, mas sobretudo em " Meu Time "; e críticas como em «12 Linhas», cantada por» Mané Roque (" em cada morada um berço, em cada berço um pagão ...") ou «Será» (" será que ainda vai chegar o dia de se pagar até a respiração ..."). No que diz respeito à instrumentação, Toda Vez ... tem por eixo central o trabalho com a percussão e o metais. E aqui podemos dizer que se encontra o segundo grande destaque do disco, porque o modo como o grupo resolve as dinâmicas de percussão e arranjos de metais é de uma riqueza prodigiosa. São muitas as vezes em que nos surpreendemos com os diversos recortes harmônicos e rítmicos, sejam realizados por a tuba, como na faixa-título e na linda «A Folha da Bananeira», cantada por Biu Roque, seja por o ataque em conjunto do trumpete, do sax alto e do trombone em» Meu Time e Tempo II», seja ainda por a interação dos metais com a percussão, em «Pisando em Praça de Guerra». Soma-se à composição e instrumentação, o elemento arranjo, no qual o disco também se destaca: são sensíveis as intervenções dos efeitos, particularmente em «12 Linhas», as colocações dos instrumentos esporádicos como o piano em» Alados», os pequenos detalhes, como as palmas na faixa título ou a ambiência de «Meu Time». De o início do álbum, um relato de nascimento e iniciação (" Pisando em Praça de Guerra "), até a ode alegre à morte em «A Velha da Capa Preta», Siba e a Fuloresta excedem todas as expectativas anteriormente criadas por o já excelente Siba e a Fuloresta, de 2005. Completa a riqueza do álbum a programação visual criada por os grafiteiros paulistas «Os Gêmeos», baseada no trabalho realizado para um DVD do grupo. Pode ser considerada uma limitação de minha parte que ainda tenha que situar o disco nas polêmicas confusas do debate nacional popular cultura de massas ... Mesmo querendo dissociar a excelência de Toda Vez ... desse quiprocó, me foi inevitável fazê-lo. Pois tenho a certeza de que, por mais que reconheçamos o novo, ainda assim, somos tributários do contexto que o produziu, e que «rupturas» são apenas produtos da nossa imaginação. Mesmo o novo, ele próprio, identifica-se de alguma forma com aquilo que critica. Em a perspectiva oficial encontram-se elementos isolados que fornecem, em instrumentos e sugestões, as armas para sua própria neutralização. Toda Vez ... traz em si o germe da mudança, mas esse germe foi inoculado em diversos níveis por uma alta consciência, que, ao menos em parte, interagiu com esferas diferentes, aparentemente desconectadas: a institução, a academia, o comércio, que sobrecodificam e traduzem as manifestações rurais, ausentes das cidades. Depois, houve um momento em que esta consciência se pôs em direção ao contexto criativo e, daí então, a criação de uma relação específica de visões e, sobretudo, uma articulação concreta no sentido de reinterpretar a interpretação da institução, da academia e do comércio. Siba é esta alta consciência, que soube fazer a ponte. Entretanto, uma coisa é pensar a questão de um ponto de vista sócio-cultural, na qual, penso eu, acabo por resvalar. Outra, é a experiência de ouvir o disco. Toda Vez ... possui essa altivez contagiante e dionisíaca, dançante e carnavalesca, mas também reflexiva, capaz de criar condições adequadas para a ultrapassagem das limitações objetivas e subjetivas da confusão musical brasileira. Número de frases: 59 Originalmente publicado na camarilha dos quatro. Grande parte das músicas do genial compositor brasileiro acabam de cair em domínio público! Em 1937, o Brasil perdia o compositor que se revelaria um dos mais influentes e representativos da música popular brasileira: Noel Rosa. Apesar de ter falecido jovem -- aos 26 anos de idade -- Noel Rosa deixou um acervo de mais de 200 obras, incluindo clássicos como: Com que Roupa?, de 1929; Gago Apaixonado, de 1930; Fita Amarela, de 1932; Três Apitos, de 1933; Dama do Cabaré, de 1934; e O X do Problema, de 1936; de entre várias outras canções. Passados setenta anos da morte do compositor, a cultura brasileira recebe um enorme presente: as obras de Noel Rosa acabam de cair em domínio público. Essa é a regra do direito autoral: proteger as criações por um período determinado de tempo (no Brasil, por toda a vida do criador e mais 70 anos após a sua morte). Transcorrido esse prazo, a obra passa a fazer parte do chamado «domínio público». A partir de então ela se torna parte do patrimônio coletivo e qualquer pessoa pode utilizá-la. Assim, a partir de 2008, a obra de Noel Rosa passa a ser acessível por todos os brasileiros, que poderão resgatá-la, regravá-la, executá-la, bem como fazer outros usos sintonizados com os tempos atuais (como a remixagem e o sampling). As criações intelectuais, como a música, são elementos centrais da cultura de um povo. E esta é a finalidade do domínio público: permitir o estímulo à criatividade, aos novos artistas, para que a formação da cultura seja não um discurso, mas uma conversa que transcenda o tempo e o espaço e não acabe nunca. Assim, qualquer país precisa proteger e zelar por seu domínio público. Basta conversar com qualquer artista para constatar que a criação de uma obra é um processo que depende do acesso a outras obras. Ninguém cria a partir do nada. Quanto maior o contato com nossa cultura, maior nossa fonte de inspiração e maior nossa capacidade de produzir mais cultura. Com as obras de um artista como Noel Rosa tornando-se patrimônio coletivo, sua música tem a oportunidade singular de semear inspiração por toda uma nova geração de brasileiros. Para que o diálogo entre a obra de Noel Rosa e as novas gerações se faça o mais rico possível, é preciso estimular o uso criativo das obras em sintonia com os tempos da Internet e da tecnologia digital. Fenômenos como a «cultura remix» estão na ordem do dia. As barreiras entre «consumo» e a «produção» de cultura estão sendo abaladas a cada dia. O acesso a recursos criativos, que permitem a qualquer pessoa participar ativamente da esfera de formação da cultura, faz-se cada vez mais presente. O resultado disso são fenômenos que se expressam em práticas como os remixes, mash-ups, syncs, samples, colagens, que nada mais são do que a aceleração de uma prática que é tão corriqueira e antiga quanto a própria cultura: a mistura de pontos de vista e influências, que está na base de toda nova criação. Essa verdadeira «cultura da mistura» tem mostrado como a disponibilidade de obras no domínio público aliadas à facilidade de criação e recriação trazida por as novas tecnologias se traduz não só em maior produção, mas também reinvenção. As relações entre o maracatu tradicional e o rock no Recife estão aí para mostrar como ambos se beneficiaram da mistura. Com as obras de Noel Rosa em domínio público, abre-se o caminho não só para a permanente revitalização de sua música, mas também para uma explosão de usos criativos das suas canções. Quem chegou, quem chegou Mas uma questão importante faz-se então. Quais seriam as obras que estariam em domínio público, já que o gênio inquieto de Noel Rosa compôs vários de seus clássicos em parcerias? Este mapeamento é necessário porque nem todo o acervo do autor caiu em domínio público: a lei de direitos autorais estabelece que, para as obras produzidas em co-autoria, o prazo de proteção é contado a partir do falecimento do último dos co-autores. Assim, somente as obras de autoria exclusiva de Noel Rosa, ou aquelas produzidas com compositores que faleceram antes ou no mesmo ano em que ele, caíram em domínio público no ano de 2008. Para isso, o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV realizou um mapeamento das canções que caem em 2008 em domínio público. Você encontra a lista logo abaixo. Este é somente o primeiro passo de um projeto maior que será desenvolvido por o CTS / FGV visando estimular o uso e reuso criativo das obras de Noel Rosa. Fique atento aos sites www.culturalivre.org.br e www.overmixter.com.br para mais novidades. Musicografia / Discografia de Noel Rosa ( composições exclusivas que entraram em domínio público em 2 de janeiro de 2008) 1) Agora 2) Alô Beleza 3) Amor de Parceria 4) Arranjei um fraseado 5) Ate amanha 6) Baianinha 7) Brincadeira de roda 8) Canção do galo capão 9) Cansei de implorar 10) Cansei de pedir 11) Capricho de rapaz solteiro 12) Choro 13) Chuva de vento 14) Cidade mulher 15) Coisas do sertão 16) Condeno o teu nervoso 17) Com que roupa? 18) Contraste 19) Cor de cinza 20) Coração 21) Cordiais saudações 22) Cumprindo a promessa 23) Dama do cabaré 24) Disse-me-disse 25) Dona Aracy 26) Dono do meu nariz 27) É difícil saber fingir 28) É preciso discutir 29) Envio essas mal traçadas 30) Espera mais um ano * 31) Estamos esperando 32) Eu não preciso mais do seu amor 33) Eu sei sofrer 34) Eu vou para a vila 35) Faz três semanas 36) Festa no céu 37) Fita amarela 38) Fita de cinema 39) Foi ele 40) Gago apaixonado 41) A Genoveva não sabe o que diz 42) João-ninguém 43) Juju 44) Lira abandonada 45) Madame honesta 46) O maior castigo que eu te dou 47) Malandro medroso 48) Marcha da primavera 49) Mardade de cabocla 50) Maria-fumaça 51) Mentir 52) Mentiras de mulher 53) Meu barracão 54) Meu bem 55) Minha viola 56) Muito riso, pouco siso 57) Mulata fuzarqueira 58) Mulato bamba 59) Mulher indigesta 60) Não brinca não 61) Não me deixam comer 62) Não morre tão cedo 63) Não tem tradução 64) Negocio de turco 65) Em o baile da flor-de-lis 66) Em os três dias de folia 67) Em uma noite à beira-mar 68) Nunca ... jamais 69) Nuvem que passou 70) Onde está a honestidade 71) Paga-me esta noite 72) Palpite infeliz 73) Para atender a pedido 74) Por a décima vez 75) Pesado 13 76) Picilone 77) Por causa da hora 78) Por esta vez passa 79) Por você sou capaz 80) Pra esquecer 81) Pra lá da cidade 82) Precaução inutil 83) Proezas de seu fulano 84) O pulo da hora 85) Quando o samba acabou 86) Quando por as aulas ando 87) Que a terra se abra 88) Quem dá mais? 89) Quem não dança 90) Quem parte não parte sorrindo 91) Quem ri melhor 92) Rapaz folgado 93) Remorso 94) Riso de criança 95) Roubou, mas não leva 96) Saí da tua alcova 97) Saí do presídio 98) São coisas nossas 99) Século do progresso 100) Seja breve 101) Seu jacinto 102) Seu José 103) Silêncio de um minuto 104) Só você 105) Tipo zero 106) Três apitos 107) Tudo que você diz 108) Ultimo desejo 109) Vagolino de cassino 110) Vaidosa 111) Verdade duvidosa 112) Vingança de malandro 113) Você é um colosso 114) Você vai se quiser 115) Voltaste (para o subúrbio) 116) Vou te ripar I 117) Vou te ripar II 118) O x do problema 119) Yolanda 120) Samba anatômico Número de frases: 165 E viva Noel sempre vivo! A produção audiovisual piauiense tem lugar e data cativos para sua exibição. Toda as sextas-feiras, às 18h, o projeto Cinema na Rua põe na tela e na pauta de discussões documentários e curtas-metragens produzidos no Estado com o objetivo de formar platéias e colocar mostrar o que está sendo feito no segmento atualmente. As sessões acontecem no prédio anexo da Fundação Antares, no bairro Monte Castelo, zona sul de Teresina, onde funciona a sede piauiense da Associação Brasileira de Documentaristas -- um dos Pontos de Cultura locais. Entre eles estão experimentos como «Em um Se Pode», adaptação livre da lenda piauiense feita por alunos de oficinas de direção, câmera, fotografia e roteiro, realizadas por a Fundação Cultural do Piauí; trabalhos de Francisco Monteiro Júnior, um entusiasta do audiovisual piauiense devotado a produzir ficção a «Os amores de Teresa», de Chiquinho Perreira, documentário que faz um registro da diferença cultural e social entre a cidade e a zona rural de Teresina. Em as sessões de sexta-feira são exibidos sempre três vídeos. Apesar de se chamar Cinema na Rua, o projeto da ABD-PI e Fundação Antares tem ido poucas vezes ao encontro do povo. Uma das finalidades originais do projeto é fazer mais exibições nos bairros da cidade. Segundo, Roberto Sabóia, a praça do bairro Monte Castelo e o Teatro João Paulo II, no Dirceu, já receberam o projeto uma vez e os resultados foram muito animadores. O motivo de ainda não poder se tornar itinerante de fato é devido ao aparelhamento, ainda insuficiente para atender uma demanda grande de pedidos de exibição. Em as sessões fora do prédio, o projeto conta com uma tela móvel de 3m X 2m, um projetor, um aparelho de som, um DVD player e uma arquibancada para 100 pessoas -- e tudo precisa ser deslocado até o bairro onde vai acontecer. «Estamos em fase experimental. As sessões de sexta-feira estão atraindo pessoas interessadas em cinema e promovemos debates. Sem divulgação, já conseguimos uma boa platéia», diz Roberto Sabóia. Roberto Sabóia revela que a ABD -- PI já está na disputa para ampliar o Cinema na Rua e poder fazer exibições de filmes e documentários piauienses em muitos bairros da cidade. «Estamos concorrendo ao edital do Ministério da Cultura e queremos transformar o ponto num ' pontão ' com três telas e poder, inclusive, circular por o interior do Piauí». Taí um bom roteiro de filme. Número de frases: 18 De a universidade para o mercado em seis anos, a Banda Pequi lança sua estréia fonográfica com um DVD gravado ao vivo por o paulistano Itaú Cultural A façanha não é pequena. Gestada dentro de uma escola erudita devota dos cânones da música clássica estrangeira, a Banda Pequi vai ganhando reconhecimento dentro e fora de Goiás com música instrumental popular. Partiu também de cânones estrangeiros, do jazz, mas lançou no ano passado um DVD antes mesmo do primeiro CD com um repertório completamente nacionalizado. O DVD homônimo, viabilzado por o Projeto Rumos do Instituto Itaú Cultural (ICI), vem sendo cartão de visitas em diversos palcos da região e outros estados. A Banda Pequi foi formada em 2001 por os professores Jarbas Cavendish e Alexandre Magno, ambos pernambucanos radicados em Goiânia. Cavendish é professor de hamonia, pianista, compositor e arranjador e Magno é professor do instrumento de ele, o trombone, com especialização clássica no exterior. Para começar o projeto de Extensão e Cultura da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac / UFG), requisitaram 20 alunos na escola e deram uma cara irreverente ao repertório jazzísitico. O grupo costuma se apresentar com perucas, roupas espalhafatosas e trejeitos ensaiados que espanam o formalismo por vezes entendiante das big bands. Em o começo, o repertório mirava composições conhecidas do jazz, como Stella by Starlight (Victor Young) e Birdland (Joe Zawinul) e outras, mas o tempo levou o grupo a buscar cada vez mais a música brasileira para formações do tipo de big band. Em os extras do DVD, o trombonista Alexandre Magno, co-diretor artístico do grupo, explica a mudança. «Com o tempo, vimos que fazer jazz o mundo todo já fazia, enquanto música brasileira o mundo todo está curioso para conhecer e ninguém a executa melhor do que nós». O maestro Jarbas Cavendish, compositor, pianista e arranjador, adiciona mais motivos. «Isso atende também à necessidade de adequar o repertório ao nível de dificuldade dos alunos, além do que, a música brasileira sempre nos instigou mais do que o jazz», contou. Ainda nos extras, registrados no ambiente da escola, os coordenadores Jarbas e Alexandre repassam o histórico do projeto e alguns dos músicos também dão depoimentos da experiência. Os demais integrantes da Banda Pequi são Gilson Pires, Wellington Medeiros, Elizeu Moreira e Adenilson Santana (trompetes); Weller Meneses, Adil Silva e Paulo Rodrigues (trombones); Antonio Alves, José Vieira, Marcos Silas e Thiago Carmo (sax); André Prado, Décio Gonçalves e Marcelo Rezende (bateria e percussão); Érica Fernanda (baixo); Fabiano Chagas (guitarra) e Henrique Reis (piano). O violonista / guitarrista Fabiano Chagas fala da experiência teórica da música clássica aprendida na escola e transposta para a banda. «O formalismo da escola clássica, a relação com o instrumento, me ajudou muito na questão da improvisação», diz. Érica Fernanda, única mulher no grupo, revela o esforço de ela em participar por causa da relação que sempre teve com a música popular. Jarbas e Alexandre trouxeram de Recife boa parte das músicas que compõem o repertório do grupo. A maioria são partituras de grandes instrumentistas de orquestra (como maestro Duda, Edson Rodrigues e Dimas Sedícias) que também escrevem para a formação de grandes bandas populares. De quebra, retomaram também um dos brasileiros pioneiros em cultivar a música orquestral com despojamento popular: Severino Araújo, da longeva Orquestra Tabajara. De ele, a Banda Pequi revê com o suingue engraçado de sempre Espinha de Bacalhau (com novo arranjo de Adail Fernandes). A o repertório dos compositores nordestinos, a big band goiana adicionou nomes como o de Moacir Santos (Coisas Número 10, incluída posteriormente nos shows) e Dorival Caymmi com a famosa Maracangalha, arranjada por o próprio Jarbas Cavendish, que assina também o maracatu Rapa Coco. São 12 faixas gravadas durante a apresentação do grupo no auditório do ICI, na Avenida Paulista, em 2004. Um combinado contagiante de samba, baião, choro, frevo e maracatu tocados à moda das big bands e com um jeitão próprio e brincalhão. O nome, conta Jarbas, veio da mais famosa iguaria da culinária goiana, o fruto de sabor imponente que não deixa ninguém indiferente ao primeiro contato. Era o significado que buscavam para a banda. A Banda Pequi é fruto não só da abertura da academia à música popular e de um esforço pessoal de seus músicos, mas também de uma contingência de mercado, considera o maestro Jarbas Cavendish. Segundo ele, o inusitado do vídeo antes da estréia em disco foi uma oportunidade de chegar ao mercado. Mas o caráter didático do projeto, ainda que profissionalizado, não termina. «A Banda Pequi é conceitual, é fruto de pesquisa, não é mercadológico, mas se continuarmos tendo oportunidades de mercado tanto melhor porque gostaríamos muito de dar melhores condições de trabalho aos alunos e mesmo perspectivas profissionais de longo prazo», diz o maestro. De essa pesquisa contínua de repertório, o próprio show de lançamento mostrou novidades não incluídas no vídeo, como a já citada Coisas Nº 10 e Qui Nem Jiló, de Gonzagão. O próximo passo da Banda Pequi, conta Jarbas, será estruturar um songbook de partituras das músicas tocadas por a banda. Há um projeto antigo de comercializar as partituras via internet, o que esbarra nas dificuldades de negociação de direitos autorais. O músico paulista Benjamin Taubkin reforça a teoria do nicho que a Banda Pequi persegue. «A banda é a prova concreta da música instrumental no Brasil e da descentralização por que passa a música no país», depõe o músico citando a localização geográfica do grupo, fora do eixo Rio-São Paulo, centro consolidado neste e noutos segmentos musicais. Ele fala de uma «crise da indústria» que acabou revelando uma produção gigantesca em diferentes gêneros musicais no país. Combinado com as facildades tecnológicas, esse ambiente propocionou a explosão criativa que agora se ressente de espaços para se revelar aos brasileiros. É o desafio que continua posto a todos da cena independente, mas as primeiras etapas já estão dominadas, concordam os músicos da banda. «Nossa meta é a perfeição, agora se a encontraremos é outra historia. E também não temos por que seguir a lógica da indústria, apesar de querer mostrar o trabalho cada vez mais por aí», disse Jarbas Cavendish de olhos postos na banda como objeto acadêmico, mas também como possibilidade artística. Em reunião com a pró-reitoria da UFG no final de 2006, o maestro solicitou bolsas de estudo para os alunos-músicos. «Seria uma forma de dar fôlego ao projeto, trabalhar um repertório mais ampliado e conciliar com as atividades acadêmicas», concluiu o» maestro Cavendish. Número de frases: 50 «Se o sertão está dentro da gente, não estranha que o sertão esteja em toda parte, que o sertão seja o mundo». Guimarães Rosa Dia 13 de outubro. Durante três horas, das duas às cinco horas da tarde, eu, meu primo Jonathas Mamede, o biólogo Gustavo Soares (cunhado de Jonathas) e o argentino, também biólogo, Juan Pablo Aldatz tentamos subir a Serra do Pai Pedro, no município de Acari, região do Seridó norteriograndense. Em aquela ocasião apenas tentamos. Em o último dia 24 de dezembro conseguimos ... De volta à Serra do Pai Pedro De essa vez, a volta à Serra do Pai do Pedro foi diferente. A começar por o guia que nos acompanhou até um certo ponto da subida. Infelizmente não pudemos contar com a sapiência de seu Zé de Lino. O pobre se encontrava amargando 14 pontos no pé, em decorrência de uma machadada desferida em si mesmo por acidente. Não podendo nos acompanhar, ele logo indicou outro nome: «Júnior, filho de Neto». De cara ficamos nos perguntando: «Como alguém se chama Júnior tendo como pai alguém chamado Neto?" -- Isso nos deu um verdadeiro nó nas têmporas. Coisas dos homens do sertão ... «A casa de Neto fica lá no assentamento. Chame Júnior que ele vai com vocês!», disse Zé de Lino muito solícito. Sobre o nome ' Júnior ', cabe uma ressalva. A simplicidade do fala do sertanejo transforma nomes como Júnior automaticamente em «Júino». Mas não convém explicar essa derivação sociolinguísticamente. Mais uma vez, coisas dos homens do sertão ... Chegando à casa de Neto, uma morada simples com uma cisterna, fruteiras e plantas ao redor, batemos palmas e apareceu uma senhora que se mostrou muito atrapalhada. Meu primo Jonathas, que esteve no primeiro ataque ao Pai Pedro, perguntou: «A senhora sabe onde fica a casa de Neto?». E a dona respondeu: «Sei não. Acho que é para a banda de acolá, disse ela, apontando para a esquerda. Meu primo ainda foi mais insistente: «Aqui não é mesmo a casa de Neto, pai de Júnior não?».-- «É não». Respondeu ela monossílabicamente. Contrariado, Jonathas se lembrou que na Semana Santa tinha vindo com meu pai até a casa de Neto buscar peixe. Resolveu então ligar pra ele e tirar a prova real. «Tio, tô aqui naquela casa que a gente veio buscar peixe ( ...), mas a mulher disse que não é aqui». Meu pai deve ter respondido de maneira meio rústica, pois ele desligou o telefone com um ar de riso e muito convicto foi logo dizendo: «Homi, é aqui mesmo!». Chamamos por a dona de novo e ele disparou: «A senhora conhece Jácio?" -- «Conheço." --» Pois é. Em o começo do ano a gente veio aqui buscar peixe. A senhora se lembra?" -- «Me lembro».-- Pois ele falou que aqui é a casa de Neto, pai de Júnior». E ela articulou com toda a displicência do mundo: «É sim!». Meio zangado, meu primo soltou um sonoro «oxente» e debulhou o resto: «Rapaz, eu não perguntei se aqui não era a casa de Neto?" -- «Perguntou." -- «Pai de Júnior»?».-- «Perguntou».-- «Então porque diabo a senhora disse que não era aqui?».-- «Viche, é mermo né?" -- Rebateu a senhora coçando a cabeça meio confusa. Não verbalizei, mas o meu pensamento exclamava um sonoro «Puta que pariu!». Minutos depois, lá vinha Júnior recém saído do banho. Um tanto mirrado, o rapaz, que aparentava uns vinte e poucos anos, mesmo um pouco cansado, já que tinha subido a serra na noite anterior pra caçar, se prontificou em nos colocar na trilha certa para o pico da " Serra do Pai Pedro. «Xô pegá minha alpercata e uma camisa que a gente sobe». Depois disso, Júnior só abriu a boca quando chegamos num certo ponto da serra e ele deu as suas últimas coordenadas. Me lembrei de Graciliano Ramos e de " Vidas Secas: «Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar falando alto». Júnior era assim. Falava pouco, mas quando falava, falava alto. Antes que ele fosse embora e nos deixasse ali na solidão do píncaro, pedimos que ele tirasse uma fotografia com a gente. Mas o lacônico cicerone sertanejo se negou dizendo: «Deixe pra lá, deixe pra lá». Esse fato nos descontraiu nos primeiros minutos sem o nosso guia. Confesso que fui o primeiro a soltar um comentário satírico: «Ele deve achar que a alma de ele vai ficar presa na máquina ...». A subida Durante as cinco horas da subida, o sol quente foi o principal inimigo. Não tínhamos nenhum termômetro, mas a julgar por o suor em nossas testas e por a sede constante, posso garantir que a temperatura naquela geografia serrana ultrapassava os quarenta graus fácil ... Diferente da primeira tentativa, a nossa peregrinação por a trilhas da Serra do Pai Pedra foi, de certo modo, mais tranqüila. Pelo menos em relação à subida. Pegamos uma vereda aberta do pé até o pico da serra e depois de uma hora de caminhada chegamos a uma casa abandonada *, que em outras épocas serviu de base ou moradia para alguém da região. Atapetado ora por pedras soltas, ora por areia quente, o caminho era um misto de cactos, xiquexiques, catingueiros, pereiros e pés de mofumbo. Além da flora agressiva e bucólica, era comum a presença de calangos nos espreitando por entre os pedregulhos, lagartixas se esgueirando por as árvores, preás sorrateiros e animais peçonhentos como a Jararaca que avistamos. Eu e o argentino Juan tentamos fotografar a cobra, mas a serpente se perdeu rapidamente por as gretas do Pai Pedro. Com a fotografia frustrada por a agilidade do animal, o jeito foi seguir o rumo até o bendito topo da serra. Com mais algumas passadas, goles d ´ água e pequenas pausas para o consumo de barras de cereais ou bananinhas desidratadas, como era o caso de nosso amigo Gustavo, demos de encontro com mais uma casinha perdida na imensidão da cordilheira. O pauperismo da construção se traduzia em paredes de tijolos aparentes e telhas feitas nas coxas, já que olhando para o teto, ficava patente a tamanha diferença entre uma e outra. Mesmo com a possibilidade daquilo tudo vir abaixo a qualquer momento, a casa que, atualmente era sustentada por algumas vigas de madeira nos serviu muito bem. Ali pudemos comer, dormir um pouco e produzir alguns contrastes. Sacamos das mochilas multifuncionais e repletas de compartimentos, nossas comidas industrializadas como pão integral, salame, barras de cereais, isotônicos e outras maravilhas da engenharia alimentícia e nos fartamos. Muito diferente de um outro grupo que também utiliza aquela casa como ponto de apoio: os caçadores e seus bizacos artesanais. Dicotomias à parte, depois de forrada a pança e terminada a siesta, seguimos de uma vez por todas até o final da nossa expedição. Tínhamos um sentimento em comum; acontecesse o que acontecesse, dessa vez só sairíamos de ali depois de conseguirmos domar o velho Pai Pedro. E assim o fizemos. Com pouco mais de cinco horas de caminhada entre pedras, areia, mato seco, goles d' água, conversas mirabolantes, alguns arranhões, aulas de obscenidades ditas em castelhano por o argentino Juan, pausas para fotografias, «idas ao banheiro», mais goles d' água, aforismos e falação da vida alheia, alcançamos finalmente o topo da Serra do Pai Pedro. Aleluia! Entrelinhas Até lá no topo do Pai Pedro a figura já mitológica do Capitão Nascimento se fez presente. Meu primo Jonathas, que deve ter visto o filme Tropa de Elite pelo menos umas sete vezes resumiu, de certo modo, o sentimento do grupo verbalizando mais um famoso bordão do cinematográfico " Capitão: «Missão dada, é missão cumprida». Chegando em cima da Serra do Pai Pedro, a primeira sensação que tive foi de contemplação. Lembrei dessa vez de Jack Kerouac e dos seus «Vagabundos Iluminados». Um clássico da literatura beatnik, o livro narra as aventuras de jovens adeptos do montanhismo que vivem com o mínimo de dinheiro e são alheios à sociedade de consumo norte-americano. Lá para as tantas uma das personagens solta o seguinte aforismo: «É, cara, sabe que para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas ..." O silêncio da cordilheira foi quebrado quando chegamos numa das escarpas do Pai Pedro e Jonathas começou a gritar na tentativa de produzir ecos. Não preciso dizer que o resto da equipe entrou na brincadeira e que ficamos por uns cinco minutos gritando feitos uns doidos naquela imensidão de pedra, não é mesmo? Sobre as casinhas abandonadas ... Em as serras do Seridó, é muito comum encontrarmos casebres que, à primeira vista, parecem não ter um propósito bem definido. O incauto deve pensar: «Como alguém pode viver aqui em cima, sem água e sem ninguém por perto?». Existem pelo menos dois motivos consideráveis sobre essas casas aparentemente despropositadas. O primeiro de eles se deve ao fato de que na envernada, os fazendeiros mandavam suas boiadas para passar uma temporada na serra engordando. O segundo fica por conta do plantio do algodão mocó, comum na região. Por isso, a construção dessas casas. Número de frases: 116 Clique Aqui E VEJA Mais Fotos De essa Expedição! Compositor com 04 CDs lançados e poeta com 20 livros publicados, Anand Rao está lançando por o Brasil um novo gênero o MPBJazz no show intitulado Versos & Sons, onde faz músicas letradas com harmonias, ritmos e melodias diversas. Apresenta também, composições pré-elaboradas como costuma dizer, feitas em parceria com poetas brasileiros. Sua home-page (www.anandraobr.com) é atualizada diariamente, divulgando notícias da área cultural, possuindo músicas para download bem como, livros disponibilizados na íntegra em PDF, enfim, vale a pena conferir. Anand Rao Anand Rao, diferente de outros que militam na área da música, sabe que é absolutamente desconhecido apesar de se apresentar desde os anos 80. Quando toca em bares, pubs, cafés, muitos dos clientes pedem músicas tradicionais de MPB mas, leva numa boa tudo isso e respeita o público. Tendo sido músico da noite no período de 1983 à 2000, tem larga experiência na área mas, é deste período que traz belas recordações de ter participado de diversos shows com Cássia Eller, Renato Russo e Zélia Cristina (hoje Duncan) só que não adotou o rock, pop ou reggae como seu gênero, sendo sim um ouvinte atento do jazz e da música indiana e um leitor assíduo dos poetas brasileiros. O show Seu show, sempre intimista voz & violão, se divide em duas partes: uma de composições feitas com poetas brasileiros e outra de composições feitas na hora e no final de cada espetáculo, de forma independente e alternativa, oferece para o público o seu vigésimo livro de poesias intitulado, Poemas Domados Sob o Signo da Lua, bem como, seu quarto CD gravado no home studio de Assis Medeiros intiutlado Versos & Sons. O trabalho da criação na hora foi percebido e desenvolvido após vários anos de brincadeiras com pessoas, onde Anand presenteava canções, bem como, conquistava mulheres fazendo músicas na hora. Percebeu então, que poderia se aprimorar nesse caminho, e este seria o grande gancho, o grande diferencial do seu trabalho. Começou a estudar muita harmonia, ritmo e melodia pois, não queria fazer nada parecido ou que lembrasse o repente feito na região nordeste. Sendo assim, suas músicas feitas na hora, bem como, composições prontas são norteadas de vários ritmos, harmonias e melodias. É rara uma música que segue em todo o esqueleto um só ritmo, ou seja, não faz pagode, baião, samba, fandango, carimbó e sim, composições com diversos ritmos, harmonias e melodias. Percebeu também que se tivesse como base os três pilares supra-citados, ritmo, harmonia e melodia, estaria fazendo jazz, aí resolveu se aprimorar no som das palavras bem como, na percussão de boca e começou a colocar letras nas melodias de suas composições de improviso, passando ele a chamar o gênero de MPBJazz, por causa, especificamente, dos improvisos de letras e melodias. A raiz MPB denotaria as letras e o sufixo jazz a melodia, bem como a quebra rítmica. Já o processo de composição com poetas começou ao musicar um poema do poeta Fabrício Carpinejar (melhor poeta do Brasil em 2002), radicado no Rio Grande do Sul, filho do grande poeta Carlos Nejar. A o musicar seu poema, enviou o trabalho para Carpinejar via e-mail em MP3, e viu que poderia compor com qualquer poeta do Brasil pois a internet rompe fronteiras. Tem como parceiros até agora, Ademir Bacca (poeta agitador do encontro de poesia em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul e um dos grandes nomes da poesia daquele estado), Maurício Mello Jr. (crítico literário do Correio Braziliense por 10 anos, hoje produtor do Programa Leituras da TV Senado), Turiba (criador da Revista Bric a Brac que fez história no Distrito Federal e poeta com vários livros publicados), Nicolas Behr (famoso poeta de Brasília, efetivo partícipe do movimento marginal da poesia que teve seu nome em todas as páginas de jornais por ter sido preso no período da ditadura, época em que vendia livros na rua, e ter recebido carta de apoio de Drummond), Jorge Amancio (poeta radicado em Brasília do movimento negro), Alecu Britto Corrêa (poeta radicado em Brasília, com diversos livros publicados), Pessoato (poeta de Belém do Pará do movimento Malta de poetas), Cristina Bastos (poeta e fotografa do Ladrões de Alma), Menezes Y Morais (grande articulador do Coletivo de poetas que faz shows em bares do DF) e outros nomes de expressão da literatura nacional. Equipe de Trabalho e Patrocínio Em termos de patrocínio, não há. Ele faz o seu capital de giro, investindo o que ganha na arte em arte, sua arte, e preserva o capital que ganha como Assessor de Imprensa. Assim, solicita que os leitores desta matéria, encaminhem sugestões de patrocínio ou o endereço onde o músico pode solicitar patrocínio e aceita patrocínios diversos pois, todos aqueles que o patrocinarem ganharam um jingle feito de improviso. Seus shows são gratuitos, se norma do local, mas geralmente, cobra couvers, bilheteria enfim, alguma forma de dinamizar, otimizar, o capital de giro em prol da arte. O outro lado de sua vida é a Assessoria de Imprensa onde ganha a vida fazendo assessoria para empresários, funcionários públicos federais de destaque enfim, são diversos os caminhos e atividades que exerce. Fonte -- Juliana Freda Sanches -- Assessora de Imprensa Contato para entrevistas -- Juliana Sanches (53-32284737 e 53-99132884) Anand Rao (61-81644847 e 61-99839873) Heládia Ribeiro (85-88045572) E-mails -- Anand Rao (anandrao@terra.com.br) Heládia Ribeiro (heladiaribeiro@yahoo.com.br) Número de frases: 34 Site -- www.anandraobr.com Não existe mais nenhuma loja de discos em Maceió! Dá pra acreditar nisso? Uma ou outra coisa no Centro, mas que viraram lojas que vendem outras coisas também, disco só, não dá. Lojas de CD? Aquelas lojas de comprar música mesmo, com divisões por gênero nas prateleiras, isso acabou por aqui. Para comprar um disco original, bonitinho, lançamento, é preciso ir às grandes lojas de departamentos, onde não se encontram aqueles discos mais raros, ou simplesmente os de públicos segmentados, não, nada disso, é o pop do óbvio e convencional. Que saudade da Eletro-disco e da Rock-shop no Centro há anos atrás, ou da última resistente dessas lojas a fechar, a Estação CD, no principal shopping da cidade. Claro que não existem lojas de discos! Os donos do mercado hoje na capital alagoana, e imagino que em todo lugar, dadas às devidas proporções, são os carrinhos ambulantes dos piratas, preço baixo, concorrência desleal. «Vai um Calypso aí moral? Um rock? Dez reais». Perguntei ao fã de jazz e colecionador de discos Fernando Meda, o Bacana, dono de 3.000 CDs e 2.000 Vinis, como ele faz pra comprar coisa nova pra sua coleção, ele respondeu. «Realmente não tem mais loja de discos em Maceió e tenho que recorrer às compras por a internet, ou aos amigos, que quando viajam me trazem alguma coisa, o último disco legal que eu descolei foi um ' Marco Pereira e Gabriel Gross ' que veio de Brasília.». É (também) por causa desse cenário, que os compositores e bandas de Alagoas não conseguem vender seus discos na própria casa, não tem onde! Que dirá vender lá fora, sem uma «base» aqui, digamos assim. Mesmo os artistas que se destacam no cenário nacional como o Wado e o Sonic Junior, ambos com três discos bem distribuídos no mercado e com bastante público por aqui, são praticamente impossíveis de serem encontrados nas estantes de CDs das lojas multi-coisas de Maceió. Tampouco se encontram nos piratas, já que os dois trabalhos possuem públicos segmentados que são praticamente invisíveis aos olhos e ouvidos dos piratas. Ruim para o público, pior para os artistas. Como toda regra tem sua exceção, a banda Vibrações Rasta é um verdadeiro fenômeno de venda e de público em toda a cidade, dos surfistas de classe média alta às periferias das grotas, o Vibrações comanda. Acredito que por o reggae ser uma linguagem universal de fácil assimilação por grandes públicos, a banda caiu nas graças dos piratas, resultado, as apresentações dos caras são lotadas de gente, possuem um público fiel e gigante para o tamanho da cidade, além de serem também, na minha opinião, ótimos músicos. Só sucesso, só pode. Segundo Rodrigo Sutian, guitarrista do Vibrações, «nós nunca procuramos eles (os piratas), não sei como ficaram conhecendo nosso som, mas passaram a reproduzir e vender bastante mesmo, eles ganham o de eles e nós não ganhamos nada com isso». Os piratas perceberam a notória popularidade da banda na cidade e os transformaram em mais um produto no carrinho, com a capa scaneada e uma impressão tosca. O que o Vibrações ganha com isso? Público. Pára tudo!!! Que mundo é esse? Que os piratas dos carrinhos de CDR gravado em casa são mais esquema de divulgação que as grandes gravadoras!?!? Além disso tudo, tem a internet não é? Vende discos em lojas virtuais, onde parte do público tem essa alternativa da compra on-line, ou ainda os downloads de discografias completas. O artista / banda também tem a opção de achar um espaço bacana na rede, disponibilizar parte do material, divulgar, produzir, fazer contatos e tal. Os selos e distribuidoras independentes também cresceram, amadureceram e apareceram no Brasil e fora de ele, como a Monstro Discos, em Goiás, e a Tratore, em São Paulo, pra citar dois exemplos bem emblemáticos, ocupando outra boa fatia do mercado de discos. Voltando para o local, Maceió, o Vibrações é a exceção entre as bandas, e existe também a exceção entre as lojas, que é na verdade uma banca de revista. Em a Banca Zumbi dos Palmares, centro de Maceió, bem em frente à estação ferroviária, o resistente Aldo Gomes mantém uma estante que apresenta um panorama bem representativo da música contemporânea produzida no estado. Aldo explica sua motivação " Percebi andando por outras capitais que o pessoal valorizava sua própria cultura e seus artistas, enquanto que aqui, grupos de fora se apresentam e vendem seus produtos com esquemas milionários enquanto que o músico local, gente boa produzindo um trabalho muito bom, não tem nem onde vender seus discos na própria cidade. Resolvi tomar uma atitude e usar meu espaço, hoje já tenho 28 títulos na prateleira." Está tudo lá na Banca Zumbi, dos mais desconhecidos do underground aos mais populares, Aldo corre atrás dos artistas pra que eles usem o seu espaço, e vende, o danado vende mesmo. Com os piratas e a internet, o mercado fonográfico precisa dar um jeito de se adaptar. Não sei se é uma coisa bem mundial mesmo ou só em paises foco de pirataria, como o Brasil, mas é uma constatação um tanto indicativa do tamanho da crise apocalíptica que abala as estruturas dessa indústria no país, que uma capital como Maceió, mesmo pequena e pobre, não tenha mais uma loja de discos. Número de frases: 41 O período junino de 2007 terminou, mas dois registros lançados recentemente devem ficar na memória, num futuro próximo. Trata-se do «CD Estrela Brasileira» e do DVD «Rio do Mirinzá», do Bumba-meu-boi de Maracanã, um dos mais importantes grupos representantes da cultura popular maranhense. Os trabalhos foram produzidos por integrantes do grupo musical A Barca, de São Paulo, e contaram com o patrocínio da Petrobras. Produzidos por André Magalhães, Humberto de Maracanã (cantor do boi) e Renata Amaral -- instrumentista, pesquisadora e coordenadora do projeto, que integra A Barca -- o CD e o DVD trazem 23 toadas, entre músicas conhecidas do público maranhense e inéditas. Os registros foram gravados ao vivo em setembro de 2006, na comunidade do Maracanã, localizada na zona rural de São Luís, onde fica a sede do boi. O DVD possui 1h30 de duração e traz, além de imagens do boi em ação, depoimentos de integrantes da brincadeira. A produção imprimiu uma ótima qualidade técnica aos trabalhos, o que diferência o «CD Estrela Brasileira» e o DVD «Rio do Mirinzá» da maioria dos registros de cultura popular realizados no Maranhão. A edição e a masterização foram feitas no Estúdio Zabumba, em São Paulo, sob a supervisão de André Magalhães, que integra A Barca e também produz os trabalhos do grupo paulista. No entanto, o namoro do Boi de Maracanã com o primor técnico não surgiu hoje. Em o começo desta década, os pernambucanos Siba (ex-Mestre Ambrósio) e Beto Villares produziram, também ao vivo, os antológicos discos Luz de São João «(2000) e» Graça e Desejo de São João (2001)», que igualmente apresentaram uma sonoridade limpa, porém vibrante e densa. Por outro lado, o grupo A Barca já veio por diversas vezes em São Luís. Em 2002, o grupo lançou o ótimo «CD Baião de Princesas», com canções da Casa Fanti-Ashanti, uma das principais casas de culto afro de São Luís. O disco teve distribuição nacional por o selo CPC Umes. Há alguns anos A Barca vem cultivando uma amizade com a direção do Boi de Maracanã, o que resultou na parceria. Outras informações podem ser encontradas no site: www.abarca.com.br O Boi de Maracanã é um dos mais importantes grupos do sotaque de matraca. A palavra sotaque classifica os diversos tipos de bumba-boi existentes no Maranhão. Existem cinco principais: matraca, baixada, zabumba, orquestra e costa de mão. Os grupos de matraca são característicos dos limites da ilha de São Luís e possuem como instrumentos principais, as matracas. De aí, a razão do nome. A gravação, realizada na sede do grupo, registrou o batalhão com a formação original, buscando, sem interferências estéticas, uma sonoridade contemporânea, afirmando a manifestação como um dos maiores gêneros populares do país, inserindo-a no contexto das grandes orquestras percussivas, que marcam a música urbana brasileira, como os afoxés baianos e os maracatus pernambucanos. O batalhão, como é chamado o conjunto de integrantes do boi, possui uma força assombrosa, constituindo-se numa orquestra de centenas de instrumentos entre matracas, pandeirões, maracás e tambores-onça que pulsam numa sofisticada polirritmia sobre a qual pairam as melodias inspiradas e a voz do cantador Humberto de Maracanã. É importante ressaltar ainda que o Boi de Maracanã é um dos maiores e mais antigos grupos do Maranhão, de sotaque de matraca, com mais de 100 anos de existência. O grupo costuma levar mais de 600 integrantes -- entre rajados, índias, caboclos, músicos e personagens -- às ruas e arraiais de São Luís. O amo Humberto é considerado um dos maiores cantadores e compositores de bumba-boi de todos os tempos. Continuidade Quem visitar São Luís no mês de julho ainda poderá conhecer os diversos grupos de bumba-meu-boi, inclusive, o Boi de Maracanã, no Projeto Vale Festejar, que acontece todos os finais de semana do mês oficial das férias, no Convento das Mercês, prédio localizado no bairro do Desterro, no Centro Histórico da capital maranhense. Número de frases: 28 Como um scanner vê? Claramente ou obscuramente? Esta é uma tentativa tosca de traduzir a frase que dá nome ao conto de Philip K. Dick e ao filme baseado em ele. Quão imparcial é um observador? E quando seu objeto de estudo inclui ele mesmo? Quem controla os controladores? Afinal, estamos à serviço de quê? Essas são algumas das perguntas que o observador perspicaz terá ao final da sessão de «A Scanner Darkly» de Richard Linklater. Em essa época em que temos cada vez menos privacidade (algumas vezes por vontade própria), em que entretenimento rápido é uma opção cada vez mais preferida à relações duradouras e existe uma busca incessante por imagens instantâneas e super-realistas, Linklater parece tomar a decisão certa quanto a maneira de «arte-finalizar» o seu filme. A os desavisados, o Scanner a utiliza a versão digital de uma técnica chamada Rotoscopia, em que desenha-se sobre imagens capturadas por uma filmadora ou camera fotográfica (muito utilizada em desenhos animados desde o tempo da Branca de Neve). O filme assim ganha mais uma etapa que parece uma ponte entre produção e pós-produ ção, quase que aproximando-o do processo de criação de uma história em quadrinhos, onde por mais habilidoso que seja o desenhista, o trabalho final não pertence apenas à ele, mas também ao arte-finalista. De a mesma maneira, não basta confiar nos fotógrafos e atores do filme, no final, cabe aos animadores (por mais digital que seja o processo) interpretar e de fato nos apresentar com a versão final dos eventos. E considerando as temáticas de drogas, voyeurismo, conspiração e paranóia embutidas no filme, é difícil pensar num acabamento melhor. Linklater já havia usado a mesma técnica no etéreo «Waking Life» onde tudo se encaixa muito bem, mas por diferentes motivos. Pode ser apenas uma questão de distanciamento, mas a técnica agora parece mais apurada, existem mais detalhes a ser notados, e a sensação de flutuação é menor (que em Waking Life pode muito bem ter sido intencionalmente exagerada). O filme corre com muito bom humor, e confesso que analizar interpretações em rotoscopia não cabe a mim, especialmente em se tratando de Keanu Reeves, que sempre me lembra de uma tábua de passar roupa, e Winona Ryder, a menina chorona do bairro. Mas serei audaz em dizer que Robert Downey Jr., mesmo embutindo canastrices e exageros, pareceu se sair muito bem e é o personagem mais memorável. Fred, o personagem principal entra e sai do filme da mesma maneira, como uma tela em branco, ou talvez multicolorida. E apesar do filme encerrar uma grande dúvida que a trama deixa no ar logo no início, várias outras, interpretativas, que surgem ao longo da história permanecem lá, e resta ao observador perspicaz decifrá-las. Número de frases: 19 http://www.myspace.com/binario) Tocar alto, contrariar expectativas e quebrar paradigmas: esse é o objetivo do Faverock. O movimento de bandas de periferia de Belo Horizonte é hoje um dos circuitos musicais mais expressivos e representativos da capital mineira. Tudo surgiu da ausência de um local para poder se apresentar na região do Aglomerado da Serra. A necessidade de subir no palco e ligar os amplificadores foi mais forte do que o conformismo. Criado, organizado, tocado e divulgado por os próprios artistas envolvidos, o Faverock é um exemplo de trabalho coletivo. «Geralmente responsabilizamos determinadas pessoas ou bandas por certas funções, de acordo com as demandas do movimento. Infelizmente nem sempre tudo dá certo, e quando isso ocorre nos reunimos, discutimos e redefinimos as coisas, tudo em conjunto», afirma Mariana Zande, uma das cabeças do movimento e integrante da banda O Grito da Rosa. É nas mostras realizadas anualmente que as bandas integrantes do movimento têm a oportunidade de tocar juntos e mostrar as suas músicas para o público. Em o início, em 1999, os eventos eram realizados com pequenos patrocinadores. A partir da 4ª e 5ª edição os shows passaram a ser organizados em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte. A partir desse ponto o trabalho começou a ficar mais conhecido e estabeleceu pontes com outros parceiros: a 6ª foi organizada junto com o Expresso Melodia, da Fundação Clóvis Salgado e a 7ª teve maior apoio da Ordem dos Músicos e do Fernando Rock Bar (onde o evento acabou acontecendo depois da PBH não cumprir com o apoio que daria). As dificuldades de manter uma banda e um movimento de rock independente são praticamente as mesmas em qualquer canto do país. E um importante fator facilitador também se repete nas diversas experiências: a internet. Por mais que isso já não seja mais novidade, essa é uma ferramenta que faz diferença para quem desenvolve um trabalho autoral e independente, não importando em qual região da cidade você mora. Graças às conexões locais e às digitais, as bandas do Faverock são conhecidas em diversas partes do Brasil e também em outros países. Grupos de outras cidades puderam conhecer o movimento e se interessaram em participar. Foi uma expansão não calculada e que eles ainda não sabem como administrar, um saudável descontrole: «Com a internet perdemos a dimensão de onde chega o nosso trabalho e às vezes nem temos o controle de quem estamos atingindo. É incrível ver o que criamos juntos, numa dimensão tão pequena, tomar tão grandes proporções», explica Robert Frank, guitarrista / vocalista do Pêlos de Cachorro e também idealizador do projeto. A influência se dá também por o caminho inverso. As referências musicais das bandas do Faverock são atualizadas por o o que acontece no rock independente americano e britânico. Embora seja bom lembrar que ainda não são muitas as pessoas que tem acesso à internet nas favelas, Robert garante que quem está conectado já passa por uma grande transformação em seu dia-a-dia. «O cara que faz filmes com sua câmera fotográfica digital, por paixão, sem nunca ter pensado em mandar para festivais ou alçar vôos mais altos, coloca seu vídeo no youtube e pessoas do mundo inteiro lhe mandam e-mails falando da profundidade de seu trabalho», explica. Esses contatos estabelecidos são importantes para não «guetificar» o que o Faverock realiza. Buscar constantemente pontos de diálogos com o que acontece no resto da cidade e estar aberto a intercâmbios artísticos é um processo natural para o movimento. Não é uma tarefa fácil definir o que é periferia e por isso não faz sentido pensar em algo hermético e impermeável. Conscientes disso, os organizadores realizam, desde a 3ª edição, os shows anuais entre as ruas Capivari e Alípio Goulart: no encontro entre o Aglomerado da Serra e o bairro que lhe dá nome, onde o centro esbarra com a periferia (e toma conhecimento do que por lá acontece), no lugar onde as fronteiras não fazem sentido. Confira algumas músicas das bandas integrantes do Faverock. Carolina Diz Distúrbio Formes Pêlos de Cachorro Número de frases: 35 Yvitu Figura presente em pelo menos 10 edições da Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, o escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão descreve a manifestação cultural como um Boeing com um plano de vôo bem estruturado. Em tempos de caos aéreo, tenho dúvidas se essa é a comparação mais adequada. Mas, às vésperas da 12ª edição, uma turbulência inesperada balançou -- e ainda balança -- esse que dizem ser o maior evento literário da América Latina. Tudo por conta do parecer contrário do Conselho Estadual de Cultura à liberação de mais de R$ 1 milhão para o patrocínio. A quantia, considerada por os conselheiros incoerente com a atual situação financeira do Rio Grande do Sul, representa quase um terço do orçamento da Jornada. Turbulências à parte, a lona do circo da cultura armou-se e Passo Fundo -- município de 188 mil habitantes localizado na região Norte do Rio Grande do Sul -- respira literatura, como a maioria dos jornais utiliza ao mencionar a jornada. O termo não é o único clichê usado por a imprensa ao se referir à «festa das letras», ao» show da literatura», entre tantas outras expressões empregadas ao longo dos 26 anos de jornadas literárias e dos seis de Jornadinha -- irmã mais nova destinada a 16 mil alunos de escolas da região de Passo Fundo. A o pisar na dimensão dessa manifestação cultural, posso garantir que a cidade gaúcha -- além de fria nesta época -- está próxima de respirar livros, pelo menos entre agosto e setembro. Agora dizer que o município realmente respira literatura é utopia -- aliás, essa foi justamente a palavra-tema do espetáculo de abertura da edição desse ano. Como a maioria dos jornais -- são dezenas de repórteres e fotógrafos disputando um computador vago na sala de imprensa -- concentra-se praticamente só nos debates que põem cara-cara escritores e leitores, pouco se comenta sobre as modificações sofridas por a jornada neste ano. Essa 12ª edição acrescentou espaço para outras manifestações culturais, como a música, as artes plásticas, o cinema, a moda ... O próprio nome do moçambicano Mia Couto como vencedor do prêmio de melhor romance publicado em língua portuguesa, com a obra «Outro pé de sereia», parece ter surpreendido os participantes. Sinceramente, com a vitória de «Budepeste», de Chico Buarque, em 2005, muitos -- inclusive eu -- acreditavam numa decisão mais» marqueteira». Porém, cinco horas antes da entrega, a garantia de que o autor premiado estava presente na jornada apontava para Mia Couto ou o goiano Flávio Carneiro, autor de «A confissão», e afastava as apostas do romance» As intermitências da morte», do Nobel José Saramago. Tentar uma palavrinha com Mia Couto tornou-se quase impossível. Além dos jornalistas presentes na Jornada, o «agora mais conhecido» escritor atendia inúmeras ligações. Uma entrevista coletiva garantiu o acesso da imprensa. Cheguei na sala pontualmente. O africano de olhos claros já estava sentado, cercado de repórteres. «Podemos começar?», pergunta. Parece incrível, mas o interesse da maioria dos jornalistas -- inclusive meu -- ia muito além da obra «Outro pé de sereia». Todos queriam saber um pouco da literatura daquele pequeno país africano, caracterizado por as guerras e por a língua portuguesa. Quando questiono sobre a publicação de livros, Couto orgulha-se da evolução de Moçambique nessa área. Em tempos passados, o país publicava apenas duas obras por ano. Agora, a média mantém-se entre 30 e 40." Em essa questão da literatura, ainda estamos muitos ligados a Portugal. Portugal nos abre portas. Minha obra chegou até aqui justamente por causa dessa porta», comenta. Apesar da mesma língua, Brasil e Moçambique vivem em realidades diferentes. Atualmente, um desconhece o que se passa no outro -- ao contrário do período das décadas de 60 e 70, quando os países mantinham uma espécie de intercâmbio. Aliás, esse distanciamento foi uma das principais críticas do autor africano. «A imagem que os brasileiros têm da África ainda é muito mistificada. Mas essa mudança de visão precisa partir dos africanos», comenta. Curioso, pergunto qual a imagem de eles sobre o Brasil. «A maioria se identifica com o futebol e as novelas. Mas não é só isso. Uma pequena parcela da população tem acesso a obras de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e, no meu caso, a poesia de Carlos Drummond de Andrade», acrescenta. Depois de 20 minutos de bate-papo, o escritor deixa a timidez de lado e opina até sobre a proposta de unificação da língua portuguesa. «Sinceramente, acho que não vai ajudar nesse intercâmbio de literatura entre os países. Pelo contrário, vejo essas diferenças gramaticais como recursos que enriquecem as obras». Descontraído, no final da entrevista, ele se descreve como um péssimo biólogo (além de escritor, ele é biólogo). «Não acredito na ciência», confessa. Jornada de personagens Por trás de prêmios, debates e toda uma programação oficial cumprida à risca por a organização, a Jornada Nacional de Literatura esconde histórias totalmente desconhecidas. Esse é o meu principal desafio aqui: descobrir e contar curiosidades que não sobem ao palco, mas circulam nos bastidores. Imaginem como coordenar os mais de 100 escritores presentes nesta edição. São detalhes básicos como transporte, refeições, hospedagem ... No meio de uma multidão com fome de literatura, 200 meninas, todas vestidas com moletons laranjas -- aliás, toda a organização se veste em cores diferentes, de acordo com a função na equipe -- correm de um lado para outro atrás dos escritores. Elas têm até um nome especial: são as chamadas jornadetes. De o hotel para o ônibus. De o ônibus para o restaurante. De o restaurante para a lona do circo. De a lona do circo para a sessão de autógrafos. De a sessão de autógrafos para a coletiva na sala de imprensa. E assim prossegue os intermináveis compromissos das jornadetes junto aos autores. Segundo elas próprias, ao concluir o trabalho, seguem até suas casas descansar para o próximo dia. Já eles (os escritores) rumam para festas, bares, jantas, etc (detalhes que ainda quero descobrir). As «jornadetes» são selecionadas com cerca de um mês de antecedência e dedicam-se ao «ofício» de forma voluntária. «Abrimos vagas e elas se inscrevem. Depois, passamos por uma série de reuniões para definir tudo», me conta aceleradamente a professora Dalva Bizoglin, fiel escudeira de Tânia Rösing, idealizadora das jornadas literárias e adjetivada como «fenômeno da natureza» por o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça. Quando questiono o porquê das jornadetes serem somente mulheres, a professora Dalva me corrige rapidamente: «Tem meninos também, mas são poucos». Para algumas das meninas, ser «jornadete» é a possibilidade de estar próxima dos escritores. Apesar da presença de autores reconhecidos na literatura, como o italiano Carlo Ginzburg, o cubano Reinaldo Montero e os brasileiros Mário Sabino, Lya Luft, Daniel Galera, entre outros, muitas jovens me confessam desconhecer com quem permanecem o dia todo. «É muita gente. Não tem como conhecer todos», justifica Naiara Bizotto, de 18 anos. Por as minhas passagens por o circo da cultura, percebo que, apesar das atividades de pré-jornada -- quando caravanas percorrem cidades estimulando a leitura das obras dos autores convidados, os autores não são desconhecidos apenas para algumas jornadetes. Estimuladas a participar das jornadas para obter certificado de horas, muitas professoras também sequer sabem quem são aquelas pessoas no palco. Mudança de endereço Andar por a jornada é conhecer histórias, além daquelas contadas por os livros. Conversando com integrantes da organização, descubro um personagem ímpar, digno de um conto. A os 30 anos, o pernambucano Gustavo Melo mudou o roteiro da vida quando conheceu a manifestação cultural de Passo Fundo. A participação na 11ª edição, em 2005, o fez trocar o calor de Recife por o frio do Rio Grande do Sul. Em a tentativa de conversar com Gustavo, telefono para um número repassado e logo escuto uma voz masculina com forte sotaque do Nordeste. -- Pois não, diz ele. -- Aqui é Guilherme. Estou elaborando uma matéria da jornada para o portal Overmundo. Descobri a história do senhor e gostaria de conversar, é possível?, pergunto. -- Claro, pode ser daqui a 10 minutos em frente ao estande da organização?, responde empolgado. -- Combinado! Em exatos 10 minutos, Gustavo Melo aguardava no local combinado, fortemente agasalhado com roupas de lã e um casaco -- já adaptado ao frio. «Eu larguei tudo em Recife. É uma loucura sem fim. Vim para cá em 2005 de forma despretensiosa e fiquei encantado com o que acontece em Passo Fundo», dispara logo de início. Três meses depois, o escritor já era morador da cidade. «Estou aqui até hoje, envolvido no Mestrado em Literatura», conta. Pergunto sobre uma possível diferença quanto ao apego à literatura entre Passo Fundo e Recife e ele responde que são realidades incomparáveis. «Aqui há uma diferença gigantesca em relação a todo Brasil», compara. Em Passo Fundo, o trabalho do Mestrado reduziu o tempo do pernambucano dedicado à produção de livros. Com três obras publicadas, duas independentes e uma por uma editora paulista, o escritor pretende lançar mais uma de contos em breve. Enquanto não concluí a publicação, Gustavo acompanha as dos colegas escritores. Em esta edição da Jornada, pretende aproveitar a oportunidade para pagar uma dívida antiga. Ele quer agradecer pessoalmente ao autor Ziraldo por as influências transmitidas através de duas obras. «Em a minha lembrança mais remota como leitor, lembro de estar lendo ' A turma do Pererê ` e ' O menino maluquinho '. Isso contribui para minha formação como escritor e como pessoa». Assim, finalizo essa primeira parte das minhas impressões sobre a Jornada Nacional de Literatura. De olho nessa manifestação cultural e na busca por curiosidades, ainda «invadi» o hotel dos escritores. E tem mais: três autores com recorde de presença em jornadas resolveram unir suas vozes e formar «os três tenores». Todos esses detalhes ficam para um próximo relato. Até mais. Número de frases: 106 Eu vou iniciar este ensaio citando o lindo poema de Casimiro de Abreu, que retrata, de forma tempestiva, o meu estado de espírito neste momento: «Ho! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais, que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais». Empreendi uma viagem de volta, impulsionado por as minhas lembranças, na esperança de reviver meus anos dourados, não como protagonista, atuando, evidentemente, mas vivenciá-los apenas observando a paisagem, que foi o cenário de incontáveis travessuras, de infindáveis preocupações de pais, que, por a vastidão das opções onde brincarmos, dificultava-lhes controlar-nos. Não sei se é a idade que avança a passos largos, ou se é realmente a saudade de uma infância tão bem vivida, tão espetacularmente «gasta» por as horas que despendia em brincadeiras intermináveis, ao longo de um dia que não findava nunca. Hoje, eu acredito que, àquela época, o dia durava mais de 24 horas. Ou, pelo menos, no decorrer de tantos anos, as horas encurtaram-se. A que fenômeno poderia culpar por essa tragédia? Está muito na moda o «El niño», El niña», aquecimento global, ou quem sabe o buraco negro? não, na verdade, nenhum desses fenômenos causaria uma alteração na duração do dia. Verdadeiramente, quer saber a minha opinião? Tenho uma teoria: a duração do dia é inversamente proporcional à nossa idade. Parece coisa de matemático, ou físico, mas é a pura verdade, podem crer nisso. O que me incomoda não é a idade em si, mas as lembranças que ainda estão muito vivas na minha mente, apesar de terem ficado lá trás, perdidas no tempo e que, jamais, poderei vivê-las novamente. Vejo-me claramente, como num filme a cores, a percorrer despretensiosamente as ruas da minha pequenina Miraí, sem me preocupar com a vida, mau cumprindo com a minha única obrigação, que era estudar; aliás, não tinha consciência de que não era um trabalho, uma obrigação, mas o meu futuro, que dependia daqueles livros chatos, horrorosos, cheios de números, regras, normas, teorias de Arquimedes, Newton, coordenadas cartesianas, etc., histórias de povos que viveram até antes de Cristo, imagina! estudar latim. Se o próprio professor rotulava a língua de «morta»! e eu pensava, quando iria utilizar-me dessa língua, com quem iria conversar? Penso que havia um dedo da igreja por trás disso tudo, para atrair os jovens para os seus seminários, quase sempre carentes de alunos. Sei lá, é só uma desconfiança. Como poderia me interessar por essas coisas, se lá fora o Deus das brincadeiras e da malandragem conspirava a nosso favor? Impossível deixar de falar desse professor, um português obtuso, altivo, de cultura invejável, era o astro do colégio. Deus e Demônio em nossas vidas, pois a grande dificuldade em aprender suas matérias, como português e latim, e enfrentá-lo nas argüições era temeroso. Seu calcanhar de Aquiles era a avareza. Para economizar o custo da eletricidade, ia para a rua e utilizava a claridade do poste para ler à noite. Esta sovinice lhe custou a família. Foi abandonado. Era impossível conviver com um homem, que, além de mesquinho, não cuidava da sua própria higiene. Seu terno, normalmente escuro e o mesmo de sempre, vivia salpicado por a caspa que lhe caia da cabeça. Era nojento! às vezes me pergunto: será maluquice de gênio? não sei, não quero julgá-lo. Logo no início, percebi as diferenças que me aguardavam. A estrada entre Muriaé e Miraí, que era pouco mais que um caminho aberto nas matas, a enxadadas, de chão batido, que, nas épocas de chuva, viravam um lamaçal quase intransponível, agora o asfalto a cobre totalmente. Não há mais poeira, lama ou outro impeditivo para as viagens, é o modernismo. Temos que aceitá-lo como uma coisa boa! A Maria-fumaça, há muito desativada, era, em muitas estações do ano, a única opção de sair para outras cidades. A estrada de ferro ligava Miraí a Cataguazes de onde seguia-se viagem para o Rio de Janeiro, Juiz de Fora, Belo Horizonte, etc.. Mas era romântica uma viagem de trem, ou apenas assistir as suas partidas e chegadas. Meu avô era o chefe da estação, chamado de «Agente». Minha bisavó contava que, quando da inauguração da estrada de ferro, muitas pessoas se escondiam de medo, quando viam aquela coisa estranha soltando fumaça por todos os lados. Ela, como era portuguesa, já havia conhecido o trem na Europa, razão porque não teve medo do «monstro» de ferro. As paisagens, que ainda guardo na lembrança, não existem mais. O campinho de futebol, palco de «famosas» peladas, brigas diárias, diárias reconciliações, virou uma favela, praga que se espalha pra todo lado. O rio onde nadávamos, hoje é um depositário de dejetos, de matéria contaminada, onde não é permitido sequer um mergulho, sem o risco de uma séria doença. O lindo pasto, que rodeava a cidade, onde empinava minhas pipas, virou ruas cheias de casas. Empreendi uma viagem de volta à minha cidadezinha querida, mas não achei o que procurava, ela, como eu, havia crescido, já não era a mesma. As pessoas, já não as conheço. Poucas são as famílias daquela época, que ainda resistem ao tempo e à tentação de se aventurarem por outras bandas. Empreendi uma viagem de volta, procurei-me, mas não me encontrei lá. Nem meus amigos estavam lá. Meus pais também não estavam mais lá. Não encontrei ninguém. As lembranças persistem, mas os fatos ficaram lá, perderam-se nas brumas do tempo, repousam no recôndito do meu âmago, nas profundezas da minha alma. Sonhar é o que me resta. O Clube Miraí, palco de momentos inesquecíveis, por onde passaram grandes orquestras e conjuntos, que animaram memoráveis bailes e inesquecíveis carnavais. Suas paredes foram testemunhas do início e do término de grandes amores. Hoje está ocupado por um banco. O novo Clube não tem o mesmo ar aristocrata, nem a magnificência da arquitetura, ou o esplendor de uma época. Não cria uma simbiose, uma interação entre as pessoas que buscam ali um ambiente de família, de integração. Sei que pode parecer discriminação, mas não há mais a seleção das pessoas de um mesmo grupo social. Ha! E as paixões. Eram avassaladoras, eternas até nos apaixonarmos de novo. Trocava-se de amor a cada dia. E a timidez? e o medo de nossa eleita não corresponder a esse sentimento tão divino e termos nosso segredo revelado, do que se utilizavam nossos colegas para fazer gozações, que não perdoavam nossas fraquezas e nem respeitavam nossos sentimentos mais profundos. Miraí cidade decantada em versos e prosas, assim como eu, já não é a mesma. A tranqüilidade, que a distinguia, perdeu-se com os anos. Hoje há drogas, viciados, roubos, dizem que é coisa do progresso, novos tempos. Houve até um assalto a banco, com morte de um rapaz, que conheci ainda criança. É uma catástrofe! Mas, ainda assim, continua a ser querida, é o meu berço, onde vi a luz pela primeira vez. A casa onde nasci continua lá, linda, restaurada. Sei até o quarto que me recebeu. Não sei como pode ser, mas vejo a cena na minha mente: as paredes do quarto, o teto, minha mãe contorcendo-se com as dores do parto, a parteira, o médico, minha avó ... meu primeiro choro. Lá fora a chuva caia com violência. Ainda ouço o barulho de seus pingos no telhado, os trovões e o clarão dos raios através dos vidros da janela. É como se estivesse flutuando e assistindo tudo. É verdade que a imagem é um pouco turva, mas, ainda assim, consigo ver aquela cena. Houve, naquele dia, uma das maiores enchentes que a cidade já conheceu. Como pode ser? Acho que alguém me registrou esses fatos, que me parecem tão verdadeiros, que acredito sentir todas as emoções daquele dia. Bem, essas reminiscências hão de perdurar por toda minha vida, sempre me levando ao passado, à minha infância e adolescência, para me relembrar que fui feliz lá. Poderia utilizar-me da frase famosa do nosso poeta maior, " Ataulfo Alves: «eu era feliz e não sabia». Além disso, foi na adolescência que conheci o meu verdadeiro e único amor; cursávamos o ginasial e éramos grandes amigos. Ainda me lembro de ela esperando-me no portão de sua casa para irmos juntos para o colégio. Foi difícil confessar o meu amor para alguém que era tão amiga. Corria o risco de não conseguir namorá-la e perder uma grande amizade. Mas tudo deu muito certo. Tão certo que nos casamos e vivemos felizes até hoje. Número de frases: 96 Diria, como nos contos de fadas, e vivemos felizes para sempre! «Toma, gostosa, lapada na rachada, você pede que eu te dou, lapada na rachada. Toma, toma ..." O trecho acima é parte integrante (e principal) da letra da música, estilo forró, da Banda Saia Rodada, gravada por outros grupos ao redor do país. E a famosa lapada na rachada não só é o nome de uma popular bebida nordestina, mas, também, é uma expressão de forte apelo sexual (é o próprio ato sexual no sentido metafórico), o que caracteriza a dupla interpretação da letra musical. Porém, lapada na rachada pode ter infinitos significados: Pode ser a porta de entrada para a perpetuação da miséria e da ignorância a que os nortistas e nordestinos pobres desse país estão submetidos, caracterizada por o uso excessivo das bebidas alcoólicas, sobretudo a cachaça e por a banalização do sexo que leva jovens recém saídos da infância a penetrar num mundo lascivo sem nenhuma preparação educacional ou orgânica. Entretanto, paradoxalmente, lapada na rachada também é a libertação (por mais incrível que isso possa parecer), no sentido em que torna o norte nordestino consumidor dos seus próprios produtos culturais (sem juízo de valor), gerando emprego e renda para milhares de pessoas que direta ou indiretamente transitam por essa indústria de massa. Portanto, caros, a lapada na rachada nos mata e liberta, nos consome e alimenta, é veneno e antídoto, é Deus e o Diabo e somos, inexoravelmente, reféns nesse círculo vicioso que não tangencia ... Nem pra sonhar. Mas de quem é a culpa? De o capitalismo que seduz e coopta artistas com promessas de fortuna e fama, obrigando-os a direcionar seu repertório, atrofiar seus talentos inatos (ou encobrir a falta destes) e reproduzir sons ininteligíveis tipo: «Pirilipompon, pirilimpompon», música, estilo pagode, da banda Os Bambaz, ou «eu boto ou não boto, ai to com medo», do grupo de forró Gemido. A culpa é dos próprios artistas, cansados de cantar para um público indiferente em barzinhos de beira praiana em troca de um tira-gosto e algumas garrafas de cerveja, e vendem seus corpos e suas utopias para o «show business» em busca de um melhor destino. Ou a culpa é do público que se deixa influenciar por o canto desafinado de falsas sereias, embriagados por o ambiente frívolo, inebriados por os sabores «calientes» na periferia da América Esquecida? Tenho a leve impressão de que a culpa é de todos nós, pois o principal problema dessa porta aberta para o abismo é a ausência do processo de criação profundo, de um modelo que culturalmente tenha qualidade e riqueza e, concomitantemente, seduza a massa (massa = turba e massa cinzenta) conduzindo-nos, obrigatoriamente, a conhecer, interpretar, discutir, questionar, interagir, enfim ... que tire a «bunda do nosso cérebro» da rede que ele se encontra e nos transporte a outras paragens sensoriais, mais antenadas, mais abertas para o universo em todas as suas nuanças e mais específica para a nossa realidade, pois, assim, talvez consigamos desenvolver uma visão sistêmica do mundo a partir das nossas peculiaridades, influenciando todos que estão à nossa volta. Quem pode liderar esse processo de enriquecimento cultural? Creio que qualquer mudança nesse panorama caótico, raso e sem perspectiva passa, necessariamente, por o engajamento cultural dos, ditos, «letrados» da nossa região, que acumulam conhecimento, mas se escondem num mundo hermético e compartimentalizado, criam ilhas com essências artificiais européias ou cariocas (ou americanas), moram em cavernas platônicas com sobrenomes suntuosos e dão as costas para a sua própria cultura, negando-lhe qualquer possibilidade de enriquecimento, permitindo que tamanho potencial de riqueza cultural morra, ainda embrionário, de profunda inanição. Uma verdadeira lapada no lombo da cultura regional do norte e nordeste, que sangra e agoniza sob o olhar impassível da nossa omissão. Número de frases: 20 Lendo o texto Boletim de Ocorrência, do Pedro Rocha, não tive como não me lembrar da breve porém marcante visita que fiz a Salvador em 2003. Foram cinco dias participando de um curso de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia -- cinco dias de muito sol e calor (na medida para um carioca como eu, mesmo um carioca auto-exilado em São Paulo). Só não deu pra pegar praia, porque o curso foi puxado. Não cheguei a fazer amizades no curso, fiquei meio estranho-em o ninho. Desencontrei-me com o André Lemos (professor da UFBA e uma das maiores autoridades brasileiras em cibercultura e cyberpunk), com quem volta e meia troco e-mails mas que só tive a oportunidade de ver pessoalmente uma vez, em Sampa; aproveitei as horas vagas e fui à luta: peguei o Elevador Lacerda, por a módica quantia de Cinco centavos (guardo até hoje de recordação um bilhete), visitei a Cidade Baixa, tomei caldinho de sururu (e fiquei fã). Também freqüentei bastante o Pelourinho durante o dia -- onde pude usar à vontade um dos quatro cybercafés do entorno, que já tinha banda larga, inclusive. A noite é bacana no Pelô -- o centro de Salvador fica incrivelmente parecido com Ouro Preto, uma das minhas Cidades Visíveis (algum outro dia falarei sobre isso). O problema foi o esquema engana-gringo otário (extensível para todos os turistas de modo genérico): bebidas bem acima do preço normal, putas espertas rondando as mesas dos bares na caça, e um problema sério de guia: consultando o Guia Quatro Rodas daquele ano (que havia sido lançado um mês antes), obtive a informação de que a entrada para o Olodum era de 10 reais. Chegando lá, a surpresa: nada menos que Trinta paus. Em 2003, portanto vocês podem fazer os cálculos de correção e perceber que não era barato na época e hoje seria bem mais caro (aliás, quanto está hoje, alguém me informa?) Tive então uma outra infeliz reminiscência: o Rio. O Rio de Janeiro continua lindo, mas anda bastante abandonado. Toda vez que volto me sinto um turista -- e ser um turista no Rio não é muito legal. Não digo nem só por a infra oficial, mas porque o submundo carioca também não é mais aquele. Fico meio deprê ao andar por as ruas de Copacabana hoje em dia. O que redime o copacabanense é o sanduíche do Cervantes. Mas o clima atualmente anda mais para Copacabana me Engana do que (infelizmente) para Santa Clara Poltergeist. Falar nisso, por que esse Puta livro do Fausto Fawcett não encontra editora para republicação? Número de frases: 24 Cartas para a redação. Em o bairro do Saboeiro, em Salvador, os conjuntos habitacionais construídos, na década de 1980, por a Urbis (empresa ligada ao BNH, tal qual havia as COHABs no RJ e SP), predominam na paisagem. Este é um dos muitos bairros satélites à Avenida Paralela, via que liga o centro da cidade ao aeroporto e à Linha Verde, por a qual se chega ao litoral norte. O Saboeiro não tem luxo, apenas a realidade de uma classe média baixa -- já que, no Brasil, as famílias que ganham dois salários mínimos são consideradas «classe média», cujas perspectivas não vão além da Paralela. Tal como o morro de Rás Bernardo, no Saboeiro não tem play, não tem playground. Os prédios são baixos e as áreas de recreação tradicionais da molecada sempre foram as ruas. Em a maioria das vezes, ladeiras. Em alguns outros casos, um puxado de terra onde rolam os «bábas» (designação local para «pelada», que é uma designação carioca para» futebol entre amigos "). Muitas dessas descrições permeiam minha infância, quando passava férias na casa de minha vó. Por mais que ela more num «condomínio» ilhado à essa realidade -- tal qual se estivéssemos num cenário parecido com o da música «Minha Alma», dO Rappa, mas sem tanta violência, sempre havia que se cruzar a água para chegar na ilha. E, no mais, a água sempre dava um jeito de entrar um pouco e lembrar que o mar é maior do que aquele pedacinho de terra. Isso, para uma infância de apartamento no Rio de Janeiro, era sempre enriquecedor. Foi nesse cenário que aprendi, com os meninos daqui, a andar de bicicleta. Em 2007, minhas vindas por aqui são mais raras e fugazes. A cabeça sem preocupações das férias infantis já foi substituída por a dependência adulta de um celular sempre ligado e a angústia de estar longe de uma rede wireless. E foi graças a isso que, dessa vez, me reaproximei de tanta coisa. Por a necessidade insana de procurar um computador plugado a qualquer coisa, sai à procura de uma lan house. Já sabia do quanto esse tipo de loja está espalhado por o Brasil, mas ainda não tinha tido necessidade de me conectar a uma. No máximo a um ' cybercafé '. E a diferença entre um cybercafé e uma lan house pode ser, muitas vezes, a mesma que separa a minha Ipanema do meu Saboeiro. Meu pai também queria ir e fomos juntos. Aliás, a comparação que fiz entre o cybercafé e as lan houses veio de uma confissão de meu pai: -- Ih, eu achei que lan house era coisa de interior. Outro dia eu sacaneei um amigo meu de Teixeira de Freitas, que lan house era coisa de interior, que no Rio só tinha cyber café. Pois é. Os processos valorativos começam assim. A o chegar lá, o preço era de R$ 0,75 por meia hora. Era fim de tarde, inicio de noite. Uma porta separava o balcão de recepção quase-árido, da sala com ar-condicionado onde tudo acontecia. Um minuto depois, lá entramos. Tudo apertado. Corredores só pra um. Mesas mal divididas entre os monitores, suportados por puxadinhos onde se apoiavam os teclados bambos. Eram doze máquinas, nove ocupadas. Vendo que estávamos juntos, o rapaz rearrumou os clientes, quase todos (ou todos) adolescentes. Pediu para um trocar de máquina, o outro chegar para o lado e pronto. Tínhamos duas máquinas vizinhas. Entre os cinco passos que me separavam da porta até a máquina 4, muita gritaria, som alto numa banda Simple Plan qualquer. Uma olhada nos monitores revelava orkuts, warcrafts, need for speeds, MSN, chats e um YouTube. Mas o grande capital da coisa toda são as ferramentas de relacionamento. Elas constroem sorrisos no rosto da menina e um «Ôxe», no menino nervoso com o que leu no scrap da garota que, segundos antes, ele observava numa foto, em trajes de banho. Em as redes de jogos, o menino grandão cansou de jogar determinado game e grita para o rapaz do lado de fora: «Ô Ricardo!!!! Troque aê por Warcraft pra mim na máquina 7». Em alguns segundos, o grandão descobre que naquela máquina será impossível jogar Warcraft. Ele então se levanta e fala com um dos amigos: «Então você vai levantar daí porque eu vou jogar Warcraft». O menino menor se chateia, mas está resignado. A lei do mais forte vence também nas lan houses, tal qual vencia nos playgrounds da zona sul carioca nos anos oitenta. -- Paciência, você só sabe jogar essas coisas frescas de futebol, de sei-que-lá ...-- completa o grandão, num contexto que eu não observei. Pouco tempo depois e a zoeira cresce novamente. Um reclama do outro. Todos riem. Alguém «bufou». -- Rapaz, aqui todo mundo tem nariz ...-- reclama uma voz, que em seguida chama o Ricardo, como se o dono da loja fosse corrigir o aroma da sala. Percebo que Ricardo é tipo um inspetor, um pai de todos. Briga, apazigua, reclama, dá ordens. Tal como nos tempos em que, nas férias, eu jogava os bábas, a vontade do mais forte ou do dono da bola sempre prevalece. Logo, estão todos jogando Warcraft. O Simple Plan (ou algo que o valha, criado sob a mesma receita) continua no ar. Uma hora rolou um Nickelback. Meu pai me olha e ri. Ele não entende nada. Se para mim já era estranho, imagine para ele que passou anos e anos da infância nos saboeiros de Salvador. Não é coincidência que a menos de 100 metros de ali já exista outra lan house também lotada. E também não é coincidência que o campo de futebol que existe a 200 metros esteja vazio. Não é questão de fazer propaganda do governo -- muito menos de um governo por o qual eu não votei, mas não há como negar que os investimentos em programas de barateamento de computadores como o Computador para Todos, estão levando à criação de ambientes como esses. São os novos playgrounds. É gritante que a informática está cada vez mais perto de todos. Lógico que aqueles muitos que dizem que essa é uma realidade distante do universo dos brasileiros ainda têm razão. Só que o processo parece estar virando com uma velocidade abrupta. É engraçado observar que naquela sala a maior parte das pessoas estivesse em chats ou em jogos. Este foi exatamente o mesmo caminho feito por a minha geração, que talvez tenha sido a que viu os PCs e a Internet, durante a adolescência, chegar aos lares brasileiros entre 1995 e 1997. Fosse em jogos como Prince of Persia, Elifoot, os primeiros Fifa Soccer, Superkart ou em conversas longas por os chats da UOL ou por as salas do mIRC, com esses jogos iniciamos o nosso aprendizado digital. A o abrir o Microsoft Word da máquina 4, a barra de «arquivos recentes» acusou um pouco mais desse ' approach ' atual. «Curriculum Vitae (1).doc «Curriculum Vitae (2).doc Trabalho aprovador por o prof». Não vi ninguém utilizando a Internet ali para consultas ou para viagens sem rumos no info-mar. Ao mesmo tempo, não se pode negar que fossem jovens aproveitando -- a seu jeito -- a vazante da info-maré. E assim, a minha cabeça foi criando referências, tentando entender parte do processo que aquele local está vivendo. Talvez ainda não seja a ocupação intensa, pulverizada e sistemática de conteúdos simbólicos, que Ronaldo Lemos previu (1) como forma de afirmação cultural para os brasileiros nessa ainda jovem mídia. Até mesmo porque o processo etapista que se imaginava -- de, em primeira instância, fazer os computadores chegarem às mãos de todos para depois se pensar uma forma de democratização de conteúdo, citado por Lemos, já está ultrapassado. As lan houses dos Saboeiros, Brasil afora, estão ajudando ainda a inverter a lógica do PC, como personal computer. A compreensão de uma máquina coletiva, interativa, que agora é de um e daqui a pouco é de outro que quer jogar warcraft, é um bem cultural que pode trazer resultados muito generosos para o país no longo prazo. Esse é o playground do Saboeiro. Estranho não pensar em Blade Runner, dentro daquela sala escura, de sons altos, barulheira, sons de tiros se misturando a Simple Plans. Sempre penso em Blade Runner nessas horas. Em a lan house do Saboeiro, a ficção ganha cores cinzas, mas que são mais convidativas do que o cinema me fazia supor. (1) Lemos, Ronaldo. «Creative Commons: Quem foi que disse que precisa?». Rumos Brasil da música: pensamentos e reflexões. Coordenado por o Núcleo de Música. Itaú Cultural. Paulo. 2006. Número de frases: 97 Evandro Teixeira Nascido em 1935 no interior de Irajuba, Bahia, Filho de Seu Waldomiro Teixeira Almeida e de dona Almerinda Teixeira Almeida, Evandro viveu toda a sua infância como outros garotos de interior, andando a cavalo, pegando picula na rua e levando uma vida tranqüila. Estudou num colégio de padres, no primário e fez o segundo grau em Salvador. Foi ainda garoto que ele teve o primeiro contato com a fotografia, na escola que estudava fazia jornalzinhos interno tendo assim o contato com a foto. Fazia também jornal que circulava na cidade de Jequié e Ipiaú. Evandro conta que sempre teve veia artística, desde pequeno queria trabalhar com algo relacionado à arte, diz ainda que quando pequeno criava caixas cinematográficas com lâmpadas para brincar de produtor de cinema. Ele revela que já quis ser de tudo nessa vida, aviador, escultor, produtor de vídeos, e o que hoje ele é, fotografo. Evandro teve boas influências, Zé Medreiros, grande fotografo que trabalhou no Cruzeiro, foi uma das pessoas que sempre apoiou em seus trabalhos. Ele também diz que aprendeu com grandes nomes da fotografia, quando ia visitar ateliês de fotografia, para se aprofundar no assunto. Com 23 anos de idade se formou no Rio de Janeiro, na Escola de Belas Artes. Ele começou sua carreira de fotografo, quando conseguiu seu primeiro estágio no Diário de Noticias em Salvador. Com um tempo de trabalho no Diário de Noticias, voltou para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar no Diário da Noite, jornal que pertencia ao mesmo grupo do Diário de noticias, o grupo de Assis Chateaubriand. Mas no ano de 1963, ele começou a trabalhar no Jornal do Brasil, onde está ate hoje. Suas fotografias lhe renderam muitos prêmios, inclusive já teve livros publicados, documentários exibidos em longa e agora esta escrevendo um novo livro, entitulado de 68 destinos. Casou com Marly Teixeira e teve duas filhas, Carina Caldas, hoje jornalista, e Adryana Almeida, fotografa. A alegria de Evandro ainda é completada por duas lindas netinhas, que enche de alegria, seu coração. Evandro sempre registrou momentos extraordinários da vida das filhas através de suas lentes, sempre em momentos diferentes as meninas eram fotografadas e hoje continua registrando momentos familiares, agora o alvo das suas lente são as sua duas netas. São 49 anos de carreira profissional, com clicks de diversos tipos, e foi com muita batalha que Evandro construiu uma das mais sólidas e importantes carreiras do fotojornalismo brasileiro. Número de frases: 18 «Enforcados», povoação que deu origem ao atual município de Nossa Senhora das Dores, remonta à idéia do enforcamento de alguns gentios que habitavam aquele local, idéia esta considerada durante muito tempo como uma lenda, a «lenda dos Enforcados». Sendo assim, o objetivo deste é mostrar que Enforcados não foi lenda, mas «História do Índio em Sergipe», História esta marcada por a violência da colonização européia em solo indígena, por o genocídio e por o etnocídio. Desta forma, basearemo-nos nas obras de Ariosvaldo Figueiredo, Beatriz Góis Dantas, Capistrano de Abreu, Clodomir Silva, Felisbelo Freire, Frei Vicente do Salvador, de entre outros, mostrando assim que, diferentemente do que apregoou o Professor Severiano Cardoso, seguido por outros autores, Enforcados não se trata uma lenda, mas de um símbolo da resistência do nativo das terras de Cirigype contra o avanço colonialista europeu. Entre os dias 13 e 31 de março de 1904, o Professor Severiano Cardoso publicava no Jornal «O Estado de Sergipe», do qual era redator-chefe, uma série de fatos lendários que se perpetuaram no imaginário popular sergipano. Em 1961, para que estas fábulas tivessem «maior divulgação e perenidade na memória pública», o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGS), dava a referida publicação em sua Revista. Vejamos o que escreveu aquele professor sobre " Enforcados ": «Dizem pessoas antigas que o nome Enforcados, primitivo da Vila de N. S. das Dôres, tem origem na seguinte lenda (grifo nosso): em tempos remotos consta terem sido enforcados alguns gentios que habitavam na freguezia, lugar de nome Gentio. Mais tarde, indo alguns missionários pregar Missão na Vila, substituiu o nome por o de N. S. das Dores, sendo castigado com pena de excomunhão aquêle que repetisse propositadamente o antigo nome " (Cardoso, 1961, p. 87). Recorrendo ao Aurélio, procuramos o significado do vocábulo «lenda» e encontramos a seguinte proposição: " 1. Tradição popular. 2. Narração de caráter maravilhoso, em que os fatos históricos são deturpados por a imaginação do povo ou do poeta, legenda. 3. Ficção, fábula." ( Ferreira, 2000, p. 422) Partindo desta idéia, entendemos que a «divulgação e perenidade na memória pública» da lenda dos Enforcados tende a esconder o que representa esta palavra, sinônimo da resistência ao domínio de uma classe sobre a outra, ao domínio de uma cultura sobre a outra, ao genocídio e ao etnocídio aos quais foram submetidos ao longo dos séculos de colonização / exploração os nossos primeiros habitantes. Pois, como se referiu Ariosvaldo Figueiredo a cerca deste fato, " A lenda faz parte das idéias dominantes. Lenda, para a cultura oficial, é aquilo que o povo vê, sabe, sofre e diz " (Figueiredo, 1981, p. 9). Sendo assim, vemos que se faz necessário construir, como bem lembrou Michel Foucault, uma nova «vontade de verdade» que traga à tona uma nova interpretação dos fatos, mais próxima da realidade, e que não esconda a História por meio da idéia de que esta fora uma lenda, uma ficção, uma fábula, algo que só existe no imaginário popular. Para começarmos a construção dessa nova «vontade verdade», é de fundamental importância analisarmos a» Conquista de Sergipe, guerra empreendida por o colonizador português contra o indígena de Cirigype e finalizada em 1590», quando Cristóvão de Barros fundou a cidade de São Cristóvão, dando início à colonização / exploração daquelas terras. Esta «Conquista» teve início em 1575, quando os jesuítas Gaspar Lourenço e João Salônio empreenderam Missão catequizadora àquele território, fundando aldeias e erigindo igrejas, que teriam por função a conversão do gentio. No entanto, esta empreitada foi frustrada por a presença de soldados entre os religiosos, o que fez com que estes perdessem a confiança dos naturais, abortando-se assim a tentativa de conquista por a fé. Após a experiência de domínio por o evangelho, recorreu-se, contra o gentio de Sergipe, às armas. Ainda em 1575, o Governador da Bahia vai comandar expedição conquistadora àquelas terras, «fazendo guerra implacável aos índios, aprisionando uns, afugentando outros, devastando aquelas comarcas, por simples desfastio destruidor», como afirmou Capistrano de Abreu em seu Capítulos de História Colonial. ( Abreu, 2000, p. 84) Entretanto, mesmo saindo vitorioso, Luís de Brito e Almeida não deixará bases sólidas para a colonização naquele local, o que será entregue ao abastado fazendeiro do recôncavo baiano Garcia D ´ Ávila, que deveria iniciar ali a criação de gado, mal sucedida graças à resistência nativa. Assim sendo, a obra colonial portuguesa em Sergipe vai ficar abandonada até 1590, dando espaço aos franceses, antigos aliados dos gentios. Vale lembrar ainda que, a partir de 1580, Portugal está sobre o domínio político da Espanha devido à União Ibérica (1580-1640). Desta forma, em 1588, Felipe II da Espanha -- e I de Portugal -- volta os olhos para aquela localidade e determina, por meio de Regimento, que seja feita «guerra ao dito gentio», mandando castigá-lo e lançá-lo fora da terra» (Figueiredo, 1981, p. 46). Estava decretada, assim, «guerra justa» contra os índios de Sergipe, fato que será consumado entre os anos 1589 e 1590. Mas, o que motivou este empreendimento, que ficou conhecido como «Guerra de Sergipe»? Para Felisbelo Freire, deveu-se à necessidade de ligação entre os dois pólos da colonização portuguesa no Brasil, a Bahia -- o centro político -- e Pernambuco -- o centro econômico, e como conseqüência da expansão colonizadora baiana para o norte (Freire, 1891, p. 3 e 1995, p. 15). Além do mais, acrescenta Pires Wynne, a ameaça estrangeira, principalmente francesa, fez com que os homens do governo voltassem os olhos para o problema da colonização, pois, os francos, confirma Clodomir Silva, aproveitando-se do estado de abandono que se encontrava a obra colonizadora e sabedores das riquezas ali existentes, mantinham intensas relações comerciais com os nativos e, inclusive, pretendiam ali fixar-se (WYNNE, 1970, p. 41 e Silva, 1920, p. 8). Em De a Bahia a Pernambuco no século 16, o Professor Pedro Abelardo de Santana mostra as dificuldades enfrentadas por os que se arriscavam a fazer a rota Bahia-Pernambuco ou vice-versa, seja por mar ou por terra ou mesclando ambas as formas. Viajem esta que durava de quatro dias a até três meses, a depender das condições climáticas e das monções (direção dos ventos), e que tinham motivações religiosas (fundação de aldeias e visita de padres), econômicas (captura de nativos, «guerra justa» e intercâmbio comercial) e político-militares (combate aos invasores de outras nacionalidades). ( Ver: Santana, 2003). No entanto, para Ariosvaldo Figueiredo, em seu Enforcados: o índio em Sergipe, no qual analisa este empreendimento no viés da questão indígena, " o que existe, simplesmente, é ambição colonialista, ambição que gera a ação militar, a guerra de Sergipe. Mais uma " (Figueiredo, 1981, p. 48). De este modo, o conflito seria fundamentado na busca por terras -- que para o autor já estavam divididas antes da batalha, riquezas e escravos, neste caso, escravos indígenas, os «negros da terra». Pois, como citou «Frei Vicente do Salvador,» sendo guerra tão justa, dada com licença de el ´ Rei, esperavam trazer muitos escravos " (Salvador, 1982, p. 96). «O índio era então largamente utilizado como mão-de-obra escrava nas povoações portuguesas e nos engenhos que se espalhavam por a costa, particularmente para Bahia e seu Recôncavo. à medida que se expandiam os engenhos, aumentava a busca de escravos, que no século XVI eram sobretudo índios, mais tarde substituídos por os africanos». ( Dantas In: DINIZ, 1991, p. 33) Afinal, como afirmou Fernando Novais, ao iniciar-se a valorização econômica do território, a visão paradisíaca dos primeiros contatos foi logo dando lugar à «guerra justa» e a outros meios de preação do braço ameríndio, que deveria destinar-se ao trabalho compulsório nos empreendimentos europeus no além-mar. ( Novais In: Mota, 1995, p. 60) A «guerra justa», como entendeu Berta Ribeiro, estudiosa do Índio na História do Brasil, era uma forma dos portugueses ganharem a lealdade dos gentios amigos, eliminando seus inimigos, proteger os interesses dos colonos (que ganhariam terras e escravos) e destruir as» tribos " hostis. Para ela, a questão da escravidão do nativo teve como marco «a vinda de Martim Afonso de Souza em 1531 e 3 anos mais tarde a divisão do Brasil em Capitanias Hereditárias, [quando] tem lugar a modificação das tranqüilas relações entre portugueses e índios. Já então, o escambo de produtos se torna inadequado, assumindo importância cada vez maior o uso do mesmo sistema para conseguir trabalho». ( Ribeiro, 1983, p. 33) Levando-se em consideração o argumento do autor de Enforcados, recorremos novamente à obra do Frei Vicente do Salvador, onde o religioso descreve as duas tentativas de conquistar Sergipe por as armas (1575 e 1590). Lá, encontraremos as seguintes afirmativas: quando da primeira incursão, comandada por Luís de Brito, este «alcançou vitória, queimando-lhas aldeias, matando e cativando a muitos». Referindo-se à empreitada de Cristóvão de Barros, finalizada em 1590, ele é mais enfático ainda, ao citar que este lutou contra cerca de 20.000 (vinte mil) naturais, comandados por Baepeba, o que culminou com a morte de 1.600 (mil e seiscentos) gentios, tendo ido com ele para a Bahia 4.000 (quatro mil) destes na condição de escravos e tendo embrenhado-se nos sertões, para fugir deste genocídio, outros milhares. ( Salvador, 1982, p. 63 e 96) Sendo assim, como vimos em Figueiredo, a questão não pode ser simplificada apenas na expulsão dos franceses e na ligação entre Bahia e Pernambuco, mas deve levar-se em consideração a «ambição colonialista», pois, esta» tão justa guerra " traria benefícios práticos como terras e mão-de-obra para os empreendimentos a serem ali implementados. Então, afirma o escritor malhadoense, era necessário ao português ocupar e defender as terras que receberam, desde antes de 1575, por meio de sesmarias. ( Remeter a Freire, 1995, p. 15) Além disso, Felipe II, que determinou a Barros conquistar Sergipe, era conhecedor da existência, naquelas paragens, de salitre que, no século XVI, era mais importante que o pau-brasil, pois, necessário à fabricação de pólvora, era por Portugal exportado da Holanda e de outros países europeus. ( FIGUEIREDO, 1981, p. 47) De esta maneira, finalizado o conflito em 1590 e " Alcançada a vitória, e curados os feridos, armou Cristóvão de Barros alguns caravelões, como fazem na África, por provisão de el-rei, que para isso tinha, e fez a repartição dos cativos, e das terras, ficando-lhe de coisa e de outra muito boa porção, com que fez ali uma grande fazenda de currais de gado, e outros a seu exemplo fizeram o mesmo, com que veio a crescer tanto por a bondade dos pastos, que de ali provém de bois os engenhos da Bahia e Pernambuco, e os açougues de carne." ( Salvador, 1982, p. 97) É na repartição das terras que encontraremos a primeira referência a Enforcados povoação «que tão célebre nome deixou na História de Sergipe», como afirmou Silva Lisboa. Trata-se de carta de sesmaria datada de 04 de outubro de 1606, onde Pero Novais de Sampaio recebeu do Capitão-mor Nicoláo Falleiro de Vasconselos a concessão de 2 (duas) léguas de terras devolutas que iam do Outeiro das Piranhas até Enforcados. A intenção era a criação de gado, mesmo fato que motivou a doação de lotes naquele local a Dominguos Llorenso, sócio de Novais em outra cessão, e Dominguos Fiz (06/10/1606) e a Bernardo Correa Leitão (08/07/1623). ( Ver sesmarias em Freire, 1891, p. 349-422) Clodomir Silva (1920), que nas comemorações do centenário de Sergipe publicou seu Álbum, traz-nos valioso depoimento a cerca da «Conquista de Sergipe». Certamente baseando-se em Antônio José da Silva Travassos, Silva traça um mapa desta incursão e também do domínio dos morubixabas em cada região da futura Capitania. Partindo de ele, vemos que após fundar a cidade de São Cristóvão, Barros continua «sua faina de conquistador», indo à procura dos chefes indígenas que ainda não havia vencido. Assim sendo, encontra forte resistência do cacique Sergipe (Serigy), tendo no combate com este morrido o chefe Siriry e sendo aprisionado Serigy, que fará greve de fome na prisão, ato comum entre os naturais -- afirma o autor. Já nos domínios de Siriry, Barros recebe a visita de Japaratuba, que pede paz, sendo seguido por o seu irmão Pacatuba. De ali, segue o conquistador para o território de Pindahyba, onde é igualmente recebido com pedidos de paz. A partir daí, mostra-nos o Professor Clodomir, ficou «senhor de toda extensão do arraial da ermida de Santo Antonio do Aracaju, até além do riacho Tamanduá, ponto onde ficavam as terras do cacique Pindahyba, como já ficara de diversos pontos do sul». ( Silva, 1920, p. 10) Analisando-se este trecho e comparando-o com o mapa anexo ao texto, vemos que Enforcados localizava-se justamente entre os territórios dos morubixabas Siriry e Japaratuba e dentro da área conquistada por Cristóvão de Barros. De esta maneira, entendemos que quando Laudelino Freire (1902), de quem provavelmente Severiano Cardoso copia a informação e chama a mesma de lendária, diz que Nossa «Senhora das Dores» chamava-se antigamente Villa dos Enforcados, por terem sido enforcados em tempos remotos (grifo nosso) alguns gentios que habitavam naquela freguezia», podemos associar estes «tempos remotos» ao período da «Guerra de Sergipe», pois, quando Barros chega ás terras do finado Siriry, recebendo os chefes Japaratuba e Pacatuba, que foram pedir-lhe paz, certamente houve resistência a sua empreitada colonialista, a essa pacificação que seria benéfica aos portugueses, resistência esta que foi punida, exemplarmente, com a morte na forca. De o holocausto indígena em Sergipe, durante ou pouco tempo após a «Guerra de Conquista» quando tem início a colonização e exploração do território, vem a origem do nome Enforcados, que apenas 16 (dezesseis) anos depois do fatídico 1590 já aparece mencionado em cartas de sesmarias, sendo aquelas «terras devallutas que numqua foram povoadas de branquos». Afinal, a situação do indígena de Sergipe não foi diferente do que com este ocorreu em todo o território que hoje chamamos Brasil, nem da América Latina, pois, como informou-nos Eduardo Galeano, estudioso dos problemas deste continente, «Desterrados em sua própria terra, condenados ao êxodo eterno, os indígenas da América Latina foram empurrados para as zonas mais pobres, as montanhas áridas ou o fundo dos desertos, à medida que se entendia a fronteira da civilização dominante. Os índios padeceram e padecem -- síntese do drama de toda a América Latina -- a maldição de sua própria riqueza." ( Galeano, 2002, p. 59) Por tudo isto, entendemos que Enforcados tornou-se o símbolo da resistência do índio de Sergipe à «ambição colonialista» do europeu, resistência ao genocídio -- a morte física -- e ao etnocídio -- a morte cultural, resistência ao cativeiro, resistência à opressão, resistência esta punida com a morte exemplar na forca. Assim sendo, Enforcados é a representação fiel da História do Índio em Sergipe, e na América, História de séculos de exploração e marginalização, mas, também, História de resistência e insubordinação. Bibliografia: ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial, 1500-1800. 7. ed. Rev. anotada e prefaciada por José Honório Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Publifolha, 2000. ( Grandes nomes do pensamento brasileiro). Cardoso, Severiano. «Lendas Sergipans». In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (RIHGS). Aracaju, vol.. XXI, nº 26, 1961, p. 87. Carvalho, João Paulo Araújo de." ' Enforcados ` e a violência contra o indígena de ' Cirigype '». In: Anais do VII Congresso de Iniciação Científica/XV Encontro de Iniciação Cinetífica PIBIC-CNPq / UFS; Sergipe, 2005. São Cristóvão, SE: UFS / PIBIC-CNPq, 2005. p. 422. Dantas, " Beatriz Góis. «Os Índios em Sergipe». In: DINIZ, Diana Maria de F. L. Textos para a História de Sergipe. Aracaju: UFS / BANESE, 1991. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI Escolar. Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2000. 4. ed. rev. ampliada. p. 422. Figueiredo, Ariosvaldo. Enforcados: o índio em Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. ( Coleção Estudos Brasileiros, v. 52). Freire, Dr. Felisbelo Firmo de Oliveira. História de Sergipe (1575-1855). Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1891. História territorial de Sergipe. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe/Secretaria de Estado da Cultura/FUNDEPAH, 1995. Freire, Laudelino. Quadro Chorográfico de Sergipe. Janeiro: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1902. Galeano, Eduardo. «A Semana Santa dos índios termina sem ressurreição». In: As veias abertas da América Latina. Tradução de Galeano de Freitas. Janeiro: Paz e Terra, 2002. p. 57 -- 62. Novais, " Fernando Antonio. «O Brasil nos quadros do Antigo Sistema Colonial». In: Mota, Carlos Guilherme (org). Brasil em perspectiva. 20ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. Ribeiro, Berta Gleizer. O Índio na História do Brasil. Paulo: Global Editora, 1983. Salvador, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. Santana, Pedro Abelardo de. De a Bahia a Pernambuco no século 16: Viagens entre dois pólos da colonização do Brasil. Aracaju: UFS / SESC, 2003. Silva, Clodomir. Álbum de Sergipe (1820-1920). Aracaju: Estado de Sergipe, 1920. Silva Lisboa, L. C. Chorografia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imprensa Official, 1897. WYNNE, J. Pires. História de Sergipe (1575-1930). Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1970. Fontes Manuscristas: Acervo do Arquivo Público do Estado de Sergipe (APES): -- Pacotilha CM³ -- 69 (Carta do Juiz de Paz -- 30/11/1828); -- Pacotilha SSvol. 27 documento 07 (Comissão Eclesiástica 01/03/1836) e documento 13 (Assembléia Legislativa 22/01/1840); -- Pacotilha SSvol. 29 documento 37 (Assembléia Legislativa 25/05/1848); -- Resolução Provincial nº 491 de 28/04/1858. Número de frases: 162 Obs.: Este texto é continuação deste. -- Tira uma foto com mim?, pergunta o menino. -- Claro, respondo, mas por quê? -- Ah, você não é aquele piloto de Formula Um? -- Não, é esse cara aqui do meu lado. Faz muito mais sentido, na cabeça de ele, eu, branco e de olhos claros, ser o vice-campe ão de Formula 1 Lewis Hamilton, do que aquele moleque tão franzino e preto como a maioria dos que o esperam ali. Segundo dia, segunda parte da visita dos «gringos» ao Espaço Cultural Beija-Flor, em Diadema. Poderia intitulá-lo «O dia em que levei o piloto à favela», mas isso daria muita importância ao visitante ilustre, o que acabaria ofuscando meu objetivo com esse texto. Hora de enfim apresentar o Beija-Flor aos convidados, e colocá-los na roda, na banda, na sujeira. Como disse no texto anterior, o projeto tenta, com relativo sucesso, dar alguma oportunidade a crianças e adolescentes carentes da cidade de Diadema. Para muitos, é uma segunda casa, um lugar onde podem ser o que quiserem, artistas, esportistas, empreendedores, punk-break dancers, ou mesmo apenas crianças. Vamos passeando por o lugar, imenso, colorido e cativante. Aulas de música, dança, capoeira, pintura; projetos de geração de renda, um estúdio de gravação, uma sala de informática, uma cozinha comunitária, tudo isso numa paisagem, física e humana, estonteante. O projeto hoje está em expansão, e para isso, em vez de contratar um grupo de especialistas, ou universitários conscientes, eles resolveram treinar um grupo de 25 jovens da comunidade, que vão em breve tomar conta de uma nova sede, que está sendo construída no Sítio Joaninha. Aliás, é fácil perceber que ali não há classe média compadecida, não há regras ditadas, mas uma troca constante de experiências. Em tempos de Tropa de Elite, é algo para se pensar. No meio do dia, um bate-papo coletivo, troca de curiosidades mútuas. «Como é a vida na Suíça?», " Como é a escola de vocês?», «Por que querem ajudar o nosso projeto?». Em o final, uma apresentação especial, um Romeu e Julieta à brasileira, tal como o bife. Arroz, feijão, ovo, fritas, capoeira, break e forró, tudo bem misturado ao gosto nacional. A os que, como eu, acostumados ao assistencialismo barato que é amplamente divulgado, mantêm um, ou os dois, pés atrás em relação a qualquer ode ao trabalho social, sugiro uma visita ao projeto. Ouça as histórias que Gregory tem a contar, ou melhor, ouça os próprios jovens, e forme a sua própria opinião. Confira também o trabalho de D. Ordalina, cabeleireira e pintora. Talvez você não goste, talvez o retrato da favela nos seus quadros não corresponda à visão novelística / cinematográfica que temos de ela. D. Ordalina tinha um salão de beleza na favela. Gregory queria dar um novo ' look ' aos então recém-adotados meninos de rua, quer dizer, filhos. Ordalina foi a única a aceitar a difícil tarefa de pôr as mãos em cabelos sujos, cheios de piolhos e outros parasitas. Antes de ser cabeleireira, ela pintava; hoje, faz os dois. Corta cabelos no pequeno salão que faz parte do projeto, e ensina as crianças a expressarem-se na tela. A visita acaba em festa (junina, por sinal), e mais uma vez os mundos se dividem. Ficam para trás as crianças, a pobreza, a festa. A estrada volta a embranquecer, a paisagem volta a endurecer no concreto. Restam a saudade e as vagas promessas de reencontro. Penso que ainda não há como imaginar um mundo igualitário, a distância é muito grande, o fosso muito profundo. Mas fico com a ingênua impressão de que, dada a realidade, algo significativo aconteceu nesses dois dias. Ninguém vai colocar o pobre no Hilton Hotel, nem o rico vai abrir mão do seu conforto, mas penso que a mudança possível e desejável passa por esse diálogo sincero e aberto não entre classes, mas entre pessoas, independente da camada social ou cultural em que estejam. O que acham? Ah, faltou falar do piloto. Lewis caiu nas graças da galera, como podem ver por as fotos. Aliás, tenho a impressão de que muitos ali não faziam idéia de quem ele era, mas meu pai falou que ele é importante então eu vou pedir um autógrafo. Tirando a óbvia tietagem em volta de ele, Lewis era o menos gringo dos gringos, mas isso o menino lá do começo do texto já tinha percebido. * Publicado originalmente em www.narua.org. Mais: Galeria do Beija-Flor no Flickr; Blog do grupo Asas do Beija-Flor; Mais fotos minhas no Flickr; Número de frases: 51 mais de 80 garçons participam de psicodélica corrida, animada por cerveja quente e pedidos de antidopping Em a penúltima bateria para a definição dos finalistas da Corrida dos Garçons, realizada num domingo ensolarado, no Farol da Barra, o anúncio inimaginável do locutor: «Aí, pessoal, tem gente pedindo o antidopping». Para competidores dedicados ao atletismo das latinhas -- aquele em que não basta cruzar a linha de chegada, é preciso trazer a cerveja intacta na bandeja --, o exame do teor alcoólico no sangue não seria tão confortável. Afinal, domingo de manhã, a turma de folga, e tanta bebida sendo derrubada na pista de improviso, ninguém seria a favor do desperdício. Durante alguns segundos, o dilema passou por a cabeça dos atletas mais empolgados, que comemoravam a vitória nas baterias esvaziando uma ou outra lata que conduziram por o trajeto. Mas o próprio locutor abriu um sorriso que deixou claro se tratar de uma espécie de pegadinha, do tipo das marcações de quadrilhas juninas: «Olha a chuva ... é mentira». mais de 80 garçons dos restaurantes de Salvador toparam o desafio de encarar a terceira edição da psicodélica corrida etílica. Alguns transformaram o que seria uma confraternização numa disputa acirrada, levada a sério e com pedidos à organização para revisar os resultados, conferir gravações e fotografias antes de definir o campeão. Os idealizadores do evento, uma espécie de encerramento lúdico do Festival Brasil Sabor, promovido por a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), já mencionavam, em tom de brincadeira, a necessidade de implantar um fotochart, equipamento utilizado em provas de turfe, para não haver dúvidas sobre o primeiro na linha de chegada. Lanterninha conformada A vitória a qualquer custo e com qualquer argumento não estava no cardápio oferecido por Delzuita dos Santos, garçonete há 21 anos, funcionária do restaurante do Othon Palace Hotel. Única mulher da primeira bateria, ela ficou em último lugar, mas não parecia incomodada com a lanterninha. «Não derrubei nenhuma lata, cumpri meu trabalho». O colega Eliezer Bonfim ficou em penúltimo na sua vez, para frustração do filho Rafael, que foi convocado como torcedor número 1. Em a angústia da torcida, mãos trêmulas, unhas roídas, coração acelerado, Maria Angélica dos Santos nunca esteve tão nervosa no Barradão, assistindo ao Vitória, como ficou para apoiar o namorado Alberto de Jesus, levando o nome do restaurante Crevette's, do aeroporto. Ele correspondeu se classificando para a final e ganhou um beijo tão efusivo que parecia ter acabado de se tornar um medalhista olímpico. Algazarra coletiva O evento misto de esporte e irreverência atraiu um público de pelo menos 500 pessoas na Avenida Oceânica. E o espectador-símbolo da algazarra coletiva em que se transformou o Farol da Barra com a trupe de garçons estava de volta. Depois de beber 14 latas de cerveja quente na edição do ano passado, Paulo Ramos, um aposentado de 66 anos, apareceu novamente com sua filosofia do «quanto pior, melhor». Para ele, o importante era seguir os competidores mais desajeitados, aqueles que cruzam a linha de chegada sem conseguir equilibrar nenhuma latinha na bandeja. A busca por a saciedade etílica o transformou num consumidor sem qualquer critério de qualidade do produto. «Cerveja boa tem que ser na temperatura ambiente, ao estilo alemão», saboreava. Mais do que beber, ele queria se fartar do líquido dourado, como se estivesse regando a própria necessidade de viver o momento. No meio da euforia generalizada, ele já não queria apenas ingerir a cerveja, já tinha tirado a camisa para se banhar com o conteúdo das latinhas. Enquanto isso, problemas para os fiscais da prova, entre eles o ex-presidente da Abrasel na Bahia, José Ronaldo Teixeira. Muitos garçons não aceitavam a eliminação. «A regra é clara», bradou Demócrito Bittencourt, da Pizzaria Colombo. A alegação é de que não bastava chegar em primeiro, tinha que manter as cinco latas na bandeja e deixar uma mão sempre atrás das costas. A cordialidade tradicional, regra do atletismo de gorjetas, em alguns momentos foi esquecida para protestos formais dos corredores uniformizados com calça preta de linho, sapato social e gravata-borboleta. Tudo isso não passa de reclamação inútil para Taiara Araújo dos Santos, garçonete do Mama Bahia, no Pelourinho. Ela derrubou a bandeja logo nos primeiros 10 metros dos quase 100m de pista. «Poxa, eu cheguei a treinar no restaurante com as latinhas de refrigerante». Linha de chegada Perto da final, prevendo inúmeros pedidos de tira-teima, replay, ou qualquer coisa que tivesse que levar para o tapetão o resultado da então polêmica corrida, os organizadores requisitaram imagens de fotógrafos profissionais, amadores ou espectadores com qualquer máquina que tivesse registrado a chegada. «Agora, eu deixo de ser fiscal para virar torcedor», avisou o presidente da Abrasel, Luiz Henrique do Amaral, proprietário do Nacif, que tinha um funcionário na final. Lélio Ribeiro da Silva, o garçom depositário das esperanças do patrão, tinha trabalhado até depois das 22h na noite anterior. Acordou às 6h30, foi à praia para conter a ansiedade e relaxar diante do grande desafio. Terminou ficando na terceira colocação geral, ganhando o aparelho de DVD. O segundo lugar, ganhador de uma bicicleta de 18 marchas, foi Jordânio dos Santos, do restaurante Jardim das Delícias, no Pelourinho. Noves fora todos os recursos, Arivaldo Uzeda Luna, 32 anos, garçom há dois anos e meio, sedentário em termos de exercícios físicos, funcionário do restaurante Coliseu, no Pelourinho, ficou com o título e uma televisão de 29 polegadas. Comemorou com as colegas de trabalho, subiu no degrau mais alto do pódio em frente ao cartão-postal do Farol e depois seguiu para casa, num domingo de campeão. Enquanto isso, Paulo Ramos, 66 anos, sem camisa e com pele grudenta da cerveja derramada, aproveitava uma ou outra latinha derrubada por um competidor distraído. Número de frases: 46 Mesmo em plena disputa de corrida, os valorosos garçons conseguiram fazer mais um cliente feliz. Nervo Exposto -- de Havana a Santiago de Cuba de João Pavese Em resumo, é um prazer viajar com João por as 278 páginas de «Nervo Exposto -- de Havana a Santiago de Cuba». E a leitura, entre tantas outras coisas, é prazer. Sofremos com o autor o amor perdido, decidimos com ele viajar para viver o luto necessário por um sentimento que esvaneceu e que era tão vital. Aprendemos sobre as dificuldades e o cansaço de pedalar muitos quilômetros entre paisagens de tirar o fôlego, o pouco fôlego que resta a quem se esforça transmitindo sua vontade de seguir às rodas centradas e deslizantes da bicicleta levada aos pedaços, como o coração de quem se vê abandonado por a mulher amada, no bagageiro do avião e na caçamba do caminhão. Vemos e sentimos com o autor um mundo circunscrito de solo e gente em meio ao grande oceano de esperanças e desejos que nos faz ilhéus como os cubanos de agora. Conhecemos Cuba por dentro, por o cotidiano compartilhado e por o exótico do encontro do viajante com os nativos e seu espaço vivido e construído sob a asfixia do bloqueio econômico e da força simbólica da tentativa de construir um novo mundo mais justo e igualitário. Em o fundo, levados por a narrativa humorada, fluente e íntima, dividimos as impressões do andarilho que se vê um igual aos habitantes do lugar visitado por as coincidências da pretensão de sermos felizes, amados e confortados diante das necessidades materiais. Mais do que tudo, o nervo exposto é o nosso, diante do desafio da existência: aqui, em Cuba ou em qualquer lugar que seja. Ler «Nervo Exposto -- de Havana a Santiago de Cuba» é um encontro e o encontro, já disse o poeta, é a arte de viver. Site do livro: http://www.nervoexposto.com.br [onde se pode encontrar o João Pavese fotógrafo] Resenha publicada originalmente no «site» da Rádio Comunitária Campeche -- http://www.radiocampeche.com.br Número de frases: 15 Sai Sarah, primeira vocalista da banda, e a polêmica se instaura. Foi preciso paciência para explicar ao público que rumos a banda queria seguir. Episódio superado, entra Mariana, ex-Revoltz. Foram poucas as apresentações e novamente vocalista se foi. Agora em novo momento, as princesinhas do indie se valem da máxima «depois da tempestade vem a bonança». Depois que Issaaf Karhawi, até então baixista, assumiu o vocal, fazendo com que a «cozinha» assumisse de vez os destinos da banda, vislumbraram um novo horizonte. Agora, com a «casa arrumada» e em pleno processo de gravina, as garotas mostraram que as boas novas estão apenas começando, e em entrevista à Imprensa EC, falaram sobre a primeira colocação para a 5ª edição do Rock Feminino, além de tecerem leituras sobre o hoje e o amanhã da banda. MR: Quando vai ser o festival? Não encontrei essa informação no site. Issaaf: Então, não tem data certa ainda. Sei que será em março e só também. Adicionei a organizadora, depois passo essa informação, se ela já tiver. MR: Conta um pouco como foi a inscrição para o festival. Quando ficaram sabendo? Issaaf: Primeiro a Mariana (sim, faz um tempão) nos cadastrou no site. Mas não era para o festival nem nada, só porque o portal abria esse espaço para a divulgação mesmo. Então no mês passado chegou um e-mail para a gente avisando que as inscrições para o festival em si já estavam abertas. Enviamos uma música do antigo EP, You-Love, já que as em português ainda não estão prontas. E deu no que deu. A curadoria tinha 15 pessoas, se não me engano -- jornalistas, produtores e afins. E ficamos em primeiro na nossa categoria «Alternativo» (e punk e hardocre, mas não vem ao caso) risos. Imprensa EC: Qual era a expectativa de vocês quando enviaram o material? Issaaf: Então, nós enviamos material no ano passado pra tocar no festival desse ano. Mas nos inscrevemos na categoria «Indie» uma das que mais chegam bandas, e ficamos em quinto lugar, nossa música foi para o cd do evento, mas não fomos para o festival (já que só as duas de cada categoria vão). De aí esse ano decidimos trocar a categoria, colocar «alternativo» e até a organizadora disse que os juris acharam melhor assim mesmo (quando ouviram no ano passado). E enfim ... estávamos confiantes, dessa vez. Até porque no mês passado as meninas do site divulgaram uma matéria sobre a gente e ouviram boatos do nosso show no Calango, troca de integrantes e tudo o mais. Se informaram. Imprensa EC: O que você acha de iniciativas como a do festival, em promover políticas afirmativas para a mulher no rock? Issaaf: Mesmo sendo uma banda feminina mas não feminista (ui!) não tem como negar que o lance do festival pra mulheres é bacana demais! Afinal, mostrar que tem tanto homem quanto mulher tocando é necessário. Tem gente que finge não ver, né? ( Se bem que agora com a Pitty, Leela, Luxúria, O Canto dos não-sei-quem, banda com guria é indie, né?) risos. Mas legal é ler, por exemplo, o depoimento dos jurados dizendo que não desconheciam muitas das bandas e nem imaginavam quantas meninas tocavam por esse mundão. e rá! Estamos no meio! Imprensa EC: A banda passou por essas mudanças todas e tal, e agora segue firme.. Como um fato como este vai se refletir no rumos da banda? Vocês já ponderaram isso? Issaaf: A princípio ele acaba dando muito mais estabilidade e confiança. E depois de ele, muito mais shows e possibilidades de viagens, divulgações e enfim. Não pensamos nisso ainda. Só queremos estampar a nossa nova cara Brasil afora, fazendo bonito. Temos que sair do estágio banda quase-de-garagem tocando todo final de semana na cidade natal. Acho que estamos no nível. Chegamos no nível. MR: E quais estratégias vocês estão se munindo pra atingir esse objetivo? Issaaf: Ensaio, ensaio, ensaio. Tem semana que todos os dias, às vezes, uma vez só três horas. Enquanto não temos material nem nada pra mostrar temos que preparar algo bacana no palco. Coisa nova! E depois sim, distribuir material e todo esse processo. MR: Alguma vez durante este ano vocês pensaram em dissolver a banda? como encararam esse processo? Issaaf: Centenas de vezes! E encaramos com desespero absurdo! ( risos). É inevitável ... Poxa, trocamos de vocalista duas vezes, ficamos meses e meses sem fazer shows, sem material. Tudo coloca pra baixo. Mas pra desgosto de muitos: we ' ll never give up! E somos novas demais nesse mundo do roque, tanto em estrada, quanto em certidão de nascimento mesmo. Dá pra quebrar a cara bastante antes de seguir um caminho à lá Vangs, por exemplo. MR: E planos para o ano que vem? O que estão armando? Issaaf: Hmm. Estamos torcendo pra rolar de irmos para o festival mesmo. E daí com tudo certinho, quero marcar shows em Mogi e São Paulo -- capital. Pra não perder a viagem, né? E já tocamos lá, acho que fica mais fácil. E vamos preparar um show para o começo do ano que vem bem bacana, num lugar bacana e enfim. Segredo! hahaha MR: Conta! Issaaf: Número de frases: 91 Quando tiver mais coisas acertadas conto! Chega à sua sexta edição, a Mostra do Filme Livre, evento realizado anualmente no Rio de Janeiro e que exibirá, no Centro Cultural Banco do Brasil, 235 obras produzidas por cineastas brasileiros no país e no exterior com o intuito de discutir o conceito de «filme livre». A seleção das obras pode dar uma pista. De acordo com o site do evento, das 649 obras que foram inscritas nesta edição, 572 ou 88 % do total foram produzidas sem qualquer apoio estatal. 80 % de elas escolheram ser exibidas em DVD e 60 % foram finalizadas em mini-DV. Seria, então, o «filme livre» aquele produzido em meios digitais e sem o apoio do governo? A própria curadoria da mostra, este ano a cargo dos cineastas e produtores Guilherme Whitaker, Marcelo Ikeda, Christian Caselli e Francisco Serra, confessa não ter uma definição exata para o conceito. Whitaker, um dos idealizadores do evento, aposta na subjetividade. Segundo ele, em texto para o site da mostra, «mesmo amplo, o conceito de filme livre é também uma essência que habita em todos as obras que exibe». Por isso, ele convida os espectadores a assistir aos filmes da mostra no intuito de entender o que é o «filme livre». Ikeda, por sua vez, acrescenta à sua análise a experiência de trabalho na ANCINE -- Agência Nacional de Cinema --, responsável por o fomento à produção cinematográfica nacional. Para ele, a mostra chega num momento em que a indústria do cinema se reorganiza no país para «dizer sem rodeios e em alto e bom tom que ' o rei está nu '». O realizador lembra que «' filme livre puro» é uma utopia «e que,» provavelmente, não existe um filme 100 % livre». Em o mesmo caminho, Chico Serra abre seu discurso, imbuido da influência do materialismo histórico. «Como pode ser livre um filme se a própria matéria fílmica depende de meios técnicos para existir fisicamente?», questiona ele, lembrando o difícil caminho da produção cinematográfica brasileira atual, para a qual os meandros do mercado são obstáculos quase intransponíveis. Já o muso da produção udigrudi carioca, Christian Caselli, inspira-se em movimentos como o Dogma 95 e cria os 14 mandamentos do que ele chama de «filme livre ®». Os mandamentos de Caselli apontam, propositalmente, para uma produção utópica. Apesar de seguir caminhos diferentes, os quatro curadores chegam a uma mesma conclusão: apontar uma definição exata de «filme livre» não é apenas uma tarefa impossível como indesejável. Como destaca Ikeda, «se aprisionarmos o filme livre em torno de um conceito já estaremos, por definição, tirando a liberdade de ser do filme». A grande novidade da edição 2007 da mostra é a premiação que, segundo Whitaker, «a razão desta segmentação é evidenciar quais filmes são não apenas livres mas também exemplos daquilo que consideramos ideais de liberdade numa obra audiovisual». Enfim, mais uma vez, a questão da subjetividade, uma vez que é sempre um júri que decide os prêmios. No entanto, apesar da mudança que fez o evento caminhar na direção dos outros festivais do país, a Mostra do Filme Livre ainda se destaca por a diversidade. São aceitas obras de todos os formatos e épocas e, apesar da maioria dos selecionados ser de produção recente, integra a lista uma obra de 1971! Chico Serra lembra que a maioria dos festivais privilegia produções recentes nas mostras competitivas. «Cinema é memória, e condenar filmes experimentais de todos os tempos ao esquecimento é tarefa para os burocratas», escreveu ele. A Mostra do Filme Livre também não separa os filmes por bitola e é talvez a única no Brasil que possui um sessão especial para filmes produzidos por realizadores brasileiros no exterior. Com isso, a Mostra rediscute as idéias de tempo e espaço na afirmação do que pode ser chamado de «cinema brasileiro» ou «produção cinematográfica brasileira». Outra novidade desta edição é a produção de intinerâncias com as obras selecionadas. Os interessados poderão contactar a organização para ter a Mostra do Filme Livre como parte de seu evento ou mesmo organizá-la em outros espaços. Número de frases: 31 A Mostra do Filme 2007 será realizada em fevereiro de 2007 e os interessados em mais informações podem acessar o site www.mostradofilmelivre.com A Wikipédia explica que coque é um combustível derivado do carvão betuminoso. «Começou a ser utilizado na Inglaterra do século XVII, e é obtido do aquecimento da hulha (ou carvão betuminoso), sem combustão, num recipiente fechado. Pode ser utilizado na produção de ferro gusa (alto forno), sendo adicionado junto com a carga metálica». Sinto em contrariar os alfarrábios pós-modernos, mas, para a maioria dos recifenses, Coque é outra coisa. É um dos bairros mais mal falados da cidade, principalmente nos noticiários policiais. É também a região com o menor índice no Atlas de Desenvolvimento Humano do Recife. Ou seja, significa perigo, sujeira, miséria, e todos os demais clichês impostos às periferias. Por tudo isso, só o fato do Coque ter sido escolhido como nome de um jornal universitário já é motivo de atenção. Participaram do Coque 28 estudantes 6º período de Jornalismo da UFPE, sob orientação da professora Yvana Fechine. O lançamento do jornal-laboratório é dia 19 de setembro, no campus da UFPE (vide mais informações na agenda), com várias horas de programação, com debates e show diversos. Interlúdio musical: «A cidade não pára ..." ( Chico Science) Que me desculpem a sinceridade: salvo exceções, os jornais-laboratório do curso de jornalistmo uéfepeano vinham sofrendo das pernas. Lembro do que via quando frenquentava a faculdade. Os jornais ou simulavam a mídia impressa local (se é pra copiar, pra quê a escola?), ou eram tão experimentais que se comunicavam com quase ninguém. Ainda não li Coque, mas ele tem tudo pra quebrar com a «tradição» acima. Em o editorial, o grupo declara ter construído «um novo olhar sobre o Coque». Dizem partir de um compromisso com a comunidade, sem deixar de lado a necessária visão crítica para produzir informação. Para tanto, passaram dois meses imersos na realidade de lá. Outro aspecto digno de nota: as páginas do Coque não ocultam o processo de criação, tão colaborativo quanto as possibilidades da web. Os textos foram produzidos por os graduandos (na busca de pautas e enfoques que a mídia grandona se recusa a adotar) e por jovens da comunidade, em histórias de resistência, movimentos culturais e problemas do cotidiano. Número de frases: 24 Um Baile Nacional de Debutantes para resgatar os valores da família foi sugerido por o colunista de sociedade Azul Marinho. A insopitável sugestão foi de imediato apoiada por a secretária estadual da Cultura do Rio Grande do Sul, senhora Mônica Leal, no Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes da Cultura, realizado em Bento Gonçalves, entre os dias 26 e 28 de abril. Vice-presidente do Fórum, Mônica não participou dos debates. Deu rápido giro, saudou colegas, desculpou-se por não participar. Saiu para acompanhar a governadora em visitas na região. Por uma funcionária de uma agência contratada para fazer a recepção, Mônica Leal recomendou que todos os secretários prestassem atenção na proposta que seria feita por o colunista Azul Marinho. Azul Marinho em cena, apresenta a proposta do Rio Grande do Sul sediar um baile de debutantes nacional. Disse da importância do evento para r esgatar os valores da família. Depois disso distribuiu estado por estado um kit-debutante com informações gerais para a realização do baile. Saíram todos abastecidos de informações sobre as potencialidades estratégicas do baile de debutantes para resgatar os valores da família. A secretária Mônica Leal não apareceu mais no encontro depois do recado para que todos prestassem muita atenção na proposta. Os secretários e dirigentes culturais que participaram do Fórum em Bento Gonçalves saíram deveras impressionados com o espírito que anima a política cultural do novo governo gaúcho. Número de frases: 12 Racismo e Discriminação Racial: Dia da Consciência Negra Tenho relutado muito em desenvolver algumas considerações sobre este tema, não por não ter nada a dizer mas, ao contrário, porque temo que o que tenho a dizer irá contrariar convicções arraigadas num grande número de amigos militantes dos diversos movimentos de afirmação da negritude, gente de qualidade que, com a melhor das boas intenções encara, a meu ver, de uma maneira racista a questão da discriminação racial. E decidi fazer isto a propósito de uma estatística divulgada através de um artigo escrito por o professor de geografia Emanuel Vital que será publicado, nos próximos dias, no Portal do Sertão. O autor se declara membro do grupo de consciência negra «Quilombo do Rosário, de Oeiras-PI». As estatísticas referidas separam os brasileiros em negros e brancos (além de pardos, mulatos e sei lá o que mais). O autor se detém apenas nos dois primeiros. E as estatísticas concluem que os brancos são mais abastados economicamente, melhor educados, tem maior expectativa de vida e por aí vai. Não contesto as estatísticas, nem o articulista. O que contesto são os critérios racistas que nortearam a pesquisa. Quem faz as perguntas predispõe as respostas. Também não contesto a evidência de que a polícia, por exemplo, suspeita sempre dos negros antes dos brancos. Mas isto se chama discriminação racial. E não é com racismo que ela se combate, bem ao contrário, Ninguém é bobo. Não se trata de dizer que a pele das pessoas não varia de coloração. Também não se trata de negar a História, e o professor-articulista muito bem destaca que os negros no Brasil são, na sua absoluta maioria, descendentes de escravos. Que seus avós, bisavós e tataravós foram explorados, humilhados, espancados e chicoteados, apartados da própria cultura e privados de educação e de liberdade. Nada disto se pretende negar. Dizem que a escravidão é uma mancha na nossa história. Que de ela devemos nos envergonhar. Mas da história não se deve esperar lições de moral. Falando sobre a História Lenine, a quem não está muito em moda citar, dizia que ela «não serve nem para rir, nem para chorar, mas para compreender». Então a escravidão deve ser profundamente estudada e não hipocritamente lamentada. Quanto ao racismo, ele se perpetuará enquanto dividirem os homens em brancos e negros, arianos e judeus, judeus e árabes, seja por que próposito for, de valorizar ou detratar uma raça ou religião em relação às outras. Enquanto a Humanidade não for encarada como uma só, presente em cada um de nós, teremos de concordar com Engels, outro banido dos manuais de citações em voga. Para ele vivemos ainda a «Pré-História removeme». Beijos e abraços Número de frases: 28 do Joca Oeiras, o anjo andarilho Há o poeta Charles Baudelaire e o crítico e esteta Charles Baudelaire. Mas há ainda o poeta-crítico Charles Baudelaire. Sua poesia e a dos seus contemporâneos, mais a arte do seu tempo, são o alvo de sua prática e reflexão. Alguns exegetas dessa obra desenvolvida, digamos assim, em duas frentes, sustentam que as abordagens críticas do poeta seriam mais avançadas que sua atividade poética. O cotejo entre as duas formas de discursos, visando ratificar tal suposição, talvez seja descabido. No entanto -- e aqui cometo uma inconfidência, no meu caso, o contato com seus ensaios, sempre geniais, me conduziu a uma reconsideração mais atenta da sua poesia que, a princípio, tomando por base primeiras leituras, não havia me perturbado, pois ela não parecia representar a figura do moderno que o Baudelaire, crítico cultural, me ensinara a apreciar, e que tão definitivamente plasmara o pensamento das gerações que lhe sucederam. Mas, a figura do " escritor-crítico, conceito-base de análises de Leyla Perrone-Moisés, me auxiliou a entender melhor essa relação entre a obra inventiva e a reflexão estético-crítica baudelairiana. Com efeito, não há uma hierarquia valorativa entre essas duas atividades exercidas com maestria por o autor. Uma tentativa de resumo das idéias da crítica e professora de literatura, talvez pudesse ser feita nos seguintes termos. Em primeiro lugar, o escritor-crítico estabelece «um tipo particular de discurso crítico», ou seja, estamos frente a um discurso que se situa, e que, ao menos provisoriamente, ocupa um campo estético. No entanto, nada impede no momento seguinte o abandono do terreno conquistado. Aliás, Baudelaire defendia a crítica parcial, aquela que toma partido. como se fora um lance numa partida de xadrez. E a cada intervenção, o escritor-crítico se embrenha (às vezes à revelia do próprio desejo) num debate de formas e idéias que diz respeito a si e aos seus iguais, e que, de outra parte, pede a interferência de eles e a sua réplica futura. Esses escritores pensam de maneira interessada, e aquilo que pensam gera " maiores conseqüências: porque orienta a produção de suas próprias obras, dando assim continuação à «Literatura». Por outro lado, segundo W. H. Auden, o escritor-crítico, ou o escritor que começa a dar ouvidos ao seu «censor interno», sabe que possui um conhecimento limitado, e por isso mesmo sua perspicácia o faz falar de» florestas «e» folhas», mas o impede de aventurar-se por o assunto «árvores». Os escritos críticos dos poetas talvez devam ser lidos como experimentos poéticos e literários de segundo grau, derivações, ficções de cânones precários. Entretanto, isto não quer dizer que seus resultados não precisem ser levados a sério, pelo contrário: apenas que as reflexões promovidas por esses escritores e poetas são desenvolvidas " com vistas a uma ação: sua própria escritura, a dos escritores que trabalham naquele momento ou que trabalharão num futuro próximo». Quando o poeta resolve escrever crítica, prefácios, ensaios, etc., ele não tem a pretensão de socorrer o leitor -- objetivo da crítica literária institucional, jornalística ou acadêmica. Para Octavio Paz, exemplo de poeta-crítico, o sentido de um poema está sempre num outro poema. E é a partir desta perspectiva que entendo a tarefa do escritor-crítico: o discurso crítico engendrado por ele apresenta conexões necessárias com o discurso de invenção. Um está entremeado ao outro por meio de fios não-aparentes. O escritor, por se achar implicado nas imperícias e imposturas que aponta e denuncia, sejam nas suas, sejam em obras alheias, «acha que o poema é sempre mais importante do que qualquer coisa que se possa dizer sobre ele». Sua leitura não substituirá aquela escritura literária que eventualmente esteja sob os seus olhos. Assim, o discurso crítico do escritor, mesmo o mais aparentemente afinado com a crítica literária institucional, é um discurso do desejo e da preguiça. Ele inventa um texto equivalente, contrabandeando para o interior da sua metalinguagem a beleza capturada no momento em que é levado a erguer a fronte, inclinada, até há pouco, sobre o poema. Ele só admite ler aquilo que lhe agrada. Isto talvez explique o fato de suas abordagens, não obstante serem arduamente trabalhadas, resultarem, o mais das vezes, sincrônicas, lacunares, fragmentárias, carentes de nomes consagrados, etc., e sempre se apresentando em oposição aos «' quadros completos ' dos manuais de história literária». Outra característica desses escritores e poetas críticos é a eventual tematização de questões estéticas em suas peças inventivas, quer seja investigando a linguagem das demais artes ou de algum artista em particular, quer seja considerando os limites do seu próprio gênero ou de sua própria obra. Os escritores-críticos não dissimulam o fato de que escrever sobre escrever sempre fez parte do nosso repertório, desde Homero, passando por os griots africanos, por os cantores provençais, por os simbolistas, etc., e chegando até aqui. A metalinguagem está no passado da tradição e no presente que põe em cheque ou em movimento este passado. Escrever sobre escrever é um dos quesitos do escrever. Muito bem, depois dessa interpolação um pouco longa, voltemos a Charles Baudelaire: poeta, resenhista, esteta, etc.. Inteligência curtida em anos de estudo vagabundo: «Como escritor, Baudelaire tinha um grande defeito de que ele próprio não desconfiava: era ignorante. O que sabia, sabia profundamente; mas sabia pouco. História, fisiologia, arqueologia, filosofia, permaneceram-lhe estranhas ..." ( apud Walter Benjamin). Maxime Du Camp, autor do comentário acima, talvez tenha entendido que Baudelaire se pronunciou além do tolerável a respeito de «árvores». Ironias à parte, está aí patente a objeção, a censura superciliosa da crítica literária institucional com relação ao «estilo de trabalho» do escritor-crítico. A tópica baudelairiana não via disjunção entre ordem e volúpia. O limbo da poesia, acomodado em área nobre do inferno dantesco é um «mundo às avessas». Como diz Baudelaire em " L'invitation au Voyage ": «Là, tout n ' est qu ' ordre et beauté, / Luxe, calme et volupté». Se admitirmos sem controvérsias que o autor das Fleurs du mal veste com elegância a casaca do poeta-crítico, não seria despropositado aventar também a hipótese de um Baudelaire «construtivista». Segundo Walter Benjamin, Baudelaire reivindica para a arte moderna uma «força de expressão» característica da antigüidade, e essa força se limitaria à construção. E Baudelaire, tendo em mira a sua produção e a dos seus pares, afirma: «Ai daquele que estuda outra coisa na antigüidade que não a arte pura, a lógica, o método geral». Como poeta-crítico, Baudelaire quer «as essências e as medulas» da antigüidade, ataca a sua parte viva; e assim, na verdade, ele a (re) inventa. Como leitor fervoroso (parcial) do passado criativo, tenta ser um intérprete de aspectos bem delimitados do legado, com vistas a transportar para o seu presente, o substantivo de uma tradição em movimento e onde se vê implicado. Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007). Despacha nos blogs: Número de frases: 63 www.poesia-pau.zip.net e (com Rosa Marques) www.verbavisual.blogspot.com Durante o colégio eu tinha um professor que constantemente esfregava as mão sobre o rosto e fungava. Ele era gente boa, mas um pouco bravo, e corria um forte um boato entre os alunos que ele usava drogas. Depois que me formei correu até um outro boato de que ele fora pego fumando maconha e transando com uma aluna no banheiro. Half Nelson rapidamente trouxe essas memórias à tona, apenas um breve adendo. O filme é direto e sutil ao mesmo tempo. Dan é um professor de história que luta contra a apatia e violência diária normalmente enfrentada por professores de periferia tanto nos Eua, onde o filme se passa, como aqui no Brasil. Curiosamente, ao contrário de filmes do gênero «professor inspirador» -- categoria que Half Nelson talvez ocupe -- ele não luta com seus alunos ou contra membros de gangues, Dan luta com si mesmo. Um viciado em drogas, ao mesmo tempo em que é brilhante e engraçado, ele é patético. E é num momento de fraqueza que Drey, garota de rosto forte e sisudo, uma de suas alunas o encontra. A partir daí uma relação se forma. O filme trata de conflitos, mudanças, batalhas e conquistas. A o ler a sinopse imaginei algo mais adolescente, como a garota tentando usar o professor para se dar bem. Mas não é nada disso, o ritmo do filme não muda, não há grandes reviravoltas nem cenas hipnóticas ou surreais para ilustrar os efeitos das drogas. O momento mais intenso do filme é dominado totalmente por a excelente trilha sonora do Broken Social Scene, quando os dois personagens atingem o ápice de suas angústias. Um tema constante é a luta da minoria por seus direitos, surgindo nas aulas e em narrações dos alunos regados à imagens de arquivo de momentos pontuais da História americana. Claro que temos tudo isso cercando a mudança. A mudança que Dan obviamente precisa, a de Drey, sendo tão jovem, não é tão obvia, talvez ela nem precise de uma mudança, e sim de conerência. Dan é um homem em conflito, diz lutar por algo, mas não consegue seguir em frente, e ainda entra numa disputa de valores e controle com um traficante, o sujo falando do mal lavado. Apesar do tema sério e intenso, o filme não parece pesado, há vários momentos de bom humor e empatia legítima, não pena. Um dos três (Junto com Fauno e Bomba Atômica) a receber minha nota 5 nessa mostra até agora, e com sorte entrará em cartaz ano que vem. Número de frases: 21 Em o palco do FMI, a banda alagoana Living in the Shit. E tudo termina por onde começou Living in the shit foi a última atração do I Festival da Música Independente, o vulgo FMI do Bem. Emblemático final. Apesar de tocar para poucos heróis da resistência na madrugada da última segunda-feira, no palco «geladeira» do Armazém Uzina, em Maceió, o show teve um peso simbólico muito forte: a banda, nos idos de 1990 e alguma coisa, foi o primeiro grupo independente de Alagoas a ganhar uma certa repercussão no cenário nacional. Eu era apenas uma adolescente começando a freqüentar shows estranhos com gente esquisita na sede da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (UESA), sob influência do meu irmão. Hoje, ele (meu irmão) saiu dessa e prefere atrações mais radiofônicas. Já eu preferi acompanhar mais de perto essa história. Ainda bem, senão neste momento, como foi para muitos alagoanos e maceioenses, o FMI seria para mim apenas uma sigla de um organismo financeiro internacional e que, por acaso, foi ressignificado e estampou ônibus, panfletos e outdoors na capital alagoana. De a aparição do Living até 2006, muita coisa mudou nessas bandas (o duplo sentido é proposital). E que se aumentem os pontos ao contar esse conto: sobre a Living, pode-se dizer que virou Bombalá, ainda sob o comando do Eduardo Quintella, e voltou a ser Living com uma nova composição. Não poderiam ficar de fora da festa. Foram a 24ª atração, depois de um dia em que teve a grata surpresa do experimental Projeto Cru (único «gringo» a receber o pedido de bis da platéia alagoana) e do já clássico Mopho (entre palmas e gritos, a platéia pedia mais uma pérola do psicodelismo nacional recente, mas ficou na vontade). Ser o primeiro ou o último pode ser uma tarefa ingrata, meio que bucha de canhão para a guerra a seguir ou o fim de feira, quando sobram os restos. Mas alguém tem que cumprir o papel e encerrar as coisas. Infelizmente, segunda é dia de branco, e àquela altura já tinham abandonado o barco a geração MTV, que pulava ao som dos Autoramas, os reggaeiros da classe média que vieram curtir o fenômeno local Vibrações Rasta e ainda os esgotados por os dias anteriores. Sobrou para nós, poucos fiéis, pularmos ao som instigante da guitarra surtada do Eduardo músicas como «O Mundo Roda». Poderia ter durado mais, não fosse o público maceioense tão misterioso. O fato é que o Armazém Uzina é um espaço ideal para festivais, e comportava muito mais gente do que os que estavam dispostos a pagar. A questão não era, nem de longe, a programação, que trazia ícones locais e referências nacionais na cena independente. A seleção das atrações foi muito boa, comportando diversos gêneros e tribos. O xis da questão não estava aí. Algumas pessoas me falaram da data: pós-carnaval, fim de mês. Outras hipóteses vão sendo levantadas: Estado com poder aquisitivo baixo, a classe média paga R$ 100 para ver Maria Betânia e acha absurdo R$ 40 para assistir Tom Zé; desembolsa R$ 30 para ir pra uma arquibancada ver o vulto da Ana Carolina, mas não quer arriscar com o que não está na mídia e nas rádios comerciais. Vai entender ... Quem resolveu apostar saiu satisfeito. Quem já conhecia, mais ainda. A odisséia teve início na sexta, no pomposo Teatro Deodoro. A tarefa de começar tudo coube ao pifeiro alagoano Chau. Ou melhor, o Chau do Pife. Instrumental para estrangeiro nenhum botar defeito. Falando pouco, piadinhas de gente da terra, mostrando a que veio, diz que o público vai assistir depois de ele a um dos maiores músicos do País e do mundo. E vem Tom Zé. Quando cheguei, vi que a minha pressa em comprar os ingressos dos amigos de Sergipe e Salvador eram ansiedade descontrolada ou uma aposta alta demais: sobraram lugares nos camarotes. Um desperdício. Fazendo estripulias no palco como uma criança danada, cantando como se não soubesse de nada, provocando como gente pensante (porque não basta ser grande). Misturou a opereta do «Segrega Mulher» a um pout-pourri de «Estudando o Samba e umas pinceladas de Com Defeito de Fabricação e outras obras, lançando mão de clássicos como "». O teatro foi de ele. A fila para cumprimentá-lo, comprar CDs, livros e DVDs foi enorme. Aliás, o show de Tom Zé é a propaganda mais eficiente que já vi. Quem ficou, deu-se por satisfeito. E muita gente acabou indo embora, esquecendo que tinha mais por vir. Sobrou o público mais jovem para dançar ao som do Bonsucesso Samba Clube, o outro lado do Original Olinda Style. Nossos irmãos pernambucanos ajudaram competentemente o público a desenferrujar as pernas depois da imobilidade do teatro. Seguiu-se o forró-sem-vergonha do Tororó do Rojão. Ele, que é famoso por beber água e não achar, não se perdeu nos caminhos e foi sacudir o pessoal. Nessa altura, vi uns camaradas tentando dançar com a latinha de cerveja na cabeça e lembrei dos textos do Vlad, aqui no Overmundo. Será somente coincidência ou nosso colega overmano anda lançando moda através do seu jornalismo gonzo? Com um gravador na mão, tratei de colher impressões, deixando claro que não eram depoimentos. Eu tinha avisado da preparação pessoal aqui na agenda do Overmundo (quando anunciei o evento), e não vou na linha do «faça o que eu digo, não faça o que eu faço». Façam o que vocês quiserem, mas o que eu digo, eu faço: preparei os pés, a cabeça, a garganta (que, aliás, estão debilitados) ... mas a memória, essa podia falhar. Então, tá aqui, e eu posso provar, mesmo que as falas estejam meio emboladas (era fim de festa): ou conversei com gente otimista demais, ou todo mundo teve a mesma impressão que eu. A iniciativa estava valendo, realmente, a pena. Segundo dia: consolidando o festival O sábado era o dia mais esperado: pela primeira vez em Maceió, Cidadão Instigado; e, de volta à cidade, a Wado e Realismo Fantástico. Mas a atração inicial do dia 25 foi mesmo bucha de canhão. O alagoano de Pão de Açúcar, Basílio Sé, mostrou sua MPB experimental para menos de um quarto do público da noite. Mas quem estava lá foi valorizado. Até mesmo por o ambiente refrigerado (o que valeu o apelido de palco-geladeira. Não que o frio fosse tão grande, o calor de fora -- o palco forno -- é que estava grande). De o Rio Grande do Norte, veio a Experiência Apyus. Já tinha um pouco mais de gente por lá, mas espalhada nos três ambientes. Em a parte da alimentação / bebidas, os Saudáveis Subversivos aprontavam uma das suas: atores / performers com o corpo pintado de branco aguardavam estáticos a intervenção dos artistas em potencial com tintas guaches no chão. Muitos se arriscaram, e os modelos desfilaram (?) sem expressões no rosto. A Experiência de Natal (a Apyus) agradou, sim, mas não era o ponto alto. O nível era crescente, e logo depois os fãs da boa música instrumental conferiram o talento internacionalmente reconhecido do Duofel. Gente jovem antenada, que não estava ali só para pular e dançar. Tinha até uns coroas (quem dera envelhecer assim). Marcelo Cabral e Trio Coisa Linda tiveram a grata tarefa de tocar quando as pessoas já tinham (enfim) chegado. Fizeram um show instigado, o que já anunciaria a próxima atração. O Cidadão estava lá. Uma expectativa enorme para quem só ouvia falar do tal do Catatau e queria conferir se ele era mesmo tão bom quanto pintam. Dúvidas desfeitas. Diferente -- e muito melhor -- do que muita gente daqui, que não conhecia o inventivo som da banda cearense, imaginava (ouvi dos curiosos questionamentos como: é um som rock com coisas regionais?). Mas eis que chega a atração da noite, que na programação anterior, seria o último a tocar. Parecia que todas as pessoas que pagaram para estar no FMI no sábado tinham ido ver o Wado e Realismo Fantástico. Tinha razão de ser, afinal, o cantor e compositor não se apresentava há dois anos por aqui. Pra matar as saudades, a gente se apertou na frente do palco forno (onde a acústica era melhor). Eu, fã confessa, estava lá, dividida entre bater fotos com uma digital simples e curtir o show. As fotos acabaram ficando muito ruins. Já o show foi maravilhoso. Só achei que teriam mais músicas do último CD, A Farsa do Samba Nublado. Mas foi um repertório para o saudoso público alagoano, uma pincelada do que de melhor eles já fizeram. A empolgação era tamanha que quase não o deixamos cantar sua versão para Ontem eu Sambei, da olindense Eddie. De desconhecida (ou quase), o grupo só tocou a belíssima Hortelã, devidamente gravada por o Fino Coletivo. E anunciou: pode estar no próximo CD. Para mim, o show do Wado e Realismo Fantástico tem também um significado especial: depois da Living, a Ball, antiga banda do cantor, é uma das minhas referências de início de carreira de gente que está curando as espinhas (embora tenha tido no máximo umas quatro na minha vida). De aquela época, ele fez releituras de «Feto»,» Ossos de Borboleta «e» A Linha que cerca o Mar». Até hoje sei de cor «O Último Dia do Rio». Mas ninguém nunca gravou, e eu perdi a fita demo. Fica na memória. Bom, voltando ao show: foi o ápice, e a primeira banda do FMI a ganhar o " mais um!!!" da platéia e a fazê-lo com todo o prazer. A Xique Baratinho, que veio em seguida, também recebeu o entusiasmo e, embora com um público mais disperso, mostrou por que é tão cultuada por o público alagoano, com uma regionalidade que não cheira a clichê. Quando o Cícero Flor teve a oportunidade de mostrar por que é chamado de Bob Dylan alagoano, a galera tinha desistido de tudo. Restavam poucos e a noite terminou com o Beto Batera e convidados. E veio o domingo ... Para o último dia, havia a expectativa de um público maior, pois iria tocar Vibrações Rasta. Mas muita gente já tinha alertado que, apesar do público fiel da banda (para se ter idéia, a comunidade do Orkut da Mopho, referência da boa música alternativa em Alagoas, tem pouco mais de 800 pessoas. Vibrações tem quase 4,5 mil), aquele não era o espaço de eles. É que a massa de adoradores de Jah é, em boa parte, proveniente da periferia de Maceió ou bairrista com outros ritmos. Preferiram esperar um novo show a um preço mais convidativo (e mais longo que 50 minutos) que pagar R$ 15 para assistir a 11 bandas. Os reggaeiros foram os segundos da noite, que começou cedo com Santa Máfia, do Rio de Janeiro. O vocalista Luizinho, do Vibrações, mostrou que eles continuam evoluindo e quem achava um pouco chato e sem sentido aquela coisa de falar de amor e de paz interior como salvação do mundo em tempos de individualismo e guerra civil não declarada (algo que não se resolve individualmente) se surpreendeu com uma postura mais engajada e consciente. E a banda também continua melhorando musicalmente, desde os tempos de shows do Bye Bar, no final da década passada. Faltou o coro da galera fanática para mostrar pra quem veio de fora o papel que a Vibrações cumpre localmente. Simone Soul e seu Projeto Cru deram seqüência à programação. E deixaram todo mundo boquiaberto. Experimentalismo da melhor qualidade, com groove, bateria, sax e até influências regionais. A surpresa da noite. O Negroove, de Pernambuco, foi a prova de que aquele Estado continua firme e forte no cenário musical independente. Ninguém com quem conversei tinha ouvido o som do pessoal antes (inclusive eu), mas todo mundo caiu na dança. Inclusive o porteiro do banheiro ao lado do palco, um senhor de mais de 50 anos, que dançava animadíssimo enquanto explicava aos apertados onde ficava o toalete para mulheres e homens. Um sonzinho alegre, descompromissado, com corais femininos interessantes. Se configurou na apresentação mais animada da noite. Mais um motivo para eu intensificar o alongamento no dia seguinte. É que também me empolguei. Mas incrível mesmo não eram meus passos de sambinha, mas como o tipo de som mudava radicalmente de uma atração para outra. «É a grande revelação alagoana», me sentenciava André Frazão, um dos «culpados» por o Festival, sobre a banda que se seguia: o rap de Vitor Pirralho e Unidade 3,14. O garoto tá ganhando moral, e não é por acaso. Vai lançar CD em breve e colhe elogios dos músicos da terra e do público que cresce a cada apresentação. Foi seguido do resultado de muita pesquisa da música regional da Pedra de Raio, cuja metade alagoana é formada por a Telma Cezar, ex-Comadre Florzinha (antes de virar Fulôzinha). Mas uma das principais atrações da noite vinha logo depois: a Mopho. O vocalista e guitarrista João Paulo reapareceu mais magro, cabelos curtos, e fazendo um show enxuto, mas nunca desanimador. Faltou um quê de Mopho. Tá bom que em 50 minutos não dá para matar a vontade, mas ... poxa, custava nada um bis! E quem pediu não fui só eu ... Outro gringo da noite foi o Jackson Envenenado, da Paraíba. Mas envenenado mesmo, endiabrado, estava o Juninho, da Sonic Jr.. Sozinho no palco, no groovebox, na bateria, no chão, pulando, cantando, a banda de um homem só mostra que vale mais que várias bandas de tantos homens ou mulheres. Ninguém arriscou ficar parado. E veio Autoramas, e veio a Living. E terminou o domingo, e acabamos o texto como começou. Mas o FMI não se encerra por aí. Como iniciativa pioneira, colheu os ônus e os bônus que só se mostram pra quem tem coragem de arriscar. O público poderia ser maior, é verdade. Tinha estrutura e talento de sobra pra isso. A produção caprichou. Mas Maceió não «absorveu» o conceito de festival, e ainda associa o evento a uma feira (alguma banda chegou a confundir e anunciar a Feira de Música Independente): vai-se para escolher que atrações levar para casa. Só que se sabe antecipadamente o que se quer comprar, sem observar a variedade de produtos -- e, inevitavelmente, espera-se o que já está nas TVs e rádios. Por não querer comprar tudo, apostam numa futura promoção exclusiva. Mas a lógica do FMI não é essa. Música, ali, não foi produto para se consumir como enlatado. Música veio como produto do homem, da sua capacidade de fazer sem precisar de fôrmas de empadas e tempo de forno para garantir que fique apetitosa. Apostou-se na fome do povo alagoano para dar a primeira mordida. Mas, como diria Wado / Eddie, o FMI «tinha gente de todos os lados», que fazia alegria e tinha fome de música que não tá na novela. Tinha gente de todos os lados, que foi pra relembrar, para matar as saudades, para celebrar, para conhecer. Que estas pessoas multipliquem as impressões, para que novos FMIs venham nos anos que se seguem, mais fortes. A música independente agradece. Número de frases: 169 Nossos ouvidos também. O Ticumbi, ou baile de Congo de São Benedito, é uma manifestação religiosa e cultural que acontece em Conceição da Barra, Espírito Santo, nos dias 31 de dezembro e 1 de janeiro. Mas a festa começa antes, com os ensaios que o grupo comandado por o Mestre Terto (Tertuliano Balbino) realizam a partir de outubro até dia 30 de dezembro, último e especial ensaio. O último ensaio do Ticumbi é sempre especial: esse ano começou às 18h, com a saída do velho ônibus fretado da frente da casa do Mestre Terto, em Conceição da Barra, rumo ao sítio e casa de Tião de Veio, às margens do Cricaré. O sítio é cercado de mata e águas do rio. Em volta do galpão onde o ensaio se realizou os integrantes do Ticumbi, do Reis de Bois -- comandado por Tião de Veio -- e os convidados disputam espaço com vira-latas, perus, galinhas pé-duro e porcos no quintal de chão batido e areia. O primeiro ensaio é dos donos da casa, o grupo de reis de bois do Mestre Tião de Veio. O ensaio de reis foi impressionante e emocionante para quem, como eu, nunca tinha visto ao vivo uma apresentação de reis e não entendia o sentido da manifestação. O canto inicial, feito diante da porta fechada, é de profunda beleza, quase um mãntra espiritual. Depois a porta é aberta eles entram e ensaiam todos os cânticos e danças do reis. Embora eles não estivessem paramentados, os cantos e danças impressionam. Depois dos donos da casa é a vez do Ticumbi de São Sebastião ensaiar. Foi também meu primeiro contato com o auto. Todas as informações que eu tinha sobre o Ticumbi viraram poeira diante da força dos versos, das danças, da batida dos pandeiros e da representação falada dos reis, secretários e embaixadores. A história que se desenvolve no auto do Ticumbi é a da disputa entre o Rei de Congo e o Rei de Bamba por a primazia de fazer a festa de São Benedito. Essa disputa se dá pela palavra (por meio dos diálogos rimados entre os personagens), da coreografia (que simulam lutas) e das músicas. Em os diálogos do auto, fatos contemporâneos da política local e nacional se misturam aos fatos históricos e à devoção de forma às vezes jocosa, fazendo rir os assistentes. A o fim do ensaio o galpão virou pista para um animado forró que durou até o dia amanhecer e os barcos chegarem para levar os participantes para Conceição da Barra. Durante a madrugada, além do forró e da pinga, os donos da casa serviram um farto jantar, muito café e biscoitos maria. E o papo rola solto: os contadores de causos sempre a postos para desvendar os segredos do Ticumbi para os visitantes ou para relembrar velhas histórias da comunidade. Em o Ticumbi de São Benedito todos os integrantes são descendentes diretos dos quilombos que se instalaram na região e velhas histórias é o que não falta para passar o tempo da longa noite de espera para cumprir a devoção ao santo. Pela manhã, insones, os velhos senhores desceram a ribanceira do rio para um banho coletivo e a troca de roupa: a camisa suada do forró foi substituída por a camiseta branca oficial da festa. Agora é esperar os barcos. Os fogos avisam ao pessoal da comunidade de Barreiras, localizada rio acima, que logo o Ticumbi estará lá para pegar o santo, que está sob a guarda da comunidade e do jongo das Barreiras, e levá-lo de volta à sua igreja, em Conceição da Barra. A chegada dos barcos atrasou um pouco. Em a beira do rio Mestre Terto fitava a direção da barra com ar preocupado. Mas a chegada de eles, enfeitados de bandeirolas coloridas, desfez toda preocupação e todos embarcaram, inclusive os visitantes e curiosos que tinham enfrentado com eles a madrugada de festa e fé, rumo a Barreiras, rio acima, onde o pessoal do Jongo espera na margem para também embarcar com o santinho preto de «oinho miudinho», como eles costumam se referir ao santo. Em Barreiras todos saem dos barcos e vão cantando e dançando até a igrejinha da comunidade, onde o santo está hospedado. Voltam com a imagem e o povo da comunidade canta: São Benedito vai simbora Vai visitar Nossa Senhora Assim, o povo do Ticumbi, do Jongo, os moradores e visitantes desembarcam no cais de Conceição da Barra e são acompanhados por a multidão, reunida à espera do santo, até a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde o Ticumbi vai buscar outra imagem do santo para levar até a igreja de São Sebastião, do outro lado da cidade. Essa caminhada foi feita já debaixo de um quente sol de verão. Eu, cansada e sem dormir desde a manhã anterior, não conseguia parar de pensar em como aqueles velhos senhores conseguiam forças para uma maratona daquelas, que estava apenas no início, já que festa duraria ainda até o final do dia 1 de janeiro. Durante todo o dia 31 os integrantes do Ticumbi cumprem as visitas às casas dos festeiros, que são moradores da cidade que recebem o Ticumbi com almoço, lanche e jantar. Em o dia seguinte, primeiro de janeiro, a maratona recomeça. Logo cedinho os congueiros estavam na igrejinha de São Sebastião, desta vez paramentados com as roupas típicas do Ticumbi, que é branca e muito rica em rendas, fitas e flores coloridas. Dia primeiro de janeiro é o grande dia para o Ticumbi de São Benedito. A missa na igreja é dedicada ao santo e tem participação efetiva dos congueiros. A apresentação é de gala. A TV está lá gravando e os congueiros são os astros. O povo em volta faz roda para o início da apresentação, que dura mais de uma hora. Em a hora do almoço perguntei ao Mestre Terto: de onde vocês tiram tanta força para tudo isso? Ele apontou para o céu e me olhou nos olhos: de lá, disse. Eu pensei cá com mim que só mesmo uma força divina pode manter esses senhores com idade média de setenta anos de pé, cantando e dançando, durante três dias seguidos, sempre com a alegria no rosto e disposição para responder às perguntas bobas como a minha. A festa seguiu por a tarde adentro, com o Ticumbi indo de casa de festeiro em casa de festeiro e culminou num animado forró na casa da última festeira a receber o Ticumbi, dona Rosa Dealdina. Mas dessa parte eu não participei: apesar de estar hospedada na casa de dona Rosa, quando o forró começou o sono já havia me vencido e nem mesmo a sanfona e o arrasta pé na varanda me despertaram. Número de frases: 53 Notícias do Vídeo Índio Brasil Aconteceu em Mato Grosso do Sul, de 23 a 29 de junho, a Mostra Vídeo Índio Brasil. Fui convidada a participar e sabia que iria encontrar novidades para exibir na Programação da 13ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, da qual sou a curadora, aqui no Rio. A Mostra reuniria diversos filmes sobre povos indígenas incluindo também a produção de cineastas indígenas. Mas o evento a que presenciei foi muito mais que isso. Tendo como principal espaço de exibição um cinema cultural de Campo Grande, o Cine Cultura, a Mostra se desdobrou para outros pontos na periferia da cidade e do interior: realizou-se em três aldeias urbanas, em dois espaços denominados Casa Brasil também na periferia de Campo Grande assim como nas cidades de Dourados e Corumbá. Foi um sucesso! A princípio, nada me parecia tão diferente das expectativas, acostumada como estou a freqüentar algumas mostras e festivais. Uma mostra de filmes sobre índios, um bonito cartaz com rostos indígenas, seminários e debates programados paralelo ao filmes e uma oficina de formação audiovisual. Aos poucos fui me surpreendendo com o distintivo do evento: a significativa e maciça presença de povos indígenas. Em uma sala de cinema, com aproximadamente 100 lugares, 80 lugares estavam sempre ocupados por representantes de diversas etnias locais: Terena, kadiweu, Guarani Kaiowá, além de parentes mais distantes, como os bororo, e os Xavante, do Mato Grosso. Em a maioria jovens, além de algumas lideranças e várias crianças, sempre. Em as diversas falas, debates e encontros realizados, a tônica era a mesma: a importância e a representatividade do encontro num estado considerado o segundo maior estado do Brasil em termos de população indígena e, ao mesmo tempo, a constatação da falta de um espaço para reflexão sobre suas questões no contexto local. Desde os anos 80 não se fazia qualquer evento de maior peso para pensar as questões indígenas em Campo Grande, diziam os presentes. Depoimentos pessoais muito enfáticos apontavam para esse problema. Por um lado, diversos representantes indígenas locais, tanto das aldeias urbanas como de aldeias do interior. Professores indígenas, expressivas lideranças indígenas nacionais presentes, como Marcos Terena, Daniel Munduruku e Fernanda Kaingáng e, por outro, pesquisadores e cineastas, como por exemplo, a antropóloga Dulce Ribas (UFMS) que mediou uma mesa ou o cineasta Joel Pizzini, nascido no estado e diretor do recém lançado filme «500 Almas», sobre os índios Guatós. O encontro foi marcado por seis mesas redondas temáticas, pela manhã, ocupando toda a semana e exibição de filmes em duas sessões, à noite, na sala de Campo Grande, além de outras itinerâncias. A primeira sessão tinha sempre um debate com os realizadores após o filme, seguida do último filme na sessão das 20 horas. Sempre sala cheia! Atividades paralelas aconteceram durante o evento. E aí, outra surpresa! A oficina de vídeo oferecida na Mostra destinava-se a jovens indígenas e seria ministrada por dois jovens realizadores indígenas Divino Tserewahú (Xavante) e Paulinho Kadojeba (Bororo), com a participação de dois professores colaboradores: Sérgio Sato, fotógrafo e membro da equipe do Museu das Culturas Dom Bosco ligado a Universidade Católica Dom Bosco (dos Salesianos), onde se realizou a Oficina, e o prof. Helio Godoy, do Departamento de Artes da Universidade Federal (MS). A parte prática da Oficina foi totalmente orientada por os realizadores indígenas e, ao final de 4 dias, finalizaram um vídeo de 8 minutos sobre a experiência. Um sucesso total com os 25 alunos inscritos! Impressionou-me muita coisa nesse encontro. Vivi a experiência de conhecer de perto um Brasil que desconhecemos e precisamos conhecer. O Brasil dos povos indígenas. Quem é a população indígena do Brasil? Quantas línguas falam? Onde estão localizados? Quais são as principais questões? Porque vivemos tão afastados, nos grandes centros urbanos, dessa realidade? A advogada indígena Lúcia Fernanda Jófej Kaingáng nos apresentou uma coleção de livros, recém lançada por o MEC, com a participação do LACED, do Museu Nacional, que pretende dar conta das principais questões que temos sobre o tema. É ótimo conteúdo para as novas exigências do MEC de conteúdo indígena nos curriculuns escolares. Ela e Daniel Munduruku representam o INBRAPI, o Instituto Brasileiro de Propriedade Intelectual Indígena, com sede em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Muitas publicações, incluindo literatura infantil indígena, fazem parte de sua bibliografia. Foi um sucesso a participação de ambos. Importantes filmes foram exibidos nessa Mostra, dando relevo as diversas questões tratadas: Estratégia Xavante, de Belisário Franca, mostra histórias de sucesso na convivência entre índios e não índios. Um ótimo filme com material histórico maravilhoso. Serras da desordem, de Andréa Tonacci, outro grande documentário premiado, que conta a saga do índio Carapirú que fica vagando durante anos, tendo perdido sua família massacrada no processo de ocupação nas serras do Brasil Central. O filme do realizador indígena Paulo Kadojeba que, sentindo-se injustiçado com uma matéria feita por o Fantástico, da Rede Globo, em sua aldeia (teriam transgredido rituais privados, tornando-os públicos) investiu na realização de seu próprio filme, descrevendo o ritual a seu modo: Boe Erro Kurireu. Divino Tserewahu, que já tem vários filmes em seu curriculum -- é um dos representantes das primeiras turmas de realizadores indígenas formados por o famoso projeto Video nas Aldeias, de capacitação das populações indígenas para o audiovisual. Nos apresentou Wai ' a Rini, o poder do sonho, vídeo que ganhou prêmio na Mostra Internacional do Filme Etnográfico de 2001. O também premiado Pirinop: meu primeiro contato, de Mari Corrêa e Karané Ikpeng (Vídeo nas Aldeias), também foi exibido, assim como alguns clássicos relembrados: Avaeté, a semente de vingança, de Zelito Viana; Uirá, um índio em busca de Deus, de Gustavo Dahl e Mato Eles?, de Sérgio Bianchi. Ao todo 28 filmes. A presença de Vincent Carelli, idealizador e um dos diretores da ONG Vídeo nas Aldeias, de Olinda (PE), que vem há 21 anos atuando junto às populações indígenas no Brasil, capacitando-as para a realização de projetos audiovisuais, foi destacada no evento, fazendo justiça a esse seu trabalho maravilhoso e de enorme abrangência. Não só Tserewahu fazia constantes menções a importância do Vídeo nas Aldeias na sua formação e a orientação permanente de Vincent Carelli a seus projetos, como inúmeras referências positivas foram feitas por os presentes: o próprio Museu Dom Bosco, ao criar seu Programa de Audiovisual Indígena não nega ter-se inspirado no projeto Video nas Aldeias. Uma segunda geração de realizadores indígenas vem aí. Durante a Mostra, o Vídeo nas Aldeias apresentou-se, Vincent falou de sua trajetória, os novos projetos e divulgou três séries de vídeos que estão disponibilizando para distribuição. Cineastas Indígenas: Kuikuro; Cineastas Indígenas: Panará, Cineastas Indígenas: Hunikui. (Foram encaminhados para distribuição gratuita para escolas indígenas via MEC). Fazem parte de um projeto maior, englobando outras três etnias: Ikpeng, Ashaninka e Xavante. Os vídeos tem legendas em cinco línguas, incluem dois curta-metragens extras contextualizando os povos. Acompanha um cadernos bilíngüe ilustrado com fotos e diversas informações. Um bonito trabalho que pode ser melhor conhecido em www.videonasladeias.org.br. Fomos visitar as aldeias urbanas: casas populares para indígenas desaldeados, que se organizam em condomínios na periferia de Campo Grande. São três existentes na cidade. A Aldeia Água Bonita reúne 40 casas, com 4 etnias (cada casa tem um grafismo pintado na fachada) e uma casa redonda central, que funciona como um centro cultural. Foi conquista da conhecida líder indígena Marta Guarany, em anos recentes, que se desdobrou em outros dois projetos bancados por o governo local. Em o momento de nossa visita passava o filme IX Jogos dos Povos Indígenas, de Ronaldo Duque, um documentário que descreve didaticamente a realização dos jogos indígenas que aconteceram em Recife e Olinda, no ano de 2007. Um evento que, aparentemente, pouco espaço ganhou na mídia nacional à época, apesar de ter reunido mais de 1050 atletas, representando 40 etnias diferentes brasileiras. Um grupo grande de moradores, de várias gerações, acompanhava, muito interessado, as projeções e o debate, a seguir, com o diretor. Assim como essa exibição, a Mostra desdobrou-se nas cidades do interior (Corumbá e Dourados), também com a presença de alguns realizadores em sessões com debates. É importante destacar a participação da cineasta Aymara Maria Morales, da Bolívia, no evento. Sua presença com longas tranças, o chapéu côco tradicional e a indumentária campesina boliviana chamava a atenção por onde passava. Seu filme Venciendo el Miedo é uma ficção encenada com atores naturais locais. A diretora, em seu comentário após o filme justificou sua realização, como uma militância política, tratando dos assuntos: mulheres, saúde, educação e terra. Trata-se de um bonito trabalho, com roteiro seu e participação da equipe de Yvan Sanjines, filho do famoso cineasta boliviano Jorge Sanginez. Quero parabenizar a equipe da Mostra Vídeo Brasil por a realização desse evento. Importantes encontros aconteceram. Importantes articulações envolvendo as questões indígenas e o audiovisual também foram encaminhadas. Certamente novidades virão por aí. Há jovens realizadores indígenas em formação. A proposta, como dizia Vincent, deve ser na excelência dos novos projetos. Acredito que os diversos envolvidos nessa Mostra possam se sentir, de alguma forma, contribuindo para o seu sucesso. A Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural do MINC, a Funai e os demais parceiros tiveram a sensibilidade para apoiar a iniciativa que, nas pessoas da Luana Salomão e do Belchior Cabral, lideraram essa Mostra (ver www.cinecultura.com.br.) Que ela tenha vida longa! Número de frases: 93 Rio, 03 de julho de 2008 Patrícia Monte-Mór Quando os alunos da E.E.Dr. Américo Brasiliense entraram na sala para a aula de português a surpresa foi grande. Em o lugar da professora estavam o diabo e o anjo do «Auto da Barca do Inferno», os heterônimos de Fernando Pessoa, e outras personagens de diferentes obras que haviam passado por as suas aulas. Eram os atores da Cia.. Estrela D ´ Alva de Teatro invadindo a escola com leituras dramáticas de diferentes obras e transformando a sala de aula num verdadeiro palco. É que a E.E.Dr. Américo Brasiliense é uma das escolas que estão sendo contempladas por o projeto Leituras Dramáticas na Escolas, realizado por a Cia.. Estrela D ´ Alva por meio da Lei de Incentivo à Cultura de Santo André e com o apoio do Colégio Singular. São mais de 400 leituras sendo feitas gratuitamente para cerca de 4 mil alunos de toda a cidade até o final do ano. Foram selecionados quatro textos, todos relacionados às obras pedidas como leitura obrigatória nos vestibulares da Fuvest e Unicamp: «O Auto da Barca do Inferno», de «Gil Vicente,» Fernando Pessoa e seus heterônimos», A rosa do Povo», de «Carlos Drummond de Andrade e Sarapalha», conto do livro Sagarana, de Guimarães Rosa. A Cia.. Estrela D ´ Alva nasceu da vontade de desenvolver trabalhos artísticos integrados ao conteúdo escolar, aliando o teatro à literatura. Para Marcelo Gianini é preciso buscar uma forma que una a criação teatral à apreciação da obra literária levando o aluno a enxergar a intersecção destas duas linguagens. A leitura pretende ser um estimulador do exercício da leitura e do jogo teatral em alunos de ensino médio, e com isso acaba contribuindo para a formação de um público leitor e espectador teatral crítico, além de levar teatro gratuito as escolas públicas da região. O projeto é dirigido por Marcelo Gianini e tem no elenco, além do próprio diretor, Ivan Ribeiro, Lígia Helena e Renata Régis. O quê? Projeto Leituras Dramáticas nas Escolas Quando? Durante todo o segundo semestre de 2006 Quem? A Cia.. Esrela D ´ Alva de Teatro, por meio da Lei de Incentivo à Cultura de Santo André com o apoio do Colégio Singular. Onde? Em diferentes escolas públicas de Santo André Por quê? A mediação da leitura da obra artística é uma forte tendência nos variados campos de pesquisa acadêmicos. Não basta obrigar o aluno a fazer a leitura de um livro ou a assistir a um espetáculo, é preciso ensiná-lo a ler a obra de arte. Para tanto é proposta uma pedagogia do leitor e do espectador a partir da obra apresentada. Número de frases: 27 Se vocês quiserem conhecer um pouco do meu trabalho e das «Notas de viagem de Rubber Vall» visitem meu Flickr, onde encontrarão um material disperso, mas que lhes dará uma idéia dos rumos narrativos que tomei. Com becos estreitos, cheiro forte de temperos, preços populares, produtos de qualidade e bem expostos, pessoas que se cumprimentam o tempo todo, enfim com características próprias o mercado das sete portas se mantém imponente e é um grande centro comercial desde a década de 40. Inaugurado, no bairro das Sete Portas em Salvador e tendo como proprietários os membros da família Pinto de Aguiar, o mercado tem se modernizado com o passar do tempo, sem perder características que lhes são peculiares. Com gente simples que trabalha para sobreviver, mas sem perder a alegria e a esperança de que o movimento melhore o mercado vai enfrentando o tempo e tendo seus 200 boxes passados de geração para geração. Há algum tempo que o fluxo de clientes no local vem diminuindo o que preocupa muitos comerciantes do local. «A situação aqui melhorou muito em termos de estrutura, mas o movimento anda um pouco devagar. Temos que pagar o aluguel, o condomínio, mas, com esse movimento fica difícil», diz o feirante Eupidio Alcântara, que trabalha no mercado à 40 anos e é locatário do box 93 onde comercializa cereais. O gerente responsável por a administração do mercado é Anísio Rodrigues, que trabalha no mercado á mais de 50 anos. Ele, e que eles devem reconhecer istontes s vantagem de ntante e os feirantes tem 20 minutos de tolerancia redito que esse diz que apesar dos locatários reclamarem do valor do aluguel, que fica em torno de R$ 500,00 a depender do tamanho e da localização do box, todas as medidas possíveis para melhorar a qualidade de vida dos feirantes são tomadas e que eles devem reconhecer isto. Diz ainda que os locatários podem contar com a vantagem de não ser cobrada a água, pois, a reserva é feita num poço e a água é distribuída para todos os boxes, já a energia e a linha telefônica são de responsabilidade do feirante responsável por o box. A estrutura foi melhorada segundo os comerciantes e clientes antigos do mercado. Os sanitários são limpos e bem organizados, tem hora certa para o banho, das 17h às 18h30, e um funcionário que fica responsável por manter a limpeza do local. No caso do banheiro feminino a responsável é Neide Almeida, 41, funcionária do mercado á cinco anos. «As pessoas aqui me tratam com muito respeito e me ajudam a manter o banheiro limpo, gosto de trabalhar aqui e acredito que esse mercado ainda vai ficar melhor», falou Neide com um sorriso no rosto e segurando uma porquinha porta-moeda, que fica sobre uma mesinha localizada próxima à porta. Segundo ela o dinheiro arrecadado no cofrinho é para ajudar a comprar materiais de limpeza, apesar dos mesmos serem fornecidos por a administração, não são suficientes para conservar o banheiro limpinho como ela gosta. Um estacionamento foi criado para facilitar o carregamento e descarregamento de mercadorias. Em o inicio o estacionamento era gratuito, mas devido à falta de organização passou a ser cobrada um taxa de um real por hora para o visitante e os feirantes têm 20 minutos de tolerância para carga e descarga, passado esse tempo eles também pagam a taxa de estacionamento. O comerciante de bebidas Everaldo Souza que é locatário do box115 à cinco anos diz que a implantação do estacionamento facilitou muito a vida dos feirantes, mas, que o tempo de tolerância poderia ser maior. Uma associação de barraqueiros foi criada por o comerciante Augusto Cerqueira, que vende carnes e cereais no mercado à 20 anos, com o propósito de levar ao conhecimento da administração do mercado, todas as necessidades dos barraqueiros. Algumas reivindicações foram atendidas como é o caso do estacionamento, outras estão passando por um processo de avaliação como a proposta de redução do aluguel. Um contrato com o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) está sendo fechado, para que o mercado tenha seu espaço publicitário num dos programas esportivos da rede, a expectativa de Augusto é que isso movimente mais a economia e que o movimento de clientes seja maior. Hoje os clientes podem contar com a disponibilidade de máquinas de cartões de credito o que facilita na maioria dos casos na hora da compra. Como é o caso de Elvira Araújo, que faz compras de 15 em 15 dias no mercado e diz que os preços populares e as pessoas agradáveis do local é o que mais a motiva a estar sempre visitando o mercado. «Poder comprar com cartões de crédito dentro de uma feira facilita muito a minha vida, adoro as pessoas desse lugar, sou amiga de muitos comerciantes aqui e sempre que posso dou uma passadinha nem que seja só para fazer uma visita», diz Elvira Araújo, 48, cliente do mercado à mais de cinco anos. Os antigos clientes também elogiam e fazem questão de demonstrar a satisfação em comprar e passear por entre os becos do mercado como é o caso de dona Luiza Silva, 68, cliente do mercado á aproximadamente 30 anos, faz questão de vir ao mercado todos os sábados para comprar frutas e legumes, diz que são os melhores da cidade. Com produtos de qualidade, temperos de cheiro forte, carnes e cereais de todos os tipos e vindos de várias regiões da Bahia, o mercado das Sete Portas vai resistindo ao passar do tempo e continua sendo um grande centro comercial da capital baiana. A os freqüentadores resta apreciar suas belezas e desfrutar das maravilhas que podem encontrar enquanto passeiam por os becos e boxes do mercado. Número de frases: 27 «É liquefeito o passaporte e por a ponte vai a mente a qualquer parte. Escadarias amazônicas a Marte ... sempre sem medo que vem como um rio ..." Em a primeira vez que ouvi «A o Cruzeiro», achei que se tratava de uma viagem de barco de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, se é que isso é possível. Dias depois, com um pouquinho de ajuda, entendi que a música falava do Daime. Atribuo o equívoco à minha inabilidade para interpretar poesias. Decodifico bem frases com sujeito-verbo complemento, composição que torna a vida bem simples, mas desprovida daquela dose especial de encanto que certos versos provocam. Versos que a minha teimosa cabeça leva a rumos totalmente diferentes dos encaminhamentos merecidos. Ainda assim, as rosas, lírios e azaléias que preencheram esses caminhos vieram das composições, sem campo estético definido, de quatro rapazes que encontrei aqui por essas bandas de Galvez. Los Porongas apareceram para mim há um ano e meio, num concerto na Concha Acústica de Rio Branco e, depois, numa apresentação como convidados no Festival Universitário da Canção, o mesmo em que foram vencedores em 2003, quando competiram por acharem uma boa oportunidade para gravar a custos mínimos. Mas o ambiente era calmo demais para um show de rock. O público, sentado, cantava as letras poéticas cheias de elementos da região norte enquanto o vocalista declarava o quanto era bom tocar entre amigos. Pode-se dizer que a banda começou dentro da Universidade Federal do Acre. João Eduardo (guitarra), estudante de Ciências Sociais e Diogo Soares (vocal e letras), estudante de Direito, se uniram a Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria), em maio de 2003. Os ensaios eram feitos na universidade e logo no primeiro começaram a compor. A iniciativa de apresentar composições próprias era bastante ousada para a cena musical da época, quando praticamente todas as bandas da capital acreana faziam cover e os donos de bares e casas de show chegavam ao cúmulo de escolher o repertório -- se não fizessem cover, não tocavam. O acaso é mais certo que o sim Antes da «Los Porongas», Magrão e Anzol tocaram na» Ponto G «e Diogo fez parte da» Abeas Corpus», banda que ganhou alguns prêmios em 2002, num modesto festival, a Festa do Dande, organizado por o produtor musical " Dande Tavares. Abeas Corpus " chega a soar engraçado e até sugestivo quando ligamos a idéia ao rapaz que escrevia letras de música nas provas de Direito Civil. Diogo conta que o primeiro cachê da «Los Porongas» foi de 50 reais: «achei massa ser pago pra fazer música!». Tocaram durante um mês nas «Baladas Quintas», local em que nomes importantes da música acreana, como Elói de Castro e Álamo Kário, também se apresentavam. Foi numa dessas apresentações que Dande gravou um CD da banda: «o equipamento era péssimo e o som ao vivo saiu muito ruim. Eu achei muito legal ouvir a gente, mas lembro do João quebrando esse CD», conta Diogo. Não foi uma época fácil. Como bandas da cena independente não eram muito requisitadas, os caras produziam suas apresentações com dinheiro próprio, para pouquíssima gente, até que um grupo de amigos formados por a ESPM de São Paulo abriu a «Mundo B» -- produtora que investia nesse segmento de mercado -- que passou a fazer a divulgação da banda. Em pouco tempo, o conceito e diretriz da música jovem no Acre começou a mudar. Bandas que antes faziam cover passaram a tocar canções inéditas e participar de festivais do Circuito Fora do Eixo Rio de Janeiro/São Paulo, que engloba alguns estados da região norte. Los Porongas se apresentaram no Mada (Natal / RN), Bananada (Goiânia), Se Rasgum Rock (Belém / PA), Calango (Cuiabá / MT) e no Varadouro (Rio Branco), que é resultado da iniciativa de artistas, produtores culturais, do selo fonográfico acreano Catraia Records e dos próprios porongas, com patrocínio da iniciativa privada e do governo estadual. Em 2005, os porongueiros lançaram seu primeiro disco, «Enquanto uns dormem», por a Catraia Records. O álbum foi considerado o melhor do ano por o site Senhor F. Em outubro de 2006, o segundo trabalho foi lançado por o selo Senhor F, com a produção de Phellipe Seabra. A proa quando apruma voa ... A lamparina num chapéu de latão, usada por os seringueiros para abrir caminho na mata, também iluminou o trajeto dos rapazes em direção à projeção nacional. O lançamento do segundo CD mostrou que era hora de criar atalhos e mudar para o eixo (o «sul-maravilha», como diz» Jorge Anzol). «Viajar de São Paulo para os outros estados sai mais barato do que de Rio Branco para qualquer outro lugar», disse «João Eduardo,» isso faz com que apareçam mais convites para tocarmos por aí». Velho comum artifício, partir para subir e depois voltar incita saudade antes mesmo que a imagem desapareça da retina. As canções do show de despedida pareciam imersas na nostalgia do «é melhor assim», o que não amenizava a inquietação do público que cantava com tanto ardor quanto o vocalista. «Não esperem Faustão, nem um milhão de cópias. Estamos indo apenas para fazer o que gostamos», disse Diogo, sem pretensão. Mas o trajeto da banda por os festivais da região norte criou oportunidades que puderam ser executadas com a ida para São Paulo, no final de maio. Mostrar um novo modo de descortinar a identidade do Brasil a partir das influências indígena e nordestina foi o que chamou a atenção de Alex Antunes, jornalista e produtor cultural. Alex foi o curador do show BB Cultural, em são Paulo e responsável por a participação dos porongueiros no evento. «Lupa no meio da mata, sapiência não ilude, sapo que é Philomedusa bicolor em Hollywood, sim». Um lego de palavras pronunciadas por a nova estação tropical ousa partir e inverter o verso nas apresentações do projeto Supernovas. Eventualmente a banda toca com Dado Villa-Lobos, que, como Alex Antunes e Pablo Capilé, entendeu bem o processo de construção do novo tempo da música brasileira em que o CD, principal suporte físico que levava o conteúdo musical, praticamente caiu em desuso. Promover a integração das bandas independentes com o público que baixa a música para ouvir e continua pagando para ver e curtir é uma boa sacada para entender os novos rumos do mercado fonográfico. Sem o atalho intrafegável das grandes gravadoras, Los Porongas conseguem expandir sua música firmando, quase sempre por contatos através da internet, um circuito de apresentações, com bom cachê ou não. A fórmula é tocar o tempo todo e criar letras que são frutos da observação e da intuição. A ordem é ficar bom, não importa se é concreto, parnasiano ou barroco, até. O importante é soar bem e fazer sentido, seja ele qual for, ainda que o sentido seja não ter um sentido aparente. Número de frases: 50 Diário de São João Data: 24 de Junho de 2007 Destino: Povoado Aguada -- Carmópolis / SE O que: Batalhão dos Bacamarteiros Antes de tudo demos uma rodada por o «Povoado», é bom que se frise Po-VO-A-DO, organizadíssimo e com cara de cidade, parabéns a gestão pública do município de Carmópolis: Ginásio Poli-Esportivo, Mercado Municipal, Clube Social, Colégio, Unidade de Saúde ampla, em fim, tudo muito arrumadinho, ruas pavimentadas, estruturas pintadas, praça, igrejinha tudo no seu lugar. Bom, mas vamos ao objetivo principal da nossa viagem, após anos e anos de convite do Mestre e Organizador do Batalhão de Bacamarteiros, Idelfonso, que atualmente também é Vereador, conseguimos chegar a Aguada, fomos bem acolhidos por D. Zuleide, esposa de Idelfonso e toda sua família, que também nos serviu um delicioso almoço com direito a camarão de água doce da região e canjica de sobremesa. Nada de descanço, fomos para a rua acompanhar o percurso do Batalhão, e presenciar uma autêntica manifestação popular e folclórica do nosso rico Estado. Os brincantes acompanhados por a batucada que envolve apenas os instrumentos percursivos: pandeirinho (pequeno mesmo), onças (lembra uma cuíca, mas não é) e ganzar, puxam uma «pá» de pessoas da comunidade e visitantes numa alegria só. Os comandos saem do apito do mestre que impõe seu cajado e aí de quem ousar desobedecer. O apito possui diversas sonoridades, uma indica advetência, outra diz Pare, e outra diz: pode mandar brasa ou melhor fogo. Em as localidades escolhidas por ele, o grande Mestre diz: «Vamos carregar», traduzindo colocar pólvora nos Bacamartes e prepare os corações e saiam de perto, que o estrondo vai disparar até alarme de carro (aconteceu com o nosso); é muito forte esta manifestação, não só por o tiro mas por a energia das músicas e dos passos que mexem com todo seu corpo, é gostoso está no meio de eles. A cada parada eles bebem muita cachaça, dançam nas casas escolhidas e na casa de Idelfonso recebem uma boa merende como ele diz, mas na verdade é uma grande panelada de carne; como agradecimento mais tiros de bacamarte. Outra coisa interessante que existe é um código, ou melhor, uma penalidade aplicada a quem não consegue ficar em pé depois do tiro ou quem derruba o bacamarte no chão; para este desacerto paga-se 6 cerveja para o grupo. E a caminhada continua por as ruas da cidade. Eles entram na Igreja (ponto principal para eles) e soltam mais tiros; Número de frases: 23 depois se encontram com a dissidência do grupo, os Bacamarteiros de Pinga Fogo, e a festa continua por muito tempo ... Inicia no próximo dia 6 de outubro o Porto Poesia 2 no Shopping Total Av. Cristovão Colombo, 545 -- Porto Alegre -- RS. Em o seu segundo ano de realização o Porto Poesia já se constitui um dos maiores festivais de poesia do país. Em este ano, entre as novidades do evento estão a realização em múltiplos espaços do Shopping Total e a presença de convidados de outros Estados. De acordo com Marco Celso Huffell Viola, organizador, a programação desse ano é resultado de um conjunto de sugestões de um comitê gestor do Porto Poesia e representa todas as tendências da poesia, hoje, no país. Com relação à parceria com o shopping o organizador diz que: «essa parceria «dessacraliza a poesia, tirando-a de dentro das livrarias e colocando-a num dos espaços mais tradicionais e belos da cidade, ao alcance de todos os públicos». A segunda edição do festival Porto Poesia contará com uma programação intensa que contempla 12 palestras, 22 sessões de leituras de poesia, 4 rodas de poesias para crianças, 14 performances, 11 debates, 12 espetáculos, 10 oficinas, diversos lançamentos, sessões de autógrafos, saraus, apresentações livres, sessões de cinema e exposições de acervos, entre elas uma Mostra Nacional de Revistas de Poesia. Serão 10 horas diárias de atrações totalizando 85 apresentações em 70 horas de atividades culturais. A organização estima a participação de cerca de 8 mil pessoas, durante o evento. Até o momento, mais de 98 profissionais da área da cultura e poetas têm a presença confirmada, entre eles, Armindo Trevisan, Alcy Cheuiche, Donaldo Schüller, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Liana Timm, Luiz Coronel, Mário Pirata, Oliveira Silveira, Jane Tutikian, Paulo Custódio, entre outros. Como na edição anterior, a programação é gratuita e aberta ao publico. O Porto Poesia é um festival de poesia concebido da união dos poetas locais, com o objetivo de abrir espaço para as produções gaúchas e tornar conhecido este importante gênero literário, democratizando a informação literária em Porto Alegre, mobilizando pesquisadores, professores universitários, escolas de ensino médio, tradutores de poesia, profissionais do teatro, músicos, artistas plásticos, letristas, e poetas convidados, propiciando o acesso à cultura e educação, estimulando o desenvolvimento do gosto literário em crianças, jovens e no público em geral. Além do Shopping Total o Porto Poesia conta com o apoio das Secretarias de Cultura do Estado, Municipal de Educação e de Cultura, Instituto Machado de Assis, Tronicks, Museu do Esporte, John Bull, La Passiva, Marcos Restaurante. Assessoria De Imprensa-Marco Celso Huffell Viola-MTB 3858-fones 3339-1393 e 9175-6568. Email-editoraoffice@yahoo.com.br Número de frases: 16 Informações Gerais do Evento -- www.portopoesia2.blogspot.com As mudanças no comportamento humano, no comportamento social são cada vez mais curiosas. Veja o leitor, já não bastassem as inovações do mercado, com novas tecnologias, novos estilos musicais, novas bonecas que cantam em dó-menor, telefones que não telefonam (mas que tiram fotos lindíssimas), surge agora um «estilo divino de ser». A onda Gospel (ou God Spell) vem dando um banho no mercado comum. Trata-se da criação de desejos, da vontade-de-consumo. De fato, o paraíso está aqui. A onda Gospel não transfere a felicidade do fiel, o descanço de sua alma para um mundo inteligível, para o paraíso ou para o céu. Não dá para esperar a morte para ser feliz, isto tem que acontecer aqui, e já. Veja que para toda produção do mercado, há um correspondente Gospel. Se tem cultura, tem também cultura gospel, se tem música, tem também música gospel, cinema, teatro, livro, shopping, escola e assim por diante. Neste passo, logo teremos sapato, macarrão, travesseiro, relógio, carrinho de mão e toda presepada afim. Que fique claro que a crítica não é à religião, antes disso, critica-se este fomento comercial, esta necessidade de criar um novo mercado para novos consumidores (e o pior: um consumo por a fé). Ora bolas, todo produto agora tem o seu clone divino. É como se entrássemos num bar, pedíssemos uma Coca-cola, e o garçon perguntasse: -- normal ou light senhor? É o que acontecerá em breve, mas em outra proporção e numa dualidade ainda mais complexa: entraremos, laicos ou fiés, numa loja e, ao pedirmos ao vendedor um par pé-de-patos para o fim de semana no sítio assustaremos ao ouvir o vendedor gentilmente dizer: -- comum o Gospel senhor? Esta criação de demanda é uma sacada esperta do mercado, como que a criação de uma espécie de sub-produto. Pena envolver nesta história um segmento religioso que acaba por demonstrar que não há preocupação com o bem-comum ou com um télos na felicidade. Se for mesmo esta a saída não nos resta nada a fazer: Viva a prosperidade, irmãos! Número de frases: 22 Desde que comecei a escrever o livro «Produtor Cultural Independente: aprenda a organizar um show», utilizando um blog como minha prancheta virtual de criação, tenho recebido e-mails muito interessantes. Mesmo o livro estando ainda em estado bruto e eu intencionalmente não ter empreendido nenhum esforço contínuo para divulgar sua existência, as pessoas acabam aparecendo, lendo os meus esboços ainda não revisados e enviam e-mails comentando o conteúdo ou fazendo perguntas. Uma das perguntas que seguidamente as pessoas me fazem é a seguinte: «dá para viver de produção cultural»? Vamos analisar a pergunta, porque ela é realmente muito interessante. Dá para viver de produção cultural Quando alguém pergunta se dá para viver de produção cultural, deduzo que acredita no paradigma de que não é possível viver desta atividade. Eu sou uma pessoa que resolveu discordar deste paradigma há cinco anos. E tenho vivido disso. Logo, sou uma evidência de que é possível viver de produção cultural. E porque entrei nisso? Por vários motivos. Um de eles é de que sabia que muitas pessoas trabalhavam com isso em nosso país. Não sou único, sou um de muitos. E isso tenho certeza que a maioria das pessoas também sabe. Alguém tem dúvida que por trás de tudo que visualizamos de cultura através dos meios de comunicação e eventos que participamos, tais como shows, peças de teatro, filmes, espetáculos de danças, performances, mostras de artes visuais, etc, há gente trabalhando e vivendo disso? Se todos sabemos que há muita gente trabalhando nisso e muita gente vivendo disso, porque insistimos em perguntar «se dá para viver de produção cultural»? Eu arrisco alguns palpites. Provavelmente parciais, pois vivo desta atividade, mas que podem instigar muita gente que está começando a perceber o quanto é importante acreditarem no que fazem. Onde está o trabalho da produção cultural Como qualquer outra profissão, a produção cultural possui características específicas. Uma de elas é a sua localização geográfica. Dentro desta perspectiva, podemos afirmar que a cadeia produtiva da economia da música no país, por exemplo, está bastante concentrada na região sudeste. Isso leva ao entendimento de que há um maior número de postos de trabalho nesta região do que em minha terra natal, Cachoeira do Sul, interior do RS. Mas o fato de eu não ver muita gente trabalhando e vivendo de música em Cachoeira do Sul, não quer dizer que isso não aconteça lá ou que não ocorra em todo o país. Educação Outra característica importante é a questão da educação. Em outro artigo que escrevi para o Overmundo, intitulado " Vamos educar as pessoas para produção cultural?" defendi a necessidade de ampliarmos iniciativas para que mais municípios ofereçam formação para o desempenho desta atividade. Esta falta de opções de ensino deixa as pessoas receosas. Se você vê todos os dias proliferarem cursos de administração e direito, tenderá a achar que a atividade de produção cultural não está se desenvolvendo, mas ela está, só que em outro ritmo. Retorno financeiro Aqui é um ponto super delicado. Muita gente diz que «não dá para viver de produção cultural» baseada no seguinte raciocínio: nunca trabalhou com produção cultural, tem informações baseadas em relatos pessoais de pessoas próximas que não obtiveram realização financeira nesta atividade e passam a tecer e divulgar teorias do porque não é possível viver de produção cultural. Esquecem, porém, de que na verdade esta teoria se aplica para explicar porque elas decidiram não trabalhar com isso, ao invés de ser uma explicação universal que irá se aplicar a todos aqueles interessados em desempenhar esta profissão. Sonho da riqueza Quando alguém resolve ser professor primário numa rede de escolas públicas, as pessoas pensam que ela está buscando prioritariamente o sonho do brasileiro de ficar rico? E quando alguém resolve fazer um concurso para ser funcionário público do seu município, pensamos imediatamente que está pessoa irá acumular muita riqueza nos próximos anos? Então porque quando alguém decide ser um produtor cultural, a maioria das pessoas vem e aconselha para escolher outra profissão, porque nessa não se vai ganhar muito dinheiro? Tomando a decisão Para mim, uma das decisões mais sérias que uma pessoa toma na vida é a escolha profissional. E esta escolha, na minha opinião, deve ser pautada em critérios sistêmicos, que incluam valores pessoais, prazer, troca, aprendizado, habilidades, competências e sustentabilidade. Então, antes de se perguntar «se dá para viver de produção cultural», penso que as pessoas podem utilizar os critérios sugeridos acima para decidirem se realmente querem trabalhar um terço do tempo de todos os dias de sua vida na atividade de produção cultural, pois sim, dá para viver disso. Número de frases: 43 Aprender onde se irá obter o melhor trabalho e retorno financeiro para viver do que escolhemos é a tarefa de construção da carreira de vida de cada um de nós. Encontros de Arte Urbana Luso-Brasileira diminuiram a distância entre Brasil e Portugal com parcerias e propostas de trabalho conjunto Fiquei entre fazer um relato cronológico ou um emocional do que aconteceu em Lisboa entre os dias 20 e 24 de fevereiro, período de realização da primeira edição do Brucutumia, evento que reuniu ilustradores e editores brasileiros e portugueses, além dos djs e vjs que estiveram presentes na festa Dezkalabro, que se uniu ao projeto. A opção por o cronológico leva em consideração a transcrição do evento para quem ficou interessado em seus resultados. O emocional, bem, essa versão seria por o bem que me fez o contato com uma cena tão cheia de idéias e vontade de integração como a que tive acesso em Portugal. Acabei decidindo por mesclar as duas coisas, espero que funcione. Logo que chegamos em Portugal, visitamos a Bedeteca de Lisboa, um espaço público que reúne publicações de quadrinhos de todo o mundo. Para quem não sabe, banda desenhada (BD) é como se chamam os quadrinhos em Portugal, por isso o nome da instituição. Em o lugar trabalha Marcos Farrajota, que conduziu nossa visita. Ele faz publicações de quadrinhos e afins na sua editora MMMNNNRRRG e é fundador da Associação Chili com Carne, que foi a organizadora do Brucutumia, juntamente com a Groovie Records. A Bedeteca de Lisboa foi responsável por diversas publicações do quadrinho português, com pequenos cadernos de apenas um autor e grandes antologias anuais, mas seus recursos para novas edições foram retirados por o governo local e vive hoje do acervo que possui. Apesar disso, nossa impressão foi das melhores ao ver um grande acervo de publicações que nunca chegaram ao Brasil. Além disso o lugar possui um espaço para exposições onde pudemos ver os originais da publicação Honey Talks, do grupo esloveno Stripburger. Um dos objetivos do encontro foi a troca de experiências editoriais independentes feitas no quadrinho brasileiro e português. Novos métodos de impressão em cores e preto e branco, processos artesanais de produção editorial, experiência de distribuição independente, em contraposição ao mercado de super-heróis e mangás, nos dois países foram bastante debatidos. Biu, Gomez e Stevz, da publicação Bongolê Bongoró, os representantes do Brasil no encontro, puderam trocar suas experiências com Pepedelrey, da editora El Pep, João Maio Pinto, ilustrador, José Feitor, editor, Mike gões West, serigrafista, Joana Figueiredo, ilustradora, Rafael Dionísio, escritor, Edgar Raposo, ilustrador e editor, além do já citado Marcos Farrajota. As dificuldades de distribuição e troca de publicações entre os dois países foi um dos principais pontos discutidos, pois apesar de falarem a mesma língua, há pouca integração da cultura independente produzida por brasileiros e portugueses. Um esforço nesse sentido foi selado, no que podemos chamar de um acordo entre amigos, para que as publicações portuguesas possam ser vendidas no Brasil e as brasileiras possam ser vendidas em Portugal. De cara, a Associação Chili com Carne (CCC) já começou a venda do almanaque Bongolê Bongoró & 2 em seu site, que, aliás, está com uma moldura desenhada por o Stevz no ar. É bom lembrar que o número 2 da Bongolê possui colaborações de 18 brasileiros de vários pontos do Brasil e de 4 portugueses. Aqui no Brasil, a Kingdom Comics, principal loja especializada em quadrinhos de Brasília, assumiu a distribuição das publicações da CCC nacionalmente. Esses foram os resultados imediatos. Para 2008, ainda teremos pelo menos mais duas publicações com colaborações dos dois países que deverão ser lançadas conjuntamente por a Pégasus Alado (da Bongolê) e a recém constituída editora Kingdom Comics. Também será feita no Brasil mais uma edição da exposição Seitan! Seitan! Seitan!, que foi parte da Brucutumia e que deverá ser ampliada com trabalhos de artistas brasileiros. Durante o encontro foi realizado um workshop de Zines, ministrado por Biu, Stevz, Gomez, Marcos Farrajota e Edgar Raposo, que produziu 8 revistinhas feitas por alunos portugueses e brasileiros radicados em Lisboa. Também aconteceu uma feira de Zines, com stands da CCC, Groovie Records, El Pep, Imprensa Canalha, Thisco e um stand da Pégasus Alado, com publicações brasileiras diversas, onde os portugueses puderam adquirir as revistas Tarja Preta, Isso Não é Uma Revista de Terror, Mosh, entre outras, além dos dois números da Bongolê Bongoró. Parece que os organizadores conseguiram a proeza de «secar o Atlântico», como prometeram ao anunciar o evento. Ou podemos dizer, numa dessas expressões clichês, que uma ponte foi construída entre os produtores independentes dos dois países. Que conste que viajamos com o apoio do Ministério da Cultura. Os organizadores do evento Associação Chili com Carne: uma organização de jovens artistas sem fins lucrativos cujo funcionamento se baseia na cooperação livre e espontânea dos seus associados. Mantém página na internet no endereço www.chilicomcarne.com. Groovie Records: gravadora portuguesa independente, que tem Edgar Raposo como um dos sócios. Já lançou trabalhos de músicos brasileiros, como Os Haxixins, Autoramas e Uncle Butcher. Todos os vinis impressos por a editora possuem um cartaz feito por um ilustrador português, em breve com ilustrador brasileiro também. Página na internet: www.groovierecords.com Pégasus Alado: editora, não participou exatamente da organização do evento, mas foi a representante brasileira no Brucutumia. Tem como integrantes Biu, Stevz e Gomez e já lançou dois números do almanaque Bongolê Bongoró. Roberta AR trabalha como assessora de imprensa para o grupo. Número de frases: 44 Blog: www.bongole.blogspot.com Fui treinada para contar coisas para os outros. Basicamente fatos cotidianos bobos. Todos eles. O atropelamento de um cachorro numa via em que não podia passar carros, o escândalo de uma socialite numa festa, a corrupção de um grande órgão do governo. Todo esse tipo de banalidade. A futilidade nem está no fato em si, mas no de que a notícia tem que ser descartável e incompleta. Uma matéria definitiva sobre qualquer coisa é o fim do interesse sobre o assunto (e o fim do ganha pão de muita gente). Análises supérfluas são sempre bem-vindo nesse cenário. O jornalismo nunca atinge a raiz do problema porque se perde nos efeitos, fica cego relatando dia hora lugar quem o-que-como-porqu ê. Em uma análise política dificilmente se chega muito longe, os limites estão sempre nos últimos dez anos, mais ou menos. Isso se deve também aos interesses dos veículos de comunicação. Assessoria de imprensa, ou não, há sempre um chefe que dita o que pode e o que não pode ser publicado. A regra se aplica a todos, reclamem ou não os profissionais que atuam em eles. Não podemos ser ingênuos nisso também. Isso não deve se aplicar apenas nos veículos independentes, em que todos os que escrevem seguem a mesma linha editorial por acreditarem nas mesmas coisas. Em busca da objetividade perdida, os jornalistas acreditam realmente ser os porta-vozes da verdade, ao relatar fatos importantes para a sociedade. Nós sofremos de uma crise de raciocínio primária, pois o que nos ensinam nas escolas e nas redações é ir contra tudo o que nos falavam sobre bom e ruim, certo e errado. Vi uma entrevista com o Gilberto Dimenstein num programa que gosto muito, Saca-Rolha, que passa no PlayTV. Dimenstein enumerou três coisas que os jornalistas aprendem na faculdade que vão contra o pensamento lógico: 1) o tempo é nosso inimigo; 2) notícia ruim é notícia boa; e 3) o importante é o efêmero. Está aí, só entrando em crise existencial mesmo. Todo o stress, a ansiedade do mundo vem de onde? De tanto dizer que o jornal é o porta-voz da verdade, a sociedade acredita. O simples formato do jornal já dá o tom realístico dos fatos. Qualquer coisa que se diga neste formato será confundido com a verdade. E sobre a objetividade jornalística, fico com a definição do " Manual da Folha: «Não existe objetividade em jornalismo. A o redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma uma série de decisões que são em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções. Isso não o exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível. Para retratar os fatos com fidelidade, reproduzindo a forma em que ocorreram, bem como suas circunstâncias e repercussões, o jornalista deve procurar vê-los com distanciamento e frieza, o que não significa apatia nem desinteresse». Manual Geral da Redação. Verbete Objetividade. Folha de S. Paulo, 1987. Entrei em crise de identidade depois de ler isso. Não existe objetividade, mas preciso buscar ser o mais objetiva possível. Ser fria, sem ser apática. Ou seja, ser falsa para dizer a verdade. Por isso que decidi estudar Filosofia. Um pouco de sanidade neste mundo insano. Número de frases: 41 Ah, e a verdade não existe. Pôe-se o nome de Machado de Assis no Google, por exemplo, retornam aproximadamente 684.000 resultados Em uma ferramenta mais especializada, o sítio de resumos de livros Shvoong chegamos a um resumo de Leo Lagden para a obra Dom Casmurro com já 17.717 visitas. Sendo que há 136 sumários e resumos para essa obra. E Dom Casmurro é apenas uma das pricipais das muitas publicações de largo público de Machado de Assis. Lagden nos diz: Joaquim Maria Machado de Assis, escritor brasileiro nascido em 1839, na cidade do Rio de Janeiro é considerado o maior expoente da nossa literatura. Ocupou durante dez anos a presidência da Academia Brasileira de Letras e escreveu, além de poemas, reportagens e contos, grandes clássicos da Literatura Brasileira, tais como Memórias Póstumas de Brás Cuba e Quincas Borba, publicou Dom Casmurro em 1899. O livro foi um marco na história literária de nosso país e repercute até os dias atuais. São diversas edições, livros, fóruns de discussão e filmes baseados nesta obra peculiar ... O livro apresenta todas as personagens de forma clara e de acordo com a inserção desses na história. Apesar de não existir um encadeamento lógico de pensamento entre os fatos expostos e da narração um tanto quanto lenta. Apesar do autor escrever de uma forma que segue de forma ortodoxa a norma culta da língua portuguesa, estranho até para a época, o livro é de leitura envolvente e de fácil compreensão. ... Uma das peculiaridades da obra é o fato do narrador vez ou outra dirigir-se diretamente aos leitores, como se estivesse compartilhando todas as suas dúvidas e incertezas. ... Nunca saberemos se a história foi verdadeira ou não. Se for verídica, não saberemos se Capitu realmente o traiu com o seu melhor amigo. Porém, com seu estilo literário baseado no Realismo e seus tons de ironia espalhado por o texto, Machado de Assis nos brinda com uma obra prima da literatura, não só por sua singela história de amor e traição e também por as críticas espalhadas a sociedade de modo geral ... Em a Wikipedia encontramos: Era filho do mulato Francisco José de Assis, pintor de paredes e descendente de escravos alforriados, e de Maria Leopoldina Machado, uma portuguesa da Ilha de São Miguel. Machado de Assis, que era canhoto, passou a infância na chácara de Maria José Barroso Pereira, viúva do senador Bento Barroso Pereira, na Ladeira Nova do Livramento (como identificou Michel Massa), onde sua família morava como agregada, no Rio de Janeiro. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Ficou órfão de mãe muito cedo e também perdeu a irmã mais nova. Não freqüentou escola regular, mas, em 1851, com a morte do pai, sua madrasta Maria Inês, à época morando no bairro em São Cristóvão, emprega-se como doceiro num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. Em o colégio tem contato com professores e alunos e é provável que tenha assistido às aulas quando não estava trabalhando. Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender e se tornou um dos maiores intelectuais do país, ainda muito jovem. Em São Cristóvão, conheceu a senhora francesa Madamme Gallot, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de francês, que Machado acabou por falar fluentemente, tendo traduzido o romance Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, na juventude. Também aprendeu inglês, chegando a traduzir poemas deste idioma, como O Corvo, de Edgar Allan Poe. Posteriormente, estudou alemão, sempre como autodidata. Haverá muito mais a ler e dizer sobre Machado de Assis por todo o ano de 2008 e sempre, com certeza. Para nós que aqui escrevemos é sem dúvida um estímulo, um exemplo, um paradigma, um ícone, um ídolo, um homem de presença perene. Número de frases: 32 Esses dias assisti por a terceira vez ao Jogando no Quintal. Conhece? É um grupo de 9 palhaços, que se dividem em dois times de três jogadores, mais um juiz e dois palhaços músicos. Esse povo tira uma partida de improvisações, onde o gol é a risada do público. Aliás, o público por lá é mesmo muito importante: dá o tema sobre o qual cada equipe irá improvisar, e ainda vota em qual time marcou o gol -- que às vezes é de canela, ou sai aos 45 do segundo tempo, mas muitas vezes é um golaço. Embora todos eles dominem o humor mais físico, a improvisação praticada por eles é muito de texto, e grande parte da graça vem exatamente disso. É quando você fica assim: «será que esses caras vão mesmo conseguir fazer uma historinha engraçada sobre Um Supermercado às 16h Em o Oceano Pacífico?». Um certo suspense, que vira gargalhada solta quando vem a piada certeira. O começo O grupo começou bem humilde nas suas intenções. Treinava no quintal (sacou o nome?) do palhaço Cizar Parker. Para eles era um simples treino recreativo de improvisação -- mal sabiam que estavam treinando para a Copa. A turma que assistia foi crescendo, o quintal ficou pequeno. Foram para um quintal maior, que também ficou pequeno. Foram para um espaço cultural. Adivinhe? Sim, e agora foram para uma lona circense enorme, com espaço para 700 pessoas -- e lota. O ponto Fui revê-los, e assustei com a dimensão da coisa. Não era o show dos Stones em Copacabana, mas olha só, uma baita fila de gente, celulares tocando, procura de ingressos, estacionamento (antes a gente parava na rua próxima ao ' quintal '). Para completar, era noite de gravação de DVD. A partida foi gloriosa, como sempre. Mas foi aí que se deu. Ouvi de algumas pessoas aquele comentário «legal, mas perdeu um pouco agora que está maior». E eu pensando ... Perdeu o quê? Quando o Nirvana me surgiu -- a banda -- eu alucinei. Finalmente alguém trazia o rock de volta aos não-eixos, cuspindo na cara dos cabeludos pousers e virtuoses chatinhos que reinavam. Mas aconteceu que todo mundo passou a idolatrar os caras, uma horda de turistas entrando na minha São-Tomé-das-Letras Musical, e eu passei a odiar aqueles sujinhos que não tocavam nada. Obs.: São Tomé das Letras vocês sabem, é uma cidadezinha charmosa no interior de Minas Gerais, reduto de hippies, ou neo-hippies, sei lá, enfim, eu fui há muitos anos e já era assim: toda a gente falando «antigamente é que era bom, perdeu um pouco agora que está maior». Juro, era quase um mantra. Um dia eu liguei o rádio do carro e dei de cara com um som muito bom. Duro, porém melódico ... ouvi até o fim, e era o Nirvana. Tive que engolir o veneno. É mania da gente Também já fui daqueles que foge do Carnaval, que prefere se enfurnar num sítio enquanto o povo se come lá fora. Só para não ser da maioria -- mas aí é que pergunto: a maioria está sempre errada? Consegui me salvar, agora passo o Carnaval bêbado e feliz em São Luis do Paraitinga. Conhece? Imperdível, né? Assim como o Jogando no Quintal. Número de frases: 45 www.jogandonoquintal.com.br Esta foi a orelha escrita por o poeta Antonio Moura para a primeira edição de meu livro de poemas Itinerário Interno: O pintor Paul Klee certa vez anotou em seus cadernos que «quanto mais caótico torna-se o mundo, mais abstrata torna-se a pintura». Penso que esta reflexão pode aplicar-se não só à pintura, mas à arte de um modo geral e por assim dizer também à poesia. Quanto mais caótica, quanto mais impermeável e assustador o cenário exterior que nos cerca, mais a expressão busca paisagens interiores por onde transitar e habitar. Não como fuga, mas como necessidade de recriar um espaço vivo, buscando, através de suas imagens, a possibilidade de uma existência mais próxima do ser. Este livro-poema, na verdade um único poema dividido em vinte partes, mas que também podem ser fruídos como peças independentes, revela este gesto já no seu titulo «Itinerário interno», um caminho interior, que, a partir de referências exteriores -- como demarcados pontos de uma cidade torturada e depredada por o desprezo que os homens parecem ter por seu próprio lar, seja ele sua cidade, seu pais ou mesmo todo o planeta -- o seu protagonista percorre, refazendo-o através da erupção de imagens que se não o tornam melhor, ao menos trazem a tona o efeito caótico e fragmentário que este ethos pode causar no pathos de quem o observa e o absorve: «vago /desolado/engolindo a seco a palavra pedra». Chama-ma atenção neste texto, justamente, este intercâmbio contínuo entre exterior e interior, em que o leitor, companheiro de viagem do escritor, percorre um tour no qual progressivamente, exterior e interior fundem-se, formando um amalgama a certa altura indissolúvel: «filho convicto / de outdoors & luminosos / aproximo a plumagem exuberante da morte / às escamas do silêncio». Impulsionado por vezes num jorro em que o consciente e o inconsciente dialogam e se entrelaçam, agrada-me também o fato de, por esta postura criativa, o autor não mostrar-se preso a paradigmas consagrados, mas tateando um caminho mais próximo do que podemos chamar de sua própria voz, embora, como em toda obra criativa -- e isso é muito natural -- encontre-se pontos de influência, como do expressionismo, por exemplo, o que, para um livro de estréia, é muito salutar. Apesar de centralizado num eu lírico, o verdadeiro personagem deste texto é o caminho, de fora para dentro, percorrido por um olhar transfigurador, que, a meu ver, e inerente a arte e a poesia. Para finalizar, posso dizer que este poema é um Itinerário que vale a pena ser percorrido. Número de frases: 12 Antonio Moura Para quem é formado no âmbito das ciências humanas, é hora de lembrar das aulas de introdução à Antropologia para entender melhor o formato do Festival Folclórico de Parintins, e seus bumbás Caprichoso e Garantido, revivendo o conceito do olhar antropológico, onde o observador (aqui no caso, você internauta) precisa se distanciar dos próprios referenciais culturais e valores estabelecidos para ampliar sua percepção sobre outra cultura, evitando assim julgamentos comparativos incorretos. Para quem não conhece o conceito, tente entendê-lo por meio de um exemplo clássico. Algumas etnias indígenas amazônicas costumam cremar seus mortos para misturarem suas cinzas ao mingau de banana, para enfim, comê-las. Essa cara feia que você acabou de fazer, deve-se ao fato de entendermos desde criança que, como cristãos, devemos enterrar os mortos e não degustá-los, mas se superarmos os nossos referenciais cristãos para pelo menos procurar saber porque estas etnias têm este hábito, podemos encontrar no relato de um dos seus membros algo como, «queremos guardar a lembrança, a força e a sabedoria de nossos entes queridos dentro de nós». Você pode até não querer provar, mas vai entender melhor o significado do ritual além de perceber que, o inimaginável para eles, seria deixar pessoas queridas apodrecendo sob a terra para um banquete de vermes. Bem-vindo ao exercício do olhar antropológico. Este mega-argumento introdutório serve de suporte para derrubarmos uma comparação comum, feita por a imprensa brasileira, que aborrece qualquer amazonense que já esteve em Parintins: afinal, para nós o Festival dos bumbás não tem nada a ver com o Carnaval do Rio de Janeiro, a não ser por a ótica das manifestações folclóricas que viraram espetáculo, mas tudo acaba por aí. O boi-bumbá parintinense é derivado do bumba-meu-boi do Maranhão e tem no princípio das encenações sua principal característica, ao contrário da apresentação linear dos desfiles das escolas de samba. Em a rivalidade materializada entre as cores azul, do boi-bumbá Caprichoso, contra o vermelho do boi-bumbá Garantido, o embate ocorre nas três noites do último final de semana de junho, o sorteio da ordem das apresentações é realizado na véspera do Festival e cada boi tem entre duas horas e meia por noite para conquistar a preferência dos jurados e assegurar o título. São escolhidos nove jurados que devem ser, segundo regulamento, profissionais ou estudiosos ligados à música e ciências humanas com referencial teórico e trabalhos realizados nas manifestações folclóricas e culturais do país. Não podem ser da região Norte, à exceção do estado do Tocantins, e o mais curioso, utilizam obrigatoriamente caneta verde para o registro das notas -- a rivalidade é tão extrema que a imparcialidade precisa estar aparente ao nível dos detalhes. As apresentações de Caprichoso e Garantido exaltam além dos elementos folclóricos do Auto do Boi, a cultura, história e a riqueza amazônica, sua diversidade étnica e a divulgação do conceito da preservação ambiental por meio do uso sustentável dos seus recursos e biodiversidade. Para retratar tantos aspectos, os compositores de cada bumbá preparam anualmente até 20 toadas, os suportes musicais das encenações na arena do bumbódromo, compostas sobre temas pré-estabelecidos por as respectivas comissões de arte. Magia e emoção na arena O Apresentador entra para o delírio da galera do respectivo boi-bumbá, este é o ato que marca o início da apresentação. Primeiro item individual em julgamento, ele é o grande mestre de cerimônia responsável por levantar o público e, como um guia, chama a atenção dos jurados para elementos relevantes do espetáculo. à esta altura, os torcedores da arquibancada do boi contrário já se encontram sentados e em silêncio. A o chamado do Apresentador, os ritmistas do boi -- Marujada de Guerra ou Batucada -- também entram e se posicionam, a fantasia que caracteriza seus 350 componentes tem seu significado explicado para jurados e espectadores até o momento em que é chamado o Levantador de Toadas, novo delírio nas arquibancadas para receber aquele cuja voz vai conduzir o lirismo das músicas programadas para as três noites de apresentação. O Apresentador sempre se expressa com forte apelo emocional aumentando ainda mais a ansiedade de sua torcida, com nova explicação sobre os temas gerais que serão desenvolvidos por o bumbá naquela noite, encerram-se os preparativos, a festa vai começar. Caprichoso e Garantido possuem contagens tradicionais, e é em tom solene que os Apresentadores as iniciam, «é uuuuuuuuuuuuuum ...», para que a galera complemente das arquibancadas,» ... dooooois, trêêêêêês e jáááaaááá!». Comparando com a imagem de uma dinamite, chegamos naquele momento em que o fogo do pavio encontra o explosivo. O início dos ritmistas é o ponto de partida de um delírio coletivo, como um gol em final de Copa, a galera grita e pula, o Apresentador vibra e fogos de artifício tomam o céu. Um coro das arquibancadas logo passa a acompanhar o Levantador de Toadas que irrompe o alarde com a primeira canção da noite. A farra criativa das surpresas Em as alegorias é que Parintins evidência sua grandiosidade e justifica as altas cifras de investimentos públicos e privados (na foto, perceba o tamanho das pessoas sobre parte da alegoria). Por noite, cada bumbá é obrigado a apresentar quatro grandes cenários, construídos em módulos que se completam na arena formando palcos gigantes de até 25m de altura. Em eles são realizadas cada uma das encenações de Celebração Folclórica, Ritual Indígena, Figura Típica Regional e Lenda Amazônica, todas previstas em regulamento como itens de competição. Dependendo dos planos das comissões de arte, os módulos começam a ser posicionados logo depois da empolgação do início. A montagem do cenário acontece com a explicação do Apresentador apontando significados e detalhes até o início da dramatização. Como uma ópera monumental, pessoas caracterizadas dão vida ao cenário, e, no caso das encenações dos rituais indígenas, interagem com criaturas fantásticas e gigantes das alegorias que, num dado momento, revelam movimentos e efeitos especiais cenográficos de acordo com a seqüência lógica da história contada na letra da toada. Como o melhor do espetáculo, os cenários alegóricos não são definitivos, eles se transformam com engenhosas surpresas mecânicas conforme o roteiro. Por exemplo, da paisagem tranqüila de uma casa ribeirinha, uma cobra gigante pode aparecer rompendo o chão, afugentando caboclos e devorando pelo menos um caçador, caso o tema da encenação da Lenda Amazônica seja a Cobra-Grande. Além desta, várias outra surpresas vão acontecendo sucessivamente, impressionando por a qualidade de movimentos e acabamento. Estes recursos também são utilizados para apresentação de alguns itens individuais, cujas aparições são precedidas de suspense e colocadas como centro das atenções por o Apresentador. A galera que também é item de julgamento, participa ativamente de todo o espetáculo, reagindo a cada acontecimento com gritos, coreografias oníssonas ou empunhando os milhares de artefatos que são previamente distribuídos. O «clímax» nas arquibancadas está na chegada do protagonista do espetáculo, o boi, que, neste espírito das surpresas pode aparecer de qualquer lugar do bumbódromo ou das alegorias. Espetáculo sem interrupções Cada segundo é valioso na arena. A o final de cada encenação, é necessário um tempo para a retirada dos módulos dos cenários. Enquanto isso ocorre, o Apresentador concentra a atenção dos jurados e do público para a dança de itens individuais femininos como Cunhã-Poranga, Rainha do Folclore, Porta Estandarte e Sinhazinha da Fazenda, ou para o Amo do Boi, com seus versos de exaltação ao bumbá ou elaboradas provocações ao adversário. Dentro deste contexto da arena sem a presença das alegorias, destaca-se a apresentação das tribos indígenas, cuja exuberância das fantasias estilizadas simbolizam a riqueza de cada etnia. Os brincantes parintinenses assim caracterizados, desenvolvem coreografias exaustivamente ensaiadas com um deslumbrante efeito visual de conjunto. Aliás, toda a celebração dos povos originários e formadores da cultura amazônica são feitas sempre sob o ponto de vista do oprimido. O índio tem a exaltação de seu modo de vida como autêntico, ao invés da idéia equivocada de sociedades num suposto estágio evolutivo inferior (lembra do olhar?). O negro é lembrado por as violências sofridas e contribuição cultural -- como a própria existência do boi-bumbá na Amazônia -- mas o branco, em seu papel, é sempre visto sob o estigma do invasor / repressor. A apresentação do bumbá termina assim que a agremiação cumpre as quatro encenações previstas, além de todos os 20 itens de julgamento. Em as duas noites seguintes, acredite, nenhuma única pena se repete. É tudo novo e diferente, das indumentárias aos cenários. Boi-Bumbá X Carnaval É provável que ao final deste texto, que começou estabelecendo diferenças, muitos acabem reconhecendo ainda mais semelhanças entre as duas festas, mas entender o formato das apresentações de Parintins é o que realmente importa. Afinal, sem entrar no inexistente mérito de qual é melhor ou pior, tanto o Carnaval carioca quanto o folclore parintinense são manifestações culturais independentes, grandiosas e espetaculares que há alguns anos passaram a dialogar, seja no contingente de artistas da Ilha contratados por escolas de samba cariocas, extraindo de sua autenticidade criativa reconhecidas inovações alegóricas, assim como o conhecimento que estes caboclos trazem da apoteose do samba para o bumbódromo. Felizmente, de Norte a Sul, a beleza destes extremos da magnitude cultural da marca Brasil, agora se enriquecem. Todos os aspectos que envolvem o Festival de Parintins não cabem num relato, motivo para que a profundidade das lições desta Ilha incomum, pudesse tornar a vinda de cada cidadão brasileiro culturalmente obrigatória pelo menos uma vez na vida. Nossa meca cultural de brasilidade, onde anualmente milhares de turistas já resgatam, incorporam e vivenciam a verdade dos nossos referenciais formadores enquanto nação, uma arena de demolição de preconceitos por a emoção que pauta a festividade do início ao fim. Número de frases: 58 Patrick Laplan é um cara bastante simpático. Acessível e papo fácil. Em uma entrevista que já vinha sendo planejada há muito tempo, ele permitiu perguntas que talvez só um grau maior de intimidade permitissem. O detalhe é que nos conhecemos na hora da entrevista e a intimidade era zero. Disposto, sonhador e dedicado, ele chega ao primeiro produto de um trabalho que tem a sua cara: um EP, de quatro músicas, de sua banda Eskimo. E foi sobre isso a conversa que seguiu numa quarta ou quinta no Belmonte do Jardim Botânico ... Antes disso, Patrick passou por algumas das chamadas «bandas grandes» do país como Los Hermanos, Rodox, Trêmula, Biquíni Cavadão, ... Olhando para a frente, sem lamentos e rancores, o rapaz só quer saber de uma coisa: conquistar o mundo.: +) Bruno Maia: falando da história de lançar o EP. Você disse que já tem 16 músicas e que ... Patrick Laplan: São várias horas de riffs, canções, letras ... São cinco anos de material, mas muita coisa é de dois anos para cá, que foi quando deslanchou. Como o tempo inteiro fui eu despedindo pessoas, chegou ao ponto que eu virei um déspota! Por isso eu falo que eu sou meio escroto, meio mandão com algumas coisas. Ainda rola uma mão de ferro e o conceito ainda é muito em cima do que eu quero. Espero, Muito, poder dividir a pedra com o Henrique. Mas uma das coisas que eu fiz de conceito até agora é o seguinte: começamos com o EP, de brincadeira -- isso é para dar para jornalista e alavancar o recurso para gravar um disco ... BM: fazer shows ...? PL: A idéia é lançar o disco antes de fazer show, mas acho que não vai rolar. BM: Mas você pensa em lançar por gravadora? PL: Penso, penso ... Não sei se gravadora, porque hoje esse formato tá meio complicado. Mas alguma máquina por trás vai ter. É necessário. Nem que sejamos nós mesmos ou empresário botando dinheiro. Esse EP já tem versões diferentes das que vão rolar no disco, o que já faz de ele uma coisa única. Todas as músicas de ele vão estar no disco cheio. A idéia é: fazer um EP, fazer um disco, fazer um EP, fazer um disco ... O Beastie Boys faz algumas coisas de EP's ... Alguém me falou que o Beck também faz, que há os discos oficiais e os EP's estranhos. Mas esse nosso não é um EP estranho. Pelo contrário. É um EP mais acessível do que o disco vai ser. De repente, a gravadora, ou quem quer que seja, não se interesse por lançar os EPs experimentais nada a ver com-a-banda. Então a idéia é fazer os cd's normais com a idéia inicial da banda e os EPs ' nada-a-ver ', ' loucura ' ... BM: Qual o passo que existe entre fazer um EP loucura e foda se e um disco não loucura e não-foda-se? O que há nesse caminho que os torna diferentes? PL: Não há nada limitando o Eskimo em conceito, mas a banda tem uma coisa de trilha-sonora ... é provavelmente mais sério do que seriam os EPs. Eu não faria um disco inteiro de carreira tipo Kraftwerk, todo eletrônico, com um cara cantando igual a um robô. BM: O que você faria no meio? PL: Faria um disco maneiro, músicas lindas ... Ou então um disco meio de jazz, ou então todo de dj, mas com coisas pra cantar, sabe? BM: Você acredita num formato pop, não pop-banal, mas num som mais fácil para o Eskimo ter um alcance maior? PL: Claro! Cara, isso é tão natural pra mim ... Eu ouço tanto Meshuggar e Slayer, quanto eu ouço " Sheryl Crow ... Canção para os amigos», a quarta música do EP, é pop pra caralho. A galera diz que é a música da novela. É pop pra caralho e é isso mesmo! Eu acho linda, a letra é muito triste, e é um lado meu. Eu juro por Deus: o maior conceito que o Eskimo tem, é se expressar. Se eu tenho um lado merda-dream theater, ou se eu gosto do Yngwie Malmsteen, eu vou colocar! Se eu tenho um lado pop e quero fazer um EP dance, sei lá, eu vou fazer. Se quiser fazer remixes de eletrônico, eu vou fazer ... BM: Você disse que esse projeto começou há cinco anos, que ele já não é mais o que era no início e que várias pessoas já passaram por o caminho. O que era, o que passou e como você enxerga ele hoje? Ele é melhor do que era há cinco anos? PL: É difícil explicar. Acho que é mais maduro, eu entendo mais o que eu estou fazendo. Acho também que eu melhorei como pessoa, não estava preparado para lançar naquela época e, graças a Deus, não o consegui ... BM: Você começou logo depois de sair do Los Hermanos? Ou quando você estava na banda já tinha ... PL: Não, já tinha musiquinha, mas não era «tenho uma banda». Era, enfim ... Uma coisa que sempre me irritou -- eu não gosto de citar nome porque eu sou amigo de todo mundo de banda brasileira --, eu odeio 99,9 % das bandas brasileiras. Sempre odiei, sempre achei uma bosta. Acho que está melhorando, mas ainda acho ... BM: Inclusive as que você tocou ... PL: Não. Eu sou suspeito, mas, por incrível que pareça, eu acho que todas as bandas em que eu toquei se salvam. Com certeza se salvam. O Los Hermanos eu acho maneiro, acho que é uma banda que está top. Não é exatamente o tipo de som que eu gosto, mas eu entendo que eles estão fazendo uma parada nova e pra mim já tá no 0,1 %, porque o resto é muito lixo. Sempre me incomodou -- e eu sempre quis na minha vida, acho que todo mundo quer -- é fazer uma vez o disco que eu vou poder ouvir na minha casa e dizer: ' De o caralho: fiz exatamente o que eu queria. Foda-se se alguém gostou ou não, fiz exatamente o que eu queria. Se vai dar certo ou errado, se alguém mais vai gostar, ótimo '. Em relação ao início, acho que eu estou arranjando melhor as músicas, estou produzindo melhor, apesar de ainda ser um produtor-cru, o EP tem milhares de falhas ... BM: E o Henrique já estava com ti no início do projeto? Ele chegou como? PL: Amigo da PUC, da época de Los Hermanos, chegou no meio do caminho. Ele já cantava numa banda chamada Infierno. Eu vi um show e fiquei muito admirado. Ele tem uma presença foda, uma luz. Bizarro. Eu tenho os meus músicos favoritos e, se eu fosse ter um projeto, ele estava na lista de quem eu achava que ia ser legal. Em o início, quando eu estava montando a coisa, eu cheguei a ensaiar com o Henrique uns 5 meses e dispensei ele, só pra você ter uma idéia de como mudou tudo. Eu achava que ele tinha uma voz muito limpa, aguda, que não era muito rasgado, eu queria um cara mais barulhento ... BM: Você pensou em cantar? PL: Não, não. Eu tenho noção dos meus limites. Um backing vocal dá pra fazer. Se fosse um projeto muito esquisito, vá lá ... Gosto muito de cantar, mas sei que sou desafinado. BM: O tempo passa, você fica montando e remontando uma banda, e agora, 2006, você lança o EP e a sua ' banda ', que na verdade é um duo. Isso foi uma urgência de que tinha que lançar agora, então vai só com os dois, como estava, ou chegou-se a isso como um conceito? PL: As duas coisas juntas e uma justifica a outra. Eu cansei de experimentar pessoas. Fiquei quase até o final com um guitarrista fixo que, no final, eu decidi que eu não queria fazer show com ele, um dos meus melhores amigos, foda, que é super talentoso, mas eu ia brigar com o cara. Você começa a dividir as coisas e vê que vai dar merda. Ele vai gravar no meu disco, vai continuar trabalhando com a gente, mas enfim ... E com a minha experiência de bandas, Biquíni, Rodox, ..., eu aprendi que quanto menos cabeças pra pensar, são menos cabeças pra bater. BM: E o show? O que você vai fazer? PL: Vai ser uma galera amiga, contratada. BM: Ad eternum? Você acha que o duo ... PL: Eu acho, hoje, que é eterno. Amanhã eu não sei. A idéia é que, tendo duas pessoas, eu posso tocar qualquer merda ou então nem tocar nada, posso fazer um disco só DJ, corda e voz ... Se eu tiver um guitarrista na banda, eu não posso virar para ele e dizer: ' cara, foi mal. Esse disco eu quero fazer sem guitarra ... '. O cara da banda vai ficar sentido e com razão. Eu quero essa liberdade de fazer um disco sem guitarra, ou sem baixo, ou sem teclado ... BM: Entendi, mas aí eu me permito uma pergunta um pouco mais ... talvez ... atirada. Isso não vem de uma questão muito personalista do trabalho que é incompatível com o conceito de banda? Não é quase um trabalho solo com alguém te acompanhando? PL: Em o começo sim. Todo mundo sabe disso e o Henrique sabe disso. As letras são quase todas minhas, as músicas são muito minhas, no disco vão ter uma ou duas letras que são metade-metade. Eu queria explicar o seguinte: no começo, sim, é quase um projeto solo. Só agora que ele entrou, eu juro por Deus, é um peso do inferno, que eu não gosto. É muito ruim carregar isso sozinho. BM: Você diz artisticamente ou ... PL: Artisticamente. E é muito pesado, muita coisa pra fazer, você tem que produzir, tocar bateria, pensar no arranjo, ficar ouvindo o que ele tá cantando de errado, divulgar ... É um inferno. Eu estou num pique louco. Eu gosto de pegar onda e não entro no mar há seis meses. Mas o que eu ia explicar pra você é o seguinte: com a minha experiência de Biquíni Cavadão, eu sei o quanto eu somo para eles, é quase igual a se eu fosse da banda, mas eles têm o limite total de vetar o que eu quero. Pra que ele vai me botar na banda se ele pode ter um cara ali que não vai ganhar tanto, que não precisa estar ali, ele tem um lado bom. E eu posso ter isso pra mim. Em esse disco, a música que o Márcio (Seguin) tocou guitarra, ele era da banda ... BM: Mas você não reconhece uma dificuldade sua em dividir não? PL: Claro, com certeza. Mais ou menos ... Pode se achar que é um trauma de experiências passadas BM: (risos) Não tinha pensado por aí, não ... PL: Eu acho muito que não é. Assim que eu terminei, eu tentei agrupar o máximo de pessoas possível. BM: O que me parece é que seja um traço da sua personalidade musical, nesse primeiro momento, te conhecendo agora. PL: Pode ser. Modéstia a parte, eu acho que eu tive a idéia genial de conseguir poder montar a parada que eu vá poder mudar de banda todo show, todo dia, todo disco e que se a parada andar, eu vou ter dinheiro pra chamar os caras que eu sempre sonhei em tocar junto. Vou dar uma grana para o Zakk Wylde e ele vai gravar uma guitarra, vou pagar o baterista da Fiona Apple e ele vai gravar pra mim ... Isso é fora de série, isso é absurdo! Logo que eu saí, eu tentei montar a banda com seis cabeças, todo mundo fazia música. E, só pra tentar reforçar minha tese, quando eu saí do Los Hermanos, eu não era compositor e eu não fazia letra e tentei montar banda logo nessa época. E ninguém fazia porra nenhuma. Posso ter dado azar de ter escolhido as pessoas erradas. A coisa não andava. «Não tá andando? Ninguém faz? Beleza, vou escrever a letra. Ninguém faz? Vou fazer a música ..." Maluco não estava fazendo porra nenhuma e ... BM: Mas você gosta de concentrar a criação, de certa forma ... PL: Eu gosto do trabalho de produtor, de estar ali.. Isso é muito escroto, mas você ser o cara que afunila, que filtra é muito bom! Bruno Maia também escreve no www.sobremusica.com.br. Lá, você já pode ler a parte 2 desta conversa ... Número de frases: 204 Lê lá e comenta o que achou!: +) Responda rápido: o que há de comum entre um açougue e um espaço cultural? Pensou? Para a maioria das pessoas não há qualquer relação. Mas não é o que pensa Luiz Amorim, proprietário do Açougue Cultural T-Bone. Para ele, as duas coisas podem caminhar juntas. Muito antes de distribuir cultura o açougue tinha outro nome, Triângulo e Damasco, e apenas vendia carne. E Luiz Amorim era mais um empregado ali dentro. Depois de fatiar muito filé mignon e moer toneladas de patinho, conseguiu juntar um pé-de-meia e comprou a loja, em 1994. A primeira providência foi trocar o nome: T-Bone foi o escolhido. Três anos depois, em 1997, foi realizada a primeira Noite Cultural, reunindo escritores, artistas plásticos e já um bom público. Apesar do estranhamento inicial de se ter um ambiente de cultura dentro de um açougue, a noite foi um sucesso. E outras vieram. E o evento cresceu. E cresceu tanto que agora toda a quadra comercial fica fechada quando há uma Noite Cultural. A 17ª edição levou Tom Zé ao pequeno palco montado do lado de fora da loja e reuniu um público recorde de 10 mil pessoas. A existência dessas noites já seria suficiente para colocar Luiz e seus irmãos Cláudio e Robson Amorim no rol dos grandes incentivadores da arte e da cultura locais. Mas ainda há muito mais por detrás daqueles balcões. Há a Biblioteca Comunitária T-Bone, que surgiu de forma despretensiosa quando Luiz montou uma estante com alguns poucos livros. Com a doação dos moradores e incentivadores, o espaço foi ficando pequeno, e já conta hoje com mais de 18 mil exemplares de gêneros variados. Está aberta a qualquer pessoa interessada, de segunda a sexta, das 8 às 17h, e aos sábados, das 8 às 13h. Mas os livros não ficam restritos ao espaço do açougue. A T-Bone estabeleceu uma parceria com a Administração Regional do Varjão e já doou mais de seis mil para essa comunidade. E ainda há outras realizações, como o Encontro com Escritores, que ocorre bimestralmente e já contou com a participação de pelo menos duas dezenas de nomes, como Affonso Romano de Sant'Anna, Menezes y Morais, Cassiano Nunes e Bernardo Bernardes. E os projetos Sede de Cultura, para inclusão social, e Ponto de Cultura, que pretende realizar tardes culturais para crianças. Os incansáveis irmãos Amorim ainda abrem espaço para a venda de discos de artistas locais. Em as prateleiras é possível encontrar CDs do Quarteto de Brasília, Jairo Mozart, Oliveira das Panelas, Dinaldo Domingues, Manasses, entre outros. Se vende bem? «Vende. O público gosta e compra», afirma Luiz. «É uma parceria boa para o açougue e para o artista." Esse incansável empenho por a cultura rendeu muita publicidade para a T-Bone. A loja já apareceu em todos os jornais locais e destaque em matérias e entrevistas na televisão, como no DF-TV, no Jornal Nacional e até no Programa do Jô. Tantas coisas aconteceram nestes anos que Luiz Amorim já está preparando um livro contando as melhores histórias das Noites Culturais. Uma que certamente estará presente ocorreu logo na primeira edição do evento. Uma cliente do açougue, desquitada, estava se arrumando para sair. O filho, desconfiado, perguntou onde ela estava indo. «A o açougue», respondeu. É claro que ele não entendeu, e quis saber se a mãe estava namorando o açougueiro. A coitada até tentou explicar que era um evento cultural. Mas o menino não acreditou, claro. É bem possível que hoje ele também seja um dos freqüentadores. Link: Número de frases: 43 www.t-bone.com.br Conexão Floripa-Espanha via MinC «Margem Esquerda é um mergulho no universo da música e da poesia brasileiras. Em o show, com uma hora e meia de duração, apresentamos composições próprias, e versões de músicas e poesias de valorosos artistas brasileiros. Buscamos realizar um trabalho que valorize nossa música e nossa poesia sem privilegiar uma nem outra, de tal forma que o público identifique toda música de uma poesia e toda poesia de uma música " Osvaldo Pomar O Grupo Margem Esquerda, nadando contra a corrente que diz que nada pode dar certo, está em turnê na Espanha. Começaram em Granada, na quinta-feira 3 de abril às 20h, no Salón de Actos -- Escuela Universitaria de Arquitectura Técnica -- Campus Universitario Fuentenueva. Continuaram com uma apresentação no sábado num Pub chamado Magia y música e logo, no domingo, fizeram espetáculo à beira mar, no Balneário de Chiclana, em Jerez de la Frontera. Em o dia 7 seguem para Cádiz e, no dia 11, Madrid, onde fazem mais quatro apresentações. Meu contato com o grupo parte da relação de amizade com Osvaldo Pomar, percussionista, produtor e pesquisador musical. Além de ele, conheço de antes outros membros do grupo, mas a junção de eles todos tem um resultado que transcende as individualidades, como costuma acontecer. Há alguns meses, o Osvaldo me perguntou se eu poderia traduzir convites que chegaram da Espanha (Sevilha, Madrid e Barcelona). Aceitei na hora. Feita a tradução, coloquei meu nome e cpf (por o jeito não está tão sujo assim, já que funcionou) e os convites traduzidos foram enviados ao MinC. A intenção de eles era conseguir apoio financeiro para bancar as passagens de ida e volta à Europa. Conseguiram. O Grupo está na Espanha. As passagens foram financiadas por o programa de concessão de passagens para intercâmbio cultural, do Ministério da Cultura. A ponte com a Espanha foi feita por um produtor espanhol boa praça chamado Pepe Rivera, que aparece na fotografia ao lado, no Vatapá do Cesinha. A arrecadação de recursos para bancar outros custos, como estadia, deslocamento e alimentação, partiu de eventos que promoveram nos meses anteriores à viagem. Houve o Vatapá do Cesinha, que presenciei, e outros eventos gatronômico-musicais como feijoada, além de uma maratona de apresentações, incluindo o teatro do SESC e bares da ilha. A formação original contava com Osvaldo Pomar (vulgo Vavá), Marina Beraldo Bastos, Luciana Alves, Raphael Galcer, Paola Gibram, César Félix, Maria Beraldo Bastos e Laila Loddi. Laila acabou se desligando do grupo para dedicar-se ao mestrado em outra cidade. Assim, viajou no lugar de ela o recém integrado Eduardo Vidili, membro também da Felixfônica, que já publicou algumas músicas aqui no Overmundo. Em a verdade, todos os músicos são multifuncionais, dedicando-se a vários projetos concomitantemente. O último show antes da partida, no Café dos Araçás, terminou com uma roda de choro bastante animada, como costumam terminar os espetáculos do Margem Esquerda. Aliás, choro é uma das marcas do pessoal que, paradoxalmente, toca com muita alegria. É de deixar qualquer um contente esse nado a favor da arte. A linguagem do grupo mistura poesia, música e teatralidade. Samba, choro, baião e outros ritmos são explorados musicalmente por os músicos talentosos, e poetas brasileiros como Paulo Leminski, ou o português eterno Fernando Pessoa se juntam a Cesar Félix para tornar o trabalho único, pelo menos no meio artístico de Floripa, Ilha de Santa Catarina. Lembro agora que o nome da cidade era Desterro, antes da proclamação da República. Pensei nisso apenas porque a viagem coletiva até a Europa é análoga a um desterro, mas voluntário, o que muda tudo. A travessia prazenteira de uma margem a outra do Atlântico sem dúvida fez pessoas mais vivas e inteiras. Por último, transcrevo a partir do blog do grupo: «Moramos em Florianópolis, porém nossos integrantes são oriundos de diversas regiões do Brasil, basta ver os estados em que nascemos: Acre, Gerais, Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Isso nos enriqueceu culturalmente, cada um trouxe uma singularidade cultural de sua região, foi ótimo para o nosso trabalho». «Luciana Alves «Nosso instrumental é rico e traduz a pluralidade de manifestações que permeiam nossa cultura. Samba, chorinho, baiões, samba canção, frevo e cirandas afinam-se numa heterogeneidade poética, típica do nosso povo. Vozes, violão, flauta transversal, clarineta, acordeon, bombos, pandeiro, caixa, ganzá, violoncelo, viola caipira, cavaquinho, unem-se à palavra, a qual também expressa a diversidade da literatura poética nacional. Por trazer todos esses elementos à cena, acreditamos que o Margem Esquerda traduz um pouco o multicuturalismo que é a grande característica da identidade brasileira». «Marina Beraldo Bastos «Nos unimos em torno da perspectiva de divulgar um trabalho comprometido com a cultura brasileira em suas manifestações tradicionais e contemporâneas, afirmando elementos estéticos marcadamente brasileiros " «Maria Beraldo Bastos» Uma das principais caracteristicas de nosso grupo é o nosso jeito de tomar decisão. Tudo é apresentado e aprovado por o grupo: Nosso repertório, a ordem das músicas, dos poemas, nossos shows e nossas atitudes como grupo. Isso tem nos fortalecido muito, tem nos unido e tem feito a gente crescer muito artisticamente, como coletivo e como pessoa». César Félix O que cada um faz no Margem Esquerda: Paola Gibram -- acordeonista Maria Beraldo Bastos -- clarinetista Raphael Galcer -- violonista Osvaldo Pomar -- percussionista Marina Beraldo Bastos -- flautista e dançarina Luciana Alves -- cantora César Félix -- poeta Eduardo Vidili -- baterista e percussionista Remissões: Para saber notícias e ver fotografias das apresentações na Espanha. Para assistir vídeo do Margem Esquerda Outro blog do grupo, com ótimo acervo de fotografias. Agradecimentos por as fotografias: Nira Pomar por a colaboração na edição: Ilhandarilha (Claudia Rangel) e Sarah Falcão Margem Esquerda Contatos: (48) 96238730 (48) 84115913 (48) 33347612 sacicesinha@yahoo.com.br osvpomar@gmail.com phgalcer@hotmail.com marinaberaldo@hotmail.com luaeternum@yahoo.com.br lailaloddi@gmail.com Número de frases: 73 paolagibram@hotmail.com mbb @hotmail.com Eu poderia dizer que Robério é uma das pessoas mais importantes no meio da cena rock /indie/underground (e tantas outras denominações). Unanimidade em todas as tribos, do metal ao hardcore, é tudo isso caladinho, tímido, atrás de um balcão. Ele é dono da Música Urbana, uma das lojas de CD's e Vinis mais importantes da cidade. Algo como a Championship Vinyl (do filme Alta Fidelidade) de João Pessoa, freqüentado por amantes de música e de todo o seu universo, vendendo e trocando novos e usados. Quando eu digo que ele é uma das pessoas mais importantes desse meio você pode achar que eu estou exagerando, mas acredite, não estou. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi pessoas falando que os melhores CD's da sua coleção foram adquiridos por lá, que foi naquela loja que ele descobriu tal grupo musical que é fã até hoje, que conheceu alguém, acabou montando uma banda, e que agradecem o espaço que ele abre em frente à loja para a poket shows. Eu mesma devo muito a ele e a Flaviano (antigo funcionário), que me fez criar gosto por muita coisa que hoje levo com mim, desde sons, a livros e idéias. Já perdi a conta de quantas vezes passei horas ali de papo com alguém ou até mesmo enchendo o saco atrás de patrocínio pra algum show ou para meu fanzine. «Todo mundo passa por lá, todas as tribos. O lugar é acolhedor, me sinto à vontade, tem sempre boas novidades novas e usadas», concorda Esmeraldo, cabeça da banda «Chico Corrêa,» De vez em quando passo lá pra ver se vendeu algum CD meu, se tem anúncio de equipamento usado, vinis ... Ou então pra trocar uma idéia», conclui. O lugar é mesmo acolhedor. Em o centro da cidade, numa galeria aberta com um preço quase inacreditável. Álbuns importados por R$ 15,00? Sim, ali tem! Tudo é nessa faixa de preço, pode acreditar. Um lugar pequenininho, com as paredes amarelas, cartazes e quadro de bandas, adesivos e vinis na parede e balcão. Lindo. Tudo é muito pessoal e cheira a música, num clima maravilhoso e um universo à parte. «Eu sempre saio daqui com a cabeça cheia de informações e turbilhando», diz Rayan, baterista da Dawn Jones e produtor do Festival Mundo. Breve histórico: Em 1998, quando os MP3 nem sonhavam em ganhar a importância que têm hoje, Robério andava por os poucos sebos da cidade e nas lojas de música atrás de promoções. Ele estava de saco cheio do seu trabalho (na tesouraria de uma empresa de segurança) e pensava seriamente em montar o que seria hoje a Música Urbana, com algum investimento, um funcionário que parecia uma enciclopédia musical e cerca de 500 CD's. A idéia deu certo e a loja se destacou no pequeno cenário de novos e usados da época. Com o tempo, camisetas de bandas, revistas e livros foram aparecendo e agregando-se ao produto principal da loja. Por volta de 2002 a Música Urbana ganha uma expansão, tendo uma área especial só para os livros, com a chegada de Rosualdo, que entra como sócio. Literatura clássica, cultura pop, biografias, gibis, filosofia e comunicação ... A Música Urbana parecia crescer e tornar-se cada vez mais um ponto obrigatório. Um ano depois, Rosualdo muda-se para a Brasília, e a parte antes ampliada é novamente fechada, deixando a Música Urbana com o tamanho original, como se encontra até hoje. Em a era MP3 Estamos no fim de 2006. Oito anos depois de toda essa história, o grande suporte musical muda de foco. Soulseek, torrent, emule e tantos outros programas pra se ter acesso a musica tornam-se populares e o mercado fonográfico passa por não uma crise, mas por uma mudança. Lojas físicas de música estão ficando cada vez mais raras. Discos não vendem como antes e a Música Urbana, claro, anda sentindo esse efeito no dia-a-dia. E agora, Robério? A festa acabou? Fui fazer uma visita à Música Urbana essa semana e conversar com ele pra saber como uma loja tão fundamental na história musical de uma cidade faz pra se manter em pé e alimentar um pequeno público que não tem acesso à rede, ou mesmo ainda tem o hábito de comprar e ver encarte. Como era de se esperar, Robério não está nada feliz com essa história. «Nem é só por conta de ser meu trabalho, porque eu posso fazer uma outra coisa. O que eu acho mesmo é que é uma pena as pessoas estarem perdendo o hábito de ir num lugar ver discos, eu acho isso tão importante!». Quer dizer que a Música Urbana está pra fechar? Perguntei. Ele disse que não, por enquanto ta dando pra sustentar, mas ele acha que isso num futuro próximo vai ser inevitável. «Eu vou tentando como posso. Tive que fazer corte de gastos, não dar mais patrocínio pra shows e demitir Flaviano. Tô vendendo outros produtos que não CD's, vinis e livros ... Temos que encontrar uma solução pra ir levando enquanto pode, porque eu não queria mesmo fechar». Ele contou que a queda mesmo foi de 2005 pra cá, e agora está tendo que entrar no comercio por a Internet, em espaços como o mercado livre. Há também a idéia de por volta de janeiro instalar dois computadores na loja com acesso a rede e fazer algo como uma lan house." Tenho que adaptar», diz Robério. Conversei também com Flaviano, ex-funcionário (e também vocalista da banda Star 61), e ele foi bastante categórico em suas colocações. Morre de medo desse super domínio da Internet e teme que as coisas fiquem cada dia mais virtuais. «Essa diminuição das lojas de Cd's é um reflexo disso. Lojas de músicas tem que continuar. Onde você vai buscar inspirações? Você vir na cidade e dizer que vai dar uma volta na Música Urbana, no Sebo Cultual. Pegar os livros, respirar a poeira ... Toda essa história gera influência, é como sentir um perfume que você gosta e te traz lembranças». A situação é complicada, já bastante discutida, e tudo anda tão confuso que, como Flaviano falou, temos mais questões que respostas. O que posso ver são fatos e uma coisa eu sei: acho realmente uma pena que gerações futuras percam o encanto por um universo tão mágico. Acho pior ainda que essas mudanças sejam tão rápidas e radicais, elas vêm correndo, avassaladoras e realmente revolucionárias. É tudo tão rápido que não dá tempo nem de você achar natural e entender isso simplesmente como uma mudança de tempo, valores e geração. Que lojas como a Música Urbana continuem influenciando muita gente, com o impacto que só um ambiente físico pode ter. Que nos encontremos e façamos amigos em lojas de música, onde as conversas são incríveis e as pessoas interessantíssimas. Que ambientes assim não sejam apenas mais um capítulo de um almanaque lançado em 2030 sobre os anos 90 e inicio dos anos 2000. E que falar sobre isso não seja saudosismo, mas sim algo real, natural. Ê danada de Internet avassaladora. Número de frases: 67 Mais do que lance bem urdido de manipulação de linguagem, a palavra-montagem «solecidades», que serve de título ao livro de estréia de Ronaldo Machado, aponta para a estrutural relação desse poema em parcelas do nosso século, com as falhas -- no sentido de» fissuras», com os fragmentos e com as errâncias constitutivas das controversas personae poéticas do alto modernismo, localizadas no já recuado século passado. Em Solecidades (www.editoraeblis.blogspot.com), -- não obstante algum crítico solidário se apresse a sublinhar o tanto de seqüência intertextual que contenha, por os espelhismos que sugere, por o viés de transculturação com o qual problematiza-se, etc., pode-se dizer que Ronaldo Machado estabelece uma interlocução renovada e delicada, à meia voz, menos com os seus mestres do que com as cidades estéticas e éticas erguidas e / ou desossadas por eles. Com efeito, as cidades, quer como ruínas, quer como monumentos sígnicos, estão na base das mitologias da modernidade: Dante e os reinos ínferos; Baudelaire e o poeta trapeiro; James Joyce e a Dublin dos seus pesadelos e idioletos; Oswald de Andrade e o jornal " onde anda todo o presente "; enfim, todos os grandes inventores do cânone literário ocidental leram o livro das metrópoles. Ronaldo Machado também faz o seu périplo através desses espaços de som e sentido, e da memória pessoal, mas num registro menos épico, focalizando a atenção nos arrabaldes e em suas «indecifráveis histórias» com um olhar lírico-imagético que percorre estes «restos da cidade» transliterados a partir dos despojos discursivos de seus precursores. Entretanto, o leitor atento perceberá que Ronaldo lida menos com os topos do que com os tropos. Cidade feita de passagens, rede de textos-instala ções. O poeta incorpora o tom crítico e a lucidez auto-irônica de uma linguagem que negocia e negaceia sua condição de texto relativizador (no sentido forte de " pôr-se em relação "). Esboços de uma cartografia, a cidade fraturada de Ronaldo Machado, espécie, ainda, de software (ou eidos, desenho de uma idéia) destilado do seu cânone particular, não deve ser confundida com essa megacidade hard, impraticável máquina do mundo, em cujos centros e periferias nos debatemos mais como reféns do que como cidadãos. Em Solecidades, o poeta afivela a máscara da confissão e diz: «a cidade encardiu meus sapatos novos, feitos para urdir / carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado». Sob o sol corrosivo da linguagem, a cidade-metáfora de Ronaldo se deixa nomear por todos os lados e vielas, e por as culpas incrustadas na fala desse velho fantasmático que, aparecendo no poema aqui e ali, parece ser o herói insolvente de Solecidades -- velho que talvez simbolize uma tradição em cheque, ou a esterilidade, o esgotamento a infiltrar-se na precária novidade do agora. A cidade-metáfora se deixa nomear, inclusive, por o seu avesso, isto é, a terra ignota, o mítico interior geográfico. Em o caso em particular, o pampa representa a contraparte inextrincável compondo o oximoro. «O pampa se esparrama por a cidade». Pampa, palavra-poema que «mancha a página» da cidade (" simétrico tabuleiro ") e diz-se a si mesmo como metáfora negativa, ao revés, da cidade. Por isso o pampa é «de pedra»,» de granito». O sema «pedra» representa por metonímia a cidade, sua teia de muros e seu silêncio murmurante. Solecidades tem um fundador mítico. Ele atende por o nome de Orlando. É o velho. O simulacro hierático de seu caráter (o " cabelo castanho e basto / parece pesar-lha cabeça "), surge no penúltimo poema do livro. Emparedado no íntimo de sua tumba-biblioteca, cidade dentro da cidade (» ... livros sustentam a estante / de prateleiras vergadas, já digeridas / no ruído dos cupins "), Orlando invoca Mnemósine e escreve o poema póstumo requerido por sua notória competência. Uma ironia machadiana rasga a «poeira clássica» que impregna a atmosfera espessa do aposento. A maquiagem sobre a máscara mortuária é pesada, teatral. E Ronaldo convida o leitor a participar dessa reflexão a um tempo, risonha e fustigante, ao anagramatizar-se em Orlando; Ronaldo interpreta-o pelo avesso. Vira a casaca do pálido busto. Sistema de citações e de simulações, a metalinguagem desse poema se resolve em esconjuro contra a pretendida imortalidade do esteta beletrista, da criatura que encerraria em si todo o gênio da língua, arremate de um percurso vivencial-textual que muitos gostariam de aplicar ao próprio necrológio. Orlando é caso enterrado. De outra parte, Ronaldo Machado, através de Solecidades, promove uma interpretação contemporânea de certos dados da tradição do alto modernismo com a intenção de materializar, na vital volatilidade do aqui, esboços inventivos implicados numa obra em movimento. Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007). Assina o blog: Número de frases: 40 www.poesia-pau.zip.net É este mesmo o assunto: o Djangos está gravando um disco novo. Para quem não saiba: o Djangos, que já foi Los Djangos e Kamundjangos, vai lançar o que será o segundo disco, produzido por o bom gosto e por a militância de generosidade de Marcelo Yuka. E este blogueiro (ou colunista, ou fã de Torquato Neto?) ouviu uma gravação em mp3 de um ensaio da banda. A música, especificamente, é Imigrante Ilegal, que quem esteve em algumas das últimas apresentações da banda com certeza ouviu. Só para lembrar duas de elas, assim de cabeça sem pensar muito, teve o encontro com o Bois de Gerião no Vittorios, na Barra, e o encontro com o Empório e fãs desestabilizados, em Ipanema. Dois coquetéis de emoção. O ensaio, como me previniu exageradamente o Marco vocalista da banda, ainda tem umas sujeiras nas passagens de uma parte para outra da música, e imprecisões de um arranjo ainda em construção. Trata-se de um mexidão anti-babil ônia, que emaranha pontes entre guetos do terceiro mundo, a partir de uma letra que conta a história de uma figura invasora -- sem lugar ou identidade -- o tal imigrante ilegal que não tem certeza do que se passa dentro de si. Louvo os pontos de referência, do Clandestino de Mano Chão aos lados a e b do Rappa de antigamente, e um pé no oriente do Asian Dub Foundation. Lá no fundo, ecos de Selvagem?, do Paralamas. Afinal, dna não se apaga com o tempo. Sou terrivelmente suspeito para falar de Djangos, mas a obrigação de colunista (fã de Torquato, blogueiro?) não deixa que eu use artifícios: devo comentar o que vem aí. Faço da maneira que posso, que penso ser melhor. Assim: ao contrário do disco anterior de eles, ' Raiva Contra Oba Oba ', de 98, e desde então um clássico da juventude, o que estamos esperando tem bases mais densas, com mais camadas de história da opressão do homem por o homem, com aquela boa e velha onda de fazer isso para a dança dos corpos que a rotina não cansa. Ainda há frases repetidas como os melhores cânticos de torcida uniformizada, característica de músicas como Raiva Contra o Oba Oba ou O Baile. Djangos é Maracanã tanto quanto ônibus lotado para Jacarepaguá, mas agora virá também o cheiro forte dos temperos de Bombaim, a fumaça de Trenchtown, os barulhos dos programas de edição de som crackeados num estúdio da periferia de, sei lá, Londres ou Cape Town. Ou seja, a passagem dos anos 90 -- quando a banda acabou metida na crise da falsa paridade Real-Dólar do sr. FH -- para os 00 -- quando o myspace e os estúdios caseiros redefiniram a palavra independente -- está ali no som do que veio e do que está por vir. Você não perde por esperar. Em o mais, tenho dito. Número de frases: 25 (publicado primeiro no www.sobremusica.com.br, o texto foi inspirado pretensiosamente em Torquato Neto na coluna Geléia Geral) Quase um ano depois, a banda curitibana Blindagem e a Orquestra Sinfônica do Paraná resolveram repetir a dose com o projeto Rock em Concerto 2. Juntas no palco do Teatro Guaíra, as duas estrelas musicais vão aproximar as guitarras com a maestria de Alessandro Sangiorgi e seus sessenta e oito componentes em dois dias de espetáculo. Afinal a data pede uma bela festa de comemoração: são 30 anos de história da lendária e roqueira Blindagem e 23 da Orquestra Sinfônica do Paraná. Em estes dias de evento vão ser lançados também o DVD da gravação do primeiro encontro que ocorreu em setembro do ano passado. Em uma entrevista exclusiva nos corredores do Guairão, o vocalista Ivo Rodrigues e o baixista Paulo Juk -- os demais integrantes não puderam estar na entrevista devido a outros compromissos -- falaram sobre este reencontro que teve como principal bis vindo dos fiéis fãs. Receber uma «intimação» do público fervoroso para que este segundo evento acontecesse surpreendeu até mesmo os senhores roqueiros. «Foi fantástico, porque as pessoas ficaram curiosas de ver essa junção do clássico com o rock», confirma o baixista. Tudo bem que neste reencontro, o trabalho de ambos os músicos foi mais fácil do que na primeira vez quando tiveram a expectativa de unir dois gêneros tão diferentes. «Conseguimos assimilar melhor devido a experiência que tivemos no ano passado», conta Juk que logo lembra de um fato inusitado para os roqueiros: «Não temos hábito de tocar com partituras e daí o maestro falava: ' Vamos fazer o compasso 85', e a gente ficava ali olhando sem saber o que era o tal do compasso 85. Tanto é que eles agora falam: ' Vamos refazer aquela partezinha lá ' " (risos). Paulo diz que ao todo serão apresentadas dezenove músicas, entre elas um rearranjo da 5ª Sinfonia de Beethoven. É uma espécie de releitura da história da Blindagem. como se fosse um disco acústico, onde vamos apresentar canções desde o primeiro álbum da banda até canções atuais». Claro que este meteórico projeto já rendeu à banda convites para tocar no interior do Estado e até mesmo fora do Paraná. E a vontade de dar continuidade a este grande encontro é grande. Porém algumas pedras estão no meio caminho para este quinteto: «É muito caro fazer um evento como esse. Ao todo são cerca de cem pessoas que têm custos com alimentação, hotel. Porém tudo depende de um patrocinador que não dá o devido valor a um artista de Curitiba. Sempre fica nesse aquém», reforça Juk, que logo é interrompido por Ivo. «Nosso patrocinador é o nosso público», revela o vocalista que junto com seus parceiros de grupo mostra um profissionalismo em relação à carreira dando exemplo para essa garotada que está começando a dar os primeiros acordes. Mesmo com alguns empecilhos, a Blindagem segue firme e forte com seus gloriosos 30 anos de dedicação ao rock paranaense de boa qualidade. E antes de finalizar a matéria, a última palavra é do ousado vocalista Ivo Rodrigues que faz um convite irrecusável ao público: «Esperamos todos aqui». Blindagem e Orquestra Sinfônica do Paraná Dias 6 e 7 de junho -- Teatro Guaíra Horário: 20h30 Ingressos: R$ 60 -- platéia; R$ 50 -- 1º balcão; R$ 40 -- 2º balcão (meia-entrada para estudantes, idosos e titulares do cartão fidelidade do teatro). A venda na bilheteria do teatro, nas Livrarias Curitiba ou por o site do teatro: www.teatroguaira.pr.gov.br Informações: 3304-7982. Site oficial: www.bandablindagem.com.br A Blindagem é composta por: Ivo Rodrigues -- vocalista Paulo Teixeira -- guitarrista Alberto Rodriguez -- guitarrista Paulo Juk -- baixista Número de frases: 42 Rubén «Pato» Romero -- baterista Lembro-me quando a atual administração do Museu da Casa Brasileira assumiu o poder ha poucos anos. O museu andava numa mesmice e havia a promessa de novas idéias, novos projetos e novos rumos que levariam o museu a um novo patamar. Abandonar o rótulo de museu do mobiliário, uma tarefa difícil (ainda mais considerando que o MCB possui um belíssimo acervo de mobiliário histórico brasileiro) e assumir o posto de museu de Design e Arquitetura; utilizar o museu como ferramenta de divulgação da importância do design como um todo no cotidiano. O carro chefe do MCB é o Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, sem a menor sombra de dúvida (cuja 20ª edição será exposta a partir do dia 6). Assim como o cartaz da Bienal de Arte de SP é algo importantíssimo (vendo alguns dos designers e artistas que criaram as peças ao longo dos anos isso é bastante perceptível) o cartaz e o restante da comunicação do Prêmio MCB também o é. Mas o trunfo é que ao invés de convidar profissionais estabelecidos, o Museu realiza desde 1995 um concurso para selecionar o «cartaz mais representativo da idéia de design» (esta é uma citação direta do site do MCB). Infelizmente no Brasil, e em muitas partes do mundo, a palavra design ainda é associada a algo inatingível, algo chique, caro, de prestígio e inclusive supérfluo. A publicidade usa a palavra como um acessório de venda a torto e a direito, design não é um substantivo, é um adjetivo. E isso me ofende profundamente. O Design, o «Bom Design» deve ser algo intrínseco a qualquer produto ou serviço, é parte do planejamento e da concepção, não está lá por opção, esta lá por natureza. Figurinhas famosas como Irmãos Campana e Philip Starck não são designers no sentido estrito da palavra. Um designer não deve criar peças únicas, isso é trabalho de artistas, designers tem a responsabilidade de elaborar produtos que sejam produzidos em massa -- não é à toa que a disciplina se chama de fato «Desenho Industrial». Esse ano decidi participar do concurso para a elaboração do cartaz. Achei que tinha uma idéia sensacional, de fato uma idéia que fosse «representativo da idéia de design» como um todo, e não numa área específica como gráfico ou produto. E a submeti. Claro que esperava ganhar, senão, qual seria o propósito de participar? Esperava ao menos uma menção. Não foi o caso. Imagino como alguns possam entender esse texto como o desabafo de um mau perdedor, mas garanto que não é o caso. Não estou bravo por o fato de meu cartaz não ter sido escolhido, as chances de terem vários outros inscritos com idéias melhores que a minha são enormes. O que me levou a elaborar essa crítica é a contradição monumental em que o MCB se coloca. O cartaz vencedor nada mais nos mostra do que uma cadeira. E não é o único, uma rápida navegada no site do museu mostra que em 2005 e 2002 os cartazes também retratavam uma cadeira, e entre os quase-vencedores desse ano há outras duas malditas cadeiras. E para jogar sal na ferida, ontem à noite quando cheguei em casa estava o convite para a cerimônia de premiação, junto de ele um folder com a programação do museu para Dezembro e Janeiro, ilustrado por a foto de nada menos que uma cadeira. Para uma instituição que quer se distanciar do mobiliário me parece que cadeiras estão presentes demais. O mais enfurecedor é que isso perpetua a idéia de design como decoração, penduricalho. Venho dizer que design não é Cadeira, design é muito mais, é mouse, pasta de dentes, sites, pôsteres, filmes, latas de lixo, isqueiros, zíperes, maçaricos, toda e qualquer coisa que você quiser pensar, e pensar bem, é design. Portanto não percam o 20º Prêmio Design Museu da Cadeira Brasileira. Número de frases: 30 Ao contrário do que pensa o senso comum, os quilombos não acabaram no fatídico ano de 1888 (ao que parece, nem mesmo a escravidão acabou naquele 13 de maio). Esquecidas por a sociedade, silenciadas por a mídia e quase sem memória muitas comunidades remanescentes de quilombos sobrevivem por o interior do Brasil. «Samba negro, que branco não vem cá / Se vinhé, pau há de levá». Foi nesse espírito que essas aldeias de pretos foram criadas. Quilombo, terra de preto, terra de santo ou mocambo, não importa a denominação, era sempre um ponto de resistência negra à violência branca. Esses homens, arrancados de suas terras à força e sob guerra, não aceitaram pacificamente a escravidão, como contam alguns livros de História do Brasil. E mesmo sem conhecer muito bem a geografia do país a que foram confinados, muitos de eles fugiram das fazendas dos seus senhores e criaram suas terras de liberdade. Em esses lugares eles plantavam para sua subsistência e preservavam a cultura que trouxeram em suas memórias. às vezes, encontravam as capoeiras para se alojarem com a ajuda dos índios, antigos senhores de Pindorama, e com eles também aprendiam o que aquele solo aceitaria como cultivo. De essa forma, essas duas culturas se misturaram no interior da mata verde. E se preservaram por mais de um século. Alguns desses quilombos foram desbaratados por os capitães do mato ainda em tempos de império, como o próprio Palmares. Outros tantos foram destruídos por a modernidade e o tal ' progresso da civilização '. Os que, apesar de tudo, conseguiram sobreviver, hoje pedem ajuda. História que não se conta Santiago do Iguape, Cachoeira, Bahia. Nosso anfitrião é Netinho, 20 anos, negro, pronuncia perfeitamente todos os rr. Ele nos leva a conhecer o lugar. Iguape não é mais do que meia dúzia de ruas e um punhado de casas. Talvez também descenda de um quilombo. Mas sua memória está quase perdida, nosso guia é o único guardião da história, segredos e mistérios desse lugar. Os mocambos ficam um pouco longe daqui, numa enseada, Netinho não sabe precisar quantos ainda existem. Mas diz serem pelo menos cinco, todos eles muito escondidos dentro da mata e dependentes do rio Paraguaçu que banha toda a cidade de Cachoeira e seus povoados. O caminho mais perto é por o rio, mas na falta de barco, vamos a pé. Saímos ainda de madrugada. Primeiro um pequeno trecho de estrada de barro vermelho. Depois o massapê. Por um longo trecho vamos ladeando um imenso canavial. Parece um resquício dos tempos de engenhos monárquicos. Os negros e negras ainda trabalham em ele, no corte da cana ou na usina, o engenho moderno. A o final do mar de cana, encontramos a primeira comunidade, o Caônge. «Faz com jeitinho / que ele gosta / Arrocha, arrocha, arrocha». A melodia do arrocha ecoa de dentro de uma das casas de taipa. Nem sinal de postes de eletricidade, os rádios são ligados em baterias de carro. A comunidade começa num campinho de futebol, com traves feitas de bambu. Uma fonte de água em frente do centro de convivência. A água chega às vezes, o centro quase nunca é usado. Os meios de comunicação chegam, com alguma dificuldade é verdade, e cumprem um papel de puro entretenimento de baixa qualidade. O Caônge foi um dos pontos de encontro entre ex-escravos e índios. De a existência dos tupinambás só restou a sabedoria da cultura da mandioca, plantada em quase todos os quintais. Grande parte também tem suas próprias casas de farinha. No entanto, a subsistência direta dessas famílias vem do rio / mar, ou maré. A cata de mariscos e caranguejos no mangue e a pesca. Continuamos a caminhada rumo ao Engenho da Ponte. Em a saída do Caônge, Netinho nos mostra meio a medo uma casa de candomblé. Bonita e misteriosa como lhe convém. O caminho agora é por dentro da mata fechada. As veredas são íngremes, e o solo, escorregadio. Depois de mais de uma hora, chegamos a outra estrada de terra batida. Paramos numa das três casas que se avistam (pequena demais para tantas gerações da família) para perguntar o caminho. A matriarca pede a um de seus filhos que nos acompanhe. Nem é todo sorrisos e poucas palavras. Vai na nossa frente, descalço. Pés enormes, sola de pedra! Os caminhos que para nós são impraticáveis, para ele é rotina. Engenho da Ponte! Não tem ponte e o engenho é só um amontoado de pedras. A comunidade é uma rua de terra batida, umas poucas casas de taipa, umas de alvenaria, uma igrejinha de portas viradas para a maré, um prédio que serve de escola e centro de convivência e uma fonte. Não tem eletricidade, não tem saneamento, a escola funciona mal, a igreja está coberta de mato e limo, vazia, o altar já foi ao chão. Só uma pessoa aqui conta a história dessa gente. «Minha mãe é muié véia / De o tempo da monarquia». Dona Nêga, negra, 86 anos, filha de escravos. Com os olhos cheios de dignidade e cansaço, nos conta: a igreja está em ruínas, há tempos não vêm padres por aqui, não se celebram mais as festas meio católicas, meio profanas de São Roque e Nossa Senhora da Conceição. Há dois meses não chega água na fonte. Os próprios moradores ajudaram a enterrar a tubulação que vem de Iguape. Contudo, agora é preciso ir de lata na cabeça há um riacho menos poluído para buscar água. As estradas são impraticáveis no inverno. Médicos não chegam até aqui, as mulheres têm os filhos dentro das canoas, atravessando a maré. «Tião, ali, nasceu na maré», como tantos outros. A energia elétrica também não chega, mas como no Caônge, aqui há rádios e até televisão. E ouvem-se as músicas da moda: arrochas e bregas; assistem-se novelas. Os heróis e heroínas saem da tela colorida da TV. As histórias das terras de santo se perderam nas memórias dos que já morreram. Dona Nêga é a única que ainda guarda na lembrança as tradições que aprendeu de ouvir. Não se cantam mais as músicas, não se dançam mais as danças dos fugitivos da senzala. Com a justa revolta de quem já fez muito por a comunidade ela diz: «Em ano de eleição, os políticos vêm sempre por aqui, prometem resolver tudo. Mas depois das eleições, todos os princípios são fúteis», fala mastigando cada uma das letras com raiva. A situação dessas pessoas não difere muita da de seus antepassados. História que se canta Mussuca, Laranjeiras, Sergipe. Uma tarde quase morta de domingo. Chegamos de carro, ruas calçadas, água encanada, luz elétrica, escola, não tem saneamento (como quase todo o estado de Sergipe). Dona Nadir abre a porta, quase pedindo desculpas por ser tão pobre: a sala só tem uma mesa, duas cadeiras e uma poltrona descarnada. Quando pergunto se a comunidade é mesmo descendente de quilombo, ela disfarça, remancha e começa a falar sobre a formação dos grupos culturais dos quais faz parte. Não sabe o que é quilombo. «Ai, Maria, samba de noite e de dia / quando chega na virada / samba direito negrada». Os escravos fugidos do tronco iam para a Mussuca, lugar de mata fechada e difícil acesso. Em o Sábado de Aleluia e no Domingo de Páscoa, dançavam o São Gonçalo. Em o São João, o samba de parelha (ou parêa, no dizer daqueles que o dançam). O São Gonçalo começou com a tentativa de salvar as meninas negras da prostituição. Um marinheiro chamado Gonçalo fez o primeiro grupo com sete meninas de cais. Hoje em dia, são homens que se fantasiam de mulheres para brincar essa memória. «Samba de parêa só tem na Mussuca ( ...) / o que eu sei / meu pai quem ensinou / e Deus que consagrou». D. Nadir começou no samba com 8 anos, acompanhava o pai, Zé Pretinho, e os outros tantos irmãos nas festas juninas. Em aquela época, os instrumentos eram fabricados por os próprios tocadores. O carneiro que servia para fazer o tambor era o mesmo que virava a buchada comida à meia-noite do dia 23 de junho. A «jovem» senhora de 57 anos dedicou sua vida ao samba de parêa. Só deixou de dançar um São João porque estava de resguardo de um dos dez filhos. Nem as surras que levava do marido a faziam ficar em casa. Hoje em dia, separada há 13 anos, colhe os frutos de sua teimosia: o samba tem seu futuro garantido no grupo mirim; já se tornou conhecido na região, tocou várias vezes em Salvador e em cidades do interior de Sergipe e da Bahia. Contudo, eles recebem muito pouco por as apresentações, uma média de R$ 800 divididos por os vinte componentes. O samba de parêa da Mussuca tem músicas gravadas por vários intérpretes, mas nunca receberam nada por isso. «Já filmaram a gente, gravaram nossas músicas, mas nunca voltaram pra mostrar para a gente, nem pagaram nada», diz Dona Nadir, entre orgulhosa e ressentida. Ela, que também compõe, sabe que poderia ganhar muito mais com a música. No entanto, essa descendente de quilombolas que sequer tem TV em casa, tem um único sonho: levar o grupo para o Domingão do Faustão. A televisão e os bares são os únicos entretenimentos da comunidade. Terras de santo A idéia de direitos humanos nessas comunidades continua sendo muito vaga. Muitos quilombolas sequer têm o título da terra onde suas famílias vivem há séculos. Só na Constituição de 1988 as terras de preto passam a pertencer legalmente aos remanescentes quilombolas. No entanto, ainda demoraria quinze anos para que essa lei fosse regulamentada. A partir do decreto 4887 de 2003, o Incra passou a ser competente por a demarcação e titulação dos espaços, e por dar assistência ao etnodesinvolvimento das comunidades. Com menos de um ano de prática, o instituto vem tentando se organizar para cumprir essa nova função, ainda sente dificuldades na forma burocrática de conseguir crédito para dar prosseguimento às atividades. Escrevi essa reportagem há mais de dois anos. Mas poderia ter escrito ontem. O reconhecimento dessas localidades é uma das poucas mudanças que aconteceram nessas vidas. Um processo lento, que se arrasta, e talvez não alcance vivas algumas das personagens dessa história. Número de frases: 126 «Tô indo embora / vocês fique com Deus / que vou com Nos'Senhora». Já me cansei de ler inúmeras notas sobre a preocupação da Vênus Platinada com a audiência de suas duas novelas recém-lançadas, «Sete Pecados» e «Eterna Magia». Pra mim parece muito óbvio a razão do fracasso das tramas: O público está de saco cheio de histórias de fantasminhas, bruxas, anjos e elfos. A overdose de histórias do além começou com «Alma Gêmea», mas até então o tema» sobrenatural «estava em banho-maria desde» O beijo do vampiro». Aí Antônio Calmon tentou repetir a dose em «Começar de novo» e teve que mandar seu marcianos literalmente de volta para o espaço. Mas com «Alma Gêmea», a coisa degringolou de vez. Glória Perez seguiu à exaustão com o outro lado da vida em «América». João Emanuel Carneiro parecia que ia passar ileso, mas no último capítulo de «Cobras e Lagartos», lá estava o onipresente Lázaro Ramos no beleléu. E até o supra-sumo do cotidiano, Manoel Carlos, não resistiu a moda e tascou o fantasminha Nanda, em «Páginas da Vida». E Carlos Lombardi também resolveu dar super-poderes ao seu eterno herói descamisado em «Pé na Jaca». Aí veio «O Profeta» que selou de vez a marca do outro mundo nas novelas da casa, com um texto fraquíssimo e um elenco mais frágil ainda. De aí agora ninguém aguenta mais nada que tenha efeito especial de assombração ou menção de sobrenauralidade. «Eterna Magia» tem um argumento bem fraquinho, não empolga e ainda por cima do trio protagonista só se salva a Maria Flor. Em «Sete Pecados» um dos maiores problemas é a repetição de atores nos mesmos papéis. Priscila Fantin e Elizabeth Savalla são as mesmas Olga e Jezebel de «Chocolate com pimenta». Outra gravidade é o texto: Walcyr Carrasco ainda escreve como em novelas de época para as 18hs. Totalmente Inverossímel a quantidade de próclises e ênclises presentes em momentos inoportunos. Outro dia presenciei um personagem resmungando: «Que Lástima!». Dá pra acreditar? Alguém em pleno século XXI dizendo «Que Lástima»? Só nas novelas de Walcyr Carrasco. A Globo precisa entender que o público ainda tem um resquício de racionalidade e preza por tal. Número de frases: 24 A cidade tem pouco mais de cinco mil habitantes, número equivalente à quantidade de sepulturas no único cemitério. O único vendedor de plano funerário local diz já ter «coberto» (entenda-se vendido planos e não enterrado, pelo menos por enquanto) cerca de quatro mil moradores. Ou seja, em Cabrália Paulista, a meia-hora de Bauru, menos de um quinto da população -- aproximadamente mil pessoas -- ainda não comprou o seu próprio caixão. «Se não me enterrarem antes, eu enterro todo mundo», brinca Edson Aparecido Pires, o Edinho, também chamado por alguns de homem-do-caixão ou «papa-defuntos». «Outro dia, estávamos no circo assistindo a um espetáculo e o drama falava de morte. Não deu outra, olharam para a gente e disseram ó, qualquer coisa a mulher do caixão está aí, hein! ', referindo-se à minha esposa, que também trabalha com mim, conta. O bom-humor mórbido faz sentido. Afinal, enquanto muitas cidades do interior de São Paulo não têm onde cair mortas, Cabrália Paulista é conhecida como a Capital das Urnas Funerárias ou Capital do Caixão. Afinal, lá duas fábricas produzem em média 15 mil caixões por mês, que são vendidos para todo o Brasil. A «indústria funerária» é fonte de cerca de 400 famílias na cidade, segundo Nivaldo Roberto Bertoni, dono de uma dessas fábricas. «Em o fim dos anos 80, chegamos a ter oito fábricas na cidade», conta, sinalizando que nem mesmo a «morte» escapou das sucessivas crises econômicas que o país atravessou nas últimas décadas. Curiosamente, o proprietário da fábrica ainda não comprou um plano funerário e, conseqüentemente, não tem o seu próprio caixão. «Estou esperando sair um modelo mais luxuoso», brinca. Ainda assim, a cidade se mantém entre as que mais fazem caixão no Brasil e se orgulha disso. Benedito Francisco de Araújo, o seu Ditinho, trabalha há 13 anos no cemitério como zelador de necrópole e garante: «Nunca tive problema com os caixões feitos aqui em Cabrália». Mas há quem não se acostume com a idéia mesmo tendo nascido na cidade. Cunhado de Edinho, o frentista José Alcir Possi é um de eles. O vendedor de planos funerários, já acostumado com o ambiente, usa o salão do velório como garagem quando não há nenhum corpo sendo velado. «Se ele precisar de mim para tirar o carro da garagem vai ficar a pé. Não entro aí de jeito nenhum», afirma. Terceirização mórbida e histórias inusitadas A demanda por urnas é tão grande que, em alguns casos, as fábricas terceirizam o serviço e a cena se torna mais estranha ainda. Passar em frente à casa do seu Benedito Molina desavisado, principalmente à noite, pode provocar arrepios. A garagem é cheia de caixões galvanizados (de alumínio) que ele produz artesanalmente há sete anos. «Trabalhei quarenta e dois anos em fábricas e quando me aposentei comecei a fazer aqui em casa mesmo», diz tranqüilamente. Ele tem também dois filhos que trabalham no ramo. Já o comerciante Alessandro de Moraes, que possui um caminhão com o qual às vezes é chamado para fazer entrega de caixões, coleciona histórias. «Quando a gente chega numa outra cidade e começa a tirar a lona de cima do produto, tem gente que atravessa a rua e faz o sinal da cruz. Para descontrair, a gente pergunta se não quer comprar um, diz que é promoção», brinca. Ele é outro que ainda não comprou caixão. «Tô fora! Vou buscar o azar para quê?». Em viagens longas, quando é necessário dormir na estrada com o caminhão carregado, outra situação inusitada. «A cabine é pequena e não dá para dormir em dois. Meu ajudante pega as coisas de ele e vai lá para trás dormir no meio dos caixões numa boa». Ele conta ainda que tem amigos que trabalham nas fábricas que fazem a sesta depois do almoço dentro de caixões «confortáveis», se é que possível haver um caixão confortável. Enquanto uns ficam à vontade, outros nem tanto. O representante comercial de uma das fábricas, José Aparecido Amor, o Dedé, conta que em certa ocasião contratou um vigilante noturno para cuidar da fábrica que trabalhou apenas uma noite e nunca mais voltou. «Percebi que ele estava assustado quando conversou com mim. Como os galpões são de telhas de zinco, à noite, conforme a temperatura diminui, elas começam a estalar e eu esqueci de avisá-lo sobre isso. Aquela deve ter sido a noite mais apavorante da vida de ele, no escuro, rodeado de caixões e ouvindo barulhos estranhos. Nunca mais vi o cara», lembra. Guinness Há poucos anos, Cabrália Paulista entrou para o Livro dos Recordes ao construir o maior caixão do mundo, que foi exposto numa feira do setor como uma espécie de chamariz. A peça tinha 10 metros de comprimento. Conheço um cara que adoraria conhecer Cabrália Paulista: José Mojica Marins. Número de frases: 49 Agora, você, ao passar por lá, cuidado para não sair numa urna funerária, como eles preferem chamar. Um final de semana agitado, com 350 atrações culturais dentro da maior capital da América latina. A cidade de São Paulo sempre respirou cultura e neste final de semana mais ainda. Entre ás 18:00h do dia 5 de Maio, até as 18:00h do dia seguinte, aconteceu a Virada Cultural na capital paulistana. O evento, que a cada ano se torna um marco de grande prestígio na capital, é mostrado com grande entusiasmo por os diversos moradores e turistas, que na mesma época, passam por a cidade. Sob diversos aspectos a metrópole mostrou porque ficou tão enriquecida por eventos dos mais variados tipos. Os musicais, as danças, teatro e grandes artistas, passaram por São Paulo. Entre tanta agitação efervescente que a mega-cidade presenciou, um lugar passou desapercebido. Corre Kauê ... «Se Jesus está com mim, com mim Jesus está, se Jesus está com mim, contra mim ninguém será. Um por todos, todos por um». Foi exatamente assim, que os 23 atletas mirins da Associação Esportiva e Cultural Kauê Itaquerense iniciou seu ' grito de guerra ' e começou o respectivo aquecimento, antes do início da 27º Corrida do Parque da Aclimação, localizado no centro de São Paulo. A associação, que mantém em seu projeto 45 crianças, dos 4 anos até os 20 anos de idade, tem por finalidade instigar a prática esportiva das crianças da comunidade e formar pessoas mais aptas para um convívio dentro da sociedade. A 27º corrida do Parque da Aclimação, ocorreu no mês de maio e reuniu mais de 300 atletas mirins na modalidade atletismo. Os atletas, entre 6 e 14 anos de idade percorriam em sua bateria (modalidade e idade). As modalidades das corridas eram divididas por as respectivas idades. Em o final da prova, as crianças eram presenteadas com um lanche e um refrigerante. Segundo o pintor, Sidney Ferreira de 30 anos, que participa há 2 anos da Associação, seu filho, Julio César de 6 anos, melhorou muito sua comunicação com as outras crianças «Ele era muito quieto, e para ele era um problema conversar e brincar com outras crianças e por meio do esporte e do projeto, o Julio melhorou muito esta parte» -- comenta o pai. Uma outra grata surpresa dentro do corpo de atletas da associação é Rafael Soares, que é o atual campeão estadual na categoria 13/14 anos, e no meio de tantos inexperientes, logo se destaca. Rafael é uma grande promessa para o atletismo nacional nos próximos anos e reconhece o quanto à importância da Associação para ele. «Eu poderia ter escolhido o caminho errado, como muitas crianças que não tem oportunidade e acabam sendo influenciadas por outras coisas». Em entrevista concedida entre uma bateria e outra, Francisco Carlos da Silva, presidente da AEC Kauê Itaquerense, o Fran como é conhecido na comunidade, nos conta histórias sobre o projeto. Higor Como é feito o trabalho psicológico com as crianças da comunidade? Fran -- O esporte é o caminho mais curto para a ascensão do atleta. Uso exemplos de pessoas carentes que venceram na vida e de pessoas da comunidade que hoje são exemplo para eles. Sabemos que todos passam por dificuldades em casa, tanto financeiras como até mesmo psicológica dos pais e nos preparamos para isso quando as crianças estão treinando com nós ou estão por perto. Higor Aonde e quando são realizados os treinos das crianças da Associação? Fran -- São feitos na rua onde é a nossa sede. Tentamos fazer o máximo possível de treinos, geralmente são 3 na semana, principalmente para não deixar as crianças soltas, próximas de coisas que não prestam por aí. Higor Quais são as grandes dificuldades enfrentadas hoje em dia por o Kauê Itaquerense? Fran -- Como em qualquer periferia, o nosso problema também é o mesmo. Não temos patrocinadores e todo custo vem do nosso bolso, muitas vezes os pais das crianças não têm condições de ajudar e a gente faz o que pode. A falta de infraestrutura na região instiga a comunidade a ajudar como pode. Nós fazemos rifas, bingos e outras coisas para arrecadar dinheiro para participar das competições. E, na medida do possível, vamos participando e enfrentando as dificuldades do dia-a-dia. Higor Em os dias atuais, dá para viver só do atletismo? Fran -- Primeiramente, você tem de trabalhar as provas de municípios, provas festivas e as menos conhecidas, estas que os atletas de porte nacional não competem. Elas tem prêmios razoáveis que dá para ir se mantendo no esporte e sobrevivendo. Se você for um bom corredor, um atleta que realmente se dedique, com certeza dá para viver do atletismo, mas não pense que irá ficar rico, pois somos um esporte muito mal remunerado e lembrado por os patrocinadores. Histórico da Associação: A A.E.C -- Kauê Itaquerense foi criada numa homenagem ao filho do Presidente da entidade Francisco Carlos da Silva. Como todo time de futebol amador cercado de amigos da mesma rua e no bairro que sempre jogavam aos finais de semana, faltava ainda arrumar um nome para formar uma equipe competitiva. E em virtude do nascimento do Kauê, é que foi dado o nome a entidade. Criada no dia 3 de abril de 1998, a entidade tem em sua sede vários troféus conquistados ao longo dos nove anos de existência, e foram incorporando em sua estrutura outras modalidades de esporte. Além do futsal, que até naquele momento era o que mais tinha prestígio da comunidade. Mas, foi no atletismo que ganharam mais atenção de outras associações e de amigos da região. E, é do atletismo que surgiu a formação de crianças e jovens da comunidade para o esporte. Número de frases: 51 Atualmente fazem parte das competições só atletas mirins, em que o mais importante para a entidade é a formação dessas crianças com uma estrutura e condição melhor de enfrentar os desafios da vida. A temperatura do planeta sobe de forma exagerada e espécies começam a se extinguir. Esses são alguns dos problemas ambientais mais importantes que estamos enfrentando, e a coisa ainda pode piorar. O nível do mar vai se elevar, paisagens naturais sofrerão grandes mudanças e o homem continua agindo como se fosse o centro de tudo. Esses fatos só reforçam a tese de que um único ser (principalmente o humano) não pode dominar a natureza e modifica-la até deixar da maneira que lhe agrada. Milhões de animais são mortos por ano e a maioria da população acha isso normal, somente porque isso nos vem sendo imposto por uma cultura retrógrada e antiética e não somos, na maioria das vezes capazes de se quer questionar. Essa forma como os animais humanos tratam os não-humanos pode ser comparada á homofobia ou ao racismo, que já foi mais forte no passado causando até escravidão, mas infelizmente ainda existe. Até quando será preciso protestar por os direitos à vida dos animais, por a igualdade entre os sexos, negros ou brancos, homos ou heteros? Chega! Vamos mostrar do que somos capazes. L.A.A.! ( Libertação Animal Agora!). Aracaju-SE-Brasil, 08/01/2007. Número de frases: 12 Zackarias Nepomuceno é Túlio Flávio, guitarrista, tecladista, pesquisador e professor de música. Em a verdade, um personagem criado por ele, um alter ego, que virou nome de banda e tem confundido muita gente. Parece complexo, né? Pois vamos complicar um pouco mais. O Zackarias, o personagem, toma vida na pessoa do seu criador, Túlio, e se torna a banda de um homem só, como muitos jornalistas têm classificado. Mas o que nós temos a ver com esse conflito de egos mal resolvido entre um personagem e o seu criador? Como se ouve nas ruas -- " o seguinte é esse ": com apenas quatro shows ao vivo, um de eles num dos maiores festivais no Nordeste, o MADA / RN; uma demo com quatro músicas e uma trilha premiada para o curta Cão Sedento, do também premiado diretor Bruno Sales, o Zackarias Nepomuceno conseguiu chamar atenção, ou melhor, incomodar muita gente por o caráter direto de sua músicas. Já tentaram classificar o som da banda de diversas formas, mania de críticos, pós do pós, rock retrô pseudo cult engajado. Creia: barbaridades foram ditas. Acredito que só conhecendo o criador para entender a criatura. Túlio já passou por bandas com influência punk-rock, tocou na lendário A Mãe de Quem?, banda com uma atitude e performance, no mínimo, estranha para ouvidos e olhos menos preparados. Em o palco rolava de nudez parcial a cenas de sexo explícito! Chegaram a tocar num festival punk com os instrumentos todos desafinados e uma música apenas durante uma hora seguida. Loucuras desses jovens sempre dispostos a quebrar qualquer regra. Mas voltando ao Zackarias, suas influências principais são: jovem guarda (ele ama a fase antiga de Roberto Carlos, Os Incríveis e mais algumas coisas obscuras daquela época), muito rock independente gringo e sons antigos com experimentações. Adora fuçar quinquilharias eletrônicas, equipamentos antigos, efeitos, literatura barata, pop trash e filmes pornôs. Em a primeira demo, simplesmente Zackarias Nepomuceno, ele fala de sua «camisa de força preferida», do» palhaço desengonçado que cai estatelado com um riso absurdo», dos «choques que tomou de tira-gosto», letras muito bizarras, sobre bases que criam texturas punk / retrô com influências de rock alternativo e jovem guarda. Em a trilha do curta Cão Sedento encarna o apresentador revoltado de um programa policial de rádio, desses bem populares. Ao vivo, reúne músicos para o acompanhar, para os quais passa as músicas rapidamente, dando uma certa liberdade para eles. «Não tenho uma formação fixa para a banda, pretendo ter uma em cada lugar. A idéia do Zackarias é essa mesmo, ter músicos que interpretem com uma certa fidelidade o que foi gravado originalmente, mas que coloquem suas influências. Por isso escolho a dedo quem toca com mim, confirma Túlio. Uma coisa é certa, ninguém fica indiferente quando ouve o som do Zackarias. Quem não conhece, pode acessar sua página, ou então o Trama Virtual e baixar as músicas gratuitamente, para ouvir e tirar suas próprias conclusões. Personagem esquisito, não acha? O criador ou a criatura? «Não falo de amor, morte ou pecado / O lance é furado sem compreensão / Só afirmo que um dia volto à pediatria / E esfolo o doutor que cortou meu cordão» (trecho de As pessoas da Festa, da primeira demo). O caso é inquietantemente grave! Outras formas de conhecê-lo: Fotolog: www.fotolog.net/zackariasnepo blog para o qual o Zacka escreve: Número de frases: 35 http://www.facadaleitemoca.blogger.com.br Em um pequeno. distrito no interior de Minas Gerais acontece uma das maiores raves do país. O evento, que atrai milhares de pessoas da cidade grande, coloca em contato dois mundos bem diferentes. Fazenda da Cachoeira Alta, interiorzão de Minas Gerais. Mais precisamente, nos arredores do município de Itabira. Mais precisamente ainda, no pequeno distrito de Ipoema. É lá que, uma vez por ano, os três mil e poucos habitantes da pacata cidadezinha se deparam com o barulho das batidas eletrônicas de uma grande festa. Um cenário que conserva o estilo de vida bucólico é o palco da Cachoeira Alta Dance Festival que, nos últimos dias 7, 8, 9 e 10 de junho, teve a sua quarta edição realizada. Durante esses dias, a pequena cidade viu a sua população quase dobrar. Atrás de diversos djs nacionais e estrangeiros, os mais de dois mil jovens das principais capitais brasileiras esgotaram os ingressos do festival. O cenário, a cachoeira do Macuco -- como a queda de mais de 100 metros é conhecida localmente -- foi escolhida por os organizadores por o fato de que lá era realizada anteriormente a maior rave simultânea do mundo: a Earth Dance. Mesmo que já tenham se passado vinte anos desde que a primeira rave foi realizada em Manchester, na Inglaterra, nenhum habitante de Ipoema tinha ouvido falar até pouco tempo atrás de uma festa como essa. É verdade que nessas últimas duas décadas muita coisa mudou na cultura da música eletrônica. Já não são as mesmas músicas que os djs tocam, para quem eles tocam e com qual objetivo. Mas uma coisa é certa: esse tipo de evento ainda tem a capacidade de atrair milhares de pessoas para celebrar por alguns dias o som dos bpms acelerados. Além da óbvia preocupação dos organizadores da festa em preservar o meio ambiente e seguir as regras da área de proteção ambiental à qual a cachoeira pertence, há outro tipo impacto específico a ser considerado. Dois mundos que (quase) se encontram O choque cultural entre duas realidades tão diferentes fica claro durante o evento. O encontro da cultura mutante da música eletrônica com a vida do interior que pouco mudou nas últimas décadas não poderia deixar de levantar discussões interessantes. Andando por a pequena Ipoema durante os dias do festival é possível perceber como o cotidiano se torna mais acelerado e como que muitas vezes, surpreendentemente, os ipoemenses se acostumaram com aquele movimento incomum. Em o bar do Renato -- que antes era um trailer de sanduíche, mas que teve que se adaptar ao senso estético da Estrada Real -- é possível ver como algumas facetas da cultura urbana foram assimiladas. Apesar do chapéu de boiadeiro dos freqüentadores, o bate-estaca foi integrado à trilha sonora do bar que fica localizado na praça principal de Ipoema. Para Renato, a Cachoeira Alta Dance Festival é sinal, principalmente, de melhoria nos negócios. «Todo mundo sai ganhando. Os bares, as mercearias e as pousadas. É a segunda melhor festa da região, perde apenas para o aniversário do Museu do Tropeiro», conta. Em relação ao convívio entre os moradores e o público da festa, Renato afirma que, apesar de não haver nenhum problema, o mais comum é as pessoas transitarem diretamente entre as pousadas e o local da rave. Márcio Labruna, turismólogo, afirma que são claras as marcas que uma cultura deixa na outra, apesar do contato entre os freqüentadores da festa e os moradores da região ser mínimo. Com o ingresso mais barato custando R$ 160, praticamente toda a população do pequeno distrito é deixada do lado de fora. Mas para quem conhece o caminho da roça, há sempre uma solução. Os jovens ipoemenses, cada vez mais interessados na música que veio de fora, utilizam os seus conhecimentos da geografia da região para secretamente entrarem na festa. «É bastante perceptível a total falta de relação do evento com o distrito. Pode-se dizer que o que se encontra em Ipoema é a chamada construção do ' não lugar ', pois a rave poderia estar instalada em qualquer lugar do planeta, independente das características locais», afirma o turismólogo. A própria natureza de remixar e misturar da música eletrônica não parece ser aplicada nesse caso. Em a opinião de Labruna, enquanto a festa gera curiosidade para alguns moradores -- principalmente nos adolescentes -- para outros o sentimento é de receio e desprezo, que se sentem indignados por estarem excluídos. Tem a mesma opinião Werner Amann, fazendeiro local. Para ele, apesar da festa trazer visibilidade para a região, ela não tem nenhuma identificação com Ipoema e não acrescenta nada ao distrito. Em a sua opinião, os únicos que ganham são organizadores, o proprietário da Cachoeira Alta e algumas fazendas ao redor que são alugadas por os participantes. Por outro lado, os organizadores já demonstraram que tentam amenizar o barulho que causam nas tradições locais. Durante o evento são várias as faixas espalhadas para conscientizar os visitantes em relação ao ambiente natural e cultural. Até 2005 a festa era realizada durante a Semana Santa. Tendo em vista que essa é uma data de comemorações especiais para a população local, por pressão da comunidade de Ipoema, as edições seguintes não aconteceram mais durante o feriado religioso. Em 2007, a festa aconteceu no feriado de Corpus Christi, na semana passada, e será essa a data oficial para os próximos anos. Embora esse seja também um feriado cristão, essa é uma data que interessa aos organizadores por estar fora da estação das chuvas. Mais fotos da festa. Número de frases: 48 Mais fotos das faixas. O Festival de Música de Itajaí chega a sua 10ª edição. De 1 a 9 de setembro, grandes nomes da música fazem de Itajaí, Santa Catarina, a Praia da MPB. Beth Carvalho, Quatro a Zero (Choro), Banda de Boca (Grupo Vocal), Arthur Maia e Banda (Instrumental), Zezé Motta, João Donato, Gal Costa, Demônios da Garoa e Elba Ramalho compõem a Mostra Nacional do 10º Festival de Música de Itajaí. Mas o que faz o Festival de Música de Itajaí ser considerado como um dos principais festivais do país no seu formato é o fato de ele proporcionar ao público a oportunidade de assistir a grandes espetáculos musicais e aos músicos um espaço para a formação na área, através das Oficinas de MPB. Reconhecidas nacionalmente como um dos maiores pontos de encontro entre músicos de todo o país, as Oficinas de MPB do Festival de Música de Itajaí, são responsáveis por impulsionar ou até redirecionar a carreira dos participantes. Este ano, serão oferecidos 24 Cursos (Oficinas e Workshops), ministrados por músicos considerados mestres em suas áreas como: Alessandro Kramer (RS) -- Acordeom; André Neiva (RJ) -- Contrabaixo; Arismar do Espírito Santo (SP) -- Oficina de Prática de Conjunto; Cláudio Infante (RJ) -- Bateria; Conrado Paulino (SP) -- Violão Popular, e Harmonia Funcional Moderna; Consiglia Latorre (SP) -- Canto e repertório do Canto Popular; Daniel Sá (RS) -- Violão e Guitarra; Dinho Gonçalves (SP) -- Oficina de Percussão; François de Lima (SP) -- Sopros; Mario Sève (RJ) -- Choro; e Sandra Kisson (SP) -- Teclado e Tecnologia. De os nove shows do Festival, cinco serão gratuitos, sendo que dois destes serão em locais que comportam grande número de público: Beth Carvalho faz a abertura na Beira Rio e Elba Ramalho encerra a Mostra Nacional no Bairro Cordeiros. Outro aspecto importante é a valorização dos músicos locais nas aberturas dos shows nacionais. Itajaí tem músicos muito talentosos, que merecem este espaço para dar visibilidade aos seus trabalhos. Durante nove dias a música toma conta dos palcos, ruas e praças da cidade. Além dos Shows Nacionais e Oficinas de MPB, o Festival conta com vários eventos paralelos. Em a Hora da Sineta, espaço destinado para apresentação dos alunos, o público pode conferir, na prática, o que está sendo ministrado nas Oficinas e os estudantes podem trocar experiências e conhecer o trabalho uns dos outros. Após os Shows Nacionais, alunos, professores e músicos da Mostra Nacional fazem da improvisação um show à parte na Jam Session e na Roda de Choro. Resultado da importância do Festival de Música de Itajaí foi a criação do Conservatório de Música Popular Cidade de Itajaí, fruto da necessidade de uma formação musical continuada. Em uma parceira da Fundação Cultural de Itajaí com a Unicamp, o Conservatório oferece, desde fevereiro de 2007, um curso de caráter técnico, com duração de três anos, gratuito aos alunos. Realizado por a Prefeitura de Itajaí, através da Fundação Cultural, com apoio do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Esporte, o 10º Festival de Música de Itajaí é a oportunidade do público prestigiar os grandes compositores e intérpretes da MPB e conhecer os novos talentos da nossa música. Mais informações no site: www.fundacaoculturaldeitajai.com.br ou por o telefone (47) 3348-3610. 10º Festival De Música De ITAJAÍ Shows de 1 a 9 de Setembro de 2007 01/09 -- Sábado Beth Carvalho (Entrada franca) Local: Av.. Beira Rio (Praça Miranda Lins) -- Horário: 21h00 02/09 -- Domingo Quatro a Zero (Entrada franca) Abertura: Siriguidum Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 03/09 -- Segunda-feira Banda de Boca (Entrada franca) Abertura: Iê do Pandeiro Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 04/09 -- Terça-feira Arthur Maia e Banda (Entrada franca) Abertura: Samburá Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 05/09 -- Quarta-feira Zezé Motta * Abertura: Keila Araújo e Banda Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 06/09 -- Quinta-feira João Donato * Abertura: Evandro Hasse e Banda Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 07/09 -- Sexta-feira Gal Costa * Abertura: Giana Cervi e Daniel Montero Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 08/09 -- Sábado Demônios da Garoa * Abertura: Marcus Galvão Local: Teatro Municipal de Itajaí Horário: 21h00 09/09 -- Domingo Elba Ramalho (Entrada franca) Abertura: Luiz Vicentini Local: Bairro Cordeiros Horário: 21h00 * Ingressos à venda a partir de 27 de agosto nos seguintes locais: Casa da Cultura Dide Brandão -- fones (47) 3349-1665 / 3344-3895 Teatro Municipal de Itajaí -- fone (47) 3349-6447 Valor dos ingressos: R$ 30,00 -- R$ 15,00 (meia entrada) Os ingressos dos Shows com Entrada Franca, no Teatro Municipal, também deverão ser retirados nas bilheterias. Número de frases: 74 Música tem sexo? Tem preferência ou orientação sexual? A cantora carioca Leila Maria garante que tem. E não só tem como resolveu sair do armário (a música gay, é bom explicar). Depois de conquistar o público GLS do País em 1997 com Bom é Beijar, na qual desfila, cheia de suingue, versos como «Bom é beijar, não importa se é cavalheiro ou dama», a cantora foi mais longe e reuniu no CD Canções do Amor de Iguais 13 faixas que de alguma forma se relacionam com o universo gay, de autores tão diversos como Roberto & Erasmo, k. d. lang, Johnny Alf, Cole Porter e Marina Lima. Voltando aos rótulos: música tem sexo? Sinceramente acredito que não. Uma canção de amor embala qualquer tipo de romance, independente da orientação sexual do casal que a está ouvindo ou que a elegeu «sua música». Um ' amor de iguais ` tem os mesmos prazeres e desprazeres de um entre os chamados ' normais '. Tudo bem que existam cantores e compositores declaradamente gays e que têm nos gays um público para lá de fiel. Pensando assim, fica difícil classificar Canções de Amor de Iguais. Pode ser um disco oportunista ou mesmo a tentativa de Leila Maria de ganhar um público mais amplo, muito além dos apreciadores da sua veia jazzística que a levou a gravar Off Key, leituras jazzísticas de clássicos da bossa nova como Dindi e Desafinado e com os standards norte-americano como A Day In a Life of a Fool. Independentemente dos motivos que levaram Leila Maria a gravar Canções de Amor de Iguais, o disco é uma grande sacada e o fato mais relevante é justamente reunir belas canções de amor que, agrupadas nesse conceito, possam chamar a atenção para a discriminação sofrida por homossexuais. Pelo menos é assim que pensa a artista. Com arranjos pop, mas sem grandes vôos ou ousadia, o disco de Leila Maria foi produzido por o baixista Dunga a partir de uma idéia original do jornalista Antônio Carlos Miguel (O Globo). O repertório foi escolhido levando-se em conta três critérios: o fato das canções terem sido adotadas por o público gay, a orientação dos cantores e compositores ou a temática das letras. A única canção de letra explicitamente homossexual do álbum é Mar e lua, de Chico Buarque, que fala do amor entre duas mulheres." Amaram o amor proibido / Pois hoje é sabido / Todo mundo conta / Que uma andava tonta / Grávida de lua / E a outra andava nua / Ávida de mar», canta a artista. Em as outras canções do CD o amor entre iguais está nas estrelinhas, metáforas e interpretações, como Ilusão à-toa de Johnny Alf." É o amor que eu trago há muito dentro de mim / Bem dentro de mim ...», diz o versos da música. Já Um Certo Alguém, de Lulu Santos/Ronaldo Bastos é mais sutil ainda: " Quando um certo alguém / Desperta o sentimento / É melhor não resistir». Outras composições vêm de artistas assumidamente homossexuais, mas os versos de Se Você Voltar, assinados por Ângela Ro Ro não são abertamente gays." Quem é forte e nega seu próprio amor / É tão fraco que não suporta a dor / É melhor se perder pra depois reviver / Todo um bem ...». Mapa-múndi, de Marina Lima, destaca os versos: «Estranha, essa noite / Nenhuma estrela / Só ela / Senti-la tanto que dói / Ela que foi a minha trilha / Ela, não minto nem resisto». As duas canções ganharam novos sentidos e reinterpretações. Gatas Extraordinárias, oferenda de Caetano Veloso a Cássia Eller não compromete o disco de Leila Maria. Mas Cássia é Cássia. O repertório nacional tem ainda Seu Tipo, que Eduardo Dusek compôs com Luiz Carlos Góes. A música, clássico marcado por a ótima voz de Ney Matogrosso ganha interpretação especialíssima de Leila quando ela desfila os versos: " Coloca aquele vestido / Vê se não brinca / Com minha libido / Me beija no ouvido / Nada faz sentido / Tudo arde ...». A surpresa do disco fica por conta da inclusão de Você Vai Ser Meu Escândalo, do conservador Roberto Carlos que já declarou publicamente que não gosta de dar autorização para regravarem suas composições. A música, feita em parceria com Erasmo Carlos, naturalmente, foi gravada originalmente por Wanderléa, em 1968. E tem uma letra-desabafo: «Até quando vamos ter/Que esconder nosso amor». Canções de Amor de Iguais tem ainda um repertório internacional, com músicas que explicam a militância de seus autores e intérpretes. A melhor de elas é Sexuality, da engajadíssima canadense k. d. lang, que tem versos como: " Come on come one / Kiss away the ones who say / The lust you feel is wrong». Nature Boy, que Éden Ahbez escreveu no fim dos anos 40, gravada primeiramente por Nat King Cole, não tem nada explícito, mas é considerada por muita gente como uma das primeiras canções gay. O fato de ser um estranho e encantador garoto que acredita que a coisa melhor do mundo é amar e ser amado não torna ninguém gay. Diz a letra: " There was a boy / A very strange enchanted boy / This he said to me / The greatest things you ' ll ever learn / Is just to love and be loved in return». «Pessoas ... / Você nunca pode mudar seus sentimentos / Melhor deixá-las fazer o que elas quiserem / Pois elas farão / Se você deixá-las roubar seu coração», diz a música Kissing a Fool, de George Michael, outro artista assumidamente gay que, na canção, aconselha as pessoas a ouvirem seus corações para ter paz de espírito." But youll never find / Peace of mind / Til you listen to your heart». Vale lembrar que Kissing A Fool foi gravada por o cantor antes mesmo de ele sair do armário. Leila Maria a interpreta em clima jazzístico. Outro clássico presente no disco é Lush Life que, com sua bela música e letra genial, é considerada a mais coleporteriana das canções de Billy Strayhorn. O registro definitivo é de John Coltrane, mas também foi gravada por Donna Summer, outro ícone da cultura gay. Cole Porter. Ah! Cole Porter não poderia faltar num disco onde a música sai abertamente do armário. E Leila Maria escolheu All of You, que tem uma das letras mais sutis do disco. Mas Porter era gay e na primeira metade do século passado as canções que ele fez para seus amantes viraram sucesso em musicais. All of You foi uma de elas. «I love the look (s) of you, (and) the lure of you / The sweet of you, and the pure of you / The eyes, the arms, and the (that) mouth of you / The east, west, north, and the (that) south of you." Por letras como as da música de Cole Porter, não dá pra classificar simplesmente Canções de Amor de Iguais como um CD GLS. É melhor defini-lo como um disco de amor como outro qualquer, cheio de cenas que podem ser protagonizadas por ele e ela, ela e ela ou ele e ele. O repertório, antes sim, forma um panorama de romantismo que cai bem em qualquer relacionamento. As relações entre iguais do título vão tirar a cantora do nicho do jazzístico e levá-la para um público mais amplo, graças a levada mais pop do CD, que mostra Leila Maria, uma ótima intérprete de jazz, bem à vontade. Disco: Canções do Amor de Iguais Artista: Leila Maria Produção: Dunga Gravadora: Deckdisc Número de frases: 70 Preço: R$ 21,90 A Gramática ou a Língua: Novas Perspectivas Para O Ensino Escolar A o observarmos os professores de Língua Portuguesa, a respeito do que eles ensinam em suas aulas, é comum verificarmos que a maioria de eles não percebem a diferença entre o ensino de gramática e o ensino de língua. Muitas vezes esperam alcançar o mesmo objetivo com o ensino da língua materna e o da gramática da mesma.. Em esse sentido, o autor Celso Pedro Luft se preocupa com o modo com que a língua materna vem sendo ensinada nas escolas e em sua obra Língua e Liberdade, composta de artigos escritos para jornais em diferentes épocas, o autor liga o conceito de língua e de liberdade com interesse de aplicá-lo ao ensino da língua materna. O autor sente uma necessidade urgente de mudar totalmente as aulas de Português que concentram se em aulas de gramática. Para Luft é responsabilidade do educador ver os aprendizes como pessoas que já sabem a sua língua, pois possuem fluência em ela. É claro que o ensino da língua materna necessita ser reformulado, pois ensinar a língua que o aluno já sabe ao entrar na escola é inútil. O ensino deve ir aumentando a capacidade comunicativa dos aprendizes, trabalhar com a língua de forma que esse trabalho ajude os mesmos irem melhorando o uso que fazem da língua através da fala e da escrita, utilizando as dificuldades que os alunos possuem em relação a língua para desenvolverem seus trabalhos, pois trabalhar com os erros dos alunos é fundamental. Um profissional em educação precisa saber que o importante não é o aluno interpretar frases nem tampouco julga lás e sim preparar seus alunos para usarem a escrita sem embaraço em suas vidas. «Penso ser urgentíssimo promover uma mudança radical em nossas «aulas de Português», ou como quer que as chamem: passando de uma postura normativa, purista alienada, à visão do aluno como alguém que já sabe a sua língua pois a maneja com naturalidade muito antes de ir a escola, mas precisa apenas liberar mais suas capacidades nesse campo, aprender a ler e escrever ser exposto a excelentes modelos de língua escrita e oral, e fazer tudo isso com prazer e segurança, sem medo». ( LUFT, s / a, p. 12). A língua ao contrário da gramática, que segundo (FRANCHI, apud TRAVAGLIA, 2002) " ( ...) é o conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever, estabelecidas por os especialistas, com base no uso da língua consagrada por os bons escritores " não deve ser vista como um conjunto de regras, que se utiliza para uma boa fala e escrita. Jamais os educadores podem exigir que o aprendiz fale somente, segundo as exigências da gramática tradicionalista. Para se comunicar de um modo claro, um falante não precisa memorizar regras de linguagem.A gramática da língua é dinâmica esta sempre viva ser um bom aluno nas aulas de língua portuguesa que predominantemente são baseadas no ensino de gramática e que no entanto deveriam ser baseadas na leitura, produção de texto, interpretação de textos e comentários não garante um bom domínio da língua. A boa comunicação de um falante depende da gramática natural interior que é implícita, pode ser considerada um conjunto de regras que os falantes internalizam com o tempo através do que escutam e falam, nenhuma frase é construída sem essa gramática. Já a gramática explicita é transmitida por a escola e por os livros de gramática. Segundo Chomsky e seus discípulos a gramática é: «Sistema finito de regras que gera frases infinitas-nada mais e nada menos que todas as frases bem-formadas da língua-, prove as respectivas descrições estruturais, bem como as relações entre som (representação fonética) e significado (interpretação semântica)». ( apud LUFT, s / a, 34). Cada tipo de gramática possue uma concepção diferente de língua e no livro «Por que (não) ensinar gramática na escola» de Sírio Possenti, mostra três definições de gramática, que trás três concepções distintas de língua. A gramática vista como um conjunto de regras é dividida em: gramáticas normativas, gramáticas descritivas e gramáticas internalizadas. Segundo POSSENTI (1996) Gramática normativa é: " ( ...) conjunto de regras que devem ser seguidas, com o objetivo de falar e escrever corretamente. Um exemplo de regra desse tipo é o que diz que o verbo deve concordar com o sujeito». Sobre esse mesmo assunto TRAVAGLIA (2002) afirma que: «gramática normativa é aquela que estuda apenas os fatos da língua padrão, da norma culta de uma língua. Essa gramática é uma espécie de lei que regula o uso da língua numa sociedade». A gramática normativa é observada e produzidas por pessoas cultas, de prestígio e essa variante da língua costuma chamar-se de «norma culta»,» variante padrão «ou» dialeto padrão». Algumas pessoas acreditam que a norma culta é a própria língua. Existem muitos preconceitos lingüísticos e as pessoas que não falam de acordo com a norma culta são descriminadas deixadas a margem da sociedade consideradas menos inteligentes que as pessoas que dominam a norma culta da língua materna. Ainda o autor POSSENTI (1996) define a gramática descritiva como: " ( ...) gramática descritiva, é definida como um conjunto de regras que são seguidas, é que orienta o trabalho dos lingüistas, cuja preocupação é descrever ou explicar as línguas como elas são faladas». Em esse trabalho a principal preocupação é tornar conhecida, as regras utilizadas por os falantes. TRAVAGLIA (2002) tem a seguinte definição de gramática descritiva: «a gramática descritiva é a que descreve e registra para uma determinada variedade da língua, um dado momento de sua existência (portanto numa abordagem sincrônica)». Segundo Luft a gramática Internalizada por os falantes, surge na mente do mesmo quando ele ainda é uma mais ou menos aos três anos, por volta dos quatro, cinco ou seis anos o falante pode falar sem embaraço e já é um adulto lingüístico. A gramática internalizada ou natural é a verdadeira gramática da língua é de ela que se origina as gramáticas dos livros. A gramática internalizada por os falantes é completa através de ela os que nunca foram a escola e são analfabetos se comunicam perfeitamente por meio da língua. Essa gramática está relacionada diretamente com os conhecimentos internos dos falantes. Travaglia: acrescenta que: «na verdade é essa gramática que é objeto de estudo dos outros dois tipos de gramática, sobretudo da descritiva». Tendo esta definição de gramática podemos afirmar que a língua é o modo como o falante se comunica em sociedade, no seu dia-a-dia, não se preocupando com as diversas regras da língua, utilizando apenas as informações que internalizou.. Segundo Possenti (1996): «o modo de conseguir na escola a eficácia obtida nas casas e nas ruas é imitar da forma mais próxima possível, as atividades lingüísticas da vida. Em a vida, na rua, nas casas, o que se faz e falar e ouvir. Em a escola as práticas mais relevantes serão, portanto, escrever e ler». Já Possenti apresenta a concepção de gramática, internalizada, sendo um conjunto de regras dominadas por o falante. Diz respeito as hipóteses que as crianças ainda muito cedo utilizam em suas mentes para produzir frases ou seqüências de palavras, de um modo que essas seqüências e frases sejam entendidas e observadas como pertencendo a uma língua. Para Perine: «A gramática internalizada ou competência lingüística internalizada do falante é o próprio «mecanismo», o conjunto de regras que é dominado por os falantes e que lhes permite o uso normal da língua. ( apud TRAVAGLIA, 2002). A gramática natural da língua e um sistema de regras para a fala flexível, as pessoas podem variar a fala dependendo da situação e do lugar em que estão, todavia a língua varia dependendo da classe social, da idade, do nível escolar, da região etc. por isso não existe uma língua certa, o que existe são variações lingüísticas, porem os tradicionalistas só aceitam a norma culta e para eles todas as outras variedades são equivocadas. A aquisição da linguagem por a criança é inconsciente, ela faz uma verificação de hipóteses, do que ouve e as falhas são apagadas e as hipóteses corretas são arquivadas em sua mente. A partir da gramática internalizada na criança ela esta apta para falar e construir frases. «construída a teoria a criança «sabe» o que é frase, oração, coordenação, subordinação -- pois constrói frases simples, compostas e complexas. «sabe «o que é sujeito, verbo e concordância, visto que usa formas verbais flexionadas segundo as categorias de pessoa e numero». ( LUFT, s / a, p. 38). A teoria do Inatismo afirma que todo ser humano nasce provido por uma gramática universal e possui uma propensão inata para a linguagem, essa gramática que o individuo possui ao nascer é a base de qualquer língua materna. para Chomsky o ser humano é programado para falar e mesmo compartilhando a língua com sua comunidade, para ele cada individuo cria sua teoria gramatical e nenhum falante domina a teoria gramatical completa da língua apenas de seu grupo ou região. Toda criança em estado físico, social e mental saudável é capaz de retirar as regras gramaticais das frases que ouve e mais tarde construir frases que nunca ouviram. «Alguns explicam a aquisição da linguagem como um processo estimulo resposta, imitação e analogia (behaviorismo), outros a atribuem vagamente as capacidades cognitivas ou alguma capacidade cognitiva particular da espécie humana. Chomsky, quer me parecer, nada mais fez do que ver nessa capacidade especifica, inata, a linguagem ou " faculdade lingüística, faculdade de comunicação verbal." ( LUFT, s / a, p. 75.) A maioria das crianças não sabem ler nem escrever quando vão para a escola e por isso observa-se que os professores tradicionalistas acreditam ter a função de ensinar a língua materna a seus discípulos, pois pensam que os mesmos não sabem sua língua, após a alfabetização dos alunos esses professores centram suas aulas no ensino de gramática, não levando em consideração que todo falante sabe sua própria língua e apenas precisa pratica lá. A o saber a língua materna, a criança demonstra ter construído em sua mente teorias gramaticais, conjuga verbos, faz concordância e estrutura frases. Possenti (1996) afirma: «o papel da escola é ensinar língua padrão, isto é, criar condições para seu uso efetivo». A partir desta afirmação pensando sobre o processo de aquisição da linguagem e observando que ele ocorre de uma maneira natural e que a criança aprende com o que ouve e imitando o que subtrai do ambiente que a rodeia, faz se fundamental a escola estar cercada de bons professores que consigam transmitir a seus alunos a possibilidade de saberem utilizar as diversas variedades lingüísticas nos meios mais apropriados da sociedade. O ensino de gramática como esta sendo realizado hoje é um equivoco, não cria bons escritores ou leitores, só se forma bons escritores e leitores através de muita leitura. Qualquer um com talento para escrever só necessita praticar a escrita e ser um bom leitor. Segundo Possenti: «Ler e escrever são trabalhos essências ( ...). Mas, não são exercícios eventuais, apenas para a avaliação, certamente sua contribuição para o domínio da escrita será praticamente nula». O educador deve ter em mente que quando o aluno redige um texto pela primeira vez, ele sempre precisara ser rescrito com o devido auxilio do profissional. A o observarmos os jornalistas percebemos que escrevem sobre coisas que acontecem, depois eles lêem, relêem e reescrevem o trabalho até que o mesmo atinja um bom nível, desse modo acontece na escola também, no momento de redigir um texto é excelente que os aprendizes interajam-se com os demais alunos da sala de aula e com seus educadores. É importante que os professores tenham consciência daquilo que os alunos já sabem, verificando os cadernos e em conseqüência os trabalhos realizados na serie anterior, conversar também com os antigos professores de seus alunos, assim o educador não trabalhara com conteúdos que seus alunos já estudaram no ano anterior e já sabem. É fundamental que o educador elabore uma lista de tarefas a serem aplicadas e dividi-las por séries, conforme o grau de dificuldade dos mesmos, sendo esta lista elaborada a partir do levantamento que o educador, fez sobre o que o aprendiz já estudou. Os tópicos mais urgentes deverão ser trabalhados logo, e os mais complexos ser deixadas para séries posteriores e mais avançadas. O escritor Luis Fernando Veríssimo afirma que sempre foi péssimo aluno de português, como também outros escritores famosos também afirmaram, Veríssimo mesmo não tendo um conhecimento gramatical amplo é sem duvida um brilhante escritor e numa de suas crônicas, O gigolô das Palavras, ele fala como é sua relação com as palavras e se compara com um gigolô, ele acredita viver as custas das palavras e explora las. «Sou um gigolô das palavras. Vivo as suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso de elas. Só uso as que conheço, as desconhecidas são perigosas potencialmente traiçoeiras. exijo submissão. ( ...) e jamais me deixo dominar por elas». ( apud LUFT, p. 25) Vários estudiosos vem lutando para modificar o ensino de língua materna aqui no Brasil, mas para que isto ocorra os professores de língua portuguesa teriam que ter um conhecimento lingüístico e suas aulas estarem em consonância com a realidade do país e dos alunos. Uma remuneração justa que permita o professore estar sempre fazendo cursos e se atualizando ajudaria ao crescimento intelectual dos mesmos e em conseqüência a aquisição de uma visão inovadora sobre o ensino de gramática na escola que não pode de forma alguma ser centrado na gramática tradicionalista que tem sido atualmente. Ainda Luft afirmar que o ensino de gramática pode ser prejudicial, pois ensina apenas regras, que analisadas parecem ser confusas, como por exemplo a definição de verbo nos livros didáticos " são palavras que encerram idéia de ação ou estado. Portanto, leitura e cansaço são ... verbos!" (LUFT, s / a, p. 89). As aulas de língua portuguesa como estão sendo elaboradas atualmente, tendo em vista apenas a gramática normalista e a norma culta da língua, acabam transmitindo aos alunos a falsa impressão que todos falamos errado, o ensino tradicionalista em vez de formar indivíduos seguros em falar a própria língua, forma indivíduos com medo de usar sua língua materna de um modo errôneo e serem ridicularizados por isto. Até mesmo nas universidades por causa do péssimo ensino de língua portuguesa que tiveram, existem acadêmicos enfrentando sérios problemas em redigir um texto, possuem uma sintaxe confusa e não conseguem desenvolver bem o raciocínio. É necessário que as entidades de ensino possibilite o uso de acontecimentos do cotidiano dos aprendizes, para que estes escrevam tomando como ponto de partida os fatos, que são relevantes no seu dia ou seja em suas vidas. A elaboração de um texto por o aluno não deve acabar levando-o a ser humilhado por causa dos erros que irremediavelmente todos acabam cometendo, mas sim ser estimulado a reescrever o trabalho assim como os escritores e jornalistas fazem em seu cotidiano. Possenti elabora um «método» para que o ensino de língua materna tenha mais sucesso, para ele: «O que já é sabido não precisa ser ensinado». Para Luft a salvação para a péssima situação em que se encontra o ensino da língua materna não esta na Lingüística, para ele um ensino com sérios problemas não torna se eficiente com a mudança de uma teoria.O ensino de língua materna precisa de praticas e não de teorias e ainda o melhor lugar para a Lingüística é os cursos de graduação e pós-gradua ção. É fundamental que os professores saibam que a língua é viva e que ele deve estar sempre pesquisando, aplicando novas idéias não sendo comodista e centrado no ensino gramaticalista. Muito tem se discutido o ensino de gramática nos meios educativos. Alguns educadores defendem o uso da gramática normativa outros defendem que os professores devem partir dos conhecimentos a respeito da língua que os alunos trazem quando chegam a escola, mais uma coisa se sabe as aulas de Português como tem sido realizadas até hoje são um fracasso, pois os alunos vêem e revêem os mesmos conteúdos gramaticais, durante todo o tempo que passam na escola, mas não adquirem conhecimento sobre a gramática. É muito difícil saber qual dos lados é o correto a se seguir centra-se no ensino da gramática normativa ou da língua, pois cada um tem um objetivo diferente cabe ao professor fazer a si mesmo perguntas como: Por que ensinar determinado conteúdo? Podemos usar os diversos tipos de gramática no ensino nas escolas, entretanto devemos ter bem claros os objetivos que pretendemos atingir. E que também o ensino centrado apenas na norma culta da língua, baseia-se num pensamento preconceituoso, em relação aos dialetos que são realmente usados por os aprendizes, isso não significa que devemos afirmar que o ensino da norma padrão da língua estabelecida por a classe dominante nas escolas é um erro, mas sim que este ensino deve ser ensinado em consonância com o dialeto que os alunos utilizam em seu meio social, assim as diferentes classes sociais teriam conhecimento das normas populares e da padrão da língua. O educador deve ter em mente que o ensino de língua materna, nada mais é que o ensino de linguagem, um ensino que formara indivíduos seguros em expressar suas idéias seja na forma oral ou escrita, um ensino que privilegie somente a escrita ou a forma oral da língua materna seria um erro terrível. Referências Bibliográficas LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. 8. ed. Rio grande do sul: Editora Ática, s / a. POSSENTI, S. Por Que (não) Ensinar Gramática na Escola. São Paulo: Mundo de Letras, 1996. TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2002. Número de frases: 126 Festival Calango 2006. Um certo rock-star-não-músico me faz uma solicitação. «Ja tem um tempo que tá rolando na Zap ' n ' Roll um histórico com cenas das cidades. Cuiabá é a próxima. E aí? Rola?" Em a ocasião, a resposta foi negativa devido ao pós-festival e inúmeras viagens na agenda do Macaco Bong, banda da qual este que vos fala fazia parte à época. Finatti então, insatisfeito, manteve a cara de «me aguarde». Passaram-se alguns meses quando Mister Finas novamente fez a solicitação. E cá estamos. Bom, evidente que o que aí está não é um compêndio da história do rock cuiabano, o que seria impossível sem que houvesse um trabalho historiográfico mais completo. Mas uma breve contextualizada de um processo que aconteceu de forma rápida e intensa (principalmente dos anos 90 pra cá), e hoje é vivida e trabalhada com afinco; e claro, com a mesma rapidez e intensidade. O que rola é que lá por meados dos anos 80 já acontecia uma certa movimentação na cidade que ainda nem sonhava em ser conhecida como Hell City. Segundo um (sobre) vivente da época, «Cuiabá era ponto de muitos encontros e rupturas, importantes para a preparação de um terreno fértil onde antevíamos o surgimento luminar de novas cabeças no decorrer dessa trama caótica» (Eduardo Ferreira, em texto no Overmundo). Ali começava um processo onde os artistas, fomentadores e agentes culturais peitavam iniciar suas próprias produções e já buscavam se envolver com a política cultural. O próprio Eduardo Ferreira foi conselheiro estadual de cultura. O plano político da época era que os conselheiros convocados por o então governador Dante de Oliveira ficassem apenas um ano e convocassem eleições para novos conselheiros, o que não ocorreu. Rebelado da situação, Ferreira foi exonerado do cargo. Expulso mesmo. Já nos anos 90, o que se viu em Cuiabá foi uma pequena movimentação (pequena mesmo). Havia lá suas bandas, seus lançamentos de CDs. Mas acabava que, por falta de um projeto (ou de uns projetos) mais abrangente (s), essa produção cultural se via ilhada e as bandas simplesmente não saíam daqui. E se saíam, quase ninguém ficava sabendo. Acho que pouco se pode ressaltar do rock dos anos 90 em Cuiabá, além das conquistas da Strauss. Formada a partir de amigos que se conheceram no convívio de uma escola particular, a banda conquistou o público rocker cuiabano por misturar o rock com o rasqueado, estilo de música regional do Mato Grosso. CDs lançados, sucesso de púbico, clipe na MTV (quando muito de madrugada e no «Teleguiado» do Cazé, com o pedido de algum cuiabano), a Strauss foi também vencedora de um Skol Rock, na categoria de votação por júri popular. Aí pronto, levantou-se um teto até então inexistente para as bandas cuiabanas. E parecia que jamais alguma banda iria passar daquilo. Clipe na MTV, aparições no Jornal Hoje e no Vídeo Show, e o Skol Rock. Campeões! Talvez o teto criado com o feito tenha viciado os músicos cuiabanos a não acreditar que, através do independente, iríamos sim além daquilo. Em a época (1996, mais ou menos), a cidade foi tomada por bandas de baile e de circuito de bar. Ou seja, covers e mais covers, por qualquer lugar onde você passasse. Bandas autorais três, quatro. e Nesse meio tempo, o pessoal dos 80 se metia em produções autorais sim (!), porém, ainda sem os fortes alicerces que surgiriam no início da década seguinte. Havia shows com bandas que ainda são eternas na cabeça de alguns, como GTW, BR364, Nidhog, e o Caximir, que existe até hoje e marca presença no Calango já há dois anos consecutivos. Muitas dessas bandas, obviamente, tinham os mesmos integrantes, como em todo princípio de cena numa cidade. Mas não convém enumerá-los. Encerro essa parte por aqui. Volto com o texto em breve, entrando já em 2002. Número de frases: 41 Até lá!! A o decidir ambientar sua novela para o horário das 21h em Copacabana, a dupla Gilberto Braga e Ricardo Linhares optou por abordar um tema que acontece nas ruas do bairro carioca. Em uma das muitas tentativas da TV Globo de fazer «a arte imitar a vida», Paraíso tropical colocou como um de seus focos a prática da prostituição. Após os primeiros capítulos (ambientados na Bahia) exibirem algumas cenas num bordel, as prostitutas apareceram em dois prismas quando a trama se tornou carioca. De um lado, a personagem Bebel. A atriz Camila Pitanga vive uma baiana que vai para o Rio de Janeiro atrás da promessa de ganhar muito dinheiro, mas, ao chegar à cidade, ela se vê obrigada a se submeter aos interesses do cafetão Jader, feito por Chico Diaz. De o outro, os empresários Antenor e Olavo, vividos por Tony Ramos e Wagner Moura, respectivamente, homens «insaciáveis» que, além de relacionamentos amorosos, precisam sair com algumas garotas de programa para satisfazer seus desejos. No entanto, mais uma vez um tema extremamente polêmico -- e que gerou polêmica antes mesmo da novela ir ao ar, e fez com que o título pensado por os autores (Copacabana) fosse deixado de lado por medo da cúpula global de denegrir a imagem da «Princesinha do Mar» -- promete ser abrandado em função do interesse dos espectadores. De acordo com o «grupo de discussão», as cenas de prostituição de Paraíso tropical são mal vistas por o público. Em o momento em que uma obra da teledramaturgia relata uma situação comum nas ruas de Copacabana (em especial na orla do bairro), novamente os espectadores da «vida real» reclamam de uma tentativa dos dramaturgos em tornarem a novela mais próxima do cotidiano brasileiro. E o que torna a situação mais curiosa é que a prostituta «fixa» de Paraíso tropical (a Bebel de Camila Pitanga) foge do estereótipo da prostituição brasileira por andar nas ruas de Copacabana com jóias e roupas de alta qualidade, e, principalmente, por beijar seus clientes na boca (convenciona-se dizer que prostituta " topa tudo, menos beijo na boca "). Com receio da novela sair do paraíso dos bons índices de audiência, os autores retiraram as cenas de prostituição envolvendo o personagem Antenor Cavalcanti (ele agora se envolverá com Lúcia, a mulher batalhadora vivida por Glória Pires) e deram uma nova «função» à Bebel. Em vez de precisar ir às ruas em busca de cliente, ela se tornará uma garota de programa exclusiva do vilão Olavo. Ao que parece, a Copacabana que o público quer é um paraíso até no difícil ramo da prostituição. Número de frases: 14 Coisas que só o público tropical decide colocar no ar da programação das novelas brasileiras. Com o bombardeio de informações que a vida moderna nos proporciona, criamos o péssimo costume de nos acostumar com as mazelas do mundo. Todos nós estamos cansados de saber que na África existem pessoas sem água para beber, crianças com desnutrição, com uma população contaminada por à AIDS. Sabemos também que no Iraque existem mulheres sendo estupradas, crianças torturadas, pessoas passando fome e assim consecutivamente. Estas notícias estão envolvidas com muitos outros casos tristes e revoltantes que não acontecem apenas no exterior, ocorrem bem de baixo do nosso nariz e podem estar ocorrendo agora numa favela da sua cidade, como também com o seu próprio vizinho, como já aconteceu com mim, com o assassinato do meu irmão. São histórias que ocorrem no dia a dia e que é só vivendo para sentir e infelizmente muita gente para acostumar. Escuto muita gente dizendo que os jovens, principalmente os universitários, têm uma sede de mudar o mundo, de mudar uma realidade, mas com o tempo acostumam-se com o que deveriam não acostumar. Em muitos casos não deixo de concordar com esta afirmação. Como universitária, vejo que tem muita gente querendo mudar muita coisa, mas a ação fica apenas na retórica. Em a hora mesmo de colocar a mão na massa, de enfrentar tudo e todos por uma causa, muita gente sai de fininho. O problema é que isto torna-se aceitável por algumas pessoas, uma vez que ajudar o próximo é muito difícil, toma tempo, paciência e até dinheiro. Para eles, uma pequena ação não vai valer a pena e não vai mudar o mundo. Em compensação, existem pessoas que têm a coragem de levantar as mangas, arranjar um tempo e até um dinheiro para ajudar os que mais precisam e mais, não se acostumam com as mazelas da vida alheia. Só os que põem a mão na massa vêem que podemos mudar o mundo e que as pequenas ações podem tornar-se grandes. Mudar o futuro de uma pessoa, de uma família ou comunidade é mais do que retórica, é ver a realidade de perto nua e crua, é se envolver e não acostumar com a desgraça alheia, é querer mudar o mundo todo, mesmo não tendo dinheiro nem para sair da cidade. Cada pessoa que se planta uma semente de esperança, cria um cidadão consciente que não quer se acostumar com a realidade em que vive. Este cidadão aprende a se acostumar com a paz e a esperança de um mundo melhor e uma realidade mais feliz. Devemos nos acostumar a ajudar o próximo, a nos envolver em campanhas educativas contra a violência, o desmatamento e a pobreza. Número de frases: 18 Uma ação, por menor que seja, muda o mundo e desacostuma muita gente a acostumar. Com a bandeira estropiada do rock, ele apagou as cicatrizes da fome, renegando com sangue os tapetes sedentos do show business. Depois, no enterro de sua geração, optou por a lua, e demoliu em segredo mais de mil quartos de hotel. Hoje, tão jovem e tão velho, Lobão é um bicho sem nome. Sem lua. E sem fome. Hooooowl!-- Like a rolling stone! Uma boa notícia: Lobão acaba de acordar. Outra boa notícia: Lobão não quebrou o quarto durante a madrugada. Uma terceira boa notícia: Lobão nos espera às dez ... De a manhã? «Sou um cara que dorme muito pouco, aí. Vou dormir às duas e acordo às quatro! Quatro e meia eu já tô trabalhando!" Pois bem, uma última notícia: teremos apenas alguns minutos em sua companhia, pois, como fomos informados, a «estrela» anda muito ocupada em fazer brilhar o seu último álbum, o contraditório e ameaçador «Acústico MTV». Dá nada! Nove da matina, e já estamos no bar do hotel. Entre garrafas de cerveja e um cigarro infinito na boca, espero, junto com os poetas Marcelo Noah e Diego Petrarca, por o gigante João Luís Woerdenbag Filho, que veio a Porto Alegre para uma série de intervenções midiáticas na imprensa fecal. Faz frio na província, e a ansiedade do encontro nos impele a uma acalorada discussão: o rock brasileiro, ao contrário do argentino, que «todavía sigue demoliendo hoteles», teria, de uma vez por todas, optado por a inocência e por o bom comportamento? Abrem-se as portas do elevador. Dez em ponto. Surge uma descomunal e macilenta figura, espécie de " Dom Quixote anti-tropicalista, com cara de mau e coração caolho. Erguemos os copos, e brindamos à sua «mala salud»! Lobão logo toma acento entre os convivas, engole a primeira cerveja, sem fumar, e sorri desconfiado ante o nosso nonsense. Eu inicio a entrevista: -- Lobão, ¿ nice boys don't play rock and roll? -- Cara, pra mim, garotos bons são feitos pra tocar pagode! O rock brasileiro é muito Teletubbie, aí! Olha os Los Hermanos, por exemplo: uma merda! A parada aqui no Brasil é muito suavizada, tá entendendo? A gente fala que a MPB é bunda-mole, e tal ... Mas o rock é muito mais! Tanto que a rapaziada fala por aí que eu sou meio anárquico ... Mas, porra! Eu faço apenas o que qualquer pessoa normal deveria fazer! Não faço fofoca, caralho! Só dou minhas opiniões! Mas é que no país da fofoca, ter opinião é tabu! Lobão está às gargalhadas. Afinal, como disse «Fernando Pessoa,» ter uma opinião é estar vendido a si mesmo; não ter opiniões é viver; ter todas as opiniões é ser poeta». E Lobão, definitivamente, é um poeta. Acendo outro cigarro, e «me acuerdo» do roqueiro espanhol " Joaquín Sabina: «O único compromisso do artista é trair o seu público». Lobão parece se iluminar: -- Claro! Em o disco «A vida é doce» eu tenho uma frase que é assim: «Ser traidor do seu próprio reino, ser traidor do seu próprio sexo, ser traidor do seu próprio meio». Quer dizer, eu sempre traí, tá entendendo? E isso é o que me salva! Pô, a contradição é a mãe da inteligência, cumpádi! E eu tô cagando um balde pra tudo isso! -- ¡ Caralho, Lobão! ¡ Tu fala mal do Caetano mas no fundo tu é tropicalista, cara! -- Claro que não, porra! Nunca fui! Tá me achando com cara de hippie retardatário? Puta que pariu! Odeio mulher de sovaco cabeludo e beijo na boca de quem eu não conheço! O tropicalismo é um atraso, rapá! Olha os Doces Bárbaros, em 76: todo mundo com cabelo no sovaco, pô ... E já tava rolando aquele punk ... Sex Pistols! The Clash! E os caras achando que tavam na vanguarda ... Aquilo era a retaguarda da retaguarda! Uma merda! Não consigo extrair praticamente nada do que eles falavam! Vejo que o cigarro morreu solitário entre os dedos, sem que eu desse uma só tragada. Mesmo assim, uma frase caetânica insiste em latejar na minha cabeça: «A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul». Dou uma firme puxada no filtro, e percebo que Lobão, de fato, é o cara! Afinal de contas, ele representa tudo aquilo que Vitor Ramil sempre quis ser, mas não conseguiu, devido ao excesso de caracteres: -- ¿ O que tu acha da cultura do Rio Grande do Sul? -- Cara, eu acho que o mais legal da cultura daqui é o rock and roll, pô! Bicho da Seda, Liverpool Sound, do caralho! E outra: se tem algo espetacular rolando atualmente é a Cachorro Grande! Pra mim, a Cachorro Grande faz parte do Panteon da música popular brasileira, tá entendendo? Chico Buarque, Caetano Veloso e Cachorro Grande! Eu, João Gilberto e Cachorro Grande! Caralho! Tá na hora da rapaziada promiscuir esses medalhões intocáveis! Temos que subverter essa merda de sacralização da MPB! -- ¿ E o que tu vê na Cachorro Grande como informação nova no rock? -- A performance mortal! Acho que eles fazem a performance mais mortal que eu já vi no rock brasileiro, desde os Mutantes! Chegam mais cervejas. E em meio a tanta «mortalidade», acendo outro cigarro, enquanto observo Diego Petrarca evocar a figura de Julio Barroso. Lobão vibra ao ouvir o nome de seu maior parceiro, «suicidado» misteriosamente em 84.-- Ah, grande Julião! Pô, no dia em que ele morreu, eu e o Cazuza cheiramos um puta carreirão em cima do túmulo de ele, em pleno velório, lá no Cemitério do Caju! Eu cheguei para o Barrosão, o pai, e falei: «Libera aí que a gente tem uma pequena homenagem para o garoto». Então a galera caiu fora, e a gente estendeu ali mesmo, naquele vidrinho do caixão, bem em cima da narina do Julio! -- ¿ E qual a importância do Julio pra tua formação? -- Porra! Ele é o meu mentor, cara! Todo esse papo de «ruptura com a MPB», e tal, tudo isso veio de ele! Ele era um louco maravilhoso! Manjava muito de Marcel Duchamp, tá sabendo? E era todo desdentado! E o pior é que se orgulhava disso! Ele dizia: «Pô, quebrei chorando por o Lennon ..." Porra! Tava tomando cachaça! Não conseguiu segurar a cabeça e deu de cara no chão! O Julio era um cara muito louco, aí! De o caralho! Era o tipo de malandro que comia aeromoça no banheiro do avião, tá entendendo? Um gênio de verdade! E, pô, a perda desse cara foi a maior dor que eu tive na minha vida ... Seguimos conversando sobre a morte. Lobão parece emocionado. Conta histórias e mais histórias sobre Julio Barroso, sobre as canções feitas em parceria, como a fantástica «Corações psicodélicos», sempre oscilando entre o choro e a gargalhada. Eu interrompo pra perguntar: -- ¡ E tu, Lobão! ¿ Quantas vezes tu já morreu? Lobão sorri cinicamente: -- Olha, cara, toda vez que eu fecho um ciclo eu morro. Minha sorte é que ainda consigo renascer! Mas, olha, me lembro de duas mortes especiais ... A primeira foi por volta de 75, época em que eu tocava bateria no Vímana, minha primeira banda. Foi quando eu conheci o maluco do Patrick Moraz, que recém tinha saído do Yes. Ele passou um ano aqui no Brasil querendo entrar para o Vímana e fazer uma banda de rock progressivo pra concorrer com o Yes lá fora. E, pô, a gente tava envolvido nesse projeto ... Até que um dia o cara chega da Inglaterra com uma sacolinha da Stuff Records, e fala assim: «Olha, rapaziada, pra mim encerrou», e joga em cima da gente os discos do Sex Pistols, The Clash, Elvis Costello, e mais uma porrada de bandas de ska! Caralho! Tudo aquilo tinha acabado de estourar na Inglaterra! Era a quebra do paradigma do rock progressivo, tá entendendo? O fim de toda aquela baboseira «paz e amor» ... E, pô, aquilo tudo caiu como uma bomba na minha cabeça! -- ¿ E a segunda morte? -- A segunda veio logo depois ... Porque daí eu pensei: «Agora vou ter que me reinventar». Só que eu tava muito deprimido na época, porque eu tinha casado com a mulher do Patrick ... E, pô, ela era muito possessiva, muito ciumenta, e não me deixava trabalhar, tá entendendo? Eu tava me sentindo em cárcere privado, e não sabia o que fazer pra cair fora. Aí um dia o Arnaldo Baptista foi lá em casa, e disse assim: «Vamos fazer uma banda». Ele já tava bem pirado na época! Então a gente montou um trio: ele no teclado, eu na bateria, e o Arnaldo Brandão, que era do Hanoi-Hanoi, no baixo. Aí logo rolou a idéia de sair pra tocar por o Brasil, com a Combi do Arnaldo Baptista! Então chamei a minha mulher, contei a parada, mas ela não gostou muito ... Ficou puta da cara! E, pô, eu tava muito dependente de ela, aí ... E fiquei muito louco com esse lance! Então a gente acabou quebrando o pau, tá entendendo? Fiquei puto, a gente brigou, e ela saiu pra trabalhar ... De aí eu pensei: «Sabe de uma coisa, vou me matar!" Engoli uns quinhentos comprimidos, enfiei um litro de uísque por cima, e telefonei para o " Arnaldo Baptista: «Cara, vem pra cá! Vamos ensaiar!" Dez minutos depois, chega a Combi do Arnaldo. Eu já meio tonto ... E quando a gente começou a tocar, caí duro, na hora! Fui acordar só trinta dias depois, rapá! Aí fiquei sabendo que o Arnaldo Baptista tinha me salvado, chamado a ambulância, porque o puto do Brandão tinha caído fora, todo cagado! E o mais louco é que algumas semanas depois, o Arnaldo Baptista entrou em crise psicótica, foi internado e também tentou se matar! Mais uma rodada de cervejas, e agora estamos sem crivo. Percebo que Lobão, de fato, aprecia o discurso sobre a morte. Mas, contraditoriamente, como diz Marcelo Noah, quando resolve escrever sobre a vida, acaba sempre compondo um clássico: -- Lobão, «A vida é doce»,» Vida bandida «e, principalmente,» Vida louca, vida» ... ¿ Como tu te sente sendo o cara que compôs a grande música do nosso maior poeta do rock, o Cazuza? -- Pô, na real quem fez essa música foi o Bernardo Vilhena ... Eu fiz apenas o refrão ... -- ¿ Apenas? -- Sim ... E «Vida bandida» também foi ele que fez ... Eu só dei uma mexida na letra ... Pô, é que na época eu tinha muita preguiça mental, tá entendendo? E ainda tenho! Foi só a partir do meu disco «Nostalgia da modernidade» que eu me tornei um autor integral ... Mas sobre o Cazuza, porra, eu nunca ouvia as músicas que a gente fazia em parceria, não! Eu me recusava a escutar, porque achava que ficavam muito ruins. As produções do Cazuza sempre foram uma merda! E, cara, acho que nunca ouvi um disco do Cazuza, tá sabendo? A real é que eu nunca ouvi nenhum disco brasileiro que não fosse o meu! Eu só ouvia no rádio, e dizia: «Uma merda! Uma merda!" -- ¿ E tu falava isso para o Cazuza? -- Claro! Eu era mais velho, pô! Já queimei muita música do Cazuza só porque ele era um garotinho mimado! Eu falava: «Seu careca de merda, isso tá uma bosta!" E ele adorava! Porque, pô, eu era o único que não tinha piedade, tá entendendo? -- ¿ E na época, o que tu achou da saída de ele do Barão? -- Achei certo, pô! Isso é um lance natural ... Eu mesmo tinha sido expulso d' Os Ronaldos ... E por mau comportamento! -- Falando em mau comportamento, ¿ como foi aquela história que tu dormiu no tribunal? -- Não dormi, cara, foi pior ainda ... Eu fingi que tava dormindo! Foi assim: o meu advogado tinha subornado o juiz com umas caixas de uísque, e tal ... E, porra! Eu era primário, e tinha sido preso com um galho de maconha! Pô, qualé? Era ridículo! Levei 132 processos por causa disso! Fui perseguido por quase dois anos! Tinha que andar sempre com advogado, hábeas corpus na mão, porque eu era preso toda hora, tá entendendo? Porra! Então fui lá para o julgamento, sabendo que eu tinha cometido apenas uma contravenção, e não um crime, e que a pena máxima pra isso é um ano, com direito a sursis ... Quer dizer, um ano com liberdade total. Aí eu entro no tribunal, sento, e o juiz pergunta: «O senhor está arrependido?" E eu respondo: «Não, não tô arrependido! E não admito tutela do Estado, valeu?" Porra! De aí o cara já ficou puto! E sabe o que ele fez pra me provocar? Chamou o policial que tinha me conduzido do aeroporto até o tribunal, e disse assim, na frente de todo mundo: «Veja só, Fulaninho, eu tenho uma sobrinha que tá chegando de Amsterdam, e ela tá cheia de muamba ... Ela tá vindo em tal e tal vôo, e eu quero que você vá até lá liberar essa muamba». Caralho! Quando eu ouvi isso, comecei a gargalhar de ódio! E gritei: «Ah, essa é ótima!" Então o juiz me olhou, e disse: «O que o senhor está falando?" E eu: «Perdão, Excelência, é que eu tava cochilando, e tive um sonho alucinante ... O senhor me perdoe». Caralho! Aí ele ficou puto de vez! Olhou para o escrivão, e mandou assim: «O réu não somente tem má personalidade ... O réu tem péssima personalidade». Puta que pariu! De aí eu falei: «Pô, além de ser um mau juiz, o cara é um péssimo psicólogo, aí!" E fudi com ele! Em a mesma hora, entraram dois caras com as algemas, e me levaram direto para o presídio! Lobão agora está em pé, e gesticula aleatoriamente, como um verdadeiro «demônio da aurora»! Penso na crítica musical brasileira, e entendo por que nenhum desses imbecis tem a coragem de dizer, nas fuças do homem, que ele «se vendeu para o sistema». -- ¿ E como foi essa temporada em cana? -- Pô, eu virei mascote do Comando Vermelho, aí! Tive até aula de tiro! Fiquei três meses por lá, fiz muitas amizades ... Organizei o pessoal, tá entendendo? Descolei várias reformas para a parada! E, pô, no meio da marginália eu era maior autoridade, aí! -- ¿ E por que tu desistiu de influenciar politicamente a bandidagem? -- Pô, é que no fundo aqueles caras são uns playboy, tá entendendo? Um monte de playboy, aí! Eles querem é ter carrão e comer criancinha! E eu não quero saber disso não! É muita maldade, cara! Tô fora! E falo isso porque conheci bem a parada ... Cheguei até a dar tiro lá no Morro da Mangueira! Caralho, cumpádi! Foi muito louco! Rolou que eu tava lá, doido para a cacete, dezesseis dias sem dormir, e chega um helicóptero da polícia! Aí o bicho pegou! E, pô, eles tinham um puta arsenal lá no morro, tá sabendo? Tinha até bazuca, rapá! E os caras me diziam: «Lobão, vai pra baixo da mesa que tu vai ser o último a morrer!" E eu, cheiradaço pra caralho, respondia: «Que nada! Me dá um três-oitão aí que eu vou meter bala também!" Em este momento, somos interrompidos por uma sexy e graciosa voz feminina: «Pessoal, o Lobão tem que ir para o Jornal do Almoço», informa a produtora. Tudo bem, já estamos satisfeitos. Engulo o resto quente da última cerveja, e iniciamos as despedidas. Lobão está eufórico, ainda sob o efeito do Morro da Mangueira. Sinto o peso do trago, e a tontura me leva a pensar em " Paulo Leminski: «O rock é um tipo de música feito por incompetentes para os inconformados». Retomo a consciência, e logo percebo que o cara já tá caindo fora: «Olha, rapaziada, eu já me diverti muito nessa vida!», ainda diz, antes de desaparecer por a porta giratória do hotel. Olho para o cinzeiro: atrolhado de baganas ... De repente, volto a ser surpreendido por a voz grave do bandido: «Olha, rapá, voltei só pra te avisar! Não vai escrever nessa porra de revista que eu quebrei o quarto do hotel não, valeu? Mas, seguinte: Número de frases: 288 se tivesse piscina aqui nessa parada, podicrê que eu teria me atirado por a janela, que nem o Charly García, aí!" " Que língua esquisita é esta?" é a dúvida de quem sintoniza pela primeira vez o inusitado Ñe Ê Ngatu. O programa da FM Regional é apresentado no idioma que dominou a América do Sul em seus primórdios. Com uma sonoridade peculiar, o Ñe Ê Ngatu é uma mistura de português, espanhol e guarani. De a Amazônia à Terra do Fogo, do paredão da Cordilheira dos Andes até o centro do Pantanal, em todos os cantos do continente se falava o Ñe " Ê Ngatu. «Foi o principal idioma da América do Sul por 300 anos», ressalta Margarida Román, jornalista e âncora do programa batizado com o nome da língua. Vale a pena acompanhar a locução de Margarida. A jornalista nasceu em Porto Murtinho, fronteira de MS com o Paraguai. Aprendeu primeiro o guarani, depois o espanhol e só então, já com 11 anos, o português. O sucesso do programa, que em 2003 chegou a atingir 80 mil pessoas na capital do Estado, tem relação direta com o talento da jornalista e não só por o inusitado de se escutar o Ñe Ê Ngatu. Margarida não raramente incomoda o establishment com suas posições sobre os mais variados assuntos. Tem forte sotaque fronteiriço. Oscila de temperamento, grita, faz dengo ... Mas não interessa. Ela gruda o ouvinte no radinho. «O programa ainda não foi compreendido em Mato Grosso do Sul. O poder rejeita. Político só pensa em economia. Para eles, o Ñe Ê Ngatu é vender geladeira para pingüim», define a jornalista. Margarida e o seu Ñe Ê Ngatu resistem arduamente na FM Regional. A direção já mudou o programa de horário, diminuiu a freqüência semanal e atualmente é transmitido apenas segunda, entre 20h e 21h. O Ñe Ê Ngatu é sinônimo de saga para Margarida. Ela começou a pesquisar a língua em 1977, após trabalhar com o cineasta Sylvio Back para um filme sobre a Guerra do Paraguai. O primeiro contato com o idioma foi na cidade paraguaia de Missões, de onde veio a família materna de Margarida. Formatou o programa em 1982 e foi vender a idéia. Não conseguiu. Em 1996 entrou para a TV Educativa de MS -- hoje TVE Regional, e quase 20 anos depois, só em 2001, teve apoio para concretizar o Ñe " Ê Ngatu. «Engavetaram várias vezes o projeto. Nem a iniciativa privada e nem o governo aceitavam», relata. Em 2005, o perfil do programa mudou bastante. Firme ao expor suas idéias, Margarida deixou o entretenimento de lado e passou a debater a saúde pública do Estado no geral e de Campo Grande em particular. Margarida conversa mais com médicos, políticos e profissionais da saúde e cada vez menos com artistas e personalidades. A reviravolta, no entanto, tem a ver com a difícil realidade de Margarida. O mais velho de seus três filhos, Ramiro, atualmente com 20 anos, enfrenta há dois anos um câncer. «O programa ganhou o componente da cidadania. Com a tragédia do meu filho entrei de cabeça no Sus e nunca mais vou sair», profetiza. Mas Margarida quer fazer mais ainda por a língua que resiste contra o tempo. Ela luta para que o Ñe Ê Ngatu se torne o segundo idioma oficial do estado. «Atualmente só em Campo Grande deve ter uma média de cinco mil pessoas que falam o Ñe Ê Ngatu. Isso sem contar a população indígena», ressalta. A jornalista lembra que na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, o Ñe Ê Ngatu já foi transformado num dos cinco idiomas oficiais. Para Margarida, a manutenção da língua é um fator primordial para a própria sobrevivência de toda a " Nação Guarani. «O índio se suicida em Dourados, por exemplo, devido ao paredão que encontra. Ele está totalmente dominado por a ausência cultural e impotência econômica», analisa. Margarida começou a carreira aos 17 anos como recepcionista do extinto Jornal da Cidade, em Campo Grande. Logo foi fazer revisão e promovida a repórter. Saiu do jornal em 1994 e passou por os principais órgãos de imprensa da Capital, como as emissoras TV Morena, TV Campo Grande e TV Record e o jornal diário Correio do Estado (www.correiodoestado.com.br). «Trabalhei como produtora e só não passei para o vídeo por causa do meu sotaque», afirma. Antes de entrar para a TVE em 1996, atuou em Assunção, no Paraguai, na Revista Tiempo e nas rádios Ñanduti e CBN Nacional. A ligação com o Paraguai é mais do que presente no programa de Margarida. A jornalista faz questão de tocar a música do país e não só as canções tradicionais, mas o que de novidade acontece por lá. Com isso, apresenta o rock paraguaio (www.kamikazeparaguay.com) para os veteranos adoradores de guarânia e músicas clássicas do folclore paraguaio para os jovens moderninhos. «A reação dos mais velhos é a de que não existem mais compositores como antigamente e que está havendo um abandono da polca. Mas faço questão de que todos escutem e que exista este feedback de opiniões», ressalta. Confira abaixo a entrevista com Margarida Román: Você acabou mudando o foco do programa para a saúde após a doença de seu filho Ramiro. Como é explorar um assunto que se mistura com a sua vida pessoal? Não se tem escolha nestas horas. Lamentavelmente. Meu filho descobriu um câncer aos 18 anos. Desde então, toda a mudança de rumo no Ñe Ê Ngatu tem a ver com o componente da cidadania. Com a tragédia do meu filho entre fundo no Sistema Único de Saúde, o Sus. Acho que nunca mais vou sair. Encontrei nos ambulatórios índios e mulheres com câncer e que nunca tinham visto sequer uma injeção. Por isso, ter saído da linha de entretenimento e seguido para o jornalismo foi bem natural. Além disso, sou índia e não suporto rotina. Você tem idéia de quantas pessoas o programa atinge em MS? Atualmente não. Mas independentemente disso nunca me dispus a fazer um programa para a massa. Sei que em Campo Grande devem ter 5 mil pessoas que falam o Ñe Ê Ngatu, sem contar os índios. Não me passaram os números agora, mas em 2003, quando o programa era quarta, das 19h às 20h, a pesquisa da emissora indicou que atingíamos 80 mil ouvintes em Campo Grande. É mais de 10 % da população da Capital ... Pois é. A Vila Popular, por exemplo, é um local em que temos uma audiência incrível. Pelo menos 90 % dos moradores do bairro com mais de 70 anos falam o Ñe Ê Ngatu. Em a verdade, o idioma foi proibido com o fenômeno das ditaduras sul-americano. Em Mato Grosso do Sul, na década de 60, muitos pais de alunos foram chamados às escolas e a ordem era para que não se ensinasse mais o guarani aos filhos, muitas vezes descendentes de paraguaios. E é este o público do programa. As gerações que passaram por isso. Você pretende transformar o Ñe Ê Ngatu em segundo idioma oficial do MS. Acha que vai conseguir? O município de São Gabriel do Cachoeiro, no Amazonas, conseguiu. Podemos conseguir também. Vamos começar uma campanha em 2006. Já encaminhei o projeto para a Câmara dos Vereadores e os deputados federais. Seria uma forma também de resgatar e perpetuar o modo de falar dos terena, kadweu, guarani e, principalmente, dos guató e xavante, que correm o risco de desaparecerem do mapa. A questão é que não se pode dissociar o idioma da vida. Quando tiraram a língua dos índios todos se enfraqueceram. O índio se suicida em Dourados, por exemplo, devido ao paredão que encontra. Ele está totalmente dominado por a ausência cultural e impotência econômica. Mas enquanto houver fronteiras o Ñe Ê Ngatu vai resistir. Por que você acha que demorou quase 20 anos para finalmente conseguir fazer o programa? A desculpa geral era a dificuldade do próprio idioma. Falavam que ninguém iria se interessar. Em a minha opinião, apesar de termos um público cativo, o programa ainda não foi compreendido em Mato Grosso do Sul. O poder, principalmente, o rejeita. Político só pensa em economia. Para eles, o Ñe Ê Ngatu é vender geladeira para pingüim. O que você sente ao se comunicar em Ñe Ê Ngatu? É uma emoção. Para falar este idioma verdadeiramente a pessoa precisa ter esta amálgama da fronteira dentro de ela. Eu falei primeiro o guarani, depois o espanhol e, já com 11 anos, o português. Justamente os três idiomas que se misturam no Ñe Ê Ngatu. Porto Murtinho era uma cidade muito cosmopolita. Lembro que com 16 anos já falava as três línguas e ainda escutava o árabe dos comerciantes da cidade e o inglês de alguns norte-americano que transitavam por lá. Em o Mato Grosso do Sul existe uma biotecnologia idiomática. São muitos descendentes de colônias diferentes. Campo Grande impressiona por como é híbrida culturalmente. Em o fundo, todos nós da América do Sul somos índios. São poucos os realmente brancos. E os negros vivem geralmente em guetos. Meu objetivo principal com o programa é a gente se conhecer. Olhar primeiro para a nossa própria aldeia. Em o fundo, podem até gostar ou não do programa, mas o Ñe Ê Ngatu marca por a diferença. Número de frases: 114 O lançamento da terceira edição do projeto será nesta sexta-feira (26), na Cinemateca Brasileira, em São Paulo A terceira edição do Revelando os Brasis será lançada nesta sexta-feira, dia 26 de outubro, às 20h, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com a presença do secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna. As inscrições estarão abertas até 29 de fevereiro de 2008, por o site www.revelandoosbrasis.com.br e nas agências dos Correios. O projeto irá selecionar 40 histórias que serão transformadas em vídeos digitais por os seus próprios autores. Parceria entre a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e o Instituto Marlin Azul, com patrocínio da Petrobras, Revelando os Brasis tem como objetivo promover processos de inclusão audiovisual através do estímulo à formação e produção de vídeo digitais em municípios brasileiros de até 20 mil habitantes. Para o Secretário Orlando Senna, a terceira edição do projeto consolida o Revelando os Brasis como um dos mais inovadores e bem sucedidos projetos de fomento ao audiovisual. «Os resultados do projeto apresentam um dos mais ricos exercícios da linguagem audiovisual. Além da inovação estética, que é surpreendente, o projeto ainda gerou uma tecnologia social que permite uma profunda experiência de construção do que chamamos de cidadania audiovisual», observa. O secretário ainda acentua o impacto provocado por o projeto nos municípios que participam do Revelando os Brasis. «A exibição dos vídeos em praça pública nos pequenos municípios são espetáculos comoventes. O encontro da cidade com suas imagens, produzidas e representadas por os próprios moradores, é um exercício de pertencimento e de construção da memória coletiva das comunidades». Podem participar do processo de seleção moradores de municípios brasileiros com até 20 mil habitantes. O edital permite a inscrição de histórias reais ou de ficção que seus autores queiram transformar em vídeos. Os selecionados participarão de oficinas preparatórias de roteiro, direção, produção, fotografia, som, edição, direção de arte, mobilização cultural e direitos autorais. Em a etapa seguinte, os autores retornarão a suas cidades para realizar os seus vídeos. As duas primeiras edições do Revelando os Brasis, entre 2004 e 2006, resultaram em 80 vídeos digitais com cerca de 15 minutos cada. As produções são disponibilizadas para exibições não-comerciais após percorrerem os circuitos de difusão previstos por o projeto, que incluem a exibição nas cidades (mostra itinerante com sessões nos municípios onde os vídeos foram realizados e também nas capitais dos Estados); o Programa Revelando os Brasis (em parceria com o Canal Futura, o projeto disponibiliza os vídeos em formato de programas de TV para exibição nas emissoras públicas educativas e culturais); Número de frases: 18 e os DVDs, que são distribuídos gratuitamente entre organizações culturais e instituições de difusão e preservação da memória audiovisual. por Francinne Amarante F.A -- Esse projeto, Samba de Breque e Outras Bossas, que você abriu junto com Pedro Luís, no CCBB de Brasília, homenageou vários ídolos do samba, em especial aquele que inovou e criou o estilo samba de breque, através de um improviso, Moreira da Silva. Com ele você considera «ter dívidas de influência»? J.M -- «Dívidas» nunca as tive. Influência do grande mestre, sim. Mas, principalmente a grande amizade que fizemos por mais de 30 anos. F.A -- Em o dia-a-dia, você é o Jards Macalé que imaginam os fãs? ( camaleão, irreverente, indomável, que gosta de flores ...) continua a fazer tudo que «vem à telha»? J.M -- Sou tudo isso que imaginam e, às vezes, pareço até normal. F.A -- Alguns críticos te rotulam até hoje como «maldito», o que você acha disso? J.M -- Total imbecilidade. F.A -- Você ficou revoltado com a reação da platéia, quando foi vaiado no festival internacional de música em 1969? J.M -- Quanto mais vaiavam, melhor o clima da música ficava. As vaias, naquela época, valiam (soavam) como aplausos consagradores. F.A -- Em a sua obra, dá pra perceber algo novo em todos os cd's que faz. Como você encara as mudanças, novidades na suas canções? Tem necessidade de estar em movimento? J.M -- Necessidade de estar em eterno movimento, como o mundo. Pra mim, quando faço o «normal» já é uma surpresa. F.A -- Já foi ator, né!? Hoje você gosta de atuar ou prefere ficar à toa ... Acredita mesmo que o ócio é criativo? J.M -- Depende do momento. Depois de estar em intenso estado criativo, o ócio é fundamental para deixar-me esvaziar. Aos poucos volta-se ao " estado criativo " F.A -- É difícil conviver com as ' fórmulas ' repetidas de sucesso? Você ouve rádio? Assiste à TV aberta? Vai ao cinema ver um filme de entretenimento? J.M -- Há muito tempo desisti de ouvir rádio. Pouco vejo TV aberta. Desde criança gosto de cinema. Gosto de ver os filmes de Batman e Superman até hoje. Desenhos animados também; tanto antigos como os atuais. F.A -- O que é o Criar na música, pra você? J.M -- É o silêncio ou desenhar o Som no Silêncio. F.A -- Consegue rir de uma situação caótica? Ou surta geral ... O que é uma situação caótica pra você? J.M -- Os dois. O caótico no Brasil é o político e a política que é gerada por eles. F.A -- O que espera da ' música popular brasileira '? J.M -- Que se faça o melhor. O nível de sofisticação e riqueza que foi alcançado não pode retroagir. F.A -- E do Brasil? Consegue ter esperança com tantas fraudes, desvios de verbas públicas e ' CPIs ' ... Gosta de pensar no futuro das coisas, tem saudosismo com o passado ou prefere o aqui -- agora? J.M -- Fico triste em ver a situação de miséria em que vive o povo brasileiro. Prefiro o presente e, em relação ao futuro, sou um otimista pessimista e um pessimista otimista. F.A -- Como você gostaria que as pessoas entendessem sua obra? J.M -- Como uma tentativa de beleza. F.A -- Quer deixar uma mensagem para os leitores? ( fique a vontade para dizer " o que der na telha..") J.M -- Caros leitores, trabalhem por a Felicidade no Mundo. Muito, muito obrigada por a entrevista!!!! Número de frases: 60 «Acerto de contas», de Antonio Rezende, liquida dívidas com o passado poético, encanta por a intensidade e abre nova promissória para o poema infinito Capítulo1 -- Poesia: crer ou não crer? Eis a questão Em um bar à noite confesso a Antonio Rezende -- poeta, jornalista por vivência, intensidade e sensibilidade -- que não gosto de poesia. Digo: " para mim, quem escreve poesias é meio canastrão, prefiro a crônica à poesia: que sempre tem início meio e fim, acho que isso impede o autor de enganar o leitor. A crônica é mais que só palavras soltas em busca de melodia». Fui ácida. Mas ele apenas sorriu. Ele veste camiseta e calça jeans. Senta-se ao lado do também jornalista e poeta Gilson Cavalcante e brinca com o vício do amigo: «Não agüento esse povo que fuma». Antes, quando fui ácida, ele me contava de seu livro «Acerto de Contas», uma espécie de pagamento à vista a um passado ao qual se havia dado cheques em longas prestações. «O acerto de contas é com mim mesmo e com o passado», disse-me em outra oportunidade, mais ou menos duas semanas depois do encontro no bar. Explica-se: o primeiro livro de poemas de Rezende foi quase todo escrito na década de 80, quando aos vinte e poucos anos, em São Luís (MA), militava intensamente na vida cultural e política e ingressava na Universidade Federal do Maranhão, onde tentou cursar Letras, Jornalismo e Direito, sem concluir nenhum dos três. O livro veio para resgatar os poemas que já deveriam ter sido publicados -- bem que ele tentou em 1990, quando se mudou para Araguaína, época da criação do Estado do Tocantins, mas que se perderam em meio a vários documentos num velho Itautec DX2, como descreve o historiador e jornalista Otávio Barros, no prefácio de «Acerto de Contas». Duas décadas depois, incomodado por a sombra da " poesia / como fantasma / rondando a casa ..." ( Blues da Solidão, poema recente que integra o livro) e intimado por os amigos Fernando Abreu, Celso Borges e Nilo Alves, eis que o poeta salda a dívida com si mesmo e lança seu acerto poético. O livro foi sucesso na 3ª edição do Salão do Livro, em Palmas, e está sendo lançado em outras cidades do país. «Estamos programando uma série de lançamentos fora. Lançamos em Brasília, no dia 25, e lançaremos em São Luís e Araguaína na até o final de junho», planeja. Sobre o título deste capítulo, é preciso voltar uma semana antes do encontro no bar. Estava eu na redação quando um amigo me entregava o livro de Rezende. Capa preta. Um bueiro. Ao fundo a luz. A luz no fim do bueiro, ou do túnel, como queiram. Era o «buraco da fechadura» -- abstração pura, talvez o local por onde Rezende escapou do passado, para escrever uma nova história a partir do livro, ou só uma luz. Repeti a ele o que eu disse depois ao autor: que poesia não me agradava mais como na adolescência. Nem Augusto dos Anjos, nem Baudelaire ... encantavam-me mais. Disse isso até abrir o livro. Gostei do material com o que ele foi feito: reciclado. São 112 páginas de uma poesia densa e simples, paradoxalmente. As fotos são do próprio Rezende e tiram algo de jornalismo, num preto e branco plástico e aspirador do real. «Eu fotografo há muito tempo», disse Rezende. Considera-se amador, mas tem boas fotos em dois projetos, os blogs Bar dos Bardos e Lorota Boa, e uma galeria no site Olhares, onde publica algumas fotos. «Em o Bar dos Bardos ilustro poemas meus e de outros. Em o Lorota Boa, coisas, as plantas e os bichos retratados ganham vida e interagem com o fotógrafo provocando situações de humor que resultam em pequenas historinhas», define. Em o livro, me prendi por o que mais critiquei, e em sua Lição Contemporânea, Rezende me fisgou: «a poesia é uma maldição / só vale o lodo do poema / necessário e inútil». Zeca Baleiro, amigo e contemporâneo de Rezende em São Luís, também duvida da poesia, como declara na orelha de «Acerto de Contas, escrita em março de 2007». «Hoje quando tantos alardeiam a ' morte ' da poesia (eu mesmo já não sei se creio em ela como antes!) Rezende investe na publicação de poemas e alfarrábios, o coração em fogachos ao modo de um Baudelaire tapuia», afirma. E rasga elogios ao amigo. «Se existe uma palavra que possa definir o poeta Rezende, essa palavra é intensidade. Sangüíneo, anatomia louca, todo coração», escreve Zeca, em trecho da apresentação do livro. Mas é apocalíptico quanto ao futuro da poesia. «Pode ser que não haja mais futuro mesmo na poesia literária. Talvez o mundo hoje precise mais de gestos que da mágica não utilitária da poesia». Para Rezende, os parceiros, que descreveram sua obra, são pessoas que antes de uma relação de amizade, têm uma visão do que é a literatura enquanto instrumento de culto do belo, mas também da transformação da vida em sociedade. Além da apresentação de Baleiro, e do prefácio de Otávio Barros, o livro traz depoimentos de Fernando Abreu, Gilson Cavalcante e " Celso Borges. «Eu acho que a literatura não pode fugir dessa responsabilidade social. Tem gente que acha que é rimar amor com dor, e mamãe quando nasce põe a mão no coração e pepepê, caixa de fósforos ... eu acho que não. A poesia tem que ter também o compromisso de mudar a vida em sociedade, senão não tem sentido», categoriza. Capítulo 2 -- Poesia cosmopolita Defensor ferrenho do gênero, Rezende o escolheu por a sonoridade. «Eu faço crônicas, mas me amarro em poesia. Que massa descobrir a sonoridade das palavras! Trabalhar com elas, provocar sentimentos nas pessoas e fazer isso de forma simples», entusiasma-se. Eu curto poema curto é assim: simples e direto, e abre o capítulo de poemas mais sucintos. «O poema curto tem um poder de síntese grande e sempre ganha no aspecto gráfico como esse: «eu curto poema curto». É uma declaração, uma palavra de ordem, como ' Poeme-se! '», complementa Rezende. Nadando contra a maré, inversamente ao sentido da poesia regional, por o qual muitos poetas tocantinenses enveredam, Rezende prefere a inspiração cosmopolita. «Tenho a preocupação de fazer poesia para que ela tenha a sua universalidade. Não se pode pensar, ' vou fazer poesia para Palmas». Porque Palmas está dentro de um contexto que é Brasil, e que é mundo», analisa. Ele homenageia a capital mais nova do país com A melhor rima de Palmas: «haja paciência / pneu e gasolina / pra tanta distância / e falta de esquina». Não é preciso dizer mais nada; quem conhece sabe. «Eu acho que gente é gente em qualquer lugar, e sentimento também; claro que há realidades diferentes, que interferem na produção literária de cada um, mas sempre procurei fazer poesia falando do quintal para o mundo», frisa. Quanto à exclusão cultural dos estados menos conhecidos por o público do eixo Rio-São Paulo, Rezende faz suas observações. Para ele é preciso voltar os olhos ao que está acontecendo no interior. «Eu recebi um e-mail de uma pessoa perguntando quanto ficaria para mandar o livro daqui de o ' fim do mundo ` (o Tocantins) para onde tudo acontece. Essa pessoa vive na região metropolitana de São Paulo, de fato, onde tudo acontece, inclusive acidente, engarrafamento, assalto, neurose», brinca. «E essa pessoa mandou uma quantia superior num tom ' jocoso ': ' aí, no fim do mundo ', e ' aqui, onde tudo acontece '. Eu acho que num momento em que se percebe a tendência das pessoas de saírem de grandes centros para cidades menores, para viver de forma tranqüila, há que se questionar: onde é mesmo o fim do mundo?». Segundo ele, vale à pena treinar o olhar sem preconceitos sobre o interior brasileiro. «Eu quero continuar fazendo arte e escrevendo; e vou caçar cada vez mais lugares mais tranqüilos, mais solitários. Quando eu quiser ficar maluco, vou a um grande centro, como sempre faço». Último capítulo -- mea culpa Esse é Antonio Rezende. Tocantinense de Araguaína, que viveu em São Luís (MA) e atualmente mora em Palmas. Com vários trabalhos publicados em suplementos, jornais, revistas e antologias, além de prêmios em festivais de poesia falada e participação em recitais. Está com dois livros no prelo: Lenitivos e Versos para Fotografias. Poeta que está entre os artistas que participam do livro-CD «Música», obra do escritor Celso Borges, também lançada no Salão do Livro. O livro-CD reúne mais de 50 artistas de todo o Brasil, entre eles os compositores Chico César, Zeca Baleiro, Vitor Ramil, Carlos Careqa, Assis Medeiros, Cléber Albuquerque, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) e Décio Rocha; os poetas Sérgio Natureza, Micheliny Verunschk, Lúcia Santos, Fernando Abreu, Ricardo Corona e Ademir Assunção; e as cantoras Ceumar, Miriam Maria, Vanessa Bumagny e Vange Milliet. Esse acerto de contas também é meu. Voltei a acreditar na poesia, voltei a escrever para o Overmundo e, depois de semanas com esta matéria, finalmente a conta está temporariamente zerada, até que novas pendências ressurjam. Pois, como diz o poeta: «o poema não pára aqui». Serviço Livro: Acerto de Contas Autor: Antonio Rezende Editora: Kelps; 112 páginas Valor: R$ 15,00 De fora: R$ 20,00 Contatos do autor: Número de frases: 114 pontodeprosa@uol.com.br O que houve com o nosso Gustavo Kuerten? Despontou como uma promessa em 1997, virou ídolo e maior nome do esporte nacional em 2000, venceu diversos abertos por o mundo e encabeçou tanto o ranking de entradas quanto a Corrida dos Campeões. Fez do tênis o segundo esporte nacional, desbancando o vôlei, que assumira tal condição após as Olimpíadas de Barcelona em 1992. Sua momentânea decadência somada ao sucesso da Daiane dos Santos fez -- acreditem -- da Ginástica Artística o segundo esporte preferido dos brasileiros. É só ver na Band ou na Globo. O Globo Esporte reserva 10 minutos pra mostrar a etapa paulista do Mundial de Ginástica. Grandes merdas se o Internacional foi Campeão do Mundo. E dá-lhe Daiane dos Santos no Jornal Nacional. Daqui a pouco, verá-se-crianças girando nos galhos das árvores e se equilibrando em muros espessos, assim como a Gaúcha (como insistem em chamá-la) e seus discípulos. Isso até surgir um João da Silva que bata na peteca Como Nunca. Aí o Badminton vira o segundo esporte nacional. Até descobrirem José. Ele usa a torre que é Uma Beleza. Aí toda criançada senta na frente do tabuleiro e mete aquele xadrez esperto. Brasileiro não gosta de esporte. Brasileiro precisa de ídolo. * Que fique claro que eu adoraria se fosse dada a atenção devida a cada esporte sempre, e não só quando algum atleta vira Popstar. Número de frases: 17 Mais um pouco do simples cotidiano Os aspectos apreendidos por os jovens do Nordeste de Amaralina e do Subúrbio Ferroviário na exposição multimídia «De um tudo e+ um pouco», provavelmente não deixa o espectador passar ileso por a Galeria Pierre Verger, em Salvador (em cartaz até 4/5). Esta mostra é um dos resultados das turmas de design gráfico e fotografia da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia de Salvador. O que fica mais evidente são as fotos, as grandes fotos. Por que são as melhores coisas? Não, porque realmente são grandes, muito interessantes e grandes, mas como conseguem, a partir de temas apreendidos do cotidiano óbvio, enquadramentos com uma sensibilidade admirável. Podemos ver um menino negro dando um salto mortal, ainda no ar, com um contraste entre sua imagem de short vermelho e o fundo, a imensidão do céu azul. O instante captou, além do movimento do giro no ar, a expressão do esforço que um salto desta dificuldade exige. De entre as fotos, não menos interessantes, há também uma sobreposição de imagens com um conjunto de casas sem reboco, na sua maioria, atrás de um fusca azul turquesa e, em primeiro plano, um gradil de ferro trancado por uma corrente. Não se vê o chão e como o carro deve estar no alto de um morro, nos dá a impressão de que ele flutua trancafiado. A imagem além de expressar a insegurança do local, talvez seja mais tocante por impor a falta de liberdade comparada a de um passarinho preso na gaiola. Como esses jovens trabalham com design gráfico, desenvolveram tipografias baseadas em cartazes e faixas com comunicados que informam o «prato do dia» no restaurante do bairro, «trança-se cabelo» ou que «hot-dog + suco é 1 real». O resultado da pesquisa foi exposto em placas ao longo de uma parede, uma ao lado da outra. Ali, vendo toda a seqüência, é visível a diversidade e a riqueza dessas fontes. O diferencial que esta exposição possui não são os temas abordados, que tem como linha geral, o cotidiano desses jovens, mas como eles passam, observam e sentem esse cotidiano. Está ali a experiência estética e real da convivência próxima com regiões pouco favorecidas de uma cidade como Salvador. São colocadas -- sem apologias ou ênfase à pobreza -- a história, o ângulo, o movimento, a cena, o dia-a-dia de jovens com o olhar mais sensível para o seu entorno. Número de frases: 18 Estão abertas as inscrições para o Festival Regional do Minuto, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Curitiba. São aceitos vídeos de um minuto de duração, com o tema «Comunidades da Internet». O realizador também está apto a enviar um vídeo com tema livre, caso não agrade o tema proposto. Os três melhores trabalhos de cada região recebem o Troféu Minuto, além de um prêmio de R$ 1m il em dinheiro. As inscrições podem ser efetuadas até 30 de setembro, através da página oficial do Festival do Minuto. www.festivaldominuto.com.br Número de frases: 6 Grupos juvenis organizam mostras e difundem a cultura de animes e mangás no Ceará Otakus, AVMs, Ovas e fansubbers. Vocabulário estranho para quem não tem familiaridade com a cultura dos animes (desenhos animados) e mangás (quadrinhos) japoneses. Cada vez mais corriqueiro, porém, para uma parcela crescente de adolescentes do Ceará. Em os últimos anos, dezenas de mostras voltadas para a cultura pop oriental despontaram em Fortaleza. Eventos como S.A.N.A., T.A.C., Mazé e Animelegion têm reunido milhares de jovens, saindo do esquema TV e vídeo (ou DVD) e ganhando algumas das principais salas de cinema da capital. Os animes e mangás já chegaram até ao Centro de Convenções Edson Queiroz, local que costuma receber eventos de porte no Estado. O início -- A atual movimentação tem origem em meados da década de 90, na Praça Portugal, bairro da Aldeota, reduto da classe média-alta de Fortaleza. Cercada de lojas de grife e shoppings, rotatória de convergência de duas movimentadas avenidas, a praça costuma ser mais lembrada na cidade por o trânsito pesado em seu entorno. Jovens interessados por RPG e animes passaram a ocupar o local, transformando-o em ponto de encontro para discutir os lançamentos de novos desenhos e revistas, trocar cards, marcar sessões caseiras de animes e organizar as primeiras mostras. De essa movimentação surgiu o PERO, Primeiro Encontro Regional de Otakus (gíria para definir os fãs da cultura pop oriental), apontado por Bruno Cavalcante, 19 anos, membro do grupo TAC (Takano Dano Anime Club), como mostra de animes pioneira na cidade. O evento ocorreu na Escola de Saúde Pública, em março de 2001. Dois anos depois, Bruno fundou seu próprio grupo, hoje um dos mais atuantes na cena de animes em Fortaleza. «Houve algumas reuniões na minha casa e na casa do meu primo, aí decidimos montar o grupo, com pouca gente, seis pessoas." A primeira investida para a consolidação do TAC foi uma sessão organizada por Bruno em 2003 no colégio 7 de Setembro, onde estuda parte dos adolescentes da elite cearense. «A gente pediu autorização ao diretor. Reunimos 70 pessoas numa sala, exibimos animes clássicos». O primeiro contato de ele com animações orientais ocorreu, como muitos outros fãs, com os desenhos transmitidos na TV aberta, como Cavaleiros do Zodíaco e Super Campeões, exibidos na extinta TV Manchete. Em 2004, o TAC organizou a primeira mostra nas salas de cinema do " Shopping Benfica. «Foi difícil fazer a primeira mostra. A gente panfletou muito, não sabia como ia ser. Deu umas 800 pessoas em dois dias de exibição. A gente ficou surpreso. Foi o estímulo necessário para continuar», afirma. O TAC possui atualmente 30 integrantes, que se reúnem regularmente na Praça Portugal, e já organizou cinco mostras, a última no Centro de Convenções, no mês passado. Seus eventos ilustram as estratégias traçadas por os grupos de mostras de animes, que acompanham, essencialmente por a internet, o trabalho dos fansubbers, voluntários que legendam os desenhos não-licenciados. Os grupos também fazem o download por a rede mundial de computadores e depois viabilizam encontros para exibi-los, além de organizar todo o processo, da seleção dos desenhos e da divulgação através de cartazes e panfletos ao controle da bilheteria. Tudo dentro da filosofia que pontua a cena cultural dos fãs de animes, como esclarece Henrique Augusto, 20 anos, outro integrante do TAC: «A gente não faz a mostra só para o pessoal vir e gostar, não. É mais para divulgar os animes, para que eles cheguem à TV aberta. O trabalho é divulgar para que sejam licenciados. A lógica é abrir o mercado aqui para verem que tem futuro. É um modo de pressionar a TV." Bruno reitera o discurso do colega de grupo. «Não exibimos animes licenciados no Brasil, e sim os títulos que a gente quer que venham para cá e sejam exibidos na televisão. Não queremos lucrar em cima disso, investimos todo o lucro de um evento em outro seguinte, para trazer mais gente». O maior grupo em atividade atualmente em Fortaleza é o S.A.N.A. (Super Amostra Nacional de Animes), com 11 diretores e um total de 50 integrantes. Realiza mostras desde 2001, quando o primeiro evento levou ao auditório da Universidade de Fortaleza (Unifor) 240 fãs de Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco e Vídeo " Girl Ai. «O público, sempre surpreende, vem crescendo a cada ano, chegando a 12 mil em dois dias de evento no último S.A.N.A, realizado no Centro de Convenções», diz Igor Lucena, 17 anos, diretor administrativo do grupo. A sexta edição, em julho, prevê a participação de dubladores, desenhistas e jornalistas especialistas em animação, além da realização de palestras, workshops, shows e concursos sobre cultura e animação japonesa. Se a idéia é usar as mostras para convocar novos fãs e espalhar a cultura dos animes, pode-se dizer que o público juvenil tem comparecido em peso ao chamado. Mostras realizadas em salas de cinema de médio porte, como as do Shopping Benfica, reúnem mais de mil pessoas, geralmente em dois ou três dias de exibições. Os cinemas do Benfica, aliás, costumam sediar com regularidade as mostras: a região, central, facilita o acesso para quem vem de áreas mais distantes e concentra muitos colégios. As salas ficam com lotação esgotada e muitos fãs contentam-se em sentar nos corredores, próximos à porta de entrada das salas ou da tela. Contratempos como esses não diminuem, contudo, a empolgação de alguns espectadores. Basta iniciar um anime ou surgir na tela algum personagem popular do público num AVM (Anime Video Music, videoclipe criado de imagens retiradas de um anime) ou num Ova (Original Video Anime, animação desenvolvida essencialmente para comercialização no formato de VHS ou DVD) que a aparição provoca gritos e aplausos. Os mais animados chegam a levantar das cadeiras e saudar euforicamente as imagens. Em os intervalos das exibições, o público divide-se em rodas de conversa, compra ou folheia mangás nos stands das lojas especializadas. Alguns preferem disputar torneios de fliperama. Em eventos maiores, há ainda workshops, palestras e concursos de cosplay (prática de se caracterizar, através de vestimentas e gestos, de personagens de animes ou mangás). DVDs e Internet -- Além da expansão da internet e das novas tecnologias, o barateamento dos aparelhos de DVDs é um dos fatores que impulsiona o consumo de animes por os jovens em Fortaleza. Muitos têm o hábito de assisti-los em casa, em cópias que circulam entre amigos mais próximos, compradas em lojas especializadas ou «baixadas» da rede de computadores. Atualmente, o interesse vai além dos bairros da classe alta, alcançando um público significativo nas áreas mais afastadas do centro da capital. Felipe Carvalho, 18 anos, morador do Dias Macedo, é freqüentador habitual das mostras de animes. Ele compra mangás duas vezes por mês e assiste às séries em casa ou na residência de amigos. «A gente baixa os filmes da internet, por o Mirc. Gosto de ir para as mostras porque é muito show, mostram animes inéditos, a galera fica brincando." Daphne Pontes, 16 anos, mora no bairro Henrique Jorge. Fã dos animes Getbackers e GTO, ela assiste aos desenhos em casa e em mostras como o S.A.N.A e costuma ir aos eventos com amigas. «Não sei dizer direito por que gosto de animes. Gosto dos traços, das estórias. É legal ver que os grupos que organizam mostras estão crescendo», diz. Mateus Mota, 10 anos, mora no Montese e é fã de Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z, animes de sucesso na TV aberta. Quando dá, vai a mostras levado por o pai, Cláudio Mota, que não aprecia muito os desenhos e quadrinhos orientais. «O Mateus tem uns mangás. Eu acho meio esquisito. Esses desenhos são uma viagem meio doida», confessa Mota, que chega a sussurrar no ouvido do filho legendas que este não consegue acompanhar na tela. «Filme quase trash» -- O sinal mais vigoroso -- e criativo -- da difusão dos animes e mangás nos bairros periféricos é a Mazé, Mostra de Animes do Zé Walter. O bairro Conjunto Prefeito José Walter, mais conhecido na cidade a partir do «folclore» de ostentar o título de «bairro dos cornos», abrigou em 2004 sua primeira mostra voltada para os desenhos japoneses. Cerca de 300 pessoas conferiram o evento, segundo informa o organizador, Paulo Roberto, 22 anos. Ele dispara, bem-humorado: «As pessoas acham que Fortaleza acaba na [avenida] José Bastos. Em a primeira mostra colocamos guias nos terminais de ônibus com a placa ' sou do Zé Walter ' para orientar as pessoas. Nosso grupo busca interagir mais com o público e ser diferente." A mostra tornou-se nome de batismo do grupo, que além de exibir animes, atualmente tenta elaborar estórias de mangás com referências cearenses, encena performances de artes marciais nas mostras, e até já produziu um curta-metragem. «Mazé, o filme», mostra a saga de um jovem que sai da Aldeota e vai a um evento de anime no José Walter. Escrito e filmado por Paulo Roberto, o curta de 18 minutos é definido por ele como um filme «quase trash, feito com uma câmera, coragem e cara-de-pau». A produção reflete os caminhos traçados por o anime em Fortaleza e é a arma de quem tem um olho no Ceará e outro no Japão: «A gente gosta da cultura japonesa e incorpora a cultura local», diz. «Jipaia, o miserável ninja «e» A treinadora de digitroços» são os primeiros esboços de heróis que satirizam a série Kamen Rider. Além da mostra no bairro, o Mazé também já organizou, em outubro de 2005, um evento no «Shopping Benfica»,» encarando " o Ceará Music, festival pop-rock comercial realizado num hotel cinco estrelas e que atrai milhares de jovens de Fortaleza. Em setembro, o grupo planeja realizar uma grande mostra no José Walter. Loja especializada -- A expansão do mercado de animes e mangás no Ceará pode ser atestada ainda com a inauguração, há onze meses, da Tenshi Shop, loja voltada essencialmente para a comercialização dos desenhos e quadrinhos orientais. Localizada no centro da cidade, tornou-se uma opção frente à Revista e Cia e à Fanzine, lojas que já comercializavam revistas orientais em Fortaleza. Além dos mangás, é possível encontrar na Tenshi animes gravados em DVDs, card games, camisetas e vestimentas de personagens das animações. Parte do material é trazido de São Paulo, como explica o proprietário, " Vinícius Kendi: «Encomendo das editoras principais, como a Conrad, ou viajo e trago material da Liberdade [o bairro da comunidade oriental de São Paulo]. Revendo também material de fãs que precisam se desfazer das revistas. Em vez de ficar entulhados em casa e depois jogar fora, as revistas são passadas para a loja. Mas eles passam com o coração apertado, porque as mães exigem que se desfaçam, por a falta de espaço. Só ficam mais tranqüilos porque sabem que eu vou vender para pessoas que também gostam muito." Kendi é um jovem de 19 anos que encarna tanto a posição de proprietário da loja como o de fã incondicional dos animes e mangás. «Tenho uma relação de confiança com meus clientes. Eu não sou só dono, sou fã. E tenho que tratá-los como fãs, também», diz. Descendente de japoneses, Kendi nasceu em São Paulo e mora há cinco anos em Fortaleza. Ele revela que começou a se interessar por quadrinhos ao conhecer X-Men, série da americana DC Comics. Em seguida, assistiu a Akira na TV aberta e, desde então, tornou-se colecionador. Freqüentou a Praça Portugal no final dos anos 90 e início desta década. É possível comprovar a afirmação de Kendi não apenas pelo modo como ele encara e conduz sua loja, mas no discurso que gira em torno da exclusividade, tão presente nas falas de aficionados que testemunham a expansão de uma cena cultural específica. «Temo a banalização com tantos eventos constantes, subdivisões entre grupos e mesmo a perda de pureza do movimento da Praça», lamenta. A relação entre os fãs e o proprietário transformou a Tenshi num ponto de encontro juvenil. Em média, 50 pessoas -- a maioria, adolescentes -- passam por o local todos os dias. «O pessoal vem, fica conversando, pede para assistir a animes na televisão, ler mangás. A gente deixa, independente da intenção de eles em comprar ou não. Alguns chegam, começam a ver uma série e voltam depois para continuar», diz Arusha Wahlberg, vendedora da loja e «especialista em RPG», como se define. Interior -- A cultura dos animes também rompeu os limites da capital. Em Sobral, cidade localizada a 235 quilômetros de Fortaleza, o GAMS (Grupo Anime / Mangá de Sobral) realizou a sua primeira mostra, a MASA (Minimostra Sobralense de Animes) em outubro de 2004. Reuniu 250 pessoas na Casa de Cultura do município e é considerado o primeiro evento de animes do interior do Estado. A segunda mostra ocorreu em setembro de 2005, no auditório principal do Centro de Convenções local. Por e-mail, o dirigente Zé Wellington, 21 anos, revela que o grupo surgiu oficialmente em 2003, mas os principais membros já se reuniam desde 1995. «Nosso primeiro contato com anime é similar ao da maioria dos otakus nacionais, com a estréia dos Cavaleiros do Zodíaco no Brasil. Em o início, éramos nove amigos; agora o grupo tem oito diretores e mais de 20 organizadores». Assim como os grupos da capital, o GAMS quer sedimentar a cultura dos desenhos japoneses por o interior do Ceará: «Temos uma parceria com o Sesc. Todo mês exibimos um anime longa-metragem, o que faz com que os fãs daqui tenham uma opção regular mensal. Estamos criando esta tradição ainda. Nossa intenção é dar continuidade ao MASA e a todos os eventos relacionados a ele», diz Wellington. Mesmo com o atual sucesso de público nas principais mostras, os jovens cearenses aficionados em animes e mangás querem ir além. «Em Fortaleza ainda há uma deficiência, não dão o interesse devido. É um evento cultural. A gente quer que muita gente daqui conheça isso», diz Eduardo Barbosa, do TAC. Por o que já conseguiram, melhor não duvidar. S.A.N.A.: www.portalsana.com Grupo TAC: www.grupotac.cjb.net GAMS: http://www.animasa.com/ MAZÉ: http://www.orkut.com/ Community. Número de frases: 130 aspx? cmm = 7620791 Sociedade Treze de Maio 120 anos de História, 120 anos de Resistência Fora dos roteiros turísticos, a Sociedade Treze de Maio guarda uma rica história sobre a formação da Cidade de Curitiba. O mito inventado de um Paraná Europeu, sem escravos e sem negros, e construído por a força imigrante persiste ainda hoje. Foi assim que a Praça do Japão, a Praça da Ucrânia, o Portal da Santa Felicidade, tornaram-se símbolos de uma sociedade de origem européia e branca. Escondida atrás do Museu Paranaense na Praça Generoso Marques, voltada para um comércio de flores e para a Praça Tiradentes, a estátua com pouco mais de 1,5m de uma negra carregando uma lata d' água, faz uma das poucas referências ao negro na cidade. Não é à toa que a Praça Zumbi teve destino certo. Esquecida no bairro do Pinheirinho, está localizada na periferia de Curitiba. Sina comum à comunidade negra e à própria Sociedade Treze de Maio, fadada ao esquecimento e à invisibilidade. É comum escutar, inclusive nas escolas, que não houve escravidão no Paraná, ou que até houve, mas era uma escravidão «diferente». De acordo com o sociólogo Octavio Ianni (* 1926-2004 +), a Escravatura em Curitiba, assim como o restante do país, foi a expressão completa do regime no Brasil, além de fator importante na composição da ideologia racial na cidade. Esse fator pode ser observado nos bens patrimoniais edificados. De acordo com a historiadora Cláudia Bibas do Nascimento, os afro-descendentes não possuíam bens materiais e patrimoniais e as políticas públicas deixaram de lado o patrimônio popular a fim de preservar os monumentos e os artefatos relacionados à imigração européia. A principal construção que teve mão-de-obra negra, está situada no centro histórico de Curitiba, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, antes denominada «Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito». Poucos sabem que bem próximo de ali, existe mais um registro histórico: a Sociedade Treze de Maio. Com a Abolição da Escravatura, os «africanos livres», buscaram meios de sobrevivência na cidade. A criação de um Clube, uma Sociedade foi concretizada em junho de 1888. Mais tarde, passou-se a comemorar a fundação na data em que a Sociedade carrega no nome. Localizada numa região chamada de Boulevard São Francisco, habitada por negros, a Treze de Maio era ponto de referência para 99 % dos libertos. Em ela dividiam-se tarefas administrativas, convocavam reuniões, arrecadavam fundos, prestavam assistência aos irmãos necessitados, inclusive organizando enterros e funerais dignos, além de festas e outros eventos. O historiador Edvan Ramos, que há 15 anos estuda a Sociedade, conta que na casa eram realizados festejos para N. Senhora da Conceição e S. Benedito. Havia também uma espécie de confraria feminina dentro da própria instituição, parte de ela formada por as lavadeiras que percorriam o Largo da Ordem. A mais famosa, Dona Maria Boeno, a santa da cidade, tem seu nome registrado em documentos da Sociedade Treze de Maio. A partir da década de 50, a Treze de Maio abriu-se para novos sócios e começou a perder suas festividades religiosas e tradições. Reformada, perdeu suas características arquitetônicas, o que a impede hoje de ser tombada. Em 1996 a casa passou por nova reforma realizada por a Prefeitura, na qual «sumiram» quadros com fotografias, placas e uma mesa centenária. Em 2006, o grupo de percussão Maracaeté iniciou seus ensaios dentro da Sociedade. Com o intuito de também gerar renda para a casa, o grupo organizou algumas festas. Duas de elas caíram, coincidentemente, em datas que os associados prestavam homenagem a seus santos de devoção. Com muita dificuldade, a Treze de Maio tenta preservar seu valor histórico. Sr. Álvaro da Silva, presidente da Sociedade, a qual seu pai também fora, batalha todos os dias para cobrir as dívidas da casa. Dívidas que se fazem, em sua maior parte, por conta do IPTU. Em este 13 de Maio de 2008, a Sociedade completa 120 anos. Com a intenção de reavivar a memória curitibana, a comunidade está convidada a participar da programação tradicional em comemoração à data de Fundação. Com início às 17h00, Missa na Igreja do Rosário. às 18h30, arrastão com o grupo Maracaeté até a Sociedade. às 21h30, será realizada a Sessão Solene e às 23h00 o grande e esperado baile, com muito samba e alegria! O ingresso é de R$ 10,00. A programação está sujeita a alterações. Um coração ancestral ainda está vivo e pulsa na Sociedade Treze de Maio. Serviço Sociedade Treze de Maio -- 120 anos de História 13 de maio de 2008 17h00: Missa na Igreja do Rosário 18h30: arrastão com o grupo Maracaeté até a Sociedade 21h30: Apresentação do grupo Maracaeté. 22h00: Sessão Solene 23h00: Baile: Samba de verdade para festejar! A programação está sujeita a alterações. Ingresso: R$ 10,00. Info: Número de frases: 55 9198 6607 maracaete@gmail.com Desde pequeno o céu me fascina, embora imagino que isso não seja incomum. Adorava ouvir histórias sobre a vastidão do espaço, outros planetas e todo esse universo literal que estava além daquilo que eu conseguia ver. A única parte que eu não gostava muito era saber que jamais poderia visitar esse lugares, e que tudo no universo transcorre absurdamente lentamente. Com o passar do tempo passei a ser um entusiasta da Astronomia, o estudo científico dos astros. Mas mesmo depois de anos de interesse, ainda não vivenciei alguns eventos importantes: Entre eles nunca vi uma chuva de meteoros nem um cometa (nem mesmo o recente McNaught, graças ao mau tempo). Mas agora respiro um pouco mais tranqüilo pois acabo de visitar um planetário pela primeira vez. A ciência de modo geral é algo realmente enfadonho, devo confessar, exige dedicação, paciência, disciplina e trabalho duro. Não é só pirar na batatinha, tem que fazer sentido. Mas a fascinação que os frutos desse trabalho gera para mim não tem preço. Por isso recomendo altamente uma visita ao Planetário do Ibirapuera, que está como novo em folha. Quando as luzes se apagam totalmente para nos revelar o «céu» (de fato uma reprodução daquilo que deveríamos ver lá fora mas simplesmente não conseguimos numa cidade como São Paulo) fica até difícil de acreditar que aquilo tudo é real. E a sensação de flutuação e tontura quando o céu se mexe é insubstituível. O planetário partilha seu aniversário com o da cidade de São Paulo, e como parte das comemorações de 50 anos foi realizada a virada planetária: Uma série de projeções, palestras e atividades paralelas acerca do assunto. Assisti à projeção «Planetas do Universo» e apesar de ter gostado muito, ainda tenho algumas ressalvas. Achei a palestra um pouco desajeitada, informações muito básicas são misturadas com idéias complexas que deveriam ter sido explicadas melhor, especialmente considerando-se um público leigo. A o tentar abranger muitos assuntos em 50 minutos de apresentação, a parte que eu considero central, os planetas extra-solares, ficou com um conteúdo um pouco ralo, e depois de sair acabo misturando as informações dos diferentes planetas e lembro de poucas especificidades. Não conheço as limitações técnicas do projetor principal, mas algo que imagino ser possível e não foi explorado é simplesmente destacar as constelações mencionadas enquanto esmaecem-se outras para que os espectadores entendam melhor quais as estrelas que as compõe. Já os projetores auxiliares (daqueles comuns) poderiam ter sido utilizados de maneira melhor, com animações mais didáticas explicando tópicos mencionados que passaram batido. Mesmo com essas questões, acredito que Planetários são excelentes ferramentas para a divulgação do conhecimento e gerar interesse, papel que o «novo» Planetário do Ibirapuera realiza muito bem. E a ciência é justamente isso, evolução constante, com um toque de fascinação. Número de frases: 22 «E vc já descobriu um dia que vai morrer?" Pergunta a personagem «Dama da Noite» (que dá o título do Conto inserido nos Dragões não conhecem o paraíso) Em a verdade a morte Sempre foi, desde os primeiros escritos uma obsessão de Caio (não só de ele, mas dos grandes de «ontem ": Vinícius, Clarice, Sartre e de» hoje " Saramago, Rubem Alves. Falo ontem e hoje no sentido de vida biológica). É só olharmos o «inventário do Ir-realizável» (primeiro livro de Caio publicado em 1970). Onde a primeira sessão da obra se chama «da Morte» (pra usar o dizer de Caio: " assim mesmo, respeitosa, maiúscula "). Implícita ou explicitamente Ela serpenteia toda a obra de nosso escritor contemporâneos favorito. E descobri esses dias mais uma relação entre ele e outro Grande da literatura Russa: Tolstói. «A morte de Ivan Ilitch» (livro escrito no século XVII e considerada por muitos críticos a novela mais perfeita da literatura mundial) era considerada por Caio um dos livros mais angustiantes que ele havia lido. Querem a prova? Eu mostro. Em as palavras de Caio: «Antes que anoiteça (Editora Record), autobiografia do cubano Reinaldo Arenas ( ...) Jamais sofri tanto com um livro -- nem mesmo Fome, de Knut Hamsum, ou A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói." In Um Uivo em Memória De REINALDO Arenas de Pequenas epifanias. Tudo bem que ele sofreu mais lendo «Antes que anoiteça», mas dá pra entender que» A morte de Ivan " está pelo menos em Terceiro lugar. Também não se trata aqui de rankear (essa palavra existe?) os livros mais doloridos. Aliás se eu fosse místico diria que nada é por acaso, pois bem antes de saber que Caio tinha visto ao vivo, lido e amado Reinaldo Arenas eu já havia me debruçado sobre «antes que anoiteça» e recomendo demais (inclusive recomendo também o filme baseado na obra. Com o mesmo ator de «Mar a dentro Javier» Bardem interpretando Arenas --e indicado ao Oscar de melhor ator Jonny Deep impagável na pele da Travesti BomBom e interpretando também um Sargento -- inclusive muito parecido com o Sargento Garcia do Caio. Toda vez que leio esse conto me vem à cabeça o ex-de-Winona na pele do Militar). Sem falar que é um relato apaixonante, puro desejo e dor. Detalhe, Caio foi o primeiro se propor traduzir para o português «Antes que anoiteça» e a sugestão foi rejeitada por a editora. Mas essa é uma outra história. Enfim ... folheando hoje «A morte do pobre Ivan» encontrei essa parte (no mínimo curiosa) sobre um tal Caio e a morte. Vale a pena a reprodução integral: «Ivan Ilitch via que estava morrendo e sentia-se constantemente desesperado. Em o fundo da alma sabia bem que estava morrendo; mas não só não conseguia habituar-se a essa idéia, como não a compreendia mesmo -- era incapaz de compreendê-la. O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesiweter: Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal -- encerrava um raciocínio que parecia exato em se tratando de Caio, mas não da sua própria pessoa. Caio era um homem em geral e deveria morrer. Ele, porém, não era Caio não era um homem em geral; era um homem à parte, inteiramente à parte dos outros seres: ele era Vania (diminutivo de Ivan -- N. da T.), com sua mamãe e seu papai, com Mítia e Volódia, com seus brinquedos, com sua pajem, com o cocheiro, depois com Kátenka, com todas as alegrias, todas as tristezas, todos os entusiasmos da infância, da adolescência, da juventude. Acaso conhecia Caio o cheiro daquela bola de couro listrado que Vania tanto gostava? Beijava Caio a mão de sua mãe com Vania? Era para Caio que a saia da mãe de Vania fazia o seu doce frufru? Fora Caio quem protestara, na escola, por causa dos pasteizinhos? Tinha ele amado como Vania? Seria Caio capaz de presidir como ele uma audiência? Caio é de fato mortal e é justo que morra. Mas eu, Vania, Ivan Ilitch, com todas as minhas idéias, com todos os meus sentimentos -- isso é coisa inteiramente diversa. E é impossível que eu tenha que morrer, seria por demais horrível. Assim ele sentia. Se eu tivesse que morrer como Caio, haveria de sabê-lo muito bem, minha intuição haveria de dizer-mo. Nunca, porém, me disse nada de semelhante. Eu e meus amigos compreendemos muito bem que somos diferentes de Caio. E eis que agora ... É impossível e entretanto é assim. Como? Como Compreender isso?" TOLSTÓI, Leon, A morte de Ivan Ilitch. Senhor e servos. São Paulo: Martin Claret, 2005. pg 54 e 55. Resta (para citar o verbo dito e redito no «Haver» de Vinícius) a pergunta: Número de frases: 58 «E vc já descobriu um dia que vai morrer?" O olhar de limão espremido que eu sempre recebo quando falo sobre artes visuais me deu a impressão que eu nunca entendia do assunto. Especialmente quando eu militava a favor da ordem do «veja mais -- fale menos». É o tipo de olhar que se recebe com freqüência aqui durante o Spa, a Semana de Artes Visuais que acontece sempre em Pernambuco. Mas este ano, uma novidade em específico me deixou mais feliz. Uma revista feita sem palavras, só com imagens, com participação aberta para todo e qualquer curioso visual. Ironia para ela já no nome: Boca. Demorei a acreditar nessa história. Muito por culpa do Spa, que deixa claro que tem intenção de «criar espaço para debate, avaliação, integração, descentralização cultural e estabelecimento de um diálogo maior e mais profundo sobre a produção de artes visuais no Brasil». Ou seja, espaço para palavras. E, não por acaso, a maioria das instalações que aparecem esta época na cidade, quase todas, remetem a palavras. Por isso eu bolei uma entrevista enorme, com algumas perguntas chatas para criar um deslize, endereçada ao povo da Boca. Quando eu tive a revista em mãos, fitando cada uma das 33 imagens, eu vi que não ia precisar de nada do que tinha perguntado. Felicidade rara, nesse cotidiano de coisas óbvias. A revista é linda. Papel duro (viu que não entendo mesmo do assunto?), com imagens ocupando cada um dos extremos da folha. Não são apenas fotos, mas também ilustrações, recortes, interferências visuais. O que der na telha. Segundo a equipe responsável -- os designers Lucídio Leão, Sebba, Sushi e a artista plástica Bruna Pedrosa (minha homônima feminina) -- foram mais de 300 trabalhos recebidos. Justiça seja feita, é preciso dar voz a toda essa coleção da imagem. Mesmo que seja uma voz ideológica, não verbal. Segundo os meninos -- que responderam a entrevista toda em coletivo, por isso vou evitar aqui as aspas -- a idéia é fazer a arte visual circular fora de sua aura dos museus, galerias e vernissages. Por isso, essa primeira tiragem de 1500 exemplares vai circular em bares, casas de show e lugares onde tenha gente interessada em ver os trabalhos. E nesse ponto sim, a gente pode falar em descentralização. A Boca está fazendo de mediação para levar a arte até nós. O patrocínio foi todo da Companhia Hidroelétrica do São Francisco, a Chesf. Teve ainda apoio da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, Oficina de Tipografia e Colectivo Flyer Center (Barcelona). E, mesmo essa camada forte pernambucana, não impediu que essa descentralização da boca fosse também sinônimo de fazer circular arte de outros estados. Trabalhos de São Paulo, Brasília, Janeiro, Paraná, entre outros estados, entraram na peneira dos selecionados. Para a coisa não desandar e criar confiança nessa primeira etapa, todos os direitos das obras ainda são reservados aos artistas. Mas como a distribuição é gratuita, isso não conta como problema. Mas fica a sugestão para as próximas edições: o Creative Commons =) Falar sobre as imagens em si é uma injustiça. É quebrar essa idéia genial de fazer com que elas circulem apenas por os olhares. É suficiente dizer que, na anarquia livre desses 30 trabalhos sem tema em comum, a unidade foi mantida por uma curadoria de muito bom gosto. Depois do lançamento oficial, que no dia 14 de setembro, vale a pena procurar a revista em sua cidade e dedicar alguns rápidos minutos de prazer visual. Para quem quiser garantir, vai, de quebra, o contato de alguns idealizadores: Lucídio Leão: lucidio@fargo.com.br Rodrigo Sushi: sushi@fargo.com.br Número de frases: 43 O livro Apocalipse Motorizado -- A Tirania do Automóvel num Mundo Poluído pode ser baixado gratuitamente no site da editora Conrad até o dia 30 de abril. O livro traz uma coletânea de textos que discutem a dependência que nossa sociedade tem com os carros e os efeitos colaterais disso -- poluição, dependência do petróleo, expropriação do espaço público comum e a exclusão social. Em um dos capítulos, são propostas ações práticas para diminuir essa dependência -- andar mais a pé e de bicicleta, usar transporte público, fazer passeios mais próximos de casa, e por aí vai. O livro é ilustrado por o cartunista americano Andy Singer, autor de Cartoons. Uma proposta que não lembro se está no livro mas que é levada a cabo todos os anos por o grupo Rebar, formado em 2004 por um grupo de ativistas, designers e artistas, é o de ocupar vagas de estacionamento nas ruas. O Rebar tenta mostrar às pessoas que não devemos simplesmente aceitar passivamente nossa vida cotidiana e suas relações sociais aparentemente auto-evidentes. Como funciona essa ocupação? Veja o vídeo aqui. A iniciativa, batizada de Park (ing) Day, acontece todos os anos em São Francisco (Eua) e em outras cidades do mundo. Este ano será no dia 19 de setembro. Em o ano passado, Rio, Paulo e Belo Horizonte participaram, além de outras 47 cidades de todo o mundo. Em Belo Horizonte, o evento foi batizado de Vaga Verde e realizado na praça Savassi, em frente a uma loja do McDonalds. Saiba o que rolou clicando aqui. Em o Rio, muda o nome (para Vaga Viva) mas a proposta é a mesma. Posso estar enganado, mas por as fotos que vi, o evento rolou na avenida Rio Branco, no centro. Em essas e em outras cidades (brasileiras ou não), a iniciativa se mesclou em 2007 com o Dia Mundial Sem Carro -- confira as fotos. A missão dessas divertidas ações é repensar a forma como as ruas são usadas, chamar a atenção para a necessidade de parques urbanos e melhorar a qualidade do habitat urbano humano. Se tivermos menos carros nas ruas, teremos mais espaço, mais qualidade de vida, um ar mais respirável e menos barulho, menos acidentes, menos estresse no trânsito. Quer saber como fazer um desses mini-parques urbanos? Clique aqui então. Fonte: Número de frases: 21 O Escriba A estréia do filme «Turistas» gerou algum rebuliço na mídia, inclusive aqui no Overmundo, que vem muito a calhar para mim, já que me permite tocar num assunto que venho desenvolvendo na cabeça a algum tempo. Para os que estão por fora, Turistas fala sobre um grupo de, pasmem, turistas, que em visita ao Brasil são arrastados da cidade direto para a floresta e sofrem o pão que o diabo amassou. As reações brasileiras mais inflamadas falam em boicote, absurdo, ignorância e toda a sorte de besteiras que cercou o episódio dos Simpsons sobre o Brasil. Nos sentirmos ofendidos por a representação que recebemos de gringos que mal conhecem nosso país imagino ser uma reação natural. Lembro-me de estar em Londres e dar uma aula de geografia a uma alemã que disse: «ah, mas a maior parte é floresta, né?». Dias depois quase explodi quando o dono da casa em que estava hospedado perguntou " mas onde vocês conseguem o café?" ao saber que essa era a bebida nacional -- O que eu não havia entendido, e a mulher do sujeito acabou falando para me acalmar, era que ele estava brincando, era uma piada, meus caros. E no caso específico dos Simpsons é justamente isso. A revolta infantil apresentada diante do famigerado episódio dá a impressão de que essas pessoas jamais assistiram um episódio sequer -- parecem estar cometendo o erro do qual acusam os roteiristas: ignorância. E mesmo que conheçam os Simpsons, obviamente o estão cometendo. Ou alguém realmente acha que a Austrália, a China, o Japão, a França, a Inglaterra, o México, ou até mesmo os Estados Unidos são da forma como os Simpsons retrata? Bom, sinto desiludi-los, mas não são. Usar Simpsons como guia de viagens não é recomendado. «Turistas» provavelmente é um filme bem porcaria. Mas não necessariamente por a forma como retrata o Brasil. É um filme de terror com situações ultra-absurdas. Paremos para pensar nisso um pouco. Faz alguma diferença o lugar onde o filme se passa? A questão é que para os americanos bastava situá-lo em qualquer lugar considerado exótico, e o Brasil é um de eles. «O Albergue» se passa na Eslováquia, duvido que sequer uma das pessoas que tanto choraminga por Turistas se importou com o tratamento que o país recebeu no filme. O povo eslovaco provavelmente se importou. E a questão fica justamente aí. Só quem é retratado se impressiona e se revolta, e quem está apenas assistindo a um filme por o filme está pouco se importando. Eu não tenho pretensões de visitar a Eslováquia, mas «O Albergue» não irá me inibir caso a oportunidade surja. Quando vemos um filme sobre a China, qual a garantia temos de que o lugar está sendo representado da maneira adequada? Você se importa? O que é a maneira adequada, afinal? A bem da verdade não há como agradar o público brasileiro nesse sentido. Somos um pais vasto em vários sentidos. O que acontece é que os clichês a nosso respeito é que acabam passando para frente, e é extrapolando-os que esse tipo de ficção é criada. O que precisamos é combater os clichês, certo? Talvez, mas como? Ir até os Estados Unidos Imperialistas malditos, apontar o dedo na cara de eles e dizer: «Você não sabe porra nenhuma do meu país e fica falando merda sobre ele nos seus filmes»? Bem, Lúcia Murat já o fez. Mas a que bem levou? O que isso realmente conquista? Fama de bebê chorão, que junto com a reação do governo frente ao episódio dos Simpsons pode chegar a um novo clichê. A verdade é que o que se passa para frente sobre qualquer cultura são os clichês. Suecas são um bando de gostosas vadias suicidas; japoneses são workaholic nerds suicidas; americanos são imbecis; franceses são esnobes mal-educado; ingleses são desdentados com péssimo gosto culinário; russos são bêbados; colombianos são tocadores de flauta; cubanos são bebedores de rum enroladores de charutos, e por aí vai. Que atire o primeiro pandeiro quem nunca pensou (ou ainda pensa) assim. Somos o país das mulatas, do samba e do futebol. De essas três opções, apenas o futebol não é nascido aqui. Mas não foi da noite para o dia que conquistamos esse clichê, foi ao longo de vários anos dominando com excelência esse esporte. Não havia um bando de chorões falando «vejam nosso futebol, por favooooor», ele foi notado por mérito. Agora temos Gisele, a supermodel, que pode acabar gerando um novo clichê para nós, talvez substituindo as mulatas. O futuro dirá. Observem que não estou dizendo que essa tríplice é o que há de melhor no Brasil, mas é o que indubitavelmente há de maior. Não sou fã de nenhum dos três, talvez das mulatas. Não ligo para campeonatos de futebol e fujo durante o carnaval. Se quisermos mudar a imagem que se propaga lá fora temos que mudar a imagem interna inicialmente. E isso é algo que esbarrei ao ler críticas do tal Turistas: como a própria mídia nacional ajuda a perpetuar idéias limitadas a nosso respeito. Época de copa é um estardalhaço e durante o carnaval, uma barulheira. Todo mundo quer sempre tirar férias na praia, embora tenhamos tantos destinos continentais fascinantes. Resolvi por a prova e assisti a alguns capítulos da novela " Páginas da Vida "; que aliás é a novela mais cheia de lições de moral que vi até hoje, não é uma novela, é um sermão. Pois bem, nas tomadas aéreas da cidade que aparecem, não há uma sequer que não mostre o mar, e duas entre três mostra uma dessas três opções: Cristo Redentor; Baía de Guanabara ou Pão de Açúcar. Para deixar tudo mais embaraçoso no capítulo de quinta-feira passada um dos personagens diz: «Puxa, há tantas coisas para se ver no rio: O Pão de Açucar, o Cristo." Como assim, tantas coisas? Foram mencionadas duas! E as duas mais ridiculamente óbvias. Será que só há isso de interessante no Rio? Cariocas manifestem-se! Em as poucas novelas que se passam em São Paulo tudo que vemos nas tomadas aéreas são o Ibirapuera, a Av.. Paulista e o MASP (que fica na mesma Av.. Paulista -- assim eles economizam combustível de helicóptero). Garanto que há muito mais para ver e fazer. A ambientação das novelas em si é uma afronta. Quase todas se passam no Rio, em SP ou numa cidade fictícia do Nordeste -- que quando é o caso sempre gera uma discussão a respeito dos sotaques forçados dos atores. Qual a diferença entre isso e filmes onde falamos português com sotaque espanhol? Há mais histórias a serem contadas no Brasil do que os dramas da alta-sociedade carioca. Mais expressões do que o samba e o futebol. Mas antes de dar bronca nos outros, temos que descobri-las por nós mesmos. E pessoas estúpidas o suficiente para se revoltarem tanto com um filmeco como Turistas tem a mesma mentalidade da suposta pessoa que deixaria de vir aqui por conta de ele, e honestamente, é o tipo de idiota cuja visita não me faz a menor falta. Número de frases: 86 Durante boa parte da memória da telenovela brasileira, a trilha sonora foi um capítulo à parte, por sua precisão em definir em letra e música os personagens de uma trama. Com o tempo, a trilha deixou de ser coadjuvante para se tornar um grande destaque dos folhetins, em especial por uma qualidade que soava como música para os nossos ouvidos. Mas, de uns tempos pra cá, o time de músicas para as novelas vem sendo mal escalado, fazendo com que a trilha sonora fique relegada ao papel de trampolim para artistas que, geralmente, têm qualidade duvidosa. Antes de prosseguir, deve-se ressaltar que a avaliação será restrita às trilhas sonoras das novelas da Globo, por ser a emissora que tradicionalmente fabrica e exporta novelas e porque as demais emissoras não têm o hábito de lançar um disco com os temas novelísticos. Desde 1971, com a novela O cafona, a gravadora Som Livre é a encarregada de lançar as trilhas sonoras originais das produções globais. Em os primeiros anos, as trilhas sonoras desempenhavam bem sua função de fundo musical, com a maioria dos discos sendo formada por canções compostas especialmente para a novela. Em este período, era comum a novela ter toda sua trilha assinada exclusivamente por uma dupla de compositores, muitas vezes de altíssimo nível. Os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle são os autores que fizeram o fundo musical da primeira versão de Selva de pedra, um sucesso assinado por Janete Clair e que obteve 100 pontos de audiência. Os Valle são os responsáveis por várias trilhas de tramas globais nesta época. As venturas e desventuras de Odorico Paraguaçu em O bem amado, de Dias Gomes, foram acompanhadas por a música de Toquinho e Vinícius de Moraes. Roberto Carlos e Erasmo Carlos foram os responsáveis por o repertório da novela O bofe, de Bráulio Pedroso. Com o tempo, os produtores da Som Livre perceberam o filão milionário dos discos de novelas, e a trilha sonora passou a trazer uma miscelânea de canções compostas e interpretadas por vários artistas, o que agradou músicos e produtores. Para o artista, uma música emplacada na novela era garantia de que sua música por um bom tempo tocaria no rádio e alavancaria a venda de seus discos. Para as produtoras, foi uma forma de tornar este mercado mais interessante no meio artístico, e também a possibilidade de aproveitar um sucesso do momento e integrá-lo à seleção musical. Durante muito tempo, esta troca foi sadia para ambos os lados. A música que tocava num campeão de audiência ficava na boca dos espectadores, e era a maneira mais fácil de um artista mostrar seu trabalho. Como os discos de novela tinham excelente índice de vendagem, a aposta em lançar as trilhas sonoras originais trouxe excelentes resultados para a gravadora Som Livre. Só que, enquanto a vendagem aumentava, a qualidade da trilha sonora das novelas caía a cada folhetim novo. Em vez de se preocupar com músicas condizentes com a trama da novela, o produtor musical passou a fazer da trilha sonora um trampolim para os artistas brasileiros, transformando o disco numa coletânea de sucessos e de candidatos a sucesso no cenário da música brasileira. O resultado salta aos ouvidos do espectador, que é obrigado a acompanhar uma novela e a digerir músicas de qualidade duvidosa, e interfere até no trabalho dos escritores. Muitas vezes, os novelistas são obrigados a mudar ou adequar suas tramas de acordo com o repertório designado para compor a trilha sonora. Cada vez mais, a direção musical, a cargo de Mariozinho Rocha, vem perdendo a direção na hora de escolher as canções que irão embalar os personagens e espectadores da novela. Apesar de ter uma trama complexa, o final desta história é bem previsível: Número de frases: 23 o fundo musical vai acabar mesmo fora dos trilhos. São quase trinta anos provocando, experimentando e inovando. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz vem desde 1978 movimentando o teatro gaúcho com diversos projetos, que envolvem oficinas, seminários e debates em geral. Além de apresentações, é claro. Todas essas atividades são marcadas por o engajamento e por a função do teatro na sociedade. Pra isso, extrapolou o espaço da sala de espetáculo e foi para a rua, levar a arte onde o povo está, «exigindo» interação. Pois como o site do grupo diz, o objetivo é ver " o teatro como um modo de vida e veículo de idéias: um teatro que não comenta a vida, mas participa de ela. Em 1984 foi inaugurada a Terreira da Tribo, um centro de experimentação e pesquisa cênica, em que a organização é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades teatrais como na manutenção do espaço. Esse espírito coletivo é levado nas apresentações realizadas em praças, bairros e vilas populares, além de oficinas de Formação de Atores, de Teatro de Rua e de Teatro Livre, sempre oferecidas de forma gratuita. É através do estímulo à participação das pessoas que eles se firmaram e conquistaram respeito por o seu trabalho original e desafiador. E 2006 marcou mais um desafio para o grupo: o lançamento de uma revista de teatro. Leitura crítica dos fatos Em o final de março, foi lançada a revista Cavalo Louco, publicação semestral distribuída gratuitamente pra grupos de teatro, pesquisadores e entidades educacionais e culturais de todo o Brasil. Paralelamente, a distribuição acontece também ao público durante as atividades realizadas por a Tribo. «A realização desta revista é um desejo antigo nosso, pois sempre procuramos, de todas as formas possíveis, socializar o conhecimento gerado na Terreira da Tribo, através do fazer teatral e do encontro com outros grupos e personalidades do teatro», comenta o Pedro DCamillis, integrante do grupo. A maior parte dos artigos da revista foi concebida como palestras e tem por objetivo gerar reflexões. Os depoimentos do Ilo Krugli e do Amir Haddad, por exemplo, foram coletados durante o Seminário Teatro de Grupo: Reinventando a Utopia, numa conversa com estes ícones do teatro brasileiro. «A idéia é que desde o primeiro contato com a revista as pessoas possam se sentir estimuladas com uma possibilidade nova de leitura e aprofundamento de questões que geralmente ganham tratamento superficial nas publicações que tratam de cultura e arte em geral», diz o Pedro. «Queremos que os leitores se sintam contagiados com a sede de renovação e com a beleza dos antigos, dos mais experientes." Essa é uma iniciativa pioneira no Estado, pois não havia uma revista específica da área teatral. A maior parte das publicações está no centro do país, principalmente em São Paulo. A força do coletivo Preservar a importância do trabalho realizado por a Tribo sempre foi uma preocupação. Por isso, em 1994 foi fundada a Associação dos Amigos da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, com o objetivo de agregar pessoas, geralmente oficinandos e público, em torno da proposta política e estética do grupo, além de defender o território cultural Terreira da Tribo, localizado na época no bairro Cidade Baixa. Foram feitas várias mobilizações junto à Câmara dos Vereadores e à Prefeitura pra que o local fosse reconhecido como patrimônio da cidade, chegando ao ponto de serem recolhidas dezessete mil assinaturas, mas o esforço não surtiu efeito. Em o final de 1999, a Terreira teve que deixar a Cidade Baixa, indo para o bairro Navegantes, onde está até hoje. Mais estabelecida do que nunca, a Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz comprovou ao longo dos anos que a mobilização coletiva tem um imenso poder. E quando essa força é usada pra fazer e discutir teatro, o resultado pode ser sólido e motivo de orgulho. Número de frases: 31 Como esses vinte e oito anos de atividades estão aí pra comprovar. Estão abertas, até o dia 15 de dezembro, as inscrições para as turmas de percussão da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello. O curso inédito é a novidade da escola para o próximo ano. As aulas serão ministradas por Amoy Ribas, que acaba de voltar à Brasília depois de morar 5 anos no Rio de Janeiro. A mistura de técnicas e estilos distintos é característica marcante do músico, que busca extrair todas as possibilidades sonoras dos instrumentos. Sua percussão vibrante despertou o interesse em grandes nomes da música como Beth Carvalho, Leila Pinheiro, Joyce, Paulinho Moska, Gilson Peranzzetta, Hermeto Pascoal, Marco Pereira, entre outros, com os quais o percussionista fez shows no Brasil e no exterior. Amoy Ribas foi professor da principal escola de percussão e bateria do Rio de Janeiro, Maracatu Brasil, e deu aulas em diversos cursos e oficinas de música. Ele pretende transmitir aos seus alunos o conhecimento adquirido com as gravações, os shows e as participações em projetos e grupos musicais que compõem sua trajetória profissional. O universo da percussão é formado por uma grande variedade de instrumentos. Desde os mais conhecidos, como o pandeiro, o tamborim e a cuíca, até os mais exóticos, como a tabla (indiano), o derbak (árabe) e o tambor-onça, os instrumentos de percussão têm como característica as diferenças técnicas, sonoras e rítmicas -- que serão conhecidas e exploradas por os alunos durante o curso. Acesse o arquivo anexo e conheça alguns trabalhos do músico Amoy Ribas. Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello Fone: 3225-2761 http://www.clubedochoro.com.br/escola.asp? id = 228 & nome = Escola % 20 de % 20 Choro. Matrícula: R$ 70,00 Mensalidade: Número de frases: 16 R$ 70,00 Estética e Atitude Black A BlacKitude é composta por pessoas que se reúnem para apresentações artísticas e trabalhos sociais com o mesmo prazer e intensidade. Sua vinculação ao hip hop segue duas bases vitais: a estética das linguagens dos chamados quatro elementos: rap, break, grafite e dj, e sua inserção nas lutas sociais. Desde 1998, atua no processo de consciência, construção, fortalecimento e independência do hip hop soteropolitano. De esta militância, resulta atividades que envolvem posses, escolas, faculdades, associações, sindicatos, teatros, passeatas. O coletivo entende-se como desdobramento do movimento negro. Por isso BlacKitude: Blacks com Atitude. Cidadania Hip Hop A BlacKitude compreende que a construção de um movimento global de cidadania não pode menosprezar as demandas da juventude urbana atual. Afirma elementos tradicionais, folclóricos ou arcaicos, mas não concorda com a anulação da contemporaneidade. As mudanças operadas nos jovens negros e carentes que transitam por a paisagem urbana na condição de cidadãos expostos às transformações promovidas por as experiências das culturas da pós-modernidade são dados que devem ser considerados por todos que se preocupam com a construção de sua subjetividade e preparação para a experiência coletiva. É por este viés que a BlacKitude participa do movimento da sociedade civil, dando ênfase ao processo cotidiano do hip hop como experiência positiva que pode ser aproveitada na elaboração de projetos que priorizem a construção e a defesa de uma cidadania ampla e plural. Em a crença que pode transformar o outro, o ativista do hip hop transforma, primeiro, a si mesmo. Ser hip hop cotidianamente é o que faz com seja sujeito e objeto de mudanças operadas na contemporaneidade, bem como produtores de bens comuns. Estética, Raiz e Ativismo A escolha da BlacKitude é não apartar a arte do hip hop do ativismo social, nem menosprezar o mercado que lhe é peculiar e legítimo. Por isso o processo lhe atrai tanto quanto o produto. Em o palco ou no cd, o rap é música. Em o seu processo de elaboração, na solidão ou em grupo, é um caminho efetivo e simultâneo de elaboração da subjetividade e interferência no coletivo: simbólica e materialmente. Essa lógica vale também para o break, para o grafite e para o dj. O fato de um jovem tocar ou samplear James Brown, Bezerra da Silva, Fela Kuti, Jorge Benjor ou Originais do Samba revela, em parte, a orientação identitária promovida por o hip hop. Essa procura de raízes é diferente da «arqueologia» conservadora, pois, embora legitime a consciência de tradição, não busca purismo ou originalidade, mas inspiração que se materializa por a apropriação. O sampler dilui as barreiras entre o que as culturas das elites insistem em referenciar como original ou rejeitar enquanto cópia. A apropriação atualizadora, orgulhosa de explicitar suas fontes, representa a grande mudança operada por o canibalismo cultural através do qual a cultura hip hop abalou os paradigmas das belas artes e sua busca de singularidade. Tudo isso abriu não só uma forma de expressão, mas também um mercado que deve ser do domínio da comunidade que o produz. Mercado. Negro Fica, agora, a expectativa de firmar-se, aqui, novas parcerias da BlacKitude, fortalecendo nossa amizade com todos que lutam, verdadeiramente, por o fortalecimento das culturas espontâneas e por a emancipação do povo preto. Afinal, a nossa família é ampla, mas mãe só temos uma! One love!! Número de frases: 33 -- Blackitude@gmail.com Selos Baianos Surgido nos anos 90 o selo «Big Bross Records» é um dos mais antigos como define " Rogério Big Brother ": » ... O selo na verdade, veio da distribuidora. É o seguinte: em meados dos anos 90 começaram a sair os discos da Cascadura», brincando de deus», «Dead Billies» e acabavam parando aqui. Como eu já viajava para festivais, para outros lugares, acabei carregando esses discos com mim. A mesma dificuldade que tinha aqui de vender, tinha lá fora, porque a galera conhecia pouco as bandas. Então ... eu acabei trocando muito desses discos, daí abri uma distribuidora. Como eu já tinha os canais para distribuir e soltar esses discos, daí abri uma distribuidora. Como eu já tinha os canais para distribuir e soltar esses discos pra virar um selo foi um pulo." ( Brother, 2006). As novas tecnologias são responsáveis também por a distribuição e consumo destes bens culturais; produzidos por estes artistas independentes como também define BROTHER: » ... A Big Bross é 80 % Internet, os cd ´ s são muito mais vendidos por pedidos do correio que em shows mesmo, e em lojas. O selo funciona muito melhor virtualmente, e tipo assim, é um selo, uma produtora de um homem só. Então vive com a correspondência meio atrasada, mas é sempre respondida [Risos] ..." ( Brother, 2006). Uma das grandes diferenças de um selo para uma gravadora e no que se diz a respeito da gravação e distribuição. Em a sua grande maioria os selos não gravam trabalhos de bandas do seu «cast», já recebem pronto, se responsabilizando apenas por a sua prensagem e por a sua divulgação nestes» nichos culturais " denominados de cenário alternativo. Alguns dos selos baianos funcionam como distribuidoras e atuam permanentemente, trazendo discos de fora como é o caso da «Frangote Record» e «Atalho discos». Em outros casos como produtoras, produzindo shows de bandas locais e nacionais como a «Big Bross» e a «Maniac Record». Como relata " João Carlos da Maniac ": » ... Os selos se tornam à distribuição mais horizontal. Diminuindo o espaço entre banda e público ..." ( Carlos, 2006). Por conta disso os selos baianos precisam formular e pensar estratégias diferentes das «Majors» (Grandes gravadoras), que investem no segmentado «Mainstream». Como define " Fabiano Buía da Estopin Record ": » ... Os selos se adaptam mais aos diversos tipos de bandas existentes. Eles tratam cada banda como única, ao invés de utilizar fórmulas pré-estabelecidas de produção e divulgação ..." ( BUIA, 2006.). Retirado do artigo: Notas para uma reflexão sobre: «Música independente no cenário cultural baiano e as novas tecnologias de produção e consumo musical " Número de frases: 34 Mais uma tarde de domingo na Cidade Velha, em que as famílias do bairro tombado por natureza se reúnem em frente às casas e fofocam sobre a vida alheia enquanto assam o churrasco regado à cerveja. Mais uma tarde quente e mormacenta de domingo na Cidade Velha. Não fosse em plena quarta-feira. Menos mal sendo o feriado da Adesão do Pará à Independência do Brasil. Troca-se o churrasco por uma lasanha de forno. As cervejas continuam. Comemoremos nossa liberdade, afinal. Ainda que a liberdade dos que trabalham. Livres, leves e soltos. Há quem pense não seja possível. Felizes dos que vivem à margem das impossibilidades, pois. Toco a campainha do Casarão, espaço onde atualmente trabalha o artista plástico Pedro Paulo Condurú, o Pp.. Ouço uivos. Intermináveis. Os cachorros no porão não latem, cantam. Cada um numa toada. Falta-lhes um maestro. E também parecem felizes com isso. Ninguém atende à porta. O sol assando carne de cabeça. Toco de novo. Atravesso a rua e me protejo debaixo de uma sombra. Alguém aparece na janela do segundo andar. Identifico-me. A pessoa some. Reaparece já com o portão aberto. Convida-ma subir as escadas. Em a sala, sentado em frente ao computador, ao me ver chegando, Pp se levanta e estende a mão. Enfim, após tantos causos mal contados, estava frente a frente com o lendário pintor marginal paraense. De cara, concluo: adjetivos demais pra quem demonstra tanta substância logo numa primeira impressão. «Nem me lembrava que tinha marcado essa entrevista. Já pensou? Tiveste sorte». Compreensível. Faz tempo que Pp não anda. Corre contra o tempo e contra todos para que tudo fique pronto até o dia 13 de setembro (2007), quando do vernissage da exposição «à Luz do Sol». Parte de uma série de eventos que farão a retrospectiva de seus 30 anos de carreira, reunirá algumas de suas mais de 700 pinturas na Casa das Onze Janelas, desde o primeiro desenho até as experiências na tela de um PC. Paralelo a isso, Pp ministrará palestras e workshops no Instituto de Artes do Pará (IAP), órgão que também lançará, em edição de luxo, um livro com reproduções de sua obra, acompanhadas de textos críticos. Obras estas que ainda rechearão um DVD, junto com depoimentos de boêmios tarimbados como o poeta Max Martins, o fotógrafo Miguel Chikaoka, o arquiteto Paulo Cal, entre outros. Interrompendo uma lasanha de forno entre amigos na tarde quente do feriado de quarta-feira -- pausa entre um compromisso e outro --, com si alguns minutos a sós com Pp e seu copo de cerveja para conversamos sobre sua trajetória, a retrospectiva e, em meio a um realinhamento das idéias e outro, tentando tirar-lhe alguns desses acontecimentos que o tornaram lenda viva na cidade e fora de ela. «Não existe esse papo de lenda, as pessoas é que não têm o que fazer e ficam inventando histórias. Tudo lenda, isso sim». Ishak -- Me fala um pouco da exposição que vai rolar em setembro. Pp -- É tão legal essa exposição, que ela fala por si só. Ela tem a capacidade de envolver as pessoas de uma tal maneira, que, quem não se envolveu, é porque não entrou. É um trabalho que diz respeito às pessoas que estão em ele envolvidas. Diz respeito à Belém, ao ser humano. Tem toda uma colocação humana em ele. Todo esse respeito, esse comportamento vão agregando pessoas e a coisa vai tomando fôlego. A arte vai crescendo com isso, tornando-se uma expressão de todos. É legal porque cada um começa a ver coisas e partes que não via. Fico imaginando um indiozinho embaixo de uma árvore, num igarapé, com um livro desses nas mãos e viajando. Pensando assim: «mas esse pessoal de Belém é muito doido». Isso seria bem legal. Ishak -- E o que tu esperas que aconteça na cabeça desse indiozinho depois que ele conhecer teu livro? Pp -- Aí é que tá. Espero que ele se valorize mais, porque esse trabalho está todo voltado para o bem do bem, não para o bem do bonzinho. É uma história assim: o que ele diz, o que ele veio a ser, é que você é legal. Não existe uma fórmula. Você é legal, então se valorize. E o indiozinho vai descobrir isso. O que eu fiz por mim ... fui lá, não sabia desenhar, não tinha escola, nem nada. Mas aprende-se. Vai lá, fica o dia todo rabiscando, até tu aprenderes. É isso que eu estou passando para as pessoas. Vai lá também, risque, acredite. Então, eu acho que o mínimo que esse indiozinho vai sacar é que ele é do caralho. Ishak -- Como é que foi pra tu começares a desenhar? Pp -- O desenho sempre esteve na minha vida. Assim ... o Presidente do Banpará e um dos Ministros da Justiça do Governo FHC eram meus vizinhos de casa, estudávamos na mesma escola, fomos escoteiros juntos. E eles faziam curso de pintura. Eu queria, só que era muito caro para os meus pais, eles tinham muitos filhos. De aí, entrei e saí. Mas fiquei com as tintas. Em o início, fiquei borrando. Mas a partir de 70, 72, eu passei a gostar mesmo. Em o livro, tem coisas dessa época, de 71. Bem legal. Ishak -- Quais eram tuas influências na época? Quadrinhos, pintores? Pp -- Não sei, não sei mesmo. Eu era muito ingênuo. Era uma coisa que vinha de dentro, queria me expressar. Influência nenhuma. Nada, nada ... nada. Esse cigarro é teu? Ishak -- Pode pegar. Pp -- Não, pensei que fossem os meus. Não gosto desse. Ishak -- Certo. Estava dando uma olhada no livro. Essas pinturas expressam ... Pp -- Não, olha. Dentro da exposição ... esse livro que tu tens em mãos, por exemplo, está cheio de anotações. Esses textos estarão ao lado das obras na exposição. (Tento ler as anotações. Não consigo me sair muito bem). Ishak -- Idiota do cunhado ... rabo de gato ... não to conseguindo entender muito bem. Pp -- Ah, tá. É porque, nessa época, o idiota do meu cunhado era meio chato e ele me mandou cortar o rabo do gato e eu cortei. E por aí vai ... Ishak -- Todos os quadros, então, têm uma história que será contada na exposição? Pp -- É, sim. Olha, esse aqui também tem. E aquele ... mas são histórias que só entram mesmo na exposição. Não entram no livro porque acho que, nessa hora, o livro tem que falar por si só, é um objeto. Não é uma amostra, que logo acaba. Vai durar para o resto da vida. Não me interessa ficar dizendo o que é e o que vai ser. A pessoa que tem que olhar e ver, curtir, viajar. Eu não vou pintar na tela o que eu poderia escrever no papel. Vou respeitar o material literário e o artístico. Não estou falando sobre escrever numa tela, coisa que já fiz e muito. Estou falando do tratamento que é dado para o papel e para a tela, diferentes. O mesmo se dá com o ferro, com o mármore. Pra cada um, tem um tratamento e tem que ser respeitado, senão tu quebras a cara. Até o sonho humano ... se tu tentares pintar um sonho, tu vais quebrar a cara. Ishak -- Sei ... fiquei curioso pra saber um pouco mais sobre essas histórias que envolvem os quadros. Pp -- É o que eu te falei. Essa exposição ficará em cartaz por quatro meses. Tu podes voltar aqui e a gente vai fazendo isso por capítulos, um por mês. Porque isso tudo reflete Belém. As pessoas não param pra ficar só nos quadros ou no livro, não tem essa. A muvuca em pauta que é legal. As pessoas sempre querem saber quem era que estava li, se teu pai, teu tio. Ishak -- E os nomes serão revelados? Pp -- Sim, vão. Vai ter uma pia batismal lá com o nome de todo mundo, das pessoas que ajudam, que atrapalham (risos). As anotações que estão nesse livro já estão liberadas. Se houver algum nome aí, vai sair. Mas acho que evitei isso ao máximo, acaba não sendo legal. Ishak -- E o que tu acha de contar uma dessas histórias agora? Pp -- Ah, eu tenho várias. Mas não, não. Isso é lenda e isso de alimentar lenda não é com mim. É que nem uma menina, restauradora, que chegou com mim dizendo que, dos artistas com quem ela trabalhou, eu sou o mais rebelde. Que eu devia me policiar e trabalhar com certos tipos de materiais. Qual resposta eu posso dar pra uma pessoa dessas? Olha, se não fosse eu, tu estarias desempregada (risos). Porra, a restauradora taí pra isso. Eu tô aqui pra aloprar. Ishak -- Como se dá essa escolha dos materiais? Tu mudas constantemente? Pp -- Sim, claro. Tudo ao mesmo tempo. Fiz o livro, o DVD e pinto. O computador te possibilita um mundo de coisas. Tô fazendo música, cara. Precisou de trilha para o documentário e eu tô fazendo. Nunca tinha feito música. Peguei o computador e baixei um programa. Comecei brincando, fiz umas três ou quatro. Depois, comecei a levar a sério. Fui tocando piano, fazendo melodia, bateria. Mas não me chama pra tocar piano de verdade, nem violão. Meu negócio é no computador. Ishak -- Entendo ... vamos falar, então, das exposições que tu já fizeste. Como o público encarava? Qual era a repercussão dos temas abordados? Me conta histórias ... Pp -- Ah, teve uma em que saiu uma entrevista no jornal e a exposição ficou lotada. Ela atingiu Belém em cheio. Isso foi em 1997. E eu não estava acostumado a isso. Meu trabalho nunca teve isso. Sempre fui rebelde, punk pra caralho. Mas não quero falar sobre isso, não. Não vou alimentar lenda. Tem muita coisa, muita gente tem muita história. Deixa que eles falem. Eu acho interessante a gente falar sobre fotografia. Sobre os materiais que eu uso, sobre por que eu levava essas temáticas, por que eu tomo essas atitudes e me posiciono e falo assim. Ninguém quase me pergunta sobre isso, sobre essa política ... Ishak -- Mas é justamente sobre isso que eu quero saber ... Pp -- Essa política de eu ter uma insônia e querer mostrar isso pra essas pessoas, que isso existe. Tem livro, tem exposição, não é lenda. É real. Esse é meu movimento político. Não tô aqui pra ficar levando lero, inventando história. Tá aqui, eu fiz. Se ninguém viu, eu também não. Então, pela primeira vez, eu tô vendo com todo mundo. E olha a cagada que é. Porque isso que é interessante, volta para a cidade. Ishak -- Tudo bem. E como a cidade recebia tuas temáticas? Pp -- Ah, era muito doido. E não só aqui. Eu viajei pra outros estados, onde fui censurado, amaldiçoado, essa coisa toda. Não tô nem aí, porque eu acredito nessa história da postura política, ética. Tudo isso reflete no meu trabalho. É Belém. É uma coisa justa. Vou teclar nisso. Mas, politicamente, acho isso tudo que acontece uma babaquice, só ladrão. E eu vou lutar contra isso e eles estão querendo me atrapalhar nesse trabalho, mas eles vão quebrar a cara. Ishak -- Quem são eles? Pp -- Eles são ... não são do «Quem São Eles». Ishak -- E quais problemas eles te causam ou causaram? Pp -- Eu chegar em São Luiz, por exemplo, porque tinha me emputecido com Belém, que era careta demais e queria um lugar pra morar. Já tinha morado no Rio, rodado um pouco. Aí, resolvi começar por o Maranhão. Cheguei em São Luiz e o pessoal só pintava cavalinho, escadaria, praia, veleiro, mar. E, como eu já tinha feito aqui em Belém uma exposição sexual, que era muito engraçada, uma putaria do início ao fim ... Belém era engraçada nessa época. Era menor, mas as pessoas eram malucas. Década de 80 no Bar do Parque. Parei de ir lá porque briguei com o cara que vendia cigarros. Toda vez, queria em enganar com 10 centavos, até que eu perguntei se eu era pai de ele. Mas já fiz muita onda lá, minha vida era no Bar do Parque. Acho que umas cinco pessoas o citam nos depoimentos para o documentário. Chikaoka, Max Martins. É até engraçada a forma que eles dão esses depoimentos. Eu tive que puxar muito pra que eles falassem alguma coisa do meu trabalho. Eles se largavam ... na exposição, nós passaremos esses depoimentos na íntegra. Em o DVD, estarão editados. Eu mesmo editei, tratei as imagens. Foram gravados numa máquina de fotografia ... tecnologia é um barato. Baixo uns plug-ins lindos, maravilhosos, e me faço ficar loiro de sutiã bem rápido. (A campainha toca. Os cachorros começam a uivar. Desculpa ideal para retornar ao foco). Ishak -- Voltando pra São Luiz ... Pp -- Pois é. Lá, fiquei na casa de um jornalista e comecei a conhecer os artistas. Fui com dois tubos amarrados nos ombros. Um com papel em branco e o outro com trabalhos feitos. E assim fui viajar o Brasil. Isso, em 85. De aí, em São Luiz, onde foi censurada minha amostra sexual. Seria na galeria da Universidade, mas o Cônego foi lá e disse que era do diabo. Tivemos que mudar de lugar correndo, no mesmo dia. Colocamos aviso na porta avisando a mudança pra uma galeria alternativa, num casarão antigo, que era de um puta maluco. É engraçado que, até a hora da exposição, a gente ficou trancado numa suíte, sabendo que daria problema. Fomos lá, pregamos tudo com prego nas paredes, era essa a proposta. De aí, já frescaram, porque não podia furar a parede. Quando a gente viu, apareceu o Cônego dizendo que a Igreja não permitiria que a Universidade se associasse a esse tipo de coisa. Em essa hora, tinham uns repórteres do jornal do Sarney. Saiu, no Segundo Caderno, um desenho horroroso de uma mulher com uma tesoura cortando meus trabalhos com a manchete dizendo «A Censura Volta a Exibir suas Garras». Por ser do Sarney, foi algo curioso. Mas do Maranhão fui para a Fortaleza e, de lá, acabei indo pra São Paulo direto. Demorou uns cinco anos para a eu voltar a Belém, embora viesse de vez em quando. Ishak -- Por que a opção de seguir direto pra São Paulo? Pp -- Eu fui de São Luiz para a Fortaleza porque o pessoal me disse ... era assim: minha idéia era chegar numa cidade e as pessoas me dizerem com quem eu deveria falar na próxima cidade. De aí, em São Luiz, me disseram pra não ir a Teresina, tampouco a João Pessoa. Meu trabalho não seria aceito lá, perderia tempo e dinheiro indo pra lá. Chegando em Fortaleza, já tinha pouco dinheiro. A pessoa que ia me acolher, acabou não podendo. Me levou prum outro lugar e acabei dormindo no chão por alguns dias. Fui atrás de galerias e, nessa andança, conheci um artista plástico que morava em São Paulo, Siegbert Franklin. O trabalho de ele era muito parecido com o meu. Ele adorou meu trabalho e já me apresentou para a dona da galeria, a Inês Fiúza. Vendi uma exposição inteira para a ela. De aí, o Siegbert me pegou e me levou pra uma casa chiquérrima, uma mansão. Mas não gostava muito, o pessoal era muito frio. E acabava voltando pra dormir na rede lá na casa onde estava. De todo modo, esse cara me convenceu de que o resto do Nordeste era uma merda e que minhas opções eram Vitória, Brasília, Paulo e Belo Horizonte. Entre Minas e São Paulo, essa última era onde eu tinha de ir pra brigar e mostrar meu trabalho. Fui. O Siegbert me acolheu nos primeiros dias e depois fui me virando. Ishak -- Como foi a experiência em São Paulo? Pp -- O Siegbert me apresentou aos donos das galerias com que ele trabalhava. Só que não deu certo, era tudo muito brega. Eu não gosto de galerista, sabe. Eles adoram comprar calças de tergal, essas coisas. Eu passo. Os caras têm direito a comprar teus quadros por 50 % do valor. Chega na galeria, eles ainda aumentam o valor em 10 % e inflacionam tua obra. Não trabalho com galeria, é muito raro. Nunca tive sorte. Ishak -- E São Paulo? Pp -- Ah, lá eu era punk. Conheci muita gente legal. Mas eu era porradeiro, de virar mesa em discussão sobre arte com os artistas lá. Quebrava o pau. Foi onde aprendi a ser mais profissional, a saber o que eu queria e a expressar isso. De outra maneira, não dá certo. Não consigo ser outro. E lá eu era muito punk, fui alcoólatra. Até que eu me esbarrei num caboclo, Pena Dourada. Tenho esse lado místico. Esse caboclo deu um norte pra minha vida. Foi uma época em que eu estava muito doido mesmo, sem nó nem estribeira. Tive que fazer operação no estômago. Estava muito ruim, muito mal. Alguma coisa estava errada com mim. E eu tinha conhecido uma pessoa em 82, em Belém, mulher de um fazendeiro baiano, que havia comprado uma obra minha. Ela gostava tanto da obra que, quando se separou, foi pra São Paulo e levou o quadro com ela. Virou artista plástica e mantemos contato através de uma amiga em comum. Foi ela quem me levou pra essa Entidade. Cara, minha vida mudou todinha. Já no primeiro dia, esse caboclo me deu um norte e me disse «mermão, rasga». Isso já foi no final de São Paulo, em 90. Então, um dia cheguei pra ele e disse " olha, eu tô indo embora pra minha terra. Tu não achas covardia?». Em o que ele me respondeu «não, é melhor do que viver chorando». (Em isso, alguém parece. Pp tira um sarro). Pp -- Porra, mas tu não paras de falar, desde manhã cedo. É pra jornal, para a revista. Olha, isso já não tá muito grande? Tu estás levando problema para os teus chefes, eles vão te matar. Ishak -- Problema nenhum. A gente edita. Mas só se for o caso. Pp -- É legal, isso. E tem uma coisa assim, que meu trabalho ... ah, o Pena Dourada. Tenho que acabar de falar de ele. Ele acabou de me apitar. Tenho que pedir a benção. Ele sempre me protege, ele gosta do que eu faço. Não chama de pintura, nem de desenho. Fala «essas coisada que tu faz, essas coisada que eu não entendo». Ele é um indiozão, dá cada porrada no peito. É um índio louco. Ishak -- Um índio de São Paulo? Pp -- É, mas ele me deu o Norte. Foi ele quem me deu o toque de que Belém era tudo de bom. Ele me ensinou uma coisa: «Seja feliz antes de morrer». Antes, eu era muito impertinente. Ainda continuo tendo essas falhas humanas, mas quem não tem? Porra, eu era impertinente pra caralho. Se me irritavam, eu já ia logo para a cima. Hoje, dou até sorriso. Ishak -- E essa volta pra Belém, como foi? Pp -- Ah, foi legal. Como eu me visto, desde 74, com as roupas que me dão, antes eu era escorraçado da sociedade. Me viam como um hippie, um maltrapilho. Hoje, é moda. As filhas desses filhos-da-puta todos vestem minha roupa. Isso é Belém hoje. É engraçado. Como quando fomos fotografar as obras para o livro. Quem vai fotografar? Faz a lista de quem tem as obras, te lembra aí. Fulano de tal comprou esse, sicrano comprou outro. Vai na casa desses caras, liga, fala que a gente quer fotografar. Cadê os quadros? Porra, eu já me separei, ficou minha ex.. Passa o telefone da ex.. Porra, ficou com meu outro marido. Todo mundo que comprou na década de 80, acabou se separando na década de 90. De 95 em diante, estava despirocado o barato. Isso é Belém, socialmente falando. O comportamental sexual das pessoas. Isso é legal. Através desse trabalho, a gente viu isso claramente. O que já daria uma nova viagem, novos trabalhos. Ishak -- Pois é, chegamos ao ponto. Era isso que eu estava querendo. Uma leitura tua dos teus trabalhos. Pp -- Ah, mas é muita história. A gente podia ir conversando durante esses quatro meses. Mas tu estás pegando coisas que são poucos que pegam. Os caras costumam chegar e perguntar um monte de besteiras. Só faltam me perguntar se eu gosto do Calypso. E eu gosto. Vou te falar mais ainda. Fiquei fã da Joelma ainda no Fruto Sensual. Mandei comprar aquele disco que tinham as músicas das aparelhagens. Ninguém mais tinha. A única pessoa que tinha era a Úrsula Vidal, a Joelma tinha dado para a ela. Pedi para a ela copiar e ainda tenho até hoje. Escutava pra caralho. Não tenho esse mea culpa, não. Eu gosto. Só que agora tá enchendo o saco e eu não gosto mais. Ishak -- Indo por esse caminho, então, do que tu gostas atualmente da cultura paraense? Pp -- Égua, tem muita gente boa de tudo quanto é naipe. Em a minha época, a gente contava no dedo. A gente ficava esperando um vernissage pra beber vinho de graça e nada. Isso, na década de 70. Não havia oportunidades, era uma escassez cultural. A gente aprendia tudo através dos livros como aquela coleção «Gênios da Pintura» ou cursos esporádicos, pingados aqui e ali. Ainda tinha a ditadura pra complicar. Os artistas eram todos camuflados. E nós, adolescentes, pensando que estávamos abafando, pra lá e pra cá. Nos juntávamos com artistas de outras áreas pra poder fazer, gritar. Foi quando eu parei de estudar, foi um movimento político meu, porque não acreditava naquela escola, a UFPA era uma Rede Globo. Nem sei como é hoje em dia. Em a minha época, a gente era cobaia e eu mandei tudo à merda. Briguei com meia família. Só minha mãe e minha irmã mais velha falavam com mim. Meu pai já tinha falecido. O resto, tio, avó, ninguém falava com mim. Foi quando rolou minha primeira exposição, em 76. Larguei tudo pra fazer isso e me virar. Ishak -- O que tu chama de te virar? Pp -- Uma vida ralada mesmo. Viver de pintura não é fácil. Quando comecei esse projeto do livro, teve uma época em que fiquei seis meses com a água cortada e não tinha tempo pra parar. Eram 700 imagens que tinham que ser tratadas. Então, tomava banho na casa da vizinha, almoçava na casa dos outros. Isso é viver de arte. Número de frases: 434 Até acredito em quem encara a arte como hobbie, mas acho minha consciência legal. Outro dia passei uma mensagem para o celular de um amigo lembrando-o de uma reunião de trabalho. A resposta veio seca, mais ou menos assim: -- Mas é pra começar no horário. Tenho um funeral às 16h.???? à partir daí uma tremenda curiosidade começou a me perturbar, sim, porque poderia ser qualquer pessoa. Até mesmo alguém que eu conhecesse. Já pensou, ser surpreendido com a morte de algum amigo? Como sou egoísta diante da morte. E mesmo sendo algo inevitável, na verdade, a perda de alguém conhecido é que me deixava intrigado. Por que sofrer somente por os conhecidos? Depois encontrei meu amigo que me contou em detalhes, como só ele sabe contar, tudo sobre o morto e o funeral. Fiquei horrorizado. -- Pressão alta. Sangue escorrendo por o nariz ... o cara não teve prorrogação. Triste. Passei a semana pensando nos desconhecidos. Cada manchete de jornal que relatava algum óbito me fez refletir sobre o tempo que perco perdendo o tempo da vida (quando digo jornal me refiro a Folha de São Paulo). Lembrei logo de minha esposa e seu discurso geração saúde: Olha a barriga, olha alimentação, olha o sedentarismo, por que largou a academia? Já estou beirando os 37 e começo a acreditar que ela tem toda a razão. Mas também não quero ficar paranóico. Anteontem ela me ligou perguntando se eu queria tomar a vacina de prevenção da gripe. Fiquei desconfiado. Qual foi? Tem me visto espirrando por aí? Faz tempo que não fico doente. Paranóico ... desconfiado ... o fato é que se alguém se aproxima de mim pra falar de doença começa a me dar um mal estar ... Ontem estava conversando com um representante do Minc que veio participar da Conferência Estadual de Cultura e ele dizia que havia passado mal no dia anterior. Pensei: Pronto, lá vem doença. Comecei logo a arquitetar uma estratégia para afastá-lo de mim. Foi em vão. A sua narrativa parecia de filme de terror. Começou com um leve mal estar, depois a sensação de desmaio, a pressão e foi acabar na parte mais hardcore da tarde em que o nariz de ele sangrou. Lembrei logo. -- Caramba, mas foi assim mesmo que o colega do meu amigo morreu. Aquele do funeral às 16h. E agora, falo pra ele ou não falo? Aeroporto lotado, gente pra todo lado, o suor escorrendo no meu rosto e ele com aquela cara pálida. Pálida de doença! Que situação. Mesmo sem querer comecei a sentir pena do indivíduodenarizvermelho, quase um clown em seus últimos momentos em cena. Estranho, passei a me distanciar do indivíduo, talvez pra não criar laços e não sentir nada quando o mesmo falecer. Mas também foi em vão, pois sempre que eu conseguia uma certa distância, ele se aproximava pra conversar. Meu Deus, que insistente! Olha só o egoísmo ... a desenfreada busca por a ausência da dor. Espero encontrá-lo vivo amanhã, pois de outro jeito não terei cara de encarar seu cadáver depois de tantas evidências sobre a sua possível morte. Será que eu tô exagerando? Marcelo Perez wwwsextascronicas. blogspot. Número de frases: 54 com Há alguns dias, publiquei um texto aqui no overmundo a respeito de um «breve histórico do rock em Cuiabá». Continuo na onda do " evidente que o que aí está não é um compêndio da história do rock cuiabano, o que seria impossível sem que houvesse um trabalho historiográfico mais completo. Mas uma breve contextualizada de um processo que aconteceu de forma rápida e intensa (principalmente dos anos 90 pra cá), e hoje é vivida e trabalhada com afinco; e claro, com a mesma rapidez e intensidade." Assim esclarecido, eis aí a parte 2, após os anos 90, pulando para a década seguinte, mais exatamente o ano de 2002: Em o início desse século, a revolução na comunicação, através de veículos como sites, blogs, fotologs, myspace e todas essas paradas da internet fez com que houvesse uma possibilidade muito maior de troca de informações. E, de repente, a moçada que estudava e queimava seu intelecto nos contatos do mIRC (lembram?) resolveu se «articular» conjuntamemente em prol de causas em comum. Através do contato do movimento estudantil de duas faculdades diferentes (UFMT e UNIC) nasceu o instituto que mais contribuiu com a cultura urbana alternativa de Cuiabá dos últimos tempos. Sim, advinhão. me refiro ao Espaço Cubo. Em o começo, apenas uma produtora de vídeo e, posteriormente uma produtora de shows, que já se aventurava no agenciamento de bandas. Paralelo a isso, o Festival Calango já engatinhava com suas bandas locais (e algumas do interior) e seu caráter bienal. De entre as bandas surgidas na época (Deefor, The Breeze, Vallium, Durangos, entre trocentas outras cujos eternos fãs ficarão revoltados por a minha não-citação) a que mais se destacava, sem sombra de dúvida, era o Deefor. Formada por grungers (nirvaneiros mesmo!) de cerca de 16 anos de idade, a banda conquistava todo o público do colégio (salesiano, diga-se) por o som acessível e por a sinceridade da proposta. Em o repertório (sabido de cabo a rabo por os fãs) figuravam letras (em inglês) angustiadas; algumas de elas escritas por os amigos / fãs da banda, como era o caso da célebre «Hate versus Hate», que contava a história de uma garota e seus desentendimentos com o pai. Loyalty também encantava. Chegou a fazer parte do repertório do Vanguart Agora advinha quem era o band-leader, compositor, guitarrista, vocalista, e semi-mito do Deefor: o então cabeludo Reginaldo Lincoln, hoje baixista do Vanguart. Dá pra acreditar? Dá! Uma banda feita por e para jovens, autoral, honesta e que tinha a simpatia da cena rocker. Era a banda ideal para o início dos trabalhos de construção de uma cena na cidade. Só não comparassem Reginaldo com Kurt Cobain, por favor. Era treta na certa. Em a época, alguns produtores também sentiram o impulso cultural e pipocaram produtoras e eventos por a cidade. MT Rock (pop rock e rock brazuca em sua maoiria), Blecaute (Heavy Metal), o Projeto Doze Atos (alterna) ... Em um dos 12 atos (o 5º pra ser mais exato), a banda convidada foi o Autoramas. Parece fato consumado. O Autoramas sempre é a banda carro chefe de cenas independentes em ascensão. Depois de eles vieram Dance of Days (SP), Mechanics (GO), Magaivers (PR), MQN (GO), Carbona (RJ) ... entre vááárias outras. A cama estava armada. A explosão veio mesmo com a super-programa ção (insuperável?) do Calango 2005. Número de frases: 38 A qual volto a falar logo mais, na parte 3.. Alcino Neves dos Santos Filho foi um mito. E como todo o mito viveu cercado de polêmicas, lendas e grandes realizações. Difícil dizer, a essa altura, o que é verdade e o que se mantém apenas como parte do imaginário da torcida paraense. Mas o que se sabe sobre Alcino é que, no gramado, não houve jogador igual. Em vida, levou o Clube do Remo a vitórias inimagináveis, uma era de glória que o time azulino, com um time medíocre e ameaçado de ser rebaixado para a Série C, talvez jamais consiga reviver novamente. Alcino só não conseguiu ser o maior goleador do Remo. Até hoje, a honra cabe ao atacante Dadinho, com 163 gols marcados durante a sua passagem por o clube. Alcino morreu na miséria, vivendo de favor num sítio de Anindeua. Nem de longe lembrava o craque fanfarrão e genial, apelidado por a torcida de «Negão Motora», por causa de suas arrancadas. Um goleador de primeira que provocava o time adversário com gestos obscenos, desconcertava zagueiros com seus dribles e tinha um fraco por bebida, farras e mulheres. Em um episódio envolto em controvérsias, seu corpo não foi velado na sede do clube e nem enterrado junto com a bandeira do Remo. Resultado, acusam alguns torcedores e amigos, do descaso com que o clube tratava o seu maior jogador em seus últimos dias de vida. Em as rodas de conversa que se formam em seu velório, muitas histórias para contar. Como a vez em que Alcino, um grande fã de John Travolta, amanheceu dançando na boate Papa Jimmy, famosa em Belém nos anos 70, às vésperas de um jogo. Chegou ao estádio acabado, pediu para dormir um pouco e acabou saindo no braço com o técnico azulino Paulo Amaral, o seu algoz com quem mantinha uma relação de amor e ódio. Apesar do arranca-rabo, entrou em campo e marcou dois gols. Só para depois comemorar a vitória abraçado com Amaral como se nada tivesse acontecido. A julgar por as reminiscências dos amigos mais próximos, Alcino viveu como um popstar, de maneira extravagante e excêntrica, misturando o talento para o futebol com uma vida conturbada e cheia de passagens folclóricas. É famoso o episódio em que, durante um jogo com o Paysandu, após driblar dois zagueiros e um goleiro, sentou na bola a dois palmos da linha do gol antes de fazer balançar as redes do time adversário. Não contente, arriou a calça, mostrando o pênis para torcida. Terminou expulso, mas provavelmente contente por a vitória dos azulinos por dois a zero em cima do time bicolor e por ter acrescentado mais um fato pitoresco à sua lenda pessoal. «Sempre que o Remo ia jogar no Rio de Janeiro o Alcino ou ficava doente ou dava um jeito de não ir», conta o veterano jornalista esportivo Fernando Araújo na saída do velório, " Depois fomos descobrir que era porque, na juventude, havia participado de um assalto na capital carioca e contra ele tinha um mandado de prisão. Morria de medo de ser reconhecido. Assim era o Alcino. Certa vez, quando jogava no Rio Negro, de Manaus, roubou o ônibus do time e saiu dirigindo por a cidade com a equipe toda dentro do veículo. Terminou atropelando um bêbado que estava atravessando a rua». A conversa muda de rumo quando alguém começa a discutir sobre o nome do juiz que apitou a célebre partida contra o Paysandu, da qual Alcino foi expulso, enquanto sou abordado por uma senhora já um pouco idosa. Vizinha do Baenão, o estádio oficial do Clube do Remo, Vera Lúcia Amoras recorda das inúmeras vezes em que ajudou Alcino a fugir dos treinos e de quando ele se escondia em sua casa quando procurado por Paulo Amaral. Ela o conheceu quando avistou o jogador se equilibrando por cima de um telhado de brasilit. Com medo de ele cair de lá de cima, chamou-o para dentro de sua casa e, junto com a mãe, o escondeu até que Amaral desistisse de procurá-lo. Alcino deu um tempo, fez um lanche e sumiu. De fuga em fuga, nasceu uma amizade que durou até a morte do jogador. Assim que a discussão sobre o nome do juiz esfria o tema volta a ser Alcino e um de seus feitos mais gloriosos: o famoso jogo contra o Flamengo no Maracanã em 25 de outubro de 1975. Uma partida tensa e difícil, decidida quando ele driblou três zagueiros e fez o gol que levaria o clube do Remo à vitória por 2 x 1, calando a torcida rubro-negra e um time que, na época, contava com craques do porte de Zico, Cantarelli e Geraldo Assoviador. Um momento histórico que, reza a lenda, teria levado às lágrimas o radialista Edson Matoso, que narrava a partida para uma rádio local. Como todo bom guerreiro, Alcino conquistou o respeito dos adversários dentro e fora de campo. Em o velório, as atenções se voltam para Paulo dos Santos Braga, o Quarentinha, jogador lendário do rival Paysandu, que chega para prestar suas últimas homenagens. Velho oponente de Alcino nos gramados paraenses, ele relembra a irreverência do craque e o seu talento como jogador. «às vezes ele me tirava do sério com aquelas presepadas. Mas apesar disso era um grande atleta. Brigávamos muito em campo, mas a nossa rivalidade era restrita ao futebol. Admiro muito o Alcino como o grande jogador que ele foi. Para mim ele faz parte de uma geração vitoriosa». Infelizmente os feitos do maior craque do futebol paraense ficaram no passado. Vítima do alcoolismo e de uma vida desregrada, Alcino viveu os seus últimos anos na miséria, morando de favor num sítio em Ananindeua, cidade a cerca de 40 minutos da capital paraense. Sem emprego fixo, frequentemente era visto mendigando nos bares do centro de Belém. E no Clube do Remo, pedindo dinheiro para os sócios. Talvez por causa disso tenha sido proibido de freqüentar a sede social do clube e os treinos no Baenão. Para os dirigentes e cartolas azulinos, Alcino era um nome que, definitivamente, havia ficado no passado. Uma certa ingratidão com o craque que culmina na reação passional do ex-lateral remista Mario Assunção de Carvalho, o Marinho, companheiro de Alcino nos anos 70. Durante o enterro, enquanto torcedores, amigos e ex-jogadores prestavam suas últimas homenagens ao atacante, Marinho não consegue conter a indignação. Para ele, faltou respeito a Alcino que devia, ao menos, ter sido velado na sede do clube. Durante o velório, o que se contou várias vezes é que a própria diretoria azulina teria impedido o velório do craque. Já os dirigentes explicaram que o velório foi realizado numa capela no centro de Belém a pedido da mulher do craque. E antes que o corpo seja enterrado, um grupo de torcedores retira a bandeira do Remo que cobre o caixão, de dimensões reduzidas e comprada num camelô durante a ida ao cemitério. «Está vendo isso?», pergunta bastante irritado o despachante Adelino Moura, torcedor do Remo, " A diretoria do clube não se dignou sequer a comprar uma bandeira oficial para a gente enterrar o Alcino. Tudo aqui foi bancado por a mulher de ele. Pergunta se eles vieram ao enterro ou se mandaram ao menos uma coroa de flores? Sozinho o Alcino vale mais do que toda essa diretoria do Remo. Foi o maior ídolo do futebol paraense e não merecia ser tratado com tanta falta de respeito " O caixão baixa e a última pá de terra é lançada. Alcino morreu pobre e sozinho, vivendo da ajuda de amigos e de torcedores do Remo. Em parte por culpa de ele próprio, que não soube administrar o sucesso e o dinheiro que ganhou quando estava no auge, em parte por causa do descaso do clube, que não criou alternativas para que ele vivesse melhor após o término da carreira. Em a memória dos torcedores e dos companheiros de time, ficarão as jogadas geniais e as histórias mirabolantes. Número de frases: 73 E para quem esteve presente ao enterro no começo da tarde desta sexta-feira, a sensação de que o craque não teve um final à altura do mito. Boêmio, guitarrista e fã de Bob Dylan, o guasca Irton Marx Neto é hoje -- não corra!-- um dos homens mais temidos em todo o Brasil. ( A la fresca!) Líder de um grupo que há 20 anos defende a conversão do Rio Grande do Sul em «República do Pampa» -- e autor de uma das obras mais subversivas do índex provinciano (" Vai nascer um novo país, publicada em 1990 ") -- Irton esteve recentemente na Feira do Livro, em Porto Alegre, para debater, ao lado de Juremir Machado e Antonio Risério, a complexa questão do subdesenvolvimento intelectual pampeano. No entanto, como ele mesmo disse, «a indiada acabou não se garantindo» -- e na última hora, por falta de quorum, o evento foi cancelado: «Isso é normal, pois quando os oponentes descobrem que eu me chamo Irton Marx, astutamente debandam em retirada." ( Oigalê, índio touro!) Porém, nós, da revista Cidade B -- que no perdemos la ternura jamás!-- aproveitamos a desiludida estada de Irton na Capital, e resolvemos convidá-lo para tomar um mate (ou comer um chucrute?) na Casa de Cultura Mario Quintana. Em resumo, paisano, uma «entrevista de macho» -- como todo o gaúcho deveria ser! Quem é o senhor? Bem, a pergunta é complicada, mas eu diria que acima de tudo sou um boêmio. Sempre apreciei muito a vida de bar, pois é de ali que surgem as grandes discussões, e não de palácios viciados onde só o que predomina é a mentira. Inclusive, foi numa dessas mesas de bar que eu comecei a pensar mais a fundo sobre a questão do separatismo. Foi por volta de 1964, quando assisti a um tradicionalista gaúcho ser preso e espancado por soldados do exército brasileiro. Em a época, já muito rebelde, eu vivia em função da minha Gibson Les Paul, tocando Pink Floyd, Led Zeppelin e Bob Dylan, meu ídolo maior. Portanto, fiquei muito revoltado com o acontecido, e a partir daquele dia o assunto se tornou constante em nossas investidas noturnas. Resultado: alguns anos depois, e eu já estava estruturando as idéias que formariam a base do Movimento República do Pampa! Acusado de nazismo por a imprensa nacional e processado por racismo por o Estado Federal. O que o senhor tem a dizer sobre isso? A mídia brasileira tentou forjar uma guerra étnica no Rio Grande do Sul. Em a época, a idéia de separatismo vinha crescendo cada vez mais entre a população, e eles precisavam encontrar uma maneira de silenciar a minha voz. Tudo aconteceu em 1993, quando a Rede Globo foi até Santa Cruz do Sul no intuito de produzir uma reportagem sobre o nosso movimento. Lá por as tantas, num intervalo das gravações, eles me viram falando em alemão, com o meu cachorro, algo que é muito natural na minha região. Pois bem, foi o suficiente para que montassem uma matéria criminosa, afirmando que eu era o «novo Hitler dos pampas»! E a partir daí, passei a sofrer todo o tipo de hostilidade. Fui processado, seqüestrado, tive a minha residência invadida por a Polícia Federal, que apreendeu toda tiragem do meu livro, enfim. Mas após quatro anos de processo, e isso a imprensa esqueceu de noticiar, fui completamente absolvido de todas as acusações, obtendo o direito constitucional de expressar livremente as minhas opiniões. Hoje em dia, sou o vereador mais votado na minha cidade, por o PR, e por iniciativa minha, já que falamos em segregação racial, a nossa Câmara criou a Galeria dos Afro-Descendentes, um projeto que resgata e ensina a cultura de origem africana em Santa Cruz do Sul. Além disso, o Movimento República do Pampa está de vento em popa, com diretorias em 805 cidades do estado. E as suas idéias continuam as mesmas? Olha, estou sempre procurando renová-las, mas o núcleo do meu pensamento continua o mesmo, que é formar uma grande corrente de solidariedade para defender os interesses da cultura e da economia do Rio Grande do Sul. Afinal, ninguém suporta mais o abuso de impostos, a corrupção generalizada e, sobretudo, a má vontade do governo federal em relação ao nosso estado. Além disso, sob o ponto de vista cultural, percebo que somos vítimas de um nefasto processo de «baianização», como conseqüência de uma mídia que nos enfia goela abaixo a cultura nordestina, e trata o Rio Grande do Sul de forma debochada e agressiva. Por isso, eu costumo dizer que os agressores não são os separatistas, mas os anti-separatistas! Ou ninguém nunca parou para pensar por que eles não liberam a independência da Catalunha, por exemplo, ou de Quebec, ou das províncias de Missiones e Corrientes na Argentina? Ora, muito simples: porque existe muita gente lucrando com a dominação desses territórios. Por que o separatismo virou tabu entre os gaúchos? Em primeiro lugar, devido ao linchamento midiático ocorrido na década de 90. Em segundo lugar, por culpa do Movimento Tradicionalista Gaúcho, que determina a «aculturação dos elementos imigrantes ou descendentes», como está escrito em sua própria Carta de Intenções. Ou seja, de acordo com o documento, alemães, italianos e castelhanos, por exemplo, não pertencem à cultura do Rio Grande do Sul. Por isso, muitos tradicionalistas, que se dizem defensores dos ideais de 35, ficaram decepcionados com o fato da República do Pampa não ter nascido num galpão, mas numa cidade de colonização alemã. Portanto, existe a resistência, mas ela emana da cúpula MTG, pois a massa gaudéria, com certeza, é separatista, e não declara por medo. Quais seriam os caminhos objetivos para a separação? O primeiro passo é o plebiscito. A Constituição Federal diz que o Rio Grande do Sul pertence ao Brasil de forma indissolúvel, mas o nosso argumento é que ninguém pretende dissolver o Brasil. Queremos apenas separar o que já se considera separado. Por exemplo, a bandeira do estado. Está lá, com todas as letras: «República Rio-Grandense removeme. Mas que afronta à Constituição! Pois bem, caso eu concorra às eleições para governador, como está programado, vencerei no primeiro turno, e o plebiscito acontecerá em 2010. Um ano depois, pode ficar registrado, seremos um país independente. Amigos do Brasil, é claro, mas deixando de enviar mensalmente esta fábula de impostos aos cofres do governo federal. Porque a verdade é uma só: enquanto a aplicação dos recursos depender de Brasília, ninguém vai solucionar nada! O senhor não se contentaria com uma revisão do pacto federativo, conferindo mais autonomia aos estados? Olha, muitos dizem que não precisamos nos separar, que poderíamos ser como os Estados Unidos, mas considero um equívoco. Não existe tal autonomia. Lá, por exemplo, tudo é controlado por Washington: o imposto, a moeda, o exército, a educação, enfim, tudo é centralizado, exatamente como aqui. Para se ter uma idéia, o Brasil possui 27 estados federados, e cada um de eles tem direito a três senadores no Congresso Nacional. O Rio Grande do Sul, com quase 12 milhões de habitantes, possui os mesmos três senadores que os estados do Acre, Rondônia, Amapá e Roraima, os quais, juntos, somam apenas 2 milhões habitantes, representados por 12 senadores! Quer dizer, não tem como competir! Uma vez criada a República do Pampa, qual seria o regime? A princípio, presidencialista. Depois, passaríamos ao parlamentarismo, para que fosse possível a destituição de quadros incapazes ou corruptos. Mas o importante é que haja uma descentralização efetiva do poder, ou seja, uma gestão municipalista, na qual os municípios tenham uma maior autonomia. Afinal, os prefeitos e os vereadores estão mais próximos da população. Mesmo assim, alguns ainda dizem: «Mas o mundo está se unindo, e nós querendo nos separar." Não, o mundo não está se unindo. A Alemanha continua Alemanha, Portugal continua Portugal, todos continuam com seus presidentes, com seus ministros e com suas leis. A diferença é que as fronteiras foram abertas. Portanto, é preciso que uma coisa fique clara: não estamos propondo uma separação radical, com arame farpado! Em a verdade, estamos apostando no desenvolvimento do Mercosul, de modo que um dia ele possa funcionar como a União Européia. Aí então, quem sabe, mais no futuro ainda, poderemos criar a tão sonhada Confederação Sul-Americana, composta por Chile, Argentina, Uruguai e República do Pampa. Ou seja, o hemisfério sul em desenvolvimento absoluto! E Paraná e Santa Catarina? Entrariam no plano separatista? Não. Em tese, seria apenas o Rio Grande do Sul. Mas a questão é que os povos de Santa Catarina e Paraná desejam participar. E mesmo que venhamos a nos separar juntos, amanhã ou depois, seguramente, esses dois estados formarão novos países. Afinal, eles possuem realidades históricas muito distintas, de modo que dificilmente fariam parte de uma mesma nação. Como o senhor analisa o fenômeno da Geral do Grêmio? Bem, eu entendo que é uma prova cabal contra aqueles que insistem em afirmar que o Rio Grande do Sul não tem nada de platino. A torcida do Grêmio, assim como a do River Plate, na Argentina, e a do Nacional, em Montevidéu, são exemplos de uma mesma filosofia castelhana. Trata-se, portanto, da semente emancipacionista que plantamos no coração dos gaúchos há 20 anos, e que agora, naturalmente, está germinando. Em breve, a torcida do Internacional entrará em contato com nós, pedindo a bandeira da República do Pampa, da mesma forma que a do Juventude já solicitou. E logo, todo o Rio Grande estará gritando por a independência! Pois bem, uma última questão: Maradona ou Pelé? Pergunta delicada ... Olha, eu diria que o Pelé chamou a atenção do mundo por ser muito jovem, mas o melhor jogador brasileiro, sem dúvida, foi o Garrincha! Só que o Mané, assim como o Maradona, era muito boêmio, e sofreu muito por causa disso. É que os boêmios, quando vêem a lua, acabam soltando a língua, e ficam livres para buscar as suas próprias verdades. Mas as pessoas, infelizmente, se acostumaram com a hipocrisia! Número de frases: 101 Portanto, respondendo a sua pergunta, eu voto no Maradona! Um dos brasileiros mais conhecidos no exterior é o Ministro da Cultura --Gilberto Gil. Ele deveria ter recebido o prêmio «Nobel da Paz -- 2006». Até num evento da ONU, o «Ministro-artista participou cantando» A PAZ «-- palavra que ficou harmoniosa e intimista, ao som do violão de» Gil». Em o outro lado do enredo, grande parte da classe artística brasileira, não está em paz com o Ministro. Esses brasileiros acham que foram entregues ao «Deus Dará» e estão atrás da «Parabolicamará». E agora José? E agora amigo Gil? Palavras bonitas e poemas elaborados precisam de sintonias. As constelações tupiniquins da criação, não perdoam! Os versos escritos há décadas viraram profecias: «Olha lá vai passando a procissão ... Esperando o que Jesus prometeu». O Ministro-compositor viajou muitas vezes ao exterior! Será que andou divulgando a " Milenar Cultura Universal Brasileira? Macunaíma está aposentado? Em o amado, idolatrado e problemático Brasil, as políticas culturais parecem serpentes no Sertão ... Se o Ministério da Cultura realizou eventos importantes, quais foram os resultados para a pacificação dos «egos machucados»? Os «Morros Urbanos», as» Brasílias Teimosas " e outros centros explosivos -- no talento e na violência -- continuam dependendo da arte para o exercício de cidadania! Alguns dados estimados da população artística no Brasil: 50.000 músicos, 40.000 compositores, 100.000 artesãos, 30.000 escritores, milhares de atores e atrizes, e outros não mencionados -- dependendo das minguadas verbas governamentais. Faltam programas e incentivos culturais! Sejamos justos: o atual Presidente da República, não é o único culpado. Os presidentes anteriores e outros governos das esferas municipais e estaduais participaram da degradação cultural. Em essa terra de «jabá», o velho» bacalhau «(antes -- comida de pobre) perdeu o» status». A controvertida «Classe Artística Brasileira» já não escuta o «Guarani» ... O Brasil canta " Festa no Apê ..." Site: Número de frases: 29 surpresa frente à resistência à língua inglesa ... Para começo de conversa, gostaria de dizer que a banda Vanguart é uma das gratas surpresas, ou talvez a única, que aporta aos meus ouvidos. Você já ouviu «into the ice»,» last days romance «ou» hey yo silver»? São grandes canções, todas em inglês, compostas por Hélio Flanders, voz e violão da banda Vanguart, de Cuiabá. Repito, são grandes canções, todas em inglês, feitas por um cara de Cuiabá ... Que mal há nisso? Tenho que confessar que há alguns anos -- não muitos -- não poderia entender como um compositor brasileiro pudesse perder o seu tempo compondo canções em inglês, como poderia um compositor deixar à margem a sua língua, a sua pátria, a língua portuguesa. Passei vários anos pensando assim, continuava a compor as minhas canções, todas em português, comecei a escrever poesia, e pouco antes disso, a ler poesia: Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Castro Alves e Ferreira Gullar estavam entre os meus poetas de predileção. Comecei a pôr música nos poemas que lia, assim abri o leque até chegar a pôr música no trecho final de um conto do escritor irlandês, " James Joyce. Arábia -- fitando a escuridão, eu me vi, como uma criatura tangida e ludibriada por quimeras, meus olhos queimavam de angústia e ódio." Coloquei música no texto traduzido, como se pode notar, mas pergunto: quem será capaz de traduzir a tradução? Vi-me surpreso ao receber comentários no overmundo, pedindo, ou melhor, exigindo que eu traduzisse uma das letras de música que fiz em inglês. Que mal há na simples idéia do própio leitor traduzir e procurar entender uma letra de Bob Dylan, dos Beatles ou dos Smiths? Ou da Vanguart? O meu inglês é mínimo, quase nada, mas tenho ânsia por criar, a língua inglesa tem um ritmo totalmente diferente do ritmo da língua portuguesa, para mim, as canções em inglês nascem por força genuína de querer fazer coisas novas, já escrevi dois livros de poesia e um com contos, estou terminando o meu terceiro livro de poesias, já fiz mais de cem canções, entre elas alguns poemas musicados e duas canções em inglês, não sei se farei mais músicas, não sei se escreverei novos poemas, não sei, mas espero ansioso por o primeiro disco da banda Vanguart. p. Número de frases: 19 s.: Nenhum dos livros acima mencionados foram lançados, mas estão no overmundo. Banda Divulga Cd «OS HABITANTES» 1994», 14 Anos Após A Sua Gravação Ouça: www.myspace.com/oshabitantes A decisão de mostrar as músicas gravadas há 14 anos atrás vem resgatar, nesses tempos de difusão mais democrática de Internet, o espírito de um CD gravado em 1994 que nunca teve acesso à divulgação da imprensa especializada, nem às gravadoras e muito menos às estações de rádio. Um dos poucos críticos da época que deu retorno às tentativas de divulgação da banda disse que aquele era um dos CDs de música pop mais bem produzidos no Brasil naquela época [dentro dos recursos de uma banda independente gravando num estúdio de 8 canais em Divinópolis]. Ele profetizou também que se não ocorresse um lançamento oficial dentro de um esquema de uma grande gravadora, nenhum jornalista ou imprensa daria atenção, pois a proposta, desde o início, era a busca do tão sonhado «pop perfeito», sem nenhuma apelação para espíritos de vanguardas ou coisas estranhas ou exóticas que garantiriam uma atenção da» mídia gratuita». Outro crítico, verbalmente justificando por que não iria divulgar aquele trabalho, explicava com «ares de autoridade», que a música era até boa, mas algumas letras eram muito ingênuas e bobas. Para exemplificar, ele escolheu a canção que considerava como a pior letra da banda: «Cantiga». A banda revelou, então, para sua vergonha e decepção, que aquela «pior letra», boba e ingênua, era apenas uma poesia de Manuel Bandeira (1886-1968), musicada por Gedley Braga. Ver como as coisas funcionavam não deixava de ser decepcionante para todo o grupo, naquele momento, realmente ingênuo e crédulo de que a força de um trabalho poderia fazer cumprir sua missão de chegar ao público. Deixaram o tempo passar. Cada um seguiu seu próprio rumo profissional. Pequena Biografia da Banda Os Habitantes é uma banda formada inicialmente por Gedley Braga e outros integrantes em Belo Horizonte, entre 1991 e 1992. Houve um período muito fértil de composições, com várias parcerias entre os membros, mas após 10 anos residindo naquela cidade [desde 1983], Gedley Braga decidiu retornar para sua cidade natal, Divinópolis [cidade a aproximadamente 100 km de Belo Horizonte]. A partir daí, a banda foi alterando sua configuração original até chegar ao trio: Cláudio José, Gedley e Rodrigo Fonseca Rodrigues, todos de Divinópolis. A partir do início de 1993, Gedley e Rodrigo começaram a idealizar e trabalhar o CD que gravariam nos últimos meses daquele ano e no início de 1994. Avesso a shows naquele momento [Os Habitantes realizaram apenas três shows em sua carreira], Gedley priorizava o entusiasmo por a composição e por os trabalhos de estúdio. O arquiteto Cláudio José, membro de outra banda que fez história rápida em Divinópolis [Usina Gravatá] foi convidado para colocar guitarras em algumas músicas e acabou se integrando definitivamente ao pequeno grupo. A o finalizar as mixagens em 1994, deparava-se com uma era de transição entre o analógico e o digital. A matriz digital foi transformada numa «fita cassete demo» com edição de 200 cópias com capa e encarte (pois a produção do CD em pequena escala era ainda inacessível financeiramente). Enviaram a fita para jornalistas, revistas e para todos os amigos. E pronto ... Não houve nenhuma repercussão. Nunca fizeram um show de lançamento. Pouco tempo depois a fita DAT máster original foi transformada em apenas três CDs, um para cada membro da banda. Sem muitos estímulos, a banda se dispersou [nunca houve um «final», mas uma dispersão]. Em aquele mesmo ano, 1994, Rodrigo Fonseca Rodrigues, o único músico profissional da banda, viajou para Portugal para uma temporada de vários meses e depois entrou para a carreira acadêmica [hoje já é PhD], transferindo-se definitivamente para Belo Horizonte. Em esse período, estuda teoricamente a música eletrônica e seus meios de difusão, com a publicação de artigos e um livro sobre o assunto. Gedley continuou com a sua carreira de artista plástico multimídia e com os trabalhos de conservação e restauração [em 1992, ele havia obtido o título de «Especialista em Conservação e Restauro» na pós-gradua ção do Cecor / EBA / UFMG]. Em o final de 1997, após temporada de três meses em Londres, transferiu-se para São Paulo para atuar por nove anos [1997 a 2006] como o coordenador do Laboratório de Conservação e Restauro do Museu de Arqueologia e Etnologia [MAE] da USP. Em esse período, Gedley continuou os estudos acadêmicos, concluindo o Mestrado em 2003 e o Doutorado em 2008, ambos na área de Ciência da Comunicação na ECA / USP. As artes plásticas continuam em foco, com a realização de duas individuais numa das mais importantes galerias de arte contemporânea do país, o Gabinete de Arte Raquel Arnaud, Paulo [Love & Hate -- 2005, e " Obra Póstuma, em 2008 "]. A partir de 2006, Gedley volta a trabalhar com música [vide www.myspace.com/bragagedley e www.myspace.com/gedleybraga] fortemente estimulado por um encontro casual com Lina de Albuquerque, em Belém do Pará. Ambos estavam a trabalho e descobriram, além das afinidades musicais, serem vizinhos de bairro em São Paulo. Tendo o «MYSPACE» como plataforma inicial de divulgação, são vários os projetos de Gedley e Lina já desenvolvidos a partir de um núcleo intitulado Lavadeiras e seus diversos convidados [www.myspace.com/lavadeiras, www.myspace.com/costureiras, www.myspace.com/mistylavadeiras]. Cláudio José continuou em Divinópolis como um arquiteto bem conhecido [e um grande colecionador de CD, DVD, VHS, LD e agora MP3]. Era o maior entusiasta da turma, o que queria sempre shows e imaginava milhões de edições especiais para colecionadores de milhões de versões das músicas e vídeos de Os Habitantes, embalagens especiais, Box Set etc.. Ele nunca se conformou com a dispersão da banda: colocou a sua guitarra em seu suporte e nunca mais quis tocá-la. É o único que produziu «biologicamente» um «filho», Lourenço. Vive sempre às voltas com idéias mirabolantes de abandonar a arquitetura, mandar tudo para os ares e voltar a tocar. Mas a arquitetura não o abandona, é um caso de «amor e ódio», pois ele é um arquiteto cada vez mais solicitado na região de» Divineland», a «Pasárgada» para «Os Habitantes». E aqui estamos. Número de frases: 47 Sejam bem vindos ao ano de 1994. Em o ano de 1938, início da Segunda Guerra Mundial, a região centro-sul do Paraná abrigava imigrantes de diversas nacionalidades, onde descendentes e originários dos países Aliados e do Eixo conviviam em relativa harmonia. Curiosamente, o local foi ponto de partida para dois sobreviventes da guerra, que seguiram até a Europa em busca de trabalho e aventura, levando com si o patriotismo de suas origens. Acabaram lutando em exércitos opostos, mas sofreram dos mesmos sentimentos e efeitos do conflito. Lembranças e conseqüência de uma guerra sem vencedores, onde o principal objetivo era resistir e tentar voltar para casa. A cidade de Rio Azul, próxima a Irati, esconde um vilarejo de estranho nome. Em o Rio Vinagre, distante seis quilômetros do centro, o ex-combatente de guerra Luiz Navacki leva uma vida solitária nos fundos da Igreja que ele mesmo ajudou a construir. Com 94 anos de idade, Navacki passa boa parte do dia descansando na varanda de casa, aguardando a visita dos passarinhos e amigos, que já não aparecem mais com freqüência. Navacki sofre com a visão desgastada e tem dificuldade de andar. «Até hoje faço minha própria comida», orgulha-se. Lúcido, faz questão de contar com detalhes sua aventura de amor por a pátria polonesa durante a Segunda Guerra. «Quando o Brasil entrou no conflito tentei me alistar no Exército Brasileiro, mas não fui aceito. O país precisa de vocês aqui, disseram». Quem procurava por voluntários era o Exército Polonês, mas como Navacki nascera em São Mateus do Sul, estava subordinado às ordens do exército nacional. Sua vontade de lutar era tanta que não desistiu facilmente: junto com um amigo foram até Montevidéu, no Uruguai, e se alistaram como voluntários das Forças Armadas Polonesas. Trinta dias depois partiram para a Europa em combate. Apenas cinqüenta quilômetros separam o município de Rio Azul do distrito de Gonçalves Junior, em Irati. A pequena colônia de imigrantes foi palco para a infância de Paulo Barby, filho de uma tradicional família alemã, donos de um antigo moinho na região. Barby ajudava no que podia dentro do moinho, até seu pai oferecer uma viagem à Alemanha, custeada por o Governo Alemão, para estudar e aprender uma profissão. «Fui para Curitiba e fiz os dois passaportes, brasileiro e alemão. Mais tarde recebi o aviso para embarcar em Santos (SP)», relembra Barby, que viajara com apenas 15 anos de idade. Durante o trajeto de navio, que durou cerca de três semanas, ele e mais 123 jovens brasileiros tiveram uma espécie de pré-treinamento militar. «Um xerife chegou e começou a explicar como funcionava o sistema alemão, de higiene, trabalho e ordem». Todos os dias, os jovens praticavam exercícios físicos pela manhã e a tarde tinham aulas de política. Era uma introdução à educação nazista. A guerra estava preste a começar. Enquanto Luiz Navacki encontrou a luta armada nas suas batalhas finais, Paulo Barby acompanhou de perto o avanço das tropas alemãs e as diversas faces do conflito. Moageiro aposentado, 84 anos, Barby atualmente mora em Prudentópolis perto da filha. Sua idade é disfarçada por a postura de um homem forte, que nunca teve medo do trabalho pesado e da guerra. Quando chegou na Alemanha, trabalhou como foguista e jardineiro, até ser encaminhado para um moinho em Elsnig, onde poderia exercer o ofício escolhido. «Lá perguntaram se eu era mesmo brasileiro. Espantaram-se porque eu era branco, pois esperavam a vinda de um negro», conta Paulo. Em o moinho, o rude patrão obrigava Barby a fazer todos os serviços da fazenda. Quando fazia algo de errado, era tratado com violência. Foi um ano de trabalho escravo, até se alistar no exército e ser recrutado para atuar na Luftwaffe, a Força Aérea Alemã. Viajando num navio mercante, Luiz Navacki chegou a Inglaterra onde recebeu um curto treinamento. Tinha se alistado como voluntário da Marinha Polonesa, que pertencia ao " Exército Aliado. «Eu fazia um pouco de tudo lá. Em Londres, estávamos numa casa de pouso, nos preparando para dormir, quando veio o aviso de aviões alemães. Fomos para os abrigos. Só se ouviam os estouros. A cidade estava sendo derrubada», relata. Em esse tempo, Paris já estava ocupada por o Eixo. Em terra, localizava-se uma das várias bases da Luftwaffe por toda Europa que passavam instruções aos aviões militares. Lá estava Paulo Barby, trabalhando no painel de controle. «Minha função era marcar num grande mapa os aviões inimigos abatidos». Com o passar do tempo chegou a ser piloto de avião e metralhador de caça, até ser elevado ao posto de sargento. Barby trabalhou em diversos aeroportos, onde pelo menos três vezes recebeu a visita do general " Adolf Hitler. «Era um homem democrata, cumprimentava todo mundo, totalmente diferente daquilo que é escrito sobre ele», relata o ex-combatente. Em 1944, com o avanço das Tropas Aliadas, a Marinha Polonesa foi chamada para a região da Normandia. Em junho do mesmo ano, Luiz Navacki participou do «Dia D», a maior invasão da história, tendo seu navio bombardeado por um submarino alemão. Durante a explosão de um ataque, o marinheiro acabou sendo arremessado para longe, só se salvando nas cordas do navio. «Estávamos afundando, mas fomos resgatados por a retaguarda americana. 49 tripulantes daquele navio acabaram morrendo», relembra seu Luiz. Em algum aeroporto alemão, chegava a notícia de que os franceses penetravam na divisa com a Suíça. Paulo Barby então é transferido para infantaria e obrigado a lutar na fronteira. «Várias vezes pensei em fugir para a Suíça, ir até a embaixada brasileira e pedir para voltar. Mas não era tão covarde assim». Em uma grande ofensiva inimiga, Barby é baleado na perna e vê dois colegas morrerem ao seu lado. Ferido, ele se escondeu num buraco embaixo de montes de lenha, até ser resgatado dias depois por os colonos da região. «Fui transferido para um hospital na Áustria, mas me recusei a ser operado. Disse que eu era brasileiro e precisava fugir. Tenho a bala até hoje em minha perna», conta o sobrevivente. Paulo Barby ficou nove anos na Europa até conseguir voltar para o Brasil. Depois da guerra, ainda trabalhou numa fazenda na Áustria e na Noruega, sendo repatriado em 1947. Em a volta para casa, descobriu que seu pai tinha falido. «Minha mãe, orgulhosa de ter um filho lutando por o seu país, mostrou para todo mundo minha foto fardado. Os clientes do moinho, maioria poloneses e ucranianos, acabaram se afastando. Por minha causa, meu pai ficou meio ano preso em Curitiba», emociona-se Barby. Já Luiz Navacki, voltou ao Brasil depois de três anos na guerra. Trabalhou na lavoura e também como professor de português até se aposentar, nunca tendo o reconhecimento merecido. De a experiência, ficou uma lição. «A guerra não deveria de existir. Quem está lá não consegue trazer felicidade e liberdade para ninguém». Para os olhos dos combatentes, uma guerra de difíceis lembranças. Número de frases: 76 Saiba mais na Expedição Carona Estrangeira É realmente inacreditável saber que, desde do dia (16/11), a decisão do ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF), foi determinar a suspensão da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão até que o STF julgue definitivamente. A que ponto nós chegamos, em pleno secúlo XXI, o nosso país resolve regredir de tal forma que chega até ser vergonhoso julgar essa situação. Então duas perguntas precisam de respostas: Como ficam os estudantes de Jornalismo em todo o país, desistem do curso ou simplesmente procuram um outro?, e os profissionais já formados que passaram 04 anos estudando numa faculdade, será que isso não conta? Espero que realmente seja julgado de forma humana, para que sonhos não sejam jogados numa lata de lixo, por pessoas que não tem capacidade de avaliar o certo do errado. Como qualquer curso de graduação, ele existe para qualificar o profissional, mostra o caminho a ser percorrido, se o profissional vai ser bem sucedido ou não é uma outra história. Como estudante de jornalismo e radialista por profissão, penso e entendendo que o diploma é necessário, então achei que deveria colocar o meu ponto de vista e defender essa bandeira. Embora não seja contra a lei de 1969, na qual dar direito há não obrigatoriedade do diploma para profissionais que já exercem a função antes de 1969. Número de frases: 9 Como todas as outras profissões existem bons e ruins profissionais, agora imagina sem o diploma como fica isso? Vai fazer uma década que estou aqui. Fui fabricado num canto da zona leste, mas dei mais sorte que os meus irmãos que ficaram nas ruas de lá. Aqui sou mais chique e importante. Um bueiro na avenida que tem o metro quadrado mais caro da América Latina. Mas o povo daqui é tão mal educado quanto o de lá. Não só porque jogam de tudo em cima de mim. ( Detesto as bitucas de cigarros.) Mas principalmente porque me chamam de ' boca de lobo '. De onde tiraram isso? Sou um B U E I R O. Bua, no latim vulgar, significa água. Eiro é um escorredor. Sou um escorredor de águas: um Bueiro! Construído com ferro muito nobre para um propósito muito nobre. E colocado na Avenida Paulista! Em essa semana que se encerra tive que engolir o equivalente a um mês inteiro de chuvas. Foi um terror. E o verão ainda nem começou. Se fosse só o aguaceiro, tudo bem. Mas com a água vem todo tipo de lixo que você pode imaginar. Sim, até aqui, em plena Avenida Paulista. Em a terça eu tive que engolir um yaksoba inteiro. Blergh ... Mas vou parar de reclamar de minha vida passiva e aguada. Afinal, sou um Bueiro da Avenida Paulista. E aqui posso aprender muita coisa. Escuto de tudo, vejo de tudo. Gosto particularmente da estudantada da FGV. Tornei-me um «economista diletante». E ando preocupado. Nosso PIB não cresce. Poucos bueiros são fabricados. Mas culpam só os juros mais altos do mundo? Os caras que cruzam aqui para entrar ali no prédio da FIESP só falam nisso: juros, juros. Concordo que eles (os juros) estão por a hora da morte. Mas de que adiantaria só um radical corte? Veja bem. Passam por cima de mim milhões de pessoas. Elas estão indo ou voltando de algum lugar. A maioria tá trabalhando. Inclusive aquele boyzinho fdp que escutava ' bate-estaca ' e jogou uma latinha de cerveja para o meu lado. Sei que aqui a coisa não foi tão feia quanto na zona sul ou na zona leste. Mas, mesmo assim, a média de velocidade dessa cambada foi de 20 km/h nesta semana. O dia todo! Não entendo o que é ' conta de padaria '. Nunca vi uma. Mas vou fazer uns cálculos que aprendi com a estudantada da FGV e com os chorões da FIESP: * Um milhão de pessoas * Custo médio de R$ 5/h ora * Média de 4 horas em «trânsito» por dia * Média realizada em 1/4 do ano, ou 90 dias * ( Quando o PCC não decreta feriado municipal) * Multiplicando tudo dá R$ 1,8 bilhão! Mesmo subvalorizando todos os valores, só isso já representa quase 0,1 % de nosso PIB. E eu tô falando só da Avenida Paulista! Imagina a conta dos meus irmãos da 23 de Maio e da 25 de Março e da 9 de Julho. Imagina meus primos da Avenida Atlântica (ai que inveja). Pensa bem se todos os bueiros do Brasil resolverem contabilizar o prejuízo que eles testemunham. Vamos concluir que São Pedro abocanha todo ano 1 % ou 2 % do nosso PIB. Coitado do São Pedro ... Coitada daquela molecada que tá trabalhando num projeto de Ti aqui pertinho. Quarta-feira passaram correndo por cima de mim. Ouvi um de eles dizer que o cronograma tá com 3 meses de atraso. A molecada tava 2 horas atrasada. Para uma reunião que decidiria o que fazer com o atraso. A moça bonita que os acompanhava (com calcinha *) reclamava da carga diária de 12 horas. Com as 4 horas no trânsito (ela mora em Alphaville -- ai que inveja!), restam-lhe 8 horas por dia. Para dormir, falar «oi» para os filhos e o maridão (que tá traindo ela), e falar por «horas» com aquela prima que desconfia do maridão. «Por isso», explica ela, «meu cabelo tá esse lixo». Acho que essa molecada não tem como produzir direito. Mas nem vou fazer mais conta não. Só queria entender porque esse povo não pode trabalhar em casa. Que coisa mais antiga esse negócio de se deslocar pra trabalhar. Se eles fossem operários d' uma fábrica de bueiros eu entenderia ... = = * Não me entendam mal. Não sou um tarado. Mas são os ossos do ofício. Parece que esse negócio de andar sem calcinha virou moda. E eu não tenho como fechar os olhos. Então vejo tudo, né? Olha, não espalha não, mas até naquele prédio famoso ali tem secretária que aderiu. Tem umas de aderem desde manhã. Eu estranho mesmo aquelas que chegam com e voltam para a casa sem. Que pouca vergonha ... Mas é o tipo de pouca vergonha que não afeta o PIB. Ou será que afeta? Número de frases: 88 Vou perguntar para os universitários da FGV ... Marx disse que há dias que valem por séculos na história dos povos, referindo-se à Comuna de Paris. O dia 21 de maio de 1965 -- quando desembarcamos na Escola Técnica Darcy Vargas (1), eu e meu irmão Célio -- foi um desses dias fundamentais na nossa história pessoal. Era uma sexta-feira e vínhamos de longa viagem de Kombi até Santa Cruz, de trem de madeira (o famoso " macaquinho ") até Mangaratiba e de barco até a Ilha da Marambaia, onde ficava o colégio interno, um percurso de mais de cinco horas. A o desembarcar na ilha, seguimos juntos para a escola arrastando malas e saudades. O cheiro do salitre, as casas simples à beira-mar e o marulhar das ondas lambendo a longa faixa de areia me deram uma enorme saudade de casa. A natureza da ilha era deslumbrante e um cenário perfeito para uma escola de sonhos: à frente do pátio onde hasteávamos a bandeira, um mar azul salpicado de embarcações; nos fundos, a frondosa mata atlântica. à esquerda da escola, um tapete avermelhado de pétalas desenhado por os flamboyans e uma pequena ponte sobre um rio delimitavam a área de circulação externa, chamada de «perímetro». Depois da ponte, portanto fora do perímetro permitido, havia uma antiga senzala usada como quitanda por Dona Soraya e aonde muitas vezes acorríamos sorrateiros para comprar doces e picolés. à direita, erguiam-se um pequeno bosque de eucaliptos e o pico da Marambaia que chamávamos de Morro da Velha por causa da freqüente névoa que o encobria como um véu branco de beata e que, vindo do Atlântico, se agasalhava durante dias no colo da floresta, como se descansando da longa viagem. Chegamos cheios de dúvidas e medo de não corresponder às expectativas. Eu sabia que estava ali mais por circunstância do destino (escola experimental, internato, numa ilha e poucos candidatos) que por mérito. Cursara precariamente o primário até prestar o Exame de Admissão que me levara até ali -- só Deus e talvez meu pai sabiam como. De qualquer modo, ali estávamos -- eu e meu irmão. Uma noite de cão. A primeira noite foi a mais difícil. O alojamento era um enorme pavilhão com fileiras de camas e um conjunto de banheiros no fim. Quando soou o toque de silêncio e as luzes se apagaram, rezei a ave-maria em silêncio e, extenuado, dormi. De madrugada acordei apavorado: havia urinado na cama e não sabia o que fazer. Sequei o chão com o próprio lençol e o substituí por um novo, antes que o dia amanhecesse e me descobrissem. Para meu desespero, aquilo se repetiu várias noites. A roupa de cama era trocada somente aos sábados. E quando ao fim da primeira semana levei à lavanderia a pequena montanha de lençóis, o chefe da lavanderia olhou nos meus olhos e viu o meu desespero. Foram os segundos mais longos de minha vida até ele me sorrir e pegar a roupa. Ninguém nunca soube o meu segredo. Em poucas semanas me adaptei à escola e o problema sumiu. Sobrevivi incólume, graças à generosa cumplicidade daquele homem de quem hoje sequer lembro o nome. Castigos e desejos: pedagogia da submissão. O colégio era civil, mas logo descobri que a disciplina era militar. Cada aluno recebia um número de identificação que era posto no armário, uniforme e roupas de cama. O controle incluía o uso de apito ou corneta para reunir os alunos em pelotões. Para tudo -- comer, ir às aulas, à praia, dormir -- soava um toque de corneta ou apito e de pronto ficávamos em posição de sentido, imóveis, até o segundo toque quando formávamos pelotões. Por vezes o monitor aguardava longos minutos até o segundo toque, observando se flagrava algum movimento. Quando isso acontecia, ele anotava o nome do «infrator» que à noite era posto de castigo em pé no pátio durante horas, imóvel e em silêncio, até a hora de dormir. Um castigo que recebi amiúde no primeiro ano. Era talvez uma forma de subjugar fisicamente aquele bando de adolescentes, autênticas máquinas de energia e vitalidade. Hoje, quando penso naquelas lições de totalitarismo, não posso evitar uma associação -- mesmo que involuntária -- com a ditadura militar que subjugava o país à época. A vigilância era orwelliana: inspetores e monitores acompanhavam cada passo dos alunos no pátio, sala de aula, dormitório, igreja -- até no banheiro havia sempre um par de olhos atentos. O mundo que nos chegava nas ondas do rádio refletia anseios libertários: Beatles, hippies, pílula, amor livre. Ainda não havia AIDS para intimidar a sexualidade, éramos mais de mil jovens -- entre 12 e 20 anos -- enclausurados numa ilha cuja única ligação com o mundo exterior -- além do radinho de pilha e as visitas da família -- era uma televisão PB (não havia TV em cores), onde assistíamos ao Telecatch, Programa Flavio Cavalcanti, Hebe Camargo e filmes e notícias que a ditadura permitia. A repressão à sexualidade e a eventuais transgressões incluía os sermões do Padre Gerardo na missa dominical, que, no mês de Maria, maio, passava a ser diária. Apesar disso, nos quatro anos em que lá estudei, um inspetor e dois alunos foram expulsos por homossexualismo. Em um colégio interno só de rapazes, era natural que se formassem amizades, mas quando dois amigos andavam muito juntos, o mais novo era chamado de «garotão» (" Fulano é garotão de Beltrano "), numa insinuação maldosa de que eram mais que amigos, o que nem sempre era verdade. Pontos de fuga: o padre e a pátria. O Padre Gerardo era um alemão que esculpia raízes da praia e pintava quadros belíssimos, mas bebia muito vinho e o tema recorrente dos seus sermões era a possibilidade de algum aluno namorar uma moça da ilha -- o que deveria ser evitado sob o risco da danação eterna. O Padre Gerardo também celebrava missas nas ilhas da região -- Ilha Grande, Jaguanum, Águas Lindas -- à época ainda inexploradas turisticamente. Para fugir da rígida disciplina do colégio, eu e Célio nos tornamos coroinhas e passamos a acompanhar o padre nas missas realizadas nas ilhas. Como eu sabia que ele era chegado a um vinho (certa vez de tão bêbado celebrou um casamento em cinco minutos, repetido sobriamente depois a pedido dos noivos), na hora da consagração colocava mais água do que vinho no cálice. O padre ficava irritadíssimo e chegava a se servir ele próprio, subvertendo os cânones cerimoniais. Depois, dava-me uma bronca e acabava achando graça. O resto do dia a gente passava à toa por as praias desertas, retornando só à tardinha ao colégio. A disciplina tornava-se mais forte ao se aproximar a semana da pátria. O desfile em Mangaratiba era outra oportunidade da sairmos da ilha. A preparação incluía marchas diárias, horas a fio sob o sol, com nosso uniforme principal (chapéu de marinheiro, gandola e calça de brim azul e sapatos pretos de plástico emborrachado que no calor exalavam um chulé insuportável). Todos cantavam hinos militares e ensaiavam coreografias (estrela, âncora e evoluções). A banda de música tocava o Cisne Branco e hinos marciais cujos nomes não me recordo, embora lembre de um (2) que canto à capela no link de áudio, abaixo das fotos, para que vocês tenham uma idéia. Participávamos dos desfiles com um ingênuo e sincero patriotismo, muitas vezes regado a lágrimas. A Escola Estadual Darcy Vargas era quase hors-concours, tamanho o sucesso que fazia. Lembro que as pessoas subiam nas sacadas das casas e no coreto da pracinha para ver melhor nossas evoluções e aplaudiam pra valer. Houve um desfile em que deixei um radinho de pilha Mitsubishi que ganhara de minha mãe com um inspetor, para que ele cuidasse enquanto eu desfilava. Para minha tristeza, quando após o desfile o procurei para reaver meu rádio, ele me informou que havia sido roubado. Nunca mais vi meu Mitsubishi. E os desfiles nunca mais foram os mesmos. Futebol, álgebra e poesia: pedagogia da imaginação. Lecionar numa ilha distante para alunos em sua maioria carentes -- à época o termo não existia; a condição, sim -- exigia dos professores um compromisso vocacional hoje cada vez menos comum. Só uma visão sacerdotal explica porque jovens educadores submetiam-se semanalmente à rotina de uma desconfortável viagem num pequeno barco de pesca, o Tintureiro, que -- quando em mar bravio -- era obrigado a permanecer horas ao largo, até aportar. Verdadeiros heróis, embora somente alguns permaneçam na minha memória até hoje: Jackson (de Português), Otacílio (de Aritmética), Sérgio (de Educação Física), Ademir (de Inglês) e Jader (de Álgebra). De estes, lembro com especial carinho dos três últimos. O professor Sérgio, por as aulas de educação física na praia ou no campo de futebol, que eram lições de liberdade e alegria. Em o primeiro ano, ele bolou um torneio de futebol que mobilizou a escola e colaborou muito para a integração dos alunos. Eram quatro times: Estrela (camisa azul), Náutico (vermelha), Esperança (azul) e Amarelinho (amarela), este último formado só com os «perebas», que tinham pouca ou nenhuma intimidade com a bola -- do qual fazíamos parte eu e meu irmão -- e que por isso haviam sobrado. A torcida -- incluindo quatro ou cinco meninas da ilha que estudavam em regime de externato -- comparecia todo sábado e domingo para aplaudir ou vaiar nossas jogadas. Em o fim, o campeão foi mesmo o Estrela; e o vice, o Esperança. Mas o Amarelinho surpreendeu e ganhou do Náutico, ficando em terceiro. O que foi uma vitória para um time de enjeitados, e uma prova de que, no futebol como na vida, união e vontade às vezes podem valer mais do que a técnica. De o professor de Inglês, Ademir, lembro especialmente por o seu jeito heterodoxo de dar suas aulas. Invariavelmente as encerrava com uma piada -- ou um debate livre e bem-humorado sobre temas tabus, como sexo e droga. Eram cinco ou dez minutos de muita alegria. Não foram raras as vezes que professores de outras turmas reclamaram do barulho de nossas risadas ao fim das aulas de inglês. Interpretavam o jeito alegre e jovial do professor como liberal demais -- e, à época, até poderia ser --, mas suas aulas eram das mais concorridas. A o fim e ao cabo, todos foram aprovados em Inglês e ele ainda garantiu lugar de destaque na minha memória. E na de muitos colegas, tenho certeza. De todos, porém, o professor Jader foi sem dúvida o que mais me marcou. Pois, se não mudou minha relação com a Álgebra, me despertou para uma das mais importantes formas de compreensão da vida: a poesia. Foi numa festa cívica realizada no teatro da escola na qual alunos e professores interpretaram, cantaram ou declamaram algo. Após várias apresentações insossas que arrancaram raros aplausos ou mesmo indiferença, ele subiu ao palco. O auditório não estava nem aí quando começou com sua voz grave e uma expressão acompanhando o timbre da voz: ' Stamos em pleno mar ... Doudo no espaço Brinca o luar -- dourada borboleta; E as vagas após ele correm ... cansam Como turba de infantes inquieta. Fez-se um grande silêncio. O professor Jader desceu do palco e caminhou lentamente por entre os alunos hipnotizados com sua interpretação, entre os quais eu. E continuou por quase meia hora, enriquecendo o Navio Negreiro, de Castro Alves com todas as pausas e inflexões dramáticas que o poema merece. E encerrou, suado e ofegante: Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas, Como um íris no pélago profundo! Mas é infâmia demais! ... De a etérea plaga Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares! Foi uma apoteose: alunos, professores e funcionários aplaudiram por 10 minutos ou mais. Em aquele breve instante de eternidade descobri aos prantos o que era a poesia. E virei poeta. Dia de visita: alegria e frustração. Ao longo do ano, nosso único contato com a família ocorria no último domingo de cada mês, o dia de visitas. A expectativa era grande e, tão logo o apito do barco soava no horizonte anunciando as visitas, muitos acorriam ao cais para receber pais, mães, irmãos, parentes e amigos. Além de matar a saudade, a visita significava também presentes: caixas de chocolate e biscoito, frutas, doces e até radinhos de pilha para acompanharmos o futebol e ouvirmos músicas da Jovem Guarda. Se na escola as regras comuns e o uniforme padronizavam e escamoteavam diferenças sociais, o dia de visitas dizia muito da condição social de cada um: o tipo de roupa, o jeito de falar e a quantidade e qualidade dos presentes eram indicadores da condição social. Assim eu percebi que o Cabeleira, o Ademir, o Calvelli e outros tantos eram mais favorecidos socialmente que eu, meu irmão, o Sarampo, o Tesourinha, o Assis ... Diferenças à parte, o dia de visitas era uma festa. Exceto, quando, por um motivo ou outro, os pais não podiam ir. Era horrível. Ficávamos no cais até o barco se afastar, como para nos certificar de que ninguém viera mesmo. E voltávamos quase humilhados por a felicidade dos que caminhavam ao nosso lado abraçados a pais e parentes. Um sentimento que aumentava ainda mais quando as famílias se reuniam em piqueniques improvisados sob as árvores ou no pátio e os preterido ficavam a sós, por os cantos. A frustração diminuía ao fim do dia, quando as visitas se iam e alguns colegas dividiam com nós um pouco do que haviam recebido, numa afetuosa demonstração de amizade e solidariedade que nos ajudava a suportar o mês, até a próxima visita. Uma pena que este paraíso onde colhi as dores e alegrias de ser o que sou foi retomado por a Marinha e hoje é objeto de disputa judicial entre militares e quilombolas remanescentes dos escravos do comendador Joaquim José de Souza Breves, maior importador de mão-de-obra africana do Brasil no século XIX, conforme noticiou o Jornal Nacional. A o escrever essas reminiscências escolares para o projeto idealizado por o Joca e a Ize outras lembranças que eu imaginava sepultadas para sempre me assomaram à memória. Talvez um dia as escreva, talvez as enterre definitivamente nos desvãos da alma. (1) Uma herança do Governo Vargas. A Escola Técnica de Pesca Darcy Vargas foi erguida durante o Estado Novo como parte de um complexo industrial profissionalizante de pesca. A escola incluía fábricas de farinha de peixe, de gelo e de redes de pesca, além de um pequeno estaleiro para a construção e manutenção de barcos. Foram construídas ainda uma cooperativa, uma escola primária e residências com esgoto, água encanada e energia elétrica. Em 1939, a escola passou a ser administrada por a Sociedade Civil do Abrigo do Cristo Redentor -- instituição de assistência social que desde o início dos anos 30 atuava no país e em 1943 foi transformada em Fundação. O projeto foi ampliado com a construção da Igreja Nossa Senhora das Dores, com clausura para religiosas, hospital, farmácia, lavanderia, além de padaria e projetos de horticultura e pecuária para abastecimento dos operários, técnicos e alunos. Em meados dos 50, o projeto -- que chegou a concentrar quase toda a produção de pesca da baía de Sepetiba -- entrou em decadência e a escola passou a representar um ônus. Em 1965, a Fundação Abrigo Cristo Redentor firmou convênio com a Secretaria Estadual de Educação e reativou a escola com o nome de Escola Técnica Darcy Vargas (sem referência à pesca). Foram contratados dois gestores: Adaury Alheiros (diretor da parte educacional) e Manoel Bastos (parte disciplinar e administrativa). O novo currículo escolar incluiu, além das disciplinas tradicionais, Artes Industriais: encadernação de livros, motores a explosão, artes gráficas, artesanato, marcenaria e noções de marinharia. Curiosamente, a escola funcionou somente no período que eu e meu irmão lá permanecemos: de 1965 a 1970. Em 1971, foi novamente entregue à Marinha, que até hoje mantém ali o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), sob o comando dos Fuzileiros Navais. A população da Ilha da Marambaia (Mbara-mbai em tupi-guarani, que significa cerco do mar) até hoje é composta por pescadores e remanescentes de escravos da família Breves, uma das mais poderosas linhagens da aristocracia cafeeira e escravocrata do Rio de Janeiro no século XIX, que lutam para permanecer na ilha. Por as contas da Marinha -- que defende a utilização exclusiva da ilha como área militar -- lá moram 379 pessoas, ou 106 famílias, em 87 casas. Mas o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação para a Ilha da Marambaia, feito por o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), indica a existência de pelo menos 645 moradores na ilha e mais 401 residentes no continente, num total de 1.046 pessoas, ou 281 famílias cadastradas, que teriam direito à titulação e ao uso coletivo da terra. A questão se arrasta até hoje na Justiça. (2) Letra do hino cujo título não lembro: Nós aqui nesta escola Estamos cumprindo um dever Que nossa mãe pátria reclama Para sabermos sempre a ela defender. Juremos briosos companheiros Em este céu de puro anil Com armas na mão defenderemos A integridade do Brasil. Temos mostrado nesta escola Grande interesse em servir a nação Mas é preciso que o mundo saiba Que o Brasil está em nossos corações. Marchemos para a frente Trabalhemos por a glória Que um soldado valente arrebata a vitória. E no dia glorioso Que o soldado não esqueça Aprendiz ao seu chefe obedeça. Fortemente unidos nessa vontade Em uma página de luz e liberdade. A história pátria nós escrevamos De baionetas muralhas construamos! Hip-hurra! Número de frases: 186 Caro e emerso Kublai Khan, Fortaleza é uma cidade banhada por o Atlântico. E por as chuvas que caem de janeiro a maio, por aí. Lá, não se fala em inverno, mas em período chuvoso. Durante minha estada na Capital, choveu pacas! Por vezes, o ciclo tem início ainda no mês de dezembro, conforme relatos de meninos que, à minha passagem, saracoteiam numa poça de lama enquanto, do outro lado da rua, um barraco de taipa dependurado no morro lutava contra o vento. Cai, não cai, pendular. Sigo em frente sem esperar uma decisão. Assim a paisagem citadina. Ora, não me tome por louco. O Brasil, com ou sem turistas, é um país lindíssimo, exuberante em muitos aspectos. Em particular, a sua região nordeste, onde se encontra Fortaleza. Mesmo submersa, mesmo submersa. São quilômetros e mais quilômetros de praias. Que esbarram em quilômetros de barracas e edifícios. Um corte «cinematográfico» (o cinema, meu bom amigo, é o que há). Falemos das lagoas, que também são parte importante do espaço urbano, descrito não apenas em função da lastimosa Beira-mar, do lascivo turismo sexual e do bodejante comércio ambulante. Tantos adjetivos parecem indicar qualquer coisa entre o susto e a crença previamente estabelecida -- o tal preconceito. Aceito a crítica. Fiquemos, pois, nus, substantivados. Voltando às lagoas, que na cidade não são poucas e limpas, mas em quantidade razoável e costumeiramente sujas. Parangaba, Opaia, Precabura e Porangabuçu são apenas algumas de elas; esses recursos dizem bastante dos hábitos que, com o passar do tempo, se perderam, quando as gentes que aqui chegavam, tomadas de ares europeus, instalavam-se às suas margens. De algumas de elas, bem-entendido. Desfrutavam, então, de um clima aprazível numa cidade escaldante. Mesmo antes do asfalto tornar a vida dos fortalezenses, segundo a saborosa linguagem popular, uma «grande cagada». Ícone das águas que correm selváticas, o hoje repositório de dejetos e, mesmo assim, agradabilíssimo Cocó. Um patamar abaixo, Siqueira e Ceará. Sem injustiças, que se faça a devida referência ao Pajeú, riacho que, nos últimos dias, deu-se por amotinado. Explico: sob pressão das águas e principalmente da engenhosidade humana, varreu o que encontrou por a frente, lambendo os tetos das casas mais humildes e promovendo um espetáculo somente comparável ao da Pororoca. No caso do Pajeú, encontro das águas com os esgotos e lixo acumulado. Um sinal dos tempos. Ora, mano Kublai, assim como nas piores cidades do teu reino, aqui também se vêem com facilidade agrupamentos humanos terrivelmente mal-instalados, confrontando à visão de louváveis arranha-céus e automóveis importados um medonho espetáculo. Em uma dessas localidades, nas franjas da cidade, já próximo de Caucaia, corre vertiginoso um rio de nome Maranguapinho. Ele, o Maranguapinho, corta parte dos guetos numa das regiões mais miseráveis da «Loura Desposada do Sol», que, lá, deve, por obrigação, usar equipamento fornecido antecipadamente por o Corpo de Bombeiros. Escorrendo através de vielas e empurrando para dentro das casas ratos, carcaças de geladeiras, animais putrefatos e demais porcarias, o rio, a exemplo de seu camarada Pajeú e numa escala maior, toma-se, a cada ano, de uma revolta que mil homens seriam incapazes de conter. Mas, nem só de águas e esgotos vive Fortaleza. Quem quiser conhecê-la em essência (o que pode ser relativamente perigoso), os costumes das gentes, seu modo de vida etc, deve, pois, andar nos seus ônibus, alternativos ou não. De modo que, numa destas manhãs de período chuvoso, apanhei aquilo que se entende por van -- um veículo que, mais tresloucado que o pior dos camelos e apinhado de passageiros, qual «impulso elétrico», atravessa velozmente as ruas da cidade. A rigor, um desafio cuja envergadura certamente deixaria a você, meu bom rei, de cabelos em pé -- se cabelos tivesse. Seguia deslumbrado com a chuva que caía quando, abruptamente, estacou o camelo, digo, a van. Adiante, verdadeiro Nilo numa escala um pouco menos assoberbada. Cumpre esclarecer o seguinte: capitaneando a embarcação, havia um guiador ou «motorista» e, recolhendo metais ou «papel-moeda» como forma de pagamento por a distância percorrida, um «cobrador». Atrás de nós, serpenteava uma fila de carros e outros veículos, alguns maiores, outros menores que o nosso. Havia ainda meios de transporte curiosos. Refiro-me às chamadas «motocicletas», que se atiravam nas águas sem medo. Seus guiadores pareciam ainda mais perniciosos que os dos ônibus. E, de fato, o eram. E aqui me permito um parêntese. Embora igualmente alagados, não percebia ali qualquer traço da presença de casebres. Estávamos defronte a um grande centro onde se comercializava quase tudo, do couro ao alimento, da essência ao «telefone» e ao «microcomputador», invenções que, veja só, não vivemos para ver. Trata-se realmente de uma lástima. Em suma, funcionando como barreira ao escoamento natural das águas (conforme explicação colhida posteriormente junto aos governos e a estudiosos da natureza local), encontrava-se um «shopping center». Que nada mais era do que um grande mercado persa, desses que estávamos acostumados a visitar em procura dos itens mais variados. Em resumo, conseguimos, depois de muita hesitação e mediante alguns cálculos que, julgo eu, consumiram bastante tempo, vencer a maré que se formava e crescia à passagem desastrada de muitos carros. Nosso guiador, receoso do pior, consentiu em transferir o comando da embarcação para o jovem e versátil cobrador. De posse do leme ou «volante», o rapaz -- por quem não se daria um tostão furado, numa insofismável demonstração de perícia e ousadia juvenis, levou-nos até a outra margem da grande e fétida mancha barrenta. A o final, ficou claro a motivação do mancebo: exibir-se para uma jovem que, não raro, lhe dirigia olhares suspirosos. E assim concluo o meu relato acerca de Fortaleza, meu bom Khan. Se calhar vir a cá, pois sei muito bem de seus interesses comerciais e de outros não menos honrosos, cuide apenas em optar por tempos mais enxutos e menos caóticos. Número de frases: 63 Marco Polo. Em esta sexta-feira, Carlos Lombardi deu o ponto final à sua novela das 19h. Em o ar desde 20 de novembro do ano passado, Pé na jaca teve um último capítulo condizente com o que foi apresentado em toda história: situações mirabolantes, personagens agindo ao sabor da piada e até mesmo doses fortes de drama (comentadas anteriormente no texto «Pé no drama» http://www.overmundo.com.br/overblog/pe-no-drama). Vindo da difícil experiência na qual trabalhou como «bombeiro» para resgatar a audiência de Bang bang, Lombardi parecia ter enfiado não só um, como vários pés na jaca -- os primeiros capítulos se dividiram entre Paris, São Paulo e a pacata cidade de Deus me Livre (esta, a cidade onde boa parte da novela aconteceu). Inicialmente, o autor usou um recurso já experimentado em Kubanacan e na própria Bang bang -- as sucessivas participações especiais, que transformavam cada trama num sitcom. Desta vez, ela foi usada com moderação, fato que ajudou a não confundir muito o espectador. De a quina de protagonistas, o dramaturgo designou um «quarteto fantástico» (ou é melhor dizer uma reedição do grupo Os Trapalhões?) e uma vilã cruel e com sede de poder. Ironicamente, a vilania ficava a cargo de uma ex-noviça (Elizabeth, papel de Deborah Secco). Os outros quatro traziam características bem delineadas -- o empresário falido e hipocondríaco (Artur, de Murilo Benício), a batalhadora que tem de conviver com o marido violento (Guinevere, de Juliana Paes), o alcóolatra regenerado, bonachão e mulherengo (Lance, de Marcos Pasquim) e a modelo mimada e egocêntrica (Maria Bo, de Fernanda Lima). Aliás, as características de eles foram a única parte bem definida na trama. Afinal, em novela de Carlos Lombardi, tudo é possível, todas as histórias podem alterar num piscar de olhos. E até mesmo o título de «grande vilão» de Pé na jaca foi alterado durante a história. O prepotente Último Botelho Bulhões (participação de Fúlvio Stefanini) com seus desmandos na cidade foi o primeiro. Depois da morte do personagem, Elizabeth e a sede por poder e dinheiro tomaram conta da trama. Quando ela foi internada num hospício, se descobriu que a verdadeira vilã era a feiticeira Morgana (papel de Betty Lago). Tema recorrente nas atuais novelas da TV Globo, os dons sobrenaturais estiveram presentes em Pé na jaca. Em troca de sua fortuna, Último entregou seu filho ao mago Merlin (participação de Humberto Martins na reta final), que o iria buscar quando o herdeiro tivesse a idade de 33 anos. E Lance descobria ter o dom de transferir para si a dor de outras pessoas. De este entrecho, Lombardi selou dois destinos da trama: Lance curava o filho Marquinho (vivido por o garoto Miguel Rômulo), que havia sido eletrocutado ao mergulhar numa piscina, e depois era curado de seu tumor maligno, através da mão de Cigano (participação especial do humorista Chico Anysio). Ainda que com algumas nuances de comédia, a emoção apareceu quando quatro personagens -- Maria Bo, Vanessa (atuação de destaque da atriz Flávia Alessandra), Celina (vivida por Daniele Valente) e Dorinha (papel de Carla Marins) -- começaram a entrar em trabalho de parto em pleno dia de chuva, e as crianças nasceram em suas casas, de maneira precária mas eficaz. Uma boa saída para comover o espectador e para a novela escapar de cenas de hospital -- que não ficariam bem no encerramento de uma «novela cômica». Em recompensa à ótima atuação do ator Ricardo Tozzi, o «primo» Cândido terminou a história descobrindo ser o herdeiro da fortuna dos Botelho Bulhões -- e, num tom sarcástico, Carlos Lombardi fez com que o ranzinza se tornasse um sujeito deslumbrado com o dinheiro que recebeu e passasse a mandar em todos. Surpreendente também o final de Elizabeth -- em vez de ser punida por suas maldades, a ex-freira decidiu recomeçar a vida «do zero». Mas, ao contrário dos outros quatro, o final afetivo de ela foi ambígüo -- ela dizia querer voltar para o convento, mas não conseguia resistir à tentação de Deodato (feito por Gero Pestalozzi). Quanto aos demais casais, cada um teve seu final feliz -- Artur e Guinevere, Lance e Maria Bo. Embora se chame Pé na jaca, esta novela parece ter sido a mais lúcida assinada por Carlos Lombardi nos últimos anos. Além da já conhecida habilidade em criar tramas onde o riso predomina e em saber o que esperar de cada ator que escala, ele mostrou que sua escrita amadureceu, e não se restringiu à coletânea de piadas de gosto duvidoso exibidas em doses diárias de 45 minutos. A o fim desta jornada das 19h, o público pode ter a certeza de que o pé esteve numa jaca bem madura. E ao sabor da piada e dos novos elementos que Carlos Lombardi adicionou ao seu estilo de contar seus folhetins. * * * Em a próxima segunda, comentarei a estréia da nova novela das 19h -- Os sete pecados. Número de frases: 33 Imagine o quão fantástico seria se você pudesse começar uma história sem saber o rumo que ela tomaria. O Bookess lhe proporciona isso. Inicie seu livro e deixe que todos os usuários contribuam. A cada página sua história poderá tomar um rumo diferente! Bookess é uma editora e uma biblioteca. É o lugar para criar seu próprio livro ou distribui-lo em nível mundial, sem restrições e gratuitamente. O Bookess foi criado com o objetivo de proporcionar uma boa leitura em qualquer lugar que você esteja: em sua casa, em seu escritório, no hotel num fim de semana, enfim, onde você estiver e tenha uma conexão com a Internet. Com um sistema de leitura que simula a realidade, ler um livro virtual deixa de ser cansativo para se tornar algo divertido! Passe as páginas como se fosse um livro de verdade. Está cansado de ler hoje? É só marcar a página e continuar a hora que quiser e onde estiver. O Bookess depende de seus usuários para o funcionamento. São eles que criam, editam, contribuem e comentam os livros presentes aqui. Tudo de uma forma simples, rápida e gratuita. Além da possibilidade de criação de livros, o Bookess também proporciona um círculo de amizades entre pessoas com o mesmo objetivo. Trata-se da Comunidade Bookess de Editores, onde os usuários se relacionam, conversam, trocam idéias e fazem novas amizades! A estrutura para criação de livros permite a publicação de livros convencionais, gibis, mangás, livros didáticos, etc., já que você pode enviar ilustrações que ficarão guardadas em sua pasta para futuras utilizações. O Bookess também possui uma ferramenta para divulgação em websites, blogs e afins. Trata-se do Embeddable Book que disponibiliza uma prévia do seu livro e faz a conexão entre o usuário do seu site e seu livro. Número de frases: 20 Se você não conhece, não perca mais tempo, aventure-se por este imenso mundo da literatura! Envolva o povo, o povo não, os bacanas. A corda do carnaval em Porto Velho está cada vez mais puída, mais distante das manifestações da cultura popular. Tudo bem que há um custo caro para pôr um bloco na rua, entenda-se que nada é de graça, mas banir da convivência os iguais só porque eles não têm alguns reais para estar do lado de dentro da corda é uma atitude covarde. Empurrados contra as paredes, os cidadãos-pipocas são tidos como ameaça, como se o emblemático abadá fosse sinônimo do ordem e retidão cívica. Eu fui no carnaval de rua este em Porto Velho. mais de três mil engrossaram o caldo do bloco Pirarucu do Madeira, vi a banda renovada, onde continua indo quem quer, vi o reggae do JK invadir a avenida, vi e até participei do desfile das escolas de samba. Não tinha corda e eu voltei vivo. É a hora da população ver que a corda no carnaval só serve para enforcar os preconceituosos com a falsa sensação de que estão protegidos dos pobres. Brincar, pular e se divertir não pode ser luxo de quem tem dinheiro, deve ser direito de todos que têm disposição para isso. As brigas, aliás, foram poucas, segundo garantiu a própria Polícia Militar e constatei eu mesmo nos dias em que estive na avenida. Será que este é um sinal de que os cordões excludentes são um chamariz para que os jovens tentem pedir a atenção da sociedade? Eles, que já sofrem por não terem emprego, educação, estabilidade familiar e acesso às tecnologias da informação e nem chegam perto de qualquer coisa parecida com cidadania plena. Não é defesa de marginal, é resistência contra a marginalização de potenciais cidadãos que precisam de uma intervenção social, e esta pode começar por a cultura. Começou agora na tv e em todo lugar o anúncio do carnaval fora de época. São R$ 380 para sair no único bloco que sai este ano. Vão armar o circo, e no picadeiro vão colocar a velha história de que há geração de empregos, de que traz turismo e até, pasmem, o dinheiro de abadás sem notas fiscais engordam o erário. Para a cima de mim não. Eu gosto é de ver o povo na rua. Número de frases: 19 A exclusão pode até continuar, mas eu vou resistir e dizer da vontade de um dia ver a corda trocada por uma corrente de todos por a ascensão da cultura popular. O Ministério da Educação, através da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade -- SECAD, o Observatório de Favelas e 32 Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) brasileiras realizam entre 2 e 4 de novembro o «II Seminário Nacional do Programa Conexões de Saberes». O evento, que será sediado na Escola de Educação Física e Desporto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). mais de 1500 pessoas participando «Acreditamos que o nosso Seminário se inscreve num momento decisivo da sociedade brasileira, onde a democracia consolida seus alicerces e a universidade é convocada a se inserir num projeto de nação que seja de todos os cidadãos e cidadãs» afirma o coordenador executivo do Programa Conexões de Saberes e pesquisador do Observatório de Favelas, Jorge Barbosa. O Seminário contará com a participação de 1500 pessoas, entre estudantes, professores das 32 universidades federais participantes do Programa, representantes de comunidades populares e autoridades. Coleção Caminhadas e Livros Temáticos Após a solenidade de Abertura do Seminário, dia 2 de novembro, serão lançados a segunda série de livros da coleção Caminhadas de Universitários de Origem Popular. Os sete livros relatam as trajetórias de vida dos bolsistas que participam do Programa nas universidades: UFPE, UFPA, Ufes, UFMS, UFPR, UFPB e Ufam. Conforme aponta Ricardo Henriques, secretário da SECAD, «esses livros trazem os relatos sobre as alegrias e lutas de centenas de jovens, rapazes e moças, que contrariaram a forte estrutura desigual que ainda impede o pleno acesso dos estudantes mais pobres às universidades de excelência do país ou só permite para os cursos com menor prestígio social». Em 2006, a coleção «Caminhadas» publicou 14 livros com as contribuições das universidades que participam do Programa desde 2005. Em o próximo ano, teremos mais 18 obras que reunirão os relatos dos universitários que ingressaram no Programa Conexões de Saberes neste ano. Juntamente com a Coleção Caminhadas, serão lançados quatro livros temáticos que reúnem artigos produzidos por os bolsistas das 14 universidades que participam do programa desde o ano passado. Os temas abordados foram: representações dos espaços populares na universidade e da universidade nos espaços populares; desigualdade e diferença nos espaços populares; práticas pedagógicas e a lógica meritória na universidade; juventude e políticas públicas. Esses temas serão apresentados e debatidos durante o II Seminário Nacional, nos 28 Grupos de Trabalhos que ocorrerão, simultaneamente, na tarde do dia 3 de novembro. Apresentação das pesquisas Em a manhã do dia 03 de novembro, acontecerá o Painel Dinâmico: Democratização do Ingresso e da Permanência na Universidade Pública -- diagnóstico, práticas e perspectivas, coordenado por o secretário Ricardo Henriques. A primeira atividade desse Painel será a apresentação das pesquisas realizadas através de questionários, ao longo do ano de 2006, sobre o perfil dos estudantes que ingressaram na universidade pública federal nesse período e o perfil dos bolsistas participantes do Programa. Os questionários abordavam temas como trajetória escolar, renda e trabalho, moradia, vivências culturais e avaliação das condições de acesso e permanência na universidade. Ações afirmativas Em seguida, teremos um debate acerca das experiências de adoção de políticas de ações afirmativas em universidades públicas. Os representantes das Universidades de Brasília, as Federais da Bahia, do Rio Grande do Norte e do Paraná e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro apresentarão as políticas que foram implementadas, o porquê da escolha dessas políticas e os resultados obtidos. O objetivo do Seminário é dar visibilidade às pesquisas de caráter diagnóstico realizadas no âmbito das 32 IFES (Instituições Federais de Ensino Superior) integrantes do Programa Conexões de Saberes, além de acolher demandas e perspectivas para a construção de uma agenda de democratização de ingresso e permanência de estudantes de origem popular nas universidades públicas brasileiras. Programa Conexões de Saberes Implantado por a MEC / SECAD em parceria com o Observatório de Favelas, o Programa Conexões de Saberes iniciou suas atividades no fim de 2004 em cinco universidades públicas brasileiras (UFF, UFRJ, UFMG, UFPE, UFPA). A partir de junho de 2005 foi estendido para outras nove universidades (Ufes, UnB, UFMS, UFPR, UFRGS, UFPB, UFC, UFBA, Ufam), que são as Instituições que lançarão os livros durante o II Seminário. Em 2006 o Programa foi ampliado para mais 18 universidades (UFAC; Ufal; UFG; UFMA; UFMT; UFPI; UFRN; UFRPE; UFRR; UFRRJ; UFS UFSC; UFSCar; UFT; UNIFAP; Unir, UNIRIO, UNIVASF), totalizando hoje 32 universidades. O objetivo maior do programa é ampliar a relação entre a universidade e os moradores de espaços populares, promovendo o encontro e a troca de saberes e fazeres entre esses dois territórios socioculturais. Busca-se a permanência e a participação protagonista do estudante de origem popular na vida universitária, na produção de conhecimento sobre sua realidade de estudo e de moradia, além de criar condições para a transformação institucional da universidade. Cada instituição participante do Programa seleciona um mínimo de 25 estudantes para atuarem como bolsistas de extensão. São estes bolsistas os responsáveis por a articulação do Fórum Nacional de Estudantes Universitários de Origem Popular. Número de frases: 44 Como reconhecimento do trabalho realizado, o Programa Conexões de Saberes recebeu o prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2005. Melina Guterres S egundo a ciência somos descendentes de macacos, evoluímos e por isso o homem possui esta forma a qual conhecemos hoje. Agora, imagine se parte dessa evolução física não acompanhasse o resto do corpo ... imagine agora se a humanidade possuísse rabo. Rabos longos, rabos curtos, rabo grosso, fino médio ... Será que vestiríamos o rabo também? As mulheres o depilariam com cera quente? E os homens, seriam mais atraentes os mais peludos? Comparariam qual é o melhor? Cães e gatos abanam o rabo quando estão contentes de forma involuntária. Com o homem seria diferente? Haveria formas comportamentais para o rabo? Igrejas que o condenariam? Suas emoções estariam todas expressas por o movimento inconscientemente ou seria controlável? Os homens diriam «fiu, fiu, que rabo lindo!», as mulheres gostariam ou dariam uma rabada no atrevido? E quando ambos tivessem atração um por o outro, o rabo levantaria abanando? Diriam, «acho que gostou de mim, olha como te ao rabo de ele (a)» ou «amor, para de abanar o rabo para àquela mulher, se não parar agora, quero divórcio já»! etc, etc ... Haveria psicólogos especializados em tratar o complexo rabal? Ahh ... haveria novas ciências, teorias, etc. Bom, certamente haveriam os acessórios, brincos, piercings, tatuagens ... até «roupas» ... Cada um faria o que quisesse com o rabo ... ou será que um rabo «nu» seria imoral? ... ou então símbolo de beleza? As calças, saias, vestidos viriam com um furo para a passagem do ... e nos bailes, seriam estes decorados com um círculo dourado, prateado ... e brinco de strass na ponta? Haveria mercados, lojas, shoppings, fabricas, empresas que trabalhariam em função do rabo. Haveria seguros de rabos, tipo bumbum da Carla Perez? Ah ... salão de beleza então, imagine os anúncios, " Cuide aqui do seu rabinho, tratamento capilar completo com massagem terapêutica anti-estresse. Para festas, maquiagem completa por.." Enfim, o rabo seria um comércio assim como tem sido tudo até hoje. Talvez houvesse o lado positivo, a indústria do rabo seria enorme e portanto haveria muito mais pessoas empregadas. Se o rabo «mexesse» de acordo com as emoções " o mundo seria mais sincero ou mais confuso? Ah pior coisa seria pra quem tivesse rabo grande " pisaram no meu rabo, filho da p ..." A medicina também teria médicos específicos pra tratar de eles. Seria interessante analisar esta idéia ... se a humanidade tivesse rabo. * Já que é o primeiro texto que mando pra o OVERMUNDO, que seja pra divertir e refletir ... hehehehehe Meu Blog: Número de frases: 44 Após de 35 anos de lançamento do disco Clube da Esquina nº 1, os diversos músicos que fizeram parte de eles se encontram em dois dias de shows, em Belo Horizonte. Um disco, a importância que um único disco pode ter para a história de toda uma geração. Os músicos, as suas obras e vidas registradas nos sulcos de um disco de vinil que acaba se tornando um símbolo de uma geração. O espírito de uma época, de um bairro, uma esquina, de encontros numa esquina, traduzidos num simples disco. O álbum Clube da Esquina nº 1 foi sem dúvida um divisor de águas da música brasileira. Ele trouxe inovações harmônicas e rítmicas para a época: as várias cores musicais do erudito de Wagner Tiso, do canto gregoriano do Milton Nascimento, o jazz de Toninho Horta e pop britânico de Beto Guedes e Lô Borges. Junte a isso as diferentes referências culturais do grupo: o cinema de Truffaut, filosofia existencialista de Sartre, a literatura beatnik, a cultura cigana, o estilo de vida do interior mineiro. O resultado é o estilo de música mais influente da música brasileira, depois da Bossa Nova. Foi a partir da década de 60 que a música popular brasileira começou a mudar. A pluralidade de novos artistas que surgiram na época ainda é a mais importante na história da música popular do Brasil. Era um momento no qual todos estavam procurando dar eco às suas vozes, meio a uma grande repressão política e de liberdade de expressão. A influência e a singularidade das músicas do Clube da Esquina o transformaram no mais importante movimento musical de Minas Gerais. Mesmo que de certa maneira ofuscado por o Tropicalismo da dobradinha São Paulo -- Bahia, os garotos do bairro Santa Tereza não foram por isso menos influentes para a música do Brasil e do mundo. O disco Clube da Esquina nº 1 foi onde se condensaram todas essas influências e ânsias de conquistar os ouvidos do mundo, direto de uma esquina qualquer de Belo Horizonte, entre peladas na rua e goles de pinga. Milton Nascimento, Lô Borges e Toninho Horta eram as estrelas principais, sem dúvida, mas a presença dos demais músicos na gravação do disco foi imprescindível para dar vigor ao movimento. Antes da música, a amizade Essa foi a primeira geração de músicos a ficar em Belo Horizonte, que não precisou ir para Rio e São Paulo para ter uma carreira. De aqui só saíam para gravar e shows. Mas as raízes, bem fincadas no chão mineiro, eram refletidas nas letras e na maneira de compor: o «modus vivendi» local -- o sobe e desce de morros, sempre de buteco em buteco --, as paisagens montanhosas, o ritmo bucólico e o silêncio de uma cidade grande com ares de interior. A tal esquina é o cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no Santa Tereza. Embora a história tenha começado mesmo no encontro entre os Borges, Milton e Wagner Tiso nas escadas da pensão do Edifício Levy, no centro da cidade, foi principalmente durante a vida no Santa Tereza que as coisas aconteceram. «A timidez e a aversão aos holofotes da mídia jogaram a atenção para aquilo que sempre importou: a música. Como não havia essa coisa da profissionalização, de planejar fazer sucesso, as coisas foram sendo feitas por o amor à música, por o prazer de tocar junto e com os amigos», conta Tavinho Moura. O nome «clube» vem também da forma de se trabalhar: todos ajudavam, contribuíam com idéias e a música era o resultado de diversas cabeças, influências musicais pessoais e da amizade entre cada um de eles. Á «formação» inicial que tinha Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga foram logo sendo agregados mais amigos e parentes. Essa forma aberta e hospitaleira de receber novos integrantes ao movimento foi e ainda é, sem dúvida, muito importante para a sua continuidade. Os amigos que se conheceram por causa da música durante a adolescência cresceram tendo ao lado o prazer de tocar juntos. Mesmo que cada um levasse a sua carreira solo, os constantes encontros aconteciam por as estradas e estúdios do mundo. Sempre presente estava o sentimento de tentar mais uma vez reunir todos num palco. 35 anos depois, o reencontro. Para que houvesse espaço para tantas pessoas que fizeram parte do Clube da Esquina ao longo dos anos era necessário um local grande e ao menos dois dias, com muitas horas de palco. Amigos reunidos, instrumentos em mãos e um clima nostálgico revelado mineiramente nos sorrisos e abraços entre os artistas: as ruas que foram percorridas por cada um de eles dobravam-se e ali, naquele local, formavam uma esquina imaginária. Em os dias 8 e 9 de dezembro, última sexta-feira e sábado, encontraram-se, no Espaço Funarte Casa do Conde, mais de 80 músicos que representam mais de três décadas de história. São gerações com vários anos que as separam, mas que se unem por a identidade «esquineira» em comum. «Durante muito tempo o Clube da Esquina ficou sem se reunir por causa da agenda. Mineiro tem isso de cada um ficar na sua, de trabalhar sozinho ... e era um sonho poder reunir todo mundo assim de novo. A idéia é repetir esse encontro em outras cidades por o país, para mostrarmos a força do movimento. É uma oportunidade para a geração mais nova conhecer mais o que foi feito», explica Toninho Horta, o responsável por a organização do evento. Milton e Lô, que não compareceram por conflitos de agenda, estavam ali representados por as suas músicas, «abençoando espiritualmente os shows», como prefere entender o organizador. Se as duas estrelas principais não puderam subir ao palco, outros tantos estavam presentes: Beto Guedes, Flávio Venturini, Luiz Alves, Márcio Borges, Marcos Vianna, Murilo Antunes, Nelson Ângelo, Nivaldo Ornelas, Paulinho Carvalho, Fernando Brant, etc ... Nostalgias à parte, mais do que simplesmente subir e tocar aquelas canções, era preciso, de certa forma, voltar no tempo: um ajuste minucioso para que os instrumentos soassem como há décadas atrás, diversos familiares convidados para o clima informal e portas abertas ao público. A feliz «coincidência» de realizar o evento durante a comemoração do aniversário de Belo Horizonte foi mais um momento de reforçar a amizade e o contato entre os artistas e o público. Mais sobre essa e outras histórias no site do Museu do Clube da Esquina. Definitivamente vale uma olhada. O material é rico, diverso e bem apresentado. Número de frases: 54 Eu queria matar era a sede de informação. A cidade de Salvador contém uma extensa faixa litorânea. São inúmeras praias, a principio sem distinção de classe, gênero, mas com o passar do tempo e crescimento da cidade elas começarem a se direcionar a um determinado publico. O que essa reportagem ira focar, especificamente, é o desenvolvimento da Praia dos Artistas. Uma praia que começou a se destacar por a freqüência de artistas nos anos 70 e que atualmente o publico GLS adotou o espaço. A Praia dos Artistas localiza-se no bairro da Boca do Rio mas precisamente na Praia Corsário. Ao todo engloba quatro barracas: Aruba, Republica, Bahamas e a Sky Blue, a mais antiga. A o chegar na praia depara-se com três enormes bandeiras do movimento GLBT, arco-íris. Algumas estátuas da cultura afro ornamentam a entrada da praia. Por a posição privilegiada, protegida por altas dunas, que o publico GLS transformou a Praia dos Artistas como point direcionado para aquele publico em Salvador. Foi nos anos 70 que a praia se consolidou como o local de liberdade do corpo. Porem o movimento político denominado Golpe de 64 dificultou este tipo de expressão de identidade cultural. Segundo o jornalista aposentado do Jornal A Tarde, Álvaro Dias, 78 anos, morador do bairro da Pituba, na época da ditadura só restavam duas possibilidades: buscar essa liberdade na estrutura macro social ou entrar na luta armada. O fenômeno Praia dos Artistas e a sua vocação para unir artistas, o movimento Hippie e outras tribos acontecem com o movimento da contracultura que a ditadura queria sufocar. O proprietária da barraca mais antiga da praia, Aloísio de Souza Almeida, 58 anos, mais conhecido como Aloísio Sky. Ele é a pessoa mais lembrada e citada por quem já passou por lá. Sua barraca, a Yellow Sky, foi o motivo de seu apelido. Aloísio é o primeiro barraqueiro da Praia dos Artistas e se diz parte da historia daquela praia. Uma enciclopédia viva sobre o processo de desenvolvimento do ambiente. Está lá a 28 anos. «Era aqui onde todos costumavam se reunir. De os vizinhos da rua Orlando Moscozo, onde morava numa republica com diversos músicos, à gente como os irmão Zizi e José Possi Neto, até estrelas da Rede Globo e muitos outros que vinham curtir o verão de Salvador», diz Aloísio. Caboclo de olhos verdes, Aloísio é natural de Conceição do Almeida. Chegou em Salvador em 1973. De a sua terra só trouxe um acessório que tornaria sua marca: o chapéu. O indispensável chapéu de abas largas, tipo sombreiro, com um pano amarrado e uma calça branca são a indumentária de Aloísio há uns bons pares de ano. Sua barraca era de palha e que funcionava somente nos finais de semana. Mas foi em 1976 -- ano que começou estourar a fama -- quando trocou a tabua por um tipo de lona amarela que a barraca passou a se chamar Yellow Sky. Um buraco na lona que permitia avistar o céu levou um dos antigos clientes, o Rowney Scott (na época representante da Radio Pan AM), hoje com 72 anos, a batizar o espaço com o nome " Blue Sky Beach House. «Fui um dos primeiros a chegar por lá. Em a verdade fui eu mesmo que coloquei o nome na barraca. Freqüentei essa barraca por um período de mais de 20 anos», diz seu Rooney, recordando que quase separou da mulher pois numa de suas férias ele saia normalmente as seis horas da manha e ficava na barraca ate 1h da madrugada. Aloísio lembra muito bem dos principais clientes. Com um cardápio variado e exótico, como peixadas e dúzias de lambretas servidas a beira-mar, assim como do caruru servido na palha. Sobre as vestimentas dos clientes, ele frisa a maneira absolutamente espontânea como as garotas amarravam seus lenços para dar formas ao biquíni, deixando a parte de cima livre, e da tanga de crochê ou chita estampada que Caetano Veloso costumava usar. De 1976 ate os primeiros anos da década de 80, a barraca de Aloísio viveu a fase alta, como ele diz. Mas os clientes que antes freqüentavam o cenário paradisíaco, estavam começando a freqüentar praias mais distantes. Assim outros clientes, mais precisamente o publico GLS, começou a freqüentar o ambiente, e descobriram a sua maneira os encantos e a magia que praia proporcionava. Hoje, a Praia dos Artistas contem 4 barracas, com atendimento diversificado e uma musica que varia de MPB a musica eletrônica, como é o caso do DJ Johnny que toca na " Barraca Republica. «É um prazer tocar aos domingos para esse publico ainda tão marginalizado e discriminado por uma sociedade hipócrita». Número de frases: 43 O publico GLS viu na Praia dos Artista mais especialmente na Barraca de Aloísio a melhor maneira de sentirem a vontade, já que Salvador provem de poucos ambientes voltados párea esse publico. O Dia Nacional do Cigano foi comemorado pela primeira vez na história do Brasil, no dia 24 de maio. A data foi instituída em 2006 por meio de decreto do presidente Lula, que reconheceu a importância da contribuição da etnia cigana no processo de formação da história e da identidade cultural brasileira. O governo, por meio do Ministério da Cultura e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, elaborou uma programação com uma série de atividades para comemorar a data. A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em parceria com o Grupo de Trabalho para as Culturas Ciganas, organizou as comemorações do Dia Nacional do Cigano, com atividades no auditório do Palácio do Itamaraty. Em a programação de quinta-feira (24 de maio), com a participação de 81 ciganos e de diversas autoridades, foram inclusas atividades como o lançamento, por parte dos Correios / ECT, de selo e carimbo alusivos à data. Em este memorável evento o Grupo de ciganos do Rio de Janeiro «Mio Vacite e o Encanto Cigano», representando a União Cigana do Brasil se apresentou mostrando a arte da música e dança cigana. Número de frases: 7 O grupo de rock alternativo (como define alguns), Radiohead, teve início no fim dos anos 80, em Oxford, Inglaterra, originalmente sob o nome On A Friday. O nome Radiohead veio de uma música dos Talking Heads, uma das influências da banda, chamada «Radio Head». Mas, na verdade, não estou aqui pra discutir o som desse grupo britânico e muito menos o valor de eles dentro do «rock alternativo» internacional. Deixo isso para os especialistas de plantão. O que realmente chamou a atenção no último álbum lançado por a banda, In Rainbowns, 2007, foi a ousadia e a maneira de distribuição proposta, que é exatamente o título deste «texto ninja», como diria Leminski. O que represente, talvez, uma grande revolução do próprio conceito de CD, foi tachado, por alguns, como mais um fulminante ataque à indústria fonográfica atual. E pode ter sido mesmo, principalmente por ter vindo de um grupo com um grande renome. Logo ao entrar no site da banda já aparece um aviso de que o novo álbum da banda está, por enquanto, disponível somente no site. Logo mais, você descobre que pode fazer o download das músicas pagando qualquer valor entre 0 e 100 libras! Aí muitos perguntariam: e o disco? Ele pode ser adquirido, ainda por o site, a partir de dezembro, porém aí, obviamente, com custo de envio e tudo mais. O que está embutido nesta atitude radical, em sintonia com a produção independente que desponta no Brasil, é que, cada vez mais, os artistas estão se dando conta de que o esqueleto do esquema fonográfico montado durante praticamente todo o século XX começou a entrar em cheque a partir principalmente dos anos 90, sofrendo duros golpes ao longo deste início de milênio resultando em queda brusca das vendas e ausência de novidades, por exemplo, condenando o circuito a um abismo cíclico, espero, sem volta. Naturalmente é de se esperar que a tendência seja mesmo que artistas fora desse grande circuito ganhem mais espaço, e, de certa forma, já começamos a observar isso. O site da BBC Brasil traz uma matéria com uma dura crítica a essa inovação. «Talvez a revolução digital tenha dado poder demais às bandas. Talvez o Radiohead precise de uma gravadora». E realmente, a revolução digital tem dado cada vez mais «super poderes» às bandas e, se não fosse isso, hoje em dia provavelmente estaríamos experimentando uma constância musical generalizada, inclusive fora da grande indústria, pois o escoamento de toda ebulição cultural que se observa atualmente seria muito difícil. Os motivos da crise instaurada na grande indústria cultural são vários, e com certeza os pobres camelôs que vendem CDs piratas e o site do Radiohead estão longe de serem os principais responsáveis, como costumam apontar os órgãos oficiais. A circulação rápida e globalizada de informação é inevitável e trouxe grandes avanços para vários setores da sociedade. Então porque esperar que artistas, mesmo das majors, fiquem de fora das maravilhas tecnológicas? Há muito tempo grandes artistas reclamam dos contratos e distribuição dos discos por parte das grandes gravadoras, essas sim, os grandes piratas que, digamos assim, acabaram cavando a própria cova. E mesmo elas já perceberam que a tendência é que a força do CD diminua, e o MP3 seja cada vez mais uma realidade. O cenário independente ou «alternativo» há muitos anos já é uma realidade (não precisa mais ser chamado de alternativo), inclusive no mercado, e essa nova maneira de distribuição proposta por o Radiohead traz de bom uma forma simples de acesso com um recado muito claro às majors de que sua estrutura é cada vez menos atrativa aos novos artistas. Com toda certeza a banda não está preocupada com a discussão de que pode ser perigoso deixar o consumidor decidir o preço ou de quanto vale a arte. Vários grupos independentes já disponibilizaram seus discos totalmente por a Internet antes do Radiohead, mas a estratégia de marketing utilizada por esse grupo que com certeza já está na mídia é, sem dúvida, algo que merece destaque. E talvez eles até ganhem algum dinheiro com isso. Essa maneira de distribuição, na minha modesta opinião, vai ao encontro com a toda nova produção musical que está sendo feita no Brasil, e também no resto do mundo. As gravadoras têm cada vez menos condições de manter sua enorme estrutura através de jabás e caros artistas, que, na maioria das vezes, não traz grandes inovações musicais. Sem entrar no mérito se este novo álbum do Radiohead é ou não uma obra prima, ele provavelmente será lembrado como um divisor de águas na distribuição por a Internet, a revolução digital, assim como o álbum Sargent Peppers dos Beatles é um marco do início da nova era de tecnologia de estúdio. Número de frases: 30 Bel Garcia é uma jovem cantora, compositora e guitarrista de São Paulo que está chamando atenção de crítica e público desde que lançou Slow Motion Ballet, seu debut com o Bluebell, sua banda. Seu som cativou o cineasta Fernando Meirelles, que o qualificou como «genial» ao comentar a personalidade dos vocais e garante que ela veio para ficar. Seu som é íntimo e pessoal, varia das baladas ao rock mais enérgico, com características marcantes que a destacam no meio do cenário independente. Em essa entrevista com o produtor Tiago Barizon, Bel Garcia comenta a respeito de sua história no meio musical, que remonta ao ano de 1995 e passa por grandes momentos, de sua carreira e do que reserva o futuro. Barizon: Conte um pouco da história da formação da banda. E por que «Bluebell», uma flor tão comum na Inglaterra, mas rara no resto do mundo? Bel Garcia: O Bluebell não é bem uma banda. Bluebell é meu pseudônimo. Mas por trás do Bluebell existem também outros dois produtores: o Luciano Kurban tem uma produtora onde eu gravava jingles. Um belo dia ele e o Paulo Corcione me perguntaram se eu compunha. Eu disse que sim e mostrei tudo o que eu tinha na gaveta. Slow Motion Ballet é o resultado da soma de parte do que eu tinha na gaveta com a produção dos dois. Bluebell é legal para ser um pseudônimo ... Tem a ver com o meu nome e é uma flor tão bonita ... Pena que não tem no Brasil ... Barizon: Mais história do que Bluebell, você tem um passado sempre ligado à música. Como foi esse trajeto? Bel Garcia: Comecei a cantar profissionalmente aos dezesseis anos, em 95. Tinha uma banda de rock chamada Blue Liver (sim, esse nome tosco é meio que uma origem do nome Bluebell). A gente fazia rock pesado. Batia cartão no palco do Aeroanta, que naquela época já estava decadente. Acabamos indo gravar em Portugal, blá, blá ... Não vou entrar em detalhes ... Mas tudo o que posso dizer é que essa experiência em Portugal meio que me traumatizou de tal forma que eu parei de ouvir rock. Comecei a estudar música e passei a ouvir e compor só música brasileira e jazz ... Isso durou mais ou menos dois anos. Cantei com muita gente, fiz várias gigs, enfim, pastei. Fui voltar a ouvir rock em 2003 ... O barato de ter passado por vários estilos é o auto-conhecimento ... Hoje em dia eu sei melhor o que quero cantar e o que quero compor ... Barizon: Você tem outros projetos, paralelos ao Bluebell. Fale um pouco sobre eles. Bel Garcia: Tem o Hotel Plaza que faz versões jazzy para a música pop e tem tocado bastante em sampa. O Kardex, minha banda cover de rock, infelizmente tá parado, mas deve voltar ... Barizon: Como foi o processo de composição das letras e melodias de Slow Motion Ballet? Bel Garcia: Slow Motion Ballet é um disco diferente por causa daquela história da gaveta que eu já havia mencionado. As músicas foram compostas sem intenção de virar um disco. É por isso que grande parte é em inglês. Compus essas músicas pra mim. Talvez seja por isso que elas acabaram tendo apelo. Porque são verdadeiras, simples ... Meu processo de composição é básicamente fazer a harmonia, depois melodia, depois a letra, que às vezes é dolorosa pra sair ... Principalmente quando é em português ... Mas já vou adiantando que o segundo disco vai ter mais português do que inglês ... Barizon: Em uma outra entrevista você afirmou que não só influências musicais afetam suas composições, mas tudo que te cerca, até mesmo sua última refeição. Você acha que isso é um dos motivos das letras serem íntimas e pessoais? Ou isso é algo pensado enquanto você escreve? Bel Garcia: Não, não é pensado. Aliás, eu procuro pensar o mínimo possível. Eu gosto de trabalhar com imagens do inconsciente, sabe? É quase que psicografar (risos). Eu preciso estar meio alterada pra escrever. Com sono, ou bêbada, ou com muita raiva, ou nervosa ... Eu deixo a emoção me levar ... Depois eu arrumo as palavras e descubro do que se trata aquilo que escrevi momentos atrás. Barizon: Em uma resenha da revista Bravo seu trabalho foi comparado ao de Aimee Mann. Mais do que semelhanças musicais, mais notadamente na influência do folk, a forma poética de escrever é muito parecida. Além disso, Aimee Mann também tem uma longa história, desde os anos 80 quando integrava o'Til Tuesday. Ela é uma influência no seu trabalho? Com quais artistas atuais você sente afinidade? Bel Garcia: Sim. Aimee Mann é uma influência. Eu ouvi muito. Fiquei extasiada quando li sobre a comparação ... Ultimamente, eu ando ouvindo umas velharias ... Led Zepellin, Joy Division ... Mas os dois discos que eu mais ouvi no ano que passou foram Road to Rouen, do Supergrass, e Desperate Youth, Blood Thirsty Babes do TV on the Radio. Ouvi muito White Stripes e Blur também ... Barizon: Em sua opinião, o que falta no cenário musical nacional? Quais as dificuldades de um artista, um músico que quer conquistar com um trabalho próprio e original? Bel Garcia: Não sei se é só no Brasil, mas a indústria fonográfica é uma máfia ... Uma amiga que faz marketing fonográfico me disse outro dia que viu diversas vezes diferentes grandes gravadoras se reunindo pra decidir qual vai ser «a bola da vez». O rádio é outra máfia ... Mas também existe muita gente de ouvidos e braços abertos para a música de qualidade. E isso tá crescendo. Mídias novas estão aparecendo ... rádios online, podcasts ... Eu vejo uma luz no fim do túnel. Um futuro onde as pessoas sejam livres para ouvir o que quiserem e não o que são obrigadas a ouvir ... Barizon: Como tem sido a recepção ao seu trabalho de estréia? Quando vamos ter a oportunidade de ver seu trabalho ao vivo? Bel Garcia: A recepção está muito boa. As críticas têm sido positivas ... Tanto na mídia impressa como na internet e na tv. A MTV, por exemplo, foi super receptiva. Fizemos o Banda Antes, depois uma entrevista no jornal. Espero que eles sejam receptivos também com o clip que está a caminho ... O Bluebell estréia ao vivo no dia 08 de agosto no Clube Belfiore. ( R. Brigadeiro Galvão, 871 -- Barra Funda) Barizon: Slow Motion Ballet não foi precedido por singles, EPs, nem mesmo uma demo. Mas as críticas foram todas positivas e você concorreu ao Prêmio Dynamite de Música Independente. Nada usual no nosso mercado, não? Como foi que tudo aconteceu? Bel Garcia: Nós mandamos o disco para a revista Dynamite e eles gostaram. Gostaram tanto que fizeram uma matéria que tá na última edição de revista. Quando eu vi, estava entre os indicados de melhor disco pop, junto com o Nação Zumbi e o Mundo Livre ... Eu só tenho a agradecer o Finatti e sei lá quem mais que me colocou lá no meio ... É super motivante uma coisa dessas pra alguém que acabou de lançar seu primeiro disco solo ... Barizon: Se não fosse por a música, o que você faria da vida que a deixasse igualmente satisfeita? Bel Garcia: Acho que para me deixar igualmente satisfeita tinha que ser alguma coisa tipo comediante.. (risos). Eu gosto de coisas que tragam leveza à vida alheia. Isso me realiza. Barizon: O que podemos aguardar para o futuro, tanto da Bel Garcia quanto do Bluebell? Bel Garcia: O Bluebell, como eu já havia adiantado, vai estrear os shows em agosto. Espero que a gente toque bastante ainda esse ano. O clip, que foi feito na O2 e dirigido por o Rodrigo Meirelles, tá quase pronto. A música é «Dull Routine». A Bel Garcia já tá com a gaveta transbordando e louca pra gravar um segundo disco ... Links: http://www.barizon.net/content/view/ 227/76/ Número de frases: 131 www.myspace.com/bluebellmusic Quando não puxam o tapete, reduzem o ambiente pra quitinete. É aviltante o encolhimento do espaço para a qualidade musical na mídia hegemônica. Quem não dá o corpo para vender cerveja e não é da firma dos apresentadores dos canhões de mídia, tá caindo de banda do cenário artístico brasileiro dominado por a gringolândia e propagandeada no território por os servos da gleba imperializada por a camarilha bushiana e condolências dançantes (em múltiplos sentidos aqui). Quem tem perna e peito que não quer dar à venda das boas e é criativo têm encontrado no exterior ambientes estéticos mais favoráveis ao desenvolvimento de sua arte. Ou nos pecês de fundo de quintal, que vai produzir bolachinhas pra vender de mão em mão e tocar na festinha do clube dos sem. Por óbvio, se quiser um bom registro e a preservação de integridade autoral. Li um pouco disso, além do que vejo em tevê e mesmo aqui e nas badalações da internet no sítio Antares Música, especializado em música instrumental. Em uma honrosa exceção, o qualificado sítio de músicos e mestres competentes abriu-se para a divulgação de um disco vocal. Sinalizam que se trata de um grande evento. Praticamente desconhecida da maioria do público brasileiro, a cantora, compositora e violonista Ana Paula da Silva divide a agenda de espetáculos entre palcos de Santa Catarina e Viena. Em a Áustria, por as razões lá de eles, já foi, inclusive, objeto de monografia acadêmica. E apresentou-se junto ao ícone jazzístico dos anos 70 Joe Zawinul (mentor do lendário Weather Report) em tournée e no clube de ele, o Birdland. Ainda assim, por essas razões que só o amor pode explicar, brasilidade é o que mais emana de cada compasso de Canto Negro, primeiro disco solo de Ana Paula da Silva. Ouça aqui algumas vinhetas do trabalho da moça. Solo, mas não individual, que a guria se faz acompanhar de bambas: Ana Paula (voz, violão, percussão, guitarras, bandolim, sitar elétrico, teclados e efeitos) Edson Santana (teclado e arranjos) Alegre Correa (violão, cavaquinho e arranjos) Beto Lopes (violão, guitarra, baixo e arranjos) Arnou de Melo (baixo) Paulo Paulelli (baixo acústico) Fábio Hess (violão de 7 cordas) Michael Ruzitscka (violão) Wilsinho (cavaquinho e banjo) Serginho do Trombone (trombone) Evandro Hasse (trompete) Rubens Azevedo (sax tenor) Alessandro Kramer (acordeon) Bertl Mayer (harmônica) Endrigo Bettega e Toicinho (bateria) Giana Servi, Luciana Weiss, Karla Freitas, Caroline Pinto (vocais) Robertinho Silva (percussão) Judith Reiter (violino) Bernardette Köbelle (violoncelo) Martin Reiter (arranjo de cordas e harmônica) O cedê traz canções próprias: Cantos Negro, Vamo trabaiá, Nega veia e antológicas de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro: Sincretismo, Alegre Correa: Gávea, Beto Lopes: Serra do A o e Nem Nada, Nélson Cavaquinho: Quando eu me chamar saudade, além de Tavinho Moura, Murilo Antunes, Guinga e Sérgio Natureza. Número de frases: 41 Semana na casa de cultura homônima com exposição de obras, fotografias, documentos e objetos pessoais de um dos maiores escritores maranhenses, além de lançamento de Concurso Literário sobre sua obra, marcam semana que celebra um ano de seu falecimento. Josué Montello é, sem dúvidas, um dos mais importantes intelectuais maranhenses. Sua vasta obra inclui mais de uma centena e meia de títulos, entre romance, conto, novela, crônica, obras infanto-juvenis, ensaio, teatro etc.. Em 2007, quando se celebra «Um ano sem Josué Montello» -- com exposição homônima na Casa de Cultura idem (Rua das Hortas, 327, Centro) --, o escritor completaria 90, se estivesse vivo, em 21 de agosto. A programação da semana ora em cartaz inclui exposições de obras, fotos, documentos, objetos pessoais -- como o fardão e o colar usados por o escritor na Academia Brasileira de Letras -- e visita guiada ao apartamento ocupado por o autor de «Noite sobre Alcântara» quando de suas vindas à Ilha natal, por quem se revelou um eterno apaixonado, mesmo tendo ido morar no Rio de Janeiro ainda aos 19 anos. A exposição está aberta à visitação pública entre 13h30 min e 17h30 min, até o dia 16 de março -- a Casa de Cultura Josué Montello funciona das 13h às 19h, de segunda à sexta-feira. «Nossa idéia é abrir a casa em dois turnos, é um plano que em breve será posto em prática, superando algumas dificuldades», afirma Joseane Souza, Diretora da CCJM. O espaço -- um misto de museu, arquivo e biblioteca -- é dotado de vasto acervo literário, ainda subtilizado, se comparadas as visitas diárias à CCJM e da Biblioteca Pública Benedito Leite, para citar uma casa próxima, embora a segunda seja bem maior. Entre as obras disponíveis para consulta na primeira estão, além das escritas por Josué Montello, livros de autores maranhenses e um sem-número de obras estrangeiras, principalmente francesas, trazidas por o autor de suas viagens e sempre doadas a casa, que completa 25 anos em 2008. A Casa de Cultura Josué Montello dispõe de alguns títulos da bibliografia montelliana para venda. «Os tambores de São Luís», seu mais famoso romance, adotado em vestibulares por aqui e em disciplinas de Literatura Brasileira em faculdades estrangeiras, está esgotado (lá), mas é encontrado sem maiores dificuldades em livrarias e sebos locais. Concurso literário -- Em o dia 15 de março, data em que Josué completa um ano de falecido, será celebrada uma missa na CCJM. Logo após, será lançado o «Concurso Literário Análise de Romances de Josué Montello». As inscrições vão até o dia 30 de junho e o resultado será conhecido na Semana Montelliana, que se realizará em agosto por ocasião dos 90 anos do ocupante da cadeira nº. 29 da Academia Brasileira de Letras (fundada por o também maranhense Arthur Azevedo e cujo patrono é Martins Pena). Sobre o concurso e sobre a exposição «Um ano sem Josué Montello», maiores informações podem ser obtidos por o e-mail ccjm@cultura.ma.gov.br, por o telefone (98) 3218-9945 e / ou aqui no Overmundo. Para mais: http://www.cultura.ma.gov.br/site ccjm / index. Número de frases: 18 jsp O nome artístico não deixa dúvidas: Zezzaropi é cover de Mazzaropi, o ator que fez sucesso como um caipira em produções a partir de 1950. Natural de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, esse caipira real -- com muito orgulho!-- teve seu primeiro contato com o telão como operador de projetor de filmes na também paulista cidade de Ourinhos. Lá ficou frente a frente, por a primeira e única vez, com seu ídolo. Anos depois, veio o reconhecimento maior de seu trabalho. «Hoje sou reconhecido por a família de Mazzaropi como o cover que mais fielmente representa esse grande ídolo caipira», diz, sem esconder a felicidade. Com o início das produções de Mazzaropi no Brasil, seu Luiz Alves de Souza viu seu mundo transportado para as telas de cinema. Mas ali o cotidiano de um «caipira» era retratado de forma singela e poética. Foi assim que Mazzaropi se tornou um ídolo para seu Luiz. Ele que já havia flertado com a arte por meio da música, descobriu um novo talento: a imitação. Em esse período Zezzaropi, ainda conhecido apenas por seu nome de batismo, teve a oportunidade de conhecer pessoalmente o gênio da cultura caipira. «A cada filme lançado Mazzaropi fazia questão de fiscalizar as bilheterias, pois toda renda era utilizada para pagar o aluguel das máquinas da Companhia de Cinema Vera Cruz», conta. Em uma visita ao cinema de Ourinhos, onde seu Luiz trabalhava, ele teve a oportunidade de ouvir causos contados no escurinho do cinema, com direito a drops de anis e pipoca, por aquele que já era referência em sua vida. A data seu Luiz não lembra mais: «Acho que foi pouco antes de eu casar». Após esse encontro, nasceu Zezzaropi. Desde então ele imita o ator. «Gostaria de viver só disso, mas não dá. Faço apresentações esporádicas em Ourinhos e região e, às vezes, sou surpreendido com algum grande convite." A fala mansa e carregada no sotaque interiorano, a estatura mediana, a pele parda e todos os trejeitos de um bom caipira, característicos de seu Luiz, fizeram com que se assemelhasse ao comediante. «Quando me caracterizo como cover de Mazzaropi mudo minha maneira de ser, volto às raízes e passo a viver um caipira autêntico. É o meu eu original», diz ele, acrescentando que altera completamente a voz e o jeito de andar. «Sei que o Mazzaropi é inimitável, o que faço é uma tentativa de preservar a cultura caipira, quase esquecida nesse país com tantas raízes culturais diferentes." Em sua casa, seu Luiz, de 70 anos, mantém um pequeno arquivo de fotos, recortes de jornais, e reportagens sobre Mazzaropi. Também tem a coleção quase completa do «Jornal do Mazza», com datas e nomes dos filmes produzidos por o ator entre 1952 e 1969. Relíquias preservadas em belas pastas encapadas com tecido de algodão cru, guardadas cuidadosamente num pequeno baú de carvalho. Até 1952, seu Luiz viveu na roça, no bairro de Três Barras, em Santa Cruz do Rio Pardo. Em aquele ano, seu pai resolveu se mudar para a Ourinhos, para dar mais oportunidades aos filhos de aprenderem uma profissão. Em a época, seu Luiz e um irmão formavam uma dupla sertaneja e foram convidados por Theodomiro Rossini -- mais conhecido por Zé Godoy -- para cantar pela primeira vez numa rádio, a Rádio Clube de Ourinhos. O sucesso foi tanto que em pouco tempo surgiu um patrocinador que os levou até a extinta Rádio Difusora de Jacarezinho, no Paraná. Lá eles, batizados como os Cancioneiros do Norte Campeiro e Campeirinho, assinaram um contrato de três anos. Certo dia um grande circo chegou à região, trazendo duplas sertanejas famosas e o apresentador Comendador Biguá, da rádio Bandeirantes de São Paulo. A convite de Campeiro e Campeirinho, Biguá visitou o programa dominical que eles apresentavam na rádio local. A surpresa maior foi quando Biguá os convidou para fazer parte do programa «Brasil Caboclo», sucesso da Bandeirantes. Em pouco tempo, os irmãos migraram para a capital e faziam duas apresentações semanais na rádio. Após um ano de sucesso e com contrato para gravar, a dupla foi desfeita. Por quê? Seu Luiz diz não saber ao certo. De volta a Ourinhos, ele foi trabalhar como apresentador sertanejo em emissoras da região. Paralelamente, foi balconista, vigilante bancário, cobrador de ônibus ... Em 1957, seu Luiz se casou e, um ano depois, após ter passado anos de sua mocidade em noitadas -- entre uma música e outra, um gole e outro, e mulheres, viu seu mundo desabar com o vício do alcoolismo. Um mundo de oportunidades jogado no lixo por 28 anos, segundo ele. Somente após os 65 anos, já longe do vício, passou a se dedicar integralmente à vida artística como compositor, palhaço e cover de Mazzaropi. Com as rédeas de sua vida de volta as suas mãos, Zezzaropi passou a se apresentar em canais de TV aberta (SBT, Rede Record) e a cabo. Uma das maiores emoções foi quando um produtor do programa Giro São Paulo, da TV Tem, afiliada da Rede Globo, o escolheu para representar Mazzaropi no SESC de Bauru. Em a ocasião, ele reencontrou Francisco, o filho adotivo de Mazzaropi (eles se conheceram numa feira agropecuária na qual seu Luiz se apresentara). Em o SESC, Francisco expôs grande quantidade de peças do comediante, inclusive um bumbo do avô de Mazzaropi, que era usado nas inaugurações de estações ferroviárias para as autoridades. Seus laços se estreitaram com a família de Mazzaropi que, em 1999, o convidou para conhecer o museu em homenagem ao comediante. Lá teve o prazer de assistir a um vídeo com a última apresentação do comediante em vida, que aconteceu no programa da Hebe Camargo. Em a mesma data, depois da visita ao museu, foi ao estúdio da Vera Cruz, companhia onde Mazzaropi produziu seus primeiros filmes. «Tive a oportunidade de sentar no sofá onde ele descansava nos intervalos das produções e entrar no Pé de Bote Anastácio, que foi a grande atração do filme Sai da Frente, produzido em 1952. Filme este que considero o meu predileto», diz o caipira paulista. O «Pé de Bote» citado foi a jardineira usada durante as gravações. Outro momento inesquecível ocorreu em 2005. Com seu trabalho já reconhecido, Zezzaropi foi convidado para participar do I Congresso Estadual do Idoso, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo. «O público estimado era de cinco mil pessoas», conta. Em o auge dos seus 70 anos, Zezzaropi também pode ser visto nas ruas de Ourinhos, divulgando e vendendo seu livro «Diálogo com a Natureza». Em suas primeiras linhas, ele diz: «Eu sou mais um no palco do mundo, contemplando no telão da natureza, sentado no colo da noite, enquanto que no decote do horizonte via o seio da saudade. Deixei a floresta de cimento armado, em busca de argumentos para resgatar o passado, foi aí que eu decidi contar histórias. O sabor da vitória, quando se persiste na luta, é ver um sonho se tornar realidade. Desfaz-se o cansaço e o sacrifício de quem foi à luta sem pensar em derrota. O troféu desta maratona quero dividir com todos os que me deram forças e coragem, ajudando-ma superar os obstáculos encontrados na trajetória. Nunca é tarde para ser feliz." O exemplar do livro que eu tenho, ele não quis vender: fez uma dedicatória e me deu de presente. Jeito simples e olhar maroto, como o de uma criança que fez arte, Zezzaropi sempre tem sempre uma piadinha na ponta da língua para moças bonitas. Um caipira admirável. Gostaria de agradecer toda a ajuda que recebi da querida amiga Nadine para a produção desse texto. Número de frases: 70 Obrigada!" Ângela Dip mostra de forma bem humorada a solidão de uma mulher que se contorce em 45 posições diferentes dentro do barril, enquanto conversa sobre inúmeras questões cotidianas como velhice, criatividade e religião. Uma criatura idealista, inteligente, verborrágica e caótica." Assim está descrita a peça O Barril, no cardápio do restaurante Teatrix, em cujo teatro podemos encontrar variadas opções de montagem de acordo com o dia da semana. Funciona mais ou menos assim: você chega no restaurante, pede uma porção de tremoço (não me lembro se está no cardápio, mas deve ter) dois guaranás zero (que agora estão na moda) e dois ingressos para a peça do dia (que também estão na moda). A alternativa criada por o Teatrix vem de encontro com uma demanda de criação de pequenas salas para um público de não mais de 100 pessoas, mas peca ao colocar a arte em segundo plano, quase como uma fachada pra vender mais tremoço. Em esse contexto, a obra de Âgela Dip começa devendo para o público, ao fazê-lo ir até esse local para assistir sua peça. Ok, imaginemos uma montagem da mesma peça no Limbo, separados das vãs questões de circulação do espetáculo. Bem, lá também teríamos problemas. Digo isso pra que o internauta que cai por nossas bandas entenda o meu medo: Vê essas fotos que aqui ilustram o que mal escrevo? Pois bem, a peça é isso. Se existe algum mérito a ser apontado em todo o espetáculo, ele está nas imagens que Ângela Dip constrói só com o corpo, um vestido e um barril. A dramaturgia que deu a origem ao processo da peça é feita por a própria protagonista e mais parece um exercício mental de livre pensamento, necessário á partitura de um ator, mas desnecessário ou excessivamente didático quando falado. Minha angústia, querido internauta, é sentir que às vezes o teatro precisa de uma tecla mute para atingir sua plenitude. Quisera muitos diretores terem tão versátil atriz como Ângela Dip para dirigir num monólogo de entrega total como esse. Mas Vivien Buckup não parece ter desfrutado muito desse privilégio, já que as marcações e a fluidez do texto (mesmo depois de oito anos com a peça viajando por o Brasil) são mais um problema a ser ressaltado. Para finalizar, gostaria de fazer um apêlo a todos os técnicos de som: por favor preocupem-se mais com o volume do áudio quando eles são tocados ao mesmo tempo que o ator fala. Muitos pontos do texto de Ângela Dip ficaram mudos por conta da falta de sincronia da entrada do áudio ou por conta do excesso de volume. Número de frases: 20 Enfim, rebarbas à parte, as imagens são realmente fenomenais. Joaquim «King Rock» Marinho, à esquerda Ângela Maria e Nelson Golçalves. Até o início dos anos 60, a dupla ainda era sinônimo de rádio na cidade que sempre se vangloriava por seu caráter cosmopolita e vanguardista -- a «Paris dos Trópicos», com seu ouro sangrado de seringueiras. Não que Manaus não possuísse seus roqueiros; havia sim, alguns, mas eles tinham que ter dinheiro para mandar buscar discos no Sudeste, e depois apresentar as novidades para a turma em casas de amigos escolhidas de acordo com que o racionamento de energia da época permitia -- sim, porque Manaus foi uma das primeiras cidades brasileiras a possuir energia elétrica, e conseqüentemente, uma das primeiras a sofrer com apagões. Um desses roqueiros, entretanto, era privilegiado. Joaquim Marinho trabalhava como representante de discos da Phillips -- e portanto tinha acesso direto aos lançamentos -- quando foi convidado por Ivens Lima e Denis Menezes, dois dos principais profissionais da Rádio Rio-Mar, para apresentar um programa na emissora. Surgia, em 1961, o primeiro programa dedicado ao rock no Amazonas, «Chegou a hora do rock», veiculado diariamente, às 16h, logo após o» Teatrinho infantil de Alfredo Fernandes». Nem seria preciso dizer, mas o programa logo virou sucesso. Era a primeira vez, por exemplo, que se tocava Elvis Presley e Bill Haley para o grande público em Manaus, fato que realmente fez a cabeça da molecada. Para se ter uma idéia, foi a época em que os jovens começaram a formar pequenas bandas roqueiras, mas como era praticamente impossível tirar as músicas ouvindo-as uma vez ou outra no rádio, havia quem passasse sessões e mais sessões dentro do cinema (que começou a passar filmes dos artistas citados anteriormente) para aprender a tocar algumas canções. O pianista Assis Mourão, por exemplo, confessa que assistiu a «Balanço das Horas» (com Bill Haley) 15 vezes para decorar letras e aprender as músicas. Marinho logo recebeu o apelido de «King Rock», cortesia de Ivens Lima, e ciceroneou o aniversário de 10 anos da Rio-Mar, em evento realizado no Teatro Amazonas em 1963, com um show de Sérgio Murilo, um dos pioneiros do rock brasileiro ao lado de Tony e Cely Campelo. Marinho ainda aproveitou a festa para mostrar seus dotes de cantor, apresentando quatro músicas acompanhado por Domingos Lima no violão. O «Chegou a hora do rock» foi transmitido durante dois anos por a Rio-Mar, e depois foi transferido para a Rádio Baré, numa época em que a grande revolução mesmo estava para acontecer. Speak english! Marinho, que sempre estava metido em tudo quanto era movimentação cultural da cidade, fazia parte da diretoria social do English Speaking Club -- que mais tarde viria a ser o Instituto Cultural Brasil Estados Unidos (Icbeu) --, organizando eventos diversos para a entidade. Pois bem, numa das viagens a trabalho por o Icbeu, em 1964, o King Rock foi aos Estados Unidos e trouxe de lá uma novidade que transformaria o gosto musical da juventude: os quatro rapazes de Liverpool, os Beatles, de terninho, numa época em que o código de vestimenta da floresta equatorial ainda obedecia oportunamente aos ares temperados europeus. Aqui, no Porto de Lenha, Marinho também juntou outros três amigos para formar a Beat Rocks, que fazia acústicos improvisados em rodinhas na Praça da Saudade e shows em festas de amigos, além de algumas poucas apresentações públicas de maior porte. O grupo foi formado por Marinho na bateria, Assis Mourão no piano, Evandro Ribeiro no baixo e David Pennington na guitarra e vocais. Filho de inglês, David conseguia cantar as músicas com perfeição, e como as pretensões dos quatro rapazes se resumiam apenas a conquistar a mulherada -- aliás, o mais nobre dos motivos para se formar uma banda --, pode-se dizer que a Beat Rocks foi um sucesso. Em essa época, segunda metade da década de 60, já havia um bom número de bandas de baile espalhadas por a cidade, e todas adotavam o rock como o carro-chefe do repertório. Em a transição dos anos 60 para os 70, 25 grupos disputavam ferrenhamente o concurso «Lira de Prata», que elegia a melhor banda de baile do ano, e conferia um invejado prestígio à vencedora. O evento foi realizado de 69 a 73 em locais como o Sheik Clube, na avenida Getúlio Vargas; e o Olímpico Clube, na avenida Constantino Nery. Os grupos tocavam sempre canções dos Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley e sucessos da Jovem Guarda. Mutantes Outro evento de extrema importância para o rock amazonense, ainda na década de 60, foi o Festival Estudantil de Música Popular Brasileira, que teve três edições realizadas em Manaus a partir de 1967, e trouxe à cidade nomes importantes da música brasileira, como Jards Macalé e Os Mutantes. Novamente, Marinho estava à frente das coisas, administrando, desta vez, o Departamento de Turismo e Promoções do Estado, um órgão que se equivale ao que hoje é a Secretaria de Estado da Cultura (Sec). Foi durante a realização do Festival que começaram a aparecer -- ainda que timidamente -- as primeiras farpas de um rock autoral amazonense. Arnaldo Baptista, por exemplo, saiu de Manaus com uma canção de dois jovens amazonenses que participaram do evento, Ilton Oliveira e Wandler Cunha, e a gravou no disco «A divina comédia ou Ando meio desligado», de 1970. Trata-se de «Jogo de calçada». Foi dessa maneira que o rock ' n ' roll chegou à capital amazonense, introduzindo modas e novos comportamentos na juventude. A molecada só demorou um pouquinho para passar dessa primeira «fase» da transformação, que se limitava praticamente à imitação dos ícones que vinham de fora, e começar a buscar uma identidade. Em meados da década de 70, entretanto, dois grupos assumiram esse papel, realizando as primeiras experiências autorais realmente marcantes na cena musical do Estado, A Gente e Tariri, mas isso é uma outra história ... (Continua). Número de frases: 38 Nunca pensei em freqüentar o Skol Beats! Jamais ousei ouvir Trance! Odiei a época do Poperô, e o Techno me parecia música de maluco. Em 2005, ganhei dois convites. Para o texto não ficar monótono, vou contextualizar. Tinha quase acabado meu namoro, sempre odiei músicas barulhentas e o Anhembi é longe bagarai da minha casa. Três motivos suficientemente bons para ficar no aconchego da minha cama e vendo «Meu Tio Matou um Cara», ou um besteirol norte-americano qualquer. Mas a insistência da quase ex-patroa me levou a pegar o carro e percorrer longos 20 km até o mega-espaço, que fica na beira da Marginal Tietê. Em o caminho, mais um quebra-pau homérico com a quase ex-namorada. E quatro ligações de amigos que já estavam dentro do recinto. O barulho era infernal e nada se ouvia. Carro estacionado, pulseira devidamente colocada e lá vamos nós. A enorme área, que atravessava a Avenida Anhembi, contava com palcos e tendas que faziam um mix de sons quase incompreensível, mas que te eleva o espírito e faz você se mexer, sem perceber. Quem nunca foi a um Skol Beats não tem idéia da comoção cultural que existe. A música eletrônica não é somente da Europa, ela agora também é brasileira. DJ Mark e Patife são as provas vivas. Em 2001, quando ainda era realizado no Autódromo de Interlagos, o evento teve participação de 20 mil malucos. Em 2002, ainda onde Senna fez história, 40 mil estiveram presentes. Em 2003, com a mudança para o Anhembi, o público cresceu e adotou de vez o novo espaço. Em o ano retrasado, 50 mil lotaram e em 2005, quase dez mil pessoas a mais aproveitaram as mais de 60 atrações. Apesar dos inúmeros bêbados e filas infernais nos banheiros, não imaginava encontrar um ambiente tão diversificado. Desde os aficionados até os perdidos (Eu!), todos estavam lá, curtindo um som divulgado por a mídia, mas que ainda enfrenta preconceitos. Preconceitos que são criados por os que teimam em associar a festança às drogas. Preconceitos que são quebrados quando se conhece um evento que movimenta culturas de todo o Brasil e reúne gente do Acre até o Rio Grande do Sul, passando por Pará e Rio Grande do Norte, Minas e Bahia, acabando tudo na Paulicéia desvairada. Esse ano eu vou, e com a patroa (aquela ainda!). Curtir Lounge, House, Techno, EBM, Electro, Breakbeat, Drum ' n Bass e o Trance desde as 16h do sábado até que a hora que desligarem o som! Literalmente! Eletrônica 24 horas! É quase impossível achar uma rádio que toque música eletrônica o tempo todo. Mas é só quase ... O site http://www.radioset.com.br traz uma boa gama de batidas para aqueles que gostam de curtir um som quando estão em casa sem fazer nada. Além de muitas músicas, o site tem clipes ao vivo e alguns sets de criações de Vj's. Vale a pena para quem busca uma alternativa às rádios que trazem somente aquilo que as interessa (leia-se jabá). Os sets musicais, com duração de uma a duas horas, também estão presentes. O Lado B traz a parte alternativa do site, com sons experimentais. Número de frases: 36 A experiência é bem legal e deixa os amantes da música eletrônica à vontade para escolher entre os núcleos eletrônicos do Brasil. Vídeo etnográfico lançado ontem -- dia 1º de julho, na Cinemateca de Curitiba, surpreende público ao mostrar a alma sertaneja da capital paranaense. O trabalho produzido por dois pesquisadores curitibanos, revelou a estreita e forte ligação entre a música sertaneja, de raiz, com moradores de vários bairros de Curitiba. Quando os pesquisadores e antropólogos Allan de Oliveira e Patrícia Martins apresentaram o projeto junto a FCC -- Fundação Cultural de Curitiba para a produção de um vídeo etnográfico sobre a presença da música sertaneja em Curitiba, não imaginavam que o trabalho concluído pudesse gerar tanta surpresa e aplausos. Em a noite de ontem, dia 1o de julho, na Cinemateca de Curitiba, após aplausos nas duas sessões de apresentação do vídeo dirigido por Gustavo Portes -- Curitiba ao Som da Viola -- uma canja no circuito da música sertaneja, pesquisadores, diretor, produtores, equipe técnica, músicos e pessoas ligadas à música sertaneja em Curitiba, retratadas no documentário, puderam sentir a reação do público, com um misto de surpresa, alegria e, sobretudo, de agradecimento por o que ficou registrado como patrimônio imaterial da capital paranaense. O começo com o edital da FCC A publicação de um edital da FCC -- Fundação Cultural de Curitiba, em junho do ano passado, foi o que Patrícia Martins e Allan de Oliveira, dois professores de História e antropólogos curitibanos, esperavam para poder realizar um vídeo etnográfico sobre a presença da viola e da música sertaneja, de raiz, em vários bairros da capital paranaense. O projeto, que estava delineado na vontade dos dois, foi para o papel, atendeu ao que dispunha o edital -- Identificação e Registro do Patrimônio Imaterial -- sendo contemplado por a FCC, ao atingir a maior pontuação entre todos os classificados. A viola em Curitiba O vídeo dirigido por Gustavo Portes, segundo Allan de Oliveira, revela ao público, «práticas culturais com as quais convivemos e não percebemos sua existência aqui em Curitiba». Uma dessas práticas é o «Canja de Viola», um programa de música caipira e sertaneja, apresentado semanalmente há quase 20 anos no TUC -- Teatro Universitário de Curitiba, na Galeria Júlio Moreira, no centro da capital paranaense, e que, muitas vezes não é percebido por os curitibanos. «As pessoas até sabiam que algo rolava no TUC, mas que não era um encontro regular de música sertaneja». A esperança de Allan de Oliveira é que o vídeo convide as pessoas a pensar sobre a importância social de um tipo de música, muitas vezes definida como «pobre esteticamente e brega». O vídeo registra apresentações de músicas no «Canja de Viola», e também mostra apresentações em locais como a Churrascaria 3 Fazendas, o Bar do Valdo e a Pizzaria Buonamassa, em bairros mais populares de Curitiba. Em o vídeo são revelados os apresentadores, produtores e músicos que se apresentam nos programas de rádio «Pampa e Sertão» (Rádio AM), e «Zé Colibri» (Rádio AM), e o tipo de música que mais identifica cantores e seu público na capital paranaense. Em as reações, surpresa Vários convidados, após a exibição do vídeo, comentaram sobre o que acabaram de assistir. Em os comentários, emoção, alegria e uma agradável surpresa. Luiz Otávio, integrante do grupo musical Maria Faceira, disse que pode acompanhar o início do trabalho, quando ainda era uma idéia. «A o ver o vídeo, genial, na minha opinião, percebi que ele revela uma identidade que ainda é desconhecida em Curitiba, o lado sertanejo de nossa cidade». «O que me surpreendeu mais foi saber que tantas pessoas trabalham de uma maneira saudável, onde não há dinheiro envolvido, para mostrar sua paixão por a música sertaneja. Em as apresentações de cada artista não se nota preconceito. Se cantam ou não, afinado ou bem, todos têm espaço. Isso é o que importa. E é esta magia e esta paixão que me encantou», comentou Luis Otávio. Para a professora de Espanhol, da UFPR -- Universidade Federal do Paraná, «Isabel Jasinski,» o produto final ficou excelente e a iniciativa dos produtores é louvável. Espero que outras iniciativas possam continuar este registro sobre a presença da música sertaneja em Curitiba. Percebi, no vídeo, o quanto é espontâneo o trabalho dos artistas que foram mostrados nos vários bairros de Curitiba». Retrato de uma cultura A antropóloga Tatiana Takatuzi, de origem nipônica, que trabalha com a questão indígena e que fez mestrado na Unicamp (SP), disse que o vídeo " é inspirador e que retrata uma cultura que a maioria das pessoas não conhece. Eu mesma não conhecia esta realidade que ficou bem clara nas apresentações em bairros e bares de Curitiba». Surpreendeu também, segundo ela, «a forma como as pessoas interagem na produção desses encontros musicais e como elas se reconhecem importantes ao fazerem música sertaneja». Cátia Calixto, professora de História, disse que o vídeo mostrou «de forma muito rica, a música sertaneja que é produzida nos bairros curitibanos e que tem tudo a ver com a migração do homem do campo para as cidades». Nascida numa pequena cidade do norte pioneiro do Paraná, Cátia vê, aqui em Curitiba, como a presença dos chamados " pés-vermelhos -- como são chamados os habitantes do interior paranaense -- influência a produção de música e como é importante a presença da viola caipira entre os curitibanos. Curitiba não se assume caipira O músico Mauricy Pereira, que em 17 de julho vai se apresentar com seus companheiros do Mantra Matuto, no SESC De a Esquina, em Curitiba, com o espetáculo «Nonada -- Música do Mundo Todo», disse que se surpreendeu com este» panorama da música sertaneja em Curitiba». Ele, que toca viola caipira, disse não ter a dimensão de " quanta gente faz música sertaneja na capital do Paraná. Fiquei surpreso, não sabia mesmo, como é forte este tipo de música entre nós». Para ele, " Curitiba não se assume caipira. A idéia de que somos uma cidade de primeiro mundo pode passar a impressão de que este tipo de manifestação da cultura caipira não tenha registro entre nós». O músico diz que «o caráter cosmopolita que a propaganda oficial da cidade vende» se contrapõe a uma realidade surpreendente: «Curitiba é uma cidade também caipira, embora somente se venda como capital ecológica, cidade do primeiro mundo». Para o ator, cantor e também músico Richard Rebelo, catarinense do litoral que tem forte vinculação com a cultura caipira, do sertanejo, do matuto de várias regiões brasileiras e que vai apresentar, de 12 a 27 de julho, aos sábados e domingos, no Teatro Regina Vogue, o espetáculo " O causo é o seguinte ..." com seus companheiros do Trio Caipora, o vídeo surpreende ao mostrar, nos bairros, «uma realidade muito forte da cultura sertaneja e caipira» que, segundo ele, «não parecia ser tão forte e importante assim». A o assistir o vídeo, Rebelo se lembrou do seu pai, um trovador e marinheiro catarinense, que sempre se reunia com amigos, para rodadas de música, trovas no litoral de Santa Catarina. E, a partir das lembranças dos desafios de trovas que o pai participava, classifica «como muito importante este tipo de registro da música caipira, sertaneja, onde se pode ver a música que é feita, os instrumentos que são utilizados, o modo como cantam, como transmitem sua emoção». «Talvez, daqui uns 30 anos a gente possa valorizar, ainda mais, o registro que os produtores e realizadores do vídeo fizeram para a cultura brasileira. O vídeo é um registro precioso da música sertaneja que é feita em 2008, na capital do Paraná, e merece ser mais divulgado e conhecido por muito mais pessoas». Serviço Dias, locais e horários das apresentações nos bairros de Curitiba: 08/07-terça-feira, às 15h Curitiba -- A o Som da Viola Casa de Repouso Nossa Senhora Aparecida Rua Gilda Pitarche Forcadel, 158 -- Uberaba. Tel. 3575-1489, com Maria das Dores. 09/07 -- quarta-feira, às 14h30 Curitiba -- A o Som da Viola Vale Vovó / Rua da Cidadania de Santa Felicidade -- Auditório I Rua Santa Bertila Boscardim, 213 -- Santa Felicidade. Tel. 3374-5018 ou 3374-5019, com Ângela. 11/0 -- sexta-feira, às 15h Curitiba -- A o Som da Viola Associação Bola de Ouro Av.. Senador Salgado Filho, 3829 -- Uberaba. Tel. 3361-2507, com Alici. 12/07-sábado, às 15h Curitiba -- A o Som da Viola. Associação Ana Rosa Av Integração, 2762 -- Bairro Alto 3367-2485 Marlene Ficha Técnica do vídeo etnográfico Curitiba ao Som da Viola (*) Direção: Gustavo Portes; Assistente de Direção: Flávio Rogério Rocha; Captação de Som: Roberto C. de Oliveira; Edição de Som: João Marcelo Gomes Zanoni; Edição e Montagem: Flávio Rogério Rocha; Pesquisa: Allan de Oliveira e Patrícia Martins; Roteiro: Allan de Oliveira; Produção: Greice Barros; Assistente de Produção: Patrícia Braga Carneiro e Tatyane Ravedutti; Projeto Gráfico: D' escambo Imagens e Objetos. (*) Vídeo produzido com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, do Fundo Municipal de Cultura, da Fundação Cultural de Curitiba. Edital 017/07 -- Identificação e Registro do Patrimônio Imaterial. Curitiba, 02 de julho de 2008. Rogério Viana Jornalista -- Mtb 20780 Fones 41 8803 7626 -- 3203 8647 Currículos DOS Produtores Allan de Paula Oliveira (Três Pontas-MG, 1974) é antropólogo. Graduado em História (UFPR), realiza, na pós-gradua ção em Antropologia, pesquisas relacionadas à música brasileira, marcadamente as músicas sertaneja e caipira. De estes trabalhos nasceram sua dissertação de mestrado " O Tronco da Roseira: uma antropologia da viola caipira " (sobre a viola caipira no cururu, um tipo de desafio cantado comum no interior de São Paulo), defendida em 2004. e artigos publicados em revistas de antropologia. Está concluindo sua tese de doutorado em Antropologia, a ser defendida este ano na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), e que tem por tema a música sertaneja. Foi professor do Departamento de Ciências Humanas da UDESC (Universidade Estadual de Santa Catarina) e, atualmente, leciona disciplinas de ciências humanas na Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Patrícia Martins formada em História por a Universidade Federal do Paraná, mestre em antropologia por o PPGAS / UFPR, defendeu sua dissertação sob o título " Um Divertimento Trabalhado: prestígios e rivalidades no fazer fandango da Ilha dos Valadares " em 2006. Professora de História vem desenvolvendo também discussões e artigos em torno do tema Patrimônio Imaterial e Cultura Popular, atuando como pesquisadora e produtora em alguns projetos culturais juntamente com a Associação Mandicuéra de Cultura Popular, na ilha dos Valadares / Paranaguá. Número de frases: 101 Não se trata de saudá-lo e sim de salvá-lo mesmo ... O pobre personagem que encantou os natais de várias gerações vem agora «pagando o pato» por o egoísmo, consumismo e individualismo capitalista e se torna réu de «juízes moralistas» ou «radicais religiosos». Cresci numa família católica, fui até a missa do Galo, sempre soube o verdadeiro significado do Natal e ao mesmo tempo acreditava em Papai Noel, mesmo quando não recebia o presente esperado ... ( bonecas eram muito mais caras há 30 e poucos anos atrás ...) Agora, nesses «tempos modernos» em que as meninas querem (ainda bem) celulares e MP3 players, estão a fim de desmascarar a identidade do velhinho já para os pequeninos, com a triste alegação de que ele «favorece e alimenta o consumismo» ... me poupem!!! Número de frases: 6 O povo que trocou Jesus por Barrabás também estava cheio de boa intenção ... Começa nessa quinta feira o I Festival Nacional de Teatro de Campos, que vai trazer espetáculos de várias partes do país. No entanto, é curioso notar que nenhuma peça da cidade está concorrendo. Será que os grupos da cidade não têm qualidade para participar? Em primeiro lugar é bom esclarecer que a organização do Festival foi enfática ao declarar que a cidade não tinha sequer Um grupo com nível técnico para participar de um Festival como esse. Isso me soa estranho porque a cidade possui uma Cia que venceu o Festival da FETAERJ, que reúne os melhores espetáculos do estado do Rio anualmente. Lá, o grupo recebeu elogios de várias figuras expoentes do cenário teatral fluminense. O governo municipal ajuda muito pouco a produção teatral na cidade, que possui um belo teatro, o Trianon; que no entanto, não tem o costume de ceder seu espaço aos fins-de-semana para grupos locais. Outra coisa estranhíssima nesse Festival foi a pré-seleção. De acordo com a organização, figuras importantes do cenário teatral brasileiro estiveram na cidade para fazer a pré-seleção, que, segundo informado no folder de inscrição, seria feita através de fita de vídeo. No entanto, o júri permaneceu pouco mais de duas horas dentro do teatro para analisar mais de cem espetáculos. A iniciativa de um festival como esse é louvável. Mas é abominável a postura da Gerência Cultural em relação aos grupos da cidade, que, repito, têm muito o que mostrar. No entanto, vale frisar que as coisas aqui, no que diz respeito á produção teatral, são assim há muito tempo, não pode ser considerado «mérito» do atual governo. Número de frases: 15 Os jovens músicos que fazem parte do Projeto NEOJIBÁ (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) estão em pleno ritmo de ensaios espalhados por diversos pontos do Teatro Castro Alves. Eles estão tendo a oportunidade de aprender e trocar experiências com o maestro venezuelano Manuel Lopéz Gómez, de apenas 24 anos, que integra o projeto das Orquestras Juvenis e Infantis na Venezuela, FESNOJIV, inspirador do NEOJIBÁ. Os ensaios diários preparam o grupo para o primeiro concerto, que acontecerá ainda este mês. O projeto é financiado por o Governo do Estado da Bahia e Secretaria de Cultura e tem captação de recursos através da Lei Rouanet tendo a FUNCEB como proponente e gestão da OSBA. Quem circula por o TCA pode ver, espalhados por diversos pontos, garotos munidos de violinos, flautas, violoncelos e instrumentos diversos. Naipe de cordas, naipe de metais, naipe de madeiras e naipe de percussão espalhados por o camarotes da Concha, na salas de ensaio, nos camarins, no refeitório além dos corredores do teatro. Os ensaios com o maestro venezuelano seguem diariamente durante a semana até a data da apresentação, sempre das 14h às 17h. Alguns dias com instrumentos separados, outros com ensaios em conjunto de toda a orquestra. «Estou muito surpreso com o talento dos garotos, que em tão pouco tempo conseguiram chegar a um bom resultado. Tenho certeza que essa geração de novos músicos vai desenvolver uma brilhante carreira no futuro», afirma o maestro Manuel Lopéz Gómez. Objetivos -- De acordo com o idealizador e atual gestor artístico da Orquestra Sinfônica da Bahia, Ricardo Castro, o NEOJIBÁ é um projeto de integração social através da pratica orquestral com a formação de núcleos de orquestras juvenis e infantis. «Crianças e jovens vão poder, através da música, participar no desenvolvimento social e urbano, ganhando noções de responsabilidade, trabalho em equipe, respeito e sacrifício». O sistema contribui na construção ética e pedagógica da infância e da juventude, mediante a instrução e a prática coletiva da música, assim como a capacitação de jovens artesãos na fabricação e reparação de instrumentos musicais. O primeiro grupo de monitores fez uma viagem à Caracas na Venezuela em agosto onde participaram de um estágio pedagógico junto com uma equipe da OSBA. Número de frases: 14 Viagem, alimentação, hospedagem e estágio foram oferecidos por o NEOJIBA e por o FESNOJIV (Fundação de Estado para o Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis de Venezuela). Tudo bem ... não ganhamos a copa, o Maluf foi eleito, o Clodovil também, a Varig quebrou deixando muita gente no sufoco, o povo deu um crédito ao Lula, tivemos um triste acidente e agora a crise no tráfego aéreo, mensalões, sanguessugas, mais fenômenos «rebeldes», novelas sem graça, vídeos não autorizados na praia, vírus nos computadores, trânsito caótico, crime cada vez mais organizado, superaquecimento global e agora superaquecimento dos contra-cheques dos parlamentares, que, ao contrário das modelos, engordam cada vez mais!! Mas 2006 coitadinho, também vem trazendo algumas boas esperanças para o futuro! O Rio terá o PAN 2007, O voley foi campeão (De Novo!) Grande Bernardão e seu timaço!! ( já não é mais inho há muito tempo ...) As empresas brasileiras nunca tiveram tantos projetos de responsabilidade social como neste ano, Teremos mais Biodiesel e Kit Gas mais barato, precisamos poluir menos, A inclusão digital sai do discurso para a prática, A polícia Federal trabalha como nunca, rico também está indo em cana, (pode não ficar muito tempo, mas vai), O ensino superior, aos poucos, vai deixando de ser um sonho distante para muitos, E quem sabe, a sociedade aprenda a se organizar, a exigir os seus direitos! Dizem que o povo, há alguns anos, foi para a rua tirar o presidente ... bem que poderia ir agora, protestar contra o abuso do nosso Congresso ... seria um bom começo. Dia 01 de Janeiro é dia da Confraternização Universal ... Número de frases: 18 seria um bom dia para mostrar que o Brasil tem democracia de verdade! Aprisionados, ou melhor ... Casados. (Autor: Antonio Brás Constante) O casamento é a prisão perfeita, pois faz com que o próprio apenado decida se entregar, construindo sua cela num terreno financiado por ele mesmo, providenciando o seu sustento e de sua carcereira. Tudo feito através de atos espontâneos, motivados por a sociedade que convence o candidato a prisioneiro com promessas de felicidade eterna. A pena para quem casa é de prisão perpétua. Pois o juiz, ou melhor, o padre sempre finaliza a sentença dizendo: «até que a morte os separe». A única forma conhecida de se libertar desta prisão é por mau comportamento. O casamento é um regime onde o prisioneiro cumpre sua pena em regime semi-aberto. Saindo durante o dia para trabalhar como qualquer homem livre e solteiro, voltando ao seu cárcere ao anoitecer. Para que o homem não se sinta tentado a «pular o muro» em busca de alguma louca aventura fora de sua cela, existem dispositivos extremamente eficientes para monitora-lo, intitulados de «vizinhos» e «parentes», que conseguem rastrear suas atividades impedindo qualquer desvio de sua conduta. Uma das curiosidades sobre o casamento, é que o homem (por se achar muito esperto), resolve num dado momento que pode roubar a sua noiva dos pais de ela, mas esquece que fazendo isto é ele quem acabará preso. Aliás, o casamento é o único sistema penal onde o prisioneiro pode abertamente ter relações íntimas com sua carcereira, tendo inclusive filhos com ela, que podem ser futuros prisioneiros ou futuras carcereiras. Como o aprisionado dispõe desta liberdade com a carcereira, fica proibido de ter outras visitas íntimas. As punições por seus erros de conduta vão desde a falta de um jantar até algumas noites dormindo no «solitário» (também conhecido como sofá), que é uma versão doméstica da solitária. É neste lugar que o pobre marido tem de se sujeitar a ficar em eventuais brigas conjugais. Ao invés de algemas o apenado recebe uma aliança, que deve permanecer em seu dedo enquanto viver. A retirada ou perda desta jóia é recebida com sessões de tortura, que começam nos ouvidos e terminam com a ameaça da vinda de sua sogra para morar com vocês em sua cela. Em os finais de semana os prisioneiros têm direito a banhos de sol, desde que façam os mesmos segurando uma enxada, que será utilizada para capinar o pátio. O prédio da prisão onde o apenado reside serve para duas situações: garantir o conforto de sua carcereira e prole, bem como facilitar a localização do mesmo para o recebimento dos impostos vindos por o correio, onde é cobrado por o governo por estar preso. O homem quando se deixa enfeitiçar por os encantos de uma mulher, fica cego de amor e logo vai entregando a chave de seu coração, esquecendo-se que o resto do corpo também faz parte do pacote. Em algumas dessas prisões chamadas de lares, as carcereiras efetuam revistas nos prisioneiros quando estes retornam do trabalho, procurando em seus corpos e bolsos, marcas ou bilhetes que sirvam de prova contra os réus. Algumas normas devem ser obedecidas na prisão: Não «roubar» doces da geladeira. Não ficar atirado no sofá da sala «matando» tempo. E principalmente não «desviar» olhares para outras mulheres. Enfim, o casamento é uma prisão dentro de outra prisão chamada vida, e que apesar de todas as reclamações que possam surgir, ainda é um lugar maravilhoso, seguro e aconchegante, por o qual vale a pena cumprir integralmente a sua pena. Case-se, e saberá se estou dizendo a verdade ou apenas mentindo. E-mail do Autor: Abrasc@terra.com.br (Sites: www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc) Atenção: Divulgue este texto para seus amigos. ( Número de frases: 34 Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos). Há exatamente 80 anos, no mês de maio de 1928, foi lançado o Manifesto Antropófago do escritor e pensador Oswald de Andrade, na Revista de Antropofagia n. 1. Não estamos apenas comemorando uma efeméride, mas celebrando as idéias desse e de outros antropófagos que assumiram a condição de brasileiros para pensar o Brasil poeticamente, em imagens, palavras e sons. O projeto de produção das vinhetas contendo alguns aforismos do Manifesto está sendo desenvolvido por a professora Regina Mota e por os alunos do Curso de Comunicação Social da FAFICH/UFMG, no Laboratório de Mídia eletrônica -- Labmídia. Foi um longo processo até que estivéssemos em condição de lidar com a matéria densa desse texto que se pretende fundador de uma nova tradição ao colocar o conflito como a possibilidade de mudança e transformação, por a destruição e recriação do outro, do diferente que se expressa na figura da alteridade. Essa aparente simplicidade terminológica, no entanto, não facilita a tarefa de reinvenção que o grupo se propôs a executar, atualizando o manifesto por a pesquisa do seu veio de continuidade nesses oitenta anos. As vinhetas veiculadas na televisão (Redeminas e TVE Bahia) pretendem uma aproximação do público com as teses principais do manifesto, retratadas em sons e imagens familiares ou contemporâneos, numa demonstração da sua pertinência nos dias atuais. Vários procedimentos da cultura hacker, que se baseia no compartilhamento do conhecimento e na solidariedade, foram utilizados de maneira autodeterminada e fazem homenagem explícita aos criadores originais dos trechos de filmes, fotos, quadros e músicas utilizadas. Mas nem tudo que é reciclado, misturado ou devorado é antropofágico. Só o que for transubstanciado, e portanto passado por o fator crítico. Por isso, propomos também um sacrifício, como aquele que regia o ritual da guerra de vingança dos índios Tupinambá, no qual Oswald se inspirou: qualquer pessoa que se disponha pode capturar, devorar e recriar essas vinhetas que estão disponibilizadas no site (www.fafich.ufmg.br/manifestoa) do projeto, que servirá de meio de interação entre a equipe e os telespectadores / antropófagos. Uma curadoria vai escolher as vinhetas, que também serão veiculadas na televisão, possibilitando o contínuo processo de destruição, recriação e a conseqüente alteração de cada um. Com isso achamos que estamos vingando nossos parentes, tantas vezes mal ditos e mal vistos por a cultura oficial e por o reconhecimento acadêmico. Não se enganem, essa não foi a via vencedora mas continua sendo a mais fértil e certamente será a mais duradoura, porque nada mais é do que a expressão viva das forças psíquicas ancestrais adormecidas em cada um de nós. O projeto está sendo desenvolvido por um grupo de jovens estudantes que ao tomar contato com essa força criadora despertou o seu instinto guerreiro que impulsionou a empreitada. São eles Bernard Machado, Bruno Oliveira, Bruno Fabri, Daniel Santos, Débora Rodrigues, Felipe Correa, Glauciene Lara, João Vitor Leal, Laura Guimarães, Marcelo Graciano, Maria Cristina Barbosa, Maria Tereza Dias, Mariana Congo, Nara Vargas, Nicole Fischer e Tatiana dos Santos Silva. Número de frases: 16 Número de frases: 0 Veja o teaser no youtube «Um prazer inenarrável!" Narrar algo inenarrável é algo melhor ainda do que sonhar um sonho impossível ... De o sonho a gente desperta, acorda, mas deste Segundo Encontro a gente mais do que se reencontrou: nos conhecemos mais um (muito) pouco! Isso foi quando já & ainda nos acotovelávamos, eu, Alcanu, Guilherme, Cintia Thomé, Pedro Monteiro e Laílton Araújo! Só pra constar dos autos, caso alguém queira fazer alguma Estatística o primeiro a chegar foi Pedro Monteiro ... Feitas as apresentações de praxe, comecei a conversar com o Lailton que me veio com idéias brilhantes, o cara é dez, sem necessidade de puxasaquismo, um cara batalhador, bem diferente de uma impressão pré-concebida que eu tinha de ele ( e declarei ...)! Pessoalmente são outros quinhentos, gente fina da melhor qualidade, com sugestões de tornar esses Encontros mais freqüentes! Dúvidas que não querem calar de Laílton: 1º) o que acontecerá com os nossos textos se / quando morrermos?; 2º) o que acontecerá aos nossos textos caso o Overmundo, por mudança de governo deixe de existir?; (aliás, aqui cabe um parêntesis: no Overmundo, temos uma primeira impressão errônea sobre todos, seja em sua aparência, seja em sua conversa, eloqüência ou falta de ela, fato perfeitamente suprido nesses Encontros, pois é a chance única de redimirmos isso e vermos, tocarmos, beijar e abraçar àquele ou aquela que apenas conhecemos de uma forma virtual e talvez distorcida!) De a Literatura de Cordel, tivemos um maravilhoso Contato Imediato de Primeiro Grau com Rafisa, declamada soberbamente por Guilherme de Faria ... Mal havíamos nos refeito das deliciosas «cordelices» generosamente oferecidas por Guilherme, chegam Higor Assis, Com seu indefectível boné, que o tornara ainda mais jovial ainda, acompanhado de duas amigas jornalistas, Amanda e Sueli, ironicamente elas representavam o chamado Abc, apenas simpatizantes (e simpaticíssimas) do Overmundo ... Devidamente integradas e acolhidas ao nosso grupo, todos respiravam então o ar overmundano ... a noite apenas estava começando ... Enquanto o América ia ficando pequeno pra nossa contagiante alegria, começavam os abundantes registros fotográficos ... Eis que surgem para abrilhantar ainda mais essa já brilhante festa, Compulsão Diária e Regina Lyra, anfitriã e a nossa convidada especial, concretizando o sonho de todos nós de conhecê-la pessoalmente em carne, osso e bom humor! Chega então, nosso Historiador maior, Azuir, diretamente de Campinas abrilhantando ainda mais esse nosso evento já ofuscante nessa altura. Fotos mil, duplas e trios se organizando, formando parcerias inimagináveis até então, nos oferecendo à uma Humanidade carente da real amizade ... Ele me disse, pra minha honra que o meu estilo equivale ao do Voltaire ... cara, isso não tem preço! Por falta de uma bola de ferro para mantê-lo prisioneiro a nós, prendendo-o por a perna, perdemos um apressado Azuir, que se ausenta por a distância de sua longínqua Campinas ... Cabe aqui salientar, que Pedro Monteiro sublimou sua vontade de ir ao Teatro Célia Helena, como já havia agendado pra ficar com nós, ô cabra arretado! Chega, nesse interim, meu amigo Israel, que já vai ameaçando se tornar em breve mais um overmundano ... Assumo aqui a minha total incapacidade de tirar fotos com os olhos abertos, é como se eu tivesse um talento insano para isso ... Higor e suas meninas saíram cedo ... Lailton e Pedro Monteiro também, parece que de notívagos, mesmo apenas os overmanos que ficaram ... e o Israel como «guest star»! Laílton ficou mesmo disposto a termos encontros mensais, lançou a pedra fundamental dessa idéia, acredito que um encontro trimestral ou semestral, bem consistente, seria o ideal! Mensal, a meu ver iria queimar a nossa imagem, ahahahahahah! Enquanto os flashes espocavam, na mesma proporção que os meus olhos se fechavam, num reflexo assustadoramente constante, o Segundo Encontro continuava ... Era a vez do cordelista se evadir, ficamos apenas cinco até o final, eu e o Israel no time dos meninos e Regina Lyra, Cintia Thomé e Compulsão Diária no time das meninas! Apesar dessa visível desarmonia entre yin & yang, vivemos momentos inesquecíveis de papos, revelações bombásticas e coisas já devidamente esquecidas. As más impressões, que porventura existissem foram totalmente dizimadas, pois não há tempo para mágoas para amigos que se amam ... «Regina Lyra «" discorreu» sobre a Paraíba, revelando inúmeras curiosidades sobre lá ... A cozinha fecha lá pra uma hora, mais ou menos, uma a uma os habitués do América foram saindo e fomos seguramente os últimos clientes a sair de lá ... Feitas as últimas despedidas na porta, cada um foi tomando o seu rumo, preparado prum próximo Encontro ... Um beijo, gente! alcanu L E G E N D A S (Calma, isso aqui não é horário político, não mude de canal!) Foto 1 &: Toda a galera reunida! a saber: de pé: AZUIR, Pedro Monteiro, HIGOR Assis, LAÍLTON ARAÚJO, Cintia THOME & REGINA LYRA; sentados: Guilherme De Faria, Compulsão Diária & ALCANU; Foto 2 & / FOTO 4 &: Alcanu declamando: «O Esquecimento de Jack», a ser lançado oficialmente, se Deus quiser, no Reveillon de 2008/9; Foto 3 &: REGINA LYRA, Cintia THOME & Compulsão Diária; Foto 5 &: Pedro Monteiro (nessa hora indeciso ainda se iria no Teatro Célia Helena ... decisões ...), LAILTON ARAÚJO (antes de machucar a mãozinha ...), REGINA LYRA, Cintia THOME, Compulsão Diária & HIGOR Assis; Foto 6 &: Guilherme De Faria, Pedro Monteiro, LAÍLTON ARAÚJO, REGINA LYRA, Cintia THOME, Compulsão Diária & HIGOR Assis; Regina Lyra: O Encontro entre amigos virtuais é algo impossível de explicação. Parecia que éramos amigos de colégio, faculdade, infância. O carinho, amizade verdadeira é de uma beleza integral. Estar em São Paulo na Bienal e em seguida com os overmanos e ciceroneada por a amiga Compulsão Diária foi algo indescritível. Queridos overmanos presentes agradeço o carinho. Até breve. Beijos, Regina Lyra azuirfilho * 19/8/2008 16:55 Pensei que já tinha passado da Hora. Sai 16h de Campinas e pensei que chegaria lá em Sampa as 18 e, que 21 horas sairia tranqüilo de volta. Mas, Sai 16 horas e cheguei 21,15 h. correndo e preocupado de nem poder dar um alô para o pessoal Amigo do Overmundo que só encontrei na última tentativa. Quando vi aquela turma alegre e simpática imaginei logo que eram os nossos Poetas. Alcanu Companheiro, organizou uma recepção amiga que logo me integrou com todos Poeta Cintia amiga de Campinas e de sempre, Regina Lyra um sorriso tranqüilo, Pedro Monteiro um Mestre Camarada do Teatro. Lailton Veterano Artista, Compulsão Diária outra Mestra Tão Amiga e boa de relacionar, Guilherme Farias com sua presença Marcante. Igor Assis logo se tornou uma Amizade para toda vida, com suas Companheiras da Faculdade de Jornalismo. Meu Tempo estava esgotado e tive de ir embora logo. Ficou a Boa Imagem de todos e o sonho do Overmundo Amigo como Acredito. Lembramos com carinho do Pessoal Querido que não pode ir. A turma falou dos estimados Mestra Nidia Bonetty e Juscelino, ambos de Campinas. Tiramos fotos lindíssimas e Valeu demais. A Amizade do Virtual tem uma carga Humana muito grande, ainda mais no Overmundo onde todos são poetas. Pode haver os embates como no Trabalho da Amiga Poeta Doroni, mas valem a pena por o Amor e carinho sem igual, como também vivemos no mesmo Trabalho da Mestra Doroni. Todos nós parecíamos colegas desde a adolescência, Entre nós havia a chama do sonho vivo de gente muito Amiga. Foi o máximo. Guilherme de Faria: Meu caro Alcanu! Foi uma noite inesquecível, realmente, o nosso Encontro Overmundo. E notei particularmente a graça e a verve daquele seu poema picaresco que você recitou. O contato ao vivo com os overmanos excedeu minhas expectativas. Realmente só se pode ter contato hoje em dia com outros artistas, outros poetas. Lá fora o panorama humano está muito árido. Ali as pessoas eram sensíveis, expontâneas, calorosas e profundamente afetivas. Isso é muito raro. Obrigado Alcanu, por ter orquestrado aquele encontro. Vamo-nos nos vendo em espírito e inspiração, por aqui, no nosso cantinho. Um grande abraço do cordelista Lailton Araújo: Escrevi umas «bobagens» (rsrs) Pode editar ... ( rsrs) ... Amigos e Amigas ... O reencontro dos antigos amigos e amigas foi uma dádiva divina. Muitos perguntarão: o que este cara está escrevendo? Ele ficou doido? Como pode existir um reencontro de pessoas que escrevem no Overmundo se elas nunca se encontraram antes? Calma! Leitores e leitoras ... Eu acredito em reencarnação! Não estamos por aqui brincando de escrever ... Estamos cumprindo missões! Permitidas por o criador da vida e segredo maior ... O dia 15/08/08 ficará marcado por essa reaproximação ... Parecia que todos já se conheciam! Houve uma química! Mistura de óleo e água! O homogêneo permitiu o heterogêneo! Um alquimista descobriu uma nova fórmula, bem diferente daquela tão buscada nos livros de contos ... A fórmula? Simples: o amor! O respeito deve ser a meta do artista, escritor ou aprendiz de arte! Somos diferentes! Por isso na última sexta-feira -- na Avenida Paulista -- percebemos nossas carências ... O outro internauta é gente? Claro ... É gente igual a este aprendiz que tenta abrir o coração ... Esqueci algo: o alquimista chama-se «Alcanu». Ele conseguiu reaproximar idéias e seres humanos ... Talvez ele não saiba que o seu bom-humor é fruto de várias encarnações ... De o bem! De o brilho da alma! De a pureza de uma criança ... É uma figura necessária à quebra da rigidez, da formalidade e frigidez entre pessoas ... Indispensável neste site! Não vou citar os nomes dos amigos e amigas presentes, e aqueles que não puderam participar ... As fotos mostram a alegria no rosto! É amizade verdadeira! É amor de pessoas carentes, criativas e que perceberam o momento certo da reaproximação, num reencontro inesquecível! Amigos e Amigas ... Até o próximo reencontro. Estou com saudade! Lailton Araújo Higor Assis: Pessoas acolhedoras a príncipio. Não, não elas são mais que isso. São amigas; são solidárias; são sentimentais; são mais ( ...) são do bem; são igualitárias, que nos deixam totalmente confortáveis, na maior das adversidades. Penso -- e quero, poder encontrá-los [todos] novamente, poder conversar, papear com mais e mais de vocês. E, até quem sabe declamar junto à todos o que temos em comum e o que realmente nos uniu. Finalizo aqui os meus sentimentos e agradecimentos a este Ato, que fez com que nós nos reuníssimos e nos encontrassemos de uma forma tão agradável e amigável. «seria um belo dia aquêle em que os melhores talentos do nosso país achassem lucrativo entregar-se ao livro e se preparassem para fazê-lo." -- Joaquim Nabuco Compulsão Diária: Encontro inspirado e libertador. Ali, a distância virtual deu lugar à sensação de uma intimidade construída. A troca intensa no Overmundo faz a alma chegar antes do corpo, de tal maneira que parecíamos todos velhos amigos. Algo mais que mero encontro. Experiência, sentimento, emoção, intuições, bons pensamentos e alegria. Afinidades! Cíntia Thomé: Bacana, este encontro foi delícia mesmo. Quando cheguei às 18,30 já estavam Pedro Monteiro, Laílton Araújo e Guilherme de Faria que por coincidência também já conhecia. Encontros e reencontros. Guilherme eu não via desde os anos 80, com Laílton, estivemos juntos no Corredor Literário onde declamei alguns versos na Fiesp ao som de ele. Tensa, telefonei a CD que demorava ... Azuir, primeiro autógrafo que dei de meu livro ... grande figura, um encanto vivo, sempre polido e de um carisma inexplicável. Regina Lyra, poeta grande fez a gente dar muitas risadas em conversas sobre a mulher brasileira juntamente com Compulsão Diária, gracinha, inteligente. Pedro, um homem de muitas lutas para chegar a ser o que é, vencedor na batalha para dar cultura aos desvalidos. Higor e suas amigas maravilhosas, lutando com documentários ... Sorteio de livros de Regina Lyra, eu rezando e disse a ela; Regina ou Mega-Sena, hei de ganhar! ( rs) Fui ganhadora como outros, ficamos todos felizes ... Uma folia! Ele, Higor pensou que meus olhos fossem lentes verdes, obrigado por o elogio e por achar o que escrevo bacana ... Alcanu, ao vivo, dediquei a ele os versos «Sementes do Silêncio» onde na época postada tive uma saia justa com ele, mas tudo resolvido ... Guilherme e sua obra e a divulgar a poeta Alma Welt com carinho e seus cordéis e arte magníficos ... Israel, amigo de Alcanu, no círculo ficou abraçado a nós e às nossas conversas ... Um encontro de velhos amigos ... até o América-Paulista «insistir» em fechar ... duas da madrugada ... muito pouco tempo, mas Sampa anda ... E lá fui de táxi por as ruas de Sampa que não dorme ... Obrigado a todos E Viva São Paulo. Número de frases: 190 O paraibano Jackson do Pandeiro foi o maior ritmista da história da música popular brasileira O paraibano Jackson do Pandeiro foi o maior ritmista da história da música popular brasileira e, ao lado de Luiz Gonzaga, o responsável por a nacionalização de canções nascidas entre o povo nordestino. Por as cinco gravadoras que passou em 54 anos de carreira artística estão registrados sucessos como Meu enxoval, 17 na corrente, Coco do Norte, O velho gagá, Vou ter um troço, Sebastiana, O canto da Ema e Chiclete com Banana. A história da sua carreira artística reforça a herança da influência negra na música nordestina -- via cocos originários de Alagoas -- que lhe permitiram sempre com o auxílio luxuoso de um pandeiro na mão se adaptar aos sincopados sambas cariocas e à música de carnaval em geral. Dono de um recurso vocal único, ele conseguia dividir seus vocais como nenhum outro cantor na música popular brasileira. Seu maior mérito foi de ter levado toda riqueza dos cantadores de feira livre do Nordeste para o rádio e televisão, enfim para a indústria cultural. Grandes nomes da MPB lhe devotam admiração e já gravaram seus sucessos depois que o Tropicalismo decretou não ser pecado gostar do passado da música brasileira, principalmente, a de raiz nordestina. O intérprete de uma música brasileira feita para dançar criou um estilo único de cantar. Nascido em Alagoa Grande, Paraíba, 31/08/19, numa família de artistas populares. Sua mãe, Flora Mourão, era cantora e folclorista de Pastoril e o batizou como José Gomes Filho o apelidou de Jack por o sua semelhança física com um ator norte-americano de filmes de western dos anos 30, Jack Perry. O Tocador de Pandeiro Começou na verdade, tocando zabumba, para acompanhar a mãe, mas fazia sucesso na região com o instrumento que marcaria sua trajetória: o pandeiro. Com ele, viajou em busca do sucesso. Passou por Campina Grande e João Pessoa onde adotou o pseudômino de «Zé Jack». Sua busca por o sucesso o leva a capital pernambucana. Decide se tornar músico quando ouviu A Jardineira (Benedita Lacerda e Humberto Porto). Trabalhando numa padaria forma uma dupla de brincadeira com José Lacerda, irmão mais velho de Genival Lacerda. Em o início da década de 50, ainda em Recife, começa a se apresentar na Rádio Jornal do Comércio onde, por recomendação de um diretor da emissora, adota o nome artístico de Zé do Pandeiro. Tendo chamado a atenção da direção da emissora consegue gravar seu primeiro compacto de 78 rpm. Era o xote Sebastiana que já demonstrava que além de ser o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro, iria buscar inovações estéticas dentro da música nordestina. Ele já arriscava nas suas improvisações de vocalizações com tempo variado dentro de uma mesma música. Torna-se depois de alguns compactos, um verdadeiro sucesso no Nordeste e Norte do país. Os ecos do seu sucesso já começava a chegar no Rio de Janeiro. O xote Forró no Limoeiro foi um sucesso estrondoso e Jackson impunha-se cada vez mais como um artista popular que se pautou por a ousadia numa época de poucos improvisos tupiniquins, vindo a se tornar referência para artistas oriundos da classe popular quanto da classe média brasileira. Em o Recife, conhece sua futura esposa, Almira Castilho, uma ex-professora que cantava mambo e dançava rumba De essa época consegue gravar por a gravadora pernambucana «Mocambo» seu primeiro sucesso: o xaxado Sebastiana de autoria do pernambucano Rosil Cavalcanti. Jackson e Almira formavam a dupla perfeita. Desde o início se preocupavam com o visual e com as performances de palco. Ela, sensual com um belo jogo de cintura e ele, com toda musicalidade explosão de ritmos e uma voz especial. Almira teve um papel fundamental na vida de Jackson, pois o ensinou a escrever seu nome e o estimulou a expandir sua música além das divisas da Paraíba. Esta paixão avassaladora os unir e os levou, em 54, ao Rio de Janeiro. A união em casa e no palco durou até o ano de 1967 quando se desfez a dupla e o casamento. A trajetória de Jackson de Pandeiro não registra números de vendagens significativos, nenhuma aventura por o exterior e muito menos o charme que cerca os ídolos da música popular brasileira. Antes de mais nada, Jackson do Pandeiro pode bancar a vinda ao Rio de Janeiro com o dinheiro obtido com o compacto do rojão Forró no Limoeiro. Ele queria conhecer os jornalistas que escreviam sobre sua música nos jornais cariocas. Conheceu a maioria de eles. Faz ainda algumas apresentações em São Paulo, em boates e em programas de auditório de rádio e tv. Convidado por o empresário Vitorio Lattari ele grava alguns compactos. O público sulista se apaixona, então, por a embolada Um a um. Retorna a João Pessoa e grava O xote de Copacabana uma homenagem à Cidade-Maravilhosa que o fascinou. Casa-se em outubro de 54, em João Pessoa, com sua parceira. Devido a aceitação do público e crítica na sua primeira ida ao Rio de Janeiro, decide, em 55, se mudar definitivamente com a esposa Almira. Se apresenta nas emissoras de rádio, Tupi e Mayrink Veiga, e é contrato por a Rádio Nacional. Número de frases: 44 A partir daí, Jackson do pandeiro começa a transformar o rumo da música nordestina, freqüentando assim como Luiz Gonzaga, o eixo central da indústria cultural do país. Este é um filme diferente: no mesmo dia em que foi lançado nas salas de exibição de cinema, era também oficialmente disponibilizado no site Overmundo e nas redes p2p de compartilhamento de arquivos. Assim veio ao público Cafuné, o primeiro longa-metragem do cineasta Bruno Vianna, conhecido e premiado por seus curtas. Estreando no circuito de cinemas, o diretor apostou em iniciativas ousadas e inovadoras para distribuir seu filme. Além de utilizar as redes tradicionais e virtuais, Vianna licenciou o filme em Creative Commons (a licença que autoriza a sociedade a utilizar a obra de acordo com condições pré-estabelecidas, nesse caso, uso não-comercial, afastando a idéia de " pirataria "). Mais do que isso, jogou, nas salas e na web dois finais diferentes e conclamou internautas a criarem novos desfechos para a obra, abrindo alas para a expressão criativa dos espectadores. Inaugurou, assim, um novo caminho para o cinema brasileiro. Dois meses após a estréia, em 25 de agosto, Bruno Vianna conversou com o pessoal do projeto Open Business e fez uma avaliação sobre os caminhos escolhidos, seus impactos e repercussões. Recursos Públicos e Cultura Livre Cafuné foi vencedor do concurso para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Para realizar o filme, Vianna recebeu R$ 600 mil, sem autorização para captar mais recursos, junto a outros financiadores, dadas as regras do edital. «Não faz sentido deixar de abrir um conteúdo que tenha sido financiado com dinheiro público», avalia o diretor. Cafuné estava pago no momento em que foi concluído, e ainda restaram alguns trocados para a divulgação, majoritariamente feita em «busdoors» (aqueles anúncios que ficam nas traseiras dos ônibus). Há quem questione o investimento de recursos públicos na indústria nacional do cinema, visto que raras obras conquistam grande público. Há quem responda a isso alegando que o fomento com tais recursos é fundamental para se criar uma cinematografia nacional permanente, mesmo que com pouco público. E há, ainda, quem defenda que se o motivo anterior é o predominante, então essa cinematografia deve ser acessível a todos. Qual é o sentido de criar algo a que pouquíssimos terão acesso? Para Bruno Vianna, no cinema brasileiro, os cineastas acostumaram-se a não ver saída para essa questão. «Pretende-se criar uma indústria audiovisual auto-sustentável. Por essa lógica, não poderíamos ' dar ' o filme, se uma produtora investe dinheiro em ele. Agora, se você faz um filme com dinheiro incentivado, e quando é concluído está pago, toda a bilheteria é lucro, mesmo que sejam poucos espectadores». Bruno não vê sentido, portanto, em não liberar a obra, especialmente quando se trata de dinheiro público. «É o retorno do investimento na Cultura», reafirma. Evidentemente, há muitos que não têm qualquer intenção em facilitar acesso às suas obras, e existem pressões, como em qualquer outro campo, para que isso não seja feito. Entretanto, os espaços para a emergência de novos modelos estão sendo criados e o que hoje é visto como ' alternativo ' pode se tornar o mainstream de amanhã. O diretor conhece as limitações que a indústria pode impor para a distribuição de filmes abertos, sobretudo forjadas de acordo com o modelo Hollywoodiano de cinema. Filmes geralmente pertencem não só ao diretor, como também ao produtor, distribuidor etc.. Tal condição impõe limites no poder de decisão de um cineasta. Quando uma produtora investe na obra, por exemplo, é muito mais difícil propor o licenciamento aberto. Bruno Vianna acredita que se tivesse como parceira uma produtora mais ' comercial ', ou uma distribuidora internacional, não teria tido a oportunidade de inovar na distribuição, e possivelmente tampouco na linguagem. Mas afirma categoricamente que, ainda que tivesse realizado um filme grande, viável comercialmente, teria aberto mão dos benefícios auferidos com os direitos autorais, caso não houvesse restrições impostas por os demais ' donos ' da obra. Público e Distribuição Tanto o filme quanto o público ganharam com a distribuição nos cinemas e na Internet, embora não se possa calcular ainda os efeitos da decisão sobre a bilheteria. Também não dá para saber exatamente o número de pessoas que baixaram o filme, já que não está num único servidor central. Mesmo assim, numa breve visita às redes p2p, pouco mais de um mês após a estréia, o diretor pôde constatar 80 cópias espalhadas no eMule. Duas semanas depois, conferimos os downloads a partir do Overmundo: eles já somavam 490 cópias inteiras baixadas. Não há dúvida de que a estratégia tenha dado mais visibilidade ao longa do que ele teria tido nos padrões tradicionais de exibição. Mas nem só em salas de cinema e redes p2p foi parar o filme. Ele alcançou também cineclubes, mostras e festivais, universidades e escolas, por onde o diretor andou dando palestras e participando de debates. Foram mais de 15 participações num mês. De acordo com a Filme B, empresa brasileira que acompanha e analisa o mercado cinematográfico, Cafuné ficou entre os 20 filmes mais vistos no Brasil durante algumas semanas, o que não é nada mal para um cineasta iniciante e para o pequeno número de salas em que o filme estreou. O filme começou sendo exibido em cinco salas do Rio de Janeiro e apenas uma em São Paulo. Em as duas semanas que se sucederam à de estréia, ele saiu de duas salas de exibição por período, levando Cafuné a isolar-se num único cinema na capital fluminense, e em outro, na paulista. Mas, na quarta semana, o público foi surpreendido por o retorno do pequeno grande filme para três salas no Rio. «Quem quer ver o filme no cinema vai por causa do ritual, não por causa do filme. E a bilheteria foi aumentando com o tempo», conta Vianna. Júlia Levy, da distribuidora e exibidora Estação, explica que isso foi possível graças ao momento do mercado cinematográfico e à agenda de lançamentos ligados à exibidora. Mas reconhece, também, que se não tivesse havido demanda, o filme não teria voltado às telonas. Ou seja, após três semanas com o filme nas redes p2p, o fluxo de habitués do tradicional programa ' cinema-e-pipoca ' não havia trocado as filas das bilheterias por seus computadores. É possível supor que a distribuição na rede tenha, ao contrário do que se imagina, contribuído para a divulgação de Cafuné. Quando um produto é licenciado por Creative Commons na internet, a conta a respeito do benefício a ser feita é muito simples e vale para qualquer nicho cultural. Se X corresponde ao número de pessoas que vão deixar de ver o filme por causa da distribuição online e Y corresponde ao número de pessoas que, se não tivesse havido a disponibilização online jamais iriam ter comprado a obra, o esforço sempre compensa quando Y é maior do que X. Essa equação mostrou-se favorável, por exemplo, com os livros do escritor Cory Doctorow, ou do professor Lawrence Lessig, todos licenciados em Creative Commons. O Grupo Estação é famoso por lançar clássicos do cinema mundial, filmes independentes e cinematografias pouco difundidas desde 1990. Mas foi neste ano que o Estação começou a distribuir filmes nacionais, dando prioridade às produções classificadas, por eles, como ' inovadoras e alternativas ', principalmente de pequeno e médio orçamento. Para eles, é uma nova fase e a estréia se deu justamente com Cafuné. A distribuidora está empenhada em descobrir e desenvolver novos formatos de distribuição, mais criativos e compatíveis com a realidade do mercado, mais atraentes e acessíveis para o público. Levy conta que a decisão foi muito debatida entre a distribuidora, o diretor e a produtora -- a Raccord Produções. Eles tinham como referência histórias de filmes boicotados por os exibidores nos Estados Unidos, como Bubble, de Steven Sordenbergh, lançado simultaneamente nas TVs por assinatura, em DVD e no cinema. Mas o Estação tinha um trunfo: era distribuidor e exibidor -- de modo que não boicotaria a si mesmo. Júlia Levy conta que foram inúmeras as reuniões para se discutir como seria feita a distribuição e que a decisão foi bastante estudada. De essas reuniões, por exemplo, nasceu a proposta do distribuidor para que Vianna filmasse diferentes finais. A ousadia do diretor e a predisposição do distribuidor para adotar novos modelos, bem como o diálogo permanente entre direção, produção e distribuição, foram determinantes para emergência do modelo e para o resultado do trabalho. Mesmo sabendo que qualquer um pode baixar o filme e queimar em DVD, Vianna vai lançar o produto. Aposta no fetiche da caixinha, e em adicionais como making of, comentários e outras novidades para agregar valor ao DVD. Como todo artista gosta de viver do que faz, e como o projeto Open Business tem por objetivo investigar modelos de negócios abertos, perguntamos a Bruno Vianna quais seriam os caminhos que garantiriam acesso à cultura e rentabilidade. A reflexão do diretor sobre novos modelos de distribuição e de negócios para o cinema resgata e recria outras experiências e idéias. De sites que liberam o conteúdo, mas passam anúncio a cada exibição, a redes virais, existe uma série de alternativas possíveis. É possível autorizar a visualização de um filme, mas cobrar para se obter uma qualidade melhor, caminho aliás defendido por Joi Ito, famoso empresário japonês criador de sites com o Flickr e o Technorati. Outro caminho possível para a indústria cinematográfica aberta poderia envolver incentivos para os usuários criarem uma rede viral. Tal esquema resultaria não só na massiva distribuição das obras, como na inclusão de novos agentes na cadeia produtiva. Espectadores se tornariam também distribuidores e teriam participação nos rendimentos da obra -- «talvez seja mais interessante para o espectador e usuário compartilhar o filme com mais gente se ganhar uma porcentagem», reflete. O fim da história O diretor ainda espera ver propostas de reedição do final do filme -- possibilidade e expectativa geradas por a presença da obra na Internet. Bruno Vianna, que estudou novas tecnologias em Nova York, está sempre antenado nas inovações possíveis: «penso muito em convergência agora; alguns trabalhos funcionam de um jeito para cinema e de outro para internet. Não quero que as pessoas fiquem 2 horas na frente do computador. Cafuné é um filme para baixar, queimar no DVD e assistir na televisão». Aliás, Vianna já revelou suas idéias fantásticas para os próximos longas que superam os limites de ousadia propostos por Cafuné. «Estou começando a desenvolver um projeto que será de cinema digital, montado ao vivo, eu como VJ do meu próprio filme». O filme será gravado em diversas partes, a serem combinadas de diferentes formas, de acordo com cada apresentação, que contará o diretor na sala de cinema, editando e exibindo em tempo real. «Não deu pra fazer isso com o Cafuné, que não é um filme para ser visto por partes; é para o ambiente sofá e cama», conta. Você deve estar se perguntando: mas, e aí, se todo mundo fizer o mesmo? A visibilidade conquistada não está ancorada no pioneirismo de Vianna? É razoável imaginar que o ineditismo da iniciativa tenha, sim, contribuído para o «hype» em torno do filme. Mas não se resume a ele. Existe um potencial inovador, cujos limites ainda não são conhecidos. E é ainda nessa dimensão desconhecida dos novos modelos que reside a possibilidade da indústria brasileira de cinema crescer solidamente. Quem viver, verá. Conheça o projeto Open Business Leia mais sobre Cafuné Baixe Cafuné (versão 73 min) Número de frases: 97 Baixe Cafuné (versão 91 min) Um caos de papel compõe as ruas das cidades grandes. É um sem-número de panfletos, propagandas, cartazes, flyers e outras formas de lixo-celulose. O santinho político, a mãe-de-santo que promete a sorte, o corte de cabelo barato, a promoção de celular: o olhar passa sem notar, o papel é jogado fora, logo após ser breviamente consumido. Em meio ao desinteresse completo surge um personagem bem mais interessante: o sticker. Cláudio Alcântara é um dos que está presente há mais tempo nas ruas da capital mineira. De observador interessado passou a atuar, desenvolvendo seu trabalho pessoal. Durante 15 anos viajou por as capitais do país, fotografando pixações, desenhos e escritos de artistas anônimos. Logo sentiu a «coceira» e, além de fotografar, começou a realizar. «Eu não tinha técnica com o spray, então, passei a fazer tags com marcador, giz, látex e com xerox. Essa foi uma nova forma de me expressar. Passei a colar por onde andava e por todas as cidades que passava, lançando Xerel», conta. A personagem surgiu de um rabisco num bloco de anotações, enquanto o autor falava ao telefone. «Fiz um desenho tosco, mas com uma expressão espontânea que me chamou atenção. Então, produzi alguns stickers e colei em vários lugares. A repercussão foi grande e ela acabou virando um ícone da cidade», explica. Uma campanha (anti) publicitária se espalha por Belo Horizonte. A marca é a popstencil e o objetivo é utilizar o espaço urbano para atacar um de seus principais símbolos: o consumismo. É uma marca sem empresa, sede, empresários e até mesmo produtos. O apelo da sua campanha está na ironia e na paródia da publicidade. O meio para se chegar a isso é o adesivo. A escolha tem a ver com praticidade e a facilidade de disseminação da mensagem. Em 2005, o coletivo Sem Rosto lançou o documentário Anuncie aqui. O vídeo acompanha a atuação de alguns grupos de stickers e grafitti na reconfiguração do espaço publicitário e urbano da capital mineira. Mas nem todo papel necessariamente veicula uma mensagem de contestação. É o caso do yellowdog. O seu dono, o designer gráfico Ricardo Portilho, explica: «É um meio bastante despretensioso que pode simplesmente desaparecer no meio da confusão urbana. E também é perecível, ou seja, nada que você fizer vai durar muito, a chuva, o sol, os anúncios de «compro ouro» ou de videntes vão chegar e cobrir tudo». As referências do seu «cachorro» estão no diálogo com a comunicação visual encontrada na sinalização de tráfego. Ricardo começou o seu trabalho ainda em Minas Gerais. Hoje, mora na Holanda mas mantém contato com diversos grupos espalhados por o mundo. Existe uma rede de troca de informações (e também de stickers) na internet. Por meio dessas conexões são organizados «ataques» às cidades. De acordo com o artista, os trabalhos brasileiros são bastante apreciados em outras terras. «A criatividade e a capacidade de trabalhar com materiais alternativos e reciclados são tipicamente brasileiras», aponta. É apenas um adesivo pregado no muro? «Em a verdade, tudo se resume mesmo a isso. Quanto ao conteúdo, pode ser qualquer coisa: anti, pró, contra, a favor ou muito antes pelo contrário. Em o fim das contas é somente um meio, cada um coloca ali o que quiser», é o que pensa Ricardo. A democratização da arte de rua chacoalha a separação entre artista e público. «Talvez isso aponte uma saída interessante para os meios: a coletividade e despretensão comercial em contraponto à autoria e à carreira profissional», sugere Alexis Azevedo. Ele é integrante do coletivo 403 + 1, que busca inspiração para o seus trabalhos no fluxo imagético do asfalto: semáforos, faixas de pedestres, placas de trânsito, esquinas. A rua é a inspiração e a tela, ao mesmo tempo. O grupo já atuou em conjunto com outros coletivos como o Pão com Durex e o Poro. O site streetartblows gerou um debate interessante com uma série de stickers metalinguísticos. A mensagem «keep your art to yourself next time» ocupa os mesmos espaços urbanos e faz referência aos outros adesivos. O autor anônimo do questionamento é direto: «Ao mesmo tempo em que tem muita gente fazendo (street art), poucos estão fazendo bem." «Como em qualquer atividade tem que ter treino e um estudo, não necessariamente acadêmico. Um bom trabalho não é realizado sem esforço e disciplina», explica Xerel, no ramo há quase uma década. É exatamente por a facilidade de fazer parte de ela que a «cena» cresce. Ao contrário de expressões como o grafitti, por exemplo, o sticker não exige uma técnica muito apurada do autor. Muitos sequer confeccionam o próprio desenho. Número de frases: 59 Fazem o download na internet, imprimem e seguem para as ruas para colar. Não deve ser tão difícil para você atender o pedido que vou fazer agora -- afinal, na sua cidade as rádios também devem ser terríveis. Então, vamos lá: imagine viver num lugar que desde os anos 90 produz uma quantidade quase incomensurável de bandas e artistas de todos os tipos. Imagine que esses nomes são reconhecidos no país e no mundo, que o público local os ama com fervor, que poucos duvidam da alta qualidade de seu trabalhos. Dezenas, centenas de artistas: Nação Zumbi, Siba e Fuloresta do Samba, Mundo Livre, Mombojó, Lia de Itamaracá ... E nenhum de eles toca nas rádios! Esse é o quadro cruel do Recife, com suas FMs cegas, surdas e mudas. Não é de se entranhar, portanto, que, a partir do momento em que uma estranha notícia capaz de mitigar essa sede começasse a circular, o alvoroço crescesse de imediato. Dizia um, diziam outros, e depois os próprios vereadores confirmaram, que, desde o início dos anos 60, o município do Recife tem direito por lei a possuir sua própria FM. Até nome já se tem, Frei Caneca, sem falar de dotação orçamentária, ano após ano remanejada para outros fins. É por isso que, na segunda metade dos 90, surgiu o movimento Liberdade para (a) Frei Caneca, reunindo jornalistas, artistas, produtores e cidadãos indignados, para pressionar os poderes públicos a colocar a rádio no ar. Tanto barulho se fez que, ano passado, o prefeito João Paulo nomeou uma comissão -- com representantes de diversos setores da sociedade civil -- para preparar um projeto capaz de viabilizar em prazo curto a implantação. O que todo mundo quer? Uma rádio pública de fato, que não sirva de cabide de emprego, nem seja usada ao bel prazer por cada prefeito. Que dê amplo espaço para a cultura local nas suas diversas manifestações, mas não esqueça do mundo lá fora. E que também se lembre que o mesmo sufoco da música se reproduz com os movimentos sociais, também excluídos do dial. Em a virada do ano, o relatório da comissão -- seguindo essas regrinhas básicas -- foi entregue ao prefeito. A expectativa é que até o final do primeiro semestre de 2006 a rádio comece a transmitir. Liberdade para a Frei Caneca, enfim, ainda que tardia. Número de frases: 21 A Juventude, sujeito de direito, participando da formulação de Políticas Públicas Nacionais Politizada, organizada, atuante. Assim é a juventude que mostrou para o Brasil que quer participar da formulação de Políticas Públicas na 1° Conferência Nacional de Juventude (CNJ). Em março ocorreu a etapa estadual, fase eletiva que decidiu quais os / as delegados (as) que seguiriam para a Conferência Nacional. Foram mais de 2500 jovens eleitos (as), representando todos os estados, participando diretamente neste evento histórico, marco da primeira iniciativa governamental lado a lado com a juventude. Os e as jovens não são mais apenas agentes passivos (as) na sociedade, mas sujeitos de direitos e deveres, capazes de dizer para todos o que querem, quais suas prioridades, o que é mais importante. A CNJ se organizou em 23 grupos de trabalho (GTs) temáticos, onde se dividiram os delegados para que fossem debatidas as propostas de cada tema. Educação, Cidadania GLT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Travestis), Drogas, Sexualidade, Juventude Negra, Saúde e Participação Política foram só alguns dos vários assuntos abordados por os grupos, a fim de compreender a maior diversidade possível e contemplar tudo o que envolve a realidade juvenil. Além de divididos em delegações estaduais, muitos dos (as) participantes também se agruparam por afinidades ideológicas e políticas, sendo evidente o envolvimento partidário de parcela significativa, além de estarem presentes o Movimento Negro, Indígena e GLBT, de forma que os focos de interesse foram ainda mais direcionados. Muita animação, passeatas e manifestações preenchiam os intervalos entre os GTs. Os partidos gritavam palavras de ordem, formou-se um Quilombo simbólico no meio do pavilhão da Conferência, uma atuação importante da galera do Movimento Negro, bandeiras com todas as cores do movimento GLBT eram hasteadas, a garotada vestida a caráter segundo as suas tradições indígenas. A diversidade incomensurável de nosso país continental se evidenciou nos rostos de cada jovem que expressava sua identidade. Cultura não podia faltar neste encontro riquíssimo de todos os cantos do Brasil, assim, no fim de cada dia havia apresentações culturais que divertiam e agitavam a galera, que não cansava, mesmo depois de horas de debates. Com a participação da paulista Fernanda Porto, no primeiro dia, apresentações de diversos grupos formados por os próprios delegados no Sarau Livre do segundo dia, e para finalizar, a percussão arrojada dos pernambucanos do Cordel do Fogo Encantado. Quem quis, não ficou parado, dançou, cantou e pulou muito nestas celebrações da cultura brasileira. Os organizadores da Secretaria Nacional de Juventude foram muito cuidadosos em oferecer ainda um espaço para o esporte e o lazer, onde a moçada podia fazer academia, praticar algum esporte ou ainda exercitar o raciocínio com os jogos de xadrez que estavam sendo distribuídos. Oficinas autogestionárias eram outra opção, sendo oferecidas por os grupos participantes no fim de cada dia. Uma programação lotada para ninguém botar defeito. Comunicação é base para os relacionamentos humanos, o diálogo é a melhor forma de resolver as questões, expressar-se é fundamental para construir identidades. Tão importante é que não podia faltar na CNJ. Uma equipe de 50 comunicadoras (es) de 16 estados do país, representando dezenas de organizações que trabalham com comunicação e juventude, fizeram a cobertura da CNJ, sendo a mídia jovem do evento. Rádio, Web, Vídeo e Jornal Mural foram divididos em equipes para produzir material de todas as formas, tipos, cores e efeitos. A galera do Rádio fez muitas entrevistas, informes, e ainda garantiu o fundo musical. A larga equipe da Web, fazendo a cobertura jornalística, registrando todos os acontecimentos, produziu cerca de 82 matérias nos 4 dias de Conferência, abordando tudo que se passou nos GTs, nas apresentações culturais, nos tempos livres, nos estantes, as mobilizações paralelas, tudo. O Vídeo captou as infinitas imagens da juventude, para o pessoal que estava acompanhando a Cobertura Jovem pudesse ver com os próprios olhos as emoções desses dias da juventude. E o Jornal Mural, o mais interativo, buscou de todas as formas proporcionar um espaço direto de participação dos jovens na mídia, interagindo com a equipe da mídia jovem, deixando suas mensagens e idéias, através de vários jornais, como o'Jornal Itinerante ', que em 3 edições questionou os participantes sobre suas bandeiras, suas expectativas para a Conferência no dia em que se preparavam para esta grande viagem e as belezas culturais e naturais de suas terras. Fizeram também o'Virou Notícia ', espaço para a galera conferir nas paredes da Redação da Imprensa Jovem algumas das notícias da Web, e por último o'Vira aí ', para os recadinhos e palavras especiais dos jovens para todo mundo ver. 22 propostas foram escolhidas de entre as 69 produzidas durante a CNJ. Cada um dos 23 GTs produziu-se 3 e a terça feira foi dedicada para as votações que determinaram as prioridades da juventude brasileira. Em a quarta, na plenária final, oficializaram-se as propostas que agora podem ser conferidas no site www.juventude.gov.br. Mas o trabalho desses tantos jovens ainda não acabou. As mobilizações precisam continuar para garantir que essas propostas sejam colocadas em prática e novas sejam criadas para transformar nossa realidade numa mais justa, igualitária e humana, para jovens, crianças, adultos e idosos, enfim, todos os cidadãos de nosso país. 400 mil jovens mobilizados em todas as etapas, dentro de um universo de 50 milhões no País. Ainda há um longo caminho para que a juventude em sua amplitude participe e se interesse por mudar o país, mudar o próprio futuro. Número de frases: 34 Os tempos são outros, os desafios são diferentes dos estudados nos livros de história, mas ainda é igualmente imperiosa a necessidade da participação de todos! «Nasci no dia 8 de maio de 1945. Em este mesmo dia acontecia a rendição dos alemães na segunda guerra mundial». Assim começa a historia contada por Beth num dos tópicos da comunidade Nascidos em 1945 no Orkut. Continua a história contando sobre a festa que se seguiu, com aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) sobrevoando a cidade do Rio de Janeiro. O Tópico têm apenas 4 postagens mas é uma lição de história, completada por Zeni, outra participante da comunidade. Um relato destes poderia passar despercebido não fosse um detalhe simples. Beth e os outros 44 membros da comunidade completam 62 anos com muita história para contar. São apenas 9 tópicos. Três são de postagens anônimas e suspeitas. Em a metade do século outra comunidade. Nascidos em 1950, e a moderadora a Sra.. Marilene, cuja foto é um Fusca Rosa. Por o seu album de fotos é uma apaixonada por fusca. Mas quem não é? A comunidade é modesta. A menor de todas. Apenas 42 membros, mas os 8 tópicos são disputados. 20, 30, 90 postagens sobre assuntos diversos. Quando nasci, a Dona Beth e Dona Zeni já completavam 15 anos. Para marcar o meu nascimento e de mais 1254 pessoas, nada melhor que a comunidade Nascidos em 1960. De os 15 anos pesquisados (1945 a 1960), esta é a comunidade que tem maior número de membros, várias páginas de tópicos e discussões diversificadas. Eu, Seu Carlos, Dona Maria, Dona Marta completaremos 47 anos. São 47 anos da inauguração de Brasilia, do lançamento do RAMAC 305, primeiro computador da IBM e a Indepedência de 8 países (Madagascar, Mali, Gabão. Congo, Chade, Costa do Marfim, Burquina Faso e Benin). 62 anos de história presentes em 15 comunidades temáticas «Nascidos em ...», nas quais participam 5.959 membros. Beatles, JFK, Ditadura Militar, Ai-5, Sputnik 1, primeiro transplante de órgão, Odyssey 100 -- primeiro video game. Em o mesmo período o mundo presenciou uma grande evolução. A história começou a ser transmitida em tempo real, as pesquisas científicas ganharam investimentos cada vez maiores e a tecnologia tomou conta das nossas vidas. Começamos a ouvir palavras como clonagem de animais, transferência de valores em tempo real, velocidade do som, inteligência competitiva, transferência de embriões, tecnologia da informação, superaquecimento global. Vitórias e derrotas de uma história que nós mesmos estamos escrevendo. Experimentamos a tristeza da bomba atômica e a possibilidade de utilizar raios X no combate ao câncer. Número de frases: 32 Tudo isto, em 62 anos de história. O açaí é uma palmeira do norte do País. É conhecido por os indígenas como «içá-çai», a fruta que chora. Sendo típico da Amazônia, espalha-se por toda a região, chegando ao Maranhão, à Guiana e à Venezuela. O principal alimento extraído do açaí é o vinho, um suco feito da casca de seus frutos. Esse suco tem bastante densidade e é muito apreciado por os habitantes da região. É energético e nutritivo. Consumido naturalmente com farinha de mandioca. Um mercado formal da bebida também está em plena expansão nas grandes metrópoles do Brasil, e, como é um fruto que está na moda assim como o brega está na área musical, desperta a minha curiosidade a forma com que as mesmas coisas são tratadas nos diversos estados, mas o que me causa estranheza é a forma com que o povo, em tão pouco tempo, aprendeu a consumi-lo de várias maneiras. Hoje, quando vejo tal alimento por aí, me recordo de alguns anos em que eu ia aqui ao canto de casa na pequena Macapá comprar três litros do líquido para almoçarmos porque é assim que aqui o produto é encontrado. Existem pequenos estabelecimentos comerciais que fazem o processo de retirada do vinho que podem ser encontrados através de bandeiras vermelhas posicionadas no canto do quarteirão e na frente dos lugares onde o açaí é vendido. Estes são chamados de amassadeiras e trabalham com a fruta no seu estágio original, só que existe uma diferença bastante pontual na forma de consumir o «petróleo da Amazônia», é que em tempos passados era mais comum beber o vinho sem açúcar ou qualquer outra coisa. Era, como já falei, acompanhado apenas de farinha de mandioca. Esta farinha também tem suas especificidades, quem já teve a oportunidade de vê-la constatou que seus grãos são bem grandes e é chamada por alguns de «quebra dentes». Outro fato interessante que observo é que aqui ela realmente é usada nas refeições, mas não como sobremesa e sim com a função nutritivo acompanhamento como o arroz e o feijão. É normal encontrar pessoas que ainda tomam o açaí, na hora do almoço, com peixe frito, por exemplo, ou qualquer outro alimento salgado, pois o sabor exótico se torna bem mais interessante depois que seu paladar se acostuma com a fruta. E não é pra jogar tudo dentro do açaí! Digo isso porque tenho um amigo em São Paulo que não entendeu quando eu disse que gostava de açaí com camarão. A o fazer a receita, ele bateu tudo no liquidificador (rs) quando ele só precisava descongelar a popa e colocar a farinha, preparar o camarão separado e comer. Também me chama a atenção o uso que deram para a bebida. Enquanto aqui é tradicional se tirar uma soneca depois da refeição no Sul e Sudeste ela é usada como suplemento para as pessoas que praticam exercícios físicos. Elas pegam a fruta e colocam um montão de coisas: mel, granolas, banana e outras combinações que deixariam a minha avó de queixo caído. Olhem só esta receita: «Açaí C/ Laranja (Açaí Tropical) Ingredientes: «1 polpa de açaí «Poderoso» " 200m l de suco de laranja " 50m l de xarope de guaraná " leite condensado a gosto " O interessante nesta receita é que ela quebra um conselho que todas as nossas mães não esqueciam de nos fornecer: jamais consumir açaí com frutas cítricas, era preciso esperar um tempo para que os dois não se misturassem no estômago, pois tal combinação formaria um tipo de veneno no estômago. Agora esta receita acima nos mostra que boa parte do que elas falavam não passava de mito, talvez para evitar que nos tornássemos pessoas gulosas (rs). Avalio que está ocorrendo com uma fruta tão nobre da Amazônia o que realmente um bom alimento pode causar em qualquer canto desse nosso imenso país que é uma adaptação aos costumes locais, mas isso não nos impede que este fenômeno se torne engraçado ou curioso para quem já foi criado com certas culturas. Número de frases: 34 Ainda bem que estou me acostumando com este mundo de diversidade que é o nosso Brasil. Com as bênçãos dos deuses do teatro Em o coração do Brasil existe uma cidade que conjuga tempo com arte e que vibra com os deuses do teatro no TENPO. A cidade é Porangatu -- que já estalou na língua ávida de novidades da atriz e poeta Elisa Lucinda --, uma bela paisagem na tradução do tupi-guarani. Distante 400 quilômetros de Goiânia, no corredor da Belém-Brasília (Br-153), divisa com o Tocantins, Porangatu é ponto de convergência há seis anos para todos que, de alguma maneira, sabem o poder da magia de um palco, mesmo que sob a lona de um circo (mais mágico ainda!). E a Fábrica de Sonhos, o circo mágico do teatro, domina mais uma vez a paisagem urbana e a cena cultural da terra de Angatu, com o VI TENPO (Mostra Nacional de Teatro de Porangatu), que acontece esta semana (27 de novembro a 2 de dezembro), às margens da Lagoa Grande, cartão postal da cidade. TENPO, grafado assim mesmo, com a letra n, para fazer cena. É que as pessoas de lá pensam grande, sem timidez: TENPO de Teatro Nacional de Porangatu. E o TENPO chega à sexta edição firmando-se no calendário cultural de Goiás como um dos eventos mais importantes no circuito das artes, ao lado do Fica (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental), Cidade de Goiás; e Canto da Primavera, Pirenópolis. Em o começo ninguém acreditava que o sonho de fazer do teatro um traço forte e evidente da identidade cultural de Porangatu pudesse virar realidade. Mas virou. E virou porque a comunidade quis que fosse assim. E não mediu esforços e nem insistentes reivindicações ao Governo de Goiás para que ajudasse a bancar uma mostra de teatro que invertesse o eixo das coisas, que sempre convergia para Goiânia, capital do Estado, ou para localidades mais badaladas. Que fosse rumo Norte, no ponto extremo, o teatro bandeirante na terra de Angatu. Tempo de vacas magras, dinheiro curto, o TENPO este ano será mais enxuto e basicamente com prata da casa, com destaque para os grupos regionais. Todos os oficineiros são de Goiás. Ao contrário das outras edições, a programação tem apenas dois espetáculos nacionais (humor): Talk pobre, Fabiana Karla (na abertura, dia 27 de novembro, às 22 horas), e De o Re Mi Fafy, com Fafy Siqueira, dia 2 de dezembro, às 20 horas, na Fábrica de Sonhos. A única novidade na infra-estrutura fica por conta do circo climatizado, para alívio dos atores e da platéia. Só quem sentiu o calor humano de uma platéia de 1500 pessoas num espaço com sensação térmica de 40 graus sabe o alívio que é essa notícia. Que o diga o ator Luiz Miranda, que por pouco não desmaia no palco durante apresentação do 7 Conto, no V TENPO, sob figurino que incluía até casaco de pele. Teatro bandeirante -- A história de amor de Porangatu com o teatro começou há mais de duas décadas, com a encenação da Via Sacra -- Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. O espetáculo, que nos seus primórdios acontecia no interior da igrejinha Nossa Senhora da Piedade (a padroeira), na Região do Descoberto -- centro histórico da cidade, ganhou as ruas há alguns anos num misto de fé e teatro popular. Em a Sexta Feira Santa os devotos acompanham a procissão, que sai às seis da tarde da matriz velha (depois do badalar do sino, que não é de ouro, como na crônica de Rubem Braga, O Sino de Ouro, em que narra uma dessas delícias que ouviu de alguém e que teria acontecido em Porangatu) e termina com a multidão às margens da Lagoa Grande para assistir a encenação da Paixão de Cristo. A superprodução é comunitária. E ao longo da última década conta com apoio e patrocínio da prefeitura. Com aproximadamente 100 atores, entre elenco principal e figurantes -- todos moradores da cidade, o espetáculo encanta por o visual e por agregar a produção artística local. Atores, cenógrafos, figurinistas (as costureiras de Porangatu), crianças, adolescentes e idosos que participam das oficinas de arte, os músicos da Banda Municipal Maestro Silvio de Brito Cavalcante (fundada em 1986 e que deu origem a uma escola de música que atrai músicos do Nordeste, a maioria de Belo Jardim -- PE). Um lanterneiro, Joel Alves, fez história representando Cristo durante 20 anos. Hoje o papel é vivido por Leandro Martins, um jovem ator do grupo de teatro local Trem de Doido. E a platéia é fiel. O público da Via Sacra é de aproximadamente 10 mil pessoas. Foi essa história construída com a encenação da Paixão de Cristo que levou o município a brigar por a criação do TENPO, fruto de parceria entre a prefeitura de Porangatu e a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (AGEPEL), do governo do Estado. Além de ser um espaço dedicado à qualificação dos profissionais das artes cênicas (atores, diretores, iluminadores, maquiadores, figurinistas), a mostra visa formação de público, com foco especial nas crianças. O teatro infantil tem espaço privilegiado no TENPO. As peças infantis são apresentadas em sua maioria no palco do Centro Cultural de Porangatu -- onde durante todo o ano acontecem oficinas de arte bancadas por o município para crianças, adolescentes e idosos. E se depender do interesse desse público, o teatro na região Norte terá platéia cativa. A magia do palco -- Porangatu é uma cidade que encanta por a simplicidade e afetividade de sua gente. A população é participativa e prestigia os espetáculos. Este é o quesito que mais encanta os artistas, organizadores e visitantes. Acompanhei na platéia e nos bastidores as cinco primeiras edições do TENPO, sempre com o encanto revigorado por um detalhe ou outro que não deixa dúvida sobre o significado da arte na formação do indivíduo e do coletivo. Ainda mais fora dos grandes centros, onde as oportunidades são quase inexistentes. A primeira vez que me emocionei com o teatro em Porangatu ainda não havia o TENPO. Tinha assistido a um ensaio do Trem de Doido, grupo de teatro da cidade formado em 2000, e logo depois vi um dos atores circulando por a cidade de bicicleta e uniforme de agente de saúde, naquele sol de rachar. Durante o dia Márcio de Santana Arruda trabalhava no combate ao mosquito transmissor da dengue e à noite ralava para dominar a arte do palco. E ainda está por lá, firme e forte com a teimosia de artista. Já o vi em várias peças e oficinas do TENPO. E o TENPO é um pouco de tudo: circo, escola, espetáculo e, sobretudo, sonho. Não tem quem não entre no clima mágico do teatro com as aberturas do grupo Charanga, de Cristiano Mullins. É aquele momento em que o respeitável público abre as cortinas da alma para viver a ficção da vital arte nossa de cada dia. E tome magia no palco e fora de ele. E foram tantos momentos sublimes, dignos dos deuses. Impossível esquecer os olhos arregalados do menino descalço, sentado ao meu lado, no chão, próximo a uma poça d' água -- havia chovido naquele começo de noite, seguindo a flauta mágica do ator Guido Campos (uma das melhores pratas da casa), em A Terceira Margem do Rio, belo e dificílimo texto de Guimarães Rosa num monólogo que valoriza a expressão corporal e o ritmo das palavras de Rosa, no final, levado à platéia sem microfone, no gogó mesmo, e num cenário inclinado que exigia do artista preparo físico de atleta. «Nossa, que bicho feio!», ouvi o menino repetir naquele devaneio audível de monólogo interior. Glória para o artista despertar assim a atenção de um menino, com o difícil de difícel Guimarães Rosa. E o melhor de tudo, ver marmanjos chorando na platéia. E a maioria estava indo ao teatro pela primeira vez. Inesquecível! Uma das melhores peças que vi na vida. De lavar a alma, isso uma noite depois em que Nathália Timberg, com todo o seu talento, desafinou com a platéia em Paixão, concerto poético da fina flor da linguagem de Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Adélia Prado, Bocage, Camões e muitos outros, com os acordes de Ricardo MacCord e Jacques Morelenbaum. E o encontro de Elisa Lucinda com os jovens atores, a platéia e moradores de Porangatu. Elisa é o calor da poesia emanando da vida do homem da rua. Ela vai para a rua, ela vai para a vida, para o encontro caloroso com o outro. E a sua poesia no palco é qualquer coisa de endoidecer. Elisa na paisagem da cidade era a força lapidada da poesia, passeando de bicicleta, entregue ao momento e à vida, fazendo compras nas lojas da Avenida Federal, respondendo com naturalidade que era sim a moça da novela que estava em Porangatu e soletrando Po -- ran -- ga -- tu com um gosto divertido de dizer onde ficava esta cidade de 40 mil habitantes, no Norte de Goiás, num telefonema com Zezé Polessa. Maria Adélia, depois de anos de cena cultural parisiense, circulando na Feira Coberta de Porangatu, comendo pastéis e não segurando o choro emocionado depois de uma conversa carinhosa com um morador. E cantando La Vien Rose para um pequeno grupo num momento de descontração, depois de sua oficina de presença cênica. Orlando Silva, na pele e voz de Tuca Andrada, sob a lona de um circo estrelado, magia pura. De reviver, mesmo sem ter vivido, um pouco o tempo do cantor das multidões. E Antônio Nóbrega, com sua arte, abandonando o palco e levando a sua ciranda para circular com o calor da platéia. Todo mundo na dança. E Hugo Rodas, o criativo diretor, botando pra quebrar com o seu estilo irreverente de fazer e ensinar teatro (ensina já fazendo o como é que se faz!), espetáculo subvertendo o olhar da rua, do quarteirão. E Denise Stoklos reencontrando as origens de sua arte no circo. E o Calendário de Pedra de Stocklos tira o fôlego da platéia. Belezas inesquecíveis, como o Voar (com Marcos Fayad), adaptação para o palco do próprio Fayad dos contos Voar e A Pedra, do Pequeno Livro do Cerrado, do médico e escritor Gil Perini. E aquela pedra que a personagem atira no rio é um diamante raro fazendo círculos na alma da gente. E por falar em Fayad, Cia Teatral Martim Cererê, bom de ver o Brasil de dentro no musical Puro Brasileiro, lá do fundo da memória do I TENPO. E as edições vão se embaralhando. De as Pedras, espetáculo de Tetê Caetano, seguindo as pedras da poesia de Cora Coralina, a Aninha da casa velha da ponte. E tome riso com Neversário do Nerso (Pedro Bismark) e Chico Anysio em Eu Conto, vocês cantam. Esses momentos afloram na memória. Impossível lembrar todos os espetáculos. Mas o melhor de tudo é que aconteceram em Porangatu, lá no Norte de Goiás. E tantos talentos no desfiar do TENPO com suas pedras fundamentais: Françoise Fourton, Stepan Nercenssian, Marcos Breda, Elisa Lucinda, Mona Magalhães, Carlos Nunes, Franco Pimentel, Marcos Fayad, Tetê Caetano, Nathália Timberg, Guido Campos, Emílio Orciolo Netto, Chico Anysio, Daniel Dantas, Danielle Winits, Fernanda Rodrigues, Bruno Mazzeo, Luiz Miranda, Ingrid Guimarães, Lívia Falcão, Pedro Bismark, Jorge de Carvalho, Hugo Rodas, Caio e Ricardo Blat, Rosi Campos, Cláudia Borioni, Gutti Fraga, Maria Adélia, Valéria Braga, Tuca Andrada e a consciência doendo por não citar centenas de outros que emprestaram a magia de seu talento ao sonho bandeirante de erguer mais um pequeno templo do teatro no interior do Brasil, a 1500 quilômetros do mar. E não posso esquecer Júlio Vilela e Ana Paula, que saíram de cena antes do tempo. Mas a magia continua ... Em a terra de João Bênnio, Cici Pinheiro e Otavinho Arantes, que os deuses do teatro sejam generosos com o futuro do TENPO. Número de frases: 92 Viajar sem precisar pagar por a hospedagem, dependendo da hospitalidade de anfitriões que querem conhecer novas pessoas. Pode parecer utópico, mas essa idéia já movimentou mais de 320.000 membros de 207 países através do Hospitality Club (HC), site criado na Alemanha que está no ar desde 2000 e já conta com mais de 14.000 membros no Brasil. Apesar de nem sempre funcionar perfeitamente, o site continua recebendo a confiança de seus usuários, cujo número é cada vez maior. O Hospitality Club surgiu de uma idéia simples. O alemão Veit Kühne, de 25 anos, fundou o site sem fins lucrativos em agosto de 2000, segundo ele, buscando «promover a paz e a compreensão intercultural através do intercâmbio de hospitalidade». Em maio de 2005, o site já contava com mais de 53.000 membros. Qualquer pessoa pode se tornar um membro, sem precisar pagar nenhuma taxa e sem ter obrigação de hospedar ninguém, podendo se dispor a mostrar sua cidade para os viajantes ou só receber alguém para uma refeição -- ou nem isso. Cada usuário pode especificar o que está disposto a oferecer na página de seu perfil no site. Para evitar incidentes negativos, o Hospitality Club conta com algumas medidas de segurança. Quando alguém pede para se hospedar na casa de outra pessoa, ele precisa fornecer seu nome completo e número de passaporte para o anfitrião, que pode conferir seus dados. Além disso, o recurso mais importante, segundo o fundador do site, é o espaço para comentários que existe no perfil de cada usuário. «Se uma pessoa já tem cinco comentários positivos, é improvável que você vá ter uma experiência desagradável», afirma Kühne. Além disso, é possível contatar as pessoas que já se hospedaram com essa pessoa para obter mais informações. Apesar de eficiente, usar o site pode ser trabalhoso. Moisés Ferber, estudante de Engenharia Elétrica da UFMG e membro do site desde janeiro de 2005, considera que uma grande desvantagem é a demora para conseguir uma resposta positiva. «Você nunca consegue uma casa para ficar se mandar apenas uma mensagem; normalmente, precisa mandar umas dez para começar e esperar um pouco, o que é um pouco frustrante». Para algumas cidades, o estudante diz já ter enviado mais de 50 mensagens antes de conseguir uma resposta. Quanto à sugestão do site de checar o passaporte dos outros membros, Moisés, que já recebeu quatro viajantes estrangeiros em Belo Horizonte, diz nunca tê-la seguido por considerar isso um procedimento «estranho». «Eu não sou policial pra virar e falar: passaporte, por favor -- obrigado». Moisés diz ter descoberto o Hospitality Club através de uma comunidade no site de relacionamentos Orkut e já ter se hospedado em mais de 15 casas através do clube, sem nunca ter tido nenhum problema relacionado a segurança. Quanto a suas experiências com o site nas duas viagens em que o usou, na Europa e no Canadá, ele tem uma visão otimista. «É interessante conhecer pessoas locais e passar um tempo na casa de elas. Além de companhia, você conhece melhor o povo do país», opina. No entanto, Moisés diz já ter tido alguns problemas. Ele desistiu de se hospedar na casa de um membro em Amsterdam por desconfiar da honestidade da pessoa após conversar com ele através de um programa de mensagens escritas, e em outra ocasião um usuário desistiu de hospedá-lo quando ele chegou a Berlim. «Quando isso aconteceu, liguei para uma alemã de outra cidade que eu tinha hospedado em minha casa e ela me indicou um amigo de ela. Nem pensei em albergues ou hotéis porque estava acontecendo a Copa do Mundo na Alemanha e tudo devia estar lotado», conta. Para ele, outra desvantagem de viajar usando o site é a falta de garantia que o viajante tem de saber se tudo vai dar certo ou não ao chegar à cidade, já que o usuário sempre depende completamente da pessoa que se dispôs a hospedá-lo. Mesmo assim, ele afirma que pretende sempre usar o site quando estiver viajando sozinho, fora do país, daqui para frente. «A única região do Brasil onde eu talvez usaria o Hospitality Club é o Sul. Acho que só tem graça usar o site com pessoas de outro país, senão distorce a idéia e acaba virando um hotel de graça». Moisés também diz considerar que no Brasil, assim como em outros países violentos, os usuários precisam escolher com ainda mais cuidado a casa onde vão se hospedar. Europa A grande maioria de usuários do Hospitality Club é da Europa, berço do site. Só a Alemanha, país de 82 milhões de habitantes, conta com um número de usuários mais de cinco vezes maior que o do Brasil e mais que duas vezes maior que os Estados Unidos. Svenja Rickert, alemã estudante de Estudos Latino-americanos e membro do site desde agosto de 2005, já usou o site em várias cidades européias, além do Rio de Janeiro, Salvador da Bahia e Belo Horizonte. Ela também diz nunca ter tido problemas recebendo hóspedes ou se hospedando na casa de outras pessoas. Embora a estudante também diga que pretende viajar sempre por o Hospitality Club daqui para frente, Svenja afirma que não procurou o site em sua viagem recente a Marrocos devido a problemas culturais. «Lá é diferente. Para uma mulher viajar por Marrocos por o Hospitality Club é muito difícil, porque todos os membros são homens e as mulheres participam muito pouca da vida fora de casa», explica. Para ela, o problema maior de viajar por o HC é estar sempre dependente da pessoa que a está hospedando. Apesar disso, considera que as vantagens do clube ultrapassam as desvantagens, por permitir viajar com pouco dinheiro e passar por uma cidade que não você não conhece como se estivesse visitando um amigo. Sebastien, estudante francês que usa o nome Seibu no Hospitality Club e prefere não publicar seu nome completo no site (o que é permitido por o sistema do HC), diz ter usado o Hospitality Club apenas uma vez numa viagem para a Rússia, em São Petersburgo e " Moscou. «Através do site, conheci três pessoas na Rússia que viraram meus amigos e que voltarei a visitar», diz o estudante, completando que apesar de só ter usado o site uma vez e nunca ter recebido ninguém em sua casa pretende continuar usando-o sempre e receber pessoas no futuro. «Além de garantir hospedagem de graça, o HC é uma grande oportunidade de intercâmbio cultural. A gente só precisa confiar nos outros usuários», diz. Outros clubes Apesar de ser o maior site desse estilo, o Hospitality Club não é o único programa de hospitalidade disponível na internet. O tradicional Servas, criado em 1949 na Dinamarca, possui pressupostos semelhantes: também não tem fins lucrativos nem cobra taxas de seus usuários, mas dispõe de um sistema muito mais rígido para quem quer se tornar membro. Quem pretende se tornar usuário do site precisa passar por um processo de entrevistas, e depois de ser aceito deve seguir uma série de regras e obrigações burocráticas. O site conta hoje com 13.000 membros. Outro site semelhante ao HC é o CouchSurfing, que já conta com mais de 300.000 membros de 220 países. O CouchSurfing possui algumas diferenças em suas funções e seu sistema de segurança, com a opção de se pagar uma taxa para se tornar um «usuário verificado» e aumentar a segurança, mas funciona com os mesmos fundamentos do Hospitality Club. Número de frases: 56 Além desses há outros sites de intercâmbio de hospitalidade, mundiais ou regionais, mas com números bem menores de usuários. Desconcertante! Talvez seja um bom adjetivo para descrever este pequeno notável. Uma narrativa diferente (outro adjetivo apropriado) que marca a estréia como escritor do overmano Eduardo Ferreira (blog Caximir Buquê). Eduardo é sócio do coletivo A Fabrika, músico e compositor do bando Caximir, já dirigiu teatro, vídeo e televisão. Poeta maldito transita feito cachorro louco por estas terras áridas do cerrado matogrossense. Eunóia vem abrindo portas para o jovem maduro de cabeça branca. Já está presente no Acre em dez Salas de Leitura, política pública de apoio a leitura. Foi lançado em Aracaju, na Poyesis, dia 07/11. E no dia 17/12/06 será lançado em Campo Grande. Segundo o escritor a intenção é noiar todo o Brasil. Invadir os recantos de paz e sossego e difundir a nóia, o escracho, o resto, o lixo da própria sociedade contemporânea. Para isso aceita convite para lançamento in loco (com apoio para a passagem, ehehe) ou virtual com bate papo on line. Recentemente, o jornalista Marinaldo Custódio, que é mestre em literatura brasileira por a Universidade Federal Fluminense -- UFF, escreveu uma resenha sobre o livro e eu como sou pequenininho nessa briga de cachorro grande trago abaixo o texto do Marinaldo que a meu ver abre o apetite para o livro. Um narrador feito cachorro louco Eduardo Ferreira está com livro na praça. O lançamento de eunóia aconteceu em setembro durante a Literamérica. Eduardo o fez por a afábrika, a «santa casa da criação» que ele e amigos tocam, para fazer publicidade, literatura, cinema, música e para agitar esses e outros tantos itens mais. Por sinal, afábrika lançou dois livros durante essa edição da grande feira de livros e culturas das Américas: o outro foi na verdade uma reedição, mas vejam bem que reedição: mui simplesmente o premiado e básico Deus de Caim, fruto bendito da primeira fase da carreira de Ricardo Guilherme Dicke. Mas cá estou para falar não do Ricardo, não das peripécias de Jônatas e Lázaro, mas das muitas nóias do Eduardo neste seu bolsilivro de 140 páginas, capa discreta e funcional (de André Balbino e Paola Zanetti) e linguagem vazada aos borbotões, em que não há vírgulas nem maiúsculas, mesmo para iniciar frases ou grafar nomes próprios. Mas o eu-protagonista às vezes interage como nos papos malcriados que trava com o amigo chico amorim. A linguagem de Eduardo Ferreira é, aliás, segundo o meu entendimento, um desses casos raros e sempre muito bem-vindo quando se trata de literatura: ela é literária por si mesma. De esse modo, o autor pode muito bem nos iludir, no bom sentido, fazendo com que a gente o leia com o maior prazer ainda que ele não tenha nada de relevante para nos contar. Em eunóia não é bem o caso, talvez aqui haja excessivamente o que contar, mas o plano do livro visa a uma contra-finalidade: ele gira infinitamente em círculos enganosos que não se atam a nenhuma esfera seguinte, e assim nunca chega -- porque não pretende mesmo chegar -- a lugar nenhum. O protagonista encontra-se preso, não se sabe se deliberadamente ou à força, num cubículo de um metro e meio quadrado, em Cuiabá, e está «girando num beco sem saída», conforme nos informa logo no primeiro parágrafo. Claro que tem a ver com o recurso chamado de «fluxo da consciência». Uma consciência noiada, de quem às vezes relata fatos sob o efeito de «uma droguinha qualquer», mas extremamente crítica e perpassada por o maldito mal-estar da civilização de que nos falava Freud. Tem pornografia, tem um ar beckettiano que aliás o próprio eu-narrador identifica, e há um disparar praticamente infinito de referências ao mundo das artes, da cultura, da filosofia. Mas há sobretudo uma ligação permanente com todo o universo da comunicação contemporânea, em particular a tevê e a internet. Cita-se Mallarmé, Beckett, Buñuel, a Bíblia, até Renato Teixeira e Almir Sater. Em um dado momento, a narrativa migra para o ensaio, quando se faz a defesa de um grande literato da terrinha: «por falar em esquecimento lembrei do cerimônias do esquecimento do escritor ricardo guilherme dicke um dos grandes da literatura brasileira desgraçadamente esquecido nessa terra de verdes matas mato grossenses». O autor me disse que a garotada, em especial a da periferia, está curtindo de montão o livro, por identificar em ele o seu mundo de nóias e de questionamento implacável da (des) ordem contemporânea. Disse, ainda, que uma amiga, professora da Unemat, pretende levar a obra ao conhecimento e ao trabalho em sala de aula com seus alunos. Isto deve provocar um abalo nos puristas, mas os partidários da abertura para toda forma de linguagem possível, os «Marcos Bagnos» da vida certamente vibrarão e hão de tirar daí material para infinitas dissertações, e teses, e ensaios de toda sorte. Afinal, vão travar contato com um personagem que, ao se definir, o faz misturando línguas e, até, um escorregão quanto à norma culta [à moda dos letristas de funk]: «sou poeira, sou nada. dizimado por as notícias que vêm por os telefone da vida. móvel. auto-suficiente como todos los otros seres que habitan deste lado del mundo. latino latrino ladino latindo por aí que nem cachorro louco». Número de frases: 43 Por que as pessoas mentem? Há 14 pessoas no meu MSN nesse momento. Três estão como ' online ', uma como ' ocupada ` e as outras 10 como ' ausentes '. É Óbvio que não estão, até porque eu falo e me respondem. Pra quê mentir? Pra Quê Mentir??? Ora bolas. Quando eu ponho ' ausente ', eu Tô ausente. As pessoas que põem ' ausente ` e Não Estão ausentes tiram a credibilidade do ato de botar ' ausente '. Por isso que eu deixo ' ausente ` e quando volto tem meia dúzia de janelas piscando. Porque vocês tiraram a credibilidade. Quando eu estiver ' ausente ', eu não vou estar na frente do computador. Simples. Se eu estiver no computador, mas sem vontade de falar com ninguém, eu ponho ' ocupado '. Mas não ' ausente '. Porque eu estou ali. Número de frases: 14 Localização: Rio Ariaú, aprox. 60 Km noroeste de Manaus. Traslado: 2 horas. Ocupação: 271 apartamentos dispostos em sete torres. Descrição: É o maior complexo hoteleiro de selva, suas torres de apartamentos são interligadas por passarelas, possui duas piscinas, duas torres de observação, auditório panorâmico para convenções com capacidade para 350 pessoas, dois restaurantes e 4 bares, salas de TV / Vídeo, salão de chá e praia fluvial em determinada época do ano (verão). Tive a oportunidade num evento da Abrace (Associação Brasileira DOS CRONOISTAS Desportivos), Cujos interesses eram debates a cerca do desporto no Brasil, onde todos os estados brasileiros estavam muito bem representados, inclusive o nordeste, com uma grande participação o estado de Sergipe. Roberto Silva (ACDS). Mas tivemos oportunidade de apreciar as belezas naturais de Manaus, e com certeza encantou e assustou aos visitantes, nós sergipanos. A princípio ficamos no melhor hotel da cidade: Hotel Tropical, encantador explorando suas características rústicas, históricas, mas com todo requinte da modernidade. Belíssimos dias as delegações passaram neste hotel, quartos que pareciam palácios reais, corredores longos e assustadores por a não visibilidade do seu fim, que parecia não existir, uma área de lazer esplendida com uma diversidade de atividades totalmente planejadas por o grupo de entretenimento do Hotel Tropical. Mas como toda viagem nós remota a surpresas, e diga-se de passagem para mim foi a melhor surpresas que Manaus poderia me apresentar. Conhecer Ariaú, um Hotel Selva bem no meio da mata e do rio. Estávamos na selva, mas numa selva luxuosa, deslumbrante, encantadora. «Fomos muito bem recepcionados com os visitantes locais, macaco, arara, papagaio, além dos nativos, E importante frisar que os nativos em sua grande maioria são cablocos ..." quando perguntei uma dançarina ...: Você é índia?, imediatamente ela me respondeu: ... «não sou cabloca ..." me veio muitas questionamentos étnicos, religiosos, filosóficos, regionais, culturais, políticos ... Mas o que isso me levaria a responder? Nada, não tenho o menor direito sobre este assunto, a não ser ouvir e ver ... Ariau me possibilitou refletir sobre muita coisa, é muito bom pensar, mas pensar de forma ampla, abrangente e chegar a conclusão que nada sabemos. A chegada em Ariaú foi longa, quase 2 horas de barco, desde o porto do hotel tropical até o hotel selva, foram momentos deslumbrantes com toda a natureza selvagem, água, e vegetação do rios. A água com uma aparência muito escura, não tínhamos visibilidades de peixes ou até a areia, bonito e assustador, misterioso ... chegamos ao hotel tudo parecia irreal, prédios, ruas, carrinhos sobre a água, mas como? era verdade e belíssimo. Muito bem recepcionados e distribuídos aos seus quartos. Todos os congressistas se manifestaram de forma estonteantes, de felicidade em sua grande maioria, mas também tiveram momentos apreensivos por alguns, como medo de água, de barco, de macaco, da malaria, de altura, de falta de segurança. Todos os medos estavam presentes, mas eu estava preparada para todos e com um entusiasmo de viver o momento mágico que nós foi ofertado. Tive muita sorte conheço pessoas maravilhosas que me ensinaram muito ..." para viver bem, basta ser feliz no que faz ..." eles que trabalham ali, são felizes. Passeios organizados por os guias eram muito esperados por todos, cada barco tem uma capacidade de oito passageiros, para maior segurança. Conhecemos toda área próxima e permitida, passeios do boto cor de rosa, da pesca á piranha, a procura ao Jacaré, as trilhas, cada passeio tem uma história engraçada, cheia de medos, e curiosidade. Foi preparado um Lual para nós, foi um espetáculo de magia, entre a dança, a música, as comidas, e principalmente a beleza natural ... A lua, nos presenteou com sua sombra, pois sua presença só estava distante, não visível, mistérios locais, mas as estrelas nos contemplaram, eram muitas, muitas como nunca as vi. Fim de lual, saída a barco novamente, mais 15 minutos para retornar ao hotel. O Tempo Poderia Parar, o céu nos pede poesia, música, dança, amor, desejo, mistério, além do medo dos quem o teme. Uma boate, é verdade teve uma boate, muito boa por sinal, dançar, brincar ... e o dia começou a amanhecer, pensei dormir para quê? Fui colocar um tênis e pegar minha câmera fotográfica, para registrar, quase tudo ... O amanhecer é belo, inspirador para o viver, o novo, para a descoberta ... os pássaros, a água escura, o céu, a natureza se revela em seus únicos momentos. Infelizmente Esta Viagem Não Foi Tão Longa, Chegou ao Fim, mas que bela despedida a mãe natureza nos revelará, foi uma chuva repentina, que perdurou tempo suficiente para amar aquele lugar e aquelas pessoas. A chuva escoria no meu rosto, com felicidade instantânea, não corri em momento algum queria me despedir daquele lugar da melhor forma possível, e aconteceu com a chuva, fomos abençoados, aproveitei cada gota que brotava daquele céu, me despedir querendo ficar, voltar ... Mas o barco já voltava, a cidade e mais surpresas, aquela chuvinha, tornou-se uma tempestade. A mãe natureza estava presente e enfervesida com nossa saída, com nossa despedida, foram momentos de dificuldades. Para todo o medo estava estampado nós corpos que transpareciam de diversas formas ... orações, sonos / roncos não verdadeiros, reflexões, lágrimas. Mãos, pernas agitadas, olhos vigilantes ... Sabe neste momento, não estou sendo hipócrita, mas pensei como fui feliz, e sabia com muita certeza que iríamos voltar a Aracaju, com nossas histórias. Aprendemos até no medo ... Obrigada mãe por o melhor presente de aniversário que já ganhei ... Número de frases: 58 Vale a pena vc conhecer Recebi esse e-mail num grupo do yahoo. Repassei para todos os amigos do orkut. Perfeito para todos aqueles que estão fulos de gente de mente pequena que usa a Bíblia pra justificar suas intolerâncias. Em um mundo cada vez mais fundamentalista como o nosso não há resposta melhor. «Carta aos Fundamentalistas E-mail enviado por um estudante de teologia de Boston para Laura Schlessinger, uma personalidade do rádio americano que distribui conselhos para pessoas que ligam para seu show. Recentemente ela disse que a homossexualidade é uma abominação de acordo com Levíticos 18:22 e não pode ser perdoada em qualquer circunstância. O texto abaixo é uma carta aberta para Dra. Laura, escrita por um cidadão americano e também disponibilizada na Internet». [ Por exemplo: http://www.estudos-biblicos.com/fundamen.html] -- «Cara Dra. Laura, Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso. Quando alguém tenta defender o homossexualismo, por exemplo, eu simplesmente o lembro que Levítico 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação. Fim do debate. Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como segui-las: a) Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que isso cria um odor agradável para o Senhor (Levítico 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia? b) Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido em Êxodo 21:7. Em a época atual, qual você acha que seria um preço justo por ela? c) Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto ela está em seu período de impureza menstrual (Levítico 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela? Eu tenho tentado, mas a maioria das mulheres toma isso como ofensa. d) Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses? e) Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo 35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo? f) Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma abominação (Levítico 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade. Eu não concordo. Você pode esclarecer esse ponto? g) Levíticos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100 %, ou pode-se dar um jeitinho? h) A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos 19:27. Como eles devem morrer? i) Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levítico 11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas? ( as bolas de futebol americano são feitas com pele de porco) j) Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levítico 19:19 plantando dois tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola Levítico 19:19, porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliester). Ele também tende a xingar e blasfemar muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para apedrejá-los (Levítico 24:10-16)? Nós não poderíamos simplesmente queimá-los numa cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas que mantêm relações sexuais com seu sogros (Levítico 20:14)? Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante que possa ajudar. Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e imutável. Número de frases: 54 Seu discípulo e fã ardoroso." Tropa de Elite tomou de assalto todas as mesas de conversa do país, com repercussões inclusive na grande mídia internacional antes mesmo de ser pirateado por lá. Entretanto, o debate em geral está focado nos apaixonados julgamentos das muitas denúncias formuladas por os autores do livro Elite da Tropa, que atrofiam ou hipertrofiam o filme dirigido por José Padilha e seu personagem capitão Nascimento, elevado à condição de herói nacional. Para decifrar um fenômeno que transcende a esfera artística para intervir no cotidiano real é preciso analisar seu discurso. O primeiro diferencial dessa ficção bastante baseada na realidade é sua importância temática. Abranger razoavelmente no espaço de um filme o problema número um da nação já é um enorme desafio. Adicionar com profundidade os problemas dois e três, e ainda manter-se dentro dos limites comerciais de duas horas de exibição, é virtualmente impossível. Primeiro, Tropa de Elite mapeia do soldado ao coronel, da polícia civil até a elite da polícia militar, a tragédia estrutural da insegurança pública brasileira. Segundo, flagra o problema da corrupção focado no nível das ruas de algumas favelas e bairros afluentes do Rio de Janeiro: comércio de drogas, compra de segurança polícial e também de sua tolerância com pequenos delitos. E terceiro, interrelaciona os atores da desigualdade social desde a escola primária do morro até a sala da faculdade de Direito mais cara da Zona Sul carioca. Esses panoramas, bastante ambiciosos, são traçados a partir das vivências do ex-capit ão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio Rodrigo Pimentel (que teve a iniciativa de procurar o diretor José Padilha e é co-autor dessa adaptação para o cinema), do ex-capit ão da Polícia Militar André Batista (também ex-Bope) e de Luiz Eduardo Soares, antropólogo, ex-secretário nacional de Segurança Pública com livros sobre o tema, registradas em Elite da Tropa. Contudo, autoridade, conhecimento e boa estruturação de um tema não bastam para capturar no ar um grande e difuso anseio comum (que é o combustível de qualquer sucesso) e respondê-lo. Para seduzir esse anseio, não bastam boas respostas formais. É preciso descobrir novas «janelas», pontos de observação inquietantemente diferentes de tudo aquilo que vinha sendo conversado por a sociedade. As novidades são basicamente três, com diferentes potenciais de polêmica. A menos explosiva decorre basicamente de uma descrição detalhada dos mecanismos de corrupção presentes desde as bases estratégicas da atuação policial, que é o levantamento estatístico. Segundo o filme, esse é deturpado por as altas patentes. É afirmado que a guerra do tráfico nas favelas do Rio seria mapeável se as estatísticas não fossem maquiadas. ( A repetida descontextualização de números e fatos na imprensa passa ao público a impressão de que o problema não teria solução. Fica implícito num debate dentro do filme o despreparo das reportagens ou a falta de coragem das redações.) Ainda nesse ponto, o filme acrescenta que os recursos para um controle eficiente do problema já existem, mas estão deslocados para a proteção de restaurantes, clubes e bordéis em troca de propina. A segunda é uma bofetada nos consumidores de drogas das classes média e alta, que estatisticamente são os mais volumosos, incluindo o público universitário, diretamente responsabilizados por a morte de crianças e outros inocentes nos morros em razão do tráfico de maconha, cocaína, etc.. Já foram feitas campanhas alertando que comprar objetos roubados é incentivar o roubo e essa ficha parece já ter caído pelo menos para a parte melhor educada dos consumidores brasileiros. A ficha no caso da compra de drogas ainda não caiu. A terceira é uma das cenas mais fortes do filme, quando uma manifestação por a paz é violentamente interrompida por o policial que cobra aos socos e pontapés de um estudante traficante a morte de outro policial. Os outros manifestantes também são acusados de hipocrisia quando o policial afirma que essas iniciativas só acontecem quando morre gente rica e quase nunca quando a vítima é um favelado, ainda menos um policial. Esse fato estatístico abre portas para outros questionamentos. A permissividade de ONGs que fazem pactos com traficantes para agir nos morros também é denunciada por quem arrisca a própria vida quando o lobo resolve retomar sua condição natural. Sem livrar a cara de ninguém, o filme nos convida a rever a demonização generalizada da polícia. As acusações de fascismo contra o filme partiram de artigos e entrevistas de integrantes das classes média e alta e em geral de orientação esquerdista (especialmente preocupados com a heroização do capitão Nascimento). Seria possível refutar os primeiros afirmando que reagem seguindo um espírito de corpo, mal-disfar çada solidariedade para com seus colegas e vizinhos, que seriam sim bem-intencionado em suas iniciativas em favor da paz e, se consumidores muito eventuais de um baseado ou uma carreirinha, incapazes de comprá-los de uma criança. A posição dos segundos poderia ser descreditada com o fato de que a redemocratização do Brasil trouxe um afrouxamento perigoso da segurança pública, uma tolerância que se poderia chamar de católica dos centro-esquerdistas, que temem ser confundidos com autoritários e são avessos à tarefa de impor a ordem. Essas respostas flagram raízes importantes do debate, mas têm o defeito de entrincheirar ainda mais o conflito de classes e o diálogo entre facções políticas, além de não responder à acusação inicial. O pivô das acusações de fascismo é a prática policial de espancamentos e formas rápidas de tortura para induzir confissões e delações no filme. Dentro do estado de direito, isso é evidentemente ilegal. Mas as situações vividas por o capitão Nascimento se passam num ambiente de ações e armas de guerra. Em esse caso, como diz a epígrafe do filme, o comportamento humano não responde ao caráter individual da pessoa em questão (ou seja, ao respeito que ela tenha por o estado de direito), mas à sua circunstância. E de fato a guerra não conhece cidadãos, mas apenas mortos ou sobreviventes. E aqui se revela um componente chave para a surpreendente lógica geral do filme: a tortura não está a serviço da corrupção, mas do combate a ela e ao tráfico. ( Há quem afirme ser insustentável a posição de Nascimento com o argumento de que a tortura está sempre a serviço da corrupção. Esse julgamento ignora uma vasta literatura de guerra.) Em o centro da guerra, mesmo que se deseje fugir de ela, é preciso escolher um lado. A não ser eventualmente para crianças e vovós, bandeiras brancas não são uma alternativa. O roteiro assinado por o ex-capit ão Rodrigo Pimentel, por Bráulio Mantovani (também roteirista de Cidade de Deus) e por o diretor José Padilha preencheu um requisito essencial de toda grande obra (que é criar um personagem mítico) e vem encabeçar um movimento (inclusive estético) de filmes dedicados ao maior problema brasileiro. Se um grande sucesso traduz o anseio de uma época, o capitão Nascimento é o emblema de um cansaço generalizado com o gangsterismo que ainda impera no comando do capitalismo brasileiro. mais de 230 anos depois, o fenômeno das românticas casacas azuis, que na Europa estilizavam os sofrimentos de jovens enamorados por o personagem Werther, é revivido aqui nas filas de moços ansiosos por uma farda militar preta e tatuagens de faca na caveira. Número de frases: 48 Se, como o personagem de Goethe, também encontrarem a morte, que pelo menos essa não venha por suicídio. Sempre que eu passava à frente da Catedral Metropolitana da Igreja Católica de Porto Alegre, à Praça Marechal Deodoro, que também chamam de Praça da Matriz, eu engasgava com uma coisa, um medo, um espanto, um terror, que não sabia bem o que era, desde pequenina. Minha avozinha Marinalva é muito católica. Reza pela manhã, todos os dias, não perde missa de domingo, confessa, comunga, foi batizada, fez primeira comunhão e crismada. Uma santa velhinha que já ganhou lugar no céu um milhão de vezes e ainda continua dando ajuda a uma porção de gente aqui na terra. Ela paga, também religiosamente, um dízimo na paróquia de ela, e ainda, aos 83 anos, repete que o que cura é a fé, não o pau da barca, distribuindo quando pode do pouco que ganha da pensão do falecido uns troquinhos e uns ranchinhos pequenos, até para a gente que não é da família, que ficou no Maranhão e no Piauí. Entrava na nave gigantesca da catedral meio que forçada, presa a mão de vovó, ela reverente, em sinal da cruz, que eu sempre chamei de cruzetinha, sei lá porque. Te o zoropeando desde o fim das Olimpíadas em que quase perdi os couros de fora e menos íntimos do corpo, aproveitando a sobrevida da alta repentina do dólar garantida por o capitalismo de estado (livre iniciativa com as burras de banco central é mingau). Dá uma corporação dessas pra mim também, mais um trezentos bilhões de dólares que eu também gerencio até quebrar). Dei-me aqui por conta da razão de meu medo ancestral. Sou um terço negra, um terço índia, um terço branquinha (dá quase um rosário) e, depois de Beijing, um tantinho china, que chinoca eu já era nos pampas farrapos (de pé: foi o vintê de setembroooooo, o precursooooor, da liberdadê!). Reparem só nas fotinhas da catedral. O projeto é do arquiteto João Batista Giovenale, responsável também por trabalhos executados em Roma, tais como a cripta da Igreja de Santa Cecília e o novo Museu Petriano. Linda abóbada, só menor que a de São Pedro, quase finalizada (obra nunca termina em igreja) com mais um milhão de reais de repasse por a Lei de Incentivo à Cultura no governo anterior a esse dessa senhora da casa grande. Tem chovido um eito na capital gaúcha e as hortas expostas estão uma lama só. Maravilhosos afrescos, colunas portentosas (é um portento de fortaleza essa palavrinha: um palavrão!, diga-se de passagem, de ida e volta). Tem um meu parente esmagado no pé de cada colunão de granito e ferro e cimento e fé desta catedral. Que minha vovó Marinalva não me ouça, mas eu acho que devia estar ali era uns dez papas em cada pilastra, pra que eles mostrassem de fato a força da cruz, porque quem botou os índios ali foi a espada e a pólvora. Tenho percebido que as catedrais aqui nos meus poucos passeios andaluzes e venezianos não explicitam a sanha do poder que assombrou nas terrinhas d' além mar. Mas não é por vergonha., como possa alguém pensar. Não, eles não têm vergonha de ostentação, eu já percebi. É apenas porque as catedrais daqui são mais antigas, de antes da imposição da fé de europeus aos naturais de outras terras. Vou reparar melhor pra ver se não tem alguma bruxa ou herege queimando no pé das colunas das catedrais européias. Número de frases: 25 Em a Praia do Futuro, bairro litorâneo da capital cearense, jovens da Escola Frei Tito de Alencar de Lima, se preparam para participar dos desfiles que comemoram a Independência do Brasil. Eles fazem parte da banda de fanfarra Frei Tito de Alencar. Em um evento simbólico, realizado na tarde de 25 de agosto, os 75 integrantes da banda receberam o novo fardamento que será utilizado oficialmente nas próximas apresentações do grupo. Em a ocasião, estavam presentes alguns membros da comunidade, além do Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Fortaleza, Dom José Luiz Ferreira Sales e do Padre Brendan Meagher, que abençoaram os estudantes. A presença dos religiosos tinha um significado especial. Um grupo de missionários irlandeses acreditou no potencial e no talento dos jovens e resolveu ajudá-los. A vice-diretora da escola, Maria Janaína do Nascimento Silva, elaborou um projeto e enviou aos missionários. Com a aprovação do projeto, os missionários doaram para a comunidade equipamentos para os integrantes da fanfarra e ainda para os 70 atletas que praticam caratê na área cedida por a escola. Os esportistas ganharam quimonos, luvas, faixas e protetores para tórax e boca. Já a fanfarra recebeu o fardamento oficial completo, além de tecidos para fazer roupas para os futuros integrantes da banda. Em março desse ano, os missionários enviaram representantes para entregar pessoalmente as doações para a comunidade. «Já tínhamos vários instrumentos musicais, mas com a doação pudemos ampliar o número de integrantes da fanfarra», conta Maria Neuma Muniz, diretora da escola. «Eles só fizeram uma exigência. A cor do uniforme tinha que ter laranja e preto, cores oficiais de Kilkenny, cidade natal dos missionários. Os uniformes ficaram lindos. Os alunos ficaram muito felizes quando viram», alegra-se. A fanfarra começou a ensaiar em 14 de abril de 2007 para se apresentar na festa de aniversário da escola, realizada no dia 9 de maio 2008. O grupo se empolgou e logo em seguida começou a fazer ensaios regulares. O regente é Diego de Oliveira, de 19 anos, autodidata e ex-integrante da banda de outra escola municipal, a Professor Luis Costa, que resolveu, de forma voluntária, dedicar-se à regência de outras fanfarras. O desempenho de Diego garantiu a ele uma bolsa de estudos num conservatório de música. «O novo uniforme significa muito para a gente. Quando começamos a ensaiar, a gente vinha com a roupa da farda. Para se apresentar, a gente ia com uma camiseta branca com a palavra ' paz ' estampada. Foi desse jeito que a gente se apresentou ano passado no desfile de 7 de setembro, na avenida Beira-mar. O fardamento vai dar uma nova cara ao grupo, além de melhorar ainda mais a auto-estima dos integrantes», revela Diego. Atualmente, a Banda Frei Tito de Alencar, é formada por 75 integrantes, de 9 a 16 anos, a maioria estudantes da própria escola e ensaia duas vezes por semana, nas noites de quarta e nas manhãs de sábado. «O grupo é aberto, e qualquer jovem da comunidade pode participar», convida a vice-diretora Janaína Silva. Em setembro, a banda foi convidada mais uma vez para participar do desfile oficial de 7 de Setembro, na avenida Beira Mar. Antes disso, haverá apresentações na Escola Recanto Psicopedagógico (dia 28), no Cies Aída Santos (dia 3) e no dia 5 de setembro, data que todas as escolas da comunidade vão desfilar na avenida Zezé Diogo. Edição: Cláudia Monteiro Número de frases: 31 Produção: Gustavo Vieira Ainda hoje, apesar de existirem leis que reprimam o preconceito e a intolerância religiosa, os umbandistas enfrentam grande preconceito por parte da sociedade em geral. Ter liberdade religiosa é ser respeitado como cidadão independentemente de sua religião, pois o Brasil constitucionalmente é um país laico, e se é laico para uns, deve ser para todos. Como podemos dizer que temos liberdade religiosa se, em muitos casos, nossos irmãos umbandistas não podem sequer revelar sua identidade religiosa. Como podemos dizer que temos liberdade religiosa se ainda sofremos na pele esse preconceito. Seja numa entrevista de emprego, no pedido de um lugar público para a realização de um evento umbandista, na cobertura que a mídia dá as ações tão positivas que a Umbanda promove, enfim, podemos até irmos aos nossos Templos e fazermos nosso trabalho lá. Mas que seja lá. Essa é a liberdade religiosa que nos é dada na maioria das vezes. O pior é que grande parte da responsabilidade por esse quadro que vivemos hoje, é nossa. Infelizmente essa é uma realidade. Não adianta colocarmos a culpa só na sociedade, na imprensa e em outros, nós temos grande responsabilidade por isso. Mas agora é hora de trabalharmos para mudarmos esse quadro, e uma das maneiras mais eficazes de mudarmos isso é nos expondo para a sociedade. Vamos nos organizar, sair as ruas em passeata, carreata, realizarmos eventos em locais públicos, exigir atenção da imprensa, responder Sou Umbandista quando questionado ... enfim, rompamos as paredes de nossos templos e vamos para a sociedade. Á partir do momento que nos expomos automaticamente já nos impomos. Umbanda Mostra a Sua Cara. É nessa diretriz que trabalhamos. Mas qual é a cara da Umbanda? É a sua, a minha, a de todos nós umbandistas. Mostre a sua cara. Lute por essa causa. A Umbanda te pede isso! A lei nos garante sim liberdade religiosa, mas daí até o fato de usufruirmos de ela, só depende de nós. Ricardo Barreira contato@umbandafest.com.br Umbanda FEST -- União. Esse é o caminho. Número de frases: 26 www.umbandafest.com.br Mensagem de Natal e Ano Novo ou dos Xokleng e aos Animês; de Turistas aos 90,7 %: a esculhambação do Brasil por os brasileiros Em estes últimos dias do ano de 2006, duas mensagens de indignação reincidiram em minhas caixas postais eletrônicas: uma sobre o tal filme Turistas (veja aqui um outro ponto de vista) que «conta a história de 6 jovens americanos que vêm ao Brasil de férias, tomam uma caipirinha com ' boa noite cinderela ', são assaltados, sequestrados, torturados e por fim têm os órgãos roubados por traficantes da indústria negra dos transplantes». A mensagem conclama os brasileiros a boicotar a tal película. Uma outra (com algumas variantes) convoca-nos a assinar petições de repúdio aos já famosos 90,7 % de aumento salarial auto-concedido aos nossos «carentes» parlamentares. São duas questões que mexem com a identidade nacional e que se agrupam. Mas não devem ser o nosso dever de casa. Explico: um «overmano», o Luca Maribondo, falou, sobre o movimento de boicote ao filme» Turistas: «Não precisa ninguém esculhambar a gente lá fora. Nós nos esculhambamos por aqui mesmo». Isto é que parece ser fundamental: uma reflexão acerca da verdade proferida por este lúcido overmano. Afinal, quem coloca deputados no congresso? Quem fornece rico conteúdo para que os jornais internacionais alardeiem os assaltos, os sequestros e o caos do deficiente visual espaço aéreo brasileiro? Não estou querendo dizer com isso que tais mensagens sejam reclames ilícitos. Muito pelo contrário. Acho porém que são tentáculos de um problema maior: a esculhambação do Brasil por o próprio brasileiro. Em o dia em que verdadeiramente tomarmos consciência e passarmos a exercer o papel que cada um de nós tem na desconstrução desta cultura auto-destrutiva, não haverá espaço para locupletação de deputado nem pra filme gringo de quinta categoria, com visão distorcida sobre o nosso país. Nós somos um povo extraordinário. De os Xokleng aos Animês existe um imenso rizoma que liga as incontáveis caras e culturas de uma gente predestinada ao bem e ao sucesso. Eu acredito piamente nisto e tenho muito orgulho de ser brasileiro! Que não só nestes natal e ano novo o espírito de solidariedade e de amor ao próximo nos contagie. Número de frases: 25 Que sejamos, a cada momento, brasileiros dignos de não serem depreciados nem enganados por ninguém! Macuca X trem-bala Não é por acaso que escrevi o livro «Terceiro Apito». Mais uma vez o trem se faz notícia. Primeiro a inauguração, por a ministra do Turismo, Marta Suplicy, do trem de luxo Great Brazil Express (precisava ter o nome em inglês?) em abril, que faz a ligação entre Ponta Grossa e Cascavel. Depois a ministra Dilma Rousself anuncia a negociação de parceria com os E.U.A. para a construção de uma ferrovia bioceânica, ligando o Atlântico ao Pacífico. O trecho brasileiro compreenderia a malha entre a cidade de Paranaguá (PR) e Maracaju (MS). Aproveitando tais trilhos a ministra ainda anuncia a licitação, para fevereiro de 2009, da construção do trem-bala que ligará São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas. O projeto faz parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). As novidades ferroviárias não param por ai. Ainda esta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Contagem (MG) para fazer a entrega da nova locomotiva da empresa Ge, primeira de grande porte a ser produzida no Brasil e afirmou que a empresa «marcou um gol extraordinário acreditando no potencial ferroviário brasileiro». Otimista, nosso governante ainda diz que o país poderá tornar-se um dos maiores exportadores mundiais. Mas se salva ao afirmar que para que isso aconteça, «precisamos de meios de transporte mais baratos». Toda essa «viagem» destaca a importância do transporte ferroviário e que o Brasil em breve voltará a «andar nos trilhos». Então, permito-me, como cidadã apaixonada por trens e suas nostálgicas lembranças, questionar quando teremos o prazer de ouvir novamente o apito do trem aqui em nosso Vale do Itajaí. Tendo em vista as recentes notícias dos vagões da economia e da política, provado está que este «senhor de ferro» tem eficácia, segurança, utilidade e é um meio de transporte moderno, de primeiro mundo, com retorno econômico e turístico comprovado em países Europeus. Mais do que isso, a Associação de Preservação e Conservação das Ferrovias em Santa Catarina tem sofrido os percalços do descaso e da falta de consciência histórica por parte de alguns menos apaixonados por as locomotivas. Então, se provado está que é uma alternativa moderna e econômica interessando comercial e turisticamente, por que não pedir aos governantes catarinenses que recriem os trilhos no caminho já existente e permitam a circulação da centenária «Macuca» (e outras preciosidades) nos embalando no seu doce chacoalhar, para que possamos cheirar a fumaça do passado em presente, renovando nosso turismo tão regado a tantos chopes? E ouvir novamente o chamado ... PIUÍIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII! Fátima Venutti Número de frases: 22 Observação: As sessões de exibição são gratuitas. Construída no período de 1894 a 1897 para ser a nova sede da capital do Estado, substituindo Ouro Preto, Belo Horizonte foi concebida a partir de um planejamento rigoroso nos moldes dos principais centros urbanos do ocidente. Uma cidade moderna, essa era sua pretensão. Ousada em seu traçado urbano, a cidade buscou propor um novo modo de vida sem transgredir a ordem e estranhamente, sem romper com a tradição. O efêmero guiou o sentimento das pessoas da época. Porém, também foi expresso a ordenação da cidade para colocar todos os indivíduos em seus devidos lugares. Seja as áreas residenciais, comerciais ou industriais não se constituíram até 1920 por sí só, mas por direção de seus planejadores. Não é difícil de notar que os reflexos do espírito de «ordem e progresso» idealizado na República prevalece desde a construção da cidade até os dias de hoje. Analisando os projetos de ' revitalização ` de pontos ' estratégicos ' da cidade, percebemos uma pretensão de reorganizar sistematicamente a cidade, excluindo os que se encontram a margem da sociedade e dos bons costumes. Um exemplo são os projetos de revitalização da Praça Sete, que tentaram reorganizar o espaço delimitando os lugares de passagem, de permanência e eliminando os espaços ocupados por os jogadores de dama (que foram os primeiros a reclamarem do ultimo projeto de revitalização da praça) ou dos pedintes que já eram quase moradores da praça. O espírito de busca por o progresso se tornou um estigma para a cidade centenária. Cem anos depois, a revitalização que não transgride o conservadorismo, e mantém cada classe em seu devido lugar se mostra presente no projeto de revitalização da cidade. A Praça Sete é o exemplo do poder da elite sobre a cidade na tentativa de implantar a sua própria ordem e seu próprio progresso. Número de frases: 13 Ponto comum para o povo e suas diferentes manifestações, o poder político também interfere nos aspectos urbanísticos para jogar a sujeira para debaixo do tapete, acabando com as manifestações, com os pregadores fanáticos, com os jogadores de xadrez, desempregados e com os moradores de rua e pedintes que ali encontravam também moradia e dinheiro fácil. A capoeira e sua musicalidade A musicalidade na capoeira tem papel fundamental, pois de ela se desencadeia boa parte do processo ritualístico da capoeira, ou seja, é a partir da musicalidade que os movimentos são executados, os instrumentos são tocados e as cantigas entoadas. Portanto, toda a contribuição da musicalidade no processo pedagógico infantil poderá facilmente ser transportado para a intervenção da capoeira neste contexto, haja vista que a mesma é condição fundamental para a prática da capoeira. O ritmo, elemento potencialmente explorado na musicalidade da capoeira, tem o poder gerador de impulso e movimento no espaço, desenvolvendo a motricidade e a percepção sensorial, além de induzir estados afetivos, contribuindo para algumas aquisições, tais como: Linguagem, leitura, escrita e lógica matemática. Sobre cirandas e danças cantadas, segundo Lê Boulch (1982, p. 182) " A associação do canto e do movimento permite a criança sentir a identidade rítmica, ligando os movimentos do corpo e os sons musicais. Estes sons musicais cantados, emitidos por as crianças e ligados a própria respiração, não têm o caráter agressivo que pode revestir um tema musical no qual a criança deve adaptar-se aos exercícios de sincronização sensório-motora. Esta atividade representa um estágio prévio ao ajustamento e um suporte musical imposto à criança». O trabalho musical da capoeira proporciona o ajustamento rítmico da criança correlacionando a noções de tempo-espaço, o que favorece um maior equilíbrio emocional da mesma, melhorando as relações com os outros colegas a partir do respeito do ritmo do outro e de si mesmo. Em a utilização dos instrumentos da capoeira (berimbau, pandeiro, atabaque e outros) podemos estar dando significativa contribuição no que tange ao desenvolvimento da coordenação motora fina, pois a partir do manuseio desses instrumentos a criança perceberá as implicações de gestos menores (finos), relacionados aos objetos, o que possibilitará uma melhoria no processo de escrita, de entre outros em que esta habilidade é necessária. Ainda podemos perceber o importante papel dos instrumentos musicais, como objeto material, no trabalho com crianças a partir do segundo ano de idade, pois segundo Lê Boulch (1982, p. 39) " A investigação no mundo dos objetos traduz-se por uma atividade percepto-motora que vai permitir a aquisição rápida das práxis, assegurando o desenvolvimento da função de ajustamento, dando um suporte à organização perceptiva. Por outro lado, a ação sobre o objeto permite a criança experimentar o peso e a resistência do real». Um outro aspecto importante sobre a musicalidade é que a capoeira tem, tradicionalmente, sua difusão pautada na oralidade, que tem nas cantigas um mecanismo importante de desenvolvimento fisiológico da fala, bem como de transmissão da cultura de geração para geração, ou seja, as letras das cantigas são carregadas de ditos populares e parábolas que traduzem posturas morais, cívicas e afetivas, que quando bem orientadas por uma intenção pedagógica crítica e com nexos na totalidade, podem servir de estratégia na construção de uma sociedade mais justa e humana. O «movimento» e a capoeira O «movimento» tem papel de grande relevância no desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos, sendo fundamental na construção da cultura corporal humana. Por tudo isso, é papel preponderante das instituições de Educação Infantil criar possibilidades materiais, estruturais e pedagógicas para a construção de um universo que possibilite o trato com situações-problema no campo do movimento, pois desta forma serão potencializadas as suas propriedades benéficas na edificação de melhorias no campo afetivo, motor, cognitivo e social. Por em sua essência, a capoeira ser uma atividade eminentemente prática, enfocando no jogo da roda de capoeira um de seus momentos mais sublimes e característicos, e por este jogo se consolidar a partir de movimentos corporais, a capoeira funciona como importante agente facilitador no trato com o movimento na Educação Infantil. Através da atividade com a capoeira a criança poderá facilmente familiarizar-se com a imagem do próprio corpo, pois os exercícios que permeiam a prática da capoeira envolvem todas as partes do corpo, inclusive contando com a aquisição de gestos que são associados a uma cadência rítmica em dinâmicas que fortalecem a integração dos envolvidos, ajudando no amadurecimento das noções tempo-espaço, além de desenvolver, cada vez mais, uma atitude de interesse e cuidado com o próprio corpo. A capoeira auxiliará na ampliação das diferentes qualidades físicas e dinâmicas do movimento, pois são freqüentes as situações em que os alunos são convidados a simularem movimentos que começarão de naturais, a exemplo da ginga, que nada mais é do que uma variação do ato de andar, até situações de maior elaboração técnica, melhorando a condição do andar, correr, pular, trepar, equilibrar, rolar, além de trabalhar força, velocidade, resistência e flexibilidade, aliado a um suporte lúdico, que é fator preponderante para a prática da capoeira e nas intervenções pedagógicas com crianças de 0 a 6 anos. Segundo Rego (1968, p. 359) que compartilha da idéia de que luta e brincadeira são componentes da capoeira: «primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram para os instantes de folga e divertirem a si e os demais nas festas de largo, sem, contudo deixar de utilizá-la como luta no momento preciso para sua defesa». O ritual da capoeira e as relações interpessoais Em este item temos um elo fundamental entre toda a parte técnica descrita acima e as possibilidades da capoeira enquanto ferramenta pedagógica da classe operária, pois, estas relações interpessoais, no ambiente da capoeira, são regadas por símbolos ritualísticos que reforçam a «produção» coletiva para o coletivo, com uma relação de ensino-aprendizagem horizontalizada que só funciona a partir da participação democrática dos envolvidos na ação pedagógica, ou seja, quando abordada nesta perspectiva, a capoeira estará firmando as bases da revolução social. Segundo Pistrak (2000): Se quisermos desenvolver a vida coletiva, os restaurantes coletivos, os clubes, etc, devemos formar entre os jovens não somente a aptidão para este tipo de vida, mas também a necessidade de viver e trabalhar coletivamente, na base da ajuda mútua, sem constrangimentos recíprocos. Este é o único terreno que podemos escolher se quisermos obter resultados positivos na luta que se trava por um novo modo de vida. ( p. 54) Uma das grandes lições que a capoeira encerra em seu arcabouço ritualístico é a questão do «aprender fazendo» atrelado à contextualização do conteúdo, ou seja, esta herança que herdamos da sociedade africana nos ensina que não devemos dicotomizar a ação prática do aprendizado teórico, isto é, boa parte de tudo que aprendemos na capoeira acontece por uma experimentação prática, que geralmente é catalisada por um ambiente que mescla indivíduos com diferentes experiências, mediados por a intervenção do mestre para a produção de um bem comum a todos. O ensino da capoeira aponta para uma relação democrática entre educandos e educadores, fortalecendo a zona de desenvolvimento proximal, apresentada por Rêgo (1995, p. 73) como «à distância entre aquilo que ele é capaz de fazer de forma autônoma (nível de desenvolvimento real) e aquilo que ela realiza em colaboração com os outros elementos do seu grupo social (nível de desenvolvimento potencial) caracterizando aquilo que Vygotsky chamou de» zona de desenvolvimento proximal ou potencial "». Ainda segundo Rego (1995, p. 74) «o aprendizado é o responsável por criar a zona de desenvolvimento proximal na medida em que, em interação com outras pessoas, a criança é capaz de colocar em movimento vários processos de desenvolvimento que, sem a ajuda externa, seriam impossíveis de ocorrer». É importante lembrar que todo este processo de construção do conhecimento está sempre permeado, na capoeira, por uma forte relação de respeito mútuo e parceria, pois o conceito de coletividade (" irmandade ") prevalece durante todo o ritual da capoeira, apesar da mesma ser freqüentemente confundida com o jogo atlético e competitivo, negando o objetivo natural desta arte que é «jogar com» e não contra o outro, ratificando a unidade da dupla sob o signo de parceria, que prevalece também de entre os outros componentes da roda. Em o trabalho de capoeira com crianças pequenas, podemos perceber nitidamente uma melhoria nas relações interpessoais, ajudando desde crianças muito introspectivas até aquelas com problemas de hiperatividade, equilibrando as relações e promovendo uma sensível melhora da auto-estima, pois a constante necessidade de realização coletiva garantida por o ritual da capoeira possibilita o exercício de se lidar com o outro e suas diferenças, fato este que se firma como importante mecanismo para resolução de possíveis situações emergentes das relações sociais cotidianas, contribuindo com a formação de indivíduos mais críticos, criativos e autônomos. Considerações Finais A partir da análise deste estudo, podemos inferir que a capoeira possui elementos que potencializam ações para a construção de uma pedagogia social e, conseqüentemente, de um modelo escolar infantil revolucionário, com nexos na totalidade que responderá aos problemas da classe operária buscando as raízes das injustiças sociais, garantindo pensar e fazer uma escola que seja educadora do povo superando a visão de que a escola é apenas um lugar de ensino, ou de estudo dos conteúdos, por mais revolucionários que eles sejam, pois segundo Pistrak (2000, p. 11)» ... é preciso passar do ensino à educação, dos programas aos planos de vida. Ou seja, em sua proposta pedagógica a escola somente atinge os objetivos de educação do povo, se consegue interligar os diversos aspectos da vida das pessoas ...». Sendo a capoeira, um reflexo micro da sociedade, com possibilidades reais de transformação, proponho a capoeirização da escola, que em esfera macro representará a proposta de educação com base nos interesses da classe operária. Uma outra questão que precisamos ressaltar sobre a capoeira, é que a mesma em seu ritual poderá desenvolver o processo de auto-organiza ção dos educandos como base no desenvolvimento pedagógico da escola estimulando a cooperação infantil para a edificação de uma participação igualmente consciente e ativa. Referências Bibliográficas Abreu, Frede. O Barracão do Mestre Waldemar. Salvador: Organização Zarabatana, 2003. Almeida, Raimundo C. A. de. Bimba: perfil do mestre. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1982. Brasil. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: 1998. BOULCH, Lê. O Desenvolvimento Psicomotor: do nascimento até 6 anos. 7ª ed. 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José de Alencar Soares é mais conhecido como Alencar 7 Cordas, um apelido que mistura seu nome de batismo e o instrumento que escolheu para tocar, o violão de 7 cordas. E a sabedoria prática, como no caso da cobra, foi o que o levou à música, já que no sertão não havia métodos e professores. Ainda criança começou a se interessar por a música. «Eu escutava Nelson Gonçalves e conseguia perceber perfeitamente o violão. Entendia a complexidade daquilo e ficava tentando reproduzir». E em 1967, aos 16 anos, foi tocar guitarra numa banda de baile, Os Cometas. Em o repertório, MPB, serestas, bossa-nova, músicas estrangeiras e, claro, muita Jovem Guarda. Estranho para quem veio se destacar no choro? «Eu não sou chorão. Sou músico», esclarece. «Adoro Jovem Guarda. Ainda sei tocar tudo daquela época. Esses dias estava reescutando os discos de Roberto Carlos e percebi mais uma vez a riqueza harmônica daquelas músicas», revela. A música tornou-se um trabalho, mas o pai de Alencar não enxergava ali um bom futuro para o filho. E, em 1971, mandou-o embora de casa. Podia escolher: São Paulo, Rio ou Brasília. Veio parar na capital, ao contrário de um conterrâneo famoso, que foi para a " Cidade Maravilhosa. «Em aquela época, as pessoas saíam de Ipu para trabalhar em outras cidades. Hoje em dia, saem para serem bandidos. O Bem-Te-Vi (ex-chefe do tráfico na Rocinha, morto por policiais) era de lá." Bizarro. Seus primeiros anos em Brasília não foram muito produtivos musicalmente. Dedicou-se mais ao trabalho de funcionário público. E só arranhava o violão eventualmente, quando conseguia um emprestado. Tanto que sua volta definitiva ao instrumento só ocorreu em 1977, quando acompanhou um amigo numa roda de samba feita por funcionários do Senado. Nada mais normal, caso ela não estivesse acontecendo durante o horário de expediente. Esse amigo era Veloso, bandolinista que tocou com uma lenda do instrumento, Jacob do Bandolim. E a partir dessa e de outras rodas formou-se o embrião do Clube do Choro, fundado poucos meses depois na casa da flautista Odete Ernest Dias. Desde então não parou mais. Já reconhecido como grande instrumentista, acompanhou nomes como Sílvio Caldas, Moreira da Silva, Paulo Vanzolini, Nelson Cavaquinho, Turíbio Santos e Cartola, de quem tem boas recordações. «Uma vez, depois de um show, ficamos bebendo até as 4 da manhã. Os músicos na cerveja e o Cartola no Conhaque Presidente, que ele adorava." Foi só depois que começou os estudos formais de música. «Tudo o que eu tocava era de ouvido e de intuição. Não sabia nada de teoria. Para mim, uma semicolcheia era um espermatozóide». E parece que ele aprendeu bem. Tão bem que virou professor. E há anos aperfeiçoa seus estudos e métodos de harmonias, já conhecidos e utilizados em outras cidades, como Rio e São Paulo. Chegou até a dar umas dicas para Raphael Rabello. Perguntei se ele tinha sido professor do grande violonista. «Nunca. Ele só teve dois professores. Eu troquei umas informações com ele. Mas nós éramos grandes amigos». Os olhos de Alencar brilham ao falar sobre os métodos harmônicos que vem desenvolvendo. Parece entrar num mundo próprio, uma espécie de Matrix musical. Esquece que está no meio de uma entrevista e passa uns 30 minutos explicando as possíveis modulações de cada tom. Fico olhando para o aluno de ele, que está ao meu lado e gentilmente cedeu sua aula para que continuássemos o papo. E, como se fôssemos puxados para o universo alencariano, tudo aquilo que ele falava também passou a ser muito claro para nós dois. Além desses estudos, nos últimos anos Alencar retomou suas atividades no renascido Clube do Choro, agora sob o comando de Reco do Bandolim. E chegou a fundar a Escola de Choro Raphael Rabello. Mas agora anda meio afastado de lá. «Por quê?», pergunto. Ele me olha sorrindo e responde: «Porque a vida da gente é como couro de cobra. Vive mudando». Número de frases: 59 «Imperativos modernos " Após um longo dia de trabalho, chego em casa à noite e ligo a TV em busca de notícias ou algo interessante para me distrair um pouco. Então, mais uma vez me deparo com o familiar tema de abertura da novela «Belíssima». A o ouvi-lo, me dou conta de que vejo esta mesma chamada desde o início do ano, o que significa que o mesmo programa televisivo encontra-se «no ar» há seis meses. Ou seja, já fazem seis meses que grande parte da população brasileira ouve, toda semana, a música sobre a qual pretendo me ocupar aqui: «De o It», de Lenine -- que começa da seguinte maneira: «Tá cansada, senta Se acredita, tenta Se tá frio, esquenta Se tá fora, entra Se pediu, agüenta " Como diria o próprio Lenine «esta é uma música toda feita de imperativos» o que, acrescento eu, reflete o «espírito da época» em que vivemos onde o fazer muitas coisas (estudar, trabalhar, estudar línguas, especializar, fazer pós-gradu ção, limpar a casa, cuidar dos filhos, etc.) é um imperativo que extrapola a nossa vontade pessoal, já que se constitui como «regra do jogo» da vida moderna (ou pós-moderna, " as you like it ...). Uma vez, eu estava participando de um estudo bíblico, onde se realizou uma interessante reflexão sobre a passagem, narrada por a Bíblia, quando Cristo visita as irmãs Marta e Maria. Marta, possivelmente pega de surpresa por a inesperada e ilustre visita, corre de um lado para outro procurando, provavelmente, providenciar aqueles cuidados que representariam uma boa expressão da sua hospitalidade. Já Maria não faz nada além de ficar contemplando as palavras que Jesus está-lhe dizendo. A irmã, Marta, fica então indignada com a irmã que não lhe ajuda a servir e coloca a questão diante de Cristo. Que vos parece? Não seria justo que Maria ajudasse sua irmã com o trabalho de servir o visitante? ... Pois, curiosamente, Cristo responde à indignação de Marta da seguinte maneira: «Marta, Marta, estás ansiosa e pertubada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada." [ Lucas 10: 41-42] Após a exposição do texto bíblico, o assunto foi colocado em discusão, e a opinião que me pareceu mais honesta foi a de uma mulher que reconheceu que ela só conseguia se identificar com Marta: a irmã superativa e ansiosa. Mais do que um aspecto da sua personalidade, o que aquela mulher expressava era a maneira como todos nós vivemos hoje em dia: ansiosos e pertudados, preocupados com muitas coisas e sem tempo para nos ocupar com a «boa parte». A o cantar «De o It», Lenine traz à tona este tema -- que as vezes, por estarmos correndo atrás de tantas coisas nem paramos pra pensar. No entanto, seria esta música um elogio desta filosofia pragmática e desses imperativos modernos? ... Penso que não e, para isso, baseio-me não somente na letra da canção, que não terei espaço para aqui me deter, como, também, na música que a segue no disco de que faz parte. Em este disco, «In Cité», a música» De o It «é seguida por» Vivo». E, esta última canção, possui uma letra e um ritmo totalmente oposto ao de «De o It» (lento e com poucos acordes) parecendo, assim, sugerir que, em meio ao agito da vida moderna, é preciso também nos aquietarmos e refletirmos sobre a nossa vida e sobre a nossa condição humana no mundo e sociedade em que vivemos. Número de frases: 32 Você já se imaginou indo ao shopping completamente nu? Situação extremamente engraçada e constrangedora, sobretudo se lembrarmos em que sociedade vivemos hoje. A exposição ao ridículo seria inevitável, e os comentários a respeito de sua sanidade, também. O mais engraçado desta situação totalmente hipotética e irreal é a sua verossimilhança com os tempos atuais. Seria assim que um jovem comum se sentiria ao entrar nesse mesmo shopping, sem uma marca famosa de roupa, sem um tênis da moda. Claro que, felizmente, ainda estou exagerando na comparação. Mas entre seus semelhantes, o jovem em questão se sentiria deslocado e discriminado. A partir desse raciocínio, uma pergunta vem à tona: a pessoa poderia ter o direito de escolher o que vestir, sem imposição de marcas ou modas, dando assim margem à sua manifestação individual? Em uma sociedade que primasse por o indivíduo, certamente. Só que, na realidade, o que vemos é um mundo dominado por o consumo, por uma avalanche de «modelos» e «padrões» contribuindo para uma homogeinação impraticável e extremamente nociva para a humanidade. Os efeitos dessa cultura de massa já podem ser vistas ao redor do globo. A falta de respeito com as diferenças, a busca por a perfeição, condição humanamente impossível, nos torna casa vez mais escravos de armadilhas publicitárias, revoluções tecnológicas e tudo mais que é usado para nos afastar da condição de seres críticos, pensantes e diferentes por natureza. O princípio da dominação a partir da popularização da cultura de massa é claramente evidenciada através da televisão. Agindo como meio de comunicação predominante, falsamente rotulado como democrático e considerado o maior formador de opinião, a televisão promove e acentua a cada dia o conceito de homogeinação das mais diversas camadas sociais, contribuindo para uma massa acéfala e idiotizada, facilmente manipulável por elites unicamente interessadas em explorar de todas as formas possíveis um mercado consumidor ávido por produtos e necessidades impostas de forma ditatorial e indiscriminada. A gravidade desse tema e a preocupação com as conseqüências que já acontecem e ainda acontecerão são discutidas em várias correntes ao redor do mundo. O consenso geral é que o mundo está as portas de um esgotamento. A própria natureza já começa a dar o seu recado, através da poluição evidenciada em nossos mares, desmatamentos de nossas matas, derretimento das calotas polares, tornando visível o aquecimento global. Todos esses crimes ambientais só comprovam o erro do consumo desenfreado, da exploração sem limites a qual estamos sendo submetidos. A grande pergunta que se faz a partir desses fatos e evidências é se existe alguma forma de reverter esse quadro pessimista e alarmante, uma vez que já estamos tão acostumados com esse modo de vida. A resposta se encontra no próprio mecanismo nocivo que nos imputa tanto mal. A televisão, a publicidade e as empresas responsáveis por a disseminação de padrões poderiam fazer o caminho inverso: o de reeducação das massas, resgate de valores anteriormente esquecidos, e a criação de uma consciência coletiva de preservação do meio ambiente. Número de frases: 23 Entrei na galeria esperando encontrar uma exposição de fotografias como todas as outras: fotos em grande formato, emolduradas, colocadas nas paredes de forma organizada e legível. De cara o que vi não tem nada a ver com fotografia: um espelho multifacetado que me refletiu em centenas de recortes verticais. Logo atrás, uma bicicleta suspensa no ar sobre uma cadeira. Fotografia? Cadê? Aos poucos, depois de passado o choque de ver minha imagem recortada em pedaços por os espelhos, percebo que o fotógrafo que elaborou essa exposição está falando de algo que vai muito além do simples registro mecânico ou digital da imagem. Sebastião Barbosa fala da imagem em si, ele ultrapassa o simples recorte do tempo e do espaço que é o ofício do fotógrafo. Em a exposição FotografiaViva, que comemora os 50 anos de atuação como profissional na área, Sebastião Barbosa nos brinda com uma mostra generosa do seu talento e da radicalidade das suas pesquisas na construção da imagem fotográfica. Para Sebastião, qualquer coisa pode ser a ferramenta ideal para a captura da imagem. De uma sofisticada câmera 6X6 até uma latinha de leite em pó, passando por os celulares e as câmeras descartáveis, tudo é instrumento para ele brincar de construir imagens. Seu fascínio por a imagem e por os meios da produzirem fica claro quando vejo as câmeras construídas por ele. São câmeras feitas de madeira, de latas de vários tamanhos e formatos, de cones de metal e até uma radical câmera feita com um barril de 200 litros, desses de petróleo, que ele carrega por a cidade num carrinho de mão. O resultado são fotografias belíssimas, capturadas com paciência de alquimista e com sensibilidade de artista. Com seu cronômetro digital, Sebastião espera pacientemente que a luz vire imagem latente, e que a química transforme a imagem latente em fotografia. O resultado das imagens feitas por as câmeras de Sebastião é uma beleza clássica, na composição e nas cores. Uma construção muito bem elaborada, que nos dá a impressão de que ele domina todo o processo. E domina mesmo: embora as fotografias feitas com as suas câmeras sejam difíceis de se «dominar» (as câmeras não possuem visor nem lentes, nem fotômetro), fica claro que o processo de feitura das fotos foi totalmente racional e fruto de pesquisa intensa sobre o processo de captura da luz por meio da câmara escura. Além das fotografias pinhole feitas por essas câmeras fantásticas, Sebastião nos expõe alguns dos artifícios usados para composição de suas fotos. Objetos de cenografia e de criação de efeitos visuais (como os espelhos espalhados por a galeria) deixam de ser brinquedinhos de ele para se transformarem em nossos. Porque na exposição Fotografiaviva é permitido fotografar. E foi inevitável eu me encantar com essa possibilidade e sair clicando tudo que vi. Todo o encanto que a exposição me trouxe foi muito ampliado quando parei para ver um vídeo com o próprio Sebastião falando do seu processo de criação e do Parque Temático Vivafotografia, criado por ele em Petrópolis. Um Parque Temático de Fotografia! É a Disneylândia de todo fotógrafo! O parque fica no Vale das Videiras, em Petrópolis -- RJ. Conta com biblioteca especializada, laboratório P&B, três estúdios, vários cenários artificiais e naturais e suítes para hóspedes com café da manhã. Não pude ir lá, infelizmente, que a minha estadia no Rio foi curta e as chuvas não animavam uma subida às serras de Petrópolis. Mas ir ao Parque Temático do Sebastião já está anotado no meu caderninho de projetos de vida! A exposição de Sebastião Barbosa saiu do espaço Caixa Cultural dia 7 de janeiro. Mas suas lições de fotografia e de vida estão guardadas com mim. Já valeu minha viagem ao Rio. Número de frases: 33 Não se sabe com exatidão quais os fundadores do antigo Cerradinho, humilde e rústica povoação, construída às margens do Ribeirão São Domingos, afluente do Rio Turvo. Essa denominação foi mais tarde substituída por Vila Adolfo e posteriormente por Catanduva. A tradição local favoreceu de certa forma, a hipótese de que o início de sua história está ligada à mudança de uma família de nome Figueiredo. Segundo esta, José Lourenço Dias Figueiredo vindo de Minas Gerais, teria comprado propriedades nessa região no ano de 1850. Em 1889, seu filho, Joaquim Figueiredo, tomando posse das terras, iniciou as plantações e o cultivo, quando então se construiu a primeira casa de telha. Em contraposição, há outra corrente que atribuiu a glória da fundação da cidade a Antônio Maximiano Rodrigues, natural de Conceição do Rio Verde, no estado de Minas Gerais, que teria adquirido terras na região de Catanduva, por volta de 1850, e em elas se estabelecido em 1892, quando fez a doação de 10 alqueires da sua propriedade para patrimônio da Paróquia de São Domingos, batizada com o nome de Cerradinho por se encontrarem tais terras encravadas na Fazenda de São Domingos do Cerradinho. Outros, ainda optam por o nome de Domingos Borges da Costa (conhecido por " Minguta ") que se radicou nas cercanias da povoação nascente à beira de um riacho, hoje denominado Minguta. A Imperial Estrada do Taboado que de Jaboticabal aprofundava por o alto sertão, passando por Monte Alto, Vista Alegre, Palmares (antigo Cordão Escuro), Tabapuã e Rio Preto até atingir o Porto de Taboado no Rio Paraná, era a principal via de penetração naquela época, absorvendo todo o movimento comercial da região. Por força desse determinismo geográfico, Cerradinho tornou-se tributário de Cordão Escuro. Mas quando a ferrovia veio abrir novos rumos à civilização, a insignificante povoação de Cerradinho tomou novo alento, transferindo para si o eixo comercial de toda a região. Antes mesmo da chegada da Estrada de Ferro Araraquara em 1910, foi criado o Distrito de Paz no Município de São José do Rio Preto, com a denominação de Vila Adolfo, em homenagem a um político de Rio Preto, Coronel Adolfo. Desde então, o progresso urbano do Distrito foi extremamente rápido, prendendo-se ao desenvolvimento econômico da fértil zona rural. O cultivo do café, predominantemente adotado, a penetração ferroviária, de par com a assistência médica hospitalar e educacional com a qual a florescente vila ia sendo dotada, constituíram fatores decisivos para a evolução progressiva da área urbana e consequentemente do Município. Origem do Nome Catanduva é uma palavra de origem indígena que significa «mato cerrado, espesso e impróprio para a produção agrícola», o que na prática não se confirmou. Aniversário e Emancipação Política O Aniversário de Catanduva é comemorado em 14 de abril e sua emancipação política ocorreu nesta data, no ano de 1918. Fonte: Número de frases: 18 Biblioteca Municipal de Catanduva Incrível notar como a boa-fé devotada ao «Bom Selvagem» e aos nossos matos tropicais serve à perpetuação de uma mentalidade colonial e escravocrata, travestida de bom-mocismo. Claro, ruralistas devem ser punidos, porque quem sai por aí matando 21 índios deve pagar por isso; é ponto pacífico. Mas, se o chamado primeiro mundo está assistindo com tamanha atenção ao desenrolar do conflito na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, deveríamos estar de olhos igualmente abertos para os reais interesses dessas ONGs fajutas criadas por estrangeiros em nome da solidariedade. Por que será que a maior parte da mídia está mostrando o episódio como uma mera luta por as terras, restrita a rizicultores versus índios? Só mesmo sendo muito ingênuo para acreditar nessa balela, coadunada com outra grande balela, extremamente explorada por a mídia, chamada sustentabilidade, e que, na maioria dos casos, não passa de um negócio superlucrativo pintado de verde (para as empresas jornalísticas, inclusive. Toda grande empresa de mídia tem um projetinho verde na manga). Já passou da hora de dissiparmos essa bruma romântica pseudo-antropológica em torno do índio. Essa imagem, usurpada por ONGs gringas, só arrasta nossa dependência em todos os sentidos. Francamente, esse discurso com sotaque forte e branco em nada redimiria a culpa de vossos / nossos ancestrais por a carnificina do passado. Depois de terem matado quase todos eles, de terem promovido altos genocídios, guerras locais e mundiais, agora querem nos ensinar respeito às minorias. A História e a Geografia nos apontam com extrema clareza que países europeus e sua falta de recursos naturais e de espaço só podem estar muito mais interessados no potencial das já comprovadas riquezas minerais da Raposa Serra do Sol -- mais abundantes do que árvores, bichos e índios do local, diga-se de passagem. Até porque, primeiromundistas sempre se colocaram no direito de se meter em questões alheias. Em o passado, com a intenção escancarada de explorar e enriquecer, agora a pretexto de ajuda humanitária a estes selvagens e pobres além-mar, que somos nós, nessa América «Latrina», tal e qual aqueles árabes brutos e desalmados precisam da despretensiosa intercessão norte-americano, para cuidar do próprio petróleo, não é? Mas gringos gostam também de árvore, bicho, índio, futebol, samba, caipirinha, mulata. Então, senhores, mantenhamos a diplomacia, porque eles têm direito a isso, claro. Somos fruto da heterogenia (da qual tenho imenso orgulho) e o intercâmbio cultural, o diálogo, a liberdade de ir e vir são sempre, sempre positivos. ( Pena que, no momento, ainda que tenhamos comprovada relação interpessoal com cidadãos de lá, não podemos querer atravessar o Atlântico para morar, estudar lá, sequer passar, porque todos somos muambeiros e prostitutas e precisamos ser salvos). É ilegítimo o direito desses rizicultores pleitearem terra para plantar? Aliás, quem são essas pessoas? Roraimenses ou gente da aristocracia sulista desbravando novas terras? Por que famílias de não-índios que vivem no local há três gerações terão de ser expulsos? Por que cada índio da Raposa Serra do Sol precisa de uma área equivalente a 80 quarteirões? São questões que agora a justiça brasileira julga e cujo resultado esperamos procedente, assim como gostaríamos de ver esclarecido o caso do empresário sueco, presidente da ONG Cool Earth, que conseguiu comprar -- legalmente!-- 169 mil hectares da floresta amazônica. Esse sujeito, que atende por o nome de Johan Eliasch, disse numa palestra para gringos que a Amazônia poderia ser comprada por a bagatela de 50 milhões de dólares, conforme mostrado no programa Fantástico, da TV Globo, de 01/06/2008, e depois suitado em outros meios. Curiosamente, este mesmo Johan Eliasch foi capa da Isto É Dinheiro, em 19/09/2006, numa matéria muitíssimo generosa à sua pessoa, com clichês do nível " a região vem sendo devastada por queimadas, por a derrubada indiscriminada de árvores e por a poluição de seus rios. Mas o milionário sueco Johan Eliasch, de 44 anos, quer mudar essa situação para melhor. Eliasch está à frente de uma verdadeira cruzada para salvar a Amazônia». Somente 35 ONGs estrangeiras têm autorização para atuar na Amazônia. No entanto, centenas de elas (algumas fontes citam milhares) atuam ilegalmente na região, onde vivem cerca de 400 mil índios. Será que no nosso Nordeste seco tem tanta ONG per capita assim? Claro que não. A resposta é fácil de deduzir por os dados do Exército Brasileiro, que calculou, em 1986, mais de 15 mil toneladas de ouro puro potencialmente extraíveis da Raposa Serra do Sol, que na época valeriam 200 bilhões de dólares e equivaleriam a 32 % das reservas medidas do planeta. Dados do INCRA publicados por o jornal Folha de S. Paulo em 07/07/2008, apontam que estrangeiros detêm 5,5 milhões de hectares em todo o Brasil. Este total é equivalente a 55 % da Amazônia. O senhor Eliasch, que pede dinheiro a boas almas caridosas por a internet para salvar a Amazônia, tem cidadania britânica e também é assessor do primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, para assuntos ambientais. Por que ele não está preocupado com os 10,5 % das emissões de poluentes do Reino Unido? A União Européia é o terceiro maior emissor de gás carbônico do mundo. O Brasil responde por 3 % das emissões globais. Os Eua contribuem com cerca de 40 %. Portanto, esse discursinho verde-solidário não cola. Não bastassem esses desmandos, o governo federal acabou de decretar a criação do Fundo Amazônia -- aberto a estrangeiros -- para financiar atividades sustentáveis. Claro, a União, coitada, não arrecada o suficiente para bancar a demanda de nossas próprias necessidades. Somos contraditoriamente uma nação pobre, precisamos de ajuda, o que significa dizer que não podemos tomar conta do nosso próprio nariz. Trocando em miúdos, vamos continuar com o rabo preso. Porque uma contribuiçãozinha aqui e outra ali, ajuda, né, dotô? O brasileiro, simpático, hospitaleiro, metido a esperto, baba-ovo em tudo que é estrangeiro -- come até batata frita entubada importada --, se lambuza na generosidade imediata. ( Inclusive empresas jornalísticas querem tirar uma casquinha com seus projetinhos verdes). Tal e qual os índios deslumbrados por espelhinhos trazidos por os brancos, há mais de quinhentos anos. O resultado, só o tempo dirá. A culpa é de eles, então? ... Ó Tupã, rogai por nós! A culpa é nossa, porque somos dependentes da comiseração alheia. A culpa é da nossa falta de educação e primarismo, do nosso provincianismo deslumbrado, porque estamos fazendo jus ao adjetivo pré-concebido que define o brasileiro e sua ancestralidade indígena: indolente. Somos muitos em muito espaço, pacíficos, subservientes e desorientados, e, nessa fácil equação, noves fora: a gente tá aí, facinho. Mercado fácil. Presa fácil. Bons selvagens virando comida de velhas raposas. Enfim, passarão outros quinhentos anos e o Brasil ainda será o Éden Tropical. Apenas para alguns Eliaschs, evidentemente. Vamos seguindo sob a tutela do bom-mocismo, dos valorosos investimentos gringos, em todos os setores, de maneira tão automática que nem percebemos mais. Há um complô para tomar a Amazônia? Claro que não (preciso esclarecer que tenho pavor de comunistas. Eles comem criancinha). A agressividade dos gringos tem um porquê, convenhamos, plausível. Eles jogam profissionalmente, são as leis de mercado, esse é o mundo adulto, neném! Temos de dar o braço a torcer, ou os dois braços e as duas pernas a torcer, não sejamos tão sentimentais e não guardemos rancores porque teremos de sentar no próprio rabo. Eles sabem ver além do horizonte. Então tá. Deixa quieto, que é mais fácil. Número de frases: 73 Como diria Macunaíma, ai que pregui ... Em a sala estão: o DJ Luciano, integrante dos grupos Vibração Positiva e Aliados M.A. (Mangabeira Atitude), Rosana Silva, esposa do DJ Luciano e editora do site hip hop sim sinhô!, Clariana Sandy, Integrante do Fórum Permanente Hip Hop JP, Alê da Guerra Santa, na ocasião o mais antigo intergrante do movimento hip hop da cidade e Marcos Paulo, Mapa, rapper, integrante do grupo Código Vermelho. O tom é de reunião política, «precisamos nos organizar, batalhar por melhores condições para a gente, pra podermos ministrar oficinas», declara Clariana. O Luciano que é um militante ... péra, militante? «Sim, hoje eu me considero um militante do movimento hip hop em João Pessoa. Eu trabalho para que o movimento cresça, para que a gente tenha melhores condições de trabalho, mais espaços para tocar, pra promover o hip hop, pra formar as próximas gerações. Eu pego meu equipamento e vou lá ensinar pra eles, não fico esperando atitude do governo ou qualquer outra iniciativa de quem quer que seja», exalta o DJ. «O problema é que a gente não tem muita ferramenta, é uma grande batalha. Esse site aí a gente banca. Eu que desenvolvo, fiz um curso de html básico e estou estudando para evoluir e desenvolver um site melhor com mais tecnologia, design melhor. Mas é o que temos e estamos batalhando com o que temos», afirma Rosana. «Acho que um dos grandes problemas aqui em relação a espaço nos meios culturais é que a gente rala muito mais para conseguir alguns espaços e outra parcela dos artistas está sempre aí sendo beneficiada por as leis de incentivo cultural. Por aqui, agora que o Ministério da Cultura está subsidiando um ponto de cultura nas ONGs Sociedade Cultural Posse Nova República e Projeto RC Cultura de Rua, onde serão ministrados oficinas de break, discotecagem, graffiti, informática, eletrônica, capoeira e fabricação de instrumentos», protesta Mapa. Jet Set O tom é diferente de anos atrás, quando, nos anos 80, grupos de dança se reuniam em frente a antiga loja Jet Set, que os contratava para atrair clientes. «Em aquela época ninguém falava em hip hop, o break era uma moda. Foi lá que conheci Walmir e Dinarte», lembra Alê. Walmir Vaz, 39, é o ex-Mago Watt e atual Vant, nome trazido da língua portuguesa original que denomina a proa do barco, nome artístico assumido por ele. Criador do grupo de dança Electro ainda na década de 80." Tínhamos um grupo e o ponto de encontro era o Clube Internacional em Cruz das Armas», hoje um dos poucos lugares onde rolam bailes funk na cidade. Dinarte se tornou depois o MC Dinarte, que, em dupla com o MC Paulinho, era integrante do grupo Funk Peso Brasil, responsável por o primeiro vinil do estilo no estado. «Depois dessa fase, já na década de 90 eu me juntei ao Fábio e ao Alex para criar a Tribo Éthnos, um projeto maior que unia outras vertentes da arte, elementos mais diversos como elementos tribais, música erudita, música eletrônica, world music, era um projeto cultural muito avançado pra João Pessoa», afirma. «A Tribo e o Jampa Rap, que era um grupo que eu tinha com eu irmão, posso dizer que foram os primeiros grupos de rap de João Pessoa», lembra Alê. Funk Peso Brasil Autor do hit «O melô do SETUSA», um funkão no estilo desses funks cariocas, com uma batida que na época era conhecida como miami bass, tocou muito na rádio mas provocou um racha. O Funk Peso tocava nos bailes funk e junto com essa vertente começaram a pipocar as guangues de bairro nos famosos bailes do Astréa, Internacional e Centro Comunitário de Mangabeira. Walmir e Alê tinham idéia de um outro projeto que caminhava para o rap. O aspecto comercial do funk acabou afastando Dinarte dos outros companheiros, que seguiu com o Funk Peso e gravou mais dois vinis e hoje trabalha criando trilhas e jingles para publicidade. Dinarte ainda chegou a participar do primeiro CD da Tribo Éthnos fazendo scratches e recentemente produziu o primeiro CD solo de Alê da Guerra Santa, que espera um selo para lançá-lo. Tribo " Éthnos «Para formar a Tribo recrutamos músicos e gravamos uma demo. Até então a Tribo era mais música. Em 1994, nós tínhamos uma demo gravada conseguimos aprovar um projeto para gravação do nosso primeiro «CD -- Conflict das Mareés». Foi uma loucura (risos)! Um sofrimento da porra!», reclama Vant. Nós não tínhamos equipamentos para ensaiar, as famílias não entendiam e por isso não ajudavam, foi uma época difícil. Nos instalamos no Estúdio Pró-Sound em Campina Grande e mesmo com todas as deficiências técnicas conseguimos gravar o que seria o primeiro CD de Hip Hop da Paraíba. Engraçado é que ele foi mais bem recebido entre os roqueiros do que entre os integrantes do hip hop mais conservadores. Era um projeto ousado, realizado com dificuldade, mas a idéia estava lá. Em este CD não conseguimos utilizar todos os elementos que queríamos, mas boa parte das idéias iniciais está citada ali», justifica. Em o segundo «CD»,» Medroavon», nós conseguimos unir e executar melhor todas as idéias do projeto. Colocamos música erudita, cordas, usamos samples de etnias, acho que fomos mais felizes nessa empreitada. Muito embora ache que, até hoje, pagamos um preço alto demais por a ousadia do projeto. Muita gente não compreende», lamenta. Caravana Hip Hop 2000 parece que foi um divisor de águas para a cena hip hop da Paraíba. Nomes como Cassiano Pedra, da Associação Cultura e Posse Nova República, que está ligado ao MOHHB -- Movimento Hip Hop Organizado do Brasil, Kalyne Lima, DJ Dal, Rato, Metralha, Mauro Black Side, Emerson, Cristiano, Nivaldo, o próprio DJ Luciano, consideram esse o melhor momento vivido por eles no movimento. «A Caravana Hip Hop era muito legal, levávamos os pick-ups, o som, para os bairros colocávamos nos points, ligava o som e mandava a rima e a dança. A caravana durou dois anos», lamenta. Em essa época a gente abre parêntese para uma vertente muito nordestina no rap, que o Realidade Crua fazia unindo sons regionais ao rap. Outra vertente curiosa por essas bandas é o rap gospel, comandado por o hoje evangélico DJ Mauro Black Side, com os grupos Celebração da Palavra e Mensageiros da Paz. Mv Bill em João Pessoa Lembra que falei do tom político? Pois é, a passagem do rapper carioca Mv Bill por aqui deixou esse rastro no movimento. Organização, reinvidincação, lutar por direitos, encontrar alternativas, esse é o tom do discurso hoje, muito embora ... «olha eu fiquei puto com a mídia daqui na pssagem do Mv Bill por aqui. Os repórteres, vieram ao fórum onde ele estava presente somente pra falar com ele, ignorou totalmente o que estava sendo discutido, as nossas propostas, ignorou completamente todo mundo do movimento de João Pessoa que estava lá», lamenta Alê. Mas a verdade é que esse tom político do rastro do Mv Bill por aqui tem sido mantido. «Acho que hoje ao lado do rap, graffiti e break, a organização em torno das reinvidicações sociais é o quarto elemento do hip hop no país», afirma Clariana. Atualmente o DJ Luciano e sua esposa Rosana começam a organizar eventos, promover oficinas e agilizar contatos, através do projeto HIP HOP Sim Sinhô! O Fórum Permanente HIP HOP JP começa a questionar posicionamentos e gerar ações. Os pontos de cultura foram se instalado e começam a funcionar com oficinas e cursos. «Estamos tentando nos organizar aos poucos, comprando equipamentos, montando espaços e reunindo forças», conclui» Mapa. «Quero te mostrar uma coisa que acho que é única no Brasil. Está lá na parede do Fórum Criminal de Mangabeira», bairro onde tem o maior número de grupos de rap em João Pessoa, comemora Mapa. Passamos em frente ao Fórum Criminal de Mangabeira e estava lá grafitado no muro -- Paz! DJ Luciano e Rosana Silva www.hiphopsimsinho.com contato: contato@hiphopsimsinho.com Sociedade Cultural Posse Nova República -- Ponto de Cultura Núcleo I, Rua Marinalvo da Silva Rirgilo nº 1 -- Comunidade Nova República -- Cassiano Pedra e Liziê Mangueira -- Informações: (83) 8807-2249 Projeto RC Cultura de Rua -- Ponto de Cultura Núcleo II, Quadra 97, Lote 27 -- Conjunto Cidade Verde, Mangabeira VIII -- Leonardo e Kalyne Lima -- Informações: Número de frases: 73 (83) 8846-8788 ou 9101-6594 Por Rodrigo Capella * O brasileiro lê, em média, um livro por mês. Não se trata de uma estatística precisa, mas sim de um número calculado após muita observação. Justificando: o tempo para lazer é relativamente curto e as pessoas têm poucos minutos para se dedicar á leitura e absorver os conhecimentos escritos, que podem ir desde a uma palavra nova até curiosidades sobre a vida de personagem históricos. Em essa pressa do mundo globalizado, não é raro, portanto, encontramos homens e mulheres olhando fixamente para o livro enquanto se penduram num ônibus lotado ou devorarem páginas e páginas na sala de espera do dentista ou ainda sentarem no banco da praça e dedicarem algum tempo do almoço para virar duas páginas e interpretar algumas figuras. O esforço é louvável, embora insuficiente. Em a Europa, lê-se três livros por mês, totalizando trinta e seis ao ano, um número bem expressivo perto da marca brasileira que, quando muito, chega aos doze anuais. Por que o brasileiro lê pouco? A preguiça é o principal fator e, normalmente, vem associada ao desinteresse por a leitura. Como desculpa, dizem que o tempo para lazer é curto. A população e os críticos literários assimilaram essa informação com tal força e sustentam como se ela fosse verdadeira, enganando a todos e estagnando um processo vicioso. Está na hora de uma verdadeira revolução no mundo das letras, com propostas e metas bem definidas. O livro deve estar sempre ao lado do abajur, na mesa da sala, do lado do computador. Ele, em poucas palavras, deve ser incorporado ao cotidiano dos brasileiros. Motivo: a leitura estimula a imaginação, auxilia o homem a buscar soluções para os problemas do mundo e, de quebra, constrói um país de leitores, característica que, infelizmente, anda muito em falta por aqui e dificilmente será mudada. A preguiça agradece e parece estar enraizada no povo brasileiro, que sonha em ser primeiro mundo, mas esquece que a transformação começa no primeiro parágrafo de um livro. (*) Rodrigo Capella é escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles «Como mimar seu cão»,» Transroca, o navio proibido», que será adaptado para os cinemas, e «Poesia não vende». Número de frases: 21 Informações: www.rodrigocapella.com.br Dizem que os sonhos não têm tamanho, mas alguns podem ser medidos. O sonho de pelo menos 50 artistas tocantinenses cabe direitinho dentro de um CD, ou melhor, de quatro. O pacote lançado no final do ano passado, e que fez a alegria de músicos e compositores da terra Tocantins, é resultado do Edital de Gravação de Música, lançado em abril de 2004, por o governo do Estado. São quatro discos divididos nas coletâneas Autoral, Música Popular, Corais e Instrumental e Folclórica e Tradicional do Tocantins. Todos foram produzidos por o músico goiano Luiz Chaffin. Apesar de prontos os discos ainda não estão à venda -- por enquanto eles são doados por a Fundação Cultural do Tocantins aos músicos e instituições, mas em breve devem estar disponíveis no mercado. A distribuição é bastante aguardada. Com ritmos bem tradicionais, ao som do tambor e na marcação das palmas, o disco Coletânea folclórica do Tocantins é resultado do 4º Festival de Música Folclórica de Santa Rosa, e reúne canções que marcam as festas populares das folias de Reis e do Divino Espírito Santo, celebradas nas cidades de Natividade, Santa Rosa, Monte do Carmo, entre outras, no interior tocantinense. De as rodas de sússia -- herança de ritmos africanos; jiquitaia -- a chamada «dança da formiga», ritmo frenético que imita um ataque de formigas de fogo; catira e tambor surgiram outras das composições que estão na obra. As músicas falam do cotidiano da vida simples na roça. Em a instrumental Pagode da terra, primeira faixa do disco, a viola caipira de Valdonês Batista e Rosemiro Ferreira dita a toada. Já em Recanto onde eu nasci (Manoel Sales) canta-se a saudade da terra distante. Os animais da região também são lembrados nas composições populares. Xô, pinhém fala do ataque de um gavião a um filhote da mesma espécie, chamado pinhém: «Xô pinhém, xô gavião, ô peneira no chão gavião», dizem os versos. A escolha das músicas foi supervisionada por ninguém menos que o maestro Júlio Medaglia, um dos jurados do festival realizado em maio de 2004. «O tamanho da cultura não se mede com centímetro, e sim por o valor artístico, por a profundidade do significado, que às vezes uma manifestação simplérrima de um violeiro analfabeto anônimo pode ser maior do que uma grande sinfonia numa sala de concerto», disse. Música popular Teimosia (Quésia Carvalho) é um forró que desafia a peleja da vida para se manter a alegria de seguir. Com essa temática a canção venceu o I Festival Tocantins de Música Popular e emplacou a primeira faixa do disco homônimo. Os 12 primeiros colocados no festival, realizado em agosto de 2004, estão nesta coletânea. Em o seu ecletismo, o compacto engloba um grande caldeirão de ritmos. Como nas músicas O poeta (Eduardo Meira); Camaleão (Luis Teixeira); Quebradeiras de coco (Paulo Albuquerque/Paulo Marinho); Pureza de nós dois (Mara Rita/Everton dos Andes/Antônio Solé); Tetê (Everton dos Andes); João Menino (Diego Lennyn); Topeira (Gustavo Tiné); Cartas (Rodrigo Ferreira); Meu lugar (Tomé Celestino Neto); Homenagem ao Palmas Futebol e Regatas; e Cantiga sem peleja (Arion Reis/Vanusa Soares). Resultado da pluralidade musical dos artistas tocantinenses, com o rock, o forró, o reggae, o samba-canção, a bossa nova, convivendo lado a lado e disputando em qualidade. Música negra O disco autoral contém as composições de Everton dos Andes, um dos artistas mais consistentes do Estado. O CD Música negra, de Andes, obteve da Fundação Cultural cerca de 500 cópias que foram lançadas no ano passado. O disco mescla a base regional da arte de Andes com influências pop / reggae internacionais. A personalidade do cantor é bastante visível em seu disco. Andes é compositor e promotor cultural. Formado em história por a Universidade Federal do Tocantins (UFT), é incansável pesquisador do folclore regional, tendo desenvolvido o projeto Suciologia, um neologismo para designar o estudo da sússia e outros ritmos tocantinenses. O músico lançou seu CD na caravana do Projeto Pixinguinha formada por Miúcha e o Quarteto Maogani, que percorreu o Nordeste em junho do ano passado. E concorreu ao edital com o pseudônimo «Patativa do Cerrado», uma referência ao repentista nordestino. A curadoria que avaliou os trabalhos para os CDs autorais e Coletânea Corais e Instrumentais foi formada por o maestro Júlio Medaglia, o consultor e coordenador do projeto Brasil Central Stanley Whibbe e o jornalista e editor-chefe do Jornal do Tocantins, José Sebastião Pinheiro. E o resultado final é um disco de muito bom gosto, com elementos do reisado, da congada, do coco, do pop e do reggae. É também uma viagem por os ritmos do Tocantins, além de ser uma boa dica para ouvir e dançar. As músicas Tetê, Sussa tambor, Revolução negra (Soul do gueto) são as melhores para afastar o sofá da sala e cair na folia. Instrumental e corais «Foi um presente». Foi nesse clima que o produtor e músico Luiz Chaffin encarou a sua tarefa de conclusão dos CDs contemplados. Chaffin disse não ter encontrado muitos problemas nas gravações. «Muitos artistas bons e boas composições», definiu. Em a Coletânea Instrumental e Coral as seis faixas trazem um pouco da produção erudita do Estado. O músico Almeron Rodrigues do Nascimento gravou a maioria de elas: Amoroso, Bola sete e " Lembrança de Gurupi. «Toquei violão e cavaquinho. Foi excelente!», afirmou o músico. Serviço: O que: Coletâneas Autoral, Música Popular, Corais e Instrumental e folclórica e tradicional do Tocantins. Quantidade: Número de frases: 64 4 CDs Mentor da Monstro Discos, Márcio Jr. lança com parceiros revista voltada aos quadrinhos e às artes gráficas marginais O vocalista e líder da banda roqueira Mechanics, Marcio Jr. navega por outras praias que nem todos os freqüentadores da cena roqueira goiana conhecem. É o mentor por trás do festival de cinema trash, que entrará na terceira edição este ano. Em novembro passado, em parceria com os irmãos designers Thiago e Elizeu Xavier, Marcio Jr. lançou a revista hq-experimental Voodoo!, com segunda edição prevista para segundo semestre deste ano. O primeiro número inaugurou a editora Livros Voodoo numa festa que teve muita discotecagem e, claro, rock ´ n roll. Uma das bandas que agitaram a noite de lançamento da revista no Imagine Lan House, casa de shows de Goiânia, foi a Mechanics, do próprio Márcio Jr. A Voodoo! nasceu ganhando reconhecimento em publicações e eventos do gênero no país. A publicação aposta numa linguagem própria para os quadrinhos, mas também fotografia, cinema e artes gráficas e visuais em geral. Tudo devotado ao abandonado, marginal, como é a música que Marcio Jr. cultiva há dez anos na produtora e selo " Monstro Discos. «É a ode ao ódio», brinca ele sobre o perfil editorial da revista. A matéria de capa do primeiro número faz uma homenagem a Fábio Zimbres, um dos melhores quadrinistas alternativos do país. São de ele a capa, contra-capa e a entrevista principal. A estréia de Voodoo! conta ainda com material «caliente» do experiente quadrinista francês Moebius. Sob o mote «A fêmea ideal é aquela que desenvolve sua masculinidade», a revista reproduz uma seqüência esfuziante de quatro das 22 serigrafias do» velho hippie " publicadas no início da década de 90 no exterior (e nunca lançadas no Brasil). Em Moebius, a mulher toma pé da relação sexual sobre um manto de deusa convictamente pervertida. Completam a pauta de Voodoo! nº 1 um ensaio sobre a «fotógrafa que não é fotógrafa» norte-americano Cyndy Sherman (escrito por a mulher de Márcio Jr., a psicóloga Marcela França) e um texto do cineasta trash brasileiro, o catarinense Petter Baiestorf, sobre os «métodos para fazer filmes sem dinheiro». Baiestorf será colunista fixo da revista, que terá periodicidade trimestral. Mas aqui não há música e, se entrar, não terá destaque, frisa " Marcio Jr." Minha carga de música na Monstro é muito grande, eu quero me expressar por outros meios também. Sempre gostei de quadrinhos e a Voodoo! é uma possibilidade para mim e para novos artistas das artes visuais de Goiás se encontrarem», diz o editor, delineando o que cabe e o que não cabe na revista. «Estamos interessados na experimentação, mas isso não significa destinar a revista para públicos específicos do underground, da música ou das artes visuais. Queremos gente com senso crítico de todo tipo», reforça. Para a empreitada, que sai com mil exemplares (e preço de capa a R$ 7), Márcio e os parceiros Thiago e Elizeu Xavier criaram a editora Livros Voodoo que terá na revista o principal produto, mas pretende se transformar numa distribuidora de publicações que se interessem em aventurar por o gênero. Para a próxima edição, adianta Márcio Jr, haverá uma matéria especial com Gary Panter, artista precursor da estética punk, autor de capas de discos de Frank Zappa e de estréia do grupo Red Hot Chilli Peppers, entre outras peripécias visuais (dá para ver de quem se trata em www.garypanter.com). Panter deve ser a capa da nº 2, que prevê ainda novos desenhos de Fábio Zimbres (outro colaborador que deve se tornar freqüente) e outros assuntos das artes marginais. A partir do segundo número, prometem os editores, a Voodoo! poderá ser vista em parte também em www.livrosvoodoo.com. Número de frases: 32 Eis-me aqui descortinando este meu espírito lendário, completamente envolvida por o passado que só trará o seu contrário. Sinto saudade da infância quase feliz, das realizações, dos fracassos e da juventude fragmentada. Lembro o amor mal argumentado, consolidado apenas no filho nascido em terra de soldados, que também é valente e vence por vontade. Netos? Ainda não chegaram, mas já os amo como filhos duas vezes interiorizados. Aqui estou eu deslizando os dedos por as fibras do futuro, acariciando o ainda não concretizado. É neste momento dilatado que todas as dores parecem nada. Confrontadas com as alegrias, são reflexos de uma vida realizada. Descobri há pouco que amar é mais sublime que ser amada, pois o anjo que me habita é superior ao demônio que me assaltava. O porquê do devaneio? É por o futuro que chegou antecipado, com sua dança antiga embrulhada para presente, sem a qual eu poderia ter passado. Trouxe com si toda a certeza de que a história grava. Algumas vezes, ela manda recado; outras, vem como visita inesperada. Hoje sei que sou gigante em carne pálida, esqueci que, vestida de noite, ela espreitava; sedutora, vagava por a casa instalando-se na sala. Ei-nos aqui frente a frente, cara a cara, como presas inseparáveis numa mesma escala. É o fim ... e ainda assim estou plena, como quando meu cachorro chega e abana o rabo, sorri e inventa a própria fala. É o sim da nave mãe oferecendo a passagem. Estamos inteiras sem presente ou passado, sem medo ou coragem. A morte é assim, não tem futuro, não se prende a nada. Estou feliz mesmo sem conhecer os mistérios da nova estrada. Nercy Luiza Barbosa Sai uma mesa de sinuca, entra uma parafernália musical. O «puxadinho» tem cerca de nove metros quadrados. Apenas uma parede, «emprestada» do imóvel vizinho, e estacas de madeira, que servem de apoio para a cobertura de telhas de amianto. O piso é de cimento e ainda tem um pedacinho de terra batida, que, provisoriamente, fica escondido sob um tapete nem tão novo. Em o dia-a-dia, um desenho de São Jorge, quase um esboço de uma obra por terminar, reina absoluto na parede. Em noites especialíssimas de sábado, um banner-tributo a Bob Marley e às bandas de reggae da região ocupa um lugar de destaque, de frente para a platéia vip. Assim, o puxadinho na Rua Bela Vista, no bairro Areia Branca, em Belford Roxo, toma ares de palco. E, ali, a banda anfitriã Sangue Rasta comanda a festa e recebe os amigos para um show coletivo, os «Ensaios de Rua». Fui parar na Bela Vista no dia 1º de setembro. Era a terceira edição do projeto, em sua nova fase. Soube dos Ensaios após entrar em contato com a Secretaria de Cultura de Belford Roxo e também ao visitar a Casa de Cultura da cidade. Lá trabalha o Vicente Freire, que atua como relações públicas informal da Sangue Rasta e do projeto. E que, por o que observei nos Ensaios, conhece quase todo mundo no meio cultural da Baixada Fluminense. Combinei com o Vicente e o Jô Mathias -- coordenador do projeto, tecladista da Sangue Rasta, regueiro da primeira geração belforroxense, animador cultural e, não por coincidência, morador do número 301 da Bela Vista, em frente ao palco e a uma amendoeira enorme e maravilhosa -- de chegar antes do início da festa, prevista para começar às 17h, para conversarmos. A Bela Vista é uma rua grande. Não sei precisar o quão. Mas eu caminhei uns 500 metros até chegar ao número 301 (e ainda tinha muito chão por a frente!). É como quase toda rua de bairro residencial no subúrbio: uma fileira de casas, alguns estabelecimentos comerciais pequenos e informais -- biroscas, mercearias etc., uma ou outra igreja. E parece começar numa linha de trem, que divide os municípios de Belford Roxo e Nova Iguaçu. à primeira vista, não percebi nenhum movimento diferente. Tanto que passei batida por o endereço. Liguei para o Mathias, conferi o número e dei meia volta. O pessoal estava começando a transformar o puxadinho num palco e os equipamentos de som eram carregados do estúdio do Mathias -- ainda em construção e no emboço, sem revestimento acústico algum, nos fundos do terreno de sua casa -- para o palco. Ainda cheguei a tempo de ver a mesa de sinuca ser despejada do lugar. Em o estúdio, sentada numa caixa de som antiga, fui apresentada à história dos Ensaios e da Sangue Rasta. O projeto começou em 1998. Quem estava à frente da organização já era o Mathias, ex-banda Negrotú. Belford Roxo tem tradição no reggae no país. Em os anos 90, lá surgiram inúmeras bandas, como a Cidade Negra. A Bela Vista serviu de palco para a 5 Kilates, Belmontan, Rebú, Nocaute, Reggaetot, O Beco, Guetos da Cidade, Belford, Cabeça de Nego, Raiz do Gueto e muitas outras. O projeto cresceu tanto que se tornou inviável para a galera organizá-lo sem patrocínio. E aí os Ensaios não continuaram. A retomada aconteceu em 21 julho passado. Mas devagarzinho. Em uma ação cultural entre amigos. E com divulgação através da comunidade do projeto no Orkut, de e-mails disparados por o Vicente pra sua mailing list poderosa e de muito boca-a-boca, além, é claro, do Overmundo. A Sangue Rasta nasceu em 2005 e reuniu um grupo de amigos e vizinhos do bairro Piam, perto de Areia Branca. A maioria ainda dividia seu tempo entre as brincadeiras de rua e a escola em 1991, ano em que Jimmy Cliff aportou em Belford Roxo para conhecer, e dar mais gás, à efervescência regueira na cidade. De essa formação original da banda, ficaram Juninho (voz), Rafael Iguatemy (guitarra), Heliton Sun (percussão), Nalton Ferreira (bateria) e Kim Esgramozino (guitarra). Mathias e Tácio Farias -- que manda ver no contrabaixo, e é irmão do Bino (Cidade Negra) e do Lauro (Rappa) -- juntaram-se a essa turma em dezembro de 2006 e em abril passado, respectivamente. De aí, surgiu a idéia de resgatar os Ensaios, em edições quinzenais. Para mostrar o trabalho da Sangue Rasta e de outras bandas. Para trocar energia com a galera. Para criar um espaço cultural no bairro. Para festejar a música -- e outras formas de cultura. «O projeto tem como âncora a música, mas não é só o reggae, não. É só a galera chegar com os instrumentos, que o espaço tá garantido. A gente também quer fazer shows interativos com poesia, dança etc.», disse Vicente. Em o dia 1º de setembro, a festa começou às 18h15. A galera foi chegando meio devagar. Meio na dúvida se o projeto ia rolar ou não. Afinal, duas semanas antes o projeto fora cancelado em cima da hora, porque um dos integrantes da Sangue Rasta estava doente. Quem abriu o show foi a banda Zero Grau. Em o início, a platéia se resumia aos moradores de casas vizinhas, e músicos de diferentes grupos. Cerca de meia hora depois, o reggae deu lugar ao rock. Pipo, vocalista da Pânico no Útero, assumiu o microfone.-- a banda não estava lá, mas, com a ajuda de um baterista amigo, ele deu uma palinha para a galera. O show rolava e o clima naquele pedaço da Bela Vista -- uns 50 metros -- era de confraternização entre vizinhos e amigos. Em as proximidades do palco, crianças e adolescentes circulavam pelo meio da rua de velotrol e bicicletas. Uma senhora saiu de casa com uma bacia cheia de pipoca, ainda quentinha, e distribuiu para os filhos e amigos. Jovens comiam cachorro-quente sentados no meio-fio. Em as mesinhas e cadeiras do bar-mercearia São Jorge (mais conhecido como Bar da Amendoeira), a que pertence o puxadinho / palco, a galera assistia ao show, regado com muita cerveja gelada. De o outro lado, os salgadinhos e bebidas à venda numa tendinha (ou uma birosca) também faziam as vezes de couvert. Em o restante da rua, a vida parecia seguir seu ritmo normal, inclusive numa igreja evangélica pertinho de ali (onde o culto teve de ser feito a portas fechadas, por causa do som dos Ensaios). Ninguém apareceu para reclamar do «barulho». Em a seqüência da festa, os anfitriões subiram ao palco. Mais cedo eu perguntara a Mathias, Juninho, Rafael e Heliton qual o tipo de som da " Sangue Rasta. «É bem eclético. Reggae roots ... rock com afoxé, percussão, maracatu, bossa nova», responderam. Por o que vi nos Ensaios, essa mistura dá certo. Vicente me apresentou ao pessoal que ia chegando -- e ajudou a divulgar o Overmundo. Nomes como Roger Hitz, da banda Caô de Raiz; Carolina Matielo, produtora cultural; Carlos Guena e Maninho, da banda Shakra; Eduardo Rasta, da Casa de Aniê, uma ONG que promove oficinas culturais, e Dida Nascimento, um dos precursores do reggae em Belford Roxo. «A história do reggae em Belford Roxo começou com o Dida», falou Vicente. Os Ensaios não têm uma ordem rígida para apresentação dos shows. Se uma banda tem show agendado em outro lugar, por exemplo, sobe primeiro ao palco. Se chega um artista para prestigiar o evento, é logo convidado a fazer uma performance. Foi assim com o Renato Bigulí, do Monobloco e Cabeça de Nego. Ele chegou e não se fez de rogado. De quebra, ainda convocou o Dida Nascimento, que acabara de chegar na festa. Um dueto e tanto! Em aquela noite, ainda teve o som das bandas Derek e Caramujos, mas não pude ficar pra ver. Em a descida da rua, quase vazia a uns 200m do palco, fui abordada por um rapaz: «Oi, lembra de mim?" Não, eu não lembrava. Era um rapaz que eu conhecera no dia em que fui de trem da Central do Brasil (centro do Rio) a Japeri (Baixada Fluminense)? para percorrer o ramal ferroviário mais famoso do Estado do Rio (essa aventura eu conto outro dia!). Ele mora numa rua perpendicular à Bela Vista.? Conheço essa galera toda. O Bino, do Rappa, tá sempre por aqui. E, ali na frente, mora um pessoal do grupo de pagode 100 %, sabe qual é??, emendou. Conversamos um pouco mais antes de nos despedir. Antes de dobrar na esquina, olhei pra trás e vi a amendoeira. Mas já não ouvi mais o som do? reggae gostoso, com letra e crítica? do Sangue Rasta, como definiu Waldomiro Freitas, o dono do bar São Jorge. Número de frases: 124 A Rua Bela Vista tem um pessoal guerreiro mesmo! Premiado internacionalmente, pintor brasileiro expõe nova coleção em Copacabana As paisagens caóticas do cotidiano urbano estão traduzidas nas cores intensas do premiado pintor Gian Paolo Doth, que expõe sua nova coleção «Em Diálogo com as Cores» na concorrida Galeria Ambiente Dell'Arte, rua Siqueira Campos, 143, sobreloja 17, Copacabana, entre os dias 1º a 10 de outubro. Reconhecido internacionalmente, Gian Paolo apresenta nessa Mostra cenas aparentemente banais das metrópoles, pintadas num diálogo direto entre cores e texturas. O traço do desenho torna-se secundário -- um mar de cores invade a tela e sugere ambientes externos ao mesmo tempo em que revela um olhar íntimo e poético dos dias de hoje. Os sentimentos são intuídos no entrelaçamento das cores e na forma das paisagens, de inspiração na escola italiana, movimento macchiaiolo florentino. Em esses espaços, os seres humanos aparecem muitas vezes diluídos em poucos traços, como que absorvidos por o ambiente urbano. O resultado é a leitura de um artista que tem como marca a luta por o resgate dos espaços públicos. Gian Paolo é fundador no Rio de Janeiro do Movimento Ateliê Sem Portas. Conforme o nome sugere, o objetivo é pintar quadros ao ar livre. Em as palavras do pintor: «seduzir-se por a atmosfera da cidade e transformá-la em arte. Afinal, pintura é vida». A o apresentar sua arte no momento em que ela é elaborada, o artista contribui para a criação de espaços democráticos de aprendizagem e resgata a dimensão humana, cultural e histórica das Artes Visuais. E para realizar a atividade, o artista convoca os seus alunos. Licenciado por o Instituto Metodista Bennett, Gian é professor da Sociedade Brasileira de Belas Artes do Rio de Janeiro desde 1993. A influência das cores tropicais é nítida em sua Mostra, convidando a luz a explodir na tela. Sua criatividade e originalidade renderam-lhe três prêmios de viagens internacionais, os quais lhe possibilitaram pintar em Lisboa, Cintra, Viena, Madrid, Barcelona, Cote D' Azur, Nice, Veneza, Bologna, Nápole e Roma, entre outras. Premiações Gian Paolo Doth tem quadros nos acervos do Museu Maria Fantinhas, Portugal, no Museu da Cidade de Petrópolis e no Ministério do Exército, entre muitos outros. Fez ilustração de bilhete da Loteria Federal, apresentou seu trabalho na Xxxi Expoarte, na Exposição Itinerante das Paraolimpíadas 2007, na Academia Brasileira de Belas Artes, entre outros. Número de frases: 21 Recebeu premiações da Associação de Artistas Plásticos do Rio de Janeiro, Sociedade Brasileira de Belas Artes, Fundação Mokiti Okada, Departamento Cultural do Salão de Artes da Vila Militar, Associação dos Artistas Plásticos do Rio de Janeiro, Prefeitura do Rio, Prefeitura de Maricá, Grupo de Artistas Plásticos de Nova Iguaçu, Prefeitura de Mangaratiba, Casa de Cultura de Araruama, Corpo de Fuzileiros Navais, Prefeitura de Itaguaí, Paquetá Iate Clube, Sesc Rio, Universidade Santa Úrsula, Ministério da Defesa, entre outros. A Keyla Vanusa. Atravessou confiante o corredor que dava em direção a sala do departamento de Recursos Humanos. Não tinha o que temer, não precisava suar frio. Ela estava certa, assim como dois e dois, são ... bem aquela não hora de fazer cálculos. A situação pedia apenas que ela fosse ela mesma: uma mulher autêntica, sem textos manjados, sem um roteiro decorado que acabaria estragando tudo. Em a verdade, se fizesse uso de um script também não se sairia mal, porque tinha lá seus dons artísticos. Em a adolescência até sonhou em seguir a carreira de atriz, ir para o Rio de Janeiro, pousar nua e depois fazer novela na Globo. Talento e beleza não lhe faltavam. E perseverança e auto-confian ça também não. Mas acabou desistindo da idéia. Acabou dando para o Romualdo, engravidando antes dos 16, se casando antes de completar 17 e agora aos 26, era uma mulher desempregada que precisava conseguir aquela vaga de secretária, que precisava ajudar o marido nas despesas de casa, que precisava comprar roupas novas, aquele pretinho básico já estava ficando batido ... Em a verdade, essa era a terceira tentativa de conseguir um emprego no mês. Já havia concorrido há uma vaga para telemarketing, e operadora de caixa de supermercado e certamente tinha sido reprovada nos testes por estar acima do perfil exigido por os cargos ... mas desta vez não! desta vez seria diferente! era um cargo de secretária executiva ... e a vaga seria sua. Leu no horóscopo daquele dia, que supresas boas a esperavam, que teria sorte no amor e no trabalho. Não pediu licença, não falou bom dia. Não fez questão de demonstrar solidariedade ou simpatia para com as concorrentes. Podia soar como insegurança, ou submissão. Esperou sua vez de ser chamada, deu uma subidinha do vestido discretamente, deu uma conferida no decote, e piscou para sua teta preferida, motivo de orgulho e prova real da sua força de vontade de ser a cada dia uma pessoa melhor e se sentou ... Não trouxe currículo. Julgava aquilo comum demais. Preferiu ela mesma, falar sobre sua personalidade, defender seus talentos e contar um pouquinho da sua trajetória marcada por perseverança, que em termos de emoção, não perdia em nada para a história de Robson Cruzué: -- Meu nome é Keyla Vanusa. Keyla com K e com Y, porque í é muito brega e eu sou uma profissional acima de tudo de bom gosto. Sou Libriana, tenho 26 e achou tri importante dizer que sou de libra, porque acredito na força que zodíaco exerce sobre a nossa personalidade, e assim, libra é tudo de bom, não existe pessoa mais tranqüila, mais equilibrada que o libriano ... não é a toa que tem uma balancinha simbolizando o signo do zodíaco ... equilíbrio, balança ... entendeu? Também acho importante dizer que eu sou gaúcha, assim porque sem querer se achar, porque se tem uma coisa que o gaúcho é simples, humilde, modesto ... mas todo mundo sabe que se tem um povo que gosta do trabalho, que gosta de tomar banho, que é tri caprichoso, tri cativanete, esse povo é o gaúcho. Assim eu me julgo tri apta para esse cargo, porque no fundo toda mulher carrega uma secretária executiva dentro de si, afinal quem nunca sonhou ficar cercada de um monte de homens, tri gatos, tri bem vestidos, só atendendo telefone e coçando o dia todo? Bah, eu não sou diferente! Eu sou mãe, tenho três crias ... Zézé, Di Camargo e Luciano ... e assim sou super feliz, super realizada como mulher, como esposa, como mãe. Acho que a maternidade ela completa a mulher, e por isso eu resolvi ter logo três de uma vez, e assim, quero deixar bem claro, que não vou ter nenhuma problema em relação as minhas crias, porque meu esposo, ele tá passando uma temporada em casa ... assim, ele teve um desentendimento, coisa boba, briguinha de família, bebeu além da conta e sem querer acabou ferindo o pai com um canivete. O pai tá bem, ficou uns dias internado, se recuperando, mas tu sabe como é a justiça brasileira neh ... se tu mata um desconhecido fica livre, agora se tu ta uma facadinha de nada num parente ... passa 06 meses no xadrez. Um absurdo! Mas enfim, como o Romualdo não arranjou emprego e não vai arranjar por tão cedo, porque ninguém emprega ex presidiário, a gente combinou que ele vai ficar cuidando das nossas crias, enquanto eu vou ganhar o nosso pão de cada dia. E eu sei que eles estão sendo bem cuidadas porque o Romualdo ... se tem uma coisa que eu tiro chapéu pra ele é nisso ... ele é um pai tri presente ... e tri carinhoso, tri cativante. ( toca o telefone) Alô, Bebê ... como quem é amor? sou eu Keyla Vanusa, quem mais podia ser? Tu não ligou pra mim? Queria que quem atendesse? a Joelma do Calipso? Acordou agora bebê? Duas da tarde? É nesse tempo ... a gente perde a hora mesmo ... e as crianças? Já foram para a aula? Ah, não quiseram? já tomaram café? a não quiseram? preferiram comer a pizza que tava na geladeira? aquela pizza que paguei 19,90? E onde que tu tava seu imprestável que deixou isso acontecer? Porque tu não fritou um ovo e fez farofa pra essas crias indecentes? Ah tava dormindo, claro ... seu marginal irresponsável! ... mas ao menos deixaram uma fatia de calabresa pra mim? Não vai me dizer que aqueles esfomeados comeram tudo ... olha eu faço um regaço quando eu chegar aí ... eu faço elas vomitarem calabresa por calabresa ... ai que estresse ... ( Desliga) Crianças (meio sem graça), eu fico tri pê da vida, quando elas não se alimentam bem ... mas como eu dizia, ele é um pai tri carinhoso, um marido tri amado, e um filho tri querido, que o digam meus sogros que são outros amores. O episódio da faca, digo do canivete ... foi um exceção, e afinal que família nunca teve seu desentendimento? Eu mesma na adolescência, taquei a mão na cara da minha irmã Kenya Valéria, quando ela cismou em dar em cima do Romualdo, que ela tá ate hoje com um marca no lado direito da cara e isso não quer dizer que a gente não se adore, não se curta, não se ame. Então, como eu dizia, tu pode anotar ai, que apesar de eu três crias, elas tem quem cuidem de elas e isso não é empecilho para que essa vaga seja minha ... que sou uma mulher feliz, que tô sempre para a cima, sempre mesmo ... pra se ter uma idéia lá em casa quando não estou em cima do tanque lavando roupa, to em cima do fogão fazendo a comida ... e eu sou tão, mais tão para a cima que ate na hora ... bem, na hora daquilo ... eu gosto de estar por cima ... Ah sei lá, acho que isso é coisa de libriano, querer estar sempre de bem com a vida, sempre feliz, sempre disposta a novos aventuras, novos desafios ... é como eu sempre digo: to casada? tô não vou negar. Amo meu marido? amo não vou negar; mas não tÔ morta ... se é que você me entende ... E assim, acho que já deu pra notar que eu sou tri vaidosa, que preocupo a beça com aparência, porque eu acho que se o lado de fora tá bem, se tu tá bem com teu corpo, tudo fica bem ... Pra tu ter uma idéia, eu parcelei essa prótese de silicone em 12 vezes e só fui sorteada na 05 assembléia ... tem gente que fala mal por trás, que ri quando me vê com um teta maior que a outra ... mas sei lá eu sou uma pessoa tri pé no chão, e não costumo dar um passo maior que a perna, e se eu não tive condições de por silicone nas duas de uma vez, paciência! E se tu quer saber eu tenho orgulho de dizer que é minha, que paguei com meu suor, e se Deus quiser, até ano que vem eu deixo a outra do mesmo tamanho ... porque eu sou assim ... tri perseverante ... e assim, tem gente que não se curte, que não se aceita, que é cheio de preconceitos com si mesmo ... eu graças a Deus não tenho preconceito nem com mim nem com ninguém. Respeito cor, raça, sexo ... na verdade, as vezes bate um deprezinha, quando eu me olho no espelho e vejo umas estrias, mas dai eu penso ... Keyla Vanusa ... o que são umas estrias mulher? O que tem demais nesse pneuzinho, nessa celulite? Tu não vai querer se matar por causa disso né? Pior é quem é escurinho e não tem como se clarear ... e nem por isso reclama da vida! Ah sei lah eu procuro me valorizar, ver o lado positivo das coisas ... mas assim to dizendo isso mas eu não sou racista, não tenho nada contra escurinhos ... eu até acho eles tri fofos ... acho mesmo ... sem contar que eu adoro ir e festa de aniversário e comer negrinho. Tu já passou negrinho no meio do cassetinho! Bah, uma delícia ... mas engorda que é uma tristeza! Mas continuemos ... eu acho muito válido dizer que também sou uma pessoa que muito culta. Sou tri informada. Em a verdade não sobre tempo pra ir ao cinema e teatro, mas assim sempre que posso eu tô ouvindo musica, vendo um dvd aqui, outro dvd ali ... Não perco um capítulo de Paraíso Tropical ... afinal novela também é cultura. E assim eu curto Calipso, Pepe Moreno, Calcinha Preta ... Em a verdade eu sou louca por o Calipso ... tenho bonés, chaveiros, canetas, pôsteres, e toda a coleção de eles: Calipso remix, As melhores lentas do Calipso, Calipso Acústico, as Dez mais do Calipso na versão dance ... e assim, eu sou presidente do fã clube oficial do Calipso «A lua me traiu» e mediadora das comunidades do Calipso e do Calcinha Preta no orkut e sei praticamente todas as coreografias da Joelma ... Como você pode observar eu sou a pessoa ideal pra ocupar esse cargo ... porque eu tenho conhecimento, tenho experiência de vida tenho um altro astral e sou assim tri perseverante, sem contar que vamos combinar, um pouquinho de beleza não faz mal a ninguém ... é como o Nelson Rubéns disse: «As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental». Nossa adoro o Nelson Rubens ... acho que se ele tivesse vivo, ia estar escrevendo muita coisa bacana ainda. Hobby? tenho um sim vermelho ... Em a verdade eu adoro vermelho, tenho hobby vermelho, calcinhas vermelhas, toalha vermelhas. Vermelho é paixão, e todo libriana é tri apaixonada. Se eu me considero com bagagem sucificente pra ocupar esse cargo? olha, se as viagens não forem tão longas, eu tenho duas malas uma de rodinhas e uma sem, que comprei no Paraguai ... mas se for preciso tu me dá uma vale adiantando e eu compro mais bagagem ... Bem basicamente é isso. Experiência profissional, não vou mentir eu não tenho. Mas tenho experiência de vida, sou mãe, sou esposa, sou mulher, e sou tri criativa. Em a verdade eu fico meio triste por as outras concorrentes que vão perder essa vaga pra mim, mas sei lá ... cada um tem seu momento, e esse momento precisa ser meu, essa vaga precisa ser minha ... E então quando eu começo? Atravessou confiante o corredor que dava em direção a porta de saída daquela empresa. Olhou com desprezo para as outras concorrentes e torceu para que a escolhida fosse atropelada no 01 de trabalho e passasse seis meses em coma. Não era cruel o suficiente para desejar a morte de ninguém, afinal tinha amor no coração ... e no fundo ninguém tinha culpa se aquela vaga não estava a sua altura. Em a certa, uma oportunidade melhor a aguardava, e tinha que admitir que secretaria executiva era muito pouco para tanto talento ... afinal era libriana, gaúcha, perseverante ... Número de frases: 158 É impressionante como as chamadas tribos urbanas não se misturam. Claro que isto só equivale para cidades a partir de um certo número de habitantes. Realmente, as tribos não se misturam mas se encontram, e o melhor lugar para se verificar isso, pode tanto ser o pátio da universidade ou a boemia na cidade. Em Salvador, por exemplo, o lugar que mais concentra os boêmios é a orla, e mais especificamente, no Rio Vermelho. Em a capital baiana, o Rio Vermelho representa a Savassi de Belo Horizonte, ou a Vila Madalena de São Paulo (só pra citar um dos bairros boêmios paulistas). É verdade que na orla soteropolitana vale lembrar ainda a Barra, Farol ou o Jardim Brasil; o Jardim de Alá; Patamares; Itapuan, enfim. O Aeroclube já teve o seu tempo de ser considerado neste roteiro, mas acho melhor aguardar a reforma que está por vir. Em o Jardim dos Namorados (Pituba), concentra-se a segunda maior aglomeração de baladeiros de Salvador. A o se aproximar o fim de semana, lá no Jardim dos Namorados estaciona uma galera em frente à Fashion Club, à Happy News e ao Caranguejo de Sergipe, onde, além daqueles freqüentadores que entram nas casas, ficam os que são capazes de amanhecer o dia ali, abastecidos por os tantos ambulantes que já fazem ponto certo e ouvindo o som dos carros no local. Bem, nesta tribo está constituída, basicamente, por baladeiros (e aspitantes, muitos aspitantes) de som comercial (os chamados clubbers), axezeiros, forrozeiros e pagodeiros. Já no local onde se concentra a maior aglomeração de boêmios e de baladeiros na orla de Salvador, o Rio Vermelho, encontra-se uma outra diversidade de tribos. Em o famoso Largo de Santana (ou Largo da Dinha, em referência à própria do Acarajé), roqueiros, reggaeiros, forrozeiros e baladeiros de toda ordem se misturam para o «esquenta». Melhor dizendo, e justiça seja feita, o lugar é caracterizado como um circuito alternativo da cidade, onde está a turma mais «cabeça» ou mais «cult». Restaurantes de cozinhas variadas, teatro, bares e casas noturnas compõem o bairro, que também é residencial, além de ser uma das maiores referências da cultura e da história da Bahia. Colônia de pescadores, possui a morada de Yemanjá, uma das mais celebradas e festejadas por os baianos. De acordo ao dia e ao horário no Rio Vermelho, os roqueiros se deslocam para o Idearium, Nhô Caldos, Boomerangue, Calypso Heneiken ou Sitorne; quem curte e-music (ali, geralmente house ou trance), vai novamente Boomerangue; forrozeiros, à Santa Maria Pinta e Nina; ecléticos, à Borracharia ou Casa da Mãe, enfim. As casas noturnas podem também abrigar tribos diferentes, como a Boomerangue, projeto do cantor Alex Góes, costuma sediar na mesma noite estilos diferentes nos seus dois ambientes (costume já antigo em casas de até três ambientes existentes em outras capitais). A longevidade destes espaços é imprevisível, e os freqüentadores do Rio Vermelho devem se recordar de lugares notórios, como, Anexo, Café & Cultura, Seven-In, Havana e a recém fechada Casa da Bossa, outros se lembrarão da Estação da Cerveja e Indy Sports Bar (Patamares), etc.. Porém, não é só no entorno do Largo de Santana que se aglomeram os boêmios no Rio Vermelho, e mesmo o Bar Bohemia fica recuado dessa região. Não poderia deixar de lembrar o Largo da Mariquita, onde acontecem feiras de artes, e o Mercado do Peixe, onde se pode deliciar a culinária baiana e possui o seu maior movimento na madrugada, quando os baladeiros vão saciar a sua larica. Diria que essas tribos que se encontram no Rio Vermelho, apesar de distintas, elas se reconhecem e se suportam num suspiro bem mais tranqüilo do que se estivessem diante das tribos que estão no Jardim dos Namorados. Ou seja, nesse espaço, as tribos que convivem ali se ignoram e não se incomodam com as demais. É como se os estereótipos, comportamento e estilo das tribos não se agredissem, como é comum acontecer em outras circunstâncias. Lógico que, eventualmente, ocorrem programações no Jardim dos Namorados, que sejam exclusivamente no estilo rock e a tribo roqueira comparece, como acontece em qualquer lugar seja o estilo que for. Não é, necessariamente, o local em questão geográfica que define o público (considerando uma ressalva que farei adiante), mas é conseqüentemente o ambiente que se caracteriza neste local que atrai determinado público. A ressalva que se faz necessária é que, tratando-se especialmente de Salvador, o público boêmio que tem a oportunidade de freqüentar a orla constantemente exclui uma boa parcela da população que não possui veículo próprio de transporte, sobretudo, da periferia e do subúrbio, devido a uma grande deficiência que há no serviço de transporte público da cidade. De o hip hop ao samba, toda tribo consegue conquistar o seu espaço, o fundo de quintal ou a pista de dança. A existência de guetos não pode ser condenada e merece ser encarada com respeito em nome da liberdade de expressão. E ser eclético não significa não ter opções, pois, posso ser eclético, mas sei exatamente daquilo que eu não gosto. Número de frases: 34 Qual o porquê de uma adolescente, entre 15 a 20 anos, criar um perfil numa página na internet para divulgar seu auto-retrato com fotos sensuais e / ou sexies de seu próprio corpo? Seria uma necessidade ou desejo? Esse sites são de empresas que disponibilizam um serviço gratuito. Sabemos que há uma especulação no mercado de máquinas fotográficas digitais, que utilizam os «fotologs» como isca, para aumentarem o número de vendas. Não podemos esquecer que existe uma banalização no uso da imagem feminina, sempre de forma exagerada nos programas de televisão, onde garotas se tornam celebridades ao expor seus corpos nus em programas de competição, para descobrir quem é a mais bonita e «gostosa». O mundo atual é da imagem. Consumimos imagens diariamente de forma involuntária e / ou imposta, através da publicidade nos múltiplos meios de comunicação. As imagens expostas em «fotologs» ou similares é uma alusão à beleza encontrada nos ensaios fotográficos de revistas masculinas, com fotos de corpos perfeitos ou tratada no «Photoshop». A busca por o corpo perfeito e esculpido nesta ferramenta de computador ou numa clínica de estética (beleza). Quando penso nessas super «modelos» construídas de forma artificial, me pergunto para quais fins? Para atrair o maior número de machos da sua espécie e satisfazer os desejos do sexo oposto de contemplar a figura feminina? Para ser símbolo sexual do momento? Será que ela tem consciência que existe a lei da gravidade e que as células do corpo humano não se repetem? Não sei, posso procurar um sentido profundo e ser o mais racional possível que não vou encontrar uma resposta satisfatória, pois, quem vos escreve é um ser masculino. Aí vou ouvir dos machos de plantão que todas as mulheres têm que ser gostosas e siliconadas. Ou, sei que essas figuras femininas vão ser usadas de forma demasiada no auge de sua juventude e de vez em quando vão participar nas colunas sociais de um grande jornal. Outras vezes vão mover uma ação judicial, por o uso indevido de suas imagens e viver desta forma, confortavelmente, para os próximos dias. É lamentável todas querem ser Cicarelli ou a garota da PlayBoy. Todas querem ser uma bonequinha sexy. Quando vou ver alguns «fotologs» de desenhos de amigos percebo que é grande o número de imagens de meninas que almejam os seus 15 minutos de fama, e o pior de tudo isso, é que existe um número grande de meninas com menos de 16 anos posando para suas próprias câmeras fotográficas e fazendo fotos «sensuais», com direito á uma produção e boa iluminação como se fossem uma propaganda de filme» pornô infantil», isso é pedofilia? Acredito que seja algo patológico: esquizofrenia em tudo isso. Cada vez que navego, me surpreendo mais. Para quem ela esta se mostrando? É um concurso de beleza mundial para descobrir qual é a foto mais «sexy» da rede, qual é a foto mais sensual? Os espelhos é que o digam: quantos flashes já foram disparados contra eles num auto-retrato de uma mocinha de 12 anos. Não acredito que elas estão fazendo fotos para suas amigas da escola, para as pessoas mais próximas ou para descobrir quem tem mais criatividade; quem sabe descobrir entre elas quem é mais «gostosa». Pelo contrário, devem ter certeza que estão sendo vistas, igual aquele programa que tem algumas câmeras escondidas onde as pessoas simulam a vida real. Todas querem ser uma Pin-up. Número de frases: 31 Este texto traz alguns dos resultados da pesquisa institucional que coordenei nos últimos dois anos. Um dos objetivos da investigação foi buscar subsídios para entender a distância, cada vez mais acentuada, entre as culturas infantis e juvenis e a cultura da escola. Um dos espaços escolhidos como campo de estudo foram os animencontros, mega eventos presenciais, organizados por empresas da iniciativa privada, que reúnem fãs da indústria de entretenimento nipônica (crianças, jovens e adultos, embora o público juvenil seja predominante) em torno de práticas relativas ao consumo e recepção de mangás, animes e jogos eletrônicos, tais como: jogar cards, games; participar de palestras conferidas por editores de mangás, dubladores de animes e especialistas em videogames; participar de desfiles e concursos de cosplay (prática de fantasiar-se como heróis e heroínas de mangás e animes); encenar jogos de arena próprios da cultura japonesa; participar de oficinas de produção de mangás e de dublagem de animes; trocar informações sobre os artefatos; adquirir mercadorias; constituir grupos de amizades referentes à identificação com um ou mais artefatos. Uma olhada de relance nesses eventos, como ocorreu nas primeiras idas do grupo de pesquisa aos mesmos, dá a impressão de um conjunto desordenado, desregrado de pessoas configurando a multidão, categoria que expressa o caos das metrópoles modernas, o desencontro dos indivíduos no espaço da cidade. No entanto, a recorrência das idas, o olhar mais atento lançado aos eventos e o contato com os depoimentos dos jovens, nos permitiu descobrir regularidades ordenadoras que possibilitam pensar a juventude como uma categoria social e não apenas como uma fase biológica de transição para o mundo adulto. Longe de configurar a multidão que homogeneíza a massa, os eventos, como observamos, são espaços propícios à constituição de socialidades que são fabricadass em torno de preferências por um ou outro produto; de identificação com os personagens; de habilidades indispensáveis ao exercício das práticas identificadas com os produtos. Em esse sentido, pudemos perceber que os animencontros não são espaços que congregam individualidades juvenis eufóricas, representativas da visão atomizada e degradada dos grandes centros urbanos, mas lugares de identidades compartilhadas que constituem as «comunidades interpretativas (Varela apud». As comunidades interpretativas expressam o modo por o qual grupos de indivíduos compartilham gostos, objetivos, crenças e idéias semelhantes, o que leva o consumo e a recepção dos produtos a serem entendidos não em função de gestos irrefletidos de compulsão, mas como ações capazes de possibilitar a interação, a troca e a produção de sentidos, como mostram essas falas de duas jovens entrevistadas: «Então, pra mim, evento é um dia que eu posso ser quem eu sou, sem ter medo de errar, sem ter medo de falar besteira, porque eu sei que as pessoas vão estar me entendendo, porque elas são iguais a mim, elas estão aqui por o mesmo propósito»,» Bom, pra mim o evento é um lugar especial. Um dia da semana que eu não tenho aborrecimento. Um dia só de alegria, um dia só de amizade, um dia de companheirismo. Você tá lá, você tá triste, as pessoas vêm, te acalmam, te fazem ... sabe, melhor." O que estes e outros depoimentos parecem indicar é que, diante da desterritorialização da sociedade contemporânea, os sujeitos necessitam de territórios em que possam buscar indicadores de pertencimento que lhes garantam segurança afetiva e clareza quanto aos grupos com os quais possam se relacionar e se entender. É a procura por esse entendimento compartilhado, comum às práticas observadas nos eventos, que configura as «comunidades interpretativas» ou as redes de sociabilidade ou ainda os territórios de pertencimento. Quanto a isso, percebemos, por exemplo, que o sucesso do mangá entre os jovens pode estar relacionado aos novos modos de sociabilidade engendrados por a maneira como se constituem hoje as relações cotidianas (Martín-Barbero, 2001). Embora se relacionem individualmente com as HQs, é no plano coletivo -- através da partilha das revistas, das competições sobre quem sabe mais sobre determinado herói ou heroína, da disputa sobre que coleção é mais rica do que a outra -- que esse consumo adquire relevo e lógica (Canclini, 1999). Ao contrário da individualidade que a «arcaica quietude do livro» (Benjamin, 1987, p. 28) supõe, a recepção do mangá é ruidosa, envolvendo animadas discussões, trocas de conhecimento, sendo elemento de união e fortalecimento de amizades. Além disso, também foi possível observar que, ao contrário da alienação que o senso comum ou as interpretações científicas apocalípticas computam aos consumidores de produtos da indústria cultural, esses jovens demonstraram um conhecimento esmerado de questões históricas, filosóficas, mitológicas relacionadas às HQs e aos animes, que é buscado em bibliotecas, na internet, na leitura minuciosa das próprios quadrinhos ou, ainda, com leitores mais experientes, inclusive professores. No que se refere à relação dos sujeitos com os games, ficou visível, nos animencontros, o espaço que esta mídia ocupa no cotidiano de crianças e jovens (especialmente estes últimos) que vêm produzindo sentidos sobre ela a partir dos usos e atribuições que, coletivamente, conferem a este artefato cultural. Para eles, longe de serem uma ameaça à sua capacidade criadora, como destaca a mídia e os estudos que se voltam à análise da mensagem sem focalizar a recepção, os jogos eletrônicos são um incentivo a essa capacidade, inclusive quando os estimula a assumirem múltiplas identidades, como revela o depoimento de uma jovem jogadora: «[ ...] Então o videogame tem aquela coisa da fantasia, [ ...] no videogame você pode simplesmente apagar e começar tudo de novo, na vida não rola. [ ...] no videogame você tem milhões de vidas, ainda pode tirar um card e começar tudo de novo, do zero, com 99 vidas. Ainda tem gente que tem jeito de golpear ali e ter mais 99 vidas. Em a vida real infelizmente não dá para fazer isso. Esse é o fascínio do videogame." Com relação à questão da violência contida nos jogos, veiculada frequentemente por a mídia, as entrevistas e observações apontaram que não é o gosto gratuito por a violência que seduz os jogadores. O que as entrevistas permitiram vislumbrar é que, ao eleger para si o anseio em derrotar o maior número de opoentes possíveis numa trama digital com outros jogadores, o que o jovem pode estar querendo é garantir sua aceitação num grupo que compartilha com ele essa mesma vontade, o que garante e reforça a constituição de sua identidade por o que há em comum entre os jogadores: os anseios e desejos proporcionados por os games. Se as observações e as entrevistas mostraram que as sociabilidades que os eventos propiciam, principalmente aos jovens, são o motivo primordial que os levam a freqüentá-los, seu olhar crítico também se voltou para a escola onde se chega «com vontade ir embora». A escola «chata e séria» não vê com bons olhos os grupamentos, os risos, a zoada." Lugar de mangá na escola ... só se for na mochila. E de videogame ... só em casa». Mas não é só a escola que não investe na constituição das redes de sociabilidade. Chamou atenção o fato de nenhum dos entrevistados ter mencionado a participação em práticas culturais coletivas em espaços públicos. «Brenner, Dayrell e Carrano (apud», ao mesmo tempo, dialoguem com os projetos pedagógicos escolares», quanto chamam atenção para o escasso envolvimento do Estado na promoção de atividades culturais em espaços públicos, indispensável para garantir «a apropriação da cidade como espaço educativo, de encontro e de sociabilidade». Em esse sentido, causam estranheza as críticas dirigidas aos jovens que se deixam cooptar por o apelo das indústrias que promovem o consumo dos produtos da cultura de massa. Se isso vem ocorrendo talvez em demasia, é porque elas ocupam um lugar que está vago. Tendo em vista que estes resultados, apresentados de forma resumida, foram alcançados por intermédio de estudo comprometido em trazer contribuições ao campo da educação, cabe dizer que esses aspectos evidenciados, além de outros que os limites desse texto não comportam, trazem contribuições importantes para pensarmos processos contemporâneos de ensinar e aprender. Se como aponta a fala a seguir de um dos jovens, «então, talvez lá [na escola] ninguém entenda o que a gente aqui [nos animencontros] sente lendo mangá e vendo anime ...», tudo indica que para garantir seu compromisso de educar as gerações mais novas, promovendo que elas, de fato, se apropriem dos benefícios da escolarização, a escola está precisando olhar alteritariamente para as experiências dos alunos, entendendo que elas provêm de atores sociais historicamente constituídos. Se é verdade que as gerações mais velhas, inclusive os professores, precisam ficar atentas ao que ocorre contemporaneamente com a cooptação das gerações mais novas por a cultura de consumo, por outro lado, como ficou claro na investigação, não dá para continuar generalizando apocalipticamente a inadequação do contexto cultural dos mais jovens, como insiste em fazer a mídia, sem a devida aproximação a ele. A o fazer isso, o que o estudo verificou foi que além de ensejar o consumo e, portanto, a solidificação da poderosa indústria de entretenimento japonesa, e de possibilitar a diversão ruidosa e animada de seus fãs no exótico universo dos animencontros, mangás, animes e videogames possibilitam às crianças e aos jovens sonhar, pensar a respeito de suas condições de vida e de suas experiências, posicionar-se diante da sociedade e acreditar em ideais que entendem como escassos hoje. O alcance dessas aspirações, motivadas por as sociabilidades que o consumo e a recepção dos produtos japoneses supõem, parece afetar seus modos de ser. Sua incompletude (das crianças e jovens), que ganha visibilidade na escola, desaparece e eles parecem incorporar sua dimensão de protagonistas sociais. Enfim, seria descabido supor que os resultados aqui apresentados poderiam vir a resolver os sérios problemas do sistema educativo. Mas não parece demais supor que eles trazem contribuições para se pensar a superação da contradição que vem sendo imposta às gerações mais novas, inclusive as que vivem em condições de vida menos privilegiadas, de viverem num mundo high tech e terem que conviver com o anacronismo da escola. A aproximação mais sistemática entre os campos da educação e da mídia, que essa investigação se propôs a empreender, poderia contribuir para que a escola se instrumentalizasse para lidar com as transformações que vêm ocorrendo na cultura, que influenciam a constituição das subjetividades e identidades de crianças e jovens e, portanto, suas maneiras de lidar com o conhecimento e com as práticas que o promovem. Número de frases: 62 Originalmente, publicado no Showlivre. com O Cansei de Ser Sexy é um dos mais notórios fenômenos do nosso tempo. Uma época em que os artistas independentes encontraram nas novas tecnologias uma fortíssima aliada na divulgação do seu trabalho. Hoje, ninguém mais precisa se ajoelhar aos pés das outroras super poderosas gravadoras multinacionais para lançar sua música. De forma despretenciosa, o CSS começou a disponibilizar, no final de 2003, músicas no site Tramavirtual. A resposta foi surpreendente e animadora: «Ódio, Ódio, Sorry C «e» Meeting Paris Hilton» ficaram várias semanas entre as preferidas dos internautas. Saltamos para setembro de 2006 e o que encontramos? Um CSS com passagens por festivais como o Campari Rock e Tim Festival, CD lançado nacionalmente por o selo TramaVirtual e internacionalmente por a gravadora americana Sub Pop, o que possibilitou a realização da primeira turnê internacional da banda. O grupo tocou em diversos palcos dos Estados Unidos e Canadá, entre julho e final de agosto, juntamente com os curitibanos do Bonde do Rolê e do DJ americano Diplo. Foi sobre essa viagem que conversamos por e-mail com a guitarrista Luiza Sá. 1-Você poderia fazer um balanço dessa primeira turnê internacional? A tour em si foi incrível, definitivamente tiveram 99 % de shows não somente bons, mas muito bons. Acho que teve uma segunda-feira no Kansas que foi meio pequena. Fora isso, mesmo os shows que não lotaram (a grande maioria foi sold out) foram bem legais. Os melhores foram em NY, Toronto, Pitchfork em Chicago, Portland, San Francisco, Seattle, Austin, Washington DC, Boston, San DIego ... tantos shows bons, até o primeiro show em Buffalo, Montreal. É muito dificil tirar shows dessa lista. 2-Que diferenças básicas você poderia citar entre tocar na noite de São Paulo e nos clubs e casas de show da América? A qualidade de som é impressionante. É muito difícil ter som ruim ou tocar em lugares sem estrutura nenhuma de palco, o que é muito comum em São Paulo. Em os Estados Unidos, os shows começam e acabam mais cedo também. O público dos Eua se relaciona muito com o rock, enquanto o brasiliero é mais do ritmo, da dança. O americano se empolga muito com as guitarras. São diferentes. mas nenhum público é melhor ou pior. Cidades grandes como São Paulo, Nova Iorque, Toronto, San Francisco sempre têm um público bem misturado. 3-Como foi a recepção do público? Quais músicas mexeram mais com a galera? Foi ótima. Muitos shows já estavam sold out e teve cidades com pessoas que viajaram de outros lugares pra nos ver. Em o primeiro show em Buffalo, que é uma cidadezinha, tinha muita gente que viajou duas horas ou mais e estavam completamente empolgados. Sabiam cantar as músicas e foram muito calorosos. As pessoas adoram «Let ´ s make love and listen to death from above» e «Alala». A tour também foi muito especial por o fato de tocarmos juntos com o Bonde do Rolê -- que sempre esquentava muito o publico -- e o Diplo, que transformava tudo numa festa. 4-Antes de vocês partirem para a turnê, o Showlivre. com pôs no ar o programa Passe Livre com o Cansei de Ser Sexy. E foi um grande sucesso de audiência! O CSS está ficando popular? Não sei. Acho que viemos da internet e, com certeza, dentro dessa midia a gente tem um certo «tamanho». Acho isso ótimo, sempre usamos a internet pra tudo, foi nossa maior ferramenta por muito tempo e sempre vamos usar esse meio. Acho que as mídias alternativas estão cada vez maiores e isso é muito fértil para a cultura. Ad Luna (adluna@showlivre.com) é baterista das bandas Monjolo (PE / SP), Thesurfmotherfuckers (MG) jornalista (editor-adjunto do Showlivre. com) e, às vezes, produtor cultural. «Fazendo de tudo pra não virar caixa do Bradesco». BLOG: Número de frases: 47 http://inderdependencia.blogspot.com Estive na pré-estréia do filme Fabricando TomZé nesta terça-feira, dia 10, no Centro Cultural dos Correios aqui no Rio. Aliás, TomZé para mim é daqueles artistas que quando vem ao Rio, não perco, a não ser em caso de doença grave na família. O filme estava marcado para ser exibido as 16 horas mas as 15 já havia movimentação na porta e um monte de gente se espalhava por as redondezas com o press-release do filme na mão aguardando. Perto de 4 horas a fila já era imensa. Uma agradável e alegre excitação já pairava no ar. Não precisa dizer que a Sala do CCC ficou lotada. Quando a sessão começou já havia gente sentada no chão. Me pergunto o que faz TomZé, um caboclo nordestino com origens encravadas no sertão colonial do interior da Bahia, nascido em 1936 numa cidadezinha que hoje tem perto de 25 mil habitantes, local de produção de mandioca, feijão, milho e castanha de caju, ser um artista tão admirado e querido numa metrópole como o Rio de Janeiro. Tento encontrar a resposta e condensá-la numa única frase: TomZé, em sua postura como generoso guerreiro no mundo, faz questão de trazer todos para o domínio do Humano. Um artista que, transitando no universo da indústria cultural, faz questão de derrubar Sempre as barreiras que separam as pessoas. Não há como não ser Autêntico ao lado de ele. Quando estamos ao seu lado (e isso já é uma declaração de amor) estamos instados a produzir o melhor de nós. Saio dos encontros com ele sempre me sentindo mais leve e acreditando no ser humano. O documentário de Décio Matos Jr. me parece ter conseguido transmitir exatamente esse sentimento. E sei como é difícil transformar 250 horas de imagens «mortas» num documentário com tal vitalidade. O próprio TomZé comentou isso no debate. Resumindo: O filme deve ser visto por todos porque é muito bom. De preferência vá ver com os amigos. TomZé talvez seja um dos artistas que realiza (por conta da liberdade que a produção musical com a tomada dos meios de produção por os próprios artistas começa a proporcionar finalmente nos tempos de hoje) o ideal da arte como agente de Transformação e não mais como simples produto. Depois de cem anos de música como produto cultural, talvez tenha chegado o tempo de menestréis cantadores no ciberespaço estabelecendo uma ponte real com O Outro. E a pergunta que pairava na platéia no debate como o TomZé e os realizadores, talvez fosse essa: como estabelecer essa ponte também no cinema? Ali, naquele momento, o que me parecia transbordar de melhor, era o próprio encontro. Para usar uma expressão antiga as vibrações que se estabeleciam eram extremamente positivas. O cinema brasileiro (e Décio Matos falava no seu apreço por a «tela grande» e por o cinema com todas as letras) pode fortalecer essa dimensão do encontro recuperando um movimento que estava em plena ascensão no período da Tropicália que «revelou» TomZé: os cineclubes. E aqui recupero também uma expressão que tenho utilizado para a minha definição de cultura: cultura como ágape. ( Cuidado: Ágape no sentido grego de amor e não no sentido latino de caridade). Cultura como conversa, de preferência de pertinho em torno de uma mesa com comida e bebida. Cultura como encontro. Aqui no bairro de Laranjeiras, onde moro, montamos há uns dois anos atrás uma série de sessões de cinema no amplo estúdio fotográfico de um amigo. Por 5 reais você assistia aos filmes (so ´ valiam curtas e documentários transferidos para video), debatia com os realizadores, tomava um caldinho de feijão e bebia toda a cachaça que você pudesse. Os filmes eram trazidos por os próprios diretores, o caldinho de feijão eu mesmo fazia (uma panela enorme) e a cachaça era fornecida por alguns produtores. Batizamos o evento de Cinema, Cachaça e Caldinho (um nome parecido circulou depois no Cine Odeon). Sucesso total! As sessões foram sempre lotadíssimas. Mas o grande saldo sempre me pareceu ser o encontro e com tempo para se discorrer sobre os assuntos de cada filme. Bem diferente dos seminários a que tenho ido onde as palestras são enormes e o tempo para discussão mínimo. A tecnologia nos permite hoje com muito mais facilidade: um projetor tipo «datashow» e um player ou computador. Uma parede branca e os amigos, conhecidos e interessados ... Quem se habilita? Número de frases: 44 Quando qualquer governo fala do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de seu povo e continua míope quanto à ética -- ele quer «tapar o sol com a peneira». Entender o significado da palavra «moral», não é só uma questão de educação! São princípios elementares de boa convivência em grupo (princípios -- aprendidos e exercitados), onde cada cidadão tem o dever de preservar os «direitos e deveres» comuns da sociedade proposta. O aprendizado é gradual -- a educação é o fio da tecelagem ... É como «parir filhos» -- só as mães sentem o processo biológico e a dor real do parto! Educar custa caro! Alguém já fez a somatória das despesas com as mensalidades, livros, apostilas e outras taxas de qualquer curso nas universidades particulares brasileiras? O tão sonhado diploma será o cartão para a inclusão social? A busca do conhecimento será o início da transformação do cidadão e do meio onde ele vive? Algumas manchetes da mídia nos últimos dias desfazem o mito -- que a educação -- é o segredo da transformação! O que é educação? Será que a sociedade brasileira sabe o verdadeiro sentido de educar? Os exemplos de crimes cometidos por pessoas diplomadas e supostamente educadas (políticos, jovens de classe média, empresários e outros) mostram que a «sociedade brasileira» está doente e carente de outros valores humanos. Que valores poderão constar nos novos currículos escolares? A escola educa? Os tecnocratas jamais questionaram a diminuição anual da qualidade das vagas oferecidas, nas escolas de ensino básico e nas universidades públicas e particulares. A população do Brasil cresce e os problemas aumentam e aumentarão ainda mais. As periferias das cidades brasileiras viraram «barris de pólvora». Os verdadeiros educadores fazem mágica para cumprir o mínimo dos conteúdos curriculares. Mesmo com tiros de fuzis, fumaça e soldados da força nacional rondando o «pedaço», a escola da vida ensina o segredo da sobrevivência num mundo desigual. Salve-se quem puder! O morro não quer e não deve morrer! E os valores morais? Estão sendo repassados para as crianças brasileiras? Será que vários políticos brasileiros possuem o perfil para governar ou legislar em nome da população brasileira? Alguns dos políticos envolvidos em escândalos publicados por a mídia possuem diplomas ... As escolas que diplomaram esses indivíduos são culpadas? O que é educação? Quais vereadores, deputados ou senadores foram avaliados por o Enem Ou ENADE? Será que receberiam o tal diploma? Será que teriam a capacidade de legislar ou gerenciar -- ou mesmo dar palpites idiotas nas soluções para o complexo e heterogêneo país chamado Brasil? Que tal a criação do ENAQIP (Exame Nacional da Qualidade Individual do Político)! Em a posse e fim do mandato de qualquer político brasileiro haveria um exame, com questões de português, matemática, geografia, história, política social e «ética pessoal». A nota de «ética pessoal» seria o diferencial na avaliação do ENAQIP. Sem qualquer dor de consciência: não haveria quase nenhum dirigente seguindo a tão «sonhada carreira política». Um detalhe: a Constituição do Brasil garante a igualdade entre os cidadãos. Todos os anos, os estudantes e escolas do país são questionados (via ENADE E Enem) quanto ao conhecimento adquirido e a qualidade de ensino. Para que haja justiça, toda a classe política desta «Terra de Ninguém» deverá ser avaliada -- quanto à capacidade pessoal e ética! A sociedade brasileira tem culpa por o descaso com a educação de seus cidadãos. O «jeitinho brasileiro de dar nó em pingo d' água» e outras artimanhas de esperteza criam universos paralelos e anti-sociais. A educação não termina na colação de grau, com direito a diploma de «doutor» e anel no dedo em dia de formatura. Canudos ou títulos não foram feitos para enfeitar as paredes e dar «status». A educação é contínua e o educador tem o dever de repassar o conhecimento para os menos favorecidos. Conhecimentos guardados, sem princípios éticos ou apenas com interesses pessoais -- deseduca toda a educação e os educandos, que buscam a tão necessária educação. Sites: Número de frases: 47 http://lailtonaraujo.blig.ig.com.br/ Você tem câncer de mama? Teve? Se teve e se esqueceu de tudo, talvez nem ria como quem luta contra ele mas cultiva, ainda assim, o bom humor. O livro «Força na peruca -- tragédias e comédias de um câncer», da publicitária Mirela Janotti (editora Matrix) é incorretamente (graças ao bom deus!) divertido. Ganhei o livro de presente de uma amiga, autografado por a autora. Saber que Mirela está bem viva e dando autógrafos me enche de alegria, mesmo que eu nunca tenha visto a cara de ela na vida. Não a conheço, mas me sinto muito próxima de ela, na doença, nas maluquices que conta, no bom astral, no " vamos falar dessa porcaria de câncer sem drama, por favor!" Quase senti inveja de ela. Passou uns maus bocados, teve dor, desespero, desamor, amor em demasia, o diabo-a-quatro, mas ainda teve fôlego para refletir e escrever sobre tudo isso com uma descompostura tão atIpica que chega a fazer qualquer peruca saltar! Detesto a expressão «uma lição de ...», mas é o que Mirela nos dá. Uma lição de incorreções sadias, de um olhar otimista para o mundo, com tiradas hilárias como esta: «Depois que o susto passou, que percebi que não iria morrer de imediato, voltei a prospectar outros quesitos. Queria um bom emprego, comecei a desejar roupas novas, e o príncipe encantado voltou a fazer parte dos meus planos. Em a verdade, não precisava nem ser um príncipe, podia ser um sapo mesmo, porque careca e desprovida de sobrancelhas e cílios, eu estava, digamos assim, em promoção." Mirela discorre com esse humor debochado sobre temas dolorosos: quimioterapia (e a perda de cabelos), radioterapia (e o medo das aplicações), medicamentos (e os efeitos colaterais), despesas inesperadas e outras surpresas desagradáveis que qualquer pessoa comum é capaz de enfrentar, mas que exigem maior esforço de alguém que trava uma batalha diária pra vencer a doença. Ela fala ainda das baladas, dos namoros, dos truques para driblar a careca, o cansaço, os dias de carência, etc. Enfim, é a autobiografia de um período muito especIfico da vida de uma pessoa que certamente encara o mundo com os olhos da alegria desde sempre. Está, como eu, entre aqueles que vivem ao modo de Montesquieu. Ele anotou em seu caderno certa vez: «Acordo de manhã com uma alegria secreta; vejo a luz com uma espécie de arrebatamento." Pois bem, o câncer também atinge pessoas assim. A diferença é que olhamos para ele e mostramos a língua, mesmo que nos enfiem agulhas no braço. Mirela acrescenta a isso a possibilidade de gargalhar. Parece incrível? Leia o livro. Ou recomende. Número de frases: 30 Dificuldade no repasse do Tribunal de Justiça prejudica Registradores Civis Desde maio de 2006 o Tribunal de Justiça realiza o repasse para o FERC-PE das quantias necessárias para compensação dos atos gratuitos dos registradores civis praticados no mês, os pagamentos antes da instituição da lei 12.978/05 eram realizados no dia 10 de cada mês. Contudo até o presente momento não se tem uma definição de datas fixas para o referido repasse. Fazendo com que a classe registradora fique desestabilizada, impossibilitada de firmar compromissos financeiros: sem poder se programar para pagar os honorários de funcionários e despesas dos seus respectivos cartórios. Graças a falta de uma norma, não especificada na lei 12.978/05. (A mudança de arrecadação é tratada da matéria " Difícil percurso ...") A falta dessa norma tem gerado verdadeiro alarde e revolta entre a classe, passível de novas manifestações públicas seja através de imprensa ou através de passeatas, como já foi visto anteriormente, na época de negociação da aprovação da lei 12.978/05. A ARPEN Pernambuco vem tornar público a atual condição dos registradores civis e fazer este apelo para que providências sejam tomadas no sentido de fixação de uma data de pagamento para realização do mencionado repasse. Atenciosamente, Paulo Geraldo Nunes Presidente ARPEN Pernambuco Por: Paulo André Cavalcanti Número de frases: 11 Assessoria de Comunicação -- ARPEN Pernambuco E nem vou dizer mais muito porque tô em ela. A convite. Faço uma pontinha na coluna Nó na Gravata. E a Cultura? Por Juliaura da Luz, de Barcelona Em 2007, o governo do estado matou a pau. Destacou-se nacionalmente com a proposta de política cultural para o Brasil da secretária recém chegada. Mônica Leal defendeu a promoção de bailes de debutantes «para resgatar os valores da família». Não era piada. Ouuvi chacota até em Beijing agora durante os jogos olímpicos. Todo brasileiro que me via de cuia na mão queria dançar valsa com mim. Nem estultice. Vinha das profundezas da alma da gestora maior da cultura gaúcha. De as origens. Tava nos genes. Vovó Marinalva dissera entristecida: tenho 83 anos e ainda não nada ouvira igual ... É de avacalhar. Uns chegaram a dizer que era inaceitável um governo sem política cultural ... Os perdedores despeitados, de certo. O tempo passou. Veio o episódio do financia não financia a Jornada de Literatura de Passo Fundo. E o famigerado: «então a gente não manda» no Conselho Estadual da Cultura ... Foi, tchê, quando algumas almas inocentes descobriram que não eram elas as donas da cocada. De aí passou um tempão sem que nada além de Detran acontecesse. Nada mesmo, porque a secretaria tem um orçamento que não dá sequer para a faxina dos banheiros! De aí pintou por a enésima-trigésima nona vez aquela história de dar a TVE (canal 7) e a Rádio FM Cultura (107.7), emissoras públicas da Fundação Piratini aos amigos através do modernoso expediente do que apelidaram de Oscips. (A lei que regula as OSCIPs, é a nº. 9.790, de 23 março de 1999). A receita é a do doutor Esqueçam Tudo Que Eu Disse: desqualificar o serviço público, deixar equipamentos sem manutenção, afetar a execução dos serviços (no caso programação e sinal). Isso deixa a rede noveleira nacional agradecida, os cofres sempre abertos às verbas governamentais de publicidade todas ... tarará, tarará. Osipação, não usurpação. Choque de gestão. Tô chocada. Vou já passear minhas plumas e paetês em outras freguesias que assim não dá. Em o governo anterior, a prioridade da cultura fora comprar o carro do secretário. Agora, parece, querem comer o bolo vivo, tô achando ... Insatisfeito com o que se passa, o ator gaúcho Alexandre Vargas mandou uma cartinha aberta à governadora. Cito alguns trechos: a miséria intelectual do seu governo é a nossa miséria material ... Vejo na Secretaria de Cultura do seu governo ... Um quadro de morte, nostalgia, demagogia, de perda e degredo ... O governo do Rio Grande do Sul é o único do Brasil que regrediu seus investimentos na cultura. São verdadeiras ações de terrorismo cultural, postas em prática por a secretária que devasta a produção cultural desse Estado. Estamos todos mais pobres no Rio Grande do Sul com essa Secretária de Cultura ... Nós os artistas somos esquecidos e odiados por o seu governo não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Mas somos odiados porque o vosso governo nega essas coisas ao nosso povo. O jornal Fala Brasil é distribuído grátis há 14 anos em Porto Alegre, editado por a Rosane Scherer. Circula nos pontos culturais da cidade, no Centro e nos bairros Cidade baixa e Bom Fim. Tem a agenda da Cultura da cidade mais completa do Rio Grande das programações de Teatro & Dança, Música e Literatura; Um banquinho, um violão, um cantor e um bobalhão; Música para Ouvir Sentado; Espetáculos Nacionais e Internacionais; Fronteiras do Pensamento; Programações do Sarau no Solar e no Santander Cultural; Zé Caradípia grava DVD; Caminhante do céu vermelho CD de Marcus Bonilla; Ganhadores do 18º Salão de Arte; Exposição de Arte; Atrações Culturais no TRT-RS; Armandinho e Reação em Cadeia; Karine Cunha, Mercedes Sosa, Adriana Calcanhotto, Marietti Fialho lança CD; Zeca Baleiro dias 15 e 16 de outubro no Opinião; Bossa n ' Stones em Porto Alegre, dia 17 de setembro, 15º Porto Alegre em Cena ... E as colunas do mestre Danúbio Gonçalves sobre O Painel Revolução Farroupilha; Affonso Romano de Sant'Anna dando uma entrevista exclusiva; Zé Augustho homenageando Brennand; Daniel Soares falando de música e CDs; Adroaldo Bauer comentando atividades de literatura. Número de frases: 82 jfalabrasil@terra.com.br Recebi e repasso porque é daqui diapouco. Inscrições até 30 de março para Festival Visões Periféricas As inscrições para o Festival Audiovisual Visões Periféricas estão abertas até o próximo dia 30 de março. A proposta do Festival -- que acontece entre os dias 6 e 17 de junho no Rio de Janeiro e em Nova Iguaçu -- é dar voz às diversas periferias brasileiras, como forma de ir além das imagens estigmatizadas e revelar a riqueza de suas práticas sociais e expressões culturais Reunir num único espaço a produção nacional de vídeos vinculados a escolas e oficinas populares que utilizam o audiovisual como meio de expressão cultural é o principal objetivo do Festival Audiovisual Visões Periféricas. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até dia 30 de março de 2007, com preenchimento da ficha via site do Observatório de Favelas e envio, via correio, do material a ser exibido. O Festival Visões Periféricas, patrocinado por a Petrobrás, terá sua abertura no seis de junho de 2007, e as principais mostras acontecerão no espaço cultural da Caixa Econômica Federal no centro do Rio de Janeiro. Periferia Plural O Observatório de Favelas, proponente da iniciativa, considera de extrema relevância a realização desse Festival, pois entende que ele irá contribuir para a representação da periferia sob diversos ângulos, abrindo um espaço de discussão e afirmação da alteridade. O Visões Periféricas reconhece periferias não apenas como os espaços que margeiam os grandes centros urbanos, mas também aqueles que, mesmo distantes desses centros, estão excluídos do processo de representação audiovisual de sua realidade, como oficinas e escolas de meios rurais, como aldeias indígenas e quilombolas. Mesmo que esses espaços hoje tenham uma ascensão de produção audiovisual, com diversas iniciativas em todo o Brasil, essa produção ainda é raramente exibida publicamente, dentro e fora de suas comunidades. Sem esse espaço de exibição, essas experiências populares, que dão vida a novos olhares sobre as diversas periferias da sociedade brasileira, têm o seu poder de transformação limitado. E o papel do Festival Visões Periféricas é simplesmente difundir essas iniciativas. Mostras A Mostra Retrospectiva irá resgatar a produção nacional que deu origem e alimentou o movimento popular de audiovisual da década de 80 até os dias de hoje. Já a Mostra Competitiva reunirá a produção nacional de oficinas e projetos populares de audiovisual inscritos no Festival e serão premiados o Melhor Filme (por o júri popular) e Prêmios de Crítica Social, Retrato da Periferia e Coisas Nossas. Além disso, serão realizadas intervenções audiovisuais e exibições em diversos locais da cidade. Inscrições até 30 de março de 2007 para preencher a ficha de inscrição http://www.observatoriodefavelas.org.br/visoesperifericas/ficha. asp Regulamento http://www.observatoriodefavelas.org.br/visoesperifericas/regulamento. asp Endereço para contato, correspondência e envio de material: Observatório de Favelas do Rio de Janeiro Festival Audiovisual Visões Periféricas Rua Teixeira Ribeiro, 535, Maré -- próximo à passarela 9 da Avenida Brasil. CEP: 21044-251 Tel / fax: 55 1xxx(21) 3888 3220 / 3104 4057 visoes@observatoriodefavelas.org.br Saiba Mais www.observatoriodefavelas.org.br Fontes e Contatos Observatório de Favelas Drica Carneiro Márcio Blanco Vitor Monteiro de Castro Número de frases: 35 (21) 3104 4027 Ramal 212 Opa! Tô chegando agora aqui ao Overmundo e de cara quero apresentar o Mapsys, um ambiente público onde há informações sobre Pontos de Cultura. O objetivo do Mapsys é possibilitar a agregação de informações sobre ações de interesse público e também disponibilizar essas informações para outros ambientes públicos. Esse é o primeiro passo para realizar o mutacubra, pensado por o Daniel Pádua. Mais pra frente a idéia é conectar ambientes públicos através do boto. Ainda tem bastante coisa pra desenvolver, mas deixo aqui o convite pra quem quiser procurar informações sobre os Pontos e contribuir com o desenvolvimento do Mapsys. Número de frases: 7 Abraços! Uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, a Unidos de Lucas definiu seu enredo para o carnaval de 2008. «Piauí, Filho do Sol do Equador. Teresina, Terra do Sonho e do Amor», de autoria do carnavalesco Renato Bandeira, vai mostrar o Piauí desde a Pré-História, retratando seus sítios arqueológicos, passando por sua história e sua formação como estado. A Auri-Rubra da Leopoldina, como também é conhecida a escola de samba do bairro de Parada de Lucas, no subúrbio do Rio, levará para avenida, ainda, a arte, a cultura e o folclore piauienses, bem como um retrato do atual momento sócio-econômico do o estado. Sem contar com qualquer tipo de apoio do governo do Estado do Piauí ou do Município de Teresina, a diretoria da escola optou por este enredo, por acreditar que o tema possa levar a Unidos de Lucas ao primeiro lugar do Grupo B, e, assim, retornar ao Grupo A.-- Escolhemos esse enredo pois percebemos sua força. É claro que temos esperança de podermos contar com a ajuda, tanto dos governos, como da iniciativa privada do Piauí e Teresina, afinal temos um carnaval orçado em quase 500 mil reais e dispomos, por nossos próprios recursos e subvenção da Prefeitura do Rio de Janeiro, de pouco mais de 200 mil. Tomara que as autoridades, o empresariado e até mesmo a opnião pública piauienses se sensibilizem e nos ajudem a colocar nosso carnaval na avenida. Disse o presidente da Unidos de Lucas, Paulinho Soares. Em o barracão da escola -- local onde são confeccionados os carros alegóricos e as fantasias do desfile -- os trabalhos já estão a pleno vapor. Em o momento estão sendo confeccionados os protótipos das fantasias das alas. Os figurinos serão apresentados ao no próximo dia 19 na quadra de ensaios da Unidos de Lucas. E na internet, no site que já está sendo desenvolvido para esse fim, os mesmos figurinos estarão disponíveis para que possam se apreciados também por o povo do Piauí. -- Aliás, todos os piauienses estão convidados a desfilarem com nós, disse o Presidente Paulinho Soares A Unidos de Lucas é a quinta escola a desfilar na terça feira, dia 5 de fevereiro. A seguir a íntegra da Sinopse do enredo da Unidos de Lucas. O Piauí, «terra querida, filha do sol do equador», segundo os versos de Antônio Francisco da Costa e Silva para o hino do estado, e sua capital, Teresina, estão sob foco central de nosso desfile no carnaval de 2008. Localizado no Nordeste do país, é o estado litorâneo com menor extensão de costa: apenas 66 km. Esse pequeno trecho, porém, é privilegiado. Em a fronteira com o Maranhão, a oeste, fica o Delta do Rio Parnaíba, o único em mar aberto das Américas. Seu ecossistema lembra o da Amazônia, com inúmeras ilhas, lagoas, igarapés e praias de areia fina, tomadas por dunas e coqueiros. Mas a maior parte do território piauiense está sob a ação do clima semi-árido. Teresina, às margens do Rio Parnaíba, é a única das capitais nordestinas que não está localizada à beira-mar. Sua escolha como capital se deve não só à forma como o Estado foi colonizado, mas principalmente a uma decisão geopolítica. A cidade é uma síntese da cultura do povo piauiense e eixo turístico obrigatório da região. Para realizarmos nossa homenagem ao estado do Piauí e sua capital, dividiremos nosso desfile em quatro partes, onde serão mostrados seus aspectos históricos, culturais e sócio-econômicos. Quadro I A Pré-História no Piauí O Piauí abriga 1.215 sítios arqueológicos de importância mundial e que podem explicar a formação do homem americano. Em a Serra da Capivara, foram encontrados vestígios da existência do homem há cerca de 50 mil anos. Tamanha riqueza atraiu a atenção de arqueólogos do mundo inteiro, além da imprensa nacional e internacional. Pela primeira vez havia evidências científicas de que o homem penetrou no continente americano muito antes de 12 mil anos atrás, como afirmavam os pesquisadores. Em o local foi encontrada Luzia, o fóssil do ser humano mais antigo das américas. Luzia, negra por essência e excelência, é provavelmente o elo comum de toda a civilização americana. Estudos realizados na década de 60 por o peruano Eduardo Habich comprovam que negros africanos estiveram na América, como conquistadores entre 20.000 e 50.000 anos antes de nossa era, ou seja, antes de Cristo. Encravado nesta região, encontramos também o Parque Nacional Sete Cidades, habitat de diversas e raras espécies da fauna e da flora, e abrigo de um dos mais belos conjuntos de formações geomorfológicas do Brasil, as Sete Cidades de Pedra. Em suas paredes, inscrições rupestres são temas de estudo e motivo para suscitar as mais diversas e intrigantes lendas sobre o local. O pesquisador francês Jacques de Mahieu que esteve em Sete Cidades em 1974 atribui as inscrições e pinturas rupestres aos vikings, por a semelhança com os caracteres rúnicos. O suíço Ludwig Schwennhagen considera os fenícios um dos primeiros povos a habitar Sete Cidades. Eles teriam atravessado o oceano em busca de novas rotas comerciais, devido à Guerra de Tróia e acabaram fazendo de Sete Cidades um grande palco para cerimônias religiosas. Tribos Tupinambás e Tabajaras relataram ao padre jesuíta Antônio Vieira que os tupis chegaram ao norte do Brasil provenientes de um país que não existia mais. Schwennhagen considera este fato indicação de que a raça Tupi é remanescente do continente perdido de Atlântida Outros arqueológos percebem também a passagem dos egípcios por as terras do Piauí. Em a verdade, a passagem destes povos por as terras que hoje são denominadas Piauí -- e sua conseqüente miscigenação --, fazem de seu solo o berço da civilização americana. Quadro II A História chega ao Piauí Em o início do Século XVII, mais precisamente em 1606, a «história oficial» promove suas primeiras incursões ao território piauiense, quando o Piauí funcionava como «ponte» entre as Capitanias de Pernambuco e Maranhão. Um bandeirante paulista, Domingos Jorge Velho, penetrou por estas terras, desbravando o território, cultivando a terra, construindo currais e criando gado, mas logo seguiu seu caminho, desbravando novas regiões. Foi ele quem deu a atual denominação de Parnaíba ao rio que antes era conhecido por uns como rio Grande dos Tapuias, por outros como rio Pará, ou ainda como rio Punaré. Novas notícias surgem apenas em 1656, quando um grupo de pessoas fez o trajeto inverso, ou seja, do Maranhão para Pernambuco, sob a chefia de André Vidal de Negreiros. Inicialmente, as terras do Piauí receberam a denominação de Piagüí, nome dado por os seus indígenas. Mais tarde, chamaram-nas Piagoí. Somente depois é que ficaram conhecidas por Piauí, que quer dizer rio (i) de piaus (uma espécie de peixe de água doce). A colonização do Piauí deu-se do centro para o litoral. Fazendeiros do São Francisco, a procura de novas expansões para suas criações de gado, passaram a ocupar, a partir de 1674, com cartas de sesmarias concedidas por o governo de Pernambuco, terras situadas às margens do rio Gurguéia. Um desses sesmeiros, Capitão Domingos Afonso Mafrense, também conhecido como Domingos Sertão, fundou trinta fazendas de gado, tornando-se o mais eminente colonizador da região. Por sua própria vontade, as fazendas foram legadas, após sua morte, aos padres da Companhia de Jesus. Hábeis gerentes, os jesuítas contribuíram de forma decisiva para o desenvolvimento da pecuária piauiense, que atingiu seu auge em meados do século XVIII. Em essa época, os rebanhos da região abasteciam todo o Nordeste, o Maranhão e províncias do Sul. O Piauí esteve sob a bandeira de Pernambuco até 1701, quando em 3 de março daquele ano uma Carta Régia enviada ao Governador de Pernambuco anexava o Piauí ao Maranhão. A autonomia veio em 1761, por meio de uma Carta Régia, datada de 19 de junho. Por aquele instrumento, a Vila do Mocha ascendia à condição de cidade e oito povoados foram alçados a condição de Vila. Em 13 de novembro do mesmo ano, o Governador João Pereira Caldas impunha o nome de São José do Piauí à Capitania e mudava o nome da capital de Vila do Mocha para Oeiras. A completa independência em relação ao Maranhão somente aconteceu em 26 de setembro de 1814, quando, por força de um Decreto Real, o Governo Militar do Piauí foi separado do Governo Militar do Maranhão e, em 10 de outubro, nova Carta Régia isentava o Piauí da jurisdição maranhense. O Piauí aderiu a declaração de independência política de D. Pedro I, feita em 7 de setembro de 1822, e foi palco de memorável batalha contra o jugo português, em 1823, a Batalha do Jenipapo, em oposição às tropas de Fidié, que defendia a manutenção da Coroa Portuguesa. Em1852, em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina, é fundada a cidade de Teresina. Conhecida como «Cidade Verde» por causa das águas verdes do rio Parnaíba, que se encontram com as do rio do Pote. Quadro III A Arte e a Cultura do Piauí O Piauí possui uma das mais ricas diversidades de dados de enfoque cultural e folclórico do Brasil. Lendas, ritmos e danças, parecem se misturar com singular maestria à arte de seu povo. O que seria do piauiense sem a Procissão do Fogaréu, em Oeiras, a lenda do Cabeça de Cuia, em Teresina, a arte santeira, a religiosidade de Santa Cruz dos Milagres, a deliciosa cajuína e até mesmo o tradicional mastro de Santo Antônio, de Campo Maior? É a esta porção intangível da herança cultural do povo piauiense que vamos homenagear neste quadro. Destacaremos os inúmeros folguedos, pagodes (ritmo de origem africana nascido no Piauí e que teria sido o precursor -- ou pelo menos o inspirador -- do samba de roda mais cadenciado), quadrilhas, bumba-meu-boi, reisado, marujada e pastoril. Homenagearemos também as mãos deste povo artesão. Mãos que tecem tapetes e cestos. Que esculpem e retratam a fé, a esperança e o vigor de um povo lutador que não abre mão de sua cultura e sua arte. Quadro IV Piauí do Brasil Em o fechamento de nosso desfile, revelaremos um pouco do cotidiano do Piauí moderno e de sua capital. O Piauí que apresenta sua própria tecnologia em biocombustíveis; O Piauí do desenvolvimento rural, o Piauí de riquezas minerais, do Turismo e a Teresina do sonho e do amor, refletidos em seus eventos -- como o salão do humor, o festival de cinema e o encontro nacional de folguedos -- que representam os maiores valores de sua gente. Este é o Piauí. Filho do sol do equador. Este é o Piauí da Unidos de Lucas. E esta é a Unidos de Lucas. Desde já, só Piauí. Número de frases: 88 Há alguns meses, tive uma idéia, que ainda parece ser minha, de um novo formato de reality show. Procurei pensar em algo que pudesse contribuir de forma mais efetiva, culturalmente falando, com a disponibilidade que as pessoas têm para perder tempo. Algo que fosse além da pura diversão gratuita, que possuísse elementos que não reduzissem a audiência ao desfecho de uma intriga infantil, dentroutros ingredientes que levaram o gênero à exaustão. Em a verdade, nem sou grande apreciador destes programas, mas sempre procurei saber no que deram e o que não deu certo em cada formato. O fato das emissoras brasileiras terem de pagar fortunas para obter o direito de idéias geradas no exterior me incomodou bastante. Foi a verdadeira motivação para o desenvolvimento do projeto. Pois bem, o título do programa acabou sendo o primeiro que pensei, Sonhos, Câmeras, Ação: Os participantes serão atores, profissionais ou não, de preferência inéditos na tevê. Não tive como não pensar em ver o SCA exibido na Rede Globo, não só por a tradição na teledramaturgia, mas por as oportunidades de encaixe do programa em várias outras atrações da emissora. E também por a premiação final conter o contrato do ganhador com a empresa, imaginemos, por exemplo, como um dos protagonistas da novela das 8 ou das 9. 12 participantes, como de praxe. O primeiro dia de exibição do programa será numa noite de domingo, apenas para apresentação dos participantes entre si e ao público. Em a segunda-feira, a primeira prova, de conhecimentos sobre teledramaturgia, teatro e cinema, definiria o Diretor. Este, poderá escolher 5 participantes para formar seu grupo, que chamaremos de Grupo A. Os remanescentes formarão o Grupo B. As avaliações dos participantes serão realizadas através de apresentações dramáticas. O Diretor poderá escolher, de entre cinco peças / cenas, a que o Ga realizará. Um sorteio, também realizado por o Diretor, determinará a peça / cena que o GB representará. Um segundo sorteio determinará se o GB receberá o roteiro ou terá de produzir uma adaptação. Não haverá interação entre os dois grupos durante os ensaios, pois estarão divididos em duas casas. A Casa A é confortável, possuindo toda a estrutura necessária para o desenvolvimento tranqüilo dos ensaios, dispondo de fartura em todos os sentidos. A Casa B é bem menor, possuindo apenas o indispensável. Deve representar pressão. Em a terça-feira, uma nova prova determinará qual dos grupos receberá cenários e figurinos completos. O grupo perdedor terá de improvisar com os objetos do Porão. Detalhe: o número de objetos retirados do porão será limitado, assim como o tempo para a tarefa. O grupo vencedor desta segunda prova receberá, na quinta-feira, a visita de um diretor ou ator consagrado, que, durante uma ou duas horas assistirá o ensaio, enfim, ajudará na realização. O Grupo B se apresentará na sexta-feira, antes do Globo Repórter. O Grupo A se apresentará no Sábado, antes do Zorra Total. As apresentações serão ao vivo, tendo no mínimo vinte e no máximo trinta minutos de duração, avaliadas por três jurados presentes e por o público através de telefone ou internet. A equipe perdedora seria anunciada durante o Domingão do Faustão. Imediatamente os participantes desta, individualmente, indicariam um membro de seu grupo para deixar o programa. Em caso de empate, o Diretor da semana, o único imune, determina quem sai. à noite, os participantes se reencontram, logo após o Fantástico, numa nova festa. A partir daí a base do programa é a repetição do formato da primeira semana, com algumas outras idéias inseridas no decorrer, até chegarmos aos dois monólogos finais. (Não perdendo a oportunidade, no parágrafo acima está o embrião de outra idéia, o DOMINGLOBO, só por o nome já dá pra captar, né? Com o DOMINGOL fechando a programação ...) Infelizmente, não consegui apresentar o projeto à Rede Globo. Insisti por telefone, por carta, jamais conseguindo retorno ou brecha. Enfim, por e-mail, o Senhor Webmaster me respondeu: a política da TV Globo é de uma empresa estruturada de forma a que seus processos de criação e comercialização sejam de exclusiva responsabilidade de equipes internas. É política da TV Globo não receber colaborações externas. Não vou perder tempo com comentários críticos. Apenas devo deixar claro que, apesar da muralha, sempre fui bem atendido, tanto quando liguei, quanto por o Webmaster. Pena ninguém ter perguntado sobre o que era o projeto. E isso que em momento algum falei em dinheiro. Brasil. Número de frases: 47 Fazer um CD hoje em dia é relativamente fácil, com músicas próprias então, é muito comum. Utilizando-se de midis, aí vamos dizer que temos 78 % ou mais da produção nacional. Agora, investir ou conseguir investimento para a prensagem de seu primeiro disco, de forma independente, contratando arranjador, músicos competentes, escolhendo um repertório de musicas inéditas e principalmente de novos compositores, é sem dúvida ter personalidade. E personalidade não falta neste disco (Conseqüencia -- Silvilí -- 2007) da intérprete Silvilí, um disco bem cuidado e que arrancou elogios de muitos bambas de nossa música. Hoje mesmo conversando por telefone com o grande mestre Oswaldinho da Cuíca este teceu enormes elogios ao trabalho, elogiando a intérprete, as composições e músicos no geral, inclusive dizendo que nos últimos anos poucos discos o surpreenderam tanto. Silvilí não caiu do céu como diz a nossa gíria, quando se fala de sucessos relâmpagos, ela é uma cantora já conhecida nas rodas de choro de São Paulo e por um seleto público que admira sua interpretação. Em este disco, ela mais do que nunca, nos passa sensibilidade e talento. Em o disco, feito somente de músicas inéditas, encontramos somente três compositores conhecidos, a dupla Almir Guineto e Luverci Ernesto que dispensam comentários e Elzo Augusto, compositor de grandes sucessos com Germano Mathias, de resto além do compositor que vos escreve, temos Kaká Silva, Affonso Moraes, Álvaro Cueva, Bené Olegario, Cristina Costa, Max Gonzaga, e outros compositores, que assim como este que vos escreve, além de pequenos shows, com demos na mão, gastamos muitas solas de sapato em busca de intérpretes, que pelo menos queiram ouvir os nossos trabalhos. Mas garanto que todos nós fomos muito bem recompensados, com este disco. Se voce quer conhecer um pouco mais de Silvilí, voce pode ouvir e baixar a música Metades, de minha autoria e liberada por a cantora para uso no Overmundo, ou visitar o site www. silvilí. com. Parabéns Silvilí. Parabéns Música Brasileira!!!! Número de frases: 13 Quer discutir política mas não sabe o que fala confundindo Pinochet com Che Guevara. Tenta dominar a situação com cara de indignado quando falo. Olha de lado e ri um riso sarcástico e diz que com mim não discute política porque não estou apto. Comunista não por ideologia, mas porque acha bonito, nem sabe o que é, mas é. Tentei provocar uma discussão perguntando por que achava o comunismo ideal para o Brasil? Fugiu da resposta falando bosta, única saída pra quem nada sabe. Diz que vai pregar pôsteres do Che por a sala, onde deveria pendurar pôsteres de mulher pelada. E estufa o peito dizendo-se comunista como se ser comunista necessitasse de peito estufado. Acha-nos idiotas a ponto de negar presentear-nos** com sua ideologia chinfrim tirada de um panfletário pseudo-cult. Barba na cara e cabelo desarrumado pra se enquadrar num estereotipo de revolucionário tupiniquim, mas usa nike e se delicia com Big Macs, mas enquanto come resmunga palavras débeis que saem de sua consciência pesada e torpe. Dá-me preguiça essas pessoas, achando-se acima de todos por ser um jovem comunista; de araque. Diz que o ideal seria aniquilar as favelas, mas pra quê? Pra se construir condomínios de luxo? Não, diz ele, mas não explica como e muito menos por que. De sua boca só saía palavras insossas e impregnadas de ideologia caduca que deve fazer sucesso entre os idiotas. Desculpe, não sou burro o suficiente pra baixar a orelha pra frases feitas e de efeito roubadas de livros que impressionam somente por o efeito e nunca por a praticidade. O conteúdo de suas frases é inócuo e vazio, perfeito pra universitários neo-hippies que gritam, mas nada falam em rodas extremamente chatas e cansativas. E quando indagado perde o olhar no vazio fingindo intelectualidade e introspecção, mas que a mim não engana, está somente ganhando tempo pra formular mais uma merda homérica e blá blá comunista que atrai universitários jovens riquinhos, mas descolados que vomitam sobre nós indecentemente uma ideologia parda, sem cor. Deve fazer sucesso entre as menininhas estúpidas que nada tem na cabeça, achando o jovem comunista um idealista por nada entender potencializando suas merdas num fedor desagradável que impregna o ambiente. Para a cima de mim não, mané! Revolução; também quero! Mas não espero, faço do meu jeito, não com frases feitas de caderninhos resmungões, mas com as minhas próprias frases resmungonas. Pode ser uma grande merda também, mas não a vendo como salvação a preços baratos como bugiganga de baciada a 1,99; no máximo. Cansei desse cara, que tentava desesperadamente se impor com besteirinhas inocentes. Desculpe ler também tanto livrinhos idiotas quanto livrinhos nem tanto assim. Frases feitas não surtem efeito sobre as minhas próprias. Depois de varias cervejas, o discurso cai na mesmice que é característica de falta de conteúdo. Não sustenta uma conversa de 15 minutos porque seu estoque de obviedades começa a transparecer aos olhos, e a merda começa a feder. O que fazer? Desqualificar os ouvintes porque não há mais saída, não há mais pra onde correr, porque seu repertorio de asneiras começa a findar e tudo lhe foge a mão. E ainda por cima ele tentou flertar com a minha garota a noite inteira. Que porra, além do cara me achar estúpido demais pra discutir política deve achar que sou corno também. Sendo assim, começou a chamar todos de superficiais e que todo mundo está por fora. Por fora? Graças a Deus, é melhor estar por fora que por dentro de tanta merda. Certa hora se indignou por não ter conseguido falar nada mais que blá blá blás e retórica maniqueísta barata de bem e mal extremamente ingênua e se foi batendo o pé no chão forte e cara amarrada. Ah, e antes que eu me esqueça: Adios filhote de Che, vá cagar no mato! Número de frases: 37 T.S.H. Mais uma vez o Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, abre suas cortinas para três noites de espetáculos noturnos de grupos e projetos sociais com arte e cultura. Em o palco, teremos música, dança, circo, teatro, poesia e manifestações populares -- potentes ferramentas de transformação social -- com a participação de mais de 400 jovens e artistas, representantes de diversas grupos culturais espalhadas por o país, além da presença de convidados internacionais. Repetindo o formato da 1.a edição, que aconteceu em abril de 2006, durante dois dias acontecerão oficinas e visitas de intercâmbio para integração, troca de experiências e ampliação do universo cultural dos jovens participantes, que poderão experimentar diferentes linguagens artísticas. Em a manhã de 3 de junho, um seminário irá debater «Juventude, Cultura e Desenvolvimento» e deverá reunir em torno de 180 pessoas. Imagens de experiências sociais com arte e cultura poderão ser vistas durante a exposição Caravana da Imagem, que registrou grupos artísticos de projetos sociais nordestinos e estampou no papel a beleza e força do Nordeste. O lançamento de um livro com essas fotos marcará a aber Pela primeira vez, os grupos participantes da Mostra Brasil Juventude Transformando com Arte irão realizar visitas de intercâmbio. Em uma de elas, os jovens artistas vão conhecer de perto os núcleos comunitários de cultura do Grupo Cultural Afro Reggae, em dois dias. Em o sábado, 31 de maio, cerca de 50 integrantes dos grupos de música que participam da 2ª. Mostra Brasil conhecerão o trabalho do AfroReggae no Cantagalo, Complexo do Alemão, Vigário Geral e Parada de Lucas. A idéia é ver ao vivo as ações de um grupo reconhecido e ações importantes baseadas na arte, visitar essas comunidades, entender o contexto onde esses trabalhos se realizam e dialogar com os integrantes do AfroReggae. Para completar, os participantes passarão por oficinas de dança e percussão com o AfroReggae no núcleo de " Vigário Geral. «É a essência do intercâmbio que queremos que aconteça, juntando experiências de diferentes partes do Brasil que têm objetivos semelhantes de transformação social», conta Beatriz Azeredo, uma das coordenadoras da Mostra Brasil. Em o dia seguinte pela manhã, os grupos de música irão para o núcleo do AfroReggae no Cantagalo onde tocarão juntos. à tarde, artistas de circo, dança, canto e poesia, participantes da Mostra Brasil, se juntarão a eles para uma grande confraternização. Os artistas terão a oportunidade de se reunirem num ambiente informal, contribuindo com o que cada um sabe fazer ou com o que aprendeu nas oficinas. «A idéia é que, quando começarem os espetáculos, no dia 2 de junho, eles já se conheçam e se sintam parte de um único grande grupo», completa Angela Nogueira, uma das coordenadoras do evento. Os encontros serão fotografados por alunos da Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo, do Observatório de Favelas, sob a coordenação do reconhecido profissional João Roberto Ripper. Também estão programadas vivências de circo na Lona do projeto Crescer e Viver, de dança no Teatro do Jóquei, além de conhecer de perto a experiência da ONG Spectaculu, que forma jovens para o mercado artístico profissional. Outro diferencial em relação à primeira edição, que aconteceu em abril de 2006, são os passeios a pontos culturais do Rio, como o Centro Cultural Banco do Brasil. A idéia é estimular a integração, troca de experiências e a ampliação do universo cultural dos jovens participantes. Para obter a programação completa do seminário clique aqui. Número de frases: 22 Sempre penso duas ou três vezes antes de assistir peças de William Shakespeare, e o motivo é muito simples: os textos são tão conhecidos (é indelicado dizer que são batidos, até porque Shakespeare é foda. Vai que ele tá lendo isso lá do céu ou do inferno ...) que qualquer encenação sem uma proposta cênica muito bem definida está fadada ao fracasso. Isso sem contar que sempre há montagens ou filmes que, de tão fortes, ditam os clichês para toda a eternidade. Vide o Hamlet do Lawrence Olivier e o Romeu e Julieta do Ronald Golias e da Hebe Camargo. Em este fim de semana em que todo mundo da Bacante foi passear nos alegres bosques de Rio Preto, eu fiquei em São Paulo e conferi a terceira montagem de Hamlet apresentada na cidade nos últimos quatro meses (a primeira foi a zen-budista emperequetada do Rubens Ewald Filho, e a segunda foi a porra-louca experimental da Cia. dos Atores). Desta vez, os responsáveis por as palavras, nada além de palavras foram os venezuelanos do Teatro Del Contrajuego, dirigidos por Orlando Arocha -- que segundo o release, é um dos mais famosos diretores da Venezuela. Mas quem acredita em releases? Em a entrada do teatro, um banner indicava que a apresentação teria quase quatro horas de duração. Muito medo de cochilar -- caso encontrasse ali dentro uma montagem nada inovadora, mas decidi confiar no bom senso do SESC São Paulo, organizador do festival de Rio Preto (e que quase sempre acerta no que faz). Começa o espetáculo, ambientado num pequeno e claustrofóbico cômodo imundo. O texto de sempre, falado em espanhol, contextualizado no mundo contemporâneo (para não deixar dúvidas, Hamlet escreve a data na parede, com giz, a data em que a apresentação ocorre). Quem precisou das legendas, projetadas acima do cenário e quase no teto do teatro, se ferrou: a tradução era péssima e eu desconfio que a pessoa que controlava as legendas estava mais preocupada com o jogo Brasil x Argentina do que com o trabalho em si. Certa ela, trabalhar é um saco. Os primeiros minutos se arrastaram muito, e eu já me perguntava: cochilar ou não cochilar, eis a questão. Mas então uma cena específica chama minha atenção: Polônio e Cláudio enfeitam Ofélia utilizando balões de gás hélio e ... grampeadores. Minha consciência sonolenta desperta com os ares de novidade e não se decepciona, deste ponto em diante a peça nos traz uma série de surpresas. Até mesmo a batidíssima cena do «ser ou não ser» nos surpreende -- e mais de uma vez. É muito difícil falar de uma montagem de Hamlet com o Ensaio. Hamlet de Enrique Diaz ainda tão fresco na memória, mas esta montagem de Arocha tem um brilho especial. A cada ato, a utilização do espaço e a apropriação do cômodo apertado são cada vez mais pertinentes, e as imagens que surgem são espetaculares. O senso de humor de eles também, embora seja muito difícil engolir Rosencrantz e Guildenstern em versão gangster-cucaracha depois de conhecer a versão Power Rangers da Cia. dos Atores. Um destaque especial é para a atriz Diana Peñalver, que interpreta uma das Ofélias mais interessantes que já vi na vida (sua voz rouca cantando El amor no se puede olvidar, do bizarro duo argentino Pimpinela, ecoa em minha cabeça até agora). Em suma, apesar de não ser nenhuma experiência radical, este Hamlet traz tudo aquilo que nós da Bacante sempre procuramos em montagens teatrais: idéias e pirações criativas levadas às últimas conseqüências, conceitos de encenação que não se perdem, imagens deslumbrantes sem a necessidade de grandes firulas, atores bons e em grande sintonia ... Número de frases: 29 e o poder de nos deixar com vontade de acompanhar até o fim este texto que já estamos carecas de conhecer. Por: Luciana Pereira Em Salvador, uma rapaziada esperta envolvida com os mais diversos estilos de arte urbana e contemporânea, vem levando um pouco de cultura e lazer aos bairros populares através de iniciativas próprias e com muita boa vontade. De a união de um grupo de Dj ´ s, o MINISTEREO Publico, sistema de som nos moldes jamaicanos, com grafiteiros integrantes da 071 Crew e do Coletivo Mote -- Vídeo e Projeções, nasceu o Projeto Mutirão Mete Mão. O Mutirão é um evento itinerante que visa levar manifestações artísticas urbanas às comunidades carentes de atividades culturais, tendo como âncora as artes plásticas através do graffiti e o sistema de som -- ambientação sonora que agrega estilos musicais baseados na música jamaicana, cultura essa que têm forte influência no som aqui produzido e no modo de vida dos baianos. Inspirado em movimentos semelhantes que já acontecem nas favelas de Recife e do Rio de Janeiro, o evento tem como principal característica a diversidade, reunindo além dos moradores do local, grafiteiros, estudantes, músicos, líderes comunitários, professores, formadores de opinião e artistas em geral, de várias faixas etárias e segmentos sociais, unidos no intuito de agregar valores e disseminar todas as expressões artísticas presentes nessas comunidades. O projeto acontece uma vez por mês em bairros pré-selecionados, quando djs, grafiteiros, músicos, cantores, atores e videomakers se reúnem para trocar experiências com os moradores das localidades, realizando intervenções artísticas e mostrando um pouco dessa «arte das ruas». As atividades acontecem durante todo dia, sendo a parte da manhã dedicada ao graffitti e a tarde à música. Todos os pontos desses bairros que receberão as intervenções dos grafiteiros são anteriormente catalogados e, o material utilizado para a pintura dos painéis levado por os próprios artistas. A idéia é modificar o cenário, presenteando a comunidade com uma nova atmosfera de cores nos muros e ruas. Quilombos Urbanos Com muitos contrastes e um visível apaharteid social, em Salvador, apenas uma pequena parcela da população têm acesso a equipamentos públicos e privados de lazer, educação e saúde. Os bairros periféricos são verdadeiros «quilombos urbanos», onde grande parte de seus moradores são afro-descendentes que ali residem desde a sua origem, caracterizando-se também por serem locais de resistência e luta por a cidadania. Os problemas encontrados são os mesmos das grandes metrópoles do terceiro mundo: coleta de lixo insuficiente, falta de saneamento básico adequado e habitações pobres. Soma-se a esses fatores a falta de políticas de inclusão social, altos índices de violência e o desemprego. As autoridades têm dificuldades de controlar e solucionar esse processo de crescimento desordenado em que nossa cidade se encontra, sendo comum em muitas comunidades carentes da periferia, os próprios moradores se organizarem de forma democrática para participar da tomada de decisões junto aos órgãos públicos. Esses são os parceiros dentro da comunidade e, que viabilizam o acesso destes artistas ao bairro, fornecendo toda a logística e estrutura para que o evento possa acontecer. Foi assim nos bairros da Paz, Saramandaia, Massaranduba, Itinga e Boca do Rio, nas andanças do Mutirão. Música dançante ecoa dos toca-discos Reggae, dub, raggamuffin, jungle e dance. Basta chegar à tarde para o MINISTEREO Publico destilar toda a sua efervescência sonora. Aonde a caravana chega é esse o som que ecoa dos toca-discos dos selectas / Dj ´ s em performances dançantes, os toasters mandando ver nas rimas, efeitos e psicodelia, dando a verdadeira impressão de estarmos na Jamaica dos anos 50, nos famosos bailes dancehall tamanha é a energia que contagia o público. Além do MINISTEREO que é o Mestre de Cerimônia do evento, grupos locais de rap, percussão, b-boys, malabares, e peças de teatro fazem parte do repertório dos eventos. Já se apresentaram na arena do Mutirão a banda Clã Periférico no Bairro da Paz, Raciocínio Angular, Banda Consciente, Revolução Verbal, Império Negro e Vida Ativa em Saramandaia, 157 Nervoso, Impacto Verbal, Aspecto Cordial e os DJ ´ s Lord Breu e Leandro em Massaranduba, Shenzira, Vida Ativa e Soker em Itinga, além dos grupos PJC e 3X4 e Dj magnosantoz na Boca do Rio. Segundo um dos organizadores do evento e integrante do MINISTEREO Publico, Dudoo Caribe, o Mutirão prossegue com o intuito de chegar a todos os bairros carentes de manifestações artísticas e que dêem ao grupo uma pequena estrutura para que as atividades possam acontecer. Esse mês a trupe segue para o fim de linha do Garcia, levando muito som e cores para comunidade e para quem chegar junto e for conferir a movimentação. Número de frases: 27 Não sei em outras cidades mundanas, mas pelo menos no Recife e adjacências, o meio «Cult» (que tenta ser tão diferente) é igual ao resto dos populares, vive de certos modismos. Hoje a moda é ter uma banda com o cantor cantando escalonado e oitavando a melodia, ah! e ter uma banda cover de algo considerado interessante para ser estudado por a sociologia, como por exemplos: bandas antigas, cantores chamados de brega, e claro os grandes gênios da música Tupiniquim (minha mania agora é usar essa expressão). Voltando ao assunto inicial, um outro modismo, que vem do pós-Chico Science pra cá, e esse realmente me incomoda, é o do furto cultural, principalmente o da cultura popular. Não é difícil hoje, chegar num maracatu, caboclinho ou afoxé de Recife, e ver um indivíduo de barba, com óculos de soldador ou uma menininha com sainhas de renda, ou de chita e com muita tatuagem, querendo aprender um pouco sobre a bela cultura popular, aquela que corre em seu sangue. É esse mesmo indivíduo que depois sai por o mundo vomitando cultura, e se sentindo o mestre de maracatu (quando não abre o seu), e outra coisa que também me revolta bastante (uma das milhares que vocês verão ao longe do texto), ele nunca dá nada em troca por o que adquiriu. Não falo de ajuda fincanceira, ou coisas do tipo, é uma troca muito mais importante do que essa, uma troca que chega a transcender o físico. Sei que os cults de plantão vão com certeza me criticar, vão usar de todos os argumentos para provar que eu estou errado e, também, vão reclamar da minha escrita, mas entendam por o amor de algum ser superior que vocês creiam, todos sabemos que é necessário que essa cultura (não apenas a musical, mas a oral, a cênica e afins) seja disseminada na vida diária de todos nós, que temos que tentar despreconceiturar (sim, eu sou um fiel adepto do neologismo-sem-noção), mas é preciso ter respeito. Ter respeito por o fundamento que aquilo é baseado, por o tempo que as pessoas dispõem para tal, por os antepassados que ali estão impregnados. E antes de tudo não brincar com coisa séria, tudo no mundo é energia, e trabalhar com energias que não se conhece, é complicado. Eu sei, viajei, mas adoro essas coisas holísticas, adoro falar o que eu adoro. Pois é, infelizmente não consigo exprimir tudo aquilo que eu penso, e isso me irrita profundamente (também). Outra coisa que me irrita (profundamente??) é aquele negócio que no Recife ou o cara é percussionista, ou é produtor ou é dj, isso quando o cara não é O Foda e é os três de uma vez só (assunto pra outra história). Vô lá porque eu vou fazer uma programação com um samplear de um negócio que eu gravei de um cavalo marinho, sabe?? E depois vou ensaiar minha banda cover de ' Tayrone O Cigano ', que sábado eu toco no Toca da Joana, e vou tomar uma no burburinho depois escutando um samba de Raíz. Obrigado. E seje filiz. Vocabulário: cult, não é relacionado a pessoas com vasto conhecimento, cult é simplesmente cult! Alexandre Barros, Número de frases: 22 Com a colaboração de Malu Xavier. Murais Urbanos Uma intervenção de arte-educa ção numa escola da rede pública Você já viu um lobo uivando para a lua? Já imaginou, vendo um numa história em quadrinhos, num livro infantil, num filme, já se perguntou de que dilemas poderia ser feito aquele uivo doído, aquela manifestação de não sei bem o que que o lobo exprime assim, de forma tão pungente, quase religiosa? Pois sempre me ocorreram estranhas reflexões sobre isto (junto com o medo gélido que a referida imagem me transmitia). O que motivaria o lobo naquela sua compulsiva manifestação de júbilo ou lamento? Seria dor? Ou algo impregnado na lua, algum magnetismo inebriante que só aos lobos afetaria? Seria algo sugerido por as sombras no relevo, formando a silhueta de algum São-Jorge lobo, com os dentes à mostra, babando conspirações -- lobos do mundo uni-vos!-- Alcatéias se mobilizando por meio de uivos sincronizados, uma rede inteira de uivos anunciando o ataque para logo mais. E a mensagem? Qual seria a mensagem? Por meio de que sentido, de que Pedra da Roseta a decifraríamos enfim? O que aprenderíamos de crucial para a nossa vida ao decifrar esta instigante mensagem? Qual seria o sentido educacional de seu mistério? Convenhamos: Tudo que, realmente, precisa ser aprendido é vital, imperativo demais e só se deixará apreender, se cristalizar em memórias perenes, se usarmos todas as nossas inteligências juntas, como mosqueteiras sem dicotomia -- uma por todas, todas por uma!-- todos os sentidos juntos enfim. A imagem e o som do uivo, todos os brios e arrepios articulados numa internet de sinapses, lógica -- embora incompreensível -- como mágica do Mandrake. Vendo a imagem do lobo. É assim que aprendemos -- lemos -- o que os lobos são enfim. Educação não deveria ser isso aí? CV de A a Z Aprender para demolir a escola A exibição no fim do ano de 1997, por uma grande rede de TV de pichações alusivas a uma facção do crime ' organizado ' (C.V.), grafadas nas salas da Escola Martin Lhuter King, no bairro da Praça da Bandeira, Janeiro, de algum modo evocava este inquietante significado do lobo-esfinge uivando para a lua. Mais ainda: evocava a imagem de uma Serpente má, gerada por os reflexos evidentes dos seculares mecanismos de exclusão social perpetrados -- quiçá premeditados -- por nossos programas de Educação pública, desde os tempos da escravidão. A serpente da má-educa ção, contraditoriamente, parida por embolorados Queriam o quê? Pura retaliação. A agredida arquitetura da escola-reformatório talvez tenha sido atacada porque antes, diuturnamente, agredira os espíritos mais pueris, urdindo salas-celas, compartimentando as classes entre grades reais e curriculares; frustrando todos os desejos infantis, exprimindo, claramente, no caráter quase militarista de sua disciplina, a intenção dos des-educadores de conter e aprisionar os alunos, reprimindo-os, ensinando-os a não almejar jamais heroísmo algum, que não seja o de ser -- como o Cara de Cavalo do Oiticica -- reles imagem do marginal na capa do jornal popular. Queriam o quê? Talvez fosse este o significado daquelas imagens na TV. Sensacionalistas, terroristas até já que, de forma cifrada, o que propunham mesmo era a identificação (processo ao qual a escola, realmente, se dedicou antes do projeto assumir o problema), a exclusão, quiçá a prisão definitiva para aqueles vândalos, expondo com seu escorregadio significado, a irresponsabilidade flagrante das autoridades, mais do que elas seriam capazes de escamotear, com suas campanhas de propaganda salpicadas de imagens de Escolas felizes. Pois foi este constrangimento providencial que ensejou a proposta feita por um grupo de artistas plásticos à Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, para a realização no início de 1998, de uma original intervenção de arte educação na escola. Produto do pensamento de leigos, por acaso distanciados das pesquisas acadêmicas convencionais, o projeto Murais Urbanos propunha a abordagem do problema, por meio de uma metodologia conhecida como Pesquisa-ação. A idéia havia sido livremente assimilada no convívio dos artistas, como arte educadores, com o Programa Especial de Educação, criado por o antropólogo Darcy Ribeiro (cujas ações eminentemente culturais eram coordenadas por a musicóloga Cecília Conde, irmã do prefeito na ocasião). Os artistas eram: Raimundo Rodrigues, Spírito Santo, Luiz Augusto Vaz, Deneir de Souza e Pedro Dominguez. A linguagem escolhida -- por aproximação com o que as pichações do C.V. / Comando Vermelho sugeriam -- foi, obviamente, o Grafitti, uma eficiente ferramenta para a abordagem de questões culturais, utilizada por o homem desde os tempos das cavernas do Cro-Magnon, até as intervenções urbanas de Basquiat e Keith Haring em Nova York. » ... Durante o ato de criação dos murais, foi interessante observar que o processo de descontrução da capacidade de expressão visual ou gráfica dos alunos, aparentemente ocorre na mesma medida em que estes vão se tornando mais velhos. A educação convencional parece perder terreno, rapidamente, para os apelos e conteúdos banais da indústria cultural de massa, cuja maioria dos signos nos remete, por exemplo, para palavras da língua inglesa, em detrimento do português. É provável, portanto que, do ponto de vista da comunicação, a Escola talvez esteja dando ênfase excessiva a alguns recursos de linguagem, abrindo mão de outros (artes plásticas, teatro, música, TV, cinema, etc.) ..." Assumida por a Coordenadoria de Programas da Juventude do gabinete da prefeitura, dirigida por a profa.. Iza Locatelli e prevista para mobilizar um grupo entre 30 e 50 alunos, a ação acabou por assimilar todos os 1000 alunos da escola. A adesão de tantos interessados, de faixas etárias tão diversas, obrigou a adoção de um mural linear -- a Serpente -- que, simbólica e concretamente, envolveu, todos os andares e pátios da velha escola, num abraço, irresistivelmente, fatal. » ... como se uma imensa cobra correndo atrás do próprio rabo, representasse, simbolicamente, o conjunto formidável de possibilidades pedagógicas que, sugeridas por as próprias crianças, nas imagens impressas de seu universo emocional, servisse para renovar, fazer respirar a escola ..." Orobórus, o Vudu de Dan Ou a cobra hieroglífica faminta de si mesma E foi assim que o Lobo (os alunos) e a Lua (a escola) se viram envolvidos numa paixão desmedida e salvadora já que, surpreendentemente, obtendo ampla liberdade da autoridade municipal, os artistas puderam interferir na rotina da escola, em todos os aspectos, identificando, criando e mediando conflitos. » ... O sucesso desta mobilização dos alunos, trouxe-nos, portanto, outros problemas, que começaram a ser detectados. Uma tendência para a evasão das aulas convencionais, uma exagerada disponibilidade de alguns alunos para permanecer na ' sala dos murais ..."» ... à medida em que o trabalho se desenvolvia, alunos do curso supletivo ... manifestaram agressivamente seus anseios por expressão. Reconhecendo o mural geral como uma mensagem válida a ser preservada, passaram a pichar, meticulosamente, toda a área que o margeava, com mensagens alfabéticas, algumas explicitamente dirigidas ao projeto. Em este quadro a equipe optou por reconhecer e ' aliciar ` para as oficinas os diversos ' pichadores ' da escola municipal, esboçando junto com estes, algumas abordagens isoladas, num jogo sutil de contra-mensagens dirigidas aos marginalizados alunos da noite ..." A intervenção propunha enfim a expressão de todas as imagens porventura contidas na alma de cada indivíduo da escola, sem nenhuma espécie de censura moral ou mesmo estética. O seu amor, ódio ou mesmo o seu desprezo por aquele neurótico (lunático?) organismo em que as circunstâncias sociais transformaram sua escola, devia ser exprimido num segmento qualquer do corpo daquela cobra mágica. Era esta a única condição exigida. A pedagogia estaria contida no próprio processo. » ... Um conjunto de táticas, absolutamente, ditadas por a experiência do dia à dia do trabalho, acabou por designar uma metodologia para a questão do ' excesso de clientela '. A principal de elas foi a criação de alunos monitores responsáveis por equipes. Obedecemos neste caso o próprio hábito de formação de grupos utilizado por os alunos, que envolvia critérios diversos, tais como, grupos por série escolar, grupos de rua, grupos por gênero, etc.. A estratégia surtiu efeitos importantes, como a adesão tardia, porém positiva, de muitos professores, com o apoio dos quais pudemos desenvolver oficinas junto às respectivas turmas ..."» ... A relativa perda da capacidade de se exprimir com cores e formas, observada nos alunos adolescentes, a forte tendência à banalização de sua própria comunicação interpessoal, restrita, exclusivamente, ao uso de signos alfabéticos ininteligíveis para ' estranhos ' (nomes, números de turmas, marcas do Comando vermelho, suásticas, diabo da Tazmânia, etc.), foram sendo, desta forma, lentamente trabalhadas, para que, do ponto de vista da comunicação, algumas mensagens pudessem ser elaboradas por a escola como um todo. » ... Por outro lado, tentou-se também sensibilizar os professores para o verdadeiro sentido do que estes alunos queriam expressar com suas ' pichações ', para o conjunto de conceitos e conteúdos gravados em suas pinturas nos murais, que poderiam conter indicações para o desenvolvimento de novas e mais adequadas abordagens pedagógicas ..." E foi assim que a boa Serpente -- metáfora talvez da Educação, tal como deveria ser exercida -- se transformou num arco-íris de novas possibilidades e mensagens -- ou culturas -- a serem decifradas por os futuros habitantes de uma escola que, talvez disposta a nunca mais voltar a ser aquela outrora hipócrita prisão de anseios, compreendeu que, definitivamente, o Meio pode mesmo ser a Mensagem. Você já viu uma pessoa uivando para a lua? Seja uma. Spírito Santo Junho 2008 As fotos deste post reportam detalhes do levantamento realizado por as professoras Maria Luiza Oswald e Mailsa Passos (UERJ) e Maria Cândida Caetano e Sonia Elias (Escola M. Lhuter King) e os artistas Aloysio Zaluar, Spírito Santo, Luiz Gonzaga Santos (pai do ex-aluno Tales) e a diretora atual da EMMLK, prof. a Eliete Britto, visando a restauração dos Murais, agora como um projeto de pesquisa da Faculdade de Educação da Uerj proposto à sua diretora atual Profa.. Lia Faria. Curta aqui o álbum total com fotos do projeto. Uma série de imagens da época em que o Mural foi realizado, publicadas por a Prefeitura do Rio num modesto livro, ressaltam de forma veemente, o quanto a obra coletiva foi respeitada e conservada, por os alunos, atestando a pertinência de um trabalho feito há incríveis 10 anos atrás. Notas: (As citações em itálico foram extraídos do livro «De a Serpente ao Arco Íris» publicado por a Prefeitura do Rio de Janeiro em 1998, cujo texto é do mesmo autor. O título do livro é inspirado diretamente num livro do etnobotânico Wade Davis que estudou o vudu haitiano, religião africana oriunda do antigo Dahomey (hoje Benin), na qual a serpente ' Dan ' (' Dambalah Wedo ') representa a entidade principal. Número de frases: 81 A exemplo do que acontece também em Cuba, um Vodu algo aclimatado, ocorre também no Maranhão, Brasil, sob o nome de «Tambor de Mina». Este texto foi traduzido e adaptado para a nossa realidade e sistema métrico a quatro mãos por mim e Ana Paula Ferreira. O original está no site do filme Uma Verdade Inconveniente para download sob o título " 10 Simple Tips " Dez Coisas A SE Fazer Você quer ajudar a parar o aquecimento global? Aqui estão 10 coisas que você pode fazer (e também a quantidade de dióxido de carbono que você vai deixar de emitir). Troque uma lâmpada Substituir uma lâmpada comum por uma lâmpada fluorecente evitará a emissão de 80 kilos de dióxido de carbono por ano. Dirija menos Ande, vá de bicicleta, faça revesamento de carros e use o sistema de transportes com mais frequência. Voce deixará de emitir 1 kilo de dióxido de carbono por cada 3,5 km que voce deixar de dirigir. Confira os pneus Manter seus pneus calibrados corretamente pode diminuir em mais de 3 % o consumo de gasolina / álcool. Cada litro de combustível economizado reduz 2,5 kilos de emissão de dióxido de carbono na atmosfera. Use menos água quente Aquecer a água demanda muita energia. Instale um chuveiro de baixa pressão e você deixará de emitir 180 kilos de dióxido de carbono por ano. Recicle Você pode reduzir 600 kilos na emissão de dióxido de carbono por ano se reciclar o lixo produzido em sua casa. Evite produtos com muitas embalagens Você pode deixar de emitir 600 kilos de dióxido de carbono se diminuir em 10 % a quantidade de lixo que produz, Coma menos carne A produção de 1 caloria de proteína animal queima dez vezes mais combustíveis fosseis e emite dez vezes mais gás carbônico que a produção de 1 caloria de proteína vegetal. O Brasil ocupa o quarto lugar com maior responsabilidade por o efeito estufa por conta das queimadas para pastagens. Plante uma árvore Uma única árvore absorverá 1 tonelada de dióxido de carbono durante sua vida. Desligue os aparelhos eletrônicos Simplesmente desligar sua televisão, DVD player, som e computador quando não estão sendo utilizados, reduzirá a emissão de toneladas de dióxido de carbono por ano. Espalhe essas informações! Número de frases: 29 De a beira do rio para a cidade. Resgatar a auto-estima do caboclo, dar valor aos conhecimentos do povo da floresta, seu linguajar, seus trejeitos e cultura; misturar tudo isso, e transformar em música. Essa é a receita de um movimento que virou festival. Jovens artistas de Porto Velho vestiram a camisa da construção de uma cena musical na cidade, com raízes afro-indígenas, como legítimos moradores das barrancas, das beiradas, do beiradão. O primeiro festival aconteceu em 2005, reunindo bandas de Rondônia e Acre. Sem muita estrutura, mas com muita vontade de crescer, a cena musical não se intimidou com a escassez de divulgação, de apoio e até de público. Em o final do mesmo ano, a entidade Projeto Beradeiro, uma associação sem fins lucrativos que tem como principal finalidade a realização deste festival, assumiu a coordenação do festival para que através de ela fossem captados recursos e a festa passasse a ter três dias. E mais, para que os produtos expostos não fossem só músicas. De um evento musical, o Festival dos Beradeiros em 2006 passa a ser uma grande mostra da cultura regional. Artesanato, roupas, CDs, livros de poesia, contos e romances. A idéia é chamar artesãos, poetas, escritores e músicos para expor seus trabalhos, como as roupas confeccionadas com látex por o artista plástico Yong Blod, ou mesmo as biojóias produzidas com sementes e frutos de plantas amazônicas; além das bandas e cantores que já têm demos ou CDs gravados. A grande jogada é criar um público que tenha orgulho da produção artístico-cultural rondoniense. «Uma festa pode se transformar em atitude e essa atitude pode ser o início de um trabalho social e cultural», destacou Samuel Pessoa, presidente da Projeto Beradeiros. Para ele, sonhar com essa construção não é apenas sonho, é uma opção de vida. «Respeito é pra quem tem, sou beradeiro da linha do trem», fala com orgulho numa de suas músicas. Ser caboclo louco é parte de uma estratégia política de afirmação cultural. Samuel, além de artista, é militante de movimentos sociais. Em Rondônia, é o coordenador do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua. Esse trabalho já o levou à Espanha, em 2004, quando fez um curso de Educador Social na Universidade de Barcelona. Por aqui, os núcleos de base do movimento, como crianças e adolescentes da periferia, fizeram nascer essa consciência de que o caboclo tem que dar valor a si mesmo. Amazonense de Humuitá, Pessoa é pessoa simples, cheia de idéias e sonhos. Quer saber dois de eles: ser respeitado por o que é e por onde mora e ver seu trabalho reconhecido como parte de um movimento, com a cara do povo da floresta. Três exemplos bem fortes desse movimento são as bandas Quilomboclada, Coveiros e Suco de Nóis. A primeira de elas já traz no nome a mistura de influências e atitudes: quilombo + caboclada. Isso é apenas detalhe para quem ouve a pancada desse som, que incorpora elementos de hip hop, new metal, maracatu, carimbo, forró, coco de embolada, candomblé, baião, música eletrônica e tantos outros sons, ritmos e culturas que fica até difícil falar, o melhor mesmo é segurar a remada e a guitarrada da banda. Já quando a banda Coveiros sobe no palco, nada permanece do jeito que estava. A energia, atitude e irreverência de seus componentes, aliadas à performance de Giovanni, seu vocalista, são inigualáveis. Com muitas e boas influências por parte do hardcore, a Coveiros consegue criar um som forte, pesado e autêntico, à base de Dead Kennedys, Ratos de Porão, D.R.I., Extreme Noise Terror, Napalm Death, Epäjärjestys e Hatebreed. Quanto à Suco de Nóis, e o seu «alternativo sujo», como diz Janor, o vocalista e líder da banda, suas letras trazem uma mensagem crítica e atual dos principais problemas cotidianos, seja falando sobre o indivíduo, ou sobre a sociedade. Sem pretensão demagógica e política, conseguem proporcionar ao público que os assistem uma reflexão do movimento musical de vanguarda. Em o palco, não há igual a Janor, um showman que canta rock. Esses são apenas exemplos da força deste movimento, que é corrente que não cessa, que é vontade que não seca, que é correnteza de rio. Número de frases: 36 Em as beiras dos rios e das ruas, os caboclos começam a perceber que a conquista de respeito que querem passa por a admissão da condição de beradeiros, de moradores e defensores da Amazônia, de sua história e de seu povo. O pernambucano H.D. Mabuse é um dos sujeitos mais inquietos do país, quando o assunto é cultura digital. Entre uma coleção de sites que ajudou a criar estão o e-zine MangueBit e a rádio manguetronic, que divulgam o mangue de Recife na internet. Tempos depois, Mabuse foi um dos fundadores do re: combo, projeto multimídia de produção colaborativa audiovisual. O DJ e artista plástico também contribui informalmente nos projetos C.E.S.A.R. e Porto Digital, do Recife. Em esta quarta-feira, Mabuse participou da discussão sobre a livre circulação de obras, no seminário «A Cultura Além do Digital», que acontece até dia 13 no Recife (Fundação Joaquim Nabuco), e 14, no Rio de Janeiro (Senac-Copacabana). Antes da palestra, ele decretou o fim da era do pop-star, na seguinte entrevista: Quais, na sua opinião, são as principais questões que se apresentam no cenário atual da cultura digital? Creio que podemos dividir em dois grupos de temas relevantes hoje: a. discussões a cerca da Autonomia, Acesso e Autoria (durante o processo de produção da cultura hoje) e b. a democratização da comunicação e distribuição. Como podemos quantificar em números essas transformações no campo da cultura digital? Qual o impacto destas mudanças da última década nas empresas ligadas à cultura e arte (gravadoras, distribuidoras, editoras, empresas de comunicação) e como elas lidam com isso? A transformação mais visível do fenômeno da digitalização da produção tem se sentido na indústria fonográfica. Os grandes conglomerados não perceberam que não adianta tentar forçar idéias tradicionais no novo meio, enquanto isso uma comunidade de novos artistas, músicos e escritores encontram outra forma de distribuição de suas obras, dentro de uma nova realidade onde se exclui cada vez mais o pop-star e encontra-se o personagem do gueto-star, com sua «celebridade» pulverizada (vide por exemplo http://ubbibr.fotolog.com/helenbar/). Quais os prós e contras da TV digital? A própria tecnologia adotada na TV Digital força uma revisão nas concessões de TV, já que é inerente a possibilidade de utilizar a mesma banda de transmissão para muito mais programas. Infelizmente o padrão que foi adotado no Brasil tem como grande contra uma dificuldade na implementação de software, limitando as possibilidades de interatividade (onde havia uma grande promessa da TV como mecanismo de inclusão digital). O Brasil parece ter grande potencial técnico e criativo para o desenvolvimento do software livre. Esse fato é encarado por alguns setores como uma grande libertação e por outros como ameaça. Qual a sua avaliação sobre o assunto? A discussão que se tem hoje, na verdade, é sobre a indústria de software, o mercado ainda tenta entender formas de gerar receita a partir do Software Livre, muitas soluções foram apresentadas, propostas muito eficientes. Mas o que me interessa mais, e que tem sido pouco debatido, é o software livre como uma das formas de expressão mais ricas e efetivas que podemos ter nos dias de hoje. Discussões sobre as novas tecnologias como internet, software livre parecem esbarrar (ou instigar?) o direito autoral. Deve haver uma legislação sobre essas temas? A discussão sobre autoria é pelo menos tão antiga quanto Michelangelo ou Homero. Número de frases: 28 Em a verdade todas essas tecnologias citadas amplificam as possibilidades de trabalho colaborativo, numa linha de pensamento lógico a pulverização da autoria é um caminho que, no lugar de temer, deveria ser entendida e procurada:) Ok, a Copa é legal, futebol é legal, mas eu tô fora. O lado bom é que as pessoas ficam felizes e se unem em torno de um mesmo objetivo, torcer por a seleção. Mas uma coisa me deixou triste, um relato de uma senhora nas compras de artigos brazucas para a Copa: «Não custa nada ser patriota uma vez a cada 4 anos!" Então isso é um sintoma de uma falta de indentidade nacional, pois quando não há eventos de F1, Jogos Panamericanos, Olimpíadas, o que se vê é gente evitando ser brasileira com muito orgulho. Exemplo? Gente que vive falando de sua descendência européia, etc.. Aí os que conseguem viajar para o exterior percebem o quanto estão distantes de suas raízes, viram «brasileiros». No caso de São Paulo é mais grave, pois é uma cidade à parte do Brasil, é uma capital cosmopolita, temos costumes herdados de muitos países e culturas, seja do Ocidente, seja do Oriente. Quando não há um evento que envolva a seleção, o que mais se vê por aqui é gente usando termos em inglês, colocando nomes europeus em filhos, frequentando bistrôs, fast food, etc.. E os comentários horríveis como: «Aqui as coisas tinham que ser como Londres», «Nova Iorque é melhor que» São Paulo», «Se eu estivesse em Zurich, não passaria por esse constrangimento». Também há relatos de pessoas menos favorecidas: «Lá nos Estados Unidos deve ser melhor que aqui». Por incrível que pareça, aquela aberração de novela «América» deu uma desencantada para a massa, mostrando um pouco que o «American Dream», também tem a doutrina Monroe: «America para os americanos». Tem coisa mais ridícula que «Acarajé Delivery»?! Por que não, entrega à domicílio? «Customizar»? Não pode ser Personalizar? O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 21 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. Música Popular Preta e MPB branca Em 1975, em plenos anos de chumbo, foi criado no Rio de Janeiro um conjunto musical chamado Grupo Vissungo. Em 1974, ainda sem nome definido, o grupo teve como antecedentes o trabalho do trio formado por Antônio José do Espírito Santo (vocais, violão e percussão), seu irmão Luiz Antônio -- Lula -- (contrabaixo, bandolim, cavaquinho e vocal) e Roosevelt da Silva (Violão). É já desta fase a adoção do principal elemento da proposta do grupo, aquele que o caracteriza definitivamente: a pesquisa da cultura negra do Brasil, e a tentativa de construir, a partir desta pesquisa, um conceito de música negra brasileira moderna, coisa impensável naquela época contraditória, onde a onda vanguardista da MPB não chegava até a cozinha da tradicionalíssima música negra, espécie de ' reserva técnica ' do folclore nacional. A idéia ' contraculturalista ` de uma música negra ' pop ', era eletrizante para o clima de resistência cultural contra a ditadura, que impulsionava a juventude artística, muito criativa e atuante da época, rumo ao mergulho de cabeça na experiência pop-vanguardista nacionalista que foi o'Tropicalismo '. Mas havia também a não menos profunda busca da sutil modernidade contida na música do ' Brasil profundo ', pesquisa inaugurada por o fabuloso Quinteto Violado, que fazia uma interessante fusão entre a música tradicional nordestina (como a rica escala afro-ibérica de Asa Branca, de Luiz Gonzaga) com certos aspectos, digamos assim, mais avançados da chamada moderna música popular brasileira (expressos na obra de Edu Lobo, por exemplo), com elementos de jazz e música semi-erudita, num caldeirão de muita inventividade e desprendimento. O nome do Grupo Vissungo, no contexto desta proposta, foi extraído então da expressão ' Vissungo ' (' Ocisungo ', hino ou canção no idioma Umbundo de Angola) que denominava cantos de trabalho da região do garimpo de ouro e diamantes em Diamantina, Minas Gerais, no tempo da escravidão. Esta característica ' antropológica ' da proposta, em particular, acabou por revelar, de maneira fortuita, uma ligação direta entre os dois irmãos fundadores (Antônio e Lula Espírito Santo) e seu mais remoto passado. Descobriu-se assim, no transcorrer da pesquisa que a família dos dois, por a linha paterna, muito provavelmente, havia sido iniciada por um antepassado vindo de Angola, que havia sido escravo exatamente naquela região e, como tal, poderia ter um dia cantado vissungos. Coisa do destino talvez, gravado como memória genética. Ainda em 1974, já com esta mística proposta definida, o grupo adota, durante um curto espaço de tempo, o nome de ' Sararamiôlo ', agora formado também, além dos irmãos Espírito Santo (Antônio e Lula), por os também irmãos Carlos'Codó ` Brito (que substitue Roosevelt) e Lena'Codó ` Brito (filhos do grande violonista bahiano Clodoaldo Brito, o'Codó '). É assim que, agora como um quarteto, durante ensaios do recém construído prédio do DCE da UFF, nasce oficialmente com este nome em 1975, o Grupo Vissungo. É desta fase a criação das bases estético-musicais do trabalho do grupo, representadas por o casamento entre a pesquisa de campo em comunidades negras do interior do país, e o aprofundamento dos ricos elementos de modernidade eventualmente contidos nas inusitadas escalas desta música tradicional. Este aprofundamento nascia, principalmente, do senso harmônico de Carlos Codó, herdeiro da erudição do violão de Codó pai, professor emérito, desde a Bahia, de muita gente boa, tal como João Gilberto, Caetano Veloso, Egberto Gismonti e Gilberto Gil (com quem o autor chegou a cruzar, entre uma aula e outra, na casa de Codó, no bairro do Estácio, no Rio). Esta fase é inspirada também nas sugestões apaixonadas do historiador e acadêmico José Maria Nunes Pereira, um especialista em cultura angolana que, já na fase anterior (Sararamiôlo), chamava a atenção do grupo para a enorme beleza da música africana real. Esta fase seminal, culmina com a descoberta, por parte do grupo, da grande similaridade existente entre a cultura negra tradicional do Brasil e o que, em termos musicais, ocorria na África contemporânea -- notadamente Angola e Moçambique. A grande questão neste momento é que, apesar de se estar vivendo uma época (1978) de grande efervescência cultural, musical principalmente, havia muita restrição -- e até um certo desprezo-por parte do meio musical em geral (e do mercado fonográfico em particular), por abordagens artísticas voltadas, diretamente e de forma mais aprofundada, para a cultura negra. Tolerava-se o Samba convencional e algumas poucas propostas de forma genérica denominadas ' Música Afro ', geralmente adaptações de pontos religiosos tradicionais, extraídos do Candomblé e da Umbanda. Em o âmbito da música essencialmente afro-brasileira, dominada por um purismo exacerbado, a modernidade era, portanto, rigorosamente, um conceito tabu. A releitura criativa, a experimentação e, principalmente, a utilização livre de instrumentos ' acústicos ', convencionais, misturados com instrumentos eletrônicos, como contrabaixo e guitarra por exemplo -- marcas essenciais da proposta do Vissungo -- já inseridos em outros gêneros musicais desde o final da década de 60 (onde pontificou o ícone «Alegria, alegria», com Caetano Velloso e Os Mutantes) não eram, estranhamente, bem tolerados nas poucas bandas e grupos de música negra existentes. Este comportamento conservador do meio musical, de certo modo, forçou o Grupo Vissungo a participar, de forma militante, no chamado Movimento Negro, tornando-se uma espécie de símbolo musical da luta antiracista carioca naquele momento. No entanto, do ponto de vista de suas preferências culturais, havia uma curiosa contradição se instalando no seio deste movimento negro emergente que, embora firmemente interessado na erradicação do racismo no Brasil, passava a subestimar -- ou mesmo ignorar -- em suas estratégias e políticas, as eventuais lições advindas da luta anti-colonialista, ainda em curso em Angola e Moçambique, para exercer no âmbito externo, uma atração política, de certo modo exagerada, imitativa e acrítica, por a cultura negra norte americana, notadamente, a chamada Black Music, trilha sonora essencial da luta dos Panteras Negras e do neo islamismo de Malcom X. Em este mesmo sentido, no plano interno, tornando suas opções culturais desta vez francamente elitistas, este Movimento Negro passou também a privilegiar uma cultura negra idealizada e, de certo modo oficializada já que, referendada por teses de mestrado de eminentes etnólogos, privilegiava muito mais o Candomblé bahiano e produtos sucedâneos, em detrimento da música negra de Minas Gerais, São Paulo e do próprio Rio de Janeiro (para ficar só nos exemplos da região Sudeste) música oriunda das colônias e ex-colônias de língua portuguesa que mandaram escravos em maior número para o Brasil, exatamente a vertente para a qual, por coerência artística, o Grupo Vissungo se voltava nesta época. São estas contradições culturais que, afetando o mercado musical de um lado e o Movimento Negro de outro, introduzem o Grupo Vissungo numa crise de identidade que o leva a se afastar um pouco de sua proposta artística original, de vanguarda, interessado em contribuir na superação desta contradição que ameaçava afastar -- como por fim afastou-o Movimento Negro brasileiro de suas bases populares mais evidentes. Aniceto e Clementina, cadê vocês? É ainda na tentativa de superar estas limitações ' de mercado ` que o Vissungo radicaliza seu mergulho nos meandros da música negra tradicional, se ligando á figuras essenciais como Clementina de Jesus (por impulsão da Fundação Cultural de Curitiba, dirigida á época por Jaime Lerner, que nos une à Clementina num show antológico no Teatro Paiol) e João do Valle, ícones da década anterior, lançados nos shows ' Opinião ` e ' Rosa de Ouro ', mas, de novo caídos no limbo do esquecimento, fora do mercado. Em este mesmo sentido, um pouco mais tarde, o grupo se liga profundamente a Aniceto do Império Serrano, figura histórica do samba carioca mais profundo (um dos maiores especialistas em Partido Alto), relegado ao total ostracismo na ocasião e grande influência no trabalho do grupo a partir de então. A fase se caracteriza também por o aprofundamento, por parte do grupo, de sua pesquisa de campo, exercendo de forma militante a difusão da música africana, principalmente angolana, não só em seus aspectos originais, como também em sua expressão afro-brasileira, principalmente, o Jongo e a Congada. A experiência, flagrada por a revista Cadernos do Terceiro Mundo, editada por asilados brasileiros no México e distribuída mundialmente, deu ao Grupo o status de boa referência neste campo, não só em seu viés, francamente, antropológico, como em sua opção por a difusão de aspectos da cultura popular do interior do Brasil que viviam, solenemente, esquecidos nos grotões. O radicalismo desta fase, acentuando a crise de identidade, provocou um racha no grupo e a posterior dispersão de alguns de seus membros originais -- entre os quais Lula Espírito Santo -- que decidiram tentar penetrar no mercado sob a forma de grupo de Samba convencional. Sobrevém uma fase de muito engajamento e alguma incerteza artística, com a adesão de músicos amadores, de diversas procedências, compondo formações apenas adequadas, a um repertório onde predominava a música negra tradicional do interior da região sudeste do Brasil. As fusões mais recorrentes eram entre a música tradicional de Minas Gerais, e canções revolucionárias de colônias, como Angola, Guiné Bissau e Moçambique, que promoviam uma sangrenta guerra de libertação contra a metrópole portuguesa. Pontificavam no repertório, letras do poeta Agostinho Neto, musicadas por Rui Mingas, ambos angolanos e de José Carlos Schwartz, compositor e guerrilheiro guineense, gravado em disco produzido por Miriam Makeba. Por vias transversas no entanto, esta fase (meados da década de 80) foi muito bem sucedida pois representou enfim, o ingresso do Vissungo no mercado fonográfico, a partir da autoria, junto com Wagner Tiso (e a voz de Milton Nascimento) da premiada trilha sonora do filme Chico Rei de Walter Lima Júnior. O disco gravado por a Som Livre -- único da carreira do Grupo Vissungo até hoje-contém entre outras pérolas, o último registro em estúdio da voz de Clementina de Jesus, cantando a introdução da música Xico Reyna (de Espírito Santo e Samuka). ..." O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras. O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme." Trecho do artigo " um cinema que quer ser música " de Carlos Alberto Mattos Publicado na revista Veredas (CCBB / Rio, Nov-2000) Seguiram-se a participação do grupo nos discos de carreira de Milton Nascimento (' Encontros e despedidas '), Wagner Tiso (' Branco & Preto / Preto & Branco ') e Tetê Espíndola (' Gaiola '). A crise de identidade do Vissungo, no entanto, prossegue pois, a vocação original do grupo na busca da modernidade artística (interrompida no início da década), só poderia ser retomada, se contasse com novos músicos com talento, experiência e vontade para encarar os novos desafios musicais que, desta feita, seriam marcados por a busca de um formato, ao mesmo tempo, moderno e popular, de preferência dançante, tendência que passava a predominar na música urbana do mundo inteiro naquela época (época do boom da indefectível ' Lambada '). O grupo é por fim muito bem sucedido nesta fase, encontrando com sua nova formação, composta por Espírito Santo (vocal solo e percussão), os retornados Lula Espírito Santo (baixo e vocal) e Carlos Codó (violão), além de Samuka, José Maria Flores (bateria) e Braz Oliveira (Guitarra) uma sonoridade muito aproximada do que buscava desde sua origem. Dançando no ONU Center Wien Em 1989, com esta nova formação, o Vissungo faz então sua primeira viagem á Europa, realizando uma das melhores experiências de sua carreira no show na sede européia da ONU em Viena, em benefício da Unicef para uma platéia totalmente composta por africanos, de todas as partes do continente, que dançavam, cada qual ao jeito de seu país, aquela mistura de música brasileira, guineense e moçambicana que o Vissungo apresentava. A forte energia produzida por a curta, porém, intensa primeira experiência do Vissungo na Europa, não encontra, no entanto, grande respaldo com o retorno do Grupo ao Brasil. Envolvido em mais um de seus equívocos eleitorais o povo brasileiro acabara de eleger para presidente, o aventureiro populista Fernando Collor de Mello que, após uma série de ameaças ás ' elites ', interrompia a maioria das iniciativas governamentais voltadas para o fomento da cultura. O intempestivo ato do ' caçador de Marajás ', inviabilizava o trabalho de vários artistas e, praticamente, determinou a interrupção das atividades do Grupo Vissungo, que negociava com contatos da Funarte da época, a gravação de seu primeiro disco solo. É quando surge o irrecusável convite do sociólogo italiano Tulio Aymone, da Facoltá de Economia de Modena, para que o Vissungo, a princípio representado por apenas dois de seus membros, Espírito Santo e Samuka, se apresentasse no Festival Internacional de Cultura do jornal do Partido Comunista italiano L'Unitá», em Bologna. Foi assim que o Grupo Vissungo, cansado de guerra, decidiu, numa espécie de exílio voluntário, transferir-se de mala e cuia para a Europa. A carreira européia do Vissungo se reinicia em julho de 1990, com a ida da dupla para Modena, Itália, afim de cumprir um contato para uma tournée de um espetáculo de música negra e dança afro-brasileira tradicional, cuja renda seria, em parte, revertida para a vinda do restante da banda. Artisticamente muito bem sucedida, a tournée por o norte da Itália -- Modena, Bologna, Reggio Emília, Corregio, Carpi, Ímola, etc. área na qual as tropas brasileiras combateram na 2a Guerra Mundial (o soldado José Cyrilo, pai dos irmãos Espírito Santo, entre elas), infelizmente, não teve uma renda suficiente para bancar o sonhado resgate dos membros da banda que ficaram no Brasil. Transferindo-se para Viena, Áustria, após os quatro meses em que durou a experiência italiana, o Vissungo foi enfim recomposto com músicos locais, entre os quais o excelente guitarrista vienense Claudius Jelinek, o baixista uruguaio Pablo Solanas, o percussionista senegalês Jimmy Wolof e os brasileiros Ita Moreno (violonista) e Tatá Cavalcanti (baterista). Vissungo afro beat Durando cerca de três anos, a carreira européia do Vissungo, representou, como o fim de um ciclo, a realização do sonho original contido na proposta inicial do grupo, por uma música negra brasileira moderna, na qual não se abrisse mão daquelas raízes africanas mais profundas, proposta tão penosamente buscada no Brasil e enfim encontrada viva e pujante no mercado musical europeu, no qual o conceito mais moderno de música popular é aquele realizado por a maravilhosa fusão de ritmos africanos das colônias (Guiné, Senegal, Nigéria, Gana, etc.), com a música negra norte americana (Soul, Funk), conceito fundado por o grande músico nigeriano Fela Kuti, e conhecido na África e na Europa genericamente como ' Afro-beat '. O resultado deste feliz, embora tardio, encontro do Grupo Vissungo com os sons africanos que lhe eram similares ou irmãos, pode ser felizmente mostrado em seu retorno definitivo ao Brasil em 5 de Novembro de 1996, num inesquecível espetáculo na Sala Cecília Meirelles, em comemoração ao mês de Zumbi de Palmares. Para a nova formação do grupo, os dois únicos remanescentes da formação original (os irmãos Antônio e Lula) recorreram a uma incrível fonte musical, de existência inpensável na década anterior: Um núcleo de jovens músicos negros, com experiência em música pop adquirida em sua dedicação militante à reggae Music, congregados no Centro Cultural Donana, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, inegável foco da posterior ascenção do reggae no mercado pop brasileiro, com o KMD5 (banda depois rebatizada como Negril) e o Cidade Negra (antes liderada por o polêmico Ras Bernardo). De esta fonte maravilhosa e revigorante, foram arregimentados Lauro'Biko ` Farias, baixo (logo em seguida ' roubado ` por o O Rappa), Reinaldo Amancio (logo em seguida integrando o'Cabeça de Nego '), além do fabuloso batera Jahir Soares, decano do reggae raiz carioca até os dias de hoje. Integraram também o Vissungo, neste seu último espetáculo, Welington Coelho (depois do Farofa Carioca) e Paulão Menezes (ainda hoje percussionista da banda de Bia Bedran) Ali, diante de uma platéia entre surpresa e extasiada com a diferença gritante entre o som que o grupo trouxe da Europa e os sons da comedida música negra em voga no Brasil (onde o Reggae começava a pontificar), o Grupo Vissungo decidiu se recolher a sua significância, sabe-se lá até quando. Esta matéria, sendo sobre música, deveria conter um arquivo de áudio com o som do Vissungo. Falha da época: Além do LP do disco com a trilha sonora do filme Chico Rey (talvez ainda não lançado em CD) e de faixas há pouco tempo inseridas num remix (este sim, em CD) do disco de Clementina de Jesus'Canto dos Escravos ', existe muito material gravado por o Grupo Vissungo, espalhado por aí, em mídias diversas (a maioria deste material, está em suportes considerados hoje obsoletos, tais como fitas K7 e fitas VHS). O acervo do grupo (centenas de horas de registros de áudio em fitas K7, negativos P&B e slides fotográficos) fruto de suas pesquisas de campo, até hoje razoavelmente conservado, contém também interessantes registros de shows e ensaios, no Brasil e no exterior, aguardando digitalização, missão sobre a qual, alguém terá que se debruçar um dia. Legítimo produto artístico da inesquecível década de 70 do século 20, o Grupo Vissungo pode ser visto hoje, distanciadamente, como uma espécie de símbolo natural da privação de acesso ao mercado -- e aos meios de produção e registro mais elementares -- sofrida por determinados artistas e grupos musicais brasileiros, antes do formidável advento desta atordoante revolução das mídias modernas, e seus meios e suportes democratizados (ou banalizados) como nunca o foram na história. Empávido, umas vezes aos trancos e barrancos, outras gloriosamente, o Vissungo durou 20 anos. Sobreviveu muito bem aos desafios de seu tempo. Em a verdade, tendo sido de algum modo registrado, gravado, nem mesmo pode ser declarado clinicamente morto, ainda. Como vinho envelhecido, ele está ainda adormecido numa adega destas de a vida, num quintal destes de o mundo onde, brasa dormida, até hoje pulsam suas emoções, passíveis de serem digitalizadas, eternizadas, se tornando, portanto, imortais. Eu pelo menos, um dos Espírito Santo desta história, continuo vivinho da Silva. ' A véia preta tem cinco fio os cinco fio do mesmo pai na meia noite o pai tá sumido véia pregunta para os cinco fio: menino preto, cadê teu pai? ' Jongo do Vissungo Spirito Santo Número de frases: 82 Setembro 2007 Katharine Nunes Zanoni estava «cansada de ler quase sempre as mesmas histórias» e, aos oito anos de idade, achou de criar um personagem diferente para criança e escrever ela mesma as histórias. Construiu um contexto infantil por considerar «que há muito adulto escrevendo para criança» que acaba sendo o que o adulto «gostaria que a criança ouvisse e não aquilo que a criança gostaria de ler». Resultou que Katharine Nunes, já com dez anos de idade hoje, é autora de duas obras de literatura infantil de que vendeu 1.500 exemplares, está finalizando a terceira história de uma série e participa do circuito de autores do Rio Grande do Sul. Com o auxílio da mãe, Margarida Nunes, a colega escritora aceitou responder a algumas perguntas sobre o trabalho de ela em literatura. Com certeza, a menina também brinca, que é o principal trabalho de qualquer criança. Desde quando escreves? Desde os 8 anos, quando comecei a elaborar minhas primeiras histórias. Quando publicastes o primeiro livro? Foi no dia 6 de Novembro de 2005, na 51ª Feira do Livro de Porto Alegre, «Lilico e seus Amigos». E a 2ª obra «Lilico e sua Família na 52ª Feira do Livro de Porto Alegre de 2006». Ambos são de historinhas em quadrinhos de literatura infanti e editados por a Editora Martins Livreiro -- Editor. Por que decidistes publicar? Porque meu irmão tinha muitos livros de historinha e alguns de eles tinhas fitas com histórias. Eu sempre gostei de dormir ouvindo historinhas. Meu irmão e minha mãe, sempre contavam muitas histórias. Sempre visitei as Feiras de Livros desde muito bebê. Comecei a me interessar por a leitura muito cedo. Cansada de ler quase sempre as mesmas histórias, aos 8 anos eu achei que eu era capaz de escrever e criar um personagem diferente para crianças como eu. Dando um contexto mais do linguajar de criança para criança. Em a minha opinião, acho que há muito adulto escrevendo para criança. O que ele gostaria que a criança ouvisse, e não aquilo o que a criança gostaria de ler. O que observo é que há mais animais que falam no texto, do que o personagem. Por isto eu pedi para que minha mamãe e meus tios que eu gostaria que fossem publicadas minhas obras. Achei que seria interessante o público infantil ter uma obra diferente para ler e está sendo um sucesso. Como sentes a reação do público em geral e de teu público em particular? No geral muito carinho e comentários sobre meu trabalho. Em o particular sinto bastante cobrada para saber qual será a próxima obra. E acho que meu comportamento tem que ser mais maduro. Falas sobre teu trabalho com leitores? Tenho sido convidada para visitar escolas, fazer palestras, ir a inaugurações de complexos hospitalares infantis e visitar bibliotecas. Já viajei por várias cidades do interior do Estado, como Balneário Pinhal, Canoas, Novo Hamburgo, Taquara, Guaíba, Triunfo e outros. Fui convidada para abrir o ano letivo da escolas, com palestra de incentivo á leitura no Estado do Ceará, por o governador do Estado de lá, em Fevereiro de 2007. Teu trabalho ajuda teus estudos? Sim. Principalmente quando tenho que fazer trabalhos de redação. Onde estudas alguém mais escreve assim como tu? Que eu conheça ou saiba, não. Teus vizinhos sabem que escreves? Como te tratam? Sim, alguns vizinhos. Estudo pela manhã e a tarde sempre tenho trabalhos de aula e estudo música uma vez por semana, portanto, tenho pouco tempo para ter contato com vizinhos. As pessoas têm um pouco de inveja, sinto isso quando passo por elas. Me negam o olhar, não me cumprimentam e não deixam os seus filhos se aproximarem de mim. Vejo isso como ignorância e falta de capacidade da parte dos adultos. Como conseguistes publicar? Através da Editora Martins Livreiro que se interessou. Eu sou a primeira escritora infantil a publicar obra deste gênero por essa editora (a Martins Livreiro tem 40 anos de trabalho editorial no Rio Grande do Sul). Quanto já vendestes? 1500 exemplares. Como defines o teu trabalho de escritora, o conteúdo de tuas obras? Acho bom para minha idade. Segundo os elogios recebidos do público. Participas de algum grupo de escritores? Sim. Sou sócia do Grêmio Literário Castro Alves, Casa do Poeta Rio-Grandense e participo de vários eventos culturais, que são realizados nas seguintes entidades: Academia Rio-Grandense de Letras, Instituto Cultural Português, Instituto Histórico e Geográfico do RGS, União Brasileira dos Escritores, CBTG -- Confederação Brasileira de Tradições Gaúchas e outras mais. A próxima publicação é uma história com as mesmas personagens? Outros escritos publicados? Sim. Será «Lilico e Lilika e suas novas aventuras». Participações em Antologias Literárias em 2006: Versos DiVersos III Vol., por o Grêmio Literário Castro Alves, org. por Silvia Benedetti. Autores Gaúchos, por o Instituto Cultural Português, Editora Caravela, org. por Antonio Soares. Tens blog, página, sítio na Internet? Ainda não. Pois meu irmão está cuidando desta parte, e por falta de tempo ainda não foi possível acabar. Número de frases: 69 Batuque Book é um daqueles livros que vieram ao mundo graças a um sonho, tipo o Kubla Khan, de Coleridge. A diferença, aqui, é que o devaneio apareceu em épocas diferentes para dois autores e não apenas um: tanto o bacharel em música Climério de Oliveira Santos como o percussionista -- de formação também erudita -- Tarcísio Soares Resende, responsáveis por o projeto, sonharam certa vez com «um livro que batucasse, que fizesse barulho». Os dois -- além do sonho em comum -- dividiam também uma paixão por a cultura popular e, na hora de transformar a quimera em realidade, foram buscar em ela a inspiração decisiva: por que não desenvolver uma coleção de songbooks de um tipo diferente, capazes de se adaptar às peculiaridades de formas musicais centradas no ritmo e não nas melodias e nas letras? Esse tipo de «livro que batucasse» ajudaria a difundir as manifestações da cultura popular para outras paragens, facilitando sua execução por músicos de todas as latitudes. Até então, não havia praticamente nada do tipo em Pernambuco. A única iniciativa semelhante era datada dos anos 50, o lendário Maracatus do Recife, livro de Guerra-Peixe que transcrevia para partitura a música dos maracatus. Mas a abordagem do compositor carioca tinha uma série de limitações. Sua pesquisa era centrada apenas numa agremiação e menosprezava a vertente rural do gênero. Além disso, obviamente, não dava conta das dezenas (centenas, na verdade) de manifestações das várias regiões do Estado. Pesando tudo isso, Climério e Tarcísio resolveram idealizar uma coleção de barulhentos livros: o primeiro volume seria dedicado ao maracatu, nos formatos urbano e rural, a partir de uma pesquisa envolvendo várias agremiações. Depois, viriam outras manifestações importantes. O Batuque Book 1 chegou, assim, às livraria no final de 2005, com uma tiragem de 2 mil exemplares, parte vendida ao preço de 60 reais o exemplar, parte destinada a escolas públicas e bibliotecas. Seis agremiações foram pesquisadas por os autores: Leão Coroado, Porto Rico, Encanto da Alegria, Cruzeiro do Forte, Estrela de Ouro de Aliança e Leão Vencedor. O trabalho de transcrição quase levou os dois à loucura: eles primeiro levaram os músicos para o estúdio e começaram a gravar um único instrumento, em seguida dois, depois três, até somar o grupo completo. Foi preciso uma atenção meticulosa para captar as nuances que separam os diversos baques, aparentemente mínimas, mas que fazem uma enorme diferença. Como explica Tarcísio, " o maracatu é uma conversa, cada baque é um diálogo diferente entre grupos de tambores e, conseqüentemente, cada nação se apresenta através de uma conversa diferente ... Ccada um tem a sua fala, o seu swing. Essas pequenas diferenças mudam de acordo com o acento da batida. Em alguns momentos, a execução é muito livre. Existem viradas que dependem muito do sentimento e da criatividade do batuqueiro». Além das partituras, eles agruparam uma série de atrativos para músicos e não-músicos. Textos explicativos -- pequenos, mas bastante informativos -- situam o projeto em suas diversas etapas e nos trazem detalhes sobre o Maracatu e cada uma das agremiações envolvidas. Um CD com 12 músicas acompanha o livro, junto com uma faixa multimídia reunindo banco de sons, samples, vídeos, entrevistas e fotos extras. Todos os textos ganharam versões para o inglês. Parte do conteúdo geral está disponível no site www.batuquebook.com.br. E o próximo Batuque Book? Climério e Tarcísio não adiantam muita coisa. A única decisão tomada é que a manifestação abordada será o cavalo marinho. Paciência, então, até a chegada de outro volume dessa série saudavelmente barulhenta. Número de frases: 34 Conversei com Iuri Rubim, da Secretaria de Cultura da Bahia, hoje a tarde e descobri que o objetivo final do «Encontro de Cultura Colaborativa» é a criação do Plano Estadual de Cultura Livre. Interessante a iniciativa, espera-se que não seja apenas mais um dos vários fóruns de debates que marca o início de um novo governo e perca-se, posteriormente, na burocracia estatal. O evento acontece em paralelo no Sesc Piatã (restrito a convidados) e no Teatro Gregório de Mattos, aberto ao público. Por falar em público, este não compareceu. Cerca de 15 pessoas integraram os debates do primeiro dia (para aqueles não convidados ao evento oficial) e o papo foi sobre «Licenças, Generosidade Intelectual e Pensamento Livre». ( veja aqui os participantes) Devido ao (baixo) número, a discussão ganhou uma nova roupagem. Em o lugar dos tradicionais data-shows, palestrantes distantes do público, uma roda foi composta e os conhecimentos puderam ocorrer livremente e as intervenções também. O fato positivo é que mesmo em pequena quantidade, qualitativamente o diálogo está bem representado: músicos, filósofo, pesquisadores, acadêmicos, advogados, fotógrafo e amigos refletindo sobre a temática proposta. Em resumo, resgatou-se a história da formação do conceito de propriedade intelectual e direitos do autor que teve início no século XVII no ocidente. Com a indústria cultural este processo tornou-se mais predatório e escroto tanto para os autores que depende da indústria para publicar suas criações e o público que, mediante, pagamento, e só assim, poderá ter contato com a obra. O que por si só explica os motivos da pirataria e fica como dica para os que defendem o fim de tal prática de acesso ao conhecimento /lazer/cultura: o primeiro passo para acabar com a pirataria é criar alternativa de compra e relacionamento para os mercados consumidores. Foi consensual que a própria indústria cultural não aproveita a potencialidade que a internet pode proporcionar, inclusive as empresas culturais. Além disso, foram comentados alguns exemplos de licenças e o seu funcionamento (Creative Commons) que possuem valor jurídico, não tratando-se apenas de uma questão alternativa ao Copyright, exemplos de comunidades eletrônicas livres, tanto de produção / publicação e acesso (Overmundo) e por fim, um desafio fora lançado tanto aos artistas que precisam enxergar as novas tecnologias como mecanismos de potência para sua «arte» e aos usuários da rede cabe criar novas dinâmicas de pensamento, desenvolvimento e apropriação da Web, preferencialmente com qualidade, coletivamente e o melhor, livre. Amanhã os assuntos serão «Produção de Conteúdo: Software Livre e Software Proprietário» e «Políticas Públicas para Cultura Digital e Acesso ao Ciberespaço». Começando as 14h, no Teatro Gregório de Mattos. De grátis! Teatro Gregório de Mattos Praça Salvador -- Bahia Número de frases: 21 71 3322-2646 Em Santa Catarina (e em vários outros cantos do Brasil) -- acompanhando uma retomada na produção de cervejas artesanais feitas por pequenas, micro, mini cervejarias, existe uma quantidade interessante de pessoas produzindo cerveja em casa, para o próprio consumo (e, para minha sorte, dos amigos também). Pessoas que estão descobrindo que é possível fazer um produto de qualidade apenas com um bom bocado de boa vontade e de bom gosto. Um hoby prazeroso em que o aprendizado é constante e que conforme se adquire um certo know how, este passa a ter um papel fundamental para manter as características do produto nas brassagens seguintes. Talvez a maior dificuldade seja se manter fiel ao resultado encontrado na produção do lote anterior, afinal de contas, a vontade de experimentar e de mexer nas fórmulas já conhecidas é sempre um segundo grande desafio -- fórmulas estas que antigamente eram mais difíceis de serem encontradas, mas que com o passar dos tempos e com o advento da Internet deixaram de ser um segredo e hoje estão a disposição em sites diversos. Por que produzir em casa? A resposta vem por intermédio de duas alternativas bem pontuais: a primeira de elas está relacionada com o prazer de fazer e, conseqüentemente, de acompanhar o processo; além disso, muitos destes cervejeiros se transformam em verdadeiros professores pardais, pois, em alguns casos, fazem a cerveja e desenvolvem toda uma estrutura necessária para se produzir em casa o líquido precioso: Panelas, termômetros, tonéis, entre outros utensílios básicos, são adaptados a realidade de cada um para tentar facilitar a vida dos cervejeiros de plantão. E a segunda alternativa também adquire um alto grau de importância, diretamente relacionado com o sabor, o perfume, o paladar e vários outros diferenciais que uma boa cerveja oferece e que nem sempre é possível encontrá-los numa cerveja produzida industrialmente. Talvez uma frase que possa resumir um pouco essa situação seja a seguinte: fabricar cerveja em casa da a possibilidade de apreciar / consumir cerveja e não consumir, na grande maioria das vezes O que seriam esses diferenciais?? Para os alemães a cerveja é um «suco de cevada», ou seja, produzir uma cerveja em que se inclua um outro tipo de cereal é uma espécie de afronta ao direito do consumidor; se o cidadão paga para beber um suco de cevada, parece lógico que ele deva consumir um suco de cevada, e se por acaso isso não acontecer, o cidadão se sente lesado (a única exceção, na Alemanha, são as cervejas feitas de trigo). Mantendo uma lógica parecida, elenco dois exemplos para tentar aproximar as relações: seria o mesmo que pedir uma casquinha de siri e neste produto além de siri ter vários outros tipos de ingredientes da ordem dos peixes e / ou crustáceos; ou ainda, pedir um suco de abacaxi e na hora de consumir, além do abacaxi, sentir no gosto do suco a mistura de uma outra fruta. Vejam que estamos diante de uma questão cultual, afinal de contas, para os alemães, essa mistura de outros ingredientes além de estar ferindo o paladar estaria ferindo uma espécie de mandamento da cerveja, algo que os grandes apreciadores do produto não admitem. No caso do Brasil, isso, na maioria das vezes, não fere o paladar do brasileiro e muito menos a legislação que aceita o acréscimo daquilo que nos rótulos dos produtos é chamado de cereais não maltados, isso sem falar numa série de produtos químicos adicionados como forma de preservar / deteriorar a qualidade do produto. Quem são esses Cervejeiros? Para citar apenas três de eles, André Kanenberg, que produz a Kanenbier, em Indaial; Fabio Steinback, que produz a Land Brauer, em Blumenau e Rafael Tonera, que produz a Tonera, em Florianópolis. São pessoas que criaram novos círculos de amizade por o simples prazer de experimentar uma boa cerveja. O produto de eles não é encontrado em bares ou restaurante, e as degustações acontecem conforme os lotes ficam prontos para o consumo. Algo muito similar ao que acontecia na produção cervejeira da idade média, na época, quando a cerveja de tal família ficava pronta, essa hasteava uma bandeira para comunicar aos vizinhos o feito, e todos se movimentavam até a casa desta família para provar os sabores da última produção. Os dias mudaram um pouco e a forma de se comunicar também; hoje, conforme os lotes de cerveja vão ficando prontos, os amigos e familiares são avisados e a degustação se dá, na maioria das vezes, no próprio lugar onde foi produzida ou em reuniões específicas de pessoas próximas e de apreciadores -- comunidades que se sentem orgulhosas de estarem provando algo que dá um nó na lógica de mercado. Mesmo tendo um investimento razoável de dinheiro e de trabalho, sem contar o custo de produção de cada lote, na maioria das vezes, muito mais caro do que uma cerveja comprada no mercado, a degustação destes produtos, na maioria das vezes, não é cobrada, se dá por o simples prazer de brindar, de entre tantas coisas, a própria cerveja. Kanenbier O André montou o aparato na garagem da própria casa, um lugar amplo, espaçoso e ventilado onde passa horas brincando com a arte de combinar ingredientes. Já produziu vários tipos, para citar apenas algumas, Pilsen, Stout, Pale Ale e Ale. Tive a oportunidade de provar apenas a Ale, uma cerveja de alta fermentação, com um corpo bem definido e uma lupulagem altíssima. Como o próprio André comentou, além de equilibrar o corpo, o desafio estava em aumentar o amargor da cerveja, fazendo com que a cerveja tivesse uma característica bem diferente da cerveja consumida no Brasil. O próprio André admite que exagerou um pouco no Lúpulo, mas nada que tenha assustado os apreciadores de uma boa Ale. Land Brauer O Fábio, além da experiência de fazer outros tipos de cerveja, gosta da possibilidade de incrementá-las tentando criar características diferenciadas. Tem uma estrutura mais profissional, mas, como os demais, também adaptou o equipamento conforme as suas necessidades. Tem no currículo a produção de uma enormidade de tipos de cerveja. Tive a oportunidade de provar uma Dunkel, uma Weiss e uma Pilsen, tiradas diretamente dos cilindros no galpão onde são produzidas, no Badenfurt, um bairro de Blumenau. Cervejas não filtradas, cada qual com características muito marcantes, não sei se é porque o dia que estive lá era um dos dias mais frios do ano, mas fiquei fã da Dunkel, uma cerveja escura, de baixa fermentação e com um corpo muito bem definido e equilibrado. Tonera O Rafael produz cerveja no porão da própria casa, num bairro de Florianópolis. É o mais novo de eles e, de entre tantas curiosidades que poderíamos citar, é o único que não tem vínculo nenhum com a cultura alemã. Diferente do Fábio e do André que são descendentes de alemães e que moram em cidades em que a tradição germânica é muito forte, o Rafael, por sua vez, descendente de italianos e portugueses (e morando numa cidade em que a tradição açoriana predomina), começa a produzir cerveja por curiosidade: ganhou de presente de uma amiga um livro que ensinava como fazer cerveja em casa, e o restante das informações colheu na Internet através de sites especializados no assunto. De aquelas produzidas por o Rafael provei uma Pilsen, uma Oktoberbier, uma Pale Ale, uma Strong Gold Ale e uma Russiam Imperial Stout, todas elas com características muitos interessantes e com um equilíbrio que nos permite compará-las com outros exemplares destes tipos de cerveja encontrados nas prateleiras de supermercados e de lojas especializadas no assunto. ... Número de frases: 47 Outro dia, pesquisando um assunto qualquer na biblioteca da UFRR (Universidade Federal de Roraima) acabei por me encontrar na seção de literatura infantil e curioso como sou, de entre os livros que passaram em minhas mãos, tive o privilégio de folhear «A Flor do Tepui», de Aléxia Linke, referência em literatura infantil no estado de Roraima. Diferente dos demais, me chamou a atenção o fato da história não apresentar aquela didática gratuita, muito comum em literatura infantil. A moral estava lá, diluída na fantasia, permitindo que eu imaginasse cada quadro. Um livro recheado de personagens do folclore local. As ilustrações vivas de Tana Halú contribuíram bastante para que eu me esquecesse do real motivo de ter entrado na biblioteca. Apanhei um banquinho e sem me preocupar com o tempo, sentei-me e li o livro todo. Em um país em que a literatura infantil só chegou no final do século XIX e que as imagens tecnológicas nos transmitem muita informação sem precisarmos, muitas vezes, ler, incentivar o hábito da leitura ainda é uma tarefa que profissionais como Aléxia Linke e Tana Halú não desistiram de perseguir. Algumas escolas utilizam o livro pedagogicamente, da mesma forma como ele foi utilizado no início, quando chegou no Brasil. Durante muito tempo a literatura infantil era produzida somente por professores e pedagogos, mas nem sempre a utilização da mesma vem como incentivo do hábito da leitura, ou seja, o aluno muitas vez lê por obrigação escolar. Há outras escolas que criam bibliotecas particulares, motivam visitas às bibliotecas do seu estado, criam concursos de redação (produção de textos), círculos de leitura, enfim, procuram incentivar a leitura, por acreditarem na importância do processo de formação do indivíduo. É sabido que o aluno que tem contato desde cedo com a literatura consegue obter um desempenho melhor na sua trajetória como estudante. E Aléxia Linke e Tana Halú estão contribuindo com esse papel aqui no nosso estado. Aléxia Linke teve sua primeira experiência com literatura infantil como leitora. Natural de Minas Gerais, costumava ler Monteiro Lobato na tranqüilidade do alto de uma árvore. Em a segunda série ajudou a criar uma biblioteca na sua escola, com livros doados por a comunidade." Em aquele tempo não existia muito bibliotecas particulares nas salas de escola estadual», disse Aléxia. Em 91, chegou à Boa Vista e formada em Arquitetura foi trabalhar como professora de educação artística. Logo estava tomando o rumo da sala de leitura e participou de atividades como contação de histórias. E comum a todos os escritores, sempre gostou de escrever. «Tinha cadernos e cadernos de coisas escritas e resolvi começar a polarizar isso naquele universo infantil que eu tava trabalhando. O primeiro livro que eu fiz foi «O Arco-Íris Coloriu», nessa ligação das cores e tudo não achava, nem o livro do Ziraldo eu não achava que dizia das cores como eu achava que elas deviam de ser ditas». O livro contou com belíssimas ilustrações do músico e artista plástico Renato Costa, todo em aquarelas. Depois disso, continuou contando essa e outras histórias nas escolas. Fez apresentações do livro em Manaus, viajou por o interior de Minas, e em São João Del Rey visitou várias escolas. «E aí, você vai pegando o gosto e de repente o livro acaba. E você fala: -- ôpa, tá na hora de produzir mais um, vamos fazer mais porque é tão bom ir à escola visitar e você tem que ir com material. Pra ficar na escola». O segundo livro, «A Flor do Tepui», Aléxia contou com a parceria de Tana Halú nas ilustrações, que também desenvolve trabalho com massinhas de modelar. E fizeram um livro com características regionais. A necessidade de falar sobre a cultura local é o que motivou a autora. «Eu sinto um compromisso com o folclore, com a cultura popular. Eu acho que tudo é uma manifestação de sabedoria que aquele povo já tem, aquilo é que fala forte para aquele povo. Eu achava que tinha que usar essa linguagem ...». E a parceria com Tana Halú só podia ser um sucesso. Tana que é índio Macuxi, sempre teve interesse por organização, estruturação, mudança das coisas, diz que demorou para perceber que isso era arte. «A estética sempre me atraiu, e o desenho ... modelagem desde criança me atraiu muito, a habilidade manual sempre tive facilidade», conclui Tana. Em 94 e 95 ele teve a oportunidade de conhecer o Marcelo Xavier, que trabalha com modelagem, e foi trazido por o SESC para a feira do livro. «Pela primeira vez pude ver o uso da massa de modelar de forma profissional nas ilustrações», disse Tana. Esse encontro foi tão importante que ele acabou indo para Minas Gerais estagiar com Marcelo Xavier, em 2003. Quando voltou se encontrou com Aléxia e juntos resolveram dar início ao projeto «A Flor do Tepui», e desde então não pararam mais. As ilustrações com massa de modelar só vieram no terceiro livro, mais uma vez independente, e a busca de parceiros e patrocinadores era fundamental para a realização do projeto. «Estávamos atrás de patrocinador para editar ... as ilustrações, fotografias da massa de modelar, as cenas em massa de modelar e o texto em cordel e no meio desse processo, surgiu um patrocínio menor e fizemos um livro menor e aí recorremos a uma cantiga popular que eu fiz uma releitura, e esse foi o último livro que publicamos, «Tangolomango da Massa», diz Aléxia. A dificuldade de produzir e distribuir não desanima esses artistas. Essa é uma dificuldade em todo o país, mas se agrava mais nesse estado devido à distância. Roraima não conta com um parque gráfico. O mais próximo, que é Manaus, não tem tanta rotatividade. O custo para se produzir por esses lados é muito alto, por isso eles recorrem à Belo Horizonte. Fizeram um orçamento para a produção de seu próximo livro e não tiveram dúvidas quanto a escolha do local de edição. «O livro que a gente queria fazer aqui, custava R$ 23.000,00 pra produzir 1000 exemplares, em Manaus custava R$ 17.000,00, lá em Belo Horizonte a gente conseguiu por R$ 6.000,00», conclui Aléxia. Mas se para produzir um livro o custo é elevado, mais alto ainda é a frustração de não produzir. O prazer de visitar diversas escolas e ajudar a desenvolver a imaginação dessas crianças é motivo de sobra para se continuar investindo num próximo livro. Hoje, eles são reconhecidos em outros estados, principalmente em Minas Gerais. São mais valorizados fora do estado. «Virei atração central do salão de livros de Minas como contador de história e como ilustrador e hoje tenho até fã clube. E o engraçado é que só tem gente de Minas Gerais e São Paulo. E eu moro aqui, vivo aqui. Eu fiquei agora quase 30 dias em Belo Horizonte e atendi cerca de 700 crianças. Eles pagam uma taxa para a oficina e compram o livro e às vezes aqui, eu num ano vou à uma ou duas escolas e não é falta da gente procurar, é falta de interesse mesmo de eles, de acreditarem na gente. Me entristece o fato de não ser valorizado aqui no estado», disse Tana Halú. É incrível imaginar que as escolas particulares se negam a investir num trabalho como esse, que acaba sendo patrocinado e apoiado por uma loja de carnes, uma padaria, uma construtora e muitos outros segmentos que não estão ligados diretos à educação. Por outro lado, é ótimo saber que ainda tem gente interessada em investir em literatura, em cultura, em ter seu nome, sua marca associada a um ótimo produto literário. «A gente faz porque precisa. O artista precisa de produzir. Você já fica aqui parado pensando numa nova história, sabendo que aquilo vai me dar um trabalho, mas tudo bem, eu quero porque quero um pretexto pra visitar as escolas e cantar com meninos e fazer festa. Eu e o Tana, a gente se diverte ... por isso que a gente gosta», finaliza Aléxia. Número de frases: 69 Final de fevereiro eu tive que ir ao Detran / Niterói para renovação da minha carteira de motorista. Saí de casa desinformado somente com minha carteira que estava para vencer. Relax, certo? Certo? Certo? Chego no Detran e me comunicam que eu preciso de um documento de identidade original! Bem ... Pensei que minha habilitação, expedida por o próprio DETRAN, um orgão público!, fosse um documento de identidade válido Em o Mínimo para ele mesmo! Mas não ... eles precisam de um documento de identidade com foto, número, etc.. Hmmmm. Vejamos aqui, catita.. Minha habilitação para dirigir possui: 1. Uma bela foto 2. Número da minha identidade 3. Número do meu CPF 4. Número do próprio documento, da habilitação Será que eu tô ficando doidão?!? Voltei a minha casa para buscar a minha identidade e não a achei. Levei, então, minha carteira de trabalho. Retorno ao Detran e a senhora old school no pedaço -- uma mula?-- me pergunta se eu não tirei fotocópia do documento. Ela foi tão atenciosa que eu fiquei irritado. «Não, vocês podem ficar com minha carteira de trabalho por alguns dias» eu mandei ironizando já descendo as escadas. Desci e fui a rua tirar fotocópia do documento e retornei ao Detran: «Muito bem! Agora está tudo direitinho, querido! Viu como é simples? Pode aguardar nessas cadeiras por favor!" Fui atendido no guichê por uma muchacha bem gatinha [salvação!], forneci meus dados, tirei a foto, deixei a impressão digital -- quase que perguntei se não precisavam desta por extenso para fazer jus à mentalidade do funcionalismo público local -- e tuin! Acabou. Peguei os papéis que me entregaram e fui em direção à saída quando.. Tchan, Tchan, TCHA'N!!! Lá está a fotocópia da carteira de trabalho que eu tirei!!! Q-Q-Q-QUE? Tomar no Cu!!!! A atenciosa filha da póta do «Processo de renovação» do Detran me faz ir até minha casa, pois o documento que ele mesmo expede não é aceito lá, e ainda me faz tirar uma fotocópia que não é utilizada para nada? Para que então esta merda? Má-má-má como assim? «Ah lá Josicleide! Mais um playboy que eu sacaneio!" Número de frases: 37 Conclusão: a senhorinha é sócia da loja de fotocópias! Coisa comum nas cidades brasileiras era apenas um jardim separar a casa das ruas. E isso não faz muito tempo. Os mais reservados se davam ao luxo de construir muretas, baixinhas mesmo, onde muitas vezes as pessoas sentavam para uma boa prosa. Em outros casos, cerquinhas improvisadas indicavam o limite entre público e privado. Comum então era a gente encontrar apenas calçada entre porta e rua estreita, ou uma varanda com cadeiras de descanso, ou uma árvore frondosa para garantir sombra e frescor. Muro era raridade. Talvez porque os tempos eram outros. Reinava a concepção de que rua é de todo mundo; mas casa, coisa sagrada, inviolável. Hoje, até mesmo nas menores cidades, muros altos abrigam famílias assustadas e tornam as ruas lugares ermos. Muitas vezes, gasta-se mais com a construção de muro do que com a casa propriamente. Tudo em nome da segurança e da privacidade. Já não são poucos os casos de lotes murados e com pequenos barracos no fundo, em que pessoas vivem apertadas no que a modernidade resolveu apelidar de edícula. Agora o negócio é ficar isolado do resto do mundo. De preferência, com cerca elétrica e um cão daqueles bem anti-sociais. O leitor sabe como é. A coisa anda mesmo preta. Tem gente na maior pindaíba do mundo. A fome grassa e a miséria bate à porta. A violência cresce diante do medo, das injustiças, da desigualdade e da indiferença. Os maus exemplos vêm de cima e medram como câncer maligno no andar de baixo. Com as bênçãos do pessoal que estampa colarinho, as elites reinam ameaçadas na podridão do sistema em que o povo disputa o que sobra. Não é de hoje que a imprensa escancara desgraças, aumentando ainda mais a sensação de insegurança. Pelo visto, a humanidade não conseguirá mais criar cidades tranqüilas. Corremos perigo no que deveria ser o paraíso. E poucos conseguem perceber o óbvio. Número de frases: 27 Os muros, os portões e os cães de guarda separam as ruas do interior das casas, mas a vida não nos separa. Não é fácil explicar por que nos apaixonamos por as grandes cidades. Como são feitas de tijolo e cimento, lembram logo a nostalgia do cinza, a insensibilidade, a frieza da pedra. Seus prédios inertes pouco se importam com o tempo, com o passar da vida. De repente, temos a sensação que as cidades são cópias umas das outras. Fotografias em branco e preto que nasceram das entranhas da mesma terra. Mas Belém é diferente. Belém do Pará tem alma, tem olhos brilhantes -- as gotas suaves do orvalho da aurora mais bela que o tempo já viu. Tem braços longos, envolventes -- a mata virgem, esgalhada, que abraça, acaricia e fica a admirar cada contorno, cada curva do seu corpo. Belém é tão fascinante, que as águas amarelas da Baía do Guajará, quando encrespadas por os ventos fortes viram ansiosas, revoltas e doces ondas apaixonadas que vêm beijar seu ventre ardente a cada sol poente, a cada lua cheia. Que importa o calor do meio do dia, se, à noite, Belém se fantasia com os vestidos bordados com os segredos e os brilhos de todas as estrelas, e fica a flertar com as brisas vindas de todos os lugares, que trazem de tantos berços desconhecidos, tantos aromas enfeitiçantes -- que nos embriagam de paixão, de mistérios -- e que nos fazem caminhar por esse mercado amoroso da noite, onde encontramos frutos para todos os gostos e gostos para todos os frutos. Como não te amar, Belém, se depois de rasgarmos o ventre da noite, nos ofereces a alvorada se espreguiçando por a feira do Ver-o-Peso, fazendo brilhar como pedras preciosas as frutas de todas as cores, de todos os sabores, que ficam desenhando no chão um arco-íris perfumado, encantado, que fantasiam nossas vidas, brincam com nossa imaginação, enfeitam nossos sonhos? Como não te amar, Belém, vendo o amarelo dos bacuris com o marrom dos cupuaçus tecerem um tapete que faz fronteira com o vermelho, o amarelo e o verde das pupunhas que se misturam ao ouro dos biribás, das bananas prata, branca, nanica, com todas as cores de todas as mangas, com o claro verde amarelado das goiabas, das carambolas, dos uxis, dos abricós, do murici? Como não sentir teu sabor, Belém, olhando as pimentas-de-cheiro embrenhando-se nos maços de jambú, fiéis companheiras das perfiladas e aquecidas garrafas de tucupi? Como não te amar Belém, se ainda no Ver-o-Peso vamos entrar e sair das vidas das pessoas ao passar por os mistérios da ervas que mandam para longe o desamor, afastam os temores, encomendam a saúde, desviam os maus ventos dos maus olhados, afastam os maus amantes, trazem de volta o amor, desfazem noivados, espantam feitiços, desatam nós, acertam casamentos? Ervas que curam de verdades, outras que fantasiam a vida, a imaginação. Como não amar teus casarios antigos, as tuas esquinas cheirosas onde se toma o tacacá e se come o caruru, o vatapá, a maniçoba. Como não cair de amores por as tuas mangueiras seculares que formam túneis que criaram romances, que amenizam o sol ardente, que dão a sombra divina para as faces iluminadas dos romeiros que homenageiam nossa Mãe dos Céus durante o Círio de Nazaré? Como não te amar Belém, se nos dás de presente a mais gostosa das sestas depois de uma tigela de açaí com o peixe frito: tesouros que nascem nas beiras e nas águas doces dos nossos rios que cortam nossas florestas, que contam tua história, teus encantos, tua vida? Número de frases: 20 www.noelio.com.br A esta altura, uma semana depois da Festa de Momo, as cinzas já baixaram e quase já não se ouvem mais os ecos da folia. Mais por uma questão de palavra dada, não quis deixar de escrever minhas impressões sobre o Carnaval do Rio, já que fui aquele que lançou a idéia de uma overcobertura do Carnaval 2007. Por a proximidade com alguns integrantes do Bloco das Carmelitas e do Bangalafumenga, acompanhei de perto o que acabou se tornando uma das maiores polêmicas deste ano no Carnaval carioca: o modo como os blocos de rua tentaram evitar desfiles tumultuados. Fumegando com o Banga O Bangalafumenga, uma espécie de dissidência do Monobloco que é comandada por o compositor Rodrigo Maranhão, fez uma anti-divulga ção. A preocupação com alguns incidentes violentos em seus ensaios pré-carnavalescos e com brigas do ano anterior fez com que divulgassem que o bloco sairia da Praça São Salvador, em Laranjeiras, quando na verdade sairia do Horto, no mesmo local onde desfilou no ano anterior. Não adiantou muito, já que quem descobriu o local correto do desfile foi avisando aos amigos, ali na hora mesmo, via telefone celular. Uma enorme multidão acabou seguindo o bloco, bem maior do que em sua estréia na rua, em 2006. Mas talvez fosse ainda mais tumultuado se o local correto fosse divulgado na grande mídia. Mesmo com a superlotação, valeu a pena ser embalado por as variações rítmicas da bateria, com um repertório variado, versões de Chove-Chuva, Maracatu Atômico, ao som do vozeirão de Serjão Loroza. O cara é uma potência. Em a minha humilde opinião, é o mais sério candidato a sucessor de Tim Maia. Sem piadas, não é por o porte físico; seu forte é a levada funk-samba soul, o vozeirão, o suingue, a simpatia, o bom-humor, a malemolência. E ele foi cantando ali no meio da bateria, no asfalto, junto da massa. A freira foge do convento e da multidão No caso do Bloco Carmelitas, a história é mais longa. Criado por os moradores do bairro há 17 anos -- juntamente com uma lenda que reza que certa freira fugia do Convento das Carmelitas Descalças na sexta-feira de Carnaval e só retornava na terça-feira gorda -- foi tomando proporções gigantescas e causando enormes transtornos aos moradores das ruas estreitas e calmas de Santa Teresa. Muitos dos antigos participantes já não desfilavam mais e os moradores que antes apreciavam o cortejo com alegria passaram a reclamar, do xixi, das brigas, dos roubos e assaltos, do assédio impertinente de pitboys e otras cositas más. Há alguns anos atrás, depois da bateria do bloco ser indicada por um jornalista como uma das piores do carnaval do Rio, os integrantes chegaram a aumentar a (má) fama, espalhando o boato de que o bloco tinha, além da pior bateria, as mulheres mais feias e a cerveja mais quente. Tudo para espantar a multidão e brincar na paz. Em 2007, depois de ensaios tumultuadíssimos, que acabaram sendo cancelados, resolveram que o bloco sairia às 15h de sexta-feira, e não às 18h, como nos anos anteriores. A diretoria do bloco dizia que não havia sido consultada sobre o horário por a imprensa, que indicou nos jornais o mesmo dos anos anteriores. Eles apenas não corrigiram a informação e nem deixaram que os jornalistas do bloco o fizessem. Devo confessar que o resultado foi positivo. Foi um desfile tranqüilo, com as ocorrências normais de festa carnavalesca. Minha amiga Rita Afonso, por exemplo, antes integrante do naipe de tamborins, já não desfilava há dois anos. Resolveu brincar na sexta-feira em 2007 ao saber da mudança de horário. Já tinha passado por maus bocados, momentos desagradáveis mesmo, como quando sentiu uma certa aguinha quente e amarelada em seus pés -- vinda não de seu próprio corpo, é claro. Difícil de suportar, não é mesmo? Em seu retorno, não voltou à bateria, mas faz parte do cordão de proteção dos ritmistas. Assim como ela, vários outros moradores e foliões engajados pareciam cuidar do bloco como se fosse um filho, pedindo passagem carinhosamente a quem ficava parado no meio do caminho, sem apoio de seguranças, só no papo mesmo, com gentileza e alegria. Trajando uma versão da camiseta oficial do bloco em forma de vestido, o designer gráfico Bob Siqueira era um dos que pedia que a massa andasse. Inacreditavelmente, ele sozinho fazia a multidão à frente do bloco seguir em frente para que o bloco evoluísse. Em determinado momento, a massa avançou tanto que o bloco ficou folgado. Sua família também estava no cortejo: filhas, mãe, pai, prima, irmãs, sobrinhos. Os Siqueira em bloco, com duplo sentido mesmo. Em a verdade, uma síntese do espírito do Carmelitas, um bloco família, de velhos e crianças, como esbravejaram alguns revoltados no fórum da comunidade do bloco no Orkut. Uma cena em especial chegou a me comover. Em determinado momento, uma senhora beirando os 80 anos começa a dançar animadamente na calçada na passagem do bloco, com um dos pés enfaixados e trajando um daqueles vestidos estilo camisola (aliás, o mesmo tipo de roupa que normalmente circula por o bairro). Era Dona Didi, uma moradora antiga do bairro, que nos anos anteriores também já não conseguia mais entrar na folia. A o perceber sua presença, o mestre sala Emmanuel Santos a chama para o meio do bloco e ela recebe a faixa de Rainha do Carmelitas, passando a evoluir ainda com maior alegria, também protegida por o cordão da bateria. Parecia claro que ela, assim como todos os outros, estavam radiantes por poderem brincar à vontade, sem muita confusão, como se declarassem, «temos de volta nossa festa, podemos festejar mais tranqüilos». O samba deste ano, bem ... eu diria que é bem genérico. Serviu bem em relação aos quesitos animação e evolução, mas é só substituir o nome no refrão que serve para qualquer agremiação: Vem Carmelitas que eu vou, amor Vou me embalar na multidão (ops, eles nem queriam isso. rs) Que emoção Se hoje eu tô que tô Se você vai eu vou Pra ganhar seu coração Em o dia seguinte, sábado, no Bar do Serginho -- uma mercearia-boteco, praticamente um dos mais tradicionais pontos de encontro dos moradores do Largo do Curvelo e adjacências -- o mais interessante era ver os freqüentadores se congratulando. «Parabéns, foi lindo!». Festejavam a reconquista da paz para brincar o Carnaval em seu bairro. Muitos usavam a camiseta oficial do bloco, como os torcedores de times de futebol fazem após uma vitória expressiva. Originalmente, o Carmelitas saía na terça-feira no fim da tarde, do Largo dos Guimarães, para levar a freira de volta ao convento no final da tarde. Para evitar o gigantismo, em 2007 a concentração passou para 9h, horário que chegou a ser divulgado nos jornais. No entanto, o desfile foi tranquilo, não se sabe exatamente se por causa do horário matinal -- afinal, último dia de carnaval, acordar cedo é pedir demais -- ou por a raiva que muita gente teve com a mudança de horário do primeiro desfile. Duas mil pessoas acompanharam o retorno da freira ao Largo do Curvelo. Em o ano anterior, o cálculo foi de dez mil. Faça você mesmo sua folia Tudo isso me fez pensar até mesmo na proposta do Overmundo, de falar da cultura produzida no Brasil que não chega à grande mídia. Para o pessoal que organiza esses blocos e em eles quer se divertir, a lógica é inversa. Se aparecer demais na grande mídia, estraga a festa, a diversão, e o prazer vira sufoco. «Não conta pra ninguém, senão estraga», como diz meu amigo Bob. Já o mestre de tamborins do Carmelitas, Renan Cepeda, radicaliza: «se alguém perguntar se o carnaval de Santa foi bom, por favor, diga que foi uma merda ..." Com tudo isso, creio que no Rio esta avidez por blocos de rua vem incentivando um outro movimento, meio no espírito punk, tipo «faça-você-mesmo». Se querem curtir um bloco de carnaval, uma festa, organizem a sua, «reúna seus batuqueiros» (como diz aquele samba clássico). A idéia está ganhando cada vez mais força -- na quarta de cinzas, um bloco estreou em clima de realismo fantástico (mais detalhes logo abaixo); aqui em Aracaju o Burundanga está fazendo sua história, bastante contagiado por essa vontade de tomar para si o fazer folia. Particularmente, creio que já passou o tempo em que carnaval era sinônimo de alienação ou escapismo. Nossa capacidade de se brincar, de se permitir a fantasia e o prazer, talvez seja uma das mais marcantes características dos brasileiros. Então, mãos à massa! A festa não quer, não pode e nem deve acabar Então é isso, não fui um folião muito animado, mesmo estando hospedado onde parecia estar o olho do furacão da folia, em Santa Teresa -- que me lembrou Olinda, com suas ruas lotadas de blocos, troças, rodas de samba, fantasias e gente procurando por onde passaria o próximo bloco. Até mesmo na quarta-feira de cinzas, o movimento no bairro só começou a diminuir por volta de duas da madrugada. Mas existe um bloco pode até entrar para o Guiness como o menor desfile do mundo. É o Vassila quem pode (com «ss» mesmo, coisa de vacilão). O pessoal tem até carteirinha, faz uma longa concentração (haja cerveja!), mas desfila apenas atravessando uma rua. Reúne um grupinho de no máximo uns 30 amigos, de idades variadas e com seus filhos também. Todo mundo se diverte que é uma beleza, uma delícia, mas é só pra quem é «de casa», eles nem comentam muito nos dias anteriores, pra não espalhar mesmo. E não adianta que não posso revelar onde é a festinha, senão eles cortam relações com mim! Já passado o final oficial da festa, tipo final da prorrogação do tempo regulamentar, na quarta-feira de cinzas à noite, aconteceu uma passagem surreal em Santa Teresa. O tal bloco estreante já citado acima, chamado de Me enterra na quarta, desfilava ao som do maracatu. Atrás de ele, vinha um carro funerário. O bonequeiro Jorge Crespo, responsável por a confecção da boneca do Carmelitas, ao ver a cena pensou, " que criatividade!" Resolveu registrar a imagem e foi pedir ao motorista para parar um instante para uma foto. Sua surpresa foi o homem pedir desculpas e dizer que não podia fazer isso, pois a família vinha entristecida no carro logo atrás. Parece piada, mas é verdade: o féretro era verdadeiro! E no sábado à noite, ainda teve mais ferveção em Santa. Já de manhã, nas ruas o boato que corria era que três blocos iam sair no bairro. à tarde já diziam que a polícia tinha proibido. Verdade ou mentira, à noite teve festa no Largo dos Guimarães, confete e serpentina de novo. Em o domingo, além do Monobloco em Copacabana, teve bloco na Praia do Leblon também. E andando por as ruas, já me despedindo das férias, ouvi uma dupla de motoristas de táxi comentando, «o Rio tá querendo virar Salvador, onde a festa dura mais de uma semana». Tudo indica que é isso mesmo, a idéia parece que está vingando. E o que pude perceber nos grandes veículos de comunicação foi um destaque maior para o carnaval de rua, até com mais espaço que as escolas de samba em diferentes roteiros e guias publicados. Eu aprovo a idéia, e quero mais, em todo o Brasil. De volta a Sergipe, percebi que esse resgate da folia livre também se fez presente, mas isso já é tema para outro texto. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Número de frases: 106 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo. O que pode resultar do encontro entre dois músicos virtuoses que são apaixonados por futebol, um por o Grêmio e o outro por o Bahia? Música de excelente qualidade. Essa é a melhor definição do show realizado por Armandinho e Yamandu Costa no Projeto Petrobras de Música que aconteceu nos dias 09 e 10 de setembro, em Aracaju. O violão de sete cordas de Yamandu e a guitarra experimental de Armandinho proporcionaram um espetáculo em homenagem a música brasileira e seus grandes compositores. Momentos emocionantes tiveram espaço na música de Yamandu quando interpretou uma canção, de sua autoria, dedicada ao escritor gaúcho Érico Veríssimo. A música erudita também fez parte do repertório. A Marcha Turca de Mozart, feita originalmente para piano, tomou ares bem brasileiros ao som dos instrumentos que se transformaram em brinquedos nas mãos desses gênios. O encontro musical do baiano Armandinho com o gaúcho Yamandu Costa aconteceu pela primeira vez no ano 2000, no Rio de Janeiro, por as mãos do produtor paulista Solon. Em 2001, Yamandu foi o vencedor do Prêmio Visa de Música recebendo como prêmio o direito de gravar um CD solo. Em este CD, foi registrada a canção «Grêmio x Bahia», uma composição conjunta dos dois instrumentistas, em homenagem aos times por os quais torcem. Virtuoses de seus instrumentos, amantes do vasto repertório da música brasileira, Armandinho e Yamandu são mestres em improvisos para composições de Pixinguinha, Radamés Gnatalli, Caetano Veloso, entre outros. Número de frases: 12 Sílvio Sanuto tem 21 anos, usa um boné branco virado para trás e veste uma camisa azul, com o escudo do Capitão América estampado ao centro. Pois é, você adivinhou: ele está pronto para tocar numa camerata, onde o repertório vai de Bach a Villa-Lobos. Sílvio é um dos garotos que participam desde o início do projeto Abc & Arte, voltado à profissionalização musical, em Acari, existente há quatro anos e que abriga 340 alunos. É o único percursionista de uma camerata que ainda engloba bandolim, cavacos, violas de dez cordas, violões, baixo acústico e flauta. Iniciado na música por os teclados, Sílvio descobriu no projeto de Acari que tinha facilidade com percussão. Aprendeu de forma autodidata, inclusive, a tocar cajón -- aquela caixa de madeira batucada por vendedores de laranja peruanos. O percursionista é um dos talentos peneirados por um projeto que tem como meta criar um Centro de Ópera Popular. O ponta-pé inicial foi de Avamar Pantoje -- idealizadora do Abc & Arte, moradora de Acari e diretora de uma escola municipal por lá mesmo -- a Alexandre de Gusmão. Uma excursão escolar rendeu uma cena tão bizarra que foi o estopim para a iniciativa: um aluno com 16 anos de idade pediu-lhe para conhecer o mar e ver se era realmente salgado. Em pleno Rio de Janeiro. De a necessidade de se fazer algo por eles, surge a música como forma de levar ' maior vivência ' -- nas palavras da diretora -- para os estudantes. -- Queria um projeto para elevar a auto-estima, com o objetivo de acolher e que envolvesse um lado artístico. A o saber de um trabalho numa escola na Pavuna apoiado por o Instituto C&A, mandei umas dezesseis cartas para eles -- conta, para logo em seguida rir do próprio exagero e destacar que obteve apoio. A estrutura do projeto é de apenas um salão -- alugado -- mais os instrumentos adquiridos, tudo mantido com um apertado orçamento. Há professores contratados para ensinar às centenas de alunos e a única coisa cobrada de eles é a presença. Avamar convidou o amigo Caio Cezar, músico profissional, para ser o diretor artístico da empreitada. Em o início, o plano era atender apenas crianças freqüentadoras da escola da diretora. Permaneceu assim sequer por seis meses. -- Não dá para criar critérios de exclusão numa comunidade que já é excluída. O que que eu falaria para um senhor que quisesse ter aulas de cavaco? ' Desculpe, mas você chegou 30 anos atrasado '? Não posso. Hoje o projeto recebe gente de todas as idades e até das redondezas de Acari. Para formar o Centro de Ópera Popular, Caio explica que a estrutura se baseia em três pilares: um núcleo de dança, um de teatro e outro de música -- este último capitaneado por o próprio. A produção de uma ópera popular viria da junção destas três forças. Em o momento, as aulas de dança estão paradas por falta de professores; há 115 meninas na fila à espera de lições de balé. Mas a previsão de Caio para que os três núcleos funcionem e a ópera popular saia é otimista: um ano. -- Estes núcleos também têm vida independente. A camerata está pronta. Usamos instrumentos ' brasileiros ' e executamos um repertório que pode ser visto em concertos -- conta o músico, todo orgulhoso com as apresentações que a camerata fez por o sudeste e nordeste, como no Festival Internacional de Música Clássica, o Mimo. Ver tanta gente entrosada com repertório clássico pode levar algum desavisado a formular uma pergunta imbecil, mas razoável diante das circunstâncias: será que em Acari o pessoal só ouve música clássica? Afinal, só se falou nisso até agora. -- Tenho dois roqueiros que tocam viola caipira de dez cordas muito bem. Tem gente do funk e do pagode. Eles vêm para cá fazer outra coisa, diferente do que estavam acostumados. E todo mundo se dá muito bem -- conta Caio ao lembrar que, no projeto, há desde alunos que começaram do zero aos descobertos em bandas de rock ou grupos musicais de igrejas. Há um certo pragmatismo no trabalho feito em Acari. Caio acha que a produção artística é uma forma de encaminhar e levar as pessoas para o mercado de trabalho. Avamar ensaia ter uma úlcera ao ver um discurso paternalista no ar. -- Nós não somos salva-vidas ajudando coitados. O projeto só possibilita algo que eles têm condições de fazer -- assinala. ' Futiboi ', dedicação e diversão Quem vê o pessoal da camerata em cena, entrecortando intervalos de música com toneladas de brincadeiras, piadas e zoações internas, pesca logo de cara a amenidade do clima. Só não ouse associar diversão à falta de profissionalismo. E o que ressalta André Cesari, 14 anos, ' o cara ' do bandolim e caçula do time profissional. -- A galera aqui brinca, mas, na hora de trabalhar, o pessoal é sério!-- ressalta o garoto, no projeto desde os 10 anos, parecendo preocupado em fazer a fita do pessoal. Não precisava, André. Só de ver a dedicação de todos na hora do 'tá valendo ' dissipa qualquer dúvida. O jovem tocador de bandolim, aliás, é um dos mais elogiados por o grupo devido a entrega ao mundo da música. -- Não tem jeito: para tocar bandolim você tem que treinar diariamente -- sentencia. Iuri Nascimento, 23 anos, faz parte da ala roqueira comentada por Caio. Integrante do projeto desde o início, conta animadíssimo que já percorreu lugares do país como Minas e São Paulo por causa da camerata. -- O Caio me indicou para tocar viola caipira porque viu em mim habilidade com a palheta. Eu já tocava guitarra numa banda que mistura rock, MPB e jazz, que tenho até hoje, e topei participar. A viola caipira tem um timbre parecido com o cravo, é bom para a música clássica. Demolir preconceitos foi outro grande trunfo apontado por Iuri ao participar da camerata. Ele acredita que provavelmente não conheceria ou teria contato com outras pessoas simplesmente por não compartilharem sons em comum. -- Nunca me imaginaria tocando ao lado do Bruno, do cavaco, que gosta de pagode. É um tipo de música que não gosto. Este contato me fez descobrir gente muito talentosa, como ele -- fala, ao ser logo interrompido por algum amigo da camerata. -- Esse cara é bom!-- enquanto congela o dedo indicador apontado em direção ao Iuri. Inicia-se uma série de elogios recíprocos. Em meio a tanta camaradagem, tem 'paço para deboche também. Iuri faz jogo duro para entregar os podres das brincadeiras. Mas revela uma gíria comum a todos. -- Quando tem alguma roubada, como tocar numa festa de quinze anos ou algo 'quisito, um logo fala para o outro que é ' futiboi '. É que vi uma entrevista do Marcelo Madureira, do Casseta e Planeta, em que ele contava que foi animado cobrir uma partida (de futebol disputado por bois). A o chegar lá, viu um monte de boi parado. Mal tocavam na bola -- ri. Número de frases: 78 O som da camerata, contudo, 'tá longe de ser um ' futiboi '. Admiro quem consegue lembrar perfeitamente o que aconteceu há muito tempo. Algumas pessoas bem próximas a mim dizem possuir clara memória de quando tinham dois anos. Penso muito sobre como eu seria se lembrasse de 'sas coisas. Porque eu não sou assim. Lembro muito pouco da minha infância. Em imagens, na verdade, quase nada. Quase tudo vem em sensações: o dia em que meu pai tentou consertar o freio da mobilete do meu irmão e, falhando na empreitada, andou uns 20 metros com apenas uma roda até bater num coqueiro da rua onde cresci. Tenho em mente até hoje o riso preso dos segundos anteriores a saber que meu pai 'tava bem (e 'tava), mas não me lembro da mobilete, da rua ou do coqueiro em 'se dia. Não lembro do depois, da minha mãe correndo, dos meus irmãos preocupados. Sei do que eu senti-mas tenho em mim pouco do que vi. O que eu tenho de concreto é ralo. São flashes de cenas que formam o imaginário do que é uma infância. Nada triste não. Minha infância foi ótima, e tenho como prova factual minha memória sensitiva que expliquei aí em cima. Ela me basta. Mas a pergunta continua: o que seria de mim se lembrasse firmemente do que fiz naqueles tempos? A questão voltou com tudo em 'te abril, quando vi na banca a edição 'pecial da revistinha da Turma da Mônica -- Lostinho: perdidinhos nos quadrinhos. É porque se não lembro dos churrascos que sei que aconteciam lá em casa, do campeonato de 89 do Vasco (já mais velho, vi o jogo na íntegra, certo?), da piscina da antiga casa, do quintal, do cachorro, da pipa, da bolinha de gude, das campainhas tocadas, das ruas corridas, se não me lembro de tudo e tanto, lembro perfeitamente da primeira historinha que li da Turma da Mônica, o meu primeiro gibi e, sem dúvida, uma das primeiras obras literárias com que tive contato: o quadrinho era sobre o Seu Cebola (para quem não sabe, pai do Cebolinha) e de sua paixão por um carro. Curioso, não? Não é todo dia que se vê por aí o Seu Cebola como protagonista da Turma. Bom, o conteúdo (que 'tá bem gravado) não importa muito, porque o que guardo com mim (e vou levar para sempre) é ainda mais valioso -- a imagem da minha mãe rindo quando eu disse que o Seu Cebola 'tava dentro de um «possante». Ela sabia que eu tinha lido a palavra na revistinha, achou graça. E eu, com 6 anos, entendi com clareza sobre o que minha mãe ria. Boa memória a minha. Sim, boa memória a minha. Não sei se é muito comum com você, mas com mim 'se tipo de reminiscência é rara. Não é todo dia que passo por uma banca de jornal e vejo os personagens da Turma da Mônica correndo dos destroços de um avião numa ilha deserta. Muito menos sob a alcunha que para mim já sugere um símbolo de diversão: LOST. Lostinho é, como o nome já deixa claro, a versão da Turma para a série Lost. Assim como já ocorreu no passado com Batman, Guerra nas Estrelas e Homem-Aranha, os roteiristas tomam emprestado o que é «quente» (nem é tão mais assim) no momento e adaptam às historinhas. Só que, no caso do Lost, a idéia seguiu outro rumo. Diferente dos quadrinhos baseados no enredo fantástico de super-heróis ou de lutas do bem contra o mal -- com apelo natural para crianças --, as páginas da nova aventura da Turma vêm carregadas de citações e referências para adultos. A começar por a 'colha do tema. Lost realmente não é para paciência de qualquer um. Exige uma certa dedicação à trama rocambolesca e disposição com a falta de solução para os mistérios. É um seriado adolescente-adulto, e certamente foge ao perfil do público-padrão da empresa do Maurício de Sousa. E a surpresa ainda se torna maior quando se percebe que o desenho da historinha em si opta por manter, digamos, o storyboard original de Lost. A o se comparar os primeiros planos do episódio 1 da série com os primeiros quadros da revistinha, nota-se uma similaridade reveladora. É praticamente um quadro a quadro. De o olho em plano fechado, do plano abrindo e o cachorro passando, até chegar finalmente aos destroços do avião. Só que com o (genial) detalhe: a equivalência dos personagens -- em vez de Jack, Cebolinha; em vez de Kate, Mônica; em vez de Charlie, Cascão. Até Vincent, o cachorro, ganha um igual: o Bidu. Sobre o conteúdo da historinha, parece-me quase um desserviço entrar em detalhes. É comparável a contar a um amigo o que aconteceu no episódio de Lost ainda não assistido. Cabe chamar atenção para o Cebolinha roubando todas as cenas com o humor irônico e bobo de sempre e a surpreendente participação do Bugu, com muito mais 'paço do que costuma ter quando aparece junto aos quadrinhos do Bidu. Mas também tem metapiada, flashback, referência aos Beatles, a desenhos antigos (inclusive com participação dos primeiros personagens do Maurício de Sousa), a filmes recentes e, certamente, a mais um monte de coisa que eu não peguei nem na primeira, nem na segunda leitura. E por que ler duas vezes a revistinha? Porque não é toda hora que se faz uma ponte entre passado e presente de modo tão natural e sem realizar força. Aliás, por falar em força, vai aqui uma forçada de barra para me fazer entender: qual foi, por exemplo, o último filme brasileiro que você viu que conseguia aproximar com tanta naturalidade o ontem ao agora? Cito assim, com o risco de em breve me lembrar de outro, um: O ano em que meus pais saíram de férias. O restante daqueles que vi trata o que já passou com um 'tranho vício de culpa por o o que não foi feito, um olhar para trás lamurioso. Consigo pensar em Quase dois irmãos, Cabra cega, Cartola -- Música para os olhos e, o mais recente, Batismo de sangue, como exemplos de obras que não decolaram devido, principalmente, à dificuldade latente de pensar com a vista de hoje a época que se propuseram discutir. Voltando aos quadrinhos, vejo a historinha da Turma como quem vê alguém que não tem medo de arriscar. Ela carrega o imaginário de tantos (a minha memória!), mistura à referência pop de Lost, faz alegoria com outros muitos ícones contemporâneos e, tudo isso, sem perder a glaça e o chalme de um Cebolinha. Este Cebolinha, por sua vez, ainda alcança a magia que nem Stanley Kubrick em 2001: Uma odisséia no 'paço foi capaz de fazer: ao imitar Jack e botar uma gravata de gente grande, o personagem que troca as letras liga passado e futuro numa elipse de tempo com uma imagem só. Número de frases: 70 Liga minha infância ao meu presente também. Nelson Rodrigues é uma unanimidade. É impossível ficar impassível diante da virulência de sua obra. Seu domínio do bicho palavra, e da ave sentimento, transformaram-no numa corda literária de imensurável tensão. Suas expressões e axiomas transformaram-se em marca poética pessoal. Quase tudo 'crito por ele anuncia o 'panto, o insólito, o maravilhoso. E como já dizia Lautréamont «o maravilhoso 'tá no banal». E como Nelson sabia disso. Gênio do teatro brasileiro, Nelson é comparável a qualquer gigante da literatura universal em transgressão, originalidade e invenção. Sua maneira de expressar-se é no mínimo destruidora. TNT implantado no prédio da linguagem pronto para explodir, para dizer o «indizível», desvelar os labirintos de lama da alma humana, onde a verdade 'conde-se, como 'cura secura em nós. Sua obra reflete a existência nua e crua, e se não vivida por todos, ao menos reconhecida ou imaginada por muitos. Suas perversões condenam-nos a realidades impregnadas de mal-estar e indignação, no entanto jamais absurdas: em Nelson, as permissividades pornográficas tecem um raro tecido onde a família é o núcleo deflagrador de tudo, centro de toda danação, origem da tragédia. O drama rodrigueano, seja em conto, no romance ou teatro, funciona como 'topim para o desmoronamento moral. Sua 'critura expressa a procura de um desconhecimento interior, um desconhecimento íntimo e por vezes monstruoso. Através da desconstrução da dor, seu texto, codifica processos psicológicos como manias, angústias, traumas, revoltas, taras, obsessões. Essa dor despertada em seus personagens revela nossas secretas obsessões, nossos medos inconfessos, nossa repulsa hipócrita ao imoral, que nos fragmenta em pedaços de santos e canalhas, nós que somos apenas humanos, demasiadamente humanos. Número de frases: 18 Uma Usina de Arte no Acre O lugar é o Acre, no caminho do aeroporto que é Internacional. Assim você fica quase localizado no que é o assunto-Arte em questão. Havia uma Usina, em tempos outros. As mulheres saiam de suas casas distantes com a lama até o joelho, pé no chão (ou não). O destino era a Usina de Castanha. Quebravam castanhas. Anos depois, outros governos depois, uma Usina abandonada, falida. Aí veio a idéia: reformar! Mas pra quê? Quebrar castanhas? Sim, sim. Somos quebradores de castanha na 'sência. Quebramos desde sempre, com Galvezes, Plácidos e, sobretudo com Marinas e Chicos. Esse é o Acre! Em 'te exato momento, numa lan-house da vida 'crevo a vocês que eu, mulher, com a lama no chão de um dia bonito, digo-vos que temos aqui em funcionamento uma Usina. Uma Usina de Arte. Chama-se João Donato e 'tá funcionando extraordinariamente a todo vapor. Um Núcleo de Produção Digital, que tem como Coordenador o Cineasta Maurice Capovilla. Genial. Sim. Assino-vos que é um Cineasta grandioso, que tem deixado seus alunos despertos para uma linguagem audiovisual conectada as outras linguagens artísticas. Outro Núcleo é o de Música. A o Acre chegou, com seus cabelos revoltos, o reconhecidíssimo musical Tim Rescala. Artes Cênicas? O Núcleo é Coordenado por o teatrólogo seduzido por o Acre João das Neves. Estamos formando um time. Um time em prol da Arte, que me orgulho muito em poder integrar. Falo da Usina de Arte sem nenhuma pretensão de ser imparcial. Não o sou e nunca serei. Acredito em 'se projeto com a mesma intensidade que acredito nos meus poemas. E senhores, isso beira a toda intensidade que há em mim. A Usina de Arte João Donato, 'tá começando seus cursos, que hão de durar inicialmente por dois anos. Os alunos não pagam nada. É uma 'cola pública de Arte. Os professores 'calados são dos melhores. A construção é linda e imensa. Muitos jovens fazendo processo seletivo. Se inscrevendo, ligando, perguntando. Para o Curso de Cinema, 197 inscritos. 40 vagas. Música e Teatro, cada um, mais de 200. Enfim, tenho lido muito vocês, apesar de ter publicado pouco. Digo-vos com certeza, se há uma causa a ser empunhada a bandeira, 'sa é a Usina de Arte do Acre. A causa não é minha, é de todos os que teimam acertadamente em acreditar na humanidade. E por o sempre que eu viver, teimosamente vou buscar elas: as causa que possam me manter viva! A Usina de Arte João Donato, amigos-leitores e leitores-amigos, é um projeto apaixonante. O próximo Núcleo a funcionar é o de Artes Visuais. O Coordenador é Danilo de S'Acre, que até em seu nome adotou a milênios 'se Estado que vive intensamente a quebrar castanhas. É um talento. Creio que com as bênçãos da Arte temos em meio a 'ses rios Amazônicos uma outra perspectiva, uma causa, uma nobre e apaixonante causa. E é para a ela que chamo a atenção dos olhares cansados de desiludidas paisagens. Número de frases: 53 Olhem, há uma Usina de sonhos bonitos urgindo por mais gente pra sonhar. às nove e vinte e cinco da noite do dia 6 de setembro, o panorama nos arredores da Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, era, para sermos inteiramente fiéis à verdade, aquático. A chuva era farta, as poças que se formavam mais ainda. Sob os Arcos da Lapa, uma legião de jovens, homens maduros, famílias inteiras, na maioria suprema metidos em roupas pretas, protegia-se do temporal. A tenacidade na luta contra a chuva, aliada à paciência para com o staff, 'pecialmente o de segurança da Fundição, tinha um motivo claro e definido: Slayer. E podiam cair oceanos inteiros sobre a Lapa que nenhuma das quase três mil pessoas arredaria o pé de ali. A noite de ontem era uma de celebração, de quase culto à mais antiga -- e igualmente tenaz -- banda de thrash metal em 'tes tempos. O Slayer é, descontados exageros, a banda que inventou o 'tilo e colaborou (muito) para que ele se tornasse popular e ainda enfileire multidões. De nada adianta fazer a 'túpida 'tigmatização de que thrash metal é música pobre, coisa de jovens pouco instruídos, de cabelos compridos e camisetas pretas 'tampando logotipos 'quisitos de bandas que você nunca ouviu falar. Fazer isso é ter preguiça de observar e pensar. O clima ontem era de reunião de uma tribo. «Cair na porrada é bom " Um primeiro dado interessantíssimo de 'sa tribo do metal, é que não há um tipo de platéia mais voraz e disposta a qualquer coisa para se divertir como ela. Observar uma platéia como 'ta é observar de certa forma um rito, no qual os tambores são tocados à velocidades inimagináveis nos mais altos volumes e onde o caos parece se instalar de cinco em cinco minutos. O componente «Disposição» é obrigatório, 'pecialmente para aqueles que vão para o meio do ritual, ou melhor, para o meio da pista, enfrentar o «pogo». A catarse é imprescindível. A maioria dos caras que se aventuram naquelas enorme ' rodas ' defronte ao palco sabe que pode sair de ela sem um dente, com algum osso quebrado ou qualquer lesão do gênero. «Fazer o quê? Faz parte do lance.», dizia um rapaz na saída do show, 18 anos, morador de Anchieta, enquanto colocava papel higiênico numa de suas narinas para o sangue parar de correr. «Cair na porrada é bom, libera a tensão. Em um show do Slayer é obrigação cair na porrada». Para encerrarmos, infelizmente com o triste componente «Violência» -- assunto nada acolhedor, é verdade, e passarmos adiante com os shows da noite, vale uma nota utilidade pública: entre a considerável platéia que a Fundição Progresso recebeu na noite de 06 de setembro, chamava a atenção um grupo que, muito além de só querer liberar tensões, 'tava disposto à inspiradas sessões de 'pancamento coletivo. Por mais de três vezes, o singelo grupo -- cinco caras, quatro de eles com coletes dos Hell's Angels -- pegavam um sujeito qualquer que 'tivesse assistindo ao show e o 'pancava até a exaustão. O segurança mais próximo do grupo, no entanto, cochilava, encostado a um portão, a pelo menos três metros do grupo. É preciso sempre 'tar atento, o conceito de «diversão» é bastante subjetivo. Recomenda-se distância de tipos assim. Ungodly e a brincadeira das camisetas Faltando dez minutos para as onze horas (informações davam conta de que o Slayer começaria «pontualmente» à meia noite, mas era prudente duvidar), e os primeiros trabalhos tribais começaram. De Salvador-BA, o Ungodly (algo como " indeusável ") veio substituir o canadense Thine Eyes Bleed e aparentemente não comprometeu. Em os quarenta e cinco minutos a que teve direito, tocou somente material próprio (desconhecido da maioria suprema), servindo muito mais como animação de platéia do que propriamente como um open act. E pensar que doze anos atrás, no Imperator, o Slayer mereceu melhor tratamento, sendo precedido por o Suicidal Tendencies. Por falar em doze anos atrás, é hora de propor uma brincadeira para ser feita caso algum dia o leitor, pouco afeito às coisas do metal, decidir-se por uma incursão em 'te intrigante mundo em preto e preto: Observar as 'tampas das camisetas, ou como são chamadas pejorativamente, «camisetas de banda». Alguns nomes são perfeitamente identificáveis, como Death, Exodus, Dorsal Atlântica, Possessed. Outros -- Deicide, Impaled Nazarene, Emperor e, o meu favorito, Belphegor -- são praticamente ininteligíveis, dada a forma 'tilizada em que são desenhados. Soa idiota, mas provoca risos fáceis se associada à cara do sujeito vestido com ela. O misto requentado Era de assustar. Pontualmente, e num show carioca podemos dizer «'tranhamente», apenas com segundos de atraso, o Slayer começou seu show de forma brilhante com» Disciple», logo emendando, sob êxtase, em «War Ensemble». E a guerra se instalou no «pogo». Os guitarristas Kerry King e Jeff Hanneman, responsáveis por pelo menos três dos dez riffs mais conhecidos do metal, realmente pareciam preparados para uma guerra. King, um nanico cheio de músculos, decorado com tatuagens singelas como «God Hates us All» (Deus nos odeia a todos), carregava uma grossa corrente presa à cintura e calçava botas, caneleiras e joelheiras. Seu colega apenas o imitava na proteção dos joelhos e canelas. Tom Araya, baixista e vocalista, de barba e cabelo semi-grisalhos, parecia mais preocupado em se divertir do que com tocar e cantar; disse pouquíssimas palavras -- na maioria tímidos «Thank you» -- e limitou-se ao berreiro usual. Mas era atrás da imensa bateria de dezoito peças (dois bumbos, setes tons, dois surdos, muitos pratos etc.) 'tava o que podemos chamar do «diferencial competitivo» da banda. O heavy metal se transformou quando as batidas se aceleraram, fazendo os metrônomos torcerem seus ponteiros e os guitarristas acelerarem as palhetadas. E é Dave Lombardo, baterista da formação original do Slayer, talvez ao lado de Lars ülrich do Metallica, o grande responsável por 'sa transformação, que acabou por originar as populares variações do 'tilo -- o thrash e speed. Bumbos à velocidade da luz, viradas que são símbolos da destreza de um ser humano tocando um instrumento musical, precisão. Durante o show da última quarta, era possível testemunhar a maior concentração de caras tocando baterias imaginárias no ar, tentando, e só tentando, imitar Lombardo, cuja técnica impressiona respeitados experts na matéria. Brigado com a banda por pelo menos dez anos, ele voltou para gravar o mais recente disco e para sua turnê promocional. Enquanto 'teve de fora, o baterista montou o Grip Inc. e gravou dois discos, destacando-se o primeiro, Power of Inner Strength (1995). Uma hora e trinta e cinco minutos de show e o Slayer soube explorar a totalidade dos seus hits, fazendo um panorama de toda a carreira sem insistir no mero intercalar «música velha-música nova». Vinte e cinco anos na 'trada não deixam dúvidas de que é melhor, ao invés de empurrar goela abaixo «as canções do disco novo», fazer um apanhado generoso de sucessos. Estavam lá «Die By The Sword»,» Black Magic», «Reign in Blood»,» Seasons in the Abyss», Hell Awaits «e, para o caótico final,» Angel of Death». Nenhum sombra de dúvida quanto à qualidade de elas e forma como foram tocadas. Mesmo assim, para alguns, toda a apresentação do Slayer foi um amarrado de clichês do thrash metal, requentado tal e qual um misto de pão, queijo e presunto. «Achei meio empastelado, sem graça», disse Leandro, 30 anos, músico, morador da Penha. Para ele, que não 'teve no já citado show do Imperator em 1994, embora minta dizendo que 'teve lá, faltou algo, o quê, não soube explicar. «A maioria aqui nem 'cutava metal quando os caras (a banda) vieram pela primeira vez. Me senti enganado», completou ele, oferecendo em seguida o e-mail de contato de sua banda para uma entrevista (?). Pois é, Leandro, a vida, 'pecialmente numa tribo, é assim: nem todos 'tão satisfeitos o tempo todo. Número de frases: 66 Ontem, felizmente, eram poucos os que compartilhavam da sua opinião. O interior sergipano tem experimentado uma movimentação artística, sobretudo musical, muito intensa ultimamente. Após os eventos Rock Sertão e Rock Rural, chegou a vez do Projeto Mundo Rock Interior, lançado por a banda sergipana Maria Scombona. A banda Maria Scombona, cujo nome é sinônimo -- no linguajar local -- de cambalhota, tem dado contribuições importantes no sentido de fomentar a produção musical local. Em o Projeto Mundo Rock Interior, a banda realizará shows em vários municípos do interior sergipano, além de expor as minúcias de cada instrumento de composição da banda e da área técnica. Esse projeto é, na verdade, um grande 'tímulo à formação de novas bandas autorais, além, claro, de descentralizar o agito da produção musical sergipana -- tradicionalmente concentrada na capital -- para os diversos cantos do 'tado. O evento ocorrerá entre 26 de agosto e 16 de dezembro nas cidades de Estância, Itabaiana, Lagarto, Itabaianinha, Riachuelo, Simão Dias, N.S. da Glória, N. S. das Dores, Poço Verde e Tobias Barreto. Antes de 'sa iniciativa, a banda realizou o Projeto Circuito Escolar Maria Scombona, levando a diversas 'colas de Aracaju a sua musicalidade e seu conhecimento musical. São ações como 'sas que ratificam o verso de «Milton Nascimento» todo artista tem de ir aonde o povo 'tá», pois muitas vezes a não popularização de certos aspectos artísticos e culturais se deve à dificuldade de acesso do povo, que, por consequência, acaba se rendendo ao que conhecemos como «cultura de massa». Torna-se válido e importante, portanto, tais projetos, por serem valiosos instrumentos de divulgação e incentivo da produção musical sergipana, tão rica de diversidade e qualidade, ao mesmo tempo pobre de apoio e até de reconhecimento de parcela da população. Quem é Maria Scombona? Segundo a própria banda, como consta em seu site, a Maria Scombona coloca-se " na contra-mão das tendências dominantes, com um som inovador: uma mistura única de rock ´ n roll, blues, soul e R&B, carregada com sotaque e ritmos incontestavelmente nordestinos -- dando forma a um regionalismo universal que é tipicamente scomboneano». Para mais informações sobre a banda, além de visitar seu site, vale a pena ver o texto «A saga de Henrique Teles& Maria Scombona, de Maíra Ezequiel». Número de frases: 14 Portanto, eis uma boa dica! Foi numa segunda-feira de sol que me mandei para a Carapicuíba e Itapevi na missão de entrevistar DBS & a Quadrilha e Função RHK, dois grupos de rap. Ambos são locais na periferia Oeste da RMSP e declaram a missão de fazer «um bom som», ambos foram revelados através do grupamento conhecido no circuito rap nacional como Família RZO e 'tão com discos prontos. A melhor maneira pra chegar em 'ses municípios a partir do centro expandido * é usando a linha B do trem da CPTM, que sai da 'tação Júlio Prestes. Peguei um ônibus às 13hs, aproveitando pra testar a integração ônibus-trem na 'tação Barra Funda, onde começou meu rolê no contra-fluxo. Em a ida bastante gente nos vagões, mas longe da «realidade muito triste» dos horários do rush, em que «centenas vão sentados e milhares vão em pé». O penar dos usuários do transporte público intermunicipal descrito no rap O Trem tem tom de protesto, foi lançado por o citado RZO como single em 1998 e ecoou por as periferias. «O RZO bateu no meio: quem curtia Facção (Central), quem curtia Racionais, curtia RZO, é muito louco. Tudo que era público colava no show da Família RZO», diz DBS. Metade do custo pra fazer Pirituba e o Trem foi bancada por o grupo, e as 500 cópias em vinil foram bem promovidas graças às rádios comunitárias, abundantes na época. O RZO também teve sua origem na periferia da zona Oeste, no distrito de Pirituba, três paradas a partir da mesma Barra Funda por a linha A, e veio com um som que era com certeza influenciado por a postura e balanço dos Racionais (notadamente no som Paz Interior). Além disso, com Mano Brown & cia. o RZO admitia admiração por o rap 'tadunidense -- em 'te caso, a principal fonte era a organização sonora nova iorquina Wu-Tang Clan. Como os 'tadunidenses o grupo incluía muita gente, cada qual com suas levadas próprias, cada um encarnado num personagem. Como os 'tadunidenses, o grupo serviu de 'cola e plataforma para muitos outros grupos e artistas, como Sabotage, cuja carreira meteórica terminou com seu assassinato em 2003. Segundo Tom, do Função RHK, o grupo " abriu as portas da Z / O. O RZO deu a oportunidade pra vários manos colarem e assistirem aos ensaios de eles, pra vários manos colando em shows, tipo igual eu, o DBS, o próprio Sabotage, e ali foi uma 'cola, porque você ensaiar com menino Helião e Sandrão, os cara são foda, os caras tem uma fórmula ' monstra ' do rap." O balanço da Rapaziada da Zona Oeste rap abriu um universo amplo de composição, com canções sobre trânsito, boemia ou até mesmo sobre chuva. As letras mantinham a perspectiva de orgulho favelado, mas fugiam das narrativas lineares dos discursos ou contos, eram muito parecidas com fluxos de consciência, entremeadas por gírias e onomatopéias, muita cantoria masculina e feminina e uma profusão de 'trofes repetidas como pequenos refrões. Importante também é que o RZO fazia isso sob a perspectiva boêmia, dos Loucos. De os periféricos orgulhosos, que curtem as baladas nas biroscas e na rua, e chapam sempre prezando o respeito, a consideração -- uma versão hip hop dos malucos beleza, contra cultura total. Essa figura pode soar caricata se você nunca foi botequeiro, mas aí eu só lamento. O 'pírito 'tá retratado nas incontáveis colaborações com outros artistas e nos dois discos do grupo, Todos São Manos (1999), lançado por o selo dos Racionais Mc's, e Evolução é Uma Coisa (2003), que saiu por o Festa Brava, selo próprio, com distribuição da TNT Records. É desse disco que vêm os versos: «é no barraco do Fumaça vários mano ali com nóis / 'cutando um Jorge Ben, um Wu-Tang Clan, um Racionais / doido demais, cachaça rola, quando não baseado, alucinado saco de cola / não me envergonho, quem me conhece prova, eu não 'condo / pois eu acho assim, minha vivência trouxe ponto e vou além também / mas não muito pois pressinto a lei / respeito, aprendi com os mais velhos do peito no ganha pão / colei com Véio Badu, picadilha de responsa é sem flagrante, assim que é» (Rolê na Vila). De o universo coletivo do RZO, onde levadas vocais diferentes das encontradas no cenário nacional são de importância vital, vem o termo constante nas rimas e importante para a equação que tento montar aqui: bom som. Muito ainda deve ser falado sobre o RZO, que se desfez recentemente, com Sandrão e DJ Cia fazendo suas corridas solo e Helião formando uma dupla com a Negra Li DBS, o cabeça d' A Quadrilha, me 'perava na saída da 'tação Carapicuíba. Me apresentei, e ele contou que descera até ali de ônibus, já que seu carro havia quebrado no meio do caminho. Concluímos que o melhor era sentar num dos bares em torno do terminal pra conversar. Conta que 'tá terminando seu segundo álbum, com data programada pra agosto. Em o primeiro, intitulado O Clã da Vila, DBS faz o seu balanço com uma levada anasalada, sinuosa e tremida, construindo contos e comentários sociais num som complexo, impulsionado por os arranjos vocais, que usam camadas de onomatopéias, assobios e murmúrios. «Tem que sentir o que a música pede. O diferente vem da forma como a gente trabalha, ninguém é igual a ninguém. Tem instrumental lá que não tem baixo -- não ta pedindo, você entendeu? Tem música que a gente faz tão simples e acontece. Eu sou um cara sincero: tenho muita influência (norte) americana mesmo, até por a questão de acreditar em criar um 'tilo. Sou fã de Notorious B.I.G., acho Notorious tipo nâmber uône do jogo mesmo, me influenciou e me deu auto-'tima também. Mas não tem como eu deixar de ser brasileiro, não é porque eu tenho influência americana que eu deixo de ser favelado, eu nasci no meio do morro mesmo. Minha cultura tá aí. Não tem como eu fingir ser da rua, fingir simpatia. Por a minha letra você vai saber se eu sou real ou não, se você acredita no que eu to falando. Se você não acreditar já era, não tem meio termo na coisa, eu tenho 'sa consciência de falar o que eu sinto. Eu fui mudando, 'se 'tilo que eu tenho hoje foi acontecendo naturalmente, o jeito que eu falo com você não é o jeito que eu canto -- é muito louco isso aí. Acho que é coisa de Deus mesmo». Darci Braga de Souza começou em Carapícuíba. «A primeira vez que eu cantei no palco profissional foi com o DJ Negro Rico, no salão que dava oportunidade para os grupos, isso é começo dos anos 90. Ele era DJ do Caveiras do Rap, um dos grupos de Carapicuíba que mais me influenciou, os caras cantavam em 'colas e na rua, tinham bailes de rua mesmo, os caras montavam as caixas e cantavam. Então DBS não é um cara que pegou São Bento, é um cara que se informou do rap em Carapicuíba mesmo, não tinha tanta saída. Época de, meu, Mensageiros do Rap, Manos do Rap, Flash Rap Gang -- o DJ Cia (RZO) tocava pra eles. Então eu comecei e os caras já eram mais antigos do que eu, o Bozo no break, o Elias no graffiti. Pra mim foi bom. Eu comecei porque eu gostava tanto do bagulho, mas tanto do movimento, e não sabia dançar, não sabia fazer nada, mas eu gostava tanto que sentia obrigação de fazer alguma coisa por o rap, 'sa era a idéia. Graças a Deus eu me dei bem com o rap, me identifiquei." Seu 'tilo de rimar chamou a atenção em faixas do Apocalipse 16, do DJ KL Jay e do Sabotage, em 2001. «O neguinho Sabotage, que foi o primeiro da Família a sair solo, me convidou pra participar num som que ele gostava muito, que é Respeito É Pra Quem Tem. Em 'sa época eu descolei um trampo de boy lá no banco Sudameris, então não conciliava muito. Pra você ter uma idéia, eu fui um dos últimos a gravar participação, eu fui lá faltando três dias pra fechar o disco. O Sabotage vivia me ligando, só que nunca batiam os horários». Todas 'sas oportunidades pintaram graças a sua filiação à Família RZO. DBS dá seu testemunho: «Em 97, depois de seis formações do meu grupo o Negro Rico -- que também foi DJ do RZO -- me chamou pra ir no ensaio dos caras. Eu fui, aí sumi um ano. Tinha um grupo chamado Ponto Negro que o Helião deu uma força pra eles numa coletânea do falecido Nathanael Valêncio, aí os caras fizeram uma participação com o RZO e a música pegou legal. Só que os caras do grupo saíram, houve todo aquele desacordo que rola muito entre grupo, e o Helião falou ' ô DBS, não quer dar uma força para o menino Maurício aqui? Ele tá precisando de uns caras pra cantar '. Fui lá, tinha acabado meu grupo, a última formação foi com o Isael. Isael trabalhou com mim oito anos, aí ele virou crente -- se eu tivesse um sócio era o Isael, só que ele virou crente né meu, até hoje temos uma amizade muito grande. Aí fui fazer a parada com o RZO, mas como Ponto Negro, e aí que o Maurício saiu da Família pra tentar o disco de ele, mas o Helião falou que eu permanecesse. De as primeiras vezes no palco, assistindo, aí ensaiando, o Helião me apoiou muito, mano. Ele é muito importante. Helião é Negra Li cara, Helião é Sabotage, Helião é DBS, entendeu? É muito louco mesmo. Eu permaneci na Família RZO, aí a mãe do Helião morreu, foi triste pra caramba e tinha três shows no dia. Primeiro no Palmeiras com o De as EFX, grupo internacional. Saindo de lá fomos para o Clube da Cidade, chegando lá o Hélio deu uma crise, porque a coroa morreu e ele tava meio ... Fez o primeiro show, fez o compromisso de ele, mas ele não conseguiu fazer mais nada, aí levaram ele para a casa, foi a hora que começou aquele ' quem sabe fazer o que, quem sabe cantar o que, como vamos fazer show '. O Rappin Hood tava com nóis, disse ' eu canto o Sou Negão ', o Sandrão me perguntou ' tio, sabe cantar alguma coisa? '. Eu sabia cantar umas partes do Edi Rock, foi aí que começou tudo. Os meninos disseram para o Helião que eu mandei bem em 'sa parte, interpretei de novo em outro show e graças a Deus meu 'paço começou aí. Tive a felicidade do próprio Edi Rock chegar em mim." Ele reflete: «Eu venho de um barato muito louco, eu venho da morte do Sabotage e do fim do RZO, irmão, então tudo o que você faz parece que tá ligado a alguma coisa. Ou tá querendo se aproveitar do neguinho que é meu irmão, ou tá querendo assumir o lugar do RZO. É complicado, você acha que não era o meu sonho ter o RZO e Sabotage aqui, ter uma turnê disso aí, cada um com um disco. Até a poeira baixar e nego entender que nada é por acaso, que tem um trampo de 11 anos aí, demora». Desde então tudo se encaminhou, e DBS vive de rap desde 2003. «Todas as músicas que trabalhei viraram, Só Bam Bam Bam virou, Piripaqui virou." Com disco novo pronto, ele 'tá 'perançoso. «É o segundo por a Manicômio Sonoro. Em o primeiro tinha muita gente conhecida, colocamos o B-Negão no primeiro porque eu gostava daquele 'tilo ragga de ele no Planet Hemp». O som Vai na Fé, do primeiro disco, entrou na trilha do extinto seriado Turma do Gueto, o que deu projeção nacional para o grupo. «O Turma do Gueto foi o seguinte, a gente já tinha lançado o disco por a Sky Blue, que tinha um contrato pra lançar 'sa coletânea, só que eles fizeram uma colê (coletiva) ali no meio dos artistas perguntando quais eram as músicas. Apontaram DBS, Trilha (onora do Gueto), RZO, e a gente fica feliz por isso." Quem canta o refrão de 'sa música é Tom, do Função RHK, pra cuja casa eu me dirigi depois de 'sa conversa regada a duas garrafas de tubaína. Nove 'tações, mais a decepção com a tal integração do Bilhete Único, que só possibilita uma viagem de trem ou metrô, e não passe livre por duas horas como nos ônibus, passei por um 'tacionamento bem grande só pra bicicletas, e muita gente pedalando. Pensando quanto o transporte público é bicado e, portanto, o acesso periferia-centro e vice-versa, caminhei e cheguei na Cohab. Perguntei pra um grupo de motoboys na entrada sobre o pessoal do Função RHK, me informaram onde era a casa. Andei mais um monte e cheguei, encontrando os membros do grupo em seu 'paço de ensaio, os fundos de uma casa em Itapevi. Apesar de mais recente, a história da conexão do grupo com o RZO é bem parecida com a anterior. «Começou através do DJ Celo, que conhecia o DJ Cia e o Negro Rico. Começou devagar, às vezes ele ajudava a gente, às vezes ele tava sem um cavalo (carro) pra colar nuns bailes e sintonizava nóis ' pá, vamos chegar numa missão ali? ' e tal. Começamos a colar nos ensaios do RZO. O barato só foi progresso, uniu o útil ao agradável. Tem um convívio, tem vários momentos passados com o RZO. E através desses contatos conheci o DBS», conta Tom. Depois de gravar e participar de shows com o RZO, o Função RHK 'tá com seu primeiro disco na rua, um CD intitulado Eu Amo Você. As bases são do DJ Cia, no primeiro trabalho em que assina a produção quase que totalmente desde Evolução ... do RZO. Tom, Coé, Abutre, Matraquinha e Negro Zeka trabalham muito com troca de versos, numa dinâmica desenvolvida em ensaios semanais que lembra camaradas de muito tempo conversando -- em público. A descontração é natural: «Em a verdade a gente tem contato com a música de milidias, antes a gente tinha um grupo de samba, e a gente sempre faz um samba quando não tá fazendo um rap», diz Tom. Coé acrescenta «e tinha seus tios também ...», «é, meus tios sempre trabalharam com isso, tinham equipe de baile aqui em Itapevi na época do samba rock. Eles falam que foi mó época boa, que faz falta pra eles. Eu via eles saindo sabadão, e via eles chegando também, cansados, às 7 da manhã, e fazia eles ligarem o som, separava uns quatro, cinco discos ali, eu ia 'cutando e eles iam dormir sossegados». As levadas ' loucas ' dão a tônica, e 'se é um dos primeiros grupos a absorver bem os 'quemas de rimas dobradas que Sabotage usava. Afinal, " é a missão, se eu vou entrar no rap vou criar uma coisa diferente, 'tilos e métricas diferentes, uma interpretação diferente. Eu falando sou de um jeito, mas ali no palco é totalmente diferente, ali é o Tom, eu sou o Washington. É um personagem que eu criei." As interpretações casam bem com as batidas e samples polidos, fazendo com que todos os sons sejam bons pra baile, e portanto potenciais músicas de trabalho. Apesar de não seguirem a linha contos do crime, todas as letras proclamam o tal pique favela de buscar um bom lugar, não se pautando também por o bom-moçismo da música nacional para a rádio. «Isso é um barato que a Z / O tem bastante -- não falando que a Zona Sul não tem, é diferente, e de lá tem bastante coisa boa vindo. Lá tem uma pegada diferente e isso é bom, vários 'tilos, várias caras do rap. Em a gringa tem mano que atravessa nas idéias, tem mano que dá a idéia certa, tem uns 'tilos da hora, uns mais borocoxô, e por aí, entendeu?». Uma das canções diferentes é Maravilha, uma animada parceria com o artista de reggae " Edu Ribeiro & Banda Cativeiro. «Nós conhecemos um menino bom de coração, o Edu Ribeiro, ele tá representando no que ele faz e deu 'sa oportunidade. Entrou o som no disco de ele e vai entrar no nosso também». Essa conexão entre o rap e reggae ta acontecendo muito (Império e Planta & Raiz, De Menos Crime e Natiruts) e pelo menos em 'se caso tem rendido participações para o grupo em eventos com público diferente -- que às vezes chega a 10.000 pessoas. «O rap e o reggae têm uma coisa, né, porque é bem gueto o barato, sofrem as mesmas discriminações, tem as mesmas dificuldades de espaço e ideologia, também tão abrindo horizontes de som». Lembrei do que DBS contou sobre as casas de eventos localizadas no centro expandido: «É fechado né? Essas casas intituladas de black né? Mas é o rap, né, o bagulho é louco! Uma pá de gente falando que eu nunca vi antes. Mas isso não é problema pra mim, o problema é que uma pá de nego bom não agüentou chegar 'sa época melhor pra mostrar seu trabalho. O resto é profissionalismo, tem muito público, nas festas de interior aí, Nordeste, Curitiba, Brasília, Minas -- isso com mais de três anos de álbum lançado. Você vê, o barato é louco e o processo é lento, é verdade, o disco tem vida própria. Todos os lugares do Paraná tavam cheios pra nós, fizemos Foz, perto do Paraguai, tinha até paraguaio no show, isso é muito louco ... Curitiba nós vamos por a terceira vez agora em menos de um ano». A busca por os circuitos alternativos de disseminação e distribuição é uma questão diária pra ambos. DBS 'tá novamente investindo na parceria de seu selo Manicômio Sonoro com a " Sky Blue. «O trampo da distribuidora é a 105 (FM) mesmo, o resto que é interior do Brasil a gente faz, o selo. A 105 é muito importante em geral hoje, na só no lance de impor o 'tilo, porque tem muito cara que toca lá também e nunca acontece ...». O disco do Função " ia sair por a Sky Blue, mas a proposta de eles não interessou mais pra nós, agora vai sair por o selo da Família RZO, Festa Brava, com distribuição da Zâmbia. O Sérgio Escada, líbero da seleção brasileira de vôlei, é que tá dando uma força pra nós, com prensagem e tudo mais. O CD ta muito caro, mas o pirata ajuda a gente na divulgação. Se a gente vender a R$ 10 no show fica bom. A gente viu isso com o Edu Ribeiro também, por que ele vende nos shows, isso que é certo». Frente às dificuldades, DBS 'tá pensando em outras saídas para a divulgação do seu trabalho. «A periferia em geral tem 'sa cara, da frustração. Mas os moleques tão buscando muito, até mesmo com 'sa revolução digital onde 'túdio barateou, democratizou a coisa. Tem o lado que a pirataria come solta também, e a gente sente isso, porque o investimento da gravadora é menor, e da nossa parte também. Se a gravadora vendesse disco a oito, nove reais, ela ganhava. Sempre houve um lucro muito grande em CD, você paga R$ 2,20 e quer vender por R$ 17! Só que tem que ser adaptar ao mercado nacional. Só que as grandes gravadoras são internacionais, é isso que ta pegando no Brasil. Eles pensam com a cabeça lá. A gente tem que se adaptar». Mas como fazer isso? «Eu to pensando em fazer em 'se próximo álbum um (preço) sugerido, onde a gente perde um pouco. O que o forró faz? Eles não ganham o artístico, os (direitos) autorais, e automaticamente a gravadora consegue jogar o disco lá embaixo. Queremos fazer isso, mas a gravadora tem que entender e passar isso para o consumidor. Em o forró ta dando certo. O cara que paga 5 paus no seu álbum gosta de você. É 'se o pensamento que tem que mudar, ele não quer pagar isso pra te prejudicar, ele quer ouvir a sua música. Se ele tem R$ 10, e meter R$ 5 aqui e R$ 5 de bife em casa, melhor né? Eu cansei de assinar CD pirata, é foda, mas é satisfatório porque você vê que os moleques gostam». DBS, e o rap paulista em 2006? «A rádio 105 quase não faz shows de rap hoje em dia, rádio comunitária diminuiu bem, tem uma, antes tinha duas nervosas, a Caracas FM e a Meridional FM, onde o Moisés comandava. Perdemos muita coisa desde a época da Família RZO, a gente tinha show demais, hoje em dia nós temos poucas casas que fazem show de rap em São Paulo. Uns preferem apontar para os moleques, mas é um todo. Os grupos têm culpa, os moleques também têm culpa. É que falta o direito à cultura, é o apartheid. Os grupos têm que saber, tem que ter o respeito, porque os grupos que tocam nos bailes são a liderança, e se não soubermos liderar nosso povo como é que fica?». Tom concorda: «Esse ano vai ter muito rap na avenida. Foi só internet, toda a semana a gente tem show, mesmo sem ter o álbum. E a gente vai fazer clip sim». Ambos seguem o método RZO. Um bom som, buscando originalidade, diversão e conscientização, e ajudando quem 'tá chegando junto. Por o telefone, alguns dias depois, Helião me conta: «Isso de chamar gente nova pra participar, a gente tá ajudando eles, mas eles tão nos ajudando também. Trazem novidade, inspiração». Em o disco novo do DBS " tem muita gente participando, mas pessoas que nós tamos revelando, como o Clã da Vila fez. É o mesmo processo. Já tem as pessoas que correm com mim. Não dá pra carregar todo mundo, cinco caras, dez caras, mas vai um de cada pra representar o seu time, tá lá gritando o nome já é uma coisa louca, você entendeu. Tamo fazendo isso aí, levando para os shows e tal». Tom: " tem o Matraquinha, que faz uma participação, ele é de um grupo que chama Mil Volts e o Samambaia que faz um parada mais voltada para o reggae. Tem o Pulga que ensaia com a gente, de repente a gente lança ele, queremos montar um selo, de repente vai chamar UEBA Records, né?». DBS já tem a Manicômio Sonoro. Depois de um belo pôr-do-sol avermelhado em Itapevi vou embora 'cutando um CD-R com algumas das músicas mais animadas de Eu Amo Você, que ainda não 'tava na rua. Já 'tá e a primeira prensagem de 3.000 cópias (" fizemos pouco pra girar rápido, e prensar mais», disse Tom) deve acabar bem rápido -- só a comunidade de eles no Orkut tem mais de 2.200 membros. Fui imaginando como 'tará o segundo disco do DBS, como 'tá o trampo solo do Sandrão, o que o Helião vai fazer em seguida, se é que a Negra Lisai solo. Se o modus operandi do RZO proveu técnicas e experiências, os talentos desenvolvidos foram trilhando seus caminhos únicos. Isso tudo é só um pedaço do som da Oeste, um pedaço importante, mas existem muitos outros grupos ativos lá e por toda a RMSP -- alguns com 'tilos bem demarcados, como os próprios Loucos da Z / O, o som da Sul e da Leste. E há grupos que soam como misturas de 'sas e outras características, por aí vai a exuberância do rap paulista. Número de frases: 201 Se os discos do Função RHK e do DBS forem os únicos lançamentos de rap nacional em 2006 -- e seguramente não são -- 'te já é um bom ano. O FIC 2008 e a TV Educativa Angelor Arruda Quando em 1984, o Governo do Estado criou uma Comissão Especial para a Implantação da Rádio e TV Educativa em Mato Grosso do Sul, naquela ocasião eu era Diretor Geral da SEPLAN-MS e fiz parte de 'sa Comissão, juntamente com mais 4 pessoas do então governo de Wilson Martins. Fomos ao Rio de Janeiro, projetos foram elaborados e a Funteve do MEC autorizou o Estado instalar a TV Educativa como unidade repetidora de programas educativos e culturais e assim, apesar de 'tarmos na periferia do Brasil, passamos a fazer parte do seleto grupo de 'tados que tinham, em sua 'trutura, uma TV e autorização para funcionar uma rádio. Sem equipamentos mas com muita garra, a TV foi instalada na Rua Estrela do Sul, no bairro Vilas Boas, numa casa alugada. Antena de TV repetidora e poucos equipamentos foram adquiridos mas apesar de tudo a TV entrava no ar. Essa é minha maior ligação com a rádio e a TV. Em aquela ocasião, a sua inauguração era um enorme fato novo para nossa cidade que, em 1985, não tinha Shopping Center nem TV à Cabo. Dois ou três canais de televisão faziam a nossa alegria. Anos depois entrou em funcionamento a Rádio Educativa, com uma programação excelente. Nos acostumamos com a rádio, com programação de qualidade, apesar do entra e sai de diretor ao longo dos anos. Mas hoje, janeiro de 2008, completam mais de um ano que a TVE Regional saiu do ar. De a rádio Educativa FM 104, que cativa-nos há anos, sinto falta dê sua programação musical variada, que atendia a todos os gostos musicais: MPB, Rock, Blues, música regional, japonesa, etc, mas principalmente dos programas Em a Cadeira do DJ de Lisoel Costa, o programa do Ciro de Oliveira aos domingos e o programa Nhegatu de Margarida Romã, e os mesmos aparecem como os preferidos de muitos dos meus amigos. De as duas juntas, coisas públicas que deveriam atender a propostas não comerciais, deve ficar sempre a dúvida do governante: coloco a TVE no ar ou aplico os recursos em obras? Faço investimentos em novos equipamentos para 'sas duas necessidades culturais do Estado ou gasto os recursos em novos projetos? Afinal, todo governo que entra sempre faz as 'colhas: foi assim com todos -- Zeca, Pedrossian, Wilson Martins, Marcelo, todos fizeram 'colhas. Noticias veiculadas ano passado davam conta de que teria havido enormes desmandos por as bandas da TVE e da Rádio. Mas como nada mais nos foi informado, venho aqui perguntar: porque a TVE ainda 'tá fora do ar e somos obrigados a ver uma sombra de imagens da TVE Rio? Faço aqui um apelo ao governador André Puccinelli, ao Secretário Osmar Gerônimo, a quem 'sas duas 'tão subordinadas (aliás eu não entendi como isso foi acontecer, subordinar veículos culturais à área política do governo) que resolvam colocar no ar a TVE e mais que Lisoel, Ciro e Margarida, voltem a iluminar nosso Mato Grosso do Sul, com seus trabalhos exemplares. Rogo também aos meus colegas da cultura, em 'pecial ao Presidente da Fundação de Cultura, Américo Calheiros, à professora Maria da Gloria Sá Rosa, à Idara Duncan, Humberto Espíndola, que representam um enorme mundo cultural de extrema importância em 'se Estado e que sem o veiculo da televisão pública, ficamos acéfalos. Vamos pressionar com propostas de abertura da TVE e de retomada da velha FM 104, como nos velhos tempos. O que se passa na rádio educativa e na TVE, a sociedade deve conhecer. É papel do Estado dialogar com a sociedade civil, encontrar com ela saídas para os seus problemas. Assim deve ser feito e creio que o Fórum de Cultura é ainda o 'paço político mais adequado para tal discussão. Que tal os representantes da cultura 'tadual convidarem os integrantes do Fórum e abrir um debate acerca do que anda acontecendo na TV e até em outras áreas, se for necessário? Acredito em 'se caminho, do diálogo, do debate democrático, onde todos possam se manifestar, como fizemos no Seminário de Cultura de 2004. Se assim acontecer, saídas poderão ser encontradas e a maioria poderá sair contente, ainda que as decisões possam não agradar a todos. Mas, para que haja uma boa rádio educativa e uma TVE no ar, será preciso a participação de todos. E o Estado deve cumprir seu papel e sua responsabilidade constitucional através da rádio e da tv: informar, educar e educar, com muita cultura, principalmente local e regional. Outro assunto que merece ser debatido é o anúncio de dos recursos do FIC 2008: míseros 1 milhão de reais para todo o Mato Grosso do Sul, ao longo do ano. O Estado fez um reducionismo financeiro enorme quando aprovou na Assembléia o valor de R$ 17.845.500,00 -- 'se é valor aprovado por a Assembléia Legislativa para o ano de 2008, através da Lei 'tadual 3.485 de 21 de dezembro de 2007 -- e apenas 5,6 % do valor, será executado. E o pior: ninguém reclamou, nenhum artigo, nenhuma matéria. Ao contrário: até que enfim recursos do FIC que não aplica nada há dois anos e meio. A história do FIC não é das melhores a ser contada. Mas inúmeros projetos culturais foram e 'tão sendo prejudicados por a falta de recursos legais e constitucionais. Em 2006 eu fui a uma reunião do então candidato André Puccinelli com o segmento cultural e ouvimos ele dizer, que o FIC não iria acabar e iria trabalhar para ele ser de 1 % do orçamento. Falta muito para que isso aconteça. A cultura de Mato Grosso do Sul não merece ser tratada assim. Já acabou com a Secretaria de Cultura e puxou a Fundação, juntamente com a Rádio e a TVE para a Casa Civil. O que falta mais fazer? Por isso alguém me perguntou 'sa semana que nunca mais tinha tido conhecimento de shows de Marcelo Loureiro e outros e ai eu lembrei: 'tamos sem recursos para a sociedade cultural há 34 meses. Quer mais? Angelor Arruda: Arquiteto e Urbanista, professor da UFMS e Presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas -- FNA. Fonte: Número de frases: 55 http://www.midiamax.com/colunistas/? coluna = 3 O Circuito Fora do Eixo passou por meses bem movimentados. De novembro a dezembro foram 6 festivais, Demo Sul, Goiânia Noise, Beradeiros, Jambolada e Dezembro Independente, que de norte a sul movimentaram a cadeia produtiva, fizeram bandas e jornalistas rodarem o país. O saldo final é positivo e comprova que debate político, profissionalismo e troca de tecnologia são os caminhos para fazer a música independente se autogerir. Agora, todas as expectativas recaem sobre 2007, que começa com festivais mais consolidados, público fiel e reconhecimento da mídia 'pecializada. O próximo ano será marcado por o crescimento e fortalecimento do Circuito, que deverá atingir todos os 'tados do país. Pra começar o ano bem e mostrar a força da rede de ações do movimento, acontece em fevereiro o Grito Rock Integrado. Um festival que, simultaneamente, acontecerá em mais de 15 cidadaes do país durante o Carnaval. Articulação Em menos de um mês de articulação, produtores de Belém (PA), Cuiabá (MT), Goiânia (GO), Jaú (SP), Vilhena (RO), Londrina (PR), Macapá (AP), Mogi das Cruzes (SP), Natal-RN, Palmas (Te o), Porto Velho (RO), Ji-Paraná (RO), Rio Branco (AC) e Manaus (AM) já demonstraram interesse em integrar a rede de eventos. O objetivo de realizar um mesmo evento em várias cidades é ventilar a produção local e fazer circular mais bandas, além de chamar atenção de mais mídias, já que é um fenômeno artístico e cultural que explora as semelhanças e diferenças de cada cadeia produtiva envolvida. A ação integrada também ajuda a visualizar como o circuito funciona a partir da troca de tecnologia e de como as ações locais potencializam e caracterizam um circuito multifacetado e aberto a quem quiser interagir com ele. O Grito Rock integrado é também uma forma de visualizar o Fora do Eixo como Creative Commons, onde cada entidade participante usa e adapta as ferramentas do Circuito conforme as necessidades locais. Mas, para que em meio a tanta diversidade o Grito Rock não perca sua identidade, a integração se dará por contato direto entre os produtores, e um selo que identifica cada ação local, mesmo que sob outro nome, dentro da rede de ações do evento. Paralelo a isso, o Espaço Cubo, responsável por a produção de conteúdo do Circuito, enviará newsletters com atualizações sobre a movimentação e um projeto comercial que deixa claro o objetivo da ação integrada e possibilita a captação de recursos a rede de ações e não apenas para um evento. A expectativa é que o Grito Rock Integrado gere um público de 25 mil pessoas, com 150 bandas circulando nas cidades participantes. Por enquanto, a maior parte dos produtores locais 'tá trabalhando em garantir a viabilidade do projeto, mas em algumas cidades o Grito Rock já tem formato e datas definidas. Grito Rock Jaú (SP) O Grito Rock organizado por o selo / produtora Engenho Musical foi um dos primeiros a abrir inscrições e começar a divulgação do evento. O site www.gritojau.com.br já 'tá no ar e mostra qual a cara do circuito do eventos. Em o site, existe uma área de notícias que será atualizada com as informações sobre a rede de ações, além do 'paço para inscrição de bandas, que vão até 7 de janeiro. As bandas selecionadas e as datas do festival serão divulgadas até o dia 10 de janeiro. Estima-se que até lá, todos os festivais 'tejam confirmados e aí começa a divulgação maciça do evento em mídia nacional. Grito Rock Goiânia (GO) A cidade apontada como Seatle do rock brasileiro abrigará também um Grito Rock. Segundo João Lucas da Fósforo Records, as datas e os locais ainda não foram definidos. O selo pensa em realizar o evento no lendário Martim Cererê, em dois dias de shows com headliners vindos de outros 'tados. João também confirmou que a nova seda da Fósforo será inaugurada em janeiro, misturando loja da Distribuidora Fora do Eixo e 'túdio de gravação o novo 'paço coicide com o lançamento da parceria com a Tratore, que passará a distribuir o material das bandas do circuito. Grito Rock Macapá (AP) O Coletivo Palafita é talvez o grupo político-cultural mais jovem, e com certeza o mais fora do eixo do circuito, mesmo assim já 'tá na correria pra realizar o primeiro festival de rock independente do Amapá, o Grito Rock. Por enquanto as informações 'tão disponíveis no www.coletivopalafita.blogspot.com Grito Rock Cuiabá (MT) O Grito Rock começou a ser realizado em Cuiabá por o Espaço Cubo em 2002, e agora com o Circuito Fora do Eixo, existe a possibilidade de interligar o evento que já existe com uma séria de ações que se desencadeiam em todo o país. Desde o início, a programação de shows do festival acontece durante o Carnaval e termina com o Enterro dos Ossos no sábado seguinte. Este ano, o festival acontecerá nos dias 17, 18, 19 e 24 de fevereiro no Clube Feminino e já tem Faichecleres (PR), Nicles (AC), Forgotten Boys (SP) e Fuzzly (MT) como nomes confirmados na programação. Além dos shows, o Grito Rock tem uma programação de seminários que se preocupa em debater o Circuito Fora do Eixo e o mercado musical independente cuiabano. O Enterro dos Ossos acontece no dia 24 e tem na programação as bandas locais mais votadas por o público durante os três primeiros dias de festival. Depois dos shows desse dia, o público ainda elege a banda que mais destacou e ela recebe como prêmio a gravação de um cd no Estúdio Cubo. Em o ano passado, o público 'colheu Lord Crossroad e o cd da banda deverá ser lançado no Grito Rock do próximo ano. As novas informações sobre o festival cuiabano 'tão sendo publicadas no www.hellcity.blogger.com.br e no www.espacocubo.blogger.com.br Mais Qualquer produtor que se interesse em realizar o Grito Rock, pode entrar em contato com o Planejamento EC que 'tará explicando melhor o funcionamento do evento integrado e poderá dar os primeiros direcionamentos. É só mandar um e-mail para cuboplanejamento@gmail.com. Além disso, informações e novidades 'tão enviadas em newsletters para os cadastrados em nosso banco de dados. Número de frases: 43 Os cadastros podem ser feitos por o e-mail cubocomunicacao@gmail.com. Bandido é bandido ... Uma afronta à sociedade. É o que é, a exigência que fazem os senhores Magistrados e Desembargadores envolvidos no 'cândalo da Operação Furacão aos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Não querem que os policiais entrem em suas casas. Não querem que os policiais portem armas, no momento das prisões. Exigem que os policiais 'tejam acompanhados dos Presidentes dos Tribunais Regionais. Querem direito a fórum privilegiado. Gente, bandido é bandido. Tem que ir preso no camburão mesmo, seja um favelado ou magistrado. A Lei deve ser igual para todos. Se não queriam passar por constrangimentos e humilhações não deveriam ter-se envolvido com a criminalidade, se o fizeram é porque 'tavam cientes dos riscos que corriam ou porque acreditavam na impunidade da nossa justiça, achavam-se «deuses», intocáveis. Quem não quer ser cobrado, que não deva. Humilhante para o povo brasileiro ter que agüentar 'se tipo de imposição por parte de 'sa famigerada elite, que oprime nossa sociedade. Rouba, trafica, corrompe, envolve-se nas mais diversas falcatruas e depois, querem ter direitos, iguais aos cidadãos comuns, que trabalham honestamente e pagam seus impostos. Humilhante mesmo será a posição da Justiça se aceitar ser achincalhada de 'sa maneira. Está na hora da nossa Justiça dar alguma resposta à sociedade, 'tá na hora de alguém fazer alguma coisa, 'tá na hora dos senhores Magistrados e Desembargadores que são honestos demonstrarem sua honestidade, jogando aos lobos os que deterioram e avacalham sua classe. Suas excelências que são honestas não podem continuar convivendo com uma corja de meliantes, que é o que se tornaram alguns membros do Poder Judiciário. Chega de tanta porcaria em 'te país. Quando instituições como o Poder Judiciário, deixa-se enredar por as tramas da marginalidade, é o fim de tudo, não há mais para onde ir, não há mais em que o cidadão se agarrar. O povo brasileiro não agüenta mais!!! Número de frases: 20 Assisti Sempre Vivas Parteiras numa sessão particular, no Galeria e Cineclube Artes e Cores, uma semana antes do lançamento, em 23 de novembro, no Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda. Trata-se de um registro sobre o universo quase invisível das parteiras tradicionais e seus saberes, que ficou pronto após cinco anos, graças ao envolvimento de um grupo de profissionais e o providencial apoio financeiro do Banco do Nordeste (BNB). O documentário tem a direção de Sandra Maciel, mas quem assina o projeto de forma coletiva é o Movimento Curador. Para compor o filme, a equipe registrou depoimentos de parteiras tradicionais da Chapada Diamantina (Bahia) e de Jaboatão dos Guararapes (Pernambuco). De uma fala a outra, fica clara a liderança natural de 'tas mulheres que, apesar de nem sempre recompensadas, prestam grande serviço para suas comunidades. Sempre-vivas são plantas encontradas no cerrado baiano. São assim chamadas por dois motivos: podem viver até 50 anos, e suas flores são capazes de manter a intensidade das cores mesmo depois de secas. Hoje correm risco de extinção, mas por muito tempo foi a única forma de sustento do povo da pequena cidade de Mucugê, Chapada Diamantina. São ótimas para Ikebana e Feng Shui. Foi justamente na Chapada Diamantina que Sandra teve o primeiro insight para realizar o documentário. «Lá conheci Dona Elvira, que já 'tava muito velhinha. E eu pensei: ' logo ela morre e vai com ela todo 'se conhecimento '. Eu achava que devia registrar e comecei a pesquisar para 'te fim. O encontro com Dona Elvira foi um marco para começar o registro», lembra Sandra. Ela define o documentário como um registro etnocientífico sobre parteiras tradicionais. Com duração de 45 minutos, o filme retrata a resistência das parteiras, que contam as técnicas utilizadas no partejar e o seu saber sobre as plantas em relação à cura e métodos de 'timulação para um bom trabalho de parto. Também são desveladas as relações do parto com a 'piritualidade por meio de cantos, rezas e rituais. «Eu achava que não tinha material suficiente, mas depois comecei a compreender de outra forma: seria algo bem simples, feito para as parteiras, para elas se verem. O importante era o registro etnocientífico. De aí entrei em contato com o processo 'piritual do filme», conta Sandra, que se interessa por parto tradicional desde que teve sua primeira filha, Ítala. «Meu primeiro parto me fez acordar para a situação desumana com que vem sendo tratadas as mulheres, nos hospitais e maternidades. Meu parto teve todo tipo de intervenção. Eles romperam minha bolsa, tiraram meu tampão, fizeram vários toques desnecessários. Eu fiquei numa sala com mais quatro mulheres que gritavam e as enfermeiras não tinham ao menos preparo para atendê-las. Eu queria ficar em silêncio pra poder entrar em contato com aquele momento, para preparar a chegada da minha filha na terra e sofri todo tipo de preconceito. E pra finalizar o médico ouvia jogo de futebol no rádio, na sala de parto. Eu sofri muito e quando sai de lá eu pensei que tinha algo errado. Perguntei pra minha mãe como eu tinha nascido, e fui então me aproximando das discussões do parto domiciliar, das Ongs, e por fim cheguei até as parteiras e me apaixonei por elas, me identifiquei com a luta de elas, diz Sandra. Sempre Vivas Parteiras pretende ser, antes de tudo, um instrumento de referência para as parteiras tradicionais. Em ele, oito parteiras (quatro da Chapada Diamantina e quatro de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco) falam de suas experiências que, com linguagem simples, desmistificam a necessidade da presença médica no parto, demonstrando que o nascimento é um evento fisiológico e afetivo pertencente à família e a comunidade. Interessado no processo de criação do documentário e do contexto político que ele se insere, fiz algumas perguntas a Sandra Maciel, cujas respostas publico a seguir: Por que a opção por o audiovisual para registrar o trabalho das parteiras? Duas amigas da sociologia que trabalhavam com vídeo e fotografia sugeriram que fossemos filmar as parteiras. Em o início eu queria fazer um filme só sobre Dona Elvira, mas decidimos que seria bom ouvir várias parteiras. Eu não tinha muito conhecimento de audiovisual e o feitio do roteiro foi uma 'cola pra mim. Nós nos baseamos na fala da primeira parteira que foi entrevistada, ela nos deu todo o roteiro, ela foi falando das técnicas, do manejo, do jeito que fazia o parto, das ervas que usava, dos rituais, das rezas e também da situação sócio-econômica e histórica das parteiras tradicionais. Foi ela quem deu todo o panorama da miséria em que viviam aquelas mulheres que tinham «pego» tantos meninos, que tinham passado tantas noites em claro. Dona Elvira fez o roteiro com a gente. E como o filme foi produzido? Foi na base da militância. Nós não tínhamos recurso para a nada. Fomos com uma câmera hi-8, com passagens cedidas por a Prefeitura do Recife e articulação com Secretarias de Saúde da Chapada Diamantina. E muita «brodagem», é obvio: câmera emprestada, diárias de captação de áudio ... Nós chegamos na casa de algumas parteiras com mais de 70 anos que não tinham um café pra receber a gente. Eu fiquei chocada, indignada com 'se quadro e fiquei pensando: «será que ninguém pode ajudar 'sas mulheres?" Pois 'se foi o primeiro momento do filme, em 2003. Esse momento teve uma edição que foi exibida na Chapada para algumas parteiras e depois em Brasília num encontro de parteiras. Essas exibições foram importantes porque as parteiras se viram e se ouviram e começaram a dar o caráter didático do documentário. Porque elas viam e debatiam depois sobre as técnicas que não se usavam mais, que era diferente em cada região e os rituais de cada uma. O segundo momento culminou com o nascimento de minha terceira filha, Violeta, que filmamos o parto, e decidimos fazer o filme com as falas das parteiras e cenas do meu parto e de outros partos. Em 'se momento filmamos o trabalho das parteiras de Jaboatão do Guararapes e achamos que era um bom material para editar. E o terceiro momento é marcado por a finalização, aprovada por o Banco do Nordeste -- BNB. Como foi o processo de edição? Não foi fácil. Porque a 'colha da equipe para finalizar passava por o envolvimento com o tema, nós não queríamos apenas um «técnico» precisávamos de alguém que tivesse «parido» também. E 'se foi o principal pré-requisito para a 'colha do editor. Porque o parto é um evento muito íntimo, você grita, sente dor, abre suas entranhas. E a edição não é apenas uma fase de separar imagens, não é assim que o Movimento Curador entende o cuidado com cada conteúdo. Para nós, não é real 'sa «neutralidade» científica. Em 'se momento nós precisávamos de um editor que se envolvesse, e Alexandre convidado porque 'tava «grávido» e teve filho em casa durante o processo de finalização do filme. Mas 'sa dificuldade para se chegar ao editor não foi a única que enfrentamos, porque o parto é um momento muito íntimo e tivemos alguns impasses na equipe pra decidir fazer o filme sem mostrar um parto. Nos sabíamos que já existia muito filme mostrando parto. Nós questionamos qual seria a necessidade de se exibir um evento que é afetivo, forte e visceral e de se conseguir transformar em imagem de uma forma que não expunha publicamente, de forma superficial e grosseira um evento de tamanha «grandeza 'piritual». O parto não é um evento público, então nosso intuito era mostrar a luta política das parteiras e foi Dona Elvira, que faleceu em 2005, que deu todo o panorama social da parteira e a miséria, da falta de reconhecimento profissional e da luta política das parteiras tradicionais. Qual é a discussão política proposta por o filme? É a de que o médico não é a figura mais importante no momento do parto. Em os hospitais ele tiram a criança de perto da mãe, não deixam o pai e familiares participar, depois lavam e 'fregam as crianças ... é um descuido tão grande. Os profissionais do parto humanizado tratam as parteiras como bonecos de cera no museu, como se elas não existissem mais, que não fossem úteis, enquanto elas 'tão em plena atividade em áreas que eles si quer sabem que existe. Então o documentário se posiciona contra o movimento do parto humanizado? Ele se posiciona a favor do saber das parteiras tradicionais, que são tratadas por as políticas públicas de saúde como inexistentes, como coisas do passado. Elas sofrem muito preconceito. Veja por exemplo a questão da higiene: existe um padrão que até os hospitais não conseguem acompanhar. Vide as denúncias de infecção hospitalar. Mas as parteiras fazem parto nas invasões, onde não tem nem 'goto. Os médicos são na maioria de classe média e seu padrão de higiene é ditado por suas classes sociais e formação acadêmica. Número de frases: 82 Enquanto as parteiras atendem áreas muito pobres, por isso se adaptam as condições sociais da população. Austrália, abril de 2006, pai e filha caminham na mata fazendo fotos, sem imaginar que 'tão por encontrar uma maldade com inexplicáveis conexões em todo o mundo, e que coloca em risco toda a humanidade e a vida no planeta. Assim tem início «O Agente Kennedy e a Fórmula DHD», terceiro filme da Central Zendo de Cinema, dirigido e 'trelado por o psicólogo alagoano Herbert Lisboa Torres, que encarna o vilão Coronel Marlon na história. Espionagem e artes marciais, ação e heroísmo, uma intriga internacional em locais como Marechal Deodoro, Pão de Açúcar, Maceió, Dinamarca, Espanha ... Dinamarca e Espanha? Isso mesmo, sem recursos, mas com bastante imaginação e vontade de contar uma história, qualquer recorte das ruas de Marechal Deodoro no vídeo pode ser Barcelona ou Madri e qualquer matagal se torna uma verdejante selva australiana. Não é verdade? Destaque para os efeitos 'peciais de neve no Canadá e na Dinamarca. «Com 00,00 R$ de orçamento, nós não ficamos apenas reclamando, nós fazemos», conta o cineasta Herbert Torres. O diretor / ator / psicólogo faz cinema independente em Alagoas, com recursos próprios e colaborações voluntárias de atores amadores, profissionais do teatro e do audiovisual no 'tado. Fundou a Central Zendo de Cinema, dirigiu e lançou três filmes, o segundo de eles, «Oxente!», uma comédia ambientalista (!), foi veiculada em formato de série televisiva para uma emissora local. Pessoalmente, prefiro os dois outros filmes, «Sank, o Andarilho da Sabedoria» e «O Agente Kennedy e a Fórmula DHD», que chamam a atenção por seus elementos cinematográficos de forte influência norte-americano, sobretudo do gênero» Ação». Vou me arriscar em duas sinopses aqui, vamos aos filmes: Sank, O Andarilho da Sabedoria Em seu primeiro filme (e meu preferido), «Sank, o Andarilho da Sabedoria», Herbet Torres apresenta uma película de aventura / ação, que conta a história de um viajante em sua trilha no caminho da verdade e do conhecimento. Em o papel de Sank, temos o marujo Osivânio Silva, que trabalhava nos barcos que fazem a travessia da Barra de São Miguel para a praia do Gunga. Em a jornada do herói surgem amores, ensinamentos, ditaduras, revoluções socialistas armadas, uma comunidade alternativa no melhor 'tilo Shangri-la, cenas eróticas picantes e até uma «'tranha criatura alienígena» que quase acaba com a vida de Sank numa luta na selva com cenas de deixar o primeiro «O Predador» com Schwarzenegger no chinelo, se compararmos os gastos de produção é claro. O Agente Kennedy e a Fórmula DHD Com lançamento no Cine Sesi Pajuçara, e em breve com cópias legendadas em inglês e 'panhol, o terceiro filme dos Estúdios Zendo é dirigido por Herbert Torres e Augusto Simas, segue a mesma linha hippie 'piritualista que dá porrada-nos-caras maus. Trata-se de uma trama de 'pionagem, ação e mistério, onde o herói, agente Kennedy Lisboa, um investigador internacional, mestre na arte do Aikido, entra numa busca frenética para encontrar a assistente de seu pai, Jackeline Sendes. A fiel Jackeline tem a cópia de uma fórmula descoberta por o Dr. Pi, Pai de Kennedy, que pode decidir o destino da humanidade, motivo por o qual os capangas do temível Coronel Marlon assassinaram o cientista. O guerreiro índio Kinja salva Jackeline e aguarda por Kennedy na floresta, para juntos, distribuírem umas boas bolachas nos vilões. O ator Paulus Tertios, que interpreta o mocinho do filme, é professor de 'sa arte marcial, o Aikido, na «vida real», o que garante ótimas cenas de luta. Ponto negativo para os personagens secundários cômicos do tipo «enchimento de lingüiça», outro artifício bem característico deste gênero no cinema americano. Uma das cenas mais marcantes se passa em «Nova Iorque», onde os diretores usaram a réplica, ou seria o protótipo, da 'tátua da liberdade na Praça do Museu da Imagem e do Som, o Misa, no bairro de Jaraguá, que, dizem por aqui, também foi presente dos franceses para os maceioenses. Em fase de produção do próximo lançamento «A Mulher da Capa Preta», Herbert fala do sonho de um lugar chamado Zendowood, e da coragem de» fazer fazendo», como se diz por aqui. Marcelo Cabral -- Como é 'se trabalho com atores voluntários? Li na capa dos DVDs que os filmes foram feitos com recursos próprios e a colaboração dos atores. Herbert Torres -- Bom, foi e ainda é uma fase, fase difícil, mas foi o caminho e sou muito grato a todos eles. Tem gente que pode tirar condições financeiras de seus próprios trabalhos para manter sua produção, eu, tive menos que isso. Estamos procurando investidores que acreditem em nosso trabalho. M -- Você já tentou buscar recursos com leis de incentivo e órgãos de cultura 'taduais ou municipais? H -- As leis eu não tentei por falta de equipe para desenvolver projetos e acompanhar, uma deficiência nossa. Apoio dos órgãos de cultura eu pedi, aos 'taduais e municipais nos governos anteriores, mas eram dominados por grupos políticos com interesses próprios. Como sou um cineasta independente e não ligado até hoje a nenhum grupo político, só me fizeram andar. Os projetos foram levados para eles, fomos bem recebidos (teatralmente falando), mas a resposta em 90 % das vezes era simplesmente a ausência até de respostas. Penso que um Secretário de Cultura que é pago por o nosso imposto é quem deveria procurar os produtores culturais que já fazem nossa cultura e buscar apoiar, e não o produtor ficar mendigando apoio. Meu partido é o cinema. M -- Qual seu filme preferido? Quais suas influências no cinema? H -- Como base para os nossos filmes são vários, mas para mim, o maior marco é «Coração Valente, de Mel Gibson». Assisti cinco vezes. -- Percebo uma marca bem americana nos seus filmes. H -- Todas as culturas cinematográficas devem ser respeitadas, mas aliei uma idéia tripla como prioridade: Locação no nordeste brasileiro, linha americana e sabedoria oriental. O nome Sank, por exemplo, do primeiro filme é mais oriental e eu inventei. Meu 'tilo eu chamaria de «Cinema com Alma». M -- O que viria a ser Zendowood? H -- Seria um local, uma fazenda no interior do 'tado, onde poderíamos produzir e exportar nossas produções em 'ta área, linkados ao mundo (satélite, internet, etc). Marechal Deodoro quase já foi, por duas vezes, a pedra fundamental do Zendowood, é o único município que tiveram locações nos três filmes e me parece, instintivamente, o melhor local. Concretizar o Zendowood é difícil, mas é um projeto fascinante: cinema, cultura, geração de renda e emprego, projeto social, defesa ambiental, 'paço 'piritual. Definitivamente, ajudaria muita gente. Eu sei que é um sonho, mas também acredito, e já tenho elaborado quase todo o projeto para um apoio internacional. M Você também é 'critor? H -- Sim, 'crevi «Ser ou não ser corrupto? Eis a questão»,» Um Empresário Moderno em Paz Consigo», O Palco que Voa», e deverei lançar em breve «O Caminho da Calma». M -- Fale sobre sua nova produção cinematográfica, «A Mulher da Capa Preta». O que nos aguarda? H -- É um roteiro dos mais dolorosos de assistir que você vai ver. Uma lenda urbana ou história real fortíssima. De o amor ao suicídio. Uma lenda linda, curiosa e fascinante, mas que assusta também. Muitas pessoas me procuraram dizendo que não era lenda, que tinha acontecido mesmo. Dizem que vão levar até champanhe para ela, Carolina, lá no túmulo num cemitério da capital. Filmografia: Ficção: Sank, O Andarilho da Sabedoria Oxente! O Agente Kennedy e a Fórmula DHD Documentário: Coruripe: Antes e Hoje, Seu Passado e Seu Presente, Sua História e Sua Gente. Para comprar os filmes (15,00 R$ mais despesas postais) entre em contato com o Grupo Zendo: Número de frases: 75 grupozendo@hotmail.com ou ligue (82) 3033-7709 Dia 08 (09 e 10) de dezembro de 2000, o Curupira Rock Club, depois de oito temporadas de atividades botando fogo na cena independente brasileira, fazia um evento para se despedir, dava adeus e fechava as portas. No entanto, para a alegria geral da nação, o adeus, que parecia ser definitivo, não durou muito tempo (não passou de um tchau) e menos de dois anos depois as portas do Curupira voltaram a se abrir. É claro que o retorno se deu por vários fatores, em 'pecial, por a chiadeira geral, uma 'pécie de apelo das bandas, do público que freqüentava o endereço, ou ainda, por que não, uma simples retomada de uma idéia que, mesmo diante de algumas precariedades, sempre funcionou muito bem. Por o palco do bar passaram muitas bandas de meros desconhecidos em outros cantos do país, mas conhecidos na região, e outras reconhecidas no cenário independente brasileiro -- Wander Wildner, Garotos Podres, Júpiter Maçã, Autoramas, Cachorro Grande, Ratos de Porão, Relespública, Walverdes --, sem contar as bandas «gringas». Mas independente da importância de quem passou por o local, o bar sobreviveu por a vontade das pessoas (seriam muitos nomes para citar, vou deixar que o Edson -- Curupira Rock Club, ex-Abrigo Nuclear, ex-The Power Of de Bira, zineiro ... faça isso na entrevista) que sempre acreditaram em ter um 'paço para botar em prática o bom e velho rock and roll. Vários outros endereços surgiram no 'tado (O extinto Underground -- Bar do Frank -- em Florianópolis, que funcionou de 1999 até 2002, é um outro nome a ser lembrado com carinho), mas nenhum de eles conseguiu superar os desgastes de trabalhar (e se manter vivo) com a noite. O que nos permite dizer, sem nenhum exagero, que o Curupira foi, no 'tado de Santa Catarina, o endereço da cena musical independente da década de 90 (e continua sendo até hoje). Muitas bandas se formaram a partir deste, muitas bandas gravaram suas primeiras demos no próprio bar nos dias em que o mesmo não abria para shows, muitas outras iniciativas foram influenciadas por a idéia simples e eficiente do Curupira. Então tá, vou deixar de ladainha furada e vou passar a bola para quem conferiu de perto toda 'sa confusão, para que 'te possa nos apresentar uma (pequena e rica) contribuição sobre algumas lendas do Curupira Rock Club. Para quem não conhece o Curupira, nunca ouviu falar, vai ter a oportunidade de conhecê-lo (um pouco que seja) através de 'ta entrevista (feita por a internet) recheada de histórias contadas por um dos personagens que fez e faz parte deste local (hoje é responsável por o site -- http://www.curupirarockclub.com/). Em ela tu vais ficar sabendo sobre como tudo começou, sobre o cachorro quente, sobre o Bananeira, sobre algumas bandas que por ali passaram ... mas em 'pecial, observar que, por mais interessante que tenha sido todo 'se período, nada de nostalgia, afinal de contas, o boteco continua sendo o palco mais badalado da cena independente do 'tado: Faaaaaaaaaaaaaala Edson. 1. Fala um pouco sobre o bar, como começou, quem eram as pessoas envolvidas e, em 'pecial, sobre a tua participação? O Ivair (o dono) já tinha um bar em Guaramirim chamado «Weekend Club». Chegou a fazer alguns shows, mas não rolou. A cidade não 'tava preparada para uma proposta de se fazer música alternativa numa cidade de 10 mil habitantes. Como a família de ele tinha uma grande quantidade de terra na cidade, eles resolveram montar uma 'trutura no seu terreno, que a princípio serviria para fazer bailes sertanejos (na época parecia ser a melhor forma de recuperar o dinheiro investido no novo local). Também não deu certo! Em os bailes nunca davam ninguém ... A amizade do Ivair com algumas personalidades rockeiras da região como o Padilha da banda Seres Vivos (hoje The Seres) e Tito (fanzine Distorção Alternativa e banda Kontra Ordem) levou a viabilizar um evento no clube com uma proposta diferente. Trazer banda e público de outras cidades. A minha história com o Curupira surgiu em 'se primeiro evento, já que eu era muito amigo do Tito e ainda não conhecia o Ivair. Fiquei encarregado de contactar bandas de Joinville e divulgar 'se primeiro show por lá. Em 'se primeiro show, realizado em 09/05/1992, tocaram as bandas Camisa-de-Força, Leis e Ordens e Hephrem (Joinville) e Kontra Ordem, Seres Vivos e A Radical Band (Jaraguá do Sul). Nós éramos tão inexperientes que nem chegamos a organizar excursão; viemos todos com ônibus de linha e depois do show dormimos na rodoviária de Guaramirim. 2. De que forma o Curupira ajudou a impulsionar a cena da região e, conseqüentemente, do 'tado também?? Ajudou principalmente a unir as pequenas cenas alternativas que já aconteciam isoladamente em cidades como Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul, Florianópolis, etc.. Hoje parece até patético, mas há 14 anos, simplesmente não existia nenhum clube de rock em SC. Shows normalmente aconteciam em locais alugados (tipo sociedades de Tiro, etc) ou festivais ao ar livre. Foi muito legal quebrar uma barreira que sempre existia e ficar sabendo o que as pessoas de outras cidades 'tavam produzindo. Sempre explico para os mais novos que atualmente, com a Internet, muitas de 'sas barreiras não existem mais, só que na época basicamente todo material alternativo brasileiro era distribuído por carta, correio mesmo, e 'ses shows viraram uma nova forma de mostrar a produção independente de SC. Conheci pessoas em 'sa época que até hoje tenho grande amizade. 3. Quais as bandas que se formaram na região que o Curupira, de alguma forma, influenciou?? -- Influenciou todos que 'tavam no underground aqui da região! The Power Of The Bira, Bodegueros, Alpha Asian Malaria, Flesh Grinder, Enzime, Gods Of Joy, Fly-X, Os Legais, Die Heissen Kartoffel, etc, etc.. Foi algo incrível! O povo ia assistir aos shows, via que ninguém tocava bosta nenhuma e pensava: «Eu também posso fazer uma banda assim!». E faziam mesmo ... 4. É possível contabilizar (aproximadamente) quantos eventos foram realizados no Curupira??? Todos eles têm registro (cartaz, fotos, matérias em jornal ...)?? -- Entre shows, festivais e festas foram realizados 170 eventos em 14 anos. Isso dá uma média de mais de um show por mês. Teve anos que foram mais produtivos e outros menos. De esses eventos, quase todos (98 %) tem algum material no site, seja cartaz, seja foto, jornal ou vídeo. 5. O local era um ponto de encontro entre as cidades da região (Jaraguá do Sul, Joinville, São Bento do Sul, Blumenau ... Outras que mereçam, serem citadas??) como isso se dava, como as pessoas se correspondiam, como era a locomoção de 'sas pessoas até o interior de Guaramirim (e o retorno)?? Veja por a seguinte ótica: 'tamos todos na merda, queremos ver bandas ao vivo e não temos nenhum lugar pra ir. Essa era a situação na época em várias cidades da região. Quando apareceu o Curupira foi como um presente que caiu do céu. Além das cidades citadas, veio muita gente de Floripa, Camboriú, Itajaí, Timbó, Gaspar, Indaial, Mafra, sem contar o próprio povo de Guaramirim que passou a ir ao local de curioso (pra ver o que tinha naquele lugar que atraia tanta gente 'tranha?) e acabou gostando. Quanto à locomoção, funcionava da seguinte maneira: quem tocava, normalmente trazia os amigos junto. Muitos desses amigos também tinham banda e já aproveitavam que 'tavam lá e acabavam pedindo pra tocar também em outra ocasião. Funcionava como bola de neve, quanto mais shows tinham, mais pessoas nós conhecíamos e apareciam bandas dos locais mais remotos possíveis. Ainda sobre transporte, tem casos que pessoas vieram de Joinville e Blumenau de bicicleta pra não perder um show. São cerca de 40 km aproximadamente. Isso que é amor por o rock!! 6. E as demo-tapes, os fanzines (do tempo do xerox), a Abrigo Nuclear (loja de discos em Jaraguá do Sul), fala um pouco a respeito? Não sinto saudades desse tempo. Acredito que ficar remoendo o passado é negar que podemos ter um futuro melhor. O que são as demo-tapes senão os CD-demos de hoje. O que são os fanzines senão os blogs, fotologs, sites, comunidades da Internet, etc.. Mudam as mídias, as ferramentas, etc, mas a vontade de se produzir cultura alternativa é a mesma. Sempre existirão os excluídos (tipo nós!) e para eles só resta a criatividade. Quando surgiram os PC's no Brasil, muita gente que fazia fanzine viu aquilo com repúdio, porque já era possível editá-los de forma digital e aposentar a tesoura, a cola, etc.. Em relação a 'tética da arte eu acho legal manter ainda 'se tipo de trabalho, mas como meio de informação é mais complicado. Tem grandes chances de você lançar algo ultrapassado. A mídia eletrônica 'tá alcançando velocidades impressionantes de propagação. É complicado lançar algo que já não 'teja rodando na Internet ... Bem, já sobre a Abrigo Nuclear, o que tenho pra falar é que, enquanto durou foi muito bom. Acho que até hoje sinto saudade das amizades que fiz. Foi a experiência mais gratificante de se ter uma loja. De aí surgiu o CD pirata, o mp3 e nossas vendas diminuindo mês a mês ... não deu pra segurar a barra. Duramos seis anos ... acho que foi um bom tempo para uma cidade como Jaraguá do Sul. 7. Foram gravadas algumas demo-tapes no Curupira, tu tens idéia de quantos registros foram feitos?? Acredito que foram cerca de 15 demos. Pode ser mais ou menos que isso. Fizemos lá bandas como Os Legais, Fly-X, Sufoco, Bodegueros, Schnaps, A-77, Folha de Palmito, Accubitorium, The Book Keepers, Die Heissen Kartoffeln, Bloody Mary, Suferi e mais algumas que não lembro agora. 8. O Cachorro quente do Curupira era famoso, fale a respeito? Ele ainda é famoso. Acho que sua melhor fase foi quando ele era feito por a Rose (irmã do Ivair). Até hoje não sei se ele é realmente bom ou se é a ' larica " de final de show que faz parecer isso. Vou ficar com a primeira ... Espero que vocês que 'tão lendo possam prová-lo e me dizer. 9. Personagens famosos do Curupira (o Bananeira é um de eles?). Quem foram às pessoas que contribuíram para o Curupira se tornar uma 'pécie de lenda? Até mais famoso que o próprio dono, o Bananeira é o nosso anfitrião «mor» do Curupira. Uma pessoa realmente simpática e acolhedora que tem 'sa mania 'tranha de plantar bananeira nos shows que ele gosta. É um termômetro para o público. Se o show tá bom e ele aprova, com certeza sua performance 'tará presente. Sua comunidade de admiradores no Orkut tem mais de 500 pessoas. Claro que muitas outras pessoas contribuíram em 'sa história, entre elas: Tito, Padilha, Luizinho, Marcos Maia, Zé, Digão, Lima, Kaly, Mancha, Heriberto, Charles K., China, etc ... 10. Shows memoráveis, cite alguns em que a galera deixou o local pedindo bis? Foram muitos! Eis alguns: Repolho, Concreteness, Wry (sempre que eles tocam é legal), Loop-B, Olho Seco, Replicantes e Wander Wildner, Cólera, Garotos Podres, Autoramas, Os Legais (sempre é legal), Dead Fish, Ratos de Porão, Walverdes, Fun People, Júpiter Maçã, Relespública, e muitos outros. 11. Hoje tu és responsável por o site?? O que o site tem para oferecer para as pessoas que o acessam? Quais são os projetos futuros para o site? Minha história com o site é curiosa. A cerca de um ano eu comprei um scanner usado pra digitalizar várias fotos em papel que eu tenho em casa. Muitas de 'sas fotos são de shows no Curupira. Quando terminei o trabalho eu fiquei me perguntando qual seria a maneira mais fácil de compartilhar 'se trabalho e o site caiu como uma luva. Levei cerca de seis meses juntando material (cartazes, fotos, datas, etc) muitas pessoas vem colaborando para deixá-lo cada vez mais completo. Atualmente quem visitá-lo no endereço (www.curupirarockclub.com) vai encontrar cerca de 2000 fotos, alguns arquivos de vídeo, um histórico com cerca de 95 % de todas as datas realizadas no Clube, além de 'paço para comentários, curiosidades, mp3 de bandas da região, links e por aí. O site tem muito conteúdo e é um livro de história do rock alternativo de SC. A curto prazo quero achar uma maneira de digitalizar e colocar no site umas 200 fitas VHS de shows que temos do clube, mas que por falta de espaço só foi possível colocar menos de 1 % do que temos. Atualmente é o meu sonho ... 12. O Curupira hoje, passados quatorze anos?? Estamos sobrevivendo aos trancos e barrancos, mas conseguimos boas coisas. Bons shows numa região que tinha tudo pra dar errado. Se fechasse hoje acho que teríamos a sensação de dever cumprido. Não podemos pedir mais nada de ele ... só tenho a agradecer ... e a ajudar sempre! 13. Alguma coisa que tu achas interessante 'tar falando que eu não tenha perguntado?? Sinta-se à vontade?? Gostaria de deixar claro que não sou o administrador atual. Fui até 2002 junto com o Ivair. Atualmente quem 'tá administrando é o Kelson (kelson@curupirarockclub.com) junto com o Pierre (pierre@curupirarockclub.com). Contato para shows é com eles. Eu (edson@curupirarockclub.com) atualmente mantenho o site e faço os registros fotográficos dos shows. Gostaria de fazer um convite a todos os internautas a nos visitarem (pessoalmente e no site) e conhecer um pouco da nossa improvável história que se mantém desde 1992. Número de frases: 137 Um grande abraço a todos ('pecialmente ao Demétrio por a entrevista) e até mais! Talvez a frase do título não seja uma verdade absoluta, mas se encaixa perfeitamente quando se fala em Marcelo Birck. Esse genial músico gaúcho tem uma carreira de duas décadas que abrange várias frentes de trabalho, cada uma bem própria, mas com coisas em comum. Seja em carreira solo, em bandas que fizeram história ou dando aulas. E aqui vão os três lados de 'sa grande história. O lado experimental Em o começo dos anos 90, depois de sair da Graforréia Xilarmônica (a saber: a banda mais importante do Estado -- talvez do Brasil -- no quesito influências de jovem guarda. É só perguntar as influências de muita banda nova pra comprovar isso), que ajudou a formar e da qual foi um dos principais compositores, ao lado de Frank Jorge, Birck se dedicou a um projeto altamente experimental: a banda " Aristhóteles de Ananias Jr. «Ter encontrado pessoas que 'tavam dispostas a fazer aquele trabalho foi um achado e tanto. Não tenho como deixar de ser grato aos meus parceiros daquela época», relembra o Birck. Por a declaração, já se pode imaginar a dificuldade de encontrar músicos a fim de encarar o projeto. Usando colagens de trechos de músicas, sobreposição de vozes e muito, mas muito atonalismo, o Aristhóteles causou impacto na cena porto-alegrense. O trabalho da banda foi reunido num CD lançado em 1996 por o Grenal Records, selo do próprio Birck. Hoje, passados dez anos, ainda impressiona ouvir as experiências sonoras desse registro. Em 2000, foi a vez de testar em carreira solo. Marcelo Birck (o disco), foi bastante elogiado por a crítica, com sua mistura de surf music atonal, elementos eletrônicos e jovem guarda. Faixas como Iê-iê-iê do Oiapoque ao Chuí, Surf na Pororoca e Tricicloscópio são exemplos perfeitos de 'sa combinação explosiva. E vem mais experimentalismo por aí. Birck 'tá trabalhando num novo CD solo, com previsão de lançamento para 'te ano. Ouvidos a postos. O lado pop Com a palavra, " Marcelo Birck: «Se for pra definir uma área de atuação, eu diria que sou um cantor e compositor de iê-iê». E 'sa admiração por a jovem guarda deixou marcas no trabalho com a Graforréia Xilarmônica e atualmente pode ser conferida na banda Os Atonais, fruto da parceria com o compositor " Leandro Blessmann. «Atonais é pra bater de primeira». E bateu. Pra valer. Com um CD-R caseiro lançado em 2000, intitulado Em amplitude modulada, a banda atingiu uma certa projeção na cena independente nacional. Com o 'petacular aproveitamento de 15 clássicos em 15 faixas, o CD transborda sentimento. Citando os nomes de algumas músicas, só pra deixar mais claro: És fundamental, Gosto de você, Quando existe amor, Garota dos meus sonhos e Vem meu amor. Depois de parar por um bom tempo, Os Atonais retornaram no ano passado e 'tudam a melhor forma de divulgar o trabalho, possivelmente através de um site. Pra 2006, podemos torcer por mais um registro da banda em CD, de 'sa vez de forma mais profissional, e certamente recheado de romantismo nas letras e menções a Renato e Seus Blue Caps nas guitarras. O lado acadêmico Rock na academia? Por que não? «O meio acadêmico é um ambiente aonde vou buscar informações, visando a aplicação em outros territórios, até como forma de provocação». Como Bacharel em Composição por a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Mestre em Música Computacional por a Universidade Federal de Goiás (UFG), além de professor substituto na UFRGS de disciplinas como Acústica e Improvisação e Laboratório Experimental de Música entre 1999 e 2000, e professor-colaborador na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em disciplinas como Análise Musical, Laboratório, Música e Mídia e Prática de Conjunto e Arranjo entre 2002 e 2003, Birck pôde usar o conhecimento acadêmico nos projetos musicais, com muita propriedade. É por a descontextualização de procedimentos que o meu trabalho se impõe, o 'tranhamento de aplicar uma prática em outra», teoriza. «Por exemplo, partituras, roteiros gráficos, algoritmos e outros recursos visuais não são muito freqüentes na música pop, totalmente voltada para a obtenção de um resultado audível». E o resultado de todos 'ses 'tudos 'tá aí para ser 'cutado, tanto no trabalho experimental quanto no trabalho pop. Expostos todos os lados, cabe a cada ouvinte juntar as partes e apreciar o trabalho do músico sem julgamentos prévios, como deve ser. Número de frases: 43 A chance da experiência ser positiva é realmente muito grande. Com uma idéia na cabeça e uma Olivetti nas mãos, José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue 'creveu 999 livros em 6 anos sobre os mais variados temas. Best-sellers assinados com pseudônimos 'trangeiros -- James Monroe, George Fletcher, Jeff Taylor, Bill Purse e muitos outros, somando um total de 39 nomes «americanizados» -- «Era uma exigência das editoras», explica Ryoki. Seu milésimo livro acompanha um prefácio do jornalista " Alexandre Garcia: «As histórias de seus livros são de tirar o fôlego. Como os eventos ocorrem em minutos e dias, Ryoki faz os batimentos cardíacos dos leitores aumentarem. É difícil interromper a leitura por causa da narração que acontece como num filme, como no bom cinema americano com todos os ingredientes repletos de sexo, corrupção, violência, política, 'pionagem e um final surpreendente. Ryoki é o Pelé da literatura." Recentemente ele lançou por a Editora Globo o livro «Saga», um romance de 365 página que conta a história de quatro gerações de uma família japonesa no Brasil. E o livro técnico de número 1.074, por a «Summus Editorial, Vencendo o desafio de 'crever um romance», onde trata o processo criativo e redacional como técnica, enfatizando a disciplina, a pesquisa e a organização. A obra traz informações valiosas tanto para 'critores iniciantes como para os que já publicaram e desejam se aprimorar. E vem por aí o «O Fruto do Ventre», um livro que, segundo a Editora Record, promete ser um sucesso com mais de 500 páginas repletas de ação e muito suspense. Críticos e jornalistas falam sobre o autor que já teve seu nome como objeto de matérias em importantes publicações e programas de TV, como a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Folha da Tarde, Jornal da Tarde, Valeparaibano, Gazeta de Vitória, A Tribuna, revistas Veja, IstoÉ e Manchete, no Brasil; revista Lire e Culture, na França; Der Spiegel, na Alemanha; Wall Street Journal (matéria de capa), nos Usa; e várias outras publicações ao redor do mundo; programas Jô Soares -- Onze e Meia (SBT) Globo Repórter e Fantástico (Rede Globo), e foi entrevistado por a Radio Culture de Paris e por a Nippon Televison Network, de Tóquio, entre outros: «A maioria das pessoas não conseguem ler na mesma velocidade que ele 'creve." Jô Soares, Jô Onze e Meia «Ele produz capítulos inteiros durante suas idas ao banheiro." Matt Moffet, " Wall Street Journal «O mais produtivo 'critor do Brasil e do mundo tem seus trabalhos 'critos com um português perfeito." «Ansa Agency» Não é difícil encontrá-lo 'crevendo em seu PC de 6 às 2 da manhã." Fantástico, " TV Globo «A produção literária do incansável Ryoki Inoue levou-o não apenas ao Guinness Book como o autor mais prolífico do mundo, mas também a ser comparado a Georges Simenon por alguns críticos internacionais. Outros comparam seu 'tilo e sua velocidade de produção com Sidney Sheldon. Outros dizem que ele pode ser posto ao lado de Harold Robbins, principalmente por a forma como tece as tramas de seus thrillers." «Flávio Tiné» Ryoki alimenta sozinho mais de 400 mil leitores por mês." Eduardo Bueno, Estadão O milésimo livro marca a virada na carreira de José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue. E agora, Presidente? Um romance político-policial que aproxima 'se 'critor de ficção da realidade brasileira." Paulo Pestana, " Correio Brasiliense «Junto com a imaginação e o dom de 'crever, o que o torna 'pecial é sua disciplina e determinação." «Goulart de Andrade» A maioria das edições dos livros 'critos por Ryoki alcançam mais de 10 mil exemplares. Todos eles são vendidos imediatamente." Severino Francisco, Correio Brasiliense Quem quiser já pode aproveitar e baixar no site www.ryoki.com.br dois de seus livros ":" A Bruxa», 'crito em 1992», desta vez utilizando-se do computador. Número de frases: 40 Boa Leitura! Há lugares por onde a contemporaneidade parece não ter chegado ainda. Regiões por onde se vê que o modernismo (aquele mesmo, de 1922) passou raspando e parece não ter sido muito bem vindo. Falo daqui, sim. Falo de Blumenau, de suas cidades companheiras, falo do 'tado de Santa Catarina. Isso do modernismo não ter chegado pode ser exagero. No entanto, sabe-se do atraso que sofre a cultura catarinense em relação aos, por assim dizer, avanços teórico-acontecidos nas capitais brasileiras e arredores desde o início do século XX. Artistas visionários há. E há, ainda que timidamente, público para 'ses artistas. Mas o que se pode ver acontecer, vez por vez, é que os artistas não querem que suas obras sejam resenhadas e que seus nomes sejam conectados a elas diretamente. Pelo menos quando falamos de arte contemporânea trabalhada na forma de intervenções urbanas. Falemos, primeiro, dos anônimos. As intervenções urbanas podem ser feitas de várias formas. A mais comum, por 'tas bandas, é o stencil. A tendência das pinturas é a fala politizada, muitas vezes chamando a atenção para assuntos que o Jornal Nacional não quer ver aprofundados, como por exemplo a guerra entre Palestina e Israel. Não intuito nosso discutir tal guerra, mas a intervenção da foto gera uma questão: quem passa por a pintura, de carro ou de ônibus, buscará informações a respeito ou o texto já faz parte da paisagem cotidiana? Não dá para se saber se o «anúncio» é instigante ou não, ou quantas pessoas foram buscar informações sobre tal conflito, para justificar ou negar a afirmação do muro. Mas a informação 'tá lá, pronta para ser refutada. Alguém se habilita? Há, ainda, os desenhos, que falam mais abertamente e de forma subjetiva. Ora contra a televisão, ora contra a polícia, são formas de comunicação indireta que podem ou não alcançar um interlocutor. Estão presentes em muros e fachadas de prédios abandonados, nos passeios públicos, nos postes ... E são cada vez mais anúncios procurando chamar a atenção de quem quer que seja, mas não são pinturas partidárias, convidando para integrar um grupo ou fazerem se conhecer pessoas com pontos de vista em comum: como raramente são autografadas, 'sas amostras de intervenção urbana mostram que, para determinado grupo de pessoas, é necessário fazer-se ouvido, lido, comentado. Conhecido, não. Basta que a discussão atinja a opinião pública, que mexa com o pensamento de uma pessoa só para o objetivo ter sido completado. Em Blumenau, um grupo de artistas criou o iPensa (www.ipensa.blogspot.com) com a função de pensar e fazer arte contemporânea. Recentemente, interviram no centro da cidade, mais precisamente no Rio Itajaí -- Açu, com a instalação Isto Não É um Cocô e, numa atitude heróica, despejaram várias fezes em tamanho grande confeccionadas com material reciclado para chamar a atenção das pessoas que passam por a Avenida Beira-Rio que o rio 'tá ali, que é para ali que vão as necessidades confortavelmente depositadas em toaletes por a cidade afora. Em Itajaí, no litoral catarinense, no mês de março deste ano, aconteceu a exposição Experimentações, dos artistas Cristine Gomes, Felipe Kanarek e Joelson Bugila. A exposição na Galeria Municipal de Arte, para Joelson, era uma boa oportunidade para a arte de rua sair do imóvel (casas, prédios, muros) e, 'tampadas em sacos de pão, ir diretamente para as casas das pessoas. Já Felipe Kanarek trabalha de forma diferente: criou molduras em lápis 8B diretamente na parede branca; o que veio a ser posto dentro das molduras, dependeu do 'pectador da exposição, do que sentiu e de como resolveu expor o sentimento. Cristine Gomes, na mesma exposição, substituiu o pincel por a boca, mostrando que, em se tratando de arte contemporânea, o significado é somente uma das partes da comunicação e que outra, muito importante, é como se vai passar a mensagem. Sob suas obras, a legenda: batom sobre tela. Sobre o exemplo da Galeria Municipal de Itajaí, onde a arte urbana é institucionalizada, é necessário citar a obra de Raquel Stolf, artista plástica, mestre em poéticas visuais por a UFRGS. Raquel, que nas palavras do artista plástico e jornalista Luis Gustavo Meneghim, pode ser considerada uma artista e agente política, sem os clichês do adjetivo, por o excelente trabalho e por a aceitação da crítica 'pecializada, interfere no cotidiano, criando adesivos em vinil, mas tem 'paço aberto nas galerias de arte do 'tado. Raquel cria basicamente arte urbana. Dentro de suas composições, gostaria de frisar a Lista de Coisas Brancas que também teve sua exposição em 'paços inusitados. Outra questão para nosso texto bem que poderia ser: afinal, será que a exposição de arte contemporânea sob a forma de intervenção urbana não 'tá à disposição somente para quem precisa / merece perceber que ali se 'tá querendo passar uma mensagem? Raquel Stolf e os artistas que expuseram em Itajaí mostram o melhor da comunicação entre artes ou entre 'paços: quando o popular, o autônomo e anônimo, torna-se ' institucional ' e vai para numa galeria de arte: é uma forma de falar de perto para quem não olha para os lados enquanto atravessa 'paços urbanos; não olha para o prédio, não olha para o muro, nem para o rio olha. Número de frases: 47 Sabe aquela afirmação meio polêmica (e até preconceituosa), que todo artista é, no fundo, um pouco louco? Pois é. A gente 'tá tão acostumado a ver o mundo com um olhar direcionado, dirigido, que muitas vezes não deixamos aflorar nossa sensibilidade, e ter nas nossas percepções sensoriais nosso principal atestado de (in) sanidade. Mas, se por um lado o artista busca no mundo sensível a construção do seu universo criativo, por outro a arte pode ser também uma forma de externar sentimentos, sem a obrigação de constituir uma obra, ou de agradar mesmo a si próprio. Pode ser, somente, um instrumento, um meio, 'pecialmente para as pessoas que -- invertendo a ordem da afirmação do início do parágrafo -- são social e cientificamente consideradas loucas e que, através de algumas atividades, revelam o artista que 'tá dentro de si. É que, para 'sas pessoas, a construção de uma outra realidade, de um universo só seu, pode ser uma fuga, uma doença, mas também -- e geralmente é o que acontece -- é um processo muito doloroso, que pouco tem a ver com a nossas experiências sensoriais e poéticas. Por isso mesmo, têm-se levado cada vez mais em consideração a importância da arte como ferramenta no tratamento de pacientes com problemas mentais. Essa proposição tem, aliás, uma alagoana como uma das principais referências: a médica Nise da Silveira, que revolucionou a psiquiatria mundial ao condenar os métodos tradicionais, como o eletrochoque e o coma insulínico, e ao introduzir técnicas de terapia ocupacional entre seus pacientes. Se o limite entre a loucura e arte é tênue, como defendem alguns, então a segunda seria também uma forma de revelar o inconsciente, contribuindo na identificação dos problemas apresentados ou, como diria ela, «superando obstáculos entre o mundo lúcido e a realidade». Para Ismael Melo Lins, 37 anos e paciente do Hospital Escola Portugal Ramalho, instituição psiquiátrica localizada em Maceió-AL, a arte é mais do que isso: ajuda o desenvolvimento, traz calma, traz tranqüilidade. Ismael foi parar no Hospital porque era alcoólatra. Foi encaminhado ao CEAD (Centro de Estudos do Alcoolismo e outras Dependências) em 'tado grave e chegou a pensar que não iria sobreviver. Passou 45 dias internado, mas ao sair, revelou que sabia pintar, embora sua experiência fosse com letreiros. Logo foi encaminhado ao setor de recreação, onde passou a compor quadros e painéis, geralmente tendo paisagens como fonte de inspiração. Hoje é voluntário, e continua fazendo 'te trabalho, que já foi exposto no shopping Miramar, também na capital alagoana. De acordo com João Neto, psicólogo da instituição, outros artefatos produzidos por pacientes que apresentam diversos tipos de doenças mentais também são mostrados ao público: são tapetes, abajours, panos de mesa, vasos, quadros, enfim: produtos artesanais que ganham um toque 'pecial por terem sido feitos por mãos que, na opinião da maioria das pessoas, 'tão atadas por os limites da mente. «Quando um paciente é internado aqui, a gente identifica as suas habilidades. Alguns vão para a horta, outros, para o atelier, e por aí vai. Com algum tempo de contato com 'sas atividades, a gente já percebe uma evolução», conta João, ressaltando que eles também têm acompanhamento de uma terapeuta educacional. Geralmente, a pessoa chega com a auto-'tima baixa. A família o tem como um doente e suas potencialidades não são incentivadas. A o ter contato com trabalhos manuais, sente que é capaz e vê os resultados do que faz, passando a se ver de uma forma mais positiva. Para alguns, é um incentivo para alimentar os sonhos. L., uma paciente que fabrica tapetes de retalhos, por exemplo, idealiza a utilização da ajuda de custo semanal que lhe é repassada por o Hospital por o que produz. Ela 'pera comprar alguns objetos, como uma enxada, para trabalhar com plantação e voltar para casa. Mas há mais de uma década mora lá. As fantasias não são, em 'se caso, uma fuga: são um 'tímulo para que o residente não se prenda num mundo só seu, mantenha as ligações emocionais com o chamado «mundo lá de fora». Boa parte dos objetos produzidos no 'paço de recreação é construída com material doado. «Quando conseguimos vender os tapetes, abajours e outras peças, o dinheiro arrecadado é utilizado para a compra de mais material. Nós não exploramos o paciente, muitas vezes demoramos meses para vender», conta João. O psicólogo lamenta a forma como a sociedade trata as pessoas com problemas mentais, julgando-as incapazes e desvalorizando seu trabalho. «Esses tapetes, por exemplo, normalmente custam R$ 25. A gente vende por R$ 12, mas tem gente que só quer pagar cinco. Os quadros do Ismael, o pessoal também não dá o valor que merece. A sociedade não perdoa quem passa por aqui», desabafa. Teatro, dança e festas Se os preconceitos da sociedade podem ser vistos como empecilho para um maior desenvolvimento das artes na instituição, por outro não falta vontade de inovar e colorir a vida dos internos e residentes. Recentemente, o Hospital apostou no teatro como mais uma atividade que pode contribuir no tratamento dos usuários. Em a semana santa de 2005, eles encenaram A Paixão de Cristo, mas trazida para os dias de hoje. Os cenários foram montados com painéis de Ismael, e as roupas confeccionadas com cores chamativas, para alegrar o ambiente. Foi um sucesso. E em janeiro, já repetiram a dose, encenando a vida de São João de Deus, santo protetor dos doentes mentais, cuja história era desconhecida por boa parte de eles. Mas a história não pára por aí. Tem ainda a festa pré-carnavalesca, quando desfila o bloco Maluco Beleza, com alegorias, trio elétrico, marchinhas, alas, carro alegórico ... e muita coisa é confeccionada com o apoio dos próprios usuários do Hospital. O exercício das danças e a formação de grupos de folguedos também é mais uma forma de extravasar a energia dos pacientes. As mulheres formam um grupo de pastoril, apresentando as jornadas típicas e todos os seus personagens: as meninas do encarnado e do azul, a borboleta e a Diana, aquela que não tem partido. O grupo já se apresentou em diversos lugares, mostrando que os usuários são capazes de produzir nas mais diversas áreas. A rádio interna Maluco Beleza, que já foi coordenada por João, é outra opção de divertimento. Temporariamente desativada, ela tem em Raul Seixas seu ícone. Uma prova de que hospital psiquiátrico não deve ser concebido como um lugar de exclusão daqueles que não se adaptam à sociedade, mas sim um 'paço onde 'ses obstáculos possam ser, ao menos, minimizados. Número de frases: 57 E o papel da cultura e da arte, mais uma vez, se mostra fundamental. Imagine uma casa pequenina, com um portão duplo de madeira. à entrada, no quintal, cavaletes, telas e tintas ou lápis de desenho, móveis e peças antigas de decoração, livros, quadros e 'culturas. Tudo cercado por plantas como buganville, murta, bromélia, palmeira, pés de acerola e de jamelão, lírio da paz, antúrio, hera, felicidade fêmea e macho. De fundo musical, uma canção suave, talvez italiana, embala e inspira ainda mais os traços de artistas em suas primeiras obras. Bem-vindos ao Centro de Convivência, Artes, Cultura e Humanismo Alma Barroca, em Nilópolis (Baixada Fluminense). O Alma Barroca fica meio 'condidinho, na Praça Osmar Serpa de Carvalho, número 73 (21 3760-1414), numa área mais residencial. A simplicidade da casa contrasta com a intensa programação cultural que ela abriga: shows de música brasileira, saraus de poesia e música, cursos de desenho de retrato, crayon, aquarela, óleo sobre tela e nanquim, dança de salão, brechó e até uma biblioteca, em fase de catalogação do acervo, que, em breve, será aberta à comunidade. Fundado oficialmente em 25 de novembro de 2000, o Alma Barroca é uma organização não-governamental e um projeto do casal Dilu Mello e Jô Guimarães. Ela, professora de História da rede 'tadual do Rio de Janeiro e artista plástica (" Eu pinto um pouquinho», diz modesta); ele, artesão. Inicialmente, o casal alugou a casa, que 'tava abandonada e quase caindo aos pedaços, para instalar ali a marcenaria de Jô. Ele cria peças decorativas e de mobiliário, em geral, em madeira. A abertura da casa à comunidade foi uma alternativa para expor o trabalho do artesão, mas a idéia evoluiu e surgiu então o centro de convivência. «A 'sência do 'paço seria a de ser um lugar em que as pessoas pudessem pintar, bordar, rir, cantar, fazer coisas boas para o seu bem-estar, todos juntos», explica Dilu. «A arte é uma necessidade da alma, do 'pírito, assim como o pão é uma necessidade do corpo», compara. Hoje o Alma Barroca desenvolve diferentes subprojetos. O Alma Brasileira abre 'paço para músicos de Nilópolis e da Baixada Fluminense, principalmente, com shows mensais, nas segundas sextas-feiras de cada mês, no próprio quintal. Os ingressos, a preços populares, garantem o cachê dos artistas. Por lá já passaram cantores e compositores como Antônio Carlos Mariano (Nova Iguaçu), Fernanda Moraes (Mesquita), Roberto Lara (Nova Iguaçu), Kelce Moraes (Olinda, distrito de Nilópolis), Julinho do Violão (Nilópolis) e Robson Gabiru (Nova Iguaçu), além do " Cambada Mineira. «Esse projeto é a menina dos meus olhos. A gente abre 'paço para a valorização da música de qualidade», diz Dilu. O sarau de poesia e música acontece às quintas-feiras, a partir das 21h, com entrada franca. É só chegar e participar. «Queremos que o Alma seja um 'paço alternativo em Nilópolis. a proposta é criar um lugar em que as pessoas possam se expressar, mostrar o que sabem fazer», acrescenta a professora, que ministra palestras sobre arte barroca -- e provavelmente 'se seu interesse por o Barroco tenha inspirado o nome da ONG. Outro projeto é o Grupo Alma da Terra, que 'tá voltado para atividades ligadas ao meio ambiente, como caminhadas ecológicas, palestras e oficinas de reaproveitamento de material reciclável. Recentemente, o grupo promoveu uma visita guiada de alunos a Gericinó, campo de instrução do Exército, na cidade, e que tem projeto para virar um parque ecológico. As crianças e jovens registraram o passeio em pinturas de óleo sobre tela, que integraram a exposição «As cores do Gericinó». O passeio rendeu até uma exposição fotográfica! O Alma Barroca promove ainda um encontro mensal para troca de idéias e reflexões sobre arte, filosofia, política, educação etc.. E o Brechó Passado a Limpo, que revende calçados, livros, roupas e outras peças doadas ou dos próprios administradores do centro. Já o SolidariedArte é um projeto mais recente. «A gente promove ações voltadas pra despertar o ser voluntário nas pessoas. São grupos que visitam orfanatos, asilos etc.», explica Dilu. Segundo ela, o Alma Barroca cede 'paço para o grupo 'pírita Seara de Jesus, que trabalha com população de rua. Em a sede da ONG, o pessoal organiza eventos para captação de recursos para o seu trabalho junto aos sem-teto. Sem qualquer patrocínio público ou de grandes empresas (atualmente uns poucos comerciantes da cidade colaboram, eventualmente, com o projeto), o Alma Barroca vive de doações de um pequeno grupo de amigos -- meia dúzia de pessoas (literalmente!) que contribuem com R$ 10 mensais, da encomenda de pinturas de retratos, da venda de um ou outro mobiliário assinado por Jô e de garrafas de mel -- produzido por familiares do artesão, moradores da Serra da Mantiqueira, de um percentual nas mensalidades dos cursos de pintura (que ficam sob responsabilidade de professores voluntários), e da renda de um barzinho que funciona de quinta a sábado, a partir das 18h, no próprio 'paço. Tudo o mais, sai do bolso de Dilu e de Jô mesmo! O «Restaurante» Alma Arte e Sabores oferece em seu cardápio aperitivos como caldos diversos -- inhame, verde, de camarão etc., bolinhos de bacalhau e aipim com carne seca, e bebidas como cerveja, vinho, refrigerantes e até chá. O movimento maior é nas noites de shows e eventos. Mas o ambiente também é bem freqüentado por a comunidade, como ponto de encontro para uma boa conversa e confraternização entre amigos. O Alma Barroca ainda 'tá desenvolvendo seu próprio site. Mas quem quiser conhecer um pouco mais sobre o projeto, pode visitar a comunidade de ele no Orkut: Amigos do Alma Barroca. Só mais um detalhe: a sala onde funcionava a marcenaria de Jô hoje abriga a biblioteca e aulas de dança de salão. O Alma Barroca emana arte por todos os cantos da casa! (Pretendia publicar o texto em Guia, mas o Alma Barroca revelou-se bem maior do que a casa pequenina que ocupa. Número de frases: 52 E 'tourou o limite de caracteres da seção.) DJ Tubarão, centro Movimento Hip Hop Manaus busca recursos para abrir, finalmente, a Casa do Hip Hop Era uma casa muito engraçada. Organizado há 12 anos, o Movimento Hip Hop Manaus (MHM) tem na educação dos jovens da periferia o principal foco de suas atividades, por meio de parcerias com 'colas e associações comunitárias. Não tinha teto, não tinha nada. Em a base do voluntariado, sem mãozinha pública ou privada, realiza mostras de dança, de grafite, organiza palestras e forma jovens monitores para 'colas das redes públicas de ensino. Ninguém podia entrar em ela não. Mas há 12 anos luta para ter uma sede própria, um Centro Cultural que abrigasse -- e bancasse -- 'sa produção artística e que alargasse as possibilidades educativas do movimento. Porque na casa não tinha chão. E há 12 anos sofre com o isolamento, com a indiferença do poder público e com o quase completo anonimato. Em 'te ano, entretanto, o MHM decidiu partir para o ataque: confeccionou um projeto detalhado da Casa do Hip Hop, seguindo todas as normas técnicas, fechou parceria com ONGs que atuam na cidade e agora começa um trabalho de divulgação em massa do material e de busca de recursos para viabilizar o projeto. De acordo com o DJ Marcos Tubarão, um dos fundadores do MHM, a criação de um centro cultural sempre foi uma reivindicação do movimento -- surgido em 1994 devido à necessidade de se organizar as diversas equipes de break e de grafite que já existiam em Manaus desde o início dos anos 80. O objetivo do grupo era imbuir consciência política na arte desse pessoal, dando à educação o papel de destaque nas atividades do MHM. «Encarar o hip hop como ferramenta para o conhecimento», resume Tubarão. O modelo do centro cultural proposto por o MHM foi inspirado na Casa do Hip Hop de Diadema, no 'tado de São Paulo, depois que DJ Tubarão passou alguns dias por lá conhecendo 'sa experiência. Toda 'sa parte de cursos, oficinas e palestras, entretanto, não será nenhuma novidade para os integrantes do MHM, que já vêm realizando trabalho semelhante em 'colas de Manaus. Deixando um ideal Em 1997, o MHM criou o projeto Hip Hop na Escola, que passou a funcionar na Escola Municipal Professor João Chrysóstomo (São José II). Sempre aos sábados, o grupo leva mostras de grafite, pequenos 'petáculos de dança e ainda realiza oficinas com os jovens das zonas periféricas da cidade. De acordo com Tubarão, o MHM trabalha diretamente com as comunidades, descobrindo quais são os problemas 'pecíficos de cada lugar e buscando uma maneira de adaptar as possibilidades do grupo às necessidades do local. No decorrer dos anos, o projeto foi crescendo, mesmo sem nenhum tipo de remuneração para seus participantes. «Não há ninguém que apóie, é tudo voluntário», informa o DJ. Apesar de manter sede na João Chrysóstomo, o projeto começou a ser solicitado para eventos em outras 'colas. Em 'sas ocasiões, o movimento designa jovens monitores em cada colégio, e depois passa a supervisionar os trabalhos periodicamente. Atualmente, diversas 'colas públicas da cidade contêm grupos ligados ao MHM, como a Júlia Bitencourt, no bairro da Compensa; a Waldir Garcia, em São Geraldo; e a Alfredo Linhares no São José I, para citar alguns exemplos. «Nós deixamos um ideal», conta Tubarão. Depois é ficar observando como «um trabalho fomenta novos trabalhos», nas palavras do DJ. Detalhes do projeto A Casa do Hip Hop funcionaria da seguinte maneira: cursos e oficinas de segunda a sexta-feira; e eventos 'peciais (como palestras, seminários e conferências) aos sábados e domingos, isso sem contar com exposições de artes plásticas, fotografia, poesia e afins. Os cursos são de teoria musical, canto, discotecagem, produção musical, dança (b. boying, locker e popper), grafitagem e desenho. Em a parte de palestras e seminários, o MHM também propõe uma série de temas com foco social, como cidadania, desenvolvimento comunitário, drogas, violência, mercado de trabalho e planejamento familiar, para citar alguns. O próprio MHM já dispõe de uma equipe de instrutores e coordenadores para cuidar de 'sas questões, mas não dispensaria parcerias com ONGs, órgãos governamentais, 'colas, lideranças comunitárias e veículos de comunicação. Quaisquer que sejam as atividades -- é importante ressaltar --, o que o MHM quer com a Casa do Hip Hop é tocar 'se movimento cultural como um complemento para a educação, incentivar a busca por o conhecimento nos jovens e ajudar a reintegrá-los às famílias. A Casa do Hip Hop é cidadania, e seria feita com muito 'mero, não fossem os bobos, de visão zero. Número de frases: 41 Como falar que a Arte é conhecimento sem parecer só poesia? Esse questionamento vem norteando o trabalho da gerente do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, Sônia Sobral, que 'teve em Teresina pra fazer a abertura do projeto Mapas do Corpo, do Teatro Municipal João Paulo II. Sônia veio apresentar uma mostra de vídeo-dança, lançar o box com livro + DVDs do projeto Rumos e também proferir uma palestra sobre Arte Contemporânea. Ela revela que para falar da Arte como conhecimento é necessário 'tar aberto a relações que para muita gente são inviáveis, como a da Arte com a Ciência, por exemplo. «Eu fui a palestras do professor Jorge de Albuquerque, que é astrofísico e define algumas questões do ponto de vista da Física; ele trabalha questões que a Arte Contemporânea trabalha, fala de realidade, de informação, de conhecimento, de experiência, que são coisas que a Arte também faz. Quero aqui mostrar que o casamento da Arte com a Ciência é possível, e inclusive é um dos que mais dá certo. O professor Jorge mostra que a Ciência lida com o que é ', com a realidade; enquanto a Arte trabalha experimentando dentro disso que é chamado de realidade. E o interessante disso é que a Arte não precisa provar nada e ainda assim experimenta, dentro do seu universo. Essas experimentações são tão necessárias quanto os procedimentos científicos, também são formas de saber '», comenta. Para Sônia, a 'tética é uma forma eficiente de organização, e tudo o que explora as possibilidades do real, que tenta novas formas de expressão é tão necessário para a evolução do universo quanto as mais modernas descobertas da ciência. Em suas andanças por o Brasil, ela tem conversado com artistas que falam de suas inquietações e apresentam questões que podem ser tomadas como exemplo para lidar com o preconceito de quem ainda crê que a arte não tem função. «Se a Arte não tivesse função, ela não seguiria tanto tempo como um sistema no mundo. O que não tem função no mundo desaparece. A forma de conhecimento da Arte é anterior à forma de conhecimento da Ciência. Muito antes da Ciência, nas cavernas -- e isso o Piauí pode demonstrar mais do que qualquer um -- os procedimentos 'téticos já existiam. Em a natureza também há, é só ver como os pássaros enfeitam seus ninhos. Se não houvesse uma função, se o belo não fosse uma forma de conhecimento ele não 'taria no mundo. Você só permanece no mundo se você 'tá de acordo com as leis da evolução, e evoluir significa transformar, o tempo inteiro se adaptar ao novo», defende. Essa transformação citada por Sônia Sobral é o ponto de partida para compreender a Arte Contemporânea, que tenta e testa novas possibilidades e procura de toda maneira conversar com o ambiente, se adaptar. Citando formas artísticas como o tango e o balé clássico, Sobral destaca a liberdade de criação e a busca por a evolução que a Arte, no caso, a Dança Contemporânea, tem. «Em o tango e no balé clássico é menos permitido 'tabelecer novos diálogos, ousar no sentido de colocar lá dentro outras coisas para ver no que vai dar. Claro que, como tudo que 'tá no mundo, o tango, o balé, a música erudita 'tão evoluindo também, mas muito mais lentamente, porque existe uma resistência ligada ao experimentar. Colocar dentro de um vocabulário de balé clássico um movimento de break, por exemplo. Mas tem artistas e tem públicos que gostam e procuram 'sa forma de arte mais ' original ', digamos assim. Só que a gente nem pode ter certeza se é o original, a gente tem uma idéia de que aquele jeito é o primeiro jeito, e assim é o melhor jeito ... mas nada nos garante. Mas também nada nos garante como foi a evolução do mundo, nós temos apenas teorias», teoriza. O artista contemporâneo, de acordo com Sônia, dificilmente conseguiria contar as lendas, as histórias que o balé clássico conta, porque ele 'tá mais interessado nas questões do aqui e do agora, sentem a necessidade de experimentar todas as possibilidades do real. Mas há 'paço para o artista interessado no clássico porque existe uma função para cada um. É preciso experimentar para evoluir Sônia admite que ainda existe uma resistência muito grande à Arte Contemporânea, e isso não acontece só no Piauí, é comum em todo o país. Ela atribui isso ao desconhecimento das pessoas, que faz com elas se mantenham afastadas simplesmente por não quererem sair da cômoda posição de 'pectadores passivos. A Arte Contemporânea quer e precisa de 'pectadores tão ativos quanto seus artistas. «Em todo lugar tem uma resistência com o novo, e é muito louco pensar isso, porque a gente só existe no mundo porque a gente muda. Evoluir é se transformar, nosso corpo é feito para se adaptar a novas formas, se não fosse assim, a gente já teria acabado como ser humano. Então por que uma resistência -- e aqui ela é mais cultural -- à mudança? Nós fomos feitos pra mudar, pra tentar, pra experimentar. Isso não quer dizer que nós não precisamos de um porto seguro, de ir para o que já 'tá 'tabelecido. Não tem nada de errado em querer o lugar que é mais confortável porque você já conhece. É menos cansativo. Mas o ser humano tem muito menos chance de evoluir se ele se isola. Tem uma discussão muito grande com os folcloristas, o pessoal que tenta manter toda manifestação folclórica como ela é; porque a gente sabe que se congelar alguma coisa, se ela ficar isolada completamente ela morre. Isso não é minha opinião, pode-se provar isso com ciência, com qualquer forma de vida ... o isolamento completo é a morte. Mesmo quando se tenta preservar ao máximo as coisas, elas têm contato com o ambiente e elas trocam com 'se ambiente». O conceito de belo também é destrinchado por Sônia Sobral. Ela afirma que o belo é uma informação que 'tá no mundo e precisa ser alimentada. «O belo 'tá no mundo assim como a Física. Tem uma função, tem um sentido para ele existir. O que a gente precisa é tentar tirar um pouco 'sa hierarquia com a qual 'tamos acostumados. A própria ciência tinha as Ciências Humanas como algo menor, mas agora, com toda a complexidade que o planeta 'tá passando e as Ciências Exatas não 'tão conseguindo respostas, elas 'tão se alimentando das Ciências Humanas, porque 'se tipo de conhecimento dá mais conta de trabalhar com a complexidade do que as Exatas. Estamos vivendo um sistema altamente complexo do planeta e do ser humano, com grande possibilidade de sermos extintos por 'sa complexidade; porque a ciência não desenvolveu teorias para entender isso tudo. Não por acaso muitos cientistas têm assistido a coisas de arte contemporânea, porque tem mais complexidade nas Ciências Humanas e na arte, hoje», complementa, acrescentando que apesar de não ser uma cientista nem realizar pesquisas, tem tentado reunir o máximo de informações que consegue para entender as questões da dança e do teatro. A idéia, segundo ela, é chegar no patamar onde cientistas e artistas 'tão «trocando», na tentativa de aumentar a complexidade, na tentativa de responder a questões que hoje 'tão» engolindo " a nós todos. Número de frases: 58 «Queria ajudar a elevar a arte como forma de conhecimento, mas por outro lado quero mostrar que a arte não é mais 'pecial por causa disso porque tudo é conhecimento», diz. A adesão viral às redes de conteúdo colaborativo na Internet provocou o olhar de gente 'perta por aqui. Hoje, o Brasil tem seu «engenheiro» da Web 2.0 -- com o perdão do rótulo. Pelo lado de cá, de 'ta capital cearense, dita Fortaleza, mora o brasileiro que move até 60 mil pessoas diferentes por dia, em todo o mundo, atrás de música. Rodolfo Sikora, 27, é criador do iJigg. com, ao lado do indiano Zaid Farooqi, 19. Anônimo na vida real, Rodolfo Sikora rala desde os 14 anos a pretexto da inquietude. Deu aula particular de Física e, ainda novo, começou a burilar códigos de programação. Nunca se conformou com horários certos pra 'tudar, dormir. Ou mesmo trabalhar. «Não consigo ficar parado. Passei até por uma fase ' quero ser hacker». Logo descobri que hacker não é o cara que invade as coisas, mas quem manja muito de alguma coisa», define o cara, casado, prestes a ser pai de uma menina -- que pode ter nascido enquanto você lia (ou eu redigia) 'te texto. A mulher, Veruska, 'tá grávida de nove meses. O iJigg apareceu no último mês de janeiro. Sem inventar a roda. Uma idéia simples: com design e um sistema rápido, faz com áudio o que o You Tube fez com os vídeos. Ou seja, a música postada no iJigg pode ser carregada em qualquer site: o player de risinho simpático logo foi 'palhado entre blogs, a exemplo das janelinhas do já consagrado You Tube. Taiwan e Estados Unidos, hoje, são os países com o maior número de cadastros. O Brasil é o quinto. Um modelo de negócios começa a aparecer e o iJigg foi selecionado, entre 400 empresas, para o programa de investimentos da YCombinator, em Massachusetts (" Eua). «Ainda não tenho visto o iJigg como trabalho. Ele ocupa boa parte do meu dia, seja programando ou só procurando músicas para ouvir. Mas é simplesmente uma extensão do meu cotidiano», minimiza Rodolfo, com os dois pés enterrados no chão. Vários sonhos no juízo, mas sem cantar vitória dos negócios e da crescente popularidade do site. «Se continuarmos crescendo da forma que 'tamos, a coisa vai ficar insana», admite. Rodolfo prefere «ser grande» de outra forma. Crê na música. Idealiza. E não consegue ver o sentido prático da coisa sem bala na agulha. Caímos na real ... «O iJigg só passa a ser realmente útil para a vida prática das pessoas, quando for comercialmente viável, tivermos lucros e grana para gastar. É sério, meu sonho, com 'se site, é ver um festival sendo patrocinado por ele, por exemplo. Tenho outras idéias relacionadas ao acesso à mídia digital de forma mais democrática. Mas ainda são só idéias. Tô pirando 'tes dias com várias coisas», conta. -- Você e o Zaid Farooqi são os dois nomes que respondem por o iJigg. Explica quem faz o quê para o site funcionar. Rodolfo -- O Zaid cuida do design e do contato com os caras que querem fazer parcerias, coisas do tipo, com o iJigg, nos Estados Unidos. Ele bem que tentou no começo programar o site, mas viu que não era algo que ele daria conta. Faltava experiência. Eu fiz toda a parte lógica: desenho do banco de dados e implementação das coisas. Exceto as paradas em flash, que não é minha praia, porque envolve design. O irmão do Zaid, que também faz parte da sociedade, cuida da parte de hardware e infra-estrutura. Mexi muito tempo com isto quando era gerente de operações e administrava servidores que atendiam a mais de um milhão de usuários. Definitivamente, é uma coisa da qual eu quero manter distância. Então, graças a Deus, o irmão de ele 'tá tomando conta disto. -- O site tem crescido bastante. Requer novas atualizações para manter 'sa tendência. Ao mesmo tempo você agora 'pera ser pai, a qualquer momento. Pensa como vai ser possível equilibrar a vida particular com os projetos do iJigg? Rodolfo -- Cara, minha vida é uma zona desde que me entendo por gente. A os 14 anos, montei uma BBS (quem já for tiozinho vai saber do que 'tou falando), em 'ta época eu 'tava no colégio, e a BBS funcionava na casa dos meus pais, das 22 até às três da manhã. Eu era da seleção de basquete da 'cola. E ainda saía para a comédia com meus amigos. Foi a fase mais porra-louca da minha vida. Logo que eu entrei na faculdade, bem pesada, por sinal, dei aulas por um tempo, arrumei dois empregos. Ia para o jornal O Povo (Centro de Processamento de Dados) às 10 da noite e ficava até umas três da manhã. Depois para aula às 8h e às 14h ia para a Inova (empresa de programação). Ou seja, 'tava sem tempo para dormir. Depois de seis meses em 'te ritmo, quase piro e saí do jornal. Hoje em dia, eu tenho minha empresa de hospedagem de sites e consultoria, o iJigg e, por necessidade financeira, faço outros trabalhos para umas cinco empresas diferentes. Ainda tenho a faculdade de Direito, que eu curto e me toma umas seis horas por dia. Ou seja, já 'tou lascado. Agora, com a Bia nascendo, não vou dormir as poucas horas que eu dormia. -- Você já contou que é um guitarrista frustrado. Se o iJigg se tornar um You Tube da vida, vai aposentar a guitarra ou vai aproveitar a fama pra tirar um som? Rodolfo -- Rapaz, eu vou aproveitar para aprender a tocar de verdade, hehehe. Não sei, cara, aposentar a guitarra é difícil. Mas é bem possível que eu use a fama para tirar um som ... Ou pelo menos para conseguir uns autógrafos de uns caras que acho que são geniais, entre eles, o Arjen Lucassen, Thom Yorke, o cara do Muse e o Mike Portnoy. O grande fato é que, se o iJigg virar o You Tube da música, significa que eu vou ter grana para patrocinar bandas e festivais independentes. Quando eu penso nisto, sempre lembro da 2 Fuzz (banda cearense) e do Alísio (um músico que eu acho simplesmente muito foda e poderia criar algo tão bom quanto o Arjen, do Ayreon, criou). Investiria em 'sas pessoas e idéias. -- Hoje você passa 12 horas por dia, praticamente, à frente do computador. Como sócio do site, a engrenagem dos negócios pode exigir, de você, uma presença física maior no mundo real. A idéia é interessante pra ti? Rodolfo -- Totalmente, o que eu mais quero é que o PC seja uma ferramenta de lazer para mim. No máximo, uma forma de agilizar minha vida, como não ir ao banco. Gosto de trocar idéia com as pessoas. Saca, eu quero de alguma forma exteriorizar minha experiência. Não tenho problema em morrer pobre, desde que minha existência seja reconhecida por as pessoas por ter feito e ajudado o mundo a progredir. Cara, isto lembra minha psicóloga falando que eu não precisava fazer algo grandioso. Seis meses depois eu fiz o iJigg ... Queria voltar à terapia. -- Qual é a tua disposição para discutir conteúdo colaborativo? Rodolfo -- Vejo que o anarquismo finalmente pode existir, ainda que virtualmente. A Internet é um ambiente anárquico. E vai ser capaz de mostrar a realidade humana. Os valores, na Internet, deixam de ser importantes. Cada um faz o que quer, e o resto do mundo usa ou vê se quiser. Cara, foi inacreditável o que aconteceu com o Digg. com, em face do lance do HEXA do HD-DVD. A comunidade mostrou que tem poderes. Assim como a Wikipédia é fantástica: como eu queria ter 'ta ferramenta na época da 'cola. Quero discutir o fato social Internet, a vida virtual. Mostrar que a simplicidade no mundo virtual é a melhor coisa. E quero bater na tecla de que o empreendedorismo no Brasil ainda 'tá engatinhando. -- Quando o iJigg surgiu, alguns canais tradicionais de mídia (MTV, iG, Bizz, Exame, Revista da MTV, entre outros) repercutiram de alguma forma. Você acha que o You Tube preparou terreno para isso ou o fato de ter um brasileiro envolvido nisso tem uma carga de exotismo que é interessante para eles? Rodolfo -- Bom, acho que em termos de mídia brasileira foi muito mais o fato de ter um brasileiro envolvido do que qualquer coisa. Tanto é que, mesmo com as novidades (nova versão do site), a mídia não se interessou tanto ultimamente. A não ser os canais 'pecializados e de crença consolidada, que publicam notas. A verdade é que o que aconteceu foi suficiente para abrir canais com pessoas-chave. Falei com gente das quais eu era fã. Novos projetos virão por aí. -- O Orkut e o You Tube se popularizaram com o livre acesso de conteúdo. O usuário tem proximidade com discussões, produções e imagens do mais alto nível conceitual à putaria generalizada mesmo, como se observou na febre viral do vídeo da Daniela Cicarelli transando no mar. O iJigg não permite a veiculação de músicas protegidas por direitos autorais sem autorização dos titulares, por exemplo. Você teme perder o controle disso com a popularização do site? Rodolfo -- Esse lance de democracia virtual funciona. Lógico que eu não quero que o site saia do ar por 'tar desrespeitando as leis de direitos autorais. Mas quem vai decidir isto é a comunidade. Se eles acham que o site vale a pena e entenderem a proposta vão manter as coisas na linha. Se acharem que os direitos devem ser desrespeitados vão fazer isto. O coletivo é maior do que as regras do iJigg. Quem faz o site não sou eu ou o Zaid, é a comunidade. Vai acontecer o que os usuários quiserem que aconteça. Nossa política é bem clara: não queremos conteúdo sem a permissão do autor. E sempre que formos notificados, como já acontece, vamos remover o áudio do site. Manja o papo de soberania popular e 'sas coisas? Essa é a realidade da Internet. -- A sua participação num programa da MTV não deu muito certo porque tua web cam travou ao vivo. Em a véspera da viagem para a Feira da Música do Brasil, você pegou uma virose (gripe forte) e perdeu o vôo. E ainda o visto de permanência nos Estados Unidos de junho a setembro 'tá pendente de um pedido de reconsideração. É praga ou azar normal? Rodolfo -- Rapaz, eu tento não ser fatalista. Prefiro pensar que 'tas coisas não acontecem por acaso. A entrevista da MTV bogou, mas fiz excelentes contatos lá. Mesmo a pequena aparição já deu resultados positivos. O lance da Feira da Música: eu fiquei doente, e no dia que supostamente 'taria viajando, minha mulher começou a sentir dores da gravidez. Já o visto, cara ... Sei lá, prefiro não pensar que seja praga ou azar. Apesar de todos os contratempos, a vida continua e o iJigg bate recordes todos os dias. Se continuarmos crescendo da forma que 'tamos, a coisa vai ficar insana. Para você ter idéia, o Google tem uma coisa chamada Page Rank, que seria uma forma de mostrar a relevância de seu site em relação aos demais sites da Internet. O UOL tem page rank 7. O iJigg tem page rank 6 .... Compare o tempo de existência dos dois (Quanto maior o número, maior a relevância). -- Qual é teu nível de curiosidade para conhecer o Zaid pessoalmente algum dia desses? Rodolfo -- Cara, sinceramente, não é muito grande. A gente trabalha bem à distância, e tal. Acho que mais do que conhecer o cara, seria legal fazer alguma coisa diferente. Tipo viajar para a Índia e passear de elefantes. -- Alguém pensa que você, na verdade, já 'tá rico e 'conde o jogo? Rodolfo -- Duvido muito. A não ser uns Zé Doidim que aparecem às vezes. Tem gente que chega para mim com idéias e pergunta se eu quero investir na idéia de eles. Mas quem me conhece, realmente, sabe que eu tô ralando ainda. Ah, se eu fosse rico, hehehe ... Já tinha, pelo menos, mudado para um local onde a Internet presta. Meu provedor atual me deixa fora do ar 20 % do dia. -- A apresentação do teu blog diz que você é o «cara desocupado mais ocupado da vida». O ócio foi fundamental para tornar possível tudo isso? Rodolfo -- Cara, o desocupado é no sentido de não parar quieto no lugar, como se eu sempre tivesse mais tempo para fazer as coisas. Desocupado no sentido de que eu trabalho em casa. Costumo acordar tarde e passo boa parte do dia trabalhando deitado. Minha cabeça não pára de pensar um minuto. Quando não 'tou fazendo «nada», 'tou lendo. O bom é você ter liberdade para 'colher o que quer fazer. Mas 'se lance de trabalhar em casa exige muita disciplina. Coisa que eu ainda não tenho muito. Número de frases: 166 Lembro que quando era mais novo eu ia até o bairro de Santa Rosa andar de bicicleta. Santa Rosa pra mim era sinônimo de lugar quieto e bonito, cheio de casas e arborizado, bem diferente de onde eu morava que era cheio de prédios. Ali era meu refúgio pra andar de camelo por um lugar calmo ouvindo rádio. Mas os tempos são outros. A invasão imobiliária chegou com tudo e com ela a destruição de casas de 1940/50, conjunto de casas, casas geminadas, pequenos prédios e vilas. Não satisfeitos em destruir tudo e mudar a cara do bairro, os donos das imobiliárias renomearam o bairro como se renomeia um arquivo no computador, e o bairro de Santa Rosa virou Jardim Icaraí, numa alusão à continuidade ao bairro vizinho Icaraí, valorizado comercialmente e que é cheio de prédios. Vai ver renomearam assim porque é o que vai virar, mais um deserto de prédios. Com a mudança veio logicamente a mudança de preço dos apartamentos, aluguéis e a glamourização do bairro. As empresas imobiliárias renomearem o bairro não me 'panta. Isso é o negócio de eles. Os jornais entrarem em 'sa «onda» e renomear também não me 'panta já que os jornais aqui da cidade, três no máximo, devem ter recebido dinheiro a rodo em propaganda anunciando os novos empreendimentos em suas páginas, daí a animação em renomear o bairro também sem nenhum questionamento. O que me 'panta mesmo é a prefeitura também ter entrado em 'ta «onda». Não que eu não ache que a prefeitura 'tá lucrando com a proliferação de prédios, sei que 'tá já que onde se pagava um IPTU vão se pagar sessenta, mas achei meio sem noção e sem senso histórico deixarem mudar o nome de um bairro desta forma, sem consulta e sem aviso aos moradores. Os antigos cotinuam morando em Santa Rosa, os novos moram no Jardim Icaraí. E ninguém se decide em relação a isso. Acaba que no final das contas não se sabe mais o que é e o que não é Santa Rosa. Não se sabe onde começa e onde termina porque se você ligar pra qualquer padaria, eles vão dizer que 'tão no Jd. Icaraí e ninguém diz que 'tá em Santa Rosa. É mais bonito, devem achar, é mais 'tético. É menos roça, menos provinciano, tudo o que Niterói quer ser. Santa rosa no mapa do prefeito deve ser um bairro de três ruas se muito. E sem nenhuma identidade mais. Antes casas de 1950, hoje prédios onde só mudam são as cores. Antes prédios de 4 a 6 andares, hoje de 12 no mínimo. E Niterói não vai sossegar enquanto não for um pequeno Rio de Janeiro. Pena. A graça era que não fosse mesmo igual ao Rio, mesmo com a proximidade. Mas não é o que pensa o prefeito e os novos moradores que vêm, em sua maioria do Rio de Janeiro fugindo da violência. Prefeito Godofredo, se der, por favor, devolve meu bairro? Tem como ainda? Número de frases: 29 Ou não dá mais? Desde 1990 eu ouço algumas palavras constantes que muitos irmãos e amigos falam como palavra de Ordem; Consciência, Ideologia, Revolução, Evolução. Mas isso não é colocado em prática, pelo menos não em larga escala ou que se faça por atingir um grande número de pessoas, tendo uma postura visível e melhoria real. Em 'se mês de novembro, «comemorado» ('se num tom bem sarcástico) o dia da Consciência Negra, representada por a morte de Zumbi dos Palmares. Eu não vou me concentrar em 'crever sobre a história de Zumbi, mas fazendo uma certa comparação entre Zumbi e Domingos Jorge Velho, na real, nada mudou entre os negros desde aquela época. A mentalidade ainda continua de 'cravo, de algumas formas. Uma quando o negro começa a partir de certo momento a se envolver cada vez mais com o bwoy (o bwoy não é branco, nem é rico, e não é boy por uma questão de dinheiro, e sim é por a atitude), desde 'se primeiro momento o negro se torna uma marionete desse bwoy, não ganha nada em 'pécie, simplesmente cria uma ilusão de que um dia pode ganhar alguma coisa, dinheiro, status ou qualquer coisa do tipo. Em a realidade, num vai ganhar nada, porque o bwoy se for ver mesmo vive de ser «poser», compra um tênis, um blusão e te chama de mano. Mano? Você negrão periférico é Mano = Irmão de bwoy sustentado aos 20 e poucos anos por os pais?! BUMBOKLAAT!!!!!!!!!!! Outra é a mesma idéia de Domingos Jorge Velho, a atitude de um tentar de qualquer forma se sobrepor a outro. É uma 'pécie de circulo vicioso, a pessoa nasce, cresce e é 'cravizada por o branco (digo isso em tempo real, Hoje), reclama, xinga, não quer aquela situação. Quando realmente consegue certa independência, por menor que seja, se torna o «'perto», e 'craviza ou pelo menos tenta 'cravizar outros» irmãos " -- a real é que isso rola muito, mas não da muito certo, um preto 'cravizando o outro aqui não é lá coisa muito natural. Agora sobre a questão de pele, temos alguns nomes que são mais xingamentos do que qualquer coisa do tipo, o termo Mulato ou Mulata, tanto falado, acho que ainda não foi bem compreendido. Em o dicionário da língua portuguesa de Silveira Bueno, Mulato = filho de pai branco com mãe preta ou vice versa, homem 'curo, trigueiro, mulo. Mulo, no mesmo dicionário = Mu, Asno, Burro. Mulato ou Mulata, só serve pra rebolar o pandeiro mesmo, já que um asno ou burro não pensam, no máximo que podem fazer é rebolar e carregar peso. Nem vou comentar mais sobre 'ses adjetivos, que dá neurose. Se você pensa, que por ter recebido o adjetivo de Moreno, deixou de ser preto, existe um certo 'tudo de origem de palavras, baseado em sua raiz, é muito usado para saber de onde surgiram alguns termos. Palavras de línguas do oriente são bem mais fáceis de serem 'tudadas, pois as variações são enraizadas por outras palavras. Basicamente são 'tudadas 3 letras para se saber a raiz de cada palavras, no exemplo; MaRoonS (tribo africana, que lutou -- e muito, por a independência na Jamaica juntamente com a Tribo Ashanti) MoRenoS (nome dado aos mestiços de negros e brancos na América do Sul) MooRS (os mouros ou sarracenos. Moors ou Mouro é o nome dado por os Europeus aos Negros monoteístas de pele mais clara, já que a maioria era islâmica.) A raiz M-R-S indica algumas tribos africanas e nomenclaturas dadas aos descendentes de 'sas tribos, que foram trazidas para as Américas, digam o que for, Moreno para o europeu é negro, e se um dia voltar à 'cravidão, vai junto de volta ao navio como qualquer outro, é uma mera ilusão achar que porque tem a pele mais clara ou mais 'cura vai se fugir das origens, o máximo que pode perder é a raiz e a 'sência, o resto, vai ser tratado como negro em qualquer outra parte do mundo. Em 'se ponto, a única coisa que resta saber é que o racismo trata os negros como eles são, todos iguais. Finalizando a comparação entre Domingos Jorge Velho e Zumbi, ambos foram negros, sobreviventes e viverão conforme o seu tempo, a diferença, um lutou por toda uma comunidade, o outro por a própria sobrevivência, em pé de igualdade os dois mataram, os dois morreram ... negros. Sobre a LEI 13. 707 http://www.mundonegro.com.br/noticias/? noticiaID = 781 = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = Ouça FYADUB Encontra SAMBATUH http://www.myspace.com/fyadubsounds VEJA O Video De o SELASSIE I DAY http://www.myspace.com/fyadub Entre Para A Comunidade Em o ORKUT http://www.orkut.com/ Community. aspx? cmm = 1040089 Fyadub -- Música, Cultura E Informação Número de frases: 40 http://www.fyadub.com Em nosso país de dimensões continentais, muitas vezes experimentamos a sensação de viver em diversos Brasis. E na região norte do 'tado do Ceará 'se fenômeno não é diferente. Ainda no ano de 2007 quando 'tive cobrindo as apresentações de Bois e Reisados, tive a oportunidade de conhecer o distrito de Aracatiaçú, bem como o seu reisado. Se eu já achava os bois e reisados de Sobral interessantes, o de Aracatiaçú era muito mais. A primeira diferença no reisado deste lugar é que toda a brincadeira é cantada em forma de repentes. E quanto ao visual também há uma grande diferença. Todos os brincantes 'tão mascarados. E também existem vários outros personagens, como o magarefe, que é quem mata o boi, reis magos, etc.. E outros animais, como o bode. Até mesmo o boi tem um tamanho diferente. Além de 'sas diferenças, a brincadeira em Aracatiaçú dura muito mais tempo e a população se reune numa quadra para prestigiar as apresentações do grupos de bois e reisados. Durante três noites acompanhei uma equipe da Secretaria da Cultura e Turismo à Aracatiaçú. Em a primeira noite eu já havia ficado encantado com aquela linda manifestação de cultura popular. Porém, ainda 'tava por vir a conhecer um personagem encantador: o Mestre Antônio Ferreira, da Lagoa do Mata. Mestre Antônio Ferreira é um típico homem do sertão. De feições fortes e marcadas por o tempo e por o trabalho na roça. Homem sem letras, mas de imensa cultura! Em o final da apresentação de seu grupo, Mestre Antônio Ferreira foi entrevistado por a Coordenadora de Cultura da Sec. da Cultura e Turismo de Sobral. Durante 'sa entrevista, o Mestre contou como ele, juntamente com pessoas da comunidade da Lagoa da Mata, se uniram pra fazer resurgir a tradição do reisado. Segundo o Mestre, por os idos de 1970, ele teve a idéia de montar um grupo de reisado somente mesmo para reviver 'sa tradição que ele percebia 'tar cada vez mais 'quecida por a população na época. O grupo deu tão certo que surgiram vários convites para fazer apresentações em outras comunidades da região. Uma outra história que o Mestre Antônio Ferreira contou foi quando a convite do INCRA ele foi representar o CE num encontro no RN. Lá chegando, ele foi chamado por um dos organizadores do evento que perguntou a ele se ele organizaria um reisado ali. Aceito o desafio, o Mestre disse: «Mas eu 'tou sozinho ... Meu grupo não veio com mim ..." O organizador olhou ao redor, e lá haviam inúmeras pessoas de diversos 'tados, artistas de grupos folclóricos, etc ... Depois disso, o desafiante chegou para o mestre e disse que ele tinha inúmeras pessoas ali a disposição de ele. O mestre pediu um tempo e foi organizar o seu reisado. Segundo ele nos contou, a apresentação improvisada foi tão bonita que requisitaram eles para outras apresentações durante o evento. Não é a toa que Mestre Antônio Ferreira é chamado de Mestre!!! Em 2007, o Mestre recebeu um convite da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, para participar de um festival em Portugal, onde ele levaria as máscaras que o seu grupo usa nas apresentações. Porém, o mestre disse que tinha receio de viajar de avião, ainda mais para atravesssar o oceano. Mesmo com todas as despesas pagas e com direito a um acompanhante, o Mestre Antônio recusou o convite, porém, ele mandou as máscaras ... Um pedacinho da cultura popular de Aracatiaçú 'teve em Portugal representando nosso 'tado ... Para ver um outro texto sobre os Bois e Reisados de Sobral, acesse o seguinte link: Número de frases: 38 Bois e Reisados de Sobral-CE Projeto compacto. rec une mais de 30 páginas brasileiras para lançamento de compactos virtuais. Inscrições começam no dia 22 de maio O Circuito Fora do Eixo lançou em 'ta terça, dia 22 de maio, mais um de seus softwares livres, desta vez, englobando os setores de comunicação e distribuição. Trata-se do projeto compacto. rec, que tem como meta a distribuição de singles virtuais via rede de sites integrados. A proposta tem como objetivo ampliar o diálogo entre os veículos de comunicação independentes 'pecializados em música no país, experimentando o modelo de trabalho em bloco. Em 'te caso, focando na distribuição de produtos da cena independente. O modelo também propõe ofertar às bandas mais um código fonte de divulgação de seus trabalhos via internet. Até agora, trinta e sete sites já 'tão integrados à ação. Em sua maioria, são veículos de comunicação de pólos fora do eixo já 'tabelecidos no país. Por exemplo, Roraima, Amapá, Acre e Rondônia, que ingressaram, respectivamente, com seus Roraima Rock, Coletivo Palafita, Grito Acreano e Vilhena Rock Zine. É notória a importância do papel da produção na base do desenvolvimento de trabalhos na área cultural. A comunicação, no entanto, além de seu papel de difusão, é responsável por o 'tabelecimento de hiperlinks (interligações) entre agentes atuantes na cadeia produtiva, e possibilita a discussão e a melhora de processos 'tabelecidos. Vê-se que em muitas partes do cenário independente brasileiro há o desenvolvimento prioritário de apenas uma plataforma de trabalho, no caso, a de produção. A idéia é que, através do projeto, os agentes possam articular e desenvolver produção e divulgação, duas ferramentas fundamentais para integração ao cenário em seu aspecto macro. Até agora, o Fora do Eixo já conta na rede com produtores, bandas e comunicadores indies de dezessete 'tados do país. Entre seus feitos, constam a realização do Festival Grito Rock Brasil -- ocorrido simultaneamente em vinte cidades durante o Carnaval -- e o Festival Fora do Eixo, que levou a sete casas de shows de São Paulo dezenove bandas de diversos 'tados. Agora, a rede de trabalho lança o compacto. rec. Compacto. REC -- compacto. rec é uma nova oportunidade para bandas e artistas do Brasil inteiro na divulgação de seus trabalhos. Nada de concursos mirabolantes ou coisas do gênero. Serão mais de trinta páginas de vários lugares do Brasil lançando quinzenalmente um mesmo compacto virtual. O visitante de cada um desses diferentes sites terá músicas, imagens (que servirão como capas e encartes para 'ses singles) e informações sobre as bandas e artistas. Com isso, caem barreiras geográficas, como só a internet possibilita, e de gênero, como a internet nem sempre 'timula. Edital -- Para participar, a banda / músico deve ter pelo menos três músicas gravadas e ser necessariamente associada a um selo independente. O compacto inscrito por cada banda deve ter no mínimo duas faixas e no máximo três. Junto aos fonogramas, a banda deve enviar o encarte do compacto, mais releases da banda e do material enviado, duas fotos e as letras de cada uma das faixas inscritas. Devem constar no histórico, projetos que a banda já tenha desenvolvido e / ou participado em prol do desenvolvimento da cadeia produtiva de sua cidade. Junto ao material da inscrição, a banda / músico deve enviar informações para contato, como endereço de e-mail, telefone e endereço físico. O material será avaliado por uma curadoria constituída de produtores e jornalistas culturais. Entre eles, 'tarão representadas as cinco regiões brasileiras, todas integradas ao Circuito Fora do Eixo. Participarão, entre outros, Anderson Foca (Dosol Produções -- RN), Daniel Zen (Catraia Records -- AC), Marcelo Domingues (Braço Direito Produções -- PR), Pablo Capilé (Espaço Cubo -- MT) e Pablo Kossa (Fósforo Records -- GO). A ordem dos lançamentos será definida conforme apontamentos da comissão curadora e a relação de selecionados será divulgada nos dia 01 de cada mês. Ao todo, onze projetos serão selecionados para serem lançados entre os dias 01 de julho e 01 de dezembro. A o final do projeto, um Compacto Geral com uma música de cada será lançado. A divulgação dos selecionados acontecerá entre os meses de julho e dezembro, nos dias 01 e 15 de cada mês. Resultados -- Os projetos selecionados serão divulgados quinzenalmente em todos os sites integrados à ação. Cada um dos selecionados terá um kit de divulgação contendo newsletters, banner e teaser. Os fonogramas 'tarão disponíveis para download nos sites integrados ao compacto. rec.. A o final do projeto, um Compacto Geral será lançado no dia 15 de dezembro, contendo uma faixa de cada uma das bandas / artistas selecionadas. Inscrições A partir do dia 22/05 Apenas por o endereço compactorec@gmail.com Realizadores A Obra (BH) Acesse Piauí (PI) Bel Rock (PA) Casa do Demo (GO) Cidadão do Mundo (São Caetano-SP) Cinnamon (RJ) Coletivo Palafita (AP) CUFA Cuiabá (MT) CUFA SINOP (MT) Dosol (RN) Dynamite (SP) Engenho Musical (Jaú-SP) Escárnio e Osso (SP) Espaço Cubo (MT) Fan Rock (RO) Fósforo Records (GO) Goiânia Rock News (GO) Grito Acreano (AC) Hell City (MT) Loaded-Ezine (SP) Em a Figueiredo (PA) Nova Mídia (MG) O Grito do Inimigo (GO) O Portenho (MS) Portal Cultura (PA) Programa Garagem (PR) Reator Rádio Mídia (GO) Rock Feminino (Rio Claro-SP) Rock Potiguar (RN) Rockspot (São Carlos / Araraquara / Ibitinga-SP) Roquenrol Beibe (PA) Roraima Rock (RR) Under Floripa (SC) Urbanaque (SP) Vilhena Rock Zine (RO) Te o Puto (SC) Número de frases: 81 Tum Tum Produção (AM) Vira e mexe 'cuto falar que a internet é cultura de massa e que por isso só existem porcarias on-line. Cansado de ouvir tais comentários, já até desisti de tentar explicar que é justamente o contrário o que 'tá acontecendo. Existe uma porrada de bandas com sites na rede disponibilizando cds inteiros de forma aberta e gratuita. O problema é que nem sempre a qualidade é lá 'sas coisas, mas há ocasiões em que somos surpreendidos. Lixo Extraordinário é uma de 'sas bandas que disponibiliza material na rede e que surpreende por a qualidade e por suas propostas. Não conheço muito da banda, mas seu vocal, Valdir Batone, já tem tarimba e em outra ocasião emplacou a Banda Lobo Guará, que acabou se desfazendo. Agora com Lixo Extraordinário parece que o cara voltou pra valer e resolveu dar o seu recado. Recado que pega de acordo tanto musical quanto mentalmente. Por o que pude perceber, o som tem pegadas de Arnaldo Batista, Mutantes, pop nacional, Cássia Eller ... mistura mais um monte de coisas, inclusive samba. Não deixa a desejar nada em 'se quesito. A surpresa são as letras incisivas, inteligentes, lapidadas. Difícil encontrar bandas que misturam tão bem uma pegada musical com letras e idéias pra valer. Pra quem tá a fim de conhecer um som mais alternativo decente, recomendo. Número de frases: 15 Lixo Extraordinário. Quando se pensava que a gastronomia daqui se limitaria sempre a maniçoba, tacacá e pato no tucupi, o marasmo foi movimentado por uma releitura das culturas indígena, negra e portuguesa à primeira vista, o lugar é um pouco 'tranho: um quintal coberto com palha e madeira, circundado por um lago artificial, artesanato de motivos indígenas e uma 'cadaria que dá acesso a uma casa na árvore, de onde é possível avistar o sol colorindo o teto das casas de alaranjado enquanto se põe na periferia de Belém. Estamos no auge do verão, que no Pará acontece em julho, e o calor se mistura ao som altíssimo, que despeja Umagumma, do Pink Floyd, em nossos ouvidos. Escondido em algum canto da casa, o chef Ofir, caboclo da cidade de Bragança e mago das experimentações culinárias, prepara um banquete para mim e mais três amigos. Uma comida de raízes indígenas, feita à base de peixe, frutos do mar e mandioca, que se desmembra numa sopa de caranguejo e lula, peixe ao molho de tucupi e castanha do pará e uma porção de beju, 'pécie de biscoito índio aqui incrementado com ervas finas e champignon. O calor, a mistura de sabores e algumas cervejas colaboram para uma 'pécie de transe gastronômico coletivo. Lá dentro, o Pink Floyd continua a despejar suas viagens progressivas e experimentações musicais. Enquanto como, seu Ofir senta para conversar e tenta explicar a origem de sua cozinha. Um pouco enrolado e dado a digressões, ele afirma que o que faz é uma releitura da comida feita por os índios da região bragantina, com quem teve contato durante a infância e a juventude. É uma evolução técnica e conceitual da comida que lhe garantiu um certo sucesso nos anos 80, quando, em Paris, ganhou a vida cozinhando pratos típicos da região amazônica para os europeus, como a maniçoba e o pato no tucupi. Alguns anos depois, já no começo da década de 90, voltou para Belém e radicalizou ainda mais a sua proposta. Fez da mandioca o ingrediente-chave de seus pratos, foi atrás das raízes da culinária indígena e se recusou a voltar a ser dono de restaurante, preferindo receber as pessoas no quintal de sua casa. Até o momento, a opção por radicalizar ainda mais a sua proposta parece ter dado certo, uma vez que Ofir 'tá sempre às voltas com clientes de toda parte do Estado, que vão até a sua casa experimentar as suas alquimias gastronômicas. A visita à casa de Ofir era parte de uma aventura em busca da nova cozinha paraense, que se completaria ainda com os pratos do chef Paulo Martins e com um passeio por o mercado do Ver-O-Peso acompanhado de «seu» Francisco, um ex-contabilista que, após perder o emprego, criou, quase que por acidente, o restaurante Remanso do Peixe. boa-praça, jamais havia passado por a cabeça de «seu» Francisco virar dono de restaurante. Até que perdeu o emprego e viu o negócio que havia montado após ser demitido ir à falência. Em a garagem de sua casa montou um restaurante caseiro, que logo evoluiu para o Remanso do Peixe, uma das mais concorridas peixarias de Belém. Sem nenhum tipo de formação acadêmica, «seu» Francisco criou pratos como a Moqueca Paraense -- com jambu, azeite de dendê, frutos do mar e o filhote, um dos peixes mais gostosos da Amazônia -- e uma 'pécie de adaptação brasileira da Paella, que utiliza peixes e frutos do mar encontrados na costa atlântica do Pará e temperos da culinária regional. Menos digressivo que Ofir, Francisco não tem grandes explicações para os pratos que faz. Sua cozinha é totalmente empírica e intuitiva. Como ele mesmo afirma, seus pratos são criados na base da tentativa e do erro. A 'sa altura já consigo entender como a nova culinária paraense 'tá conseguindo oferecer alternativas que vão além de seus três pratos-chave: a maniçoba, o tacacá e o pato no tucupi. Uma gastronomia que parecia 'tagnada, mas que foi tirada do marasmo por uma nova releitura das culturas indígena, negra e portuguesa e se mistura progressivamente à nova 'cola da culinária brasileira e internacional. Cujo ponto de confluência 'tá na figura do chef Paulo Martins, que conheci gravando um documentário sobre culinária paraense. Em a cozinha de seu restaurante, ele concilia as mais diversas vertentes culinárias numa eterna busca por uma certa nouvelle cuisine amazônica, um território ainda pouco explorado e sem regras definidas, mas que, por isso mesmo, é capaz de permitir grandes ousadias. Há mais de 20 à frente do Lá em Casa, um dos restaurantes mais tradicionais do Pará quando se fala de comida regional, ele vem progressivamente abandonando a função de cozinheiro para se dedicar a palestras e eventos sobre a culinária amazônica. É o caso do Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, que reúne em Belém chefs de todo o Brasil num workshop sobre os ingredientes da gastronomia local. Ao mesmo tempo, Paulo vai buscar nos conceitos da cozinha européia as fórmulas que usa para sofisticar a cozinha paraense. Com isso, promove a categoria de comida refinada ingredientes comumente encontrados nos mercados da região. É daí que nasce o camarão com creme de pupunha, o peixe defumado com castanha do pará, o filhote ao molho de bacuri, raviolli de maniçoba ... A lista é imensa. E a julgar por o gosto do chef por a experimentação parece ser o ponto de partida de uma nova 'cola gastronômica que, aos poucos, se configura no norte do Brasil. Número de frases: 34 Quem sabe o passaporte que irá garantir a sua aceitação nas outras regiões do país e do mundo. Em plena era da informática, com tanta facilidade de acesso às máquinas, Seu Antônio continua fazendo sua arte manual, como aprendeu há décadas. A beleza de seu trabalho 'tá na forma rústica de talhar a madeira, nos detalhes que ele inventa, na criatividade única de um artista nato. Criou os filhos morando na roça, plantando, colhendo e também trabalhando a madeira. Fez postes para currais, porteiras, até as mais delicadas peças que continua fazendo até hoje. Vivendo no mato pôde conhecer a madeira boa para ser trabalhada, uma madeira macia, durável, em sua casa tem peças feitas há 30 anos e 'tão perfeitas. Antônio Antunes da Silva, um homem comum, nunca 'tudou, não existia 'cola perto de Traíras onde nasceu. Só aqueles que os pais podiam pagar um professor de fora para dar aula em casa aprendiam a ler. Seu pai sabia ler, 'crever, era uma 'pécie de mensageiro, carteiro da época que viajava a cavalo levando as cartas. Em os dias de folga trabalhava a madeira e assim os filhos aprendiam, 'pecialmente Seu Antônio, que era mais atencioso. Segundo ele, era uma maneira de sair do trabalho na roça, da enxada. E faz um comentário brincalhão: -- Acho que eu era mais priguiçoso, pra num ir para a roça, aprendi a fazê cuié de pau, ficá mais quieto em casa. Hoje com 86 anos, seu Antônio continua moldando a madeira e confeccionando garfos, mexedor de suco, colher, gamela, pilão, peneira, quibano, (que é uma 'pécie de peneira mais fina) e outros que ele vai criando conforme vai vendo nas lojas. A madeira 'tá difícil de ser encontrada, diz ele. Tem que andar muito atrás de madeira macia como o caju, goiaba, imburana, jenipapo e outras. Reclama da dificuldade que encontra: -- Tá difícil fazê gamela de 20, 30 litro porque só encontro madeira fina, mermo assim vou fazeno outras. Acho mió que ficá quieto, mais antes lambê do que cuspí ... O rendimento financeiro com o trabalho em madeira às vezes é bom, quando alguém encomenda um número maior de peças pega o dinheiro junto, dá para fazer alguma coisa. Conta-me que um senhor da Bolívia encomendou uma quantidade grande de colheres e garfos, foi ótimo, deu até para reformar um pedaço da casa. Sobre o preço de suas peças diz: -- Hoje a gente vive num mundo cum mais ricurso, principalmente na parte de dinheiro, midicina. Antigamente o cabra sufria muito; vendia 5 gamela para a comprá a 2 saco de arroz, hoje cum dinheiro de uma gamela compra isso. Até trocava bezerro de 1 ano a troco de um saco de sal. E complementa: -- Hoje dá até para a comprá a remédio, os véio pricisa de muito fortificante, ajuda os nervo agüentá trabaiá mais, serve até para a ajudá morrê; um homem muito fraco num tem força nem para a morrê ... A dona Diolina 'posa do Seu Antônio o ajuda no lixamento, faz alguma peneira pequena. Mas ela diz: -- Já tô enjoada desse bate-bate do véio, ele num quieta, podia trabaiá menos. Seu Antônio retruca: -- Que nada minha véia, num vou ficá à toa. Saí para a cunversá com os novo eles acha minha historia do tempo do ronca, não dá; tenho mermo é que fazê meu trabáio, num sei fazê outa coisa! Conta-me da dificuldade para aprender assinar: foram muitas tentativas até que alguém 'creveu seu nome num papel em letras bem grandes, aí foi treinando na areia e assim aprendeu a desenhar o nome. Sente-se orgulhoso disso, mas tem uma frustração por não ter aprendido a ler: -- Se num fosse um probrema que tenho nas vista, até que ia para a 'cola, mas só enxergo um pouco do ôio direito, tenho medo de isforçá e istragá o outro que tá bom. Mas é triste o camarada que num sabe lê, num aproveita o tempo, num pode istudá o jorná; mas como já tô no fim, vou economizá minha vista para a trabaiá cum a madeira. Segundo ele, seu pai dizia que não deviam parar de trabalhar para aprender ler e 'crever, o mais importante era o trabalho; e os aconselhava para um tempo futuro 'crito na Bíblia que lia para os filhos sempre. Com muito orgulho Seu Antônio repete as palavras do pai: -- Oceis tem que aprender trabaiá; lê e 'crevê num tem importância, homem tem que trabaiá. Ainda vai chegá um tempo que oceis vai vê muita coisa e num vai têr pra quem contá, o povo vai tá muito sabido. Hoje a gente num vê muito, mas tem quem ouve, no final dos tempo vai tê muita coisa pra se vê, mas num vai tê pra quem contá; o povo num vai querê ouvir a gente mais; até os inucente vai acabá, vai sê um mundo só de gente véio ... Ai ele explica: -- A sra. tá vendo como que hoje tem sabiduria dimais, ninguém iscuta os outro. Em um tem quem ouve por causa da televisão, do rádio, do tal de computadô ... Intão a gente num tem pra quem contá nada, eles sabe tudo. É isso que meu pai quiria dizê. Seu Antônio fica pensativo uns segundos; suspira, arruma o chapéu e recomeça a trabalhar. As mãos hábeis seguram o cabo da enxó que vai formando um buraco na prancha de madeira, moldando mais uma gamela, mais uma obra do grande artista. Obs: Número de frases: 60 um vídeo com Seu Antônio 'tá disponível no banco de cultura. Licença para pensar o impensável Em 1992, quando a edição nacional da Isaac Asimov Magazine publicou em suas concorridas páginas um texto chamado «Aprendizado», 'tava sendo dada a oportunidade para a 'tréia de um jovem de 21 anos no ramo de 'critor profissional de ficção científica, fantasia & horror. Desde então, num cálculo aproximado, 'te autor publicou cerca de meia centena de histórias e conquistou a reputação, até internacional, de ser um dos melhores naquilo que faz. Diretamente de sua cidade natal, Jundiaí a 50 km da capital paulista, onde exerce a profissão de jornalista 'pecializado em divulgação científica, ele relembra aqui os primeiros passos na literatura de gênero; comenta suas influências -- incluindo aí o papel exercido por H.P. Lovecraft nos seus textos iniciais; fala sobre as motivações atuais; e revela qual tipo de trabalho o faz se sentir, a exemplo de certo 'pião inglês, portador de uma licença 'pecial. Com vocês, Orsi, Carlos Orsi. Em 'tes últimos 15 anos, você se tornou um dos autores de FC mais prolíficuos do Brasil. Entre contos e novelas publicados em livros impressos e virtuais, revistas ou fanzines, dentro e fora do país, qual é o tamanho 'timado de sua produção ficcional? Quantos prêmios você já recebeu ao longo da carreira? Há alguma chance de um dia vermos tudo isso reunido num site, por exemplo? Bom, por partes: o tamanho da obra? Não faço a menor idéia. E, várias trocas de HD depois, nem sei se ainda tenho cópias de tudo. Além disso, há os contos que eu chamo de «mutantes», que vão se transformando a cada publicação -- não sei se deveria contar cada encarnação de uma mesma história como um conto independente ou juntar tudo. Fora que meus primeiros contos eram datilografados, não digitados, logo 'ses só existem, mesmo, nas páginas dos fanzines. Mas, supondo que de 1992 a 2003, mais ou menos, eu tenha 'crito uns dez contos por ano, e achado 50 % disso digno de publicação, então seriam umas 50 histórias cuja paternidade eu reconheço ou deveria reconhecer ... Prêmios: tapìraì (do fanzine Megalon), Nova e um segundo lugar no Argos. Além do Prêmio Turno da Noite, de Portugal. Juntar tudo? Não sei. Há muitas histórias que, simplesmente, não me interessam mais. E nunca tive um site pessoal. Talvez tenha um dia -- mas não creio que vá usá-lo como uma 'pécie de omnibus, não. Você pode fazer um retrospecto de sua formação como autor? Que tipo de exercícios literários você fazia nos primeiros anos de atividade? Participou de oficinas ou foi mais em base autodidata mesmo? Como foi sua preparação antes de publicar o primeiro texto e como é seu cotidiano agora? Publiquei meus primeiros textos ficcionais, mais puxados para a paródia e o humor 'crachado, num fanzine, Anarquia, que saiu em três números aqui em Jundiaí, por volta de 1984-85. Era um fanzine meio político, animado por o fim da ditadura, etc.. Em aquele tempo eu usava camiseta de Che Guevara. O zine gerou um convite para colaborar com o suplemento dominical do Jornal de Jundiaí, o que fiz, creio, de 1985 a 1990, mais ou menos. Em 87 fiz uma oficina literária com João Silvério Trevisan, no gabinete de Leitura Rui Barbosa, um clube-biblioteca aqui da cidade. Não me lembro, realmente, de um dia ter tido alguma rotina 'pecífica para a preparação do texto. Acho que a coisa sempre foi constrangida por os limites tecnológicos -- no tempo da máquina de escrever, minha oportunidade de revisão era a fita corretora e / ou rasgar tudo e começar de novo. Hoje, com o computador dá pra «pentear» mais o texto. Hoje em dia eu 'crevo, deixo o texto «de molho» alguns dias, mexo um pouco, peço pra minha mulher, a Renata, ler, presto atenção nos comentários de ela, deixo o texto «de molho» mais um pouco, enquanto decido se acato (ou não) as sugestões de ela, repasso mais uma vez e então dou o trabalho como pronto. Se -- como geralmente acontece -- passam-se meses ou anos antes de surgir uma oportunidade de publicação, reviso uma última vez imediatamente antes de submetê-lo. Tempos de fúria, seu livro lançado há dois anos, aparenta ser um marco em termos de 'tilo. Seu trabalho anterior sempre foi bastante associado ao do americano H. P. Lovecraft, mas em 'te livro, a presença de ele parece mais diluída. Houve alguma forma de ruptura com o velho mestre ou é apenas um movimento natural de busca de novos horizontes? Olha, eu tendo a dizer que a influência de Lovecraft na minha obra foi meio que superestimada. Fiz alguns contos realmente calcados nos Mitos de Cthulhu, mas acho que a última história que consideraria lovecraftiana «puro sangue» foi «Deus dos abutres», ainda no século passado. O fato é que, quando comecei a 'crever eu tinha um problema grave: meus 'boços tinham clima, tinham boas ironias, eram engraçados, tinham um bom ritmo, eram inteligentes ... Mas iam do nada ao lugar nenhum. Resumindo, eu tinha 'tilo mas não tinha competência narrativa, no sentido de, ok, os personagens entram na história na situação A e quero que saiam de ela na situação B. Como ir de A para B? Eu não sabia. Não fazia a menor idéia. Em 'se aspecto, HPL foi muito importante porque ele tinha uma disciplina narrativa muito rígida -- tão rígida que, em alguns contos, dava pra ver o final chegando como um trem vindo do fim do túnel. Além disso, tinha intensidade emocional, que era outra coisa que me faltava. Então, creio que o que houve foi que eu precisava aprender, e HPL -- não só ele, toda aquela geração da [revista americana 'pecializada em contos 'tilo pulp fiction] Weird Tales, com Howard e Ashton-Smith também -- foi uma 'cola. Como nas artes plásticas, aprende-se imitando e, depois, desconstruindo os mestres. O que mudou, de lá para cá, foram meus interesses temáticos. Estou migrando para a hard SF, e acho que vou ficar lá por algum tempo. Em 'se sentido, ando lendo muita não-ficção (meu livro do ônibus atualmente é o Investigations, de Stuart Kauffman) e muito conto de FC hard contemporâneo. Há algumas ótimas antologias recentes, como Solaris book of new SF e uma antologia de space-operas Forbidden planets, e o Mammoth book of extreme SF. Para «limpar as papilas», como o copo de água que os enófilos tomam entre taças de vinho, encaixo um mainstream ou um policial. Vários dos cenários e dos personagens presentes em Tempos de fúria poderiam render novas histórias, como é o caso das duas histórias em torno do planeta Vênus. Qual a sua opinião em retornar a antigos trabalhos? Você já fez isso em relação ao conto que publicou na coletânea original da Intempol, não é mesmo? Retomar histórias para mim é meio complicado porque, geralmente, meus contos nascem de um ponto de enredo -- digamos, quero 'crever uma história sobre um ataque de zumbis. Aí, todo o resto nasce como 'trutura de suporte, como andaimes para sustentar 'se ponto. Uma vez que eu tenha desenvolvido o ponto, os andaimes simplesmente deixam de ser interessantes, para mim. Não que eu não tenha entusiasmos -- por exemplo, cheguei a imaginar «Planeta dos mortos» como primeiro de uma série que culminaria com «Galáxia dos mortos», ou algo assim -- mas o princípio motor da coisa toda, que era a publicação numa revista, desapareceu antes que eu conseguisse pôr a idéia em prática, e logo outros temas chamaram minha atenção. A Intempol, em 'se aspecto, é uma coisa diferente. Em parte, por o desafio de expandir um universo com a ajuda, e muitas vezes sob a orientação, de outras pessoas. Segundo, porque 'crever para a Intempol me dá um certo senso de irresponsabilidade -- eu me sinto, paradoxalmente, mais livre, talvez porque a carga da autoria fica meio que diluída: é como se 'crever para a Intempol fosse uma 'pécie de «00» literário, «licença para pensar o impensável». Curiosamente, 'se mesmo efeito faz com que meus trabalhos na série sejam alguns dos meus melhores trabalhos. Por falar naquele conto situado no universo criado por " Octávio Aragão: «A mortífera maldição da múmia» foi adaptado para uma versão em quadrinhos on line. Como foi a experiência de ter um trabalho traduzido para outra mídia? Pode haver outras novidades em 'sa área, seja com material já publicado, seja com roteiros inéditos? E, por fim, qual sua opinião sobre quadrinhos de um modo geral? Trabalhar com a equipe que fez a adaptação do «MMM» foi muito legal. Eu criava uma 'pécie de pré-roteiro, com uma sugestão de diagramação e decupagem das cenas, além de adaptar o diálogo. Os quadrinhistas seguiam, adaptavam ou ignoravam minhas instruções, dependendo do que fosse melhor para a série (e 'tou certo de que eles sempre 'colhiam o melhor). Fiz isso, um capítulo por semana, durante um semestre, creio. Pessoalmente, acho a versão em quadrinhos melhor que o conto. Tanto que «Melissa, a meretriz do mal» [um romance, dando continuidade a primeira história, que saiu em formato digital] segue, em detalhes, a HQ, não o conto, por exemplo. Quanto a novidades, ei, se quiserem me adaptar, adaptem-me! Se for para um álbum de luxo franco-belga ou para uma minissérie Vertigo eu gostaria de ser pago, mas se não, só me dêem crédito e peçam educadamente. Quadrinhos: adoro quadrinhos. Antes de querer ser 'critor, quis ser quadrinhista -- desisti porque não tenho paciência de aprender a desenhar. Ando lendo pouco, atualmente -- acompanho a série do Conan da Dark Horse e fico de olho na obra do Warren Ellis, e quase nada além. Você disse que a ficção científica 'tilo hard é, atualmente, seu principal interesse. Seus últimos trabalhos, como a maioria dos contos do livro e o texto que publicou recentemente no fanzine Scarium fazem parte do subgênero. Como jornalista 'pecializado em divulgação científica, portanto acostumado a lidar com minúcias técnicas da área, é mais fácil passar por o processo de pesquisa a que 'se 'tilo obriga seus autores? Eu tenho um profundo interesse, um grande respeito, por o programa científico como postura filosófica -- nenhuma idéia 'tá acima de crítica, o grau e confiança numa afirmação depende da totalidade da evidência, a evidência articula-se logicamente -- e traduzir isso para a literatura é um grande barato. É O grande barato, ao menos para mim, atualmente. Creio que minha atuação como divulgador ajuda, sem dúvida: as maiores fontes de idéias para boa FC 'tão nas páginas da Science e da Nature, que são revistas 'pecializadas na publicação de trabalhos científicos e circulam semanalmente. Por falar naquela edição da Scarium: em ela foi publicado um artigo que gerou alguma polêmica entre fãs e críticos de FC por fazer a defesa de uma produção associada ao 'tilo pulp, como o da citada revista Weird Tales. Algumas pessoas associaram tal proposta a um perigo de se relaxar na qualidade literária, de ser algo ultrapassado. Qual sua opinião sobre 'sa controvérsia? Pessoalmente, considero controvérsias literárias um campo meio 'téril. Digo, cada um 'creve o que acha melhor, e pronto. Por trás da idéia de controvérsia 'tá a de programa -- a de que existe um caminho a seguir, e a controvérsia se dá entre programas antagônicos -- e eu simplesmente não acredito em programas literários com mais de um aderente. Cada 'critor tem o seu, ou cada 'critor tem vários ao longo da carreira, mas tentar vender um programa é meio inútil. Reformulando: pode ser útil na medida em que os debatedores usam o debate para lançar um olhar crítico sobre seus próprios programas. Um debate vigoroso é sempre um bom 'tímulo à autocrítica. Mas o que geralmente acontece é um duelo entre homens de palha, com um lado atacando não o outro, mas uma caricatura do outro. A finada Isaac Asimov Magazine foi muito importante para toda uma safra de 'critores nacionais, por apresentar a eles parte do que era produzido no exterior e, obviamente, por representar um local de qualidade onde se poderia publicar. Não deve ser coincidência o fato de que dois dos mais respeitados 'critores de FC do país tenham 'treado naquelas páginas: Gérson Lodi-Ribeiro e você mesmo. É algo assim que 'tá faltando hoje em dia para ajudar a popularizar o gênero entre novos leitores e novos autores? Bom, obrigado por a parte que me toca! Em o meu caso 'pecífico, a Iam me ajudou a amadurecer minha visão do gênero -- eu achava que FC era Lucky Starr e Jornada nas 'trelas, e de repente 'tava lendo Kim Stanley Robinson. Isso faz falta hoje, assim como faz falta um mercado comprador de FC. Você tem acompanhado a produção brasileira de ficção científica e de terror? Entre novatos e veteranos há alguém que tem chamado sua atenção nos últimos anos? Acompanhar, não acompanho. Sou um 'critor, não um crítico, e o que leio, basicamente, é o que me interessa ou o que acho que poderá ser útil na composição da minha obra. Autores que me cahamaram muito a atenção nos últimos anos foram Osmarco Valadão, de quem eu realmente gostaria de ler mais coisas, e uma «novata», Cristina Lasaitis, cujo conto de 'tréia na antologia Visões de São Paulo foi um dos melhores, se não o melhor, do livro. Quais são seus próximos projetos em termos de ficção? Continuar me aprofundando no lado "; hard "; da FC e continuar procurando onde publicar. Eu queria inverter o equilíbrio da minha produção de textos e fontes de renda -- com à ficção pesando cada vez nos dois quesitos -- e sigo buscando oportunidades para conseguir isso. Quem sabe Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. O livro Tempos de fúria foi resenhado no Overblog: Número de frases: 128 http://www.overmundo.com.br/overblog/estranhos-em-terras 'tranhas Este texto se chamaria «A diferença de ir a um museu no Brasil e no exterior», mas não se chamou. Ohquei, ohquei. Admito que não sou freqüentador de museus no Brasil. E atire a primeira pedra quem é. Para constar, no Brasil eu só conheço uns três ou quatro museus no Rio e o do MASP, em São Paulo. Aquelas miudezas de pequenas cidades não 'tão sendo computadas ... Mas brasileiro tem 'sa coisa de que a grama do outro é mais verde, então quando chega fora do país, já vai perguntando logo onde é que são os museus mais importantes. Ir a Paris e não passar no Louvre é quase uma heresia. Eu sou brasileiro. Em Colônia, para onde muitos dos brasileiros se dirigem agora -- já que se trata da cidade-oficial do Brasil na Copa, para onde todas as agências oficiais que vendem pacotes para o evento, que pára o país durante um mês, vão mandar seus cinco mil clientes fanfarrões, o principal museu é o Museum Ludwig. E como eu sou brasileiro, fui lá hoje, 21 de maio de 2006. Sempre me senti um pouco culpado, afinal faço parte de uma pequena parcela da população que teve acesso básico à educação como qualquer cidadão do chamado primeiro-mundo. Freqüentei boas 'colas, duas boas faculdades, já havia tido a chance de viajar para o exterior em outras oportunidades, mas mesmo assim, nunca consegui curtir museus. Eu deveria gostar!!! Mas não conseguia. Entrei no Ludwig como quem cumpre um ritual obrigatório sobre o qual serei cobrado ao voltar ao meu país: «E os museus? Foi a muitos?», hão de querer saber. Atraído por o imenso cartaz que anuncia uma exposição de Salvador De ali, um dos meu pintores favoritos -- dentro do universo de oito ou dez sobre os quais consigo discorrer mais de cinco minutos -- fui entrando. Passei primeiro na lojinha. Lembrancinhas de museus são sempre bem quistas por nós, afinal dá um ar de intelectual ter um quadro do Matisse como imã de geladeira, não dá? Pois é. Enfim, mas eu não comprei nada por lá, não. Só uns postais. Definitivamente dentro do museu, logo na primeira 'cada que eu desci, 'tava exposta aquela célebre seqüência de dez retratos de Marilyn Monroe, feitas por Andy Warhol, um cara que eu nunca tinha entendido muito bem e que pra mim era mais sinônimo de «no futuro cada um terá seus quinze minutos de-fama» do que de pintor de qualidade. pop-art é muito mais maneiro do que eu supunha. A série de quadros, instalações e vídeos foi me prendendo por um bom tempo. Enfim consegui ser tocado por aquelas coisas coloridas, por aquelas caixas de detergentes e latas de Coca-Cola. O pouco que eu conhecia da obra de Roy Lichtenstein já me fazia ter a sensação de que era o meu favorito. Acho que hoje confirmei. Aqueles traços carregados de referências a gibis, aquelas bolinhas compondo o fundo, as expressões fortes típicas dos comics americanos a serviço da informação e da crítica são fatais. Depois vários Andy Warhols (destaque para o quadro com «Double Elvis» e para o vídeo «Kiss», no qual Warhol filma um casal se beijando durante cinqüenta minutos) e outros, cujos nomes não fixei, vi que eu 'tava curtindo a brincadeira de andar por um museu cheio de alternativas, de saídas criativas, de 'paços que trabalham em função da arte e não 'peram que a arte se vire naquele 'paço que se tem. Seguindo, muitos andares, muitos quadros, muita informação, alguns japoneses. Antigamente, antes da máquina fotográfica digital, se falava que os japoneses faziam foto de tudo sem nem aproveitar o que 'tavam tendo a oportunidade de ver. Os japoneses preferiam fotografar do que enxergar, confiando mais na memória do papel do que na sua própria. Hoje, o mundo é composto de japoneses. Todo mundo bate milhares de fotos. Bastou algo ligeiramente diferente ou mais colorido pra pipocar outro flash. A máquina apazigua a falta de tempo para digerir tanta informação. É tanta cultura criada por a humanidade nos últimos cinco mil anos, muitas de elas expostas ali -- ou no Museu de arte Romana, que fica ao lado do Ludwig -- que você tem que ser ágil. Todo mundo tem que ver tudo, pois não sabe quando vai poder voltar ali, nem se vai querer voltar. Então se pipoca flash e deixa pra tentar entender depois. Não há muito tempo nem pra se relacionar com a arte, nem para se conhecer os corredores dos museus. Eles fecham às 19hs. Faço eu também meus pipocos. Não entendo aquele quadro do Picasso -- são muitos de eles no Ludwig --, vou fazer a foto e vou tentar pensar em casa. ( Vou?). Outra inquietação que eu me dá é exatamente a compreensão. Em uma sociedade cartesiana -- por mais que você não se considere necessariamente um --, tudo precisa de uma explicação. Os professores de belas-artes sempre tinham alguma pra dar nas aulas da faculdade. Eles pioraram minha situação. Em aquela época eu 'tava quase entendendo que a arte não precisa da razão, apesar de elas até poderem ser companheiras. Fico tentando achar respostas, mas o quadradinho do lado do quadro só me diz «Mulher deitada»,» Busto de homem com chapéu», «Duas crianças» ... Isso tudo eu já sei! É tudo que 'tá mais evidente. Não há respostas fáceis. Talvez não existam respostas, mas eu fico triste e sinto a falta de elas. Mas será que aquilo então não pode ser realmente apenas uma mulher deitada? Um busto de um homem? E aquelas duas crianças? Tem que ter uma relação de pedofilismo e de crítica cristã ali também? As questões 'tavam tomando conta de mim e você achando que eu tinha perdido o rumo do texto. Mas não, isso é só uma representação do envolvimento e das questões que iam tomando conta da minha cabeça naquelas horas que se passavam lá dentro. Nada muito original, é verdade, mas o museu 'tava fazendo sentido. E lá por as tantas eu me dei conta disso. Olhei o 'paço inteligente, bem pensado. A luz do sol entra em grande parte do museu e é tão bom quando isso acontece ... Rola uma leveza. Paredes brancas também ajudam a não cansar a vista. Quadros não se amontoam, se expõem -- e 'sa lição é boa para o MASP, por exemplo. E mais que tudo, as obras são boas demais por aqui. Isso faz toda a diferença. Não querendo desmerecer os nossos artistas, mas, do que eu conheço, plasticamente o Brasil ainda 'tá muito atrás, conquanto hajam dicavalcantis, portinaris e tarsilas. Hoje descobri mais alguns caras bem bacanas e alguns de eles se destacam em minhas lembranças: Jörg Immendorff, Francis Picabia e Heinrich Hoerle. Peço desculpa se era muito ignorante por não conhecê-los, caso eles sejam vitais para a arte. O primeiro de eles é um alemão e é o único dos três que ainda 'tá vivo. Havia três trabalhos de ele expostos no Ludwig retratando fortemente a sociedade alemã do pós-guerra, entre eles Café Deutschland I, muito bonito. As referências à suástica, ao muro, à União Soviética, aos Estados Unidos, à calça jeans, ao sub-mundo vulgar, formavam uma 'pécie de purgatório de um país. A arte fala diretamente com o tempo atual. Apesar do quadro ser de 1977, ele ainda é forte para o alemão médio nos dias atuais. Um amigo me disse que Immendorff 'tá muito doente, com uma enfermidade degenerativa. Seu tempo de vida é curto, uma pena. De o francês Picabia, destaco La nuit. De Hoerle, cria de 'sa cidade, a quase-carnavalesca Masken. O texto caminha para o fim e o autor 'tá mais sensibilizado por museus. Sensibilizado, cético quanto à cultura no Brasil e mais certo do privilégio que tem. Só que, cadê o Dalí?, o seu pintor-favorito ... Ahá!!! De ali não entra na história. Até então tudo fora gratuito, para o De ali teria que pagar cinco euros. Eu já 'tava muito cansado e o museu quase fechando. Já que é pra pagar -- e como eu, a 'ta altura, adoro visitar exposições e museus, rsrsrs -- vou deixar pra ir outro dia, com calma e olhar bem. Museu é maneiro. Para os brasileiros que 'tão chegando por aqui, tranqüilidade: a exposição Salvador De ali -- La gare de Perpignan fica no Museum Ludwig aé 25 de junho. Ou, para facilitar a compreensão, até dois dias após o fim da participação da seleção brasileira na primeira fase do Mundial. Número de frases: 98 Japonês apaixonado tornou-se o embaixador de uma das mais tradicionais 'colas de samba do Rio de Janeiro Como bem resumiu o primeiro-secretário da embaixada brasileira Luiz Fernando de Carvalho, o samba é algo difícil de explicar porém fácil de entender. Tarefa mais árdua é contar uma história de amor à primeira vista entre a tradicional Estação Primeira de Mangueira e o consultor japonês Keisuke Sakuma que lançou o livro A Magia do Samba, numa palestra no Centro Cultural Manabu Mabe, da Embaixada Brasileira em Tóquio. Sakuma já trabalhava no Brasil há algum tempo quando um colega lhe perguntou se ele conhecia o carnaval brasileiro. O japonês, provavelmente, sabia o que a maioria dos 'trangeiros de países ricos sabe: o desfile repleto de mulheres lindas e, muitas vezes, quase peladas. Desde que visitou a quadra da Mangueira pela primeira vez em 1997, Sakuma-san, porém, descobriu que, por trás da magia do dia do desfile existe uma comunidade que trabalha arduamente para levar o samba para a passarela. Em palestra no dia do lançamento do livro, o apaixonado carnavalesco destina boa parte da prosa para mostrar o carinho que recebeu dos mangueirenses em sua primeira visita à 'cola. «Fui recebido por o Chiquinho da Mangueira, que me levou pra conhecer a quadra e me convidou para a inauguração do enorme projeto social da 'cola», conta ele, referindo-se à Vila Olímpica da Mangueira, 'paço onde os moradores podem praticar 'portes, fazer cursos, de entre outras atividades educativas e culturais. Aos poucos, Sakuma foi conhecendo as personalidades da 'cola e se envolvendo cada vez mais com suas atividades. Ao mesmo tempo, seu interesse em compreender o Brasil através do carnaval foi aumentando. «Eu queria entender por que o carnaval existe», conta ele que, ao retornar ao Japão, investigou em livros e não encontrou resposta satisfatória. Decidido a saber mais, o japonês foi a campo. Ensaios, bate-papos e, claro, a emoção do desfile ao vivo que o consultor experimentou pela primeira vez em 1998, ano em que a Mangueira foi campeã com o enredo sobre o compositor " Chico Buarque de Hollanda. «Cheguei a ir até na abertura dos envelopes com as notas», comenta Sakuma, apontando para um slide onde ele aparece sendo entrevistado por uma equipe de TV. «Era o único japonês no meio daquela gente toda», relembra ele, sorrindo. Em o livro A Magia do Samba, 'crito em japonês, Keisuke Sakuma faz um detalhado relato de como funciona o carnaval carioca. O autor mostra desde dados numéricos sobre a grandeza do desfile e as campeãs ao longo dos anos até detalhes técnicos envolvendo os quesitos julgados. Além disso, declara amor a sua Mangueira, 'cola da qual é o embaixador no Japão. Em a função, Sakuma participa da organização de intercâmbios entre a 'cola verde-e-rosa e os sambistas japoneses. «Há cem anos, os japoneses foram para o Brasil em busca de seus sonhos», filosofa o pesquisador, «hoje inúmeros jovens fazem o mesmo caminho para conhecer as maravilhas do Brasil». Fã da carnavalesca Rosa Magalhães por conta de seus enredos históricos, Sakuma indica 'tudar o carnaval a quem quer conhecer a fundo o Brasil. «Conhecendo melhor o carnaval, você conhece melhor o Brasil e quanto mais se conhece o país, mais se descobre o quanto ele é maravilhoso», conclui ele que embarcou em fevereiro para mais um carnaval. Infelizmente, encontrou uma Mangueira fragilizada por disputas internas e problemas policiais. Mesmo assim, o fiel cavaleiro fez o seu papel e, provavelmente, traz a 'cola no coração, como todo bom mangueirense. Publicado originalmente em Alternativa. Este é mais um texto sobre o carnaval brasileiro e o Japão. Para ler mais, clique: Tóquio -- O Maior Carnaval do Mundo Fora do Brasil O Maior Carnaval Fora do Brasil -- Asakusa Número de frases: 30 Em os Braços do Saci Pererê Realizador. Palavra usada por os cineastas quando se referem ao colega de profissão, normalmente em referência apenas ao diretor, figura central do filme. Por isso, é difícil tratar Kleber Mendonça Filho como realizador. Além de 'tar atrás das câmeras, 'te pernambucano de 39 anos também é jornalista, crítico e programador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Kleber faz parte de uma geração de jovens surgida na década de 90 no Brasil que, tendo como guia a paixão comum por o cinema, faz um pouco de tudo. Gente como, por exemplo, Eduardo Valente, crítico da revista eletrônica Cinética e premiado curta-metragista, que roda filmes com a mesma intensidade com que 'creve, participa de debates, programa exibições. Kleber, por sua vez, colabora há mais de uma década com textos para o Jornal do Commercio e, além disso, mantém sozinho, desde 1997, o profícuo Cinemascópio -- site que trata, claro, de cinema. A entrevista abaixo se detém, no entanto, à faceta de «realizador» de Kleber. Faceta muito bem representada por seus festejados curtas-metragens, entre os quais se destacam os premiados Vinil verde (2004), Eletrodoméstica (2005) e Noite de sexta manhã de sábado (2006). Este último, filmado com uma câmera digital de 1 CCD praticamente caseira, mostra a conversa por telefone de um casal: um rapaz brasileiro (Pedro Sotero) e uma menina ucraniana (Bohdana Smyrnova) separados por um oceano de sentimentos mal resolvidos. Conheci Kleber no Vitória Cine Vídeo, em novembro (onde Noite de sexta manhã de sábado ganhou o prêmio de melhor filme de ficção). Por lá, fui apresentado também ao crítico de cinema Rodrigo de Oliveira (Contracampo). Tivemos, os três, ótimas conversas. Rodrigo e eu combinamos um novo encontro, em Niterói (RJ), durante o Festival Araribóia Cine, para registrar as impressões de Kleber sobre cinema. Perguntei bastante sobre Noite de sexta ..., filme que gosto muito. Rodrigo 'tava mais interessado na obra completa de Kleber, seu objetivo era jogar luz sobre a carreira do cineasta, analisar os caminhos 'colhidos até aqui. De quebra, ainda descobrimos um pouco mais sobre os seus dois próximos projetos: o curta-metragem Recife frio e o documentário Crítico. Você 'creveu o roteiro do Noite de sexta manhã de sábado com Bohdana Smyrnova, também atriz do filme. Como surgiu a idéia do curta? Eu vivi uma série de relacionamentos à distância. O filme parte de observações pessoais sobre o processo de se relacionar com alguém à distância. Você entra num formato bem 'pecífico de sentimento, de carência. Tenta compensar faltas físicas com pensamento, idéias, maneiras de se aproximar de alguém que 'tá bem longe, na verdade. As pessoas encontram maneiras muito criativas de superar questões. Isso me interessa muito no ser humano. Lembro daquela peça Bent, fizeram um filme também. Era sobre a perseguição dos homossexuais na Alemanha. Dois caras que se amavam. Em o campo de concentração, eles eram obrigados a trabalhos duros, forçados. Paravam por dez minutos, ficavam de pé um do lado do outro, sem poder falar ou se tocar. Cochichavam e terminavam fazendo amor em pé, sem nem olhar um para o outro. Noite de sexta ... é um filme mais ou menos sobre isso. Sobre como as pessoas são capazes de subverter situações que não são favoráveis e acabam chegando a um nível de sentimento. Você rodou várias versões para algumas cenas do filme. Como foi 'se processo? E como foi lidar com a quantidade de opções na hora da montagem? Fiz seis takes da parte em que Bohdana atende o telefone. Cada um tinha um clima diferente. Em o primeiro, ela 'tava muito tímida, era a primeira vez. Em o segundo, ela 'tava mais saída, então não funcionava, não era muito 'se o clima. Cada take tinha uma energia diferente. Isso é muito 'tranho na montagem. Porque quando cortasse do Pedro e voltasse para ela poderia vir qualquer um dos seis planos. Dependeria muito do modo como Pedro falaria. Esse jogo de montagem foi muito difícil. Eu separava no Final Cut (programa de edição de imagem). «Alô feliz», «alô indiferente»,» alô triste», «alô distraído». Não dava nem para imaginar, você tinha que simplesmente dizer «é 'se». Cada corte era muito orgânico. às vezes, não tinha exatamente o que queria, mas eu ficava com o mais próximo. É uma combinação de expressões. É a grande coisa da montagem. Se o cara pega a xícara e faz isso (levanta levemente uma xícara), no próximo corte não pode de novo 'tar pegando a xícara, ela tem que 'tar aqui já (leva a xícara à boca). E a mesma coisa no Noite de sexta ..., só que em termos de expressão facial e de emoção, de achar algo engraçado ou algo triste. As cenas foram rodadas em momentos e lugares distintos (Kleber filmou em junho de 2003, em Kiev, e em setembro de 2003 e março e 2004, em Recife). Tudo num clima de aparente improviso. O roteiro era fechado? O roteiro era fechado nos diálogos. Já conhecia os lugares onde eu quis fazer o filme em Kiev. Bohdana concordava. Mas muitas vezes você passa por o lugar e o imagina da maneira que você quis imaginar. Quando você chega lá não é exatamente daquela forma. Mas os lugares, mesmo sendo um pouco diferentes quando a gente chegou para filmar, eram totalmente adaptáveis. Em a verdade, a única questão aberta eram os lugares. Tinha no roteiro «ela poderia andar até o cinema». Mas a gente não sabia qual seria a distância para ela andar até o cinema. Todos os seus filmes parecem ser sobre você. Você concorda? Tem gente que fala que Noite de sexta ... é o meu filme mais pessoal. Eu falo «não, é ilusão de ótica, porque fala de amor, acaba parecendo ser mais pessoal mesmo». Eu não acho que é o mais pessoal. Em a verdade, Vinil verde, por exemplo, é sobre a morte da minha mãe. Só porque o Vinil verde envolve o fantástico todo mundo faz «uhuuuu» (som de fantasma). As pessoas acham que é uma coisa meio de terror e, por ser de terror, já não é sério. Mas é supersério. O Eletrodoméstica é «engraçado», mas é totalmente pessoal, são observações sobre Setúbal, bairro onde moro, a rua do filme é rua em que vivo. Eu moro no prédio que aparece no filme, inclusive, no apartamento do lado. Mas o Noite de Sexta ... tem 'se 'tigma, o de ser o mais pessoal. Tem o 'tigma de ser meio metido, meio hermético, que eu não concordo de maneira nenhuma. Tem gente que não entende o filme. Eu pergunto " como não entende?" ( risos). Embora seja um filme que tem várias reações apaixonadas, tem gente que acha que é um filme que não deu certo. Dizem «que pena que o filme não deu certo». Como não deu certo? Não deu certo para você (risos). Você já disse que sempre tem medo de terminar um filme antes do tempo, ver que 'tá faltando alguma coisa ali. Perceber que ele «não deu certo». Isso já aconteceu ou você ainda gosta plenamente de todos os seus filmes? Eu gosto de todos eles. Ainda tenho prazer com todos. Não saio da sala quando vai começar algum de eles. Eu me certifico de que não vou pisar na bola durante a montagem. Em o sentido de não deixar nada para fazer. Não quero me apressar de alguma maneira. Acho importante você trabalhar no filme até se sentir bem com ele. Por exemplo. Se eu tivesse terminado Noite de sexta ... antes, ele não teria a cena em que ela chega na praia, ele liga e ela não atende o telefone. Em a verdade, eu 'tava com a câmera ligada, e Bohdana 'tava profundamente incomodada com o que a gente 'tava fazendo. Aquela imagem, na verdade, é ela incomodada com o que a gente 'tava fazendo. Eu 'tava vendo o material e achei aquela imagem muito boa, expressiva. Decidi transformar aquilo numa ligação que ela não atende. Ela não 'tava ouvindo nenhum celular. Simplesmente 'tava puta com alguma coisa. Aquilo não 'taria no filme se não fosse 'sa intimidade com as imagens, com o material. Os seus filmes são muito diferentes entre si, embora se note uma vontade comum e autoral. Há uma necessidade em experimentar diferentes registros e gêneros? Cada filme é o filme que ele precisa ser. Eu acho que cada filme tem suas próprias exigências 'téticas e narrativas. Noite de sexta ... nunca poderia ser julgado como Eletrodoméstica. Impossível fazer o filme assim. De fato, no Noite de sexta ..., era chegar num lugar e planejar na hora. Em o Eletrodoméstica não, eu já tinha o filme completamente na minha cabeça. E como lidar com o fato do filme não sair exatamente como você pensava? Para mim é muito compreensível que um filme não funcione. Esse é o meu maior medo, me preparar para um filme e ele não funcionar. E é na montagem que você vê que o filme não funciona. E se não funciona, você tenta outra coisa. Vejo muita gente fazendo filme com a certeza de que vai dar certo. Acho isso muito 'tranho. Não há nada que me garanta que ele vai dar certo. Essa possibilidade de entender que não vai funcionar é importante. Dá tempo de voltar e consertar a coisa. Todos os seus filmes contam histórias com começo, meio e fim. Em 'te sentido, há uma unidade narrativa entre eles, certo? Todos os meus filmes têm o foco narrativo. E isso eu vou continuar fazendo. Mas eu não gosto que o Deus onipresente do filme explique coisas para o 'pectador. Eu gosto que o 'pectador descubra. Um pouco como alguém que 'tá num apartamento olhando o que o vizinho do apartamento da frente 'tá fazendo. Você não sabe o que ele 'tá fazendo. Você só pode olhar e aos poucos entender o que ele 'tá fazendo. Não diria que isso é planejado, mas é algo que eu sempre quero manter no filme. Eu não quero que você 'teja vendo um cara ou uma mulher no apartamento da frente e apareça uma legenda. «Ela 'tá triste e agora vai dormir porque 'tá deprimida». Você é que vai perceber isso. A mulher 'tá chorando, então ela deve 'tar triste. Em o Noite de sexta ... o cara liga à noite e atende uma mulher de dia. Teve até sessão em que eu ouvi «pô, que coisa mal feita». Só porque o filme não disse «Kiev, seis fusos horários de diferença, onde agora é dia». E sobre exibir o filme em película. Fazer o transfer (passagem do digital para película) é uma opção 'tética? O processo joga a favor do filme ou há apenas a preocupação da obra ser exibida em festivais que priorizam filmes em película? Acho que joga completamente a favor do filme. Tem algo de «tecnomágico» que acontece no transfer. Ele dá uma dignidade por causa de todo o folclore em torno do cinema e da película, o ato simbólico de você sair da finalizadora com uma lata embaixo do braço. Isso é um fetiche, claro, mas não é só isso. É também ter uma mini-DV, que nada mais é do que uma série de imagens digitais em resolução não muito boa, que passa por um processo de finalização, de correção de contraste. De repente, de 30 quadros vai para 24 quadros, o filme ganha um batimento que você sabe que é associado ao cinema. Você poderia tentar ser bem duro e objetivo e dizer «não, o filme é um filme em qualquer lugar, no Youtube, no Festival de Vitória, em DVD», mas não é, na verdade o filme ganha alguma coisa ao se apresentar em 35mm. Uma coisa que pouca gente fala também é que ao passar para 35mm você ganha a possibilidade de trabalhar com cinco canais de som digital, o que no caso do Noite de sexta ... é importante. No entanto, você já falou que a prova maior de que qualquer um pode fazer filme foi você ter feito um com uma câmera de 1 CCD caseira ... Em um debate em Recife me perguntaram se não havia cineastas demais. Uma pergunta provocadora. Não, eu acho que quanto mais cineasta melhor. Agora, a questão é a peneira do talento, da história. Existem dispositivos na sociedade para servir de peneira, né? São os festivais, as críticas, qualquer pessoa de bom senso e que ama cinema vai falar para outra pessoa de um filme que gostou. Isso gera uma peneira. E aí as 98 pessoas que não têm talento vão aos poucos sendo trituradas por o processo. Por outro lado, alguém com algum talento vai se sobressair. O único problema de ordem prática, até agora, é seleção de festival. Eles 'tão soterrados. Um festival como o de Vitória, que é um festival médio, recebe 800 trabalhos para avaliação, um festival como o Curta Cinema recebe 2800. Isso é um problema, né? Noite de sexta ... tem os primeiros planos absolutamente fechados e, com o tempo, eles vão abrindo, até revelar o lugar onde se encontram aqueles dois personagens. Você pode falar um pouco sobre isso? Isso 'tava no roteiro já. Eu queria reproduzir uma experiência que tenho muito quando viajo. às vezes, você passa 20 horas viajando, chega num lugar à noite, pega um táxi, um monte de rua. Você 'tá cansado. Entra num prédio, pega um elevador, um anfitrião lhe recebe, você vai dormir. Ou seja, tudo fechado, né? Aí você acorda no outro dia, nove da manhã, vai na janela, abre, «uau, 'tou no Porto» ou «'tou em Porto Alegre». Aí sim você vê Porto Alegre. Eu queria justamente reproduzir 'sa sensação de viagem no Noite de sexta ... Você começa num filme todo fechado, cai de pára-quedas num cara que 'tá numa festa com uma menina conversando. Aí 'tá num bar. Está num carro. Ele 'tá numa loja de conveniência, aí ele liga para uma pessoa. Plano fechado na pessoa também. Só que aos poucos o filme vai abrindo e você vai vendo a ambiência, onde os dois 'tão. Quando você abre na cidade de ela, acho que há uma sensação, pelo menos para mim, de «'se aqui é o mundo». O filme continua bem aberto e depois começa a fechar de novo. Termina basicamente nisso aqui (enquadra o rosto), que é o plano final. Como é o trabalho de contextualizar os personagens no 'paço em que a história se passa? Eu acho muito importante conseguir localizar os personagens, saber onde eles 'tão. Você se encontrar dentro do filme fisicamente. Por exemplo, O Iluminado, do Kubrick. É inacreditável a forma como você vê aquele hotel. Você vê o hotel! Você não recebe apenas a informação, como a maioria dos filmes faz, «'se aqui é um hotel». Em o Noite de sexta ..., acho muito importante 'tar bem definido no filme a localização desses dois em relação ao mundo. Mesmo que você não saiba andar em Kiev, depois de ver o filme, acho que dá para saber o quanto ela é pequena e como a geografia 'tá separando os dois. Em o Noite de sexta ... acontece algo absolutamente inesperado e que quebra qualquer expectativa até então: quem chora no final é menina européia, teoricamente mais fria que o rapaz brasileiro. às vezes, em relações amorosas, as pessoas tendem a julgar as partes envolvidas a partir da expressão corporal de elas. Enquanto uma ri, enquanto a outra não ri, enquanto uma é capaz de demonstrar sofrimento, enquanto a outra não é capaz de demonstrar sofrimento. Em a verdade, ninguém sabe. O final do Noite de sexta ... é muito importante. O filme tinha apresentado um quadro, talvez fizesse você acreditar numa coisa, mas no final vem algo tão além do que você tinha informação para formular ... Muita gente fica chocada. Há algo de muito chocante no rosto humano completamente destruído por a tristeza. Há algo de muito real nisso. O maior medo que eu tinha era achar aquilo ridículo. Uma vozinha na 'curidão dizer «chorona». Mas parece que com aquela imagem todo mundo cruza os braços e fica bem impactado. Em a minha experiência de relacionamento à distância, todos acabaram com aquele tipo de desespero, choro, nunca nenhum acabou bem. Seria uma maneira de encerrar 'se capítulo na minha vida. Recife frio, seu novo projeto curta-metragem, conta como Recife reagiria se a temperatura da cidade baixasse. Você pode falar um pouco de ele? Em o filme, há várias observações minhas sobre o que 'tá acontecendo em Recife. É uma cidade que 'tá sendo destruída por as construtoras. Eu venho para o Rio e sempre acho aqui um exemplo mais interessante na relação cidade-pessoa, elemento humano. Recife é uma cidade muito segregada. Os ricos andam de carro, os pobres andam no centro. Os ricos têm medo dos pobres, ninguém se encontra. As ruas são desertas, os prédios são cada vez mais altos, os muros são cada vez mais altos. Quero fazer um filme sobre isso. Só que tem um elemento fantástico, Recife passa a ser uma cidade não tropical, deixa de ser uma cidade quente. Isso gera um impacto social e cultural na população. Nunca na sua história ela foi obrigada a lidar com o frio. O filme apresenta várias questões de imagem, identidade visual. A identidade artística de Recife é sol, frevo, coisas assim. Vou tentar reverter isso de alguma forma. E o seu outro projeto, o documentário Crítico? Bem, o transfer de ele ficou pronto sexta-feira (23 de novembro), aqui no Rio. É uma série de entrevistas que eu fiz durante nove anos, como jornalista, com cineastas e críticos. Acho que ele traz diversas questões que sempre me incomodaram, do ponto de vista humano, no trabalho. Porque parece que as pessoas passam por cima disso como se fosse a coisa mais natural do mundo, mas para mim não é natural. Claro que o filme enfoca a tensão 'sencial que existe entre aceitação e rejeição, de ambas as partes. Mas boa parte do filme é dedicada à questão pessoal, realmente, relacionamentos também baseados em aceitação e rejeição, mas pergunto como isso rege o sentido de valor dentro da produção artística, da produção industrial. São mais de 70 entrevistados, e é um filme extremamente cru. É gente falando. E é um longa, tem 75 minutos. Tem alguma coisa de imagens de arquivo, todas baixadas da internet, do archive. org, da Biblioteca do Congresso americano, domínio público total. Baixei um monte de imagens e me reapropriei de 'sas imagens em contextos diferentes, que de certa forma ilustram certos temas. Toda vez que termino um filme eu passo por uma fase bem dolorosa, de não saber o que será desse filme, para que serve, alguém vai querer ver isso? Mas por o que percebi, quem gosta de cinema e se interessa por os filmes, por as pessoas que fazem os filmes, por as pessoas que vêem os filmes, terá muitas observações pessoais para serem feitas sobre 'sa relação. E quem você entrevistou? Tem críticos franceses do Cahiers du Cinéma, do Positif, do Télérama, do Inrockuptibles, tem de Nelson Pereira dos Santos a Reichenbach, a Gus Van Sant a Samuel L. Jackson, Walter Salles, João Moreira Salles, Curtis Hanson, Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, Paulo Caldas, muita gente. E fazia sempre a mesma pergunta? Sim, a mesma pergunta, que levava a perguntas diferentes para cada um de eles. Alguns se mostravam profundamente desinteressados por qualquer pergunta relacionada ao tema e, mesmo desinteressados, começavam a responder compulsivamente. Alguns se mostravam muito interessados, e não falavam nada com nada. Alguns nem queriam falar sobre o assunto. Mas as perguntas encontravam muita paixão. Em determinados casos, que você poderia até prever, muito rancor, muita raiva da crítica. Cineastas até que você não suspeitaria, tipo Gus Van Sant, que fala com muita ironia da crítica. E como lidar com o seu 'pírito de crítico quando você realiza um filme? É terrível 'sa pergunta. Acho que a maior utilidade de um 'pírito crítico é ajudar a descobrir, antes do filme ficar pronto ou durante o processo de realização, onde é que ele se localiza na produção de obras daquele tipo. Tudo isso por meio de uma bagagem histórica de filmes que você já viu. Se a pessoa tem bom gosto e algum talento, tem como tentar uma mistura, uma mixagem para que não se constranja tentando fazer isso. Em o final das contas, o senso crítico me faz fazer filmes, de uma maneira muito egoísta, para a minha satisfação. Claro que quero que o filme seja visto por muita gente, mas eu não posso pensar em agradar determinada parcela. Acho que tenho que fazer um filme que seja totalmente verdadeiro. Em a verdade, 'se é o 'quema. Completamente verdadeiro, honesto. Tudo o que fiz é uma representação bem honesta de mim mesmo. Todas as pessoas tentam fazer isso? Eu não sei. A impressão que eu tenho vendo cinema, lendo livros, críticas e textos de jornal é que elas não fazem isso. Se elas fazem, elas não 'tão fazendo bem. Os bons para mim fazem. Número de frases: 281 * * * Veja aqui filmes de Kleber Mendonça Filho. De mão cheia -- literalmente -- o Lado [R] prepara o lançamento da sua quinta edição, promovendo uma grande festa, dia 23 de março (sexta-feira), a partir das 22 h, no Dosol Rock Bar, na rua Chile, Ribeira. Além da distribuição gratuita dos fanzines, a festa promete uma noite de muito rock ´ roll com as bandas potiguares Bugs, Deadfunnydays e Bonnies. E ainda um arsenal de músicas bacanas durante a discotecagem no intervalo das bandas -- variando do rock mais pedrada, até a chapação de uns dub roots jamaicanos! Para participar de 'sa celebração não custa nada! Basta os interessados buscar o convite na Livraria Limbo [av. afonso pena, 666, tirol. o telefone de lá é o 3201 9416] ou na Velvet Discos [av. hermes da fonseca, 1163, tirol. E o telefone é o 3084-5890] para garantir seu fanzine e uma noite divertida. :: Que lado é? Formado em 2005, por os 'tudantes universitários Leandro Menezes, Dimetrius Ferreira e Rafael F, o Lado [R] vem ganhando colaboradores e apoio. Festival Mada, DoSol Rock Bar, Livraria Limbo, Velvet Discos e os selos Xubba Musik, Mudernage e Solaris são alguns nomes que 'tão apostando em 'ta que é a única publicação alternativa do tipo no Estado, que vem movimentando o cenário alternativo-cultural local. Sempre abordando temas relacionados à arte, cultura, música, quadrinhos e entretenimento em geral, a 5ª edição do Lado [R], traz um conteúdo significativamente mais maduro do que as anteriores: um texto sobre o artista visual Falves Silva; um papo descontraído com a banda DuSouto (RN) e Snooze (SE); uma entrevista irreverente com o grupo Delinqüentes (PR), a literatura do misterioso Moura Filho, além da revelação do quadrinhista Jasen Baracho, de Acari (RN). Além de 'sa publicação impressa, o Lado [R] extendeu seu campo de atuação para outras mídias. Lançamos há alguns meses atrás, de forma «proposital», uma split tape [isso mesmo, a velha fita cassete!] com as bandas Deadfunnydays [RN] e A Sangue Frio [BA]. Também criamos um blog [www.ladorsemcolchetes.blogspot.com], que tem funcionado como válvula de escape para alguns dos nossos editores errantes. Acessando nosso blog, você pode achar informações sobre 'sa tape, além de otras cositas mas. Fica aqui o convite para você ir no nosso 'paço virtual dar uma conferida no que anda rolando por lá! Expediente: :: Festa de lançamento da 5ª edição do Lado [R]:: Dia 23/03 -- DoSol Rock Bar -- 22h Bonnies + Bugs + Deadfunnydays + Lado [R] eefers sessions Entrada: Grátis! Basta ir até a Limbo e / ou Velvet Discos e garantir seu convite! Número de frases: 27 Quando as luzes do cinema se apagam e a tela dá lugar ao universo mágico da sétima arte, o caminho percorrido por o filme para chegar ali muitas vezes é abstraído. No entanto, é preciso conhecer determinadas etapas de 'ta produção para assim, entender melhor o produto que será consumido. Tanto nas salas no sistema UCI, que reinam soberanas no Recife, por exemplo, como em salas de grande parte dos festivais nacionais, os filmes são exibidos através de projetores de película. Isso significa que a distribuidora teve que transportar rolos de filmes, de forma caríssima para que ele chegue até você. Sem contar que a vida útil de um filme em película tem data de validade. Com cerca de 160 exibições o filme vai para a lata do lixo, literalmente. Mas com o advento do cinema digital 'ta realidade 'tá mudando. Há cerca de três anos foi inaugurado no Brasil um projetor digital que vem para baratear os custos e, como comemoram alguns cineastas, «democratizar o cinema». O país já têm cerca de 270 salas com o projetores digitais e o aparelho custa aproximadamente R$ 150.000,00, uma bagatela se comparado ao preço do projetor analógico. A exibição digital é realizada através do sistema Kinocast, um sinal emitido via satélite. Ou seja, para realizar uma exibição basta uma conexão de internet de banda larga e o aparelho. Isso pressupõe que as distribuidoras não precisam mais gastar dinheiro de rolos e rolos de filme. Outra vantagem é quanto à qualidade; não importa a quantidade de vezes que o filme será exibido a qualidade permanecerá intacta, diferente com o que acontece com os rolos de película, que se deterioram com o tempo. O gerente de atendimento da empresa que tem 'palhado 'ta tecnologia por o país, a Rain Network, Cacá de Carvalho, endossa que o cinema vive, de fato, uma nova fase. Para ele, antes, existia certo receio em relação à distribuição de filmes. Agora, com o barateamento, 'te medo é bem menor. Segundo Cacá, o mercado também vive uma mudança tanto em relação à divulgação ('ta não precisa mais se concentrar em meios de comunicação de massa), quanto à 'colha dos nichos de exibição. «Os cineastas agora têm uma maior liberdade em relação ao foco da distribuição, que poderá acontecer de maneira descentralizada e ir de encontro ao público-alvo; distribuir não significa mais dar um tiro no 'curo. Para Cacá: «A exibição em película tende a se extinguir, temos tido uma receptividade muito boa em todo Brasil do sistema digital e a expectativa é conquistar 'paços cada vez maiores». Em o Recife, a primeira sala a adquirir o aparelho foi o cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). O coordenador do cinema da Fundaj, Luiz Joaquim explica que eles resolveram comprar o projetor prioritariamente porque baratearia o processo de exibição, mas não aposentamos o projetor de película. «Hoje em dia a exibição é dividida: metade dos filmes são exibidos em digital e a outra metade em película; pois muitas distribuidoras ainda trabalham com a mídia analógica», afirma o coordenador do cinema da Fudaj. Outro fator que influenciou a compra do aparelho foi o fato de várias produtoras de filmes independentes realizarem cópias apenas para distribuição digital. Luiz Joaquim afirma que filmes como O Sabor da Melancia de Tsai Ming Liang, só chegou no Recife através da sala da Fundação pois era a única com a tecnologia. Luiz Joaquim também acredita que a película terá vida curta. Para ele é uma questão de cinco ou dez anos para que seja extinta. «Se a película permanecer será apenas como símbolo de nostalgia». Segundo Luiz, a recepção do público é positiva. «Até então não 'cutei nenhuma crítica vindo do público, algumas pessoas até elogiam o digital, acreditam que a luminosidade forte seja uma qualidade». O cineasta Tiaraju Aranovich que lançará o filme Sem Fio apenas em digital através do sistema Kinocast afirma " as tecnologias digitais 'tão avançando de forma vertiginosa, e o cinema deve tirar proveito total disso, o que somente será possível através da exibição digital. Em poucos anos, veremos projetores digitais com qualidade de imagem jamais vista, tudo isso com a vantagem dos custos reduzidíssimos». Tiaraju se considera um militante do cinema digital e defende 'ta nova fase do cinema com unhas e dentes. Para ele, a produção fílmica brasileira tem sido prejudicada por a política de alguns festivais. Tiaraju acusa: «A exigência da película por parte de festivais é um obstáculo tremendo para muitos cineastas. É financeiramente impraticável para um cineasta independente custear o processo de transferir um filme feito digitalmente para película 35mm». Para um cineasta que 'tá começando é, de fato, um entrave 'ta exigência destes festivais. O processo de transfer de um filme de digital para película não custa menos que R$ 1.000,00 mil reais por minuto. O diretor faz uma crítica férrea a 'tes festivais que exigem que os cineastas entreguem uma cópia em película: «São festivais extremamente conservadores e elitistas que insistem em não acompanhar a evolução artística e tecnológica mundial. São retrógrados. Acredito que o critério para se entrar ou não num festival deveria ser a qualidade do filme, e não se ele foi rodado em película, vídeo ou seja lá o que for. Uma boa música não deixa de ser boa se 'tiver gravada em CD». Já em relação à substituição dos projetores de película por os digitais, ele também acredita que seja uma questão de tempo. «Os fabricantes de película já 'tão oficialmente anunciando o término da produção dos rolos. Além disso, o próprio mercado consumidor vai passar a exigir a tecnologia digital, e quando isso acontecer em larga escala, a transformação será acelerada." Apesar do barateamento tanto na produção quanto na distribuição o coordenador do cinema da Fundaj, Luiz Joaquim, acredita que isto não será necessariamente refletido no custo dos ingressos. Ele defende que o preço não é determinado por o exibidor, e sim, por o distribuidor. «Os ingressos do cinema Multiplex são caros, pois existe um acordo entre a rede UCI e algumas distribuidoras para tal. Portanto, se 'tes exibidores mudarem a exibição é provável que o preço não abaixe». Luiz ainda afirma que a Fundação recebe críticas constante dos distribuidores acerca do preço do ingresso, que relacionados aos preços cobrados nos demais cinemas da cidade é pequeno. No entanto, com o barateamento da produção, a quantidade de produtoras e distribuidoras tende a se multiplicar e o monopólio que hoje existe acerca da produção e distribuição de filmes pode ser dissipado com o tempo. Uma vez inseridos na indústria cinematográfica, as produtoras independentes poderão ditar as rédeas do mercado, inclusive o preço dos ingressos. Para Tiara " ideologicamente falando eu sou um defensor e militante do cinema digital. Acredito que a arte deva 'tar ao alcance de todos. Não gosto de arte elitista, que é feita por poucos e para poucos. A arte deve chegar a todos os lugares, deve ser praticada, realizada, vivida e vista nos quatro cantos do mundo, e a digitalização cinematográfica vem diretamente ao encontro de 'sa ideologia, é a democratização máxima da arte. Número de frases: 62 O advento do cinema digital é o maior acontecimento na história do cinema desde o advento do som». Pesquisando os colégios em que 'tudei, em função do livro colaborativo de reminiscências 'colares que nós 'tamos editando, descobri um movimento arquitetônico-pedagógico inspirado nos ideais de Anísio Teixeira * que ocorreu do final dos anos quarenta até meados dos anos cinqüenta. Falo do «Convênio Escolar» em boa hora assinado entre o município de São Paulo e o governo do Estado, e que possibilitou à capital paulista dotar-se de inúmeras e modernas 'colas públicas mas não apenas 'colas: teatros de bairros, bibliotecas e mesmo o, até hoje, moderno e charmosíssimo Planetário, localizado no Parque do Ibirapuera. É muito importante salientar que o grupo de jovens arquitetos que trabalhou no Convênio revolucionou o uso do 'paço público na capital paulista. Assim sendo, não podia deixar de fazer as referências acima, mesmo não sendo 'se o objetivo da minha conversa. Elas servem, também, para situar os leitores no 'pírito em que foram embaladas as reflexões abaixo desenvolvidas. Corria o ano da graça de 1954, o primeiro da minha vida em que eu tive consciência de que o mundo em que 'tava era muito maior e mais complexo do que o acanhado mundinho das nossas brincadeiras infantis. Foi no seu decorrer que tive o primeiro contato com a morte, aliás o primeiro e o segundo, contatos 'tes que fiz, de certa forma, balizado por as atitudes da minha avó materna. A primeira de elas do o meu avô, por infecção generalizada a partir da perna gangrenada. Quando eu nasci, ele já se encontrava inválido em conseqüência do Mal de Parkinson e, por isto, não tive quase nenhum contato com ele. Mesmo assim, chorei copiosamente a sua morte, enquanto a minha avó ostentava uma postura bastante conformista e resignada diante da morte do marido. Poucos meses depois, em agosto, ocorreu o suicídio do presidente Getúlio Vargas e aí minha avó debulhou-se em lágrimas. Ainda posso vê-la segurando, com seus dedinhos tortos por o reumatismo, um de seus lenços, sempre perfumados, e olhando, inconformada, para a radio vitrola da nossa sala de estar. Durante muito tempo não consegui entender 'tas atitudes, para mim tão pouco coerentes, da minha avó Bebéia, como meu pai chamava a sua sogra (e prima irmã). Aquele ano, em que, em novembro, eu completei sete anos, foi também o meu primeiro ano do curso primário, que conclui no grupo escolar «Professor Pedro Voss, 'cola inaugurada durante a vigência do Convênio (1952)» e cuja porta de entrada se localizava bem defronte ao portão da minha casa. Por isso mesmo eu chegava quase sempre atrasado durante os cinco anos que 'tudei lá (de 1954 a 1958). Embora não possa avaliar a importância disso para a minha vida, foi em 1954 que meus pais adquiriram a nossa primeira TV «Admiral». Abro aqui um parêntese para uma curiosidade: pesquisando no Google, queria encontrar imagens de antigos aparelhos de TV. Coloquei na Busca «Aparelhos de TV antigos» e só vieram poucas imagens nada a ver com o que eu desejava. Tentei «Museu da TV» e, por favor, não contem nada para elas, apareceram imagens da Hebe Camargo e da Eva Wilma. Aí tentei «TV Admiral» e o mundo das tvs valvuladas se abriu para mim. Mas, voltando ao passado ano de 1954: nossa tv nos possibilitou acompanhar, na tela, o Campeonato Paulista de Futebol, narrado por Raul Tabajara e comentado por Paulo Planet Buarque, a disputa da taça Rio-São Paulo, o Circo do Arrelia no domingo depois do almoço (na recém implantada TV Record). Lembro-me da felicidade do meu irmão comemorando o título de «campeão do Centenário», conquistado brilhantemente (pelo menos era o que diziam) por o Corínthians. Se meu irmão soubesse que iria comemorar, de novo, o título de campeão paulista somente 23 anos depois teria, certamente, comemorado muito mais! A o dar 'te mergulho no passado, eu não poderia 'quecer da Martha Rocha, eleita Miss Brasil 1954 e, a partir daí, símbolo da beleza da mulher brasileira. Não por nenhuma paixão precoce de minha parte, mas por referências a ela feitas por outras pessoas. O pai de um amigo de infância e adolescência, sempre que a gente dava uma brecha, adorava contar, com o maior orgulho, que tinha, imaginem, cedido " o meu braço para que a Miss Brasil se apoiasse em ele quando ela veio visitar a Bienal de São Paulo por conta das comemorações do IV Centenário. E, num gesto característico, passava a mão direita sobre o braço 'querdo dizendo -- «Só de lembrar eu fico todo arrepiado». Algumas vezes, lamentava -- " Pena que ninguém fotografou!" Quando comecei a 'crever 'sa colaboração, uma das coisas que deu vontade de falar foi sobre a Chuva de Prata que fizeram cair sobre a capital paulista nas comemorações dos seus quatrocentos anos. Não vi a chuva caindo, mas lembro de ter visto, na época, várias pessoas com «pingos de prata» nas mãos. Depois de muito procurar, consegui encontrar, pelo menos, uma menção da tal chuva. E para finalizar a Sessão Nostalgia reproduzo aqui um trecho do editorial da Revista Oficial comemorativa dos 400 anos da cidade que, ainda, não era SAMPA. «O sinal 'tá aberto. O tráfego livre ... E na nossa frente, 'tende-se o São Paulo dinâmico e babélico, que exibe, firmada por Anchieta e Nóbrega, tendo a testemunhá-la o português João Ramalho e o cacique Tibiriçá, originalíssima certidão de nascimento em que se lê a sua idade provecta: 400 anos! E enfeitiçando tudo os arranha-céus colossais, sombrios monstros de cimento armado, as sujas chaminés das fábricas e das usinas eternamente a cachimbarem um fumo negro, e, por as ruas e avenidas trepidantes, nos 'critórios e oficinas, como num autêntico formigueiro humano, os 3 milhões de paulistanos labutam, atanazados com os negócios, testa vincada, preocupados com o trabalho de cada dia ... Em 'ta hora, significantemente patriótica, sobremodo expressiva, festas fora do comum reboam e tôda uma população vibra de entusiasmo, nas comemorações sem par de uma efeméride memorável: quatro séculos de existência bem vivida da metrópole agigantada». ( Trecho do editorial da Revista do IV Centenário de São Paulo, publicação oficial dos 400 anos da cidade, publicada em 1954 por a Editora " Abril). * " Em meio aos conflitos e contradições brasileiras, nascidos da oposição permanente de forças residuais às veleidades de crescimento e progresso do país, a nova arquitetura brasileira constitui uma exceção por a amplitude do apoio que vem recebendo e por o ímpeto e continuidade de suas realizações. [ ...] Que caracteriza, porém, a arquitetura brasileira para que 'tejamos a fazer afirmações desse porte? Nada mais, e também nada menos do que 1) uma singular libertação de velhas formas mentais, 2) uma corajosa adaptação das antigas e novas funções dos prédios aos recursos novos e novas técnicas da construção e 3) uma confiança lírica na capacidade do homem de resolver os seus problemas. Mas que outros característicos deviam marcar a ação do homem que, em 'tes meados tormentosos do século XX, se deparasse com um continente a conquistar e todo um país a construir? Não seria, assim, 'sa arquitetura como um presságio das forças latentes do país?" «Anísio Teixeira, «Um presságio de progresso», Número de frases: 49 Habitat, no. 4, 1951 Reminiscências de 'cola Em o ano em que entraria na 'cola primária morava eu na Vila do IAPI em Porto Alegre. Em o Carnaval, em 1959, ainda era um tempo em que brincávamos na rua de jogar uns nos outros o que candidamente chamávamos de lança-perfume, uma água colorida resultante de imersão de papel crepom, e de usar máscaras de papel presas na cabeça por fios de borracha. Éramos diabos, piratas, monstros ... Corri mascarado para 'capar de um jato desses, o tal de sangue de diabo. Cai gritando de dor. Meninos pobres andavam descalços. Eu fincara algo no pé. Mãe e pai trabalhavam fora. Maria do Socorro, minha irmã ano e meio mais que eu levou-me para casa, me pôs dentro de um tanque e ficou horas a limpar meu pé sujo de moleque e 'fregar chorando e nervosa um sangue que não coagulava a 'correr por o ralo com água corrente. Resumo da ópera: 45 dias de hospital, quase tive a perna amputada, uma romaria de Milton, meu pai, e Maria de Lourdes, minha mãe, para tentar tratamento. Bem, sistema de saúde é outra reminiscência. Vamos falar de educação. Em 1960 cheguei ao 1º ano do Curso Primário do Grupo Escolar Dolores de Alcaraz Caldas. Guarda-pó branco, laço de fita azul-marinho da mesma cor das calças curtas. Meias brancas até metade da canela. Meu primeiro par de sapatos preto. Solas grossas de borracha, um brilho só, nos pés e nos olhos. Todos formados no pátio à porta da 'cola. As bandeiras do Rio Grande e do Brasil sendo hasteadas, ouvi pela primeira vez ao vivo o Hino Nacional cantado por os colegas das turmas mais avançadas. Tudo era novidade. O prédio parecia enorme, sobre uma praça, na rua Umbu, no Passo da Areia, em Porto Alegre, ao lado de uma imensa caixa d' água. Passo por ali hoje e não a vejo tão grande assim. Os dois módulos em madeira, do tipo que ficou conhecido no Rio Grande como Brizoleta, desapareceram. A 'cola foi mudada de local. De o grupo escolar, recordo que tínhamos cooperativa, indução à formação de cadernetas de depósito populares, de um tal de Banco Expansão, depois de um outro chamado Banco Agrícola Mercantil e da recém-fundada Caixa Econômica Estadual (gaúcha tostão por tostão), um banco público de depósitos populares fechado em 1998 por o governo neoliberal que também privatizou energia elétrica e telefonia, que Brizola 'tatizara quando governador do Rio Grande do Sul. Nunca soube se o incentivo das crianças ao sistema resultara em algum tipo de auxílio à educação pública. Poupadores, no entanto, ajudam muito a bancos, sei hoje. Em a cooperativa 'colar, aprendíamos regras de 'toque, comercialização de material 'colar, as primeiras noções sobre cotas de participação, débito e crédito. Isso já era por o terceiro e quarto anos, que dos dois primeiros eu não recordo de muita coisa a não ser dos recreios e das aulas de educação física no pátio de areão vermelho. E de uma coleguinha que insistia: cópia, Adroaldo, cópia! Cecília cobrava disciplina de mim, me 'timulando a 'crever no caderno, a lápis bem apontado com lâmina de barbear, que apontador era produto de luxo antes da era do plástico. Ruivinha, com sardas no rosto, Cecília talvez fosse de origem polonesa ou alemã, nunca soube, e eu relevava ela acentuar a palavra como proparoxítona e não pronunciar copia. E obedecia ao comando. Tínhamos no Dolores um sistema de líder de turma, por eleição ao início do ano, e de melhor companheiro, por votação ao final do ano. Todos os melhores amigos de cada turma iam a uma cerimônia promovida por um clube privado de serviços em que encontrávamos os congêneres de toda a cidade. Quando fui, o ato solene aconteceu no Instituto de Educação general Flores da Cunha, um prédio de alvenaria 'tilo neoclássico, enormes colunas à entrada por 'cadarias, anfiteatro parecendo imenso em que apresentamos peças de teatro e programas musicais e recebemos diplomas. Lá funcionava a Escola Normal. Lá se formavam professoras para lecionar o primeiro grau. Faziam no Dolores a 'colha de melhor composição (como chamávamos as redações da disciplina de Linguagem) para o Dia da Árvore. A minha da 3ª série foi 'colhida para leitura em cerimônia pública. Os colegas todos, mães de muitos de nós, alguns poucos pais, professoras, funcionárias e até visita de fora teve. Pouquíssimos homens. A 'cola primária era um universo governado e acompanhado por as mulheres também no Rio Grande. Eu tremia, mas li. Gostei dos aplausos, fiquei um pouco envergonhado e acho até que me agarrei na saia de minha professora, a Maria Beatriz Tricerri. Maria Beatriz foi que mandou o único bilhete do meu primário por a caderneta para chamar minha mãe na 'cola. Alvoroço em casa. Mamãe não conseguia atinar sobre o que se passara. Eu era um menino obediente, ela dizia. Nunca havia acontecido sequer de brigar na 'cola ou na rua com repercussão em casa. -- Se apanhar na rua, apanha em casa também, eu ouvia de mãe e pai. E não entrem chorando aqui por briga. Que seria? Eu não sabia dizer. Maria Beatriz era 'tagiária. Substituía Norma Brochado. Essa, além de nossa professora, era diretora do Dolores. Saíra nas férias de inverno para ganhar neném. Mamãe e Maria Beatriz conversaram no pátio. Quando fui chamado, mamãe perguntou do seu modo sempre doce, mas naquela hora grave, se eu não gostava da professora. Quase caio sentado na frente das duas. Era uma suspeita de Maria Beatriz a respeito de minha conduta para com ela em sala de aula. Explica-se: Norma era já veterana. Com apenas o olhar severo em direção de uma fala fora de hora já garantia o silêncio de toda a turma. Maria Beatriz várias vezes se deixava levar por a turma do fundão, que aumentara sob comando de ela. Eu não gostei daquilo. Era líder de turma. Disse a ela uma vez que ficava difícil ser líder com aquela conduta de ela. Também repeti para mamãe na frente da professora. De ali em diante nos falamos sobre tudo. Ficamos bons amigos. Mamãe em casa perguntava de quando em vez como ia «a Beatriz», porque Maria era ela, por óbvio. Foi ao final da terceira série que a eleição da turma de Maria Beatriz Tricerri indicou-me melhor companheiro. Aprendi com Norma e Maria Beatriz que há distintas possibilidades de comandar um grupo. Também aprendi Matemática, Português, História, Geografia ... Em a 5ª série, todos 'tranhamos muito que, poucas semanas após o início das aulas, o Dolores fechou para atividades 'colares por mais de duas semanas. Era o ano de 1964, em que concluiria o Primário e faria o famigerado Exame de Admissão para o Ginasial. Número de frases: 81 Desde setembro de 2005 artistas de vários segmentos em Boa Vista (RR) contam com um 'paço itinerante onde podem expor seus trabalhos. Trata-se da «Praça dos Artistas», uma feira cultural que percorre 14 praças e 'paços comunitários da cidade nos finais de semana. A primeira temporada do projeto aconteceu de 16 de setembro a 17 de dezembro de 2005 com grande aceitação dos artistas e da comunidade. Em a ocasião participaram 30 grupos entre capoeiristas, dançarinos, grupos folclóricos e de teatro, além de contadores de histórias, palhaços, cantores e mais de 25 artesãos. Em janeiro de 2006 o projeto passou por algumas modificações incluindo o Festival de Calouros (um projeto da Guy-Bras Produções) em suas atividades e atraindo um número significativo de pessoas interessadas em mostrar seu talento musical. Em 'ta temporada, devido à grande procura por parte dos artistas locais o projeto precisou disponibilizar mais 'paço para as atividades, duplicando o número de apresentações e dando mais destaque à comercialização do artesanato regional. São shows musicais, peças de teatro e as mais inusitadas manifestações culturais. Para as crianças, tem Feira Cultural Infantil com palhaços, oficinas de brinquedos, pintura e mímicos. A programação infantil garante que um grande número de famílias compareça para trazer suas crianças. Em o evento, é montada uma pequena feira com barracas de comidas típicas da região Norte, além de quitutes e doces variados. Em a mesma feira, podem ser encontrados artesanato, peças em crochê, bonecas e bichinhos em tecido, lã ou biscuit além de peças confeccionadas por indígenas de diferentes etnias de Roraima. O artesão Átila Azevedo produz peças de madeira entalhada. Para ele, o projeto é importantíssimo para a cultura regional. «Muitas vezes nossos artesãos não têm onde mostrar seu trabalho. Aqui temos um local de boa circulação para expor. O projeto ajuda muito na divulgação do nosso trabalho. Isso para não falar na questão da geração de renda. O público tem correspondido e minhas vendas aumentaram», comemora. Segundo Zanny Adairalba, diretora da Divisão de Artes da Fetec (Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura), ligada à Prefeitura de Boa Vista, o objetivo da Praça é despertar maior interesse da população por a cultura regional. «Para isso procuramos concentrar no mesmo evento diferentes expressões artísticas como música, teatro, artesanato, entre outras. Assim, conseguimos reunir mais pessoas com interesses distintos e que agora têm a oportunidade de ver outras vertentes artísticas», conta. O primeiro passo do projeto foi um amplo cadastramento dos artistas da cidade realizado por a Fundação, que publicou anúncios em jornais convidando todos aqueles que desenvolvem qualquer tipo de arte para se cadastrar. Hoje, o projeto envolve mais de 100 profissionais entre músicos, artesãos, atores, técnicos e pessoal de logística. Com o cadastro em mãos, a Fetec 'treitou a relação com os artistas, o que facilitou o apoio à classe. A Fundação fornece a 'trutura para as apresentações e para a Feira de Artesanato, além de fazer a divulgação por meio da Assessoria de Comunicação da Prefeitura. Em a última edição do projeto, a banda Yekuana foi uma das atrações musicais. Apesar da maioria de seus integrantes terem vindo de bandas de rock, eles evitam rótulos. «Procuramos a diversidade musical em nossas composições», conta Rhayder Abensour, guitarrista da banda. «Gostamos muito de participar da Praça dos Artistas. A 'trutura permite boa interação com o público. O projeto 'tá antenado a novos nomes de todos os 'tilos, mas com uma coisa em comum: o talento. Para mim, o grande barato da Praça é 'sa diversidade de gêneros e 'tilos». Número de frases: 33 Há muito Fabrício Carpinejar deixou de ser poeta. Outrora, Carpinejar era o 'pírito das aves; depois, tornou-se homem. Agora, enquanto passa bailando o tango dadaísta da obscenidade, com o cadáver solto da poesia entre os braços, Carpinejar sou eu mesmo. «O amor 'quece de começar», digo, mas 'queço de dizer, e por isso as crianças o perseguem a pedradas. Carpinejar apenas sorri, complexamente. Brande seu cajado de dentes póstumos, ameaça ferir-me com silêncios, mas logo desiste, para que Marcelo Noah ligue o gravador. Então, ele deixa 'capar alguns coloridos retalhos sintáticos, dos quais apenas o vento consegue extrair algum significante 'tável. «É preciso roubar para não ganhar», foi o que eu li em sua dança, e os meus lábios, desde então, definitivamente perderam a cabeça. Fabio Godoh: O senhor se leva a sério como poeta? Fabrício Carpinejar: Bem, na minha opinião, poeta sem auto-ironia é poeta morto. Ou seja, é alguém que deseja virar busto! E busto é muito fácil de fazer. Difícil é fazer um livro. Sabe Godoh, eu acho que os livros devem sempre conter muita bobagem, muito humor, enfim, muita vida. Não adianta 'crever bem, pois isso qualquer um faz. Como poetas, temos a obrigação de cultivar nossas imperfeições, porque só elas são capazes de cativar as pessoas. Só a imperfeição leva ao desconhecido ... A poesia, Godoh, é um pânico alegre! Não basta apenas roubar: é preciso cometer latrocínio! Marcelo Noah: Qual é o autor que o senhor deixou boiando no Guaíba 'ta semana? Fabrício Carpinejar: Eu mesmo! Só em 'te ano, Noah, já me matei umas sessenta vezes! E o pior é que jamais consegui ressuscitar! Fabio Godoh: A poesia é uma aventura planificada ou uma aventura danificada? Fabrício Carpinejar: Aventura planificada é aventura para turista. Poeta não segue roteiro. Ele sempre é caótico, e se aventura no próprio corpo. E os danos que se danem! Marcelo Noah: O senhor considera que o lugar da poesia é na gaveta ou na calçada? Fabrício Carpinejar: Em a calçada! Poesia é como jogar xadrez com tampinhas de garrafa! É algo que deve ser lido com o corpo, entende? A poesia é capaz de determinar a umidade! Eu considero que a função da linguagem é ajudar o leitor a se perder! E eu, como todo ser humano, também não quero me encontrar! De jeito nenhum! Em a hora em que eu me encontrar, 'tarei morto! Poesia é troça, bravata, enfim, é eletrochoque! E digo mais: o verdadeiro poeta deve ser um sujeito completamente fracassado, pois só assim poderá se reinventar. Por exemplo, Godoh, pode parecer incrível, mas as pessoas só me olham na rua quando eu caio! E é por isso que eu caio! Porque entendo a poesia justamente como um grande tropeço. Fabio Godoh: A poesia, então, na sua opinião, é ferir para não fenecer? Fabrício Carpinejar: Bem, eu acho que tu já fez o poema! Quer que eu te elogie, né?! Fabio Godoh: Não, obrigado. Bem, em outra conversa, o crítico Affonso Romano nos dizia que, sem disciplina, mesmo os mais talentosos poetas acabam se diluindo no oceano das paixões. O que o senhor pensa sobre isso? Fabrício Carpinejar: Por acaso o Affonso comparou o poeta a um Sonrisal?! Marcelo Noah: O senhor não se arrepende de ter 'colhido a profissão de poeta e não a de popstar? Fabrício Carpinejar: Olha, eu não me arrependo simplesmente porque acredito que o poeta é um popstar! Fabio Godoh: Como o senhor avalia a relação de ódio entre os 'critores e os poetas? Fabrício Carpinejar: Eu acho que se trata de uma salivação involuntária. Não é possível ser educado sempre! Por isso eu digo que o bom mesmo é falar mal por as costas! Essa história de transparência é balela! Nós somos opacos! Caso contrário, a vida não teria nenhuma dramaticidade! Imaginem se todo mundo soubesse os meus segredos ... Que graça teria a minha poesia? Fabio Godoh: O senhor vê alguma virtude no excesso? Fabrício Carpinejar: Sim, Godoh ... O excesso é tudo aquilo que as pessoas chamam de amor ... Um cara apaixonado é incontrolável! É o que eu sempre digo: basta um casal de apaixonados para que o bar 'teja lotado! Eles se chupam, se beijam, é um despudor maravilhoso! Fabio Godoh: O senhor acha que a mulher é a contrapartida da reflexão abstrata que leva ao niilismo e ao suicídio? Fabrício Carpinejar: Bem, eu acho que a mulher não precisa ser tão sublimada assim. Ela já faz a sua parte sozinha. Em a verdade, ela nem precisa da gente, e é isso que nos atormenta. Mas o importante é que a trepada sempre começa com a linguagem. E são as primeiras palavras que determinam se vai ser boa ou não. Godoh, tudo é verbo! Mas o sexo nos abençoa com a ignorância. Olha, eu não sou o tipo de cara que depois do gozo acende um cigarro e reflete sobre o que aconteceu ... Número de frases: 99 Eu quero mais é fazer de novo! É inacreditável, mas mesmo diante da realidade atestada por recentes pesquisas que apontam que em cada casa tem em média dois a três receptores de rádio, ainda existem políticos e alguns de seus assessores diretos que não dão a devida importância para 'te fascinante meio de comunicação de massa. Aliás, nada melhor do que realmente caracterizá-lo como de massa, aqui entendido sob dois aspectos, o quantitativo e o qualitativo. Não! Calma, não 'tamos falando de pesquisa. É de rádio mesmo. Uso aqui o quantitativo na relação com «massa» para chamar a atenção para o fato de que hoje são 3.421 emissoras de rádio 'palhadas por todo o território nacional, segundo o Ministério das Comunicações, atendendo aos locais mais distantes, muitos dos quais desprovidos do sinal de televisão. O qualitativo é utilizado para destacar o fato de que as «massas», numa acepção popular, têm no rádio um meio de amplo uso, já que ele atinge de forma mais direta as populações de baixa renda e a juventude. Aliás, aqui vale abrir parênteses para um questionamento: que parcelas do eleitorado realmente são capazes de decidir uma eleição? O Brasil tem um dos mais altos índices de analfabetismo do mundo -- 22,8 milhões de brasileiros, o que corresponde a 13,8 % da população com mais de 15 anos de idade. Por os dados do IBGE, além dos analfabetos propriamente ditos (ou absolutos), que não sabem ler nem 'crever, existem 30,5 % de analfabetos funcionais, aqueles com menos de quatro anos de 'colaridade. O rádio, é bom que se diga, é o único meio de comunicação de massa que efetivamente não exige alfabetização do receptor. Um instrumento de comunicação assim deve ser considerado com respeito e profissionalismo em qualquer projeto de construção de imagem de um político com um mínimo de discernimento. Ninguém questiona que a televisão é o meio de comunicação número um, quando se fala em propaganda política no pleito eleitoral ou mesmo no aproveitamento dos 'paços «gratuitos» (há controvérsia) dos programas partidários. Sim, há uma cultura visual predominante em nossa sociedade, e ninguém, em sã consciência vai negar o poder fabuloso da imagem e o fato de ela exigir do telespectador uma atenção focada. Entretanto, é preciso destacar que o rádio chega aonde a TV não vai, é prático e portátil e 'tá em 98 % das casas, enquanto a TV em apenas 75 %. E mais, o horário nobre do rádio dura 13 horas, enquanto o da TV, apenas três. Tudo isso numa constatação que agrada quem paga a conta. Sim, porque uma produção no rádio custa 95 % menos que a da TV. Como diz Duda Mendonça no seu livro Casos & Coisas (" Editora Globo): «Quem menospreza a força do rádio, 'tá abrindo mão de um vasto campo, ali disponível para a plantação de suas mensagens e, conseqüentemente, para a colheita de votos. O candidato que dá as costas ao rádio sugere, por isso mesmo, um pescador que inexplicavelmente, resolve pescar apenas com um anzol, uma linha e uma isca. Seguramente ele vai fisgar menos peixe do que o seu vizinho, mais experiente que pesca com várias linhas, iscas diversas e em profundidades diferentes, pois sabe que além dos peixes de superfície, existem também os de meia água e o dos fundos do mar». Como profissional 'pecializado em marketing eleitoral não poderia deixar de chamar a atenção para o grande erro cometido por muitos. A posição secundária do rádio não significa de forma alguma que ele não deva ser trabalhado com todo o profissionalismo por a equipe de marqueteiros e publicitários que são contratados por um político. Não se pode mais admitir, em disputas cada vez mais complexas, que cada vez mais realizam ampla exposição de homens e mulheres que se lançam na busca de votos, que simplesmente se use o áudio de programas de TV no rádio, ou mesmo textos belos e detalhados feitos para jornais de campanha. Meus ouvidos se sentem agredidos quando, mesmo em ano não eleitoral, ouço programas dos partidos políticos que simplesmente «chupam» o áudio televisivo. O rádio tem sua própria linguagem, muito mais direta, coloquial e intimista, e somente a sintonia com 'ta «cara» pode possibilitar que o tripé -- diversão, informação e persuasão -- seja efetivamente exercitado no seu uso. Só assim será possível, efetivamente, sintonizar o som dos votos. Número de frases: 30 Cuiabá já tem um incrível número de 'tas casas. Lan-house, templo para a celebração dos amantes da internet, verdadeiros points de encontros para os mais diversos eventos. «O futuro é pura tecnologia», afirma com a convicção de seus 13 anos Guilherme Pacheco, 'tudante, usuário de uma lan-house que fica muito próxima de sua casa na região central da cidade. O garoto faz parte da equipe que os proprietários da Lan 'tão patrocinando para um campeonato e é apontado como fera, um proto-campe ão. Olhos perspicazes, jeitão meio rockenroll, ele faz parte de uma legião de garotos que fazem desses lugares um meio de diversão, conhecimento, socialização, conectados na mesma expectativa de interagir com os outros. «Jogo por diversão, só pra zoar dos caras." É um engano pensar que os habitantes desses «planetas tecnológicos» são tão despossuídos, muitos têm computadores em casa. A atração que 'ses lugares exercem tem muito a ver com a necessidade de encontrar seus semelhantes, comparsas, parceiros de jogos e vivências. Em os bairros mais periféricos, que têm preços bem mais baixos para o acesso, o perfil do usuário é relativo à sua condição social, a maioria desses é vítima da falta de alternativas tecnológicas em suas próprias casas. E o fenômeno se alastra por todos os bairros. A equipe parou o treino e formou uma roda em torno de mim, todos se apresentaram, todos muito interessados em nossa conversa, Imad Mohamad, 15 anos; Thiago da Silva, 14 anos; Dennison Vieira, 16 anos; Guilherme e o outro Mohamad, de 14 anos, todos são 'tudantes. Continuo nosso papo dizendo que o futuro será ainda mais tecnológico, mas que o presente já contabiliza uma grande dependência das ferramentas digitais, o mundo já 'tá 'truturado com base na informática. Já se conectou em rede e não dá mais para retroagir. Provoco eles dizendo que logo aí atrás em nossa história, no século XVIII, há pouco mais de 100 anos, o mundo engatinhava uma revolução industrial e que, com apenas 10 anos de internet, já evoluiu numa 'cala impressionante, oferecendo meios de transmissão e recepção impensáveis até mesmo nas ficções científicas que sempre profetizaram revoluções no comportamento humano. O mundo caminhou mais rápido que a ficção. Está aceleradíssimo. Eles são filhos de 'sa revolução, íntimos de 'sas ferramentas com uma naturalidade impressionante. Rápidos e ágeis, répteis da nova era, cobras que voam nas novas modalidades dos 'paços virtuais, ou cyber 'paços. Continuo a provocação e digo que na mesma velocidade o meio ambiente planetário (real), por exemplo, 'tá em xeque e que é preciso fazer alguma coisa. Reagem de prontidão: «Tem que desenvolver sem destruir, é possível um mundo com alta tecnologia e meio ambiente conservado!». Ponto para a equipe, que treina durante duas horas por dia. Treinam com muita seriedade para expandir seus domínios do game Counter strike, Cs, para a intimidade que sua cumplicidade 'tabelece. Sob o comando Over! querem dizer, «me dê cobertura!». A um outro comando -- Invadir! Atacar!-- buscam avançar sobre os inimigos e conquistar vitórias retumbantes. Dizem que entraram no jogo pra se divertir mas que têm chances de chegar no topo, claro, querem ganhar. Em um papo com Fabiano, 30 anos, sócio de uma lan, formado e pós-graduado em Informática e Gestão Pública, ele diz que é preciso organizar a categoria empresarial (proprietários de lans) e para isso 'tão criando uma associação 'tadual para atuar diante de um quadro em que se deparam com um grande preconceito dos poderes públicos e da sociedade. Fabiano avalia que marginalizam 'se tipo de serviço com uma ótica preconceituosa enxergando uma lan apenas como pontos de drogas e de desocupados, viciados em jogos que consideram nocivos e não levam a nada. Os organizadores da associação 'tão de olho numa lei que tramita no Congresso Nacional que propõe restringir a freqüência em 'ses ambientes para maiores de 16 anos. Consideram isso um golpe no negócio e combatem 'se ponto de vista com o argumento de que existem outras modalidades dentro do ramo de negócio, como o cyber-officer que oferece vários tipos de serviços. Para quem precisa enviar um e-mail, copiar um arquivo, tanto para office-boys, quanto para outras pessoas em trânsito. Isso facilita a vida de muita gente no corre-corre cotidiano. Os proprietários de lans afirmam ainda que têm plena consciência de que lidam com informação, entretenimento mas sabem que também são responsáveis por o que acontece ali dentro, não permitem bebidas alcoólicas e investem em segurança e qualidade no atendimento. Defendem um ambiente saudável e apropriado para incluir mais pessoas no mundo digital. O código de postura do município também regula a questão da distância de 'sas lans em relação às 'colas. Atualmente em Cuiabá a distância máxima permitida é de 400m e querem ampliar para 500m. Aí levantei uma questão: por que não fazer parcerias com as 'colas e propiciar acessos para pesquisas, para incluir mais pessoas no uso de 'sas ferramentas disponibilizando equipamentos em determinados horários para aprenderem a usar computadores? Seria uma contrapartida social interessante. Ao invés de proibir, ensinar, propiciar o acesso, educar. Concordaram e adiantaram que já existe 'sa idéia, que 'tudam sua aplicabilidade nas diversas reuniões que 'tão realizando. Duas universitárias navegavam naquele instante, Rosemary, de 19 anos, 'tudante de direito, e Isabelli, 21 anos, que faz turismo. Estavam ali porque gostam do lugar, até têm computadores em casa, mas 'tão com os telefones cortados por falta de pagamento. Enfatizam que mesmo quando seus PCs 'tão conectados preferem ir na lan, que acham ali um lugar mais interessante. De repente sou interrompido por a presença súbita de dois rapazes que chegam em meio ao nosso papo. Entabulam uma conversa, são íntimos, as meninas se abrem em sorrisos. Percebo que 'tou sobrando ... Saio de fininho, deixo claro que meu interesse ali é outro: «Fiquem à vontade, até mais, valeu!». Em uma lan tem de 'sas coisas ... Número de frases: 55 When the music is over Que mané miuziquisover. Ainda entôo e vocalizo -- só não brado porque a vizinhança já ameaçou chamar a carrocinha -- o mantra «o jornalismo morreu». Mas reconheço que a situação é crítica. Sou abordado nas ruas: ó ali o cara do jornalismo morreu! Respondo, é claro, com resmungos e impropérios que não pretendo reproduzir aqui -- não agora, ao menos. Me sinto um zumbi -- se for um daqueles à procura de cérebros, então tá valendo. A sensação aumenta à medida que me encaminho para o crematório de 'ta cidade para verificar se o dito cujo 'tá queimando. Karma to burn, compreende? Insisto com o mote, me referindo, é claro, ao jornalismo que diz a que veio, que revela seu cunho editorial e que não se atrela a mandos e desmandos. Utópico é o cacete, sujeito! E olha só onde 'sa Minha Busca Particular (MBP, como você já bem sabe) me levou. A um necrotério chamado Broadcast. De a janelinha da sala de entrada deste morgue, vejo Cláudio Júlio Tognolli passando na rua. As situações triviais geram boas oportunidades. Como bom 'pírito de porco que anda que sou, resolvo lhe pregar uma peça. Abro o basculante e emulo um grunhido de morto-vivo do George Romero. -- Tognoooolli. Aqui é a voooz da sua consciêêêência. O joooornalismo morreeeeeeu? [atenção para o merchandising descarado a seguir. que só passou porque é válido e inserido no contexto -- eita porra, quem deixou 'se paulo francis adentrar o recinto?] Em seu quinto livro, «Mídia, Máfias e Rock and Roll», que será lançado agora em março, por a Editora do Bispo, Tognolli dedica um capítulo ao telejornalismo. Ali ele demonstra como as empresas de telefonia celular compraram boa parte das mídias e 'tas 'queceram de contar tal fato ao leitor -- peraí, isso não soa familiar? O raciocínio assusta porque é simples. Siga a bolinha. -- A Carta Capital ataca o Daniel Dantas porque defende, sem avisar ao leitor, seu desafeto Luis Demarco, ou mesmo o Carlos Jereissati, dono da Telemar. A Isto É defende o Daniel Dantas, que era dono da Brasil Telecom. A Veja defendia a TIM. Acho ótimo 'se ecumenismo. A democracia se faz com base na fricção e contradições. Mas: onde fica o leitor nisso? Ele não é informado. Meu acompanhamento deste raciocínio é interrompido por um cheiro lazarento que nem a Desentupidora Rola Bosta -- sim, BH tem uma desentupidora com 'te singelo nome ...-- conseguiria dar conta. Estou no lugar certo. Farejo -- meu olfato é mais acurado do que o do Wolverine. Letrinhas em decomposição. Imagens putrefatas. Áudios de vermes. Ugh. «O jornalismo 'tá fedendo, mermão. Morreu faz eras». O veredicto é de Luiz Biajoni, proferido 25 minutos antes de ele fechar um telejornal e gravar as cabeças. «Eis algo que importa: vão fazer Watchmen». Fedeu. A situação já era ruim somente com 'se cheiro. E agora 'sa notícia. Notícia? Informação? Jornalismo o que? Hã? Hein? Cuma? Quequeisso, Biajoni? «Jornalismo é release. Estudante não sabe os três poderes. ' O único poder é dinhêro, mermão ', me respondeu um 'tudante dia desses. Então, nicas de compreender o que significa «prática crítica»? Estamos despejando profissionais adaptadinhos ao tal do pensamento único? Tognolli, ainda do lado de fora, dá três batidinhas na janela. -- Não há prática crítica. Vejamos a crítica musical: criticar música é no Brasil dar adjetivos a acordes. Quase ninguém que é crítico sabe o que é um acorde musical. Dei a notícia primeiro, tá bom. Biajoni, equilibrando um CD do Nick Cave na ponta do dedo indicador direito, pondera, pondera e pondera. Depois chuta. «Eu acho que o que falta mesmo, de maneira geral, são jornalistas recém-formados que saibam do que se trata o tal jornalismo. Que jornalismo é 'crever e buscar fontes e saber onde achar as infos e ter criatividade e persuasão». A fedentina aumenta. Parece que quanto mais a gente mexe nisso, mais o futum prolifera. Nojo. Asco. Náusea. Repugnância. Máscara de oxigênio, faz favor. Opa, obrigado, Tom Cardoso. -- O jornalismo não morreu, mas 'tá perto do fim, agonizando. As faculdades de jornalismo são uma piada. Deveriam acabar. É preciso instituir, como faz a OAB, uma prova de redação para quem deseja ter um diploma de jornalismo. Quem tirar abaixo de 7 'tá proibido de 'crever para qualquer veículo, não ganha o MTB. Tognolli faz sinal para que saiamos de ali e passemos a investigar de onde exala aquela inhaca. Acabamos todos parando no IML, 'tabacando-nos numa cena clássica: corpo macilento em mármore gelado. Tom Cardoso, nosso legista cover de plantão, devidamente de posse de um avental branco, destrincha. -- De os grandes jornais do passado, muitos mudaram a linha editorial para sobreviver e outros 'tão perto da falência. É o caso do JT (no primeiro caso) e do JB e da Gazeta Mercantil (segundo caso). Esses dois últimos foram comprados por o Nelson Tanure, um mafioso, lobista, que sonha em ser um novo Chateaubriand. Os que sobreviveram não apresentaram nada de novo nos últimos anos. O Estadão continua sendo o jornal da família Mesquita. Globo adota o bom-mocismo, o politicamente correto de sempre, sem grandes ousadias -- é governista por excelência. A Folha é hoje comandada por o Otavinho, um nerd, que não quis nascer jornalista, mas nasceu. Acompanho sem tirar a máscara de oxigênio. E vejo que ali, naquela cavidade, se encontram as revistas. Tom prossegue. Eviscerando. -- A Carta Capital, com Mino à frente, tenta ser uma boa alternativa à mediocridade geral, mas não tem matéria-prima pra isso. Paga mal. Bem, a Veja, e a Isto É e a Época são absolutamente iguais. São hoje revistas de consultório, que rivalizam com Caras, Com ti etc. Um 'guicho de pus e outras gosmas menos cotadas interrompe Tom Cardoso, a tempo de evitar que ele inclua a Capricho em 'sa leva. Se isso não acontecesse, talvez Biajoni fizesse uma defesa mais apaixonada. -- Tem gente boa na Piauí, assim como tem na Rolling Stone, assim como tem na Capricho. Ei, isso é sério! Minha filha lê Capricho e vejo umas coisas muito interessantes lá ... O chamariz da revista é a futilidade do «novo ídolo», etc ... Assim como o chamariz da Piauí pode ser o chef que faz um texto metido a poético sobre como fazer goiabada. Peraí, peraí. Eu me recuso a discutir algo relativo a Capricho -- sim, sou um intransigente; eu cuspo em vocês. Vamos organizar isso aqui. Revistas como a Piauí e a versão brasileira da Rolling Stone -- guardadas as devidas proporções e para nos atermos a apenas dois exemplos recentes -- recuperam o «elán admoestado do jornalismo que diz seu nome ouié»? Limpando as mãos no avental, Tom Cardoso balança a cabeça, em sinal positivo. -- A primeira 'tá cada vez melhor. Precisa apenas se livrar do Ivan Lessa e do Millôr. A segunda me surpreendeu. Está dando 'paço para grandes reportagens e adotou uma 'tratégia mafiosa, porém louvável. Coloca o Rodrigo Santoro na capa para chamar a atenção dos leitores e depois oferece conteúdo de primeira. E vem aí a «Brasileiros», comandada por o trio Nirlando Beirão, Ricardo Kotscho e Hélio Campos Mello. Eu acho que o último foco de resistência do jornalismo 'tá em 'sas públicações. Tognolli, coçando o queixo com um bisturi, faz uma careta e rebate. -- A RS te permite fazer jornalismo literário, o que não havia no Brasil. A Piauí é a New Yorker, bonitinha e feita para se ler enquanto se come scoones, às cinco da tarde, jogando-se cricket. Pais «mudernos» lêem Piauí, seus filhos que tocam guitarra ficam com a RS e os filhos que tocam violão ficam com a Caros Amigos. Nos falta agora uma The Economist. Resolvo cobrir o cadáver e chamar a todos para sair de ali. Já na porta que nos leva ao mondo cane de fora, não consigo evitar: penso em reavivamento por eletrochoque. Será que, na contramão do assassinato do jornalismo no morgue Broadcast, não há uma geração -- valha o termo -- de jornalistas na Internet preocupada com o desgastado «fazer jornalístico»? Biajoni, já do lado de fora, ensaia uma resposta, mas 'tanca. Olha, incrédulo para mim, cai na gargalhada e me chama. -- Rocha? -- What? Número de frases: 132 -- Você já pode tirar 'sa máscara de oxigênio, cabrón. A cena se repete há décadas, sempre no mesmo lugar. Em aquela tarde, aconteceu assim: no pequeno largo que dá acesso à lagoa do Abaeté, ela surgiu sem avisar. Toda de branco, vestia-se majestosamente, com uma longa saia engomada, linda bata feita de rendas e torço delicado sobre os cabelos. Maquiagem, um discreto 'malte cor-de-rosa, colar, brincos, pulseiras e anéis dourados completavam a indumentária de 'sa filha de Oxum e Iansã, que combina fala arrastada e temperamento obstinado. Com andar firme, mas sem pressa, mal olhou para os lados ao atravessar a rua, enquanto os carros pararam para vê-la passar. Quem a vê assim, como uma rainha, nem imagina que a vida de Cira é feita de muito suor e 'forço. Ela acorda cedo, compra pessoalmente os ingredientes, participa do preparo da massa e acompanhamentos, orienta suas funcionárias sobre cada detalhe. Depois vem a hora da venda na rua, fritando os bolinhos e atendendo os fregueses até altas horas, todos os dias. Quem começou tudo foi sua mãe, que já ocupava 'se lugar antes de ela nascer. Em aquele tempo, o bairro de Itapuã era pouco habitado, a clientela era pequena e mesmo no resto da cidade de Salvador não havia muitas baianas. Hoje, as coisas mudaram. Onde quer que elas 'tejam -- Cira, Dinha, Loura, Chica, Ivone, Neinha e tantas outras -- uma multidão se desloca diariamente para reverenciá-las e deliciar-se com o quitute incandescente que somente elas sabem fazer: o acarajé. Feito apenas com feijão fradinho, cebola, sal e frito no azeite de dendê fervente, não é à toa que 'se misterioso bolinho tem a cor e a temperatura do fogo. O acarajé é um alimento sagrado, oferecido a Oyá, também conhecida como Iansã, a deusa africana que controla os ventos, as tempestades, os relâmpagos e tem poder sobre o fogo. Em a religião dos orixás, os homens dialogam com seus deuses através dos sacrifícios e oferendas de alimentos. O akará é um de eles e veio parar no Brasil através dos 'cravos africanos iorubás. Como eram as mulheres negras que dominavam as cozinhas, não demorou para que 'sa e outras receitas africanas começassem a ser conhecidas e admiradas nas mesas brasileiras, conta Luis da Câmara Cascudo. Em o Brasil colonial, acarajés, abarás e carurus, entre outros pratos, eram vendidos nas ruas em tabuleiros que as 'cravas de ganho equilibravam sobre suas cabeças, enquanto iam cantando pregões para atrair a freguesia. Com o que conseguiam juntar, muitas até conseguiram comprar a própria liberdade. Corajosas, independentes e empreendedoras, as baianas foram aos poucos arriando seus tabuleiros e se fixando em pontos 'tratégicos da cidade. Montar um tabuleiro para vender quitutes na rua, típico hábito africano, passou a significar, cada vez mais, a garantia do sustento da família. Além do preço acessível, do sabor delicioso e das qualidades nutricionais do bolinho de feijão, a simpatia das baianas sempre foi um tempero a mais, ajudando a conquistar uma freguesia cativa. A partir da segunda metade do século XX, muitas de elas foram ficando famosas, como Romélia, Vitorina, Damásia e Quitéria, 'palhadas principalmente por o centro e Comércio de Salvador. Em as últimas décadas, a cidade cresceu na direção norte, levando prosperidade às baianas que trabalhavam perto do mar: Dinha, no Rio Vermelho; dona Chica; na Pituba; Cira em Itapuã. Mas há muitas outras rainhas do dendê, como Regina, na Graça e Rio Vermelho; a Loura; no Horto Florestal; dona Ivone, no Bonfim, ou Neinha, nas Mercês. Apareceram também alguns rapazes que nada deixam a dever a nenhuma baiana, como os irmãos Gregório e Zé Antonio. Algumas de elas chegaram a pegar o tempo do feijão ralado na pedra, ao modo africano, e do acarajé servido só com pimenta. A trabalheira era enorme, pois, além de triturar o grão, é preciso tirar toda a casca e bater bem a massa. Com o passar do tempo surgiram os moinhos elétricos, para diminuir o trabalho, mas os clientes exigiam novidades, obrigando as baianas a acrescentarem novos recheios no acarajé, como salada, vatapá, camarões e caruru. O antigo tabuleiro de madeira sobre um cavalete em X, hoje visto raramente, foi cedendo lugar aos tabuleiros de alumínio e vidros, maiores e mais confortáveis. O que não mudou foram as figas, folhas de arruda, fitas e contas que todas usam sobre o corpo ou dispõem sobre o tabuleiro para garantir proteção, tão necessária a quem trabalha na rua. Em o inverno, elas lutam contra o vento e chuva, que afasta os fregueses e respinga sobre o azeite, provocando queimaduras. Em o verão, se desdobram para atender à clientela exigente que não gosta de 'perar e só aceita acarajé bem quentinho. Micro-empresárias intuitivas, a maioria das baianas trabalha todos os dias da semana, empregando filhos, amigos, vizinhos e sustentando toda a família. Em o começo, a atividade 'tava restrita às filhas de Iansã e Xangô, mas o acarajé se popularizou tanto, que começaram a surgir baianas de todas as religiões e passou a ser vendido também em lojas, bares, delicatessens, restaurantes caros e supermercados. Com o crescimento enorme do número de tabuleiros, surgiram também baianas de primeira viagem, que, despreparadas, oferecem produtos de má qualidade. A atividade foi regulamentada por decreto municipal em 1998, definindo normas para a indumentária, tabuleiro e localização. Em 2002, a divulgação de uma pesquisa comprovando a falta de higiene no preparo de alguns acarajés deflagrou uma nova onda de iniciativas que buscam melhorar a qualidade do produto. A implementação de cursos de capacitação, fiscalização e a concessão de empréstimos para que as baianas possam modernização suas cozinhas passaram a ser assuntos prioritários para prefeituras e associações. Reconhecido como patrimônio cultural de Salvador, por os vereadores, o ofício das baianas de acarajé foi reconhecido, em 2004, como patrimônio cultural imaterial do Brasil por o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mas, na verdade, o akará de Iansã 'tá acima de todas as polêmicas e interesses mundanos. Ele é um alimento místico, artesanal, que só é saboroso se for feito com rigor. Um prato cheio de segredos que só podem ser desvendados após anos de observação paciente, cheia de riscos, porque envolve o fogo, o azeite fervente, o sucesso e o fracasso. Ser baiana é uma 'colha difícil. Significa assumir o compromisso de ser incansável e ter coragem o tempo todo, assim como Iansã, a dona dos acarajés. É também tornar-se capaz de dar colorido e perfume às nossas comidas, tornando o nosso cotidiano bem mais saboroso. Alimento do Povo Sobre os balcões, caixotes e carrinhos de mão, que percorrem a feira sem parar, se misturam o vermelho intenso das pimentas, o dourado do dendê viscoso e o verde 'curo dos quiabos, pimentões e folhas. Por toda parte se vê também feijões e camarões. Muitos outros ingredientes das comidas dos homens e dos deuses podem ser encontrados nas barracas da feira de São Joaquim, por isso, é lá que quase todas baianas de acarajé de Salvador se abastecem. As pequenas e as grandes, as famosas e as anônimas. Mas saber chegar até 'ses temperos e frutos do mar e da terra é uma arte para poucos, pois não basta ter dinheiro: é preciso saber onde comprar, como 'colher e negociar. Se não aprender 'ses segredos, o comprador não levará o melhor produto e ainda pode se perder numa das intermináveis vielas da feira misteriosa, sob o olhar divertido dos feirantes que, como bruxos, sabem de tudo que se passa em 'se labirinto de cores, sons, sujeira, cheiros e sabores. Em o preparo da massa do acarajé e acompanhamentos, a busca por o melhor começa na feira, mas vai muito além de ela. Cada detalhe deve ser respeitado e é necessário vigilância constante para perceber os imprevistos -- massa que azedou, dendê que não serve para a fritura -- suspender as vendas e substituir o produto. «Ter qualidade é difícil, mas o prejuízo compensa. Se não ganhar hoje, ganha amanhã», ensina Maria Francisca dos Santos, a dona Chica, que vendeu acarajés por 30 anos na Pituba. Para quem não conhece a feira, pode dar trabalho chegar até Jailton de Jesus da Pureza, 40 anos. Mas o 'forço vale a pena, pois é lá, na «Casa Pureza», rua cinco, quadra sete ou» rua do Camarão», que se encontra alguns dos melhores litros de dendê, feijões e camarões da cidade. Jailton começou em Jaguaripe, onde nasceu e aprendeu a pescar o camarão e defumá-lo. Quando veio para Salvador, há mais de 20 anos, começou as vendas no balaio, " depois aluguei um box, empacotava o camarão, botava no ônibus e ia vender de porta em porta, no Bonfim. Em o sábado vendia no balaio, até que vi que dava pra me manter na feira», relembra. Hoje, em sua barraca 'paçosa, ele vende produtos selecionados que vêm de longe: «Os camarões são do Maranhão, Rio de Janeiro, Alagoas, Maragogipe, Nagé, Acupe, Valença. O dendê vem de Valença e Nazaré». Comprar bons produtos envolve dois quesitos: um bom fornecedor e um comprador que saiba 'colher. O dendê, explica Jailton, tem os seus mistérios: «O povo pensa que é só ver bonito e comprar, mas não é. Tem dendê que presta para a moqueca, mas pode não servir para o acarajé. Se 'pumar quando 'quentar, não serve». No caso do camarão, a alma da comida baiana, o assunto é ainda mais delicado: «O produto tem que ser do dia, depois que chega aqui, só dura oito dias. Hoje não 'tão mais defumando o camarão devidamente, porque quanto menos defuma, mais ele pesa». Com a sua experiência, Jailton se tornou o queridinho das baianas, por isso, para conseguir produtos da Casa Pureza é preciso ir cedo. Em o começo da tarde, muitas vezes, já não se encontra muita coisa à venda. Os grandes sacos abarrotados com camarões «filé» empilhados no fundo da barraca, certamente, já 'tarão reservados para alguma das suas clientes famosas: Cira, Dinha, Regina ou Neinha. Padrão de qualidade Saber comprar é importante, mas é só o início de um longo processo. Antigamente, se começava catando o feijão e quebrando os grãos, para depois colocar de molho, explica dona Chica. Hoje, o feijão fradinho do acarajé já é vendido partidinho, só que antes da trituração é preciso retirar toda a casca, num trabalho meticuloso que envolve deixar o feijão de molho na água e depois lavá-lo várias vezes, passando por a peneira, explica José Antonio Vieira, filho de dona Chica e um dos mais famosos baianos da cidade, ao lado de seu irmão Gregório Bastos, primeiro homem da família a assumir o tabuleiro. «Lavar o feijão é a parte mais pesada», explica Zé, que começou pequeno, junto com os irmãos, a ajudar a mãe no preparo do bolinho. Gregório também lembra que só saía pra jogar bola se antes fizesse o amigo prometer que, na volta, ajudaria a lavar o feijão. Lavado e sem casca, chega a hora de triturar os grãos, em moinhos elétricos que se compra na feira ou lojas populares. Então é hora de bater bastante a massa com colher de madeira e depois acrescentar sal e cebola ralada. Aí, é fritar pequenas porções no dendê bem quente. Como a massa 'tá crua, é preciso ter cuidado para que não azede com o calor, recomenda Zé. Exigentes, Dona Chica, Cira e Dinha contam que, para garantir a qualidade, acompanham todas as etapas de perto. «Nunca confiei em ninguém, sempre fiz tudo», diz Dona Chica, que hoje só faz acarajés em casa, por distração. Cira vai com freqüência na feira 'colher os ingredientes, «senão vem mercadoria ruim», enquanto Dinha até desistiu de manter suas franquias em Brasília e» Rio de Janeiro: «Acarajé é comida caseira, não dá pra industrializar, tem que ser feita todo dia». Com a experiência, cada uma desenvolveu suas técnicas para zelar por a reputação: «Cansei de parar de assar e voltar para a casa, porque o azeite não 'tava bom. Também joguei panelas inteiras de massa no lixo, porque tinha algum problema», conta dona Chica, cujo exemplo é seguido por os filhos. Cira, não satisfeita em usar o mais caro camarão da cidade, também os lava, cozinha e tempera. Já Dinha, no restaurante que construiu no coração do Rio Vermelho, usa fogareiros e panelas de aço para manter tudo aquecido. Alimento sagrado Tanto rigor não é à toa, pois o acarajé é um alimento sagrado, para o corpo e o 'pírito. Em o passado, para montar um tabuleiro e ir vender na rua era preciso ser filha de Iansã ou Xangô e ser designada por os orixás para cumprir 'sa missão. Em a África, explica Pierre Verger em seu livro Orixás, Oiá, também chamada de Iansã, é a divindade dos ventos, tempestades e do rio Níger, que se chama Odò Oya, em iorubá. Conta a lenda que, após se separar de Ogum e se unir a Xangô, Iansã foi enviada por o segundo marido à terra dos baribas em busca de um preparado que, ingerido, lhe daria o poder de lançar fogo e chamas por a boca. Ousada, Iansã provou do líquido, tornando-se também capaz de cuspir fogo, conta Verger. É por isso que, para homenagear 'ses deuses, os africanos fazem cerimônias com o fogo, como o ajere, onde um iniciado carrega na cabeça uma jarra cheia de furos com fogo dentro ou o àkàrà, onde os iniciados engolem mechas de algodão embebidas em azeite-de-dendê em combustão, narra Verger. Filhas de Oxum vendem cocadas; filhas de Nanã, mingaus, filhas de Oxossi vendem frutas e filhas de Iansã e Xangô, acarajés, explica a cachoeirana Ivone do Carmo, que vende acarajés ao lado da igreja do Bonfim há 44 anos. -- Quando tinha 12 anos, fui num terreiro perto da minha casa, no Pau Miúdo, procurar emprego. Tomei a benção, peguei a conversar e perguntei se precisavam de empregada. Veio a mãe de santo, Maria do Socorro, e disse que eu não ia ser empregada não, que ia ser do terreiro, porque ela tinha sonhado com uma senhora dando uma menina a ela. Ela terminou de me criar e me iniciou. Eu tomava conta de tudo. Foi lá que eu aprendi a fazer os acarás de ele, compridinhos, e os de ela, bem redondinhos. Fazia para a comida, pra vender do lado do barracão e repartir no candomblé. Ainda mocinha vim morar no Bonfim e aqui eu tive um sonho com Iansã me dizendo: ' Ivone, você vai ser baiana, a baiana mais famosa da Bahia '. Obediente, 'sa filha de Xangô não pestanejou e, até hoje, mantém no alto da colina sagrada o seu tabuleiro, que é também o local de encontro com uma legião de amigos e filhos de consideração que ela arranjou em todos 'ses anos em que enfrentou os perigos da rua, o vento, o sol e a chuva, para alimentar o povo baiano com o acará africano. Receita Africana São apenas 9h de uma manhã de quarta-feira e o largo do Pelourinho já 'tá tomado por a multidão que transborda do templo azul e dourado erguido por os 'cravos, a Igreja do Rosário dos Pretos. Em as saias, blusas, calças e adereços, todos os tons de vermelho e branco, para homenagear Santa Bárbara e Iansã. Enquanto desce apressada a ladeira em direção à missa, a mulher comenta: -- Devo tudo que tenho a ela, meu apartamento, meu carro. Ave Maria, graças a Deus sou filha de Iansã. A amiga, orgulhosa, responde: -- Eu também, sou filha de Xangô. A missa já 'tá perto do final, quando Iansã resolve mostrar a sua presença: nuvens negras surgem de repente e pingos grossos desabam sobre o povo, abençoando-o. -- Já 'tava até demorando, porque no dia de ela sempre tem trovoada -- explica uma senhora. Em a Bahia, todos os anos é assim: quatro de dezembro é dia de homenagear a santa do manto vermelho e a orixá dos ventos e das tempestades, dia em que tem emoção, chuva, procissão, música e muito acarajé. Essa mistura de fé e comida é uma história antiga, que começou na África, prosseguiu no Brasil e perdura até hoje, porque as comidas que os africanos faziam para oferecer aos seus deuses caíram no gosto dos brasileiros e nunca mais deixaram de ocupar um lugar de honra em nosso cardápio. A semelhança é tão grande que um africano se sente em casa na Bahia. Como conta a empresária nigeriana Rasidat Lola Akanni, que mora há muitos anos no Brasil, quando quer relembrar o sabor do legítimo akará da sua terra, bem crocante, ela não precisa fazê-lo em casa, apenas vai ao tabuleiro de uma certa baiana. Em a África, o nosso abará se chama moìn-moìn. «É uma massa de feijão fradinho temperado com cebola, pimentão, tomate, gengibre e dendê. Depois a gente coloca camarão e ovo cozido dentro e cozinha na água enrolado na folha da bananeira», explica Rasidat. Como é considerado um alimento leve, ele é comido «de manhã, junto com o mingau». O caruru tem quiabos, dendê, pimenta, camarão e carne ou peixe: «A gente come na hora do almoço, junto com amalá, uma bola de massa feita no fogo com farinha de inhame seco e água». Já o akará, é " a massa de feijão moída com temperos como pimentão, cebola, pimenta e quando vai fritar coloca camarão ou peixe dentro. A gente come qualquer hora, em qualquer lugar, é uma merenda. Lá, vende akará na rua, na feira, no restaurante, as mulheres ficam sentadas fritando e servindo, como aqui». Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, a palavra acarajé pode ser uma versão reduzida do pregão cantado por as antigas vendedoras ambulantes. Em a sua música A preta do acarajé, Dorival Caymmi reproduziu livremente um de eles: «O acará jé ecó olailai ô». Pregão que era um convite aos fregueses para virem comer (jé) a sua iguaria (acará). Em cada grupo étnico iorubá o acará era feito de certa forma, explica Costa Lima: acarakere bem pequeno entre os egbá, acarájexá bem maior, entre os ilexá. Em a Bahia, aos poucos, se definiu um tamanho médio para a venda ao público. O que não mudou foi o desabafo que Caymmi ouvia da baiana e registrou em sua canção: «Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é». Enfeitiçando o paladar Muitos dos ingredientes e receitas vieram da África, mas foi na cozinha das nossas casas-grandes e senzalas que surgiu a culinária afro-baiana, tendo como elementos centrais o dendê africano, a pimenta sul-americano e o côco da Índia. Como lembra Luis da Câmara Cascudo, em seu texto A cozinha africana no Brasil, 'cravos iorubanos foram levados para muitos lugares, mas somente aqui a culinária africana se aprimorou e difundiu tanto. A explicação, propõe ele, é que «no Brasil, a presença da preta na cozinha classificava-se como indispensável e regular», o que não ocorria em outros locais, onde havia até quem condenasse a colaboração das 'cravas na cozinha. De fato, ao se tornarem responsáveis por a alimentação das famílias, 'sas mulheres recebiam um fardo e um poder, o de recriar receitas, acrescentar ingredientes, fundir costumes africanos com portugueses e indígenas. Em o começo do século XVII, a palmeira africana da qual se extrai o azeite de dendê foi introduzida no Brasil, explica Costa Lima. Com a chegada desse e outros ingredientes, sabe-se que, no mínimo, em fins do século XVIII, além de degustados nas residências, os pratos africanos já eram comumente vendidos nas ruas. É de 1802 uma carta do professor de grego Vilhena queixando-se da venda a pregão, por as 'cravas de ganho, de mocotós, carurus, vatapás, mingaus, acaçás, acarajés, entre outras «couzas (sic) insignificantes e vis». Segundo Costa Lima, desde 'sa época, os tabuleiros das baianas já alimentavam a preço acessível a população subempregada e pobre da cidade com seus quitutes deliciosos. Com 'sa venda nas ruas, a serviço dos patrões, muitas chegaram a reunir quantia suficiente para comprar a própria liberdade. Também no final do século XVIII acontecia na Bahia um fenômeno importante para o desenvolvimento da culinária: «Começa a se organizar em comunidades 'truturadas o sistema religioso dos 'cravos de origem nagô e iorubá», como explica Costa Lima. Onde havia orixás, havia sacrifícios e oferendas de alimento, pois é assim que os africanos dialogam com seus orixás: fazem seus pratos prediletos, colocam um pouco em frente ao altar e repartem o resto após as cerimônias. Foi por isso que receitas antigas que vieram de longe nunca foram 'quecidas. Como 'quecer o ebô de Oxalá, o doboru de Obaluaê, o omolucum de Oxum ou o acará de Iansã? Em 'sa época, onde as panelas eram de barro, o fogão, à lenha, e não havia eletrodomésticos, o feijão do acarajé era moído na pedra de ralar: «Mede cinqüenta centímetros de comprimento por vinte e três de largura, tendo cerca de dez centímetros de altura. A face plana em vez de lisa, é ligeiramente picada por canteiro, de modo a torná-la porosa ou crespa. Um rolo de forma cilíndrica, da mesma pedra, impelido para frente e para trás, sobre a pedra, na atitude de quem mói, tritura facilmente o milho, o feijão, o arroz», explicou Manuel Querino em seu texto «A arte culinária na Bahia, de 1916». Em os terreiros mais tradicionais, até hoje se mantém o hábito de usar a pedra de ralar. A baiana Ivone do Carmo, que alcançou 'se tempo, conta que o ato de moer na pedra servia também como uma 'pécie de treinamento corporal para o momento do transe. «Tinha que passar o feijão na pedra pra dar o'gincar ' no ombro, pra quando o santo pegar a gente, tremer bem o ombro. Hoje o santo é cá embaixo, é um remelexo danado. Em aquele tempo era no ombro. A não ser quando é Iansã que pega, porque aí tem que remexer tudo mesmo», diz ela, que sabe muito bem que cozinha e magia se misturam. Continua Número de frases: 187 Em: Acará -- parte Fugia ele do futuro, do presente ou do passado? E diz que se bandeou daqui para os rumos do Rio de Janeiro, de carona. Depois preso, de navio. De caminhão. E que se arranchou em aqui e acolá, sem mais nem aquela. Então ... até de aeroplano teria andado ... ou não. Aqui só se andava à cavalo. Todo 'tudo anterior à década de 1980, no século passado, ainda no milênio anterior, inclui Dyonélio Machado na caudalosa e renovadora vertente do Modernismo, 'cola de 'critores brasileiros que vai se envolver com a brasilidade no movimento antropofágico. Quem examina o movimento mundial de 'critores e a projeção latino-americana no Realismo Fantástico, no entanto, começa a descobrir um Dyonélio Machado precursor. É com O Louco do Cati (1942) que o gaúcho de Quaraí, nascido no Rio Grande do Sul em 1895, se impõe de 'ta original e vanguardista maneira. Um universo urbano em emancipação do aplastante poder do mundo rural se mescla a uma viagem improvável, de rumos insopitados a cada parada em terra ou na água. Passa a personagem por aventuras diversas e divertidas de tal monta que, às vezes, podemos pensar que aquilo aconteceria mesmo a qualquer pessoa por mais disparatado que fosse o desfecho. Se hoje em dia a máxima: de perto ninguém é normal é mais geralmente aceita, não era assim que o comportamento 'tranho se apelidava nos tempos de nosso personagem. Então ... era louco mesmo o apelido do vivente. Além de O louco do Cati, Dyonélio Tubino Machado é também autor dos romances: Os Ratos (1935); Desolação (1944); Mulheres; Passos Perdidos (s / d.); Prodígios; Sol Subterrâneo; Deuses Econômicos (1966). De o conto: Um Pobre Homem (1927) e dos ensaios: Política Contemporânea (1923); Uma Definição Biológica do Crime (1933); Número de frases: 28 Eletroencefalografia Acaba de entrar em circulação o segundo número da revista Natal Brasil -- Natal Brazil Magazine, uma publicação bilingüe (inglês e português) de entretenimento, cultura e turismo, voltada para os turistas que visitam Natal (RN). A revista é totalmente duplicada em formatação «japonesa» e é distribuída gratuitamente no Aeroporto Internacional, balcões de informação turísticas 'palhados por a cidade. A edição agosto-setembro traz como destaque a paradísiaca praia de Pipa, no litoral sul potiguar, além de mostrar também Caicó, cidade famosa por a religiosidade e devoção a Sant ´ ana. A revista fala ainda sobre culinária, moda e traz na capa um destaque para as opções de diversão na noite de Natal, como o Alto de Ponta Negra e o Mercado de Petrópolis. Natal Brazil Magazine é uma publicação da Corporativa Editora Ltda e tem versão eletrônica no www.visitnatalbrazil.com, site de informações turísticas que traz tudo sobre Natal e o Rio Grande do Norte. Número de frases: 5 Caixas: de pandora ao túmulo. (Autor: Antonio Brás Constante) A vida é uma caixinha de surpresas, e a maioria das coisas que sonhamos e procuramos se resumem numa busca por 'sas formas cúbicas. Quando pequenos 'peramos pacientemente por os aniversários, dia das crianças e natal, querendo ... Caixas! Cheias de presentes, mas inicialmente almejando encontrar as tais caixas. Coloridas. Enfeitadas. Misteriosas. Porém, depois de abertas, todo encanto é dissipado e os presentes recebidos acabam num canto largados. Sendo o ápice desses eventos o ato de receber e abrir os belos pacotes quadrados. Vivemos num mundo redondo. Talvez isso explique o motivo de 'tarmos sempre em desarmonia com nosso planeta. Pois somos em nossa 'sência seres quadrados. O Brasil demonstrou toda a incompatibilidade causada por a junção de 'sas formas geométricas, quando utilizou um «quadrado mágico» para jogar na copa do mundo, onde o centro das atenções era a bola. O resultado foi um gigantesco fiasco. Os adultos preferem os embrulhos, vivendo embrulhados para pagá-los. As mulheres se contentam com pequenas caixas, recheadas de sapatos ou em forma de 'tojos com jóias brilhantes dentro. Já os homens gostam de caixas maiores, que se movimentem levando-os para todos os lados. Eles chamam 'tas caixas de «automóveis» e nutrem uma profunda adoração por elas. Tanto os homens quanto às mulheres, também preferem outras caixas intituladas «apartamentos». São caixas extremamente caras, e às vezes eles precisam dispor de uma caixa-forte recheada de dinheiro para poderem adquirir o imóvel de seus sonhos. Já os políticos se contentam com «caixas dois», através de elas eles manuseiam todo dinheiro não contabilizado, advindo de verdadeiras caixas-pretas, pois ninguém consegue descobrir nada sobre as mesmas. O destino da humanidade é morrer e ser colocada numa caixa (caixão), para ali repousar por toda eternidade. Esta preocupação não costuma atingir os jovens, porém o homem adulto passa a se preocupar com sua mortalidade. Principalmente quando começa a ser taxado de «quadrado» por as novas gerações, sinal de que sua vida já 'tá mais perto do fim do que do início. O ser humano é uma verdadeira «caixa de pandora», guardando dentro de si uma infinidade de sentimentos que evita expor ao mundo para não destruir o que entende por realidade, ou simplesmente para não se indispor com os demais seres quadrantais que vivem ao seu redor. Enquanto agirmos de forma quadrada, seremos sempre párias num universo de ilimitadas formas. Enfim, para alcançarmos a paz e a felicidade que sonhamos, devemos transformar as linhas retas do quadrado de nossas vidas em algo flexível, que possa ser moldado de tal maneira que consiga transformar os lados de nossa caixinha existencial num belo par de asas. Dando-nos assim, condições de seguir junto com nossa imaginação rumo ao infinito. Sites: www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc) Atenção: Divulgue 'te texto para seus amigos. ( Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos). Número de frases: 32 Últimos fragmentos de um incidente infelizmente verídico (Veja parte 1 aqui) Fragmento & 2 Os Peões Dia de arregimentar a peãozada. O pátio, a quadra e todos os 'paços da associação de moradores, ficaram lotados. Uma galera descontraída; 'tranho ambiente para quem, como eu, previa um monte de semblantes carregados de ansiedade, agarrados àquela possibilidade sonhada de, enfim, conseguir um emprego e segurar a barra pesada que atormentava a casa (a mulher grávida, com a perna inchada, deprimida, o menino mais velho vendo a panela vazia e pensando no assédio do pessoal do Zu, que vive insistindo para que ele ingresse logo na ' endolação ' para ganhar algum dinheiro). «Vai ficar em 'sa, vai? Levando 'ta merda de vida que o teu ' coroa ' tá levando? Sai de 'sa, mané?" Zu circulou algumas vezes por a fila, poderoso; mais cumprimentado do que o engenheiro que avaliava os candidatos com um olhar meio desolado, pensando nas perguntas que faria nas entrevistas para aqueles pobres diabos. Não demoramos muito a perceber que aquela tranqüilidade toda tinha um motivo bem prosaico: A maioria dos candidatos era gente de Zu. Bandidos maiores de idade, parentes e agregados, gente do 'quema. à boca pequena um dos funcionários da empresa, acabou me confessando que havia sido firmado um acordo entre Zu e «Alguém de direito». «Tá legal. Autorizo a ' parada ' da obra sim, mas, tem um porém: Quero prioridade para o meu pessoal, valeu?" Teria dito Zu, sacramentando o acordo. Uma contrapartida justa. Difícil discordar, não admitir. Carteira de trabalho assinada é um bem muito precioso para um bandido de morro; significa livre trânsito no asfalto, liberdade de ir e vir, poder passar por uma ' dura ' da PM sem ser 'culachado, sem tomar bolacha na cara, descer favela com o nariz em pé, cheio de moral. «Qual é, chefia? Em um tá vendo que eu sou trabalhador?" A desolação do fiscal da obra, tinha, enfim, bastante fundamento. O que 'perar de um peão bandido, sonado, com a cara amarrotada, trincado de tanto cheirar cocaína? Um peão que passou a noite na ronda, tenso com a possibilidade de encarar uma invasão dos ' alemão ` quer saber de mudinha de planta frutífera? Que enxada? Que ancinho? que nada. As ferramentas de ele são os ' Bicos ', azeitados, pesados, cheios de balas. Bendisse mil vezes, naquela hora, o fato de não ser engenheiro florestal. Já pensaram? Como fiscalizar o serviço de semelhantes trabalhadores? Como repreender um sujeito que todo fim de tarde você encontra com um fuzil enorme pendurado no ombro? E os faltosos recalcitrantes? Como demiti-los? Pronto. A turma de trabalho havia sido 'colhida a dedo. Eu já podia então cuidar das tais atividades de «Inserção da Cultura da Comunidade no Âmbito da Obra em Si», do que me competia enfim. A pobre Mata atlântica que 'perasse. Fazer o quê? De tudo que pesquisei, rodando por o morro, autorizado por Zu, o que se poderia chamar de cultura da comunidade se resumia aos bailes Funk (único lazer para os ' soldados ` e suas ' tchutchucas ') e as baladas bregas que rolavam toda noite na igrejinha evangélica em frente á associação, tocadas num violão rachado, por o pastor que imitava roufenhamente o Odair José. De o bloco de Carnaval que havia no morro (do qual eu pude ver os restos mortais, representados por as peças da bateria furadas e enferrujadas), a única notícia que tive foi também a que Zu me deu: Os batuqueiros 'tavam todos ' pedidos ', procurados por a polícia e o bloco não podia evoluir mais do que alguns metros em torno da quadra. Não tinha a menor graça e a 'tranha agremiação acabou. Ele ainda me instigou para que fizesse um projetinho para reparar as peças, com a ajuda da garotada do morro. Não me animei muito e a idéia murchou. A 'ta altura, em minhas entrevistas, já havia ficado sabendo de muito mais do que o bom senso recomendaria. De certo modo, quase íntimo do bando, conhecia já quase todos os soldados de Zu, como Jorge Sumiço, por exemplo, que era sempre 'calado para me 'coltar em minhas andanças por a favela, subindo no topo do morro para ver como andava a obra, ou para panfletar a divulgação de algum evento cultural. Em um dia desses, Jorge Sumiço, que parecia ter simpatizado com a minha velha mania de dar conselhos de graça, me perguntou, meio ressabiado: «Aí, tio ... Tô com um problema aí, sabe? Posso falar?" Poderia ser uma conversa banal, de mais jovem para mais velho, não fosse o fuzil trançado á bandoleira no ombro de Jorge, que a todo o momento trocava a arma de lado, sofrendo com o peso de ela forçando as suas costas. «É que a mulher arranjou um emprego, de doméstica aí, tá ligado? Em uma casa de madame lá de baixo e, vê só. Tô aqui agora sem poder, sabe? Tinha que tá lá e tô aqui, tá ligado? Nós tem um menininho, assim de uns três pra quatro meses e aí ... sabe como é, tio? Tem mamadeira, ele caga pra caramba, 'sas coisas. Deixei ele lá com a vizinha mas tô aqui nos nervos." Recomendei uma creche lá em baixo. Dar um tempo também, até que a creche da associação passasse a funcionar não era má idéia. O papo era surrealista e tive que 'conder minha 'tranheza, olhando para a vista da cidade, lá em baixo. Tinha outro, o «Catarina». Louro, já meio coroa para os padrões do bando, com uns fios grisalhos aparecendo aqui e ali, «Catarina» era o braço direito de Zu. Mais velho que o chefe, ele era, ao mesmo tempo, a figura mais falante e mais soturna do grupo. Falava até demais, às vezes. De repente, como que deprimido, não falava nada. Contou que a filha, a quem há muito tempo não via, 'tudava para ser médica da Marinha. Ana Lúcia, a assistente social de nossa equipe, ' descolada ' de Copacabana que era, achou «Catarina» um cara até que bem legal. Ficaram quase amigos, talvez ela se parecesse com a filha de ele, imaginei. A história mais 'tranha de «Catarina» foi a das toucas ninjas e das luvas pretas que ele encomendou de Ana Lúcia que, boa de tricô que era -- além de sensibilizada com as noites de frio e sereno que ele passava na ronda -- logo providenciou. Em a sua simpatia por «Catarina», Ana Lúcia nem achava muita graça quando Zu contava, rindo às gargalhadas, alguma mancada de» Catarina " em público, como aquela história da rajada de fuzil que assustara o morro todo, na madrugada anterior: Tinha sido por culpa do 'corregão que «Catarina» levou, ao pisar, distraído, numa latinha de cerveja, com o dedo no gatilho. Outra figura incrível era Tião Gordo. Eletricista nas horas vagas havia sido ele quem instalara as lâmpadas de mercúrio na subida do morro. Zu falava que ele era o cara mais covarde que ele conhecera em toda a sua vida. Estranha covardia por que Tião viva por ali, sempre perto de Zu, contando piada. O que Tião mais gostava de fazer na vida era de contar as aventuras -- dos outros, é claro -- entre elas os detalhes mais macabros ocorridos na cruenta batalha que decidiu a posse do morro por o bando de Zu. «Teve um cara que recebeu uma 'tocada, com 'sas facas de matar porco, sabe? Assim, entre o ombro e o pescoço. De aquelas que entram fundo, sem chance. Desceu de ali daquela 'cada até lá em baixo, na ânsia da morte, sabe? «Ânsia da morte?" Que diabo seria isto, perguntei «O cara acha que a morte 'tá vindo atrás de ele, que ele vai poder 'capar de ela, correndo, mas, que nada. A morte já tá ali, junto de ele, agarrada em ele, até o fim ..." A faca de matar porco me lembrava o enorme chiqueiro que havia visto num barranco do morro, no passeio da véspera. A visão do cabo da faca no ombro do moribundo e o cheiro nauseabundo do chiqueiro, juntos, me traziam, não sei por que, a impressão de que havia alguma coisa a ver entre os porcos mortos (que eram 'quartejados ali mesmo no morro, para serem vendidos em improvisados açougues), e o 'quartejador de gente, profissional que algumas quadrilhas de favela, passaram a manter entre seus quadros, mais ou menos naquela época. Os desafetos mortos, geralmente «chisnoves» ('piões infiltrados), desapareciam assim, acondicionados em sacos de 'topa. Cabeça aqui, membros ali, tronco acolá. O horror. Fragmento & 3 Cine Paratodos Não queria, mas, um dia tive que ficar na favela até perto do anoitecer, para ver o movimento cultural da área, mas, foi muito decepcionante. O pessoal que trabalhava subia apressado, vigiado por o pessoal do Zu que, em sua maioria meninos ainda, ficava plantado na entrada da favela, batendo um futebol provisório, sem tirar os revólveres das mãos. O povo cumprimentava os bandidos com um respeito meio forçado e desaparecia, sumindo nos becos, se 'condendo nos barracos lá no alto. Não pude deixar de perceber os olhares de certo desprezo que alguns dos passantes dirigiam para mim. Se eu 'tava com o pessoal do Zu, ali, às vezes circulando com eles pra baixo e para a cima, com trânsito já liberado para passar por a rua da ' boca ', para ver os meninos da ' endolação ' descansando na calçada, com mãos enegrecidas da química que usavam no preparo da cocaína, quem seria eu senão mais um cara do 'quema? Um policial corrupto, talvez. Tomando cerveja, sendo apresentado aos birosqueiros, às costureiras, aos ' vapozeiros ', às cozinheiras e aos entregadores de ' quentinhas ', apresentado até ao sinistro irmão de Zu, dono da parte baixa do morro, que um dia, sem camisa e com uma pequena metralhadora Uzi pendurada no braço, me fuzilou com o olhar mais frio deste mundo, recusando o copo de cerveja que o irmão lhe ofereceu e seguindo em frente, como se eu, Zu e os outros caras, não existíssemos. Quem seria eu afinal? Sonhava poder dizer a eles um dia, que aquele era o meu trabalho. «Trabalho antropológico!" diria cheio de orgulho e coragem. «Antropologia de botequim! Corajoso mesmo não anda com covardes " poderiam me dizer, com desdém, se pudessem. Zu também se ressentia muito por não ver reconhecido o seu 'forço em prol da evolução da comunidade. O empenho era mais de Ném, mas, ele, ao que parecia, apoiava honestamente. Claro que tudo vinha de um senso político assim, meio empírico, intuitivo. Clientelismo puro, canhestro; camuflado de campanha para ser visto como um bem feitor da comunidade. Chegara mesmo um dia, a confessar um remoto desejo de se tornar vereador do morro. Zu passava, portanto, à sua maneira, a impressão de que seu 'forço era 'perto, porém, honesto. O bando, visivelmente não apoiava 'sas veleidades de Zu. «Viadagem!», talvez pensassem alguns, sem coragem de falar às claras. Muitas vezes ele nos defendeu de algum bandido mais abusado que ousara questionar a liberdade que tínhamos de subir até à plantação de mudas. Sempre mantive 'ta suposta honestidade ' socialista ' de Zu na conta, apenas, de uma remota probabilidade. Foi por isto que fiquei bastante surpreso, no dia de uma das visitas, com a evolução das obras da creche, quase á ponto de inaugurar. Estavam lá os vasinhos sanitários, as cadeirinhas coloridas, as salas pintadas. Ném havia realmente fechado o convênio com a Ong alemã. O repasse do dinheiro chegava e era Zu quem ia, pessoalmente, pega-lo com o padre italiano. Até hoje, na verdade, não entendi muito bem, a lógica por trás daquela atitude de um bandido tão vulgar, comum, como era o Zu. Seria alguma sutil contradição oculta no caráter de ele? Ou seria minha a contradição? Nada de teatro. Música, aquela temeridade brega-funk. A única atividade cultural que achei potencialmente instigante, para sacudir um pouco a mesmice cultural daquela favela, foi o cinema (uma idéia não menos 'túpida que as anteriores, pude descobrir logo depois). O mais incrível é que Zu, quando toquei cuidadosamente no assunto, pescou uma outra e surpreendente idéia, no ar: «Se tu quiser a gente pode até fazer um filme aqui, sabia? O pessoal fala algumas verdades da ' boca ', umas coisas da nossa realidade, mostra as armas. Só não pode mostrar a cara do pessoal. A gente bota touca. E aí? O que é que tu acha?" Seria inacreditável uma proposta de 'tas depois da tragédia de Tim Lopes mas foi exatamente isto que Zu, por pura vaidade, talvez, me propôs naquele dia. Fiquei empolgado no momento, mas, o bom senso, graças ao bom Deus, prevaleceu. Podia ser por conta da confiança que eu havia obtido de ele, com aquela minha ' conversinha ` de antropólogo de botequim. Mas podia também ser um teste, para mim. Sei lá por que, de vez em quando, ele me chamava mesmo de ' conversinha ', palavra que, para qualquer bom entendedor, não tinha nada a ver com elogio. Significava'Conversa Fiada ', ' Cascateiro ', gírias famosas em 'te meio para designar gente indigna de confiança. A primeira vez que ouvi isto de ele, confesso que gelei. O fato é que, mesmo gelado de medo, a idéia de fazer alguma coisa com cinema evoluiu. De o pátio da associação, olhando para cima, se descortinava uma enorme massa de barracos, circundando tudo. A idéia que me veio naquele começo de noite foi simples. Um telão de pano 'tendido num ponto visível dos barracos de cima, poderia formar um grande cinema a céu aberto. Um contato com um programa de cinema comunitário do Sesc vingou e conseguimos um projetor 16 mm e um projecionista. O problema era o programa. Não haviam muitos filmes disponíveis em 'ta bitola. Entre os títulos disponíveis, optei por dois: " Compasso de Espera, de Antunes Filho, com o Zózimo Bulbul, sobre as atribulada vida de um ' negro de alma branca ` e o documentário de Benjamim Abrahão'Lampeão ', no qual se pode acompanhar fragmentos da pitoresca vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, Maria Bonita, seus Cabras e suas armas (entre as quais os fuzis Parabellun e a charmosa pistola Lugger de Lampião). Em o fim do filme, as cabeças dos cangaceiros, apareciam cortadas, expostas como mercadorias de feira. A projeção do filme aconteceu depois de um evento de Educação Ambiental, no qual foram plantadas por a comunidade várias mudas de árvores típicas da Mata Atlântica. Em 'te dia a alta cúpula do reflorestamento compareceu, em peso. Zu mandou que os soldados 'condessem as ' ferramentas ' (os fuzis). Sua determinação era a de que as armas não poderiam ser vistas, de forma acintosa, quando autoridades 'tivessem presentes. Uma forma de respeito meio hipócrita na verdade, porque as tais autoridades, não só sabiam, muito bem, onde as armas 'tavam guardadas, como circulavam tranqüilamente por a favela, ao lado de Zu. Em pelo menos uma oportunidade, percebi, por uma rápida 'fregada no nariz e um sorriso maquiavélico, que pelo menos uma das mais importantes autoridades presentes, havia compartilhado com Zu uma generosa carreira de pó, sem a menor cerimônia. Fingi que não vi. Em o fim do tour por a área do reflorestamento, já no sopé do morro, a comitiva ficou perfilada num barranco, olhando com curiosidade para uma guarita da PM, na qual dois constrangidos soldados, disfarçavam o incômodo 'petáculo que representavam, fingindo olhar para o outro lado da rua. Zu não perdeu a piada: «Alá! Tão vendo? São tudo uns ' Cú-de-Galinha '. Não sabem meu nome verdadeiro mas ' tão sabendo quem sou eu. É que nós tem ' Acordo ' com os que ' tão acima de eles, mermão! O bagulho é doido mas o negócio é direito. Não tem bandido. Não tem polícia. O que tem é ' Acordo ', mermão. Acordo, morou?" Em o dia acertado, a projeção do filme aconteceu sem problemas. Encaramos o medo do tiroteio que rolou na parte baixa, a cheiração de cocaína comendo solta no caminho das biroscas, 'perando a noite 'curecer; encaramos tudo sem fraquejar e projetamos os filmes até o fim. Zu assistiu tudo, sentado numa cadeira ao lado da minha, enchendo o chão com as cervejas que um menino ia, de vez em quando, buscar na birosca. O povo dos barracos lá em cima, meio ressabiado, também assistiu a tudo, com surpreendente atenção. Acho que naquela noite ninguém viu a novela da TV. Zu achou bonita a Lugger do Lampião, mas, não deu a mínima atenção para as cabeças cortadas por que, distraído, passara a se importar mais com o plano que surgira na sua cabeça ali, de 'talo, naquele mesmo momento. Aquela idéia intempestiva de Zu acabou por selar, de vez, o futuro da obra na favela: Seqüestrar o carro do governo. «Aí, mermão ... me empresta o carro um tempo aí. Vou e volto." Tremi na base, mas, relutei, com firmeza na voz: «Você vai desculpar Zu, mas, não dá mesmo. Além do mais o responsável por o carro não sou eu, é o motorista." Não convenci. Zu tirou da cintura as duas pistolas automáticas e deu para uma mulher, sua cunhada, que já 'tava ao seu lado. «Olha só. Vou humilde. Vou desarmado! Não tem nenhum problema. Pô?! É só uma carona, mermão!" O motorista me olhou em pânico. Querendo que eu o livrasse da situação. E quem haveria de me livrar? Não havia mais o que fazer, até porque nem dava mais tempo. Quando nos demos conta, Zu já 'tava no carro. A mulher, enfiando as duas armas na própria cintura, também já entrara e o carro partiu, velozmente, sutilmente, seqüestrado. Tememos por o pior. O projecionista, eu, a assistente social, o projetor do Sesc, seqüestrados, retidos no morro. Cercados por a bandidagem nervosa, 'peramos. O tiroteio recomeçou na parte baixa, mais forte. Fria, geladeira total. Cerca de duas horas depois, para o nosso alívio, o carro voltou: «Não falei que não tinha problema?" -- Disse Zu, vitorioso. Nos despedimos da bandidagem, friamente, e partimos de imediato. O motorista mudo por alguns minutos, por fim, gaguejou: «Tô fora, gente! Não levem a mal não, mas, amanhã mesmo entrego a demissão. Podia ter morrido hoje. Não vou 'perar a próxima não. Tô fora!" E contou a sua aventura: Zu o forçara a ir até Niterói, município vizinho. Chegando lá mandou o carro 'tacionar na 'quina de um presídio. Seguiu em frente por uma rua 'cura, onde se encontrou com alguém, que saiu por o grande portão principal. Trocaram palavras, pacotes, armas, drogas, sabem-se lá o que. Não dava pra ver nada naquela 'curidão. De aí Zu voltou, tranqüilo, realizado. A mulher tinha ficado no carro, armada, calada. Não dava nem para pensar em fugir. Depois da narrativa do motorista me calei de vez. Ali mesmo, no caminho, sem precisar pensar muito, decidi me demitir também. O risco, de calculado, ficara imprevisível. «Bagulho doido!" pensei, usando a nova gíria que aprendera. Aquela 'tranha confiança 'tabelecida entre eu e Zu não queria dizer muita coisa (nada de bom, pelo menos). Não haveria chance alguma de articular cultura alguma, trabalho comunitário algum, que não fosse do interesse de Zu. Cúmplices, todos nós, de um contexto social caótico demais para a nossa capacidade de compreensão, me preocupava também, um dado instigante: Os interesses das tais autoridades, também não 'tavam claros. Será que 'tariam mesmo interessadas no futuro da Mata Atlântica? Que outros misteriosos interesses poderiam 'tar por trás de nós, de Zu, de Ném e de toda aquela jovem bandidagem sem futuro? «Tô fora!" -- Comuniquei ao diretor, no dia seguinte. Quinze dias depois, já livre daquele peso terrível, daquele frio na barriga, associado ao medo e à sensação de morte eminente. Voltei para a minha doce rotina das viagens para o interior do 'tado e, enfim, relaxei. Ou quase. Enquanto aguardava, tranqüilamente, a hora do ônibus 'tacionar, refestelado num banco da rodoviária, abri o jornal e gelei, por a última vez: Em um canto da página do jornal uma pequena notícia dizia: «Assassinado O Líder Comunitário!». O corpo do líder comunitário do Morro dos Prazeres José Antônio da Silva, foi encontrado ontem, carbonizado no alto do Sumaré ..." O corpo de Zu foi encontrado caído numa ribanceira, dentro de um táxi. O corpo do motorista também. O pobre do taxista 'tava lá, morto como queima de arquivo. Caso típico do sujeito que (como eu 'tivera) 'tava ali, na hora errada, no lugar errado, na missão errada. Segundo a notícia, Zu havia ido ao encontro do padre italiano recolher o dinheiro da doação da tal Ong alemã, do convênio da creche. Bandido benemérito? Sinal trocado. Tudo errado. Em a manhã seguinte á morte de ele, o Morro foi retomado por o Comando Vermelho, antes mesmo da notícia de sua morte chegar às bancas de jornais. A maioria dos soldados de Zu foi pega, num ataque de surpresa, muito mal explicado. Foram todos barbaramente assassinados ali mesmo. Por o que supus e por o que descreveram os jornais, morreram todos aqueles com os quais eu convivi, inclusive Ném, a militante negra de trancinhas afro. Outro dia, subi meio que por engano, no Morro dos Prazeres e revi o velho casarão, agora todo restaurado. Me disseram, que ali agora funciona uma importante Ong. Com frio na 'pinha procurei sair o mais rapidamente possível daquele lugar. O Brasil 'tá ficando uma terra cada vez mais 'tranha. Número de frases: 263 A crônica de ela é suja. Empresas funerárias e suas diferentes abordagens na hora de vender produtos relacionados ao descanso eterno Rafael Urban Equipe da Folha * Em as viagens que Andrei Matzenbacher tem feito para os congressos de cemitérios por o País, uma coisa tem lhe chamado à atenção: a maneira agressiva como empresas do ramo funerário anunciam seus produtos. ' Em o Rio de Janeiro conheci um caso incrível. Um cemitério colocava um outdoor ao lado de outro de uma operadora de celular que anunciava ' Vivo, a partir de R$ 200'. Ele usava o mesmo boneco da empresa de telefonia, acompanhado dos dizeres ' Morto, a partir de R$ 3 mil '. Esse tipo de humor não funciona com o público do Sul, em 'pecial o curitibano. ' Matzenbacher é o diretor do grupo Jardim da Saudade, com sede em Curitiba e unidades em Pinhais e Blumenau, além do Crematorium Metropolitan também na capital paranaense. A empresa começou com seu avô Jayme, em 1969, com o slogan ' A solução moderna para um velho problema '. A proposta era representar o conceito de cemitérios-parque, importado dos Estados Unidos. ' Todo mundo tinha aquela idéia dos cemitérios públicos, naquele ambiente feio e triste. O ambiente mais alegre, com um campo florido e árvores, ajuda a confortar a família. Tem gente que até vem correr aqui de manhã ', comenta, citando o caso dos corredores que recentemente viraram tema de reportagem na TV. Hoje, o crematório do grupo trabalha com o slogan ' Tranqüilidade para quem fica ', numa propaganda que 'tá sendo anunciada nas rádios. ' Em o momento difícil, os gastos já são muitos e é complicado para sair em busca de um lote. Por isso, buscamos que as pessoas façam previdência. ' No caso da cremação, o custo de R$ 3.150 pode ser parcelado em até 24 vezes. O pontagrossense Carlos Sysocki, que fez ' 33 anos há muito tempo atrás ', fica 'perando o cliente bater em sua porta. ' O dentista não sai por aí batendo de porta em porta. Quando você tem dor de dente vai até o consultório. O mesmo acontece com o meu cliente aqui ', diz Sysocki, dono da Funerária Paranaense desde 1975. Ele não tem vendedores e diz ser contra o uso de propaganda em seu ramo. Sysocki conta que é do tempo em que se tirava a medida do morto. Hoje, além do caixão padrão com 1,90m de comprimento, vende muitos outros, na tentativa de ampliar o seu público. ' É caixão para judeu, católico, evangélico, maçônico ', explica enquanto aponta para um de eles com uma pomba branca e uma mensagem da Bíblia. Em o final da década de 1980, um pedido inusitado o levou a produzir uma nova série. A família de um torcedor do Paraná Clube queria o caixão do pai com o azul, vermelho e branco do time. Desde então, já fez alguns com as cores dos times da capital e de outros tantos. Cada um custa R$ 1.710. ' Mas é exceção. A maioria sai com a bíblia ou com a imagem de Cristo na tampa. ' Sysocki é fã da dupla sertaneja Milionário e Zé Rico, e repete o 'tilo de eles pintando a unha do mindinho direito de vermelho. Além da funerária, é dono do Cemitério Ecológico Jardim da Colina. Em os carros do empreendimento, a frase destacada é ' Respeito ao ser humano e à natureza. ' ' ' Ecologicamente, é o mais correto possível. As pessoas se preocupam muito com isso e ligam para saber o porquê do ecológico ', diz. Sysocki também é fã do Paraná Clube. Para o seu funeral, não tem dúvidas: vai de caixão tricolor. ' As previsões são boas. Não bebo, não fumo. Então vai demorar. O meu time já 'tá enterrado, mas meu desejo é um só: vou deitado com meu Paraná. ' Cemitério tem telemarketing com 60 pessoas à primeira vista, pode parecer um aviso aos apressadinhos no trânsito. ' Não tenha pressa, mas quando for vá de primeira. ' ` O anúncio em cada um dos 25 carros da frota do Cemitério Vertical tem outro objetivo. ' Usamos 'se slogan para quebrar a idéia de que cemitério é triste. Com a comédia, rompemos a barreira ', explica Carlos Alberto Camargo, o diretor comercial da empresa. O slogan foi criado por seu sócio Nelson Fernandes e é utilizado desde a época da fundação, em 1989. ' Não somos publicitários. É algo do instinto mesmo ', comenta o diretor. Camargo gerência uma equipe de 60 pessoas no telemarketing. Quando entram, os operadores passam por um curso para saber o que e como falar. O público alvo é a partir dos 40 anos, mas as chamadas não são aleatórias. Como em outros tele-atendimentos, a equipe de Camargo liga para pessoas indicadas por amigos ou familiares que já são clientes. ' E como ligamos em nome de alguém, não é o cemitério que bate na porta. ' Um terceiro modo de chegar até o cliente é por o PAP, o porta em porta. Porta aberta, os vendedores logo soltam a primeira fala. ' Responda se souber e se souber ganhe um brinde. ' ` Um papel com uma questão de múltipla 'colha é entregue ao dono da casa em que opções para colocar o'x ` são duas. ' Em o Cemitério Vertical, os corpos são sepultados em pé ou deitados? ' ' Em a ficha, também há 'paço para colocar dados pessoais e um número de telefone. Em a seqüência, um atendente entra em contato para combinar a entrega do brinde e oferece os serviços da empresa. A pergunta também circula a cidade num pequeno caminhão, que ajuda a propagandear o conceito. O Cemitério Vertical oferece um plano de assistência funerária familiar, que custa a partir de R$ 1.650, divididos em 36 vezes. Depois, se paga uma mensalidade de manutenção. ' Mas pode ser muito mais caro. Fazemos um cálculo atuarial, em que levamos em conta a idade dos envolvidos e de quanto vai custar o seu funeral. ' ( R.U.) Entre a ironia e o chavão Ernani Buchmann, há 35 anos no mercado publicitário, nunca trabalhou numa campanha de lançamento de cemitério ou de alguma empresa que ofereça serviços de assistência funeral. ' Só não aceitaria permuta. Iria querer receber à vista ', brinca. O publicitário diz que em Curitiba pouca gente já desenvolveu 'se tipo de comunicação, por ser um mercado restrito e que anuncia muito pouco. ' E, em geral, o que se faz é de mau gosto. ' Alessandra Nogueira Saltori, diretora de criação da Ideale Comunicação e Design, teve a primeira experiência há pouco tempo, quando foi contatada por o Crematorium Metropolitan. ' É um produto que é difícil não cair na ironia ou no chavão. Resolvemos puxar para o lado vendedor sem que a propaganda se tornasse agressiva. ' O spot, que 'tá circulando numa rádio da capital, finaliza com o slogan ' Tranqüilidade para quem fica ', que foi bem recebido por a direção da empresa. ' Pois o meu produto não é xampu ou celular, que são positivos e que permitem o uso de promoções. O meu produto é negativo e exige uma sutileza. Eu não posso anunciar uma promoção de lote até 31 de julho por a metade do preço ', completa Andrei Matzenbacher, diretor da empresa. ( R.U.) Urna ecológica Se você já teve um filho e 'creveu um livro, pode ficar tranqüilo, deixando a árvore sob responsabilidade dos descendentes. à venda na Funerária Paranaense, a urna ecológica, feita de fibras orgânicas, é biodegradável. Ela acompanha terra e sementes de árvores que dão flores. Após a cremação, basta colocar as cinzas (que em geral chegam de 1,5 a 2 quilos) com a terra e as sementes e plantar a urna. Há dois tamanhos: pequeno (R$ 350) e grande (R$ 450). Se preferir deixar as cinzas na 'tante, uma urna de madeira em formato de enciclopédia sai por R$ 850. ( R.U.) Slogans -- ' A solução moderna para um velho problema ', do Jardim da Saudade, em 1969, quando introduziu o conceito de cemitérios-parque -- ' Tranqüilidade para quem fica ', do Crematorium Metropolitan, em spot que 'tá sendo veiculado nas rádios -- ' Respeito ao ser humano e à natureza ', do Cemitério Ecológico Jardim da Colina, divulgado nos automóveis da empresa -- ' Não tenha pressa, mas quando for vá de primeira ', do Cemitério Vertical, usado desde sua criação em 1989 (R.U.) * Reportagem originalmente publicada no Caderno Curitiba do jornal Folha de Londrina, do dia 03/07/2008. Número de frases: 99 Fevereiro 2008 Por Eugênio Rego Em 1998 o Grupo Harém de Teatro deu o primeiro passo rumo à experiência do teatro de língua portuguesa produzido na Europa e África. Foi em 'se ano que o ator e produtor Francisco Pellé mudou-se temporariamente para Portugal, no intuito de trabalhar com as companhias daquele país e construir uma ponte de parcerias com elas. Pois em agosto próximo, o Harém faz o caminho inverso recebendo em Teresina companhias 'trangeiras, nacionais e piauienses no I Festival de Teatro Lusófono, que acontece entre os dias 24 e 30 de agosto, com vastíssima programação dividida entre o Theatro 4 de Setembro e o Teatro Municipal João Paulo II. [ Confira programação na agenda do Overmundo]. O lançamento oficial do evento acontece no dia 22 de julho. As companhias participantes vêm de Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde, num total de seis grupos. A produção prevê ainda a participação de um grupo vindo de São Tomé e Príncipe, ex-colônia portuguesa localizada no Golfo da Guiné. De o Brasil, presenças confirmadas no festival são o Teatro Bando Olodum [e mais três companhias brasileiras], a atriz Lucélia Santos, do ator Celso Frateschi [atual presidente da Funarte] e a coreógrafa piauiense Lenora Lobo, entre várias outras personalidades ligadas ao teatro lusófono e à Cultura. Além dos 'petáculos da programação oficial do festival, o evento prepara ainda uma programação paralela de oficinas, palestras e mesas redondas que ocuparão outros 'paços como a Escola Técnica de Teatro Professor Gomes " Campos. «A realização deste festival é o resultado final de um processo que começou com a minha ida para Portugal há dez anos. Em todo 'se tempo, o Grupo Harém tem viajado sistematicamente àquele país no intuito de sedimentar 'sa relação com o teatro de língua portuguesa», destaca o ator e produtor Francisco Pellé. Em 2000, Pellé participou da montagem de «Dois Perdidos em Uma Noite Suja», texto de Plínio Marcos, numa parceria com a portuguesa Cia de Teatro Extremo, de Almada. Em 2001, o Harém leva a montagem de «O Princês do Piauí» para terras lusitanas e repete a viagem em 2003 com «O Clone», direção de Arimatan Martins para o grupo Shakespirados. A vinda das companhias internacionais falantes de língua portuguesa inaugura a outra via de 'sa longa 'trada pavimentada por o teatro. «O objetivo do Festival Internacional de Teatro Lusófono é a integração entre os grupos teatrais falantes da língua. O critério de 'colha dos convidados levou em conta exatamente o trabalho que elas desenvolvem para divulgar a língua portuguesa em todo o mundo», explica Pellé. Iniciativas similares, inclusive, serão tema da palestra «Divulgação e Preservação da Língua portuguesa no Mundo», que contará com a participação da atriz Lucélia Santos -- cuja figura tornou-se conhecida internacionalmente graças ao grande sucesso da novela» Escrava Isaura», exibida em dezenas de países, incluindo a distante e reservada China. Oferecendo 'petáculos que são expoentes no repertório das companhias convidadas para o Festival Internacional de Teatro Lusófono, textos de outras línguas também serão encenados na programação. É o caso da peça " Pedro e o Lobo, uma fábula musical 'crita por o compositor russo Sergei Prokofiev, em 1936 "; a montagem será feita por o Cia de Teatro Extremo. Outro 'petáculo cujo autor não é falante da língua portuguesa é ' Nojo ', da angolana Teatro Serpente. Outro expoente da programação será o retorno de ' Raimundo Pinto Sim, Senhor ', o sucesso incontestável do Grupo Harém. O I Festival Internacional de Teatro Lusófono já nasce congregando não só a dramaturgia portuguesa mas o texto teatral feito em outras línguas e culturas também. Viva o teatro! Número de frases: 25 O I Festival de Teatro Lusófono conta com o patrocínio da Oi Patrocínio, Governo do Estado do Piauí, Caixa Cultural e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) Introdução ao Problema A literatura blumenauense, segundo o professor e 'critor José Endoença Martins, pode ser dividida basicamente em duas vertentes. Sendo Blumenau um 'paço-tempo devidamente delineado por a história e por a geografia, podemos já falar de, em 'sa mesma Blumenau, duas visões antagônicas: Blumenalva e Nauemblu. Foi o nacionalismo forçado de Getúlio Vargas (a partir de 1930) que 'tagnou a criação literária blumenauense. Levando em conta que os colonos até então compunham em alemão por ser a única língua que conheciam, o silenciamento passou para além do lingüístico e tornou-se efetivamente cultural. Quando, porém, foi retomada a liberdade de cantar a terra e seu povo, Blumenau entrou num círculo vicioso de enaltecimento de si própria que demorou trinta anos para ser alcançado e ultrapassado, por assim dizer. Lindolf Bell, poeta morador do vale que adotou Blumenau como moradia e musa, é o criador do termo Blumenalva. Para a poesia -- e os poetas -- dos anos de 1960, Blumenau era a musa inancalçável, dotada de pura beleza. O próprio termo Blumenalva sugere a visão teutônica de pureza, limpeza e riqueza percebida por os olhos do blumenauense. Nasci onde geografia se faz de sentimento Lindolf Bell in O Código das Águas Somente depois de trinta anos, ou seja, a partir da década de 1990, é que a poesia Blumenalva passa a ter uma corrente interlocutora e opositora: a chamada Nauemblu. Enquanto para os poetas sessentistas, a cidade e sua geografia (os vales, o verde, o germanismo e o rio) eram o principal tema de suas composições, para os 'critores da corrente experimentalista da década de 1990, 'tes já eram temas ultrapassados. O enaltecimento de uma cidade localizada 'taticamente no Vale do Itajaí deixava de fazer sentido para 'tes poetas que conseguiam observar além do vale e puderam perceber as fortes mudanças que a História lhes exigia: somente durante o século XX foram duas guerras mundiais, a polarização Eua x URSS, a globalização, as ditaduras militares latinas, entre tantos outros fatos relevantes que se fizeram perceber fora dos muros de 'ta cidade. O Problema A análise que me disponho a fazer tem um ponto de partida pessoal e coletivo: Blumenau é uma cidade operária (isso, em si, já riquíssimo de significado) que tem de conviver com o trauma de não 'tar localizada na Europa, mas no Brasil, um país dito em desenvolvimento e com déficits em praticamente todas as áreas públicas. Para efetuar minha análise, contemplarei dois autores. Lindolf Bell e José Endoença Martins são polarmente opostos. Primeiramente, por pertencerem a momentos históricos distintos; depois, por terem opiniões adversas a respeito do papel da poesia e sua relação com o meio onde é composta -- a poesia de Bell enaltece a cidade, suas tradições e seus respectivos traumas teuto-brasileiros, enquanto a poesia de Martins critica a atuação pseudo-germânica dos habitantes da cidade, chamando sua atenção para a realidade não-romântica, para o mundo real que a cerca, para além dos morros que compõem o Vale do Itajaí. A poesia belliana, conforme a análise que proponho, é a poesia do sonho e pode ser interpretada como a genuinamente blumenauense, pois apesar da realidade que a cerca e de ela exige mais realidade, continua imersa em nuvens brancas: «Se me quereis longe da paixão: tirai o cavalo da chuva Pois menor que meu sonho Não posso ser." Lindolf Bell, Poema do Andarilho in O Código das Águas. Já a poesia que se contrapõe à pseudo-realidade de Lindolf Bell é a poesia não do sonho, mas da insônia, da angústia cotidiana, do humor azedo de uma segunda-feira de manhã: «Em 'ta cidade de vampiros um 'pirro é mais que um susto. Acorda-se sobressaltado dorme-se com muito custo." José Endoença Martins in Poelítica Enquanto a poesia de Bell exalta o sonho, Endoença mostra-nos com que dificuldade se dorme, onde «um 'pirro é mais que um susto». Já o refrão «menor que meu sonho não posso ser», que foi eleito o refrão poético da cidade, aparece onde couber nos 'paços públicos. Endoença não aparece em lugar nenhum. De os poucos que o conhecem de nome, menos ainda são os que o lêem. Parece-me que «numa cidade de ritos combalidos», onde as pessoas têm os» olhos em enxaimel " (Endoença), acordar de fato para uma realidade dolorida e penosa -- que, afinal, é a realidade da realidade dos fatos -- é, pelo menos, uma tentativa de crime contra o sonho. O sonho que, por aqui, é uma das únicas saídas ainda, deve ser preservado antes de tudo, através principalmente de sua arte inerte, de suas discussões inexistentes e de sua poesia sonâmbula, que 'creve dormindo e não pode ser acordada. Quem souber e puder, que faça diferente. Número de frases: 46 MS é a ' outra ` 'quina do Brasil. Se Minas Gerais é a porta do interior do país para o nordeste adentro, o MS 'tá proporcionalmente do outro lado, como a entrada que leva ao norte e a fronteira Ambos não têm mar e, se olharmos no mapa, Campo Grande e Belo Horizonte 'tão na mesma linha. A capital mineira com Vitória do Espírito Santo e o Oceano Atlântico logo à frente e a Cidade Morena com a fronteira paraguaia e Assunção na reta. Uma já foi região cobiçada por o ouro, a outra conhecida como a Terra do Boi e de índios guaranis. Os dois lugares, mais Goiás, só foram descobertos por os bandeirantes paulistas no século XVIII, duzentos anos após a turma de Cabral ' chegar ` em 'tas terras. Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, claro que Mato Grosso e Goiás também, representam o Brasil caipira. A música destes lugares não poderia ser diferente. São típicas, tem um gosto, uma variedade de influências que torna originalíssimo o tempero. A diferença é que os compositores mineiros ficaram famosos em todo o Brasil com Milton Nascimento & Clube da Esquina e os de Mato do Grosso do Sul permanecem diamantes brutos, como Geraldo Espíndola, Paulo Simões e Geraldo Roca. Igualmente ao solo mineiro, a diversidade da música gerada em MS produz compositores díspares, grupos de samba, música clássica, bandas de rock e instrumentistas fantásticos. No entanto, o peso da influência dos ritmos fronteiriços, como a polca, o chamamé e a guarânia, particulariza a música de MS se pensarmos no restante do Brasil. Em 'te sentido, a música mineira é a que mais comunga com a sul-mato-grossense. Pulsando em compasso ternário, ela se distancia do que é tido como padrão da música ' caipira ` e destoa da MPB. Soa 'tranha aos brasileiros litorâneos acostumados a cadência binária do samba rock bolero marchinha valsa-frevo. Litorâneos 'tes que se sentam, já de modo robótico, de costas para o Pacífico e são cegos à cultura O CD GerAções é uma 'pécie de urro coletivo. Um ' Liberdade Ainda Que Tardia ` de dezenas de artistas que formam o riquíssimo mosaico musical do 'tado sul-mato-grossense e que se mantêm invisíveis há décadas fora dos limites 'taduais, em menor ou maior grau. O responsável por reunir 'te Clube da ' outra ` Esquina no CD GerAções é o produtor, publicitário e músico Márcio de Camillo. Ele 'tará lançando a ' cria ' no próximo dia 17 de setembro, domingo, às 18h, na Concha Acústica do Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande. O projeto de Márcio foi um dos dois 'colhidos de MS por o programa de patrocínio cultural da Petrobrás de 2005. Com um orçamento de R$ 108 mil, em cinco meses gravou, mixou e masterizou, entre março e julho de 2006, o disco com 14 faixas reunindo dois artistas em cada e envolvendo 60 músicos ao todo. O GerAções é uma mostra significativa da atual música do MS, registra canções importantes do cancioneiro regional, revela e relembra compositores, desencava e renova canções e prova a qualidade técnica de instrumentistas, arranjadores e cantores sul-mato-grossenses. As 3 mil cópias do álbum serão distribuídas para entidades não-governamentais, órgãos públicos, rádios do interior, 'colas e meios de comunicação. O objetivo principal de Márcio de Camillo com o GerAções é fazer circular a música e os músicos de MS. E, intencionalmente, como um grupo e não isoladamente. As 14 faixas do disco GerAções, por exemplo, 'tão disponibilizadas no banco de cultura do Overmundo, liberando propositalmente em Creative Commons as obras. É bom que se diga que coletâneas, discos de festivais, registros de shows coletivos e projetos musicais lançados em CD não é novidade no MS. Mas nenhum tem a qualidade técnica e musical do GerAções. Se vai adquirir a importância histórica também só o tempo dirá. Mas já é, sem dúvida, histórica na medida em que cruza artistas de gerações diferentes e registra 'te momento de mutação e amadurecimento dos músicos do 'tado. Ao mesmo tempo, (re) valoriza ídolos dos primórdios (sul) mato-grossenses, como as irmãs Beth e Betinha e a dupla Amambay e Amambaí, sucessos numa época em que o rock não passava perto dos ouvidos do público. Um dos méritos do CD é que mescla com harmonia propostas distintas, passando por o blues, country rock, polca, balada, chamamé, instrumental e guarânias. Camillo também não caiu na armadilha fácil de regravar os maiores sucessos regionais, na verdade, ausentes do GerAções. Os artistas mais conhecidos de MS, Almir Sater e Tetê Espíndola, aparecem no disco como compositores, assim como Geraldo Espíndola. Toda 'ta geração de músicos de MS ficou marcada justamente por um projeto que os reuniu num show na Universidade Federal de MS em 1982 e que foi registrado no LP Prata da Casa. O GerAções, no entanto, chega num momento bem diferente do euforismo que a classe artística vivia na década de 80, quando contava com casa cheia na maioria dos shows e existia sim um movimento tipo o Clube da Esquina em MS, com Geraldo Espíndola, Carlos Colman, Geraldo Roca, Guilherme Rondon, João Fígar, Alzira, Celito e Tetê Espíndola, Paulo Simões e Almir Sater compondo canções que fundaram uma nova vertente na música popular brasileira. Juntando a música destes compositores, mais a Velha Guarda e os novatos com suas fusões ' 'tranhas ' chega-se a uma argamassa musical que transforma o GerAções numa novidade para o público e uma boa pauta para os jornalistas de fora de MS. O produtor do álbum é um dos ' filhos ` de 'ta ' Geração Prata da Casa ` e, por isso, o disco retrata principalmente o universo de composição que vem justamente da geração que faz a moderna música de MS desde final da década 60. Escolheu inclusive um dos mais representativos, Geraldo Roca, para cantar junto, no caso, Lá Vem Você de Novo, uma pérola 'quecida da parceria histórica entre Paulo Simões e Geraldo Espíndola, sem dúvida, fundadores da mania de compor em dupla, algo comum em MS e que mais uma vez lembra o Clube da Esquina. Márcio tem planos para lançar DVD e levar o GerAções para outros 'tados. O músico foi um dos primeiros de MS que atinou para as leis de incentivos. Já lançou um DVD próprio em 2005 através de leis 'taduais, 'tá gravando um disco novo por a lei municipal, em 2005 produziu o Violas do Brasil, no Rio de Janeiro, com patrocínio do Banco do Brasil e foi contemplado com o GerAções por a Petrobrás. Ainda comanda a Associação de Músicos do Pantanal, a AMP, e divide a Criatto Produções com a 'posa e produtora Izabella Cardozo. Um exemplo de artista-produtor, que tem de ' se virar ' para sobreviver num 'tado com músicos de sobra e empresários de menos. Compositores de mais e cachês baixíssimos. Músicas lindas e um mercado todo a se construir. Vamos à entrevista: -- Como surgiu a idéia do GerAções? -- Depois que voltei de uma viagem que fiz a Europa, em 2003, por a Unesco, retornei com sentimento de grupo. Percebi naquela época que na Europa entenderam que com o fim das gravadoras é melhor o sistema ' um arrasta o outro '. E o artistas mais conhecidos acabam apresentando ao seu público o menos conhecido. Vim com 'ta idéia do GerAções da Europa, que é mostrar os músicos sul-mato-grossenses num cardume, para causar mais impacto. Nós de uma geração mais nova, talvez tenhamos no 'tado o mesmo número de fãs que um Geraldo Roca, Geraldo Espíndola, Paulo Simões ... A gente se torna conhecido num contingente de pessoas que não cresce em MS. São formadores de opinião que já atingimos ao máximo. A dificuldade é penetrar no povão. E se formos pensar no inverso, na música mais popularesca, ela penetra na classe universitária e nas mais abastadas. Uma música com menos qualidade literária. O MS tem muitos compositores, cantores e instrumentistas. Como foi chegar aos nomes para o projeto? Foi a maior dificuldade. Quando o projeto foi aceito nem tudo 'tava fechado. Alguns nomes 'tavam na cara, como Juci Ibanez e Bêbados Habilidosos. O Bando tem o rock dos anos 70 forte e Lenilde Ramos é a madrinha do ' rock de botina ', que descambou para a polca-rock com certeza. Outra junção meio óbvia era Amambay & Amambaí e João Fígar em Recuerdos de Ypacaraí (veja o Vídeo da gravação). Esta faixa me lembra o Buena Vista Social Club porque nos anos 50 e 60 a dupla era sucesso na região. O Marcelo Loureiro e Elinho foram a última dupla a fechar porque o sanfoneiro Dino Rocha, que iria gravar com o Loureiro, teve um ataque cardíaco. E os dois bebem da fonte da música argentina, então 'tava 'crito colocar o bandoneon junto com Marcelo. A faixa do Olho de Gato com o Celito Espíndola fechou a fase do Daniel na banda, que mudou de formação. E reunir antagônicos como Antônio Porto e Clarice Maciel? O Toninho foi o penúltimo a fechar. Estava um pouco apreensivo, porque tinha vontade de trazer a Clarice para fora do universo lírico. E propus para o Toninho e sugeri o compositor Paulo Gê. E o Toninho 'colheu a música Flor do Limo. E o repertório? Como foram 'colhidas as músicas? Sugeria e os artistas embarcavam ou não. Pensei em Quando Me Espera Você para Olho e Celito. É uma canção que faz parte do disco Rondon e Fígar, que teve 4 indicações ao prêmio Sharp em 1992 e é uma parceria do Guilherme Rondon com Murilo Antunes (autor de Nascente). O projeto teve 'ta liberdade do intérprete 'colher o que iria cantar. Queria que o Jerry gravasse Mochileira e ele quis Polka Outra Vez, também do Roca. Então houve uma acomodação. Marcelo Loureiro e Elinho do Bandoneon apresentaram uma música, do compositor Brancão, um bandoneonista de Três Lagoas, que ninguém conhecia em Campo Grande. Então o Gerações também revela compositores. Não é só intérprete, instrumentista, cantor ... A Glorinha (professora e 'critora Glória Sá Rosa) disse: ' Q legal vc não caiu na mesmice '. Tipo mostrar os sucessos do MS. E se olhar no repertório do disco não tem mesmo os clássicos. Mas Trem do Pantanal, Vida Cigana, Quyquyho e Cunhataiporã já foram bem gravadas. E a gente tem de mostrar coisas que não foram mostradas. Por isso que o Gerações tem Solidão, que acho que é um sucesso tremendo ... E é uma das únicas músicas compostas por João Fígar. É. E é belíssima. E Coração Ventania, que não foi tão conhecida como deveria ser. E a versão do Bando e da Lenilde ficou incrível. A maioria das músicas do repertório é dos anos 80. Em 'te sentido o GerAções contemplou mais uma vez a geração da década de 80. O disco reforça a dominação daquele pessoal que fez o Prata da Casa e não há uma renovação em 'te sentido, com compositores que vieram depois de 'ta geração. Quando pensei em se mostrar uma radiografia da música sul-mato-grossense, algumas coisas foram pré-'tabelecidas por mim como diretor. Mas outras surgiram. Quando 'crevi o projeto, a idéia era as duplas gravando clássicos e músicas significativas. Era o link do projeto. Recuerdos de Ypacaraí tem um por que. Queria retratar a influência da música paraguaia mais em Campo Grande do que no MS. Porque a produção da música do 'tado 'tá em Campo Grande. Então quando o Marcelo veio com uma música de Três lagoas fiquei feliz. Porque no 'tado inteiro o que mais se 'cuta hoje é música sertaneja e quis mostrar a música caipira. Esta música sertaneja que a gente repele, ao mesmo tempo foi a que conseguiu criar o mercado no 'tado. Por que não chamar o Tradição, que é o grupo mais popular do 'tado, para o disco? Porque vai contra o pensamento da Petrobrás. Artistas com mais de cinco discos gravados não poderiam 'tar entrando com seus projetos no edital. O Almir 'tá em 'te CD como compositor e a mesma coisa a Tetê, que são artistas com mais de cinco discos. Mas eles precisavam 'tar presentes de alguma maneira. Para retratar a música daqui tradicional tem Recuerdos, uma clássica canção paraguaia, tocada por uma dupla caipira com um cantor de MPB, e Flor Mato-grossense, que é do Anacleto Rosas Júnior, um compositor paulista. Por que vc não optou por uma música de um compositor daqui em 'te 'tilo, como Zacarias Mourão? Mas qual é a música mais conhecida do MS? Chalana, de Mário Zan, que não é daqui também. Quis mostrar que o MS foi motivo de inspiração para compositores importantes do Brasil. Quando Me Espera Você é Rondon e Murilo Antunes, que é de Minas Gerais, do Clube da Esquina. Quis mostrar a influência da música caipira do Mato Grosso do Sul. Aqui tem ritmos que foram influenciados também por a música mineira e norte de São Paulo, como Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e porque não dizer Anacleto Rosas Júnior. Acho que a música mais inesperada do repertório é Lá Vem Você de Novo, desconhecida da maioria. Como ela surgiu? Quando fui conversar com o Roca falei: ' Queria que a gente gravasse uma música do Geraldo Espíndola '. E aí ele disse: ' Só gravo se for Lá Vem Vc de Novo '. Uma canção que nunca tinha sido gravada e mostra uma dupla que fez mais de 500 músicas e só três foram gravadas até hoje. ( Veja o Vídeo da gravação de Lá Vem Você de Novo) E que foi uma dupla pioneira, surgida entre o Simões e o Geraldo no final dos anos 60, com o grupo Bizarros. Têm coisas que vão por um caminho que você não 'pera. Quando 'cutei a música percebi que ela representava o tripé que sustenta toda a música moderna de MS, que é o Geraldo Espíndola-Paulo Simões-Geraldo Roca. E eu como fator surpresa, que é a idéia do GerAções. Para começar que o tom da música já é diferente, um Dó Sustenido. A harmonia de 'ta música é difícil e soa 'tranha a primeira vez que se 'cuta. E gravar com o Geraldo Roca, que é uma lenda, foi extremamente prazeroso. Com 'te disco na mão, o que se apresenta em termos de 'coação do produto em MS? O CD vai para as rádios de várias cidades, 'colas, órgãos públicos ... O objetivo é fomentar e dar CD. E mandar para a imprensa não só dentro do 'tado, mas fora também. Porque o MS é pequeno e a minha intenção é provocar para tornar visível o cenário artístico sul-mato-grossense. Não acredito mais ir sozinho. Junto é difícil, sozinho é impossível. Vc acha que o GerAções pode trazer uma nova onda para a música daqui como foi o Prata da Casa? Pq o PC virou um marco por reunir aqueles artistas que acabaram ditando o rumo da música do 'tado por anos. O Prata da Casa deu certo porque existia uma dificuldade para se gravar na época. O técnico de gravação do Prata da Casa foi o Pena Schimidt, que hj é o presidente da ABMI. Hoje gravar é bem mais fácil. Quero que o Gerações circule. Ele já 'tá liberado em CC no Overmundo totalmente. Então o objetivo não é comercial, é fazer circular a informação mesmo sobre 'tes artistas. A gente não precisa mais de CD na praça. Precisamos aqui em MS de difusão, fomentar a cultura, circular. O que acontece hj em MS é q o sul-mato-grossense não conhece a produção cultural do 'tado e muito menos o público nacional. Próximos passos do GerAções? Vou tentar produzir um DVD do show. Uma parceria com a Uniderp. Se ficar bom vira DVD, se ficar razoável vira um 'pecial de ano. É importante registrar 'te projeto em imagem também. Com isso na mão fica mais fácil vender o Gerações como um show. Mas depende de parcerias. Só vai para a frente se a gente conseguir torná-lo viável e provar que MS tem uma música de conteúdo forte e aí sim chegamos aos grandes centros. A música de MS já conquistou o Brasil do Tetê Espíndola e Lírio Selvagem e teve destaque nos anos 90 com a novela Pantanal. Chegamos as rádios brasileiras. Em a verdade explodiu o Almir Sater. Com a 'tréia de Pantanal houve uma euforia entre os músicos tipo ' chegou à hora '. E o que aconteceu? Explodiu o Almir e o resto ficou para trás. Não houve mais nenhum pico da moderna música de MS. Tenho outra visão. O Almir puxou muita gente. Abriu as portas da gravadora 3M para a Alzira Espíndola, Geraldo Roca e João Fígar. E o empresário de ele, o José Amâncio, começou a empresariar o Guilherme e o Rondon, colocou os caras na Eldorado e aquele disco teve um reconhecimento. Talvez faltasse uma 'trutura profissional para os artistas sul-mato-grossenses. O Gerações foi um dos dois projetos do MS contemplados por a Petrobrás em 2005. Falta ainda à classe artística se atinar para 'tas licitações nacionais para patrocínio de projetos? Trabalho desde 1998 com leis de incentivo. O mais difícil não é ter uma boa idéia, mas redigir o seu projeto. Existe uma ciência, tem de explicar e convencer de que seu projeto vai dar certo e, junto com tudo isso, tem de ter portfólio para mostrar que vc é capaz de fazer. No caso do GerAções tenho certeza que eles olharam o Violas do Brasil, que foi importante para a minha carreira como produtor, e a minha ação em relação à Associação de Músicos do Pantanal (AMP). Abaixo o link para cada faixa do CD GerAções: 01 * Quando Me Espera Você Autores: Guilherme Rondon e Murilo Antunes Intérpretes: Olho de Gato & Celito Espíndola 02 * Coração Ventania Autor: Carlos Colman Intérpretes: O Bando do Velho Jack & Lenilde Ramos 03 * Flor Mato-GROSSENSE Autor: Anacleto Rosas Júnior Intérpretes: Beth e Bethinha & Maria Alice e Maria Cláudia 04 * Flor do Limo Autor: Paulo Gê Intérpretes: Antônio Porto & Clarice Maciel 05 * Doma Autor: Almir Sater & Zé Gomes Intérpretes: Rodrigo Sater & Gabriel Sater 06 * Polka Outra Vez Autor: Geraldo Roca Intérpretes: Jerry Espíndola & Karina Marques 07 * Lá Vem Você De Novo Autor: Geraldo Espíndola & Paulo Simões Intérpretes: Geraldo Roca & Márcio de Camillo 08 * Conversas E Promessas Autores: Rodrigo Sater & Márcio de Camillo Intérpretes: Paulo Simões & Melissa Azevedo 09 * RECUERDOS De YPACARAÍ Autores: Zulema de Mirkin & Demetrio Ortíz Intérpretes: Amambay e Amambaí & João Fígar 10 * Linda Autor: Brancão Intérpretes: Marcelo Loureiro & Elinho do Bandoneon 11 * PIRARETÃ Autores: Celito & Tetê Espíndola Intérpretes: Guilherme Rondon & Gílson Espíndola 12 * Overdose Autores: Alzira Espíndola & Alice Ruiz Intérpretes: Juci Ibanez & Bêbados Habilidosos 13 * Solidão Autor: João Fígar Intérpretes: Carlos Colman & Filho dos Livres 14 * Colisão Autores: Jerry Espíndola & Ciro Pinheiro Número de frases: 222 Intérpretes: Alzira Espíndola & Rodrigo Teixeira Por: Artemísia Caldas * 12 de maio de 2007 que a moda é um empreendimento global, ninguém mais tem dúvida. Já é uma linguagem internacional que ultrapassa fronteiras étnica e de classes. E nas partes do mundo, onde as roupas da moda são amplamente disponíveis; a vestimenta serve para expressar modernidade e informações, garantindo um acesso às pessoas como uma forma de aceitação ao meio. Como comenta Colin McDowell (1995) apud JONES, 2005, «nós precisamos mais da moda do que das roupas não para cobrir nossa nudez, mas para vestir nossa auto-'tima». As roupas novas podem ajudar as pessoas a se sentir mais confiantes, mas, o que elas necessitam muito no momento é da diferenciação sem serem realmente diferentes. Portanto, somos levados a buscar maneiras de nos diferenciarmos, e o adorno é um meio que possibilita enriquecer nossos atrativos físicos, afirmar nossa criatividade e individualidade, sinalizando nossa associação ou posição dentro de um grupo ou cultura. Como os adornos podem ser permanentes ou temporários, somos levados a utilizá-los como convêm os vários meios disponíveis e acessíveis as nossas possíveis condições. Contudo, a moda e as roupas precisam ser adequadas ao 'tilo de vida de cada um. A idéia da moda «ditada», uma tendência imposta por o mercado, necessita de uma análise significativa sobre adequação do produto ao modo de vida do consumidor. A cada dia o consumidor dispõe de menos tempo e paciência para sair às compras, na verdade, ele 'pera encontrar rapidamente aquilo que busca dentro das suas expectativas e desejos, não acontecendo, vai à busca de novas compensações, como o culto ao corpo e outros meios. Temos como exemplo a onda da construção ao corpo, uma forma de expressão mais significante, quer na moda da silhueta, quer na moda da vestimenta, uma maneira de dar forma e modelação que lhe confere o seu bem 'tar. Segundo Castilho (2004), o homem tem 'sa tendência de redesenhar o próprio corpo, em razão de 'sa eterna insatisfação com a própria aparência, mas graças a nossa segunda pele, onde podemos 'conder ou evidenciar as possíveis imperfeições, a roupa colabora perfeitamente na construção de uma nova imagem mais próxima do que desejamos. Essa prática, do saber-fazer, de reorganizar, do reinventar, faz parte de um momento, onde o movimento da diferenciação colabora para que cada um procure fugir da massificação, permitindo uma individualização por meio de peças únicas. Esse momento é agora, com a onda da customização, 'sa proposta possibilita o indivíduo destacar-se num grupo homogêneo. É uma tendência que reflete a necessidade de diversificar e individualizar as roupas com o objetivo de fugir das normas impostas, porque reflete através das vestes sua ideologia e até sua crença. O que é customização? A palavra customização, que até pouco tempo não existia na língua portuguesa, foi criada para traduzir uma expressão em inglês -- custom made -- significa então sob medida. Tudo indica que 'sa proposta nasceu com o movimento hippie na década de 60, com o advento dos processos artesanais e o desenvolvimento de técnicas de tingimentos de tecidos, trabalhos com retalhos (patchwork) contribuindo para personalização das peças. ( PALOMINO, 2002) Em 'sa onda, customizar significa reciclar, transformar o básico numa nova peça, única, exclusiva, seja com recortes, apliques, costuras decorativas, lantejoulas, pedrarias, babados, botões, tingimentos, pinturas, de entre outras infinidades de maneiras e materiais utilizáveis. É um verdadeiro «vale tudo» para a obtenção de roupas e acessórios únicos, diferentes daqueles produzidos em série. Pode ser feito através de técnicas somente manuais, técnicas à máquina, colada, silkada, cortada, como também usando todas as técnicas necessárias e possíveis para um bom resultado 'tético harmonioso. Em a opinião de Vicent-Ricard (1989), a conseqüência imediata do fenômeno foi o surgimento e o fortalecimento de um poder 'pecífico, capaz de desorganizar tudo: a iniciativa criadora e personalíssima do consumidor, que permite a cada um exercer sua própria criatividade em função de sua imaginação e de suas visões. Referências Castilho, Kátia. Moda e Linguagem. Paulo: Anhembi Morumbi, 2004. JONES, Sue Jenkyn. Fashion Design: manual do 'tilista. Tradução Iara Biderman. Paulo: Cosac Nalfy, 2005. PALOMINO, Érika. A moda. São Paulo: Publiofolha, 2002. VICENT-RICARD, Françoise. As Espirais da Moda. Tradução Maria Inês Rolim. Janeiro: Paz e Terra, 1989. * Artemísia Caldas é Especialista em Design Têxtil e professora de Moda da Faculdade Católica do Ceará -- Marista. E-mail: " \> Número de frases: 44 artecaldas@hotmail.com Tiros no Olímpia Music Bar. Será que 'te filme vai parar de reprisar alguma dia? Faz dois anos que perdemos uma figura extremamente encantadora, que sob meu ponto de vista, transmitia paz e alegria em qualquer canto aonde chegava. Uma figura de 'sas que não se repete. Faz dois anos que na porta do extinto Marquês D' Latravéia, numa atitude indigna de um ser sem coração, em frente ao show da Nação Zumbi, perdemos o maravilhoso Israel Sampaio, mais conhecido e querido por Rá. Já em setembro de 2004, a boate Arena também se tornou palco para o trágico episódio dos três homens que atiraram ao acaso nos jovens que participavam de uma festa que acontecia no local. Sem 'quecer o caso de Klebson Almeida, para refrescar um pouco mais sua memória, Klebson foi o 'tudante que em julho do mesmo ano, foi 'pancado e morto por o pitboy Charlão na Uau (lembra agora?). Infelizmente, a noite de ontem foi mais uma de 'sas reprises. Ao que parece, um ser conseguiu entrar na casa de shows Olímpia Music Bar portando uma arma de fogo e no meio da brincadeira, não se sabe bem por qual motivo, começou um tiroteio sem nexo, acertando algumas pessoas e causando terror nas demais. A muvuca foi se tornando cada vez pior, quando a agonia tomou conta do público que só disponha de uma pequena porta de saída que se encontrava do outro lado do novo anexo da casa. Em conversas com algumas pessoas que presenciaram o ocorrido, ouvi as seguintes frases: «A gente não tinha como sair, pois tinha muita gente e só uma porta do outro lado. Os tiros não paravam. Foi terror. Acho que durou meia hora de doideira." Outro relato: «Várias meninas foram atingidas. Eu 'tou toda machucada. Minhas pernas, meus braços, meu pé. As pessoas se pisoteavam. A polícia só chegou uma hora depois." Depois da tormenta, as pessoas começaram a querer o dinheiro do ingresso de volta, mas os responsáveis por a casa de show haviam sumido. É triste lembrar e reviver 'ta situação. É hora de questionar o que anda acontecendo com nossa segurança. Vale a pena sair de casa para se divertir e correr o risco de não voltar? Quem são os verdadeiros culpados: O cara armado? A segurança despreparada da casa que não percebe a entrada de uma arma? O dono da casa por o não investimento na segurança e na 'trutura de emergência? A polícia atrasada? A SAMU que chegou mais atrasada que a polícia? Nós somos o povo. Nós ditamos as regras. Número de frases: 33 Só depende de nós. Mais uma novela mexicana? Não. É a odisséia do BitTorrent, uma não tão recente tecnologia peer-to peer que veio para quebrar o paradigma predominante da Internet, o modelo centralizador servidor-cliente. A os iniciantes, criar e tornar disponível um arquivo torrent é igual a lançar uma missão para Marte, daí o apropriado termo «odisséia». Mas todo o 'forço para vencer o hermetismo vale à pena. Em termos gerais, adquirimos aprendizado ou por transferência genética ou por tentativa e erro. Não existe conhecimento por revelação. Com o BitTorrent não é diferente e todo o 'forço para dominá-lo pode resultar numa benesse coletiva, ou no que os norte-americano chamam de commons. Sabiamente, o Overmundo resolveu encampar o BitTorrent em seu banco de cultura, pois é utópico pensar que o projeto do núcleo de idéias Movimento seja um spa com centenas de quartos, aptos a hospedar centenas de coisas interessantes, mas que sofrem de excesso de peso. Os overmanos e overmanas precisam se conscientizar de que é necessário dividir a conta de vez em quando. Hermano Vianna disse algo 'clarecedor no fórum: «Sei que [o BitTorrent] ainda é difícil de usar, mas vale a pena gastar um tempo para aprender pois vai se tornar cada vez mais um padrão na internet -- e ainda facilita a vida de todo mundo: sabemos que se muitas pessoas 'tiverem baixando um mesmo arquivo ao mesmo tempo, a velocidade de download também baixa para todo mundo, mas com o BitTorrent é justamente o contrário!». Conto agora a minha recente experiência ao tornar disponível no banco de cultura meu livro de ficção científica Piritas Siderais. Em o começo, pensei que eu precisava hospedar no Overmundo o PDF com todas as páginas digitalizadas do livro, que ficou um pouco pesado (25 MB). Criei o torrent e o enviei, mas ninguém conseguia fazer o download. Graças ao generoso Felipe Vaz, descobri que o problema era com o piloto e não com o carro. Eu simplesmente não 'tava iniciando o torrent em minha máquina. Isso é aparentemente um detalhe sem importância, mas é vital. Quem cria o torrent deve ser o primeiro a disponibilizá-lo. Lei básica. Mas como criar um torrent? Há vários programas que funcionam como «editores» de torrents, como o µTorrent e o Azureus (Dendrobates azureus é um tipo de perereca venenosa do hemisfério norte). Eu sempre usei o segundo para capturar arquivos na Internet -- nunca fui uma sanguessuga (leecher, no jargão) e sempre respeitei as normas de isonomia do BitTorrent (um bit retirado, um bit posto), mas eu nunca havia dado o enorme passo de construir e servir um torrent. Em o Azureus, o procedimento para construir um torrent é relativamente simples: basta inserir o endereço URL do tracker e encontrar o arquivo que vai virar um torrent. Mas o que é o «tracker» afinal? A melhor analogia é que 'se arquivo gerado tem o endereço de um site que é como uma torre de controle de vôo, definindo as rotas de distribuição dos pacotes que compõem o arquivo principal. O tracker é o Cindacta-1 dos torrents. Em seguida, o torrent gerado deve ser hospedado no mesmo servidor do tracker. A partir deste ponto, o interessado deve «iniciar» o torrent em sua máquina, que ganha o status de seeder, ou no bom português: a máquina vira a semeadora de um arquivo de audiovisual, música, texto, etc.. Em o início, deve haver no mínimo uma semeadora, para que os outros pares, assim que tiverem capturado o arquivo na íntegra, possam também se tornar oficialmente seeders. Só assim o sistema ganha 'cala e todos saem ganhando. Colocar arquivos no YouTube, Megaupload ou Rapidshare é um paliativo que não resolve nada e passa por cima das possibilidades de 'sa tecnologia. O momento é propício para a evangelização da comunidade e por isso eu proponho ao Overmundo a criação de um CPC (Centro Popular de Cultura) Torrent, que poderia ser um fórum de discussão, um repositório, uma caixa de sugestões ou balcão virtual de dúvidas. Coloco-me, assim, à disposição. Esse texto não pretende, de forma alguma, 'gotar o assunto. É apenas uma (talvez não tão eficiente) forma de evitarmos engolir alguns sapos. Número de frases: 39 Sou mineiro, famoso «come-quieto» que se 'conde nas inúmeras montanhas do cenário de Minas Gerais. Nunca almejei o sonho reprimido de viver na capital paulistana, grande centro de cultura do território nacional. Mas a situação mudou quando liguei a televisão e noticiava um movimento 'tudantil no Campus na Universidade de São Paulo (USP). Diversos alunos, motivados por a insatisfação com uma série de decretos do governador José Serra, invadiram a reitoria da universidade 'tadual quando não encontraram maneira de discutir suas propostas. De acordo com os 'tudantes, os decretos de Serra feriam a autonomia da universidade, que aparentemente passaria a ser submetida por decisões do Estado. A mídia tratou de destituir a verossimilhança do movimento. Tratou os alunos como «baderneiros»,» filhinhos de papai «e» guerrilheiros violentos». Porém, a situação na reitoria é bastante contrária -- nos corredores há sinais de aviso: «proibido fumar, e lembre-se canteiro não é cinzeiro», os alunos dormem pouco, passam maior parte do tempo discutindo a procedência do movimento. Por as paredes lêem-se faixas que pedem por melhores condições de moradia, transporte e educação, sobretudo para os 'tudantes mais pobres. Serra pegou pesado. Diante da dificuldade de negociar com os 'tudantes a retirada, autorizou a Policia Militar a entrar no edifício e tira-los a força. Em resposta, os alunos fizeram flores de papel, prova simbólica que o movimento é pacifico e que não haverá reação física dos manifestantes. Vale lembrar que José Serra foi presidente da União Nacional dos Estudantes (Une), e que levantava a bandeira da democracia, da luta dos 'tudantes por uma educação exemplar. Agora age justamente da mesma maneira que fizeram com si, reprime duramente um movimento íntegro, completamente absorto do cenário político atual, tão mesquinho e preenchido por muitos (não todos) políticos corruptos. Acordei querendo 'tar sentado por aqueles corredores extensos da USP, onde os 'tudantes 'tão acampados, tocam violão, falam de paz, pensam em política e fazem ressurgir um dialético extinto na conjuntura tupiniquim da bandalheira nacional. Não falo do tupi, ou mesmo do português que foi extraviado do Brasil com a chegada do inglês, falo da democracia, aquela velha palavrinha perdida no dicionário da edição antiga. Lutemos, Número de frases: 18 Bernardo Biagioni Publiquei recentemente, no banco de cultura do Overmundo, os quatro livros da coleção Conquiste a Rede. Aqui, no overblog, aproveito para chamar a atenção para reunião desses conteúdos e para a distribuição gratuita de eles por a rede. Os livros (deixo os links no final do texto) têm como finalidade dar instrumentos a qualquer internauta falante do português para criar a própria página na internet, seja ela com áudio, vídeo, foto ou texto. No entanto, não são mais um apanhado de dicas «quentes» e toques de códigos para «turbinar» as páginas pessoais. É mais um trabalho de convencimento dos leitores de que é importante conquistar uma presença virtual na internet. Em outras palavras, que ter um blog, flog, vlog, montar um podcast ou praticar jornalismo cidadão não são brincadeiras ou perda de tempo. São acréscimos importantíssimos à cultura brasileira e a certeza de uma voz para centenas de milhares de brasileiros que não têm vez na grande imprensa e nos círculos de decisão das 'feras públicas. Acompanhei aqui no Overmundo algumas discussões sobre o crescimento das lan-houses país afora e até mesmo sobre o risco de 'se crescimento suscitar em políticos mal informados desejos repressivos e controladores do que pode ou não pode ser feito na web. A coleção Conquiste a Rede, 'crita por mim e por Ana Carmen Foschini, pode contribuir também em 'se sentido. O de dar a 'ses usuários dispersos por o Brasil instrumental para descobrir e criar conteúdos inéditos e compartilhá-los com outros usuários. E isso, se tudo correr bem, muito antes de alguém se mobilizar para castrar ou taxar excessivamente a rede, como ameaça ocorrer nos Eua e já ocorre em países não democráticos. Um dos principais fatores para a exclusão digital no Brasil, além dos problemas de infra-estrutura e de economia, é a questão do idioma. São poucas as referências em português para quem quer criar conteúdos novos na rede. A maioria dos internautas brasileiros considerados usuários avançados não tem muitos problemas em navegar em sites em inglês ou 'panhol. No entanto, para outros usuários, isso pode ser um impedimento definitivo. De aí, mais uma vez, a importância de 'sa coleção: reunir em português as informações necessárias para qualquer internauta iniciante começar a publicar suas produções na rede. Encerro 'te post apenas lembrando que o quarto livro da coleção fala sobre o Jornalismo Cidadão, a prática jornalística feita por não jornalistas. As técnicas e sugestões apresentadas em 'se livro podem facilitar em muito a vida dos internautas que colaboram com sites de participação e comunidade, como o Overmundo e o Wikinotícias, além, é claro, de melhorar os próprios blogs, podcasts, foto e videologs. Convido os leitores então a experimentar e 'palhar a coleção para que os usuários das lan-houses do país possam também adquirir e compartilhar 'se conhecimento que pode ser de todos nós. Coleção Conquiste a Rede: Número de frases: 21 Blogs (pdf) Podcast (pdf) Flogs & Vlogs (pdf) Jornalismo Cidadão -- Você faz a notícia (pdf) Religião é algo muito pessoal. O Brasil, assegurado por a constituição, é um 'tado laico, onde todas as pessoas podem manifestar suas crenças sem sofrer discriminação. Óbvio, e não é isso que 'tá em discussão. As Leis de Incentivo à Cultura, quando surgiram na era Collor, tinham um intuito claro e definido: fomentar a cultura no Brasil. Com suas qualidades e defeitos, realmente o fez. Hoje em dia vários 'tados brasileiros e várias das grandes cidades do país possuem as suas próprias leis de incentivo, além da lei federal (Lei Rouanet), que, através de impostos, financiam direta ou indiretamente projetos artísticos de todas as áreas. E realmente diversas iniciativas culturais importantes no país foram realizadas através de 'sas leis, inclusive 'se próprio site. Mas isso muitos que freqüentam 'se Overmundo sabem. Em o caso 'pecífico da Lei Rouanet (que é geral a todos nós) várias alterações 'tão sendo discutidas. E realmente acredito que seja necessário mudanças, com o intuito de aprimorar a lei para atender as necessidades da dinâmica cultural de hoje. Por ser um importante instrumento de fomento cultural, ela deve ser amplamente discutida para ser aperfeiçoada, sem a menor sombra de dúvida. Vários pontos foram discutidos nas Câmaras Setoriais, inúmeras propostas recebidas e analisadas nas diferentes áreas, e o Ministério da Cultura realmente discutiu (e acredito que continua discutindo) com os artistas a respeito das políticas culturais, algo que realmente quase não acontecia. Porém uma mudança na Lei Rouanet que foi proposta em 'ta semana no Senado Brasileiro realmente me deixou preocupado como artista. Sem querer discutir o que é ou não é cultura, podemos discutir sim o que a Lei Rouanet deve ou não deve apoiar. No caso da música, muito se fala que artistas consagrados de grandes gravadoras não deveriam ser contemplados por a lei, o que eu concordo, mas é algo que se pode aprofundar a discussão a respeito dentro da classe artística. Essa nova proposta no Senado prevê que Igrejas e templos religiosos possam ser financiadas com recursos da lei. Ou seja, o possível patrocinador pode doar o dinheiro em troca de renúncia fiscal de parte de seu imposto de renda. As Igrejas 'tabelecidas no país já gozam de inúmeras renúncias fiscais, o que me leva a repudiar tal proposta veementemente como artista e também como cidadão. Todos sabem que milhares de Igrejas no país funcionam como lavagem de dinheiro, se aproveitando da fé do carente povo brasileiro, além de 'cândalos envolvendo padres, pastores, etc.. Construir e manter igrejas e templos com o dinheiro da Lei Rouanet seria muito injusto. Volto a dizer que 'sa discussão não é religiosa, e sim política. Por que propor que o Estado Brasileiro auxilie ainda mais as Igrejas? Será realmente que 'sas iniciativas religiosas necessitam mais da Lei Rouanet do que peças de teatros, shows, filmes, festivais, CDs, livros, exposições e diversas outras propostas que buscam na lei, muitas vezes, o último recurso para serem viabilizadas? Será mesmo que Igrejas precisam de financiamento público? Alguém no governo ou no congresso realmente acredita que 'sa é uma proposta justa para a sociedade brasileira? Será que 'sa proposta é tão urgente assim que tem que ser votada antes de tantas outras que 'tão há tempos 'perando, com relação à segurança pública e educação por exemplo? As respostas parecem óbvias, porém os artistas tem que ser os primeiros a respondê-las. Recentemente nós artistas tivemos um sério «embate» com a classe 'portiva a cerca desse tema, que felizmente terminou bem, a princípio, para ambos. Agora os artistas terão que discutir novamente questões políticas com um outro segmento da sociedade, muito mais bem 'truturado, diga-se de passagem. Como artista me sinto profundamente indignado e desrespeitado com tal proposta. Como cidadão, me sinto mais uma vez descrente com o poder público que teima em privilegiar interesses isolados. Ah, é natural que 'sa proposta tenha vindo de um senador da «bancada religiosa». E poderia ser diferente? Nome: Senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), ligado a Igreja Universal. Sobrinho de quem? Número de frases: 37 Edir Macedo. Precisa falar mais? Em 28 de Julho de 1938 chegava ao fim a trajetória do líder cangaceiro mais polêmico e influente da história do cangaço. A tentativa de explicar a morte de Lampião levanta controvérsias e alimenta a imaginação, dando origem a várias hipóteses acerca do fim de seu «reinado» nos sertões nordestinos. Existe a versão oficial que sustenta a chacina de Angicos por as forças volantes de Alagoas e existe também a versão do envenenamento de grande parte do grupo que se encontrava acampado em Angicos. A versão oficial explica que Lampião e a maior parte de seus grupos se encontravam acampados em Sergipe, na fazenda Angicos, no município de Poço Redondo, quando foram surpreendidos por volta das 5:30 da manhã; as forças volantes de Alagoas agiram guiadas por o coiteiro Pedro de Cândido e os cangaceiros não tiveram tempo de 'boçar qualquer reação. Lampião é o primeiro a ser morto na emboscada. Ao todo foram 11 cangaceiros mortos, entre eles Lampião e Maria Bonita; em seguida, depois da decapitação, deu-se a verdadeira caça ao tesouro dos cangaceiros, desde as jóias, dinheiro, perfumes importados e tudo mais que tinha valor foi alvo da rapinagem promovida por a polícia. Depois de ter sido pressionado por o ditador Getúlio Vargas, que sofria sérios ataques dos adversários por permitir a existência de Lampião, o interventor de Alagoas, Osman Loureiro, adotou providências para acabar com o cangaço; ele prometeu promover ao posto imediato da hierarquia o militar que trouxesse a cabeça de um cangaceiro. A o regressarem à cidade de Piranhas as autoridades alagoanas decidiram exibir na 'cadaria da Prefeitura, as cabeças dos 11 cangaceiros mortos em Angicos. A macabra exposição ainda seguiu para Santana do Ipanema e depois para Maceió, aonde os políticos puderam tirar proveito o quanto quiseram do evento mórbido -- a morte de Lampião e o pseudo-fim do cangaço no Nordeste foram temas de muitas bravatas políticas. Localização O acampamento onde 'tava Lampião e seu grupo ficava na margem direita do rio São Francisco, no Estado de Sergipe, município de Poço Redondo. A gruta de Angicos 'tá situada a 1 km da margem do Velho Chico e 'trategicamente favoreceu ao possível ataque da polícia alagoana. O local do acampamento é um riacho temporário que na época 'tava seco e a grande quantidade de areia depositada formava um piso excelente para armar o acampamento. Mas, por ser uma grota, desfavorecia aos cangaceiros que 'tavam acampados embaixo. De Virgulino A LAMPIÂO Virgulino Ferreira da Silva nasceu no município de Serra Talhada, em Pernambuco, e se dedicou a várias atividades: vaqueiro, almocreve, poeta, músico, operário, coreógrafo, ator, 'trategista militar e chegou a ser promovido ao posto de capitão das forças públicas do Brasil, na época do combate à Coluna Prestes, no governo de Getúlio Vargas. Sua infância foi como a de qualquer outro menino nascido no sertão nordestino; pouco 'tudo e muito trabalho desde cedo. Ainda menino, Virgulino recebe de seu tio um livro da biografia de Napoleão Bonaparte o que vai permitir a introdução de várias novidades desde o formato do chapéu em meia lua, algo inexistente até a entrada de Lampião no cangaço, até a formação de grupos armados e passando por táticas de guerra. O jovem Virgulino percorreu todo o Nordeste, do Moxotó ao Cariri, comercializando de tudo por as cidades, povoados, vilas, sítios e fazendas da região -- ele vendia bugigangas, tecidos, artigos em couro; trazia as mercadorias do litoral para abastecer o sertão. Em a adolescência, por volta dos 19 anos, Virgulino trabalhou para Delmiro Gouveia transportando algodão e couro de bode para a fábrica da Pedra, hoje município homônimo do empresário que o fundou. As 'tradas eram precárias e o automóvel algo raro para a realidade brasileira do início de século XX; o transporte utilizado por 'ses comerciantes para chegarem aos seus clientes era o lombo do burro. Foi daí que Virgulino passou a conhecer o Nordeste como poucos e 'ta fase de sua adolescência foi fundamental para a sua permanência, durante mais de vinte anos, no comando do cangaço. E O Que Mudou? O cangaço foi um fenômeno social bastante importante para a história das populações exploradas dos sertões brasileiros. Existem registros que datam do século XIX e que nos mostram a existência deste fenômeno por mais ou menos dois séculos. O cangaço só se tornou possível graças ao desinteresse do poder público e os desmandos cometidos por os coronéis e por a polícia com a subserviência do Estado. O sertão nordestino sempre foi tratado de forma desigual em relação à região litorânea, e o fenômeno da seca sempre foi utilizado para manutenção dos privilégios da elite regional. O fenômeno social do cangaço não deixa de ser uma reação a 'te modelo desumano de ocupação do território brasileiro, e à altíssima concentração de renda e de influência política. O governo brasileiro nunca ofereceu os direitos básicos, fundamentais aos sertanejos; o Estado jamais ofereceu educação, saúde, moradia, emprego o que tornou a sobrevivência no sertão complicada; o único braço 'tatal conhecido na região é a polícia, que, como sabemos, age na defesa do «status-quo», é prepotente e intimida. O poder dos coronéis do sertão era o que prevalecia em detrimento dos direitos fundamentais da população. A economia sertaneja era basicamente a criação de gado para o suprimento do país, a carne do sertão abastecia os engenhos de açúcar e as cidades do Brasil. O sertão historicamente foi ocupado com a pecuária. Passado 68 anos a realidade do sertão nordestino não mudou muito; o cangaço se foi e no lugar surgiram pistoleiros de aluguéis que moram no asfalto; e os coronéis de antigamente hoje 'tão 'palhados e infiltrados nos três poderes, gozando de foro privilegiado. A seca ainda vitima milhões de sertanejos, que continua sendo tratada da mesma forma assistencialista do passado. Finalmente, a corrupção continua a mesma; mudaram os personagens e a moeda. E, infelizmente, a impunidade que também é a mesma de muito antes do cangaço. Número de frases: 49 Quanto mais vivo com criadores culturais, mais 'ta questão aparece: devo trabalhar com um grupo ou com artistas solo? Inicialmente, quando começamos a atuar na cena independente, achamos que a função mais nobre de nosso trabalho de produção cultural é a de «descobrir talentos promissores». Tendo como ponto de partida o mito de que «o produtor é quem faz o artista», construído a partir de interpretações reduzidas do conteúdo absorvido em filmes, TV e revistas sobre a vida dos nossos ídolos e de como» pretensamente " funcionava sua produção, ficamos felizes de ter 'colhido uma profissão que nos dará muito lucro, basta encontrarmos o grupo certo! Então, 'colhemos um grupo que pensamos ser o «certo» e passamos a divulgá-lo, vender shows, organizar o site, etc.. O tempo passa e por uma série de fatores o tão almejado sucesso não acontece. Mas uma coisa muito importante acontece: começamos que o trabalho de produção cultural é muito mais amplo que o de um mero caçador de talentos. Nós planejamos, organizamos boa parte da carreira dos músicos, cuidamos da produção executiva dos shows, administramos a comunicação, captamos recursos, desenvolvemos projetos, fazemos o agenciamento, prestamos assessoria no atendimento ... Em o fim somos como que «tragados» por o grupo, pois assumimos para nós questões que antes eram somente tratadas por os artistas. De aí pensamos: «puxa, não dá certo trabalhar com um grupo, é muita complicação, tudo é demorado de decidir, tudo é difícil ... é melhor trabalhar com um artista solo». Então 'colhemos o «artista solo certo» e retomamos o trabalho com grande vigor, pois agora sim as coisas vão acontecer. Novamente o tempo passa e novamente por uma série de fatores as coisas não acontecem. Então percebemos que não é o formato grupo ou artista solo que determina a prosperidade, mas o tipo de relação que se 'tabelece. Com um artista solo, você tem a vantagem de não precisar ficar discutindo uma série de assuntos em exaustivas reuniões em grupo. Uma questão definida por você e o artista precisa apenas ser informada ao músicos acompanhantes. Mas um artista solo pode também achar que tudo gravita ao seu redor e a convivência tornar-se insuportável. Em um grupo, tudo parece precisar de um consenso. Há uma constante reflexão sobre autoritarismo e democracia que ideologicamente leva a constante busca de consenso, que gera por sua vez uma " crise de governabilidade ": você 'tá na produção, tem uma idéia, acredita que trará resultado para o grupo e não consegue implementá-la por «falta de maioria no congresso». Estes são apenas alguns exemplos, mas que reforçam novamente 'ta percepção: não é o formato grupo ou artista solo que determina o sucesso de um empreendimento, mas sim as relações que se constituem em 'tes formatos. Então me ocorre o seguinte: se são as relações as responsáveis por o desenvolvimento, antes de eu decidir se quero trabalhar com um grupo ou um artista, eu devo 'clarecer para mim mesmo qual a minha relação com 'tes formatos: eu sou grupo ou sou solo? Em a minha casa eu sou um grupo ou um artista solo? Em os 'paços onde convivo, assumo mais a idéia de coletivo ou reforço a individualidade? Perceber qual é o formato que curto trará uma boa pista pra saber em que formato devo trabalhar. Acho também que vale a pena se informar sobre os diferentes formatos de vida possíveis hoje em dia. Muitas vezes ficamos atrelados à ideologia que somente em grupo poderemos ser produtivos e criativos, 'quecemos que cada vez mais as pessoas assumem o seu lado «solo». Sugiro a leitura da matéria «Só e bem acompanhado publicada na Revista Vida Simples em abril de 2004». Particularmente acredito que parte da chave do enigma «grupo ou solo» é a sua clareza sobre onde quer chegar e quanto tempo tem disponível para isso. Trabalhar com um grupo muito passivo pode levar muito tempo para se atingir um objetivo desejado. Trabalhar com um grupo muito ativo pode encurtar o tempo necessário para se atingir o mesmo objetivo. Trabalhar «solo» em projetos que você precisa rapidez no processo de decisão acelera o atingimento de resultados. Trabalhar «solo» em projetos que você precisa uma grande disponibilidade de tempo para realização pode ser um obstáculo quando não se conta com um grupo. Acho importante que cada profissional que atua na produção cultural desenvolva a sua própria reflexão. A resposta irá auxiliar na construção do mapa que guiará suas ações para campos mais férteis. Particularmente penso que dá para conviver com os dois formatos. Assim como na vida em diferentes situações somos grupo e outras somos «solo», no trabalho de produção cultural posso ser um produtor independente» solo " e fazer parte de um grupo. Número de frases: 42 E você, é mais «grupo» ou «solo»? O endereço é a praça André de Albuquerque --centro de Natal. Várias meninas circulam, uma em 'pecial. Morena, cabelos cacheados. Ela tem apenas 8 anos. Pede 'molas, conta o dinheiro, acha pouco. A menina faz amigas, já se passou um ano, ela agora tem 9. Descobre que não precisa mais pedir 'molas. Um homem que poderia ser seu avô se aproxima. Conversam. Os dois saem de cena. É mais ou menos assim que a história de Marinalva Ferreira da Silva (39) e de muitas garotas começa. Impulsionadas por a necessidade ou por o deslumbramento do dinheiro fácil, elas são iniciadas numa atividade ilegal difícil de ser combatida, a prostituição infantil. Os destinos a partir daí são os mais variados possíveis. Marinalva diz que apesar das dificuldades sua vida foi melhor que a de suas colegas. Umas 'tão presas, algumas entraram para o tráfico, umas são dependentes químicas e outras até morreram. Marinalva acabou transformando sua profissão numa prática política e social. De a inocência à maturidade prematura Durante a infância foi uma vítima da pobreza, da privação. Alimentava-se -- quando tinha -- do que a mãe tirava do lixo: «às vezes a gente não tinha nada para comer, só coco ' rapado ' ... não morri de fome porque comi até areia». Morava em Mangabeira, município próximo à Macaíba. Em as raras vindas para Natal, observou outras pessoas e aprendeu a pedir comida e dinheiro. Julgou ter encontrado condições melhores na rua. Fugiu de casa aos 8 anos. Em um ano de idas e vindas das ruas para casa, fez amizades nas praças da vida. Começaram a surgir propostas não mais tão inocentes. A mais velha de suas amigas, que tinha apenas 12 anos, a convidou para também começar sair com idosos. Após relutar um pouco, avaliou: «Era um dinheiro que num dia todinho eu não ganhava pedindo 'mola ... e eu precisava ajudar a minha mãe «-- e continua --» Acabei sendo mulher cinco anos antes de ser moça». A os 10 anos já fazia programas freqüentemente por as ruas de Natal, mas perseguida por o Juizado de Menores foi morar num bordel em Parnamirim. Hoje reconhece a gravidade de suas práticas precoces e é contra a prostituição infantil: «As crianças devem 'tar numa sala de aula ... a maioria que se prostitui hoje não é porque precisa ... há muitos projetos do governo que dão ajuda a quem 'tuda, há muito mais oportunidade." Marinalva parece não ter tido chance. A os 14 anos tinha uma média de 40 relações diárias. O ritmo de sua profissão lhe deixou seqüelas. Contraiu todas as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) menos AIDS, seu útero ficou atrofiado, adquiriu uma inflamação crônica e nunca pôde gerar filhos. A vaidade não 'conde os sinais de sua vida. Sua aparência hoje é de uma mulher muito mais velha que a sua idade biológica. Além das marcas de expressão, carrega outras. Cicatrizes de doenças, tiros e de objetos cortantes 'tão 'palhadas por o seu corpo. Quando perguntada, desconversa, diz apenas: «Isso tudo é acidente de trabalho». De como a gente se torna o que a gente é O primeiro passo que Marinalva deu para se tornar líder da sua categoria foi em 2000, no Centro Reprodutivo Leide Morais, hospital-maternidade do Alecrim. Em a intenção de conseguir melhores condições de atendimento, acabou ajudando a si e às suas companheiras. Graças a sua mobilização, hoje nas quintas-feiras as profissionais do sexo podem ser atendidas sem precisar 'perar dias ou tirar fichas: «Em um ano e três meses eu levei 148 companheiras», se orgulha Marinalva. Seu desempenho em seminários promovidos em parceria com o hospital chamou a atenção de entidades públicas e de associações de prostitutas de outros 'tados. Em 2002, foi convidada para um congresso de profissionais da área em Fortaleza. Depois de muito relutar, assumiu a representação do Estado. Foi criada a ASPRORN, Associação dos e das Profissionais do Sexo e Congêneres do Rio Grande do Norte. Além das conquistas na área da saúde, a presidente da ASPRORN também conseguiu salas onde são ministradas aulas para as suas companheiras. Foi inclusive por meio desse projeto que ela mesma se alfabetizou há apenas três anos. Em a Associação seu trabalho é corrido, durante a semana comparece a eventos da área e visita, na capital e no interior, diversas casas de prostituição, chamadas por ela de «casas vida». Ministra aulas de educação sexual, distribui preservativos masculinos e femininos, folhetos educativos e faz levantamentos do número de beneficiadas com o trabalho. Desde que assumiu o cargo, Marinalva tem lutado por uma causa que começou em 1975. Há trinta anos, 150 prostitutas francesas ocuparam uma igreja na cidade de Lyon. Protestavam contra a repressão policial, multas, prisões e até assassinatos de colegas que não eram investigados. Houve greve de sexo comercial e o movimento se 'palhou. A repressão foi violenta e várias partes do mundo tomaram conhecimento. O resultado foi a criação da primeira associação de prostitutas e do dia internacional de luta por melhores condições de trabalho e de vida, o dia 2 de junho. Faz tempo ... As primeiras manifestações da prostituição datadas desde as civilizações de romanas só chegaram a ser oficializadas na Europa no período da Idade Média, mas sua consolidação veio no século XVIII com a Revolução Industrial, período que com o êxodo rural propiciou a formação de aglomerações urbanas e redutos de pobreza. Por ter apresentado uma industrialização tardia, o Brasil concretizou 'sa atividade somente em 1930. Em o Rio Grande do Norte, a prostituição ganhou grande repercussão nas décadas de 1940 e 1950, naturalmente impulsionadas por a Segunda Guerra Mundial. Em a época, a profissão não fazia parte do gueto social a que pertence hoje, a elite local figurava entre a clientela assídua das casas de meretrizes, como é o caso do mitificado e requintado «Cabaré de Maria Boa». Número de frases: 68 O Sarau Paralelo é um evento cultural que agrega uma diversidade de manifestações artísticas expressas através da poesia, da música, das artes cênicas, visuais e audiovisuais de novos autores-criadores intérpretes produtores. Em 'te primeiro Sarau (14/12/06 às 21:00 hs, no Sesc Esplanada), contaremos com música e poesia autoral e a apresentação da coreografia «Não se preocupe», do Grupo Pilares de Dança. Em a ocasião será lançado a 5º edição do Fanzine Paralelopípedo e o projeto de edição de uma coletânea de poesias de novos autores, para 2007. A realização periódica do Sarau Paralelo e demais ações (edição regular do fanzine e de demais projetos editoriais, visuais e audiovisuais), tem por objetivo fomentar a produção artística autoral, valorizando proposições 'téticas inovadoras; contribuir para a formação de público para as manifestações artísticas; e ampliar o alcance da arte junto a públicos que possuem acessibilidade restrita por questões econômicas, sociais, culturais ou físicas. \> Atrações do 1º Sarau Paralelo (presenças confirmadas até o momento) -- Interpretação / Declamação de poesias: Shara Rezende, Vanessa Leão e Mariana Freitas. -- Músicos: Rafael Batista, Aluisio Cavalcante, Glauber, Marabá, Marcelo Linhares, João Paulo, Anderson Camacho e Banda Cripta -- Dança: Isabel Etges e Amanda Lena * * * * Fanzine Paralelopípedo É um veículo de comunicação alternativa voltado para a arte e a cultura. Editores: Antônio Fabrício, Thiago Ramos, Natália Ferraciolli, Tácio Pimenta e Lorena Rodrigues. * * * * Coletânea de Poesias -- Paralelopipedo Serão 'colhidos pelo menos 15 poetas. Cada poeta terá de uma a três poesias publicadas. Os nomes de todos ainda não foram definidos, mas já temos: Carlla Morena, Alexandre Gameiro, Railton Sousa, Bento, Marquinhos Pires, Cris Barrilli, Wertem Nunes e Cid Biavatti. Conselho Editorial: Antônio Fabrício, Thiago Ramos, Natália Ferraciolli, Tácio Pimenta e Lorena Rodrigues. Conselheiros Convidados: Antônio Rezende e Chico Daher Coordenação de Produção: Luiz Melchiades e Regino Neto Coordenação Editorial: Antônio Fabrício Coordenação Gráfica: Thiago Ramos Número de frases: 30 O 1º Sarau Paralelo conta com o apoio do Sesc e a 5ª edição do Paralelopípedo conta com o apoio da UFT. Inclusão digital é uma expressão em voga, e em torno de 'sa idéia são compostos programas e projetos pra aproximar populações de baixa renda da tecnologia. Embora muitas vezes se tenha a impressão que os ativistas por a inclusão digital pensam que os computadores vão melhorar a vida das pessoas quando o mais correto seria dizer que podem fazê-lo, os projetos quase sempre causam impacto positivo em outras 'feras nas comunidades onde são implantados. Uma das maiores iniciativas desse tipo é o One Laptop per Child (ou OLPC), dirigido por Nicholas Negroponte do MIT, que tem por objetivo produzir computadores baratos para serem usados como ferramentas de ensino nos países em desenvolvimento. O laptop base do OLPC, chamado de XO-1, é o mais próximo de um computador popular viável. Com o objetivo de custar cerca de US$ 100 (por enquanto o preço 'tá em US$ 176) ele possui uma configuração modesta mas foi projetado de maneira extremamente funcional. O XO-1 A idéia é fazer uma máquina compacta, sem grandes peças de hardware, o que também deve favorecer a economia de energia -- drives de CD / DVD, impressoras e outros periféricos podem ser conectados via USB. Ao invés de um HD temos uma memória flash de 1 GB, com possibilidade de expansão da memória através de periféricos na USB ou cartões SD. O processador é um AM D433 MHz que devido ao baixo poder de processamento não possui cooler, o XO-1 também conta com 256 SDRAM. O display é um LCD de baixo custo que, entre outras funções, pode ser colocado em modo monocromático tornando-a legível mesmo sob a luz do sol -- o que é ideal para aulas ao ar livre. O sistema operacional é baseado em Linux e foi desenvolvido por a Red Hat, ocupa cerca de 130 MB contra os 1,5 GB do Windows XP. Seus programas incluem um navegador baseado no Firefox, uma ferramenta de texto (capaz de trabalhar até em formatos da Microsoft!), um leitor de PDF, um mídia player, uma ferramenta de criação de música, programas e desenho e alguns joguinhos. O XO-1 ainda se comunica com outros via wireless, mesma maneira por a qual acessa a internet, e também possui uma câmera integrada. O teclado é emborrachado, o console é resistente a quedas e -- o mais fantástico -- pode ser recarregado usando uma bobina própria, desenvolvida para sua aplicação em comunidades onde ainda não existe eletricidade. Ou seja, em termos de funcionalidade a OLPC cumpriu a meta já que o XO-1 parece bastante confiável em termos de desempenho e durabilidade, um passo gigantesco na inclusão digital, 'pecialmente porque leva em conta as condições climáticas e de infra-estrutura de cada lugar do mundo. Críticas e Desafios Uma grande questão ainda precisa ser respondida: o que garante que 'ses aparelhos vão ser úteis como ferramentas de ensino quando muitas vezes nem os próprios professores 'tão capacitados a usá-los efetivamente, quanto menos ensinar com eles? Bem, isso é um assunto de cada país que aderir ao projeto -- o Brasil incluso -- e não é uma pergunta fácil de ser respondida, pelo menos em 'sa fase inicial. Os críticos do projeto argumentam, entre outras coisas, que o dinheiro dos laptops poderia ser usado na construção de bibliotecas e 'colas -- que proporcionalmente custariam bem menos e beneficiariam mais comunidades -- e que aos idealizadores da OLPC 'tariam usando a mentalidade americana pra resolver problemas que são diversos e complexos em outras partes do mundo. Além disso em menos de 5 anos é possível que o XO-1 já 'teja obsoleto e não seja serão nada mais do que lixo, o que geraria uma gigantesca de refugo tecnológico. Em o Brasil, onde o projeto é chamado de Um Computador por Aluno, já foram entregues 60 unidades do XO-1 que, a caráter de teste, serão introduzidos em 'colas de São Paulo e Porto Alegre. Negroponte afirma que os servidores da OLPC, usados mundialmente, serão instalados aqui. Outros países que já confirmaram sua adesão ao projeto são China, Egito, Tailândia, Nigéria e Argentina. Por mais «contras» que a iniciativa possua ela vai causar um grande impacto em termos de inclusão digital. As crianças que fizerem uso de ele -- mesmo que seja para Chat, Orkut ou joguinhos -- vão criar várias noções importantes para se trabalhar em computadores. Saberão o que é um duplo clique, como se edita um texto, o que são ícones, como se navega por a internet, etc.. Aqui no Brasil já 'tamos assistindo uma adesão digital massiva através das lan-houses, resta 'perar pra ver como isso vai andar junto com o projeto da OLPC. Número de frases: 30 (O autor acredita em inclusão digital, e 'creve outras coisas com uma linguagem bem menos educada aqui) Em 'te último fim de semana (24, 25 e 26/11) a Cia. do Lavrado realizou uma oficina de teatro para os multiplicadores do «Projeto Mulheres em Ação», e trouxe para Boa Vista o ator e diretor teatral Chicão Santos do Grupo O Imaginário, de Rondônia, para ministrar as aulas. Chicão compartilhou com o grupo técnicas do Teatro do Oprimido, metodologia criada por Augusto Boal. A capacitação aconteceu na sede da Cia. do Lavrado que fica no «Centro de Cidadania Nós Existimos», na rua Floriano Peixoto, 402 b -- Centro e contou com a participação de artistas de vários grupos de teatro locais, representantes de ONG's que desenvolvem trabalho de prevenção às DST / HIV / Aids e pessoas da comunidade interessadas em contribuir com o projeto. «O foco da capacitação foi o de promover o conhecimento e de como utilizar as técnicas e o próprio método do teatro-fórum, para fazer, num primeiro momento, a sensibilização do público alvo (300 profissionais do sexo, 1000 mulheres indígenas e 1000 donas de casa)», como disse Chicão Santos. Para o «Coordenador do Projeto Renildo Silva Araújo» o teatro do Boal é uma possibilidade, é como uma porta que vai abrindo e criando um canal de diálogo, possibilitando as condições necessárias e 'tabelecendo a relação de confiança, aí depois virão outros agentes, outras informações e aí vem todo o trabalho de orientação básica de saúde, no caso aqui, DST / HIV / Aids, que serão trabalhados através de construção de cenas baseadas nas realidades e vivências de cada clientela», conclui Renildo. O «Projeto Mulheres em Ação» é financiado por o Programa Nacional de DST / Aids, que tem acreditado no poder transformador de 'ta ferramenta de comunicação que é o teatro. O Projeto tem como objetivo promover a prevenção de DST / HIV / Aids entre as mulheres indígenas, profissionais do sexo e donas de casa que 'tão ou vivem em situação de vulnerabilidade social. A Cia. do Lavrado conta com a parceria da RNP + (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV / Aids) e, que tem sido uma parceria muito produtiva, no qual já até pensam em desenvolver outros projetos teatrais juntos na área da saúde e prevenção às DST / HIV / Aids. Contamos ainda com a parceria das Coordenações Estadual e Municipal de DST / Aids. Segundo Marcelo Perez, Assistente de Coordenação e Diretor-Presidente da «Cia do Lavrado,» o objetivo do projeto não é retirar as pessoas dos seus lugares onde vivem e trabalham e sim levar as ações para lá. Se o ambiente for de um bar, lá 'taremos fazendo o trabalho, levando informações. Estamos apostando numa das melhores ferramentas, que é o teatro, para chegar até a 'sas pessoas e fazer um trabalho silencioso e transformador, para a melhoria das condições de saúde e de vida de 'sas pessoas». Perez enfatiza: «ao trazer em Boa Vista um 'pecialista da qualidade do Chicão Santos será possível criar as condições pra percorrer as outras etapas do projeto». «E em 2007 'taremos realizando uma capacitação em linguagem circense. Aguardem notícias», finaliza Marcelo Perez. Cia. Tel.: (095) 8114 -- 0349 Número de frases: 18 ciadolavrado@yahoo.com.br A segunda edição da seção Recomendamos, do site de Estrela Ruiz Leminski e Téo Ruiz traz o novo trabalho do falso mineiro Makely Ka. Segue abaixo na íntegra: Autófago. O nome traduz muito bem o que o poeta e compositor Makely Ka traz em seu primeiro disco solo, lançado em Belo Horizonte no dia 5 de junho de 2007. Um discurso que se consome a todo instante refletido numa sonoridade moderna e incisiva. Piauiense, mas já mineiro há muitos anos, Makely já possui 2 livros de poemas publicados, tem um projeto com a cantora Maisa Moura (A Danaide) e lançou o disco A Outra Cidade juntamente com os compositores Pablo Castro e Kristoff Silva, 'te último uma das revelações da última edição do Prêmio Visa de Compositores. Esse disco, aliás, foi um dos CDs independentes mais vendidos em Minas Gerais nos últimos anos. Algumas das músicas de Autófago já foram gravadas em discos de seus outros trabalhos, mas mesmo assim ele traz novidades. Com letras sempre marcantes e provocativas, Makely Ka abusou da pegada de «banda», com baixo, guitarra e bateria, elementos eletrônicos e ao mesmo tempo surpreende com uma música romântica muito bem elaborada com uma letra extremamente delicada e intensa (Plutão). A canção A Outra Cidade (que curiosamente não 'tá no disco em parceria com Pablo e Kristoff) entra em 'se disco com toda sua crítica, uma das melhores do disco. A produção é assinada por Renato Villaça, que já produziu trabalhos de Patrícia Ahmaral, Titane e Casca de Nós. Todas as músicas do CD e inclusive o encarte 'tão disponíveis para download em seu próprio blog, onde também 'tão todos os seus contatos. Ouçam aqui uma das melhores músicas do disco, A Outra Cidade. E visitem o blog e baixem as músicas aqui. Tem também um ótimo clip no You Tube, da música Plutão. Vejam também: Contra-Indústria Número de frases: 17 Última publicação aqui do disco Música de Ruiz, de Estrela Ruiz Leminski e Téo Ruiz. Rodolpho Xavier nasceu em Pelotas -- RS, em 10/05/1874, filho de 'cravos. A os dez anos de idade concluiu o curso de alfabetização masculina, promovido por a Bibliotheca Pública Pelotense, juntamente com seu irmão Antônio Baobab. Posteriormente, iria referir-se a 'se como seu grande mestre, não apenas em relação às letras, mas também como exemplo de um negro (ex-'cravo) que conquistou 'paços negados a indivíduos de 'sa condição, como líder operário e intelectual. De entre os diversos ensinamentos recebidos de seu irmão, Rodolpho aprendeu também o ofício de chapeleiro. Antes de 'tabilizar-se, efetivamente, como pedreiro, exerceu, ainda, diversas outras profissões, tais como: vassoureiro, colchoeiro e maleiro, todas abandonadas por a dificuldade de obter serviços numa época de capitalismo incipiente. Esse tipo de dificuldade agravava-se, ainda mais, em virtude da sua condição de individuo negro, desqualificado por o 'tigma de inferioridade aplicado aos 'cravos e seus descendentes, que viria a caracterizar o trabalhador daquele sistema emergente, impondo-lhes, principalmente aos afro-descendentes, uma extrema dificuldade de ajustamento social. Em 1907, um grupo de operários negros fundou, na cidade de Pelotas, o jornal A Alvorada. Segundo seus fundadores, o periódico obedecia a um programa proposto a lutar contra 'sa discriminação étnica e se posicionar em defesa do operariado. Já em 1908, Rodolpho aparecia como um dos articulistas; em seus 'critos apresentava temas como: política, religião, tradições e costumes e economia, mas exibia, principalmente, abordagens referentes ao preconceito étnico e à organização da classe operária pelotense, que prevaleceram como centrais pelo menos até 1957, último ano que compõe o acervo do A Alvorada na Bibliotheca Pública Pelotense. Assim, minha idéia inicial de desenvolver 'te artigo utilizando-me do material que transcrevi do A Alvorada -- até então trabalhado com o enfoque na questão étnica e na organização sindical em Pelotas -- advém das leituras e demais metodologias desenvolvidas na disciplina de Cidade e História. Um exemplo desses elementos que me despertaram tal interesse é o texto «O Flâneur» de Walter Benjamin. Em 'se texto, o autor apresenta a trajetória de um 'tilo de literatura -- fisiologias -- que apresentavam 'critos produzidos a partir da descrição dos tipos percebidos em lugares 'pecíficos da cidade, desde vendedores ambulantes até indivíduos de classes mais abastadas, encontrados nos foyers das óperas. De o interesse por os tipos humanos, 'se 'tilo literário passa a se ater à cidade, de onde, segundo Benjamin, surgiram obras do tipo Paris à Noite, Paris à Mesa, Paris a Cavalo, Paris na Água, entre outras. Os fisiologistas também se arriscaram a produzir outras fisiologias, como a dos povos e dos animais. Enfim, tudo podia transformar-se em matéria prima para 'te e outros 'tilos literários que surgiram com propostas semelhantes, sejam dias de festa, dias de luto, lazer, casa, filhos, 'cola, teatro, tipos, profissões, cerimoniais etc. A captação desses elementos se dava segundo uma prática que o autor apresenta como flânerie, ou seja, como literalmente diz o próprio verbo flanar, o passear ociosamente, vaguear, perambular; é 'se andar despretensioso, que permite maior tempo de observação. Desta forma, Benjamin apresenta a figura do flâneur como um observador, um captador, seja das transformações por as quais passa a cidade, como da perpetuação daquelas que já existem. A rua torna-se, assim, sua grande morada e fonte de análise. Em a maior parte do texto, o autor debruça-se sobre a produção do poeta francês Charles Baudelaire, comparando-a com a de outros 'critores e identificando em ela elementos típicos de 'sa forma de observação, tomando como exemplo o fato de quando o poeta apresenta uma 'pécie de fantasmagoria acerca dos perigos de uma Paris em constante urbanização: «O que são os perigos da floresta e da pradaria comparado com os choques e conflitos diários de um mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou traspasse sua presa em florestas desconhecidas, não continua sendo o homem, aqui e lá, o mais perfeito de todos os predadores?" Benjamin, em determinada parte de seu texto, ao discorrer sobre a utilização da iluminação a gás nas ruas de Paris e seu considerável crescimento durante a época de Napoleão III, apresenta a idéia central de um poema de Robert Stevenson, onde o último revela seu lamento acerca do desaparecimento dos lampiões a gás. Em a análise de Benjamin, a queixa de Stevenson " se deixa levar, sobretudo por o ritmo no qual os acendedores de lampião seguem por as ruas, de um lampião a outro. Em o princípio, 'se ritmo se distingue da uniformidade do anoitecer, mas agora contrasta com o choque brutal que fez cidades inteiras se acharem de repente sob o brilho da luz elétrica "; nas palavras do poeta: «'sa luz só deveria incidir sobre os assassinos ou criminosos políticos ou iluminar os corredores nos manicômios -- é um pavor feito para aumentar o pavor». Em as passagens de Baudelaire e Stevenson percebe-se nitidamente um registro de memória, deixando, apenas no campo da lembrança, evidências de uma cidade pacata, sem maiores perigos e de um viver idílico sob o ritmo de acendedores e lampiões a gás. Tais percepções remetem à idéia de Benjamin -- ora indicada, ora presumida -- de identificar os poetas com a figura do flâneur. Porém, não no sentido do indivíduo habitante das ruas, que utiliza a multidão e a cidade para perder-se ou achar-se ou simplesmente vaguear ao léu, mas sim com aquele que a percorre, 'tabelecendo uma relação de maneira 'pecial, de modo a perceber obstáculos, apelos e signos, numa diversidade da vida cotidiana onde emerge sua representação do urbano. Este tipo de relação com a cidade, captando-lhas transformações, os contrastes e os paradoxos, ao produzir um tipo de literatura, acaba por invocar um objeto ausente, criando a representação daquilo que já não é ou não mais 'tá para ser visto, sentido e experimentado por os leitores do presente. Em 'se caso tem-se, consciente ou inconscientemente, a produção de uma narrativa memorialística, ou seja, a presentificação de algo ausente ou mesmo a recorrência ao tempo passado como elemento crítico, explicativo, comparativo ou simplesmente nostálgico de interação com o tempo presente. Para cumprir uma das exigências da disciplina de Cidade e História (apresentação de seminários) selecionei para expor à turma um dos textos do professor Charles Monteiro, oportunidade em que pude tomar maior conhecimento e contato com 'se tipo de narrativa memorialista. Em 'se trabalho, Monteiro dialogou com um conjunto de crônicas produzidas por Nilo Ruschel (Rua da Praia, 1971) e Moacyr Scliar (Mistérios de Porto Alegre, 1976), nos anos 1970, como narrativas da cidade que continuavam ecoando no presente. Eram relatos que manifestavam uma pluralidade de vozes, evidenciando os «traumas» causados por a aceleração do tempo e a ruptura com o passado, que aquele presente procurava superar através da reelaboração da memória. Tanto Ruschel quanto Scliar enquadram-se na categoria de cronistas da cidade, mesmo que caracterizem narrativas distintas, pois enquanto Ruschel 'crevia, nos anos 1970, sobre a Porto Alegre dos 1920 e 30, narrando suas andanças por a Rua da Praia e tratando de uma cultura urbana que se organizava ao redor de cafés, bares e restaurantes, Scliar, por sua vez, abordava a Porto Alegre dos anos 1970, a cidade do presente com todos os seus problemas e contradições. Em 'ses 'critos fica evidente a constatação das mudanças da cidade, onde Ruschel propõe ao leitor uma 'pécie de refúgio na cidade do passado e Scliar aponta para a impossibilidade de 'sa alternativa, diante do ritmo alucinante de transformações e a total perda de ligação com qualquer tempo retrô. No entanto, em ambos, aparece claramente a busca, assim como em Baudelaire e Stevenson, de reconstituição de uma memória social fragmentada e mediatizada 'crita nas folhas dos jornais e dos livros, ou seja, a captação dos elementos de dois tipos de cultura urbana, a fim de deixá-los como legado a uma geração posterior; fato que, sem dúvida, os caracteriza autênticos memorialistas. Sendo assim, pode-se pensar 'sa reelaboração de memória sem a ação da flânerie? Qual a impossibilidade de um flâneur, que produz um 'crito a partir de sua observação, se tornar um memorialista, já que deixará para o futuro o relato de algo, provavelmente, transformado? Ou então, um 'critor memorialista pode ser considerado um tipo, entre outros tantos, de flâneur? Foi justamente a partir desses questionamentos e diante de 'ta encruzilhada de caracterizações, definidora de um mesmo indivíduo, que comecei a lançar um olhar diferente sobre Rodolpho Xavier e suas crônicas. Passei a dedicar-me aos 'critos em que Xavier referia-se ao passado e trabalhar com a hipótese de considerá-lo um exemplo de flâneur, entre tantos prováveis. Rodolpho destacou-se em Pelotas como líder operário e combatente do preconceito de cor aplicado aos negros na cidade. Participou das diretorias da União Operária Internacional, do Centro Operário 1° de Maio, da União Operária de Pelotas, da Liga Operária, do sindicato dos Pedreiros em 1933 e 1936 e de outras associações de etnia ou de classe. Foi redator do jornal da «Liga Operária O Proletário e em 1925» 'teve no 3° Congresso Operário Rio Grandense em Porto Alegre, como um dos delegados da Liga Operária. Foi membro do Conselho Consultivo da Frente Negra Pelotense e ajudou na fundação do Centro Ethiópico Monteiro Lopes, 'te último parte de uma luta que mobilizou várias outras cidades da região, contra a recusa em empossar, como deputado federal, o negro Monteiro Lopes. Como negro e por a prática de líder operário, explica-se, de certa forma, que a maioria das crônicas de Xavier, como já mencionado, tenham sido direcionadas à organização do operariado pelotense e à emancipação social da sua etnia. Entre os diversos argumentos e 'tratégias que o articulista utilizava para organizar seu empreendimento em torno da satisfação das questões acima citadas, uma 'tava em voltar ao passado e recolher fatos, personagens, idéias e demais elementos que pudessem dar base à formulação de seu discurso. Em artigo publicado às vésperas das comemorações do 13 de maio, no ano de 1935, Rodolpho fazia severas críticas aos negros de Pelotas, por o fato da maioria 'tar buscando o branqueamento da «raça», demonstrando, segundo o articulista, a vergonha daqueles indivíduos em pertencerem ou descenderem da etnia negra. Contra isso, Xavier relatava o episódio, ocorrido no ano de 1890, em que cerca de 50 ou 60 pretas minas, quitandeiras, invadiram a Secretaria da Câmara Municipal para protestarem contra a cobrança de impostos de vendas por as ruas, a fim de trazer aos negros de sua época subsídios que despertassem o orgulho de ser negro, orgulho de uma luta legitima de seus antepassados; de buscarem seus direitos enquanto afro-descendentes ao invés de negarem suas origens e desejarem «embranquecer a raça». Em outra crônica o articulista discorre sobre a situação da classe operária, falando da preferência dos patrões por trabalhadores imigrantes, das necessidades de diminuição da jornada de trabalho, férias, salário mínimo e da Lei dos Sindicatos; 'sa última vista como um benefício do Estado, pelo menos naquele momento. Diante desse suposto «benefício», Xavier fazia críticas contundentes aos operários que não se sindicalizavam e ainda censuravam e desprezavam a instituição. Condenava aqueles que se prestavam a ocupações frívolas e sem proveito e que, por sua vez, 'tariam sendo beneficiados por o fruto da luta dos sindicalizados -- interesse 'te que lhes caberiam na mesma obrigação. Assim, o articulista evidenciava que: «( ...) Querem todas compensações, não querem é dispensar trabalho com coisa alguma. Entretanto como é difícil de obter aquilo que desejam, como é difícil de se obter nada sem 'forços, aqui D' el-Rei! Os sindicatos não prestam! Exulta com isso os empregados pois sabem, positivamente, que, enquanto houver elementos desagregados eles podem contar com o domínio absoluto». Para convocar o operariado -- ainda reticente com o sindicalismo -- e alertar sobre os perigos da não comunhão de interesses, Rodolpho, mais uma vez, voltava ao passado e trazia para as páginas do A Alvorada a memória da organização operária em Pelotas. Xavier falava dos anos de 1896-97, quando da fundação da União Operária Internacional, sindicalizada por classe, que, segundo o articulista, «baqueou por a inconsciência dos que não acompanhavam», não podendo, desta forma, fazer frente à Liga Operária, organizada por patrões. Rodolpho encerra a crônica apresentando a fundação do Centro 1° de maio e outras tentativas de organização que " malograram-se: umas por conter idéias extremistas, outras por isto ou por aquilo, de maneira que aos ' comodistas ' nada lhes servia e interessava». Esses e outros tantos relatos de Xavier fazem de ele, portanto, um memorialista, pois trazem para o seu tempo presente a memória da cultura urbana de uma cidade que passava por conflitos sociais e étnicos, decorrentes da integração dos ex-cativos ao mercado de trabalho livre e, também, da organização, das frustrações, dos embates e da evolução do movimento operário. à guisa de conclusão apresentei uma perspectiva, em relação a Rodolpho Xavier, com diálogo bastante próximo à idéia de «ilusão biográfica», desenvolvida por Pierre Bourdieu. Esse autor afirma que as biografias produziriam uma 'pécie de «ilusão», em que a vida seria como um caminho, uma passagem, um percurso orientado, um deslocamento linear, unidirecional, com começo, etapas e um fim; ou seja, «[ ...] um conjunto coerente e orientado, que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma» intenção «subjetiva e objetiva, de um projeto». O que Bourdieu propõe, é que se entendam os acontecimentos biográficos como «colocações e deslocamentos no 'paço social» e as trajetórias dos indivíduos «como série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou mesmo grupo) num 'paço que é ele próprio um devir, 'tando sujeito a incessantes transformações». Assim, as facetas de líder operário, flâneur, memorialista e outras podem caracterizar 'sa sucessão de deslocamentos e posições ocupadas por Rodolpho, evidenciando àqueles historiadores que pretendem trabalhar com biografia, cotidiano ou gênero a sensibilidade e o cuidado que se deve ter diante da pluralidade dos agentes históricos. Referências Bibliográficas BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989. BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: Amado, Janaína. e Ferreira, Marieta de Moraes. ( orgs). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Ed. da Fundação Getúlio Vargas, 1996. Monteiro, Charles. Duas leituras sobre as transformações da cultura urbana de Porto Alegre nos anos 1970: entre memória e ficção. Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre: PUCRS, v.. Xxx. n. 2, p. 67-88. Dez / 2004. Periódico consultado no acervo da Biblioteca Pública Pelotense: Número de frases: 93 A Alvorada -- Pelotas -- RS É a tradução e a tradição do rock bagual da banda Doidivanas: a pegada rock ' n ' roll com o regionalismo gaudério e outras «cositas»! O álbum «Nosotros», o quarto trabalho da Doidivanas, traz treze faixas que são releituras de artistas e bandas gaúchas, como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Mano Lima, TNT e também de músicos latino-americanos, como Charly Garci a e Atahualpa Yupanqui. Entre os hits 'tão «Recuerdos da 28, um clássico do festival» Califórnia da Canção, Sombra Fresca e Rock no Quintal», dos Almôndegas e «Gana Missioneira», imortalizada por o cantor Cenair Maicá. O lançamento do álbum é uma realização da Usa Records, selo ligado à gravadora gaúcha Usa Discos. O repertório do CD foi pesquisado e 'colhido por a banda com o auxílio do compositor Edu daMatta. Participaram das gravações o DJ Anderson (Ultramen), Leonardo Oxley Rodrigues (arranjo de cordas), o gaiteiro Mano Jr, Bira do Cavaco (grupo Pra Todas As Raças), além dos colaboradores Negrinho Martins, Éber Barbosa, Jucá de Leon e o próprio daMatta. Uma característica marcante do CD «Nosotros» é o desenho gráfico do álbum, responsabilidade do publicitário «Daniel» " Cuca " Moreira. Ele usou a paleta policromática (16 cores) do programa Paint Brush para criar Doidivanas de pixels. Estão lá, pixelados, os integrantes da banda: o vocalista Felipe Mello, o baterista Rodrigo dMart, o baixista Rodrigo Osório e o guitarrista Daniel Con6. Foi 'te grupo de músicos que criou a Doidivanas em 1995, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Entre os gêneros musicais, as referências da banda incluem o rock, o pop, os ritmos gaúchos e brasileiros (como o xote, a vaneira e a chacarera), passando por o eletrônico, por o experimental e por a música do mundo. Além do recém lançado «Nosotros», Doidivanas têm outros três CDs gravados: Liber Pampa (1998), Sou de Pelotas, Por Quê?! ( 1999) e Viagem ao Sul da Terra (2002). Conheça mais sobre o CD «Nosotros», a carreira e o trabalho da Doidivanas no site oficial, MySpace, Orkut ou Trama Virtual. Número de frases: 18 Em o capítulo da novela Duas Caras, exibida por a TV Globo, a personagem Gioconda, interpretada por a maravilhosa atriz Marília Pera fez um manifesto desesperado que muito me chamou a atenção. Enquanto sua amiga era assaltada, em alguma orla marítima na cidade do Rio de Janeiro, ela não teve dúvidas: pegou o primeiro microfone disponível e gritou: CHEGA! Foram citados exemplos de diversos absurdos que ocorrem em 'te país de dimensões continentais: a população que se nega a agir, políticos corruptos, até a própria favelização foi alvo da crítica desesperada da personagem. Já que o programa é visto das camadas mais populares até alguns poucos da «elite», façamos então uma convocação geral, para que 'se movimento de revolta não se restrinja a um mero capítulo de novela e deixar que 'te país se torne uma Estória, ou seja, um conjunto de contos fantásticos servindo apenas como motivo de chacota entre os mais desenvolvidos. Basta de tanta impunidade, de tanto descaso, de 'cândalos políticos. Está mais do que na hora de sair da fase de adolescência, rebeldia, amadurecer é preciso; Número de frases: 9 «cresce Brasil»! O perigo de se montar uma peça de Beckett é cair no senso comum. O 'tilo do 'critor é tão particular -- com seus silêncios, questionamentos existenciais, rubricas exatas -- que a maioria das montagens atuais não parecem produções autorais, apenas execuções automáticas do texto. Contudo, se é pra encarar Beckett com todas as suas particularidades, que seja bem feito. E foi isso que o diretor Rubens Rusche resolveu fazer com a peça Crepúsculo -- 3 peças de Samuel Beckett. O risco era grande, afinal trata-se de três peças do 'critor numa montagem. Mas o diretor sabia o que 'tava fazendo. Pelo menos é o que fiquei sabendo por fontes inseguras. Logo na entrada, um rapaz atrás de mim na fila avisa: «Esse diretor monta tudo de Beckett. O filho de ele se chama Samuel por causa do autor». Em o 'petáculo, o diretor conseguiu passar todas as angústias referentes à questão de existir e de sua complementar, " pra quê?" -- o problema de não ter realmente um propósito para viver. São vidas que não necessariamente fazem sentido para o indivíduo e para o resto da humanidade. O grande destaque da montagem são os trabalhos corporais, em 'tado de comunhão com o texto. Seu nascimento foi sua morte A peça inicia com o texto Solo, 'crito em 1979. Ele fala sobre a efemeridade da vida e o encontro com a morte. Em cena, um único ator (Antônio Galleão), 'tático, com os braços semi-erguidos durante toda a história, narra suas angústias. A expressão facial, a respiração asmática e a composição do personagem -- um senhor muito idoso de camisola e cabelos longos e brancos -- ajudam a dar o clima. Nosso problema não é que vamos morrer, e sim que ainda não nascemos completamente Em Passos, 'crito em 1975, o público presência uma conversa entre mãe (Vera Villela) e filha (Nádia de Lion), porém, a figura da mãe não aparece, ouve-se apenas sua voz em off. Em a encenação, a filha, May, caminha em busca de sentidos que nunca vêm. De um lado para o outro, num retângulo de luz envolto em trevas, ela anda lentamente e pára somente nas extremidades, por pouco tempo. Seu andar é melancólico. Mais uma vez, a expressão corporal chama a atenção. A atriz permanece na mesma posição, semi-curvada, braços ao redor do corpo, durante o tempo inteiro, assim como no primeiro texto. Não há nada de mais terrível em nós a não ser aquilo que ainda não foi dito Por último, o texto Improviso de Ohio, de 1980. Apesar de também ser um monólogo, dois atores permanecem em cena. Sentados em frente a uma mesa, cobrem seus rostos com uma das mãos, imóveis. Vestem longas batas pretas e possuem cabelos brancos compridos. Um de eles, o leitor (Daniel Ribeiro), vira lentamente as páginas do livro lido, enquanto o ouvinte (Antônio Galleão), cumpre sua função: ouvir. Novamente, os personagens têm seus movimentos limitados, como se 'tivessem presos a seus modelos. Escondem a face por a vergonha das palavras que ainda não foram ditas. A grande ressalva da apresentação não 'tá nem na montagem, e sim na acústica do 'paço em que foi apresentada. Em a sala Emílio Salles Gomes, no Centro Cultural São Paulo, os silêncios beckettianos foram arruinados por a música vinda de apresentações de outras salas. O 'petáculo traz um bom trabalho de iluminação e maquiagem, trabalho de corpo, expressão, tudo em harmonia com o texto. Se não tem como fugir das fortes marcas tão presentes no texto, Rubens Ruscher encontrou um jeito de justificar sua montagem: se não dá pra competir com Beckett, junte-se a ele. Mas questionar sempre é bom. Beckett aprovaria uma discussão sobre o sentido da existência ... Número de frases: 42 de uma peça. Canibal, do Devotos (PE), instigou o maior ' bate cabeça ' dos três dias de Festival. Foto: Nicolas Gomes / DoSol Image Sem dúvida o domingo, 6/8, foi o dia de maior público do Festival DoSol. A programação que 'tava dedicada ao Hardcore e suas vertentes, atraiu uma turma mais jovem e cheia de estilo, de skatistas a emos. Pra começar, no final da tarde, três bandas locais tocaram no palco do DoSol Rock Bar: Fliperama, Ravanes e Pots -- iniciativa que 'timula as bandas em formação na cidade. Seguidos, no palco maior, por a apresentação do Dead Nomads (PB), que empolgou o público aglomerado em frente ao palco. A garotada do Karpus (RN) antecedeu a apresentação dos performáticos Astronautas (PE), que mostraram um rock-eletr ônico muito bom! Depois foi a vez da banda da ' diretoria ', o Allface (RN), com 'tréia de Ana Morena no baixo e direito a participação 'pecial do vocalista Rodrigo PS, do Jane Fonda. Quando os paulistas do Aditive subiram no palco armado no largo da rua Chile, Ribeira, a galera 'quentou ainda mais e foi assim até o fim da noite, encerrada por os capixabas do Dead Fish. As caixas de som que 'tavam no chão viraram trampolim e a frente do palco uma grande roda de pogo. Rapaziada instigada! Música e atitude Em a seqüência o Jane Fonda (RN) manteve o ritmo e o clima, abrindo caminho para o som colossal do Devotos (PE). Depois de mais de seis anos sem vir à Cidade do Sol, eles mostraram novidades: «Está saindo do forno o CD ' Flores com 'pinho para o rei '», anunciou o vocalista Canibal. Os caras que realizam há dez anos um trabalho sócio-cultural na comunidade Alto José do Pinho, periferia do Recife, 'tão divulgando o novo trabalho por o Brasil, e após o DoSol seguem para outro festival em Tocantins. «Todo o nosso CD foi produzido na comunidade do Alto, onde há seis bandas com trabalho já gravado», contou o vocalista já adiantando que vem novidades por aí. O hard core do Dead Fish fechou a terceira e última noite do Festival DoSol, com boa apresentação para um público que gosta do 'tilo. «Fazemos questão de tocar no Nordeste. Pena que nem sempre dá pra aproveitar as praias, o sol, os camarões ... ( risos) Fico feliz de participar desse festival porque sei que é feito por pessoas que fazem porque gostam de música», diz Rodrigo, vocalista da banda. Balanço final E assim acaba o Festival DoSol, com um cardápio variado de vertentes do rock produzido no cenário da música independente brasileira. Em a balança: boa programação, vários lançamentos de CDs, 'tréias, um público ainda alheio ao que realmente representa um evento desse porte, 'tímulo a bandas em formação, ciclo de palestras com participação de nomes nacionais da cena indie e, claro, ' pepinos ' comuns a festivais como atraso e problemas no som. Em o saldo: mais um bom motivo pra se fazer, mostrar e pensar música na cidade ' De o Sol '. Que venham outras edições! Número de frases: 30 Como será a vida do pesquisador musical do futuro? Em tempos sem disco, sem CD, com internet difundida, com cada artista colocando sua criação sempre na web. Será que as coisas vão ficar mais fáceis para quem se propõe a conhecer e arquivar todos os sons? Ou a complicação vai ser em outra 'fera, em que se destacará na seleção natural justamente quem tiver capacidade de organização de um conteúdo disforme e 'palhado? Tempos incertos em relação a tudo isso nos 'peram. E foi com 'sas perguntas na cabeça que peguei a barca Rio-Niterói e fui para aquela cidade conversar com um sujeito que sempre foi apaixonado por bolacha. Bolacha de todas as formas. Não, deixa eu corrigir: a paixão é por o recheio da bolacha. Silvio Julio Ribeiro não se apega a CDs. Mas as bolachinhas são sua obsessão -- não como objeto de devoção, mas como material de trabalho. «Todo CD que pego quero fichar». Por fichar entende-se anotar tudo: das faixas às participações, dos bônus aos músicos de suporte. Tem sido assim desde o tempo do vinil. Este, aliás, é o verdadeiro amor do sujeito (de ele e de uma torcida do Flamengo de nostálgicos apaixonados). Hoje ele pode dizer que 'tá conseguindo seu objetivo: é o nome por trás do acervo já compilado no recém-lançado Jornal Musical. Já são mais de 100 mil discos -- seja em vinil, CD ou 78 rotações -- que podem ser consultados em buscas por título, nome de música, intérprete e compositor (mais sobre o site lááá embaixo). Freud explica Os freudianos dizem que toda obsessão, seja boa ou ruim, tem explicação nas origens. Pode ser. No caso de Silvio elas 'tão numa pequena cidade de Minas. Um grupo de vizinhos e amigos próximos ficava aguardando ansiosamente a volta de seu pai do Rio de Janeiro, de onde trazia discos e mais discos. E a audição era assim, coletiva, na varanda de casa. Quando a situação apertou e foi preciso vender a coleção, um comerciante local se desfez do que foi preciso para conseguir pagar o preço pedido nas valiosas relíquias sonoras. Pelo visto, o pai de Silvio criou involuntariamente diversos apaixonados. Em o filho, ficou inconscientemente a vontade de seguir na sina de divulgar os bons sons que conhecia. Corta para São João de Meriti, 'tado do Rio. Silvio já adulto e, em honra à hereditariedade, comprando tudo quanto era disco. A coleção chegava a 6 mil vinis, mas como o pai, ele precisou se desfazer das pepitas. Aí veio a luz: «Antes de vender, fui mordido por a mosquinha azul e decidi anotar todos os detalhes», conta. O hábito continuou no papel até conseguir comprar seu primeiro computador, em 1996. Em a mesma época, conheceu o pesquisador Sérgio Cabral e as portas começaram a se abrir. «Ele me chamou para organizar sua discoteca. Depois, me apresentou o Tárik de Souza e o Roberto M. Moura. O Roberto deixava tudo na minha mão a ponto de perguntar: ' Eu tenho 'se disco? '», conta, lamentando que o amigo tenha morrido antes da conclusão da informatização de seu acervo. Em os anos seguintes, a vida foi assim. Valeu-se da indenização de um trabalho para fazer 'ses serviços, praticamente por prazer. A contrapartida era poder acumular a informação que compilava. É assustador, e ao mesmo tempo fascinante, pensar que muito da informação cultural organizada no país não teve origem em instituições públicas e privadas, e sim em iniciativas de pessoas obsessivas (para o bem) como Silvio. «Eu abria mão de sair, comia só pão com manteiga se fosse o caso. Hoje qualquer site como um Submarino da vida tem as informações básicas de um disco. Mas na época sabia que 'tava lidando com uma coisa valiosa, não havia nada na internet." Falando em ela ... Alguma coisa na conjunção astral deve ter se alterado na virada para os anos 00. E foi justamente a internet que trouxe bons fluidos para que todo aquele 'forço fosse valorizado. Primeiro, entre 2000 e 2001, a informação sobre cerca de 10 mil discos foi a base para o início do Cliquemusic, que em pouco tempo virou referência na área. O namoro durou pouco, mas em seguida veio uma parceria importante com Andreas Pavel, um alemão louco por música brasileira, e outros patrocínios 'parsos, que permitiram a informatização de acervos importantes. Começou com dados musicais do Museu da Imagem e do Som, no Rio, e aí veio uma fila de instituições. Vale a pena listar, com direito a seus comentários. -- Rádio Nacional: 24 mil " LPs. «É uma coleção que resume praticamente todos os discos que a gente conhece." -- TV Cultura (SP): 50 mil Lps. «Tem muita música sertaneja, coisas gravadas no interior que dificilmente encontraria em outro lugar." -- Rádio Eldorado (SP): cerca de 30 mil Lps. «Clássicos brasileiros, música instrumental." Silvio bem gostaria de ter mais dois acervos no currículo. «O de Leon Barg, dono da Gravadora Revivendo, tem uma discoteca incrível de 78 rpm. E a Rádio TV Gazeta tem 150 mil exemplares de tudo: 78, CD, compacto e LP. Queria muito conhecer», revela, com os olhos brilhando. Novos suportes ... Pra que suporte? Apesar da paixão por o LP e por tudo que vinha de antigamente, Silvio tirou uma lição das mudanças. «Sofri para trocar o LP por o CD. Mas não demorei a entender que o que me prende é a música. Não importa em que suporte venha. A gente diz que faz discografia, mas a verdade é que 'te termo 'tá deslocado. É preciso inventar outro nome logo, logo." Perfeito. Mas aí foi a hora de eu botar pra fora todas aquelas indagações que me acompanhavam desde a barca. E ele foi honesto em sua reflexão. «Confesso que não sei se vou me acostumar com 'se mundo de música só no computador. Sou daquele tipo que precisa saber quem fez o solo da faixa 3, sabe como é? Pode ser que as coisas mudem, mas o que vejo é que as pessoas não botam 'ses detalhes junto com a faixa para audição. Minha filha de 7 anos já é craque de buscar coisas na internet. Enquanto isso, li outro dia que quem freqüenta loja de discos tem cada vez mais cabelos brancos. Espero 'tar dando minha colaboração, subsídio para pesquisadores do futuro continuarem suas pesquisas a partir do que já foi organizado." Todo mundo quer ser ouvido. Em todas as gerações Tal subsídio 'tá agora 'parramado em páginas e páginas de informação do Jornal Musical, que 'tá no ar há poucas semanas com a parte jornalística coordenada por o Tárik de Souza. Trata-se de uma iniciativa do Instituto Memória Musical Brasileira, fundado por o alemão Pavel -- por o que andei lendo, aliás, 'se sujeito foi o inventor do walkman (!!), editou a coleção «Os pensadores» e criou aquelas séries de enciclopédias musicais que rolavam antigamente nas bancas. Pelo visto merecia uma matéria só pra ele. Vou procurar saber quando vem ao Brasil ... Voltando ao site: além do enorme banco de dados com CD, LP e 78 rpm, há reportagens, resenhas de lançamentos, entrevistas e rádios com diversos 'tilos. O próximo passo é disponibilizar 30 segundos de todas as faixas de Cds e músicas inteiras dos vinis -- mas não para download. «Toda banda de hoje quer ser ouvida. Mas não são só os novos que querem. Tenho certeza que uma Sonia Delfino, uma Dóris Monteiro, adorariam que seus discos de 40 anos atrás fossem ouvidos, nem que fosse virtualmente." Se o tempo pode ser uma barreira, as distâncias também são realidade, mesmo na era de internet. «Sempre existiu gente boa fazendo disco por o país. O trio vocal Amaranto, por exemplo, vive bem em Minas, lota shows e vende CDs. Fora do 'tado, já é bem menos conhecido. O mesmo acontece com Antonio Pereira, do Amazonas. Se conseguirmos fazer o som de artistas como eles circular já me dou por satisfeito." * * * Há um outro desafio que se torna cada vez maior: fazer circular o que não é lançado oficialmente. «Há nichos complicados: funk, metal, hip hop ... É tudo muito informal." Por isso, Silvio faz um apelo: quem quiser mandar discos e informações sobre bandas, cantores e artistas que ainda não 'tejam no banco de dados, fique à vontade. O endereço é Rua Maestro Felício Toledo 500, grupo 502. Niterói CEP.: 24030-107 Email: Número de frases: 113 instituto@memoriamusical.com.br Quem sou eu? Bom eu andei pensando e acho que tenho que perguntar, quem eu fui, quem eu sou e quem eu serei! Por que quando somos crianças (quando eu fui pelo menos), somos «seres» mágicos, tudo o que fazemos e imaginamos é fantástico, comer um biscoito de chocolate, tomar um sorvete, passear e brincar na 'cola. Vivemos temporariamente na «Terra do Nunca», somos todos Peter ´ s, claro que tem que ter o apoio de nossos pais, para ajudar a criar a atmosfera nescessária. Depois passamos para a adolescência, então tudo é «festa», as amizades se tornam concretas e eternas, os amores são» complexos». Sentimos diariamente o «friozinho na barriga», com coisas pequenas, viagens novas, novos paqueras, novas 'colas, o vestibular, a tão sonhada ingressão na faculdade, mais amigos, mais amores. Em a vida adulta, é a fase mais difícil de se passar (na minha opinião), tudo se torna realmente concreto, no caso cinza! Chegam as contas a se pagar, os problemas que muitas vezes aumentamos para resolver, os filhos para criar, temos que dar satisfação ao marido, ao chefe, trânsito, pressa, tudo correria e stress, eu ainda não aprendi a ver com bons olhos a vida adulta e então é que eu faço a pergunta, quem sou eu? Hoje? Não sei definir, sei te dizer quem eu fui, com certeza (e fui muito feliz). Também posso dizer quem quero ser, mas fica muito indefinido quando não sabemos o momento que 'tamos vivendo. Você sabe se auto-definir? Não é extremamente difícil 'sa auto-analise? Quem sabe quando eu 'tiver com certeza do que eu virei eu te diga. E você sabe dizer quem foi e quem é, até quem vai ser? O importante é sempre 'tar feliz e de bom humor, e com certeza sermos otimistas! Número de frases: 15 A dança de quadrilha teve origem na Inglaterra, por volta dos séculos XIII e XIV. A guerra dos Cem Anos serviu para promover uma certa troca cultural entre Inglaterra e França. Com isso França adotou a quadrilha e levou-a para os palácios, tornando-a assim uma dança nobre. Rapidamente a quadrilha se 'palhou por toda a Europa, tornando-se uma dança presente em todas as festividades da nobreza. Originalmente, em sua forma francesa, a quadrilha era dançada em cinco partes, em compassos que variavam de 6/8 a 2/4, dependendo da parte que 'tava sendo dançada, terminando sempre num galope, que normalmente atravessava-se o salão. A quadrilha não só se popularizou, como apareceram várias derivações suas no interior. Assim a Quadrilha Caipira, no interior paulista (e Minas), o baile sifilítico na Bahia e Goiás, a saruê (deturpação de soirée) no Brasil Central e, porventura a mais interessante de entre todas elas, a mana chica e suas variantes. Várias danças do fandango usam-se com marcação de quadrilha, da mesma forma que o pericón e outros bailes guascas da campanha no Rio Grande do Sul. É intrigante o fato de uma dança nascida no meio do povo seis ou sete séculos atrás, voltar ao povo, em outro país, mas conservando a mesma função antropológica, social e cultural. A Guerrra dos Cem Anos acabaria levando a " country dance para a França. Lá, a palavra se afrancesou, transformou-se em contredance, uma dança em que os pares executam a coreografia, frente à frente, ou «vis-a-vis». A «contredance» se aportuguesou como «contradança» e quadrilha, mas com a formação de pares em alas apostas; a palavra é provavelmente derivada da «country dance» inglesa. Em dois séculos, a contradança perdeu aquela característica camponesa para tornar-se uma dança nobre, conquistando a corte francesa etodas as cortes européias, incluindo a portuguesa. Chegou-se ao ponto de, no século 18, ela ter sido a grande dança protocolar, de abertura dos bailes da corte. A medida que foi se popularizando, principalmente no Brasil e Portugal, o nome quadrilha ' foi começando a ser usado, seguindo, aliás, uma terminologia utilizada na Espanha e na Itália, onde identificava a contradança, dançada por quatro pessoas. De 'ta quadrilha de quatro derivou a " quadrilha geral. A quadrilha chegou ao Brasil no século XIX, com a vinda da Corte Real portuguesa. Rapidamente 'sa dança de salão, típica da nobreza, caiu nas graças do nosso povo animado e festeiro. É importante lembrar que a quadrilha é uma dança característica dos caipiras, pessoas que moram na roça e têm costumes muito pitorescos. Em 1952 foram apresentadas, simultaneamente, 20 quadrilhas por o «Baile do Poço» o que demonstrava o quanto 'te gênero era apreciado aqui no Brasil. Os compositores brasileiros tomaram gosto por o gênero e hoje em dia as quadrilhas possuem características bem nacionais. A quadrilha é dançada em homenagem aos santos juninos (Santo Antônio, São João e São Pedro) e para agradecer as boas colheitas na roça. Tal festejo é importante, pois o homem do campo é muito religioso, devoto e respeitoso a Deus. Dançar, comemorar e agradecer. Em quase todo o Brasil, a quadrilha é dançada por um número par de casais e a quantidade de participantes da dança é determinada por o tamanho do 'paço que se tem para dançar. A quadrilha é comandada por um marcador, que orienta os casais, usando palavras afrancesadas e portuguesas. Existem diversas marcações para uma quadrilha e, a cada ano, vão surgindo novos comandos, baseados nos acontecimentos nacionais e na criatividade dos grupos e marcadores. Balancê ( balancer) -- Balançar o corpo no ritmo da música, marcando o passo, sem sair do lugar. E usado como um grito de incentivo e é repetido quase todas as vezes que termina um passo. Quando um comando é dado só para os cavalheiros, as damas permanecem no BALANCË. E vice-versa, Anavan (en avant) -- Avante, caminhar balançando os braços. Returnê ( returner) -- Voltar aos seus lugares. TUR (tour) -- Dar uma volta: Com a mão direita, o cavalheiro abraça a cintura da dama. Ela coloca o braço 'querdo no ombro de ele e dão um giro completo para a direita. Para acontecer a Dança é preciso seguir os seguintes Passos: 01. Forma-se uma fileira de damas e outra de cavalheiros. Uma, diante da outra, separadas por uma distância de 2,5m. Cada cavalheiro fica exatamente em frente à sua dama. Começa a música. BALANCÊ é o primeiro comando. 02. Cumprimento às Damas Ou " CAVALHEIROS CUMPRIMENTAR DAMAS " Os cavalheiros, balançando o corpo, caminham até as damas e cada um cumprimenta a sua parceira, com mesura, quase se ajoelhando em frente a ela. 03. Cumprimento aos Cavalheiros Ou " DAMAS CUMPRIMENTAR CAVALHEIROS " As damas, balançando o corpo, caminham até aos cavalheiros e cada uma cumprimenta o seu parceiro, com mesura, levantando levemente a barra da saia. 04. Damas E Cavalheiros Trocar De Lado Os cavalheiros, de mãos dados, dirigem-se para o centro. As damas fazem o mesmo. A o se aproximarem, todos se soltam. Com os braços levantados, giram por a direita. Soltam-se as mãos, dirigem-se ao lado oposto. Os cavalheiros, de mãos dados, vão para o lugar antes ocupado por as damas. E vice-versa, 05. Primeiras Marcas ao Centro Antes do início da quadrilha, os pares são marcados por o no. 1 ou 2. A o comando «Primeiras marcas ao centro, apenas os pares de vão ao centro, cumprimentam-se, voltam, os outros fazem o» passo no lugar. Estando no centro, ao ouvir o marcador pedir balanceio ou giro, executar com o par da fileira oposta. Ouvindo " aos seus lugares, os pares de no. 1 voltam à posição anterior. A o comando de " Segundas marcas ao centro, os pares de no. 2 fazem o mesmo. 06. Grande Passeio As filas giram por a direita, se emendam num grande círculo. Cada cavalheiro dá a mão direita à sua parceira. Os casais passeiam num grande círculo, balançando os braços soltos para baixo, no ritmo da música. 07. Trocar De Dama Cavalheiros à frente, ao lado da dama seguinte. O comando é repetido até que cada cavalheiro tenha passado por todas as damas e retornado para a sua parceira. 08. Trocar De Cavalheiro O mesmo procedimento. Cada dama vai passar portadas os cavalheiros até ficar ao lado do seu parceiro. 09. O Túnel Os casais, de mãos dados, vão andando em fila. Pára o casal da frente, levanta os braços, voltados para dentro, formando um arco. O segundo casal passa por baixo e levanta os braços em arco. O terceiro casal passa por os dois e faz o mesmo. O procedimento se repete até que todos tenham passado por a ponte. 10. ANAVAN TUR A doma e o cavalheiro dançam como no Tour (passeio em iportuguês). Após uma volta, a dama passa a dançar com o cavalheiro da frente. O comando é repetido até que cada dama tenha dançado com todos os cavalheiros e alcançado o seu parceiro. 11. Caminho da Roça Damas e cavalheiros formam uma só fila. Cada dama à frente do seu parceiro. Seguem na caminhada, braços livres, balançando. Fazem o BALANCË, andando sempre para a direita. 12. Olha A Cobra Damas e cavalheiros, que 'tavam andando para a direita, voltam-se e caminham em sentido contrário, evitando o perigo. Vários comandos são usados para 'te passo: «Olha a chuva, «Olha a inflação, Olha o assalto,» Olha o (cita-se o nome de um político impopular na região). A fileira deve ir deslizando como uma cobra por o chão. 13. É Mentira Damas e cavalheiros voltam a caminhar para a direita. Já passou o perigo. Era alarme falso. 14. Caracol Damas e cavalheiros 'tão numa única fileira. A o ouvir o comando, o primeiro da fila começa a enrolar a fileira, como um caracol. 15. Desviar É o palavra-chave para que o guia procure executar o caracol, ao contrário, até todos 'tarem em linha reta. 16. A Grande Roda A fila é único agora, saindo do caracol. Forma-se uma roda que se movimenta, sempre de mãos dados, à direita e à 'querdo como for pedido. Neste passo, temos evoluções. Ouvindo " Duas rodas, damas para o centro; as mulheres vão ao centro, dão as mãos. Em a marcação " Duas rodas, cavalheiros para dentro, acontece o inverso, As rodas obedecem ao comando, movimentando para a direita ou para 'querda. Se o pedido for «Damas à esquerda e» Cavalheiros à direita ou vice-versa, uma roda se desloca em sentido contrário à outra, seguindo o comando. 17. Coroar Damas Volta-se à formação inicial das duas rodas, ficando as damos ao centro. Os cavalheiros, de mãos dados, erguem os braços sobre as cabeças das damas. Abaixam os braços, então, de mãos dados, enlaçando as damas por a cintura. Em 'ta posição, se deslocam para o lado que o marcador pedir. 18. Coroar Cavalheiros Os cavalheiros erguem os braços e, ao abaixar, soltam as mãos. Passam a manter os braços balançando, junto ao corpo. São as damas agora, que erguem os braços, de mãos dados, sobre a cabeça dos cavalheiros. Abaixam os braços, com as mãos dados, enlaçando os cavalheiros por a cintura. Se deslocam para o lado que o marcador pedir. 19. Duas Rodas As damas levantam os braços, abaixando em seguida. Continuam de mãos dados, sem enlaçar os cavalheiros, mantendo a roda. A roda dos cavalheiros é também mantida. São novamente duas rodas, movimentando, os duos, no mesmo sentido ou não, segundo o comando. Até a contra-ordem! 20. Reformar A Grande Roda Os cavalheiros caminham de costas, se colocando entre os damas. Todos se dão as mãos. A roda gira para a direita ou para a 'querda, segundo o comando. 21. Despedida De um ponto 'colhido da roda os pares se formam novamente, Em fila, saem no Galope, acenando para o público. A quadrilha 'tá terminada. Em as Festas Juninas Mineiras, após o encerramento da quadrilha, os músicos continuam tocando e o 'paço é liberado para os casais que queiram dançar. Número de frases: 137 Ótimo, agora nossos governantes acharam um réu para seus desmandos. Primeiro foi a programação de televisão que desviava os jovens de seu santo caminho 'piritual em busca de uma cultura de paz e de Deus. A culpa foi logo transferida para Counter Strike, passou por Bully, outro jogo proibido e agora chega na propaganda de cerveja. E, vejam bem a inversão dos fatos. A culpa do menor se afogar em bebida é da propaganda e não do sujeito que, contrariando a lei, vendeu. A culpa do comportamento inadequado de crianças na sala de aula é do jogo Bully e não da construção histórica da educação no país. Aqui vale um adendo, a maioria das crianças sequer joga Bully, de modo que a explicação para o problema realmente encontrou o culpado errado. A culpa da má-forma ção de técnicos no Brasil é do SESC que investe mal seu dinheiro porque acredita que educação não é apenas formalidade, mas também cultura. E claro, para tirar a culpa da mídia inventaram o controle social e, junto de ele, um tal de consenso. Não existe nada que censura mais do que um consenso 'tabelecido. E claro, um certo grau de consenso é até desejado, o problema começa a se impor quando o consenso extrapola os limites do bom senso e o colocam engessado numa lei. Foi então que instituições que supostamente cuidam da saúde das pessoas resolveram impor a saúde apoiando leis de cunho ditatorial como se a mudança fosse, de uma hora pra outra, ser a responsável por um certo bem-estar na sociedade. Assim, por exemplo, sem propaganda de bebida, um milagre vai ocorrer e, de uma hora para outra, sem o 'tímulo ao consumo, vão parar de beber. A mesmo coisa acontece com o que pensam do jogo Bully. Sem o 'tímulo à violência em sala de aula, os alunos, de uma hora para a outra, vão deixar de invejar o coleguinha do lado e tudo 'tará resolvido. O fracasso de tal pensamento é tão evidente, mas o que é mais assombroso é que profissionais da saúde, apoiados por senadores evangélicos, se ocupem de coisas tão banais. Por exemplo, ficou difícil explicar porque as pessoas consomem maconha já que a droga não é anunciada na TV. Claro, a explicação dos nossos profissionais de saúde, que com tal pensamento não são habilitados a tratar de ninguém, (os ex-junkies que o digam) é que bebidas alcoólicas são um trampolim para outras drogas. Logo quem bebe é um potencial candidato a fumar maconha, tomar ectasy e cheirar cocaína segundo os nossos profissionais da saúde que acham explicações para tudo em pesquisas de cunho pseudo-científico. É mais ou menos assim, segundo um relatório qualquer, cujo nome não vale a pena ser divulgado, 30 % dos jovens no AA também fumam maconha. A relação passou então a ser óbvia mesmo que a propaganda de cerveja jamais tivesse dito linha sobre a erva. É o trampolim. A teoria do trampolim também já foi muito usada contra a própria maconha em si, segundo pensamento que se o jovem consome maconha, logo ele consome também cocaína, porque o trampolim, de 'sa vez no andar mais alto, o levou para isso. Claro! Há médicos mais realistas que contestam a teoria do trampolim e vêem em ela um fundo falso. Por exemplo, o dr. Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraica de Jerusalém comprova a eficácia da Cannabis no tratamento contra o alcoolismo! Sacou o lance, se você for pular por o trampolim do alcoolismo para a cannabis, na verdade, você vai 'tar se tratando. O proibicionismo, uma corrente de pensamento americana, em geral, pega em cheio os profissionais da saúde que, antevendo seus consultórios repletos de drogados e drogadas adoram colocar coisas na cabeça das mãezinhas e, acreditam, fazem mais mal do que bem. Os astros da terapia adolescente que freqüentam os programas televisivos, adoram aparecer mais do que a bunda da Juliana Paes. Trata-se da propaganda velada dos próprios serviços, vale lembrar que propaganda de serviço médico e farmacêutico é proibida mesmo. Assim, de acordo com o que prega a política do medo, são omitidas algumas verdades de 'sas pesquisas e os caras ficam só com o lado ruim, quando não enganoso, afinal, quanto mais demonizar a propaganda, mais tempo de TV para o blá blá habitual daqueles que se dizem os guardiões da sua saúde e, danou-se o Foucault e o Freud. A deturpação obscurantista, por sua vez, também é sustentada por vingativos movimentos de democratização, religiosos evangélicos e policiais que, para preservar a própria autoridade e os rendimentos da demonização se juntam ao coro dissonante. Pois bem que proibam a cerveja, o caso mesmo é que o pessoal ai de cima quer liberar o Prozac. E se você não 'tá contente com a sua liberdade controlada, tudo bem, nós temos uma pílula para isso. Em as prateleiras do supermercado em breve você acha, pílula para te deixar feliz, uma para te deixar triste, outra para a vce gozar, uma para ficar excitado, outra para acalmar. E viva a ideologia! Número de frases: 35 E claro, a culpa é da mídia! Caio Fernando Abreu definia-se como um autor que corria por fora, distante do pequeno mundo onde os intelectuais das letras brasileiras habitam. Chegou mesmo a afirmar que a literatura brasileira era feita de telefonemas oportunos, de cartão e tal, e que, excetuando-se Heloísa Buarque de Hollanda e Flora Sussekind, a crítica brasileira sofria da incapacidade de absorção de sua literatura. O interessante é que, para fazer todas 'tas acusações, Caio vivenciou o ambiente literário por dentro. Enquanto viveu, trabalhou como jornalista nas principais revistas do País, colaborou em inúmeros jornais, conheceu autores importantes, ganhou prêmios, ingressou em diversos círculos, teve portas de editoras abertas e fechadas, viajou, voltou, foi traduzido e publicado no exterior. Foi um grande realizador, transitando da crônica jornalística ao drama com fluidez, apesar da compreensão de que o 'critor brasileiro fosse «um 'critor de fim de semana, feriados e horas vagas». Reclamou da falta de profissionalismo para a profissão, de ter de ocupar-se com o jornalismo para sobreviver; ainda mais um jornalismo tão subserviente, «canalha, vendendo comportamentos, manipulando a cabeça das pessoas», quando sentia que sua vocação era a criação, a tentativa de 'crever, aproximar-se de alguma coisa que, imaginava, seria a literatura. Quem nunca leu nada de Caio Fernando Abreu não sabe o que 'tá perdendo. Mas, se não leu, certamente já ouviu falar de ele. Eu ouvi pela primeira vez em 1982, quando li sua obra mais emblemática, Morangos Mofados. Agora, pegando a edição do livro lançada por a Agir e lendo o segundo conto Os Sobreviventes fiquei presa numa frase que é a cara da chamada geração perdida: " ( ...) ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun, little darling; 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54; 80, a gente aqui, mastigando 'sa coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem 'quecer 'se gosto azedo na boca». Relendo Morangos Mofados me descobri sublinhando frases, trechos, anotando idéias recorrentes a partir da releitura. E, com o antigo exemplar na mão, fiz um contraponto dos meus momentos atuais com os dos anos 80. Minhas anotações de então funcionam atualmente como sentinelas da memória e das emoções que a releitura do livro me provoca. E descobri que, assim como nos anos 80, Caio e seus livros ainda constituem meu repertório de referências para pensar em minha identidade. Assim como nos anos 80, o 'tilo de Caio Fernando Abreu ainda vai direto à medula, ao centro nervoso. O Mofo, em nove contos, ainda me deprime ... E Os Morangos, em oito contos, dão um fiapo de 'perança. O primeiro conto, Diálogo, é uma conversa entre duas personagens, A e B, na qual uma pergunta insinua um comprometimento que tanto pode ser ideológico quanto afetivo, ficando pautados o medo e a insegurança de ser denunciado ou ser amado, sem abdicar do desejo de ver-se como um igual e sem a coragem de assumir-se como tal. Estes vazios prenunciados no conto de abertura, o dito e o não-dito, marcarão as personagens dos contos seguintes. Um dos melhores contos do livro é Além do Ponto. Em ele é narrada a incursão de um homem rumo ao seu amor ou ao encontro de alguém que ele julga ser o seu amor, expondo toda a sua fragilidade e o desejo de proteção primordial de todos nós, desde que deixamos o ventre materno. A beleza deste conto é comovedora. A linguagem toma forma do fluxo de pensamento e não sabemos se a personagem é louca ou incrivelmente sincera na sua consciência do ser. E, finalmente no conto que dá título ao livro, Caio sinaliza uma 'perança: os morangos 'tão mofados, mas ainda assim guardam o frescor de sua 'sência. É como diz o próprio Caio no livro, é como se o personagem se rebelasse, libertando-se do autor e decidindo o final da obra à revelia de ele. Morangos Mofados atravessou o tempo contingente de sua criação para perpetuar-se nas dobras da memória, fertilizando o pensamento, 'timulando sucessivas releituras, ato criativo de resignação da obra original. E desta forma tornou-se um ícone, um objeto da história e da reflexão do autor. O discurso de Morangos Mofados ainda me agrada e descubro, relendo a obra, mais um motivo para reler Nietzsche sem perder a 'perança nos outros. Tacilda Aquino -- Goiânia. pause Morangos Mofados pause Autor: Caio Fernando Abreu pause Editora: Agir pause Páginas: 156 pause Preço médio: Número de frases: 41 30 reais [ Pensamento em reedição permanente] Argumentação in off: A presente performance textual propõe uma abordagem crítica questionável, mas que revida a unanimidade de questões como o processo de digitalização cultural, focalizando a Internet como um veículo midiático opressor e massificante e não como instrumento ou ferramenta de criação e democratização da cultura. Frase mise-en-scène: Atualmente, quase não existe sublimação; a predominância é da desmaterialização. Vejo a cultura se dissolvendo, do real ao digital, quando o ideal, acredito, seria a culturalização da matéria. Proposta de Reflexão-Monólogo 1: O Pós-mundo Internet Viver o presente é caminhar sobre muros. Não mais aqueles antigos e pesados muros de tijolos prestes a ruir (emocionante aventura!); mas, muros eletrônicos, firewalls, que compõem a divisão política dos territórios demarcados por o gregarismo etnocêntrico das «correições humanas e anti-humanas» que superpovoam 'te pós-mundo denominado Internet. Proposta de Reflexão-Monólogo 2: O ping da dependência virtual Digo " carpe diem!" a mim mesmo no 'pelho, por hábito diário, mas o que determina meu dia, não depende só de mim. A mídia influencia. Os duros ossos do ofício que tenho de roer. A família que sabe a verdadeira fraude que sou. As corporações que facilitam a aquisição de bens e 'tabelecem dívidas e prazos de pagamentos avassaladores. E, surgindo como novo teste de conectividade vital-interpessoal, eis la: a Web. Quase não há mais como manter o entusiasmo existencial (do grego enthusiasmós, composto por três partes: en, n; thu, abreviação de theós = Deus, e mos, terminação de substantivos). Entusiasmo significaria, pois, ter um Deus dentro, ser tomado por Deus; ou como prefiro «Deus em Si», soa mais musical por a nota Si. Voltando ... Não há mais como viver e conviver sem o «ping» que determina a nossa conexão com a grande rede. Proposta de Reflexão-Monólogo 3: A Internet a serviço dos interesses corporativos Por trás, ou 'condida sob o mobiliário virtual, a Grande Rede 'tá ligada ao plug dos interesses das grandes corporações. A luz do monitor pode ofuscar a visão da realidade. A luz do monitor, não é " luz que não se apaga "; rótulos evangelizadores ou teorismos religiosos a parte, a cultura, ao meu ver, é a verdadeira «luz que não se apaga». A cultura literária, a gráfica, a dramaturgia, os eventos, a música, 'cultura, artesanato e manifestações folclóricas, e daí por diante, passando por as bibliotecas e sebos, bem como por os bancos de conhecimento científico e academicistas. Antes praticada e exercida de modo original, psico-bio-fisicamente e com muito 'forço braço-intelectual, agora, atente-se, a cultura 'tá sofrendo um processo de digitalização banal ... Escanerizar uma imagem e publicá-la para que seja vista em janelas de navegadores e, não raras vezes, roubada com o botão direito do mouse, não é produzir arte, nem mesmo democratizar o acesso a obras de arte! Baixar músicas em mp3 e distribui-las aleatória e descriteriosamente, remixadas sem a participação ou aprovação do autor, 'tá longe de tornar um piloto-de-computador num DJ, num MC, num Produtor Cultural! Tenho lido textos rasos, sem mensagem; letras pornográficas, não eróticas; crônicas e contos desorganizados e sem conteúdo literário e não textos pós modernos, alternativos, contestadores ou revolucionários ... As vezes, interferência sonora, é destruição e não desconstrução e recomposição musical! De a mesma forma, cito os dejetos jogados contra planos de fundo e delírios amorfos. O pior, de tudo isso, é que tenho testemunhado críticos, formadores de opinião, pensadores, enfim, atores sociais contemporizando, admitindo, aceitando de modo passivo (e as vezes até servindo de promoters, incentivadores ou cúmplices) ao pseudo-culturalismo. Proposta de Reflexão-Monólogo 4: Cultura digital ou digitalização cultural? Admiro a possibilidade de manifestação cultural e expressão através de uma identidade digital. São inquestionáveis o alcance e a potência dos canais que acessibilizam a busca e a apreensão do talento e, até mesmo, da genialidade possivel através do desdobramento das fibras óticas e do ping (pong) eletrônico, porém, deveríamos ter mais cuidado em não limitar nossos olhos à luz da tela dos monitores e a nossa mente ao engano cultural proposto por a facilidade de «ser quem se diz ser» e não «ser quem ainda não se é». Todo o artista é compulsivo no seu objeto. Mas são raras e tortuosas as compulsões que impelem um indivíduo sobre a trilha da cultura verdadeira ao encontro admirável do «Deus de Si Mesmo» com o «Deus em Si Mesmo». O " Navegar é preciso; viver não é preciso." de Fernando Pessoa, em 'te caso, tem a ver com precisão, foco, orientação e personalidade; não com necessidade de reconhecimento imediato, desarranjo mental ou ânsia de aceitação e inserção no contexto social da pseudolatria (adoração do falso). Cultura é indicador de vida real e afirmação da consciência humana. Cultura não é suicídio ou soberba intelectual. Mas algo deveria ficar claro: no acesso a 'ta 'fera experiencial, não há porteiros, nem seguranças, nem corporações que detenham títulos de propriedade ou sindicatos de nobreza. Só há praticantes e aplicados buscadores da Expressão Ideal. Ideal, 'ta trilha que talvez nos leve e eleve aos pés da Arte Secreta da Encarnação Coletiva da Realização. Afinal, existe uma cultura digital? Ou apenas, o que 'tamos presenciando e gerando são releituras, revisitas, reciclagens, adaptações, enfim, o que se tem, de fato, é processo de digitalização da cultura, sem inovações efetivas e significativas? Frase de saída: Quem nunca atirou uma pedra, que cometa o primeiro pecado! Et finis [ Número de frases: 63 Deixa para o público ...] Há quase dez anos, fazendo pesquisa sobre festas populares em Santarém (certamente uma das cidades mais interessantes que já conheci, com história fabulosa), acabei indo parar na casa de uma pessoa indicada por a prefeitura. No meio da conversa, o anfitrião me mostrou uma pequena pedra polida, encontrada num dos vários sítios arqueológicos recém-descobertos no município: «pode pegar!" Quando já tinha o artefato -- aparentemente tão comum -- na minha mão, ele acrescentou como se fosse a coisa mais normal do mundo: «tem cerca de 8 mil anos ..." Fiquei com a sensação imediata de ter meu braço pegando fogo. Era como se segurasse uma daquelas peças que só contemplamos de longe, com a barreira de vidros blindados e sob os olhares de vários guardas, em lugares como o British Museum. Nem precisei me lembrar que apenas bem recentemente é que ganhamos a certeza de que seres humanos vivem no nosso território 'se tempo todo: fiquei foi prisioneiro de outro pensamento: «sempre aprendemos que somos terra e povo jovens, e olha eu aqui conectado subitamente com uma história multimilenar ..." Hoje, tenho em mãos outra peça que também faz minha imaginação pegar fogo, transformando em cinzas velhos e 'tabelecidos aprendizados, dando uma dimensão bem mais complexa para a saga cultural deste canto do planeta onde não sei há quanto tempo cantam os sabiás. É um livro deslumbrante, bem mais pesado que a pedrinha de Santarém, chamado Brasil Rupestre -- Arte pré-histórico brasileira, do artista plástico, fotógrafo e cineasta Marcos Jorge e dos arqueólogos André Prous e Loredana Ribeiro. Nunca houve nada parecido na bibliografia nacional, não com tal qualidade gráfica e apurado senso 'tético, não com 'ta quantidade e diversidade de informações recolhidas em tantos lugares de difícil acesso país afora, trazendo notícias de criações culturais das quais muito poucas vezes ouvimos falar. A equipe percorreu 32 municípios, em todas as regiões brasileiras, num ano e três meses de viagem. Os melhores resultados de tal expedição -- que produziu mais de sete mil fotos -- podem agora ser conhecidos por todo mundo. E tomara que as imagens reveladas no livro incentivem novas criações. Imagino por exemplo que possam servir de base para o repertório de tatuadores, webdesigners ou outros artistas visuais ... As idéias pré-histórico fazem parte definitivamente do domínio público, não só por a sua antiguidade. Os textos do livro dão pistas para (eu disse bem que minha imaginação pegou fogo -- os autores do livro certamente não são responsáveis por as interpretações ciberpsicodélicas que vou fazer a seguir ...) uma aproximação do modo de produção da arte rupestre brasileira com o regime colaborativo que a internet fortaleceu e acelerou, gerando novos sítios experimentais de criação coletiva como o Overmundo. Muitíssimo provavelmente tudo que foi pintado ou gravado em pedras e grutas por todo o Brasil pré-histórico é resultado de trabalhos comunitários, cada imagem feita por muita gente anônima não necessariamente da mesma tribo (portanto há muito de transcultural em 'ses trabalhos), ao longo de muito tempo, ao longo até de vários séculos ou milênios (portanto são também transhistóricos ...) Um cara de 3 mil antes de Cristo «grafita» sobre o desenho feito por uma turma de moças de 5 mil antes de Cristo, e assim por diante, para trás e para frente. Cada criador atua como um sampler de imagens que são constantemente inseridas, como dizem os autores de «Brasil Rupestre,» numa nova semântica, num novo processo de significação." Por que não dar continuidade ao processo? Gosto 'pecialmente das figuras onde aparecem grupos humanos, cada indivíduo com mãos e pés colados com os de seus vizinhos, símbolo mais que adequado para a Web 2.0. Aprendi muita coisa com o livro, coisas das quais não tinha nem a mais vaga idéia antes. Em as primeiras páginas, há várias fotos de 'tradas, que cruzam o país, muitas vezes de maneira absolutamente precária: são como vestígios de 'tradas, como as artes rupestres fotografadas são também o que restou de muitos outros desenhos e gravuras, apagados por o tempo ou por o descaso. Mesmo assim dá vontade de «viajar», de qualquer jeito. Como fizeram os primeiros portugueses que aqui chegaram e viam nos desenhos das pedras provas da passagem de São Tomé por o território que ainda seria batizado de Brasil. Como eles, vou embaralhar as coisas. Lá para o Sul, as fotografias me fizeram descobrir que povos pescadores habitaram há milênios as praias de Santa Catarina. Eles pintavam figuras geométricas nas pedras que só podiam ser vistas por o mar, ou navegando sobre o mar. Indo para o Centro-Oeste, no Pantanal, contemplo gravuras feitas em pisos rochosos e aprendo que a gente que ali morava construía morros artificiais imensos, modificando o ambiente (seria land art?) Em a Pedra de Ingá, prato cheio e paraibano para divagações ufológicas, fico encantado mesmo é com as notícias do trabalho do seu Renato Alves da Silva, que mesmo passando anos sem receber nenhum salário é quem zela com carinho por a conservação do lugar (por falar nisso: gosto de ver no livro muitas fotos onde aparece gente, nossa contemporânea, ao lado dos desenhos milenares). De volta aos arredores de Santarém, fico imaginando a paisagem local tal como era vista por as pessoas que fizeram aquelas pinturas nas rochas: não a exuberante floresta tropical ainda presente nos dias atuais, mas hiléias entre vastos campos ... São muitas informações muito diferentes ao mesmo tempo, que nos deixam entrever uma diversidade cultural e ambiental que por ser tão antiga não precisa ser menos rica que a de hoje. Tenho talvez que mudar muita coisa na maneira como pensava, ou queria pensar, a história pré-Cabral do Brasil. Sempre admirei, nas tribos que aqui «nomadizaram» por milênios, aquilo que para muita gente parecia ser uma desvantagem, uma característica que inferiorizava seus modos de vida diante daqueles de povos tidos como mais avançados ou desenvolvidos: gostava muito do fato desses nossos antepassados distantes não terem deixado monumentos, arquivos, numa 'tratégia que alguns autores chamaram de «contra a história». Por que não apagar nossos passos por o mundo, por que carregar o fardo -- pesadíssimo -- da História, daquilo que deve ser preservado e lembrado para sempre? Por que não termos a chance de começar tudo novamente, em outro lugar, sem «nada» do que era antes? Era uma visão romântica, com certeza, e «patrimonialmente» incorreta (vocês já repararam como ultimamente a palavra «resgate» ganhou uma conotação militantemente positiva? Onde vamos colocar tudo que 'tamos «resgatando»? Onde há 'paço para tanta coisa?) Agora com 'te livro de tantas provas fotográficas fico em dúvida quanto ao meu romantismo anterior, mas não exatamente decepcionado. Deparo-me com um longo -- muito longo -- desejo de tatuar, de maneira permanente, o corpo do planeta. Mas exatamente para quê? Ninguém sabe ao certo ... Deixar mensagens para as gerações futuras? Cumprir exigências de rituais mágicos? Adoro pensar que eram apenas brincadeiras. Brincadeiras seríssimas, como todas as brincadeiras devem ser. Porém, 'tando ainda sob o impacto de tantas imagens tão antigas mas tão novas para mim (e para a torcida do Flamengo), rendo-me ao desejo de delirar um pouco mais: e se forem ensinamentos, um receituário? Vestígios que nos iniciam no «caminho» -- bem zen -- para não deixar nenhum outro vestígio? Um documento de 'tética da desaparição que por isso mesmo devemos guardar para sempre: nunca deve desaparecer ... Número de frases: 60 Há mais ou menos três anos, ela nasceu buscando firmar uma identidade própria no cenário da dança em Porto Velho. E não apenas isso. A Companhia de Dança Corpo em Movimento, ao longo desse tempo, tornou-se uma das principais referências em dança moderna, jazz, sapateado, dança do ventre e balé. Contudo, a idéia de formar um grupo começa ainda 1998, quando o professor e diretor da Cia Renan Marques, profissional há mais de dez anos, ainda dava aulas de dança em academias. «Em aquela época era difícil porque as aulas, e conseqüentemente as apresentações ao público, não tinham uma seqüência, ou seja, dificilmente os 'petáculos se expandiam ou ganhavam notoriedade por conta das academias», explica Renan. Para ele, o sonho de criar uma academia sempre existiu, mas foi preciso muito trabalho para formar um grupo. O que ele fez? «Em 2004, como ainda mantinha contato com alguns dançarinos que faziam aula com mim, comecei a ' garimpar ' os que mais se destacaram para compor um grupo e os ensaios começaram a acontecer na minha casa», relembra. Pouco 'truturada financeiramente, a Cia de Dança Corpo em Movimento mantém 25 dançarinos e já percorreu algumas cidades do interior do 'tado, além de apresentações em Florianópolis e Arachás, interior de Minas Gerais. Em a maioria das vezes, cada profissional acaba assumindo todas as despesas. Foi o que aconteceu, recentemente, no 1º Festival de Dança São José dos Quatro Marcos, no Mato Grosso, onde o grupo foi um dos principais destaques. «Lá eles têm uma coisa que não temos aqui, que é patrocínio de empresários e do governo», desabafa Renan. É em 'sas horas que vemos como Porto Velho tem grandes profissionais que são pouco valorizados, e como 'tamos à frente de grandes 'tados», completa. Prova disso foram as oficinas de sapateado e jazz realizadas durante o festival, que superaram qualquer expectativa. A dançarina Juliane Alves, 21 anos, é uma das que acompanha Renan há sete anos. Ela adora dançar e também participou do festival em " Mato Grosso. «É sempre bom mostrar nosso trabalho em outros 'tados porque acabamos aprendendo muita coisa também», explica. «Hoje, a Corpo em Movimento é minha segunda família», admite. Daniela Coelho, 24 anos, tem preferência por o jazz, ballet e sapateado. «Quando 'tou dançando fico tão feliz que 'queço tudo, e devo 'se aprendizado ao Renan», reconhece. A Cia ainda realiza projetos sociais com crianças que 'tudam em 'colas localizadas nas zonas periféricas da cidade. São mais de 30 crianças, dividas em três 'colas beneficiadas, que nunca tiveram oportunidade de aprender a dançar e começaram a descobrir, na dança, que talento se constrói com apenas um empurrãozinho. As aulas são ministradas por os próprios alunos da Cia.. «Eles ficam deslumbrados a cada aula e demonstram muito interesse em aprender», informa Rayson Marques, um dos voluntários. Enquanto se prepara programação de final de ano, a Cia 'tá ensaiando arduamente para participar da 4ª Mostra de Dança de Mato Grosso, nas apresentações de jazz e dança moderna, que acontecerá nos dias 04 a 07 de julho. Número de frases: 25 Poesia 'crita, à primeira vista, pode parecer uma «classificação desnecessária e levemente absurda», como observa o poeta-crítico Cândido Rolim, em recente artigo dedicado ao assunto. Mas, se recordarmos que em suas origens a poesia era alguma coisa assemelhada a um " canto-falado, partitura vocal assentada sobre uma 'trutura melódico-instrumental -- mesmo que às vezes incipiente, podemos concluir que o que nos soa agora sem sentido, traz em seu bojo o índice crítico de uma situação cultural que diz respeito ao nosso tempo. Portanto, havia uma poesia que era mesmo «palavra voando», experiência de linguagem cuja fruição não tinha nada a ver com a solidão e o silêncio. Esta realidade é que justifica a seguinte afirmação de " Jorge Luis Borges: «Quando lemos versos que são realmente bons e admiráveis, tendemos a lê-los em voz alta. Um verso bom não pode ser lido em voz baixa -- ou em silêncio. Se isso for possível então o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia. O verso nos faz lembrar que antes de arte 'crita foi uma arte oral: o verso nos lembra que inicialmente foi um canto». E, além disso, um evento semiótico que pressupunha a recepção pública no instante de sua presentificação. Mas, a invenção da 'crita cursiva, a par da derrocada do mundo heróico, sepultou a poesia cantada. O 'paço público, solidário e consensual, reflui para a imprecisão da subjetividade lírica. O leitor mudo encena a sua tragédia no quadrículo resumido da página manuscrita, ou impressa. O sermão dá passagem à confissão. Para usar uma metáfora resgatada ao campo da música, poderíamos dizer que a voz empostada se converte no canto à boca pequena da bossa nova. Mallarmé, no século19, já diz que tudo, mais cedo ou mais tarde, acaba num livro. Em literatura, toda teatralidade se rarefaz. O seu lado avesso 'conde nada, e 'sa formulação também poderia servir de imagem ao poema como 'critura-figura que se imprime no papel. Com efeito, um dos desconfortos da poesia 'crita encontra-se no seu rebuscamento (em potência) feito de lacunas, um discurso que, a contrapelo de sua impertinente 'cassez sígnica, convida o leitor-fuidor a fazer uma série de operações interpretativas; refinadas abstrações sensório-emotivo intelectivas calcadas sobre uma negatividade extrema. Ao contrário (da 'tética) dos multi-meios que hoje predominam -- já que, por assim dizer, tudo em eles 'tá dado, ou seja, eles constituem uma positividade, na poesia 'crita tudo tem de ser conquistado: os vazios de forma e fundo, sua instabilidade e sua irritante desmaterialização, agridem um mundo e uma mundanidade cujo apetite por a 'petacularização dos eventos parece ser impreenchível. Portanto, relativamente ao entorno, a poesia 'crita parece se oferecer, agora, como algo cada vez mais limitado e pobre em termos de chances expressivas. A presumida «obsolescência» do preto-em o branco, ou seja, a mancha tipográfica do poema sobre a página mallarmaica, representam um insulto à hiperestesia da mentalidade contemporânea. Entretanto, corremos o risco de submetermo-nos à anomia já consagrada, se optarmos por qualificá-la (a poesia do suporte papel), sem receio, como um objeto «tosco», inclusive porque a definição não condiz com uma linguagem que opera a partir de» suas desmesuras». Isto é, em poesia 'tamos sempre na iminência de um gesto de ruptura -- que infelizmente nem sempre conseguimos dimensionar. Por outro lado, a poesia 'crita sugere comportar uma dose de «tosquidão», sim; ainda mais se persistirmos dando crédito à perdulária performance intersemiótica dos meios expressivos da hora, uma superestimulação resultando, até certo ponto, em recepção passiva, ou indiferente. Espécie de truísmo, a idéia algo anedótica de uma poesia 'crita, vem à tona com o objetivo de manter uma eventual produção que a 'sa «corrente» se filie, nos domínios de uma poética tradicional. Assim, como resposta às exigências das tecnologias e 'téticas contemporâneas, uma poesia, já não digo visual, mas 'pacial e performática em sua dinâmica, atenderia melhor à assemblage eletrônico-virtual que marca os 'tímulos necessários a nossa satisfação. Vanguarda contraditória 'ta, que não se movimenta a contragosto do solo, pelo contrário, credita sua inteligência em realidade cuja condição de fato consumado torna todo questionamento a seu respeito um anacronismo; investe suas forças numa transição que é, antes, de suportes do que de repertórios ou de formas. A retaguarda inventiva da poesia 'crita migrou para a tela do computador: o poema experimental, há pouco tempo construído caprichosamente com cartelas de letra-set, virou animação digital em 3D. Parece que vai sair da tela, mas não sai. Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e Em o Assoalho Duro (2007). Número de frases: 38 Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net Eu nunca entendi como uma novelinha com um elenco medíocre, um roteiro pífio, uma direção medonha e um texto horroroso consegue ficar por tanto tempo no ar. «Malhação» contribuiu imensamente para a idiotização da geração pós-diretas, a minha geração, que cresceu assistindo a um show vespertino de futilidade. E o pouco que assisti em 'sa «nova» temporada, mostra que 'tá tudo piorando muito. O elenco é de dar medo e o argumento não existe em momento algum. A «trama» é sempre o mesmo clichêzão: menina se apaixona por menino mas casal de vilões separa os dois até o último capítulo da-temporada. E seguem-se os absurdos que fazem do programa uma ficção científica, algo surreal onde o jovem brasileiro não consegue se identificar, mas assiste e acaba idiotizado por o argumento mais imbecil da TV em todos os tempos. Mas eu já descobri qual é a função real de Malhação na Globo: Sendo o primeiro produto dramatúrgico da sequência de novelas, o folheteen nivela tudo por baixo: Não importa o quão ruim seja a novela das seis, vai sempre soar melhor que a trama de Malhação. Ainda não assisti «Paraíso tropical», mas por incrível que pareça, até mês passado o melhor produto em dramaturgia da Globo era a reprise de» Era uma Vez», seguida por «Pé na Jaca», uma iniciativa formidável de Carlos Lombardi em sacudir a mesmice que se tornou a forma de fazer novela da Globo. Ps: A concorrência tremeu ... De rir. Gente alguém pode me explicar o que é aquele «SBT Brasil»? Lembram da Cynthia Benini, aquela da Casa dos Artistas, e do Jornal da pernas de fora? Pois é, lá 'tá ela, do lado do Carlos Nascimento, num telejornal que já foi ancorado por Ana Paula Padrão! Mas o pior não é isso ... Vocês já viram que agora o Nascimeto atende telefonemas de telespectadores ao vivo? Algo como um «Fala que eu te 'cuto» em horário nobre. Caiu por terra toda a iniciativa de Ana Paula Padrão de tentar implantar um jornalismo sério na emissora de Sílvio Santos. A o que tudo indica, o próximo passo, será o Nascimento rodar o peão da casa própria entre as colunas de economia e 'porte. Lamentável. Número de frases: 24 Resenha de: ORWELL, George. A revolução dos bichos. Tradução de Heitor Aquino Ferreira. Paulo: Companhia das Letras, 2006. George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nasceu no início do século XX, na Índia. De família inglesa, não tardou a retornar à Inglaterra. Educado em 'colas tradicionais inglesas, trabalhou na polícia colonial britânica, servindo na Birmânia, país asiático, hoje chamado Myanmar. A os 25 anos, pede demissão e retorna à Europa onde mendiga e lava pratos para se sustentar. Em a Inglaterra passa a 'crever num jornal socialista e atua como jornalista, livreiro e professor. Passa a publicar seus livros e em 1945, quando os Estados Unidos atacava Hiroshima e Nagasaki, lança A revolução dos Bichos, livro que o torna famoso. Morre em 1950 de tuberculose. Orwell foi um homem de ideais pautados por a luta contra o totalitarismo e isso pode ser observado em A revolução dos bichos. Livro que deixa qualquer ser humano intrigado com a distinção entre os homens do poder e os trabalhadores que os sustentam. Ao longo de noventa e seis páginas, pode-se observar a extrema utilização de metáforas, pois do início ao fim fala de bichos, mas é inegável a comparação que pode ser feita daqueles bichos com os homens. Dividido em dez capítulos, o livro pode encantar logo no início, pois sua leitura pode ser rápida e agradável. Não há o uso de palavras complicadas, o que atrasa a leitura em alguns livros clássicos. Desde o primeiro momento em que Major, o porco que liderava a granja, conta seu sonho da noite passada, até o fim do livro, as páginas parecem voar e os caminhos percorridos por aqueles animais é o mais interessante possível. Segundo tal Major, os homens são seres maus «O homem é nosso verdadeiro e único inimigo»,» Acabe com o homem e todo mal acabará». Essas foram as frases utilizadas para mostrar aos outros animais que o homem é um ser realmente mal. Depois completa: «O homem é a única criatura que consome sem produzir. O homem não busca interesses que não os de ele próprio». Major busca com isso, mostrar a seus amigos que a revolução deve acontecer. Major morre logo em seguida e os animais que o seguiam resolvem criar o Animalismo, doutrina que continha todos seus ensinamentos. A tão sonhada revolução acontece e a Granja do Solar passa a se chamar Granja dos Bichos. Então, os animais aprendem a 'crever e ditam os sete mandamentos da granja. Dois porcos, Napoleão e Bola-de-neve, passam a se opor ideologicamente. Observa-se uma semelhança com os partidos políticos. A granja passa a se desenvolver tecnologicamente e Bola-de-neve é expulso. Napoleão toma o poder. Fato 'tranho? Não. Alguém sempre toma o poder. E na granja não foi diferente. A partir desse momento, tudo começou a ficar diferente. Os sete mandamentos passaram a ser desrespeitados já que antes ninguém podia morar na casa dos ex-donos (lá havia sido transformado numa 'pécie de museu), e os porcos passaram a ficar lá; não poderia haver comércio, e Napoleão buscava vender produtos para um fazendeiro vizinho; não eram permitidos os vícios, e o uísque passou a ser consumido por os poderosos. Animais que se opunham às decisões dos superiores passaram a ser mortos (isso porque as galinhas fizeram greve); o hino que era cantado desde a época de Major passa a ser proibido. Todas 'sas proibições surgem a partir do momento em que os porcos, que se achavam intelectuais, e dotados de uma inteligência ímpar, decidem ser os responsáveis por as decisões tomadas a favor da granja. Assim, se eles pensam, o que é o mais difícil, os subordinados têm que aceitar tudo o que eles dizem. Fica bem claro a semelhança com os governos totalitaristas, ou com a distinção entre ricos e pobres desde a antiguidade, ou com qualquer forma de autoritarismo (" familiar, 'tatal, capitalista, comunista», como cita Nélson Jahr Garcia, na introdução do livro). Uns pensavam, faziam política, enquanto os outros trabalhavam arduamente. O clássico de Orwell termina no momento em que vários anos já se passaram, quase ninguém se lembra da revolução ocorrida (aqui ele cita a memória curta dos animais. Mera coincidência com seres humanos?), e os porcos apresentam a granja aos homens das cidades vizinhas. Assim, a tão célebre frase «impossível distinguir quem era homem de quem era porco», fecha uma cena onde homens e porcos (agora vestidos e andando feito homens), 'tão sentados à mesa discutindo violentamente. É terminar de ler o livro e pensar: homens, porcos, homens, quem e quem? Por todo o livro é possível ver que os porcos agiram como os homens têm feito ao longo da história da humanidade. Muito bom perceber que George Orwell construiu sua obra há tantos anos e ainda hoje ela é atualíssima. Suas metáforas caem muito bem sobre os governos Lula, Bush, Blair. Homens e porcos. Porcos e homens. A revolução dos bichos será uma sátira eterna. Número de frases: 56 Há algum tempo já que fiquei pensando se eu deveria 'crever ou não 'te texto por conta da profissão que exerço. Mas, como eu não consigo ficar calada diante de certo tipo de situação, aqui 'tou. E tomara que eu não me prejudique futuramente. Bom, as eleições se aproximam. Tá, grande novidade. Mas não sei se alguém pensou nisso que eu venho pensando desde a decepção que tive com o meu partido do coração (PT): todos são iguais, só mudam o discurso e as cores da bandeira. Ah ... teve gente que pensou. Bom, deixe-me ver ... alguém pensou em como solucionar isso? Não, 'tou perguntando se pensaram de verdade, assim ... em como conseguir fazer com que a população seja a única beneficiada diante das disputas meramente políticas. É loucura isso, mas eu pensei. Por exemplo, aqui no Estado de Sergipe, duas famílias são as donas do pedaço. Estão no poder há mais tempo do que eu tenho de vida, conseguindo se manter da forma mais simples e previsível possível: usando dos meios de comunicação. Não que não tenham feito nada, mas de certa forma, conseguiram fazer sua credibilidade a partir da imagem que conseguiram diante da mídia local (da qual são proprietárias). Por anos, elas pulam entre um cargo e outro da alta política sergipana e brasileira e são amigas, 'tabelecendo assim a manutenção do seu pão-de-cada-dia e o discurso da classe empresarial. E eu sei que isso não acontece só aqui. Alagoas com Fernando Collor, na Bahia com Toinho Malvadeza ... vixi minha nossa ... e tantos outros. Só que a situação por aqui «mudou» há um certo tempo. Tá, exagero, foi só uma ironia. Mas sim ... Após a pseudo-consci ência democrática do povo, um partido de 'querda conseguiu se eleger num cargo de grande importância. Que eu me lembre foi na época da mesma «Onda Lula». Minino, era uma maravilha ver aquelas bandeiras vermelhas tremulando nas ruas, acendendo a 'perança de uma política em prol da sociedade ... Run ... ledo engano. Aí, passam alguns anos e papoca (aqui o verbo «papocar» significa 'tourar; na verdade o termo seria pipocar ... mas regionalismos à parte ...) o 'cândalo do mensalão. Mídia apela, partidos de direita usam isso como arma para o jogo das eleições ... uma verdadeira farra. Gente dizendo «eu sabia», gente afirmando» isso já acontecia antes», mas mais gente ainda pensando: Em Quem Eu Vou Acreditar Agora? E quem sabe? Minha 'perança na honestidade das pessoas também foi jogada fora. Então, aí a partir disso eu desenvolvi uma «tese», que eu acho que poderia resolver mesmo a situação, já que solução, não tem mais (ou nunca teve). Porque sinceramente eu não sei o que é que a gente pode fazer contra a paixão arrebatadora que o Poder causa. Tese O que não tem remédio, remediado 'tá, né? Não podemos fazer com que os políticos sejam perfeitos, então, o que fazer? Jogar com eles, do mesmo jeito que jogam com a gente. Siga a lógica: você elege um vermelhinho para a presidente. Um vermelhinho pra governador e um vermelhinho pra prefeito. Todos são camaradas e tal. E quando há camaradagem, as coisas correm frouxas, não há quem faça uma marcação. Mas aí você elege um verdinho, um vermelhinho e um azulzinho. Aí o azul quer ser melhor que o verde, que quer ser melhor que o vermelho. Forma-se uma ciranda de disputas. Um tenta ser melhor que o outro e o outro melhor que o um, e um terceiro tenta passar por 'tes dois últimos. Ou seja: Competição. Eles vão fazendo, construindo e edificando coisas, tentando mostrar para o povo que são os melhores e que vale a pena continuar votando em eles. E assim o povo vai ganhando. Político tem um ego maior que o bolso (ou tão grande quanto ele). Quer coisa melhor do que «você votar em mim pra prefeito porque eu fiz mais do que fulano»? Rapaz, agora eu penso assim. Não vou por cara e nem por coração apresentados na TV. Vou por lógica. E por peso de importância. Assim, acho que todo mundo fica feliz. O político rouba, mas faz pra investir em sua posterior candidatura e o povão? O povão inverte a lógica das coisas e passa a comandar a situação. Agora, a única coisa que eu não consegui pensar ainda foi como fazer pra que os candidatos sejam eleitos em 'ta 'cala. Isso é o que vem comendo meu juízo ... Número de frases: 68 Pensamentos de um hipócrita desocupado: desencontros da praça nas latinhas de Coca-Cola -- Não chora, menino! Era impressionante o modo como eles não se olhavam. Cada um parecia anestesiar-se do seu jeito. Tudo muito comum. Talvez fosse porque aqueles mesmos fotogramas se repetissem paulatinamente em suas vidas. Talvez fosse por ver tanto, que eles apenas vissem e não olhassem. No entanto, vendo aquela cena do horário nobre do corre-corre da cidade grande, tive o pensamento que mudou a minha vida. Até então eu nunca havia parado pra avaliar a diferença entre duas latas de Coca-Cola idênticas. Em a verdade, se não fosse aquele dia eu nunca teria mesmo parado pra refletir sobre tamanha idiotice (aos olhos de uma pessoa comum), até porque o meu QI medíocre (eu sou uma pessoa comum!), em sã consciência não conseguiria 'sa proeza. Mas, enfim: um terráqueo em Marte explica um marciano na Terra (isto vai virar provérbio!). Olhando para os dois recipientes, em situações distintas na mesma situação, percebi. Havia um cego invisível (não me pergunte como consegui vê-lo, pois obra explicada é obra morta, já dizia algum conterrâneo meu) curando suas dores, preenchendo o vazio, fabricando coragem e tentando fazer-se feliz. Enquanto isso, um visível de olhos fechados passava o tempo desfilando suas besteiras e inflando o ego com devaneios de propaganda. Tá aí a diferença: na lata do segundo sobrava a Coca, na do primeiro só tinha a Cola. Desde 'se dia decidi: quero ser artista! Preciso fazer minha hipocrisia parecer beleza. Quero levar a diante minha 'túpida retórica (licença, Caetano!) de quem olha de fora. Vou portar a voz dos destratados sem precisar abrir mão do meu refrigerante. Vou dizer, com orgulho e certo dos aplausos: sou hipócrita! Definitivamente, sou um grande homem. Não que eu faça grandes coisas, mas sei que deixo de fazê-las. É isso mesmo! Lá em Delfos Sócrates descobriu que era um filósofo quando assumiu nada saber. Por que, então, não posso eu ser um grande ativista só por ter feito a magnânima descoberta, em Salgueiro (diga-se de passagem), de que sou um inerte?! Há, há, há! Certo mesmo 'tava o grande poeta: «eu sou burguês mas sou artista»! Não que eu seja burguês, mas ... -- Mãe, quero ser artista! -- Chora, menino! Este texto também 'tá disponível no blog do autor, onde outros textos são publicados. Número de frases: 39 Terceiro Mundo Em o Plural. A bossa nova é a negação do pop. Tudo o que pode ser simples, divertido e popular ela torna tedioso e elitista. É o falso absoluto, uma luta constante para complicar e sofisticar harmonias simplórias e letras pueris. Quanto mais 'téril e mais envernizada por as tintas da grande arte, mais preciosa ela se torna para os seus defensores. E mais insuportável ela fica para quem manja quais são as regras do jogo. Como tantos outros grupos criados após a explosão do drum ' n ' bass brasileiro no final dos anos 90, o Bossacucanova ainda acha que a desgastada mistura do 'tilo com a MPB é o futuro da música. Estão lá os sopros anódinos, a percussão 'tilizada e as camadas de teclados e efeitos. Juntamente com uma cantora de voz correta e um repertório de standarts da música brasileira. Tudo isso costurado por a batida reta do drum ' n ' bass que fez a fama de DJs como Marky, Xerxes e Patife no apagar das luzes da última década. Mas, a 'sa altura do campeonato, quem ainda quer saber de drum ' n ' bass? Em todo o planeta, as massas dançam ao som do grime, do reggaeton e (porque não?) do tecnobrega no grande baile da guerrilha cyberpunk em que se transformou a produção musical periférica dos anos dois mil. Quando surgiu no começo dos anos 90 o jungle, antes de se transformar em drum ' n ' bass, era a junção perigosa do reggae com as batidas quebradas dos guetos londrinos, turbinada por MCs de rimas tortas e moral duvidosa. Cavou uma trincheira dentro da música pop e apontou caminhos ao flertar com o dub, com rap, com o jazz, com o rock e com a MPB até morrer de inanição por não saber mais onde queimar a sua energia criativa. E aí vem o Bossacucanova na etapa paraense do Circuito Cultural Banco do Brasil assinar o atestado de óbito do 'tilo. Em cima do palco, a banda nada mais faz do que desfilar uma modernidade 'téril e tediosa ao recorrer a clichês da eletrônica para embalar hits manjados da música brasileira. Apesar de um ou outro momento mais animado, o show se arrasta naquele clima de festa de novela, mantendo sempre o mesmo pique morno e supostamente cool que o grupo, querendo ou não, imprime ao seu trabalho. Em a verdade o Bossacucanova se localiza no mesmo patamar de coisas como Os Normais, o programa do Jô e o seriado Avassaladoras: são produtos cuja única utilidade é fazer classe média se sentir inteligente. Parece sofisticado, mas não é. Se faz passar por inteligente, mas é simples e feito para agradar. Parece genuinamente brasileiro, mas carece da credibilidade de rua do samba ou mesmo do funk carioca. No entanto, é consumido como um produto nobre com a mesma ilusão de refinamento atribuída às canções de Frank Sinatra ou aos discos de Marisa Monte, por exemplo. É o som para «tomar whiskinho» ou impressionar namorada no primeiro encontro, quando você 'quenta no microondas aquele macarrão com creme de leite que aprendeu a fazer colando a receita da internet, se exibe com os móveis de sala 'colhidos por o decorador e se desmancha em poses ao abrir uma garrafa de vinho de 50 dólares. O pouco de paciência que ainda tenho em 'ta sexta-feira chuvosa se acaba quando o Bossacucanova inicia uma versão para Águas de Março, que eu ainda aturo no comercial ultra-pirado da animação Sealab, do Cartoon Network. É o tempo de pegar um táxi e encontrar com Patrícia e Karen, colegas na produção do programa Central da Periferia, e se mandar para o outro lado da cidade para testemunhar a primeira apresentação da aparelhagem Treme-Terra Tupinambá no salão nobre da Assembléia Paraense. De todos os clubes de Belém, a Assembléia Paraense é o mais tradicional, o mais elitista e o mais bem-aparelhado da cidade. De aí a minha curiosidade em saber como a juventude dourada local reagiria à presença de DJ Dinho e seu soundsystem despejando toneladas de tecnobrega nos presentes. Dada a condição social dos freqüentadores do clube, a apresentação poderia ser tanto um sucesso quanto um fracasso sem tamanho se o show fosse encarado como um 'petáculo trash ou se o público não aceitasse bem o som que faz a cabeça dos jovens pobres da periferia da capital paraense. A minha apreensão de 'tar no lugar errado na hora errada só fez aumentar quando, ao chegarmos no portão lateral que dá acesso ao clube, vimos um dos encarregados da vigilância humilhar dois jovens que aparentavam ser de origem humilde. Acontece que os garotos alegavam ser da equipe do Tupinambá, mas não 'tavam com o nome na lista. Bastante irritado, o porteiro gritava e intimidava os dois enquanto dava umas lições de moral meio idiotas e se negava a falar com o encarregado da festa para checar se a dupla era ou não funcionária da aparelhagem. Após uma longa 'pera, restou aos dois garotos voltarem para casa. Quanto a nós, continuávamos à 'pera do DJ Beto Metralha e os passes salvadores para a área Vip do salão do clube. Finalmente Beto aparece com nossas entradas. Vamos caminhando por dentro da Assembléia Paraense e me pego observando quem vai ser o público do Tupinambá em 'ta noite. Meninos e meninas bem-vestidos passam apressados por mim, naquele vai e vem típico da adolescência. De vez em quando vejo algums segurando garrafas de Johnny Walker Red Label ou de vodka Smirnoff debaixo do braço. Talvez para 'tes garotos 'te seja um grande momento de libertação. Assim como a juventude classe média carioca descobriu o funk quando ele saiu da favela, 'ta é a oportunidade para os filhos da elite paraense assimilarem a trilha sonora da periferia num ambiente seguro e familiar, longe dos subúrbios violentos, da intimidação das gangues de rua e dos barracões cheirando a suor, urina e cerveja. Se tudo der certo, pode ser o derradeiro rito de passagem do tecnobrega para o primeiro time da música pop. Pelo menos em nível local. Dinho, possivelmente temeroso de não ser bem-recebido por a multidão que ocupa todos os 'paços do salão nobre do clube, desvela um a um todos os truques que aprendeu em quase 20 anos de discotecagem por as quebradas de Belém. Ora chama por a torcida do Clube do Remo, ora por a torcida do Paysandu (dois rivais históricos do futebol paraense). Ou então ordena à massa que faça com os braços o «T» que é o símbolo da aparelhagem. Só para em seguida mandar uns raps meio desengonçados costurados por as maiores malandragens da música pop: o house fuleiro do Melô do Sapinho, o psy trance desembestado do grupo israelense Skazi, o funk carioca de MC Marcinho e o tecnobrega de Gabi Amarantos, autora do hino não-oficial do Tupinambá. Vista de cima a cena é uma catarse pop irresistível. A multidão pula e dança ao comando de Dinho e canta as letras de todos os sucessos do tecnobrega. Sem o som que sai das paredes de alto-falantes do Tupinambá, poderia ser muito bem uma rave ou mesmo um festival de rock. Mas, para o alívio do DJ e de sua equipe, eram os sócios do maior clube da capital paraense se rendendo ao som da periferia, gravado em 'túdios de fundo de quintal e comercializado nas bancas de camelô do centro da cidade. Mas Dinho, o orgulhoso calouro do curso de Jornalismo de uma faculdade particular de Belém, me lembra de onde 'tou quando pede que os universitários levantem a mão. É quando vejo 90 % dos presentes com os braços para cima numa quantidade proporcionalmente inversa à das festas de aparelhagem nos subúrbios da cidade. Como todo 'tilo pop nascido e criado no underground, o tecnobrega experimenta a sua fase de transição, onde pode se tornar um produto rentável dentro de um segmento de mercado receptivo à novidade e economicamente ativo, disposto a pagar até 40 reais por uma entrada para a festa de hoje. Dinho sabe o alcance de seu carisma e do 'petáculo sensorial proporcionado por o seu «altar sonoro», numa denominação criada por ele para definir 'sa mistura atabalhoada de música e performance multimídia que são as festas de aparelhagem. Os filhos da classe média alta aprovam e pedem por mais. E nos camarotes do salão nobre, ainda que de maneira tímida, o resto do público sacode as jóias. Número de frases: 69 Se eles dançam, todo mundo dança. às 20h30, horário marcado para o início do ensaio da 'cola de samba Gaviões da Fiel, a quadra da torcida organizada ainda é uma promessa do que 'tá por vir. A lanchonete do Getúlio 'tá vazia, o pipoqueiro Ronaldo, homônimo do goleiro que foi ídolo na década de 80 e 90 e «corintiano, graças a Deus», quase não tem trabalho, e crianças dão chutões numa bola de vôlei. O ensaio, realizado na noite de terça-feira, é apenas um dos primeiros até o dia 1º de fevereiro de 2008, primeiro dia de desfile do Carnaval Paulista. A Gaviões será a primeira 'cola a entrar no Sambódromo. Depois de um ano em que teve de disputar o Grupo de Acesso (uma 'pécie de segunda divisão do carnaval), e viu o time cair em campo para a Série B do Campeonato Brasileiro, a Gaviões, que possui 72 mil sócios, quer impressionar em sua volta ao Grupo Especial. Para tanto, contará com cerca de R$ 1 milhão, boa parte patrocinada por a Prefeitura de Santana do Parnaíba, que será o tema do enredo da 'cola: «Em as asas dos Gaviões, rumo ao portal dos sertões. Santana de Parnaíba, berço de Bandeirantes». E, como mostrou no ensaio de terça, a torcida também aposta nas musas, com Sabrina Sato na condição de principal 'trela e em ex-Malladrinhas como coadjuvantes. É Sato quem provoca a maior comoção ao chegar na quadra, já parcialmente cheia, quase às 22h. Ela, que será destaque do carro um, chamado «Energia Elétrica», foi logo cercada por fãs querendo tirar fotos ao seu lado. Vestindo a camiseta recém-lançada com a frase «Eu nunca vou te abandonar», na parte da frente, e» Porque eu te amo. Eu sou ... Corinthians», na parte de trás, e um short preto minúsculo, foi conduzida até a parte de trás do palco. Junto com as outras três musas da noite, duas ex-mallandrinhas e uma Panicat, entrou rebolando e cumprimentou a torcida, que já fazia o aquecimento com baterias, cuícas e bumbos. «Oi, gente. É uma honra, um prazer, 'tar aqui de volta. Eu amo a Gaviões», gritou, puxando os erres. Mostrou a camiseta, deu uma voltinha, e perguntou à torcida, " gostaram?" Todos aprovaram. Ela desceu do palco para sambar com os torcedores e foi novamente cercada. Fez a tradicional pose com os tocadores de cuíca, que se posicionaram de joelhos ao lado de ela. A 'ta altura, a antes tranqüila quadra já parecia um 'tádio lotado. Cerca de 800 pessoas lotavam a quadra, a torcida acendia sinalizadores e agitava as bandeiras, como se 'tivesse no Pacaembu. O hino era entoado ao som de todos os instrumentos e ainda era possível ouvir Sabrina pulando e gritando «O CLUBE MAIS BRASILEIRO», enquanto era fotografada. Como satélites, as Panicats-Mallandrinhas ficavam ao redor de ela. A que mostrava mais intimidade com a vida do clube é Lívia Andrade, que era cumprimentada por os torcedores como se fosse uma velha conhecida. De família corintiana, possui uma tatuagem na nuca com o símbolo do clube e um gavião. «Já veio no sangue." Chega a hora de ir para a rua. Agora o número de corintianos chega a quase mil. Com o mestre-sala e a porta-bandeira à frente, a 'cola sai por a Rua Cristina Tomás, no Bom Retiro, reduto corintiano, em direção à Rua dos Italianos, como uma versão reduzida do que vai acontecer no dia 1º de fevereiro. Depois voltam, e encerram cantando a música que embalou o time no «Campeonato Brasileiro,» louco por ti, Corinthians». Em o Sambódromo, serão quatro mil integrantes. Desde já muita gente vive somente em função do Carnaval, como «Murf» (Rogério Oliveira Mendes) e o amigo Rodrigo Moreira Torres. Desfilam desde 1997 e hoje vendem (R$ 300 cada) fantasias na quadra da Gaviões. «Em a última semana ninguém dorme nem se alimenta direito. Tem que fazer entregas, retoques ... Vamos até o corpo agüentar." Número de frases: 40 Louco por ti, Corinthians. A matéria abaixo foi publicada na revista Estilo Minas. Como a circulação é pequena e o feedback praticamente inexistente, posto aqui para compartilhar e saber a opinião de vocês «Começando por a emancipação feminina, passando por o diálogo aberto sobre sexualidade e chegando até ao advento dos meios de comunicação de massa e à globalização. As mudanças fundamentais e frenéticas por as quais passamos no final do séc.. XX e início do séc.. XXI, afetaram não apenas a economia e a política, mas também a forma como nos relacionamos amorosamente. A era que se anuncia é a da multiplicidade de caminhos e 'colhas. É o fim da obviedade da linha evolutiva namoro /noivado/casamento, que pode ou não ser a traçada. Temos aqueles que preferem o ziguezague, o círculo, a curva descendente: tudo é possível. Não existem mais respostas enlatadas, retiradas das prateleiras da convenção social e dos valores rígidos. O que prevalece agora é a famosa 'colha «sob-medida» para nossos anseios e desejos. Romance global A própria maneira como iniciamos nossos romances foi afetada por as «novidades» dos tempos modernos. Se o «amigo (a) cupido» ainda exerce um importante papel, ao seu lado 'tão os meios de comunicação em tempo real, cuja grande 'trela é a Internet. Em uma das milhões de salas de bate-papos e centenas de sites de encontros, romances são iniciados e até vivenciados. Seja por timidez, solidão, curiosidade ou falta de tempo para sair, cada vez mais homens e mulheres procuram formas alternativas para se conhecerem. Foi assim com Scheilla Natália do Valle, de 29 anos, de Belo Horizonte, e Fábio Salomão, de 26, do Rio de Janeiro, que se «'barraram» numa sala de bate-papo por telefone (o serviço não é novo, mas novas tecnologias levaram à popularização do seu uso) e tiveram uma identificação imediata. «Em o primeiro dia de conversa ficamos no telefone de meia-noite às cinco da manhã, e foi assim todos os dias», diz ela. Um mês e meio depois, eles se conheceram pessoalmente. «Nunca tínhamos perguntado como o outro era fisicamente. Temos uma coisa tão legal que isso não importava», conta ela. O namoro já dura dois meses e, numa das mensagens postadas na sala de bate-papo, Fábio declara «ouvir sua voz, conhecer seu sorriso, só me fazem perceber o que a vida me reservou de mais sublime». Nem tudo, porém, são flores virtuais. «Tem salas (da Internet ou dos serviços de bate-papo por telefone) que eu não aconselho ninguém a entrar, porque é muita baixaria. A pessoa tem que saber se a sala tem um moderador que impede, por exemplo, casos de pedofilia, além de nunca informar nada sobre endereço e contas bancárias», aconselha Scheilla. De acordo com a psicóloga Ana Cristina Siqueira, existe também o perigo da armadilha da fantasia. «Para um encontro ser verdadeiro tem que ter olhar, voz, movimento e toque. É absolutamente prazeroso ser outro e na Internet você pode ser quem você quiser. A pessoa corre o risco de mergulhar na fantasia», diz ela. Além de facilitar a descoberta de um novo amor, os meios de comunicação melhoraram (e muito!) a vida daqueles que namoram à distância. A situação é antiga mas, se antes os enamorados 'peravam ansiosos por a chegada do correio, hoje podem, diariamente, trocar e-mails e conversar por o skype e por o messenger. Em a globalização, com a diminuição de distâncias e aproximação das culturas, a pessoa amada (e o resto do mundo) «entra» em nossa casa por a tela do computador. Um exemplo de «casal do novo milênio» é Lívia Vilas Boas, de 27 anos, e Bolívar Landeta, de 26. Ele, equatoriano, e ela, brasileira, se conheceram nos Estados Unidos. Hoje, morando cada um em seu respectivo país de origem, namoram há mais de um ano. «É difícil pra caramba ficar longe mas, é mais difícil encontrar alguém legal, então, quando você acha tem que segurar», explica Lívia. Os dois trocam e-mails diários e conversam por o messenger. «Não sei se seria possível ficar tanto tempo longe sem a Internet», completa ela. Emocional x Sexual A maneira como lidamos com nossa sexualidade também sofreu mudanças profundas nos últimos tempos. A mais evidente de elas diz respeito ao papel da mulher e o direito que ela adquiriu sobre o seu corpo e desejo. Soma-se a isso a precocidade sexual, as possibilidades do sexo virtual, os lucros exorbitantes da indústria sexual e a profusão de fontes de informações. O resultado é que nunca se falou tanto de sexo. Com o sexo no centro das atenções do mundo moderno, criou-se o conflito entre intimidade sexual e intimidade emocional. O famoso «ficar» não é mais uma coisa restrita ao mundo teen. jovens-adultos 'tão cada vez mais adeptos do que podemos chamar de test-drive sexual, ou seja, do envolvimento sexual com ausência de compromisso e de regras claramente 'tabelecidas. De 'sa forma, o «ficar» permite às pessoas experimentarem um número maior de parceiros e investirem numa relação mais profunda com aqueles que lhe interessam mais. Por outro lado, a superficialidade do relacionamento é a grande característica da prática. «O problema são aquelas pessoas que não conseguem sair de 'sa etapa. Que só ' ficam ' e usam isso como mecanismo de defesa», explica Siqueira. Outro conflito que se configura é a da fidelidade com a liberdade, em 'se caso, leia-se: liberdade de se relacionar sexualmente com outras pessoas, com o consentimento do parceiro. Essa relação recebe o nome de «relacionamento aberto» e entra em choque com o nosso ciúme e insegurança. Ou seja, trata-se de um relacionamento que não é fácil de levar. Radicalizações e utopias à parte, o sentimento de posse e a cobrança excessiva 'tão ficando démodé. Mais conscientes de sua sexualidade, as pessoas 'tão mais conscientes de sua individualidade também. «Para mim, relacionamento aberto não é aquele que pode tudo, promíscuo. Relacionamento aberto é o relacionamento verdadeiro, onde podemos contar com o parceiro e para o parceiro. Onde cada um tem a sua vida e os dois têm uma vida juntos.», afirma Siqueira. Casamento Com tantas mudanças, uma das mais importantes instituições de todos os tempos -- o casamento -- não podia ficar de fora. Aqueles que previram o seu fim podem se aposentar como videntes. O casamento não acabou, mas se adaptou à nova realidade dos amantes. O que primeiro caiu em desuso no casamento moderno foi o «até que a morte nos separe». Mesmo que ele ainda seja pronunciado durante o ritual religioso, a idéia de que o casamento é eterno não existe mais. Com a recente ajudinha do Novo Código Civil brasileiro, os «deveres matrimoniais» prescindem da Igreja e do papel. Cada um 'colhe como quer «oficializar» o seu amor e o «morar junto» ganha destaque na 'colha dos casais. «Hoje 'tá cada vez mais sutil a diferença entre um namoro e um casamento», diz Siqueira. Não existe, porém, uma moda a ser seguida. A impossibilidade de encontrar datas nas igrejas comprova: ainda são muitos os casais que sonham com um casamento tradicional, mesmo que o caminho para chegar a ele não seja o mais convencional possível. É o caso de Rodrigo Diniz, de 34 anos e Juliane Morais, de 31 anos, que namoraram, foram morar juntos, separaram e 'tão morando juntos novamente, preparando o casamento na igreja e no civil. «Vamos nos casar porque acredito que o mito do véu e grinalda seja um sonho de quase todas as mulheres. Pelo menos da minha é», conta Rodrigo. Busca eterna O que não mudou -- e a expectativa é que não mude nunca -- é o motivo por o qual duas pessoas se envolvem num relacionamento afetivo. «Somos todos seres de falta, incompletos, mas sem o outro, falta mais. O outro é o 'pelho que me mostra como sou e como posso ser», explica Siqueira. Em o fundo, seja no mundo virtual, seja do outro lado do mundo real, o que todos nós procuramos é a felicidade. Número de frases: 83 Assim, quanto mais caminhos tiverem à nossa disposição mais fácil é encontrar o amor no final da busca (ou no meio, afinal, os caminhos são múltiplos) " O Coletivo Tarrafa (Trabalhadores Articulados em Redes Alternativas Fazendo Arte) é uma rede solidária informal de educação, trabalho, cultura e cidadania criada com os seguintes objetivos iniciais: 1) desenvolver ações de Ensino Livre Orgânico para criação, ampliação e articulação de redes de produção cultural interdependentes; 2) fomentar a cultura de colaboração entre organizações, profissionais autônomos e 'tudantes que produzem arte no Rio Grande do Sul; 3) contribuir para o crescimento e desenvolvimento da cadeia produtiva da economia da cultura através de ações de produção econômica popular solidária, distribuição equilibrada e descentralizada, comércio justo e 'tímulo ao consumo ético dos produtos e serviços culturais. Sua primeira atividade pública aberta à comunidade cultural, o Encontro Tarrafa -- Cultura em Rede, ocorreu dia 05 de maio de 2006 na Livraria Palavraria, Rua Vasco da Gama, 165 -- Bom Fim, Alegre / RS. Em 'ta ocasião falou-se sobre o histórico do grupo cultural Bataclã FC (www.bataclafc.com.br) relacionado ao desenvolvimento do mercado cultural independente da cidade nos seus nove anos de atividade. Divulgou-se os eventos Mercado Cultural de Salvador/BA (www.mercadocultural.org) e Feira da Música Independente de Brasília/DF (www.fmi2006.com.br). Abriu-se 'paço para troca de saberes com o músico e produtor Moysés Lopes, o músico Rodrigo Dmart, a gestora do 'paço cultural Palavraria Carla, o coordenador do Ponto de Cultura Quilombo do Sompapo e ativista do movimento Software Livre Éverton Rodrigues, Talita Costa da CUFA/RS e Fábio Silva e Aurici Machado da Rosa do Grupo Ambiental Marica. O encontro Tarrafa Cultura em Rede é aberto, com entrada franca, periodicidade mensal e ocorre na Palavraria, na Rua Vasco da Gama, 165, Bairro Bom Fim, Alegre / RS. Sua próxima edição acontece no dia 20 de novembro de 2006, Dia da Consciência Negra, ocasião em que será entregue aos presentes a Circular Tarrafa número 3. Para maiores informações, faça contato com Richard Serraria 51-9104-7759 (serraria@hotmail.com), Alê Barreto da Independência (alebarreto capta@yahoo.com.br) 51-9215-7970 ou acesse a comunidade no orkut (www.orkut.com/ Community. Número de frases: 12 aspx? cmm = 13372693). Era pra ser um típico programa de sexta-feira. Não aqueles da juventude. Onde biritas coexistiam numa boa com besteiras variadas e alguma rebeldia roubada dos livros beat. Eram bons tempos. Mas de 'sa vez era simplesmente um crepe. Minha mulher queria muito conhecer o Coco Bahia. Vinha de longa data 'sa vontade de ela. Sempre alimentada por amigas (preciso saber quem são), parentes ('ses também) e outros seres inomináveis ('ses melhor deixar para lá). Tudo era muito simples. Era sentar, pedir uma entrada, 'tirar as pernas. Tomar uma Coca Cola, comer o tal crepe e cair fora. Ah! também conversar um pouco. Exercitar o nosso lado social. Dizem que é bom fazer isso às sextas. Mas não me disseram que 'se exercício tornava-se algo cruel quando se tem fome. Lugar para colocar o carro? Fácil. Manobrista e uma taxa de não sei quanto para os caras. Nós, por sorte, conseguimos uma vaga numa viela qualquer, dispensando os serviços de mais uma daquelas empresas de 'tacionamento. Nada que faça você desistir. Entramos num local amplo. Parecia bacana. A decoração em si me agradou: várias mesas rústicas bem distribuídas; um pequeno riacho artificial com peixes logo na entrada para distrair os desavisados que tinham de 'perar com suas respectivas senhas nas mãos; palhas tomavam todo o teto; o chão de areia batida; iluminação bacana, na medida. Ao fundo, podíamos ouvir mambos variados. Os garçons atenciosos, trajando fardas de Indiana Jones. Chapéu, colete, bermuda de bolsos laterais. Tudo na cor cinza. Bem, vocês já notaram que sou o tipo de sujeito que não perde detalhes. Que ri de eles. E chora em muitos outros. Por isso, logo ao sentar na nossa mesa (senha 469, como vou me 'quecer?) comecei a me perguntar qual a relação entre crepes, garçons com roupa de caçador, mambos e um som artificial -- vindo de caixas 'condidas -- de pássaros cantando. A resposta de eles é que o local é temático. Algo relacionado com a Mata Atlântica. Nem sei, nem quero saber, quem teria uma idéia de 'sas. A todo momento ressoavam aqui e ali sabiás, curiós e outros seres da nossa fauna. Tudo isso em 'téreo. E, por a demora em acabar o tal cd, em arquivos mp3. Fazendo jus ao meu comportamento meio antinatural, fui dar uma olhada na cozinha. Ou melhor, cozinhas. Nada muito difícil. Elas ficam a mostra de quem quiser ver. Em um total de três vale a pena dar uma 'piada na galera que trabalha no ramo. Creio que o trabalho era bem dividido e todos pareciam 'tar dispostos. Uma equipe numerosa e ágil dava conta do recado -- leia-se um monte de universitários, bancários, operadores de telemarketing, adolescentes sem habilitação para biritas e carros, em pleno gozo dos seus direitos de ser humano numa sexta-feira soteropolitana. O cardápio era grande. Variado mesmo. A comida era diversificada, o que é legal quando queremos ir a um lugar sem firulas para poder comer o que der na telha. Pizzas, crepes, saladas, brownies, sorvetes, caipiroscas, beijus (sulistas conhecem como tapioca). Bacana e sincero. Pedimos uma casquinha de pizza de gorgonzola como entrada. Boa pedida. Massa finíssima. Éramos quatro na mesa. Tudo bem, tivemos de lembrar que entrada não é refeição. Muito boa mesmo. Com os pedidos já encaminhados -- o garçom pareceu não gostar quando o chamei, num momento de infantilidade para com os do ramo, de " formidável "; frisou que seu nome era Félix -- ficamos observando o ambiente. Quer dizer, fiquei observando. Meu olho rodava. Ora na cozinha, ora nos garçons. Um monte de eles, rápidos e alertas. Os pratos chegavam às mesas. Pessoas comiam. Conversavam. O mambo começava a incomodar. Os pássaros em 'téreo continuavam sua opereta ecológica. Minha Coca tava acabando. Muito barulho. O povo que conversava e a música ensurdecedora, me obrigaram a perguntar de novo qual a relação entre elementos tão díspares: pássaros em Dolby, roupas de caçador, mambo, minha fome. O que eu queria ali afinal? -- Ô Félix -- perguntei inquieto -- Pois não senhor -- sempre solícito, o rapaz -- Vai demorar muito? -- Mas o senhor acabou de pedir ... Concordei com ele. Alguns segundos e eu já queria fugir para um matagal real e distante. Nada daquela Mata Atlântica artificial, com sua fauna em Mp3. Virar o Thoreau. Deixar a barba crescer, andar nu. Queria uma casa no campo, para compor os tais rocks rurais. Ir embora. Algo assim ... Fui salvo de tais pensamentos por minha mulher, que fez a gentileza de lembrar quem eu era, e por o nosso querido Félix, que colocou os crepes na mesa antes que eu começasse a uivar. Bem servido. Um crepe polpudo, grande mesmo, generoso. Guarnecido com uma bem temperada salada de alfaces verde e roxo (alguns chamam de americano), tomates cereja, aceto balsâmico, azeite de oliva. O recheio que não foi lá boa pedida -- erro meu, confesso. Carne moída com ovo e bacon. Senti falta de algum molho, sei lá. Devia ter tentado os crepes doces. Eles juram que as receitas são da famosa 'cola francesa Le Cordon Bleu. No que se refere à comida o que posso pontuar é que o crepe veio um pouco oleoso. Nada demais, creiam. Indo lá, alertem o garçom. Isso faz bem para os negócios. Quando se é um chef ou dono de 'tabelecimento com algum senso, dicas como 'sa podem salvar empregos e sonhos. Comi meu prato contente. Mas havia os pássaros numa interminável tortura e o tal mambo. Em uma quantidade de decibéis além do necessário para um ambiente daqueles. Resumo da ópera: vale a pena. Se vocês conseguirem encarar tudo isso com mais humor que eu, o crepe, a comida em geral e o brownie compensam a aventura. Se aceitam uma sugestão, levem uns fones de ouvido. Ou então cheguem cedo, num dia de semana. Quem sabe assim eles 'quecem de apertar o play no tal cd dos passarinhos. Número de frases: 111 Cinema de Periferia «Minha cara, bela cara, cara preta de mulher «no» Cine Sind» -- cineclube dos jornalistas O que é ser uma mulher negra? A partir de 'ta pergunta, a professora Ana Gomes, integrante do Núcleo de Audiovisual da Central Única de Favelas (Cufa), montou o roteiro e produziu o " Minha Cara, bela cara, cara preta de mulher ": um curta de 15 minutos que será exibido no Cine Sind " -- cineclube dos jornalistas no próximo dia 28 de março (quarta-feira), a partir das 18h30, no auditório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, na Rua Evaristo da Veiga, 16/17º andar, Cinelândia. O documentário traz depoimentos de diversas mulheres negras que têm se destacado como protagonistas da sua própria história: mulheres com acúmulo de informações e meninas que 'tão começando a vida. «Minha cara, bela cara, cara preta de mulher» integrou a programação do seminário anual da Comissão de Jornalistas por a Igualdade Racial (Cojira-Rio) em dezembro de 2006, dedicado à cinematografia com enfoque para o protagonismo da periferia. Serviço: «Cine Sind» -- cineclube dos jornalistas -- Curta: «Minha cara, bela cara, cara preta de mulher " Data: 28 de março de 2007 (quarta-feira) Local: SJPMRJ -- Rua Evaristo da Veiga, nº 16, 17º andar -- Centro (RJ) Horário: 18h30 às 20h30 Entrada Franca Contatos: Número de frases: 15 SJPMRJ (21) 3906-2450 e Cojira-Rio -- afrojor rj@hotmail.com Visita à Gráfica A visita foi produtiva no caráter histórico. Fizemos um flash back, conferindo impressoras e técnicas, que até então, só encontrávamos em livros que tratam do princípio da imprensa. Em relação a 'trutura, a gráfica pecava muito. Entulhos e pilhas de papéis velhos por todos os quartos, 'tes já em ruínas. A gráfica provavelmente teve seu auge em décadas passadas, situada numa região que antes, com a transferência da capital 'tadual para Aracaju, era bastante movimentada comercialmente. Ali se instalavam as novas industrias do 'tado, movimentando a economia deste. Mas infelizmente a arlesia parou no tempo, que não é de todo um mau, facilitando, hoje, na compreensão dos alunos de design, de um tempo em que nem sonhavam nascer. Hoje o que a faz movimentar é a eleição. Santinhos e adesivos por todos os cantos -- Devem faturar uma grana!-- Fico pensando o que fazem depois de toda 'ta folia. Será que caem em completa depressão? Tornam a 'perar mais dois anos para a próxima eleição? Em a entrada se encontra uma off-set, monocromática. Logo depois, por entre os entulhos, a sujeira e os catálogos velhos, uma impressora enorme, dita plano-cilíndrica, que não 'tá mais em funcionamento, mas que provavelmente vai fazer parte de algum acervo, num destes museus que tratam da imprensa. Ela será vendida. Mais adentro, paredes 'buracadas e prestes a ceder, delimitam o trabalho de um senhor, que após trinta anos de trabalho em 'te ramo, e na própria arlesia, dança com os dedos por entre as tipos de metal, que para um leigo, são organizadas a partir de parâmetros incompreensíveis, de tão complicados, a sua memorização se torna quase que impossível. Uma jovem aluna desperta a curiosidade juvenil e hesita: «Por que não em ordem alfabética?" O senhor com todo o seu carisma e prazer de informar sobre o ofício que lhe deu sustento, de entre 'tas 3 de décadas passadas, e continua a dar, responde num tom eufórico: «Me acostumei assim, e se fosse mudar, meu trabalho iria complicar». Além disso, nos mostrou como compor no componedor, como se organizar na bolandeira e no cavalete, 'paços, entrelinhas, tudo o que deu pra passar para a mente daqueles jovens do século 00, famintos por o banal, por o óbvio. Creio que aquela manhã tenha sido produtiva ao velhinho tipógrafo. Impressoras do tipo «Original Heidelberg» são adaptadas para o corte de inúmeros blocos de adesivos, de um tal Eduardo Amorin 2000. O lugar onde ficava a matriz deu lugar a moldes de lâminas, as pinças levam o papel já impresso que é pressionado contra as lâminas, e saem já prontos para por no peito e gritar: «Este aqui é meu deputado!" ou então «Este é do povo» ou quem sabe «Este é de confiança» ou o mais provável «Este aqui da prótese dentária ao povo», o mais comum de entre todos os bordões. Enfim, regada a muito suor, receio de uma fuga em pleno desmoronamento da Arlesia e a simpatia de um tipógrafo veterano, se deu mais uma manhã de puro conhecimento. Saudações a Guttenberg e seus seguidores, 'tes que fazem de mim um apaixonado por a boa informação em série. Número de frases: 29 Por detrás das lentes, os olhos azuis fitando cada olhar mais curioso sobre as palavras. Em os pés sandálias de couro. As pernas inconstantes pra toda gente que passa e acaba ganhando um verso tirado. De ponta a cabeça se conversa sobre todo tipo de coisa: desde o problema de saúde mal-resolvido ao amigo entregue à cachaça. E até mesmo de poesia. Assim é a banca de João Firmino Cabral, 66 anos e 50 de versos. De a história miúda a nota no jornal, Seu João aproveita de tudo um pouco como mote para criar. Cordel é sua dedicação maior, instrumento de lida diária e parte de sua própria história. Em a Passarela das Flores passa de moça virgem a dona de casa, de bêbado a turista distraído. De verso de cordel, a margarida e criança largada. Cheiro de rosa vermelha, voz de repente, acorde de viola e passo de alpercata. É logo na entrada do Mercado Antônio Franco, nas palavras de «Seu João» a boca do inferno», onde fica o seu balcão de livrinhos. Nada mal chegar por as bandas do capeta, lendo de aprumo. «Meu ofício foi ser cordelista toda vida», fala de início 'se itabaianense nascido em Belo Jardim. Sua infância era ir de São Cristóvão para Aracaju no trem suburbano na linha Aracaju / Salgado ou Aracaju / Capela. Logo pela manhã vinha pegar carrego e depois começou a vender noz-moscada, pixilim e BHC. Já por os 14 anos, sempre dava uma paradinha para observar o versado dos cordelistas Pedro Armando dos Santos, Genésio Gonçalves de Jesus, Zé Aristides e o famoso " Manuel d'Almeida. «Eu ficava vendo o dia todinho, achava aquilo bonito. Um dia eu fiquei olhando até que perdi o trem. De aí um de eles me chamou pra pernoitar na sua casa», conta ele, todo menino. Pois foi aí que a coisa mudou. Seu João trocou as vendas e o trabalho com carrinho de mão por os cordéis. Chegando na morada de Manuel d ´ Almeida, um dedo de prosa e a vontade de entrar no ramo do cordel. «O Mestre me cedeu uns 300 a 400 folhetos pra revender. Fui então para a feira vender e cantar os livretos. De a sexta para a terça-feira eu tinha vendido uns 400 e poucos livrinhos. Nem Seu Almeida acreditou no meu feito», fala orgulhoso o homem que naquele momento deixava o agreste. Depois, morando na capital, lança seu primeiro cordel «As Bravuras de Miguel, Valente Sem Igual» nos idos de 1956. Em a sua mais recente produção, «Os corruptos do Brasil, o mensalão», feito em parceria com Juraci Medeiros, João Firmino versa sobre o retrato político brasileiro» políticos sem 'crúpulos / dizem ser os defensores / mas são como sanguessuga, corruptos / sonegadores do direito e liberdade / dos nossos trabalhadores». Com 'sa mesma inteligência, o filho do cantador de feira e embolador Pedro Firmino Cabral e da roceira Dona Cecília Conceição aprendeu a ser letrado através desses pequenos livros. Alfabetizou-se por as «cartilhas» que o ensinaram mais que o bê-a-bá. Meio século dedicado ao cordel, mais de cinco dezenas de títulos publicados, 'se João Firmino bateu do Rio Grande do Norte, a Pernambuco, Maranhão, Alagoas e Bahia de feira em feira. Deu de sustento aos sete filhos nos quarenta anos de casamento com Dona Carmelita Cabral. Catedrático sobre 'sa literatura, foi revisor de 1970 a 2005 da Editora Luzeiro e já foi laureado por os quatro cantos do Brasil. Mas quando fala de prêmios, Seu João atenta mesmo é para o ganho com a leitura. Saca então um trechinho «A cultura adulatória / falsifica a popular / com palavrões e conchavos / de narrativa vulgar / agredindo ao cordel / que tem muito mais a dar». ( Em a história da literatura do cordel ... cuidado cantor para não dizer palavra errada. Abdias de Campos -- 2005). Onde ler & comprar Barraca de Seu João Firmino, no Mercado Albano Franco, centro de Aracaju, logo depois da Passarela das Flores. Aberta de segunda a sábado das 9h às 17h. É um ponto de encontro da turma da poesia. Um bom dia é o sábado, vai de aboiador até repentista. Depois faça uma refeição, logo ao lado, no restaurante de Seu Zé Américo. Uma sanfoninha sempre chora-chora enquanto os pratos são servidos. Biblioteca Clodomir Silva, onde fica localizada a Cordelteca «João Firmino Cabral». Rua Santa Catarina, número 314, Bairro Siqueira Campos. Reza uma lenda que na Biblioteca Epifânio Dória há uma sala para cordéis, chamada «Poeta Manuel d´Almeida». Arrisque e depois me conte. Rua Vereador João Calazans, número 609, Bairro 13 de Julho. Vale fazer uma visita ao poeta Gilmar Santana Ferreira, mais conhecido como o caçador de poetas. Em a sua casa há um arquivo extenso sobre cordelistas, principalmente, daqueles que residem no interior de Sergipe. Rua Nelson Maynard (antiga Rua F-2), número 98, Conjunto Bugio. Número de frases: 55 Eu sou jovem, mas ainda me recordo bem de como era gostoso 'perar por a noite de São João, ascender uma fogueira para se sentar ao redor com a família e com os amigos para assar uma 'piga de milho. Ainda me lembro (isso quando no interior, é claro) de como o mês de junho possuía uma atmosfera diferente, uma alegria, tudo era motivo de festa, arrumar um par para dançar a quadrilha da 'cola, ir à feirinha comprar fogos (hoje tenho pavor), comer canjica e pamonha sem parar. Coisa de criança? Besteira! Peregrinar nas portas da vizinhança perguntando por São João e, novamente, se deliciar com a mesa farta e o melhor do licor caseiro. Combinar com os amigos ir dançar aquele forró «arrasta pé» numa sala de reboco que ficava na roça, há alguns quilômetros por a 'trada de terra de ali, um namorinho no friozinho da madrugada, isso sim, era festa boa até amanhecer o dia. Saudosismo? Talvez. E por quê não? Feliz daquele que pode recordar coisas boas. Ou será infeliz? Quem não tem do quê recordar de bom não tem do quê sentir falta ... Quem me conhece de perto, sabe que eu sou urbano (e Salvador pra mim é provinciana), mas tive (e continuo tendo) a felicidade de viver as coisas bacanas que também se passam nas cidades mais pacatas (ops! Ou nem tão pacatas como se pensa). O fato é que, a mim, resta sim saudades. Nem por isso, seria bobo de trocar as festas juninas no interior pra ficar na capital. Já 'tive por umas duas vezes no empurra-empurra do Pelô, e é melhor 'tar nos mega-shows a lá Amargosa, Cruz das Almas ou Senhor do Bonfim. Eu disse melhor, e não o melhor. Pois, o melhor mesmo, acredito que ainda exista, fica nas cidades onde a festa é menos mega e ainda tenha um pau-de-sebo pra 'calar ou um pote com um gato pra quebrar. E como gosto de comparar os lugares, não é segredo para ninguém que os festejos juninos são típicos da região Nordeste. Santo Antônio, São João e São Pedro. Em Belo Horizonte, por exemplo, quando tem alguma coisa em 'ses dias, é uma quermesse numa rua recôndita regada a quentão. Já na capital paulista, a meninada passa sim o mês inteiro soltando os seus fogos por a rua, mas, no mês de dezembro, na véspera do fim do ano. De qualquer forma, o que vale é a cultura diversa, e assim, que bom os carnavais, os arraiás, as oktoberfest, os rodeios, os bois garantidos. E 'pero que seja apenas uma tola impressão de que a emoção que se tinha em aguardar por 'sas datas 'teja se perdendo, e quando menos se dá conta o carnaval já passou, o São João já se foi, o ano já deu lugar para o outro, e aproveitamos muito menos do que poderíamos. Feliz São João! Número de frases: 24 Mulher, Fortaleza tem segredos. Um de eles é ter muitas cidades dentro de uma só, germinando; e, contidas em cada uma de 'sas, outras tantas insuspeitas. Assim acontece. Em uma de 'sas caixinhas-'curas 'tá o Mercado São Sebastião, no Centro da capital cearense. Antes, bem antes disso tudo De a Praça da Bandeira, em frente à Faculdade de Direito, onde saltava do ônibus com a mãe adiante, ao Serviço Social do Comércio, distante algumas centenas de metros. O percurso, feito em pouco mais de dez minutos, guardava seus obstáculos. A o menino de ontem, o cheiro forte de murici e panelada nos arredores do Mercado São Sebastião, o Antigo. Em aquele trecho, à porta do Sesc, tinha mesmo de tapar o nariz com as duas mãos para não vomitar enquanto seguia arrastado para a aula de natação, que logo abandonaria. Em a volta, o mesmo suplício. Dezesseis anos depois, constata: o mercado mudou, no que é acompanhado por dona Teresa, varejista do São Sebastião desde quando foi criado, na década de 1960. «Antes, era tudo misturado», informa. «Em compensação, ficava todo mundo no mesmo nível». A bacia de alumínio, exposta na calçada, reflete o sol febril da manhã de quinta-feira. Em o mesmo box: cachimbo e tampas para fogão, redes de dormir, camisas e uma infinidade de objetos perdidos entre um amontoado e outro. Adiante, um homem vende, sem estardalhaço, cuecas. Chapéu de palha e camisa aberta até o peito queimado de sol, oferece timidamente uma trinca de suas cuecas por apenas cinco reais. A clientela do Mercado São Sebastião passa, olha, enfia a mão no bolo de tecido e, como quem observa um organismo vivo em microscópio, vira e revira a peça. A o passar o troco, o homem sorri, agradecido. Em um box próximo, outro senhor de meia-idade parece duvidar da eficácia de um veneno contra ratos. Busca por o rótulo, que nada explica. Em o vendedor, porém, encontra a garantia: é colocar e sair de perto. Acaba levando. De passagem, compra também um xarope, feito com produtos naturais, para a filha. Curar a tosse rouca de cachorro da menina. De a rapadura ao alumínio -- uma travessia Em rápidas pinceladas, dona Teresa desfia lembranças do mercado que, sem dificuldades, misturam-se às afetivas: antes, verduras, frutas e miudezas dividiam o mesmo 'paço no mercado, e todos eles, vendedores, compartilhavam do mesmo plano. Estavam, portanto, no mesmo «nível». Antes, eram as rapaduras de João Antônio Marques, marido de dona Teresa Oliveira Marques, 56 anos. Antes, 'tavam casados e viviam no bairro Antônio Bezerra. Os planos do casal incluíam, além de rapaduras, a criação dos seis filhos. «Em 1985, o marido pediu arrego e foi embora para o interior, em Itarema». Em as costas da mulher, meia-dúzia de crias que se fizeram -- agora sob a guarda do alumínio -- médicos, químicos e engenheiros. «O pai continuou ajudando, claro, só com o meu dinheiro não dava pra criar tanta gente», ri-se. Hoje, dois pisos; duas as visões do mercado. Em baixo, frutas, verduras, carne vermelha, peixe e frango. Língua, panelada e sarrabulho. Mocotó e carne-de-porco. A clientela ganha no gogó. Adiante, restaurante e lanchonete. Sentar e fazer o pedido. Diante do prato, o cliente goteja. A ventilação no mercado não é das melhores e o clima na cidade, em 'te fim de ano, é de fornalha. Em o andar superior, pavimento que dona Teresa ocupou logo quando o mercado deu um passo à esquerda na praça -- ou à direita, conforme o referencial de cada um -- encontramos, não em 'sa ordem: bacia, colher-de-pau, talher, coador de café, avental e tudo o mais que se encaixar na chamada linha doméstica de um lado. De o outro, os produtos naturais ou da «terra», como rapadura, mel, casca de romã, molho de pimenta e castanha. Aguardentes para todos os gostos e desencantos: tem a que cura impotência, em cujo rótulo lê-se Cachaça do Pau do Índio, feita de «cana dura». Outra, mais amarela, cujo sumo é extraído da «cana de galhos», serve mesmo é para curar dor-de-corno. Em o rótulo, uma oração. A os cornos. Segundo a vendedora, 'se tipo de cachaça é muito procurado. Os clientes, claro, agem discretamente. Em o quadrilátero de dona Teresa, o alumínio, o mesmo que ajudou a criar a filharada, tem lugar de destaque, ofuscando as demais mercadorias. Além das bacias e panelas, porém, ela também expõe os seus aventais, que, se for do gosto da cliente, faz por encomenda, personalizado até. «Faço em casa mesmo, coloco o nome. Depois, é só vir buscar». Só assim consegue pagar os cento e vinte e cinco reais de arrendamento por o box cujas dimensões não ultrapassam dois metros de comprimento por três de largura. O ganho minguado tem, para ela, remédio: «Aqui em cima vem pouca gente, ninguém quer subir a 'cadaria ou mesmo ficar arrodeando a passarela. Se for idoso, pior ainda. Faz tempo que falam em elevador, mas nunca ninguém fez nada». Fez, sim -- basta dar uma volta no mercado para perceber que, ali também, jogou-se dinheiro fora. De o elevador, o fosso. E um cubículo que, a rigor, nunca soube o que é subir e descer inúmeras vezes ao longo do dia, sina da qual um bom elevador não consegue fugir. José Raimundo Sobrinho, presidente do Sindicato dos Varejistas de Frutas e Verduras de Fortaleza e um dos diretores da Federação do Comércio -- Fecomércio, explica: «Esse elevador nunca funcionou. Era pra ser de carga, mas acabou ficando muito distante e aí ninguém quer levar a mercadoria pra lá. Ninguém tem interesse em consertar». Dona Teresa tem. Enquanto isso, do outro lado, diverte-se 'pantando moscas. Em o box vizinho, os vendedores tagarelam. A cada dez minutos, um cliente passa e pergunta o preço de algum objeto. Alguns compram. Outros, vão-se para nunca mais. Assim a rotina daquele lado do mercado. Parada. Melhor circular por o térreo, onde ficam os pontos de José Raimundo, o presidente, doze anos à frente do sindicato. «Sim, são doze anos», diz sem convicção, como a inquirir: afinal, como tinha conseguido ficar tanto tempo assim? «Bom mesmo quando o Firmo era o administrador», recorda dona Tereza. O motivo, talvez nem saiba mesmo: «Ele era diferente, andava por aqui. Falava com a gente, era alegre». Para dona Teresa, alegria mesmo vem dos filhos. O mais velho, químico industrial, passou recentemente em concurso e foi morar na Bahia. Vida feita. A caçula peleja no cursinho pré-vestibular. Quer administração. Tudo em universidade pública, que ela não tem dinheiro para a faculdade particular. à sombra de São Sebastião Circulando, os meninos-carregadores. Confundem-se com o mercado, as paredes e prateleiras do mercado. Não se distinguem dos banheiros sujos e mal-caiados ou das 'cadarias que levam aos boxes mais distantes onde mulheres cozinham as horas. Andam, de modo geral, de cabeça baixa. Medo de reprimendas, aguardam os clientes do lado de fora. Ao lado do pequeno santuário em homenagem ao santo que dá nome ao mercado, Lucas, Alexandro e Alberlânio, 22, 18 e 16 anos, respectivamente. Em comum, a 'cola perdida na 'trada e a vontade de retomar os 'tudos. A cada um de eles pode-se associar, de forma precária, uma reação ante a conversa ligeira que os apanhou de surpresa naquela manhã: Lucas, verborragia e indignação; Alexandro, malícia e alegria contida; e, por fim, Alberlânio, cujo olhar distante impede ver-lhe através. Aos poucos, outros carregadores vão se amontoando. São, de acordo com Alexandro, quarenta, entre menores e maiores. Em aquela manhã, porém, não ultrapassam dez. Alguns trabalham o dia inteiro, das 7 da manhã às 17 horas. Outros, como Lucas, apenas meio período. A maioria vem do próprio Antônio Bezerra, bairro vizinho ao mercado. Outro bocado vem de longe, muito longe. Para 'ses, a jornada tem início ainda mais cedo, às cinco da manhã. Em pouco tempo, os meninos-carregadores perdem a vergonha, e se despem de qualquer timidez. As gírias dominam o diálogo, que narra, ao modo de eles, a rotina de quem trabalha empurrando carrinhos no Mercado São Sebastião. Tinham, todos eles, que comprar o carro, nunca abaixo dos R$ 200, mais a bata que usavam, por a qual tinham de pagar mais R$ 12. De o sindicato que os contratava, não recebiam um tostão, apenas reprimendas. «Se a gente vai empurrando o carrinho cheio de compras e 'barra em alguém, o dono da barraca vem logo 'culhambando o cara e ameaçando de botar pra fora», diz um. «Tu vai mandar isso aí para a prefeita?», pergunta outro. «Tu tem que falar da gente, dizer como é que tá isso aqui, a gente vive desse jeito, não acho certo, criança ter que largar a 'cola pra trabalhar nisso aqui, que não tem futuro, eu, pelo menos, só fico meio período, mas tem menino que trabalha o dia inteiro, não 'tuda» -- cobra, incisivo, Lucas. Em seguida, provoca: «Se eu fosse repórter que nem você, 'crevia falando disso aqui e da miséria do salário mínimo». Moreno de 'tatura mediana, Lucas segue falando, preenchendo os 'paços, gozando. Um instante, pára: ao lado, uma morena bonita caminha e atrai a atenção do rapaz. Ele se volta e cutuca o amigo, que balança a cabeça e diz: «É ela». Depois de alguns segundos, fôlego renovado, insiste: «Tu tem que 'crever sobre a gente. Se eu fosse você ..." Não é. Mas nada impede que nos entendamos. Enquanto os companheiros trabalham ou simplesmente brincam uns com os outros, ele fala. De a casa alugada no Antônio Bezerra, da mulher e filha de dois anos. De os 'tudos inconclusos e das semelhanças que todos eles guardavam entre si. Um caminho compartilhado, palmilhado dia a dia por meninos 'quecidos: os garotos perdidos da Terra do Nunca -- a Fortaleza que a turistada histérica, sede de sol, água de coco e peixe à beira da praia, somente enxerga quando lhes salta ao pescoço. Lucas, nas noites de terças e quintas, trabalha num restaurante. Só assim consegue algum pra sustentar as suas meninas. «Diferente do cara que já tem dinheiro e se mete com política. Fico pensando: por quê?, se o cara já tem o que precisa. Claro que é pra ganhar muito mais, roubando até. Tem muito jornalista, gente de todo tipo, se candidatando e ganhando. Daqui a pouco tu vai ser repórter, vai querer se candidatar», interrompe-se. Não sorri. Apenas fala. Em suspenso, a promessa: Número de frases: 151 falar «disto aqui». Era tarde de sábado quando um caminhão pouco comum chegou a Mantenópolis, extremo noroeste do Espírito Santo. A cidade é pequena, poucas ruas e com economia voltada para a zona rural. A principal rua, uma homenagem ao ex-presidente Getúlio Vargas, abriga uma praça, alguns prédios, bares e muitas casas, a maioria em péssimo 'tado de conservação. O menino Zequinha, de 10 anos, segura por uma pequena corda a égua Roxinha, que pertence ao seu avô. «Ela 'tá cansada já, não aguenta mais andar. Mas como o trabalho é pouco, também brinco com ela», confessa o garoto enquanto passa em frente a um bar repleto de homens em volta de uma mesa de sinuca. Ao lado de um dos inúmeros bares da cidade, mora dona Divina de Oliveira Almeida, 66, com suas duas filhas, Sônia e Maria José. Dona Divina já perdeu três dos seus 12 filhos e outros três ela já não vê há mais de 10 anos. «Foram para Rondônia ... nunca mais deram notícias», afirmou sem conseguir segurar o choro 'pontâneo. Fazedora de um café que mói no próprio quintal, a senhora ia ao cinema na época em que morava no Rio de Janeiro. «Eu trabalhava de doméstica e ia ao cinema no Leblon, quando minha patroa deixava». Diferente de Dona Divina, o pedreiro Rogério Viana da Silva, 26, nunca foi ao cinema. Não tem tempo. Os únicos filmes que raramente vê são os que passam na televisão ou que o Seu Manoelzinho Loreno exibe de vez em quando por a cidade. Seu Manoelzinho mora com a mãe, a 'posa e dois filhos numa casa no final da Rua Projetada. Não tem geladeira e possui pouca infra-estrutura de saneamento. Dono de uma TV e dois videocassetes, Seu Manoelzinho 'tá cansado de dar entrevistas para jornais. Já apareceu no programa da Ana Maria Braga (TV Globo) e no do Gugu Liberato (SBT). Foi recebido como herói em sua cidade, tendo até de fazer discurso no palanque da praça. Parece impossível, mas Seu Manoelzinho, mesmo desempregado e com dificuldades para comer, é um dos mais ativos diretores de cinema do Brasil, já tendo produzido 40 longas. Os recursos? «Vem do próprio bolso e da ajuda dos amigos», comenta. O morador mais ilustre de Mantenópolis realiza suas produções num câmera VHS, tendo no elenco os próprios moradores. Por conta desse lado pouco comum, o diretor passou para frente das telas e virou tema do documentário «O Sonho de Loreno», da diretora Alana Almondes, uma das 40 contempladas na primeira edição do projeto Revelando os Brasis, que chegou no sábado dia 26 de maio a Mantenópolis para a terceira exibição do circuito itinerante que irá percorrer 25 mil km projetando os filmes selecionados por o projeto. O caminhão chegou e a cidade parou. Crianças acompanharam a montagem do telão, vendedores ambulantes trouxeram seus carrinhos com refrigerantes, pipocas e churrasquinhos no palitopara animar a platéia. Em a tela, os moradores conferem as histórias filmadas em outros três municípios do Espírito Santo, «Brilhantino», de Ériton Berçaco (Muqui),» O Último Tocador», de Valbert Vago (São Roque do Canaã) e «Bate-Paus», de Jorge Kuster Jacó (Vila Pavão), todos com menos de 20 mil habitantes. «Nenhum com cinema», complementa Beatriz Lindenberg, presidente do Instituto Marlin Azul, responsável por o Revelando os Brasis em parceria com o Ministério da Cultura. Certo de que o cinema pode mudar a vida e o olhar das pessoas sobre elas, Seu Manoelzinho resume o que a imagem pode realizar: «Eu trabalhava como pedreiro. Eu fico até com vergonha, mas já apareci na Globo e no SBT e hoje eu sou famoso. Número de frases: 33 O cinema me dá tanta felicidade e tantas idéias que até 'queço os problemas que tenho». Intérprete chega aos 61 anos com raízes no passado musical, mas antenada com a nova geração Figura ímpar da música brasileira, por a alta carga de dramaticidade que imprime a cada canção, a cantora baiana Maria Bethânia chega aos 61 anos, em 'ta segunda-feira, 18 de junho, ostentando o título de única diva em atividade da MPB. Isto porque é a única de sua geração que 'tá no auge da carreira. Ao mesmo tempo em que se permite cantar os clássicos de autores do passado, ela também se mostra uma das melhores intérpretes dos grandes compositores de sua geração, destacando o irmão Caetano Veloso e Chico Buarque de Hollanda. Bethânia ainda consegue coerência quando abriga a nova geração sob seu canto. Ana Carolina, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Chico César, Vanessa da Mata e Lenine 'tão entre os que lhe deram o passaporte para a contemporaneidade, ao compor enxergando sua interpretação. Além de colegas de ofício, muitos são os que se rendem à sua majestade. Em terras brasileiras, Bethânia se tornou a primeira mulher a superar a marca de 1 milhão de cópias vendidas de um álbum (Álibi, de 1978). Ainda hoje, detém o título de segunda artista feminina que mais vendeu discos na história do Brasil, com 24 milhões de cópias. O primeiro lugar foi cedido por o público infantil à apresentadora Xuxa, que alcançou 30 milhões de cópias. Em o site de relacionamento Orkut, são mais de 180 comunidades dedicadas à cantora, algumas nada modestas, como «Bethânia -- entidade de luz». O reconhecimento internacional ao seu talento pode ser expresso na comparação, feita por o jornal americanoThe New Times, em 1998, entre ela, Billie Holiday e Edith Piaf, sendo 'tas últimas duas das maiores intérpretes da música mundial. Tudo isso pode ser apontado como resultado da coesão de seus 44 anos de carreira. A o reverenciar compositores atuais ou do passado, Maria Bethânia torna uniforme um repertório que, a princípio, poderia ser considerado desconexo. Com seu timbre firme e a interpretação dramática, ela praticamente se torna co-autora das canções que entoa. Para os fãs, 'sas características lhe tornam a última cantora de uma linhagem descendente das «rainhas do rádio». Os que não gostam do 'tilo já lhe deram a chancela de «cantora de churrascaria». Em sua trajetória, Bethânia nunca se rendeu a movimentos musicais e só cantou o que quis. Por isso, brigou com executivos de diversas gravadoras até chegar à independente Biscoito Fino, em 2002, onde aproveita da liberdade para realizar projetos conceituais e corajosos, como Brasileirinho (em que revê a trajetória de formação ultural da nossa gente) e Mar de Sophia e Pirata, 'tes lançados simultaneamente em 2007, tendo a água do salgada e a água doce como mote criativo. «Só canto o que quero, com quem quero, como e quando quero. Nunca entendi nenhum movimento, porque não tenho paciência. Não posso jamais ser uma cantora de bossa nova, uma cantora de protesto, uma cantora tropicalista. Como cada dia eu quero cantar uma coisa, prefiro não me ligar à nada e a ninguém, para poder cantar o que o meu coração mandar», disse, certa vez. Ao mesmo tempo em que mantêm uma identidade durante toda a carreira, Maria Bethânia é plural. Saravá. O Que SE Disse Sobre Maria BETHÂNIA Mas Bethânia, abelha rainha, canta basicamente com todo o fluxo de sangue que corre por as veias de seu corpo, fonte de energia de cor de Iansã. São rios sanguíneos de paixão e ira, romance e revolta, doçura e dureza, nascidos da melhor tradição do Brasil profundo, um Brasil gentil e barroco, cheio de violência e 'pírito, que ainda não aprendemos a compreender. Cacá Diegues -- cineasta Maria Bethânia se tornou uma 'trela da noite para o dia no Rio de janeiro, no início de 1965. Tudo em ela era diferente de todas as outras, muito diferente: voz, figura, gestos, sexualidade, sotaque baiano. Atitude. Nelson Mota -- compositor e crítico musical Por que, afinal, Bethânia sobe ao palco de pés descalços? A palavra «raiz» responde a tudo. A cabeleira de Maria, copa generosa, balança-se ao vento e à voz de uma grande artista. Washington Oliveto -- publicitário Bastou os primeiros versos de Carcará e todos sentiram que 'tavam diante de uma deusa cheirando a cangaço, cuja voz rascante parecia nascer de fontes ressecadas por o sol. Bethânia é divina. Carlos Heitor Cony -- 'critor Ela, com o seu jeito quieto, faz coisas grandiosas através do seu trabalho. Bethânia 'tá na minha vida. Anos atrás, foi ela quem me ensinou a cantar no palco. Minha postura, a maneira como entendo o palco, devo a ela. Tudo o que sei emana de ela. Somos artistas quentes. Gilberto Gil -- Ministro da Cultura, cantor e compositor Maria Bethânia tem o dom de transformar canções aparentemente sem importância em verdadeiros clássicos. Ela tem a capacidade de tocar no profundo, porque entrega-se totalmente, coloca-se à disposição da canção. O fato de ela 'tar cantando músicas minhas, de Brown e Arnaldo Antunes, é muito importante para a nossa geração, é como se ela dissesse: Eu acredito em vocês!" Chico César -- cantor e compositor Maria Bethânia é um perigo para quem 'tá despreparado emocionalmente, destrói qualquer monstro de terno e gravata que não sabe dizer eu te amo a uma mulher. Bethânia é uma condutora de palavras, é quem melhor pronuncia o português ao lado de Roberto Carlos. Carlinhos Brown -- cantor e compositor Maria Bethânia ajuda a construir nosso país com a sua voz tão pessoal e com a verdade e a beleza do seu trabalho. Essas características de sua arte fazem de ela, de fato, uma intérprete da alma e da vida brasileira. Ferreira Gullar -- poeta Maria Bethânia quebra todos os 'tereótipos, seu jeito e 'tilo são únicos. Marta Suplicy -- Ministra do Turismo Em a sua voz se encontra a solidão áspera da seca e a generosidade volumosa da chuva. A voz de Bethânia não 'colhe -- 'corre. Bethânia é amiga do vento e ele, por sua vez, se incumbe de mixá-la nos canaviais. A voz de Bethânia nasce no sertão. Orlando Moraes -- cantor e compositor Maria Bethânia é a minha cantora predileta. Maria é a primeira cantora do Brasil, tendo sempre mantido uma postura de total lealdade perante as raízes em nossa música popular. Bibi Ferreira -- atriz Algumas atitudes (ou realidades) de Maria Bethânia, como a ausência de medo no palco, o humor, a entrega, o gosto por o risco e a liberdade, tornaram-se metas que persigo com disciplina. Alguns rigores de Maria Bethânia, como o de fazer tudo o que faz muito bonito para que as pessoas pensem sobre a beleza, me interessam cada dia mais. Número de frases: 72 Adriana Calcahotto -- cantora e compositora Com as cores da alma Os melhores 'critores que li na vida eram os que sabiam pintar com as palavras. Melhor: sabiam pintar e bordar com as palavras. Tinham na paleta mágica das palavras as cores da alma e o poder do encantamento da agulha -- a nos cutucar e remendar por dentro. Escritores de palavras ... Passei por tantos ... Escritores de imagens ... Esses moram na minha alma, com seus quadros humanos sempre me cutucando no vai-e-vem do range rede, emoções e pensamentos. Como 'quecer Ana Terra, Bibiana, Capitão Rodrigo, Clarissa, Vasco e o menino paralítico? Impossível rebobinar a fita e apagar a voz profunda de Riobaldo -- humanamente impossível. E ... Nonada ecoa como o 'tampido de um tiro no sertão errante da minha alma. Mergulho no fundo do poço; 'cavo o barro com as unhas e mesmo assim a voz, as neblinas e uma saudade sem remédio de Diadorim ... Riobaldo habita minha varanda lírica ... Atravesso insônias, visito cárceres, 'crevo carta e a pintura em branco e preto de Vidas Secas desenhou dentro de mim uma paisagem retirante e 'quálida, gracilianamente uma rachadura exposta ... E vejo o homem, a mulher, o menino mais novo, o menino mais velho, a cachorra ... Baleia! E um soldado amarelo. Memorável ter caminhado de pés descalços por a secura silenciosa da paisagem humana de Graciliano Ramos, também inesquecível (obras completas na minha 'tante)! às cinco da tarde, mesmo quando não penso, penso em Drummond. Desfio um colar de rezas, salmodrummondiando o anjo torto que mora com mim, na cidadezinha qualquer por onde vagueio e vou devagar ... Com a obstinação das duas mãos e o sentimento do mundo ... Toco seus seres? Não. Eles me tocam, como uma legião de anjos de mil faces, e me ensinam a conviver com a pedra no meio do caminho. E me comovo e me 'queço a contemplar e a sentir a mão que toca os meus ombros e ela não pesa mais que a mão de uma criança. E 'sa vontade de 'crever, que me paralisa o trabalho, não vem de Itabira, mas tem tudo a ver com Drummond ... Abro a mão e salta uma 'trela, depois uma rosa ... Eis Bandeira pintando, pintando ... Enquanto contemplo o que ele pintou, sinto o cheiro da tinta fresca de suas palavras me mandando ouvir um tango argentino ... E me ensinando a amar Mário de Andrade, na pintura, com aqueles «docemente dos nanquins mais melancólicos». Irremediável, vou recitando o que me possui a alma ... E pintam tão bem os bruxos! Machado e Baudelaire. Só para citar dois e nem visito as pessoas de Pessoa, um caso à parte, e os outros mágicos de além mar. E o quadro Capitu, oblíquo e dissimulado, como a fruta dentro da casca, me propondo enigmas. Cada vez que leio, um calafrio. E Bentinho saiu do teatro antes do fim de Otelo ... Freud desconstruindo e Machado construindo, num tabuleiro de difícil xeque-mate. E ao vencedor, as batatas! Baudelaire me chama à sua barraca, onde minuto antes entrara um pícaro. Prometia malabarismos de pequenos poemas em prosa e eu que já tinha passado por as flores do mal ... E por as flores do mal ... Entro de mala e cuia. E me engano. E me encharco de umas tintas inimagináveis, só sentindo, sentindo. Eles me assaltam. Saio transmudada e nada será como antes. E ainda na borda da mesma lona vem a moça Isabel Câmara cantarolando: «Ninguém me ama / Ninguém me quer / Ninguém me chama / De Baudelaire». E os prazeres tortos das palavras sensíveis, nervo de dente de siso exposto ao gelo e ao vento na pintura movediça de Clarice. Ela entrou. Eles entraram. Deixei que se acomodassem no incômodo que me causaram. Depois tranquei a porta e engoli a chave. Vez em quando, sorrateiramente, rasgo o ventre, retiro a chave, abro a porta e convivo grávida de falas. Pinturas hão passando dentro de mim, riachinhos 'pelhados, brilhantes seixos deslizam no cristal fininho de maio. E me toca tanto a pintura íntima e delicada da borboleta pousada Adélia Prado, o universo do seu quintal. Aquelas palavras de vizinhas saltando o muro, as memórias das pequenas epifanias, migalhas nobres do pão sagrado da poesia na mesa posta dos nossos dias. E salve Adélia, a formiguinha-lava-pé pintando 'sas dores de saudade da minha mãe. Pintando, plantando uns canteirinhos fecundos de poesia e aromas raros. Os pesados portões do paraíso não 'condem o que o ácido Caio Fernando tatuou na camada mais profunda da minha pele ... Ouço uns blues, sigo anjos decaídos por labirínticos corredores e 'conderijos. E o dragão me queima como uma carta nas mãos que eu desejasse muito ter 'crito, que eu precisasse muito ter 'crito, mas engoli as palavras certas e as palavras erradas. E ela me traduz num ponto enigmático que me 'capa sempre entre o umbigo e a rua de dentro ... E eu rezo para que seja doce, doce, doce, doce, sete vezes, o mantra do dragão Caio F. Anjos de porre vagam por as luzes da cidade que não iluminam e acedem a noite pintada nos meus corredores, que cheiram a éter e morte. Além do muro, Caio é um grafito na linha do meio que me divide em partes desiguais ... Vou para a rua, vou para a vida ... Vôo. E tem Elisa, que ouvi cantar, que vi desnudar a poesia em gestos de atriz. Essa foi pintando e bordando em mim, do começo ao fim, jogando para o céu uma chuva prateada de palavras de tintas fortes ... Amor, rotina, separação, saudade, legumes na geladeira, lua menina que menstrua ao léu das ruas, e a 'crava-poesia muito mais nua sai para passear ... E me leva junto na pincelada ... Ah, 'ses pintores e suas palavras-tintas mágicas! Tintas que têm as cores da alma. E a primeira pintura de palavras a gente nunca 'quece. Assim, nunca 'queci Erico Verissimo (obras completas na 'tante para deleite meu!). Segui todos os quadros de Clarissa. Guardo como um tesouro (sem necessidade de releitura) a menina e sua cabeleira no balanço dos galhos do pessegueiro e o olhar de Amaro ainda me perturba dentro do quadro ... O grito 'ganiçado, aquele passo em falso na 'cada, o papagaio, o segredo: Clarissaaa! E nunca deixei de seguir a menina: música ao longe, um lugar ao sol, imagens. Impossível 'quecer o quadro: o minuano, Vasco na janela, o pátio, um cachorro seguindo uma fresta de sol. E o pintor que me seduziu assim com suas cores fundou continentes na minha alma ávida de povoamento. E vieram as cores de Ana Terra, Capitão Rodrigo, Bibiana ... Aí me vem um pensamento: se eu fosse 'critor ... Ah, se eu fosse 'critor desejaria ser um pintor desses abusados. Dispensaria os pincéis, a química das tintas, o linho das telas, as 'táticas molduras ... Se eu fosse 'critor cultivaria em mim o mais inventivo dos pintores. Ao invés de tintas, pintaria com palavras. Desejaria uma paleta com as cores da alma de Erico (e teria palavras-cores de ventania e de tempo), de Jorge (Palavras-cores de mar da Bahia, café, cacau, dendê, pimenta, cravo e canela), de Adélia (Palavras-cores de quintal, asas de borboleta, rezas salpicadas na cozinha), de Graciliano (Palavras-cores de terra seca, cacto, sol), de Guimarães (Palavras-cores de veredas, de sertão em toda parte, de travessia, de neblina, de buritizal, de olhos de Diadorim, de voz de Riobaldo, de demônio no oco do homem), de Bandeira (Palavras-cores de rosas e 'trelas), de Drummond (Palavras-cores de mina e de Minas, sentimento do mundo, anjo torto e pedra, sempre pedra), de Machado e Baudelaire (Palavras-cores de tudo, de personagem, de cena, de olhar demolidor), de Clarice (Palavras-cores de avidez, de medo, de real moído, de prazeres que nunca terão nome); de Caio (Palavras-cores de ácido, de anjos tresloucados, de porres, de orgasmos, de duplos, de sentidos indistintos), de Elisa (Palavras-cores de incêndio, de palco, de luzes, de vida). Ele chegou agora, do fundo mais fundo ... De José Mauro de Vasconcelos não 'queceria jamais as palavras-tintas mágicas que me deram a chave do mundão de dentro, um coração de vidro multicolorido -- que eu enchi de lágrimas preciosas; tintas que me arderam os olhos -- e uma canoa encantada, de nome Rosinha ... Até hoje ela me navega no fundo da pintura ... Minha rosa, minha flor, minha nega, meu amor ... Eu me confessaria frei abóbora. Ah, e tem Maria (José Dupré) ... Éramos seis, retrato familiar, e até hoje a solidão de dona Lola me incomoda tanto ... E na pintura: telhado cor de cinza solidão. Se eu fosse ... Se eu fosse ... Queria muito um pouco de tudo isso, um pouco do segredo da magia de cada um de eles, pouquinho mesmo que fosse. E faria do meu jeito palavras-cores só minhas e pintaria hoje um pintor com a febre do mundo, com a febre de Deus, mas que só tivesse palavras e páginas em branco ... E a doce tortura das cores da alma. Número de frases: 108 Ponto Que Faz Cinema Precisa De Patrocinadores A Academia de Ciências e Artes-ACARTES, 'tá realizando o filme «Poço da Pedra», no 'tado do Ceará e gostaríamos de divulgar que 'tamos buscando patrocinadores para 'te projeto. O nosso projeto conta com o apoio do Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet na qual a empresa terá desconto no Imposto de Renda e também com o apoio da Prefeitura Municipal de Itaitinga, onde será gravado 90 % das cenas do filme. O projeto Poço da Pedra, pode captar por a Lei Rouanet até R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais) para que a empresa possa descontar no seu Imposto de Renda, ficando a critério da empresa definir o valor que ela pode patrocinar. Contudo o projeto tem orçamento total de R$ 950.000,00 (novecentos e cinquenta mil reais), que nós da produção 'tamos captando através de merchandising dos produtos da empresa no filme. Também podemos ter como patrocinadores pessoas físicas, que também terão o seu patrocínio descontado no imposto de renda. Se for do interesse da empresa / pessoa física, podemos marcar uma visita na qual poderemos negociar a participação das mesmas no nosso projeto. Claudia Silva Produtora Número de frases: 10 85-96288455 O mito é o tudo que é nada, disse Fernando Pessoa. A democracia, entendida dentro de seu conceito formal-minimalista, é um mito. O mito americano da democracia se sustenta a partir desse imaginário e, ainda que persista em cambaleante fascínio, ocupa-se mais em proteger sua terra prometida de seus próprios ocupantes que de gozá-la tal qual o imaginado. Mas a liberdade de que gozam é um fato, o amor à pátria é um fato. Mas mesmo os fatos podem ser encarados sob diferentes perspectivas. A certeza norte-americano sobre seu mito é seu parnaso e seu barroco. A identidade por eles desfrutada, no entanto, corre no sentido mais institucional que pessoal. A bandeira, o hino e o 04 de julho constituem eventos que, sem dúvidas, despertam comoção nacional. Mas é o país uma bandeira, um hino ou uma data? Ser patriótico em que consiste? Consiste em ser a máquina ou seus operários? Mas o patriotismo também é uma certeza. E é absoluta. E já prendeu muitos ingratos. E ainda prende. O que somos e de onde viemos é uma pergunta difícil a tal ponto que não vale a pena ser feita. Mas o que um hispano-afro-americano diria? Ele tem certeza de que é hispano-afro-americano. Está 'crito na carteira de motorista e por isso todos têm certeza. E a América é a terra da liberdade. E é a terra da democracia. E disso eles também têm certeza. Está 'crito. Eles votam. Eles protestam com lindos cartazes de madeira. Eles constituem o paradigma da vida associativa. Human Rights Watch, Black Power, NRA, KKK. Em as avenidas de NY, passeando por as calçadas, qualquer um pode comprar por 8 dólares uma camiseta do FBI ou da NYPD. Em DC, é fácil achar cartões postais com o rosto róseo do presidente. Afinal, como disse Britney Spears, ícone do pop-jovem americano, «confio no presidente, pois ele vai sempre pensar no melhor para gente». O presidente, eleito em pleito indireto, percorre alguns 'tados do sul e dança valsa com a primeira dama. Gente como a gente. O presidente é a democracia encarnada. E a democracia é o país encarnado. Mas o país é a encarnação de quem mesmo? O homem percorre e sofre em seu caminho na busca por a felicidade. Mas a despeito dos 'critores russos, dos filósofos, dos poetas, de Sartre, de Freud, de Marx, de Lennon, os americanos têm certeza sobre a felicidade. E por isso, ou são perdedores ou vencedores. Ou são nerds ou populares. Ou são zagueiros do time de futebol americano ou são alvos do bowlling. E é no baile de formatura que elas perdem a virgindade. Somente as que foram convidadas, pois a humilhação do ostracismo é imperdoável. Mas eles têm certeza de que sua sociedade se encontra no ápice e que por isso é preciso 'palhá-la por todo o globo. Mas não entendem porque são odiados no Iraque. Nem mesmo os soldados, libertadores. Mas mesmo incertos, ocasião rara, se o fazem, fazem por seu país. Por sua bandeira. Por os pais fundadores. Por o mito. Que é tudo ... O mito é o tudo que é nada, disse Fernando Pessoa. A democracia é um mito no Brasil. É incompleta, é seletiva, é deturpada. Chegam a pensar alguns que nunca existiu. Alguns chegam a pensar que nunca vai existir. Em o Brasil, tudo vem de cima para baixo. O Brasil foi construído de cima para baixo. Mas em qual terreno 'se prédio suntuoso, que desceu dos céus, se assentará? Chegam a pensar alguns que, quando descer, 'magará os de baixo. Alguns chegam a pensar que nunca descerá. Mas vive muita gente aqui embaixo. Gente demais. Mas 'sa gente pensa nisso? E aquela gente de cima, nunca pensa nisso? A incerteza brasileira é seu parnaso e seu barroco. A identidade por nós desfrutada, entretanto, é muito mais pessoal que institucional. A bandeira é feia, o 07 de setembro é só um feriado. Mas o hino é lindo. E tem gente que chora, mesmo conhecendo Brasília. Mas é o país uma bandeira, uma data ou a cidade de Brasília? E ser patriótico é ser Brasília? E o jogo de futebol é patriótico? Ser patriótico é ser a máquina ou suportá-la para lhe superar, quem sabe? O patriotismo aqui é uma incerteza. E é generalizada. Mas já salvou muitos ingratos. E ainda salva. O que somos e de onde viemos é uma pergunta difícil a tal ponto que não pode deixar de ser feita. Mas o que o Ronaldinho Gorducho diria? Ele é branco ou negro? Ou é moreno? Ou é o que é dependendo de cada um que o vê? Ele não tem certeza nenhuma além do fato de ser brasileiro. E de ser misturado. E de achar isso tão natural que nunca lhe ocorreu que alguém pudesse ter alguma certeza. Ele, sabe que é branco. Mas ele não tem certeza, a despeito do que se encontre 'crito nos relatórios do IBGE. E o Brasil é a terra da desigualdade. E disso, todos temos certeza. Mas temos a certeza de que Deus é brasileiro. Mas como ter certeza, né? Cachaça para o Santo e vela para a Virgem. Nós votamos. Também. Somos o paradigma da desconfiança recíproca. Bar, Fla, CV, CPI. Em uma barraca de camelô, comprei um boné 'crito 171. Em o código penal, 'se é o artigo que define o 'telionato. Tinha também uma camiseta 'crita Fé. Em Brasília, quem não veste terno e gravata acha que todos os políticos são iguais. E queimam um boneco do presidente no dia de malhar o Judas. Afinal, como disse Gabriel Pensador, ícone do pop-jovem brasileiro, «eu matei o presidente». O presidente, eleito diretamente, às vezes percorre alguns 'tados nordestinos e diz que é gente como a gente. O presidente é o sacana encarnado. E a sacanagem é o país encarnado. Mas o país é a encarnação de quem mesmo? O homem percorre e sofre em seu caminho na busca por a felicidade. Mas a despeito dos 'critores russos, dos filósofos, dos poetas, de Sartre, de Freud, de Marx, de Lennon, os brasileiros não têm certeza alguma sobre a felicidade. Mas têm certeza de que se a canoa não virar se chega lá. E cabe 'paço, acreditem, para um olê-olá. E é por isso que não há vencedores ou perdedores. Há o malandro. Ou choramos ou damos um jeitinho. Ou se vira jogador de futebol ou continuamos a jogar no campinho de lama. Mas quem não gosta do campinho de lama? E é no carnaval que se perde, novamente, todo ano, a virgindade. E o obscuro põe a máscara. E sempre há uma colombina. Mas nós temos a certeza de que nossa sociedade é abençoada e que por isso é preciso 'palhar todo o globo por nossa sociedade. Mas não entendemos por que somos tão amados na França. Nem mesmo os sociólogos, castradores. Mas mesmo assim, incertos, temos certeza de que chegaremos lá. Por nós mesmos. Por o mito. Que é nada ... Número de frases: 124 Helena Aragão e Monica Ramalho Glória Bomfim 'tá prestes a engrossar a lista de cantoras que só 'tréiam em disco após algumas décadas de vida. O álbum ' Santo e Orixá ' será lançado 'te mês, quando a baiana completa 50 anos. Em o repertório, canções de um dos mais produtivos e criativos autores da música popular brasileira -- Paulo César Pinheiro -- sobre um universo que ambos conhecem muito bem: os rituais e a simbologia do Candomblé. Em poucas palavras, Glória é Yalorixá, cozinheira, mãe de Vitor e dona de uma voz de arrepiar. Estas frases iniciais poderiam abrir uma matéria ou o release de divulgação do disco, que chega às lojas através do selo Sambaqui, da gravadora Acari Records. O parágrafo conta uma novidade, cita um expoente da MPB, contextualiza minimamente o disco e a cantora. Ok. Mas pode ficar parecendo que ela é uma cantora qualquer, dedicando seu primeiro trabalho a um compositor renomado. Definitivamente, existe um jeito melhor de contar 'sa história. Década de 80. Glória prepara o almoço da família para quem trabalha há uns cinco anos, numa casa no Itanhangá. Como sempre, cantarola enquanto mexe as panelas. Talvez guiada por a música, a patroa entra na cozinha e diz, em tom de brincadeira: «Pára de puxar o saco do seu patrão, menina!" E Glória pára mesmo. Fica pálida. Se apressa em terminar logo o serviço, enquanto tenta compreender o que acabou de ouvir. Que história era aquela? Como assim ' puxar o saco do patrão '?, pensa, tremendo. Luciana Rabello, que, além de patroa de Glória, é a compositora e cavaquinista casada com Paulo César Pinheiro, fica meio pasma com a reação da empregada, e explica: «Essa música que você 'tava cantando se chama ' Viagem ' e é do Paulinho, seu patrão, em parceria com o João de Aquino, ora!" Ora, ora! A notícia foi impactante demais para Glória. Emocionada e nervosa, ela foi embora daquele dia de trabalho atordoada. «Foi um choque tão grande que sumi», rememora. Luciana teve que ir à cata da moça. Quando conseguiu reavê-la, teve a dimensão do 'panto de ela. Desde os primórdios, sumir era a 'pecialidade de Glória. «Eu trabalhava como manicure em Copacabana e uma cliente se mudou para o condomínio onde a Luciana e Paulinho moravam. Para continuar atendendo a moça, coloquei a condição de só me despencar até lá se ela me arrumasse mais clientes. Assim fui fazer as unhas da Lu, mas a gente bateu de frente (risos). Em a primeira vez, Julião, que tinha só dois meses, acordou. Luciana foi para o quarto e acabou dormindo. Eu fiquei 'perando horas até que fui me embora», lembra, às gargalhadas. Segundo filho do casal, Julião Pinheiro é hoje violonista e também 'tréia em gravação em 'te disco da Glória. A primogênita é Ana Rabello, cavaquinista como a mãe, que também participa do álbum fazendo coro. Só que Luciana não havia pago o serviço e procurou muito por a Glória. «Fiquei parecendo o Saci Pererê porque faltou fazer um pé», diverte-se. «Luciana me convenceu a voltar um dia. O bebê acordou de novo, mas de 'sa vez fui fazer a unha lá no quarto. Quando entrei, ele me conquistou com um sorriso». Um pouco depois, Glória foi convidada a trabalhar na casa três vezes por semana. Em a época, ela ainda vendia bolsas e fazia unhas, mas achou que daria para conciliar 'sas atividades. «Eu cuidava de eles até às 15h, então nem eu sabia que eles eram músicos, nem eles sabiam que eu cantava», fala Glória. * * Vamos então juntar as pontas. E entender como 'sa coincidência -- assustadora, em princípio -- se desdobrou na realização de um sonho tão antigo: um disco. Maria da «Glória Bomfim dos Santos (Glória Bomfim é nome de guerra», conta ela, um pouco encabulada) nasceu em Areal, interior da Bahia, no dia 3 de novembro de 1957. [ Postamos 'te texto no dia 2, bem pertinho da festa de 50 anos]. Aprendeu a cantar ainda na infância para acompanhar os irmãos, músicos amadores. Eram todos do Candomblé, então logo fez o santo. Cantarolava nos rituais, mas também soltava a voz nas festas em outras cidades por a farra, em geral sem receber nada, só o lanche. «Eu tinha uns oito anos e já cantava em casamentos, aniversários, batizados. Meu pai era comerciante e, assim que chegava em casa, já de madrugada, ligava o rádio. Eu ficava ouvindo aquelas músicas ... Foi assim que aprendi ' Viagem '. Aliás, fiquei conhecida como ' a menina da Viagem '». (Opa! Agora deu para entender a emoção de Glória ao descobrir que cozinhava para o autor daquela música ... Mas não foi só isso. Luciana 'miúça: «Ela me disse não acreditar que alguém inventasse música e, menos ainda, que tivesse trabalhando na casa do criador daquela que a acompanhava desde criança. Eram dois fenômenos: Glória achava que músicas não eram feitas, mas que apenas existiam como as cantigas de santo de Candomblé. E não imaginava, absolutamente, que 'tava há quatro anos convivendo com o autor de sua maior lembrança!». Durante a entrevista, Paulinho apareceu na varanda confirmando tudo: «Essa foi a minha primeira música como profissional. É simbólica para mim. E, pelo visto, para Glória também "). Seguimos no flashback. Os pais de Glória se separaram e ela foi morar em Salvador. «Minha mãe me deu para uma família que havia prometido me dar 'tudo. Em a verdade, eu tomava conta dos filhos da madame. Não teve 'tudo coisa nenhuma. Eu fui para a cozinha». Meses depois, conseguiu voltar para a casa da mãe. Não por muito tempo. Este período da infância beirando a adolescência foi marcado por temporadas em casas de 'tranhos e de outros familiares. Quando 'tava em Areal, recomeçavam as cantorias nas festas populares, quase sempre levada por um rapaz chamado Tutu. Só aos 13 anos a menina conseguiu um emprego de verdade, numa chácara de Salvador. «Em 'sa casa fiquei mais tempo porque ganhava direitinho». Glória se entendia com a patroa, Josilda, mais conhecida como Nona. «Ela me perguntou o que eu queria de presente. Pedi uma passagem para o Rio de Janeiro». O desejo foi prontamente atendido e Glória ganhou, ainda, uma morada provisória: a casa de Josenilda, irmã da patroa soteropolitana. Atrás dos truques culinários, Glória trazia uma 'peciaria rara na algibeira: o canto ancestral. Quem sabe não seria desta vez que trocaria as receitas por os palcos? Antes de cada sonho existe uma 'trada. Alguns empregos atravessaram o caminho de Glória -- um de eles, na casa do ' trapalhão ` Renato Aragão, onde ficou por cinco anos. Aliás, vale lembrar de um episódio cômico: no primeiro dia de trabalho, ela foi abrir a porta e não entendeu nada quando viu o Didi entrar na casa. Ela tinha visto na noite anterior aquela clássica imitação que ele fazia de Maria Bethânia e caiu na gargalhada. Depois, Glória viajou até São Paulo para cantar ' Lama ', de Mauro Duarte, o Bolacha, no programa de calouros do Silvio Santos. Lá conheceu Benito de Paula e foi convidada para fazer uma participação 'pecial num show de ele, numa casa de shows no Leblon carioca. ( «Mas sou tão azarada que no dia combinado a casa pegou fogo!"). A 'trada também contabiliza muitas incursões aos pagodes da Portela, nos anos 80. Quando pediam para ela cantar alguma coisa nas rodas portelenses, Glória quase sempre pescava alguma música de Pinheiro da memória, como «Canto das três raças» e «Mãos vazias». Mestre Marçal, que foi uma 'pécie de conselheiro e a chamava carinhosamente de ' Baianinha ', vivia dizendo: «Um dia tenho que te apresentar pra 'se compositor que você gosta tanto!». Glória não entendia muito bem, mas não ligava. E mal sabia que, àquela altura, já preparava a comida do tal compositor todo dia! * * Quando a cozinheira descobriu a identidade nada secreta do patrão e desapareceu, fazendo com que a patroa fosse atrás de ela, algo muito sutil mudou na relação de elas. Luciana e Glória viraram amigas e confidentes. «Eu percebi que ela ficou muito emocionada. Encheu os olhos d ´ água e tudo», recorda a cavaquinista. «Só aí tive coragem de contar para a ela sobre 'sa vontade de cantar pra valer», diz a cozinheira. Atrás do fogão ou com a voz à frente das rodas de samba tão comuns no quintal da família musical, Glória se assumiu como cantora. Luciana queria oferecer mais e prometeu que, um dia, produziria o disco da baianinha. O tempo passou. A cavaquinista fundou a Acari Records, 'pecializada em choro (em dobradinha com o violonista Mauricio Carrilho), e o selo Sambaqui, dedicado ao samba. Paulinho continua compondo aos borbotões e lançou seu primeiro CD cantando músicas próprias em 2004. Para 'te ano, já 'tava planejado fazer o segundo disco no mesmo 'tilo -- só que totalmente voltado para canções de santos orixás. Foi quando veio o 'talo: «Percebi que a Glória tinha mais a ver com 'se repertório do que eu porque ela tem relação com o santo. Sabia que ela cantaria 'sas 14 músicas muito bem porque é a vida de ela, afirma ele. «Não foi uma coisa de generosidade pura e simples. Achei que seria importante para as músicas». Luciana faz que sim com a cabeça e revela os dilemas que enfrentou para pensar o disco. «Você acredita que cheguei a ouvir coisas como ' agora você tá lançando disco até da sua empregada? ' Por 'sas e outras, fiz questão de 'crever um texto bem neutro no encarte, sem toda a emoção de 'sa história de vida nossa. Até porque acho que ela é a cantora que 'távamos 'perando para 'se disco, é um disco forte independente dos bastidores. Vejo uma energia que não encontro por aí. Uma emoção que sinto ouvindo Clementina de Jesus e Alberta Hunter, por exemplo. Glória tem muito o que mostrar para as cantoras que 'tão surgindo. Em geral, elas aparecem atreladas a um modismo, seguem um padrão 'tabelecido. Cantar não é tudo isso que vocês 'tão imaginando. É um pouco mais!», dispara. Glória provou o que Luciana diz em 'túdio. Era até 'perado que ela demorasse um pouco para se entender com microfone e a técnica que envolve uma gravação. E sabe o que aconteceu? Ela tirou de letra. «Ela agiu com muita naturalidade e apesar do volume, ela tem um controle da emissão da voz fora de série», atesta Luciana. Glória ouve a patroa e agora também produtora contar isso com um sorrisão na boca e arremata: «Pois é ... Agora 'tá caindo a ficha. Vou realizar meu sonho aos 50 anos!». Pensa mais um pouco e arremessa: «Acabou, gente? Achei a entrevista um ' must ', mas posso terminar de fazer o almoço?». Gargalhada geral e lá foi ela para a cozinha. Mais quinze minutinhos e provamos os dotes da cozinheira, cujo tempero é saboroso como uma boa música. Aliás, quer saber qual foi o prato principal? Um peixe com nome de instrumento: Viola! Gravado entre maio e julho de 2007, com produção de Luciana Rabello, o álbum ' Santo e Orixá ` traz 14 faixas, entre elas ' Ogum menino ', ' O mais velho ` ('sas duas primeiras com trechos disponíveis em 'te texto), ' Bambueiro ', ' Revolta dos Malês ` e ' Encanteria '. Luciana diz: «Ainda 'tamos 'colhendo um lugar pra lançar o disco, que 'tá na fábrica. Todos os músicos (como violonistas João Lyra e Luís Flávio Alcofra, o bandolinista Pedro Amorim, os percussionistas Paulino Dias e Celsinho Silva e a flautista Naomi Kumamoto) gravaram por amor à Glória, imbuídos desse 'pírito de dar um presente a ela, mas acho que é ela quem 'tá nos dando um presente. Glória vem para preencher uma lacuna importante. É a voz do povo». Número de frases: 155 «a poesia não 'tá morrendo «-- Alberto Infante,» Diário Austral. «os desenhos são primários demais, não tanto quanto os poemas» -- Barbara Woolfer, Revista de Cinema. «as ilustrações dão charme e graça aos poemas «-- Oscar & Pablo,» Caderno Cultural. «em 'te segundo livro, o poeta mostra uma certa maturação em relação aos poemas do livro anterior, mas 'tá muito distante dos primeiros 'boços do seu novo livro, «Nome aos bois», principalmente nos poemas» Bob Dylan «e» Woody Allen»." -- Júlio Rennó, " Blog Marco Zero Paralelo. «salvo alguns poemas, parece um LP de um lado só, e pior, o que vejo é somente o lado B» -- Albert Chevalier, Le monde Decadence. «há versos que causam dor, como: «mas logo aprenderão que sonhos sós não se realizam», outros 'perança (não encontrei os versos que causam 'perança)." -- Clarice Flor, Suplemento Palavra. «merecia uma capa melhor «-- Marcel Ginsber-war,» News Days Poems. «que continue compondo poemas aos solitários, eles agradecem «-- Anônimo,» Fã Clube. «dom de adolescer é plágio» -- Poeta Anônimo, Clube de Literatura dos Corações Solitários do Sargento Carreiro. Estas foram algumas das opiniões que colhi para ilustrar 'ta pequena entrevista que faço com o poeta que acaba de lançar o seu segundo livro de poemas (sucessor de «das páginas amarelas ") intitulado» Livro de auto-atrapalhar, que mistura poemas e desenhos. Após a entrevista, deixarei em primeira mão o prefácio do livro, que 'tará no banco de cultura do Overmundo em algumas horas. Júlio Rennó: o senhor levou quatro anos para terminar 'te livro. Por que tanto tempo? Carlos Gomes: não é tanto tempo! Eu até tinha publicado uma versão anterior, aqui mesmo no overmundo, mas mudei muito em 'tes últimos anos, então resolvi refazer o livro, só os desenhos que não mudaram. JR: o que você achou dos comentários que saíram sobre o seu livro? CG: o que posso dizer? são farsas gentis ... mas pelo menos leram, acho que leram, se não leram, pelo menos os desenhos eles viram, ou melhor, viram as ilustrações (risos) ... JR: ( risos) quando você planeja lançar «Nome aos bois»? CG:(pausa prolongada) publiquei os poemas «Bob Dylan»,» Cartola, «Woody Allen», Salvador De ali e» Rilke " aqui no overmundo, não sei, não tem muito prazo, fiz 'tes poemas de uma vez só, para testar o método, ver se funcionava ... JR: ... 'tão muito bons ... CG: ... é ... 'tou gostando do resultado, mas vou deixar os poemas na gaveta por uns meses ... JR: para finalizar, quais os seus planos para 2008? CG: ficar em silêncio. Prefácio do Livro de auto-atrapalhar: aqui 'tá! um trovador um solitário a poesia 'tá morrendo o velho o jovem com um violão nas mãos quando o homem se torna poeta um vagabundo um solitário a música ligeira o monstro que habita a palavra chega! Indesejei criarinventar prosoparódias em midioticidades mas aqui 'tár provocativamente o auto-atrapalhar assinado por persona non grata. e os desenhos? decifrem a eumorragia que habita a língua. Júlio Rennó -- Blog Marco Zero Paralelo, fevereiro de 2008. Número de frases: 44 Você Está Prestes A Entrar em Uma Reportagem Com Material Impróprio Para Menores DE 18 Anos. Os Assuntos Tratados Aqui, Referentes aos Múltiplos Aspectos do Mundo Sadomasoquista, Também Podem Ferir A Suscetibilidade DOS Mais Desavisados. I Sexta à noite, boate Kubalada, Centro de Fortaleza. Ela senta de pernas cruzadas, impecável. Sorve coca-cola por um canudo. Não reconheço. à sua direita, Tiago ajoelha aos seus pés, lambe sua bota preta. Pende uma barriga branca, sobra do cós da saia, brilhosa, 10 centímetros, no máximo. Látex preto sobre a face, qual carrasco. Levanta-se. Baba do calor do látex, tem olhar calmo. Passa a mão em seu joelho.-- «Tá doendo?», ela pergunta.-- «Não, minha dona», e se alinha, em pé, ao lado. Um rastro arrastado de corrente tilintando. Carlos Henrique vem, passos curtos. Veste uma empregada doméstica alta, 'guia, erótica. Máscara branca mostrando outro rosto. Ela mesma desenhou o figurino. Cotovelos e tornozelos algemados. Uma coleira no pescoço, qual cachorro. Tiago, em pé, abre as pernas e segura com as duas mãos a teia de correntes pendurada numa das paredes da boate Kubalada. É uma das primeiras cenas da noite. Ele, sub-tiago {RF, é 'cravo de Amanda, Rainha Frágil. Prepara-se para uma cena de spanking. Ela bate com um cane em suas nádegas. Primeiro sobre a saia. O cane é uma vara de bambu ou rattan, que geralmente tem entre 30 e 60 centímetros de comprimento, conhecido, particularmente, por as marcas, que se revelam de fato na manhã seguinte. Sobe a saia, arria a sunga, e lapeia direto a pele. Coisa rápida. Rainha Frágil 'tá preocupada com a produção da festa, por isso fará algumas poucas cenas na noite. Ela puxa Henrique por a coleira. ideiafix {RF segue, algemado, como se seu corpo de 1,8 metros engatinhasse de pé. Ela o prende numa gaiola adequada ao tamanho, à vista do público da festa. Rainha Frágil tem controle sobre tudo. Conheceu, há mais de 10 anos, a sigla que mudou o velho entra-e-sai. BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), sigla que agrega uma infinidade de fetiches eróticos, rotulados tradicionalmente como transtornos sexuais. Sua face mais conhecida é o sadomasoquismo, com seus papéis de dominação e submissão. Mas suas possibilidades são incalculáveis e seus praticantes 'capam aos 'tereótipos. O BDSM confunde fantasia e realidade. Pode ser uma prática bastante delimitada no tempo e 'paço, restrita às cenas, como se chamam as relações sexuais sadomasoquistas, que são interpretadas e vividas ao mesmo tempo, sem uma clara diferenciação entre realidade e fantasia; ou mesmo um modelo de vida para seus adeptos, 'tando presente no cotidiano de alguns. Quase todos os praticantes de BDSM em Fortaleza se 'gueiram em seus dia-a-dias, 'condendo a prática por o preconceito da sociedade. «Como é que você acha que vão encarar, por exemplo, um médico assumidamente sádico?», pergunta Rainha Frágil, praticante e ativista do BDSM em Fortaleza. II Segunda-feira. Uma mulher de meia idade entra no sex shop, dirigi-se à prateleira de filmes pornôs e, em meio à monotonia de loiras peitudas arreganhadas, pega o DVD Puck -- o duende perverso. Um filme, sem sinopse, baseado na obra do clássico poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare. Constata que a perversão de Puck não é o que procura. -- «Você tem algum filme de sadomasoquismo?», pergunta à balconista. -- " Ah, não. Nunca tem coisa boa desse tema. Eu também tenho muito interesse em ele, responde Amanda, baixa, pele branca com cabelos pretos, também dona da loja. Em o primeiro pedido de produtos que fez para abrir a loja, há 10 anos, caprichou nos artigos sadomasoquistas. Arreios, chicotes, cintas, plugs. Estava conhecendo e tinha muita curiosidade nos instrumentos. Havia apenas um sex shop na cidade. Ela aproveitou que 'tava fechando sua pousada e mudou de ramo, abriu sua loja, mesmo tendo medo de entrar numa. «Eu era como qualquer senhora da minha idade, tinha medo, vergonha. Eu tinha vergonha do que ia encontrar lá dentro». Hoje, ela, 44 anos, faz uma leitura dos hábitos sexuais dos fortalezenses por trás de seu balcão. «As pessoas que entram aqui são as pessoas mais mamão com açúcar. Meninas de 20 e poucos anos, até 40, que vêm comprar coisas para o namorado. Esse é o primeiro cliente, o mais freqüente. Depois são casais que vêm juntos. Quem compra mais é mulher. Quando vêm três mulheres, não compram. De aí, voltam sozinhas. Em o casal, geralmente, é ela que 'colhe. Levam brinquedinho, já 'tão levando pênis também. Tem hora que junta aqui um monte de homem, eles 'tão tudo à vontade, mas se entrar uma mulher ... Eu já vi várias vezes 'sa cena, não foi uma vez, não. Ela entra, chega aqui: ' Sabe aquele pênis, ali '. Compra na boa e eles ficam tudo sem jeito, se não saírem», conta. As mercadorias de sadomasoquismo ficaram empacadas por muito tempo, até ela perceber também que, quase sempre, o máximo que sai é algum chicote da Tiazinha, nada de mais ousado -- agressivo, pode-se dizer. Antes, chegavam a ligar para ela perguntando se era necessário tirar a roupa pra entrar. «Isso já é um fetiche!», emenda Carlos Henrique, sobre a pergunta. Conversamos na sex shop, dois dias depois da festa, nos intervalos de ausência de clientes. Ela continua: «Eu lembro que uma coisa que aparecia muito aqui era menina branca dizendo: Ó, meu namorado quer que eu penetre ele ', achando que o namorado era gay. Hoje, não, vem o casal, compra um pênis, ou vem ela sozinha: ' Ai, ele me pediu, eu vou comprar, porque ele quer que eu penetre ele '. O homem não muda, talvez mude com a parceira, entre quatro paredes. Eles só compram produtos que retardem a ejaculação, que ajudem a ereção e 'se, que ajuda a aumentar o pênis. O homem ainda tá achando que o negócio é penetrar». Ela fala com propriedade. Em São Paulo, no final dos anos 1970, transou em profusão, carregando a bandeira da geração de quebra de tabus. «A gente transava de boa. Eu digo que transei com metade da lista telefônica de São Paulo. Eu digo isso, porque eu conheço a menina que transou com a outra metade. Mas eu fui ter o primeiro orgasmo com 32 anos, porque a gente não tinha educação sexual. A gente transava, mas não sabia o que tava fazendo. Hoje, as meninas sabem o que tão fazendo, eu percebo aqui. Eu só sabia abrir as pernas e eles também só sabiam fazer isso. Nunca gostei muito de penetração, que é uma coisa complicada pra dizer a um companheiro. Eu fazia uma viagem de como eu 'tivesse sendo submetia, daí eu tirava prazer, mas, se fosse a penetração por a penetração, não ia me dar isso. Muitas coisas que eu imponho a ele (referindo-se à Henrique, próximo), na verdade, são coisas que talvez eu gostaria que fizessem com mim, mas que eu não tenho coragem. Em a hora, minha fantasia sexual era de que eu tava me submetendo ao homem. Eu imaginava que era isso. Alguns, de vez em quando, topavam algumas brincadeirinhas que eu inventava, mas não tinha nome pra isso, eu achava 'quisito. O que eu não sabia é que exista o BDSM saudável». III «Explore o mundo da dominação e submissão, prazer e dor na masmorra urbana, onde as correntes libertam e as máscaras expõem», lê-se no topo do convite para a festa Profania, acontecida no dia 7 de março, em Fortaleza. A proposta: «organizada por um grupo de praticantes fetichistas de Fortaleza, a Profania é uma festa onde fetiches são expostos sem preconceitos, num ambiente de alegria, fantasia e consensualidade, propício para performances eróticas, em que os participantes trocam experiências entre si, realizam e interagem suas fantasias uns com os outros, e provocam olhares alheios». SadoMazela é o host da noite, algo como um recepcionista performático. É responsável por receber as pessoas, descontrair e regular o dress-code: quem vir vestindo algum fetiche, recebe um vale verde, indicando ingresso mais barato; todos de preto, vale amarelo; e comuns, em cores, jeans e afins, vermelho. Muitos chegam tensos, encurtam o quanto podem o diálogo com o host, que tenta, extravagante, erotizar a noite com piadas como a do seu querido Benjamin, um pênis preto de borracha, base de seu chicote. «Vou dizer, o cara que tiraram 'sa fôrma aí é um animal», diz sincero. «Quando eu vi isso aqui na loja, eu pensei: ' Não! Vou ter que usar isso aqui como apetrecho performático '. Minha mãe ficou chocada.-- ' Olha, aí mãe '.-- ' Sai com as tuas imundices daqui, seu tarado, ateu. ' Mas ela dá mó valo. Brinca com a minha cara, mas acha legal minhas manifestações artísticas desviantes», fala como um personagem fanfarrão cínico. A Kubalada é uma boate dedicada normalmente ao público de swing, casais que buscam trocar os parceiros. Em aquela sexta, muitos chegaram sem entender claramente o porquê de um homem naqueles trajes ali. Uns dois 'trangeiros chegaram apressados. Levaram a ficha vermelha. «Talvez 'sa festa sirva até pra popularizar, porque tem muita gente enrustida que parece que tem que dá uma de macaco de imitação pra se motivar. ' Não, eu vi fulano fazer, então posso '. Aí é bom às vezes o negócio acontecer, cara, que muita gente que tá contida vem à tona mesmo, gosta, assume a prática», fala. Lá dentro, Rainha Frágil anda sobre saltos finos, próprios para apoiar as pontas nas costas de sub-alex {RF, nick de Tiago no universo SM, usados na Internet e, presencialmente, como mais uma composição do próprio personagem de si. Os colchetes representam a submissão à Rainha Frágil. Ele se ajoelha para lamber sua bota, enquanto sente, junto a tudo mais, as lembranças do acidente de moto. O joelho direito de Tiago é trincado de cicatrizes, por isso a preocupação da Dona com a saúde de seu 'cravo. Ele não pode se demorar ajoelhado por as seqüelas do acidente. Mas adora lamber botas e pés de ela, mesmo que eles tenham marcas de graves queimaduras de um acidente de carro que Amanda sofreu, quase morre. Tiago veio a Fortaleza somente para a festa, produzida por sua Dona. A Profania é uma das primeiras do gênero na cidade. Os dois possuem uma relação de alguns meses, que começou, como muitas, numa sala de bate-papo na Internet. Ele impressionou a Rainha Frágil por a sua abordagem. Normalmente os submissos chegam para teclar com ela afoitos: «Posso beijar teu pé!?». Algo parelho a um homem chegar, cara de pau: «Vamos transar!». Eles conversaram sobre política, música, novela, cotidiano. Aqui e ali, uma deixa. «É uma paquera igualzinha até o momento de fazer o sexo, de ir para a cama», compara Rainha. Tiago não entendia porque brincadeiras com algum tipo de punição o atraiam tanto. «Porém aos 14 fui notando isso com mais intensidade compreendendo que gostava, mas sem entender ainda o porquê ... brincava com amigos imitando 'crava Isaura ... parece cômico, mas foi meu início, me sentia bem em 'tar no ' tronco ' apanhando e só depois de muito tempo com acesso a internet entendi o que realmente sentia conhecendo a filosofia BDSM», 'creveu por e-mail dias depois da festa. Demorou 31 anos para descobrir. Hoje, com 36, diz: «Eu sempre fui muito bem resolvido como submisso», fala com sotaque potiguar. Mora em Natal, onde trabalha como odontólogo, e vive 24 horas por dia a relação sadomasoquista com " Rainha Frágil. Minha Dona tem formas de se manter presente mesmo a distância, posso usar uma calcinha durante meu trabalho, posso usar uma gargantilha no tornozelo simplesmente ... executo tarefas que ela tem como verificar mesmo a distância, exemplo ir a um determinado ponto turístico e fazer uma pose um tanto inusitada ... e fotografar, posso ser monitorado via msg de texto bem como por telefone e internet ela dita os horários que posso entrar e com quem posso me relacionar na net existem mil maneiras». IV ideiafix {RF 'tá preso, feminizado. Tempos atrás, ele começou a mandar alguns contos sobre feminização. Carlos Henrique sempre gostou. Amanda, não muito. Mas ela leu um que lhe excitou, e fez com que a prática de forçar o 'cravo a se vestir como mulher fizesse ela morder leve os dentes quando me contou isso. Pra ele feminização é a fantasia favorita. «Não me pergunte o porquê. Também não consigo encontrar uma explicação», 'creveu por e-mail. Outra das suas fantasias mais antigas é o cárcere. «Quando criança, adorava ser pego quando brincava de pega-pega. Ele conheceu Rainha frágil há uns 10 anos, na internet. «Eu era muito galinha naquele tempo, pegava uma dona, aí ela dizia: ' Agora, você é só meu! '. Eu respondia: ' Sim, senhora '. Depois ela saia, eu saia também, trocava o nick e voltava. ' Ajoelhe-se enquanto você digita! '. ' Sim, senhora ', e eu sentado. ' Tire a roupa! '. Esperava um pouquinho ... ' Sim, senhora '», confessa o fingimento virtual hoje, com 28 anos. Conversaram, e, quando ele descobriu que ela também morava em Fortaleza, ficou ainda mais interessado. Mas, ela sumiu. «Eu pensava direto em ela. E não conseguia entender por quê ela não me respondia. Sei lá, comecei a achar que tinha 'crito algo que não devia -- nos chats há muitas Dominadores que ditam o que o 'cravo deve ou não deve dizer -- ou então que 'tava me testando. Escrevi vários e vários e-mails por um tempo e então desisti.», relembra. Amanda acordou atordoada, dois dias depois. Demorou para entender. Seu filho lhe contou que tinha sofrido um acidente, o carro pegou fogo e ela queimou 23 % do corpo. Passou muito tempo internada, sem imaginar as mensagens enviadas por Tiago, até seu filho lhe dizer: «Mãe, chegou lá um e-mail que tem um cara deitado, amarrado». Ele enviava fotos que encontrava por a Internet e subscrevia: «Se eu for seu 'cravo você pode fazer isso com mim. «Desde criança, seis, sete anos, eu já tinha fantasias com SM, eu imaginava uma menina me usando como cadeira. Uma cena que eu vivo lembrando que era de um desenho que se passava em Beverly Hills, futurista, e tinha um motorista que era apaixonado por uma menina, e a menina era aristocrata, altamente patricinha, arrogante, e ela tinha planos malévolos para acabar com a mocinha. O motorista ajudava, e sempre que algum plano dava errado, ela descontava a raiva de ela em ele. Teve uma vez, uma cena que eu achei linda, até hoje fica na cabeça. É uma cena que ela abre a porta do carro e tem uma poça d' água e ele se joga e ela passa por cima de ele. Eu achava lindo. Eu dormia pensando, transformava as cenas», fala, lábios carnudos, pés quase imóveis e dedos longos inquietos. Henrique percebia, mas não entendia, nem se angustiava, até assistir, entre os 13 e os 14 anos, um reportagem na TV sobre sadomasoquismo. «Comecei a ler dicionário, enciclopédia, e geralmente era uma coisa negativa, ' distúrbio desviante ' não sei o que. Eu pegava os pontos positivos». A os 18 anos, com a Internet, topou com o BDSM. Amanda se recuperou, voltou para a casa e eles voltaram a conversar, mas ela tratando ele como um moleque, sempre 'perando a hora em que ele ia desistir. Namoram há 10 anos. V Um dia depois da festa, Amanda 'tava tensa, praticamente sem dormir, obrigada a trabalhar logo cedo no sex shop. Calhou de Luciano, jornalista paulista, 42 anos, 'tar livre no dia. edgeh {RF, seu nick, é 'cravo da Rainha Frágil. Além disso possui uma 'crava, é um switcher, ou seja, ora masoquista, ora sádico. É como se Luciano vivesse três papéis. Três, porque ele também possui um casamento que poderia se chamar de «baunilha». «Minha mulher sabe que gosto e que pratico. E optou por ignorar o assunto -- basta que eu não deixe mostras de nada, e tudo bem. Ou seja, é uma liberdade consentida. E como ela não suporta nem a idéia de sexo não-convencional, ficamos assim: faço as minhas coisas e evito que ela fique sabendo, embora ela tenha conhecimento disso, explica por e-mail. Amanda aproveitou a disponibilidade. «Eu tava com raiva, porque eu achei um monte de defeito na festa, não dormi, tive que trabalhar. Mandei ele fazer tudo no extremo. Ele gosta de retenção, ele é obrigado a reter a urina, ele gosta de ficar com a bexiga cheia, cheia, até o limite, e só alivia quando eu permito. E eu tava com 'sa tensão toda, então ' eu quero que você vá ao extremo, vai beber toda água que você puder '. Ele é todo da consensualidade. E nas regras do jogo eu não posso ir pra uma sessão com raiva, porque eu posso tá misturando sentimentos que são perigosos. Eu pensei que ele ia vir com um sermão. Aí passou um tempo e chegou a mensagem de celular: ' sim, senhora '.», contou. edgeh deu notícias de suas tarefas também por mensagens, depois de Rainha Frágil perguntar como 'tava: «Me agüentando», «Quase morto», 'creveu em mensagens de celular. Ele teve que reter por muito tempo a bexiga, além de ter de dormir com um plug de metal no ânus. «Fiz o que disse que faria para deixá-la satisfeita. E ela sabe que eu fiz mesmo -- até porque meus próprios níveis de masoquismo não permitiriam que deixasse de fazer ...». Relação de Rainha Frágil com edgeh tem contornos mais sádicos, de imposição de sofrimento físico, diferente do perfil de submissão, mais psicológico, com ideiafix {RF ou da com sub-tiago, mais de adoração e reverência de um 'cravo a uma Rainha. Os três são propriedades de ela, não podem ter relações com outras dominadoras ou dominadores sem a permissão da Dona. «Eu não amo o amor de ele. O que eu amo não é ele, é o amor que ele pode me dar», diz, referindo-se à Henrique, ao seu lado. «Eu acho que ela tá certa! ( risos) Afinal de conta eu sou ' feito ' de várias coisas. O amor que sinto por ela é uma de elas e é isso que a tem fisgado por todos 'ses anos», concorda Henrique. Perguntei a Alex se ele conseguia explicar 'se prazer. «É difícil colocar em palavras o que você sente no corpo, mas é uma sensação que liberta sua alma, você fica muito mais leve, você se sente bem, eu me sinto muito feliz. Se eu pudesse definir eu diria perfeito». Perfeito?" Perfeito», diz novamente, sem dúvida. «Existe a fantasia porque a sociedade não 'tá preparada, mas eu sei o que eu quero, sei o que eu sinto e me realizo muito». * Essa reportagem foi publicada originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza. Número de frases: 250 Todos os nomes utilizados no texto são fictícios. Desde o momento em que comecei a pensar nas gravações do curta-metragem, «Cachorro-Quente removeme», baseado no conto homônimo, de minha própria autoria, e que foi selecionado para participar do projeto Revelando os Brasis -- Ano III, havia algo que muito me preocupava: o número de figurantes que iriam comparecer no local das filmagens, ou seja, num ginásio de futebol de salão. Precisaríamos de um grande número de eles para compor a arquibancada e fazerem o papel de torcedores. Começamos a nossa «caça aos figurantes» por as 'colas, convidando alunos e quem mais 'tivesse interessado em participar. Depois partimos para grupos de teatro, familiares etc.. Detalhe importante: todos teriam que ficar à nossa disposição durante um sábado e domingo inteiros, hora empolgados, hora tristes, afinal seriam eles os torcedores de um time que começa o jogo a todo vapor e, depois vai perdendo todo o ímpeto do começo da partida. E teriam de fazer isso sem ganhar um tostão. E para dar mais crédito a minha preocupação, quando voltávamos nas 'colas para recolher as dezenas de fichas que lá havíamos deixado, nas mãos de «empolgados» alunos, quase sempre tínhamos a ingrata surpresa de receber somente meia dúzia de elas. O pânico (o meu pânico) ia crescendo e tomando conta de mim, a tal ponto de pela primeira vez na vida perder o sono durante boa parte de uma madrugada de 'sas. Com temor ou não, com insônia ou não, o tempo passou (e como passou depressa!), e o dia das gravações chegou. Mesmo tendo em mãos o número pré-'tipulado de «Termos de Autorização para Veiculação de Imagem e Voz» (burocracia necessária), havia no ar a possibilidade de contarmos com um número mínimo de figurantes. Passava por nossas cabeças a experiência com os alunos das 'colas por nós visitadas: primeiro a nossa empolgação por ver o interesse da «rapaziada» em querer participar; depois a decepção ao constatar que o interesse continuava somente com uns poucos, muito poucos. Havia ainda um outro complicador: o dia amanheceu chuvoso. Sim, o ginásio era coberto. Mas -- pensava eu -- quem é que vai sair do conforto de seu lar num sábado chuvoso? Ainda bem que as boas surpresas fazem parte de nossas vidas. Antes mesmo do horário combinado para que as pessoas chegassem ao local das gravações, já havia um amontoado de figurantes na entrada do ginásio. Em pouco tempo já tínhamos uma longa fila formada por crianças, adolescentes, adultos, senhores e senhoras. Meu temor foi se dissipando e dando lugar a uma euforia que se transformava, aos poucos, na certeza de que tudo daria certo. E deu mesmo. As pessoas, todas elas, demonstraram uma grande, uma imensa boa vontade em colaborar. Além disso, era notória a alegria por parte daqueles que ali 'tavam. Filmamos por dois dias seguidos e ao final ficamos com o prazeroso gostinho de «quero mais». Todos nós 'távamos felizes. Todos, sem exceção. O curta «Cachorro-Quente removeme» 'tá gravado. Agora 'tamos na expectativa para ver o resultado final, a junção das imagens tão belas, coloridas e alegres. Aguardamos a edição na expectativa de termos nas mãos um trabalho áudio-visual de qualidade. Mas independente do «Bom» do «Regular» ou do «Ruim», acredito que um dos principais objetivos do projeto Revelando os Brasis foi alcançado: o de termos conseguido mobilizar centenas de pessoas dos mais diversos segmentos da nossa comunidade. E isso foi, para todos nós, uma grata surpresa. Número de frases: 37 Sempre ouvi dizer que quando fosse à Liberdade, tradicional bairro oriental na zona central de São Paulo, teria a sensação de 'tar no Japão. É possível imaginar o tamanho da minha decepção, portanto, ao sair da 'tação de metrô na principal praça do bairro e, ao invés de me transportar para outro país, deparar-me logo com uma baiana de acarajé. Nascida em Salvador, a última coisa que 'perava na Liberdade era me sentir em casa. O formigueiro de gente em torno da feira que ocupa a região aos domingos e o cheiro do dendê onde 'perava sentir o do shoyu não chegaram a me causar uma sensação de acolhimento, mas de 'tranheza. Em poucos minutos, a idealização que tinha de que o famoso bairro teria ruas limpas e organizadas a partir de um padrão equilibrado que caracteriza a arquitetura japonesa também foi por terra. Sim, as lanternas «suzuranto» decoravam a rua Galvão Bueno e os letreiros em ideogramas ditavam o clima oriental, mas o conglomerado de turistas com sacolas de produtos de beleza e tecidos bordados vendidos na feira insistia em sobrepujar qualquer naturalidade cultural. Não gostei e, por meses, não voltei, a não ser com amigos turistas que insistiam em conhecer o bairro apesar das minhas (não) recomendações. Após três anos ignorando o que talvez todo mundo visse ali, menos eu, precisei por força da obrigação profissional, não de vontade própria, mergulhar na história do bairro. Como jornalista, entender como se deu a ocupação oriental em São Paulo foi apenas o meu primeiro dever de casa em 'te ano, quando se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil. Foi quando assisti ao documentário «Liberdade», dos jovens cineastas Maurício Osaki e Miriam Ou, sobre a história do bairro, contada por quem vivenciou sua transformação em reduto oriental. O filme foi o primeiro produzido com patrocínio do projeto «História dos Bairros», das secretarias de Cultura e Educação de São Paulo e é exibido desde 2007, quando foi lançado, em Centros de Educação Unificada (Ceus) da capital paulista. Os 26 minutos do documentário foram suficientes para derrubar mais uma vez a imagem que tinha erroneamente reconstruído do bairro. Em a verdade, percebi que a Liba, como é carinhosamente chamada por seus fãs, não é um bairro oriental «fake» e sim retrato de como a cultura brasileira é capaz agregar tradições e «abrasileirá-las». Em «Liberdade», fica claro como a mistura de japoneses, chineses e coreanos resultou num bairro com o 'pírito receptivo do brasileiro, numa mistura de culturas que não possui paralelo em nenhuma outra cidade, nem mesmo na Chinatown novaiorquina. Cinema acolhedor Em 1908 chegou ao porto de Santos o navio Kasato-Maru, trazendo os primeiros imigrantes japoneses, que vinham para o país para trabalhar na lavoura do café. Os que não se acostumavam à rotina de trabalho quase 'cravo da roça deixavam o campo e iam ganhar a vida na capital do 'tado. Até o início da Segunda Guerra, a maioria já havia fixado moradia na região da Liberdade. No entanto, durante o conflito, quando Japão e Brasil faziam parte de grupos de aliados opostos, o bairro foi 'vaziado por os japoneses, que eram perseguidos e proibidos de falarem sua língua mãe. Foi interessante para mim perceber que, assim como o cinema me vendeu o bairro, foi também a sétima arte que reagregou os japoneses na Liberdade após a guerra. Pouco tempo após o fim do conflito, eles começaram a voltar ao bairro para ver filmes de produção japonesa em sua língua original no extinto Cine Niterói, na rua Galvão Bueno. Fundador do cinema, Sussumu Tanaka é um dos entrevistados de Maurício e Miriam em «Liberdade». Ele nasceu em Osaka e veio para o Brasil com a família aos 10 anos, em 1923, para trabalhar na roça. Anos de trabalho depois, Sussumu decidiu comprar sua própria fazenda, mas foi dissuadido por um irmão visionário, que o convenceu a construir um cinema. Em 1953, o Cine Niterói foi inaugurado com a exibição de «Os Amores de Genji, de Kozaburo Yoshimura». O sucesso do empreendimento foi tanto que cerca de 20 mil pessoas se sentavam numa das 1500 poltronas do cinema por semana. Alguns dos atuais comerciantes da Liberdade já admitiram que apenas se instalaram na região para aproveitar a movimentação de gente provocada por o Cine Niterói. Outros empresários também encararam a boa onda e criaram outros cinemas, como o Tokyo e o Nippon. Todos deixaram de existir com o tempo, uns viraram igreja e o Niterói foi desapropriado em 68 para a construção da avenida Radial Leste. A reunificação dos japoneses, no entanto, já 'tava feita e em 69 foi proposta a transformação 'tética da região num bairro tipicamente japonês. A partir de então, foram instaladas as lanternas «suzuranto», placas e letreiros bilíngües e um portal vermelho -- o Torii -- na rua Galvão Bueno. Também nos anos 70, outros imigrantes asiáticos se fixaram no bairro, onde hoje é possível ver, por exemplo, templos budistas japonês e chinês a poucos metros de distância. De a forca à liberdade Até o século 19 a região onde hoje fica o largo da Liberdade era conhecida como Campo da Forca. O nome era uma referência direta à pena aplicada na época a infratores e 'cravos fugitivos. Apenas no final do século, a Câmara Municipal alterou o nome do local para o que conhecemos hoje. Diz a lenda que em 1821 Francisco José de Chagaso, líder de uma revolta que pregava a igualdade de tratamento entre soldados brasileiros e portugueses, foi condenado à forca. Em o momento da execução, porém, a corda teria arrebentado duas vezes. Em a primeira, o povo presente no largo teria clamado por sua vida com gritos de «liberdade!». Em a segunda, os brados teriam sido de «milagre!». Em a terceira, a corda teria «funcionado». Mas o caráter milagreiro resistiu à morte de Chaguinhas, como era conhecido. A devoção do povo foi tanta que dizem que foi por causa de ele que o lugar passou a ser chamado de Liberdade. Número de frases: 43 Em sua homenagem também foi construída a Capela Santa Cruz das Almas dos Enforcados, na Praça da Liberdade, e, ainda hoje, muitos vistam a Capela dos Aflitos no mesmo bairro, localizada no cemitério onde ele foi enterrado, próximo à rua dos Estudantes. Tem um lugar em Minas inovando em modelos para a indústria cultural: Uberlândia. A terra natal de Alexandre Pires e mais conhecida nacionalmente por as ótimas bandas de pagode, tem dado demonstrações de que os habitantes do triângulo mineiro 'tão prontos para inventar moda com relação a novos negócios na internet Acho que dá para afirmar que o pai de todos seja o Maurício Ricardo, criador do conhecidíssimo site " Charges. com. br. Maurício mostrou que 'tar localizado no Rio de Janeiro ou em São Paulo para produzir cultura altamente bacana e popular não passa de uma falsa necessidade (para usar as palavras do professor Mangabeira Unger). A partir de Uberlândia mesmo, Maurício coordena através do site uma produção humorística intensa, que gera uma série de negócios bacanas, fornecendo conteúdo e participando de diversos projetos culturais em todo o Brasil. O bacana é ver que foi a tecnologia que serviu não só de matéria-prima (o site usa o computador para produzir praticamente todo seu conteúdo) como também de canal de divulgação. O sucesso do Charges. com. br é produto direto da internet chegando aqui no interior do Brasil. Depois do Maurício Ricardo, houve várias outras iniciativas. Uma de elas foi destacada aqui no Overmundo, que foi o primeiro projeto de financiar o lançamento de um DVD totalmente online. Não sei se a iniciativa foi bem sucedida ou não ('pero que o Nanji possa contar), mas o modelo de lançamento consistiu num legítimo representante dos chamados «modelos de negócio abertos» ou «open business models», conforme a Oona Castro já 'creveu aqui no Overmundo. Depois de tudo isso, eis que me deparo com mais uma iniciativa inovadora genuinamente uberlandense: o lançamento do CD da banda «Os Seminovos». Formada por conhecidos e tradicionais músicos da região, a banda aposta alto na divulgação por a internet como forma de fazer conhecer o seu trabalho. Tendo como um dos seus integrantes o próprio Maurício Ricardo (alô Maurício, quando é que você vai aparecer aqui no Overmundo?), os «Seminovos» atacam forte por o humor para conquistar um público nacional. A 'tratégia é parecida com a mesma que levou ao sucesso da Mombojó de Recife: disponibilizar o disco da banda na íntegra na internet. Aliás, o disco é peculiarmente chamado de «Não Tem Preço» e pode ser baixado em sua totalidade gratuitamente por a rede. Mas não é só. Como bons velhacos da internet, a banda sabe que canais como o YouTube, o Orkut e outras formas de marketing viral 'tão do lado de eles. O jornal «Correio de Uberlândia» noticiou, por exemplo, que uma das comunidades do Orkut sobre a banda já tem 11 mil integrantes. Não fui lá para conferir, mas se for verdade (e deve ser, afinal o «Correio» é muito respeitado!), é gente pra caramba, 'pecialmente para uma banda que 'tá no início da carreira. Outro ponto que chama a atenção nos «Seminovos» são as músicas com forte conteúdo humorístico. Um exemplo é a faixa «Eu sou Emo», uma verdadeira ode às agruras de ser» emo " (membro da bacana tribo de meninos e meninas sensíveis, que adoram roque pesado e emocional e capricham no visual para refletir sua sensibilidade) no mundo de hoje, com trechos iluminados como: «Não é fácil manter a franja lisinha Tenho que fazer 'cova e chapinha Mais difícil ainda é ver o mundo assim do meu jeito: O cabelo tampa o olho 'querdo E eu só posso usar o direito! Impossível ... Ser mais sensível do que eu!" O outro exemplo é a música «De o Tipo I Love You (Drive My Car)», chupinhada diretamente dos Beatles, e tropicalizada (ou eu diria, triangulo-mineirizada) por o Maurício Ricardo. A letra diz o seguinte: «Estava em Minas, você em Amsterdã Você ficou pelada na webcam Gravei você dançando sem sutiã Mas não postei, eu sou seu fã! Refrão: Baby eu juro pra você O vídeo vazou porque Deu vírus no meu PC De o tipo I love you " Quem disser que os Seminovos se propõem a ocupar o lugar de um «Mamonas Assassinas» revivido na época da Internet não vai 'tar muito errado não. Outro fato interessante é que a banda possui uma visão clara do que 'tá fazendo, em sintonia com o 'pírito de «faça você mesmo» que 'tá tomando conta deste século. Quem procurar no site da banda vai encontrar um bem-humorado «manifesto» que diz: 1. «Os Seminovos» acreditam que 'tamos vivendo um momento único na história da música. 2. A velha ordem 'tá ruindo. Bem vindo o novo! 3. que a difusão por amizade, viral, através da Internet, faça com que cada música sincera encontre seu público. 4. Que a facilidade na troca de informações, a queda no custo das gravações e a oportunidade de distribuição global sem necessidade de um produto físico ajude a acabar com os vícios que corromperam a indústria da música. 5. Por o fim do jabá nas rádios. 6. Total apoio aos programadores de rádio antenados e corajosos, que não se deixam influenciar por o " Top 10 de meia dúzia de redes de emissoras via satélite. 7. Por o fim da cegueira de alguns setores da imprensa musical, que ainda se pautam confortavelmente por os press-releases e mimos das gravadoras. 8. Por mais transparência e ética no mercado de discos. 9. Por o combate à pirataria, sim, mas com preços realistas de CDs, DVDs e downloads. 10. Por o fim da cerveja quente nos shows de rock. 11. Por o fim do machismo: por que só o Bono? Queremos que Britney Spears e Avril Lavigne também beijem seus fãs na boca! Enfim, resta apenas desejar longa-vida e sucesso aos Seminovos e dizer que o Overmundo e o Overmixter aguardam ansiosos para receber o trabalho de eles. * * Texto 'crito diretamente de Uberlândia, Triângulo Mineiro, uai! Número de frases: 78 Ela nasceu na Alemanha, em 1921, mas prefere ser chamada de inglesa -- já que é filha de ingleses. Tratá-la como alemã soa como um insulto, ao menos foi o que ela revelou durante uma entrevista com jornalistas em Palmas. «Eu não sou alemã. Filhos de ingleses são ingleses sempre, independentemente de onde nascem», disparou com suavidade. Morou em Paris, onde 'tudou artes dramáticas e clássicas. Naturalizou-se brasileira, na década de 30, quando chegou ao Brasil, e tornou-se carioca de coração. Agora, 'sa cidadã do mundo é também cidadã tocantinense, desde o dia 10 de novembro. Nada de 'tranho se eu não 'tivesse falando de Lily Marinho, 85 anos, viúva de Roberto Marinho -- fundador das Organizações Globo. Sobre tornar-se tocantinense, num título que veio com direito a diploma e tudo -- uma 'pécie de nova certidão -- dona Lily respondeu com bom humor a uma Assembléia Legislativa lotada de parlamentares tocantinenses, jornalistas, autoridades e curiosos. «Agora em todas as ocasiões em que eu for, tenho que 'tar atenta para me comportar como uma verdadeira cidadã tocantinense», disse ela num discurso com sotaque francês. A quem se pergunta: por que Lily Marinho seria cidadã tocantinense? A honraria não veio por acaso, Lily 'teve no Tocantins por três vezes e mantém uma amizade com o governador Marcelo Miranda e a primeira-dama, Dulce. Em a segunda vez que 'teve por 'sas 'caldantes terras, Lily decidiu que daqui partiria a exposição «Camille Claudel, a sombra de Rodin», para o restante do País. A mostra passou primeiro por Palmas -- onde recebeu mais de 25 mil visitantes, depois Manaus (AM), Belém (PA) e Vitória (ES), e agora chega a Belo Horizonte (MG) antes de ir para o Sul. Agora, além de se tornar tocantinense de fato, Lily Marinho começa por Palmas a itinerância da exposição «A arte Brasileira na coleção de Lily Marinho -- séculos XIX e XX», aberta ao público até o dia 10 de janeiro, no hall do Palácio Araguaia. Por que o Tocantins foi 'colhido? Com a palavra, Lily: «Primeiro, eu gostei muito daqui, do povo, da gentileza em me receber. E depois, é uma coisa que vem dos céus, acredito muito em 'sas coisas e eu peguei um amor por o Tocantins». Segundo ela, há uma ligação cósmica entre ela e o Tocantins. «Esse amor que tenho por aqui é uma coisa incomum, acredito que em outra vida eu tenha nascido aqui». Simpática e com fôlego invejável -- sim, porque a agenda de ela no Tocantins teve início às 15 horas do dia 10 e terminou às 2h da madrugada do dia 11, quando ela embarcou de volta ao Rio -- Lily se mostrou atenciosa a cada pergunta ou parada para foto. Lenda ou não, duas questões sobre a vida da socialite ficaram na cabeça de quem acompanhou sua vinda. Primeiro, boatos deram conta de que dona Lily não dorme fora de casa -- quando 'tá no Brasil. Segundo, ela só acorda depois das 17h, quando não tem compromissos. Frenesi Aqui Lily tirou fotos, fez discursos, distribuiu sorrisos. Estava mais para atriz, 'trela global. O povo perguntava no saguão da Assembléia: «quem é 'sa?». «É dona Lily», diziam outros. E causou uma confusão na abertura da mostra. Também pudera, imprensa se imprensando e imprensando tudo -- quadros, público e autoridades -- curiosos e um 'paço pequeno entre as obras para circular. Era um acontecimento. Todos queriam um registro ao lado da musa que conquistou Roberto Marinho, que se tornou embaixadora da «Boa Vontade», da Unesco, e depois uma mecenas brasileira. Máquinas amadoras rivalizando 'paço com fotógrafos da Caras, do Jornal do Tocantins (Te o), Tribuna do Norte (RN), A Crítica (AM), TV Amazon Sat (AM), Estado do Maranhão (MA), Diário do Grande Abc (SP), Folha de Pernambuco (PE), Rede Gazeta (AL) e Jornal O dia (PI), entre outros. Em um momento, Romaric Büel, curador da mostra, gritou: «Cuidado com os quadros», preocupado com a movimentação frenética dos jornalistas. Lily parecia não se incomodar. Antes de ir para o jantar 'pecialmente oferecido a ela na casa do governador, Lily parou no saguão do Palácio para ouvir uma banda que animava o coquetel dos convidados. Ping-pong Tocantins: " Eu gosto do povo daqui e, como eu disse, vem dos céus. É uma coisa que não tem explicação. Não me incomodo com o calor (Palmas tem média de 37 e 40 graus), o que me incomoda é o frio». «Cidadã Tocantinense: «Achei uma grande honra ser cidadã tocantinense. No meio de vocês, que são tão simpáticos, agradáveis. Em a próxima vez venho com o resto dos quadros». Sobre a exposição: «Comecei a comprar as peças em 39 (1939), quando cheguei ao Brasil. Mas isso não tem nada a ver com a coleção do Roberto (Marinho), que é de mais de 800 quadros, mas a minha também é valiosa». Motivação: «Espero sucesso de 'sa mostra com as crianças. Eu penso muito nas crianças e parece que faltava cultura. Eu adoro as crianças e penso muito em elas. Jalapão: «Gostaria de ir ao Jalapão, mas quando venho volto de noite e teria que ficar um dia inteiro para ir lá». Opção por ser mãe: «Estudei piano, canto, 'tudei isso e aquilo, ela (mãe) queria que 'tudasse harpa (risos), mas eu não topei, de maneira que ela queria que eu fosse artista. Mas eu preferi a vida de casa com filhos. Mas não há arrependimento em 'sa 'colha, pelo contrário. Deus me livre! Primeiro eu não acharia mais nada no teatro com a minha idade (risos)». Lula: «Lula, eu tenho muita admiração por ele, primeiro. Acho que um homem que vem de onde ele vem e chega a ser Presidente da República é uma coisa fantástica. Eu acho que ele vai fazer um governo muito melhor». Número de frases: 68 Um tema que merece atenção 'pecial em 'te início de século é o da cultura. Houve, notadamente nos últimos 50 anos, uma exacerbação de investimentos no plano da cultura, com a midiatização eletrônica de informações e entretenimento. Foi em 'se período que surgiu um elemento fundamental para a efetivação de 'sa «virada» que transformou o sentido da cultura: a contracultura, ou o underground. É sobre 'se elemento que vamos falar. A cultura da modernidade, eminentemente letrada, não podia dar sustentação a um sistema baseado no consumo. A razão tem uma natureza instrumental que não pode facilmente conter elementos subjetivos hegemonicamente postos em vantagem com relação aos determinantes objetivos. Racionalmente, alguém compra algo com um objetivo utilitário e não com interesses de localização subjetiva no imaginário sociocultural. Essa lógica é inadequada para uma sociedade fundada no consumo e precisava sofrer algumas alterações. O surgimento do underground foi bastante adequado para operacionalizar 'sas alterações. Se antes uma compra era realizada por motivos racionais, após 'sa «virada cultural» passou a ser determinada por vetores subjetivos e a racionalidade entra em segundo plano como «racionalização», isto é, como uma» desculpa " que o consumidor dá a si próprio ou a outros para a compra. Em 'sa compra, são agregados valores subjetivos que posicionam o indivíduo perante si e a sociedade, ofertam um lugar identificatório. O underground é uma manifestação cultural que se formulou 'timulada por demandas de adolescentes, 'sencialmente como oferta a 'sa demanda. A adolescência não existia antes do final do século XIX e 'se status de adolescente foi criado nos tempos da 'tratégia higienista como um momento crítico da vida do ser humano. Sem tomar em conta o contexto histórico do surgimento de 'sa designação, o saber ocidental marcou a adolescência como um 'tágio «natural» do desenvolvimento humano, numa atitude eminentemente marcada por a mentalidade positivista. Foram os sujeitos criados por 'se discurso que vieram a, aproximadamente cinqüenta anos após sua invenção, fomentar o surgimento do underground, também genericamente conhecido como contracultura. Inúmeros autores que se dedicam a 'crever sobre o underground, como Theodore Roszak -- numa publicação densa na qual vê com muita 'perança a oposição juvenil à sociedade tecnocrática -- ou como Toninho Buda -- um histórico adepto da Sociedade Alternativa que publica textos sobre o tema em revistas e na internet -- definem o surgimento do underground como uma «revolução», uma mudança extraordinária operada na cultura ocidental. Segundo 'ses autores, os jovens teriam posto a sociedade em crise quando questionaram os valores que conduziam grupos sociais e indivíduos. Esse questionamento viria, fundamentalmente, do interesse por tudo aquilo que permaneceu à margem e no 'curo durante os séculos de constituição da sociedade moderna. Misticismo, naturismo, sexualidade, agressividade, inebriamento, loucura, tudo isso que os modernos desprezavam, e mesmo odiavam, foi posto à tona por os adolescentes que, desse modo, intentavam formular uma crítica radical e operar um rompimento com a modernidade. Inevitavelmente, ao menos num certo nível, 'se movimento levou efetivamente a uma situação crítica que desorientou boa parte das pessoas. Em outro nível, como já sugerimos anteriormente, 'se movimento desestabilizou para, sequencialmente, re-'tabilizar identidades, valores e condutas, com um novo sentido, bastante propício para o definitivo 'tabelecimento da sociedade na qual desaparecem os cidadãos para nascer os consumidores. Parece-nos, sem muita dúvida, que o underground serviu mais aos interesses do mainstream do que se imagina. Se a tendência era a de reformular valores rígidos que impediam o 'tabelecimento do consumo como ícone de aglutinação sócio-subjetiva, e isso já tinha começado na passagem do século XIX para o XX com a eclosão da cultura jazzística nos Eua, a crise juvenil caiu como luva. Como bem aponta Maria Rita de Assis César, a adolescência passou do status de um momento crítico, de uma «adolescência em perigo», para o status de uma ameaça à ordem, para uma» adolescência perigosa». Com um discurso feito 'pecialmente para eles, que os punha no olho de um furacão subjetivo, os adolescentes pareceram entender que poderiam vestir a fantasia que lhes tinha sido imposta. E a vestiram. Foram, no afã da desobediência, bem comportados durante todo o tempo. Acabaram servindo ao «mestre» capitalístico, que precisava de novos horizontes para a produção de capital. Acabaram por servir aos interesses de relativização dos valores fundamental para a explosão da lógica do consumo, com todos os seus nichos. O underground acabou sendo mais um desses nichos numa sociedade que se 'pecializou em formular alternativas, todas elas bem capturadas e formatadas para inúmeras e criativas proposições identitárias baseadas no consumo. A mesma sociedade que destruiu a alteridade e, hoje, vive a falar em diversidade. Isso, em 'te início de século, nos parece nítido. No entanto, surpreende ler textos contemporâneos que ainda insistem na «força» do underground como oposição ao que chamam de «caretice», tradicionalismo ou conservadorismo, que, segundo 'ses textos, seriam hegemônicos e exerceriam uma força repressiva sobre os adeptos do underground. Ora, como bem mostra Terry Eagleton, o que ocorre é o contrário. É o underground que se 'tabelece como hegemônico e é usado como boneco de ventríloquo das elites. As mesmas que inventaram o «pense global, aja local», mas sempre agiram globalmente pensando localmente. As mesmas que prestigiam a rebeldia, porque sabem que rebelde é o sujeito que, em 'sência, sonha apenas ser igual àquele contra quem combate. Como dizia Baudrillard: «É preciso acreditar perdidamente na lei para a transgredir». Luiz Geremias Número de frases: 41 Psicólogo, jornalista, mestre em Comunicação e Cultura. Ele nasceu em 1950, no distrito de Guaianás, em Pederneiras. Viveu e trabalhou na roça até os 17 anos, quando se mudou para a vizinha Bauru. Tinha 'tudado apenas o primeiro grau numa 'colinha rural. Foi trabalhar na CPFL e teve um chefe que ajudou a mudar sua vida. Não por o emprego, apenas, mas por a consciência política que despertou. Hoje, aos 55 anos, Lázaro Carneiro, pai de três filhos, virou poeta a ponto de receber homenagens em faculdades e 'colas e ser até referência para bandas da cidade. Escreveu em 2003 «O Caipira Que Leu Nietzsche» (124 páginas), livro que editou com o dinheiro da própria aposentadoria, e traz poesias que retratam o universo caipira com uma visão raramente cantada por as duplas sertanejas. «Aprendi a fazer poesia com as rimas pobres de Tonico e Tinoco, mas 'sas duplas sempre cantaram a favor do capital». O discurso politizado, porém, não o fez 'quecer o que tem de caipira. «Outro dia me homenagearam numa 'cola e me compararam a Castro Alves. Fiquei pensando ' o que 'tou fazendo aqui '? Isso é coisa de caipira», se diverte. Leia a seguir, trechos da entrevista que o poeta concedeu ao Overmundo. O senhor é mesmo um caipira que leu Nietzsche? Não li a toda obra de ele, mas ele tinha um pensamento de crítica ao cristianismo com o qual me identifiquei. Sempre tentei tirar as pessoas próximas de mim desse obscurantismo de achar que Deus existe e que a vida é desse jeito porque Ele quer. Mas não podia chegar dizendo isso senão 'sas pessoas cairiam fora. Então, comecei a fazer poesias caipiras com pitadas críticas. Assim, consegui entrar no universo de eles porque usei a palavra «caipira» no título do livro e eles quiseram saber quem foi Nietzsche. Mas o senhor sempre teve 'se pensamento? Não. Até os 17 anos, eu vivi na roça. Minha família foi vítima do êxodo rural e fui trabalhar na CPFL, em 1967, onde o presidente da empresa fez um trabalho de conscientização política entre os funcionários. Ali, comecei a ver o quanto tinha sido explorado na roça e descobri o que era luta de classes. Comecei a militar em sindicatos e fazer trabalhos com amigos e familiares, mas sempre informalmente. Como era 'sa trabalho? Fazíamos bailes caipiras, noites de poesia e,? s vezes, conversávamos sobre política, mas havia aquele pensamento de que «política e religião não se discute». Então, o pessoal fugia desses assuntos. E 'sa veia poética surgiu como? Eu aprendi ouvindo as duplas caipiras, com aquelas suas rimas pobres de «paixão com macarrão» etc. (risos) e fui terminar o primário em Bauru. Só que depois virei crítico das duplas, apesar de ainda gostar, de ser romântico. Esses cantores, como Tonico e Tinoco, Liu e Léo, Tião Carreiro e Pardinho fizeram papel de pelego na sociedade. Sempre cantaram as histórias do caipira explorado, mas contente com àquela situação. Eles não têm uma letra consciente. E não é ingenuidade, não. São mal-intencionado mesmo. O que tem de preconceito de cor na música sertaneja é brincadeira! E não 'tou falando no início do século não, 'tou falando de agora também, nos anos 90. Suas poesias falam do quê? Falo desse universo caipira, do Cerrado onde vivemos, do interior, mas sempre com uma visão mais crítica disso tudo. Contando as do livro, tenho uma 150 'critas. E o que o senhor ainda tem de caipira? Eu fiz uma dicotomia em minha vida. Até os 17 anos, acreditava em Deus e não sabia que tinha de ir para a 'cola para aprender e poder mudar. Era um caipira padrão! Depois, identifiquei meus agressores e até poderia ter optado por ser um pequeno burguês, mas preferi ser um trabalhador consciente. Mas outro dia recebi uma homenagem aqui em Bauru e me compararam a Castro Alves no meio de um monte de 'tudantes. Fiquei pensando: «O que 'tou fazendo aqui?" Isso é coisa de caipira. ( risos) Gosto do sucesso, mas prefiro ficar no meu canto. Hoje, tenho o mundo na cabeça e, dez vez em quando, cai um Muro de Berlim em cima da gente. Mas não quero jamais voltar para a alienação. Contatos: Número de frases: 56 lazaro.Carneiro@pop.com.br ou por o telefone (14) 3232-2710 Após cerca de um mês em recesso, volto a colaborar aqui no 'paço do Overmundo. E, como acontece de ser a última publicação do mês, reinicio minha «jornada» recordando mais um momento histórico da teledramaturgia brasileira. Por sugestão do leitor Marcelo V., retornamos ao ano de 1986. E a teledramaturgia contou ... Roda de fogo. * * * Em 1986, o Brasil convivia com alterações políticas e 'truturais significativas. Era o ano da primeira eleição direta (a eleição para presidente, ocorrida no ano anterior, havia sido por um colégio eleitoral no qual o ocupante do cargo foi 'colhido através do voto de deputados e senadores), o período militar e a censura implacável que atingiam também os 'critores de novela ficavam para trás. Em 'te contexto, a TV Globo investiu numa trama que recortava características do país na década de 1980 (chamada de «década perdida» por muitos economistas). Em 25 de agosto de 1986, o horário das 20h começou a exibir Roda de fogo, um título condizente com a história que expunha movimentações criminosas presentes em muitas empresas do país -- falcatruas, corrupções (atribuídas inclusive a políticos) e chantagens. Em a novela de Lauro César Muniz, 'crita por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes (ambos 'tão atualmente 'crevendo para a TV Record -- Lauro assinou Cidadão brasileiro e Marcílio, a recém-findada novela das 22h, Vidas opostas) a partir de sinopse criada por os 'critores da Casa de Criação Janete Clair, 'tava o cotidiano do grupo empresarial presidido por Renato Villar (vivido por Tarcísio Meira). Responsável por crimes como o desvio de dólares para o exterior e até mesmo o assassinato de um amigo que podia arriscar sua reputação, Renato se aproximava da juíza Lúcia Brandão (papel de Bruna Lombardi), com a intenção de suborná-la para não condená-lo por as irregularidades descobertas numa de suas firmas. No entanto, o empresário e a juíza acabavam se apaixonando, e ela, uma juíza incorruptível, se via diante do dilema de julgar o homem que ama. A o descobrir que era portador de uma doença incurável, Renato Villar tinha uma mudança extrema seu comportamento, tentando se redimir dos males que fez. Ele terminava seu casamento com Carolina (interpretada por Renata Sorrah) para viver o romance com Lúcia, e tentava conquistar o amor de Pedro (papel a cargo de Felipe Camargo), seu filho com Maura Garcez (vivida por Ewa Wilma, que recebeu elogios por sua interpretação para a personagem), uma ex-guerrilheira. Em tempos de abertura política, Roda de fogo trazia à cena personagens que eram conseqüência do período militar -- uma mulher que fez parte da guerrilha de oposição ao regime e alguns personagens decadentes, como um ex-torturador e um militar aposentado. Mas a ênfase que mais atraiu o público foi a vingança do protagonista, que planejava eliminar um a um todos os integrantes do grupo financeiro que o traíram. A luta por o poder (recheada de vários assassinatos) destacou o advogado Mário Liberato, que, na interpretação de Cecil Thiré, se tornou um personagem inesquecível na história da teledramaturgia. O ator Tarcísio Meira também teve sua interpretação consagrada, a ponto de seu Renato Villar passar a receber a simpatia dos 'pectadores, que 'creviam cartas pedindo sua sobrevivência ao final da trama (o que não aconteceu). Em meio ao elenco cheio de atores consagrados (Paulo Goulart, Joana Fomm, Hugo Carvana e Mário Lago foram alguns de eles), o ator Osmar Prado conseguiu destaque, no papel de Tabaco -- a parte humorística da trama. O motorista, que tinha relacionamentos amorosos ao mesmo tempo com três mulheres, teve um final consagrador, no qual suas três namoradas apareciam vestidas de noiva em seu casamento. Roda de fogo, que teve seu último capítulo exibido em 21 de março de 1987, se tornou uma das novelas que caracterizavam os novos ares da República. A novela de Lauro César Muniz foi uma das primeiras a abordar o cerne das conseqüências do capitalismo selvagem -- despertando, inclusive, a irritação dos advogados, que diziam que alguns personagens feriam a dignidade da profissão. Algumas curiosidades: no ano de 1990, Roda de fogo foi reapresentada na sessão Vale a pena ver de novo (atração vespertina da TV Globo na qual novelas bem sucedidas são reexibidas), e dos 179 capítulos originais, a emissora reduziu para 34 -- e, até o momento, é a novela que, em sua reprise, foi a de menor duração. O logotipo de Roda de fogo (na foto) foi utilizado por a equipe do programa humorístico TV Pirata, que, de entre os seus quadros, criou a «novela» Fogo no rabo, da qual saiu o até hoje cultuado personagem Barbosa, vivido na atração por Ney Latorraca. Fontes consultadas: Livro Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes Número de frases: 28 Site Teledramaturgia -- www.teledramaturgia.com.br Verde, amarelo. Azul e branco. As cores de dois países, as cores de uma enorme rivalidade, cores que se odeiam. É uma história antiga. Em o futebol nos odiamos, quando se refere àquelas quatro linhas. Torcemos contra, 'peramos que sofram uma derrota humilhante, desejamos até morte. Vou logo dizer. Para mim, isso é uma enorme bobagem. Vai muito além da relação passional que temos com o 'porte. Eu sou aquele brasileiro que não compreende muito bem algumas reações tão exaltadas contra nossos hermanos. Me envergonho com algumas de elas, é verdade. E não achem que é uma questão de boa vizinhança. Bom, talvez isso tenha a ver um pouco com a minha relação com o futebol. Explico: o futebol de eles se parece com o nosso. E, para quem gosta do jogo, por que torcer contra um time que joga para a frente, com habilidade, que gosta de marcar gols? Não é 'sa a razão que o mundo inteiro tem o Brasil como segunda seleção? Se é para torcer contra alguém, prefiro que seja o futebol insosso e extremamente previsível inglês. Temos que reconhecer: Saviola, Riquelme, Messi, Aimar e Sorin teriam um lugarzinho garantido no nosso time. Não consigo torcer contra, para mim, o que vale, é a beleza: a jogada bem tramada, a tabela bem feita e o gol furado. Ok, me passem o crachá de piegas de uma vez. E desde que Carlitos Tevez passou a frequentar nossos gramados, algo foi chacoalhado no orgulho brasileiro. Graças a Deus. E, por incrível que pareça, o ódio não parece ser recíproco. Já ouvi pessoas que foram à Argentina dizer que eles admiram o nosso futebol (afinal, quem não admira? Mas superar a rivalidade para admitir isso é outra coisa). E não me refiro aqui à voz do 'pecialista que anuncia nas páginas do Clarin: «O Brasil 'tá um degrau acima de qualquer outro time no futebol». A admiração vem do taxista, do garçom, do cidadão comum, que confessa com olhos brilhantes que aquela vitória, na fase de classificação para o mundial da Alemanha foi um grande feito e encheu o país de orgulho. Aquele grito tão comum de se ouvir nas arquibancadas dos nossos rivais «si, se puede» nunca foi tão verdadeiro. Eles ganharam dos gigantes, destronaram os reis com aqueles três gols. Opa, mas 'pere aí. O Brasil jogou foi contra a Croácia. E um jogo morno, é verdade. Ao contrário dos ânimos dos torcedores brasileiros na pizzaria argentina, onde eu resolvi encarar 'sa dura missão que é assistir a uma partida de futebol num ambiente tão caótico. Como todos os bares das redondezas, o Pizza Sur 'tava completamente lotado, uma mistura de amarelos verde e azul, das camisas brasileiras e das cores do Boca Juniors. O atraso inevitável me colocou nas mesas afastadas, longe da TV. O bar é novo, numa vizinhança repleta de eles. As pessoas chegam e vão ocupando as mesas, boa parte dos torcedores que ali 'tavam não tinham percebido que aquele era um território inimigo. Nem as bandeiras, nem a foto do Che, o pôster de Gardel ... nem mesmo o sotaque de Gustavo, proprietário, que fez questão de circular com a sua camisa do Boca. Já me conformava: preparava para assistir um 'petáculo de cabeças que se levantavam, braços que pediam uma cerveja, corpos que iam ao banheiro e trocavam de lugares ... tanto faz o que se passava na televisão. O gol não saía. Os croatas, dispostos a conquistar um empate glorioso, deixava a torcida impaciente. Um grupo exaltado à minha frente tinha cheiro de confusão. Alguém precisava ser culpado por isso. Como um time de craques como o nosso era incapaz de marcar um gol contra a fraca Croácia? Alguma 'pécie de mandinga segurava as pernas de Kaká, Ronaldinho Gaúcho e companhia. Eduardo Galeano já dizia que até o covarde mete medo, quando 'tá no meio de seus pares. O problema para fanático não é o aquilo que acontece em campo, o seu caso é com a arquibancada, com a torcida adversária. Em 'se caso, representada por as bandeiras da Argentina. Elas não duraram muito. Sem se aperceberem que cometiam um dos atos mais ofensivos (ainda mais numa Copa) contra uma nação, os torcedores, aqueles mesmos que ocupavam algumas mesas à minha frente, arrancaram todas elas. Coincidência ou não, o gol brasileiro saiu logo em seguida, enquanto alguns ainda seguravam pedaços argentinos nas mãos. Seguiram-se comemorações aos gritos de " era a bandeira! Era a bandeira!». A ofensa virou uma piada sem graça. Que me acusem de ser sério demais, (" é tudo uma brincadeira», afirmarão alguns), mas a atitude foi um tanto quanto desnecessária e desrespeitosa com os argentinos que ofereciam ali uma trégua para a nossa guerra eterna. Pior que um carrinho por trás. Gustavo não perdoou, e a punição veio, minutos mais tarde, com a expulsão dos responsáveis, ao fim do primeiro tempo. Junto com eles me retirei, rumo a um território pacífico, onde eu poderia assistir finalmente a 'tréia da seleção. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da 'tréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. Número de frases: 69 Mais fotos.-- Histórias de um indigenista Olhando o horizonte viajamos no azul das serras e na beleza da paisagem, tudo é azul ... De longe e de perto as cores, porém, são múltiplas e nem sempre tão azuis, que o diga Fernando Schiavini que há 30 anos trabalha e vive com tribos brasileiras. Como indigenista, dormindo e comendo com os índios por todos 'ses anos, Schiavini sabe disso e junto com eles luta por seus direitos. E para contar o que realmente se passa entre os índios e as políticas indigenistas, 'creveu «De longe toda serra é azul». Não poderia haver título mais sugestivo: é justamente o momento em que os índios 'tão em guerra na defesa do que julgam certo. O motivo de 'crever o livro é explicado por o autor da seguinte forma: Comecei a 'crever o livro assim que fui anistiado, em 1993, e só pensava em terminá-lo e publicá-lo depois de me aposentar, abrangendo toda a minha atuação no indigenismo. Mas decidi publicá-lo antes, exatamente porque senti que alguma coisa precisava ser feita, caso contrário iríamos ser «enterrados vivos», aliás um título que até o último momento,» disputou " com o atual. Alguém tinha que contar 'sa história, não apenas por ser um recorte importante da história do país, ainda inédito, mas também para alertar a sociedade para o que 'tá acontecendo e pode acontecer, inicialmente com uma instituição governamental que, a rigor, é de todos nós e depois, com as sociedades indígenas, que são nossas primeiras raízes. A história começa em 1972 quando ele entra como indigenista, então com 20 anos de idade, como ele mesmo diz, «dando um verdadeiro salto no desconhecido». Assim inicia em 1975 o trabalho como chefe do Posto Indígena Kayabi, próximo a um dos afluentes do rio Tapajós no Estado do Pará, onde enfrentou a braveza das correntezas dos rios e o ataque dos mosquitos. Embora sofrendo para se adaptar à nova situação, Schiavini já se sentia responsável e entrou de cabeça para ajudar os Kayabis, até que um surto fortíssimo de malária o abatesse. Aventuras e detalhes de como se expôs com a família junto aos xerentes e xavantes numa época muito difícil são narrados. Histórias fortíssimas passadas num universo à parte, uma realidade completamente diferente do mundo civilizado. Quando se safou vivo de 'sas aventuras ele teve uma proposta para trabalhar com o povo Krahô, no norte do Tocantins. ( Os Krahôs foram o primeiro grupo indígena a gerenciar recursos de projetos no Brasil). Entre 'sa tribo Schiavini se sentiu em casa, pois são amigáveis. E assim mais uma vez ele se envolve na luta Krahô, metendo-se em confusões, prisões e expondo a causa indígena por todo o mundo. Um dos capítulos narra o resgate da machadinha sagrada dos Krahôs na USP (Universidade de São Paulo), fato interessante relatado de forma riquíssima, deixando transparecer o propósito firme da tribo em manter sua tradição, suas raízes. São muitas ocorrências em 'ses 30 anos de trabalho que levarão o leitor a conhecer um pouco da realidade dos índios brasileiros. «De longe toda serra é azul» é um livro para se ler e reler, é uma viagem à intimidade das tribos, uma maneira de conhecer a cultura indígena mais de perto. Então o livro, autobiográfico, conta em detalhes a saga do jovem que se tornou indigenista quase que por acaso na década de 70 e os acontecimentos históricos e políticos de uma geração de indigenistas que se envolveram de corpo e alma na vida dos grupos indígenas brasileiros, passando a ser parte de eles. Schiavini relata a parte histórica do relacionamento entre os povos indígenas com os colonizadores europeus e a sociedade brasileira. Já no prefácio se pode ler sobre a situação de dominação e 'poliação das comunidades indígenas brasileiras realizada desde o ano de 1500, quando aqui chegaram os portugueses. Schiavini mostra o verdadeiro lado da colonização ou regulação que na época se chamou política indigenista, considerando ser 'sa uma longa e dramática história com guerras, prisões, massacres, envenamento dos rios e ainda disseminação de doenças. A linguagem é simples e precisa e levanta um debate sobre as questões indígenas no Brasil diante da política de desenvolvimento atual. Os relatos contidos no livro, como ele mesmo diz na pág. 26:» ... poderão deixar transparecer ao leitor uma certa dose de «Indiana Jones». Bem, os fatos são narrados como eu os vi e vivi ..." O objetivo do livro é divulgar a causa indígena defendendo a continuação da profissão de indigenista no Brasil. São relatados momentos importantes da mudança de paradigma na questão indígena através do trabalho de muitos indigenistas e da Fundação Nacional do Índio, a Funai. Ele explica o começo do indigenismo no Brasil: Começaram a surgir no início da década de setenta as chamadas «Entidades Alternativas», que recebiam recursos de instituições européias para combater o autoritarismo da ditadura. Surgiu também em 'sa época o CIMI -- Conselho Indigenista Missionário, ligado à ala «progressista» da Igreja Católica. Esses três segmentos -- indigenistas oficiais, entidades alternativas e religiosos ligados ao CIMI -- que contavam ainda com a colaboração de vários jornalistas ligados à causa indígena, uniam-se informalmente em episódios de confrontação com as diretrizes do regime militar no campo e nas cidades. Conseguiram, além de garantir as terras de inúmeros povos indígenas, colocar a questão indígena na pauta da sociedade brasileira. Começaram então a surgir líderes indígenas no cenário nacional, como Mário Juruna, Marcos Terena, Marçal Guarani, entre outros. Começa ainda na década de setenta a surgir as primeiras tentativas de auto-organiza ção dos povos indígenas, hoje um fato consolidado. Segundo o autor, o período contemporâneo começou com um regime vigente até os dias de hoje: a República com suas leis e práticas que se mantêm há quase um século em suas bases políticas administrativas. Essas leis em sua opinião, dizem respeito a todos os brasileiros e principalmente aos indigenistas, pois norteiam a política indigenista governamental. Sobre o indigenismo, hoje ele afirma: Existe uma atuação política e prática por parte de ONGs., muitas de elas ainda remanescentes do período relatado. O CIMI também segue atuando. Agora existe as chamadas «Organizações Indígenas», que são ONGs, com membros 'tritamente indígenas. Elas fazem política unindo-se em confederações, pressionando o governo por direitos e articulando-se internacionalmente, além de desenvolverem projetos de etnodesenvolvimento em suas terras. Outra conquista importantíssima foi a mudança do conceito integracionista dos povos indígenas à sociedade nacional, inserida na Constituição de 1988. A partir de ela o Brasil é considerado um país pluri-étnico, tendo os povos indígenas direito a viver segundo seus costumes, crenças e tradições. Sua tese, como ele mesmo considera o livro, apesar de não ser acadêmico, é mostrar como o indigenismo governamental brasileiro defendia nos anos 70 os interesses do Estado brasileiro. Os indigenistas contratados na época mudaram 'sa situação quando passaram a defender os interesses da população indígena. O livro traz a discussão sobre o que é o indigenismo hoje e a forma de exercê-lo, tanto por o governo como por a sociedade civil, já que os temas ligados à questão indígena são cada dia mais complexos. O indigenismo e o movimento indígena se complementam e necessitam um do outro. Em o posfácio, pág. 199, ele diz: A meu ver o indigenismo somente desaparecerá quando Toda a sociedade 'tiver conscientizada do respeito e gratidão que se deve aos povos indígenas, por a sua antigüidade em 'ta terra e por as heranças genéticas e culturais que em ela imprimem, fazendo de 'sa interação algo natural. Tentando mostrar que o trabalho do indigenista não morreu, ele suscita os temas «indígena» e «indigenismo». Provando isso ('se ano) ele 'tará indo para o norte do Estado do Tocantins exercer as funções de técnico indigenista junto às etnias da região ligadas à regional da Funai na cidade de Araguaína. Para ele, é uma «volta às origens» de forma profissional, pois a categoria de técnico indigenista 'tava sendo 'quecida. Porém Schiavini considera importantíssimo 'se trabalho: o técnico indigenista é quem faz a ligação entre as populações indígenas e a sociedade. E assim ele tenta contribuir para modernização da função do indigenista. Podemos acompanhar 'se trabalho do autor através do Diário De Campo que ele mantém atualizado no site / blog: www.todaserrazul.com Schiavini, consciente, desabafa: Penso que interessar-se por a questão indígena é interessar-se por si próprio. Sempre iremos achar alguma raiz histórica, cultural e genética ligada aos indígenas em nossa formação. Muitas pessoas acham que conviver com os indígenas é «muito difícil». Não. Difícil é confrontarmo-nos com o nosso passado, tanto o passado ancestral, tribal, quanto 'se passado recente, de dominação e 'poliação que continuamos praticando, mesmo sem saber ou desejar. Então, eu recomendo inicialmente muito 'tudo sobre o tema, tanto por o aspecto cultural, quanto histórico. Os indígenas não precisam de pena, apenas de compreensão e respeito. Sempre haverá um povo indígena próximo de você, fisicamente. Tente compreendê-lo, tente compreender a sua história, mesmo que ele não tenha mais cocares, flechas ou língua própria. Se você tiver paciência e a mente limpa de segundas intenções, descobrirá coisas fantásticas. A partir do conhecimento e da quebra dos preconceitos, é possível, mesmo sem conviver ou realizar trabalhos diretos, apoiar a causa indígena, discutindo a questão em sua casa, 'cola ou faculdade e ficando atento ao que acontece com 'ses povos. Schiavini defende o trabalho do indigenista como sendo de um futuro promissor. Para isso se envolveu na implantação de um Curso Básico em Indigenismo e na articulação junto à Universidade de Brasília (UNB) do I Curso de Especialização em Indigenismo e Desenvolvimento Sustentavel, com aulas presenciais e à distância. Maiores informações poderão ser obtidas no endereço: www.unb.br e www.cds.unb.br Como vimos, vale a pena ler o livro e acompanhar o trabalho desse indigenista que se envolveu na causa indígena por todos 'ses anos e considera que o mundo só terá realmente uma mudança quando houver o reconhecimento, o entendimento da causa indígena. Como cita na página 201: O mundo passa por momentos delicados, quando os desequilíbrios dramáticos e a 'cassez de determinados elementos 'senciais à vida ficam cada vez mais evidentes e preocupantes. Em 'se item, com relação às populações indígenas, duas questões se colocam: se a nossa sociedade será capaz de verdadeiramente entender a vivência de 'sas comunidades, tirando lições que precisamos para conservar nosso planeta e se seremos todos capazes de formar uma grande aliança, baseada no respeito e na compreensão mútua, que seja capaz, finalmente, de enterrar o que chamamos de indigenismo. Pessoalmente, em meio a uma multidão de índios, pesquisadores, políticos e 'tudantes, eu pude sentir a dor de um homem que ao discursar, quando cita o nome de um velho índio (Aleixo), um companheiro de muitas lutas, se engasga e se emociona comprovando o que diz na pág. 108: " Eu fiquei com os Krahôs. Até hoje. Número de frases: 88 Em a verdade, desconfio que para sempre." Vellozia é nome de planta. Popularmente conhecida como canela-de-ema 'ta planta alonga-se numa haste que lembra mesmo a ave pernalta do cerrado, parecida com avestruz. Mas a beleza da vellozia 'tá mesmo na flor lilás e na sonoridade da palavra. Esqueçamos a etimologia e os dicionários. Que palavra soberba, linda e perfeita! Em a ausência de uma palavra mais apropriada, digo que sempre fui voyeuse de palavras, «com todos os sentidos», anotem bem! Embora a forma 'crita, a grafia mesmo, encerre belezas dignas de ver no papel, não é a visão o sentido que as palavras mais capturam. Aprecio muito o jogo de palavras performático dos concretistas, a perfeição minimalista dos hai-kais e mesmo os grafites de muro, 'tes sim, de grande apelo visual. Alguns muros das minhas descobertas na fervida década de 80 continuam pulsando com grafitos que nunca 'queci. Registrei uns em fotografias e outros guardo na memória emocional de 1985, o ano do 'pelho e da intimidade 'crita. Em 'sa época também li o Abc da Literatura, de Ezra Pound, em que o autor debruça sobre o processo de construção do texto, com uma atenção 'pecial aos cortes de palavras que não funcionam. É a depuração do texto com o sacrifício de palavras que vieram num momento de tempestade criativa e depois têm de ser dispensadas na enxurrada das idéias que não vingam na 'crita. Esse negócio de firmar compromisso com a palavra é coisa séria. Para 'se trajeto entre idéias, impulsos, inspiração e transpiração verbal até chegar à 'crita há de se ter uma boa peneira de lucidez e senso crítico, e também muita coragem para os cortes necessários ou as extravagâncias e excentricidades. Lá se vão muitos anos da leitura de Pound, mas lembro que gostei demais do seu passeio por a linguagem ideográfica dos orientais. Fico perplexa com o silêncio de uma leitura do mundo que perde a sonoridade fonética, o corpo e a beleza das palavras, independente do sentido. Além da flor, que belezas outras veria em vellozia num correspondente ideograma? Continuemos 'quecidos de dicionário. Vellozia, tanto na grafia quanto na sonoridade, sussurra nos meus ouvidos e se desgruda da minha vista como uma rajada de vento nos descampados do cerrado. Chego a apalpar o seu sentido na vulgar canela-de-ema, a pernalta que é a mais veloz de nossas campinas ... E existem palavras que são arrogantes, fecham com fúria e desprezo o dicionário. Esta lição aprendi com um sensível homem de letra que garimpava palavras na natureza, por isso talvez tenha entendido tão bem a 'sência ou a alma das palavras. É que palavra tem alma e muitas vezes 'ta alma não 'tá incorporada no verbete. E foi uma lição tão casual, num bate-papo de corredor na redação do Diário da Manhã, numa daquelas manhãs de 1986 ou 1987 em que aparecia para entregar a crônica da semana. Mas a lição foi fundamental, pois nunca 'queci. E não existe melhor forma de se educar do que por o exemplo. E com aquela sua prosa gostosa e fácil, a mesma que deslizava nas crônicas como um barco na calmaria erma do rio Araguaia num dia de pescaria, Carmo Bernardes (na década de 80 foi um dos ganhadores do Prêmio Casa das Américas / conto) cativou a minha atenção para a alma das palavras, com uma fisgada certeira. Pronuncie arrepiar. E depois, com alma: «arrupiar». Meninos, até os pêlos do corpo vêm juntos. Urra! Depois de Carmo só quero amor que me faça arrupiar, em todos os sentidos e com todas as palavras. Ainda ouço sua voz dizer com gosto, saboreando o efeito, fulano arrepia -- os pêlos deitados, certinhos, sem vibrar de emoção -- e sicrano «arrupêia» -- 'se todo eriçado, teso, cheio de terminações nervosas desde a raiz da palavra. E 'ta raiz nem sempre 'tá no dicionário, e que o diga Guimarães Rosa, sempre com seu caderninho anotando nomes de plantas, bichos, lugares e histórias que ouvia nos Gerais. Lembro da aula bate-papo de Carmo e dos gestos didáticos que fazia para acentuar a compreensão, passando a mão nos pêlos do braço. Aprendi com Carmo a ficar atenta ao «arrupeio» das palavras. E com 'ta lição corro atrás de palavras como vellozia, que de tão apressadinha chega a dobrar o l e rascar na ponta da língua, quase derrapando, doidinha para ganhar a ventania. Mesmo na forma de flor, ela 'tá ali, ao sabor do vento e dos polinizadores, sempre pedindo movimento. E a palavra vellozia tem uma poesia exposta, sonora e musical, como no miolo da flor, e um sentido de alongamento como as intrépidas canelas de ema nas corridas por as campinas, uma beleza visual cheirando a irmãos Campos e uma graça de hai-kai. E com tracinhos poderíamos compor-la num ideograma -- com todas 'sas idéias atrás da palavra-imagem -- ou deixá-la enigmaticamente sinuosa e cheirando a spray num grafito de muro. Mas prefiro senti-la vibrando na minha língua, fazendo cócegas nos meus ouvidos e aguçando todos os meus sentidos, com um «arrupeio» carmobernardiano percorrendo os caminhos tortos deste texto. Ah, e vellozia acabou de passar por mim, tirando fino nos meus pêlos. Vellozzzia ... Número de frases: 43 Em 'ta colaboração, quero tratar de uma relação muito peculiar de um certo grupo de sertanejos com a natureza: os Profetas da Chuva, como são conhecidos largamente aqui no Ceará. Apesar do termo «profetas», eles não se tomam como místicos ou adivinhos. São observadores da natureza e, a partir disso, montam previsões acerca das probabilidades de chuva no Ceará. Um bom inverno, como é conhecida a 'tação chuvosa em 'ta Região, é fundamental para a sobrevivência de milhares de sertanejos. Evidentemente, novas tecnologias e outras transformações sociais deslocaram um pouco os profetas da centralidade na comunidade. No entanto, o que nos interessa pensar aqui é a posição subjetiva de eles frente aos impasses da vida, por vezes materializados nas tragédias cotidianas que a seca (ainda) impõe aos nordestinos mais pobres. Suas previsões servem, na verdade, como farol para o sertanejo guiar decisões que articulam questões práticas do dia-a-dia a enigmas do viver. Distantes dos pressupostos de uma cientificidade positivista, os Profetas misturam-se aos seus objetos, desfazendo a «neutralidade científica», porque no que pesquisam, desejam e, desejando, assumem o imponderável do futuro. As observações são chamdas de «experiências». Entre elas, destacam-se a da barra do sol no Natal: a «leitura» do nascer do sol em 25 de dezembro indica se haverá bom ou mau inverno (chuva); o movimento das formigas: se as formigas migram para longe do riacho, é sinal de chuva; a do besouro serrador: se 'te serra o galho por inteiro, sinal de pouca chuva, etc. Face à possibilidade de grandes perdas e dores que acompanham uma 'tação de seca e à própria condição limitada do homem diante das forças naturais, os profetas lançam mão de uma simbolização pala via da palavra, para alçarem à atividade e domínio da experiência de angústia e passividade que a Natureza lhes impõe. Em outras palavras, afirmamos que, diante da incerteza do clima, num cenário em que tudo fica ameaçado por a morte, o sertanejo tenta adivinhar o porvir, recorrendo ao que lhe resta para lutar: a palavra, sob forma de profecia. Com efeito, a força da natureza pode tornar quaisquer ações humanas insignificantes. É contra isso que os profetas buscam construir uma posição de atividade: as profecias-ato de dizer que pode sustentar a vida. De a passividade ante o Destino à atividade da palavra profética. É 'se o movimento dos Profetas da Chuva. As pessoas do sertão ao qual me refiro vivem, desde pouca idade, situações extremadas. Fome, perda, morte e vida são temas comuns ao cotidiano. A técnica de prever o tempo surge em função desse dia-a-dia. Em entrevista, o profeta Chico Mariano conta como começou seu interesse por as profecias. Em 1951, a família 'perava um tempo de fartura, mas a seca destruiu muito do verdejante desejar. Em as palavras de Mariano: «meu pai perdeu todo o roçado, com o milho todo bonecando, quando o milho acabou de morrer, aí nós viemos embora [para Quixadá]. Foi em 'se tempo que meu pai saiu de perto da terra de ele. E foi também a partir daí que o garoto Mariano passou a se interessar por as profecias. Reparemos na sutileza que insinua a força de uma obstinada 'perança: apenas quando o milho acabou de morrer, a família abandonou a terra natal. Deixemos 'se fragmento temporariamente por o caminho para podermos seguir no raciocínio anterior. Tudo, na infância do profeta, foi difícil e conseguido com muito 'forço. Quando era tempo de seca, a situação agravava-se ainda mais. A saída era utilizar técnicas para produzir o de que necessitavam a partir do que dispunham na natureza. A carne era de caça, e mesmo o fogo, conseguido artesanalmente, «um artifício». Aprender 'sas técnicas era uma questão de sobrevivência-trabalho intenso da pulsão de vida fundida à pulsão de morte que se acomoda à primeira. Assim, devemos admitir que a resistência de 'sa gente implica num discurso passado de pai para filho, de geração para geração. As crianças eram desde cedo capacitadas por o pai para enfrentar as adversidades. O profeta Jacaré narra: Não passei fome. Mas também não passava bem. Era muito pobre, aquelas comidinhas, vamo dizer, nós trabalhava, todo dia tinha obrigação de ir para a roça, de manhãzinha o primeiro serviço, se levantava, buscava uma cabaça d' água, botava no pote, pegava a sua enxadinha e ia para o roçado. O mesmo relata Chico Mariano: Eu lembro que eu era o mais velho, a mamãe já tinha três fí, aí eu passava o dia mais o papai, ia arrancar pedra, quando eu chegava de tarde ela já tinha ralado mandioca, feito farinha e beiju. Ai no dia que eu arrumava um peba, arrancando das pedra, aí eu vendia, comprava um litro de café com casca e uma rapadura salgada. às crianças eram atribuídas «obrigações», todas elas ligadas ao sustento da família. Elas aprendiam a limpar o roçado, a caçar, a plantar e a colher quando havia o quê. Entrevemos nisso uma forte incidência da função paterna, operando para organizar o trabalho e demarcar 'paços e modos de sobreviver. Articulando-se a isso, ouvimos Chico Mariano dizer: «papai nasceu pobre mas ensinou a gente a viver "; de " João Ferreira: «O papai era muito experiente também ( ...) em 39, ele botou um roçado e disse que talvez a gente não tivesse legume porque o inverno ia ser grande demais. ( ...) Apodreceu tudim. O inverno foi muito grande». Ainda em 'sa direção, podemos afirmar que a relação que os Profetas da Chuva 'tabelecem com a vida e com o meio em que habitam, exemplifica o que Freud pensou sobre fusão / imbricação pulsional. A relação Eros e Pulsão de Morte é orientada no sentido da manutenção da vida. Não aparece como agressividade contra o próprio sujeito. A agressividade se transforma em impulso a dominação no sentido da superação dos obstáculos impostos à vida. Há, no entanto, outro aspecto que quero destacar quanto à posição dos Profetas em relação ao desejo e à vida. Em um sucinto e admirável texto de 1915, intitulado Sobre a transitoriedade, Freud relata um passeio que fizera por uns campos italianos na companhia do poeta Rainer-Maria Rilke e da amiga Lou-Andreas Salomé. Em a ocasião, uma conversa sobre o caráter transitório da beleza das coisas serviu de suporte para Freud 'crever sobre a posição de alguns sujeitos frente a tal condição. O poeta demonstrava seu incômodo por perceber que toda a beleza daquela paisagem 'tava fadada à extinção e, por isso, não conseguir extrair qualquer alegria daquela contemplação. Escreve Freud: A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido por o jovem poeta, ao passo que outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Então, o psicanalista desenvolve uma argumentação lógica para convencer o poeta e a amiga de que a transitoriedade de todas as coisas não forma justificativa sustentável para 'tragar a fruição de suas belezas. Como o interlocutor em nada se altera, Freud infere que sua posição remete-se a fatores de ordem afetiva: O que lhes 'tragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em sua mente contra o luto. A idéia de que toda 'sa beleza era transitória comunicou a eles ( ...) uma antecipação do luto por a morte de 'sa mesma beleza; como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiram pensamentos sobre sua transitoriedade. Observamos aqui uma 'quiva do sentimento de desprazer que leva junto com si a possibilidade de uma fruição prazerosa. Uma posição que aponta para uma desistência antecipada. Aqueles que aceitam renunciar permanentemente a investimentos objetais porque tais objetos não são duradouros 'tão, para Freud, num 'tado de luto por outras perdas. É aqui que quero trazer a reflexão sobre a posição dos profetas e o lugar que ocupam na tradição familiar-sertaneja. Como nos disse Mariano, recontando suas memórias, a família só se retirou da terra natal depois de um acontecimento nada insignificante: «quando milho acabou de morrer». Diferente daquele que se desencanta antes para não sofrer depois, decidiram ficar até o fim que, no caso, significa a irreversibilidade de uma perda. Mais do que isso, indicam uma resistência que aceita que vida se renove, sem ficarem atados a um desencanto incessante. A caducidade das coisas e a dor impostas por a falta de chuva parecem não abalar o profeta Antônio Lima: ... A natureza é quem manda, sobretudo a natureza! Porque tudo que vai em ela, na terra, é belo: é o remédio, é o fel, é o doce, é veneno, é o remédio, é tudo na vida! tudo é na terra, não vem de outro canto não, pertence à terra! E quando indagado sobre a possibilidade de deixar o Sertão, ele responde: Meus três filhos moram em São Paulo, meus irmãos moram em São Paulo, mas eu abracei o sertão, gosto muito do inverno, só tem duas coisas que eu achei boa: foi minha mãe e a chuva; minha mãe morreu e eu fiquei com a chuva ... quando ela vem, cria tudo, né? Ficar até o fim, enfrentar a transitoriedade do humano e de suas construções, sem renunciar ao amor devido aos riscos em ele implicados! É 'se o posicionamento dos profetas diante da vida e da morte. Como declarou João Ferreira: Nóis nascer, viver e morrer é a melhor coisa que deus deixou em 'se mundo ( ...) Você sabe que o sujeito que vive em cima de 'sa terra, que nasce na nossa terra, é animado e desanimado na mesma hora, mas tem de achar graça e viver também. A gente não pode ser desanimado não, pois é um dever sagrado, Nosso Senhor já deixou desde o começo do mundo, nascer, viver e morrer, é três dever que nós tem. E das palavras de Paroara ouvimos: Se noís formos pensar na morte, sabe o que acontece? É sujeito nóis morrer antes do tempo. Eu nunca penso negativo, só penso positivo ( ...) nossa vida é duas coisas: sonho e objetivos. Enumeraríamos outros tantos depoimentos que indicam um discurso afirmativo, de um desejo nada enlutado ou melancólico. Mas para encerrar, cito uma canção de Luiz Gonzaga e Armando Cavalcanti, cuja admiração por milhões de sertanejos, autoriza-ma pensá-la como portadora de uma verdade. O vaqueiro-narrador brada: De manhazinha quando eu sigo por a 'trada Minha boiada para a invernada eu vou levar São dez cabeça é muito pouco, é quase nada mas não tem outras mais bonitas no lugar ( ...) De tardezinha quando passo por a 'trada, A fiarada vem todinha me 'piar, São dez filhinho, é muito pouco, é quase nada, Mas não tem outros mais bonitos no lugar ( ...) E quando eu chego na cancela da morada Minha Rosinha vem correndo me abraçar É pequenina, é miudinha, é quase nada mas não tem outra mais bonita no lugar! Para conhecer mais: Ver Martins, Karla P. Holanda. Profetas da Chuva. 1ª ed. Tempo d'Imagem, Fortaleza: 2006. Com fotografias de Tiago Santana Fernanda Bruno: Número de frases: 126 O grupo Olho de Gato tem sete vidas! Com 21 anos de existência e muitos quilometros rodados no mais puro rock ' n roll, a banda que provou que o Mato Grosso do Sul também sabia fazer música pop, passou por uma transformação. Em a verdade um racha. O fundador Fernando Bola, baterista, e o guitarrista Anderson Rocha agora formam um quarteto com o novo vocalista Marcelo Oliveira e o baixista Gabriel Basso. O ex-vocalista Daniel Freitas partiu para carreira solo. Em a sua banda de apoio tocam os ex-olho-de-gato Cristian Holz (guitarra) e Alex Mesquita (baixo). A nova formação do Olho de Gato já pode ser vista em participações de alguns eventos. Tocaram nos dois shows do projeto Gerações, juntamente com Celito Espíndola. Se apresentaram para 35 mil pessoas na festa em comemoração aos 20 anos da Rádio Mega, a mais 'cutada da Capital, em que se divertiram com a situação de fazer playback para uma multidão de gente. O show no dia 14 de outubro, no Café Moinho, é o primeiro em que a nova formação vai tocar o repertório antigo e apresentar as canções do próximo álbum do grupo. Uma de elas é A Estrada e O Nada, do ex-Olho de Gato e diretor musical do novo disco Antônio Porto. O grupo Olho de Gato nasceu em 1985, em Dourados, interior de MS, para as bandas do Paraguai. Os fundadores foram o baterista Fernando Bola, o baixista Lúcio Val e o guitarrista, já falecido, Naufal. Depois disso o grupo passou por mais algumas formações, passando por a banda músicos como Antônio Porto, Cláudio Prates, Pedro Ortale e eu mesmo, que cantei na banda por dois anos, entre 1989 e 1990. O grupo parou por alguns anos e foi retomado em 2000, quando Bola chamou o vocalista Daniel Freitas para montar a banda novamente. Com o primeiro disco em 2003, o grupo acabou conseguindo hits regionais, como Teu Beijo, que foi uma das canções mais tocadas do ano em Campo Grande. Com a nova formação o grupo deixa as baladas para trás e investe num tom mais rock ' n roll. O novo disco já 'tá praticamente gravado e quem viu os ensaios do grupo já sabe que a química dos novos integrantes funcionou. Para tentar profissionalizar mais a relação do grupo com o mercado, Fernando Bola montou a Olho de Gato Produções, que também quer investir em outros artistas de MS. A banda de rock mais antiga de MS 'tá com pique renovado. Quem for ao show do dia 14 ou a outro da banda já com a nova formação, que deixe seus comentários abaixo com as suas impressões. Abaixo o bate-papo com Fernando Bola, fundador da banda e atual líder do grupo! -- Por que a banda não toca fora de MS com mais regularidade ou se insere nos festivais independentes do Brasil? -- O Olho de Gato já tocou em Sampa, Santos, Campinas ... Fazíamos isso. Nós mudamos para São Paulo. Era um 'quema mambembe, loucura, coisa de juventude! E eu já vinha dizendo há tempos que tínhamos que sair, ir embora daqui e a coisa já não 'tava andando. Tava difícil. O Cristian é guri novo e faz faculdade integral. O Daniel com mulher e família, priorizando outras coisas e não 'tava virando. E eu acho que não adianta. A banda tem de romper fronteiras e sair de MS. E era uma das coisas que a mim e ao Anderson já vinha incomodando profundamente. Porque não tem sentido. Nós somos um 'tado de dois milhões de habitantes e que destes pelo menos 98 % curtem música sertaneja. O foco de 'ta nova formação é rapidamente tocar fora. A gente quer Rio, Sampa, Brasília, Belo Horizonte ... -- Por que decidiram montar a Olho de Gato Produções? -- Porque em 'ta última formação nunca houve um produtor que vendesse a banda. Isso acontece não só com o Olho de Gato, mas todo o outro lado que não é sertanejo. Não tinha ninguém que corresse atrás. E agora 'tamos criando a Olho de Gato Produções, que a gente vai focar determinados artistas e tentar profissionalizar. Ter uma assessoria de imprensa, gerenciamento de palco, alguém cuidando do visual. Porque chega! A gente quer sair e levar a nossa música para fora do 'tado. E o nosso rock ' n roll tem um cheiro pantaneiro. Então a gente tem que romper e atravessar a ponte. E em 'ta formação antiga não 'tava rolando. Chegamos num impasse que deu no que deu, mas isso é natural e saudável. -- Virou um quarteto? -- E o Antônio Porto é o músico convidado, tipo o quinto elemento. -- Com o Daniel a banda tinha uma cara mais pop, chegando perto às vezes da MPB. Como vai soar a banda com o novo vocalista? -- O Marcelo Oliveira é um baita cantor. Um branco que canta como negro. A banda vai mudar um pouco a cara com certeza. Mas o que não vai perder é a qualidade das letras. Apesar de que no primeiro disco a gente fez concessões ao mercado, abrimos as pernas, mas funcionou de uma forma de outra. -- Você não acha que o Olho de Gato 'tava começando a forçar a barra com músicas como Paloma, que era uma balada, falava de mar ... -- Mas aqui não tem mar né? Isso me incomodava. Este lado muito pop. Porque dá para falar coisas bacanas mesmo sendo pop. -- Eu acompanho 'ta banda há 20 anos, era fã, depois virei integrante e hoje 'tamos praticamente juntos de novo. Antes a banda tinha dois pólos, dois lados da mesma moeda, que era você e o Naufal. Ele puxava mais para a MPB e você mais roqueiro mesmo. Mas lembro que naqueles primeiros 10 anos, o Olho de Gato fazia rock, mas fazia afoxé, reggae, funk, blues, baladas, country ... E eu acho que o lado da moeda do Nau falava alto pacas, até porque você 'tava começando e era inexperiente. Então era uma banda híbrida. E agora eu acho que finalmente o Olho de Gato vai beber mais do seu lado da moeda finalmente. Que é o rock ' n roll. Vem um Olho de Gato mais com a cara do Bolão agora? -- Vem Olho de Gato mais com a cara da Bola, Anderson e Marcelo, que é rock pacas e tem uma veia soul. Vai ser o caminho natural da banda. Mas vem mais peso e mais rock ' n roll. -- Você acredita que hoje já existe um mercado para as bandas? -- Não. -- Por quê? Onde é que 'tá o problema? -- Bicho, é na cultura do 'tado. Isso aqui é um Goiás. -- Como você avalia os oito anos de governo do Zeca do PT e a política cultural do município? Por exemplo, o festival de Corumbá paga para banda do 'tado uma média de 5 mil reais. Não é uma realidade né? -- Não. E se comparar com os cachês de quem vêm de fora é irrisório. Mas se tratando de cachê é o melhor. Eu não sei o que vem por aí agora. Eu vejo as pessoas, os artistas com muito medo. Mas de uma forma ou de outra os governantes tinham que ter a noção do baiano, que é vender a cultura do 'tado. O Zeca começou bem, mas chegou no final de forma melancólica, porque acabou a grana, os projetos foram cortados e agora é uma incógnita. Eu 'pero que o novo governador (André Puccinelli do PMDB) não diminua o que já conquistamos, mas que avancemos mais. Melhorar o que o Zeca vinha fazendo. Isso seria o ideal. -- Por que o Olho de Gato não toca nos festivais independentes do Brasil? -- Porque o Olho de Gato era uma banda que se encontrava no dia do show, passava o som e fazia o show à noite e no outro dia cada um para o seu lado. É complicado falar disso e tem detalhes deste final de formação que é melhor poupar o público. -- Como vai ser o novo disco do Olho? -- Vai ser um disco de canções lindas de rock ' n roll. Com um instrumental mais pesado, mas com letras de qualidade. Tem parceria minha com o Anderson, minha com o Marcelo, de nós três juntos, uma minha com o Guto, um cara bacana de Campo Grande que mexe com fazenda. Tem uma antiga do Olho que você ficou de renovar a letra. Inclusive ta demorando! ( kkkkk) E as novas do Antônio Porto. O Olho Gato tem 'ta coisa de continuar em contato com todos que participaram da banda. Mantemos o vínculo com ti, com o Pedro Ortale e Antônio Porto. -- O que você acha que o Naufal iria falar do Olho de Gato após a sua morte? -- Acho que ele ia pirar com a banda e aonde conseguimos chegar. Porque sempre fizemos música de qualidade. E eu modéstia parte levei a banda para todos os lugares. E o que acontece é que sempre alguém tem que tomar a frente numa banda. Por exemplo, já temos duas músicas novas tocando nas rádios, que é A Qualquer Hora e A Estrada e O Nada. Número de frases: 113 -- Interlúdico cultural pt. 2 -- demais topadas e despedida da Flip Em a sexta à noite tava tudo conspirando a favor do coletivo. Meus mais que queridos comparsas paratienses (que moram atualmente fora de Paraty) iriam chegar aos cachos. E quando reunida toda a galera e toda alegria pungente em 'se 'paço tão curto de tempo; foi muita emoção para o meu coração. Transbordamos todos! Esbarrei de novo o sensacional Marcelino Freire com uma patota falcatrua. Conversei com o Mário Bortolotto na sarjeta e descolei um 'quema pra ele e mais dois entrarem na faixa no bar do Dinhos. Depois apartei o Chacal que tava à moda de Chaplin, se equilibrando já trôpego por as ruas com a sua futura-ex Beatriz. Dei uma de guia para o Jorge Mautner que não conseguia mais se localizar por as ruas da cidade e por fim, desmenti publicamente os boatos sobre meu relacionamento com Luana Piovani e meu parentesco com Gabriel, o Pensador (' foi mal, mas você é você; e eu sou eu '). Esse parágrafo acima parece que foi 'crito pra tirar uma onda dos leitores, que provavelmente devem 'tar me xingando pra caralho agora. Mas não é nada disso. Nenhuma de 'sas situações foi forçada; aconteceram naturalmente. Foi um lance bem de amizade e admiração velada e não. Sou fã de todos 'ses malucos, mas não babo o ovo gratuitamente de ninguém. Somos todos iguais, seja na fama ou na cama. Tá bom, confesso. Escrevi pra tirar uma onda de leve mesmo (risos). Voltando ao cronograma: no sábado, acordamos um pouco mais cedo e picamos a mula para a praia. Óbvio, bebendo sempre. Juntamos uma renca de conhecidos e novos agregados e fomos valorizar no sol. Afinal, era necessário tirar um dia pra desfilar minha A o regressar de Trindade, eis que encontramos a cidade toda apagada. A mesma história de toda época de pico: é Paraty, é Paraty ... Nem pensamos duas vezes e capotamos feito vira-latas desnutridos. Quando dou por mim, já eram quase duas da manhã e ninguém havia me acordado para continuar a saga flipistica. Fui ligeiro; catei uma calça que tava 'perta no alto da bolsa; meti uma camiseta / uma blusa / toca de frio / desodorante pra disfarçar e parti desse jeito, com sunga por baixo, indumentária e algum sal no bigode para a praça (parafraseando Oswald, com ' toda a minha infância nos olhos '). De esse dia, desse dia eu não lembro de nada com precisão. Nada mesmo. Só sei que ri muito. Rá, e vi uma banda na rua de casa fenomenal. Formação bem simples e diferente (batera, baixo, digeridu e dois megafones-vocais), mandando uma groovêra nervosa. Lei di Dai e sua paulistana tropa maldita. Além dos maloqueiristas com os quais não tenho saco pra conversar. Amanheci na praia do Pontal bem acompanhado. Ainda tive consciência para comprar uma bolacha recheada antes de me recolher às nove e meia da manhã. Encerrei o itinerário adormecido sobre a mesa da cozinha. Em o domingo houve calmaria. O fígado já tava me dando umas belas porradas. Vimos o desfecho e interagimos com mais uma galera. Demos azar só na passagem de volta = segunda-feira, dia 9, foi feriado em São Paulo e outras cidades. Só conseguimos passagem para terça-feira. Caí da cama bem cedo na segundona para resolver uns pepinos antes de partir. De repente, vejo uma muvuca qualquer na cidade ainda, com direito à 'colta policial e imprensa e tal. Era a tocha do Pan que 'tava para chegar naquele momento mais do que ressaca e insólito. Nada da cidade funcionar até a tocha passar. Em isso vejo uma menina exótica destruindo um salgado. Aquilo foi um quase amor. Me aproximei e me apresentei. Ambos de olheiras, remelentos, resquícios noturnos / zumbis de dia. Ficamos conversando uma hora varada e a tocha? Naaaada. Aproveitei para convidá-la para um passeio por o cais. Após uns 50 metros caminhados, surge vindo em nossa direção um senhor portador do RG século 16 bigode rústico-romanesco carregando a tocha, seguido de uma multidão de crianças e adultos. Meu garoutu! Foi uma das segundas mais surreais de minha vida. Só não chorei porque sou um pouco orgulhoso. Fechamos o feriado na mesa do Todesco bebendo ao lado de duas beldades que quase se 'pancaram por seus ideais uspianos. Embarcamos de volta para os interiores meio que na correria com a alma doendo forte no peito. Só conseguimos uma brecha rápida pra comprar umas gabrielas e envelhecidas, companheiras de viagem. Pra quem gosta de ir adiante, o retorno é sempre mais triste. Bom, agora que quebrei o silêncio e vomitei tudo que tinha pra vomitar sobre a Flip, me respondam uma coisa: é ou não é muita cultura para a cabeça da pessoa? Número de frases: 68 Aoooooooooooooohhhhhh Darcy! O Artesanato Furioso é o duo de arte sonora, performance eletroacústica e improvisação sobre objetos amplificados criado em Belém-PA em setembro de 2000 por os compositores Fábio Cavalcante e Valério Fiel da Costa. O duo foi responsável por o primeiro concerto formal de música eletroacústica do Pará, e ficou conhecido, em 2001, depois de realizar dois concertos de madrugada no desativado Cemitério da Soledade em Belém com ampla participação do público (que julgava 'tar numa festa rave) e da polícia local. Segue um relato pessoal de como tudo começou: o encontro com Fábio Desde 1995 'tudo composição musical em Campinas, retornando a Belém religiosamente durante as férias de julho e dezembro. O Fábio eu conheço desde 1994, quando fomos juntos ao Festival de Londrina ter aulas com o professor Koellreutter. Desde os primeiros feriados vinha tentando construir com o Fábio um movimento de música nova na cidade. A o chegar em Belém em setembro de 2000, marquei um encontro com Fábio na Estação das Docas para tomar chope e jogar conversa fora. Ele trouxe o resultado de alguns experimentos sonoros que vinha preparando acho que para uma peça de teatro. Lembro que se tratava de uma música elaborada sobre os sons de um ar-condicionado. Em 'sa época eu já havia produzido alguns trabalhos em música eletroacústica e tinha acabado de 'trear uma peça em São Paulo (O Deserto dos Cães). Surgiu então a idéia de montar um concerto com nossas peças em Belém. Fábio havia arranjado um equipamento que consistia em 4 alto-falantes, dois amplificadores, uma mesa, um tocador de CD e um técnico que montaria o set e nos ajudaria a entender como funciona. Para completar, ele tinha também à disposição um galpão de teatro numa vila da Av.. Magalhães Barata onde a Companhia Atores Contemporâneos, dirigida por o Miguel Santa Brígida, trabalhava. disponibilidade experimental O que mais me chamou atenção na peça que o Fábio me apresentou no fone de seu tocador de MDs, foi o seu despojamento formal e uma certa aceitação do som em si como objeto artístico ao invés de usá-lo simplesmente como meio de expressão artística. Considerei isso um sinal verde para realizar experiências radicais. Contrabalançando uma certa tendência nossa à abstração formal, havia uma grande disponibilidade por a experimentação e por o risco manifestas principalmente na maneira como Fábio 'colhia os objetos a serem tratados ou sampleados (gemidos pornográficos, arrotos, sons aproveitados de tomadas de som cheias de chiado, etc.). Outra coisa interessante era seu ritmo de composição que permitiu a produção, em pouco mais de uma semana, de uma música baseada em três sons de fala breves organizados num discurso frenético de 25 minutos (Música para Sexta) utilizando apenas recursos de edição, processamento e sequenciamento de softwares como Sound Forge e Cake Walk. Tais condições desencorajariam imediatamente um compositor do 'tablishment paulista acostumado com os programas infalíveis e indispensáveis do IRCAM, ao poder do Macintosh e às imposições do meio que fazem com que os compositores tenham vergonha do que produzem caso isso não sirva para manter a evolução da grande arte (leia-se últimas tendências da vanguarda européia pós-serial ou pós-'pectral). Outro recurso seu era a performance ao sequenciador acompanhada de sons pré-gravados. Uma 'pécie de música eletroacústica mista usando sons sampleados. o 'paço A idéia era montar um set de alto-falantes dentro do galpão e projetar nossas músicas além de obras eletroacústicas de brasileiros ou 'trangeiros. As paredes do local 'tavam pintadas de preto, não haviam cadeiras, apenas tatames no chão. Já que tínhamos toda a liberdade, passamos a convidar alguns amigos músicos dizendo que eles poderiam trazer qualquer tipo de coisa para as performances. Curiosamente ninguém quis se expor num projeto desse tipo, apesar do caráter lúdico da coisa. Avisávamos que muita coisa ocorreria de improviso e isso afugentou a todos. O 'paço de performance permanece santificado na cabeça de eles. A 'sa altura o horário e as datas já haviam sido 'tabelecidos: dias 28 a 30 de setembro de 2000 à meia-noite. Para nós seria apenas uma oportunidade de 'tar envolto em sons, mesclá-los a outros, deixar a imaginação fluir sem preocupação com público, horário, funcionamento ... uma brincadeira de luxo. Não há recortes de jornal sobre 'ses concertos pois preferimos não divulgá-los. Ironicamente tivemos um bom público nos três dias e um repórter do jornal ' O Liberal ` ligou lá para a casa perguntando sobre as performances: «por que vocês chamaram o show de artezanato (com ' z ')?» ... «Ops! Tá 'crito com z, é? É erro!». Lamentou que não tivéssemos procurado o Jornal antes, porque " 'se evento era muito importante para a música paraense; é uma pena que não vai dar para divulgar, mas o próximo me dá um toque», etc.. Fizemos questão, é óbvio, de não cobrar ingressos. Dissemos: " vamos fazer um som no galpão do Santa Brígida ... se quiser, passa lá». últimos preparativos A semana anterior à primeira sessão foi de produção de material para tocar. Decidimos que haveria uma parte importante das performances dedicada a música para alto-falantes. Em a verdade 'sa parte eletroacústica do trabalho 'tá sempre presente como forma de fazer o tempo passar entre uma coisa arriscada e outra (como uma improvisação sobre objetos amplificados envolvendo o público, por exemplo). É curioso que o trabalho tenha sido classificado simplesmente como eletroacústico. Compus alguns trabalhos envolvendo interação entre coisas gravadas e performance ao vivo, pedi à minha 'posa Tânia mandar vários CDs de música eletroacústica lá de São Paulo e tentei convencer alguns colegas a participar das performances. O Fábio já tinha um monte de coisas preparadas e ficou fazendo a Música para Sexta, para CD e sequenciador, que 'tava programada para tocar no concerto da Sexta-feira 29. O primeiro dia foi a prova dos nove para toda 'sa 'trutura pautada no despojamento. O que vai acontecer? Montamos o set à tarde, aprendemos a mexer na mesa, organizamos mais ou menos o que iria ocorrer à noite, ouvimos algumas músicas, amplificamos a porta de ferro do galpão (que tinha um belo som metálico), experimentamos algumas combinações sonoras usando objetos da trupe que ensaiava lá (como uma armação de um pequeno carrinho de ferro que rangia enquanto era empurrada) e fui fazer um programa impresso que acabou não servindo para nada. ritual eletroacústico na madrugada belemense Perto do começo foi chegando um monte gente do nada. Tinham ouvido falar da coisa e vieram curiosos. Alguns me conheciam ou conheciam o Fábio e 'tavam querendo saber que maluquice rolaria. Trouxeram bebida, deitaram-se nos tatames e criou-se uma atmosfera de ritual. Meia-noite em ponto comecei a tocar a peça 74 do John Cage e liguei o microfone da porta. A idéia era por alguém para manipular a porta e mandar os sons disso para as caixas acrescentando efeitos. O Fábio foi o primeiro portista da noite e ia entregando o instrumento para todos os 'pectadores que chegavam atrasados. O cara chegava, tava rolando uma atmosfera sonora densa dentro da qual ele era o intérprete solista. Por incrível que pareça isso deu certo. O pessoal entrou no clima e tivemos performances memoráveis. A primeira parte do concerto era de minha responsabilidade e taquei na seqüência uma peça do J. A. Mannis: Cyclone para altofalantes, baseada num furioso improviso sobre os rangidos de uma cadeira. Toquei a 'tréia mundial de 5 Voltas num Parque ou o Acordeonista sob um Teto de Amianto do meu colega Alexandre Fenerich e a 'tréia paraense de O Deserto dos Cães peça eletroacústica de minha autoria. Deu-se o intervalo e batemos um papo com o público sobre o que 'tava acontecendo. Muitos expuseram sua impressão sobre o que acabaram de ouvir e conversamos um pouco sobre a questão do gesto na música eletroacústica. A parte do Fábio contou com peças para sequenciador e Md. Logo no início o choque: Uma versão do Prelúdio e Fuga em dó menor de J. S. Bach construída sobre o som de um arroto sampleado. Lembro que fiquei impressionado com a cara-de-pau do Fábio e fiquei feliz por enxergar os limites de minhas próprias concepções sobre liberdade de experimentação e anarquismo em arte. Seguiram-se peças de Bach, Pixinguinha e um retumbão retirado do folclore paraense, todas realizadas com uma base de sequenciador com solo ao vivo no próprio sequenciador. Meu primeiro concerto de música sobre suporte tecnológico onde sons de General MIDI participam como uma possibilidade tão cabível quanto qualquer outra. Enquanto o Fábio tocava, pessoas da platéia me pediam para participar de alguma coisa. A o começar a última música, deixei aquela armação de ferro sobre rodas com um 'pectador (Rogério Carvalho -- ex ' Anjos do Abismo ') que entendeu imediatamente o que fazer: apenas rodar de lá para cá muito lentamente. Fui até a porta amplificada (e no caminho reparei que o Fábio abria o potenciômetro da porta na mesa) e acrescentei uns 'talados com reverb ao contexto. O resultado foi muito bom. Com isso tínhamos fechado a primeira noite de modo inesperado e eficaz. epílogo Depois que terminamos de arrumar o 'paço para poder fechá-lo reparamos que muitos 'pectadores ainda 'tavam no local querendo conversar sobre o que havia acontecido lá dentro. Fui levado ao Mercado de São Braz para tomar cervejas na madrugada e discutir música eletrônica, performance, gestual eletroacústico ... minha cabeça 'tava em chamas com o ocorrido. Uma verdadeira mudança se operou na maneira como eu pensava a música e que afetou toda a minha produção posterior. Estávamos experimentando, através do risco, fazer música nova. E 'sa recém descoberta música experimental belemense tinha uma franca vocação anárquica ... O Artesanato Furioso ainda chegou a apresentar-se duas vezes mais em 'sa ocasião, dedicando um concerto formal de música eletroacústica ao dia 29 de setembro de 2000, data histórica do gênero na região; em 2001 conseguiram permissão da prefeitura de Belém para realizar dois concertos no Cemitério da Soledade de madrugada, que acabou se tornando um evento grande demais devido à cobertura enfática e sensacionalista da imprensa local; em 2002 voltaram aos galpões de teatro, de 'sa vez no «Espaço Bufo», para mais duas apresentações; em 2003 realizaram performance de mais de uma hora percutindo a ponte Almir Gabriel, sobre o Rio Guamá, na altura do município de Marituba-PA e, em 2006, durante o IV Encontro Nacional de Compositores Universitários deram uma canja improvisando sobre sobras de lixo amplificadas. Um «retorno formal» do Artesanato 'tá previsto para 2007. Número de frases: 95 A Chef Pâtissier Djiane Ravet lança sua primeira coleção de doces e chocolates em Goiás na Pâtisserie-Chocolaterie Delices de Paris. Inaugurada no final de abril, a loja 'tá localizada no Setor Nova Suíça, em Goiânia / GO. O empreendimento 'tá voltado para a produção e comercialização de chocolates, tortas, doces, petit fours e salgados, receitas originárias da culinária francesa tradicional, além de criações exclusivas da Chef. Djiane Ravet ingressou na Escola de Hotelaria de Dardilly em 1995, e lá conquistou o CAP e o BEP de Pâtisserie Confiserie Chocolaterie, os dois diplomas mais significativos da profissão. Trabalhou ao lado de Maurice Lafay e outros grandes chefs Pâtissiers de Lyon, na França. De volta ao Brasil, iniciou a difusão de sua técnica em São Luís, no Maranhão, onde abriu as portas da Delices de Paris, em 2000, ao lado de seu 'poso Laurent Ravet. Seu histórico de empreendedorismo e dedicação profissional levou Djiane a se tornar a primeira mulher Chef Patîssier a ingressar na Associação Brasileira de Alta Gastronomia (ABAGA) -- www.abaga.com.br. Segundo Djiane e Laurent Ravet, a Delices de Paris traz para o mercado goiano um produto diferenciado, que agrega fortes valores culturais. Além da técnica apurada e de matéria-prima 'pecial (baunilha importada da Ilha da Reunião, cobertura de chocolate da Bélgica, entre outros), a Chef faz opção por a prática da Pâtisserie artesanal (haut de gamme). «O tempo todo 'tamos em busca de um produto levíssimo, de textura e sabor inconfundíveis», afirma. De acordo com os empresários, a busca por a excelência desse produto também reflete no atendimento 'pecializado e na criação de espaço de convivência que traga bem-estar para o cliente que procura qualidade de vida. Em o momento, Djiane trabalha em seu laboratório, na Delices de Paris, envolvida na execução dos chocolates, tortas, doces, petit fours e salgados que integram a primeira coleção da Pâtisserie-Chocolaterie em Goiânia. De entre as várias receitas exclusivas, destaque para a torta Tentação, que mereceu cerca de dois meses de estudo para chegar à forma final, feita de mousse de amêndoa com geléia de frutas vermelhas. A coleção de doces e chocolates 'tará disponível na loja e para encomenda, acompanhada do cardápio de bebidas quentes e geladas. Especialista em chocolates, Djiane afirma que o clima goiano traz mais possibilidades de desenvolvimento para suas receitas. «Algumas pessoas vão descobrir que nunca comeram chocolate de verdade», diz. A Chef explica que a grande maioria dos chocolates disponíveis no mercado é composta por muito açúcar e gordura hidrogenada, para reduzir o custo e não derreter. «O verdadeiro chocolate é aquele que derrete primeiro na mão e, em seguida, na boca», completa. Delices de Paris -- Pâtisserie Chocolaterie Endereço: Av.. C-264, Qd. 594, Lt. 08 -- Setor Nova Suíça (continuação da T-13, Rua do Colégio Visão) -- Goiânia / GO. Fone: (62) 3091 7021 Número de frases: 24 delicesdeparis@ig.com.br zeroum comunicação ele dá uma carona e briga com ela todo dia, às 22 horas. e todo dia, às 23 horas ela se pergunta se 'tá tudo bem com ela. ela agora canta alto no banheiro todo dia. e ela sabe que isso a deixa mais feliz. sem isso, até sente um pouco de falta de si mesma. ela adora ouvir música bem alto e também passar altas horas buscando na rede algo sobre o que ela pensa durante o dia. mesmo que sejam coisas muito inúteis ou totalmente absurdas. ela pensava que com mais sorrisos dentro do peito, ele passaria a gostar mais de ela. que ele toparia se fantasiar e sair com pouco dinheiro pra se divertir falando besteira e rindo de bobagens. que ele diria em seu ouvido as coisas que ela menos 'pera em momentos desesperançosos. talvez ela quisesse que ele a amasse para que ela gostasse mais de si própria. talvez não. todo dia ele briga com ela às 22 horas. e hoje ela acordou às 10 da manhã, comeu um cuscuz, se 'ticou um pouco, tomou um banho demorado e cantou. fez com vontade suas atividades diárias e continuou sendo ela mesma durante o resto do dia, com suas irresponsabilidades e seu charme. e olhou para o que comprou, mas que sempre 'quecia de mostrar. o que antes ela mostrava muito e sempre 'quecia de usar, agora ela usa todo dia e ele nunca lembra de olhar. ela não liga, porque sabe como é não lembrar. ela se pergunta todo dia se 'tá tudo bem com ela e canta bem alto no banheiro para se certificar disso. ela acorda às 10 horas e se 'tica um pouco para se sentir viva. talvez ela tenha sonhado ultimamente que ria de bobagens e falava algumas besteiras. talvez não. ela queria sentir que ele a amava, mesmo sem lhe dizer coisas no ouvido. todo dia ela 'quece de alguma coisa que tinha para fazer e começa a se perguntar se 'tá tudo bem com ela. ela pensa em ele como se seu peito se enchesse de sorrisos e lembra que precisa mostrar o que comprou. ela queria que ele a visse como quando ela sonhou que eles se fantasiavam. ele caia em seu charme e curtia com ela seus momentos de pura irresponsabilidade. ela se sentia meio poeta cantando bem alto e queria que ele fosse sensível como um poeta para ela se sentir viva. todo dia quando ela pega uma carona com ele, ela fantasia a língua de ele 'crevendo palavras inesperadas em seu ouvido e o amor se 'ticando ... e acaba 'quecendo de mostrar o que comprou. enquanto ele briga, ela pensa que vai ter que cantar muito no banheiro para se certificar de que 'tá tudo bem com ela. e fica pensando se ele a amaria mais se ela passasse a gostar mais de ela. mas ela acha mesmo que orgulho é um sentimento inútil e totalmente absurdo. todo dia ela faz tudo de uma forma que ela sinta que não 'tá fazendo nada de novo. mas ele dá uma carona para a ela e briga. todo dia, às 22h oras. Número de frases: 36 então ela chega em casa desesperançosa, sonhando em dormir logo para ver ele caindo em seu charme novamente. Em 1976, depois de uma viagem sacrificada de aproximadamente 12 horas, Gilmar de Carvalho chegou ao Cariri. Por simpatia, acompanhava um amigo carioca que desejava conhecer a cidade de Juazeiro do Norte. Em a época, ele era publicitário, formado em Comunicação Social por a Universidade Federal do Ceará. Havia passado rapidamente por o jornalismo cultural, à frente do caderno cultural Balaio no antigo Gazeta de Notícias. Também tinha publicado seu primeiro livro de ficção, Plurália Tantum (1973). como se fosse graça concedida por a penitente viagem, o intelectual de vivência urbana se impressionou com o «range-range onomatopaico» do maquinário da Lyra Nordestina, editora de cordéis. De lá, voltou com 90 folhetos. Era um presente que dava a si mesmo. Não sabia ao certo o resultado de ali. Foram os 90 primeiros de uma coleção que não parou de crescer. O começo de um rito sacro, ou simplesmente uma paixão: a «cultura popular». Mais tarde, Gilmar teve a liberdade própria de chamar «tradição». De publicitário, virou pesquisador, viajante, conhecedor do interior cearense e professor do curso de Comunicação Social da UFC. Um dos pensadores mais vivos e prolíficos do Ceará. mais de 20 livros acadêmicos publicados. Não contando os literários que foram oito, incluindo duas peças de teatro. As engrenagens e o range-range de ele não se aquietam. Seu barulho é uma necessidade. Quando aconteceu a entrevista a seguir, trazia com si um exemplar do até então não-lançado «Mestre da Cultura Tradicional Popular do Ceará». Há poucos dias, havia enviado para a gráfica «Rabequeiros do Ceará», uma outra obra com 105 perfis de rabequeiros do 'tado, trabalho dispendioso de três anos de dedicação. Gilmar gosta de refletir sobre as imbricações cada vez mais complexas da cultura popular e da cultura de massa. Como se conceituou os dois pólos. Ele mete o dedo nas políticas públicas para a cultura -- já chegou a trabalhar na Secretaria de Cultura do Governo do Estado em 1993 -- e não abre mão do pensamento crítico, muitas vezes ácido. Sujeito é opinioso e vaidoso. Com a sua 'tatura pequena e os óculos que já compõem de forma quase biológica o seu rosto, Gilmar de Carvalho sintetiza a erudição e o deboche numa personalidade inquieta e reservada. Foi mais de uma hora e meia de conversa, numa pequena sala da livraria Lua Nova, de uma amiga sua. Em a entrevista, muitos assuntos abordados: a «tradição» -- sua paixão e objeto de pesquisa --, sua relação com Fortaleza, o abandono da literatura, sua vaidade ... Abaixo, segue o trecho 'pecífico sobre os aspectos da «cultura popular», desde sua identificação com o tema, até a avaliação do papel das políticas públicas para a área. A entrevista completa deve entrar nos próximos dias no Banco de Cultura. Como resultado da entrevista, também serão disponibilizados no Banco de Cultura cinco de seus livros -- quatro de eles publicados por o Museu do Ceará. São eles: «Patativa do Assaré --Pássaro Liberto «(2002),» Mestres Santeiros -- Retábulos do Ceará «(2004),» Tramas da Cultura (2005)», Artes da Tradição (2005) «e» Lyra Popular (2006)». Os livros serão postados no Banco de Cultura nos próximos dias. Pedro Rocha -- Gilmar, tu pode detalhar um pouco mais como foi 'sa viagem a Juazeiro do Norte em 1976? Foi em 1976, eu 'tava trabalhando num 'critório de engenharia, fazia tradução e redação de normas técnicas, melhorava o português e a redação dos engenheiros que eram 'panhóis. Aí no período de férias, eu fui a Juazeiro (do Norte, a 560 km de Fortaleza) com um amigo carioca e lá a gente se hospedou no Hotel Municipal. O foco principal foi a tipografia. Fomos visitar a figura do Padre Cícero, fazer todo aquele roteiro tradicional, (Igreja) Matriz, Mercado, mas a Lyra Nordestina foi realmente o meu encantamento, as máquinas, as pilhas de folhetos, os compradores de folhetos, poetas, gravadores. Aquilo tudo funcionando me deu a dimensão de um negócio, de um empreendimento, de algo que 'tava à margem do que a gente 'tava acostumado a ver nas editoras tradicionais, nos meios de comunicação convencionais. Eu comecei a ver aquilo como a possibilidade não apenas de um deleite imediato, de uma fruição imediata, mas de pegar 'se material para vir a me interessar por ele, me debruçar sobre ele, de dedicar uma boa parte do meu tempo à compreensão do significado daquilo para a cultura, do impacto daquilo não só para a cultura, mas também, principalmente, para os segmentos que adquiriam e que consumiam aqueles produtos. Tiago Coutinho -- A pesquisa já começa de imediato? Quando você teve 'se contato com Juazeiro já teve 'se interesse de pesquisar ou foi mais admiração? Gilmar -- Não ... Por exemplo, eu já voltei de Juazeiro com 90 folhetos, né? Esses folhetos são muito bem cuidados na minha «coleção». Eu chamo 'ses folhetos de «os clássicos», foi o núcleo inicial da minha biblioteca. Então o fato de eu já ter trazido 90 folhetos já significava uma decisão, uma atitude. Não cheguei imediatamente já produzindo textos, mas vocês já podem encontrar no Parabélum (primeiro romance de Gilmar de Carvalho, que será relançado ano que vem em edição comemorativa de 30 anos de publicação), de 1977, um texto chamado «Em Juazeiro». Aliás, um conjunto de textos, são cinco textos que vão se situar em Juazeiro, no universo de Juazeiro, onde eu vou falar da arte popular, das igrejas feitas com cacos de vidro, da 'cultura, da religiosidade, da fé. Eu acho que aí já 'tá 'crito, não de uma forma acadêmica, mas eu já começo a delimitar o meu 'paço em relação ao tradicional, em relação a Juazeiro. Pedro -- Eu queria saber de ti, Gilmar, se em 'sa viagem tu já sentiu a força de Juazeiro, do misticismo de Juazeiro e da região. Gilmar -- Já, senti porque ... Juazeiro é uma cidade muito curiosa, é preciso que a gente 'teja disposta a interagir com ela. Em a verdade, eu acho que também é preciso que a gente chegue na hora certa, talvez alguém desavisado ou que não 'teja interessado em 'sas questões vai achar que é uma cidade de trânsito caótico, poluída visualmente, cheia de camelôs no meio das ruas. Eu já ouvi inclusive pessoas, arquitetos e urbanistas, dizerem que é uma cidade horrorosa. Elas não conseguem captar a alma da cidade, mas eu já percebi porque, embora não tenha ido no período de romaria, eu vi muitos caminhões de romeiros, eu ouvi várias pessoas cantando benditos, as pessoas com rosários, chapéus de palha, eu já subi o Horto e já vi como as pessoas iam para o horto, naquele tempo, mais do que hoje. Hoje, nós já temos uma certa organização. Temos uma opção de 'tradas asfaltadas, os ônibus já sobem, tem um 'tacionamento. Mas naquela época, as pessoas subiam geralmente a pé para o Horto e tinha um ônibus precaríssimo onde eu fui. Ainda hoje eu agradeço a Deus por ter subido e ter descido íntegro. Mas eu já percebia isso em Juazeiro, não 'tava dentro de uma das grandes romarias, mas era perceptível 'se clima, 'sa áurea, 'sa mística, tudo isso que cerca a cidade. Os sinos, o barulho, o silêncio, as vozes dos romeiros. Tudo aquilo ficou muito marcado, e eu fui soltando 'se material ao longo de alguns papers, mas a minha grande declaração de amor a Juazeiro é o Madeira Matriz que eu acho que é todo Juazeiro. Pedro -- Gilmar, eu queria saber como foi o confronto de um jovem intelectual urbano se deparar com a religiosidade de Juazeiro que é uma religiosidade que -- não sei se é a palavra correta -- resvala num «fanatismo». Como foi 'se confronto? Gilmar -- Eu vinha de uma formação religiosa muito forte. Eu 'tudei nove anos com os Jesuítas. Então 'sa questão religiosa talvez eu tenha resolvido quase como uma negação a uma religiosidade mais cartesiana ou mais contida ou mais organizada que eu vivenciava no colégio. Eu era obrigado a rezar antes de todas as aulas, a fazer a primeira sexta-feira do mês, a fazer retiros, a fazer isso, a fazer aquilo, sabe? Aquilo foi me dando no saco que aos 14 anos eu me afastei desse tipo de Igreja, desse tipo de religião. Então quando eu entrei em 'se universo, claro que eu não entrei como um de eles, seria muito falso e seria também uma coisa demagógica se eu me considerasse um romeiro, se eu fosse me autoflagelar, se eu fosse subir o horto carregando uma pedra na cabeça ... Eu não fiz 'sas coisas, mas eu de certo modo vi aquilo como uma outra forma de religiosidade, como eu vejo hoje com muito mais simpatia 'sa religiosidade popular que eu considero sem condições, sem limites, uma religiosidade também muito direta, aonde as pessoas falam diretamente com Deus, com os santos, dispensando intermediários. Muitas vezes há uma possibilidade de troca, de barganhas. Eu acho isso tudo muito fascinante. E além dos benditos, não só por o típico, por o pitoresco, que isso pra mim nem é típico, nem é pitoresco, é diferente. Então eu embarquei, mas eu embarquei também com algumas ressalvas, né? Um certo distanciamento do pesquisador, do jovem urbano de formação universitária. Eu não entrei de vez pra voltar de lá vestindo preto todo dia 20, embora eu tenha muita admiração por a figura do Padre Cícero. Tiago -- Voltando para a questão da cultura popular. Eu percebo duas abordagens da cultura popular que são as abordagens mais fáceis: a do preconceito e a da exaltação ao extremo, um olhar quase puritano da cultura popular. Como que você vê a questão da própria academia abordar 'sa questão a partir de 'sas perspectivas? Gilmar -- Em relação ao preconceito, a rejeição, é muito forte. Nós tivemos agora um movimento seríssimo de rejeição na adoção de Patativa do Assaré [poeta popular cearense de maior reconhecimento nacional. Antônio Gonçalves da Silva é o nome de batismo. Patativa é nome de pássaro e também a alcunha que se dava a todos os poetas cantadores do Ceará. Assaré é o nome de sua cidade natal, a 490 km de Fortaleza] por o vestibular da Universidade Federal (do Ceará). Eu fui inclusive acusado de ter interferido na obra do Patativa, de ter modificado a obra do Patativa. Coisa absolutamente absurda que eu não tenho competência pra fazer isso. Essa exaltação também me parece idiota, ufanista. A minha perspectiva é, de certo modo pra mim, muito clara. Ela não tem nada de revolucionária, nem de contestadora, também não tem nada de inovadora. É uma tentativa de ver a cultura popular não numa dicotomia com o erudito, mas ver a cultura popular numa relação com a cultura de massas, com a indústria cultural, com a contemporaneidade. Eu acho que minhas reflexões vão por aí. Em alguns momentos, sou muito crítico do que se chama de cultura popular. Não se pode 'tar elogiando tudo que é feito sob 'sa rubrica. Também não me interessa a cultura popular por a cultura popular já que eu não sou, não fui e não pretendo ser folclorista, mas sim como 'sa cultura popular, como 'sa tradição vai interagir com o que 'tá aí, com as novas tecnologias ... O título do Tramas da Cultura deveria ser Paçoca de Liquidificador. Eu tive que mudar na última hora porque tinha que ter uma capa com o bordado da Nice [A os 85 anos, Nice Firmeza é uma das artistas plásticas cearense mais respeitada no Ceará. Ficou conhecida principalmente por causa de seus bordados]. Aí não dava pra colocar Paçoca de Liquidificador com um bordado na capa. Virou Tramas da Cultura. Mas a idéia é basicamente 'sa, é 'sa paçoca do liquidificador, a parabólica 'petada na casa de taipa, é como as pessoas convivem com a tradição e convivem com as novas tecnologias ao mesmo tempo. Pedro -- Você já falou pra mim Gilmar que muitas vezes fica triste, deprimido, em ver que algumas pessoas que você já tá trabalhando há algum tempo vão morrendo e a maioria das pessoas que você trabalha são pessoas idosas, são pessoas mais velhas, com 60 anos para a cima. E eu percebo na tua obra uma preocupação de perenizar a cultura popular. Você acha que ela caminha, não sei se para uma extinção, mas para uma redução drástica? Gilmar -- Eu acredito que sim, Pedro. Eu costumo sempre dizer que não trabalho com o viés apocalíptico, catastrofista, mas por o próprio acompanhamento e por a própria dinâmica da cultura, muitas de 'sas práticas que nós temos hoje vão se reduzir muito ou vão se transformar de uma maneira que elas não vão mais manter a mesma força que elas têm agora. Por exemplo, a pesquisa que eu acabei de fazer sobre as rabecas. Eu consegui entrevistar 105 rabequeiros, desses 105 pelo menos uns seis já morreram entre as entrevistas e a publicação do trabalho. E o que que a gente percebe? É que dos 105 rabequeiros, só dois têm filhos que tocam rabeca. Não é preciso nem apocalipse, nem catástrofe para a gente imaginar que vai haver uma redução brutal no número de rabequeiros e que provavelmente eu tenha contribuído em determinado momento ou venha a contribuir para registrar, para perenizar algo que daqui há dez anos, talvez, ao invés de 105, nós tenhamos cinco rabequeiros, ou 10, os sobreviventes. Então muita coisa se transforma, muita coisa se acaba, algumas se acabam por falta de políticas culturais, outras por insensibilidade de autoridades. Por exemplo, aquelas redes belíssimas de travessa feitas por os Tremenbés não 'tão mais sendo feitas, porque eles não têm dinheiro para comprar a linha. O que que eu vou fazer? Não adianta eu encher o carro de linha, chegar em Itarema e distribuir linha. Essa não é a minha função Pedro -- Você falou em dinâmica entre a cultura popular e massiva. A gente pode falar também em conflito. Gilmar -- A idéia de conflito é que a idéia de 'sa dinâmica nem sempre é uma dinâmica de conciliação, muitas vezes, é uma dinâmica de conflito mesmo. E 'sa luta é uma luta desigual para a tradição e a cultura popular, porque os grandes meios têm um aparato, têm um capital. Eles têm tecnologia, eles têm técnicos, eles têm ... Enfim, uma série de operadores de procedimentos. Eles são uma avalanche, um rolo compressor, e 'sa idéia, não da cultura popular tradicional fragilizada, mas não dá para ela competir. Em determinado momento, o cordel conseguiu maquinário. Em 'sa história toda me parece que os violeiros são os que conseguem se safar melhor, porque eles conseguiram ir para dentro das emissoras de rádio e comprar horários. Depois eles passaram a gravar fitas, gravaram vinis, outros gravaram CDS, vendem CDS de cantorias, fitas VHS. Eu já comprei inclusive um DVD que não funcionou. Talvez por o fato de ser algo mais ligado ao 'petáculo. Há uma competição entre os cantadores. Eles alugam teatro, montam um aparato de som, cenários, júris, e aquilo consegue uma certa evidência, mas algumas manifestações vão praticamente decair. Quem é mais que vai ficar horas pilando uma paçoca num pilão de aroeira? Farinha com rebola, com carne de sol, desfiando com as mãos ... Se você pode conseguir algo parecido num processador com cinco toques na tecla pulsar, né? Acho que têm algumas coisas que vão ficar realmente na categoria do muito 'pecial, do muito sofisticado, do para iniciados, para poucos e bons, e a maior parte das coisas vai se desmantelar mesmo, porque é muito forte o aparato da tecnologia, dos conglomerados. Pedro -- Gilmar, em 'sas viagens que eu fiz com ti entrevistando alguns mestres [a Secretaria da Cultura do Ceará implantou um projeto que elegeu 36 mestres da cultura do Estado e pagará a eles um salário mínimo por mês vitalício], a gente percebe uma gratidão, um certo servilismo ao Governo do Estado por 'tar recebendo um salário. Como você vê isso? Gilmar -- Eu acho isso lamentável e, na medida que eu posso, eu tento desmanchar isso. «Olha, você é mestre por a sua competência, o Governo do Estado apenas reconheceu e tá lhe dando uma pensão». Mas, por exemplo, o Sebastião Chicute (cordelista e mestre do Reisado), de Capistrano, fez questão de me dar o folheto que ele tinha feito homenageando o Lúcio Alcântara. Eu disse: «Mas por que que você fez 'se folheto?" " Não, porque foi ele que me deu o título de Mestre da Cultura." Eu disse: «Não, não foi ele que lhe deu, foi durante o governo de ele, mas o senhor ganhou, porque foi feita a sua inscrição, o Conselho de Patrimônio avaliou que o senhor merecia». A dona Dina (vaqueira, presidenta da " Associação dos Vaqueiros e Boiadeiros e Pequenos Criadores de Canindé "), que é uma mulher muito desenvolta, muito interessante de Canindé, teve o maior orgulho de participar dos comerciais para a reeleição, que não aconteceu, do governador Lúcio Alcântara. Eu acho muito lamentável isso. Agora, por outro lado, é como se eles tivessem medo de perder uma pensão que na verdade não vai acontecer, porque é uma legislação 'tadual e 'pero, tenho certeza, de que isso vai ser levado a sério, mas eles têm medo de uma represália. «Ah, eu me nego a participar de um comercial ou não vou prum determinado evento e eu posso ser punido». Então eu acho que talvez fosse necessário um 'clarecimento que não se trata de generosidade nem do governador, nem da secretária da cultura, nem de ninguém, mas que eles 'tão ali por uma questão de mérito. É o que a gente 'pera. Pedro -- Qual seria a função da política pública no atual contexto? Gilmar -- Em primeiro lugar, eu sou um ferrenho defensor que as comunidades deveriam ser ouvidas. Elas não são, elas recebem. às vezes, elas recebem biscoitos finos, produtos de muito boa qualidade, mas elas poderiam ser ouvidas, não só em relação ao que elas querem fruir, como também eu acho que as políticas de cultura não deveriam se tratar só de oferecer produtos, mas principalmente de capacitar pessoas. Não com uma formação de cursos picaretas, onde muita gente ganha dinheiro e no fim não se resolve nada, mas de fazer com que as pessoas tivessem ... O que nós precisamos mesmo no interior é de bibliotecas, é de mais informação, é de reciclagem e de fazer com que aquelas pessoas continuem fazendo o que elas fazem talvez com a possibilidade de uma adoção do que a gente poderia chamar de uma 'tilização, de uma recriação. Então 'sas manifestações podem vir a se transformar em balés folclóricos ou em balés étnicos, em coreografias, e não simplesmente só naquela dança tradicional. Mas os grupos parafolclóricos não resolvem isso, eles terminam fazendo uma macaqueação piorada, uma coisa terrível, lamentável. Pedro -- Hoje, então a cultura popular depende da intervenção do Estado? Gilmar -- Depende, porque ela é feita por pessoas geralmente das camadas subalternas, muito pobres, geralmente desinformadas em relação ao que a gente convencionou chamar de informação. Embora elas tenham uma sabedoria, elas tenham uma ciência, elas tenham um domínio daquilo que elas fazem, das técnicas, elas tenham uma visão de mundo muito rica, mas elas são de certo modo reféns de uma ajuda e nós não podemos prescindir de 'sa ajuda. É função do Estado colaborar para que 'sas pessoas atinjam a plenitude das suas possibilidades de expressão. Pedro -- Ao mesmo tempo que são reféns do Estado para ter as condições de produção, a gente tem reapropriações muito interessantes ... Gilmar -- De o (Mestre) Piauí [mestre do Boi Quixeramobim, no município de mesmo nome que fica no sertão central do Ceará] tem uma história muito curiosa, quem me contou foi um ex-aluno, Danilo Patrício. O Mestre Piauí começou a perder importância, a comunidade não ligava mais muito pra ele e, no auge da dança do tchan, ele colocou na frente do bois umas meninas fazendo a dança do tchan. Os conservadores ficaram excitadíssimos e foram para as emissoras de rádio para detratar o Piauí, dizer que ele tava ficando maluco, que aquilo não tinha nada a ver com a tradição, mas foi uma 'tratégia de ele para chamar a atenção para o folguedo. O ano seguinte não tinha mais dança do tchan. Eu acho que 'sa 'perteza do produtor popular pode ser muito interessante. Pedro -- Gilmar, 'se amor por o tema da cultura popular é fundamentalmente o amor por as relações pessoais, por as relações sociais que ela funda em contraposição às relações do meio urbano? Gilmar -- Eu diria que sim, daí talvez, como naquela sua pergunta anterior, a minha tristeza e a minha melancolia com a perda de várias pessoas. Eu trabalho com um universo de pessoas mais idosas, você falou em 60, mas eu trabalho geralmente mais é com 80, alguns até com 90, então a possibilidade de perda é muito maior. E eu fico preocupado, porque a gente cria, mesmo que não queira, uma relação afetiva com 'sas pessoas e é como se fosse, embora não deva, não possa e não queira congelar aquele tipo de relação, mas é como se eu quisesse que aquela relação fosse num processo onde ela sofresse todas as transformações que ele tem que sofrer, mas que ela mantivesse 'sa sinceridade desses laços, 'sa transparência das pessoas, 'se não saber mentir, 'se não saber ter respostas de conveniência para determinadas situações, pra determinados instantes. Número de frases: 177 Isso me desconcerta um pouco, são algumas falas, algumas respostas, algumas posições de eles diante da vida que são muito diferentes das nossas, marcadas por códigos de fraude, de falsidades, de enganos. Minha 'crita hoje não será poética. Hoje não pretendo falar exatamente de mim, mas da minha relação com o externo, com aquilo vejo e presencio. Não sei se cabe aqui, mas acredito que em 'tas páginas virtuais cabe de tudo. Fui ao cinema alguns dias atrás e assiti a «Zuzu Angel». Independentemente da qualidade do filme, de quem o produziu, e todos os requisitos cinéfolos para classificá-lo, posso dizer que saí de lá intrigada. A ditadura, as torturas, as mortes, a vida, as lutas. Meu Deus, quantos acontecimentos, quantas coisas não sabemos. Mas o ponto que me trouxe até 'te teclado não foi precisamente a ditadura em si, nem o filme. Foi a relação que 'tabeleci (em minha louca cabeça) com o presente. Há 30 anos, existia algo concreto para se lutar contra: a ditadura ou os socialistas. As pessoas se dividiam e se colocavam de um lado ou de outro. Hoje 'cuta-se muitas pessoas dizerem que gostariam de viver lá nos anos 70, que queriam ter participado daquele movimento. Comecei a me questionar se não há, ainda hoje, 'ta tortura. Será que somos realmente livres? O que é liberdade? Com certeza, existe uma liberdade, em diversos sentidos, muito maior do que naqueles anos. Podemos tantas coisas -- vamos aonde quisermos, falamos tudo o que vem à mente (e publicamos). Somos livres de um poder militar, se posso dizer isso. Mas dizer que não há nada para se lutar hoje é colocar-se de maneira confortável em relação ao mundo e à vida. Certo, todo mundo sabe que há guerras e torturas e ditaduras no resto do mundo. O Brasil é um país abençoado. É? Todo mundo tem certeza disso? O que dizer da falta de 'colas? Ou das 'colas que treinam seus alunos como robôs? O que dizer do imenso desestímulo questionador que a mídia nos proporciona? Falta tanto! Falta tanto para toda gente -- ricos, pobres, intelectuais, ignorantes, empresários, serventes de pedreiro ... Nossa luta parece ser como 'ta página em que 'tou: virtual. Não se tem um inimigo com um nome, não se tem um inimigo. Existe um movimento que torna invisível os sofrimentos. Ele se 'palha por toda parte. Nossa liberdade nos restringe. A os pobres, ignorantes, existem igrejas, cachaças, TV que os fazem 'quecer (ou não perceber) a realidade ao seu redor. A os ricos, extravagantes, intelectuais existem as literaturas, as drogas, a internet que nos afasta do que somos. Aonde 'tá o ser humano? Escondido atrás de uma TV, de um livro, de um computador (olha eu aqui), de uma droga (legal ou ilegal), de uma ideal (seja 'te religioso, reacionário ou filosófico). Aonde 'tá a famosa «mão na massa»? Ah, como é típico do ser humano reclamar, assim como faço eu em 'tas míseres linhas. Por que não questionar? Sim, e, a partir daí, tentar mudar, tentar fazer diferença? Ai, perdi meu raciocínio ... Não sei se consigo transmitir 'te sentimento que me invade. Não sei se consigo fazer com que meu leitor (se é que o tenho) se interesse por o que digo. Vamos lá, mais alguma tentativa. Temos Che desenhado em nossas camisetas. Temos Jesus 'crito em nossos carros. Temos Vibe gravado em nosso sites. Temos Hip Hop em nossos bonés. Tantos dizeres, tantas imagens, tanta auto-publicidade. Quanto temos de atitudes? Quanto seguimos aqueles que elegemos como nossos heróis? Quanto fazemos diferença em 'te mundo? Ainda não encontrei o nome daquele que vou lutar contra. Não, ainda não. Porque não se pode culpar o governo, ou os «detentores do dinheiro do mundo», ou isso ou aquilo. São todos entidades feitas por pessoas tão infelizes quanto aquelas que queremos lutar a favor. Parece que a luta é contra nós mesmos, é contra a nossa inércia infinita. Não tenho certeza se isso fará diferença para alguém. Termino citando Pessoa, cujo recado parece extremamente direcionado para mim e para 'te momento: Número de frases: 61 «O mundo é para quem nasce para o conquistar / e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão." Faz umas duas semanas, publiquei aqui um artigo mostrando a quem quisesse ler das virtudes de Santa Catarina, mais precisamente do Vale do Itajaí, em relação às Casas de Cultura, a eventos artístico-culturais e a promoções culturais de caráter educativo. Vejo que o texto coube bem para o momento. Afinal, Santa Catarina não é apenas o 'tado que separa o Paraná do Rio Grande do Sul, como muitos pensam, nem é o 'tado que somente abriga Florianópolis como capital. E muitas pessoas precisavam sabê-lo. Não é de hoje, como diz o texto, que municípios como Itajaí e Blumenau investem em ações artístico-culturais, da mesma forma como há algum tempo, mesmo com dificuldade, municípios menores tentam burlar a 'tagnação de suas populações para promover eventos interessantes (veja-se o exemplo de Brusque e suas 'culturas, ou as 'tações culturais de Rio do Sul). Mas é necessário que se diga que nem tudo são flores. Infelizmente. E acho necessário mostrar o outro lado da moeda. Blumenau tem um museu de arte, o MAB. Contando com um acervo de artistas basicamente locais, o MAB ocupa dois terços de uma ala da Fundação Cultural de Blumenau. Espaço, 'te, insuficiente para fazer a exposição completa do acervo, que tem de ser exposto aos poucos, em sessões de dois, três artistas. Sem falar do horário de funcionamento (lembrando que o que discutimos aqui são as ações culturais e a forma de acessar 'sas ações) que é o próprio reflexo do servidorismo público: segunda à sexta das 8h às 12h e das 13h30 min às 17h; sábado, domingo e feriados das 10h às 16h. Pelo menos trabalham durante a semana, não?! Mas quem, em comum 'tado de empregabilidade, 'tá livre às 16h de segunda-feira, por exemplo, para visitar o museu e parte de seu acervo exposto? Brusque, no médio-vale, sedia há seis anos o Simpósio Internacional de Escultura. Iniciativa do então prefeito (hoje, reeleito) Ciro Roza (PFL). Para abrigar as obras, foi criado o Museu Internacional de Escultura a Céu Aberto (Parque das Esculturas). Mas não faltam denúncias, o que é uma pena, do abandono que sofrem as obras expostas; depredação, vandalismo e desrespeito mesmo, da parte pública, em não conseguir sustentar a exposição das obras -- ou mesmo sustentar as obras, que inclinam, caem, racham e têm ser restauradas (?) para voltarem aos seus respectivos lugares. Como não poderia deixar de ser, pois falamos do poder público, há erros e omissões que não podem ser relevados. E como não poderia deixar de ser, também, o pouco que se faz na área artístico-cultural é passivo de defeitos de planejamento e execução pública. Uma pena que seja necessário ter «dinheiro sobrando» para conseguir fazer arte, expor arte, promover a cultura. É o que acontece em todos os municípios do Brasil. Quase todos? Não conheço a realidade de muitos, mas conheço a realidade daqui. Lê-se nas entrelinhas dos jornais e nas pausas da televisão que as prefeituras têm cada vez menos dinheiro para investir em irrelevâncias (dentro das quais podemos encontrar as secretarias de cultura, as fundações culturais, os projetos de incentivo etc.) e que é necessário investir no mais importante: asfalto, calçadas, reurbanizações ... quase sempre gastos com a 'tética arquitetônica das cidades. Por aqui, pelo menos, em que se tenta compor um ambiente turístico à força. Pergunto aos amigos leitores como ocorrem 'ses processos em suas cidades, com as suas prefeituras e seus dirigentes públicos. Se de fato existe o incentivo à cultura ou se somente fala-se a respeito. Se há vícios de servidorismo, como por aqui. Pergunto para saber se 'sas falhas não são endêmicas daqui e para que saibamos todos o que acontece nos municípios vários que possuem colaboradores aqui no overmundo. Talvez seja uma forma de reverificar caminhos, mudar de opções e fundamentar críticas. Nem pensar em falar de desistir. Se há tão pouco sendo feito e 'se pouco é tão magrinho e fraco, é necessário que pensemos em soluções. Se não, daí o barco afunda mesmo. Número de frases: 40 E O Vale Desabrocha (parte 1) Esse é o texto que foi publicado no nosso site na 'tréia da seção Recomendamos, com periodicidade mensal. Em 'sa 'tréia falamos sobre o cantor Goiano radicado em São Paulo, Rubi. O cantor goiano Rubi, radicado em São Paulo, é daqueles cantores que tira o fôlego de qualquer um. Sua voz impressiona por a suavidade, expressividade e também por a tessitura, que vai do barítono ao contralto. Eleito melhor intérprete por o júri popular e terceiro colocado geral no 8º Prêmio Visa, um dos mais importantes do país, Rubi mostra cada vez mais que realmente é um dos melhores cantores brasileiros da atualidade, e tem motivos para isso. Não bastasse sua voz singular e maravilhosa, ele também é formado em artes cênicas, o que deixa suas performances muito mais completas transformando o show num 'petáculo sensível e consistente. Também inserido na Contra-Indústria, a faceta emergente da cena independente brasileira, Rubi traz em seu repertório um time de peso. Desde Milton Nascimento até compositores independentes, como Kleber Albuquerque, André Abujamra, Carlos Careqa e Vitor Ramil, o cantor mostra sua versatilidade de 'tilos com extrema precisão. Seu último disco, Infinito Portátil, é ainda uma obra de arte à parte das músicas, com encarte e embalagem totalmente artesanais. Em maio de 2006 Rubi veio a Curitiba e fez uma temporada de 3 apresentações do show Paisagem Humana, uma prévia de seu próximo disco que promete ser lançado na capital paranaense ainda no primeiro semestre de 2007. Sem exageros, o show do Rubi foi um dos 'petáculos mais marcantes que vimos. Não deixem de conhecer o trabalho desse artista, que além de tudo é uma pessoa maravilhosa. Assista Vídeos do cantor Rubi e ouça um trecho da música Mar Interior, do disco Infinito Portátil Vejam também no Overmundo: Contra-Indústria Número de frases: 17 Música de Ruiz Ainda ontem eu 'tava navegando por o Orkut, matando o tempo ocioso no trabalho e mantendo contato com amigos distantes e nem tão distantes assim, até que vi a frase «fexada para balanço» no perfil de uma universitária de 27 anos, que freqüentou bons colégios, tirava boas notas e enfim ... por que diabos ela 'crevera uma palavra tão comum e usual assim com «X», ao invés da forma» oficialmente correta»?!?! Ok! Todos nós somos passíveis de erro na hora de 'crever, até mesmo nas mais simples palavras. Não 'tou aqui para crucificar ninguém, quando eu mesmo erro, também. Proponho uma discussão sobre a evolução da língua. Nunca houve dúvidas de que o surgimento e a popularização da Internet influenciariam a maneira de nos comunicarmos. E a revolução se deu não apenas no veículo, mas numa série de elementos, no qual se encontra a linguagem. Pode-se dizer que a Internet mudou a maneira de fazer jornalismo, a maneira de dar aulas, de fazer compras e até mesmo de compor um texto. A rede nos enroscou de tal forma que hoje em dia é impossível imaginar o mundo sem ela. Uma das grandes «soluções» oferecidas por a net (podemos chamá-la assim, com intimidade), os programas de mensagem instantânea deixaram de ser mania e passaram a ser hábito. Hoje é comum que dois vizinhos conversem via «chat», mesmo que morem lado a lado. Além do hábito, há também a facilidade de conversar com alguém do outro lado do mundo numa agilidade absurdamente maior que a carta e com um custo muito mais barato que o telefone. As possibilidades são infinitas e 'sa familiaridade com a 'crita no mundo virtual quebra paradigmas. Percebe-se que a rapidez na troca de informações por a internet é muito grande. Mesmo que o internauta seja ágil aos teclados, há sempre uma possibilidade e uma necessidade de ser mais prático, mais veloz. Em os chats, observamos que 'sa eficiência é alcançada com a mudança na forma de 'crever as palavras. Também há de se considerar que nossa forma de grafar as palavras nasceu numa época em que nem se cogitava em sonhos a atual realidade, o que serve para analisar a necessidade de sua evolução. Não servem as palavras para facilitarmos nossa comunicação? e se 'sa «facilidade» dificultar o processo, ao invés de honrar seu nome? Aí se encontra a problemática do assunto: A linguagem utilizada nas «salas de bate-papo» deturpa o português universal, compreendido por quem sabe o idioma? ou ela é apenas uma demonstração de que a evolução de nossa língua se faz necessária e acontece de uma maneira livre, ou seja: cada um cria sua regra e pronto, basta sair apertando as letrinhas das teclas e ir montando os fonemas da maneira que bem convir a cada um? Minha tendência é acreditar na facilidade, e a padronização me parece ser a maneira mais fácil de se 'tabelecer códigos para a comunicação. Imagine uma criança aprendendo a 'crever: um dia ela aprende a 'crever Casa, outro dia KASA, num terceiro KAZA ... se ela morar num edifício, coitada ... e pior: que tal deixarmos livre a grafia de «sorvete de coco»? Percebeu o problema? Um simples e negligenciado acento gráfico faz diferença. E que diferença! Por isso, acredito que o livre uso do português, ao invés de facilitar, dificulta a comunicação. Mas sou a favor de um uso mais flexível da nossa língua, que acolhe abreviações para dar mais agilidade, que traz a liberdade poética para o texto comum, no intuito de dar ritmo às frases, que descarta o português arcaico em favor da simplicidade para ser mais inteligível. Tudo bem, reconheço que a questão da 'crita em dias de Internet camufla vários problemas. A praticidade e evolução da língua são, muitas vezes, usadas como desculpas de um ensino básico sem qualidade e da preguiça mesmo. A sofisticação e a evolução são as justificativas para assassinarmos a nossa gramática, quando, na verdade, erra-se, muitas vezes, por desconhecimento ou preguiça. Diga-me se o argumento de abreviar ou dar agilidade à comunicação explica o fato de se 'crever «fexada» ao invés de «fechada» ... Em a primeira palavra temos 6 teclas, na segunda temos 7. Ora, que abreviação é 'sa? Eis a preguiça que prejudica. O interessante é notar que, com o passar dos anos, as pessoas navegam cada vez mais cedo em 'se mar de informações. É claro que a influência da internet e sua linguagem é maior nas mais novas gerações, o que torna a discussão mais pertinente ainda com o passar do tempo. Como vamos lidar com as palavras daqui para frente? Não dá para voltar a 'crever «farmácia» com «PH», muito menos passar a 'crever» fechada «com» X». Número de frases: 44 A placa que avisa a lotação máxima do ônibus em 'te 13 de junho à tarde também 'tava de folga e não apitou coisa nenhuma. Em a altura da Alfonso Bovero com a Cotoxó, a moça de camiseta amarela quis entrar de qualquer jeito. «Tô aqui desde as duas e meia, os outros dois nem pararam», protesta. «Vai para a frente, pessoal, tá vazio lá atrás», alguém pede. «aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee», um povo grita. «vazio nada!!». Aeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!-- comemorou-se, quando alguém ameaçou abrir o teto-móvel do ônibus para ventilar, a resmungos do motorista. O único profissional em exercício enquanto a cidade toda 'tava liberada do 'critório pedia cuidado pra não quebrar aquele ' alçapão ' do teto. Mas era tudo farra. E que aperto. «Assim, só com uma gelada!" Empurra daqui, de lá, sempre um sufoco cada vez que mais um torcedor queria entrar no Perus. Coitado, vai perder o jogo? «Não pára não, motorista, vam ´ bora!» ... e quando ele arrancou, de porta aberta com gente pendurada, parecia até fazer favor. Ao menos, parou. Passando a Pompéia e entrando nas quebradas e curvas forçadas do bairro de vovôs, a festa era repetir o aeeeeeeeeeeeeeeeeeee!! para todo carro que buzinava -- todos devidamente uniformizados, bandeira, etc e tal. Aperto, risada, resmungo. Mais risada que resmungo. «Vamo que não quero perder o jogo». A cobradora usava faixinha verde-amarela de tricô no cabelo, magrinha que só; não fosse o jaleco da cooperativa, ninguém diria que era cobradora oficial. Mais de uma vez, o motorista não parou no ponto. Motoristaaaaaa!!! Olha o ponto!!!!!! Parava metros depois e o coitado preso na lata de sardinha ainda saía com despedidas e torcidas e gritos de «sorte para a gente!!». Todos brasileiros, todos amigos. Quando dois passageiros entraram com apito, um camarada se animou: «cadê a moça da corneta?" De o lado da cobradora, eis que a dona do instrumento de plástico com grife 25 de março abre um sorriso enorme pra logo cornetar. Fooooooooooooooooom! Mais risada. Seguiriam assim até a Lapa ... Até Perus ... Se Deus quiser, chegariam à TV antes das 16h, horário de Brasília. Sabe-se lá que horas seria em Berlim. O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da 'tréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país. Número de frases: 37 Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo. O Movimento Enraizados lançou hoje a Promoção Sacolinha para que qualquer pessoa se torne um diretor e faça do seu modo o vídeo clipe da música Sacolinha do rapper carioca DUDU De Morro Agudo. Qualquer pessoa pode participar de 'ta promoção, que premiará a todos os «participantes» e dará a oportunidade ao grande vencedor ou vencedora, de participar do video clipe oficial, que 'tá sendo produzido por uma equipe de peso, pois o Movimento Enraizados e a produtora francesa La Casa Loka se uniram pra fazer 'te vídeo. O vídeo clipe oficial contará com a Direção de Fotografia e Edição de Bruno Tomassin, Produção de Jane Tomassin, Direção e Produção Executiva de Luiz Carlos Dumontt. Os produtores dos vídeos mais votados ganharão convite para festa de lançamento do vídeo clipe oficial, mas apenas o Grande Vencedor (A) terá a chance de botar a cara no vídeo clipe oficial; ganhará um CD Rolo Compressor autografado; uma blusa exclusiva do MOVIVENTO Enraizados e ainda irá participar da festa de lançamento tirando onda de patrão, com direito a levar mais um convidad @. O vídeo clipe contará com a Direção de Fotografia e Edição de Bruno Tomassin, Produção de Jane Tomassin, Direção e Produção Executiva de Luiz Carlos Dumontt. Saiba Mais: Rolo Compressor É o primeiro álbum do raper e ativista Dudu de Morro Agudo, com Arte de Alexandre de Maio e depoimentos de Bia Lessa e Luiz Eduardo Soares, sobre a arte e a correria de DMA junto ao Enraizados. Regulamento Número de frases: 12 Ouça a " Música Sacolinha Era uma vez ..." tinha todos os traços para ser uma história como tantas outras. Uma continuação ou uma «versão» de «Cidade de Deus»,» Cidade dos Homens», Tropa de Elite», com um toquezinho de sazon. Mas o filme surpreende. Aliás, é difícil 'crever sobre ele, porque surpreende tanto, que em qualquer distração posso soltar algo de importantíssimo e acabar com a surpresa de quem ainda não viu. Meu namorado pensou que o filme era água com açúcar, a história melosa do menino pobre caindo de amores por a menina rica e 'colheu 'se filme só para me agradar. Também ele saiu boquiaberto do cinema. Não sei se a expectativa que havíamos criado em relação ao filme 'tá me fazendo exagerar em 'ta descrição. O fato é que para mim, realmente foi incrível. O filme prende a atenção do início ao fim. E quando você pensa que já sabe todas as respostas, que já entendeu o filme inteiro e sabe até como vai terminar, vem outra surpresa e te prende mais ainda, grudado na cadeira do cinema, até o último minuto. Sim, ele tem algumas semelhanças, claro, com os filmes que já citei. Mas talvez por ser um filme inicialmente apenas de amor é que as denúncias, o abismo social, a violência e a raiva contra tantas injustiças são tão claras, pujantes e comoventes. Desde o começo do filme, o 'pectador já participa da vida de Dé. Sofre com ele, ri junto, se emociona e, principalmente, torce. Torce por o menino pobre que se apaixona inocentemente por a menina rica. Torce por a felicidade dos dois, por a paz no morro, torce por a justiça. Porque no fim das contas, «Era uma vez ..." não é só um filme, mas uma reportagem, uma grande reportagem, sobre o tráfico, a corrupção e tantos inocentes presos e condenados, seja por a» justiça " ou por a hipocrisia da sociedade. Uma grande reportagem sobre os que são jogados no mundo do crime, os que se atiram em 'se meio (será que dá no mesmo? Escolha ou sobrevivência? Isso já é outra reflexão ...), Número de frases: 20 enfim, um flash da realidade nua, vivenciada por tantas pessoas e que tantos outros simplesmente fecham as cortinas da sala ou as portas da área de serviço para não ver. A banda vem despontando com seu folk-rock diferenciado e arrebatou críticos com seu vocalista, já considerado um dos melhores do país Uma autêntica revolução vem acontecendo na música brasileira: o movimento indie se organiza e vai à luta. Novos trabalhos surgem a todo momento nas milhares de garagens 'palhadas por 'se planeta brasilis. Muitos de eles apresentando uma qualidade musical digna de qualquer ouvinte mais exigente e que goste da cultura rock. Misturas finas com elementos regionais, performáticos, punks, hard-cores, folks, metaleiros, bangers, tem pra todo gosto. Fenômeno que vem crescendo muito em função dos novos caminhos que se abrem para a apresentação desses trabalhos, ampliando sua distribuição para um público que cresce por todos os cantos desse país. Os festivais indies 'tão pipocando em quase todos os 'tados brasileiros e contam com 'truturas dignas de todo 'se sucesso que se prenuncia. Não é novidade para ninguém, a grande mídia já começa a abrir os olhos para 'se tipo de cobertura. Em Mato Grosso, uma banda folk-rock vem despontando com um trabalho que merece muito a atenção do público brasileiro: a Vanguart. Aliás, isso já vem ocorrendo, pois a banda 'tá com o pé na 'trada e em 2005 circulou e encantou públicos dos 'tados de Goiás, Minas Gerais, Distrito Federal, Acre, Rio Grande do Norte, Paulo, Janeiro, Belo Horizonte, Rondônia e Mato Grosso do Sul, ufa! Tem mais, excursão para todo o nordeste do país e participação no Banda Antes da MTV, sendo celebrada como uma das grandes novidades musicais do país em 'se ano de 2006. O ainda garoto Hélio Flanders, com pouco mais de vinte anos, lidera a banda compondo e interpretando praticamente todas as músicas. E parece ter fôlego para muitas travessias ainda. Hélio, na opinião de Fernando Rosa, da lendária Senhor F, de Brasília, e Humberto Finatti, que 'creve para a revista Dynamite, possui a maior voz do rock brasileiro atual. Não é por menos, o cara canta muito, emocionando muita gente por aí com suas canções de melodias inspiradíssimas. Suas influências são assumidas e passam por Beatles, Bob Dylan, Nick Drake, Velvet Underground, Neil Young, um time em que Hélio Flanders pode jogar sem passar vergonha. Vanguart é formada por Hélio, voz, violão-folk, gaita; Reginaldo, baixo e voz; o canadense David Dafré na guitarra; Luis Lazzaroto, teclados e vocais; Douglas Godoy, bateria. Harmônicos, bons instrumentistas, arranjos simples e eficientes, criativos, boas composições, eles têm todos os ingredientes para avançar ainda mais e derreter corações por 'se Brasil surpreendente. Já lançaram dois álbuns, o primeiro, The Noom Moon, e o segundo, Before Vallegrand (EP), com cinco músicas, todas cantadas em inglês. Quem quiser pode conferir aqui. Por último, lançaram o single Semáforo, o primeiro com as letras em português. Mais versátil agora, a banda 'tá em fase de transição. Parece que não há limites de língua pois já gravaram uma música em 'panhol também. Número de frases: 30 Orlando da Rosa Farya, o Lando, é pintor, fotógrafo e videomaker. Em atividade desde a década de 80, talvez seja o artista residente no Espírito Santo com maior repercussão internacional hoje em dia. Embora utilize suportes tão diversos para seu trabalho, dá pra se perceber um forte diálogo entre as três vertentes da obra de Lando. Podemos falar aqui de uma identificação de seu trabalho com uma atitude semelhante à do expressionismo: «um sensibilidade forte, uma intuição forte, uma relação com o imediato, não-premeditado, um embate com o momento, com o inusitado», justifica Lando. Ele ainda aponta 'sa identificação em seus vídeos, nos quais ele aproveita exatamente 'se acaso, 'sa maneira de organizar o caos urbano, dentro das limitações da câmera: uma imagem 'tourada, uma câmera muito incisiva que «entra na pessoa», nervosa, incômoda, resultante do momento, da situação em que o registro se desenrola. Em diversos momentos, um zoom in extremo, que poderia soar a olhos desavisados como um «defeito» (segundo a cartilha clássica da imagem), pode revelar a riqueza 'condida numa imagem de baixa definição, em que o contorno azulado, 'verdeado e as cores 'touradas que surgem em 'se momento jamais se assemelhariam às de uma imagem naturalista. Chega a parecer com uma pintura, penso eu. E Lando completa: «É como se fosse um confrontamento com os limites da máquina, ela impõe suas limitações e eu dialogo com elas». Em o documentário Brilhantino, dirigido por Ériton Berçaco dentro do projeto Revelando os Brasis, do Ministério da Cultura, Orlando assumiu a captação de imagens. O resultado é uma sucessão bastante instigante de ângulos de câmera inusitados, uma luz 'tourada e diversas câmeras baixas buscando enquadrar o franzino " protagonista ": «A figura de ele impunha isso», afirma. Buscou-se aqui interagir diretamente com a paisagem, com a mata ao redor da caverna em que o velho Brilhantino reside sozinho há muitos anos. O mesmo podemos observar nas fotografias. Lando desregula as configurações da máquina digital, explorada em seus extremos de resolução. Enquadra uma parcela da realidade, levando em conta a composição, luz, cores, e clica. Em seguida, ele acompanha uma a uma as impressões em jato de tinta, observando a maneira como a máquina interpreta 'sa informação obtida por o olhar do artista através da câmera. Para Orlando, tudo isso também é pintura. E Lando costuma fotografar pinturas, nas mais diversas acepções do termo, sejam elas cascos de navios enferrujados, paredes descascadas, fachadas de prédios, colagens, grafites em 'paços urbanos, ou até mesmo telas em exposições de arte -- quase sempre com a presença do público, no momento das vernissages. «Enquanto a máquina imprime, ela 'tá refazendo 'se mesmo processo de aplicação da tinta em determinadas superfícies», afirma. Uma série que chama bastante a atenção dos 'pectadores é composta de diversas releituras de obras de arte canônicas, como o Retrato do Papa Inocêncio X, de Velásquez, reproduzido com 3 metros de altura (ou seja, em dimensões muito maiores que as originais). Em ela, a luz do flash assume a forma de uma massa branca em grandes dimensões, denunciando a presença do fotógrafo no momento da execução da foto. Outra apropriação bastante interessante é a do Almoço na relva, de Manet, que ganha a participação de mais um elemento durante o evento retratado: um 'pectador que observava a obra, e que agora é parte da fotografia produzida por Lando. Essas e outras obras foram apresentadas no Museu Ferroviário Vale do Rio Doce (Vila Velha, ES), dentro da exposição Passagens e itinerários da arte, em 2005. Geralmente resultantes de visitas a espaços expositivos em grandes centros mundiais, 'sas fotografias primeiro surgem por a necessidade de trazer material para as aulas na Faculdade (Lando é professor de pintura e vídeo no curso de Artes Plásticas da Ufes). Foi também por uma necessidade de criar 'paços para a discussão da produção artística na academia que surgiu o democrático projeto Quanto mais arte melhor, série de exposições temáticas reunindo mais de cem artistas por edição, realizadas semestralmente desde 2000. Aqui, ali: todo lugar reserva uma oportunidade de registro, como os casebres de Milagres, no interior da Bahia, local visitado por Orlando durante o lançamento do projeto Revelando os Brasis, em agosto de 2004. Essas imagens foram reproduzidas em gigantescas lonas, instaladas nas paredes externas do galpão do Museu Ferroviário, durante a coletiva Casa: poética do 'paço na arte brasileira, realizada em 2004, com curadoria de Paulo Reis. Essas fotografias, dadas suas dimensões, e a privilegiada localização do Museu à beira-mar, quase um cartão-postal em plena baía de Vitória, puderam ser observadas em diversos pontos da cidade, proporcionando uma intensa intervenção na paisagem urbana. Esse mesmo trabalho foi exposto 'te ano, dentro do projeto Copa da Cultura, em Berlim, na Galeria Weisser Elefant. Prevista para terminar em julho, a exposição continua em cartaz, por conta da grande aceitação do trabalho por o público, uma vez que ele 'tá exposto no jardim externo da galeria, invadindo aos poucos o imaginário dos cidadãos berlinenses, já que muitas pessoas têm ido à galeria para fotografar os trabalhos: «Dia desses, uma amiga minha que mora na cidade me enviou um e-mail relatando que uma atriz bastante em voga por lá 'colheu o jardim da galeria como local para dar uma entrevista para a televisão alemã, exatamente em frente às minhas fotografias», confirma Lando. A exposição You are here, realizada atualmente na Galeria Matias Brotas, em Vitória, consiste numa série de quarenta fotografias ampliadas em grandes formatos, doze de elas retratando grafites em muros e 'paços públicos de Berlim, resultado da viagem do artista para participação na mostra no projeto Copa da Cultura. Ou seja, cada viagem rende material para futuras exposições, aqui, lá, onde quer que seja. Curiosamente, a primeira máquina fotográfica que ele possuiu foi 'treada numa viagem de férias, aos 14 anos, para São Paulo, exatamente fotografando pinturas no Masp. Assumindo o papel de um flaneur moderno, em constante movimento, Lando aproveita para registrar também o movimento alheio, seja nas fotos de trens, metrôs e pessoas em se locomovendo o tempo todo, seja em videoartes como Trip, exibido no festival Videobrasil em 2001, cujas múltiplas camadas de imagens sobrepostas, que surgem e desaparecem aos poucos, sintetizam bem 'sa interação entre pintura e movimento. Seja na tela, na fotografia, no vídeo, aqui, ali, acolá, Orlando da Rosa Farya 'tá em todo lugar. Número de frases: 42 sua fotografia foi encontrada, casualmente, num museu localizado em Castelo do Piauí e incorporada ao acervo expositivo da FNT, juntamente com cópias de seus documentos 'colares encontrados na Suíça (inclusive a folha de rosto de sua tese de doutorado na Universidade de Zurich) 28 de maio de 2007. Em a porta de um bar de 'quina em Vila Pavão, norte do Espírito Santo, cidade com pouco mais de oito mil habitantes. Cinema na rua. Tem tempo que não vejo isso. é verdade. Não é muito comum, mesmo. Sabe o que vai ter aí hoje? Vão exibir daqui a pouco uns filmes. É um projeto do governo que vai rodar o país. Ahm. Eu vi na TV. Teve em Muqui, não é? é! Já passamos por Vitória, Mantenópolis e São Roque do Canaã. Nossa. Chão ... Qual o nome do senhor? Alair. De que? Feitranin. Tem quantos anos? 59. Mora aqui mesmo? Moro. E gosto desse bar. O bar é bom. O senhor tem quase a vista privilegiada do telão. é. A rua 'tá bonita. Quer um churrasquinho? Não. Não. Já viu cinema na rua? Já. Em algum lugar. Eu trabalhei num cinema em Vitória. Não acredito! Mesmo? é. Em o Cine Hollywood. Nem existe mais. Nunca ouvi falar. O senhor gosta de cinema, então? Muito, meu filho. Muito. É bonito ver a rua lotada. O filme que 'tá passando é de que? Um documentário do Jorge Jacob sobre a perseguição aos pomeranos aqui em Vila Pavão mesmo. Filmado aqui? é, aqui. Nossa! Esse caminhão vai seguir por 61 cidades do País. Legal. É bonito ver as crianças na rua, tomando contato com o cinema. Olha como 'tão animadas. Estão. Deixa eu ir ver o próximo. Abraços! Abraços! [Em tempo: a reportagem pesquisou em livros sobre a história de Vitória, mas não encontrou nenhum cinema chamado Hollywood. Vale acreditar no próprio sonho que o cinema provoca nas pessoas. Número de frases: 60 O filme tratado na matéria é «Bate-Paus», de Jorge Kuster Jacob, e faz parte do projeto Revelando os Brasis, uma parceria do Ministério da Cultura com o Instituto Marlin Azul (ES)] As páginas de cultura dos jornais, de circulação local, regional ou nacional, trazem na grande maioria das vezes, matérias, reportagens ou artigos voltados para uma cultura que segrega parcela da população. Ora, se um faminto não tem acesso à comida, quiçá ao teatro, ao cinema, aos grandes eventos! Se não tem acesso ao «bê-a-bá», quiçá às obras euclidianas, machadianas ou quaisquer outras obras de grande vulto! Cultura para nós, chamados «letrados», pode ser tudo isso citado acima. E, nos deliciamos com tais objetos. Porém, cultura também é saber «juntar as letrinhas». Soletrar. Contar até dez. Pintar com giz-de-cera. Porque os jornais não separam um pequeno 'paço, na seção de cultura, para tentar 'timular 'sa cultura primária? Essa resposta é fácil: pobre não compra jornal. O 'paço do jornal é caro. Ou qualquer outra desculpa que atinja o vil metal. Pobre não compra jornal, mas o abastado compra. E, 'timulando 'se abastado a fazer algo por a cultura primária, pode surtir algum efeito, mesmo que pequeno. Onde 'tá o caráter social do jornalismo? Ficou nos primórdios? O 'paço é caro? Não precisa abdicar. Conquiste parceiros em 'sa idéia! As empresas têm seus projetos sociais e o 'paço do jornal pode ser aproveitado por elas. Até incentivo fiscal existe para facilitar 'sa troca. O que não é admissível é a desfaçatez, o mascaramento, o apartheid cultural que é promovido por os impressos diários, semanais ou mensais. Os 'paços destinados à cultura tornaram-se uma grande agenda, onde até se paga para que matérias sejam publicadas. A revisão desse papel do jornalismo cultural deveria ocorrer de imediato, para que os meios de comunicação possam ajudar tirar o atraso que se encontra a educação brasileira. Número de frases: 26 «Chegou aqui na loja um senhor de uns 60 anos com uma moça de 25. Começou logo dizendo pra mim que era sua mulher e não sua filha. Ele era uruguaio, e quando percebeu que eu era argentino, começou a puxar conversa. Ele era tenor. Sabe tenor? Cantor de ópera. Foi me contando que passava sempre 6 meses na Europa, 6 no Uruguai. Fizemos amizade. Um dia ele chegou dizendo que ia embora e queria me dar um presente. Ele 'tava ai mesmo onde você 'ta, na frente do balcão. Então começou a cantar! Cantar com aquela voz de tenor, fortíssima, sabe? Foi uma coisa, as pessoas da cozinha subiram pra ver, as pessoas na rua pararam pra olhar, os clientes ... eu fiquei encolhido ali no canto, emocionadíssimo ..." Hernan Sonzini, 38, que conta 'sa história em baianês castellano, veio pra Salvador direto de Córdoba, na Argentina, para trabalhar entre os vinis e livros do sebo " Berinjela. «Eu tinha passado as férias em Salvador uma vez e ficou na minha cabeça de vir morar aqui. Aquele sonho de vir morar na praia ... então recebi a proposta de um amigo para fazer sociedade na Berinjela e vim com mulher e filho, ainda na barriga." Enquanto isso, João Filho, 31, arruma as revistas em quadrinhos sentado numa das mesas. É final de expediente. VÂNIA -- João, você passa o dia inteiro aqui, deve ver é coisa, hein ... João -- A crônica da cidade passa toda por aqui. Amores que se desfazem, casais que se apaixonam, velhos que se encantam por meninas mais novas ... é uma babel. Passa muito 'trangeiro. Uma vez fiz amizade com uma senhora irlandesa que mora na Espanha, ela me mostrou os 'critos de ela, eu os meus, paramos pra nos ouvir. Foi muito bom. -- que massa. -- Mas também tem as visitas indesejadas ... você sabe, que no Pelourinho, o que mais tem é mendigo. Muitos ficam circulando por aqui, assediando as pessoas. A Berinjela: Surge em 2001 em Salvador. Existe no Rio há mais tempo do que isso (" tem uns 12», acredita Hernan). Livros, comida natural, vinis, quadrinhos, Cds, DVDs ... Lá tem isso. Almoça-se ouvindo Baden, Caetano, um jazzinho ... eventualmente, na área externa acontecem shows bacanas, de bandas novas, artistas interessantes. É um 'paço com um clima raro de se encontrar em Salvador -- ainda mais 'tando localizado no Centro, próximo ao Pelourinho, o templo da baianidade 'tereotipada, onde a gringalhada vem ver o nosso charme luso-banto sudanês ... é um lugar na cidade pra se curtir, bater um papo gostoso sobre literatura, tomar um suquinho, um café. Ah, tem acesso à internet também. Número de frases: 41 Figura carimbada quando se fala em Cariri, Padre Cícero, parece ser um dos mitos, políticos e religiosos mais contraditórios de todo o país. Falar em Juazeiro do Norte, Ceará e não destacar a figura do padre Cícero como idealizador e chefe da cidade é no mínimo ofensivo. A cidade nasceu da força e do trabalho de 'ta personalidade que num dado momento pode transformar-se num chefe religioso, um político ou um produto pronto nas prateleiras para ser comercializado. Cícero Romão Batista nasceu para a vida no município de Crato em 1844 e para o sacerdócio em Fortaleza no ano de 1870. Somente um ano depois, Pe. Cícero como agora era chamado, celebrou no povoado de Juazeiro a tradicional Missa do Galo. Juazeiro via pela primeira vez o rosto do seu mártir. Tudo o que acontecia no povoado vinha por inspiração do novo padre. Em 1889 os fatos ocorridos no momento de vigília com Maria de Araújo, beata da igreja de Nossa Senhora das Dores e membro da irmandade criada por padre Cícero, mudou a rotina do lugar. A beata ao receber a hóstia consagrada, não pôde degluti-la, pois a mesma transformara-se em sangue. O povo acreditou que se tratava do Sangue de Jesus Cristo, caracterizando-o de milagre. Isso causou um enorme rebuliço nos clérigos do Ceará. A notícia 'palhou-se despertando a irritação da igreja, culminando com o afastamento de Pe. Cícero das ordens na paróquia de Nossa Senhora das Dores dez anos depois do milagre. Durante toda a sua vida, Pe. Cícero tentou anular as ordens da Santa Sé em Roma, mas nunca conseguiu. Passando da pessoa religiosa à pessoa política na construção da cidade de Juazeiro. Em 'te momento o povoado começava a tomar ares de cidade e desligou-se do Crato no ano de 1911, tornando-se município em 'te mesmo ano. O crescimento comercial e econômico da cidade começava a florescer. Além de prefeito do recém-criado município, Pe. Cícero foi também Vice-Presidente do Ceará. São de sua autoria as benfeitorias feitas na cidade desde então: A fundação das Ordens dos Salesianos e Capuchinhos; a construção das capelas do Socorro, São Vicente e São Miguel; a fundação do primeiro jornal local (O Rebate); a primeira exposição de arte juazeirense no Rio de Janeiro; a doação dos terrenos do primeiro campo de futebol e aeroporto; além de outras ações que transformaram a cidade de Juazeiro num dos maiores pólos comerciais e religiosos do interior do Ceará. Juazeiro respira padre Cícero. Todos os conhecimentos culturais, comerciais, religiosos e políticos emanam do «padim». Dando uma circulada na cidade podemos encontrar padre Cícero nas igrejas, nas lojas, nos mercados, em 'tátuas, em orações, em casas e em tudo mais que pensamos em fazer por lá. As datas comemorativas da cidade tornaram-se motivos de romarias. Hoje Juazeiro recebe mais de Um milhão de pessoas por ano e construiu a terceira maior 'tátua do mundo, tudo isso em honra e glória ao seu benfeitor. O religioso tornou-se parte do Juazeiro e o Juazeiro tornou-se parte do religioso. Número de frases: 34 Após cinco anos de pesquisa em quase vinte mil exemplares de jornais, revistas e livros, finalmente o século 21 vai conhecer o mais popular ator teatral brasileiro do final do século 19 e início do 20. Marco Santos, jornalista e ator, 'tará lançando o livro Popularíssimo: O ator Brandão e seu tempo, em 12 de novembro próximo. O biografado, João Augusto Soares Brandão, o ator Brandão, não foi só popular. Ele foi popularíssimo. O ator e o público adotaram o apelido e assim ficou conhecido até onde nunca 'teve. Um de seus filhos, também conquistaria enorme popularidade no Rádio, Teatro, Cinema e Televisão: o grande ator e comediante Brandão Filho. O livro de Marco Santos, além de contar a impressionante história desse ator, quase um personagem, usa o Teatro de seu tempo como pano de fundo para a narração, juntamente com a vida política, social, policial e sexual do Rio da Janeiro da época. Em aquele tempo em que o Teatro mostrava os fatos «em revista», tudo acabava nos palcos entre coristas, cenários deslumbrantes, maxixe e, acima de tudo, humor. A obra apresenta um sem-número de histórias, «causos» hilariantes, a origem de termos teatrais e de palavras e expressões usadas até em dias atuais, como «canastrão», por exemplo. Entre muitas outras curiosidades, o autor Marco Santos explica porque chamam pejorativamente de «veado», o homossexual masculino. Com leveza, mas sem abrir mão da precisão da informação, o livro relata, do ponto de vista dos atores e do público, o que acontecia durante ensaios, no dia da 'tréia e ao longo das temporadas das peças. Tudo isso descrito em linguagem jornalística, com o bom humor característico de Marco Santos, excelente «contador de histórias». O livro é ilustrado com 166 fotos de atores do período, dos Teatros da época (Rio, Paulo, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul), além de recortes de jornais e imagens raríssimas, nunca impressas em 'te meio. Além da parte biográfica, outros dois assuntos são apresentados e dispostos para a discussão: -- Porque artistas e empresários, quase que invariavelmente, saíam da condição de 'tabilidade financeira para a absoluta indigência. -- A origem do preconceito que acompanhou artistas, em 'pecial, as mulheres atrizes. O prefácio, extremamente sensível, é do ator, diretor e autor Domingos Oliveira. Embora não seja uma obra acadêmica, vários membros da comunidade de historiadores demonstraram expectativa por o seu lançamento, em vista da importância do seu conteúdo histórico e iconográfico e da raridade de publicações sobre o Teatro daquele período. Marco Santos é carioca, jornalista com pós-gradua ção em Marketing, mestre em Estudos populacionais e pesquisas sociais. É ator profissional, com 20 anos de carreira, tendo atuado em 'petáculos como «Em a era do Rádio»,» O Cortiço», Em o tempo do Martins Pena " (todos com direção de Sergio Britto), entre outros. É autor teatral (" Cafona, sim, e daí?», co-'crito com «Sergio Britto, Teatro dos Porquês»,» Em as ondas do Rádio -- o show "). Atualmente é ator fixo da Cia. de Teatro Contemporâneo. É pesquisador para 'petáculos teatrais, tendo sido agraciado com o troféu «Torre de Rádio», da Rádio Nacional, por seu trabalho como um dos pesquisadores na peça» Em a era do Rádio». Professor-palestrante, realizou inúmeras palestras sobre a história urbana do Rio de Janeiro, a obra de Martins Pena, a evolução do Rádio no Brasil. Escreveu também artigos para a obra História das Estatísticas Brasileiras -- 1822/2002, onde atua como assistente de pesquisa. Sobre O Livro: Santos, Marco. Popularíssimo: o ator Brandão e seu tempo. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2007. 384 p. Contém 167 ilustrações, prefácio de Domingos Oliveira e bibliografia. Preço: R$ 40,00 Contato com o autor: popularissimo@gmail.com Sobre a noite de autógrafos leia na Agenda. Número de frases: 39 «A gente inventou um truque para fabricar brinquedos com palavras. O truque era só virar bocó. Como dizer: eu pendurei um bentevi no sol." Manoel de Barros Confesso minha má vontade inicial de visitar a exposição Arte para Crianças (no Museu Vale do Rio Doce até dia 20 de junho). A visita foi adiada várias vezes. Mas no domingo passado fiz o passeio. Afinal o Museu da Vale, por si só, já vale uma tarde de domingo. Principalmente se a tarde de domingo faz parte de um pacote 'pecial de comemoração de meu aniversário, que começou no sábado. Posso justificar minha má vontade inicial de várias maneiras. A mais fácil é 'sa: já vi algumas exposições de arte feitas 'pecialmente para crianças e a minha decepção com o desperdício das obras na concepção das montagens foi tanta que achei que 'sa exposição seria mais uma daquelas pseudodidáticas, com uma linguagem careta de adulto que tenta imitar a fala infantil. Realmente subestimei a equipe de curadores da exposição. E por pura ignorância minha: o idealizador da exposição, Evandro Salles, é um dos mais atuantes artistas e produtores da arte contemporânea no Brasil. Logo na entrada meu olhar predisposto à crítica mordaz se encantou com a quantidade de crianças presentes e envolvidas com as obras da mostra. Para quem 'tá acostumada à calma e ao silêncio dos museus e exposições de arte, foi uma surpresa muito agradável ver a criançada de um lado pra outro, tocando, brincando, olhando e entrando nas obras expostas, tão à vontade quanto num parque de diversões onde cada um inventa seu brinquedo e o seu modo de brincar com ele. Ou, como bem disse Manoel de Barros, citado no texto de abertura da exposição, cada um pendurava seu bentevi ao sol conforme dava na telha. Em a exposição Arte para Crianças, tão importante quanto a grandeza dos artistas e das obras expostas é a forma como elas são apresentadas ao público. Espalhadas por o galpão, por o pátio, nos vagões da velha locomotiva da Vale (que viraram salas de exibição dos vídeos sobre um poema de Manoel de Barros e sobre John e Yoko), na sala de exposições do Museu ... por onde quer que a gente passe tem uma obra de arte, dessagrada, democratizada, tocável, penetrável, disposta a leituras e interferências, pendurada ao sol. É assim com as 140 'culturas de Amílcar de Castro: desenhos que se transformaram em dobraduras feitas em chapas de ferro, que se transformaram em blocos de madeira manipuláveis que, por serem manipuláveis, se transformam na hora no que a gente quiser. É assim com o cubo penetrável de Eduardo Sued, composto, ao gosto do freguês, com os tecidos e papéis coloridos disponíveis num baú ao lado da base em madeira. É assim com a 'cultura penetrável de Ernesto Neto, que poderia parecer uma de 'sas piscinas de bolinha dos parquinhos, não fosse ela nos proporcionar uma experiência sensorial deliciosa que envolve a visão, a audição e o tato, tudo ao mesmo tempo. E é assim com as árvores dos desejos, que são as árvores ornamentais do jardim do próprio Museu transformadas simultaneamente em suporte para a arte conceitual de Yoko Ono e para milhares de desejos anônimos, infantis ou não. Ou com os incríveis jogos de xadrez, também obra de Yoko, que com suas peças todas brancas nos remetem à idéia give peace a chance, de John Lennon. As Árvores dos Desejos de Yoko, aliás, merecem um parágrafo à parte. Pendurados em elas, 'critos em pequenos papéis que o Museu disponibiliza ao público, milhares de desejos se balançam. São desejos genéricos e inalcançáveis, como os que pedem a paz mundial, desejos dúbios (" eu quero deus e um play station 3 "), desejos egoístas (que ele me peça em namoro logo!), desejos cheios que compaixão (que meu avô fique bom das vistas) e desejos sofridos, como o de uma criança ainda em fase de 'crita fonética que apenas pede que o pai volte para a casa hoje. E como que embalando os desejos de tantos, um vento suave completa a obra, sacudindo as folhas / desejos das árvores. Algumas obras não são tão interativas como as citadas acima. Ou melhor, a interação com elas precisa ser feita em outro nível: um outro jeito de pendurar o bentevi ao sol. E as crianças (e os adultos dispostos ao encantamento também) dão logo um jeitinho de procurar seus bentevis na sala Rubem Grilo, onde 382 minúsculas xilogravuras de sua Arte Menor mostram objetos e seres 'tranhos e absurdos, que revelam o mundo diferente do artista. Ou na sala Eder Santos, que nos abre uma porta para um mundo paralelo com suas projeções de vídeo sobre objetos (pássaros na gaiola, homem submarino nadando livremente num aquário). Ou ainda nas tranças das incríveis personagens das gêmeas xifópagas de Tunga. Também é necessária uma disposição e uma entrega de criança para entender a linguagem dos bules buliçosos de Mariana Manhães, que conversam sem parar no movimento de vai e vem das traquitanas eletrônicas que ela idealizou para dar vida a 'ses objetos. Não é por acaso que a mostra tem recebido mais de 1.500 pessoas nos finais de semana. Ela revela para crianças e adultos encantados o processo de criação do artista sem apontar o dedo para as obras e sem nos dizer o que o artista quis mostrar com elas. Em ela temos liberdade total para buscar significados. Ou reconstrui-los, se nos agradar. Mas também podemos simplesmente sentar ao lado das obras e bater um papo amigável com elas. Pois, como disse o Evandro Salles no seu texto de apresentação, " para cada pessoa os objetos de arte falam coisas diferentes. Depende da pergunta que a pessoa fizer ou do tamanho do silêncio que a pessoa tem dentro de si." De 20 de abril a 20 de junho Museu Vale do Rio Doce Antiga Estação Pedro Nolasco, s / n -- Argolas -- Vila Velha -- ES Telefone: (27) 3333-2484 De terça a domingo, das 10h às 18h. Sextas, das 12h às 20h Número de frases: 52 Entrada franca Mais uma entrevista do sobremusica com um nome representativo da música brasileira, mas nem sempre iluminado por holofotes que façam jus ao seu talento. Pedro Sá agora 'tá aparecendo mais na mídia após produzir o álbum roxo do Caetano. Em 'te disco, Caetano tentou se reaproximar da testosterona, da juventude, por um formato de banda de rock. Teoricamente, faz sentido. Mais que isso, Caetano 'colheu fazer 'sa conexão através da geração de seu filho, Moreno, que já vinha cercando seu trabalho há algum tempo. Desde os elogios rasgados que fez a Los Hermanos, anos atrás, Caetano já indicava o encantamento por a música jovem que emergia em 'se início de século. A recente desilusão de ele com o rap parece aumentar o tesão que sente nos Rocks. Pedro Sá é um dos melhores representantes que 'sa geração pode ter. Sua extinta (?) banda, Mulheres Que Dizem Sim, juntamente com o Acabou La Tequila, inaugurou uma nova linguagem e um novo norte 'tético para as bandas de rock, sobretudo no Rio de Janeiro. É difícil imaginar que o Los Hermanos andaria tão bem em 'sa 'trada, se 'sas duas bandas não tivessem aberto o caminho. A os 34 anos, Pedro Sá, além de exímio guitarrista, começa a se firmar como produtor e pensador da música brasileira. O mesmo acontece com seus contemporâneos (e amigos) Moreno Veloso, Kassin, Domenico, Berna Ceppas, Rubinho Jacobina e até com alguns mais novos, que vieram atrás, como os próprios Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. Pra refletir sobre 'sa geração e sobre as questões que emergiram junto com o disco roxo do Caetano, pedi uma conversa com ele. Por e-mail, em meio a correria de tocar em vários projetos simultaneamente, ele foi respondendo gentilmente às perguntas. E mais que isso tudo, a principal intenção foi tentar entender a caminhada que o levou ao ponto em que ele 'tá agora. Uma 'pécie de «perfil», que deixa mais claro as interferências de uma relação afetiva com a música que vem desde o berço. Enfim, com vocês, mr. Pedro Sá. (por Bruno Maia) Bruno Maia: Você é de uma família tradicionalmente ligada à música. De que forma seus pais foram dando ferramentas para que vocês começassem a fazer música também? Pedro Sá: Essa é uma boa pergunta, porque remete a uma história engraçada. Quando eu era criança, o meu pai não tinha, nem queria ter, aparelho de som em casa, isso até os meus 10 anos de idade, que foi justo quando comecei a tocar. Porém sempre tinha gente tocando ao meu redor. A começar por o meu próprio pai (ne: Ronaldo Tapajós), que é compositor e sempre, todos os dias praticamente, eu acordava ouvindo ele tocar na sala. Ele também 'crevia um programa de rádio chamado «Diálogo da Terra» que era difundido em todo o interior do Brasil e dava dicas alternativas de como viver no campo. Sempre tinha uma musiquinha, um tema de cada programa. Eu amava acompanhar 'sas gravações de 'túdio, aí com a presença de vários músicos, guitarristas, baixistas, percussionistas, que era lindo de assistir. Mas eu não tinha intenção de ser músico. Preferia desenhar e 'crever, tanto que quando comecei as aulas de violão foi mais por incentivo dos meus pais. Mas desde a primeira aula eu já me apaixonei por o violão e por a música e descobri que levava jeito para o negócio. BM: Desde pequenos, Moreno Veloso e você são muito amigos. A relação com a família de ele era uma influência musical quando você era criança ou era só a família de um amigo seu? PS: Me lembro uma vez, quando eu tinha 8 anos, que 'tava dormindo na casa do Moreno pela primeira vez, aquela coisa de amigo de colégio. Eu acordei no meio da noite (quando eu era criança tinha uma dificuldade tremenda de dormir) e fui beber água. Em o caminho até a cozinha 'tava o Caetano, sozinho na sala, tocando e cantando: «Oi Pedrinho, você tá acordado, venha cá um pouco». Aquilo foi lindo, alguém acordado que 'tava fazendo alguma coisa à noite. Me senti muito aconchegado e fiquei um tempo vendo ele tocando e cantando e conversamos um pouco sobre ter insônia. Depois, na minha adolescência, quando eu já tocava, adorava ir à casa do Moreno ouvir disco, pois tinha tudo lá. Óbvio que teve uma influência na maneira de ouvir e pensar música, mas era mais que tudo a família de um amigo. BM: Em a adolescência suas referências musicais vinham de onde? PS: Jimi Hendrix, Led Zeppelin, João Gilberto e o disco «Cantar», da Gal Costa. BM: Você teve alguma banda antes do Mulheres que Dizem Sim? Se sim, você poderia falar de ela (s)? PS: Tive uma banda na pré-adolesc ência chamada Tri, que era com os meus primos, e tirou segundo lugar no festival da Escola Parque de 1983 com a música «A guerra», de autoria minha, do Daniel Sá e do Leonardo Toledo. BM: O Mulheres e o Acabou La Tequila foram bandas que não tiveram uma história longa, mas acabaram definindo uma nova geração musical carioca. Havia alguma relação entre vocês naquela época? PS: Sim. Havia uma banda chamada GNW (Good Night Wasawa) que o Kassin e o Léo participavam, além de mim, do Moreno e do Maurício Pacheco. Fora isso eu toquei no primeiro disco do Tequila e participei de vários shows. BM: Ainda em torno do assunto «Mulheres q dizem sim/Acabou La Tequila», 'sa banda GNW me foi uma completa surpresa. Qual era a onda desse trabalho? Kassin e você se conheceram como? PS: O GNW era uma banda experimental fictícia. Inventamos a história de que éramos do leste europeu e surgimos depois da queda do muro. Então nós representávamos, cada um, um personagem. Fazíamos parte eu (Mike Balloni, guitarrista virtuoso melódico), Kassin (Pete Peters, o nosso Baby Bass, talismã e produtor radical), Moreno (Nino de la Pata, o percussionista Latin Lover), Léo Monteiro (Priscila Vanilla, exator de filme ponô e baterista impressionante) e Maurício Pacheco (Rick Friedman, o lendário vocalista e mítico líder carismático da banda). Conheci o Kassin quando fui 'tudar o final do secundário no CEL de Ipanema, aliás não apenas ele como boa parte do Tequila 'tudava lá. Em a verdade, o Kassin nem era da banda em 'sa época, tampouco o Léo e o Nervoso. Os integrantes eram o Donida, o Bacalhau (que depois foi para o Planet Hemp e agora é do Autoramas), o Renatinho (que agora tem o Canastra) e o João Callado (que era o tecladista e hoje toca cavaquinho com o Grupo Semente, que acompanha a Teresa Cristina). Eu e Maurício já vínhamos pensando em fazer o GNW, já tínhamos até inventado os nossos pseudônimos e feito um show com outro baixista, do qual participaram o Nino e o Domenico tocando bateria (cada um numa música apenas), mas o baterista era o próprio Rick! O engraçado desse show é que era numa festa da AFS, que promove intercâmbio internacional de 'tudantes, e acharam mesmo que éramos uma banda do Leste da Europa. BM: A experiência no MQDS não foi tão longa, mas parece que ajudou a desenhar, junto com o Acabou La Tequila, uma linguagem nova de uma geração musical no Rio de Janeiro. Você concorda? Como você enxerga o papel de 'sas duas bandas para a renovação da cena carioca? Você citaria ainda mais alguém em 'sa lista? PS: Concordo com você. Acho que foram as primeiras bandas a representar a minha geração, da qual me orgulho muito, e que tem muita gente talentosa. Tem muita gente, inclusive de outras partes do país, como é o caso do Diego Medina de Porto Alegre, que sempre foi nosso parceiro. Tem também, da Bahia, o Quito Ribeiro e o Lucas Santanna, que moraram com mim na Gávea, e não poderia deixar de citar o Bartolo e o Rúben Jacobina, que pra mim talvez seja o melhor compositor, junto com o Medina, de 'sa turma toda. BM: O que fez com que o MQDS acabasse? Em a verdade, trata-se de uma banda que não foi tão ouvida quanto merecia e que, muita gente conhece de nome, mas não sabe do que se trata. Será que você pode contar um pouco de 'sa história? PS: Divergências musicais e pessoais. Depois de um tempo de banda houve um descompasso muito grande em relação ao que cada um queria. Mas eu acho o nosso primeiro disco muito legal, mesmo com as imperfeições todas que podemos apontar e de ser oficialmente aquém do que poderia ter sido. Mas o que é, é e tá lá e tenho orgulho também. BM: Depois do fim da banda -- me corrija, por favor, se eu 'tiver errado -- você não chegou a montar nenhum outro grupo com 'sa linha autoral. A caminhada para o lado de produzir e participar como músico da banda de outros artistas foi algo pensado ou uma decorrência das oportunidades que surgiram? PS: Olha, eu sou um compositor bissexto. Muita gente cobra um disco meu. Acho que farei alguma coisa, algum dia. Mas o fato é que todas as minhas contribuições como músico e produtor sempre foram muito autorais, digamos assim. Sempre tenho um 'pírito de banda, por mais profissional que a coisa seja. Em a verdade, não sou mesmo muito profissional, sou amador. Sou muito responsável, mas, no fundo, sou amador. Se você for reparar bem quase tudo que faço tem 'se «elan». BM: Eu 'tou falando aqui há um tempo sobre a ' sua geração ', mas nem perguntei se você já reconhece em ela um formato 'tético ... PS: Reconheço uma geração, mas não reconheço um formato assim definido. Talvez você possa defini-lo pra mim! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * A segunda parte de 'sa entrevista já 'tá disponível em www. SOBREMUSICA. com. Número de frases: 112 br * Em a Rua Augusta ... De a mesma forma que ele aparece, some rápido e chamativo como um relâmpago. Algumas vezes dá o ar da graça por um tempo maior, circulando entre as mesas, sempre sorrindo com aquela grande quantidade de dentes exposta, conversando com o caixa, abrindo o freezer e pegando uma cerveja gelada, cumprimentando os mais chegados e sempre contando algumas de suas muitas histórias. Rua Augusta, sentido ao Centro de São Paulo, pessoas de todos os tipos, raças, credos e opções sexuais circulam por a região, famosa por suas casas de shows eróticos, saunas e por as garotas de poucas roupas se inclinando em vidros de carros na lida de cada dia, é uma das principais vias arteriais da cidade. Quanto mais «sentido Centro», mais garotas e mais neons, mas a duas quadras da Avenida Paulista, na Augusta com a Antonio Carlos, com menos neon, mas tantos personagens quanto, o bar / lanchonete Charm tem suas mesas disputadas constantemente, principalmente nas noites de fim de semana. O local serve de ponto de encontro para os freqüentadores dos cinemas da região, para o início da noite de quem vai a clubes como o Outs, Sarajevo, Vegas e tantos outros e para o bom e velho bate-papo entre amigos. O Charm é também o quintal da casa de Jader. Jader? Quem é Jader? Se perguntar aos freqüentadores do local, poucos saberão responder, mas se perguntar por o Tiozinho do Pijama ... * O Tiozinho Pijama, como é mais conhecido, freqüenta o Charm há aproximadamente um ano, o tempo que vive na região, na Rua Frei Caneca. Os garçons acham que ele é «meio louco, mas é gente boa» e confessam que em 'se um ano, nunca o viram sem a famosa indumentária. Apesar de 'tar «no quintal de casa» no Charm, o Tiozinho freqüenta as ruas da cidade, anda de metrô e vai ao trabalho num órgão público sempre de pijama e confessa que já passou por as mais diversas situações: -- Em a Paulista já veio um cara engravatado e me abraçou e me deu um beijo; outro dia veio um «maluco» na minha direção, e eu achando que ele tava me curtindo, o cara veio e me deu um murro na cara, vai entender? Em a verdade é preciso corrigir algo crucial no conceito: não é pijama, é Conjunto, o título de Pijama venceu por o cansaço e um pouco de marketing é claro. Jader Guadalupe, filho de mãe alemã e pai 'panhol, nascido no 'tado do Rio Grande do Sul, depois de circular por muitas cidades mundo afora, fixa residência em São Paulo nos anos de 1980 onde se torna funcionário público, com a função de distribuir a correspondência interna do órgão. Com a cultura hippie ainda impregnada, Jader é acusado de não se vestir adequadamente no seu posto de trabalho -- Eu andava mulambento, diz. Até que um dia recebeu um ultimato do chefe que diz a Jader que ele deveria se vestir de uma forma «chique». -- Eu não sabia o que era ser chique, aí comprei umas revistas femininas, porque as mulheres entendem bem de 'sa coisa de ser chique, e percebi que elas gostam bastante de conjuntos. Desde então passei a usá-los. Em o começo era exigido que o conjunto fosse liso, mas com a chegada de um novo chefe, de 'sa vez mulher, os conjuntos 'tampados foram prontamente aprovados e Jader garante que as mulheres adoram, o que o deixa profundamente satisfeito. * Estórias do Pijama Formado em Direito, nosso personagem não exerce a profissão e no auge dos anos 1970, inspirado por os ideais de Paz & Amor, cai na 'trada e percorre cidades como Caracas, Los Angeles, Janeiro e a aldeia hippie de Arembepe, na Bahia. E é em 'ta última que conta uma de suas mais emblemáticas histórias: quando conheceu Mick Jagger e Keith Richards do Rolling Stones. Jader, que em 'sa época não usava seus conjuntos, diz que quando morava em Arembepe, conheceu os Stones e os levou para um terreiro de candomblé. «Os caras piraram com aquilo, aí, dois anos depois saiu o disco com a música Sympaty for the Devil, com aquela percussão louca no começo." Bem, Jader disse que o fato aconteceu nos 70 " e Beggars Banquet, o disco com a famosa música, foi lançado em 1968 e é bem verdade que os Stones afirmam ter feito a música depois de conhecer um terreiro de candomblé na Bahia, portanto, segundo a versão de Jader, um dos maiores hits do rock n ' roll mundial tem de certa forma, um dedo seu. Em 1973, com pouco mais de 20 anos, viveu em Los Angeles e precisando trabalhar conseguiu uma vaga de segurança no show do Led Zeppelin, o «Ledão», como ele diz. Sua função como segurança era observar o público e impedir qualquer confusão e que o público utilizasse qualquer tipo de drogas, menos as injetáveis. Gostou do show, principalmente quando o «Ledão» tocou as músicas menos conhecidas, mas uma história contada por o Jader não seria tão simples. Em a passagem de som «o mais simpático» da banda conversou com os seguranças: -- James Page disse que comprou umas terras em volta do Lago Ness e deixou lá com os caseiros, o pessoal de lá ... Só que antes de ele comprar 'sas terras, funcionavam umas destilarias de uísque no lugar e elas continuaram a fabricação e todo ano chegavam caixas e mais caixas de uísque na mansão do James Page, por isso ele dava aquelas festas que todo mundo queria ir, porque tinha uísque demais. O Tiozinho do Pijama arregala os olhos, balança a cabeça afirmativamente, levanta o dedão em sinal de positivo e coloca os dentes pra fora cada vez que termina uma história e, como forma de retribuição por os ouvidos e atenção presente diz: -- mas o que eu queria falar mesmo ... posso contar 'sa, quer ouvir? * A repercussão É comum 'cutar que «em São Paulo tem de tudo» e o Tiozinho do Pijama faz parte desse mosaico da Metrópole. Sua presença causa as mais diversas sensações, e numa comunidade na internet, um tópico foi criado em cima da curiosidade sobre 'sa «figura» e as mais diversas opiniões são expostas. «Excêntrico», «engraçado»,» de vanguarda», são algumas das expressões utilizadas para tornar o personagem cada vez mais lendário. Em a comunidade virtual também é comentado com entusiasmo por os participantes, sobre cada vestimenta com que o Tiozinho foi visto e alguns até arriscam a possibilidade de se tornarem adeptos dos famosos conjuntos. Em a mesa ao lado o Tiozinho mostra alegremente para um grupo interessado como o tênis, a armação dos óculos e a pulseira do relógio fazem par com o Conjunto / Pijama. Não é simplesmente a roupa, os acessórios não só complementam o 'tilo, como na maioria das vezes são determinantes para a composição do visual, e Jader já perdeu as contas de quantos conjuntos tem em seu guarda-roupa. Quando questionado sobre o possível investimento financeiro para poder manter o armário sempre renovado Jader se 'panta e aponta para o ouvinte sentado a sua frente: -- Essa camiseta deve ter custado uns R$ 20, a calça uns R$ 30, meu conjunto custou R$ 13. Jader diz que sua renda não parte unicamente do serviço público, seu 'pírito empreendedor o faz sócio em diversos segmentos. Quais por exemplo?-- Se alguém for muito bom em alguma coisa e me convencer disso, faço um investimento no negócio e fico com parte dos lucros. Tenho investimentos com um salão de cabeleireiros, uma pessoa que traz queijo de Minas e revende para pizzarias, com banca de jornal ... * Formando o conjunto O Tiozinho mais comentado da região afirma acompanhar aulas de chinês no Departamento de Letras da USP, diz que quer aprender a língua para negociar melhor com os comerciantes no Brás. Em as ruas de um dos bairros de comercio popular mais movimentado de São Paulo o Tiozinho do Pijama 'colhe uma armação de óculos e, normalmente, a partir de ela busca a 'tampa mais próxima, muitas vezes idêntica e o relógio vem na seqüência. Quando encontra uma caneta ou guarda-chuva nas mesmas cores e 'tampas, não deixa a oportunidade passar, como no caso do conjunto de Zebra, além do tênis branco com as listras negras, o charme de tirar uma caneta com a mesma 'tampa do bolso para anotar seu e-mail, tiozinhodopijama @. com. br, para alguém, não poderia ser desperdiçado, de forma alguma. Uma de suas «séries» preferidas é justamente a com 'tampas de animais e se orgulha ao dizer que quando chegou ao Charm com o conjunto de «oncinha» pela primeira vez, um silêncio profundo tomou conta do lugar e todos os olhos se voltaram para ele. Com o tecido em mãos, Jader chega a seu apartamento e com o molde que já possui, ele mesmo corta o tecido. Em os dias quentes o modelo é o de bermuda e blusa de botão de mangas curtas, no inverno, calça e mangas cumpridas, depois, é só levar ao costureiro. * Mais 'tórias Nem todas as conversas do Tiozinho são mirabolantes, mas certamente prendem a atenção. Diz que tem 6 filhos 'palhados por aí, mas «oficialmente» são 2. O mais velho tem 30 anos e Jader conta como o conheceu com a mesma fisionomia sorridente de quem conta as fantásticas histórias de hippie mochileiro viajando de trem, dormindo em praças e experimentando muito do que «os 70» pôde oferecer. Depois de um affair, nos 70», o cabeludo Jader foi visitar a moça em sua casa, quando deu de cara com o pai militar e levou um soco de cheio no rosto, com a promessa de que teria bem mais se não se afastasse de sua filha. Foi quando decidiu passar um tempo em Caracas, na Venezuela. Há 15 anos, Jader foi até um cinema na Consolação e na fila encontrou aquela moça cujo pai praticamente o empurrou para a Venezuela. Empolgado, foi falar com ela, que olhou para o rapaz ao seu lado e disse: -- Esse é seu pai. Com a mesma cabeça balançando afirmativamente, os dentes de fora, disse que tirou os dois de ali e foram tomar uma cerveja e conversar. * A Teoria da Terra Triangular Com mais de 50 anos de idade, o Tiozinho do Pijama impressiona por a jovialidade, não só por seus conjuntos, mas por o aspecto físico disposto, denunciado por os movimentos rápidos, elétricos, além do linguajar, como quando vai dizer que algo foi gratuito diz que foi «na faixa» e gesticula como uma faixa transpassando o tronco. Possui 'tatura mediana, pele clara e cabelos 'branquiçados não tão abundantes como nos 70», uma década que parece não ter fim para ele. Mas nosso personagem não 'tá preso ao passado e demonstra isso nos conhecimentos de ficção científica e em sua teoria de que «A Terra é Triangular». Com um pedaço de guardanapo na mão, Jader desenha não um triângulo, mas uma 'trela, como diz «a 'trela da Mercedes» e explica: Tá vendo a 'trela de três pontas, como a da Mercedes? E aponta: em 'ta ponta 'tá o Himalaia, aqui os Andes e na outra os Alpes Europeus. Em volta, água. Esta é a Terra. Número de frases: 79 Gostou da minha teoria? Com tecnologia banal, mas com criatividade 2.0, 'critora dispara ação viral por a net: poemas absolutamente impublicáveis A 'critora Ana Rüsche iniciou, em 11 de maio, nova intervenção poética por meio de corrente de e-mails. A ação questiona quem determinará a sobrevivência dos poemas e sugere mecanismos virais para a distribuição da literatura, além de provocar o leitor-destinatário com versos fortes: «você que me lê agora onde 'teve por todos 'ses dias cegos?». A mensagem intitulada «ALERTA DE VÍRUS: os invisíveis mandam dizer» contém apenas poemas «invisíveis», dado que a maioria das letras pintada de branco desaparece no fundo igualmente branco da tela. Assim, o leitor só conseguirá ler o texto explorando os poemas, selecionando-os com o mouse. Em o corpo do e-mail, consta a frase: «Essa obra é extremamente frágil. Sua sobrevivência depende de teu desejo em repassá-la para outros, pois a autora não disponibilizou o arquivo em nenhum lugar para download. Agora é com você». Com 'ses dizeres, coloca-se nos ombros do leitor-destinatário toda a responsabilidade por a existência do poema. E inicia-se a distribuição por afetos: logo os leitores empolgados com a idéia, repassam o e-mail a amigos, sendo co-autores da ação. A autora já fez ação semelhante com a Distribuição por Contrabando de seu romance «Acordados» (Selo Demônio Negro: 2007). Para facilitar a distribuição, os poemas 'tão em domínio público, o que pode ser lido em inglês, spanglish, 'panhol, portuñol e português ao final do e-mail. Mescla de línguas que apenas completa versos sobre as 'trelas do cruzeiro do sul e uma suposta invisibilidade de quem 'creve em 'sas bordas do português: «e assim confiante, prossigo a 'crever poemas em branco que por absolutamente não existirem podem soar todos sonhos de ruas e linhas de 'trelas que se cruzam». A fragilidade da obra em 'sas paragens brancas é o que a constitui. E para conversar sobre o projeto, nada mais normal do que um bate-papo ao vivo, com vídeo e chat num canal de TV on-line: dia 22 de maio de 2008, quinta, às 13h de Brasília (3 GMT) no http://www.ustream.tv/channel/alerta. Serviço: Número de frases: 27 Quem ainda não recebeu o Alerta de Vírus, basta comentar no blogue Peixe de Aquário, http://peixedeaquario.zip.net, que a autora providenciará pessoalmente o envio. Quando 'cuto alguém falar em coerência na literatura, o que me vem à mente não é um livro monotemático. Aquele lance de pegar um assunto e passar não sei quantas páginas remoendo e 'miuçando, até que o leitor se encha. Pra mim tem mais a ver com sinceridade. Ou seja, quando o 'critor se coloca à prova, se mostra, numa entrega incondicional. E por mais que sua 'crita varie na forma, o sujeito 'tá lá. Presente e firme. Hoje em dia todo mundo é muito cabeçudo e intelectual. Todo mundo quer achar a frase ideal, ser elogiado e ser considerado gênio, ainda que sua literatura seja chata e inacessível. E medrosa ao extremo. Pra mim um bom 'critor tem de ter o texto pautado na vida, nas perplexidades e nas descobertas. Tem a ver com sinceridade, comoção, fúria e verdade pessoal. Isso é um bom livro. Corações blues e Serpentinas (editora Arte PauBrasil, 2007) já diz a que veio por o título. De causar inveja. Cheio de referências à cultura pop, aos quadrinhos e ao rock and roll, a obra supera, e muito, a questão temporal e também a panfletária, «que tantas vezes afastam os leitores de outros autores novos e promissores», como afirma acertadamente João Carlos Rodrigues, na orelha do livro. A coesão de que falei lá no começo não surge da repetição deste ou daquele tema. O que liga um texto ao outro é a sinceridade, a coragem, um jeitão destemido de se dizer o que pensa, de rever momentos e de colocar a porra da vida em xeque-mate. Em nome disso que chamamos 'crita. Dá pra identificar o Lima. E sua coragem ou, como costumamos dizer hoje em dia -- numa forma bastante delicada e sutilíssima de se justificar a ousadia --, podemos afirmar que ele «tem culhão». Não só a bravura. Seus contos são belos. Cheios de poesia e ritmo. São leves (como no excelente O balão amarelo, página 49), imaginativos (Uma vez no céu 'curo e brilhante, página 117) e grandiosos (Noite num Hotel da Asa Norte, o primeiro de todos e o que mais me comoveu). Seu conhecimento da palavra -- 'se lance de dominar a língua e etc.-- não o coloca na tal «zona cinzenta» citada por o João Carlos, ainda na orelha. Trindade não se envergonha de dizer que quer ser compreendido, sem ser diminuído. Quer possuir, por pleno direito, seu 'paço no grande e muitas vezes maçante universo da literatura. Reivindicar sua verdade. De a maneira mais corajosa possível. Sem se amendrontar, mostrando o quão múltiplos podemos ser, acima e além das bandeiras e dos rótulos -- o que Lima nos mostra é o mundo, visto de um ângulo pessoal, intímo e, por isso mesmo, único. Sem 'sa de classificar para o leitor o que, em verdade, não tem classificação. Como em algumas das resenhas que pude ler. Onde alguns dos críticos reduziram o Corações Blues e Serpentinas a uma obra de temática homoerótica. como se tudo não passasse de uma pequena obra. Erro. Erro crasso. Em os contos do Lima -- que também é editor do site de literatura e arte, Verbo21 -- o desejo não é conseqüência. Mas causa, exclusivamente. Não importando sua destinação, seu jeito ou a trilha sonora 'colhida -- um blues rasgadão ou um chorinho; uma música do Lô Borges ou um samba canção. Não interessando se são duas pessoas do mesmo sexo ou de idades distintas. As pessoas não amam ou trepam por que são gays ou não. Elas saem à noite, pegam táxis -- cruzando o Centro Histórico de Salvador, com a alma em brasa (Anjinho barroco, página 92) --, idealizam, sentam nas praças, curtem Hq, porque querem aquele negócio chamado felicidade. E sacam, de algum jeito, que não adianta justificativas ou outras tolices: a vida anda; o tempo é matéria rara -- o que ficou claro pra mim no conto Três movimentos pra um selvagem desamor (e ele ainda fala que eu sou bom em títulos: isso sim é um título!). Está lá a Brasília sem floreios, longe demais das mansões e dos políticos de merda; as pessoas comuns, os seres que vivem seus dias entre balcões de farmácia, praças, ruas, asfalto: vida, em seu 'tado bruto. Em as 150 páginas de seu terceiro livro, o 'critor do também genial Todo Sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editora, 2004) consegue trazer à tona 'se mundo que, nas mãos de algum literato medroso, só serviria como pano de fundo sem graça. Seus 15 contos partem da premissa de que não vale a pena perder tempo com metáforas confusas e outros elementos vazios, pra poder apenas se 'conder do leitor -- e consequentemente da vida. Ele parte para a afronta. Para o confronto direto que dispensa bandeiras, ideologias, 'colhas, gêneros. É a liberdade de ser, 'crever, existir -- e outros verbos de mesma intensidade. Por aí. Número de frases: 56 A melhor definição do que é a direção de arte em cinema eu 'cutei da cineasta " Lina Chamie: «tudo que você vê na tela, enquadrado por a câmera, é direção de arte." O diretor de arte é uma 'pécie de " maestro visual ": ele coordena, afina e harmoniza os elementos visuais que compõe a cena, que será iluminada e fotografada para um filme ou para a TV. Sua orquestra é composta de cenógrafos, cenotécnicos, pintores, figurinistas, maquiadores, cabelereiros, produtores de objetos, técnicos de efeitos 'peciais e mais recentemente, 'pecialistas em computação gráfica. A equipe sob sua responsabilidade é como uma orquestra: cada um dos membros precisa 'tar afinado, precisa conhecer a partitura, precisa executar corretamente e inspiradamente a sua parte para que o conjunto da obra seja belo e harmonioso. Realizar a direção de arte de um filme é tarefa complexa que envolve pesquisa, cálculo de custos, gerenciamento de pessoas, além de um profundo conhecimento sobre história da arte, técnicas de construção de cenário, criação 3D em computador, iluminação, fotografia. O diretor de arte precisa se relacionar com os outros departamentos do filme, 'pecialmente com o diretor de fotografia e o coordenador da produção. Em a TV o trabalho é um pouco diferente do cinema, porque geralmente as pessoas têm contrato fixo e um departamento onde se armazena o material de cena, chamado contra-regra, mas a lógica do trabalho permanece a mesma do cinema. É fácil identificar visualmente uma novela, por exemplo, que possui boa direção de arte de uma que não tem. A boa direção de arte faz com que novelas de época, por exemplo, tenham todos os elementos visuais harmoniosos e dentro da época retratada, sem misturas. A direção de arte não foi sempre assim. Em o início do cinema, o que se via na tela era uma transposição das técnicas teatrais de cenotécnica, maquiagem e figurino. O cinema dos primórdios, da década de 1910 a 1920, era teatral, a composição visual ainda se apoiava na pintura e na fotografia. Quando assistimos Metrópolis de Fritz Lang ou o Encouraçado Potemkin de Eisenstein a impressão que temos é de uma grande ópera filmada ou de quadros numa exposição, com cenários grandiosos em longos planos abertos, cada um dos planos 'tudado como se fosse uma pintura. O cinema ainda engatinhava, descobria através do experimentalismo como criar uma linguagem própria. A técnica influenciou muito em 'se processo, as câmeras não possuíam mobilidade, o filme tinha limitações. As primeiras atrizes do cinema mudo usavam maquiagem amarela para aumentar o contraste com os olhos, o filme, de pouca sensibilidade à luz, deixava a pele humana cinza. Com a evolução dos equipamentos e com o desenvolvimento de uma linguagem cinematográfica, surgiu a necessidade de mais profissionais 'pecialistas em criar elementos visuais para o olhar da câmera. O aumento da equipe fez com que fosse criada a figura do diretor de arte. Em a década de 40, os 'túdios americanos trabalhavam como grandes indústrias cinematográficas, com vários filmes sendo produzidos ao mesmo tempo. O fator técnico decisivo para a logística da filmagem era o technicolor, que exigia uma câmera grande que trabalhava com quatro chassis de filme ao mesmo tempo, fixada em gruas ou travellings para poder ser movimentada, operada por até 6 pessoas. A falta de mobilidade exigia o máximo controle de condições climáticas e de iluminação. Tudo se construía em 'túdio, mesmo as ruas externas onde Gene Kelly dançou na chuva, tudo era iluminado artificialmente. O technicolor, por a forma como produzia o filme colorido, exigia que se usassem cores fortes e contrastantes nos figurinos e cenários. O trabalho da direção de arte era limitado ao conjunto de regras do technicolor, não se usavam cores pastéis, não se usavam semitons. A Nouvelle Vague veio resgatar o ar livre, produzindo filmes em preto e branco com câmeras leves em ambiente externo. O realismo italiano valorizou o homem, o ambiente humano retratado como ele é. O cinema começou a ter variedade de linguagens e 'tilos. Hollywood seguiu com sua vocação industrial e continuou produzindo, os atores e atrizes se transformam em ídolos e mitos. Walt Disney começa a produzir animações na década de 50. A Cinecittá italiana começa a produzir também em 'cala industrial, com seus 'túdios-cidade. E o diretor de arte ganha mais 'paço para trabalhar. A partir da década de 1970 direção de arte passou a ser um conceito muito mais sofisticado. Um dos grandes cineastas que transformou o trabalho do diretor de arte foi Stanley Kubrick, o outro foi Frederico Fellini. Kubrick, fotógrafo e perfeccionista, transformava cada um de seus filmes em obras de arte visuais. Em 1974, realiza Barry Lyndon e dá condições a suas duas diretoras de arte para que realizem um filme de época de uma forma que não havia ainda sido feita. A direção de arte faz uma extensa pesquisa sobre as roupas da época, as perucas, a maquiagem. Kubrick autoriza sua equipe a comprar roupas em leilões, peças originais da época de Barry Lyndon. Cada plano é produzido como pintura, mas não qualquer pintura, como as pinturas da época em que o filme se passa. Kubrick manda fabricar uma câmera 'pecial para filmar à luz de velas. O resultado é um filme lento, com ambientes irretocávies, iluminado apenas com luz natural e velas, onde cada personagem 'tá perfeitamente caracterizado como se vestia na época, onde cada cenário e locação foi preparado para dar a impressão ao 'pectador que voltou no tempo, que o que 'tá assistindo é uma reconstituição perfeita. Fellini era um dos cineastas mais criativos de todos os tempos, surrealista e humanista. Fellini criou uma galeria de personagens bizarros e cenários de sonhos. A Cinecittá, em pleno auge, foi seu ambiente. Seus filmes tem uma linguagem visual muito particular, que mistura reconstruções de lugares reais em 'túdio -- como a réplica da Fontana di Trevi, que aparece em Oito e Meio -- com cenários evidentemente artificiais, como o oceano de plástico e o fundo pintado de La Nave Va. Outro cineasta que permitiu inovação foi George Lucas com seus filmes de ficção científica. Lucas faz o primeiro Star Wars com a técnica desenvolvida por os 'túdios Disney para criar cenários realistas: placas de vidro pintadas onde os personagens são depois «colados» na montagem do filme. As técnicas de montagem ainda eram as mesmas desde a década de 20. Descontente com o resultado, Lucas abriu a Industrial Light and Magic. A direção de arte ganhou um novo departamento: a computação gráfica. Apesar de toda a tecnologia atual e das quase infinitivas possibilidades de produção, o princípio criativo do diretor de arte permanece o mesmo: transformar em realidade o que o diretor e os roteiristas do filme imaginaram. Construir mundos de sonhos, seja no mundo real em 'túdio, seja no computador. Um filme sem direção de arte pode ser um bom filme; um filme com boa direção de arte será sempre um filme melhor. Daniela Castilho é diretora de arte, artista plástica e designer Artigo originalmente publicado na Gazeta Mercantil em 30 de junho de 2006 no Caderno Fim de Semana, página 04 Número de frases: 62 Nota: Esse texto pode ser republicado e distribuído livremente, para fins-não comerciais, desde que seja dado o crédito ao autor. Pirataria é um tema muito delicado e controverso. Sempre há o risco de ser interpretado como defensor da criminalidade. O fato é que quase a totalidade da população usa software pirata, já comprou / usou CD pirata ou baixou ilegalmente alguma música daquele artista predileto. Francamente, não conheço ninguém que nunca tenha feito isso. E agora? Somos todos criminosos? Há muitas questões éticas e legais envolvidas. Há quem diga que vender DVDs do Naruto no Brasil não é crime porque ninguém tem os direitos da série no país, portanto, não há um «original» para haver um «pirata» correspondente. Não sei, não quero entrar em 'sas questões legais, até porque não entendo disso. Quem entender, comente. Em a minha cidade, Jataí, a venda de CDs piratas é prática muito comum. A prefeitura construiu, há muito tempo, um local para abrigar os «camelôs». Há um 'paço, chamado de «feira dos importados» (nome sugestivo?) que funciona a semana inteira. Nada contra, mas todos sabem, inclusive o governo e a polícia, que ali muitos vendem CDs, DVDs, CDs de mp3 ... tudo pirata. Mais grave: as lojas de informática (das mais «sérias» às mais informais) vendem, a R$ 10,00 o CD, cópias dos jogos mais famosos e de outros softwares. As lojas de CD vendem cópias de CDs e coletâneas paralelas. Algumas não aderiram à prática e viram seus clientes irem embora ... Claro, em ambos os casos há exceções, mas isso parece ser a regra. O que fica claro é que a pirataria existe porque há quem consuma os produtos piratas. É importante dizer que, por mais legal que seja, não me parece ser correto vender um CD ou DVD por R$ 50,00 num país com tanta gente que ganha tão pouco. É possível vender muito mais barato e tem muita gente por aí que 'tá fazendo isso. Por outro lado, é necessário mostrar que os «pirateadores» não são Robin Hood s. Por trás dos vendedores, que, penso eu, são os menos culpados e os que mais sofrem, há uma grande indústria de pirateadores que 'tão no negócio única e exclusivamente por um motivo: ganhar dinheiro às custas do trabalho alheio. E, pelo visto, o negócio dá muito dinheiro, pois muitos dos pirateadores «menos graúdos» (os que vão para a cadeia) 'peram só o tempo de sair da prisão para voltar à prática. Também acho que é necessário diferenciar que, do ponto de vista do consumidor, há várias «modalidades» de pirataria. A pirataria pessoal, é quando você baixa músicas da internet ou copia o CD do seu amigo. Existe também aquele produto que o consumidor compra sabendo que é pirata: aquele CD de um real que vem no saquinho de plástico com um 'boço de encarte mal impresso. Ninguém compra um produto assim pensando que é original, mas sabendo que é um produto de qualidade bem inferior e por um preço igualmente menor. É assim com roupas, calçados, comida ... se você não quer pagar muito, compra de qualidade inferior. Por que não com música ou software? ( e os direitos autorais?) Há também aquela pirataria que é falsificação mesmo. É o produto «genérico», aquele CD que vem até com o selo de autenticidade falsificado. A 'ses, não cabe defesa. Há também aqueles produtos que são «quase» falsificação. Por exemplo, 'ses que surgiram imitando o design do Ipod da Apple, aproveitando a fama e o sucesso do produto, e que são vendidos a preços bem mais acessíveis. Mas nem tudo 'tá perdido. Há muitas alternativas hoje para fugir da pirataria. Software livre é, cada vez mais, uma alternativa viável, inclusive para uso pessoal. É importante dizer que software livre não é software grátis, mas pode ter um custo de implantação (com treinamento e suporte) até maior que o dos softwares proprietários (custo 'se que é «opcional», você decide se precisa ou não), mas isso é outro assunto. Licenças como a CC são também boas alternativas e o Overmundo pode vir a ser (se já não é) um importante instrumento de disseminação cultural em 'se sentido. Há também a opção, para os músicos, de recorrer a selos independentes, vendendo os CDs a preços bem menores. Número de frases: 49 Essas iniciativas são importantes e apontam que, num futuro próximo, não precisaremos mais cometer crimes para ter acesso à cultura. Não é preciso vasto conhecimento da história do Hip-hop no Brasil pra saber que a coisa pegou fogo mesmo em São Paulo. Foi por lá que a Cultura se desenvolveu e conquistou uma multidão de adeptos desde meados dos anos oitenta. Em a mesma época o Rio de Janeiro vivia um fenômeno diferente, diversos Bailes Funk levavam milhares de pessoas aos clubes 'palhados por o subúrbio da cidade. Em poucos anos, equipes de som como Furacão 2000, ZZ Discos e Pipo ´ s fizeram do Funk a música de massa da Cidade Maravilhosa. Há quem diga que o Hip-hop não se criou muito por aqui porque o pancadão do Funk dominou as caixas de som nas favelas e periferias. Um dos aspectos que mais chama atenção na relação Funk / Rap é o distanciamento entre os dois 'tilos que, ao meu ver, compartilham mais semelhanças que diferenças. Ambos são música periférica, construída a partir de colagens de sons eletrônicos e produzida sem a necessidade de grande recursos. Quando, onde e por quê Funk e Rap começaram a andar em direções opostas? Em o 'forço de responder 'tas questões, o laboratório de pesquisas Olhar Periférico anuncia a descoberta do Elo perdido. Uma criatura em plena atividade que representa a mais orgânica ligação entre o Rap e o bom e velho Funk carioca. O responsável por 'sa junção atende por o apropriado nome de Funkero. O MC acaba de lançar sua primeira mix-tape, Poesia marginal, disco no qual o rapper aprofunda sua proposta de fundir o Rap com o que o Rio tem de melhor, e eu não 'tou falando de samba. Cria do Jardim Catarina (São Gonçalo), Funkero despeja suas rimas em bases construídas nas 'truturas do voltmix e do tamborzão, as duas principais matrizes do Funk carioca. A produção fica por conta de Iky Castilho, que além das referências rítmicas, ainda recheia as músicas com sintetizadores característicos dos primórdios do Miami Bass. É o caso de Relíquia. Faixa que, embalada por o refrão: «De a antiga relíquia e funkero até morrer, deixa o som sacudir você, 100 % lazer», bombaria em qualquer baile. Ligado a 220 volts, Funkero constrói com destreza a ponte que liga os dois 'tilos com muita naturalidade. As letras lembram Mister Catra em sua melhor fase, passeando entre as crônicas que cantam a guerrilha urbana e histórias de noitadas Homéricas. Desde a parceria com o Menor do Chapa, aquele do «humildade e disciplina», lembra?, até a produção da mix-tape, o MC mais frenético do Rio elabora um 'tilo próprio e original. O grande mérito do Funkero é conseguir oxigenar a mesmice do Rap com a dinâmica do Funk. Enquanto a cena do Rap amarga poucas festas, freqüentadas por um público restrito, o Funk segue bombando, literalmente, mundo afora. Fica aqui a torcida para que outros MC ´ s abram os olhos e consigam intensificar novas possibilidades de encontro da periferia com ela mesma. A aproximação não é apenas possível, como muito bem-vindo. Número de frases: 26 E, quando acontecer para a geral, aí sim o baile vai ficar uma uva! Qual o significado de 'tar aqui e não em outro lugar, de ter nascido em 'se tempo e não em outro. De ser ao invés de não ser?! Para onde vou, de onde vim? O que quero e devo fazer da vida? Em o dia em que fui concebido aconteceu uma explosão ao inverso porque havia um óvulo lubricamente oferecido e a manada de 'permatozóides que o desejavam. Em uma explosão, a partir de um núcleo detonado as partes caoticamente se dispersam. Em a concepção um núcleo atrai as partes e um 'permatozóide deve entrar fazendo um «ploc» vitorioso na membrana que se fecha novamente. Em o meu caso o mais raquítico venceu ... e eu sei porque sou eu! Isso prova que nem sempre vence o melhor, o mais forte, o mais bonito. Eu não me lembro se houve uma 'tratégia que adotei para me tornar alguém, tenho apenas uma vaga intuição de que não foi fácil. Em a verdade também não deve ter sido assim tão difícil. Sabe?!, a concorrência não devia 'tar muito preparada -- usei de inteligência -- que nem era tanta. Confundi com doses de loucura a lógica reinante. O meu avô dizia que em terra de cego quem tem olho é rei. Reinei naquele instante. A minha mãe talvez tenha se arrependido -- mas nunca me disse isso claramente. Só sei que ela tinha raiva de casamento e era tanta que até eu mesmo quase não me caso. Mas me casei. E tempos depois vieram dois rebentos. E em eles me refiz em ciclo novo embora ultimamente venha me sentindo claudicante ... Engraçado pensar na vida e constatar que morrer não é simplesmente o oposto de nascer. Hoje é dia de finados e 'tou aqui no cemitério caminhando entre alamedas tão bonitas. Uma imensidade de flores são depositadas enquanto se pode ouvir o gorjeio de pássaros. Número de frases: 25 Não deve ser tão ruim morar aqui -- 'pecialmente quando toda 'sa multidão for embora e o sossego voltar! Sábado de feriado, 9h da manhã e se encontraram na Casa do Conde, aproximadamente 100 pessoas para a Oficina de Jornalismo Cultural da Teia 2007, que duraria dois dias. Estavam presentes profissionais, professores e 'tudantes de jornalismo, agentes e produtores culturais, além de curiosos, educadores e convidados da organização. Ninguém parecia saber muito bem o que aconteceria. Em os convites e divulgações da oficina, nenhuma programação foi detalhada. As únicas informações dadas foram (1) que a Oficina aconteceria para montar uma agência de notícias que cobriria a Teia 2007; ( 2) a pauta discutiria jornalismo cultural, produção colaborativa de conteúdo, web 2.0, software livre, direitos autorais flexíveis e afins; e (3) a lista de «provocadores» convidados ia desde o blogueiro mais bem sucedido do Brasil até membros do MinC. Provocadores parece bem a palavra certa. Ao invés de colocar palestrantes e 'pecialistas contando o que é jornalismo colaborativo, o Instituto Pensarte se associou à Papagallis, que propôs dinâmicas de grupo para discutir e 'timular a consciência, o pensar e o produzir coletivos (foram adicionados convidados que atuaram como provocadores junto ao público). Essa atividade se repetiu três vezes: cada hora respondendo a uma pergunta diferente: Porque 'tamos aqui?, O que é jornalismo cultural independente?, Para quem fazer jornalismo cultural independente? Funcionou assim: cada cinco pessoas se reuniam numa mesa forrada de papel e eram incentivadas a discutir a pergunta da vez e a registrar no papel, como quisessem, conclusões ou dúvidas sobre o assunto (veja fotos e repare nas toalhas das mesas -- e no meu infográfico!). Passados vinte minutos, quatro de 'sas pessoas se dirigiam a mesas diferentes e aconteciam mais vinte minutos de debate. Depois de três ou quatro trocas, as pequenas mesas saíam de cena e se formavam os aquários, uma maneira de discutir com um grupo grande que garante a participação de todos, sem aquela gritaria que costuma-se ver por aí. Voz De Todos Sem a centralização do microfone, todos acabam tendo voz e, ao invés de chegar a uma conclusão ou de engolir uma verdade, chegam-se a várias conclusões, encontram-se várias verdades e várias idéias são instigadas. As principais idéias que se infiltraram na minha mente: Jornalismo cultural independente é (ou deve ser) mais livre no texto, mais opinativo, mais crítico, menos formatado no padrão da mídia convencional. O jornalismo cultural independente tem, mais do qualquer outro jornalismo, um papel educativo e de utilidade pública: levar notícias feitas por e / ou sobre culturas diferentes para as mais variadas camadas da população. Não dá para fazer jornalismo cultural independente em veículo de massa «'tabelecido», principalmente porque um dos objetivos é cobrir produtos culturais diversos não-pasteurizados por a indústria cultural, ou seja, de pré-interesse questionável na visão dos editores movidos a agenda-setting. A exceção para 'se caso pode se dar em veículos públicos, que não têm tanto compromisso com os números de audiência como a mídia privada. Mas, para 'sa exceção, deve se pensar 'pecialmente em praticar um jornalismo independente, aproveitando o aparelho para combater a agenda-setting, levando notícias mais diversificadas e ainda assim atraentes. Há que se pensar novos meios para transmitir notícias, a internet ainda é um meio considerado de restrito acesso, seja por motivos econômicos ou mesmo por dificuldade em compreender a rede. Uma idéia que me chamou a atenção: 'quetes jornalísticas (!). Não é necessário ser jornalista para fazer jornalismo cultural independente (o Overmundo 'tá aqui " de prova "). Porém o jornalista talvez possua mais ferramentas para produzir conteúdo mais versátil e mais completo, que proporcione maior credibilidade. Para garantir a diversificação de conteúdo, é 'sencial a atuação de cada um dos ativos em rede, independentemente. Cada um dos pontos de divulgação (seja um indivíduo, uma iniciativa, uma instituição etc) deve passar e repassar informações de maneira mais ampla possível, usando e abusando das tecnologias disponíveis (leitor de rss, agregadores de conteúdo e tudo mais web 2.0). Ativação De Todos Por falar em trabalhar em rede, a dinâmica que iniciou os trabalhos no segundo dia foi sobre isso. Em o salão, cada uma das cem pessoas presentes 'colheu, sigilosa e individualmente, dois alvos. O objetivo era ficar eqüidistante (ou seja, à mesma distância, não necessariamente no meio do caminho) dos seus dois alvos. Em minutos, todos se organizaram sozinhos, bem distribuídos no salão, com maior concentração no centro. Não parecia haver ordem ali, mas quando perguntados se haviam atingido o objetivo, quase todos levantaram as mãos. Em uma segunda etapa da dinâmica, a pessoa que liderava instruiu que a pessoa tocada no ombro por ela deveria se sentar e que, ao ver um de seus alvos sentados as pessoas deveriam se sentar também. Foi impressionante a velocidade, não mais que dois minutos foram gastos para que todos se sentassem. Então a líder anuncia que, para alcançar todo mundo, tinha encostado no ombro de apenas quatro pessoas. Ou seja, quatro pessoas desencadearam a ação de quase cem! Impressões De Todos A mistura entre o jovem 'pírito colaborativo (que enxerga que a internet e a convergência de mídias mal começaram a mostrar a que vieram e serão aprendidas e, principalmente, Construídas em conjunto), a utopia cega (pensando o mundo como limite e se 'quecendo de questões práticas como finanças, 'trutura e credibilidade) e o profissional cético (castigado por o mercado e acomodado em sua boa cadeirinha que pensam que a evolução tecnológica ou já acabou ou vai demorar Demais para chegar na realidade brasileira), foi um tempero bom para o debate. Inclusive, a diversidade de pontos de vista foi 'sencial para que se desenvolve e extrapolasse o tema. Dedicamos parte da conversa a discutir o que é cultura? ( é o que se faz? o que se vende? o que se vive?) e também o que é independente? ( talvez fosse melhor chamar de autônomo ou alternativo?). O resultado foi um acúmulo de pessoas e experiências diferentes, com pensamentos diferentes sobre o jornalismo cultural independente, com a única instrução de 'crever o que quiser, aonde quiser, desde que use a tag ou categoria teia2007 (aqui no Overmundo, não se 'queça de colocar também teia-2007), e que o feed 'teja cadastrado no del. icio. us, para que toda a produção seja agredada à Agência Teia 2007. Ah! E não precisa ter participado da oficina para 'crever sobre o evento, basta dar uma olhada na imensa programação ou passear nas ruas de Belo Horizonte, que vai 'tar em polvorosa entre 7 e 11 de novembro. Tampouco precisa-se limitar a cobertura jornalística independente na Teia, certo? Número de frases: 59 A idéia é que se 'palhe 'sa idéia! O universo almodovariano é permeado por as cores de tons rubros, que no inconsciente coletivo 'tão relacionadas à paixão e à sensualidade. E a paixão é a lei que rege a vida de seus personagens, entregues à catarse de amores por divindades seculares, seres humanos a quem atribuem a magia dos deuses. Almodóvar não fala de amor, fala de paixão. Ele não traz aos nossos olhos personagens envolvidos na sutileza do amor maduro, e sim na obsessão da idolatria amorosa. Em A lei do desejo, o personagem Pablo fala: «O que mais adoro e o que mais odeio no amor são uma e a mesma coisa; o fato de tomar todo o meu tempo e todas as minhas forças». O amor de Almodóvar é vassalo, quando Benigno ama e cuida de uma mulher em coma em Fale com ela; é possessivo, quando Ricky amarra Marina na cama em Ata-me; é vingativo quando Antônio mata Juan, a verdadeira paixão de Pablo, em A lei do desejo. Esse amor dá e não precisa receber, ou às vezes exige o outro por inteiro, mas sempre ultrapassando os limites da adoração e se tornando de alguma forma destrutivo, fazendo aquele que ama perder partes de si num mundo onde o centro é o amante-deus. Há momentos em que me pergunto se não seria 'sa a forma do próprio Almodóvar lidar com o amor. Sim, já que seus filmes têm um tom autobiográfico, principalmente Má educação e A lei do desejo. Em ambas as películas o personagem principal é um diretor de cinema, e Almodóvar brinca com as coincidências, usando até a metalinguagem, como no filme dentro do filme, com limites por vezes imprecisos entre um e outro, em Má educação. Almodóvar lança-se descaradamente na tela, e ele mesmo chegou a dizer, até como 'tratégia de marketing, que conviveu com mais de quarenta meninos num internato e foi abusado sexualmente por um padre assim como o protagonista de Má educação. Em Almodóvar, o amor pode não ser maduro, mas também não é hollywoodiano. É bizarro na sua própria medida. Em os amores de Hollywood, há o encantamento do encontro, o êxtase dos desencontros, e a paixão eternizada nos créditos finais que interrompem o nascimento do tédio. Almodóvar nos brinda com seu mundo de bichas, mulheres neuróticas, com um homem reduzido a mínimas dimensões perdido dentro da vagina, ou da mente da mulher, como na clássica cena do filme preto e branco inserido em Fale com ela. Almodóvar recorre ao exagero para mostrar a maturidade de suas reflexões. Ele dá uma bofetada nas nossas convicções ao mostrar uma mulher renascer de um coma logo após ser 'tuprada por o perdidamente enamorado Benigno em Fale com ela. Diante de personagens e enredos tão 'drúxulos, encontramos algo de familiar na dimensão semântica do filme. Gentes que num primeiro momento podem parecer tão extraordinárias, mas na verdade são universais. Os amores de Almodóvar surgem como uma faceta para falar de nós. Número de frases: 25 Salvador-BA Amigos de convivência próxima dizem que Murilo Rubião era uma pessoa extremamente generosa. Além disso, ele era muito democrático no trato com as diferentes expressões artísticas. Figura ímpar na literatura mineira, 'cutava à todos e tinha conversa fácil com os diversos círculos culturais e políticos de Minas Gerais. Rubião, 'critor descoberto com atraso por a crítica literária, é um dos precursores do realismo fantástico na literatura nacional. O seu conto, O ex-mágico da Taberna Minhota, é um dos principais marcos da sua obra. Sujeito organizado e hábil nas tarefas administrativas, Rubião era o homem certo para criar e coordenar o Suplemento Literário de Minas Gerais. Há 41 atrás, o 'critor mineiro criou o Suplemento Literário de Minas Gerais. E a razão de 'sa mini-biografia anteceder o verdadeiro assunto desse texto é que pode-se explicar a história do Suplemento Literário entendendo um pouco quem era Murilo Rubião. Foi exatamente no período de três anos no qual o 'critor 'teve por trás das páginas do SLMG que foi vivida a sua chamada época de ouro. Ele era uma publicação recheada com o melhor da literatura e das artes plásticas. De Minas Gerais e do Brasil. A publicação, que é reconhecida como a mais antiga ainda em circulação no país, nasceu, acreditem, de um incentivo político. Corria 1966 e Raul Bernardes, então secretário de governo Israel Pinheiro, colocou nas mãos de Rubião a tarefa de recuperar a seção literária do Diário Oficial Minas Gerais. Bernardes propôs uma página. Murilo rebateu sugerindo um suplemento. Surgiam, assim, as oito páginas que iriam circular semanalmente por o interior do 'tado, por Belo Horizonte e algumas outras capitais. Em 3 de setembro de 1966, dizia a primeira edição do Suplemento: Em a sua simplicidade, o titulo 'colhido para 'ta nova secção do Minas Gerais contém o 'sencial de um programa consciente. Deliberamos reivindicar a importância da literatura freqüentemente negada ou discutida. Para começar, tomamos o termo na acepção mais ampla. Em 'sa ordem de idéias, o Suplemento Literário vai inserir não só poesia, ensaio e ficção em prosa, mas também a critica literária, a de artes plásticas, a de música. Sem negligenciarmos os aspectos universais da cultura, queremos imprimir a 'tas colunas feição predominantemente mineira, assim no 'tilo de julgar e 'crever, como na 'colha da matéria publicável. A fidelidade à Província nos termos que a situamos, até conjura o perigo do provincianismo. Uma revista Andradiana O SLMG foi mais do que um suplemento. Ele foi também mais do que literário. E, principalmente, ele foi bem além de Minas Gerais. Ás mãos de Rubião chegavam colaborações dos conhecidos Drummond (já morador do Rio de Janeiro), Lispector, Guimarães Rosa e Murilo Mendes. Revelavam-se também os novos nomes de Humberto Werneck, Ivan Ângelo, Luís Vilela, Roberto Drummond, Oswaldo França Júnior e muitos outros. A «geração suplemento» não se encontrava apenas nas páginas. Mais do que apenas um ajuntamento de nomes que já eram grandes (e outros que viriam a ser), os encontros por a cidade foram marcantes. Os vários 'critores e artistas que freqüentavam a redação do Minas Gerais partiam de lá para bares, festas, sebos e praças. Em o início, ao lado de Murilo 'tava o jovem artista plástico Márcio Sampaio, que o auxiliava na parte visual, contribuía com críticas de artes plásticas e ajudava a 'colher os nomes das próximas edições. «A própria redação transformou-se, em 'se período, num verdadeiro reduto intelectual, detonador de idéias, que o Suplemento Literário logo imprimia para ser degustado por toda sorte de consumidores: da professorinha, do coletor, dos modestos burocratas do interior mineiro, dos 'tudantes e aspirantes a 'critores e artistas, ao grand mond da intelectualidade brasileira e muito dos grandes 'critores e artistas do exterior», afirma Sampaio. O artista plástico chama a atenção para a circulação do SLMG no interior de Minas Gerais. Isso contribuiu para a formação de um público mais informado e, conseqüentemente, capaz de gerar novas gerações de 'critores pós-suplemento. Ainda na opinião de Sampaio, a desvinculação do SL com o Minas Gerais foi uma das maiores perdas e descaracterizações da publicação. Hoje em dia, além de ser enviado por o correio, o SL pode ser adquirido na sua sede e em diversos pontos culturais da cidade. Uma parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais digitalizou as centenas de edições lançadas e as disponibilizou na internet. Hoje, o Suplemento é vinculado à Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais. Que periodicamente alterna os editores da publicação. Embora ela ainda mantenha de certa maneira o formato e os objetivos originais, quem 'teve envolvido nos seus primeiros anos afirma que ele já não é mais o mesmo. A resistência da Ditadura ... O suplemento foi criado no governo de Israel Pinheiro, o último a ser eleito por o povo, durante o regime militar. Por o número de jovens cabeças pensantes envolvidas no projeto, era natural que se despertasse a inimizade dos militares. Enquanto o não-biônico 'teve à frente do governo 'tadual, Rubião encontrava apoio para resistir as investidas dos militares. Em 1969, Médici assumia a presidência e os anos de chumbo tinham início. Em 'se mesmo ano, Rubião, que resistiu tanto tempo junto com seus companheiros, teve que abandonar aquilo que havia criado. Fora acusado de subversivo. Em seguida Rui Mourão assumiu a direção do Suplemento. Por pressão dos militares, não passou de dois meses. Após decadência por décadas, Murilo Rubião voltou ao comando do SLMG. Em 1983, quando Tancredo Neves assumiu o cargo mais alto da política mineira e a volta da democracia se anunciava por o país, o seu criador retomava a publicação. ... e dos acadêmicos Minas Gerais talvez tenha sido o local onde o SL fez menos sucesso. Era exatamente no seu lugar de origem que ele encontrava a maior resistência. Resistentes que, motivados principalmente por a inveja intelectual, acharam impossível ser capaz de preencher oito páginas semanais com boa literatura. Com o sucesso do projeto, os contras, originários principalmente da Academia Mineira de Letras, se interessaram em assumir a direção do Suplemento. E foi o que conseguiram durante o período militar. Foi a época na qual a qualidade da publicação mineira caiu bastante, assim como boa parte da cultura «oficial» do país. Número de frases: 61 Pra você que sempre acreditou na sua bandinha de garagem e nunca deu muito ouvidos aos vizinhos e família, talvez a boa hora 'teja chegando. As Faculdades Integradas Barros Melo (AESO) em parceria com a onipresente Astronave lança a segunda edição do bem sucedido Festival Microfonia. Após dois anos da primeira experiência, o evento 'tá com inscrições abertas até o dia 18 de agosto para quem quiser concorrer a prêmios bastante convidativos. Antes da grande final, serão realizadas duas fases classificatórias. A primeira selecionará doze bandas para a segunda fase (chamada: etapa eliminatória). Logo na sequência, a comissão encarregada de julgar os trabalhos (músicos, produtores musicais, jornalistas e formadores de opinião), selecionarão as quatro bandas vencedoras do concurso. Os tão discutidos e, por vezes, polêmicos critérios de votação são: originalidade, letra, arranjo, interpretação e performance. Premiação O grande barato do Microfonia é a senhora recompensa que oferece. Raro é o festival que proporciona um pacote tão sedutor para os vencedores. Vendido como a grande oportunidade para a sua banda pegar um atalho e tocar no Abril Para o Rock (o vitorioso ganha o direito de participar do festival em 2007), a premiação não pára por aí. O primeiro lugar, além do bônus citado acima, recebe R$ 4 mil reais, ganha 20 horas de gravação no 'túdio Mr. Mouse, um release profissional, 20 fotos de promoção e divulgação e ainda grava um videoclipe. Os 2º e 3º lugares, ganham R$ 2 mil e R$ 1 mil, respectivamente, 20 horas de gravação no Estúdio Mr. Mouse e fotos para promoção e divulgação da banda. O quarto colocado também ganha 20 horas de gravação, release profissional e fotos. Atual Campeã Em sua primeira edição, o festival se mostrou bastante coerente em vários pontos. Apesar de algumas 'colhas terem sido questionadas (isso acontece em todos), não houve nenhum caso 'pecial que pudesse entrar em choque com a proposta do evento. Conversamos com o vocalista Bruno Souto Maior (foto) da banda Volver -- campeã da primeira edição -- sobre experiência própria, credibilidade e dicas para novas bandas que vão concorrer ao prêmio. G.C.-- Conte um pouco da experiência da Volver no festival? B.S.M -- " A banda soube do festival, porém eu fiquei com um pé atrás para fazer a inscrição. Eu achava que tinha uma mutreta certa já. Então terminamos nos inscrevendo no último dia. A banda toda fez pressão, aí foram três contra um, então tive que ceder." G.C. Qual foi o motivo da desconfiança? B.S.M -- " Porque alguns meses atrás antes do Microfonia, a gente tinha participado de um outro festival que já tava com as cartas marcadas. Já tava tudo certo e foi muito descarado, todo mundo já sabia quem ia ser o vencedor. Aí logo depois apareceu o Microfonia -- que no fim de tudo se mostrou um festival muito sério -- e eu já tava noiado. Sem contar que não curto muito competição, além de que na época a Volver 'tava começando a ter alguma projeção, e porra, entrar num festival e perder pra uma banda pior que a sua é mau." G.C.-- Trajetória da banda após o Microfonia. B.S.M -- " O Microfonia em termos de Pernambuco foi um grande salto. Eu acho que realmente antecipou alguns degraus para a banda. Por outro lado acredito que a gente chegaria no mesmo lugar sem o festival. Em a verdade, não foi o Microfonia que fez a Volver, mas ajudou bastante. Depois do prêmio tocamos numa porrada de festival, tocamos por o Brasil. Com a grana do prêmio gravamos o disco (Canções Perdidas Em um Canto Qualquer / 2005), que na época 'távamos sem previsão de lançamento por falta de dinheiro. Então logo depois da vitória entramos em 'túdio." G.C.-- Quais dicas você daria para uma banda que busca o que a Volver conseguiu? B.S.M -- " Acima de tudo, gravar um trabalho bem feito pra ter alguma chance. Não é necessário só ter música boa. A pessoa tem que tratar ela com carinho, ir para o 'túdio fazer um trabalho mais ou menos legal pra não entregar um lixo de trabalho, fazer uma capinha legal, mandar e seja o que Deus quiser. Se você não der valor a seu trabalho, quem vai dar?" G.C.-- Importância de um festival como 'se para o circuito de bandas independentes no 'tado? B.S.M -- " É muito bom para incentivar a banda a gravar seu trabalho. Além de tirá-las da garagem. E isso é bom pra acontecer alguma coisa, se não acreditar não acontece nada." * O Microfonia é um festival destinado a 'tudantes do Ensino médio e Superior de 'colas pernambucanas. * * O anúncio dos classificados será feito no dia 30 de agosto (As datas das etapas eliminatórias e da final ainda 'tão sendo definidas por a produção do festival) * * * O regulamento e a ficha de inscrição já 'tão disponíveis no endereço www.festivalmicrofonia.com.br Número de frases: 49 Texto publicado originariamente na revista eletrônica Giro Cultural (www.girocultural.com) Por favor, me ajudem! Eu sou a maior floresta tropical do mundo, mas quem sabe disso? Ninguém e além do mais, hoje em dia, ninguém se preocupa com nada, só ligam pra 'se tal de dinheiro, mas vamos voltar ao assunto: você sabe por que eu 'tou precisando da ajuda de vocês? Porque eu e minha família 'tamos sofrendo de mais com nossos novos vizinhos, vocês conhecem? Não, vocês conhecem sim! São aqueles garimpeiros e mineradores foras da lei, os madeireiros e os produtores agropecuários que usam técnicas ilegais, eles? Nossa, 'tão fazendo uma bagunça imensa em minha família, todos 'tão sofrendo de mais, eu preciso muito da ajuda de vocês, senão minha família vai deixar de existir, mais eu vou fala só um pouco dos variáveis 'tragos que 'ses meus vizinhos 'tão fazendo com mim: Os garimpeiros 'tão acabando com meu sobrinho rio, eles 'tão o contaminando demais com 'se tal de mercúrio, e tudo isso porque eles querem levar de mim meu ouro. Ah que dor, só de lembrar quantas filhas árvores eu perdi, e ainda eu perco, e ninguém faz nada, eles tiram minhas filhas árvores e no lugar deixaram e deixam um vazio em minha casa, ah não sei mais o quanto eu vou agüentar. E 'sas áreas de produção agropecuária, 'tão acabando de vez com minha casa, não sei mais o que fazer cada vez mais eu 'tou enfraquecida. Culpa desses garimpeiros e madeireiros, que roubam meu ouro e minhas filhas, 'tão nascendo cada vez mais novas 'tradas, ferrovias e hidrovias. E cada vez mais vem novo vizinho chato amolar minha família e minha vida. Por Favor, Me Ajude ... Não sei mais o que fazer! Por favor, me explique! O Que Eu Fiz De Errado Pra Eles? Eu Os Maltratei? Os CHINGUEI? Faltei Com Educação Com Eles? Ah mas eu não só tenho vizinhos chatos não, eu tenho alguns superlegais, mas superlegais mesmo, vizinhos que sabem cuidar de mim e que me entendem. Eu vou falar um pouco sobre eles: Eu vou começar com meus amigos do Greenpeace que sempre 'tão criando algumas filhas adotivas árvores que eu amo muito, 'tão sempre protegendo minha família de meus vizinhos inimigos, como eu os amo e como eu 'tou gostando de eles, pena que 'se pessoal do Greenpeace é pequenoo demais para os grandes madeireiros garimpeiros ... Que têm muito dinheiro, mas mesmo assim eles me ajudam muito. Mas tem mais ... Tem o pessoal do IBAMA também que vive me ajudando a fiscalizar as minhas filhas árvores que são exportadas sem nenhuma autorização, (madeira totalmente de graça), ah e eu também tenho ajuda da comunidade, que sempre 'tá denunciando 'se vizinhos corruptos, se vocês souberem de algo, podem também fazer o mesmo. Ah também tenho meus amigos do vale verde que 'tão sempre elaborando leis para poder fiscalizar as exportações. Pena que o capital (dinheiro) manda muito mais, senão eu 'taria com minha família rindo e me alegrando da vida. Ah não posso 'quecer dos índios, apesar de muitos terem passado para o lado do mal, alguns moram com mim e protegem meus amigos animais, os índios são os que me entendem mais. Ah mais que pena que tudo isso que é feito por mim não adianta muito, porque o capital que manda em 'sa sociedade ambiciosa é cruel. Mas se todos me ajudassem a brigar por a linda família que vocês têm em seu país vocês me ajudariam muito ... Então vamos lá «VAMOS, BRIGUEM PELO O QUE É DE VOCÊS». Vocês Sabem De Qual É O Nome da Minha Familia, Familia Amazonica. Número de frases: 34 Zé da Folha não vai aos caldeirões e faustões -- 'tes janelões dos de sempre e atualmente vitrine permanente do outro da dupla sertaneja que o fortuito desfez e da onipresente e televisamente única cantora que os não baianos conhecem da Bahia, aquela senhora que vende cerveja com as pernas para a gurizada e xampu pra senhoras incautas com mais idade que ela depois de já terem feito quase tudo para arranjar aquele cabelo sem aquela voz, sem produção e sem luz e azul de fundo. Zé da Folha também não vai àqueles outros programas menos sutis da madrugada, que já vendem o bagaço mesmo do tope da sociedade ordinária que ainda vivemos. Ele não me disse que não gosta de dormir tarde, mas é uma conclusão possível, dado o tamanho da jornada de palco de mais de quatro horas seguidas que faz só no primeiro turno e o aspecto saudável de suas feições já às 8 da manhã, quando chega para tomar posse de um canto no Bric da Redenção, na Avenida José Bonifácio, em Porto Alegre. Visivelmente um homem já maduro, Zé da Folha também há algum tempo passou da idade de freqüentar programas de calouros ou ser apresentado ao Brasil que ainda suporta ver a mesma idéia mais ou menos de há 30 ou 20 anos se repetir até a náusea religiosamente aos santos sábados e domingos nem tanto na televisão brasileira, assim mesmificada embora tecnicamente uma das melhores do planeta. Porque tal acontece já seria assunto para sociólogos ou, até, taxidermistas (lembraram de outras duas?), mas é tão lamentável que isso ainda ocorra como o caso daquela lixeira 'nobe de mil reais comprada para a casa do tal reitor da capital pour quoi noblesse oblige. E nos tempos atuais, século 21, terceiro milênio já! Haja biscoitos! Refiro já a atual capital, não a Velha Cap, motivo de trocentos sambas-de-enrdo sobre a chegad da corte do joão-fujão-que-enganou Napoleão e das loucas marias. Cabe o alerta para incautos e apressados não irem tirando conclusões abreviadas de que tudo de bom e de ruim acontece no Rio de Janeiro ou em Belém do Pará em 'se momento das nossas circunstâncias. Há podres inclusive no Reino da Dinamarca, porque, fosse Hamlet, seria sincrético, como já contei pra vocês aqui, porque, como nos diz Rosane de Almeida Pires, comentando sobre o autor do texto, Cuti também procuro " romper com a versão oficial encenada por o discurso pedagógico da nação -- que inibe a presença da diferença ..." e, ainda que haja moinhos de vento, há Redenção. Também andam desavergonhadamente metendo mulher em cadeia de homem em outros 'tados, também tem carnaval criativo e bonito em São Paulo e aqui e em Floripa e em Recife e em Olinda e em Salvador, no próprio Tríduo de Momo, veja só (ainda que a levada do tambor à italiana seja uma outra discussão, já para conhecedores de música, não para apenas impressionistas como eu). Pois Zé da Folha chega cedinho e abre uma cadeirinha de 'tas das mais comuns do povo; ajeita, abre e fixa no asfalto também um guarda-sol, arruma um cartaz minúsculo sobre a tampa da caixinha do bota-aqui-se-você gostou de ouvir e se divertiu. Como ser humano que também é, sem que haja necessidade de qualquer ministro reconhecer, Zé da Folha se alimenta e, ao que sugere o cartazinho, é da função de artista do povo que tem vivido. Nada me falou que não sou de atrapalhar 'petáculo fazendo pergunta boba, mas intui que de ali e do que faça igual em outras paragens em outros horários, tira o sustento da semana, do mês, do ano, da década, não diria do século que o homem é forte e rijo para um centenário. Não entanto, recordo de que vejo e ouço o Zé da folha em 'sa função artística há bem uns 40 anos. Seja na Rua da Praia (que não tem praia, que não tem rio), onde penso que o vi pela primeira vez por os idos de 64, 65, 66 (um mal tempo, sem dúvida alguma), seja no Bric da Redenção. Bagre Fagundes, com Antonio (Nico) Fagundes um dos autores do Canto Alegretense (não me pergunte, onde fica o Alegrete, segue o rumo do teu próprio coração ...) o segundo hino mais popular do Rio Grande do Sul -- o primeiro é o da República Farroupilha, que é o oficial do 'tado, empatados em terceiro e quarto lugares têm-se os da dupla GRE-NAL, mas não se arrisque a decidir qual dos dois é à frente do outro que leva sova de relho ou ameaço de adaga. O quinto é o Hino nacional Brasileiro, ainda com algum entusiasmo. Pois tava dizendo que enquanto ouvia Zé da Folha assoviar e acompanhar-se ao violão para executar o hino, digo, o Canto Alegretense, vi o Bagre atravessar a rua, uma das pistas da José Bonifácio que se fecham ao trânsito de veículos automotores quaisquer para o pedestrianismo lerdo e lasso de velhos, moços e crianças e muitos, muitos mesmo carrinhos de bebês. Em aquele domingo vi até um de trigêmeos de um jovem e corajoso casal aparentemente feliz, com riso frouxo 'tampado nas carinhas alegres de pai e mãe fresquinhos. Não me pareceu ainda um riso nervoso. Chegando ao lado outro da via, Bagre já pôde ouvir melhor os acordes ao violão e a fina melodia de sua composição assoviada numa folha de um modo exímio por o Zé da Folha. Pôs a mão na algibeira e puxou uma nota de dinheiro [Aqui se diz, abriu a guaiaca] e a depositou na caixinha de coleta do cachê 'pontâneo, sorridente e feliz de se ver ali interpretado por tão reconhecido artista popular. Zé da Folha tem um público fiel. Alguns ele reconhece e até chama por o nome ou provoca por a pedida musical. A senhora loura, em 'portivo traje pára e ele, incontinenti, sapeca: Aqueles olhos verdes, no assovio e no violão. Ela permanece, após aplaude e pede outra, mais outra e põe outra nota na caixinha do Zé, o que parece faz há muito, de tanto que se conversam e mostram se gostar, o que fica evidente nos intervalos entre as músicas, que o Zé aproveita para molhar a palavra com água de uma garrafinha de 'tas comuns de plástico transparente, mas sem rótulo que, aparentemente, Zé não é patrocinado por nenhuma cerveja ou refrigerante, ainda. Não tem camarim o Zé, nem uvas, frutas outra da 'tação ou toalhas brancas. Ele pega de um ramo de árvore que trouxe de casa uma nova folha, bem 'colhida, seu segundo instrumento. Com o pé direito, ele ainda bate no chão um pandeiro, somente as platinelas, sem couro, para marcar o compasso, que aqui também tem, por outras regras. Zé da Folha tem vasto repertório para o violão que acarinha como filha dileta. Vai do tango ao bolero, do chamamé ao bugio, passando por o vanerão até o samba-canção, o de partido alto e mesmo a bossa nova. Se pedirem, alguns ainda imberbes e galhofeiros por provocação, também toca rock. Zombeteiro, como convém à fleuma do artista que há muito sobrevive da contribuição livre do público à caixinha, macaqueia a gurizada com uns trechos curtos de pancadões, technos e dances, 'sa modas ligeiras que a gurizada pega e larga como se fosse cueca usada ou chilé-balão, de tanto que muda de nome pra mesma toada quase nada musical. Tum-tum o coração já faz desde nosso primeiro minuto de vida. Se amplificar taquicardia, dá festa, assim como para inimigo qualquer pé de galinha dá canja. Imagine-se aquelas que têm, além da adrenalina, ingredientes outros externos, digamos assim, a incentivar adrede o organismo ... Zé da Folha 'tava de costas, percebeu o Bagre aparentemente por o entusiasmo do público que aplaudiu e pôs o canto na melodia (porque o Zé só toca, assovia e faz marcação, lembram?). Isso talvez seja a principal razão do sucesso do programa deste artista: o povo vai ali, tem uma base musical de qualidade, variada, um intérprete cordial e gentil, bem-humorado, que chega a palco antes do público. E ele mesmo, povo, canta. Pois enquanto agradecia o aplauso, Zé só se apercebeu que era de fato o compositor da música que acabara de tocar quando 'se ia já há alguns metros de ali, seguindo o passeio aquele que já lemos antes em 'se texto, que as pessoas, a maioria, eu entre elas, vamos ali para caminhar, ver gente mais bonita que a gente, que melhora o dia, encontrar outras pessoas amigas, tomar chimarrão em pé, uma moda criada ali no Bric há mais de 25 anos. Em o Rio Grande se fazia por uso era roda-de-chimar ão, em bancos toscos de madeira no galcão das 'tâncias antigas ou em cadeiras (amigo, boleia a perna, puxe o banco e vai sentando, encosta a palha na orelha, que o amargo, vou cevando). Essa modernidade de tomar chimarão em dupla, trio, quarteto, quinteto ou mesmo só, todos em pé e a passeio, é coisa de guri daquele tempo. Mas pegou. Quem sabe algumas já batidas e por tal inesquecíveis peças de raves ou bailes funks venham a ser assoviadas em praça pública, cantadas por o povo, acompanhadas ao violão acústico, como costuma acontecer com as canções que permanecem no imaginário popular e reaparecem nas praças dos burgos desde o já imemorial tempo dos menestréis medievais no milênio passado. Por a aparente boa saúde do Zé da Folha, por muitos e muitos anos mais isso vai ser o ofício de ele (evoé!) ali mesmo no meio da rua, no meio do povo, sob aplausos entusiasmados e sorrisos gentis dos passantes e alguns ficantes como eu. Depois de um tempo que nem senti passar, em que também dei minha cota para o almoço do dia do nosso artista, além de vender um exemplar da minha novela para uma das fãs do Zé, curiosa em saber de quem era e o que era aquele livro que eu tinha nas mãos, pois após isso retomei o passeio aquele de que já falamos e tive uma certeza a poucos metros da berlinda do Zé da Folha. Vendo uma dupla de meninos sentados no meio-fio, um outro proscênio de artistas populares, cantando alto, ainda sem muita afinação, se acompanhando ao violão, músicas que já existiam antes de eu ter nascido. A certeza que tive é de que permanece em cultura num lugar aquilo que o povo do lugar queira e preserve e defenda ... Para poder assoviar, cantar junto e aplaudir. Zé da Folha, como o gato ao tigre, não deve ter dito tudo àquela cigarra do La Fontaine. Eu pelo menos já o vi mesmo nos invernos ali. Quando chove muito, mesmo sem nos falarmos, combinamos de não ir. Estou também certo de que vamos continuar nos vendo enquanto vivermos. E os meninos, talvez por muito pobres e ainda crianças, já 'tão formando seu público. Número de frases: 62 Merde! Enquanto os músicos passavam e repassavam o som, rito composto de gestos e sonoridades ininteligíveis para os poucos abancados nas arquibancadas, numa quina de céu, a lua. Plena, banhava os corpos dos meninos que, indiferentes, continuavam a correr atrás da bola com incontáveis remendos. Quem sabe, agora, curtissem a música que varria o campo e preenchia a noite de sábado enluarada e cheia de brisa em Fortaleza. Não muito distante de ali, uma das mais movimentadas casas de forró da cidade. A comparação com o satélite vem em boa hora: casa cheia, certamente, a contrastar com o campo de futebol despovoado -- à exceção dos meninos -- 'colhido para montagem de um dos seis palcos da I Mostra de Música Petrúcio Maia, evento realizado por a Prefeitura do Município nos últimos dias 6, 7 e 8 de outubro. Em números fechados, foram 90 bandas e grupos musicais -- durante mais de 40 horas de shows -- que varreram o 'pectro de 'tilos de A a Z -- do choro, passando por o reggae e o pop, ao punk rock, a Mostra deu uma idéia daquilo que se faz por aqui: música diversa e de qualidade. Distribuídos em seis pólos cidade afora e adentro, os grupos -- alguns com razoável inserção no mercado; outros, recém-saídos das garagens -- tiveram a oportunidade de levar aos mais variados públicos o trabalho que vêm produzindo nos últimos tempos. Caso do grupo Choramingando -- de choro, claro --, que se apresentou no palco do pólo Alberto Nepomuceno, no Henrique Jorge, bairro da periferia de Fortaleza. Jonas Calixto, um dos integrantes da banda, nunca fizera uma apresentação tão pertinho de casa. Olhos grudados no palco, mãe e irmã assistiam a tudo das arquibancadas. Para elas, vê-lo apresentar-se ali era realmente um privilégio. Essa, aliás, uma das razões de ser da Mostra: levar à grande parcela da população de Fortaleza um pouco do encanto e da diversidade musical cearense. O canto de todo canto Rateada a noite, marcada para começar às 18 horas, a Mostra ficava assim: trinta minutos para cada banda deixar o seu recado. Alguém reclamou? De o tempo, não, suficiente para sacudir uma pequena multidão que, como previra alguém, se formou coincidentemente após o horário de apresentação do folhetim global Cobras e Lagartos. «A concorrência do Foguinho é desleal», brincou. E era mesmo. Em questão, apenas a divulgação do evento, que, segundo alguns músicos, teria sido insuficiente. Ilustre 'pectadora, a 'critora cearense Tércia Montenegro, autora de O resto do teu corpo no aquário, engrossou o coro daqueles que gostariam de ter visto o pólo Alberto Nepomuceno igualzinho à casa de forró: prenhe de gente. «Faltou um pouco de divulgação. A 'trutura é ótima, mas a divulgação talvez tenha sido deficiente», dispara. De o pólo Lauro Maia, no Bairro Ellery, Bruno Andrade, vocalista da banda Lavage, a única de punk rock da Mostra, compartilha impressões: «A apresentação foi boa. O público tava meio frio, mas aos poucos foi entrando no clima. A divulgação foi deficiente e as pessoas que foram até o pólo da avenida Sargento Hermínio não sabiam o que 'perar das bandas. Mas, no geral, foi tudo muito bom. O som era muito bom e a iluminação também», disse. Nem tudo, porém, girou em torno do descontentamento. Pelo contrário. A o final -- e logo de cara também, como vimos nos depoimentos -- percebeu-se a qualidade impecável do som e a eficiência na organização de um evento de grande porte como foi a Mostra Petrúcio Maia. Para o músico Daniel Escudeiro, do Trio Luz, responsável por a abertura da Mostra no sábado no pólo Alberto Nepomuceno, o que vimos foi apenas um pontapé inicial para a música cearense. «A Mostra tem tudo para se tornar um evento fixo e de peso no calendário cultural da cidade». De acordo com Clara Luz, voz, a diversidade e a qualidade técnica foram realmente o ponto alto da noite. «O som é de primeira, pudemos cantar músicas autorais como Feijão e Quintal de sol, além de composições de Lauro Maia e Humberto Teixeira, e divulgar um trabalho que, de outra forma, não encontraria 'paço. Em o final, o que fica é o respeito ao artista», disse. Então, o saldo, positivo, certamente deixará rastros: daqui para a frente, outras mostras virão. Não se trata de boa vontade do poder público, mas, conforme vimos, de uma exigência que salta das ruas de Fortaleza. E que venham os folhetins! A Mostra de Música Petrúcio Maia A I Mostra de Música Petrúcio Maia é resultado de demandas da própria população de Fortaleza, apontadas, ainda em 2005, durante o ciclo de conferências de cultura e do Orçamento Participativo -- OP realizado, em toda a cidade, por a prefeitura de Fortaleza. Ao todo, foram inscritos 400 grupos e bandas, dos quais 90 selecionados, recebendo cada um o cachê de R$ 800. A Mostra, em sua primeira edição, teve como objetivo geral mapear a produção musical na cidade e, com isso, constituir um catálogo dos principais grupos em atividade, contribuindo para o reconhecimento e formação dos artistas locais. Número de frases: 50 Além disso, homenageou o grande músico cearense Petrúcio Maia, responsável por composições como Cebola Cortada e Além do cansaço. O Encontro dos Tambores faz parte do calendário cultural anual do Amapá. Todos os anos, no mês de novembro, quando se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra (20), o Centro de Cultura Negra do Amapá vira palco de manifestações culturais profanas e religiosas do folclore da região. O evento em 2006 realizará sua décima segunda edição. Em o ano anterior, por ocasião do 11º Encontro dos Tambores, 'tiveram reunidas para a festividade 36 comunidades negras do Estado, algumas de elas são remanescentes de quilombos. Cerca de 1.750 pessoas 'tiveram envolvidas na programação, que, além das apresentações artísticas, tem palestras, oficinas e seminários. Uma das novidades de 2005 foi a Batuqueirada, um grupo de percussionistas percorrendo as ruas da capital, Macapá, jogando ladrão em cima de um trio elétrico. Isto é: entoando versos 'pontâneos de marabaixo e batuque, ritmos tradicionais, utilizados na Batuqueirada para convidar a população a participar. Todas as comunidades se apresentam no evento, uma por vez e cada qual com seu 'tilo. As apresentações acontecem em dois ângulos. Em o palco ficam os batedores, percussionistas, mestres do ritmo, junto com eles, as donas, as tias, as vozes que entoam os cantos. Embaixo o restante da comunidade, homens, mulheres e crianças, se reúnem para a dança. Em 'te primeiro momento, todos devem apenas assistir ao 'petáculo. Assim como as cores 'tampadas nas saias das senhoras e moças, o ritmo também é diferente a cada apresentação. Em sua maioria os grupos tocam batuque, ou marabaixo, mas também há a Zimba, trazida da Guiana Francesa, e o Çairé, ritmo tipicamente amazônico. Este ano a comunidade do município de Porto Grande, por exemplo, surpreendeu todos com o tambor de crioulo, ritmo de origem maranhense, no qual os homens tocam e cantam enquanto as mulheres bailam. Depois do primeiro momento, o povo já inquieto é chamado para a roda e um grande redemoinho se forma no teatro de arena enquanto todos dançam em círculo. O 'petáculo é mais bonito para quem assiste de cima do palco. Em a roda, homens e mulheres se cortejam num bailado colorido por as longas saias. As crianças também participam e algumas menininhas seguram suas minissaias e acompanham a multidão com desenvoltura. A programação do Encontro dos Tambores também contempla reggae, samba, hip hop e outros ritmos musicais. Fora os grupos tradicionais dos outros municípios, também se apresentam os grupos tradicionais urbanos como Raízes do Bolão, Associação Raimundo Ladislau, Companhia de Dança Afro Baraka, Azebic, Berço do Marabaixo e representantes das religiões africanas e afrodescendentes do Amapá. O evento tem normalmente duração de uma semana. As oficinas, palestras e seminários acontecem durante o dia. São atividades como oficinas para composição dos versos e ladrões do marabaixo, oficina de dança maculelê, confecção de instrumentos de marabaixo e batuque, assim como o uso de berimbau, atabaques e pandeiros no ritmo da capoeira. Já durante os seminários, são abordados temas como Religião, políticas publicas, memória etc. Como a maior parte dos grandes eventos culturais do Estado, o Governo é o grande apoiador financeiro e investiu R$ 225 mil na ultima edição. O encontro é um 'forço anual na busca por a revitalização e valorização da cultura negra no Estado. Entretanto, para que tal revitalização aconteça serão necessários investimentos contínuos, inclusive em atividades de caráter permanente dentro do Centro de Cultura Negra para que se tenha amadurecimento da identidade étnica do negro amapaense. Com o recurso repassado, os 'paços do Centro de Cultura Negra receberam reformas e pintura. O artista plástico-grafiteiro responsável por as artes, Josiel Ramos, não abriu mão de utilizar a temática africana, experimentando as cores: vermelha, verde, amarela e preta, para caracterizar cada desenho. O centro foi originalmente inaugurado em 5 de setembro de 1998, no bairro do Laguinho, zona norte de Macapá. São seis blocos edificados numa aérea de aproximadamente 7,2 mil metros quadrados, com anfiteatro, museu, auditório, 'paço afro-religioso, sala de múltiplo uso e administração. A área é suficiente para a realização de bons projetos, mas é preciso fomentar a produção local para que possam ser executados com sucesso. De 'sa forma, quando novembro chegar e junto com ele o Encontro dos Tambores, teremos sempre boas conquistas para comemorar. A Dança e a Música da Companhia Baraka Uma das grandes atrações do 11º Encontro dos Tambores foi a participação da Cia.. De Dança Baraka. A companhia apresenta evoluções corporais que misturam o tradicional e o contemporâneo e tem inspiração na cultura negra amapaense, sua luta, ritmos e cores. A coordenadora geral da Cia., a amapaense Piedade Videira * nos falou um pouco do trabalho de sua equipe. Piedade, você poderia falar um pouco sobre o trabalho da companhia Baraka? Nosso trabalho é pautado numa pesquisa muito séria sobre a cultura negra amapaense. A cultura que dita nosso ritmo. Com base em 'sa pesquisa, por nossa experiência cotidiana no bairro do Laguinho, um bairro tradicional, registro da história do negro urbano de Macapá e por ser uma mulher negra, orgulhosa do meu povo, comecei a pesquisar e a encontrar formas de transformar fatos e acontecimentos do cotidiano, assim como os hábitos e a culinária em ladrões, em cantigas de marabaixo e expressões de danças. E além disso, pegamos músicas significativas do nosso recorte étnico cultural para pautar o ritmo do nosso trabalho. Cada quadro coreográfico possui uma pulsação diferente que vem de apropriações de ritmos como batuque e marabaixo, experimentando novas batidas, novos ritmos. Durante a performance, podemos perceber encenações ricas do cotidiano das comunidades. Como funciona isto? O objetivo é justamente explorar as expressões corporais intrínsecas das nossas comunidades tradicionais. São movimentos encontrados em suas atividades de colheita, cultivo da terra e a utilização de elementos como peneiras e cestas. Uma das nossas coreografias chama-se «Dança da Plantação», e ela representa justamente isso: o trabalho das mulheres dentro de suas comunidades, desde a colheita ao transporte do alimento. Há quanto tempo a Companhia Baraka desenvolve 'te trabalho? A Cia. existe tem cinco anos. Em princípio, tínhamos mais de 20 pessoas, mas é muito difícil trabalhar com 'se quantitativo. É muito bonito, mas dificulta a agilidade nas viagens. Então fomos naturalmente reduzindo para 14 pessoas, que hoje nos parece um número ideal. Nós temos uma linha bem particular, o que nos permite participar de eventos nacionais e internacionais, o último de eles, no Rio de Janeiro, em outubro, durante a Feira das Américas, um evento internacional. Infelizmente, em outros Estados existe, percebemos, uma consciência de valorização cultural maior do que a que temos aqui. A música amapaense é muito vibrante e onde o ritmo do tambor chega, encanta. Como você avalia o Encontro do Tambores? É um evento significativo, faz parte do nosso calendário e é uma das festas mais genuinamente Amapaense. Toda comunidade negra se encontra na ocasião. Tem música, troca de conhecimento e são eventos assim que devem ser incentivados por o poder público e iniciativa privada. É o nosso Batucajé, o batuque no interior das senzalas. Número de frases: 67 * Piedade é graduada em artes, pós-graduado em pscicopedagogia e mestra em educação brasileira. Nascida Romana Pereira da Silva, em 1941, Mãe Romana, como é conhecida, ficou famosa em todo o Tocantins, no Brasil e no mundo por as 'culturas em pedra canga que ergue numa enorme área ao redor de sua casa, no município de Natividade, a 200 quilômetros a sudeste de Palmas, e por acreditar que o seu santuário ecumênico será a salvação do mundo. O jardim, com cerca de 5 mil metros quadrados, parece um labirinto repleto de 'tátuas e construções em pedra e arame com detalhes de 'pelhos que, segundo acredita Mãe Romana, vai salvar o planeta da destruição completa por um asteróide que, de acordo sua profecia, vai se chocar com a terra e reequilibar seu eixo de rotação. Há 16 anos ela se dedica à obra. Criada no sítio, onde ainda vive, ela começou a ter visões e apresentar fenômenos paranormais há cerca de 30 anos, quando foi acometida por uma doença que ninguém conseguia explicar o que era. «Um médico me disse que o meu problema não era de saúde», contou. Desde então, Mãe Romana assumiu sua «missão» de preparar a terra e os homens para ' firmeza do grande eixo '. A profecia lhe foi revelada em 1989. Segundo conta, o asteróide pode cair a qualquer momento numa grande cidade, talvez no continente asiático. A colisão vai provocar destruição e mortes, rachando a terra ao meio, mas fará com que o planeta retorne ao seu eixo, do qual teria sido deslocado há milhões de anos devido ao choque de um primeiro corpo celeste. O jardim de pedras, construído por ela e seus seguidores desde 1990, seria, por o que acredita, o refúgio aos que desejam sobreviver. De acordo com Mãe Romana, a região onde se localiza seu sítio faz parte do «firmamento», por onde passa o'eixo central '. Segundo a mística, o local resistiria por causa de suas 'culturas que transmitiriam energia capaz de conter a destruição. Para os dias difíceis, 'perados por Mãe Romana, são guardados em sua propriedade -- conselho que segundo ela também teria sido indicado por as vozes que ouve -- tambores com grãos e dezenas de sacos com roupas, calçados e livros, além de garrafas com água. O material é doado por os visitantes e servirá para uso dos sobreviventes ao choque do asteróide, num período de readaptação que deve durar ao menos dois anos, segundo afirma Mãe Romana. Tida como louca e feiticeira para alguns, outros a têm como vidente. Mas se questionada sobre o assunto, ela diz apenas que é 'pírita, e segue orientações de vozes para a construção de seus labirintos. Em o começo, ela conta que enfrentou o preconceito de todos da sua família, mas seguiu resignada e consentindo tudo o que as vozes lhe recomendavam fazer. Ainda hoje, Mãe Romana é ignorada por várias pessoas em Natividade, em 'pecial a comunidade cristã. Por nunca ter freqüentado a 'cola, em algumas situações Mãe Romana satiriza as diversas perguntas, principalmente dos jornalistas, sobre o que a fez construir o jardim. «Se vocês que 'tudam não chegam a conclusão nenhuma, como é que eu que nunca fui numa 'cola vou saber?», disse certa vez. Filha de um ferreiro com uma dona-de-casa, ela teve 12 filhos (apenas seis sobreviveram) e logo se separou do marido. Símbolos Entre os inúmeros símbolos do jardim, há curiosidades como um consultório médico, um carro de boi e um reservatório de energia, aparentemente um emaranhado de arame e madeira. Há ainda sóis, luas, 'trelas, anjos, ' a corrente do mar salgado ' e o triângulo das Bermudas. O terreno também é cravejado de antenas. A principal tem nome, enigmático: xiesgelougalaster. A criatividade é das entidades que a mística e seus seguidores dizem encontrar por ali. São Jorge também comparece, a cavalo, instalado entre mapas e pirâmides. As figuras 'tão próximas à casa, mas para andar por o labirinto é preciso seguir a orientação de ela. É proibido pular as peças ou contorná-las por o lado errado. Há garrafas cheias de água 'palhadas por o chão em toda parte -- segundo Mãe Romana, exigência das peças. «Cada peça pede uma coisa», ressaltou num sorriso. Para juntar-se ao grupo e aguardar em segurança as supostas mudanças no planeta, basta crer no que ela profetiza e materializar as visões. Mãe Romana não faz restrições, nem exigências. E apesar de todo o mistério que ronda sua casa, a mística é sempre sorridente e receptiva. Vez em quando, se apressa em oferecer um passe a quem a visita. Número de frases: 38 Sem apoio governamental, diretores querem colocar o Brasil na rota dos zumbis Dizem que o cinema brasileiro vive de realidade. Filmes de sucesso como Central do Brasil, Cidade de Deus, Carandiru e Tropa de Elite têm, pelo menos, um ponto em comum: o show de realismo para mostrar as mazelas do Brasil contemporâneo. Com tanto interesse na realidade, há 'paço para o cinema de fantasia na Pátria Canarinho? Três jovens diretores brasileiros apostam que sim. E mais: eles decidiram investir do próprio bolso e, com a ajuda de amigos, 'tão realizando e pretendem colocar na tela, ainda 'te ano, três longas metragens de zumbis, sub-genêro que possui uma série de fãs brasileiros, ainda órfãos de produção nacional. As histórias de 'sas produções têm muitos pontos em comum. Diferente do que ocorre com a maioria dos filmes de longa-metragem no Brasil, os três filmes foram feitos sem aplicação de recursos públicos. Opção ou falta de ela? «Não é falta de opção», explica Davi de Oliveira Pinheiro, diretor de» Porto dos Mortos. «Tínhamos a opção de 'perar conseguir os recursos e fazer um filme natimorto como grande proporção dos filmes nacionais», alfineta ele. De fato, boa parte dos projetos de longa-metragem no Brasil leva anos para ficar pronto justamente porque os diretores buscam recursos através de leis de incentivo. «Eu queria muito fazer o filme e ninguém 'tava disposto a me dar dinheiro pra isso. Então, eu mesmo financiei», conta Tiago Belotti que já tem o seu A Capital dos Mortos praticamente pronto. Com sua frase, Belotti resume um sentimento em comum que tem movido os três cineastas: fazer o filme. Para tanto, assumir riscos foi fundamental. «Eu comecei a filmar da única maneira que me era possível naquele momento: sem um centavo no bolso, fazendo o cenário com tábuas velhas e construindo os primeiros bonecos com recursos próprios», conta Rodrigo Aragão, diretor de Mangue Negro. Amigos, amigos ... Inclusive nos negócios Além da coragem de investir dinheiro do próprio bolso (ou através de empréstimo, como fez a produção de Porto dos Mortos), os três diretores precisam contar com o apoio dos amigos para realizar os filmes. Aragão conta que rodou cerca de 15 minutos do filme com uma câmera «emprestada e com uma equipe trabalhando de graça». A partir daí, ele conseguiu o apoio de um investidor que colocou R$ 30.000 na produção. «O projeto foi realizado em regime de mutirão», explica ele, que aplicou parte do dinheiro no pagamento de pequenos cachês para a equipe. Tiago Belotti revela que fez A Capital dos Mortos com cerca de " R$ 10.000. «A produção só foi possível com tão pouco dinheiro por causa do apoio da equipe, que se empenhou muito no projeto e o fez de graça», explica ele. De fato, os valores em jogo são muito menores do que os de mercado. Ainda mais para obras que necessitam de efeitos 'peciais. Para que os zumbis apareçam críveis na tela, os diretores precisam aliar talento e criatividade. Até porque o público imediatamente rejeita os chamados «(d) efeitos 'peciais». A o lançar o primeiro teaser do filme na internet, a equipe de Porto dos Mortos levou um susto com os comentários postados por usuários do YouTube. «A maquiagem do zumbi não ficou boa. Parece que misturaram pó de arroz com suco de groselha», 'creveu um dos comentaristas. A produção procurou capitalizar as críticas e investiu na contratação de um maquiador renomado no Brasil. Davi 'tá confiante. «O teaser, apesar de ter ritmo e ser extremamente bem montado, 'tá muito aquém do que o filme vai ser», explica. «O filme vai ser uma força da natureza», complementa ele, «para não parecer humildade». A internet e os planos de distribuição Em o momento em que a entrevista para 'ta matéria foi realizada, Mangue Negro e Porto dos Mortos ainda não tinham previsão de 'tréia. A Capital dos Mortos 'tá 'calado para abrir a programação do Festival Internacional de Filmes Curtíssimos. Mas, desde a fase de pré-produ ção, os filmes vêm causando barulho nos fóruns de internet. Apesar dos inúmeros pontos em comum, gente relacionada aos filmes A Capital dos Mortos e Porto dos Mortos andaram se 'tranhando nos fóruns do Orkut. Por outro lado, a rede também é o 'paço onde os fãs manifestam seu interesse por as obras. «Wow, que filme é 'se? Alguém sabe se já foi lançado? Parece muito bem feito.», diz outro comentário postado no vídeo promocional de " Porto dos Mortos. «Muito bom, mostra a inventividade do diretor e produtores com recursos 'cassos», ressalta um fã do filme Mangue Negro. Se os três filmes conseguirão fazer carreira no fechado mercado exibidor brasileiro, só poderemos saber depois que ficarem prontos. Porém, os produtores não se desanimam diante desse obstáculo. Mangue Negro já tem um plano para lançamento em DVD e na internet. Já Tiago Belotti pretende lançar A Capital dos Mortos primeiramente em Brasília, onde foi filmado. Porto dos Mortos 'tá investindo no mercado internacional e já tem até título em inglês -- Beyond The Grave -- e matérias publicadas em sites internacionais. Davi de Oliveira Pinheiro, diretor do filme, não 'quece que cinema também é negócio. Ele pretende obter lucro para poder investir em seu próximo filme. «Ou me aposentar do cinema com o sabor de não ter me frustrado, de ter lutado até o último suspiro», conclui ele, talvez refletindo o sentimento das equipes que vêm trabalhando nas produções dos três filmes. Conheça mais cada um dos filmes A Capital DOS Mortos diretor: Tiago Belotti sinopse: Zumbis invadem a capital federal e os não-zumbis partem para o contra-ataque. 'tréia: 2 de maio, na programação do Festival Internacional de Filmes Curtíssimos sobre a produção: " Um fator importantíssimo para o projeto foi o Orkut. Criei a comunidade do filme antes do mesmo começar a ser rodado», conta Tiago Belotti que recrutou boa parte do zumbis do filme por o site de relacionamentos e, ainda, membros da equipe e a banda Device, que cedeu 4 músicas para a trilha. no youtube: no orkut: A Capital dos Mortos Mangue Negro diretor: Rodrigo Aragão sinopse: A população que vive à beira de um mangue é aterrorizada por a presença de zumbis que emergem de suas águas. Uma fábula de amor e sobrevivência rodada nos mangues capixabas. previsão de lançamento: agosto de 2008 sobre a produção: A maquiagem de Mangue Negro impressiona. «Sou um maquiador de efeitos, trabalho na área há 14 anos, principalmente em 'petáculos teatrais. Em 'te tempo tive que desenvolver técnicas com custo baixo, já que o orçamento das peças sempre são apertados», conta o diretor. no youtube: Acesse e veja o curta-metragem Sob A Lama do Mangue Negro, que é uma 'pécie de making-of do filme. Porto DOS Mortos diretor: Davi de Oliveira Pinheiro sinopse: O policial linha-dura Lockheart persegue Adam, um assassino serial à solta num Brasil devastado. Por as 'tradas de um mundo violento, povoado por mortos vivos, o obcecado oficial da lei enfrentará seu demoníaco inimigo. previsão para finalização: julho de 2008 sobre a produção: A obra «Porto dos Mortos» vai conseguir trazer coisas novas a um gênero que anda moribundo, 'gotado de idéias», aposta o diretor, que faz suspense sobre as inovações. «A novidade principal é o foco. Os zumbis são coadjuvantes de uma força bem pior», revela ele, que 'tá rodando sua película no Rio Grande do Sul. na internet: Número de frases: 92 Publicado originalmente em Alternativa. André Donzeli, o Porkão, é uma figura. Bem acima do peso, com várias tatuagens por o corpo -- inclusive na boca -- que vão desde personagens de quadrinhos à marca de cerveja, são tantos os desenhos que ele mesmo já perdeu a conta. «Esta última é a número qual?», pergunto no início da conversa, sobre a sua mais recente tatoo, feita há uma semana. «É a número nova», responde ele. Mas há ainda outros adornos, a olho nu nota-se que ele tem dois alargadores, dois piercings no nariz e um entre os dentes. Detalhe: antes de começarmos a entrevista, eu e meu namorado -- amigo do Porkis e quem me apresentou a ele -- havíamos ligado avisando que passaríamos na Tendencies Rock Convenience -- loja do Porkão, cujo nome foi inspirado na banda Suicidal Tendencies e quem tem como mascote um porquinho com o mesmo lenço do Mike Muir -- em dez minutos. Ele confirmou que nos 'peraria, mas quando chegamos lá ele já tinha saída para o rock. A resposta de ele? «Esqueci». Simples assim ... Esse é o Porkão, personalidade importante do cenário underground palmense, líder, vocalista e autor das músicas da banda Baba de Mumm-rá, criador do Tendencies Rock Festival, que já vai para sua quarta edição em 2006, e inventor maior do 'tilo «profano bode core black metal brega». Mas antes de explicar tudo isso, é preciso «começar do começo», afinal o cara tem uma história pregressa ainda em Trindade (GO), sua cidade natal. Lá, Porkão integrou a banda Rusted Souls (1993) e Dirty Sock's Maniac's (D.S.M.). Segundo ele, 'sa banda era hardcore. Já a Dirt Sock's Maniac's (D.S.M.), que ele fez parte em Goiânia (" GO) «era uma zona», define ele relembrando os velhos tempos: «não tenho mais idade para isso que a gente fazia não. Não dá mais para beber o tanto que eu bebia e pular em cima da bateria pelado», diverte-se. Também em Trindade, ele iniciou sua carreira de produtor cultural, promovendo festivais, como o Rock Sol -- que rolava no domingo à tarde -- e o Tributo ao Brasilião, uma homenagem ao xodó do cantor. «Eu tinha uma brasília velha e toda vez que ela dava problema eu fazia um tributo a ela pra pagar a conta, mas sempre ficava no prejuízo», lembra. Porkão também produziu shows em Trindade, na década de 90, das bandas Sarcófago e Cirrose, entre outras. Em 2000, Porkão pisa em solo tocantinense para ficar. Em 2002, depois de trabalhar numa empresa de segurança e colocar piercings na galera em lojas de amigos, ele monta a Tendencies Rock Convenience. Um ano depois, ele organizou o primeiro Tendencies Rock Festival, em comemoração ao aniversário da loja. Bandas como o Mechanics, DFC, Macakongs participaram da primeira edição. Hoje o Tendencies é anual, e rola sempre entre fevereiro e abril. O evento é feito por amor ao rock, já que Palmas ainda engatinha no movimento enquanto outras capitais caminham a passos largos. Porkão nunca teve lucro com o festival, só prejuízos. «Somadas todas as edições eu tive R$ 9 mil de gasto. A última teve só R$ 600,00 de prejuízo, o que para mim é lucro», conta. O Tendencies Rock Festival é um 'paço alternativo para as bandas do Tocantins. É lá também que a banda Baba de Mumm-rá, uma brincadeira com o ser de vida eterna do Thundercats, se apresenta. O show é uma performance, com direito a queima de pôster de pagodeiros e artistas do cenário pop, entre eles, Felipe Dylon, Sandy e Júnior, KLB (isso só para citar). Porkão entra no palco transformado em Satanic Pigg (nome artístico), vestido de batina, com máscara de porco e cuspindo sangue (catchup, grosélia e afins), e com uma lata de cerveja na mão, ele incita o público à bebedeira. Além do vocalista, a banda é formada por Pavão (guitarra), o único que sabe ler partitura na Baba e que, eclético, faz parte de uma banda de reggae; por Murilo (baixo) que carrega no currículo passagem por as bandas Nacropsy romm (98 a 200), Tsavo (2001 a 2004) e Mobape (2005), todas de Goiânia, e também é tatuador na Tendencies (agora Murilo deixou a banda e voltou para Goiânia); e por o baterista Dani Hell, de apenas 16 anos. «É um menino de futuro, se parar de sair com a gente», brinca Porkão. Com letras que criticam as instituições religiosas do país, a Baba de Mumm-rá já sofreu preconceitos e chegou a ser taxada de satanista. «Não sou satanista porque o satanismo é uma religião. Eu sou contra a religião», alfineta Porkão. Em um show ano passado, a banda teve o som cortado por causa de suas letras. Mas no show há 'paço para o romance. Em o momento ' balada ', as «babetes» -- dançarinas e back vocais da banda -- fazem coreografias e jogam balões de coração para a platéia. O sucesso das dançarinas é tanto, que 'te ano a Baba fez uma promoção para a 'colha de novas integrantes. Cerca de 10 meninas se inscreveram, mas o resultado ainda não foi divulgado, oficialmente. Confira uma das músicas da Baba de Mumm Rá no banco de cultura do Overmundo. Número de frases: 48 Jovens de áreas carentes cuja relação com a 'cola é marcada por casos de furtos, brigas, venda de drogas, consumo de álcool e cigarro, depredações, entre outras situações. Tudo isso dentro do horário 'colar. Pra piorar, o tempo livre é utilizado para a err ... bem, as mesmas situações. Se a descrição acima soa familiar é porque ocorre em vários lugares do Brasil, com algumas particularidades e muitas semelhanças. E foi para a auxiliar na mudança desse quadro que surgiu o projeto Oficinas da Paz, que prevê a realização de 120 oficinas, de março a junho de 2006. Durante os finais de semana, 22 'colas abertas vão receber atividades de cinco grandes áreas -- música, dança, teatro, artes visuais e literatura -- através de treinamentos gratuitos dados por 40 oficineiros de todo o 'tado, atingindo 2.400 pessoas. As oficinas são dirigidas a professores ou monitores de projetos de arte que já existem nas comunidades, pra capacitá-los como multiplicadores. Em uma segunda etapa, 'sas pessoas treinadas vão trabalhar junto aos jovens. A ' cultura da paz ' A 'tratégia de inclusão social através da abertura de 'colas públicas nos finais de semana surgiu no programa Abrindo Espaços -- Educação e Cultura para a Paz criado por a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2000 (veja no site). A partir daí, veio a solicitação da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul de promover a cultura por o interior do Estado. E foi assim que o Oficinas da Paz nasceu. «Buscamos trabalhar 'se jovem em situação de risco nos finais de semana, em que a ociosidade é evidente também por falta de condições financeiras de buscar lazer», conta o Rodrigo Cogo, assessor externo de Planejamento e Divulgação da Cida Assessoria de Eventos, empresa responsável por a concepção do projeto. «E justamente dentro da 'cola». E é na crença de que as manifestações artísticas despertam a sensibilidade e permitem abrir novos horizontes pra 'ses jovens que o projeto se 'trutura. Cidades de várias regiões do 'tado vão receber a visita de músicos, dançarinos, atores, artistas plásticos e 'critores gaúchos comprometidos com a disseminação da «cultura da paz», ou seja, de um cotidiano de não-violência. «Ações como 'sa 'timulam a tolerância, a convivência, o compartilhamento, quesitos imprescindíveis na construção de um mundo menos violento, em que o outro seja respeitado, considerado». Em os projetos em que tem se envolvido, a Cida Assessoria de Eventos vem trabalhando a democratização do acesso à informação, com discussões e a valorização de artistas e produções feitas aqui no " Rio Grande do Sul. «Acreditamos que desenvolvendo habilidades artísticas é possível originar novas reflexões, novas consciências e portanto novas atitudes nas pessoas envolvidas». Projetos Esses objetivos também podem ser percebidos em outras iniciativas culturais já realizadas por a empresa, como o projeto Lâmpada Mágica, que leva 'petáculos teatrais por o interior em comunidades muitas vezes realmente pequenas, a preços populares (R$ 3,00 a R$ 6,00) e oferecendo oficinas gratuitas com o elenco e a técnica das montagens. Além disso, é feita a doação da bilheteria arrecadada pra 'paços culturais das cidades que sediam os 'petáculos. Em 'se mesmo formato, mas com shows musicais, o projeto Sonoras Energias promove a circulação de orquestras com solistas populares, que fazem a popularização da música erudita, sempre com entrada franca. A o promover a arte como ferramenta de integração, projetos como 'ses levam 'perança a pessoas marginalizadas socialmente e a lugares marginalizados culturalmente. E como sempre em 'sas iniciativas, a persistência e a crença de que é possível transformar a realidade são fundamentais. «É como uma semente pequena e aparentemente frágil, mas que no decorrer dos dias pode germinar plantações. Afinal, o que seria da árvore se não fosse a semente?», filosofa Rodrigo. Número de frases: 29 O que, de certa forma, faz todo o sentido. O cineasta Nélson Pereira dos Santos 'tá em Florianópolis para rodar parte de seu novo filme, um documentário sobre Tom Jobim. Fica na cidade até o dia 15 de maio. Aproveitando a sua 'tada na ilha, a equipe da Barca dos Livros, que realiza o evento Abril com Livros, o convidou para um bate-papo, em 'ta quarta-feira. Fui munida de celular fotográfico para registrar o momento. Não tinha intenção de 'crever. Mas 'tá claro que mudei de idéia. E o que me fez mudar de idéia foi que me vi com a missão de compartilhar a hora e meia de conversa com 'sa figura-ímã. Falou, riu, informou, nos divertiu com histórias hilárias. Em um tom baixo e animado. Reverenciou 'critores (Jorge Amado e Graciliano Ramos) como se não 'tivesse ele à altura de eles. Explicou, de todo aberto, como resolveu filmar Vidas Secas. Inicialmente, imaginou filmar os excluídos, câmera na mão, algumas idéias na cabeça (início dos anos 60, ares de Cinema Novo). Vez por outra, sentindo-se muito distante da realidade do sertanejo que buscava retratar, «consultava o livro de Graciliano para roubar umas idéias», contou. Até que a ficha caiu. E ... Bem, quem assistiu ao filme sabe no que deu. Vidas Secas é um dos melhores filmes brasileiros (dirigido por Nélson e fotografado por Luiz Carlos Barreto). É um nó nas entranhas. Uma das grandes adaptações literárias para o cinema. «Quando pensei em filmar fui movido por muitas coisas. O momento que vivia o país, a paixão por o texto. Então, o que precisava sair de mim era isso, não era apenas filmar o livro, era dizer o que aquele livro gerava em mim." Aberto assim, modesto assim. A platéia envolveu-se por completo. Como resistir? O jornalista José Geraldo Couto (na foto, à direita) sugeriu: «Fala do episódio com São Bernardo." Depois de explicar que o episódio era anterior ao projeto sobre Vidas Secas e deixar claro que não realizou São Bernardo, a resposta de Nélson finalmente veio e nos levou às gargalhadas: Eu pensava num roteiro e, lá por as tantas, quis mudar o final trágico dado à personagem " Madalena. «Ah!, não. Matar a Madalena? Não quero. Vou deixar ela fugir», sugeriu a um amigo. Achou conveniente, porém, 'crever a Graciliano avisando. «O Graciliano me disse só isso: Pode fazer o que quiser, mas, se resolver não matar a Madalena, tire o meu nome daí!». Nélson prosseguiu com a história: «O Graciliano explicou mais. Disse que se a Madalena não se matasse o livro não existiria porque ele só passou a existir a partir da reflexão que o marido da Madalena passou a fazer depois da morte de ela. E concluiu: E se o livro não existisse, você não o teria lido e não poderia ter gostado de ele, e não 'taria agora querendo fazer o filme." Os que acompanham a cinematografia do diretor sabem que ele tirou muitas lições daí. Síntese, causa, efeitos, movimento cíclico. Nélson é o cineasta brasileiro com o maior número de filmes feitos a partir de adaptações literárias: Tenda dos Milagres, Memórias do Cárcere, Boca de Ouro são considerados obras-primas. A boa notícia, para quem não teve o prazer de bater 'se papo com ele, é a seguinte: todos os seus filmes (até os inéditos) foram recuperados e devem sair em breve numa caixa em DVD. Onde: Barca dos Livros -- Rua João Henrique Gonçalvez, 721 -- Lagoa da Conceição -- Florianópolis SC / tel.: Número de frases: 50 3232 0283 " Agora eu tô em entrevista! Vou ganhar um alvará com isso aqui! Amanhã eu tô de carro branco aqui!», anuncia Élcio José Araújo Martins, taxista que, durante o dia, carrega engravatados na saída do fórum João Mendes e, durante a noite, carrega engravatados na saída de teatros e shows. O ambiente em frente ao teatro Cultura Artística é repleto da mais típica malemolência brasileira: só na amizade, na conversa mole, no baralho e na sacanagem. Os taxistas que correm atrás do público e levam a burguesia pra tão consagrada pizza pós teatro são muito unidos -- com a ajuda do Nextel -- mas, claro, rola uma concorrência tácita. Entre tantas caras e carros conhecidos por ali, os seguranças do teatro apontam Élcio como o mais falante. Ele se autodefine «o mala». Mais tarde, porém, já menos inibido, assume que é, na verdade, «o anjo da guarda da galera». Élcio não tem paciência pra teatro, mas tem paciência pra suportar gente de todo tipo que entra em seu carro. Ele não é rico, mas assistiu ao Fantasma da Ópera mais vezes do que todo nosso salário poderia pagar. Ele teoriza sobre os amantes, sobre o brasileiro típico, sobre alvarás de 45 mil reais. Falante, sim, prolixo, não. As falas são de um cara objetivo e direto, que faz graça de tudo, sabendo muito bem aonde quer chegar. Você gosta de falar? Ah, não sei. Você fala trabalhando ou só fala assim com jornalista, imprensa? Falo o dia inteiro, com todo mundo. Você fala muito com os clientes? Falo. Ah, depende. Tem cliente sisudo, né? Tem cara que não adianta chamar assunto com ele, que não vai. Tem outros que chama assunto com você e você que não quer conversar. Tem isso também. Tem que ser falante pra ser taxista? Não ... só que sendo falante você acaba ou queimando o passageiro ou ganhando o passageiro, né? às vezes, você fala alguma coisa que não foi do agrado do cara, você já queimou o cara. às vezes, você fala algo que ele quer saber ou que quer ouvir ... Assim ... não falo nada que não me perguntam. Perguntou, eu informo, não perguntou, eu não respondo, pronto. Fácil. Fico na minha, meu. O pessoal daqui é mais sisudo ou mais falante? Tem de tudo aí, tem o sisudo, tem o falante, tem tudo aqui. Acho que por ser peça, teatro, assim, vem um público bem diversificado. Não vêm só os tiozinho ... vem pessoal de fora ver, quem não é de São Paulo, vem aqui pra trabalhar, fazer alguma coisa, a gente deixa aí nos hotéis, tal. Tem os amantes ... Como é que identifica os amantes? Você percebe né, meu. Dá pra notar. É muito chameguinho, não é normal. Você percebe, no dia a dia você acaba percebendo. Você sai de casa brigado com a mulher e vê o outro no amorzinho, beijinho ... Você fala: «tem coisa errada aí!" ( risos) Você já ouviu muita besteira? De todo tipo. Briga no telefone, a pessoa tá no celular ... «ai, moço, desculpa, viu! É que não sei o que ...». Pede desculpa porque tá no meu carro, mas por mim, não quebrando meu carro, não batendo em mim, pagando minha corrida, não tem problema nenhum. Lembra de alguma história, algum exemplo? Ah, não tem uma, tem várias. Tem caso de: «ah, vou chegar aí e o bicho vai pegar para o seu lado» [fingindo ser uma amante falando com o marido]. História tem de monte, o que você imaginar de história em 'se meio da gente tem. Saindo daqui você lembra de alguma história 'pecífica? Particularmente, com mim não. Tem uns passageiros que dá vontade de mandar descer do carro, que pega você aqui e pede pra deixar ele no Terraço Itália ... Aí, depois que você virou a 'quina, você vai voltar de ré? Não vai, né?! (Atende o rádio) Positivo, tô dando uma entrevista, depois eu ligo pra você. Vou aparecer na Grobo. Você tá onde? Tá miado aqui, viu, só 50 pessoas. É assim o tempo todo com mim. Eu sou meio anjo da guarda do pessoal ... Vocês parecem todos muito amigos. Não rola uma concorrência? Ah, rola. Rola sim ... fora daqui ... assim, a gente tá aqui ... o mesmo pessoal que tá aqui, daqui a pouco 'toura outra peça, lá do teatro Raul Cortez, da Fecomercio, quer dizer, a gente sai daqui, vai pra lá. Tem show lá no Credicard Hall ... sempre o mesmo pessoalzinho. Joga um baralho hoje, joga uma conversa fora amanhã e assim a gente ... um sabe da vida do outro, outro sabe da vida do um. Brigam? Briga, briga, briga ... não tem. Tem concorrência, lógico. Não vamos ser hipócritas ... os colegas 'tão na fila dupla ali, enquanto eles não saírem, nós, que tamo parado no meio-fio, não saímos. Aí, vamos supor, são dez da noite agora, eu cheguei aqui às nove. O cara que chegou ali às onze e parou, levou passageiro e eu que cheguei aqui às nove me ferrei. (Atende o rádio) Você vê como é que é com mim? Carrego todo dia o Nextel, mano. Você atende várias portas de teatros? Vamos colocar o meu dia de trabalho. Eu acordo seis horas da manhã. Quem é que pega táxi às seis da manhã? Não, não é isso. Eu trago meu filho e minha mulher, que eu moro longe do centro, eu moro lá na Raposo Tavares, do outro lado da cidade. Aí, assim, ele entra às sete horas na 'cola, deixo ele na 'cola, minha mulher vai trabalhar e eu vou para o meu ponto. Meu ponto é ali no fórum João Mendes. Meu ponto oficial, só que é o que eu te falei: aqui não é ponto oficial. A gente faz assim, a gente corre onde tá o passageiro, senão a gente não ganha dinheiro. Não é que nem lá no meu ponto, que o passageiro vai ao táxi. à noite, aqui, já é diferente, a gente que vai ao passageiro. Então, fico de dia lá no meu ponto, carrego juiz, advogado, daí pra lá ... meu serviço de dia. E à noite eu venho pra cá. O meu 'tilo de trabalhar é 'se. Cada um tem o seu. Você tem que ir, pra ganhar dinheiro, onde tá o passageiro e se virar aqui no rádio. A gente vai se ajudando um ao outro de 'sa forma. Como funciona 'sa história de alvará? Assim ... alvará é a licença que permite a gente trabalhar com seu veículo na categoria aluguel. Você não pode simplesmente ter uma Meriva branca, botar um taxímetro e manda a ver, entendeu? A placa vermelha, para a gente, é considerada o alvará, que é o que dá direito de usar o veículo na categoria táxi, aluguel. Só que um alvarazinho desse hj ... Então existe táxi frota. Esse branco aqui é do Testa. O seu é de frota? O meu é. O Testa é o único que tem alvará aqui? Não, tem mais colega aí que tem, mas a gente se vira do jeito que dá. Quem é o dono da sua frota? Ah, ele não é uma pessoa assim, conhecida. Em o meio ele é conhecido ... Quantos carros ele tem? Só 180! ( risos) Pobrezinho o menino. Fora uns cem carrinhos de locação que ele tem por aí. Quando tira o carro do táxi, ele põe pra alugar. Há quanto tempo você é taxista? Já fazem oito anos. Já rodei bastante. Só de sexta, sábado e domingo você trabalha à noite? Geralmente, de segunda a quarta, como tem pouco evento à noite, em 'se horário eu já tô em casa. Pra conseguir parar aqui no meio-fio é muito disputado? Nós 'tamos no meio-fio hoje porque como tá fraca a peça, os carros populares -- não táxi -- tem pouco. Normalmente, como o coordenador do teatro não vai muito com a gente, coloca os carros particulares de eles aqui e a gente fica lá na fila dupla. Mas sempre tem táxi aqui, sempre tem. Estranho ele «não ir muito com vocês». Em a verdade, é uma 'pécie de parceria, não? É, mas ele não é muito de parceria, não. Ele é meio carrancudão. Wilsão, tô dando entrevista para a Globo, Wilsão. Wilson: Pegaram o cara certo. Esse é foda. Élcio: Vou pegar alvará! Outro taxista: Alvará de quê? Você tem que pegar é alvará de soltura para a gente ir na boate. É muito diferente transportar os advogados lá no João Mendes e a galera aqui do teatro? É outro tipo de passageiro. Por quê? Vamos colocar assim: de dia, o advogado em si, o juiz, o desembargador, não é tanto. Agora, você carregar 'tagiário se achando: «liga o ar aí». O cara já chega querendo te botar em pânico. E você sabe que chega no fim da corrida o cara pega o recibão pra prestar conta. Aqui é diferente, é um público que vem pra se divertir. Tá menos 'tressado? Menos 'tressado ... o cara sai daqui vai pra um restaurante ou então vai para a casa com a sua senhora ... Falando em vai para o restaurante, em qual você mais leva o pessoal? Não tem assim ... na nossa profissão é difícil você falar: «eu levo mais pra tal lugar!». Nenhum dos restaurantes é mais comum? Ah, tem a Famiglia Mancini aqui embaixo, que a gente nem leva, né?! Fala: " Ô, dá volta no quarteirão, amigo! Vai embora, vai a pé!». Mas não tem como dizer qual mais, a gente não tem uma referência. Tem alguma coisa que a galera mais fala depois da peça? Geralmente, 90 % das pessoas que você pega saem falando da peça em si. Depende do que aconteceu. Agora, o Paulo Autran tá doente, então não tá tendo a peça de ele, só tá tendo 'sa Família Muda-se, tanto que hoje tá fraco aí, quem segura aqui 'se teatro é o Paulo Autran. O pessoal sai falando da peça, às vezes saem criticando. Que nem tem uma peça do Jô (às Favas com os Escrúpulos) que tá em cartaz. Muita gente sai falando que é uma peça política, dos dias atuais e tal, só que não tem núcleo, não tem direção, não tem nada ... você vê, tá criticando o Jô. Aí fala: «não, mas você viu a Bibi Ferreira, mano!" Então, tá falando bem do ator e mal da peça. Aqui é a mesma coisa. Wilson: As peças que 'tão hoje, você ouve o comentário. Então tem pessoas que têm um bom discernimento, eles até entendem e gostam, mas tem gente que não entende nada. Tipo, Fantasma da Ópera, peguei um casal uma vez com um garoto, a mulher virou e falou assim para o marido: «que vergonha, você dormindo no meio da peça» e ele: «Ah, eu não agüento 'se negócio de ópera» ai ele virou para o moleque e falou assim: «e se você tirar nota ruim, mês que vem eu te trago de novo» e o moleque: «o pai, que mancada!" Quem gostou foi a mulher, a mulher adorou, mas o cara não veio porque quis, ele veio pra acompanhar a mulher de ele. O Paulo Autran é super elogiado. Vocês já viram? Deu vontade de ver? Wilson: Não, não vi. Vontade dá. Élcio: Eu já vi o Fantasma da Ópera. Várias vezes. Wilson: As pessoas comentam, a gente até já sabe da história, eles vão falando, você mais ou menos monta a peça na cabeça. Élcio: A gente tava falando do Fantasma da Ópera, o Fatasma da Ópera eu vi. Fui eu e o ... Como é? Você fala com o segurança, ele deixa você entrar? Geralmente é assim. Aqui nunca aconteceu, mas lá no Teatro Abril era direto. Aqui não porque o coordenador aqui, já falei né ... Lá assisti várias vezes, perdi a conta já. Tinha nada pra fazer, entrava lá ... Você gostou da peça? Élcio: Ah ... Wilson: Ela é cansativa ... Élcio: É, isso que eu ia falar. Ela enche o saco. Vamos falar a verdade? Wilson: Enche o saco. Pra quem gosta é um prato cheio, agora pra quem não gosta ... (Vários taxistas começam a participar da conversa, mas logo Élcio põe ordem na casa) Élcio: Ô, deixa eu conversar com as meninas aqui? Fabrício: Eu, você fala? Élcio: [ aos outros taxistas] Eu não vou dividir o prêmio com ninguém, não. E quando chega taxista desconhecido? Não tem problema. Normal. Não tem discriminação. Tem assim, na rua, eu tenho meu ponto, que é legalizado por a prefeitura, lá no fórum João Mendes, mas o mineiro ali não tem, o Vagner ali não tem, o Wilson tem o p. a., que é o ponto de apoio na nossa lingua, né? Uma gíria nossa. Então, assim, o Wilson tem o p. a. de ele. Ele e meu amigo aqui, mas eu não vou puxar passageiro de ele lá, no p. a. de ele. O Wagner tem o p. a. ali na Augusta. Então, assim, um acaba respeitando o outro. Só que aqui, no chamado mangueirão, cada um é cada um. Mangueirão por quê? Imagina um mangueirão ... é uma fila de táxi, vai sair o primeiro lá da frente, você não vai sair do meio. Mas não é assim necessariamente. que nem hoje aqui. Não tem ordem pra sair. ainda mais que tá fraco. Aí não interessa se eu cheguei por último, se eu cheguei primeiro, eu vou jogar dentro do meu carro e fui. O magueirão em si, em si assim, tem que ser o primeiro. Que nem, tem uma feira no Anhembi, com cem carros, aí vai saindo de um num. Não é que nem aqui. E aeroporto é assim também? Não, lá é ponto, ponto. Aí já é outra coisa. Aqui o passageiro vai, não gostou do meu carro, gostou do de ele (aponta para o taxi do companheiro), eu não vou brigar com o cara e falar que eu cheguei primeiro que você. Um cara que pegou o carro hoje quiser vir aqui e parar aqui com a gente, pode parar. Ué, vou proibir? Tá certo que rola aquela sacanagem, você não deixa a vaga para o cara parar ... Você já pegou celebridade aqui saindo? Em a época do Fagundes eu carreguei o Fagundes. Eu carreguei, ele tem uma F250, aí deu pau. Você vê que os meninos, vocês perguntaram e eles já logo me indicaram. Aí o Cleber, um de eles, virou pra mim e falou assim: «Vai com o carro lá dentro do 'tacionamento lá que pifou o carro do Fagundes. Aqui como meu carro é filmadinho, eu levei ele. Em a boa ... já carreguei a Fernanda Lima? não daqui? já carreguei a Cláudia Raia, a Débora Secco, O Vesgo ... mas ele não é aquele palhaço todo, não. Você puxou assunto? Não, com 'se pessoal não precisa puxar assunto, o assunto rola. Tem gente que você não precisa falar assim: «nossa, faz tempo que não chove, né?». Passa assim um cara que caiu da bicicleta do lado, um moleque que roubou uma tiazinha no farol e o assunto acontece. Que nem, o pessoal fala negócio de ser tipo psicólogo, tal, acho que isso é mentira, acho que isso é meio do brasileiro assim ... [ apontando pra cada um] você se apresentou, você se apresentou, e a gente tá aqui conversando, só que assim, a gente tá aqui porque a gente é amigo de táxi ... só que o brasileiro em si, pega o metrô na 'tacão Tucuruvi desce na Jabaquara, sabe a vida inteirinha do outro, depois pergunta «como é seu nome mesmo?». Não sabe nem o nome do outro. Mas acho que isso aí é do brasileiro. Então com a gente aqui dentro do táxi não é diferente. A mulher fala, «ai, porque meu marido é isso, que ele é aquilo, que ele é filha da puta»,» qual é seu nome mesmo dona?" Ou então, já aconteceu também do cara desabafar, fazer coisa errada no táxi. Tipo, o cara me dar dinheiro e falar: «Ô, meu, só para a gente ir na Marginal para a eu usar cocaína» Ele tem vergonha. O cara me deu 50 paus outro dia na Vila Madalena, à noite, o cara me pegou para a eu dar uma volta com ele um quarteirão, ele entrou no carro, deu cinquentão, deu a volta no quarteirão, porque os amigos de ele não sabiam que ele era usuário de drogas, nem nada ... já peguei uma mulher uma vez lá no Obelisco, a mulher chorava, chorava, fumava um cigarro atrás do outro, a mulher de camisola, uma pantufa de cachorrinho, pegou o marido com outro na cama. Outro? Outro. Vizinho de eles, do mesmo prédio. Tipo assim, se fosse com outra ... pegou o marido com outro. Retomando, o que o Antônio Fagundes falou pra você? Geralmente, 'sas pessoas conversam coisas que pra nós são do dia-a-dia: «puxa, vocês agüentarem o trânsito é complicado, hein?». «O carro é seu ou de frota?" É coisa que pra nós tanto faz, ouve umas cinqüenta vezes por dia. Eu também não vou chegar em ele e falar: «ô, qual vai ser sua próxima novela?». Como tava na época de carga pesada, eu já parti para a zoeira. Eu falei: «pô, se meteram numa fria semana passada, hein?!». Ele «É, né, já vi que você assiste». Levei ele para o flat lá na Avenida das Nações Unidas, perto da Globo mesmo. Teve uma história do Fagundes ter dito que as pessoas não se perfumam mais pra vir ao teatro. O que você acha? Isso é um negócio que eu nunca reparei, nunca parei pra pensar. Mas tem uma coisa que por mais que você não tenha parado pra pensar pode ter te incomodado: pum dentro do carro, rola ou não? Não ... rola uns bafão da vida ... agora punzão mesmo ... pum, pum, pum ... eu já segurei um monte de vez, mas ... ( risos) ... às vezes você até percebe um negocinho mal cheiroso assim, mas você deixa passar, né? E você deixa fumar no táxi? Não. Você sabe que o Paulo Autran fuma, né? Se ele pedisse, rolava? Não. O carro é meu, é meu 'paço. Nem se fosse o Lula aí dentro: «companheiro ..." (imita voz rouca). Não. (risos) E a mulher de camisola não fumava? Essa aí chegou fumando já. E tem coisas que você deixa passar. Tem coisas que você releva. Se a pessoa chegar pra mim, assim: «posso fumar no seu carro?». Eu falo: «não». Tem uns mal educados que já vão acendendo o cigarro. Eu falo: «pode apagar o cigarro, por favor?». Fala mesmo? Falo, já perdi corrida por causa disso. Mas, no caso de 'sa mulher aí, ela chegou que nem um dragão fumaceando lá e falou «vamo, vamo, moço». Nem tchum! Você acaba nem percebendo. Aí você vê a situação da pessoa. Dei mó rolê com ela. «A senhora quer ir pra onde?" Não tinha destino. Aí eu parava várias vezes: «a senhora quer alguma coisa?». «Pára no posto ali e compra uma água pra mim». Parei no posto, ela deu o dinheiro, comprei a água. Ela tava com dinheiro, não me deu chapéu, nada. Ela tava consciente de tudo, sabia onde ela tava. Eu não falei nada. Ela chegou assim: «moço, você não sabe o que aconteceu!». «Deve ter acontecido algo de muito ruim mesmo. Onde a senhora quer que eu vá?" E ela: «Ah, moço, vai andando, vai pra qualquer lugar». Aí, peguei a Avenida Brasil, fui, fui, cheguei perto da Avenida Sumaré. Pensei: «puta, aonde que eu vou com 'sa mulher?». E ela sabia onde ela tava andando, falou: «pega aqui a Sumaré, vamo lá para os lados do Palmeiras, vamo andando aí». Quer dizer, ela tava consciente. Tava ligada. Deu mais de 150 conto. Ela pegou e pagou. Eu falei: «vamos negociar». Ela falou: «Não, você fez seu serviço, você tá trabalhando, eu que tô com meus problemas». Ela já tava mais calma ... tinha dado 147 reais, ela me deu três notas de cinqüenta, bateu a porta do carro e tchau. Em o mesmo lugar que eu peguei ela, eu deixei, no Obelisco. Você gosta de teatro? Não tenho paciência. Não tenho paciência pra ler livro ... Cinema? Não tenho saco. Também. do que você gosta? De qualquer coisa. Eu me adapto em qualquer coisa. Se eu for obrigado a ver uma peça pra fazer um trabalho, por exemplo, eu vou ver a peça. Pensando em outra coisa, mas vou ver a peça. Mas não é diversão? Não. Por que você assistiu tantas vezes o Fantasma da Ópera, se você não gosta de teatro? Pra não ficar lá fora 'cutando groselha de taxista. Rapidinha: Tipo Vídeo Show? Um ator: Ator? Ator, ator, ator, ator ... já gaguejei pra falar a primeira coisa ... Marcos Paulo ... acho aquele tiozão legal. Uma atriz: Fernanda Montenegro, a velhinha é perversa pra trabalhar. Uma mulher bonita: Tem tantas ... Adriane Galisteu. Um homem bonito: ( risos) Eu! ( risos) Uma multa: uma merda! Melhor buzinar ou xingar? no meu caso, xingar, que buzinar não vai adiantar nada. Teatro: uma forma de sobrevivência, pra mim, né?! Um posto de gasolina: tem que 'colher, viu! De o jeito que tá adulterado pra cá, adulterado pra lá. A gente que roda no dia-a-dia aí, a gente percebe onde é bom onde é ruim, a gente sente a diferença no carro. Um amor da sua infância: minha mãe, que morreu quando eu era jovem. Uma marca de carro: Chevrolet. Com emoção ou sem emoção? O quê? Chevrolet? (risos) ah! ( risos) Com emoção, opa! ( Número de frases: 428 com cara de malemolente) Com emoção, com emoção! Começa a transitar por os corredores de Brasília uma nova idéia para garantir o acesso a cultura aos trabalhadores brasileiros, o vale cultura. Uma iniciativa do Ministério da Cultura, na qual fica determinado que o preço unitário do vale não poderá exceder a 10 % do valor do salário mínimo o que equivale hoje em dia a 35,00 reais mensais. A idéia tem como base os já conhecidos vale-transporte e vale-refei ção. A empresa poderá adquirir o vale para distribui-lo a seus empregados e não poderá fazer qualquer desconto no salário do trabalhador. De posse do vale-cultural ele poderá então comprar ingressos para cinema, shows, teatro e produtos como livros, cds e dvds. Obviamente a empresa que optar por dar 'te benefício (ou seria obrigação?) ao trabalhador terá alguns impostos reduzidos. O projeto prevê que cerca de 116 milhões de pessoas (34 milhões de assalariados e seus 82 milhões de dependentes) seriam beneficiadas por o projeto, a maioria das classes C e D. As 'tatísticas mostram que para quem não tinha nada quando recebe um isso significa um aumento de 100 %, por isso simbolicamente me parece interessante 'sa iniciativa do governo federal. Inúmeras vezes me deparei com pessoas as quais nunca tinham ido a um teatro, a um cinema ou a um museu mesmo sendo vizinhas ou próximas a um de eles e não por não terem dinheiro, algumas vezes o preço do ingresso era menor que duas cervejas que ele ou ela tomariam pós trabalho, mas sim por uma questão de não possuírem o hábito, o interesse, a curiosidade e preferirem a passividade diante da telinha da tevê. Não sei até que ponto o benefício (?) tem um valor financeiro muito baixo, não sei se isso seria apenas mais um incentivo a indústria cultural e não a cultura, prefiro achar que o vale-cultural é bem mais que isso. Número de frases: 13 O local é quieto e a rua parece deserta, mas a casa é cheia de alegria e dentro deste recinto se guarda uma linda história. Uma pequena tradução da 'sência que move uma comunidade apaixonada por o samba e dedica-se plenamente ao seu amor por o carnaval. A Associação Recreativa Cultural Comunitária, Academia do Samba Paineira de Sapopemba tem em seu corpo de componentes grandes batalhadores de uma luta diária. Todo material que possuem em grande parte é de doações feitas por as 'colas de samba do grupo 'pecial do carnaval de São Paulo. Os materiais recicláveis que conseguem vêm de trabalhos sociais, como o projeto com catadores de lixo do bairro do Teotônio Vilela. Fundada em 1984, próxima a um campo de futebol, a 'cola ainda não tem sede própria e todos os pertences ficam na casa de seus diretores. Situada na região do Sapopemba bairro do extremo leste da capital paulistana, seus componentes são de baixa renda e muitos não têm emprego. Mas o amor que têm por o samba e por a comunidade já faz destes lutadores pessoas admiradas por todos da região. A busca da independência da 'cola é contínua e por meio de trabalhos voluntários, cursos e algumas doações fazem com que a 'cola sobreviva. «A cada ano é uma luta, um leão que temos de matar», diz um dos fundadores da 'cola, Walmir da Helena, 47. Ele traduz as dificuldades encontradas para se enquadrar ano após ano na maior festa popular do Brasil: «A 'cola 'tá no grupo de acesso da UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas), que antigamente chama-se ' vaga aberta ', nome dado para as 'colas iniciantes. Porém, mesmo 'tando filiado à Liga Paulistana não recebemos nenhum tipo de recurso, tudo que a gente consegue é do boca-a-boca, ligando para as 'colas maiores ou por nossa amizade no meio carnavalesco», comenta o diretor. A 'posa de Walmir e carnavalesca da 'cola, Nilce Adão, 36, que também é produtora de eventos, relata todo sacrifício de produzir as fantasias manualmente. «Em o carnaval do ano passado eu tive de fazer 400 fantasias, juntando retalhos de doações e colaborações que conseguimos», explica. Outro grande problema enfrentado por a 'cola é a sua localização. Além de 'tar na zona periférica da capital, encontram dificuldades para todas aquisições de adereços que ganham. Walmir comenta que sua casa é ' carnaval o ano inteiro ', pois as próprias fantasias e adereços são guardados na garagem ou até dentro da própria residência. Perseverança e amor ao Samba Uma história inusitada de amor ao samba ronda a fundação da Paineira, e traduz também um pouco da história de vida de um dos seus fundadores mais antigos. A paineira, árvore da fundação da 'cola, ainda persiste no mesmo local, no bairro do Sapopemba. Está situação inusitada 'tá também no símbolo da 'cola. Existia uma cobrinha que vivia dentro da paineira e, é onde os fundadores no dia de inventar o 'cudo da agremiação resolveram adotar a bendita cobra junto ao pandeiro e a paineira. O vice-presidente da 'cola Walmir da Helena, 29 anos dedicados ao samba e muitos destes também à 'cola, traduz com muita emoção a sua persistência e amor por o que vive em seu cotidiano. «Muitas pessoas entram no samba para ganhar dinheiro, mas o meu motivo é que venho de uma família de músicos, cresci ouvindo serenata, serestas e fui cativado por isso, tenho em meu coração a harmonia necessária que o samba tem em sua legitimidade». É por meio da 'cola que ele divulga todo seu amor a cultura popular brasileira e sempre traz para a avenida toda 'tá tradição popular. A expectativa para o carnaval Paineira do Sapopemba incorpora Palmares, para brilhar em 2008 O tema do carnaval de 2008 decidido por a UESP é trata dos 120 anos da abolição da 'cravidão no Brasil. A paineira irá desfilar na avenida os 120 anos de Zumbi dos Palmares, e 'pera poder realizar um bom desfile, pois no ano passado por pouco não subiu para o grupo 2, sendo que a 'cola tem apenas 3 anos de desfile em 'te grupo. Todos os componentes 'tão empolgados e convidam toda comunidade para participar, torcer e ajudar a 'cola. «O desenho do figurino para o carnaval do ano que vem já 'tá pronto e agora, é só correr atrás dos adereços para, aos poucos, ir confeccionando as fantasias», explica a carnavalesca. Agora é 'perar o desfile da Paineira e torcer por o sucesso da 'cola e da comunidade por mais uma conquista. Para quem quiser ajudar a 'cola com doações ou trabalhos manuais, segue os contatos: Número de frases: 34 E-mail -- nilceadao@ig.com.br -- nilceadao@bol.com.br Não era a minha primeira visita à Câmara, mas era a primeira vez sozinha. Exercitando a profissão que pretendo exercer, fui à Câmara Municipal de Campo Grande cobrir para o Unifolha Online a Audiência Pública que busca a ampliação do repasse que hoje é de 0,25 % para 1 % do orçamento do município para a Cultura. O que poderia ser apenas mais uma cobertura factual de uma audiência pública, se apresentou como uma oportunidade muito diferente. Conheci o interior da Casa Legislativa, onde vereadores e assessores se misturam a visitantes, onde reina o silêncio e sobram aparências. Um ambiente bem sinalizado, organizado, onde por volta das 8 horas da manhã entrei por curiosidade. Faltava ainda uma hora para o começo da audiência (que por sinal começou com meia hora de atraso), e a vontade de ver o que há por trás dos ternos e microfones fez a minha timidez sumir e o coração bater num ritmo acelerado. Dentro do «por trás» de onde a cena acontece, ou pelo menos onde a parte que é combinada é mostrada, encontro um ambiente calmo. Talvez por ser cedo, ou por os «inúmeros» afazeres que os vereadores têm, ou confirmando o que algumas pessoas dizem, que os vereadores não trabalham. Chá, café, jornais, computadores, papéis, informes ... Características marcantes nos gabinetes, além de assessores e funcionários mil. Vai chegando a hora prevista para o começo da audiência, e o Plenário Oliva Enciso, que quando eu cheguei 'tava vazio, começa a ser invadido por os mais diferentes tipos de gente. Músicos, artistas de circo, de teatro, artesões, artistas plásticos, amantes e desenvolvedores da cena cinematográfica e outros representantes de segmentos culturais do 'tado se reuniram junto ao público e interessados na causa, em prol de uma causa histórica: a união de tantas classes culturais para reivindicar mais investimento à cultura. Pareço criança em loja de doces. Nunca vi uma união tão rica em qualquer setor do 'tado. Lembro aqueles antigos ditados «A união faz a força», e em 'te caso a união é a força. União entre a Câmara, vereadores, a comunidade que faz parte da cultura e da população de Campo Grande, que apóia 'sa causa. Rostos conhecidos logo aparecem, nomes como Márcio de Camillo, Bola, Jerry Espíndola, músicos e atuantes na causa. Lógico que muito mais gente 'tava lá, mas eu não conhecia, mais de rosto, ou mais de nome. Começa a sessão, em clima de vitória, com muitos afirmando que o prefeito Nelsinho Trad vai apoiar e aceitar a causa. Falam sobre um plano com propostas bem formadas e direcionadas, que tratam de 4 áreas: produção, veiculação, formação e divulgação, e como 'ses 1 % podem ajudar através da área de cultura, o desenvolvimento do cidadão e até a melhor e maior exploração do turismo. Entrevisto rapidamente o vereador Vanderley Cabeludo, que me afirma que o prefeito 'tá sensível à causa e com certeza vai aprovar a entrada no orçamento. Também falo com o Márcio de Camillo, que também afirma a causa ganha, além de falar que projetos como 'se já foram aprovados em outras cidades. O Hino Nacional é cantado por a sanfoneira Lenilde Ramos, figura de grande valor na música sul-mato-grossense, e alguns ficam emocionados com o clima de vitória. A preocupação geral é de como 'se dinheiro vai ser repartido, mas pelo visto o pessoal que faz parte da comissão e criação do projeto tem tudo planejado. Figuras e figurões discursaram por alguns minutos, numa mesa que nunca 'teve tão cheia (com mais de 15 componentes), cada um defendendo o seu peixe. O apoio da Câmara é evidentemente demonstrado, com a presença de grandes nomes como Maria Emília, Vanderley Cabeludo, Athayde Nery (criador do projeto), Paulo Siufi e Gilmar Olarte (e observo, de passagem, o descaso de alguns que a meu ver, não deveriam passar quase que a audiência inteira ao telefone). Em meio à fala de um vereador, um protesto surge no meio da multidão «Olha a eleição ano que vem!», um rapaz da platéia grita. Sabemos que as coisas no Brasil nunca partem do nada, e chego a concordar com o manifestante, mas talvez seja por isso que 'se projeto só tenha surgido agora, por o motivo das coisas ficarem mais «fáceis» em final de mandato. Um clima de descontração e satisfação assume o plenário, e muitos saem de lá com a certeza da aceitação do projeto. Concordo com o clima, e não acho que seja tão difícil assim que ele seja aprovado, só 'pero que os recursos atendam a todas as causas, e que o dinheiro não fique mais uma vez nas mãos de figurões ... Número de frases: 33 Diga-mo que tu comes e te direi de onde és ... Se é brasileiro, provavelmente terá uma preferência por a mesa farta -- não importa se com o goiano arroz com pequi, o paraense pato no tucupi, o churrasco gaúcho ou a boa moqueca de peixe capixaba. E como o Tocantins é uma colcha de retalhos cultural, formada em 'tes últimos 18 anos de autonomia política, festejada no último dia 5 de outubro, por aqui tem tudo isso e mais. É em 'se «mais» que pretendo me concentrar. Em o que existia por 'sas bandas quase 'quecidas do então chamado «norte goiano», que de goiano tinha muito pouco, já que quando mais se distancia do Sul maior a influência exercida por os 'tados do Norte e Nordeste. A mestiçagem do brasileiro -- incluindo-se aí o tocantinense -- se revela de várias formas, inclusive na mesa. Em artigo publicado na revista «Nossa História (nº 29/m arço», Eddy Stols, doutor em História, afirma que a culinária brasileira nasceu híbrida e integra produtos e preparos portugueses, indígenas, africanos e asiáticos. Junte-se a isso a facilidade de encontrar certos alimentos em determinadas regiões, a capacidade de inventar e reinventar pratos, doses equivalentes de praticidade e religiosidade, misturadas por as mãos hábeis de mulheres e homens ao longo dos séculos e 'tá dada a receita para a nossa culinária plural. Em questão de praticidade, poucos alimentos ganham da paçoca de carne seca. Reúne poucos ingredientes, mantém a qualidade por vários dias sem necessidade de geladeira e é razoavelmente fácil de fazer. Em o Tocantins, a iguaria tem como sinônimo o nome de uma cidade, onde se faz a melhor paçoca do Estado: a histórica Arraias, com 264 anos e localizada no Sudeste do Estado (413 km da Capital, Palmas). Durante recente viagem a trabalho conheci duas paçoqueiras. Justina Soares da Silva e Aurora Paiva Moreira nasceram e cresceram na mesma região, tomaram rumos diferentes na juventude e hoje trabalham juntas para fortalecer a Associação das Paçoqueiras de Arrais (Aspa). Justina nunca saiu do município, tem 10 filhos e carrega na por à origem africana de seus ancestrais -- levados a explorar os veios de ouro num vale onde ajudaram a erguer a pequena vila. Aurora morou 25 anos em Brasília e retornou para cuidar da mãe idosa. Elas tentam explicar por que a paçoca arraiana tornou-se uma 'pécie de símbolo da cidade que já não guarda as características arquitetônicas que poderiam elevá-la ao nível de patrimônio histórico. Segundo elas, a «fama» começou a se formar há cerca de 20 anos, quando o Tocantins ainda era Norte goiano e as cidades montavam barracas na exposição agropecuária da capital Goiânia. Porém, muitas décadas antes disso, o alimento tornou-se popular por uma questão de praticidade: sem energia elétrica e veículos automotivos, os viajantes que cruzavam a região a cavalo levavam o alimento 'tocado no alforge ou na «bruaca» ('pécie de bolsa de couro). A receita simples leva carne seca -- de boa qualidade, ensina Justina -- cortada em cubos e frita em óleo quente, mas sem excesso. Colocada no pilão (de preferência sem verniz), com acréscimo de alho picado e farinha de mandioca, a carne vai se desmanchando com o bater ritmado das mãos de pilão que se alternam (duas ou três pessoas batendo, conforme o tamanho do pilão). Entre 15 e 20 minutos são necessários para que 'sa iguaria tão simples conquiste os paladares. Amor de biscoito As festas religiosas, em 'pecial a do Divino Espírito Santo, são motivadores 'senciais do cardápio dos moradores de Natividade (272 anos, 200 km de Palmas), cidade tombada por o Iphan em 1987. É de lá um biscoito muito 'pecial, uma 'pécie de sequilho que derrete na boca chamado amor-perfeito. Quem come adora, mas nem imagina a trabalheira para fazê-lo. «Ele requer mais ciência, precisa de um bom leite de coco, polvilho de qualidade, manteiga de leite, açúcar», ensina Tânia Cerqueira, que há 15 anos coleciona receitas tradicionais de sua cidade natal pensando em abrir um restaurante de comidas típicas. O amor-perfeito também pode se perder com o tempo, explica ela, pois não é fácil deixar a massa no ponto e mais difícil ainda é deixar o biscoito no formato peculiar, com pontinhas que ficam douradas quando se leva ao forno. Por isso, durante a chegada das folias e a coroação do imperador do Divino, a mesa farta, repleta de arroz sirigado, paçoca, licores diversos e bolos, o amor-perfeito é cada vez mais raro. Até o Sebrae 'tadual já fez cursos para incentivar a fabricação, mas o segredo da receita continua nas mãos de poucas mulheres da cidade. Tânia lembra que mesmo os licores, tão comuns nas festas populares, 'tavam sumindo da mesa, mas a Asccuna (Associação Comunitária e Cultural de Natividade) se dedicou a manter a tradição entre os festeiros e hoje o licor se faz presente em abundância. Um bolo chamado borracha Em Monte do Carmo (160 anos, 89 km de Palmas), a facilidade de encontrar determinados alimentos, a presença dos negros e o sincretismo religioso tornaram-se fundamentais para a criação de uma receita no mínimo exótica. Trata-se do bolo borracha, que se encontra em vias de extinção. A jornalista Marilda Amaral, atualmente à frente da Secretaria de Cultura do município, há cerca de um mês levou uma equipe de historiadores da Fundação Cultural do Estado até a Fazenda Santo Antônio, no Vale da Mata Grande, cerca de 30 km da cidade. Ali, a família de Joaquim Carvalho Neves, o Joaquim de Patu, faz questão de manter viva a tradição do bolo, que é servido durante as folias de Santos Reis e do Divino Espírito Santo, aos quais é devotado. A 'posa de Patu, Floriana Carvalho Rodrigues (dona Flor) desvendou para Marilda os segredos do bolo. «É uma receita sertaneja, que leva ingredientes encontrados na fazenda -- ovos caipiras, banha de porco, tapioca -- e não polvilho, leite, o soro do leite, açúcar, sal, cravo moído», conta a jornalista lembrando que a folha da bananeira é cuidadosamente 'colhida e tratada e o soro caseiro também traz sua «ciência». «O fermento é feito em cuia ou gamela, a vasilha só serve para isso e não pode ser lavada, pois as boleiras acreditam que se lavar o próximo fermento não vai prestar, e a forma de limpar e guardar o recipiente também é cuidadosa», continua ela. A hora de assar o bolo também requer experiência, para não passar do ponto. Pergunto o sabor. «Não é doce, é meio azedo, eu gosto», confessa ela dizendo que na cidade apenas pessoas de mais idade fazem o bolo borracha, mas em poucas quantidades, somente para matar a saudade entre os familiares. Nada que se compare às grandes quantidades servidas nos festejos de Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora do Rosário e do Divido, até os anos 60. A partir daí os ventos da moderna facilidade pesaram mais que a tradição. Receita mais simples, porém não menos tradicional, foi mantida para os festejos da cidade chamada por seus moradores de «principado». Trata-se do bolo de arroz assado em tabuleiro. «As boleiras preferem o ovo caipira e o fermento caseiro, também utilizam o arroz em casca, que elas mandam limpar; dizem que o bolo fica mais doce», revela Marilda. Outra tradição ainda mantida, porém com menor intensidade, é a reunião das boleiras. Eu mesma presenciei um desses encontros em torno de um forno de barro rústico, há cerca de dois anos, quando fui acompanhar a festa chamada «Caçada da Rainha». Várias mulheres se unem para assar dezenas de tabuleiros que são servidos a todas as pessoas que fazem o percurso de 2 km a pé seguindo a rainha dos festejos. Também é servido licor à vontade. O mais popular é o de jenipapo, mas também 'tão presentes outros frutos do cerrado, como a mangaba, a cagaita, o murici. Marilda lembra que o festeiro depende dos produtos do sertão para fazer sua festa. «A cidade não conseguiria fazer as festas sem ajuda do sertanejo», defende a jornalista enfatizando que em Monte do Carmo as festas religiosas promovem a aproximação entre o sertanejo e o homem urbano. Talvez 'teja aí o segredo de sua longevidade. Número de frases: 57 Os anos 80 e a música em Campo Grande Tive meu primeiro contato com a música sul-mato-grossense assim que cheguei em Campo Grande no ano de 1980. Lá em Recife, onde morei de 1970 a 1979, tomei gosto por o violão e aprendi a tocá-lo sozinho. A o entrar na faculdade de arquitetura em 1975, vários grupos musicais embalavam as nossas festas -- como a Banda de Pau e Corda, muito conhecida na época-ou o Aratanha Azul, Ave Sangria, de entre outros e no meio desse caldeirão musical nordestino, duas pessoas começam a se despontar no cenário local: Zé Rocha e Lenine, sim Lenine, 'se hoje grande músico brasileiro. Tocar com Lenine e Zé Rocha era sagrado, toda quinta-feira em Olinda no Cantinho da Sé e ai se juntavam Sérgio Lobo, Caca, Mário Lobo e tantos outros. Teve um dia que tinham mais de 10 violões e foi uma noite de grande e rara beleza musical. Em outra noite, Wagner Tiso, Ivan Lins ficavam com a gente depois de terem dado seus shows por a cidade. Tocar violão e conhecer música passou a ser, para mim, a maior das paixões nos anos 70 e 80 e com 'sa paixão carreguei na mala, junto com meu violão para Campo Grande quando aqui cheguei. A pacata cidade, recém-transformada em capital de um novo e próspero 'tado, 'tava em ebulição musical, com diversos músicos chegando de todos os lados do país e alguns já despontavam. Os Espíndolas e o Grupo Acaba eram os mais conhecidos mas havia no Bar da Tia, sempre aos domingos a tarde, um encontro que reunia Zé Pretinho, Paulinho, Almir Sater, Claúdio Prates, entre tantos e de ele música até a noite ficar calma. Lá 'tava sempre ouvindo atentamente aqueles novos ritmos musicais, tipicamente regionais, levadas e batidas diferentes e a música Trem do Pantanal sempre arrancava aplausos de todos. Em março de 1980, passei a freqüentar um local inusitado: a Panificadora Carícia, onde tocava Willian Portella em seu piano, o homem orquestra. Era sempre ao cair da tarde onde rolavam as polcas e com muito sucesso, a Mercedita. Poucas semanas depois o Reinaldo, que era sócio do Iram Sardinha na Matriz Propaganda, abriu o Café Socaite, uns poucos metros abaixo na Rua 13 de Maio e lá funcionava um local primoroso, com bar, café, lanches, etc e tudo quanto era equipamento musical e quem quisesse começava sua canja. Todos os músicos, poetas, artistas e compositores baixavam por lá e eram noites de muita alegria e uma das mais vibrantes foi quando Almir Sater levou uma fita cassete com as músicas de seu primeiro disco. O Café Socaite me fazia sair de casa, na Cabreúva em noites de chuva e calor, frias ou normais, para me juntar aquele grupo de pessoas que passei a gozar da amizade de vários de eles até os dias de hoje e com eles passei a admirar a música de Mato Grosso do Sul que considero, hoje, uma das cinco melhores do país. Aqui em Mato Grosso do Sul 'tamos produzindo o que há de melhor na música brasileira há anos. Mas voltando ao Café Socaite, como tudo aqui que abre fecha muito rápido, com a novidade, veio o Bar Caras e Bocas, na 'quina das ruas 15 de Novembro com a Rui Barbosa e 'se novo ponto, trouxe a novidade da música ao vivo e do cinema, em pequenas apresentações, quase um Cine Clube. Em aquele bar, a cidade 'tava em ebulição cultural e musical e abrigava músicos que vinham dar shows na cidade, como Tim Maia, Fagner, de entre outros que me lembro que por lá passaram para dar uma palhinha. Isso era em 1980, quando a cidade ainda não tinha seu shopping center, apenas duas trasmissoras de TV -- a Globo e o SBT, uma rádio FM, a Canarinho e ums 300 mil habitantes residentes mais um monte de gente chegando para trabalhar. A música em Mato Grosso do Sul sempre me atraiu, por a sua qualidade e musicalidade. Seus músicos, com os destaques conhecidos, 'tão despontando em nivel nacional, pois a 'cola local é muito boa. Viva a música de Mato Grosso do Sul. Semana que vem volto. Número de frases: 26 Em tempos de globalização, neoliberalismo, mundialização, modernidade e pós-modernidade, as rotinas da vida cotidiana constituem um desafio para a religião. Este novo momento histórico desafia as formas religiosas diversificadas. A religião, como um dos elementos centrais do campo simbólico da sociedade, não 'capa a 'sa dinâmica cultural em que a sociedade 'tá envolvida, na qual o heterogêneo e o diverso contrapõem-se ao monolítico e ao homogêneo; o concreto, 'pecífico e particular ao abstrato, geral e universal. Em 'sa nova sociedade, a religião também muda, ela se desterritorializa, depende das forças mercantis da oferta e da procura; ela passa a ser orientada a adaptar-se a situações inusitadas e a novas demandas. Reage às suas concorrentes lançando mão da propaganda e dos meios eletrônicos de comunicação, simplificando sua linguagem em função de um limitado número de «produtos» religiosos. Uma das coisas mais surpreendentes em 'sa nova dinâmica da religião é a facilidade que qualquer um tem de mudar de uma para outra sem problemas de consciência e de constrangimento. Estamos na era da religião do mercado sem fronteiras; ela se 'palha e se fragmenta, não se sabe mais de onde veio; refaz-se a cada demanda; avança nos 'paços e lança-se no mercado. A religião explode, se pluraliza, e por isso se sujeita à lei da concorrência; como mercadoria, é vendida a um conjunto de «clientes» que não se sentem mais obrigados a consumi-la. Somos um país onde novas religiões e filosofias de vida despontam, transformando o Brasil num país mais tolerante e cada vez mais desenraizado em matéria religiosa e em termos culturais. Nunca as religiões foram tão livres para se instituírem, para concorrerem entre si e se multiplicarem. Vive-se uma livre concorrência entre os mais diversos tipos de organização religiosa (igrejas, seitas, cultos, centros, terreiros, ordens, denominações, comunidades, casas, redes, movimentos), as quais dialogam criticamente com a religião católica, ainda hegemônica no país. O pluralismo religioso possibilita que o mercado concorrencial seja abastecido com uma variedade de ofertas religiosas (terapia corporal, mental e afetiva; cultos de reposição de energia; crença no poder dos cristais e de tantas outras formas de 'piritualidades ou de manipulação de forças e energias), onde o melhor produto é aquele que cada adepto elege e consome como tal. A pluralização é o rótulo de um tipo de sociedade que possibilitou os limites do desejo de 'colha e de liberdade de preferências. Em o Brasil, aproximadamente um quarto da população adulta já teve a experiência do sentido da conversão e da adesão a uma outra religião, diferente daquela que herdou de seus pais. A religião passa a interessar somente no sentido de seu alcance individual; aos poucos ela vai se reterritorializando na 'fera do indivíduo e deste para a dinâmica das relações de consumo, vendo-se obrigada, agora, a ser regulada por as regras do mercado. A sociedade passa a recorrer à religião apenas festivamente, tendo em vista o aparecimento de formas religiosas que se apresentam como 'petáculo. Aquela religião que era fonte de transcendência perdeu seu sentido; Número de frases: 26 um outro tipo de religião que 'tá preocupada com causas localizadas, reparos 'pecíficos, portanto, adquire expressão e relevância nos tempos atuais. Em tempos de globalização, fala-se muita na mistura de elementos culturais, manifestações de caráter regional em fusão com culturas e sons mais contemporâneos dando origem a uma infinidade de experimentos artísticos de grande teor cultural. Porém, na cidade de Ouricuri, interior pernambucano, vive-se uma dança tradicional de maneira bastante peculiar, é A Dança de São Gonçalo, manifestação bastante apreciada em algumas cidade do Nordeste Brasileiro. A Dança de São Gonçalo tem origem européia, mais precisamente em Portugal. São Gonçalo teria sido um Frade português de uma região de grande prostituição, após passar um tempo de sua vida refletindo, descobriu que a melhor maneira de converter fiéis seria com o contato comunitário. Assim, começou a organizar bailes públicos com danças para que as pessoas da cidade se mantessem longe das «tentações» do mundo. São Gonçalo é conhecido como santo casamenteiro das moças velhas e desenganadas, leva também a fama de santo alegre, farrista e violeiro, sendo inclusive o padroeiro desse tipo de músico. Sobre a batuta do mestre de são Gonçalo «Seu Leônidas», Ouricuri se 'tabelece inclusive com um grupo de São Gonçalo formado em sua maioria por senhoras e senhores do município. A Dança São Gonçalo desenvolvido em Ouricuri é bem simples, Cuias, violão, pandeiro e ganzá formam a bateria que acompanha a música basicamente composta por loas que são ditas por o mestre e acompanhadas por todos os participantes da dança. É interessante a forma de apresentação da dança, O São Gonçalo possui um caráter bem comunitário, nas «rodas», todos podem participar, dança simples em que acompanhá-la significa resgatar uma cultura um tanto 'quecida do nosso Nordeste, celebrar o santo protetor e vivenciar uma manifestação interessante e peculiar. Número de frases: 10 poucos ... poucos ... Em maio de 2006, o Centro Cultural Casa África realizou no Centro Cultural da UFMG a 2ª edição da Semana Cultural do Senegal, que homenageou o poeta-'tadista senegalês Léopold Sédar Senghor. Dentro do evento, coordenei junto com o doutor senegalês amadou Abdoulaye Diop o seminário " Senghor+ Pensamentos e Movimentos da Afro-diáspora removeme. Para substituir o senegalês Ousmane Sane, acabei 'calado na mesa que discutiu a vida e obra de Senghor. De bate-pronto, na minha pressa de herança armenguêra, numa tarde conturbada eu lancei no papel as idéias e letras do texto abaixo, que tratam da apropriação das artes negras para visibilizar as civilizações do mundo negro e um pouco do feito do 'critor e pensador da negritude no Brasil, Abdias do Nascimento. O que apresentei na mesa do seminário, agora jogo aqui pra vocês, camarás. Afoxé! A vida de Léopold Sédar Senghor pode ser traduzida em dois eixos: o do homem público e político e o do poeta-pensador. No entanto, o laço que liga as duas trajetórias em Senghor é a Negritude, corrente de pensamento que busca reafirmar os valores das civilizações de origem negro-africanas. Mas é preciso compreender que a Negritude senghoriana, além de movimento poético e artístico, significa também um instrumento sócio-econômico e cultural para lutar contra um supremacismo branco, a exploração do colonialismo, do imperialismo e do racismo. A o contrario dos outros continentes, pode-se dizer que em África existe um sentimento para além dos sentimentos nacionais. Seria, assim, um sentimento continental, necessário para que os cidadãos das atuais 52 nações africanas pudessem / possam resistir às mazelas preconceituosas do racismo europeu, sofrido por aqueles que traziam sua diferentes origens reveladas nos traços e na pele. Este «sentimento de africanidade» nada mais é que a própria Negritude, sentida e conservada nas consciências, nas expressões e manifestações culturais e sociais, conceituadas a partir dos anos 30 por o próprio Léopold Senghor, Aimé Cesaire e Leon Damas. No entanto, o que pode ser considerada a grande sacada de Senghor e seus companheiros foi utilizar com inteligência do poder sensibilizador das artes negras enquanto arma na luta para reconhecer a condição humana e promover o respeito aos africanos e seus descendentes, diante de um processo histórico de opressão européia, que ideologicamente 'tereotipava 'tes povos como sendo eles desprovidos de Estado, sem Fé, sem História, sem Filosofia e sem Cultura. A arte negra era para Senghor a lança de combate para sensibilizar e fragilizar o inimigo opressor, o outro -- o branco europeu, para defender o valor das civilizações do mundo negro. Acreditava ele que era preciso «redistorcer» à verdade o pseudo-pensamento eurocentrista, construir uma nova epistemologia de uma cosmovisão africana e afrodescendente em vários âmbitos, seja na política ou nas artes, que expressasse uma voz própria para reconstruir a memória, a soberania e a civilização dos antepassados do velho continente africano. Assim, no ano de 1966, já legitimamente empossado presidente do Senegal independente do domínio francês, Senghor realiza na capital Dacar o que pode ser considerado como uma das suas grandes obras: o 1º Festival Mundial das Artes Negras, que, para a historiografia mundial, deveria ser considerado o primeiro grande reencontro de negros das nações da afro-diáspora após quatro século de tráfico -- ou melhor, do rapto cruel -- dos filhos da Mãe-áfrica que foram obrigados na condição de 'cravos a cruzar o Atlântico e nas Américas foram constituir novos povos. Este primeiro festival teve representações de dezenas de paises em diversas modalidades: música, literatura, poesia, teatro, artes plásticas, a fim de mostrar ao mundo ocidental a imensa produção cultural e intelectual dos povos negros. O Brasil, como segundo maior país de população negra no mundo, teve como representantes em sua delegação um grupo de capoeiristas liderados por o mestre Pastinha, a Estação Primeira de Mangueira, entre outros, e que revelou como líder de 'ta excursão de regresso à terra ancestral o 'critor, artista plástico e ex-senador Abdias do Nascimento, que hoje, na altura dos seus mais de 90 anos de idade, é um dos ícones máximos do reflexo da Negritude no Brasil. Porém, em 'te primeiro festival, o Itamarati excluiu deste importante evento grandes artistas negros brasileiros, a exemplo do ator Grande Otello. Como repúdio ao desrespeito do governo brasileiro, Abdias 'creve ao governo senegalês, à Unesco e à Sociedade Africana de Cultura -- com sede em Paris, então responsáveis por a organização do festival, uma carta de condescendência aos ausentes da maior nação negra das Américas, que desenha em letras a importância do festival enquanto acontecimento e obra viva e humana para todo o mundo da diáspora negra, em que dizia: «Irmãos: A diáspora negra foi o acontecimento mais trágico da história do homem. Fomos arrancados por a violência do coração da África -- de nossos deuses, de nossos costumes, de nossos afetos -- e vimos habitar o Brasil, Cuba, Venezuela, Porto Rico, Haiti, Unidos. A história guarda nossa história em 'ses quatro séculos e, hoje, convocados por o Senegal livre, por nossa Mãe-áfrica libertada, realizamos a ansiada viagem de volta. Desde cidades tentaculares como Nova York ou São Paulo, dos canaviais cubanos, dos bananais da América Central, dos cafezais colombianos, do fundo das minas, dos poços de petrolíferos, das usinas, ou dos mistérios da Bahia e Porto Príncipe, regressamos com nossas lágrimas e nosso riso. Enrijecidos na experiência de sangue, de força, de luta, de sofrimento -- construímos um mundo novo, uma civilização nova, comparecemos a 'se 1º Festival Mundial das Artes Negras para confirmar nossa fidelidade às origens que 'tes quatro séculos de 'cravidão não conseguiram anular. Fomos negros ontem, somos negros hoje, seremos negros amanhã. Nós, os negros brasileiros, artistas, poetas, intelectuais, músicos, nós, os exclusos fisicamente de Dacar, não nos sentimos ausentes. Em cada passo de dança que se executar no Festival, nós também 'taremos dançando. Estaremos presentes em cada palpitação, na poesia e na música que se ouvir. Somos testemunhas oculares, pois nosso rosto 'tá impresso para a eternidade nas máscaras que se exibirão. Somos a Negritude. E Negritude é a própria onipresença para aqueles que a assumem e a amam. Sobre as diferenças de idiomas, acima das distancias territoriais e das nacionalidades, os veios da diáspora, em movimentos concêntricos, se reintegram no grande mar 'curo de 'sa mágica Negritude que nos manteve no 'paço e no tempo unidos e irmãos." Número de frases: 38 Através deste texto de Abdias do Nascimento podemos conhecer um pouco do que foi uma das obras que Léopold Sédar Senghor idealizou para a posteridade da memória das civilizações negras no mundo, e saber o quanto (e como) as autoridades brasileiras da época já (des) tratavam as questões raciais no Brasil, sobretudo as de origem negro-africanas, raízes de grande parte da cultura do Brasil. A partir de 'ta segunda-feira (10), 15 Agentes Jovens da Alegria, que atuam no Hospital da Criança Santo Antonio, em Boa Vista (RR), participam do curso «A Arte de Contar Histórias». Até a próxima quarta-feira (12), os adolescentes aprenderão com o contador de histórias Marcus Vinicius, novas técnicas para atrair a atenção do público e dar emoção às histórias. O curso é uma parceria da Prefeitura com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). «A atualização é necessária para que os jovens desenvolvam suas habilidades artísticas na hora de se expressar, no decorrer de um conto para as crianças internadas no Hospital da Criança», explica a coordenadora do Projeto, Diana Coutinho. Também participam do curso os funcionários municipais do Programa Sentinela e integrantes do Projeto Estagiário Junior. Terapia do Riso -- Em o Hospital da Criança Santo Antonio, a recreação infantil ganha destaque com a Terapia do Riso, promovida por os Agentes Jovens da Alegria. Durante a internação hospitalar, as atividades recreativas ajudam a humanizar o ambiente para que o tratamento não seja traumático para a criança e seus familiares. Utilizando fantoches, roupas de palhaço e música, os agentes proporcionam alegria, humor e diversão aos pequenos pacientes. Em as datas comemorativas, como carnaval e páscoa, eles organizam uma programação 'pecial com confecção de máscaras, adereços e lembrancinhas. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a recreação hospitalar 'tá entre as 40 melhores práticas humanas do mundo. «A brincadeira é fundamental no universo infantil e pode favorecer a recuperação da criança hospitalizada», afirma Diana Coutinho. Ao todo, 25 Agentes jovens, divididos em dois turnos, desempenham atividades de segunda à quinta-feira no Hospital. Uma brinquedoteca também dispõe de brinquedos, televisão e vídeo cassete para as crianças. Segundo Carla Graziele Correia Brazão, 16, que participa do projeto a cerca de 2 anos, mais do que uma ação de solidariedade, a Terapia do Riso é uma lição de vida. «às vezes eu 'tou problemas pessoais, mas penso no meu trabalho e 'queço de toda a tristeza. Quando chego ao hospital e vejo os pais preocupados, eu vejo que posso fazer algo de importante para as outras pessoas, pois todos nós temos problemas», disse. «Eu amo o que faço e faço com muita vontade. Mesmo de férias eu visito todos os dias o Hospital», concluiu. Projeto -- Em Boa Vista, 575 'tudantes de 15 a 17 anos participam do Programa Agente Jovem. Eles ocupam seu tempo livre com atividades úteis à sociedade e são parceiros da Prefeitura em ações desenvolvidas nas áreas de Saúde, Cidadania, Meio Ambiente, Esporte e Lazer e Prevenção ao Abuso e Exploração Sexual. A intenção é resgatar a cidadania e capacitá-los para o ingresso no mercado de trabalho e na participação social junto à comunidade. Utilizando sua própria linguagem, os Agentes transmitem à comunidade noções sobre combate às drogas, gravidez precoce, regras e limites na convivência e outros assuntos. Junto com agentes de saúde, eles ajudam a conscientizar a população sobre a importância da higiene no combate às doenças infecto-parasitárias. Em o trânsito, atuam nas blitze educativas com os agentes do Departamento Municipal de Trânsito. Para que continuem na 'cola, os jovens recebem bolsa incentivo de R$ 100 mensais, sendo R$ 65,00 do Governo Federal e R$ 35,00 da Prefeitura. Os Agentes atuam nos seguintes bairros: União, Pintolândia, Jardim Equatorial, Caranã, Calungá, Santa Tereza, Asa Branca, 13 de Setembro, Alvorada, Bela Vista, Buritis, Cauamé, Jardim Primavera, Nova Canaã, Nova Cidade, Raiar do Sol, Senador Hélio Campos, Dr. Silvio Botelho, Santa Luzia e Tancredo Neves. Número de frases: 28 Início de madrugada. Entrei no banheio, o mundo me comia, minha mente se auto-destroia. Estava cego, enxergando nitidamente meu objetivo. Sentei-me no chão, com a cabeça encostada na parede. O azulejo frio me acalmava, entretanto fazia grande pressão contra ele para a calmaria passar. Vinte comprimidos dentro da caixa de calmantes. Tomei um por um. Aflito, 'perava o efeito. O tempo passou. Então do nada, senti uma moleza, junto com um mal-estar. Estava na hora de entrar em ação. Botei minha mão no bolso. Não achei nada. Em o outro, peguei meu 'tilete. Era agora, agora ou nunca. Meu pulso latejava, assutado, sabendo da dor que enfrentaria. Minha cabeçava viajava ... Dor? Esse não era o problema. Objetivo? Evidente, a morte. Medo? O sucesso ou o fracasso. A lâmina tocou minha pele, fazendo um leve corte, mas já corria um pouco de sangue. O movimento foi constante, e o corte ficando cada vez mais fundo. O sangue já abundava. O chão, de azulejo branco, se tornou vermelho. Minha visão turva, aos poucos se apagou. A dor era menor que parecia, eu sentado no chão, todo ensanguentado, nunca me senti tão bem. Os tempos de 'curidão me fizeram passar por uma auto-avalia ção da vida. Os resultados não foram bons. Nunca realizei nada de importante, e acredito que não realizarei. Nunca quis tanto ver a tal luz. O tempo, para mim, passou num instânte, porém o sol já era forte. O banheiro cheirava a morte, e eu 'tava vivo. O sangue formava um rio vermelho a minha volta. Meus pulsos e minha cabeça latejavam. Estava triste, 'tava vivo. Os anos passaram, e só a lembrança e cicatrizes desse dia ficaram. Coisas boas vieram, e passaram. A felicidade longe de ser encontrada, todavia agradeço por 'tar vivo. Número de frases: 39 Pois sei que vivo eu posso morrer. O Pátio do Rock 2007 'tá com inscrições abertas até o dia 24 de setembro. Há quatro anos, 'te concurso de bandas pernambucanas objetiva dar 'paço para bandas iniciantes, principalmente as que 'tão no ponto para tocar um palco médio. A promoção é da Prefeitura do Recife, através da Gerência do Espaço Cultural Pátio de São Pedro. O evento faz parte da proposta da prefeitura em tornar o Pátio de São Pedro um celeiro de várias culturas, a exemplo dos consolidados projetos semanais e gratuitos como a Terça Negra, Dançando no Pátio, e Sábado Mangue, e anuais como o Recife Jazz Festival. A seleção para o Pátio do Rock será feita por cinco jornalistas que cobrem a cena musical da cidade. O resultado sai dia 5 de novembro. As 16 bandas selecionadas, mais quatro grupos-âncora (convidados 'peciais) se apresentarão nas noites de 22, 23, 24 e 25 de novembro. Assim como o Microfonia (que seleciona uma banda todo ano para o Abril Para o Rock), Parcitipar do Pátio do Rock pode ser o empurrão que falta na carreira de uma banda, que tocará num palco com boas condições de 'trutura e técnica, para um público maior do que o de costume, com visibilidade na imprensa local, e ainda por cima, um pagamento de R$ 300 (não é cachê, mas uma ajuda de custo pra facilitar nas despesas de transporte e alimentação dos selecionados). Podem concorrer bandas de rock de qualquer vertente. A classificação, no entanto, ficará distribuída em três inevitáveis rótulos: punk / hardcore, heavy metal ou pop / rock. Grupos que foram selecionados em edições anteriores não poderão participar novamente, a não ser se forem convidados por o evento como grupo-âncora. Este ano as regras para inscrição mudaram um pouco, e as bandas que quiserem participar precisam atentar para a nova forma de enviar material. Os candidatos devem entregar no Espaço Cultural Pátio de São Pedro (Casa 04 -- a primeira do lado 'querdo de quem olha para o palco, de costas para a igreja), das 8h às 14h, um único CD contendo cinco músicas de autoria própria em formato mp3 (gravação com pelo menos 128 kbps e 44.100 Hz de qualidade), release da banda em formato.doc, além de identificação com telefones para contato. Quem mora no interior do 'tado, pode se inscrever via Correios. É importante ler o regulamento completo, disponível no site da prefeitura. O único ponto polêmico do regulamento, como é possível acompanhar no site Recife Rock!, é a obrigatoriedade da apresentação de registro na Ordem dos Músicos Pernambucanos. Vale a discussão. Fica na expectativa a possibilidade de um CD com as bandas 'colhidas ser lançado no evento do ano que vem. Seria um grande avanço para a maturidade do festival. Número de frases: 22 Afinal, o rock pernambucano não precisa provar mais nada para ninguém, mas bem que agradeceria a iniciativas como 'sa. São duas da tarde de uma quarta-feira de setembro. Em a janela da van, os pés calçam All Star, o modelo tradicional, preto com bico e cadarços brancos. Dois pares que se desprendem da mesma perna. Pés unidimensionais, fixos no 'paço e no tempo. O cobrador dá informações, diz que os folhetos 'tão com o motorista. Mangas arregaçadas, barba por fazer, o motorista, homem de meia-idade, buzina para um carro que manobra na entrada do 'tacionamento de um hospital particular, na avenida Pontes Vieira. A despeito de qualquer problema no trânsito da cidade, a foto com jeitão de cartaz convida: A os Extremos. «O cotidiano 'tá cheio de brechas», assegura Gina. Ela tem cabelos longos e vermelhos. E cuida dos pés. Quinta-feira, nove da manhã: novos extremos. Como numa prece, as quatro mãos encontram-se postas. O toque entre elas é suave, lembra algo sagrado, ritualístico. São diferentes das mãos que giram a torneira amarela, também 'tampada em foto -- uma torneira amarela é tão incomum quanto dois ou mais pares de pés e mãos siameses ou fotos afixadas em janelas. «Buscamos encontrar os pontos de ruptura do cotidiano dos passageiros sem agredir. Encontramos o não óbvio com bastante harmonia através da manipulação», 'creve Wilton. Ele cuida das mãos; brinca com 'pelhos. Estes, em 'pecial, chamam a atenção. São pés femininos, têm um belíssimo desenho, os dedos alongados, o peito curvilíneo, as unhas bem aparadas. O direito descansa numa bacia de alumínio contendo um pouco d' água e algumas pétalas vermelhas. Era sexta-feira, entre uma e cinco da tarde. «O nome da exposição é A os Extremos porque retratamos pés e mãos, as extremidades do corpo», diz Gina, didática. Três dias depois. Os demais parecem cochilar. O interior da van 'tá livre, só cinco ou seis passageiros a bordo, nenhum dos quais particularmente interessado em qualquer coisa além dos próprios extremos. De repente um olhar. Livre, pousa rapidamente sobre os pares de tênis. Em seguida, atravessa a janela e se fixa no fluxo raso de veículos, mira qualquer coisa perdida na fervura do asfalto e retorna ao interior sem graça. Volta-se novamente aos pés. É bem possível que soubessem, que tivessem percebido os riscos e calculado tudo de modo a, somadas as perdas e danos, nada, ao final, ter realmente alguma importância exagerada além da conferida à própria arte. Há, sim, brechas ou ranhuras ou riscos no metálico da pintura, fendas no calçamento. O olhar -- cativo dos sapatos engraçados, das mãos duplicadas, dos pés embebidos em pétalas -- comprova. «Poderíamos também relacionar 'se termo, ' extremo ', à maneira por a qual decidimos expor, saindo do âmbito de arte de galeria pra irmos para arte de rua», complementa Wilton. Extremados ... Gina Emanuela captura imagens e as reflete sobre alguma superfície. É 'tudante do curso de 'pecialização em Teoria da Comunicação e da Imagem, na Federal do Ceará. Wilton Matos fotografa. Além disso, é " compositor, violonista, flautista e pintor das minhas blusas." Ambos integram o projeto de inclusão visual Gota de Luz. Eles são os autores das vinte fotos 'palhadas numa das mais frenéticas linhas de transporte alternativo de Fortaleza: a de número 55. O Espaço ... A linha 'colhida cinde Fortaleza em duas e leva pelo menos uma hora e vinte minutos para ir de um limite a outro, percorrendo uma boa distância através de algumas das vias mais movimentadas da cidade. Ao longo do trajeto, pesca usuários que foram a) às compras, b) ao trabalho ou c) à 'cola / universidade. Além de d) eventuais assaltantes. A 55 se notabilizou por transportar um contingente formado quase sempre por 'tudantes, universitários ou não, e por transformar cada viagem numa aula prática sobre Movimento Uniformemente Variado (MUV), coeficiente de atrito, termologia, queda livre, lançamento horizontal, força gravitacional etc.. A ela foram dedicadas algumas comunidades no Orkut e um programa de rádio, produzido por alunos de jornalismo da UFC e levado ao ar com grande sucesso. Em tom de pastiche, os 'tudantes dramatizaram algumas das situações mais comuns na rotina de quem depende dos ônibus e vans. «Pés E Mãos Expostos ... «A idéia surgiu do Wilton. Ele observou que eu tinha uma tendência para fotografar pés, passou a fotografar mãos e sugeriu que fizéssemos uma exposição sobre o tema», explica Gina. Embora somente agora, por razões 'tritamente técnicas, a reportagem tenha podido vir à luz, a exposição, que teve início no longínquo 6 de agosto, se encerrou em 9 de setembro. As fotografias, entretanto, ainda podem ser conferidas no site www.aosextremos.nafoto.net. A questão, portanto, é mais ou menos 'ta: existe ruptura, quebra, susto possíveis? A dupla garante que sim: no meio de tanta correria, quando todos se vêem sobraçando informação, o que vale é a busca. Que pode ser do inusitado, inusual -- algo que, ao valer-se das tais «brechas no cotidiano», faça sentir e pensar. «Quando decidimos expor nas topics, não alimentei nenhuma expectativa. Estava, primeiro, atendendo uma necessidade interior. Mas das vezes que peguei a topic notei que algumas pessoas nem reparavam na foto e outras já 'tavam inteiradas e acompanhavam a exposição. Paguei pra ver o 8 e o 80. Acabei levando o 76, 43, 21 ...», conta Wilton. Pagou para ver os extremos; deparou-se, surpreso, com os intermediários. Manipulação digital, alteração das cores naturais e 'pelhamento foram as técnicas utilizadas no tratamento das imagens. A o final, obteve-se a desregulamentação do real. O desatino. «O cotidiano é uma tentativa de normatização do imprevisível, uma construção que denuncia nossa necessidade de controle sobre as coisas do mundo», teoriza Gina. «Mas torna-se uma abstração, porque não há como um dia ser igual ao outro. Número de frases: 73 Podem ser similares porque têm certas diretrizes básicas, mas igual, não, e é aí que se encontram as brechas." Cercado por grande expectativa e ansiedade, a apresentação da banda americana Slayer, em São Paulo, deixou satisfeitos os milhares de fãs que lotaram a Via Funchal na sexta e sábado passados (dias 1o e 2/09). Dois motivos principais motivavam tais sentimentos: o grupo veio ao Brasil com sua formação original, que conta com a volta do 'tupendo baterista Dave Lombardo. O segundo motivo certamente decorre do primeiro, o quarteto lançou recentemente um dos melhores álbuns da sua carreira, o polêmico Christ Illusion (a capa do referido retrata um Cristo dentro de um rio de sangue e com os braços mutilados). Trecho do show Em o show do sábado, o Slayer recheou seu repertório com inúmeros «sucessos» cantados (melhor seria dizer, gritados) por a ensadecida platéia. Fotos da apresentação Pedradas como " Die By The Sword, do álbum de 'tréia Show no Mercy (1983) "; «Chemical Warfare, do EP Haunting The Chapel (1984) "; «Hell Awaits e» «At Dawn They Sleep», do Hell Awaits (1985); «Angel Of Death», «Postmortem e» Raining Blood», do Reign In Blood (1986); «South Of Heaven «e» Mandatory Suicide», do South of Heaven (1988); «Seasons In The Abyss, do disco homônimo (1990)». A nova «Cult» já foi alçada a categoria de hit por os admiradores do conjunto. O cenário era super simples, apenas a capa do Christ Illusion como pano de fundo e muitas luzes vermelhas para potencializar o clima «from hell» do concerto. Entre uma música e outra, os músicos davam uma 'tratégica pausa para tomar um ar e molhar a garganta. Uma curiosidade, parte da bateria de Lombardo não chegou a tempo em São Paulo. Resultado, o rapaz tocou com dois bumbos emprestados do batera da banda paulista Korzus, Ricardo Oliveira. Quem deve ter ficado muito feliz com a situação foram os fabricantes da Bauer Percussion, instrumento Made in Brazil. Abaixo, quatro razões para o Slayer ser considerada uma das bandas mais Rooooooooock na atualidade: É Roock -- Dificilmente você vai ouvir alguma música dos caras tocar em rádios «normais» e na MTV mas, mesmo assim, a banda mantém um público fidelíssimo em todo o mundo É Rooooooock -- Eles não 'tão na moda, não são padrão de beleza e não andam com modelos famosas É Roooooooooooooock -- Faça um teste com sua avó de 70 anos, super católica e que odeeeia rock ´ n ´ roll. Pegue alguns CDs de novas bandas apontadas como «fenômenos» ou «salvação do rock» por o «hype» e alguns do Slayer; mostre o som e as capas para ela e faça a seguinte pergunta: -- Vozinha querida do meu coração, se no mundo só existisse a música rock qual de 'sas bandas a senhora não ouviria nem por indicação do Anjo Gabriel? É 'tupidamente Rooooooooooooock -- Em a atual era Bush e pós-atentados de 11 setembro, os Estados Unidos vivem sob uma assustadora onda de fundamentalismo cristão, conservadorismo, criação de leis segregacionistas e aumento do ódio contra descendentes e imigrantes latinos. Mesmo em 'se contexto, os hereges do Slayer fazem a desfeita de cantar blasfêmias contra o cristianismo e de ter em sua formação dois músicos de origem latina: o chileno Tom Araya, baixo e vocal, e o cubano Dave Lombardo. O inferno branco, anglo-saxônico e republicano os 'pera! Ad Luna (adluna@showlivre.com) é baterista das bandas Monjolo (PE / SP), Thesurfmotherfuckers (MG) jornalista (editor-adjunto do Showlivre. com) e, às vezes, produtor cultural. «Fazendo de tudo pra não virar caixa do Bradesco». BLOG: Número de frases: 33 http://interdependencia.blogspot.com «As pessoas saem com um sorriso largo e um brilho intenso nos olhos, as crianças adoram Clarice» -- diz a Técnica de Museu, Arleide, 45 anos. A exposição -- A Hora da Estrela -- Sobre Clarice Lispector 'tá trazendo suspiros até nas crianças, que passam por o museu da língua portuguesa, localizado no centro da capital paulistana. A mostra que fica até o mês de setembro, trás diversas atrações e fatos instigantes, que cativam o público a ingressar na vida e literatura de um 'tilo tão pessoal como a de Clarice Lispector. Nascida na pequena cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro a menina Haia Lispector ainda com dois meses de vida vem com sua família e desembarca no Brasil. O amor, que ao longo dos anos aprendeu a ter por a língua portuguesa faz com que Clarice se sentisse mais brasileira do que muitos nascidos por terras tupiniquins, porém por muito tempo a 'critora teve o pudor de se permitir 'trangeira, mesmo já a própria massa de leitores ter lhe concedido por direito sua identidade brasileira. «Amo a língua portuguesa. ( ...) Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida " -- trecho do livro A Descoberta do Mundo, que 'tá na mostra. Logo ao entrar no primeiro andar você se depara com imensas telas com o rosto da Escritora em branco e preto, atrás das imagens do seu rosto, frases celebres e intensas de alguns dos seus livros. As pessoas entram, olham para cima e ficam de boca aberta até se deparar com a outra sala. As 'tudantes Eliane, 22 anos e Tamires de 19, ficam entusiasmadas -- «Ela é muito linda, não conhecia ela, agora vou ler todos seus livros» -- comenta as jovens com olhares hipnotizados por as telas. Em uma boa técnica usada por a produção da mostra, uma sala totalmente branca com uma cama no centro surge em contradição a sala 'cura, a inicial. As paredes marcadas em gravura com frases fortes dão o aspecto mais que claro da entrega de Clarice para a literatura. Um mundo branco e preto é colocado à prova por os curadores, talvez para habituar os visitantes e entre um jogo de luz e uma sala 'cura, as frases da indagadora e também jornalista -- " Não, não 'tou falando em procurar 'crever bem: isso vem por si mesmo. Estou falando em procurar em si próprio a nebulosa que aos poucos se condensa, aos poucos se concretiza, aos poucos sobe à tona -- até vir como um parto a primeira que a exprima». A coordenação geral da mostra ficou com Júlia Peregrino a curadoria foi por conta de Júlia e o Poeta, Ferreira Gullar. A maioria das fotografias é do acervo Clarice Lispector e Fundação Casa Rui Barbosa. Os documentos exibidos pertencem a Paulo Gurgel Valente e 'tão sob a guarda da Fundação Casa Rui Barbosa. Outra que ficou encantada foi a Estudante e Secretária, Rosimeire Domingues, 38 anos. Fã de carteirinha seu olhar deixa evidente, que é apaixonada por as linhas 'critas por Clarice Lispector, ela diz que tem «Clarice como inspiração de gaveta» -- logo a seguir percebe outro cômodo da exposição idealiozado só por gavetas com objetos pessoais da 'critora, numa inspiração solta um grito, «que lindo» -- já inquieta a secretaria. Está terceira sala traduz bem os caminhos que a também jornalista percorreu em vida. «São duas (2000) mil gavetas e (65) de elas abrem trazendo um pouco da vida da 'critora, com 'critas de Lispector, reportagens, documentos oficiais» -- explica um dos monitores do museu. Ao fundo se ouve uma voz alta com um leve sotaque, claro um sotaque inigualável! Clarice em sua última reportagem, para a TV Cultura. A entrevista só pode ser passada após sua morte, foi um pedido da 'critora. Entre tantas gavetas, um telão, um sofá. Em o braço do sofá uma maquina de 'crever antiga, quase intocável e despercebida por o público fazia a decoração do 'paço. As pessoas assistiam a reportagem como se aquela exclusiva maquina não tivesse percorrido por os dedos e colo de Clarice e acabava passando desapercebida por muitos. Os olhos arregalados por curiosidade no inicio da mostra, agora trazem olhos maravilhados, entusiasmados com tanta graça acolhida, mesmo no fim uma última olhada para trás e uma breve lembrança, dos poucos passos dados, porém as várias emoções vividas, por frases, pensamentos e lembrança sobre " Clarice Lispector. «Oh Deus, que faço de 'ta felicidade ao meu redor que é eterna, eterna, e que passará daqui a um instante porque o corpo só nos ensina a ser mortal?" -- «Clarice Lispector. Número de frases: 32 «Você é quem?" «Hã?"» Você é quem?" «Ah tá ... er ... meu nome é Vladimir Cunha, eu sou colaborador do site Overmun ..." Plaft! O segurança fecha a porta na minha cara numa atitude descrita por o Gordinho, que foi com mim à coletiva no Hilton Hotel buscar as credenciais para o show da Banda Calypso, como " boçalidade profissional». Diz ele que é o cara que viu muito Nova Iorque Sitiada ou Em a Linha de Fogo, aquele filme no qual o Clint Eastwood é segurança do presidente dos Estados Unidos, e 'perou durante a vida toda a oportunidade de ser fodão com um mané qualquer. Em 'se caso, eu. Bato mais uma vez na porta. O segurança põe a cara pra fora e fecha de novo. Em seguida, abre novamente e diz para eu 'perar. São pelo menos uns 10 minutos até que a assessora de imprensa apareça e me convide para entrar. Nesse meio tempo, eu e Gordinho observamos o vai e vem de membros da equipe de apoio da Calypso, todos de uniforme preto e walkie-talkie pendurado na cintura. Nada mal para uma banda que há uns cinco anos me deu uma entrevista num camarote minúsculo e calorento da casa de shows Apororoka, onde mal cabia o grupo e os seus bailarinos. Em aquela época eu trabalhava como freelancer para a revista Bizz numa matéria sobre a cena brega-pop de Belém. Um tempo em que Banda Calypso era apenas mais uma das centenas de grupos que ralavam na noite da cidade. E Chimbinha, um guitarrista genial e inovador que já havia gravado mais de mil discos como músico de 'túdio. «Cara 'tar aqui hoje é como 'tar no camarote Vip dos Rolling Stones em Copacabana», diz mais tarde o meu chapa Randy Rodrigues, produtor das festas quinzenais da Dançum se Rasgum Produciones que convidei para ir com mim ao show gratuito que a Banda Calypso faria em Belém no último dia 23 de fevereiro. Foram dois quilômetros a pé do ponto onde descemos até o camarote Vip, onde poderíamos assistir a banda com direito a bebida e comida de graça e uns pufes para relaxar enquanto o show não começava. Uma vez lá dentro, tratamos de atacar as latinhas de cerveja e a tábua de frios enquanto um grupo bastante chato fazia o show de abertura. Uma 'pécie de Timbalada com um vocalista furreca, que só ganhou aplausos da massa quando anunciou a sua última música. Eu não sei se foi a música ou o excesso de cerveja, mas o fato é que 'tava começando a ficar enjoado daquela batucada toda e traçava na mente um plano de fuga para sair de ali o mais rápido possível caso a Banda Calypso demorasse para começar o show. Não foi preciso. A banda toca mais uma música, as cortinas do palco se fecham e um comercial de moto aparece no telão ao som de um poderoso drum ' n ' bass. Não entendi nada, mas a impressão que deu é que a empresa que fabrica a moto era a patrocinadora do show. Quer dizer, eu acho. Em seguida, as cortinas se abrem, Chimbinha aparece no palco, Joelma entra saudando o público e a banda ataca um brega-pop que leva a multidão a erguer os braços para cima e cantar tão alto que mal posso ouvir a voz da cantora. A última vez que vi algo assim foi no Rock In Rio II em 1991, quando o Guns ' n ' Roses tocou Sweet Child O'Mine, levada por um Axl Rose 'premido numa bermudinha de lycra com a bandeira dos Estados Unidos 'tampada. Eu, que naquela época era meio cafona e usava um lenço vermelho na cabeça combinando com uma camisa da Anonimato cheia de caveiras 'tampadas, fui na onda e cantei junto até perder a voz. Shame on me, shame on me ... Impossível dizer que músicas a Banda Calypso tocou. Até porque eu não sei o nome de nenhuma. O que importa é que a Avenida Pedro Miranda virou um imenso salão de baile brega-pop, o terreirão suburbano que eu sempre sonhei em ver acontecer um dia. Foram cinco, seis, sete músicas tocadas uma atrás da outra, sem pausa, sem discursos e sem firulas. Todos os sucessos da banda enfileirados, dispostos 'pertamente para levar a multidão ao delírio. É quando percebo que, de fato, a Banda Calypso se transformou num fenômeno pop. As subidas de ritmo para fazer o povo pular, Joelma apontando o microfone para o público e instigando a multidão a cantar os refrões, os solos de Chimbinha na hora certa, as luzes, as pausas ... truques pop da melhor qualidade que vemos em maior ou menor grau em todos os bons shows ao redor do mundo. Em os Stones em Copacana, no U2 em São Paulo ... com a vantagem que Chimbinha toca melhor e tem uns 90 anos a menos que Keith Richards e Joelma é uma vocalista bem mais interessante do que Bono Vox, o Luciano Huck do pop. Pausa para o prefeito Duciomar Costa entrar no palco e levar a maior vaia que já vi na vida. As sabe-se lá quantas mil pessoas que entupiam a Avenida Pedro Miranda de ponta à ponta mandando ver enquanto o homem discursava. Como diria «Shaula Vegas,» quis dar o close e levou um ' bú '». Melhor sorte teve o vice-prefeito Manoel Pioneiro, que mandou um abraço para os rapazes, um beijo para as meninas e se pirulitou do palco antes que sobrasse para ele. Para acalmar a multidão, Chimbinha e Joelma voltam com força total e mandam mais uma sessão de Banda Calypso para as massas. A 'sa altura Randy Rodrigues já 'tá totalmente familiarizado com o incrível mundo do jornalismo paraense e comanda um concurso de malabarismo junto com um grupo de assessoras de imprensa, fazendo-as dançar o brega equilibrando uma latinha de cerveja na cabeça. De repente o camarote Vip vira a festa da uva, com o povo pra lá e pra cá equilibrando até não mais poder, pegando banho de cerveja e fazendo a dança da cordinha. Decido que só isso não é o suficiente e chamo umas celebridades locais para se juntar a nós: um cantor de brega meio aloirado, um radialista chatíssimo e um anão ajudante de palco de um programa policial local. Convencê-los a dançar com a lata na cabeça é mais fácil do que parece. Inclusive o anão, que em suas próprias palavras «'tava doido para entrar na onda». «Vlad, 'sa música ... eu tenho certeza que toda vez que a Roberta Miranda ouve ela corre para o banheiro e se corta toda de inveja. O Chimbinha e a Joelma ganharam a mulher no próprio jogo de ela!», diz o jornalista Clemente Schwartz, pra lá de Bagdá, enquanto no palco rola «Maridos e Esposas», um bolerão classe A com uma das melhores letras de corno da história seguido de um medley de carimbó e uma sucessão de covers de lambada, de Beto Barbosa à Banda Warilou, grupo criado por o maestro Manuel Cordeiro que causou furor em Belém nos anos 80. Não dá para discordar da maldade do Clemente. Aliás, a 'sa altura eu já 'tava concordando com qualquer coisa. Se alguém chegasse para mim pedindo apoio para a volta do Afif Domingos era capaz de eu imediatamente puxar um coro com o bordão " juntos chegaremos lá!" e sair fazendo panfletagem por a multidão. Se o José Rainha pintasse por lá botando pilha eu liderava até uma invasão do MST. A situação era tão precária que mesmo eu, que não danço porra nenhuma, arrisquei uns passos de brega, fiz umas coreografias supostamente inspiradas na abertura de Rainha da Sucata e dancei três músicas seguidas sem derrubar a latinha de cerveja que equilibrava na cabeça. Enquanto isso, a Banda Calypso chama Nelsinho Rodrigues e Edílson Moreno e, juntos, transformam o palco montado na Avenida Pedro Miranda num grande show brega-cover, tocando versões para diversos clássicos da música romântica paraense, que o povo na platéia sabe na ponta da língua. Tempo de assistir ao encerramento do show, 'perar a multidão se dispersar, pensando na sagacidade de Chimbinha e Joelma, que transformaram um produto local e segmentado num fenômeno pop sem precedentes na história recente da música brasileira. O que liga na Banda Calypso é saber como eles conseguiram internacionalizar um som que parecia fadado a nascer e morrer em Belém do Pará. Em 'se processo, amadureceram como artistas e se apropriaram de todos os truques pop que foram pilhando por o caminho. Talvez uma herança dos tempos em que Chimbinha era músico de baile na periferia de Belém, onde numa única noite era obrigado tocar de Juca Medalha a Pink Floyd, de Pinduca a Creedence Clearwater Revival, de Dire Straits a Mestre Vieira. É possível que a lição que Chimbinha tenha aprendido é a de que a música para as massas é, antes de mais nada, um produto que se comporta de acordo com regras bastante rígidas de produção e execução. Em termos técnicos, todos os shows pop são iguais, com os mesmos truques, as mesmas luzes para impressionar, os mesmos microfones para a galera cantar junto, as mesmas palmas e as mesmas coreografias. Em o mundo da industria do entretenimento, nas salas de reunião e nos departamentos de marketing das grandes gravadoras, ser Britney Spears, o U2, o Iron Maiden ou os Rolling Stones dá no mesmo. à frente da Banda Calypso, Chimbinha e Joelma parecem ter aprendido as regras do jogo. Número de frases: 74 E enquanto elas continuarem valendo, os dois terão garantido o seu lugar no panteão pop brasileiro dos anos dois mil. A Caixa de Criadores é um Coletivo que surgiu através da reunião de jovens criadores, com o objetivo de difundir informação, cultura, moda e design em Belém do Pará. Uma das várias etapas desse projeto é o lançamento da 1ª edição do Caixa de Criadores, num evento que lançará coleções de 13 'tilistas da nova geração, designers de objetos e acessórios, além de obras de artistas visuais, que serão apresentados e comercializados em eventos itinerantes que acontecerão em vários pontos da cidade. Além disso, projeto busca também 'tabelecer ações paralelas para 'tudantes e outros profissionais do setor promovendo discussão e educação sobre o campo da moda, design, arte e cultura na região, através de palestras, oficinas e workshops criando 'paços para o reconhecimento e crescimento profissionais, importantes para a competitividade e identidade da moda paraense. O Caixa de Criadores é um coletivo que acredita fomentar o mercado local, buscando matéria-prima regional, confecção de embalagens de empresas e parceiros locais, mão-de-obra de comunidades de costureiras capacitadas por o SEBRAE-Pa, criando um produto de moda 100 % paraense e exercendo a cidadania social. Número de frases: 5 Sanfoneiro Cobra Verde e o Grupo Imbu reúnem forró de alta qualidade, poesia aboios e mostram que a música tradicional também se renova Em um passado não muito distante Gileno Mendonça, agricultor de São Domingos (SE) e triângueiro de um trio chamado Os Boêmios do Nordeste, tinha um problema para resolver em casa. Ele havia comprado uma sanfona para seu filho mais velho com um suado dinheiro, mas o instrumento ficou largado num canto. A curiosidade de outro filho, Suenildo Santos Mendoça, trouxe então a solução para o problema. Com 12 anos na época, o garoto decidiu aprender sozinho observando parentes e arriscando algumas notas. Começava assim a história de uma união que dura até hoje: a de Suenildo com a sanfona. Ele herdou não só do pai o gosto por o forró, mas também o apelido artístico: Cobra Verde. O sanfoneiro que em sua trajetória incluía um período no grupo Cabeça de Frade (conhecido por acelerar o forró de vaqueijada no 'tado de Sergipe) durante muito tempo sobreviveu tocando nos 'túdios e fazendo arranjos para diversos cantores e bandas. Reservado, Cobra Verde é conhecido apenas na sua região e no meio dos músicos forrozeiros. Em o final de maio deste ano Cobra Verde juntou sua arte da sanfona com reforços de peso: Genovitor (voz, versos e realejo), Valdilécia (voz), Vanidinho (zabumba) e Soelinton (triângulo). Juntos formaram o grupo de forró Cobra Verde & Imbu. A 'colha do nome foi para remeter ao umbuzeiro que fica verde e cheio de vitalidade o ano todo e mesmo no chão árido produz sempre frutos novos. A idéia de mostrar que o forró de qualidade também pode dar novos e bons frutos, mesmo num chão, por vezes, árido, partiu do documentarista e pesquisador Damien Chemim. Em 2006 e 2007, Damien havia feito gravações com os integrantes que compõem o grupo para os cds «Toques e Vozes Sergipanas» (Vol. 1) e Forró Acústico (Vol. 1 e 2 -- lançados somente na Europa). O grupo já tem show marcado para o dia 28 no " Forró Caju. «A idéia é juntar um pessoal relativamente desconhecido e de alta qualidade para divulgar o trabalho, criando uma 'trutura para permitir isso. Trazer surpresas e coisas originais, além de releituras do forró tradicional, porque é uma geração nova», explica Damien. O documentarista informou ainda que o grupo com o tempo poderá incluir outros talentos. UMBUZEIRO Dentro De o Teatro Estrutura montada, Cobra Verde & Imbu fez sua apresentação de 'tréia no último dia 29 (véspera do aniversário de Cobra Verde) no Espaço Cultural Yázigi. O repertório trilhava nas veredas sonoras de Zé Dantas, Luiz Gonzaga, João do Vale, José Cândido, Trio Nordestino e composições próprias o grupo fez uma bela apresentação para mostrar a que veio. Artegeno dos Santos, o Genovitor, abriu o show com um aboio sem deixar cair o tom. Logo em seguida Cobra Verde fez a sanfona falar quando executou um pot pourri instrumental do sanfoneiro pernambucano Camarão. Seus arranjos próprios e o dedilhar rápido na sanfona deixou muita gente extasiada. Cobra Verde mostrou também um de seus talentos: recriar melodias e reconstruir clássicos do forró. E foi em momentos como quando executou Boiadeiro -- conhecida na voz de Luiz Gonzaga. Entre um acorde e outro. O cantor Genovitor contava, soltava a voz e entoava. «O vaqueiro vê aquela boiada grande. Junta o gado, tira o chapéu, fecha os olhos, busca o pensamento e solta o aboio». E Cobra Verde na sua sanfona imitava o som de uma vaca berrando. Genovitor deixou claro sua destreza como multiartista popular tocou realejo (gaita de boca), fez versos improvisados e mostrou seu talento de transformar toadas em forrós. Natural de Poço Redondo, o cantor trouxe toda a herança de sua família -- os Vito -- conhecida por as rezas, icelenças, novenas, tocar pífanos e cantar coco. A percussão fez a poeira dançar. Em o triângulo o irmão de Cobra Verde, Soeliton, (o mesmo do começo da história que deixou a sanfona de lado) provou que a música faz parte da família. E quem roubou por vários momentos a cena foi o zabumbeiro Vanidinho. Baixo e com um olhar de quem mergulha na sanfona, Vaindinho chegava a pular com a zabumba nas músicas mais animadas e tocava até agachado sem perder a marcação. Destreza de quem já acompanhou sanfoneiros como Pedro Sertanejo (pai de Osvladinho e um dos principais introdutores do forró em São Paulo), Erivaldo de Carira (sanfoneiro e forrzeiro sergipano dos bons) e Dominguinhos ('se dispensa apresentações). Destaque também para o bloco de músicas em que Cobra Verde imitava a sanfona de oito baixos. Uma das músicas de sua autoria -- «Forró de Cobra Verde» -- carimbou ainda mais a sua destreza e talento únicos. URICURI Os momentos mais introspectivos foram os da entrada das vozes femininas. Tanto na participação da bela voz da 'posa de Cobra Verde, Alessandra, quanto da cantora do grupo, Valdilécia, de apenas 19 anos. Essa, filha de assentados e também de Poço Redondo, cantou com a sensibilidade de quem conhece e é apaixonada por a terra de onde vive. Um dos melhores momentos da apresentação foi quando a cantora interpretou Uricuri (Segredos do Sertanejo -- de José Cândido e João do Vale). A música que começa lenta e introspectiva, depois acelera e vira um belo xote. «Caatingueira fulora vai chover / Andorinha voou vai ter verão / Gavião se cantar é 'tiada / Vai ter boa safra no sertão». Em 'se momento e em outros da apresentação, o sertão e agreste sergipanos eram transportados para dentro do teatro. Em a platéia, com olhar orgulhoso na afilhada Valdilécia, a percussionista Guê Oliveira assistia, atenta. Guê que já gravou com a Orquestra de Violeiros e realiza um trabalho com Coral das Lavanderas de Almenara, do Vale do Jequitinhonha (MG) resumiu bem a apresentação. «Quebrou a concepção da cultura enquanto 'petáculo. Ali as pessoas cantaram e tocaram o que faz parte da vida de elas, do cotidiano. Desde a timidez de Cobra Verde que demonstra um povo que guarda muita riqueza dentro de si à alegria do zabumbeiro e do Genovitor e à doçura e força de Valdilécia. Aquela noite trouxe um pouco do que é o sertão». Valdilécia lembrou da noite como um momento 'pecial. «Porque nós não 'távamos só cantando, mas trazendo um pouco da cultura popular. A juventude não sabe mais o que é isso porque os velhos que fazem 'ta cultura 'tão morrendo. Você tem que cantar e saber o que 'tá cantando. Eu acredito muito que a cultura seja uma das principais ferramentas para uma sociedade mais humana." Cobra Verde que gosta de deixar a sanfona falar por ele e na sua humildade que faz de ele uma artista ainda mais genial também comentou a apresentação. «Foi uma noi miuto legal, né fera?! Muito boa», sorriso discreto e satisfeito. Número de frases: 66 p op sempre fui. a té o tutano dos ossos. n ão no sentido limitador e excludente tal qual lhe rotulam os clássicos ou eruditos, em oposição. m as no que pode-se aplicar de mais virtuoso e intrínseco a suas qualidades. m uito se polemiza (rá) sempre acerca de 'sa discussão, e ela é útil no aprofundamento de diversas questões mais importantes que suscita, mas fútil e supérflua em seu caráter vulgar. a atitude preconceituosa de parcela dos críticos da arte, 'nobando o popismo em contraposição aos preceitos do relativo bom gosto de suas opções 'téticas, só reafirma a presunção de uma classe pretensiosa, desejosa de posicionar-se continuamente como liderança intelectual hegemônica, sobrepujando outras possibilidades criativas. ao longo da história vimos quebrando barreiras, diminuindo o fosso entre as convenções que insistem em distanciar conceitualmente os diferentes modelos existentes e possíveis. n ão é uma questão assim tão simples, ao mesmo tempo sendo. d e modo que, tendo minha música um caráter tão popista, ao decidir apresentar o meu primeiro disco sob o signo dos símbolos ligados naturalmente aos fundamentos da música popular brasileira, aspecto que realço entre as 10 faixas constantes do cedê, ouso dizer que a postura adotada desde o princípio de minha entrada para o time da música ao fazer 21 anos, permaneceu firme e lúcida, sempre tendendo para uma simplificação do simples, sem deixar a conotação pejorativa soar, seja na qualidade ou em quaisquer outros detalhes desse percurso ativo, mesmo quinze anos depois, o que evidência a coerência dos projetos. p ela certa cobrança e necessário processo visando a 'truturação de um repertório coeso, amarrado em seus pontos justamente por traços que incidem sobre o todo, é que nasceu dentro do meu caminho como compositor e cantor uma 'pontânea proximidade entre o rock e a bossa, fruto da década como vocalista dos Quatro (1991/2001), as experiências multiplicadas durante os shows com a orquestra Nó Cego ou a fase atual, marcada por novas incursões, cada vez mais amplas e abrangentes, todas referendadas por a intensidade, a alma de poeta -- para transmitir o que se quer fazer entender, todos elementos indispensáveis ao realce do que apesar de 'truturado num modo mais autônomo e independente também se transmite através de aparatos técnicos sem máxima sofisticação, mas que em conjunto com outras manifestações, e bem por isso, relevantemente aproxima suas particularidades dentro de um mesmo círculo sonoro ... ... d entro de 'sa coisa que é a bossa e sua festa, seu glamour, sua sensualidade, a bossa da bossa, suas figuras, seus mestres, seus artifícios, sua malícia, seu jogo e compasso, maresia boçal, barquinho, rio, vinícius imorais, vícios, praia, pó e areia, garotas de copa, enfim tudo que foi parte da instituição que se liquidifica ali, em 'se ramalhete da chamada mpb. e ntão o meu disco é um reflexo (ou um contra-reflexo) daquela época, outros momentos históricos os quais a bossa nova embalou, refugiada sob a chibata dos ditadores, implicada numa contenção de risco que é 'se banquinho, um violão e uma batidinha, uma abertura cíclica dentro do movimento musical do país, caipirinha -- que ninguém é de ferro, feijoada com rabo de porca, cachaça, mel, mulher, sol ... t udo isso mesmo: moro no brasil tropical, morro e mar, índios, belezas naturais, golpes federais, blagues internacionais. Bossta Nova (Ele ph ante Registros / 2006) é portanto uma provocação saudável à bossa, que no decorrer dos seus 50 anos se materializou como um símbolo da identidade brasileira, povoando suas influências dentro de nossa linguagem musical peculiar, e em outras, revolvendo-se a tear na cultura nacional um quê. e steve presente como afluente da tropicália, e veio sempre com seus casos e seus dramas participando da evolução do cenário artístico da brasilidade, com expressividade. n 'se sentido encontro caminho através de suas sedutoras tentações e flertes com o jéz para instilar um contraponto no seu bom mocismo, carlinhos lyra, os biquínes de ipanema, apartamentos classe média, pianos na sala ... e por outro lado também a ingenuidade dos seus excessos, suas desgraças, seus tropeços, rivalidades, intrigas ... t udo isso confiscado para um terreno que utilizo para a contextualização da existência do meu disco, desafinado, de uma nota só, renunciando ao seu rótulo, numa outra época, com o país em outra inserção, diferente daquele que encontrou na bossa nova a afirmação para declarar-nos para o resto do mundo. e assim já é. [.: x:.] Músicas [.: x:.] Número de frases: 25 Não são poucos os que já desdenham das Cataratas do Niágara, do «Grand Canyon», da Estátua da Liberdade! Com pouco mais de 17 mil habitantes e aproximadamente 77,5 km² de área total, Mendes é um lugar onde, em pleno sábado à tarde, é possível encontrarmos um senhor de cabelos brancos e óculos fundo-de-garrafa, trajando uma camisa vermelha abotoada até o alto do pescoço, cantando bolero para uma praça vazia. Dona do 4º melhor clima do mundo -- como gostam de repetir, com orgulho, os moradores --, é uma daquelas cidades do interior do Rio de Janeiro que não pareceriam deslocadas se fossem cidades do interior de Minas. Roadie do Nando Reis, violeiro, fotógrafo amador, ex-engenheiro de som, ex-produtor e, é claro, ex-guitarrista da Plebe Rude, Jander Ribeiro, um sujeito grande e forte, de fala pausada e barba desgrenhada capaz de fazer inveja em muitos Hermanos, morou aqui por 16 anos. Não mora mais. Depois do término de seu casamento com a «menina mais bonita» citada na letra de «2ª feriado» (do terceiro disco da banda), mudou-se para São Pedro da Serra, em Nova Friburgo, mantendo assim a preferência por locais afastados dos grandes centros urbanos. Suas visitas a Mendes, hoje em dia, restringem-se a ocasiões 'porádicas, como quando vem visitar as filhas Carina e Bianca, de 17 e 13 anos. «Não fui eu quem 'colhi morar em Brasília. Não foi vontade minha». Mineiro de nascimento, Jander, que já havia morado na capital por volta de 1974, mesmo sem querer, voltou à Brasília em 1980, período de efervescência de um cenário punk no país. Tornou-se amigo da «Turma da Colina», da qual faziam parte, entre outros, futuros membros de bandas como Capital Inicial, Legião Urbana e Escola de Escândalo, além de» André Mueller (" a discoteca da turma, o cara que adorava gravar compilações em k7 com umas duas músicas de cada banda e distribuir para os amigos ") Philippe Seabra e Gutje, a já formada Plebe Rude a qual «Ameba» (" isso é apelido de moleque mesmo, sem maiores razões ") veio se juntar, ainda que não soubesse muito bem tocar guitarra." Muita gente olha pra mim e pensa ' 'se cara é o maior roqueiro ', e eu nunca fui roqueiro! Eu nunca tive um disco rock, e muita coisa eu vim a conhecer bem mais tarde, com meu irmão Julian, que é uns 10 anos mais novo que eu. Eu nunca soube tocar guitarra e acabei tocando numa banda punk, já que pra ser punk não precisava saber tocar. Eu era punk não por a música, mas por questões ideológicas», garante. Músicas como «Até Quando Esperar?»,» Proteção», do mini-disco O Concreto Já Rachou (1985) e «Censura», de Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987) tornaram a banda conhecida em todo país. Não repetindo o sucesso dos primeiros discos com Plebe Rude III (1989), repleto de experimentações como a mistura de ritmos regionais em faixas como «Valor» e «Repente», por exemplo, a relação entre os membros da banda se tornou tensa e Jander, já morando em Mendes e tendo sido pai há pouco tempo, acabou» convidado a sair». Pouco depois montou o Tira Saibro, grupo com o qual se apresentou durante 6 anos em bares, comícios e em «onde mais tivesse 'paço», tocando o que pedissem. «Em o nosso primeiro show, em Valença, o cara que contratou teimou que queria ouvir só bossa nova, e foi lá a gente tocar bossa nova a noite inteira». Fez direção de palco para Lulu Santos, trabalhou como roadie para Fernanda Abreu, Engenheiros do Hawaii, Pato Fu e Gabriel, o Pensador. É melhor 'tar à frente de um palco ou nos bastidores? Jander garante que não gostaria de 'tar nem num lugar nem em outro. «Parei de 'tudar no 1º ano. Não me 'pecializei em nada. Isso é o que eu sempre fiz, é só o que eu sei fazer. O showbussines é ingrato. Ninguém faz o mesmo sucesso por anos. Eu trabalhei com o Gabriel quando vendeu 1 milhão de cópias e ... cadê ele?! Nem faz tanto tempo assim! ( ...) Se pudesse, 'tava fora! Quando puder ... 'tarei. Já foi meu tempo!" Em 1999 a Plebe Rude ensaiou um breve retorno com a formação original, que rendeu o disco ao vivo Enquanto a Trégua Não Vem, em 2000, e alguns poucos shows (" uma lona cultural sei lá onde hoje, uma outra daqui a 15 dias ... uns poucos shows bons em Brasília onde deu pra tirar um dinheirinho ..."), mas a participação de Jander ficou só por aí. «Enquanto Philippe recebe a pensão por conta dos trabalhos do pai de ele e o André tem um emprego no banco, com mobilidade pra sair uma sexta-feira mais cedo e viajar pra tocar, eu sou duro. Eu era duro. Em o começo era só um projeto: a gente toca, grava um ao vivo, faz uns shows. E mesmo com as poucas apresentações de 'sa época, os caras teimaram que dava pra fazer coisa nova. Isso eu não quis. Saí fora.». Há quem considere 'se retorno da Plebe em 1999 como um dos primeiros sinais de um movimento de revival dos anos 80 no Brasil. «Eu acho muito 'tranho 'ses caras com seus 40 anos fazendo a mesma coisa que faziam aos 18, tendo a mesma atitude que tinham há 25 anos atrás. Pegam o que era pra ser anti-comercial na década de 80 e como não sabem fazer mais nada, tentam ganhar um dinheiro com isso agora.». Perguntado se aplica a mesma opinião à Plebe, pensa um pouco, olha para os pés, coça a barba e diz que sim, «com a diferença de que pelo menos eles tentam fazer alguma coisa nova». Enquanto seus ex-companheiros batalham a divulgação de R ao Contrário (novo disco da Plebe que trouxe Clemente, dos Inocentes, no lugar de Ameba), Jander, que tem aprendido desenho e que, tendo a fotografia como hobby, recentemente vendeu alguns cartões-postais de Nova Friburgo (" Tem que ser hobby mesmo! Minha máquina 'tá ruim e uma boa nova custa uns R$ 3000! Teria que vender uns mil cartões pra comprar uma máquina boa e poder levar a sério!"), diz que tem como plano montar um bistrô (" para vender artesanato e comidas típicas ") ao lado da namorada, artista plástica, com quem passou as férias vendendo tapioca numa barraca montada nas ruas de São Pedro da Serra." Sempre 'tive mais para ' Jander do interior ` do que para ' Jander da cidade '». Se o fato de não ter ouvido R ao Contrário pronto (e nem demonstrar qualquer pressa em fazê-lo) não chega a surpreender, os fãs mais radicais, aqueles mesmos que, ainda hoje, criticam Plebe Rude III, devem torcer o nariz ao descobrir as preferências musicais atuais de Jander: «O que eu tenho ouvido? Tonico & Tinoco! Conheço pouco mas acho maravilhoso! Os caras por aí endeusam ... Chico Buarque, mas o cara hoje em dia 'tá cheio de coisas que não dá pra ouvir! Tonico & Tinoco foram os maiores artistas brasileiros, com mais de ... sei lá ... 800 músicas gravadas!" Ele tem fama de mal humorado, mas ... desfrutando de um momento de sossego após três dias de 'trada, talvez 'teja cansado demais para demonstrar seu tão falado mau humor. Trabalhando muito desde agosto, quando começou a turnê de Sim e Não (disco mais recente de «Nando Reis), Jander do Interior» fez o trajeto Rio de Janeiro / São Paulo / Ribeirão Preto (onde Nando se apresentou na quinta-feira, 26 de outubro), foi para Recife (onde Nando tocou no dia seguinte, 27 de outubro) e então voltou ao Rio, para poder, finalmente, aproveitando a pausa para as eleições, visitar suas filhas em Mendes. Alheio ao posicionamento político que consagrou a banda da qual fez parte durante a década de 80, Jander de hoje, na véspera das eleições de segundo turno, não sabe em quem vai votar. «Devo votar no Lula mesmo. Não sei ainda.», diz, deixando sua voz transmitir uma certa insegurança, comum a muitos outros eleitores. Jander Ribeiro nunca foi tão brasileiro. Número de frases: 66 «Independência ou morte» bradou certa vez Dom Pedro I às margens do Rio Ipiranga. Alguns afirmam que o grito foi em nome da soberania nacional, que a partir daí a população brasileira teria maior liberdade para se auto gerir, longe do domínio português e europeu. É fato que pouca coisa mudou desde que o mesmo foi dado, mas 'te mesmo grito de independência continua sendo copiado em diversos âmbitos da cultura brasileira. Podemos verificar tal fato em novas ações que visam melhorar a troca de conhecimento e material entre seus agentes do Oiapoque ao Chuí que se unirão para bradar o " Grito Rock Brasil: «Uma das maiores ações de rock independente do Brasil». São mais de 15 Estados e 20 cidades envolvidas na ação integrada permitindo que novos produtores, jornalistas, músicos e publico se envolvam em atividades que visem o engrandecimento da cena independente para mostrar mais uma vez o progressivo avanço da mesma, levando em consideração a realidade da cena em cada local. Tendo em vista que o Grito Rock Brasil será realizado simultaneamente no período de 17 à 21 de fevereiro os produtores responsáveis por o Grito em cada cidade 'tão trocando contatos a fim de que as mais de 200 bandas e 25.000 pessoas saibam o que 'tá rolando em outras cidades, permitindo assim a circulação da cultura ligada ao entretenimento artístico-musical. O Grito Rock é uma iniciativa do Espaço Cubo de Cuiabá, que realiza o Festival desde 2003. Foram três edições antes da ação passar a ultrapassar as barreiras do Estado. Coordenado por Pablo Capilé, a iniciativa ganhou corpo e será um marco para a história do rock Nacional. Ele nos dá mais informações do que ta rolando: «O Circuito Fora do Eixo tem conseguido auxiliar bastante na organização do cenário independente nacional, integrando cadeias produtivas em grandes redes conjuntas de trabalho e isso tem gerado conseqüências interessantíssimas para a economia desse segmento, potencializando a circulação das bandas, qualificando a tecnologia dos festivais, distribuindo produtos em maior 'cala. ( ...). O Grito Rock é mais um passo dado rumo à visualização de 'sa organização, e rumo à integração cada vez maior de cidades e 'tados que até então eram alijados das benesses 'truturais do eixo. Sem dúvida o Grito Rock Brasil 2007 é a maior ação integrada e simultânea que eu tenho noticias no rock independente nacional, não há precedentes e tudo isso graças ao belo trabalho de bravos guerreiros dos mais distantes cantos do país.!" De fato, o Grito Rock Brasil cresce a cada dia e chega a diversas cidades de lugares mais longínquos. Confira: Centro-Oeste: Cuiabá (MT) e Goiânia (GO) Nordeste: Natal (RN) e Recife (PE) Norte: Belém (PA), Ji-Paraná (RO), Macapá (AP), Manaus (AM), Palmas (Te o), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Vilhena (RO). Sudeste: Belo Horizonte (MG), Jaú (SP), Mogi (SP), Rio Claro (SP), Janeiro (RJ) e Uberlândia (MG). Sul: Florianópolis (SC) e Londrina (PR) Há matérias veiculadas à revista Veja, ao Jornal Folha de S. Paulo (dia 02/01) e a diversos sites, newsletters, blogs e comunidades no orkut, fazendo com que não só os mecanismos oficiais de comunicação virem seus olhos para a ação, mas também todo o exército de mídia independente que não param de enviar e-mails, postar tópicos nas comunidades orkut e fazer releases em suas ferramentas de mídia alternativa. A vantagem é que muito mais bandas e público da cena podem acompanhar melhor o processo, que é mais dinâmico e planejado, facilitando a ação coletiva. Tanto que podemos analisar a ação de alguns produtores em cidades envolvidas. Confira o processo em algumas: Em Belém o Grito será organizado por Marcelo Damaso, da Dançum Se Rasgum produções. A expectativa é que o evento reúna 500 pessoas e 5 bandas no Mormaço bar. Eles ainda 'tão abertos às bandas que 'tarão vindo tocar nas proximidades para fazer o intercambio do festival. Em Cuiabá, Pablo Capilé fala que a programação 'tá quase completa e que nos próximos dias o Espaço Cubo 'tará divulgando o que vai rolar em 17, 18, 19 e 24 de fevereiro. Espera-se que o publico total seja de 2.400 pessoas (600 por dia) para prestigiar 30 bandas entre locais e convidadas. Em Florianópolis, Luciano Vítos, produtor independente, avisa que o evento já tem data e local definido, será nos dias 16 e 17 e 19 de Fevereiro no Bar Drakkar (Lagoa da Conceição). Estima-se que o evento reunirá 15 bandas sendo 7 de floripa e 8 de outros Estados. A expectativa é que se reúna 1200 pessoas nos quatro dias de festa. Em Goiânia 'tá tudo pronto para as bandas se apresentarem no lendário Martin Cererê, no dia 17. Contará com bandas de Brasília, Mato Grosso, Tocantins, Minas, Rondônia, além de oito locais. O Produtor Rafael, da banda Tatudikixuti, diz que em Ji Paraná (RO) a prefeitura se mostrou favorável ao festival e que em 17 de fevereiro vai aglutinar na cidade bandas locais e de cidades vizinhas (10 ao todo). Ele 'pera que com isso se consiga reunir um público tão bom quanto em outras programações, em torno de 5.000 pessoas. Em Londrina (PR) a ONG CRL (Associação Cultural Rock Londrina) afirma que ainda 'tá em processo de definição. O coletivo 'tá discutindo para definir melhor os detalhes. Marcelo Domingues, da Braço Direito Produções, é uma das figuras responsáveis por o evento e pede pra quem pensar em Rock em Londrina em Fevereiro que pense no Grito Rock. Em Macapá, o Coletivo Palafita 'tá em processo avançado para a realização do evento. Espera-se 14 bandas em dois dias de shows (18 e 19 de fevereiro) sendo 12 locais e 2 convidadas. A expectativa é que o evento reúna 1.200 pessoas na maior ação de Rock do Estado. A DoSol Produções, em Natal, promete arrebentar em 'te festival que 'tá previsto para os dias 20 e 21, quando vintes locais, entre elas, Allface, Dusouto, Agregados e Família do Rap, Zero8quatro, Rastafelling. Em torno disso e de muito mais se 'pera reunir 20.000 pessoas na Praça André de Albuquerque. Anderson Foca, produtor, afirma que ainda trará novidades nos próximos dias. Giovanni Bruno da banda Coveiros afirma que em Porto Velho (RO) o Grito Rock reunirá 10 bandas sendo 8 locais, uma do interior do Estado e outra de outro Estado no Zé Bier dia 17 (sábado de carnaval). A expectativa é que 1000 pessoas participem do evento. Formado basicamente por a equipe que trabalhou no festival Varadouro (maior festival de Rock Independente do Norte) o Grito Rock no Acre conta com os produtores Daniel Zen e Walquíria Raízer e pretende convidar uma banda de Porto Velho para tocar junto das 6 bandas locais. Em processo avançado de produção Vivian Guilherme, do Festival de Rock Feminino, afirma que em Rio Claro (SP) tudo caminha para que seis bandas arrebentem no dia 17 ou 18 de fevereiro para 500 pessoas. Para mais informações acesse www.gritorockrc.blogger.com.br Em o Rio de Janeiro a produção será assinada por os produtores independentes Jô Rocha, da Cinnamon Produções, e Flávio Petit, da produção de Festival Plugado. Já se configurando um avanço da relação entre produtores do circuito, já que a parceria entre 'tes é inédita, o Grito Rock no Rio pretende reunir 20 bandas nos dias 17 e 18 de fevereiro. A expectativa é que o evento reúna 1.000 pessoas por dia. Talles, do Festival Jambolada em Uberlância (MG) diz que ainda 'tá aguardando os parceiros para o Grito, por enquanto a proposta é que o evento se realize nos dias 15 e 16 de fevereiro. Enquanto aguardam, eles 'tão fechando os contatos com as bandas e definindo local, que pode ser o Garage Bar (mesmo local onde ocorreu o Jambolada). Em processo de negociação com a prefeitura de Vilhena (RO), Nettu Rogert, do Coletivo Contra Cultura, afirma que a idéia é reunir 8 bandas nos dias 18 e 19 de fevereiro. A 'timativa de público é de 1200 pessoas. O ano de 2007 promete muitas ações como 'ta. O Grito Rock Brasil ainda 'tá em fase de construção por o território nacional e, além da visibilidade que 'tá ganhando e ainda ganhará, servirá como ponta de lança para ações mais consistentes no futuro, fazendo com que a cena nacional aumente consideravelmente. Através de suas listas de discussão os produtores do Grito debatem as propostas de mídia integrada, assim como a publicação da suas noticias no Site Nacional, que se propõe atualizar o que rola antes e depois do festival no endereço www.gritorock.com.br através da integração das assessorias de imprensa de cada cidade, 'te contará com a coordenação de Marielle Ramirez, da Imprensa EC. Ela nos explica melhor como o mesmo pretende funcionar e a viabilidade da proposta: «E o bacana, Paulo, que com 'ses contatos 'tamos já discutindo a construção de uma rede mais sólida dos produtores de conteúdo em todo o país ... Aquilo que discutimos 'ses dias. Cada produtor de conteúdo terá uma senha para conseguir atualizar o conteúdo de forma autônoma. Vou ficar na revisão dos trabalhos e na busca de informações daqueles que não tiverem conseguindo munir o site de informações regularmente, mas a idéia é que o site seja aberto a todos ... Em prol da autonomia." Número de frases: 70 Pois, a nós humanos, nos basta a superioridade sobre os demais seres da cadeia. Morro do Baco Baco Ah! a falta que faz um morro do " Baco Baco ... «Morro do Baco Baco». Diz a lenda que o nome originou-se num hábito dos meninos de certa época que por ali iam viver os principais eventos de sua formação. Tanto o morro quanto suas histórias foram soterrados por a modernidade de uma via asfaltada. Era o local preferido pra soltar Pandorga, pra jogar pião ou bolinha de vidro, e pra brincar de «camói» -- o aportuguesamento de «cowboy». Entretanto, não foram apenas as brincadeiras que marcaram o Morro. O que fez do Baco Baco uma passagem «insoterrável» na vida e na memória dos meninos daquele tempo foram os ritos e as comparações que ajudaram a formar personalidades ou aprofundar inseguranças. Em aquela fase em que o indivíduo dá uma «'pichada», fica meio desengonçado e passa a 'barrar e derrubar tudo, a voz fica naquele engrossa / afina, os músculos e os traços masculinos vão ficando mais bem definidos, era ali que os meninos se reuniam para medir e comparar seus» instrumentos " em fase de crescimento. Literalmente, era ali que iam ver «quem tinha o pau maior». Quando surgiam os primeiros por os era um momento de glorificação. Fazia-se de tudo pra garantir um primeiro fiozinho preto. Descobriam-se os remédios mais 'cabrosos para dar um empurrãozinho na natureza. Tinha gente que chegava a 'fregar cocô de galinha tentando dar uma adubada no local. Outro momento decisivo era a ejaculação -- a grande expectativa -- uma cruel linha divisória. Separava aqueles que já se consideravam Homens dos outros, mortalmente feridos, que eram jogados na vala dos «ainda meninos». A prova definitiva pra adentrar o «mundo dos homens» era a mais crua e básica possível: o «candidato» tinha que conseguir ejacular na frente de todos os outros -- para ajudar, apenas alguns «catecismos» do Carlos Zéfiro ou, muito raramente, umas revistinhas suecas ou dinamarquesas, que se conseguia com uns marinheiros. Estas «revistinhas» eram a coisa mais ousada que se dispunha, filme pornô não existia nem em nossos sonhos mais delirantes. Mas, o importante mesmo é que o morro do Baco Baco era uma arena sagrada para a disputa mais importante da vida de todos os que viviam aquele momento crucial: «ver quem tinha o pau maior». A competição não era um simples «puxa / 'tica e mede». Havia as mais diversas modalidades. Valia todo e qualquer truque para ludibriar os outros e ganhar uns milímetros a mais. Cada um que levava desvantagem numa modalidade logo inventava outra na qual a natureza lhe tivesse sido mais favorável. Tamanho, 'pessura, formato -- qualquer detalhe anatômico -- o importante era ser maior em alguma coisa. Por o Brasil afora, com certeza, existem centenas de milhares de «morros do Baco Baco» -- lugares sagrados onde se dão os fundamentais ritos de passagem da rapaziada. Lugares onde o menino se torna um homem muito mais seguro -- afinal, ali ele compreende que sempre existe alguma modalidade na qual pode ser o maior. Entretanto, assim como muitas outras culturas, os «morros do Baco Baco» também 'tão em extinção, substituídos por a padronização do mundo «high-tech». Os ritos de passagem ocorrem sem romantismos, sem mistérios, banalizados e virtualizados numa «second life». É cada vez maior o número dos que não conseguem sair da vala dos «ainda meninos», apesar de já avançados em idade. E isso é grave, muito grave. Vai-se gerando uma horda dos «sem morro do Baco Baco». Uma turba desorganizada que avança por a vida tentando chamar a atenção de qualquer maneira. Compram os carros mais potentes, as motos mais berrantes, a grife mais grife, os cachorros mais indóceis -- e ficam desfilando por aí, meio sem destino, acelerando suas motos na madrugada, 'tacionando carros e arregaçando o som nas praças e nos bares. Como não tiveram um «morro do Baco Baco» na época certa, passam a vida inventando as próprias modalidades pra provar que «têm o pau maior». As conseqüências da extinção desse fundamental rito de passagem têm sido trágicas para a humanidade. Se tivessem vivido um «morro do Baco Baco», Bush e seus falcões não ficariam perturbando as madrugadas do mundo tentando provar que» têm o míssil maior». Ah! A falta que faz um morro do Baco Baco ... Delman Ferreira Número de frases: 42 delmanferreira@gmail.com O Coral Universitário da Unchapecó promoverá o VI Encontro Sul-Brasileiro de Corais Universitários, no dia 30 de agosto. O evento reúne corais de Instituições de Ensino Superior dos três 'tados do Sul do Brasil: Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. A programação ocorrerá em vários pontos da cidade de Chapecó, as apresentações serão na Universidade Comunitária Regional de Chapecó -- Unochapecó -- e ainda no Teatro Municipal. O evento terá cobertura 'pecial da Rádio Freqüência Universitária. O Encontro Sul-brasileiro de Corais é promovido por o Coral Universitário da Unochapecó, desde 2003. A primeira edição foi realizada durante as festividades do primeiro aniversário da universidade, e desde então foi promovido todos os anos. O objetivo é reunir grupos de corais universitários para promover o intercâmbio cultural e fomentar amizades, por isso, não há premiações nem competição no evento. Os corais se apresentam para mostrar ao público toda a arte e beleza musical de 'ta modalidade. Novos rumos Seguir o chamado «padrão tradicional» já não é mais a tendência como há pelo menos 30 anos. Segundo Pablo Trindade, Maestro e Arranjador do conhecido " Expresso 25, de Porto Alegre, agregaram-se novos elementos ao canto coral, surgindo assim os chamados corais cênicos. Para Trindade, no Brasil, a música popular e sua 'pontaneidade, colaboraram para a formação de grupos de diferentes 'téticas, pois é assim, segundo o maestro, que surge a naturalidade no canto. Essa diferença é sentida de forma mais profunda quando se volta no tempo e sente-se a falta de 'sa naturalidade quando a música européia, influenciava ainda de forma direta a criação dos repertórios aqui produzidos, há cerca de 30 anos. Em 'sas últimas três décadas também se tornaram visíveis as produções -- a partir de Villa Lobos -- de compositores compondo para corais. O uso de aspectos cênicos nos grupos de corais envolve outras técnicas agregadas ao canto, exigindo dos cantores maior consciência cênica. Trindade diz que 'se novo aspecto leva os jovens, cada vez mais, a procurar corais. Quem participa da edição 2008 Já confirmaram presença como convidados: Coral Campos de Palmas, Coral UPF, Coral UNIJUÌ, Coral Celer Faculdades, Coral UNISINOS e Coral UFSM. Como convidado 'pecial virá o grupo Brasiliando. Coral Unochapecó, 10 anos A incorporação de novas técnicas na preparação vocal e cênica, também é uma preocupação do Coral Universitário da Unochapecó. Pela primeira vez o grupo se utiliza de percussão corporal, que será apresentada em 'ta edição do encontro. A interpretação cênica é uma prática do coral já apresentada. Para 'te ano o Coral da Unochapecó preparou três peças musicais: «Bola de meia, bola de gude «-- de Milton Nascimento e Fernando Brant, com arranjo de» Jakson Kreuz; A Paz, de Gilberto Gil e João Donato, com arranjo de Alexandre Zilahí "; e «Nada será como antes», composição de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, com arranjo de Bontzye Schmidt Sandoval. Atualmente o coral conta com 33 integrantes, sendo 30 cantores e três instrumentistas. Os coralistas são membros da comunidade acadêmica e desenvolvem um intenso trabalho que vai da preparação cênica e vocal à psicologia para liberar o potencial de expressão dos artistas. O Coral Unochapecó iniciou suas atividades em março de 1998, com o objetivo de colaborar na realização do 'petáculo Ópera do Malandro, de Chico Buarque, em conjunto com o GTEU (grupo teatral da mesma universidade). Depois de um tempo as atividades, foram intensificadas as apresentações na universidade e na comunidade. Em o decorrer destes 10 anos, segundo a regente Maria da Glória Weissheimer, o grupo realizou apresentações em diferentes 'paços e eventos, sempre com o objetivo de divulgar o canto coral, mostrando-o como algo que contagia, mas que também exige dedicação de quem o faz. Os integrantes do Coral Unochapecó não são os mesmos em 'tes 10 anos, pois 'ta é uma característica dos grupos universitários a qual é preciso se adaptar. Como o coral é aberto a participação de pessoas da comunidade em geral, alguns acadêmicos depois de graduados permanecem cantando. Participação em projetos sociais O grupo também atuou e segue trabalhando em projetos sociais. A partida de 'sas ações foi a participação no Programa Esporte e Emancipação, com o Projeto Cantando com Alegria em 2004. Para colaborar com o processo de inclusão social de crianças de 06 a 14 anos, foram desenvolvidas oficinas de atividades ligadas à educação musical. Outros projetos vieram a seguir, mantendo o princípio de que o acesso à educação musical é para todos e não depende de talento individual. São eles: Cantando com Alegria na Maior Idade, dirigido aos idosos; Musicalidade e Emancipação, com adolescentes em situação de conflito com a lei, e Musicando, com jovens de 12 a 16 anos. Programação: 7h30 -- café e recepção 9h -- apresentações na Unochapecó -- apresentações na Avenida Getúlio Vargas Chapecó -- SC 19h30 -- Teatro Municipal de Chapecó. O Coral Universitário da Unchapecó promoverá o VI Encontro Sul-Brasileiro de Corais Universitários, no dia 30 de agosto. O evento reúne corais de Instituições de Ensino Superior dos três 'tados do Sul do Brasil. Autores colaboradores: Número de frases: 51 Fernanda Dreier, Tiago Franz, Adriane Rech, Antônio Marcos Zadinello, Andressa do Nascimento e Carolinne Assis. Não derepentemente fui fazendo cada vez mais nada de umas coisas, fazendo cada vez mais coisas que se desaparentegram no meio das coisas dos dias. Sem pintar, desenhar, colar, pastelar seco e oleoso. Sem cantar, 'crevinhar, dançar. Cada vez mais coisas de copa cozinha despensa, da cor da tinta da parede, do 'critório, desenho do pré 'colar, pastéis de queijo, de carne, de banana. Me engana que eu num vi o tempo passar. Vi (e vejo) sim, todas as cores, formas e sons a quem não dei vida. Ó que conheci um monte de gente assim, também bem quieta senão parada, só bservando. A gente vê sim as tais cores, formas e sons, a gente vai até nuns shows e concertos e lê livros entre os dvd e mais de cem canais da vida, Iihiihiihih, mas quantas horas de dias por os últimos anos que fiz foi bservar de um tudo, geraldisfarçadamente nos bancos de inúmeras pracinhas e praças de alimentação, reuniões de menos pais que mães e mais ou menos mestres, de condomínio, aulas entre os jovens e os doutos, do lado de cá e de lá da «carteira». A gente sempre ímpar, apesar até da quase simpatia. Mas, silêncio de feituras acaba que é sempre um aperto, uma falta, um 'tado meio desperdiçado, mais perigoso que acomodado, porque quase parece são. Te o treinando firme pra numa respirada mais fundo, nem tão derepentemente corpo e mente voltem a se aventurafalazer junto aos vivos e em cores, letras, sons e sabores. Hoje de manhã aqui na porta de casa, os veios, os cheiros dos montes de terras misturadas por as retro-'cavadeiras mostravam como entranhas lindos desenhos dos sulcos e rastros dos pneus ..., eram uma coisa tão linda, de molhar os olhos!! Preças coisas eu avivava desenho, tinta, atividade de cola e canto. Em um deu tempo e depois fiquei bservando o quanto a geléia é tão arte quanto a conversa em volta da mesa. Número de frases: 17 Oeiras, 9 de agosto de 2006 Querido Professor e Cineasta João Moreira Salles Vivi hoje alguns momentos de emoção causada por notícias e entrevista envolvendo a sua pessoa. A notícia chegou a mim através da leitura do jornal «Diário do Povo do Piauí ' sob o título» Piauí vai dar nome a revista nacional». Em ela fiquei sabendo que o amigo pretende editar uma revista «cult» que «promete ser uma das mais refinadas publicações do mercado editorial brasileiro» ... e que já a batizou com o nome de «Piauí». Saber disso me deixou por demais feliz e confesso, orgulhoso. Explico por quê: quando conheci o Piauí, Oeiras em particular, em dezembro de 2002, eu tinha vivido pelo menos 54 anos da minha vida sem nunca ter sequer sonhado em conhecer 'ta Terra Querida. De lá para cá só tenho feito aprofundar minha paixão por o Estado que um dia chamei de «O mais charmoso do Brasil». E não me limitei a assim chamá-lo apenas verbalmente: editei, em São Paulo, 5 números de um tablóide ultra alternativo com o nome de " O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil!" Certamente não tão refinado como será a sua revista, cujo o primeiro número já aguardo ansioso, mas sem dúvida um jornal absolutamente cult, tão cult que chegou a ter dezesseis páginas falando apenas de um negro, músico e intelectual autodidata, Possidônio Queiroz, uma das pessoas mais amadas e respeitadas na cidade de Oeiras, onde morreu aos 92 anos e cujo centenário de nascimento se comemorava em 2004. Relacionar o nome do Piauí a publicações de natureza cultural, como vê, meu caro João, 'ta sensibilidade, é algo que já temos em comum. Tudo isto dito, eu reconheço em 'te o momento de me apresentar. Ocorre que, para que tivesse um resultado ao menos palpável, 'ta apresentação entraria em detalhes tão enfadonhos que se perderia o 'sencial. É tudo o que não desejo! Contento-me em dizer o que quase já disse: meu nome é Joca Oeiras, paulistano de 58 anos, apaixonado por o Piauí, e atualmente morador de Oeiras, primeira capital do Estado mais charmoso do Brasil ... Depois de ler a notícia no Diário do Povo do Piauí de hoje, 9 de Agosto de 2006, fui pesquisar sobre você no Google e encontrei, entre outras cerca de 49.500 citações de seu nome, uma entrevista concedida à Agência Nacional de Notícias http://www.radiobras.gov.br/materia i 2004. php? materia = 210029 & editoria = & q = 1 em que se mostra preocupado com a preservação da memória nacional e descarta a Televisão como agente eficaz (e eficiente) para 'ta importante tarefa digamos, missionária. Foi aí que, mais uma vez, tive o meu astral levantado: na realidade o assunto que me move a 'crever 'ta missiva é justamente a preservação de uma importantíssimo Patrimônio Histórico brasileiro localizado no Piauí, o que, como veremos, o valoriza ainda mais. Fitzcarraldo nos Sertões de Dentro! Os detalhes eu dou depois: por ora peço apenas para você imaginar um sujeito rico, cientista visionário formado na Alemanha e que resolveu montar uma fábrica de laticínios em pleno sertão do Piauí. Isto por volta de 1888/89. Para tanto fez transportarem máquinas, as mais modernas, fabricadas em Berna (Suíça) e que foram trazidas em barcaças através do Rio Parnaíba até onde hoje se localiza a cidade de Floriano (dê uma olhada no mapa). De lá, foram transportadas, num percurso aproximado de 180 km, sem que houvesse previamente qualquer caminho ou 'trada, em carros de bois até a região denominada Campos (hoje município de Campinas do Piauí) onde foi construído um imponente edifício. Uma verdadeira Epopéia! A fábrica foi inaugurada em 1897 e, durante anos, produziu manteiga de alta qualidade. É 'ta a história que eu gostaria de contar, com riqueza de detalhes (fotos da época, inclusive) de preferência no primeiro número da sua super-chiquérrima revista Piauí. Isto se você se interessar por ela, é claro! Mas para além da história, interessantíssima, existe uma outra razão muito forte para que eu me reporte a 'te assunto: o Prédio que abrigou, nos primeiros anos do século passado (e nos últimos do século XIX) a Fábrica de Laticínios dos Campos em Campinas do Piauí encontra-se em ruínas e ameaçado de desabar e é objeto de uma Campanha por a sua restauração promovida por a Fundação Nogueira Tapety-FNT (www.fnt.org.br), na qual trabalho. Por isto é mais que oportuna a exposição na mídia deste Patrimônio em sério risco de perecimento. Certo de sua atenção para com o acima exposto, envio Número de frases: 35 Beijos e abraços do Joca Oeiras, o anjo andarillho Em uma das transversais da Avenida Sete de Setembro, Edson Gomes nos recebeu com a hospitalidade típica de um baiano. Em plena sexta-feira à noite, após horas em 'túdio onde o novo álbum 'tá sendo finalizado, o reggae man soltou o verbo regado a cerveja e alguns petiscos, preparados 'pecialmente por Lena, seu braço direito e mulher. O «reggae protesto», se assim podemos definir, é uma de suas características. Apesar disso, ele afirma que nunca se envolveu diretamente com política. No máximo shows em campanhas e [pasmem!] nem sempre para os chamados partidos que defendem os interesses do povo. «Já trabalhei mais para a direita do que para a 'querda. Eu era criticado por trabalhar para a direita, mas a 'querda não me dava 'paço», desabafa. Sobre a atual gestão do Brasil ele não pestaneja: «O PT era maravilhoso até virar governo. Hoje quem nos defende -- o PFL, por exemplo -- era quem nos oprimia», observa. «Só fazem discurso, que é bonito, mas precisa ir além. Não digo serem perfeitos porque perfeição é idiotice, mas podem pelo menos se aproximarem do próprio discurso», continua. Em relação aos poucos shows que realiza, Edson justifica: «a música que eu faço não atende ao sistema. Contraria o objetivo dos dominadores. Ela é preocupada com os problemas sociais. Desmente os dominantes que dizem se preocuparem e por isso fica de fora da maioria dos eventos do governo." O cantor 'tá, por exemplo, há dez anos sem tocar em sua terra natal, Cachoeira [há 110 quilômetros de Salvador]. «Para ficarem isentos da crítica pública, para dar uma satisfação ao povo que pede meu show, eles oferecem um cachê pequeno e aí eu não toco», explica. «Só entrei no Festival de Verão, por exemplo, porque Mauricio Magalhães [até então diretor da empresa responsável por o evento] é meu fã.», revela. Reggae «A Bahia tem muito grupo de reggae bom, mas a galera não 'tá conseguindo manter o diálogo, manter a pegada», afirma. «Falta consciência. Fica parecendo que o reggae é modismo», completa. «As letras falam de tudo sem direção, é reggae só na melodia», alfineta. Para Edson, seu irmão, Edd Brown, e Cristal são os novos representantes na Bahia do reggae «propriamente dito». Mas nem todos entendem o papel do reggae. Nem mesmo o povo. Certa vez, na década de 80, foi hostilizado numa comunidade. «As pessoas queriam ver Luiz Caldas, que era quem fazia sucesso na época. Ficaram decepcionados quando viram que o show era meu», conta. «E isso que eu cantava para eles, representando eles», lamenta. Se os representados nas letras não ouvem -- ou não entendem -- a mensagem, o cantor encontrou em outra classe seu público. «Hoje a classe média ouve reggae com consciência», afirma. O motivo? «Eles ficaram sem referência musical. Seus antigos ídolos, Raul [Seixas], Caetano [Veloso], a Tropicália, enfim, todos aderiram ao sistema». «Hoje 'ses artistas, que eram referência, precisam se juntar a novos para terem 'paço», opina. Edson salienta também a importância de explorar a música como disseminador de ideais. «A música é o veículo mais poderoso que rádio e tevê. Ela fica na mente», justifica. «A música pode levar as pessoas à reflexão», acrescenta. Carnaval: E os trios elétricos com reggae, não seria uma maneira de levar consciência ao povo? Para ele, reggae no carnaval só se for num palco digno. «O que adianta sair em trio elétrico num horário que não tem mais ninguém na rua?», questiona." Queremos apenas um palco digno. Algo como o palco do rock, em Ondina», pede. Se dependesse de ele, ninguém do reggae participaria do Carnaval da forma que vem sendo feito. «O que acrescenta na vida profissional desses grupos tocar no Carnaval?», completa." Reggae no carnaval não tem gosto. Até um pão com manteiga tem mais gosto», brinca. «A gente não tem nada a ver com carnaval. O carnaval é do axé. Não vamos competir com eles», finaliza. Número de frases: 58 Por que D.João e a corte portuguesa vieram para o Brasil, há 200 anos? Qual a importância histórica deste fato? Em 1807 a Europa 'tava em guerra. Napoleão Bonaparte assumira o comando do Exército Francês para colocar ordem no caos que se transformara seu país, após a Revolução que derrubou o regime monarquista. Napoleão enfrentou com mão de ferro as alianças das demais monarquias européias, contrárias ao regime republicano que se instalou na França. Iniciou a expansão dos seus domínios para além das fronteiras francesas, invadindo a Alemanha, Espanha, Holanda e Itália, de entre outros impérios. Destronou reis e rainhas tomando para si suas riquezas e suas terras, tornando-se o senhor absoluto da Europa. A Inglaterra resistia às investidas francesas, o que fez Bonaparte decretar o bloqueio continental ao país a fim de enfraquecer o inimigo. D.João, antigo aliado político da Inglaterra, não aderiu ao bloqueio. Em meio ao fogo cruzado, na iminência de ter seu país invadido por as tropas napoleônicas, decidiu fugir para o Brasil, abandonando seu país e seus súditos à própria sorte. Foram mais de três meses de viagem enfrentando tempestades, calmarias, mêdo de ataques piratas e infestação de piolhos a bordo. Em março de 1808 D.João e sua corte desembarcaram no Rio de Janeiro, após uma breve 'cala em Salvador, antiga capital do país. Rio de Janeiro, cidade 'tratégica O Rio de Janeiro era parada obrigatória para todos os navios que cruzavam os mares naquele tempo. A Baía de Guanabara, protegida por os ventos e com suas águas calmas, oferecia segurança para o reparo dos navios e para o reabastecimento das embarcações com água, comida e 'peciarias. Com a abertura dos portos do Brasil às nações amigas, decretada logo após a chegada da família real ao Brasil, o Rio tornou-se o local ideal para o comércio. Todas as exportações e importações da Colônia passavam por o porto carioca. A paisagem tropical, cercada por mar e montanhas, numa cidade ainda pouco povoada, deixou fascinados os visitantes portugueses. Difícil foi arrumar moradia para toda a corte que acompanhava D.João. Com ele vieram padres, bispos, juízes, militares, advogados, serviçais, nobres e suas respectivas famílias, quase 15.000 pessoas. Diante do impasse foi criado o sistema de «aposentadorias», um confisco de residências para uso da nobreza. Uma placa com as iniciais de «Príncipe Regente» era afixada nas moradias 'colhidas. A população, revoltada, logo passou a reconhecer a sigla: «Ponha-se na rua»! D.João, Carlota Joaquina e seus filhos hospedaram-se, temporariamente, no Paço Imperial, um casarão localizado no centro da cidade que se transformaria na sede oficial do governo, até sua partida. Era lá que o rei recebia seus súditos no ritual conhecido como «beija-mão», momento em que as portas do palácio eram abertas à população para prestar homenagens à família real, fazer pedidos e reclamações. Em 'te palácio ele despachava com seus ministros e recebia governantes de outros países. A residência da família real foi transferida, então, para o Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, onde hoje funciona o Museu Nacional. A herança portuguesa Após a morte de Dona Maria, a rainha louca, D. João tornou-se rei do Brasil, Portugal e Algarves, sendo finalmente aclamado como D.João VI, em 1816. Manter a corte no Brasil custou caro aos cofres portugueses. Diante de tantos gastos a solução foi pedir empréstimo à Inglaterra, uma enorme dívida que depois seria herdada por o nosso país, após a declaração da independência. A corte portuguesa no Brasil, além de perdulária, era autoritária. Como o rei precisava do apoio político e financeiro das elites brasileiras, iniciou-se no Brasil uma farta distribuição de títulos de nobreza, favores e privilégios, em troca de dinheiro. A nova nobreza brasileira tinha agora títulos e poder, tornando-se acionista do recém-criado Banco do Brasil, que socorria D. João nas suas dificuldades financeiras. O Rio de Janeiro se tornou uma cidade rica e próspera. Estradas foram abertas, 'colas fundadas, bibliotecas, hospitais, bancos e imprensa. Além disso, foram liberados o comércio e a produção industrial brasileira. Era o fim do monopólio português no Brasil que, livre de proibições, começou sua revolução industrial. A abertura de novas 'tradas acabou com o isolamento entre as províncias. As regiões mais distantes foram mapeadas e companhias marítimas surgiram, inaugurando a era da navegação a vapor. Escolas de ensino leigo e superior foram criadas modernizando o ensino brasileiro, restrito até então ao ensino básico e confiado aos padres. Foram inauguradas a 'cola superior de Medicina, 'colas agrícolas, laboratórios de análises químicas e a Academia Real Militar. O Rio de Janeiro ainda viu surgir a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional, o Jardim Botânico e o Teatro São João. A «Gazeta do Rio de Janeiro» foi o primeiro jornal impresso publicado no Brasil, em setembro de 1808, nas máquinas trazidas da Europa. O problema é que só podiam ser publicadas notícias favoráveis ao governo. Finalmente, em 1815, D.João elevou o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, promovendo o Rio de Janeiro a sede oficial da Coroa. A arte e a cultura também eram valorizadas por o rei, grande apreciador da música, que mandou vir da Europa a Missão Artística Francesa, no intuito de refinar o bom gosto na colônia. A influência francesa foi marcante no vestiário da época, na arquitetura e nos hábitos de consumo da população. De volta a Portugal Treze anos haviam se passado e o processo de independência do Brasil já assumira ares de revolta. O povo carioca, apesar de amar D. João, clamava por uma Constituição liberal, que lhe tirava parte dos poderes. Sua dívida para com os portugueses era imensa. Portugal viveu um dos piores períodos de sua história após sua fuga para o Brasil. Milhares de portugueses abandonaram o país e outros tantos sucumbiram à fome e as mazelas da guerra. Diante da pressão do povo brasileiro e dos chamados insistentes para que retornasse a Portugal, já que a guerra terminara em 1810, D.João deixou o Brasil em 1821. Antes, porém, instruiu seu filho e herdeiro do trono, D. Pedro I, a fazer a independência do Brasil, «antes que algum aventureiro o fizesse». A o partir, D.João levou com si todas as reservas financeiras que havia trazido da Europa e 'vaziou os cofres do Banco do Brasil, deixando o país em sérias dificuldades, às vésperas de sua independência. Dizem que o rei foi embora triste porque sua vontade era permanecer no Brasil para sempre. Sua chegada a Portugal foi melancólica, um rei decadente e sua corte humilhada. Apesar das controvérsias, os anos que D.João permaneceu no Rio de Janeiro foram de progresso e mudanças profundas e decisivas, com a transformação do Brasil colônia numa nação independente. Para um governante, o maior legado que se pode deixar para o povo. Fontes de pesquisa: Gomes, Laurentino. 1808, Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleâo e mudaram a História de Portugal e do Brasil Fontes eletrônicas: Número de frases: 67 www.jbrj.gov.br/institu Eu não agüento ver e ficar calada. Por isso, decidi 'crever sobre os Críticos Loucos, primeiro, porque eles também não se calam; segundo, por a paixão ao rock nacional. Já assisti à banda ao vivo cinco vezes, entre elas, na festa de lançamento do Overmundo, em Palmas -- inclusive lá eles eram os últimos na lista a tocar, não por acaso, mas porque o público ficaria até o final para 'perá-los -- e, na minha opinião, eles mandam muito bem porque têm a 'sência da alma roqueira. São daquele tipo de banda que ainda usa o rock como protesto e faz letras afiadas para cortar, na carne, a hipocrisia social. Criada em 2001, os Críticos Loucos têm 'se nome por causa do trocadilho «loucos criticando loucos». A banda nascia em Palmas, como uma continuação da antiga banda Contágio, de Colinas (Te o). Quem começou com isso foi o Alan, vocalista e autor das letras, que após gravar uma demo com o músico Jamaica, foi atrás dos outros integrantes. Hoje Críticos Loucos é: Alan (vocal), Jefferson (guitarra), Daniel Canoli (baixo), Thiago Play (bateria), uma formação que mistura diferentes vertentes musicais -- metal, new metal, rock alternativo, hip hop, fazendo um trabalho 100 % autoral. Em a correria do dia-a-dia, ainda conciliando o trabalho e a música, a banda 'tá na luta para gravar o primeiro CD -- a velha luta de todas as bandas. As músicas criticam os sistemas político, religioso, moral, social e ainda abordam temas do cotidiano como as drogas, as guerras e os conflitos humanos. E pegam pesado! Vão direto ao ponto, sem rodeios. «Não tenho medo por o que a gente fala, e a gente não vai se calar», avisa Alan, que 'tá desempregado e sabe bem como é 'tar à margem social. Jefferson acredita que 'te seja o diferencial da banda: «Somos pessoas normais, e 'tamos lá embaixo, na massa», diz. Em «Imperfeição», a banda conta de forma explícita o lado negro do homem. «Falamos de um 'tupro de uma criança. Recentemente aconteceu em Filadélfia (interior do Estado), com uma menina de quatro anos», indigna-se Alan. O caso que ele cita virou notícia nos principais jornais, o 'tuprador foi preso e linchado na delegacia. O baterista Thiago Play complementa: «Cantamos a realidade nua e crua, mas também mostramos um caminho para a luz», ressalta. Em a opinião de eles, muitas bandas perderam 'se lado contestador porque 'tão mais preocupadas em agradar aos outros. Graças a Deus existem os Críticos Loucos para ir à contramão desse rock de tevê -- com calças largas, poses para videoclipes e letras de amor. A Deus mesmo, porque a banda é formada somente por cristãos, mas não faz um som gospel. «Cantamos a nossa verdade. É algo que vem do alto», diz Daniel. Não há rótulos, nem preconceitos, pelo menos para quem curte rock. Ao vivo a banda se supera com expressão corporal e interação com o público, que vai para frente do palco bater cabeça quando eles começam a tocar. Seja qual for a festa de rock, de que tribo for, Críticos Loucos são sempre bem-vindo e, como a gente faz com o que é bom, eles sempre ficam guardados para o final: ouça os Críticos Loucos sem sair do Overmundo. Número de frases: 33 Dizem que cada pessoa nasce com um dom. Independente de qual seja, mais tarde 'sa facilidade pode vir a despertar em qualquer momento na vida. Com Eduardo Leitão foi assim. A os trezes anos, descobriu que poderia fazer da madeira 'culturas que futuramente seriam seu sustento de vida. O 'cultor trabalha em 'se ramo há 25 anos e começou a construir grandes 'culturas num processo de reciclagem. Ou seja, a matéria-prima que seria jogada fora -- deixadas na floresta -- é reaproveitada por Eduardo que utiliza qualquer tipo de madeira, desde que a própria não 'teja tão seca. Esculturas que compõem e caracterizam, geralmente, o cenário Amazônico e suas belezas naturais. Em Porto Velho há dez dias, Eduardo expõe mais de 50 'culturas no Aquarius Selva Hotel, depois de percorrer boa parte do Brasil e América Latina, entre Venezuela, Bolívia e Chile. Após 'se período, o 'cultor criado no Rio de Janeiro, mas apaixonado por Rondônia, teve uma passagem de quatro anos em Bangu. De lá, pegou rumo a São Paulo, chegando ao Mato Grosso, Campo Grande, Pará e Macapá até desembarcar em Manaus. Em o município de Guajará-Mirim, interior de Rondônia, permaneceu durante dois anos, onde deixou várias obras que fazem parte de suas exposições e contam histórias da sua vida. Dentro de uma simplicidade, ele diz que antes de se tornar 'cultor era desenhista mecânico e chegou fazer alguns trabalhos com arquitetos. Começava aí uma nova trajetória que fazia sucesso desde o tempo do colégio. «Eu sempre tinha as mocinhas da 'cola ao meu redor», diz Eduardo que fez sua primeira 'cultura, uma coruja, aos trezes anos para dar de presente a uma garota. Detalhe: como não tinha material de trabalho, pegou «emprestado» as ferramentas do pai. «Sempre foi assim, toda 'cultura que faço tem uma história pra contar», lembra. A os 22 anos, após servir ao quartel, começou a viver de suas exposições que ele mesmo não classifica como obras de artes. «Não sou artesão, nem artista; eu sou é 'cultor», diz com um sorriso irônico. Ao lado de Iemanjá, feita de um braço de cedro e uma de suas principais reverencias, o 'cultor explica que o tempo para cada peça 'culpida é variável. «Tem peças que levam muito tempo», diz e, num tom de mistério, acrescenta que os desenhos nunca se repetem. Indagado se para fazer as 'culturas existe alguma inspiração, Eduardo é ríspido e 'braveja que «inspiração é ter disponível matéria-prima e começar a trabalhar, 'sa é minha ' inspiração '». E sente como se 'ses desenhos já existissem em mim há muito tempo, vindos de outras vidas». Eduardo Leitão pretende 'tender seus trabalhos por mais duas semanas na capital, onde deve expor suas obras no Tribunal de Contas, órgãos públicos e hotéis. Ainda não idéia da próxima viagem, mas pretende voltar ao Sudeste em breve. As obras são revendidas e o preço varia de acordo com a peça 'culpida. Número de frases: 26 Claro que não deixa de ser uma obra de arte, convenhamos.-- Canoeiro -- Solidão como herança Os avá-canoeiro vivem no norte de Goiás perto de Minaçu, são 5 pessoas que conseguiram 'capar do massacre a que foi submetida sua tribo por os invasores de suas terras no ano de 1969. São eles: Matcha (72); Naquatcha (67); Tuia (37); Iawí (57) e o filho Trumak (21). Recentemente Tuia foi para Mato Grosso morar com um índio de outra etnia. Em a época do massacre Matcha conseguiu fugir grávida de Tuia com Naquatcha e Iawí e por 12 anos eles se 'conderam nas matas conseguindo sobreviver comendo morcegos e algumas frutas silvestres. Em 1981 a Funai reconheceu 'se pequeno grupo que foi 'tabelecido numa área de 38 hectares, perto do rio Tocantins. Com a construção da hidrelétrica de Serra da Mesa, cerca de 3 mil hectares foram ocupados por Furnas. A empresa paga roylalties para eles. Com isso possuem casas de alvenaria, comida e uma assistência direta da empresa. Trumak fala melhor, Iawi tem uma pronúncia quase incompreensível e as mulheres não falam o português, a não ser algumas palavras. Segundo Trumak, Matcha gosta de criar pássaros amarrados por uma corda fina, são: juriti, pomba, jacu, curiango, papagaio e outros. Até o cachorro fica sempre amarrado com medo do «miau» (onça). Em a tentativa de manter seus costumes constroem ranchos de palha, caçam, pescam e plantam. Em o Encontro de Culturas na Aldeia Multiétnica, os avá canoeiros se diferenciam dos outros indígenas em tudo: Iawí é arredio, quando percebe que vai ser abordado para conversas, foge e até corre. Anda de cabeça baixa, custa olhar de frente e às vezes quando resolve conversar diz: -- Vocês mataram meu pai! Em a semana desse Encontro de Etnias Iawi nunca sorria e 'tava sempre andando de um lado para outro e quando cansado ficava de longe olhando o movimento de pessoas. Trumac às vezes fala, mas na maioria das vezes fica falando sozinho e em voz alta. Iawí quando fala da filha, a Tuia, fica nervoso e diz acenando: -- Foi embora! Iawí mostra uma grande revolta no olhar e não aceita a filha ter se juntado com um índio de outra tribo. Mas como são parentes próximos e seus costumes não permite o incesto, o único jeito de aumentar a família é com 'sa união de Tuia, mesmo contrariando Iawí. Sabe-se que a mãe de Iawí teve muitos abortos enquanto vivia 'condida nas matas, pois para eles o choro de um bebê poderia denunciar o 'conderijo e assim usavam ervas para abortar ou não se engravidar. Esse grupo de quatro pessoas traduz bem a situação do índio. O olhar de medo, os gestos de defesa denunciam o 'tado de 'pírito em que vivem não só os avá-canoeiros, mas todas as etnias. Comprovando assim que durante séculos o homem branco deixou como herança para o indígena uma grande solidão e um futuro incerto. Número de frases: 33 Já faz algum tempo tenho convicção de que investir em cultura gera grandes dividendos sociais. Mas, com raríssimas exceções, parece que nossos governantes ainda não entenderam isto. Recente pesquisa do IBGE -- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgada por o UOL, reflete o quanto os governantes desprezam a indústria cultural (menos a parte da «indústria» que a parte «cultural», é verdade). Por a pesquisa os gastos na área representam míseros (repetindo: m í s e r-oYs) 0,2 % (para ficar mais claro: z-e-r-o v í r g u-l-a-d-o-i-s p-o-r c e n t o) das despesas totais da administração pública nas três 'feras (cidades, 'tados e governo federal). E no entanto a indústria cultural emprega, ainda segundo o IBGE, mais de 1,6 milhão de pessoas, cujo salário médio é quase 50 % superior ao salário médio do país. Luz no fim do túnel? Mesmo assim parece que a situação não 'tá completamente perdida. Embora os números do IBGE se refiram ao ano de 2005, outras informações divulgadas por a mesma pesquisa indicam que a tendência é dos investimentos culturais aumentarem. Comparando 'tes números, com os de 2003, por exemplo, verifica-se aumentos significativos no número de empresas, funcionários e investimentos públicos (sem contar os investimentos provenientes de renúncia fiscal, como os da Lei do Mecenato). Além do mais, há muitas iniciativas interessantes Brasil afora. Basta dar uma rápida olhada aqui no Overmundo e perceber isto. Tristemente, a maioria de 'tas iniciativas não conta com apoio, nem público, nem privado. Falha 'tratégica de governos e empresas, que acostumados a olhar apenas a curto prazo (eleições e lucros), deixam de aproveitar oportunidades magníficas de contribuir para divulgar ao Brasil e ao mundo os resultados de uma característica que o brasileiro tem de sobra: criatividade. Para terminar, uma perguntal cultural: por quê será que o IBGE sempre entrega números com tanto atraso, hein? Para saber mais: UOL -- Cultura emprega 1,6 milhão e paga melhor do que outros mercados no Brasil IBGE -- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Para ler mais textos meus sobre comunicação, cultura e tecnologia, acesse: Com! Número de frases: 21 pensar Era por volta das nove da noite da terça-feira dia 20 de fevereiro e o carnaval de Salvador fervia nos circuitos oficiais da folia. De um outro lado da cidade, distorções ecoavam por entre os coqueiros: era o Festival Alternativo Palco do Rock, em sua 13ª edição, realizado por a ACCRBA -- Associação Cultural Clube do Rock da Bahia -- sempre no período momesco. A noite 'tava apenas começando e três bandas baianas de rock já haviam feito as honras da casa e preparado o palco para a entrada da atração paraense Jolly Joker, até então desconhecida para o público rocker baiano. Nem bem deram boa noite e o apresentador Ajota fez a pergunta que não queria calar: «Em 'ta noite, qual recado você mandaria para Ivete Sangalo?». O vocalista e guitarrista Carlos Ruffeil não se fez de rogado e proferiu em alto e bom som o «suck my dick and die», que também é título de uma das músicas da banda. A frase «felativa» não nos permite tradução, mas o público aderiu ao grito de guerra lançado antes mesmo de começar o show, entoando com um sorriso sarcástico no rosto, 'perando que a musa do carnaval baiano ouvisse e atendesse ao chamado, literalmente. O público, ansioso por a atração, foi logo atraído por a guitarra do Paulo Gui, integrante da também paraense Stress, além do irrevente Carlos Ruffeil e seus incríveis agudos! Seu set reduzido a sete músicas próprias foi tocado com o maior prazer por a banda, executando as músicas de seu promo cd, além de outras já disponíveis para audição na internet. Os destaques ficaram por conta de Ces ´ t La Vie, tendo o coro dos roqueiros no refrão, Descriminalizar e a sugestiva Suck My Dick and Die, cantada, novamente, em coro por os presentes. Com certeza, a Jolly Joker passou e deixou saudades. O público já cobra uma volta da banda por terras baianas e votou, através da internet, por a presença da banda na Ressaca do Palco do Rock, além de indicar seus integrantes como destaque do festival. Os baianos conheceram os paraenses e pelo visto firmaram um pacto de devoção à banda poucas vezes visto em 'ta terra de pluralidade cultural e investimento monocultural. Voltem mais vezes! Número de frases: 15 O Gonzagão, localizado no Conjunto Augusto Franco, zona sul de Aracaju, é uma casa de shows construída no inicio da década de 90 por o governo de Sergipe para suprir uma necessidade da população aracajuana que, naquele momento, já se ressentia por a falta de um 'paço amplo, arejado e seguro para curtir a boa música nordestina e brasileira. E o nome do homenageado -- Luís Gonzaga -- não deixa dúvidas sobre a intenção e a importância de se ter construído 'se monumento cultural cuja inauguração, lamentavelmente, não pôde contar com a ilustre presença do «Rei do Baião», uma vez que ele, infelizmente, faleceu um pouco antes do tão aguardado evento. Conforme depoimento de frequentadores mais antigos, nos primeiros seis anos o 'paço correspondeu às melhores expectativas com uma programação artística permanente e de qualidade, em 'pecial no período dos festejos juninos, quando o 'paço se transformava num imenso e belo arraial, com trios pé-de-serra e artistas de renome da música regional, concursos de quadrilhas, feira de comidas e bebidas típicas, casamento caipira etc. Todavia, com o passar do tempo a utilização do 'paço foi desviada para outros fins e a seleção dos artistas para apresentações na casa passou a ser feita sem muitos critérios e os problemas envolvendo a segurança do público foi se agravando cada vez mais, inclusive com casos de morte no local, entre vários outros problemas detectados. Destarte, nos últimos anos o cuidado com a conservação do 'paço físico foi deixado em segundo plano, o que obrigou o Governador Marcelo Déda, eleito no pleito de 2006, a autorizar a realização de serviços emergenciais de reforma, sem a qual o 'paço ficaria impossibilitado de retomar as funções para as quais foi originalmente destinado. E foi com 'sa perspectiva que o Professor Luíz Alberto, Secretário de Estado da Cultura, nos convidou para integrar a sua equipe ocupando o cargo de diretor do Gonzagão, com a incumbência de garantir a retomada de uma programação artística de qualidade priorizando os ritmos tradicionais como o forró, a seresta e o chorinho e a elaboração de um projeto de oficinas culturais com ênfase na inclusão de adolescentes e jovens através da arte. E como primeira iniciativa apresentamos a programação alusiva aos festejos juninos, a qual 'tá apresentada na secão agenda. Por sua vez, o projeto de arte & inclusão encontra-se em fase de elaboração e brevemente será apresentado ao Secretário Luís Alberto para análise e aprimoramento e posterior negociação junto a parceiros no âmbito do próprio governo 'tadual, do governo federal, das ongs e das empresas 'tatais e privadas. Quem acredita que a arte é um poderoso meio para diminuirmos a solidão, a angústia, a depressão, a violência familiar e / ou social, a ignorância ou que pode contribuir para dar sentido a nossa existência, combater o desinteresse por a freqüência as aulas, o desemprego, o preconceito, a intolerância religiosa e étnica etc. e quiser colaborar com nós, pode entrar em contato através do telefone 9993-4483 ou através do e-mail Estamos também com um conjunto de artigos no endereço http://www.overmundo.com.br/perfis/zezito-de-oliveira, que podem contribuir para o diálogo. Número de frases: 9 Fui assistir no cinema ao recente filme «A casa de Alice (Brasil, 2007)», do diretor Chico Teixeira. Tinha lido alguma resenha sobre ele, mas já fazia tempo, portanto não me lembrava ao certo do que se tratava o filme -- a não ser do cotidiano da família de Alice (Carla Ribas), uma manicure. A história tem um drama complicado de se encarar, que são os relacionamentos familiares nada harmoniosos. Há a amante do marido, o amante da 'posa e mais três filhos resultantes desse ambiente. Observamos algumas cenas, compartilhando os olhares atentos, porém silenciosos, da mãe de Alice dona Jacira (Berta Zemel), que também vive na casa. Esse filme me marcou de uma maneira diferente, acredito que por 'tar às voltas com o livro de «Zélia Gattai, Anarquistas graças a Deus (Brasil, 1983)». Em ele, a autora conta partes de sua infância quando morou em São Paulo, em meados dos anos 10 e 20. Zélia consegue nos inserir dentro do cotidiano de sua numerosa família -- Dona Angelina, a mãe; seu Ernesto, o pai; Eugênio, o avô; e os irmãos Remo, Wanda, Vera e Tito -- num tempo bem diferente do qual Alice encara com sua família. O interessante é observar as semelhanças e os contrastes das duas obras. Ambas se passam na cidade de São Paulo; em contextos, como já disse, muito diferentes; tratando da história de famílias nem ricas, nem pobres; e por fim, enquanto uma é considerada um caso real, a outra é uma ficção -- mas que poderia muito bem ser um caso verídico. A o ler o livro de Zélia Gattai, sentimentos contraditórios se encontram, pois ao mesmo tempo que nos sentimos bem ao tentar imaginar uma ingenuidade e bondade tão puras de todos «personagens», sabemos que nos dias atuais os comportamentos extremamente altruístas de dona Angelina com os desconhecidos e os animais soariam bobos. O que mais se percebe na história -- e que me deixou com os sentimentos contraditórios que citei antes -- é o poder que havia nos princípios de uma pessoa, isso sim era algo valioso. Ter em algo para acreditar e defender, como o anarquista seu Ernesto, que era um honesto trabalhador e por isso colecionou respeito e admiração por aqueles que o cercavam. Não parava de pensar no livro enquanto assistia à «Casa». Como pode haver uma diferença tão grande entre 'ses dois mundos? Fiquei com vergonha ao imaginar a situação totalmente absurda e hipotética, de um dos filhos da personagem Alice 'crevendo um livro parecido com o de Zélia, contando como era o seu ambiente familiar, e 'se livro, por sua vez, sendo lido por uma geração mais nova. Qual a imagem que ficaria? Sei que não 'tou na idade do pessimismo para dizer «na minha época que era bom», mas me assusta pensar como serão os próximos anos, como as famílias vão conseguir se reunir -- e apreciar 'ses momentos, e quais lembranças que restarão. Por isso, se você for assistir ao filme e ele te deixar para baixo; leia o livro, pois algo bom do início do século XX vai te deixar mais tranqüilo. Número de frases: 25 Sim, eu sei, já 'tá 'crito, tudo é carnaval. Quer dizer que no carnaval pode-se fazer de tudo? Sei lá, sei que a alegria 'tava no ar. A libido desfilava por o salão de luz azulada enfumaçada por os mais de mil cigarros acesos no templo incensado do rock ' n roll. Seu nome é Grito e seu som ecoará por toda a floresta. Carnaval no Grito! Calma lá, no Grito Rock. Caiu na rede é rock. Com mar ou sem mar, o grito roqueiro da cena indie correu por florestas, periferias e centros urbanos numa euforia juvenil anárquica e promissora. Em Cuiabá, o salão ficou cheio por três dias numa autêntica maratona de enlouquecidos decibéis. Foram 36 bandas em sequência alucinante. É, o som 'tava bastante alto e a acústica do ambiente não ajudou muito, mas não tirou o brilho da festa. Lá por as tantas, depois de muita regação etílica os ânimos relaxam, você fica mais solto e menos apto a analisar isso ou aquilo. Meus olhos de personagem giraram por todos os lados do salão em busca de ávidas novidades para relatar minhas impressões cronísticas. Crônica falta de jeito para praticar o jornalismo de uma forma mais acadêmica ou comportada. Fico voando entre informações variadíssimas, tanto quantos os acordes que soam das guitarras e dos baixos pulsantes, bumbos, caixas, distorções, destroços da noite, vozes ecoando ensandecidas, palavras ininteligíveis, giros, pogos e moshs, punks voando em ritmo lento (quase slow-motion), ora rápidos, ultra rápidos, harmônicos, dissonantes. Pouca variação de 'tilos, tudo muito parecido, tudo muito igual, 'tá faltando mais instigação, mais provocação, mais experimentos, mais ousadia. Pobre linguagem, um desatino. Até os melhores são iguais ao que já se viu. Passividade do público, aplausos corretos para rocks corretos. Dionísio, seus filhos 'tão muito bem comportados! O rock não erra mais. Receita de sucesso. Oficialize já. O rock não errou. Rock no poder. Cansei de ser rock! Alimente meu humor. Vamos, quero mais. Iluminações: a vanguarda hoje é o som comportado dos rapazes da Vanguart. Ebulições, catarse coletiva, a galera teenager canta junto: o negócio é o semáforo: cante o refrão mais uma vez: sinal verde para o sucesso. Sinal vermelho na 'tação Parador: lembranças: BR 364. Para um poeta de meias, palavras bastam. De meias trocadas, fui assim no segundo e no terceiro dias do festival-carnaval. Apesar de ambas brancas, trocadas. Miolo mole? Nâo, bolso mole, mole de tão vazio. Mas a cerveja não faltou. Toma lá, dá cá, leva um livro e bebo três ou cinco cervejas. Sem nóias. São muitas bandas, 36 no total. Totalize horas de vôo para 'se velho personagem de muitas horas de vôos roqueiros. Cansei de ser rock! Repito o refrão 3 vezes. Muitos beijos. Parece final feliz de filme roliudiano. O salão repleto de beijoqueiros. Como os jovens se beijam. Hard-core, punk-rock, folk-rock, pop-rock, tudo-rock, mas nada de novo no velho front. Que importa? Cerveja! Cerveja e rock ' n roll, suor e frenesi, o jovem acocha a ninfeta num canto de parede, olhos viajam, olhos voyeur, pássaros livres. Ondas orgasmistron. A libido 'tá no ar. A fumaça azulada. A garota acende um cigarro. Clima noir. Mas isso é carnaval? Sim! É o carnaval multicultural da capital verde. A Hell City da galera alternativa gritando: queremos mais rock! Queremos mais carne! Queremos passe livre para a classe 'tudantil! Queremos liberdade e felicidade! Queremos poesia! Queremos revoluções permanentes! Queremos mercado! Queremos a festa e felicidade geral da nação! Rock politizado, ações em rede, os fora do eixo agora são o centro da onda que conecta a diversidade dos novos bichos-geográficos, ocupando 'paços. Quem não quiser que desocupe a moita! Não há serpentina, não há lança-perfurme, o que existe é muita disposição para curtir o bom e velho rock ' n roll. Lord Crossroad é o nome da fera: lição de rock ' n roll. Charlinho é a encarnação mítica do rock, comanda a galera numa performance cênica-vocal absurda com suas letras cronísticas cantando a história dos 'quecidos do bairro Parque Cuiabá. Outsiders de todo tipo, marginais trombando na contra-mão da história. Somos filhos de 'sa viagem, passageiros de 'sa nave rumo à vertigem, 'tá 'crito na canção. Em o antigo Clube Feminino tem rock feminino: Lazy Moon, ao vivo e à cores: Technicolor de Goiás; ecos do Acre: o Brasil passa por aqui: uma porção continental: bocas gritam fagulhas. Surtos de luzes e sons. Minha cabeça baila na ciranda roqueira que poga em círculos soltando faíscas por a boca -- com a licença do poeta A.Sodré que berra do Pedregal: viver não faz mal! O punk voa para o alto. Suavemente. Flutua sobre mãos ávidas de euforia. Gritos ecoam por a selva cibernética. Psicodélico, punk, hard-core, alternativo, hard-rock, experimental, baladas, rock romântico, muito romântico, o salão 'tá repleto de meninos e meninas se beijando entre um riff cortante e outro melódico. Apoteótico: momento ímpar: Rei Momo e a Rainha do Carnaval, trajados a rigor, desfilam no salão ao som do Macaco Bong: apoteose instrumental: apulpos da galera: o carnaval reina sob apulpos da galera: viva! Guitarrista master da festa: Kayapi: faz músico dos Patrões de Jaú gritar em alto e bom som: -- Hendrix não morreu! O povo grita: Bruno caia aqui: MOSH. O Rei Momo 'tá tão magro quanto o Carnaval do Porto. O Tradicional desfile de Escolas de Samba se despede da arena melancolicamente. Os chupins da verba pública 'tão magros, de pires na mão, 'perando Godot! Godot. Airport. Hotel 100 'trelas. Eles só existem no carnaval, depois desaparecem como fantasmas perambulando por entre paredes de inúmeras repartições públicas em busca de encher um pouquinho seus pobres pires vazios. Decadência sem elegância. Carnaval fake: carregado de carioquices. Nada a ver com 'se lugar aqui. A novidade é o carnaval multicultural que a secretaria de cultura 'tá realizando: talvez 'teja aí a identidade tão buscada para o carnaval cuiabano: vários ritmos comandando a grande festa: lambadão, funk, samba, rap e rock: haja fôlego: a diversidade impera na capital-verde. Hell-city para os íntimos do rock. Jornalistas convidados, líderes do Fora do Eixo, a alegria 'tá no ar. Arlequins e Colombinas. Carnaval ao Cubo. Mágicos sem cartolas. A Fúria teatralizada desfila por o salão: Caio mas não caio, Anarcos & Toledos, me equilibro bebadamente e não ouço a voz da apresentadora que irrita a galera. Aguda, agudíssima. Babe cola, Baby Bini ou Rosa? Buquê em chamas. Cadê a Rollin Chamas? De Goiânia agora é outro nome: Bang Babus: coesão: porrada: como deve ser. Fósforo Records: acendendo novos talentos. A o final do primeiro dia, Ecos Falsos, por mim, uma das bandas mais 'peradas, de São Paulo, até agora ecoa a zoeira em minha cabeça chacoalhada: senti o peso, depois de seis horas de barulho a acústica ruim fez sentir o peso: saco meu colt 45 -- saco! Acho que 'tou ficando velho para tantas horas tantans de rock ' n roll. Som embolado, reverberações, minha cabeça fendida, rachada! Pow! Vejo 'trelas e não 'tou no céu. Um momento de forte emoção: ao som da banda jovem desse pedaço infernal: Asthenia: não sei por que, lágrimas saltam salgadas, flash-back, a memória flutua por os já passados caminhos tortuosos que percorri até chegar aqui, são 25 anos, muitas vidas, muitos sonhos desfeitos, muitos defeitos, demasiado humanos. Poucos sobreviveram a isso, de repente encontro mais um perdido no meio da garotada. Reconhecimento entre sorrisos e marcas do tempo. Soa Cronos, soa nos bumbos graves de bateristas furiosos. Doce anarquia comportada, nenhuma treta, nenhuma porrada, nenhum entrevero. Paz sem guerra. A guerra 'tá do lado de fora. Arte-grafitte, rap, audiovisual, tinha ambiente para tudo. Os grafiteiros deram um banho de qualidade artística. Caem os Museus com suas vestes mortuárias -- máscaras que separam das ruas dos comuns. A arte se liberta e vai às ruas. Gritos de Rock em 20 cidades brasileiras colocam mais uma alternativa para a diversão momesca. O movimento dos independentes pede passagem. A organização da moçada se profissionaliza. Sou público. Sou consumidor. Sou ator. Sou filho de Momo, Baco e Dionísio. Número de frases: 163 «Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo». Com 'tas palavras -- que iniciam o poema Sentimento do Mundo --, Carlos Drummond de Andrade expressa sua sensação de impotência diante da dureza da realidade mundial. Em 'te poema, Drummond apresenta um caráter pessimista e pinta uma visão de futuro bem negativa. Diante dos episódios que têm marcado o mundo hodierno -- os atentados terroristas e suas conseqüentes mortes de centenas (por vezes, milhares) de inocentes, a intolerância dos governantes, a intolerância religiosa, os preconceitos de gênero e de raça, a crise internacional envolvendo a Coréia do Norte com testes nucleares, os 'cândalos na política brasileira, a descrença no Estado e nas instituições democráticas, bem como na política como um todo, entre outros --, a população tem entrado em 'tado letárgico, ou seja, tem deixado a apatia e a inércia se sobreporem à 'perança -- até então viva -- de um mundo melhor. É a mesma sensação de impotência sentida por Drummond em 1940, quando publicou Sentimento do Mundo, cuja data coincide com o período da Segunda Guerra Mundial, ápice das tensões ideológicas em todo o planeta. Ou seja, diante de tal barbárie, restaria-nos-apenas «duas mãos e o sentimento do mundo». Essa sensação de impotência não nos pode deixar abater. Não pode, em nome do nosso limitado poder de resposta -- apenas duas mãos --, nos colocar ao lado do conformismo com a sensação do «nada pode ser feito» e do «deixa como 'tá», pois o caos 'taria consolidado e o mundo seria, por natureza, mau. Essa tese é falsa. Nossa impotência apenas sobreviverá se encararmos o mundo de forma individual, com a ótica do personalismo e acreditando de fato que só existem duas mãos. Nossas duas mãos precisam 'tar dadas às duas de outrem. Como aponta o próprio Drummond, em seu poema «Mãos Dadas,» Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes 'peranças ( ...) O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas». às angústias das inquietas indagações que o poeta faz a si próprio, em «E agora, José?», respondemos de acordo com uma velha e conhecida canção popular: «Depende de nós»! É preciso mudar tal cenário. Urge que tomemos fôlego e reacendamos a chama da 'perança. A mudança no quadro político brasileiro depende de ações efetivas do próprio povo. A barbárie do terrorismo e a intolerância dos governos dependem também da mobilização social. Vale destacar que foi devido ao silêncio e à passividade da população que o então presidente norte-americano Richard Nixon afirmou que a «maioria silenciosa» 'tava a favor dos bombardeios e da matança de populações civis na guerra do Vietnã, verificando-se depois que tal concordância não existia. Ao contrário, foi com a pressão popular que o governo norte-americano recuou da guerra do Vietnã. É preciso, portanto, que não deixemos a barbárie do terrorismo internacional, todas as formas de intolerância e preconceitos atuais, e o grave quadro da política brasileira, apagar das nossas mentes e corações o sonho de um mundo melhor, mais justo, fraterno e igualitário. Reverter o atual cenário é uma difícil tarefa, mas depende única e exclusivamente da nossa iniciativa, da nossa mobilização e das nossas ações. Continuemos firmes e 'perançosos, mas não nos tornemos passivos. Sejamos sujeitos ativos da transformação. Como disse o próprio Carlos Drummond de Andrade: " -- Ó vida futura! Número de frases: 32 nós te criaremos». Quando eu soube que um 'tudante de jornalismo 'tava fazendo um filme, fiquei logo curiosa pra assistir. Depois comecei a ver os out-doors nas ruas divulgando a 'tréia e fui ficando ansiosa ... Só que no dia que 'treou, 19 de agosto, eu tinha um compromisso inadiável e não deu pra ir. Achei que teria que ver em DVD, mas quase um mês depois, o diretor conseguiu mais uma semana de exibição no cinema do Riverside Shopping. Eu tinha que dar um jeito de ir. Fui. E já foi uma noite diferente porque foi a primeira vez que eu fui para o cinema sozinha! Cheguei lá e fiquei observando o povo chegar pra assistir: um grupo de adolescentes, um casal de idosos, mais adolescentes, umas meninas conversadeiras, mais alguns casais. Ao todo, umas sessenta pessoas. O filme começou e foi me envolvendo, fui achando bacana, ficando surpresa com a qualidade, com a interpretação -- porque só um dos atores é profissional, os demais são amigos e pessoas da família do diretor Cícero Filho, com a fotografia caprichada, com a música bonita. Engraçado é que eu me senti como eu acho que se sentem os moradores do Leblon quando assistem a uma novela do Manoel Carlos: cada vez que aparecia um pedacinho de Teresina, eu achava lindo. As ruas, os ônibus, as expressões das pessoas, os sotaques, tudo teresiníssimo. «Entre o amor e a razão» conta a história de uma família de sertanejos que vive praticamente na miséria. A história começa mostrando o casamento de Elizeu e Cláudia. Ela, moça bonita que foi adotada por uma família rica, ganha o desprezo da mãe adotiva ao se apaixonar por um cara pobre. Sai da vida de luxo que levava e vai viver num casebre com o marido e três filhos. Cansado de ver a família sofrer, Elizeu decide deixar o povoado onde mora, no interior do Maranhão, e vir tentar a sorte em Teresina. A cena em que a família se despede provocou minhas primeiras lágrimas da noite. Minhas e de mais um monte de gente. São muitos momentos emocionantes em todo o filme. A Brenna Lima, que interpreta a filha do casal, tem um rosto de anjo que é uma coisa ... quando ela aparece de carinha triste todo mundo que 'tá no cinema cai no choro de novo. Não acho graça em contar a história toda do filme, mas adianto que ri, chorei muito, saí do cinema com o coração apertado por saber que muita gente passa por as mesmas situações que a família de Elizeu e Cláudia passa, e também com um orgulho danado de ver que o trabalho do Cícero e seus amigos é mesmo bonito e merece os elogios, os confetes e os aplausos que tem recebido por aqui. Conversei com ele e senti a paixão do cara por o que faz em cada palavra, no brilho dos olhos quando contava cada pedaço da saga que foi fazer o filme. Cícero Filho acabou de se formar em jornalismo e tem experiência por trás das câmeras porque 'te é o seu 23º filme -- o primeiro foi feito aos 12 anos de idade. Ele conta que «Entre o amor e a razão» marca uma nova fase, mais profissional, mais séria. «Eu fazia filmes de brincadeira. Com 'se eu levei tudo muito a sério, e foi difícil de fazer. Pra você ter uma idéia, começamos a gravar em 2004 e de lá até o momento da finalização tivemos muitas pausas, atores que desistiam, dinheiro que não tinha». Vendo o filme pronto, fica difícil pensar em outras pessoas fazendo os papéis. Quem dá vida à Cláudia é Irisceli Queiroz, 'tudante de jornalismo (sim, colega de faculdade do diretor). A beleza bem brasileira de ela faz pensar imediatamente naquelas meninas bonitas que vivem «'condidas» no interior do Brasil. A mãe malvada é interpretada por a professora doutora Graça Targino, que faz uma cara de megera de dar medo. «Selecionar os atores foi complicado. Quando terminei o roteiro, comecei a convidar pessoas que 'tivessem dispostas a participar de um filme voluntariamente, porque eu não tinha dinheiro para pagar atores profissionais. Convidei gente leiga mesmo, que nunca tinha ficado de frente pra uma câmera, até meu pai entrou no rolo. Mesmo com as dificuldades, não desanimei, procurei deixar o clima das gravações bem leve, deixei todo mundo à vontade e 'se foi um grande diferencial. Os atores ficaram livres para dar vida às falas, eu só cortei os excessos», revela, acrescentando que o único ator profissional é Anchieta Cardoso, que vive Elizeu (ele também é 'tudante de Jornalismo). A irmã e o sobrinho de Cícero também 'tão no elenco. As gravações foram feitas em Teresina, em Poção de Pedras (cidade natal do Cícero) e nos povoados Barro Vermelho e Moradinha, no interior do Maranhão. Para exibir o filme nos shoppings, junto com os blockbusters, o diretor teve que emocionar o gerente dos cinemas. «Ele me ofereceu um dia de quinta-feira às 13h, mas eu queria muito que fosse no fim de semana, então pedi a ele que desse uma olhadinha no filme. Ele assistiu até o fim e se emocionou, depois perguntou quanto eu gastei, que câmeras eu usei. Pediu um relatório completo da produção do filme e perguntou quando eu queria exibir e me deu o sábado à noite, no horário mais ' nobre '. Fiquei feliz demais. E mais ainda quando vi a fila se formando pra assistir ao meu filme, os comentários das pessoas depois». O filme tem uma comunidade no Orkut e um blog, onde dá para ver cenas das gravações e conhecer os atores e o diretor. Número de frases: 50 Homenagens a santos mexem com o dia-a-dia tranquilo dos distritos de Porto Velho. Vale até mesmo cruzar o rio de barco para não perder a diversão Coisa típica de interior. Durante o dia, pouca gente se vê por as ruas. Quem não 'tá pescando, 'tá na roça, cuidando da plantação de mandioca ou tirando açaí. Em o fim da tarde, a família se reúne na beira do barranco para ver o balé dos botos e as embarcações que cruzam o rio. Essa tranqüilidade das comunidades do Baixo Madeira só é alterada por os festejos. Sempre homenageando algum santo da Igreja Católica, 'sas festas são os maiores acontecimentos culturais e sociais de 'sas localidades. «Em o festejo vem gente de tudo que é lugar aqui perto, vem até de Porto Velho», comemora Valdir Silva, morador de São Carlos, a primeira localidade do roteiro de festejos. Lá, a festa é para Nossa Senhora de Aparecida e acontece entre os dias 4 e 12 de outubro. São nove dias de fé, bingos, brincadeiras, torneios de futebol e muita alegria, embalada por o som do lugar, que pra variar é Calypso, Calcinha Preta e bandas locais que regravam os sucessos do forró e do brega. Namoro, peixada, cantoria, vai e vem de canoas cruzando o rio. A rotina do lugar é alterada e a pacata comunidade se transforma num grande e alegre arraial de fé e euforia. As crianças transformam logo tudo em algazarra, e tome gritaria e haja correria. «Olha já», como dizem os ribeirinhos, uma expressão que combina com admiração. É assim que todos ficam, mesmo que todos anos a festa se repita, nunca é igual. Mas para chegar até lá, são nada menos que cinco horas de viagem nos recreios até São Carlos. Os tais recreios são grandes barcos que fazem o transporte coletivo no Rio Madeira, os chamados ônibus da Amazônia. As águas do Madeira são enfrentadas por as embarcações, o único meio de transporte da gente da beira do rio. E a festa, melhor, os fetejos continuam. Quarenta minutos depois, 'tá o distrito de Terra Caída, onde a festa é no primeiro sábado de agosto, em homenagem a São Sebastião. Já em Nazaré, onde o festejo é de Nossa Senhora de Nazaré, a festa é dia 7 de setembro. Distante onze horas de Porto Velho 'tá a maior de 'sas localidades, a ilha de Calama. Cercada por os rios Madeira, Machado e Mayci, o distrito é o maior do beiradão, logo o festejo de São João Batista também é o que reúne mais ribeirinhos das comunidades menores vizinhas à ilha, como Tira-fogo, Conceição da Galera, Ressaca, Firmeza, Papagaios e Gleba Rio Preto. A novena começa dia 16 de junho e o ápice da festa é dia 24, com música ao vivo. «Vem até os crentes», brinca dona Joana, uma índia parintintin, que mora desde criança em Calama, e fala com alegria dos festejos: «reúnem toda a gente do lugar, até quem não é católico», garante a senhora que já passou dos 90 anos. Muito afastadas, todas 'sas comunidades são distritos de Porto Velho, algumas de elas até mais antigas que a própria cidade, entretanto, 'quecidas por o poder público há muito tempo. Só há pouco começaram a ter acesso a postos de saúde, 'colas com ensino médio e programas sociais do Governo Federal. Os beradeiros, que vivem à mercê da natureza, 'perando o bom tempo para colher, plantar e cruzar a forte correnteza do rio Madeira, são parte da história e da beleza da Amazônia, porque a quem se lança nas águas barrentas e caudalosas desse rio não faltará um senhor, uma mulher ou uma criança que lhe 'tenda os braços para um aceno de boas vindas, de boa sorte, de 'tou aqui. São Carlos Cinco horas (em média) de viagem partindo de Porto Velho R$ 15,00 Possui hospedaria -- quarto solteiro: R$ 10,00 Calama Onze horas de viagem a partir de Porto Velho R$ 25,00 Possui pousada, a partir de R$ 10,00 o quarto. Número de frases: 36 Vai ser lançada oficialmente no dia 7 de outubro a primeira coletânea com a grife Reverb Brasil e Obra Discos. Para o leitor que não conhece a Reverb Brasil se localizar e dimensionar a importância deste lançamento, vamos fazer um breve histórico. A Reverb Brasil surgiu no ano 2000, como uma associação informal de bandas de surf music de todo o país. De entre seus projetos, podemos destacar o Campeonato Mineiro de Surf, que já parte para a sua sétima edição, o programa de rádio da Reverb, que era apresentado na Rádio Favela e agora faz parte da programação da Rádio Inconfidência FM, e, agora, como carro chefe, vem a coletânea. O CD marca ainda o primeiro lançamento da Obra Discos. Não bastasse tudo o que a Obra já fez por a cena independente mineira (e também brasileira), eles agora vão não só promover shows, mas também lançar discos das coisas legais que rolaram por lá. E como a parceria Obra / Reverb começou no ano 2000 com o Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe, nada mais lógico que o primeiro lançamento da Obra fosse mais um projeto revérbico. O CD se chama Reverb Brasil: Uma coleção de bandas de surfe e conta com a participação de 13 bandas de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, e faz uma pequena mostra da produção da cena de surf music brasileira, considerada uma das mais prolíficas e criativas do mundo. Estão presentes as bandas: Retrofoguetes (Salvador -- BA), Go! e Netunos (Rio de Janeiro -- RJ), Orestes Prezza (Campinas -- SP), Gasolines e Huntington Bitches (Paulo -- SP), Kozmic Gorillas, Maremotos e Limbonautas (Curitiba -- PR), Estrume ' n ' tal e thesurfmotherfuckers (Belo Horizonte -- MG) e Cochabambas e Ambervisions (Florianópolis -- SC). As músicas variam do surf mais tradicional ao mais moderno e pesado, passando por misturas com ritmos latinos ou música de video game. O único defeito é que o projeto do disco demorou praticamente 3 anos para ser concretizado. O que não tira seu brilho, já que algumas das bandas presentes no disco já nem existem mais e nem todas tinham um registro oficial. Só por isso, a coletânea já vale como registro histórico. E como muitas bandas mais recentes ficaram de fora (só para citar algumas: The Dead Rock s, Los Muertos Vivientes, Os Pazuzus, Super Stereo Surf, The Violentures, Psicotrópicos Deluxe, Tosco Dudes, Búfalos D' água, Esquadrão Relâmpago Monster Surf, Lava Jets e muitas outras), fica aquela obrigação de não ser o último lançamento da Reverb. O disco tem um site próprio onde se pode conhecer mais sobre as bandas e a Reverb Brasil, além de ouvir mp3 e saber onde comprar. «Show De Lançamento da Obra Discos E De o CD REVERB BRASIL " com Estrume ' n ' tal e thesurfmotherfuckers Dia 7 de outubro (sábado), a partir das 23 horas Local: A Obra (Rua Rio Grande do Norte, 1168 -- Savassi -- BH -- MG) Entrada: R$ 10,00 Número de frases: 23 Informações: 31.3215-8077 ou www.aobra.com.br Em os próximos dias 1 e 2 de setembro, acontece em Recife a terceira edição do festival Em o Ar: Coquetel Molotov. É um festival novo, feito por pessoas bastante novas, com um perfil bem 'pecífico. O nome é bem sugestivo para o que começou com a intenção de cumprir tabela nas aulas de jornalismo na faculdade e acabou conquistando as freqüências moduladas; e explodiu num coletivo que é também revista, selo e agora festival. A atividade do Coquetel é um passo mais significativo na renovação da cena pernambucana. A carência que a região tinha para novidades refletiu na velocidade em que o evento foi bem recebido por o público e, principalmente, por a imprensa local. O Coquetel é formado por Ana Garcia, Tathianna Nunes, Jarmeson de Lima e Viviane Menezes. As duas primeiras responderam 'se entrevista, 'pecíficamente sobre as dificuldades de inserção, legitimação e formação de um novo mercado local. Overmundo: Quando foi que você teve o 'talo da idéia «Preciso fazer um festival»? Aninha: Quando tivemos a oportunidade de levar o Teenage Fanclub para Recife, aproveitamos para criar um festival. Aí convidamos artistas que gostamos e pensamos em dar o nome de Em o Ar Coquetel Molotov. Preciso dizer que a inspiração do nome veio do Sonar (Som no ar ...) e foi também uma homenagem ao nosso programa de rádio. Mas, bem, antes mesmo do show do Teenage Fanclub, já 'távamos 'crevendo projetos para o Ministério da Cultura e tínhamos começado a conversar com algumas empresas sobre apoio e patrocínio. Ou seja, queríamos fazer algo com o Coquetel Molotov que fosse além do programa de rádio ... Tínhamos criado o site e percebemos que Recife 'tava realmente aberto, ou carente, a algo com uma proposta um pouco mais inovadora. Em o fim, eu acredito que a nossa motivação seja igual para todos os nossos projetos -- queremos 'cutar e assistir a bandas que nunca têm a oportunidade de tocarem em Recife e que achamos legais. Eu cresci dentro de uma família musical, então foi fácil aprender a colocar as idéias no papel, mas a produção nós aprendemos na raça mesmo ... Ainda 'tá sendo um bom processo! Tathi: Além de tudo o que Aninha disse, a idéia de construir algo além de um programa de rádio com pessoas queridas (porque antes de produtores e jornalistas, somos amigos de faculdade) sempre foi presente no Cm e que cresceu absurdamente quando Aninha resolveu passar uma temporada em São Paulo e o grupo simplesmente precisava se reunir novamente. Acho que o Coquetel teria acabado se tivesse continuado apenas como um programa de rádio. Overmundo: O que é mais difícil de fazer na produção de um evento do porte do Coquetel? Aninha: Achamos muito importante fazer as coisas pessoalmente, desde assessoria, fechar os apoios, contatos com as bandas, a panfletagem. Então, a dificuldade 'tá em conseguir produzir um festival com uma equipe com apenas quatro pessoas. Sabemos que não podemos continuar assim por muito tempo porque o festival 'tá crescendo, mas 'pero nunca perder 'se detalhe tão importante. Eu percebo uma diferença muito grande do nosso festival aos outros -- que é a atenção que temos com os artistas e com as pessoas que trabalham dentro do evento. Lembrando que a produção de qualquer projeto do Coquetel Molotov sempre envolve várias pessoas, como a Mooz, as bandas, instituições ... Tathi: E tem a questão do apoio. Trabalhamos com um orçamento apertado e isso atrapalha bastante. Overmundo: O Coquetel são várias mentes pensantes. Algumas com perfis bem diferentes. Como vocês chegam na programação final do evento? Aninha: Com certeza somos bem diferentes, mas temos uma sintonia incrível e sabemos o que cada um acharia legal dentro de um festival. Então, quando alguém consegue um contato ou fecha uma banda, normalmente todos concordam. Também sabemos um pouco do sonho de cada um, o que é ótimo, assim na hora de 'colher os artistas, já sabemos quem chamar. Sabíamos que Viviane 'tava louca para convidar CocoRosie e coincidiu a vinda das meninas para o festival Mutzi que acabou rolando na mesma época. Eu e Tathi queríamos convidar Tortoise, já Jarmeson fez uma enquete no Orkut e chegou a conclusão que o público queria Júpiter Maçã e Móveis Coloniais de Acaju ... Não sei, mas a programação era bem óbvia para a equipe, é algo que não sei explicar ... Acho que isso é um resultado do grande convívio que temos e dos nossos projetos. Tathi: Essa sintonia acaba presente em todos os projetos do Cm. A diferença, aqui, tem ajudado bastante até agora e 'pero que continue por muito tempo. Overmundo: Como vocês lidam sendo ao mesmo tempo mídia -- a revista e a rádio -- produção de festival e também de bandas? Vocês tentam evitar falar / expor sobre o que produzem? Ou a revista / festival serve mesmo de vitrine? Aninha: Esse ano, tivemos a nossa primeira derrota que foi não conseguir produzir a segunda revista ... Acho que falamos demais sobre a segunda edição, criamos uma expectativa, não apenas para os leitores, mas para os músicos e até para nós mesmo, e não saiu. Tem sido algo tão triste que nem gosto de falar muito a respeito ... A revista foi um sonho realizado e daremos tudo de nós para que ela saia direito a partir do próximo ano. Como disse anteriormente, acho que o Coquetel Molotov tem muitos projetos e poucas pessoas envolvidas. Por o fato de não termos lucro nós precisamos trabalhar com coisas não relacionadas ao Coquetel Molotov. Tathi e Viviane ainda 'tudam e eu sou mãe. Mas eu acho que a revista / festival é uma vitrine, claro, porque já que tudo acaba sendo feito na brodagem, o mínimo que podemos oferecer para 'ses artistas, seja das artes visuais ou músicos, é uma vitrine. Tathi: Hmm. Não consigo separar os projetos do Coquetel. Claro que, por serem muitos projetos dentro de um, um acabe andando mais do que o outro. Mas, sempre que penso e falo no Cm, penso no conjunto e por isso não procuro evitar falar e / ou expor o conjunto do nosso trabalho. Overmundo: Tantos produtos permitem um contato próximo demais com os músicos, que geralmente outros jornalistas não conseguem ter. Consequentemente, um contato com as carências de uma cadeia produtiva. Como vocês se envolvem com 'sas necessidades do meio musical? Tathi: É. Realmente é um envolvimento que ultrapassa as barreiras apenas de um contato profissional. Acabamos amigos de músicos e produtores e, assim, dividimos com eles as carências do mercado que anda nos afetando muito. Mas, gosto desse envolvimento. Como Aninha disse anteriormente, 'se contato mais pessoal com quem trabalhamos dá mais graça ao negócio e ficamos sabendo de mais fofocas também que é sempre bom. Overmundo: O Coquetel Molotov faz parte, ou pretende fazer, da Associação Brasileira de Festivais Independentes? O que vocês acham da Abrafim? Aninha: Não fazemos parte, nunca recebemos um convite e para ser sincera, eu realmente não sei do que se trata. Uma vez convidamos Rodrigo Lariú e Fabrício Nobre durante o Porto Musical para participar do nosso programa de rádio e eles falaram um pouco sobre o assunto, mas achei tudo um pouco contraditório. Ainda 'tavam formulando as regras, mas já tinham um monte de exceções ... Overmundo: Qual a maior dificuldade que vocês têm, num nível mais pessoal, de se legitimar como um festival? Não falo de dificuldades técnicas, mas coisas com idade, sexo, naturalidade. Aninha: Com certeza ainda 'tar na casa dos 20 e ser mulher em 'sa área produção / jornalismo é complicado ... Várias vezes perguntam a nossa idade antes de começar uma reunião ... A nossa sorte é que Recife é uma cidade pequena e depois de duas ou três reuniões, eles entendem que somos sérios. Deve ser a minha agenda de florzinha. Mas sinceramente, o nosso problema não é idade e nem sexo, mas sim a falta de uma política cultural séria na cidade. Tathi: Além do festival, nós acabamos entrando em turnê com os grupos. Tanto o TFC em 2004, tando o Dungen em 2005, ficavam admirados porque duas meninas 'tavam ocupando o papel de «tour manager». Acho que eles gostaram de trabalhar conosco.. Pelo menos, foi o que eles disseram. A questão do sexo e a idade a gente passa por cima, o problema de falta de direcionamento na política cultural pesa mais. E, Aninha, no próximo ano vou te dar uma agenda de capa de couro preta. Aninha: Hahaha ... A agenda de Tathi tem florzinhas também! Overmundo: Vocês já conseguiram conquistar muita coisa. O que vocês planejam para o Coquetel agora? Qual o próximo passo? Aninha: Ai, não acho que conquistamos muita coisa ... Eu acho importante conseguir manter os nossos projetos. Isso é o principal. Conseguir fazer as coisas e poder pagar os músicos e artistas envolvidos nos nossos projetos. Sinceramente, o Coquetel Molotov é um coletivo bem grande mesmo ... Porque ele só pode existir com a colaboração de todos. Mas falando sobre o futuro, isso é um plano importante -- descobrir a forma de manter os nossos projetos. Também vamos abrir uma sala do Coquetel Molotov! Woohoo. Será em Setúbal, dentro de um 'túdio. Tathi: Ainda bem que o 'critório vai ser perto de casa. Número de frases: 117 Você pode conferir outra entrevista com o Coquetel Molotov, feita por Ronaldo Lemos, também aqui no Overmundo. Surpreendente! É a melhor palavra que resume o resultado do trabalho apresentado por os artistas e grupos das cidades de São Cristóvão, Barra dos Coqueiros, Aracaju e Nossa Senhora do Socorro, que se apresentaram na noite do sábado, 13 de janeiro de 2006, no Teatro Lourival Batista em Aracaju. Surpreendente! Para Raimundo Venâncio, 'colhido para diretor do Teatro Lourival Batista por o próprio Secretário de Cultura, Luís Alberto, e que se dedicou com 'pecial carinho e atenção ao evento! Surpreendente! Para Virginia Lúcia, Isaac Galvão e Milton Leite, artistas e militantes no movimento cultural há décadas! Eles puderam constatar que, apesar do descaso, do desinteresse e da falta de compromisso da grande maioria dos gestores 'taduais e municipais, as iniciativas culturais na periferia resistem e são capazes de mostrar uma gama de talentos individuais e coletivos que os equiparam aos de muitos profissionais reconhecidos por a sociedade sergipana. Surpreendente! O trabalho de Nelson Santos e Cia. de Dança do município de São Cristóvão, com o 'petáculo «Puro Instinto» e por o coreógrafo e professor Joubert Azevedo no solo «Meu Erro», que dialogam com aquilo que temos de melhor na produção atual da dança contemporânea no Brasil como o Grupo Corpo, o Balé Quasar, a Companhia 1º ato, entre outros. Surpreendente! O trabalho da Companhia de Dança Rick di Karllo, do Conjunto Eduardo Gomes, localizado em São Cristóvão, e parceira antiga da Ação Cultural, que além das coreografias com as alunas da turma infanto-juvenil da academia, apresentou o 'petáculo «Em o fundo da minha alma o medo do pecado que não cometi», que em nossa opinião representa um dos momentos mais brilhantes da carreira do coreógrafo e professor Carlos Henrique, incorporando as cores e os ritmos sergipanos e brasileiros de forma 'tilizada, sem perder o elo com a trajetória da companhia que tem se notabilizado por o 'tilo da dança moderna, com forte influência do pop universal. Em sintonia também com o momento político e 'tético por o qual 'tamos passando, a partir das intervenções de milhares de artistas, companhias e grupos famosos e anônimos que têm sobremaneira valorizado aquilo que o brasileiro tem de melhor, que é a nossa tradição cultural. Surpreendente! A apresentação da Companhia «I» Dance, da Barra dos Coqueiros, que apresentou um par de deux com os bailarinos Paulo César e Carol, uma linda performance sensual e romântica, com o toque sutil da graça e da beleza do ballet clássico intercalados com movimentos de livre expressão inspirados por a composição «Alma Gêmea, de Ivo Pessoa». Outros destaques na área da dança foram as apresentações de um solo de dança moderna da professora Mércia Conceição de Aracaju, do bailarino Alisson Soares de São Cristóvão e o Grupo de dança de rua Pop Dance, do Conjunto Jardim, em Nossa Senhora do Socorro. Em a área do teatro a apresentação do 'quete «Um Encanto de Conto» com os alunos que participaram do Projeto Oficinas Ecarte (Educando com Arte), do Colégio Leão Magno, também do Conjunto Jardim, Nossa Senhora do Socorro, coordenado por o ator amador e documentarista Lázaro Emidio. E, finalmente, na área da poesia, a performance do ator e poeta Jobys, do Bairro América, localizado na periferia de Aracaju e a apresentação da poetisa Nely Alves, de Nossa Senhora do Socorro. Problemas, falhas, dificuldades, também houve, mas como disse a atriz, teatróloga e arte-educadora «Virginia Lucia,» é a prática constante que poderá diminuir e até acabar com tudo isso». A companheira de longa data também nos colocou um desafio, que foi aceito prontamente: sem deixar de continuar exercendo o importante papel de agente e produtor cultural, colocar o nosso potencial de conhecimentos na área de história e educação popular a serviço da fundamentação teórica dos rapazes e moças que 'tão envolvidos com os grupos culturais, com foco nas artes cênicas, enfatizando aquilo que o Brasil e a humanidade produziram de mais significativo. Segundo ela, isso é urgente para que os meninos e meninas possam enriquecer os seus referenciais, não se restringindo em 'tabelecer diálogos através dos 'petáculos, apenas com a produção atual e com projeções futuristas. Todos os que 'tiveram lá e todos aqueles convidados, mas que não puderam 'tar presentes, terão mais surpresas em setembro, quando pretendemos realizar a III Mostra Arte e Cidadania com uma melhor 'trutura, inclusive de divulgação, em função de termos sido selecionados no concurso de projetos culturais do Banco do Nordeste, para o ano de 2007. Destarte, 'peramos também o apoio efetivo da Secretaria de Cultura, que comprometeu-se em tornar possível ao maior número de sergipanos e sergipanas o acesso aos meios de produção e fruição da cultura, negado por as gestões autoritárias, elitistas e excludentes que tivemos nos últimos anos. «José de Oliveira Santos Zezito» -- Coordenador Geral da II Mostra Arte e Cidadania e Diretor-Presidente da Ong Ação Cultural. Número de frases: 24 Texto publicado no blog da Ação Cultural. A impressão que tive logo na entrada foi: Nunca se leu e se publicou tanto no Brasil! Novecentos expositores, centenas de «stands», livros de todos os tipos, didáticos, infantis,» best-seller», romance, ficção, manguás, 'tórias em quadrinhos para adultos, palestras multi-mídia, sessões de autógrafo, Fórum de Debates e até um Jirau de Poesia, tipo um karaokê poético, você entrava lá, 'colhia a poesia favorita e soltava o gogó ... Algumas pessoas não continham a emoção, os versos saíam engasgados, mas tudo bem ... Palmas para os poetas que emocionam! Depois, Café Literário e Botequim Filosófico, tudo para não sair do «clima». Este ano a XIII Bienal Internacional do Livro homenageou dois 'critores vivos, que acabam de completar oitenta anos. Nosso paraibano Ariano Suassuna, dramaturgo, romancista, poeta e 'critor do Alto da Compadecida, membro da Academia Brasileira de Letras. Gabriel García Marquez, colombiano, que 'te ano comemora quarenta anos de lançamento de seus «Cem Anos de Solidão», livro mais famoso de sua carreira, seu realismo fantástico que consagrou-o como um dos mais importantes 'critores da América Latina, com o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Ariano Suassuna, de fala mansa, reuniu centenas de pessoas que queriam ouvir seus «causos», seus contos e suas respostas, algumas respondidas com um sorriso: «De onde vêm as idéias de um livro?" «Como se criam personagens?" «Como o senhor consegue manter-se ativo aos 80 anos?" Ariano dá um longo suspiro ... «A razão manda que a gente se acomode em casa e o sonho é que leva a gente para frente ..." E a festa continua. O consumismo enchendo as sacolas e 'vaziando os bolsos, quem foi com criança se deu mal (financeiramente) porque nos «stands» infanto-juvenis era um tal de» ... compra, compra ..." Ziraldo foi, sem dúvida, o mais vendido entre os pequenos, a fila de autógrafos da «Menina das Estrelas» fazia voltas, a criançada querendo beijo, abraço e autógrafo! Em 'ta ordem! Saí de lá com a sensação que brasileiro gosta de ler. O preço dos livros ainda 'tá salgado mas comprei livros infantis, didáticos, capa-dura, por três reais. E os " sebos-chiques não param de prosperar. Em alguns, você encontra aquele livro que você «não lembra para quem emprestou e 'queceram de te devolver» por a metade do preço. Livraria e café. Combinação perfeita em qualquer lugar do mundo. Com a diferença que aqui no Brasil ainda pode se dar uma paquerada, sem atrapalhar a leitura alheia! E pode ser o início de uma interessante conversa! Número de frases: 29 Obrigada Dias atrás as autoridades prometeram que as filas não existiriam nos aeroportos nos dias próximos ao Natal. Elas 'tão aí. Agora 'tão dizendo que no Ano-Novo não as teremos. Número de frases: 3 Quem paga para ver? Dançando para não dançar leva cultura para lares e palcos Para 450 crianças de onze comunidades no Rio de Janeiro, dançar afasta do mau caminho. Essa é sem dúvida a maior conquista do Projeto Dançando para não Dançar, patrocinado por a Petrobras. Criado em 1995, com o intuito de «resgatar a criança através da música e da dança, levar cidadania». O professor Paulo Rodrigues (51 anos) explica o outro resultado positivo «Dá tão certo que formou vários talentos e os encaminhou para grupos profissionais». Ele sabe muito bem do que 'tá falando, afinal, além de professor do Dançando é um dos poucos membros de um seleto time: o dos Primeiros Bailarinos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Somente alguns dançarinos detêm 'te cobiçado título. Recentemente foi criada a Companhia Dançando para não Dançar e já em junho deste ano houve a primeira apresentação, em Brasília. A temporada continuou com apresentações por o 'tado do Rio: Largo da Carioca, Teatro Municipal de Niterói e de Rio das Ostras, São Cristóvão, Paraty e Macaé; além de Bahia e São Paulo. O 'petáculo de uma hora encerra a temporada nos dias 15 e 16 de novembro, no teatro João Caetano. Com a criação de 'ta companhia de 20 membros foi possível resolver um grande problema no mundo da dança: a falta de mercado de trabalho. Segundo o professor «Rodrigues,» sem a companhia vários talentos do grupo se voltariam para outras profissões por falta de mercado de trabalho. Com a Companhia podemos absorver os maiores talentos do projeto». Dançando com sucesso O sucesso de Francisca José de Soares (20 anos) é um modelo para toda criança interessada em dançar profissionalmente. «Eu sempre gostei de dança, mas a partir do Dançando minha vida toda mudou» contou a bailarina enquanto fazia alongamentos de balé para uma aula que 'tava prestes a começar. Essa bela história começou quando ela tinha apenas nove anos. Levada por a mãe para o projeto recém criado Dançando para não Dançar, na comunidade do Cantagalo, Francisca José começou a ter aulas de dança. Em apenas seis meses entrou para a 'cola 'tadual de dança Maria Eneleva, onde 'tudou por três anos. Passado 'te tempo a jovem bailarina conseguiu uma bolsa para 'tudar na Staatlische Ballett Schuele Berlin, na Alemanha. Foram três anos 'tudando Balé Clássico e alemão. Atualmente, Francisca trabalha como monitora do projeto Dançando e dançarina na companhia de mesmo nome. Além disso, 'tá cursando uma faculdade de dança. «Nunca pensei que eu fosse fazer universidade, achei que a dança seria um hobby» revelou com um sorriso de orgulho. O fato de ter vindo de uma família pobre não atrapalhou em nada sua carreira. Ao contrário, talvez tenha ajudado. É o que explica o professor " Rodrigues: «As crianças mais pobres têm empenho, não faltam, repetem os exercícios. Talvez seja por a vida difícil. Já os ricos não têm garra ou gana». Mesmo quem não segue a dança como profissão fica beneficiado por participar do projeto Dançando para não Dançar. Além das aulas de dança, os alunos têm aulas de inglês e alemão e apoio de psicólogo, nutricionista, médico, dentista, fonoaudiólogo e assistente social. Tudo isso para levar cidadania a crianças necessitadas. Para quem não entendeu fica a explicação de " Francisca José: «Dançando na arte para não dançar no mundo da marginalidade, das drogas, e do crime». Número de frases: 40 Lizarda, no Tocantins, a 327 quilômetros de Palmas, é uma de 'sas comunidades isoladas do restante do país. Localizada num ponto do mapa do Brasil de interseção dos Estados do Tocantins, Piauí e Maranhão, o município é rodeado por um sertão onde só se chega depois de pelo menos 200 quilômetros de 'trada de chão, por qualquer caminho que se 'colha. O isolamento gerou décadas de atraso econômico, mas também preservou tradições e costumes. Foi por causa de ele que a Festa dos Caretas, uma das mais tradicionais na região e única do país, se livrou da extinção, como ocorreu em outros 'tados brasileiros. O primeiro registro histórico da brincadeira 'tá documentado no vídeo Os caretas de Lizarda, de Hermes Macedo e Marcelo Silva. Com 24 minutos de duração, o vídeo mostra como o profano e o religioso se misturam numa folia mística e assustadora. Para Marcelo Silva a produção do documentário é um meio de fazer com que 'ta tradição não seja extinta. E isso já aconteceu. O sucesso da película atravessou o oceano Atlântico e foi parar no Ano do Brasil na França, em Paris, onde foi exibido e muito aplaudido por os europeus. Por aqui, foi premiado com a 'tatueta de melhor filme, no Festival Cine ao Ar Livre, realizado em Porto Nacional (Te o) no final do ano passado. Além disso, o diretor ressalta que o documentário ajudará a diminuir o preconceito do poder público e da Igreja em relação à festa, que é pagã. A Igreja não a reconhece. «Isso de queima de Judas, e a careta não é tão comum aqui», afirmou o padre Hector Veloso, o único no município, em depoimento no vídeo. Mas a brincadeira dos caretas é um ritual antigo. Os moradores da pequena comunidade de apenas 3.550 habitantes vieram do Nordeste há mais de 100 anos seguindo os passos de dona Lizarda, a fundadora da cidade que influenciou a formação de uma sociedade matriarcal. De lá eles trouxeram lendas e crendices, que encontraram no Tocantins campo fértil para prosperar, por causa da ausência da Igreja. A folia acontece durante a Semana Santa. Em a sexta-feira, os moradores se dedicam às orações cristãs. Mas quando a igreja é fechada, no final do dia, entra em cena a festa dos caretas. Eles são como demônios mascarados que descem as serras para assustar a população e proteger as chamadas «quintas» -- propriedades que são montadas por os próprios moradores, e onde se guardam as produções de cana-de-açúcar, coco e banana. De acordo com a pesquisadora Leonídia Batista Coelho, o costume vem de Portugal. «Quando eles falaram que os caretas 'tavam ali para defender a quinta, isso me remeteu aos colonizadores», disse a pesquisadora no documentário. A brincadeira é realizada à noite, na fazenda Morro Alto, única que resistiu à pressão da Igreja. É lá, onde existem apenas seis casas, que a festa acontece exatamente como há 70 anos. Sem energia elétrica e água encanada, regalias do mundo moderno, a folia é realizada no 'curo mesmo, como sempre foi. A entrada dos caretas na fazenda obedece ao chamado do ronca-tripa -- uma 'pécie de cuíca gigante, afinada no fogo, que marca o ritmo da brincadeira -- e das cantorias das mulheres de Lizarda. Com chicotes nas mãos (pinholas) e usando máscaras feitas de buriti -- planta típica do cerrado, folhas e até pêlo de animais, os caretas anônimos invadem a roda e ameaçam aqueles que ousem invadir a quinta. Como numa luta entre o bem e o mal, eles não respeitam parentes, nem amigos. Jovens, mulheres, crianças e idosos: todos se sentem instigados a invadir a quinta e levar algum produto, mas qualquer um que se atreva é rapidamente castigado a chicotadas. Além dos mascarados, mais três personagens fazem parte da folia: a Catita, homem que se fantasia de mulher e se torna, na brincadeira, 'pécie de amante dos caretas -- é ela quem agarra os moradores para que os mascarados os chicoteiem; a égua -- uma mandíbula de boi articulada por um arame -- é o animal do grupo; e o fantasma -- um dos caretas se veste de branco para assustar as crianças. E são elas, as crianças, as principais responsáveis por a perpetuação da tradição. Imitando os adultos, os pequeninos ensaiam o rito, sempre antes do folguedo, que se repete há cerca de 100 anos, sem que se explique ao certo o motivo de sua existência. Registro da festa Documentário: Os caretas de Lizarda, 2005 Direção: Hermes Macedo e Marcelo Silva Duração: 24 minutos Premiações: Cine ao ar livre -- Porto Nacional (Te o), em novembro; e selecionado para o Ano do Brasil na França, em agosto de 2005 Contato: Número de frases: 42 oscaretas@uol.com.br MULTIVERSO Paralelo Rogério Águas (diretor musical, violão e guitarra) Murilo Lima (vocal -- ex Capital Inicial), Giuliano Manfredini -- (filho de Renato Russo violão) Carmem Manfredini (irmã de Renato Russo vocal), Márcio Baldone (baixo) Alexandre Podrão (vocal), além da parceria artística com Loro Jones (ex Capital Inicial) Dia 15 de julho, Murilo Lima, ex Capital Inicial e vocal da banda MULTIVERSO Paralelo, foi entrevistado na 102.1 mhz, KISS FM, no jornal roqueiro comandado por o titio Marco Antonio, o Alternativa KISS. Rock Solidário é Rock Mesmo, dedicado a Renato Russo e seu pai Renato Manfredini, é o título do CD da Multiverso Paralelo. FREDDY KRUGGER Em o Congresso já tem sido bem executada nas rádios de Brasília. Será e Que País É Este fazem parte das mais pedidas nos shows da banda, afinal não é sempre que podemos ter o prazer de ouvir o filho tocando as músicas do pai. Falamos de Giuliano Manfredini, interpretando com seu violão as músicas de Renato Russo! O CD traz no encarte interno fotos de Renato Russo (Renato Manfredini Jr.) e seu pai, Renato Manfredini. O diretor musical, o músico Rogério Águas, com formação erudita, é também astrônomo e acrescenta aos arranjos, o fruto do seu 'tudo: sons colhidos no sistema solar! Um dos objetivos da banda é popularizar o conhecimento científico da sonoridade cósmica e fazer com que os jovens olhem para a ciência e para cima, pois daí sempre surgem boas inspirações e florescem a inteligência, a criatividade e a 'perança em tempos difíceis. A MULTIVERSO Paralelo promove shows beneficentes que são utilizados 'pecialmente na recuperação de dependentes químicos. Número de frases: 18 Contato-Ana Veet Maya -- anaveetmaya@multiversoparalelo.com.br (11 9368 3355) Em o mundo pop atual, podemos associar alguns países à sua produção cultural. Mais 'pecificamente nas áreas musicais e cinematográficas. É apenas uma pequena forma de ser introduzido ao país através de sua cultura, que ainda abrange uma série de coisas (aliás, vale salientar que o próprio conceito de cultura hoje pode até extrapolar o de um país, uma nação ou de um povo). Em a Suécia, presenciamos a cada década bandas interessantes que saíram do frio nórdico para ganhar o mundo: Abba (nos anos 70), Roxette (nos anos 80), Ace of Base e Cardigans (nos anos 90). E em 'tes anos 2000, quem seria o novo representante do pop sueco? Enquanto não chegamos a um consenso devido ao mercado independente que jorra litros de informações musicais por minuto na Internet, podemos aproveitar para conhecer melhor três novos grupos que desembarcam no Brasil em dezembro deste ano. São eles Hell On Wheels, Jens Lekman e El Perro Del Mar. Os três grupos 'tão sendo aclamados como boas promessas da safra indie-pop 'candinava e se preparam para uma turnê que vai passar por as cidades de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. É a Turnê Invasão Sueca que chega como uma forma de divulgar e promover um intercâmbio entre a Suécia e o Brasil através da música. Este é um projeto desenvolvido por o Swedish Institute em parceria com o coletivo Coquetel Molotov, que em três edições de seu festival Em o Ar, já trouxe duas representantes deste país para vir tocar aqui. HELL On WHEELS -- O primeiro nome já é bem conhecido do público brasileiro. Afinal, trata-se do trio Hell on Wheels, que já passou por o Brasil em 2004, quando incendiaram o festival Em o Ar Coquetel Molotov, em Recife, e o Curitiba Pop Festival, em Curitiba, abrindo o show dos 'coceses do Teenage Fanclub. De nossa terra, o trio Rickard Lindgren (vocal e guitarra), Åsa Sohlgren (baixo e vocal) e Johan Risberg (bateria) guardam ótimas lembranças. Provaram ótimas caipirinhas, levaram camisas de times de futebol, bandeiras de Pernambuco e do Brasil e muitos discos! Material que 'tá sendo muito bem aproveitado por a baixista Åsa, que tem um programa de rádio em Estocolmo dedicado à música brasileira. De 2004 até aqui, eles gravaram um EP e o álbum «The Odd Church», que será o primeiro de eles a ser lançado no Brasil, através do selo Coquetel Molotov Discos. As 11 faixas presentes em «The Odd Church» mostram uma banda que soube construir uma identidade própria, renovando o clássico modelo de baixo-bateria guitarra com bons riffs e boas melodias vocais. Para quem nunca ouviu o trio, ele pode ser definido como uma boa síntese do indie rock dos anos 90, trazendo elementos de Yo La Tengo, Belle & Sebastian, The Go-Betweens e Pixies. O Hell On Wheels tem 'sa característica de poder soar eqüilateralmente pesado e pop fazendo algo que podemos classificar como um rock ' n ' roll sofisticado e de bom gosto, que tanto faz falta no mundo pop atual, repleto de muita pose e pouco conteúdo." Sempre 'cutamos tipos diferentes de música, então se isso não 'tava óbvio antes talvez nos mudamos ou é o resultado do fato de que produzimos 'se álbum muito mais que os anteriores», explica a baixista Äsa. JENS LEKMAN -- Já tendo sido eleito por a revista Elle na Suécia, como um dos homens mais sexy do país, Jens Lekman não é apenas mais um rostinho bonito no mundo da música. O jovem cantor possui carisma, talento e identidade própria suficiente para ser considerado como uma boa revelação do país 'candinavo. A os 23 anos, em 2003, ele surgiu como uma bomba pop na Europa e nos Estados Unidos com o lançamento do seu primeiro EP «Maple Leaves», por a Secretly Canadian. Logo em seguida, seu segundo EP, «Rocky Dennis in Heaven», teve a sua primeira edição 'gotada antes mesmo de chegar as lojas. Depois de ele, veio o reconhecimento e conciliação de gostos do público e da crítica com o seu primeiro álbum «When I Said I Wanted Te o Be Your Dog», em 2005. A razão de todo 'se sucesso pode ser explicado por a foma com que ele compõe. Jens é um verdadeiro trovador urbano e suas músicas falam de histórias comoventes de sua vida e de paixões não-correspondidas. E através de suas canções é que ele costuma arrebatar os corações de suas fãs. No entanto, Jens, assim como todo cantor romântico, sofre de amor. Por conta disso, já passou por alguns episódios inusitados como no caso da namorada que pedia que ele pintasse um palavrão no carro em frente à casa de ela." às vezes, alguns desses pedidos eram ilegais e, uma vez, quase me prenderam. Mas eu fazia qualquer coisa por ela, porque ela era a minha luz», confessa o jovem cantor sueco, que inspirado na ex-namorada fez a canção «You are the light». El Perro DEL Mar -- Por trás do pseudônimo El Perro del Mar se 'conde um talento de Gothenburg, cujo nome é Sarah Assbring. Desde menina, Sarah sempre foi obcecada por a música. Começou a tocar piano aos sete anos e cantou em diversos corais durante o colégio. Ela participou de diversas bandas durante a sua adolescência, mas colocou tudo para trás por causa de decepções amorosas. No entanto, em 2003, quando Sarah viajou sozinha para Espanha para lidar com a sua depressão, tudo isso mudou. Em um dos dias ensolarados, numa praia numa cidade bem pequena, ela 'tava sentada na areia quando encontrou com um cachorrinho de rua. A conexão entre os dois foi imediata. O cachorrinho passou a voltar na praia todos os dias durante a sua visita. Em o avião, de volta para a Suécia, Sarah decidiu retornar a 'crever música, algo que ela nunca imaginou fazer novamente, e o nome do projeto já era óbvio para ela: El Perro del Mar. «Eu acho que as necessidades artísticas e expressivas são umas das muitas coisas que deixam você quando você cai na depressão. Por isso que o sentimento foi tão incrível quando voltei para a vida novamente. Como uma segunda chance e a chance para fazer a coisa certa desta vez», revela Sarah. Então, recomeçando tudo do zero com o El Perro Del Mar, ela passou a compor músicas de amor simples, caindo um pouco para o blues tradicional e soul, adicionando uma melodia pop inconfundível, enriquecida por quase uma orquestra sinfônica e vários arranjos característicos do doo woop. Com a ajuda do amigo Jens Lekman, os rumores sobre El Perro del Mar logo se 'palharam por a Internet. Em o final de 2004, Sarah lançou dois EPs, «Baby, I ' ve Been in A Bad Place» e «I ' ve Got Good News», por o selo Hybris. Em novembro do mesmo ano, Sarah foi convidada para lançar um single em vinil junto com Jens Lekman e abrir os seus shows da turnê européia. Algumas semanas depois, o EP de 'tréia «What's New? El Perro del Mar» foi lançado e em menos de dois meses já 'tava 'gotado! Suécia -- Apesar de serem três bandas com 'tilos até parecidos, eles não se encaixam numa cena musical propriamente dita. De acordo com Jens Lekman, " existem bandas e artistas muito bons, mas o mercado sueco ainda é bastante fechado. Gente que faz sucesso aqui pode não ser conhecido fora, e acho difícil todo mundo se tornar tão grande a ponto de mudar a imagem que as pessoas têm da Suécia». E como se não bastassem 'tas três bandas que vêm para cá, ainda perguntamos a eles o que tem surgido de novidades na Suécia." Tem surgido muitas duplas eletrônicas com laptops e / ou utilizando Ipods. Principalmente dois homens, como The Embassy. Ou bandas de indie pop com muitos integrantes, como I ' m From Barcelona», sintetiza Äsa, do Hell On Wheels." A cena sueca gira muito ao redor de certos selos. Posso citar alguns, como o Service, que lança, por exemplo, The Embassy e The Tough Alliance, o Hybris, de El Perro Del Mar, Vapnet e Kalle J, o Friendly Noise, dos Most Valuable Players, Testbild e Differnet e o Häpna, que lança Hans Appelqvist e Tape. E existem outras bandas também, como Nicolas Makelberge, Cake on Cake, Radio Dept ...», completa Jens. Turnê -- Os três grupos iniciam sua turnê no Brasil no dia 11 de dezembro em Curitiba, partem para São Paulo, onde tocam no Studio SP, no dia 13, passam por o Rio de Janeiro para participar do Festival Algumas Pessoas ..., no Teatro Odisséia, dia 14 e retornam a São Paulo dia 15. Junto a eles, quem dá uma canja no show de abertura das apresentações da Turnê Invasão Sueca é o vizinho norueguês Erlend Oye, da dupla Kings of Convenience, com seu trabalho solo. Preparem seus ouvidos! A Invasão Sueca 'tá chegando! Curitiba -- 11/12 Shows: Hell on Wheels, Jens Lekman e El Perro del Mar Abertura: Erlend Oye (Kings of Convenience / The Whitest Boy Alive) Local: Era Só O Que Faltava São Paulo -- 13/12 Shows: Hell on Wheels e Jens Lekman Abertura: Erlend Oye (Kings of Convenience / The Whitest Boy Alive) Local: Studio SP Janeiro -- 14/12 Shows: Hell on Wheels, Jens Lekman e El Perro del Mar Abertura: Erlend Oye (Kings of Convenience / The Whitest Boy Alive) Local: Teatro Odisséia São Paulo -- 15/12 El Perro del Mar Número de frases: 82 Local: SESC Vila Mariana Situando a produção artística amazonense num contexto internacional, podemos considerar que somos totalmente marginalizados. Dentro do contexto nacional, também somos periféricos. Separados dos grandes centros que dominam a cultura, não participamos de nenhum 'tágio do mercado cultural brasileiro ou internacional, o que criamos não sai daqui e o que é pior, é pouco consumido por os que 'tão aqui. Muito já se foi visto e dito sobre o Amazonas. As belezas naturais do Estado servem de inspiração para muitos artistas, que recriam e reinventam nossas paisagens. Porém, a leitura de nossas paisagens por os artistas forasteiros é 'pecialmente diferente da nossa e são 'ses artistas que nos representam fora de nossos domínios. Quantos filmes, livros, obras de arte ou bens culturais sobre o Amazonas já vimos no mercado internacional e quantos de eles foram produzidos por autores de nossa região? Poderia justificar parte das mazelas culturais evidenciando a dominação e o poder que a arte tem em segregar culturas, mas muito já se foi dito a 'se respeito, por isso 'se discurso para mim não mais agrega. Proponho aqui, uma análise crítica coletiva da produção artística de nosso Estado. Atiro então a primeira pedra ... Parto do princípio que arte é também uma forma de comunicação, onde o artista expressa sua interpretação da realidade. E a comunicação tem por concepção a compreensão da mensagem por quem a recebe, sendo assim, para um artista comunicar sua obra o 'pectador deve compreendê-la. Quando o artista amazonense resgata as crenças e valores tão complexos de sua terra, 'tá expondo uma realidade muito particular e misteriosa, pouco compreendida por os 'trangeiros. Grande parte das manifestações regionalistas que tantos artistas trabalham no Amazonas, só pode ser apreciada por os que são daqui e convivem no mesmo universo. Um paulista não consegue entender o conceito das obras do artista plástico Turenko Beça, que usa o piracuí de peixe como base para suas «Mantas de Acrílico», já que não conhece o valor da farinha de peixe no Amazonas. Assim como um inglês não consegue apreciar a letra «Acari-Bodó» do grupo musical Tucumanos, porque não conhece o peixe ou sua relação com a cultura amazonense. Em um mundo globalizado, onde a criação e produção artística 'tão cada vez mais dependentes de um conceito forte, não existe 'paço para manifestações regionalistas que não 'tejam inseridas num contexto transnacional. É claro que o artista deve representar a realidade que o cerca, seus valores, crenças e cultura, porém existem maneiras distintas de expressar-se. Acredito que falte no Amazonas uma produção artística que tenha uma linguagem mundializada, para que pessoas de qualquer origem, cultura ou etnia, consiga compreender nossa arte e se sinta parte integrante de nossa realidade. Existe uma identidade que transcende culturas, pessoas que criam artes similares em distintas partes do mundo e pessoas que criam coletivamente com diferentes partes do mundo. Porque então não criamos vínculos, buscamos cooperações e tentamos explorar também as afinidades de nossa cultura com outras? Número de frases: 22 Sabe aqueles bolachões que seus pais ou avós colocavam para tocar música? Hoje, eles se tornaram artigo de colecionador e continuam alimentar a curiosidade musical de muita gente. Enquanto se fala do iPod, do mp3 e das novas tecnologias da informação, o mercado de vinil ainda movimenta suas cifras. Em a Europa por exemplo, nunca se deixou de fabricar 'se tipo suporte musical. Já no Brasil as gravadoras 'colheram não fazer mais tiragens, algo que fomentou um comércio informal. Em Sergipe 'se hábito soa como pesquisa, quase uma tarefa de garimpeiro da música. «Um LP ' Racional ' (1975) do Tim Maia chega a custar R$ 1.000,00. Mas nada mede o que é ouvi-lo na vitrola», aguça o adorador de discos Janilson Ferreira, mais conhecido como Estranho. Pode parecer até caso para psiquiatra, mas, quando se trata de música, 'se alagoano de Penedo não 'quece de «uma pérola» que encontrou. Em uma das lojas de José Quirino de Souza, 'tava à venda o álbum importado de " Antônio Carlos Jobim. «Lembro que ficava na parte superior na 'tante, à direita. Aquela capa me chamando e eu sem nenhum dinheiro na carteira. Fui ao banco. Uma fila com mais de 20 pessoas, na conta apenas R$ 10,00. Quando ouvi em casa, pense na felicidade de um ser humano em ter um clássico por apenas R$ 2,00!», relata quase em roteiro cinematográfico sua compra do clássico álbum «Wave» (1967). Descobrir o «Velho Quirino» parece ser tarefa obrigatória para quem curte ouvir canções em rotações por minuto. Mais que uma loja de música é um ponto de encontro entre amigos e troca de idéias. Em 1977, 'se pai de oito filhos tocava o armarinho chamado «Presentes e Discos», que ficava na rua São Cristóvão, número 332. «Mas como nunca me troquei por nenhuma das minhas crias, preferi empregá-los e abrir outras filiais», brinca enquanto explica a sua principal fonte de renda. Seu Quirino se considera um apaixonado por música, mas fala que abandonaria tudo por um amor chamado Dona Graça. Ou diz fazer melhor, aos 72 anos, vô colocar no carro uma mini loja volante e juntar meus dois amores», revela o homem que se diz «palhaço» ou «palhaço homem, se preferir minha filha». Em os noves fora, 'se namorador conta não gostar de contabilizar suas paixões, " digo ... o total de vinis que me pertence». Mais que buscar o «lado b», os discos também são instrumentos de trabalho de quem inventa e cria música como no caso dos deejays. A os 23 anos, o DJ Leonardo Levi faz colagens, scratches, distorções e quando prepara o equipamento não 'quece dos cds, bolachões ao tocar em festas como Heatmus, Projeto Verão ou Emotrixx. «Minha formação na infância foi com o que meus pais colocavam pra tocar na radiola. Era Robertão, Caetano em ' Todos os carnavais ', Moraes Moreira, Novos Baianos». E o garoto que preferiu juntar o dinheiro do lanche para comprar o que queria, substituiu os brinquedos por as fitas-cassetes e vinis. Formando-se musicalmente na adolescência sob influência dos 'tilos dos seus irmãos, " a gente ouvia REM, Pink Floyd, Pearl Jam, Isaac Hayes. Êita, só coisa boa!». Entre conquistas e arrebates musicais, os disquinhos foram a razão do final do casamento de um dos maiores comerciantes desse ramo no Estado. É o que conta o nada tímido João Carlos dos Santos, 61 anos, terceiro casamento, 16 mil álbuns, mais de 150 clientes fiéis. «Não sei viver se não for em função daquilo que mais amo e o que me sustenta a alma: meus LP «´ s», poetisa, aos risos, Seu João. Atendendo aos sábados e domingos do cliente desinteressado ao «cambista de música» nos fundos do supermercado GBarbosa, no Conjunto João Alves, 'se sergipano afirma trabalhar na área há 42 anos. «Comecei vendendo no Rio de Janeiro, na feira de Acari nos finais de semana. Inicialmente o que era meu hobby hoje é o meu sustento», orgulhoso fala mostrando a sua casa comprada graças ao seu emprego. Em um dos vários compartimentos repletos de vinis, ele mostra quem mudou sua vida: «Love me tender (1956)», do cantor Elvis Presley. E adverte, " vinil nunca vai morrer, porque em 'se ramo nunca sabemos tudo, todo dia é um novo aprendizado. E o legal é 'tar descobrindo». LP versus cd Por o físico Hilton Barbosa de Aguiar (hiltonbarbosa@hotmail.com) Os cds foram criados para caber mais música em menor 'paço e ser muito mais resistente. Enquanto no vinil a informação 'tá exposta ao ambiente, no cd ela 'tá «enterrada» numa camada de um polímero protetor. A própria agulha da vitrola desgasta o vinil. A informação contida no vinil é a mais fiel do que a do cd, mas 'se «extra» que o vinil tem não é perceptível para a maioria dos ouvidos humanos. Em o disco os graves são conservados intactos, enquanto no cd «certos graves» sequer existem. Eles não são perceptíveis ao ouvido, mas são percebidos por o corpo. Por isso dizemos que o vinil «mexe» com a gente, e não com os ouvidos. Particularmente, se eu quiser ouvir um 'tilo com mais grave, como jazz, reggae etc., eu ouviria no vinil. Mas é claro que tem que 'tar bem conservado, se não 'taria ouvindo informação distorcida, o que é muito pior. Onde ouvi & onde comprar Toda quarta-feiras, «Noite do Vinil» na Livraria Poyesis Rua Vereador João Calazans 609, Galeria Habitat, loja 05 e 06. Bairro 13 de julho. Em frente à biblioteca Epifânio Dória. Casa de João dos Discos Rua 4, número 1, no Conjunto João Alves. Ao lado do Mercado São Miguel. Feira das Trocas na Avenida Tancredo Neves aos sábados. Freedom Rua Santa Luzia, número 151 próximo a Catedral. Lojas de Seu Quirino: Rua de Geru, número 345 Centro Travessa Otacílio Oliveira, número 40, Loja 5. Em frente ao Mercado Albano Franco Número de frases: 63 Praça Olympio Campos, número 475 Folheando a coleção de jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma interessante notícia, de bastante interesse para a 'peleologia e a arqueologia potiguar. Em a primeira página, da edição de 19 de abril de 1928, do antigo jornal potiguar «Diário de Natal», encontra-se um artigo intitulado» A Gruta dos Tapuias», onde um articulista que se intitulava apenas «Dapraia», 'crevia da cidade costeira de Touros, no dia 7 de abril de 1928 e narrava a visita que havia realizado a uma gruta, na zona rural de Santana do Matos, que ele afirmava ter sido um dos últimos abrigos indígenas que habitaram nosso sertão. O mistério continua. Uma descrição rara Seu artigo, bem 'crito e repleto de detalhes, mostra que no final do século XVIII, os portugueses dominavam praticamente toda a região. Em as vizinhanças de um arraial denominado São Miguel, próximo a Vila de Santana do Matos, viviam refugiados numa gruta, no alto de uma serra, um dos últimos grupos de índios Tapuias que viviam em liberdade. O narrador informava que a gruta 'tava situada a três quilômetros da 'trada que dava acesso a Serra de Santana, consistindo de um abrigo de granito, com duas fendas verticais, onde em seu interior poderia se abrigar um grupo de até vinte pessoas, que ficariam satisfatoriamente protegidas dos raios do sol e da chuva. O local onde se localizava o abrigo 'tava num ponto que proporcionava uma excelente visão da região, sendo um ótimo ponto 'tratégico. Ainda segundo «Dapraia», sem fornecer quem, ou de onde conseguiu as informações, os indígenas que habitavam a gruta no alto da serra, sobreviviam através do comércio que mantinham com um mestiço (que numa parte mais adiante do texto, é tratado como» negro ") que procedia da várzea do rio Açu em direção a região do Brejo Paraibano. Em a passagem deste almocreve, os índios trocavam carnes, couros e peles de diversos animais que eles caçavam, por fumo, cachaça, pequenos 'pelhos, alguma louçania e outras quinquilharias. O acordo mantido entre os Tapuias e o negociante era o sigilo absoluto, para evitar a prisão e morte destes indígenas. Um dia, sem uma razão aparente, o negociante denuncia a existência do grupo e os habitantes da região realizaram uma expedição que culmina no total extermínio do grupo. Ainda segundo o articulista «Hoje ninguém conhece aquele rochedo 'calvado e nu, e pesado e negro, como a traição que simboliza, quase lendário, a não ser algum caçador que se vá abrigar dos raios inclementes do sol, ou algum turista ousado que, como eu, foi reviver uma página do passado, em momentos deliciosos, no augusto silêncio das grutas abandonadas». O autor deste antigo artigo não comenta qual a origem do grupo sitiado, nem maiores informações. O homem que procura pinturas rupestres Diante de tão interessante e controverso relato, como praticante da 'peleologia há mais de vinte anos no Rio Grande do Norte, não poderia deixar de tentar chegar a 'te lugar e conferir se a Gruta dos Tapuias existia ou era um logro deste antigo articulista. Observando mapas atuais, percebi que realmente existe ao sul de Santana do Matos, uma 'trada que sobe a Serra de Santana e a partir de outros caminhos, é possível chegar a região do Brejo Paraibano. Esta era uma boa indicação, pois sabia que muitas das atuais 'tradas vicinais existentes por o interior do sertão nordestino, são as mesmas 'tradas que eram utilizadas no passado. Seria a 'trada no mapa, a mesma do antigo jornal? Reuni-me ao companheiro da SEPARN (Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte), Jeová Costa França e seguimos para a região de Santana do Matos, cidade a qual não conhecia. A única referência que possuía eram algumas notícias vinculadas na imprensa, que comentavam sobre um cidadão que «descobria pinturas rupestres» no meio do sertão e trabalhava com os pesquisadores da arqueologia da UERN -- Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, de Mossoró. Já na zona rural do município de Santana do Matos, fomos informados que próximo ao lugarejo conhecido como Residência, na propriedade denominada Cruzeiro, morava um senhor conhecido como «Antonio de Mariquinha» e seu filho Gilson, que poderiam informar algo sobre 'ta gruta. De Residência a propriedade Cruzeiro, à distância percorrida gira em torno de quatro quilômetros, em 'trada carroçável de boa qualidade. Fomos bem recepcionados por a família do Sr. Antonio, onde conhecemos o seu filho, Gilson Luis da Silva, de 35 anos, considerado o maior conhecedor dos sítios arqueológicos existentes na região. Gilson nos contou que trabalhava na agricultura, ajudando a família na labuta do dia a dia, quando conheceu o professor da UERN, Valdecir dos Santos Junior, mestre em arqueologia e diretor do Núcleo de Arqueologia de 'ta universidade. A partir daí criaram uma parceria e o trabalho entre eles se iniciou no ano de 2002. Até o final de 2007, foram cadastrados 82 sítios arqueológicos existentes na região, junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístrico Nacional). A maioria destes locais possui registros rupestres na forma de pinturas da denominada Tradição Agreste, sendo todos na região rural de Santana do Matos, apontando para uma concentração muito grande destes sítios com vestígios arqueológicos em 'te município. Para efeito de comparação, os municípios vizinhos de Cerro-Corá e Angicos, possuem respectivamente 16 e 18 sítios arqueológicos. As informações sobre a gruta Buscamos mostrar a Gilson e sua família, as informações que possuíamos sobre a Gruta dos Tapuias. Mas para nossa decepção e surpresa, Gilson não conhecia o local, nem sequer tinha ouvido falar de 'ta gruta, mas sabia de uma pessoa em Santana do Matos que poderia nos ajudar. Seguimos em direção a cidade, que fica a 30 quilômetros da propriedade Cruzeiro. Gilson buscava um amigo por nome de Pedro das Virgens, funcionário da prefeitura local, que gostava de «dar umas caçadas» na região e conhecia muita coisa. Encontramos um senhor na faixa de cinqüenta anos, tranqüilo, com um largo sorriso no rosto e que indicou, para nossa alegria, que a informação da gruta era verídica. Descrevendo o antigo relato ao nosso informante, 'te confirmou que as informações do desconhecido articulista «Dapraia», 'critas há oitenta anos, só poderiam ter sido feitas por alguém que 'teve no local. O que nosso antigo 'critor chamou de «arraial», é na verdade a fazenda São Miguel, onde em suas terras 'tá situada a gruta, sendo 'ta uma das maiores propriedades da região. Seguimos o caminho indicado, onde deixamos nosso carro a beira da 'trada de terra batida, no inicio da «Ladeira da Coãn» que sobe a Serra de Santana. Com uma altitude máxima de 840 metros, o visual da imponente serra é 'petacular. Gilson comentou que a partir de 'ta ladeira, os antigos viajantes poderiam 'colher entre três 'tradas para alcançar a região do Seridó potiguar e depois a Paraíba, eram as 'tradas do Cabugizinho, Fervedeira e Jaú, muito utilizadas por almocreves e comboieiros no passado, que utilizavam tração animal para o transporte de mercadorias. Observando a região com a ajuda de binóculos, confirmamos que «Dapraia» realmente visitou o local, pois calculamos a distância da 'trada a da região da gruta, em torno de três a quatro quilômetros. Transportávamos oito litros de água e uma rapadura e iniciamos o caminho para a gruta quase as onze da manhã. As surpresas do caminho A trilha existente segue primeiramente em declive, depois vai beirando um riacho que 'tava completamente seco na ocasião. É uma região de caatinga fechada, onde se deve andar com cuidado e atenção. Muitos mandacarus, facheiros, com seus pontiagudos 'pinhos, 'tão as margens da picada. Em certo ponto da caminhada, nos deparamos com uma grande parede de pedra, com mais ou menos sete metros de altura, e quase dois metros de 'pessura. Gilson comentou que a 'trutura fazia parte de uma antiga barragem privada, da qual não sabia o nome, construída em 1941 e destruída durante as enchentes de 1958. Exploramos o local e fiquei imaginando o trabalho que foi construir 'ta obra, utilizando braços humanos e tração animal. Seguimos a caminhada agora em aclive, devagar, em meio a um caminho de pedras soltas, que compõem o leito seco do rio que abastecia a antiga barragem. A o meio-dia o calor era insuportável, mas a idéia de conhecer 'te 'tranho lugar animava o grupo. Durante 'ta parte do caminho, contemplamos muitos lajedos de pedras, que na época do inverno se transformam em corredeiras. Mais um declive para aliviar e depois mais um aclive para penalizar e o altímetro do GPS marcando uma altitude de 430 metros. Em dado momento paramos para descansar e já contemplávamos a pedra onde se encontra a Gruta dos Tapuias. Iniciamos a ultima parte da nossa subida. Próximo ao final, a vegetação da área já não era tão fechada, mostrando que existe retirada de madeira no local. Com a vegetação mais rala, o sol cobrava um preço alto por a nossa aventura. Agora era só ascensão, de vez em quando parávamos um pouco, seguindo devagar, mas sempre progredindo. Conforme subíamos tínhamos uma bela visão da região. A Gruta dos Tapuias Finalmente o grupo chegou ao grande bloco de granito que compõem a Gruta dos Tapuias, sendo 'ta rocha uma 'trutura que possui em torno de 20 metros de altura e uns 3.500 m² de área. Como descreve «Dapraia», duas fendas servem de entrada, onde uma pequena 'calada coloca a pessoa dentro de uma parte da gruta. Como ponto de observação, quem 'tá em 'te local, não perde nada do que ocorre na região, em nenhuma das direções. Durante nossa exploração, infelizmente não foi encontrado nenhum registro de pinturas rupestres, ou de material lítico, ossos ou de outros vestígios que indicassem ter sido o local utilizado em tempos passados e que ali ocorreu uma grande atrocidade. Existe um local onde o solo é composto de sedimentos e uma 'cavação poderia, ou não, comprovar se o abrigo foi utilizado por o grupo descrito no antigo artigo. Em 'te local, a leitura do altímetro do GPS confirmou 743 metros de altitude. Espeleologicamente a Gruta dos Tapuias é um abrigo formado por o deslocamento, ou desgaste, de grandes rochas graníticas, que ao longo de milhões de anos, se acomodaram de tal forma, que foram criados naturalmente pequenos abrigos, sendo 'ta a característica normal da formação de cavernas graníticas em 'ta região. Ficamos explorando tranqüilamente o local e o silêncio no alto da serra foi quebrado por a presença de um bando de macacos-prego, que ruidosamente chamava nossa atenção por ocupar seu território. Após um tempo para descanso, iniciamos o retorno. Durante o trajeto, tal era o nosso desgaste, que todo nosso 'toque de água acabou, tornando mais penosa à caminhada e só alcançamos o nosso veículo às cinco e meia da tarde. Através da leitura de obras como as produzidas por Olavo Medeiros, Fátima Martins Lopes e outros, percebi que não seria impossível, no final do século XVIII, um pequeno grupo de indígenas do grupo Tarairiú continuar a sua luta por a sobrevivência num local como a Gruta dos Tapuios. Estes indígenas poderiam ser das tribos Genipapo, dos Paiacu, dos Panacu-Açu, Caratiú, Ariú, ou os aguerridos Janduís, os Canindés, os Coremas, Panatis ou dos Pegas, que furtivamente buscavam manter um modo de vida fadado à extinção, numa terra ocupada por brancos europeus, seus descendentes mestiços, seus gados e suas lavouras. Li também que 'tes mesmos brancos não precisariam de muito 'tímulo, nem teriam maiores problemas de consciência, para massacrar um grupo errante de indígenas e manter as suas posses. Mesmo comprovando que o articulista «Dapraia» havia 'tado no local, pois as suas descrições são extremamente fiéis ao local visitado, não concluímos se a história sobre o abrigo indígena era real, ou uma fantasia de um aventureiro, num momento idílico, há oitenta anos atrás. Infelizmente não consegui descobrir a identidade do autor do artigo, se habitava realmente em Touros e o porque da sua visita a Gruta dos Tapuias. Número de frases: 76 O que aconteceria se ao invés de se tornar 'critor de livros de aventura um dos pais da ficção científica entrasse para o mundo da política? Mais que isso, e se Jules Verne -- ou Júlio Verne, para quem prefere aportuguesar o nome de vultos históricos -- chegasse ao topo de 'sa outra carreira e fosse eleito, em 1886, o primeiro presidente da França? Caso continuasse apenas com tal linha de pensamento, o 'critor, designer e professor universitário carioca Octavio Aragão teria 'crito um livro de um subgênero daquela mesma ficção científica que Verne ajudou a dar à luz: a história alternativa, que é marcado por descrever como seria o mundo se alguns eventos históricos ocorressem de modo diferente do que aprendemos na 'cola. Porém, o autor foi além e em seu primeiro romance solo, A mão que cria, ele não trata apenas do criador de personagens como o Capitão Nemo e Phileas Fogg. Aragão também deu nova vida às criaturas, e, com isso, o gênero explorado foi outro; foi a chamada ficção alternativa, a verdadeira arte de domar os personagens alheios. Para os leitores habituais de quadrinhos, o mais famoso exemplo desse outro ramo da ficção científica é a série As aventuras da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O ´ Neil. Contudo, de maneira diferente da dupla de quadrinistas ingleses, o 'critor brasileiro deixou de lado os protagonistas mais 'palhafatosos dos livros clássicos e optou por personagens mais discretos. Por isso mesmo, numa primeira leitura, eles podem passar despercebidos por quem não conhece tão profundamente a literatura fantástica do século 19 (sabiamente, o autor acrescentou como extra uma muito útil lista de anotações ao final do livro, 'clarecendo algumas das referências mais obscuras). Um exemplo vem do livro Vinte Mil Léguas Submarinas: ao invés de se apropriar do bizarro comandante do Nautilus, como fizeram Moore e O'Neil, Aragão tomou emprestado de Verne o pesquisador Pierre Aronnax. Trata-se do 'tudioso que sobreviveu ao trágico fim do submarino e que, na versão do brasileiro, conseguiu preservar alguns dos segredos da embarcação pioneira e ainda foi o responsável por o ingresso de Verne na política. De a mesma forma, em A mão que cria vamos sendo apresentados a diversos outros personagens literários -- ou a seus antepassados e descendentes -- criados não apenas por o presidente alternativo da França mas também por diversos de seus colegas. Em o portfólio 'tão 'critores como H.G. Wells, o outro pai da ficção científica, H.P. Lovecraft, Herman Melville. Isso para não falar em outras personalidades reais, como os alemães Adolph Hitler e Rudolph Hess e os brasileiros Dom Pedro II e Oswaldo Aranha, todos compartilhando uma narrativa que cruza aproximadamente um século e meio de história. Com um cenário tão imaginativo, a situação em 'sa linha temporal alternativa não demora a se complicar e uma guerra entre duas novas raças passa a pôr em risco todo o mundo. De um lado, o incentivo que o governo francês empreende em nome de novas tecnologias, passa rapidamente do 'tágio de submarinos e metralhadoras para a fase de implantação de um exército de supersoldados anfíbios (para quem gosta de academicismos, o gênero baseado em avanços científicos imaginários no século retrasado também recebeu alcunha própria: é o steampunk). De o mesmo modo que um sobrevivente deu prosseguimento às criações náuticas de Nemo, um segundo conseguiu resgatar os segredos de manipulação genética descritos por H.G. Wells em A Ilha do Dr. Moreau (aliás, vem deste livro a citação que dá nome ao trabalho de Aragão). O resultado é uma dinastia de seres híbridos de homens com golfinhos que, num primeiro momento, foi muito útil à humanidade ao arriscar a vida em duas guerras mundiais. O problema veio com os tempos de paz, quando aqueles experimentos, mais fortes e longevos que os seres humanos normais, passam a representar séria concorrência num mercado de trabalho 'casso. Com isso, os anfíbios viram alvo de manifestações violentas. Um paliativo foi, tal como ocorreu na história real com o povo judaico, a criação de um Estado dedicado aos híbridos. A nação de Lemúria -- parte submersa, parte formada por a ilha onde Paul Alphonse Moreau realizava suas experiências -- se tornou o refúgio de aproximdamente 50 mil habitantes. De o outro lado do front, o segundo exército conseguiu se manter com mais discrição mas também seguiu influenciando de forma decisiva os acontecimentos daquele mundo, servindo de inspiração para os piores momentos da história do século 20. Formado por uma legião de mortos vivos, a origem de 'sa outra potência alternativa 'tá ligada a um evento real: a queda de um asteróide na região da Rússia conhecida como Tunguska, em 1908. Um dos maiores achados do livro de Octavio Aragão é a real identidade do general desses zumbis, um misterioso gigante de quase três metros que se denomina Ariano. O 'critor brasileiro conseguiu recriar com maestria uma das maiores vítimas de descaracterização ao longo de décadas de adaptações e novas versões da obra em que surgiu originalmente. Com isso, o segundo capítulo de A mão que cria, «Olhos amarelos», no qual o clima de ficção científica predominante é deixado de lado em nome de uma ambientação mais típica da literatura de horror, pode ombrear com as melhores criações do gênero. Esse feito é a prova do amadurecimento de um autor que 'treou profissionalmente há quase 10 anos, com a noveleta «Eu Matei Paolo Rossi», na coletânea de ficção científica Outras Copas, Outros Mundos, lançada por a finada editora Ano-Luz, em 1998. Centrada na idéia de viagens no tempo, aquela primeira história deu origem ao projeto mais ambicioso do 'critor: o universo Intempol, uma polícia temporal corrupta e formada basicamente por brasileiros. A idéia gerou um portal (http://www.intempol.com.br, no momento fora do ar), também deu origem a outro livro de coletânea com vários autores explorando aquele conceito e até um álbum em quadrinhos, The Long Yesterday, criada por os colaboradores Osmarco Valladão e Manoel Magalhães (a mesma dupla responsável por o mais recente O Instituto. Com maturidade autoral ou não, todo aquele cenário de A mão que cria não passaria apenas de um pano de fundo engenhoso se não houvesse uma trama para amarrar tantos fatores inusitados. Para desempenhar 'se papel, o 'critor imaginou um drama de vingança, inveja, traição e atentados políticos que, sem pieguice nem soluções fáceis, se arrasta por três gerações da dinastia que governa Lemúria, os Currie McKenzie. Aqui, os já mencionados leitores de quadrinhos podem fazer associações com monarcas anfíbios das maiores editoras americanas: Namor McKenzie, o Príncipe Submarino da Marvel, e Arthur Curry, o Aquaman da DC, além de longa lista de seus respectivos coadjuvantes. Isso, em parte, se explica por originalmente A mão que cria ter sido elaborado como uma fanfic -- ou seja, uma ficção de fã, 'pécie de irmã caçula da ficção alternativa, em que admiradores imaginam aventuras de personagens do cinema, quadrinhos, cinema ou TV. Infelizmente, o livro não faz nenhum comentário sobre o fato de uma versão preliminar do texto ter sido publicada no site Hyperfan no formato de uma minissérie do Aquaman. Nem mesmo naquela lista de anotações se mencionam as várias referências quadrinísticas, ao contrário do que ocorre com as citações literárias, cinematográficas e até históricas. Mais grave que tal omissão, foram alguns deslizes editoriais que resistiram às revisões do texto. Nem é o caso de mencionar alguns poucos erros de digitação e vícios de linguagem -- mas, convenhamos, a redundância «sair de dentro» bem que poderia ter sido evitada nas duas vezes em que aparece no livro --, afinal eles não comprometem em nada o andamento da história. Grave mesmo foi a desatenção com vários dos textos introdutórios que deveriam ajudar o leitor a se localizar no tempo e no 'paço em que se passam certos trechos do livro. Tais erros, devido à 'trutura extremamente complexa, com múltiplos narradores e não-linear da obra, fatalmente podem prejudicar a compreensão mesmo do leitor mais atento. Logo na página 22, um atentado ocorre no que é descrito por a legenda como sendo «Londres, 11 de abril de 1992». Por as próprias notas do autor, descobrimos que o mais exato seria situar a data em 30 de março de 2002, que vem a ser o suposto tempo presente da ficção. Mais à frente, na página 96, a legenda introdutória assinala: «Lemúria, 1940». Aqui fica impossível determinar a data com exatidão, entretanto, certamente não pode ser aquela. Afinal, a cena em questão mostra um certo persongem tomando decisões maduras; personagem 'te que só veio a nascer oito anos após 1940. Por fim, todas as legendas do capítulo 7 que remetem a 1946 devem ser desconsideradas e substituídas por um simples «Hoje». De o contrário, quem tentar seguir a linha temporária alternativa proposta tem boas chances de sofrer um colapso mental. Uma segunda edição poderia resolver com facilidade 'ses lapsos. Curiosas também são as várias pontas soltas que foram deixadas ao longo da história e os persongens que são apenas delineados mas não têm uma participação ativa na trama. Isso pode ser explicado por a origem fanfic da obra, quando o autor fez referência obrigatória aos coadjuvantes dos quadrinhos. Já um otimista, diria que o plano desde o início era dar seqüência ao livro, algo que pode ser baseado nas últimas linhas da obra, indicando que o Brasil deverá vir a ter uma maior importância naquele mundo fictício. Essa hipótese seria a ideal, até porque de tal forma seria possível desenvolver temáticas que foram apenas 'boçadas. Para falar de um caso 'pecífico, temos uma interessantíssima visão da religiosidade dos homens-golfinhos, porta aberta para novas possibilidades a serem exploradas (e que poderiam justificar a inteligente sacada da capa do livro, que conseguiu tornar a foto do detalhe de um submarino em algo similar a um templo pagão). Outra questão, 'sa mais presa ao tal detalhismo acadêmico, diz respeito a classificação que o livro vem recebendo. Classificação que aparece tanto na propaganda de seus editores quanto no prefácio, assinado por o 'critor Gérson Lodi-Ribeiro, maior autoridade -- na teoria e na prática -- do gênero história alternativa do Brasil. Em 'ses casos, A mão que cria vem sendo denominado de primeira experiência de ficção alternativa brasileira. A afirmação já provocou ligeira polêmica entre a pequena, mas ativa, comunidade ligada à ficção científica no país. O caso é que, mesmo descontando histórias curtas mais recentes, existem exemplos de narrativas longas que se enquadram perfeitamente naquele gênero. Caso das várias histórias em que Monteiro Lobato levou personagens da literatura e da mitologia ao Sítio do Picapau Amarelo. Além disso, para citar um único personagem universalmente conhecido, Sherlock Holmes já veio ao nosso país por as mãos de, pelo menos, três autores. Em os anos 80, o jornalista e 'critor catarinense Raimundo Caruso se apropriou da criação de Arthur Conan Doyle em seu Noturno, 1894. Já na década seguinte, primeiro J.J. Veiga, célebre autor do cada vez mais atual A hora dos ruminantes, e em seguida o apresentador e humorista Jô Soares também 'creveram histórias alternativas com o detetive inglês, respectivamente em O Relógio Belisário e O Xangô de Baker Street. De qualquer forma, mesmo sem poder ostentar o título de desbravador desse território, Octavio Aragão deve, sem favor algum, ser considerado o autor que encarou com mais fôlego e de modo mais radical o universo da ficção alternativa. Antes de ele, nenhum outro autor nacional havia apresentado uma obra em que fossem empregadas tantas ferramentas desenvolvidas por os maiores 'pecialistas de 'sa área. Gente como o britânico Kim Newman, de Anno Dracula, e o americano Phillip José Farmer, Tarzan alive, que 'creveram elaboradas versões para o vampiro da Transilvânia e para o homem-macaco das selvas. Isso para nem voltar a citar aquela dupla dos quadrinhos. Com sua engenharia capaz de entrecruzar distintas criações literárias num mesmo cenário, o 'critor carioca pode popularizar o gênero no país, colaborar com a difusão dos autores clássicos e ainda inspirar novos experimentos brasileiros. Afinal, com A mão que cria ele já foi responsável por pelo menos um milagre, ao garantir a ressurreição do selo Unicórnio Azul, da editora Mercuryo. O mesmo que, na década passada, levou às livrarias histórias originais do criador de Conan, Robert E. Howard, e livros baseados na série Arquivo X. Infelizmente, brigas entre os sócios daquela editora abortaram a sequência de novos livros de ficção científica por o selo, mas Octávio Aragão já trabalha na segunda parte de sua ficção alternativa, apesar de não revelar por qual editora pretende publicá-la. Este texto, originalmente publicado no site omelete. Número de frases: 78 com. br, faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores. Já é clássico: chegar em casa, jogar a chave em cima da mesa e ligar o computador. Conferir a caixa de e-mails com mensagens pessoais ou de alguma lista de discussão, comentários do blog /fotolog/flickr, comunidades do orkut, scraps, my space, overmundo. Respondê-las. Depois entrar no messenger, e em cerca de uma hora já 'tá tudo em dia, não é verdade? Gente até da conxixina pode saber, por exemplo, que em 'se momento você 'tá em dúvida sobre que cor de camiseta usar. E ainda opinar! Mais tarde você atualiza seu blog ou site, e conta como foi o show do fim de semana, fala sobre a banda, o público, a produção ... Fala também sobre o comentário de fulano no dia anterior, concordando, discordando e detalhando sua opinião. A Internet é a principal e, para muitos, a única forma de comunicar-se com pessoas a distância, não é verdade? Prático, rápido, e eficiente. Não tem Internet em casa? É só ir à lan house mais próxima (não vai ser muito distante, com certeza) e 'tá tudo resolvido. Mas mesmo com tudo tão fácil, ainda há um grupo que se utiliza, e muito, de meios que a maioria de nós nem cogita a possibilidade de fazer uso. Correios? Cartas? Cartões postais? Os fanzineiros são mais íntimos de 'sas palavras que nós imaginamos. Fanzines impressos e correios são coisas que andam sempre juntas, já que a publicação utiliza-se desse meio para expandir seu alcance. Geralmente o fanzineiro tem uma lista de endereços dos interessados em seu trabalho, que enviam selos pra cobrir custos de postagem. Assim que sai edição nova, ela circula por o Brasil (e muitas vezes por o mundo) de 'sa forma, e é praticamente senso comum à questão que se deve responder ao editor com alguma opinião sobre o que foi lido, impressões, ou algum zine que aquele leitor também produza. Já presenciei (também faço fanzine e sou adepta das cartas) discussões homéricas geradas a partir de um texto em alguma publicação. Algo parecido com o que rola nos comentários aqui do Overmundo, só que entre duas pessoas. Vantagens? O assunto fica mais direcionado. Desvantagens? Só a demora pra obter uma resposta mesmo. «Antigamente os Correios entregavam uma carta num ou dois dias. Hoje levam até uma semana. Parece que eles reconheceram que perderam a briga com os meios eletrônicos, que são muito mais baratos e velozes», observa Henrique Magalhães, 'tudioso e ícone no assunto. A partir desse primeiro contato por conta dos fanzines através de cartas, é bastante comum que acabe surgindo uma amizade. Se pegar divagando sobre questões do dia-a-dia e até confessando segredos, é natural. Em uma relação 'crita, a atenção com o outro que vai receber o que você 'tá fazendo é inerente. Há quem acredite que assim se pense mais no que se 'tá 'crevendo, por a própria velocidade da 'crita manual. Fora isso, você começa a caprichar nos envelopes, na letra, na forma de 'crever e soltar as palavras no papel ... Há cartas que são verdadeiras obras de arte. Manifestações como a «mail art» é um exemplo: alguns artistas (geralmente ligados à arte marginal e street art) trocam stickers e lambe-lambes dentro de envelopes maravilhosos, junto, muitas vezes, com algum fanzine de quadrinhos, por exemplo. Vale experimentar de tudo. É importante dizer que não se trata de um repúdio à tecnologia, mas de praticamente um 'tilo e filosofia de vida de valores ligados ao real, ao palpável. Editores de fanzines que fogem ao suporte da internet e continuam com suas publicações impressas geralmente valorizam o fato das relações ficarem mais 'treitas e verdadeiras: «O contato com o papel é algo forte na vida de quem produz em meio impresso. A carta é uma continuação do que 'tá ali, na página do fanzine. Sentir o papel é importante. A ligação através de ela nos causa uma sensação de maior proximidade com quem a 'creveu. Sabemos que a carta, por mais simples que venha a ser, carrega um tempo só de ela. A pessoa parou para 'crever, se dedicou àquilo, mesmo que por minutos. E isso vale a pena sentir», diz Renato Silva, um dos editores do fanzine Colateral (SP). Cartas e fanzines impressos são acima de tudo paixão. Colecionar fanzines, notar características de montagem, a xerox ... É ter algo sensível em mãos, é poder ler em qualquer lugar, é ter um cartão de visitas na bolsa, é ter liberdade de imprimir qualquer opinião e 'tar disposto a discutir sobre ela, é conhecer gente do mundo inteirinho que gosta do que você gosta numa relação muito mais pessoal. Eu lembro que publiquei uma vez um texto da Fernanda Meireles, uma das responsáveis por o Zine-se e Zinco (movimentações acerca de fanzines em Fortaleza. Veja o link para saber mais, vale a pena!) no meu fanzine, que descrevia exatamente a magia de receber uma carta ou as publicações. Ela dizia assim: «Escrever ou responder uma carta equivale fisicamente a se levantar do seu canto, cruzar uma sala e 'tender a mão (ou abrir os braços) a alguém que 'ta ali 'perando ou não por isso. Trocar correspondência é poder conversar sem zoada por quanto tempo quiser. É como nas melhores conversas, os ritmos, as pausa, as entonações e o conteúdo do que se diz, é respectivamente observado, repetido e guardado na memória, porque fala e 'cuta». Sentiu? Um fanzine impresso e uma carta carregam mais emoção do que muita gente acha e consegue entender. Se a Internet é praticidade, carta é paixão. Cabe a você 'colher. Número de frases: 59 Ou equilibrar. Muito cobra-se do jornalista ética e imparcialidade. A o vasculhar a opinião dos leitores, encontramos quase sempre uma reivindicação de maior responsabilidade do repórter. Sem dúvida, quanto maior em ele é o dolo, a moral e o respeito, melhor é a matéria e, em teoria, mais representatividade terá o profissional. Em a imprensa brasileira, 'sa qualidade liga-se diretamente com a serenidade do texto. O bom jornalista é o comedido, o equilibrado. Medir as palavras, refrear comentários fortes, ambientar a questão dando voz a ambos os lados -- fundamentos básicos para o bom jornalismo. Em 'se sentido, exemplos na imprensa nacional não faltam e, seguramente, são numerosos em qualquer veículo de comunicação. Em suma, o jornalismo é qualificado de acordo com o comportamento do jornalista que o pratica. Quando comedido, pouco se diz da informação presente no texto. Talvez, deva-se à pouca prática do leitor com as técnicas da comunicação. Talvez, à franqueza e integridade do material e daquele que o redigiu. Seja como for, o mérito da questão fica aquém da real importância do jornal e dos seus profissionais. A redação ponderada, criteriosa e séria não é sinônimo de polidez. A o apresentar a questão e suas respectivas interpretações, o repórter sempre encontra-se numa situação contraditória. Até mesmo a existência de diferentes pensamentos sobre um episódio acarreta uma oposição. A opinião de um desagrada e vai contra a do outro. Eis então a impossibilidade real de um texto agradar a ambos os lados envolvidos numa discussão. Se o jornalismo sério deve buscar a imparcialidade, a visão ampla e o maior entendimento da questão em pauta, o bom leitor, aquele que preza um bom veículo e boas matérias, ele deveria portanto 'tar habituado a ouvir (no caso do papel, ler) opiniões que não são necessariamente as suas. A tolerância é imprescindível para a melhor análise de um objeto, seja ele reportagem, entrevista, critica, opinião, etc. Entretanto, a noção de boa imprensa no Brasil enfoca sempre a amabilidade do conteúdo. Seja na própria composição da tópico, ou no seu aprofundamento, na discussão. Os fundamentos do jornalismo ético são completamente abandonados na avaliação que o «leitor médio» faz de uma reportagem. Qualquer elemento que desequilibre 'sa harmonia, seja na matéria ou no próprio pensamento do leitor, leva 'te a classificar o registro como tendencioso, imaturo, polemizador, reacionário, panfletário, entre outros. Os maus profissionais conhecem 'sa particularidade. Mais que isso, exploram 'sa deficiência criando, assim, um receptor cada vez mais domesticado e letárgico. Utilizando-se do artifício da moderação, veículos induzem ideologias, padrões de comportamento, de pensamento, opiniões e, até mesmo, publicidade. O «leitor ideal» teria parado no primeiro parágrafo desse texto. A o ler a última palavra da última sentença, ele voltaria para reler algo que causou certa 'tranheza. Depois de feito, soltaria um " Hein?" mental e suspenderia a leitura por um segundo. «Dolo? E desde quando ' dolo ' é qualidade?" E ele tem razão! «Dolo» significa ardil, fraude, má-fé, com conhecimento do mal que faz. Portanto, uma qualidade ligada diretamente aos maus profissionais. Entretanto, para um leitor que não possua o conhecimento do vocábulo, ou descuidado, a informação passaria como certa. A palavra poderia ser substituída por uma sentença de pensamento, de ideologia, de opinião. Dentro de um contexto que envolva o leitor, 'sa noção passaria como verdade. Com uma repetição constante, o leitor passa a ser condicionado pensar e agir conforme a opinião. Essa prática 'tá longe de ser uma exceção. Ela é quase que um dos alicerces de qualquer discurso, uma ferramenta útil e necessária para difundir o conhecimento. Pode-se encontrá-la em todos os jornais, sem ressalvas. Isso não é culpa do mau caráter do autor, embora, às vezes, seja. O que leva o entendimento do texto como malícia, na maioria das vezes, não 'tá na retidão, ou falta de 'ta, do autor. Os homens, quer queiram ou não, dividem certos conceitos. Vida, bem-estar, segurança, compaixão, liberdade: todas 'sas noções, em menor ou maior grau, comandam a maioria absoluta da humanidade. Divergimos na forma com que acreditamos poder conquistá-los. De 'sa diferenças surgem as ideologias, as correntes de pensamento, a postura que adotamos perante a vida -- que é idêntica para todos. O leitor brasileiro inverte os papéis. O bom jornalismo nem sempre precisa ser sereno e moderado. A verdade machuca. O confronto de idéias é 'sencial. E tudo isso gera polêmica. O bom jornalista não precisa sempre dizer o que o leitor quer ouvir. A tolerância deveria ser aplicada na mente do leitor. Diante de idéias opostas, ao invés de taxar, classificar imediatamente, ele deveria comedir-se e meditar sobre a questão. Analisá-la de forma honesta. Prestar atenção em ambos os argumentos e depois confrontá-los. Diante do resultado, teria uma opinião sua, individual, livre; ao invés de receber tudo mastigado. Deveria aprender a comer, a informar-se, a debater, a ouvir, a criticar, em suma, deveria aprender a pensar. O 'sencial não é saber as coisas, mas saber raciocinar sobre elas. Número de frases: 64 Não A Este Filmeco Não Vamos Assistir Essa Porcaria, Americano Tem Que Nascer Duas Mil Vezes Pra Amarrar As ' CHUTEIRAS ' De Brasileiros Em 1940, por ocasião de uma encomenda musical para acompanhamento de dança de uma coreografia baseada em motivos africanos, surgia o piano preparado. Seu inventor, John Cage, trabalhava na ocasião na Cornish School em Seattle e a coreografia em questão chamava-se Bacchanale e havia sido proposta por a dançarina Syvilla Fort para ser encenada no palco da casa de 'petáculos, anexa à 'cola, a Repertory Playhouse. Em 'te lugar, meses antes, o compositor tinha proferido uma importante palestra sobre o futuro da música: Whats Next in American Art?, que, mais tarde ficaria conhecida como The Future of Music: Credo, que, entre outros insights, afirmava que a música para percussão seria a ponte entre uma música baseada em material melódico-harmônico (notas, acordes e 'calas), e uma música baseada no total sonoro, onde qualquer som pudesse ser considerado musical, contanto que fosse proposto como tal. Cage, havia dois anos, tinha sido contratado para realizar acompanhamento das classes de dança da 'cola e tinha montado para isso, um grande grupo de percussionistas. Esse grupo já havia excursionado por toda a Costa Oeste dos Eua e foi responsável por a 'tréia e performances de diversas peças 'critas para grupo de percussão tanto de Cage, quanto de nomes como Lou Harrison, Henry Cowell e Edgard Varèse. O compositor havia realizado uma franca 'colha por uma música baseada no ruído e já tinha tomado a providência de criar um método de 'truturação que prescindia dos parâmetros melodia e harmonia, sendo apoiado exclusivamente nas durações. O tempo foi eleito o único fator determinante em música, pois seria capaz de incluir ruídos e silêncios como objetos 'truturáveis, coisa que uma concepção baseada em notas musicais não era capaz. Em a ocasião da encomenda para a música da peça Bacchanale, surgiu porém, uma complicação: não havia no palco da Repertory Playhouse 'paço suficiente nas coxias para posicionar seu set de instrumentos de percussão e foi oferecido a Cage apenas um piano de cauda como instrumental para realizar o acompanhamento. Diante de tal situação e sem o mínimo ânimo para voltar à 'crita abstrata da qual tinha se livrado há dois anos depois de concluir seu curso com Arnold Schoenberg, Cage optou por buscar através de uma abordagem alternativa, sons de piano mais adequados às suas exigências expressivas. Usou, a princípio, técnicas inspiradas em seu ex-mentor Henry Cowell, de tocar diretamente nas cordas do piano, depois tentou colocar objetos sobre as cordas (que se mostraram inconvenientes pois mudavam de posição na medida em que se tocava a música) e, finalmente, usando fragmentos de vedante de janela (weather stripping) e pequenos parafusos, acabou criando o recurso-instrumento chamado piano preparado. Trata-se de um piano que tem seu timbre alterado por a fixação de pequenos objetos entre as cordas, que podem ser parafusos de tipos e tamanhos diferentes, fragmentos de borracha, vedante, plástico, madeira, pano, etc. Cage utilizou o recurso durante os anos 40 sempre que houve a necessidade de se substituir o seu ensemble de percussão numa situação de poucos recursos em que só podia contar com sua própria execução instrumental ao piano. Com o passar do tempo e na medida em que adquiria notoriedade como compositor de vanguarda em Nova Iorque, Cage chegou a 'crever obras de concerto para intérpretes consagrados. O grosso de sua produção para o recurso-instrumento, porém, é de acompanhamento de dança, a ser executado por ele próprio enquanto excursionava com a companhia de dança de Merce Cunningham por os Eua. Em o início a feição das obras para piano preparado tinha muitos traços em comum com a sua 'crita anterior para instrumentos de percussão: sucessão de blocos de texturas, ataques agressivos, ostinatos insistentes, mas, no final dos anos 40, em obras como Music for Marcel Duchamp (1947) e as Sonatas and Interludes (1948), podemos notar o amadurecimento de uma idiomática própria ao piano preparado, que une a delicadeza e a vocação melódica do piano à possibilidade de construção de timbres novos. Devemos notar que, por possuir objetos entre as cordas, o som do piano preparado possui menor intensidade que um piano normal (os objetos pesam e é necessário mais energia para obtermos uma intensidade compatível), podendo ser comparado a instrumentos de baixa intensidade sonora como o cravo, por exemplo. Em o início dos anos 50, Cage simplesmente para de 'crever obras para piano preparado. O repertório de peças para 'se meio não chega a 30 obras (devidamente catalogadas). É o período em que o compositor passa a adotar como retórica máximas como: é função do compositor deixar os sons serem eles mesmos, supostamente inspiradas por a filosofia oriental, notadamente o zen budismo. De qualquer modo, o piano preparado representava de fato uma atitude de controle sonoro que já não mais interessava ao compositor a partir de suas experiências com o acaso como ferramenta composicional (1951) e mais tarde com a noção de indeterminação em música (1957), concepções que vão permear toda a música composta posteriormente e operar uma verdadeira polêmica no cerne da crítica musical do pós-guerra. ... bom, mas isso é uma outra história. Número de frases: 27 De fevereiro a julho, pequeno distrito do Tocantins é colorido por bonecos gigantes e rituais curiosos Taquaruçu em Tupi Guarani significa «taboca grande», mas é também o nome do distrito, distante 30 quilômetros de Palmas, localizado ao pé da Serra do Carmo, onde se concentram as mais belas cachoeiras do entorno da capital. São mais de 70 quedas d' água catalogadas por a prefeitura de Palmas. Com um clima ameno na maior parte do ano (a temperatura varia de 10º a 34º), é em 'te lugar com cara de interior -- população 'timada em cerca de 2.800 habitantes -- que acontece um dos rituais artístico-culturais mais inusitados da região central do Tocantins: a Festa Tabokaçu, que mistura sincretismo, teatro, dança, música e poesia. A manifestação se concentra na Aldeia TabokaGrande, criada por o pesquisador Wertemberg Nunes. Segundo ele, a intenção na criação de 'sa festa era de sintetizar várias manifestações culturais brasileiras num só local e, ao mesmo tempo, criar uma identidade folclórica tocantinense. «Usamos os bonecos gigantes, inspirados nos que existem no Recife, mas os nossos têm histórias próprias e mais mobilidade, por causa de uma tecnologia que desenvolvemos», define. A Festa Tabokaçu acontece do final da época das águas (fevereiro) ao início do próximo período chuvoso (julho), nas pequenas ruas do distrito. A Queima dos Tambores -- um ritual que reúne todas as etapas da confecção artesanal de tambores 'tilizados a partir de ocos de madeira -- marca de início do folguedo. Este ano, os tambores foram queimados no dia 10 de fevereiro, como ritual de abertura. Segundo Wertemberg, tudo começou no carnaval de 2001, quando o Bloco TabokaGrande -- idealizado por ele -- foi criado. Em 'sa época também a comunidade conheceu o Carnaval Ecológico de Taquaruçu. Uma festa que traz para o desfile as riquezas naturais da região, ao som dos tambores feitos de tronco e couro de gado. Há sete anos, a folia se realiza no domingo de Carnaval com desfile que reúne todas as manifestações da aldeia, com seus mitos e lendas representando os elementos naturais da região. «Trata-se de um grande encontro», define o pesquisador. Puxados por o ritmo quente do «capoeboicongo» -- misto de capoeira, boi bumbá e congo, tirado apenas do berimbau e dos tambores -- os bonecos ganham as vielas. Quem abre alas é o boneco gigante Tabokão, que simboliza a terra e a força masculina. Em o carnaval, ele se encontra com os bonecos Kobaçu -- que simboliza o coco babaçu e a beleza natural -- e Boiúna -- símbolo das águas e da força feminina. Juntos, eles recebem os bonecos convidados, que representam outras tradições, como o Rei Maculelê (capoeira), Boto (cultura ribeirinha), Boizinho Sonhador (boi bumbá) e a Mãe Bá (mãe de leite). Todos 'ses rituais acontecem sob as bênçãos do boneco Amarelo, que representa as pessoas de Taquaruçu. Após o carnaval, a cada mês é realizada uma festa para cada um dos bonecos, com rituais 'pecíficos e comidas típicas, dando continuidade à Festa Tabokaçu. Em março, é vez da Festa do Amarelo. Em abril, do Kobaçu, em maio da Boiúna, e em junho do Tabokão. As folias da Delídia e dos Alaurçus são realizadas de 9 a 16 de julho, dando fim à Festa Tabokaçu. Mito Toda 'ta mitologia é resultado da experiência de Wertemberg Nunes em teatro de rua, bonecos gigantes e pesquisa de ritmos em vários lugares do Brasil onde 'tão tradições como capoeira, boi bumbá e congo, segundo ele mesmo conta. Em Taquaruçu, diz o artista, tomou forma de projeto para desenvolvimento de um produto turístico que trabalhe a conscientização das pessoas do lugar. «Também queremos que os visitantes saibam da importância da preservação dos recursos naturais e da interação entre as diversas formas de interpretar e conhecer o mundo», frisa Wertemberg. Outras pessoas se juntaram a ele e seus filhos Wertem, Taiom e Ramar para 'truturar o trabalho. Entre elas, destaca-se o artista plástico Gero, responsável por as 'culturas nos tambores e produção de instrumentos musicais. Desde o ano passado a festa tem novidade. Com a aprovação do Ministério da Cultura, no Programa Cultura Viva, a aldeia hoje é um Ponto de Cultura do MinC. E, por isso, a folia é realizada em local definitivo e apropriado: a Aldeia TabokaGrande, um 'paço aos pés da serra de Taquaruçu. Além disso, há ainda a oficina OkodoPau, que produz os tambores dos mitos da aldeia e da região, integradas com vivências em teatro, música e dança no ritmo ' capoeboicongo '. Outra conquista foi a criação dos Galos de Palmas. O Instituto Tabokaçu, uma ONG criada a partir da festa, vai apresentar no carnaval Os Galos de Palmas -- blocos que representarão três pontos regionais da capital tocantinense: o pólo ecoturístico de Taquaruçu, a Zona Sul e o Centro / Zona Norte. Serviço: Festa Tabokaçu Período -- de 10 a 21 de fevereiro (carnaval) a julho Local -- Taquaruçu, a 30 km de Palmas Ritual -- bonecos coloridos percorrem as ruas ao som do «caboeboicongo», ritmo concebido por o berimbau e por tambores feitos de troncos ocos e couro de gado Programação Chegança -- Apresentação de mitos e convidados Sábado, dia 17, das 8 às 19h Bonecos que representam culturas de outros lugares chegam em vários pontos da Capital para o desfile. Ritual do Encontro -- O desfile dos bonecos gigantes da Aldeia Tabokagrande Domingo, dia 18, às 18h Local: Aldeia Tabokagrande Descanso-Roda dos tambores com feijoada Segunda-feira, dia 19, às 18h Local: Aldeia Tabokagrande Encanto dos Galos -- Roda de tambor de galo Terça-feira, dia 20, às 18h Local: Aldeia Tabokagrande Roda de Cinzas -- Saudação dos mitos Quarta-feira, dia 21, às 10h Número de frases: 58 Visita a casa de uma moradora para a saudação final do desfile e abertura tradicional da temporada dos mitos. Aqui, a primeira parte de Histórias de corredor. Em o Quintal, JUAREZ, aposentado da Reffsa (Rede Ferroviária Federal S / A), costuma plantar árvores frutíferas, cajueiros, bananeiras, ateiras, pés de pau que dão frutas comestíveis enfim. Tem outro costume. «É só começar a crescer, ele vai lá e corta tudo, não deixa nada. Faz isso o tempo inteiro, planta tudo bonitinho, 'pera e corta», lamenta o filho, Jackson. Ele é irmão de Magnólia, que pediu licença e saiu para cuidar de uma «pessoa 'pecial» que tem na casa. Não pergunto se se trata do pai, mas lembro ter ouvido qualquer coisa sobre Juarez. Em a verdade, trata-se mesmo de uma afirmação categórica e acima de qualquer suspeita porque feita por Jackson: «O pai anda abirobado», então penso que pode ser ele, afinal 'se ciclo todo de plantar, 'perar, cortar e novamente plantar, 'perar, cortar não me parece muito sadio. De qualquer forma, Evandro, o agente penitenciário e grande jogador de futebol de salão de Canindé, diz «Vá lá e fale com o Juarez», mas o pai de Jackson e Magnólia e de outros seis irmãos talvez nem queira falar, invento qualquer coisa, não peço para falar com ele, que tem 77 anos e só Deus sabe a quantas anda a sua saúde. Converso com Jackson, que tem 41 anos e cuida de uma mercearia há dez. Nos sentamos na única mesa que há na lanchonete Café Bar, uma vermelha da Coca-Cola. Talvez Jackson nem soubesse que tinha tanta história, ele diz «É engraçado, tu começou a perguntar aí e eu fiquei pensando como é importante a cultura da gente». Fui provocando a lavoura da memória. Jackson tem mais ou menos a minha altura, 1,71 metro, é branco, fala devagar, tem barba rala, parece desconfiado, sua bastante, sempre um filete que 'corre por trás da orelha e desce até o pescoço. Em a entrevista, fico olhando, é algo que me incomoda, mas vou em frente enquanto tomo suco de caju comprado lá mesmo antes que um grupo de 'tudantes da 'cola Branca de Neve, bem ao lado, tomasse o 'tabelecimento de assalto e assumisse o controle da mesa, da conversa e o monopólio de risos extravagantes. O Filho De JUAREZ Lembra Muita Coisa. Entrou numa fábrica de confecção em 1987, ali mesmo, no bairro. Trabalhava no almoxarifado, saiu dez anos depois e abriu a mercearia. «Não consegui emprego em outro lugar." Hoje mora entre Fortaleza e Maracanaú, no Parque Santana, numa rua sem saída que, bem antes, pertencia a uma família, «Melo ou Nunes», dona de uma vastidão de terras no Mondubim. «Gosto de lá, é calmo, todo mundo se conhece «e isso é mesmo um código, 'pécie de bordão de quem vive naquele corredor de chácaras e pequenos sítios e de casas com paredes largas e cobertas erguidas com telhas mais pesadas --» aqui todo mundo se conhece» vai se repetindo, marcando os discursos, as falas. Passo a acreditar. «Lembro quando jogava bola aqui em frente, era difícil passar um carro, hoje quase não dá pra atravessar a avenida." Agora Jackson parece perdido mesmo, foi ao passado e não voltou, o olhar denuncia. Era assim, ele desenha na cabeça: sítios de um lado e do outro, no meio o areal, em ele a igrejinha, tudo um terreiro só onde os meninos corriam atrás de bola, participavam dos festejos anuais e, mais na frente, já crescidos, das tertúlias e coisas afins, mas desse período Jackson não fala, dos anos de adolescência. Vai logo avisando «Tem uma fase da minha vida que não gosto de falar muito, não» sem deixar claro o porquê, apenas que não quer falar, não gosta. Mais que o respeito ao outro, o pudor me impede de insistir, querer saber exatamente dos motivos, das coisas que aconteceram na adolescência de Jackson Cavalcante num lugarejo como o Mondubim, há mais ou menos vinte e cinco anos, nas franjas da cidade. Magnólia retorna, mete-se educadamente na conversa. Fala de Gláucia, «Ela casou em 'sa igreja, fez questão porque a mãe tinha se casado em ela também», de forma que pago o suco de caju, me despeço de Jackson com um aperto de mãos e caminho até a casa de Gláucia, que fica do outro lado da Wenefrido, mais próxima do Balão. «É aquela de muro verde com vermelho», ensina. Bato palmas, ninguém atende. Insisto nas palmas e nada, o portão no cadeado. De repente uma mulher. -- Pois não --, diz abrindo a porta. -- Posso falar com Gláucia ou com a filha de ela? A mulher parece 'pantar-se. Olho novamente a cor do muro, verde com duas listras vermelhas, exatamente como havia apontado Magnólia. -- A Gláucia não 'tá, foi para o aniversário da filha, que tem dez anos. Vejo o equívoco. -- A mãe se encontra? Ela diz «Tá dormindo», pergunto se posso voltar outra hora, daqui a alguns minutos talvez, mas ela informa que dona Anita, mãe de Gláucia, não falaria com mim sem a filha, que só retorna no cair da tarde. Então pergunto se dona Anita de fato se casara ali e se, a exemplo da mãe, Gláucia optara por selar o matrimônio na igrejinha quase centenária. A mulher confirma. Vou embora com promessa de retorno outro dia, quem sabe. «Tudo bem», e fecha novamente o portão de ferro. Antes De o Meio-DIA De Sábado, os carros cortam a avenida velozmente, não respeitam a sinalização, uma faixa de pedestres permanece ignorada, o fluxo é incansável. «De manhã tem engarrafamento, à noite tem engarrafamento, o barulho é insuportável», dissera Jackson. Ônibus lotados, ambulantes berrando, o Balão 'tá cheio de eles, ambulantes que vendem forros para direções de veículos, antenas, flanelas, capas para celulares, água de coco e suco de laranja em garrafinhas com tampa verde. Dividem o 'paço com os 'moléus. Ficam praticamente o dia inteiro por ali, gritando e inalando em primeira mão a fumaça dos 'capamentos, curtindo a pele sob o sol da cidade 'caldante. Isto aqui, relembro, tem história, tem memória. Até o poço é centenário, explica Francisco Lucimar, servidor terceirizado do município. «Mas não tá mais sendo usado. Agora a gente usa 'te aqui, que ela cavou." -- Ela?--, pergunto. Ele responde «A prefeita». O poço que a prefeita cavou, melhor dizer mandou cavar fica ao lado do antigo e bombeia água quase mineral das 7 às 11h30 e das 14 às 17 horas, de segunda a segunda, menos aos domingos, dia santo por excelência, quando pára os trabalhos às 12 horas. Esses são os horários de Francisco. «Não trabalho muito, só vigio, não deixo os meninos chafurdarem aqui, ninguém pode aparar mais que dez garrafões de vinte litros», ele enumera as minguadas atribuições de segurança da concorrida água quase mineral do Mondubim, que não são muitas nem desgastantes. Apesar da água, não por folclore local, ser das boas. Ele mesmo atesta a qualidade, «A água é boa mesmo, tem dias que vem gente da Aldeota pegar aqui», e os carros que se vão encostando e as muitas empresas que engarrafam água mineral no Mondubim não o desmentem, ao contrário confirmam a boa-fama do poço. Francisco mora no Parque Santo Antônio. Só então percebo que há muitos parques nos arredores do Mondubim, Santana, Santa Rosa e o de Francisco. A o final do mês, recebe por cuidar da água quase mineral um salário que, acrescido dos extras que ganha por pastorear o poço aos sábados e domingos, chega aos 600 ou 700 reais. É oscilante. O salário, não Francisco. Francisco é fixo, gosta de 'tar onde 'tá -- ao lado do poço. Pergunto se gosta do bairro. A resposta, «isto aqui é uma morada boa», me acompanha depois da entrevista. É que combina com o «Aqui todos se conhecem», são vizinhos. Como ia dizendo, ele é fixo no 'paço. Morou por vinte e seis anos no Pan-Americano e há trinta vive no Santo Antônio. A conversa com ele é agradável, corre solta. Revelo a Francisco o objetivo inicial da reportagem, percorrer a pé a avenida Perimetral ou parte de ela. «A Perimetral é um pouquinho grande, tu ia ter que andar muito», e o que diz tem o mesmo tom e peso de uma sentença ordinária. Me 'panto ao saber, ao ouvir «Me casei com dezesseis anos». Número de frases: 79 Hoje tem 51 e a mulher, 58. Os dois têm cinco filhos, quatro homens e uma mulher. Começo a entrevista fazendo propositadamente uma pergunta ampla e genérica, quase uma daquelas perguntas com que os candidatos mutuamente se digladiam nos debates eleitorais: É possível fazer turismo na favela? Bianca Freire-Medeiros, a entrevistada, só vai me responder 'sa pergunta plenamente nos minutos finais da nossa conversa. Não porque ela tenha se 'quivado naquele momento de me responder, ou porque a pergunta tenha soado besta para iniciar mecanicamente uma entrevista jornalística. Só foi respondida no fim, porque a questão é complexa demais para ser trabalhada de chofre. E foi isso que toda a nossa conversa demonstrou. Digo conversa, porque foi assim que me referi quando travei o contato inicial. E digo contato inicial querendo dizer o segundo contato que tive com Bianca, talvez o primeiro mais personificado, já que o outro havia sido em sala de aula, numa palestra ministrada por ela numa disciplina eletiva oferecida por a professora Rosane Prado do Programa de Pós-gradua ção em Ciências Sociais (ppcis) da uerj. Nossa conversa não se limitou à pesquisa que Bianca em 'se momento desenvolve sobre as possibilidades de implementação do turismo na favela, falamos também sobre a mudança de instituição (ela é pesquisadora do cpdoc da Fundação Getúlio Vargas há cerca de seis meses), sobre o Overmundo, sobre o novo filme de Lúcia Murat (a tese de ph. d. de Bianca, na Binghantom University, de Nova Iorque, também fala da representação do Rio de Janeiro no cinema hollywoodiano), e sobre a próxima minissérie da Globo -- Amazônia, de Galvez a Chico Mendes -- em cuja produção trabalha como pesquisadora junto à Giovana Manfredi, Sandra Regina e a autora Glória Perez. Pouco antes de eu abrir a entrevista com a fatídica pergunta, Bianca me conta que, em outro trabalho para a tevê Globo, pôde experimentar o drama da pesquisa para a televisão. Acompanhando todo o processo de produção realístico da novela América e fornecendo material sobre a situação dos imigrantes em Miami, ela 'tranhou quando uma cena se distanciou da verosimilhança prezada em outros casos. Tentou argumentar, mas recebeu de Glória Perez a resposta, Mas isso é novela ... E fecha aspas. Foi assim que começamos a entrevista, ou melhor, assim demos prosseguimento à conversa. Separando a ficção da realidade. Entramos de cabeça na pesquisa que Bianca coordena, com mais oito assistentes, sobre o turismo na favela. Com a fala marcada por anacolutos, coisa de quem tem a cabeça fervilhando de idéias, a entrevistada responde sem pestanejar todas as minhas intervenções. Deixo o gravador ligado, porque sei que não vou conseguir acompanhar tudo na minha pobre 'crita infinitamente lenta e minha memória defasadamente lapsa. Em o fim do bate-papo, com a fita já 'gotada, lembro de Bianca mencionar que experiências turísticas como 'sas provavelmente tiveram início na África do Sul, com o caso das peregrinações à cela de Mandela. Em o Brasil, o registro mais próximo de um caso como o do Rio é um tour realizado na Bahia, para onde uma de suas assistentes se dirige a fim de conhecer melhor o projeto. A pesquisa de Bianca se desenvolve em três fronts -- entrevistas com os agentes fomentadores, entrevistas com os turistas e entrevistas com os moradores das comunidades (as duas últimas são as próximas etapas) -- e abrange quatro largos territórios -- a Rocinha, o Morro da Babilônia, o Morro dos Prazeres e o Morro da Providência, cada qual com uma característica que lhe é peculiar. Pode parecer que foi o início da nossa conversa (e, por isso mesmo, 'sa entrevista é cheia de venhevais e de sobidesces), mas o insight e o porquê de toda 'sa investigação sociológica ela só me contou no meião do bate-papo: porque quando eu comecei a pesquisa, 'tava muito mobilizada para a idéia de que aquilo era um zoológico de pobres, aquela idéia do jipe, entendeu? Eu nem sabia que havia outros tipos de passeios, que não eram feitos por jipe, que tem passeio a pé, tem de van, tem de moto, enfim ... Achava que era o fim do mundo, um absurdo aquilo. Bianca diz que, da Gávea, via volta e meia subir um, dois, seis, dez jipes, um atrás do outro, com a carroceria aberta e turistas fotografando tudo. Em a semana que antecedeu a entrevista, eu mesmo avistei um desses jipes. Coisa que chama a atenção. Já ouvi muita gente a respeito disso condenando o formato do passeio, exatamente lembrando a imagem que Bianca propõe sobre o zoológico de pobres. Ela, no entanto, relativiza a exposição. O que eu acho que é legal em 'sa pesquisa é que ela desconstrói várias impressões iniciais. Nem todo turista vai lá com o 'pírito de humilhar ou ser invasivo. Nem todos os moradores se sentem invadidos ou ofendidos. Pode ser que haja gente profundamente ofendida, mas não é 'se o clima. Você é muito bem recebido. Os moradores não são passivos em relação a 'se olhar. Claro, é uma relação de poder desigual, os turistas vão lá, eles têm as câmeras, eles fotografam e 'colhem o que fotografar, mas é muito interessante como os moradores também se aproveitam de 'sa situação para lançar o seu olhar, para serem sujeitos do olhar. Foi a hora em que eu fiquei pensando sobre o jipe novamente, e perguntei se a metáfora do zoológico não servia também para o morador, que vê chegar, numa jaulazinha, o seu circo. E ela: os moradores fazem muita piada. E ... aí ... a roupinha de ela! Eles falam muita coisa. Enfim. Em os momentos em que pudemos acompanhar, as pessoas eram super-I-love-you, não tem clima ruim. Mas eu tenho certeza também de que quando a gente começar a entrevistar as pessoas, elas vão falar alguma coisa ... A idéia é perguntar E se você tivesse que 'colher? Se você pudesse mostrar a Rocinha para o turista, que lugares você mostraria? Quando você viaja, que lugares você visita?-- porque o morador da Rocinha também viaja, nem que seja para Paquetá. Quer dizer, ele também se coloca no lugar de turista, mesmo que isso seja uma coisa pontual. Talvez seja muito duro para a gente aceitar que talvez as pessoas queiram mesmo mostrar seus barracos e sua favela. Em a Providência, quando a gente começou a conversar, as pessoas diziam Tem que vir mesmo. Tem que mostrar que a prefeitura não tá nem aí, entendeu? Enquanto a prefeitura 'tá achando que vai capitalizar um puta-Favela Bairro maneiro, o cara acha que tem que mostrar que continua tendo lixo não recolhido ... É muita ingenuidade ou muita pretensão -- alguma coisa entre 'ses dois extremos -- do cientista social, da intelectualidade de maneira geral, achar que 'pertos somos nós, que ninguém tem capacidade crítica a não ser aquele sujeito que 'tudou, que vem da academia. O sujeito que 'tudou e o que vem da academia eu reconstituí com base na minha parca lembrança, já que foi precisamente aqui que a fita parou. Antes disso, Bianca já havia me explicado cada um dos quatro casos. Em a Rocinha, caso, segundo ela, paradigmático, os passeios acontecem desde 1992. A última contagem, divulgada por o jornal O Globo, 'timava uma média de quatro mil turistas por mês na localidade. Mas eu acho que é muito, sabe? O que as agências me falavam -- e eu já achava impressionante -- era algo em torno de dois mil, dois e quinhentos. Se você contar que cada um paga entre 35 e 40 dólares, você vê aí uma movimentação de dinheiro significativa. E, na Rocinha, são sete agências atuando regularmente. E elas fazem também outros tipos de passeio -- só uma de elas, a Favela Tour, faz exclusivamente o passeio na Rocinha mas as outras fazem Corcovado, ecoturismo e tal. É um caso extremo, de agentes externos promovendo o turismo, e isso acaba gerando um mercado de produção interna -- inclusive, por exemplo, de suvenires. Em o artigo que Bianca apresentará na anpocs 'ta semana, ela cita alguns produtos by Rocinha: camisetas, quadros, bordados, 'culturas, cds e uma linha grande de reciclados. Um produto em particular me chamou atenção: uma placa com os dizeres ' Rocinha: A PEACEFUL And BEATIFUL PLACE -- COPACABANA -- Rio De Janeiro '. É, segundo Bianca, a incorporação da Rocinha ao cenário turístico mais amplo da cidade. ( Alguém aí precisa de um mapa para localizar a favela?) Além da experiência da Rocinha, Bianca cita, no outro extremo da pesquisa, o caso do Morro da Babilônia, cuja tentativa de promover o turismo 'tá baseada em inicitivas locais e mobilização dos próprios moradores. Em a Babilônia, os passeios acontecem cerca de duas vezes por ano, com quase cem pessoas guiadas por jovens da comunidade. São passeios gratuitos, com o apoio da prefeitura e do shopping Rio Sul, divulgados geralmente por meio de uma lista de emails. O diferencial, além dos agentes internos explorando o turismo, é que a procura por o roteiro da Babilônia é 'sencialmente de cariocas, alguns ex-moradores, gente interessada em ecoturismo. O drama, aqui, é que eles não têm 'trutura. Não têm um carro que vá buscar os turistas no hotel, os guias -- que são jovens do Babilônia, do Chapéu-Mangueira etc. não falam inglês, não falam outras línguas. E isso é um impedimento. O impedimento talvez não fosse tão grande se agentes internos e externos unissem força, é o que você deve 'tar pensando. Aí é que entra a terceira experiência, o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, em que uma ong oferecia cursos profissionalizantes para os jovens. Mas, infelizmente, lá, um agente não deixou a coisa vingar a contento -- o tráfico. Bianca lembra que conflitos existem, mas não são a tônica dos empreendimentos. Ela diz que confia nas agências, quando lhes explicam que não há qualquer relação com o tráfico, e diz também que já teve situação do turista ter que dar a câmera fotográfica porque bateu foto do cara armado. Algumas agências evitam passar por onde 'tão as bocas. Mas em outras isso é usado como fator de excitação. Falam Olha, vai ter um homem armado, mas você não fotografa. É uma linha totalmente adventure tour. E prova de que numa mesma localidade você tem possibilidades de passeios diferentes. Mas, em todas as situações em que a favela 'tá envolvida, você tem 'sa dimensão do risco como um fator. Uma tensão entre risco e segurança. Agora, o que acho incrível é que em todos 'ses anos não tenha acontecido nada. Se você pensar bem, nunca acontece nada! Quantas coisas ruins a gente não ouviu falar com turistas em Copacabana? Outro caso rico em discussão, o último dos quatro que Bianca 'tuda, é o do Morro da Providência. E aí, o mais curioso é que é o poder público promovendo o turismo. O poder público como agente, o que é bem interessante, porque há muito tempo você tem o discurso da remoção das favelas, que se tentou realizar, a construção de um muro, aquelas coisas loucas do Conde, e corre em paralelo um discurso como 'se, de que não apenas a favela é parte da cidade, como ela é patrimônio e deve ser exaltada como tal. Bianca tem cerca de nove horas de entrevista com Lu Petersen, uma das idealizadoras do Projeto Favela-Bairro e quem criou o Museu Aberto da Providência, que disputa com o Museu da Maré o título de primeiro museu em favela. Só 'sa discussão já era legal. Eu até 'crevi um artigo comparando 'sas duas experiências. Acontece que logo depois, não fazia muito que o Museu da Providência havia sido aberto, teve aquele conflito do Exército em busca das armas perdidas, e várias das coisas que foram recuperadas como bens culturais da favela, como a Capela, o Museu do Samba do Dodô ficaram furados de bala. É de uma ironia absurda. Ironia, que fica evidente quando se pára para pensar no fenômeno dos reality tours, um fenômeno mundial, um turismo com 'se caráter de envolvimento social, um passeio sombrio, violento, trágico. Bianca tem planos de realizar um 'tudo conjunto, com uma amiga socióloga de Nova Iorque, comparando as experiências de turismo nas favelas, no Ground Zero, e em Nova Orleans -- o mais recente desses reality tours, que atende por o slogan On the eye of the storm é o Katrina Tours, Entendeu? Só falta um ventinho ... A questão, para a pesquisadora, é 'sencialmente moral. Diz-se Money and Morality. Quando há dinheiro e moral envolvidos, como 'sas coisas operam juntas? O que você 'tá vendendo, o que 'tá sendo comercializado no turismo é a economia de sensações, não são coisas exatamente palpáveis, mas experiências. É a coisa da miséria humana, não no sentido exclusivamente da pobreza, mas da condição. E como você transforma isso numa mercadoria? Ela conta que, quando começou as entrevistas com os agentes promotores, perguntava O que você precisa para vender a favela como atração? O que você precisa fazer para convencer o turista?, e eles diziam: Não, você não tem que convencer ninguém. Todo dia tem gente querendo ir à favela. A motivação que impele 'se enorme contingente de turistas para a favela é o próximo passo a ser investigado na pesquisa. E, para explicá-la, conforme lembra Bianca, é preciso levar em conta o processo e os produtos midiáticos. Saber que o tour existe não é tão complicado. Em os próprios hotéis há flyers e material de propaganda de diferentes agências. Alguns turistas já vêm do exterior, ou porque viram em sites, ou porque alguém comentou, ou porque vários guias indicam, como é o caso do London in Planet, e recentemente, do próprio guia da Riotur. As pessoas ficam sabendo, mas em ficar sabendo não seriam obrigadas a fazer. O que há é uma inversão da lógica. É quase que uma sugestão de que, para entender e de fato conhecer o que é o Rio -- e não apenas o Rio de Janeiro mas o Brasil -- é preciso visitar a favela. Não é entendendo o Brasil que você compreende a favela, é ao contrário. O turismo na favela é uma experiência que garante a você uma compreensão do que é a cultura brasileira, porque 'tá tudo ali, diz Bianca. Vendidos como uma experiência microssociológica, os roteiros também dão ao turista a sensação de realizar um trabalho social, uma 'pécie de ação altruística. A maioria dos 'trangeiros que vão e vêm nos jipes, nas motos, nas vans são pessoas que já fizeram Calcutá, já fizeram Indonésia, China, e comparam 'sas experiências. Mas a favela carioca, diz Bianca, oferece uma coisa única. Não é à toa que tem que ser na Zona Sul, ou pelo menos em lugares que não sejam planos. As pessoas vêm motivadas por Cidade de Deus, todas as agências diziam isso sobre o fenômeno Cidade-de-Deus: deu um aquecimento violentíssimo ao mercado. Mas se as pessoas vêm interessadas por o que viram no filme, por que afinal de contas não fazem o tour em Cidade de Deus? E a resposta óbvia era que é muito longe da Zona Sul e não tem uma boa vista. Não corresponde a 'sa idéia, já completamente internalizada na audiência internacional, de que favela é sinônimo de morro com vista para o mar. Cidade de Deus não é isso. Outro caso bem ilustrativo é o do documentário Favela Rising, sobre o Afroreggae. Várias cenas, que supostamente se passariam em Vigário Geral, foram filmadas no Vidigal. A pessoa 'tá falando Eu nasci e fui criada em Vigário Geral -- e vem uma cena mostrando o Vidigal ... E é muito bom 'se caso do Favela Rising, porque não tem nada do 'trangeiro ludibriando o pobre brasileiro, é uma co-produ ção com o Afroreggae, uma construção amarrada e acordada entre as partes. Em 'sa hora, aparece a imagem translúcida e reluzente de um clone etéreo de Glória Perez pairando sobre a entrevista, Mas isso é só um filme -- ela diz. E Bianca responde à pergunta imaginária com um sorriso que para bom entendedor meia palavra basta: Só que 'se é um documentário, né? Outra ironia? Para Bianca, o exemplo aponta que dificilmente outras favelas teriam a oportunidade de entrar no mercado. Você tem que ter algumas prerrogativas 'téticas que nem todas as favelas têm. É claro que o que hoje o turismo faz mundo afora é criar novos predicados turísticos em localidades inesperadas, mas 'sa tradição, que associa a pobreza brasileira a 'sa 'tética que é muito particular, que é a 'tética do samba, do colorido, a 'tética de Cidade de Deus, vem de longa data. Não é a pobreza coberta de moscas de Calcutá, não é uma pobreza desdentada, é uma gente bonita, alegre, 'truturalmente feliz. E isso corre por o mundo. Compare isso com o que Bianca dizia já no início da entrevista -- A Rocinha é uma experiência de contato com a pobreza. Houve uma vez em que eu fazia o passeio com os turistas e o cara disse assim: Ah, mas eu 'perava coisa pior. Então você pensa: A Rocinha não é pobre o suficiente -- e você vê que é realmente uma lógica invertida. Em a verdade, a maior parte dos roteiros na própria Rocinha acontece quando as pessoas 'tão trabalhando, então, há pouco contato com os moradores. Pouco contato com os adultos ... As crianças fazem o maior sucesso, sabe? E é um contato muito visual, muito intermediado por a experiência da fotografia e daquele impacto visual que a favela oferece. Tem a barreira da língua. Mas as crianças interagem. Elas ficam atrás, querem ser fotografadas, se você entrar nos sites das agências, tem pelo menos uma foto de criança se olhando na câmera. E tem toda uma dinâmica, as agências não gostam que as crianças fiquem pedindo, então elas começam a vender pulseirinhas, artesanato ... E a coisa se transforma de fato num atrativo. Uma das agências que exploram o turismo na Rocinha -- a Favela Tour -- mantém um projeto social em Vila Canoas. Mas, Bianca conta que 'sa é uma exceção. Todos acham que 'tão contribuindo para uma melhoria da localidade na medida em que o turismo desconstrói 'tereótipos e as pessoas se sentem ... ela hesita, prestigiadas. Além disso, há 'se tema da auto-'tima dos moradores, muito marcado. É como se a simples presença do turismo já fosse ação social suficiente. Mas a impressão que fica, palavras da própria Bianca, é que, na visão dos moradores, não é a presença do turismo o problema. Quer dizer, o problema não são os turistas, ou a idéia de que as pessoas vão lá para ver os pobres, o problema é: quem é que lucra com isso?-- o que complexifica muito a questão, porque não é a pobreza transformada em mercadoria que é o drama, talvez seja o nosso drama, mas não o de eles. Há uma fala de uma das lideranças nas entrevistas que fizemos bem ilustrativa. Eu pergunto, Mas você não acha que é uma coisa complicada as pessoas fotografarem os barracos mais pobres, mais precários? E o cara diz, Não. O que 'tá aí é pra ser visto, a realidade tá aí pra ser encarada. Eu quero é saber de quem é o direito autoral. É meio que uma inversão do que a gente acha que é direito autoral. É como se ele dissesse, Eu quero saber com quem fica o direito de ser e de vender a pobreza ... Mas eu acho que 'sa é uma questão para a gente também, porque 'sa é uma discussão nossa -- eu digo, da intelectualidade, da academia, mesmo da classe média. E, então, só então, Bianca responde a minha primeira pergunta: Eu acho que a favela tem tudo para dar certo como atração. Já dá, e vai continuar dando. Agora, você ter uma experiência de turismo onde os moradores sejam os maiores beneficiados, aí já é outra história. E são 'sas dificuldades que as experiências têm demonstrado. Número de frases: 188 Respondida? Para muitos o dinheiro é sinônimo de felicidade. A os 48 anos, Sebastiana Rosália Bispo, todos os dias acorda às 4h40 da manhã. Dois ônibus separam sua casa, na Estrada Velha do Aeroporto do seu trabalho, no centro de Lauro de Freitas. Sebastiana, ou Ana, como muitos a chamam, é agente de limpeza da Secretaria de Serviços Públicos -- Sesp e diariamente varre a Praça da Matriz e toda extensão da Rua Ibicaraí. Ela não mostra problemas em se assumir como agente de limpeza. «Eu sempre coloco amor no que faço. Isso ajuda a me adaptar e superar as dificuldades». O chapéu de palha com duas conchinhas contrasta com o boné e o fardamento amarelo-ouro com lista vermelha que abriga o nome SESP em letras brancas. Negra, baixinha, cerca de 1.6m, e de olhar carismático, Ana não aparenta a idade que tem. As mãos, que todos os dias abraçam a vassoura e o apanhador, parecem bem cuidadas, sempre hidratadas e não mostram os 48 anos vividos por Ana. Seu rosto sim, parece que vai além da idade, marcado por um passado sofrido e que só perde a visibilidade para o sorriso tímido, 'pontâneo e sincero. Sua voz é pacata, tímida. Natural de Jacobina, no interior do Estado, Ana parou de 'tudar na sétima série e começou a trabalhar cedo, junto com o pai, Edson Bispo Carlos, vendendo roupas e calçados. Depois da falência dos negócios do pai, casou e teve três filhos. Mais tarde, com parte dos filhos criados, ela mostrou coragem e resolveu voltar a 'tudar. Com 26 anos, dividia a sala de aula com garotos de 16 e 17 anos. Seu sorriso desde sempre foi marcante e a diferença de idade não pesava em seus ombros. «Sempre me dei bem com os mais jovens. E minha alegria os contagiava tanto, que me chamavam de Dona Felicidade». Sempre a mais velha das turmas por onde passou, Ana concluiu o segundo grau em 1989, mas não pode dar prosseguimento aos 'tudos. A vida lhe impôs o trabalho para criar os filhos, na casa alugada de sala, quarto, cozinha e banheiro, onde mora com um filho, nora e neto, paga com o salário pouco acima do mínimo que recebe como varredora. O brilho do sorriso de Dona Felicidade só é ofuscado quando conta que já perdeu um de seus filhos. «É a pior dor que uma mãe pode sentir». Dona Felicidade aprendeu a superar as dificuldades da vida, mesmo já tendo perdido um filho e com outro de eles desempregado e com filho. Ela não desanima. Em 'te domingo (26), Ana fez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio -- Enem. Ela quer cursar a faculdade de administração, no futuro poder cuidar do próprio negócio, melhorar de vida. Dona Felicidade, por causa do bom coração que tem, também poderia ser chamada de Dona Solidariedade. Apesar de sua vida difícil, abastecida com o pouco que ganha, ela tem consciência de que muitos 'tão em situação piores que a de ela. «Sinto não ter condições de ajudar 'tas pessoas. Se pudesse, com certeza ajudaria». A sua vontade de ingressar na faculdade é superior ao receio de enfrentar o preconceito, seja por a profissão, por a derme negra que a envolve ou simplesmente de ingressar na faculdade aos 48 anos. Dona Felicidade é daquelas que ganha a simpatia de que a conhece. Ela diz que muitas pessoas que conheceu na área onde trabalha a ajudaram. «Rlick, Nice, Regina, e o povo que me vê aqui todos dias não me deixaram desistir». Dona Felicidade gosta de 'tudar. Prefere as ciências humanas do que as exatas. Para as colegas de varrição, ela diz que nunca é tarde para continuar, ou mesmo começar com os 'tudos. «Não importa a idade. O que importa é aprender, aumentar o conhecimento, 'tudar». Para os preconceituosos, ela diz que " o preconceito não leva a gente a lugar algum. Só nos destrói, nos torna amargos». As mãos grossas, porém hidratadas, reencontram o cabo da vassoura. Até às 13h, Dona Felicidade continua a varrição das folhas de flamboyant que insistem em deitar sobre o chão vermelho da Praça da Matriz. às 14h30, quando chega em casa, ela ainda enfrenta as tarefas domésticas que divide com a nora. Seu descanso começa quando ela repousa o corpo sobre a cama e inicia a leitura de «Senhora», de José de Alencar. Questionada se é feliz, ela diz com uma voz mais firme: «Eu sou muito feliz, mesmo sem muito dinheiro». Número de frases: 48 Conto do Mestre do Terror Brasileiro Rogério Silvério de Farias Q uerem ouvir? Eu conto! Mas é uma história de horror! Vocês têm certeza de que 'tão preparados para as coisas medonhas que vou contar? Estão? ... Então, meus senhores, vou contar, mas não me responsabilizo por os danos que 'ta história macabra possa causar em seus nervos. A história é deveras apavorante. Portanto, quem tiver nervos fracos, que vá ler outra coisa, outra coisa fresca como Paulo Coelho, por exemplo. Gosto de falar sobre as sombras e os mistérios que em elas habitam, gosto de falar da noite e do medo, do que se oculta nas trevas, do pânico, do horror catacúmbico. Gosto de falar das criptas, dos sepulcros antigos, dos pântanos enevoados, dos desertos e bosques solitários onde seres invisíveis dançam a terrível melodia da morte. Gosto de falar não somente das coisas do Céu e da Terra, mas das coisas do Inferno também. E que Deus tenha piedade da minha alma de contador de histórias proibidas e fantásticas! A casa tinha sido erguida sobre um antigo sambaqui, nas regiões do Sul onde proliferam tais lugares 'tranhos onde jazem ainda restos de 'queletos, acumulados por os habitantes pré-histórico do litoral e das margens de lagos e rios brasileiros, sítios onde antigas forças invisíveis parecem atingir o paroxismo nas noites de lua cheia. Forças etéricas, ali, são geradas, forças místicas, de incalculável assombro catacúmbico e nosferático, disso eu não tenho dúvidas. Coisas 'tranhas aconteceriam naquela casa. Coisas comuns não a Terra, mas aos abismos negros que existem nas profundezas do negro Inferno. Estava eu e o Sidemar, na casa. Era verão. Calor. Noite quente, abafadiça. A noite era de lua cheia. Propícia a fenônemos paranormais, sobrenaturais. Fenômenos que desafiam toda a lógica apregoada por o ceticismo 'téril. Somente a luz da tv ligada, nós assistíamos um imbecil programa de auditório. Devo dizer que meu amigo Sidemar era um tipo 'tranho, excêntrico. E solitário. Sua família pedira que eu passasse um fim de semana com o sombrio cavalheiro de olhos tristonhos e negros como os poços do mundo da 'curidão dos demônios. Eu não o conhecia muito bem. De sua infância e adolescência eu pouco sabia. Era psicólogo e advogado, o Sidemar, mas não exercia nenhuma das profissões; vivia de vender suas pinturas a óleo, quadros em 'tilo surrealista. Também era poeta bissexto, vez por outra publicava um livrinho contendo poemas que lembravam o 'tilo de Edgar Allan Poe. De repente, das trevas da noite ... entrou uma coisa alada, negra, lépida. Enfiando-se janela adentro, balançando as cortinas. A princípio pensei tratar-se de um maldito morcego. Ou então um pássaro ou inseto da noite 'tival. Mas não era. Era algo muito 'tranho, pude ver na penumbra iluminada por a luz azulada da tv, era algo como uma imensa borboleta negra, em cujas asas viam-se desenhos 'tranhos, como que mandalas feitas por algum lunático. Agora, em 'ta parte da história, quero falar sobre cadáveres. Mais precisamente, um cadáver. A minha história tem cadáver, meus amigos. Eu não 'crevo coisas edulcoradas e 'perançosas. Não sou um Paulo Coelho. Eu sou Rogério Silvério de Farias, o sombrio, aquele que 'creve como quem desenterra cadáveres. Acontece que morreria alguém na frente da casa onde 'távamos. Um motoqueiro fincou a cara no poste. Seu rosto ficou 'traçalhado, uma massa de sangue e carne lacerada, amassada horrivelmente. Lavado de sangue. Em a verdade sua cabeça quase fora arrancada com o impacto brutal. Fomos averiguar, o 'trondo tinha sido grande. A suposta borboleta sumira, voando e saindo por a outra janela. Tínhamos largado a tv e ido atrás da coisa alada. E agora 'távamos olhando para o poste a frente da casa, e o cadáver do motoqueiro. Ele quebrara o pescoço. A posição grotesca do cadáver, a motocicleta jogada ao chão, tudo deixava meu amigo Sidemar ainda mais nervoso, mas ele tinha me seguido até o portão. Logo encheu de gente no local. Vizinhos e curiosos, alguns de pijama. Era mais de meia noite. Meu amigo Sidemar ficava cada vez mais nervoso. Ele começou a dizer que a borboleta negra, ou o que quer que fosse aquela coisa alada, era o Anjo da Morte. Mas o pior ainda 'tava por vir. O horror 'tava só começando. Os companheiros do motoqueiro, que vinham da mesma festa da qual viera o morto, chegaram atrasados e ficaram atônitos ao ver o acidentado, vitimado por a morte. Um de eles, o irmão do defunto, começou a chorar como uma criança, dizendo: «Ele acelerou a motocicleta por causa daquela coisa na 'trada, aquela coisa, aquela assombração do Inferno que vimos na 'trada, a menina de branco ..." Incrédulo, comecei a indagar sobre quem era a tal menina de branco. Engoli em seco a ouvir de um vizinho uma explicação. Senti um calafrio na 'pinha. Corriam lendas locais sobre 'sa menina, uma assombração contada por pescadores mais antigos. Diziam os velhos caiçaras, ela é o Anjo da Estrada do Inferno! Pasmei ao ouvir aquilo. A visão do cadáver com a cabeça quase que totalmente destroçada no poste, caído grotescamente, e a sirene da ambulância chegando ... tudo deixava meu amigo Sidemar num 'tado de nervosismo alucinante. Os primeiros pingos de chuva, os trovões soando, o relâmpago iluminando o pobre motoqueiro morto, agora sendo levado para o necrotério da cidade. Eu sabia que os horrores daquela noite logo atingiriam o zênite da loucura. Meu amigo sentiu-se mal depois que a ambulância levou o cadáver do motoqueiro. A chuva aumentou e entramos para dentro de casa. A chuva era forte, agora. Fomos dormir com a imagem do cadáver com o pescoço quebrado em nossa mente. Adormeci com um pensamento de revolta na mente: «Por que Deus pôde matar alguém assim? Por que a morte, Deus? Acaso seremos nós o teu gado?" Lá por as três da madrugada acordei-me num sobressalto. Em o quarto ao lado meu amigo 'tava gritando de terror. Havia faltado energia elétrica, imaginem a minha situação e o meu desespero quando tentei inutilmente acender as luzes, pressionando o interruptor. Então acendi um isqueiro, e fui ao quarto de meu amigo. O que vi me deixou apavorado. Iluminei o rosto de meu amigo, sentado na cama. Eu preferia que Deus tivesse me cegado, nunca vou 'quecer ... Meu amigo Sidemar 'tava apavorado, babava, suava, tremia, os olhos de eles contemplavam algo na 'curidão medonha do quarto. Algo terrível. Algo medonho. Um assombro! Eu 'tava meio sonolento ainda, mas eu vi, eu vi o horror! Juro que vi! Não, senhores, eu não sou louco! Um louco não guardaria na memória aquela cena sobrenatural, aterrorizante ... aquele vulto sinistro ... um vulto 'pectral, uma sombra do país dos mortos, uma sombra do Além! Era o corpo astral do motoqueiro que morrera diante da casa, horas antes, isto era óbvio. O pescoço quebrado do 'pectro era a cópia idêntica da cabeça do cadáver que eu vira, caindo para o lado do corpo como a cabeça de um boneco desarticulado e bizarro ... O que se seguiu foi a inconsciência para mim. Não lembro de muita coisa a partir de então. Desmaiei, sim. Quanto a meu amigo ... Seu juízo havia sido perdido, para sempre. Ele enlouquecera de medo, eu acreditava! Quando acordei e me levantei do chão, a chuva havia passado. Os primeiros raios da aurora iluminavam nossos rostos pálidos, lívidos ainda de terror ... Sacudi meu amigo tentando despertá-lo do torpor da loucura. «Meu amigo!», eu disse, ainda meio zonzo, " O que aconteceu depois que eu desmaiei? Conte-me, o que houve? Fale, homem, pelo amor de Deus!" Ele permanecera em silêncio, seus olhos arregalados contemplando o infinito dos precipícios 'curos da mente! «E aquele vulto? Fale, seu maldito! O que, afinal, houve depois que eu desmaiei?». «Roger, meu amigo e irmão», ele me disse, a voz trêmula como que atravessada por a eletricidade infernal do medo,» Roger, eu conversei ... com o morto! O motoqueiro, Roger! Ele me contou coisas, muitas coisas ..." «Seu palerma e idiota!», eu gritei, enfezado como um anjo caído, desferindo-lhe um tapa violento no rosto de Sidemar. Ele me disse então, a voz gutural: «O morto, Roger, o motoqueiro morto, eu vi o corpo astral de ele! E você também viu antes de desmaiar, você chegou a vê-lo, confesse! ... Ele, o motoqueiro, não queria morrer, Roger ... A passagem foi violenta ... Roger, ele ... Ele se recusa a acreditar que 'tá morto, Roger ... Em um acesso de cólera, eu gritei, pegando-o por o colarinho, sacudindo-o, dizendo: «Cale a boca, seu retardado! Nós não vimos nada, foi alucinação, um pesadelo! Foi sugestão, vimos o cadáver do motoqueiro em frente da casa, isso nos abalou mentalmente. Foi alucinação provocada por o medo extremo!" «Roger», ele me disse, começando a rir e chorar ao mesmo tempo. Algo como um ricto boçal de loucura contorcendo seu semblante. «Roger ... não existe morte ... Roger, há apenas a Passagem ... A passagem para as enlouquecedoras dimensões além da matéria física ... Nós continuamos após a morte, levamos toda nossa loucura e angústia com nós! Estamos todos perdidos, Roger! Nós vamos morrer e acordar no Além, perdidos, solitários, confusos. Desesperados!" Em 'te instante meu amigo soltou uma gargalhada que explodiu na casa como uma granada lançada por um demônio da loucura. Enfim, a demência total se apossara de Sidemar. E eu, trêmulo, peguei o celular e liguei para sua família, chorando em desespero. Certas coisas na vida a gente nunca 'quece. Nunca. Este foi o caso do Sidemar, a história do assombro na casa do Sidemar. Duas semanas depois fiquei sabendo de seus familiares a verdade. Meu amigo Sidemar tinha um grau de mediunidade. Uma mediunidade não desenvolvida corretamente. O tempo passou, fui crescendo, envelhecendo. Nunca mais tive um amigo de verdade. Nem mesmo um amigo 'tranho como Sidemar. Nunca mais o vi, desde então. Mas os horrores sobrenaturais daquela noite maldita ainda permanecem indeléveis em minha mente atormentada e solitária diante dos mistérios fantásticos da vida e da morte! Fim Esta obra 'tá licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Rogério Silvério de Farias). Você não pode fazer uso comercial de 'ta obra. Número de frases: 162 Você não pode criar obras derivadas. Flávia Vasconcelos Os seringueiros do Acre foram o tema da exposição fotográfica do jornalista Carlos Carvalho, aberta no dia 11 de agosto, às 20h, na Galeria do EBEC, em Salvador. As imagens foram feitas durante os quatro anos que permaneceu no lugar, convivendo com as comunidades e, principalmente, conhecendo o dia a dia dos seringueiros. Carvalho, com muita sensibilidade e técnica apurada, produziu um ensaio que, ilustra fielmente, a vida e o trabalho dos que vivem da borracha, no norte do país. Em conjunto, na mesma noite, o jornalista lançou o livro " História Social da Borracha. «O que me interessou era saber como era o modo de vida de eles, que tanto defenderam na época de Chico Mendes, e foi disso que fui atrás», explicou Carvalho, ao justificar o seu trabalho. A exposição faz parte do festival nacional de fotografia, o A gosto da Photographia ano II promovido por a Casa da Photographia. O trabalho de Carlos Carvalho vai 'tar na Galeria do EBEC, até o dia 11 de setembro. Número de frases: 8 O ano era 1991 e eu tinha seis anos de idade. Morávamos em Guarulhos, cidade que fica grudada à megalópole São Paulo e tem, atualmente, pouco mais de um milhão de habitantes. Pois bem. Em aquele ano, algumas mudanças consideráveis aconteceram na minha casa. A primeira de elas e mais traumática, foi a morte do meu tio materno num acidente de carro. Ele morava com a gente e vivia me levando pra fazer uma porção de coisas: ir ao parque, tomar sorvete, jogar bola, alugar filme do Van Dame, vê-lo treinar karatê, enfim. Tudo aquilo que um tio bacana faz com seus sobrinhos. Outro acontecimento se deve ao fato da empresa em que meu pai era gerente ter cerrado as portas. Isso porque, meu tio, que era uns dos sócios da firma, (resumindo) gastava mais do que deveria ('sa foi a explicação que me deram na época, mas que de todo modo, serve muito bem pra sintetizar a situação). Uniu-se uma coisa à outra e, depois de cinco anos morando em São Paulo, voltamos para o nosso 'tado de origem, o Rio Grande do Norte. Em Guarulhos, eu e minha irmã 'tudávamos em 'colas públicas mas, chegando a Currais Novos, lugarejo que fica distante 180 quilômetros de Natal, fomos matriculados no Educandário Jesus Menino, notadamente uma 'cola católica ou, como diz o senso-comum, um colégio de freira. Entre bicicletas e roupas de baixo Presidida por a congregação Filhas do Amor Divino, foi em 'sa 'cola onde aprendi a unir as primeiras sílabas com a ajuda de uma professora muito simpática e cujo nome anda perdido em algum lugar da minha lembrança. Lembrança mesmo é vê-la chegar todas as manhãs numa bicicletinha branca com uma cestinha pendurada no guidom. Um verdadeiro hino à simplicidade ... Alguns meses de aprendizado e começaram a surgir as primeiras frases com algum sentido embutido. A primeira de elas, tenho certeza, era: «A professora é bonita». Além dos ensinamentos das aulas, morar ali e saber disso, conscientemente, me levava a muitos outros entendimentos. Coisas aparentementes ingênuas, mas extremamente interessantes e curiosas quando se tem seis anos de idade. Logo de cara, o sotaque. Depois disso, a catadupa de palavreados e novas expressões. Tive que trocar, e bem rápido, os paulistanos «gelinho» e «pega-pega, por» din-din «e» tica». Isso sem falar na canção de roda «Atirei o Pau no Gato», que na hora de dizer» o pau no gato-to, em terras potiguares incluíam um tal de ga-te-ó-to, que até hoje, eu não entendo o significado. Matutando aqui, acredito ser uma forma de ensinar ' bem direitinho ' a questão das sílabas ... O ano passou e eu me encaminhava para a 1ª série. A professora da turma se chamava Eufrázia, uma moça de cabelos bem pretos, de pele amorenada e um par de óculos lhe fazendo companhia aos olhos. De 'sa época, lembro-me de duas traquinagens que ensaiava os primeiros passos da molecada rumo à libido. A primeira travessura era muito simples. Como o birô da professora era vazado e ficava posicionado no meio da sala, bastava se abaixar e olhar a calcinha da mestra por o o tempo que fosse possível. Geralmente 'sa operação durava poucos segundos, mas o suficiente para uns bons minutos de casquinadas na hora do recreio. A outra de elas também era relacionada à questão das calcinhas. Acontece que a sala de aula ficava num segundo andar e, obviamente, era preciso subir e descer uma 'cada, que, de tão apertada, só dava passagem a, praticamente, uma pessoa por vez. E era aí que os mais malandros se posicionavam atrás das menininhas, todas de sainhas, e então era uma profusão de babadinhos, calcinhas com motivos infantis e por aí vai ... às vezes, isso nos rendia uns belos tabefes quando éramos descobertos, mas nada que nos fizesse deixar de lado aquele nosso costume. ( risos) O homem cordial e o uso privado das tropinhas Em a 'cola, se você não for nenhum ' 'quisito ', é comum 'tar incluído num bando, ou seja, numa ' tropinha ', que era a maneira como a gente se referia a 'se tipo de «agremiação». E na minha patota, tínhamos dois Tomaz. Um de eles levava o epíteto de «o desenhista», e o outro de» o corredor». Em a hora do «Polícia e Ladrão», todo mundo queria ter 'se último Tomaz por perto. O menino parecia uma bala correndo ... Sem 'quecer de Joatan, um grandalhão que, enquanto tínhamos por volta de 1,40 cm, ele já sustentava, pelo menos, um metro e sessenta. Esse pequeno homenzarrão era muito útil nos jogos de futebol e também nas confusões que arrumávamos contras as outras tropinhas. Quase sempre em decorrência do não pagamento de apostas no jogo de bila (bolinha de gude), ou fosse o que fosse ... Não é de hoje que as pessoas confundem o público com o privado. Pois bem, eu confesso. Usei o poder da tropinha em favor dos meus interesses pessoais. Acontece que na 2ª série, eu morria de amores por uma garotinha de nome Luiza que, além de despertar os meus interesses, acelerava os batimentos cardíacos de outros garotos como eu. Um belo dia tive uma crise de ciúmes. A versão «Joatan» da turma vizinha também gostava da garota e resolveu «tocar» literalmente nos cabelos de Luiza, fato que despertou a minha ira. Reuni a patuléia e disse que o guri tinha me ameaçada por uma razão qualquer, que não me recordo. Em a hora do recreio, intimamos o garoto e meu amigo Thiago, muito afoito, tomou a minha frente na confusão e acabou levando o primeiro soco. Depois disso a tropinha foi acionada e foi um Deus-nos-acuda. Ficamos por uns 15 minutos correndo atrás do moleque e chutando os seus fundilhos. Foi hilário ... Lava a boca com sabão, menino! Quando se é pequeno, a coisa que a gente aprende mais rápido é dizer palavrão (coisa que seria muitó útil no futuro). Mas nem sempre o fato de verbalizar um determinado vocábulo significa dizer (perdoem a redundância) que sabemos o seu significado. Por isso mesmo, certa vez, na 2ª série, e bem no dia em que tínhamos aula com uma professora substituta e que era dona de uma fama de chata, soltei, lá por as tantas, um sonoro «É foda!», o que pra mim era traduzido com uma interjeição mais ou menos como» ta ruim a coisa», ou algo do tipo. Pois bem. Fui direto me haver com Irmã Ananília, a diretora da 'cola. Chegando lá na sala da irmã, uma pequena saletinha amarela composta por motivos católicos, ela me pergunta sobre o que tinha acontecido e eu respondo dizendo que a professora tinha me retirado da sala, porque eu havia dito um palavrão. Eu só não sabia qual, mas tive a impressão de ter sido o tal do «É foda!». Repeti a obscenidade com todas as letras e ela disse que aquilo era realmente um «nome feio» e que eu iria entender quando eu fosse mais velho, enfim ... Finalmente eu entendi, mas isso não vem ao caso. Voltei para São Paulo em 1993 e fiquei por lá até o dia 21 de dezembro de 2002, que foi quando voltei a morar no Rio Grande do Norte mais uma vez. Em aquele ano, passei o Natal na cidade de Currais Novos e, como antes da ceia é costume a garotada dar um pulo na «praça da cidade», pude rever todos os antigos amigos, praticamente uma década depois, e relembrar, em meio a gargalhadas, todas 'sas reminiscências ... Número de frases: 66 Sábado de manhã, parei no posto, calibrei pneus, botei gasolina e óleo e por volta de 8 e meia da manhã saí em direção a Vassouras, «a cidade do Barões» no centro-sul fluminense. O caminho que utilizo é fácil: Pegar a Linha Vermelha e descer para o Sul por a Via Dutra (Br-116) até dobrar à direita na saída 205 que anuncia Miguel Pereira (1 km antes do pedágio). Dez minutos depois, seguindo por a RJ 125, cruza-se uma sólida ponte de concreto sobre o Rio Guandu (um dos responsáveis por a água do Rio de Janeiro) dando acesso à cidade de Japeri ao pé da Serra. Siga sempre as placas Miguel Pereira atravessando a cidade e você vai cruzar depois os distritos de Mangueiras, Conrado (um dos mais baixos IDH do 'tado) e Arcadia. Depois de uma subida sinuosa (dirija devagar) acompanhada por a belíssima paisagem do vale do Rio Santana chega-se ao trevo de Governador Portela já no alto da serra. Em o trevo dobre à esquerda em direção ao Morro Azul (RJ-121). Dez minutos depois você 'tá na cidade de Vassouras. Asfalto o tempo todo. Tempo total por a minha velocidade: 2 horas. Há quem prefira o trajeto via Paracambi (saída 212 depois do pedágio da Dutra) passando por Paulo de Frontin e Mendes. Apesar de freqüentar Vassouras há muitos anos era a primeira vez que eu ia fazer -- convidado por a produção -- o circuito de recitais musicais nas fazendas integradas ao Festival do Vale do Café. Em os anos anteriores assisti aos shows abertos e gratuitos na praça principal da cidade e algum recital 'parso principalmente na Fazenda Galo Vermelho. O Festival já se realiza há cinco anos e vem se tornando o principal atrativo turístico-cultural no calendário da região que engloba ainda as cidades de Piraí, Valença, Barra do Piraí, Mendes, Paulo de Frontin, Rio das Flores e Paty do Alferes. Vassouras e seus arredores formavam a mais importante região de produção do café no Império (chegando a ser responsável por 70 % da produção nacional). Com o 'gotamento das terras e a libertação dos 'cravos, além da concorrência mais moderna da produção do café no 'tado de São Paulo, Vassouras, hoje com cerca de 30 mil habitantes, teve seu último surto de crescimento nos anos de 1970 com a instalação da Universidade Severino Sombra, que trazia alunos de todo o Brasil, principalmente para seu curso de Medicina. Com a liberacão da abertura de universidades regionais em todo o Brasil na década de 1980 sobraram para a cidade apenas os alunos das cidades próximas, que movimentam a cidade. As belíssimas fazendas imperiais, de modo geral agora com menor produção agrícola, começaram pouco a pouco, seguindo uma tendência mundial, a enxergar no agroturismo um caminho para completar sua sustentação. Cristina Braga, harpista carioca, junto com o violonista Turíbio Santos, maranhense radicado no Rio, músicos de renome e carreira internacional, tiveram a idéia de criar um Festival de Música instrumental em Vassouras, que entra agora em seu quinto ano. Peguei rapidamente minha credencial e rumei por a Br-393 na entrada de Vassouras para a Fazenda Cachoeira Grande, onde às 11 horas da manhã o primeiro recital do dia nos 'perava: o violonista e compositor Guinga com a cantora Paula Santoro. Em o palco montado ao ar livre à beira do lago da fazenda ouvi Paula, uma das mais belas vozes atuais na música brasileira, em interpretações emocionantes do repertório de Guinga, como Choro para o Zé e alguns extras como Só louco de Caymmi. Perto do final Guinga cantou Senhorinha com letra de Paulo Cesar Pinheiro. Em um sutil comentário, para um público que pagou 70 reais por o ingresso, numa aristocrática fazenda imperial, Guinga e Paula incluiram no repertório um Ponto de Capoeira, Contenda (de Guinga e Thiago Amud), que diz: «Dei um talho em meu próprio sentimento Pra que o mundo fulgure na clareira Que 'se nervo me aviva o sofrimento Que 'se olho é motivo de cegueira Ê, presença difusa, desordeira Giro de furacão sem epicentro " A programação do festival não deixa 'paços vazios e às 14 horas já 'tava marcado o recital de Turíbio Santos na Fazenda Cananéia, cerca de meia hora de ali, seguindo a Br-393. Rumei para lá e a grande surpresa: O recital acontece no curral da fazenda. As baias do gado servem de camarotes para o público! Separadas por um corredor as vaquinhas Jersey também iriam 'cutar o concerto. Ana Calmon, proprietária da fazenda, nos diz que a produção de leite sempre aumenta depois desses recitais musicais. A Fazenda Cananéia é uma referência em produção de leite no Brasil e uma das maiores fornecedoras da Nestlé. Lá 'tavam Turíbio Santos e mais Claudio Fontes no violão e voz e o percussionista Junay. Em 'te recital a África era a presença principal a partir do nome do concerto: De a África à Bossa-Nova. Turíbio começou com Valsa do venezuelano Antonio Lauro, passando por o Concerto de Aranjuez (Joaquin Rodrigo) até chegar aos temas mais afros. Em seguida Claudio Fontes cantou composições que lembram Noel Rosa e ao final o trio tocou clássicos do repertório de Tom Jobim como Samba de uma nota só (com Newton Mendonça) e Dindi (com Aloysio de Oliveira). A grande surpresa foi o percussionista Junay Diógenes, com seu tambor afro (djambê) de mil tonalidades e toques. Conversei com ele depois do recital e devo fazer uma matéria 'pecial sobre ele e seu contato com músicos africanos de Mali que aperfeiçoaram seus conhecimentos sobre o instrumento. Terminado o encontro, sempre acompanhado de um farto lanche servido por a fazenda (assim como em todas elas), rumamos para a Fazenda São Fernando no distrito de Massambará, à leste de Vassouras, seguindo por a mesma Br-393. São Fernando é uma das mais imponentes e belas fazendas do município. Tem duas «casas grandes», uma de 1813 e outra de 1850 e o palco do recital 'tava montado no gramado, tendo ao fundo um pôr-de-sol que já se prenunciava numa amena tarde de inverno. O saxofonista Leo Gandelman e seu quarteto eram as atrações. Com algum atraso (por conta de nosso caos aéreo, pois Leo vinha de Brasilia passando por São Paulo) atacaram um repertório de altissimo nível onde os improvisos de Gandelman eram primorosos. Vocês não imaginam o que é ouvir um saxofone magistral acompanhado por um quarteto perfeito, num anoitecer 'plendoroso, tocando As rosas não falam de Cartola, Lamentos de Pixinguinha e Canto de Ossanha de Baden Powell. Com o frio da noite chegando voltei a Vassouras para o show de encerramento daquele sábado a se realizar na Praça Barão de Campo Belo. Cristina Braga e sua harpa com seu convidado Moacyr Luz era o programa. O palco, como nos outros anos, foi montado no extenso gramado da praça em frente à Igreja Matriz, onde pontifica o chafariz inaugurado em 1849 por D. Pedro II. Cristina com sua harpa de concerto de 25 quilos transita do popular ao erudito com facilidade e fez uma boa dobradinha com Moacyr Luz depois de começar com Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá. A África 'teve novamente presente com Zuela de Oxum, de Moacyr e Martinho da Vila, e Cangoma, canto de Clementina de Jesus que nasceu numa fazenda em Valença, pertinho de ali. Fim da noite, todo mundo se reunia no Armazém das Massas, bar e restaurante ali mesmo na praça, ponto de encontro dos músicos, convidados, pessoal da produção, turistas e moradores em geral. A opção por a cultura como fator de desenvolvimento pode ser um caminho para a cidade de Vassouras. O Festival, em seu quinto ano, já se desenvolve de maneira eficiente, principalmente com a contratação de uma produtora 'pecializada, a BackStage de Nelson Drucker. O nível musical é muito alto além de se tratar de música instrumental que tem pouco 'paço no cenário brasileiro. No entanto há ainda muito o que trilhar, pois se o Festival 'tá sendo um sucesso (em cada fazenda os 200 lugares dispostos 'tavam ocupados) a população local ainda precisa encontrar seu 'paço. Essa consciência é clara em alguns gestores culturais da cidade, principalmente os reunidos em torno do Pim -- Programa de Integração por a Música, organização não-governamental que solidificou as iniciativas ligadas a música em Vassouras e é responsável por todas as oficinas e aulas de música que acontecem em todos os dias da semana durante o Festival. As manifestações populares de Jongo, Caxambu, Calango, Capoeira, Maculelê, Caninha Verde e Folia de Reis também 'tão abrindo seu 'paço no festival reunidas em torno do projeto Raízes do Vale. Em 'te domingo dia 29, a partir de 16h30, um Grande Cortejo de 'sas Tradições Populares acontece encerrando o Festival com apresentações grátis em rodas e danças em torno da praça. Número de frases: 64 O Festival do Vale do Café é uma oportunidade para se acompanhar «ao vivo» a maneira como a sociedade civil, as políticas públicas, produtores e gestores culturais 'tão lidando, nos municípios do interior do Brasil, com as questões da cultura como ferramenta de transformação econômica, social e humana. Tudo o que acontece na vida sucede por alguma circunstância criada antes. Foi o que me ocorreu pensar em 'ta manhã chuvosa, ao acordar propenso a não fazer absolutamente nada. Mal despertei, eis que me veio a primeira aflição e comecei a refletir sobre a vida e seus problemas, reais e imaginários. Assim como os demais mortais, raramente consigo pensar na vida em separado das circunstâncias que me afligem a cada vez que tomo consciência da complexidade de elaborar em 'se terreno. Ora, começar o dia pensando na vida parece coisa de quem não tem algo mais produtivo a fazer. Essa é a lógica que governa o mundo prático, no qual viver é 'tar sempre ocupado. Talvez por isso as coisas reais, os lugares reais e as pessoas reais 'tão perdendo muito dos seus significados. Agora mesmo dou-me à pachorra de lembrar das quatro últimas vezes em que ousei gastar um dia para refletir sobre minha vida e, conseqüentemente, num modo de dotá-la de outros significados. A primeira vez ocorreu quando me vi compelido a ignorar uma vocação real para seguir uma carreira socialmente promissora que, na ótica dos meus pais, me asseguraria uma velhice confortável e tranqüila. A segunda vez foi quando me vi contingenciado a deixar o lar paterno para cumprir um compromisso matrimonial que sabidamente não resistiria ao primeiro duelo de temperamentos. A terceira vez foi quando uma tempestade cambial me fez refém das armadilhas capitalistas, e logo puseram meu nome na vala dos imprestáveis ao sistema financeiro por longos dois anos. A quarta e última vez foi, precisamente, quando me vi bifurcado entre rumos e comecei a garimpar no vazio da minha existência em busca do que ainda poderia restar da minha primitiva vocação de 'critor. Aturdido com aflições de toda ordem, recorri aos conselhos do poeta oracular, Gerardo Mello Mourão, que me disse algo ainda mais perturbador: «Ruy, prossiga resistindo. Quem tem vocação para as letras o lema é: ou Dante ou nada." Treze anos se passaram para que eu pudesse, finalmente, compreender o significado exato daquelas palavras. Hoje, enquanto ideava sobre um tema para inaugurar 'te semanário, pude reviver todos aqueles momentos sufocantes e indecisos em que eu não sabia que rumo tomar. E como foi difícil romper a lógica para recomeçar. Parece certo dizer que viver é 'tar sempre recomeçando. Mas como é terrível a sensação de recomeçar do nada, como a partir de uma página em branco, tendo em mente a máxima de um poeta absoluto: «Ou Dante ou nada." Ora, leitor, uma página em branco é o vazio absoluto e nada é mais absoluto do que o vazio. Contudo, o vazio de uma página comporta um ser com toda a sua carga de dúvidas e aflições. Tanto é verdade que agora já não sei se 'tou confortavelmente abrigado, ou se 'tou severamente oprimido, tratando de um tema tão complexo. De o ponto de vista da lógica vigente, 'se tema parece vazio de sentido e conteúdo. Parece que sim, mas foi demolindo, uma a uma, as lógicas ensinadas em casa, na 'cola, na universidade e no trabalho, que consegui ampliar o horizonte que se abria dentro de mim próprio, enquanto eu sofria e pensava. E quem de nós, pelo menos uma vez na vida, já não se sentiu assim? Mas a vida, a vida real do ser, deve ser 'se vazio que sentimos no íntimo das nossas fibras. O vazio é o próprio ser que não se preenche nunca, com nada. A questão é como tirar do nada a substância para preencher o próprio vazio. Reter em si tal substância é o problema do ser enquanto enigma de si mesmo. E aqui peço permissão ao leitor para aludir a uma carta do poeta Gerardo (que posteriormente serviu para a orelha de um livro primoroso, intitulado «A Santa Oca», graças à pena da poetisa Flávia Portela), na qual me dizia ele que o vazio do ser, o oco interior do ser, se assemelha ao oco de um copo. O copo é uma casca de vidro ou de matéria plástica e fora de 'sa casca o que há é 'paço. Assim somos nós. Fora da nossa casca nada há. Então, o que existe no íntimo do ser é um imenso vazio que 'pera ser preenchido com algo 'sencial. Basta uma alegria, uma abstração, uma palavra ativa ou mesmo o despertar de um sentimento, e logo o vazio se preenche para, novamente, voltar ao 'tado anterior. Esse efeito parece surreal, mas é real. Não há dúvida de que o vazio e o pleno são os fundamentos em contradição permanente na vida, na arte de viver e em todas as artes que embelezam as nossas existências. O poeta me fez ver que a pintura, por exemplo, carece do vazio, do não pintado, para ser arte. Uma obra de arte passa a existir a partir do seu vazio. A substância da arte é o vazio pintado. Em a música, por exemplo, o vazio se preenche num átimo de silêncio em que as notas se apartam e se fragmentam, produzindo os sons buscados por a harmonia do ritmo e por a melodia. A dança, em si, é o 'paço vazio onde o bailarino, de repente, planta os pés em movimento. O fragmento de tempo que dura 'sa imagem de vazio preenchido por o corpo em movimento é a dança propriamente dita. Portanto, a vida, dentro do oco da vida, como no oco dos copos, dos homens, no vazio da página em branco, da tela, do palco e em todos os vazios, comporta a vida vazia de um ente que se preenche com qualquer substância 'sencial, seja real ou lúdica. E para ser conciso, hoje eu creio, por experiência vivida, que viver é dotar de sentido o que aparentemente não faz sentido algum, como quando ignoramos certas lógicas, ou como queria o poeta: viver é sentir nas próprias fibras aquilo que os outros imaginam ter sentido, porque, enfim, a arte de viver, é um eterno preencher de vazios. É a máxima da vida, recomeçar sempre, mesmo que seja para preencher o vazio de 'ta página, ou de 'ta manhã. Ruy Câmara é romancista, autor de «Cantos de Outono, o romance da vida de Lautréamont, Editora Record 2003». Número de frases: 52 Arte que não se explica, que não dá recados, que não tem um objetivo que não o de ser arte. Arte sem porquê. É isso que o Núcleo de Criação do Dirceu, que funciona no Teatro João Paulo II, tem feito desde março deste ano, quando foi criado. São 18 artistas que dedicam seus dias a 'tudar, pesquisar, aprender e criar sem se prender a rótulos. Não 'pere ver um 'petáculo de dança, ou de teatro, ou de mímica, ou um musical. Não agora. Não enquanto eles 'tão, segundo as palavras do bailarino e coreógrafo Marcelo Evelin, borrando os limites que existem entre 'sas formas de expressão. Além de receber formação, contando com aulas e oficinas de profissionais brasileiros e 'trangeiros, os artistas do NCD 'tão repassando o que aprendem à comunidade do bairro Dirceu, o maior de Teresina. Tão grande e tão independente do resto da cidade que existe um movimento que propõe desmembrá-lo e criar um novo município. Evelin conta que oito artistas já 'tão ministrando oficinas para a comunidade, mas que a procura não é tão grande quanto poderia ser. «As oficinas têm trazido as pessoas do bairro para o teatro, mas não posso dizer que temos uma relação 'treita. A comunidade é gigantesca e só uma pequena parte vem aqui com certa freqüência. Acho que eles poderiam vir mais, ainda temos vagas para algumas oficinas». Quem freqüenta as oficinas e cursos -- de dança, teatro, percussão, hip hop e artes plásticas -- assume um compromisso sério, porque o Núcleo exige disciplina. «Já existe uma certa mudança de comportamento em quem 'tá sempre por aqui. Só o fato de ter disciplina de vir já é uma mudança, tem crianças que 'tão sempre por aqui, eu sinto que elas já falam com mim de um jeito diferente; eu noto que as pessoas já assistem aos 'petáculos e têm alguma coisa para dizer, diferente de como era no começo». O coreógrafo explica que o objetivo principal do Núcleo é oficializar o artista não só como um fazedor de coisas, um apresentador de coisas, mas também como um 'tudioso, um pesquisador que tenta encontrar novos conceitos, novas direções. «As criações têm o mesmo nível de importância porque a gente não 'tá tão preocupado com os resultados, 'tamos mais preocupados com o processo da criação. O trabalho do Núcleo 'tá centrado no intérprete-criador e tem que dar condição para os artistas de criarem seus próprios trabalhos». Para Elielson Pacheco, bailarino profissional, uma das grandes diferenças do trabalho no NCD em relação aos demais trabalhos de dança a que 'tá acostumado 'tá relacionada à consciência do próprio corpo. «Não é que eu faça hoje coisas que eu não fazia, é que eu faço com consciência e vejo as mudanças que 'tão acontecendo no meu corpo». A bailarina Janaína Lobo diz que o Núcleo foi o 'paço que encontrou para fazer coisas com mais valor artístico, com mais consistência. «Ninguém 'tá aqui para fazer só uma dança, uma pecinha de bobeira para ganhar um dinheiro». A fusão de dança, teatro e mímica é o que mais encanta o bailarino " Luis Carlos Vale. «Eu gosto do novo. O trabalho que é desenvolvido aqui é interessante porque foge dos conceitos. Não fazemos balé clássico. Acho que isso poderia ser mais visto, eu sinto falta da participação da classe artística daqui de Teresina, eles não vêm aqui, não discutem os 'petáculos. Isso poderia ser rico para todos nós». Layane Holanda é atriz há dez anos e revela que sua formação até entrar no NCD tinha um formato bem conhecido do que é fazer teatro: decorar textos, inventar personagens e participar de uma istória. «As experiências que 'tamos tendo com o Marcelo e com a dança e a arte contemporânea me trouxeram dados novos, inclusive sobre a necessidade de se questionar e de produzir conhecimento através do trabalho. A idéia da não-atuação, da não-representa ção, do teatro físico, da mímica que não é a mímica que todo mundo conhece, isso trouxe pra mim uma nova necessidade e uma nova idéia do que é trabalhar com artes cênicas ou artes performáticas. Pra mim não é mais eu fingir que sou uma bruxa, ou um padre, ou uma rainha; eu tô num momento de transição. Eu não sou bailarina, eu não danço, e eu tô descobrindo que todos 'ses conceitos e rótulos são apenas conceitos e rótulos: ser bailarina ou ser músico ou ser ator». De dentro da comunidade De entre os artistas do NCD, Layane e o músico Fábio Crazy se destacam não só por serem os mais falantes, mas principalmente por serem moradores do Dirceu e conhecerem muito de perto a realidade do bairro. Eles sentem todos os dias a mudança que o teatro causou e continua causando na comunidade. Enquanto quem 'tá de fora -- como eu, outros jornalistas, outros artistas e quase todo mundo que não mora lá -- acha pouco ver 80, 100 pessoas assistindo aos Instantâneos no JPII, eles afirmam que é a comunidade do Dirceu quem mais freqüenta o teatro. Fábio Crazy apareceu na cena artística de Teresina na banda Narguilê Hidromecânico, agora também dança e atua e faz questão de enfatizar que já 'tá acontecendo um grande processo de mudança. «Eu vejo uma relação diferente da comunidade com o teatro. É muito claro para mim a mudança que 'tá acontecendo na auto-'tima das pessoas por ter um teatro aqui no bairro; e não é só do público que vem, é também dos funcionários, da técnica. Eu às vezes almoço num restaurante do mercado e as pessoas já me conhecem do teatro. O maior público aqui é de pessoas da comunidade, eu já vejo os pais trazendo seus filhos para os 'petáculos infantis ... Mas a gente tem que ver que o teatro só tem um ano. Acho que seria demais pedir que todo dia isso aqui 'tivesse lotado de moradores do Dirceu; não é que eu ache que já 'tá de bom tamanho, mas já vejo as coisas acontecendo sim». Ele dá aulas de teatro e afirma que seus alunos são pessoas absolutamente interessadas. «Com mim o cara tem que dizer por que 'tá ali, por que vai ser impossível ficar se não for para fazer exatamente aquilo que a gente 'tá propondo fazer juntos. Eu não sei se todos eles querem ser artistas, mas no momento querem fazer teatro, por alguma razão que eu não sei qual é e que talvez seja até melhor eu não saber», comenta. Layane comenta que mora no Dirceu desde pequena e acha engraçado as pessoas ainda se referirem ao bairro como se fosse outro lugar. «A gente adota 'se tipo de postura porque isso realmente é o que acontece. Como é um bairro onde as pessoas têm quase tudo, elas ficam muito aqui. Chegamos a um ponto em que a chegada do teatro veio suprir uma necessidade que já existia. Eu não posso fazer um discurso otimista a ponto de dizer: ' Nossa, que sucesso nós 'tamos fazendo '. Não. Mas é uma coisa que já reverbera no bairro, que todo mundo já tem conhecimento, é impossível encontrar alguém que more aqui que nunca ouviu falar, ou que o vizinho não veio, ou que não conhece alguém que se apresenta». Como se trata de um bairro da periferia de Teresina, existe um grande preconceito das pessoas em ir para o Dirceu. «Muita gente ainda acha que o teatro fica no fim do mundo. E tem também a barreira cultural: é lá na periferia, se eu for meu carro vai ser riscado ', ou ' termina tarde '. Em o blog fizemos um questionamento exatamente sobre isso: cadê a imprensa? Onde é que 'tão todos os 'tudantes de todas as faculdades de Teresina? Os alunos do curso de Arte, formados ou não da UFPI? Onde 'tão todos os alunos de todas as 'colas de dança do Estado? Onde é que tá 'se pessoal? Eu fico realmente curiosa. E eles continuam eventualmente 'crevendo e falando sobre, mas eu não sei como, porque eles não vêm ver». Overmundo fazendo 'cola Layane anda empolgada com a nova idéia do NCD. «O núcleo, o teatro e o Instântaneo 'tão com um 'paço, criamos um blog. Primeiro foi em função de um problema no nosso site, que 'tá fora do ar. E além disso, o Marcelo costuma dizer que com o blog nós 'tamos ocupando outro 'paço que existe, onde as pessoas trocam informações, conversam, os projetos acontecem. A gente quer que pessoas não só aqui do teatro e do Dirceu, mas do mundo, se aproximem, troquem informações e saibam o que 'tá acontecendo no NCD e no JPII». Ela conta que o Núcleo 'tá fazendo contato com outros grupos, outros núcleos que desenvolvem projetos de arte contemporânea. «Existem festivais, eventos, toda uma rede, como um cenário, um circuito, assim como existe em todas as outras áreas, seja na moda, na música. Nossas discussões tem sido ampliadas através do blog. Mas acho que as pessoas de Teresina e do Piauí poderiam acessar mais». É possível encontrar lá textos de integrantes do Núcleo, vídeos com performances e também artigos de artistas e jornalistas falando sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido no teatro. «O blog é coletivo para os integrantes do Núcleo e mais a professora Shara Jane, que tem nos ajudado. Número de frases: 89 Sempre tive 'ta curiosidade. Por vezes, ao caminhar na rua, fico me perguntando: o que será que aquele cara anda 'cutando? E aquela menina? E aquela senhora? Fico curioso porque a diversidade musical do planeta me fascina, e piro em pensar que há muitas músicas maravilhosas que talvez eu nunca ouça ... E se eu souber o que os outros 'tão ouvindo, será que terei pistas para encontrar o Santo Graal sonoro? Sei lá ... Por isso, pergunto: Número de frases: 9 E você, o que anda ouvindo? Não existe urbanismo barroco na cidade de Salvador. Nem como permanência física, nem na sua história, nem como aprendizado para se pensar e produzir a cidade atual -- não um urbanismo barroco no sentido de um tecido urbano pensado como sistema aberto, multi-polarizado, dinâmico e celebrativo de uma clara política reformista (religiosa, real ou republicana tal qual um dia foi na formação de grandes Estados Modernos como a exemplo do desenvolvimento da Roma a partir de Sixto V e da Paris a partir de Enrique IV -- século XVII). Não existe na cidade de Salvador, um projeto de conexão viária através de 'paços significativos e irradiadores como praças, fontes, monumentos, jardins, edifícios, através de ricos dispositivos óticos como as grandes perspectivas. Aliás, Salvador não tem uma política urbana clara de realização de 'paços públicos (fundamentais, como resposta civilizada à possibilidade do exercício da cidadania e diante da corrente privatização dos 'paços da cidade), quiçá um urbanismo qualitativo. As ligações dos principais monumentos e 'paços significativos realizados na Roma (intervenções em São Pedro, Praças de Espanha, Navona, Fontana de Trevi, etc) e na Paris Barroca (Place Royale, Des Vosgues, Dauphine, os jardins das Tulleries, de Versalhes, a formação do grande eixo Louvre-Arco do Triunfo e Champ Ellisies, etc), são amplos projetos de reforma política e urbana. Estes projetos são ligados a uma nova ideologia política centrada na propagação persuasiva e dinâmica da mensagem dos poderes através da sugestão de uma vida urbana barroca baseada na encenação pública ou nas festas (de procissões, das cortes, etc) e do oferecimento calculado de percursos viários intra-urbanos (para os cidadãos e 'trangeiros). Essa 'pécie de teatro urbano dos poderes -- o urbanismo barroco -- necessitou, além da ampla vontade de reforma política, um nível altíssimo de qualificação artística para os projetos e as construções das intervenções. Os poderes (papal ou real) exigiam dos saberes arquitetônicos / artísticos um alto nível, mais do que de competência, de competitividade e criatividade. Ocorre que um novo sistema, claro na sua política, exige grandes inovações arquitetônicas e urbanísticas nas propostas e não a repetição de modelos incoerentes para a construção de uma nova realidade urbana ... as cidades deveriam, para representar-se enquanto palco deste 'petáculo, construir uma excelente infra-estrutura e funcionamento dos principais requisitos da qualidade de vida urbana -- a tradução destes requisitos em 'tas cidades, ao longo dos séculos, foram as grandes conquistas em termos de habitação, saúde, educação, emprego, transporte e, enfim, lazer. Salvador que alguns dizem barroca foi constituída em termos de múltiplos desejos de cidade -- megamáquina desejante. Olhar alguns aspectos da cidade que nos parecem barrocos, nos exige um 'forço tremendo de ligar micro-pontos, obras em pequena 'cala dentro de um tecido urbano em muito feito no improviso, mesmo diante de umas poucas intervenções conhecidas mais incisivas. Em o que foi e é atualmente Salvador, observam-se outras faces de um outro tipo de «teatro urbano» diferente daquele não claramente planejado e exposto enquanto política e reforma na cidade. Nem melhor, nem pior ... um «teatro urbano» apenas diferente, que é fruto da própria megamáquina desejante que é a cidade ... Eis algumas características deste «teatro urbano» contemporâneo que chamam cidade: São notórias as muitas reformas de 'paços públicos centralizados e através dos percursos (orla, por exemplo) que coincidem ao da economia do lazer, do entretenimento e do simbólico, ao qual Salvador 'tá dependentemente ligada; mas também notória a ausência da proliferação destes 'paços em áreas não centrais e das suas claras conexões com os outros focos de intervenção. Também é notória a falta de clareza, diante de um quadro de relações de interesses tão diversos (políticos, empresariais, comerciais, habitacionais) das direções de reforma urbana nas áreas degradadas que se tornaram o antigo centro comercial e a orla marítima e ferroviária. Algumas tendências apontam para, desde a privatização do 'paço público ('peculação do solo) e privado (através de algumas festas, da poluição sonora) até a continuidade do processo de gentrificação 'tratégica e de favelização. A falta de uma maior participação das comunidades de arquitetos e urbanistas e da própria população no processo de construção de um claro projeto de cidade que se 'barra na multifacetada realidade desejante -- nada consensual evidentemente como desejaria o PDDU de Salvador -- de uma cidade povoada de arquiteturas que beiram a maravilhosa 'tética circence ou da disneylândia (através do 'petáculo do colorido que sobressai na assumida aridez da ausência da vegetação e de passeios públicos), a 'tética das arquiteturas lingerie e das arquiteturas bijoux (através da importação de modelos americanizados de art decò, pseudo pósmodernos, pseudo-neoclássico ou da hiper-exposi ção de alguns monumentos através da iluminação como a dos motéis), a 'tética da arquitetura out door (por as strips mais ou menos famosas da cidade e seus galpões e edifícios decorados) e uma gama enorme de «gambiarras» e «armengues», improvisações que aparentemente constituem um modo soteropolitano de construir sua própria cidade. Enfim é a 'petacularização urbana que, além de nos oferecer tantas maravilhas do culto ao exótico, do patrimônio, do simbólico, da «bahianidade», do fetiche, do lazer, do ócio e do entretenimento, entre os cidadãos e, entre nós e os turistas, nos oferece a 'petacularização das ausências: ausência de habitabilidade mais digna, de infra-estrutura urbana descentralizada, de formação profissionalizante e cultural descentralizada, de condições mais dignas de saúde, do transporte de massa, da ausência de passeios públicos, da ausência de preocupação com os deficientes, etc. Sabe-se que, naquelas e outras tantas cidades citadas de um mundo teoricamente «civilizado», urbanistas e governantes deram continuidade, de uma ou outra forma, na medida evidentemente dos seus interesses, às lições de um passado nada simples e vivido com muitas lutas. Não se questiona aqui a necessidade de um cidade «civilizada» à européia, isso ela já desejou e muito; tampouco americano -- a Salvador devir-Miami. Penso que me cabe, como cidadão e arquiteto-urbanista é ter em mente o por que?, o para que?, e o para quem? é melhor desejar uma cidade-fetiche em primeiro lugar ao invés de uma cidade que valoriza em primeira mão a habitação, a saúde, a educação, o emprego, o transporte, o comércio e os serviços e, mais ou menos em última via, o lazer. Preocupa-se aqui com o contraste nada interessante que se 'tabelece no poder da diferença: os contrastes entre, o 'petáculo do exótico que 'ta megamáquina parece desejar para ela se apresentar como diferente das outras para o Brasil e para o mundo e, o que ela realmente é ... nas gritantes diferenças entre a razoável qualidade de vida urbana de uns poucos e a deplorável de muitos. Por André Lissonger * Reflexões sobre as palestras «Salvador: Megamáquina Desejante» e «Urbanismos Barrocos: algumas questões de projeto», realizadas na FAUFBA nos dias 20/04/07 e 24/04/07 respectivamente. «a cidade, não existe mais ... podemos abandonar o teatro». «Rem Koolhaas; «S, M, L, XL». * André Lissonger é mestre em arquitetura e urbanismo; Número de frases: 41 professor das disciplinas de História, Teoria e Projeto da Arquitetura e do Urbanismo e publica o periódico digital independente «Limites net cult zine». «Vivendo o som virar poema» uma leitura de A letra do poema, de André Gardel Nonato Gurgel * I Sem aura nem precipícios, a letra sonoriza uma trilha para o «Tempo» pretérito que parece gritar no presente poético de " André Gardel: «Foi como se o passado gritasse / do fundo do poço pedindo luz». Como todo os deuses, o passado é eterno, não se pensa mas sabe pedir. Pediu ao poeta outros suportes, cenários, roteiros e atos. Após os Poemas de Nova York (2002), ele serve aos ouvintes e leitores A letra do poema -- um banquete sonoro de palavras, formas e epifanias, onde Dionísio e máquinas de morrer, de entre outros mitos e signos, dialogam sem subordinação. I I Uma música sai da página e via corpo adentra o 'paço, beija o mundo sentindo quando» ... o cheiro de carne / queimada neblina o ar " (" A ferro "). Ela segue, 'sa música, o poder 'cultural da língua -- me 'culpia com seu discurso (" Bambu ") --, e em vários ritmos sinaliza as figurações do poeta no palco. Sinaliza também o tácito roteiro do músico e o «Vôo da cidade», e os ensaios do ator e do ensaísta. Esses eus 'téticos dialogam com as formas urbanas de um tempo cujo discurso incorpora o desvio da sedução e o cinismo para desembocar no reino dos afetos:» ... onde o discurso segue / o curso das naus / recurvas ..." ( «Cemitério Tróia ") na busca da mulher» ... Vento que melhora a minha travessia " (" Brinde "). I I I Uma imagem pousa no ombro antigo do corpo de praia -- brasa que alumia e queima em qualquer 'tação --, entortando o prumo e remarcando a ferro a alma de quem 'creve e lê, de quem vê e ouve. Como quem brinda procurando «um parto, um pranto, um crime», lendo na vitalidade do cenário que não pára e no ritmo da respiração que celebra ávida de ar o anúncio da fome que retoma o seu lugar no palco da letra. Viver é gastar a vida ou velocidade e memória serão minhas armas (" De a modernidade "). I V Um corpo passeia na asa do vento e na brisa da água aguçando o ritmo da canção que atravessa olhos, ouvidos, narinas e cabelos. «Tudo é tato», mãe. Quando o passado pede luz é porque há uma lucidez impressa no corpo que lê: «a claridade beijava o mundo» (" Tempo "). V Uma tradição sonora e verbal aviva a memória e avisa que quanto mais íntimo do mito ou do demo, menos discernimos em eles o quanto de ficção e sabedoria onírica e corpórea os compõem. O excesso de riso do demo gasteja o seu golpe -- é o que lecionam os demônios «De a modernidade». E se eles não tivessem o que (e como) dizer -- seja no palco ou seja na página -- é claro que, desde a Bíblia, eles não teriam tanto 'paço. * Nonato Gurgel é graduado e Ms em Letras por a UFRN e Dr. em Ciência da Literatura por a UFRJ. Número de frases: 31 Para ler alguns poemas do livro consulte o Banco de Cultura 1967. Beatles lançam o lisérgico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Sérgio Ricardo quebra seu violão no Festival da Record. O Tropicalismo chuta a mesa da Jovem Guarda e vira a sensação nacional. Glauber Rocha embaralha cabeças com Terra em Transe. Zé Celso detona O Rei da Vela. A pop art norte-americano infesta a Bienal de São Paulo. Em o Mato Grosso ainda Uno, um descendente de gaúchos e primogênito de um casal de funcionários públicos lança uma revolução chamada Bovinocultura numa Campo Grande provinciana e longe demais das Capitais! Com apenas 24 anos, HUMBERTO ESPÍNDOLA é apontado no importante IV Salão de Arte Moderna do Distrito Federal / Brasília como o representante do Brasil interior. Dois anos depois é impedido por a censura do governo militar de participar da Mostra brasileira na Bienal de Paris indicada por o MOMA do Rio de Janeiro. Em 1972, depois de receber mais de 40 prêmios e virar o'fazendeiro-mor ' das artes plásticas de Mato Grosso, chega ao auge expondo na XXXVI Bienal de Veneza e na III Bienal de Arte Col Tejer, em Mendellín, Colômbia. Sou suspeito para falar. E com certeza é difícil 'crever sobre quem você admira demais. É um perigo, por exemplo, levar muito a sério o que você 'cuta de seus ídolos. Caetano não se cansa de falar da importância de João Gilberto. Eu não me canso de apontar Humberto também como um verdadeiro guru das artes (sul) mato-grossenses. Já 'crevi sobre isso no artigo Os Filhos de Humberto! No caso de 'ta entrevista, o enfoque foi a Bovinocultura, que 'te ano comemora quatro de décadas. Para quem não conhece, é importante dar um pulo na página de Humberto para ver os quadros. ( Mas vamos combinar, tem voltar para ler o restante da matéria!) Outro enfoque importante foi a comemoração (?) dos 30 anos da criação do Estado de Mato Grosso do Sul. Em o dia 11 de outubro de 1977, Humberto 'tava residindo em Cuiabá e o anúncio da divisão de Mato Grosso foi como uma surpreendente punhalada. Não tanto por a divisão, pois o movimento para que isso acontecesse já vinha desde final do século XIX. Mas por a forma silenciosa e sem nenhum debate com a sociedade de como foi feita. A série a «Divisão de Mato Grosso» reflete o que o artista sentiu e como manifestou isso em sua pintura. Dois anos após a divisão, Humberto voltou a morar em Campo Grande mesmo sob a vista de alguns olhares rancorosos. Vocês que são de outro 'tado, falem a verdade, 'te nome Mato Grosso do Sul lembra o que para vocês? ( Vamos aproveitar e fazer uma enquête, ok!) Pois bem, Humberto não só viveu como 'creveu com o próprio punho 'ta História. A entrevista que segue abaixo foi na sala da ampla casa de Humberto, que eu adoro e tem um astral mágico, com os muitos quadros na parede e uma coleção grande de muitos artefatos artísticos. É difícil tirar os olhos das paredes e deixar de encarar os muitos bugres de Conceição. Em uma 'tante da sala, repousam dois troféus condecorativos do Festival América do Sul a Paulo Simões e Geraldo Roca. Os dois entregaram os troféus para Humberto porque foi no quintal da casa do artista plástico que eles viraram compositores. Mestre das telas, guru da Moderna Música de MS. Em um 'tado com mais de 30 milhões de cabeças de gado, o verdadeiro pecuarista de MS é o Humberto Espíndola. Ele é o'dono dos bois '. A cotação da sua ' arroba ' é a mais cara do Estado. O seu metro quadrado custa R$ 8 mil. E comprador não falta. O segredo é que os bois de Humberto não morrem jamais. Tornam-se imortais depois de soltos entre os quatro cercados da tela. Humberto é um dos principais artistas plásticas do Centro-Oeste e seu nome 'tá grafado na história da cultura brasileira. O «Pintor do Boi» é campo-grandense. Como se sabe, é o primogênito da conhecida Família Espíndola. Em sua ficha uma longa história como agitador cultural. Em 1966, organizou junto com Aline Figueiredo a 1º Semana das Pinturas Mato-grossense, no Rádio Clube. Ele também foi secretário da cultura do governo Marcelo Miranda, entre 1987 e 1990. Ultimamente têm feito monumentos. Os últimos foram em Corumbá e na Capital de Mato Grosso. Não gosta de falar de projetos ainda em andamentos. Também 'tá numa fase mais 'pirituosa. Em a sala de sua casa, uma bíblia repousa em cima de um púlpito. Para 2008, tem um sonho concreto a realizar. Montar finalmente uma base no Rio de Janeiro. O fazendeiro Humberto quer ampliar os horizontes de sua fazenda. Vamos à entrevista! Como a conversa rendeu quase 50 mil toques (e duas noites de muito trabalho para decupar o bate-papo) vou dividir a entrevista em duas partes: PARTE 1 E PARTE 2. A conversa abaixo 'tá sem cortes e como rolou naturalmente o encontro. Com vocês, Humberto Espíndola! -- Os quadros da série o que fiquei pensando foi que você lamentou a divisão do 'tado naquele momento. É um grande lamento aquela série? Humberto -- Emocionalmente 'tava envolvido em Cuiabá. A divisão nos pegou de surpresa. Nós somos divisionistas desde criança. Se pregava 'ta divisão do 'tado. Como campo-grandense roxo, era eufórico naquela história de Campo Grande ser Capital. Inclusive o movimento cultural começa em Campo Grande nos anos 60, quando acontece a primeira exposição em 1966, e as coisas começam a acontecer um pouco antes na década de 60, no auge da democracia brasileira, fim da fundação de Brasília, aquela coisa de Juscelino. Aí tem o golpe militar e já havia o movimento divisionista. Uma coisa que lamento na história da divisão é que era um movimento que vinha quase centenário, há mais de 70 anos em prol de uma divisão, políticos trabalhando, a rivalidade de Campo Grande e Cuiabá se acirrando, o governo do Norte tomando várias providencias em cima dos divisionistas gaúchos daqui, chamando de bandos. Ninguém reconhecia grandes movimentos que consolidaram o sul de Mato Grosso, toda aquela coisa contra o império da Companhia Matte Laranjeira 'tabelecido firmemente aqui no Sul. É difícil falar de Joaquim Murtinho. Eles tinham um poder que 'tavam também no governo da República. Antes do Joaquim Murtinho (engenheiro civil, médico homeopata e professor cuiabano que foi senador três vezes da República 1890-1896/1903-1906/1907-1911), o irmão de ele era Ministro da Fazenda na época que a Matte Laranjeira foi implantada. Então quando vieram os primeiros gaúchos (1895) é a semente da divisão. A migração gaúcha que já vinha fugindo de um divisionismo gaúcho, de um separativismo. Já chegam aqui com 'te 'pírito de separatista e para 'tabelecer as fazendas. É o início da Bovinocultura, porque o gado 'tava solto aqui nos Campos da Vacaria. -- Como inclusive já havia acontecido no Sul, de ter um grande campo para ser ' civilizado ` com gado ' selvagem ' ... Exatamente. E eles queriam refazer 'ta história aqui. Mas tinha uma pressão muito grande. Então a divisão vem se 'tabelecendo paulatinamente. Politicamente consolidando seus 'paços. Não 'tou entendendo, porque você falou que era a favor da divisão. Sim. Como todos os campo-grandenses. E porque nos quadros da série da divisão você mais lamenta e do que festeja a perda? Não lamento. Só em ' Eterna Saudade ' que é um quadro de lamento. Mas quem não tem eterna saudade deste velho Mato Grosso? Se os 'tados fossem juntos hoje você já pensou a potência que nós seríamos? Seríamos um 'tado de seis milhões de habitantes, provavelmente seríamos a sétima economia do país e mesmo em termos de população e poderio econômico nós teríamos uma representação fortíssima no Brasil. Pelo menos um 'tado do porte de um Pará, do Paraná. E nós somos quem? Eu que pergunto. Quem que nós somos? Somos nós e o Piauí. Por aí. Cadê? Mostre os números econômicos. Pega uma 'tatística do IBGE e vê a produção econômica, a arrecadação de impostos. Cadê o dinheiro aqui em Mato Grosso do Sul? Tem 30 anos que 'pero 'te dinheiro. Desde a divisão. Cadê o 'touro, o 'tado modelo que ia ser, a novidade do Brasil? Foi dividido para isso certo? Foi, mas aconteceu ao contrário. Lá (em Cuiabá) que todo mundo chorou, se tornou um 'tado mais poderoso. Mato Grosso é muito mais poderoso que Mato Grosso do Sul. Não há nem o que se discutir. Embora seja um 'tado incendiário, que derrubam florestas e que 'tão acabando com a Amazônia ... Mas um 'tado que até politicamente teve um Dante de Oliveira, políticos de projeção nacional que fizeram alguma coisa que ajudou o Brasil. A divisão me pegou de surpresa lá, porque nós 'távamos fazendo um movimento cultural aqui no Sul. Como Cuiabá era a Capital do Estado a Universidade Federal foi para Cuiabá, na época do governo do Pedro (Pedrossian) e a 'tadual ficou aqui. E nós 'távamos fazendo um movimento amador, amador porque não era remunerado e não porque era mal feito ... Era por amor e não por dinheiro. Eu e a Aline Figueiredo tínhamos o movimento da associação mato-grossense de arte e já tínhamos feito a opção em permanecer em Mato Grosso ... Porque depois quando veio a Ditadura (1964), não se falou mais em divisão. Porque tudo se tornou proibido. Até usar verde e amarelo, quanto mais se falar o problema político do tamanho da divisão. A divisão ficou latente ... Sim. Só uma meia dúzia de políticos sabia que se cogitava por baixo dos bastidores a divisão. Por isso as rosas (ele se refere à fase em que pintou rosas), o silêncio das rosas, que é minha fase ' As Rosas Rosetas ' é uma sátira também que entra em 1977, ano da divisão, porque a rosa é o símbolo do silencio e que tinha a ver com o governo do Geisel, porque era por baixo do pano, silencioso, como as reuniões gregas que usavam a rosa no teto para dizer que 'tavam fazendo uma reunião sigilosa que o que 'tava se comentando ali dentro não poderia sair. De aí as rosas aparecem na série da Divisão, a série das rosas, uma fase contemporânea ... Mas voltando! Este movimento amador foi o que lançou os artistas de Mato Grosso do Sul, que não era Sul ainda. Mas era praticamente uma base de Campo Grande. Inclusive João Sebastião Costa ouvindo os ecos da primeira exposição se mudou para cá (CG). O Clóvis Irigaray, que é um dos grandes artistas do Norte, 'tudava Direito aqui. E 'ta base, mais Ilton Silva, Jorapimo, eu e a Maria Augusta Cambará, que fazia um trânsito Rio-Campo Grande, que era a 'cola de belas artes, a Conceição surge em 'ta época, num jogo de Rio e São Paulo. Então 'tes artistas aparecem para o Brasil antes da divisão. Como um bloco mato-grossense, porém todos sediados em Campo Grande, inclusive os cuiabanos e a própria DALVA, que vivia isolada lá e que fez exposições aqui. Estava tendo uma força conjunta aqui ... E uma força conjunta que surge a música sul-mato-grossense um pouco depois ... Minha Bovinocultura explode em 1968 e 1969, época que Paulo Simões vai compor ' Trem do Pantanal ' ... Trem do Pantanal é mais tarde. O Simões e o Geraldo Roca compuseram 'tá música em 1975 ... Então já 'tava indo e voltando para Cuiabá, por isso o movimento ficou na minha casa. Me lembro que na época que a gente começou a compor rock juntos, tinha eu, Simões, o Mota, Roca, que eram todos garotinhos que tem aquelas célebres frases que eles dizem que eu falava, eu já 'tava fazendo a Bovinocultura. Uma época que o Jerry (o caçula dos Espíndola) 'tragou meus quadros. O que o Jerry fez? Cheguei e encontrei meu quadro pintado. ' Quem foiiiiii? '. Ele ficou pálido e vi que era ele. Ele disse que teve tanto medo aquele dia. Peguei uma telinha e dei para ele. Ele pintou o único quadro, que foi um batman que muito tempo depois devolvi. Mas também sossegou com a carreira de pintorzinho. Ainda não entendi a sua posição quanto à divisão ... O que você quer entender? Você quer que eu pule no tempo ... Não é isso ... Estou te contando para você entender. Aconteceu que a Universidade Federal era em Cuiabá. Aí aquele movimento amador sem remuneração foi chamado por Gabriel Novis Neves, primeiro reitor da UFMT. E 'ta universidade tinha um cartaz dentro da Ditadura porque ela era amazônica e o Geisel tinha interesse em explorar a Amazônia. Foram eles que fizeram a Transamazônica, que entraram lá e 'sa Universidade, como ela se propunha como uma universidade amazônica, ela teve numa época da crise da universidade do Brasil. Ela foi uma universidade efervescente que teve as benesses da Ditadura. Por isso ela tinha um poder econômico e uma capacidade de articulação nacional e Gabriel vendo nosso movimento e uma palestra minha e da Aline sobre o que 'tava acontecendo no 'tado, já tinha inclusive ido a Bienal de Veneza, em 1971/1972, a arte aqui 'tava no boom total. Um artista como eu 'tava sendo premiado, a coisa 'tava refletindo na imprensa de fora para dentro. A Moderna Música de Mato Grosso 'tava sendo gerada no quintal do meu ateliê, com o Paulo Simões, Geraldo Roca, Geraldo Espíndola, Almir Sater ... A Tetê 'tava aprendendo a dar os gritinhos de ela e quando fui para Cuiabá levei a Tetê que foi morar com mim lá. Fui para lá em 1973 e a Tetê em 1974, 1975, aí conheceu a Marta Catunda e começou a cantar na Chapada. Tanto é que as composições de 74/75 vão aparecer em 'te disco solo agora, mais de trinta anos depois como ' Evaporar ', ' Escorro por a cachoeira ', que são músicas de 'ta época que precisaram de 30 anos para ser tocadas. Estavam muito a frente hein ... Em aquela época em nossa casa em Cuiabá, críticos como Clarivaldo Claro Valadares, um dos maiores dó mundo, o próprio e célebre Aluísio Magalhães, que desenhou o dinheiro brasileiro naquela ocasião, que era para ser o nosso primeiro ministro da cultura que faleceu precocemente, 'cutava na nossa varanda a Tetê cantar e achava naquela época que a Tetê 'tava fazendo uma música idêntica à vanguarda alemã naquele momento. Quer dizer nós 'távamos assim por osmose fazendo uma coisa como o artista é, 'te dom de captar e resolver as coisas. Pena que o público não tem! Mas o público, infelizmente, enxerga 30 anos depois. Você sabe que hoje todas as obras que eu fiz nos anos 60 e 70 'tão sendo disputadas a tapa. Meu problema é 'se hoje para a minha vida. Se soubesse tinha me dedicado mais. É certo falar que 'te seu catálogo deste período 'tá 'gotado? Está 'gotado. Tem algumas coisas que eu consegui conservar para mim, mas tem tido muita insistência, as pessoas querem muito ... Pessoas da onde Humberto? Colecionadores daqui, de Belo Horizonte e pessoas que colecionam a arte brasileira num período em que ela explode figurativamente. Você concorda que algumas obras de arte precisam deste tempo para mostrar o seu valor? Sem dúvida. É igual você fazer um show num festival e dar aquilo que o povo ta querendo ouvir. Você não 'tá dando nada de novidade, de vanguarda, você não 'tá educando, você 'tá só alimentando uma coisa que existe. Te a dando só o pão e o circo. Você fazer uma obra de arte que cutuque as pessoas, que faça elas pensarem, rejeitar, aceitar ou botar um ponto de interrogação na cabeça das pessoas isso é você fazer realmente uma obra de arte de valor seja qual for a área. O teatro sempre teve 'ta função instigante. A obra de arte que não instiga, que não provoca reação, que não provoca impacto, ela é uma coisa déjà vu. A coisa massificada. Por 'ta ótica, você que hoje em dia as artes plásticas do MS ela tem 'te elemento ou perdeu-se muito? Hoje não existe mais artes plásticas de Mato Grosso do Sul. Existe as artes plásticas no final do século XX, início do século XXI, 'tas artes plásticas 'tão num momento que elas chegaram a um ponto máximo de reflexão da coisa que chama pós-moderna, pós-contempor ânea, elas passaram a ser reflexivas e agora elas 'tão voltando ... Porque às vezes as coisas adiantam demais em termos de movimento, e teoricamente elas seguem uma linha vertiginosa, e depois elas têm que se refletir. Exatamente como eu falei para você. A minha carreira seguiu e pintei de acordo com aquele meu consumo. Poderia ter me dedicado mais se eu soubesse que 'tas obras iriam ser procuradas hoje, eu poderia ter feito uma poupança para mim. Mas como eu ia adivinhar? O artista vai seguindo um rumo da sua vertigem. E o movimento artístico internacional também tem 'ta mesma vertigem. É como fogo de artifício. Sai aquele foguete, vai lá para cima e aí explode e começa a cair aquelas coisas. E é isso que acontece. Nós 'tamos em 'te momento de explosão. Então as artes plásticas têm toda uma reflexão. Não é só de MT ou MS. Por isso, hoje temos o Evandro (Prado) fazendo pop art.. Uma outra fazendo instalação, outra revendo os pontos da pintura, outros fazendo a má pintura no bom sentido ... Você vai a Veneza e ela se repete. As coisas vão e voltam. Tem tido muita retrospectiva. Muita recolocação de artistas. De repente na Bienal de Veneza de sete, oito anos atrás, quem 'tava lá? O Hélio Oiticica. A própria arte internacional 'tá revendo seus mitos. Um Lúcio Fontana que cortou as telas com gilete 'tá aí de novo, aparecem as retrospectivas do cara. Isso não pára de acontecer. Ainda provoca 'panto e sucesso uma exposição dos desenhos de Goya, das fases desconhecidas de Picasso, Van Gogh sempre vai ser Van Gogh ... E a sua Bovinocultura? A minha Bovinocultura existe. Ela é histórica, querendo ou não, mais cedo ou mais tarde. Ainda 'tou sofrendo igualzinho a 'tes outros artistas e aquela coisa de que você já me perguntou se ainda era a vítima da minha sociedade e eu ainda sou como Lídia Baís. Planos diferentes. Mas ainda sou vítima porque não tive assim uma vida, vamos dizer ... Picasso, por exemplo, teve uma vida muito farta, mas ele era de família rica. Você não acha cruel cobrar de você um tipo de continuação do que você fazia em 60 e 70? Tipo o tsunami do Humberto virou uma marola! Ah não! Virou uma coisa lírica, poética. A pessoa moderninha que 'tá a fim de panfletarismo não vai achar mais isso na minha obra. Você já se sentiu cobrado em 'te sentido? De ter que pintar o boi? Senti. Não tem que pintar o boi e sim ser satírico. Eu era satírico no momento que eu sentia a opressão em cima de mim. Então eu fazia uma sátira a opressão, a ditadura, a censura ... à medida que isso entrou na democracia o que eu ia ficar fazendo? Criticar o que? Ou você acha que agora dentro da Bovinocultura eu deveria 'tar pintando, por exemplo, o mal que o pum da vaca faz para a camada de ozônio? Ou então a vaca louca toda pintadinha de 'trelinha na cabeça vestida de hippie andando por a rua? Eu não vou fazer! Isso é charge. Panfletarismo. A minha arte se tornou séria porque ela seguiu o caminho natural da pintura de ela. Eu amadureci e optei por a pintura. A pintura é uma coisa muito séria. Ela tem seu aspecto filosófico, simbólico, técnico, valor de mercado, ela é uma arte que de repente o artista amadurece. Não tenho mais 'paço, tempo e nem interesse em participar de salões ou fazer polemicas. Talvez o Siron (Franco) tenha um pouco deste efeito. Conseguiu fazer obras do acidente do Césio, alguma coisa polemica, mas ele é outro 'tilo e ao mesmo tempo pintor e tem uma obra de pintura muito consolidada e um bom mercado de arte. Quer dizer? Eu não tive tempo de fazer um mercado de arte para mim, cuidar. Porque eu optei em dividir o meu tempo como animador cultural. Porque o pessoal tinha que enxergar que no tempo que eu não fiquei fazendo 'ta pintura de sátira, eu fiquei fazendo dentro da casa uma limpeza, uma construção, botando pedra por pedra, ajudando artistas, lançando outros talentos, fundando museu. Você abriu mão? Não é que eu abri mão. É que eu sempre fui criado dentro de um conceito, quando eu fiz jornalismo e 'tudei história da arte nos anos 60 nós tínhamos um conceito marxista de arte. Isso era importante. Era um slogan forte. Porque o artista é um agente modificador da sociedade. E eu achava que ser artista não era apenas pintar. Mas era ser um agente modificador. Uma pessoa que pudesse construir e dar uma coisa que nós não tínhamos. Nós não tínhamos cultura, arte, tradição, solidez, liquidez ... Não tínhamos nada em termos de pintura. Hoje nós temos acervo, porque se pintou muito em 'tes 40 anos. Construiu-se um acervo, um patrimônio visual que existe, que é real. Isso que eu fiquei aqui fazendo. Dando força para 'te patrimônio, dando base, adubando, regando. Por isso nasceu 'te movimento riquíssimo nos dois 'tados que a crítica de arte brasileira acha que é uma contribuição do interior à arte brasileira. Em termos culturais o grande momento que se 'pera para o Brasil é do casamento do interior com o litoral. A Entrevista Continua ... Número de frases: 268 «PARTE 2» Eu era romântico, poético, tarado, viado, sapatão, louco, psicopata, ( ...) umas pessoas ficam ofendidas, outras encantadas ...». Esse do desenho é Francisco José, o Shiko, e é isso o que ele provoca. Pra entender o porquê, é só olhar as imagens ao lado e perceber do que trata o seu trabalho, na realidade seu traço, a expressão dos olhares, as temáticas, e a personalidade forte e meio maluca, perfeitamente impressa nas telas. Não há como passar despercebido. Um mundo ganha forma e é traduzido cheio de detalhes, sombras e texturas. Escultor, grafiteiro, pixador, quadrinista, fanzineiro ... Pinta em tela, papel, parede, geladeira, porta ... Com tinta, caneta, lápis, cera, faz storyboard, desenhos para a tatuagem, campanhas publicitárias, capas de CD, flyers, cartazes, tudo ao mesmo tempo, mas odeia ser tachado de artista plástico. «É algo que não diz nada sobre o que você faz. Quer dizer que você pode enfiar uns pregos num sabonete, sei lá. E minha vida como artista plástico seria como? Produzir um material que seria exposto, colocado à venda? Isso é o que eu menos faço, nunca foi o foco que eu quis dar». Shiko é intenso assim. O clássico artista marginal, que adora temas como boemia, noite, álcool, pornografia, música, cinema ... A sua história e a de sobrevivência com o que faz é quase uma utopia para os artistas como ele, pois o cara consegue sustentar-se só de arte, nunca tendo trabalhado com mais nada na vida. Tem suas pinturas 'palhadas por toda a cidade e é conhecido e respeitado por conseguir desenvolver seu trampo nas mais diversas mídias. Não é à toa que ele já é uma lenda viva na cidade, desde que chegou a João Pessoa, há dez anos. Não há quem não o conheça. Shiko nasceu em Patos, cidade a 300 km de João Pessoa, e lá viveu até os 18 anos. Em 'sa época ele já fazia uns desenhos pra tatuagens, camisetas de amigos, e produzia o Marginal Zine, onde publicava seus quadrinhos. Mudou-se com a família para a Brasília, onde viveu por dois anos e, de repente, como ele mesmo diz, sentiu vontade de morar aqui em João Pessoa, junto com a irmã. E veio. Por conta do zine conheceu gente que trabalhava com vídeo, produção e música. Fez amigos e começou a desenvolver flyers pra todo tipo de shows: desde os da galera do hardcore até para os da turma do hip-hop, além de capas de CD das bandas do circuito underground. Assim foi ficando conhecido, e para passar pra o trabalho em tela e grafite foi um pulo. Percebeu as mil possibilidades de campo de atuação, foi se descobrindo e consolidando seu nome e trabalho. Era impossível passar despercebido. A partir daí tudo começa a funcionar, principalmente por a verdade expressa em tudo que faz. Você nota que aquilo é real, faz parte mesmo do universo do artista, e isso faz chamar a atenção. Tudo parece muito objetivo ao primeiro olhar, mas é só observar um pouquinho mais pra perceber algo como «mensagens subliminares» nos trabalhos atuais: nomes de discos, títulos de livros, um adesivo ou um cartaz qualquer colado aparentemente sem intenção alguma. Tudo, absolutamente tudo, faz parte de um único universo, o de ele. Entre suas telas, um dos modelos que mais chamam a atenção é o dos armários e 'tantes (fotos 3 e 4). Em ela podem-se observar mais claramente as características citadas no parágrafo anterior, que faz você ficar curioso, querendo ir a sua casa pra saber se tudo aquilo é verdade mesmo e o que mais tem por lá. Eu, claro, usei a desculpa de 'sa matéria para fazer-lhe uma visita. Era exatamente como nos meus sonhos: tubos de tinta 'palhados por todo canto, discos, muitos livros, paredes pintadas, colagens na porta, stencils, pedaços de papel ... E a mesa! Sim, a mesa do artista. Aquilo ali parece um mundo paralelo: uns recortes e desenhos inacabados, gibis, lápis de todos os tipos, tintas de todas as qualidades e uma luz maravilhosa. Tudo meio bagunçado, mas a chamada «bagunça criativa», sabe? Aproveitei minha visita pra saber por que ele gosta tanto de usar 'se formato do armário. Shiko não podia ser mais direto: «Quando você chegou aqui hoje, a primeira coisa que perguntou foi se podia sair fuçando nas coisas. Pois é, a gente adora fazer isso! Chegamos na casa de alguém, aí você acaba ficando uns minutos só na sala e já começa a mexer nas coisas que ela deixou em cima da mesa, olhar os discos que ela tem, os livros da prateleira, por exemplo. E isso é uma maneira que temos de conhecer mais sobre alguém, ver seus objetos pessoais. Essas 'tantes que eu faço tem isso. Todas têm uma unidade, nada 'tá ali por acaso, elas pertencem sempre a uma pessoa ou a um só universo, dá pra relacionar aqueles livros com aqueles discos que 'tão lá ... E é do caralho a conversa que rola depois de alguém ver um quadro desses Pois é, olhar aquilo é uma delícia! Essas tais conversas raramente são sobre técnicas ou 'colha das cores, por exemplo. Ela se transpõe para o mundo real com questões como " ah, você tem 'se livro? Que bacana, eu tenho um outro livro de ele, você quer emprestado?" ou " Ah, você gosta de tal CD? Há tempos eu 'tou procurando por ele!». E é 'se tipo de reação que Shiko diz mais gostar. A possibilidade também de gerar uma conversa paralela, conhecer gente com interesses parecidos, observar reações, ver o mundo vendo o mundo de ele. E aí nós encontramos outra paixão do artista: gente. É assumidamente o que ele mais gosta de pintar, formulando toda uma situação, um pensamento, e características fortes. Algo que é muito peculiar é que geralmente um personagem que observamos é curiosamente parecidíssimo com alguma outra pessoa que faz parte do seu circulo de amizades, ou seja, existe muito a impressão que você conhece aquela pessoa de algum lugar. Quer um exemplo? Em a terceira imagem ao lado, o cara mexendo na pick-up é parecidíssimo com o Chico Corrêa, músico, amigo e figura carimbada na noite da cidade, e a Olívia é parecidíssima com uma ex-namorada do Shiko. «Não é uma regra, mas geralmente isso acontece, de eu fazer uma pessoa pensando em alguém real, mas nunca vou ter a preocupação de fazer um retrato de ela. Eu penso mais nas características, o jeito de se vestir, o cabelo, a forma de sentar ... Talvez seja isso que dê o resultado que parece que você conhece aquela pessoa de algum lugar». É tudo muito mágico e muito sensível. Ele sabe como chamar a atenção e faz isso naturalmente, é seu retrato, seu cartão de visitas. Costumo dizer que ele é o cara mais rock ' n roll que eu conheço: vida e trabalho; assuntos e comportamento. Dorme às 6:00 da manhã, acorda às 13:00 pra pedir a marmita do almoço, passa as tardes e início da noite trabalhando em alguma coisa (trabalho nunca falta, pode apostar!) e depois sai pra beber e ver sua maior inspiração: gente e boemia. Nunca, eu disse nunca, perca uma oportunidade de tomar uma cerveja com 'se cara. É conversa até amanhecer, regada com as histórias mais loucas que você já ouviu e ainda vai ouvir. Shiko é uma figura e tanto. Talentoso que só ele, e, principalmente, é cada um dos seus personagens. Número de frases: 81 Não, «Para o Dia Nascer Feliz» não é um filme ou documentário sobre a vida do cantor Cazuza ou do grupo Barão Vermelho. Apesar de ter recebido como título o nome de uma antiga música do notório cantor, uma possível relação entre a canção e o conteúdo do documentário é algo que permanecerá ainda obscuro por um bom tempo. Afinal de contas, o que pode existir em comum entre uma música que fala de um relacionamento amoroso sexualmente satisfeito com um documentário que tem como objetivo fazer um retrato da realidade do sistema educacional no Brasil? Uma possível pista de 'ta correlação talvez possa ser encontrada no tema da aula que nos é apresentada quando o documentário se ocupa com o retrato de uma 'cola na periferia de São Paulo. Esta aula, diferentemente daquelas de as outras três 'colas que são mostradas no filme, ocupa-se com o tema do romantismo. Os alunos questionam, então, se o sofrimento amoroso dos românticos não era uma conseqüência da falta de sexo, ao que a professora, surpreendentemente, reconhece que talvez a idealização amorosa do romantismo 'tivesse, sim, relacionada com um desconhecimento de uma relação física prazerosa. E 'te último ponto, como já foi dito antes, é o tema da canção de Cazuza. Muito bem, mas qual a relevância do tema de 'ta aula para o resto do documentário? A relevância é que 'te é justamente o ponto de dissonância em relação às outras realidades com as quais o documentário se ocupa: uma 'cola numa das cidades mais pobres do país em Pernambuco, uma 'cola ao lado de uma «boca de fumo» na baixada fluminense, e uma 'cola num dos bairros mais ricos da cidade de São Paulo. O ponto de dissonância reside no fato de que as aulas de todas as outras 'colas ocupam-se com temas que 'tão relacionados à realidade social brasileira. Senão vejamos. Qual é o tema da primeira aula que o documentário mostra? A narrativa de um homem público que por ser bom e querer ajudar as pessoas foi perseguido e morto. «Isto é certo?», pergunta a professora. Depois, ao tratar da 'cola na baixa fluminense, o tema da aula é a política do «café com leite» quando então, diz a professora, o país era governado por «coronéis». E, por fim, ao mostrar um trecho da aula da 'cola do Alto Pinheiros o tema é o livro «O Curtiço» do qual a professora destaca as diferenças da arquitetura da casa dos pobres (o cortiço, que é horizontal) em relação a dos ricos (prédios, que se elevam verticalmente) e que reproduzem as diferenças sociais. Em suma, com exceção da aula sobre o romantismo na periferia de São Paulo, todas as outras mostram a herança da desigualdade social brasileira que, por dedução, acabam ecoando na realidade atual formada por a repressão das pessoas que desejam fazer o bem para a sociedade (tema da aula em Pernambuco), por o domínio de uma elite oligárquica que defende apenas seus próprios interesses (tema da aula em Duque de Caixas), e por uma desigualdade social que se expressa através de particularidades como a arquitetura da própria residência (tema da aula em Pinheiros). Como não poderia deixar de ser, o documentário trata também das conseqüências da desigualdade de 'ta sociedade da qual as 'colas fazem parte. Assim, se por um lado a 'cola do interior de Pernambuco recebe uma verba anual de R$ 1.000, não tem banheiro descente e nem transporte apropriado para levar os alunos para o colégio, por outro lado, a 'cola de Pinheiros tem catraca eletrônica, gente bem vestida, alunos com celulares e com sentimento de culpa por não fazerem trabalho voluntário devido ao compromisso com a aula de natação. A 'cola de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, fica por sua vez ao lado de uma «boca de fumo». Enquanto que a 'cola da periferia de São Paulo, nas palavras da própria professora entrevistada, fica na «periferia da periferia». Conseqüentemente, a realidade de 'sas 'colas se reflete também nos alunos e na relação desses com a instituição. Assim, a preocupação dos professores da 'cola de Duque de Caxias, ao aprovar um aluno que foi para o Conselho, tem mais haver com uma tentativa de evitar que ele caia novamente na marginalidade do que em exigir que ele aprenda o conteúdo ensinado. O contrário acontece na 'cola de Pinheiros onde os alunos parecem já ter interiorizado a cobrança que a instituição lhes aplicou durante anos. Aqui, o que se vê á a angústia da auto-cobran ça de eles o que não se limita apenas à 'trutura da 'cola, mas, também às atividades externas: de natação até número de relacionamentos amorosos num ano. Em a 'cola da periferia de São Paulo, dois alunos se destacam: um que deseja ser padre e uma que encontrou na poesia a chave para fugir da apatia e da tristeza. A o final do documentário ficamos sabendo apenas do destino de 'ta aluna que, através do projeto do fanzine na 'cola, conseguiu expressar suas angústias, mas que, após o final da 'cola, começa a trabalhar e volta para a apatia e para a solidão anterior. Já na 'cola do interior de Pernambuco, o enfoque é dado numa aluna que se relaciona muito bem com seu meio -- ainda que formado por uma realidade pobre. É somente através da câmera que acompanha 'ta aluna que conseguimos assistir sua relação com o mundo externo a 'cola: a feira, a família, a rua e finalmente uma 'trada de terra por onde ela caminha depois de recitar uma poesia que 'crevera como um exercício de intertextualidade em relação a um poema de Manoel Bandeira. E ao recitar 'te poema tão original e tocante, em meio a uma realidade tão pobre, tão árida e tão distante, acabamos nos convencendo que apesar de todos os desafios e todas as imperfeições do sistema educacional brasileiro, a instrução é um dos bens mais preciosos que se pode legar ` auma pessoa. Pois, ao compararmos o belo discurso de 'ta aluna de uma das cidades mais pobres do país com o discurso das alunas de um dos bairros mais ricos do Brasil, vê-se claramente que se por um lado as desigualdades sociais têm uma forte influência no destino dos alunos, por outro lado elas 'tão longe de desempenhar um papel determinante em relação àquilo que a pessoa se torna. Número de frases: 36 Pegava restos de papel de jornal de grandes carretéis pra fazer folha de rascunho. O secretário da redação sempre fazia cara feia quando eu pedia caneta nova, mas me dava, «vai regular bic, bicho?». Terceiro período na faculdade de comunicação, queria trabalhar na editoria de cultura mas o editor chefe me mandou para a polícia. Tudo nas internas: 'tágio em reportagem era proibido por o Sindicato. Era arquivista (função inexistente nas redações em que trabalhei), mas fazia ronda policial de segunda a segunda com exceção de dois fins de semana por mês. Meu primeiro morto 'tava 'condido num ramal lá para os lados do Tarumã. Estava rodando por a cidade quando o editor passou um rádio dando as direções. Poucos segundos depois a freqüência virou uma festa: aê, Daniel, vai perder o cabaço», alguém disse. Há dois cabaços ditos importantes a se perder numa editoria policial: achar um corpo ainda intacto no local do crime (ou onde foi abandonado) e cobrir uma rebelião numa penitenciária ou cadeia. Diz que endurece. Bobagem. É no dia-a-dia que a inocência vai sendo perdida, nas conversas, nos bastidores de redações e delegacias. Não apenas inocência, mas o respeito. Por as instituições, por os homens, por a própria profissão. Já fiz uma matéria sobre um cara que supostamente havia 'tuprado uma criança na rua onde morava. Reportagem de topo de página, com foto e entrevista com o sujeito, que se dizia inocente. Meses depois descobriram o verdadeiro culpado e o antigo acusado foi pedir nova matéria no jornal (que saiu), mas nem isso impediu que todos os seus pertences fossem destruídos, nem que ele fosse 'pancado ao tentar retornar para casa. Conversando com o diretor de um presídio, ele me relatou que um rapaz preso por 'tupro foi reclamar em sua sala que havia sido 'tuprado por outro presidiário. A piada era que o tal do sujeito mostrou a orelha toda mordiscada como prova. Cobrindo uma festa de Natal na penitenciária Raimundo Vidal Pessoa, fiquei conversando com um cara de trinta e poucos anos, preso por a terceira vez (sempre por latrocínio), que entendia tudo de direito penal e se dizia satisfeito com o atual diretor da penitenciária. O anterior, de acordo com o detento, era tão 'croto que no último Natal, ganhou um «presunto» de presente. Ele e outros presos se juntaram, 'colheram um «zé buceta» qualquer, mataram-no e penduraram o corpo na cela. Só para o diretor ter que voltar de casa e passar a noite na Raimundo. Certa vez 'tava no Oitavo Distrito, na Compensa, quando uma viatura da Polícia Militar entrou trazendo um acusado de roubo. Os PMs tinham batido tanto no cara que ele 'tava desacordado. O investigador da civil disse para os policiais o levarem logo para o hospital, mas um PM interveio falando que aquilo era onda, que ele 'tava fingindo. «Quer ver?». Segurou, então, a cabeça do homem (que 'tava deitado no chão) e a levantou até a altura de seu coldre. «Olha só!». E largou. Sem reação alguma, o corpo caiu direto. Baque surdo, cabeça no concreto, sangue no nariz. Em Manaus, o problema de falta de leitores de jornal é um dos mais graves do país. Em uma capital de mais de 1,5 milhões de habitantes, o diário de maior circulação só consegue vender cerca de 30 mil exemplares (e num domingo!). Desesperadas, as empresas recorrem às editorias de polícia não para reportagens sobre criminalidade, violência ou políticas públicas de segurança, mas para golpes baixos do jornalismo marrom, com manchetes do tipo «Matou por um real», pra ver se gente que vive com menos de um real por dia, com uma dieta a base de salsicha à granel, faz uma vaquinha e compra um jornal por R$ 1,50, ou R$ 2,50 se for domingo. Em prol de 'sa brilhante lógica de linha editorial, lá 'tava eu, perdendo o cabaço com uma mulher na casa dos trinta, com um saco de papel com três furos de. 38 cobrindo a cabeça que há três dias não se reconhecia, adorada por zumbidos de moscas gordas, verdes; ela também inchada, se 'verdeando de voltar ao chão do ramal de onde saíra. Não vi seu rosto, não fui assombrado nos dias seguintes por um vulto 'tranhamente reconhecível, como aconteceu com a experiente repórter policial que durante a primeira semana de trabalho me acompanhou nas rondas, em seu primeiro contato com o aquém. Foi aquele cheiro apodrecido de coisa em transição que se impregnou em minha narina turca, e que às vezes me assaltava a lucidez. Bem mais tarde, no IML, alguns familiares choravam timidamente, e embora 'corados numa parede, pareciam sem encosto. Finalmente o pesar, homenagem mínima que reservamos à memória que nos define. Em aquele breve instante -- e só naquele breve instante -- me dei conta de que meu primeiro morto era alguém (porque tinha alguém que o velasse), pois nada, em nenhum dos casos que contei em 'se texto ou nos vários outros que presenciei, havia uma farpa sequer de reconhecimento do outro, da individualidade, idéias tão caras ao pensamento moderno; da modernidade em crise. Por quanto tempo, pois, aquela mulher faria falta a alguém? «Sem ti, tudo correrá sem ti», 'creveu um dos heterônimos de Pessoa. O cheiro de ela era o cheiro de qualquer morto. Número de frases: 49 Única apresentação dia 26 de novembro para convidados e imprensa no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em abril de 2008 Trilhas do Prata -- A Arte Negra do Sul vai a Montevidéu se apresentar na Sala Zitarosa. E eu tava lá cedinho, bem bonitinha e quietinha, limpinha e cheirosinha naquele templo da aristocracia das artes do Rio Grande, onde se realiza o nosso circuito cultural da fama, geralmente com 'petáculos que custam meus olhos 'meralda e quase nunca vou, de pelada que sou. Mas lavei a égua naquela segunda-feira, único dia que a perpétua gestão do Theatro cede para gaúchos pobres, que os demais dias são da gente granuda, embora se bote um dinheirão lá que não se sabe para onde vai, o teatro seja público, mantido por impostos que eu também pago. às nove da noite e um pouquinho apagou a luz, todo mundo respeitando os tapetes vermelhos, as poltronas lindas, os cristais dos lustres, os balcões e cadeiras (de palhinha, um mimo, coisa ainda do milênio recém passado, do começo do século 20, restauradas por certo). Não tocou celular, que só saíram das bolsas e bolsinhos para aquelas fotinhas que ficam uma 'curidão do cão depois para revelar. Eu tive sorte que as fotos daqui foram feitas por a Rosane Scherer, profissa do Jornal Fala Brasil, cedidas gentilmente para postar no Overmundo sem fronteiras para a gente curtir o que eu curti do visual assinado por Tânia de Castro já que não tenho som do lindo 'petáculo que vi. Vou contar que começa em África. Tambor a millhão e imagem de planícies, negros em lança. Dá um cutuco no pezinho, as anquinhas balançando ni mim e nos bailarinos no palco. Entra um homem muito alta de cavanhaque, quando abre a luz, o maior aplauso, gritaria contida, mas um quase chilique das menos moças: Giba Giba fazendo um contraponto com o vocal de fundo de duas lindas vozes de mulheres negras também belas. E dizendo manso e firme: O negro é como um remo enfrentando a maresia, enverga, entorta e não quebra transforma a vida num dia. O negro é como uma folha que responde à ventania balança, dança e não morre tem a briga por mania é lindo que só o tempo é feito de poesia O negro é uma folia de dores e sentimentos é corpo velho e salgado é jovem querendo vento é busca de liberdade em canto, guerra e lamento ( do meu querido sempre amigo Paulo Ricardo de Moraes) Corta, 'curece a cena, a banda segue o maestro Barreto. E pára. Refinadíssimo som, batera com vassourinhas, tilintar de búzios, guizos, sininhos, tumbadora na selva selvagem, Pindorama país ... E quem vem lá, quem vem lá: Maravilhosa, linda, uma cantante de primeira que já tem mais de meio século de carreira e sempre cada vez melhor, nossa primeira-dama Zilah Machado. Ela encanta, a frágil figura balançando lenta e linda e harmônica e mansamente aquele corpinho que parece de guriazinha, uma passarinha de fragilidade física evidente, uma sabiá de afinado canto. A platéia desaba em aplausos. ( Ouviram?) Segue a festa de cor, luz e som e vêm depois Gelson Oliveira, muito aplaudido, fazendo o meio de campo entre a geração de antigos e novos que 'tá confraternizando na linda festa com a lotação 'gotada do Theatro São Pedro por convidados que se emocionam, choram como vi chorar o Rosa Franco, que encheu o palco logo a seguir do Gelson, tanta emoção sentiu e tanto que fez vibrar e o público respondeu a ele com carinho, aplauso e fiu-fiu de lindo, lindo e mais não sei dizer porque também quase desmaio quando entrou o Dionísio. Esse, meninas: é uma belezura, um quitute, um acepipe de homão dos mais queridos nossos. Ele é de regae, da Banda Produto Nacional, mas fez um samba sincopado que zombou do azar de nós todas. E só não subimos ao palco porque entrou primeiro a Marietti e lascou aquele vozeirão que mais nínguém daqui tem, que nem sei dizer qualé o timbre de tão, tão grave que é. E ela também varia de um modo para os agudos parecendo que Ossanha lhe empresta alguns atributos a mais que as gentes comuns que cantam. Juliano Barreto, o maestro, também meteu legal uma canção, além de dirigir comedido e competente os oito músicos da bando e coral. A programação inédita reuniu 'ses artistas todos num 'petáculo multimídia. Músicos, cantores, produtores culturais, pesquisadores e público em festa com parte importante da arte produzida por negros no Rio Grande do Sul. Passsearam majestosos no vetusto palco para meu deleite e daquela multidão vibrante, uma herança viva da cultura negra daqui em diálogo histórico com a cultura afro-brasileira, olhos postos no futuro. Trilhas do Prata reuniu os intérpretes e compositores Giba Giba, Zilah Machado, Gelson Oliveira, Rosa Franco, Juliano Barreto, Paulo Dionísio e Marietti Fialho. Os músicos e instrumentistas Marquinhos Fé, Giovanni Verti, Tuti Sagui, Lucas Esvael, Luiz Mauro Filho, Hedilsonn. Andréa Cavalheiro e Sara Lacerda, nos vocais de fundo; toda 'sa gente bonita e competente sob a direção musical do Gelson. A dança trouxe os bailarinos Alessandro Correia, Thyago Cunha, Mickael Ramos, e a linda e cobiçada Gisa Dell Mendonça, em coreografia de Heloísa Peres, que também assina a concepção e direção do 'petáculo. Maurício Rosa e Mano Ribeiro na Técnica e Palco. A maquiagem foi da Rosana Antunes. Ana rita Aguiar e Luana Jardim na assistência de Produção. Brilhante e alegre a participação do meu amado Trampo, artista plástico dos mais mais daqui de Porto Alegre com algumas cruzadinhas por São Paulo com influência geral na arte de rua, no grafiti. E descobri, finalmente, que Trampo também dança, um passo de ele, que nem sei descrever 'sa veneta do meu guri. Amei. O 'petáculo todo desenvolveu cinco cenas -- Raízes, Todos os Santos, De Corpo e Alma, Ruas e Esquinas e Ginga e Fé, suportadas por de 16 músicas de gêneros variados entre o samba, o reggae, o jazz, o samba rock, o funk e outros, de autores e intérpretes gaúchos. Os solos e duos dos bailarinos seguiam coreografias inspiradas nos temas musicais populares em fusão com as técnicas da dança contemporânea e jazz. As imagens em telão eram de paisagens nativas, negros ancestrais, natureza de África e daqui, cotidiano social e urbano, cenas de carnaval, todas apresentadas «em fusão poética e harmônica com a iluminação, as coreografias e as músicas, de forma a reforçar os climas temáticos das cenas», como diz de modo elegante o programa impresso do 'petáculo, linda criação do Studio Querosene com fotos do Marcelo Martins. O figurino mostrou vestes típicas de origem africana e trajes urbanos, nas cores vermelha, verde, amarela, preta e matizes. Todas roupinhas confeccionados por Costureiras do Morro da Cruz, uma cooperativa de Porto Alegre que cria figurinos com materiais recicláveis e adereços artesanais. Bah, tchê! Me lambuzei! Parecia picanha na brasa! Tava dizendo isso um pouco em voz alta quando cruzei com Nelson Coelho de Castro e ficamos eu e o cantor e compositor de trova aplaudindo ainda mais os nossos artistas. Valeu o convite, Rosane! Beijo pra tu, minha linda! Ficha Técnica Realização: HD ' ARTE Promoção: Direção Eventos. Concepção e Direção Geral: Heloisa Peres Direção Musical: Gelson Oliveira Dia 26 de novembro -- 21h oras Theatro São Pedro ( Número de frases: 74 para convidados) Que outro 'critor diria com orgulho que seu biografado não gostou do livro? Pois 'se é o jornalista Fernando Morais, lançando em Santos O Mago, que 'miúça em mais de 600 páginas a vida de Paulo Coelho. Em quase duas horas de bate-papo e alguns charutos, Fernando parecia um 'critor falando de seu primeiro livro. Em 2004, começou a acompanhar a rotina de Paulo Coelho, que já havia autorizado a biografia. Com mais de 40 anos de jornalismo e as biografias de Assis Chateaubriand e Olga Benário no currículo, Fernando sabia da importância de documentos para se contar uma boa história. E foi no testamento de Paulo que viu, numa linha apenas, uma menção a um baú (que não era o do Raul), que deveria ser incinerado após a morte do mago. Fernando insistiu, e conseguiu que Paulo Coelho liberasse 'te baú, mas com uma condição: descobrir quem o havia confundido com um guerrilheiro e o torturado no Paraná, em 1969. Adivinhe se Fernando descobriu o paradeiro do major? Ainda fez uma entrevista, tirou fotos e as enviou a Paulo. Com as chaves na mão, Fernando 'tava ansioso para descobrir o que 'tava guardado na arca. «Abri o cadeado, levantei a tampa e começaram a sair fantasmas de dentro». Eram dezenas de cadernos e fitas em que Paulo Coelho registrou sua vida, dos 10 aos 50 anos. Em contato com 'se material, Fernando não teve dúvidas: jogou fora as 200 páginas que já havia 'crito. As revelações mais dramáticas foram retiradas dos diários. Tanto que Paulo Coelho se arrependeu de ter dado as chaves do baú. «Mas o livro não tem uma sílaba que seja fruto da minha imaginação», justifica-se Fernando. Os acontecimentos dos diários são tão pesados que Fernando teve um dilema ético: «Várias vezes me flagrei perguntando se deveria expor a vida pessoal de ele. O livro revela as internações em manicômios quando Paulo era criança, suas tendências suicidas, relações homossexuais, pacto com o diabo, epifanias ... Mas um fator foi fundamental para Fernando 'crever tudo. «Não deveria transferir para o leitor a censura que Paulo Coelho não me deu». Aliás, não seria um contrasenso um ateu como FM 'crever sobre um místico como PC? Foi o que de início preocupou Paulo Coelho. Fernando tem a clara convicção de que foi o melhor. Uma visão cética sobre os acontecimentos era o ideal para a biografia. «Eu fazia perguntas que um cristão não faria», diz Fernando. Com o sucesso da biografia, para novembro 'tá previsto o lançamento do livro em 47 países. Além disso, cinco produtoras de cinema -- entre elas uma americana -- já revelaram interesse na adaptação da obra. Mineiro de Mariana, FM é humilde com seu mérito: «Eles 'tão interessados é na vida de Paulo Coelho». Mesmo assim, Fernando afirma nunca mais 'crever sobre uma pessoa viva. Para o futuro tem em mente uma biografia de Antônio Carlos Magalhães, que antes de morrer havia aceitado a proposta. Porém, o momento mais 'perado do dia foi o meu, ao pegar o autógrafo no A Ilha. FM: Olha só, edição de bolso! MG: Pois é. Sabe que eu comprei 'se livro há mais de seis meses e ainda não li? Mas vou ler sim, ainda mais agora. FM: Que bom. MG: Brigado. A mineirice ficou ainda mais latente no autógrafo: «Caro Márcio: 'pero que você goste. Com o abraço do FM. 2008 "; Publicado também em www.vinilliterario.wordpress.com Número de frases: 52 Revisão: Talita Alves Grupo Lariô da Tartaruga Lança Cd em Pirambu Projeto contou com o patrocínio do Banco do Nordeste, através do Programa BNB de Cultura Pirambu, 02/07/2007 -- O Grupo Folclórico Lariô da Tartaruga vai lançar o seu primeiro CD ao vivo no próximo dia 07 (sábado), no Clubinho da Tartaruga, município de Pirambu (SE). O evento 'tá marcado para 18h e deverá contar com a participação 'pecial do Batalhão de Bacamarteiros de Aguada -- Carmópolis, que fará um cortejo por as ruas da cidade junto com o Lariô da Tartaruga. A iniciativa faz parte do Projeto «Unhas, Dentes e Canções em Defesa da Cultura», patrocinado por o Banco do Nordeste, através do Programa BNB de Cultura, e que tem como objetivo divulgar o Grupo Folclórico, visando o seu desenvolvimento sustentável e criando oportunidades para apresentações em outras regiões. O patrocínio incluiu a produção de mil cópias do CD com repertório que reúne cantigas inéditas e tradicionais do grupo. Os recursos adquiridos com a venda dos CD ´ s serão revertidos diretamente para o Lariô da Tartaruga. De acordo com a idealizadora do projeto, Dayse Aparecida dos Santos Rocha, além da produção e lançamento do álbum, o BNB também patrocinou a realização de cinco oficinas para 'tudantes e professores de Aracaju e das comunidades de Pirambu e Pacatuba, ministradas em dois momentos. Primeiro, foram repassadas informações teóricas sobre o histórico do Lariô, a formação e a origem. Em a outra etapa, os alunos aprenderam a dançar: a entrada, o pesqueiro, a dança de par, o batuque e, para finalizar, o efervescente marimbondo, seguido da despedida. «O CD é a concretização desse trabalho. Finalmente, depois de muita luta, noites sem dormir, é como um filho que vejo nascer», comemora Dayse. Além de Pirambu e Pacatuba, também foram beneficiadas com o projeto as cidades de Carmópolis, Santo Amaro das Brotas, Estância, Barra dos Coqueiros, Laranjeiras, São Cristóvão, Brejo Grande e Japaratuba. O LARIÔ Com características próprias da região, o Lariô da Tartaruga mistura um pouco do Batalhão, samba de coco, Batuque e Cantiga de Roda. Os integrantes, em número de 20 pares, dançam ao som do ganzar, afoxé, atabaque, agogô e porca, obedecendo ao som do apito do mestre para a troca de damas durante a dança de roda. Os ensaios são realizados no Clubinho da Tartaruga e chegam a durar cerca de quatro horas seguidas. O grupo é formado por pescadores, aposentados, beneficiadoras de camarão, crianças e adolescentes com idades que variam entre nove e 80 anos. «Quando as pessoas iam tapar casas de taipa, os amigos faziam mutirão. à noite, para garantir que a casa tivesse um piso compactado, todos se reuniam com seus instrumentos (pandeiro, um tronco oco com borracha de câmara de ar de pneu, e alguns improvisos) e pisavam firme, dançando o batuque, a brincadeira de roda e a brincadeira de par. Assim começou o Lariô», explicou Dayse Rocha. Segundo ela, o grupo folclórico foi reorganizado a partir de 1995 com o apoio do Projeto Tamar/Ibama e Petrobras e, desde então, tem sido uma referência no folclore de Pirambu. Número de frases: 24 Em 2001, participou da I Mostra de Música Sergipana em São Paulo, com o show «Lembranças de Pirambu», quando gravou o primeiro CD ao vivo que será lançado agora com o patrocínio do BNB, Tamar / IBAMA e Petrobras UN -- SE /» AL. «Em 1953, quando o neoparnasianismo de 45 'palhava prodigamente suas flores de retórica, Zila Mamede 'treou em livro, com Rosa de Pedra». ( Ney Leandro de Castro -- com a devida citação). Começava ali a trajetória da poeta, como gostava de se intitular. De verso limpo, elegante, despido de exageros e redundâncias formais, profundamente ligada ao tema terra-mar-infância-solid ão, Zila foi, antes de tudo, uma lutadora. Final da década de 50, Zila trouxe na sua bagagem um diploma de bibliotecária para Natal. Pioneira e combativa, deu início a um trabalho novo, técnico e extremamente 'pecializado, encarado por muitos como uma simples atividade de arrumar livros em 'tantes. Zila parecia falar grego para as pessoas de que dependiam concessões, autorizações e financiamentos. Mantendo um fino trato com as palavras e com a biblioteconomia, Zila cometia seus versos na mesma medida que organizava os «livros». Única bibliotecária da cidade, em 1958, foi nomeada chefe do Serviço Central de Bibliotecas. Em 'sa mesma época, Salinas; seu segundo livro, repleto de solidão e até um certo desespero. A poeta avançava no seu domínio verbal e já incitava um certo apelo telúrico. Pouco tempo depois, em 1959, O Arado. Considerado um momento alto da poesia brasileira, Zila toma posse da lavra da terra, «substitui a vastidão envolvente do Atlântico». Em 'sa hora, a poeta «faz do verso o instrumento com que molda» os objetos da poesia, tematizando sua infância de pedra, sertaneja, sua geografia sentimental ... O Exercício da Palavra viria mais de 15 anos depois. Esse período de latência, segundo os críticos não deixou o livro impune; «peca por falta de unidade, por dispersão temática», mas traz a marca inconfundível da grande poeta, admirada por nomes como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Manteve com os dois últimos, intensa correspondência. Três anos se passam e Zila arremata com Corpo a corpo. Definido por ele mesma como «uma volta sem mágoa» a cada um dos lugares que marcam seu itinerário poético. O mar foi um capítulo à parte na vida de Zila. Exercia um verdadeiro fascínio desde sua infância, mesmo não tendo visto. As crianças que voltavam de suas férias à beira-mar relatavam seus episódios praieiros. A Zila, só restava imaginar. Certa vez, viajando para Recife, viu uma superfície ondulada, que se movimentava ao sopro do vento. Perguntou ao pai se era o mar. Não. Era um canavial. Poucas horas depois a menina de 12 ou 13 anos 'taria em frente ao oceano. Desde então o mar passou a ter presença contínua. Todas as manhãs a poeta caminhava na Praia do Forte e dedicava alguns minutos à prática da natação. Até que em 13 de dezembro de 1985 Zila mergulharia para sempre. Foi levada por o mar que tanto tamatizou em sua lírica. Corajosa e precursora, tornou-se, merecidamente, um dos maiores nomes das letras potiguares. Mesmo nascida na Paraíba, foi no Rio Grande do Norte onde Zila traçou suas linhas. Banho (rural) De cabaça na mão, céu nos cabelos à tarde era que a moça desertava dos arenzés de alcova. Caminhando um passo brando por as roças ia nas vingas nem tocando; reesmagava na areia os próprios passos, tinha o rio com margens engolidas por tabocas, feito mais de abandono que de 'trada e muito mais de 'trada que de rio onde em cacimba e lodo se assentava água salobre rasa. Salitroso era o também caminho da cacimba e mais: o salitroso era deserto. A moça ali perdia-se, afundava-se enchendo o vasilhame, aventurava por longo capinzal, cantarolando: desfibrava os cabelos, a rodilha e seus vestidos, presos nos tapumes velando vales, curvas e ravinas ( a rosa de seu ventre, sóis no busto) libertas em 'se banho vesperal. Moldava-se em sabão, 'tremecida, cada vez que dos ombros 'correndo o frio d' água era carícia antiga. Secava-se no vento, recolhia só noite e 'sências, mansa carregando-as na morna geografia de seu corpo. Depois, voltava lentamente os rastos em deriva à cacimba, se encontrava nas águas: infinita, liquefeita. Então era a moça regressava tendo nos olhos cânticos e aromas apreendidos no entardecer rural. O poema acima consta do livro «Os cem melhores poemas brasileiros do século, Editora Objetiva --Rio de Janeiro, 2001», pág. 141, organização de Ítalo Moriconi. Número de frases: 72 Há anos uma boa parte do público não suporta ouvir as mesmas coisas, quase sempre aquelas 30/ 40 músicas 'colhidas como os hits do momento. Pior que são 'colhidas não por o público -- por mais que achem que é, mas por executivos e empresários que definem as faixas de trabalhos de seus principais artistas. Muitas destes artistas são obrigados a voltar ao 'túdio ou a procurar compositores para encontrar aquele modelo que os tais executivos definem como a fórmula para fazer sucesso. Depois disso o processo é simples: pagar às rádios e TVs para tocar o velho e detestável jabá. Que não é privilégio só brasileiro. Em os Estados Unidos, quatro das principais redes de rádio (Clear Channel Communications Inc., CBS Radio, Citadel Broadcasting Corp. e Entercom Communications Corp), que englobam mais de 1,6 mil emissoras, concordaram em pagar uma vultosa multa de US$ 12,5 milhões para encerrar uma investigação sobre a prática do jabá por lá. A iniciativa objetiva inibir a prática de veiculação ilegal de música e tornar transparente o relacionamento das rádios com gravadoras e artistas. Além da multa, maior já paga na radiodifusão, o acordo também vai limitar os presentes recebidos por as rádios em troca de veiculação de músicas, entre outras ações. Em o ano passado, a gravadoras Universal, Sony BMG, EMI e Warner já haviam pago uma multa de US$ 30 milhões também contra o jabá Alem da multa, as quatro redes de rádio também se comprometeram a ceder de graça 8,4 mil blocos de meia hora para artistas locais e independentes dentro da programação normal. A iniciativa visa exterminar com a monocultura que impera nas rádios. Será que funciona? Em o Brasil dá para se perceber bem a relação de músicas mais tocadas em rádio com os discos mais vendidos. Basta ver as duas relações e comprar, os artistas que tocam muito nas rádios são justamente alguns dos que vendem mais discos, incluindo ai também os que tem apelo através da TV. Ou seja, a lógica das gravadoras é pagar jabá, tocar nas rádios e como conseqüência vender discos. Todo mundo sabe disso, menos o grande público. E o que temos de 'perança? Em os Estados Unidos há uma lei anti-jabá desde 1950, no Brasil há uma lei tramitando no Congresso para proibir o jabá. Para alguns a Lei 1048/2003 do deputado federal Fernando Ferro não vai resolve ro problema, mas o fato é que com uma lei impondo e definindo regras fica mais fácil controlar e cobrar mudanças. Número de frases: 21 Em a Semana da Cultura de Camaçari, de 2005, creio eu, encontrei-me com o Grande Bule-Bule para assistir ao Concerto de Elomar, outro Menestrel. A o final do Concerto (e você que diga que é show na frente do " Bode-Véi "), Bule me levou para falar com Elomar e eu fui, falei, abracei e pronto. Uma série de pessoas começou a falar com o cabra, quer dizer «Bode», e resolvi me afastar. Após fotos e mais fotos, Bule conseguiu sair e fomos seguindo. Novamente na rua, Bule pára para conversar com uma moça (muito doce ela, porém sou péssimo para guardar nomes). Em a hora de me apresentar a ela, Bule fez referência ao meu distante parentesco com o Elomar: -- É primo de Elomar 'se muleque! Antes de quaisquer suposições, complementei: -- Até que pode ser primo mas é distante. E falando em distância, no que diz respeito ao contato pessoal, a proximidade, se você for comparar, o Bule é meu irmão enquanto ele ... é um primo distante. Bule-Bule deu uma risada gostosa, um abraço e continuamos andando. Número de frases: 12 Uma história personalíssima do desbravamento do sertão goiano Queria falar de um Brasil profundo, um Brasil engolido por o tempo, soterrado por uma palavra que encobriu misérias e enganos monumentais. A palavra é progresso, uma das pernas ufanistas da inscrição na nossa Bandeira, o símbolo augusto da pátria que cantamos no Hino. E 'se Brasil é mais profundo ainda se encravado no miolo de um País continental, num tempo em que o sertão era mais que 'ses ermos e gerais de meu Deus. Esse Brasil eu não vivi, mas veio legitimamente na corrente sanguínea e na memória coletiva de uma família que palmilhou o chão duro do sertão e enveredou por a difícil travessia do Paranaíba, o rio grande que divide Minas e Goiás e que os daqui chamavam além Paranaíba. E aqui há que se apelar para uma arqueologia afetiva. Queria muito 'cavar com método, cartesianamente, o poço de 'sa história a que me remete um simples objeto: uma placa de carro de boi, do tempo em que os carros de bois eram emplacados como os automóveis. Mas o que é a vida, senão 'sa errante e delirante travessia? O monumental Grande Sertão: Veredas é a história de 'sa travessia em que o sertão 'tá em toda parte. O anjo torto Carlos Drummond de Andrade, benzido por o 'pírito das profundezas de Minas, reconhecia na sua história pessoal enredo mais lindo que a 'tória de Robson Crusué, no cotidiano de um pai que montava a cavalo e de uma mãe que cuidava da casa e das crianças. Pois 'sa história de um Brasil profundo que queria contar ('cavar) é a história de uma travessia que se liga (e me religa) a um mundo perdido. Um mundo que puxo por os confusos fios da memória. E mais ainda: as memórias nem sempre confiáveis da infância. Uma travessia no tempo, entranhada de sentimentos e da certeza de uma relíquia íntima, como a certeza de Drummond que em menino não sabia que sua história era mais bonita que a de Robson Crusué. Despindo o olhar afetivo, emocional e o recorte personalíssimo, o que fica de 'sa história é o 'queleto de um Brasil profundo, um retrato 3x4, em branco e preto, de como caminhava 'se Brasil de dentro há 60 anos, com as mesmas disparidades e desigualdades -- hoje, claro, assumindo outros enredos e variantes. A expansão do capital se dava a passos lerdos, mas firmes, na toada das tropas e boiadas que levantavam o poeirão vermelho do contínuo sertão mineiro e goiano. E a sempre difícil travessia do Paranaíba. E de todos os ângulos que se olha, o progresso não deixa de ser uma 'tranha miragem, sempre muito relativo. E no recorte de 'ta minha história tateio emocionalmente questões que vão além da saga tropeira responsável por a ocupação e povoamento de Goiás. Ali, no cotidiano de uma grande família os fundamentos do patriarcalismo autoritário, as 'púrias relações entre fazendeiros e agregados, as questões de gênero, a infância à margem de um mundo duro e profundamente encantador. E foi seguindo 'ta plaquinha do carro de boi do meu avô que me despertou o forte desejo de visitar as trilhas do sertão de Hugo de Carvalho Ramos, que em 1917 publicou Tropas e Boiadas, livro referencial do regionalismo -- 'te ano completou 70 anos de sua publicação e já é de domínio público -- e reverenciado por Mário de Andrade como leitura 'sencial para quem quisesse compreender o Brasil de dentro, isso já em 1942, num dos congressos de 'critores. Ali, em Tropas e Boiadas, revisitei a alma e o mundo de meu avô. Percorro o imaginário desse mundo perdido e 'barro em tantos sinais. Em o último final de semana fui surpreendida por um carro de boi com todos os vestígios daquelas 'tradas poeirentas do sertão que era Goiás há 50 anos numa das pracinhas do condomínio onde moro (condomínio de chácaras) nas proximidades de Goiânia. Não resisti. Fui lá fotografá-lo e observar detalhes como a ferrugem das correntes, o azeiteiro feito de chifre de boi, que tinha como função lubrificar o eixo. Esse carro de boi aposentado vai virar peça de decoração no jardim da casa de alguém que também tem o pé na roça e uma ponta preciosa de orgulho desse Brasil profundo trilhado por nossos antepassados. E não há melhor forma de se contar uma história do que se deixar levar (possuir) por ela. E 'ta não me deixa margem para objetividade. Ara! Acho que só a poeira e a ferrugem históricas materializadas em 'ta plaquinha aí da foto (que compartilho aqui) já justificam o postado -- como diz o overamigo Adroaldo Bauer. E o que importa mesmo é o nome de nossos bois e o rastro fecundo de 'sa brava gente brasileira que fez e faz um Brasil que não 'tá nos livros, que gera riquezas, descendências e um orgulho brioso de desbravador. Bem que o nome de um dos bois de meu avô poderia ser Brioso. Estava de bom tamanho! O País dos horizontes ( Araguari, 1944, carro de boi 108). Quanta chuva, poeira fina, lamaçal e inexistência de 'trada nos sonhos do meu avô e no pragmatismo sem nome e impotente da minha avó, que o seguia. Mas no fundo daquela falta de rumo e prumo, no 'mo da vida feita de vontades desgovernadas, o dirigia com doces mãos de ferro! Quanta metafísica de tudo isso na minha história, na saga tropeira do meu avô tangendo o boi bravo da vida exigindo o futuro andante das gerações. Quanta ferrugem, meu Deus, rangendo desde o mais profundo tempo das Minas Gerais até à travessia das almas que fecundaram em Goiás! Quanto pasto ruminou os bois carreiros, quanto choro de criança, resmungos e explosões de fúria da minha avó! Quantos silêncios e desatinos do meu avô! Quanto descompasso na toada do canto dos carros e no lombo daqueles bois e daqueles dias que viraram lenda perdida na memória dos que a viveram! Quantas exclamações disfarçando perguntas sem respostas! E quantas ave-marias, pais-nosso, salve-rainhas, rosários de contas e lágrimas nas rezas de minha avó? E 'peranças, muito mais que sonho, na travessia em definitivo do rio Paranaíba? E mais que um retrato, um 'tado de alma, Minas virou a imensa e inatingível pátria do meu avô, que jamais reencontrou em suas visitas, porque 'tava dentro, entranhada nas raízes que ficaram lá atrás, antes daquele momento da poeira fina da 'trada grudando como nódoa naquela alma surrada. Assim, nos habituamos às histórias de meu avô Belisário, em que tudo era pretexto para Minas. Não comprou terras em Goiás, porque terra boa, de cultura, era de Minas. E água? Ah, água boa era a de Minas. Não sei, toda vez que penso em Minas, sinto água brotando de 'condidas grotas dentro de mim, gotejando fria, atingindo os ossos da eternidade. Ainda vejo o meu avô, aquele chapéu bailarino no longe -- longe, relampagueante e corajosamente único sobressaindo-se no meio da boiada, um mito que queimou e queima como brasa o sopro lírico de nossas vidas. Escuto ainda, como num sonho, as histórias de brabezas e valentias daqueles homens de sertão, de silêncios e de ermos. Escuto, querendo tocá-lo, meu Deus! Os seus passos no corredor do alpendre que adiava a casa beirando uma eternidade; tento segui-lo, já atravessando a sala, mas paraliso todos os músculos, como fazia quando criança, enquanto ele passava por nós, destemido e temido como um deus. Bastava rascar a garganta, que a gente sumia. E se soltasse aquele temido merda expressando o seu profundo desagrado com as nossas artes, aí tudo 'tava perdido e só restava mesmo a proteção das barras da saia da minha avó, às voltas de quem ficávamos, até que o dia 'corresse e o velho Belisário envolvido com a lida da fazenda nos 'quecesse por completo. Ufa! Era um alívio. E a vida recomeçava sempre igual naqueles cafundós de quintais, beira de rio, o Capivari de perigos insuspeitados; vasculhar os campos atrás de passarinhos, embrenhar nos brejos, o sonhar acordado com os olhos pregados naquelas neblinas de manhãs. O nevoeiro denso que vinha lá das bandas do rio e chegava até os beirais das janelas nos enchia de um fascínio de ver. Só reencontrei 'sa sensação das neblinas daquelas manhãs ao ler As Brumas de Avalon. Em pensar que a minha barca de passagem para 'se mundo perdido é um simples objeto com a gravação do nome do lugar, a data e um número de inscrição ... A imagem da neblina misturada à fumaça 'vaindo-se do fogão à lenha e o café no bule eternamente sobre a chapa quente chega a me inebriar. E havia também aqueles confins de tardes, onde nos erigíamos pequenos gigantes do país dos sonhos, trepados nos bancos areados da sala para compensar a desvantagem da pequena 'tatura. Debruçados, como anjos suspensos, nos janelões de madeira de lei, intuíamos um mundo depois daquela árvore, daquela curva, pra lá do funilzinho da 'trada, já sumindo como um risco ... Ali, descobri o país dos horizontes. E nunca, nunca mais perdi a sensação aliviada das janelas e das 'tradas. (In) consciente mineiro -- Minas não há mais daquele jeito -- que tanto reencontrei em Drummond e Guimarães, com os vestígios das histórias de meu avô, coisas do (in) consciente coletivo mineiro, que anda de trem -- de novo a imagem das janelas e das paisagens -- e faz da mineirice um 'tilo de vida. Quantos cortes e recortes, em 'sa desordem lírica das minhas palavras, que não domino e nem calo. -- Gente, vai lá, arranja um cafezinho. Ouço. E é o meu avô, com o seu jeito mineiro de ser agradável e querendo 'ticar conversa. Não imagina com que gosto 'talo a língua e pronuncio o seu nome, como se ouvisse os cascos dos bois batendo lentamente na dureza da jornada, que deságua agora aqui, nas minhas palavras comovidas ao tocar com devoção um objeto quase sagrado: a plaquinha vermelha, a tinta intacta, o vazio do relevo das letras, onde dormem um pouco da poeira e da ferrugem do tempo, daquele seu tempo, querendo expansão e expressão: Araguari 1944, carro de boi 108. Por 63 anos 'ta placa, do tempo em que os carros de bois eram emplacados, como os automóveis, repousou 'quecida em outra fonte de mistério que aguçou a imaginação da minha infância: a caixa de madeira tosca, trancada a cadeado, ao lado da cama do meu avô, onde pensei que guardava grandes tesouros. Ouro, diamante e perigos que eu temia só de 'pichar para ela o olho, como se o próprio Deus a vigiasse. Hoje sei que guardava um revólver calibre 38, com cabo de madrepérolas, e também o pavor da minha avó tantas vezes resgatando aquela arma das suas mãos em momentos de entreveros e cabeça quente. O curioso inventário daquelas miudezas: duplicatas de dívidas que ele nunca recebeu; certidões de casamento, nascimento e óbitos; fotografias, em branco e preto, amareladas -- algumas com os ditos cujos no caixão, como o costume da época; a binga, o canivete, maços de cigarro que ganhava de presente e até mesmo latas de marmelada -- que ele comia devagarzinho, um luxo naqueles tempos. E o mais precioso segredo guardou aquela caixa: a minha imaginação. Os planos secretos que urdíamos à sombra de frondosas mangueiras para desvendar os mistérios do sistemático e severo avô, em que sua palavra tinha força de lei e traçava destinos, como o da minha tia caçula que se casou com um primo de Minas para satisfazer e honrar única e exclusivamente a vontade Belisarina. Bom, os planos, meu e dos primos, nunca passaram de fugazes intenções momentâneas afugentadas por o medo do imperador daquele reino. Minha tia cumpriu os ritos de se perpetuar nas gerações, sem perder a nostalgia daquele mundo da casa branca de janelas azuis, que se avistava ao longe como uma promessa de sonho. A mesma casa que visito agora, com todas as cores e cheiros da alma, de 'sas de descrever as minúcias insignificantes dos objetos, como o amassado dos dois bules coloridos, um verde e o outro azul, o de café amargo para os homens e o adoçado para as moças. As marcas provocadas por o fogo nas panelas de ferro, os pratos de 'malte branco lascados, as flores bordadinhas no 'malte dos copos, a banqueta de cruzeta ao lado do fogão à lenha onde por a nossa física tinha que caber três, depois dos noves fora da briga com a prima que não era a predileta. E agora seu Belisário? O que faço desse tesouro na fundura da alma? Escavá-lo com palavras é o que me resta, embora quisesse muito outras possibilidades de tocá-lo, fundo, além de 'sa placa que materializa Araguari 1944, o carro de boi 108. E isso já é uma outra viagem. Travessia seca -- Dia desses procurei uma tia, a mais velha -- queria tanto que minha mãe 'tivesse aqui!-- e tentei acordar-lhe um pouco da memória, com uma conversa e perguntas que ela deve ter 'tranhado demais. Mas penso que, naqueles seus doces anos de menina, adolescente, não quis reter muita coisa daquela jornada tresloucada da família, já numerosa. E nos 'pantávamos com o mesmo recente 'panto dos outros por a matemática dos 19 filhos que teve minha avó Maria. Em um carro de boi, puxado por parelhas de oito animais, a família saiu lá das bandas de Araguari e se aventurou com um irmão do meu avô -- 'se sim, o temido Joaquim Vicente, que já morava aqui e serviu de guia por 'tradas que 'tavam mais na intuição e no desejo do que propriamente no traçado --, até chegar a Santa Luzia, hoje Aurilândia, no Oeste Goiano. A data da viagem foi 'colhida para o período das secas, tempo propício para os carreiros que continuavam a desbravar os sertões de Minas e Goiás. Segundo Ana, minha tia, a viagem durou sofridos 23 dias -- entre os meses de junho e julho. Não sei, mas fiquei com uma impressão na alma de 33. Tenho uma intuição de memória confusa de ter ouvido narrativas da minha mãe sobre vagas lembranças de 'sa viagem e de ter falado em 33 dias. Hoje, o mesmo percurso é feito em quatro horas de automóvel. Mas em todo o caso, uma jornada e tanto no passo lento e determinado dos bois tangidos por a perícia de meu avô, um brabo domador de animais, gentes e destinos. Uma lembrança tem a preciosidade de sentinela da memória. Passaram por Trindade em plena festa do Divino Pai Eterno, que começa no último final de semana de junho e termina no primeiro domingo de julho. Portanto, julho de 1944. O ano em que meu avô emplacou o carro, colocou a canga nos bois, juntou a família e as trouxas e deu início à saga da família. Sei que foi uma jornada penosa para minha avó e suas crianças, que vivia a sina de um filho na barriga, outro no braço e outros na barra da saia, sem contar o gênio forte do meu avô. Mas nunca foi uma mulher triste e nunca se deixou dominar por o marido, apenas reinava de um outro modo. E quem de fato fazia e acontecia era a força perene e feminina de Maria. Moldou os filhos, as gerações e as nossas almas. E quando sabia que meu avô ia fraquejar, endurecia e pegava no chifre do boi, vencendo até mesmo intricadas barreiras de negócios mal feitos travados no emaranhado desvantajoso dos parentescos. Foi assim, com sua franqueza e habilidade, colocadas em cena na hora certa, que livrou muitas vezes o meu avô de sair de negócios com uma mão na frente e outra atrás, como se dizia antigamente. Era vaidosa a minha avó, de uma vaidade sadia. Adorava vestidos novos, perfumes e mais que tudo, viajar. E tinha orgulho da façanha de 19 filhos perpetuando a corrente das gerações. E isso, sim, era felicidade. Não uma felicidade qualquer, de 'sas fugazes, que a gente compra e depois descarta. Mas uma felicidade feita de alma e presença e certezas de que aquilo era muito bom. Felicidade viajando no sangue, de geração em geração, entranhada na memória afetiva, abrindo as janelas daquele país feito de horizontes. Os horizontes que meu avô deve ter vislumbrado nos Gerais ficando para trás e nos chapadões de Goiás virando realidade. Os horizontes que eu toquei do parapeito das janelas daquela casa que veio muito tempo depois de sua linda aventura na travessia seca do Paranaíba. Lamento muito não ter guardado minuciosamente as suas histórias, como as preciosas quinquilharias que guardou na sua caixa misteriosamente mágica, ainda hoje, mesmo depois de aberta, e desvendado todos os segredos. Que pena, eu não saber os nomes dos seus bois! Que pena! Em pensar que também o Brasil é sempre uma surpresa, principalmente nas suas disparidades. Olha que fui buscar nos livros um pouco do Brasil de 1944, coisas do cotidiano, e no mesmo julho em que chegava ao seu destino, tangendo os seus bois carreiros, o Brasil 'tava mergulhado na Guerra, com os seus pracinhas embarcando em aviões para lutar nos campos da Itália. Enquanto tangia os seus bois por os sertões de Minas e Goiás, aviões riscavam o céu de um outro Brasil que nunca chegou a conhecer. Fechei o livro, 'queci o ar de enciclopédia que pretendia para 'te texto e sinto que o mais importante mesmo era o seu sonho, a sua determinação, e o nome de seus bois. A bênção, meu avô! Fico aqui, a contemplar imagens do coração e da memória, enquanto os meus dedos passeiam amorosamente por a placa do seu carro de boi, o carro da nossa aventura, da nossa história, com os resíduos da poeira da sua 'trada e da ferrugem que vai nos comendo de todo jeito, por as beiradas e por dentro. Mas que tesouro! E é meu, cuidadosamente desembrulhado agora com palavras. Número de frases: 140 Fórum Permanente De Culturas Populares do Estado De o Pará Comemoraddd1 Ano De Ações em Capanema. Reunião em Capanema conta com a participação do Fórum Permanente de Culturas Populares do Estado do Pará, a Secretaria Estadual de Cultura, o Ministério da Cultura no dia 10 de março de 2007, no auditório da Casa do Comércio, em Capanema / PA, no horário de 08 às 18 horas, evento organizado por a Comissão Pró-Forum de Culturas do Nordeste Paraense re-unirá gestores e produtores culturais do Estado do Pará para implantar o Fórum de Culturas populares na Região do Salgado -- Nordeste Paraense através da 2ª Oficina Regional Com Gestores E Produtores Culturais De o Nordeste Paraense. O Representante do Fórum Permanente de Culturas Populares do Estado do Pará será o Pesquisador, jornalista, Editor e Comunista Carlos Pará, eleito na plenária do Fórum, que já representou o Fórum no Grande Encontro em Santarém Novo, Nordeste Paraense, Região do Salgado, nos dias 15 e 16 de Dezembro em 2006, onde reuniram os representantes do Fórum Permanente de Cultura, Carlos Pará, do MINC, Beth Almeida, Delson Cruz, Alberdan Batista, do Sistema Nacional de Cultura -- SNC, Salete Miranda, Representações de diversas entidades de Quatipurú, Marapanim, Bragança, Belém, envolvendo produtores culturais, mestres de Carimbó, Pesquisadores, Comunicadores Sociais, Professores, Gestores Culturais, participando da Iª Caravana da Cultura do Nordeste Paraense e da Oficina Regional com Gestores e produtores Culturais dos Municípios do Nordeste e Salgado Paraense e da abertura do 5º FESTRIMBÓ de Santarém Novo, onde acompanhei as discussões e os discursos de questões gerais sobre a cultura, e de temas 'pecíficos, que considera o Carimbó como parte relevante do patrimônio imaterial brasileiro, envolvendo tradições, saberes, música, dança, poesia, meio-amabiente, etnias, o que 'tá sendo solicitado junto ao IPHAN por a Irmandade de São Benedito (Santarém Novo) e por outras instituições e grupos ligados a 'sa manifestação popular, componente 'sencial da nossa identidade cultural principalmente no Nordeste Paraense do Pará. Acompanhei as demandas, as críticas e projetos de outros municípios. A Caravana foi importante no sentido de ir ao local com o objetivo de reunir os atores culturais da região e buscar sua integração e articulação no processo de implantação do Fórum Permanente de Cultura e do Sistema Nacional de Cultura em nível local e regional, fomentando a Criação de um Novo Fórum Permanente de Culturas da Região do Salgado, novas Conferências para discutir o Carimbó no Estado do Pará e outras questões culturais, ambientais e políticas, a necessidade de criação de Fundos Municipais e Estaduais de Cultura assim como a preparação de instrumentos de elaboração, execução de projetos e o acompanhamento das políticas culturais dos municípios, do Estado e do País, permitindo a participação popular na gestão da Cultura numa vontade, numa iniciativa das próprias comunidades em aderirem a 'se processo. Essa integração possibilita o Fórum divulgar as ações do próprio Fórum no interior do Estado, como também para divulgar programas, projetos, prêmios, editais, formas de financiamento, intercâmbios e outras iniciativas que podem garantir 'sa participação popular de atores e autores de centenas de municípios do interior para o processo político, para a produção cultural, facilitando o exercício dos direitos do cidadão, e colaborando cada vez mais para a não exclusão de tantos grupos. Para isso devemos ter uma mala-direta e os encargos do correio nulos, não dependendo exclusivamente da Internet como meio de Comunicação. O FPCP objetiva contribuir para a interação dos diversos grupos e atores culturais paraenses, com a finalidade de facilitar o acesso à formação e informação qualificadas, que pode contribuir no processo de implantação e co-gestão do Sistema Nacional de Cultura em nosso Estado, e influir efetivamente na elaboração de políticas públicas, municipais e 'taduais, sob o viés da diversidade e valorização das Culturas locais, no caso, as Identidades. Em vista disso, considerando que não só os governos, o «Poder Público», mas principalmente os Movimentos Sociais, a Sociedade Civil Organizada, os atores e autores da nossa Cultura, devem desempenhar papel decisivo na salvaguarda e resistência da cultura tradicional e popular e atuar o quanto antes, nas gerencias políticas, adotando medidas legislativas, principalmente a que tem por objeto a Cultura, a Educação, a Economia e a Comunicação. O Fator Econômico, através dos mecanismos de financiamento e patrocínio direto ou indireto (leis de incentivo, editais, fundos, programas ...) ou de outra índole que seja necessária de acordo com a vontade e das práticas locais, respondam as expectativas das Comunidades, principalmente agora, em que há um novo Governo no Pará eleito por o Povo, um Governo que se propõe como democrático e se dispõe a uma política de integração das Regiões juntamente com o Governo Federal que defende o mesmo Projeto. O Fórum precisa encaminhar à Governadora Ana Júlia e ao seu novo Secretariado, aos ministérios do Governo Federal e ao próprio Presidente Lula demandas e projetos-lei para beneficiar a Cultura Popular." preciso que o Fórum se torne reconhecido com 'se movimento na Opinião Pública, e a torne conhecida nas organizações ou instituições que se ocupam da cultura tradicional e popular e que fomentem o contato com as organizações amazônicas apropriadas que se ocupam da salvaguarda de 'ta, assim como sua propriedade intelectual. O Fórum De Cultura em suas participações, através de seus representantes, deve levantar relatórios, pesquisas e publicações dos eventos, fazer o registro fotográfico, sonoro, audiovisual, para manter em nosso Banco de Dados Socializado. Registrar a Linguagem das demandas sociais, oriunda das leituras comunitárias, a partir de relatos que os cidadãos fazem de como compreendem a cidade, seus problemas e potencialidades. Em o evento será disponibilizado o uso de materiais impressos e digitais. O material das instituições presentes será exibido em data-show e no final do evento srrão gravados em CD todos os arquivos apresentados e distribuídos para as representações Em o final das aresentações, será redigido a Ata de Implantação do Fórum de Culturas do Nordeste Paraense e a comemoração de 1 Ano de Ações do Fórum Permanente de Culturas do Pará. A partir da organização e da vontade do pessoal de Santarém Novo como movimento social organizado, o Evento decidiu encaminhar um manifesto com assinaturas dos representantes e num próximo momento realizar com todas as cidades que tem o Carimbó como principal manifestação cultural, como Marapanim, Quatipurú, Ilha do Marajó, Santarém Novo, numa tentativa de somar 'forços junto ao Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional, fazer o registro de 'sa Cultura como Patrimônio Cultural do Brasil. Em aquele debate, ficou evidente a necessidade de construir um Fórum Regional de Cultura na Zona do Salgado, que de forma empírica podem elaborar um Plano de Cultura, que possam atender seus diversos aspectos sociais, econômicos, ambientais e portanto Culturais. Esta Região conta com o Apoio da Comissão Nacional de Populações Tradicionais -- CNPT, que abarca a diversas áreas da Zona do Salgado, mesmo havendo guias divulgados por o Ministério da Cultura e IPHAN com as orientações, no que diz respeito à elaboração de Projetos e Solicitações de Registros, direcionados para os cidadãos de 'sa rica região, que precisa ser melhor vista por o Poder Público, através de ações diretas de Patrocínio e Investimentos 'truturais, a realidade de nossos hermanos ainda é diferente da nossa por não possuírem instrumentos que a sociedade moderna exclui, computadores, internet, impressoras, Pontos de Cultura, Uma outra tentativa do Fórum trabalhar em 'te sentido, é fazer parcerias com o Sesc e o Sebrae que possuem sedes em diversos municípios do interior do Estado do Pará e trabalham com cursos profissionalizantes, consultorias, ações culturais. O Fórum visa a formação de um grupo misto de técnicos e Movimentos Sociais, articulados com Pontos de Cultura, Centros Populares de Cultura, formando uma rede de cultura embalando nossas ações para discutirem e pactuarem propostas. É evidente o conhecimento por parte da nossa equipe e a dificuldade de implantar um método de elaboração participativa que coloca as demandas sociais como o fundamento, a origem, de todo o processo de construção do Fórum Permanente de Cultura e de um Sistema Estadual e Nacional de Cultura. O Fórum incorpora o termo Participativo, a partir das construções realizadas ao longo das discussões feitas com os produtores culturais, os movimentos sociais, o Poder Público. Dispor de dados que lhes permitam compreender o processo da tradição e de suas mudanças, seu caráter evolutivo, histórico, dentro de 'colas, centros populares de cultura, servindo ainda para elaborar e introduzir nos programas de ensino, o 'tudo da cultura tradicional e popular de maneira apropriada, do modo mais amplo possível. Garantindo o direito de acesso de 'sas comunidades à sua própria Cultura, apoiando também seu trabalho nas 'feras da documentação, arquivos, pesquisa, comunicação e interação com as outras Culturas; Deve-se sensibilizar a população local para a importância da cultura tradicional e popular como elemento da identidade cultural, respeitando os outros credos e práticas religiosas dentro desses lugares ricos de manifestações culturais. Para que se tome consciência do valor da cultura tradicional e popular e da necessidade de conservá-la, é 'sencial proceder a uma ampla difusão dos elementos que constituem 'se patrimônio cultural. Em uma difusão deste tipo, contudo, deve-se, evitar toda deformação, a fim de salvaguardar a integridade das tradições. a) Fomentar a organização de eventos como feiras, festivais, filmes, livros, revistas, jornais, exposições, seminários, colóquios, oficinas, cursos de formação, etc., e apoiar a difusão e a publicação de reivindicações, projetos, literatura, CDS, DVDS, documentos e outros resultados; b) Estimular maior difusão de matérias sobre a cultura tradicional e popular na imprensa, nas Televisões Públicas, no caso do Estado do Pará, a Funtelpa, não atende às demandas e as expectativas do povo, pois o sinal de suas transmissões não pega em nenhuma cidade do interior do Estado, salvo em algumas partes quando é captado com antenas parabólicas. Ficando a mercê da programação dos meios de comunicação de massa alienantes desse processo. A política de publicação e editoração do Governo do Estado do Pará também não prioriza a difusão de 'sas culturas. d) Garantir o direito de cada município-membro de obter que os outros municípios-membros lhe facilitem cópias dos trabalhos de pesquisa, documentos, vídeos, filmes ou outros, realizados dentro do seu território; Texto: Carlos Pará Membro do Fórum Permanente das Culturas do Pará Editor da REVISTAPZZ-Arte Política E Cultura Membro do Partido Comunista do Brasil Membro da Coordenação Executiva do Centenário de Dalcídio Jurandir Pesquisador filiado a Associação das Universidades da Amazônia -- UNAMAZ. Contatos: 8859-4664. Número de frases: 41 revistapzz@gmail.com Affonso Romano de Sant ´ Anna envolveu-se com a vanguara dos anos 50 e 60 atuando em vários grupos. Nos fala, aqui, de arte contemporânea e da produção de ela no século XX. Alerta: Lamento muito em informar que ao contrário do que se acreditou no século XX, a arte não acabou, a arte é uma fatalidade do 'pírito humano e arte não é qualquer coisa que qualquer um diga que é arte, nem é crítico qualquer um que 'creva sobre arte. E arremata: Em geral é uma crítica de endosso, é a crítica institucional de uma arte " institucionalista Em O enigma vazio, com lançamento previsto para outubro, o poeta e ensaísta vai além da crítica de arte e produz uma «crítica da cultura». Para dar forma a seu novo livro, o autor revisitou por cinco anos todos os mais importantes museus do mundo. Os textos produzidos se relacionam com seus trabalhos anteriores: «Barroco, do quadrado à elipse «(Rocco),» Desconstruir Duchamp «(Ed. Vieira & Lent) e» A cegueira e o saber» (Rocco). O Jornal Fala Brasil recebeu da editora de Affonso a entrevista que republico a seguir De que forma a crítica da crítica pode auxiliar na reflexão dos caminhos que a arte contemporânea tomou no século XX? AFFONSO: Há, pelo menos, três tipos de «crítica». A primeira é a critica informativa -- de caráter jornalístico, tipo prestação de serviço ao público e uma outra que chamaria de crítica celebrativa. Esta é a crítica de endosso, feita às vezes de encomenda. A imprensa tende a misturar as duas, sobretudo depois da emergência dos divulgadores, curadores, galerias. Isto 'tá mais para o «release». Outra coisa é a crítica reflexiva, que se preocupa realmente em analisar obras e autores objetiva e independentemente. Segundo os 'tudiosos, desde os anos 60 'tabeleceu-se um certa confusão em 'ses campos. O que 'tou fazendo é uma metacrítica, a crítica da critica: pegar os grandes analistas (O. Paz, Jean Clair, Derridá, Barthes, etc) e ver alguns equívocos do discurso crítico de eles. Se os grandes cometem tais erros, imaginem os diluidores?! O exercício de desconstrução dos argumentos que você faz como quem pensa criador e criatura passaria por um processo semelhante da desconstrução e questionamento da linguagem artística -- ou o que é arte?-- feita por os artistas e críticos de nosso tempo? AFFONSO: Estou indo além da «desconstrução» posta em moda por Derridá: ouso dizer, ironicamente, que 'tou desconstruindo a desconstrução, que se julgava um método limite, insuperável, por que acreditava na onipotência de sua retórica e de certos sofismas. Esse repensar a arte se insere dentro de um 'forço de repensar a cultura globalmente. Isto faz parte de meu projeto de rever os descaminhos do século XX. Sou um filho do século XX que 'tá ousando questionar o pai. Há quase 20 anos, na poesia, 'crevi o Epitáfio para o sec. 20. Em o ensaio, explico isto. Não seria natural que críticos -- humanos que são -- sucumbissem à subjetividade num terreno bastante pantanoso que é a análise da obra artística? Ou você acha que a isenção, objetividade e reflexão foi claramente afetada por a falta de limites formais sobre o que é ou não arte na arte contemporânea? AFFONSO: Sim, como diria Terêncio, os críticos são humanos e nada do que é humano lhes é 'tranho. Como, aliás, diria Nietzsche «humano, demasiadamente humano». É bom que se reconheça certos autores como «humanos» e não como «super-homens» nietzscheanos. O que tento deslindar é um problema recente fascinante e grave: alguns críticos são romancistas e poetas frustrados. Barthes queria ser ficcionista, Derridá tinha um complexo de James Joyce mal resolvido. Pode parecer irônico, e o é, que seja eu, um poeta a dizer a certos críticos que parem de misturar as coisas e comportem-se primeiramente como críticos. Marcel Duchamp transferiu para o 'pectador a responsabilidade por pensar a arte, transformando todos em artistas e críticos de arte. E qual foi (ou deveria ter sido) a responsabilidade de ele? Por o que hoje Duchamp teria de responder? AFFONSO: Essa afirmativa de Duchamp é uma de suas conhecidas falácias. É uma 'perteza enorme. Jogou nos outros a responsabilidade pseudo-artística. Até ensaístas que adoram Duchamp, como Octávio Paz e Jean Clair reconhecem que aí ele pisou na bola. O processo artístico não depende só do receptor, é mais complexo. Essa simplificação interessa aos carreiristas e aos que querem ter os 15 minutos de fama. Quais os riscos do action writing? A partir de que ponto a obra sai das mãos do artista e torna-se obra do crítico e de suas idéias? AFFONSO: Chamo de action writing 'sa paródia do action painting, é uma 'crita desvairada, pretensamente literária, um blá-blá-blá pretensioso que se pretende hermético, para iniciados e é um rol de sandices. Se aplicarmos técnicas de análise de discurso e análise retórica, vemos como 'ses são discursos vazios, tão vazios quanto os «enigmas vazios» a que se referem. Esse tipo de crítica é tão má literatura quanto certa «arte conceitual». Para você, qual a função da crítica de arte? E como se faz para 'capar dos devaneios artísticos-literários deste crítico-artista? Quais elementos constituem uma boa crítica de arte? AFFONSO: A função da crítica é ampliar a leitura e propiciar o entendimento da obra. O crítico deve exercer o que chamo de «terceiro olhar». A função do crítico é discernir, clarear, 'tabelecer categorias e não cair em armadilhas alheias, como ocorreu com Rosemberg, Danto e Geenberg. Quando você fala de «devaneio» é bom alertar que a crítica, como o processo de criação, não é a casa da mãe Joana. Essa bobagem que Duchamp disse que todo mundo é artista, todo mundo é crítico, não chega a ser engraçado. É apenas uma frase tola. Ele era o rei de frases tolas, nas quais as pessoas viam profundo saber. Em um certo momento de sinceridade, aliás, ele disse: «cada palavra que lhes digo é 'túpida e falsa». Ele mesmo se chamava de «pseudo», e assim por diante. Por isto é que uma das teses deste meu livro é que se deve analisar o discurso duchampiano, pois suas obras só têm sentido em relação a 'se discurso. Espantosamente 'sa análise nunca foi feita antes. Fale mais sobre 'te enigma vazio, 'ta tentativa de decifrar «algo», dando a 'te» algo " alucinações críticas de obras insignificantes. AFFONSO: Dizia Hanna Arendt, enquanto judia e filósofa, que se não conseguisse entender a lógica do nazismo, enlouqueceria. O mesmo eu me dizia a respeito da arte de nosso tempo. Isto tem que ter uma lógica, eu me dizia, deve haver um modelo de análise para 'sa anomia, para 'se caos, 'sa entropia, para todas 'sas contradições discursivas. Acredito ter tocado no cerne da questão. Diferentemente de enigmas verdadeiros, a arte contemporânea 'tá cheia de enigmas vazios que muitos tentam preencher com uma verborragia igualmente insossa. Como você vê a arte contemporânea hoje -- particularmente a brasileira? AFFONSO: Esclareço uma vez mais que não sou «contra» a arte contemporânea. Aponto alguns de seus descaminhos. E dentro desse imbróglio há muitos artistas que admiro. Tentam, no entanto, confundir a questão dizendo que sou o «inimigo número 1» da arte contemporânea. Tolice. Ela não precisa de mim para isto. Seus inimigos 'tão dentro de ela. Duchamp é um de eles e ele cinicamente reconheceu isto ao dizer no fim da vida: «Este século é um dos mais baixos na história da arte». E o próprio Jean Clair que o admira e fez a primeira retrospectiva de ele em 1977, reconhece que foi ele quem abriu a «Caixa de Pandora». Por isto, é que insisto que há que voltar a Duchamp para uma releitura, que não seja como 'sa que anda por aí, de pura louvação, acrítica. E 'sa leitura tem que ser feita na área da filosofia, da retórica, da teoria da literatura como mostro no meu livro. E, por conseguinte, como vê a crítica de arte hoje? AFFONSO: Em geral é uma crítica de endosso, é a crítica institucional de uma arte «institucionalista» como a definiu o antropólogo Howard Becker. E é uma crítica 'quizofrênica, que 'tá no poder, fingindo que é margem. Aliás, a figura da falsa «margem» tem servido bastante a 'sa 'quizofrenia. Por isto, analiso no livro o fenômeno do «double bind», do laço duplo, dos oxímoros ideológicos da modernocontemporaneidade. Em O enigma vazio você também aborda questões como a mercantilização da arte, que muitos consideram um retorno ao mecenato. Por que você discorda de 'ta comparação? AFFONSO: Sem se 'tudar isto não se entende o «êxito» e a anomia geral das artes. Ela serve à sociedade da aparência, da falsa cultura. Ela virou um apêndice da bolsa de valores, até se fala de «bolsa de artes». E as ações e valores dos quadros são virtuais, sobem e descem de acordo com a circunstância. Há livros fundamentais analisando isto e eu também entro em 'sa questão. Futurólogos sempre arriscaram previsões como o fim da pintura, por exemplo. E hoje ela continua aí e é cada vez mais valorizada. Arriscando um exercício de futurologia, como você vê os caminhos que a arte pode tomar? AFFONSO: É sintomático que o século XX, que matou mais gente que qualquer outro, tinha mania de matar tudo, a arte, o romance, a poesia, a história, o «homem». Verdadeira tanatomania. Hitler, Mao Tse Tung e Stalin ficam muito bem num século em que outros tentaram matar a arte e até a própria história. Pois não houve o caso daquele pensador da CIA Francis Fukuyma, que anunciou o «fim da história» e dez anos depois veio pedir desculpa, dizendo que se enganou, que a história continuava? Duchamp fez a mesma coisa, no final da vida entrou para o Instituto Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Cinismo ou autocrítica? Finalizando: o que é arte para você? AFFONSO: Essa pergunta é inevitável nas dezenas de palestras que tenho feito por o país e no exterior. É uma pergunta mal colocada. Se não aprendemos a colocar as questões não teremos respostas razoáveis. O modo apropriado, depois de cem anos de acertos e muitos erros, é inverter ou tratar questão pelo avesso: o que não é arte? Muitos produtos que 'tão aí nos museus e galerias pertencem à psicanálise, outros à sociologia, ao marketing, à antropologia, à literatura, à filosofia. Quando 'sas disciplinas se debruçarem devidamente sobre a questão, então poderemos voltar à pergunta sobre arte. Por isto, insisto em 'sa operação multidisciplinar para afastar o entulho. De resto, os que pregam o «fim da arte» equivalem-se aos ateus, têm que falar de Deus para serem ateus. Lamento muito em informar que ao contrário do que se acreditou no século XX, a arte não acabou, a arte é uma fatalidade do 'pírito humano e arte não é qualquer coisa que qualquer um diga que é arte, nem é crítico qualquer um que 'creva sobre arte. Número de frases: 133 O Superguidis tem pouco mais de quatro anos e já vem chamando a atenção da mídia 'pecializada e da galera que tá antenada com o que rola na internet. A banda, que vem de Porto Alegre e Guaíba (RS), é formada por Andrio Maquenzi (voz e guitarra), Diogo Macueidi (baixo), Lucas Pocamacha (guitarra e vocais) e Marco Pecker (bateria). Destaque em festivais como o Mada e aparições 'tratégicas na MTV e na revista Bizz fizeram o grupo elevar seu passe no underground nacional e mostrar que o rock gaúcho pode ir muito além dos 'teriótipos iê-iê-iês que vemos hoje. A banda 'tá prestes a lançar o segundo disco (por a Senhor F Discos) e viajar para a primeira mini-tour fora do País. Confira o bate-papo via e-mail que tive com o guitarrista Lucas Pocamacha e saiba por que a banda não sai dos playlists dos iPods mais atentos. Confira. Overmundo: Hoje, o Superguidis é «a banda gaúcha que não usa terninho e não faz jovem guarda, new wave, mod». Como vocês encaram 'sa categorização? Lucas: Com naturalidade! E com alívio! Ainda bem que dá pra notar isso (risos)! Por incrível que pareça, ainda tem gente que vê a gente desse modo. A gente é gaúcho por um motivo meramente geográfico ... não somos diretamente influenciados por os Stones e a principal influência gaúcha no nosso som é a ironia non sense da Graforréia! Não teria como soarmos rock gaúcho na atual fase das nossas vidas. Mas tem outras bandas assim ... a Pública e O Apanhador Só são nossos «colegas de causa» (risos)! Overmundo: A idéia que temos aqui no Rio é que as bandas do sul fazem rock sessentista, ou reggae ou emo, em sua maioria. Como se sentem sendo meio «outsiders» desses 'tereótipos? Lucas: Ótimos! A gente já tá velho pra 'sas coisas! Mas não é de propósito, saca? Simplesmente não são 'ses os sons que fazem a nossa cabeça! Não desmerecemos o trabalho de bandas clássicas daqui. Devemos muito a eles! A coisa é meramente musical mesmo! Overmundo: As referências do grupo 'tão baseadas, em sua maioria, na década de 90. Fale um pouco sobre as bandas que vocês curtem. Lucas: Nossa! Tem muita coisa pra falar sobre isso (risos)! Comecemos por o Pavement: foi uma das primeiras bandas que nos deixaram de queixo caído depois dos dinossauros [Dinosaur Jr.]! Até hoje são influência direta! A inocência e a inteligência das guitarras e dos arranjos de eles são tudo que a gente busca na nossa música; Nirvana: precisa falar mais alguma coisa?; Weezer: são os caras que fazem o pop mais redondo que eu conheço! A gente é muito fã de eles! A idéia de fazer um refrão que dê vontade de assoviar é totalmente inspirada em 'ses caras; Guided by Voices: é final de 80, mas tá valendo! Literalmente tudo que 'ses caras fazem nos influencia; Mudhoney: guitarras podres! Overmundo: Vocês lançaram o primeiro CD no ano passado por o Senhor F Discos. Por que decidiram lançar um álbum em tempos de downloads e crise no mercado fonográfico? Fora que ele 'tá disponível para baixar no próprio site do selo! Lucas: Pois é, a gente precisa de dinheiro pra viajar! E tem gente que ainda compra disco! Ainda mais de bandas independentes! A galera tem 'se bom coração (risos). Um disco é necessário! Para a divulgação e pra valorizar o trabalho de gravar! O mercado das majors tá em crise! O independente tá aquecendo as turbinas ainda! Colocamos o disco pra baixar no site faz pouco tempo ... quando começamos a gravar o outro! Vendemos 1.500 cópias do primeiro! Superou e muito a expectativa! Agora o papel de ele é ser baixado por quem não conseguiu comprá-lo! Overmundo: A mídia e o público local receberam bem o disco. Como tem sido 'se retorno em outros 'tados? Lucas: Aqui no RS é 'tranho! Tem muita gente que gosta muito do disco! Mas a galera do «rock gaúcho» não saca muito! Em todo lugar que vamos tem sempre alguém cantando junto e pedindo musicas nos shows! É incrível! Fomos para o RN agora e até lá tinha 'se tipo de resposta! É difícil de acreditar! Ficamos impressionados! Muito gratificante! Overmundo: As letras de vocês também fogem um pouco do usual. Acho que o exemplo mais emblemático é o de «Spiral Arco-Íris». De onde vem a inspiração para 'crever? Lucas: A inspiração são as coisas que acontecem e nos deixam tristes ou nos tocam de alguma maneira. Os sentimentos em si ... todo mundo sente. A idéia é descrever eles sem soar óbvio ou batido, saca? Talvez por isso a coisa soe diferente algumas vezes. É quase uma consulta no psicólogo (risos). O processo é o seguinte: eu ou o Andrio chegamos com a música e a letra montados já com o arranjo ... no ensaio a gente lapida e dá para a música a cara que ela deve ter! É bem divertido! Experimentamos bastante! Overmundo: Em julho vocês embarcam para uma mini-turnê por a Argentina e Uruguai. É a primeira vez que vão tocar fora do país? Lucas: Aham! Primeira vez! Em a verdade, a gente não sabe muito o que 'perar (risos). Vamos tocar com uma banda muito boa chamada El Mató a um Policia Motorizado, da Argentina! Esperamos que a galera que gosta de eles, goste da gente também! Overmundo: Além do trabalho de divulgação do disco, das apresentações, dos clipes ... quais são os próximos passos do grupo? Lucas: Gravamos o segundo disco agora em fevereiro! Vamos lançar no fim de junho! De aí os planos se resumem a tocar onde der! Ou onde o dinheiro deixar (risos)! Mas vai rolar clipe e tudo mais! O lance é se ligar na comunidade da banda no Orkut! Número de frases: 110 As novidades 'tão todas lá! Pensava que tinha isto totalmente resolvido na minha vida. Não precisaria mais 'colher onde festejar o ano novo. Réveillon para mim era definitivamente sinônimo de Copacabana. Gosto de muita gente, de fogos, de rituais coletivos, de todo mundo vestido de branco, de cidades grandes, de multidões aplaudindo alegres coisas tão inúteis como clarões coloridos nos céus da cidade. Além disso moro em Copacabana, o que facilita muito a logística para a noite entre milhões de pessoas. Se tivesse que vir de longe para a praia, acho que não ficaria tão entusiasmado. Mas em resumo: tinha combinado com mim mesmo: todo réveillon eu passaria sob os fogos da Princesinha do Mar: quem quisesse me acompanhar que aparecesse antes na minha casa. E de nada adiantaria me convidar para ir para outro lugar, principalmente lugar calmo e sem gente. Mas ontem, quebrei a regra totalmente. Considero-me um traidor: fui para Ipanema. E não me arrependo da mudança. Afinal, como canta «Lulu Santos,» nada do que foi será ... tudo sempre passará ..." Por um tempo acreditei que a festa de Copacabana seria eterna. Eterna enquanto durou. Até porque vi quando tudo teve início e foi crescendo lá por o final dos ano 70 ... Antes não havia tanta gente, tantos fogos ... Por que então o réveillon teria que ser igual para sempre? E por que a minha relação com aquele réveillon teria que ser inabalável para sempre? Explico melhor o motivo primeiro para a traição: sou fã de John Legend, nunca tinha visto o cara cantando ao vivo, queria ouvir suas músicas bem alto na praia, não importava qual fosse a minha praia. Pensei que poderia ver seu show e depois mudar de praia, não perdendo os fogos de Copacabana. Mas Ipanema foi se revelando tão interessante, e a chuva atrapalhava tanto os movimentos, que fui ficando por ali ... E repito (em coro com o novo Caetano): não me arrependo. Também pudera: tudo foi diferente em 'ta festa de ano novo. A começar por a chuva. Nunca choveu tanto no réveillon carioca. Sempre chove um pouco. Mas não me lembro de outro ano que tenha chovido o tempo todo ... Então a chuva já dava um outro clima para a festa. A maioria das pessoas 'tava ou molhada, ou com guarda-chuvas (se alguém tivesse guarda-chuvas brancos para vender, ficaria rico), ou com aquelas capas de plástico bem toscas (mas de aparência 'pacial, meio parangolé de Hélio Oiticica, talvez até mais pop porque transparentes) vendidas por entre 2 e 5 reais por os camelôs. O asfalto da avenida Vieira Souto foi ficando uma nheca, mistura de areia com chuva / 'pumantes, cada detalhe dando um clima meio apocalíptico para a noite, como se a cidade 'tivesse em guerra e todo mundo 'tivesse buscando um lugar para se abrigar. O fato é que o Rio 'tá realmente em guerra, e havia uma tensão evidente no ar, com muitos policiais em todas as partes (várias torres de observação em muitos pontos da orla), e a impressão de que o pior poderia acontecer a qualquer momento. Mesmo assim parecia que 'távamos em outra cidade, não exatamente no Rio, e isso não só por causa da chuva. A própria 'colha das atrações musicais do palco principal de Ipanema tinha sido feita com um olhar 'trangeiro, patrocinado por a Nokia, integrando um circuito de shows radicalmente globalizado. Os telões mostravam flashs de Hong Kong, Mumbai (o nome novo para Bombaim, ou Boa Bahia), Berlim e Nova York. O próprio John Legend, que me motivou a ir para Ipanema, não faz sucesso no Brasil, e seu show não podia deixar de ser um pouco deslocado, aumentando assim o ar alienígena da comemoração. John Legend fez um grande show, visto por poucos (afinal, 19:30 é um horário meio 'tranho para começar um show na noite de ano novo -- nunca tinha saído de casa tão cedo ...). A performance começou na hora marcada, incrivelmente para padrões cariocas. O show foi curto, meia-hora, para mim o tempo ideal para qualquer show (quem agüenta ouvir mais de 5 músicas?), com aquela elegantérrima sucessão de novos clássicos do melhor cantor / compositor do novo soul, que ainda por cima tocava piano de cauda. A última música foi o hit (não no Brasil, na praia ninguém sabia cantar junto) Ordinary People (veja no YouTube -- lá com o público cantando junto, e logo no Sob's, a casa nova-yorkina que se chama «sons do brasil» ...), que tem ares de uma oração clamando por novos bons tempos, mais simples e calmos. Diz a letra: desta vez vamos ter que ir devagar, pois somos apenas pessoas comuns ... E ia aumentando minha impressão de 'tar vivendo uma noite absolutamente incomum, entre gente deslocada (no bom sentido) e 'trangeira (no sentido existencialista, também bom). Então entrou no palco o Sérgio Mendes depois de 25 anos sem tocar na cidade. Sua música brasileira para gringo ouvir (no bom sentido) nos era devolvida como presente de uma empresa finlandesa de celular, que tem como lema «conectar as pessoas». Os grandes sucessos da MPB 'tavam reembalados por rap, fazendo o público contextualizar melhor o que viria depois: o baile funk do DJ Marlboro. Bom pensar, naquele momento, que o funk carioca é (junto com o Cansei de Ser Sexy) a nova cara da cultura brasileira por o mundo afora. Bom também pensar que o DJ Marlboro nunca tinha sido chamado para tocar no réveillon das praias do Rio, e sempre reclamava disso como sinal evidente da discriminação que o funk sofre por o poder público da cidade, nunca considerado cultura e sim problema de segurança. Foi ótimo ver a praia toda dominada por a alegria do pancadão, no Rio que vive entre comandos e milícias, sem a festa descambar para a pancadaria. Precisou, repito, de uma empresa de alta tecnologia finlandesa vir aqui para nos provar isso? Ouvi uma menina de favela comentar com suas colegas olhando o baile incendiar a praia: «a playboyzada adora nos imitar». Santas palavras. Implacável diagnóstico, com validade global. Então sai do baile (sempre acompanhado por Rosa, Mariana, Ilan e Luciana) e passei na «festa do Neto» -- arrasta-pé organizado por Ernesto Neto e sua turma, que já é antiga tradição ipanemense. De o iPod do Marcus Wagner vinha Jackson do Pandeiro e Elza Soares. A pista de dança na areia tinha se mudado 'te ano para o Arpoador pois o Posto 9, pouso dos anos anteriores, 'tava sendo ocupado por o terreiro armado por outra gigantesca corporação transnacional, a Ambev, celebrando seu guaraná com música eletrônica 'tridente (sempre no bom sentido). Foi para lá que meu coletivo festeiro rumou depois do Neto, nós todos plastificados por as capas de chuva que salvaram nossa noite de mega-itiner ância líquida-dançante. Cruzamos com o presidente de um grande banco brasileiro (aparentemente sem guarda-costas) e com o filho da Caroline de Mônaco. Estava me sentindo num passeio no Bois de Bologne, entre a aristocracia, como descrito por Eça de Queiroz em A Cidade e As Serras, que aqui poderia ser traduzido para O Asfalto e os Morros. Rio de Janeiro, purgatório da beleza e do caos, da tranquilidade e do tiroteio? Passando por a porta do hotel Sol (que ironia) de Ipanema, vimos o pessoal do Infected Mushroom cruzando a Vieira Souto, protegidos por um exército de seguranças e câmeras de vídeo. Chegamos bem na hora do guaraná se conectar com os cogumelos infectados (que ironia). Ouvi muito falar desses ídolos do psytrance israelense, mas nunca tinha 'cutado nada. Claro que as centenas de milhares de pessoas que pulavam no Posto 9 tinham 'cutado tudo. Trance, sobretudo o trance do Infected Mushroom (que tem guitarra e vocalista ao vivo), é o novo metal, o novo gótico (ou mais um metal, mais um gótico). Engraçado ver todo aquele povo cantando «deeply disturbed, deeply unhappy» tão felizes na Ipanema chuvosa. Estava eu delirando? O ar da praia 'tava infectado por cogumelos? Ou só a música, tão adolescente, tem o poder de provocar 'se tipo de delírio transpessoal? A Ambev e a Nokia sabem que 'tão brincando com fogo? Já era a hora de mais um exercício nomádico-praieiro, desta vez de volta ao palco da Nokia, para ver a entrada da Fergie, a barbie 'quisita (ei, novamente: não preciso deixar explícito que tudo aqui é dito no bom sentido, ou preciso?) da nova criançada. Quase perto do palco, ainda receoso de tentar cruzar a multidão, apareceu do nada a Anna De antes, como um anjo, e nos convidou para ver o show do camarote de um terceiro andar de um apartamento da Vieira Souto, onde acontecia uma festa familiar de total simpatia. Um presente dos deuses do Tempo: consegui ver o show tanto «ao vivo mesmo» quanto num telão sintonizado no Multishow (que tinha um pitoresco e deslocado -- causador de mais 'tranheza: os cogumelos infectados ainda 'tariam fazendo efeito?-- delay de áudio entre o que acontecia na vida real da janela e na vida virtual do canal de TV a cabo). Porém o mais bacana era a visão da praia, no sentido contrário ao do palco. Uma multidão de perder de vista, que não 'tava perto o suficiente para 'cutar bem a música (deveria 'cutar melhor os DJs do Posto 9 ...), mas dançava sem parar. Não sei calcular quantidade de gente, mas devia ser mais de 1 milhão. Fergie no telão passava a impressão de 'tar em êxtase, mas totalmente 'pantada e felizmente deslocada (como todo mundo 'tava). Terminado o Black Eyed Peas (vocês viram Fergie tentando sambar com o samba Brazil 66 de Sérgio Mendes?), chegou para mim a melhor hora (porque a mais deslocada de todas) da noite. Entrou no palco o DJ alemão Anthony Rother, com um dos sets mais «matadores» da minha vida. Tive que descer do apartamento para me aproximar das caixas de som. Eram decibéis encorpados, de extrema violência e radicalidade. Rother não jogou para a platéia, não tentou seduzir as crianças que vieram ver a Fergie. Mandou ver, com longos momentos sem beat, com o reverb alucinado (totalmente 'tilo major-malfunction), e -- sem nada que prevenisse os dançarinos -- o beat atacava novamente. Milhares de pessoas pulavam, como se aquilo fosse a coisa / música mais normal do mundo. Há poucos anos 'se som extremo só era ouvido em clubes pequenininhos de obscuras, antenadas e exclusivas zonas boêmias metropolitanas ... Saudade de quando vanguarda era para poucos? Fiquei pensando nos tempos remotos, lá nos idos de 1987, em que eu mostrava algo como Strings of Life do Rhythim is Rhythim para um monte de gente boa que tapava os ouvidos dizendo tanto barulho (sem emoção!) não podia ser música. Hoje, 20 anos depois, a multidão dança coisas muito mais radicais, com os melhores patrocinadores. Mudou o capitalismo? Mudamos nós? Mudou o réveillon? Não existe mais underground sem superexposição megacorporativa? Sei lá ... Só sei que de agora em diante o réveillon de Copacabana não me engana: o Rio e o capitalismo (festeiro?) global 'tão cada vez mais parecidos com a imaginação de Fausto Fawcett. Aliás acho que o Fausto 'tá por trás disso tudo, mesmo de minha traição ipanemense. Espero ansioso por a próxima virada de ano: onde vou parar? Onde vamos parar? Parar pra quê? Número de frases: 118 O dia-a-dia de jovens da cidade do Rio de Janeiro, com suas alegrias, tristezas e percalços que surgem com a «maturidade». Primeiro emprego, primeiras responsabilidades, amores possíveis e impossíveis, discussões familiares por causa da «busca por a independência». Estes temas são logo associados a Malhação, programa de teledramaturgia que a TV Globo 'treou em 1995 na sua programação vespertina e que, ano a ano, lança novos atores e autores da emissora. Mas há alguns meses a TV Globo perdeu a exclusividade de apostar numa «novela jovem». Em 17 de outubro de 2006 (uma terça-feira, para evitar que coincidisse com a 'tréia da reedição de O profeta -- trama que a emissora do Jardim Botânico iria começar a exibir na segunda), a TV Record colocou no ar Alta 'tação, no horário das 18h -- uma 'tratégia oportuna, afinal, começava exatamente na hora em que subiam os créditos finais de Malhação. Não é necessário detalhar os temas abordados em Alta 'tação, pois não há diferença com relação aos mostrados em Malhação. Há como diferenciar as novelas da Record e da Globo na qualidade da produção, nos rostos dos atores (muitos 'treando em TV) e nos nomes dos personagens. A mudança no cenário em que a história se passa também é bem sutil -- se as intrigas de Malhação ocorrem no colégio Múltipla Escolha, Alta 'tação se passa numa universidade. Mas ambas possuem um bar como um dos cenários -- o Gigabyte na «Vênus Platinada» e o E aí? na emissora da Igreja Universal. Só que o mais interessante em 'ta semelhança da luta por a audiência vem na falta de originalidade da TV Record ao moldar sua programação. Atualmente, a emissora disponibiliza, em 'ta ordem, uma novela jovem (há alguns meses, Alta 'tação passou para o horário das 18h30), uma trama um pouco mais leve (Luz do sol, para roubar 'pectadores que não gostam do Jornal Nacional) e o horário das 22h para uma história com temas polêmicos e muita densidade (Vidas opostas). Praticamente a mesma seqüência lógica da TV Globo -- com a diferença de que as tramas «mais leves» se dividem em dois horários na programação global: às 18h (destinado a " novelas de época ") e às 19h15 (novelas com tom mais cômico). Em 'ta briga por a audiência, o 'pectador tem a sensação de que mudam as 'tações, mas nada de novo acontece na teledramaturgia brasileira. Número de frases: 15 E, agora, não muda nem na seqüência em que as novelas vão ao ar nas emissoras de TV aberta. O que muitas vezes conhecemos do índio brasileiro é uma figura folclórica que a mídia gosta de publicar. O índio vestido como nativo, vivendo da caça, agricultura de subsistência, no meio do mato, morando em ocas e praticando suas danças e rituais. Mas será que 'sa figura corresponde à realidade? A o que indica, 'se é um quadro do passado, em muitas etnias brasileiras, principalmente no Nordeste. Eu e minha família conhecemos de perto, desde 2001, a realidade da etnia Xukuru, moradores da Serra do Ororubá, na cidade de Pesqueira-PE, e temos visto o quanto eles têm crescido como cidadãos, pessoas cientes dos seus direitos e deveres. Eles vivem numa comunidade altamente organizada, possuem conselhos próprios de lideranças indígenas, de professores e de agentes de saúde. O Conselho de Professores Indígenas Xukuru (Copixo) e o Conselho Indígena de Saúde Xukuru (Cisxo), são exemplos. Lutam por conseguir educação e saúde diferenciada, onde índio ensina e cuida da saúde do índio. Eles tem consciência do que é melhor para eles e tem lutado por isso. A maioria mora em casas de alvenaria, nas 26 aldeias, onde vivem mais de 10 mil índios. A maioria tem acesso a luz elétrica, telefone público. Muitos possuem água encanada. Os Xukuru têm a sua roupa típica chamada tacó, que constitui saia e chapéu feitos de palha, pelerine, colares, brincos e pulseiras de sementes, cocares, que usam no ritual do toré, dança de fundo religioso e político praticada por eles, porém, no dia a dia vestem roupas «normais» (será que é 'sa palavra?) como os demais habitantes da cidade. Eles não usam indumentárias 'peciais para serem índios, eles são índios, pensam como índios, falam como índios, tem a cosmovisão de índios. Mas, como nós temos roupas 'peciais para ir a uma festa, casamento, igreja, eles têm roupas próprias para celebração dos rituais, retomadas de terras, apresentações. Cada aldeia da etnia Xukuru possui 'cola onde os próprios índios ensinam. Muitos professores têm feito graduação em educação. Só em 'te ano, duas índias concluíram o curso de Pedagogia, juntamente com meu marido. Em Pesqueira, já existe um curso superior diferenciado para professores indígenas. Há também índios 'tudando em universidades em outras cidades. Tem índio 'tudando Direito, Medicina, e tantos outros cursos. A 'critora Ana Lígia Lira, durante o tempo em que morou em Pesqueira, 'creveu um livro sobre a realidade indígena atual intitulado Eu vi um índio de jeans e celular. Sim, os índios do nordeste usam jeans e celular. Muitos têm acesso a internet. Uma ONG ofereceu uma oficina de vídeo, e hoje podemos ver os próprios índios filmando e editando seus eventos. Os Xukuru têm uma história sofrida desde o seu reconhecimento como índios até hoje. Donos, desde sempre, da terra, os Xukuru deram origem à cidade de Pesqueira, que nasceu na aldeia Vila de Cimbres. Com o tempo, seu território foi invadido por grandes e pequenos produtores agrícolas e rurais, que forjaram documentos, tomando posse da terra dos índios, que passaram a trabalhar em suas fazendas como empregados. A luta por a retomada e homologação de suas terras começou com o Cacique Xicão, que foi assassinado em maio de 1998, por tentar reaver o que sempre foi por direito dos índios. A morte do Mandaru, como hoje é chamado, não enfraqueceu a etnia, eles continuaram lutando, e hoje eles possuem 95 % de seu território homologado. Por 'te caminho, ocorreram ainda muitos assassinatos de indígenas por causa da luta por a terra. Mas eles não desistem. O cacique atual, Marcos Luidson, filho do cacique Xicão, mesmo sob ameaça de morte, continua buscando os direitos do seu povo. Todos os anos ocorre uma assembléia Xukuru, que teve início em 1986, sob a liderança do cacique Xicão, onde os índios discutem sobre a organização do processo de retomada das terras e outros assuntos relacionados à realidade indígena. Em 'ta ocasião se fazem presentes tanto os índios Xukuru, como representantes de diversas etnias indígenas brasileiras, ONGs, imprensa, acadêmicos, representantes do Ministério Público e Poder Legislativo. Hoje, sem Xicão, os índios debatem na assembléia os projetos futuros para o desenvolvimento sustentável da etnia, a política indigenista brasileira e a questão da criminalização dos movimentos indígenas. Em maio deste ano, os Xukuru tiveram, na assembléia, a presença do Governador do Estado de Pernambuco Eduardo Campos, onde houve a doação de quatro resfriadores de leite para os índios conseguirem 'tocar e revender leite de qualidade e mais barato na cidade. Também foi instalado por o Governo do Estado o Conselho Estadual Escolar Indígena, que irá representar 640 professores e 8.458 alunos e 'tabelecer ações referentes à política de Educação Escolar Indígena. Os índios brasileiros de hoje não são como aqueles pintados em quadros, na época do «descobrimento» do Brasil, aquela figura inocente e sem alma, um animal exótico que precisa ser preservado no seu habitat natural e tantos outros absurdos proclamados, pasmem, ainda nos dias de hoje, por 'tudiosos e acadêmicos. Ao contrário, são pessoas atuantes na sociedade, cientes do seu papel como cidadãos. Afinal, por que nós, não-índios, temos direito a uma vida confortável, cheia de toda parafernália tecnológica, e os índios devem viver somente dos próprios recursos para não deixar de ser índios? Por que podemos ter liberdade de conhecimento de mundo, cultural e religioso, e o índio não pode, por que corre o grande risco de deixar de ser índio? Nós perdemos a identidade de brasileiros mesmo vivendo num mundo globalizado? Índio não deixa de sê-lo porque é cidadão, ele é cidadão porque é índio. Número de frases: 46 Para quem lê em inglês, há um breve mas interessante artigo no blog do músico americano David Byrne que fala sobre o cantor brasileiro Lenine e, de quebra, lembra Lampião e outros fora-da-lei. O blog de Byrne, ficado em arte e cultura e em manifestações políticas progressistas, é sempre muito interessante. Número de frases: 2 Vale visitar periodicamente ou adicionar ao seu rss feed. Que tal conhecer um pouco mais sobre o Amazonas e a Floresta Amazônica de um modo divertido e inusitado? Desde 2006 'tá no ar o site do projeto cultural «O Dinossauro do Amazonas», um projeto baseado em cultura, educação e meio ambiente, aprovado por a Lei Ruoanet. Trata-se de uma rádio-novela, que foi adaptada para HQ para dar um apoio literário ao projeto. A trama tem início quando algo gigantescamente terrível invade o acampamento do Doutor Stenaro, um cientista missionário e americano. Salvador Valente, um detetive curitibano, e sua trupe viajarão sobre a região amazônica em suas aventuras em busca de desvendar 'te mistério. Apresenta como pano de fundo a Floresta e sua diversidade de fauna e flora. Com muito de humor e suspense a história se desenvolve, intrigando o leitor a cada capítulo. O projeto conta com a redação e criação de Plínio Gonzaga Filho, um apaixonado por histórias em quadrinhos e por a Amazônia. As ilustrações são de Antonio Eder, formado em artes plásticas por a FAP e co-produtor do site de quadrinhos «Nonarte». Eder também já atuou como diretor de arte de vários curtas e publicou obras como Manticore e Gralha. Seu mais recente trabalho de sucesso foi o livro do longa metragem curitibano «Brichos». As 5 vozes da audionovela ficaram sobre a responsabilidade de Enemar, ator e locutor de diversos canais de TV e rádio. A animação e o site do projeto foram feitas por a Abissal Design. Chama atenção também a trilha sonora do projeto, desenvolvida por Rodrigo Barros e Luiz Ferreira, parceiros do 'critório de som Chefatura e da Banda Curitibana Beijo AA Força. O interessante do projeto é que ele promove a arte da Ilustração, da literatura infanto-juvenil e das técnicas de sonoplastia, além de divulgar a realidade de uma importante região do país e oportunizar o contato do público alvo com as diferentes possibilidades que o campo da arte produz. O fato de ser usado uma forma de comunicação que 'tá quase no 'quecimento, a rádio-novela, fomenta o interesse do público potencial por 'sa forma diverenciada de se comunicar. As três mídias que compõem o projeto (o rádio, a revista com um cd em anexo, e um site), trabalham como mídias complementares, cada uma com sua linguagem 'pecífica, desenvolvendo a diferenciação entre elas. O Dino encontra-se pronto, restando apenas a produção e a distribuição. Está em fase de captação de recursos para a viabilização a sua produção e distribuição. Em o site do projeto, além de encontar os 3 primeiros capítulos da trama, você também pode baixar a trilha sonora e papéis de parede, conhecer mais sobre a Lei Rouanet, Quadrinhos e a Amazônia e acessar a outros links ligados ao projeto. Você também pode deixar seu comentário no blog do Dino. Além do site, você pode acessar ao canal de podcast do projeto e ouvir os 9 primeiros capítulos, dos 30 que irão fazer parte de toda o enredo. Segue a dica, visite o site e boa diversão. O endereço virtual do Dino: Número de frases: 25 www.dinossaurodoamazonas.com.br Quem merece um busto? Há imaginar se para tanto, em 'te país, devo matar, 'quartejar ou andar com meu advogado à procura de desculpas, saio às ruas para sujar a barra da calça, como gostaria Gay Talese que todos os repórteres fizessem. Recolhi as informações numa obra do historiador sanjoanense «Sebastião Cintra, Galeria das Personalidades Notáveis de S. João Del-Rei». Com a exceção de Aleijadinho, que não constava nos alfarrábios de Cintra, encontrei todas as personalidades que vêm enriquecer 'ta matéria. Comecemos por a biblioteca municipal, onde encontrei o livro de Cintra, localizada no Largo do São Francisco. Em sua entrada, figura o busto do «'critor, jornalista, professor e poeta portador de grande talento» Franklin Magalhães. Trineto de um sargento-mor e grande minerador do ouro, filho das segundas núpcias de um comendador com Ambrosina Carlota, foi membro da Academia Mineira de Letras, sendo o primeiro sanjoanense a ter uma cadeira. «Enamorado de sua terra natal, deixou belas produções poéticas, nas quais exaltou as tradições e os encantos sanjoanenses». Tido como presença marcante no teatro, era «um fulgurante poeta, grande animador dos 'petáculos». Segundo Cintra, foi um dos maiores versejadores poéticos de Minas. Em suas conferências humorísticas, usava os pseudônimos de Zabumba, Zebedeu, Sylvano, Dadinho, Saulo e Laurindo. Além da atividade de professor de línguas em 'colas de diversas cidades mineiras, colaborou em revistas e jornais do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Publicou oito obras, com destaque para «Calva à mostra, de 1910». Teve duas filhas com Ana. Morreu em 1968, no Rio de Janeiro. Com certeza, para a posteridade, Franklin Magalhães será lembrado como o promotor de «piqueniques originais», aos quais compareciam apenas ele mesmo,» seu frango preparado, uma garrafa de vinho, pão, uma toalha, lápis e papel para anotação de versos». Deixo a biblioteca, chuvinha chata. Não vou mencionar o busto do ex-prefeito José Nascimento Teixeira, localizado na praça do São Francisco, pois a cabeçorra não se encontra. Sigo por a rua da Prata, atravesso a Ponte do Rosário, entro na Rua Direita. Estou face a face com o nosso próximo contemplado, o Padre-Musicista José Maria Xavier. Filho sanjoanense de um alferes e Maria Benedita, pertencia a uma família de musicistas. «Ainda muito jovem demonstrou vocação para a música, aprendendo com o tio Francisco, diretor de um coro, a arte do violino, clarinete e solfejo». Tornou-se um compositor sacro de primeira grandeza, com destaque para o seu Ofício de Trevas. Para a eternidade, de maneira inequívoca, o Padre-Musicista José Maria Xavier será lembrado por as «diversas ocasiões em que combateu com energia os abusos cometidos nos dobres dos sinos». Pausa para uma cerveja no Bar Mineirão. Faz sol de repente, vai saber até quando. Sigo por a rua Direita até a igreja do Carmo, dobro à primeira 'querda e chego ao Largo da Cruz. Lá, figura no meio da praça a 'tátua do ex-vereador, secretário de finanças do 'tado e deputado federal Augusto das Chagas Viegas. Por sinal, já faço, aqui, a ressalva para Augusto e também para Tancredo Neves e Tiradentes: não são bustos, são 'tátuas, mas aí é querer fulminar o cronista, abdicar dos últimos dois, só por 'tarem na forma de 'tátuas. E também porque gostei de 'ta 'tátua do Augusto. Nascido em São Tiago, foi filho de um sanjoanense «vítima de um fascínora em São Tiago, no ano de 1896», e de Maria Cristina. Formou-se em 1908 por a Faculdade de Direito de Belo Horizonte, tendo sido o orador da turma. Em 1958, no jubileu da turma, novamente foi 'colhido orador. Era, afinal, «um orador de grande eloqüência, que empolgava seus ouvintes». Teve seis filhos com Silvia, da qual enviuvou em 1966. Sobre Augusto, Sebastião Cintra se derrama em elogios: «Toda São João Del Rei reconhece e proclama as excelentes virtudes do adorável pai de família, do corretíssimo advogado, do político nobre, de mãos limpas, do jurista laureado e respeitado e do consagrado historiador». Morreu em Del Rei em 1973. Para encurtar a linha invisível entre dois políticos, volto por a rua Direita, desço, chego ao Largo do Tamandaré. Aqui 'tá o busto do jornalista e deputado federal Matheus Salomé de Oliveira. Ao contrário de Augusto, e como o descreve o cronista do Estado de Minas em 1947, " longe de ser um grande orador, vossa excelência Matheus Salomé se impõe por os seus dotes morais, reconhecidos por os próprios adversários; ouve com atenção os aparteantes e fulmina-os mais por a força da sua autoridade do que por o vigor de seus argumentos». Nascido em Cláudio em 1907, mudou-se para São João del Rei e foi aluno talentoso do Colégio Santo Antônio. Assim como Augusto, " ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. Em uma época de grande efervescência política, envolveu-se ativamente nas lutas então travadas». Advogou por três anos em Cláudio. Em 1935, fixou residência em del «Rei,» conseguindo grandes triunfos na profissão». Casou-se com a sanjoanense Aura Salomé. Em a cidade, foi presidente do Clube Teatral Artur Azevedo e também da Sociedade de Concertos Sinfônicos. Para as pessoas que «ao seu enterro», em 1955,» compareceram em grande número», e para nós também, Matheus ficará para a eternidade como aquele que teve «a frase demorada, voz cavernosa e pausada, que causa nervos até» e que «no campo largo da liça, na areia movediça, nunca coloca o seu pé». Em o mesmo Largo do Tamandaré, temos o genial Aleijadinho, ou Antônio Francisco Lisboa. Nascido a 29 de agosto de 1730 nos arrebaldes de Bom Sucesso. Filho de um arquiteto português e de mãe africana de nome Isabel, e 'crava do mesmo arquiteto, que o libertou por ocasião de fazê-lo batizar. O conhecimento que teve de desenho, arquitetura e 'cultura foi obtido na 'cola prática de seu pai. Depois de muitos anos de trabalho sob suas vistas e riscos, encetou Aleijadinho a sua carreira de mestre de arquitetura e 'cultura, e em 'ta qualidade excedeu a todos os artistas deste gênero que existiram em seu tempo. Até os 47 anos, gozou de perfeita saúde. De 1777 em diante, as moléstias, provindas talvez em grande parte de excessos venéreos, começaram a atacá-lo fortemente. Perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram, e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, e ainda assim quase sem movimento, os polegares e os indicadores. Aleijadinho tinha três 'cravos que o ajudavam como entalhadores e o acompanhavam por toda parte, transportando-o, quando não podia mais caminhar. Segundo seu biógrafo «Rodrigo José Ferreira,» durante o tempo em que 'teve entrevado, freqüentes vezes apostrofava à Imagem do Senhor que tinha em seu aposento, e tantas vezes havia 'culpido, pedindo-lhe que «sobre ele pusesse seus Divinos Pés». Morreu em 18 de novembro de 1814, em Ouro Preto. ... Estou cansado, não 'tou cansado. Poder andar é uma dádiva. Mal posso aguardar a meca, a meca dos bustos e 'tátuas em Del Rei. Avenida Tancredo Neves, do comércio, avenida beira-rio. Aqui, podemos começar com o Capitão-Capel ão Frei Orlando, ou Antônio Alvarez da Silva. Natural de Abaeté-MG, filho de Itagiba e Jovita Aurélia, mortos quando tinha apenas três anos, foi criado por um casal de farmacêuticos. Estudou e fez a primeira comunhão na cidade natal. Em 1925, ingressou no Colégio Seráfico de Divinópolis-MG, da Ordem dos «Frades Menores,» onde se distinguiu por a inteligência e aplicação». Em 1931 foi para a Holanda, ingressando na Ordem Franciscana e fez o voto de fé simples. De volta ao Brasil em 1937, recebeu a ordenação sacerdotal. Iniciou o ministério em São João del Rei. Além de lecionar história e português, aproveitava para «visitar o tugúrio dos pobres e o palacete dos ricos, aos segundos arrecadava auxílios para os amados irmãos em Cristo martirizados por a penúria». Além disso, foi pioneiro na organização das chamadas Sopas dos Pobres na cidade. Em 1943, é convidado por o 11o Regimento de Infantaria para integrar a FEB como capelão militar. Em o ano seguinte, se apresenta no Rio, celebrando de imediato a santa missa para a tropa. Deixo o resto de seu destino com Cintra. «Mas surgiu o dia 20 de Fevereiro de 1945, que ingressou na história como marco indestrutível da heróica expedição do 11o R.I. à Itália. Desfalcando a comunidade franciscana de São João Del Rei, 'te é o dia em que o manso e santo Padre Frei Orlando Alvarez da Silva, aquele que percorria alegremente as ruas de Del Rei, transmitindo a todos consolo e otimismo, tombou no posto de honra dos Apeninos, atingido por uma bala que lhe atravessou o coração. Apenas teve tempo para pronunciar o nome da Santíssima Virgem Maria». Já que 'tamos na meca, a seguir vêm os nossos pesos pesados. De entre eles, comecemos com a «heroína da Inconfidência Mineira, Patrona do Professorado Mineiro, Academia Paulista, Mineira e Sanjoanense de Letras», tudo numa só,» Bárbara Heliodora». Sanjoanense, filha de um proeminente advogado e de Maria Josefa, descendia de um bandeirante que comandou os paulistas na primeira guerra civil brasileira, a Guerra dos Emboabas, ocorrida pouco antes da instalação da Vila de São João Del Rei. Seu pai, formado em Coimbra, exerceu importantes funções eletivas na cidade. «Além de receber 'merada educação, era reconhecidamente de extraordinária beleza. Sua grande inteligência causava admiração aos seus conterrâneos, que se orgulhavam de suas virtudes cívicas e de sua forte personalidade». Muito jovem, já produzia versos e, aqui, Cintra 'correga no machismo, embora tenha sido sincero, ao dizer que «eram versos aceitáveis, fato raro, naqueles tempos, entre as mulheres». Com seus versos e sua beleza, casou-se com o poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto, natural do Rio, formado em leis em Coimbra, que, tendo sido «talentoso e aplicado», foi nomeado juiz em Portugal. Pouco depois, foi designado ouvidor da importante e vasta comarca do Rio das Mortes, sediada em " Del Rei. «Tão logo chegou, encantou-se com a beleza física e com os dotes 'pirituais de Bárbara». O romance terminou em casamento no ano de 1781. O padre foi Carlos Corrêa de Toledo, que também viria a ser um dos Inconfidentes Mineiros. «Alvarenga Peixoto, «poeta de 'tro qualificado», foi nomeado Coronel Comandante de um regimento de cavalaria. Vejam só. Tão logo deixou a função, tornou-se fazendeiro e grande minerador. Quando Tiradentes «iniciou o movimento que visava a libertação do Brasil, encontrou ardoroso adepto na pessoa de Peixoto, que pagou com o degredo e com cruéis humilhações o seu amor ao Brasil e à Liberdade». Com o marido preso e torturado, Bárbara " suportou com altivez tristes dissabores e em nenhum momento consentiu que Peixoto fraquejasse diante dos 'birros prepotentes e desumanos. Não fugiu, não se curvou, continuou no Brasil, experimentando 'poliações, intimidações e seqüestros de bens». Mas é claro que, para nós, e para todo o sempre, Bárbara Heliodora ficará lembrada como aquela que «vivia cercada de conforto, em companhia dos filhos, criados com desvelo, aprimorada educação e fartura». Parece que vai chover novamente, que não vai chover. Só me resta, agora, 'te embate final entre Tancredo Neves e Tiradentes, sanjoanenses, duas 'tátuas uma em frente da outra. O vento faz com que farfalhem de forma ameaçadora as folhas das árvores. O que já não sei, o que já não sabemos destes dois? Que talvez Tancredo, de forma inegável, figurará nos anais da história como aquele em que a «eloqüência madrugou cedo», já» nas festas comemorativas do centenário da Independência», quando «discursou, com agrado geral, na cerimônia de plantação de árvores»? Que talvez Joaquim José da Silva Xavier, de forma indiscutível, irrevogável, permanecerá em nossos corações como aquele que «manteve contato direto com o povo martirizado por a Coroa», e que,» no desempenho das profissões de mascate e tropeiro, nas suas andanças, praticou, sem ganho, o curandeirismo, tornando-se, por outro lado, muito conhecido por a habilidade de pôr e tirar dentes»? Missão cumprida. A avenida beira o rio. As pontes entrelaçam a cidade. Esta é a ternura da tarde morredoura que, como veio, se vai: Getúlio Vargas à frente. Dissimulado, oculto por um coreto, a me 'perar para encontro histórico. Desvio, tentado por a noite faiscante. Atravesso a ponte. Em a praça da Estação, outro busto me encara fixamente, outro busto me encara eternamente, mas saiba que não serei eu aquele que dirá quem fostes. Não hoje, «Antônio Rocha, Precursor da Viação Mineira». Número de frases: 119 www.heniodossantos.com Imaginando que se pudesse 'crever a Música Brasileira numa pauta e tomássemos uma faixa, pegando da época da colonização até o início do século XX, mais precisamente 1917, ano da gravação do que seria o primeiro samba (" Por o telefone ") por Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1891-1974), o Donga, perceberíamos que alguns dos gêneros musicais correntes em 'te período diminuem, enquanto outros aumentam e se subdividem. Entre os que se retraem 'tá o lundu, oriundo da música popular urbana, uma ramificação que se distanciou dos elementos africanos e indígenas, 'tes 'palhados por todo o País e em tom mais acentuado na zona rural. Conforme verbete da Enciclopédia Barsa Universal, o que se define como música urbana, vinda da aculturação afro-européia, evoluiu em algumas regiões da então colônia, mais nos centros urbanos, 'pecialmente o Rio de Janeiro. Entretanto, se o Rio de Janeiro, sede da capital federal, montou os primeiros acordes de 'ta que seria a música popular urbana, sob influência das emboladas de Almirante (1908-1980) e de Noel Rosa (1910-1937), do baião de Luiz Gonzaga (1912-1989) e de outros gêneros, a exemplo do cateretê, batuque, samba e maxixe, foi a Bahia, com o lundu e a modinha, que forneceu a base para os primeiros elementos rítmicos e melódicos do cancioneiro do Brasil. O radialista, musicólogo e pesquisador natural de Juazeiro (BA) Perfilino Neto (67 anos) vê a Bahia como pioneira da Música Popular Brasileira, em seu depoimento sobre o lundu, 'crito para a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, em 2000. Diz ele que a trajetória da música brasileira começa em fins do século XVII, quando o poeta satírico Gregório de Mattos Guerra (1633-1696), o Boca do Inferno, já compunha e cantava lundus, acompanhando-se à viola. Somente meio-século depois das cantorias de Gregório de Mattos é que o poeta e violeiro fluminense Domingos Caldas Barbosa (1738-1800) passa a difundir 'sas cantigas. Perfilino Neto defende que o poeta, mulato, filho de português e uma 'crava levada de Salvador para o Rio de Janeiro, cantava, na verdade, modinhas anteriormente divulgadas em saraus por as ruas de Salvador e que lhe foram, inegavelmente, repassadas por sua mãe. Em sua coletânea em dois volumes, «Viola de Lereno, publicada em Portugal (1798)» e 1822) e na Bahia (1813), Domingos Caldas Barbosa trazia poemas com fraseado próximo ao da modinha e do lundu. O compositor e poeta juntava traços afetivos do brasileiro de forma distinta da de os portugueses e com abordagem romântica, embora pouco profunda. Em Lisboa, para onde foi 'tudar, suas trovas ao som da viola de arame foram muito apreciadas. «Este lundum me dá vida Quando o vejo assim dançar; Mas temo se continua, Que lundum me há de matar Ai lembrança Amor me trouxe o lundum Para meter-me na dança»? José Ramos Tinhorão, no livro «Domingos Caldas Barbosa, o poeta da viola, da modinha e do lundu», ao buscar as razões que levaram o primeiro menestrel brasileiro a 'crever 'te» Lundum em louvor de uma brasileira adotiva», em «Viola de Lereno», defende (pág. 123) que a palavra lundu vem de calundu, dança ritual religiosa africana (às vezes chamada de lundu), que induz a um 'tado de possessão ao qual se dá o mesmo nome. Tinhorão diz, ainda, que, na Bahia, o poeta Gregório de Mattos Guerra mostrava um padre maganão (negociante de animais ou de 'cravos) a zombar da possessão da sua amante por os calundus, comentando: «que lhe dava [o padre] dos lundus / se é mais que os lundus magano?». De aí, raciona Tinhorão, que mais tarde dizia-se 'tar alguém «com seus lundus»,» ou calundus», quando possuído de profunda tristeza e melancolia. Assim, igualmente apreciado nos principais centros urbanos do Brasil, o lundu chega ao século XIX na qualidade de forma musical dominante e de primeiro ritmo afro-brasileiro, permanecendo em 'ta condição por muito tempo. É quando os principais compositores da época dão-lha formatação musical, enquanto a viola se firma na condição de instrumento de acompanhamento. Em o início do século XX começa a apresentar os primeiros sinais de perda de evidência. Mas, foi um lundu (" Isto é bom ") o primeiro ritmo registrado em disco fonográfico no Brasil, 15 anos antes do clássico samba de Donga. Embora a gravação tenha ocorrido no Rio de Janeiro, em 1902, por a Casa Edison (por a gravadora alemã Zon-O-Phone, que lançou o primeiro selo com gravações de música brasileira), o autor e o intérprete eram baianos. O primeiro, o ator e compositor Xisto de Paula Bahia (1841-1894), era de Salvador; o segundo, o cantor «Baiano», registrado Manoel Pedro dos Santos (1870-1944), de Santo Amaro da Purificação. Fusão De Elementos Antes de tomar a forma musical, o lundu era considerado indecente e impedido de ser mostrado nas ruas e teatros, tanto que até o final do século XVIII não era uma dança brasileira, mas um folguedo africano. Para alguns 'tudiosos, na condição de primeiro ritmo afro-brasileiro em formato de canção, o lundu seria, historicamente, o ponto de origem do samba, num processo de avanços que envolveria, também, o maxixe, embora não haja um consenso entre os musicólogos. Historicamente, o ritmo surgiu da fusão de elementos musicais de origens branca e negra, mas tem base na África, de onde veio, a bordo dos navios negreiros, na forma de dança. Depois, em meio ao sofrimento dos 'cravos, passou a canto, saltando de dança erótica para canção solo e, depois, para música de salão, tal qual aconteceria com blues, no início do século XIX, surgido do meio dos negros africanos levados para a América do Norte. A dança, ora era branda, ora era selvagem. Mas, sempre executada ao som de batuques e toques e de viola, seguindo uma coreografia marcada por a umbigada e o requebrado dos quadris. A encenação era tão carregada de sensualismo que as autoridades da Corte, ao tomarem conhecimento das características, proibiram a dança. Assim 'tá em " Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga ": A ligeira mulata, em trajes de homens, Dança o quente lundu e o vil batuque, E, aos cantos do passeio, inda se fazem Ações mais feias, que a modéstia oculta. Meu caro Doroteu, meu doce amigo. A Enciclopédia Barsa Cultural relaciona entre compositores na Bahia, do primeiro e do segundo impérios (1822-1889), Domingos da Rocha Muçurunga, autor de uma Artinha Muçurunga, e seu filho Zuzinha. Outros importantes, foram Chico Cardoso, José Pereira Rebouças, Damião Barbosa, Joaquim Silvério de Bittencourt e Sá, Maciel Tomé, Augusto Baltasar da Silveira e os padres Maximiano Xavier de Santana e Guilherme Pinto da Silveira Sales. Mas, foi no Rio de Janeiro, na condição de capital federal, que lhe dava importância política, aliada à uma intensa vida teatral, como registra a Enciclopédia Barsa, que o lundu e a modinha ganharam as ruas do centro da cidade, já na fase pós-Xisto Bahia e algumas décadas antes dos dois ritmos recuarem na pauta da música brasileira, dando 'paço para, mais tarde, florescer o samba, também com fortes raízes na Bahia. Abaixo, a letra da primeira composição gravada em disco no Brasil, por o cantor Baiano. Também gravaram mais tarde 'te lundu, de entre outros, Jorge Veiga, Nara Leão e a dupla Vitor da Trindade e Carlos Caçapava. Isto é bom ( Xisto Bahia) O inverno é rigoroso já dizia a minha vó quem dorme junto tem frio quanto mais quem dorme só Isto é bom Isto é bom Isto é bom que dói A saia da Carolina Custou-me cinco mil réis Levanta a saia mulata Que eu dou cinco e dou mais dez Isto é bom Isto é bom Isto é bom que dói Mulata levanta a saia Não deixa a renda arrastar Que a renda custa dinheiro Dinheiro custa ganhar Isto é bom Isto é bom Isto é bom que dói Minha mulata bonita vamos ao mundo girar vamos ver a nossa sorte que Deus tem para nos dar Isto é bom Isto é bom Isto é bom que dói Os padres gostam de moça E os casados também E eu como rapaz solteiro Gosto mais do que ninguém Isto é bom Isto é bom Isto é bom que dói Iaiá você quer morrer Quando morrer, morramos juntos Que eu quero ver como cabem Em uma cova dois defuntos Isto é bom Isto é bom Isto é bom que dói. ... Nota do autor Este texto veio com a sugestão de Spírito Santo, quando 'crevi «Literatura da Viola». Número de frases: 91 Não acrescento nada de novo e, à exceção de uma conversa com o baiano Perfilino Neto, tudo aqui é resultado de compilação do que já foi publicado e da leitura do livro de José Ramos Tinhorão. O teatro 'tá calado. Todos 'peram sentados por Céu. Em Porto Alegre, a menina de 28 anos que emplacou o topo da lista da Billboard para revelações, foi indicada ao Grammy Latino e fez shows na Europa e nos Estados Unidos parece ser apenas uma desconhecida. Grávida de quase seis meses, Céu entra no palco do Teatro Bourbon, mas parece ter levantado da cama. O palco é seu quarto. De sapato baixo, calça legging preta, uma blusa larga que disfarça a barriga e uma flor no cabelo, a paulistana não aparenta ter mais de 22 anos. É uma menina na frente do 'pelho, cantando para ela mesma. Não tem o glamour das grandes divas da música. Se morasse em Porto Alegre, poderia ser qualquer uma das universitárias que lotam as calçadas da Rua da República, na Cidade Baixa. A o começar a cantar Roda, tudo muda. A garota tem voz de mulher crescida. É forte, grave, afinadíssima, tem presença de palco, sabe o que faz ali. É a mulher no meio de cinco homens. É a voz em meio aos instrumentos. Aliás, os instrumentos entram depois. Céu canta à capela, acompanhada por ela mesma e por a malemolência tímida com que dança. Conversa com o 'pelho. O público apenas olha. Parece respeitar aquele momento de intimista da guria. Só na quarta música, quando Céu manifesta intenção de cantar Concrete Jungle, clássico de Bob Marley é que alguns assoviam. O 'petáculo é todo baseado no primeiro e único CD da moça, Céu. A força da voz lembra a da americana Fiona Apple. É romântico sem ser piegas, é samba sem ser antigo, é moderno sem ser bate-estaca. O público gosta quando entra o solo de percussão de Bruno Buarque. Céu dança e confessa o gosto por a música africana. Depois é a vez da brincadeira com o DJ Marco. O momento é a síntese do trabalho de Céu: junção da primitividade das percussões com a modernidade da música eletrônica. Quando anuncia o fim do show, a audiência enfim se manifesta. Pedem por a volta. Quando ela começa a cantar, repetindo a primeira música do show. A platéia canta com ela, que se 'panta com a repentina participação. E sorri. Está em casa. Assista a um trecho do show em Porto Alegre: http://www.youtube.com/watch? Número de frases: 37 v = pML0 iOAFG6w & Pouca gente sabe, mas o Brasil tem um cinema trash underground para além dos mestres Zé do Caixão e Ivan Cardoso. Eu 'tou agora ansioso por a continuação do para mim já clássico Bruxa do Cemitério, 'crito, produzido, dirigido e interpretado por o realisáteur paranaense Semi Salomão Neto. Assisti ao Bruxa do Cemitério I numa das maratonas cinematográficas do Cine Odeon. Em o mesmo dia acontecia a pré-'tréia de «Cheiro do Ralo», anunciado por Selton Mello como produção independente que custara módicos 30 mil reais. Depois apareceu Salomão apresentando seu filme com um orçamento de 1.000 reais! Enquanto a bruxa paranaense não volta, acompanhem abaixo a entrevista com o cineasta de nome cabalístico. Como surgiu o interesse por cinema e por combinar elementos fantásticos e sobrenaturais com certa crítica política e humor? Semi Salomão -- O interesse por o audiovisual em geral surgiu na infância. Eu já tinha uma identificação muito grande por filmes que abordavam o sobrenatural, fantástico e demais filmes surrealistas como «Fúria de Titãs (1981)», com os efeitos Stop-Motion de» Ray Harryhausen». «Simbad» e outros filmes deste gênero foram fundamentais para a minha vontade de fazer cinema. Quanto as combinações eu sempre digo que eu não busco refêrencias e sim eu tenho meu 'tilo próprio e vejo as coisas de uma ótica diferente da maioria. Por isso dentro das temáticas dos filmes deixo a imaginação e a criação (meu ponto forte) fluirem livremente, e é claro, sempre que possível, incluindo campanhas sociais como o desmatamento da Amazônia que abordei no meu ultimo filme «Envolvimentos Perigosos». Muitos cineastas famosos começaram dirigindo filmes chamados «B». O último grande exemplo é Peter Jackson, que iniciou a carreira com o incrível «Fome Animal» e depois recebeu o oscar por a superprodução «Senhor dos Anéis». Qual o diferencial de alguém que dirige filmes não-convencionais? Ss -- A diferença 'tá nas pessoas e equipamentos técnicos, de resto as regras em geral são as mesmas. Em o meu caso 'pecifico eu sou centralizador: gosto de acompanhar e produzir passo a passo cada etapa de produção, desde a criação do roteiro até a edição final do produto. Eu acho que o gosto de realizar um filme com poucos recursos e sair vencedor talvez seja maior do que uma superprodução milionária com centenas de pessoas. O segredo 'tá no marketing e na mídia, o que eu consegui fazer com sucesso com «A Bruxa do Cemiterio», que é exibido em todo o pais até hoje. Foi uma produção com pouquíssimos recursos, mas os elementos e a história em si chamaram a atenção, o que elevou o filme a «cult», que pra mim é uma grande honra. Você não acha o cinema brasileiro muito polarizado entre filmes tipo «Globo Filmes» e filmes «cabeça», sem 'paço para outras propostas cinematográficas que são tão antigas quanto o próprio cinema, como é o caso do cinema fantástico? Ss -- Concordo plenamente. Acho que 'sas grandes distribuidoras / produtoras deveriam abrir mais 'paço e diversificar o nosso cinema em diversos gêneros. Mas talvez a grande «massa» brasileira não 'teja suficientemente aberta para receber novas propostas. Existe o exemplo da TV brasileira em modo geral, nas novelas que já tentaram sair do clichê. Porém 'ta fábrica do entretenimento ensinou ao brasileiro aquele padrão e quando sai deste padrão já é considerado ruim, 'quisito. Eu acho que deveria abrir 'paço sim para 'tes novos gêneros no cinema e na TV. Já 'ta acontecendo na Record com a novela ' Os mutantes ' e o brasileiro comum já 'ta aprendendo a gostar de 'tas produções diferenciadas. Só falta uma produtora de renome como a Globo Filmes aderir ao cinema fantástico e investir em 'tes filmes. Além de 'crever, produzir e dirigir, você também gosta de atuar nos seus filmes. O único cineasta que eu conheço que gosta de fazer isso sempre é o M.Night Shymalan, numa clara alusão não muito bem-sucedido à Hitchcock. Qual a sua motivação em atuar? Ss -- Não sei no caso de ele, mas no meu caso eu 'tou investindo na área de atuação. Minha intenção, digo com a boca cheia, é me tornar um grande ator brasileiro não só para trabalhar no cinema mas na TV também, 'se sempre foi meu grande sonho. Em os meus primeiros filmes ficava mais em segundo plano, pois eu pensava mais no conjunto da obra e não num personagem 'pecifico, por isso não ficava evidente 'ta minha vocação. Os meus melhores personagens 'tão nos últimos filmes que eu fiz, «' Historias do Sobrenatural» (2006), como um cavaleiro medieval, «Hotel América (2007)» como o roqueiro Led e o melhor de todos em 2008 como o vilão Ravel de Envolvimentos Perigosos, onde tenho recebido muitos elogios da crítica, e foi a oportunidade que faltava para eu poder mostrar ao público todo o meu talento como ator. Inclusive já recebi propostas para atuar em televisão no Rio de Janeiro. Quando veremos seus filmes em grande circuito e quais seus próximos lançamentos? Ss -- Meu filme Envolvimentos Perigosos (2008) 'ta rodando o Brasil no dia 25 de Junho terá sua 'tréia em Curitiba / PR, em breve irá para São Paulo e Rio. Existe algumas produtoras interessadas em lançar em DVD alguns de meus filmes no Brasil. Em o momento 'tou produzindo uma peça de teatro que deverei lançar no Paraná. Quanto ao cinema, ainda é incerto, mas tenho em mente uma continuação da Bruxa do Cemitério. Número de frases: 44 Introdução Antes de 1500, o Brasil era uma terra de vários donos, de várias tribos, de vários dialetos. Com a chegada do homem branco, em 1500, e a conseqüente colonização, 'cravidão, imigração de povos, a terra tupiniquim adotou uma língua própria, o português, ou «brasilês». Para ser formado o idioma português, foram necessários a influência de nove famílias lingüísticas: latim, indo-européia, itálica, românica, românica-ocidental, galo-ibérica, ibero-românica, ibero-ocidental, galaico-portuguesa. Em o Brasil, o tupi (mas precisamente o tupinambá, uma língua do litoral brasileiro) foi usado como língua geral na colônia ao lado do idioma português. Com o processo de 'cravidão no país a língua falada na colônia recebeu uma nova roupagem. A influência africana no Brasil veio com o Iorubá, falado por negros vindos da Nigéria e do Quimbundo angolano. Em o século XIX imigrantes europeus chegaram ao país e proporcionaram novas contribuições no idioma. Franceses, italianos, alemães, 'panhóis e japoneses fizeram com que o regionalismo e a diversidade nas pronuncias se aflorasse. A distância entre as variantes portuguesas e brasileiras do português aumentou em razão dos avanços tecnológicos do período: não existindo um procedimento unificado para a incorporação de novos termos à língua, certas palavras passaram a ter formas diferentes nos dois países (comboio / trem, autocarro / ônibus, pedágio / portagem). A priori, a língua falada no Brasil é denominada de Língua Portuguesa, oriunda dos colonizadores portugueses. Porem, o período de colonização do Brasil propiciou a vinda de povos de terras distantes, culturas diferentes fazendo assim uma sincronia de seus dialetos com o idioma do colonizador e dos povos aqui antes encontrados, os índios. O idioma português do Brasil contem palavras que no idioma da terrinha não existe, como: mandioca, abacaxi, tatu (palavras de origem indígena), caruru, caçula, samba (nomes originários do Iorubá e do quimbundo angolano) de entre outras palavras. É importante salientar às diversas pronúncias, fonetismo, da Língua Portuguesa do Brasil, nas diversas regiões do país. Isso gera uma polêmica sobre quem realmente fala o português corretamente. Essa polemica gera um preconceito denominado, preconceito lingüístico, na qual 'te artigo tratará 'te assunto, baseando no livro de Marcos Bagno e nas pesquisas de campo desenvolvidas por nossa equipe. O Preconceito Lingüístico As pessoas do Rio de Janeiro ao pronunciar a consonte «s» em palavras como posto, casta, história libera o som da consoante «x» (fala-se poxto, caxta, hixtoria). O português do Maranhão é falado semelhante ao de Portugal. Os paulistanos e mineiros falam com bastante afinco o som da consoante «r». Essas variações do português leva a uma discussão, provocação em qual lugar melhor se fala melhor o português. E isso gera o «Preconceito Lingüistico». Mas o que é preconceito lingüístico? «Preconceito lingüístico é uma forma de preconceito a determinadas variedades lingüísticas." ( Wikipédia, a enciclopédia livre, pt. wikipedia. org) O preconceito lingüístico é visto com vigor quando uma pessoa diz uma palavra que foge da gramática normativa da língua portuguesa e imediatamente é corrigida de acordo com 'sa gramática. O que é correto, vassoura ou bassoura? Depende do contexto, da regionalização vivido, etc. Para alguns lingüistas, os chamados erros gramaticais não existem nas línguas naturais, salvo por patologias de ordem cognitiva. Ainda assim, segundo os lingüistas que são favoráveis a tese do preconceito lingüístico, a noção correta imposta por o ensino tradicional da gramática normativa origina um preconceito contra as variedades na padrão. Quem primeiro apresentou uma visão libertaria do marxismo foi o sociólogo Nildo Viana¹, um dos brasileiros mais influentes com relação à epistemologia. Para Viana a linguagem é um fenômeno social e 'tá ligada ao processo de dominação, tal como, o sistema 'colar, que é a fonte da «dominação lingüística». «A ligação indissolúvel entre linguagem, 'crita e educação com os processos de dominação, é a parte de preconceito lingüístico, pois a língua 'crita veiculada por a 'cola se torna a língua padrão, e 'ta, a norma geral que todos devem seguir, mas o seu modelo se encontra entre os setores privilegiados e dominantes da sociedade." ( Viana, Nildo; Educação, linguagem e preconceito lingüístico Wikipedia, a enciclopédia livre; pt. wikipedia. org) Em a Inglaterra por exemplo, a lingüista Deborah Cameron², autora do livro «Verbal Hygiene» fez sua obra propondo ouvir as pessoas de seu país que se importam sobre as questões lingüísticas e que não apenas falam seu idioma, mas que são apaixonadas por ele. Cameron começou sua obra citando o jornal «The Sun», que diz: «Tradições inglesas do passado 'tão sob ameaça." 1 Com formação em Sociologia e Filosofia, sendo graduado, mestre e doutor em Sociologia e Especialista e Mestre em Filosofia, Nildo Viana é um dos pensadores brasileiros mais prolíficos na contemporaneidade. 2. É uma feminista inglesa, professora de linguagem e comunicação da Faculdade de Worcester e da Universidade de Oxford A reportagem focava que alguns ingleses denominados «anaroks», saiam às ruas para panfletar que a língua 'tava sendo descaracterizada, arruinada por a mídia em geral. Em os Estados Unidos da América, por exemplo, não existe uma academia reguladora dos assuntos lingüísticos, porém existem pessoas que, como no Brasil, Inglaterra, de entre outros tomam para a si 'sa função sendo elas conhecidas como «language mavens». O fato é que o preconceito lingüístico existe. Os críticos da tese do preconceito lingüístico argumentam que a tese em si, se apontada na íntegra, resultaria num descrédito das normas gramaticais que por sua vez levaria a dificuldade das pessoas na comunicação num futuro próximo. O uso da linguagem tem sido sempre marcado por intolerância e preconceito. Porém, a intolerância lingüística consegue ser mais mascarada que o preconceito. É muito comum você encontrar pessoas tentando corrigir outras num português «à sua maneira». Qual é o correto «olha gente» ou «oxente»? «A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela sempre existiu e sempre existirá independentemente de qualquer ação normativa. Assim quando se fala em «Língua Portuguesa» 'tá se falando de uma unidade que se constitui variedades." ( Parâmetros Curriculares Nacionais, Língua Portuguesa 5ª a 8ª series, p. 29.) É importante salientar que o português falado no Brasil tem uma histórica relação de mistura de idiomas e dialetos. Os povos que formaram 'sa nação transcreveram um pouco de sua história com uma herança lingüística. O Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro são tidos como os 'tados em que mais bem é empregado o idioma português. Marcos Bagno em seu livro «Preconceito Linguistico» explica ponto a ponto o por que desse critério avaliativo. «Acontece, porém, que os defensores desse mito não se dão conta de que ao utilizarem o critério prescritivista de correção para sustentá-lo se 'quecem de que os mesmos maranhenses que dizem «tu és, tu vais, tu foste, tu quiseste», também dizem: Esse é um bom livro para ti leres." ( Bagno, Marcos, Preconceito Linguistico o que é, como se faz, 44ª edição, p. 47) E ainda: «Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, ela inevitavelmente sofrerá transformações para se adequar as novas necessidades." ( Id) Em uma apresentação de vídeo da equipe composta por Amine Leitão, Viviane Martins, Célia Fonseca e Jéssica Barros, 1º semestre de jornalismo das Faculdades Dois de Julho, sobre o Preconceito Lingüístico, norma culta e variação lingüística, o professor Ivan Espinheira do Colégio Sacramentinas de Salvador afirmou que o brasileiro falava mal o português, porem era muito criativo. Em sua entrevista o professor deu a entender que conhecia a tese do preconceito lingüístico mas não praticava. Este professor literalmente, em sua academia, não deve ter assimilado bem as variações lingüísticas como: Variação histórica, variação geográfica, variação 'tatística, variação social. As diferentes modalidades de variação lingüística não existem isoladamente, havendo um interelacionamento entre ela. Como exemplo disso, uma variante geográfica pode ser vista também como variante social, quando se tratar da migração regional no país. «O conhecimento do padrão de prestigio pode ser fator de mobilidade social para um individuo pertencente a uma classe menos favorecida." ( Camacho, R. (1988), A variação lingüística, In: Subsidios à proposta curricular de língua portuguesa do 1º e 2º graus. Secretaria de Saúde de São Paulo, p. 29.) A intolerância lingüística 'tá fortemente relacionada como outras formas de intolerância (a raça, religiosa, sexual, política), mas é examinada, porém, também nas particularidades e 'pecificidades própria da linguagem. Para amenizar um pouco 'sa intolerância, lingüistas brasileiros, segundo Marcos Bagno, vem sofrendo ataques contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade. Os gramáticos que são contra a teoria do preconceito lingüístico acusam os 'tudiosos da linguagem de defenderem o não-ensino das formas padronizadas, levando a uma crise lingüística. «Achar que a língua 'tá em «crise» e que para superar 'sa «crise» é necessário sustentar a doutrina gramatical sem submetê-la a uma crítica serena e bem fundada, é a meu ver, uma atitude que só pode ter duas explicações: «a ignorância cientifica «(pessoa que nunca ouviu falar na lingüística) ou» desonestidade intelectual «(finge que não conhece a lingüística)» (Bagno, Marcos, Preconceito Linguistico, 44ª edição, p. 152.) Porém, lingüistas como José Maria e Silva em seu artigo «O mito do Preconceito Lingüístico» afirma que o sociolinguista Marcos Bagno deveria ter sua licença caçada. «É possível se conceber uma mente mais tacanha, mais abjeta, mais materialista, mais obececada em poder e dinheiro do que 'sa de Marcos Bagno?" ( e Silva, J.M, O mito do preconceito lingüístico, http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php? sid = 166) José Maria em seu artigo afaz ainda uma inferência a sociolingüística afirmando que lingüistas que aderem 'sa tese são incapazes de alcançar o rigor da ciência. «Muitos alunos de letras, por deficiência cognitiva, aderem a ela. Incapazes de alcançar o rigor da ciência, contentam-se em macaqueá-la. De aí o enorme sucesso que qualquer autor minimamente alfabetizado faz entre 'sa gente da pseudolingüística -- que não é outra coisa a marxolingüística praticada por a nova geração de professores das faculdades de letras. Por o fato de 'crever inegavelmente bem, algo cada vez mais raro nas academias, o jovem Marcos Bagno tornou-se uma Marilena Chauí de calças -- faz, em letras, o mesmo sucesso que ela faz em filosofia. Os dois têm em comum a eloqüência, o confusionismo e uma indisfarçável vocação para a charlatanice intelectual." ( Id) O fato é que o preconceito lingüístico existe. Alguns defendem a manutenção o português padrão, da gramática normativa como a única forma correta de se usar o português; outros acreditam que o português do Brasil é somente diferente e que se deve considerar as variantes como uma forma correta também de se usar o português. Conclusão O nosso trabalho foi baseado no livro Preconceito Lingüístico o que é, como se faz, do sociolingüista Barcos Bagno. Fizemos algumas pesquisas de campo buscando com pessoas nas ruas as diversas formas de se expressão. Percebemos que algumas palavras da língua portuguesa eram ditas de uma forma completamente diferente do que nós, componentes da equipe falamos. Antes de fazermos o trabalho tínhamos uma visão quase unânime que a nossa forma de falar era correta, sendo que muitas das vezes, corrigíamos as pessoas e de forma crítica e às vezes pejorativa sorriamos da forma de expressão de algumas pessoas. As peça teatral, 7 Conto 'trelada por o baiano Luis Miranda, cujo personagem Dona Edith era uma mulher da favela que fez um livro que se chama «Como educar seu filho na favela» tratava de uma mulher que fala um português dito «errôneo». A platéia sorria daquele ato. Depois de ter lido o livro de Marcos Bagno vimos que aquele português não era errado, mas sim diferente de uma norma padrão imposta em nossas 'colas. Assistindo o programa «Sai de Baixo» deparamos com um personagem chamado Magda Antibes, que sempre soltava palavras de um português dito errado. Percebemos também que aquele português não era errado, mas sim diferente. Convivendo com uma colega de sala, chamada Celia Fonseca, natural do Estado de Minas Gerais, fomos percebendo que o ato de ela dizer algumas palavras expressando algumas consoantes com mais afinco não fazia de ela 'tar falando errado, mas sim, por o fato do regionalismo e suas variações ela tinha um modo diferente de expressar o seu português. O trabalho nos propiciou uma visão mais ampla do que é o português falado no Brasil. Temos um idioma, na teoria igual ao do idioma mãe, porem na pratica completamente diferente. As varias imigrações que aconteceram em nosso país propiciou um sincretismo lingüístico com a Língua Portuguesa e diversas outros idiomas. Percebemos que somos privilegiados em termos uma língua capaz de atender a todos em seu contexto e que diferentes ou não, o nosso português é único e é o português do Brasil, com suas diferentes etnias. Número de frases: 110 Um traço que não é riscado à carbono. A lâmina que entalha a madeira gravou marcas na borracha, a tão pouco conhecida Linogravura de Dila, o maior Xilo ou Lino -- gravurista do país. Um cantor adorado por as massas que em vaidade processa e bloqueia a obra do artista. Essa é a história que vou tentar traçar. ( Lembrando. Eu não sou xilogravurista) Em os 100 anos de comemoração da Xilogravura na Literatura de Cordel eu faço uma pergunta: O que é Literatura de Cordel? Uma arte que existe no Brasil há um século, tem em Caruaru um ícone de existência e resistência, a Academia Caruaruense de Literatura de Cordel é pioneira em 'sência no Planeta. ( Saudações Herlon!). Semanalmente reúne os melhores artistas populares do Nordeste, ' quiçá ' do mundo, lembrando do meu Grande amigo Diego Barbosa. As letras garrafais de Grande são sinceras. No entanto, a mídia artística se preocupa em acompanhar os passos de mais uma briga judicial de ' famosos '. Não seria a separação de um 'trangeiro com a parte colorida do globo, mas sim de um Rei que não quer perder dinheiro em sua biografia não autorizada. Repetindo a palavra, a majestade de quem vos falo se chama Roberto Carlos Braga, nascido da humilde cidade de Cachoeiro de Itapemirim -- ES, é considerado o maior vendedor de discos da América Latina e o cantor brasileiro que mais vendeu discos no mundo. Mas, acredito eu, que na minha enorme ignorância, ele precise de dinheiro da publicação de uma biografia. Sentimentos humanos pessoais à parte -- Vaidade. O que pretendo na verdade é mostrar uma pérola da Literatura de Cordel que Roberto Carlos ou não viu, ou não se importou com o lucro advindo da obra. O cordel intitulado ' Carta do satanás a Roberto Carlos ', traz a fábula do poeta popular Enéias Tavares dos Santos explicando o que o Cão, Satanás, a Besta Fera, fez quando se viu cansado de ouvir o Rei mandar tudo para o Inferno. Aqui vai a Literatura: «Inferno, corte das trevas, / Meu grande amigo Roberto, / Eu vi o seu novo disco / É muito bonito, é certo, / Mas cumprindo a sua ordem, / O mundo fica deserto. / E o soberano das trevas faz mais 'te apelo ao ídolo da jovem guarda: «Tem feito muito sucesso / Essa sua gravação / Mas eu já sofri até / Ataque do coração / Porque aqui no inferno / É de fazer compaixão. / Se para aqui vier tudo / Eu fico muito apertado / Pois o inferno já 'tá / Por demais superlotado, / Você ganhando dinheiro / E eu ficando aqui lascado». / Com 'se folheto sendo publicado ininterruptamente há mais de 40 anos, o poeta autor conseguiu ' botar em dia as contas ', como ele mesmo diz. É isso. Roberto Carlos não quer saber de ninharia e o Mestre Dila continua em sua humilde casa riscando, rasgando e compondo o que faz de melhor -- melhor de todos -- Xilogravura. Em os 100 anos de comemoração da Xilogravura na Literatura de Cordel eu faço uma outra pergunta: Número de frases: 26 Vocês viram comemoração?. Quando o Maracanã, depois de nove meses fechado, foi finalmente reinaugurado, a expectativa do torcedor não era apenas de ver os grandes clássicos de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído. A 'perança maior era que os quatro grandes times do Rio também voltassem a seus dias de glória e proporcionassem aos seus torcedores 'petáculos que, graças à qualidade em campo, revivessem os tempos em que o futebol carioca era respeitado em todo o Brasil. E o começo foi mesmo bonito: oito gols na vitória do Botafogo sobre o Vasco. Porém, com o fim da Taça Guanabara, o primeiro turno das disputas no Rio, ficou demonstrado que a derrocada continua. Coisa que todos já 'tão cansados de saber: foi sintomática a manchete de um matutino no ano passado, anunciando que o futebol carioca fez, em determinada rodada do Brasileirão, as pazes com a derrota. A ironia não foi nada fina. Pois eis o fato: em todo o Brasil pode se perceber um movimento de profissionalização extrema do futebol. Contratações milionárias de jogadores 'trangeiros em times paulistas, o reconhecido técnico alemão Lothar Mattheus dirigindo um time do Paraná, os times do Sul finalmente reencontrando seu caminho de volta definitiva? elite do 'porte. E os cariocas? Perdidos em meio a confusões, salários atrasados e deficiência técnica, os torcedores ficam atônitos. Tanto é assim que Romário, símbolo deste cenário, afirmou com todas as letras que continuaria jogando mesmo já tendo passado dos quarenta porque, segundo ele, o nível do futebol carioca 'tá muito fraco. Mas será que é apenas isto que explica a classificação de apenas um dos grandes, o Botafogo, para as semifinais do primeiro turno do campeonato 'tadual deste 2006? Os outros três classificados (América, Americano e Cabofriense) não 'tão apenas chutando cachorros mortos. É desmerecedor da parte de qualquer um deixar de reconhecer os méritos destes times. E não apenas de eles: o caçula da Baixada, o Nova Iguaçu, e o Volta Redonda também vieram bem. O Fogão, inclusive, só não foi desbancado por conta do saldo de gols -- porque, no confronto direto com o Volta, foi 'te que se deu bem. Ainda há muita resistência em se admitir que o profissionalismo que se 'palha por o resto do país não consegue chegar aos tradicionais times cariocas, com dirigentes decanos e jeitinhos mil de se fazer as coisas. Isso do jeitinho, que leva aos famosos caminhos da Lei de Gérson, já deveria ter sido enterrado faz um tempo. Mas todos, dos clubes à federação, parecem se acomodar e ninguém faz nada. Clube empresa? Nem pensar! E aí cada time fica dependendo do aparecimento de um ídolo, que se torna privilegiado enquanto o resto do plantel fica lá, ralando. A troco de quê, mesmo? Enquanto isso continuar acontecendo, o Maracanã, coitado, acabará tendo que ser palco para que os torcedores dos grandes cheguem ao desespero. Como na rodada final da Taça Guanabara, na qual o Flu perdeu para o Cabofriense, numa jornada dupla em que o Botafogo também apanhou do velho Ameriquinha. O que já faz alguns torcedores pensarem em coisas tristes. Como um amigo flamenguista que, desolado, disse para mim algo a se pensar: «De o jeito que vai, futebol bom no Rio vai ser que nem a Geral do Maraca: nunca mais». Número de frases: 35 É triste. O projeto cultural Olhar Caiçara, criado por a comunidade caiçara da Juréia, no litoral sul paulista, e gerenciado por a organização não-governamental Mongue Proteção ao Sistema Costeiro, conquistou o apoio financeiro da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura. Com o patrocínio ao longo de 12 meses, algumas das comunidades litorâneas existentes de Parati, no Rio de Janeiro, até Paranaguá, no Paraná, ganham seu primeiro projeto de intercâmbio e registro da cultura de populações tradicionais. «O Olhar Caiçara» vai promover o intercâmbio cultural entre as diversas comunidades e vai usar o audiovisual para isso. A partir do próprio ponto de vista, eles poderão conhecer, registrar e preservar suas tradições», explica o secretário-executivo da ONG, Plínio Melo. Em o dia 3 de junho aconteceu a primeira ação, na cidade de Cananéia, quando um morador de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, o Julinho Mendes, conheceu a Domingueira de Fandango, uma festa em praça pública. Outras ações 'tão programadas para 29 de junho, em Ubatuba, na Festa de São Pedro, e em 4 de agosto na da Serraria, uma comunidade isolada de Ilha Bela. O Olhar Caiçara conta com o apoio de professores do GENS, uma empresa prestadora de serviços educacionais e da ONG Cala-boca já morreu. O projeto é uma conseqüência do sucesso da ação anterior da Mongue, o «Viola Peregrina», que teve como condutor a chamada viola iguapeana, também conhecida como viola branca, que existe apenas em 'ta região de Iguape, no litoral sul paulista. Uma viola foi produzida por luthiers locais e peregrinou por várias comunidades da Juréia. «Registramos músicas, danças e festas religiosas de caiçaras», explicou Plínio Melo. Em os últimos anos, moradores das comunidades tradicionais se transferiram para a cidade por causa das restrições ambientais. Com isso, perderam os vínculos com a tradição caiçara, caracterizada por a transmissão oral dos conhecimentos. Além registrar manifestações culturais na forma de vídeo em DVD, programas de rádio em CD, textos, site e blog, o Viola Peregrina gerou renda para mais de 200 pessoas em sua fase inicial. Se o «Olhar Caiçara» também for um sucesso, a Mongue pretende executar a terceira etapa do projeto. Número de frases: 15 «Vamos buscar financiamento para construir um bairro temático reproduzindo um vilarejo caiçara com Escola, uma cooperativa de cantadores e luthiers, uma casa para produção de doce, um restaurante caiçara, um local para produção artesanal de farinha onde os envolvidos poderão utilizar os equipamentos de marcenaria, adquiridos para produzir e obter renda com a venda de seus trabalhos e artesanatos», adianta Melo. Esse ano a Red Bull Music Academy investiu no Workshop de Belo Horizonte de forma barata e criativa. O tema do evento foi «Sem gastar muita nota -- Como produzir com equipamentos baratos» e o mais que apropriado 'paço chamado Reciclo, com decoração à base de materiais reciclados, virou palco de trocas de informações e experiências importantíssimas para produtores de música em geral. Com um computador usado de R$ 60 (??), uma placa de som externa de R$ 200, um microfone feito de auto-falante e caixa de papelão e um violão improvisado feito da mesma caixa adicionada de um cordão a ela amarrado, Xerxes e L. (ex-participante da RBMA Toronto), juntamente com a participação 'pecial de artistas locais como Menorah, Nedu Lopes, Alexei Michailovski e parte do público presente, produziram um embrião de uma faixa de minimal à brasileira. Usando um 'tilete, Xerxes picotou o sulco final de um vinil e criou os beats característicos do 'tilo musical. Nedu fez «scratches» precisos com um vinil de teste de frequência e percussionistas locais (que tem um trabalho no mínimo ímpar com produção de música a partir de enxadas) batucaram à vontade. Depois os produtores L. e Menorah juntaram os loops e som na caixa. Com muita descontração e participação do público, Xerxes, que agora se mudou de São Paulo para BH, aproveitou o ensejo para contar um pouco de sua história. Começou sua experiência em produção de música com antigos rolos de DAT picotados à mão com os quais participou de concurso de produção o qual ganhou mesmo tendo entregue material um pouco depois do prazo. Falou sobre seu aprendizado em 'túdio com o lendário Gregão e sobre seu ardiloso processo de aprendizado da lingua inglesa, que se deu através da leitura de manuais de instrução dos equipamentos da época. Aprendeu a falar um «inglês técnico», meio robótico, cheio de expressões nada comuns ao vocabulário normal de uma conversa cotidiana. Falou ainda da sua experiência junto a Ramilson Maia ao prensar seus primeiros vinis na fábrica de Belford Roxo (RJ), que no final, segundo ele, soavam horripilantemente mal. Os «clicks» e «pops» emitidos por o passar da agulha dentro dos sulcos do disco eram mais altos e bem definidos que os tracks que produzira. Quase desistiu e voltou ao antigo sonho de ser cartunista, porém sua vontade de aprender segurou as pontas no final das contas. Em um clima relax e entre um gole e outro do energético, íamos nos deliciando com os contos e paródias de um dos mais importantes produtores de música eletrônica do país, que no fundo, se mostrou um ser humando como todos nós, cheio de falhas, paixões, decepções, alegrias e idéias maravilhosas. As inscrições para o processo de seleção para a Red Bull Music Academy, que acontecerá 'te ano em Barcelona, terminam em 'te próximo dia 5 de maio. Quer participar? É só entrar no site www.redbullmusicacademy.com Qualquer dúvida contactem quizzik@redbullmusicacademy.com Quizzik é produtor e DJ de Brasília Número de frases: 21 infos: www.myspace.com/quizzik Um amor em 'tado de sítio Um garoto narra sua origem, a favela do Cantagalo, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro. Vai para o trabalho, onde ele é vendedor de cachorro-quente na praia e lembranças da infância vêm à mente de Dé (Thiago Martins). Ocorre um jogo de futebol entre moleques da favela, uma das crianças armadas manda no morro e agride violentamente o seu irmão Beto. Ele joga muito bem, mas o traficante morre de inveja desse talento e atira por as costas de Beto. O irmão mais velho do vendedor de cachorro-quente, Carlão (Rocco Pitangua) sai do morro por enfrentar o garoto que matou o seu irmão. Carlão é preso por a polícia durante um arrastão na praia, porque Dé 'tava com um revólver e planejava vingar à morte de Beto. (Era Uma Vez ..., Brasil -- 2008, 110 min.) é o segundo longa-metragem do diretor Breno Silveira, que mostra o romance de Nina, uma garota rica da zona sul carioca e Dé, um rapaz pobre e honesto. Diferenças sociais vêm à tona, porém isso não é o suficiente para acabar com o amor do jovem casal. Como, em 2 Filhos de Francisco (2005), filme que levou mais de 5 milhões de 'pectadores ao cinema, Breno mantém a mesma fórmula de humanizar seus personagens. à noite, Dé vê uma garota que ele já observa há alguns dias, Nina (Vitória Frate) moradora de um luxuoso condomínio da Viera Souto, brigar com o namorado. Ela fica atordoada e vai em direção à praia. Dé a salva de um assalto e gentilmente leva Nina para casa. Finalmente o bom moço fala com a sua cara-metade e a partir daí, rola um namoro entre eles. Nina sobe ao morro para se encontrar com Dé, junto com a amiga patricinha Cacau (Luana Schneider), as meninas curtem um baile funk e a Julieta da zona sul flerta com o seu Romeu carioca. Ela faz uma visita ao seu barraco, onde passam uma noite juntos e num clima extremamente fantasiosos são embalados por uma romântica trilha sonora. Era Uma Vez ... propicia um insólito «conto de fadas» na tela. O pai de Nina, Evandro (Paulo César Grande) aceita o namoro, mas o romance é interrompido. Deitada nas areias de Ipanema Nina lê o livro Cidade Perdida (2000) do jornalista mineiro Zuenir Ventura, 77 anos. Essa obra traça um paralelo com o filme, quando pessoas de uma mesma cidade criam diferentes realidades de vida e lutam por o mesmo ideal: a sobrevivência. O longa-metragem se passa basicamente em três ambientes: à praia, a favela e o condomínio. Thiago Martins foi aceito no último teste, pois nos anteriores, Breno Silveira, o considerou bonito demais para fazer o Dé. Então o ator ficou exposto ao sol por 5 horas na praia do Leblon e com o novo aspecto conseguiu o papel. Thiago iniciou sua carreira no grupo Nós do Morro, um projeto social realizado com moradores da favela de Vidigal, de onde ele vem. Segundo Breno, o final de Era Uma Vez ... foi inspirado no filme Ônibus 174 (2002) de José Padilha. Silveira teve que gravar um outro final, porque o primeiro foi considerado violento demais. Ironicamente como o próprio diretor diz, «O roteiro no cinema nacional é a nossa grande falha». O roteiro que foi 'crito por Patrícia Andrade e com a colaboração de Domingos de Oliveira é perfeitamente previsível por o ritmo da narrativa. Percebemos que o 'tendido «conto de fadas» tem os dias contados e elimina o fator surpresa para o 'pectador. Era Uma vez ... tem uma bela fotografia nas cenas externas, o que felizmente já é uma tradição em nosso cinema. A direção de fotografia fica a cargo da dupla: Dudu Miranda e Paulo Souza. Com uma linguagem simples e direta o filme promete atingir um grande público nas bilheterias. Era Uma Vez ... 'tá em cartaz nos cinemas. Força Brazucah A campanha de marketing do filme Era Uma Vez ... foi brilhantemente iniciada por a rede de comunicação Brazucah, que tem alunos universitários e secundaristas envolvidos na divulgação de lançamentos nacionais em suas próprias instituições de ensino. O grupo também conta com a colaboração de blogueiros interessados em 'crever sobe o cinema nacional. A rede promove pré-'tréias e encontros com atores e diretores. Essa organizada e eficiente forma de divulgação permite que os filmes sejam discutidos, aprofundados e aproxima várias pessoas da sétima arte brasileira. Como apoiadores da rede Brazucah, destacam-se a Unesco, a Recam (Reunião Executiva das Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul), o Ministério da Cultura do Brasil, as Secretarias de Educação e Cultura de diversos municípios, além das principais universidades e 'colas do Rio de Janeiro e São Paulo. Para mais informações acesse o blog: http://redebrazucah.com.br Reproduzido do blog do autor: http://sergiohpg.blig.ig.com.br/ / 2008/30/ um amor em 'tado de.html 25/07/2008 Sonora reproduzida do site Noorádio: http://www.nooradio.com.br/search.asp? keyword = sergio % 20 batisteli Número de frases: 54 13/06/2008 Hip-Hop é uma cultura que consiste em 4 subculturas ou subgrupos, baseadas na criatividade. Um dos primeiros grupos seria, e se não o mais importante da cultura Hip-Hop, por criar a base para toda a cultura, o DJing é o músico sem «instrumentos» ou o criador de sons para o Rap, o B.Boying (a dança B.Boy, Poppin, Lockin e Up-rockin) representando a dança, o MCing (com ou sem utilizar das técnicas de improviso) representa o canto, o Writing ('critores e / ou graffiteiros) representa a arte plástica, expressão gráfica nas paredes utilizando o spray. O Hip-Hop não pode ser consumido, tem que ser vivido (não comprando roupas caras, mais sim melhorando suas habilidades num ou mais elementos dia a dia). É um 'tilo de vida ... Uma ideologia ... uma cultura a ser seguida ... A «consciência» ou a «informação» na minha opinião não pode ser considerada como elemento da cultura, pois isso já vem inserido às culturas do DJing, B.BOYing, MCing e Escritor / WRITing (Graffiteiros), ou seja aos elementos da cultura Hip-Hop, mais é válido para a nova geração, dizendo se fazer parte da cultura Hip-Hop sem ao menos conhecer os criadores da cultura e suas reais intenções. As Raízes A origem e as raízes da cultura Hip-Hop 'tão contidas no sul do Bronx em Nova Iorque (Eua). A idéia básica de 'ta cultura era e ainda é: haver uma disputa com criatividade. Não com armas; uma batalha de diferentes (e melhores) 'tilos, para transformar a violência insensata em energia positiva. Este bairro experimentou mudanças radicais durante os anos 60 por causa de construções urbanas mal planejadas (construíram uma via expressa no coração do Bronx, construíram complexos de apartamentos enormes) o que fez com que o bairro ficasse desvalorizado. A classe média que consistia em Italianos, Alemães, Irlandeses e Judeus se mudaram por causa da qualidade decrescente de vida. Em vez de eles, se 'tabeleceram afro-americanos mais pobres e famílias Hispânicas. Por causa da pobreza crescente os problemas causados por crimes, drogas e desemprego aumentaram. Em o ano de 1968 sete adolescentes que se nomearam «Savage Seven» (Sete Selvagens) começaram a aterrorizar o bairro, criando assim a base para algo que dominaria o Bronx durante os próximos 6 anos: as Streetgangs (gangues de rua). Em pouco tempo apareceram outras gangues em todo o bairro, em todas as ruas e 'quinas. Algumas de elas: Black Spades, Savage skulls, Seven Immortals, Ching Alling, Seven Nomads, Black Skulls, Seven Crowns, Latin Kings, Young Lords; muitos jovens poderiam ser vistos em todos lugares. Depois que as atividades das gangues alcançaram o topo da criminalidade em 73, elas começaram a se acabar uma a uma. A razão para isto pode ser encontrada em níveis diferentes. As gangues 'tavam brigando, muitas 'tavam envolvidas em crimes, drogas e miséria. E muitos integrantes não quiseram mais se envolver com isso, o tempo 'tava mudando e as pessoas da década de 70 'tavam à procura de festas em clubes, apenas diversão, dançar, curtir a música cada vez mais e mais. O número de gangues cada vez mais 'tava diminuindo principalmente porque cada vez mais jovens 'tavam envolvidos com um movimento e se identificavam com alguma atividade. Pois a idéia básica era competir com criatividade e não com violência. A força motriz de todas as atividades dentro dos 4 elementos era fugir do anonimato, ser ouvido e visto e 'palhar o nome por toda parte. Se alguém quisesse melhorar suas habilidades teria que deixar de fazer coisas ruins (drogas, crimes, etc ...) por todo tempo, teria que por sua energia a disposição da cultura e com isso ajudar a trazer mais adiante o próximo nível da Cultura Hip-Hop e desenvolvendo seus elementos cada vez mais inspirando novamente outras pessoas. Kool Herc é por toda parte conhecido e respeitado como o «pai» da cultura Hip-Hop, ele contribuiu e muito para seu nascimento, crescimento e desenvolvimento. Nascido na Jamaica, ele imigrou em 1967 (aos 12 anos de idade) de Kingston para Nova Iorque, trazendo seu conhecimento sobre a cena de Sound system (sistema de som, muito tradicional na Jamaica, seria um equipamento de som muito potente ligado na rua para atrair as pessoas). com si também trouxe o «Toast» ao bairro do Bronx (NY), Clive Campbell seu nome de batismo, apelidado «Hercules» por os alunos de sua sala de aula da 'cola secundária por causa da aparência física. Mas ele não gostou deste apelido e usou um atalho, criando, «Herc». Então quando ele começou a 'crever (tag; assinatura) ele usou seu Tagname de «Kool Herc». Herc deve ter dito muitas dificuldades para dormir durante a infância devido ao glorioso e grandioso volume libertado por os sound systems, que batalhavam nas ruas por a atenção do público, cada vez se aumentava mais e mais o volume, quase a ponto de explodir, foi em 'te ambiente que Herc nasceu e viveu até os 12 anos ... Em meados de 73 ele chamou a atenção como DJ no Bronx, no princípio ele usou o equipamento de som de seu pai, em seguida construiu seu equipamento (auto denominado de Herculords) com enormes caixas de som e muitos seguidores. Em inúmeras Block Parties (festas feitas em blocos de apartamentos abandonados no Bronx e região -- veja o filme Beat Street), festas em parques e 'colas, logo depois ele fez suas próprias festas em clubes famosos como «Twilight Zone» e «T-connection». A razão do sucesso foi dada por o fato de fazer as pessoas dançarem sem parar, ele seguiu a filosofia de Soundsystem de seu país, no principio não dando muito certo, tocando Reggae e outros ritmos jamaicanos, até que descobriu o Soul e Funk. Passado algum tempo, teve um sistema de som mais pesado e mais alto que todos os outros, por outro lado (e provavelmente a razão mais importante) ele criou e desenvolveu uma técnica revolucionária para girar os pratos dos tocas discos. Ele nunca tocou uma música inteira, mas só a parte que as pessoas mais gostavam: O Break -- A parte onde a batida foi tocada da mais pura forma. Os «Breaks» das canções eram só alguns segundos, ele os ampliou usando dois toca-discos com dois discos iguais, dando o nome de Break-Beat, o fundamento musical para B.Boys e B.Girls (Breaker-boys, Breaker-girls: dançarinos que se apavoravam dançando durante 'tes Breaks) e os MC's (Os Mestres de Cerimônias, artistas no microfone que divertem as pessoas fazendo-as dançar com suas rimas), às vezes comparável ao «Toast» jamaicano, Kool Herc usou algumas frases para fazer as pessoas dançarem e dar boas vindas aos amigos. Mas quando os misturava as batidas ficavam mais complicados, mais concentração, assim foi entretendo a multidão, ficando complicado fazer várias coisas ao mesmo tempo, com o microfone não era mais possível, ele passou o microfone para 2 amigos que representaram o primeiro time de MC: Coke La Rock e Clark Kent. Kool Herc e o soundsystem incluíam os 2 amigos no microfone, ficando em seguida conhecidos por toda parte como «Kool Herc and the Herculords». Alguns dos breaks mais famosos, foram: Incredible Bongo Band com Apache, James Brown com Funky Drummer e Give it up or turn, Herman Kelly dance to the drummers beat, Jimmy Castor Bunch com It ´ s just begun entre tantos outros ... Afrika Bambaataa (ou Kahyan Aasim -- nascido 1957) também tem seu papel de importância no surgimento da cultura Hip-Hop, é por toda parte conhecido e respeitado como o «padrinho» ou o «avô» da cultura Hip-Hop, reunindo tudo e propondo a base para a cultura. Era membro e líder de uma das maiores gangues, «Black Spades» também era um colecionador de discos fanático. Embora já 'tivesse trabalhando como DJ em festas desde 70, ele adquiriu mais interessado por a cultura Hip-Hop depois de ter visto Kool Herc nos toca-discos em 1973 e assim foi DJ no «Bronx River Commity Center» onde teve seu próprio soundsystem. Ao mesmo tempo a gangue de ele começou a desaparecer, logo depois formou uma pequena ONG chamada de «Bronx River Organization» que logo após passou a se chamar «The Organization», por ter feito parte uma gangue anteriormente ele teve um publico fiel que consistiu em membros de gangues anteriores. Por volta de 74 ele reorganizou «The Organization» e renomeou de «Zulu Nation», inspirado por os 'tudos feitos sobre a história africana (ele ficou impressionado por os» Zulus " pois lutavam com honra e armas simples contra o colonialismo e o poder, apesar de aparentemente inferiores). 5 dançarinos uniram-se a organização usando o nome de «Shaka Zulu King» ou simplesmente «Zulu Kings» com os gêmeos «Nigger Twins» eram eles os primeiros B.Boys sempre gritando de alegria. A «Zulu Nation» organizou festas e reuniões a qual os membros, principalmente Afrika Bambaataa passou o conhecimento sobre a cultura Hip-Hop para as pessoas, como era possível dar as pessoas uma alternativa para a saída das gangues e drogas. Love Bug Starski foi quem propôs a junção dos elementos da cultura Hip-Hop, foram Afrika Bambaataa e a Zulu Nation que uniram os elementos diferentes e os formaram para uma única cultura. A idéia de Afrika Bambaataa era transformar o negativismo das gangues em energia positiva, pois perdera o melhor amigo numa guerra das gangues, no tempo que fizera parte de uma gangue. Cansado disso, pensou em fazer algo para mudar 'ta situação, as pessoas 'tavam cada vez mais ocupados com o Hip-Hop, em mostrar suas habilidades da melhor forma possível nas festas. GrandMaster Flash completa a trilogia dos DJ ´ s pioneiros, o terceiro DJ mais importante do inicio da cultura Hip-Hop, teve a brilhante idéia de incluir artesanalmente a sua mesa de mixagem um botão (cross-fader) que lhe permitia passar de um disco para outro sem haver quebra de som. Aprendendo com Herc que os breaks de Funk eram o combustível preferido dos B-Boys e com Bambaataa onde os ir buscar, Flash incendiou tudo ao trazer para o palco os «skills» (capacidade tecnica de misturar os discos e faze-los fluir de forma irrepreensivel. O MC começou por ser uma mera sombra do DJ, limitado a empolgar ao microfone as pessoas, que lhe pagava o ordenado e funcionando quase como «locutor de festas» ou mestre de cerimónias que não só usava o microfone para comunicar à multidão qual a última celebridade do gueto (ghetto celebrity) a entrar no clube (" hey ya ' ll, my man Timmy T is in the house!") como também tinha um papel importante, deixava todos saberem que havia uma mãe à 'pera do seu filho à porta (yo, Little Jimmy, stop spinnin ' and head to the door!"). Com o tempo, as rimas foram ficando mais elaboradas, mais complexas e, tal como os «skills» do DJ lhe davam popularidade, as habilidades do MC ao microfone começaram a ser decisivas para arrancar aplausos da multidão. Bem, assim seria o Hip-Hop para muitos, DJs descobrindo e criando os break-beats, MC's rimando, B.Boys dançando e a maioria dos membros da cultura Hip-Hop também eram 'critores. Bambaataa os usou para 'palhar sua mensagem, " lutar com criatividade, não com violência!" Com a integração dos 4 elementos da cultura Hip-Hop, a vontade de competir era geral, empurrando todos permanentemente a melhorar e ser o mais criativo possível. Assim, era como uma lei não 'crita, que, todo mundo criava seu próprio 'tilo, sem copiar o próximo, sem roubar as idéias do outro. Outra lei respeitada era: Paz, unidade, amor e divertimento. A base para os diferentes elementos já 'tava pronta, mas com a integração da cultura Hip-Hop foi acelerado o desenvolvimento rapidamente dos elementos. Texto 'crito Por Bruno Ventura (DJ Groovy) com apoio do grupo Spartanic Rockers e Hit da breakz -- para o site da Conspiração Subterrânea Crew Para ler mais sobre a história do Hip Hop, acesse www.consubter.rg3.net Este texto foi autorizado por o autor. \> Número de frases: 76 bruno deejay@yahoo.com.br Sábado à noite. Um rapaz «preso» numa rodoviária à 'pera de um ônibus. Enquanto as horas passam, ele se depara com várias situações e histórias que acabam mudando o rumo de sua viagem. Essa é a sinopse de Sábado à noite, primeiro longa-metragem produzido inteiramente em São Carlos, que tem como tema o tempo. O diretor, Diego M. Doimo, é da produtora Rocambole Produções, 'pecializada em desenho e animação e já premiada em festivais. O filme, que 'tá em fase de edição, movimentou a cidade durante a produção e as gravações, que terminaram em novembro do ano passado. «Foi o maior projeto de cinema realizado aqui em São Carlos até agora». Doimo conta que ele e seus três sócios resolveram montar uma produtora de cinema na cidade porque não queriam morar em São Paulo. «Não queremos ir para a Capital nem fazer filme no Rio de Janeiro. Queremos consolidar nosso mercado aqui. A movimentação audiovisual em São Carlos aumentou desde que a Universidade Federal de São Carlos abriu o curso de Imagem e Som. Em média, saem uns dez curta-metragens por ano. Já teve até em película», diz. Doimo também é formado por a Federal. Apesar das dificuldades, Sábado à noite conseguiu reunir apoio de instituições públicas e privadas, como Oficina Cultural do Estado, Sesc e Prefeitura, além de empresas locais. Treinamento Local A idéia de rodar o filme na cidade surgiu num curso de roteiro que Doimo ministrou na Oficina Cultural de São Carlos, órgão ligado à Secretaria de Estado da Cultura, no fim do primeiro semestre de 2005. Depois, foi dada uma oficina de direção de arte para que os alunos da cidade pudessem ajudar a produzir cenários, objetos e figurinos. E, por fim, o diretor de fotografia Carlos Ebert foi levado por o Sesc para treinar a equipe e os profissionais da cidade que participaram do filme. «Reunimos umas trinta pessoas na parte técnica, a maioria alunos e ex-alunos da Federal e participantes das oficinas. O nosso maior problema foi encontrar atores. O teatro municipal 'tá em reforma e não achávamos atores. Então, colocamos cartazes nos postes da cidade e anúncios em jornais locais dizendo ' Procura-se atores '. Apareceram umas 150 pessoas, a maioria sem experiência na área, mas mesmo assim 90 % desse pessoal foi aproveitado», diz o diretor. Os únicos «'trangeiros» do filme são a atriz Rosa Maria Murtinho, que faz uma pequena participação, Zuma Mercadante, atriz de São Carlos que mora no Rio de Janeiro, e uma atriz da vizinha Rio Claro, " Mara Vanessa. «Queríamos fazer um filme com gente da cidade. Não como 'ses filmes que saem dizendo que vão gravar em Pirinópolis e só 10 % da equipe é da cidade." A produção custou, por enquanto, " R$ 5 mil reais. «Estimamos que gastaremos mais R$ 5 mil para finalizar, isso se não finalizarmos em película, que é muito mais caro», diz Doimo. Sábado à noite foi gravado durante 15 noites (sempre na rodoviária da cidade) com uma câmera digital 24p (24 frames por segundo) e terá 80 minutos de duração aproximadamente. «O grande problema é a exibição. Por isso, ainda não sei se finalizaremos em película ou digital, mas em digital é mais fácil e barato exibir. Com a grana da película dá para fazer mais dez projetos desse, afirma. O caráter público e experimental do filme 'tá registrado num site que o diretor atualiza de acordo com os trabalhos realizados. Em sabadoanoite. com. br \> www.sabadoanoite.com.br é possível baixar o roteiro, a decupagem, fotos e outros arquivos referentes à produção. Doimo 'pera 'trear o filme até o meio do ano e que o interior de São Paulo se consolide na área. «Sei que existem projetos e cursos ligados à área em Bauru e Ribeirão Preto e 'pero que aumente cada vez mais e que a integração entre as cidades seja maior». Número de frases: 38 Nós do Overmundo também 'peramos. Em o dia 1 de maio de 1980, Dia do Trabalho, a Prefeitura resolveu patrocinar uma festa na Praça Ary Coelho e convidou, meses antes, vários artistas para tocar. Em aquele tempo, meu contato com o bar da Tia e as amizades musicais me empurraram para o ingresso na atividade musical por uns 60 dias. Primeiro os ensaios na casa do pai do Bosco Batera onde Zé Pretinho era nosso maestro. Mas o show de todo mundo -- Celito, Roca, entre outros-, não houve pois no dia 1 de maio a cidade amanheceu nublada com temperatura de 2º. C. Mas naqueles anos 80 a cidade de Campo Grande 'tava fervilhando em termos musicais com muitos shows e atividades. A principal de elas era, de fato, o Projeto Pixinguinha, do governo federal, onde músicos famosos juntamente com músicos regionais, percorriam o país com apresentações musicais a preços muito baratos. Em Campo Grande o Pixinguinha acontecia no Teatro Glauce Rocha da UFMS, em dias de semana. Lembro-me de ter visto, pela primeira vez em minha vida, Egberto Gismonti e banda com a filha tocando com ele, por Cr$ 1,00. Elba Ramalho também veio em 'se projeto, Luis Melodia e muita gente boa regional, sempre com casa cheia. Era uma festa e saindo do Pixinguinha íamos para o Rui Bar Bossa ou para o Tragolongo, um bar na Av.. Mato Grosso de três sócios onde rolava música ao vivo, com muita gente começando e relembro aqui o Simona, José Boaventura, de entre tantos. Em aquele ano de 1980 assistimos a Sivuca e banda com Rosinha de Valença no Teatro Dom Bosco, um show que ficou na memória da cidade pois no final, tocando «Feira de Mangaio», Sivuca fez o campo-grandense dançar nas cadeiras de madeira daquele importante teatro da cidade. A noite campo-grandense começava a sair do marasmo cultural e musical e não era tempo pois, capital de um novo Estado, a cidade precisava de 'sa dinâmica cultural. Em 1980 a cultura pública era tratada por o Departamento Estadual de Cultura, no governo Marcelo Miranda, governador e Albino Coimbra, prefeito da cidade; não tínhamos fundos de cultura, os recursos eram poucos e 'parsos e nenhuma tradição de investimento na área mais havia muita garra do pessoal. Voltando a falar da música, na casa de amigos, conheci o LP do Grupo Acaba e de Tetê e o Lírio Selvagem, dois discos clássicos da música sul-meto-grossense e fiquei surpreso com o som de eles. Logo me identifiquei com aquilo que 'tava ouvindo, um som novo.» ... ai que saudade que me dá, de ver a morena cantar ..." ou «Santa Branca até um dia ...». Belo som, novo para mim, acostumado com os sons musicais do Nordeste e de Recife em 'pecial. Em a TV o Programa Recado de Marilu Guimarães, na TV Globo, no horário do almoço, era sagrado. Quisesse você divulgar algum evento tinha que ir no programa de ela, com muita audiência local e lá João José comentava de cinema e fazia resumo dos filmes que 'tavam passando em nossos cinemas -- o Ritz e Astor, na 'tação rodoviária, os melhores. Virava e mexia, apareciam as primeiras duplas caipiras da cidade -- Tostão e Guarani, que tinha outro nome acho que Cruzeiro e Cruzado não lembro direito-. Assim íamos nos divertindo em Campo Grande até que Almir Sater resolve gravar seu primeiro disco. Isso é papo para semana que vem. Número de frases: 25 «Chega de Saudade: " o Novo em Novembro A propósito, a Fel Produções de Arte quer aproveitar a passagem dos 50 anos da bossa nova -- um dos ícones da música popular brasileira -- para realizar um programa que visa arejar a atual cena paulistana, contribuindo com a sua renovação, revelando novos valores. Utilizando como mote o título da canção que lançou o gênero nacionalmente, o projeto visa em sua 'sência simbólica buscar as condições para apresentar ao público da capital alguns novos nomes que atualmente desenvolvem suas atividades profissionais na cidade, cada numa data, culminando com um grande show a reunir todos, no encerramento. Tal proposta 'tá 'truturada dentro dos conceitos que mais recentemente apontam para o futuro da cadeia produtiva da música, envolvendo interesses comuns pautados em maior autonomia e independência 'tética, além da utilização de novas ferramentas de mídia para divulgação desses trabalhos. O tempo é novo em cada fração do segundo, dinamizando a vida. E a arte. Vivamos o presente de cada momento e guardemos o passado, deixando-o para trás. A música brasileira carece de um horizonte rejuvenescido, onde possa se mover sem a rigidez imposta por os ditames de seus padrinhos, que a 'tagnaram por décadas. -- deixemos para trás os vícios que lubrificaram a «engranagem» da indústria fonográfica no decorrer do século XX; -- deixemos para trás os empresários gananciosos das companhias discográficas, que sugaram até a última gota de sangue tantos músicos e seus trabalhos, através de eles enriquecendo e aplicando-lhes golpes desonestos, os quais a história 'tá cheia de exemplos para rechear; -- deixemos para trás as rádios comerciais e os famigerados jabás, corrompidas por o lucro fraudulento, maquiando as 'tatísticas para as suas audiências e fabricando embustes para se manterem no topo do mediocridade; -- deixemos para trás o engodo da mal dita imprensa 'pecializada, que ao bel prazer dos jornalistas inescrupulosos a serviço de seus patrões em conluio com os departamentos marqueteiros das grandes gravadoras, forjaram ídolos de mentira, a nos emburrecer culturalmente e a nos privar da verdadeira grandeza da obra musical produzida em 'cala nacional. E aprendamos a utilizar com ética e inteligência os novos recursos disponibilizados por as recentes ferramentas de comunicação a surgir e em expansão, como a internete e seus portais virtuais, as rádios comunitárias livres, as tevês digitais etc, pois tudo isso veio para nos possibilitar a adoção de outras posturas em relação ao antigo modelo de um mercado predatório e voraz, e 'tá nos capacitando a tornar a Arte um bem cultural cada vez mais útil no enfrentamento das causas planetárias que nos afligem secularmente, como ainda hoje são a desigualdade e a injustiça, as guerras que tanto deploram a humanidade, o caos ecológico e tantas outras mazelas com as quais sempre tivemos que lidar. Agora sim, poderemos mudar o mundo. Chega de Saudade!! Número de frases: 16 Em seu Por que ler os Clássicos, Italo Calvino afirma que " os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ' 'tou relendo ' ... e nunca ' 'tou lendo '». Venhamos e convenhamos, nem sempre somos honestos o suficiente para admitirmos que sequer vimos por a frente um exemplar de Finnegans Wake, de Em busca do tempo perdido, ou d Os Lusíadas. No entanto, Joyce, Proust e Camões 'tão sempre por aí, numa epígrafe de um ensaio, nas conversas nos corredores da faculdade, servindo de exemplo para determinado procedimento literário ... os livros que não lemos aparecem até mesmo quando nos pedem uma sugestão de leitura. Por vezes, diante de um «e aí, o que vocês acharam do Decameron?», ficamos na defensiva: se algum dos interlocutores se arriscar, vamos com ele e " concordamos plenamente com suas palavras "; mas se sou eu o único -- e desafortunado -- entrevistado, oscilo entre a mentira-descarada «é uma obra excelente, muito bem construída», a mentira-envergonhada» faz tanto tempo que eu li, que já não lembro muito bem «e a verdade-cabisbaixa» ainda não li», mas enfatizo o advérbio. Italo Calvino nos lembra também de que é quase impossível ler inocentemente uma obra clássica: antes mesmo da primeira leitura, já conhecemos um volume de informações e comentários feito a seu respeito -- sabemos, sobretudo, se devemos ou não gostar de ele. Não 'queço um caso de uma amiga indignada que veio me contar que seu pai, que «lia de tudo»,» 'tragara " o final de Grande Sertão: veredas, contando-lhe que Diadorim era mulher e morria no fim. Por causa de 'sa facilidade 'tou pensando em ambientes onde sejam freqüentes práticas de letramento -- de acesso a 'ses discursos metalingüísticos sobre os clássicos, talvez seja menos constrangedor não ter lido Hamlet, do que não ter o que falar sobre ele, ou mesmo não saber que o ceticismo de «há algo de pode no Estado da Dinamarca» foi formulado por um dos oficiais amigos do príncipe. No entanto, é um equívoco pensar que a Metalinguagem é um discurso que tem os autores canônicos como tópica preferencial. O recente sucesso dO Código da Vinci, seguido do aparecimento de inúmeros best-seller que ofereciam para-interpreta ções sobre ele -- Revelando o Código da Vinci, Decodificando o Código da Vinci, Quebrando o Código da Vinci, ... ad infinitum -- devem querer nos dizer algumas coisas. Arrisco algumas considerações: ( 1) também o leitor leigo produz uma demanda por a Metalinguagem, justamente porque a Leitura -- seja ela ocasional, leiga ou acadêmica -- e a não-leitura de um livro compreendem o processo de falar sobre o que se leu. ( 2) O fenômeno O Código da Vinci também foi responsável por uma busca por informações sobre ícones da alta-Cultura, como a mitologia cristã e o a própria figura de Leonardo da Vinci. Os acadêmicos foram, então, convocados por as editoras e por a mídia de massa para decifrar 'se outro código, por serem «'pecialistas» na alta-Cultura. Claro que 'sa busca por os 'pecialistas não é um fenômeno próprio do caso Dan Brown. Basta observarmos dois lançamentos do mercado editorial brasileiro. O primeiro de ele, a coleção Folha Explica já 'tá aí há algum tempo e a contínua expansão do catálogo, atesta seu sucesso. O segundo, acaba de chegar às livrarias: trata-se da coleção Por que ler, da Editora Globo, com roteiros de leitura sobre Borges, Shakespeare e Dante. Cada volume é composto por uma pequena biografia do autor, um ensaio e citações de suas obras. Verdade seja dita, 'ses manuais não são novidade no mercado, é só lembrar do título do livro de Calvino, já citado aqui; além de ele, os textos de Harold Bloom sobre Como e por que ler (O Cânone Ocidental) também têm sido bem recebido. Também não é de agora 'sa busca por a sabedoria dos iniciados: desde muito tempo, consultavam-se os doutores no Templo, responsáveis por a interpretação da Palavra de Deus. Contudo, creio que há uma diferença entre as duas coleções e os textos de Calvino, Bloom e a hermenêutica dos 'cribas. A diferença de que falo caracterizaria aquilo que alguns autores como Charles Jencks e Umberto Eco têm chamado de double coding, isto é, a apropriação de recursos das culturas ex-cêntricas, da mídia de massa, para falar das simbologias da alta-Cultura. O que me parece digno de nota é que o conceito de double coding não se restringe à ficção pós-moderna. Há, aqui, um 'pelhamento nos procedimentos empregados por a ficção e por a Metalinguagem contemporânea -- aliás, 'sa semelhança entre a literatura e crítica literária já foi apontada por L. Hutcheon em seu 'tudo sobre a paródia pós-moderna (Poética do pós-modernismo). Os «'pecialistas», agora, recebem uma encomenda de uma empresa editorial para produzirem um objeto-cultural, destinado a atingir um público-alvo, não-'pecializado. Guardadas as devidas diferenças de veículo / público, é mais ou menos o mesmo movimento que levou a filósofa Viviane Mosé a buscar a linguagem dos recursos gráficos para falar de filosofia na TV. Isso não significa que 'sas coleções descomplicadoras sejam meros 'quemas para resolver a vida de quem não quer ler. Ao contrário: diante da erudição despretensiosa de uma Bárbara Heliodora avoluma-se a angústia de saber que por mais que se leia, quase tudo vai ficar por ser lido. Número de frases: 40 -- Esse texto foi originalmente publicado no site TodoTexto Post original do blog Ator Desmensurado Espetáculo no sábado e no domingo nos Satyros II (a Praça Roosevelt, pra quem não conhece) -- dois dias em que eu 'tive doente. Ainda 'tou. Gripado. Em cena, com febre, e o mundo girando à minha volta. Uma delícia de sensação. Fiz por aquelas pessoas que saíram de suas casas para nos assistir. Por mim, eu parava tudo e dizia «Ok, gente, até mais». Tava muito mal. Isso era no sábado. Não é a primeira vez que enceno com febre, mas com «febre, dor-de-cabeça e vertigem», ah, sim, 'sa é a primeira vez. E no Amores Dissecados (no Overmundo, eis o serviço) não é possível sair de cena assim, tão fácil. Em a verdade, não é possível sair de cena. Ficamos os cinco expostos, trocamos de figurino às vistas do 'pectador, são cenas curtas de histórias de amor diversas, várias trocas, não rola de deixar o meu assento vazio e ir tomar um Cataflan no meio do 'pétáculo. De aí o ator tem que usar a famosa lei do «usar a favor». E na cena em que eu bebo, me deixei levar por a vertigem. Nem tanto porque ia ser lindo acertar a garrafa na cabeça de um 'pectador e ver sangue 'guichando a la Tarantino. Segurança minha e do 'pectador, básico. Mas me deixei um pouco ao sabor da vertigem febril. Quase me 'tatelei no chão. Aí percebi que era hora mesmo de acabar o 'petáculo. Em a cena em que a Fernanda Tsuji me dá um tapa, eu dei um passo para trás, cambaleante, uma pessoa quase desvanecendo (depois eu conto como quase dei na cara de ela no dia em que perdi a cabeça em 'sa cena). Cheguei a me imaginar morrendo no palco. Coisa de ator ... Segurei as pontas. Eu senti que devia mesmo fazer todo o 'forço possível para me manter ali. Só por o 'pectador, claro. Parece que a bendita «síndrome do segundo dia», aquela em que, numa temporada, o segunda dia da semana é Sempre uma merda: 'sa não anda pegando no Teatro Insano, não. Em cartaz aos sábados e domingos, o domingo anda levando a melhor. E mesmo gribado, eu 'tava ótimo. Radiante quase. O que uma boa aquecida não faz, né? Número de frases: 32 Tudo bem, vai, 'pirrei e tossi durante um black-out. Só. «Video-games não influenciam crianças. Quer dizer, se o Pac-man tivesse influenciando a nossa geração, 'taríamos todos correndo em salas 'curas, mastigando pílulas mágicas e 'cutando músicas eletrônicas repetitivas». Kristian Wilson, Nintendo Inc, 1989. É difícil admitir, mas sim, somos altamente influenciáveis. Dependemos de outros, dependemos de idéias, dependemos de tendências. Como disse Jean-Paul Sartre,» ... Ser é pertencer a alguém». Mas, tem sempre um mas (citando Marcelo Te as), mesmo que o Pac-man não seja um «alguém», e sim uma coisa, com certeza existiu alguém para criá-lo. Uma idéia que nasceu de outra. Uma reunião de conceitos novos, velhos, clichês. Tudo para formar o novo que, para ser novo, deve destronar algo velho. Lavoisier disse que na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Em a propaganda, por exemplo, não é diferente; saber comunicar o óbvio de uma maneira nunca vista antes. Até um conselho, aquele simples e inocente conselho que você deu ontem, depende de fontes externas. Como diz aquele famoso vídeo «Wear Sunscreen», Conselho é uma forma de nostalgia. Dar conselho é uma forma de resgatar o passado da lata de lixo, limpá-lo, 'conder as partes feias e reciclá-lo por um preço maior do que realmente vale». O negócio não é tentar evitar ser influenciado. Participar de festas com músicas eletrônicas, correndo em salas 'curas (vamos deixar as pílulas mágicas de lado), é apenas mais uma parte da evolução humana. E não podemos culpar o pobre Pac-man, ou o inventor de ele, por isso. Precisamos saber ser influenciados, 'colher nossas fontes e, claro, tentar entender porque gostamos daquela idéia e / ou conceito. As novas tecnologias digitais que influenciam bilhões de pessoas ao redor do mundo, conseguem também deixar 'sas pessoas ligadas. Vídeos, músicas, notícias e as mais variadas opiniões circulam diariamente em quantidade e velocidade nunca vistas antes. O que antes era um simples jogo cujo o objetivo era comer o maior número de «pílulas mágicas», agora é um universo a parte onde o principal objetivo é acompanhar tendências. Ser influenciado, mas de uma forma ativa. Saber receber informações, mas também saber, e poder, enviar informações. Uma grande troca de experiências, frases, opiniões. Um meio de comunicação em que as pessoas podem fechar a pop-up de anúncio e pesquisar sobre o mais novo celular lançado no Japão. Um meio de comunicação que pode ser resumido a um simples ato: o clicar do mouse. Interação. Alteração. A grande idéia passada por a São Paulo Fashion Week desse ano é adotar novos 'tilos de comportamento. O que antes refletia o ambiente político / econômico / social, agora tenta impor um novo ambiente político / econômico / social. A «paz» é um desses «novos 'tilos» que os 'tilistas querem passar. Atitude. Acho que, agora, 'tamos sendo moldados assim. Opinar e não ter medo de ser repreendido. Todo mundo falando, todo mundo 'cutando (e pensar que toda 'se novo comportamento veio do Pac-man, ein?). Será que isso dá certo? Número de frases: 40 Ela nasceu em 1957, no então reduto da boemia carioca: o Bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, eternizado numa canção de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. Menina ainda, com quatro anos de idade, ficava grudada na televisão, à cata de tudo o que se relacionasse aos mistérios do universo. Certa vez, quando assistia a um noticiário sobre o astronauta russo Iuri Gagarin, seu pai perguntou-lhe se desejava ser como ele. Sim, ela queria. De certa forma, realizou seu sonho. Não como astronauta porque sua miopia impediu, mas como a dra. Rosaly Lopes-Gautier, astrônoma da Nasa, a agência 'pacial norte-americano. Sua trajetória acadêmica e profissional foi brilhante. A os 18 anos, incentivada por a família, foi 'tudar astronomia na Universidade de Londres. Graduou-se em 1978 e a partir daí dedicou-se intensamente à geologia planetária e vulcanologia. Sua tese de doutorado, aprovada com louvor, comparava o comportamento de vulcões de Marte e da Terra. Com todo seu talento, não foi difícil arrumar emprego. A os 28 anos, assumiu a chefia da seção de Astronomia do Observatório de Greenwich. Curiosa, indócil e ambiciosa, deixou a Inglaterra em 1989, para juntar-se à equipe italiana que, arriscando a vida, fazia o mapeamento do vulcão Vesúvio. Esteve na cratera deste e de outros vulcões como o Etna, na Sicília, e o Kilauea, no Havaí. Em 1989, o JPL -- Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, na Califórnia, 'tava recrutando jovens cientistas para atuar como pesquisadores residentes. Ela apresentou-se. Por seu invejável currículo, ficou com a vaga. Não demorou muito para tornar-se a coordenadora do NIMS, instrumento que, a bordo da nave Galileu, realiza a cartografia do planeta Júpiter, em 'pecial da lua Io e de seus vulcões. «Io tem cerca de 100 vulcões em plena atividade. Eles cospem aos céus jatos de lava com mais de 400 quilômetros de altura. São jorros tão 'petaculares que podem ser vistos por telescópios instalados na Terra, a 630 milhões de quilômetros de distância», descreveu, deslumbrada, num chat promovido por o site As Mulheres da Nasa. A propósito de Io, ela sugeriu à Iau -- União Internacional de Astronomia, órgão encarregado de nomear os acidentes geográficos de outros planetas, que batizasse dois dos vulcões de 'sa lua de Júpiter, com os nomes de Tupan e Monan, deuses da mitologia indígena brasileira. Em homenagem aos seus dias de garota de Ipanema, sugeriu também que se a nave Messenger encontrar vulcões em Mercúrio, quando passar por lá, por volta de 2009, seja dado a um de eles o nome de Tom Jobim. Sem descuidar de sua carreira, 'creveu um livro, The Volcano Adventure Guide, que será publicado ainda 'te ano na Inglaterra, por a " Cambridge University Press. «Propostas para lançá-lo também no Brasil serão bem-vindo», ela insinua. Por suas atividades educacionais junto ao público de países hispânicos e da América Latina, recebeu, em 1991, um prêmio outorgado por o governo mexicano e, em 1997, foi eleita por uma rede latina de televisão de Miami, a mulher do ano, na área de ciência e tecnologia. A os 50 anos, a dra. Rosaly vive numa bela casa em Pasadena com o filho, Thomas Nicholas, de 13 anos, e seus animais de estimação: um cachorrinho, dois gatos e dois periquitos. Em as horas vagas, lê e toma aulas de aviação. Embora quase não lhe sobre tempo, ela concordou em conceder-me uma entrevista, via e-mail. Por que a senhora se interessou em 'tudar Astronomia? Lembro-me, quando criança, lá por os quatro anos de idade, de Yuri Gagarin indo ao 'paço e de meu pai me perguntando se eu queria ir junto com ele. Disse que sim (tinha 4 anos) e depois disso passei a me interessar ainda mais por os programas 'paciais. Meu sonho era ser astronauta, mas era muito míope, então decidi que seria astrônoma e iria trabalhar para a Nasa. Como foi seu ingresso na Nasa? A senhora encontrou alguma dificuldade inicial por o fato de ser mulher? Estudei na Inglaterra e depois do meu doutorado, vim para o Laboratório de Propulsão a Jato. Não encontrei dificuldade alguma. A Nasa empenha-se em promover as mulheres talentosas. É claro que às vezes eu encontro pessoas com preconceitos, mas é raro, e aqui discriminação dá demissão. Então, todos tomam muito cuidado no trato com as mulheres e as minorias. Os objetos de suas pesquisas são os vulcões. Mas por que 'tudar os vulcões de outros planetas? Estudamos os processos vulcânicos servindo-nos de outros planetas como laboratórios naturais para melhor entender os processos geológicos aqui na Terra. Por exemplo, descobrimos que os vulcões em Io, uma lua de Júpiter, têm lavas quentíssimas, do tipo que existiu na Terra há bilhões de anos atrás. Hoje vemos erupções de 'sas lavas em Io e assim podemos entender melhor como elas ocorreram na nossa pré-História. Qual foi a sua maior descoberta em 'se campo? Quando a nave Galileu chegou a Júpiter, imaginávamos que Io tinha vulcões ativos, mas achávamos que eram apenas doze. Pensei que, com muita sorte, iria descobrir mais algum. Em a primeira observação, descobri seis. E, até agora, mais de cinqüenta. Quem dá nome aos vulcões que vem sendo descobertos? Consta que a senhora prestou homenagem ao Antônio Carlos Jobim, batizando um dos vulcões de Io com o nome de ele. Não é verdade. O que aconteceu foi o seguinte. Por convenção da Iau -- União Internacional de Astronomia, os acidentes geográficos encontrados em outros planetas recebem nomes de deuses, de artistas famosos, de celebridades do mundo científico. Os de Io, por exemplo, recebem nomes de deuses do trovão, do fogo. Os de Mercúrio serão batizados com nomes de músicos, de artistas famosos. Então, eu sugeri que uma cratera ou um vulcão que fossem descobertos em Mercúrio, quando a nave Messenger chegar lá, por volta de 2009, recebesse o nome do Tom Jobim. Afinal, sou uma garota de Ipanema e isso me deixaria muito orgulhosa. Sugeri também à Iau -- e ela aceitou -- nomes para dois vulcões em Io: Tupan e Monan, que pertencem à mitologia indígena brasileira. Se pudesse fazer uma viagem 'pacial que planeta gostaria de visitar? Sem dúvida, Io, minha lua 'pecial. Sou 'pecialista em vulcões, então Io seria meu paraíso. O problema é que a dose de radiação lá é tremenda e ninguém sobreviveria a ela. A senhora acredita na existência de vida extraterrestre semelhante à nossa? Não acredito nem desacredito. Não sei. Não temos provas. Estamos procurando por vida extraterrestre, mas ainda não encontramos nada. Seria a maior descoberta da era 'pacial. Então, 'pero que aconteça. O que mais ama em seu trabalho? O aspecto da exploração de lugares desconhecidos. Se tivesse vivido em tempos antigos, talvez fosse explorar o Brasil ou a África. Agora 'tou trabalhando na missão Cassini, que 'tá indo a Saturno. A maior lua de Saturno, Titã, é coberta de nuvens e 'tou trabalhando com um instrumento de radar que vai poder ver a superfície de ela. Não sabemos o que vamos encontrar lá, e isto é muito emocionante para mim. Imagine só ser uma das primeiras pessoas a ver a superfície de uma lua tão distante. Qual foi o melhor momento de sua carreira? Já tive muitos momentos 'peciais e 'pero que eles se multipliquem. É difícil 'colher um. Adoro 'tar com o público e dar palestras. Adorei fazer programas para o Discovery Channel. O que me emociona mais é saber que as pessoas que não são cientistas se interessam por o meu trabalho. Um momento muito 'pecial para mim foi quando dei uma palestra no ano passado para o público leigo aqui no JPL, à qual meu filho assistiu. Depois da palestra ele me disse: " Mamãe, eu não imaginava que você sabia tantas coisas!». E o pior? Foi quando 'tava terminando meu doutorado por volta de 1984. Isto porque os fundos disponíveis para pesquisas na Inglaterra tinham sido reduzidos drasticamente. Então, fui ensinar matemática para adolescentes. Mas eu detestava fazer isso. Deixei o emprego e fiquei algum tempo sem qualquer perspectiva até que surgiram duas oportunidades de trabalho: a primeira, no Observatório de Greeenwich e, depois, na Nasa. Como os pesquisadores envolvidos em missões 'paciais utilizam a Internet? Todo tempo. Fazemos muito trabalho por a internet, principalmente no planejamento de missões e de campanhas de observações em 'sas missões. Recebo por volta de 50 mensagens por dia, e 'tou no computador quase o tempo inteiro. E como a senhora, particularmente, usa a internet? Em a maior parte do tempo em pesquisas (e aqui não 'tou falando do planejamento de missões, que é grande parte do meu trabalho). Uso muito o e-mail para me corresponder com meus colegas, para procurar artigos (em vez de ir para a biblioteca), e para mandar meus trabalhos para as revistas científicas. Seus sites favoritos ... Ebay, Google, Amazon. com. Compro livros na Amazon, compro muitas coisas na Ebay, para casa e para minha coleção de coisas de vulcões (pinturas, fotos, livros antigos). Mas, na maior parte do tempo, não uso o computador para lazer. Em casa, gosto mesmo é de ler. O que significou para a senhora receber o título de Mulher do Ano na área de Ciência e Tecnologia, em 1997, concedido por uma rede latina de Televisão de Miami? Gostei muito de receber 'se prêmio porque tinha certeza que significaria muito para as garotas latinas. É importante dar um exemplo do que uma mulher pode fazer. A cultura latina não dá força às mulheres que querem ser cientistas. Eu tive muita sorte de ter o apoio de minha família. Obviamente, a senhora sente saudades do Brasil. Algum dia voltaria a morar no Rio? É claro que sinto saudades. Adoro a nossa alegria -- não existe nada igual no mundo. Tento ir uma vez por ano aí. Mas voltar a morar no Rio, não sei. Depende muito do que meu filho quiser fazer. Seu livro preferido, filme, 'porte ... O livro que me inspirou mais foi O Universo, do Isaac Asimov. O filme foi 2001, uma Odisséia no Espaço. Meu 'porte favorito agora é a aviação. Em breve terminarei o treinamento e tirarei o brevê de piloto. Fale-me dos heróis de sua vida. Minha avó, Hilda (já falecida), que se formou professora num tempo em que poucas mulheres tinham profissão ou 'tudavam. A irmã de ela, Sílvia, que se formou em enfermagem, 'tudou nos Estados Unidos e, quando voltou, tornou-se diretora de uma 'cola de enfermagem no Rio. E a mãe de elas, Luísa, que, de acordo com a família, foi a primeira mulher no Brasil a terminar a 'cola secundária. Ela tinha um livro autografado por o Imperador Pedro II. Depois que o marido faleceu, ela ficou com muitas dificuldades financeiras, mas insistiu que todos os filhos (e filhas) 'tudassem. Dizia: «Meus filhos podem morrer de fome, mas não vão morrer ignorantes». Tive sorte de ter mulheres tão dinâmicas e corajosas como exemplo. Número de frases: 136 Conforme a humanidade acumula dias de existência sobre o planeta a questão ambiental se torna um debate cada vez mais latente. A necessidade de produção e o tão falado problema do crescimento culminam, entre outros aspectos, na exploração dos fartos recursos naturais disponíveis em nossa terra brasilis. Esse processo acarreta na questão do desenvolvimento sustentável, idéia tão confusa que valeria um outro texto. Em meio a tantos nós, a lei (Federal nº 9.795/99, de 27/04/99) apresenta alguns pontos concretos. A legislação ambiental coloca que empresas produtoras de petróleo, por exemplo, devem oferecer algum tipo de projeto de educação ambiental para as comunidades atingidas por suas atividades. E é exatamente 'te processo que vem acontecendo na região da Bacia de Campos (Janeiro). O projeto, desenvolvido por a Abaeté Estudos Socioambientais para a Devon Energy do Brasil, 'tabelece um debate com as populações dos municípios da área de influência de sua atividade, através da Oficina de Cinema Ambiental Humano Mar. Em 'te caso o audiovisual é utilizado para promover uma reflexão não apenas sobre o impacto direto da atividade de produção de petróleo, mas também para ampliar as fronteiras do que pode ser encarado como questão ambiental. Tudo começou com a experiência do documentário Humano Mar, quando um grupo de pescadores empunhou câmeras e filmou as aventuras que envolviam a presença das plataformas de petróleo em sua rotina de trabalho. Posteriormente a oficina foi oferecida a moradores de cidades como Arraial do Cabo, Rio das Ostras, São João da Barra, Búzios, Niterói, entre outras. A dinâmica das oficinas sistematiza a questão ambiental com aulas teóricas e práticas de audiovisual. Todo o processo é orientado por antropólogos e profissionais de cinema. O processo total da Oficina de Cinema Ambiental Humano Mar acontece durante três semanas. Em 'se período os alunos têm aulas teóricas (linguagem cinematográfica, documentário, pesquisa social). Além de roteiro, câmera, áudio e edição. Em o ápice da oficina os alunos são divididos em grupos e produzem documentários que tratam de algum aspecto levantado por eles. Com os vídeos prontos é marcado o Fórum Ambiental, evento sempre realizado em 'paço público, onde os vídeos são exibidos e discutidos por a população. Tive a chance de acompanhar um destes fóruns, e vou tentar contar um pouco de como foi à experiência. Macaé, a cidade por ela mesma A movimentação na Praça Veríssimo de Melo começou cedo, a equipe que monta toda a 'trutura do evento já marcava presença no local desde as 13h do dia 29 de maio. As pessoas passavam e, curiosas com a montagem, perguntavam sobre o que 'tava pra acontecer. Faixas, carros de som, panfletos, entrevistas na rádio e TV, tudo convocava aos moradores de Macaé para o Fórum Ambiental da cidade. Assim que caiu a noite, o projetor ganhou vida e os trabalhos foram abertos com a exibição do documentário Humano Mar. As mais de duzentas cadeiras disponíveis na praça foram rapidamente ocupadas. Uma boa quantidade de pessoas se 'palhava por o restante do 'paço. Todos de olho no que havia sido anunciado para aquela noite: filmes sobre Macaé, feito por pessoas que são de Macaé. Heraldo Bezerra, apresentador do Fórum -- popularmente conhecido como HB, explicou a dinâmica do Fórum. Os filmes são exibidos e no final de cada curta acontece um debate no sistema de câmera aberta, inspirado no modelo da TV Maxambomba, que é mais ou menos assim: alguém do público pede a palavra, enquanto a pessoa fala, ela tem a imagem projetada num telão. Todas as colocações são projetadas e registradas. Depois de devidamente editadas, as falas são organizadas num vídeo chamado Agenda Ambiental Audiovisual. Cada DVD se torna o produto final do Fórum, com uma compilação das principais idéias que foram debatidas em cada cidade. O primeiro vídeo a ser exibido naquela noite foi Perambulante, um documentário exemplar pra expor a amplitude de assuntos que podem ser abordados a partir de uma oficina de cinema ambiental. O vídeo fala do inchaço populacional que atinge Macaé através da vida de ambulantes que trabalham nos ônibus da cidade. Durante a projeção voltei minha atenção para a platéia. As pessoas assistiam os filmes e automaticamente se encontravam na tela. Reconheciam os cenários e os personagens que interagem em 'ses lugares. Se envolviam com as histórias, ficavam tensas, emocionadas, inconformadas e se emocionavam com cada corte, com cada depoimento. Aberto o debate surgiram intervenções que envolviam a situação do transporte público, o crescimento da periferia de Macaé, a ocupação desordenada e, fundamentalmente, a propaganda institucional que vende a imagem de Macaé como uma cidade próspera e a «terra das oportunidades». Marcelo Ataulpa, ator local, pediu e palavra e deu o seu parecer: «Esse tipo de vídeo coloca o outro lado da coisa, foge do padrão elogioso dos institucionais que são feitos aqui». Juliana Loureiro, uma das antropólogas responsáveis por as oficinas, contextualizou: «As oficinas ensinam que meio-ambiente não é só árvore e florzinha. É por isso que 'sas temáticas surgem nos filmes». Em 'te caso, o ponto mais latente foi a questão do emprego. Herlane, personagem do filme, concluiu: «Eu falo em nome dos camelôs e digo obrigado ao povo de Macaé. Porque o governo não me deu nada. Quem me ajuda a sustentar meus cinco filhos é o povo». Representantes do IBAMA e o ex-secretário de meio ambiente, Fernando Tavares, marcaram presença no evento. Tavares fez sua primeira intervenção no debate dizendo que o vídeo " não falou muito do imaginário, mostrou a realidade ímpar da cidade. A contra partida não serviu só para plantar mudinhas. Criou uma visão artística, uma linguagem». Essa tal «outra linguagem» é resultado direto das aulas, e o Fórum é o primeiro trabalho que os alunos realizam após a conclusão da oficina. A produção do evento conta com o envolvimento total dos alunos, que correm atrás da autorização para o uso da praça, de apoios locais, e até a divulgação na mídia. Mas o bicho pega mesmo é na noite do Fórum, são os alunos das oficinas que operam as câmeras e conduzem as intervenções que são gravadas e jogadas no telão. O segundo filme da noite, De o lado de cá, comprovou a capacidade do projeto de mobilizar as comunidades. Os moradores da Malvina marcaram presença, aplaudiram o filme e promoveram um denso debate. O documentário trata da ocupação da área, que é um mangue, e suas complicações ambientais e sociais. Seu Roberto colocou no debate o ponto de vista dos moradores: «Gostaria de deixar uma pergunta para o ex-secretário (de meio ambiente) e para o IBAMA. Vão fazer a remoção, mas perguntaram se o povo quer ser removido?». Interessante é perceber que os personagens do filme comparecem ao Fórum para reafirmar suas posições. Esse encontro entre os personagens, as autoridades e os demais cidadãos de Macaé permite um diálogo dinâmico. Não por acaso a conversa toda acontece em plena praça pública, não num cinema ou um teatro fechado. O ambiente da praça proporciona que os vídeos sejam vistos e comentados por todos. Outro ponto bacana em 'ta proposta de Fórum é permitir intervenções que vão das mais teóricas e técnicas, até as mais emotivas. A primeira lacuna foi preenchida por as falas de representantes dos órgãos ambientais. Em o segundo caso tivemos a participação de Tio Jorge, pescador e poeta, que declamou uma poesia sobre a situação atual do Rio Macaé. Quando toda a proposta gira em torno do cinema, Vento corredor fechou a noite com uma saudável dose de poesia. O vídeo é recheado com imagens do filme «Anaconda de Jurubatiba», uma animação dirigida por Ibr, morador da Restinga. Os desenhos de Ibr ajudam a digerir a tensão que existe no vídeo, que mostra como a possibilidade de remoção é um paradigma para as pessoas que vivem naquela comunidade. Durante a exibição do vídeo caminhei entre o público para observar a reação das pessoas e tentar ouvir o que 'tava sendo comentado. No meio do burburinho consegui ouvir a seguinte frase: «O petróleo já 'tá aqui, importante agora é discutir o que vamos fazer a partir disso». A princípio, o debate tratou da equação: moradia X preservação ambiental. Daí em diante as conversas contemplaram outros temas, o mais forte de eles foi o planejamento familiar. Surpreendentemente, ou não, 'sa foi uma das temáticas debatidas com maior fervor. A complexa relação das políticas públicas destinadas ao controle da natalidade, e a autonomia das mulheres na questão da maternidade, botou fogo na conversa. Acompanhando o Fórum, a impressão é que a cidade de Macaé se conheceu um pouco melhor. Pessoas que vivem no mesmo lugar, mas que não compartilham de um 'paço de convivência puderam naquela noite exercitar a experiência do diálogo. Uma boa conversa despida de hierarquizações. Em aquela noite a cidade se assistiu, se falou e se ouviu. Dinâmica que, por fim, proporciona a digestão do sumo audiovisual de maneira mais plena. Com a conclusão do debate os alunos da Oficina de Cinema Ambiental Humano Mar foram devidamente diplomados e bastante aplaudidos. Entre sorrisos e lágrimas a rapaziada ainda recebeu o certificado de produção do Fórum, primeiro trabalho realizado após a oficina. A principal herança que fica de 'sa experiência é a sensação de que é possível realizar e repensar o próprio cotidiano. Novos filmes já começam a ser pensados. Assim como um cineclube, que deve servir como o tal 'paço de convivência e diálogo. Tudo para que o processo não pare, e Macaé consiga se enxergar cada vez mais. Já no finalzinho do evento captei o seguinte diálogo: «Só conseguiu chegar agora, né? Pô, deu mole cara. Número de frases: 95 O debate aqui pegou fogo!». Em o Salão do Mar de 2006 as obras expostas convivem com o cotidiano portuário. Desde sua criação, o Salão do Mar vem se 'tabelecendo como uma das mais significativas mostras de arte contemporânea do Espírito Santo, e a única competitiva. O tema, claro, é o mar e participam obras de cunho contemporâneo em todos os campos das artes visuais. Este ano, os guindastes, empilhadeiras e navios coloridos que formam uma instalação a céu aberto com a qual os capixabas convivem cotidianamente dialogam com as obras. A exposição acontece no Armazém 5 da Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), como parte das comemorações do Centenário do Porto de Vitória, e vai de 28 de abril à 21 de julho. A mudança de endereço da mostra que antes acontecia na Casa Porto é a primeira novidade de 'sa sétima edição que também ganhou, pela primeira vez, abrangência nacional. O Salão do Mar que antes aceitava obras produzidas por capixabas e mineiros, abriu as inscrições para artistas de todo o país. «Essa nova abrangência contribui para o intercâmbio da produção local com a desenvolvida no restante do país. Ajuda também a difundir o debate sobre a arte contemporânea e marca Vitória como um centro de produção cultural do Brasil», explica Samira Margotto, administradora da " Casa Porto. «A expectativa é de que o salão receba 26 mil visitantes». Essa feição multicultural pode ser vista nos 27 trabalhos selecionados entre 410 inscritos, 340 a mais que a média registrada nas edições anteriores. São nove trabalhos de São Paulo, cinco do Rio de Janeiro, dois de Minas Gerais, dois de Pernambuco, um de Goiás, um do Rio Grande do Sul, outro do Paraná, e seis obras são do Espírito Santo. A comissão responsável por a seleção final dos trabalhos foi formada por Daria Jaremtchuk, pesquisadora e curadora da USP, Fernando Cocchiarali, crítico de arte e curador do MAM / RJ, José Cirillo, artista plástico e diretor do Centro de Artes da Ufes, e por as artistas plásticas Maria Helena Lindenberg e Juliana Morgado. Para chegar aos 'colhidos a comissão avaliou a coerência conceitual da proposta e sua relação com o mar. A seleção abrangeu as categorias desenho, objeto, pintura, 'cultura, fotografia, instalação, gravura, vídeoarte e performance, entre outras. E cada artista selecionado recebeu um prêmio de participação de R$ 1 mil. A exposição O evento de abertura teve início com o sempre polêmico anúncio das obras vencedoras. Fumaça de Resgate de Camila Sposati, Varal de Lourival Cuquinha e Mar de Gropius de Patricia Osses foram os trabalhos premiados, sem ordem hierárquica. Cada artista vai receber um prêmio de R$ 6 mil, e todas as obras premiadas serão incorporadas ao acervo da Casa Porto de Artes Plásticas. Ainda na abertura, vários modelos e 'tilistas realizavam uma performance de moda e interagiam com o público presente. E além dos capixabas, a abertura da exposição contou com a presença de artistas nacionais integrantes de 'ta sétima mostra, como a mineira Ana Gastelois e a paulista Cristine de Bem e Canto. Mas a exposição começa antes mesmo da entrada no galpão, com a maravilhosa intervenção urbana Varal do pernambucano Lourival Cuquinha, integrante do grupo Telephone Colorido. Cerca de 90 peças de roupas penduradas num varal de 80m 'tendido por sobre as clássicas avenidas Jerônimo Monteiro e Governador Bley, em frente ao Armazém, chamavam a atenção de pedestres e transeuntes desavisados da existência da arte pública. Uma vez lá dentro valia conferir a poética ironia da instalação Horizonte recortado para localidades não litorâneas, do promissor artista Miro Soares (ES). A obra é composta por dez peças de vidro, cheias de água do mar, enfileiradas de modo não linear, e é uma proposição do deslocamento do horizonte para as grandes cidades infestadas de prédios e arranha-céus. Bonito de ver. Vale também gastar um tempo com a longa e divertida videoinstalação do carioca Gustavo Pessoa. 50 minutos de gravação do artista caminhando sobre a tênue linha entre a areia e o mar, carregando um saco de gelo, sangue e 'perma que derrete em tempo real. Outra videoinstalação interessante é a do grupo capixaba LAB Comunidade Criativa, que simula a sensação de náusea no 'pectador à medida que ele caminha sobre uma placa de aço montada sobre molas num container. Para que servem os Salões de Arte? Esse era o tema da palestra do professor da USP, crítico e curador de arte Agnaldo Farias, realizada antes mesmo da abertura da exposição. A idéia do encontro consistiu em pensar soluções para adequar o formato dos salões à realidade contemporânea. Em o Brasil, ainda hoje, os salões continuam sendo a principal alternativa para impulsionar a carreira de um jovem artista. E nas artes visuais, como em todas as outras formas de arte, os modelos de formação e difusão devem ser permanentemente discutidos e modificados. Não perca 7º Salão do Mar. De 29 de abril a 21 de julho, no Armazém 5 do Porto de Vitória, Centro. Visitação às terças e quartas, das 10h às 20h; quintas e sextas, das 10h à meia-noite; sábados e domingos, das 10h às 20h. Artista expositores Adams Carvalho (SP) Ana Gastelois (MG) André Burian (MG) Aníbal e Branca (SP) Beatriz Pimenta (RJ) Botner e Pedro (RJ) Bruno Vieira (PE) Camila Sposati (SP) Carla Zaccagnini (SP) Charles Klitzke (PR) Cristine de Bem e Canto (SP) Dayse Rezende (ES) Edney Antunes (GO) Fabio Okamoto (SP) Gustavo Pessoa (RJ) Herbert Pablo Bastos (ES) Isadora Bonder (RJ) LAB -- Comunidade Criativa (ES) Lourival Cuquinha (PE) Luciana Ohira e Sérgio Bonilha (SP) Marcelo Salum (SP) Maria Lucia Cattani (RS) Miro Soares (ES) Patrícia Osses (SP) Raquel Baelles (ES) Roosivelt Pinheiro (RJ) Número de frases: 70 Silfarlem Oliveira (ES) «Em a Bahia não se nasce, 'tréia!». Quantas vezes você já ouviu 'sa frase? Muitas aposto. Mas sabe o que acho de ela? Uma verdadeira falácia! E vou explicar por que. A atual forma como a cultura vem sendo conduzida no nosso 'tado, mais 'pecificamente em Salvador, só confirma que 'sa não passa de mais uma mentira velada, e há bastante tempo é empurrada na cabeça dos turistas e dos próprios soteropolitanos. O ato da 'tréia, no sentido da famosa frase, significa que todo baiano nasce para o meio artístico. como se os primeiros berros infantis soassem de forma cadenciada, indicando uma evidência musical ou as necessidades fisiológicas liberadas na cara do médico por o bebê, ao nascer, mostrassem uma predisposição a um humor crônico, praticamente implícito ao nosso ser. Afinal, baiano que é baiano não tem mau humor, adora pagode, carnaval, acarajé, freqüenta terreiro de macumba e para completar é preguiçoso pra caralho, tudo exatamente em 'sa ordem. Esta frase, muito utilizada por a mídia externa e confirmada por pseudo-artistas, que se dizem representantes da Bahia, tenta mascarar o funcionamento verdadeiro da «'tréia» baiana. Para nós, baianos-que não necessariamente gostamos ao mesmo tempo de pagode, carnaval, acarajé e não freqüentamos terreiro de macumba -- e que acompanhamos de perto o nascimento das manifestações culturais aqui na cidade, sabemos que os 'petáculos não surgem de forma assim, tão 'pontânea nas maternidades Climério de Oliveira ou Ticyla Balbino. Os 'paços são bem menos democráticos. Hoje, para se assistir a uma 'tréia de um baiano, é necessário juntar-se com uns amigos e comprar uma «casadinha», ou então gastar um valor referente à metade do salário mínimo indo para um camarote de área Vip com as mais variadas cores de camisas. Quando não, pagar R$ 60,00 para assistir um 'petáculo no TCA-um teatro mantido com recursos governamentais, que por sua vez, se mantêm com recursos de impostos, que nós-baianos que 'treamos-pagamos nas contas. Ostentamos a arrogância de pertencemos a um Estado, que todos afirmam possuir características absolutamente peculiares. Em certa medida eu até concordo, temos características próprias, assim como qualquer lugar do Brasil ou do mundo. Nenhum lugar é igual ao outro. O que não concordo é que façamos de 'sas singularidades um pedestal que nos deixem cego para a verdadeira realidade que nos cerca. Pois, não percebamos-ou não nos deixam perceber (Emtursas, Bahiatursas, Propegs) o quanto 'tamos sendo demasiadamente levianos em exaltar uma cultura que o povão não conhece. Temos uma política cultural verdadeiramente 'crota. Que pisa nas companhias populares e de raiz e promove porcarias. Os teatros alternativos são largados ao léu e a boa vontade da «responsabilidade social» das empresas. Tiram leite de pedra todos os meses, para manterem o acesso à cultura-que é um direito constitucional-a todos. Enquanto meia dúzia de artistas monopolizam circuitos-musical, teatral ... «sugando» todos os patrocínios e atenção da mídia. Nós -- baianos também, mas que 'tamos longe de 'sa famosa 'tréia-aguardamos o dia em que alguns dos irmãos Rangel ou a DM9 venha «marketizar» o nascimento da 'tréia digna, de um baiano que se preza. Enquanto isso ... Vamos por aqui ouvindo piadinhas e fazendo a «baianada» (gíria que os simpáticos paulistas nos atribuíram), de acreditar que somos o 'tado da diversidade. Número de frases: 30 Pequena Morte é diversão em forma de música em cima do palco. Formado em 2006, o grupo belo-horizontino apresenta uma mistura de diferentes 'tilos (rock, jazz, mpb) que, no final, o som se aproxima de algo parecido com ska, de acordo com os seus integrantes. Em o dia 15 de agosto, a banda será a primeira convidada da festa Overmundo Colabora, realizada no bar A Obra. Confira o som! -- Para quem não sabe, expliquem o nome da banda e se isso tem a ver com alguma característica do show de vocês. O nome da banda é uma tradução literal da expressão francesa ' petit mort ', que é uma metáfora para o orgasmo. Sabe aquela sensação de completo desligamento com o mundo e o cansaço prazeroso que temos no momento do orgasmo? É 'sa a sensação que pretendemos proporcionar àqueles que se envolverem com nosso som.. Ao contrário do que muitos pensam ao se deparar com o nome da banda, não se trata de uma sonoridade conectada ao lado mórbido das coisas, pelo contrário, procuramos fazer um som para divertir o público e a nós mesmos. -- Quais influências no som da banda? O que vocês gostam de 'cutar? Somos seis pessoas na banda, cada um com uma relação e um background diferente com a música. Por serem tantas, é difícil falar de influências hoje em dia. O que dá pra dizer é que cada integrante trás um pouco de sua bagagem para o som da Pequena Morte, buscando sempre uma sonoridade que dê vontade de mexer o corpo, nem que seja só batendo o pé no chão. De Tom Jobim a Radiohead, de Skatalites a Nação Zumbi, de Clube da Esquina a Dave Brubeck, tentamos extrair o lado divertido, que acabou resultando em 'se som, que parece ska, mas que nem sabemos ao certo o que é mesmo. -- A Pequena Morte prefere o 'túdio ou o palco? O palco, com certeza! É ali que a gente vê que consegue transmitir às pessoas a sensação que buscamos quando tocamos. É claro que nos divertimos muito nos ensaios, mas o tesão mesmo 'tá na relação com o público. -- Vivemos um momento em que são buscados novos modelos de negócio para a música. O download do disco novo do Cansei de Ser Sexy patrocinado por uma grande empresa é um exemplo. Vocês têm alguma opinião sobre isso? Acham que realmente 'tamos mudando de visão sobre consumo da música? Ou que a maior parte dos artistas ainda sonha em assinar com uma grande gravadora? Falar que o mp3 mudou a maneira de se consumir música já é chover no molhado, né? Cada um vem buscando seu caminho para se firmar em 'se contexto e não há fórmulas para isso. Ser pago para que pessoas baixem suas músicas para 'cutar onde quiserem não parece uma má idéia de jeito nenhum. Nada melhor que música se 'palhando como vírus por aí. Democratizar é bem mais interessante que controlar a circulação de qualquer tipo de produto cultural. O ideal mesmo é que as bandas construam sua reputação nos palcos, mais que nas prateleiras de lojas. É claro que o contrato com uma grande gravadora ajuda muita gente a difundir seu trabalho por os mais diversos meios, mas a cena independente 'tá aí para mostrar que existem outros caminhos que podem ser até bem mais recompensadores que o mercado das majors. -- Você concorda que atualmente os músicos passaram a se envolver mais no processo de produção da música e de outras tarefas (divulgação, design, etc.)? Claro. Hoje qualquer um tem acesso a ferramentas capazes de dar forma a idéias que antes eram bem mais complicadas. Home stúdios, sites colaborativos como o Overmundo, 'sa facilidade que se tem em 'palhar informações a públicos 'pecíficos através da rede, ferramentas de edição de imagem e produção gráfica 'tão aí para serem usadas. A nossa banda mesmo tem dois jornalistas, um designer gráfico, videomaker e todo o aparato necessário para gravarmos nossas coisas. Se tivéssemos mais tempo livre, seria possível fazer tudo com soluções caseiras. -- A banda pensa em lançar disco, seguindo um caminho mais tradicional? Um disco, com uma linguagem própria e um acabamento bem feito ainda é a melhor ferramenta para divulgar o trabalho de uma banda. Além disso, a sensação de ser ler um encarte em papel e colocar um cd prensado no som ainda é mais gostosa que a de baixar um álbum na internet, não é verdade? -- Em a opinião de vocês, como 'tão os palcos mineiros atualmente? Há muitos 'paços para tocar? Quais bandas mineiras vocês destacam na cena atual? Os palcos dependem de que som 'tamos falando. Vou falar do que consumimos com mais freqüência. Se o lance é o rock independente, ou qualquer coisa que podemos classificar dentro de uma 'tética «jovem / alternativo», existem praticamente duas casas na cidade: Obra e Matriz. De vez em quando, quando o show tem um porte maior, o Lapa funciona legal também. Tirando isso a maioria das casas só 'tá aberta a bandas pequenas / médias quando 'tas fazem parte de nichos muito 'pecíficos: Rock ` n Roll, Reggae, MPB, Pop Rock ... Rolam muitas bandas bacanas. Entre as que já fomos / iríamos aos shows, podemos destacar: Surf Mother Fuckers, Reverb All Stars, Maitê, Monster Surf, Graveola e o Lixo Polifônico, Black Sonora, Fusile, Constantina, Ballet, Tempo Plástico, Skacilds, Moldest e Colorido Artificialmente. É importante chamar atenção também para alguns jovens de formação notadamente erudita na cena musical de BH. Número de frases: 53 Antônio, Rafael Macedo, Rafael Martini, Rafael Cheib, Felipe José, Kristof Silva, os baixistas Trigo e Pablo Maia, são alguns representantes da música de qualidade feita na cidade. A mão é negra, o cartão é branco e a logo que você vê é, sim, do Mc Donald's. Foi com 'te cartão que a vida do João mudou. Justo ele, que nunca entrara numa das milhares de lojas da famosa rede de fast food, justo ele que não sabia o que era um Big Mac, que trabalhava num restaurante japonês em Brasília, que era nascido em Pernambuco, que tinha morado em Angola durante a guerra. Justo ele, veio parar na França assim. João tem 24 anos e se aproximou de nós depois de reconhecer, em nossas vozes, o seu idioma materno, numa das pequenas ruas no entorno da Praça St. Michel, em Paris. «Vocês são brasileiros?», veio perguntando. Apesar de ser natural do Recife, uma das cidades com um dos sotaques mais particulares no Brasil, o modo de falar nos deixou em dúvida, num primeiro momento, se o rapaz era nosso conterrâneo ou um 'trangeiro com boas noções de português. Quando ele se revelou pernambucano, a pergunta foi imediata. -- Mas que sotaque é 'se, rapaz??? Você é do Nordeste ou não? João se defendeu, disse que era claro que tinha sotaque. Não percebemos de primeira, mas, com alguns minutos de conversa, saíram as ferrugens e apareceram aquelas acentuações e respirações típicas de quem nasceu e cresceu na Veneza brasileira. Não conseguindo fugir de um certo ranço burguês, de classe média etnocêntrica, perguntamos incrédulos: -- O que que você 'tá fazendo em Paris?? -- Rapaz, minha história é longa ... -- Bom, então conta para a gente ... * * * * Como num filme em flashback, as perguntas são retroativas, cada vez mais se referindo a partes anteriores da vida de João. E a explicação é lógica: a cada resposta, a história parece mais incrível, no mais restrito significado deste adjetivo. Nascido no Recife e criado em Olinda, filho de um pastor da Igreja Evangélica, ele se prepara para iniciar o curso de Direito numa universidade francesa. -- Mas, cara, que que você veio fazer aqui? -- Eu vou começar a 'tudar Direito na universidade ... Eu fazia REL (relações exteriores) na Católica de Brasília ... -- Mas por que Direito? -- Eu quero seguir carreira diplomática ... -- Mas você não disse que é de Recife? Quê que você 'tava fazendo em Brasília? -- Eu fui pra lá porque eu queria furar o mundo. Tinha jornada dupla, trabalhava num restaurante japonês do aeroporto de lá e 'tudava. Um dia, eu atendi um cliente no aeroporto e comecei a falar em francês com ele. Disse que a França era minha paixão e ele me ofereceu para vir morar aqui. ????????? Entender sua vida seria uma tarefa difícil e isso 'tava claro. Rapidamente intervimos sobre a fala de ele e perguntamos se podíamos entrevistá-lo, sob o pretexto de sermos jornalistas. Solicito e sorridente, aceitou sem dificuldades. Pegos de surpresa, não tínhamos nem papel, nem caneta, muito menos gravador -- nos prendemos atenciosos aos detalhes e tudo que 'tá aqui é fruto da memória. Seguimos. Para explicar de onde veio sua paixão por a cultura francesa, João resolve contar mais partes de sua história. Diz que é o caçula de uma família de mais três irmãos e que, quando tinha treze anos, foi morar em Angola, já que o pai fora transferido para lá por conta do trabalho pastoral. -- Fomos com meu pai. Era muito difícil, o país 'tava em guerra. Não tinha 'se negócio de ficar na rua de noite. Cinco horas, ia todo mundo para a casa. A gente teve problemas de malária. Eu tive mais de oito vezes. Meu pai, mais de vinte. Minha mãe, nove ... Eu vi muitos brasileiros morrerem com a doença, principalmente o pessoal dos capacetes-azuis, da tropa da ONU ... Muita gente do Rio de Janeiro, inclusive ... A relação com a cultura francesa começara pouco antes da ida para o continente africano. Ainda em Pernambuco, durante sua infância, seu pai costumava lançar perguntas em francês para os filhos e oferecia dinheiro para quem respondesse corretamente. -- Mas, então, seu pai falava francês? -- Não. Só algumas frases. Ele comprava uns livros em francês e decorava aquilo. Quando eu fui para a Angola, como não tinha muita coisa para fazer, eu comecei a querer 'tudar um pouco de francês. A primeira imagem que me lembro, acho que é a da Torre Eiffel, né? ... aquela coisa grande ... Em a volta ao Brasil, João foi morar no sertão pernambucano, na cidade de Afrânio. Concluiu o ensino médio por lá e depois foi 'tudar em Brasília. Sem familiares na capital, João recorreu a uma ex-namorada. -- Ela era de Petrolina e os pais eram separados. O pai morava em Brasília. Depois que nós terminamos, eu mantive o contato com ela, como amigo, já pensando que aquilo poderia ser útil um dia. De aí, um dia eu liguei para a ela e me disseram que ela 'tava passando férias lá com o pai. ' Opa, melhor ainda '. E com o pretexto de que precisava de um lugar para ficar, já que faria o vestibular naquela cidade, foi parar na casa do pai da ex.. Ele jura que não reviveu o romance. Como em Faroeste Caboclo, a música da Legião Urbana, um João 'tava indo do Nordeste para Brasília. Mas acredite, aqui o final é bem mais feliz. Um mês depois de chegar, já 'tava morando numa república de 'tudantes. -- Fui pra lá porque eu queria furar o mundo. Primeiro trabalhei uns vinte dias na padaria, mas já 'tava 'perando o resultado da entrevista pra 'se trabalho no aeroporto. Logo em seguida, fui para lá. Parecia coincidência, mas sempre que tinha clientes franceses, eu acabava atendendo. Falava umas frases que eu sabia em francês para tentar agradá-los e ganhar mais gorjeta. O salário era de R$ 300, mas com a gorjeta chegava a R$ 1600 por mês e, com 'se valor das gorjetas, eu podia pagar a minha universidade. Em uma de 'sas, João contou para mais um daqueles clientes franceses sobre seu sonho de morar no país. Prontamente, foi questionado: -- Mas o que te impede de ir? -- Ah, as condições financeiras ... -- Eu 'tou indo para Paris, me liga na segunda-feira que eu vou te levar para realizar o seu sonho. E foi assim que 'te cartão, que ele guarda até hoje na carteira e que você viu na foto lá em cima, chegou às mãos de João e lhe abriu as portas para começar a furar o mundo, de fato. Em os dias seguintes ao encontro no restaurante em Brasília, a alegria e incredulidade se misturavam com as dúvidas e as preocupações. Ao mesmo tempo em que o sonho tomava formas reais, algumas questões vieram à sua mente e de sua família: -- Acharam que ele era gay, que podia ser uma coisa ruim ... Mas nós mantivemos contato via internet durante sete meses. Então ele me mandou uma carta de boas vindas da universidade onde ele tinha me matriculado para 'tudar o idioma ... Ele não podia 'tar querendo me fazer mal, né? João veio para Paris e passou a ser filho de 'ta nova família. O senhor que lhe ofereceu o cartão é como um pai para ele e o trata de forma justa. «Nunca tive do que reclamar. Sou tratado da mesma forma como os outros filhos, tenho os mesmos direitos». As diferenças ficam por conta dos costumes. Tirar a camisa em casa não é tão simples como no Brasil. A mãe da família, que não 'tava no encontro em Brasília, 'tranhou um pouco no início. «Mas é natural, já que, de repente, chegou alguém que ela não conhecia para morar na casa de ela ... mas depois de uns três meses, tudo já 'tava normal." O fato de ser negro não interferiu em nada. «Eu acho que existe mais problema disso no Brasil do que aqui na França». Phillippe Tillaye é dono de três franquias da rede Mc Donald's em Paris e, por isso, a logo no cartão. Hoje em dia, João já tem boas noções do idioma francês e trabalha num das lojas de Phillippe. Quando perguntado se almoça muito no trabalho, ele diz que sim. «Há nove meses, eu só como lá. Não quero nem pensar como 'tá a minha barriga». Apenas em Paris ele foi apresentado à maior rede de fast food do planeta. «Nunca tinha comido num Mc Donald ` s. Quando eu 'tava em Recife, eu comia uns acarajés, mas não em Mc Donald' «s». O cartão mágico de Phillippe para João trazia, inevitavelmente em si, uma série de contradições e belezas: um pedaço de papel com uma das marcas norte-americano que mais fortemente representam a noção de dominação cultural seria justamente o seu passaporte para Paris, cidade notoriamente conhecida como a capital européia da afirmação dos próprios costumes e, em 'pecial, de resistência ao americanismo. No meio disso tudo, 'tava lá João, provando o gosto do Big Mac à medida que entendia mais a fundo seu interesse por lemas como liberdade, igualdade e fraternidade. A chegada de João abriu portas para um intercâmbio cultural na família que, desde então, se inscreveu num programa de recepção de jovens do mundo inteiro. «Mas em 'se caso, eles vêm na condição de hóspedes e a família recebe uma ajuda para mantê-los aqui. Não é como eu que sou da família». O lugar parece perfeito para João se preparar para a carreira diplomática. «Eu tento fazer tudo muito certinho, para não desperdiçar 'ta oportunidade». Questionado sobre como vai fazer para se preparar para o concurso para o Instituto Rio Branco, para o qual é preciso 'tar bem informado sobre coisas do Brasil, principalmente legislação, ele não se preocupa: «Tem Internet pra isso». Sair de Olinda-Recife para querer capturar o mundo com suas próprias antenas nos pareceu uma história familiar. A influência dos conceitos da geração MangueBit, 'pecialmente de Chico Science, principal representante da cultura de Olinda, soava evidente. Contudo, quando perguntamos sobre isso, a resposta nos pega por o pé. -- Science?-- e repete como quem procura em algum lugar da mente -- Science? Não conheço ... -- Chico Science, um rapaz que misturava música moderna com maracatu, com coisas tradicionais, muito famoso. De Olinda -- repetimos, tentando explicar da forma mais rasa e rápida possível. Sobrancelhas franzidas e rosto balançando na horizontal indicam o total desconhecimento. Em a tentativa de achar justificativas para aquilo, só ficamos satisfeitos quando calculamos que os anos em que o nome de Science mais brilhou foram exatamente os que João viveu em Angola, 1994 a 1998. Quando ele retornou ao país, Science não 'tava mais por aqui. Parece que as idéias 'tavam no ar. Nos despedimos de João, mas, antes de deixar-nos ir, ele nos mostra, mais uma vez, seus olhos curiosos e atentos sobre o mundo e quer saber o máximo de informações possíveis sobre nós dois. Em 'sa hora, seu «pai» sai do prédio para passear com o labrador. Registramos o momento com a pequena máquina digital que nos acompanha. João nos apresenta, mas pouco depois nos repreende, sem perder o sorriso e a simpatia. -- Mas rapaz, você não pode sair fazendo 'sas fotos de ele assim sem pedir não. Como o «pai» já se foi, pedimos desculpas e que ele explique que, no Brasil, 'se registro de encontros, de momentos como aquele, com pequenas máquinas, é comum. Prometemos que não vamos usar as fotos, já que não consultamos. João diz para relaxarmos, que não é nada sério, que só 'tava dando um toque. João já tem seu lado francês, mas lembra que é brasileiro. João só quer furar o mundo. * * * * A colaboração acima é a primeira de uma pequena série de textos que pretendemos 'crever a respeito da nossa 'tadia na Europa. Durante duas semanas viajamos juntos por França e Alemanha. As experiências vividas são descritas com o olhar de quem já 'tava no velho continente há dois meses -- o Bruno Maia -- e de quem tinha acabado de chegar por lá -- o Thiago Camelo. Conhecemos pessoas e vivemos situações que, ao menos para nós, parecem de interessante relato aqui no Overmundo. Nada mais do que uma descrição despretensiosa da visão compartilhada de dois amigos brasileiros. Número de frases: 147 Para encontrar mais textos sobre a nossa viagem, por favor, pesquisar por a tag viagem-europa. O seu destino em quinze minutos. 16:00 horas. Em uma rua, ele anda em direção a uma lanchonete. Estava com fome, mas desconhecia a tal lanchonete. Nunca tinha comido lá. Mas a fome era grande. Ele entra, senta e a garçonete vem atendê-lo. Ela tinha uma aparência de ter na beira dos 50 anos. Ele pede o prato 'pecial. A garçonete sai e ele fica observando as pessoas ao redor. Em uma mesa do lado, um casal discutia o relacionamento. Em a outra mesa, um homem olhava para a atendente do caixa, que não sabia do olhar de ele. Parecia 'tar sem coragem de falar com a atendente. Em o balcão um senhor bebe café e conversa com a garçonete. Eram casados. Começa a chover. Sentado e 'perando, ele olha para fora da lanchonete e avista uma garota correndo da chuva e entrando na lanchonete. Ela entra e enxuga os cabelos morenos. O céu abre. Uma brecha ilumina a entrada da lanchonete, onde ela 'tava. Nota-se, sua pele branca, seu jeito desengonçado tropeçando na entrada e seu sorriso singelo que pedia desculpas por molhar o chão da lanchonete. Ela entra e senta numa mesa atrás de ele. Ambos ficam de costas. A chuva continua. A garçonete atende a garota. Ele 'cuta. Ela pede o prato 'pecial também. A garçonete sai. Ela começa a procurar algo na pasta. Ele olha ao redor. A discussão do casal finalmente termina. O homem que olhava para a atendente parece ter tomado coragem. Ele se levanta e respira fundo. A mulher da discussão se levanta da mesa. Ela larga a aliança e vai em direção a saída. Ela 'barra no rapaz que ia falar com a atendente e sai da lanchonete. Após trombar na mulher, o rapaz para. A atendente avista ele em pé parado a uns 3 metros de ela. Ele coça a cabeça e resolve sair de lá. Ela observa a saída de ele. O rapaz que olhava ao redor se levanta, vai em direção ao banheiro. A moça que vasculhava algo na pasta, sem querer, derruba alguns pertences. Uma foto cai no chão e bate no pé do rapaz que ia ao banheiro. Ele olha para a foto. Era uma foto da moça numa ponte. Ela sorria para a câmera. Mas algo prendia a atenção do rapaz na foto. Ele reconhecia o lugar. Não era naquela cidade. Parecia ser sua cidade natal. Reconhecia a ponte. Ele recolhi alguns papéis. A moça sorrir e agradece. Ele sorri de volta e vai ao banheiro. A moça coloca os papéis e a foto juntos na pasta. Ela 'tava embaraçada. A garçonete leva o prato 'pecialpara o rapaz que fora ao banheiro. Ela então, entrega o prato 'pecial para a moça. Em o banheiro ele lava as mãos. O homem da discussão entra no banheiro com os olhos vermelhos. Ele retira a aliança do dedo e molha o rosto e fica parado pensando. O rapaz, que lavava as mãos, se retira. Ele volta para a mesa e continua 'perando a comida que não chega. A moça come seu prato 'pecial. Ele 'tranha. Tinha chegado primeiro. O senhor, marido da garçonete, chama a atenção da 'posa. Ela se aproxima de ele e o beija. A moça que vê a cena enquanto come, fica feliz por os dois. Eram ambos velhos, mas se amavam, era coisa rara de se ver. A garçonete se afasta do marido, pega a comida e leva até o rapaz. Ele agradece e começa a comer. Faltava alguma coisa. Não tinha catchup. Olhou para as mesas ao redor. A mesa da frente que tinha ninguém, tinha catchup. Ele se levanta. A moça olha para a janela enquanto come. A chuva para. O rapaz, que a momentos atrás, arrancava a aliança do dedo, sae do banheiro com um lenço na mão. Fora da lanchonete a mulher que a minutos 'tava discutindo, olha por a janela à procura do noivo. Em o instante que ela olha, o rapaz que se 'ticava para pegar o catchup, impossibilitava a moça de vê o noivo, que se encontrava atrás de ele. Ela não o avista e então dá meia volta e sai. O rapaz então come seu sanduíche. A moça termina o sanduíche e chama a garçonete, que lhe diz o preço. Ela vasculha a pasta atrás de sua carteira. O homem da discussão sai da lanchonete. A moça custa a achar a carteira. A atendente chama a garçonete, para atender o telefone. Ela se retira e pede para o marido tomar conta. A moça encontra a carteira. O rapaz termina o sanduíche. Ela entrega o dinheiro para o marido da garçonete. Pega a pasta, se levanta, deixa cair uma foto da pasta, sendo que ela não nota e caminha até a saída. O rapaz que tinha acabado de comer avista ela saindo. Parecia lembrar de ela de algum lugar. Ele olha para o chão a avista uma foto no chão. Era da mulher, era a mesma foto. Ele pega a foto, olha para a mulher que atravessava a rua, e então resolvi ir atrás de ela. Mas antes de sair o marido da garçonete o chama a atenção. Não tinha pagado a conta, não podia sair. Ele deixa uma nota na mesa e sai da lanchonete. A chuva cai. Quarda-chuvas se abrem. Ele a perdeu de vista. Ele, então, olha para a foto. Olha para o rosto de ela, que tinha um sorriso inocente e os cabelos desarrumados por causa do vento. Mas logo repara num pequeno detalhe. Em o fundo atrás de ela, tinha uma pessoa sentada observando-a. Ele toma um susto. Era ele na foto. Número de frases: 112 16:15 Tenho deixado aqui já algumas vezes, por ocasião do décimo-terceiro e do décimo-quarto ano de circulação do Jornal Fala Brasil, algumas frases mais de reconhecimento e 'tímulo a 'sa brava experiência da materialização de sonhos de um jornalismo sem rabo preso, de divulgação da multidão dos pequenos fazedores da nossa arte cotidiana e dos fatos culturais de uma cidade que não é mais pequena, mas tem um circuito cultural publicizado como se aldeia fosse em que a corte é quem determina o que é a cultura a ser propagada. Há mais do que passa na tevê, na vida cultural de Porto Alegre, embora a tevê daqui recuse 'paços a 'se mais e prefira o menos. Os de sempre, os da família, os da curriola, os que ela mesma produz ou os que a pagam. Exceção à visita badalada dos expoentes da novela rede-transmitida, momentos em que os 'paços se ampliam de tal modo que a paciência do telespectador vai aos limites do 'trugir. O Fala Brasil, por 'sa aproximação com os que vivem de cultura fora do circuito da fama, tem sido aplaudido e reconhecido por os 10 mil leitoresde cada uma de suas edições mensais, por os artistas e algumas autoridades públicas. Vez por outra recebe uma distinção, é 'colhido para um prêmio cultural. Tem os dois principais da cidade: o Açorianos de apoio à cultura e o Cultural Joaquim José Felizardo, mas tem sido olimpicamente 'quecido, deixemos assim pequeno por hora, por os programadores de midia. -- Não se encaixa nos perfis dos anunciantes é a alegação preguiçosa que ouço desde 1997, quando ajudei a promover um encontro de jornais segmentados. Havia 54 títulos de semanários de bairros, mensários segmentados em cultura, 'portes, turismo, ecologia, entre outros quando atuava na função de planejamento e distribuição de verbas de publicidade da Prefeitura de Porto Alegre. O encontro, realizado em parceria com o museu de Comunicação Hipólyto José da Costa debateu 'se tema e até impulsionou na cidade a formação de uma associação de jornais não diários e deu um certo fôlego por quase uma década a um mercado que existe ... a jornais que persistem e são lidos. Os marqueteiros insistem em 'condê-lo ou fugir de ele (porque têm opinião), dobrando-se à acomodação e à conveniência da via principal, o que só ajuda a manter inclusive as mesmas moscas, como andam questionando por aqui também. Um jornalão de centenas de páginas em dezenas de cadernos recebe anúncio de página dupla em cor: fica o bicho boiando naquela lama toda. O jornal mensal, segmentado de público cativo, nada recebe. O dono do jornalão é também concessionário de emissoras de rádio e tevês ... é da súcia de poder erguida a partir dos 'paços públicos concedidos, por onde elegem prefeitos, vereadores, deputados, governadores, senadores e presidentes. Ou agem para derrubá-los, também em conluio com os de sempre. O Fala Brasil vai chegar aos 15 anos em 2009. Pretende debutar vestido de gala, embora sem salto muito alto. Unha pintada, não necessariamente grande. E algum anel, que não precisa ser sequer chuveiro. Recordo da proposta original da atual secretária de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (fico até envergonhado de lembrar) de realizar um baile nacional de debutantes para ... Vamos colaborando com o Jornal Fala Brasil, eu, Danúbio, Affonso, Zé Augustho, outros ... Quem sabe você tem alguma idéia de como assegurar o custeio de 'sa midia dos artistas populares de Porto Alegre e do Rio Grande. Se quiser oferecê-la, não se acanhe, mande e-mail para a Rô: jfalabrasil@terra.com.br * * * * * Por a edição mais recente, de agosto, a Rosane Scherer, proprietária, editora, fotógrafa, distribuidora e administradora do Fala recebeu do coloborador Affonso Romano de Sant Anna», o seguinte e-mail: Querida, que bela supresa, reviver aqueles momentos com vocês, no hotel, na conferência, cercado de tanto carinho ... me dá até vontade de mudar para aí. Se os gaúchos são 'peciais, você (s) do Fala Brasil, 'pecialíssimos: são uma ilha em 'se oceano de tubarões da pós-modernidade ... ( ...). * * * * * A coluna de ele na edição de agosto é a que segue * * * * * A Guitarra De AR Affonso Romano de Sant'Anna Acaba de acontecer na França um campeonato de tocadores de guitarras invisíveis. E nos próximos dias, entre 20 e 22 de agosto, na Finlândia, ocorrerá o campeonato mundial de guitarras de ar. Não será a primeira vez, 'te será o 13 certame e reunirá representantes de mais de 20 países. Os guitarristas sobem ao palco (sem guitarra nas mãos) e dão um show. Fazem todos os gestos típicos de Jimmy Hendrix ou de qualquer outro gênio da 'pécie como Kurt Cobain. Os dedos dobrados dedilhando o nada, o corpo badalando o invisível, o rosto fazendo as caretas acompanhando os acordes enquanto a platéia delira diante do ausente. Claro, a música existe em play-back, o instrumento é que é conceitual. A prova consiste em duas etapas. Em a primeira o concorrente 'colhe a música que quer, e na segunda, conforme o regulamento «usa um mediador real». Há um júri que dá notas de 4,0 a 6,0. Dizem os comentadores que 'te tipo de 'petáculo é algo entre o humor e a arte contemporânea. Afinal de contas, Marcel Duchamp não havia dado de presente ao seu marchand americano uma ampola de farmácia cheia do «ar de Paris»? Os artistas da guitarra invisível aprofundam 'sa proposta. Levam o falso (" fake "), a imitação e o «cover» ao extremo. Criam pseudônimos, artistas imaginários que tocam guitarras imaginárias. Criam biografias de músicos inexistentes, como o de um tal Juano Fonzo, que foi inventado por o músico Pitt Feio (alusão a Brad Pitt), que por sua vez é pseudônimo de Guillaume de Tonquédec. Este revelou que Pitt morreu de uma overdose de «aeroína» substância «mais funesta que a heroína». Tal herói confessa que optou por a guitarra imaginária porque aos 8 anos seu pai recusou-se a dar-lhe uma guitarra verdadeira. Como se vê, Freud tem tudo a ver com a arte de nosso tempo. Mas isto tem a ver também com um outro tipo de arte que nos deixa igualmente surpresos: a arte dos negócios. Vejam os jornais destes dias com notícias sobre fabulosos banqueiros e políticos. Alguns, como aqueles intangíveis guitarristas, tocam instrumentos que não existem, outros tocam negócios invisíveis, que quando vistos por a Polícia Federal provocam um desconcerto nacional. Afinal, o que é uma bolsa de valores? O que é a criação de empresas fictícias que são lançadas no mercado gerando ações milionárias, cheias de ar? O que são os famosos «laranjas», utilizados como» fake», como «cover», imitadores, pastiches e paráfrases? Daniel Dantas, Naji Nahas, Cacciola e Eike Batista são grandes artistas, grandes jogadores no cassino das finanças, virtuoses internacionais da arte dos negócios. Dest ' arte, falando da arte dos negócios e do negócio da arte, por coincidência, no Museu de Arte Moderna de São Paulo foi inaugurada uma grande exposição retrospectiva de Marcel Duchamp. Além do vidro vazio (" L'air de Paris ") 'se grande ilusionista fabricou também uma nota falsa para pagar suas dívidas. Também inventou e imprimiu por conta própria umas ações do Cassino de Monte Carlo, pois era um jogador inveterado. Chegou a confessar que o jogo era seu vício e queria ser o melhor jogador de xadrês do mundo. Não conseguiu. Esse jogo tem regras fixas, e não pode cada jogador sair por aí inventando suas próprias regras. Mas no cassino das artes, deu-se bem. Intitulando-se «pseudo artista», um» anartista " virou uma referência na história da arte contemporânea. Só falta os advogados desses que andaram pintando e bordando com o dinheiro alheio alegarem que eram artistas conceituais. * * * * * Sou um fã de carteirinha do Danúbio Gonçalves, que aos 83 anos me dá receitas saudáveis de alimentação: coma menos, coma frutas, coma legumes e verduras, deguste o vinho, mas beba pouco, e que me aplaude ter deixado de fumar, secundado por uma trinca de médicos vigilantes anti-tabagistas, meus quatro filhos e duas netas. Overmundo já recebeu algumas matérias do mestre das artes plásticas Danúbio Gonçalves, uma de elas, publicada por a Juli Bauer, de denúncia de uma compra por o Museu de Artes do rio Grande do Sul de obra falsa. Como a panela de pressão aqui tem as borrachas renovadas e a tampa muito presa, o fogo ainda é brando, ninguém mexeu palha para dar seguimento a denúncia. Também ninguém ainda negou o denunciado ... o vapor, no entanto, é presente, o cheiro do cozido já se 'palha na província, embora os narizes dos falsários continuem empinados. Ladrão bem sucedido e inveja dá mais que mato na res publica, ainda que insistam que a mentira tenha pernas curtas. Vai ver anda de moto, skate, patinete ou jet (set) ski. Publico aqui a coluna de ele na edição do Fala Brasil de Agosto. * * * * * Tauromaquia E Belicismo Danúbio Gonçalves A presença do touro, mitológico, existe em quase todos os povos primitivos. Em a crença dos antigos persas era morto por Arimanes, significando o princípio da vida dos homens e dos animais e das plantas. Entre os hindus o touro era sacrificado. Em certas 'culturas, como do mosteiro Gautami-Putra, os vedas cavalgavam touros e não elefantes. O touro de Shiva é representativo exemplo. Em um relevo egípicio do templo de Seti, em Abidos, Ramsés II e seu filho, perseguindo um touro para leva-lo ao sacrifício. Vestígio da cultura céltica na Espanha, onde encontra-se os chamados touros de Guisando. Em a mitologia grega é freqüente a presença destes animais. Em os episódios em que figura Hércules, ao mito da Europa, seduzida por Zeus, travestido num de eles e no célebre Minotauro da ilha de Creta, no Palácio de Knossos. Em pintura representando moças e rapazes pulando sobre os touros, agarrando-os por os chifres, isso há três ou quatro mil anos atrás. Conjectura-se que Roma teria importado corridas de touros através dos mouros. Dion Cássio menciona festas taurinas celebradas durante o império de Nero. Tais 'petáculos públicos associados, podemos dizer, também ao martirológico cristão no Coliseu romano em que as feras devoravam os condenados, divertindo a numerosa assistência empolgada sadicamente com a brutalidade sanguinária do «Sangue y Arena, de Blasco Ibánez». A origem das touradas perde-se na nebulosa dos tempos. Desde os bisontes de Altamira?! Em o reino de Aragão era apreciada por a nobreza o 'petáculo taurino. Diz-se que César Borgia, Cardeal, toureou em varias ocasiões e o Papa Alexandre VI celebrou com uma corrida de touros o jubileu do ano 1500. Entretanto o critério oposto condenou a tourada. Retomada no barbarismo da Santa Inquisição ... Acontecimento à polêmicas decisões. Felipe V, o primeiro dos Bourbons, sentia antipatia por a tourada. As proibições antagônicas sucederam-se. A corrida de touros motivou obras literárias e nas artes plásticas, teve dois artistas de genealidade insuperada: Francisco Goya y Lucientes e Pablo Picasso. Sendo o painel de Picasso «Guernica», a obra de maior relevância da modernidade. Pintura quase incolor, em luto similar a uma gigantesca gravura em aguaforte e aquatinta. Denunciando o criminoso bombardeio de 'ta cidade por o nazismo, associado ao despotismo do generalíssimo Franco. Em conotação imagética à corrida de touros, destacando o touro e o cavalo incorporado tragicamente na magistral composição. Estive várias vezes na Espanha, conhecendo principais cidades e sua arte. Assíduo freqüentador, em Madri, do Museu do Prado e da genial arquitetura de Gaudi em Barcelona. Paris e Barcelona, minhas amadas cidades, constituídas em inesquecível saudoso memorial. Espanha de forte raiz mourisca tão presente na música, canto e dança flamenca. Mas sou incapaz de assistir uma corrida de touros, nem por a TV ... Espetáculo imponente e desfile que antecipa o combate sangrento entre o homem e o animal. Descendo de família da Catalunha: Villamil. Neto materno de José López Villamil e de Antonia Diaz Villamil. Admirando a cultura ibérica: Cervantes, Garcia Lorca, Mauel de Falla, Goya, Velasque, Gutierrez Solana, Salvador De ali (pioneiro do marketing e detestado por seu mau caráter). J. Solana, J. Sorolla, M. Fortuny, Zuloaga, Miro, Picasso, Gaudi, etc.. Todavia o «'porte taurino» agride o meu Apreço Afetivo por os animais. Comparo, creio sem radicalismo a tourada com disputa mortífera entre os gladiadores e a corrida das bigas ou do holocausto no massacre de cristãos no Coliseu Romano. Correspondente ao extermínio dos judeus em Auchewitz e Treblinka. Tive oportunidade de percorrer, comovido, o campo de concentração de Auchewitz na Polônia. Atrocidade retomada no bombardeio experimental da bomba atômica em Hiroschima e Nagasaque exterminando população civil nipônica. A Guerra atual, gerando a represália do Terrorismo ..., agora tornando nulo o fator ideológico. Bem vinda aos fabricantes de armamentos, e acréscimo da conta bancária desses magnatas. Urubus revoando lucrativos conflitos e guerrilhas universais. Equivalente à «guerra ecológica», em constante destruição da natureza. O progresso cientifico, a máquina, etc., possibilitou considerável vantagem social, porém acompanhada também por nefastas conseqüências. Uma árvore de 200 anos é abatida com moto-serra em dois minutos! ... O conturbado terceiro milênio, torna incontestável sua culpa rendável por a agressão à natureza, não atingindo apenas aos desamparados monetáriamente. A poluição industrial, insaciável \», associa-se a 'te desvario inescrupuloso \». Atingindo, sem exceção, a todos, independente de status ... Nos fazendo não duvidar de um possível futuro apocalíptico. Crise amparada por a impunidade de uma democracia hipócrita e manipulada por a mentirosa mídia de aluguel. Instituída oligarquia do Poder, reminiscente histórico perpétuo. Gerando outros rendáveis fatores alarmantes. Em destaque para noticiários sensacionalistas nos meios de comunicação. Reinando a conseqüência epidêmica da droga com seus traficantes \», alastrada por a metrópole ou também por as cidades provincianas. Repito, repito, insistentemente, repito: detesto o pessimismo e afasto-me sempre dos pessimistas! Mas, não por isso, comporto-me como um alienado acomodado, dos que mesmo contrários a 'sa situação global, permanecem calados diante do comando patronal para garantir a seu mísero salário ... Reforço tal posicionamento com a corajosa acusação ideológica de " Albert Einstein: «A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir prazer em desfilar aos sons da música, eu desprezo 'te homem ... Não merece um cérebro humano, já que a medula 'pinhal se satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível 'te câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório a violência gratuita e a nacionalismo débil. A Guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar de 'ta ignomínia». * * * * * Para os que não sabem e chegaram até aqui, recordo que também tenho uma coluna no Fala Brasil, embora em ela pouco de opinião eu dê, ficando mais no papel de divulgador de algumas publicações literárias que não encontram aquele 'paço de que falamos na abertura de 'sa já um tanto longa charla. Ninguém é obrigado a ler, mas quem quiser, há algumas indicações de leitura do que vamos 'crevendo. * * * * * * Retorno Imperfeito Adroaldo Bauer Desencantado carrossel -- Diego Grando, Não Editora. R$ 19,00. Poesia, infância e o ser-'tar no mundo, nos diz a apresentação da obra, lançada em julho, como o primeiro título de poesia que a editora publica. Charles Kiefer apresenta o poeta ao mundo:» ... Diego sempre soube que só será grande poeta aquele que for capaz de canibalizar seus poetas fortes, como ensinou Harold Bloom." Temas aparecem e reaparecem como no brinquedo da infância. O centro busca a identidade. Eu versus mundo ... quando arrisco palavra / ou uma (me) 'capa / 'pero-a dar voltas para a cima e pra baixo / na garupa de um cavalinho / cor de rosas desbotadas / até que ache (perca) os sentidos e / assim desorientada / explique-se a que veio Diego se expõe em 41 poemas e nos dá» ... melodias variadas, ora como uma caixinha de música, ora como uma canção de protesto, ora como o lamento silencioso dos ponteiros do relógio, surpreendendo os problemas e as incoerências do seu tempo com uma visão de mundo aguda, crítica, auto-irônica e particular», nos diz a Não Editora -- www.naoeditora.com.br -- sobre seu primeiro poeta, um porto-alegrense nascido em 1981. Desencantado carrossel é também o livro de 'tréia de Diego Grando. Em o Verde dos Teus Olhos -- Márcia Sanchez Luz, Editora Protexto. Coleção Poesias, 144 páginas, R$ 31,00. Márcia provoca a pessoa que lê à reflexão e à crítica. A fina técnica rompe os cotidianos crus. A alma elevada e enlevada nos mostra o que mundo não produz ordinariamente. Márcia nos permite a vida na berlinda. Máscara Sei que 'peras / Que o melhor ocorra / Que o mais puro olhar / Contagie nossas almas. Sei também / Que teu lado mais doce / Não é o que me mostras / Pois que a ele dás as costas Sei que talvez / Te mascares para a vida / Me mostres teu amargo / Pra te proteger Mas sei que adiante / Não vais mais poder / Esconder-te de mim / Nem fugir de ti Venda por a Internet no endereço http://www.protexto.com.br/livro.php? livro = 145 Porto Poesia -- Festival de Poesia de Porto Alegre -- formalizou em julho parceria com Shopping Total, que destinará 'paços e proverá 'trutura na área do Centro Cultural Total. O evento, em segunda edição, realizará-se-de 6 a 12 de outubro de 2008. O poeta Marco Celso Viola comemora o acordo que «dessacraliza a poesia, tirando-a das livrarias e colocando-a num dos 'paços mais tradicionais e belos da cidade, ao alcance de todos os públicos». Sílvia Rachewsky Lemos, representando o Shopping Total, avaliou que a comunidade ganha com a iniciativa. Em a ocasião, também foi lançada a primeira edição do Porto Poesia Literatura & Arte, publicação jornalística que pretende ampliar o 'paço da divulgação da produção literária local. Tablóide com 12 páginas, tem distribuição gratuita. http://marcocelsoviola.blogspot.com/ Palavra -- alegria da influência 'tréia dia 2 de agosto, às 18h30 min.. É promoção da Palavraria -- Livraria-Café & Jornal Vaia. Fabrício Carpinejar e Everton Behenck inauguram o novo evento literário da cidade. O programa acontecerá no primeiro sábado de cada mês. Reúne um 'critor anfitrião e outro da predileção daquele para conversa, leitura de textos e debate de idéias. Em 6 de setembro, Palavra -- alegria da influência é com Sidnei Schneider e Jorge Rein. Monique Revillion e Charles Kiefer encontrarão-se-em 4 de outubro. A Palavraria fica na Rua Vasco da Gama, 165 (telefone: 3268-4260 palavraria@palavraria.com.br). Parabéns a você -- Um ensaio sobre ética e felicidade. 112 páginas, R$ 27. Ildo Meyer. Desonestidade, má-fé e falta de caráter opõem-se na obra a bem-estar físico, mental e emocional. Meyer passeia por o tema sempre atual e convida o leitor a prestar atenção na letra da tradicional música Parabéns a Você. «Para o autor, as felicidades serão apenas conseqüências ... recompensa, como propunha Saint-Exupéry, e não como um fim», diz o autor. Porto-alegrense, Meyer, publicou em 2005, em co-autoria com outros três colegas, o livro Marketing para Médicos -- Um caminho ético. Ricardo Guilherme Dicke faleceu aos 70 anos no dia 9 de julho último. Para os apreciadores, a literatura do brasileiro do Mato Grosso é do tamanho da de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Hilda Hilst. Glauber Rocha bradou nos anos 1980 a propósito do romance Caieira: -- Ricardo Guilherme Dicke é o maior 'critor brasileiro vivo e quase ninguém no Brasil conhece sua literatura, é um absurdo! Em o Google, retornam 78.300 citações ao nome do 'critor nascido em 1936, na Chapada dos Guimarães. Dicke tinha plena consciência de sua grandeza, e das limitações de um mercado que privilegia medíocres, letras fast-food para facilitar a digestão. A falta de uma política editorial e de incentivo à leitura no Brasil reserva um papel ingrato para os 'critores, denunciava o 'critor mais premiado de Mato Grosso. Dicke foi um dos premiados por o concurso literário Walmap, que tinha como julgadores Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto. O Salário dos Poetas, obra de Dicke, foi adaptada e encenada em Portugal, por o grupo de teatro O Bando, de resistência cultural e linguagem experimental dirigido por João Brites. Madona dos Páramos, Deus de Caim, Caieira, O Último Horizonte, O Salário dos Poetas, Rio abaixo dos Vaqueiros, Cerimônias do Esquecimento são algumas das principais obras de Ricardo Guilherme Dicke. Por a Internet, leia mais sobre Dicke http://www.overmundo.com.br/overblog/mato grosso em terras lusitanas " Número de frases: 211 target = «blank» \> http://www.overmundo.com.br/blogs/ricardo-guilherme dicke-partiu O poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) Celso Borges passou apressadamente por sua terra natal para lançar «Música». Com o corre-corre das noites de autógrafo, conversou com nós posteriormente, por e-mail. O imponente casarão onde nasceu «Celso Borges -- Rua da Paz, 350, Centro de São Luís do Maranhão», como ele mesmo anuncia / declama em» Celebração», faixa que encerra seu novo livro-cd -- permanece imponente, na 'quina de Paz com Antonio Rayol, confluência da Igreja de São João e Faculdade de Farmácia. Hoje, uma clínica odontológica funciona no local. Celso Borges, poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) passou apressadamente por São Luís para lançar «Música» [Editora Medusa, R$ 30,00], seu mais recente trabalho. Duas movimentadas, corridas e concorridas noites de autógrafos [19/10 na Escola de Música Lilah Lisboa e 20/10 no " Novo Espaço Poeme-se]. «Não sei como o Mick Jagger agüenta vinte shows por mês», alega cansaço ao citar o stone. E Celso ainda arranjou tempo para um recital informal no Chico Discos (Fonte do Ribeirão) [21/10], com nomes como Hamilton Faria (SP) -- de quem descobriu ser quase vizinho em Sampa --, Joãozinho Ribeiro, Moisés Nobre, Eduardo Júlio, Gildomar Marinho e Imira Brito, entre outros. Os compromissos da agenda de Celso eram os mais diversos: há dezessete anos na capital paulista, é sempre concorrido por familiares, amigos, vento e claridade ludovicenses. Desta vez ele trazia «Música» na bagagem. Bonito livro-disco que com poemas, músicas, um belíssimo projeto gráfico e diversos amigos reunidos, imita um disco compacto de vinil, inclusive furado ao meio. Vinte e cinco faixas e mais de cinqüenta poetas / músicos /artistas/amigos. Pessoas de várias partes do Brasil, na maioria concentradas em São Paulo, mas com participações também de diversos nascidos / residentes no Maranhão. O disco é, aliás, impregnado de São Luís, cidade que Celso ama / odeia, numa relação nada fácil. Correndo, o poeta não encontrou tempo de conversar com nós e concedeu a entrevista abaixo por e-mail. Entrevista: Celso Borges Zema Ribeiro -- De «XXI» [2000] pra cá, teus trabalhos têm mostrado um casamento, sem brigas, de música e poesia. Para além das discussões sobre «letra de música ser ou não poesia» e vice-versa, tu acreditas que poemas declamados e / ou musicados, em discos (e / ou outros suportes), podem aumentar o interesse da população por poesia, que como sabemos é prima paupérrima da prosa, como nos mostra a história desde sempre? Celso Borges -- A música aproxima, sem dúvida alguma, as pessoas da poesia. Falo por mim. O interesse por o meu trabalho aumentou muito depois que assumi nos dois últimos projetos 'se formato de livro-cd. Muita gente que não gosta de poesia se sente atraída por um trabalho que tem poesia e música juntas. A presença de um cd, o trabalho gráfico bonito, o objeto arte, tudo ajuda. Mas não gosto do termo «facilitação». Soa como uma 'tratégia montada para aumentar o público. Meu trabalho tem inquietações sonoras e poéticas que não admitem isso. Não «diminuo» o meu texto para ser mais entendido. Prefiro, por exemplo, ter um público x, que dialoga com minha poesia, do que ter x + 100, sem diálogo algum com o que 'crevo. Outra coisa: sempre privilegio o livro. O cd é um encarte. Sou 'critor, poeta, antes de qualquer coisa. O livro é meu 'tandarte. E mais: o som, a interferência sonora, a música, tudo isso é para fortalecer o discurso. -- Há, em «Música», uma gama grandessíssima de informações e influências. Alguém que fizesse mau uso disso poderia fazer uma colagem vazia, o que não acontece com ti: cada poeta, músico e / ou outra citação / referência, tem ali o seu lugar, não transformando tua obra numa babel de sons e letras, e não transformando-a (tua obra) em algo não-original, muito ao contrário. Como foi o processo de concepção de «Música»? E como foi reunir 'tes mais de cinqüenta nomes em 'te «compacto» não tão simples assim? -- Eu reuni os artistas que de alguma forma têm alguma afinidade com mim, que vêem e sentem o mundo de um jeito parecido com o meu. Sabem que ele é complexo e fascinante. Não 'tão ali por oportunismo, mas porque dialogam com mim, dividem afeto e poesia. É certo que teve gente, também importante, que não 'tá no «Música». Mas enfim, foi impossível reunir todos. São somente 25 faixas. De a idéia inicial até a impressão foram mais de quatro anos, muita ansiedade gasta. Mas a demora serviu para amadurecer o conceito, tirar dúvidas, dar alguma homogeneidade dentro de tanta diversidade de artistas. Acho que consegui. O prazer de fazê-lo foi grande. -- Teu trabalho é impregnado de São Luís, numa relação nada fácil, um misto de amor e ódio nutrido de tua parte. Como é ficar «emaranha (n) do em Sampa»? Há possibilidades de Celso Borges voltar à Ilha que o pariu, tendo em vista que 'sa Ilha não valoriza o trabalho de seus filhos (ao menos enquanto 'tes a pisam) e a cena jornalística é sofrível, já que tu és poeta (artista, portanto) e jornalista? -- Brincando com Chico [Buarque] e [Tom] Jobim, eu diria cantando: «vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar». É certo que voltarei. Mas tenho dúvidas, medos. Talvez não quisesse, mas a briga por a sobrevivência aqui em Sampa é muito grande, difícil. Os próximos 12 meses serão definitivos. Vamos deixar a água rolar um pouco mais por debaixo da ponte. A São Luís que eu deixei, em 1989, não existe mais. Eu pude inventar outra cidade, vivê-la de outra forma, de longe. Redescobri muita coisa, nova poeticamente, da cidade em 'ses anos. Sua geografia, a percepção da claridade, a beleza física, o vento, a chuva. Isso tem muita importância pra mim. Mas ao mesmo tempo em que captei 'sas coisas todas, percebi que a 'trutura provinciana da cidade permaneceu a mesma. O poder público 'craviza as pessoas. Quase sempre se vive à mercê desse poder, que parece imobilizar a todos. Isso é de uma crueldade absurda, o que mais me dói. E a maioria das pessoas, algumas inteligentes e sensíveis, aceita isso, ou se prostituem, ou tornam-se reclusas, ou enlouquecem. -- Ou seja, São Paulo é um problema por ser «inumana» demais, digamos assim, vertical demais. São Luís é um problema por ser humana demais, provinciana demais, todo mundo se conhece etc.. Mas ambas foram importantes na tua formação e na consolidação de tua obra. Como foi decidir, em 1989, deixar São Luís? Terá sido tão, mais ou menos difícil que decidir voltar à Ilha? -- Não gosto desse conceito de que São Paulo é inumana. É uma cidade que lida de forma contraditória com quem mora em ela. Agora, claro, existe um anonimato que é muito fascinante, que só uma cidade grande pode dar. São Luís é outra viagem, outro carinho, outra tudo, com seus afetos extremos e sua inveja de repartições e botecos. Sair de São Luís não foi nada fácil. Tinha tudo ali, menos a paixão que me levou de ali. O tempo é outro, a dificuldade também. Não dá pra comparar. Costumo dizer brincando que São Luís e São Paulo são os dois santos da minha vida, um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes. -- É possível eleger os dois pilares básicos para o início de tua relação com poesia e música, no sentido de apontar o poeta e o músico que fizeram você pensar «é isso que eu quero fazer», assim como o foi, por exemplo, João Gilberto para Caetano Veloso e outros? -- Comecei a 'crever por causa da mulher. Isso aos 16, 17 anos, quando me apaixonei violentamente por uma menina chamada Débora. Escrevia compulsivamente, queria entender e traduzir o que tava acontecendo com mim. Agora, a partir do meu interesse por a poesia, dois poetas foram fundamentais: [ Ferreira] Gullar e " Pablo Neruda. Poema Sujo», do maranhense, e «Vinte poemas de amor», do chileno, eram duas bíblias pra mim. Em a música é difícil eleger alguém 'pecificamente. Escutava muita coisa: de Beethoven a Beatles, de Chopin a Chico Maranhão. Muito rock também. -- Sérgio Natureza é um importantíssimo compositor brasileiro, já gravado por diversos nomes também muito importantes. Kléber Albuquerque, além de ótimo compositor, é cantor contemporâneo de notável talento. A homenagem que eles te fazem [o fado «Devoluto» tem letra do primeiro e música do segundo], cantada por o segundo, é, sem desmerecimento à tua obra, um dos mais belos momentos do livro-disco. Foi uma surpresa de eles para você? Como é que foi receber 'sa homenagem? E eles tinham a informação de tua descendência portuguesa, ao 'colher o fado? -- Conheci o Sérgio por meio de Zeca Baleiro. Mandei pra ele meu livro, «NRA», em 1997, 98, e ele me ligou elogiando. Dois anos depois, foi ao lançamento do «XXI», no Rio. Aí, em 2001, me mandou de presente por Zeca a letra de «Devoluto», toda 'crita a mão, com uma caligrafia linda. Fiquei muito emocionado. Porra, parecia que eu 'tava dizendo aquilo. Quando pensei no projeto de «Música», resolvi promover 'sa parceria diferente e chamei Kléber Albuquerque, que já conhecia bastante de discos, encontros e shows. Sugeri a ele que fizesse uma valsa ou um fado e deu no que deu, uma das faixas mais belas do livro-cd. Josias Sobrinho cantando no final é a ligação definitiva com o final do texto, quando Natureza diz: «eu sou um mar voltando para as nascentes do rio». Isso me levou até às águas do Itaqui e à toada que Josias costumava cantar já no final dos anos 70 com o grupo Rabo de Vaca. -- Celso, «XXI» era mais maranhense e menos musical, digamos assim. «Música» abre o leque e traz artistas que, mesmo concentrados em São Paulo, nasceram em diversas partes do país e é um disco com participação maior de músicos, não em detrimento à participação de poetas, que é como tu te assumes. A pergunta -- chata -- é: depois de 'sa «evolução», o que é que vem por aí? -- Estou com dois novos projetos: o «Poesia Dub», que desenvolvo há cerca de três anos com o DJ e jornalista Otávio Rodrigues e o baixista Gerson da Conceição. Trata-se de um show de poesia e música que a gente tem apresentado em alguns festivais e projetos 'peciais, como o Tim Festival, o Baile do Baleiro, Outros Bárbaros [Itaú Cultural] e no Festival Londrix de Poesia, em Londrina. A maioria das trilhas é de Otávio, algumas de Gerson. É uma 'pécie de «declamação musical», que se atrita com o jeito de falar poesia de artistas como o jamaicano Linton Kwesi Johnson e o norte-americano William Burroughs. Eu não sou muito bom de palco, tenho lá minhas dificuldades, mas venho vencendo aos poucos meus limites. Existe a idéia de gravar um disco a partir do que a gente vem fazendo no palco. Aliás, já gravamos 10 faixas, que ainda não foram mixadas por o Otávio, que faz tudo no computador. O outro caminho é a minha volta ao livro sem cd algum. Já tenho cerca de 60 a 70 poemas prontos, a maioria inédita. Quero lançá-lo daqui a dois anos. Número de frases: 130 Vou fechar em 50 poemas, ruminá-los bastante e até lá ter a certeza do resultado final. ( 'te texto foi publicado no dia 25 de maio no blog matéria. aproveito o ensaio de ana paula para a playboy, para publicá-lo aqui no overmundo ...) na verdade, o título deste post pode despistar o leitor. trata-se de um post sobre «a mulher». embora eu reconheça que falar sobre gênero de forma tão categórica possa nos conduzir rapidamente ao equívoco, convoco o leitor (a) a uma reflexão: afora as óbvias diferenças anatômicas, homens e mulheres possuem certos traços contínuos em seu comportamento. se 'tes traços são produtos da cultura ou da genética, não sei ... mas que existem comportamentos «gerais» e correntes que delimitam inclusive a famigerada «condição da mulher», na minha opinião isso é patente. objetarão-me-que isso não ocorre mais, que 'sa visão é coisa do passado, e que a mulher hoje não se comporta mais como uma submissa. mas isso não é verdade, pois o que se vê é a evolução do comportamento feminino numa 'cala muito pequena, 'sencialmente urbana e desenvolvida. nas áreas rurais, nos países mais religiosos, a mulher continua sendo «the nigger of the world», como diria john lennon. na sua 'magadora maioria as mulheres que habitam o mundo hoje são reprimidas num nível muito 'pecífico e cruel. ao dizer que as coisas não são mais assim, e que 'sa opinião é retrógrada, o (a) ativista de plantão se 'quece que sua condição não delimita a condição do outro. 'quece também que tão prejudicial quanto o machismo e a homofobia, é a crença gratuita na supressão dos conflitos por obra de uma «evolução» que não ocorreu ... o falseamento da realidade é o elemento mais eficaz na manutenção dos preconceitos, pois suprime o problema somente através de idéias, e não de práticas ... vamos ao caso e à pessoa: a bandeirinha ana paula oliveira, suspensa por três rodadas do campeonato brasileiro após errar bisonhamente na semifinal da copa do brasil. ana paula já havia sido perseguida por equívocos semelhantes em outros jogos. eu observo, de saída que, diante dos erros 'candalosos de ana paula, 'tranho mais o padrão das reações. vejamos o que disse o presidente (sorry, vice ...) do botafogo, carlos augusto montenegro, após os erros da bandeirinha: «a ana paula oliveira é totalmente despreparada. foram dois erros seguidos. não existe mulher em copa do mundo, muito menos trabalhando em final de liga dos campeões da europa. mas colocaram nossa partida. ela nos roubou em dois milhões e meio de reais ( ...) o correto seria tirá-la do futebol. mas isso não vai acontecer. agora, a ana paula oliveira vai para casa dormir tranqüilamente. ela não atua mais em jogos do botafogo." já em relação à final do campeonato 'tadual, em que o mesmo botafogo teria sofrido com mais um equívoco do árbitro djalma beltrami, montenegro foi mais suave: «as pessoas 'tão aí para acertar e errar. mas o que não pode é o beltrami e o moutinho terminarem todos os jogos do botafogo em que trabalham chateados porque sempre prejudicam o botafogo." observa-se uma discrepância da reação de montenegro, do técnico cuca e mesmo da torcida em relação aos dois episódios. mas, pior que 'sa diferença, obviamente 'timulada por o fato da bandeirinha ser mulher, é a própria resignação com que ana paula tem lidado com o episódio. ora, erro de arbitragem no brasil é tão folclórico, que muitos boleiros e futebolistas por aí insistem em afirmar que «faz parte do 'petáculo», criticando inclusive a utilização da tecnologia para reduzir, ou até mesmo eliminar os equívocos. mas, quando ana paula erra -- e ela erra bastante!-- é como se não tivesse autorização para errar, é como se ela precisasse o tempo inteiro justificar a 'colha de sua profissão. ora, até mesmo o árbitro aposentado e atual comentarista josé roberto wright, já «errou» feio, e na transmissão do jogo flamengo e defensor, afirmou, com a maior cara de pau que já vi na vida, que «nunca interferiu no resultado de um jogo». ora, faça-me rir. porque cargas d' água ana paula não poderia errar também, senão por obra de um preconceito descarado, que exige de ela que faça muito mais, simplesmente por ser mulher! até mesmo a imprensa, paladino da opinião pública, já trata o caso de forma diferenciada: a pergunta «copa da áfrica do sul ou jaboticabal?», 'tampada no globo online de ontem, se refere, debochada e maldosamente, às aspirações da bandeirinha em participar da copa do mundo de 2010. sem contar os jornaletes que já divulgam o absurdo comentário do mesmo montenegro, sugerindo que a bandeirinha 'tivesse «naqueles dias» ... e também os gritos de «piranha», no maracanã, possivelmente entoados também por outras mulheres ... o que se observa, entretanto, é que, não somente ana paula, como também muitas mulheres, resignam-se diante do preconceito decantado tanto por jogadores, técnicos e dirigentes, como também por maridos, namorados, patrões e homens de toda sorte ... aceitará ana paula, por simples amor à profissão, 'te cortejo de absurdos? 'colho o futebol como palco de 'sa questão por motivos óbvios: é um palco 'sencialmente masculino. mas extendo 'sa crítica -- uma crítica à resignação da mulher e à crença inócua no fim de 'sa resignação -- à mulher no cotidiano, no emprego, na educação e, sobretudo, nos relacionamentos. quem não reconhece o padrão de comportamento feminino nos relacionamentos? objetarão-me-que não existem regras, que as pessoas são diferentes, que nem sempre a mulher submete-se à relação, que certos homens também resignam-se diante de mulheres poderosas. concordo plenamente, mas acrescento que 'te exemplo é delimitado geográfica e socialmente. categoricamente e, portanto, numericamente, as mulheres são muito mais resignadas no relacionamento, no trabalho, etc, que os homens. para que 'te comentário não passe por simplório, preconceituoso, ou infundado, vamos aos desmentidos do cotidiano, aos comportamentos recorrentes, aos movimentos imprevistos do dia-a-dia ... comecemos na educação: desde cedo a mulher é acostumada a restrições de toda natureza: «não olha pra fulano!"; «não deixa pegar na mão!" e, 'pecialmente, 'te bordão tenebroso, que toda mulher que me 'tiver lendo em 'se momento se lembrará: «senta de perna fechada!" ora, depois de passar a infância toda sem poder abrir as pernas, deve ser complicado lidar com o próprio corpo. então, já na educação, pode-se perceber um padrão que mais 'timula o decréscimo da auto-'tima, do que a incentiva. e então, vem a questão do «relacionamento». pode-se perceber que o comportamento do homem é muito mais problemático para o relacionamento, pois ele, desde a mais tenra idade, foi encorajado a buscar a instabilidade da rua. a mulher, por sua vez, massacrada por os ditames do «bom comportamento», vive a eterna e paradoxal» insegurança segura " do lar. e a situação deve ser ainda pior para aquelas que, hoje, beirando os sessenta anos, vivem outro terrível paradoxo: a criação cristã (o amor romântico, o casamento, a procriação) convivendo, na mesma cabeça, com a «revolução sexual», que não ocorreu propriamente ... 'se tipo, urbano por definição, pode também ser encontrado por aí quase como uma regra encarnada ... 'ta insegurança, muitas vezes, produz um comportamento 'tratégico, nem sempre consciente, nem sempre objeto de auto-crítica. ora, quem não conhece 'se arquétipo, comprovado à larga, em que a mulher, incorporando hábitos e gostos do marido / namorado, por vezes incorporando até mesmo seu modo de falar e de andar, acaba por se tornar uma 'pécie de «sucursal» do companheiro? ou aquelas moças que odeiam quaisquer elementos que não façam parte do lar, como amigos beberrões, jogos de futebol, peladas de domingo, etc, e passam a agir como policiais da moral e dos bons costumes, sempre com uma «cara feia» 'tampada para quem quiser ver?! são casos que 'tão aí, embora eu reconheça que deva ser muito difícil assumir que eles ocorrem por conta de uma dependência cultivada desde cedo. o que lamento, sobretudo, é que 'ta situação seja tão difundida quanto obscura, pois não pega bem, em pleno século xxi, assumir que a situação global da mulher continua deplorável, e só mudou nos termos do mercado. ela agora, trabalha, e com o 'forço e as condições necessárias, suplanta o homem em aspectos como eficiência e criatividade. mas 'se comportamento é um produto localizado em nichos muito 'pecíficos, e que tem seu preço e procedência. e mesmo as beneficiárias deste processo, geralmente vinculadas ao mundo dos negócios e à academia, mantém um certo acriticismo diante de sua condição. é o que se percebe em programas de tevê como «saia justa», em que, muitas vezes, se observa uma» defesa da mulher», na intenção de relocar a posição romântica e conservadora, em detrimento da «nova situação» ... ora, não seria justamente em 'te tipo de programa que deveríamos encontrar uma posição nem conservadora, nem mercadológica, que apontasse outros paradigmas? ao contrário: é uma «filósofa» (ora, ora ...) que vive de vomitar jargões, como se eles, por si só, explicassem a realidade; é uma atriz-modelo (ou modelo-atriz) que adora emitir " opiniões pessoais "; e, no fim das contas, pasmem: é a jornalista quem conta alguma novidade ... seria cafajeste demais terminar 'se post com um comentário à la vinícius de moraes: eu adoro mulheres. devo dizer entretanto, que prefiro seu 'tilo doce à baixaria com que a imprensa vem tratando do «caso ana paula». entretanto, observo que, diante dos elogios de vinícius, as moças suspiravam porque, por mais que ele 'tivesse se referindo à mera utilização sexual da mulher, sua verve poética adicionava um certo floreio ao comentário, artifício ensinado a seu pupilo-maior, chico buarque (inclusive, o acriticismo que caracteriza a chicolatria, é cultivado notoriamente por mulheres ...). mas cabe perguntar se 'te gosto por o floreio -- que é um gosto por o fetiche -- não 'taria mais prejudicando que auxiliando a mulher. o fetiche, aquele elemento que traduz tanto o gosto por as compras, quanto o gosto por o inaudito e por o sinuoso, produz uma série de comportamentos previsíveis, que deveriam ser enfocados e problematizados por as próprias mulheres. ao invés disso, as feministas de plantão preferem culpar os homens, 'quecendo-se talvez do número de mulheres que apanham e 'condem seus algozes da polícia, «por amor» ... e é uma pena que eu, homem, tenha que colocar 'sa questão de modo talvez doloroso, mas certamente, honesto. ao contrário do silêncio oportunista, 'tratégico e, por que não?, Número de frases: 95 «masculinizado» de ana paula ... A II Mostra de Teatro da Amazônia Mato-grossense foi marcada mais uma vez por o sucesso de público e participação dos grupos de teatro da região norte do 'tado de Mato Grosso. Ao todo, mais de 1000 pessoas acompanharam a programação do evento, que terminou no domingo, 18, e contou com seis 'petáculos teatrais na sua programação, de entre eles, os grupos de Peixoto de Azevedo, Lucas do Rio Verde, Cuiabá e Alta Floresta, além de cidades que 'tiveram com representantes como Nova Bandeirantes, Nova Canaã do Norte, Novo Mundo, Nova Santa Helena, Terra Nova do Norte e Guarantã do Norte. Aconteceram ainda três oficinas -- Direção com Juliana Capilé, Clown com Tatiana Horevitch e Pensamento e Arte com Hélvio Tamoio -- diretor de Programas Integrados da Funarte. Os três participaram também de uma mesa-redonda, juntamente com Agostinho Bizinoto e Ronaldo Adriano com a temática «Teatro, Experiências e Arte». «Trocamos informações técnicas e a idéia de haver um intercâmbio cultural entre os municípios foi fortalecida, e a chance dos projetos acontecerem de verdade é muito grande», diz» Hélvio Tamoio. «A presença de Hélvio na mostra e seu trabalho na oficina foi de grande importância para o movimento teatral da região, uma vez que houve um engajamento no processo de articulação entre os grupos dos municípios participantes, tendo sido discutido temas relevantes para o processo de construção e aperfeiçoamento dos trabalhos já produzidos e produções futuras, tendo como matéria-prima a diversidade cultural e o papel do Teatro na construção da identidade cultural da região norte de Mato Grosso, primando por a formação, através do pensamento regional, tanto dos artistas / produtores como de público», relata Elenor Cecon Júnior, presidente do Teatro Experimental de Alta Floresta e um dos articulares para a vinda do representante da Funarte. Já para Agostinho Bizinoto, presidente do Conselho Municipal de Cultura, a vinda do representante da Funarte, possibilitará um avanço significativo e relevantes em ações culturais no município e região. «Ele fez uma avaliação muito boa do que a gente já vem realizando aqui, e isso nos anima muito», finaliza Bizinoto. A mostra faz parte do projeto XIV Mostra Regional de Teatro do Norte MT e teve como patrocínio o Governo do Estado de Mato Grosso, através da Secretaria de Estado de Cultura e do Conselho Estadual de Cultura, a ainda apoio da Prefeitura Municipal de Alta Floresta, Funarte e empresariado local. Número de frases: 10 Um assobio me comunica: tenho mensagem na caixa de email. Uma encomenda: averiguar até que ponto arte e tecnologia se contaminam. Para encontrar as devidas referências, contrato Keidique, o avatar-que-anda, como meu assistente e exu caveira digital. Keidique tem a seguinte configuração: assumir a personalidade de qualquer pensador que lide com as novas tecnologias de informação e comunicação. Seu primeiro movimento é incorporar Lev Manovich. Dá-se o enunciado: «com bancos de dados, 'paços navegáveis, simulação e interatividade, novas formas culturais possibilitadas por a mídia também incluem novos padrões de comunicação social». Recombinação me parece a palavra-chave mais adequada para 'te momento. Keidique gesticula e aparece em meu monitor o site da Ciclope, ateliê digital responsável por o Sítio da Imaginação, entre tantos outros projetos que buscam uma linguagem 'tética e comunicacional para o meio digital. Keidique emula telepatia de Aquaman e entra em contato com Álvaro Andrade Garcia, diretor de produções audiovisuais e multimídia da Ciclope. Em a transmissão de pensamento uma só pergunta: em que momento e sentido a tecnologia digital 'tabelece ou ajuda a desenvolver uma linguagem artística diferenciada do habitual? -- Eu tenho trabalhado e pesquisado muito a Imaginação Digital, que busca uma nova metáfora para a informação digital. A idéia é desenvolver uma linguagem a partir da metáfora da mente e 'truturá-la a partir da poiesis. Páginas web e consoles são substituídos nos meus trabalhos por imagens mixadas e sequenciadas, interativas, que se animam em fluxos interativos com o usuário e sujeitos à gestão computacional usando inteligência artificial e outros métodos -- videodromea Garcia. Enquanto eu rumino as últimas informações, Keidique, agora invocando Steven Johnson, 'cala minha 'tante e joga um livro na minha cabeça. Trata-se de Cultura da Interface, do próprio autor encarnado por Keidique. Terrível simetria, hein? O Grande Ensinamento Contido Em 'se Livro (GECNL para os iniciados) é absurdamente simples: com a tecnologia digital, nosso modo sensorial potencialmente avança em parâmetros difíceis de aferir com medidas próprias para os meios de comunicação de massa. Levanto a sombrancelha 'querda, pensando nas possibilidades cognitivas de 'ta mudança em relação a quem produz e -- valha o termo -- consome arte. Começo a entabular uma questão quando, do lado de fora de minha janela, num outdoor luminoso, surge o rosto do professor da PUC Minas, Carlos Henrique Falci, que pesquisa cibernarrativas e produções colaborativas. -- O que me parece mudar em termos de percepção é o desafio de consumir algo que eu mesmo posso produzir, em função de uma provocação qualquer feita por um meta-autor. Não é só o fato das obras serem processuais, é o fato de elas serem processos que devem ser, vá lá, iniciados por o receptor-participante, por o interagente, por aquele que irá experimentá-la -- vaticina Falci. Como a perceber um clima Blade Runner se fechando à minha volta. Pondero que a interconectividade é deus ex machina anunciando game over como novo mandamento para nossa percepção massiva. Meu celular bipa, atingido por um SMS do professor do Cefet-MG, Rogério Barbosa, que pesquisa poesia contemporânea brasileira e portuguesa, com 'pecial enfoque nas poéticas experimentais e digitais: -- Retomando Karl Marx, o poeta e antropólogo António Risério, em seu importante «Ensaio sobre o texto poético em contexto digital», coloca-nos a pergunta, feita por o pensador alemão: Aquiles seria possível na época da pólvora, da bala e das armas portáteis? E seria possível a Ilíada quando existem prensa tipográfica e impressora? Risério entende que a resposta é negativa, pois " as novas tecnologias alteram a 'trutura de nossos interesses: as coisas sobre as quais pensamos. Alteram o caráter dos nossos símbolos: as coisas com que pensamos." Paro a leitura e 'tranho. Keidique 'tá quieto demais. Deixo de lado. Volto a me concentrar na leitura da mensagem de Rogério Barbosa. -- Essa alteração perceptiva ou cognoscitiva de que falam Risério e Gisele Beiguelman só se apresenta para aqueles que tratam as novas mídias como um sistema a ser explorado, como uma linguagem a ser subtraída do utilitarismo ou da convenção que engessa. Coço o cavanhaque -- sinal de que 'tou metabolizando 'ta informação sobre arte e tecnologia. Nada a ver com performances. O outdoor volta a pipocar lá fora. «Não mesmo», reitera Falci. E prossegue: «afinal, performar algo é experimentar o processo de criar 'se algo, como penso. A questão é que hoje a tecnologia digital me parece suficientemente maleável para ser e parecer ao mesmo tempo objeto e processo». Ao mesmo tempo ob ... É justamente em 'te momento que me dou conta de que há cópias do avatar-que-anda correndo por a casa. Malditos memes! Sinto que meu trabalho por aqui ainda não terminou. Número de frases: 53 [publicado originalmente na edição de abril do jornal Letras do Café, da livraria belo-horizontino Café com Letras] Teatro do Sesc Santana (Paulo / SP) -- 05/09/2006 Assistir a um show do Tortoise é uma experiência, se não única, no mínimo impressionante. Em a gelada noite de terça-feira, cheguei ao local onde a banda faria a primeira das duas apresentações em solo paulistano. O teatro do Sesc Santana, com seus 349 lugares, tem uma disposição que coloca o público próximo do artista, o que faz com que o 'petáculo ganhe muito em intimidade. A primeira coisa que chama a atenção é a disposição dos instrumentos no palco: duas baterias à frente, no centro, ambas viradas para o meio do palco, uma de frente para a outra. Isso mesmo, de lado para o público! Em o canto direito um vibrafone e no 'querdo o que depois eu viria a saber ser uma «marimba eletrônica». Ao fundo os amplificadores posicionados para receberem as guitarras e baixos, e sintetizadores no centro. A banda entra no palco e, com um singelo «obrigado por terem vindo», começa a detonar seu instrumental vigoroso. A definição mais divulgada e aceita para o 'tilo vindo do palco é «post-rock», o que, trocando em miúdos, seria um rock alternativo progressivo, com elementos de jazz e eletrônica. É necessário dizer que nenhum dos cinco integrantes tem um instrumento definido. Durante a apresentação eles trocam de posto a toda hora. Doug McCombs e Jeff Parker se alternam entre os baixos e guitarras. John Herndon e John McEntire, os bateristas, digamos, mais freqüentes, também atacam em outros cantos do palco: o primeiro John é assíduo ao vibrafone, enquanto o outro, por diversas vezes, comanda os sintetizadores, além da marimba. Já Dan Bitney passeia por quase tudo que há no palco. Com praticamente nenhuma palavra, tanto nos intervalos como nas próprias músicas, todas instrumentais, a banda originária de Chicago passa seu recado através de seu som poderoso. Os temas são fortes e soam propositadamente despojados no palco. Não há uma preocupação excessiva com clareza ou definição sonora e a verve progressiva da banda tem o poder de hipnotizar os presentes, fazendo-os entrar na viagem que vem do palco. O que, por muitas vezes pode soar como improvisação aos desavisados, faz parte do roteiro. Claro que há 'paço para a 'pontaneidade dos músicos, mas o som da banda já tem, naturalmente, uma cara de improviso. Também chama a atenção a vigorosidade com que os bateristas, posicionados como band leaders, tocam seus instrumentos. Eles percutem os tambores e pratos de seus sets com uma energia contagiante, muitas vezes os dois ao mesmo tempo, numa desencontrada harmonia. Após o primeiro bis, e quando já não se 'perava, o público exigiu mais uma volta da banda, agora já com grande parte dos presentes tendo abandonado suas cadeiras e se posicionado colados ao palco, para o final com mais dois rápidos temas. Os rótulos existem para se ter uma idéia da direção de um trabalho, mas em muitos casos, como no do Tortoise, é preciso ver a coisa de perto. E foi isso que se pôde ver em 'sa noite no teatro do Sesc Santana: Número de frases: 27 Tortoise de bem perto! Por Alexandro Gurgel Em aqueles sertões, quem passa serelepe por a 'trada em direção à Serra do Lima percebe a brisa catingueira trazendo todos os aromas da terra dos índios janduís, da nação Tarairiú, extintos depois de vários combates em defesa do seu habitat. Situada na ribeira do Riacho dos Sacos, a cidade é encravada 'trategicamente no cruzamento de vários caminhos entre o sertão do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, sendo núcleo convergente entre várias fazendas e os grandes centros urbanos. É verdade que o município de Janduís não possui grandes monumentos ou lugares famosos para o turista visitar. Porém, o incentivo às manifestações culturais deu ao seu povo um talento inato para as artes, como se a identidade dos janduienses 'tivesse sempre ligada as suas tradições e seus costumes, sem intervenção externa. Um dos grandes alumbramentos culturais da cidade fica por conta da Companhia Cultural Ciranduís e seu teatro mágico por as ruas do município. Desde cedo, o pequeno jaduiense aprende que durante a colonização do sertão, existia na região uma confederação de tribos indígenas, hostis à Coroa portuguesa. Entre as nações indígenas, uma das mais destemidas era a dos Janduís, cuja denominação deriva do tupi «nhandu-í-a», uma corruptela para» a ema pequena». A ema seria o totem da tribo. Depois que os índios foram dizimados, surgiu o Sítio São Bento. Conforme o historiador Luiz da Câmara Cascudo, em seu livro Nomes da Terra (editora Sebo Vermelho, 2002. Natal RN), a localidade ficou por muito tempo conhecida como São Bento do Bofete. O nome do lugar deve-se ao fato de que, as feiras ali realizadas, sempre terminavam em tumultos, havendo uma farta distribuição de tabefes, pontapés e bofetões. A fundação da povoação é atribuída a Canuto Gurgel do Amaral, dono da maior parte das terras, que fez doação de um terreno foreiro para o padroeiro, tentando desenvolver a comunidade. Em 1938, a localidade passou a ser distrito de Caraúbas com o nome de Getúlio Vargas, mudando em 1943 para Janduís, em homenagem aos índios pioneiros da região. Em uma terra seca, castigada por longas 'tiagens, distante 286 km quilômetros de Natal, o município de Janduís 'tá situado na região do Médio-Oeste, sertão do Rio Grande do Norte, às margens do pequeno rio «Adquinhon» ou «Rio das Croas». O município sofre com o calor em 'ses tempos de verão por causa do terreno baixo, situado entre as partes altas do Planalto da Borborema e da Chapada do Apodi. Por que é necessário redescobrir a história que, recentemente, um grupo de 'tudantes encontrou inscrições rupestres na localidade conhecida como «Pedra da Biluqueza», um forte atrativo para a exploração de um turismo de conhecimento e ecológico. De o imaginário popular nascem as lendas da «Oiticica do Bode», no caminho da cacimba que abastecia a cidade; e do «Serrote da Negra», que conta a história de uma antiga 'crava que morava numa Casa de Pedras e se transformou em serpente. A noite em Janduís fica mais curta e mal-assombrado. As janelas e portas das casas mais humildes se fecham mais cedo para ouvir as histórias de Lázaro de Liuliu, um artista plástico dedicado a fervilhar a cultura janduiense n ' alma dos mais jovens, no recanto chamado «Canteiro das Artes», onde os pássaros e bichos da região são talhados em madeira e chegam para interromper a monotonia sertaneja, resgatando antigas brincadeiras de criança. Em outubro, Janduís se adorna para celebrar sua padroeira, Santa Terezinha, quando a solidão das ruas e o ermo dos becos são quebrados por as ladainhas dos devotos que acompanham o andor, arrastando a Santa até o altar. De a Casa Grande da Fazenda São Bento é possível ouvir o badalar do sino da matriz, avançando sobre os telhados da cidade e anunciando um sertão de lembranças. Número de frases: 25 Faz de conta que tem sol lá fora é um dos Quatro Textos para um Teatro Veloz que o ator, diretor, dramaturgo e compositor de boleros de secretária eletrônica Ivam Cabral publicou no ano passado. Uma história intimista, de um casal solitário que se encontra por acaso numa noite chuvosa de São Paulo, que nos faz pensar no quanto um 'petáculo não precisa de grandes altos e baixos: muitas vezes a simplicidade e um pouco de lirismo são mais que suficientes. Em cartaz no Espaço dos Satyros, a montagem dirigida por Aline Meyer tem no elenco Nilton Bicudo e Jerusa Franco, dois jovens atores com uma energia que transparece em seus olhares. Jerusa traz um sorriso melancólico do início ao fim do 'petáculo, com gestos afobados e desajeitados como os de uma adolescente. O figurino ajuda a ter 'ta percepção, mas o texto não a deixa nos enganar: sua personagem 'tá beirando os trinta. Já o personagem de Nilton demonstra mais o peso da solidão da forma como imaginamos: é mais quieto, não sabe o que dizer, não sabe o que fazer. Esta mesma energia que dá vida aos personagens também acaba tornando o 'petáculo literalmente veloz: senti falta de pausas, dos silêncios incômodos que o texto incita (ao menos a quem o lê), e sobretudo de vê-los aproveitando a oportunidade de saborear os momentos de quebra e os leves toques de humor, pequenas sutilezas que fazem diferença. A cenografia recria um pequeno apartamento com quatro cortinas transparentes que nos incitam a imaginar as paredes e janelas, e o mundo chuvoso e 'curo por trás de cada janela. E eu também teria preferido imaginar o fogo, a chaleira e o rádio que ali 'tavam, como uma continuação do exercício de fazer de conta que até mesmo o título incita. Teria combinado melhor com a idéia das cortinas do que por exemplo o fogo cenográfico utilizado, forçadamente falso. E mais uma vez fecho com um parágrafo dedicado à platéia. Em aquela sessão de sábado, logo na primeira cena, bastou Nilton pisar no apartamento de Jerusa para que meia dúzia de pessoas atrás de mim dispararem suas primeiras gargalhadas. Alguém se 'queceu de avisá-las de que a peça não era uma comédia, e pior: ao longo dos 50 minutos de encenação elas não se tocaram disso. Número de frases: 18 Ficaram a peça toda buscando no riso sua zona de conforto, num texto que o que definitivamente não existe é uma zona de conforto. ( ou como se fazer o que se gosta -- e viver disso?) O cinema nacional vive de leis de incentivo, 'sencialmente. Correto? Mais ou menos. O cinema nacional em 35mm, remunerado e com capital razoável para a produção, sobrevive, de fato, graças às leis de incentivo. Mas e o outro cinema? Este cinema que sobrevive não se sabe exatamente como, conta com uma crescente quantidade (e qualidade) de curta-metragens sendo produzidos por o Brasil. Os festivais -- cada vez mais numerosos -- funcionam como meio de 'coar e exibir toda 'sa produção. Ou ao menos é o meio mais (re) conhecido e difundido ... Tenho observado que há muita divulgação de curtas nacionais -- que ganham em número e em facilidade de produção -- por os meios onde ando; leia-se ambientes universitários, centros culturais, circuitos de festivais e a própria cidade do Rio de Janeiro. Já existem websites funcionando há algum tempo para a divulgação destes trabalhos, como o Porta Curtas, e alguns têm obtido reconhecimento fora do país, como o curta ' Um Ramo ', de Marco Dutra e Juliana Rojas, premiado recentemente na Semana da Crítica em Cannes. Ainda que algumas de 'tas produções tenham sido contempladas por editais da Petrobras ou do MinC, há um considerável número de filmes, em sua maioria curta-metragens, sendo produzidos de maneira independente. E às vezes ganhando festivais, ou destaque no YouTube, de fato o meio não importa muito. É sobre 'te cinema independente nacional contemporâneo, qualificado, multifacetado e cheio de «projetos suicidas» que eu 'tava pensando quando entrevistei o meu amigo e diretor Tiago Teixeira. Tiago é também designer, mas, uma vez tendo resolvido se aventurar por o cinema, chegou a ser vencedor da etapa regional do Festival do Minuto no Rio de Janeiro em 2006, como seu ' Mania de Perseguição por Boeing '. Ele é sócio da produtora mufumo junto com Ana Quitéria e Seblen Mantovani, que completam o time com Direção de Arte e Fotografia. Eis a entrevista: Quem é você e de onde você veio? Meu nome é Tiago Teixeira e eu vim da Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro. Como você chegou ao cinema? Outro dia percebi que sempre me interessei por formas narrativas visuais. É um pouco pedante dizer isso, mas não sei colocar de outra forma. Quando era pequeno queria desenhar histórias em quadrinhos, virei designer tentando aliar a vontade de trabalhar com imagens com a necessidade de pagar o aluguel. Quando saí da faculdade achei que podia usar o design para trabalhar com animação, mas depois descobri que a vontade era outra, o interesse por animação caiu vertiginosamente muito rápido. Acabei me formando em cinema por a Estácio para aprender como fazer na prática. Mesmo antes disso tudo eu já gostava bastante de cinema, sempre fui um dependente quase químico de filmes Noir e policiais em geral. Mas quando começou mesmo, o 'talo da vontade de fazer cinema, eu realmente não lembro. O que diria dos seus filmes até agora? Dirigi uns seis curtas eu acho, até agora, um co-dirigido com a Ana Quitéria, que é a diretora de arte do último projeto. Os primeiros são curtas de faculdade, alguns eu até tenho simpatia, mas outros eu preferia não lembrar. O'Ação / Reação ` e o'Mania de Perseguição por Boeing ' são os dois por os quais eu tenho mais carinho. Tem um outro que ainda não 'tá finalizado, mas que 'tou gostando, acho que o resultado vai ficar legal. Espero. Um outro é o Lição (de Dança)? Um outro é o Lição! E quais são seus próximos projetos? O proximo é o'Sobre os Mesmos Passos ', que vamos rodar em fim de junho, em Friburgo e em Cachoeiras de Macacu. Vai ser um curta de 15 (minutos), rodado em 16mm e finalizado em 35mm. A Yes Filmes 'tá co-produzindo e a ajuda de eles foi 'sencial para o projeto sair como 'távamos planejando. Como 'tá a pré-produ ção? Está chegando ao fim, por enquanto tudo correndo bem. Já fizemos alguns ensaios com os dois protagonistas, Thales Coutinho e Raquel Karro, da companhia Armazém de Teatro. Os ensaios 'tão contrubuindo muito para o filme, eu acho que é o primeiro lugar onde você começa a ver o que vai ser seu produto final. Além do apoio da Yes, quais 'tão sendo as 'tratégias para captação de recursos? Estamos buscando patrocinadores na cidade de Nova Friburgo e usando os truques do cinema de guerrilha brasileiro: rifas, uma festa, venda de camisetas ... Começamos o projeto com um pouco de pressa, não tivemos tempo para o inscrever em nenhuma lei de incentivo e decidimos correr atrás nós mesmos de formas alternativas de captar recursos. A internet 'tá sendo usada como forma de divulgação para o filme antes mesmo de ele existir. Isso me parece ser algo novo, como surgiu a idéia? Estamos usando a internet como meio de apresentar o filme para dois grupos distintos: o primeiro são os possíveis patrocinadores, que já têm uma idéia boa do projeto com facilidade. O segundo é composto de interessados em acompanhar o projeto de feitura do filme. Estamos mantendo um blog detalhando o processo de trabalho em algumas áreas e tentando deixar 'sa parte do trabalho transparente para os visitantes que acompanham o desenvolvimento, com os responsáveis por respectivas áreas da produção do filme (direção, arte, fotografia, som) falando sobre problemas e soluções encontradas. Você acha que a internet ou o vídeo digital ou alguma coisa pode ser a solução para o cinema brasileiro? Bom, o digital é com certeza um meio novo de produzir e distribuir filmes, e acho que já existem iniciativas de distruibuição via internet de curtas bastante interessantes no Brasil. Mas no geral acho que o digital ainda é usado de maneira um pouco tímida. Como é o cinema sem leis de incentivo? É um cinema onde se precisa de muito despreendimento, paciência e um pouco de masoquismo. Mas a gente se diverte! Cinema ou vídeo, faz diferença? Faz diferença em termos de custo de produção, principalmente. Mas no fim é uma narrativa visual, o filme é pensado da mesma maneira. Algumas pessoas são levadas por a facilidade do vídeo e acabam não planejando tão cuidadosamente o filme, já que no cinema os custos de negativo fazem com que cada segundo a ser filmado tenha que ser muito bem pensado ... O que você acha da produção recente nacional? Eu acho o que mais me empolga na safra atual do cinema brasileiro é a quantidade absurda de filmes produzidos, mesmo que com problemas sérios de distribuição. O que seria o caso de se pensar numa maneira nova de distribuir, usando os meios digitais, salas móveis de cinema, 'paços alternativos ... Por que fazer cinema? Por que não?: D Por que você faz cinema? Ainda 'tou tentando descobrir! Número de frases: 70 A Cidade de Nazaré, Recôncavo sul, do 'tado da Bahia, revíve os tempo, áureos da boa arte e trouxe para o público atraves da Secretaria de Cultura e Turismo, a exposição de arte Janete Lima, 'sa artista apresentou para a população e visitantes, trabalhos criativos de extremo bom gosto. Janete Lima é uma artista plástica baiana do Município de Pé de Serra, radicada na Ilha de Itaparica, descobriu o gosto por a arte ainda na infância, aos 14 anos já fazia pequenos trabalhos para amigos e colegas, aos 17 anos com o apoio das professoras, Rosa Virgínia, e Maria Quitéria, buscando inspiração em tudo que a natureza pode oferecer, despertou o gosto por a pintura em folhas, apliques, e confecções de paineis. Em 2004 começou se dedicar a telas em alto relevo, utilizando como matéria prima, madeira, pedras, búzios, areias, conchas, 'camas de peixes, e sementes. O 'cultor, Jair Dias Coelho, visitou a exposição de Lanete e disse: Janete tem uma facilidade de criar figuras de arte, utilizando elementos da natureza que identificam seus trabalhos. Seus trabalhos são conhecidos em varias partes do território nacional e em alguns países da Europa. Apesar de se sentir realizada com o que faz, Janete procura sempre aprimorar seus trabalhos, pois ela tem consciência que ainda é uma aprendiz. Com muita simpatia Janete agradece a todos por a atenção e elogios. Número de frases: 8 A história do intérprete Baldinir Bezerra é também um recorte da história dos movimentos sociais que aconteciam em Campo Grande no início dos anos 80. Em 1980, com o ingresso na universidade, entrou em contato com o movimento 'tudantil numa época em que o país passava por transformações significativas. Era o período da abertura política, da anistia e da campanha para as eleições diretas. Compositor das músicas Saudade da Paz, Samba de Gaveta e Dadivosa, Baldinir deixou, em 'sa entrevista exclusiva para nossa comunidade de overminas e overmanos, suas impressões de momentos significativos da história do Estado de Mato Grosso do Sul. Continuação da entrevista: Baldinir Bezerra: retrato tocante dos anos 80 I Conte um pouco sobre a Unidade Guaicurus e o que ela significou em todo 'te contexto. Baldinir Bezerra -- Não existiu nada mais impactante naquele período, culturalmente falando, do que a Unidade Guaicurus. Foi uma iniciativa do historiador e artista plástico Henrique Splenger, precocemente falecido infelizmente. Um grande amigo que deixou um legado importantíssimo para a população sul-mato-grossense. Em a época da divisão do Estado, foi ele quem surgiu com a proposta de adotar a civilização Guaicurus como referência de identidade cultural para o MS. Isto por tratar-se da referência mais antiga de ocupação humana na área que se tem conhecimento. O Henrique propunha que Mato Grosso do Sul adotasse a identidade Guaicurus. Tanto é que isso foi disseminado e hoje em dia, graças a ele, a iconografia Guaicurus 'tá 'palhada por aqui e muita gente a utiliza como referência para seus trabalhos. Mas a Unidade Guaicuru era bem mais do que isso. O Henrique montou uma sede num antigo casarão na Av.. Calógeras, que conseguiu aglutinar o que tinha de mais interessante naquele momento histórico do início dos anos 80 em Campo Grande. O que diz respeito a teatro, à música, a cineclube, às artes de um modo geral, encontrava lá um 'paço de discussão efervescente, gerador de muitas intervenções que definiram muito do que a gente tem hoje na história da cultura do Estado. Lá também foi sede do cineclube, ponto de encontro de artistas plásticos como o próprio Henrique, Adilson Schieffer, Cleir Junior, Dagô, Maria Helena Belalian, Beto Lima, entre outros. Foi 'paço de ensaio para vários grupos de teatro, como o IPURINÃ, formado por Jorge de Barros, Pedro Fenelon, Wilson Mota. Um grupo de música que se fez bastante presente em 'se período foi o PORANGUETÊ, formado por Lenilde Ramos, Pedro Ortale, Caio Ignácio, Celso Cordeiro e o Geraldão das Ervilhas. Eu tive o privilégio de vivenciar de perto tudo isso. Hoje em dia a gente se ressente um pouco, 'tá tudo muito morno. Mas houve um momento aqui em 'sa cidade que a galera «barbarizava». Como aconteceu o movimento para a criação do Centro Cultural? Baldinir Bezerra -- O Centro Cultural José Octávio Guizzo, da 26 de agosto, só existe por conta deste movimento feito por a Unidade Guaicuru. Houve uma pressão muito grande dos artistas locais, que faziam passeatas. Nós organizamos a passeata «Acorda Brasil», uma parada barulhenta que aconteceu de madrugada, nas ruas do centro da cidade clamando por a cultura, por a divisão do Estado, por as eleições diretas e por as diretas Já. Estas eram as falas que a gente ouvia e que a gente gritava. Houve tempo que o prédio do antigo fórum 'tava abandonado e a promessa de transformá-lo num aparelho da cultura não se tornava realidade nunca. A então primeira Dama do Estado, Dona Nely Martins, também chegada às artes plásticas e às coisas da cultura, sempre nos recebia cordialmente prometendo que a coisa ia andar. Chegou a sugerir que todos pegassem vassouras que ela iria junto tomar posse do prédio do fórum da 26 de agosto. Mas, após dormir com o Dr. Wilson, sempre acordava proferindo discursos menos bombásticos e mais conciliadores. Um dia organizamos uma grande passeata que percorreu as ruas do centro da cidade logo por a madrugada, indo parar na frente da Casa do Governador, Dr. Wilson Barbosa Martins. O fato é que nós acabamos conseguindo e o centro cultural passou a existir e 'tá aqui até hoje. Mas 'tá ainda distante de ser o que a comunidade artística sonhou. Uma coisa interessante é constatar que os prédios refugados por o poder judiciário, o que parece ter uma tradição aqui em nosso 'tado, costumam ser destinados à cultura. A exemplo do nosso atual Memorial da Cultura que também foi um fórum. Eu acho justo, ou não é? A paixão por a música começou em que momento? Baldinir Bezerra -- Eu nasci amante da música, sou filho de um pai que gostava de tocar cavaquinho. Minha mãe não tocava, nem cantava, mas gostava de ouvir música. Nelson Gonçalves, Maíza, Dilermando Reis, Silvio Caldas 'tavam sempre presentes. Então, eu ouvi muita música desde cedo. Música boa. Mas numa família de 7 irmãos, só eu que saí cantante. O canto é uma arma poderosa. Em 'se processo de construção de mim mesmo, acabei entendendo que eu sou o protagonista da história. Preciso de recursos para atingir minhas metas no que diz respeito às transformações coletivas que posso promover com minhas ações. A música é um grande recurso. Os Beatles transformaram o mundo com a música de eles. A música de Mozart ainda consegue modificar a vida de muita gente no mundo de hoje. Quando eu tinha 14 anos de idade, fazia o quarto ano do ginásio -- hoje seria a oitava série -- lá no colégio Arlindo de Andrade Gomes, na Av.. Júlio de Castilho, certo dia, a professora de inglês, Silvia Cesco, entrou na sala anunciando: -- Vai ter um festival de música lá na Universidade Federal e quem quiser pode participar! Quem quiser pode compor uma música e se inscrever. Quando acabou a aula, como que hipnotizado por a notícia, fui saindo da sala e ao invés de ir para o pátio do recreio, como de costume, me dirigi para a parte da frente da 'cola, me deitei no gramado, e aí a música fluiu inteirinha. Eu sei que quando ficou pronta, eu cantei para a professora que me disse para ir até a sua casa. Lá eu conheci o músico Antônio Mário, seu marido, a Lenilde Ramos e sua irmã, Lenilce. O Antônio Mario e a Lenilce formavam uma banda que fazia o maior sucesso nos bailes do Rádio Clube. Essa banda foi encarregada de acompanhar as músicas no Festival, e foi justamente o Antônio Mário quem defendeu a minha música intitulada «Como se fosse», classificada em quarto lugar no tal festival organizado por a professora Maria da Glória Sá Rosa. O primeiro lugar ficou com Lenilde Ramos, o segundo com o próprio Antônio Mario e em terceiro com o grupo Acaba, que defendeu a música «Pachico Homem». Depois desse episódio, andei me perdendo por outras veredas e minha reaproximação com a música ficou em stand-by por vários anos. Quando aconteceu seu retorno à música anos depois? Baldinir Bezerra -- Eu comecei a ter as minhas primeiras experiências cantando na noite. Época em que eu despertei para a boemia. A gente abria e fechava bares famosos que existiam em 'sa cidade. Bares que se caracterizavam por a diversidade, pois abrigavam todas as tribos. Tipo o antológico Nagibão, o Bar da Soraia, ou o Caras e Bocas que funcionava na 'quina da rua Rui Barbosa com a Quinze de Novembro, e que depois virou Rui Bar Bossa, que hoje abriga apenas uma obscura lojas de sapatos. Meu primeiro parceiro tocando na noite foi o meu amigo cantor e compositor Paulo Gê. Outro momento marcante para mim, no que diz respeito a música, aconteceu na época das diretas, quando teve um grande comício na rua 14 de Julho com a Av.. Afonso Pena. Segundo a polícia, mais de quarenta mil pessoas 'tavam lá. Eu 'tava começando a me entender como ser político, me deu vontade de cantar. Eu já 'tava me sentindo seguro com aquela história de cantar na noite. Era uma atitude cívica, como qualquer cidadão era capaz de ter. E me inscrevi lá. Tive obstáculos para conseguir me apresentar, mas sei que aquela apresentação foi o maior público da história da minha carreira. Cerca de quarenta mil pessoas cantaram com mim «O Bêbado e a Equilibrista», hino da anistia política. Em o palanque, uma série de defuntos ilustres: Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Miguel Arraes, Leonel Brizolla, e 'trelas como Regina Duarte, Cristiane Torloni e Fafá de Belém. Depois disso, nas minha idas e vindas da vida, mudei diversas vezes. Primeiro fui para Salvador e depois fui concluir meu curso de psicologia em Natal. Em Natal, a minha vida musical rolou intensamente já que eu era universitário e tinha que sobreviver trabalhando com música. Tive grande parceiros lá. O Ricardo Wanamarke, um irmão de verdade que eu encontrei em Natal, e Rômulo Tavares, outro irmão potiguar, filho de Clotilde Tavares, ela figura importantíssima do cenário cultural de Natal-RN. Rômulo era o líder da banda Alfândega e um roqueiro de primeira que topou durante algum tempo tocar MPB com mim. Espetáculo Tocante. Como foi produzi-lo? Baldinir Bezerra -- Através do Paulo Paes, eu conheci o Luís Poeta. Ele era um músico carioca que 'tava radicado aqui, um doido de pedra mas que tinha um talento impressionante. Ele compunha músicas maravilhosas, tinha um repertório bastante grande com um 'tilo todo pessoal. A gente acabou produzindo um show com ele, somente com suas músicas que acabou se tornando um grande momento da minha vida como cantor. Foi um dos grandes shows que Campo Grande já viu. Sem falsa modéstia. Isso eu ouço até hoje de pessoas que assistiram. Nós apresentamos o Tocante três noites seguidas, sendo que, na terceira noite de 'petáculo, tivemos até que fazer uma apresentação extra, já que tinha um bando de gente lá fora do teatro querendo ver o show. Vale ressaltar que a produção foi muito bem realizada e muito bem divulgada. Em a cabeça de 'sa produção 'tavam meus amigos Paulo Paes e a jornalista Márcia Meggiolaro. Foi um acontecimento que mexeu com a cidade inteira. Foram meses de trabalho para garantir um 'petáculo com cerca de dez músicos, duas bailarinas e dois atores no palco. Quem eram os integrantes deste show? Baldinir Bezerra -- O show chamava-se «Tocante: um show de música e poesia». A produção geral ficou por minha conta junto com o Paulo Paes. A direção musical ficou com o Luis Poeta. Os músicos eram o Pedro Ortale que também participou da direção musical e atuou como baixista, o Luis Poeta na base, meu falecido amigo Henrique Lobo no sax e na flauta, o Juarez Carl nos teclados, o Marquinho no violão solo, Clever de Sá e Orlando da Gaita na percussão, o Carlão na bateria, eu como vocalista e o Arapiraca no vocal e efeitos. Havia também as bailarinas Meije e Dina e os atores Lu Bigatão e Jorge de Barros que foram convidados para recitar as poesias. O cenário foi produzido por a Marilze Motta e a iluminação foi do Wilson Motta. Qual foi o repertório do Tocante? Baldinir Bezerra -- Todas as músicas foram de autoria de Luiz Poeta. Planeta música, Tateando o tatu, Uma chance à paz, Em o país das maravilhas, Startística, Altíssimo, Xaxinhos, Capitão leveza, Língua hippie, Semeio, Canto Ierê prá Iberê, Transação musical e Poetando. Em que local aconteceu o 'petáculo? Baldinir Bezerra -- O show aconteceu num 'paço de cultura que infelizmente Campo Grande, pelo menos por enquanto, perdeu. Era o teatro do Paço Municipal. Um 'paço que hoje em dia 'tá sendo usado como local de pagamento de IPTU. E isso desmerece profundamente a história daquele teatro. Apesar de ser um 'paço muito pequeno, muitos eventos importantes de cultura aconteceram no teatro do Paço Municipal. E além disso, sua localização é perfeita no centro da cidade. Eu não entendo é a cabeça de quem administra a coisa pública. Não levam em consideração a história nem os interesses da comunidade. Mas um dia a gente resgata isso aí. Espetáculo Adeus amigos. Fale sobre ele. Baldinir Bezerra -- Em uma das minhas mudanças para Natal, pensando que eu não voltaria mais para Campo Grande, eu produzi o show Adeus Amigos, parodiando um show que até hoje a Derci Gonçalves faz por aí. A gente montou uma grande banda, novamente com Pedro Ortale que fez o show de abertura instrumental, e eu o show principal. Esse show recebeu o troféu Jacaré de Prata da Prefeitura Municipal. E aquela história da banda de Axé Music? Baldinir Bezerra -- Em a copa de 94 eu já havia retornado para Campo Grande. Fui vocalista da Banda Mandala, formada juntamente com Jerry Espíndola, Pedro Ortale, Caio Ignácio, o Bola, e outros, para tocar num palco montado nos altos da Av.. Afonso Pena nos dias dos jogos do Brasil. Isto com o patrocínio do Bamerindus. Essa é uma passagem que mexe um pouco com os brios regionalistas da moçada, porque o repertório era somente Axé Music. De qualquer forma, tenho consciência de que a gente mandou bem. A cena mais engraçada de 'sa empreitada foi quando, no jogo da vitória, o Bola ficou tão emocionado que mandou as baquetas por os ares (risos) e elas nunca mais foram encontradas. Essa foi a última apresentação da banda que acabou tendo uma vida bem curtinha. Mas a gente se divertiu um bocado. Em que momento você voltou a fazer composições? Baldinir Bezerra -- Em 1997 eu decidi levantar vôo e viver no Rio de Janeiro. Lá eu 'tive bastante distante da música. Desde 1974 eu não me arriscava a criar versos, melodias como naquela ocasião dos festivais. Mas é a coisa, quando não sai por um lugar, sai por o outro. Em o Rio me deu vontade de voltar a criar canções. Um dia eu 'tava 'perando por um encontro e 'tava me sentindo «meio por baixo». Era um daqueles momentos que a gente entra numa de fazer revisão de vida, aquelas coisas. Comecei a 'crever em forma de poema. Aí, eu comecei a cantarolar 'se poema, que virou o samba Saudade da Paz. Em a mesma semana eu mostrei 'sa música para uma amiga. Imediatamente, ela disse que também já havia feito um samba. E contou a historinha do samba de ela. Ela tinha brigado com o pai, queria falar umas coisas para ele e não conseguia, e então 'creveu o samba, que ficou perdido no meio das coisa de ela. Então eu disse que 'creveria um samba para ela. E daí nasceu o Samba de Gaveta. Tem sido assim com as músicas que venho compondo atualmente. Dadivosa, por exemplo, um samba que eu ainda não consegui gravar, mas no qual eu aposto muito, é a história da minha amiga Lúcia Baptista, do Rio de Janeiro. Ela me contou que o irmão de ela tinha uma mania muito chata de desqualificá-la diante dos namorados e dos amigos, chamando-a de «muito dada». Hoje, já com seus cinqüenta e tantos anos, ela ainda se sentia magoada com aquilo. De 'ta história saiu o samba, onde eu tento evidenciar um monte de qualidades que ela tinha e que não 'tava valorizando, mas faziam de ela uma pessoa absolutamente rara. Em o fundo, acho que eu sou um grande contador de histórias, com um ouvido afinado. Então o samba é o 'tilo que você mais gosta de cantar e de compor? Baldinir Bezerra -- Eu acho que a influência do samba na minha vida é muito marcante. O primeiro disco que eu comprei com meu dinheiro foi «Meus Caros Amigos», do Chico Buarque. Lógico que ele é um dos meus poucos ídolos de verdade, me influenciou muito. Mas isso não quer dizer que não gosto da música de Mato Grosso do Sul. É a música que eu cresci ouvindo. Se bem que, de vinte anos pra cá, a partir do volume crescente de imigração gaúcha, a região sofreu uma influência impregnante de eles. Não que eu não goste. Mas a gente 'tá deixando de ouvir a música que tocava aqui antes da vinda de eles. Mas quanto a isso não há o que fazer. É sinal dos tempos, as culturas vão se misturando mesmo e ampliando a diversidade. Mas, de qualquer forma, para cantar e para compor, a minha preferência é o samba mesmo. O certo é que minha relação com a música tem uma relação direta com a necessidade de mexer com o que 'tá quieto. A idéia é instigar. O ritmo é o que menos importa. Em anexo a 'sa entrevista, depoimentos de jornalistas da época sobre " Baldinir Bezerra: «Deixando no ar uma atmosfera tomada por o aroma sonoro que só mesmo a poesia pode conceber, Pedrinho Ortale encerrou sua apresentação e deu lugar ao vocalista Baldinir Bezerra. Vindo de uma experiência musical cujo ápice foi o show Tocante, realizado junto com Luiz Poeta, 'se cantador demonstrou aos olhos do público e da crítica um desempenho amadurecido, produto típico de quem faz do cantar um ofício experimental intimamente sintonizado com a nova realidade cultural por que vem passando Mato Grosso do Sul. Leonino de Guajará-mirim RO, Baldinir diz que a sua cor predileta é o lilás. Mas em se tratando de música, o artista abraça todas as cores do arco-íris da " Música Popular Brasileira. «É preciso mandar os preconceitos para as cucuias e assumir todas as tendências da nossa rica musicalidade», diz ele. Mais do que um aviso aos marinheiros, seu depoimento é um alerta para os que relutam em vivenciar as nuances várias da sonoridade tupiniquim. Interpretando obras de autores diversos da MPB, o canto de Baldinir ficou marcado por a plasticidade do cavaleiro andante que busca o belo onde quer que ele se encontre. Ele pode se sair muito bem numa peça do poeta baiano Dorival Caymi, pode se 'conder, quem sabe, num samba de Lamartine Babo, como pode simplesmente se fazer presente numa peça de João Bosco. Não importa. Cabe ao artista encontrá-lo, concebê-lo e mostrá-lo ao público ávido de emoção. O belo é uma construção do 'pírito e a 'tética é sua ciência. Mas é também a matéria-prima da arte e aos artista cabe ser seu 'cultor. Com Baldinir no palco cantando, a quinta ficou com cara de sábado, o público deixou de ser apenas 'pectador e virou cúmplice, os corações 'queceram as dores e corpos tornaram-se 'cravos do som. A banda que o acompanhou fez o que nossa seleção não é capaz de fazer: jogar com garra, suando a camisa e com o famoso 'pírito de corpo. Jogando na retaguarda do ritmo, Carlos Figueiredo, no meio de campo da harmonia, o teclado brilhante de Joarês, Marquinho ma ponta de lançamento da guitarra base / solo e Gelton atuando livremente com seus belíssimos sopros. Um 'petáculo digno de aplausos, sem dúvida. Mais que isso: digno de calar a boca dos que insistem em dizer que em 'sa cidade não acontece nada». ( Basinho) Jornal Diário da Serra, 27 de abril de 1988» ... Todavia, há alguém que carrega com si a bandeira desse bloco e ocupa, assim, o destacado lugar de porta-estandarte de 'sa folia musical. Seu nome completo: Baldinir Bezerra. Baldinir milita no mundo da música há algum tempo, mas sempre teve um relacionamento meio descompromissado com ela, cantando nas rodas de viola, nas serenatas, na casa dos amigos e dando canja nos bares da vida. Ultimamente ele 'teve no nordeste. A 'tada de Baldinir na Bahia, onde passou uma boa temporada, parece ter contribuído enormemente para 'se encontro com Luís Poeta, já que a linguagem musical deste tem fortes contornos da cultura afro. Decifrando 'sa linguagem e antropofagicamente deglutindo os quitutes que a carioquice e baianidade de Luís oferecem, Baldinir, embora não tenha ainda uma segura base técnica, é uma 'trela a fim de que, à medida que a noite avança, cresce em brilho e cor. Avaliando criticamente, podemos dizer que Baldinir ainda não canta com a necessária bagagem técnica, mas canta com a garra dos hipersensíveis; não gesticula como os já tarimbados profissionais, mas encara com seu jeito descontraído de pedra rara que ainda tem muito para brilhar, ao ser devidamente lapidada; não tem uma marcação vigorosa de palco, mas agrada e conquista por o 'pontaneísmo, por a simpatia, por o seu talento promissor e por a coragem de fazer arte em 'sa biboca pré-capitalista. Junte-se a isso uma banda composta de músicos competentes e criativos e temos então, o sucesso de Tocante, um show que realmente arrebentou a boca do balão». ( Número de frases: 203 Alex Fraga) O carnaval curitibano tem fama de morto, mas uma das festas mais loucas, na qual se elege a prostituta mais bonita da cidade, acontece sob as bênçãos da grande mídia e de políticos locais. Raica entra na passarela. Os flashs 'pocam e o público não tira os olhos de suas belas curvas, cobertas apenas por um biquíni mínimo. Cumpre o trajeto com desenvoltura, apesar do salto alto. Estas poderiam ser as linhas iniciais sobre a performance da modelo Raica de Oliveira, namorada do jogador Ronaldo, em algum desfile de moda, mas a Raica em questão atende por o sobrenome Brenner e é uma garota de programa. Ela não desfilou em nenhuma Fashion Week, e sim no Concurso Bem Boladas, tradicional festa que acontece há 36 anos em Curitiba, todo domingo de carnaval. Espécie de «Miss Prostituta»,» modelos " das principais casas noturnas da capital paranaense disputam o título de Rainha Bem Bolada. Criado em 1970 por os irmãos Mário e Jurandir Nery, que na época eram fotógrafos do Jornal Tribuna do Paraná, o segundo maior de Curitiba, o Bem Boladas se 'tabeleceu como o principal evento do carnaval curitibano. Enquanto o desfile (gratuito) das 'colas de samba da cidade não empolga quase ninguém, as meninas que passeiam no palco do Bem Boladas costumam fazer lotar qualquer local em que seja realizado, mesmo com uma entrada nada popular, de 20 reais (15 com o cupom que vem encartado na Tribuna do Paraná). Este ano 1.300 pessoas foram ao restaurante dançante Crystal, que fica no centro de Curitiba. «Já fizemos num ginásio para cinco mil pessoas, mas com muita gente vira bagunça», conta Mário Nery, que, aos 58 anos, continua organizando o concurso, agora com a ajuda do filho de seu irmão, falecido há 20 anos. E não falta organização. Até uma apresentação oficial à imprensa, com coquetel e algumas garotas, é feita na terça-feira que antecede ao concurso. Apesar do público predominantemente masculino, a bagunça não é mesmo permitida. Com seguranças por todo lado, o clima é mais de sacanagem que de putaria. O máximo permitido é que a platéia em volta da passarela tente tocar as meninas. Jair Borba, de 48 anos, há dez como garçom do BB, garante que ali impera o respeito. «Não foge do script. É difícil sair confusão». Por isso não é difícil ver entre o público senhoras, casais, personalidades da sociedade curitibana e até vereadores, como Roberto Hinça, que circulava entre garotas de programa seminuas -- algumas nuas mesmo -- com uma revista pornô embaixo do braço. «Sempre tem político no júri. Eles vêm porque não faz mal à imagem, pelo contrário», explica Nery. As meninas, sim, podem tudo na tentativa de ganhar o público e corpo de jurados -- formado por jornalistas, empresários e políticos. Desfilam com os peitos de fora, totalmente peladas, ficam de quatro, simulam sexo oral e se oferecem para serem apalpadas por a platéia. O que 'tá em jogo não é apenas o prêmio -- a Rainha leva para casa um aparelho de TV de 29 polegadas -- mas a fama (e o dinheiro que ela gera). A rainha pode faturar muito nas semanas seguintes à conquista do título. Em alguns casos, o valor de um programa com a campeã atinge 'tratosféricos mil reais. Para garotas que cobram em média 100 reais ou até menos (e quase sempre têm de pagar comissão para a casa onde trabalham) é um salto e tanto. «Tem umas muito ruins, muito danadas, mas o cachê das ganhadoras aumenta uns 300 %, fica muito mais caro. Por isso elas se candidatam», teoriza Barcímio Sicupira, ex-jogador do Atlético-PR, Corinthians e Botafogo (onde chegou a ser reserva de Garrincha), e jurado do concurso nos últimos dez anos. Mário Nery garante que não é só o dinheiro que move as meninas. «Algumas arranjaram bons casamentos com fazendeiros ou empresários." Antes de começar o desfile das candidatas, a Banda Crystal toca desde marchinhas antigas até Jota Quest e Capital Inicial. Luiz Montibeller, o vocalista de 49 anos, quase um clone peludo de Roberto Carlos, já presenciou várias edições do concurso. «A primeira vez que tiraram toda a roupa foi uma loucura», relembra. Em as várias mesas ao redor do palco os garçons se batem para atender à demanda de cerveja e drinks variados. Quando a banda encerra com Ivete Sangalo e as garotas entram no palco, todo mundo já 'tá devidamente calibrado, embora alguns sujeitos casados ainda se lembrem de fugir dos fotógrafos que 'tão cobrindo o evento (além da Tribuna, que apóia o concurso, outros grandes jornais publicam matérias recheadas de fotos quase explícitas nos dias seguintes). Então o palco em forma de T é cercado por a multidão de marmanjos com celulares com câmeras numa mão e uma lata de cerveja na outra. Pode até parecer pouco provável, mas algumas meninas demonstravam vergonha em se aproximar daquele público já ensandecido. Em cima do palco, Nelo Merlotti, apresentador de um programa 'portivo local na Record, faz as vezes de animador de auditório e tenta afastar o receio das meninas. Ele conclama a macharada: «Nada de passar a mão nas meninas. Por enquanto ..." O pedido não é nem de longe atendido e a Mulata Bem Bolada quase volta sem nada. Depois disso o concurso começa pra valer. O júri, posicionado do lado da passarela, recebe uma ficha para 'crever a nota das 19 concorrentes. O sistema é simples, sem quesitos, sem nada. Uma nota simples de 1 a 10 é dada a cada candidata, que entra identificada por um número de papel preso à calcinha ou saia. A que somar mais pontos leva. A primeira a desfilar, Michaela Van Drois (nome pra lá de inventado), dá o tom de ousadia adotado por as concorrentes mais aguerridas. Vai até o meio do caminho e pára, de costas para o público, e consegue a proeza de tirar a calcinha sem tirar a calça. A segunda, Mila Novaes, mostra os peitinhos, mas é meio durona. «É difícil a experiência na passarela», diz, como se fosse uma modelo 'treando na Fashion Week. Milena Carvalho, de 21 anos, entra e não tira nada. Depois de frisar que Milena não é seu nome real, explica que a família não sabe «ou faz de conta que não sabe». Mãe de filha que mal completou um ano, prefere desfilar vestida. Sua amiga Fabiane Guebel, de 20 anos, também concorreu. Fabiane, que saiu há três anos de Santa Catarina, foi a um puteiro pela primeira vez levada por a tia. «Eu fiquei olhando e quando vi já tinha entrado no negócio." Também não tirou a roupa no palco. Talvez por a postura um pouco recatada, as duas não fazem muito sucesso. Os celulares com câmera voltam a disparar com a entrada em cena de Evelyn, fantasiada de borboleta. Mas é com Priscila Veiga que a noite atinge seu auge. Com 100 de quadril, 65 de cintura e 88 de busto distribuídos em 1,73m, a loira de 22 anos, natural de Porto Alegre, 'tudante do primeiro ano de Educação Física numa Universidade de Santa Catarina, mal surge no palco e já são ouvidos os primeiros urros de " já ganhou." Quando ela abaixa a calcinha e enfia o dedo na vagina, a ovação é completa. O vereador Roberto Hinça é chamado ao palco para falar. «O povo quer, acho que ela tem que tirar», discursa, inaugurando o populismo pornô. As adversárias de Priscila bem que tentam. Deise Michele, tão bonita e loira quanto Priscila, tira o top, também sai aclamada, mas acabaria desclassificada por ser modelo profissional. A concorrente número nove, Alexia tenta ser simpática e se despede do palco com um singelo " boa noite, amo todos vocês." Vanessa Rangel, que milita na mesma boate que Alexia, não gosta das vaias dirigidas a ela por não tirar a minissaia. «Foda-se todo mundo», grita, amparada por as amigas. Enquanto isso, os fotógrafos se divertem tirando fotos das calcinhas das meninas, se posicionando quase embaixo de elas ao lado da passarela. Logo após a última candidata se retirar, algumas são chamadas de volta. Raica Brenner volta com um quepe verde e rosa, fazendo alusão à Mangueira, mas novamente é ofuscada por Priscila Veiga, que desta vez se insinua molhando o dedo num copo de uísque e depois passando nos lábios. Priscila sai com o título praticamente garantido. Nelo, o apresentador, aumenta a voltagem perguntando à Madrinha do Bem Boladas, que usava um longo vestido azul, o que ela 'queceu em casa. «A calcinha», responde, quase miando. Chega a hora da premiação. Michele, representando a boate Gold Star, com 99 pontos, é eleita Miss Simpatia e leva um aparelho de DVD para casa. A Segunda Princesa, Michaela Van Drois, da boate Crystal, ganha um televisor 14 polegadas. Syang, Primeira Princesa, se emociona com o troféu e o mini system. «Não 'perava, 'tou muito contente." Priscila Veiga, que cumpre uma pequena temporada na casa Sexy's, volta ao palco para ser ovacionada a última vez por os seus súditos e receber o prêmio máximo, o título de Rainha Bem Bolada e a TV de 29 polegadas. Feliz, faz pose e tira a calcinha a pedido dos fotógrafos. Número de frases: 84 «Sou safada de verdade, até o último." O bom senso é complicado. Primeiro, porque se é senso já não devia ser «bom», já que cada um tem o seu e qualquer apreciação é mera 'peculação opinativa. Então, munido do meu senso (muitas vezes, «mau» até para mim), vejo-me cá a perguntar como vou explicar que perdi toda a gravação da entrevista de mais ou menos duas horas com Hernani Heffner, a pessoa que muito provavelmente é a maior responsável por a existência -- fugaz, é verdade -- de alguma tentativa de construção de pensamento de cinema por minha parte. Cada vez que me justifico, sinto-me mais próximo daquele cronista de jornal que, por a obrigação de entregar o texto na data 'tipulada, leva uma lauda comentando sobre a folha em branco ou sobre a falta de inspiração. Todos os cronistas, claro, tomam um mote diferente para si, acreditando -- ou tentando convencer (se) de -- que aquele motivo original é razão válida para a lenga-lenga sem fim que é tecer sobre a falta de assunto. Prometo que já apresento meu entrevistado e conto do gravador. Antes, uma informação: tive aulas com Hernani no curso de Cinema, minha outra graduação além do Jornalismo. Este segundo curso não foi como achei que seria. Mesmo assim, se me perguntassem se valeu a pena, diria que sim -- sem dúvida, e muito do porquê se deve a um professor. E eis o Hernani, que é quem importa em 'se gigantesco nariz-de-cera. A minha memória (palavra fundalmental, como vocês verão mais para frente) afetiva dos tempos da faculdade é a seguinte: Hernani é franzino, parece ter no máximo 40 anos, parece trabalhar muito, parece ser incapaz de destratar alguém independente da situação, consegue ter pontos de vista absolutamente originais sobre qualquer filme e acha que Viagem à Itália é o marco do cinema moderno (e não Cidadão Kane, como muitos dizem) -- no que eu concordo, aliás, a aula sobre Viagem à Itália foi uma das melhores da minha vida, acho que nunca vou 'quecer (como também não vou 'quecer a aula sobre A Viagem de Chihiro). Ah! Um dado importante: ele não gosta do Cinema, aspirinas e urubus (que eu adoro). Uma outra boa recordação. Hernani deu aulões de junho a dezembro de 2005 todos os sábados, das 9h às 13h, no Cinema Odeon. Todos os sábados. às 9h! E pode crer que lotava. O Odeon tem dois andares, 600 cadeiras, e mesmo no dia mais pós-ressaca do mundo, o cinema enchia para assistir ao Hernani dar aula sobre os filmes brasileiros. Era bonito de se ver Hernani no palco sozinho, naquele cinema todo imponente, com uma luz destacando-o. De repente, dizia: «ô Zezinho, pode rodar o filme». E pronto, lá vinha com a ordem um filme raro, inédito às vezes, dos primórdios do cinema nacional. O filme terminava. Voltava Hernani -- sem a menor solenidade -- àquele palco tão solene. Franzino e com fala mansa, ele continuava a aula. Acho que vi 'se tipo de desprendimento de qualquer vaidade num palco (a aula no Odeon era um show) em pouquíssimos lugares, talvez apenas no começo de Nelson Freire, do João Moreira Salles, em que o pianista sai de um concerto ovacionado e negocia o bis por a possibilidade de fumar um cigarrinho depois. Memória Duas semanas já se passaram depois da tragédia anunciada há mais de seis anos por o meu professor de Introdução ao Jornalismo. Não use o gravador para fazer uma entrevista e, caso use, não deixe de anotar no papel tudo o que foi falado, como se não houvesse uma outra forma de registrar a conversa. A justificativa era a das mais simples: se você contar apenas com o gravador, um dia a fitinha pode não rodar e aí todo o trabalho 'tará perdido. Bem resumidamente: eu, jornalista formado em cinema, fui fazer uma entrevista jornalística com a minha maior referência de cinema -- Hernani Heffner. Levei o gravador, não anotei nada no papel. Voltei, conferi a gravação: nada gravou. Corri para um papel, anotei o que me lembrava da conversa. E aqui 'tou eu 'crevendo sobre isso. A entrevista foi no MAM, onde Hernani trabalha desde a década de 1980 como voluntário e desde 1995 como diretor de conservação da Cinemateca local. Entrevistei-o baseado nas memórias que guardei de quase dois anos tendo ele como professor e, também, em 'ta belíssima edição da Contracampo dedicada à preservação, restauração e difusão de filmes (onde indico firmemente a leitura de um artigo 'crito por Hernani, intitulado Preservação). Listo aqui algumas perguntas que fiz a Hernani ('sas eu anotei!). Em um 'forço irônico de memória (nem seria difícil traçar um paralelo entre a perda da gravação da entrevista e aquilo que acontece há décadas com os filmes exibidos no Brasil), comento também, naturamente nas minhas palavras, o que recordo das respostas dadas por ele: Depois de entrar aqui, onde ficam guardados os fimes da Cinemateca, não poderia deixar de perguntar isso: você realmente tem alergia à película? Sim, de fato Hernani tem alergia à película. Quer dizer, não à película, mas ao gás que o filme deteriorado emite, o ácido acético. Não à toa, toda a Cinemateca cheira a vinagre. Desde o dia em que a película é fabricada ela já 'tá se deteriorando, é uma luta contra o tempo. É, realmente, uma medida entre umidade e temperatura (por isso, todas as salas de conservação de filmes têm um sensor que mede 'ses dois fatores). Pois bem, Hernani, que é alérgico a uma porção de coisas -- principalmente a polén -- tem alergia a ácido acético. Mas ele explica que o melhor modo de se combater alergia é entrando em contato com o fator alérgico -- assim funcionam as vacinas. Isso, contudo, não o impediu de, em 1999, ter tido uma das piores crises alérgicas de sua vida, quando ficou 10 dias quase sem poder comer. Uma questão que você já tentou responder em mais de um texto, mas que também me parece fazer sentido perguntar: qual é o papel de uma cinemateca? Tipo de pergunta genérica que sempre evito fazer. Bom, pergunta arriscada feita, a resposta do Hernani é bem bacana. Uma pena que eu não a tenha gravado, porque parece mais uma aula. Logo, ele faz questão de afirmar que cinemateca nada tem a ver com passado. Que você conserva sempre para o presente e em vista do futuro. Você conserva para entender -- no agora -- o que aconteceu ontem, para assim olhar melhor para frente, para o amanhã. Que o ideal, e que nem de longe é feito no Brasil, seria que o acervo da Cinemateca ficasse disponível e fosse exibido com a maior freqüência possível. Assim, sendo vistos, os filmes conservados serviriam à população. Ele conta dos inúmeros projetos que já tentou emplacar para que haja um circuito de exibição de obras da Cinemateca no Brasil. A idéia é que as fitas rodem no formato original -- em película -- por as mais diversas cidades do país. E sim, há possibilidade de um desses projetos se concretizar. Já li você falando da dificuldade de se conservar obras interativas, feitas e modificadas por mais de uma pessoa. O que poderia ser uma questão teórica, agora parece 'tar um pouco mais próximo do mundo real, com a tecnologia digital e as novas licenças autorais. Então, continuo o questionamento: como você vê 'se novo mundo de tecnologia e como conservar obras das quais, às vezes, nem se sabe quem é o autor original? A resposta foi exatamente assim: «Eu costumo dizer que 'sa época é a época do sampler. Tudo é sampleado». Depois de 'sa boa aspa, Hernani conta que o ideal seria ter todo um arquivo digital, que monitorasse o filme original e todas as modificações feitas em ele, mas que isso é utópico e não ocorre nem mesmo nas maiores cinematecas do mundo. Quanto à questão digital (e só agora me lembrei que, no meio da resposta à pergunta em negrito, soltei um " ué, mas o YouTube não seria a cinemateca do futuro?"), ele é cauteloso: diz que ninguém garante que de fato tudo na rede é conservado, que ainda há um meio físico (seja um CD, seja um servidor) responsável por o papel atribuido à película -- ainda há no mundo «real» algo palpável que armazena dados. E mais: ninguém garante que um endereço, uma URL, seja eterno na rede. Houve uma debandada de filmes entre 2002 e 2003 da Cinemateca do MAM. Muitos dizem que ela 'teve perto de fechar. O que realmente houve? E agora, o que mudou com o investimento do BNDES? Essa era uma curiosidade muito grande. Sabia apenas da debandada dos filmes da Cinemateca, em 2002 -- devolução aos produtores, doações a outras cinematecas etc.. Conhecia alguns boatos e uma lista-protesto que correu na Internet. Hernani confirmou algumas coisas. De fato, houve uma decisão interna (no entender de ele, absolutamente equivocada, tanto que chegou a se demitir para, depois, a pedido de muita gente, voltar atrás) que dizia que o Museu, uma instituição privada, não tinha mais como arcar com os custos da Cinemateca. O lugar não chegou a fechar, mas as exibições foram bem 'cassas durante um tempo. Foi preciso uma nova diretoria assumir o Museu e o BNDES investir R$ 522 mil para que a Cinemateca começasse a se reerguer. Os danos ainda 'tão sendo reparados. Em 2002, eram 100 mil rolos de filme (por volta de 40 mil títulos). Hoje, são 40 mil rolos (7 mil títulos). Tem muita lata ainda no chão para ser organizada. Por sua vez, agora há mais enroladeiras de filme do que antes, o que agiliza e muito o trabalho. A fase é de otimismo. Qual é a sua visão da chamada «nova crítica de cinema» no Brasil, formada basicamente por jovens que usam a Internet para expor seus textos? Por o que sei, em muitos pontos você discorda de eles, não? Hernani ri aqui. Diz que gosta dos meninos. Que eles abrem para diálogo, que podem discordar de você e ainda assim ouvir, chamar para um debate. Ele conta que é natural o movimento de 'sa nova crítica de abraçar diretores tão novos quanto eles, que tenham uma visão de mundo próxima. Por isso tanta idolatria por uma nova 'cola de cinema oriental. Por isso, tanto apego ao trabalho de um Karim Aïnouz, de um Beto Brant. Há uma necessidade de buscar no mundo do cinema um olhar cúmplice, uma outra tentativa de entender o cinema e o mundo. Hernani ainda brinca e afirma que eles -- os novos críticos -- não vêem mais fundamento em tentar compreender o cinema de um Cacá Diegues. Ele -- Hernani -- sim, ainda vê. E o que você acha do cinema brasileiro atual? Novamente, Hernani fala sobre a diferença de sua visão de cinema em comparação à dos mais novos. Diz que é natural que as buscas sejam distintas. E brinca, mais uma vez, dizendo que a moda atual é falar que ele adorou Santiago, de João Moreira Salles (a jovem crítica 'pecializada não gosta), e não gostou de Cão sem dono (filme de Beto Brant idolatrado por os jovens críticos). Ele tem naturalidade também ao afirmar que vai cada vez menos ao cinema, e vê cada vez mais filmes para criança com os seus filhos. * * * Em a entrevista, descobri a idade exata de Hernani: 45 anos. Foi a última pergunta que fiz, se minha memória guardou bem. Durante a conversa, algumas coisas aconteceram: Carlos Mossy passou para pegar com Hernani um filme perdido da década de 80 'trelado por Luma de Oliveira; a diretora do MAM ligou para Hernani e, entre outras coisas, perguntou qual seria o melhor aparelho de ar condicionado para a Cinemateca; um funcionário entrou para avisar que o veneno de rato já 'tava lá; e o curador da Cinemateca perguntou como 'tava a cópia de Bus stop, com Marilyn Monroe, no que Hernani respondeu algo assim: «sem legenda e um pouco desgastada, mas talvez dê para usar». A aparência de que o Hernani tem aquela Cinemateca nas mãos é inevitável. Tudo ali gira ao redor de ele. O que me faz, agora, ter duas torcidas. A primeira: que a minha memória ruim tenha funcionado hoje tão bem quanto a do Hernani quando perguntando sobre a qualidade do negativo. E a segunda: Número de frases: 130 que, acima de tudo, Hernani realmente consiga 'truturar aquele lugar tão importante para o futuro de tanta gente, inclusive dos 'quecidos como eu. O que poderia o mar nos trazer? Em 'sa noite (17/03) o mar de Piedade, litoral de Pernambuco, fez maldade com Iemanjá. Ela que por tanto tempo recebeu oferendas de nós humanos, fomos nós humanos agraciados com a gentileza do mar. E o mar não nos separou como disse o poeta, mas nos juntou com o que ele tinha de melhor. «O mar que nos separa» não foi 'crito por nenhum Orixá, mas por uma pessoa simples e generosa. E em 'sa noite de lançamento pude perceber que Marcos André Carvalho Lins não tem 'ses tais poderes de feitiçaria, porém encanta como mago em rituais a base de poemas belíssimos e contos instigantes. Tenho que acrescentar que 'sa foi uma noite realmente 'pecial e comovedora. E a emoção não veio de 'sa vez nas letras em negrito, mas da boca de um homem que lutou e conseguiu ver seus sonhos serem realizados nas realizações dos seus semelhantes. O senhor Pedro, com um discurso emocionado e emocionante, tocou a todos com um depoimento de amor para com seu filho. E ficou assim 'tabelecido em 'sa noite: a gentileza tem berço. Em comemoração ao lançamento do Livro «O mar que nos separa» o Veneza de Brasileiros fará uma Semana Solo Marcos André Carvalho Lins. Serão vários textos publicados por dia relembrando os já publicados no Overmundo e outros inéditos. Acompanhe e participe com os seus comentários. Número de frases: 15 A começar por a data e o local de nascimento, 14 de março, na Bahia, as vidas de Castro Alves (1847-1871) e Glauber Rocha (1939-1981), embora separadas no tempo por quase um século, aproximam-se inevitavelmente uma da outra quando se consideram algumas coincidências que marcaram a trajetória de cada um no amor, na arte, na política ou na literatura. Ambos foram intelectuais militantes, modernos ao seu tempo e, de certa forma, românticos que, com sua obra, reafirmaram a condição humana, com paixão e compaixão. Ambos foram poetas, dramaturgos e revolucionários comprometidos com a luta do seu povo -- denunciando através da arte seja a 'cravidão de um Navio Negreiro, seja a miséria de uma Terra em Transe. E, finalmente, ambos viveram as mais intensas e turbulentas paixões de suas vidas com atrizes que acabariam protagonizando suas primeiras obras, no teatro e no cinema: Castro Alves deu a Eugênia Câmara -- grande amor de sua vida -- o principal papel na sua peça de 'tréia, Gonzaga ou A Revolução de Minas, assim como Glauber Rocha ofereceu a Helena Ignez -- primeira mulher e também sua maior paixão -- um papel no curta-metragem O Pátio, igualmente sua obra de 'tréia como cineasta. É claro que parte de 'sas coincidências pode ser atribuída às conjunturas em que viveram, ambas de grande efervescência política, social e cultural. No caso do poeta dos 'cravos, o surto de industrialização que ocorreu no país entre 1850 e 1860 acentuou as contradições no seio da sociedade brasileira e alimentou as primeiras idéias abolicionistas, que se fortaleceram após a libertação dos 'cravos nos Eua, em 1862, mesmo ano em que o poeta francês Victor Hugo publicou Os Miseráveis, obra que influenciaria profundamente Castro Alves. A o recitar seus poemas, o abolicionista sempre falava mais alto e, freqüentemente, inflamava-se com eloqüência hiperbólica e metáforas arrojadas sobre a condição desumana da 'cravidão. Em 'sas horas, sua imaginação alçava vôo na amplidão do infinito, o que levou Capistrano de Abreu a chamá-lo de «condoreiro», comparando sua poesia ao vôo de um condor. No caso de Glauber, a euforia desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek (1956-1961), a Revolução Cubana e a utopia trabalhista de Jango, seguidas do golpe militar (1964) e da resistência à ditadura nos anos 60/70, favoreceram o caldo de cultura que alimentaria a maneira de ele expressar o mundo, seja através da poesia, do teatro ou, finalmente, da arte cinematográfica. O Cinema Novo -- criado por ele e cujo lema era «uma idéia na cabeça, uma câmara na mão» -- não apenas rompeu paradigmas na arte de filmar como foi um dos principais movimentos de renovação artística e cultural do Brasil e expressão de militância política para muitos intelectuais que lutavam contra a ditadura que sufocava o país à época. Ou seja, como fizera Castro Alves no século anterior, com sua poesia abolicionista e militante, Glauber também emprestou sua câmera a uma causa, no caso à construção de uma sociedade mais justa e democrática. A exemplo das coincidências apontadas, outros traços comuns de suas personalidades podem ser atribuídos à influência do poeta dos 'cravos sobre o cineasta. Ambos eram geniais, trágicos, polêmicos e arrebatadores e tinham premonição de que morreriam jovens -- " Quando eu morrer ... não lancem meu cadáver / Em o fosso de um sombrio cemitério ... / Odeio o mausoléu que 'pera o morto / Como o viajante desse hotel funéreo», " Castro Alves. Eu sou um apocalíptico que morrerei cedo ...», Glauber Rocha. O mesmo pode-se dizer da coincidência de ambos terem optado por o curso de direito e abandonado a cátedra para assumir integralmente sua arte; ou de terem participado, ainda bem jovens, de jograis e teatralizações poéticas na 'cola; ou mesmo de terem colaborado intensamente com publicações culturais: Castro Alves, com o jornal de idéias A Luz, e Glauber, com a revista literária Mapa. Há coisas, porém, que fogem inteiramente a uma explicação racional e se enquadram mais no terreno do imponderável ou do fantástico, como por exemplo: ambos nasceram no mesmo dia e mês, no sertão da Bahia, e ainda crianças se mudaram com a família para a capital; ambos foram atingidos por tragédias familiares -- José Antônio, irmão de Castro Alves, suicidou-se e a irmã de Glauber, Ana Marcelina, morreu de leucemia. Anos depois outra irmã sua, a atriz Glauce Rocha, que trabalhou no clássico Terra em Transe, também morreu, ao cair no poço de um elevador. Castro Alves morreu em 6 de julho de 1871, pouco tempo depois de amputar um pé por causa de um tiro acidental numa caçada. E Glauber Rocha, em 22 de agosto de 1981, aos 41, apenas um mês e meio antes de completar 42, quando, segundo dizia, morreria por ser uma reencarnação de Castro Alves, morto com 24 anos (42 ao contrário). Ambos morreram de tuberculose. Castro Alves foi enterrado no dia seguinte, no Cemitério do Campo Santo, em Salvador-BA. Passados dez anos de sua morte, seu amigo e conterrâneo Ruy Barbosa proferiu o famoso Elogio de Castro Alves, onde resumia as qualidades literárias do poeta: «O que faz a sua grandeza, são 'sas qualidades superiores a todas as 'colas, que, em todos os 'tados da civilização, constituíram e hão de constituir o'poeta ` aquele que, como o pai da tragédia grega, possa dedicar as suas obras ' ao Tempo ': sentiu a Natureza; teve a inspiração universal e humana; encarnou artisticamente nos seus cantos o grande pensamento de sua época " [Barbosa, 1995, p. 613]. Glauber também foi sepultado um dia após, no Cemitério São João Batista, Janeiro, cenário onde anos antes filmara o dumentário Di Glauber -- durante o enterro do pintor Di Cavalcanti, seu amigo, cujo título original era uma citação de Versos íntimos, de Augusto dos Anjos: Ninguém Assistirá ao Enterro da Tua Última Quimera, Somente A Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, 1977. Em o enterro de Glauber, o antropólogo e seu amigo Darcy Ribeiro fez o seguinte panegírico: «Glauber passou uma manhã abraçado com mim chorando, chorando compulsivamente. Eu custei a entender, ninguém entendia que Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar, a dor de todos os brasileiros. O Glauber chorava as crianças com fome. O Glauber chorava a brutalidade. O Glauber chorava a 'tupidez, a mediocridade, a tortura. Ele não suportava, chorava, chorava. Os filmes do Glauber são isto. É um lamento. É um grito. É um berro. Esta herança que fica de Glauber para nós é de indignação, ele foi o mais indignado de nós. Indignado com o mundo qual tal é. Assim». Para encerrar, portanto, arrisco-ma dizer que tanto um como o outro foram -- cada um em seu tempo -- intelectuais sensíveis e identificados com os ideais revolucionários. E que, a par de contradições e ambivalências, ambos viveram a história de sua época intensamente, devotando-se dialeticamente com a mesma paixão ao amor, à arte, à política e à cultura como um todo, para eles expressões indissociáveis da vida e capazes, per se, de mudar o destino da própria humanidade. Número de frases: 53 A OZI Escola de Audiovisual de Brasília acaba de realizar uma das maiores conquistas do ensino de computação gráfica do Brasil. O treinamento ANIMUS -- Oficina de Animação 3D da OZI, é um curso pioneiro no Brasil, pois o aluno entra sem saber nada sobre os programas ou técnicas utilizadas e apenas 6 meses depois têm seu curta-metragem em animação 3D finalizado. São 3 meses de aula para a turma com 20 alunos e 3 meses onde é simulado um ambiente de produção com equipes, prazos, metas, enfim, tudo o que uma grande produção 3D requer. O ANIMUS 'tá na terceira turma. Os alunos da primeira turma fizeram o filme " Calango!" que participou de mais de 20 festivais no Brasil e fora, tendo como destaques os prêmios de «Melhor Animação em Curso Mundial -- Terceiro Lugar» e «Melhor Animação em Curso Brasileira». ambos no anmamundi 2007. Calango! também ganhou o prêmios de melhor animação no famoso festival de Cusco no Perú. O filme da segunda turma do ANIMUS, «Rua das Tulipas» ficou pronto em dezembro de 2007. Já participou dos festivais de «Campo Grande», Guadalajara no México» e agora 'tá selecionado para o festival «Curta-SE» 2008». O grande motivo de comemoração entretanto, é a seleção do filme para participar da SIGGRAPH 2008. A SIGGRAPH é a maior feira mundial de computação gráfica. Lá são lançadas as novas tecnologias e se encontram todas as grandes produtoras mundiais de computação gráfica como Pixar, Dreamworks, BlueSky, Blur, Industrial Lights e Magic do George Lucas, e outras. A SIGGRAPH serve entre outros, como um termômetro de produção 3D mundial, além de acomodar o maior e mais difícil festival de animação do mundo, junto com o maior evento de negócios de animação, como por exemplo, vendas de séries de TV, filmes e outros. A OZI, situada em Brasília, nasceu com o motivo de fomentar a área de 3D em Brasília, em apenas 1 ano, já conquistou vários prêmios importantes, 'tá na produção de uma série de animação para a TV Cultura -- com toda a mão de obra de alunos do ANIMUS, e agora acaba de ter 'te 'paço aberto na SIGGRAPH. Temos certeza de que a qualidade do trabalho e o envolvimento dos alunos com o projeto foi fundamental para 'sa conquista. Ganhar ou não algum prêmio no maior festival de animação do mundo seria sensacional, mas fazendo uma comparação, a SIGGRAPH 'tá para a animação 3 D, assim como o Oscar 'tá para o cinema, ou seja, ser selecionado para nós Brasileiros, já 'tá ótimo, afinal, pelo menos, desde 2003, nenhum filme Brasileiro participou do evento. Nós não temos certeza, pois no site da SIGGRAPH não conseguimos achar mais informações, mas é possível que nenhuma obra Brasileira jamais tenha sido exibida no evento. Número de frases: 18 -- Jesuíno, 'tou precisando fazer um texto sobre o surf na Paraíba, enfocando comportamento e um pouco de história também. -- O melhor cara pra falar sobre o surf na Paraíba é Padilha. Ligue pra ele! Jesuíno André e Chico Padilha são o que se pode dizer de pessoas do surf na Paraíba. Apesar de suas ocupações pessoais, eles 'tão sempre dando uma força no circuito e fazem isso porque gostam. «Adoro o surf mas odeio surfista!», brinca Jesuíno. Eles começaram a se interessar por o surf ainda criança e sempre de olho nas novidades conseguem vislumbrar talentos promissores. Padilha Bom, liguei para a Padilha, na verdade, Francisco Padilha, 43, funcionário público e colaborador do site wave e revista taking surf, conhecido por aqui como uma bíblia do surf local e o homem que mais divulga o surf PB na imprensa nacional. Ele teve o primeiro contato com o surf há 30 anos, em 1976, no 1º Campeonato de surf organizado na Paraíba. A Baía da Traição era o cenário, famosa por o mar agitado e por ter a maior reserva indígena da Paraíba. O organizador era Anchieta Maia, hoje dono de um informativo que faz um «social» dos colégios da rede privada. «Em a época o surf era um 'porte para jovens da elite, filhos das famílias mais tradicionais. As pranchas eram muito caras e tinham que vir do Rio, somente quem tinha grana podia ter uma. Minha primeira prancha tem uma história bem engraçada. Estava na Baía da Traição e aportou um navio 'cocês perto da costa. Fomos conhecer o navio num barquinho. Em o navio um dos membros da tripulação pediu para levar um arco e flecha de umas das tribos da região para ele levar como souvenir. Levei e ele me deu em troca uma garrafa de whisky 'cocês, que troquei por um console de Brasília (aquele carro sobre o qual os mamonas compuseram um de seus maiores sucessos), que foi logo trocado por uma prancha Gledson, monoquilha e cheia de bolhas. O campeão desse primeiro campeonato foi Giuseppe Marques, o Pepe. A revista de comportamento jovem na época mais lida por aqui era a Pop, era através de ela que ficava-se conhecendo quais eram as principais novidadese e tendências no 'porte, moda, música etc.. Em 1977, um repórter da revista veio cobrir um campeonato na praia de Cardosa, um praia que fica dentro da reserva indígena da Baía da Traição. Me parece que a Paraíba foi o primeiro 'tado fora do circuito Rio-São Paulo a aparecer na revista com uma matéria sobre surf», lembra Padilha. Joenedile do Vale Vamos em águas mornas até 1983, quando aparece a Associação de Surf da Paraíba. O primeiro Presidente foi Adriano Henriques, o pico do momento em João Pessoa é o Bessa e os surfistas que antes viam o surf como um 'porte simplesmente social, até mesmo como diversão, começam a focar a prática na profissionalização. Em 'sa época o circuito começa a ser disputado além da Baía da Traição, incluindo Bessa, Barra de Camaratuba e Dique de Cabedelo. Em 'te ano aparece Fábio Gouveia nas competições e com apenas 13 anos termina em terceiro lugar, chamando bastante atenção. Em 'se mesmo ano a primeira surfista feminina da Paraíba, Joenedile do Vale, hoje morando no Hawai, compete na categoria open desafiando os marmanjos. Nomes importantes figuram em 'sa época, Guto Clerot, Fábio Quencas e Caio Pereira. Fábio Gouvêia Em 1986, em meio às comemorações dos 400 anos da cidade de João Pessoa, o próprio Padilha organizou a copa Quarto Centenário, ganho por o até então Fábio Martins, que mais tarde viria a ser mais conhecido como Fábio Gouvêia. Como prêmio uma passagem João Pessoa / Rio / Lima / Rio / João Pessoa, viagem que Gouvêia não fez por lhe faltar: 700 dólares. Ainda bem, porque 'sa passagem se transformou em duas passagens ida e volta para Floripa, vôo ao primeiro campeonato grande op86. Surge aí um personagem emblemático, Paulo Carneiro, que entre outras graças concedidas, é primo do cultuado pernambucano da MPB, Lenine. Paulo Bala, como é mais conhecido por aqui, por usar argumentos mais ortodoxos para resolver questões pessoais, era proprietário de uma marca de surf, a swell. «Como shaper ele teria como último atleta Fábio Gouveia, foi ele quem levou o «moleque» nos primeiros surfaris. Paulo era casado com filha, perfil de responsável e vendo o potencial do garoto, convenceu Marcos Gouveia a liberar o filho para conhecer o mundo mágico de ondas perfeitas de BF (Baía Formosa / RN), a natureza selvagem da Baia da Traição e o surf urbano no Dique de cabedelo. Otávio Lima, maior colecionador de títulos em circuitos paraibanos, também foi membro da equipe de Paulo.», conta Padilha. Em 1987, Fabinho se tornou campeão brasileiro amador e em 1988 campeão mundial amador, primeiro título de um brasileiro no WCT. O resto da trilha desse paraibano obstinado o mundo conhece Tininha Em o Havaí do século XVI o surf só era permitido entre os homens membros da família real. E hoje? Capítulo 'pecial para Padilha -- mulheres no surf paraibano. «Começa nos anos 80 a história das mulheres sobre pranchas na Paraíba, com Joinedile do Vale, em 83, depois de ela, em 86, Cristiana Dantas, competiu no circuito 'tadual entre os homens e conseguiu, no único evento de surf feminino que disputou, em 88, o vice-título brasileiro da etapa Pernambuco, vencida por a atual tricampeã brasileira, a carioca Andréa Lopes, líder do SUPERSURF 2006. Hoje as paraibana Janaína Cléa, última vice-campe ã nordestina, acumula o maior números de títulos, seguida por Marcela Ivone, mas é em Diana Cristina, a Tina de Souza ou tininha, que se depositam as maiores 'peranças. Ela que, com apenas 12 anos, conquistou o Paraibano de Surf feminino em 2002. Em o ano passado, Tininha venceu quatro das cinco etapas do Estadual. Atualmente, com 15 anos, é campeã brasileira júnior e melhor Sub-16 do Brasil e foi 5ª colocada no Mundial Profissional Sub-20, conquistou o primeiro WQS feminino da história do surfe Brasileiro e representará o Brasil no Mundial Sub-16 da Rip Curl na Austrália, em 2007. -- Padilha, como conseguimos ter atletas de tão alto nível se temos poucas ondas no nosso litoral? «Quando Fabinho foi campeão mundial amador em Porto Rico ele disse: hj o mar tá parecendo, BF, se referindo a Baía Formosa (RN), para onde muitos dos surfistas locais se deslocam, como ele fazia, para treinar em ondas grandes. Tininha ao conquistar o primeiro WQS feminino da história do surfe brasileiro, confessou: o mar lembra o da Baía da Traição», argumenta. «Coloque os nomes das pessoas aí Edmundo, Foram elas que fizeram e fazem a história do surf PB! Jano Belo, Saulo Carvalho, Nilton Santos, Ótavio Lima, Inaldo Barros, João Barbosa, ... é muita gente, man!», fala Jesuíno. -- Padilha, tú devia 'crever um livro sobre isso! «Tem uma música de Herbert que tem uma letra assim: «Rede de surfistas no mar ligados por computador ... quando sopra o vento terral de manhã, vale a pena acordar pra ver». Sabia que a família de Herbert também tem ligação com a história do surf daqui? Aldo e Bete Francinetti, Vinícius fernandes, são parentes de ele, desconversa. Dois Causo sobre Padilha 1º -- Chico Padilha foi surpreendido com uma homenagem de Fábio Gouvêia durante o lançamento do Documentário Fábio Fabuloso em João Pessoa enuanto fotografava o evento. 2º -- Durante uma das etapas do Paraibano de Surf, Padilha foi premiado com um bloco de prancha. Sabendo que a promissora competidora, tininha, ainda não tinha prancha, ele cedeu o bloco para a ela, e conseguiu um shaper para que ela fizesse sua primeira prancha de surf. Número de frases: 71 Dois filmes lançados recentemente abordam histórias sobre o movimento punk no Brasil e no mundo. Talvez seja coincidência 'tes lançamentos quase simultâneos. De qualquer forma, há semelhanças de atitude entre o movimento punk e atual 'pírito da internet: independência, tribalização, inconformismo e auto-didatismo traduzido no jargão de «do it yourself». Em «Botinada», o apresentador e ex-VJ da MTV Gastão Moreira, diretor do documentário, conta o nascimento do punk no Brasil. O projeto, que ficou quatro anos em produção, traz imagens raras de shows e bastidores captadas entre 1976 e 1984. O apresentador suou a camiseta. Pesquisou em fanzines, jornais, fitas K-7, vídeos antigos, entrevistou dezenas de pessoas. O filme traz depoimentos de João Gordo, dos Ratos de Porão, Clemente, dos Inocentes, Kid Vinil e de outros participantes das cenas punk em Brasília, Rio de Janeiro e Salvador. Já o documentário «Os Punks São Legais» (The Punks Are Alright) aportou no Brasil através da 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A produção gira três continentes para mostrar as faces do movimento no planeta através da história de duas bandas, os canadenses do The Forgotten Rebels e os brasileiros da Bling Pigs, e um jovem punk indonésio chamado Dolly. O longa-metragem marca a 'tréia do diretor canadense Douglas Crawford que também assumiu as funções de fotógrafo, editor, produtor musical e executivo. Uma realização da Orange-Tang Productions, de Crawford. Punks em vários os ângulos e enfoques. Os filmes vêm complementar o panorama da cultura punk no mundo e surgem na 'teira de livros como o já histórico «O que é Punk» (1982), de Antonio Bivar, e «Punk -- Anarquia Planetária e a Cena Brasileira» (2000), de Silvio Essinger, e o clássico «Mate-me, Por Favor», de Larry McNeil e Gilliam McCain, lançado no Brasil em 2004. Leia mais sobre o documentário «Os Punks São Legais» aqui no Overmundo no artigo de Fernando Mafra.